Última atualização: 16/11/2017

Prólogo

— Estão guilhotinando a nobreza francesa, James — vociferou Christina, furiosa. A rainha andava pela sala inquieta, enquanto o marido apenas saboreava um cálice de vinho e nada dizia sobre as afirmações da mulher. Já havia lido aquelas cartas dezenas de vezes e nada podia fazer. — E depois que tenham acabado com a monarquia na França, farão o mesmo por toda a Europa! E não será diferente em Windland.
— Não há nada que possamos fazer. Deixe que a França queime. Temos nosso povo sob controle, e o casamento de irá apagar qualquer faísca de revolta. — Disse James, por fim. A mulher servia-se de uma exagerada dose de vinho na esperança que isso lhe desse uma solução para todos os possíveis problemas que poderiam surgir com a revolta do povo francês. Os camponeses de Windland poderiam revoltar-se igualmente; era certo que James III e Christina não eram como os monarcas da França, mas estavam no trono há anos suficientes para que o povo se cansasse.
— É impossível que a noiva chegue aqui antes do inverno. — Disse uma terceira voz. Christina e James voltaram-se à porta, que tinha sido aberta silenciosamente. O rapaz encarava os pais, sério. — Mandei uma carta à Margaret, pedindo-lhe que não se arrisque em partir da Escócia.
— Pois deveria tê-la incentivado a sair de lá. A França queima e vocês querem se aquecer! Quando irão entender que podemos ser os próximos a termos as cabeças separadas dos corpos? — Gritou Christina, despertando a atenção de algumas criadas que passavam por lá.
está certo. Ao sair da Escócia, Margaret passa a ser de nossa responsabilidade e se qualquer mal lhe acontecer perderemos o casamento e então teremos de fato com o que preocupar-nos. — falou James, finalizando sua dose de vinho logo após dizer isso. O rei levantou-se e saiu da sala, deixando a esposa e o filho a sós.
— Você irá se casar com Margaret, não importa o quanto tente mudar isso. A princesa está prometida a você desde antes mesmo de nascer. — finalizou Christina, sentando-se à mesa do conselho do rei e voltando a verificar as cartas e relatórios sobre a situação da França. A rainha era muito presente nos assuntos políticos e econômicos de Windland – foi ignorada e subestimada por todos, até que seu plano econômico fez com que a fome no país cessasse.
— Pobre princesa — lamentou o rapaz, saindo do aposento logo em seguida. Desceu as longas escadarias e dirigiu-se ao jardim, onde convocaria qualquer um da Guarda Real para um duelo de espadas. Era assim que ele se libertava de todo o ódio.



saiu da enorme cozinha do palácio e soltou os cabelos, antes presos em um coque. Procurava por sol e ar fresco, já que seu ambiente de trabalho era cheio de aromas pesados e com pouca luz natural. Dirigiu-se aos jardins da rainha, onde havia o lago e campos verdes que pareciam infinitos – e eram, até as muralhas. Ouviu o som característico de aço contra aço, e procurou o lugar de vinha o barulho. Ela gostava de observar os soldados da Guarda Real treinarem, mesmo que seu irmão, Tomaz, não aprovasse tal ato. Eles não sabiam de onde tinham vindo e quem eram seus pais. Só sabiam que eram irmãos por causa da semelhança nos traços e cabelos cacheados, e porque uma das amas, a mais velha delas, dizia tê-los criado quando a fome devastava Windland, fazendo com que centenas de camponeses definhassem. Talvez tivessem sido trocados por comida ou abandonados na floresta, mas a senhora nunca lhes disse. E agora pouca diferença fazia: Tomaz estava na Guarda Real e cozinhava para o rei e rainha de Windland. Tinham um teto, roupas e o que comer; era o que importava.
Quando finalmente encontrou de onde vinham os sons de espada, surpreendeu-se em ver um dos meninos em treinamento duelando com , o príncipe herdeiro. Ela sentou para observá-los, sem preocupar-se em ser invisível. A luta parecia quase que séria, porém o rapaz da Guarda era mais feroz e violento, enquanto parecia mais gracioso, porém igualmente mortal. A moça não entendia de luta, mas poderia ter certeza que os dois ali conseguiriam se manter vivos em uma batalha.
— Parece que estamos sendo observados, majestade — gritou o menino da Guarda, como se perguntasse se devia ou não tirar a jovem dali. levantou-se e antes mesmo que pudesse sair correndo, ouviu uma segunda voz.
— Fique aí, senhorita. Só assim poderemos saber de nosso desempenho, uma vez que enquanto luto não tenho total visão de meus movimentos. — disse , parando o duelo. Ele foi até a jovem, que se abaixou numa reverência perfeita.
— Sua alteza — disse ela, vendo nada além das botas de . Ao levantar-se, olhou direto nos olhos do príncipe. Ela nunca havia o visto tão de perto e pensou que isso nunca aconteceria.
— Senhorita — cumprimentou , beijando-a na mão. Ela nunca tivera contato com a realeza e agora o herdeiro do trono de Windland lhe beijava a mão. Ela sorriu. — Diga-me, estou bom o suficiente para combater quaisquer revoltosos que ousem desafiar-me?
— Está ótimo, senhor. — disse . — É muito bom com a espada. Move-se graciosamente bem. Conseguiria fatiar um homem em dois sem fazer sujeira.
— Então a senhorita entende de cortes — disse , rindo. Seus cabelos eram pretos e levemente ondulados, com um certo volume que fazia toda a diferença. sentiu vontade de externar tais pensamentos, mas não ousou. — Deve estar responsável pelos deliciosos pratos que me alimentam tão bem, estou certo?
— De certo, alteza. — Ela disse, orgulhosa. A coisa que mais gostava de fazer era cozinhar, mesmo que com outros dez criados e a velha Joanne gritando-lhes ordens e desaforos. Era a mais nova da cozinha, em razão de seu talento nato para as artes culinárias. O rei em pessoa já lhe agradecera pelo melhor guisado de cordeiro, feito por ela, com apenas quinze anos de idade.
— Fico muito agradecido, sendo assim. Devo dizer que aprecio muito os doces, então, surpreenda-me com sua melhor receita. — disse , fazendo uma leve reverência e saindo em seguida. riu e voltou a cozinha, pensando em que doce poderia deixar o futuro rei de Windland satisfeito.



1

Quando Tomaz chegou à cozinha, os preparativos para o café da manhã já aconteciam. O perfume do pão de grãos e queijo favorito da rainha estava por toda parte. decorava pequenos bolinhos com geleia de limão. O soldado gostava de ver a irmã trabalhar – nada parecia perturbá-la ali, ela tinha uma sintonia com os alimentos jamais vista por ele. Ela pareceu notá-lo.
— Tomaz — disse ela, sem parar sua atividade. — Venha, experimente esse bolinho. Preciso que esteja perfeito.
— E quando não está, irmãzinha? — disse ele, surrupiando um dos bolinhos. Jamais ousaria misturar limão e morango numa massa de bolo, mas havia feito aquilo com maestria, sem ficar doce demais ou ácido demais. — Está perfeito, ácido e adocicado.
— Era exatamente nisso que estava pensando! — Comemorou a menina, olhando orgulhosa para os bolinhos que cobriam uma parte da mesa. Os outros criados trabalhavam nos arredores, mas sem jamais atrapalhá-la. Por ordens de Joanne.
— Rob te viu ontem pela tarde, no lago. Disse-me que estava perturbando o príncipe. Não deve fazer isso, está me ouvindo? — disse Tomaz, rapidamente. — Deve ser invisível a eles. Não fique convencida por elogios à sua comida. Não é nada além de sua obrigação.
— Por Deus, Tomaz! Só fiquei curiosa em saber quem estava duelando! E para sua informação foi o príncipe que me dirigiu a palavra. — disse , finalizando com raspas de limão os bolinhos. — Se me dá licença, preciso pessoalmente entregar esses bolinhos para sua alteza real.



