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Última atualização: 01/09/2020

Prólogo

fechou os olhos e fez uma oração silenciosa, secando o último rastro de lágrima de seus olhos e com um suspiro pesado virou-se de costas, iniciando sua caminhada para longe do túmulo, onde jazia o caixão com o corpo de seu pai, Dominique . Aquela sensação de perda queimava em seu peito e seus músculos rígidos revelavam a tensão.
Depois que recebeu a notícia da morte de seu pai, poucas lágrimas tinham sido derramadas, ela detestava chorar em público e quase não ficou sozinha, somente nos momentos em que ia ao banheiro, porém se demorasse mais de dez minutos alguém batia - esmurrava - a porta e suas amigas lhe traziam água e comida a todo momento. Sabia que não deveria reclamar, tinha consciência da preocupação explicita que elas sentiam, com medo de que fizesse alguma besteira, afinal de contas, ela realmente vivia cometendo besteiras.
Mas agora tudo que ela queria, era ficar sozinha.
Olhou para as amigas que a esperavam há pouca distância.

- Vou dar uma volta - Leah chegou a abrir a boca, mas não deixou que falasse. - Sozinha - afirmou séria. - Não me sigam, todas nós sabemos o que acontece depois da terceira marcha. Amo vocês.

deus as costas e percorrendo o trajeto da saída do cemitério até o estacionamento, o carro de seu pai estava ali, o carro que agora era seu, um monumento passado de geração para geração.
O Opala era o orgulho de Dominique.
E agora seria o seu também.
tirou os saltos quando sentou no banco do motorista, não se importava de dirigir com eles, mas queria sentir os pedais do carro tocando seus pés, ligou o carro e com a primeira marcha saiu dali, enquanto o carro andava pelas ruas, na cabeça dela era traçado como seria seu caminho a partir de agora, havia herdado tudo que fora de seu pai.
Havia herdado a oficina de carros.
Ela amava aquela oficina, por muitas vezes seu pai permitia que o ajudasse, não era sempre, já que ele não gostava que os homens ficassem babando por sua filha, mas quando ela insistia muito, o homem permitia, e tudo que sabia havia ensinado para a filha.
Quando estacionou o carro em frente à oficina, sorriu com as chaves em mãos, destrancou o portão e entrou. Cruzou o espaço até o banheiro e tirou o vestido preto do enterro, seus cabelos já estavam presos, voltou à entrada e observou dois carros parados, o serviço ainda não estava pronto, abriu o capô do Peugeot 206 branco, e deu outro sorriso, com a chave de fenda em mãos, iniciou seu trabalho.
Lar doce lar.


Capítulo 1 - Tons Claros Na Oficina

Quatro meses depois


Quando o carro ultrapassou a linha que determinava o vencedor, a mulher ouviu os gritos ensandecidos dos espectadores da corrida.
Ela havia ganhado.
De novo.
Deu a volta e chegou novamente à linha de partida, onde pegaria o dinheiro apostado. A maioria dos corredores gostava de apostar o próprio carro, não, seu negócio era o dinheiro, amava seu carro e não o apostaria jamais, não por medo de perder a corrida, mas por não ter interesse em dirigir mais nenhum.
Saiu do veículo e foi cumprimentada por várias pessoas, algumas ela sabia o nome, outras conhecia apenas a fisionomia, era quase impossível conhecer todos, já que todo dia apareciam pessoas novas procurando adrenalina e era bastante conhecida. Ela frequentava as corridas clandestinas desde antes dos 18 anos, não corria toda semana, mas toda semana estava ali, gostava também de assistir outras pessoas correrem. A mulher já tinha perdido a conta de quantas corridas disputou na vida, guardava na memória somente as derrotas.
Cinco vezes.
Era seu placar negativo, e o mais incrível de tudo, era que as derrotas foram para seu pai, ele era o MELHOR, praticamente invencível. Muitos perguntavam por que ela gostava tanto de correr e seu alvo preferido eram os homens; era um prazer quase sexual quando ela ganhava e os homens tinham que engolir todas aquelas baboseiras de “mulher não sabe dirigir" ou "mulher não entende de carro" a que mais odiava era "lugar de mulher é na cozinha" e esses outros ditos populares totalmente ridículos que a população masculina machista amava citar.

- Parabéns ! - Talles cumprimentou lhe entregando o prêmio monetário, era ele quem organizava as corridas. - Você arrasou mais uma vez.

o abraçou

- Valeu Talleco.
- Ainda não consigo entender como uma mulher ganha uma corrida - olhou para trás encarando o dono da voz.

Seu cérebro não reconheceu o semblante, era um homem alto extremamente forte, seus músculos pareciam explodir na manga da camiseta azul que era exatamente a cor de seus olhos, a pele era branca e as veias do pescoço saltadas. se perguntou quantos anabolizantes ele ingeria por dia, se Emanuelle estivesse o vendo, seu instinto medicinal falaria mais alto e ela o encheria de perguntas.

- O que você faz, dorme com todos para ganhar? - continuou ele - Com um corpo desses em cima de mim, eu faria qualquer coisa.

rolou os olhos enojada, como era babaca, mas estava acostumada a lidar com homens como ele.

- Estou percebendo que seu lance é força física, não me faça ir até aí e te fazer engolir os músculos - disse, a gargalhada dele a irritou.
- Ela é durona - deu dois passos para perto de que permaneceu no mesmo lugar. - Deve ser um furacão na cama.
- Já que você acha que eu durmo com eles para ganhar, porque não corre comigo e descobre, você com certeza não estaria na lista de caras que eu transaria - o homem pareceu ofendido por ela descartar a possibilidade de estar com ele, limpou a garganta e disse.
- Ganho de você com uma mão só - se gabou e descartou a possibilidade com aceno negativo de cabeça.
- Já esgotei minha cota de babacas na semana, meu cérebro dói em ter que lidar com tantos em pouco espaço de tempo. Tenta na próxima, quem sabe você dá sorte.

se jogou em sua cama totalmente exausta.
Com os próprios pés arrancou os tênis e a meias, seu dia fora totalmente cheio de trabalho na parte da tarde, e na manhã ficou por conta de preparar o almoço que essa semana era em sua casa.
Ah, o almoço!
Os almoços de sábado eram classificados para como o melhor momento de sua semana, bem, na verdade, o melhor momento era quando as amigas iam a assistir correr, mas isso só havia acontecido duas vezes.

- Eu não quero ser presa, e ser uma fora da lei - Mia se explicara uma vez, o que fez gargalhar fortemente.

iA tradição dos almoços de sábado, fora criada há cinco anos quando Leah engravidou e Ludmila estava sempre viajando por causa da carreira de atriz que começava a decolar. Era a maneira que encontraram de ficar juntas, em meio à rotina diária conturbada, e cada sábado acontecia na casa de uma das cinco amigas, Emanuelle elegeu o sábado, pois domingo era o dia da família, no início foi complicado se adaptarem, Amélia sempre chegava atrasada, alegando ter esquecido o compromisso, entretanto com o passar do tempo, era quase que inconsciente o encontro semanal, uma vez a própria chegou à casa de Leah em uma sexta- feira, confundindo totalmente a data e acabou ficando por lá, a ajudando preparar o almoço.
Mesmo com o compromisso sendo aos sábados, elas viam-se nos outros dias, seja na balada de final de semana, nos dias do futebol que e Amélia não perdiam, ou no cinema que Leah sempre levava a filha e as outras acompanhavam, sem contar que uma vez ao mês elas voltavam à adolescência e faziam a noite do pijama. Em cada momento marcante na vida de , as amigas estavam presentes e realmente não sabia onde estaria senão fosse por elas.
Antes que pudesse se dar conta, o cansaço tomou seu corpo e seus olhos estavam fechados em um sono pesado.

Na segunda-feira levantou cedo para ir à oficina, o sol brilhava com uma intensidade que os franceses conheciam muito bem, uma praia com uma cerveja bem gelada, era sempre uma boa pedida.
Mas aquilo não aconteceria, principalmente porque tinha uma mecânica cheia de carros para arrumar.
Depois da morte de seu pai, achou que perderia seus clientes que eram totalmente fiéis ao fundador da oficina, todos ficaram receosos por uma mulher tão atraente e com feições delicadas, estar embaixo de um carro. Porém sem se deixar intimidar, provou para cada um deles que suas habilidades eram ainda melhores, do que sua aparência física.
Em sua vida inteira aconteceu assim, sempre gostou de coisas que eram consideradas de homem, futebol, os carros e, Deus, ela odiava usar vestido, amava seus shorts, em sua maioria curtos. Também o fato de não saber sentar de pernas fechadas ajudava nessa última parte, por muitas vezes suas amigas – especialmente Mia - tentaram consertar seu modo de sentar e foram totalmente frustradas. Por isso deram a o apelido de "homenzinho", o que rendeu muitas gargalhadas entre elas, mas nunca se importou com o apelido e apesar das coisas masculinas que amava, tinha sua vaidade e se cuidava, toda semana fazia as unhas e ao final de todos os dias usava um produto para tirar a graxa dos dedos. Arrumava os cabelos também os hidratando e usando produtos que Isabella, sua cabeleireira, insistia em passar e ela não ousava discutir, principalmente quando algumas de suas amigas estavam no salão. Sim elas frequentavam o mesmo salão de beleza há quase 10 anos e até Mia, depois da fama, honrou as origens e não saiu da simplicidade do salão.

- Oi, homenzinho - a mulher ouviu a voz feminina e saiu de debaixo do carro onde estava.

Seus olhos encontraram Emanuelle, a loira estava com um macacão longo totalmente branco, seus cabelos loiros platinados quase se fundiam com a cor pura na roupa da médica, em seu rosto os óculos ray-ban brilhavam junto com as bochechas rosadas.
não pode deixar de reparar o quanto ela realçava nos tons escuros da oficina.
Perto da loira, estava estacionada uma moto e ela conhecia bem aquela!
Harley Davison.
Era a moto de Emanuelle, ela amava motos.

- Oi Emanuelle - cumprimentou a amiga. - Eu até te abraçaria, mas você está de branco.

Emanuelle concordou com um sorriso e tirou os óculos.

- Minha moto está com a quarta agarrando, olha para mim? - jogou as chaves e pegou no ar.
- Você sabia que é uma oficina de carros? - apontou o dedo para o carro que trabalhava.
- Sim, mas você é a única mecânica que conheço – sorriu. - Resolve até de noite, amanhã eu trabalho cedo.

bufou.

- Usa seu carro.
- Você sabe que eu não gosto de andar de carro - a morena grunhiu.
- Você é muito estranha - também gostava de motos, mas Emanuelle só andava de carro quando não havia outra opção.
- Eu sou estranha? - perguntou desacreditada. - Você passa o dia debaixo de um carro, disputas corridas ilegais podendo ser presa, ou melhor, morta. E eu quem sou estranha, homenzinho? Jura?

O tom de voz de Emanuelle fez um sorriso alto escapar dos lábios de .

- Tchau, Emanuelle.
- Quando terminar me liga, obrigada. Te amo, meu homenzinho - Emanuelle girou nos calcanhares, no mesmo instante que rolou os olhos e disse:
- Eu vou cobrar.
- Não vai nada - e então Emanuelle saiu por completo da oficina.
- Ah se vou. - disse rindo para si mesma.

XXX


Quando abriu a porta de sua casa a primeira coisa que reparou foi a poeira dos móveis, faziam algumas semanas que não entrava ali e quando viajou esqueceu de deixar as chaves para sua mãe, o que lhe rendeu boas brigas da progenitora, ele havia passado os últimos meses viajando. Em dezembro esteve de férias e aproveitou para distrair a cabeça, em janeiro voltou a preparação da F1 e em Março já iniciava a temporada. O ultimo GP havia sido o de Bahrein, ele conseguiu subir ao pódio, terceiro lugar e era o detentor da volta mais rápido do circuito 1'33.411, superando todas as expectativas. Um excelente início de temporada.
Ele estava ansioso para essa temporada na Ferrari.
De acordo com a pontuação estava com 25 pontos, na frente do companheiro de equipe Vettel, com 22 pontos. Ele se orgulhava do posto, mas não gostava de se gabar já que sabia que um longo caminho ainda estava se iniciando. Era um piloto novato, não só pela pouca idade, mas em experiência e também de equipe, já que antes corria pela Sauber e agora fazia parte da Ferrari. E para ele era só dirigir um carro, bom, talvez não assim, nessa simplicidade toda de carros normais, mas para sempre seria só isso.
Dirigir.
Assim que o GP acabou, pegou um avião para sua casa, tinha alguns dias antes do próximo GP e aproveitaria as praias de Mônaco.
Sua casa.
E por falar em casa, que saudade que ele estava de seus pais. Durante o período de preparação conversou com os pais todos os dias. No dia do GP, seu pai estava como sempre ao seu lado, com toda expectativa que daria muito certo e ele venceria, já seu irmão mais novo Arthur, não pode ir por causa dos compromissos da própria carreira, que se desenvolvia bem e estava entupido de orgulho do mais novo, que assim como ele, estava brilhando nas pistas. Era para sua mãe, Pascale, ter assistido a corrida de perto, se não sentisse um medo absurdo de altura, se lembrava da primeira vez que andou de avião, sua mãe quase teve um ataque cardíaco e passou semanas falando em seu ouvido como aviões eram perigosos.
Apesar de tudo, o homem amava as paranoias dela, da mesma maneira que a calmaria de seu pai o aquietava, os dois eram tudo em sua vida.
Depois de um belo e relaxante banho, o homem vestiu uma roupa confortável e saiu novamente, iria agora para a casa dos pais. Sua mãe estava preparando um belo almoço de boas – vindas.

XXX


- E aí pai, como está o bebê da família? - caminhou com o pai para a garagem, onde ficava o carro de seu pai, um Impalla 1967. Foi o primeiro carro que dirigiu na vida, seu pai o encontrou em um ferro velho e junto com Dominique, seu grande amigo de infância e também um dos melhores mecânicos do planeta, praticamente o reconstruíram, e foi presenteado pelo pai com o belo carro.
- Está amassado na frente - o homem mostrou para o filho, na lateral esquerda havia um leve amassado, algo que provavelmente foi feito por algum tipo de distração do motorista. - Sua mãe insistiu que sabia dirigir e eu não pude dizer não, você sabe o que acontece com ela caso fique irritada.

se ajoelhou e tocou no amassado.

- Onde ela estava?
- Não saiu da garagem - o mais novo reprimiu a gargalhada.
- Leva no Dominique, com dois minutos ele arruma isso.
- Ele está em Monte Carlo? - arqueou a sobrancelha e sorriu ao ver o aceno positivo do pai. - Isso é maravilhoso, vou convencer o Dominique a vir trabalhar para mim na F1.
- Faz alguns meses que o vi - Hervé abriu o maior sorriso que cabia em sua face - Ele continua turrão e se negando a corrupção que o dinheiro traz.

gargalhou.

- Aquele homem não existe e eu fico feliz que tem seu amigo por perto, pai.

Hervé acenou com a cabeça, cruzando os braços sobre o peito.

- Diga a ele que mandei lembranças, e qualquer dia apareço para tomarmos uma cerveja.

XXX


deu seta para entrar e com uma habilidade linda, estacionou o carro dentro da oficina mecânica. Aparentemente não viu ninguém pela frente e então desligando o carro, escorregou pela porta.
A última vez que esteve na oficina, fazia muito tempo, tendo em vista que Dominique passou uns anos morando em Paris, mas os aspectos estéticos ainda eram os mesmos que se lembrava, uma oficina simples e funcional. Uma vez perguntado por seu pai, porque não a fazia crescer, Dominique disse que gostava da garagem daquela forma e não queria perder sua essência.
achava aquilo incrível.
Honrar as origens e manter a essência era algo que o piloto trabalhava duro para não mudar.
A fama e o sucesso corrompiam as pessoas.
não conhecia bem Dominique, tinha convivido pouco com o amigo de seu pai, devido ao tempo que passou na Ferrari Driver Academy, nas poucas oportunidades que teve, sempre acompanhava seu pai até onde Dominique estava na oficina ou em casa, o admirava pelo amor que seu pai sentia pelo mecânico, gostaria de ter o conhecido melhor.
Essa era uma ótima oportunidade.
O homem correu os olhos cobertos por óculos pelos quatro cantos da oficina, e seus olhos encontraram pés sobre o carrinho que estava debaixo de um carro azul. O que chamou sua atenção é que eram pés femininos.
Femininos.
O piloto tirou os óculos e deu passos para frente olhando com cuidado, os pés eram pequenos e estavam calçados por uma alpargata preta.
Homens não usavam alpargata.
Aliás, usavam, mas não um mecânico.
E sem contar que os pés eram minúsculos, não eram de um homem.
Quando o carrinho deslizou para fora do carro, os olhos do piloto se arregalaram.
Não só era uma mulher.
Era provavelmente a mulher mais linda que já vira.
Era baixa, quase tão baixa que parecia uma criança, se comparado com seu tamanho. Os cabelos eram tão escuros que poderiam ser misturados com a escuridão da noite, estavam presos em um rabo de cavalo, mas dava para ver o quão longos eram.
O rosto tinha feições meigas e os olhos também escuros o lembravam de jabuticabas, a fruta que havia experimentado durante o GB do Brasil e nunca mais conseguiu esquecer.
Ele amava jabuticabas.
tirou os óculos à medida que seus olhos corriam pelo corpo da mulher a sua frente, ela estava com uma regata branca e shorts jeans, com as pernas toda de fora, e que pernas!
Em seu ombro esquerdo havia um pouco de graxa e o questionamento surgiu em sua mente: o que uma mulher tão bela, fazia suja debaixo de um carro?

- Precisa de uma vasilha para colher a baba? - perguntou, no bolso de trás de seu short havia um paninho, que ela agora usava para limpar as mãos.
- Estou surpreso por ver uma bela mulher debaixo de um carro - colocou os óculos na gola da camisa e não pode deixar de observá-lo.

E ela sabia quem ele era, como amante de carros não poderia deixar de acompanhar a Fórmula 1, era seu segundo esporte favorito, só perdia para o futebol. E aquele em sua frente era .
O mais novo piloto da Ferrari.
E apesar de já o achar bonito pela televisão, não conseguiu descrever a beleza que agora enxergava.
nunca achou normal quando as amigas babavam pelos atores e artistas na televisão, o padrão de beleza exposto não a agradava, mas ao ver aquele homem alto e que mesmo não sendo forte, tinha o corpo definido e um nariz tão perfeitinho que junto com os cabelos escuros davam uma bela composição
Que homem era aquele!
Mas mesmo sendo tão lindo, nas primeiras palavras já se demonstrou igual todos.
Machistas.

- Meu gênero não interfere no meu trabalho - foi ríspida. - Em que eu posso te ajudar?

sorriu colocando as mãos no bolso da calça jeans.

- Estou procurando o Dominique.

O coração de parou, fazia tanto tempo que não ouvia o nome do pai, suas amigas sabiam lidar com a privacidade que a morena pedia, não falavam e não perguntavam.
E ela não queria falar nele, não suportava aceitar essa ideia.

- Ele faleceu – disse. - Chegou atrasado, corredor - fez o trocadilho e sorriu.

Diante do baque da notícia, o piloto pensou mais em como contaria a seu pai da morte do amigo, apesar de também sentir a perda de um bom homem e um excelente mecânico.

- Sinto muito - disse baixo. - Você sabe que sou piloto?

Surpreendeu-se.

- Precisaria morar em uma caverna para não saber quem é você - ela colocou os olhos no carro e eles brilharam instantaneamente, ela conhecia aquele carro.

Chevrolet Impala 1967
Era o carro que seu pai ajudou a construir.

- Esse carro é o que meu pai ajudou o Hervé a colocar de pé.
- Você é a filha do Dominique?

Ele se espantou, sabia que Dominique tinha uma filha, já tinha a visto algumas vezes, quando vinha com o pai na oficina, e mesmo sendo mais novo, se lembrava de Dominique falar que não gostava que a filha ficasse na oficina, pois atraia os olhares masculinos.
E agora ele sabia o motivo.

- Sou.
- Bárbara? - se esforçou para encontrar na memória o nome da mulher em sua frente, ele com certeza já tinha ouvido a pronuncia e sabia que não estava longe disso.
- - ela rolou os olhos. - Você está quatro meses atrasado para ver o meu pai, e se não se importa eu preciso trabalhar - ela ia se afastar, , porém, a segurou pelo pulso, o toque gelado do piloto gerou um arrepio por seu braço, motivo que a fez puxar imediatamente.
- Eu sinto muito pela morte de seu pai - se explicou. - Ele era um grande mecânico - acabou sorrindo pelo elogio. - Conheci bons mecânicos na Fórmula 1, nenhum deles como seu pai. Poucos minutos atrás, eu disse que iria convencer ele a ir trabalhar na Ferrari comigo, ele era o melhor de todos. Um gênio.

fechou os olhos, tinha orgulho de ouvir quando as proezas de seu pai eram mencionadas, sentia tantas lembranças boas a invadirem.

- Ele realmente era o melhor - concordou com a cabeça, tentando despachar os momentos que agora voavam em sua cabeça.
- Você quem está cuidando dos carros agora? - tocou em um carrinho de ferramentas ao seu lado, não duvidava que mulheres pudessem dirigir bem, ou até saber nome de uma ou outra peça, mas mulheres definitivamente não eram mecânicas.

Principalmente se fossem tão bonitas.

- Você acha que não tenho capacidade para isso?

reprimiu um sorriso, e apontou para as mãos de .

- Não com essas unhas - distraída à morena abaixou os olhos para as unhas, estavam pintadas de azul marinho, e estavam grandes, arranhariam qualquer um com facilidade, não pode deixar de imaginar as unhas dela em seus ombros.
- As unhas não interferem no meu trabalho, corredor - rolou os olhos lhe dando as costas. - Isso é um problema geral dos homens, acham que não posso entender de carros porque sou uma mulher, vocês são um bando de machistas.
- Eu não sou machista - protestou. - Só acho um trabalho difícil para uma moça.
- É um belo carro - ela apontou o Impala. - Uma pena ser dirigindo por alguém tão babaca. Meu pai ficaria triste com a cena.

abriu a boca ofendido.

- Que enxurrada de insultos, .
- - o corrigiu. - Meus amigos me chamam de .

O piloto levou as mãos até o alto da cabeça em sinal de rendição.

- Olha só, começamos com o pé esquerdo – disse. - O que acha de começar de novo? - ele estendeu a mão, o encarou surpresa e soltou um risinho inconformado com a perspectiva de cena, ele realmente estava achando que aquilo era uma novela, que coisa mais ridícula.

A mulher rolou os olhos indignada.

- Eu não quero começar de novo nunca com vocês – disse. - Com nenhum de vocês machistas, acham que entendem de carro mais do que eu, acham que dirigem melhor do que eu, até o futebol eles acham que não posso assistir, preciso ficar durante o jogo pegando cerveja e entregando para eles, mulher de verdade não toma cerveja, eu quero que vocês vão todos se explodir.

observou aquela expressão de convicção nos olhos dela, conheceu muitas mulheres na vida, nunca viu um olhar desse estampado em suas faces, era uma determinação que ele admirou.
Era uma mulher que merecia uma atenção especial, e ele iria lhe direcionar cada parte da sua.
Concordava com ela, com certeza poderia beber sua cerveja, era um direito dela, e poderia entender mais de futebol que ele, nos últimos tempos não acompanhara muito seu time, e até poderia pensar que talvez ela entendesse melhor de carros que ele, tinha um pai mecânico e agora ela mesmo se denominava praticante da profissão, mas...

