Finalizada em: 03/06/2019

Capítulo Único

Inspirada na música "Deixa"


"Acorda, mas pode ser sem pressa.
Lá fora o dia começa cedo, e nós não temos nada a perder".

Não estava sendo fácil abrir os olhos todas as manhãs e pegar o telefone para digitar o corriqueiro "Bom dia" seguido de vários emojis, e recordar que e eu tínhamos terminado. Terminar, não é bem a palavra. Não! Na verdade, dizer que "nós terminamos" é que estava fora do lugar. Porque quem tinha terminado mesmo fui eu. Ele ainda vivia aquela fase de ligar todos os dias, ir atrás, tentar entender… Mas, fala sério, nem eu conseguia entender por que eu tinha feito aquilo. Ser uma pessoa bem resolvida dá um certo trabalho.
e eu não nunca tivemos problemas grandiosos como um casal. Ele me amava, ou ama ainda, acredito. Eu o amava. Minha família inteira o adora. Até meu cachorro prefere o a mim. A família dele me adora também, até mais do que eu gostaria. E talvez, esta seja para mim a pior parte: dever explicações. Embora eu saiba que não as deva a ninguém.
Há semanas que não param de chegar mensagens, ligações, ora até visitas aqui em casa para entender o que aconteceu. Meus pais não estão do meu lado. Eles não conseguem aceitar que simplesmente, eu não quero mais. E falando assim, eu até entendo que seja um pouco difícil, não é? Que tipo de pessoa está falando sobre os filhos futuros em um dia, e no outro apenas anuncia num almoço de família:
", eu não quero mais" ? Nossa. Acho que eu superei todos os limites da minha falta de noção.
E por mais que eu tenha sido o próprio pivô da minha separação, também não estava fácil desapegar dos velhos hábitos. Como acordar de manhã e mandar uma mensagem de bom dia cheia de amor.
Às vezes a gente se pega querendo um algo a mais, uma mudança pequena, ou uma mudança imensa na nossa vida, e por mais que saibamos que é só ir lá e fazer "o acontecer", também bate uma insegurança, uma preguiça, um medo louco do tal "querer sozinho".
Acredito que os problemas começaram quando eu me peguei comprando creme para rugas. Inacreditável, não é? Mas, os meus 28 anos caíram como uma bigorna na minha cabeça. Lembro que olhei aquele monte de modelo de convite de casamento, que eu havia buscado para minha cunhada e tudo parecia me sufocar. Cara, nem era eu quem iria casar! Mas, lá estava o desespero, personificado em encontrar a minha bombinha para asma. Eu e tínhamos tantos planos, e um relacionamento tão icônico! Éramos o clichê "feijão e arroz", "estrogonofe com batata palha", "bife com batata frita" e tudo o mais. E carambolas… Que loucura de crise dos vinte e pouco foi aquela, que me fez desejar mudar tudo? Eu estava acometida de uma culpa tão grande por minha vida ser como é, que eu só conseguia ver uma coisa: a minha expressão de arrependimento pela vida escolhida, nos meus quarenta anos.
Olha… A indústria de cosmético é realmente um terrorista. Do nada lá está você com um creme para rugas na mão, e um monte de granadas amarradas ao próprio corpo.
Sacudi meus cabelos, espreguicei o corpo, encarei o celular ao lado do meu travesseiro e comemorei por mais um dia de resistência. Um pouco depois, o cheiro de café que invadiu o meu quarto me fez descer ao seu encontro.
--- Bom dia!! -- meus animados pais ecoaram uníssonos ao me ver na cozinha.
--- Bom dia! -- respondi abraçando cada um.
--- Quando acabar seu café, limpe tudo para mim, por favor?
Minha mãe pediu e eu apenas assenti. Não era comum aquela correria às manhãs, mas eu já imaginava que era apenas a escravidão trabalhista. Quem neste mundo pode dizer não à uma urgência do trabalho, para tomar seu desjejum com calma? Eu. Eu havia escolhido ser florista. Tinha um ateliê de arranjos e plantas, ou como costumam dizer, uma floricultura. Mas, eu não gosto de chamar assim porque eu faço arte com as flores. É um ateliê pequeno, mas eu fujo do mundo inteiro ali.
A campainha da minha casa tocou e eu fui sorrateiramente, como se fingisse que não tem ninguém em casa, avaliar quem era. Deus me livre de atender a porta e dar de cara com o . Certamente eu me jogaria nos braços dele.
--- Ainda está fugindo do , ?
--- Nem vem com esse tom, … Você sabe que não é fácil.
--- Tem café?
--- Tem sim. Entra.
Caminhamos em direção à mesa da cozinha, e antes que se sentasse, jogou um encarte sobre a mesa, depois se serviu e ficou calada comendo sua fatia de bolo e me olhando à espera de alguma reação.
--- Angra?
--- O que acha? --- Você vai para lá de novo? , o lugar é massa e tal, mas… Vamos combinar, você já foi lá três vezes este ano!
--- Não é para mim. É para você.
--- O que você está tramando?
--- Um final de semana pago, na pousada da minha amiga Carla. Passagens compradas aí dentro, e já falei com o para levar você a todo canto daquele paraíso.
--- Por que? E quem é ?
--- é um carinha que mora lá na pousada, ele é surfista de profissão e ficamos amigos quando fui lá no começo do ano. Acho que eu te falei sobre ele, não?
--- Não lembro. E obrigada , mas não posso. Com quem eu deixaria o ateliê?
--- As flores vão aguentar dois ou três dias comigo, relaxa.
Ponderei um pouco sobre aquilo. Uma viagem faria bem, não é? Eu precisava de um tempo longe. Não de tudo. Longe do mesmo, porque nesse lance de encarar os términos: eu sou uma covarde.
--- Melhor você não matar nem umazinha.
--- Eu não irei. Mais confiança aqui, por favor!
Rimos uma para a outra e eu encarei o encarte daquele lugar que me parecia um paraíso.
--- Vai ser bom para você colocar a cabeça no lugar, você vai ver.

