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Última atualização: 17/10/2020

Prólogo

O coração de Ariadne parou de bater no momento em que a lareira explodiu em fogo verde. Já havia andado de um lado para o outro tantas vezes que não se surpreenderia se houvesse um buraco no carpete da sala de sua casa. Não podia evitar, desde o momento que acordou existia um mau pressentimento em seu peito que dizia que algo daria errado. Evan não quis escutar uma palavra, como de costume nos últimos dias.
Seu marido nunca havia sido um homem que tolerava ser questionado, mas ao longo dos dois primeiros anos de casamento os dois haviam desenvolvimento um relacionamento confortável e ele sempre pedia a opinião dela. Várias vezes se sentavam em uma das salas de estar para conversarem sobre política e a guerra, sobre o que fariam quando o Dark Lord ganhasse. Não havia amor entre Ariadne Gaunt e Evan Rosier, mas havia companheirismo. Uma união de iguais, com ambições e valores parecidos - isso era mais do que muitos pureblood conseguiam. Ela não era tão sortuda como Narcissa, que se casou com o homem que se apaixonou. Mas também não era tão azarada quanto Electra Crouch - Nott, depois do casamento com o muito mais velho Othis. Para falar a verdade, Ariadne estava feliz com seu destino e não via a hora da guerra acabar. Queria Evan em casa, queria que eles dessem um irmão para a filha deles. Ela queria, um dia, ter o que Narcissa e Lucius tinham.
Mas no momento que seu Floo anunciou a chegada de alguém, Ariadne sabia que não era pra ser. Sua respiração virou gelo dentro do pulmão e a bruxa assistiu, paralisada, Bella e Rod Lestrange tropeçarem para fora da lareira. Sangue e poeira cobriam os dois - e Evan não estava com eles.
Os olhos de Bella brilhavam de raiva e luto e lágrimas. Rodolphus segurava o braço da esposa com tanta força que Ariadne distantemente imaginou que a marca de seus dedos ficaria roxa na pele pálida de Bellatrix.
“Ari,” Bella sacudiu a cabeça e Ariadne engoliu um grito, soluços subindo pela garganta enquanto ela apertava as mãos, unhas fincando na carne. “Ari, eu sinto muito – Moody - Evan lutou tão bravamente, Ari. Ele não desistiu, talvez tenha matado aquele desgraçado, ma...”
Ariadne não conseguiu conter o choro. “Mas ele morreu. Ele lutou bravamente, ele foi feroz e honrou o nome de sua família. Mas ele morreu. Meu marido morreu e minha filha mal se lembrará dele.”
Bellatrix cobriu a boca com as mãos. Ela e Ariadne eram amigas de muito tempo e Evan era seu primo. A pequena filha deles havia sido nomeada em sua homenagem, . E agora, por causa daqueles traidores do sangue, iria crescer sem seu pai.
“Vamos contar a ela, Ari. Como seu pai foi um dos mártires da causa. Ela vai crescer sabendo tudo sobre ele, cercada por seus irmãos e irmãs em armas. Evan, Evan queria um mundo melhor para ela,” Rodolphus puxou a esposa para si, tentando consolar o choro quase histérico de Bellatrix enquanto tranquilizava a viúva que tremia.
“Que se dane a causa, Rod! Quero que a causa e o Dark Lord se explodam! Eu só quero o Evan de volta.”
Transtornada, Ariadne desabou no carpete, joelhos batendo forte no chão enquanto gritava seu luto e desespero. Nenhum dos dois Death Eaters a repreendeu, apenas se aproximando para mostrar solidariedade. A bruxa soluçava, sibilando em uma língua que nenhum deles falava, mas que conheciam e reverenciavam.
No andar de cima, o choro fraco e estridente de um bebê podia ser ouvido.