- Você ganharia de mim talvez em todos os outros quesitos, mas eu realmente dirijo melhor do que você.

E o queixo de caiu, os olhos esbugalhados, sua mão que segurava a ferramenta, perdeu a força e o barulho do metal no chão foi alto, e agora que suas mãos estavam livres ela as apertou contra a palma, um gesto puramente de raiva.

- Você acha que as ruas são como as pistas, corredor? Ser piloto de F1 é uma coisa, ser corredor de racha muda a história.
- Agora é você quem está sendo preconceituosa – disse. - Não importa onde você pilota, ou que carro você pilota, um piloto é sempre um piloto.

deu um passo para frente.

- Acha que consegue correr nas ruas?
- Sim, e eu ainda venço qualquer um.
- Eu aposto que não, corredor.

jogou a cabeça para trás em uma gargalhada divertida, quis se irritar, mas não conseguiu era uma coisa linda de se ver.

- E o que você vai me dar quando eu ganhar? - sem poder impedir um sorriso malicioso cruzou seus lábios, o encarou feio imaginando as besteiras que passavam em sua cabeça.
- Você não vai ganhar - foi direta. - E quando eu ganhar quero seu respeito, quero que admita que sou boa

encostou o tronco no capô de seu carro, e colocou uma mão tapando sua boca, pareceu pensar um pouco, e de repente seus olhos encontraram o laranja do Opala, ele se colocou de pé tão rápido que se assustou, e ao perceber para onde ele seguia, se preocupou.
Era o carro de seu pai.
E era simplesmente o preferido de Dominique, quase não andava no carro, tinha o seu próprio Ford Maverick V8, e tudo naquele carro a lembrava do pai, o cheiro, as poltronas, ou o jeito firme e apaixonado que ele segurava o volante, ou quando era mais nova e batia a porta ao sair, ou entrar e o mais velho lhe dava sermões, era a maior lembrança física que seu pai lhe deixara.

- É totalmente perfeito - exclamou ao tocar no capô do carro, era um modelo de carro incrível, mas sabia que Dominique mexera nele, aumentou a potência, reforçou o chassi, trocou as últimas marchas, dobrou os cavalos de potência, e o cárter com certeza não era o mesmo dos outros. - Eu quero esse carro.

quis lhe socar a cara.
Quis lhe espancar.
Quis destroçar cada célula do homem que achava que merecia pelo menos estar perto de um carro daquele.

- Você quer voar também?
- Oi?
- Já que estamos falando de coisas impossíveis.

sentiu nas palavras dela um sentimento muito forte e fez uma conexão que não havia feito, era o carro do pai dela, ela nunca lhe daria.
Deu um sorriso presunçoso.

- Começamos a falar de coisas impossíveis quando você disse que me venceria no volante - mais uma vez ele encostou-se ao capô do carro, percebeu como ele gostava de fazer isso, talvez porque ficasse extremamente lindo daquela maneira, e droga, dessa vez ele cruzou os braços em frente ao peito.

desviou os olhos.

- Eu posso te vencer.
- Então aposte o carro.
- Fechado - se ela perdesse, fugiria.

Mas não perderia.
desencostou do carro.

- Mais tarde te mando uma mensagem, com a hora e o local.
- E como você vai descobrir meu telefone?
- Você sabe quem sou, saberei quem você é; tudo pode se achar, basta saber como procurar.

entrou no carro, engatou a ré e saiu da oficina, tirou o celular do bolso discando o número que lhe era tão conhecido.

XXX


A mensagem “que chegou ao telefone de dizia: ‘Avenida Dinamarca, 00h00min”, a morena riu surpresa pelo fato dele realmente ter descoberto seu telefone. Ela passou o resto do dia pensando naquilo, sua cabeça girava loucamente em torno naquela corrida, estava ansiosa como nunca esteve antes, estava desconfiada que o motivo fosse ter apostado o carro de seu pai, mas no fundo tinha muito haver com , estava acostumada com caras machistas que se achavam os melhores, mas além daquele estereótipo que ela achava que o homem tinha, havia muitas coisas nele que chamavam sua atenção de maneira louca e incontrolável.
E não se importava muito com homens, era um fato que ela era heterossexual, gostava de homens, e gostava muito, porém nunca foi o tipo de mulher que tinha muitos namorados, eles não gostavam muito que as mulheres entendessem mais do que eles sobre seus assuntos preferidos, futebol, mulheres e carros.
E sabia muito sobre todos esses.
E justamente por isso ela não ligava se tinha namorados ou não, às vezes saia em uma noite, encontrava um cara que nem sequer perguntava seu nome, e matava seus desejos fisiológicos, e no fundo de seu coração, havia perdido as esperanças de encontrar o famoso amor verdadeiro. O histórico amoroso das pessoas ao seu redor não eram lá essas coisas, de suas amigas, Amélia era sempre a mais desastrada, como quando ela se apaixonou pelo carinha que vendia cachorro quente vestido com a fantasia de salsicha e depois se escondeu por dias envergonhada. As amigas a caçoaram muito por isso.
E sem contar na vida de seus pais, ela odiava pensar naquele assunto, e qualquer mísera lembrança que viesse em sua cabeça, a espantava como um relâmpago. E ela acreditava que morreria sozinha com seu carro e um cachorro que ela ainda não havia comprado, mas providenciaria. E ela estava feliz assim. Nem mesmo a beleza estonteante de a faria pensar em uma possibilidade diferente, ok, talvez ela pudesse pensar em uma boa sessão de sexo com aquele corpo, não iria mudar em muita coisa, já que de relacionamento ela com certeza correria.
E muito mais do que em seus rachas.
E agora ela estava ali, às 23h57min da noite. O Opala laranja estava estacionado na linha de frente e quando desceu pela porta do motorista, encolheu os ombros com o vento gélido. Mesmo com o corpo coberto pela jaqueta de couro preta, seu corpo sentiu pela friagem, talvez fossem as pernas descobertas pelo short jeans, mas com aquilo ela não se importava, logo a adrenalina chegaria e seu sangue viraria fogo.
Assim que a mulher avistou Talles e deu dois passos em sua direção, o segundo carro estacionou, era o mesmo Impala 67 de mais cedo na oficina, e mesmo sem ver claramente o rosto, sabia quem era, a multidão de pessoas fez um alvoroço em volta do carro querendo saber quem era o misterioso piloto com quem Beatriz correria aquela noite, e as apostas passavam de mãos em mãos para todos votarem no ganhador da noite, Talles se aproximou de cortando com dificuldade as pessoas aglomeradas no local, a mulher deu um belo sorriso para o amigo.

- E ai Talleco.
- Oi - respondeu e fechou os olhos querendo matar Mia por ter apresentado a Talles o apelido tão intimo, e quando a morena foi questionar a amiga, Mia respondeu que as técnicas de persuasão de Talles eram bem fortes e incluíam leite condensado e morango. só conseguiu gargalhar, conhecia Talles há muito tempo e não podia negar que ele realmente era um homem maravilhoso, os cabelos loiros e os olhos azuis, juntamente com a barba rala, enlouqueciam as mulheres e aquele estilo maloqueiro de boné e tênis rasgado com certeza era seu maior charme. Ela, porém, sempre o viu como amigo, e depois que ele e Mia tiveram um namorico, se tornou algo praticamente impossível, elas não dividiam homens, mesmo os mais gatos. - Está pronta?

A mulher acenou positivamente com a cabeça.

- Como sempre.
- Ele também já está - Talles averiguou algo em seu telefone e depois voltou seus olhos para a morena. - Vou dar a largada.

Com as sobrancelhas arqueadas, voltou para seu carro. Ao olhar pela janela, identificou no banco do motorista, ele fazia um sinal positivo com a mão e lançava um sorriso intimo a Talles que retribuiu de maneira igualitária.
Era quase como se fossem amigos.
Mas não podia ser, e Talles eram de mundos diferentes, aquilo era com certeza algo somente de sua cabeça.
conferiu tudo em seu carro, e com o pé no freio ela o ligou, o carro permanecia no neutro, e a primeira marcha seria passada somente no segundo toque de Talles.

- Todo mundo animado não é galera? - o loiro assobiou e girou o boné em sua cabeça. - Então vamos botar para quebrar que a noite está somente no início - ele bateu palmas e todos o acompanharam, a adrenalina parecia ser contagiosa e passada pelo ar, para todos os presentes. - Preparado? - seu dedo direito foi para o Impala e de dentro do carro o aceno de cabeça de foi dado. - E você, está? - como resposta ela engatou a primeira marcha, Talles riu. - Então, corram!!

Barulhos de pneus arrancando foram ouvidos, a fumaça e as marcas no chão denunciavam a brutalidade do arranque.
saiu milésimos de segundos à frente de , mas em outros milésimos de segundo ela já estava a seu lado, quando o velocímetro parou em 42 km/H, com o pé esquerdo na embreagem, passou para a segunda marcha do carro e o velocímetro avançou, pelo retrovisor ela conseguir ver claramente o carro preto a seu lado, ele não parecia estar mais do que milésimos à suas costas, para manter a distância ao ver que o velocímetro estourou os 64 km/h, jogou a terceira marcha e sentiu então o carro voar, parecia algo de outro planeta, e depois foi para a quarta e então para a quinta, e a velocidade do carro era máxima.
E agora sim, ela estava onde deveria estar, voando na velocidade do carro.
E mais uma vez seu carro foi o primeiro a cruzar a linha de chegada e os mesmo milésimos de segundo que separaram ela e por todo o trajeto, permaneceram também na linha de chegada.
Quando parou o carro e soltou as mãos do volante, elas tremiam de uma maneira que nunca tinham antes, ela havia ganhado. Não que fosse a primeira vez e nem que ela não comemorasse todas as suas vitórias, mas havia sido diferente.
Ela não havia perdido o carro de seu pai.
E havia ganhado do piloto da F1.
Ela estava muito mais feliz que o normal.
O Impala preto parou a seu lado e buzinou chamando sua atenção, encarou o piloto pela fresta do vidro e sorriu, eles precisavam conversar. A mulher voltou imediatamente para seu carro, queria que a seguisse, observou o sorriso de Talles junto com um aceno de cabeça, quando o outro passou por ele e buzinou, aquela história estava bastante estranha.
Quando estacionou na porta de sua casa, estava logo atrás, sem dizer uma palavra ela destrancou a portão e entrou, deixando que o homem fechasse.
foi para a cozinha e pegou uma cerveja no congelador, desenroscou a tampa e tomou um gole, estava devidamente acomodado no sofá, arqueou a sobrancelha.
Onde é que ela pegava a intimidade, que ele achava que tinha recebido?

- Não te ofereço porque sei que você não pode beber - ela mostrou a garrafa e a gargalhada do piloto foi ouvida, pondo-se em pé ele caminhou até a cozinha e voltou de lá com uma cerveja em mãos.

Realmente precisava pegar a intimidade que ele achava que tinha, quanto abuso.

- Saúde - bateu a garrafa na dela, e riu ao balançar a cabeça negativamente totalmente indignada.

Ela pigarreou.

- Mas eu realmente dirijo melhor do que você - ela engrenou a voz para masculinizar o tom e remendar as palavras que o homem mais cedo havia dito.

riu.

- Não sou orgulhoso, - ele tomou um gole da cerveja a olhando com firmeza. - Eu admito: você pilotou melhor que eu nas ruas, e com certeza é uma excelente mecânica.

Uau isso foi fácil.
Fácil demais para o gosto dela, ele estava fazendo hora, estava achando que ela tinha cara de palhaça e que poderia brincar com ela.

- Você quer outra chance de ser mais convincente? Essa não colou.
- Mais convincente? Estou sendo sincero - sentou novamente no sofá. - Eu disse que você pilota melhor, você ganhou a corrida e pode ter certeza que eu te respeito por isso - e era verdade, estava encantado por , sua beleza, sua força, sua coragem mostravam para ele como ela era uma mulher de verdade e como estava ficando atraído por ela, principalmente nesse momento em que ela pegou a cadeira e sentou-se em sua frente.
- Eu sei que sou boa - se acomodou largamente na cadeira. - A questão é que você também é. Você já correu nas ruas antes.
- Você está afirmando ou perguntando?
- Afirmando - ela respondeu, tinha plena convicção daquilo, já tinha participado de corridas o suficiente para reconhecer um corredor de ruas.
- Sim, eu já corri nas ruas antes - ele confessou, ele era um piloto de Fórmula 1, era óbvio que conhecia as corridas de ruas. - Por muito tempo eu corri, só que ninguém via meu rosto.
- E como eu não me lembro de um corredor fantasma? - com os próprios pés tirou os tênis, ele achou o movimento encantador.
- Não corria em Monte Carlo - respondeu, ao perceber que a cerveja havia acabado ele depositou a garrafa vazia no chão ao lado do sofá. - Sempre escapava para outras cidades, afinal, se fosse descoberto, minha carreira sequer começaria.
- E o Talles?

Talles era quem organizava as corridas de Monte Carlo, então se nunca corria na cidade, como se conheciam?
O sorriso que lançou fez querer acompanhar o gesto, era algo tão iluminador e familiar.
Era porque era aquele sorriso que a própria dava ao ser perguntada sobre uma das amigas.

- Meu melhor amigo.

Eles eram tão diferentes um do outro, jamais os olharia e os veriam como amigos, ainda mais, melhores amigos. E queria perguntar como era possível, mas em sua cabeça se passou um filme sobre a relação com as amigas e com toda certeza era possível eles serem amigos, mesmo que não houvesse algo aparente que mostrasse um motivo.

- Por que eu vejo a surpresa em seus olhos? - observava cada detalhe do rosto dela, e parecia que cada vez que olhava descobria algo ainda mais bonito.
- Porque eu realmente estou surpresa.

O piloto riu com a expressão cômica.

- Ele é Italiano, eu passei grande parte da minha vida lá, nos conhecemos e não nos separamos mais, depois ele veio para Mônaco em busca de novos ares e aqui estamos nós.

gostou de ouvir o relato, era interessante como ela não o via mais apenas como um cara babaca e estúpido, de repente ela conseguia ver um cara legal, pelo menos quando ele falava de Talles. E ela admirava sentimentos que a faziam se lembrar minimamente que fosse das amigas.

- Talles é uma das pessoas mais incríveis que conheço.
- Eu também sou incrível - gargalhou se levantando.
- Quanta modéstia nessa conversa - respondeu tirando suas meias e colocando os pés no chinelo que estava na porta e também se livrou da jaqueta de couro, com o ventilador desligado, a casa esquentava. - Acho que você já pode ir.
- Quanta educação ao me expulsar da sua casa - ele cruzou as pernas sem parecer ligar para o ultimato que havia recebido.

ficou nervosa.

- Saia.

descruzou as pernas e levantou se aproximando de , o perfume dele inundou as narinas dela e surpresa se perguntou o motivo de não ter reparado no cheiro antes, era tão maravilhosamente bom.

- Por que quer que eu saia ? Minha presença te incomoda? - ele estava perto, perto demais.

sentiu o hálito dele bater um seu nariz, e não pode deixar de fechar os olhos com a proximidade, e por um segundo queria que ele passasse seus braços pela cintura dela, a puxasse para si e eles se embolariam ali mesmo naquele chão, mas a sensação que viu percorrer os olhos dele não pareciam de sexo selvagem e tudo que passasse daquilo, ela não queria.

- Me incomoda sim - respondeu firme. - Eu quero dormir, não tenho a vida ganha como você corredor, tchau - ela se afastou dele e abriu à porta atrás de si, sorriu e concordou com a cabeça.
- Até amanha - despediu-se e passou pela porta, sorriu mais ainda com a força que a mesma foi batida, voltando a seu carro para ir embora. Teve plena convicção que ela não havia ganhado somente a corrida.

XXX


acordou pela manhã com um cheiro de café da manhã maravilhoso inundando suas narinas, sabia que sua mãe havia invadindo seu apartamento para fazer comida e ao contrário de muitos, ele amava aquela sensação. Só quem vivia fora da casa dos pais sabia como era ter essa mordomia de café da manhã, e o fato da sua mãe fazer tanta questão daquilo o fazia não ter coragem de reprimir os desejos da mãe. Ela não tinha mais Lorenzo para fazer aquilo, Arthur morava em Maranello, agora só restava para ser paparicado.
E pensando justamente nos irmãos, o piloto levantou, os olhos bateram imediatamente na foto sobre a prateleira de troféus. Os três estavam na praia se preparando para pular de bungee-jump, era uma de suas fotos preferidas e quase a última a ser tirada. Um sorriso involuntário se abriu em seus lábios e o coração foi inundado de saudade, faziam dois anos, setecentos e vinte e oito dias e nada havia mudado, a saudade ainda era intensa e a dor corroía, mas ele precisava ser forte, forte pela mãe, forte pelo pai, forte por Arthur, porque sozinhos, não aguentariam.
E sem os três, sabia que nem ele.
Quando já devidamente vestido e higienizado, o homem chegou a cozinha. Pascale estava terminando de colocar calda nas panquecas e com um sorriso gostoso ele abraçou a cintura da mais velha, depositando um beijo estalado em sua bochecha.

- Bom dia, mamãe - a mulher sorriu pela maneira como foi chamada pelo filho.
- Bom dia, - ela acompanhou o carinho através do apelido de infância do moreno.
- Fiz panquecas para você.
- Você é demais - acomodou-se na mesa. - Cadê o pai?
- Dormindo - Pascale serviu suco em um copo para o filho, e depois o acompanhou no café.
- Filho, queria te fazer um pedido. - O garfo parou no meio do caminho quando as palavras da mãe penetraram seus ouvidos, sabia o que viria a seguir, sua mãe o pediria para...
- Volta para casa, , você não precisa morar sozinho, me deixe cuidar de você, fazer o que eu já não posso fazer pelo Lorenzo - os olhos da mulher marejaram e logo lágrimas rolaram. Soltando o garfo, se deslocou até a mulher, envolvendo-a em seus braços.
- Shii, não chora, mãe - o piloto apoiou seu queixo na cabeça da mais velha, que a esse momento chorava copiosamente, o piloto respirou fundo ativando o nível máximo de paciência do universo para lidar com a fragilidade da mãe. - Mãezinha, se acalma - ele sentia os soluços fortes da mãe e ele sabia o motivo daquilo tudo.

Pascale desenvolvera uma superproteção com os filhos mais novos, onde pisavam ela queria pisar atrás, onde comiam ela queria comer também e chorou por dias, pedindo que o filho voltasse a morar em sua casa, já que ela não conseguiria trazer Arthur de volta. Os dois irmãos tentaram convencer a mãe a se mudar de Monte Carlo, para ambos ficarem perto de Arthur, mas ela se recusou a deixar a lembrança do outro filho. Quando Lorenzo faleceu, passou uma temporada na casa dos pais, ficava dias seguidos dormindo no colchão ao lado da cama, ele precisava cuidar dos dois e ser forte pelos dois, mas jamais deixou sua casa e por mais que amasse loucamente seus pais, não pretendia voltar a morar com eles.

- Meu filho - a mulher se soltou do homem e o puxou para seu colo o abraçando novamente com muita força. - Eu quero você pertinho de mim, por favor.

nada disse, somente deixou que a mãe ficasse com ele em seu colo lhe ninando e dando carinho. As mãos da mulher estavam presas na camisa do piloto e as pernas balançavam como se fosse um bebê presente ali, murmurava palavras inaudíveis, somente se comoveu com os soluços altos e dolorosos, ele sentia a dor.
E sabia o motivo dela.
01/04 era a data daquele dia, véspera do aniversário de morte do irmão.
Era um dia extremamente doloroso para a mãe e ele sabia disso, ela chorava e chorava, o coração do filho era cortado por facas em forma de soluços.

- Dorme bem, mãezinha. - depositou um beijo na testa da mãe e sorriu de leve a cobrindo, quando saiu do quarto seu pai estava sentado no sofá de sua casa com uma cerveja em mãos, o mais velho levantou a cabeça ao sentir a presença do filho a seu lado.
- Ela já dormiu? - assentiu e Hervé suspirou. - Hoje é um dia complicado para ela, filho.

se acomodou colocando as pernas nos sofá.

- É, eu sei - ele baixou os olhos e tocou a tatuagem do peito. - Para ela é sempre pior.
- A morte é algo cruel, meu filho - Hervé disse com a dor estampada em seus olhos. - Mas amar é ver as pessoas que amamos nos deixar.

Sua memória foi invadida por , a morte do pai dela, que a afetou de maneira inexplicável e mudou totalmente o rumo da sua vida, e ela se reergueu diante disso, cada vez que pensava nela, descobria algo que o impressionava mais.
Ele queria vê-la.

- As coisas vão se ajeitar, pai - o piloto se levantou. - Vou dar uma saída, cuida da mamãe.

Hervé assentiu, bebendo mais um gole de sua cerveja e então viu o filho sair com as chaves do carro e a carteira.

XXX


estava com uma prancheta em mãos e com uma caneta anotava as peças de um carro que precisava comprar porque havia acontecido uma batida de carros e um deles estava sobre sua responsabilidade. Sua mão parou de anotar quando barulhos de saltos batendo contra o chão ecoaram seus ouvidos, a mecânica deu um sorrisinho quando se deu conta que sabia exatamente quem era.

- Emanuelle Peres - olhou a amiga parada, dessa vez não estava com roupas brancas, mas tons escuros que destacavam seus cabelos e peles claras.
- - Emanuelle tirou os óculos de sol, colocando-os na gola da blusa. - Diz que você já mexeu na minha moto.

depositou a prancheta em qualquer lugar e cruzou os braços encarando a amiga.

- Oi amiga linda, bom dia! - foi irônica. - Como está você? Eu estou ótima, muito gentil da sua parte perguntar.

Agora foi Emanuelle quem riu, gargalhou na verdade.
E com os braços abertos correu para perto da amiga, lhe dando um forte abraço, se aconchegou nos braços da amiga.

- Como você está, homenzinho? - Emanuelle murmurou em meio ao abraço e por mais que estivesse com graxa em mãos, Emanuelle não se importou em apertar o corpo de contra o seu.
- Depois de um abraço forte desses, eu sempre fico bem - sorriu em meio aos cabelos da médica sobre seu rosto.
- Então é assim que te deixam de bom humor pela manhã? - a voz falou, mas não era a voz de Emanuelle, as duas se separaram procurando o dono da voz masculina, os olhos de se arregalaram quando ela viu parado, ele estava com uma camisa gola V preta e de bermuda.
- Quem é você? - Emanuelle balbuciou curiosa.
- - o homem respondeu com um sorriso, esticando a mão para pegar a de Emanuelle, que sem pensar duas vezes estendeu a sua e recebeu um beijo no dorso da mão.
- Emanuelle Peres - encarou a amiga com olhos cerrados.
- O que você está fazendo aqui? - ela perguntou tirando o foco do fato de Emanuelle o encarar abobada.
- Vim te ver.

paralisou por uns segundos, um sorriso emoldurava os lábios do piloto e a expressão fechada e seria no rosto de só o fez ficar mais animado ainda, ele queria quebrar todo aquele gelo.

