Última atualização: 18/07/2018

Prólogo

— Estão guilhotinando a nobreza francesa, James — vociferou Christina, furiosa. A rainha andava pela sala inquieta, enquanto o marido apenas saboreava um cálice de vinho e nada dizia sobre as afirmações da mulher. Já havia lido aquelas cartas dezenas de vezes e nada podia fazer. — E depois que tenham acabado com a monarquia na França, farão o mesmo por toda a Europa! E não será diferente em Windland.
— Não há nada que possamos fazer. Deixe que a França queime. Temos nosso povo sob controle, e o casamento de irá apagar qualquer faísca de revolta. — Disse James, por fim. A mulher servia-se de uma exagerada dose de vinho na esperança que isso lhe desse uma solução para todos os possíveis problemas que poderiam surgir com a revolta do povo francês. Os camponeses de Windland poderiam revoltar-se igualmente; era certo que James III e Christina não eram como os monarcas da França, mas estavam no trono há anos suficientes para que o povo se cansasse.
— É impossível que a noiva chegue aqui antes do inverno. — Disse uma terceira voz. Christina e James voltaram-se à porta, que tinha sido aberta silenciosamente. O rapaz encarava os pais, sério. — Mandei uma carta à Margaret, pedindo-lhe que não se arrisque em partir da Escócia.
— Pois deveria tê-la incentivado a sair de lá. A França queima e vocês querem se aquecer! Quando irão entender que podemos ser os próximos a termos as cabeças separadas dos corpos? — Gritou Christina, despertando a atenção de algumas criadas que passavam por lá.
está certo. Ao sair da Escócia, Margaret passa a ser de nossa responsabilidade e se qualquer mal lhe acontecer perderemos o casamento e então teremos de fato com o que preocupar-nos. — falou James, finalizando sua dose de vinho logo após dizer isso. O rei levantou-se e saiu da sala, deixando a esposa e o filho a sós.
— Você irá se casar com Margaret, não importa o quanto tente mudar isso. A princesa está prometida a você desde antes mesmo de nascer. — finalizou Christina, sentando-se à mesa do conselho do rei e voltando a verificar as cartas e relatórios sobre a situação da França. A rainha era muito presente nos assuntos políticos e econômicos de Windland – foi ignorada e subestimada por todos, até que seu plano econômico fez com que a fome no país cessasse.
— Pobre princesa — lamentou o rapaz, saindo do aposento logo em seguida. Desceu as longas escadarias e dirigiu-se ao jardim, onde convocaria qualquer um da Guarda Real para um duelo de espadas. Era assim que ele se libertava de todo o ódio.



saiu da enorme cozinha do palácio e soltou os cabelos, antes presos em um coque. Procurava por sol e ar fresco, já que seu ambiente de trabalho era cheio de aromas pesados e com pouca luz natural. Dirigiu-se aos jardins da rainha, onde havia o lago e campos verdes que pareciam infinitos – e eram, até as muralhas. Ouviu o som característico de aço contra aço, e procurou o lugar de vinha o barulho. Ela gostava de observar os soldados da Guarda Real treinarem, mesmo que seu irmão, Tomaz, não aprovasse tal ato. Eles não sabiam de onde tinham vindo e quem eram seus pais. Só sabiam que eram irmãos por causa da semelhança nos traços e cabelos cacheados, e porque uma das amas, a mais velha delas, dizia tê-los criado quando a fome devastava Windland, fazendo com que centenas de camponeses definhassem. Talvez tivessem sido trocados por comida ou abandonados na floresta, mas a senhora nunca lhes disse. E agora pouca diferença fazia: Tomaz estava na Guarda Real e cozinhava para o rei e rainha de Windland. Tinham um teto, roupas e o que comer; era o que importava.
Quando finalmente encontrou de onde vinham os sons de espada, surpreendeu-se em ver um dos meninos em treinamento duelando com , o príncipe herdeiro. Ela sentou para observá-los, sem preocupar-se em ser invisível. A luta parecia quase que séria, porém o rapaz da Guarda era mais feroz e violento, enquanto parecia mais gracioso, porém igualmente mortal. A moça não entendia de luta, mas poderia ter certeza que os dois ali conseguiriam se manter vivos em uma batalha.
— Parece que estamos sendo observados, majestade — gritou o menino da Guarda, como se perguntasse se devia ou não tirar a jovem dali. levantou-se e antes mesmo que pudesse sair correndo, ouviu uma segunda voz.
— Fique aí, senhorita. Só assim poderemos saber de nosso desempenho, uma vez que enquanto luto não tenho total visão de meus movimentos. — disse , parando o duelo. Ele foi até a jovem, que se abaixou numa reverência perfeita.
— Sua alteza — disse ela, vendo nada além das botas de . Ao levantar-se, olhou direto nos olhos do príncipe. Ela nunca havia o visto tão de perto e pensou que isso nunca aconteceria.
— Senhorita — cumprimentou , beijando-a na mão. Ela nunca tivera contato com a realeza e agora o herdeiro do trono de Windland lhe beijava a mão. Ela sorriu. — Diga-me, estou bom o suficiente para combater quaisquer revoltosos que ousem desafiar-me?
— Está ótimo, senhor. — disse . — É muito bom com a espada. Move-se graciosamente bem. Conseguiria fatiar um homem em dois sem fazer sujeira.
— Então a senhorita entende de cortes — disse , rindo. Seus cabelos eram pretos e levemente ondulados, com um certo volume que fazia toda a diferença. sentiu vontade de externar tais pensamentos, mas não ousou. — Deve estar responsável pelos deliciosos pratos que me alimentam tão bem, estou certo?
— De certo, alteza. — Ela disse, orgulhosa. A coisa que mais gostava de fazer era cozinhar, mesmo que com outros dez criados e a velha Joanne gritando-lhes ordens e desaforos. Era a mais nova da cozinha, em razão de seu talento nato para as artes culinárias. O rei em pessoa já lhe agradecera pelo melhor guisado de cordeiro, feito por ela, com apenas quinze anos de idade.
— Fico muito agradecido, sendo assim. Devo dizer que aprecio muito os doces, então, surpreenda-me com sua melhor receita. — disse , fazendo uma leve reverência e saindo em seguida. riu e voltou a cozinha, pensando em que doce poderia deixar o futuro rei de Windland satisfeito.



1

Quando Tomaz chegou à cozinha, os preparativos para o café da manhã já aconteciam. O perfume do pão de grãos e queijo favorito da rainha estava por toda parte. decorava pequenos bolinhos com geleia de limão. O soldado gostava de ver a irmã trabalhar – nada parecia perturbá-la ali, ela tinha uma sintonia com os alimentos jamais vista por ele. Ela pareceu notá-lo.
— Tomaz — disse ela, sem parar sua atividade. — Venha, experimente esse bolinho. Preciso que esteja perfeito.
— E quando não está, irmãzinha? — disse ele, surrupiando um dos bolinhos. Jamais ousaria misturar limão e morango numa massa de bolo, mas havia feito aquilo com maestria, sem ficar doce demais ou ácido demais. — Está perfeito, ácido e adocicado.
— Era exatamente nisso que estava pensando! — Comemorou a menina, olhando orgulhosa para os bolinhos que cobriam uma parte da mesa. Os outros criados trabalhavam nos arredores, mas sem jamais atrapalhá-la. Por ordens de Joanne.
— Rob te viu ontem pela tarde, no lago. Disse-me que estava perturbando o príncipe. Não deve fazer isso, está me ouvindo? — disse Tomaz, rapidamente. — Deve ser invisível a eles. Não fique convencida por elogios à sua comida. Não é nada além de sua obrigação.
— Por Deus, Tomaz! Só fiquei curiosa em saber quem estava duelando! E para sua informação foi o príncipe que me dirigiu a palavra. — disse , finalizando com raspas de limão os bolinhos. — Se me dá licença, preciso pessoalmente entregar esses bolinhos para sua alteza real.



não sentia vontade de levantar essa manhã, portanto, permaneceu deitado em sua cama, lendo um dos milhares de livros de política que seu pai lhe cobrava. Nesse, era dito que o bom governante não poderia parecer cruel à população, mas também não poderia parecer gentil e o rapaz parou a leitura para refletir se estava no caminho indicado por aquele filósofo. Seus pensamentos foram interrompidos por um guarda.
— Alteza — saudou o guarda. — Há uma garota da cozinha insistindo em lhe entregar bolinhos. Já lhe disse que o senhor nada pediu. O que devo fazer?
— Deixe-a entrar — disse , rindo. Ele levantou-se da cama e antes mesmo de vestir a camisa, a moça do dia anterior surgiu em seu quarto, carregando uma bandeja repleta de bolinhos decorados com morangos.
— Sua alteza, bom dia — saudou ela. — Acredito que irá gostar de meus bolinhos.
não pôde acreditar que a menina havia de fato feito o que ele sugeriu. Ele pegou um dos bolinhos e mordeu, sem jamais parar de olhá-la. Eram doces e ácidos. Morango e limão combinavam perfeitamente. Ele logo pegou outro e ainda mais alguns.
— Como se chama, senhorita? — perguntou, entre uma mordida e outra. Não conseguia parar de comer os bolinhos.
, sua majestade — respondeu ela, satisfeita por ter notado que o príncipe havia apreciado sua receita.
— Senhorita , esses bolinhos têm gosto de verão. São os melhores bolinhos que já comi em toda a minha curta existência. Esses bolinhos encerrariam guerras. Minha ordem, como seu príncipe, é que faça esses bolinhos até que todos nesse palácio tenham provado pelo menos um desses. Desde criados até minha mãe. Por favor, faça isso, certo?
— Levaria dias até que eu conseguisse alimentar todos aqueles guardas, alteza. — disse , sem graça. — Pode dar um desses a um de seus guardas e um à rainha.
— Deveríamos fazer uma indústria de bolinhos em Windland — ele riu. — E então ninguém seria infeliz.
— Não sei se minha comida tem esse poder, alteza — disse , baixinho. — Acho que devo voltar à cozinha, ou então meu irmão ficará furioso.
— Fique — Ele diz. continua ali. — Falarei com ele depois e pedirei perdão por tê-la roubado. Conte-me sobre você.
sentiu-se ainda mais sem graça, já que sua vida se resumia à cozinha e vez ou outra, alguns beijos com algum dos garotos da guarda. Não que isso importasse para .
— Eu e Tomaz fomos criados por uma das amas. Acredito que nossos pais nos trocaram por comida ou algo assim, não sei. E aí logo descobriram meu talento para cozinhar e desde então estou na cozinha. E meu irmão está na Guarda. — disse , rapidamente.
— Mas o que gosta de fazer? Além de cozinhar — perguntou , interessado.
— Ler, andar a cavalo. Nadar no lago e ver os rapazes da Guarda treinarem. Por isso o encontrei, senhor. Gosto de vê-los duelando, as espadas – mesmo as de madeira entrando em choque. As expressões nos rostos deles. É maravilhoso de se ver, quase como uma dança.
— Percebi que gosta de ler, . — disse . — Fala como personagens de livros. Nunca estive numa batalha real, na guerra, então não posso lhe dizer se é de fato maravilhoso de se ver. Mas os treinamentos são, tem razão. Seria esnobe chamá-la para me ver treinar novamente e assim ressaltar o quão mediano eu sou como espadachim?
— Eu adoraria, senhor. — disse , animada. Ela deixou os bolinhos em cima de uma mesinha que viu e esticou o braço, como se segurasse uma espada e com a arma invisível fingiu atacá-lo. logo entrou na brincadeira, transformando também seu braço numa espada e investindo contra , que passou a rodopiar pelo quarto, rindo e por vezes fingindo também investir contra o príncipe, que rapidamente a surpreendeu, segurando-lhe os braços com uma mão e a outra simulava uma espada no pescoço da moça. Ele aproximou a boca do ouvido da garota e sentiu um leve aroma de especiarias vindo do cabelo dela, e como ele pôde constatar, sua pele estava ligeiramente arrepiada.
— E agora, milady, está morta. — Sussurrou o rapaz ao ouvido de , que encarava o teto, levemente inclinada a ele. Os olhos da moça eram grandes e sua boca rosada estava meio-aberta, atraindo instintivamente . A jovem era mesmo muito linda, e por um instante ele achou absurdo o fato de ela estar escondida nas cozinhas do castelo, um ambiente quase tão hostil e regrado quanto o campo de treinamento da Guarda Real de Windland. Ele a soltou vagarosamente e ela demorou para virar-se completamente, como se soubesse dos pensamentos que passeavam pela mente do príncipe. As poucas partes visíveis do corpo da moça eram belas; o espartilho acinzentado, uniforme comum de todas as criadas, acentuava as curvas de . A pele morena da menina contrastava lindamente com os tons frios da roupa que vestia. O cabelo cacheado estava preso com um objeto metálico, que lembrou de uma espada. Ele aproximou-se dela e soltou seus cabelos, que caíram graciosamente emoldurando seu lindo rosto com cachos indisciplinados. o observava calada, com uma expressão indecifrável, mas o rapaz tinha quase certeza que tudo aquilo era proposital.
— Você não deveria estar na cozinha — disse ele, sussurrando. — Há muita beleza em você para estar na cozinha.
riu, sem quebrar o contato visual.
— Obrigada, meu príncipe. Mas não há nada que eu possa fazer senão cozinhar. E a senhora Joanne deve estar estranhando meu sumiço. Lamento muito deixá-lo, mas devo ir. — Ela abaixou-se numa reverência perfeita, sorrindo de um jeito meio doce e meio sensual para o rapaz, que nada disse. Ele pegou a mão levemente áspera de e a beijou demoradamente e ela sorriu, correndo em seguida em direção às portas dos aposentos do herdeiro de Windland, que voltou a sentar-se na cama. Sentia-se estranhamente interessado em , intrigado com a coincidência de ter encontrado aquela jovem tão bela que o atraía tanto. Só ao pensar em atração, lembrou-se que sua noiva que nunca vira na vida senão por uma pequena gravura logo estaria em sua casa. Ele não gostava da ideia de casar-se com Margaret, uma vez que associar-se a Escócia não lhe parecia uma boa saída para apagar qualquer faísca que a revolução dos franceses plantasse em Windland, porém, seu dever como príncipe herdeiro era casar-se com a jovem estrangeira. Ele suspirou alto e voltou a vestir seus trajes, sempre olhando os bolinhos que deixara a mesa e relembrando do aroma de especiarias que emanava da jovem e seu lindo rosto. Sua vontade, no momento, era ir à cozinha tentar decifrar qual era o enigma que a menina colocara em seus pensamentos, mas seu devaneio foi interrompido quando ouviu a porta de seus aposentos ser aberta – por um instante imaginou que estivesse ali novamente, porém era sua mãe, vestida em um tom de verde que realçava os olhos da mesma cor, que pareciam quase sobrenaturais o encarando.
— Mãe — disse , indo até Christina e beijando-lhe a testa. O rapaz era ligeiramente mais alto que a rainha.
— Margaret está chegando. — Anunciou a rainha, sem demonstrar qualquer expressão. — Eu mesma mandei parte da minha guarda para escoltá-la. Em breve a monarquia francesa irá cair, e precisamos do nosso povo ao seu lado.
— Como pretende trazer o povo para o nosso lado quando está fortalecendo a monarquia? — Perguntou , realmente tentando entender o que a mãe estava fazendo. — Fortalecendo a monarquia e trazendo uma estrangeira para reinar em Windland.
, eu sou uma estrangeira. Eu sou uma estrangeira que salvou o seu país da fome. Sou a estrangeira cujo conhecimento foi motivo de piada para todos os homens da nobreza, acostumados com mulheres sem opinião que só serviam para lhes esquentar a cama a noite. Tenho certeza que Margaret não é menos do que eu era quando cheguei aqui, assim como ela, para casar com um estranho em um lugar desconhecido e totalmente longe de casa.
— Perdão, mãe. Não foi o que quis dizer. — disse o rapaz. — O fato é que não acho útil uma aliança com os escoceses, que estão longe de nós. Há princesas austríacas, espanholas...
— O acordo com os escoceses foi feito muito tempo atrás, hijo. Não se pode quebrar alianças por caprichos seus. Um bom rei desfaz alianças apenas quando não há outro jeito. Para seus caprichos há sempre um modo de contornar a situação.
— Quando ela chega? — Ele perguntou, derrotado.
— Está a caminho. Lembre-se, querido. Isso é pelo nosso país, pela nossa família. — disse Christina, pegando a mão do filho. — Como rainha entendo isso, mas como mãe me parte o coração casar meu menino com uma mulher que não conheço. Apenas rezo a Deus que ela lhe dê filhos saudáveis e seja uma boa rainha.
Christina saiu do recinto e pensou na garota que estava chegando e a única coisa que pôde fazer foi desejar que ela o intrigasse tanto quanto o intrigou.



Antes de voltar a cozinha, foi a procura de Tomaz. Ela sentia-se estranhamente animada após o tempo que passara com o príncipe. Claro que sabia que provavelmente se houvesse algum interesse da parte de era apenas sexo; não iria se iludir com isso. Por um momento, ela imaginou que pudessem ser amigos improváveis, mas isso era apenas sua mente de menina pensando alto. Logo viu o irmão, parado próximo a porta da sala do trono, onde havia uma inusitada movimentação. Ela pôde ver seus monarcas sentados em seus tronos, ouvindo nobres e fazendo qualquer outra coisa que fizessem além de beber vinho.
— Olá, Tomaz — disse , encostando-se na parede ao lado do irmão.
— Finalmente você apareceu — disse ele, sério. — Onde você estava? Joanne me perseguiu a sua procura.
— Eu estava com sua alteza, o príncipe de Windland. — disse ela, rindo. — disse que meus bolinhos têm gosto de verão e mais, que acabariam com guerras.
, já lhe disse mais cedo e reforço: evite o príncipe. — Ele olhou para o salão onde os nobres se reuniam. — O príncipe fica com as ladies e você fica com a cozinha.
— Não, Tomaz, não há nada demais, por Deus! — disse , rindo. — Ele até me convidou para vê-lo treinar novamente. Acredito que e eu seremos bons amigos. Assim como você e Rob.
Tomaz pareceu alarmado quando a irmã falou isso e logo rebateu:
— Você e o príncipe não têm nada a ver, . Sua única ligação com ele é a alimentação.
— Imagine só, Tomaz, se me torno a maîtresse-en-titre de ! — disse a garota, apenas para perturbar o irmão – o que funcionou, já que ele olhou furioso para ela.
— Cale sua boca, ! Caso você não saiba, a princesa Margaret está chegando ainda essa semana. Estão dizendo que antes do inverno o príncipe se casará. Agora, deixe de falar besteiras e vá atrás de Joanne, tenho certeza que na cozinha há algo para você fazer.
— Por Deus, Tomaz, eu estava só brincando. Não quero ser amante de e tenho pena da pobre princesa. Não vai ser fácil reinar após a rainha Christina, e além de rainha ser nora da mulher. O único filho dela...
, pare de falar da vida alheia e vá trabalhar — disse Tomaz, ligeiramente alterado. — Não é da sua conta o relacionamento da princesa com a rainha Christina. Vá atrás de Joanne, pois seu único título nesse palácio é o de cozinheira.
fez uma careta e foi correndo até a cozinha, sentindo-se subitamente irritada após a conversa de Tomaz, dizendo que a princesa está chegando. Por alguns momentos, voltou a fantasiar – agora como sendo a amante do príncipe e não apenas sua amiga. Logo em seu primeiro contato ela pôde o ver sem parte das roupas e não era difícil imaginar o resto; ela sorriu e torceu para que ele também não se esquecesse dela.



2

caminhava tranquilo pelos jardins do castelo. A cozinha ficava numa área além do prédio principal, ligada apenas por um túnel subterrâneo do qual o jovem não tinha muita certeza de onde saia exatamente, por isso optou pelo caminho mais certo. Estava indo ali em busca de , para levá-la ao treino que prometera dias atrás. Havia chamado um dos melhores mestres de armas para treiná-lo e agora sentia-se confiante para mostrar a moça seus dons. Durante esse tempo, não deixara de pensar em como a jovem cozinheira o intrigava, ao mesmo tempo que imaginava ser surpreendido a qualquer momento pela princesa Margaret. Ao chegar na cozinha, que era muito maior do que ele se lembrava, logo os criados começaram a fazer-lhe reverências. Ele a viu logo, concentrada em amassar uma aparentemente pesada massa de pão. Um rapaz da guarda real a observava enquanto roubava alguns biscoitos.
— Lady — disse , surpreendendo aos dois. Os irmãos fizeram reverências ao mesmo tempo. — E você deve ser Tomaz.
— Sim, sua alteza. — disse Tomaz. — Peço perdão por , ela consegue ser inconveniente quando quer. Já lhe disse que não era para incomodá-lo, mas ela não parece me ouvir...
— Tomaz, creio que quem vai incomodar aqui sou eu — disse , rindo. — Lady , pode me acompanhar?
— Não sou nenhuma lady, meu príncipe — disse , rindo. — E preciso pôr esse pão para assar, ou então a senhora Joanne irá cortar minhas mãos com esse cutelo.
— Não há problema, esperarei aqui; não quero ser o motivo para que suas talentosas mãos sejam separadas de seus lindos braços — disse o príncipe, observando a cozinha. — Lembro-me de quando era criança e passava horas aqui tentando roubar comida. A senhora Joanne nunca dizia nada, mas só a expressão dela me assustava o suficiente para não ousar pegar nem um pedaço de pão.
— A senhora Joanne me recrutou quando me pegou brincando em sua cozinha, aos treze anos. Antes disso, eu só ajudava as criadas em tudo. Depois, nunca mais me deixaram sair da cozinha, nem quando a rainha procurava por uma nova criada. — Disse , colocando o pão para assar. — Esse pão assará lentamente... para que fique duro por fora e macio por dentro.
— Tomaz! — Gritou uma terceira voz. Senhora Joanne adentrou a cozinha sem nem perceber o príncipe intruso. — Saía já daí! Ah, ! Se não fosse tão boa já teria lhe tirado da minha cozinha! Quantas vezes já lhe disse que não quero guardas aqui?
— Perdão, senhora — disse Tomaz, apressado. — Não incomode demais o príncipe, .
Ao ser citado, a senhora logo viu o príncipe sentado no banco rústico frente ao balcão. Ela fez uma reverência demorada – muito provavelmente por dificuldades da idade.
— Meu príncipe, o que está fazendo aqui? Faltou-lhe algo? Alguma das loucuras que essa garota inventa lhe incomodou? — ela dirigiu o olhar a — Eu lhe disse, menina, não misture limão e morango, isso não faz sentido!
— Não, senhora, muito pelo contrário. — disse , sorrindo irresistivelmente. — Me encantei com as loucuras gastronômicas de Lady e resolvi ver de perto como a mágica acontece.

[...]