não sentia vontade de levantar essa manhã, portanto, permaneceu deitado em sua cama, lendo um dos milhares de livros de política que seu pai lhe cobrava. Nesse, era dito que o bom governante não poderia parecer cruel à população, mas também não poderia parecer gentil e o rapaz parou a leitura para refletir se estava no caminho indicado por aquele filósofo. Seus pensamentos foram interrompidos por um guarda.
— Alteza — saudou o guarda. — Há uma garota da cozinha insistindo em lhe entregar bolinhos. Já lhe disse que o senhor nada pediu. O que devo fazer?
— Deixe-a entrar — disse , rindo. Ele levantou-se da cama e antes mesmo de vestir a camisa, a moça do dia anterior surgiu em seu quarto, carregando uma bandeja repleta de bolinhos decorados com morangos.
— Sua alteza, bom dia — saudou ela. — Acredito que irá gostar de meus bolinhos.
não pôde acreditar que a menina havia de fato feito o que ele sugeriu. Ele pegou um dos bolinhos e mordeu, sem jamais parar de olhá-la. Eram doces e ácidos. Morango e limão combinavam perfeitamente. Ele logo pegou outro e ainda mais alguns.
— Como se chama, senhorita? — perguntou, entre uma mordida e outra. Não conseguia parar de comer os bolinhos.
, sua majestade — respondeu ela, satisfeita por ter notado que o príncipe havia apreciado sua receita.
— Senhorita , esses bolinhos têm gosto de verão. São os melhores bolinhos que já comi em toda a minha curta existência. Esses bolinhos encerrariam guerras. Minha ordem, como seu príncipe, é que faça esses bolinhos até que todos nesse palácio tenham provado pelo menos um desses. Desde criados até minha mãe. Por favor, faça isso, certo?
— Levaria dias até que eu conseguisse alimentar todos aqueles guardas, alteza. — disse , sem graça. — Pode dar um desses a um de seus guardas e um à rainha.
— Deveríamos fazer uma indústria de bolinhos em Windland — ele riu. — E então ninguém seria infeliz.
— Não sei se minha comida tem esse poder, alteza — disse , baixinho. — Acho que devo voltar à cozinha, ou então meu irmão ficará furioso.
— Fique — Ele diz. continua ali. — Falarei com ele depois e pedirei perdão por tê-la roubado. Conte-me sobre você.
sentiu-se ainda mais sem graça, já que sua vida se resumia à cozinha e vez ou outra, alguns beijos com algum dos garotos da guarda. Não que isso importasse para .
— Eu e Tomaz fomos criados por uma das amas. Acredito que nossos pais nos trocaram por comida ou algo assim, não sei. E aí logo descobriram meu talento para cozinhar e desde então estou na cozinha. E meu irmão está na Guarda. — disse , rapidamente.
— Mas o que gosta de fazer? Além de cozinhar — perguntou , interessado.
— Ler, andar a cavalo. Nadar no lago e ver os rapazes da Guarda treinarem. Por isso o encontrei, senhor. Gosto de vê-los duelando, as espadas – mesmo as de madeira entrando em choque. As expressões nos rostos deles. É maravilhoso de se ver, quase como uma dança.
— Percebi que gosta de ler, . — disse . — Fala como personagens de livros. Nunca estive numa batalha real, na guerra, então não posso lhe dizer se é de fato maravilhoso de se ver. Mas os treinamentos são, tem razão. Seria esnobe chamá-la para me ver treinar novamente e assim ressaltar o quão mediano eu sou como espadachim?
— Eu adoraria, senhor. — disse , animada. Ela deixou os bolinhos em cima de uma mesinha que viu e esticou o braço, como se segurasse uma espada e com a arma invisível fingiu atacá-lo. logo entrou na brincadeira, transformando também seu braço numa espada e investindo contra , que passou a rodopiar pelo quarto, rindo e por vezes fingindo também investir contra o príncipe, que rapidamente a surpreendeu, segurando-lhe os braços com uma mão e a outra simulava uma espada no pescoço da moça. Ele aproximou a boca do ouvido da garota e sentiu um leve aroma de especiarias vindo do cabelo dela, e como ele pôde constatar, sua pele estava ligeiramente arrepiada.
— E agora, milady, está morta. — Sussurrou o rapaz ao ouvido de , que encarava o teto, levemente inclinada a ele. Os olhos da moça eram grandes e sua boca rosada estava meio-aberta, atraindo instintivamente . A jovem era mesmo muito linda, e por um instante ele achou absurdo o fato de ela estar escondida nas cozinhas do castelo, um ambiente quase tão hostil e regrado quanto o campo de treinamento da Guarda Real de Windland. Ele a soltou vagarosamente e ela demorou para virar-se completamente, como se soubesse dos pensamentos que passeavam pela mente do príncipe. As poucas partes visíveis do corpo da moça eram belas; o espartilho acinzentado, uniforme comum de todas as criadas, acentuava as curvas de . A pele morena da menina contrastava lindamente com os tons frios da roupa que vestia. O cabelo cacheado estava preso com um objeto metálico, que lembrou de uma espada. Ele aproximou-se dela e soltou seus cabelos, que caíram graciosamente emoldurando seu lindo rosto com cachos indisciplinados. o observava calada, com uma expressão indecifrável, mas o rapaz tinha quase certeza que tudo aquilo era proposital.
— Você não deveria estar na cozinha — disse ele, sussurrando. — Há muita beleza em você para estar na cozinha.
riu, sem quebrar o contato visual.
— Obrigada, meu príncipe. Mas não há nada que eu possa fazer senão cozinhar. E a senhora Joanne deve estar estranhando meu sumiço. Lamento muito deixá-lo, mas devo ir. — Ela abaixou-se numa reverência perfeita, sorrindo de um jeito meio doce e meio sensual para o rapaz, que nada disse. Ele pegou a mão levemente áspera de e a beijou demoradamente e ela sorriu, correndo em seguida em direção às portas dos aposentos do herdeiro de Windland, que voltou a sentar-se na cama. Sentia-se estranhamente interessado em , intrigado com a coincidência de ter encontrado aquela jovem tão bela que o atraía tanto. Só ao pensar em atração, lembrou-se que sua noiva que nunca vira na vida senão por uma pequena gravura logo estaria em sua casa. Ele não gostava da ideia de casar-se com Margaret, uma vez que associar-se a Escócia não lhe parecia uma boa saída para apagar qualquer faísca que a revolução dos franceses plantasse em Windland, porém, seu dever como príncipe herdeiro era casar-se com a jovem estrangeira. Ele suspirou alto e voltou a vestir seus trajes, sempre olhando os bolinhos que deixara a mesa e relembrando do aroma de especiarias que emanava da jovem e seu lindo rosto. Sua vontade, no momento, era ir à cozinha tentar decifrar qual era o enigma que a menina colocara em seus pensamentos, mas seu devaneio foi interrompido quando ouviu a porta de seus aposentos ser aberta – por um instante imaginou que estivesse ali novamente, porém era sua mãe, vestida em um tom de verde que realçava os olhos da mesma cor, que pareciam quase sobrenaturais o encarando.
— Mãe — disse , indo até Christina e beijando-lhe a testa. O rapaz era ligeiramente mais alto que a rainha.
— Margaret está chegando. — Anunciou a rainha, sem demonstrar qualquer expressão. — Eu mesma mandei parte da minha guarda para escoltá-la. Em breve a monarquia francesa irá cair, e precisamos do nosso povo ao seu lado.
— Como pretende trazer o povo para o nosso lado quando está fortalecendo a monarquia? — Perguntou , realmente tentando entender o que a mãe estava fazendo. — Fortalecendo a monarquia e trazendo uma estrangeira para reinar em Windland.
, eu sou uma estrangeira. Eu sou uma estrangeira que salvou o seu país da fome. Sou a estrangeira cujo conhecimento foi motivo de piada para todos os homens da nobreza, acostumados com mulheres sem opinião que só serviam para lhes esquentar a cama a noite. Tenho certeza que Margaret não é menos do que eu era quando cheguei aqui, assim como ela, para casar com um estranho em um lugar desconhecido e totalmente longe de casa.
— Perdão, mãe. Não foi o que quis dizer. — disse o rapaz. — O fato é que não acho útil uma aliança com os escoceses, que estão longe de nós. Há princesas austríacas, espanholas...
— O acordo com os escoceses foi feito muito tempo atrás, hijo. Não se pode quebrar alianças por caprichos seus. Um bom rei desfaz alianças apenas quando não há outro jeito. Para seus caprichos há sempre um modo de contornar a situação.
— Quando ela chega? — Ele perguntou, derrotado.
— Está a caminho. Lembre-se, querido. Isso é pelo nosso país, pela nossa família. — disse Christina, pegando a mão do filho. — Como rainha entendo isso, mas como mãe me parte o coração casar meu menino com uma mulher que não conheço. Apenas rezo a Deus que ela lhe dê filhos saudáveis e seja uma boa rainha.
Christina saiu do recinto e pensou na garota que estava chegando e a única coisa que pôde fazer foi desejar que ela o intrigasse tanto quanto o intrigou.



Antes de voltar a cozinha, foi a procura de Tomaz. Ela sentia-se estranhamente animada após o tempo que passara com o príncipe. Claro que sabia que provavelmente se houvesse algum interesse da parte de era apenas sexo; não iria se iludir com isso. Por um momento, ela imaginou que pudessem ser amigos improváveis, mas isso era apenas sua mente de menina pensando alto. Logo viu o irmão, parado próximo a porta da sala do trono, onde havia uma inusitada movimentação. Ela pôde ver seus monarcas sentados em seus tronos, ouvindo nobres e fazendo qualquer outra coisa que fizessem além de beber vinho.
— Olá, Tomaz — disse , encostando-se na parede ao lado do irmão.
— Finalmente você apareceu — disse ele, sério. — Onde você estava? Joanne me perseguiu a sua procura.
— Eu estava com sua alteza, o príncipe de Windland. — disse ela, rindo. — disse que meus bolinhos têm gosto de verão e mais, que acabariam com guerras.
, já lhe disse mais cedo e reforço: evite o príncipe. — Ele olhou para o salão onde os nobres se reuniam. — O príncipe fica com as ladies e você fica com a cozinha.
— Não, Tomaz, não há nada demais, por Deus! — disse , rindo. — Ele até me convidou para vê-lo treinar novamente. Acredito que e eu seremos bons amigos. Assim como você e Rob.
Tomaz pareceu alarmado quando a irmã falou isso e logo rebateu:
— Você e o príncipe não têm nada a ver, . Sua única ligação com ele é a alimentação.
— Imagine só, Tomaz, se me torno a maîtresse-en-titre de ! — disse a garota, apenas para perturbar o irmão – o que funcionou, já que ele olhou furioso para ela.
— Cale sua boca, ! Caso você não saiba, a princesa Margaret está chegando ainda essa semana. Estão dizendo que antes do inverno o príncipe se casará. Agora, deixe de falar besteiras e vá atrás de Joanne, tenho certeza que na cozinha há algo para você fazer.
— Por Deus, Tomaz, eu estava só brincando. Não quero ser amante de e tenho pena da pobre princesa. Não vai ser fácil reinar após a rainha Christina, e além de rainha ser nora da mulher. O único filho dela...
, pare de falar da vida alheia e vá trabalhar — disse Tomaz, ligeiramente alterado. — Não é da sua conta o relacionamento da princesa com a rainha Christina. Vá atrás de Joanne, pois seu único título nesse palácio é o de cozinheira.
fez uma careta e foi correndo até a cozinha, sentindo-se subitamente irritada após a conversa de Tomaz, dizendo que a princesa está chegando. Por alguns momentos, voltou a fantasiar – agora como sendo a amante do príncipe e não apenas sua amiga. Logo em seu primeiro contato ela pôde o ver sem parte das roupas e não era difícil imaginar o resto; ela sorriu e torceu para que ele também não se esquecesse dela.



2

caminhava tranquilo pelos jardins do castelo. A cozinha ficava numa área além do prédio principal, ligada apenas por um túnel subterrâneo do qual o jovem não tinha muita certeza de onde saia exatamente, por isso optou pelo caminho mais certo. Estava indo ali em busca de , para levá-la ao treino que prometera dias atrás. Havia chamado um dos melhores mestres de armas para treiná-lo e agora sentia-se confiante para mostrar a moça seus dons. Durante esse tempo, não deixara de pensar em como a jovem cozinheira o intrigava, ao mesmo tempo que imaginava ser surpreendido a qualquer momento pela princesa Margaret. Ao chegar na cozinha, que era muito maior do que ele se lembrava, logo os criados começaram a fazer-lhe reverências. Ele a viu logo, concentrada em amassar uma aparentemente pesada massa de pão. Um rapaz da guarda real a observava enquanto roubava alguns biscoitos.
— Lady — disse , surpreendendo aos dois. Os irmãos fizeram reverências ao mesmo tempo. — E você deve ser Tomaz.
— Sim, sua alteza. — disse Tomaz. — Peço perdão por , ela consegue ser inconveniente quando quer. Já lhe disse que não era para incomodá-lo, mas ela não parece me ouvir...
— Tomaz, creio que quem vai incomodar aqui sou eu — disse , rindo. — Lady , pode me acompanhar?
— Não sou nenhuma lady, meu príncipe — disse , rindo. — E preciso pôr esse pão para assar, ou então a senhora Joanne irá cortar minhas mãos com esse cutelo.
— Não há problema, esperarei aqui; não quero ser o motivo para que suas talentosas mãos sejam separadas de seus lindos braços — disse o príncipe, observando a cozinha. — Lembro-me de quando era criança e passava horas aqui tentando roubar comida. A senhora Joanne nunca dizia nada, mas só a expressão dela me assustava o suficiente para não ousar pegar nem um pedaço de pão.
— A senhora Joanne me recrutou quando me pegou brincando em sua cozinha, aos treze anos. Antes disso, eu só ajudava as criadas em tudo. Depois, nunca mais me deixaram sair da cozinha, nem quando a rainha procurava por uma nova criada. — Disse , colocando o pão para assar. — Esse pão assará lentamente... para que fique duro por fora e macio por dentro.
— Tomaz! — Gritou uma terceira voz. Senhora Joanne adentrou a cozinha sem nem perceber o príncipe intruso. — Saía já daí! Ah, ! Se não fosse tão boa já teria lhe tirado da minha cozinha! Quantas vezes já lhe disse que não quero guardas aqui?
— Perdão, senhora — disse Tomaz, apressado. — Não incomode demais o príncipe, .
Ao ser citado, a senhora logo viu o príncipe sentado no banco rústico frente ao balcão. Ela fez uma reverência demorada – muito provavelmente por dificuldades da idade.
— Meu príncipe, o que está fazendo aqui? Faltou-lhe algo? Alguma das loucuras que essa garota inventa lhe incomodou? — ela dirigiu o olhar a — Eu lhe disse, menina, não misture limão e morango, isso não faz sentido!
— Não, senhora, muito pelo contrário. — disse , sorrindo irresistivelmente. — Me encantei com as loucuras gastronômicas de Lady e resolvi ver de perto como a mágica acontece.

[...]