- Eu não tenho tempo para baboseiras, Emanuelle, sua moto está pronta. - puxou amiga pela mão e levou até onde a moto estava parada e cruzou os braços novamente e ficou encarando enquanto a mulher explicava para Emanuelle qual era o problema que tinha sido resolvido com a moto. As duas demoraram alguns minutos e logo Emanuelle se aproximou novamente com as chaves e capacete em mãos.
- Foi um prazer, .
- O prazer foi todo meu - ele acompanhou o sorriso e viu a loira montar na moto e sair da oficina e então se aproximou da mecânica. - Qual o motivo de tanta raiva essa hora da manhã?

olhou o relógio no celular e encarou o piloto com olhos sérios, o sangue pulsou rápido em suas veias, ela perdia a paciência com muita facilidade, facilidade tão grande que se soubesse não a atazanava.

- Já passou das onze da manhã - respondeu rápida. - E eu não estou com raiva, estou na verdade é cheia de trabalho - ela caminhou para onde estava antes e pegou novamente a prancheta para nomear as peças. visualizou o carro parado em frente à moça e caminhou até o mesmo, abrindo o capô, era um carro popular 1.0, nada demais. se irritou. - O que você está fazendo aqui?
- Quero trabalhar aqui na oficina - ele encarou a mulher no mesmo instante que a prancheta caiu de suas mãos. Abobada, piscou incessantemente.
- Você deve estar fumando maconha estragada, querido – disse. - , eu não tenho tempo para isso, some.
- , só me escuta - ele a segurou pelos ombros com cautela, tinha tido duas conversas com na vida e sabia que com ela as coisa deveriam ser tratadas calmamente. Ela mexeu os ombros para tirar as mãos do piloto e ficou em silêncio deixando que o homem dissesse. - Eu estou no intervalo entre os GP’S da F1, em poucos dias tenho que estar na China e depois Azerbaijão, estou querendo espairecer um pouco, não quero ficar ansioso logo no início da temporada.
- Eu não estou precisando de um mecânico.

riu.

- Olha o tanto de carro aqui - ele abriu os braços mostrando a oficina. - Eu posso ajudar.
- Você se acha demais - ela disse indignada cruzando os braços em frente ao peito imitando a pose que ele adorava. - Acha que porque é piloto dirige melhor que todo mundo e sabe maias de carro que todo mundo, você não é um mecânico.

respirou fundo e pareceu pensar alguns segundos e seus olhos iluminaram quando teve alguma ideia.

- Então me pergunte qualquer coisa de mecânica do carro, se eu acertar suas perguntas, você deixa eu te ajudar aqui.

A mulher respirou fundo, analisando os carros ao seu redor, a quantidade de carros estava enorme e consequentemente seus prazos atrasados. Uma ajuda não seria ruim e ela sabia como precisava de ajuda e não tinha condições de pagar um salário pra ninguém, além do fato de não querer sem cantada a todo momento do dia. Os dois pontos impediam de conseguir contratar alguém, a falta de dinheiro e os próprios mecânicos que não aceitavam que ela era mulher e compartilhava da profissão.

- Está bem - ela ergueu as mãos até a altura da cabeça em sinal de rendição, pelo que parecia, aquela era a única maneira de se livrar do homem, ele não iria responder e iria embora, trazendo paz novamente a ela. - O que compõe o sistema de suspensão do carro?
- Molas e amortecedores.
- Principais sistemas são?
- Motor, embreagem, carda, semi- árvore.
- Elementos do sistema de freio?
- Cilindro, mestre, disco, tambor.

começou a ficar preocupada, porém continuou com as perguntas, sua cabeça fervilhava.

- Do que é composto o sistema elétrico?
- Bateria, distribuidor e bobina - Ele respondeu enumerando os dedos. - Qual é , qualquer pessoa que dirige sabe responder isso, você só pode estar brincando comigo.

fechou os olhos buscando no fundo de sua memória alguma coisa que ele não conseguisse responder, mas nada lhe ocorreu, e ela ficou minutos procurando, mas nada vinha e aquilo a estava deixando irritada, ela então fechou os punhos em demonstração da raiva.

- Está bem – confessou. - Pode ficar, mas eu quem mando aqui, e qualquer coisa fale comigo e peça permissão, naquele armário ali tem formulários com as placas dos carros e o que precisa ser feito, olhe com cuidado cada um deles e NÃO ERRE - a morena se abaixou para pegar novamente a prancheta onde fazia os orçamentos do carro. - E eu não vou te pagar um salário.

A mulher saiu de perto do piloto e não viu o sorriso que escapou dos lábios do homem, e como ela havia dito, ele foi até o armário, pegando o primeiro formulário e seguindo as instruções, começou a trabalhar. Vez ou outra olhava compenetrada no que fazia, encantado com a maestria com que ela resolvia os problemas e passou a tarde toda enfeitado com um sorriso que tinha um belo motivo para estar ali.
abriu a porta de sua casa procurando pelos pais.
Já passava das seis da tarde, tinha trabalhado o dia todo na oficina com , apesar da mulher ter trocado poucas palavras com o homem, era maravilhoso estar na oficina, ficar perto dos carros e ainda conseguir ver uma mulher como ela, era mais do que incrível.
E amava os carros, amava qualquer coisa que estivesse ligado a carros, seja dirigir ou consertar. O que de fato importava, era a emoção que sentia só de estar perto das quatro rodas. Apesar de seu físico não estar acostumado, seus dedos estavam levemente cortados, assim como as palmas das mãos, sem contar na graxa debaixo das próprias unhas. Estava parecendo usuário de drogas, que não tomava banho há vários dias, porém toda vez que ele observava , estava plena, sequer parecia que trabalhava com serviço manual.
Seu pai estava sentado no mesmo sofá que o deixou horas atrás, aparentemente sua mãe ainda estava deitada.

- Oi, pai - cumprimentou tomando novamente o assento ao seu lado. - E a mãe?
- Ainda está deitada e disse que quer dormir perto de você essa noite.

concordou com a cabeça.

- Vou colocar um colchão no quarto e dormirei com vocês.

Hervé abaixou o volume da TV para conversar melhor com o filho.

- Onde esteve o dia todo?
- Estava na oficina, a é uma mulher incrível, pai. Jamais conheci uma mulher como ela, e só tem dois dias que a conheço;
- O Dilsinho sabe que está afim da filha dele? Ele vai acabar com sua raça - cobriu o rosto com as mãos quando se deu conta que não havia conversado com o pai sobre a morte de Dominique.
- Caramba pai, a gente não conversou sobre isso - procurou as palavras cautelosamente para conversar com o pai. - está tomando conta da oficina, porque o pai dela, o Dominique, faleceu há alguns meses - a cerveja na mão de Hervé escapuliu e molhou o tapete da sala, levantou rápido do sofá desacreditado.

Dominique havia falecido?
E já fazia meses?
Não era possível? Onde ele estava durante o velório e enterro do amigo? E como a notícia não havia chegado até ele? Isso não era possível.

- Ele está morto - balbuciou devagar sem conseguir compreender as palavras que saiam de sua própria boca. correu até a cozinha e colocou água em um copo entregando ao pai. - Onde é que eu estava, , onde é que eu estava que não fiquei sabendo da morte dele? Como assim?
- Pai, se acalma - abraçou o pai, e sentiu discretamente algumas lágrimas molharem sua camisa. - Eu sinto muito, mas parece que poucas pessoas realmente ficaram sabendo, a não divulgou a notícia, foi tudo rápido, ela não me disse muito.
- Meu filho, realmente queria ter me despedido, o Dominique esteve perto de mim em um momento que ninguém mais esteve, fomos amigos muitos anos, eu precisava ter me despedido dele. Precisava ter prestado homenagens a ele - Hervé assentiu passando as mãos pelos olhos.
- Eu sei que sim pai, sei como você amava seu amigo, mas podemos ir até o cemitério, podemos prestar uma homenagem a ele - sugeriu, sabia como era perder pessoas que amava e seu pai já havia passado demais pela dor do luto, Jules, Lorenzo e agora Dominique, mais do que qualquer ser humano possa merecer.

Hervé levantou do sofá, caminhou a passos largos para a geladeira, tirou de lá um engradado de Corona, era a cerveja preferida do amigo, deu um sorriso fraco, se aproximando do filho com as mãos estendidas.

- Me dê às chaves do Impalla
- Aonde você vai? - o mais novo estava receoso, não poderia deixar o pai fazer loucuras. - Eu vou com você.
- Claro que vai - Hervé assentiu. - Mas eu vou dirigir o Impalla, você pega o seu carro - lhe entregou o engradado de cerveja, tomando as chaves em suas mãos, avisou a esposa que iria dar uma volta com .

- Temos algum destino? - o piloto perguntou, destravando a Ferrari.

Hervé observou o filho, os olhos brilhavam de lembranças e eram ilustrados pelas lágrimas que se formava nas pupilas, sua mente estava focada onde seu coração queria ir, onde tudo lembrava o amigo.

- Vamos para onde tudo começou - Hervé sorriu abrindo a porta do Impalla. - Se eu vou me despedir do Dominique, vou para as ruas.
- Eu ainda não entendi pai.
- Vamos correr, - Hervé mais uma vez sorriu com total nostalgia. - Vou homenagear meu amigo em um racha e depois celebrar sua vida, tomando todo esse engradado. E aí, acha que consegue ganhar do seu velho?

gargalhou, entrando no próprio carro, seguindo o exemplo do pai.

- Em homenagem ao seu luto, posso pegar leve com você.

Hervé balançou a cabeça, alinhando o carro ao lado do filho.

- Dominique era o melhor, merece o melhor, corra de verdade.

assentiu.

- Vamos correr pelo Dominique.
- Vamos correr pelo Dominique.


Capítulo 2 - Cabelos Negros Como A Noite

Sábado.
Era finalmente sábado.
O dia preferido de , era o dia das amigas, de estar perto delas, de sorrir com elas, de se jogar no colo delas e se sentir amada. E com um engradado de cerveja em mãos, estava a morena tocando a campainha da casa de Mia, era o dia dela e foi a mesma quem abriu a porta. Os cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo e um vestido longo e florido emoldurava seu corpo, o rosto estava limpo sem nenhuma e qualquer maquiagem, diferente de como todos estavam acostumados a vê-la, e a preferia assim, era ainda mais linda do que quando aparecia na televisão, como a bela atriz que era.

- Homenzinho - a loira abriu os braços e logo estava neles, aproveitando o colo da amiga, estava com saudades dela.
- Oi Mia..
- Como você está, meu amor?
- Estou ótima e você? - se afastou da porta de entrada para que Mia fechasse, mostrou o engradado de cerveja.
- Vou ficar melhor agora - tomou em mãos a bebida alcoólica, e rumou para guardar.
- TIA - um sorriso involuntário apareceu nos lábios de quando a cabeleira loira da garotinha apareceu na sala e se jogou nos braços da morena.
- Que saudade minha princesa - rodava a garotinha pelo ar e a gargalhada gostosa de Sarah invadia os quatro cantos da enorme casa de Mia. - Trouxe uma coisa para você.
- Sério? E o que é, tia ? - os olhinhos de Sarah estavam arregalados esperando a surpresa da tia.
- Eu te entrego quando você me der um beijo bem gostoso - Sarah alargou ainda mais seu sorriso e com os bracinhos segurou o rosto da mais velha e a beijou. - Uau que beijo gostoso - sorriu e devolveu a garota para o chão, abriu a mochila que estava em suas costas e tirou de lá um pacote enorme de bala, os olhos da pequenina brilharam ao segurar o presente.
- Obrigada tia ! - Sarah disse e saiu correndo para a cozinha segurando com dificuldade o enorme pacote, e pela mesma porta que a criança entrou, Amélia saiu. A negra estava com os cabelos soltos e molhados, o short jeans, a camiseta e o chinelo, denunciavam que a vontade da professora era ficar jogada no sofá vendo filmes por toda à tarde.
- Amélia - cumprimentou a amiga e sorriu ao receber um beijo estalado dela.
- Tudo bem, ? - Amélia seguiu para o sofá e sentou-se nele, onde Mia já se encontrava zapeando os canais da TV com uma cerveja em mãos.
- Estou bem sim. Cadê minha cerveja, Mia? - questionou ao observar a loira beber a stella e ela permanecia com as mãos vazias.
- Você tem mãos, homenzinho - resmungou risonha e a mecânica rolou os olhos.
- Você é uma abusada do caralho.
- E você me ama, mesmo assim - deu a língua. - Emanuelle, traga cerveja para o nosso homenzinho, sabemos como ele fica irritado sem álcool, daqui a pouco já estará coçando o saco e assistindo futebol - disse alto o suficiente, para que a médica ouvisse da cozinha, lhe mostrou o dedo do meio e acomodou-se no sofá ao lado de Amélia. Sempre viu um pouco de carinho no apelido que as amigas haviam lhe dado, mas por vezes, como aquela, aquilo a incomodava e muito. O que tinha de tão mal ter gostos "masculinos"? Disposta a não estragar aquele momento entre amigas que ela tanto precisava, resolveu deixar aquilo para lá, por agora.
- Me conta da sua semana, professorinha?

Amélia desviou os olhos do celular e bufou irritada;

- Você já entrou em uma sala cheia de adolescentes cheios de hormônios exacerbados? Quando entrar, saberá como foi a minha semana. - Amélia respondeu com as mãos em forma de garras demonstrando sua raiva.

Mia riu.

- Passe uma semana com a agenda tão cheia e tendo que sorrir tanto, mas tanto, que os músculos da bochecha chegam a doer. - a loira respondeu sobre gargalhadas, desligando a televisão para interagir melhor com as duas na sala.
- Vocês reclamam demais - observou. - Vocês escolheram essas profissões, problema é de vocês agora.
- Isso é falta de sexo - Emanuelle chegou à sala com três garrafinhas de cerveja em mãos, ficando com uma e passando as outras duas para Amélia e . - Estão as duas estressadas por falta de homem - a médica tomou o lugar ao lado de Mia no sofá.
- Você é uma depravada - Amélia falou. - Só pensa em sexo, a vida é mais que isso, Chechele.
- Vá se ferrar com esse apelido - a loira gritou e as amigas riram, Emanuelle odiava que a chamassem assim e ficava irritada quando as amigas implicavam e insistiam naquele apelido que mais parecia nome de perereca.
- O que é sexo, tia Amélia? - a voz fininha de Sarah chegou aos ouvidos das quatro mulheres à sala.

Os olhos arregalados da negra mostraram como ela se assustou com a presença da pequenina de apenas cinco anos.

- Responde para ela, tia Amélia - mais uma voz chegou à sala e era quem estava faltando: Leah com seus longos cabelos pretos e assim como Amélia, a engenheira também estava vestida de maneira simples e totalmente a vontade, não importava quantas vezes visse Leah, ela estava sempre com o mesmo sorriso aberto e os mesmos olhos escuros brilhando, isso era totalmente encantador. - E a propósito, homenzinho, vou te mandar a conta do dentista da minha filha, já que você anda frequentando muitas casas de doces.
- Pode mandar, faço tudo para ver a Sarinha alegre.
- Tia , não me chama de Sarinha, eu não sou mais criança - a loirinha cruzou os braços em frente ao peito com um biquinho em seu rosto doce, as cinco riram.
- Desculpe, Sarona - consertou, mas a expressão no rosto da pequena não foi de agrado.
- Eu também não sou grande assim, tia .
- Está bem, então - apertou as bochechas dela. - Só Sarah.

A garotinha balançou a cabeça positivamente e se voltou para Amélia.

- O que é sexo tia Amélia?

A professora respirou fundo e estendeu os braços para que Sarah sentasse em seu colo e assim a garotinha o fez.

- É um filme, meu amor - Amélia respondeu e Mia engasgou com a cerveja, tossindo.
- E a gente vai assistir?
- NÃO - as cinco falaram praticamente ao mesmo tempo e os olhinhos da garota arregalaram com medo.
- Você só vai assistir depois de 20 anos, está bem? - Emanuelle disse
- Pelo menos uns 22 gente. - Amélia não hesitou
- 30 anos! - Mia exclamou
- Gente que exagero, esperar tudo isso para ex... - Leah lhe estapeou, lançado-lhe um olhar mortal, não ousou prossegui a frase. - Acho 30 uma ótima idade!- exclamou.
- 30! - todas repetiram juntas novamente, já dirigindo o olhar para a criança que olhava assustada para as tias, sem entender o motivo de demorar 30 anos para ver apenas um filme.
- Mas antes de ver qualquer filme, você vai almoçar, ok? - Emanuelle disse mudando de assunto antes que alguém falasse mais besteira.
- Esta bem, então - um sorriso voltou a emoldurar a face de Sarah. - Eu vou brincar com o Harry enquanto isso - escorregando do colo da professora, Sarah subiu correndo as escadas da casa da atriz.
- Essa menina é bem espertinha, viu? - Mia observou, Leah balançou a cabeça concordando.
- Puxou a mãe - gabou-se- Estou exausta, quero dormi o dia todo.
- Pode descansar, eu passo o olho na tampinha.
- Obrigada, mas não está cansada? Sei que as coisas na oficina estão apertadas, .

sorriu com o apelido, adorava quando a chamavam assim, percebeu que aquilo a fazia sorrir, mais do que quando usavam homenzinho.

- AHÁ - Emanuelle bateu palminhas apontando o dedo para . - Você me deve uma explicação sobre aquele homem gostoso na oficina.
- Homem gostoso?
- Como assim ?
- Você está com alguém e não disse nada?

Isso era quase que o início de uma guerra, as vozes das quatro amigas especulando sobre as possibilidades, fizeram a cabeça de doer.

- CHEGA - Disse irritada - Assim vocês me enlouquecem.
- Então fala logo mulher.

riu do desespero de Leah.

- É só um cara, gente - deu de ombros, tomando mais um gole da cerveja. - é o nome dele.
- - Emanuelle repetiu o nome.
- O mesmo nome do piloto de fórmula... 1 - Mia disse já ligando os pontos e encarando a amiga. – Safada - lhe jogou uma almofada. - Você está pegando ele?
- NÃO - foi uma resposta bem rápida e alta que deu as amigas.
- Então para de enrolar e fala logo mulher.
- Sim, é o piloto da Fórmula 1 - ela tomou mais um gole da cerveja, o último da garrafa. - Ele foi à oficina procurar meu pai - ela engoliu em seco. - E nós discutimos, porque, ele chegou lá com aqueles papos ridículos machistas de sempre e depois nós corremos e eu o fiz engolir todas as baboseiras que me disse.
- Você disputou uma corrida de carro com ele?

Leah parecia estar alienada ao assunto.

- Não Leah, corremos a pé. Tipo atletismo.

Leah lhe chutou a perna de leve, descontando a ironia que detestava em .

- Você correu com um piloto de Fórmula 1 e ainda ganhou?

afirmou com a cabeça e Amélia bateu palmas.

- Apesar de não te chamar assim, dessa vez terei que abrir uma exceção, parabéns homenzinho.

Realmente Amélia era a única delas que não a chamava pelo apelido, apesar de não parecer se importar com ele, a professora também tinha alguns gostos mais parecidos com o dos homens e nem por isso se sentia menos mulher, portanto preferia não fazer uso do apelido.

- Não vale a pena explicar para vocês que existe diferença das ruas para as pistas do autódromo.
- Não vale mesmo - Mia abanou a mão descartando a possibilidade. - O que eu quero mesmo saber é se realmente não esta rolando nada.
- Não loira, nós não temos nada, nem amigos somos.

parou por uns segundos para analisar que nos últimos dias viu mais que as próprias amigas e não poderia negar que o homem conseguia a irritar e logo após deixar as coisas engraçadas em uma proporção muito grande.
Aquilo era estranho.

- Isso é uma pena, porque ele é um gato .- Leah mostrou a tela do celular onde o instagram do piloto estava aberto, e diversas fotos publicadas, fingiu não querer ver as fotos enquanto as quatro amigas amontoaram-se sobre o celular observando cada detalhe e extraindo o máximo de informações que podiam.

media as expressões das amigas e sentiu vontade de compartilhar da visão das fotos também, não podia e nem tinha como negar que era realmente lindo e um ótimo piloto também, porém era só isso.
Eles não seriam nem amigos.
O barulho do forno foi ouvido, a lasanha estava pronta, e o barulho dos pezinhos descendo as escadas certificou a que Sarah estava com fome.

- O que elas estão fazendo tia ?
- Voltando à adolescência - a morena pegou a garotinha no colo e direcionou-se para a cozinha, aonde iria alimentá-la, já que sua mãe estava babando pelo piloto . - Delícia.

XXX


estacionou a Ferrari vermelha na vaga que era selecionada para a área vip do PUB, logo desceu do veículo e seguiu seu caminho para encontrar os amigos. Avistou de longe, Thomas, Pietro e Talles, conversando animadamente.
Era sempre bom estar em Monte Carlo, sentia falta dos amigos por causa de loucura de viagens.

- E ai, bebê? - Thomas foi o primeiro a cumprimentar assim que o viu.
- “Colé” pessoal - o piloto cumprimentou todos e tomou a única cadeira vazia da mesa. - O que temos para hoje?
- Mulheres - Talles fez um gestou com o dedo, que mostrou as mulheres de uma mesa à frente.
- Então se joga, cara - Pietro sorriu tomando um gole da cerveja.
- Só não chegue ao treino atrasado amanhã - Tom advertiu e Talles rolou os olhos.
- Você esta precisando de sexo, Tom. Você está muito chato hoje – retrucou. - Cadê sua namorada mesmo?
- Eu fiz sexo hoje, estou muito bem obrigado - Tom também deu um gole na bebida. - Já você, qual foi à última vez que pegou uma mulher, mesmo?
- Esta na seca ultimamente é amigo? - Pietro deu um tapinha nas costas de Talles.
- Estou decidindo sair do armário - Talles disse sério e fez os três amigos se olharem assustados. - Quando você vai me dá uma chance, ? - Talles tocou a perna de com a mão, os olhos do piloto se estreitaram e ele caiu na gargalhada, entrando na brincadeira.
- Cara, achei que você nunca fosse se declarar. - retrucou completamente calmo e Talles riu colocando a outra mão no rosto dele.
- Não negue sua atração por mim, então.
- Sai fora, cara - ele deu tapa na mão do amigo, quando ele se aproximou perto demais - Pro seu azar, eu gosto de mulher, não de pinto. Ainda mais um pequeno, como o seu - despejou e todos riram, até Talles que até então estava sério interpretando seu papel.
- Essa cena foi ridícula, eu preciso de uma mulher, agora - Pietro disse e rodou os olhos pelo lugar procurando alguma mulher que o agradasse.
- Por falar em mulher - Talles se pronunciou. - Tommy, Louise lhe deu vale-night hoje?
- Sim, ela sabe que nosso bebê esta na cidade - bagunçou os cabelos do mais novo. - Temos que aproveitar para andar de Ferrari.
- Não pense em tocar no meu carro - encarou o amigo sério, apesar de saber que não passava de uma provocação, gostava de entrar na brincadeira do amigo. - Você é um péssimo motorista.
- Claro que não - negou esbaforido. - Eu que te ensinei pilotar, moleque.
- Me poupe desses come... - sua fala parou quando percebeu que uma mulher morena passava pela mesa com longos cabelos ondulados e um belo corpo.

