Última atualização: 07/06/2018

Prólogo

29 de janeiro, 2017


estava com sono. Ela sempre estava com sono.
Suas férias acabavam em algumas semanas. gostava de sua cama e de dormir. Seus olhos estavam inchados e ela só queria matar a irmã por estar gritando a aquela hora da madrugada.
! — Ingryd batia na porta de entrada com pressa, batidas constantes, altas e irritantes.
O que é, porra? finalmente respondeu, arrastando os pés no chão enquanto esfregava os olhos. Abriu a porta, vendo a figura da irmã mais nova pulando empolgada com dois papéis na mão.
— Eu ganhei dois ingressos para o jogo do BVB! — A ruiva fechou a porta na cara da irmã, já refazendo seu caminho para seu quarto — Mas é área VIP. E contra o Mainz 05! Nós podemos conhecê-los!
— Vai dormir, Ingryd! — saiu andando.
— Papai vai estar lá! — De imediato, os pés da ruiva travaram — Ele que pediu pra eu te chamar.
Ingryd Roberstkün Everlat abriu a porta novamente, olhando de forma ameaçadora para a irmã —, se você estiver mentindo, eu juro que arranco sua cabeça e a deixo espetada em frente à casa dele.
— Eu juro que é verdade! — Ingryd sorria, e a ruiva a analisava — É em algumas horas.
— Ok. — Fechou a porta, dessa vez com a irmã do lado de dentro — E você vai me pagar um café da manhã.
Dentro de meia hora, estava pronta. Uma calça de moletom e um suéter vermelho.
— Você vai usar vermelho? — Ingryd perguntou, engolindo em seco — Não tem nada amarelo aí não?
Você ainda acha que eu vou. vestiu um casaco por cima da roupa, saindo de casa com a irmã.
Foram tomar café e ficaram na rua por muito tempo. Visitaram lojas, e Ingryd tentava explicar futebol para a irmã. Disse que o time oposto ao dela estava em uma colocação mais baixa e que o tal Borússia precisava ganhar o jogo para subir uma posição no placar da Bundesliga. Não que ligasse, ela não dava a mínima.
Chegaram mais cedo no estádio e o pai não estava lá. Muito menos chegou. Ingryd se desculpava a cada cinco segundos, mesmo enfezada com empate e com a posição atual do time. pediu para ir embora, mas a irmã queria conhecer os jogadores, mesmo sabendo que eles estavam com um puta mal humor.
Os passes foram dados e ambas já estavam lá dentro. Havia um burburinho irritante e muito movimento. Os jogadores se fingiram de felizes assim que viram as duas e mais outros fãs.
viu um bebedouro mais adiante e seguiu em sua direção, distraindo-se com sua própria sede. Virou para voltar a sua irmã com seu copo ainda na mão.
Ombros se encontraram e um pouco de água caiu na direção do homem.
Cabelo loiro, barba de Papai Noel, um nariz estranho e olhos pequenos.
— Talvez você devesse olhar por onde anda. — Foi o que ouviu. Comprimiu os lábios e riu em seguida.
— Talvez você devesse abrir os olhos e descobrir o que é educação!
O homem a olhou com raiva. Os olhos pareciam estar ainda menores e escuros pelo ódio que sentia até o momento. Soltou o ar lentamente e virou os pés em direção à ruiva.
— Cuidado por onde anda, pode acabar com mais um pouquinho de água em si. — Foi apenas o que disse.
fechou a cara, não pensando duas vezes antes de pegar o copo de água e jogar inteiro na cara do homem.
Todos naquele momento pararam para olhar na direção dos dois.
— Parece que tem um pouquinho de água em si. — fingiu limpar o ombro do homem, voltando para a irmã com a cara mais fechada do mundo.
— O que você fez? — Ingryd quase gritou — Aquele é !
— Eu não ligo. — respondeu, nem sabendo de quem se tratava — Quero ir embora. — E, mesmo sem ouvir a resposta da irmã, saiu andando em direção ao lugar que entraram.
estava todo molhado, percebendo que alguém estava com um humor pior que o dele.
não se importava, pois não havia gostado de .


01 – Highway to Dortmund

09 de fevereiro, 2017


Dortmund? quase gritou com o chefe — São quase 300 quilômetros daqui! Você está mesmo dizendo que eu tenho que me mudar para o outro lado da Alemanha? O que acontece com minha vida aqui?
... — Thomás respirou fundo, olhando para a ruiva apavorada em sua frente — Você tem marido?
— Não.
Filhos?
— Também não.
E gatos?
— Claro que não! Salazar iria matar o gato em menos de uma semana.
— Ótimo, nada que te prenda aqui. — Thomás sorriu cínico e estalou o pescoço. Olhava de forma preocupada para a ruiva — , você é a melhor pessoa que trabalha aqui. É esforçada e vive muito bem a vida de nosso serpentário. É a nossa melhor bióloga e santo foi o dia que você entrou por aquela sala... — O homem suspirou, passando as mãos nos cabelos espessos — Não podemos manter o serpentário aqui. Um é em Dortmund e outro é em Berlim, acho que Dortmund é melhor para você.
E por que eu não posso ir para Berlim? — Quis ser chata, perguntando e argumentando. Tinha algo que ela já não gostava na cidade mesmo só indo lá uma vez.
— Porque com a arrogância do pessoal de lá, você ia ser demitida em uma semana. Sabe quem é a chefe de lá? Eva.
— Okay, eu fico com Dortmund. — Jogou-se de qualquer jeito na cadeira, já aceitando a condição de nova moradora de Dortmund — Mas você sabe que vão pagar tudo meu, não é? Despesas em geral... Mudança, fiança do meu novo apartamento, empacotamento de minhas coisas e, se algo extraviar, quero novas. Além de, claro, minha passagem e uma passagem confortável para Salazar.
— Se fosse outra pessoa, eu te demitiria agora. — O homem ameaçou, um sorriso pretensioso nos lábios. era realmente a melhor herpetóloga que eles poderiam ter, faria aquilo e mais um pouco para tê-la ainda trabalhando por perto.
O Serpentário Julian Hauptmann era uma obra dos irmãos Hauptmann, mesmo o artigo masculino sendo usado de forma injusta para dar os créditos a tal criação. Eva Hauptmann era a mais velha dos três irmãos, tinha começado a estudar biologia com vontade de seguir a área marinha, mas sua paixão fora descoberta em répteis, especialmente em cobras. Anos mais tarde, o serpentário fora aberto, e seu pai recebera o nome de homenagem. Todos queriam trabalhar com Eva, inclusive seus dois irmãos mais novos, Eric e Thomás. Seguiram a mesma carreira e abriram filiais em suas cidades favoritas.
O problema maior era o impacto que aquilo causava. Eva Hauptmann era a Miranda Priesty da biologia serpentária. Como uma medusa literal, cada uma de suas cobras em cabelos também representavam como ela era... amada. E sua fama de acabar com calouros ou estagiários em menos de sete dias.
Quem era Samara perto de Eva? Furtwängler odiava Eva como odiava que matassem animais para comer e futebol. Nenhuma das coisas fazia sentido em sua opinião. Mas odiava Eva como Eva odiava , talvez por ambas terem gênios muito parecidos e opiniões muito diferentes. Eram esquentadas e sempre estavam certas, vingativas e donas de uma teimosia tão grande. Ainda assim, por serem tão idênticas, uma piada sobre ser a filha que Eva não quis sempre circulava por lá. Como era esperado, odiava a piada.
não gostava de muitas coisas.
Sua irmã mais nova, Ingryd, não foi algo que ela nasceu gostando. Quando tinha seis anos, ela nasceu. O primeiro motivo pelo qual não gostou da loira foram seus cabelos. Claros demais, pareciam brancos. Analy, mãe de , morreu quando a ruiva nasceu, mas ela passara toda sua vida ouvindo como era parecida com a progenitora. E como as pessoas diziam que Harry Potter tinha os olhos de sua mãe, ela tinha os cabelos. Como os de Lilian Potter e Analy Furtwängler: ruivos.
Ingryd tinha os cabelos da mãe, alguém que ao menos fora apresentada a uma criança. Um dia, seu pai simplesmente apareceu com um sorriso amarelo no rosto e disse que ela teria uma irmã mais nova. O tiro fora bem rápido e prático.
E era por isso que não gostava do pai. Ele não era presente na vida dela como tinha sido na de Ingryd. Adrian levava Ingryd para as festinhas das amigas, comprava o que ela queria e sempre mostrava uma preocupação excessiva por cima de muitas coisas. Porém, isso apenas ajudou a ser a pessoa que ela queria ser. Livrou-se do pai logo cedo e tinha sua tão sonhada liberdade.
Liberdade essa que hoje havia sido roubada de um jeito um pouco inusitado. Não que ela não tivesse planos de se mudar nos próximos anos... Talvez nos próximos vinte anos ou trinta, não aos vinte e seis anos e com o emprego e vida dos seus sonhos.
Mas muitas vezes a vida não era só o que gostava.

••••


14 de fevereiro, 2017


não gostava dos momentos antes dos jogos. Sentia as mãos gelarem e, não importava há quantos anos jogasse, parecia que ia infartar a qualquer instante. No entanto, na hora que ele entrava em campo era diferente.
Tudo era diferente. Não tinha sensação melhor que aquela. Olhar todas aquelas pessoas que dependiam de você e ver o jeito que eles depositavam esperança e amor. Olhar como eles conseguiam transformar o céu azulado numa chuva amarela.
Estavam no vestiário para jogarem na UCL. Nervosos e um pouco receosos, os últimos jogos fora de casa estavam sendo frustrantes em uma dimensão inimaginável. Tudo bem empatar com o Mainz 05, agora perder para o lanterninha? O Borússia não perdia para o Darmstadt há quase quarenta anos. E haviam perdido de um jeito tão feio que ainda era humilhante lembrar.
E então o jogo havia começado. não estava como titular e, por mais que tivesse sido a contratação mais cara do BVB, sua função estava sendo apenas esquentar o banco. Estava frustrado, irritado e com um leve sentimento de inutilidade; sentimento esse que continuara até o fim do jogo, com o péssimo gosto de derrota na boca. As redes sociais também não perdoavam, cada comentário era mais desgostoso que outro e a atenção só não estava unicamente neles, porque eles não haviam perdido com quatro gols, como certo time.
Naquele dia eles teriam que tirar foto com mais alguns fãs que haviam comprado o passe para os bastidores, e a lembrança de uma ruiva com um péssimo humor jogando água em sua cara se fez presente de imediato em sua mente.
Já havia conhecido pessoas mal humoradas. Todavia, aquela garota era a personificação do próprio Grinch. Mas, naquele dia, tinha sido bastante calmo, nada como a última vez. Por mais estranho que pareça, se sentiu entediado com tanta calmaria. Todos os jogadores estavam de volta ao vestiário, buscando suas coisas e tomando seus banhos para partirem até suas casas. O loiro estava esperando pacientemente todos irem embora porque tinha combinado de sair com Roman para jantar — apesar de o horário não ser nada apropriado para aquilo.
Ei! chamou o goleiro, crispando os lábios quando o moreno virou em sua direção — Eu vou escolher dessa vez, não é? Porque olha, hambúrguer com macarrão de queijo não foi uma sábia escolha.
, você me respeite — Roman Bürki fez uma careta, fingindo estar afetado. — Mas sim, é sua vez.
— Batata frita. — Disse de forma simples — Não dá dor de barriga e eu não vou ouvir reclamações do Tuchel por chegar uma hora atrasado. Por estar preso no banheiro. — Rapidamente os dois já estavam numa lanchonete qualquer. Estava vazio àquela hora da noite e aquilo facilitou muito a vida de ambos. Uma fuga do hotel por algumas horas era reconfortante e, logo, o pedido tinha sido feito — Como vai a Mitzi? — Referiu-se à namorada do amigo.
— Bem, muito bem — O amigo sorriu como um bobo apaixonado ao se referir a namorada. — Queria poder estar com ela em algum momento desse Dia dos Namorados...
— Choro por dentro com tanto amor. — Piscou os olhos rapidamente de forma quase fofa e riu — Quantas vezes você já disse que a amava hoje? 853? — Roubou o telefone do amigo e fingiu pensar numa senha — Mitziholtzmman — Disse para si mesmo e fez um bico decepcionado quando não pegou — Eu vou desistir antes de ver sua namorada sem roupa. Mas relaxa, vocês dois vão passar outros desses dias juntos. Claro que quando ela perceber seu pé feio demais, ela vai terminar com você. Até lá, mantenha meias.
— Vê se me erra, . — Roman rolou os olhos — Se a sua carreira desandar, já pode pensar em ser comediante. Não que isso vá dar certo. — Alfinetou, pegando seu celular de volta. As porções gigantes de batatas haviam chegado. Bastante bacon por cima e muito queijo. Parecia uma bomba calórica.
— Às vezes eu sinto falta disso, sabe? — murmurou, antes de colocar a comida na boca — Mas eu não sei se é realmente vontade de encontrar alguém ou se é só solidão mesmo. Acho que é a segunda opção, detesto dormir sozinho. — Afundou a batata no molho e ficou observando o líquido avermelhado na batata — Vou comprar bichos de pelúcia para dormir comigo. Ou assistir algum filme de terror, o que acha? Sempre acho que estou sendo observado quando termino de assistir.
— É uma ótima ideia assistir filmes de terror com os seus bichos de pelúcia — o goleiro brincou com a batata antes de colocar na boca e continuar a falar, ainda mastigando. — Aliás, você deveria comprar aquele urso enorme logo, já posso te sugerir um nome: Pooh. — soltou uma gargalhada enquanto olhava para ele sério, segurando a risada que queria dar da péssima piada dele. — Mas voltando ao lado sentimental da coisa, é muito bom ter alguém que se preocupe com você enquanto você está longe, alguém que você pense quando está voltando para casa depois de um jogo difícil, alguém que esteja te esperando. Não te julgaria se fosse vontade de encontrar esse alguém.
— Sua criatividade é tanta que eu tenho pena de seus filhos. — Zombou, mordendo a boca por dentro para pensar sobre — Eu não sei se eu estou pronto para enfiar alguém nessa loucura que é minha vida, sabe? Da última vez, eu cheguei tão longe, e não acabou bem. — Só de lembrar sobre seu último relacionamento, calafrios percorriam seu corpo — Eu teria que achar alguém tão fodido quanto eu e acho que isso é algo difícil de encontrar. — Uma risada amarga, e mais batatas estavam em sua boca — Eu vou acabar instalando o Tinder. — Riu com a boca cheia, balançando a cabeça negativamente.
— Se você quer algo casual, acho que o Tinder pode ser uma saída mais rápida, talvez — Roman pareceu pensar em como poderia ajudar o amigo. — Instala o Tinder. Se eu pensar em algo novo, te aviso, tô mais com fome do que com vontade de pensar. — colocou umas três batatas logo na boca. — E outra, não deixe um relacionamento do passado estragar o futuro. Dica do Roman.
— Eu não sei o que eu quero. Acho que é só uma crise existencial. — Estirou-se na cadeira, bagunçando os cabelos com a mão limpa. riu. Roman tinha mudado positivamente depois de Mitzi, e ele achava a mudança agradável. Gostava do casal, e ele se sentia tão à vontade com os dois que nem se importava quando tinha que sair com eles. Não era aquele tipo de casal que você sentia vontade de enfiar a cara num buraco de tanta vergonha ou passavam o tempo inteiro com tamanha melação. — O problema sou eu, Roman. E se eu for o mesmo dos relacionamentos passados? — Riu, frustrado — Meu único relacionamento fixo era com uma bola, e nem isso eu consigo manter mais.
— Ok — Roman riu do drama do amigo, segurando-se para não zoá-lo mais um pouco —, você não vai saber se não tentar, certo? Sei que é um conselho meio clichê, mas às vezes a gente acaba perdendo certas coisas na vida por medo de não seguir em frente. Talvez por não dar uma chance às oportunidades que aparecem, ou por não se dar essa chance. Acredite em mim, eu saí de um relacionamento muito longo quando cheguei no Borússia, cheguei a pensar que a minha sina fosse mesmo ficar sozinho, até que, em um quarto de hospital, fazendo o trabalho voluntário que eu gosto, eu encontrei a mulher da minha vida. As coisas acontecem... Tudo deve estar uma merda para você agora, mas elas vão melhorar.
— Eu... — nem mesmo sabia o que falar. Sabia que muitas vezes Roman era bom com conselhos, mas não tanto. Coçou o pé da orelha e soltou o ar lentamente. Ele estava certo. Talvez não estivesse se dando a chance correta, talvez Roman Bürki estivesse certo. Só talvez. Não que ele fosse dizer isso em voz alta, o ego do goleiro já era suficientemente grande sem exaltarem o tempo inteiro — Mitzi tem alguma outra amiga voluntária? Posso dar uma passada no hospital. — Brincou, soltando uma gargalhada e voltando a comer. Notou uma coisinha — Mulher da sua vida, hm? Eu estou dizendo antes de tudo que eu talvez aceite ser seu padrinho quando você pedi-la em casamento. Das crianças também, mas só se você não colocar o nome de Pooh em uma delas.
— Pooh é nome de urso, seu idiota — Roman soltou uma risada alta, balançando a cabeça em seguida. — Vou pensar no seu caso, se requisito mesmo a sua presença como padrinho do meu casamento lá para 2019... Quem sabe.
— Você gosta demais de mim para me querer longe de você. Até a Mitzi gosta de mim, já perdeu. — estreitou os olhos e gargalhou. Eles passaram o resto da noite daquele jeito, comendo e falando besteiras. Receberam ligações mandando-os irem para o hotel. Roman era um ótimo amigo para , e o loiro sabia muito bem disso.
gostava de comer batatas fritas e trocar conselhos — mesmo que ele apenas recebesse — com Roman.
Porém, além de tudo, ele estava voltando para sua casa e para sua paz. Mesmo que solitária.
gostava de estar em casa.

••••


15 de fevereiro, 2017


já havia terminado de arrumar todas suas coisas. Era rápida, e sua preguiça de arrumar tudo era tão grande que já estava tudo pronto. Tinha vontade de dormir embaixo do chuveiro, sentindo a água quente relaxar seus músculos. Livros estavam em seu lugar, armários montados, closet arrumado, quarto de estudos pronto, seu mini laboratório era divino e o aquário de Salazar estava devidamente ajustado para que a cobra pudesse ser feliz ali dentro.
Seu telefone começou a vibrar, e o nome de sua irmã mais nova apareceu na tela. Ingryd estava ligando pelo WhatsApp na chamada de vídeo. Jogou-se na cama e atendeu, lembrando a si mesma que precisava colocar um roteador e internet fixa naquela casa com urgência.
— Você não consegue viver sem mim. — Um sorriso malicioso estava nos lábios da ruiva assim que disse sua primeira frase.
Que bom que sua viagem foi ótima! — Ingryd ironizou, gargalhando em seguida. Sua risada era tão infantil quanto sua voz — Pai! já está na casa nova.
Diga que eu mandei um beijo. — A voz do homem foi ouvida ao fundo, e nem coragem de mandar um beijo diretamente para a filha ele tinha.
— Você está na casa dele? — A ruiva perguntou, ajeitando o celular para segurá-lo com apenas uma mão.
Sim, hoje é aniversário da Frankia. — Frankia era a atual mulher do pai delas, já que ele havia se separado da mãe de Ingryd alguns anos atrás. — Já está com tudo arrumado? Você é rápida.
— Isso é preguiça, você sabe que é. — Ingryd sabia que era verdade. Aquilo era puro comodismo de não ter o que fazer depois — Eu ainda vou pintar as paredes, detestei esse tom de amarelo. Vou colocar azul. Ou vermelho.
Você está em Dortmund, é um crime pintar as paredes de vermelho ou azul. — O lado torcedora de Ingryd sempre falava mais alto — Já se bateu com algum dos jogadores? Eles estavam voltando para Dortmund hoje!
— Eu realmente não sei por que eu estou gastando minha internet para você me falar isso. — rolou os olhos — Não tenho comida para jantar, alguma sugestão?
Saia para jantar com alguém. — De primeira, a sugestão da irmã soou absurda. Na segunda vez que prestou atenção no que ela estava dizendo, tinha arranjado um adjetivo além de absurdo para definir.
— Só se eu conseguir um gigolô, será que já fizeram um aplicativo para isso? — A mais velha fingiu estar pensando e logo depois emburrou a cara novamente — Vê se me erra, Ingryd.
Não seja tão pessimista, schwester. — Ingryd tinha uma voz infantil, olhos curiosos e um eterno jeito de menina — Encontro às cegas, parece ser interessante.
— Eu não sei por que diabos dou ouvidos para você.
Vamos lá... O que você tem a perder? Dignidade nunca teve, não tem namorado nem pega, é uma cidade que você é nova... Um encontro e tudo resolvido.
ponderou. A ideia pairou por sua cabeça até o momento que sua irmã desligou. Encontro às escuras. Talvez realmente não fosse tão ruim. Ela iria fazer aquilo.
havia gostado da ideia de um encontro com um desconhecido, e por isso aconteceria.