Quando finalmente conseguiram sair da cozinha, e caminharam em silêncio pelo jardim. Ela limpava as mãos nervosamente na saia do vestido e provavelmente estava mais suja do que imaginava. Ela não tinha pensado que voltaria a vê-lo e agora estava nervosa por saber que ele estava ali, vendo uma das piores versões de . Ela não queria que ele a visse como uma simples criada – o que não fazia sentido, porém o vestido sujo de farinha, o cabelo emaranhado de suor e o cheiro característico de comida a denunciavam.
— Você parece com seu irmão — disse ele. — Quem é o mais velho?
— Tomaz — disse . — Ele não gosta que eu tenha contato com o senhor. Diz que estou procurando um jeito de arrumar problemas, ser inoportuna. Ele acha que qualquer coisa que eu faça resultará nele sendo expulso da Guarda Real.
— Pode ter certeza que não está sendo inoportuna; muito provavelmente quem está atrapalhando sou eu, Lady . Seu irmão não será expulso da Guarda. — disse , limpando um pouco de farinha do rosto da jovem. Ela sorriu.
— Ouvi dizer que vai se casar — disse ela, subitamente. — Com uma princesa escocesa.
— Prefiro não pensar nisso até o dia do casamento — ele admitiu, com um semblante triste. — Ainda mais porque tenho pensado numa lady que não é a princesa Margaret.
— Isso me parece um problema, alteza. — disse , observando o lago que havia no jardim. — Mas com certeza a princesa é mais bela e mais inteligente que qualquer outra lady de Windland. Bem, talvez não tão inteligente como à senhora sua mãe, mas pode ser uma boa princesa.
— Ela não é mais bela ou mais inteligente que a lady em questão. Bem, talvez tenha conhecimento de idiomas e pode ser uma boa princesa, pálida e inalcançável. Porém, essa lady que lhe falo é a mais bela que já vi em minha vida, e tenho certeza que conhece tanto de artes quanto qualquer outra princesa — ao dizer isso, inclinou-se para , que lhe olhava com aquela mesma expressão indecifrável – os lábios entreabertos e os olhos grandes, curiosos. Ele não precisou fazer mais nada; a jovem beijou-lhe de uma vez, sentindo seus lábios, seus dentes e sua língua, tudo de uma vez. Os braços dela abraçavam o pescoço do príncipe, que a segurava pela cintura, pressionando-a levemente. Quando o ar lhes faltou, ela abaixou a cabeça repentinamente, temendo por ter interpretado errado tudo o que o príncipe dissera, já que ela não era nenhuma lady, porém antes mesmo de dizer qualquer coisa, afundou a mão nos cabelos cacheados da moça, voltando a lhe beijar devagar e fazendo-a quase derreter-se ali mesmo. Ele mordiscava e beijava os lábios de , vez ou outra lhe invadia a boca com sua língua, devagar e firme. Nada passava pela cabeça de nenhum dos dois; nem que os demais criados vissem ou até mesmo se o próprio rei os flagrasse aos beijos no jardim – não importava. Por dias, pensava ininterruptamente sobre ; sobre seus cachos indisciplinados, seu sorriso tímido, seus olhos brilhantes. Pensava em como aquela garota parecia ser algo totalmente alheio a cozinha, apesar de todo seu dom – não fazia sentido tamanha beleza em alguém que ficava noite e dia na cozinha, com facas e fogo. Era como se estivesse em um campo de batalha, e aquilo não fazia sentido algum. Com certa dificuldade, o príncipe partiu o beijo e encarou a jovem, que ainda tinha os olhos fechados. Ele sentia-se misteriosamente atraído por ela e se fosse um crédulo, desconfiaria que aquilo era um feitiço, tamanho o magnetismo que parecia puxá-lo para a cozinheira.
— Me perdoe, senhor — sussurrou ela. — Eu... não pude resistir, mas peço perdão por não o ter feito.
— E eu agradeço a todas as entidades sagradas e ao universo por não o ter feito — respondeu ele. — , a senhorita não tem ideia do quanto eu ansiei por esse momento.
— Deus irá me punir por nutrir tamanho desejo por um homem comprometido; porém, o Senhor há de me perdoar, pois sabe que não o faço por mal. Não posso ou consigo resistir, mesmo sabendo que o que faço é pecado. Perdoe-me, Senhor, pois eu peco.
Por alguns instantes, os dois ficaram calados – sentaram-se ao chão, presos em seus próprios pensamentos. temia por qualquer um que tivesse lhes visto, pois logo se tornaria fofoca. Temia, pois sabia que a noiva de estava chegando e que paixão nenhuma mudaria o destino ou quem eles eram. Ele era o príncipe herdeiro de Windland e ela era uma reles cozinheira e facilmente poderia ser substituída. segurou a mão de , como se soubesse os seus pensamentos. Ele a pressionou levemente, e a garota retribuiu o gesto. Não sabia o que se passava em seus sentimentos, mas sabia que devia afastar-se de o quanto antes, pois eles não pertenciam ao mesmo universo. Ele em breve seria seu rei e nunca nada acabava bem para as amantes, principalmente as plebeias. Princesa Margaret poderia matá-la tão fácil como se mata uma galinha.
acariciou os cabelos de enquanto o encarava de perfil; era tão belo, com sua pele clara salpicada de pequenas sardas invisíveis a uma certa distância - mas não para – os olhos intensos e a barba por fazer. Ele não tinha nada de seus descendentes espanhóis ou dos de Windland; era totalmente único, como uma composição artística.
— Eu preciso ir, meu senhor — sussurrou ela. — Preciso ir, e me vou com o coração partido, pois dói em mim saber que nunca poderíamos nos relacionar. Você tem sua princesa e eu não posso lutar contra isso.
Antes mesmo que o rapaz pudesse dizer algo, saiu correndo em direção a cozinha. Desejava que ninguém tivesse visto aquele beijo e que aquilo existisse apenas na memória dos dois – para que não fosse denunciada a princesa escocesa. Quando chegou a cozinha, seu pão ainda estava longe de ficar pronto. Sentou à mesa e dedicou-se a fazer qualquer coisa que fosse preciso, desde afiar facas até lavar panelas. O movimento na cozinha era intenso por conta do almoço, mas ela já havia feito sua parte e milagrosamente a velha Joanne não havia a cobrado de fazer qualquer coisa além do pão, talvez pelo elogio feito pelo príncipe.
O dia então passou-se sem mais acontecimentos. Não tinha visto Tomaz desde cedo e não se preocupou em procurá-lo. Ela não saiu da cozinha até que todas as atividades estivessem finalizadas e foi aos seus aposentos já passando da meia noite. As outras criadas com as quais dividia o quarto já dormiam com velas apagadas e foi difícil tirar suas roupas de trabalho no breu em que o quarto estava imerso – ela precisou tatear a fria parede de pedra para encontrar sua simples cama de palha e ao deitar-se, tentou imaginar sua família perdida, os culpou por tê-la deixado nesse castelo; pensou em John, um dos guardas do rei com o qual havia compartilhado a cama três ou quatro vezes, não tinha certeza. Pensou em Margaret, a noiva de . não sabia ao certo como ela se parecia, mas em seus pensamentos ela sempre possuía a aparência de uma deusa grega, cuja visão era mortal para qualquer mundano. E afinal de contas, era o que era – era uma mera mortal em meio a realeza, e a princesa poderia de fato ser fatal como veneno para ela, por isso, antes de dormir jurou que esqueceria qualquer coisa que houvesse pensado sobre . Ele era seu futuro rei, e nada além disso.



havia bebido apenas um cálice de vinho – ou um barril, não tinha certeza. Seus pensamentos embriagados estavam presos em e nada além dela – imaginava como teria sido se, mais cedo, houvesse ido atrás da moça, impedindo-a de temer qualquer coisa. Ele desejava tê-la levado para seu quarto e feito dela sua, antes mesmo que Margaret chegasse e arruinasse tudo. Depois do beijo de , não conseguia nem pensar em tentar amar ou no mínimo desejar a princesa prometida – seu dever o chamava e ele apenas clamava por , que não era lady e sequer possuía um segundo nome. . Gostava de como o nome soava em seus lábios, sua voz bêbada se demorava na sílaba do meio. . Soava quase como poesia ou talvez ele tivesse apenas embriagado demais. Para , poderia ser sua lady, sua rainha. Nunca havia sentindo-se tão tolo pensando numa mulher – o dever sempre viera em primeiro lugar, mas a moça da cozinha havia mudado isso repentinamente. Ela havia conjurado uma chama no corpo de que parecia ter vida própria e recusava se extinguir – era como se aquilo tivesse consumido toda a parte racional dele e o transformado em um garoto bobo guiado pelos seus desejos carnais. Porém, estava decidido: precisava de apenas mais uma vez, precisava sentir seus lábios, sua língua e sua pele apenas mais uma vez para decorar a sensação – precisava senti-la próxima a ele novamente, precisava se entregar ao desejo antes de se entregar ao dever. Foi assim que ele adormeceu – milagrosamente sem sonhos; mas sabia que se sonhasse, a garota de cabelos cacheados e olhos seria protagonista em todos.

[...]


Quando acordou, ele não sabia ao certo que horas eram e sua cabeça doía como o inferno. Bebeu um gole da água que estava disposta ao lado de sua cama e levou tempo para notar que não estava sozinho. Christina estava sentada numa cadeira na sacada dos aposentos do filho. Ele não precisou dizer nada – ela sabia que estava acordado e, provavelmente, sabia que estava bêbado.
— Nunca me importei com as garotas pelas quais se interessa — disse ela, voltando ao quarto. — Lembro-me de Lady Catherine, Lady Lana, Lady Arianne.... Ouvi sussurros sobre uma tal . Está envolvido com alguma prostituta?
Bem, claro que Christina iria supor que era uma prostituta, apenas pelo fato de ela não ser nobre. voltou-se a deitar e fechou os olhos.
— Ela não é uma prostituta — esclareceu ele.
— Então há uma — afirmou Christina. — Tenha cuidado, mi hijo. Não a deixe destruir sua vida.
— Não vou fugir do dever, se é isso que te preocupa — disse ele, cansado. Ele sentiu vontade de discordar dela e dizer que jamais destruiria sua vida e que ela mesma fugiu antes que fizessem algo que fosse além de beijos, mas não o fez pois nada mudaria a cabeça de Christina com relação ao casamento. não tinha certeza se a mãe se compadecia com o fato de Margaret ser uma estrangeira em Windland ou se realmente apenas queria que o filho seguisse o que lhe foi ordenado aos 5 anos de idade.
, deve achar que não percebo que está infeliz — disse a rainha como se estivesse lendo a mente do príncipe. A mulher sentou-se na cama ao lado dele. — Sei que não é a sua vontade, mas sei também que a realeza tem muitos luxos, mas escolhas pessoais raramente são um deles. Eu não escolhi sair de casa, seu pai não escolheu casar-se comigo, porém nós o fizemos. Deixei a Espanha e vim a um lugar pequeno, frio e desconhecido. Conheci seu pai em menos de uma lua do casamento, mas não havia nada que eu pudesse fazer, então abracei meu novo lar e deixei o antigo em minhas lembranças... Reino em Windland como se fosse filha dessa terra, e reino orgulhosa de saber que sou querida. Dei herdeiros não só a meu marido, mas também a meus súditos, que festejaram seu nascimento como nunca imaginei que o fariam; fui amada por ter concedido a Windland um herdeiro, menino saudável e forte e após isso os surpreendi novamente quando salvei essas pessoas de morrerem famintas, como salvaria minha família – quando passei a frente de seu pai, que ao passo que é um excelente estrategista, é um péssimo economista. Não subestime Margaret – ela pode ser uma boa esposa. Certificarei-me disso.
não respondeu e quando a mãe percebeu isso, saiu do quarto silenciosamente. A cabeça do rapaz já parava de doer e ele levantou-se, pedindo a um criado água para banhar-se. Novamente, pensou em e a desejou, com ainda mais fervor do que fizera no dia anterior – decidiu, por fim, que iria atrás dela, uma última vez antes da chegada de Margaret.