Será ?
Sua respiração ofegou e suas pernas rapidamente estavam de pé atrás da mulher morena de vestido preto.

- - ele tocou o braço da mulher virando-a para si, a expressão da mulher foi confusa, mas depois de perceber o homem detalhadamente arqueou a sobrancelha. - Desculpe moça, eu te confundi com outra pessoa.

A moça sorriu largamente.

- Eu não me chamo , mas posso ser ela se você quiser - ela esticou mão e tocou o ombro do corredor suas unhas eram enormes e estavam pintadas de preto.

Preocupado em não ser grosso, devagar desviou o ombro da mão dela, e deu um pequeno sorriso.

- Não acho que seja assim – disse. - Desculpe te interromper.

O piloto voltou para mesa com os amigos e Talles lhe deu um tapinha nas costas.

- Apaixonou em tempo recorde, amigo.

o olhou feio e o loiro gargalhou.

- Eu gostaria muito de ouvir sobre sua paixão. - Pietro observou. - Mas eu não posso ficar aqui - com a própria cabeça apontou a loira com o decote enorme que não parava de encará-lo, no mesmo instante ele pegou seu copo e levantou. - Vou ao ataque amigos. - ele caminhou até a loira com seu melhor sorriso, poucos minutos depois, passou novamente pelos amigos e acenou despedindo-se, tinha coisas melhores para fazer.
- Esse é meu garoto - riu, mudando o foco do assunto louco para que seus amigos se esquecessem do comentário de Talles.
- Me conta, como vocês estão? Já conseguiu amolecer o coração de gelo dela?

Será que se ele matasse Talles e alegasse legitima defesa seria absolvido?
Vontade não faltava de cometer esse crime.

- Então finalmente se apaixonou por outra mulher, sem ser a Gigi? - mencionou o nome da ex-namorada, e bufou irritado e constatou que precisava de álcool urgentemente e com o dedo em riste fez sinal para o garçom, que se aproximou com agilidade.
- Eu um quero Uísque, por favor.
- Uau cara, eu sou fã - o garçom não parecia ter mais de 21 anos e estava embananado na frente de .
- Obrigado cara, isso é muito legal.
- Posso tirar uma foto? - o piloto assentiu e se posicionou para a foto. - Meu Deus, e Pietro Pellegri no mesmo dia, eu tenho muita sorte - sorriu concordando, de fato era bem comum ele e Pietro serem assediados pelas ruas de Monte Carlo, já que o mesmo jogava futebol pelo time do Mônaco, e a Fórmula 1 era praticamente a luz do lugar, difícil os dois não serem conhecidos, por isso na maioria das vezes, preferia fazer algo em casa com os amigos e não sair. - Obrigado. Vou trazer seu pedido.
- Valeu - ele gostava de ser gentil com seus fãs, mesmo nos momentos mais inusitados.
- Então, bambino, quem é a vitima da vez? - Thomas capturou a atenção do mais novo. - Sabemos que muitas mulheres passam por sua Ferrari.

Talles gargalhou.

- Eu não sou um assassino em série, Tommy - Balançou a cabeça negativamente. - Eu não tenho vitimas.

Talles olhou o amigo firmemente.

- Elas morrem de amor por você, ô corredor.

Corredor.
Era como o chamava e ele gostava muito mais do apelido quando saia da boca dela.

- Fala logo , quem é ela? - Tom se irritou.
- - respondeu. - Mas eu não estou apaixonado.
- Ela ganhou um racha dele.

Era oficinal, Talles não passaria daquela noite.

- Espera aí - Tom colocou o dedo em riste e as gargalhas de Talles eram altas. - Você perdeu uma corrida de carro para ela?
- Ele deixou ela ganhar - Talles interviu. - Tirou o pé, em cima da reta.
- Claro que não - olhou feio para Talles. - Eu não a deixei ganhar, ganhou por que é boa.
- Mentira - Talles voltou a afirma, na cabeça de ele já imaginava varias formas de matar o melhor amigo. - Eu estava lá, idiota - lhe deu um tapa na cabeça. - Foi tipo velozes e furiosos 5, Dom tirou o pé em cima do sinal e Brian ganhou - exemplificou, Thomas voltou a encarar o piloto com expressão divertida.
- Eu não a deixei ganhar, ela ganhou porque pilota para caralho.
- A primeira parte é mentira, a segunda é muito verdade - Talles era fã de , adorava a ver correr e ganhar, não se lembrava de ver a mulher perder.
- Eu não vou perder meu tempo, discutindo com Talles, já disse que não deixei ganhar.

Aquilo era meia verdade.
Claro que não tinha corrido o máximo que podia, claro que poderia ter ganhado, entretanto uma série de fatores o impediu de acelerar mais na última reta, queria conhecer , queria saber mais dela, e se ganhasse não teria a oportunidade, outro ponto era que, de fato, as ruas não eram como as pistas do autódromo, e nem o carro, já que não tinha cambio manual, o que facilitava e economizava nos segundos finais em cada etapa, considerava aquele o principal fator para a derrota, portanto, não deixou totalmente de proposito, ela ganhar. Ele era um homem competitivo, perder não era uma palavra que gostava, a derrota lhe incomodava ao extremo, mas perder para , não lhe causou o mínimo incomodo, ao contrario foi uma vitória, talvez a que mais tenha valorizado nos ultimo tempos. Tinha orgulho de dizer que sua futura mulher pilotava demais.
Futura mulher?
Que bosta é essa que você esta pensando ?

- É amigo, você está apaixonado sim, até deixou a mulher te vencer.

Balançou a cabeça negativamente, no mesmo instante que o garçom chegava com sua bebida.

- Ela é boa cara, muito boa.
- Boa pilota, ou boa mesmo? - fez o desenho no ar de um corpo escultural e ficou em silencio pensando, não podia negar sobre a beleza dela. era o tipo de mulher que sem fazer nada chamava a atenção para si, e para ter qualquer tipo de envolvimento com ela, com certeza um homem deveria ter paciência a mil e ciúmes zero ou seu final seria em uma cadeia, preso por homicídio.
- Ela é boa, só isso.

XXX


Na segunda-feira o dia amanheceu nublado.
Os ventos eram fortes e parecia que choveria, e muito ainda. E o clima fechado fez com que fosse trabalhar de calça e blusa de frio, e quando se aproximou de o homem a observou com cuidado, gostava quando ela usava short, suas pernas eram torneadas e definidas, totalmente atrativas, entretanto ela estava de calça cumprida e suas pernas não deixavam de ser chamativas e ela estava mais linda do que já a vira. E a cada minuto que passava dificultava sua tentativa de trabalhar, a cada movimento que a mulher fazia, ele acompanhava com o olhar.
Totalmente abobado.
Seus pensamentos viajavam para a vontade que ele sentia de tocá-la, de sentir a maciez de sua pele e a firmeza das mãos que ao mesmo tempo eram delicadas e fortes assim como a própria .
Ele estava surtado pela mulher.

- Perdeu alguma coisa em mim hoje, corredor? - o homem foi despertado das ilusões pela voz dela, que com as mãos na cintura, o encarava.
- Você esta bonita de calça - ele disse da maneira mais natural possível, não havia motivos para mentir.
- Mais do que de short?

Ele soltou a ferramenta que segurava e ficou de pé.

- Muito mais do que de short.

negou com a cabeça totalmente desacreditada.
Qual é o homem que prefere uma mulher de calça?

- Não precisa mentir , não sou como as mulheres que conhece.

Ah ele sabia, e como sabia disso!

- Claro que não é, assim como eu não sou como os caras que está acostumada a se envolver - retruco e arqueou a sobrancelha, tinha um belo ego e também uma bela aparência e pelo posto que ocupava no esporte, o que não faltavam eram pessoas para lembra-lo disso.
- Eu não me envolvo com caras.
- Com mulheres, então?

deu uma gargalhada gostosa, música para os ouvidos de .

- Tem algum tipo de preconceito? Igual com mulheres que pilotam carros velozes?

encarou com intensidade e se aproximou a passos lentos, ela recuou ao perceber que ele se aproximava, o coração pulou em seu peito ao perceber que os olhos do moreno corriam por seu corpo.

- Nenhum, principalmente se forem mulheres que pilotam carros velozes.
- Quantos anos você tem? 18? Eu já passei da fase de brincar de bonecos e carrinhos.
- 21. Não sou tão mais novo que você e pare de me menosprezar, faz isso desde que me conheceu e ainda chama os outros de preconceituosos, você é difícil, Hein mulher? - um sorriso presunçoso moldou seus lábios ao ver a expressão de , ela estava sempre armada para lutar e dificilmente ficava sem resposta, mas soube no momento em que ela franziu o cenho que dessa vez o ponto foi para ele.
- Eu não me envolvo, de maneira nenhuma, com ninguém, homem ou mulher. As coisas para mim não passam de atração física, sexo e acabou.

analisou a expressão fria no rosto da mecânica, os olhos gélidos como gelo, ele jamais presenciou aquele olhar, e por um breve momento procurou se eles lhe mostrariam o motivo da rigidez em seu coração, porém, permaneceu sem mostrar qualquer emoção.
O barulho do celular de soou e ao olhar o visor, respondeu a mulher.

- Só um minuto, é o meu pai - colocou o telefone na orelha e deu um sorriso fraco, sentia saudades das vezes que seu pai a ligava. Sentia saudades das vezes que levava bronca por não atender o celular já que estava no modo silencioso, ou das vezes que estava com as amigas e ele ligava e a moça optava por não atender.

Se tivesse como voltar e fazer as coisas diferentes, ela com certeza daria tudo para que tivesse seu velho de volta.
Deus, como saudade doía.
Como parecia não ser real.
Antes que percebesse, seu rosto estava molhado por lágrimas e seus olhos estavam imparciais e focados no nada e em sua cabeça os pensamentos queimavam a uma intensidade que fazia seu corpo entrar em ebulição.

- Eu faço pai - completou e virou-se novamente para , seus olhos se arregalaram ao ver a mulher estática com lágrimas pelo rosto. - Desculpe pai, eu te ligo de volta. - Colocou o telefone no bolso da calça e se aproximou de .
- o que houve? - ele tocou os ombros rígidos dela, e aquilo foi o gatilho para que a mulher desabasse em seus braços tomada por soluços.

Ele então a abraçou forte, tentando passar algum tipo de conforto, o que mais desejava era apoia-la nessa dor.
Ele entendia essa dor.
Não falou ou fez mais nada, somete afagava os cabelos de enquanto ela soluçava tomada pelas lagrimas, os soluços dela não eram altos ou fortes, o choro de parecia ser silencioso, parecia doer por dentro, e ele entendia que o coração parecia sangrar dia após dia, e o sentimento cruel chamado saudade, corroía como ácido tudo que encontrava pelo caminho.
A mecânica agarrou a camisa branca dele com força, quando sentiu suas pernas tremerem e não conseguiu sustentar o peso do próprio corpo. Alarmado, firmou seu braço em sua cintura lhe dando o sustento necessário para manter–se em pé e trazendo junto calafrios intensos como reação ao toque.
Ao perceber o ponto que estava, com seus sentimentos expostos e no ponto de vista dela, um sinal claro de fraqueza, ela o empurrou pelo peito passando as mãos depressa pelo rosto, virando-se de costas. A garota detestava mostrar o que sentia, quando as pessoas conheciam seu ponto fraco, sabiam exatamente onde feri-la. E jamais se permitiria passar de novo por aquilo.

- Estou bem, estou bem. - ela procurou a respiração no fundo do pulmão e depois a soltou devagar. - Eu vou tomar uma água. Já esta na hora do almoço, vai comer.

se afastou e chegou à passos velozes até o escritório do pai - que agora era seu - mais lágrimas voltaram a cair, mas diferente de minutos atrás, não permitiu que caíssem, foi direto para o banheiro jogar uma água no rosto e se acalmar, os cabelos antes estavam em rabo e ela tratou de fazer logo um coque, seu reflexo no espelho era assustador.
Os olhos estavam fundos e vermelhos, marcas de lágrimas corriam pelas bochechas.
Com um sabonete lavou o rosto, jogando bastante água e logo secou com a toalha macia, esperando que fosse o suficiente para amenizar o estrago.
Quando saiu do banheiro voltando para o escritório, se assustou ao ver em pé, em suas mãos um porta retrato que ficava sobre sua mesa. Havia somente duas fotos em todo o escritório, a primeira era com as amigas, vestidas de personagens de princesas encantadas da Disney, no aniversário de 3 anos de Sarah, e outra dela e seu pai, demorou quase um mês para que tirasse as coisas do pai do escritório, mas agora não restava quase nada dele, era totalmente seu escritório.
E ele estava segurando justamente a foto que estava com as amigas.

- Eu disse para você ir comer - ela brutalmente pegou a foto das mãos dele, devolvendo para a mesa, não é nada que ele não esperasse que ela fizesse.
- - ele falou de maneira calma. - Eu entendo essa dor que você sente, e acredite em mim, não é bom guardar esse sentimento.

bufou enraivecida.

- Você entende? Pelo que eu vi, era com seu pai que você estava no telefone - o tom de voz dela era frio e duro, parecia querer o ferir com suas palavras.

fechou os olhos e respirou fundo para continuar aquela conversa.

- Eu não perdi meu pai ou minha mãe. Perdi em 2015 meu padrinho, que me ensinou tudo o que sei sobre carros e corridas. E ainda mais, eu matei meu irmão mais velho.

A mecânica ficou estática.
O eco da voz de parecia percorrer todo o espaço da oficina, após falar, ele sentou-se no sofá perto da porta e enterrou suas mãos nos cabelos.
correu os olhos pela sala procurando alguma coisa para se defender e achou uma tesoura sobre a mesa.
Ele acabou de dizer que, matou o irmão.
Era instinto natural procurar defesa.

- Como assim? - perguntou com a voz trêmula, quando o homem levantou a cabeça lágrimas já corriam pela face, suas feições eram tristes, percebeu que não havia necessidade da tesoura, então deu um passo para trás.
- Estávamos eu, Talles e Lorenzo, meu irmão.

Março de 2017


batia os dedos no volante impaciente, ele estava sentado no carro esperando Talles, ele ainda arrumava o cabelo, era incrível como ele parecia mulher, demorava mais que todos. Sempre
Lorenzo estava ao seu lado digitando algo no celular, e logo começou a falar, estava gravando um vídeo, virou a câmera para o lado de e este deu um oi, até eles verem a silhueta de Talles se aproximando, o loiro abriu a porta de trás do carro e entrou.

- Você ficou uma hora arrumando o cabelo, para usar boné? – Lorenzo perguntou.
- Não estava ficando bonito e eu estou com sono também – respondeu. - Vamos logo! Estou com saudade da minha mãe - pediu e ligou o carro, deu seta e foi rumo à saída da cidade.
- O que temos para hoje? - Lorenzo perguntou ligando o som.
- Nós vamos lá para o Thomas, encher a cara e comemorar que Pietro subiu para o profissional - foi o mais novo quem respondeu.
- Muito bom - Lorenzo disse e observou o trânsito, havia poucos carros, mas todos eles passavam o que estavam. – Ô você está com algum problema para acelerar? Se fôssemos de tartaruga estaríamos mais na frente - reclamou
- Você já foi mais veloz que isso - Talles concordou. - Pára o carro que eu vou dirigir.
- Não, meu carro, eu dirijo - estabeleceu a regra, seus amigos eram muito abusados. - E eu irei à velocidade que eu quiser, pode ir de tartaruga se quiser, Talão - emendou e Lorenzo gargalhou profundamente.
- Qual o problema ? Está com medinho é? Achei que queria correr na Fórmula 1 - caçoou e Lorenzo gargalhou.
- Isso é culpa da Gigi, ela faz o lado cuidadoso dele aflorar, Talles, daqui uns dias seremos obrigados por ele andar de cinto - o outro entrou na zoação, estava ajoelhado no banco sem cinto e Talles estava com os dois braços no encosto do banco, eles conversaram e gritavam animadamente, toda vez que eram ultrapassados gritavam, até certo ponto ignorou, mas sua paciência estourou. Ele estava na terceira marcha, ao pisar na embreagem, mudou para a quarta e pisou no acelerador, o painel do carro mostrava 50 km/h, segundos depois estava a 90 km/h, as palmas e assobios de Lorenzo e Talles foram ouvidos, e soltou um sorriso, Talles se inclinou no banco e aumentou o volume da música que tocava, e junto com os cantores os três começaram a gritar a letra e suas cabeças e mãos balançavam de um lado para o outro.

Junto com a empolgação do momento cortava todos os carros, e ao gargalhar de alguma idiotice dita por Lorenzo, trocou mais uma vez a marcha, agora estava na quinta, ao dar seta para cortar um caminhão na estrada, girou o volante, mas a direção do carro mudou, e deu uma derrapada nos asfalto, seu impulso natural de habilitado o fez a apertar o freio, mas o mesmo não surtiu efeito, o carro não parou, o caminhão que estava em sua frente, continha uma velocidade normal, o que fez o desespero de , eles iriam se chocar.

- O FREIO - Lorenzo berrou desesperado.
- Não vai - a essa altura estava com as mãos soadas e o coração acelerado.
- O de mão , o de mão.

Lorenzo tentava loucamente colocar o cinto, insano de preocupação, mas tudo parecia não encaixar e de repente tudo aconteceu.
pisou na embreagem, soltou o acelerador e puxou o freio de mão, precisava que as rodas travassem para o veiculo parar, entretanto os pneus derraparam mais, agilizando o choque, o gritou de Leon foi de medo ao perceber que não havia adiantado.

- LORENZOOOOO - Talles gritou vendo o corpo do amigo ser jogado em meio ao para-brisa do carro, com as duas mãos segurou firme no banco, mas ele sabia que não ia adiantar, ele fechou os olhos não queria morrer sentindo dor, sua mente viajou sobre os melhores momentos de sua vida, como ele amou viver tudo, cada vitória e derrota. Seu sonho havia sido realizado, era o homem mais feliz do mundo. Com um último sorriso pensou em sua família, esperava que eles ficassem bem, Deus envie forças para eles, que eles seguissem suas vidas.

A última coisa que viu, foi o corpo de Lorenzo ser arremessado pelo vidro da frente, e a voz de Talles chamando seu nome, com o coração totalmente disparado.
Seu melhor amigo da vida.
Seu irmão;
jamais se viu sem Lorenzo, cada momento de alegria e tristeza de sua vida tinha o mais velho, não amava Lorenzo como um irmão, era muito mais que isso, eles dois pareciam ser um.
Uma parte de seu coração estava partindo naquele momento.
Sua vida era como um filme em uma tela agora, e com clareza ele viu todos os momentos de alegria que viveu, cada gargalhada soltada por ele na presença dos amigos e sua família.
Suas tristezas, e a morte de Jules, e como se ajoelhou sobre o tumulo do padrinho, desesperado em lágrimas, pedindo que não partisse.
Mamãe e papai como ele gostava de falar, ele ia sentir saudade dos mimos de sua mãe, e dos conselhos maravilhosos de seu pai, Arthur seu irmão mais novo que ele não teve a oportunidade de beijar naquele dia, tomara que ele conseguisse se cuidar sozinho, desejava que ele brilhasse na vida e nunca se esquecesse dele, do quanto ele o amava.
queria gritar, mas sua voz parecia não sair.
Lorenzo não tinha em que pensar, ele estava morrendo.
Ele estava partindo e deixando sua família para trás;
Arthur, o mais novo dos ’s tinha também o sonho de ser piloto, naquele instante ainda corria apenas de Kart, mas acreditava que tinha futuro na profissão e se arrependeu de em sua última mensagem ter mandando ele ficar longe de suas panquecas e não ter dito o quanto amava aquele moleque, assim como .
Ah !
A personificação do empenho e determinação, Lorenzo sem lembrava do primeiro Kart que ele dirigiu e quando viu os olhos claros de brilharem, ele sabia que o garoto teria futuro naquela profissão, já estava percebendo que não veria o irmão na F1, mas com todo seu coração desejou que seus sonhos se realizassem.
Ele pensou em sua mãe e as panquecas que amava preparar para comprar o estômago dos três filhos, e convencê-los a fazer o que queria, e depois passava o dia vendo eles jogando videogame e se divertindo na sala de casa.
‘Obrigada por ser essa mãe maravilhosa. Eu te amo ‘
E seu pai, seu amigo de uma vida, seu exemplo, Lorenzo Lerlerc pedia aos céus para nesses anos de vida, tivesse sido metade do homem que seu pai foi.
“Eu te amo pai, obrigado por me ensinar tanto”
A imagem de Giulia reviveu em sua memória, ele sorriu, a amava.
Lembrava-se da primeira vez que viu a professora, ela estava sentada em um café, ela lia um livro: “Orgulho e preconceito”, os cabelos estavam voando, o olhar brilhava.
Lorenzo disse a si mesmo, que casaria com aquela mulher.
E agora eles estavam juntos, e ele pretendia pedi-la em casamento ainda naquela semana, seu sonho não se realizaria mais. Entretanto, Lorenzo estava feliz, por ter amado Giulia Montez.
Como um último pedido, implorou para os céus que ela fosse muito feliz, com uma casa com jardim e que se ela tivesse um filho em algum momento da vida, herdasse os olhos dela, como idolatrava aquelas jabuticabas.
Com a imagem de um almoço em família, onde sua mãe estava sentada no sofá com uma xicara de chá em mãos, seu pai repousava ao lado dela, os olhos vidrados na televisão, e Arthur disputavam uma partida de ‘Need4speed’, no outro sofá, estava Giulia, uma garrafa de cerveja em mãos e aos seus pés, Lorenzo se viu sentado, fazendo um carinho na perna direita da namorada. Era sua lembrança favorita. E como uma ultima despedida, fechou os olhos, com sua consciência totalmente perdida.


- Ele já chegou ao hospital sem vida - passou as costas da mão sobre o rosto. - Quando acordei no hospital, recebi a noticia que ele tinha morrido na mesma hora. E eu não soube como encarar meus pais, ou a mim mesmo no espelho. Eu me lembro de cada momento do acidente, de cada palavra, cada expressão facial dele, quase desisti de correr, mas eu precisava correr por ele, para que de onde quer que ele esteja, sinta orgulho de mim.

A emoção nas palavras dele fez com as dela também aflorassem, e lágrimas caiam, lágrimas de quem entendia o que ele falava.

- Eu... Eu sinto muito - ela se agachou em frente a ele e tocou seus joelhos, os olhos entraram em uma ligação profunda.
- Faz dois anos, - ele mostrou os dedos como ilustração. - E não tem um dia sequer que eu não sinta falta dele, não tem um dia sequer que eu não queira trocar de lugar com ele, mas saber que se ele estivesse aqui se orgulharia de mim, me faz levantar todos os dias da cama - um sorriso brilhante pintou os lábios dele. - Você vai conseguir - ele apertou a ponta do nariz dela e ela fechou os olhos - Uma hora à ferida vai diminuir você só precisa deixar as pessoas te ajudarem.

ainda de olhos fechados, sentiu os braços dele rodearem seus ombros e agora seus corpos se emolduravam em um abraço de saudações, correntes elétricas de 220 volts descarregaram sobre seu corpo, formigando mediante ao toque dele, quente e estrondoso, capaz de faze-la entrar em ebulição por completo. Incapaz de permanecer ali, sentindo tudo aquilo que não sabia nomear, o empurrou devagar.
No segundo seguinte, já estava longe do piloto.