"E aqui dentro, o tempo passa lento
Eu nunca me arrependo de perder esse tempo com você".

Na portaria do embarque e eu nos abraçamos em despedida. Ela viu alguma coisa, e pediu para que eu esperasse para entrar.
--- Vou perder o avião, sua doida.
--- Calma aí, eu só vou ali rapidinho, acho que tem um conhecido meu ali.
Saiu correndo e eu fiquei extremamente confusa. Gritei o nome dela, mas ela continuou correndo na direção oposta à minha. Caminhei até a atendente de embarque para vistoria dos documentos e passagens e quando ela os me entregou, me chamava correndo de volta com uma rosa na mão.
--- Que isso, maluca? -- perguntei rindo e pegando a flor.
--- Pediram para eu te entregar, como um desejo de sorte e boa viagem.
--- ? -- encarei ela, confusa.
--- Talvez eu tenha comentado que você viajaria este final de semana para espairecer um pouco, e ele… Bem... ele só queria que você fosse sabendo que ele ainda se importa. 'Cê sabe… Vai que você volta ainda mais certa de acabar tudo.
--- Eu vou me encaminhar para aquele corredor de embarque e fingir que não estou com raiva de você por armar esta.
--- Para, . Foi pensando em ajudar. Eu sei que você está confusa, e vocês se gostam, cara…
--- Até a volta, amiga. -- falei suspirando e revirando os olhos : --- Não mate minhas flores.