-


O cortante barulho de louça caindo no chão ecoou pela sala vazia do Chateau de Rosier. A maioria dos móveis já estavam cobertos por imaculados panos brancos, a mudança clara em cada cômodo da enorme mansão. O chão, antes espelhado de limpo, estava agora molhado de chá, pequenos cacos de porcelana cara espalhadas por toda parte.
Ariadne Rosier encarou o pedaço de papel em sua frente, mãos ainda tremendo. O choque a havia feito derrubar a xícara de chá e o luto familiar já a sufocava. Evan tinha morrido para nada. O futuro que ele queria para a preciosa filha deles nunca viria a se passar. A vida de Ariadne havia se estraçalhado como a xícara no chão, para nada.
Escrita na letra elegante de Narcissa Malfoy, o pedaço de papel dizia: “O Lorde das Trevas está morto. Nós perdemos, Ari. Eles estão vindo.”


Capítulo 1

Toujours Pur


Tudo aconteceu muito rápido, a partir daquele momento. O recado de Narcissa serviu seu papel, alertando Ariadne do fim e a preparando para o que viria a seguir. Por um momento, a bruxa pensou em deixar tudo para trás e sumir com sua filha, mas sabia que não podia. Pelo bem de e do futuro delas, Ariadne precisava ser forte. E ela precisava virar as costas a tudo que acreditava, que havia sido ensinada. A causa que tinha matado seu marido e provavelmente levaria tantos de seus amigos nos próximos dias e semanas.
Malditos sejam os Potter, ela xingou mentalmente, usando um feitiço para sumir com a bagunça de porcelana do chão. Os elfos já haviam sido mandados para a casa de sua sogra, mãe de Evan. Isabella MacNair era uma mulher formidável, terrível como mãe e esposa. Ari nunca havia gostado muito da sogra, mas tinha que admitir que a bruxa estava lidando com a tragédia de maneira admirável. Ela se concentraria, Ariadne tinha certeza, em manter Sebastian a salvo. Nenhum envolvimento com o Lord das Trevas poderia tocar o filho mais novo dos Rosier - o futuro da família, agora que Evan estava morto.
Se tivesse nascido menino, a responsabilidade cairia sobre ela. Talvez um dia caia - Ariadne estava pensando em convencer Isabella a fazer de a futura esposa de Sebastian. Difícil, considerando a diferença de idade e a necessidade de Sebastian se casar o mais rápido possível. Mas não impossível.
Tudo isso, é claro, só importaria se as bruxas conseguissem o milagre de manter suas famílias de pé depois dessa tragédia. Ariadne não estava muito segura.
No fim, nem mesmo duas horas depois de ser avisada, Ariadne tinha visitas. Bem, não exatamente. Os aurores nem mesmo bateram na porta, usando feitiços para atacar as barreiras protetoras da mansão, fazendo o chão estremecer e as barreiras mais sombrias se ativarem. Isso deixaria Ari e sua filha em situação ainda pior, ela sabia. De cabeça erguida, a mulher acenou para que as portas se abrissem estrondosamente, ao mesmo tempo que os portões de ferro da propriedade vagarosamente admitiram os invasores. Vestida de preto, a viúva Rosier esperou os agentes do Ministério da Magia se aproximarem, imponente e intocável. Era uma Gaunt de nascença, Rosier por casamento. Ariadne era muito superior aos cretinos que ousavam pisar no território de sua família e ela não se deixaria intimidar.
— Temos uma campainha perfeitamente utilizável, Auror Shacklebolt. — a voz da bruxa era gélida, observando os invasores de maneira desgostosa. A maioria não merecia sua atenção e as barreiras da propriedade lutavam para se livrar daqueles impuros de sangue. Shacklebolt, pelo menos, era puro sangue. — Não existe razão para esse tipo de comportamento.