- O que acha de um almoço? Merecemos comer.

sorriu.

- Vamos sim, estou faminto - concordou, vendo-a voltar ao banheiro para lavar o rosto. - Essa foto é bem interessante - disse, novamente ele segurava a foto. - Me conte sobre suas amigas, a Emanuelle eu já conheci, essa loira vestida de Rapunzel.
- Sim, segundo a Sarah ela se parece muito com a Rapunzel - saiu do banheiro e colocava sua jaqueta, para eles irem almoçar. - Ela é médica e é uma comédia a ter como amiga, ela é a mais velha de nós cinco.
- E quem é a Sarah? - os dois já estavam na calçada, onde o carro de estava estacionado. Os olhos dela brilharam, era amante dos modelos mais antigos, mas sabia reconhecer a beleza de um carro, e aquela Ferrari 488 GTB 3.9 V8 TURBO era linda, com a velocidade máxima de 330 km/hora e fazia de 0 a 100 em 3 segundos, os dedos dela coçaram ao se imaginar pilotando aquele carro. - Você já olhou para alguém, como olha para carros velozes?
- Não, ninguém merece tamanha atenção.

deu uma gargalha gostosa, enquanto observava destrinchando os detalhes do carro
- Posso abrir o capô?
- Claro - o sorriso dele se alargou, ao vê-la dar pulinhos de alegria, ele já viu muitas mulheres babando por seu carro, pela beleza dele, pelo status e poder que uma Ferrari representava, mas jamais viu uma mulher se encantar pelo motor de seu carro.
- Caralho! - exclamou ao observar. - Motor de 3.902 cm³ de cilindrada, de cárter seco, 8 cilindros de 4 válvulas, é um baita carro.
- Sim, com 670 CV 8000 RPM. Sete marchas.
- Já colocou quanto no velocímetro?
- 330 em 7 segundos - sorriu e arqueou a sobrancelha em duvida, ele gastaria no mínimo 10 para: acelerar, trocar as marchas, e então alcançar o limite máximo de velocidade.
- Dúvido.
- Sabe como cortar décimos de segundos em uma corrida, ?
- Troca de marcha direto - ele assentiu. - No exato momento, senão você morreria com a explosão.
- Mas eu sei o exato momento. Sei a distancia suficiente que preciso apertar o acelerador e a embreagem para trocar a marcha.
- Sensacional - voltou a encarar o motor carro. - Trocar sem levantar o pé do acelerador, nos carros turbos mantém o motor em alta rotação para manter aceleração no máximo, alcança o limite de velocidade em menos tempo. É Melhor que voar.
- Quer dirigir? - e ali foi contra tudo que acreditava, jamais outras pessoas dirigiam seus carros, mas faria tudo o que quisesse.
- Obvio, eu só ando em carros quando eu dirijo - lhe estendeu a chave e ambos entraram no veículo, era um carro esportivo de dois lugares somente.
- Você não anda de carona com ninguém? - ela negou com a cabeça, dando seta e arrancando o carro. - Você é pirada.
- É o que dizem - deu de ombros, prestando atenção nas ruas em sua frente.
- Voltando ao assunto; suas amigas. - rolou os olhos, era insistente e sempre fazia perguntas para saber mais sobre sua vida. - Quem é a Sarah? - voltou a observar a foto em suas mãos, obvio que tinha carregado a foto, era motivo para puxar assunto com a mulher.
- Sarah é a filha da Leah, a aniversariante - apontou a garotinha na foto. - Ela quem nos fez vestir de princesas.
- Leah é a Pequena sereia? - ele analisava a foto e constatou quem era a mãe, já que a garotinha estava em seu colo.
- Essa mesmo, ela é engenheira, e não e mãe só da Sarah, ela é mãe de todas nós. - continuou a correr os olhos pela foto observando cada detalhe das amigas e seus sorrisos alegres. - Essa é Mia Belchourt. A atriz?

assentiu positivamente.

- Você sabe que ela e Talles já tiveram um rolo, não é?

assentiu positivamente.

- A vida amorosa do Talles é mais rotativa que um autódromo, nunca sabemos o nome das mulheres que se envolve, mas essa ele fez questão de contar - balançou a cabeça negativa, como se reprovasse a atitude. - E quem é essa aqui, essa negra?

Uma gargalhada saiu da boca de , e a olhou com curiosidade sem entender o motivo dos risos compulsórios da mulher.
- O que foi?
- Eu ri tanto no dia que fomos escolher essas fantasias. A Amélia é completamente alucinada.

- Gente me ajuda, eu não consigo escolher minha fantasia - Amélia choramingava em frente ao espelho da enorme loja de fantasias, a professora estava na dúvida, entre a Bela da fera, Tiana, a princesa negra, ou a Mullan.
- Amélia, eu preciso trabalhar, mulher, agiliza isso logo - Emanuelle deu uma sacudida na amiga, elas iriam se atrasar somente por causa de Amélia.
- Mas eu não consigo escolher gente - ELa bateu o pé e fez bico, Sarah gargalhou.

Sua tia Amélia estava loucona aquele dia.

- Amélia vai com qualquer uma, ninguém se importa - bufou entediada, estava morrendo de fome e Amélia as prendendo na loja justo na hora do almoço.

De quem foi brilhante ideia de vim escolher fantasias justo no horário de almoço?
Justo a refeição mais sagrada do dia.

- Amélia, já chega - Leah tomou a palavra. - Ou você se decide agora ou eu te faço ir vestida de fera, no lugar da Bela. 3 segundos.
- Faz ela ir de fera, Quel - Emanuelle disse entusiasmada.
- Emanuelle, fica quietinha antes que eu te faça engolir as tranças - Amélia disse também irritada. - Esta bem eu vou de Tiana, porque, ela também é negra.
- A fera também é negra, Amélia - observou entrando na brincadeira, Amélia era sempre hilária quando surtava.
- A fera é macho. Tem um pinto. E é peluda. Eu não vou de fera.
- Mamãe, o que é pinto?

Leah rolou os olhos irritada com Amélia, e suas paranoias.

- Você vai de fera e acabou.


- E ela foi de fera?
- Não - secava as lágrimas dos cantos dos olhos, lágrimas de gargalhadas. - Ela ficou rastejando atrás da Leah por uma semana, até conseguir. Foi bastante divertido.
- Você tem amigas interessantes, .
- Elas são as melhores do mundo - ele torceu para em breve conhece-las.
- Para onde está me levando? - perguntou, só então se dando conta que não sabia seu destino.
- Bem vindo ao meu restaurante preferido - no mesmo instante ela estacionou o carro com uma destreza invejável, o piloto colocou a foto sobre o banco do carro para então sair dele, o acompanhou, lhe entregou as chaves do carro, para lavar as mãos e arrumar o cabelo, observou o movimento pelo canto dos olhos.
- Olha, já estou sendo apresentado ao restaurante, isso é um avanço.
- É, às vezes eu sou muito legal, mas não fique se achando, corredor.

Os dois entraram no estabelecimento, era um lugar tranquilo e relativamente simples.

- Não ousaria me achar, você sabe como cortar as asas de alguém - sorriu com o comentário, era divertido, o astral era leve e passava descontração, o tipo de pessoa que atraia positividade. O garçom aproximou-se, com o cardápio em mãos, ambos sorriram em agradecimento.
- Poucos dias e já me conhece bem.
- Eu presto atenção em você, muita atenção.
- Prestar atenção em alguém, pode ser sinônimo de interesse em conquistar, mas ainda bem que você é esperto demais para isso - observou enquanto a mulher olhava o cardápio, ela varria os olhos pelo papel enquanto mantinha o lábio inferior preso. Ela sequer percebia como era magnífica sem fazer nada demais? Com roupas simples e surradas, cabelos presos em um coque frouxo e alpargatas nos pés. Modelos no mundo inteiro implorariam, pela beleza natural de .
- Por que te conquistar não é sinal de esperteza?
- Eu não estou disponível para ser conquistada, estou disponível para sexo. - levantou seus olhos para os azuis de , com um sorriso malicioso, quase podendo imaginar do que ele era capaz na cama, mãos fortes e habilidosas no mínimo tinha. - Sem envolvimento emocional, só trepar e acabou.
- Você está sugeri...
- - ouviram a voz masculina chamar e ambos olharam, o piloto abriu um enorme sorriso e logo estava sobre os pés.
- Oi Dani - deu um abraço no homem e beijou a bochecha da mulher que estava ao seu lado. - Oi Antonella, faz tempo que não te vejo, quase não vai ao Paddock.
- Pois é, nossas agendas não coincidem, mas já estamos trabalhando em uma estratégia, a mulher sorriu e observou na mesa, que observava a cena alheia ao acontecimento. - Boa tarde, eu sou Antonella.

por alguns segundos não se moveu, Antonella tinha um sorriso gentil nos lábios e tinha quase certeza que já tinha a visto, era uma mulher bela, tinha certeza que não esqueceria, só precisava se lembrar.

- - estendeu a mão, e mulher ao invés de segura-la, lhe beijou a bochecha, deixando desconcertada.
- Que falta de educação a minha - tomou a palavra. - , esse é Daniel Ricciardo, ele pilota pela Renault e essa é Antonella Cornelo, esposa dele - Antonella Cornelo, lógico, ela era cantora e Amelia vivia cantarolando uma de suas músicas por toda parte, a professora era fã dela. Daniel apertou a mão de e deu um sorriso divertido para .
- Vocês são... - apontava de um para o outro, coçou a nunca sem graça.
- Amor, deixe de ser inconveniente. Por Deus - Antonella não entendia como Daniel não tinha o mínimo de pudor em alguns momentos.
- Não é inconveniência - sorriu. - Nós somos conhecidos apenas, ele não tem sorte para ser mais que isso.
- E você, acaba de ganhar meu coração - Antonella sorriu passando o braço pelos ombros da mecânica, a morena aprovou o gesto, sem conseguir uma explicação lógica, tinha gostado dela.
- Para com isso Anto - fingiu uma falsa raiva. - Não deveria apoiar a , ela tem o ego enorme.
- Ela é inteligente - olhou a outra, e disse baixo, como se contasse um segredo. - Não se envolva com pilotos, eles amam mais os carros que a gente.

gargalhou com a fala da cantora, ao mesmo tempo que Daniel a olhou indignado, fingindo estar ofendido, com as mãos no peito e um ar teatral disse.

- Isso é um absurdo, se eu amasse mais o carro, jamais te deixaria dirigir ele.
- Está insinuando, Daniel Ricciardo, que eu não sei dirigir?
- Não amor, por Deus, você pilota muito bem, pode até roubar meu emprego.

riu da expressão divertida no rosto do piloto mais velho.

- Anto, deveria dizer isso para mim, ela está na frente - apontou a mecânica. - , já ama mais os carros que tudo.
- Ah, pelo menos ela não vai precisar ouvir falsos elogios sobre dirigir bem.

Não mesmo.

- Ela pilota muito, tipo muito mesmo, dá show em qualquer um de nós;

O tom de orgulho na voz de fez encara-lo, jamais ouviu um homem se referir a ela e suas paixões totalmente masculinas dessa forma, era tão inédito, que ela sequer soube como reagir.

- Pilotar melhor que você não é tão difícil moleque - Daniel bagunçou seus cabelos. - Vou sentar aqui com vocês, já que são “apenas conhecidos” e você me deve um almoço - antes que qualquer pessoa pudesse responder, Ricciardo já havia tomado o acento ao lado de . Antonella não se surpreendeu, depois de anos de relacionamento, conhecia bem as atitudes idiotas do piloto austríaco.
- Mas eu não te convidei, não quero sua presença - cruzou os bravos e fez bico, achou a atitude estupidamente fofa. - Antonella pode ficar, você não.
- Moleque, não enche o saco, volta logo a sentar que você não vai crescer mais.

deu uma gargalhada, o que chamou a atenção de . adorava pessoas que a fizessem rir, também pudera com as amigas que tinha, bom humor era algo que não poderia faltar nas pessoas ao seu redor.

- Agora que sei que o irá pagar, vou pedir o mais caro desse restaurante - Antonella também se sentou, estava obvio que o casal não se importava se de fato estavam atrapalhando algo. aceitou contrariado, ele e estavam chegando em uma conversa interessante, e queria logo acabar e chegar ao que de fato importava, em alguns dias já estaria embarcando para o GP da China e depois iria direto para o Azerbaijão, duas semanas sem ver , disse a si mesmo, que isso não era um problema, mesmo se não conseguissem engatar nada agora, teriam tempo.
- Vocês moram em Mônaco?
- Temos casa, Daniel fica muito aqui e eu quando não estou viajando fico aqui e em LA - Antonella explicou enquanto observava o cardápio.
- Mas sou Australiano, Mônaco é mais por causa da F1 - Daniel nesse momento moveu a cadeira, postando-a ao lado da esposa e logo seu braço estava sobre os ombros dela.
- Vocês, pilotos, gostam muito daqui, às vezes ando pela rua e vejo Hamilton, já vi Vettel. É quase um hall da fama.
- A pista de Monte Carlo é a melhor. - sorriu ao ver o garçom trazer um suco, ele se perguntou quando tinha feito o pedido, já que não viu.
- É incrível mesmo - Daniel concordou. observou como sorria ao lado de Ricciardo e ela gostou de perceber como ele se comportava perto dos amigos, era como uma criança recebendo doce, não se cansava de lembrar o quanto era bonito e como atraia leveza por onde passava. Em determinado momento, Antonella foi encher seu copo e esbarrou a mão no copo onde tomava Gatorade, virando a bebida sobre o corpo do monegasco, os olhos de se arregalaram ao ver o pano da camisa grudar sobre o corpo do piloto.
- Dios, , me desculpe - Antonella levou as mãos a boca, completamente envergonhada por ser uma desastrada.
- Está tudo bem, isso acontece - o moreno pegou um guardanapo e logo passava o mesmo pelo tronco, mordeu o interior da bochecha ao ver as entradas laterais abdominais de , ele secava o corpo de maneira lenta e provocante, cada girada de seu pulso para se secar, fazia com que ela imaginasse suas mãos sobre ela. Em sua intimidade, que já estava quente e molhada, sedenta por imaginar o que seria capaz de lhe proporcionar com seu toque. Ao perceber que os olhos de queimavam sobre ele, sorriu de um jeito malicioso e fincou seus olhos nela, com intensidade e luxúria, como se fosse capaz de ver os pensamentos que cruzaram a mente dela e lhe entregava mais material sacana, através dos movimentos que mudavam o ritmo e posição.

E foi com essa expressão que cruzou o rosto dele, luxuria e desejo, diferente do que já tinha visto, esse lado sim, queria conhecer.
E naquele momento, ela decidiu, passaria por sua cama.

Capítulo 3 - Batidas rápidas de um coração lento

estava em um sono muito gostoso.
Não conseguia dormir tranquilo há muito tempo, principalmente tendo sonhos tão bem frequentados como aquele, era o próprio Leonardo Di Caprio quem estava ali. Com as roupas e características de Jack, e claro, estavam no navio. Com toda certeza, como o sonho era seu, o barco não afundaria.
Agora ela mandava em tudo.
E ele estava prestes a beijá-la, seus lábios macios estavam entreabertos e o hálito de pasta de dente e bala de menta exalavam, mais um pouco ela estaria com sua boca na dele.
E o telefone tocou.
Aquele barulho infernal inundou os tímpanos de e ela quis matar o ser do outro lado da linha.

- Alô.
- Oi zinhaaaaaaaa. - Emmanuelle cantarolou. Tinha que ser ela, era mestre em chegar sempre nos momentos mais inoportunos, ainda a mataria.
- O que você quer? Eu estava dormindo.
- Quero sair – Choramingou - Por favor, vamos sair.
- Ah não. - sentou-se na cama, coçando os olhos. - Trabalhei a semana inteira, estou exausta.
- Vamos, por favor. Já foi duro ter que convencer a professorinha, não me faça queimar neurônios com você também. - A médica tentou argumentar.
- Eu não valho a pena, então?
- Não foi isso que eu quis dizer. - O tom de voz exagerado de Emmanuelle, fez sorrir. - OK, já vi que vou ter que jogar duro e te subornar. – Suspirou. - Eu te dou duas garrafas de tequila.

fechou os olhos com um sorriso sapeca nos lábios, odiava ser previsível.

- Estamos no caminho certo. - Chutou os lençóis, pondo os pés no chinelo. - Mas só duas garrafas são muito pouco. Acho que você pode ser melhor.
- Duas garrafas são pouco? – Suas palavras foram carregas de indignação. - Você deve ter algum problema, homenzinho. - estava pior que Amélie querendo 200 coxinhas, nunca viu uma mulher amar tanto uma comida que não era de seu país.
- Estou voltando para minha cama. É hora de dar tchau. - afinou a voz, imitando perfeitamente um Teletubbies.
- Está bem. - Emmanuelle deu-se por vencida. - 2 garrafas e eu pago a cerveja do final de semana inteiro, começando hoje.

bateu palminhas de felicidade.

- Fechado. - Disse se imaginando em uma banheira de tequila. Ela ainda faria aquilo, encher sua banheira apesar de não ter uma, se contentava em encher a de Mia. - Vou me arrumar e vou te buscar.
- Oba! Obrigada, homenzinho.
- As meninas vão? – Perguntou, logo se direcionando para o banheiro.
- Leah está terminando um projeto, Mia em Paris, mas a professora vai e disse que nos encontra lá.
- Está bem.
- Homenzinho. – Chamou e murmurou um “hm”, indicando que a médica devia prosseguir. – Se vista de mulher hoje, passe um batom e ponha um salto, ok?

rolou os olhos ao mesmo tempo que gargalhava, não se lembrava a ultima vez que pôs os pés em uma sandália de salto alto.

- Eu me visto como eu quiser. E só porque falou isso, vou de chinelo. – Emmanuelle gargalhou, não sabia porque insistia com .
- Insuportável. Podemos, pelo menos, ir de moto?
- Óbvio que não.
- Ah não, você sabe que não gosto de carro. - A voz da médica era chorosa.
- Não importa, eu não vou sair de moto. Emmanuelle, você tem bosta na cabeça? Quem prefere sair de moto?
- Eu.
- E depois todo mundo fala que a problemática sou eu. - desligou o telefone e foi tomar seu banho.

X

entrou no quarto do hotel em que estava hospedado, se jogou na cama da maneira que estava, seu êxtase corporal não lhe permitiu ir mais longe. Seus olhos estavam fechados e a cabeça pesada. A primeira sessão de treinos livres tinha acabado, o lado positivo era que Sebastian tinha dominado, ponto para a Ferrari.
Mas queria melhorar seu desempenho, no dia seguinte com certeza seria melhor.
Seu corpo estava quente, procurou o controle do ar condicionado, entretanto não achou, devia ter jogado em qualquer lugar, precisava ser mais organizado com as coisas. Por causa do calor, instintivamente tirou a camisa vermelha que usava, o macacão ainda repousava na parte de baixo do corpo e ele estava pensando seriamente na possibilidade de permanecer ali daquele mesmo jeito. Ainda bem que era um homem bastante higiênico, senão só veria o chuveiro no dia seguinte.
Sua mãe sentiria vergonha se fizesse isso.
Com esse pensamento e sem entender como colocou-se de em pé, caminhou ao banheiro, despindo-se de seu macacão. Ligou o chuveiro e entrou no box, deixando a água quente escorrer pelo seu corpo. Fechou os olhos para aproveitar a sensação.
Terminou o banho e amarrou a toalha em sua cintura, depois de retirar o excesso de água do cabelo com ajuda das mãos, encarou a mala. Não tinha ânimo sequer para pensar no que usar, decidiu que qualquer coisa serviria.
Jogou-se na poltrona e sacou o telefone da mochila, procurando o telefone de em seus contatos, queria saber como ela estava e também a oficina. Sentiu seu estômago revirar ao recordar-se de como o fazia sentir.
Desde o primeiro momento em que a vira, debaixo do carro na oficina, ele sentira uma pontada de desejo. Perguntou-se, enquanto tinha a imagem dela vívida em sua mente, como seria estar entre os braços dela, o sabor do beijo, como seria seu toque: ela o tocaria com firmeza e violência? Com gentileza, sabia que, com certeza não seria.
Estava distraído analisando seus pensamentos, quando um barulho chamou sua atenção. imediatamente sentou-se, era muito medroso. Da última vez que aconteceu algo assim, eram Norris e Daniel querendo o fazer ter um ataque cardíaco depois de o obrigarem a ver filmes de terror. O homem levantou e fechou os olhos, respirando fundo. Se dessa vez fossem os pilotos, cometeria um crime.
Em passos lentos ele caminhou para a origem do barulho, vinha da entrada. Começou a contar até dez demoradamente, mas da porta ele viu um vulto se formar, se preparou para xingar os amigos, então viu Ricciardo ascender a luz.

- Que susto, porra! – o australiano disse, os olhos arregalados revelavam a surpresa.
- Eu quem deveria dizer isso. – relaxou os ombros. – Como você entrou aqui? Como vocês conseguem fazer isso?
- Eu tinha uma vida antes de pilotar, moleque. – Daniel sorriu, digitou algo no celular e logo seus olhos estavam no mais novo. – Vamos para o quarto do Norris, vamos jogar.

balançou a cabeça negativamente, estava exausto. Passou horas no avião, teve um treino péssimo, problemas na pista e ainda queria saber notícias de .
Definitivamente não estava no clima para nada, queria somente sua cama.

- Não mesmo, vou passar essa.
- Qual o problema, garoto? – Ricciardo tocou o ombro do mais novo, os olhos analisando-o profundamente, como se fosse capaz de enxergar sua alma. – Está assim, por que está longe daquela moça bonita? Não fique assim, , logo estará com sua namorada. Não, espera.. – Bateu na própria testa – Vocês são apenas conhecidos.
- Vai à merda. - bateu no braço do outro, sabia de sua condição com a mecânica não precisava de ninguém o lembrando disso. – Não, não tem a ver com ela, estou cansado e nem um pouco afim de olhar para sua cara feia.
- Feio é você, eu sou lindo. - Cruzou os braços na frente do peito, em uma postura de macho alfa. - E sabe a melhor parte? Nunca fui apenas conhecido da Antonella.

bufou de indignação, de todas as pessoas que poderia encontrar naquele restaurante, detestou que fosse Daniel. Primeiro porque ele atrapalhou a conversa dos dois, era verdade que estava embasbacado com as palavras dela, claramente insinuando sexo.
Ele não esperava isso e quando finalmente iria tentar entender, tibum. Daniel Ricciardo brotou do chão, destruindo toda e qualquer possibilidade de finalizar aquela conversa. Segundo, conhecia bastante os pilotos, estava com eles praticamente toda semana, era questão de tempo até ficarem sabendo e seus ouvidos explodirem com os comentários ridículos e desproporcionais dos meninos.
O Monegasco se preparou para responder, porém um certo piloto holandês escolheu aquele momento para chegar ao local.