--x--

O céu era muito mais azul do que eu esperava ao sobrevoar o Rio de Janeiro. E Angra dos Reis, não era dos reis. Era dos deuses! A chegada na pousada foi tranquila, e o ir e vir dos praianos e praianas alegres davam um ar de "também quero".
Algumas horas após ter chegado à cidade, eu decidi fazer um passeio antes do almoço. Carla havia dito que não poderia me acompanhar, pois era um horário complicado de movimento na pousada, e mesmo eu tendo oferecido minha ajuda ela recusou:
--- Vá conhecer a cidade, garota! Bem, que a avisou que você era quase uma workaholic.
--- exagera! Eu vou indo então, alguma dica de destino turístico para uma principiante?
--- Eu teria, mas quem está chegando ali é a pessoa perfeita para te ajudar.
Carla sorria na direção de alguém atrás de mim. Me virei dando de cara com um surfista loiro e aparentemente muito simpático.
--- Olá! Você deve ser a amiga da , certo?
--- Sim, e você o ?
--- Exatamente. -- ele riu --- Tenho recomendações para mostrar toda a cidade de Angra à você.
--- Olha, eu acho que toda a cidade será difícil . Ela estará aqui por três dias, apenas.
--- Ah qual é…! -- ele reclamou sorrindo para mim.
--- Infelizmente, mas que tal me fazer desejar o retorno? -- binquei e encarou-me sorrindo e pensativo.
--- Com certeza! Vamos nessa! -- então ele disse prontamente me puxando pela mão.
Saímos da pousada acenando para Carla que logo voltou a concentrar-se em seus afazeres.
--- O que mais temos aqui, são as praias. E por ela vamos começar, o que acha?
--- Acho ótimo.
--- O que você curte além da natureza? Você gosta de natureza, certo?
--- Sim! E principalmente flores. Mas, seria legal também conhecer alguma coisa ligada à arquitetura da cidade e aos movimentos sociais…
--- Certo… Temos uma cult aqui… -- ele sorriu.
Sorri de volta e senti uma sensação absurda de paz ao lado de . Ele tinha um sorriso brilhante e sereno, um trejeito de menino ingênuo e sem preocupações e ao mesmo tempo era conhecidíssimo na cidade. Por onde andávamos, pessoas o cumprimentavam.
--- Certo… Temos um descolado aqui…
--- Ah, que nada! -- ele corou e chutou uma bola para os meninos que jogavam na rua e haviam deixado-a escapar.
--- Valeu ! -- as crianças gritaram.
O observei desafiante, e ele continuou a se explicar:
--- É só que, eu praticamente conheço todo mundo aqui. Eu gosto de andar por aí, me relacionar… Não é como se eu fosse alguém importante ou coisa do tipo. Eu sou só mais um cara entre as pessoas.
--- E para onde vamos?
--- Praia do aventureiro. Até uma hora da tarde nós conseguimos finalizar a trilha se você for empenhada, e vai ver só que delícia de vista terá!
Ele mexia-se animado e caminhava mais rápido até uma lojinha de bugres. Pegou as chaves de um dos carros com um senhor que lhe cumprimentou animado. O senhor, que parecia ser o dono da loja acenou para mim, e me chamou para perto. Ele me apresentou como "a amiga da " e logo notei o quanto minha amiga era conhecida, e igualmente querida na cidade.
dirigia a uma velocidade média fazendo eu me deleitar aos poucos com a brisa salina em meu rosto, corpo e cabelos. Cada pedaço daquele lugar, cada pessoa, cada jeito de andar e sorrir era minuciosamente analisado por mim. Era impossível não ser contagiada pela atmosfera dali. E a cada sorriso que eu libertava a olhos fechados, era como me reconectar ao meu íntimo. Algo na minha aura mudava pouco a pouco. Mudou tanto que ofuscou ao olhar de . O rapaz parecia perceber uma transformação interna em minha alma. Como se eu não precisasse me tornar borboleta fora do casulo para que ele entendesse o casulo em volta de mim. Afinal, como ele mesmo me contou aquela tarde, anos atrás quando ele surgiu em Angra, era exatamente como eu que ele se mostrava. Ou pelo menos, foi esta a impressão que ele teve ao me ver respirar concentrada, em busca de liberdade na paisagem.
E foi só o início de um passeio, o início de brisa calma. Eu só não sabia naquela hora que também era um grande prenúncio. E eu era só mais uma turista e deveria ser só mais uma ida a um ponto turístico, mas fui uma grande atração para .

"Acorda, e fica mais um pouco,
Cê sabe que eu sou louco, e é aqui que a gente vai se
entender".