Kingsley balançou a cabeça devagar, ignorando os barulhos incrédulos dos colegas de trabalho. Entre os aurores, existiam muitos que achavam justo e necessário prender todo e qualquer puro sangue de famílias duvidáveis. Inclusive jovens viúvas. Não que ele pensasse por um momento que Ariadne Rosier era inofensiva - ele conhecia a fama dos Gaunt e não era nenhum pouco melhor que a dos Rosier. Mas a bruxa não tinha mais do que 20 anos e tinha uma filha pequena para cuidar. A menina não era muito mais velha que o agora órfão Menino-Que-Sobreviveu. Eles iriam, Kingsley pensou naquele momento com surpresa e um pouco de ironia, estudar juntos em Hogwarts um dia.
— A senhora precisa entender a gravidade da situação, Madame Rosier. Seu marido era um Death Eater, um dos piores já vistos. O pai dele, seu sogro, foi preso por colocar fogo em uma casa cheia de pessoas, além de outras monstruosidades. E isso é só um pouco de suas conexões com os servos do Lord das Trevas. — a voz do auror era calma, não acusatória. Ele não achava que a mulher era particularmente culpada dos crimes dos outros. Mas isso não fazia dela inocente.
Ariadne riu, ríspida e desdenhosa. — E quanto aos meus crimes, Shacklebolt? Quando eu tive tempo para torturar sangues-ruim? Quando eu fui forçada a me casar com um homem que não conhecia? Quando fui mãe antes mesmo de fazer 20 anos?
A expressão do bruxo era pesarosa, o que quase fez Ariadne rir novamente. Tão manipulável. Tecnicamente, nada do que havia tido era mentira. Mas a bruxa não havia sido vítima na situação - tinha orgulho de ter feito sua parte. Somente um idiota não saberia disso - ou alguém com muita compaixão.
— Não a estamos acusando de nada, Madame Rosier. — ele ignorou o fraco ainda que alguém murmurou atrás ele. — Mas precisamos fazer uma busca na casa por fugitivos e artigos das trevas. Prometo que nenhum mal acontecerá à senhora ou a sua filha. Se for necessário levá-la para questionamento, permitirei que deixe a pequena com um dos avós.
Ariadne prestou atenção naquilo. Então já haviam passado pela mansão principal dos Rosier. Isabella, ao que parecia, conseguiu livrar seu nome e o dos Rosier restantes de qualquer coisa. Bom pra ela, claro. Uma ótima notícia para Ariadne também. Sabia que seus pais estavam a salvo na Irlanda e não haviam se envolvido de nenhuma maneira na guerra. As coisas não estão tão perdidas quanto pareciam. Após a prisão de Bella, Rod, Basti e Barty, o futuro parecia tão nebuloso e sombrio. A bruxa lembrou das palavras de Bella na noite antes do ataque aos Longbottom. “Faça o que for preciso por você e por , Ari. Deixe que outros lutem pela causa agora. e Draco são o futuro e eles precisarão de pessoas aqui fora. Nada poderei fazer de Azkaban.”
Franzindo os lábios, a bruxa indicou as portas abertas com um gesto imperioso. — Entrem, então. Façam a busca e se desapontem quando não acharem nada. Estarei com a minha filha no andar de cima. — olhando os intrusos com uma expressão de desdém, ela se virou em direção às escadas. — Tentem não destruir minha casa, se possível.
Silêncio seguiu por um longo momento após a partida de Ariadne, até que Kinsgley o quebrou. — Vamos. Temos outros lugares para visitar e a mansão é grande. Não podemos perder um minuto sequer.

