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Última atualização: 21/12/2020

Capítulo 01


O público que estava presente explodiu assim que a banda finalizou a última música da apresentação daquela noite de sexta-feira. Quando os shows em uma das casas noturnas mais conhecidas da cidade ficaram frequentes, eles perceberam o quanto eram bons e que estavam no caminho certo. Sentiam que as pessoas que estavam ali saíam de suas casas porque gostavam de vê-los cantar, não saíam apenas por ser final de semana. Estavam lá por eles e ter certeza disso era extremamente gratificante. Seriam eternamente gratos ao dono do local, que sempre que possível convidava os rapazes para tocarem na casa, transformando o simples hobby dos quatro garotos em um trabalho que os mesmos faziam com prazer.
Quando estavam juntos em cima do palco, as pessoas que assistiam acabavam esquecendo de que eles eram apenas jovens fazendo o que amavam e não uma famosa banda de sucesso como aparentavam. Por causa dos shows que começaram a ser solicitados com mais frequência, eles acabaram voltando de suas viagens antes mesmo do término de suas férias, tinham aquele show agendado há muitos dias e não seria uma viagem que faria com que eles perdessem aquela oportunidade de fazer o que mais gostavam.
O público aplaudiu por vários segundos, arrancando sorrisos longos dos quatro, que abraçaram uns aos outros em forma agradecimento por terem fechado mais um show com excelência.
— Eles são ótimos, não sei por que ainda perdem tempo com a faculdade, já deviam estar fazendo shows em outras cidades. — comentou enquanto observava a banda deixar o palco. — Se eu tivesse algum talento, a última coisa que eu faria seria estudar.
— Meu irmão diz que eles ainda não estão preparados pra isso. — respondeu enquanto ainda aplaudia o irmão e os amigos dele.  
As duas sempre frequentavam os shows; além de gostarem das músicas tocadas pelos garotos, a presença delas ali funcionava como um incentivo para eles, que estavam no início do caminho em direção à realização de um sonho. Além de ser irmã de , cresceu acompanhando a amizade dele com os companheiros de banda. Também ficava feliz pelos outros três rapazes, mesmo não confessando, e estaria sempre por perto para aplaudi-los.
— Seu irmão é louco, , eles são ótimos! Arrisco-me a dizer que são melhores que muitas bandas famosas. — Disse e logo em seguida viu a amiga balançar a cabeça, concordando.  
e eram amigas há anos, se conheceram ainda quando crianças, em uma tarde em que elas estavam brincando no parque do condomínio onde as duas moravam na época. Conforme o tempo foi passando, as duas foram aproximando-se mais uma da outra. enxergava em a irmã que ela não teve, sabia que podia contar com a amiga em qualquer momento, independentemente da situação. Na vida de , conseguia preencher o vazio que a amiga sentia por viver apenas com o irmão e por nunca ter a presença de seus pais em sua vida. Forçava-se a acreditar que ela conseguia viver muito bem sozinha, mas quando precisava de alguém para compartilhar o que ela não conseguia carregar, era para os braços da melhor amiga que ela corria.
— Eles tocam bem, cantam bem e têm presença de palco, estão desperdiçando o talento deles aqui. — começou a listar os motivos que os meninos tinham para viver de música, sem perceber que a amiga ao lado não ouvia as suas palavras, pois mantinha a sua atenção em outro lugar.   — ? 
— Quê? — Arqueou uma sobrancelha ao encarar , tentando lembrar o que a amiga havia dito. — Acho que me distrai. — sorriu sem graça.  
— Jura? — ainda ironizou.
deixou de focar na expressão assustada da amiga, que ainda tentava lembrar-se da conversa que ela sequer havia escutado, levando o seu olhar para o lugar onde encarava segundos atrás sem tentar disfarçar. Suas teorias se confirmaram assim que ela viu quem havia roubado toda a atenção de sua melhor amiga.  
— Ah, é ele! — afirmou, recebendo um olhar incrédulo como resposta.  
— Claro que não, eu nem estava olhando pra lá.  
— Você acha que engana quem, ? — sorriu fazendo a amiga se render e sorrir também.   
— Que culpa eu tenho se, mesmo sendo um babaca, ele ainda consegue ser lindo? — Confessou envergonhada, sem conseguir conter o humor em suas palavras.  