Foram divertidas subidas entre pedras e mata virgem, regadas à risadas e trocas de contato. Hora para evitar que eu tropeçasse, hora para me auxiliar a passar por um obstáculo, hora para me defender de um acidente que eu não me atentei.
Foram divertidos momentos de paz e conversas aleatórias, regados de surpresa e atrativos. Desde as flores encontradas ao caminho, até à tatuagem masculina que notei quando a camisa dele acidentalmente foi erguida por um galho.
E tudo valia a pena, mas o que mais tornou aquele momento mágico foi a imensidão azul cintilante sob meus olhos.
Uma boca entreaberta e irises arregaladas. Um modo desesperado e deslumbrado de sacudir os cabelos como se não fosse possível acreditar.
--- É isso. Bem vinda à Angra.
A voz baixa e apaixonada de se fez ouvir. Claro, apaixonada por toda a beleza do lugar.
--- Eu quero descer lá! Eu pre-ci-so me jogar nesse mar.
E o sorriso alvo do rapaz misturou-se à paisagem. Rapidamente me pus a descer por um caminho de trilha abaixo de mim, e ele ao perceber que havia uma pressa irremediável ali, preocupou-se com aquela minha atitude de menina que vê o mar pela primeira vez. Pôs-se a me seguir, e ao me alcançar segurou meu braço a fim de fazer com que eu tomasse mais cuidado no caminho.
--- Ei, Ariel! O mar não vai sair dali.
Rimos divertidos e caminhamos de mãos dadas até a água. Dentro do mar me perguntou um pouco da minha história até ali.
--- Até aqui? Bom, é muita coisa não é? Mas, eu posso resumir pra você: eu acabei de terminar um namoro e achou que eu deveria aproveitar o momento para conhecer este paraíso. - enfatizei o adjetivo ao local.
--- Hm… O famigerado momento da aceitação de um término, não é?
--- Não. Fui eu quem decidi assim. Provavelmente deve estar passando por muito mais sofrimento do que eu.
--- O que te fez terminar?
--- Creme para rugas.
--- Como?
encarou-me como se eu fosse completamente fora da caixinha. Então expliquei para ele o despertar da minha crise dos vinte e pouco. Depois de um tempo sentados beira-mar, voltamos para a cidade. Almoçamos e ele me convidou para conhecer a escolinha de surf dele, mas eu precisava descansar um pouco. Só aceitei o convite para uma festa noturna.
Às dezenove horas eu já havia terminado de me arrumar. Carla sorriu ao me ver da entrada da pousada.
--- Você vai adorar o forró do píer, !
--- Tenho certeza que sim, embora eu não saiba nada de rastapé!
--- Não vai ser problema para o . Ele é um ótimo anfitrião e não vai deixá-la ir embora sem aprender o básico.
Encarei Carla pensativa e sorri.
--- Ele deve ser mesmo bom, afinal, muitas turistas devem sair com ele para conhecer o forró, não é?
--- Ele não é esse tipo de cara, se é o que você está preocupada.
--- Não, eu não estou preocupada com nada… Eu só quis dizer que ele me pareceu um guia local.
--- Ele não é. É popular entre todo mundo porque é um cara sensacional, mas… Fique tranquila se quiser se envolver. Até onde sei ele está solteiro desde que chegou na ilha.
--- Nossa. Mas, isso já faz um tempo não é?
--- Sim, mas não é porque ele é um aproveitador de turistas, .
--- Eu não disse isso… - já me sentia envergonhada --- é um cara legal, ele foi bem atencioso hoje, mas não é o que você está pensando…
--- O que a Carla está pensando?
Eu queria afundar a cara num buraco. Desde quando ele estava ouvindo? E como ele chegou e eu nem notei?