02 – After Midnight

19 de fevereiro, 2017


não gostava de ficar até tarde no trabalho, mas aquele dia era uma ocasião especial. Como no primeiro ela tinha apenas arrumado seu escritório e conhecido o local, naquele segundo e precioso dia, ela conheceria as cobras que eles acolhiam. De início, ela tinha sido recebida por uma jiboia presa num rolo de papel toalha. Era um filhote ainda e, por isso, estava nos dois metros. Mas eles tinham uma diversidade magnífica e estufas climatizadas tão perfeitas que nem parecia que estavam realmente na Alemanha — soava mais como um perfeito país tropical para alguma delas.
Eric era o mais novo dos três irmãos Hauptmann. Tinha cabelos acobreados como os dela e um sorriso de menino traquina nos lábios. Era bem moleque, gostava de brincadeiras e piadinhas. Ninguém o levava realmente a sério, nem mesmo as cobras. Sua mão era constantemente um local favorito para mordidas.
Eu estou vendo isso mesmo? conteve a si mesma para não surtar naquele momento ao ver uma Elephant Trunk. Eram cobras raras e de maioria encontradas na Indonésia. Sua pele era enrugada e grossa, a qual seu nome fora originado. De longe realmente parecia uma tromba de elefante. Por mais que a ruiva achasse que ela era bem parecida com uma jaca, não com um elefante.
— Na verdade, isso foi uma puta sorte. — Eric coçou os cabelos bagunçados e sorriu tímido — Essa belezura aí volta para casa semana que vem, foi um curto período de estudo.
— E o que vocês descobriram? — Quis saber, acompanhando o homem nos passos e as cobras em seus aquários. Havia uma Atheris Hispida num aquário menor com um caule artificial, e a mulher passou longe. Sabia que a espécie era altamente venenosa e que não havia antídoto descoberto para o que ela tinha nos dentinhos.
— Não muita coisa, a espécie não é boa em reprodução ou imigração. Vivem em grupos de até três espécies, mas isso já sabíamos. Nada venenosa, o que nos faz pensar que é um modelo arcaico de pítons, porém bem menor. A pele é grossa e revestida de uma camada extra de algo semelhante ao couro de jacarés. Forte como uma píton também, o tamanho é semelhante em desenhos apenas. É como uma espécie que parou na era pré-histórica e decidiu não evoluir mais.
— Queria estar aqui quando a pesquisa foi feita. — se lastimou, um bico emburrado nos lábios.
— Eu posso fazer uma cópia de todo o estudo. — Piscou, charmoso — Mas, bem, me disseram que sua área favorita é difusão genética....
A conversa continuou por um longo tempo. Eric apresentava os animais favoritos dele e mostrava as espécies que davam mais trabalho também. estava bastante interessada, talvez pelo chefe gato também, mas isso seria uma área para ser exportada de sua vida.
Ao chegar em casa, notou que já passavam das nove da noite. Não tinha pique para fazer o jantar e era sexta-feira. Uma bebida não mataria ninguém, certo? E foi com esse pensamento que tomou um banho rápido e colocou a roupa mais quente que achou no guarda-roupa. Sabia de um boteco que tinha naquela mesma esquina e certamente álcool seria uma boa.
Ao chegar ao local, foi recepcionada com olhares de homens. Dortmund havia se mostrado uma cidade pequena demais e certamente um local onde todos conheciam todos. Era um interior forjado de cidade grande. No entanto, ela não ligava. não gostava de ligar para o que as pessoas pensavam ou sabiam.
Pediu uísque ao sentar no balcão e apertou o casaco contra si. O local era mais aquecido que a rua. Havia uma mesa de sinuca ao canto e fliperamas espalhados, uma televisão pendurada ao lado da área de jogos e outra perto das bebidas.
Bebeu o primeiro copo com pressa. O segundo desceu mais leve e o terceiro parecia ser água. Será que ela estava bebendo chá? Um homem encostou ao seu lado e ela forjou um sorriso. Sem paciência nenhuma era seu humor atual. Talvez até o coração preto, que era o mais novo emoji disponível em seu WhatsApp.
— Olá! — O homem soou alegre e sentiu pena dele por escolher a pessoa mais chata de todo o lugar.
— Oi! — A ruiva tentou soar empolgada, falhando miseravelmente — Sou a .
— Rickon! — Estendeu a mão e a mulher apertou em cortesia — Nova na cidade?
— Me mudei a trabalho. — Mais uma dose de uísque estava descendo pela sua garganta, e pensou em pedir outra coisa mais forte — Trabalho no Serpentário Julian Hauptmann.
— Você é bióloga? — A ruiva assentiu, tendo certeza de que iria pedir algo mais forte. Olhou o absinto mais à frente e pediu uma dose, pagando por ela assim que chegou.
— Herpetóloga, na verdade. Minha especialidade são cobras em geral. — Tombou a cabeça e riu por puro efeito do álcool ao ser ingerido — Eu também tenho uma cobra. Elas são mais legais que cachorros e gatos.
— Então, você tem uma cobra? — O homem perguntou, receptivo. quis morrer, não tinha paciência alguma para conversas de bares. Ele não percebia a cara de quem comeu e não gostou que estava constantemente nela?
— Tenho sim. — respondeu, entediada. Odiava perguntas bobas — Ela se chama Salazar.
Como Salazar Slytherin? — Os olhos dele brilharam, e a ruiva se perguntou se ele era idiota.
— Não faço ideia do que você esteja falando.
— Ah, qual é? Não precisa se fazer de boba... — Ele riu, fazendo a mulher conter seus impulsos assassinos — Fundador da Sonserina, uma das quatro casas de Hogwarts em Harry Potter.
— Eu não gosto de Harry Potter. — Ela bebeu o último gole da cerveja e colocou a garrafa no balcão com um tanto de grosseria.
— Você poderia ser presa se alguém ouvisse isso na Inglaterra.
— Bem... — Ela se levantou, um sorriso venenoso nos lábios e vontade de esconder o corpo dele num bueiro — Ainda bem que não estamos na Inglaterra.
Não houve uma resposta audível de Rickon. Era como se o cérebro de tivesse um modo on e off dele e, no momento, Rickon estava off. Pagou pela garrafa inteira de Imperia. Uma vodca russa que era barata e muito boa porque... bem... Era da Rússia, não é? Se era de lá, devia ser boa mesmo.
A cada passo, bebia um gole. Era uma desculpa interna para beber tudo antes de chegar em casa, mesmo que não tenha dado certo. Parou na porta do prédio e sentou na calçada, encolhendo os pés e pensando em milhões de coisas que podia estar fazendo. Entretanto, nenhuma delas parecia mais interessante ou tentadora do que estar bêbada sozinha na frente do seu prédio em plena sexta-feira à noite.
precisava de amigos. Além de tudo, precisava de pessoas que não a julgassem por suas escolhas. Encolheu o corpo e abraçou as próprias pernas, apoiando a cabeça nos joelhos e soltando o ar lentamente para observar a névoa mais espessa. Ela ouviu passos na direção contrária para qual estava olhando e não quis virar para ver quem era ou se ela se mandaria correndo — mesmo sabendo que seus pés não iriam deixá-la correr, muito menos a bebida em seu corpo.
— Eu não estou com celular, caso seja um assalto. — Murmurou em voz alta, estreitando os olhos para olhar a pessoa e lembrando que quem quer que estivesse vindo, estava do outro lado — Eu sou bastante perigosa.
— Ok, senhorita perigosa — a mulher levantou as mãos como se estivesse se rendendo. — Não estou aqui para te roubar ou algo do tipo. Meu nome é Mitzi e eu moro na casa ao lado.
Oh. pareceu entender a situação — Se é assim, me desculpe, Mitzi da casa ao lado. Você aceita um gole? — Estendeu a garrafa para a morena, agora notando que a mulher não parecia nada ameaçadora.
— Aceito — Mitzi sentou ao lado da ruiva e tomou um gole do líquido, que parecia forte demais. Foi inevitável não fazer uma careta. — E qual o seu nome, senhorita perigosa?
Furtwängler. — Pegou a garrafa de volta quando Mitzi entregou e bebeu mais um pouco, observando a mulher ao seu lado — Eu me mudei essa semana. Coisas do trabalho. Você sempre morou aqui?
— Sim — respondeu. — Moro com os meus pais há exatos vinte e um anos, mas quem sabe em breve eu consiga colocar os planos de me mudar para um apartamento fora do papel.
— Eles devem ser pais muito bons para você aturar morar com eles durante esse tempo todo. — riu, bebendo mais antes de colocar a garrafa na direção da morena — Eu juro que eu não sou alcoólatra, foi uma noite cansativa e eu não queria comida. Você conhece algum lugar que tenha comida vegana? Eu estou faminta.
, certo? Bom, eu estou meio alterada igual você e não consigo pensar em nenhum lugar com comida vegana agora, mas eu tenho certeza de que a gente pode descobrir depois. — Mitzi riu, fazendo um coque com o cabelo — Ou, se preferir, a gente pode cozinhar algo lá em casa. Meus pais já devem estar dormindo a essa hora, assim como a minha irmã.
— Pode me chamar de . — Piscou para a ruiva, rindo em seguida — Apoio descobrir depois. — riu do vento e mordeu a boca por dentro, estreitando os olhos em direção à morena e observando o que ela fazia com o cabelo — Podemos ir para o meu se quiser, não tem ninguém lá. Mas você escolhe o que preferir, eu só quero colocar algo no estômago. A última vez que comi foi no café. — Passou a mão na barriga e fez uma careta, levantando do chão — Você não parece ter vinte e um anos.
— Sempre me falam isso, só que depois voltam atrás porque tenho "cara de menininha" — Mitzi fez aspas com as mãos e pareceu pensar. — , eu acho que você é a vizinha nova e, não me leve a mal, mas você tem comida? Porque se tiver, a gente pode ficar na sua casa também. — Riu em seguida. — Meu Deus, a gente acabou de se conhecer e já estamos combinando um jantar.
— Foi justamente por sua cara que eu disse que não parece ter essa idade, mas opiniões são diversas. Você tem uma cara de mulherão da porra. — estalou a língua e riu da sinceridade vinda da mais nova, negando com a cabeça de tanto gargalhar — Eu tenho sim, só estava com preguiça de cozinhar. — Arregalou os olhos de forma engraçada e ajeitou suas roupas — Dizem que as melhores amizades são fundadas pelo álcool. — segurou a garrafa com uma das mãos e enfiou a mão livre no bolso, à procura da chave — Olha se tem uma chave aqui, por favor. — Deu passos o bastante para sorrir bêbada em direção ao porteiro, que já sabia quem ela era. Deu passagem para as duas e notou que Mitzi estava com a chave nas mãos — Nono andar. — Disse para si mesma ao apertar o botão do elevador e sorriu para Mitzi — Você faz faculdade?
— Eu pensei que você tinha me achado com cara de mais velha, mas cara de mulherão da porra eu fico até sem graça — Mitzi voltou no assunto anterior e riu de si mesma por tirar tantas conclusões precipitadas, porém, de certa forma, gostava da ruiva. — Faço engenharia civil, e você? Como veio parar na cidade?
— Não precisa ficar, eu trago verdades em três dias. — Mexeu no cabelo, desembaraçando os fios com cuidado enquanto o elevador subia — Eu... — se sentia mais sóbria naquele momento, olhando a garrafa em seus pés e pegando-a no momento que o elevador abriu — Me formei com sua idade, mas isso já faz... quase seis anos. — Torceu o nariz enquanto abria a porta. Só naquele momento percebeu o quanto estava velha — Eu fui transferida do trabalho. Conhece o Serpentário Julian Hauptmann? Trabalho lá. — Assim que Mitzi entrou, fechou a porta e apontou em direção à cozinha, deixando a garrafa em cima da mesa — Você gosta de yakisoba?
— Conheço sim, o famoso serpentário da Naja. Só que passo bem longe por motivos de medo — a morena confessou, sentindo um arrepio só de imaginar um monte de cobras juntas. — Eu adoro yakisoba, sou o tipo de pessoa que come qualquer coisa.
Serpentário da naja? — Riu do apelido que Mitzi havia dado, separando os ingredientes e tendo certeza de que estava 93% sóbria de volta. Ela só precisava se movimentar um pouco para se livrar de todo o álcool — Ótimo, pega essa panela atrás de você, por favor. — apontou para uma frigideira rentável e lavou as verduras, sentindo uma tontura leve por conta das bebidas, porém logo passando. Começou a cortar os ingredientes com paciência, olhando para os dedos e pensando o que aconteceria se os cortasse sem querer — Se você tem medo de cobras, sugiro que não apareça na sala. Tem uma linda lá.
— NÃO BRINCA! — Mitzi soltou um grito sem querer, quase derrubando a frigideira no chão. — Desculpa, eu não... — Perdeu a fala, entregando a panela logo para a mais velha, que ria da cara dela. — Desculpa. Se precisar de ajuda, eu acho que não tem tanto álcool no meu sangue que me impeça de ajudar.
— Você tem costume de beber? — arqueou as sobrancelhas, entregue às risadas escandalosas que saíam de sua garganta — Pega a massa de yakisoba no armário ao seu lado e uma panela para cozinhar. Você consegue acertar? — Desafiou, olhando debochada em direção a Mitzi — Me fale mais sobre você.
— Não muito — a outra respondeu, achando com facilidade a massa no armário. — Acho que consigo acertar — Mitzi falou novamente, pegando a panela e enchendo de água para colocar em cima do fogão. adicionou o sal e deixaram a água ferver. — O que você quer saber exatamente? Não tem nada muito interessante sobre mim, além de estudar engenharia civil, ainda morar com os meus pais, ter vinte e um anos e... não sei.
— Acho que isso é um pouco notável. Bebe água, tem doce de morango e abóbora na geladeira, hmmm... — Tentou lembrar onde estavam, olhando para a porta metálica — Acho que perto de uma caixinha verde. — Riu em seguida, voltando a cortar os legumes e colocando todos na frigideira, adicionando uma quantidade mínima de óleo de coco para fritar e tapando. encostou o corpo no balcão e sorriu — Eu preciso de mais bebida. — Concluiu, voltando a beber no gargalo — Eu não sei, a última vez que tive que ser legal com meus vizinhos foi há uns dez anos. Você... namora? Gosta de tatuagens? Tem medo de cobras por quê? Acho que consigo ser sociável nesses níveis.
— Okay — Mitzi colocou o líquido no copo e tomou, comendo um pouco do doce de morango em seguida enquanto a mais velha cozinhava. — Acho que você consegue ser sociável — riu, e seu celular começou a tocar. — Falando sobre namorado... Roman, eu estou bem — respondeu, rindo um pouco ao ouvi-lo falar sem parar do outro lado. — Não precisa ficar preocupado, eu estou na casa da vizinha nova e estamos nos dando muito bem. Ela está cozinhando... Sim, pode deixar, agora vá dormir, você tem treino amanhã de manhã. — Ela desligou o celular. — Desculpa por isso, ele ficou preocupado e é isso. Ele se chama Roman, e, sim, eu amo tatuagens, mas a parte do casal que tem bastante é ele. Eu não tenho nenhuma porque não sei, e não sei explicar por que tenho medo de cobras. Trauma de infância, talvez. E você, ?
conteu a vontade de dar risada ao ver tamanha preocupação do namorado de Mitzi por cima dela. Era fofo e talvez ele fosse legal como ela.
— Depois garanta ao seu namorado que eu não sou nenhuma psicopata. — O tom de deboche estava mais forte e ela foi até a pia lavar as mãos — Ele tem muitas tatuagens? Interessante, devia ter carregado você para o mundo desenhado da coisa. — Assentiu com a cabeça, desligando a boca do macarrão e pegando o escorredor para deixar a massa secar — Trauma de infância é uma péssima coisa. — Ela fez uma careta — Eu? Eu tenho muitas tatuagens, mas a maioria eu cubro normalmente, questões de trabalho, porque eu nunca sei quando eu vou ver gente muito importante. — explicou — Eu... tenho uma cobra, mas tenho medo de cachorros. Aceito mudanças para longe de casa. Quase fui num encontro às escuras porque minha irmã mais nova enche meu saco para que eu arranje um namorado.
Enquanto continuava a falar, despejou o molho shoyo nos legumes, misturando bastante e acrescentando mais temperos.
— Pode deixar que vou garantir a ele sim — ela riu, revirando os olhos ao deixar o celular de lado. — Eu acho muito legal tatuagens, pretendo mesmo fazer algumas, assim como pretendo ter um cachorro... E eu não acredito ainda que você tem uma cobra nessa casa, eu realmente sinto toda a minha pele se arrepiar só de pensar em estar no mesmo ambiente que uma cobra. — Mitzi dramatizou, fazendo rir. — Ei, eu gosto dessa ideia de encontro às escuras. Meu namorado tem uns amigos bem gatos e a gente pode arranjar isso. Se você quiser, posso falar com ele.
— Não me chame em sua casa quando comprar o cachorro. — disse, pensando na cena e fazendo uma careta. Pegou uma travessa menor e jogou o macarrão já seco, misturando com o molho e os legumes em seguida — Salazar é uma real mexicana. Juro que é a criatura mais dócil que eu já vi na vida, mas não acho que você irá acreditar... — Deixou a frase no ar, colocando a comida em cima da mesa e indo buscar os pratos e talheres. Estava jantando, meia-noite e alguma coisa, com uma desconhecida. A vida tinha peças engraçadas. gostava dessas peças. — Olha... Depende do seu nível de gatos. Eles não são "gatos" como Zac Efron ou esses galãs feios, não é? Quer dizer, são realmente bonitos, até sem barba?
, se eu estou aqui na presença de uma cobra, você também sobrevive a um cachorro! — Mitzi pontuou. — Até onde eu sei, a maioria usa barba, mas vou stalkear para saber se são bonitos sem barba também, porque ninguém merece galãs feios — balançou a cabeça e suspirou com o cheiro da comida. — Isso está com um cheiro muito bom e a minha barriga já deu sinal de vida.
Você nem sabia que tinha uma cobra aqui, espertinha. — Serviu-se, colocando tanto macarrão no próprio prato que já sentia a dor de barriga futura — Essa moda de usar barba para esconder a feiura é muito chata. — espetou um grande pedaço de pimentão e rodou no garfo — Tá bom mesmo, pode comer tudo. — A ruiva riu consigo mesma e negou com a cabeça — Mas escolha os mais bonitos ou o mais famoso na cama, não quero ver a cara antes de sair porque eu sou preconceituosa demais.
— Por isso é um encontro às escuras — a morena se serviu também, sentando-se ao lado de . — Eu não sei quem é o mais famoso na cama, mas pode ter certeza de que tenho bom gosto quanto aos mais bonitos... — Deixou a frase no ar.
— Eu sou uma pessoa que é naturalmente suspeita de todos até que se prove o contrário. — deu de ombros, mas não ligou pelo descaso — Seu gosto é realmente bom? Quero ver uma foto do seu namorado.
— Claro — Mitzi abriu o maior sorriso que podia e pegou seu celular, mostrando uma foto de Roman assim que desbloqueou o aparelho. No papel de parede ela estava dando um beijo na bochecha dele enquanto ele exibia as covinhas ao abrir um sorriso espontâneo, os olhos quase fechados. Então, ela abriu a galeria de fotos, na qual ela se mostrou uma verdadeira stalker. Tinha fotos dos mais variados, tanto do namorado sem camisa cozinhando, quanto dele dormindo ao seu lado debaixo das cobertas. — Vai, pode dizer que tenho um ótimo gosto.
— Hmmm... — fingiu pensar, estreitando os olhos para as fotos que Mitzi mostrava para ela — Aprovado, confio em você, pode armar esse encontro.
— Eu vou armar o melhor encontro às escuros que esse mundo já viu! — ela garantiu.
— Eu tenho medo disso, realmente tenho medo. — voltou a comer, rindo da empolgação da mais nova — Mas, se ele for feio, eu coloco Salazar para correr até sua casa. Ou rastejar.
As duas continuaram rindo e falando algumas besteiras boa parte da noite. tinha até tentado convencer Mitzi de que ela deveria conhecer Salazar. A operação não foi bem sucedida. Ao terminarem de jantar e lavar toda a louça, insistiu que deveria levar a mais nova em casa. Esforço enorme para quem morava na casa ao lado. Assim que a morena chegou em casa, uma mensagem foi enviada ao namorado informando que, sim, havia arranjado a pessoa perfeita para o amigo solitário dele.
Após o banho, Mitzi percebeu que gostava de conhecer pessoas novas e esquisitas.
Mitzi gostava de ser cupido.