— Você devia dizer isso pra ele, não pra mim, só não fala que ele é um babaca porque assim você vai acabar com as chances que você ainda nem tem. — Brincou enquanto negava com a cabeça.
— Eu o acho bonito, não nego, mas isso é a única coisa que ele tem de qualidade. E eu apenas iria perder o meu tempo tentando alguma coisa, sei que não tenho chances. Sem contar que sou irmã do melhor amigo dele, o é um fofoqueiro de primeira e já me contou que ele curte mulheres bem mais velhas. — Fechou a cara enquanto se lembrava de algo.  
— É que ainda não apareceu uma oportunidade pra ele te dar uma chance. — pensou alto, arrancando mais um sorriso da amiga.
— Nós dois brigamos o tempo inteiro, não conseguimos conversar um minuto sem discordar de algo, eu até evito contato quando ele vai em casa. As chances de acontecer qualquer coisa entre nós dois são nulas.  
Quem foi o culpado por tirar a atenção de e ser o assunto da conversa dela com a melhor amiga era um certo rapaz que estava sentado com os seus amigos em uma mesa ao lado do balcão, vestido com uma blusa branca coberta por uma jaqueta preta e uma calça da mesma cor, roupas que já eram a cara dele. conversava com os seus amigos, que também eram seus colegas de banda, enquanto finalizava a sua quarta cerveja da noite. A cada show eles subiam no palco como se estivessem participando de um festival de bandas, a cada apresentação eles davam o melhor de si. Não importava o local ou a quantidade de pessoas que estavam ali, os garotos sempre tinham a intenção de transformar cada show no melhor da vida deles.  E naquela sexta, em especial, aquele show foi diferente. E esse foi o motivo para que pedisse a quinta cerveja da noite, ele estava comemorando algo que ele ainda nem sabia o que era.
Na mesa em que se encontrava com os garotos, o que não faltava eram assuntos. Começaram a falar de Katherine, a garota da cidade vizinha vivia arrancando suspiros de , que, devido a isso, era motivo de piadas entre os amigos.  
— Eu já te falei, você pode chegar lá e ser surpreendido de um jeito ruim. — comentou fazendo os dois companheiros gargalharem enquanto  revirava os olhos. — Para uma mulher tão linda ter interesse em você, só pode ter alguma coisa errada.
— De fato ela é a mulher mais linda que eu já conheci, ou melhor, vou conhecer. — sorriu contente ao lembrar-se de quem eles estavam falando.
— Não acredito que essa criatura nem beijou na boca e já está apaixonado. — provocou o amigo, embora o mesmo tivesse incentivado aquela viagem há alguns dias.  
Os quatro jovens eram bem próximos, se conheceram na infância e a amizade entre eles era digna de ser admirada. Mesmo sendo pessoas tão diferentes uma das outras, eles se ouviam, se entendiam e respeitavam o espaço um do outro. Sem contar que o sonho de um dia viver de música os unia mais ainda, se é que isso era possível.
era o aventureiro do grupo, gostava de viver a vida da melhor forma possível e colecionava amores por onde passava. era o mais tranquilo, mais certinho como os amigos mesmo diziam, quando precisam falar sobre um assunto mais sério ele sempre tinha a palavra e todos os outros sempre escutavam os conselhos do amigo. era o mais mulherengo e o mais engraçado, adorava fazer piadas em momentos inapropriados e costumava ser a pessoa que quebrava o gelo quando acontecia algum problema entre o grupo. estava entre e , também gostava de aproveitar a vida da melhor maneira possível, mas não era tão sonhador como . Nas palavras dele, gostava de voar o mais alto que podia mas sempre colocava os pés no chão quando era necessário. De certa forma, os quatro amigos se completavam.
— Eu vou viajar enquanto vocês ficarão aqui pensando besteira. — Deu de ombros após comentar animado. — E vou estar muito bem acompanhado.
— Eu irei viajar novamente, meu querido, o também. — respondeu, sorrindo ao lembrar-se da viagem.  
— Enquanto vocês viajam eu vou dormir todo o restante dessas minhas férias como se não existisse amanhã. — contou animado, como se dormir fosse melhor que qualquer outra coisa.  
— Por que não viaja com os seus pais? Se você quiser ir pra Marte eles te levam sem questionar. — quis saber.