--- Que você está arrastando uma asa para a . -- Carla respondeu meio que livrando a minha barra.
--- Eu te ofendi, ? -- ele perguntou preocupado.
--- Não, não de forma alguma. Eu disse inclusive que você foi muito atencioso hoje.
--- Ah que bom! -- ele arreganhou seus dentes extremamente brancos --- Vamos então?
Assim que concordei ele me puxou pela mão novamente para fora, acenando para Carla. A mulher sorriu me encarando agradecida à ela, e piscou em nossa direção. Acompanhou-nos até a porta e disse para que escutássemos:
--- Ele também não negou !
Fingi que não havia a escutado e caminhei encarando o ir e vir de transeuntes locais. riu abafado pelo nariz.
--- Desculpe se a Carlinha te deixou sem graça, .
--- Ah não, de forma alguma. Eu é que a enchi de perguntas.
Burra! Tinha acabado de dar a ele uma brecha para perguntar sobre o quê falávamos.
--- Que perguntas? Talvez eu possa te responder melhor que ela. -- ele falou sugestivo.
--- Ah… Nada demais, apenas sobre o forró… Eu falei que não sabia dançar, ela disse que você sabia muito bem, e eu perguntei se você era um guia local, meio que oficial.
sorriu longamente mostrando os dentes e ficou um tempo em silêncio contemplativo antes de me responder:
--- Não sou guia. Eu estou te acompanhando pela cidade não só porque a pediu, mas porque eu quero estar perto de você.
Sorri sem graça e o agradeci. Depois daquele tempo caminhando estávamos quase chegando ao local onde podia-se observar pessoas sentadas em torno de mesinhas simples, muita música e alegria. O píer não estava lotado, na verdade, ali não parecia existir muitos turistas. Ou talvez fosse a atmosfera daquele lugar me fazendo percebê-lo como se todas as pessoas fossem nativas.
A noite da ilha é tão majestosa quanto o dia.
e eu passamos todo o tempo conversando. Ele me apresentou aos seus amigos presentes ali, e nada mais de "a amiga da ". No lugar disso, ele me apresentava como ", uma nova amiga". Eu deveria dar tanta importância a isso, ou eu sou uma mulher de 28 anos querendo agir como pré-adolescente? Ele também me apresentou aos músicos, que já tocavam animados. Dançamos, ou quase isso. Eu devo tê-lo pisado muitas vezes, embora ele não tivesse demonstrado que eu era uma má parceira de forró. Na verdade, ele conduzia muito bem.
Mas também, fala sério né? Eu não sabia dançar! Qualquer um conduzia muito bem ao meu ver. Até se ele estivesse com uma porta na mão conduziria bem, sendo eu claro: a porta. Não desmerecendo os talentos dele, apenas enfatizando minha total falta de consciência corporal.
Acabou que nós bebemos naquele rastapé safado. E de um forró mansinho, de repente estávamos no tal do "bate-coxa" que eu nem sabia que era capaz de dançar até beber a maldita caipirinha. Eu estava me achando uma dançarina de lambada dos anos 90. Pelo amor de Deus! Eu não tenho mesmo noção, não é?
Não lembro a hora que saímos do píer para caminhar na praia, só lembro de flashes como: e eu voltando para o píer.
me deixando na companhia de suas amigas, que eu ria bastante junto, no píer (certamente eu já me sentia amiga delas também). se afastando. Um casal dançando. Eu terminando de virar outro copo de caipirinha. O som da minha risada alta.
retornando me estendo a mão para levantar. dando partida num carro -- que sabe-se lá de onde ele tirou -- comigo no carona sorrindo. E por fim o último flash:
me beijando.