03 – Darkness

23 de fevereiro, 2017


O lugar era exatamente como não deveria ser um encontro, fazia total jus ao termo às escuras. estava incomodada, não só pelo dedo ferido e a péssima mania que ela tinha de brincar com o que não deveria... Ora bolas, onde já se viu? Brincar com filhotes de lagartos! Sabia que o pedaço de seu dedo que descansava em paz no estômago da lagarta mãe estava merecido.
Os olhos castanhos encontraram o recepcionista e um sorriso envergonhado estava nos lábios da ruiva. estava se cagando de vergonha, medo e todos os modos que uma pessoa podia estar. Entretanto, também era como uma cobra que podia atacar a qualquer momento, estava quieta no canto, mas, a qualquer sinal de perigo, o bote seria dado. O velho ditado que era repetido para as pessoas que tinham medo dos animais rastejantes: eles têm mais medo de você do que você deles.
— Boa noite. — sorriu para o homem e tombou a cabeça. Olhava a todo instante para a parte escura onde os casais estavam se conhecendo — Um jantar às escuras na reserva de Mitzi Holtzmann.
Mitzi Holtzmann e Roman Bürki? não sabia se aquele era o nome do namorado da morena, mas ela sabia que tinha R no nome dele. Roman Bürki parecia um nome conhecido, ela só não lembrava o local que havia o ouvido. Provavelmente pela própria Mitzi.
— Sim, mas eu não sou ela. A reserva foi feita para mim. O encontro é meu. — Tinha vergonha em falar aquilo alto. Ela estava realmente apelando para um encontro às escuras. Jesus, estava muito mal mesmo.
— Oh! Mil perdões, Furtwängler?
— Exatamente.
— Aqui, senhorita. — O homem entregou uma lanterna para , disse que ela teria que encaixar na mesa para sinalizar que já estava ali. Não iluminava seu rosto ou mostrava quem ela era. — A luz ficará rosa quando a senhorita estiver na mesa reservada para seu encontro. Tenha uma boa noite.
Quanta tecnologia, pensou consigo mesma. Além de tudo, havia setas coloridas no chão que apontavam para todas as mesas e serviam como um caminho.

••••


estava nervoso, como quando ele tinha que tomar decisões importantes ou era colocado no segundo tempo de algum jogo para substituir Reus. Santa hora que tinha aceitado conselhos de Roman Bürki. Sabia que ele levaria a sério, agora, enfiar Mitzi no meio já era golpe baixo.
Boa noite — O loiro respirou fundo e pensou se alguém estava do lado de fora observando — Um jantar às escuras na reserva de Roman Bürki.
Roman Bürki e Mitzi Holtzmann? — A cena já havia se passado antes para o recepcionista.
— Sim, sim, mas para . — Praticamente sussurrou seu nome com medo de alguém ouvir. As pessoas ali sobreviviam de futebol, eram tão acostumadas, mas ao mesmo tempo tão afobadas.
— Aqui, senhor. — O homem entregou uma lanterna para , disse que ele teria que encaixar na mesa para sinalizar que já estava ali. Não iluminava seu rosto ou mostrava quem ele era. — A luz ficará rosa quando o senhor estiver na mesa reservada para seu encontro. Tenha uma boa noite.
soltou o ar e balançou a lanterna, observando o caminho de setas incandescentes até a mesa que estava reservada no nome do goleiro e sua namorada. O que ele não esperava era que, ao encostar em sua mesa, encontrasse a luz rosa informando que a pessoa que iria ter um encontro com ele já estava ali. Ele encaixou a lanterna para que a sua ficasse na mesma cor e coçou a garganta, pensando em milhões de coisas para dizer, ponderando em puxar assunto ou perguntar sobre o tempo.
Eu estou morrendo de medo. foi a primeira a se pronunciar, rindo em seguida e focando os olhos na luz rosa.
— Isso é esquisito, não é? — coçou a barba — Sua primeira vez em um?
— Sim. — Ela mordeu a boca por dentro — Já foi em algum antes?
— Nunca. — Ele encostou os cotovelos na mesa e passou a tentar procurar detalhes nela, mas as luzes da lanterna estavam diminuindo de cor. Tanto da própria mesa como as outras ao redor do restaurante. E então tudo estava escuro.
Por favor, retirem as lanternas da base. — A voz do recepcionista ecoou pelo local — Uma hora é dada para que conversem e se conheçam. Às 22 horas, as luzes serão acesas e vocês conhecerão seus devidos parceiros. Boa sorte e bom encontro.
e foram de uma vez tirar as lanternas e tocaram os dedos rapidamente. estranhou ao sentir uma textura diferente de pele no dedo da ruiva.
— Algo aconteceu? — perguntou quando desviou a mão e ele tirou as duas lanternas.
— Um lagarto arrancou a cabeça de meu dedo. — fez uma careta ao lembrar do momento — Eu fui brincar com um dos filhotes dela e aí ela achou meu dedo apetitoso.
Por que diabos você foi brincar com lagartos? — Foi a primeira reação que o jogador teve, pondo-se a rir em seguida.
— É o meu trabalho! — protestou, acompanhando a risada do homem — Eu trabalho no Serpentário Julian Hauptmann.
— Trabalha com cobras? É muita coragem. — Elogiou — Esse nome é altamente apto a trocadilhos com sentido pejorativo aqui em Dortmund. — segurou o riso, porque sabia muito bem do que a população chamava o local.
— Eu não entendi. — estreitou os olhos e pensou que não havia ouvido nenhuma vez ainda o tal trocadilho. Mas, bem, Mitzi havia falado algo de najas...
— Sabe quem é Mats Hummels?
— Hmm. — A ruiva pensou por alguns segundos — Não, não sei quem é.
— Sério? — Ele estranhou. Todo mundo naquela cidade sabia quem era Mats Hummels — É um antigo jogador do Borússia Dortmund. Só que ano passado ele meio que... trocou o time pelo Bayern de Munique. — explicou, e tentou não fazer uma careta ao perceber que ele estava falando de futebol. Só estava perdoado porque ela sabia que a cidade respirava futebol.
— Então, acham que ele é um traidor e chamam-o de cobra?
— O nome do meio dele é Julian e o sobrenome começa com H do mesmo jeito que os Hauptmann. Associam ele ao Serpentário, já que é um lugar para cobras. — riu ao lembrar de menções na internet sobre o assunto — Serpentário Mats Julian Hummels.
— Pesado. — gargalhou, negando com a cabeça — Minhas cobras estão ofendidas, saiba que elas são muito leais e gentis.
— Qual o nome de quem trabalha com cobras? — perguntou, interessado na característica peculiar que ela apresentava. Ele nunca tinha conhecido ninguém que trabalhava com cobras e dizia que elas eram gentis e leais.
— Herpetólogo, por mais que esse não seja um termo autorizado, é o de maior conhecimento. Mas você pode dizer que eu sou doutora em cobras, isso é mais fácil. — Ao perceber que estava falando demais, sorriu sem graça e mexeu nos cachos — Mas... você trabalha com o quê?
— Eu... — ficou receoso em dizer que era jogador. E se desse algo ruim? E se fosse alguém fofoqueira? — Trabalho com o namorado da Mitzi, Roman.
— Eu não sei com o que o Roman trabalha. — ficou sem graça.
— Ele... trabalha com segurança de objetos em movimentos. — Por dois segundos, a voz do homem pareceu conhecida para — Eu não deixo os objetos em movimentos chegarem até ele.
— Só isso?
— Isso e atingir o inimigo. — Sorriu contido, percebendo que nada fazia sentido para — Só não é tão legal ou importante como trabalhar com cobras e ser mordida por lagartos. — Permitiu-se rir, negando com a cabeça ao pensar como ele era criativo — Mas vamos ao que importa: você gosta de açaí?
Quem não gosta de açaí? quase berrou com a pergunta do homem. Tinha que pagar a bebida mais cara de qualquer bar para Mitzi pela ótima escolha — É a segunda melhor coisa do mundo.
— A primeira é batata.
— Batata é mundial! — A ruiva se empolgou — Tipo, é a única comida que reúne todas as tribos do mundo. Veganos, carnívoros, quem não gosta de gente, até as tribos canibais devem gostar de batata. Eles deviam tirar a pomba para símbolo da paz e fazer uma bandeira com uma batata. — estava rindo tanto que não conseguia nem respirar entre as falas e gargalhadas — Mas a primeira é brócolis!
— Eu só como brócolis porque é necessário. — fez uma careta — Como você gosta daquilo?
— Eu sou vegana. — deu de ombros, mesmo sabendo que o homem não conseguia ver — É minha obrigação exaltar a existência de brócolis nesse mundo.
— Vegana é quem não come nada de origem animal, não é? — Ele se interessou, encostando os cotovelos na mesa para tentar olhar no que deveria ser a direção dela.
— E produtos que não testam em animais, cosméticos também. Adoçante. Jujuba. Algumas roupas.
Jujuba? — O loiro se chocou — Como você é feliz?
— Consciência inibe a felicidade relacionada a esse tipo de comida. — A ruiva deu de ombros — Na verdade, eu sou meio que assim desde que nasci. Eu fazia meu pai comprar coisas veganas quando criança só de pirraça.
— Isso é maldade. — riu — Mas ele merecia?
— Digamos que essa era a única coisa que ele realmente fazia por mim.
— Hm, relação ruim? — Fez uma careta ao entender parte da situação.
— Péssima. — riu, lembrando de tudo — Eu saí de casa aos dezessete anos para você ter uma ideia. Consegui uma bolsa e fui morar na faculdade mesmo, trabalhava desde sempre e, como eu não gastava com quase nada, tinha uma boa quantidade de dinheiro acumulada.
— Bem, parabéns por tudo isso! Acho que metade desistiria ao chegar na metade de onde chegou. — Ele sorriu, mesmo ela não vendo — Você é daqui mesmo? — Uma pergunta que ligava outra coisas, foi isso que pensou ao perguntar. Falar sobre problemas familiares tão cedo era algo que ele tinha um certo receio.
— Eu precisava chegar, não é? E eu sou de Mainz. Morei minha vida inteira lá, mas fui transferida porque fecharam a sede dos Hauptmann de lá.
— Ah, isso é triste. Você trabalhava tinha muito tempo?
— Comecei aos dezenove anos, se eu não me engano. Thomás foi meu professor na faculdade e me ofereceu a vaga. — Deu de ombros, pensando mais uma vez que estava falando demais e que parecia uma tagarela ambulante. não gostava de ser uma tagarela ambulante. — Quero saber mais sobre você.
— Bem... Não se tem muito para saber sobre mim. Eu trabalho desde novo também, trabalhei em lugares diferentes e estive na Inglaterra nos últimos anos. Ano passado eu vim para Dortmund, mas eu sou de Ludwigshafen. Eu gosto de animais, mas não sei se eu conseguiria ter uma cobra em casa. Sou terrivelmente viciado em açaí e bacon quando posso comer... Eu tenho vinte e seis anos, faço vinte e sete dia seis de novembro.
Eu não acredito! — Por um momento, achou que a mulher tinha associado todas as informações e quis dar um passo para trás, porém sua cadeira não deixou — Você faz aniversário no mesmo dia que eu! E temos a mesma idade! Pena que eu não sou indiana, você podia ser o Wolfgang de minha vida como Kala.
— Você vê Sense8?
— Até o papa vê Sense8. — Dois segundos depois, percebeu a piadinha ruim e colocou a mão na boca — Acho que isso é blasfêmia.
— Podemos procurar depois. — quis rir, porém ficou apenas observando o lugar de onde a voz vinha. Ela tinha uma melodia tão gostosa e uma conversa ainda melhor. Céus, aquilo era melhor que o Tinder — Eu quero que as luzes acendam logo.
— Calma, gafanhoto. — disse — E se você me achar feia?
— Você é uma pessoa apaixonante demais para que eu pense algo ruim sobre. — Soltou, pensando depois que iria assustar a mulher daquele jeito.
Senhoras e senhores, as luzes se acenderão em cinco minutos.
Foi quase o momento em que teve um treco ali no meio do restaurante. Não lembrava nem mais o que o homem tinha dito e sabia que tinha que respondê-lo, mas seria muita grosseria perguntar de novo por ter ficado nervosa para caralho e esquecido?
batucou na mesa, pensando que poderia puxar um assunto aleatório, entretanto estava bem difícil porque ele só conseguia pensar em propagandas de comida e frases como suas definições de vírus foram atualizadas. E ele nem lembrava se a frase certa era aquela.
— Eu... — Sua frase foi interrompida por um feixe de luz no meio do restaurante, feixe esse que gerou mais outros e logo todo o local estava iluminado. Inclusive a mesa de e Grinch?
— Você....! — arregalou os olhos, pensando que ele era a porcaria do homem que tinha sido um grosso com ela durante os bastidores do jogo de Mainz. Ele era a porcaria de um jogador do time da cidade. — Você me chamou de Grinch?
— Você parecia emburrada como ele no dia que te conheci.
Você esbarrou em mim e ainda me chamou de cega! — Os olhos da mulher pareciam pegar fogo de raiva — O namorado da Mitzi é jogador também?
— Ele é nosso goleiro. — bagunçou os cabelos, irritado com aquilo. Roman estava lá quando a cena da água aconteceu e ele nem ao menos mencionara o fato de que a maluca que jogou água na cara dele iria para um encontro com ele.
— Eu sou a pessoa mais idiota desse mundo. — se jogou na cadeira de qualquer jeito e observou o homem à sua frente, pensando se enforcava-o ou cortava em pedaços para alimentar sua cobra — Eu vou embora.
— Mas... nós tivemos uma conversa legal!
— Tchau, .
— Estamos em desvantagem! — segurou o braço da ruiva, que já estava de pé em direção à saída — Você sabe quem eu sou e eu não sei nem seu nome.
Eu sei quem você é porque minha irmã ficou enchendo meu saco porque eu joguei água em sua cara. soltou o braço do homem e olhou tão feio em sua direção que ele deu realmente o passo para trás dessa vez — Meu nome é Furtwängler. Mas você sabe como é, eu sou o Grinch nas horas vagas.
E, assim como na primeira vez que eles tinham se encontrado, saiu de vez e deixou um com cara de bobão. A diferença, e única diferença, era que dessa vez sua cara estava seca.

••••


Mitzi Holtzmann! gritava com o telefone. A primeira coisa que tinha feito quando estacionara o carro longe o bastante foi ligar para a vizinha. No entanto, infelizmente para e felizmente para Mitzi, caiu na caixa postal. tinha tantos xingamentos que amaldiçoaria até a última geração dela — Você me colocou na porcaria de um encontro com ? Você sabe que ele foi um grosso comigo no jogo em Mainz e hoje teve ainda a audácia de me chamar de Grinch? grunhiu, revirando os olhos enquanto mexia no tecido do volante — Se você receber uma cobra gigante em sua casa, tenha certeza de que fui eu quem mandei.

••••


Roman, precisamos conversar, cara. — O tom de estava calmo e preocupado. Não ligava para a mensagem que a ligação tinha se tornado, porque tinha certeza que Roman estava fazendo coisas bem melhores numa quinta à noite — O encontro... Não sei se você lembra, mas aquela mulher que jogou água em meu rosto no jogo de Mainz... Ela é a amiga da Mitzi! Você chegou a conhecê-la? É uma pessoa amável, só que eu acho que ela não gostou de saber que, bem... Eu era eu. Gritou comigo e eu meio que... — Ele coçou a cabeça, um tanto desconfortável com o momento — … chamei-a de Grinch. Você acha que isso pode afetar em algo? Pergunta pra Mitzi se ela falou alguma coisa e me diz depois. Fica bem.


04 – Who cares about ?

26 de fevereiro, 2017


estaria com os olhos quase fechados se seu celular não estivesse despertando. Era um lembrete de que ela deveria colocar a comida de Salazar naquele momento. Fez uma careta ao lembrar, definitivamente era o que ela menos gostava em ter uma cobra. Claro, depois de limpar cocô.
não gostava de limpar cocô de cobra alguma.
Levantou da cama e colocou uma blusa transparente, já que estava somente de calcinha e a blusa era a mais próxima. Amarrou o emaranhado de fios num coque e esfregou os olhos. Salazar era uma cobra mexicana real, não tão adorada quanto às pítons e definitivamente não tão temida como as mambas. Tinha a coloração preta, era totalmente daquela cor e sua cabeça pequena fazia uma caracterização mais fofa. Era adorável!
Abriu o aquário e percebeu que a cobra estava embolada num dos galhos, estendendo a mão para servir de apoio à Salazar e trazendo a cobra até si.
— Você quer um lanche, neném? — Sua voz afetada para o bicho era algo que ficaria eternamente guardado em sete chaves — Vamos pegar seu lanchinho.
A cobra estava se embolando no braço da mulher enquanto que ela mexia no congelador para procurar a caixa com os ratos congelados.
Trimmmmmmmmmmm.
Trimmmmmmmmmmm.