— Pra eu ficar parado em frente a árvores ou casas antigas para tirar fotos que depois serão mostradas nos almoços em família? Não, muito obrigado. — Ele respondeu humorado, fazendo os outros três amigos rirem.  
— Você pode viajar sozinho. — sugeriu, tentando buscar uma opção mais divertida do que o amigo poderia fazer nas férias.  
— Já aproveitei minhas férias o suficiente. Prefiro ficar em casa compondo algumas músicas, acompanhado pelo o meu violão, será bem mais divertido.  
— Ou você pode sair para procurar alguma mulher mais velha que está à procura de um jovem lindo como você, sabemos bem das suas preferências em relação às mulheres. — Disse , arrancando gargalhadas dos amigos.  
— Você anda muito engraçadinho. — Respondeu enquanto revirava os olhos pelo que o amigo havia dito.  
A expressão de arrancou boas risadas dos amigos, antes de encerrar aquele assunto sobre o restante das férias do mesmo. Quer dizer, pelo menos ele achava que havia acabado.
Enquanto e riam de algo que comentavam entre si, o ambiente cheio tomou a atenção de e de , que observavam locais diferentes da casa noturna. Algumas pessoas dançavam descontroladamente as músicas tocadas pelo DJ, que finalizava os shows de todas as noites. Outras se agarravam pelos cantos mais escuros do local ou enchiam a cara com copos e mais copos de bebidas, enquanto a maioria apenas dançava tranquilamente buscando se divertir da melhor maneira possível.  
era uma dessas pessoas que dançavam tranquilamente pela pista. Embora a sua vontade fosse encher a cara, como a sua melhor amiga estava fazendo bebendo tudo o que continha álcool, ela se contentava apenas com uma cerveja em mãos. Seu irmão estava lá, se lembrava da ultima vez que a viu bêbada, não queria mais uma vergonha como história para contar para os seus netos. estava comportada demais, mas mesmo assim não parava de observar a irmã, se ela aprontasse algo, ele seria o primeiro a ver e certamente o único a surtar. E foi essa observação compulsiva que fez com que se lembrasse de um grande detalhe de sua viagem.  
— Eu esqueci completamente da minha irmã. — falou alto, quase gritando, tomando a atenção dos amigos, que olhavam para qualquer outro lugar.  
— Como? Você não para de olhar pra ela. — perguntou, usando um tom irônico e debochado em sua fala.  
— Eu vou viajar e os empregados ainda estão de férias. Ela não pode ficar sozinha em casa e não tem como eu levá-la para uma viagem de casal. — Explicou o motivo da sua preocupação.
— Você fala como se a sua irmã tivesse cinco anos de idade, , ela não é mais uma criança. — comentou, sempre achou exagerados aquele ciúme e proteção que tinha em relação à irmã. — A pode ficar lá com ela.
, você fala isso porque não conhece a minha irmã. Na última vez que a ficou sozinha em casa ela deu uma festa, no outro dia tinham garrafas de bebidas e pessoas espalhadas por todos os cantos. E a ficar com a é pior do que se ela ficasse sozinha, nenhuma das duas tem juízo.
— Você pode arrumar alguém de confiança que não vá fazer nada nesses dias pra ficar na sua casa com ela. — sugeriu e imediatamente os olhares dos três jovens foram em direção aonde se encontrava.  
sorriu em deboche, mostrando o dedo do meio para o ao perceber que o amigo estava se referindo a ele, porém o seu sorriso desapareceu quando percebeu que os seus amigos ainda o encarava, deixando claro que eles estavam levando a sério aquela ideia.  
— Não, não e não. Vocês não estão pensando que...  
, você é a minha única esperança. — o interrompeu, animado com a possibilidade de ter encontrado uma solução para o seu problema.
— Espera aí, amigão, eu não tenho vocação pra ser babá, não. — comentou, sem acreditar que eles estavam cogitando aquela possibilidade.  
— Você mesmo disse que ela não é mais uma criança, você só precisa fazer companhia para a doce e amável irmã do nosso , que amigo não faria isso se pudesse? — não perdeu a oportunidade de brincar com a situação. — O te ensina a fazer as comidinhas preferidas dela. — Finalizou rindo junto com , já que os outros dois estavam sérios demais para brincarem.
 — Vocês estão ajudando muito. — O motivo daquela conversa revirou os olhos, entediado com aquela situação.  