estava desde a madrugada cortando vegetais em pedaços praticamente do mesmo tamanho. Não conseguira dormir e decidira adiantar todo o trabalho do dia, então cortou os legumes para um ensopado e preparou a massa para fazer uma torta doce. Era a rainha quem determinava o cardápio e para a sorte de , ela havia o feito na tarde anterior. A jovem sentiu-se duplamente sortuda por não precisar servir o que cozinhava, já que teria de encarar novamente e o único jeito de reprimir seu desejo era ignorando completamente a existência do jovem herdeiro do trono de Windland. Ela sentiu falta do irmão mas temeu sair da cozinha e encontrar mais pessoas, então pediu ao universo que levasse o irmão ali. Nada aconteceu.
Ela voltou sua atenção às frutas silvestres que dispunha em sua bancada: amoras, framboesas, morangos e mirtilos banhados a suco de limão, manteiga e açúcar. Não havia mais o que fazer, então decidiu abrir a massa e finalizar a torta. Antes mesmo que pudesse começar, foi surpreendida por Joanne. Junto da velha senhora, estavam todos os criados da cozinha.
— A princesa Margaret chegou da Escócia — anunciou à velha, fazendo com que um burburinho começasse entre os criados presentes. — Ela chegou com guardas de nossa Rainha Christina, uma chegada discreta. A princesa está em seus aposentos e deseja uma refeição. , o que há para ela?
encarou perplexa a mulher que lhe perguntava, sem saber o que responder. A noiva de estava ali e agora e mais, devia alimentá-la.
— Estou preparando a sobremesa — disse ela, baixinho, voltando à torta. Sentia-se curiosa para ver a princesa, mas tinha medo de encontrá-la com . Aparentemente, se alguém os viu juntos, foram cuidadosos a ponto de não comentar sobre isso perto de ; ela não se demorou em finalizar a torta e logo foi a procura de Tomaz.
Demorou a encontrá-lo, porém o achou junto de Rob. Os dois conversavam sobre qualquer coisa enquanto se alimentavam com frutas a beira do lago e os interrompeu antes mesmo que pudesse entender o assunto.
— A princesa chegou — Anunciou ela. — Estou curiosa, quero vê-la.
— Sim, eu sei, e esse foi o único motivo pelo qual ainda não lhe procurei. — Respondeu Tomaz, visivelmente irritado. — Estão todos comentando sobre você, , está satisfeita?
— Não entendo, o que estão dizendo? Só pode ser sobre meus bolinhos que fiz... — foi interrompida pelo choque da mão forte de Tomaz em seu rosto. Ela levou a própria mão até o local onde o irmão a atingiu e olhou para ele, com uma expressão de incredulidade. — Por que fez isso?
— Pare de se fazer de tola, ! Acha que ninguém me contou? Eu bem sei porque quer ir atrás da princesa! Se você voltar a agir como uma meretriz, será dessa forma que irei te tratar de hoje em diante! — vociferou Tomaz, furioso de um jeito nunca visto antes pela irmã. Rob mantinha a cabeça abaixada, como se não quisesse ser notado ali.
— Irá se arrepender de ter me batido, Tomaz! Irá se arrepender, está me entendendo? — gritou , correndo desesperadamente de volta a cozinha. Antes mesmo de chegar, notou uma tina cheia de água e foi ali mesmo que molhou o rosto para limpar as lágrimas e diminuir a vermelhidão no local onde o irmão a acertara. não foi até a cozinha, sentou-se nos estábulos e ficou ali, na companhia de dezenas de cavalos – provavelmente até os cavalos da própria Margaret estava ali. Estava furiosa por ter sido chamada de meretriz quando tudo o que fez foi fugir de e reprimir seu desejo justamente por não querer agir como tal. Agora, sabia que todos tinham conhecimento do beijo e mais, que estavam aumentando o que acontecera e intensificando um boato. sentiu-se mais sozinha do que nunca – nem seu irmão estava ao seu lado mais, porém ela limpou as lágrimas que percorriam seu lindo rosto e rumou, decidida a um lugar que já havia decorado o caminho.
Ao adentrar a ala dos aposentos da família real, todos os guardas e criados a encararam, mas sem jamais lhe dirigir a palavra. Quando chegou ao local que queria, bateu na porta duas vezes, ignorando completamente os guardas que estavam por perto. Quando ele abriu a porta, olhou firmemente em seus olhos a encarou igualmente sem dizer uma única palavra. E então , sem quebrar o contato visual, disse:
— Perdoe-me, Senhor, pois eu vou pecar.



3

Antes mesmo que pudesse dizer qualquer coisa, o beijou com tamanha ferocidade que o espantou, porém, o rapaz retribuiu com a mesma intensidade. Os braços dela o abraçavam no pescoço enquanto os dele pressionavam a cintura fina da jovem. Eles beijavam-se desesperadamente, como se a vida dependesse daquilo, e de fato, dependia. Ao mesmo tempo em que o beijava, desamarrou a camisa branca que vestia e precisaram partir o beijo para que ele se livrasse da peça.
— O que deu em você? — Sussurrou ele, segurando o rosto da menina.
— Eu preciso do senhor, meu príncipe — respondeu ela. — Eu soube que sua noiva chegou e também soube o que tem sido falado sobre mim... Eu estava tentando não entrar em problemas, mas minha reputação já foi definida por todos.
— Eu te quero tanto, — disse ele, voltando a beijá-la. — Te quero desde o momento que a vi.
Ela riu e voltou a beijá-lo, mordendo seu lábio inferior e acariciando as costas dele; ela mal conseguia ordenar seus pensamentos – não se importava com Margaret, com Tomaz ou até mesmo com Deus. As mãos firmes do rapaz eram ágeis ao desfazer o laço do espartilho de ; até mesmo para desfazer o trançado da peça. Quando o fez, não precisou de muito esforço para se livrar do restante das roupas dela e quando o fez, observou a jovem a sua frente, cujo corpo poderia pertencer a uma obra renascentista, com suas curvas acentuadas e pele perfeita. Ela deitou-se na cama de , convidando-o para fazer o mesmo, onde voltou a beijá-la, nos lábios, pescoço, ombros e seios. Ele retirou as roupas que lhe restavam mostrando a todas as suas intenções, que ela acatou de bom grado, invertendo as posições e ficando por cima. Beijou-o na boca, nos ombros, no pescoço e peito e quando terminou de fazê-lo, parou para observar o jovem rapaz sobre ela, que a olhava com uma expressão mista de desejo e algo que ela não sabia explicar. Ela sorriu, voltando a beijá-lo intensamente e por mais óbvio que aquilo parecesse, sentiu-se extasiada com ele dentro dela. Com movimentos quase que humanamente impossíveis ele a possuía – e a intensidade com que ele o fazia poderia facilmente indicar o quanto ele a desejava, pois ambos eram demasiadamente intensos. emitia sons guturais e encarava com o olhar de uma fera faminta e ela sequer pensou nisso, já que suspirava e gemia involuntariamente, tamanho era o prazer que sentia consumando o desejo arrebatador que sentia pelo herdeiro de Windland. Pele contra pele, o suor dos dois misturava-se, tal qual seus corpos, que naquele momento eram um só. sussurrava o nome da jovem com sua respiração ofegante e as unhas de estavam cravadas na pele dos ombros do rapaz quando ela chegou em seu ápice, sentindo seu corpo dar leves espasmos e sua visão ficar levemente embaçada, como se ela estivesse bêbada. Alguns segundos depois, caiu ao seu lado na cama, igualmente extasiado. Seu corpo estava suado e só naquele momento notou o quão belo ele era. Não tinha o abdômen definido como os soldados da Guarda Real, mas possuía músculos ligeiramente notáveis, principalmente quando respirava. A garota não se moveu após terminarem, e sentia-se ligeiramente culpada por ter se deitado com um homem comprometido, mas o desejo exalava por seus poros e sabia que com acontecera o mesmo. Enquanto refletia, o rapaz virou-se para ela, acariciando-a no rosto, seios e braços. Ela não sentia nenhuma vontade de sair dali.
— O que fez comigo, Lady ? — Inquiriu ele. — Meu dever com meu povo sempre veio em primeiro lugar, e agora estou completamente entregue a ti, desejando-a em todos os momentos do dia.
— Sua lady é outra, meu senhor — disse ela, com um tom ligeiramente desanimado. — Não sou lady, nunca serei. Mas sua princesa... bem, sua princesa será ideal para o senhor, lhe dará belos filhos e reinará feliz ao seu lado.
— Um homem nunca quer o que lhe é dado. — Refletiu . — Margaret é minha obrigação desde que tenho cinco anos de idade. A princesa e eu nunca nos vimos, mas ouvimos cobranças sobre o nosso casamento desde sempre.
— Você... perdoe-me. O senhor já era comprometido aos cinco anos? — Perguntou , imaginando-se nessa situação. Se fosse uma princesa, seria de onde? Certamente uma estrangeira, já que não possui a pele clara do povo de Windland.
— Sim. Margaret é cinco anos mais nova que eu; ainda uma criança, acredito. A corte é diferente com príncipes e princesas e tenho certeza que Margaret acredita com veemência que sou o amor de sua vida — disse ele, com um tom de pena na voz. — Eu, na verdade, nem sei o que fazer com relação a ela. Não a vi ainda, e tenho medo de procurá-la.
— Deixe para conhecê-la no jantar que a senhora sua mãe mandou fazer hoje em comemoração à chegada da princesa — sugeriu , virando-se para encarar o príncipe. — Eu bem sei que deveria estar preparando este jantar, mas não consigo parar de pensar no senhor desde ontem, alteza.
, eu só não sonhei com a senhorita porque estava bêbado demais para tal coisa — respondeu ele, rindo. Por mais que Margaret estivesse no mesmo palácio que e , era quase imperceptível quando ele possuía aquela garota em seus braços, nua.
Ela sorriu e o beijou, lentamente. Enquanto seus lábios se tocavam, não havia nada que perturbasse ; nem o casamento iminente ou seu futuro como rei de uma nação em meio a uma onda de revoluções. Era como se estivesse em um paraíso nos trópicos, onde só haviam ele e a moça que o beijava e desejava ardentemente. Quando o ar lhes faltou, ela sorriu para ele, que lhe acariciou o rosto macio. tinha as feições diferentes da maioria do povo de Windland – não era tão branca quanto eles e nem tinha os cabelos lisos. Era morena, tinha cachos volumosos que emolduravam seu rosto com perfeição. Suas sobrancelhas eram arqueadas, como se estivessem sempre sugerindo algo a alguém e ele podia crer que sim: lhe sugeria uma aventura, lhe sugeria amá-la sem pensar em nada além disso. E ele havia se entregado tão calmamente que nem percebera quando isso aconteceu – só sentia que sua mente, seu corpo e sua alma pertenciam a Lady .
— Como isso foi acontecer? — disse ela, agora deitada no peito de . — Alguns dias atrás eu era apenas mais uma criada e hoje estou nos aposentos do príncipe herdeiro.
— Você é um anjo caído tentando-me para que eu fuja de meus deveres — disse ele, acariciando as costas nuas da jovem. — Eu poderia ficar o dia inteiro com a senhorita...
ergueu a cabeça para olhá-lo, lançando um olhar sugestivo, que claramente dizia que faria aquilo. Esquecera-se de Tomaz, da velha Joanne e até mesmo da princesa Margaret que já estava ali. Voltou a beijar como se sua vida dependesse daquilo e sentou-se sobre o quadril do rapaz – numa posição totalmente favorável para o que aconteceria em seguida – com uma perna de cada lado e voltou a beijá-lo com todo o fervor de antes. Não demorou para que ele estivesse novamente dentro dela, que agora se movimentava sob ele, enquanto ele a observava como se estivesse frente à frente com uma deusa. Lhe acariciava tudo o que estava no alcance de suas mãos, principalmente o quadril e cintura da jovem. Ambos emitiam seus sons mais instintivos enquanto estavam imersos sobre aquele turbilhão de sensações inebriantes que os consumia lentamente. Os cachos de que antes estavam mal presos, agora estavam livres sob os ombros da jovem, que não deixava de encarar por um minuto. Ela não sabia como seria depois, mas naquele momento, ela era dele e ele era dela. Na segunda vez, os dois chegaram a seus ápices juntos, e tombou sobre ele, exausta. Ela rolou para o lado e voltou a encará-lo, não mais com o olhar sensual involuntário que fazia quando transavam, mas com um olhar calmo, que não dizia muito. Em partes, queria perguntar o que viria em seguida, mesmo sabendo que o príncipe herdeiro tinha outras preocupações que iam muito além dela, então apenas sorriu, observando os intensos olhos de .
— Você é linda, Lady , linda. — Disse ele, olhando para o teto. — Não sei o que fez comigo, mas tenho a desejado desde a primeira vez que a vi e agora então... Desejo mais que qualquer coisa.
— E eu quero ser sua, meu príncipe — sussurrou , estremecendo ao dizer tais palavras. Em partes, sentia-se suja e errada por agir daquela forma, sabendo que Margaret estava ali para casar-se com o homem com quem acabara de transar, porém não estava fazendo aquilo por mal ou contra a princesa – estava apenas cedendo ao desejo que a consumia. Eles voltaram a beijar-se, calmamente. sabia que teria forças e energia para ficar naquela cama o dia inteiro. O beijo foi interrompido por uma batida na porta e em seguida com um guarda adentrando o quarto – para sorte de , não era nem Tomaz nem Rob, mas para o infortúnio, sabia que logo seria explanada e chegaria ao conhecimento do irmão que estava, finalmente, agindo como a meretriz que ele dizia que era. O guarda baixou os olhos – apenas depois de dar uma longa olhada no corpo nu da moça – e anunciou:
— Alteza, o Rei James e a Rainha Christina requerem sua presença. A Princesa Margaret já está no palácio. — disse o guarda, dando uma pequena risada na última parte.
— Bom, diga que estou a caminho — falou , levantando e recolhendo suas roupas do chão. O guarda saiu do recinto, deixando novamente e o príncipe a sós. Enquanto ele se vestia novamente, a jovem continuava deitada – provavelmente aquela era a melhor cama na qual se deitara em toda sua vida, e aqueles lençóis eram os melhores tecidos que tocaram sua pele e ela pretendia passar o maior tempo possível ali, pois nunca mais teria algo assim. Uma criada não tem muitos luxos. Quando ele vestiu o luxuoso gibão de couro escuro, levantou-se, também juntando suas roupas para vestir-se, acordar de seu sonho e voltar à vida real. Enquanto vestia sua roupa de baixo e preparava-se para o tormento que era enlaçar seu espartilho, sentiu a respiração de em seu ombro, onde ele traçou uma trilha de beijos, que passaram para o pescoço e pararam no lóbulo da orelha da jovem.
— Quero vê-la novamente, Lady — ele sussurrou. — Quero que passe essa noite comigo. — Ele tomou em suas mãos as fitas gastas que fechavam o espartilho da moça e começou a trançá-lo, com habilidade. Ele apertava esporadicamente, fazendo arfar como muito fizera sem aquela peça de roupa. A respiração dele continuava no pescoço de , excitando-a ainda mais.
— Meu príncipe tem certeza? — Inqueriu ela. — A princesa está aqui...
— Não quero a princesa — sussurrou ele. — A verei novamente, Lady ?
— Não sou nenhuma lady — disse ela, virando-se de repente, tão próxima a que seus corpos estavam quase completamente se tocando. — Mas sim, o senhor me verá.
Ele a puxou para um beijo urgente, puxando o cabelo dela e fazendo com que os dentes deles se batessem com uma certa frequência, despedindo-se então da garota. Eles deixaram o quarto juntos, mas não seguiram na mesma direção.