O maldito interfone do condomínio.
Com toda certeza estavam ligando errado.
— Alô? — perguntou quando pendurou o telefone na orelha.
Senhorita Furtwängler? — Era a voz do porteiro e murmurou um 'Arrã' como resposta — está aqui pedindo autorização para entrar.
Eu estou descendo. — Foi a única coisa que sua raiva permitiu dizer.
Não se importou que estivesse de blusa e calcinha, muito menos com uma cobra rodando o próprio corpo. Estava irritada o bastante para não pensar em nada disso. Desceu as escadas, sem um pingo de paciência para esperar o elevador, e parou na entrada do condomínio, os olhos pegando fogo, enfurecidos.
, o que merda você está fazendo aqui? — Puxou o braço do homem com ignorância para mais longe dos outros.
! Oi! Eu... — Sua fala foi interrompida pelo puxão da ruiva. Quando seus pés frearam para onde a mulher estava o levando, ele percebeu como ela estava. A blusa desenhava totalmente seus seios, além de ser transparente o bastante para mostrar tudo. Não bastando isso, sua calcinha era pequena demais e tinha um furo, que dava acesso a pentelhos acobreados. Pelo menos ele sabia que ela era ruiva natural — Tem uma cobra no seu pescoço.
— Veio falar isso? Ótima observação, pode ir embora. — Já começou a arrastar o homem para a saída.
— Queria me desculpar por te chamar de Grinch no restaurante.
— 569 anos atrasado. Você realmente já pode ir embora, eu tenho que dar um rato morto para minha cobra comer e depois limpar bosta de cobra. Você já viu cobra cagando? Não é bonito. E está congelando aqui. Caso não tenha percebido, eu estou de calcinha e blusa. Pode me dar licença?
— E é por isso que eu te acho a personificação do Grinch! — A voz de soou mais alta e mais irritada — Porque metade de você é grosseria e a outra metade é sarcasmo! Você pode não ser sarcástica o tempo todo?
— Oh, claro, vossa mastejade perseguidora de bolas. — O tom de saiu mais irônico que nunca — Minha grosseria e sarcasmo estão irritando você? É mesmo? Que pena! — A ruiva gritou, fazendo quem estava passando olhar para ela — Você veio até meu apartamento, então você, , aguente minhas irônias e grosserias, porque não fui eu quem procurei você. Eu saí daquela porra de encontro e você foi o idiota que veio até aqui se desculpar por um apelido que eu não dou a mínima.
— Você é muito complicada! — bagunçou os cabelos, bufando em seguida — Mas... o que eu fiz para que você me odiasse? perguntou do jeito mais calmo possível para a ruiva. não se importava com os olhares em cima de si e muito menos com as pessoas que paravam para ouvir sua conversa com o jogador. Ou, bem, o fato de ela estar com uma cobra ao redor do pescoço.
, alguém já te ensinou que o mundo não gira ao redor de você? — riu, negando com a cabeça — Eu não te odeio. — Os olhos do homem quase brilharam — Não é como se você realmente significasse algo para mim para que eu sentisse algo tão forte como ódio por você. Não sei se já te falaram tal verdade inusitada antes, mas eu tenho uma bem verdadeira: você não é isso tudo.
Dizer que estava chocado era uma brincadeira de criança. Ele estava atônito. Tinha esquecido o nome, sobrenome, como se falava alemão e como fechava a boca.
Eu... Eu...
— Você vai embora antes que eu chame os seguranças. — Dito isso, a ruiva virou o corpo e começou a andar em direção ao prédio em que morava. A blusa estava com diversos furos atrás e a calcinha parecia ainda menor na parte da bunda.
! — gritou mais uma vez, fazendo rir e virar apenas o rosto enquanto brincava com Salazar — Isso significa que eu devo desistir de você?
— Eu não te dei motivos o bastante para desistir? — Ela gritou de volta, rindo pelas cócegas que o bicho fazia em sua mão.
Não.
— Então acho que você é idiota o bastante para continuar. — Ela deu de ombros, voltando a andar e virando uma última vez apenas quando a pergunta final fora feita.
— E quando eu vou te ver de novo?
— Dia 31 de fevereiro. — piscou, fechando a porta e esperando o elevador dessa vez.
— Okay! — gritou de volta — Espera aí, o mês acaba dia 28!
Pela primeira vez na vida, gostou do mês que acabava antes do dia 31.

••••


Ela é tão irritante! andava de um lado para outro no apartamento. Gesticulava com as mãos e fazia caras e bocas. Ele não parecia realmente chateado, soava mais como uma criança birrenta — Eu fui me desculpar, eu saí do treino mais cedo porque tinha coisas pendentes para fazer. Fui me desculpar! E sabe o que ela disse? Que tinha coisas mais importantes para fazer, como alimentar a cobra dela e depois limpar cocô.
— Bem... ela deve realmente se importar com a cobra dela. — Pierre murmurou, coçando os olhos de sono. havia acordado o homem porque precisava de conselhos de alguém neutro. Mario estava distanciado pelo tratamento e Marco tinha conseguido se auto lesionar. Não iria perturbar o juízo do homem logo cedo, mas isso ele podia muito bem fazer com Pierre — Quais as chances dessa mulher estar sendo apenas difícil?
— Bem... — coçou a cabeça, mordendo a boca por dentro — Eu perguntei se deveria desistir dela e ela disse que... se eu era idiota o bastante para continuar, não. E depois disse que tínhamos um encontro dia trinta e um de fevereiro.
— Eu gostei mais dela depois dessa informação — O negro riu, ficando mais desperto e indo até a geladeira do loiro para procurar algo que o alimentasse — Onde você disse que ela trabalha mesmo?
— Serpentário Hauptmann.
— Sim! Ela é a vegana, lembrei. Bem, vocês podiam ir para alguma fundação carente de animais abandonados.
— Soa bom para mim. Será que ela aceita se eu chamar? — mordeu a boca por dentro e soltou um suspiro longo, estalando o pescoço em seguida — Vou pedir o número dela para Mitzi. Será que ela me passa? Aliás, vou perguntar pra Mitzi o que ela acha dessa ideia!
se jogou no sofá, pegando o celular e mandando uma mensagem para a morena.

Eu estava pensando em chamar a para algum abrigo de cachorros e gatos abandonados, o que acha?


Não demorou muito até que Mitzi o respondesse, fazendo Auba e fixarem os olhos no visor de imediato.

Nem sonhe com isso! Ela morre de medo de cachorros, , e eu não quero ser ameaçada de morte novamente.


— Será que é muita malvadeza perguntar para Mitzi como foi que a sua garota a ameaçou? — Pierre quis saber, recebendo um empurrão de um sério.
— Ela não é minha garota. — repreendeu o amigo — Mitzi tem medo de cobra, lembra? Ela deve ter ameaçado com alguma cobra. — Concluiu, porque era óbvio para ele — Como alguém tem medo de cachorro? Isso é meio... esquisito.
— Do mesmo jeito que deve ser para ela alguém ter medo de cobra. Devemos respeitar os medos dos outros, . Mamãe não te ensinou isso?
— Ah, vai se foder. Eu nem sei por que eu chamei você. — O loiro rolou os olhos e soltou o ar longamente, voltando atenção para o telefone.

Ok, medo de cachorro. Plano cancelado. O que diabos ela gosta de fazer?


— Bem, você não tem medo de cobras. Por que não tenta algo com o próprio trabalho dela? — Aubameyang comia algo que não sabia de onde havia tirado, mas mastigava alguma coisa.
— Porque tudo o que eu quero é ser atacado por algo antes de algum jogo e não poder jogar, como se já não fosse desculpa o bastante desaprender a fazer gols. — Ao perceber que estava sendo dramático demais, ponderou a ideia — Eu vou perguntar para ela depois. Se a resposta for negativa, já sabe, nada disso. Desistirei e fim.

Também aceito o número dela.


O celular vibrou, avisando que Mitzi havia respondido.

Ela gosta de cobras! Use a sua cabeça, porque eu só consigo pensar em morte quando o assunto é esse.


pensou em maneiras incontáveis de zoar a mais nova, porém sentiu pena no momento seguinte e apenas mandou uma mensagem em agradecimento pela sugestão e pelo número de .
— Você tem o número? Está esperando mais o quê? — Pierre quase gritou ao lado do loiro, fazendo-o pular de susto, porque não lembrava que ele estava ali.
— Eu vou mandar, não me pressiona! — soou como uma criança e quis rir em seguida.

, oi, peguei seu número com a Mitzi, espero que não a mate.
Eu estava pensando se poderíamos sair para algo que você goste, ou eu posso conhecer o local que você trabalha e você me mostra como funcionam as coisas.
Mas só se você puder!
Tudo bem?


— Enviei. — O homem jogou o celular em cima da mesa e suspirou, arregalando os olhos quando ouviu a vibração vinda do aparelho e quase perdeu o telefone para um Pierre tão entusiasmado quanto ele.

Ok.


— O que isso significa? — Aubameyang foi o primeiro a se pronunciar.
— Eu acho que ela quer que eu vá ao trabalho dela.
Ok? — Pierre parecia cada vez mais abismado — OK?
Porém, não ligava. Ele gostou da ideia de uma resposta monossilábica porque gostava de suspense.
E gostava de suspense ainda mais quando estava envolvida.