, eu te pago, compro uma nova guitarra pra você ou te apresento a minha tia que está solteira, mas me ajuda por favor. É só ficar em casa e impedir que a faça alguma loucura. — suplicou.  
— Você sabe bem como é a minha relação com a sua irmã, isso não vai dar certo. Por que você não pede pra outro alguém fazer companhia pra ela? — Questionou o amigo, tentando pensar em outra forma de ajudar , desde que ele não estivesse envolvido.
— Porque eu confio em você, com você na minha casa eu posso viajar despreocupado. E eu não tenho mais tempo pra conseguir uma pessoa confiável, vou viajar amanhã de manhã, é só por alguns dias. Não quero que você fique de babá, só quero que você esteja por perto caso a pense em aprontar alguma coisa. — explicou mostrando o quanto estava preocupado em deixar a sua irmã sozinha.  
E os quatro ficaram ali conversando, tentando convencer a ajudar o amigo. Ele sabia que não seria uma boa ideia ficar sob o mesmo teto que , porém era um dos seus melhores amigos que estava pedindo aquele favor. Sabia que, se fosse o contrário, ficaria com seu irmão mais novo sem questionar, não estranharia chegar em sua casa e encontrá-los rodeados por brinquedos e doces.
Talvez não seria uma experiência tão ruim como ele imaginava, a casa de era enorme, poderia muito bem ficar em um cômodo qualquer e agir como se não existisse. Pelo menos ele estaria lá, não por vontade própria, mas para ajudar o seu amigo. Depois de alguns minutos de conversa entre os melhores amigos e das piadas de e dos conselhos de , encarou , perguntando apreensivo como se aquelas fosse a sua última tentativa.
— E aí, , eu posso contar com você? 
, que se encontrava concentrado em seus pensamentos, olhou pra o amigo que estava com cara de cachorro que caiu da mudança, sentado em sua frente esperando por uma resposta.
— Eu tenho outra escolha?


Capítulo 02


Na volta pra casa, não tocou no assunto da viagem com a irmã, conhecia bem o suficiente para saber que ela não aprovaria a ideia de ter a presença de em sua casa nos próximos dez dias. Mas no dia seguinte, quando ela  desceu para o café da manhã, a mais nova encontrou duas malas prontas no corredor. Elas não fizeram surtar tanto, afinal, nem havia desarrumado as suas ainda, levaria as mesmas roupas sem problema algum. Porém, ao ouvir do irmão que ela não estava inclusa na nova viagem, foi o que fez o seu sangue ferver.  
— Como assim você vai viajar sozinho? — perguntou quando o irmão terminou de contar a novidade. Antes ela não havia parado de falar até ouvir o grito de por cima de suas falas.  
— Eu vou viajar para me encontrar com a Katherine, não dá pra você ir comigo. — explicou pacientemente, numa tentativa de acalmar a sua irmã mais nova.  
— E eu vou pra onde? Você não pode me deixar aqui sozinha, os empregados estão de férias, podem roubar as nossas coisas, podem me sequestrar... Eu posso ser assassinada enquanto você está se divertindo com uma mulher que você sequer conhece pessoalmente, sabia? — Choramingou, o drama pingando em suas palavras.  
Fazia mais de dois anos que e moravam juntos, sozinhos. Seus pais, modernos como eram, não viram nenhum problema em deixar os dois filhos morando sem eles. Por serem atores de sucesso, os pais dos jovens dificilmente tinham um lugar fixo para morarem, por isso, para evitar que eles trocassem de endereço frequentemente, decidiram deixá-los na cidade que até então era onde viviam, com a condição de encher a casa de empregados, é claro. Por mais difícil que tenha sido no início, acabou se acostumando com a presença do seu irmão e a ausência de seus pais, e como ela só tinha ao seu lado, a ideia de ficar sozinha sem ele parecia assustadora demais. Sabia que qualquer coisa poderia acontecer tanto estando sozinha ou acompanhada do mais velho, mas na verdade tudo o que ela queria era apenas ficar ao lado do irmão, porém era orgulhosa demais para admitir.