Quando adentrou a sala do trono, sentiu o peso de todos os olhares sobre ele. Lá estavam Christina e duas de suas damas, James e quatro duques, Margaret – encolhida em um canto – e alguns dos guardas. Ele fez uma leve reverência e foi até a mãe, dando-lhe um beijo na testa. A garota, Margaret, o observava descaradamente. A princesa possuía olhos cor de mel e os cabelos eram ruivos. Seu rosto tinha formato de coração e estava avermelhado. A saia de seu vestido era xadrez e provavelmente seguia o padrão símbolo de algum clã escocês.
— Alteza — ele a cumprimentou, com uma reverência. A única coisa que passava por sua cabeça era . nua. nua e gemendo seu nome.
— Olá, — disse Margaret, com um sotaque forte. deu um sorriso fraco, voltando-se aos pais. Christina parecia saber o que se passava em sua cabeça, enquanto James combinava animadamente com os duques uma caçada.
— Estou muito feliz de finalmente estar aqui — disse a princesa. — Foram muitos dias de viagem. Estou exausta, mas extremamente feliz de conhecer minha nova família! Agradeço a Deus por isso!
percebeu que Margaret fazia muitas exclamações. Muitas.
— Peço perdão, alteza, mas preciso me retirar agora — disse , rumando para a saída. — Tenho o que fazer.
— Ah, pois irei contigo! Temos muito o que conversar, não acha, Christina? — disse Margaret, empolgada. Christina sorriu levemente e voltou-se para a conversa do marido, enquanto a princesa correu até o príncipe, enlaçando a mão no braço dele.
— Oh, ! Windland é tão adorável! Quando o emissário do Rei James foi até a Escócia e me deu o relicário com sua imagem o achei tão belo! Tive sorte no casamento!
— Também és adorável, milady — disse ele, tentando soltar-se dela.
, pode me levar para conhecer todo o palácio? — pediu ela, animada. Ele não pôde fazer nada senão acompanhá-la. O primeiro lugar em que pensou para ir foram as cozinhas, mas ele não o fez. Não podia ver – ela lhe tirava o juízo, e tudo do que ele precisava naquele momento era seu juízo.
Eles andaram pelos jardins, pelo salão da Rainha, pelos estábulos, salas de armas. Depois, chegaram à ala leste, onde estava a enorme sala de refeições, a biblioteca e os aposentos da família real e também de aposentos para convidados. Ele tentou fazer boa parte do trajeto em silêncio, mas Margaret sempre tinha uma exclamação ou um questionamento na ponta da língua e em sua maioria, todas as falas da moça eram respondidas com uma risadinha, até que ela pediu:
— Leve-me até a cozinha! Preciso dar à sua melhor cozinheira as instruções para que seja feito Haggis para o nosso jantar! — disse Margaret, fazendo com que respirasse fundo.
— Margaret, está cansada. Por que não descansa hoje e depois farei questão de mandar que a responsável pela cozinha, senhora Joanne, lhe procure para que você dê todas as instruções necessárias. — Disse o príncipe, implorando silenciosamente que Margaret acatasse sua decisão. Mas ela não o fez.
— Ora, , é bom que os criados me conheçam! Logo serei eu comandando este palácio. — Disse ela, rindo.
— Não acredito que minha mãe deixará isso acontecer — disse ele. — Com todo o respeito.
— Oh, não foi o que eu quis dizer! A Rainha Christina é muito boa no que faz, mas bem, quando eu for rainha de Windland terei que fazer algo além de dar esmolas aos necessitados, certo? — Disse Margaret, animada.
— Quando for rainha consorte de Windland — corrigiu ele. — Eu mesmo falarei com Joanne para que ela faça o prato... Hagy, certo?
— Não, ! Haggis — corrigiu ela. — Como pode? Apenas uma escocesa para dar as instruções adequadas!
Ele deu-se por vencido e fez o caminho até as cozinhas, que estavam ligeiramente longe dali. Não sabia como ia reagir e, principalmente, não saberia como ele mesmo reagiria. Não podia negar – estava com medo que se ressentisse com ele por causa de Margaret.
O caminho até as cozinhas foi silencioso. estava aéreo, pensava em mais do que em si mesmo – sequer prestava atenção nas baboseiras que Margaret tagarelava.
— Como eu estava dizendo, eu descendo diretamente de Mary Stuart — disse ela. — E bem, todos os escoceses têm descendência do povo bárbaro. Excelentes guerreiros, apesar de serem homens extremamente violentos...
— A guerra é violenta, Margaret — disse o príncipe, entediado com o falatório da princesa. — Não vê a França?
— Oh, a França! Que tragédia está acontecendo lá! — disse ela. — É bem verdade que a rainha não tem preparação para governar um país faminto, mas ela é uma rainha, afinal de contas! Uma mulher!
— Windland também já esteve em crise, mas minha mãe, como rainha, resolveu o problema — disse , ligeiramente irritado. — Não soube disso, Margaret?
Antes que ela pudesse responder – ou que ele pudesse ouvir o que ela dizia – eles chegaram à cozinha. O primeiro instinto dele foi procurar por , que estava de costas para ele. Pouco a pouco, todos os criados começaram a fazer reverências – e então ela olhou.
— Sou Margaret! — Anunciou ela. não tirava os olhos de , que retribuía o olhar intenso. — Noiva de vosso príncipe! Preciso ensinar vocês a fazerem Haggi, que é um prato escocês!
A senhora Joanne logo se aproximou da princesa, que começou a explicar empolgadamente que o prato consistia em miúdos de carneiro cozidos dentro do estômago do mesmo animal, o que desagradou a ainda mais. Ele foi até , sem se importar que Margaret estivesse ali.
— Lady — disse ele, sorrindo.
— Meu príncipe — cumprimentou ela, com um tom baixo. — Então a vossa noiva já se encontra entre nós.
— Minha querida — sussurrou ele — . Depois de vosso beijo, sou seu. Inteiramente seu. Um pobre marinheiro atraído por seu belo rosto e tua bela voz, tu me enfeitiçou como uma sereia faria. Só lhe peço encarecidamente que não me devores, apesar de não possuir vontade própria quando se trata da senhorita, milady.
Ele foi acariciá-la no rosto, mas assim que encostou os dedos nas bochechas de , ela deu uma mordida no ar, rindo.
— Não te devorarei, meu príncipe — sorriu.
— Ora, ! O que faz aqui? — inquiriu Margaret, aproximando-se do casal. Ela olhou demoradamente para , como se a analisasse.
— Estou conversando com a Lady — disse ele, sorrindo. — Minha melhor cozinheira.
Lady ? — Questionou ela. — Uma lady na cozinha?
— Sim, Margaret. Lady — Confirmou .
— Oh, ! Eu não entendo você... — disse Margaret rindo. — Pobre garota, uma lady não amassa pães!
— Oh, lady Margaret — disse , com ironia. — Eu não vivo apenas amassando pães! Também mato alguns animais.
deu uma risada escancarada e o acompanhou. Margaret fez uma careta para a jovem.
— Ora, garota, não seja insolente! Posso muito bem tirá-la dessa cozinha por estar respondendo sua futura rainha dessa forma! — Disse Margaret, exclamando novamente. riu ainda mais.
— Sou a melhor cozinheira desse palácio, Margaret — disse ela, ainda num tom divertido. — Lamento, mas não poderá me tirar da cozinha sem antes consultar vossa majestade, o rei James. Ele mesmo está sempre a me elogiar.
Margaret nada respondeu, apenas virou-se e voltou a explicar o haggis para a senhora Joanne. continuou parado em frente a sua Lady , divertindo-se com o atrevimento dela.
— Sinto muito — sussurrou ele. — Não vejo a hora de estar contigo novamente, .
— Oh, nunca pensei que alguém encontraria um apelido para mim — ela riu. — . Eu gostei, meu príncipe.
— Irei vê-la mais tarde? — Sussurrou ele, sorrindo de um jeito que fez lembrar-se de estar ao lado dele em seus aposentos. Ela sorriu de volta, e involuntariamente olhou para Margaret, que ainda explicava aos cozinheiros como fazer o prato escocês. Ele percebeu o olhar da jovem. — Querida, não quero que faça nada que não queira, mas lhe garanto que Margaret não é um impedimento...
— Ela é sua noiva — rebateu ela, sem olhar nos olhos do príncipe. Ambos falavam baixo, para que ninguém prestasse atenção neles – o que era fácil, uma vez que todos estavam curiosos com a jovem princesa tagarelando sem parar com seu sotaque forte.
— Ela já era minha noiva hoje pela manhã — sussurrou ele. — E o nosso casamento é uma mera aliança, não há amor nenhum entre nós.
deu de ombros, afinal, não tinha mais nenhum argumento – e não é como se a presença de Margaret fosse apagar o desejo que sentia pelo jovem a sua frente. Ela sorriu.
— Sim, meu príncipe. Estarei a sua espera.

[...]


Quando Margaret e o príncipe deixaram a cozinha, os demais criados começaram a providenciar todos os ingredientes que precisariam para fazer o haggis. Mesmo sendo uma empregada, estava enojada com aquilo e preferiu não estar na cozinha quando começassem a fazer o jantar. Suas lindas tortas de frutas já estavam finalizadas para a sobremesa, e ela deu-se ao luxo de sair para procurar o irmão, que provavelmente já saberia de sua manhã “ocupada”, mas ela sinceramente não se importava muito.
Demorou a achar Tomaz, que sempre procurava as coisas mais diversas para fazer. Às vezes, treinava repetidamente com o Rob e às vezes estava apenas afiando sua espada, solitário, em algum lugar deserto do palácio. Ela perguntou à alguns guardas sobre o irmão, mas nenhum sabia do paradeiro dele e ela seguiu procurando. Por último, resolveu ir até os aposentos do irmão e quando chegou, bateu na porta algumas vezes. Demorou um tempo até que Tomaz abrisse a porta.
— O que houve? — Inquiriu ele. — Pensei que estivesse esquentando a cama de para a noite.
— Por Deus, Tomaz, eu sou sua irmã! Pode me tratar com algum afeto pelo menos uma vez na vida? Sou sua única família! — disse, ligeiramente irritada.
, a questão é que estou decepcionado contigo, minha irmã! — Disse ele, entrando no quarto e deixando que ela o seguisse. Mais guardas dormiam ali, mas ele estava sozinho no recinto. — Você está agindo como uma meretriz, e você sabe o que acontece com amantes, não sabe? Elas são mortas, . Você vai ser morta assim que se cansar de você!
— Ele não vai me matar — disse , convicta. — não é assim...
— E como você sabe? Sua foda foi tão esclarecedora assim? — Gritou ele, assustando a irmã. estremeceu, porém não se calou.
— Sim, minha foda foi esclarecedora assim! Eu não sou burra, sabe? Qualquer homem pode me matar, plebeu, criado ou nobre, mas o fato é que estou apaixonada por e irei correr o risco!
Apaixonada? — Gritou Tomaz, rindo. — Ah, , não seja estúpida! A princesa está aqui, é questão de dias até que eles se casem e você será mandada para a cozinha novamente.
— Não foi o que eu quis dizer — disse ela. — É claro que não o amo, só sou muito atraída por ele e foi isso que eu devia ter lhe dito.
, eu amo você — disse ele. — Não a quero envolvida com ele, pois sei que isso só vai magoá-la.
— Tomaz, ninguém morre por um coração partido — disse ela, abraçando o irmão.
— Não, , ninguém morre. — Respondeu ele, baixinho. — Mas criados se misturam com criados – nunca uma plebeia casou-se com um rei.
— Ana Bolena... — Disse ela, arqueando as sobrancelhas, desafiadora.
— Ana Bolena foi decapitada, caso não se lembre, a mando do próprio rei. — Respondeu Tomaz. Apesar de ser da guarda real, o garoto estava sempre lendo os livros dos clérigos – gostava de saber do máximo de coisas possíveis.
— Ana Bolena foi morta por ser adúltera e conspirar contra o rei! — Disse . — Eu não estou conspirando.
— Pode não estar conspirando contra o rei, minha irmã, mas a princesa tem igual poder de lhe mandar para a execução — respondeu Tomaz, segurando as mãos da irmã. — Sei que nada que eu lhe disser vai fazer sua cabeça teimosa mudar de ideia, mas pelo menos considere o que lhe digo!
— Obrigada pela preocupação, meu irmão — sussurrou . — Mas acho que perdi o controle disso tudo.