"Pra que, complicar assim.
Não tem nada de errado pode confiar em mim."

Assim como um flash de memória, foi o meu despertar. Eu simplesmente sentei imediatamente na cama, observando bem à volta. Eu não fazia ideia de que lugar era aquele. Bonito, arrumadinho, cheiroso de café recém-coado, mas desconhecido. entrou no quarto no exato momento em que eu estava de boca aberta assustada e riu.
--- Bom dia.
--- Bom…
--- Não lembra de nada, não é?
--- Não…
--- Eu imaginava. Tem escova de dentes nova no banheiro, eu vim te acordar porque acabei de colocar a mesa do café.
Beijou minha testa e saiu.
Eu saí da cama também, totalmente confusa. Onde estavam, pelo amor de São Valentim, as minhas roupas? Eu já não tinha dúvidas que tinha feito algo a mais ali. A lingerie no meu corpo deixava claro que, não foi uma onda de calor típica do Rio de Janeiro que me fez perder as roupas. O quarto muito arrumado, em contrapartida me fazia crer que sim, me deixando ainda mais confusa.
Encarei meu rosto no banheiro e minha pele estava tão lisa e sedosa como todas as vezes que eu bebia vodca. Mas eu não bebi vodca. Ou bebi? Ou foi a cachaça da caipirinha fazendo o mesmo efeito? Ou eu realmente estava tendo um day after sex.
Naquela história de "no banheiro tem escova de dentes nova" eu derrubei a gaveta do armário da pia. Meus reflexos ainda estavam confusos. E eu odeio ficar bêbada. O barulho alto das coisas caindo, ou os meus xingamentos sussurrados que poderiam estar não tão baixos quanto soava em minha mente, fizeram surgir na soleira da porta.
--- Eh… Está tudo bem?
--- Eu estou um pouco descontrolada… -- ri sem graça o encarando.
Ele se abaixou tirando a gaveta com as coisas recém guardadas, de minha mão e a encaixou de volta ao lugar. Pegou a escova que eu utilizaria, me entregou e sorriu dizendo:
--- Está nervosa sobre o que rolou?
--- Estou nervosa por não lembrar o que rolou...
--- Outch… Não é como se eu não imaginasse que isso aconteceria depois de ver você virar o último copo de caipirinha.
--- Só me diz se a gente...
--- Sim. Mas, eu também estava bêbado e não lembro muita coisa.
--- Ok.
Ele sorriu acariciando meu rosto e o erguendo para o encarar:
--- Não fica com vergonha. Embora não lembre muita coisa, eu me lembro o suficiente para dizer que foi incrível.
Beijou levemente meus lábios e saiu.
Definitivamente: o que eu estava fazendo? Eu não deveria dormir com um cara logo após terminar com o daquele jeito! Ou deveria? E que merda era aquela de não lembrar nada? Absolutamente nada! Isso nunca me aconteceu, nem quando o e eu estávamos super loucos.
O fato era que, eu tinha um surfista loiro, gato, e muito gostoso sem camisa me esperando em algum cômodo daquele lugar. E não daria para fugir.
--- Que casa é essa?
Perguntei depois de "pronta" ao chegar na varanda, onde ele bebia uma caneca de café, eu suponho.
--- Minha casa. -- respondeu sorrindo e me puxando pela mão para o abraçar.
--- Hm… Achei que você morava na cidade… Espera… Isso é um vilarejo longe, não é?
--- Não tão longe, estamos depois da praia do Aventureiro. É bonito aqui não é?
Parei de encarar os olhos azuis dele, para contemplar a vista do lugar. Um vilarejo ribeirinho, cercado de mata, onde ouvia-se o barulho do mar.
--- Realmente!
--- Vamos comer?
Apenas assenti sorrindo, e logo me assustei com o beijo que ele novamente depositou em meus lábios.
--- Depois do café, eu acho que podemos conversar… -- ele disse apenas.
Segui até a mesa. Não sabia o que fazer ou dizer, primeiramente porque eu estava com fome, e depois porque… Desde quando a gente estabeleceu algo passível de "DR"? Alimentos devorados, café apreciado, e sorrisos amarelos com olhares duvidosos depois…
--- Então … Eu não quero que você pense que eu me aproveitei da situação porque realmente não foi. Eu estou a fim de você, de verdade. E quero muito repetir a noite de ontem, até porque eu queria realmente criar memórias com você… Mas…
--- . Calma. Sério, eu estou bastante confusa e parece que passou um tempão de acontecimentos enquanto eu estava num coma. Eu acabei de terminar um namoro e…
--- Eu sei! -- ele me interrompeu sorrindo, mas ansioso --- É só que, eu não… Não lembro a última vez que me diverti tanto com alguém. E você vai embora amanhã, logo, eu queria realmente aproveitar esse tempo contigo. Sem compromissos sérios, só do seu jeito…
--- Ai caramba. Eu não sei se isso é certo!
--- Por que seria errado?
--- Eu terminei com o há pouco tempo, e… Tá eu sei que ele não está aqui, e se eu terminei nada a ver ficar remoendo isso é só que…
--- , eu não estou pedindo você em namoro.
--- É eu sei.
--- Eu também não quero ser só "o cara de Angra", mas pelo tempo que estamos juntos… Por que não nos conhecermos melhor e aproveitar a companhia um do outro?
--- … -- eu pensava no que ouvia ao mesmo tempo que mil pensamentos rondavam minha mente --- O que eu bebi ontem?
--- Ah… -- ele pareceu desapontado com meu corte.
--- Não! Não estou cortando o assunto. Pelo amor de Deus, eu sou muito sem tato. Olha… É que eu tô bem puta de beber ao ponto de não lembrar que transei com o cara mais legal que conheci na viagem.
--- Relaxa … -- ele riu deprimindo os ombros de modo mais calmo --- Foi caipirinha, mas é que você bebeu muito. Há quanto tempo não bebia?
--- Já faz um tempo mesmo.
Eu sorri encarando os olhos azuis dele e resolvi arriscar:
--- Tá bom. Eu acho que vai ser legal conhecer o resto da cidade podendo beijar sua boca por aí.
--- Que ótimo, porque… Eu acho que vamos ter que começar repetindo a noite de ontem, já que você não pode ir embora sem se lembrar de algo para te fazer sorrir durante todo o voo.
E ali amigos, eu não dei a mínima. Estava em Angra. Estava sóbria. Estava com um belo par de orbes azuis. E já não estava mais com fome, isso é importante.

