Minha Flor Preciosa

Última atualização: 21/11/2018

Capítulo 1

❝Borboleta parece flor que o vento tirou pra dançar.❞
O teatro estava lotado e não era para menos, afinal era o teatro mais famoso da capital, a companhia Ballet of Ophelia que estava prestes a iniciar suas apresentações. Enquanto os espectadores esperavam pacientemente em suas poltronas confortáveis, os bailarinos não conseguiam fincar suas sapatilhas no chão por conta do nervosismo, treinando cada passo que dariam em menos de 10 minutos.
A academia iniciaria as apresentações com a baby class, conhecidas como estrelas mirins, seguidas por um solo do destaque de 17 anos daquela época: Adaline Darkbloom. Depois, outra apresentação fofa grupal das pequenas dançarinas, contudo, desta vez, reunidas com os adultos e adolescentes. Logo após, a dança em conjunto do grupo juvenil. A penúltima expressão artística da noite seria feita pelo grupo adulto. E as luzes finais do espetáculo estariam iluminando os saltos dançantes de Peróla Packman, a joia de 22 anos do estúdio de balé.
Dentre as pequenas bailarinas que abriam o concerto, se destacava . Tão fofa quanto suas amigas dançantes, a menina estava vestida com uma roupa adorável: uma rede fina e discreta da cor dos seus cabelos, meia calça seguindo a cor da pele, sapatilha de cetim azul, a cor se repetia tanto para o seu collant de manda longa de renda quanto para o tutu glamourosamente brilhante. Havia gliter no seu cabelo, na verdade, por todo o seu corpo.
A garotinha respirou. Todo o seu pequeno corpo estava brilhante – obrigada, gliter. – , mas parecia que o seu coração estava sem brilho. Não entenda mal, ela amava ballet, mas toda a animação daquelas pessoas parecia um tanto... Espalhafatosa. Afinal, e se elas errassem um passo? Todos iriam rir delas!
A cabeça de uma menina de 6 anos não é tão difícil de ser decifrada e o pai de sempre foi um observador atento. O homem havia notado o comportamento incomum da sua filha desde que eles haviam saído de casa.
Todavia, ele não devia estar nos bastidores – apenas quem iria se apresentar, professora, costureiras de emergência, maquiadores e as pessoas que trabalhavam no teatro. Ainda assim, lá estava Rogélio. Prestes a realizar um truque para fazer essa noite memorável de um jeito bom, não apenas uma noite iluminada e divertida, mas uma daquelas lembranças que te mudam por dentro.
- Papai! – sorriu ao ver seu progenitor. Ele replicou o gesto com carinho, se ajoelhado no chão para ficar ao lado da filha. – O que é isso? – A mais jovem questionou, sua testinha franzida demonstrando sua confusão. – Aí. – Murmurou. Até mesmo um gesto inconsciente como franzir a testa puxava o cabelo do seu coque apertado.
- É um buquê de flores. Um tipo de flores raras.
- O que significa rara, papai? – ficou de ponto de pé, estranhando aquelas flores que com certeza não pareciam flores aos seus olhos infantis. – Não parece uma flor.
- Rara é algo que não é comum. – Rogelio tocou o queixo da filha levemente. – Igual a você, minha pequena Jade Vine. Uma flor tão bela que quase não parece uma.
- Meu nome é , papai. – Retrucou em um tom zombeteiro, sempre fora esperta e dona de um raciocino deverás rápido para uma criança da sua idade.
- Jade Vine é o nome dessa flor, pequena. Elas vieram lá das florestas de Filipinas, bem de longe. Ela é bonita mesmo fora do período de florescência, principalmente pelo formato estranho e a cor forte. – Principalmente aquele tom de azul turquesa, deve-se acrescentar. – Toda flor tem um significado. Como a Margarida, que significam inocência e o Alecrim, que significava coragem e felicidade.
- Todas as flores significam algo mesmo? – A dúvida de sumiu tão rápido quanto apareceu quando seu pai assentiu. - O que significa a Jade Vine? – Perguntou curiosa, a excitação óbvia na sua voz.
- Esse tipo de flor é bem difícil de ser morta por acidente. Ela é resistente, bela e forte. – Rogelio entregou o pequeno buquê para o Girassol da sua vida. – Ao meu ver, ela significa .
Ela sorriu amplamente, mostrando todos os seus dentes brancos como agarrou o buquê. encantada por uma coisa tão banal quanto flores terem um significado tão profundo, cada uma delas. E existiam tantas!
A bailarina em ascensão abaixou sua cabeça, mergulhando seu rosto com cuidado no presente, suas narinas inalando aquele cheiro peculiar para uma flor.
- Tem cheiro de feijão.
Seu pai riu. E o seu coração parecia tão brilhante quanto o resto do seu corpo. Agora sim, ela estava pronta para se dançar.