-



Horas depois dos aurores deixarem a mansão, Ariadne ainda estava no berçário, observando a filha dormir. era tão pequena ainda, mal sabia que já havia perdido mais do que Ari poderia explicar. Como colocar em palavras a enorme perda que a morte de Evan trouxe? Não só a ausência dele, mas o mundo que ele havia prometido criar para elas.
— Eu prometo, minha querida. — Ariadne sussurrou, as pontas dos dedos acariciando as bochechas da filha enquanto ela tentava se manter forte. Uma lágrima rolou pelo rosto. — Você terá o mundo. Não importa o que eu tenha que fazer, não importa quem precise ser sacrificado.

-



O castelo da infância de Ariadne continuava o mesmo. Imponente e impenetrável, a fortaleza de pedra que abrigava os Gaunts irlandeses era tão familiar que somente olhar para ela fazia o coração de Ari apertar. Depois dos meses infernais que teve seguindo a morte de seu marido, tudo o que a bruxa queria era paz. Ela queria as memórias felizes da infância, queria voltar a ser aquela garota sem preocupações que correu pelos jardins com os primos e os irmãos.
Em seus braços, se mexeu e lembrou a mãe que isso não seria possível. Os dias de inocência se foram, deixando somente luto e dor em seu caminho. A guerra havia tirado tudo de Ariadne, os últimos vestígios de esperança que tinha. A casa de seus pais traria alento, ela sabia, mas não consertaria nada. Evan continuaria morto.
Parada em frente as enormes portas de ferro, esperando pacientemente, estava sua mãe, Aphrodite Gaunt. A bruxa mais velha ainda era muito bonita, no auge de seus 45 anos. Havia tido filhos muito nova, algo comum entre mulheres de sangue puro. Ari não era especial, ela não havia sido a única a se casar e ser mãe antes de deixar de ser uma menina. A diferença era que sua mãe não precisou deixar tudo o que conhecia para isso.
Muito fechados, os Gaunt eram conhecidos - e com razão - por casamentos próximos. Aphrodite e Herakles eram primos, tinham crescido juntos e tinham um casamento sólido - mesmo que não exatamente fiel. Desde que tudo ficasse em família, Ariadne sabia, estava tudo bem. Ela esperava se casar de maneira similar quando adolescente, de preferência marcada pelo tio Hades ou pelo primo Deimos - mas seus pais queriam uma aliança com os Rosier e ela havia sido escolhida.
Observando a mãe, Ariadne pensava que não ressentia mais os pais pela escolha. Na época, a bruxa havia gritado e batido portas e negado a possibilidade. Porém, com a filha nos braços e boas memórias de Evan, ela não podia desejar que as coisas tivessem sido diferentes. Só o final, claro.
— Minha filha, estávamos tão preocupados. — de maneira nada característica, Aphrodite envolveu a filha em um abraço assim que chegou perto o suficiente, tomando cuidado com a criança adormecida. Ari piscou, surpresa. — As notícias chegam cada vez piores. Nossa linhagem está em perigo.
Dando um passo para trás depois de beijar levemente a bochecha da mãe, Ariadne passou para os braços da bruxa mais velha, que aninhou a neta carinhosamente.
— Aquele mestiço intragável arrastou a habilidade de nossa família na lama. Todos nós seremos observados com suspeita, inclusive as crianças. A Bretanha não é segura, Ari. — Aphrodite olhou para a bebê em seu colo, expressão preocupada. — Vocês vão ficar aqui, por enquanto. Eu sei que Lady Isabella quer a família toda debaixo do mesmo teto, mas não é seguro agora.
Ariadne não discordava. Ela havia tido essa mesma conversa com a Lady Rosier alguns dias atrás. Nada agradável, Isabella não era uma mulher muito acessível, mas elas chegaram a um consenso. Isabella sabia tão bem quanto Ariadne que não era possível deixar nenhuma margem para erros, para o Ministério arrumar motivos para destruí-los. Narcissa comentou que Lucius escutou rumores sobre retirar crianças da custódia de Death Eaters convictos - e isso incluía , Sebastian e Draco. Parecia que Lucius se safaria com pouco, mas Ari duvidava que seu sogro ou Bella mentiriam e negariam o Lord das Trevas. Uma lealdade que aquele mestiço desgraçado não merecia.
— Eu sei. Lady Isabella também entende a necessidade da separação. Ela não está feliz, mas também é uma bruxa que perdeu quase tudo.
Aphrodite vacilou por um momento, assentindo. — Ela perdeu o filho, o marido e o irmão estão presos. Pelo que escutei, a irmã dela está na mesma situação, com os Flint. Pobre Katherine, lembro dela vagamente.
O vento acelerou, como costumava acontecer perto dos penhascos, e Ariadne afastou os cabelos do rosto, tremendo um pouco. Ela não sabia se era de frio ou se só não havia parado de tremer desde que Bella e Rod trouxeram a notícia da morte de Evan. — O importante é manter a salvo, mãe. Ela pode não ser o herdeiro que todos esperavam, mas ela é minha filha.
— Nosso sangue, claro. Vamos todos protegê-la, Ariadne. Vocês estão em casa agora, está tudo bem.
Ariadne aceitou o segundo abraço da mãe mais facilmente, tentando engolir os soluços.
O vento abafou o barulho de choro, assim como havia abafado a conversa que inteiramente consistia de sibilos e não palavras.