"Então deixa, eu tentar cuidar de você
Que eu deixo, pra amanhã oque eu tenho que fazer"

e eu passamos o última dia de minha viagem realmente conhecendo outros locais que eu gostaria, e ficamos juntos também. era um cara incrível e eu deveria ter todos os motivos do mundo para dar uma chance daquela viagem se repetir, talvez na minha cidade. Mas também era um cara incrível. Alguém que eu dividi grande parte da minha história, e me conhecia melhor que eu. Então, foi ali que eu percebi que na minha crise do vinte e pouco, o problema não era a idade. Não era o tempo. Não era muito menos nosso relacionamento. O creme antienvelhecimento foi só uma desculpa para esconder o que havia em inconsciente. O problema era eu. E essa pressão doentia que essa era faz sobre nós mulheres. Essa coisa de ser feminista e romântica de um jeito moderno, é pesado. Eu tinha medo de ferir meus ideais assinando um livro de casamento. E tinha medo de estragar tudo se não assinasse. Aquela coisa de relacionamento contemporâneo, sem rótulos e coisa e tal que nunca incomodou e eu, foi desaparecendo à medida que nossas famílias se fundiam. O problema era o meu medo de tanto caminho percorrido e poucos sonhos alcançados, o medo de parecer mentira que eu estava noiva do cara mais sensacional que eu poderia encontrar, e por Deus, eu o amava! Eu o amava tanto, que embora a química com fosse boa, não era metade do que eu sentia na cama com . E não porque era menos. Mas, porque e eu éramos mais. Mais história, mais momentos, mais tesão, mais amor, mais sonhos, mais… Tudo.
Quão idiota eu estava sendo com o ? E quão babaca também fui com o ? Eu estava me sentindo uma pedra afundando no oceano de Angra.
Caminhava na areia ao lado de com todas essas questões na cabeça, e precisei jogar limpo. Eu estava há horas de partir, e o mínimo que poderia fazer era pedir desculpas.
O quão não foi surpreendente a risada abafada de . Discreta, mansinha, daquelas bem compreensivas… Tipo mestre chinês de artes marciais na sua imensa sabedoria em frente ao seu jovem pupilo, sabe? Ele parecia já sacar tudo o que eu sentia, sem que eu precisasse dizer. E felizmente, ele disse que embora tivessem sido dias maravilhosos, ele soube que eu estava ali em uma fase que acabaria no último dia de viagem.
Puta merda. Além de gato, é compassivo. Me poupa, cosmos. Em outros momentos eu poderia ter vivido aquilo. Mas, estava em minha vida -- eu acho -- e eu estava imensamente feliz por isso.
merecia um presente. Porque aquela viagem foi mágica. Foi no mínimo esotérica. Eu me encontrei com meu "eu" interior, e quis bater de mão cheia em sua face.
Que merda é a nossa mente, né? Cara, uma loucura!
No fim, eu peguei o avião de volta. Carla, e os moradores da ilha ficariam em minhas lembranças e corações e com certeza eu voltaria. Não julgo por voltar tantas vezes. Mas, eu voltaria com .
! Pela misericórdia, tomara que ele não tenha arrumado ninguém em um fim de semana. Pelo menos, não alguém que o fizesse desistir de nós. Ainda no aeroporto eu telefonei para ele, mas ele não atendia. Então insisti. Ele ainda não atendia.
Pronto: meu surto por tanto cheirar bocaxi e pólen havia destruído meu relacionamento. Listei no bloco de notas do meu celular os maiores filmes de dor de cotovelo para assistir quando chegasse em casa. "Noiva em Fuga" encabeçava a lista. Eu sempre me achei meio Julia Roberts na vida, só que mais bonita. Porém nunca que eu poderia crer que eu viveria aquele drama de abandonar o meu Richard Gere no altar. Pelo menos, eu fiz antes do altar, o que me trouxe esperanças de poder consertar. A poltrona vazia ao meu lado também me dava essa esperança, afinal que sorte viajar sozinha, nã? Ou era uma compensação do destino pelo desastre que viveria ao chegar?
Quando o avião pousou e eu atravessei a sala de embarque, esperava que estivesse lá, já que ela sabia exatamente meu dia e horário de retorno e certamente estaria afoita de curiosidade. Mas não havia ninguém.
Que beleza! Eu fui abandonada pela minha amiga, e aquilo só poderia significar uma coisa: a rosa já seca em minha mão era o prenúncio da merda que eu fiz.
--- Esta já secou, não é? Espero que assim como as suas dúvidas tenham morrido.
Ouvi aquela voz conhecida me estendendo uma rosa linda, novinha e ainda em botão.
--- … Eu posso pedir pra você me deixar cuidar do nosso relacionamento como eu cuidaria desse botão? O fortalecendo para desabrochar numa flor linda e saudável?
Ah, mas vocês não tem dúvidas de que eu chorava né?
--- Não. Porque nosso amor já desabrochou, . Esse momento foi só um inverno. E você sabe bem que as flores suportam o inverno.
--- Sim, mas nossa história não é um jardim que eu possa ficar cavando, plantando e replantando sementes.
--- Claro que é! -- se aproximou me abraçando: --- O casamento não acaba no sim. As sementes sempre vão existir para nossos frutos, e cá entre nós chega de metáforas. Isso está piegas.
--- Graças a Deus. Eu sempre meto a jardinagem em tudo, e você tem que prometer não me deixar virar aquela vovozinha doida e tediosa.
Os dois gargalhamos.
--- Você não é doida. Não é tediosa. Nosso noivado não é uma rosa, mas podemos cuidá-lo com a metáfora do jardim se isso fizer você entender que eu estarei sempre do seu lado por todos as estações.
--- Eu te amo, . Precisei quase perder você para ter certeza que eu não vou mais me afastar.
--- E eu também te amo. Eu sempre soube que era só um momento.
--- Você se sentiu confuso também, digo… Com essa escolha?
--- Sim. Mas, achei que não conseguiria te fazer feliz. -- a preocupação dele era a mesma que a minha, porque eu também tive medo de no processo de ser infeliz o levar à infelicidade.
--- Você me faz melhor, amor.
--- Melhor que brisa de verão? -- Brisa de verão era a minha sensação favorita no mundo inteiro.
--- Se tem algo que eu descobri , é que você é melhor que brisa de verão. Na verdade, você e eu somos muito mais que um verão inteirinho.
E como se não fosse me beijar, me obrigando a colar nossas bocas na agressividade, rompeu qualquer distância. Fomos separados apenas pelos gritos de , eufórica, feliz e implorando desculpa pelo atraso. É… A poltrona vazia era mesmo sorte. E a Julia Roberts… Eu não assistiria aquele filme tão cedo.