— Eu já pensei em tudo isso, eu jamais te deixaria aqui sozinha. — beijou a testa da irmã, pegou as malas logo em seguida e andou em direção à saída da mansão. — Agora eu  preciso ir porque já estou atrasado, daqui dez dias eu estarei de volta.  
achou melhor não dar ouvidos para qualquer coisa que pudesse falar, já estava acostumado com as discussões onde a irmã falava até se cansar e no final nada era resolvido. Certamente ficaria chateada com ele por um bom tempo, mas não seria para sempre, por isso aquilo não era uma grande preocupação.
— Mas, ... — foi interrompida pelo barulho da porta que foi fechada pelo irmão após o mesmo sair. — Eu odeio você! — gritou após jogar na porta o cinzeiro que ficava na sala de estar, que se transformou em pequenos cacos de vidro.
Deitou no sofá fazendo o possível para não chorar de raiva, mesmo sabendo que ela estava sozinha, odiava demonstrar as suas emoções, sentia-se fraca quando isso acontecia. Minutos depois ela sentiu o celular que estava em bolso vibrar, o nome da sua melhor amiga piscava na tela. Atendeu de imediato, já que tudo o que ela precisava naquele momento era conversar com alguém. 
— Amiga, que bom que você me ligou, eu preciso da sua ajuda. — atendeu deixando claro  o seu desespero.  
— O que aconteceu? — quis saber do outro lado da linha.  
— Você acredita que o meu irmão viajou para encontrar a Katherine, a mulher com quem ele vive trocando mensagem, e me deixou aqui sozinha? 
— E por que todo esse drama? Vocês nem são tão grudados assim.
— Porque os empregados estão de férias e eu odeio ficar sozinha. Pior que o é tão filho da puta que só foi me avisar da viagem agora que ele estava saindo. — Respirou fundo ao sentir que estava ficando nervosa novamente, numa tentativa de se acalmar.
— Você podia ter viajado também. — pareceu ter lido os pensamentos da amiga.  
— Pois é, ou eu poderia ter ficado com os meus pais e não ter voltado por causa da droga de um show. Se bem que não tem muita diferença entre estar só e ficar com os meus pais. — Confessou e foi impossível não notar a tristeza em sua fala.
— Você quer ficar aqui em casa? — sugeriu. — Pelo menos você não vai estar sozinha.  
— Eu acho que meu irmão vai pedir para alguma das funcionárias voltar pra casa antes, ele disse que já tinha pensado em tudo. Talvez não seja tão insuportável eu ficar por aqui, vou aproveitar esse tempo pra pensar na vida. De qualquer forma, obrigada, mas, se você quiser dormir aqui hoje, podemos assistir um filme e beber alguma coisa. 
— Estou na casa do meu avô agora, mais tarde eu consigo ir. 
— Tudo bem, beijos. — foi o que respondeu, antes de finalizar a ligação. 
Um bom tempo depois de falar com a melhor amiga, uma nova notificação no celular chamou a atenção de . Riu ao ler do que se tratava e entrou no aplicativo de relacionamento, que nunca esteve tão interessante. não havia levantado daquele sofá desde a hora em que saiu, os cacos do cinzeiro quebrado ainda estavam em cima do tapete bordado. Não que precisasse de um aplicativo para encontrar alguém, mas era o que tinha pra se distrair no momento e estava funcionando. Já havia dado risada das descrições de alguns perfis e das falhas tentativas dos garotos em puxar papo que as vezes ela até se esquecia que ainda estava com raiva do irmão. Só que o tempo passou tão rápido que o aplicativo, que até então estava legal, já havia se tornado entediante. O  problema era que não tinha muitas opções: as redes sociais não animavam a garota, em seu aplicativo de conversa só tinham correntes repassadas no grupo da família e ela não tinha a mínima vontade de sair de casa naquele sábado. Afinal, pra onde iria? , a sua única amiga que ela sabia que poderia contar a qualquer momento, estava na casa do avô que ficava do outro lado da cidade. Mas pelo menos ela havia prometido que iria até a sua casa mais tarde.  
Lembrando-se da promessa da amiga, o barulho da campainha que fez com que abrisse um enorme sorriso. Havia pensado que a amiga demoraria um pouco mais. Ela se levantou e foi em direção à entrada, ainda estava de pijama, mas vestia os lábios com o melhor sorriso que ela tinha. Porém, após abrir a porta, o seu sorriso se desfez, sua raiva de minutos atrás voltou para o fundo dos seus olhos.  
— O meu irmão não está em casa. —  falou para um parado em sua frente, com um sorriso quase maior que o dela de segundos atrás, ao pensar que havia chegado.