Quando finalmente conseguiram sair da cozinha, e caminharam em silêncio pelo jardim. Ela limpava as mãos nervosamente na saia do vestido e provavelmente estava mais suja do que imaginava. Ela não tinha pensado que voltaria a vê-lo e agora estava nervosa por saber que ele estava ali, vendo uma das piores versões de . Ela não queria que ele a visse como uma simples criada – o que não fazia sentido, porém o vestido sujo de farinha, o cabelo emaranhado de suor e o cheiro característico de comida a denunciavam.
— Você parece com seu irmão — disse ele. — Quem é o mais velho?
— Tomaz — disse . — Ele não gosta que eu tenha contato com o senhor. Diz que estou procurando um jeito de arrumar problemas, ser inoportuna. Ele acha que qualquer coisa que eu faça resultará nele sendo expulso da Guarda Real.
— Pode ter certeza que não está sendo inoportuna; muito provavelmente quem está atrapalhando sou eu, Lady . Seu irmão não será expulso da Guarda. — disse , limpando um pouco de farinha do rosto da jovem. Ela sorriu.
— Ouvi dizer que vai se casar — disse ela, subitamente. — Com uma princesa escocesa.
— Prefiro não pensar nisso até o dia do casamento — ele admitiu, com um semblante triste. — Ainda mais porque tenho pensado numa lady que não é a princesa Margaret.
— Isso me parece um problema, alteza. — disse , observando o lago que havia no jardim. — Mas com certeza a princesa é mais bela e mais inteligente que qualquer outra lady de Windland. Bem, talvez não tão inteligente como à senhora sua mãe, mas pode ser uma boa princesa.
— Ela não é mais bela ou mais inteligente que a lady em questão. Bem, talvez tenha conhecimento de idiomas e pode ser uma boa princesa, pálida e inalcançável. Porém, essa lady que lhe falo é a mais bela que já vi em minha vida, e tenho certeza que conhece tanto de artes quanto qualquer outra princesa — ao dizer isso, inclinou-se para , que lhe olhava com aquela mesma expressão indecifrável – os lábios entreabertos e os olhos grandes, curiosos. Ele não precisou fazer mais nada; a jovem beijou-lhe de uma vez, sentindo seus lábios, seus dentes e sua língua, tudo de uma vez. Os braços dela abraçavam o pescoço do príncipe, que a segurava pela cintura, pressionando-a levemente. Quando o ar lhes faltou, ela abaixou a cabeça repentinamente, temendo por ter interpretado errado tudo o que o príncipe dissera, já que ela não era nenhuma lady, porém antes mesmo de dizer qualquer coisa, afundou a mão nos cabelos cacheados da moça, voltando a lhe beijar devagar e fazendo-a quase derreter-se ali mesmo. Ele mordiscava e beijava os lábios de , vez ou outra lhe invadia a boca com sua língua, devagar e firme. Nada passava pela cabeça de nenhum dos dois; nem que os demais criados vissem ou até mesmo se o próprio rei os flagrasse aos beijos no jardim – não importava. Por dias, pensava ininterruptamente sobre ; sobre seus cachos indisciplinados, seu sorriso tímido, seus olhos brilhantes. Pensava em como aquela garota parecia ser algo totalmente alheio a cozinha, apesar de todo seu dom – não fazia sentido tamanha beleza em alguém que ficava noite e dia na cozinha, com facas e fogo. Era como se estivesse em um campo de batalha, e aquilo não fazia sentido algum. Com certa dificuldade, o príncipe partiu o beijo e encarou a jovem, que ainda tinha os olhos fechados. Ele sentia-se misteriosamente atraído por ela e se fosse um crédulo, desconfiaria que aquilo era um feitiço, tamanho o magnetismo que parecia puxá-lo para a cozinheira.
— Me perdoe, senhor — sussurrou ela. — Eu... não pude resistir, mas peço perdão por não o ter feito.
— E eu agradeço a todas as entidades sagradas e ao universo por não o ter feito — respondeu ele. — , a senhorita não tem ideia do quanto eu ansiei por esse momento.
— Deus irá me punir por nutrir tamanho desejo por um homem comprometido; porém, o Senhor há de me perdoar, pois sabe que não o faço por mal. Não posso ou consigo resistir, mesmo sabendo que o que faço é pecado. Perdoe-me, Senhor, pois eu peco.
Por alguns instantes, os dois ficaram calados – sentaram-se ao chão, presos em seus próprios pensamentos. temia por qualquer um que tivesse lhes visto, pois logo se tornaria fofoca. Temia, pois sabia que a noiva de estava chegando e que paixão nenhuma mudaria o destino ou quem eles eram. Ele era o príncipe herdeiro de Windland e ela era uma reles cozinheira e facilmente poderia ser substituída. segurou a mão de , como se soubesse os seus pensamentos. Ele a pressionou levemente, e a garota retribuiu o gesto. Não sabia o que se passava em seus sentimentos, mas sabia que devia afastar-se de o quanto antes, pois eles não pertenciam ao mesmo universo. Ele em breve seria seu rei e nunca nada acabava bem para as amantes, principalmente as plebeias. Princesa Margaret poderia matá-la tão fácil como se mata uma galinha.
acariciou os cabelos de enquanto o encarava de perfil; era tão belo, com sua pele clara salpicada de pequenas sardas invisíveis a uma certa distância - mas não para – os olhos intensos e a barba por fazer. Ele não tinha nada de seus descendentes espanhóis ou dos de Windland; era totalmente único, como uma composição artística.
— Eu preciso ir, meu senhor — sussurrou ela. — Preciso ir, e me vou com o coração partido, pois dói em mim saber que nunca poderíamos nos relacionar. Você tem sua princesa e eu não posso lutar contra isso.
Antes mesmo que o rapaz pudesse dizer algo, saiu correndo em direção a cozinha. Desejava que ninguém tivesse visto aquele beijo e que aquilo existisse apenas na memória dos dois – para que não fosse denunciada a princesa escocesa. Quando chegou a cozinha, seu pão ainda estava longe de ficar pronto. Sentou à mesa e dedicou-se a fazer qualquer coisa que fosse preciso, desde afiar facas até lavar panelas. O movimento na cozinha era intenso por conta do almoço, mas ela já havia feito sua parte e milagrosamente a velha Joanne não havia a cobrado de fazer qualquer coisa além do pão, talvez pelo elogio feito pelo príncipe.
O dia então passou-se sem mais acontecimentos. Não tinha visto Tomaz desde cedo e não se preocupou em procurá-lo. Ela não saiu da cozinha até que todas as atividades estivessem finalizadas e foi aos seus aposentos já passando da meia noite. As outras criadas com as quais dividia o quarto já dormiam com velas apagadas e foi difícil tirar suas roupas de trabalho no breu em que o quarto estava imerso – ela precisou tatear a fria parede de pedra para encontrar sua simples cama de palha e ao deitar-se, tentou imaginar sua família perdida, os culpou por tê-la deixado nesse castelo; pensou em John, um dos guardas do rei com o qual havia compartilhado a cama três ou quatro vezes, não tinha certeza. Pensou em Margaret, a noiva de . não sabia ao certo como ela se parecia, mas em seus pensamentos ela sempre possuía a aparência de uma deusa grega, cuja visão era mortal para qualquer mundano. E afinal de contas, era o que era – era uma mera mortal em meio a realeza, e a princesa poderia de fato ser fatal como veneno para ela, por isso, antes de dormir jurou que esqueceria qualquer coisa que houvesse pensado sobre . Ele era seu futuro rei, e nada além disso.



havia bebido apenas um cálice de vinho – ou um barril, não tinha certeza. Seus pensamentos embriagados estavam presos em e nada além dela – imaginava como teria sido se, mais cedo, houvesse ido atrás da moça, impedindo-a de temer qualquer coisa. Ele desejava tê-la levado para seu quarto e feito dela sua, antes mesmo que Margaret chegasse e arruinasse tudo. Depois do beijo de , não conseguia nem pensar em tentar amar ou no mínimo desejar a princesa prometida – seu dever o chamava e ele apenas clamava por , que não era lady e sequer possuía um segundo nome. . Gostava de como o nome soava em seus lábios, sua voz bêbada se demorava na sílaba do meio. . Soava quase como poesia ou talvez ele tivesse apenas embriagado demais. Para , poderia ser sua lady, sua rainha. Nunca havia sentindo-se tão tolo pensando numa mulher – o dever sempre viera em primeiro lugar, mas a moça da cozinha havia mudado isso repentinamente. Ela havia conjurado uma chama no corpo de que parecia ter vida própria e recusava se extinguir – era como se aquilo tivesse consumido toda a parte racional dele e o transformado em um garoto bobo guiado pelos seus desejos carnais. Porém, estava decidido: precisava de apenas mais uma vez, precisava sentir seus lábios, sua língua e sua pele apenas mais uma vez para decorar a sensação – precisava senti-la próxima a ele novamente, precisava se entregar ao desejo antes de se entregar ao dever. Foi assim que ele adormeceu – milagrosamente sem sonhos; mas sabia que se sonhasse, a garota de cabelos cacheados e olhos seria protagonista em todos.

[...]


Quando acordou, ele não sabia ao certo que horas eram e sua cabeça doía como o inferno. Bebeu um gole da água que estava disposta ao lado de sua cama e levou tempo para notar que não estava sozinho. Christina estava sentada numa cadeira na sacada dos aposentos do filho. Ele não precisou dizer nada – ela sabia que estava acordado e, provavelmente, sabia que estava bêbado.
— Nunca me importei com as garotas pelas quais se interessa — disse ela, voltando ao quarto. — Lembro-me de Lady Catherine, Lady Lana, Lady Arianne.... Ouvi sussurros sobre uma tal . Está envolvido com alguma prostituta?
Bem, claro que Christina iria supor que era uma prostituta, apenas pelo fato de ela não ser nobre. voltou-se a deitar e fechou os olhos.
— Ela não é uma prostituta — esclareceu ele.
— Então há uma — afirmou Christina. — Tenha cuidado, mi hijo. Não a deixe destruir sua vida.
— Não vou fugir do dever, se é isso que te preocupa — disse ele, cansado. Ele sentiu vontade de discordar dela e dizer que jamais destruiria sua vida e que ela mesma fugiu antes que fizessem algo que fosse além de beijos, mas não o fez pois nada mudaria a cabeça de Christina com relação ao casamento. não tinha certeza se a mãe se compadecia com o fato de Margaret ser uma estrangeira em Windland ou se realmente apenas queria que o filho seguisse o que lhe foi ordenado aos 5 anos de idade.
, deve achar que não percebo que está infeliz — disse a rainha como se estivesse lendo a mente do príncipe. A mulher sentou-se na cama ao lado dele. — Sei que não é a sua vontade, mas sei também que a realeza tem muitos luxos, mas escolhas pessoais raramente são um deles. Eu não escolhi sair de casa, seu pai não escolheu casar-se comigo, porém nós o fizemos. Deixei a Espanha e vim a um lugar pequeno, frio e desconhecido. Conheci seu pai em menos de uma lua do casamento, mas não havia nada que eu pudesse fazer, então abracei meu novo lar e deixei o antigo em minhas lembranças... Reino em Windland como se fosse filha dessa terra, e reino orgulhosa de saber que sou querida. Dei herdeiros não só a meu marido, mas também a meus súditos, que festejaram seu nascimento como nunca imaginei que o fariam; fui amada por ter concedido a Windland um herdeiro, menino saudável e forte e após isso os surpreendi novamente quando salvei essas pessoas de morrerem famintas, como salvaria minha família – quando passei a frente de seu pai, que ao passo que é um excelente estrategista, é um péssimo economista. Não subestime Margaret – ela pode ser uma boa esposa. Certificarei-me disso.
não respondeu e quando a mãe percebeu isso, saiu do quarto silenciosamente. A cabeça do rapaz já parava de doer e ele levantou-se, pedindo a um criado água para banhar-se. Novamente, pensou em e a desejou, com ainda mais fervor do que fizera no dia anterior – decidiu, por fim, que iria atrás dela, uma última vez antes da chegada de Margaret.



estava desde a madrugada cortando vegetais em pedaços praticamente do mesmo tamanho. Não conseguira dormir e decidira adiantar todo o trabalho do dia, então cortou os legumes para um ensopado e preparou a massa para fazer uma torta doce. Era a rainha quem determinava o cardápio e para a sorte de , ela havia o feito na tarde anterior. A jovem sentiu-se duplamente sortuda por não precisar servir o que cozinhava, já que teria de encarar novamente e o único jeito de reprimir seu desejo era ignorando completamente a existência do jovem herdeiro do trono de Windland. Ela sentiu falta do irmão mas temeu sair da cozinha e encontrar mais pessoas, então pediu ao universo que levasse o irmão ali. Nada aconteceu.
Ela voltou sua atenção às frutas silvestres que dispunha em sua bancada: amoras, framboesas, morangos e mirtilos banhados a suco de limão, manteiga e açúcar. Não havia mais o que fazer, então decidiu abrir a massa e finalizar a torta. Antes mesmo que pudesse começar, foi surpreendida por Joanne. Junto da velha senhora, estavam todos os criados da cozinha.
— A princesa Margaret chegou da Escócia — anunciou à velha, fazendo com que um burburinho começasse entre os criados presentes. — Ela chegou com guardas de nossa Rainha Christina, uma chegada discreta. A princesa está em seus aposentos e deseja uma refeição. , o que há para ela?
encarou perplexa a mulher que lhe perguntava, sem saber o que responder. A noiva de estava ali e agora e mais, devia alimentá-la.
— Estou preparando a sobremesa — disse ela, baixinho, voltando à torta. Sentia-se curiosa para ver a princesa, mas tinha medo de encontrá-la com . Aparentemente, se alguém os viu juntos, foram cuidadosos a ponto de não comentar sobre isso perto de ; ela não se demorou em finalizar a torta e logo foi a procura de Tomaz.
Demorou a encontrá-lo, porém o achou junto de Rob. Os dois conversavam sobre qualquer coisa enquanto se alimentavam com frutas a beira do lago e os interrompeu antes mesmo que pudesse entender o assunto.
— A princesa chegou — Anunciou ela. — Estou curiosa, quero vê-la.
— Sim, eu sei, e esse foi o único motivo pelo qual ainda não lhe procurei. — Respondeu Tomaz, visivelmente irritado. — Estão todos comentando sobre você, , está satisfeita?
— Não entendo, o que estão dizendo? Só pode ser sobre meus bolinhos que fiz... — foi interrompida pelo choque da mão forte de Tomaz em seu rosto. Ela levou a própria mão até o local onde o irmão a atingiu e olhou para ele, com uma expressão de incredulidade. — Por que fez isso?
— Pare de se fazer de tola, ! Acha que ninguém me contou? Eu bem sei porque quer ir atrás da princesa! Se você voltar a agir como uma meretriz, será dessa forma que irei te tratar de hoje em diante! — vociferou Tomaz, furioso de um jeito nunca visto antes pela irmã. Rob mantinha a cabeça abaixada, como se não quisesse ser notado ali.
— Irá se arrepender de ter me batido, Tomaz! Irá se arrepender, está me entendendo? — gritou , correndo desesperadamente de volta a cozinha. Antes mesmo de chegar, notou uma tina cheia de água e foi ali mesmo que molhou o rosto para limpar as lágrimas e diminuir a vermelhidão no local onde o irmão a acertara. não foi até a cozinha, sentou-se nos estábulos e ficou ali, na companhia de dezenas de cavalos – provavelmente até os cavalos da própria Margaret estava ali. Estava furiosa por ter sido chamada de meretriz quando tudo o que fez foi fugir de e reprimir seu desejo justamente por não querer agir como tal. Agora, sabia que todos tinham conhecimento do beijo e mais, que estavam aumentando o que acontecera e intensificando um boato. sentiu-se mais sozinha do que nunca – nem seu irmão estava ao seu lado mais, porém ela limpou as lágrimas que percorriam seu lindo rosto e rumou, decidida a um lugar que já havia decorado o caminho.
Ao adentrar a ala dos aposentos da família real, todos os guardas e criados a encararam, mas sem jamais lhe dirigir a palavra. Quando chegou ao local que queria, bateu na porta duas vezes, ignorando completamente os guardas que estavam por perto. Quando ele abriu a porta, olhou firmemente em seus olhos a encarou igualmente sem dizer uma única palavra. E então , sem quebrar o contato visual, disse:
— Perdoe-me, Senhor, pois eu vou pecar.



3

Antes mesmo que pudesse dizer qualquer coisa, o beijou com tamanha ferocidade que o espantou, porém, o rapaz retribuiu com a mesma intensidade. Os braços dela o abraçavam no pescoço enquanto os dele pressionavam a cintura fina da jovem. Eles beijavam-se desesperadamente, como se a vida dependesse daquilo, e de fato, dependia. Ao mesmo tempo em que o beijava, desamarrou a camisa branca que vestia e precisaram partir o beijo para que ele se livrasse da peça.
— O que deu em você? — Sussurrou ele, segurando o rosto da menina.
— Eu preciso do senhor, meu príncipe — respondeu ela. — Eu soube que sua noiva chegou e também soube o que tem sido falado sobre mim... Eu estava tentando não entrar em problemas, mas minha reputação já foi definida por todos.
— Eu te quero tanto, — disse ele, voltando a beijá-la. — Te quero desde o momento que a vi.
Ela riu e voltou a beijá-lo, mordendo seu lábio inferior e acariciando as costas dele; ela mal conseguia ordenar seus pensamentos – não se importava com Margaret, com Tomaz ou até mesmo com Deus. As mãos firmes do rapaz eram ágeis ao desfazer o laço do espartilho de ; até mesmo para desfazer o trançado da peça. Quando o fez, não precisou de muito esforço para se livrar do restante das roupas dela e quando o fez, observou a jovem a sua frente, cujo corpo poderia pertencer a uma obra renascentista, com suas curvas acentuadas e pele perfeita. Ela deitou-se na cama de , convidando-o para fazer o mesmo, onde voltou a beijá-la, nos lábios, pescoço, ombros e seios. Ele retirou as roupas que lhe restavam mostrando a todas as suas intenções, que ela acatou de bom grado, invertendo as posições e ficando por cima. Beijou-o na boca, nos ombros, no pescoço e peito e quando terminou de fazê-lo, parou para observar o jovem rapaz sobre ela, que a olhava com uma expressão mista de desejo e algo que ela não sabia explicar. Ela sorriu, voltando a beijá-lo intensamente e por mais óbvio que aquilo parecesse, sentiu-se extasiada com ele dentro dela. Com movimentos quase que humanamente impossíveis ele a possuía – e a intensidade com que ele o fazia poderia facilmente indicar o quanto ele a desejava, pois ambos eram demasiadamente intensos. emitia sons guturais e encarava com o olhar de uma fera faminta e ela sequer pensou nisso, já que suspirava e gemia involuntariamente, tamanho era o prazer que sentia consumando o desejo arrebatador que sentia pelo herdeiro de Windland. Pele contra pele, o suor dos dois misturava-se, tal qual seus corpos, que naquele momento eram um só. sussurrava o nome da jovem com sua respiração ofegante e as unhas de estavam cravadas na pele dos ombros do rapaz quando ela chegou em seu ápice, sentindo seu corpo dar leves espasmos e sua visão ficar levemente embaçada, como se ela estivesse bêbada. Alguns segundos depois, caiu ao seu lado na cama, igualmente extasiado. Seu corpo estava suado e só naquele momento notou o quão belo ele era. Não tinha o abdômen definido como os soldados da Guarda Real, mas possuía músculos ligeiramente notáveis, principalmente quando respirava. A garota não se moveu após terminarem, e sentia-se ligeiramente culpada por ter se deitado com um homem comprometido, mas o desejo exalava por seus poros e sabia que com acontecera o mesmo. Enquanto refletia, o rapaz virou-se para ela, acariciando-a no rosto, seios e braços. Ela não sentia nenhuma vontade de sair dali.
— O que fez comigo, Lady ? — Inquiriu ele. — Meu dever com meu povo sempre veio em primeiro lugar, e agora estou completamente entregue a ti, desejando-a em todos os momentos do dia.
— Sua lady é outra, meu senhor — disse ela, com um tom ligeiramente desanimado. — Não sou lady, nunca serei. Mas sua princesa... bem, sua princesa será ideal para o senhor, lhe dará belos filhos e reinará feliz ao seu lado.
— Um homem nunca quer o que lhe é dado. — Refletiu . — Margaret é minha obrigação desde que tenho cinco anos de idade. A princesa e eu nunca nos vimos, mas ouvimos cobranças sobre o nosso casamento desde sempre.
— Você... perdoe-me. O senhor já era comprometido aos cinco anos? — Perguntou , imaginando-se nessa situação. Se fosse uma princesa, seria de onde? Certamente uma estrangeira, já que não possui a pele clara do povo de Windland.
— Sim. Margaret é cinco anos mais nova que eu; ainda uma criança, acredito. A corte é diferente com príncipes e princesas e tenho certeza que Margaret acredita com veemência que sou o amor de sua vida — disse ele, com um tom de pena na voz. — Eu, na verdade, nem sei o que fazer com relação a ela. Não a vi ainda, e tenho medo de procurá-la.
— Deixe para conhecê-la no jantar que a senhora sua mãe mandou fazer hoje em comemoração à chegada da princesa — sugeriu , virando-se para encarar o príncipe. — Eu bem sei que deveria estar preparando este jantar, mas não consigo parar de pensar no senhor desde ontem, alteza.
, eu só não sonhei com a senhorita porque estava bêbado demais para tal coisa — respondeu ele, rindo. Por mais que Margaret estivesse no mesmo palácio que e , era quase imperceptível quando ele possuía aquela garota em seus braços, nua.
Ela sorriu e o beijou, lentamente. Enquanto seus lábios se tocavam, não havia nada que perturbasse ; nem o casamento iminente ou seu futuro como rei de uma nação em meio a uma onda de revoluções. Era como se estivesse em um paraíso nos trópicos, onde só haviam ele e a moça que o beijava e desejava ardentemente. Quando o ar lhes faltou, ela sorriu para ele, que lhe acariciou o rosto macio. tinha as feições diferentes da maioria do povo de Windland – não era tão branca quanto eles e nem tinha os cabelos lisos. Era morena, tinha cachos volumosos que emolduravam seu rosto com perfeição. Suas sobrancelhas eram arqueadas, como se estivessem sempre sugerindo algo a alguém e ele podia crer que sim: lhe sugeria uma aventura, lhe sugeria amá-la sem pensar em nada além disso. E ele havia se entregado tão calmamente que nem percebera quando isso aconteceu – só sentia que sua mente, seu corpo e sua alma pertenciam a Lady .
— Como isso foi acontecer? — disse ela, agora deitada no peito de . — Alguns dias atrás eu era apenas mais uma criada e hoje estou nos aposentos do príncipe herdeiro.
— Você é um anjo caído tentando-me para que eu fuja de meus deveres — disse ele, acariciando as costas nuas da jovem. — Eu poderia ficar o dia inteiro com a senhorita...
ergueu a cabeça para olhá-lo, lançando um olhar sugestivo, que claramente dizia que faria aquilo. Esquecera-se de Tomaz, da velha Joanne e até mesmo da princesa Margaret que já estava ali. Voltou a beijar como se sua vida dependesse daquilo e sentou-se sobre o quadril do rapaz – numa posição totalmente favorável para o que aconteceria em seguida – com uma perna de cada lado e voltou a beijá-lo com todo o fervor de antes. Não demorou para que ele estivesse novamente dentro dela, que agora se movimentava sob ele, enquanto ele a observava como se estivesse frente à frente com uma deusa. Lhe acariciava tudo o que estava no alcance de suas mãos, principalmente o quadril e cintura da jovem. Ambos emitiam seus sons mais instintivos enquanto estavam imersos sobre aquele turbilhão de sensações inebriantes que os consumia lentamente. Os cachos de que antes estavam mal presos, agora estavam livres sob os ombros da jovem, que não deixava de encarar por um minuto. Ela não sabia como seria depois, mas naquele momento, ela era dele e ele era dela. Na segunda vez, os dois chegaram a seus ápices juntos, e tombou sobre ele, exausta. Ela rolou para o lado e voltou a encará-lo, não mais com o olhar sensual involuntário que fazia quando transavam, mas com um olhar calmo, que não dizia muito. Em partes, queria perguntar o que viria em seguida, mesmo sabendo que o príncipe herdeiro tinha outras preocupações que iam muito além dela, então apenas sorriu, observando os intensos olhos de .
— Você é linda, Lady , linda. — Disse ele, olhando para o teto. — Não sei o que fez comigo, mas tenho a desejado desde a primeira vez que a vi e agora então... Desejo mais que qualquer coisa.
— E eu quero ser sua, meu príncipe — sussurrou , estremecendo ao dizer tais palavras. Em partes, sentia-se suja e errada por agir daquela forma, sabendo que Margaret estava ali para casar-se com o homem com quem acabara de transar, porém não estava fazendo aquilo por mal ou contra a princesa – estava apenas cedendo ao desejo que a consumia. Eles voltaram a beijar-se, calmamente. sabia que teria forças e energia para ficar naquela cama o dia inteiro. O beijo foi interrompido por uma batida na porta e em seguida com um guarda adentrando o quarto – para sorte de , não era nem Tomaz nem Rob, mas para o infortúnio, sabia que logo seria explanada e chegaria ao conhecimento do irmão que estava, finalmente, agindo como a meretriz que ele dizia que era. O guarda baixou os olhos – apenas depois de dar uma longa olhada no corpo nu da moça – e anunciou:
— Alteza, o Rei James e a Rainha Christina requerem sua presença. A Princesa Margaret já está no palácio. — disse o guarda, dando uma pequena risada na última parte.
— Bom, diga que estou a caminho — falou , levantando e recolhendo suas roupas do chão. O guarda saiu do recinto, deixando novamente e o príncipe a sós. Enquanto ele se vestia novamente, a jovem continuava deitada – provavelmente aquela era a melhor cama na qual se deitara em toda sua vida, e aqueles lençóis eram os melhores tecidos que tocaram sua pele e ela pretendia passar o maior tempo possível ali, pois nunca mais teria algo assim. Uma criada não tem muitos luxos. Quando ele vestiu o luxuoso gibão de couro escuro, levantou-se, também juntando suas roupas para vestir-se, acordar de seu sonho e voltar à vida real. Enquanto vestia sua roupa de baixo e preparava-se para o tormento que era enlaçar seu espartilho, sentiu a respiração de em seu ombro, onde ele traçou uma trilha de beijos, que passaram para o pescoço e pararam no lóbulo da orelha da jovem.
— Quero vê-la novamente, Lady — ele sussurrou. — Quero que passe essa noite comigo. — Ele tomou em suas mãos as fitas gastas que fechavam o espartilho da moça e começou a trançá-lo, com habilidade. Ele apertava esporadicamente, fazendo arfar como muito fizera sem aquela peça de roupa. A respiração dele continuava no pescoço de , excitando-a ainda mais.
— Meu príncipe tem certeza? — Inqueriu ela. — A princesa está aqui...
— Não quero a princesa — sussurrou ele. — A verei novamente, Lady ?
— Não sou nenhuma lady — disse ela, virando-se de repente, tão próxima a que seus corpos estavam quase completamente se tocando. — Mas sim, o senhor me verá.
Ele a puxou para um beijo urgente, puxando o cabelo dela e fazendo com que os dentes deles se batessem com uma certa frequência, despedindo-se então da garota. Eles deixaram o quarto juntos, mas não seguiram na mesma direção.