-

5 anos depois


A risada de trouxe um sorriso para o rosto normalmente impassível de Ariadne. A guerra estava, tecnicamente, no passado, mas acordar todos os dias com a cama vazia e a realidade que era uma viúva de 25 anos não era fácil. Seu casamento com Evan havia sido curto, menos de três anos, e Ari já era viúva a cinco. Mas ainda sim sentia falta do marido, do que poderia ter sido. Morgana e Mordred, eles poderiam ter sido felizes.
Mas era difícil ficar presa no passado em um dia tão bonito. O sol estava brilhando nos penhascos irlandeses e sua filha corria pelos jardins verdejantes do castelo com os primos, gargalhando daquela maneira que só crianças inocentes conseguiam. Os filhos dos irmãos e primos de Ari brincavam todos juntos com , os que eram um pouco mais velhos cuidando para que os mais novos não se machucassem. A mais nova era Harmonia, ainda hesitante em seus passos, tinha pouco menos de dois anos.
Fechando os olhos, Ari aproveitou a brisa e o calor do sol por um longo momento, que foi interrompido por alguém se sentando ao lado dela em uma das espreguiçadeiras dispostas no pátio. Sabendo quem deveria ser, a bruxa nem se deu o trabalho de olhar. Tampouco abriu a boca para falar.
Previsivelmente, o recém-chegado não demorou a se pronunciar. — Eles estão crescendo tão rápido. — Ares, seu irmão mais velho, já tinha três filhos com Leto. A mais nova era Harmonia, que nasceu depois de duas perdas. — Mal dá para acreditar às vezes.
Com isso Ari não podia discordar. Sem abrir os olhos, a bruxa se inclinou para encostar a cabeça nos ombros fortes do irmão, respirando fundo. — Sinto que vou piscar e estará me deixando para ir para a escola. Não é bem um sentimento positivo, mas não é negativo também. Ela me dá tanto orgulho.
Os irmãos, é claro, conversavam na língua da família. Evan achava divertido, quando estava vivo, que Ariadne tinha tanta dificuldade para se expressar em inglês quando ficava nervosa ou irritada. Para ela era óbvio - inglês não era sua língua nativa.
Ares beijou o topo da cabeça da irmã, fazendo um barulho especulativo. — Ela será uma bruxa formidável, assim como a mãe dela. — ele pausou, como se medisse as próximas palavras. Aridane não podia culpá-lo pela hesitação, se o assunto era o que ela estava pensando. — E ela vai fazer seis anos, Ari. Está na hora de pensar um pouco em você.
Ah, é claro. Exatamente como Ariadne suspeitava. Aphrodite, cansada de falar e não ter resultado, recrutou o ponto fraco dela para trazer à tona o assunto polêmico. Casamento. Era de se esperar, Ari admitia, porque ela ainda era jovem. Não existiam tantas bruxas de puro sangue por aí, pelo menos não as que ainda podiam ser chamadas assim. E com sua linhagem impecável, era inadimissível que Ariadne ficasse viúva para sempre. Na opinião de sua mãe, o luto já havia durado tempo demais.
— Eu estou pensando em mim, Ares. Para mim, ficar aqui e cuidar da minha filha é tudo o que eu quero. — ela pressionou os lábios, tentando disfarçar o tremor da voz. — Eu quero ficar com a minha família.
Ariadne havia sido vendida como uma vaca premiada uma vez, tirada da casa de seus pais quando tinha 18 anos. Era pedir muito que depois de ter feito seu dever ela pudesse ficar em paz? Não queria outro marido, outra mansão escura e sem vida. Não queria mais filhos. Tudo o que a bruxa queria era isso - a segurança de estar em casa, com aqueles que amava.
— Oh, Ari! Ninguém está falando de te mandar embora. — Ares puxou a irmã para seus braços, tentando acalmá-la. Ele havia sido extremamente contra o arranjo entre ela e Evan Rosier na época, preferindo que a irmã se casasse com alguém mais próximo. Por algum motivo, Aphrodite e Herakles eram contra Hades ser o pretendente, mas Deimos era o candidato perfeito. Próximos em idade, ele e Ari se davam muito bem. Infelizmente, a necessidade de alianças havia ditado o resultado. Mas agora que Ares tinha sua irmãzinha de volta em casa, ele não estava afim de mandá-la embora novamente. — Hades é viúvo também e ele está disposto a largar o luto por você que eu sei. Ainda não conversei com Iapetus, mas é claro que ele se casaria com você. Na verdade, já está mais que na hora dele escolher uma esposa, Maia se casou três anos atrás, ele precisa superar isso.
O tom irritado do irmão fez Ariadne rir. As fofocas e dramas da família nunca deixavam de ser interessantes. E ela sabia que Ares estava certo, mas… — Isso não muda nada, meu irmão. Eu estou bem assim, estou feliz. — ela virou a cabeça, olhando para cima e encontrando os olhos de Ares, quase idênticos aos seus. — Isso não é o suficiente?
Ares ficou em silêncio por um longo momento, sem quebrar o contato visual com Ariadne. Finalmente, ele assentiu, enterrando o rosto nos cabelos dela. — Claro que é, Ari. Isso é o mais importante para mim. Eu vou falar com nossos pais, eles vão te deixar em paz.
Paz. Depois de tudo que havia acontecido, paz era tudo o que Ariadne queria. E, naquele momento, isso quase parecia possível.