05 – Forest

05 de março, 2017


não gostava de atrasos. Além de tudo, não gostava de dirigir. Mas ele precisava dirigir porque um “Ok” estava esperando por ele. Um “Ok” que deveria estar precisamente irritado e com motivos para isso. estava uma hora atrasado. Claro que depois do “Ok”, tinha dito quando estaria trabalhando e um dia bom para ele ir.
Ao estacionar o carro numa parte mais afastada do Serpentário, avistou uma figura ruiva e sorridente próxima a si. E, pelo fato de ser sorridente, já sabemos que não se tratava de .
Eric Hauptmann usava um boné para trás, bermuda no meio das canelas e uma camisa de manga longa. Ele parecia simplesmente feliz demais, e isso logo deixou desconfiado.
— Ei! — O ruivo foi o primeiro a se pronunciar, estendendo a mão para um cumprimento e, quando aceitou, rapidamente virou um abraço de quem era amigo há muito tempo — fala muito bem de você, cara. É bom te ter aqui.
fala bem de mim? — Foi a primeira reação que teve, estreitando os olhos.
— Na verdade não, ela fala mal de você o tempo inteiro. Eu quis ser legal, desculpa por ter iludido você. — Eric quis rir, só não o fez porque sabia que seria muita maldade — Mas aí, eu sou o Eric.
. — O jogador respondeu por cortesia e continuou seguindo o homem. — Onde a está?
— Ela está na área dos venenos, você quer esperar ou ir até lá?
— Posso ir até lá. — Decidiu, um sorriso mais alegre e menos forçado. De repente, percebeu que estava ficando feliz por ir encontrar com a ruiva. Andaram mais um pouco e Eric abriu a porta com cuidado, apontando com o queixo para a direção em que a ruiva se encontrava. Usava um jaleco branco, óculos transparentes, que protegiam toda área dos olhos, luvas grossas e uma serpente enorme na mão — Ela está tirando o veneno da cobra?
— Sim, normalmente é coletado um pouco para que um antídoto seja feito. — Ele explicou, apontando para algumas caixas de vidro onde cobras de diversas espécies estavam espalhadas — Ela estava suspensa nos últimos dias porque um lagarto arrancou a cabeça do dedo dela, mas já está menos feio e ela implorou para voltar a trabalhar.
— Ela gosta mesmo de trabalhar aqui, não é? — tentava tirar o sorriso bobo do rosto, até o momento que percebeu que Eric olhava para a mulher quase do mesmo jeito que ele. Fez uma careta ao perceber a situação e segurou o riso.
— Somos muito sortudos por tê-la, agradeço todo dia por Thomás ter mandado-a até Dortmund e não Berlim. Ela é uma excelente profissional.
— Vocês estão falando muito alto. — Do outro lado, a voz de foi ouvida — Caso não tenham percebido, eu tenho uma mamba negra em mãos e pretendo viver muitos anos antes de morrer pelo veneno de uma delas. — Levantou a cabeça, olhando feio para os dois homens. estava estressada e, pela primeira vez na vida, com medo de uma cobra. Não porque era a assustadora mamba negra, mas porque ela estava assustada. A cobra podia sentir o medo de e estava bastante agitada, movia o corpo em agonia e parecia querer se soltar daquilo o mais rápido possível. Assim que coletou a quantidade necessária de veneno, aplicou uma dose forte de um sedativo em Utah e esperou até a cobra estar completamente desacordada para colocá-la em seu aquário. Fechou a tampa e voltou sua atenção para o veneno, balançando o frasco entre os dedos antes de anotar a identificação da cobra e pôr junto com as outras. Tirou o jaleco e os óculos, sentindo os dedos suados por baixo das luvas e procurando uma janela para pendurar — , você está uma hora atrasado e tem sorte que isso não seja o que vai beber hoje. — Apontou para os venenos e sorriu para o homem enquanto lavava as mãos — Eric, eu já disse que você devia calar a boca enquanto as pessoas mexem com cobras venenosas.
— Bom dia, . — Sua voz soou mais grossa e mais firme. tinha os olhos em cima dela sem ao menos disfarçar.
— Venha cá, quero te mostrar algo. — Ela disse, ignorando a saudação do homem. Eric se despediu dos dois e saiu porta afora — Essa é a Utah, ela é uma mamba negra. São cobras encontradas na África e altamente venenosas, são chamadas assim porque a parte de dentro da boca delas é negra. A família mamba em si é muito perigosa.
— Você parece não ter medo delas. — comentou, notando a admiração que a menina tinha pelas cobras só pelo olhar apaixonado dela em cima dos répteis.
— Eu não tenho. — respondeu, olhando para ele por cima do ombro — Já fui mordida por cobras milhões de vezes, isso não me faz ter medo delas porque eu sei que elas estão se defendendo de mim.
— Elas sentem quando a pessoa está com medo? — confirmou a pergunta do homem, observando as outras cobras acordadas — Você deu um sedativo para Utah?
— Ela estava muito agitada e eu não queria ser mordida por alguma de jeito nenhum. — deu uma risada nervosa, mordendo a boca por dentro e negando com a cabeça — Deixa eu mostrar uma coisinha. — foi até o que parecia ser uma geladeira e pegou uma pequena bolsa de sangue, não havia mais que 100ml ali — Isso é sangue humano, deixamos algumas amostras aqui para os antídotos. — Logo depois ela estava colocando a luva, o jaleco e os óculos novamente. Colocou todo o sangue num recipiente redondo e foi até o veneno da mamba, usando um medidor de gotas e pegando apenas duas gotinhas, deixou ambas caírem em cima do sangue humano e mexeu para que espalhasse por dentro. Não bastaram cinco segundos para que todo o líquido estivesse coagulado, formando o que mais parecia uma gelatina de sangue humano.
E você me diz que ela não te dá medo? pareceu perplexo, olhando para o sangue com terror — Elas não podem quebrar nenhum desses vidros, não é? Quer dizer, não tem nenhuma espécie super inteligente que pode convencer as outras de que os humanos são criaturas malvadas e matar todos nós... não é?
— Não estamos em Planeta dos Macacos, . — respondeu, séria, e notou que assim que ela virava em sua direção, seu sorriso sumia. Como se ela estivesse apenas engolindo e aturando porque queria ser legal. não gostou da sensação que tal atitude passava.
— Tudo bem, sem filmes. — Ele sorriu, um tanto envergonhado por aquilo — Você viu o jogo sábado? Ganhamos por seis a dois.
Eu não gosto de futebol. — Ela voltou a tirar os equipamentos de si, bagunçando um pouco o cabelo, atitude que achou muito sexy.
— Bem, eu fiz um gol. — O jogador sorriu ainda mais envergonhado, não sabia o que diabos estava fazendo ali e, se Pierre o visse naquela situação, iria rir até o fim dos dias.
Bem, você é pago para isso, não é? — A cada palavra dela, se perguntava por que ele mesmo não entrava no aquário da mamba e esperava a morte.
— Com esse gol, eu completei 50 desde que entrei no... Ah, você não se importa, não é?
— Não. — sorriu sem mostrar os dentes — Mas eu vou abrir uma exceção e fingir que sou legal. O que aconteceu no jogo?
— Bem, foi um jogo da Bundesliga, não acontece muita coisa além de sofrimento e ansiedade. Continuamos em terceiro lugar no placar.
— Quem está em primeiro? — saiu da sala de venenos com em sua cola. Ele nem sabia se a mulher estava o levando para o meio de um lugar com aquelas cobras assustadoras e iria jogá-lo lá, só a seguia.
— O Bayern de Munique.
— Ah, o time da naja. — riu ao lembrar da referência. achou aquilo extremamente estranho pelo simples fato de que ela estava rindo mesmo. Não forçando um sorriso que parecia mais uma amostra de caninos, um sorriso real — E quando é o próximo jogo?
— Essa semana, contra o Benfica de Lisboa. Só que aí estamos jogando na UCL. — assentiu, não entendendo nadinha do que o homem falava. Um bip soou de sua calça e ela pegou um walk-talk que não havia notado até então.
falando.
— Eu preciso que alguém alimente as cobras reais. — Eric falou do outro lado da linha, fazendo rolar os olhos.
— Vai se foder. — Murmurou com certo desprezo — Vá fazer isso, eu não encosto lá. Tchau. — E desligou como se estivesse falando com qualquer pessoa, menos seu chefe.
— Primeiro você manda ele calar a boca e agora manda se foder. Se eu falasse isso para o Tuchel, ele me mandaria correr todo o campo até o dia seguinte.
— Ah, isso não é nada. — A ruiva balançou a cabeça, voltando a guardar o walk-talk no bolso — Ninguém leva Eric a sério, nem ele mesmo.
— Você já notou o jeito que ele te olha? — arregalou os olhos para dar ênfase, negando com a cabeça ao rir — Ele está caidinho por você.
— Eu acho que não. — parou de andar, parecia pensar na situação — Bem, não seria de todo um mal. — Aquele foi o fim da linha. sentiu-se a pessoa, com toda certeza, mais idiota do mundo por estar ali — De um jeito ou de outro, eu nunca alimento uma cobra real. Nem quando eu trabalhava com Thomás e nem se eu trabalhasse com Eva.
— O que tem nisso? — Ele perguntou, pensando em qualquer desculpa para ir embora. Estava apenas perdendo seu tempo ali.
— Elas são canibais. — respondeu, abrindo uma porta que dava para um lugar fabuloso — Existem outras espécies que também são, como as najas cuspideiras moçambicanas e raras espécies das mambas, mas essas comem outras coisas também.
— Isso é estranho. — fez uma careta, só no momento depois percebendo o local ao redor deles.
Era o quintal do Serpentário Julian Hauptmann. Árvores tomavam conta de todo o local e nem mesmo a rede de proteção, alta demais e muito grande, atrapalhava a beleza. Flores de diversas espécies coloriam o local e até parecia ser melhor de respirar ali. Havia uma espécie de cachoeira mais distante, com rochas e uma vista maravilhosa de carpas enormes nadando pelo lago. Era climatizado, por isso dava a impressão de estarem num país que não existia o inverno rigoroso da Alemanha. Só então, depois de muito tempo admirando a paisagem e querendo encostar numa das árvores para observar qual era a fruta que tinha ali, avistou uma jiboia imensa ao redor de um dos galhos.
Logo depois ele avistou mais uma cobra que não soube a espécie, até perceber mais uma passando pelos seus pés e outras milhares de serpentes por todo o local.
Ele estava na casa delas.
— Você pode ameaçar Mitzi com esse local. — Respirou fundo, tentando não pensar que cobras de variadas espécies estavam passando do lado de seus pés — Como elas vivem em harmonia?
— Porque elas não são inimigas uma das outras. Espécies como a píton real ou até mesmo algumas betas, que são violentas para outra espécie, não ficam por aqui. Não é seguro manter as cobras com elas por perto. Aqui é a enfermaria, também o berçário, mas essa parte é mais adiante. Aqui trazemos as cobras resgatadas e que são encontradas pela redondeza. Nessa época do ano, é mais comum pelo clima. Também adotamos cobras abandonadas, o que são casos raros, mas atendemos outros países também.
— Isso é maravilhoso. — parecia encantado, tanto pelo trabalho da mulher como pela sua paixão direcionada aos animais — Você já trabalhou com isso em outros países?
— Fiz alguns estágios na África e na América do Sul. — respondeu, apontando para o chão, local que sentou logo em seguida. O homem fez o mesmo, sentando ao lado dela e observando as cobras.
— Você gostou? — Indagou, passando a mão pelos cabelos e trazendo os joelhos para perto de si. O loiro encostou a cabeça nos joelhos e virou o rosto na direção de — Me desculpe por ter atrapalhado você naquele dia, que você tinha que colocar comida para sua cobra. E, claro, por ter te chamado de Grinch.
— É um apelido muito criativo, eu devo informar. — gargalhou e observou uma coral pequenina que passava por ali — O da América do Sul foi mais interessante porque... existiam muito mais cobras de porte do que venenosas. Na África, eu só torcia para não encontrar nenhuma cobra venenosa. Eu era tão nova na época que tinha pesadelos com elas.
— Você já entrou na faculdade sabendo o que iria fazer?
— Você acredita que não? Eu entrei querendo fazer biologia marinha para estudar tubarões. — A ideia soava absurda demais na cabeça da ruiva àquela altura do campeonato — Mas aí eu errei de porta na aula e acabei indo para a aula de Thomás Hauptmann, nem estava na minha grade. Com certeza foi a melhor coisa que já me aconteceu. Comecei a ficar obcecada com répteis e aí ele me chamou para estagiar no Serpentário de Mainz. Foi em nome do Serpentário que eu fui para os dois continentes estudar cobras.
Não consigo imaginar você trabalhando com tubarões. — O pensamento fez rir — Você já gostava de cobras ou foi ali que se apaixonou?
— Já gostava, mas não tanto. Animais em geral sempre foram o meu forte, menos cachorros. Deus do céu, eu morro de medo de cachorros.
— Ok, não vamos falar de cachorros. Mas... — estava interessado, e percebia claramente isso — Cobras e tubarões... Por quê?
— Quando eu era criança, sempre morri de medo de cobras e tubarões. Qualquer tipo. Mesmo assim era viciada em filmes bem lixo de ambas espécies. Um dia eu vi um documentário que falava sobre a comunidade de répteis e como criá-los em casa. Fiquei apaixonada e chorei muito até conseguir ver uma cobra de perto. Foi uma píton real, lembro como se fosse ontem. Anos depois, eu viajei e fui mergulhar com tubarões e disse que queria aquilo para o resto de minha vida. Meu intuito era perder o medo dos dois animais.
— Quando você conseguiu Salazar? — Ele torceu para não ter errado o nome da cobra e percebeu que não tinha feito nada absurdo enquanto o sorriso dela era mantido.
— Foi um presente de Thomás quando eu consegui o emprego no serpentário, eu tinha... dezenove anos! Estava no quinto semestre de biologia, mas já sabia qual seria minha especialidade justamente pelas presença dele em minha vida. Nunca fui a favor de criar animais em casa e prendê-los do mundo lá fora, mas Salazar tem uma deficiência. O corpo da cobra não cresceu o bastante e ele não tem força para caçar. Ia ser comido por outras cobras, já que veneno ele também não possui. Eu criava ratos no começo para alimentá-lo, mas não dá. Respeito a cadeia alimentar dos animais, contudo, ainda é doloroso para mim ver um comendo outro. Às vezes eu tento pensar que é uma cenoura branca e peluda.
Foi aí que não se aguentou nas gargalhadas. Uma cenoura branca e peluda. O homem ria tanto que doía sua barriga e ele estava começando a ficar com medo de alguma das serpentes achar que ele era uma ameaça pela tremedeira que seu corpo estava passando.
não tinha gostado daquilo, tinha um bico emburrado nos lábios e olhos espremidos. Ela parecia muito bem uma adolescente de dezessete anos. Mas parou de rir imediatamente ao perceber que sim, ela estava falando sério.
— Você não estava brincando, não é? — negou com a cabeça, olhando atentamente para o loiro.
— E eu sugiro que você fique quietinho, porque tem uma píton atrás de você.
Das que comem outras cobras?
— Das que comem gente. — não conseguiu conter a risada maléfica, levantando e indo até a cobra. O mais engraçado de tudo, e também bizarro, era que a ruiva parecia encantar as serpentes. Elas simplesmente obedeciam-na e nem pareciam pestanejar enquanto a pegava nos braços. A cobra era literalmente enorme e tão grossa que os braços de pareciam dois varetos — O nome dela é Olívia Palito.
— Vocês são bem criativos para nomes, não são? — deu uma risada nervosa enquanto parecia ter Nagini em seu corpo — Quais as chances da cobra quebrar todos os seus ossos e te matar?
— Nenhuma, ela sabe que eu gosto dela. Olívia também se alimentou semana passada.
Semana passada?
— Cobras desse porte se alimentam poucas vezes, , mas, quando o fazem, é com animais grandes. Você acha que existem lendas e filmes sobre anacondas por quê? Existem relatos de vacas, cavalos e até mesmo jacarés ou crocodilos que foram comidos por cobras. Mas no máximo uma pessoa por década. — Riu como se estivesse contando a piada mais engraçada do mundo — Ela foi abandonada pelos antigos donos, ele disse que ela estava o medindo para comer. Você acredita que ele queria alimentá-la com ratos? Claro que ela estava o medindo para comer!
— Eu ainda não sei lidar com isso. — engoliu em seco, sentindo que a cobra estava encarando-o — Nós podemos sair qualquer dia desses?
— Sair para onde? — parecia bastante desinteressada em enquanto brincava com a cobra.
— Podemos ir para algum bar ou não sei... O que você gosta de fazer? Eu desconheço seus gostos, .
— Eu gosto de fazer muitas coisas, . — Ela soltou a cobra, que estava se arrastando para longe dos dois — Apostar corrida, viajar, transar, comer, fazer maratonas de filmes, ir para bem longe do país, jogar sinuca, brincar de strip poker, estar com cobras, irritar meu pai, beber até esquecer meu nome, lugares altos, nadar, andar de avião... Mas, nos últimos dias, eu tenho gostado bastante de irritar você.
— Você é tão complicada. — Ele passou as mãos pelos cabelos e fixou os olhos em qualquer outro lugar, observando as cobras tão calmas quanto se sentia naquele momento — Você gosta de conversar? Porque foi essa minha intenção ao vir para cá, . Conversar com você. Te conhecer.
— Tudo bem, me conte coisas nojentas sobre você. — olhou fixamente para , uma sobrancelha arqueada e um sorriso maldoso no rosto.
Coisas nojentas sobre mim? pareceu não entender — Me dê um exemplo.
— Ah, eu não sei. Tipo... — ponderou, soltando um suspiro em seguida — Eu fico acumulando xixi. Não acumular no sentido de não fazer, acumular no sentido de fazer xixi e só dar descarga depois de algumas vezes. Gasta muita água fazer xixi e dar descarga toda hora. Até porque eu bebo muita água.
— Bem, é uma boa causa. — chegou a conclusão, mordendo a boca por dentro — Eu tenho uma cicatriz no umbigo, fico mexendo nela e depois cheiro. Tem um cheiro horrível.
— Ah, eu fico cheirando meu pum. — deu de ombros — Eu solto pum debaixo da coberta e vou cheirar depois, mas nunca tem cheiro nenhum porque eu não como nada que me deixe podre além de repolho.
estava gargalhando da sinceridade dela, negando com a cabeça enquanto pensava em mais alguma coisa.
— Tudo que fica de comida em meu dedo eu lambo, é a melhor parte de comer. — fez uma careta, se pondo a rir logo em seguida e ainda achando nojento.
— Às vezes eu saio com Salazar para o terraço para ele fazer cocô lá e eu não ter que limpar cocô dele.
— Eu esqueço de ficar olhando as comidas na geladeira e, mesmo estando estragado, eu como para não ter que sair pra comprar. — Ele mordeu a boca e pensou em algo mais engraçado — Ou quando eu estava tendo sangramento nasais. Ainda morava com a minha ex, então eu usava os absorventes internos dela para conter o sangue e não ter que ir para o hospital.
E esse foi o fim da linha para . Ela começou a rir de forma tão engraçada que qualquer uma das cobras poderia achar que ela era o almoço. Porém, não acharam, continuaram passando por ela como se nada tivesse acontecido, aumentando o ponto de que a ruiva encantava as cobras.
Eu tenho algo para você! lembrou de uma coisinha fofa no berçário e levantou de supetão, puxando o homem, que estava morrendo de medo de qualquer movimento em falso e, pior ainda, de qualquer cobra faminta. Com toda certeza ele teria pesadelos com aquilo. Subiram algumas escadas e “BERÇÁRIO” estava escrito numa placa verde. abriu a porta e, na mesma empolgação, foi procurar a casa dos bebês. Pegou uma cobra que o tom pendia numa mistura de verde e marrom e segurou com cuidado nela. Era pequena ainda, mas a cabeça era claramente maior que o corpo — Ele se chama Mats Hummels.
olhou para a cobra com medo de ser atacado, já que ela tinha um olhar bem aterrorizante, mas estava segurando, então não tinha problema.
— Então eu não vou chegar perto, porque ela provavelmente vai fingir que é legal e dar o bote em seguida. — estreitou os olhos e sorriu para a cobra — Qual a espécie?
— Píton real, da que come outras cobras. Por isso o nome. — A ruiva colocou-a de volta no aquário e apontou para a porta com o queixo — Elas são meio nojentas, então não aconselho que você pegue em qualquer uma porque eu estou sentindo seu medo.
Assim que chegaram na porta, o telefone de começou a piscar e tocar como se fosse uma festa no bolso dela. soltou um suspiro aliviado e desativou o alarme, mexendo no telefone antes de voltar a atenção para o homem.
— Eu tenho que ir almoçar, você vai embora agora? Porque eu não vou ficar aqui. — Para início, a falta de convite para almoçar com ela foi uma pontada atrevida no coração do jogador. Ele era um pouco sentimental, mas aquilo já era uma apelação para o ridículo — Vamos, eu te levo até o estacionamento, que meu carro está lá também.
Sem nem esperar resposta do homem, seguiu adiante entre a floresta até a saída, continuou andando e pegou sua bolsa em alguma sala, que nem viu de onde surgiu. Ao chegar no estacionamento e destravar o carro, murmurou algo que não entendeu, beijou a bochecha do homem e sumiu dentro do próprio veículo.
parou, continuando olhando o carro da mulher sumir diante de sua vista e ponderando se ele era muito idiota ou idiota ao extremo.
não gostou de se sentir muito idiota ao extremo.