Xxx

sempre amou flores.
É um fato. Ela podia passar o dia todo tagarelando sobre flores, pesquisando sobre elas ou até mesmo estudando-as. Sabia mais de 20 espécies só de cabeça e conseguia fazer o reconhecimento delas a olho nu. Essa paixão começou quando ela era ainda nova, no teatro municipal como fora supracitado – numa apresentação, tachada, anos mais tarde, pela protagonista como boba de ballet.
Enfim, ela amava flores desde que podia se lembrar.
Mas agora, sua mente estava flutuando pela lembrança de quando ela havia descoberto essa paixão. O gatilho positivo que trouxe desencadeou isso estava bem ali, do outro lado da rua. Mesmo há alguns metros de distância, tinha completa certeza do que era aquilo: uma muda de Jane Vine.
Pensou que aquilo era praticamente impossível. Afinal, ela não estava no habitat originário da flor, porém, quantas coisas, até mesmo pessoas, saiam dos seus lugares de origem todos os dias por motivos diversos? Claramente, uma flor podia realizar tal façanha.
Ela deu uma olhada rápida para o lado esquerdo da rua e atravessou a mesma, hipnotizada pela beleza exótica. Era tão incrível quanto uma flor brotando entre o cimento da calçada. E estava ali, bem na frente dela! Como poderia deixar tal oportunidade passar?
Seu pai, que vinha sofrendo tanto com contas, teria um alivio como ela ao ver essas flores, estava convicta disso.
Talvez tenha sido a excitação crescente, as memorias dos tempos simplistas, a necessidade de fazer o pai se distrair do problema monetário, o afoitamento dela, um fator climático ou tudo junto, mas não olhou para direita ao atravessar a rua.
- MOÇA, CUIDADO! – Ouvi-se um pedestre gritar. A ex bailarina virou-se e tudo que pode ver foi um carro cinza vindo em sua direção.
Numa bola de medo, desespero e surpresa, a menina ainda conseguiu pegar um vislumbre do rosto do motorista. Aquele era o ? Fala sério. Provavelmente era a adrenalina sendo produzida em excesso pela situação de stress.
Aí, veio o impacto.


Capítulo 2

❝Eu tirei a maldade do meu jardim como uma erva daninha e acabou que ela renasceu. E eu decidi mantê-la por lá.❞