Quando adentrou a sala do trono, sentiu o peso de todos os olhares sobre ele. Lá estavam Christina e duas de suas damas, James e quatro duques, Margaret – encolhida em um canto – e alguns dos guardas. Ele fez uma leve reverência e foi até a mãe, dando-lhe um beijo na testa. A garota, Margaret, o observava descaradamente. A princesa possuía olhos cor de mel e os cabelos eram ruivos. Seu rosto tinha formato de coração e estava avermelhado. A saia de seu vestido era xadrez e provavelmente seguia o padrão símbolo de algum clã escocês.
— Alteza — ele a cumprimentou, com uma reverência. A única coisa que passava por sua cabeça era . nua. nua e gemendo seu nome.
— Olá, — disse Margaret, com um sotaque forte. deu um sorriso fraco, voltando-se aos pais. Christina parecia saber o que se passava em sua cabeça, enquanto James combinava animadamente com os duques uma caçada.
— Estou muito feliz de finalmente estar aqui — disse a princesa. — Foram muitos dias de viagem. Estou exausta, mas extremamente feliz de conhecer minha nova família! Agradeço a Deus por isso!
percebeu que Margaret fazia muitas exclamações. Muitas.
— Peço perdão, alteza, mas preciso me retirar agora — disse , rumando para a saída. — Tenho o que fazer.
— Ah, pois irei contigo! Temos muito o que conversar, não acha, Christina? — disse Margaret, empolgada. Christina sorriu levemente e voltou-se para a conversa do marido, enquanto a princesa correu até o príncipe, enlaçando a mão no braço dele.
— Oh, ! Windland é tão adorável! Quando o emissário do Rei James foi até a Escócia e me deu o relicário com sua imagem o achei tão belo! Tive sorte no casamento!
— Também és adorável, milady — disse ele, tentando soltar-se dela.
, pode me levar para conhecer todo o palácio? — pediu ela, animada. Ele não pôde fazer nada senão acompanhá-la. O primeiro lugar em que pensou para ir foram as cozinhas, mas ele não o fez. Não podia ver – ela lhe tirava o juízo, e tudo do que ele precisava naquele momento era seu juízo.
Eles andaram pelos jardins, pelo salão da Rainha, pelos estábulos, salas de armas. Depois, chegaram à ala leste, onde estava a enorme sala de refeições, a biblioteca e os aposentos da família real e também de aposentos para convidados. Ele tentou fazer boa parte do trajeto em silêncio, mas Margaret sempre tinha uma exclamação ou um questionamento na ponta da língua e em sua maioria, todas as falas da moça eram respondidas com uma risadinha, até que ela pediu:
— Leve-me até a cozinha! Preciso dar à sua melhor cozinheira as instruções para que seja feito Haggis para o nosso jantar! — disse Margaret, fazendo com que respirasse fundo.
— Margaret, está cansada. Por que não descansa hoje e depois farei questão de mandar que a responsável pela cozinha, senhora Joanne, lhe procure para que você dê todas as instruções necessárias. — Disse o príncipe, implorando silenciosamente que Margaret acatasse sua decisão. Mas ela não o fez.
— Ora, , é bom que os criados me conheçam! Logo serei eu comandando este palácio. — Disse ela, rindo.
— Não acredito que minha mãe deixará isso acontecer — disse ele. — Com todo o respeito.
— Oh, não foi o que eu quis dizer! A Rainha Christina é muito boa no que faz, mas bem, quando eu for rainha de Windland terei que fazer algo além de dar esmolas aos necessitados, certo? — Disse Margaret, animada.
— Quando for rainha consorte de Windland — corrigiu ele. — Eu mesmo falarei com Joanne para que ela faça o prato... Hagy, certo?
— Não, ! Haggis — corrigiu ela. — Como pode? Apenas uma escocesa para dar as instruções adequadas!
Ele deu-se por vencido e fez o caminho até as cozinhas, que estavam ligeiramente longe dali. Não sabia como ia reagir e, principalmente, não saberia como ele mesmo reagiria. Não podia negar – estava com medo que se ressentisse com ele por causa de Margaret.
O caminho até as cozinhas foi silencioso. estava aéreo, pensava em mais do que em si mesmo – sequer prestava atenção nas baboseiras que Margaret tagarelava.
— Como eu estava dizendo, eu descendo diretamente de Mary Stuart — disse ela. — E bem, todos os escoceses têm descendência do povo bárbaro. Excelentes guerreiros, apesar de serem homens extremamente violentos...
— A guerra é violenta, Margaret — disse o príncipe, entediado com o falatório da princesa. — Não vê a França?
— Oh, a França! Que tragédia está acontecendo lá! — disse ela. — É bem verdade que a rainha não tem preparação para governar um país faminto, mas ela é uma rainha, afinal de contas! Uma mulher!
— Windland também já esteve em crise, mas minha mãe, como rainha, resolveu o problema — disse , ligeiramente irritado. — Não soube disso, Margaret?
Antes que ela pudesse responder – ou que ele pudesse ouvir o que ela dizia – eles chegaram à cozinha. O primeiro instinto dele foi procurar por , que estava de costas para ele. Pouco a pouco, todos os criados começaram a fazer reverências – e então ela olhou.
— Sou Margaret! — Anunciou ela. não tirava os olhos de , que retribuía o olhar intenso. — Noiva de vosso príncipe! Preciso ensinar vocês a fazerem Haggi, que é um prato escocês!
A senhora Joanne logo se aproximou da princesa, que começou a explicar empolgadamente que o prato consistia em miúdos de carneiro cozidos dentro do estômago do mesmo animal, o que desagradou a ainda mais. Ele foi até , sem se importar que Margaret estivesse ali.
— Lady — disse ele, sorrindo.
— Meu príncipe — cumprimentou ela, com um tom baixo. — Então a vossa noiva já se encontra entre nós.
— Minha querida — sussurrou ele — . Depois de vosso beijo, sou seu. Inteiramente seu. Um pobre marinheiro atraído por seu belo rosto e tua bela voz, tu me enfeitiçou como uma sereia faria. Só lhe peço encarecidamente que não me devores, apesar de não possuir vontade própria quando se trata da senhorita, milady.
Ele foi acariciá-la no rosto, mas assim que encostou os dedos nas bochechas de , ela deu uma mordida no ar, rindo.
— Não te devorarei, meu príncipe — sorriu.
— Ora, ! O que faz aqui? — inquiriu Margaret, aproximando-se do casal. Ela olhou demoradamente para , como se a analisasse.
— Estou conversando com a Lady — disse ele, sorrindo. — Minha melhor cozinheira.
Lady ? — Questionou ela. — Uma lady na cozinha?
— Sim, Margaret. Lady — Confirmou .
— Oh, ! Eu não entendo você... — disse Margaret rindo. — Pobre garota, uma lady não amassa pães!
— Oh, lady Margaret — disse , com ironia. — Eu não vivo apenas amassando pães! Também mato alguns animais.
deu uma risada escancarada e o acompanhou. Margaret fez uma careta para a jovem.
— Ora, garota, não seja insolente! Posso muito bem tirá-la dessa cozinha por estar respondendo sua futura rainha dessa forma! — Disse Margaret, exclamando novamente. riu ainda mais.
— Sou a melhor cozinheira desse palácio, Margaret — disse ela, ainda num tom divertido. — Lamento, mas não poderá me tirar da cozinha sem antes consultar vossa majestade, o rei James. Ele mesmo está sempre a me elogiar.
Margaret nada respondeu, apenas virou-se e voltou a explicar o haggis para a senhora Joanne. continuou parado em frente a sua Lady , divertindo-se com o atrevimento dela.
— Sinto muito — sussurrou ele. — Não vejo a hora de estar contigo novamente, .
— Oh, nunca pensei que alguém encontraria um apelido para mim — ela riu. — . Eu gostei, meu príncipe.
— Irei vê-la mais tarde? — Sussurrou ele, sorrindo de um jeito que fez lembrar-se de estar ao lado dele em seus aposentos. Ela sorriu de volta, e involuntariamente olhou para Margaret, que ainda explicava aos cozinheiros como fazer o prato escocês. Ele percebeu o olhar da jovem. — Querida, não quero que faça nada que não queira, mas lhe garanto que Margaret não é um impedimento...
— Ela é sua noiva — rebateu ela, sem olhar nos olhos do príncipe. Ambos falavam baixo, para que ninguém prestasse atenção neles – o que era fácil, uma vez que todos estavam curiosos com a jovem princesa tagarelando sem parar com seu sotaque forte.
— Ela já era minha noiva hoje pela manhã — sussurrou ele. — E o nosso casamento é uma mera aliança, não há amor nenhum entre nós.
deu de ombros, afinal, não tinha mais nenhum argumento – e não é como se a presença de Margaret fosse apagar o desejo que sentia pelo jovem a sua frente. Ela sorriu.
— Sim, meu príncipe. Estarei a sua espera.

[...]


Quando Margaret e o príncipe deixaram a cozinha, os demais criados começaram a providenciar todos os ingredientes que precisariam para fazer o haggis. Mesmo sendo uma empregada, estava enojada com aquilo e preferiu não estar na cozinha quando começassem a fazer o jantar. Suas lindas tortas de frutas já estavam finalizadas para a sobremesa, e ela deu-se ao luxo de sair para procurar o irmão, que provavelmente já saberia de sua manhã “ocupada”, mas ela sinceramente não se importava muito.
Demorou a achar Tomaz, que sempre procurava as coisas mais diversas para fazer. Às vezes, treinava repetidamente com o Rob e às vezes estava apenas afiando sua espada, solitário, em algum lugar deserto do palácio. Ela perguntou à alguns guardas sobre o irmão, mas nenhum sabia do paradeiro dele e ela seguiu procurando. Por último, resolveu ir até os aposentos do irmão e quando chegou, bateu na porta algumas vezes. Demorou um tempo até que Tomaz abrisse a porta.
— O que houve? — Inquiriu ele. — Pensei que estivesse esquentando a cama de para a noite.
— Por Deus, Tomaz, eu sou sua irmã! Pode me tratar com algum afeto pelo menos uma vez na vida? Sou sua única família! — disse, ligeiramente irritada.
, a questão é que estou decepcionado contigo, minha irmã! — Disse ele, entrando no quarto e deixando que ela o seguisse. Mais guardas dormiam ali, mas ele estava sozinho no recinto. — Você está agindo como uma meretriz, e você sabe o que acontece com amantes, não sabe? Elas são mortas, . Você vai ser morta assim que se cansar de você!
— Ele não vai me matar — disse , convicta. — não é assim...
— E como você sabe? Sua foda foi tão esclarecedora assim? — Gritou ele, assustando a irmã. estremeceu, porém não se calou.
— Sim, minha foda foi esclarecedora assim! Eu não sou burra, sabe? Qualquer homem pode me matar, plebeu, criado ou nobre, mas o fato é que estou apaixonada por e irei correr o risco!
Apaixonada? — Gritou Tomaz, rindo. — Ah, , não seja estúpida! A princesa está aqui, é questão de dias até que eles se casem e você será mandada para a cozinha novamente.
— Não foi o que eu quis dizer — disse ela. — É claro que não o amo, só sou muito atraída por ele e foi isso que eu devia ter lhe dito.
, eu amo você — disse ele. — Não a quero envolvida com ele, pois sei que isso só vai magoá-la.
— Tomaz, ninguém morre por um coração partido — disse ela, abraçando o irmão.
— Não, , ninguém morre. — Respondeu ele, baixinho. — Mas criados se misturam com criados – nunca uma plebeia casou-se com um rei.
— Ana Bolena... — Disse ela, arqueando as sobrancelhas, desafiadora.
— Ana Bolena foi decapitada, caso não se lembre, a mando do próprio rei. — Respondeu Tomaz. Apesar de ser da guarda real, o garoto estava sempre lendo os livros dos clérigos – gostava de saber do máximo de coisas possíveis.
— Ana Bolena foi morta por ser adúltera e conspirar contra o rei! — Disse . — Eu não estou conspirando.
— Pode não estar conspirando contra o rei, minha irmã, mas a princesa tem igual poder de lhe mandar para a execução — respondeu Tomaz, segurando as mãos da irmã. — Sei que nada que eu lhe disser vai fazer sua cabeça teimosa mudar de ideia, mas pelo menos considere o que lhe digo!
— Obrigada pela preocupação, meu irmão — sussurrou . — Mas acho que perdi o controle disso tudo.



Christina estava sentada solitária na sala do conselho do rei. Na mesa estavam todos os instrumentos necessários para a escrita de cartas. sentou-se silenciosamente ao lado da mãe. O relacionamento dos dois era muito intenso, uma vez que ele era o primogênito e o único que ainda estava próximo à rainha.
— Estou preocupada, mi hijo — disse ela, sem parar de escrever a carta. O som da pena contra o papel era o único ruído no recinto além da voz da mulher. — A França não consegue deter essa revolta.
— Bem, a adorável Margaret já está aqui, pronta para o casamento — disse ele, cheio de ironias.
— Oh, nem me fale dessa garota — disse Christina. — Estou começando a crer que ela trará mais problemas para Windland.
— Ela seguiu-me a tarde toda exigindo pratos escoceses e cantores que toquem gaita de foles — disse , rindo.
— Os franceses me preocupam, . — Confessou a rainha, apertando a mão do filho. — Temo por ti, hijo, pois sei que seu governo não será fácil.
— É por isso que tem escrito cartas durante toda à tarde? — Inquiriu , analisando as cartas já seladas. Haviam duas finalizadas e Christina escrevia a terceira.
— Sim — disse ela. — Escrevi para sua irmã, pois temo que ela se esqueça de mim. Escrevi ao seu irmão, pois sinto sua falta. Escrevo ao seu avô, pois já não sei o que fazer aqui.
lamentou pela mãe em silêncio. Dos três filhos, apenas um estava ao lado dela. Os irmãos que ainda viviam estavam, em sua maioria, espalhados pela Europa ou no Novo Mundo, administrando as colônias espanholas na América. O marido, James, ultimamente estava tão alheio aos assuntos do Estado que nem deveria ser considerado rei – e com isso, todas as obrigações estavam ali para Christina.
— Observei Margaret e ela não foi criada para ser uma rainha — disse Christina, selando a última carta. — Ela foi criada para ser uma parideira. Aconselho-te, mi hijo, a já pensar em seu conselho, pois sei que essa garota não será de grande ajuda. Infelizmente, ainda acham que mulheres só servem para dar filhos aos maridos.
— Creio que nunca mais Windland terá uma rainha tão excepcional como a senhora, mãe — falou e a mãe o beijou na mão.
— Quero que seja feliz, — disse a rainha. — Quero que seja feliz, pois sei que o seu fardo é mais pesado que o de seus irmãos.



4

Ao levantar-se, Margaret contou com o auxílio de Marie, sua nova dama de companhia – filha de um duque de Windland – e de duas criadas para vestir-se. Estava ansiosa para passar mais algum tempo com e já pensava no que poderia ser feito em um dia de outono no palácio.
— Quero tanto me casar! — Falou Margaret, enquanto uma das criadas lhe apertava o espartilho. — Estou muitíssimo animada para casar-me com , afinal, dei sorte. Ele é belo e parece ser muito inteligente.
— Tem razão, princesa — disse Marie, aos risinhos. — O príncipe é muito atencioso e parece ter gostado da senhorita.
As duas criadas disfarçaram uma risada e Margaret virou de repente, inquirindo as garotas apenas com o olhar – queria saber do que elas riam.
— Perdoe-me, minha senhora — disse a mais velha delas. — Apenas lembrei-me de uma história boba que eu ouvia na infância.
— Ora, conte-me! — Disse Margaret, não confiando totalmente na palavra da jovem. A criada pareceu engolir em seco e voltou as fitas do espartilho de Margaret. — Vamos, fale! Sou sua senhora, futura rainha!
— Justamente por isso não entenderá, princesa! — Interviu a outra criada. — São histórias que nossos pais contavam para que não nos rebelássemos contra nossos senhores. A princesa não tem um senhor, tem?
— Bem, terei em breve! Após o casamento, será seu rei e meu senhor! — A princesa falou, sorrindo esperançosa. As criadas terminaram com o espartilho e Margaret as dispensou, dependendo apenas da dama de companhia para terminar de vestir-se. — Marie, acreditou no que aquelas criadas disseram?
— Bom, minha princesa, não confio em criados de nenhum tipo. São sempre ardilosos e querem nos ver mortos. Veja só os franceses! O rei será morto por criados, espere e verá! — disse Marie, com um tom de desprezo.
— Ora, Marie, olhe o que fala! — Disse Margaret, fazendo o sinal da cruz no peito antes de prosseguir. — Senhor, perdoe essa garota tola pelas coisas estúpidas que diz!
Após a repreensão de Margaret, a dama permaneceu em silêncio. Assim, foi mais rápido para a princesa terminar de se vestir. Quando finalmente estava pronta, rumou para fora do quarto, dispensando Marie logo em seguida. Estava decidida a cumprimentar em seus aposentos, como faria todas as manhãs depois que se casassem. Estava ansiosa para lhe dizer sobre as criadas mentirosas, sobre a blasfêmia de Lady Marie contra o monarca francês e sobre sua primeira noite em Windland. Porém, ao chegar, antes mesmo de bater à porta, um rapaz que estava em seu turno de guarda ali por perto a impediu, erguendo sua lança. Ela não podia ver o rosto dele, mas deu alguns socos em sua armadura, como se estivesse batendo à uma porta.
— Escute, senhor! Sou Margaret da Escócia, descendente de Mary Stuart! Sou sua futura rainha! Deixe-me entrar nos aposentos de meu noivo! — Exclamou Margaret, ligeiramente irritada.
— Princesa, eu lamento — desculpou-se o guarda. — Porém, não sei se a senhora deveria entrar. Quero dizer, o príncipe é demasiadamente mal-humorado quando acordado.
— Você é apenas um guarda! Não deve sair distribuindo ordens, ainda mais para sua rainha. — Disse Margaret, empurrando o guarda para o lado, abrindo e passando pela porta, sem bater. E quando adentrou os aposentos de , desejou não o ter feito.
Na cama, estava sobre alguém – uma mulher – que Margaret não conseguiu ver o rosto. Eles se movimentavam e emitiam sons primitivos – levou um tempo até que a princesa percebesse o que acontecia ali.
?! — Disse ela, fazendo com que o príncipe virasse, alarmado e a garota – a cozinheira petulante – olhasse assustada. Notar que a garota que a respondera no dia anterior estava... fornicando com seu futuro marido deixou Margaret furiosa.
— Bom dia, princesa — disse a garota, sentando-se na cama – sem importar-se por estar nua. rolou para o lado, visivelmente decepcionado por ter sido interrompido. — Venha e junte-se a nós.
— Ora, sua meretriz abusada! — Gritou Margaret, atraindo a atenção do guarda que estava no lado de fora. — Saia já daí!
— Sairei quando meu príncipe ordenar — Ronronou a garota, abraçando . Margaret olhou enojada para a falsa lady e ainda mais para o príncipe, que não parecia incomodado. Mas ela sabia o porquê!
, veja, querido! Há uma grande conspiração da plebe! Essa garota só pode estar envolvida com os tais revolucionários e quer destruir Windland! — Disse Margaret, esperançosa que o rapaz tirasse a jovem meretriz da cama. Mas ele não o fez, já que a garota começou a gargalhar.
— Fui criada neste palácio, princesa — disse a garota, cujo nome Margaret não fazia questão de se lembrar. — Não tenho contato com pessoas de fora, que dirá contato com revolucionários franceses.
resolveu dar um fim àquela discussão antes que Margaret decidisse atacar .
— Margaret, por gentileza, pode sair de meus aposentos? — Pediu ele, ainda deitado. Ela não se moveu.
— Ora, , não vou te deixar com essa meretriz! Ela é quem deve sair e então conversaremos. Sei que vai me pedir perdão, mas enquanto essa jovem estiver por perto não sei se serei capaz de aceitar! — Disse Margaret, exclamando mais da metade de sua frase, como sempre.
— Margaret, essa é Lady , e quem deve sair é você. não é nenhuma meretriz e você terá que respeitá-la enquanto estiver aqui — disse , segurando a mão da jovem, que lhe sorriu.
— Isso não ficará assim! — Disse Margaret, saindo rapidamente do recinto. — Não ficará!



voltou a deitar-se na cama, soltando o ar que não sabia que estava segurando. A mão de continuava segurando a sua e internamente ela estava em crise, pois sentia-se extremamente feliz pelo príncipe não a ter mandado embora ao mesmo tempo que sofria por remorso de estar com ele.
— Meu príncipe... — Sussurrou ela. — Tem certeza que é uma boa ideia eu estar aqui?
— começou ele, se demorando em cada uma das sílabas do nome da moça — não há ideia melhor neste mundo. Nunca houve uma ideia tão boa.
— Falando de tal forma, meu príncipe, sinto-me verdadeiramente desejada — disse a jovem, tentando entender o que queria dela, afinal, já a possuíra algumas vezes nas últimas vinte e quatro horas... Inclusive na frente de Margaret, a princesa escocesa que viria a ser a nova rainha de Windland em breve. Os cabelos de estavam ligeiramente desordenados e seus lindos olhos, fechados. Ele ria para nada em particular e nesse momento, passou a observar o príncipe com quem passara a noite e notou que ainda era surpreendida pela beleza dele. Apesar de sentir-se tão bela quanto e ter conhecimento que era desejada, ainda assim era uma criada com mãos ásperas devido ao trabalho árduo na cozinha.
— Oh, querida — sussurrou ele. — Minha doce e selvagem, ... Você não tem ideia do quanto te quero.
— Meu príncipe — sussurrou ela, passando sua perna sobre a do príncipe, enrolando-se nele. — Você já me tem.
Ele virou como se fosse beijá-la, mas apenas acariciou o rosto da jovem, que sorria sem tirar os olhos dele. Estava tão extasiada, parte pelo intenso prazer que de Windland lhe proporcionara nas últimas horas, mas também por estar vivendo um conto de fadas longe da velha Joanne e dos outros criados da cozinha, além de Tomaz, que não estava ali para chamá-la de meretriz e repreendê-la – que temia o momento em que o príncipe a mandasse de volta para sua vida de criada. Temia que Margaret acabasse por convencê-lo, ou até mesmo o rei ou a rainha. Por ter sido criada por uma ama, bem sabia que o casamento de Maria Christina da Espanha e James III poderia não ser dos mais apaixonados, mas os monarcas nutriam um intenso afeto um pelo outro e nunca ouvira quaisquer rumores sobre casos extraconjugais – o que poderia fazer com que eles desaprovassem o comportamento do filho. Pensar nos pais de plantou uma questão na mente da garota.
— Alteza... — Chamou ela, insegura de chamá-lo de qualquer outra coisa além do que sempre fora instruída, e sobretudo de fazer perguntas pessoais. — O senhor é o único príncipe de Windland?
, se iremos continuar... juntos — disse ele, voltando-se para a moça. — Pode chamar-me por meu nome de batismo, afinal, não sou nenhum velho.
— Certo, , és o único príncipe de Windland? — Perguntou novamente, sorrindo ao pronunciar o nome dele.
— Sou o primogênito, sim, portanto o primeiro na linha de sucessão do trono. Depois de mim vem Franz, o único dos irmãos que ainda tem alguma diversão. Ele sempre foi próximo à família de minha mãe, portanto meu tio o levou em uma das expedições para o Novo Mundo. E por fim há Elizabeth, a caçula. Minha mãe a entregou aos cuidados do imperador austríaco para que fosse educada junto ao seu futuro marido. Ela preferiu fazê-lo enquanto o vínculo das duas fosse o menor possível.
— Você tem um irmão nas Américas? — Disse , querendo confirmar aquilo. Não poderia imaginar um príncipe aventurando-se nas colônias tropicais.
— Para ser honesto, não tenho certeza do paradeiro de Franz — confessou . — Há muito que ele não me escreve, afinal, precisa que algum navio parta dos trópicos para enviar qualquer mensagem, mas bem, ele vive nas colônias espanholas, aventurando-se em suas selvas e praias e tentando interagir com os nativos. Creio que ele nunca mais volte à Europa.
— E sua irmã? — Perguntou ela, realmente interessada. Aparentemente, ele não sentia amor pela irmã, afinal, não chegaram a se conhecer.
— Esporadicamente recebemos alguma mensagem dela — diz ele. — Mas anseio mais pelas palavras de Franz. Elizabeth não voltará mais para Windland, logo será uma imperatriz na Áustria.
, como se sente com o fardo de ser rei em suas costas? — perguntou, curiosa. Pela forma como ele falava do irmão, parecia sentir-se sozinho. imaginava, afinal, mesmo estando sempre discutindo com Tomaz, não suportava a ideia de não o ter por perto.
— Fui criado para isso. Enquanto Franz, apenas dois anos mais novo que eu, vivia pelo palácio aventurando-se e fugindo dos tutores, eu estava em aulas de latim e geografia, filosofia e política. Franz conhecia o país fugindo com criados enquanto eu estudava estratégias de guerra, mas no final do dia sempre estávamos juntos. Senti-me só quando meu irmão partiu, mas sempre soube que seria assim.
— O que acha que vai acontecer na França? Acha que isso pode se espalhar pela Europa? — Inquiriu ela, realmente preocupada. Apesar de ser uma plebeia, se a monarquia de Windland caísse, ela cairia com eles. A vida nas cidades era difícil e ter um emprego também, ainda mais para uma mulher, portanto desejava verdadeiramente que a revolução dos franceses terminasse na França.
— Não sei — admitiu ele. — O rei não consegue mais controlar o povo desde o momento que a Bastilha foi tomada e a rainha aparentemente trocou toda sua inteligência por festas e ostentação.
— O que é a Bastilha? — Perguntou . Apesar de ser inteligente, nunca saíra de Windland e assim não saberia sobre a França ou qualquer país se ninguém lhe contasse, mas naquele momento sentiu-se mal por não saber.
— Uma prisão onde os inimigos da coroa francesa eram jogados. Até então era impenetrável, mas o povo furioso conseguiu tomá-la. — Explicou ele, sorrindo em seguida. — Não creio no que está acontecendo.
estava deitada de bruços, com a cabeça apoiada no peito de , totalmente interessada na conversa. Ela sorriu de volta.
— Não acredita no quê? — Disse ela, plantando um beijo no peito dele.
— Que estou discutindo política francesa com uma linda lady, que está deitada ao meu lado e inteiramente nua — ele riu, acariciando os cachos da moça. — Diga-me, o que falta para eu ser um rei? Pareço já possuir tudo o que é necessário.
— Bem, lhe falta uma rainha — riu desanimada. negou com a cabeça, ainda observando a linda moça que jazia sobre ele. Se houvesse qualquer chance de ele sentir-se atraído por Margaret, metade delas sumiram no momento em que viu pela primeira vez. E se extirparam de vez no momento em que ele a possuíra. , com toda sua ardência, gentileza e beleza havia conquistado o príncipe de uma maneira que não poderia ser desfeita e isso só se intensificou quando eles compartilharam a cama e ele pôde ouvi-la gemer seu nome e implorar pelo prazer que ele lhe dava.
, minha — disse ele, brincando com um cacho da moça. — Eu me casaria com você agora mesmo, mas infelizmente não posso ter tamanha felicidade em minha vida, porém a desejo tanto e temo que estou apaixonado.
Ela nada dizia, tamanha era a felicidade de ouvir tal coisa. , o príncipe herdeiro de Windland temia estar apaixonado por , a lady da cozinha!