06 – Speaking of the Devil – I

08 de março, 2017


Era quarta-feira e estava com sono. Ela não gostava de sentir sono o tempo inteiro, mas isso infelizmente já parecia fazer parte de si. Seus olhos estavam fechando aos poucos, e ela jurava que ficaria acordada o bastante para assistir o final do filme que passava — não que ela soubesse qual era.
Seu celular estava tocando há alguns minutos e, quando finalmente associou que aquele não era o toque de sua irmã, puxou o aparelho até perto de seus olhos. Mitzi Bürki piscava na tela. Sabia muito bem que o sobrenome da amiga era outro, mas no momento em que olhara a primeira foto dos dois juntos, disse que, em alguns anos, o sobrenome da morena estaria daquele jeito.
— Por favor, me diga que você tem um plano para quarta à noite. — nem esperou Mitzi falar algo quando a atacou com uma enxurrada de palavras.
— Boa noite para você também, meu amor! Como foi seu dia? — Mitzi perguntou, animada, rindo em seguida do desespero de .
— Foi ótimo, posso descrever detalhadamente o nascimento de algumas cobras e como foi brincar com outras elas, ainda sinto as escamas deslizando pelo meu corpo... — ironizou, rolando os olhos em seguida.
— É agora que desligo na sua cara?
— Boa noite, Mitzi! Meu dia foi ótimo! E o seu? Quer me contar por que me liga nessa hora? — falava de um jeito extremamente doce. Além de forçado, era muito engraçado. Parecia mais um sotaque inglês muito fajuto.
— O meu também foi ótimo, fui ver o jogo hoje e a muralha estava totalmente incrível! Saí da aula tediosa de cálculo direto para lá e foi a melhor coisa que eu pude fazer. Mas foco no propósito dessa ligação, você está intimada para um jantar no apartamento do Roman. Só que eu tenho uma regra: sem cobras.
— O que é a muralha? Você estava em Berlim? — ficou confusa por alguns segundos, estreitando os olhos para pensar melhor e chegando à conclusão de que não fazia ideia do que a mais nova estava falando — Ok, jantar na casa dele. Vai ter bebida? Porque eu vou de táxi mesmo, não quero levar multa. E por que diabos eu levaria minha cobra? — A ideia era tentadora, não podia negar. Foi até seu closet e começou a separar vestidos, observando as roupas — Com que roupa eu vou?
! — Mit não conseguiu segurar as gargalhadas. — Muralha amarela é como chamamos a torcida organizada do Borússia, você precisa estar no meio um dia, é... Inexplicável a sensação. Vai ter bebida sim, ainda bem que não vai levar a cobra, e pode usar qualquer roupa, não é uma festa.
— Oh, eu não pequei por pensar isso em Dortmund, não é? — bufou, rolando os olhos — Eu não gosto muito de futebol, já te disse. A pessoa mais bonita do time é seu homem, o é um pé no saco na maior parte do tempo e aquele bonito lá narigudo que vive se lesionando tem cara de quem beija de olho aberto. — Resmungava, porque era isso que gostava de fazer, reclamar da vida — Ok, vou de táxi, me manda o endereço que eu aproveito e vendo para qualquer site depois. — Escolheu um vestido preto simples. Era mais grosso, pela temperatura, e longo, com duas fendas que amarrava sempre que estava bêbada demais — Chego aí em meia hora, sem cobras e pronta para beber e comer. Você fez pratos veganos, não fez?
— EU NASCI PARA TE AMAR — a morena gargalhou novamente com os comentários de . — Eu preciso contar para o Roman que você chamou o Marco de narigudo e ainda falou que ele beija de olho aberto, eu tô morrendo. — Mitzi passou mais alguns segundos rindo, antes de conseguir respirar. — Para de graça, não vai vender nada e é claro que nós fizemos pratos veganos. Käsespätzle é a especialidade do meu namorado e preparamos só para você.
— Você me ama demais para o bem de Roman Bürki, mas eu estava olhando as mãos dele e percebi o porquê. O homem sabe usar os dedos, não é? — disparou, gargalhando em seguida e deixando o telefone no viva-voz. Tomou um banho rápido enquanto ria da amiga, pensando o quanto ela sentia falta de amizades femininas a maior parte do tempo e que Mitzi era sua metade perdida em Dortmund — Marco, isso, esse é o nome dele. Ele tem cara de bocó, tipo, mesmo. — Se enfiava no vestido enquanto soltava o cabelo — Ótimo, eu estou faminta. Vou ajeitar minha cara e chego já aí, nos vemos na casa do Roman?
— Você é ótima — Mit ria junto sem parar. — Sim, nos vemos. Um beijo e não demora.
— Não vou. — fez um barulho de beijo e desligou o telefone em seguida. Colocou o aparelho na tomada para pegar uma carga e deixou sua playlist tocando aleatoriamente. Supermassive Black Hole era a música que tocava e isso a inspirou a esfumar os olhos levemente e passar um batom vermelho, destacando seus lábios. Não mexeu na pele muito porque amava as sardas. Um colar, botas e pronto! estava pronta. Verificou se Salazar estava bem e pegou todos os documentos necessários, chamou o Uber pelo aplicativo, sem paciência para táxi, e já estava dando o endereço do apartamento. Tirou uma foto com o vestido e postou em sua story do Instagram.
Senhorita? ouviu o motorista chamar sua atenção e virou o rosto na direção do homem, percebendo que ele já havia parado há algum tempo e que provavelmente já estava em frente ao apartamento de Roman. se desculpou e pagou a viagem, descendo do carro e respirando fundo. Identificou-se na portaria e seu nome já estava lá autorizado. O porteiro informou qual prédio era e todas as outras informações.
Pouco tempo depois, já estava tocando a campainha do apartamento indicado. Sentiu-se extremamente intimidada quando uma figura gigante abriu a porta. Roman parecia maior que o portal, e agora havia entendido por que ele era o goleiro daquele time. Era quase do tamanho da trave.
Você é enorme. soltou, olhando para os pés e pensando que ela parecia um umpa lumpa perto do homem — Você parece um urso pardo, já tentou ficar ao lado de um?
— Ainda não — ele riu. — Você é a , certo? Pode entrar — deu espaço para a ruiva. — Fica à vontade. Segundo a Mit, você já é de casa.
— Eu acho que você é quase do tamanho de uma píton albina. Da filhote, é claro. — confirmou com a cabeça, entrando na casa do homem e rindo em seguida — Eu tento ter educada e passar uma imagem de boa moça, mas Mitzi me obriga a ser assim. — Ela sentou no sofá e sorriu ao olhar fotos de Mitzi e Roman — Que horas o chega? Porque vocês não vão celebrar algo com uma vela no meio, que sou eu, claro. Mitzi apronta por mim e você, pelo seu amigo.
— Que ótima comparação, a Mit falou mesmo que você adora cobras e ela fica pra morrer a qualquer segundo — o homem cruzou os braços. — já, já deve chegar, e a Mitzi estava terminando de arrumar as coisas para o jantar... Você aceita algo? Uma água, vinho?
— Eu vivo com cobras o dia inteiro, é automática a associação. Sim, ela tem medo, não é? Isso é chato. — fez uma careta porque ela sabia como era horrível ter medo de algo — Eu aceito... — A campainha tocou e a ruiva fez uma careta — O que vai me fazer ficar bêbada mais rápido? O que você tiver de mais forte. Eu abro a porta.
Roman gargalhou, confirmando com a cabeça enquanto ia até a cozinha e procurava algo para beber. , por sua vez, estava em frente à porta, com um sorriso venenoso no rosto.
— Se você me disser que já sabia o que eles estavam planejando, eu corto seu amigo aí de baixo. — Ela olhou para o meio das pernas dele e sorriu venenosa, dando espaço para o loiro passar.
— Você não sabe cumprimentar as pessoas? — alfinetou, entrando na casa do amigo com uma garrafa de tequila na mão — Eu estou ótimo, , que bom que você se preocupa! Meu dia também foi muito interessante.
— Interessante esquentando o banco do seu time? — A ruiva abriu um sorriso maior ainda, indo até Roman e pegando o copo que ele tinha em mãos — Eu vou atrás da Mitzi. Não tem cueca sua pelo quarto não, certo? — gritou para Roman, sumindo da vista dos dois e deixando os dois homens perplexos.
— Essa mulher é louca — Roman comentou com o amigo, ainda rindo com a testa franzida, sem entender muita coisa.
— Eu sei disso, sei bem. Mas ela... Eu não sei, é como se a parte maluca não fosse agradável quando você conhece. — deu de ombros, voltando atenção ao amigo — Como você conseguiu chegar tão rápido aqui e ainda cozinhar? Mal consegui te parabenizar pelas defesas hoje. — riu, colocando a tequila na mesa e ouvindo os murmúrios femininos — Eu acho mais fácil Mitzi e virarem um casal do que e eu.
É o quê? — Roman gargalhou, ciente que aquela noite seria no mínimo interessante. — Você já se apaixonou, ? Porque isso soou fofo demais. A Mitzi me ajudou com tudo. Fora isso, estou treinando para ser o próximo flash.
— Não! — arregalou os olhos, rindo de Roman — Fora isso, ela é realmente uma pessoa muito agradável de se conviver. Ela é espontânea, sabe? Eu gostei disso. — Se jogou no sofá, rindo do amigo e negando com a cabeça — Fastest goalkeeper alive.
— Por enquanto eu aceito um "eu gosto disso". Assim como aceito esse bordão, é ótimo — o goleiro riu, sentando ao lado de .
— Você não acha mesmo que algo entre eu e ela vai acontecer, não é? Ela não me suporta. Sabe quantas vezes eu sou ameaçado quando estou com ela? — Fez uma careta, rindo em seguida.
E eu percebi que ele aparenta mesmo estar a fim de mim. Tipo, eu não sei o que pode acontecer, mas eu achei interessante. — Foi o que conseguiu ouvir de , que voltava do quarto com o copo vazio e Mitzi ao seu lado — Ah, oi, vocês. Não tinha cueca do Roman no chão.
— Oi, , tudo bom? — Mitzi cumprimentou , se sentando ao lado do namorado. — É bom que todo mundo já se conhece agora, né?!
— A única pessoa que faltava conhecer era o Roman, e eu já o conheci cinco minutos atrás. — rolou os olhos, se encostando na parede — Eu quero comer.
— Aliás, prazer em conhecer a famosa , não parava de falar de você — Roman provocou, dando um olhar cúmplice para Mitzi.
— O chora todo dia por não ter meu corpo nu em sua cama. — brincou, piscando para o loiro, que parecia querer se jogar do andar naquele exato momento. Além de estar muito vermelho, parecia inchado como se estivesse sem ar.
— Em primeiro lugar, vocês se conhecem indiretamente porque você, Roman Bürki, estava lá quando essa garota jogou água em minha cara e saiu andando. — murmurou, ficando mais vermelho do que já estava — E eu não choro por não ter você, por favor, existem coisas mais importantes para me fazer chorar, como a falta de açaí em meu congelador.
— Eu adoro vocês — Mitzi sorria, quase batendo palmas. — E podem me contando melhor essa história de jogar na água na cara.
— Roman, você pode dizer para a sua namorada que isso não é um circo? — estreitou os olhos, rolando-os em seguida — Se vocês não se importam, eu vou comer. — Levantou e seguiu em direção à cozinha, sem se importar com os outros.
— Eu esbarrei com ela no jogo em Mainz e fui grosso com ela. Aí ela jogou água gelada na minha cara e saiu. Fim. — explicou de forma calma para a amiga — E, como podemos ver, ela guarda certo rancor até hoje.
Você me chamou de Grinch no encontro! gritou da cozinha.
— Eu fui até sua casa pedir desculpas e você disse que limpar cocô de cobra era mais legal! — gritou de volta — Ela é rancorosa.
Grinch é definitivamente o melhor apelido — Mit comentou baixinho, ainda rindo dos dois. — Ei, , vamos todos jantar juntos! Vamos, rapazes, levantem daí.
— Eu pensei que eu ia comer tudo sozinha. — reclamou. Já estava com o prato posto e analisava a comida atentamente, só para saber se tinha algo que ela podia comer ou não — Roman, você usou leite? Queijo?
— Usei, eu achava que podia usar esses ingredientes, me desculpa — Roman se serviu com a massa enquanto Mitzi apontava para a salada — Ao menos temos salada — sorriu sem graça.
— Não tem problema. — riu da reação deles — Vai ser salada então. , o prato é seu. — Ela empurrou a massa para o loiro e pegou o prato que deveria ser dele, enchendo de salada.
— Você ao menos sabe se eu quero comer isso?
— Bem — pausou, olhando para ele com um sorriso falso —, agora você quer.
— Obrigada, amor — Mitzi roubou o prato de Roman, lhe dando um beijo na bochecha e se sentando em seguida, enquanto ele continuava parado na mesma posição, ainda olhando para a namorada com os olhos semicerrados.
— Eu não sei o que faço com você — balançou a cabeça, se servindo novamente e soltando um suspiro.
— Isso é uma união feminina contra os homens? — perguntou, olhando as duas, que nem pareciam se importar com isso. Mitzi apenas deu de ombros, e assentiu com a cabeça.
O jantar seguiu no ritmo inicial, alfinetadas e indiretas. fingia que não gostava de nada que fazia e implicava com tudo. Roman e Mitzi achavam graça das atitudes dos outros dois, mesmo não querendo comentar nada sobre para não dar palha.
— Eu adorava quando eu era adolescente e tinha aqueles jogos com bebidas. — negou com a cabeça, passando os olhos pelos armários de Roman — Você tem shots aqui, não tem? Vamos brincar de algo!
— Brincar de quê, exatamente? — Mitzi perguntou, interessada, enquanto Roman pegava os copinhos de shots.
— Bem... Acho que Eu Nunca é a mais viável, já que seu namorado não vai ficar sem roupa e não rola aquela casa de swing privada aqui. A gente só bebe quando tivermos feito algo. Todo mundo já brincou disso aqui, não é?
— Mas é claro — a morena sorriu, animada com a brincadeira.
— Agora entendi por que você bebe demais quando vai nessas festas com os colegas da universidade — Roman comentou como quem não queria nada, e Mit só olhou para ele, aquele olhar que dizia muito mais e era sua marca registrada.
— Mitzi fica jogando essas coisas? — zoou com uma careta engraçada — Eu esperava mais de você, Sra. Bürki.
— Vocês acham que nós duas ficamos amigas como? Bebida. Mas nunca chegamos a jogar Eu Nunca. Acho que temos que inaugurar esse selo agora.
— Nem vem, — Mitzi revirou os olhos e sorriu para . — Vamos inaugurar. Quem começa?
— Alguém precisa trabalhar amanhã? Além de mim, claro. — organizou os quatro copinhos, e Roman encheu todos de bebidas — Hm... Eu nunca saí sem cueca ou calcinha por baixo de qualquer roupa. — Continuou olhando para os copos, dando de ombros e pegando um para beber, mesmo que ela tivesse dito que nunca tinha feito.
— Eu nunca — Mitzi deu de ombros e Roman falou o mesmo.
— Espero não beber muito porque tenho treino — foi o que o goleiro disse em seguida, olhando para como se fosse a vez dele de responder.
— Bem, temos algo em comum. — bebeu o shot e sorriu para , pensando em algo, já que ele estava ao lado dela — Eu nunca fui mordido por uma cobra.
— Venho dizer que isso é uma puta sacanagem. — bebeu, rolando os olhos em seguida.
— Deus me livre ser mordida por uma cobra! — Mitzi comentou, olhando para o namorado.
— Incrível como o assunto chega a cobras, eu nunca cheguei perto de uma para começo de conversa...
rolou os olhos, murmurando algo como eu preciso levar vocês dois no serpentário e recebendo uma careta logo em seguida.
— Eu nunca... roubei nada — Roman disse e olhou para a namorada, que tomou um shot. — O quê?
— Um chaveiro quando eu estava no colégio. Em minha defesa, era muito bonito.
— Não tô gostando de vocês espalhando meus podres. — virou o shot e encheu todos os copos vazios em seguida.
— Eu passo. — O loiro deu de ombros — Mitzi, faça esse homem beber algo, por favor.
— Eu nunca menti nessa rodada de eu nunca, assim como alguém aqui que adora andar sem cueca — Mitzi lançou um olhar para Roman, que revirou os olhos e tomou a bebida.
— Droga, como você sabe? — ele fez uma careta.
— Aqueles seus snaps tomando sol deixou claro que você tava sem cueca por baixo do short — ela piscou, rindo.
— Revelações de Roman Bürki, eu estou adorando isso. — riu, não bebendo nada. Na verdade, ninguém tinha bebido além do próprio Roman — Eu nunca... fiz sexo oral em nenhuma mulher.
Os dois homens ali viraram os shots olhando feio para a ruiva. Ela sabia como atingir uma única espécie.
— Graças a Deus — Mitzi sorriu e olhou para , que era o próximo.
— Eu nunca fiz boquete em ninguém. — O loiro olhou para as mulheres como se a vingança estivesse sendo a mais prazerosa possível.
— Teríamos um problema se você já tivesse feito. — comentou, bebendo o copo e olhando para Roman, como se pedisse para ele soltar uma bomba.
— Eu nunca dei o c... — ele disse depois que Mitzi tomou o shot, vendo a namorada encher novamente o copo para tomar de novo. — Cu.
— Queria que você tomasse no seu agora — ela revirou os olhos.
— Mitzi, sempre soube que eu gostava de você. — gargalhou, fingindo não ter sentido interesse ao ver a ruiva beber.
— Então — Mitzi molhou os lábios, ainda com a sobrancelha arqueada para . — Eu nunca fui em um motel.
— Roman, qual era aquele acordo mesmo de não contar as coisas para as namoradas? — soltou um suspiro, bebendo em seguida.
— Finalmente a indireta dos outros não me atingiu — riu — Eu nunca armei um encontro às escuras para meus amigos.
Mitzi e Roman tomaram os shots de bebida e a mais nova já sentia o efeito do álcool.
— Eu nunca virei um bebê chorão por não passar o Valentine Day's com minha namorada. — O próprio entregou o shot para Roman, rindo um tantinho.
— Vai à merda, , eu me nego a tomar a esse shot! — Roman franziu a testa e Mitzi apertou a sua bochecha, tomando a dose que era para ser dele.
— Você tem suas armas e pode muito bem jogar com elas na mesa, mas se você quer deixar sua mulher tomar as doses por você, eu não ligo.
Roman pareceu pensar, já que era o próximo, e teve a brilhante ideia de colocar a mão na coxa da namorada antes de dizer o próximo "eu nunca".
— Eu nunca deixei alguém gozar na minha boca — o próprio bebeu e a viu olhá-lo como se tivesse se rendido àquilo ontem.
se remexeu na cadeira, bebendo quietinha. Estava repondo as doses de todos e percebendo que já tinham secado 98% da garrafa. Seus olhos pararam em cima de quando ele bebeu e deixou o olhar cair nela do mesmo jeito que ela olhava para ele.
— Eu nunca sentei na cara de alguém — Mitzi riu, tomando mais um shot, e até chegou a se remexer na cadeira.
— Você tem uma cara de santa tão falsa... — bebeu, passando a língua pelos lábios — Eu nunca quis foder ou ser fodida por alguém nessa roda. — Bebeu, prestando atenção no loiro e engolindo em seco quando observou a bebida seguir até seus lábios.
— Roman, pega aquele negócio para mim lá no quarto, por favor? — Mitzi pediu depois de virar o copo, e ele olhou para ela sem entender.
Qu... Ah, entendi — ele se levantou, rindo e balançando a cabeça ao sair do cômodo onde estavam os amigos.
— Roman vai pegar mais bebida? — olhou para Mitzi com um sorriso falso no rosto. Sabia o que estava acontecendo.
— E está demorando muito para fazer isso, vou ajudá-lo — ela levantou, indo quase correndo para dentro da casa e deixando os dois convidados sozinhos.
Ótimos anfitriões. Não que as visitas ligassem.


07 – Speaking of the Devil – II

08 de março, 2017

— Você acha que ele foi realmente buscar algo? — perguntou num tom divertido, estreitando os olhos e mordendo a boca em seguida — Eu acho que eles estão nos expulsando daqui.
— Por que acha isso? — indagou, pegando a garrafa de bebida e entornando o resto do conteúdo em sua boca.
Roman foi buscar algo e Mitzi foi ajudar? — Ela riu da inocência dele — Isso se chama sexo. Ninguém foi buscar nada. Talvez eles voltem em alguns minutos com a maior cara dura ou talvez só façam muito barulho, o que significa que eles nos querem fora daqui. — Sua fala estava embolada e os lábios inchados do tanto que tinha bebido.
— Eu não tinha pensado desse jeito. — Tinha um ar travesso em , e sorriu maliciosa em resposta — Vamos ouvir?
— Ouvir os dois transando? — fez uma careta e riu em seguida — Vamos.
e saíram correndo como duas crianças que estão se escondendo de alguém, pararam em frente à porta do quarto de Roman e encostaram à cabeça na madeira.
A confirmação estava bem clara ali.
Barulhos de algo realmente molhado passando por movimentos repetitivos e gemidos. Nada baixinhos por sinal. Gemidos altos e de quem estava com álcool o bastante para esquecer que existiam vizinhos e outras pessoas na mesma casa. Mitzi parecia estar falando algo e Roman respondia. não entendia o que eles falavam, mas os movimentos, gemidos e barulhos continuavam do mesmo jeito. Encostou mais à cabeça na porta e, meio que sem perceber, empurrou um pouco, fazendo um barulho alto o bastante para o quarto ficar totalmente silencioso por dentro. arregalou os olhos, e fez o mesmo. Correu até a primeira porta com o loiro ao lado e trancou assim que entrou.
Shh. tapou a boca da ruiva e ouviu passos do lado de fora.
? — A voz de Roman foi ouvida do lado de fora.
— Oi! — O loiro respondeu, um frio na barriga e a vontade de rir descaradamente.
— Onde está a ? — O goleiro pareceu ter identificado o local que a voz do amigo vinha e encostou o corpo na porta do banheiro.
Eu acho que ela foi embora.
— Mas eu não fui embora. — tentou sussurrar, mas sua voz saíra bem alta e escandalosa. rolou os olhos, segurando a risada.
Vocês dois estão no banheiro? — Roman pareceu chocado — Eu...
— Tchau, Roman. — gritou mais uma vez, arrancando gargalhadas dos dois homens. O barulho da porta do quarto de Roman foi ouvida fechando e a ruiva sorriu com ainda mais malícia, mesmo o loiro não conseguindo ver por causa do escuro — Isso foi engraçado.
— Você acha? — percebeu que a porta estava atrás de e se aproximou para tatear a fechadura. A ruiva prendeu a respiração quando percebeu que ele estava perto demais. encontrou a chave do banheiro e, quando achou que ele iria abrir a porta para livrá-la daquele frio na barriga, o jogador tirou a chave da porta e jogou em qualquer outro lugar do cômodo — Eu acho... — encostou o corpo na porta por puro nervosismo, respirando de forma acelerada. O corpo de encostou totalmente no seu, e ela rezou para todos os deuses para não tremer ali mesmo — Eu acho que nós temos que parar de funcionar melhor no escuro.
E quando as luzes acenderem? — Havia um tom que nunca conhecera presente naquela frase. Era desejo contido, nervosismo e receio.
— Não podemos ter medo da luz para sempre, . — A respiração de balançava os cabelos da ruiva e arrepiava seu corpo. Roçou os lábios no pescoço quente dela e beijou lentamente, puxando a pele com os dentes. deixou uma das mãos atrás do pescoço de e outra em seu cabelo.
— O que você sugere que eu faça? — A mulher riu das cócegas que a língua dele fazia em sua pele, começando a subir uma das pernas para a coxa do homem.
— O que eu sugiro? — Os dentes dele encontraram o queixo de , mordendo também antes de arranhar a pele dela com a barba por fazer — Eu sugiro que você venha para luz comigo. — Foi a única coisa que disse antes de juntar os lábios dos dois.
gemeu contra a boca do homem assim que os lábios se colidiram. Agarrou os fios de cabelo e pressionou-o contra si, trazendo para ainda mais perto. Não sabia se era bebida ou tudo tinha ficado muito quente. O gosto da boca do homem estava presente em si, e quis mais. Quis provar mais e mais da sensação inebriante que aquele beijo lhe passava.
O homem voltou a arrastar os lábios pela pele de , variando a utilidade de sua boca entre chupões e mordidas. Ela arqueava as costas, sentia todo o corpo se submeter a arrepios constantes, tremores e pulsações no meio das pernas. O pescoço já se tornava pequeno para a quantidade de mordidas dadas e, pouco depois, encontrou o decote do vestido de , lambendo lentamente o meio dos seios até subir novamente, chegando na orelha e puxando o lóbulo, sem ao menos se importar com o brinco.
subiu a outra perna, pegando impulso para ficar em seu colo, com as pernas ao redor de seu quadril. apertou ainda mais a ruiva contra a porta.
— Eu não consigo me controlar se você fizer isso. — sussurrou no ouvido de , sentindo que ela rebolava em cima do lugar certo.
Você não precisa se controlar. — Foram as palavras que ecoaram na mente de pelos momentos seguintes. Ele não soube dizer se estava bêbado demais ou se ela tinha falado aquilo mesmo.
Mas sua dúvida não importou para ele. Voltou a beijá-la no mesmo desespero de antes, sugando seus lábios antes de encontrar as alças do vestido, puxando-as para baixo e fazendo os seios de pularem em sua cara. Segurou os dois, apertando-os e juntando antes de abocanhar um deles. Lambia o mamilo e chupava logo em seguida, variando entre os dois peitos.
estava ocupada gemendo enquanto tentava tirar a camisa dele. Não sabia como tinha concentração para pensar em algo, e ela, com toda certeza, acabaria quebrando uma de suas unhas nos botões do tecido. Perdeu a paciência, empurrando o homem para poder abrir todos os botões e poder tocar cada músculo presente em sua barriga. Levou as mãos para suas costas e puxou-o de volta para si, rebolando em cima do pau endurecido para provocá-lo ainda mais.
Eu quero provar você. apertou as pernas de ao redor de si, arranhando a bochecha dela enquanto sussurrava com a voz cheia de desejo — Provar cada parte de seu corpo e me perder nelas. — Mordeu o pé da nuca de , e a mulher tremeu em seus braços — Mas eu não vou fazer isso hoje.
Não? nem se importou em esconder a decepção em sua voz.
— Hoje eu vou foder você desse jeitinho que você está, nada a mais ou a menos. — soltou as pernas de e deixou a ruiva se apoiar no chão. Voltou a focar em seus lábios e beijava de forma lenta dessa vez. Enquanto se atrapalhava para abrir a calça dele, o loiro tentava puxar a calcinha. Deixou tirar tudo e abaixar sua calça para que ele pudesse puxar a calcinha até o fim das pernas dela e jogasse no canto. Subiu o vestido e segurou no começo da cintura, trazendo a perna da ruiva para ao redor de si mais uma vez. Levou a mão que não estava segurando a perna de até sua boceta, massageando lentamente seu clitóris só para sentir como ela estava molhada. Enfiou dois dedos e começou a masturbá-la, tirando logo em seguida e lambendo os dedos melados de .
encaixou a mulher ao redor de si e começou a meter lentamente, fechando os olhos num prazer completo quando se viu totalmente dentro dela. Tirou aos poucos só para meter com mais velocidade, arrancando um murmúrio que não soube decifrar vindo de . O jogador agarrou sua cintura, apertando com força enquanto movia seu quadril com mais intensidade, fazendo seu pau tocar cada vez mais fundo, sentindo sua boceta envolvê-lo e apertá-lo com vontade.
estava tão molhada, tão quente, tão deliciosa, que ele ao menos conseguiu conter um grunhido, que dessa vez soou alto. O barulho dos corpos se chocando se fazia cada vez mais alto, ecoava pelo banheiro, e nenhum dos dois ao menos se importava se agora o outro casal já podia ouvi-los. Se eles aparecessem, era bem possível que os chamassem para se juntar só para não interromper o momento.
fincou as unhas na barriga de , arranhando com mais força cada vez que ele aumentava a intensidade dos movimentos, se controlando ao máximo para não gemer mais alto do que já estava. Começou a rebolar contra o pau do homem lentamente, sorrindo com malícia quando ele fechou os olhos e mordeu os lábios de leve, estocando cada vez mais forte e mais rápido.
Os gemidos de eram roucos, e isso só deixava com ainda mais tesão. Seu corpo todo esquentava muito mais quando ouvia os sons gostosos saindo da boca do homem. Os corpos já apresentavam sinais de suor e, quando as bocas se encontraram, a confusão ficou ainda mais gostosa. Tentavam se concentrar no beijo e nas estocadas ao mesmo tempo, fazendo língua pegar em nariz e lábios serem mordidos, mas isso gerou apenas gargalhadas excitadas e mais vontade um do outro.
A ruiva foi a primeira a desmoronar, consumida por toda tensão sexual que prendia ela a . Não demorou muito para que as pernas tremessem demais e sua boceta apertasse o pau do homem com tanta força que ele chegaria ao fim logo em seguida. Gozou tão forte que precisou segurar em para as pernas não o traírem aquela hora. foi a primeira a ter uma reação, segurando o rosto do homem entre as mãos e roubando um beijo demorado. Ele estava suado como ela, a camisa grudava nas costas e o pescoço — além de muito arranhado — estava escorrendo suor.
Vocês se mataram aí dentro? — A voz de Mitzi foi ouvida do lado de fora, e se permitiu gargalhar, tentando se concentrar para falar algo, mas a boca de em seu pescoço não ajudava.
— Em que sentido você pergunta? — A voz do homem finalmente saiu, junto a uma gargalhada.
— Oh, certo. — Mitzi fez uma cara surpresa do lado de fora. Não estava acreditando quando Roman contou. — Podem ficar aí dentro. Roman, manda alguém desinfetar esse banheiro amanhã.
— Vá pra merda! — gritou, assustando , que logo em seguida começou a rir, saindo de dentro dela e ajeitando a roupa da mulher antes de ajeitar a própria — Você sabe que eles vão falar disso o tempo todo, não é?
— Pelo menos eles não sabem que ouvimos eles dois transando.
— VOCÊS O QUÊ? — Dessa vez foi Roman quem gritou, e aí foi que não se aguentou em pé. Ria tanto que só queria sentar no chão e ter uma crise de gargalhadas histéricas.
— Você estava nos ouvindo agora, Roman Bürki. — alfinetou de volta, ajeitando alguns fios do cabelo de antes de achar a chave para abrir a porta — Estamos quites, cara.
— Eu preciso de mais bebida. — Foi o que o goleiro respondeu, olhando o estado dos dois antes de ir atrás de Mitzi na cozinha.
— Ei — chamou , sorrindo de um jeito doce em sua direção — Eu espero que você não se importe de treinar com gola alta ou em jogar com alguns machucados. — Beijou o canto da boca dele e saiu na mesma direção que o casal — Aliás, tem algo no seu pescoço.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ouviu se despedir de Roman e Mitzi, ouvir alguns xingamentos da segunda e sumir apartamento a fora. , ainda sem entender o que ela quis dizer, ligou a luz do banheiro e se olhou no espelho.
Até sua cara tinha um arranhão. Ele estava completamente machucado e nem tinha percebido. Levantou o pescoço para olhar a mais nova marca que ali se fazia presente: uma mordida por baixo, com os dentes bem desenhados; por cima, estava um chupão tão forte que parecia maquiagem roxa.
não sabia como ia esconder aquilo e também não fazia ideia das explicações que teria que dar. Mas também gostava de olhar para a marca e lembrar do momento.
Aquele era um momento que gostava de não esquecer.