Christina estava sentada solitária na sala do conselho do rei. Na mesa estavam todos os instrumentos necessários para a escrita de cartas. sentou-se silenciosamente ao lado da mãe. O relacionamento dos dois era muito intenso, uma vez que ele era o primogênito e o único que ainda estava próximo à rainha.
— Estou preocupada, mi hijo — disse ela, sem parar de escrever a carta. O som da pena contra o papel era o único ruído no recinto além da voz da mulher. — A França não consegue deter essa revolta.
— Bem, a adorável Margaret já está aqui, pronta para o casamento — disse ele, cheio de ironias.
— Oh, nem me fale dessa garota — disse Christina. — Estou começando a crer que ela trará mais problemas para Windland.
— Ela seguiu-me a tarde toda exigindo pratos escoceses e cantores que toquem gaita de foles — disse , rindo.
— Os franceses me preocupam, . — Confessou a rainha, apertando a mão do filho. — Temo por ti, hijo, pois sei que seu governo não será fácil.
— É por isso que tem escrito cartas durante toda à tarde? — Inquiriu , analisando as cartas já seladas. Haviam duas finalizadas e Christina escrevia a terceira.
— Sim — disse ela. — Escrevi para sua irmã, pois temo que ela se esqueça de mim. Escrevi ao seu irmão, pois sinto sua falta. Escrevo ao seu avô, pois já não sei o que fazer aqui.
lamentou pela mãe em silêncio. Dos três filhos, apenas um estava ao lado dela. Os irmãos que ainda viviam estavam, em sua maioria, espalhados pela Europa ou no Novo Mundo, administrando as colônias espanholas na América. O marido, James, ultimamente estava tão alheio aos assuntos do Estado que nem deveria ser considerado rei – e com isso, todas as obrigações estavam ali para Christina.
— Observei Margaret e ela não foi criada para ser uma rainha — disse Christina, selando a última carta. — Ela foi criada para ser uma parideira. Aconselho-te, mi hijo, a já pensar em seu conselho, pois sei que essa garota não será de grande ajuda. Infelizmente, ainda acham que mulheres só servem para dar filhos aos maridos.
— Creio que nunca mais Windland terá uma rainha tão excepcional como a senhora, mãe — falou e a mãe o beijou na mão.
— Quero que seja feliz, — disse a rainha. — Quero que seja feliz, pois sei que o seu fardo é mais pesado que o de seus irmãos.



4

Ao levantar-se, Margaret contou com o auxílio de Marie, sua nova dama de companhia – filha de um duque de Windland – e de duas criadas para vestir-se. Estava ansiosa para passar mais algum tempo com e já pensava no que poderia ser feito em um dia de outono no palácio.
— Quero tanto me casar! — Falou Margaret, enquanto uma das criadas lhe apertava o espartilho. — Estou muitíssimo animada para casar-me com , afinal, dei sorte. Ele é belo e parece ser muito inteligente.
— Tem razão, princesa — disse Marie, aos risinhos. — O príncipe é muito atencioso e parece ter gostado da senhorita.
As duas criadas disfarçaram uma risada e Margaret virou de repente, inquirindo as garotas apenas com o olhar – queria saber do que elas riam.
— Perdoe-me, minha senhora — disse a mais velha delas. — Apenas lembrei-me de uma história boba que eu ouvia na infância.
— Ora, conte-me! — Disse Margaret, não confiando totalmente na palavra da jovem. A criada pareceu engolir em seco e voltou as fitas do espartilho de Margaret. — Vamos, fale! Sou sua senhora, futura rainha!
— Justamente por isso não entenderá, princesa! — Interviu a outra criada. — São histórias que nossos pais contavam para que não nos rebelássemos contra nossos senhores. A princesa não tem um senhor, tem?
— Bem, terei em breve! Após o casamento, será seu rei e meu senhor! — A princesa falou, sorrindo esperançosa. As criadas terminaram com o espartilho e Margaret as dispensou, dependendo apenas da dama de companhia para terminar de vestir-se. — Marie, acreditou no que aquelas criadas disseram?
— Bom, minha princesa, não confio em criados de nenhum tipo. São sempre ardilosos e querem nos ver mortos. Veja só os franceses! O rei será morto por criados, espere e verá! — disse Marie, com um tom de desprezo.
— Ora, Marie, olhe o que fala! — Disse Margaret, fazendo o sinal da cruz no peito antes de prosseguir. — Senhor, perdoe essa garota tola pelas coisas estúpidas que diz!
Após a repreensão de Margaret, a dama permaneceu em silêncio. Assim, foi mais rápido para a princesa terminar de se vestir. Quando finalmente estava pronta, rumou para fora do quarto, dispensando Marie logo em seguida. Estava decidida a cumprimentar em seus aposentos, como faria todas as manhãs depois que se casassem. Estava ansiosa para lhe dizer sobre as criadas mentirosas, sobre a blasfêmia de Lady Marie contra o monarca francês e sobre sua primeira noite em Windland. Porém, ao chegar, antes mesmo de bater à porta, um rapaz que estava em seu turno de guarda ali por perto a impediu, erguendo sua lança. Ela não podia ver o rosto dele, mas deu alguns socos em sua armadura, como se estivesse batendo à uma porta.
— Escute, senhor! Sou Margaret da Escócia, descendente de Mary Stuart! Sou sua futura rainha! Deixe-me entrar nos aposentos de meu noivo! — Exclamou Margaret, ligeiramente irritada.
— Princesa, eu lamento — desculpou-se o guarda. — Porém, não sei se a senhora deveria entrar. Quero dizer, o príncipe é demasiadamente mal-humorado quando acordado.
— Você é apenas um guarda! Não deve sair distribuindo ordens, ainda mais para sua rainha. — Disse Margaret, empurrando o guarda para o lado, abrindo e passando pela porta, sem bater. E quando adentrou os aposentos de , desejou não o ter feito.
Na cama, estava sobre alguém – uma mulher – que Margaret não conseguiu ver o rosto. Eles se movimentavam e emitiam sons primitivos – levou um tempo até que a princesa percebesse o que acontecia ali.
?! — Disse ela, fazendo com que o príncipe virasse, alarmado e a garota – a cozinheira petulante – olhasse assustada. Notar que a garota que a respondera no dia anterior estava... fornicando com seu futuro marido deixou Margaret furiosa.
— Bom dia, princesa — disse a garota, sentando-se na cama – sem importar-se por estar nua. rolou para o lado, visivelmente decepcionado por ter sido interrompido. — Venha e junte-se a nós.
— Ora, sua meretriz abusada! — Gritou Margaret, atraindo a atenção do guarda que estava no lado de fora. — Saia já daí!
— Sairei quando meu príncipe ordenar — Ronronou a garota, abraçando . Margaret olhou enojada para a falsa lady e ainda mais para o príncipe, que não parecia incomodado. Mas ela sabia o porquê!
, veja, querido! Há uma grande conspiração da plebe! Essa garota só pode estar envolvida com os tais revolucionários e quer destruir Windland! — Disse Margaret, esperançosa que o rapaz tirasse a jovem meretriz da cama. Mas ele não o fez, já que a garota começou a gargalhar.
— Fui criada neste palácio, princesa — disse a garota, cujo nome Margaret não fazia questão de se lembrar. — Não tenho contato com pessoas de fora, que dirá contato com revolucionários franceses.
resolveu dar um fim àquela discussão antes que Margaret decidisse atacar .
— Margaret, por gentileza, pode sair de meus aposentos? — Pediu ele, ainda deitado. Ela não se moveu.
— Ora, , não vou te deixar com essa meretriz! Ela é quem deve sair e então conversaremos. Sei que vai me pedir perdão, mas enquanto essa jovem estiver por perto não sei se serei capaz de aceitar! — Disse Margaret, exclamando mais da metade de sua frase, como sempre.
— Margaret, essa é Lady , e quem deve sair é você. não é nenhuma meretriz e você terá que respeitá-la enquanto estiver aqui — disse , segurando a mão da jovem, que lhe sorriu.
— Isso não ficará assim! — Disse Margaret, saindo rapidamente do recinto. — Não ficará!