Quando Margaret voltou aos seus aposentos, entendeu porque as criadas riram de sua ansiedade para o casamento: a plebe já sabia que uma das empregadas fora promovida a cortesã. Riam dela, pois sabiam que o príncipe já tinha uma favorita. A princesa escocesa gritou e destruiu parte da mobília de seus aposentos – dois vasos e um castiçal – e jogou-se na cama em seguida, chorando. Passara todos os dias de sua vida esperando pelo casamento e uma cozinheira qualquer conquistara o seu noivo. Não podia negar que, apesar de criada, a meretriz era bonita e deveria saber como agradar um homem. A jovem não percebeu quando a rainha adentrou o quarto.
— Ouvi seus gritos e quis saber o que lhe aconteceu — disse Christina, com seu leve sotaque espanhol. Apesar de não ser mais jovem, a rainha ainda era bonita e sua idade só era denunciada por uns e outros fios brancos que apareciam no topo da cabeça da mulher. Ela estava sempre com vestidos em cores frias, o que destacava seus olhos.
— Oh, sou obrigada a lhe contar, Christina! Hoje deparei-me com uma cena horrível! — chorou Margaret, exageradamente dramática. — Mais cedo fui até os aposentos de seu filho e o encontrei com uma... Uma cortesã! Uma criada qualquer da cozinha!
— Lady — confirmou Christina, sem grande surpresa. Era a rainha de Windland, certamente sabia com quem o filho se relacionava.
— Não, majestade! Ela não é nenhuma lady! É apenas uma prostituta e não admito que ele me desrespeite de tal forma! Sou esposa dele! — Margaret choramingou, batendo as mãos em punho no colchão de penas.
— Margaret. Querida. — Disse Christina, calma. — Não sei como foi criada e também não sei quais eram suas expectativas com relação ao casamento, mas irei te falar algo que eu sei porque já fui exatamente como você. Anos atrás, cheguei aqui, nesse país pequeno e tão diferente da minha Espanha. Eu cheguei aqui tão infeliz que meu coração doía. James mal se dirigia a mim, porém meu casamento era o que menos me incomodava. Eu mais sentia falta de meu pai e de meu país que sofria pelo matrimônio, já que eu sempre soube que era esse o meu destino. Sempre fora. Desde cedo eu sabia que as filhas da Espanha formariam as alianças e que os filhos seriam herdeiros. Nasci Maria Christina da Espanha, descendente da casa Bourbon, e agora sou apenas Christina, rainha consorte de Windland. Você, Margaret, uniu a Escócia à Windland. Seus herdeiros serão o que juntará esses dois países. Uma princesa não se casa por amor. Você nasceu para formar a aliança entre seu país e o meu.
Margaret ouvia sem interesse. deveria respeitá-la. Onde já se viu, uma princesa ser trocada por uma mera cozinheira?
— Majestade, a questão não é amor! A questão é que logo a meretriz estará carregando um bastardo de e será sua favorita! Não se lembra de Catarina de Aragão? A rainha cujo casamento foi desfeito e a filha, considerada ilegítima? É isso que essas plebeias fazem! A tal lady fará a cabeça de até que ele acredite que ela é a única rainha possível e então será minha cabeça que rolará!
Christina olhou a jovem dos pés à cabeça: Margaret ainda vestia seus vestidos com estampa xadrez, tinha os cabelos ruivos trançados no alto da cabeça e a face vermelha por conta do choro. Se aquela garota fosse coroada rainha consorte de Windland, Christina temia pelo povo. A princesa era jovem e despreparada – não se interessava por política e com certeza não saberia nada de economia; fora criada para ser mãe e esposa, e querendo ou não, ainda era uma menina. Acreditava que seu casamento arranjado seria repleto de paixão e mais tarde, amor – como nas canções.
— Margaret, esqueça o amor. Essa é uma das poucas coisas que o ouro não pode comprar e que rainhas não podem exigir. Se tiver sorte, apenas assim, seus filhos a amarão. E esse será o único amor que terá em sua vida. — Disse Christina, falando realmente sério. O próprio casamento da rainha era sustentado por respeito mútuo, dever, admiração e uma pequena porção de afeto – nada além disso. O amor de seus súditos e filhos era o único amor que recebera em Windland. E era suficiente.
Margaret nada respondeu. Sabia que não estava sendo razoável, mas também sabia que estava com ciúme da jovem – não que sentisse algo sério por , mas todos estavam aceitando tanto a cozinheira que a princesa sentia-se esquecida. Além do fato de todos os criados caçoarem dela. Ela odiava quando os seus subalternos tinham motivos para rir de seu infortúnio.
— Bem, menina, anime-se — pediu Christina. — Convoquei toda a corte para um baile em sua homenagem. Amanhã.
A rainha saiu antes de obter uma resposta e Margaret levantou-se, indo atrás de um espelho. Lavou o rosto com a água que as criadas deixaram ali para a higiene da princesa; o líquido frio fez com que o rosto dela voltasse ao seu tom normal – apenas as bochechas estavam levemente rosadas, o que não era um problema. Querendo ou não, a princesa estava animada para o baile da corte, afinal, não era possível que tivesse enfeitiçado todos. Ou seria?



Naquele momento, estava dividida. Sentia falta da correria nas cozinhas do palácio, mas nunca em sua vida havia passado tanto tempo em uma cama tão deliciosamente macia. A jovem nada dizia, já que poderia concluir que ela não apreciava sua companhia, mas ficar parada estava deixando angustiada.
— A senhora Joanne provavelmente está me procurando — disse a moça, sem mover-se. — Já devem estar preparando o jantar, e sem mim...
, caso queira ir, não precisa da minha permissão — disse , enquanto voltava a vestir sua camisa. — Mas posso assegurar-lhe que não precisa voltar à cozinha. Sei que meu pai não apreciaria a notícia de que a melhor cozinheira de Windland não cozinha mais, porém, está comigo agora.
agora estava com , príncipe herdeiro de Windland. Ela sorriu ao constatar tal informação.
— Então, meu lorde tira garotas da criadagem? — Inquiriu ela, rindo. — Vossa majestade, seu pai, talvez não se importe. Porém, a senhora Joanne é capaz de questionar sua decisão.
— Não tiro garotas da criadagem — informou ele. — Você é a primeira, milady.
— E já me concedeu um título! Eu não poderia ter conhecido príncipe melhor. — sorriu, levantando-se e indo até o rapaz beijá-lo. — Não quero títulos ou riquezas, alteza. Não quero o príncipe de Windland ou o futuro rei. Quero você, sem títulos, sem brasões e sem coroa.
sorriu, acariciando os cachos macios da moça. Não sabia como agir com relação à . Não sabia como e se iria inseri-la na corte. Não sabia o que o rei e a rainha achariam de sua atitude. Temia pela segurança da garota, já que ela poderia ser feita de alvo para atingi-lo. No entanto não podia manter a relação dos dois em segredo uma vez que seus guardas já sabiam, assim como a própria princesa Margaret.
, tenho uma proposta para ti — disse ele, após dar um beijo na testa da jovem. — Não tenho como manter nossa relação em segredo – meus guardas já sabem, Margaret já sabe. Logo toda a corte estará a par disso tudo e não poderei lhe deixar na cozinha. Aliás, devo admitir que não quero escondê-la. Deixe-me lhe dar melhores aposentos, melhores roupas. Não precisará fazer as mesmas tarefas que a princesa, mas também não necessitará de passar os dias cozinhando. Pode fazer o que bem entender, terá uma dama, se assim desejar. Por favor, deixe-me lhe dar isso?
— Oh, meu príncipe. Não quero que pensem que estou aqui por interesse, pois apenas o senhor sabe o que sinto. Não quero prejudicar o seu casamento dessa forma. Além de que bem sei que nenhuma dama da corte irá desejar acompanhar uma plebeia.
, por favor, deixe-me lhe dar ao menos isso – já que não poderei unir-me a ti perante à lei e à Igreja.
não insistiu, afinal, pôde imaginar que todo aquele conforto seria constante e que não precisaria suar-se, queimar-se e cortar-se na cozinha. A jovem amava cozinhar, porém era um trabalho exaustivo que por muitas vezes, lhe irritou. Como uma garota, ela imaginou-se vestindo os lindos vestidos que as verdadeiras ladies usavam. Imaginou-se lendo o quanto quisesse. Imaginou-se comendo dos deliciosos pratos que eram feitos nas cozinhas. Imaginou-se não sendo tão inferior à princesa Margaret com relação à aparência. assentiu e sorriu, confirmando que sim, aceitaria tais presentes. Uma parte da jovem sentia-se mal, já que cada “sim” expresso em palavras ou não, oficializava ainda mais o título – ainda não dito em voz alta – que pairava sobre . Amante.

[...]


não conversava muito com o pai. James era um homem austero, calado. O príncipe nunca teve grande intimidade com ele, que era rei em primeiro lugar e pai em segundo. O rei estava sempre cercado de ministros e nobres de seu conselho e parecia aprender mais sobre política e outros assuntos referentes ao Estado com a rainha. Ele bateu à porta da sala do conselho e pôde ouvir um garoto anunciá-lo ao rei, que permitiu sua entrada. O mesmo garoto lhe fez uma reverência.
— disse James III, em meio a dezenas de papéis, penas, tinteiros e cera para o selo Real. O rapaz fez uma reverência ao pai e sentou-se quando lhe foi permitido. — Christina convocou toda a corte para um baile em homenagem a sua noiva.
— Imaginei que algo seria feito com relação à princesa — Respondeu o jovem. — Mas não é sobre Margaret que quero falar.
— A cozinheira, — disse o rei, encarando o filho. — Quer trazê-la para a corte e tirá-la da cozinha, estou certo?
— A cozinha não é lugar para , apesar de seu inegável talento — explicou . — Já que terei que me casar com uma completa desconhecida, gostaria de pedir sua benção com relação a isso.
— Garoto, você vai continuar a vendo mesmo que eu lhe diga para não o fazer — disse James. — Case-se com Margaret e produza um herdeiro. Quando sua hora de governar chegar, seja sábio. É o que lhe peço. Não posso escolher com quem irá se deitar, mas como homem lhe aviso que mulheres causam guerras. Não deixe que essa jovem lhe tire o juízo, afinal, um dia o rei será você.
assentiu e James voltou ao que fazia antes, praticamente dispensando o filho, que saiu em seguida. Pensava em perguntar ao pai o que fazer, mas James não era o tipo de homem que falava, então o príncipe guardou suas perguntas para si mesmo. Foi preciso muita força de vontade para que não voltasse aos seus aposentos para passar o resto do dia com , porém, havia o que fazer. Apesar de ainda não ser rei, o rapaz já possuía obrigações como lidar com os nobres para quem James III não tinha tempo ou ir à cidade com os ministros para ter contato com os súditos. Ele foi até a sala do trono, onde a Rainha Christina encontrava-se, ouvindo duques, condes, barões e embaixadores. Toda a nobreza de Windland se agitara com o início das revoltas populares na França, já que os países estavam lado a lado geograficamente – todos temiam que o povo do pequeno país se revoltasse, já que Windland era muito menor territorial, econômica e militarmente que a França.
— Sua alteza, o príncipe — anunciou um homem de bigode. Os nobres já presentes para o baile em homenagem à Margaret abaixaram-se em reverências enquanto o jovem passava por entre eles. Antes mesmo que chegasse até a mãe, foi parado pelo duque de Lasstrec.
— Vossa graça — cumprimentou o príncipe. O homem fez uma reverência ao príncipe. — Bem-vindo novamente à corte.
— Todos estão curiosos para conhecer a vossa noiva, alteza — disse o duque, rindo. — Vossa majestade, a senhora sua mãe não permitiu que a garota aparecesse por aqui hoje. Posso lhe dizer que há algumas apostas sobre a aparência da princesa.
— A princesa Margaret é adorável — respondeu . — E como vai a duquesa?
— Oh, está acamada. Sua saúde anda muito frágil, mas ela fez questão de atender ao chamado de sua mãe. Deixe-me apresentar-te minha filha, Diana. — Ao ouvir seu nome, uma garota de não mais que quinze anos fez uma perfeita reverência ao príncipe. A menina era bem-apessoada e se possuísse a mesma educação de sua mãe, poderia ser uma boa dama de companhia. Essa era a intenção da maioria dos nobres que levavam suas filhas à corte: deixá-las como damas da rainha ou arranjar-lhe um bom casamento. Haviam as exceções: damas de companhia que tornavam-se amantes oficiais de nobres; que casavam-se com nobres e também as que faziam os dois. se desvencilhou do duque e de sua filha rapidamente, recebendo outros cumprimentos e conhecendo novas ladies a cada passo que dava. Levou algum tempo até que chegasse na mãe.
— Vossa majestade — reverenciou ele, sorrindo. Deu um beijo na mão de sua mãe e soberana e sentou-se ao lado dela. — Já estou nas festividades de meu casamento e não fui avisado?
— Oh, mi hijo, são tempos difíceis. Precisamos deles até mais do que eles precisam de nós. — Disse ela, referindo-se aos nobres que ali estavam. — Portanto, criemos a ilusão que eles nos devem tudo o que têm, pois se eles tiverem consciência que não, logo somos descartados.
— O rei deveria abdicar do trono a seu favor — disse , rindo. — Maria Christina deve ser o primeiro nome da linha de sucessão do trono de Windland.
— Cuidado com o que fala, ! Isso pode ser considerado alta traição. — Respondeu a rainha, com um sorriso quase que imperceptível. riu, beijando a mão de Christina novamente. Ele não conseguia parar de pensar em – em onde ela estaria, no que poderia estar fazendo. Sentia até um certo medo de Margaret, que poderia aproveitar a ausência do príncipe para procurar ... Antes mesmo de concluir os seus pensamentos, a condessa de Deverlaux surgiu ali.
— Vossa majestade — a mulher fez uma reverencia. — Vossa alteza.
— Mary — cumprimentou Christina, sorrindo. — Que bom vê-la!
— Oh, vossa majestade, não posso lhe dizer que sinto falta da corte, mas de nossas conversas posso confirmar que sinto! — Falou a condessa. Ela então virou-se para o príncipe. — , querido. Estou tão ansiosa para seu casamento! Há anos desde o último casamento real em Windland — ela piscou para Christina. — Seu irmão fugiu para os trópicos e sua irmã se casará na Áustria... ainda bem que a princesa Margaret chegou!
— Sim, milady. — Sorriu , sem vontade. — E onde está seu marido?
— George está com outros senhores, discutindo sobre caça — respondeu a mulher. — E o rei, onde está?
— James sempre foi mais reservado que eu. Optei por recepcionar toda a corte enquanto ele trabalha algumas questões de Estado — explicou Christina, mentindo perfeitamente. sabia que sim, parte se devia ao pai detestar eventos como esses, mas o maior problema de James III naquele momento era a França. Windland, no passado, fora apenas uma província francesa – porém, durante a Guerra dos Cem Anos, ingleses ocuparam aquele pedaço de terra e mesmo após a derrota, o povo que ali nascera durante a ocupação clamava por independência. E assim Rickard, o Libertador estabeleceu Windland como um reino independente da França. Desde então, a pequena monarquia passara pela peste e pela guerra, por fome e crise, mas sempre prosperou. esperava que Windland superasse também a revolução dos franceses.
— E a princesa, majestade? Onde está a princesa? Todos ansiamos por vê-la — disse a mulher, se prolongando ali. não se incomodava de acompanhar a mãe enquanto essa recebia os nobres, mas quando esses começavam a falar sobre Margaret, o jovem sentia vontade de socá-los. Aliás, qualquer um que lembrasse o príncipe de seu iminente casamento tinha grandes chances de ser agredido fisicamente.
— Margaret só será apresentada no baile — explicou Christina, sorrindo como se estivesse amando ter aquela conversa. A condessa aparentemente percebeu, já que fez uma reverência e saiu. observava a mãe de canto de olho, percebendo o sorriso preocupado que a rainha estampava em seu rosto, lhe deu a mão, como se dissesse “estou aqui com você” – a rainha apertou a mão do filho, confirmando tudo o que foi dito sem palavras.
— Irá oficialmente trazer Lady para a corte? — Inquiriu a rainha, disfarçadamente.
— O Rei não se opôs... — sussurrou . Esperava que a mãe não o impedisse, já que toda a recepção já estava sendo extremamente maçante e, sem , o baile seria ainda pior.
— Irei arranjar um belo vestido para sua lady — disse Christina, sem esboçar se estava fazendo aquilo a contragosto ou não. — Porém, mi hijo, respeite Margaret. Nós precisamos desse casamento. Seu povo precisa dessa aliança.
assentiu e voltou seu olhar para a grande quantidade de pessoas que interagia na sala do trono. No dia seguinte as festividades começariam cedo, com um enorme banquete, danças e todo tipo de coisa que havia na corte: traições, intrigas e jogos políticos.
Dois guardas adentraram o lugar com pressa e foram até o local onde Rainha Christina e estavam. Eles fizeram rápidas reverências.
— Vossa Majestade — disseram em uníssono. — Vossa Alteza. Um jovem adentrou o palácio sem que a guarda o visse. Ele foi encontrado na cozinha e quando o pegamos, pediu para que o trouxéssemos até Vossa Majestade.
— Tragam-no — disse Christina, simplesmente. Todos os nobres ali presentes pararam as conversas e voltaram-se para as grandes portas de onde os guardas vieram. Não demorou para que voltassem, trazendo um jovem com cabelos presos, rosto bronzeado e vestes simples. Quando Christina o viu, instantaneamente soube quem era.
— Franz — disse ela, alto o suficiente para que todos ali ouvissem. — Mi hijo, Franz.
O rapaz desvencilhou-se dos guardas e correu até a mãe, fazendo uma rápida reverência antes de abraçá-la. Ela acariciava o cabelo do rapaz, chorando por tê-lo ali. Quando ela finalmente o soltou, Franz virou-se para .
— Olá, meu irmão.



5

estava vivendo duas vidas distintas. Ela não sabia ao certo o que fazer quando não estava com , apesar de ter seu lugar na cozinha – a Velha Joanne não questionou seus sumiços recentes e nenhum outro criado lhe dirigiu a palavra. Ninguém comentava nada, ao menos na frente de : o que era muito, muito bom. Ela estava na cozinha haviam algumas horas e estava começando a sentir-se impaciente. Por mais que amasse cozinhar, queria estar com e a cozinha cheia de aromas, sons e extremamente quente e escura estava começando a deixar a jovem muito nervosa – a ponto de queimar a ponta dos dedos quando tirou um pão do forno. Ela fatiava pedaços de frutas para enfeitar o porco que seria servido no banquete em comemoração à chegada de Margaret quando uma das damas-de-companhia da rainha Christina adentrou o local.
— Lady ? — Chamou a jovem, procurando por , que foi até ela.
— Olá — cumprimentou , fazendo uma reverência para a dama da rainha. A jovem sorriu.
— Vossa Majestade, a Rainha Christina e Vossa Alteza, o Príncipe , desejam que a senhorita me acompanhe — disse a moça, saindo do local. foi atrás dela, mas o caminho até a ala dos aposentos foi silencioso. Belas telas sobre heróis do passado adornavam as paredes, junto de estandartes com o brasão da família real. Castiçais e candelabros iluminavam o corredor sem luz natural, enquanto belos tapetes cobriam o chão. ainda se impressionava com a beleza dos detalhes do palácio real de Windland.
A jovem dama parou e abriu uma das grandiosas portas duplas, indicando que a seguisse. Eram aposentos da realeza: uma enorme cama de dossel, candelabros pendiam do teto, a parede era forrada com um tema rococó, alguns livros estavam sobre uma das mesas que preenchiam o ambiente. Não era um quarto habitado – havia sido limpo recentemente.
— O príncipe pede que esses sejam seus novos aposentos, Lady — disse a jovem, com um tom neutro – sem sinais de desaprovação. Ela foi até a cama e pegou uma enorme caixa de presente que estava ali. Se lhe desse apenas aquela caixa – mesmo que vazia – poderia enlouquecer: a caixa era linda. E foi entregue para ela. — O príncipe lhe pede que use este vestido hoje. Também há um presente da rainha.
— Oh, muito obrigada! Agradeça a eles imediatamente. — disse , sorrindo. A jovem dama não era muito de conversar, ou apenas não gostava de . Poucos seriam os nobres que aceitariam uma plebeia ali.
— Creio que milady pode agradecer ao príncipe apropriadamente — disse a menina, rindo discretamente. — E à rainha, com certeza poderá agradecer no banquete.
A dama fez uma reverência e saiu dos novos aposentos de , que correu até a cama e se jogou no colchão macio, abrindo a caixa logo em seguida e, literalmente, deu gritinhos de alegria ao descobrir o conteúdo dela.
Por cima, numa caixinha individual, havia um conjunto de colar e brincos. Enormes cristais azuis adornavam as joias de ouro, que reluziam para e valiam mais que a vida da jovem. Depois das joias, peças que formariam um vestido preenchiam a caixa. Sob uma poltrona, no outro lado do quarto, haviam as roupas de baixo. não saberia por onde começar quando fosse vestir tais peças. Ela deixou o presente de lado e deitou-se na cama, feliz. Não tinha a menor ideia do que faria em diante.

[...]


só percebeu que havia adormecido quando se levantou de súbito ao ouvir alguém à porta. A jovem respondeu ao chamado e saiu da cama, surpreendendo-se com as duas criadas que entraram ali. Ela conhecia ambas de vista, porém não sabia seus nomes.
... — disse a primeira delas. — Quero dizer, Lady , estamos aqui para auxiliá-la em seu banho.
A jovem cozinheira riu, imaginando que nunca em sua vida tivera ajuda para banhar-se. Talvez quando criança, mas nunca depois de crescida. Ela sempre trançou seus próprios espartilhos, porém, assentiu para as criadas.
— Como se chamam? — Inquiriu ela, sorrindo.
— Sou Anne e essa é Constance — apresentou a mais velha. Enquanto Constance penteava com os dedos os cabelos de , Anne ia e voltava com baldes de água para encher a banheira e sentia-se mal por estar incomodando aquelas garotas: ela não era nobre. Não precisava de ajuda para arrumar o cabelo ou para tomar banho, porém, na única vez que tentou dispensá-las, as serviçais lhe disseram que era uma ordem do príncipe.
Óleos essenciais perfumavam a água quente na banheira. tirou o vestido simples e entrou de uma vez na água, aproveitando o calor delicioso. Anne lavava o cabelo da jovem, que esfregava o resto do corpo como que para tirar o cheiro de comida que parecia ser impregnado nela. Ela fechou os olhos e ficaria ali até que a água amornasse, aproveitando ao máximo o que estava acontecendo. , uma plebeia com aposentos no palácio, um belo vestido e belas joias. Era mais do que ela podia acreditar. Constance e Anne eram quietas, ou talvez apenas desaprovassem o título que agora carregava. Ela não as julgava – sabia que, se Deus realmente existisse, ela seria punida por envolver-se com um homem comprometido. Amantes não tinham final feliz. No entanto, isso era o que plebeus e amantes tinham em comum: não havia final feliz para essas pessoas e bem sabia disso.
— Por que fez isso por mim? Por que a rainha me mandou joias? — Inquiriu . As duas criadas não falaram nada e a cozinheira desistiu de começar uma conversa. Aparentemente, todos a odiavam ali.
— Milady é a favorita do príncipe — disse Constance, sorrindo. saiu da água, secando-se em seguida. Anne trazia todas as peças do vestido azul que ganhara. As roupas da nobreza eram mais complicadas que as roupas comuns: havia uma confusão de anáguas, laços e fitas em todas as partes. Naquele momento, a jovem agradeceu a ajuda das criadas – já que não saberia onde amarrar cada fita que formaria o vestido. O novo espartilho não possuía linhas soltas que a pinicavam e a estrutura da peça provavelmente não iria machucá-la. sorria enquanto se olhava no espelho, sentindo-se extremamente bela. O corpete adornado do vestido azul ressaltava a pele morena do busto da jovem, que teria ainda mais destaque com o colar de ouro. Quando finalmente estava vestida e calçada, Constance começou a trançar mechas do cabelo da menina, prender e enrolar os cachos, enquanto Anne abria alguns recipientes onde haviam produtos em tons de rosa e vermelho. provavelmente fez uma careta, já que Anne riu.
— Não use rouge, por favor — pediu a moça e a criada obedeceu. Passou apenas a pasta vermelha nos lábios de , que sorriu olhando-se no espelho. Ela finalmente parecia uma lady.