-

5 anos depois


Isabella Rosier colocou a xícara no pires com cuidado, lábios retorcidos em desgosto enquanto olhava a foto se mexendo na capa do jornal. — Francamente, parece que o Profeta não tem mais nada para noticiar. Sim, claro, Harry Potter está passando parte do verão com os Weasley mais uma vez. Como se fosse novidade. — a bruxa virou a página com tanta raiva que Ariadne ficou surpresa dela não ter rasgado. — Altaïr e Julia devem estar espumando de ódio. Quem sabe quais besteiras aqueles traidores estão colocando na cabeça do mestiço?
Ariadne, pessoalmente, não podia se importar menos com o que acontecia com Harry Potter. Por ela, ele podia se explodir. Mas ela entendia que Altaïr Potter e sua esposa Julia Avery tinham exigido custódia do menino por motivos importantes. O nome dos Potter estava na lama desde que James havia se casado com a sangue-ruim e se Dumbledore ficasse responsável por criar o menino... Quem sabe o que ele faria com o nome de uma família tão importante e respeitável? Como Lord Potter, era responsabilidade de Altaïr reparar o dano. Infelizmente, a conexão sanguínea foi considerada mais fraca do que a dos Bones, considerando que a mãe de James, Ephemia, era uma. Philip e Guinevere Bones conseguiram o direito de criar Harry, o que não seria tão ruim se os Weasley e Dumbledore não tivessem envolvidos até o pescoço.
— Eu acho, senhora minha mãe, que não havia nenhuma chance do mestiço ser criado de maneira diferente. Dumbledore era capaz de matar Altaïr e Julia ele mesmo, antes de deixá-los colocar as mãos em seu precioso Menino-Que-Sobreviveu. — o título foi dito com escárnio por Ariadne, que olhava para a janela incessantemente. Algo que não passou despercebido pela matriarca Rosier.
A bruxa mais velha rolou os olhos elegantemente, dando um gole de seu chá e virando outra página no jornal com um movimento curto de seu pulso. — Pelo amor de Morgana, Ariadne, se controle. Ainda é cedo, não seja ridícula. Eu não entendo o nervosismo, todos sabemos que não vai para Hogwarts. Tivemos essa conversa várias vezes durante os anos e você ganhou, se lembra?
Conversa não era bem o que Ariadne chamaria as discussões calorosas e, às vezes, perigosas que havia tido com a sogra. Ari não queria sua filha em Hogwarts, por diversos motivos, e Isabella insistia que todos os Rosier haviam frequentado a escola. No final, a segurança de venceu e a menina iria para Durmstrang. Ainda assim, a chegada da carta de Hogwarts não era algo que ela queria que presenciasse.
Antes que Ari pudesse responder, Sebastian e Evgeniya entraram no breakfast parlour, tomando seus lugares na mesa. O Lord Rosier e sua esposa eram pessoas que Ari gostava bastante, apesar da diferença de idade entre eles. Sebastian era cinco anos mais novo que Ari, sete entre ele e Evan. Evgeniya Dolohova tinha a mesma idade de Sebastian, os dois haviam frequentado Hogwarts juntos. Todos eles se davam muito bem, graças a Mordred, e era apegada aos priminhos mais novos. Mais importante era que agora Sebastian quem dava as cartas na casa dos Rosier. Não mais o rapaz assustado de 17 anos que havia acabado de perder grande parte de sua família, Sebastain agora era um bruxo poderoso e inteligente, que sabia muito bem o que precisava ser feito. Ariadne confiava mais nele do que em Isabella.