08 – Earn this shit

13 de março, 2017

havia perdido uma aposta com Mitzi naquela manhã de segunda-feira. Quem conseguisse comer mais hambúrgueres ia ordenar a outra a fazer alguma coisa. Claro que a ruiva havia perdido horas de sua vida fazendo hambúrguer de grão de bico para perder a aposta porque Mitzi tinha um apetite dos infernos. Comeu cinco e ainda estava falando que tinha espaço para qualquer sobremesa.
Você trabalha amanhã? — Mitzi perguntou enquanto terminava de lavar a louça.
— Trabalho sim, por quê?
— Peça folga, porque você vai para o jogo do Borússia.
Eu não vou para um jogo de futebol. — Ela rolou os olhos e gargalhou, como se fosse óbvio — E muito menos viajar para o quinto dos infernos porque você quer.
— A cidade fica a menos de 100 quilômetros daqui. Pense que se fosse o jogo de sábado, você viajaria mais de 500 quilômetros. — A morena deu de ombros e deixou a louça secando no balcão — E você perdeu uma aposta, não perdeu? Vai ter que cumpri-la, muito simples.
— Eu não tenho nenhuma camisa amarela.
Você pode pintar o rosto.
— Eu não tenho ingressos!
Roman consegue um para você rapidinho.
— Certo. E hotel? Eu não tenho hotel para ficar lá, nem sei se tem realmente um hotel lá.
! — Mitzi repreendeu — Se você mandasse eu pegar na sua cobra eu pegaria... tudo bem, talvez não. Mas o vai estar lá!
— Mitzi, só porque transamos não significa que eu tenha que ir para os jogos dele. Eu não quero ir.
— Olha só, você pode ser o amuleto da sorte dele. Vai que ele faz um gol? anda tão... distante do futebol. Você pode empolgá-lo.
se jogou no sofá, olhando o aquário, que estava coberto, por ordem de Mitzi, e soltou um suspiro longo. Ela parecia emburrada e irritada, mas era engraçado para a morena vê-la daquele jeito. não queria assumir, mas, como a pessoa que estava convivendo com ela boa parte do dia, Holtzmann estava começando a saber como a amiga agia e todas as coisas que ela fazia. mordia os lábios quando estava pensando em algo e mexia no cabelo quando fingia estar pensando em algo. Quando ficava emburrada de verdade, não tinha nada que colocasse um sorriso nela — o que era uma tarefa difícil mesmo ela estando feliz. Já quando ela fingia estar emburrada, era só mexer no cabelo ruivo para que a carranca fosse sumindo aos poucos.
E agora ela forçava uma cara de birra, que foi se desfazendo enquanto a mais nova fazia tranças em seu cabelo.
— Eu vou aparecer lá sem ao menos avisar para ele? — Foi a última desculpa de , e Mitzi nem se importou de largar a trança na metade e pegar o próprio telefone, buscando algo na lista de contatos e mostrando que estava ligando para . arregalou os olhos e tentou puxar o telefone da mão da morena — Desliga isso!
No segundo toque, ele atendeu, e Mitzi colocou no viva-voz.
Alô? — A voz de foi ouvida do outro lado, e pulava, tentando pegar o telefone da mão de Mitzi, que agora estava em cima da cadeira com o telefone na ponta dos dedos.
, você sabe se tem algum ônibus amanhã de noite depois do jogo?
Olha, eu não sei se vamos voltar amanhã mesmo ou na quarta de manhã, mas é provável que tenha, porque a maioria das pessoas não é da cidade.
— Obrigada. — Mitzi estreitou os olhos para só para mostrar que estava certa — Você consegue um ingresso?
Claro, você vai vir? Estamos no meio do caminho já e Roman não sabe de nada disso. É surpresa? — A última parte foi sussurrada e xingou alguém, voltando a atenção para a ligação — Durm está perguntando se você conhece alguma loja que venda coisas... O quê? Eu não vou perguntar isso para a Mitzi.
Eu pergunto. — Erik tomou o telefone da mão de Você conhece alguma loja que venda artigos de sadismo? Eu preciso.
— Tem uma perto do aeroporto. Sabe a Hoffein's House? É do lado. — se meteu na conversa, sentada já na cadeira em que a amiga estava pendurada.
Obrigado... Quem falou?
.
Obrigado, . — Assim que o nome da ruiva foi ouvido, tomou de volta o celular da mão de Durm.
está aí?
— Essa casa é minha! — Ela pulou de volta, tentando voltar a segurar o telefone.
— Enfim, eu quero um ingresso. Você pode deixar com alguém confiável para pegar quase em cima da hora?
Claro. estava estranhando tudo, mas não comentou nada — Quer que eu veja alguma pousada também por aqui?
— NÃO! — gritou, pensando se empurrar Mitzi da cadeira não seria uma ideia melhor.
— Muito obrigada, ! Boa sorte com o jogo amanhã e logo nos vemos.
Assim que Mitzi desligou a ligação e voltou para o chão, precisou da ajuda de todos os deuses que conhecia naquele momento para simplesmente não voar em seu pescoço e matá-la.
— EU ODEIO VOCÊ TANTO! — não sabia o que tinha, muito menos o que ela faria com a morena se realmente voasse no pescoço dela — Qual a porra do jogo que eu vou ter que ir?
— Borussia Dortmund versus Sportfreunde Lotte. Só queria te lembrar também que você não me odeia. Talvez só um pouquinho agora, mas já, já passa — Mit piscou.
— Você vai me emprestar alguma blusa sua, porque eu não vou enfiar minha pessoa maravilhosa naquele tanto de gente sem pelo menos uma camisa para não ser assassinada — A ruiva se rendeu, indo até seu quarto para arrumar sua mala. Pegou uma bolsa pequena e saiu separando coisas necessárias — Você vai pagar minha passagem, ouviu? E manda uma mensagem para Eric dizendo que eu não vou amanhã para o Serpentário. — Jogou o telefone na direção da amiga e parou no meio do caminho — A senha é 0611 e, antes de qualquer coisa, lembre que é MEU ANIVERSÁRIO antes de ser do , porque eu nasci antes.
— COMO VOCÊ FALA! — Mitzi gritou. — Vamos lá, eu te empresto uma camisa, que curiosamente é do Mkhitaryan, e ele nem tá mais no time. Respeito. A do Bürki eu não empresto — ela riu, antes de continuar e digitar a mensagem para o chefe de . — Eu sou péssima com datas, mas eu juro que as datas de aniversário de pessoas importantes eu me esforço bastante.
— Que nome feio desse homem. Só uso a camisa dele se ele não for odiado que nem o que comparam às minhas cobras. — parou em frente a morena com coisas de cabelo e colocou na bolsa — Por que você fica me jogando para o ? — A ruiva começou a gritar um constante "A" jogada na cama. Parecia mais uma cena de maternal.
— Ele não é odiado. Talvez é um pouquinho pelas pessoas que são fãs de Mario Götze e não superaram que ele foi o melhor camisa 10, ou talvez pelas pessoas que levaram o babaca do agente dele a sério. Fora isso, eu amo aquele homem — Mitzi explicou como uma verdadeira fangirl. — E você devia entrar para a seita. Aceita que dói menos, .
— Eu vou sorrir e acenar porque não faço ideia de quem seja Mario Götze, mas a vida segue. — Ela rolou na cama e pegou a bolsa, concluindo que já tinha tudo necessário dentro — Tudo bem. Eu vou fingir que eu estou feliz e ir de boa. Não é como se o fosse jogar. Ele não fica no banco sempre?
— Quem sabe um dia você não o conheça. Mario tem um romance com seu homem e Marco Reus. Não é nenhuma novidade. Ei, quem sabe não jogue amanhã, hein?
— Eu não vou te responder para não ser grossa — A ruiva rolou os olhos e mordeu a boca — Duvido que jogue, mas eu não vou falar nada, porque eu não sou sortuda para essas coisas.
Mitzi riu e as duas ficaram conversando sobre isso até o momento que foram comprar a passagem de . Depoi,s a mais velha foi entregar a mais nova em casa, já que tinha trabalho durante toda a tarde.
Na manhã seguinte, não estava nada empolgada com aquilo, e com certeza furaria com Mitzi se não tivesse comprado tudo já. A viagem durou pouco mais de duas horas. A cidade realmente era próxima e bem pequena. estava se sentindo nas vilas medievais que havia estudado sobre quando ainda cursava o ensino médio, isso parecia ter sido dez anos atrás...
Ops, mas foi.
Uma pousada aconchegante e agradável foi sua estadia pelo resto da manhã. A mulher não queria pagar a turista e muito menos fazer algo. Pegou a camisa que Mitzi havia emprestado e tomou um banho para se arrumar. Não fez muita coisa além de pentear os cabelos e escovar os dentes. Comeu algo rapidamente e pegou um táxi até o estádio.
Agora ela não sabia o que fazer.
Era pequenininho e parecia bem estádio de bonecas. Se a situação fosse contrária, ela até faria um "awn". Só que ela não tinha o ingresso e teria que ligar para . Ótimo, Mitzi Holtzmann, você me deve uma vida. Era o que pensava.
Pegou o telefone e, quando estava pensando em ligar para , uma voz conhecida soou perto dela. A mesma voz que tinha perguntado sobre onde achar coisas de BDSM.
— ERIK! — Seu grito soou tão desesperado que ela assustou muitas pessoas ao seu redor.
O menino tinha uma cara de nojo tão grande que não conseguiu conter o desgosto expresso em sua face.
— Eu sou a , falei com você ontem no telefone quando estava falando com a Mitzi.
— Ah. — A cara não era de tanto nojo assim agora — Você é a ga...
— Se você me chamar de garota do , eu juro que te dou um murro. — Ela interrompeu a fala dele e suspirou profundamente — Mitzi pediu um ingresso para o e era para mim, porque eu perdi uma aposta. Você pode conseguir o ingresso com ele, mas sem falar que eu estou aqui? Ou até mesmo o Roman, ele deve saber da aposta.
— Ah, você não quer que saiba que você está aqui, não é? — O tom compreensivo de Erik fez sorrir amarelo.
— Sim. Ele não precisa saber. — Ela assentiu com a cabeça e Erik saiu, sumiu entre as pessoas, e ela começou a pensar quanto tempo demorava para conseguir ir embora para casa. Ela só queria a própria casa e fim.
? — Assim que a voz de ecoou, pensou como mataria Durm — Não era a Mitzi que vinha?
— Eu vou matar esse menino Durm! Sempre fui eu, mas ela não quis dizer.
— Se eu soubesse que era você, tinha conseguido um lugar mais perto da gente. Quem sabe uma bola atravessa a rede e pega em você.
— Alguém já mandou você ir se foder? — desviava o olhar a cada cinco minutos e começou a balançar os pés — Nós podemos entrar logo? As pessoas estão olhando.
— Sim, desculpe. — tinha um sorriso sacana no rosto. Colocou o crachá no pescoço dela e fez uma careta ao ler o nome de Mitzi ali dentro. Teria que mudar quando entrassem. Ela passou pela catraca com um frio horrível na barriga, sentindo as mãos geladas e vontade de sair correndo. estava a guiando pela mão, e nem ao menos havia percebido. Quando puxou a mão de volta, era tarde demais. Já tinha chegado no ninho da cobra.
Estava em frente ao vestiário do BVB.
— Tudo bem, eu fico aqui. Em qual lugar eu sento? Por onde eu entro para chegar no lugar que irei sentar?
— O jogo começa às oito, . — olhou para ela como se estivesse falando algo óbvio diante dos olhos dele — Você vai ficar fazendo o quê?
— Me dê uma tomada e Wi-Fi que eu passo o tempo que você quiser aqui. — Ela riu de nervoso — O jogo começa mesmo às oito? Por que está tão cheio? As pessoas não têm o que fazer?
— Todo mundo chega antes, . — explicou e deu um sorriso debochado — Você sabe que jogo é hoje?
— Só sei que vocês jogam. — Foi direta — Você vai ficar no banco, não é?
— Não, hoje eu sou titular.
O que é isso?
— Quer dizer que eu vou jogar. — fez um "ah" de compreensão e estalou os lábios.
— Eu li que você nunca faz gol e foi o maior desperdício do BVB. — A ruiva tinha um sorriso de deboche nos lábios. Encostou o corpo na parede e continuou olhando para ele da mesma maneira.
tinha um olhar escurecido. Com toda certeza ele não havia gostado da resposta da mulher. Puxou-a para qualquer canto que achou e deixou seu corpo contra a parede.
Eu posso fazer um gol.
— Isso é sua obrigação, . — Sua voz saiu num sussurro e ela mordeu a boca — Mas...
Mas...?
— Podemos conversar depois do jogo caso você faça um gol e seu time consiga ganhar essa partida.
— O que eu ganho com isso?
— Eu não sei, . Você decide. — deu de ombros e afastou o homem de si — Agora me mostre algum lugar para eu sentar até a hora do jogo começar.
Não que ela tivesse realmente conseguido se distrair com as partidas de Plants Vs Zombies 2 enquanto pensava no que diabos iria fazer caso ele realmente fizesse aquele bendito gol. postou algumas fotos em sua story do Instagram e, quando percebeu que estava quase na hora de começar toda a chatice, seguiu as instruções que havia dado antes de apresentá-la ao Wi-Fi e tomada.
“É agora”, pensou. Arrumou todas suas coisas e, com um crachá que tinha seu nome mesmo, entrou no estádio. A atmosfera era algo que ela não conseguia gostar e engoliu em seco ao ver o tanto de gente que tinha ali. Com toda certeza ela nunca iria num jogo em casa. Se informou qual era sua cadeira com um segurança e foi atrás dela, pedindo desculpas de cinco em cinco segundos e torcendo para que aquilo acabasse logo.
Quando o jogo começou, mordeu a boca para não sorrir quando entrou em seu campo de visão. Primeiro teve um gol que ela não entendeu por que não tinham contado, depois ficou xingando todo mundo por jogarem a bola tão alto! Qual é? Aquela trave era enorme, como eles enfiavam a bola do outro lado? Um outro loiro, que não era , ficava indo para lá e para cá e, quando ela tentava saber quais eram os nomes dos jogadores dos times rivais e quais eram os do Borússia, sua cabeça bagunçava ainda mais. Pelo menos ela sabia que os de amarelo eram os jogadores pelos quais ela devia torcer.
Assim que o primeiro tempo acabou, ela sentiu falta de Ingryd para poder explicar o que estava acontecendo ali. Foi comprar refrigerante para matar a sede e enrolou um pouco olhando as pessoas ao seu redor, observando tudo e tentando ouvir para entender o jogo. Não deu tão certo, mas ajudou.
No início do segundo tempo, já sabia que um dos jogadores se chamava Christian Pulisic e que Marco Reus estava lesionado. Schmelzer era o capitão, e era o número 21. Estava frustrada que ninguém havia feito nenhum gol e ela iria ter ido assistir uma perda. Era uma sensação horrível.
O mesmo Christian que ela achou uma coisinha fofa fez o primeiro gol. deu um pulo e, ao perceber a própria reação, cruzou os braços, olhando para o time como se falasse não fez mais que sua obrigação. Pelo menos, eles não iam ficar zerados.
Roman fazia defesas extraordinárias segundo a mais nova comentarista e super entendedora de futebol, Furtwängler. Tinha inclusive que comentar com Mitzi que ele ficava muito gostoso com aquela roupa vermelha.
Foi aí que a bola voou do pé de para o meio da trave e balançou a rede. deu um grito. Não um grito de quando seu time faz um gol, um grito de quem sabia que ia ser muito bem fodida aquela noite e tinha acabado de ver um gol desgraçadamente bonito.
Todos os jogadores foram para cima do loiro, e ele deu uma corrida pelo campo, agradecendo aos céus. Tantas coisas passavam pela cabeça de , e ele ficou tão absorto quando viu gritando e pulando entre os outros torcedores, que logo depois perdeu um gol tão fácil que se sentiu ridículo. Minutos depois disso, Schmezer fez o terceiro e último gol.
E, pela primeira vez, ele queria sair logo do campo, mesmo se saindo vitorioso. Ele queria se livrar de todas aquelas pessoas e ficar sozinho com uma em especial.
O que pareciam ser horas e horas em sua cabeça foi o tempo de comemorar mais um pouco com os outros jogadores, correr para um banho e finalmente sair do estádio antes de todos os outros para ir até . Seu celular havia apenas uma mensagem dizendo qual o endereço do local que ela iria ficar aquela noite, e ele nem se importou de ler o resto.
Duas batidas na porta e um “'tá aberta” foi ouvido da parte de dentro. moveu a maçaneta para baixo e, ao entrar no cômodo, as luzes estavam totalmente apagadas. O primeiro passo do homem foi trancar a porta e ter certeza de que estava trancada, o segundo foi procurar o interruptor.
A mulher estava na cama. Uma lingerie verde fazia jus ao seu jeito de ser. Os cabelos presos numa trança bagunçada e os olhos fixos na parede. A bunda para cima e os pés balançando, como quem não quer nada.
— Vai manter sua palavra? — perguntou, os olhos fixos na bunda dela, e o desejo daquela parte se fez presente.
— Eu estou aqui, com a bunda para cima, te esperando numa cama e vestindo minha cor favorita... — virou para o homem, um sorriso malicioso nos lábios. Levantou o corpo e sentou na cama, dedilhando as pernas enquanto afastava-as — Eu me pareço com alguém que não vai manter a palavra?
— Na verdade, você parece com alguém que quer muito ser fodida. — Dois longos passos e ele estava em frente à mulher. Os dedos passeando pela pele gélida e arrepiando a mulher.
— E você, quem quer muito foder alguém. Correu tanto atrás da bola que eu senti você me fodendo como no banheiro. Na verdade, eu fiquei com saudades, muitas saudades. Você vai repetir isso logo, ou eu vou ter que implorar?
A segunda opção... — O sussurro de ecoou de um jeito muito convidativo pelos cabelos de . Ele tinha seu lóbulo entre os dentes e respirava de um jeito mais forte propositalmente — … parece muito mais tentadora.
Ali mesmo os lábios se encontraram, com tanto fervor que nenhum dos dois sentiu de verdade que estava bem quente naquele local. sentou na cama e puxou a mulher para seu colo, enfiando os dedos na trança para puxar o cabelo e sentir a mulher sobre si. Além de todo o desejo, o beijo representava o que ambos tinham nos olhos o tempo inteiro quando se tratava do outro: fogo.
rapidamente achou o fecho do sutiã e se livrou da peça rapidamente. Os peitos eram seu novo alvo e estavam sendo atacados muito bem, obrigada. chupava um dos seios enquanto brincava com o outro, apertava o bico entre os dedos e roçava os dedos numa massagem gostosa. A língua que brincava com o bico já inchado fez outro caminho, descendo pela barriga, passando no umbigo até chegar nas extremidades da calcinha.
Foi aí que o telefone de começou a tocar. Ela nem se importou em falar nada, mordeu a boca enquanto ele puxava sua calcinha e enfiava a cabeça no meio exato de suas pernas.
Alô? — Sua voz saiu entrecortada, e ela mordeu um dos dedos enquanto sentia a língua de fazer movimentos seguidos em seu clitoris.
Você foi para um jogo do Borússia com quem? — Só naquele momento percebeu que era o toque de sua irmã. Deu uma gargalhada, que foi para disfarçar um gemido, e espremeu os olhos, sentindo o homem aumentar os movimentos, começando a revezar com algumas chupadas.
— Sozinha, eu perdi... — Um gemido inevitável escapou de seus lábios — … uma aposta.
Você está bem? — Ingryd parecia ainda mais afetada — Com quem você apostou isso? Com quem você está?
mordeu ainda mais os dedos quando afastou sua boceta com os dedos. Ela abriu mais as pernas para ajudar e até ouviu o barulho aumentar juntamente à intensidade da boca dele.
— Você não sabe como eu estou ótima. — Uma risada nervosa ecoou de seus lábios e tentou se levantar para empurrar , mas ele estava literalmente agarrado em suas pernas. Mordeu a pontinha do lábios ao observar a visão mais gostosa que ela podia ter em qualquer momento: chupando sua boceta com tanta vontade que nem ligava se ela estava falando com a irmã ou com a rainha da Inglaterra — Eu apostei com a Mitzi, namorada do...
VOCÊ CONHECE MITZI HOLTZMANN? — O grito dela fez afastar o telefone. Fechou os olhos com força e rebolou uma única vez contra os lábios de , deixando a mão livre mexendo nos cabelos.
já nem sabia do que estavam falando. Largou o telefone de qualquer jeito na cama e lembrou só de desligar antes de puxar para si.
— Você quer mesmo que eu implore? — Ela perguntou contra a boca dele, mordiscando enquanto podia. Os dedos dele agora se encontravam no mesmo lugar que sua língua segundos atrás. Ele queria mesmo que ela implorasse, mesmo que agora ela não soubesse como fazê-lo.
encostou a cabeça no ombro de e deixou os gemidos saírem. Ele nem se importava de estar com ela em seu colo, nua e gostosa daquele jeito, só continuava mexendo os dedos em seu clitóris com agilidade e no ponto certo. Ocupou sua boca de um dos seios de e deixou os dedos fazendo o trabalho até a ruiva estar desgastada em cima de si. Gozada, olhos tremendo e pés com espasmos engraçados. Quando o corpo da mulher foi colocado na cama, deitado e numa posição muito confortável, apoiou o corpo por cima do dela e encontrou os lábios da ruiva.
O que não esperava era que ele fosse beijá-la com tanta doçura. Era um beijo lento, de quem queria fazer aquilo tinha muito tempo. Como se estivesse querendo provar da parte mais profunda escondida em , do Grinch amável e que gostava de pessoas.
O que não esperava era que ela fosse retribuir o beijo com tanta vontade, já que ele tinha certeza de que tudo o que relacionava e ele pela parte da ruiva era resumido unicamente a sexo.
Mas era só um beijo.
Você vai embora? — Ela perguntou, sussurrando de um jeito tão baixinho que parecia estar contando um segredo mundial. Além daquele beijo soar como despedida, continuava totalmente vestido.
O time vai embora ainda hoje. — Só para continuar no tom dela, continuou falando daquela maneira.
Eu não ia te chamar pra dormir comigo de qualquer maneira. roubou um beijo dele e gargalhou, negando com a cabeça — Você tem cara de quem ronca.
Você deve babar. — Um último beijo, mais profundo que os outros e também mais rápido — Eu preciso mesmo ir.
Não sei por que você não foi embora ainda. Eu vou dormir peladona e bem feliz nessa cama gigante.
gargalhou e saiu de cima dela, ajeitando sua roupa amassada e seu cabelo para não parecer tão atacado durante o sexo. Ao chegar na porta, olhou bem para na cama e sorriu de lado.
O que vamos fazer na sexta?
— Cinema, eu tenho que ver Beauty and the Beast. — levantou o rosto para olhar o homem e deu um tchauzinho antes de enfiar a cara no travesseiro e puxar os cobertores da cama.
Que horas eu te pego?
— A noite inteira, se Deus quiser. — gargalhou alto ao ouvir a resposta dela e fechou a porta em seguida, se apressando para sair dali antes de realmente alguém largá-lo naquela cidade.
Bem, pelo menos ele teria o que fazer caso o largassem naquela cidade.
ia gostar caso alguém tivesse esquecido de sua existência para ele poder enaltecer a existência de outra pessoa.
No meio de suas pernas.