O grande salão era adornado por enormes tapeçarias. Na parede norte, o estandarte da família real de Windland se destacava em vermelho e dourado. Uma mesa em posição elevada era reservada para a realeza e as demais, para os cortesãos. Músicos tocavam sonatas e os convidados conversavam entre si. Quando Franz adentrou o local, não houve um anúncio ou reverências. O rapaz bem sabia que a corte era indiferente a ele - haviam alguns lordes que sequer lembravam da existência do chamado príncipe fugitivo, porém dali a alguns dias seria o casamento de e o rapaz acreditava que podia sobreviver à aristocracia por um tempo. Precisava fazer aquilo por seu amado irmão e futuro rei. Franz surrupiou uma taça numa das mesas e serviu-se de vinho bem no momento em que um homem de bigode bateu o cabo de uma lança no chão de madeira, atraindo a atenção de todos os presentes.
— Vossa Majestade, o Rei — disse o homem. Rapidamente as pessoas abriram caminho para que James III passasse. Reverências foram feitas, porém, o homem manteve-se impassível até a mesa elevada. Logo após o rei, o homem novamente bateu a lança no chão. — Vossa Majestade, a Rainha e Vossa Alteza, o Príncipe.
estava de braços dados com a mãe, que sorriu para os cortesãos docemente. Já o rapaz se manteve tão sério quanto o pai. Franz pouco sabia o que estava acontecendo, mas era óbvio que algo no casamento incomodava – Christina, havia lhe contado que estava tendo um caso com uma garota plebeia, porém, ao que Franz sabia, jamais manteria uma amante. O mais velho dos irmãos, apesar de na aparência ser uma mistura harmônica de Christina e James, na personalidade sempre foi mais parecido com a mãe. Amava seu país e o seu dever era sempre com seu povo. O casamento era uma aliança política e Franz não tinha ideia do que podia impressionar tanto o irmão a ponto de ele não abraçar uma aliança que beneficiava seu povo. Mais uma batida no chão e o homem anunciou Margaret, a princesa escocesa. A jovem sorriu para todos, que lhe agraciavam com reverencias e sorrisos. Ela se juntou à família real na mesa separada, que como Franz observava, ainda possuía um local vago.
— Não vai se juntar a eles? — Inquiriu uma voz. Quando o príncipe olhou para o lado, uma jovem com joias exageradamente brilhantes. Ele sorriu para a morena.
— Não pertenço a esse lugar — respondeu ele. — O rei não requer minha presença.
— Bem, o futuro rei com certeza deseja sua presença, alteza — sorriu ela, fazendo uma reverência.
— Creio que perdi esse título há muito tempo atrás, milady — Franz riu, sem verdadeiramente achar graça.
— Creio que eu jamais terei esse título — respondeu a jovem. Ela era intensa. E apesar de estar linda, não parecia muito acostumada ao luxuoso vestido inspirado na moda inglesa. Ela estava inquieta, sempre olhando além de Franz, então ele soube quem a jovem era e porque era em direção a que ela olhava.
— Perdoe minha ignorância, milady. Como se chama?
— Oh, quanta delicadeza. Creio que Vossa Graça e Vossa Majestade, sua mãe, são os únicos nobres que não pressupõem que meu nome é Prostituta. — Respondeu ela, rindo cínica. — Chamo-me .
— Posso então lhe perguntar porque você não se junta ao meu irmão?
— Ora, alteza, eu não pertenço àquele lugar. Não sei se é de conhecimento geral, mas sei bem onde devo ficar. — A jovem sorriu, pegando uma taça da mesa e erguendo-a, como se brindasse. Ela tomou um longo gole de vinho e Franz continuou ali, interessado no comportamento da garota.
— Compreendo — respondeu o rapaz. — Como pode perceber, não sobrou nada em mim que me relacione à Coroa.
— Não há nada que me relacione à Coroa exceto o que sinto por seu irmão. Devo admitir que não pedi vestidos finos ou joias, sequer quis sair da cozinha. Todos aqui me olham como se eu estivesse numa estúpida competição com a princesa, mas a verdade é que ela é a futura rainha e eu sou apenas uma garota. — desabafou, deixando Franz ligeiramente constrangido. Ele mal conhecia a garota, logo, não podia julgar se aquilo era verdade ou se não passava de hipocrisia. Talvez fosse boa, porém, tal virtude só poderia ser comprovada quando ela tivesse o mínimo de poder. Quase sempre o poder atrai mais que os valores.
Antes que ele pudesse responder, surgiu na frente dos dois, abraçando o irmão. O mais novo dos irmãos percebeu o olhar que o casal trocava – sorria para o príncipe e Franz soube que com aqueles olhares muitas palavras simplesmente não podiam ser ditas.
— Então, meu querido irmão, já conheceu minha querida — Observou , beijando a mão da jovem e se colocando ao lado da mesma.
— Aparentemente, foi a única pessoa a saber quem eu sou, mesmo que nunca tenhamos visto-nos antes — respondeu Franz, rindo. — Ou talvez sua corte apenas não queira ser associada ao príncipe fugitivo, irmão.
— Como eu disse para o príncipe, não sou nenhuma lady. E devo admitir que sinto curiosidade acerca de suas aventuras, vossa alteza. Me alegraria saber mais sobre o Novo Mundo. — Disse , sorrindo. Franz não tivera tempo suficiente para falar com o irmão sobre a garota – soubera da existência dela pela Rainha. E naquele banquete não seria a ocasião onde o irmão a apresentaria, já que a princesa Margaret andava de encontro aos três. abaixou o olhar e discretamente soltou o braço de , apesar de a princesa não parecer se importar.
— Belo colar, — Elogiou Margaret, deixando o noivo com um semblante confuso. — E o senhor deve ser o príncipe Franz.
— Vossa Alteza — Cumprimentou Franz, fazendo uma reverência e em seguida beijando a mão pálida de Margaret. — Seja bem-vinda à Windland.
— Lhe digo o mesmo, príncipe fugitivo. — Falou a princesa, com um sorriso. Ela virou para como se só houvesse se lembrado da existência do príncipe naquele momento. — O Rei ordena que volte ao seu lugar.
No momento em que virou-se para beijar no rosto, a jovem abaixou a cabeça e fez uma reverência perfeita. Franz não conhecia nem a princesa e nem a plebeia, mas apenas pelo semblante confuso do irmão mais velho, soube que algo estava errado ali. Ele sorriu para e Margaret e voltou sua atenção à , que continuava bebericando do vinho na taça dourada. A expressão da garota não lhe dizia nada e antes que ele pudesse perguntar qualquer coisa, um súbito silêncio no grande salão fez com que ele se voltasse para o rei, que estava em pé esperando a total atenção dos súditos para falar. Quando o silêncio era tão intenso que os únicos sons eram os ambientes, James III começou a falar.
— Gostaria de propor um brinde à Margaret, futura esposa de meu filho e vossa futura rainha. — Disse ele, com um tom seco e ergueu a taça. Todos no salão fizeram o mesmo. — Aproveitem o banquete e seja bem-vinda à Windland, Margaret.
A princesa sorriu, levantou-se e fez uma reverência. Ele ergueu a taça novamente, convidando todos os presentes a fazerem o mesmo.
— Um brinde ao meu novo lar, Windland — disse ela, graciosa. — E um brinde a meu futuro marido e vosso futuro rei, . Aproveitem o banquete.
Todos os cortesãos brindaram, os músicos voltaram a tocar e o barulho das conversas novamente se fez presente. continuava parada longe de qualquer pessoa, evitando até mesmo o contato visual enquanto dos demais membros da corte aproveitavam o farto jantar.
— A senhorita sabe dançar, ? — Perguntou o príncipe, sem graça. — Esse concerto é inspirado no verão. Foi composto por um italiano. Me daria a honra?
hesitou, mas largou a taça e deu a mão à Franz, que a conduziu para o meio do salão. Quando os demais cortesãos perceberam que os dois iriam dançar, mais casais juntaram-se a eles, rodopiando de acordo com o som dos instrumentos. A única parte do corpo dos dois que encostava eram as palmas das mãos, porém os olhos de eram penetrantes. Talvez tenha sido isso que tanto impressionara . A menina rodopiou e trocou de par, como exigia a dança. A jovem lady que agora dançava com Franz não parecia reconhecê-lo, porém sorria tentando conquistá-lo. Ele sorriu de volta, aproveitando que a dança exigia uma súbita aproximação. De repente, estava a sua frente novamente, mexendo os braços de acordo com as demais damas. Ela esticou a mão para ele, que segurou e então todos os casais deram um giro, trocando assim de lugar e em seguida, trocando os pares. Quando a canção finalmente terminou, Franz pôde ver que e Margaret vinham em direção ao grupo, prontos para a próxima dança. Franz ergueu as sobrancelhas para – provavelmente os dois eram os mais odiados dentre os presentes e estavam juntos ali, chamando toda a atenção. Quando a nova canção começou, Margaret exibia uma débil habilidade em dança, o que fez Franz não se sentir como um selvagem. conduzia a princesa enquanto parecia ter total controle de seus pés. Quando os pares se trocaram, a princesa escocesa segurou as mãos de Franz enquanto o encarava de um jeito no mínimo, perverso. Os cabelos trançados da jovem se movimentavam junto com ela no momento em que a dança ficou mais rápida, seguindo o ritmo do concerto. A jovem não tirava os olhos do mais novo dos príncipes, sorrindo de vez em quando, cruel. Apesar de não conhecer a jovem, Franz sentia que todos ali deveriam deixar de subestimá-la e sim passar a temê-la.



O banquete estendeu-se até altas horas da madrugada. A comida havia há muito acabado – o que mantinha a festa era o vinho, que parecia vir de uma fonte infinita. Margaret tomou mais um longo gole enquanto observava os lordes de Windland, bêbados, falando coisas estúpidas. O rei havia se retirado havia algum tempo, estava junto de Franz e , porém a presença da amante do futuro príncipe no banquete usando roupas similares às da nobreza não incomodava mais Margaret. Havia coisas maiores com as quais se preocupar em vez de importar-se com quem copulava. A futura rainha, por fim, sentiu-se entediada e resolveu levantar-se da mesa onde estava sozinha. Cumprimentou alguns senhores que não conhecia e agradeceu elogios de jovens ladies até ser parada por um lorde.
— Vossa Majestade — o duque fez uma referência. Lasstrec usava um chapéu e os cabelos grisalhos estavam presos sob a peça. — É uma honra vê-la novamente.
— Senhor — respondeu Margaret, sorrindo de leve ao fazer a mesura. — Posso lhe dizer o mesmo.
— Lamento as humilhações pelas quais vem passando, princesa.
— Eu tenho um propósito para estar aqui, senhor. Estou preparada para lidar com tais humilhações da melhor forma possível. — Respondeu a jovem. Ao lado do homem, estava uma garota que devia ter a mesma idade de Margaret. — Essa é sua filha, milorde?
— Ora, sim! Essa é Diana. Vamos, querida, cumprimente a rainha. — Falou Lasstrec e assim a jovem fez. Parecia uma garota tímida quando fez uma mesura para Margaret.
— Agora, nada posso lhe prometer, Diana. Mas quando eu for rainha, gostaria que se juntasse às minhas damas. — Disse Margaret, sorrindo. Afinal, era para isso que o duque de Lasstrec a apoiava: para obter favores.
— Oh, majestade, será uma honra. — Disse a jovem, fazendo outra reverência, na qual o duque a acompanhou. Margaret sorriu novamente e saiu do recinto, sendo cumprimentada por outros cortesões enquanto deixava o grande salão. Antes mesmo que chegasse à escadaria que a levaria aos seus aposentos, foi interceptada por Christina. Desde que tiveram a conversa sobre casamento, Margaret não falara com a mãe de .
— Espero que tenha aproveitado o banquete, Margaret — disse a rainha. Christina estava sempre séria e parecia serena na maioria do tempo, como se nada a afetasse.
— Com certeza aproveitei, Majestade — Respondeu Margaret, ligeiramente nervosa por estar a sós com uma das mulheres mais espertas que conhecia. — Agradeço a vossa Majestade, o Rei, e à senhora.
— Isso não foi nada além de nossa obrigação — disse a mulher. Margaret sentia que havia algum fim para aquela conversa, já que Christina esperou que a princesa se afastasse do grande salão. — Reparei que estava conversando com o Duque de Lasstrec e devo admitir que ouvi que era uma honra para ele vê-la novamente. Já se conheciam, Margaret?
— Sim, Majestade — Disse Margaret, mordendo o lábio. Não tinha como mentir, então a princesa acabou por admitir algo que no final, não era completamente mentira. — O duque já esteve em minha antiga casa. Na Escócia.
— Interessante — disse Christina, sorrindo. — No momento em que os vi, imaginei que começar a se aproximar dos lordes fosse um conselho de seu pai. Recebeu uma carta dele hoje pela manhã, certo?
Margaret ficou sem resposta. Christina estava espionando-a e seu cuidado na corte, daquele dia em diante teria de ser redobrado, afinal, estava esperando qualquer deslize da princesa para desfazer o noivado. A Rainha também era muito boa na retórica e sabia quais palavras dizer para que Margaret confessasse todos os seus pecados. A princesa sabia muito bem que Christina podia estar blefando e soltando informações falsas para obter as que desejasse, exatamente como seu pai havia alertado na carta que Margaret lera naquela manhã.
— Vossa Majestade está me espionando? — Replicou Margaret, entrando no jogo da rainha. — Devo codificar minhas cartas caso sejam interceptadas?
— Ora, não sou eu quem deve lhe responder isso, querida. Há algo com o que se preocupar caso suas cartas sejam interceptadas? — Perguntou Christina, com um sorriso complacente. Margaret fez uma reverência e deixou a Rainha sozinha no hall. Segurou as saias e correu escadas acima até seus aposentos, onde pegou a carta do pai e colocou dentro do espartilho. A jovem chamou um dos guardas que estavam no corredor e pediu que ele mandasse um criado com lenha e, assim que a lareira foi acesa, a princesa jogou o papel nas chamas, vendo as palavras de seu pai perderem-se no fogo.



Quando seu pai finalmente decidiu deixar o banquete, pôde sair da mesa reservada para a família real e ir até o irmão, que estava junto com numa das mesas destinadas aos cortesãos. Muitos lordes haviam saído do banquete junto dos monarcas e só assim sentiu-se livre para ir até lá. Por educação, chamou Margaret, já que sabia que a princesa recusaria o convite. Franz já estava ligeiramente alterado devido ao vinho quando o irmão mais velho se juntou a eles.
— Vocês parecem estar se divertindo. — Disse , ligeiramente enciumado por Franz ter passado a noite toda com .
— Franz estava falando coisas sobre os lordes — respondeu a garota. — Disse que Lorde Saleaux costumava cochilar nas reuniões do Conselho do Rei.
— Bem, Saleaux agora dorme nas reuniões. Certa vez até vi saliva em seus papéis. — Respondeu o mais velho dos príncipes, arrancando risadas de Franz e . — Porém, não o julgo. Eu mesmo prefiro a morte a passar horas nas reuniões com o Rei.
— É por conta de sua vida entediante que se apaixonou por ? — Inquiriu Franz, deixando o irmão ligeiramente constrangido. Porém, antes que pudesse responder, a condessa de Deverlaux sentou-se à mesa, chamando a atenção dos três.
— Menino Franz! Como é bom vê-lo, querido. Creio que voltou para ficar, certo? Já é hora, por Deus! Você matará Christina se partir novamente. — Falou a mulher, sorrindo carinhosamente para Franz. Ela não se dirigiu a , o que incomodou o príncipe herdeiro.
— Não posso ficar aqui, Lady Deverlaux. pegou todos os deveres para ele, então creio que devo partir. Voltei apenas para ver meu irmão ser coroado e rever minha mãe. — Respondeu o mais novo dos príncipes. não o julgava por isso – Franz sempre lhe dizia o quão livre era a vida nas colônias e realmente acreditava que viver sem deveres era realmente tentador.
— Ora, e quem é essa adorável mocinha? — Perguntou Lady Deverlaux, referindo-se a , que sorriu genuinamente – quase como se estivesse feliz por ter sido notada ali.
— Sou , milady. — Apresentou-se a menina. pegou na mão dela discretamente, sorrindo.
— Seu colar é belíssimo, Lady . — Elogiou a condessa. — Nunca a vi por aqui antes, por quê? Veio com a princesa? É filha de algum dos lordes?
— Oh, não, senhora. Eu sempre estive aqui, porém, era invisível. Sou Lady da Cozinha — disse , rindo. Naquela noite ela estava ainda mais bela que o normal. O vestido era azul e o corpete trabalhado destacava seu busto, ainda mais com as joias azuis e douradas. O cabelo da menina estava meio preso, uma confusão de cachos, tranças e presilhas. Naquela noite, parecia a mais bela das rainhas.
— Uma cozinheira não usa joias e não se senta à mesa... — Falou a condessa, sem soar maldosa. riu e nada falou. manteve-se igualmente quieto, olhando para com um sorriso travesso.
— O fato, Lady Deverlaux, é que meu irmão está apaixonado por e a trouxe para esse inferno que é a corte — falou Franz, como se não fosse nada demais. achava que a condessa de Deverlaux provavelmente saberia quem era , já que era uma das amigas mais próximas de sua mãe, porém “apresentar” à corte tinha sido algo que ele planejara sem o consenso da garota. Sabia que ela jamais aceitaria se ele sugerisse.
— Oh, então preciso admitir que estou muito decepcionada contigo, ! Eu entenderia esse tipo de comportamento vindo de seu irmão, que vive como um selvagem, jamais do futuro rei de Windland. — Falou a condessa, sem a simpatia que esbanjava antes. Ela olhou para , julgando-a. — Dando joias para uma prostituta e trazendo-a para envergonhar sua noiva! Suas atitudes são lamentáveis, querido, porém lhe darei um conselho antes que seja tarde demais: se afaste dela. Essa mulher só trará infortúnios e caos para sua vida e para a vida da princesa.
Por um momento, o silêncio se fez presente na mesa. Franz pareceu surpreso e , apesar de tudo o que ouvira, sentia-se mal apenas por , que encarava a condessa espantada. O sorriso e o brilho no olhar da moça foram substituídos por lágrimas prestes a caírem, porém ela falou.
— Milady, eu fui criada com os mesmos princípios cristãos que a senhora e certamente não me orgulho de ter me envolvido com um homem comprometido, porém não sou uma prostituta. Não me relaciono com ele em troca de nada. Não pedi por vestidos ou por joias, sequer pedi para sair da cozinha. Não seja hipócrita, olhe ao redor. Olhe para os outros lordes e para as outras ladies. Olhe para a história. Não fui a primeira mulher a cometer o adultério e tenho certeza de que não serei a última, porém é muito mais conveniente culpar-me a admitir que a verdadeira causa do adultério são os casamentos arranjados, certo?
sorriu orgulhoso da resposta de , que falava nada além da verdade. Apesar de saber que o adultério não era algo para se orgulhar, mas haviam pecados muito maiores que o amor. Ele não sabia quantos daqueles lordes sabiam sobre seu relacionamento com e quantos deles aceitariam, porém ele bem sabia que grande parte daqueles senhores também pagariam pelo pecado do adultério. Antes mesmo que Deverlaux respondesse, saiu correndo do local, deixando os dois rapazes e uma dama indignada.



não esperou que a condessa respondesse, tamanha era a humilhação pela qual passou. A jovem ainda tentava entender como não havia chorado enquanto falava e agradecia por não ter o feito. Devido ao seu novo vestido e sapatos era quase impossível correr sem tropeçar e apenas com muito esforço, chegou aos seus novos aposentos. Apesar de todo o conforto que ela tinha ali, as palavras da condessa lhe golpearam com tanta força que ela só sentia vontade de voltar para o quarto que dividia com outras criadas. Ela abriu a porta com a intenção de jogar-se na enorme cama de dossel e chorar até dormir, porém quando ela adentrou o recinto, não estava sozinha.
... É um belíssimo nome, o seu. Muito incomum, eu diria. Admito que estava curiosa para vê-la e agora entendo o que meu filho sente. Sinceramente, eu não sabia o que era preciso para que , homem centrado, agisse de acordo com a paixão. — Falou James III, o próprio rei de Windland no quarto de . — É muito diferente de Margaret, menina. Tem algo nesse seu rosto que parece encantar, algo que conquista. Notei como você passou toda a noite olhando para , notei que no seu olhar você pede e promete. Sabe, menina, eu sou um homem calado. Não gosto de falar como Christina. Prefiro observar e ouvir. Hoje você foi meu objeto de estudo e preciso lhe dizer que cheguei a uma conclusão bem interessante a seu respeito.
o encarava sem conseguir dizer sequer uma palavra. A única vez que o rei se dirigira a ela foi por meio de um mensageiro, que repassou os elogios de James III acerca do guisado que ela lhe fizera, porém naquele momento tudo o que desejava era dizer para que o homem a deixasse sozinha. Sabia que não poderia ser ousada dessa forma, uma vez que era claro que o rei não gostava dela e agora, acreditava que qualquer motivo poderia ser motivo para que ela fosse morta. Tomaz estava certo, afinal.
— Quais foram essas conclusões, Majestade? — Perguntou , apavorada com a possível resposta. O rei sorriu.
— A conclusão, querida , é que eu quero que você se relacione com meu filho. — disse o rei, deixando confusa. Se ele queria – por algum motivo que a garota jamais entenderia – que ela continuasse com , o que raios estava fazendo ali? Ele provavelmente entendeu a confusão no semblante da moça e riu. Cada segundo que ele se mantinha rindo de seu próprio suspense era como horas para a menina. não tinha a menor ideia da condição que o rei iria lhe impor para que ela pudesse estar ali e naquele momento, se arrependeu por ter aceitado os novos aposentos e os presentes – agora, todos a viam como uma prostituta interesseira. Enquanto a mente da menina quase explodia com teorias que ela criava acerca das conclusões do rei James, o monarca parou de rir.
, quero que se case com meu filho. — Disse ele, sério. — Quero que se case com Franz.



6

Ducado de Lasstrec, Windland

Vassalos do duque se esgueiravam pela penumbra em direção ao celeiro de uma das mais afastadas propriedades. Esse seria o único modo de não atrair a atenção dos guardas do Castelo de Lasstrec e dos guardas reais. Grande parte dos que iam até ao local marcado eram curiosos acerca dos planos que dependiam da ausência do duque para serem discutidos – apenas dois ou três realmente tinham conhecimento do assunto que seria tratado no meio da madrugada. O local estava precariamente iluminado, já que castiçais poderiam ser letais combinados à madeira e feno e também poderiam denunciar a reunião ilegal. Os organizadores eram mercadores e pequenos fazendeiros, porém havia alguns camponeses no local. De repente, uma voz masculina começou a falar.
— Caríssimos — ouviu-se. — Sabe-se que os impostos são absurdos quando inúmeros camaradas deixam suas camas no meio da noite para discutir sobre isso. Me digam, para que nosso dinheiro é recolhido? Para financiar a moda da duquesa? Para fazer a festa de casamento da princesa escocesa? ONDE ESTÁ NOSSO REI?
Alguns dos presentes falaram coisas que em circunstâncias normais lhes trariam problemas com a lei.
— Sim, caros amigos! Nosso rei está escondido no palácio, assim como o duque e a duquesa. Vos pergunto novamente: para que nosso dinheiro é recolhido?
Dessa vez, todos falaram. Era impossível entender todas as respostas, mas pelo tom eram facilmente interpretadas. Protesto. Indignação.
— Rei James já está há muito tempo no trono! — Gritou um, sendo apoiado. De repente, o local tornou-se quase o inferno – tamanho o barulho e raiva presentes no local. A insatisfação daquelas pessoas era quase palpável.
— Hoje, camaradas, entregaremos nosso dinheiro para que o rei proporcione à corte um banquete! — Continuou o homem, cuja face era invisível no escuro. — Um banquete para os lordes e para a princesa estrangeira, enquanto nosso povo trabalha arduamente!
— Precisamos derrubar os lordes! — Gritou outro homem, um espectador. Ele foi ovacionado.
— Não, camaradas! Precisamos derrubar o rei James.



Ao acordar, Margaret levantou-se foi até a lareira, onde havia apenas brasa e cinzas. Nada sobrara da carta de seu pai, exceto pelas palavras que continuavam a ecoar na mente da princesa. Ela precisava escrever uma resposta, mas com certeza não saberia como enviar a carta sem que Christina interceptasse. A menina se surpreendeu ao ver que uma criada já abria as pesadas cortinas de veludo.
— Chame Marie e as outras aias — ordenou Margaret, fazendo com que a criada se abaixasse numa reverência e saísse do recinto. A princesa vestiu uma capa por cima da camisola e esperou até que sua dama e as criadas chegassem para ajudá-la a banhar-se e vestir-se, enquanto pensava em uma forma de fazer com que Christina deixasse-a em paz, porém a rainha não parecia ser alguém que esquece fácil. Margaret estava confusa – apesar de ela saber que tinha um propósito para estar em Windland, era difícil não se sentir humilhada toda vez que encontrava saltitando ao lado de , como um casal dos contos de fadas e quando ouvia fofocas dos criados. A princesa desejou ainda ter a carta onde seu pai lhe alertava que aquele casamento era um jogo e lembrou-se das palavras de Christina: “Esqueça o amor. Essa é uma das poucas coisas que o ouro não pode comprar e que rainhas não podem exigir.” Por fim, as criadas chegaram com água para o banho da princesa e uma Marie entusiasmada. Margaret detestava Marie, porém, se queria tornar-se rainha em meio a tantas revoluções, precisava de apoio dos lordes, incluso o pai da sua dama-de-companhia. A princesa tirou suas vestes de dormir, entrou na banheira e sentiu o aroma do óleo de alfazema, o que lhe agradou. Ela ficou pouco tempo no banho e logo às criadas estavam vestindo-a. Margaret encarava seu reflexo pálido no espelho, enquanto Marie fazia as habituais tranças no cabelo ruivo da princesa, enquanto as criadas arrumavam a cama.
— Alteza, a senhora viu o príncipe Franz? Só descobri que ele era o príncipe quando vi a rainha o beijando e o chamando de filho. Mamãe me disse que ele largou a corte para ir viver como um selvagem no Novo Mundo! Que belo selvagem... — tagarelava Marie, sem parar.
— Não confio nele — disse Margaret. Porém, para evitar que as criadas espalhassem suas palavras, mudou o foco da conversa. — Desfaça as tranças. Quero cachos em meu cabelo.
— Mas, princesa, vossas tranças são tão lindas! Todas as ladies da corte estão usando.
— Vamos, Marie! Faça o que eu mando. — Falou Margaret, fazendo então com que Marie se calasse e desfizesse as tranças. Pouco a pouco, cachos se formavam nos cabelos cor de fogo da princesa, que sorriu satisfeita com o resultado, mesmo que não fosse exatamente o que esperava. Em cima da penteadeira jazia uma tiara dourada, que Marie encaixou na cabeça da futura rainha, deixando-a com uma aparência no mínimo majestosa. Um crucifixo de rubis, vermelhos como sangue, repousava em seu busto, completando o visual. Quando se levantou, as criadas e Marie abaixaram-se em reverências e se posicionaram em sua retaguarda. A princesa se aprumou, pronta para ir até o grande salão onde toda a corte deveria estar tomando o desjejum. Margaret sorriu, afinal, seria ela quem estaria no trono.