— Bom dia pra você também, . — ele provocou a garota, como sempre fazia.
— Bom dia, o meu irmão não está em casa. — repetiu as palavras de antes, sem humor.
— Isso eu já sei. — permanecia com o seu sorriso nos lábios. 
— Então o que você está fazendo aqui?
mantinha o seu olhar bravo e a sua cara de poucos amigos, mas de maneira alguma aquilo intimidava . Ele olhava para ela como se fosse uma criança fofa, que estava apenas chateada com algo. Ela tirou seus olhos do rosto de para observá-lo por completo, mas aquela não foi uma boa ideia. Ao observar uma pequena mala no chão ao lado de e a expressão que ele mantinha como se estivesse indo pra um acampamento de férias, após ter passado de ano no colegial, fez com que arregalasse os olhos, como se tivesse visto uma assombração. Era inteligente demais para ligar os fatos: primeiro o seu irmão diz que já pensou em tudo e logo depois o melhor amigo dele aparece em sua casa com uma mala. Era claro que, quando disse que já havia pensado em tudo, ele estava se referindo a aquela aparição de . 
— Você não está pensando que...  — falou quase gritando, mas foi impedida de continuar por , que parecia saber exatamente o que pensava e tratou de acabar logo com as dúvidas da garota, se é que ela ainda tinha alguma. 
— Pronta pra viver os melhores dez dias da sua vida? — Perguntou com um sorriso nos lábios maior que o anterior. Ele entrou na casa sem esperar por uma resposta ou convite, deixando sem reação próxima a porta.
O rapaz, que já conhecia muito bem aquela casa, subiu com intenção de guardar as suas coisas. Ele já havia ganhado o seu dia apenas por ver irritada. Minutos depois desceu acompanhado por um violão, nem um pouco surpreso por ainda encontrar furiosa na sala.
— Você não pode estar falando sério. — resmungou assim que desceu do segundo andar da casa, sem desfazer a cara de inconformada que possuía.  
Enquanto isso, ele arriscava algumas notas no violão que encontrou no quarto de visitas, onde guardou suas coisas. Havia subido as escadas, deixando uma extremamente nervosa na sala, que em questão de segundos saiu do transe em que se encontrava e começou a xingar coisas que não conseguia ouvir direito, já que ele começou a cantar uma música qualquer só para provocar a garota, enquanto subia as escadas. Ele deitou no sofá acompanhado pelo violão, começou tocá-lo só para que o tempo passasse mais rápido e, é claro, para provocar , que o fuzilava com o olhar. Ela continuou parada por longos segundos apenas observando toda aquela cena, pensando no que ela havia feito de tão errado para merecer um castigo daquele. Vendo que a sua presença ali não mudaria nada, subiu as escadas usando uma certa força em seus passos, o que causou uma boa gargalhada em . Se ele foi para aquela casa com a intenção de tirá-la do sério, ele estava conseguindo sem muito esforço.
—Não acredito que você fez isso comigo, eu vou te matar. — gritava ao telefone, com do outro lado da linha, mostrando o quanto estava insatisfeita com a atitude do irmão.  
, ficou louca? Do que você está  falando? — Perguntou confuso, parecia estar em um lugar com muito barulho e aquilo atrapalhava a comunicação.  
— O que você tinha na cabeça quando chamou ele pra vir pra cá? Eu não vou passar dez dias ao lado desse babaca. — Continuou gritando, sem nenhuma vontade de disfarçar a raiva que sentia.
— Ah, o ... — Ele lembrou do amigo. — Mas você mesma fez um drama quando soube que ia ficar sozinha em casa.
— Seria bem melhor ficar sozinha do que com ele. Você sabe que a gente se odeia, . — Se rendeu embora duvidasse que o irmão havia esquecido daquela informação. 
— Ótimo, aproveitem esse tempo juntos e se entendam, ele é como um irmão pra mim, logo, é como se fosse seu irmão também. Agora eu tenho que desligar, depois conversamos, um beijo. — Avisou antes de finalizar a chamada.
A raiva que estava sentindo pareceu aumentar após a conversa com o irmão, logo algumas ideias apareceram em sua mente, numa tentativa de fazer alguma coisa para mudar aquela situação. Como a garota era muito rápida em seus raciocínios, não demorou muito para que ela tivesse um plano perfeito, pronta para colocá-lo em prática.