- Vamos logo, vamos. - Max Verstappen estava parado na porta, os cabelos ainda estavam molhados, tomava Red Bull em uma garrafa. - O que está acontecendo? Já estão todos lá.
- O garoto não quer ir. - se jogou na poltrona atrás de si, se preparando para o que viria a seguir.
- E por quê?
- Nosso garoto está apaixonado e está longe dela. Não quer fazer nada sem ela, mesmo ela não se importando com ele. - Explicou e no segundo seguinte a gargalhada de Max foi ouvida, fechou os olhos com força. Qual era sua maldição? Por ter pessoas daquele jeito lhe rodeando?
- E quem disse que você tem escolha? - O holandês deu dois passos para dentro do quarto, o braço esquerdo passou sobre o ombro do moreno, com o mínimo de força Verstappen impulsionou o piloto ferrarista para cima. - Nós só vamos. - Saiu puxando o outro consigo, preso entre seus braços. - Feche a porta, Daniel. – Ordenou e balançou a cabeça negativamente, bufando e dando-se por vencido, permitindo que o outro o carregasse.
- Vocês são insuportáveis.
- Fica de boa, moleque. - Daniel pousou suas duas mãos na cabeça de , chacoalhando-a. - Distrair a cabeça é bom, pare de pensar na mecânica.
- Então você está apaixonado amigo? – Assobiou Max. - Quer algumas dicas de conquista? Posso te ajudar, eu sei de ótimos truques para conquistar as mulheres. - Gabou-se, com o peito inflado de ego.
- Duvido que sejam ótimos, já que você permanece solteiro, ou seja, são dicas de bosta. - Ricciardo respondeu e foi inevitável para não gargalhar.
- É uma opção minha, babaca. – Retorquiu. - Gosto de estar solteiro e o foco aqui é o . - Apertou as bochechas, levando um empurrão do moreno em seguida, se desvencilhando do braço de Max.
- O foco não sou eu, não quero falar disso.
- Dicas não serão suficientes para o moleque, tem que ser muito mais que isso. - Daniel parou de andar, chacoalhando a cabeça, se preparando para encenar algo. - Ela não está ligando para ele. Ela disse: somos apenas conhecidos, ele não merece ser mais que isso. – Daniel repetiu a fala da mulher, afinando a voz e tentando imita-la. – E aí, o moleque ficou assim. - Daniel arranhou a garganta mais uma vez, colocou a mão sobre o peito de maneira teatral – Ó ela não me quer. Ó como ela é linda. Ó como estou triste. Ó ela ama os carros velozes.

Max explodiu em gargalhadas por conta da encenação do australiano. cerrou os lábios em uma tentativa inútil de permanecer sério e mostrar para os amigos que aquilo não lhe afetava.
Entretanto, foi impossível prosseguir sério, tendo em vista as expressões faciais no rosto de Ricciardo, então acompanhou as gargalhadas do moreno. Como o corredor estava vazio, o barulho fazia eco, sendo perfeitamente capaz de incomodar os hóspedes do andar. Em consequência disso, uma porta foi aberta alguns metros de onde os três riam.

- O que significa isso, seus trogloditas? - O tom de voz suave e cômico de George Russel adentrou o corredor, chamando a atenção dos três pilotos. - Parem com esse show de horrores e venham logo. – Chamou- os com as mãos, voltando para dentro do quarto, os outros acabaram por seguir o inglês.
- Até que enfim! - Lando comentou entupindo a boca de batatas fritas recém-pedidas pelo grupo de pilotos. - Achei que o estava morto e que foram ressuscitar ele, pelo tanto que demoraram.
- Foi quase isso, ele está morto de amores. Precisei trazê-lo á força, para que parasse de chorar pela moça que ama os carros velozes.
- O quê? Como assim? – Carlos Sainz pausou o jogo, onde disputava com Gasly, para encarar os recém-chegados.

bateu a cabeça na parede atrás de si, totalmente derrotado.

- Vou contar para vocês a história de amor do moleque ali. – Daniel bateu palmas animado, capturando a atenção de todos no quarto, iniciando o relato sobre o encontro que teve com e .
- Enquanto vocês se divertem com essas baboseiras, vou jogar. – se aproximou de Sainz, tomando o controle de suas mãos, sentando-se no chão para olhar a tela em sua frente. – E vou ganhar de todos vocês.

Max Verstappen assumiu o controle que antes era de Pierry e estava com os olhos tão fixos nas palavras de Daniel que sequer notou. Colocou-se ao lado de , para disputar com o Monegasco a partida que se iniciava.

- Você não ganha sequer o coração da moça que ama carros velozes, que dirá de mim no videogame.

X

As três amigas estavam no bar da boate Jimmy’z Monte-Carlo , esperando o barman gato preparar seus drinks.

- Vamos dançar, amiga. - Emmanuelle pediu chorosa, Amélie concordou imediatamente e olhou para o balcão vendo suas bebidas já ali preparadas, a médica pegou seu copo e foi em direção à pista de dança, seguida da negra.

não gostava muito de dançar, mas aquela noite era especial estava comemorando suas tequilas e seu mergulho na banheira. Além de ter conseguido finalizar vários carros na oficina, claro que não sozinha, ajudou-a bastante na semana que esteve na oficina. Na terça feira, o piloto precisou voltar a sua rotina, embarcando em um avião para o próximo grande prêmio na China. Nos dois dias que seguiram, ele fez falta, já estava começando a se acostumar com a ajuda dele e com sua gentileza. Já que por incontáveis vezes, ele lhe trazia café e bolachas, explicando que ela não deveria ficar muito tempo sem comer e mesmo que ela recusasse, ele deixava por perto o lanche, para saber que estava ali e era só esticar o braço.
A mecânica então concordou, seguindo as amigas. A pista de dança era agitada por J Balvin, Willy William - Mi Gente. amava aquela música, ela fechou os olhos deixando seus quadris se movimentarem de acordo com a música e seu sorriso era incrível, Emmanuelle teve certeza que tinha tempo que não a via sorrir daquele jeito.

- Vem, . - Amélie chamou alto e outra sorriu tentando se aproximar da amiga, ao dar dois passos pelo meio da multidão, sentiu um esbarrão em seu corpo e ao mesmo tempo o líquido que antes preenchia seu copo estava em seu vestido. – Ei, não olha para onde anda não? – Perguntou passando a mão inutilmente, em seu vestido tentando limpá-lo.
- Desculpe, foi sem querer. - Aquela voz disse e teve a certeza que a conhecia, porém não se deu nem ao trabalho de levantar a cabeça para olhar quem era. – Me deixe te pagar uma cerveja?
- Como se uma bebida fosse limpar meu vestido ou como se eu precisasse que paguem a minha bebida. Pegue essa bebida e enfie no... David! - Exclamou ao levantar o rosto e dar de cara com o loiro, o menino também sorriu.
- . - Disse com um tom de surpresa. - Eu sei que não vai limpar seu vestido, mas pode me mandar à conta da lavanderia, eu pago. – Sorriu.
- Eu tenho sabão e água em casa, consigo lavar um vestido, garoto. - Ela ainda olhava seu vestido e então desviou os olhos para o jovem. - Espera, o que você está fazendo aqui? Você é menor de idade. - Seu tom de voz era acusatório. David era aluno de Amélie e sobrinho de Leah.

o conhecia por muitos anos, o garoto era fã de seu pai e por diversas vezes estava alocado dentro da oficina.

- Não há nada que dinheiro não faça, querida . - A voz era totalmente irônica e fez a mulher querer lhe socar a cara, mas antes mesmo que ela pudesse responder algo, Amélia se aproximou dos dois.
- Professora Amélie. - Ele abraçou-a, ela desvencilhou o corpo.
- Não me toque. - Pediu séria, o que fez David gargalhar.
- E por que não? Você vive dizendo que sou somente um garoto e que preciso amadurecer antes de qualquer coisa.

Um sorriso sapeca cruzou os lábios de .

- Vocês? - Ela gesticulava freneticamente para os dois presentes. - Meu Deus.

Amélie esbugalhou os olhos ao entender que Beatice deduziu que ela e David estavam fazendo algo impróprio para menores. Que no caso, ele era.

- Ah, pelo amor de Deus, ! - Disse esbaforida. - Pare de assistir filmes pornográficos, onde alunos pegam as professoras. Você está começando a imaginar coisas.
- Eu não vejo filmes pornográficos com professoras e alunos. - se defendeu e David tomou um gole de sua bebida.
- Eu vejo, querida professora.

gargalhou e Amélie fuzilou o aluno com os olhos. Era só que faltava na cota da semana, ser cantada por seu aluno e sobrinho de sua amiga. Definitivamente, Amélie às vezes achava que estava na profissão errada, os hormônios adolescentes de seus alunos a assustavam.
A professora tomou mais um gole do drink e saiu de perto do garoto, mas sentiu os olhos dele cravados em sua silhueta.

- Que merda foi isso?
- O preço por ser professora, seus alunos idiotas que acham que são adultos e te cantam. - Elas se aproximaram de Emmanuelle que beijava um homem na pista, as duas então se acomodaram nas cadeiras ao redor do local.
- Ossos do ofício da profissão. – procurava um garçom com os olhos para abastecer a bebida que fora derramada pelo aluno de sua amiga, ao vê-lo acenou com a mão, chamando-o. – Lido com isso na oficina, é uma merda.
- Falando em oficina, e o piloto gostoso? – Estava demorando para alguém falar de , agora o passatempo preferido das amigas era entupir o grupo delas com fotos de . A semana inteira era aquilo e no dia seguinte seria o almoço, sabia que encheriam mais ainda o saco.
- Boa noite, o que deseja? – O barman se aproximou com um sorriso simpático nos lábios, sorriu em cumprimento.
- Uma Stella, por favor. – O homem assentiu, retirando-se. Os olhos de Amélia estavam vidrados nela, esperando uma resposta. rolou os olhos. - Está tudo bem.
- Só isso?
- O que mais quer que eu diga?
- Já se pegaram?
- Não. – recebia do garçom a cerveja que pediu, tomou um longo gole do líquido, ingerindo quase a metade. – Pode trazer mais uma. – Dirigiu- se novamente para o barman - Esta já quase acabou.

O homem assentiu, seguindo o caminho para abastecer a cerveja que a mulher pediu.

- E vão?
- Que merda, hein? É professora ou delegada? – Questionou irritada, tomando um gole da cerveja.

Ainda não teve a oportunidade de se envolver fisicamente com , mas estava em seus planos e estava curiosa sobre ele e totalmente decidida que as sessões de sexo entre eles seriam muitas, principalmente depois das cenas que ele ajudou a criar em sua cabeça. Estava desejando o corpo daquele garoto e logo sabia que teria, assim que o moreno estivesse de volta à cidade, sua hospedagem seria dentro dela.

- Quanta grosseria, só quero saber sobre sua vida.
- Podemos falar sobre outra coisa que não seja homens. Minha vida não se resume a isso. Pergunte-me sobre meu dia, sobre meu trabalho, sobre o que eu comi ou se tenho cerveja em casa, mas não sobre esse assunto.

Amélie também bebericou o copo em sua mão e disse:

- Minha vida sentimental está uma merda, tinha esperança que a sua estivesse melhor.
- Não tenho vida sentimental, Amélie. Tenho vida sexual, sabe disso. E está ótima por sinal. Eu não quero falar do e nem de homem nenhum.

Qual a necessidade de sempre os homens estarem incluídos nos assuntos das mulheres?
Era uma pergunta que ela se fazia constantemente, sobre a necessidade que mulheres têm no geral de falar sobre homens. Como tudo era sobre eles, se aprovariam seu sapato, seu cabelo ou a roupa que fora escolhida pela noite.
E caso não fossem aprovadas, gerava um descontentamento, quase uma crise existencial. Destruindo estimas, autoconfiança e consequentemente a própria mulher em questão. havia passado por isso, priorizou tanto os homens em determinada época da vida, que a sua não importava mais, mas agora, e graças aos deuses da velocidade, era livre desse carma.
Não fazia a menor diferença em sua vida, ainda mais depois que descobriu que nenhuma língua ou dedo no planeta terra atingia a velocidade de seu vibrador Zalo Queen aquecimento G-Spot.
Depois que descobriu sua própria força e domínio, a mulher jamais abaixou sua cabeça e se deixou abater por qualquer palavra direcionada a ela.
torcia pelo dia em que a população feminina do mundo abrisse os olhos.

- Tudo bem. – Amélie deu de ombros. – Eu te admiro muito, homenzinho. Sua força, sei como você é uma muralha, segura a barra. Se eu precisar de alguém para me defender, pode ter certeza, chamarei você. – A professora bebeu mais um gole da margarita em suas mãos, era visível a emoção em sua voz, o que fez com que a olhasse com ternura. – Eu sei que não gosta de conversar sobre o assunto, sei o quanto seu pai significava em sua vida, ainda mais depois de ... bom você sabe. – Respirou fundo, um sorriso saudoso dançava sobre os lábios da negra. - Enfim, só quero dizer que tenho orgulho de você e sei que, onde quer que o Tio Dominique esteja, ele também está transbordando de orgulho.

sorriu e bebeu mais cerveja, querendo engolir com líquido a emoção que fluiu em seu peito. Precisou puxar o ar com mais força e então, solta-lo devagar, a fim de controlar sua respiração. Alguns segundos depois, quando teve a certeza que seu aparelho psíquico estava em total harmonia e que tinha entendido o comando de não chorar, olhou Amélie e lhe abraçou com força, depositando seu lábio sobre a pele esbelta da professora, em um gesto enorme de carinho.

- Eu te amo. – Estendeu a garrafa verde, brindando com a amiga.
- Eu também te amo. E ainda torço e espero que conheça alguém capaz de te mostrar o lado bom da vida. Um amor te faria bem.

tossiu engasgando com o líquido e arqueou a sobrancelhas mais uma vez, tentando entender o que Amelie estava falando. Era sempre o mesmo discurso, os homens não são todos iguais, devia se permitir viver, ainda vai encontrar alguém que te faça feliz. E ninguém entendia que ela não queria.
Não queria ninguém. Não queria que alguém a fizesse feliz, era capaz de fazer aquilo por si mesma, sem precisar de ajuda. A pessoa que a faria feliz, ou melhor, que completaria sua felicidade era seu pai. E infelizmente, nada poderia ser feito a respeito da morte, ou seja, não precisava de alguém para colocar em merda de lugar nenhum.

- E eu, espero pelo dia em que todo mundo pare de falar isso para mim. – Amélie deu de ombros, haja paciência para lidar com aquela mulher. Deus do céu. - Agora, vamos parar de falar desse assunto, o que acha de uma disputa? Quem bebe mais shots de tequila em 1 minuto?

Os olhos da mecânica estavam brilhando, somente a menção daquela bebida fazia o humor dela se exaltar em milésimos de segundos.
A professora balançou a cabeça negativamente, totalmente desaprovando a ideia.

- Eu não, você sempre ganha.
- Hey, vocês. – Os ombros de ambas foram abraçados pelos braços longos de Emmanuelle. – Vieram aqui para ficar sentadas, bebendo? Vamos dançar. – Mexeu o corpo ao ritmo da música que tocava, estava visivelmente embriagada.
- Eu vim para beber. – respondeu, sem a mínima menção de levantar do local.
- Você parece a minha vovozinha. – Emmanuelle resmungou.
- Vamos dançar então, doutorinha. – Amélie concordou, terminou o conteúdo de seu copo e deixou suas coisas com , já que a mesma não tinha intenção de sair dali. observou as amigas na pista, estava feliz que a diversão delas era plena e que chegariam em casa seguras e transbordando.

Fez um sinal para o barman, pedindo alguns shots de José Cuervo.
Segundos depois, a bebida estava a sua frente. Tomou duas doses de uma vez, já tinha ficado bêbada á algumas doses atrás e agora estava apenas aproveitando a sensação agradável de ter seus pensamentos completamente cobertos pela batida da música.
Nesse instante, sentiu duas mãos firmes sobre sua cintura e alguém a virou, depois sentiu seu corpo sendo pressionado contra um outro corpo esguio e firme. Um cheiro masculino marcante, abriu os olhos para encarar brilhantes olhos azuis.

- Hoje é o seu dia de sorte. – Ele disse, inclinando-se na direção dela. – Foi eleita para ser a mulher que eu vou beijar.

Ela o segurou pelos ombros, impedindo que o mesmo completasse a ação de beijá-la e rapidamente tirou as mãos dele de sua cintura.

- Não estou afim de te beijar. – Disse séria e firme, nenhum esboço de emoção estampava sua face, o homem arqueou a sobrancelha sem entender.
- Devia aproveitar, gata. Não são todas que tem a chance de beijar tudo isso. – Apontou para si mesmo e posicionou novamente as mãos na cintura da mulher, acreditando que ela cederia. , entretanto manteve a mesma postura firme, não desviando os olhos do homem.
- Acho melhor tirar suas mãos de mim. – O tom de voz dela era calmo e ameaçador. – Não vai gostar do que vai acontecer se permanecer me tocando. – Ele, no entanto, não fez o que foi pedido, pelo contrário, apertou mais os dedos sobre o local.
- Eu adoro as que se fazem de difi....

No instante seguinte, desferiu uma joelhada bem no meio das pernas. Bem da maneira que seu pai lhe ensinara, era só mirar e bater. Era um nocaute quase perfeito.
Imediatamente estava livre das mãos do homem, que agora usava as próprias para segurar as partes baixas. A pele clara agora estava avermelhada, os olhos saltados, como se fossem capazes de pular para fora do rosto, ele rosnava algo inaudível, o que fez com que sorrisse. Algumas pessoas se aproximaram para ver o que estava acontecendo.

- Vadia, não deveria ter feito isso. – O sujeito tinha o apoio de mais um rapaz, que lhe dava suporte para conseguir ficar em pé, a dor que sentia estava explanada na feição, olhos cerrados, lábios presos entre os dentes e punhos fechados. – Você é louca?

o encarou, a escuridão das pupilas se misturava com a fumaça da casa noturna, sendo quase impossível diferenciar, ela então se aproximou dele, olhando em seus olhos.

- Quando uma mulher falar não, significa não. – Virou-se novamente, encarando as bebidas ainda no balcão e então mais doses de tequila foram ingeridas aquela noite.

X

segurava seu celular nas mãos, observando-o atentamente. Fazia quase uns vinte minutos que estava em um grande dilema psicológico, metade dele queria ligar para já que a mesma tinha visualizado sua mensagem e não respondido, queria saber o motivo de ser ignorado, a outra metade, provavelmente a racional, impedia-o de fazê-lo.
Mas estava enfraquecendo, assim como tudo que era em relação a ela não tinha um mísero controle sobre nada.
Ele ignorou totalmente sua razão e abriu a agenda de contatos, rolou o dedo pelo écran até achar o nome que procurava, antes que pudesse apertar o verde, uma notificação chegou anunciando que o que desejava chegou: a resposta de .
Sua mensagem havia sido simples, somente perguntou como ela estava. respirou fundo, soltando o ar pela boca e passando as mãos pelos cabelos, não contentou a expressão surpresa, que lhe cruzou a face com a resposta.

: Estou bêbada, com tesão e você está na China. O que é uma pena para você, é claro.

- Porra.- Grunhiu, irritado.

Jogou a cabeça para trás, fechando os olhos com força e respirando fundo, tentando reencontrar seu autocontrole e também seu juízo.
Todos os atributos que naquele momento não estavam ao alcance de seus dedos, estava completamente enterrado em sensações, que não sabia decifrar.

– Merda, , caralho. – Continuou xingando, buscando em sua mente palavras para responder.

: Onde você esta? Você está bem?”

Que merda de mensagem é essa, ?
A mulher fala que está com tesão e você pergunta se ela está bem?
Você é mesmo um tremendo imbecil!

: Estou em uma boate, mas queria mesmo era estar sentada em você.”

sentou na cama imediatamente.
Embasbacado com as palavras expostas nas mensagens de . Antes que pudesse continuar seu raciocínio, seu celular apitou novamente indicando a chegada de uma nova mensagem. Mordeu o lábio inferior com força assim que viu o conteúdo da mesma, queria mesmo enlouquece-lo.
Era uma foto. Somente dos lábios.
Ela estava com lábios molhados provavelmente por conta das bebidas ingeridas, preso entre seus dentes estava um canudinho de cor neon, totalmente manchado com o que imaginou ser o batom dela. A Língua estava exposta, junto com um meio sorriso.
Sexy para porra.

: Poderia ser você, pena que é só um canudinho”.

E a imagem de daquela forma, ajoelhada diante si foi o suficiente para que seu corpo reagisse.
Tinha certeza de que seria uma foda fantástica e que eles passariam a noite provando um ao outro, repetidas vezes, de diversas formas e em muitas posições.

: Esta me provocando , o que não é justo, já que estou longe.”

A resposta chegou como um flash e pareceu a ele, que a mulher esperava por sua resposta.

: Você tem mãos príncipe de Mônaco, se vire com elas. Enquanto eu me viro por aqui. Boa noite”.

Ela anexou mais uma foto, dessa vez mostrava seu corpo, as pernas estavam cruzadas, com as mãos no meio de ambas, como se mostrasse a ele, que se tocaria.
Ou que alguém a tocaria.
amaldiçoou todas as gerações daquela mulher, ela era desequilibrada. Seu inconsciente lhe alertava que não era bom permanecer perto dela. viraria sua vida de cabeça para baixo.

: , você está bêbada. Tenha cuidado. Você está sozinha? As meninas estão ai?”

O piloto permaneceu fitando o celular por mais incontáveis minutos, a mensagem tinha sido visualizada, pois a notificação de entrega estava azul. O fato era que: estava sendo ignorado.
Odiava a maneira como ela lidava com os fatos, em um minuto está o provocando com obscenidades, noutro, simplesmente sumia. Sem pensar na mínima consequência que seus atos totalmente contraditórios causavam.
Não soube dizer quanto tempo passou, somente teve a certeza que de fato, ela não o responderia mais.
era mestre em surpreendê-lo de todas as formas possíveis.
Aquela mulher seria a causa da sua insanidade.

Maldita mulher!

X

Já passava das três da manhã.
estava sentada em uma das cadeiras do bar, Amélie não estava mais por perto e Emmanuelle estava na pista de dança como uma louca. Nas horas que permaneceram na casa noturna, não se afastou da pista nem por um segundo, o que para era uma total bizarrice. A médica estava com um salto enorme, os cabelos já enrolados no topo da cabeça e a face brilhava por causa do suor. Era só a capa, em comparação com a chegada à boate.
A mecânica, entretanto, já não se aguentava em pé. Estava louca por um banho, para arrancar as sandálias dos pés e despencar em sua cama. Ela segurava uma garrafa de água em mãos, correndo os olhos pelo local a procura de Amélie já que precisavam se reencontrar para irem embora.
No momento que seus olhos bateram na negra, viu que ela estava muito bem acompanhada de um belo rapaz loiro, o que fez gargalhar, era raro ver a amiga acompanhada. Ela não se lembrava da última vez que Amélie esteve com alguém, por conta disso decidiu deixá-la se divertir mais um pouco.

- Este lugar está ocupado? – escutou o questionamento, ergueu os olhos escuros em surpresa e então encontrou uma moça com seus cabelos loiros presos em um competente rabo-de-cavalo alto, tinha pouca maquiagem no rosto e ainda assim, parecia recém-saída de uma revista de moda.
- Não, fique a vontade. – Respondeu e a moça estava afastando a cadeira e ocupando-a.
- Obrigada, sou Chloé. - Se apresentou casualmente, apoiando o rosto em uma das mãos, observando o cardápio de drinks.
- . - A mulher deu um sorriso.
- , posso te fazer uma pergunta?