Franz chegou ao grande salão e sua cabeça doía como o inferno. Grande parte dos cortesãos já estavam ali, fofocando e comendo. Lembrava-se de ordenando que Lady Deverlaux respeitasse e da condessa retrucando que a menina não passava de uma prostituta. Nem o irmão nem a garota haviam aparecido, tampouco o rei ou a rainha. Franz preferia daquele jeito, assim não precisaria sentar à mesa com o pai, que deixara bem claro o descontentamento com a presença do rapaz. O jovem sentia falta da diversidade de frutas tropicais que as colônias espanholas lhe ofereciam, mas comia de bom grado os pães e tortas que a cozinha do palácio lhe proporcionava. Quando se serviu de chá, foi surpreendido por Margaret, que pairava sob ele com aquele olhar dourado. O rosto dela era emoldurado por uma cabeleira ruiva ligeiramente volumosa e uma tiara brilhante.
— Bom dia, príncipe fugitivo! — disse ela, sentando-se em frente a ele. A dama-de-companhia dela a serviu de chá, pão e ovos, o que fez com que Franz segurasse o riso. Como se ela mesma não pudesse se servir. — O que é tão engraçado?
— A senhorita, princesa. Sua dama também vai mastigar os ovos para você? — Inquiriu Franz, rindo. Margaret o olhou enojada e revirou os olhos.
— Ora, deixe de ser desagradável! Está explicado porque todos lhe chamam de selvagem! — Falou a princesa, mandando que Marie a deixasse. Enquanto comia, a menina passava a mão nos cabelos que ainda não estavam secos. Franz reparou e parou de comer.
— Lady está criando modas! — Exclamou Franz, fazendo com que a princesa quase se engasgasse. — Ora, Margaret, vai usar vestes de criada também?
— Não seja estúpido, príncipe fugitivo! — Falou Margaret, revirando os olhos. — Quis inovar nos meus penteados. Não é como se a criada fosse a única garota com cachos.
— Se fosse para os trópicos sua pele ficaria no mesmo tom que a de Lady ... Posso arranjar com meu tio para que a levemos também. Podemos pedir à senhora Joanne que providencie as velhas roupas de para você! — Franz estava empenhado em irritar Margaret, porém a princesa resistia. O brilho perverso no olhar da garota não estava mais lá, o que fez com que o príncipe pensasse que aquela conclusão fora tomada por conta do álcool que ingerira. Naquela manhã, Margaret parecia uma donzela qualquer, divertida e boba, como uma princesa.
— Não quero ser ela — Resmungou Margaret, enquanto tomava um gole do chá. — Sou uma rainha. Talvez quem precise de mudas de roupas seja o senhor, príncipe fugitivo!
— Entendo — disse Franz, divertindo-se. — E creio que minhas roupas estejam perfeitas para a situação. — Ele vestia uma camisa de algodão e calças pretas simples, além de botas nos pés e um colar com um medalhão no pescoço.
— Talvez seja por conta dessas vestes que os lordes não lhe dão nenhuma chance. Nem sequer sabem que você é filho do rei. — Disse Margaret, finalizando seus ovos.
— Que não saibam, então. Não me importo e certamente o rei compartilha isso comigo. — Respondeu Franz, terminando seu pão também. Nada havia sido dito oficialmente pelo rei acerca da chegada do rapaz – Christina apenas anunciara que era ele quando os guardas lhe escoltavam. O rei não se dera ao trabalho de cumprimentá-lo e Franz sabia que não deveria tentar contato. Se James desejasse falar com ele, que fosse o rei a tomar a iniciativa.



Quando Christina entrou na sala do conselho, James estava sozinho, cercado por papéis e parecia extremamente nervoso. A rainha sentou-se ao lado direito do marido, olhando os papeis que jaziam na enorme mesa de mogno. Documentos acerca de impostos, cartas, mensagens de outros países e pedidos dos lordes ocupavam uma grande extensão do móvel.
— Há um levante no Sul — informou o rei, com a voz serena. — Em Lasstrec.
— Camponeses? — Perguntou Christina, temendo por uma revolta como a que assolava Paris.
— Camponeses, mercadores, criados... — respondeu James, deixando transparecer seu desespero por alguns instantes. — Todos reclamam dos valores dos impostos.
— E o que o duque tem a dizer sobre isso? — Perguntou Christina, analisando a situação. A rainha não tinha ideia de como proceder com relação às revoltas do povo – não mandaria a Guarda Real agir para que a violência não assustasse seus súditos, tampouco ignoraria, afinal bastava uma faísca para que Windland fosse tomada pelas chamas. — O duque de Lasstrec está aqui reverenciando Margaret, ele sequer sabe que seus vassalos estão em um levante?
— Creio que já possuo a solução para isso, Christina — falou o rei, enquanto estalava os dedos, distraidamente. — deve ir junto com o duque até Lasstrec. Ele pode ser de grande ajuda, já que sabe como agir com seu povo. Tal como você, querida. Felizmente, o garoto não precisará esconder-se atrás de sua rainha como eu precisei.
Christina sorriu de leve, afinal, esse era o jeito de James de demonstrar sua afeição pela esposa.
— James, considerando o que acontece na França, não sei se enviar o herdeiro até o levante seja de grande ajuda. Talvez incite ainda mais o povo — disse Christina, preocupada. Não gostava da ideia de enviar o filho para o meio da rebelião. era o herdeiro e se qualquer coisa acontecesse a ele... O pensamento da rainha foi interrompido por James.
— Franz é o aventureiro, eu sei — admitiu o rei. — Mas se nem eu fui capaz de reconhecer meu próprio filho após tantos anos, o povo tampouco irá. E, além disso, a lealdade deles deve ser para . Tenho outros planos para Franz.
— Planos? Para Franz? Não me faça rir, James. — Christina conhecia os dois filhos talvez melhor do que conhecia a si mesma. Sabia que o mais novo não era um homem de planos. E planos do rei envolviam questões políticas, que das quais Franz fugia como o diabo foge da cruz.
— O reaparecimento de Franz me deu uma luz, Christina. Creio que Deus me deu a resposta para o nosso problema. Acredito que Franz é a resposta. — Explicou o rei, convicto daquilo.
— Qual dos problemas, exatamente? — Perguntou a rainha, podendo enumerar por ordem cronológica ou por ordem de urgência todos os problemas da corte de Windland.
— disse o rei, simplesmente. Christina não entendeu qual relação à garota poderia ter com qualquer um dos problemas.
— Certo, porém, qual é o problema onde está envolvida? — Perguntou a rainha. James III olhou para ela como se fosse óbvio. — E como Franz pode resolver tal problema?
— Eu estava decidido a lidar com essa garota mais tarde, porém Franz surgiu e trouxe com ele todas as respostas. Escute, querida, essa menina fará com que se curve a ela. Ela trará problemas para Windland. — Explicou o rei. — Casaremos Franz e .
Christina encarou o marido boquiaberta. Não sabia o que a deixara mais surpresa, mas sentiu uma enorme necessidade de aumentar seu tom de voz. James só poderia estar insano.
— Casar Franz? Franz? — gritou ela, levantando-se em seguida. — Você acredita que ele simplesmente irá aceitar se casar? Ainda mais com ? Há um levante que pode seguir moldes franceses e você está preocupado com a garota com quem anda dormindo? James, você realmente está disposto a fazer com que ambos os seus filhos te odeiem por nada quando uma revolta está tomando forma em Windland?
— Christina, isso não é uma questão de vontade. — Respondeu ele, ainda sereno. — Não me importo se Franz me odiará mais ou se ficará insatisfeito. Ele não pode ser criado tendo tudo o que deseja, principalmente se o objeto de desejo for uma plebeia. Não me entenda mal, pois sei que ela não trará nada além de desgraça para Windland.
— Pelo amor de Deus, James! Se o casamento fosse afastar da garota, eles nem teriam se aproximado para começar! — falou Christina, indignada. Apesar dos pesares, simpatizava com , que parecia ser uma garota desapegada de tradições. Algo na menina fazia com que a rainha se identificasse.
— Ora, o casamento não é o motivo pelo qual irão se afastar. — disse o rei, calmamente. — irá com Franz no próximo navio que zarpar para o Novo Mundo.



Quando acordou, pôde ouvir um coração pulsante em seu ouvido. Ela não precisou levantar a cabeça para saber que era . A cada dia que passava, ela sentia mais carinho pelo príncipe.
— Eu nem sequer agradeci pelo vestido — sussurrou. — Que péssima dama eu sou. Obrigada, querido. Eu adorei.
— Você merece — sussurrou ele, em resposta. inclinou a cabeça e sorriu, recebendo um beijo em resposta.
— A garota que me entregou disse que havia um presente da rainha, porém as únicas coisas além do vestido eram as joias... — Murmurou ela, sem acreditar que aquele lindo colar e o belo par de brincos viessem da rainha.
— Bem, eram todos presentes da rainha. Não só as joias como o vestido. — Disse ele, fazendo com que levantasse exasperada. — Não sei como isso pôde acontecer, mas minha mãe simpatizou com você.
— Obrigada pela parte que diz que sou incapaz de ser amável — respondeu a garota, virando as costas para o rapaz, que a puxou sorrindo.
— Você é sim amável, . Minha mãe é que é uma mulher desconfiada. — Explicou ele, mesmo sabendo que a garota tinha entendido. Nos baús dos novos aposentos da menina haviam outros vestidos, porém nenhum deles era precioso como o da noite anterior. Não para . — Porém, queria lhe perguntar se aconteceu algo entre você e a princesa.
pensou, mas Margaret não havia se dirigido a ela desde o dia em que os flagrou na cama. Desde então, a princesa parecia ignorar na maioria das vezes e quando não o fazia, parecia no mínimo, gentil.
— Não — respondeu . — Porém percebi que a princesa anda estranha.
— A princesa não é a única — murmurou ele, acariciando os cachos da menina. — Sinto muito por Lady Deverlaux noite passada. Você falou lindamente com ela, a deixou calada. Falei uma palavra ou duas para defender minha lady apenas para não parecer indigno de uma garota como você.
sorriu, porém, as palavras do rei ainda ecoavam em sua cabeça. A condessa era o menor problema naquele momento. A menina não sabia se devia contar à , pois não saberia como ele reagiria e não gostaria de desencadear a fúria do rei.
— Seu pai veio me ver depois que sai de lá — As palavras de saíram antes que ela concluísse o pensamento. — Ele quer que eu me case.
— Por que diabos ele decidiu isso? — Falou , exaltando-se. O príncipe se levantou da cama de , ajeitando a camisa simples de algodão. Ele havia chegado ali durante a madrugada e desde então acariciava os cachos da garota adormecida.
— Não me pergunte! Ontem, depois de tudo o que aconteceu com a condessa eu decidi que deveria me recolher e quando cheguei ao quarto ele estava aqui. — Explicou , lembrando-se da cena. — Porém, o pior ainda está por vir.
— Há algo pior que meu pai querer casá-la? — Riu , mesmo sem aquilo ser de fato engraçado.
— O rei deseja que eu me case com Franz — admitiu , nervosa. olhava pela janela os jardins do palácio, com uma expressão indecifrável. Naquele momento, mesmo que inapropriado, conseguia reparar o quão belo o herdeiro de Windland era, mesmo que vestisse roupas comuns. Por um segundo, a garota sentiu-se mal por ainda estar com seus trajes de dormir.
— Não se preocupe — disse ele, por fim. — Franz não aceitará. Eu não vou deixar que te casem sem seu consentimento.
— Se eu fosse uma lady de verdade isso não aconteceria — falou ela, se juntando ao príncipe na janela. — Se eu fosse filha de um duque ou de um conde não se importariam por eu estar aqui.
— Você é uma lady de verdade, — falou ele, abraçando a garota. — Claro que é.
— Não, . Eu sou uma cozinheira. — Respondeu ela, desanimada. — Mesmo que Franz não aceite se casar comigo, acharão outro jeito de me afastar de ti.
, há vezes que você parece não ter o mínimo de fé em mim — falou , segurando-a pelos ombros, de modo que ela olhasse para ele. — Eu sou o futuro rei de Windland. Ninguém poderá te afastar de mim, entendeu?
— Talvez seja melhor para você — falou ela, com um tom triste. — Quero dizer, você será o rei e Margaret, a rainha. Talvez minha presença faça com que a princesa pareça desagradável, mas ela pode ser boa. Você pode amá-la.
— Você quer se casar? Você quer se casar com Franz? — Perguntou ele, seco. De repente, ele não estava encarando ela ou com a voz daquele jeito suave que fazia com que a jovem se derretesse. De repente, ele falava de um jeito que reis falavam.
— Não! — Falou ela, incrédula com aquela possibilidade. — Eu... Gosto de você, ! Mas não pertencemos ao mesmo mundo, certo? Você nasceu para reinar e eu nasci para servir. Eu não sou nada para essas pessoas! Eu sou totalmente substituível para todos eles!
, nunca mais diga isso — falou ele. — Podem substituir-te no trabalho, mas jamais o farão no talento. Não haja como se isso fosse imutável, pois não é! Não lhe disse mais cedo que minha mãe simpatiza contigo? Ela me conhece e me ama o bastante para interferir por você.
— Mas... E se o seu irmão aceitar a proposta? — Apesar de tudo, Franz parecia um conquistador e era prova que casamento não significava fidelidade. O príncipe fugitivo poderia muito bem aceitar o casamento e, aparentemente para o rei a palavra de não tinha grande valor, mesmo quando era o destino da jovem que estava em jogo. Antes mesmo que pudesse responder, a porta do aposento foi aberta, revelando a rainha de Windland. abaixou-se numa reverência.
— Espero não os estar interrompendo em nada importante. — Falou Christina, com o usual tom de voz sério. não conseguia lembrar se em algum momento da sua infância em suas fantasias, imaginou que estaria tendo contato com a mítica rainha consorte de seu país. — , meu querido, por que não procura o rei? Há assuntos pendentes do Estado para serem discutidos.
Mesmo que contrariado, o príncipe tomou a mão de e a beijou. Ele deu um sorriso fraco antes de beijar a testa da mãe e deixar a rainha e a plebeia no quarto. Subitamente, a menina sentiu-se envergonhada por estar ocupando aposentos da aristocracia.
— Muito obrigada pelos presentes, Majestade — murmurou , com medo do que a rainha pretendia falar. Talvez Christina estivesse de acordo com a ideia do casamento arranjado entre a cozinheira e o príncipe fugitivo. — Nem sei como agradecer.
— Eu bem sabia que você iria gostar — disse Christina, sorrindo terna. Por mais improvável que aquilo fosse, a rainha parecia nutrir algum tipo de afeto pela menina. — Combinaram com seus olhos, querida.
— Creio que Vossa Majestade não veio aqui apenas papear com a plebe, certo? — perguntou, com um sorriso sem graça.
— Preciso admitir que conversar sobre qualquer assunto com alguém humilde é mais gratificante para mim que trocar uma ou duas palavras com grande parte de minha corte. — Christina deu de ombros, ocupando o lugar em que estava apenas alguns minutos atrás, em frente às enormes janelas do local. — Mas tem razão, menina. Não vim aqui falar sobre futilidades. Fiquei sabendo hoje dos planos de meu marido.
— Entendo.
, eu não aprovo esse casamento, se é o que quer saber. Não digo isso por conta de Franz, porque assim como ele chegou aqui, ele pode partir. Sou contra esse arranjo por conta de você. — Falou Christina, parecendo genuína em sua afirmação. Os olhos da rainha eram como de ambos seus filhos, o que fez notar que os príncipes tinham muito mais da rainha que do próprio pai, o rei.
— Por que, Majestade? Não sou nada para você. Tenho certeza que há mais pessoas em Windland que saibam cozinhar e todos eles matariam para estar em meu lugar. — Perguntou , sentada na cama.
— Você está sob minha proteção, criança — falou a rainha, como se aquilo fosse óbvio. — E não acredito mais nos casamentos arranjados. Casei para formar uma aliança política e meu filho fará o mesmo, mas você, querida, não carrega esse fardo. Não vejo porquê unir em sagrado matrimônio duas pessoas que não desejam isso em seu coração.
— Infelizmente o Rei não pensa da mesma forma, Majestade — murmurou . Subitamente, a menina cozinheira sentiu vontade de se explicar para Christina. E assim ela o fez. — Na verdade, eu entendo que não deveria estar aqui. Inclusive, mais cedo eu estava dizendo isso para . Eu sei que todos aqui me veem como uma prostituta interesseira, por Deus, até meu irmão pensa isso! Mas a verdade é que desde a primeira vez que se dirigiu a mim eu senti meu coração descompassar! Eu não pedi por vestidos, joias ou um título, eu só não consegui me controlar desde que nos beijamos pela primeira vez. Sei que o que tenho feito é errado e peço perdão a Deus a todo o momento, porém, se o castigo para isso for à eternidade no inferno, aceito de bom grado.
— Não vou lhe dizer que isso é paixão porque não conheço as profundezas de seu coração, . Se você diz que carrega em seu peito tamanho sentimento por meu filho, eu acredito. Porém, como sabe, você está em uma posição arriscada. Enquanto eu puder interceder por você, eu o farei, porém em breve eu serei apenas uma Rainha-Mãe* e não poderei mais protegê-la. Como católica, não aprovo seu comportamento, mas sou mulher, mãe e rainha antes de ser cristã e sei que são poucos os que conseguem viver seguindo os preceitos de Deus. Somos seres imperfeitos. — Falou Christina. A rainha era a mulher que gostaria de ser – inteligente, forte. Porém, naquele momento era apenas uma garota tola e apaixonada por um homem que jamais seria seu.
— Então irei me casar com Franz? — Perguntou , derrotada. Não era como se o mais novo dos filhos da Rainha Christina fosse uma má pessoa, pelo contrário, era um ótimo narrador para suas próprias aventuras, além de muito bem-apessoado, com cabelos levemente ondulados e escuros na altura dos ombros, olhos como os do irmão mais velho e uma pele clara bronzeada, graças a vida que o jovem levava na América Espanhola – porém, não era por Franz que estava apaixonada e os trópicos não a atraíam. Se a jovem fosse um pouco menos teimosa e ligeiramente mais ambiciosa, aceitaria a proposta de se casar com um príncipe, mesmo que esse fosse um aventureiro incurável.
— Meu filho jamais faria isso com você ou com o irmão — afirmou Christina. — Vocês não se casarão, confie em mim. Porém, querida, preciso lhe pedir duas coisas para que eu consiga impedir esse matrimônio.
— Qualquer coisa, Majestade — disse . Ela faria o que fosse preciso para que o casamento não acontecesse.
— Você se certificará que não irá engravidar — começou Christina, séria.
— Há como impedir que isso aconteça? — Perguntou , realmente intrigada.
— Há como evitar. Querida, nada disso é pessoal, mas se você desse a luz a um filho agora, eu não seria capaz de proteger você e a criança, afinal, bastardos não são apreciados na corte. Seria muito perigoso para você e para a criança se engravidasse antes de Margaret.
— Eu… Eu sei, Majestade. Agradeço a Deus por isso não ter acontecido, já que não tenho ideia do que poderiam fazer com um filho do príncipe fora do casamento. Qual é a segunda coisa? — tinha medo do que a rainha poderia lhe propor. Tinha medo de ter que deixar o palácio ou se afastar de , afinal, apenas naquele momento a menina se deu conta de que sentia algo intenso pelo príncipe, algo que ia muito além do carnal. Havia algo no modo como o rapaz a tocava, como se quisesse mergulhar na parte mais profunda do âmago da garota. Era sublime e simples ao mesmo tempo em que era intenso e arrebatador. queria descobri-lo daquela mesma forma.
— Você precisa voltar para a cozinha.

*O termo Rainha-Mãe era usado para designar a antiga rainha consorte (muitas vezes viúva), mãe do rei reinante.



foi impedido de adentrar a sala do conselho. Um intendente de um dos lordes presentes informou que o Rei estava em reunião com os membros do conselho e que em breve discutiria com o príncipe os assuntos que diziam respeito ao herdeiro, o que o irritou. de Windland estava preocupado com – que em breve poderia ser casada contra sua vontade – e também curioso para saber quais eram os assuntos do Estado pendentes entre ele e o pai, porém, não havia nada a ser feito. O rapaz por fim decidiu que procuraria algo para fazer, já que a Rainha havia deixado claro que gostaria de conversar a sós com sua lady , portanto, ele foi em direção a biblioteca, em busca de qualquer atividade que fizesse o tempo passar mais rápido. Quando ele chegou perto da enorme sala onde jaziam livros antiquíssimos, encontrou Franz perambulando por entre as prateleiras.
— Nunca imaginei que fosse lhe encontrar aqui, irmão — falou , surpreendendo o mais novo dos príncipes. Franz abriu um sorriso e foi de encontro ao irmão.
— Digamos que bibliotecas não sejam muito comuns no Novo Mundo — respondeu o rapaz, com seu tom descontraído de sempre. Desde crianças, era assim: fora educado para ser sério e prático, enquanto Franz era espirituoso e sonhador. Claro que isso ocorrera porque apenas um deles iria herdar o trono e se tornar rei, mas com certeza as personalidades dos irmãos ainda os influenciavam.
— Creio que já esteja a par de seu possível casamento — falou o mais velho, inseguro sobre a reação do irmão. Apesar do amor que eles tinham um pelo outro, Franz podia muito bem ter se encantado com a jovem e decidido que aceitaria a proposta do pai.
— Não vou me casar com , — respondeu Franz, rindo como se aquilo tudo fosse uma brincadeira. Era assim o mais novo dos príncipes. Era por isso que o Rei tanto o desprezava: primeiro, por largar sua terra, sua vida na corte para viver em meio a selvagens e exploradores na América Espanhola, mas também por se comportar do jeito oposto ao que esperavam de um príncipe. — O pai deve estar louco, essa é a única explicação. Deve ser por isso que ele quer tanto que você se case com a princesa e seja coroado… Ele deve estar perdendo a razão.
— Não me lembre do casamento — resmungou , sentando à mesa de madeira escura que adornava a biblioteca. — Gostaria que você não houvesse assinado um tratado onde se comprometeria em abrir mão do trono.
— Por que não se casa com sua antes de se casar com Margaret? Uma vez casado, será impossível eles desfazerem o matrimônio, afinal, é um ritual sagrado. — Sugeriu Franz, como se aquela fosse uma verdadeira hipótese. Querendo ou não, a ideia do irmão fez com que uma centelha de esperança nascesse em seu coração.
— Os rituais sagrados da Igreja só são imutáveis quando isso é do interesse do papa. Um casamento entre um herdeiro e uma plebeia jamais seria aceito, ainda mais sendo Margaret uma católica. Se o nome de Deus não fosse usado para impor e justificar as vontades dos homens, eu bem que faria isso.
— Você está realmente apaixonado por ela, não é? Sempre esteve conformado com o casamento, até agora.
não respondeu, afinal, seus pensamentos estavam repletos de . Querendo ou não, a jovem estava cada vez mais impregnada nele, apesar de serem de mundos diferentes. Talvez fosse isso o que tanto lhe atraia: o fato de não fazer parte efetivamente da corte, de ela não estar envolvida em conspirações e intrigas. era apenas , com seu aroma de especiarias, sorriso fácil e olhos sugestivos. Era verdade, aceitava o casamento forçado, mesmo que tentasse adiá-lo, porém desde que beijou pela primeira vez, Margaret lhe parecia intragável.
— Podemos não ter crescido juntos, mas sempre fomos próximos — continuou Franz. — Você sempre foi o mais intenso, o que se apaixona mais fácil.
— Não é verdade. Franz. — Rebateu , rindo. — É que você não conheceu .
— De onde ela veio, afinal?
E então se viu narrando sua história com : o dia que duelava com um dos membros da Guarda Real e a encontrou observando-o, como também falou sobre a comida deliciosa que ela preparava, sobre as semanas que passou pensando nela antes de procurá-la, sobre o momento em que se beijaram e também sobre a chegada de Margaret. O mais velho descrevia tudo sobre a menina com admiração em seu tom e por mais que Franz não a conhecesse bem, poderia jurar que tudo aquilo era verdade – vê-la pelos olhos do irmão era quase como ver um crente cultuando uma deusa pagã. E ainda negava que estava apaixonado.

[...]

Quando o herdeiro foi finalmente recebido pelo rei, este não estava sozinho. O duque de Lasstrec e a princesa Margaret o acompanhavam na sala do conselho, que era iluminada por um enorme candelabro e alguns castiçais jaziam sobre mesas. Todos estavam sérios – podia-se notar um semblante de preocupação no olhar de James III, enquanto Margaret e o duque permaneciam com expressões ilegíveis.
— Durante a noite, foi iniciado um levante em Lasstrec — começou o rei. — Hoje o intendente do duque iria recolher os impostos e foi morto. Um mercador armado com um mosquete o assassinou a sangue frio e os revoltosos distribuíram o dinheiro ao povo.
— E onde estava o duque a esse momento? — Inquiriu , ironicamente. — Em um banquete, bêbado? Às vezes me pergunto se os lordes esquecem que com o título, as terras e o dinheiro vêm obrigações.
O príncipe foi ignorado.
— A questão, , é que você será responsável por apagar qualquer chama de revolta que haja em Lasstrec — disse o rei, como sempre com um tom entediado. Por vezes, esquecia que James era seu pai acima de tudo. — Você e Margaret farão uma visita ao ducado, dirão o que quer que esses rebeldes queiram ouvir. Impeça Lasstrec de queimar como Paris queima.
— Quer que eu vá lá e prometa coisas para que me executem como os franceses vêm executando os nobres? Por que o Rei James III não vai prometer aos seus súditos coisas que jamais serão cumpridas? — Bradou , irritado.
— Impeça Lasstrec de queimar como Paris queima — repetiu o rei, com um tom baixo. — Faça isso ou seu reinado terminará exatamente como o de Louis na França.
— Faremos o que Vossa Majestade diz — respondeu Margaret, deixando ainda mais irritado.
— Eu não vou mentir em seu nome, pai. É cômodo agir assim, certo? Viver escondido atrás dos outros. Por que o senhor não vai até Lasstrec para lidar com os revoltosos? Acha mesmo que eu e a princesa estrangeira vamos acalmar um levante? Vossa Majestade realmente acredita que eu prometer que os impostos não aumentarão fará com que o povo volte a acreditar na monarquia? Porque, se o senhor realmente acredita nesse conto de fadas, tem sorte de ser casado com uma mulher mais inteligente que você.
Novamente, foi ignorado. O Duque de Lasstrec e Margaret mantinham-se calados e depois de um silêncio que parecia pesar no ar, o rei falou:
— Tem razão, . Suas promessas não mudarão as crenças deles, pois os súditos já não acreditam mais em mim. Ouça seus pedidos, dê-lhes esperança. Faça com que te adorem como adoram a sua mãe. — Falou James, sem tirar os olhos do filho, que continuava com uma expressão furiosa no rosto jovem. — Faça com que te adorem, meu filho, pois em breve eu renunciarei ao trono. Em seu favor.