No fundo sabia que só havia feito aquilo para que ela não fizesse alguma besteira enquanto ele estivesse fora, como se pudesse impedi-la de fazer qualquer coisa. Apesar da recente maioridade, sabia que era por causa de certas atitudes suas que o seu irmão não confiava nela, atitudes parecidas com o que ela estava planejando fazer para se livrar daquele hóspede folgado que se encontrava em sua casa. Sabendo que era a única pessoa com quem, de fato, ela poderia contar, não pensou duas vezes antes de ligar para a amiga para dividir com ela todas as novidades daquela manhã.
— Amiga, ainda vai demorar muito pra você vir pra cá? — Quis saber após discar o número da em seu celular e ouvir a voz da mesma do outro lado da linha.
— Acho que não, aconteceu alguma coisa?
— Alguma coisa? Aconteceu a pior coisa que poderia ter acontecido. Você acredita que o meu irmão pediu pro ficar aqui em casa enquanto ele está viajando? — Só em citar o nome dele, já sentia a raiva aparecer novamente.
Nem ela conseguia explicar ao certo aquele sentimento de raiva que aparecia sempre que ele estava por perto. A pior parte de tudo era que ficar longe de era praticamente impossível, já que ele era melhor amigo do seu irmão e frequentador assíduo da sua casa. Sem contar que ele parecia se divertir às custas de e provocá-la parecia ser uma de suas maiores diversões.
— Não acredito. — gritou demonstrando sua empolgação, fazendo com que estranhasse aquela reação. — Vou dar uns beijos no seu irmão depois dessa. — Brincou, aumentando a raiva da amiga.
— Você ficou maluca? — Perguntou incrédula, não por querer beijar o seu irmão, mas sim por aprovar aquela ideia de . — Eu quero o longe daqui o mais rápido possível, trocamos poucas palavras e ele já me estressou mais que a minha TPM.
— Eu imagino, mas acho que ele vai ficar aí até o seu irmão voltar, o não vai perder a oportunidade de te ver estressada.
— Não se eu fizer algo que faça com que ele vá embora antes.
Apesar de não estar bem-humorada naquele dia, conseguiu sorrir, não escondia a felicidade que sentia quando pretendia aprontar alguma coisa. conhecia tão bem a amiga que só com a risada dela após terminar de falar já dava a entender que ela estava mesmo aprontando.
, pelo amor de Deus, o que você vai fazer?
— Só uma festinha aqui em casa, amanhã mesmo. — Segurou a risada e deu de ombros, embora a sua amiga não pudesse ver. — Só quero deixar claro que o fato de ele estar aqui ou não, não muda nada na minha vida.
— Amiga, você enlouqueceu? A última vez que você fez uma festa, você levou uma bronca do seu irmão e ainda ficou sem cartão de crédito por um bom tempo. — Lembrou, a última festa não havia deixado boas recordações.
— Naquela época eu era menor de idade e agora eu posso colocar a culpa no meu irmão por ter me deixado sozinha. — realmente havia pensado em tudo e imaginava que dessa vez nada ia dar errado.
— O não vai querer ser plateia das suas loucuras.
— Mas é exatamente essa a minha intenção. Vou escutar um monte do quando ele voltar, mas pelo menos fico livre do mala do antes disso. Eu vou sobreviver. — Brincou, fazendo com que a amiga gargalhasse do outro lado da linha. — Vou desligar e ir adiantando as coisas por aqui. E vê se não demora.
Finalizou a chamada sorrindo para as paredes. Já que seu irmão havia viajado, ela também ia fazer com que o final de suas férias fosse bem aproveitado.


Continua...



Nota da autora: (01/08/2020) Olá, amores! Que bom ter vocês aqui comigo. Pra quem não sabe, finalizei essa New Home em 2016, foi a minha primeira história concluída. Estou reescrevendo porque senti a necessidade de me dedicar mais a essa história que eu tenho tanto carinho. Mesmo se você leu a anterior, recomendo que acompanhe junto comigo essa nova versão mais madura, divertida e cheia de cenas e capítulos novos. Espero que gostem não se esqueçam de sempre deixar um comentário ao final da leitura, faz toda a diferença saber o que vocês estão achando. Um beijo e até a próxima atualização, que será em breve!



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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