A mecânica assentiu com a cabeça e voltando sua total atenção à loira, que naquele instante tinha algumas lágrimas nos cantos dos olhos.

- O que você faria se seu namorado, te proibisse de certas coisas? – arqueou a sobrancelha com a pergunta, totalmente surpresa pelo inicio daquela conversa e o teor pesado em seu conteúdo.
- Mandaria ele para a merda. – Foi rápida e direta em sua resposta. Algo estava errado com aquela moça. O rosto pensativo da loira desmanchou-se em um sorriso fraco, após alguns instantes de silêncio, arranhou a garganta e tornou a se pronunciar.
- Kevin, meu namorado, pediu que eu parasse de usar vestidos curtos e com decotes. Disse que são roupas de “mulher fácil” – Usou os dedos para fazer aspas, enfeitando a colocação. O tom de sua voz entregava a tristeza que a corroía. observou-a com o cenho franzido e soltou uma risadinha pelo nariz, enquanto bebericava mais um pouco de sua água.
- Você quer fazer isso?
- Não, gosto muito das minhas roupas. Sinto-me bonita e confortável com elas.

respirou fundo sentindo todo o corpo se aquecer, efeito de seu sangue estar borbulhando em ódio. Tentando não parecer grossa, deu um meio sorriso e olhou Chloé nos olhos.

- Quantos anos você tem?
- 19.
- Querida, deixe-me explicar uma coisa antes que você fique mais velha e consequentemente mais burra. – Disse calmamente – Suas vontades vêm em primeiro lugar. Se esse tal de Kevin quiser namorar você, não serão suas roupas que o atrapalharão. Acha que ele te ama, Chloé?

A garota hesitou por alguns instantes e pensou por tantos outros.

- Sim.
- Chloé, se ele te ama, você sabe. Se ele não te ama, você vai estar confusa.
- Eu gosto de fazer o que ele me pede. Não tem problema agradar as pessoas.
- Nunca faça nada pelos homens. Eles simplesmente não merecem. Hoje é um vestido de uma balada, amanhã você está no meio de um monte de marmanjos suados e fedidos, em um jogo de futebol da França. – Percebeu que o sorriso se apagou e um brilho confuso apareceu em seu olhar. – Sabe qual o problema disso, Cholé?
- Não.
- Problema nenhum. Desde que seja onde você deseje estar. Se quiser ir a um estádio de futebol, ou assistir a fórmula Um, não tem qualquer problema, se você quiser. – Afirmou séria, mas não deixando de ser cuidadosa, analisando como a mulher reagia àquela informação, a outra arregalou os olhos e suas bochechas ficaram levemente avermelhadas.
- Detesto quando ele chama para ir ao futebol. – Disse com os ombros encolhidos, como se fosse uma vergonha sentir-se daquela forma. – Principalmente pelo fato que faço tudo que ele me pede e ele não faz nada por mim.
- Como você se sente com isso?
- Eu não... Sei lá. - hesitou, tentando colocar o que sentia em palavras.

sentiu seu estômago afundar e rolou os olhos indignada. Homens sendo sempre homens.

- Eu sei. Sei exatamente como se sente. - A loira observou a outra por alguns instantes, perplexa.
- O que você quer dizer com isso?
- Funciona assim. - Colocou sua garrafa de água no balcão e apreciou a sensação de colocar as mãos quentes sobre o metal frio. – Quando você vai dormir fica triste pelo fato de abrir mão das coisas que gosta, das coisas que te fazem feliz, mesmo que seja um simples vestido, ou algo grandioso como um bem material. E se sente como um nada, pois seus desejos e vontades não são levados em consideração. Parece que falta um pedaço aqui dentro. – Bateu a mão sobre o peito, exemplificando as palavras.

Cholé abaixou os olhos constrangida, tocou o ombro dela.

- E você não se importa no começo, pois deseja fazer quem ama feliz. - Chloé engoliu em seco pensativa, nunca tinha considerado aquilo daquele jeito. - Depois, quando você assusta, já não tem mais brilho nos olhos, não se reconhece no espelho, porque a vida que vive, não é a sua. É a dele. – finalizou , com o cenho franzido.

Chloé observou maravilhada a mulher à sua frente; como os olhos escuros de eram sinceros e pareciam realmente ser uma janela para sua alma. Era tão bonita, que se perguntou se ela sabia o que era ter um coração partido ou no mínimo uma desilusão amorosa.
Aquela mulher provavelmente deveria ter milhares de homens fazendo fila em frente ao seu prédio, implorando por uma chance.
Mas uma coisa era real, ela tinha razão. Era exatamente assim que a mocinha se sentia.

- Como sabe disso? Está apaixonada ou já foi apaixonada?
- Quê? – piscou os olhos, pega de surpresa pela pergunta.
- O que quero dizer é. Você é apaixonada por um cara assim, que não te deixa fazer o que quer? – Explicou jogou a cabeça para trás e gargalhou.
- Ah. Não. Não me interesso por essas coisas - Disse com verdadeiro desdém. Chloé arregalou os olhos.
- Ah. Mulheres? Eu não julgo, então...
- Não. Não me interesso por mulheres também. Eu simplesmente... Não me interesso – disse, dando de ombros.
- Uau, isso é o máximo! – Aplaudiu rindo – Então, você nunca teve seu coração partido.

bebeu mais de sua água depositada no balcão e deu de ombros novamente; na verdade anos atrás, um homem despedaçou seu coração em tantos pedacinhos quanto era possível fazê-lo.

- Como você consegue isso? – perguntou Chloé, admirada.
- Eu tenho uma teoria, é muito simples. Sabe como dizem que os homens não têm sangue suficiente, então ou ele está concentrado no pênis ou no cérebro? – A loira riu e concordou com um aceno de cabeça – Pois bem, com as mulheres a situação é bem similar. Nossa espécie não tem sangue o suficiente para o cérebro e para o coração. A partir do momento que um assume o outro para de funcionar. Eu simplesmente escolho o que nunca vai me deixar na mão. O cérebro. - Completou na mesma hora que braços rodearam seus ombros, levantou os olhos e viu Emmanuelle jogando todo seu peso sobre o corpo pequeno da mecânica.
- Por favor, vamos para casa . Estou exausta.

sorriu e rodeou a cintura da amiga, ajudando-a a firmar os pés para caminharem. Lançou mais um olhar a moça sentada ao seu lado, sua mão direita tocou o ombro da mais nova.

- Pense sempre em você. O que os outros pensam é problema deles, não se perca para achar outras pessoas. A única pessoa que sempre vai importar é você, quando todo mundo vai embora, é você quem fica para limpar a bagunça.
Chloé concordou com um aceno de cabeça, os olhos claros arregalados.
- Obrigada, foi um prazer te conhecer.

assentiu, começando caminhar com Emmanuelle grudada em si, ainda precisavam achar Amélie e finalmente darem fim aquela noite.

X

segurava em uma mão uma sacola com um ursinho de pelúcia gigante e na outra um engradado de cerveja. Equilibrou a sacola na mesma mão da cerveja para olhar o celular que apitava uma notificação. Retirou do bolso de seu short e observou a tela do smarthphone, uma mensagem de .

: Você esta bem? Sumiu do nada, estou preocupado. Me dê noticias. E pare de me ignorar, mulher”.

Ela rolou os olhos e guardou o aparelho, não estava com animo para responder mensagens e não deveria ficar preocupado com ela, sabia se cuidar. Ele deveria era estar preocupado com o péssimo resultado no treino livre do dia anterior, que assistiu indignada pela catástrofe que foi. Depois, se ela lembrasse, o responderia.
Naquela sábado o almoço seria na casa de Leah e não era segredo algum como amava estar naquela casa, o sorriso da pequena Sarah preenchia a vida dela.
A menina era luz na vida de todas elas.
Mia abriu a porta com um sorriso e a cumprimentou com um abraço bem apertado.

- Que bom te ver, meu amor! – ela exclamou, enquanto a ajudava com as coisas em sua mão – Estávamos com saudades!
- Tiiiiiia – Uma pequena Sarah surgiu das escadas, os cabelos loiros e uma risada sapeca nos lábios. A garotinha veio correndo em sua direção.
- Olá, meu amor! Como você está? – Perguntou sorrindo, enquanto esfregava seu nariz carinhosamente na bochecha da garotinha, que ria.
- Estou bem! O que você trouxe para mim? – perguntou tentando espiar o conteúdo da sacola, já estava acostumada a receber mimos da tia.
- A só te dará o presente depois que você comer suas verduras – Leah disse, surgindo da cozinha com uma tigela repleta de verduras.
Sarah arregalou os olhos verdes e voltou sua atenção para a tia.
- Isso é verdade? – Perguntou com um olhar que dizia: Como você pode me trair desse jeito? Achei que fôssemos amigas!

observou a expressão da amiga postada atrás da filha. Não era agradável e dizia a que ela deveria concordar. Se quisesse viver.

- Comer verduras é importante, tampinha – Disse colocando-a no chão e escondendo a sacola em qualquer lugar, longe da menina. – Agora, por que você não me conta sobre o seu dia?

Sarah a observava, com uma expressão de irritação.

- Te conto sobre o meu dia depois que você comer todas as suas verduras – Respondeu, com simplicidade, dando as costas para a tia.
- Essa menina é abusada, Deus do céu. – Murmurou para Mia, que surgia da cozinha com cerveja em mãos, logo entregando uma a mecânica. As duas observaram Amélie e Leah colocando a mesa, enquanto a ultima, ria das reclamações indignadas da filha de quatro anos, que parecia inconformada com os termos para o recebimento de seu presente.
- Era mais fácil quando ela tinha três anos. – Mia concordou e ambas seguiram para a sala de jantar para finalmente comerem.

Antes de chegar ao local, parou na sala e ligou a TV. Colocou no canal esportivo, onde iria ser transmitido o treino de classificação da Fórmula Um, no grande prêmio da China. Ela sempre assistia nos finais de semana com o pai. Um hábito que jamais esqueceu.

- Vai assistir o quê essa hora? – Foi Leah quem questionou, curvando um pouco o corpo para visualizar o conteúdo da televisão.
- Treino classificatório.
- Do ?
- Não. Da Fórmula Um.
- Ok – Levantou as mãos até o alto da cabeça, em sinal claro de rendição. – Cadê a Emmanuelle? Só falta ela.
- Estou aqui. – A médica surgiu da porta de entrada, usando óculos escuros e segurando uma garrafa de cerveja – Tive que buscar meu remédio. Nada melhor para curar uma ressaca do que beber de novo.
Sarah observou tudo com curiosidade.
- Tia Emmanuelle, o que é ressaca? – ela perguntou, inclinando a cabecinha.

Emmanuelle arregalou os olhos azuis e voltou-os para Leah buscando uma resposta, mas a mulher apenas observava com as sobrancelhas erguidas.

- Excelente questão, Sarah – Leah disse casualmente. – A bomba é sua, doutora – colocou a mão sobre o ombro da amiga e rumou em direção à mesa.
- O que acha de falarmos sobre isso depois? – Ela baixou-se para ficar na altura pequena.
- Vai me dar presente? – Perguntou com um sorriso sapeca nos lábios.
- Sim senhora.

Emmanuelle não se sentou, permaneceu de pé encostada ao balcão, observando as amigas distribuídas na mesa, não estava com fome. Talvez mais tarde comeria algo.

- Antes de a gente almoçar, eu quero falar algo. – Leah tomou a palavra e todas as atenções estavam voltadas para ela. – Então, , nos últimos tempos venho te observando. Desde a morte do tio Dom. – A mecânica abaixou os olhos para a cerveja, evitando olhar nos olhos da engenheira.
- Todas nós na verdade. – Amélie completou e assentiu.
- Sua força não é segredo. Todas conhecemos sua determinação, sua coragem. Sabemos que ama adrenalina e que vive sua vida no limite. Um dia de cada vez. Sem pressa, sem ultrapassar nada, tudo com muita calma. – Leah umedeceu o lábio com a língua lentamente, enquanto tentava organizar seus próprios pensamentos. – Nós te chamamos de homenzinho a vida inteira. Nós sempre soubemos que se trata de um apelido carinhoso e sei que você também sempre viu assim.

sorriu e assentiu, os olhos totalmente vidrados na expressão amável na face da amiga.

- Mas você não é um homenzinho.
- Claro que não. Eu tenho uma vagina, pelo menos tinha da última vez que fui ao banheiro. – Zombou fazendo as amigas rirem e Leah a olhar feio. prendeu o riso, deixando a outra continuar o discurso.

Ela estava confusa tentando entender aonde exatamente Leah queria chegar com aquele papo.

- Quando eu descobri que estava grávida, estava no último ano da faculdade. Vocês sabem, já que estavam ao meu lado. - A voz de Leah soava com tanto carinho, que fez o coração de se aquecer. – O pai da Sarah não quis saber. Somente foi embora. Mas eu fiquei. Fiquei pela Sarah, por mim, por vocês. Ele reapareceu anos depois querendo ser pai. – Os olhos dela acumularam lágrimas de emoção. – Hoje ele vê a Sarah e até que é mais presente. Mas enquanto estava sozinha, segurei uma barra. Precisei parar de estudar, adiei sonhos e projetos. – Leah levou as mãos ao rosto, em uma tentativa de evitar que lágrimas rolassem, Mia se aproximou dela para segurar sua mão, estava lhe passando força com o gesto.
- Não chora, mamãe, você me disse que as mulheres são fortes. Igual a mulher maravilha. – Sarah escorregou da cadeira e chegou perto da mãe estendendo os bracinhos. A mais velha a pegou, logo beijando sua bochecha com ternura.
- Exatamente. – Concordou ao mesmo tempo em que apertava o nariz da filha e a devolvia para o chão. – Eles costumam dizer que somos o sexo frágil. Que somos fracas. Mas quando as coisas ficam difíceis, eles são os primeiros a correr. Quando uma mulher engravida e o homem foge. Quando o casamento entra em crise e eles preferem arranjar outra mulher, a enfrentar e resolver o problema. Quando eles tentam menosprezar todas as características femininas, para se sentirem superiores. Eles sabem que nós somos fortes.
- Claro que sabem. – Amélie rosnou. – E acham que tudo está ligado a força física, mas não aguentam uma semana de cólicas menstruais. – Balançou a cabeça negativamente – São um bando de bunda mole, isso sim.
- Exato. – Emmanuelle comentou. – Quando te veem na chefia de um setor no hospital, já logo questionam com quem dormimos para estar ali. – Observou, seu tom de voz estava baixo e sério, tinha ouvido vários termos constrangedores quando assumiu o setor de trauma. – Então sou obrigada a esfregar meu talento na cara deles.
- Eu não estou entendendo o motivo desse papo. – passou as mãos pelos cabelos, gesto que demostrava seu nervosismo. Aquela conversa estava bastante estranha, aquele tipo de assunto não costumava ser abordado em suas conversas, elas sempre abordavam temas mais leves e descontraídos.
- O ponto é você. – Mia apontou antes de tomar mais um gole de cerveja, então sorriu e uma lágrima escapou pela íris esquerda. – Quando seu pai morreu, achei que não iria suportar. Eu realmente achei que você iria surtar e enfiar seu carro no poste. Sabemos como foi a situação com sua mãe. – Ela baixou o tom de voz nessa parte, como se fosse um assunto proibido e para , todas sabiam que era mesmo. – O tio Dom era tudo que você tinha e ele partiu, deixando tudo em suas mãos. A oficina, a casa, o patrimônio, os carros. E você não abaixou a cabeça, enfrentou todos que duvidaram que conseguisse. No seu travesseiro você chora toda noite. A dor, a saudade, a tristeza, o preconceito, todas esses eram motivos para ter te destruído.

fechou os olhos totalmente emocionada. A saudade que sentia de seu pai a queimava por dentro. Ás vezes andava pelas ruas e via algum lugar do qual ouvira Dominique comentar, ou passava por uma loja e tocava uma das músicas favoritas dele. Nestas frequentes ocasiões, sentia seu coração se comprimir e a garganta fechar, aquela vontade de chorar desesperadamente baseado simplesmente no pensamento de que nunca mais poderia comentar sobre quem era melhor: Ayrton Senna ou Alain Prost, ou jamais poderia discutir sobre o time estar horrível no campeonato. E o preço da cerveja ter aumentado.
Ele fazia falta nos mínimos detalhes e por mais que tentasse sabia que nada jamais seria igual.
É, a saudade era mesmo uma grandíssima merda.
Leah soltou a cerveja e deixou-a sobre a mesa de jantar, depois caminhou até , ajoelhando-se ao seu lado. Cuidadosa e carinhosamente ela tomou as duas mãos dela nas suas. A mecânica levantou o rosto para a amiga, olhos totalmente vermelhos e molhados.

- Você tem gostos mais parecidos aos dos homens, isso é um fato. Mas mais que isso, você é forte, persistente, lutadora. Uma guerreira. Você nos mostra uma força incrível, algo além do que eu imaginei e quando eu juntei todos esses fatos, eu percebi que isso não é algo que deve ser relacionado aos homens, de forma alguma. Eles não merecem essa comparação. Tudo isso que faz você... você, deve ser relacionado a nós mulheres e é isso que você, "homenzinho", é. Um mulherão. Por isso, nós decidimos... - Ela rodou os olhos pela sala, observando as outras amigas com sorrisos nos rostos e feições orgulhosas. - Que não vamos te chamar de homenzinho mais, você é muito mais que isso. Você é foda para caralho. E merece termos á sua altura.

recebeu o impacto das palavras e foi invadida por vários sentimentos diferentes, mas todos bons e envolventes. Estar na presença daquelas mulheres era libertador, como se não precisasse de mais nada no planeta, somente daqueles almoços e das farras que se resumiam em fazer nada durante o resto do dia.
Era uma mulher de sorte por ter aquelas amigas, sabia que poucas pessoas na vida tinham aquela oportunidade. Era extremamente grata a todas as divindades do universo, pelo privilégio de tê-las.
Por muito tempo ela não se importou com o apelido, era algo tão íntimo e carinhoso que a chamar de homenzinho era mais frequente que seu próprio nome. Mas suas amigas estavam certas, mais e maias ela tinha certeza que não merecia ser comparada aos homens, mesmo que de maneira carinhosa.
Não que fosse contra a raça masculina, muito pelo contrário, ela entendia perfeitamente a necessidade dos homens e sabia que milhões de coisas perderiam o equilíbrio casos eles não existissem.
O que estava em pauta era: uma mulher ser chamada de homem pelo fato de amar coisas relacionadas a eles, assim como os homens não deveriam ser chamados de "gays", por terem gostos relacionados em sua grande maioria ao público feminino.
O mundo tinha espaço o suficiente para ambos.
E era só uma mulher que aprendeu a ser forte com um grande homem. Herdou gostos e manias dele e só queria ser feliz da sua forma, sem precisar nomear o significado para o resto do mundo, já que o que importava sempre fora o sangue e debaixo da pele o de todo mundo é vermelho.

- Uau, Tia ! Agora você é uma menina Super - Poderosa.
- Ela sempre foi, Sarah. Assim como todas nós. - Mia finalizou se jogando na amiga e todas a seguiram, dando um enorme e carinhoso abraço coletivo.

X

- Para que serve isso que está vendo?
- Para saber quem será pole position.¹ - respondeu sem tirar os olhos da televisão, já estava confortável no sofá da casa de Leah, as pernas esticadas com uma cerveja em mãos.

As meninas também permaneciam na sala. Emmanuelle dormia no sofá ao lado do seu, totalmente esgotada pela bebedeira da noite anterior. Amélie estava sentada com pernas de índio na mesa de centro, sobre o vidro repousava diversas provas de seus alunos e com eficiência corrigia.
Do lado oposto da sala, Mia comia um enorme pedaço de bolo de chocolate, tinha os olhos sobre a televisão, todavia tinha quase certeza que ela não prestava atenção no conteúdo.
Leah foi colocar Sarah em sua soneca da tarde, retornando poucos minutos depois e sentou-se na poltrona com um livro em mãos.
Era aquilo que costumavam fazer, todas no mesmo ambiente realizando tarefas totalmente distintas.

- Primeira posição? – A atriz traduziu o termo, tentando entender se de fato era mesmo o significado.
assentiu tomando mais um gole de cerveja.
- Essa é a tradução. Mas é o que significa na Fórmula Um? – Leah perguntou sem levantar os olhos do livro, vivia se perguntando como ela conseguia fazer aquilo.
- Como vocês acham que acontece a ordem da largada?
- Sorteio? – Foi Amélie quem respondeu olhando de relance pela TV, onde viu um carro escrito Redbull. Ele era azul marinho, vermelho e laranja e estava rodando na pista, perdeu aderência e os pneus derrapam, gerando a colisão no muro de contenção Guard-rail, fazendo com que o carro perdesse a traseira.
- Droga Albon, logo no final. – rosnou, compadecida ao ver o piloto tentar corrigir a trajetória, mas àquela altura já havia virado passageiro do carro e isso provocou a bandeira vermelha² para ele, decretando o fim precoce do terceiro dia de treino livre.
- Então ele é o Pole? – Mia ainda observava a repetição da cena e pode ver que mesmo com o acidente o piloto saiu andando do carro.
Ótimo sinal, sem pessoas machucadas.
- Não. – Balançou a cabeça negativamente. – A ordem dos carros no grid de largada³, é definida pelo treino classificatório³ que é divido em três partes. A primeira vai começar em poucos minutos. – Apontou, mostrando que Valteri Bottas da Mercedes estava colocando seu capacete.
– Nossa, quem é essa gato? Oi,” turubom” , querido? – Mia ficou elétrica ao ver a imagem de Lewis Hamilton na tela.
gargalhou.
- Piloto da Mercedes, Lewis Hamilton. Ele é o atual campeão.
- Um gato mesmo. – A voz de Emmanuelle estava rouca e sonolenta, a mulher tinha acabado de abrir os olhos. – Que dia vamos ao estádio ver esse gato?
- Autódromo.4 – Corrigiu .
- O quê?
- Estádio é onde você assiste jogos de futebol. Para assistir a Fórmula Um você vai ao autódromo.
- Entendido, senhora. – A médica bateu continência, antes de esticar os braços para espreguiçar o corpo.
- São 10 escuderias na F1. Cada escuderia tem 2 pilotos, ao todo temos 20 pilotos, que disputam. Nessa primeira parte do treino, nós chamamos de Q1. Os 20 tentam obter o melhor resultado de tempo em 18 minutos, no final,os cinco pilotos mais lentos são eliminados do treino classificatório e 15 pilotos avançam para a segunda fase.
- Então essa é o tal Q1? – Mia perguntou novamente, era um pouco estranho o ambiente, nunca tinha prestado atenção de fato no automobilismo.
- Aham. Eles vão dar a volta na pista e ver qual o tempo de cada um.

Na primeira série de tentativas, a Ferrari começou na frente, com Vettel marcando 1m33s557, meio segundo mais rápido do que , que foi atrapalhado por Antonio Giovinazzi. Mas aí as Mercedes entraram na pista e Bottas já cravou o melhor tempo do fim de semana (1m32s658), batendo Hamilton em 0s457, enquanto Verstappen ficou em terceiro, à frente do alemão.