7

Palácio Real de Windland – Dezoito anos antes

Era madrugada. Os gritos da mulher ecoavam por boa parte do palácio e se sobressaíam aos murmúrios confortantes e às preces rezadas em espanhol. Fazia horas que a jovem dama estava em trabalho de parto e todas as outras mulheres presentes se revezavam nas tarefas de segurar a mão da moça, de umedecer tecidos na água morna, de rezar a Deus que aquela criança deixasse de vez a barriga da mãe. Não era a primeira vez que a mulher dava à luz, mas o segundo filho parecia ainda pior. O bebê não havia dado descanso à mãe durante a gestação e nada havia mudado na hora do nascimento.
— Empurre com força! — Falou a parteira. — Já consigo ver a cabeça.
O corpo frágil dela já quase não tinha mais forças para empurrar, e então ela soube de onde deveria procurar suporte: do amor que sentia pelo pai de seus filhos. Aquelas crianças seriam provas vivas daquele sentimento que lhe enchia o peito. Uma das amigas segurava Tomaz pela mão enquanto o menino, aos quatro anos, olhava estupefato as coisas incompreensíveis para sua idade. Sim, o amor que sentia pelo pai e por seu primogênito lhe deu forças para que o segundo filho viesse ao mundo.
— Uma menina! — anunciou uma das damas, sorrindo. — Isabel, você tem uma garota!
— Deixe-me vê-la — sussurrou a mãe, sem forças para falar mais alto que aquilo. A garota chorava intensamente, provando a teoria de que não seria uma criança tranquila.
A parteira esperou o consentimento da rainha, que observava tudo silenciosamente e assentiu.
... — Sussurrou Isabel, acariciando suavemente o rosto da filha. — Minha .



Naquela noite, tudo o que desejava era buscar conforto nos braços de . A coroa nunca lhe assustou, até a chegada de Margaret. Do modo como as coisas se encaminhavam, antes do Natal eles estariam casados e tudo seria diferente. Novamente naquele dia, o príncipe desejou não ser o herdeiro - porém, o único de seus desejos que fora prontamente atendido pelo Universo foi à garota que lhe esperava em frente à lareira em seus aposentos.
— Creio que logo começará a nevar — observou ela, de costas para o fogo. Ele observou que ela novamente vestia os trajes acinzentados dos criados.
— O que houve com os outros vestidos? — Perguntou , aproximando-se da garota. Ela sorriu e o abraçou.
— Bem, a rainha acredita que talvez seja melhor eu voltar às minhas tarefas comuns — explicou . O abraço logo foi partido quando ele olhou para ela alarmado.
— O que isso quer dizer? O que minha mãe te falou? — Perguntou ele, preocupado. Depois de todos os acontecimentos do dia – o possível casamento de , o levante em Lasstrec e os planos do rei sobre a abdicação – ele não queria crer que haviam tirado da garota o pouco que ele lhe dera.
— Eu não consigo imaginar o porquê disso, mas a rainha não quer que eu me case com Franz, e acha que se eu voltar para a cozinha, o rei pode esquecer isso.
Ele deve ter expressado todo seu alívio em suas feições, porque riu e o beijou. Os lábios da jovem eram macios contra os dele e a cada momento ele sentia-se mais confortável naquele abraço. Aquele não era seu primeiro caso e ele sabia que também não era o primeiro de , mas algo fazia com que seu coração batesse mais forte por aquela menina com lindos olhos e cachos rebeldes.
— O príncipe está calado hoje — observou ela, segurando-o na mão. — O que houve?
— Um levante em Lasstrec. O rei exige que Margaret e eu façamos uma visita pelo ducado. Para que façamos ao povo promessas que ele não cumprirá. Eu não sei o que me incomoda mais: passar dias com a princesa ou ter que mentir para o meu povo.
— Não minta — arqueou a sobrancelha. — Ouça-os e tente pensar em algo que possa ajudá-los. Eles não estariam se arriscando se não fosse importante haver uma reforma.
— Eu sei, . Porém, enquanto meu pai estiver no trono não há nada que eu possa fazer por eles.
— Dê a eles sua palavra, . Você é o príncipe deles, seu futuro rei. Prove que você é diferente.
— Eu sou diferente dele agora, mas me pergunto se no futuro não me tornarei o mesmo. Não tenho certeza se há algum rei diferente.
— Sua mãe é Christina, a rainha mais inteligente e amada que Windland já conheceu. Se há um rei que será diferente, é vossa Alteza.
— Já te falei sobre títulos, ... — Sussurrou ele, acariciando o ombro da menina.
— Agora que minha noite de conto-de-fadas passou, preciso voltar à vida real, senhor. — sorriu, afinal, apesar de adorar belos vestidos e joias ornamentadas, amava ainda mais cozinhar. Gostava de sentir os ingredientes se transformarem por suas mãos - era o mais próximo de mágica que a jovem conseguia chegar.
— Se eu tivesse qualquer poder contra meu pai, não deixaria que nada disso acontecesse. — Murmurou ele, puxando a jovem para um abraço. há muito percebera a perspicácia da cozinheira, porém ele se surpreendia mais a cada dia que se passava. se mostrava esperta e observadora – importantes requisitos para viver na corte.
, eu sempre fui uma criada. Você foi o primeiro a me enxergar em um mundo onde devo ser invisível, mas isso não muda nada. — Ela sorriu, acariciando o rosto do rapaz. — Você ainda é o herdeiro do trono e eu, uma plebeia. Eu entendo isso e nunca foi minha pretensão me aproximar de você para que eu mudasse minha posição social.
— E qual foi sua pretensão ao se aproximar de minha pessoa? — Perguntou ele, baixinho. sempre tinha reações involuntárias em seu corpo quando ele usava aquele tom rouco.
Ela aproximou-se até que seus lábios estivessem quase tocando a pele dele e sussurrou no ouvido do príncipe.
— Eu não tive escolha alguma, sequer pretensão. Sempre foi maior que eu, a força que me atrai para ti.

[...]

Na manhã seguinte, logo ao nascer do sol, o palácio já estava acordado. havia exigido que todos estivessem prontos para partir ao alvorecer, uma vez que levaria um dia a viagem da capital ao ducado. Soldados da Guarda Real preparavam-se enquanto os demais criados cuidavam das carruagens e dos cavalos e a cozinha produzia o desjejum. O príncipe herdeiro estava nervoso sobre o que encontraria em Lasstrec e ligeiramente furioso com o pai por tê-lo mandado em seu lugar. O rei não havia dado as caras aquela manhã, no entanto, Christina cuidava de tudo com maior esmero que qualquer um dos presentes.
— Tome cuidado, sim? Eu lhe impediria de ir, mas já basta seu pai esconder-se do povo. — Falou a rainha, abraçando o mais velho dos filhos. — E você não é mais um garoto, afinal.
— Terminarei com isso, minha mãe. Ou ao menos acharei um meio-termo que agrade ao povo — prometeu, como se devesse aquilo à mãe.
— Ouça-os, hijo. Mostre que se importa. — O príncipe riu ao ouvir a mãe dizer algo tão parecido ao que havia lhe falado na noite anterior. — Seja bravo, meu menino.
— Nunca serei como você, Majestade, mas posso tentar. — Falou ele, e Christina riu. Ele fez uma reverência e beijou a testa da mãe antes de ir até o último lugar que precisava.
A cozinha do palácio era de pedra e enorme. Muitas pessoas trabalhavam ali para alimentar a corte, criados e homens da guarda; o local jamais ficava vazio. A Velha Joanne mantinha a ordem do ambiente desde que se entendia por gente e naquela época já era velha - desde sempre ela colocava medo em qualquer um que ousasse desorganizar a cozinha. Quando ele viu , ela amassava uma massa de pão. Os cabelos cacheados estavam presos no topo da cabeça e ela parecia fazer aquilo como se fosse a coisa mais importante do mundo - talvez fosse esse o segredo dela. Recentemente, sentia-se culpado pelo título de "melhor cozinheira" ter sido abruptamente trocado pelo de amante.
— Eu sei que está aí — sussurrou ela, sem desviar os olhos do que fazia. Se pudesse, passaria horas observando-a trabalhar, afinal, ela o fazia com tanto delicadeza e afeição que era impossível não hipnotizar qualquer um que se dispusesse a assistir. No entanto, ele não sabia o que dizer agora que estava partindo. Sabia que ficaria bem, afinal, a rainha parecia estar ao lado deles, mas temia que o pai pudesse estar tramando para realizar o matrimônio da cozinheira com Franz no momento em que o mais velho de seus filhos deixasse o palácio.
— Vim me despedir — explicou o príncipe. Ele definitivamente não sabia o que dizer e era como se Franz estivesse ao seu lado, caçoando de sua desculpa. não sabia o que estava sentindo pela jovem cozinheira, mas sabia que era algo muito além da atração - dizer que está apaixonado é fácil, mas reconhecer de fato a paixão exige conhecimento. O príncipe era bom em questões políticas e péssimo em questões do coração.
— Não fale como se estivesse indo para a guerra — disse ela, finalmente largando o pão que sovava. Ela deu uma longa observada no homem que estava a alguns passos de distância: , como sempre, não trajava as roupas ornamentadas da monarquia. Usava roupas de montaria e as únicas coisas que podiam denunciar sua posição social eram o luxuoso gibão de couro que vestia e o manto que pendia de seus ombros. Uma enorme espada estava embainhada em seu cinto e ela reparou que ele carregava um medalhão em uma corrente no pescoço.
— Bem, não estou indo para uma festa — respondeu , se aproximando da garota até que a mesa de madeira onde ela trabalhava fosse a única distância entre eles. As mãos morenas de estavam sujas de farinha, porém ela não hesitou em acariciar o príncipe no rosto, sujando a barba dele no processo. Ela sorriu.
— Como eu lhe disse, mostre a eles que você é diferente do seu pai e que se manterá assim quando for coroado. , não tem como eles não te amarem.
Apesar de ter sido preparado para isso durante sua vida inteira, o príncipe não tinha tanta certeza de sucesso. Um levante parecia algo muito forte, muito intenso para um único homem controlar. Mesmo que o homem em questão fosse o príncipe herdeiro.
— O máximo que podem fazer é me matar — disse ele, rindo mesmo sem achar graça.
— Você não permitiria que fosse feita tamanha crueldade com Franz. — deu a volta, indo em direção a parte externa nos fundos do palácio. Ele a seguiu calado, com os braços atrás do corpo de modo a esconder a ansiedade que o fazia mexer os dedos repetidamente. Ela parecia ter percebido, já que no momento em que não estavam mais à vista dos demais criados, ela entrelaçou seus dedos nos dele, que em seguida beijou o dorso da mão dela. — , prometa-me que vai ouvi-los. Prometa-me que irá ajudá-los.
— Eu irei — ele sorriu, levantando o rosto da garota com a mão livre e beijando-a suavemente. Ele precisava que aquilo fosse rápido, mas não protestou quando ela soltou os dedos dos dele e aprofundou o beijo, segurando-o o rosto dele com as duas mãos - como se quisesse mantê-lo ali. Foi o relinchar de um cavalo que fez com que o beijo se partisse.
— Não faça o que seu pai mandou. Faça o que sua mãe lhe ensinou. Não lhe direi adeus, pois sei que mal terei tempo para perceber sua ausência. — Disse ela, libertando-se do abraço dele e voltando ao trabalho. Ele respirou fundo e deu a volta pela parte externa do local, logo encontrando a pequena comitiva que partiria para Lasstrec.
— Alteza, a carruagem está pronta — um dos cocheiros falou, após uma pequena mesura.
— Irei cavalgando — informou , o que fez com que começasse uma correria para que o seu cavalo fosse preparado. Enquanto ele aguardava, Margaret chegou ao local com a cara fechada, vestindo uma enorme capa. Ela o encarou durante um tempo, com certa indiferença.
— Você está sujo de farinha, . Por Deus, seja mais discreto com relação ao seu caso com a cozinheira. — Resmungou a jovem, adentrando a carruagem em seguida. O duque e a filha já estavam em seu próprio coche. Quando montou o cavalo, não olhou para trás ao sair em galope. Naquele momento, o peso da coroa se fez mais presente do que nunca.



— O bom filho a casa torna — falou Franz, ao adentrar o local. James sorriu com ironia para o rapaz, que repetiu o gesto. Era a primeira vez em anos que pai e filho se reuniam e a distância não havia mudado em nada o que sentiam um pelo outro.
— Não achei que fosse ter coragem suficiente para voltar depois de tanto tempo. Bravura não é a primeira palavra que me vem à cabeça ao pensar em você.
— Então pelo menos nisso somos parecidos, certo, pai? — Disse Franz, como se aquilo fosse algo que o alegrasse. O rei suspirou ao ouvir aquilo – não podendo discordar – e pegou uma pilha de papéis. Documentos do Estado. Papéis que Franz nunca teve autorização de tocar – o mais novo dos príncipes nunca nem aprendeu a ler tais tipos de documentos.
— Não o chamei aqui para insultar-me — falou o rei, sem jamais olhar nos olhos do rapaz. — O chamei para que saiba que não partirá de Windland sozinho. A prostituta de seu irmão irá acompanhá-lo.
— Você pretende enviar para a América? Você tem alguma ideia do que é o Novo Mundo? — Inquiriu Franz, incrédulo. — O que pretende que eu faça com ela?
— Você não está aqui para questionar, garoto. — Respondeu James, olhando pela primeira vez para o príncipe. Rapidamente, o rei desviou o olhar. — Não me importa se a levará para suas aventuras com os selvagens ou se a venderá no primeiro bordel que encontrar. Ela será sua esposa, afinal.
— Quer que eu me case com e a leve para as colônias? A garota sequer fala espanhol! Ela não sobreviverá! — Falou Franz, alterado. Ele mal conhecia a jovem, era verdade, mas era crueldade fazer tal coisa com uma garota que até então não havia feito nada errado.
— Ora, estou sendo misericordioso! Mas é claro que posso pensar em meios mais definitivos de tirar a garota do jogo. Posso ordenar agora mesmo que a bela cabeça da prostituta de role. Você não faria isso com seu irmão, certo? — O rei perguntou, sarcástico, e Franz fechou as mãos em punho, porém se manteve calado. — Imaginei. Por isso, repito-lhe o que fará: se casará com a menina e partirá. Fora de Windland, poderá fazer o que quiser com ela.
Naquela manhã, quando havia sido convocado a comparecer ao gabinete, o mais jovem dos príncipes jamais imaginou que o assunto a ser tratado seria traição.
— Está na hora de você fazer algo pelo seu país — continuou James, sem desgrudar os olhos do documento que lia.
— Não irei me casar com — respondeu o rapaz, enquanto girava um anel prateado em seu dedo. — Não posso. Jamais trairia meu irmão dessa maneira.
— Franz, eu não estou lhe pedindo — respondeu o rei, enfatizando que aquilo era, de fato, uma ordem executada pelas costas de .
— Você tem medo dela, não é? Quer casá-la antes que meu irmão a torne rainha e seu acordo com a Escócia acabe. Eu não irei me casar com .
— Eu não a temo, muito pelo contrário. Temo que seu irmão se torne o tipo de rei que obedece em vez do que ordena.
— Como você, certo, pai? A diferença é que Vossa Majestade não obedece belas ladies. O Rei obedece aos lordes. — Respondeu Franz, deixando o recinto e batendo a pesada porta de madeira atrás de si. O mais novo dos príncipes não media as palavras para falar com o rei, uma vez que o homem não poderia lhe tirar mais nada. Tudo o que Franz tinha estava além do alcance do pai.

[...]

A cozinha emanava os aromas com os quais Franz tinha grande afinidade. Desde a infância o rapaz lidava com as especiarias orientais e há muito havia aprendido sobre cada um daqueles produtos. Pimenta, açafrão, cardamomo, noz-moscada, canela... Todos aqueles aromas eram comuns a ele, assim como que para , que naquele momento os trabalhava.
— Finalmente alguém que entende tanto de especiarias quanto eu — falou o príncipe, atraindo a atenção da cozinheira. Ela amassava um bocado de coisas em um pilão e aquilo cheirava como o paraíso.
— Vossa Alteza não me parece um homem que entenda de especiarias — disse ela, dando de ombros, sem tirar os olhos de seu preparado. — Para ser honesta, não sei com que tipo de homem o príncipe parece.
— Isso é uma coincidência e tanto, Lady , pois também não sei o que devo pensar da senhorita — respondeu Franz, enquanto pegava um punhado de noz-moscada e o observava na palma de sua mão, como se entre aquelas bolotas estivessem todos os segredos do universo, desvendados. — Dizem que uma única noz como essa pode matar um homem.
— Então creio que devo usá-la com parcimônia — murmurou , sem saber ao certo quais eram as intenções de Franz ali. — O que o traz a cozinha, alteza?
Franz continuou mexendo nas especiarias, o que irritou . Ele sabia que ela estava brava – podia vê-la de canto de olho. A moça havia parado de fazer seu tempero e agora o observava de braços cruzados.
— Desculpa, desculpa! — Franz riu, devolvendo ao balcão tudo o que havia pegado. Ele ergueu as mãos em sinal de rendição e a cozinheira não esboçou nenhuma reação. — Não mexerei nos seus condimentos se isso a irrita, milady.
— O que quer, alteza? Por que diabos está aqui? — Perguntou ela, sem eufemismos. Para , Franz era um mistério longe de ser desvendado. Ela não sabia se poderia ou não confiar nele, se poderia ou não gostar dele. Ela sentia que havia muito mais do que era exposto com relação ao príncipe.
— Ora, que garota mais feroz que temos aqui — Agora, Franz era só risadas e piadas, o que estava irritando em níveis extremos. Ela sentiu-se enganada, já que havia criado uma certa simpatia pelo rapaz durante o baile. Ele parecia se deleitar com a irritação dela. — Respondendo sua pergunta, milady, estou aqui apenas para certificá-la de que não sou a favor do suposto matrimônio que meu pai planeja para nós. Não sou um homem para casamento, entende?
— Aposto que não — respondeu ela, ácida. Enquanto Franz tagarelava, a jovem voltou ao preparo do almoço, espalhando a pasta de tempero sobre a peça de carne. — Por que o rei lhe odeia tanto, a ponto de querer casar-te com uma plebeia?
— Essa é uma questão, . Uma das que eu mal sou capaz de explicar. Talvez seja porque nunca quis terras ou títulos. Talvez porque não sou viril o bastante ao seu ver. Talvez porque eu sempre preferi a minha família materna. São muitas razões, lhe garanto. — Falou ele, no mesmo tom de piada, deixando a menina ainda mais curiosa.
— Você é um homem muito peculiar, então — respondeu a jovem, enquanto descascava alguns legumes para o guisado. — Me parece perfeito, até. Não entendo como a humildade pode ser considerada errada.
— A humildade é uma virtude impossível à realeza — falou Franz.
me parece humilde o bastante — respondeu, arqueando as sobrancelhas. Franz começou a observar todo o ambiente – as ervas penduradas sempre à mão, as panelas de cobre e as de ferro, os recipientes e ingredientes. não era a única a trabalhar na cozinha, mas com certeza era a criada com mais liberdade.
— Eu sempre tive vontade de conhecer o mundo, milady. Um dos homens com quem navego costuma dizer que sou o mais espanhol daquela embarcação. Meu próprio tio sempre me lembra que de todos os herdeiros, fui o primeiro a interessar-me pela navegação, pela exploração nas colônias — falou Franz, parecendo genuíno. — Mas a verdade é que eu não tinha como viver sendo quem sou perto de .
Naquele momento, largou os legumes e voltou-se para Franz, que ainda sorria. Ela não entendia os sentimentos que o rapaz demonstrava, já que ele nunca lhe pareceu ser alguém inseguro.
— Mas o ama! — Exclamou a jovem, como se aquelas palavras pudessem mudar algo.
— E eu o amo, milady. Perguntou-me porque o rei me odeia a ponto de querer casar-me contigo... — Falou Franz, enquanto girava um anel prateado no dedo mindinho. — É porque eu não sou como , nunca serei. Meu pai me considera uma falha, e Vossa Majestade não assume suas falhas.



Durante a viagem entre a capital e Lasstrec, foi reconhecido por seus súditos e muitas reverências foram feitas. O inverno já se mostrava presente nos campos das fazendas e o príncipe sabia que, caso a estação fosse bastante rigorosa, não levaria muito tempo para que os menos abastados não tivessem mais comida em suas mesas e aquilo com certeza seria o estopim necessário para que a revolta chegasse de vez a Windland. Conforme chegavam ao ducado, uma maior aglomeração de pessoas ocupava menores espaços - barracas, animais, crianças e carroças ocupavam as vias e apesar da confusão visual, parecia existir certa ordem naquele caos. A comitiva do príncipe causou certo alvoroço nos súditos, que deixavam de realizar suas tarefas para saudar o rapaz que em breve estaria no trono. Por fim, resolveu descer do cavalo, preocupando os soldados que o escoltavam e chamando a atenção do duque, que claramente desaprovava tal ato - porém, o príncipe não se importou. O rei não aceitava os toques* do povo, mas os recebeu de bom grado – ver seu povo de perto era algo que ele há muito havia feito, e só naquele momento entendeu o porquê de a mãe estar sempre próxima aos súditos em igrejas e orfanatos. Pensou em e percebeu que estava fazendo o certo – aquele era seu povo e seu dever. De repente, fazia total sentido a abdicação de seu pai. Fazia total sentido que ele fosse coroado, que os lordes mudassem e que a monarquia acompanhasse a Revolução.

*"O toque real" era uma crença popular de que um monarca poderia curar um súdito de qualquer mal apenas com um toque.

— Morte ao Rei James! — Gritou alguém da multidão. Os guardas de se puseram em frente ao príncipe, que gentilmente os dispensou. Ele subiu novamente no cavalo enquanto todas as pessoas o encaravam em um silêncio quase que palpável e começou a cavalgar até que estivesse às vistas de todos. Os coches do duque e da princesa permaneciam no mesmo lugar e sabia que deixaria o lorde furioso, porém aquilo não importava. Aquele homem não importava.
— Entendo a vossa frustração perante o rei. Nosso mundo vem mudando de formas antes inimagináveis e Windland precisa mudar também. Estou aqui para anunciar que em breve, serei coroado. O rei abdicará do trono em meu favor e esse sempre foi o momento que eu mais temi, porém esse é o meu destino e só me resta aceitá-lo. — As pessoas olhavam para ele com um misto de esperança e confusão. não sabia se poderia dizer ao povo que o pai abdicaria, mas essa era a única forma de acalmá-los. Era a única forma de mostrar que o regime mudaria, que os tempos estavam mudando. De repente era impossível entender o que era dito, já que todos falavam ao mesmo tempo. Os súditos pareciam estar sem saber o que pensar e discutiam entre si tudo o que havia sido dito pelo príncipe, que ainda os observava. — Peço, portanto, que escolham um para representá-los em uma assembleia. Quero ouvi-los.
— Vossa Alteza irá nos ouvir como o Rei faz? — Inquiriu uma mulher, sem medir suas palavras. Toda aquela revolta era justa e sentia isso. Por mais que não vivesse a mesma vida de seus súditos, o príncipe discordava com o governo de seu pai e devia muito disso à .
— Quero saber o que pensam justamente para não cometer os mesmos erros que o Rei — explicou , assustado e impressionado com o modo como o povo se erguia perante a Coroa. Ali haviam jovens e velhos, mulheres e homens e nenhum deles sabia o que esperar do rapaz que em breve estaria no trono.
— A princesa será uma rainha ainda melhor que Vossa Majestade? — Inquiriu uma mulher, fazendo com que os questionamentos se voltassem para Margaret. A presença da garota assustava , porém ele fez um sinal para que dois dos guardas que o acompanhavam fossem até a carruagem de Margaret. Aparentemente, a princesa recusava-se a deixar o veículo e viu-se na obrigação de intervir - todo o povo o observava, esperando para ver como ele lidaria com a garota. Ele, portanto, desceu do cavalo e foi até a carruagem de Margaret, que discutia com os guardas.
— Venha — disse ele, sem delongas, abrindo a porta do coche. Margaret fingiu não ouvir.
— Ora, , não serei a rainha consorte? Para que preciso me dar a esse trabalho? — Inquiriu ela, emburrada.
— Talvez esse trabalho seja importante, caso queira que sua cabeça continue ligada a seu corpo. — O rapaz estava impaciente e agradeceu silenciosamente aos Céus quando Margaret por fim deu-se por vencida e saiu da carruagem. Quando sua cabeleira ruiva foi vista pela multidão começaram os sussurros. Todos olhavam para a futura rainha com curiosidade e pensou ter visto um misto de insegurança e medo no olhar infantil da garota, porém no mesmo momento os olhos dela passaram a fitar todas aquelas pessoas com um quê de frieza e indiferença. O silêncio pareceu então congelar o momento – nada foi dito nem por e nem pelo povo. Todos os súditos apenas encaravam Margaret com expressões indecifráveis, e naquele momento, o rapaz desejou que fosse ali ao seu lado.

[...]


Quando finalmente chegaram à propriedade do duque – um castelo antigo, medieval, remanescente da França feudal – a comitiva de possuía mais um integrante. Um rapaz pouco mais velho que o próprio príncipe havia sido escolhido como representante do povo numa reunião com o futuro rei de Windland. Criados abaixavam-se em reverências e o resto da família do duque aguardava a chegada de seu príncipe.
— Vossa Alteza — uma mulher mais nova que a própria rainha fez uma reverência. soube que era Genevieve, a duquesa de Deverlaux. A mulher, apesar de jovem, constantemente caía adoentada e por isso, a mais velha de suas filhas sempre a representava.
— Lady Genevieve — cumprimentou , beijando-a na mão. — Espero que a senhora esteja mais forte.
— Oh, querido, já estive melhor — a mulher riu. Margaret desceu da carruagem com a filha do duque em seu encalço. As duas pareciam reclamar de algo, e a princesa ainda encarava com fúria, coisa que não o aborrecia. A garota parou ao lado dele e fez uma reverência à duquesa.
— Lhe apresento Margaret, minha noiva — disse ele, com certa indiferença. Ela sabia que aquele comportamento o irritava, portanto, estava decidida a perpetuá-lo. Margaret aguardava ansiosa para que os planos de seu pai fossem postos em prática.
— Ora, que honra conhecê-la, Alteza — disse Genevieve, com um grande sorriso. A princesa retribuiu o ato com uma certa graça infantil que poderia enganar qualquer um. —Vamos, entrem! É uma honra tê-los conosco essa noite.
Por fim, todos adentraram o local, incluindo o plebeu que representaria o povo na assembleia com . O rapaz estava sendo escoltado por guardas mesmo estando desarmado e parecia desconfortável naquele ambiente, tal qual o príncipe herdeiro. O duque parecia estar sempre à espreita, como uma cobra prestes a dar o bote. Por mais que tivesse sido criado para não sentir medo, ainda não conseguia ser o Príncipe idealizado por Maquiavel; ele não tinha certeza se era amado, mas sabia que não era temido. O rapaz, como o jovem que era, também se revoltava perante as injustiças do regime e sonhava em mudar o mundo. A coroa era o que lhe diferenciava do jovem plebeu que o acompanhava em nome da revolução, mas também era uma arma para lutar contra as injustiças que faziam sofrer a população. não sabia como, mas tinha certeza que lutaria com e pelo seu povo. Como se tivesse conhecimento de todas as coisas que passavam pela mente do príncipe herdeiro, o duque de Lasstrec aproximou-se e sussurrou:
— Sugiro que escolha o lado mais forte, . Ou sangue jovem irá ser derramado.