Algo branco forte batendo violentamente nos olhos dela. Uma luz de invejar a estrela mais brilhante. se moveu na maca, abrindo e fechando seus olhos diversas vezes antes de acordar por completo. O quarto no qual ela se encontrava era totalmente branco, digno de um poema Simbolista.
As lembranças se encontravam tão embaralhadas quanto o seu raciocino naquele momento. Ela tentou falar, mas logo uma coisa dentro da sua garganta impediu que as palavras saíssem, abrindo espaço para um tipo de tosse entupida. A paciente se assustou e os bips nada amigáveis de um aparelho eletrônico não contribuíram para ajudá-la a se situar. Felizmente, seus olhos castanhos fisgaram sua figura paterna em meio ao desespero, fazendo-a se acalmar um pouco.
Tentou chamá-lo, sem sucesso, pois o tubo ainda estava preso entre sua garganta – não era doloroso, embora. Só irritantemente desconfortável. Quis enfiar a própria mão na goela e arrancar aquele tubo dali, mas seus braços estavam tão cansados e molengas.
- Filha! – exclamou, feliz pela sua prole estar bem. – Eu estava tão preocupado. – O homem de cabelos grisalhos se aproximou da jovem, suspirando em puro alívio. Os médicos, é claro, haviam dito que a menina aparentava estar bem, o explicado sobre a chance mínima de sequelas e todas as informações necessárias. Contudo, nada se comparava a vê-la ali, sua garotinha, com seus próprios olhos cansados de tanto ler contas, cheques e recibos. A menina tentou miseravelmente falar mais uma vez; o resultado foi o mesmo de suas tentativas anteriores. notou o problema, apertando o botão vermelho que era fincado na parede, chamando uma enfermeira de prontidão.
A enfermeira adentrou no recinto antes que qualquer palavra ou, no caso de , tosse pudesse ser proferida. Retirando o tubo enquanto dizia suavemente para como ajudar a empurrar o tubo de oxigênio para fora. Ao terminar, a mulher mais velha ofereceu a menina na maca, a qual não parava de tossir, um copo de água que foi prontamente aceito.
Após terminar de hidratar a garganta, respirou fundo. Os olhos ainda meio marejados por tirar aquilo da sua garganta, mas, pelo menos, agora se sentia um pouco mais livre, deixando de fora os fios presos ao seu corpo, ainda cansada demais para fazer muitos movimentos, no entanto. A funcionária colocou o copo sobre a escrivaninha ao lado da maca, encarando sua paciente.
- Senhorita , vou fazer algumas perguntas para confirmar se há alguma sequela. Depois, alguns testes e você poderá ser liberada amanhã pela matina. – Informou-lhe, como dizia em seu crachá, Creuza. – É normal estar um pouco desorientada, efeito colateral do resto da morfina presente no seu organismo.
- Os exames vão demorar? É grave? Meu Deus. Eu fui atropelada, não fui? Que tipos de exames são esses? Tem agulhas? Eu odeio agulhas. E injeções. – Tagarelou sem filtro, assustada demais para se importar se ela a acharia uma criança medrosa. Para quem estava tecnicamente desorientada, sua mente estava trabalhando a mil por segundo. – Quanto tempo eu dormi? Entrei em coma? Quem me atropelou? Espere, eu saí de uma sala de cirurgia? Devo informar vocês sobre a minha posição quanto doação de órgãos? Quem me atropelou, está vivo? Eu fiquei com alguma cicatriz? – Arregalou os olhos, seu rosto já estava vermelho e oxigênio fazia certa falta, provavelmente por falar demais. – Eu assisti Grey’s Anamoty, vocês precisam saber do que eu tenho alergia, né? Ou eu posso morrer da cirurgia. Ah meu Deus, cadê aquele tubo de ar? Sabem meu tipo sanguíneo? É...
- Filha, respire. – Interviu senhor , tocando o ombro da sua cria de leve. assentiu, respirando profundamente pela segunda ou terceira vez naquele curto período de tempo de dez minutos.
- Não se acanhe, senhorita . – Creuza sorriu com educação, sua formalidade chegava a ser um pouco medonha. – É perfeitamente natural que se encontre nesse estado. Afinal, foste atropelada. Entretanto, não há nada com o que se preocupar. Só adormeceste por poucas horas. Quem estava a dirigir o carro passa bem, sem quaisquer cicatrizes. Seu pai nos informou suas alergias e posso oferecer-te um panfleto sobre doação de órgãos, tal nobre e importante ação que enfrenta tantos obstáculos neste país! – Suspirou, prestes a prosseguir com as respostas que havia começado a dar em ordem reversa. – Os exames são simples: uma pequena luz que a senhorita vai seguir apenas com seus olhos, para que possamos descartar traumatismo craniano, uma lesão no cérebro. O mesmo exercício com a mesma finalidade será executado, substituindo a luz pelo dedo do neurologista de plantão, o doutor Castro. Depois, algumas perguntas de rotina sobre