voltou a deitar-se na cama, soltando o ar que não sabia que estava segurando. A mão de continuava segurando a sua e internamente ela estava em crise, pois sentia-se extremamente feliz pelo príncipe não a ter mandado embora ao mesmo tempo que sofria por remorso de estar com ele.
— Meu príncipe... — Sussurrou ela. — Tem certeza que é uma boa ideia eu estar aqui?
— começou ele, se demorando em cada uma das sílabas do nome da moça — não há ideia melhor neste mundo. Nunca houve uma ideia tão boa.
— Falando de tal forma, meu príncipe, sinto-me verdadeiramente desejada — disse a jovem, tentando entender o que queria dela, afinal, já a possuíra algumas vezes nas últimas vinte e quatro horas... Inclusive na frente de Margaret, a princesa escocesa que viria a ser a nova rainha de Windland em breve. Os cabelos de estavam ligeiramente desordenados e seus lindos olhos, fechados. Ele ria para nada em particular e nesse momento, passou a observar o príncipe com quem passara a noite e notou que ainda era surpreendida pela beleza dele. Apesar de sentir-se tão bela quanto e ter conhecimento que era desejada, ainda assim era uma criada com mãos ásperas devido ao trabalho árduo na cozinha.
— Oh, querida — sussurrou ele. — Minha doce e selvagem, ... Você não tem ideia do quanto te quero.
— Meu príncipe — sussurrou ela, passando sua perna sobre a do príncipe, enrolando-se nele. — Você já me tem.
Ele virou como se fosse beijá-la, mas apenas acariciou o rosto da jovem, que sorria sem tirar os olhos dele. Estava tão extasiada, parte pelo intenso prazer que de Windland lhe proporcionara nas últimas horas, mas também por estar vivendo um conto de fadas longe da velha Joanne e dos outros criados da cozinha, além de Tomaz, que não estava ali para chamá-la de meretriz e repreendê-la – que temia o momento em que o príncipe a mandasse de volta para sua vida de criada. Temia que Margaret acabasse por convencê-lo, ou até mesmo o rei ou a rainha. Por ter sido criada por uma ama, bem sabia que o casamento de Maria Christina da Espanha e James III poderia não ser dos mais apaixonados, mas os monarcas nutriam um intenso afeto um pelo outro e nunca ouvira quaisquer rumores sobre casos extraconjugais – o que poderia fazer com que eles desaprovassem o comportamento do filho. Pensar nos pais de plantou uma questão na mente da garota.
— Alteza... — Chamou ela, insegura de chamá-lo de qualquer outra coisa além do que sempre fora instruída, e sobretudo de fazer perguntas pessoais. — O senhor é o único príncipe de Windland?
, se iremos continuar... juntos — disse ele, voltando-se para a moça. — Pode chamar-me por meu nome de batismo, afinal, não sou nenhum velho.
— Certo, , és o único príncipe de Windland? — Perguntou novamente, sorrindo ao pronunciar o nome dele.
— Sou o primogênito, sim, portanto o primeiro na linha de sucessão do trono. Depois de mim vem Franz, o único dos irmãos que ainda tem alguma diversão. Ele sempre foi próximo à família de minha mãe, portanto meu tio o levou em uma das expedições para o Novo Mundo. E por fim há Elizabeth, a caçula. Minha mãe a entregou aos cuidados do imperador austríaco para que fosse educada junto ao seu futuro marido. Ela preferiu fazê-lo enquanto o vínculo das duas fosse o menor possível.
— Você tem um irmão nas Américas? — Disse , querendo confirmar aquilo. Não poderia imaginar um príncipe aventurando-se nas colônias tropicais.
— Para ser honesto, não tenho certeza do paradeiro de Franz — confessou . — Há muito que ele não me escreve, afinal, precisa que algum navio parta dos trópicos para enviar qualquer mensagem, mas bem, ele vive nas colônias espanholas, aventurando-se em suas selvas e praias e tentando interagir com os nativos. Creio que ele nunca mais volte à Europa.
— E sua irmã? — Perguntou ela, realmente interessada. Aparentemente, ele não sentia amor pela irmã, afinal, não chegaram a se conhecer.
— Esporadicamente recebemos alguma mensagem dela — diz ele. — Mas anseio mais pelas palavras de Franz. Elizabeth não voltará mais para Windland, logo será uma imperatriz na Áustria.
, como se sente com o fardo de ser rei em suas costas? — perguntou, curiosa. Pela forma como ele falava do irmão, parecia sentir-se sozinho. imaginava, afinal, mesmo estando sempre discutindo com Tomaz, não suportava a ideia de não o ter por perto.
— Fui criado para isso. Enquanto Franz, apenas dois anos mais novo que eu, vivia pelo palácio aventurando-se e fugindo dos tutores, eu estava em aulas de latim e geografia, filosofia e política. Franz conhecia o país fugindo com criados enquanto eu estudava estratégias de guerra, mas no final do dia sempre estávamos juntos. Senti-me só quando meu irmão partiu, mas sempre soube que seria assim.
— O que acha que vai acontecer na França? Acha que isso pode se espalhar pela Europa? — Inquiriu ela, realmente preocupada. Apesar de ser uma plebeia, se a monarquia de Windland caísse, ela cairia com eles. A vida nas cidades era difícil e ter um emprego também, ainda mais para uma mulher, portanto desejava verdadeiramente que a revolução dos franceses terminasse na França.
— Não sei — admitiu ele. — O rei não consegue mais controlar o povo desde o momento que a Bastilha foi tomada e a rainha aparentemente trocou toda sua inteligência por festas e ostentação.
— O que é a Bastilha? — Perguntou . Apesar de ser inteligente, nunca saíra de Windland e assim não saberia sobre a França ou qualquer país se ninguém lhe contasse, mas naquele momento sentiu-se mal por não saber.
— Uma prisão onde os inimigos da coroa francesa eram jogados. Até então era impenetrável, mas o povo furioso conseguiu tomá-la. — Explicou ele, sorrindo em seguida. — Não creio no que está acontecendo.
estava deitada de bruços, com a cabeça apoiada no peito de , totalmente interessada na conversa. Ela sorriu de volta.
— Não acredita no quê? — Disse ela, plantando um beijo no peito dele.
— Que estou discutindo política francesa com uma linda lady, que está deitada ao meu lado e inteiramente nua — ele riu, acariciando os cachos da moça. — Diga-me, o que falta para eu ser um rei? Pareço já possuir tudo o que é necessário.
— Bem, lhe falta uma rainha — riu desanimada. negou com a cabeça, ainda observando a linda moça que jazia sobre ele. Se houvesse qualquer chance de ele sentir-se atraído por Margaret, metade delas sumiram no momento em que viu pela primeira vez. E se extirparam de vez no momento em que ele a possuíra. , com toda sua ardência, gentileza e beleza havia conquistado o príncipe de uma maneira que não poderia ser desfeita e isso só se intensificou quando eles compartilharam a cama e ele pôde ouvi-la gemer seu nome e implorar pelo prazer que ele lhe dava.
, minha — disse ele, brincando com um cacho da moça. — Eu me casaria com você agora mesmo, mas infelizmente não posso ter tamanha felicidade em minha vida, porém a desejo tanto e temo que estou apaixonado.
Ela nada dizia, tamanha era a felicidade de ouvir tal coisa. , o príncipe herdeiro de Windland temia estar apaixonado por , a lady da cozinha!



Quando Margaret voltou aos seus aposentos, entendeu porque as criadas riram de sua ansiedade para o casamento: a plebe já sabia que uma das empregadas fora promovida a cortesã. Riam dela, pois sabiam que o príncipe já tinha uma favorita. A princesa escocesa gritou e destruiu parte da mobília de seus aposentos – dois vasos e um castiçal – e jogou-se na cama em seguida, chorando. Passara todos os dias de sua vida esperando pelo casamento e uma cozinheira qualquer conquistara o seu noivo. Não podia negar que, apesar de criada, a meretriz era bonita e deveria saber como agradar um homem. A jovem não percebeu quando a rainha adentrou o quarto.
— Ouvi seus gritos e quis saber o que lhe aconteceu — disse Christina, com seu leve sotaque espanhol. Apesar de não ser mais jovem, a rainha ainda era bonita e sua idade só era denunciada por uns e outros fios brancos que apareciam no topo da cabeça da mulher. Ela estava sempre com vestidos em cores frias, o que destacava seus olhos.
— Oh, sou obrigada a lhe contar, Christina! Hoje deparei-me com uma cena horrível! — chorou Margaret, exageradamente dramática. — Mais cedo fui até os aposentos de seu filho e o encontrei com uma... Uma cortesã! Uma criada qualquer da cozinha!
— Lady — confirmou Christina, sem grande surpresa. Era a rainha de Windland, certamente sabia com quem o filho se relacionava.
— Não, majestade! Ela não é nenhuma lady! É apenas uma prostituta e não admito que ele me desrespeite de tal forma! Sou esposa dele! — Margaret choramingou, batendo as mãos em punho no colchão de penas.
— Margaret. Querida. — Disse Christina, calma. — Não sei como foi criada e também não sei quais eram suas expectativas com relação ao casamento, mas irei te falar algo que eu sei porque já fui exatamente como você. Anos atrás, cheguei aqui, nesse país pequeno e tão diferente da minha Espanha. Eu cheguei aqui tão infeliz que meu coração doía. James mal se dirigia a mim, porém meu casamento era o que menos me incomodava. Eu mais sentia falta de meu pai e de meu país que sofria pelo matrimônio, já que eu sempre soube que era esse o meu destino. Sempre fora. Desde cedo eu sabia que as filhas da Espanha formariam as alianças e que os filhos seriam herdeiros. Nasci Maria Christina da Espanha, descendente da casa Bourbon, e agora sou apenas Christina, rainha consorte de Windland. Você, Margaret, uniu a Escócia à Windland. Seus herdeiros serão o que juntará esses dois países. Uma princesa não se casa por amor. Você nasceu para formar a aliança entre seu país e o meu.
Margaret ouvia sem interesse. deveria respeitá-la. Onde já se viu, uma princesa ser trocada por uma mera cozinheira?
— Majestade, a questão não é amor! A questão é que logo a meretriz estará carregando um bastardo de e será sua favorita! Não se lembra de Catarina de Aragão? A rainha cujo casamento foi desfeito e a filha, considerada ilegítima? É isso que essas plebeias fazem! A tal lady fará a cabeça de até que ele acredite que ela é a única rainha possível e então será minha cabeça que rolará!
Christina olhou a jovem dos pés à cabeça: Margaret ainda vestia seus vestidos com estampa xadrez, tinha os cabelos ruivos trançados no alto da cabeça e a face vermelha por conta do choro. Se aquela garota fosse coroada rainha consorte de Windland, Christina temia pelo povo. A princesa era jovem e despreparada – não se interessava por política e com certeza não saberia nada de economia; fora criada para ser mãe e esposa, e querendo ou não, ainda era uma menina. Acreditava que seu casamento arranjado seria repleto de paixão e mais tarde, amor – como nas canções.
— Margaret, esqueça o amor. Essa é uma das poucas coisas que o ouro não pode comprar e que rainhas não podem exigir. Se tiver sorte, apenas assim, seus filhos a amarão. E esse será o único amor que terá em sua vida. — Disse Christina, falando realmente sério. O próprio casamento da rainha era sustentado por respeito mútuo, dever, admiração e uma pequena porção de afeto – nada além disso. O amor de seus súditos e filhos era o único amor que recebera em Windland. E era suficiente.
Margaret nada respondeu. Sabia que não estava sendo razoável, mas também sabia que estava com ciúme da jovem – não que sentisse algo sério por , mas todos estavam aceitando tanto a cozinheira que a princesa sentia-se esquecida. Além do fato de todos os criados caçoarem dela. Ela odiava quando os seus subalternos tinham motivos para rir de seu infortúnio.
— Bem, menina, anime-se — pediu Christina. — Convoquei toda a corte para um baile em sua homenagem. Amanhã.
A rainha saiu antes de obter uma resposta e Margaret levantou-se, indo atrás de um espelho. Lavou o rosto com a água que as criadas deixaram ali para a higiene da princesa; o líquido frio fez com que o rosto dela voltasse ao seu tom normal – apenas as bochechas estavam levemente rosadas, o que não era um problema. Querendo ou não, a princesa estava animada para o baile da corte, afinal, não era possível que tivesse enfeitiçado todos. Ou seria?



Naquele momento, estava dividida. Sentia falta da correria nas cozinhas do palácio, mas nunca em sua vida havia passado tanto tempo em uma cama tão deliciosamente macia. A jovem nada dizia, já que poderia concluir que ela não apreciava sua companhia, mas ficar parada estava deixando angustiada.
— A senhora Joanne provavelmente está me procurando — disse a moça, sem mover-se. — Já devem estar preparando o jantar, e sem mim...
, caso queira ir, não precisa da minha permissão — disse , enquanto voltava a vestir sua camisa. — Mas posso assegurar-lhe que não precisa voltar à cozinha. Sei que meu pai não apreciaria a notícia de que a melhor cozinheira de Windland não cozinha mais, porém, está comigo agora.
agora estava com , príncipe herdeiro de Windland. Ela sorriu ao constatar tal informação.
— Então, meu lorde tira garotas da criadagem? — Inquiriu ela, rindo. — Vossa majestade, seu pai, talvez não se importe. Porém, a senhora Joanne é capaz de questionar sua decisão.
— Não tiro garotas da criadagem — informou ele. — Você é a primeira, milady.
— E já me concedeu um título! Eu não poderia ter conhecido príncipe melhor. — sorriu, levantando-se e indo até o rapaz beijá-lo. — Não quero títulos ou riquezas, alteza. Não quero o príncipe de Windland ou o futuro rei. Quero você, sem títulos, sem brasões e sem coroa.
sorriu, acariciando os cachos macios da moça. Não sabia como agir com relação à . Não sabia como e se iria inseri-la na corte. Não sabia o que o rei e a rainha achariam de sua atitude. Temia pela segurança da garota, já que ela poderia ser feita de alvo para atingi-lo. No entanto não podia manter a relação dos dois em segredo uma vez que seus guardas já sabiam, assim como a própria princesa Margaret.
, tenho uma proposta para ti — disse ele, após dar um beijo na testa da jovem. — Não tenho como manter nossa relação em segredo – meus guardas já sabem, Margaret já sabe. Logo toda a corte estará a par disso tudo e não poderei lhe deixar na cozinha. Aliás, devo admitir que não quero escondê-la. Deixe-me lhe dar melhores aposentos, melhores roupas. Não precisará fazer as mesmas tarefas que a princesa, mas também não necessitará de passar os dias cozinhando. Pode fazer o que bem entender, terá uma dama, se assim desejar. Por favor, deixe-me lhe dar isso?
— Oh, meu príncipe. Não quero que pensem que estou aqui por interesse, pois apenas o senhor sabe o que sinto. Não quero prejudicar o seu casamento dessa forma. Além de que bem sei que nenhuma dama da corte irá desejar acompanhar uma plebeia.
, por favor, deixe-me lhe dar ao menos isso – já que não poderei unir-me a ti perante à lei e à Igreja.
não insistiu, afinal, pôde imaginar que todo aquele conforto seria constante e que não precisaria suar-se, queimar-se e cortar-se na cozinha. A jovem amava cozinhar, porém era um trabalho exaustivo que por muitas vezes, lhe irritou. Como uma garota, ela imaginou-se vestindo os lindos vestidos que as verdadeiras ladies usavam. Imaginou-se lendo o quanto quisesse. Imaginou-se comendo dos deliciosos pratos que eram feitos nas cozinhas. Imaginou-se não sendo tão inferior à princesa Margaret com relação à aparência. assentiu e sorriu, confirmando que sim, aceitaria tais presentes. Uma parte da jovem sentia-se mal, já que cada “sim” expresso em palavras ou não, oficializava ainda mais o título – ainda não dito em voz alta – que pairava sobre . Amante.