8

Ducado de Lasstrec – Windland

Enquanto criados levavam Margaret ao que seriam seus aposentos naquela noite, a princesa repassava as palavras de seu pai em sua mente. As invasões inglesas na Escócia eram cada vez mais recorrentes e o monarca escocês deixara bem claro que Margaret deveria apressar-se em fazer sua parte do plano – ou então a sua Escócia seria subjugada aos malditos protestantes ingleses. A princesa não sabia ao certo como o faria, já que a rainha e não pareciam mais interessados em seguir com o acordo que fora assinado antes mesmo de Margaret falar sua primeira palavra. Quando finalmente chegou ao quarto – tão diferente das suas acomodações no palácio real – Margaret pediu que os criados a deixassem para que pudesse limpar-se antes do jantar. Sozinha, a princesa passou alguns momentos observando seu próprio reflexo no espelho. Apesar da pouca idade, Margaret já parecia mais mulher que menina graças aos espartilhos, ao rouge e todos os demais artifícios que lhe foram atribuídos com a adolescência. Ao chegar em Windland, a princesa escocesa ainda fantasiava que seu casamento arranjado seria como em um conto de fadas, porém a realidade se mostrou muito mais amarga. Com o desprezo de , Margaret finalmente entendeu que não nasceu para ser a rainha consorte. Ela nasceu para ser a Imperatriz.
— Vossa Alteza, o jantar está servido. — Anunciou uma serva. Margaret levantou-se e a seguiu. As paredes de pedra do castelo de Lasstrec lembrava a princesa dos castelos das Highlands escocesas e ela sentiu um aperto no peito quando lembrou que jamais voltaria a ver sua terra natal. O salão de jantar já estava ocupado por toda a família do duque e por , que se mantinha calado no lugar que lhe fora designado. Por muitas vezes, Margaret desejava gritar até que o príncipe finalmente percebesse tudo o que estava em jogo ali – apesar de a distração dele facilitar com que os planos de seu pai se realizassem, Margaret não conseguia lidar tão bem com o fato de que ele não a odiava ou a temia. Ele não se importava com ela o suficiente para odiá-la. Porém, Margaret ainda era a noiva e sentou-se ao lado do rapaz, sorrindo com doçura para a duquesa e os demais presentes. Aparentemente, ela era a única que faltava para que o jantar fosse servido, já que não houve espera para que os criados começassem a fazer seu trabalho. Um banquete havia sido preparado para eles, com ensopados, assados e vinhos bons o suficiente para Margaret desconfiar que eram de alguma reserva especial do duque.
— Espero que a comida tenha sido de vosso agrado — disse a duquesa. — Eu não esperava receber uma visita oficial hoje.
— Está divino, senhora. — Respondeu , dando um gole no vinho. — Eu poderia me alimentar desse ensopado por semanas. O tempero está magnifico.
— Ora, Alteza! Que honra ouvir isso! O príncipe pode ter certeza que a cozinheira responsável será elogiada.
— Oh, , por que você não vai elogiar a cozinheira? — Margaret questionou, sorrindo doce. a ignorou. — Sabe, vossa Graça, meu noivo gosta tanto de comer que tem uma cozinheira como amante!
quase engasgou-se com o vinho que bebia quando ouviu Margaret dizer aquilo. Todos na mesa se calaram e a princesa sorria como tola, propositalmente, sabendo que havia irritado . A duquesa olhava para o príncipe com certo constrangimento no olhar, o duque continuava comendo como se aquilo não fosse nada demais.
— Fiquei sabendo que vosso irmão voltou a corte, Alteza — murmurou a duquesa, tentando apaziguar a tensão que surgira no recinto.
— Voltou, sim. Mas por pouco tempo. Franz aproveitou a vinda de meu tio à Espanha para visitar nossa mãe.
— O príncipe Franz gosta muito de , a cozinheira de que falei. Estou surpresa, vossa Graça, todos em Windland parecem tratar os servos com muita gentileza, quase igualdade! — Falou Margaret, ainda rindo com falsa inocência. Ela percebeu soltando os talheres e fechando as mãos, como que para se autocontrolar. A duquesa voltou toda sua atenção para o prato de comida a sua frente, como se fosse a coisa mais importante ali. Os criados presentes no recinto assistiam à cena com a ânsia de alguém que devora um romance, ansiosos para o que viria em seguida. Margaret bebericou de sua taça enquanto observava a todos os presentes. Ela dirigiu-se para o noivo: — Falei algo errado, Alteza?
— Creio que seja hora de me recolher. Senhora, a comida estava ótima, por favor, deixe que seus criados recebam este elogio. Boa noite. — Falou , sem nem mesmo pedir a licença dos demais. O príncipe largou o guardanapo sob a cadeira e deixou a sala com as reverências dos servos. Margaret limpou os lábios e sorriu, reverenciou seus anfitriões e partiu atrás do noivo. Quando os dois estavam longe da sala de jantar, Margaret apressou o passo e parou na frente de , impedindo que o rapaz fosse até seus aposentos.
, eu te aborreci? O que eu disse que lhe irritou tanto? — Questionou ela, dócil.
— Cale-se, Margaret. — Murmurou ele, empurrando-a para o lado. Ela rapidamente se colocou a frente dele novamente.
— Eu não falei nenhuma mentira, falei? — Questionou ela, enrolando uma mecha do cabelo. — Mas você não quer que ninguém saiba que o honrado, o obstinado príncipe não cumpre acordos políticos. Não quer que seus súditos saibam que você é um tolo que se deixa levar por uma plebeia suja.
não pensou duas vezes antes de segurar Margaret pelos braços, apertando a princesa com uma certa força. Ela se surpreendeu com o ato, porém manteve firme o sorriso doce em seu rosto angelical.
— Não toque no nome de com esses seus lábios venenosos, Margaret.
, você está sendo injusto. Eu não estou falando nada além da verdade. Você não cumpre seus acordos e vê como verdade absoluta qualquer coisa que sua meretriz lhe diz. — Falou Margaret, séria. Ela ajeitou as golas do gibão de e sorriu doce novamente. — Mas eu não me importo, querido. Eu sou apenas sua noiva e você não me deve satisfações. Serei a boa esposa cristã que fui criada para ser, seguindo tudo o que me foi ensinado.



Franz estava morrendo de tédio. Sem por perto, não havia muito o que fazer e o mais jovem dos príncipes já sentia falta de sua rotina nas colônias. Além disso, estava desacostumado com o inverno europeu – na América, os invernos eram amenos comparados aos de Windland. Ele sentia falta do Sol lhe queimando a pele, da liberdade ilimitada de quando não estava em um palácio de seu pai. O rapaz estava questionando se deveria ou não contar à os planos do rei, porém a moça já parecia tão furiosa com tudo o que vinha acontecendo que ele não sabia se deveria lhe dar mais um motivo. No entanto, ele estava interessado em conhecê-la mais, afinal, qualquer um que irritasse o rei era um aliado em potencial para Franz. Por fim, ele decidiu ir até a cozinha, onde os trabalhos do dia já estavam encerrados. Ele saberia que encontraria por lá, mesmo que ela não precisasse de fato.
A corte de James III era diferente de todas as outras que Franz já conhecera em sua vida. Os únicos moradores do palácio eram os membros da família real – o rei, a rainha e – e os criados. Os demais nobres viviam nos arredores e só vinham ao palácio quando solicitado. Conhecia o mínimo da história de sua família para saber que era assim desde que Windland se formara. O palácio, portanto, era vazio e silencioso e todos os olhos que acompanhavam Franz eram os de seus ancestrais, presentes nas telas gigantes que adornavam as salas do local. Conforme chegava nas áreas mais restritas, os quadros e tapeçarias diminuíam e as paredes tornavam-se nuas, de pedra pura. Era mais frio e mais escuro.
ainda estava na cozinha, como Franz imaginava. A moça arrumava os utensílios sem pressa e não percebeu que estava acompanhada. Ele arrastou um banco até o balcão onde trabalhava e por fim obteve a atenção da moça.
— Vossa Alteza deseja alguma coisa? — Perguntou ela, solícita.
— Desejo não morrer de tédio — ele riu. — Imaginei que talvez pudesse conversar com a senhorita.
— Não sei se temos assunto para conversar — murmurou ela, com toda sua atenção voltada para os temperos que arrumava.
— Meu pai quer que eu a leve comigo. Para que viva nas colônias, longe de .
Aquelas palavras fisgaram a atenção de , que largou o que fazia e finalmente olhou nos olhos do príncipe.
— A rainha sabe disso? — Perguntou a jovem, baixinho.
— Não sei — admitiu Franz. — Mas eu já me recusei a fazer isso. Não tema, . Eu não seria capaz de fazer isso com você. Ou com meu irmão.
— Por que você se importa? — Questionou ela, voltando a atenção para os temperos.
— Porque apesar de ter escolhido viver longe daqui, conheço todas as vantagens da corte, mesmo que para um plebeu.
— Aparentemente, eu não tenho esse poder de escolha. — Murmurou , rindo ironicamente. Ela deixou o trabalho de lado e sentou na frente de Franz, no outro lado do balcão.
— Eu também não o tive — disse o príncipe. — Meu pai me deu um ultimato: ou eu viveria de acordo com suas regras ou deveria sair daqui para nunca mais voltar. Foram dias difíceis, onde eu não sabia como poderia escolher entre duas coisas que me pareciam tão complementares. Como poderia, uma criança escolher entre ela mesma e sua família?
— Eu não entendo o que se passa na realeza — falou ela, realmente convicta daquilo. — Nesses momentos, agradeço por ser plebeia.
— Os plebeus que não conhecem a corte sonham em fazê-lo. É quase mítica a forma como quem está lá fora imagina o que está aqui dentro dessas paredes. É por isso que Paris está queimando. A diferença entre a nobreza e o povo é cada vez mais perceptível e a Igreja já não consegue mais justificar isso. — Explicou Franz.
— Vossa Alteza acredita que isso irá se espalhar? Acha que isso pode influenciar no reinado de ?
— Já está se espalhando, , e vai influenciar no reinado do meu irmão. Nunca houve um levante tão significativo do povo contra o rei e isso me assusta. pode acabar com as revoltas ou dar mais forças a elas.
— Eu não consigo imaginar um governo sem um rei — disse a jovem. Franz sorriu.
— Eu consigo. A vida nas colônias me mostrou como é isso. Nenhum rei consegue governar sequer seu próprio território, que dirá os impérios do Novo Mundo.
— Como é? — Inqueriu , curiosa. — Quero dizer, o Novo Mundo.
— A América é... Completamente diferente de tudo que eu já vi. Há densas florestas, quentes e úmidas. Há inúmeras praias, completamente diferentes de tudo o que existe na Europa. O clima é quente, quase não há neve. A chuva é abundante, o sol é quente, os animais são incríveis. Quando eu cheguei lá pela primeira vez, questionei se não estávamos no paraíso. Imagine o verde mais vibrante, o azul mais intenso, o amarelo mais brilhante... Imagine todas as cores melhoradas, mais vivas... A América é assim.
— Não consigo imaginar tanta natureza selvagem — refletiu ela. — Para ser sincera, há muito que não consigo imaginar.
— Mas o Novo Mundo não é imaginável — disse Franz. — Minha descrição não é nem um pouco verossímil. Não há palavras que possam descrever a América.
— Vossa Alteza fala como se o Paraíso fosse o Novo Mundo. — riu. Franz levantou-se e pegou uma garrafa – que provavelmente estava ali para algum preparo – e dois canecos. Ele serviu do vinho para os dois e ergueu seu copo em um brinde. pegou a bebida e repetiu o gesto. — Isso era parte do jantar de amanhã.
— Se alguém questionar, fale que fui eu. Pode me culpar. — Franz sorriu e bebeu um gole. fez o mesmo.
— Com certeza o farei — disse ela. — Ou então Joanne achará que eu roubei.
— Todos nesse palácio já me odeiam, querida , me culpe sem pensar.
— Ora, não são todos que lhe odeiam. A rainha e são prova disso, por exemplo.
— Trabalho com a possibilidade de eles me odiarem secretamente. Afinal, sei que não sou um exemplo de filho ou de irmão. Não tenho interesse na política, não sigo os preceitos cristãos... Sou tudo o que o filho de um rei não deve ser.
— A linha que separa a virtude do vício é tênue — ponderou . — Fui batizada e nunca matei ninguém, mas estou condenada ao Inferno por ser amante de seu irmão.
— Ora, então os boatos são verdadeiros! — Falou Franz, como se aquilo realmente fosse novidade, fazendo com que a jovem risse também. — Acreditava que isso tudo era apenas uma invenção de para não se casar com Margaret.
— Talvez ele esteja me usando para isso — refletiu ela. — O que é compreensível. Isso ainda não havia passado pela minha mente.
— Se esse for seu único pecado, talvez sua estadia no Inferno seja mais breve que a minha. Talvez o Diabo simpatize com o amor e não aprove casamentos arranjados.
bebeu todo seu vinho de uma só vez e serviu-se de mais. Franz observava a garota e reparava em todos os detalhes – os cachos volumosos, a pele oliva, os lábios tingidos de vinho. Ela lhe lembrava de garotas espanholas – das quais ele tinha grande conhecimento – e aquilo bastava como motivo para dar razão e apoio ao irmão.
— Você acredita que irá mudar quando se tornar rei? — Perguntou , baixinho. O vinho já lhe deixava com a mente turva e Franz parecia mais destacado que o resto do ambiente.
— O peso da coroa muda todos que a usarem. É o preço a ser pago, a maldição da qual eu tento fugir. A política é cheia de linhas invisíveis e um passo em falso faz com que tudo mude.
— Você tem medo da coroa? — Perguntou ela. Franz se serviu de mais vinho, quase fazendo com que o caneco transbordasse. Não estavam mais agindo de maneira polida.
— Só um tolo não a teme. O maior erro da realeza é esquecer que são feitos da mesma matéria que os seus soldados, criados, escravos. No final, todos sangramos.
— Se eu fosse rainha, distribuiria todo o tesouro da nobreza para o povo. — Falou sorrindo.
— Por menos que isso o Rei quer lhe exilar no Novo Mundo — falou Franz, rindo. — Milady deveria tomar cuidado com o que diz.
— O que você faria caso fosse rei? — Perguntou ela, dando um longo gole do vinho.
— Acabaria com a religião e depois com a coroa — disse ele.
— Isso seria o caos — sussurrou ela.
— Garanto que sua proposta de redistribuição de ouro lhe renderia muito mais problemas. A religião e o governo só têm como função nos domar com regras que nem sempre seguimos. Sem isso, você e poderiam ficar juntos, por exemplo. Não haveriam títulos que os separassem e nem mandamentos que condenassem vossa libertinagem. No entanto, distribuir a riqueza de homens como o Duque de Lasstrec causaria ódio em todos os nobres, o que resultaria em sua linda cabeça sendo separada de seu lindo corpo. — Franz explicou aquilo como se tudo fizesse parte de um plano verdadeiro. Ele sentiu vontade de rir, pois não conseguia imaginar seu irmão falando besteiras como aquelas. E era exatamente por isso que era o herdeiro.



Quando acordou, todos os guardas de sua comitiva já estavam prontos para marchar de volta ao palácio. O príncipe rapidamente trocou-se e deixou os aposentos no castelo de Lasstrec para trás. Margaret estava no salão principal conversando com a duquesa e quando o viu, acenou debochada. A anfitriã sorriu e fez uma reverência para , ainda sem graça por conta dos acontecimentos do jantar.
, querido, mandei que preparassem um desjejum para vocês antes de partirem. Por favor, não se acanhe.
— Se Vossa Graça permitir, aceito que embrulhemos para levar. A viagem levará certo tempo e eu preciso agir depressa com relação ao povo. — Explicou , lembrando-se do rapaz que falaria em nome do povo.
— Claro, querido. Mandarei que providenciem comida para todo o grupo.
— Obrigado, senhora. Agradeço também pela hospitalidade e peço perdão por qualquer aborrecimento que essa visita lhe tenha causado.
— Mande meus cumprimentos a sua mãe, .
— Com certeza o farei. — Respondeu ele, fazendo um gesto para que Margaret deixasse o local. A princesa continuou tagarelando por alguns minutos antes de finalmente levantar-se, sendo acompanhada pela duquesa. estava ansioso para ouvir tudo o que o povo tinha a dizer, e queria que também o fizesse. Ele precisava dela para intermediar tudo aquilo, ele precisava fazer a coisa certa e para isso, dependia de .
Quando ele deixou o castelo, tudo já parecia pronto para a partida. O cavalo de já estava selado, os demais soldados já estavam montados nos seus próprios animais. Um embrulho com pães quentes e algumas frutas foram entregues ao príncipe por uma criada. Margaret abraçava a duquesa e reverenciava o duque antes de adentrar a carruagem. O sol já estava alto quando a comitiva finalmente partiu de Lasstrec.

[...]


— Vossa Alteza? — Chamou uma voz rouca. não precisou se virar – o rapaz já estava ao seu lado. Apesar de meio assustado, ele parecia conseguir controlar o cavalo.
— Não sei o seu nome ainda — ponderou .
— Louis, Vossa Alteza. Chamo-me Louis.
— Estou muito ansioso para nossa conversa, Louis. Talvez não acredite em mim, mas eu realmente estou disposto a lhe ouvir e entrar em um acordo — disse , sério. Haviam passado muito tempo no meio dos campos de plantação e agora já podiam ver as pequenas propriedades que surgiam às margens da Estrada do Rei, indicando que Faureburgo, a capital, estava próxima.
— É bom que Vossa Alteza esteja disposto a nos ouvir, mas não é o príncipe que nos preocupa. A maioria do povo deseja que o Rei James abdique do trono e que os demais nobres percam seus títulos. Principalmente o Duque de Lasstrec. — Disse Louis.
— Louis, essa conversa exige um local mais apropriado — disse o príncipe. — Há mais alguém que precisa estar presente. Concordo que há um certo abuso de poder por parte da nobreza, mas as correções devem ser bem pensadas antes de serem executadas, ou tudo irá por água a baixo.
— Vossa Alteza... — Começou o rapaz. ergueu uma mão, lhe pedindo que parasse.
— Preciso que confie em mim ou nada será feito — disse o príncipe, desejando chegar logo. A pequena capital de Windland já surgia ao redor da comitiva do príncipe e os súditos já acenavam e reverenciavam o futuro rei. As revoltas não haviam começado ainda, mas não demorariam para estourar em Faureburgo. Seria necessária uma reforma que agradasse não apenas ao povo, mas também aos nobres e não tinha a menor ideia de como fazer isso.



O café da manhã já havia sido servido, porém continuava na cozinha preparando o almoço. Não havia muito mais a ser feito, mas desde que Franz havia lhe dito que o rei planejava mandá-la para a América, precisava de um tempo para si mesma. Ela desossava uma galinha quando foi surpreendida por Tomaz.
quer que o encontre na biblioteca — resmungou o rapaz, amargo. Havia tempo desde a última vez que vira o irmão, já que ele parecia estar a evitando.
— Por que você está me evitando? — Questionou ela, indo até a tina de água para lavar as mãos. Ela também retirou o avental e soltou os cabelos.
— Você já está carregando o bastardo dele? Pois deveria. Antes que ele se canse de você. — Falou Tomaz, roubando um pedaço de pão da mesa.
— Tomaz, o que está acontecendo? Por que você vem me tratando dessa forma? — Inqueriu , realmente irritada. Eles eram a única família um do outro, e a moça não entendia o porquê de tal tratamento.
— Você deu a todos motivos para isso, minha irmã. Você nem sequer disfarça! — Sussurrou ele. — Mas isso não é mais da minha conta. Vá até a biblioteca, já que você é a meretriz dele.
não soube o que responder, apenas acenou com tristeza para o irmão e deixou o recinto. Ela utilizou os caminhos e passagens destinadas aos criados e ao chegar na biblioteca, encontrou conversando com um rapaz desconhecido, que lhe reverenciou. Ela estranhou.
— Vossa Alteza — saudou ela. virou-se e sorriu.
— Louis, essa é — apresentou o príncipe. — , esse é Louis. Ele está aqui para representar o povo.
não soube o que dizer e percebeu. Ela sorriu genuinamente, afinal, ele havia prometido que iria ouvir os súditos e era exatamente isso o que ele estava fazendo. Ele sorriu de volta, um daqueles sorrisos que refletem no olhar e chamou ela para a grande mesa.
— É um prazer conhecê-la, milady — falou o rapaz, Louis. Ele parecia ter a idade de ou um pouco mais – não saberia dizer, já que ele tinha as marcas de sol e de tempo que os plebeus normalmente carregavam.
— Ora, não sou lady nenhuma — sorriu ela. — Mas o que você faz, Louis? Como chegou à liderança do povo?
— Eu trabalho em um jornal, senhora — disse ele, mesmo sendo claro que era mais nova que ele. — Meu senhor está seguindo os iluministas franceses e foi assim que eu me uni ao povo.
— E o que exatamente o povo deseja? — Perguntou , contido. percebeu que ele perguntava aquilo com medo da resposta.
— A principal reivindicação é que o Rei abdique do trono e que os nobres percam seus títulos — explicou o rapaz.
— E por que essa ideia veio de Lasstrec? — Questionou , curiosa.
— O duque vem cobrando preços cada vez mais altos para tudo em Lasstrec, senhora. Muitos dos camponeses ainda usam as terras do duque para tirar o sustento e para quase tudo há taxas... Nossas moedas são todas para manter o luxo no castelo. — Explicou Louis, com certo teor de raiva na voz. Era perceptível que ele estava se contendo para falar.
— Isso é permitido? — perguntou ao príncipe. negou com a cabeça. — O Rei precisa saber.
— Ele não fará nada, — sussurrou . — Por mais que isso não seja certo, meu pai depende do duque.
— Alteza, eu não sei quais serão os próximos passos do povo. Não sei quando e se chegaremos ao que Paris se tornou. Por ora, todos apoiam Vossa Alteza, mas isso pode mudar.
— Eu tenho planos, Louis. Eu não aprovo muitas das coisas que acontecem em Windland, tampouco tenho afeto por alguns dos nobres, mas esse não é meu reinado. Não há nada que eu possa fazer além de estar ao lado do povo. — Disse .
, você não pode fazer isso! — Protestou . — Não podemos fechar os olhos agora.
— Não há nada que eu possa fazer! Eu não tenho poder algum para impedir o duque.
— Mas você é o herdeiro, pelo amor de Deus! , nós precisamos fazer isso, precisamos nos unir ao povo! Precisamos dizer isso à Rainha, precisamos de ajuda. — falou, sincera. Ela não fazia aquilo apenas pelo medo de ver morto, mas também porque, apesar de tudo, ainda era uma plebeia.
— Louis, por quanto tempo você consegue conter o povo? — Perguntou , novamente em seu tom usual.
— Não por muito, Alteza.
— Eu estou ao seu lado, como pôde perceber por , mas preciso de tempo para agir.
— Louis, nós estamos ao seu lado, ao lado do povo. A Rainha com certeza também apoiará a vossa luta quando souber do que se trata, mas precisamos de aliados. Eu sou plebeia como você e estou lhe dando minha palavra. Deixaremos que saiba do nosso progresso e antes do final do inverno resolveremos essa questão.
olhou para ela questionando tudo aquilo, mas ela sorriu para tranquilizá-lo.
— Podemos confiar em você? — Concluiu . mantinha-se quieto, imerso em seus próprios pensamentos. Louis a observava com certa curiosidade.
— Lhes dou minha palavra — murmurou o rapaz, fazendo uma reverência em seguida.
— Quando chegar a hora lhe encontraremos, então — respondeu , estendendo o braço para um aperto de mão que foi prontamente aceito pelo plebeu. sorriu para o príncipe e antes que pudesse se despedir, um dos guardas escoltava Louis para fora da biblioteca.
— O que faremos agora? — Perguntou a jovem, abraçando o príncipe. a puxou para seu colo e escondeu o rosto no pescoço de .
— Você chamará Franz e eu chamarei minha mãe — disse ele. — Eu preciso de um exército espanhol, pois vou marchar contra meu pai.





Continua...



Nota da autora: Ai, eu tô com sentimentos divergentes por esse capítulo. Tivemos algumas interações bem ~importantes~ e espero que vocês tenham curtido! As coisas tão começando a acontecer e eu não vejo a hora de saber o que vocês vão achar dos planos que eu tenho pros próximos capítulos! Aliás, sei que nosso casal tá meio apagadinho mas juro que em breve vamos estar acendendo isso aí hihi
Por fim, tenho algumas fics para indicar pra vocês! São minhas favoritas, só as que eu amo mesmo e que têm o importantíssimo e internacionalmente reconhecido SELO DE APROVAÇÃO DA DUDSS!!! São elas:
I Won't Forget You
SNUFF
Nunca Fui Beijada
06. Glasgow
05. She Moves in Her Own Way
14. Sway
Mixtape: Immigrant Song






Nota da beta: Tivemos interações mega importantes, meu Deus hahahah, essa conversa final foi tudo, uma possível guerra contra o próprio pai? Por favor, não mate os pp’s é só isso que eu peço hahaahah! Continue! <3
Ah, meu Deus, você é maravilhosa, tô vendo dois bebês meus ai nas suas indicações, e só quero agradecer de todo o meu coração! Obrigada, amiga <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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