— Bom dia, mãe, Ariadne. Como estão os preparativos? — claramente Sebastian sabia o que estava acontecendo, mas ele queria lembrá-las do mais importante: o aniversário de . — Evgeniya vai levar para pegar os vestidos que elas encomendaram semana passada. Vocês tem até a hora do almoço para terminar tudo.
A mulher em questão assentiu calmamente, se servindo de um pouco de chá. — Tem uma joalheria nova no Beco Diagonal também, imagino que seja hora de começar a escolher joias para uma lady. O tempo de correntes fininhas e brilhantes discretos está passando.
Ariadne se segurou para não comentar. Sua filha ainda era uma menina, uma criança. Ela mal queria acreditar que já iria para a escola, muito menos pensar que em menos de uma década ela poderia estar casada. Felizmente ninguém levantou nomes para o futuro marido de , embora a lista dos interessados fosse grande. — tem um olho bom para beleza. Não deixe que ela acabe com toda a sua mesada, por favor. Ela precisa aprender a se controlar.
Isabella riu. — Minha neta tem a fortuna dos Rosier a sua disposição, Ariadne. Controle é a última coisa que ela precisa. Deixe a menina comprar o que quiser, Evgeniya.
Balançando a cabeça, a mãe da menina se limitou a tomar um gole de seu chá, as finas linhas de expressão ao redor dos olhos aprofundando ligeiramente - a única marca de sua irritação com a conversa. Desde que haviam se mudado para o Rosier Estate dois anos atrás, sua sogra e Evgeniya cismavam em se meter na criação de . E, de certa maneira, era a prerrogativa delas. Afinal, Isabella era a matriarca e Evgeniya a verdadeira Lady da casa.
Por sorte - ou não -, o café da manhã foi interrompido pela chegada de uma única coruja, normal em todos os sentidos, sem nenhuma marca que a identificasse como pertencendo a alguém importante. Mas mesmo assim Ari gelou por dentro, ainda que não demonstrasse muito. Não encontrando a destinatária da carta, a coruja largou o envelope na mesa, roubou um pedaço de torrada, e voou para fora novamente. Sebastian foi o primeiro a se mexer, um gesto de seu pulso comandando o bule de chá para servir todo mundo um pouco mais.
Mãos trêmulas, Ariadne respirou profundamente e pegou o envelope. Ela nunca tinha visto um de perto, já que seus pais haviam queimado as cartas que os filhos receberam assim que chegaram. Ari e seus irmãos eram ex-alunos de Durmstrang, uma escola que ainda apreciava os Old Ways e que não julgava bruxos de puro sangue por lutar para manter a pureza. Era surpreendentemente grosso, o envelope, de papel de boa qualidade. A heráldica de Hogwarts parecia zombar dela. Dentro, estava o esperado convite para se juntar a escola.

Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts

Prezada Srta. Electra Rosier

Temos o prazer de informar que…


A bruxa não precisava ler mais nada. Tirando a varinha do suporte de pulso, Ariadne pressionou os lábios. — Incendio! — o papel pegou fogo imediatamente, reduzido a cinzas em cima da impecável toalha de mesa branca.
Como se nada tivesse acontecido, ela apontou a varinha para a bagunça. — Evanesco. — as cinzas sumiram como se nunca tivessem existido e Ariadne voltou sua atenção para o chá, peso sumindo de seus ombros como a mágica que tão fácil praticava.

-


O vento nos fjords do leste era cortante, bem diferente do que Ari estava acostumada. Mas também trazia boas memórias de fazer isso todo ano, para ir para escola. Sua família viajava toda junta para a Islândia, para esse porto magicamente escondido, junto com todas as outras que mandariam os filhos para Durmstrang. O navio da escola estava atracado no fjord, imponente e quase intimidador para os primeiros anos. Ariadne quase sorriu quando sentiu a filha dar um passo para trás quando o navio surgiu do nada, no meio das águas gélidas.
— Você se acostuma. E o navio é extremamente confortável. — a bruxa assegurou a filha, que levantou o queixo.
, aos 11 anos, era alta para sua idade e quase delicada. A garota esperava ficar mais forte assim que começasse as aulas de artes marciais mágicas em Durmstrang, forte o suficiente para ser uma formidável duelista como seu pai. — Eu não estou com medo. Rosiers não sentem medo.
Era algo que seu tio, Sebastian, dizia com frequência. Eles causavam medo, em sua família. Mas não sentiam. E , como todos diziam, era filha de seu pai. O legado de Evan.
Ariadne afastou os cabelos da filha do rosto, ignorando que o vento bagunçaria as madeixas novamente em segundos. — Me perdoe, minha querida, claro que não. Eu vou sentir tanto sua falta.
A bruxa mais nova lutou contra o instinto de rolar os olhos. Sua mãe estava sendo muito mais emocional que o normal nos últimos dia. entendia que a mãe não queria perdê-la, é claro. Mas a garota estava animada para ir para a escola, para descobrir novas coisas e conhecer novas pessoas. E, é claro, o mais importante: Draco estava morrendo de inveja dela.
Draco era filho da melhor amiga de sua mãe, Lady Narcissa Malfoy, e provavelmente o melhor amigo de . Eles passavam a maior parte do tempo juntos, brincando e tendo as lições elementares na Mansão Malfoy. , que não tinha muito contato com outras crianças que não eram seus primos, adorava ter um amigo fora da família. Draco era seu, alguém que ela não tinha que dividir com mais ninguém. Bem, talvez Pansy e Theo, mas eles eram legais também. E não passavam tanto tempo assim com Draco, não tanto quanto ela.
A única coisa ruim de não ir para Hogwarts seria ficar longe de Draco. Como eles tinham tentando convencer Lord Lucius de deixar o rapaz ir para Durmstrang com ela! Mas o Lord Malfoy não queria contrariar a esposa e Lady Narcissa não queria que o filho fosse para tão longe. Nenhum dos protestos conjuntos de e Draco comoveram a bruxa.
Ainda assim, eles se veriam todos os verões e tinha feito Draco prometer que escreveria para ela toda semana.
A garota sorriu para si mesma, apertando o longo casaco pesado ao redor do corpo. Tudo seria perfeito em sua vida. Rosier havia sido prometida o mundo e ela iria cobrar.




Continua...



Nota da autora: Primeiramente, MUITO OBRIGADA PELOS COMENTÁRIOS! eu tentei responder todos, me perdoem se eu esqueci de algum, eu vou responder, eu juro. Espero que vocês gostem desse capítulo, finalmente vemos um pouco da PP como pessoa. Vou tentar trazer o próximo o mais rápido possível, mas outubro vai ser complicado. AAAAAA OBRIGADA OBRIGADA ❤️


Nota da beta: Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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