[...]


não conversava muito com o pai. James era um homem austero, calado. O príncipe nunca teve grande intimidade com ele, que era rei em primeiro lugar e pai em segundo. O rei estava sempre cercado de ministros e nobres de seu conselho e parecia aprender mais sobre política e outros assuntos referentes ao Estado com a rainha. Ele bateu à porta da sala do conselho e pôde ouvir um garoto anunciá-lo ao rei, que permitiu sua entrada. O mesmo garoto lhe fez uma reverência.
— disse James III, em meio a dezenas de papéis, penas, tinteiros e cera para o selo Real. O rapaz fez uma reverência ao pai e sentou-se quando lhe foi permitido. — Christina convocou toda a corte para um baile em homenagem a sua noiva.
— Imaginei que algo seria feito com relação à princesa — Respondeu o jovem. — Mas não é sobre Margaret que quero falar.
— A cozinheira, — disse o rei, encarando o filho. — Quer trazê-la para a corte e tirá-la da cozinha, estou certo?
— A cozinha não é lugar para , apesar de seu inegável talento — explicou . — Já que terei que me casar com uma completa desconhecida, gostaria de pedir sua benção com relação a isso.
— Garoto, você vai continuar a vendo mesmo que eu lhe diga para não o fazer — disse James. — Case-se com Margaret e produza um herdeiro. Quando sua hora de governar chegar, seja sábio. É o que lhe peço. Não posso escolher com quem irá se deitar, mas como homem lhe aviso que mulheres causam guerras. Não deixe que essa jovem lhe tire o juízo, afinal, um dia o rei será você.
assentiu e James voltou ao que fazia antes, praticamente dispensando o filho, que saiu em seguida. Pensava em perguntar ao pai o que fazer, mas James não era o tipo de homem que falava, então o príncipe guardou suas perguntas para si mesmo. Foi preciso muita força de vontade para que não voltasse aos seus aposentos para passar o resto do dia com , porém, havia o que fazer. Apesar de ainda não ser rei, o rapaz já possuía obrigações como lidar com os nobres para quem James III não tinha tempo ou ir à cidade com os ministros para ter contato com os súditos. Ele foi até a sala do trono, onde a Rainha Christina encontrava-se, ouvindo duques, condes, barões e embaixadores. Toda a nobreza de Windland se agitara com o início das revoltas populares na França, já que os países estavam lado a lado geograficamente – todos temiam que o povo do pequeno país se revoltasse, já que Windland era muito menor territorial, econômica e militarmente que a França.
— Sua alteza, o príncipe — anunciou um homem de bigode. Os nobres já presentes para o baile em homenagem à Margaret abaixaram-se em reverências enquanto o jovem passava por entre eles. Antes mesmo que chegasse até a mãe, foi parado pelo duque de Lasstrec.
— Vossa graça — cumprimentou o príncipe. O homem fez uma reverência ao príncipe. — Bem-vindo novamente à corte.
— Todos estão curiosos para conhecer a vossa noiva, alteza — disse o duque, rindo. — Vossa majestade, a senhora sua mãe não permitiu que a garota aparecesse por aqui hoje. Posso lhe dizer que há algumas apostas sobre a aparência da princesa.
— A princesa Margaret é adorável — respondeu . — E como vai a duquesa?
— Oh, está acamada. Sua saúde anda muito frágil, mas ela fez questão de atender ao chamado de sua mãe. Deixe-me apresentar-te minha filha, Diana. — Ao ouvir seu nome, uma garota de não mais que quinze anos fez uma perfeita reverência ao príncipe. A menina era bem-apessoada e se possuísse a mesma educação de sua mãe, poderia ser uma boa dama de companhia. Essa era a intenção da maioria dos nobres que levavam suas filhas à corte: deixá-las como damas da rainha ou arranjar-lhe um bom casamento. Haviam as exceções: damas de companhia que tornavam-se amantes oficiais de nobres; que casavam-se com nobres e também as que faziam os dois. se desvencilhou do duque e de sua filha rapidamente, recebendo outros cumprimentos e conhecendo novas ladies a cada passo que dava. Levou algum tempo até que chegasse na mãe.
— Vossa majestade — reverenciou ele, sorrindo. Deu um beijo na mão de sua mãe e soberana e sentou-se ao lado dela. — Já estou nas festividades de meu casamento e não fui avisado?
— Oh, mi hijo, são tempos difíceis. Precisamos deles até mais do que eles precisam de nós. — Disse ela, referindo-se aos nobres que ali estavam. — Portanto, criemos a ilusão que eles nos devem tudo o que têm, pois se eles tiverem consciência que não, logo somos descartados.
— O rei deveria abdicar do trono a seu favor — disse , rindo. — Maria Christina deve ser o primeiro nome da linha de sucessão do trono de Windland.
— Cuidado com o que fala, ! Isso pode ser considerado alta traição. — Respondeu a rainha, com um sorriso quase que imperceptível. riu, beijando a mão de Christina novamente. Ele não conseguia parar de pensar em – em onde ela estaria, no que poderia estar fazendo. Sentia até um certo medo de Margaret, que poderia aproveitar a ausência do príncipe para procurar ... Antes mesmo de concluir os seus pensamentos, a condessa de Deverlaux surgiu ali.
— Vossa majestade — a mulher fez uma reverencia. — Vossa alteza.
— Mary — cumprimentou Christina, sorrindo. — Que bom vê-la!
— Oh, vossa majestade, não posso lhe dizer que sinto falta da corte, mas de nossas conversas posso confirmar que sinto! — Falou a condessa. Ela então virou-se para o príncipe. — , querido. Estou tão ansiosa para seu casamento! Há anos desde o último casamento real em Windland — ela piscou para Christina. — Seu irmão fugiu para os trópicos e sua irmã se casará na Áustria... ainda bem que a princesa Margaret chegou!
— Sim, milady. — Sorriu , sem vontade. — E onde está seu marido?
— George está com outros senhores, discutindo sobre caça — respondeu a mulher. — E o rei, onde está?
— James sempre foi mais reservado que eu. Optei por recepcionar toda a corte enquanto ele trabalha algumas questões de Estado — explicou Christina, mentindo perfeitamente. sabia que sim, parte se devia ao pai detestar eventos como esses, mas o maior problema de James III naquele momento era a França. Windland, no passado, fora apenas uma província francesa – porém, durante a Guerra dos Cem Anos, ingleses ocuparam aquele pedaço de terra e mesmo após a derrota, o povo que ali nascera durante a ocupação clamava por independência. E assim Rickard, o Libertador estabeleceu Windland como um reino independente da França. Desde então, a pequena monarquia passara pela peste e pela guerra, por fome e crise, mas sempre prosperou. esperava que Windland superasse também a revolução dos franceses.
— E a princesa, majestade? Onde está a princesa? Todos ansiamos por vê-la — disse a mulher, se prolongando ali. não se incomodava de acompanhar a mãe enquanto essa recebia os nobres, mas quando esses começavam a falar sobre Margaret, o jovem sentia vontade de socá-los. Aliás, qualquer um que lembrasse o príncipe de seu iminente casamento tinha grandes chances de ser agredido fisicamente.
— Margaret só será apresentada no baile — explicou Christina, sorrindo como se estivesse amando ter aquela conversa. A condessa aparentemente percebeu, já que fez uma reverência e saiu. observava a mãe de canto de olho, percebendo o sorriso preocupado que a rainha estampava em seu rosto, lhe deu a mão, como se dissesse “estou aqui com você” – a rainha apertou a mão do filho, confirmando tudo o que foi dito sem palavras.
— Irá oficialmente trazer Lady para a corte? — Inquiriu a rainha, disfarçadamente.
— O Rei não se opôs... — sussurrou . Esperava que a mãe não o impedisse, já que toda a recepção já estava sendo extremamente maçante e, sem , o baile seria ainda pior.
— Irei arranjar um belo vestido para sua lady — disse Christina, sem esboçar se estava fazendo aquilo a contragosto ou não. — Porém, mi hijo, respeite Margaret. Nós precisamos desse casamento. Seu povo precisa dessa aliança.
assentiu e voltou seu olhar para a grande quantidade de pessoas que interagia na sala do trono. No dia seguinte as festividades começariam cedo, com um enorme banquete, danças e todo tipo de coisa que havia na corte: traições, intrigas e jogos políticos.
Dois guardas adentraram o lugar com pressa e foram até o local onde Rainha Christina e estavam. Eles fizeram rápidas reverências.
— Vossa Majestade — disseram em uníssono. — Vossa Alteza. Um jovem adentrou o palácio sem que a guarda o visse. Ele foi encontrado na cozinha e quando o pegamos, pediu para que o trouxéssemos até Vossa Majestade.
— Tragam-no — disse Christina, simplesmente. Todos os nobres ali presentes pararam as conversas e voltaram-se para as grandes portas de onde os guardas vieram. Não demorou para que voltassem, trazendo um jovem com cabelos presos, rosto bronzeado e vestes simples. Quando Christina o viu, instantaneamente soube quem era.
— Franz — disse ela, alto o suficiente para que todos ali ouvissem. — Mi hijo, Franz.
O rapaz desvencilhou-se dos guardas e correu até a mãe, fazendo uma rápida reverência antes de abraçá-la. Ela acariciava o cabelo do rapaz, chorando por tê-lo ali. Quando ela finalmente o soltou, Franz virou-se para .
— Olá, meu irmão.





Continua...



Nota da autora: MORES! Eu tô muitomuitomuito feliz com o retorno que Maîtresse-em-Titre está recebendo! Além de ter sido indicada no Renove 212 (07/11/2017), tô amando ler os comentários de vcs! Muitíssimo obrigada pelo apoio! Agradeço de coração a cada um que deu uma chance para minha história e claro preciso agradecer também a Naty, minha beta incrível que não sei como, ainda me atura (e olha que só estamos no quarto capítulo, hein! Hahaha) Beijo, gente! Vcs são incríveis <3
P.S.: Nessa nota, fiz mais exclamações que a Margaret.
P.S.2.: Como é o nome do PP pra vocês? Como vocês o imaginam? Pra mim, ele é o Richard Madden (Robb Stark, de Game of Thrones)! Comentem como o PP é pra vocês, morro de curiosidade!
P.S.3.: Atendendo a pedidos (nem foram tantos assim) fiz um grupo no Facebook pra gente conversar. (cliquem no ícone abaixo)
P.S.4.: Também criei uma playlist topíssima com músicas que super combinam com a história! Dêem uma olhada. (cliquem no ícone abaixo)
Beijo, gente! Agora é sério! Muito obrigada pelo amor <3







Nota da beta: Mulheeer, a princesa pegou os dois no flagra, que situação constrangedora, caramba! Mas ela bem que mereceu, foi rude com o guarda que só queria de alguma forma poupá-la. Nossa Maîtresse-em-Titre, hein? Entrará na corte, participará do baile, já tô aqui mega ansiosa para ler sobre esse baile! Como sempre arrasou na atualização!
Você sabe que não enche meu saco, né? Eu adoro tudo isso, e de nada <3! Parabéns pela dedicação e por nos proporcionar essa história maravilhosa.
Entre no grupo do face que eu já estou dentro.



Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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