- Se o seu piloto gostoso já fez o Q1, por que está indo de novo? – Amélie largou as provas, decidiu que estava mais interessante participar da conversa das amigas, depois terminaria a correção das avaliações de seus alunos.
- Eles podem dar quantas voltas quiserem, desde que seja dentro do tempo. – Ela ignorou a maneira como a professora se referiu ao monegasco.

fez uma tentativa e pulou para segundo, apenas 0s054 de Bottas. Na briga pelas últimas vagas no Q2, Kimi Raikkonen e Lando Norris, que têm largado mais à frente em 2019, sofreram para avançar, mas se salvaram.
Já Lance Stroll teve a sétima eliminação consecutiva no Q1, a terceira só este ano. George Russell e Robert Kubica, da Williams, vão largar na penúltima fila desta vez, mas graças aos problemas de Antonio Giovinazzi, que não marcou tempo, e Alexander Albon, que não disputou a classificação após o acidente no terceiro treino livre.

- E como eu sei quem foi eliminado? – Leah buscava os detalhes na própria TV, não entendendo migalhas nas imagens.
- A tabela de classificação. – Ela mostrou no canto superior esquerdo na tela, onde tinha os nomes e classificação dos pilotos. – Olha lá, os 5 últimos. Eles não passam para o Q2.
- E como funciona o Q2?

Antes de responder estralou o pescoço, estava há muito tempo na mesma posição e sentiu necessidade de deslocar o corpo.

- O Q2 começa, sete minutos depois do fim do Q1. Os tempos de antes são zerados, e agora os 15 pilotos restantes voltam para obter o melhor resultado. Agora eles têm 15 minutos, os cinco pilotos mais lentos são eliminados, deixando 10 pilotos para próxima fase.
- Beleza. Vou correr para pegar mais cerveja. – Emmanuelle finalmente levantou do sofá. – Alguém quer? - As quatro levantaram as mãos. – Não sou um polvo colegas, me ajudem.
- Eu vou com você, quero mais bolo de chocolate. – Mia seguiu a médica até a cozinha, pegaram cervejas e o bolo para comerem e ainda conseguiam chegar a tempo do inicio da segunda parte.

Na segunda parte, Bottas voltou a andar forte e de cara fez o melhor tempo do fim de semana até então (1m31s728), batendo por mais de meio segundo Vettel, , Verstappen e Hamilton, este então a 0s8.
Na segunda rodada de voltas lançadas, apenas Hamilton melhorou seu tempo e assumiu a liderança, apenas 0s091 à frente de Bottas.

- Há! O bonitão foi melhor. – Mia comemorou em meio às gargalhadas das amigas. – E agora, qual o próximo passo?
- O Q3, é a ultima parte. Quem ganhar agora larga em primeiro. O segundo melhor tempo, em segundo lugar, e assim sucessivamente até o decimo colocado, eles tem 12 minutos.
- E , nós estamos torcendo para quem? – Leah perguntou quando apareceu na tela, arrumando a balaclava.5

A mecânica capturou o tom malicioso na voz da amiga, cheia de intenções para descobrir se ela tinha um favorito, queriam na verdade era ouvir o nome de na boca de . E apesar de sim, estar torcendo para , jamais falaria isso em voz alta.

- Para quem vocês quiserem, temos liberdade de escolha nesse país. – Deu um sorriso irônico, deixando claro que não falaria mais que aquilo.
- Já que é assim, eu vou torcer pelo seu amigo . Ele parece ser muito bom e tem mãos firmes. – Emmanuelle gargalhou com a cara de Amélie, ao entender o trocadilho feito pela engenheira.
- É, ele parece mesmo. – Concordou com um meio sorriso, ela pretendia saber em breve. – Estão voltando.

Na primeira tentativa do Q3, Bottas foi melhor nos dois primeiros setores, enquanto Hamilton foi o mais rápido no último trecho, mas o finlandês ficou 0s007 à frente, enquanto Vettel ficou em terceiro, à frente de Verstappen e .
Nas últimas tentativas, Hamilton fez o melhor primeiro setor e deu a impressão de que superaria Bottas, mas não fez um grande último trecho, enquanto o finlandês melhorou o próprio tempo. Na disputa entre as Ferraris, Vettel bateu em 0s017. Mesmo atrapalhado na abertura da sua última tentativa pelo posicionamento de pista, Verstappen foi o quinto.
No finalzinho do Q3, Max Verstappen reduziu a velocidade para ganhar espaço em relação aos que iam à sua frente, mas acabou ultrapassado por Sebastian Vettel e, com a redução ainda maior, também foi superado por Daniel Ricciardo e Nico Hulkenberg. Max teve de tirar tanto o pé, que não conseguiu abrir outra volta antes da bandeirada final.

- Droga, o nosso amigo vai largar em quinto lugar. – Amélie disse incerta, parecia um pouco chateada. – E o bonitão da Mia, ficou em segundo.
- O ganhador da pole. O tal de Bosta, é um gato também, acho mais do que o campeão da Mia. – Emmanuelle forçou os olhos, observando o replay da conquista do Finlandês.
- Bottas. – Corrigiu a mecânica.
- Você está louca? – Mia rodou o dedo indicativo ao redor da orelha, ignorando totalmente a correção de . – Ele é mais branco que a neve. O campeão é igual o cavaleiro negro, sem sobra de dúvidas, é o mais lindo.
- Discordo de você! – Leah balançou a cabeça. – O mais bonito é esse. – Apontou na TV, Sebastian Vettel, que aparecia conversando com um homem de macacão vermelho na tela – O cara da roupa igual do amigo da .
– Acho que depois de ver esses gatos, definitivamente devíamos ir ao autódromo.

soltou uma gargalhada gostosa ao ver as amigas discutindo sobre qual dos pilotos era o mais bonito.
Levantou e foi à cozinha pegar mais cerveja, enquanto elas se matavam tentado eleger o galã da Fórmula Um.

X

estava tomando uma xícara de café, ainda tinha traços da noite de sono marcados na bochecha. Tinha dormindo muito bem, recuperando a noite de sono perdida na sexta-feira com a balada.
A morena ligou a TV e posicionou no canal onde reproduziria a corrida de Fórmula Um. O celular que repousava sobre a mesa, apitou indicando uma notificação de mensagem, era mais uma vez . Nos últimos dias, ele havia mandado muitas, algumas respondia e outras não, sabia que ele estava interessado nela e não havia problemas nisso, desde que fosse algo totalmente carnal.
Esse era o principal motivo para não render assunto o dia inteiro com o piloto. Respondia o suficiente para não ser grossa, e também mostrar que não está aberta a qualquer tipo de contato além do já demostrado por ela: sexo.

": Você vai assistir a corrida?"
: Sim, já liguei a TV.
: Fico feliz em saber que estará me assistindo ganhar.
: Hahaha. Você é um prepotente, precisa fazer quatro ultrapassagens para isso.
: Não duvide de mim, já ouviu sobre a grande volta do Senna em 1993, antes do final da primeira volta? Serei eu hoje.”
: Ayrton Senna foi provavelmente o maior piloto da história, você é só príncipe de Mônaco.
: Quando eu ganhar, te farei engolir as palavras.
: Não será um problema, eu engulo tudo.


Gargalhou da própria resposta e em como perdia as estribeiras com suas mensagens e respostas provocativas, não teve tempo de ver se ele a respondeu. A porta de sua casa estava sendo destrancada. Ela ergueu as sobrancelhas surpresa e olhou para o relógio de pulso.
Nove e quarenta da manhã.
O que uma das meninas estava fazendo ali, àquela hora? Sabia que era uma delas, pelo fato de somente elas terem a chave.
A porta se abriu, revelando Leah Bloé. A morena deu um sorriso e estendeu na direção da amiga um engradado repleto de cervejas.

- Não estava afim de passar a tarde de domingo sozinha. – a engenheira disse, entrando no apartamento sem ser convidada. – Mas como a boa educação exige, trouxe bebidas. sorriu, abraçando a amiga.
- Deixo você ficar, se for boazinha e me cozinhar algo no almoço.
Leah riu.
- O que tem para ser preparado?
- Macarrão e água. – disse observando Leah à vontade, abrir a porta de sua geladeira e colocar as cervejas dentro do congelador.
- Meu Deus, menina super poderosa. – Balançou a cabeça negativamente – Precisa ir ao mercado mais vezes e parar de comer besteiras.

sorriu com a expressão, Sarah ficara o dia de sábado inteiro tentando descobrir se a tia era a florzinha, docinho ou lindinha.

- Claro mamãe, pode deixar! – Bateu continência. – Por falar em mãe, cadê a tampinha?

Leah se remexeu desconfortável, a expressão ficou séria e conhecia bem demais a mais velha para te certeza que alguma coisa estava errada.

- Pai dela a pegou cedo. – Respondeu de maneira seca, indo até os armários e abrindo-os procurando o que cozinhar. – Foram ao parque.
- E você esta incomodada. - Afirmou, abrindo a geladeira pegando uma cerveja para si, deu duas batidas com a tampa na parede, abrindo-a.
- Eu sei que não deveria. – Disse passando as mãos pelos cabelos. – Sei que ele é pai dela, e que eles devem desenvolver uma relação.
- Mas você tem vontade de socá-lo.
- Exatamente. - sorriu, enchendo uma panela com água. – Ele me largou sozinha, eu sofri, chorei. Passamos muita dificuldade, até eu consegui reerguer minha vida. Anos depois ele aparece e Sarah abre os baços para ele.
- Está com ciúmes da relação dos dois? - Perguntou , enquanto se recostava contra o batente da porta.
Leah ficou em silêncio, sentindo as bochechas queimarem e hesitou considerando a questão.
- Eu... não sei.
assentiu dando um sorriso doce.
- Você a criou com amor, a relação de vocês é única. O idiota do Blanchett nunca será capaz de desfazer essa ligação.
- Eu sei, e me sinto uma boba por me sentir assim – Levou as mãos ao rosto, sentindo lágrimas – Droga, eu devo estar entrando na TPM.

pegou mais cerveja no congelador, abriu-a e logo colocou nas mãos da engenheira.

- Você é a melhor mãe de todas! Tenho orgulho de você. – ecoou, dando um gole da sua garrafa.
- Obrigada – Leah bebeu um gole da cerveja, ajeitando a panela sobre o fogão e ascendendo-o. – Já começou a corrida?
virou o corpo para observar a televisão ligada, e negou com a cabeça.
- Deve começar daqui a pouco. – Olhou mais uma vez o relógio no pulso, para ter certeza de sua informação.
- Quando for aqui em Mônaco, deveríamos assistir. – Pontuou, misturando o molho na panela. A mecânica observou a amiga por alguns segundos e então deu de ombros.
- Pode ser.
- Vou assistir com você. – Leah tomou seu assento no sofá, colocando os pés sobre o colo da amiga, logo recebendo um carinho gostoso. – Quem você acha que ganha?
- Acho que fica com a Mercedes, Hamilton é o atual campeão, Bottas tem evoluído. – Bebeu mais um gole. – Mas é imprevisível, depende do tempo. Dos pneus que vão escolher.

Leah não disse mais nada e voltou seus olhos para a televisão, tentando se lembrar do básico que tinha sido ensinado por no dia anterior.

- Como assim pneus? Não é igual?
- Na fórmula Um não. Existem vários tipos de pneus. Em cada prova são disponibilizados e tipos de pneus. Nessa prova da China, foram: macio, médio e duro. Eles precisam escolher os pneus de acordo com o que entendem ser melhor.
- Mas tem funções diferentes? – franziu o cenho, tentando achar uma forma simples de explicar.
- Os duros, que são de cor branca, eles são para circuitos que exigem maior esforço no apoio sobre o pneu, como por exemplo, temperaturas ambientes altas. Os médios que são amarelos é extremamente versátil bom para alcançar alta velocidade. E os macios e vermelhos, que é bom para ganho de velocidade em detrimento de longas distâncias.
- E eles vão trocando durante a corrida?
- Sim, chamamos de pit-stop7. Os pneus desgastam. Em um carro comum demora mais, mas nas corridas... Tem a temperatura, a quantidade de voltas, a alta velocidade. Tudo isso ajuda.
- Acho que entendo. Qualquer coisa posso perguntar? – A morena assentiu. - Como eu vou saber que começou? – Perguntou olhando incerta.
- As luzes vermelhas vão se apagar e então eles podem arrancar. Olha lá. – Meneou a cabeça, onde estava na contagem regressiva para a largada. pediu em oração que não acontecesse nenhum acidente, e que todos acabassem a corrida bem.

Quando as luzes vermelhas se apagaram, Lewis Hamilton conseguiu passar Valtteri Bottas e fez a ultrapassagem sobre Sebastian Vettel. Verstappen manteve a terceira colocação.

- Uou é o seu amigo! – Leah comemorou e soriu. - Ele passou o outro, que legal. – bateu palmas de felicidade. Era estranho aos olhos da mecânica a simpatia que todas as amigas pareciam sentir por , sem ao menos conhecê-lo, ela entendia que na cabeça delas, um relacionamento já estava desenhado.

Nas primeiras voltas, as Mercedes abriram boa vantagem para as Ferraris, com 2s4 entre Hamilton e Bottas, outros 2s4 entre Bottas e e uma vantagem menor do monegasco para Vettel, de apenas 0s8.
O alemão Vettel mostrava ter melhor performance, mas não o suficiente para se aproximar e ganhar a posição.
Com 11 voltas, veio a ordem de Ferrari para : "Deixe Sebastian passar". O monegasco respondeu: "Estou abrindo vantagem". Mesmo assim, permitiu a ultrapassagem na reta dos boxes, e Vettel subiu para terceiro lutar para tentar se aproximar dos carros da Mercedes. O jovem piloto da Ferrari não se mostrou nada satisfeito com a decisão, mas acabou ouvindo do pit-lane: "Fizemos nosso trabalho, continue focado".
"Estou perdendo muito tempo. Não sei se vocês querem saber ou não, mas só para vocês saberem", disparou via rádio, muito insatisfeito pela decisão e por não conseguir chegar em Vettel. Assim, Bottas abria uma vantagem de 7s para as Ferraris, enquanto Verstappen reduzia a diferença para o carro de .

- O quê? Filhos da puta! - Exclamou , ficando totalmente irritada com a situação do monegasco.
- O que houve? - A outra disparou. - Eu não entendi, .
- A Ferrari mandou o deixar o Sebastian passar. – Bateu na perna com as palmas das mãos, logo se pondo em pé andando rápido até a geladeira, por causa do ritmo da corrida, ela precisaria de mais cerveja.
- Mas por quê?
- Disseram que o ritmo do Sebastian era melhor. A estratégia era deixar o Vettel passar, para alcançar as Mercedes lá na frente.

Na volta 19, a Ferrari chamou Vettel para fazer seu pit-stop(6) e trocar os pneus médios pelos duros. O alemão conseguiu voltar à frente da Red Bull, mas o holandês tinha mais ritmo pelos pneus mais quentes e conseguiu se aproximar. No fim da volta, Max retardou a freada e conseguiu passar Vettel, que colocou lado a lado para dar o X em uma belíssima manobra para se colocar novamente à frente.

- Ahhh! – vibrou ao ver Sebastian impedir a ultrapassagem de Max. – Pelo menos isso.

Enquanto Vettel tinha um forte ritmo com os pneus duros, a Ferrari mantinha na pista com os desgastados compostos médios, e o monegasco sofria com o desgaste dos pneus, perdendo assim muito tempo. Já Bottas, confortável no segundo lugar, fazia seu pit-stop na volta 22 para colocar pneus duros e tentar ir até o fim, mesmo com 44 voltas ainda para a bandeirada final. Hamilton foi aos boxes no giro seguinte com um pit-stop sem problemas. parou em seguida, mas o monegasco perdeu de longe a quarta posição para Verstappen, em claro erro de estratégia da Ferrari com o jovem piloto.

- Que merda! Que burrice de estratégia, agora o menino perdeu posição. Quanta gente incompetente.

Leah percebeu a clara exaltação da amiga e apesar de desejar questionar, optou por não fazer naquele momento, era melhor deixar ela se acalmar, porém a mesma continuou a falar, mas não com a amiga.
Ela falava com a própria televisão.

- Se estavam com medo dos dois perderem posição para o Max. Deveriam ter parado o antes do Vettel, seus imbecis. Porque o Max parou antes para trocar os pneus, e com medo do holandês passar as duas ferraris, eles pararam quem estava na frente primeiro. Como acharam que o perderia a posição de qualquer jeito, colocaram ele para parar 4 voltas depois. Acabaram com a corrida dele. Você viu isso pai, que estratégia de merda?

olhou para o lado esperando ver qual seria a resposta de seu pai diante daquela situação horrorosa. Mas foi com as íris de Leah que encontrou, ela fechou os olhos com força, tinha se esquecido de que ele não estava mais ali. Às vezes era como se Dominique estivesse ao seu lado, assistindo a corrida com ela e entendendo tudo que a mesma questionasse.
Ela tinha a perfeita visão de ambos naquele mesmo sofá, assistindo qualquer coisa na televisão. E nos domingos de Fórmula Um, jamais estavam em outro lugar, era tão vívido que ela podia sentir o perfume dele moldando suas narinas. E seu estômago roncava de saudades do almoço que sempre compartilhavam aos domingos.
Sentiu os olhos encherem de água, e deu um sorriso sem mostrar os dentes. Respirou fundo para controlar as batidas rápidas de seu coração partido pela dor. Enviou comandos para todo seu corpo ordenando que seus hormônios se acalmassem. Ela não iria chorar, não naquele momento, não daquele jeito.
A cena cortou o coração da engenheira, o ato falho da outra demonstrava a enxurrada de sentimentos vazios que gritavam dento dela. Leah perspicaz como era não falou sobre a menção ao pai. Conhecia muito a mecânica, se rendesse o assunto iria se fechar, e ela não desejava mais um recuo dela.

- Mas ele ainda pode alcançar, certo? – sorriu por perceber que Leah estava seguindo o assunto, amava o fato de a conhecerem tão bem.
- Difícil – Bebeu outro gole da cerveja. – Quando eles pararam o Vettel na volta 17/18, o estava 1 segundo atrás do Vettel. Quando pararam o na voltar 22/23, ele voltou 14 segundos atrás. Na fórmula Um, é uma diferença estratosférica.

A partir da volta 30, a corrida já não tinha tanta emoção, com poucas batalhas na pista. se aproximava de Verstappen volta a volta, enquanto o holandês parecia não ter condições de lutar com Vettel pelo terceiro lugar. Na frente, Hamilton voltava a ter uma vantagem bastante confortável perante Bottas, que fazia uma corrida tranquila e tinha o segundo lugar assegurado.
Ferrari e Red Bull travaram uma batalha estratégica. Primeiro foi Verstappen, que parou na volta 35 para trocar os pneus duros pelos médios. No giro seguinte, foi a vez de Vettel também parar para mudar os compostos brancos pelos amarelos. Assim, subia novamente para a terceira colocação e tinha 10s6 à frente de Vettel.


- Ai ó, ele conseguiu ! Subiu de novo. – Leah fazia movimentos exagerados com as mãos, indicando sua felicidade. não respondeu sabia bem no que daria o resto da corrida.

A Mercedes também partiu para a mesma estratégia e chamou primeiro Hamilton, com Bottas parando segundos depois. , então, ganhava mais uma posição ao subir para segundo.
Com pneus mais rápidos, Bottas sofreu para passar , que defendeu bravamente a posição por cerca de uma volta. Mas o finlandês aproveitou a grande reta para fazer a ultrapassagem e voltar ao segundo lugar.
se arrastava com os pneus duros e foi presa fácil para a ultrapassagem de Vettel. O monegasco teve de fazer o pit-stop para colocar um novo jogo de pneus médios, mas voltou a cair para a quinta colocação, sendo ultrapassado por Verstappen.


- Viu? – Mostrou Leah. – Eles tinham que ter parado o antes. Quando você esta com pneus mais novos, ou seja quando acaba de trocar. Você esta mais rápido com pneus menos desgastados, quem está sem trocar é uma presa fácil. Foi uma estratégia errada, eles ferraram a corrida do .

A corrida seguiu para seu desfecho com Hamilton bem confortável na frente, seguido por Bottas e Vettel, que tinha a volta mais rápida da corrida. Verstappen e fechavam a lista dos cinco primeiros, com Gasly, Ricciardo, Pérez, Räikkönen e Alexander Albon completando a relação dos dez primeiros colocados, resultado que prevaleceu até a bandeirada final.
Hamilton, por sua vez, recebeu a bandeirada das mãos de Alain Prost e comemorou mais uma vitória histórica na F1.


- Ah! Ele perdeu a corrida, mas pelo menos agora eu sei o que é um pneu duro.


Glossário:
1: Pole position: Um piloto é considerado o pole position, em automobilismo, quando inicia a corrida na primeira posição do grid
2: Bandeira vermelha: Ela é usada quando ocorre graves acidentes, chuva muito forte ou qualquer motivo que ofereça graves riscos ao piloto. Algumas vezes ela é acionada para encerrar a prova, dependendo da situação.
3: Treino classificatório: Termo usado para o período em que os pilotos disputam a ordem das posições da largada.
4: Autódromo: local destinado a corridas automobilísticas, composto de pistas e instalações diversas (arquibancadas, oficinas de reparos, motorhomes etc.)
5: Balaclava: Uma Balaclava é um gorro confeccionado normalmente com malha de lã que se veste de forma ajustada na cabeça até o pescoço. Sua função tradicional é a proteção contra o frio
6: Volta do Ayrton: GP da Europa em 1993, quando o Senna larga em quarto lugar, e antes do fim da primeira volta, ele já esta na liderança. É considerado a maior volta da história da Fórmula Um. – Clique aqui para ver
7: Pits-top: No automobilismo designa-se por pit stop uma paragem durante uma corrida na área das boxes onde se encontram as equipes e seus mecânicos, para que durante a corrida os pilotos possam trocar de pneus e fazer o reabastecimento de combustível dos seus veículos.


Continua...


Nota da autora: Oi gente. Turubom? Então, mais uma atualização entrando. Uhuuuul 😍
Primeiro, eu quero agradecer vocês, por esse imenso carinho, por esse reconhecimento lindo que Merci já atingiu, nunca imaginei algo desse nível. Tudo graças a vocês.
Segunda coisa: Carol F. Você é a mais maravilhosa que existe. Obrigada, pelo carinho, incentivo, apoio e direcionamento que me deu. Assumiu algo totalmente desestruturado, manteve a calma e seguiu ao meu lado, você é uma deusa.
Toda autora merece ter alguém como você ao lado.
Obrigada a Bia, que é o Messi da fórmula Um e me ajudou com alguns detalhes e informações. Também a Lalesca, por apoio e incentivo.
A história passou por uma revisão e correção. Recomendo a vocês a releitura dos primeiros capítulos.
E me contem sobre o que acharam desse capítulo, se quiser saber mais sobre a fic ou quando ela vai atualizar, entrem no meu grupo do FB, é só clicar no link abaixo. Um beijo de purpurina!





Nota da Scripter: Ah meu deus, que capítulo incrível e girl power, super feliz que as amigas se tocaram e pararam de chamar nossa pp de homenzinho. Ela é um mulherão da porra, isso sim.
Ah, Lore, eu que fico aqui admirada com sua humildade em aceitar as sugestões e ainda manter essa história do jeito que está se moldando. Pode sempre contar comigo.

Essa fanfic é de total responsabilidade da autora, apenas faço o script. Qualquer erro, somente no e-mail.


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