"Acorda, e nunca mais se vá
Se for de qualquer jeito, antes me dá um beijo
Eu tô aqui por ti, por mim, por nós
Cê não sabe o quanto é importante acordar ouvindo a sua voz."


FIM.


Nota da autora: Espero que tenham gostado dessa shortfic/songfic curtinha amoras ♥ Aguardo ansiosa aos comentários, e vamos conversando grupos e etc! Espero vocês!





Outras Fanfics:
(Links na página de autora)
Até a data desta fanfic constam postadas:

Longfics

○ No Coração da Fazenda
○ Linger
○ Entre Lobos e Homens: Killiam Mark
○ Western Love

Shortfics

○ A garota da Jaqueta
○ All I Wanna Do
○ Cidade Vizinha
○ Coletâneas de Amor
○ Conversas de Varanda
○ Entre Lobos e Homens
○ Deixe-me Ir
○ F.R.I.E.N.D.S
○ Intro: Singularity
○ Nothing Breaks Like a Heart
○ O cara do meu time
○ O modo mais insano de amar é saber esperar
○ O teu ciúme acabou com o nosso amor
○ Pretend
○ Semiapagados
○ With You

Music Video

○ MV: Drive
○ MV: Me Like Yuh
○ MV: You Know
○ MV: Take Me To Church

Ficstapes

Nick Jonas – Nick Jonas #08607. Take Over
BTS – Young Forever #10304. House Of Cards
Camp Rock 2: The Final Jam #12509. Tear It Down
Descendants of the Sun #13005. Once Again
Descendants of the Sun #13006. Say It
Taemin – Move #14802. Love
Paramore – Riot #16009. We Are Broken




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