a sua vida, como seu nome e idade. Então, teremos de colocar-lhe uma agulha no pé! Mas peço-te: não tenhas medo ou grite como tantos outros. E só uma picada de formiga para confirmar que não perdeste os movimentos. Ficará em observação pelo resto de dia, para que possas ir embora pela manhã. – Aquela mulher baixinha de cabelos castanhos estava lembrando-a da Ama de Julieta na peça de Shakespeare com aquele linguajar. Ela tinha ido a hospitais tanto quanto uma pessoa saudável precisava ir ao ano e nunca tinha sido atendida tão formalmente. Talvez a moça fosse nova no emprego e não queria perdê-lo? Ainda tinha a possibilidade de ela ser portuguesa e estar aprendendo o português brasileiro. Ou aquele era só seu jeito peculiar. De qualquer maneira, a paciente achou aquilo bem interessante. – Terás que falar com a polícia depois, para que seja confirmada a história que o homem que atropelou-te contou e que não ocorreu qualquer dano. Caso contrário, o homem que a pôs nessa situação irá pagar-te uma... Como dizem? Indenização. – Finalizou seu monólogo. simplesmente assentiu, absorvendo a situação. Seu corpo parecia bem, ela estava falando e tudo mais, só com o tal meio mole pelos resquícios de morfina. A cabeça doía um pouco, mas nem chegava perto de ser uma enxaqueca. Então, não tinha motivo para se preocupar, certo? Mesmo assim, as batidas nervosas do seu coração foram, novamente, denunciadas pelos bips nada tímidos do monitor.
Creuza se retirou, avisando aos dois que iria chamar o médico e apanhar os materiais necessários para os exames rotineiros. Á medida que ela mexia todos os seus membros e tentava ler qualquer palavra que encontrasse para confirmar que estava bem, os pensamentos do seu pai viajavam para um lugar distante.
Ele não era exatamente ligado nas ‘’paradas’’ dos jovens, mas , homem o qual se encontrava na sala de espera e havia se oferecido prontamente para pagar todas as despesas, também conhecido como o cara que atropelou sua primogênita, era um rosto bastante conhecido. Podre de rico, como tantos diriam. O carro e a falta de caso com o dinheiro que aquele hospital caro necessitava para o atendimento denunciavam isso com facilidade; assim como a imagem dele aparecendo repetidamente na televisão de horas em horas.
- , preciso que faça uma coisa. – disse, seu tom de voz anormalmente sério e sombrio, como se o que ele estava prestes a pedir fosse ilegal.
E estava.
- Hum? O quê? – Ela perguntou distraída, sorrindo de leve ao conseguir mover os membros inferiores. Realmente, não tinha com o que se preocupar.
- Tem que fingir que não está sentindo as suas pernas. – Soltou de uma vez, sem gaguejar ou alterar o tom de voz, como se aquilo fosse a coisa mais comum do mundo para se fazer dentro de um hospital.
- O quê? – Repetiu, franzindo o cenho, sem convicção de ter ouvido exatamente o que ele disse.
- Confie em mim. – Seu tom de voz finalmente tinha mudado daquele frigido irreconhecível para um de súplica. Ela já tinha escutado aquele timbre antes: quando seu pai, desesperado e com filhos para alimentar, recorreu ao banco a procura de empréstimos.
- Pai, não! Por que eu faria isto? Com certeza, paraplegia ou paralização da cintura pra baixo ou qualquer tipo de deficiência não é algo pra fazer piadas sobre! – O lado certinho de , que estava mais para uns dois terços de todo o seu ser, falou mais alto. Tal ideia era absurda, imoral e infundada. Ela não acreditava que seu pai, o homem mais honesto e gentil que conhecia, estava propondo algo do gênero.
- Esse não é o objetivo, . Apenas faça o que eu mandei, sabe que eu sempre farei o que é melhor para nossa família. – Foi direto, seus braços cruzados e sua postura, reta. Isto era uma ordem. Embora ele não fosse rígido, não costumava desobedecer, quase nunca havia sentido necessidade, honestamente. Ainda assim, aquilo não parecia certo de nenhum ponto de vista.
- Pai, eu não quero fazer isso! Não faz sentido nenhum. – Reclamou novamente, cem por cento confusa com toda aquela situação. Talvez a morfina estivesse deixando ela desorientada de verdade. – Como o senhor quer que eu faça isso? Ela vai enfiar uma agulha em mim! Eu não vou conseguir fingir não sentir isso! E por que eu faria isso?
- , não temos tempo suficiente. Acho que sei como resolver a nossa situação. Faça isso. Por mim. Pelos seus irmãos. – olhou para porta ao ouvir algumas batidas, sua boca seca notar que era a hora do seu plano espontâneo começar. Abaixando a voz, ele sussurrou: – É claro que vai conseguir, minha menina. Você possui a coragem de um alecrim, é uma .
respirou fundo e assentiu.
Afinal, o que mais ela poderia fazer?

Xxx

A pessoa que inventou a expressão ‘’momento tenso’’, com certeza não tinha definição de para essas duas palavrinhas em conjunto.
Um médico gentil executando exames de rotina, uma enfermeira que parecia ter saído diretamente do século XIX, um pai esperando um pouco demais da sua filha e ela, , a filha, paciente e mentirosa dessa situação.
Ah, é claro. Também tinha um pequeno fator barulhento que só piorava aquela circunstância: o batimento acelerado pela exasperação dela, que era facilmente reconhecível por conta de um aparelho eletrocardiograma de última geração.
O que fez ela pensar em como seu pai pagaria aquele hospital, que com certeza não era público. Hospitais públicos brasileiros não eram, nem de longe, organizados, limpos e rápidos desse jeito.
E isso a fazia ficar ainda mais agitada.
- Parece nervosa, . – Dr. Castro notou, sorrindo sutilmente para ela. – Não precisa se preocupar, já fizemos a maior parte dos exames. Só falta a agulha. Não vai doer nada, você nem vai notar.
A garota engoliu em seco, assentindo. Desgostava de agulhas, entretanto, essa não era a maior das suas preocupações momentâneas.
Tentou oferecer um sorriso casto ao doutor, mas, com certeza, saiu como uma deformidade facial.
Doutor Castro segurou uma agulha de, no máximo, 10 centímetros, mas que, para ela, pareciam 10 metros. ofegou e olhou para cima, os bips gritando como quem canta uma música Heavy Metal, além da sua relação nada amigável com agulhas, aquela furada significava mais que apenas um medo infantil: a mentira estaria selada. Mentira que ela nem sabia porque estava contando.
- Acabou. – Quê? Já acabou? Ela perguntou a si mesma, encarando o médio com a boca semiaberta. Ele, por sua vez, tinha tirado o sorriso do rosto e ostentava uma feição séria.
- Já? Eu nem senti nada! – Exclamou ela, surpresa. Não tinha sentido nem uma picadinha de formiga ou abelha, seja lá o que eles tinham dito que ela sentiria.
Castro suspirou, sabia o que aquilo significava e a fala dela só confirmou seu achismo.
- , vou tentar de novo e você me diz se sentiu algo, certo? – Ela assentiu e Castro colocou a ponta da agulha dentro da primeira camada de sua pele novamente. Dessa vez, o eletrocardiograma acelerou tanto pelo medo da agulha quanto pela pequena porção de dor que sentiu. Bem, pelo menos ela não estava paraplégica, estava quase se convencendo disso depois da primeira picada indolor. Felizmente, aquela dorzinha era real até demais. O mais provável era ela não ter sentindo por estar preocupada demais com outras coisas, adrenalina, algo assim. – Sentiu alguma coisa?
- N-Não. – Gaguejou, nervosa por ter uma agulha dento do seu pé e pela mentira. – Doutor, eu não sinto nada! – Aproveitou o desespero pelo material na sua pele e descontou em outra coisa. Bateu nas suas coxas, seus olhos marejados por um motivo completamente diferente do que o médico esperava. A respiração ofegante de completava aquele mini show. – Doutor?
- , eu sinto muito... – Inspirou profundamente, retirando a agulha da sua paciente. suspirou em alívio. Creuza observava a cena com certa pena no olhar e roía as unhas, assustado pelas possibilidades que aquele contexto poderia levar. – Mas acredito que a senhorita perdeu os movimentos dos membros inferiores. Está paraplégica.

Xxx

Após meia hora com o médico Castro explicando que nosso corpo lida com traumas de maneiras eficientes para o momento e que, ás vezes, certas partes do corpo apenas travam ou param de funcionar, mesmo com os exames constando o membro saudável, ele e a enfermeira finalmente deixaram o quarto, alertando que iriam dispensar os policiais por algumas horas.
- O que foi isso, pai? Preciso que o senhor me diga o que está acontecendo, agora! – exigiu em um grito sussurrado. Estava sentindo um aperto do coração por ludibriar as pessoas que estavam cuidando dela, especialmente de um modo tão baixo.
- , o homem que te atropelou é um cantar famoso. Ou ator, não sei bem. Um desses que sempre aparecem na televisão, ele fez questão de pagar todas as despesas do hospital. Se ele souber que você ficou com sequelas, podemos pagar as nossas dividas, pagar sua faculdade e colocar seus irmãos no colégio! – O pai da paciente sorriu abertamente. Finalmente, havia encontrado uma solução. – Já imaginou? Seus irmãos estudando em um colégio particular, sem ficar duas semanas sem aula por causa de uma pingueira!
- Pai, como o senhor pode sequer pensar nisso? É tão... – Sua fala foi interrompida por um rosto se esgueirando pela porta branca daquele quarto de hospital. ficou calado, sabia quem aquele homem era. apenas o encarou, esperando que o mesmo tivesse errado o quarto e fosse embora para que ela pudesse voltar a discussão com seu pai. Afinal, ele não estava vestido como um funcionário, logo, só podia ser um visitante.
- ? – Ela assentiu e o homem ofereceu um sorriso constrangido. – Oi, eu sou . Mais conhecido como o cara que te atropelou. – sorriu, tentando aliviar a tensão que achava que estava lá por conta dele. A careta de deve ter oferecido a impressão errada, porque logo ele começou a tagarelar. – Quer dizer, não que isso seja uma coisa boa, eu não quis dizer isso como se fosse uma coisa boa, porque não é uma coisa boa, sabe? Claro que você sabe, você está nessa maca. – Ele mexeu a cabeça. Deus, ele era tão atrapalhado que chegava a ser fofo.
olhou para o seu pai enquanto a sua vítima estava de costas, ainda se enrolando nas palavras ao fechar a porta. apenas revirou assentiu para filha e esta suspirou. Não tinha escolha. Contudo, não iria fingir ser paraplégica. Teria uma séria conversa com seus pais quando estivessem a sós, teriam que criar outro plano. Ou ela cairia fora, embora seu coração doesse pela sua família.
O menino de olhos verdes se aproximou dela.
- Eu só queria me desculpar. Foi totalmente minha culpa e eu vou fazer questão de pagar tudo, até os remédios e o tratamento depois daqui, se precisar. – Ele respirou fundo e coçou a nuca, um ato simples para expressar seu nervosismo. – Meu nome é .
- Eu sei, você já me disse. – sorriu tristemente. Ele parecia um cara legal. – Meu nome é .
E foi aí que, oficialmente, o problema começou.


Continua...



Nota da autora: Voltei! Admito que tinha parado na conversa da PP com o pai, porém, aqui estamos!



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