09 – Califórnia, rest in peace

03 de abril, 2017 (São Francisco, Califórnia)

, câmbio on


Meu pai sempre disse que as pessoas são automaticamente antissociais. Não que você seja chato ou não goste de falar com pessoas, mas vai chegar um momento de seu dia que você vai precisar ficar sozinho. Seja quando você está mexendo em alguns documentos, almoçando, ou, no meu caso, pegando um bondinho porque eu queria pensar um pouco.
Porque eu queria ficar sozinha e sabia que quase sempre os bondes estavam lotados. No entanto, mesmo no mais cheio dos lugares, existe um lugar vazio. Meu desejo era achar o lugar vazio e outro ao seu lado. Talvez um para mim e outros para meus pensamentos. O banco vazio estava lá, e logo não era tão vazio como antes.
Meus fones já estavam colocados e The Hills tocava ao fundo. Não que fosse a melhor música para ser ouvida no momento. O aleatório também não ajudava muito, e os únicos tipos de pensamentos que eu tinha ao ouvi-la eram todos relacionados a sexo.
Sexo me lembrava .
me lembrava Dortmund.
A porra de uma cidade que eu tinha três meses morando, mas já estava chorando de saudades. O pequeno lugar era acolhedor, bom de se viver e com uma vizinhança excepcional.
Para com isso, .
Bukowski sempre foi uma religião para mim. As pessoas veneravam Deus, e eu, um bêbado, que dizia coisas que ele tinha coragem de dizer mesmo sóbrio. A razão pela qual eu estava citando e pensando em meu escritor favorito no meio de um bonde era a mais simples e comunal de todas: eu podia usar milhões de citações dele para identificar fases de minha vida.
Quando eu pensei em suicídio, quando eu virei uma alcoólatra, quando meu noivo me abandonou, quando eu percebi que meu pai não me amava como um pai deveria amar e, principalmente, quando eu estava na Califórnia e não conseguia tirar meus pensamentos da Alemanha.
“Às vezes, você acha bondade no meio do inferno.”
E eu não sabia se no momento eu me encontrava perdida no limbo ou se já estava condenada aos próximos dias de minha vida sequentemente serem vividos no purgatório. Contudo, se eu já estava condenada ao inferno e nenhuma ação fosse mudar isso, valia mais a pena chegar como qualquer um no inferno ou ser a lenda de lá?
E, voltando para meu pensamento inicial e continuando na minha veneração a Charles Bukowski, eu não odeio as pessoas. Só prefiro quando elas não estão por perto.
Eu estava na Califórnia por uma Conferência e era a representante do Serpentário Julian Hauptmann. Os primeiros dias foram fascinantes, até sobre ataques raros de cobra que aconteceram em meados de 2015 — um surto de ataques marinhos estava acontecendo por conta de cobras altamente venenosas e raras, que resolveram surgir nas praias californianas —, espécies californianas e a presença do deus Simon Keys, um cara qualquer que dedicava sua vida no resgate de cobras achadas em locais urbanos numa região específica da África do Sul.
E o que tudo isso tem a ver com minha situação momentânea?
Nenhuma dessas coisas conseguiu realmente me distrair.
E eu não queria realmente ser distraída do que ocupava minha mente. Eu queria que o que ocupava minha mente me distraísse. Pessoalmente.

, câmbio off


Dizer que não gostava de se sentir sozinha era como criar um sentido novo ao pleonasmo nosso de todo dia. Não sabia dizer se era a menstruação que deveria chegar em alguns dias ou só o sentimento de solidão que estava corroendo cada parte de si, mas ela estava detestando se sentir sozinha.
E, mesmo pensando que ela normalmente não gostava de gente e que dias em seu quarto brincando com sua cobra de estimação eram os dias que ela mais apreciava, não queria se sentir sozinha.
Seu dia era fascinante, mas só se você olhasse de longe. Quem via o sorriso falso, o jeito contraído demais e até mesmo as expressões que a ruiva fazia saberia que estava forçadamente feliz.
Seu quarto no hotel era fascinante. Ela bebia água a cada cinco minutos e tinha certeza de que a conta que chegaria seria absurda. Seus colegas de congresso tinham saído para curtir a noite californiana, mas nada que agradasse realmente .
Sentou no chão do quarto e abriu o Instagram. Postagens aleatórias, até que uma delas chamou sua atenção: brant.joan havia postado uma story, e sua localização? San Francisco, Califórnia.
deu um pulo. Pensou em milhares de maneiras de tornar aquilo real e respirou fundo antes de deixar a cara de pau ficar maior e ela responder a story de Joan, uma amiga virtual que vinha se aproximando de . Esperou cinco minutos e, quando a resposta não chegou, ela apelou para o WhatsApp pessoal da tenista.

Hey, você está em San Francisco??? Por que não me contou??


A resposta, que chegou minutos mais tarde, fez não só uma feliz, mas uma esperançosa de que iria sair do hotel com motivos.

Hello, german girl! Eu estou nos Estados Unidos inteiro lol


gargalhou e respondeu, se jogando no chão.

Ótimo, saia dos Estados Unidos inteiro e me encontre em San Francisco. Eu volto para Dortmund em um dia.


Joan tinha ido à Califórnia, do outro lado do país, para participar de uma competição de tênis apenas de mulheres, na qual o dinheiro arrecadado seria todo doado para uma ONG de proteção aos animais. Depois disso, ela aproveitaria para passear. Era assim que passava o seu tempo quando não estava treinando ou competindo: ela tentava conhecer o máximo que podia as cidades de seu próprio país. Depois, ela poderia conhecer outros países, como já havia começado, indo pela primeira vez ao Australian Open em janeiro. Uma revelação no tênis, diziam que era sorte de principiante, mas ela se esforçava muito para retrucar que aquilo se chamava habilidade.
A competição já tinha acabado, certamente ela levara o prêmio, que nada era além de simbólico. O dinheiro tinha sido doado e estava jogada na cama do apartamento, discutindo com seu irmão, quando a mensagem de apareceu. Foi inevitável não sorrir. Ela adorava conhecer pessoas novas e estava louca para conhecer a alemã que tinha ganhado o apelido de Grinch recentemente.

Mas é claro que vou te encontrar, onde é melhor para você?


começou a pensar em lugares que tinham agradado seu paladar e tinham feito-a menos rabugenta. Um restaurante em especial encabeçava a lista, e, antes mesmo de perguntar se Joan gostava do lugar, ela chamou um Uber e mandou a localização para a tenista.

Eu gostei muito desse espaço, tudo bem por você?


Enviou a mensagem pulando para conseguir encaixar a calça jeans no corpo, penteando o cabelo com os dedos enquanto fechava a calça na porta do elevador.

Por mim, tudo ótimo. Estou indo!


respondeu com um emoji, e o carro não demorou muito para se fazer presente e exercer a função de levá-la até o restaurante. Sentou-se numa mesinha mais afastada, ao lado de um sofá e um espaço divino para chá. Enquanto olhava o cardápio vegano do local, pensava em como se sentia nervosa e uma total adolescente por estar ansiosa para conhecer alguém da internet.
Joan não demorou muito para chegar ao local. Como já estava arrumada, só precisou dar um nó em seu cabelo antes de pegar um Uber. Sentia falta do seu carro às vezes. Entrou no restaurante refletindo se tinha se atrasado ou não. Gostava de ser pontual, e sua missão falhou quando encontrou ali.
— Eu estou mesmo vendo a ruivinha da Alemanha ao vivo e a cores? — Joan chamou sua atenção assim que chegou a mesa e sorriu.
Ai, meu Deus! — Os olhos castanhos brilharam em entusiasmo, e um sorriso sincero se fez presente nos lábios da ruiva — Eu ajo normalmente ou posso pedir um autógrafo? — Levantou e foi até Joan para abraçá-la.
— Por favor, , você pode agir da forma que preferir, juro que sou gente como a gente… Eu não sei se está certo esse tempo, mas meu pai vive falando isso, enfim — Joan danou a falar ainda abraçando a ruiva. Era como se fossem amigas de anos se reencontrando.
— Eu acho que está, ouvi esse termo em algum lugar. — Estreitou os olhos e voltou a sentar onde estava antes — O que te trouxe a San Francisco? Eu ainda estou chocada com essa coincidência.
— Eu vim para uma competição solidária, doamos o dinheiro para uma ONG de proteção aos animais e foi bem divertido. São os melhores tipos de programas não programados, recebi o convite tem nem uma semana — Joan explicou. — Ei, você já fez o pedido?
— E você ganhou? É claro que ganhou, olhe essa carinha de vencedora. — A ruiva rolou os olhos e gargalhou, mordendo o canto da boca enquanto pensava — Não fiz o pedido, eu estava em dúvida entre o Carpaccio de Beterraba e a Salada Árabe com Pão Sírio. Você já comeu algum deles?
— Hmm, talvez eu tenha ganhado — Joan sorriu sem graça. — É agora que você diz “eu não acredito que você ainda fica sem graça”, sim, eu fico. E, bom, esse Carpaccio é bom e eu amo a salada árabe, mas já experimentou Bruschetta? É delicioso. Sou a clichê que ama chá matte também.
Eu não acredito que você ainda fica sem graça. — A alemã forçou a voz mais fina que pode e gargalhou de forma gostosa em seguida — Eu nunca comi a daqui, era acostumada com algumas que minha madrasta fazia, mas ela não sabe cozinhar até hoje. — Uma careta se fez presente no rosto da mais velha — Ótimo, tudo isso em dobro e chá matte para a campeã nacional mais gostosa desse lugar — O tom de voz mais alto de fez o rosto de Joan corar — E traz um suco de kiwi para mim, por favor. — A garçonete mais próxima anotou o pedido e saiu em seguida — Eu falo demais, mas você pode me vencer e falar sobre Elias Lindholm.
— A campeã nacional mais gostosa? — Joan arqueou uma sobrancelha, segurando o sorriso. — O que exatamente você quer saber sobre Elias Lindholm, girl?
— Você fica sem graça com frequência? So süß — Encostou os cotovelos na mesa, apoiando o queixo nas mãos. Ao ouvir a última frase, uma careta se formou na cara da ruiva — Eu não sou girl, de onde as pessoas tiram isso? — Rolou os olhos, voltando sua atenção para Joan — Eu não sei sobre o que quero saber, tudo? Eu li as coisas no Twitter e em sites de fofoca, odeio esses lugares.
— A mídia costuma ser bem amadora e maldosa às vezes, isso me irrita bastante, mas tô aprendendo a contornar — Joan piscou. — A gente tira isso do seu Instagram, gata — especificou como se fosse óbvio, só ela que não via isso? — Eu acho que o meu ataque de fangirl no Twitter foi o mais certo da minha vida, sério, é como zerar a vida. Tweet que está apaixonada e ganhe um namorado de brinde — riu, balançando a cabeça. — Não foi bem assim, mas é nisso que as pessoas preferem acreditar. Aquele tweet chegou aos olhos do próprio e ganhei uma tarde de patinação com ele, acho que nunca fiquei tão nervosa na minha vida porque eu não sabia como patinar. Tem ideia do micão tour?
— A mídia é maldosa, o tempo todo. — Os pedidos chegaram, e as duas agradeceram, começando a comer — Não estamos namorando, a gente só dorme junto porque gostamos, fim. Ele pode estar ficando com qualquer outra pessoa, assim como eu também. — explicava como se fosse a coisa mais fácil de entender da Terra. Gargalhou da explicação de Joan e conteve a risada mais alta — Deixe-me adivinhar: Elias te ensinou a patinar?
Such a cliché — Joan colocou uma garfada de comida na boca. Estava realmente com fome, e a ideia de tinha caído como uma luva. — Deveria ter sido mais inteligente e investido em um relacionamento tipo o de vocês. Parece ser mais aceitável, ainda mais quando você está sozinha e seu namorado está do outro lado do mundo. Não é nem país — ela riu. — Desculpa desabafar, problemas de se ter um namorado sueco que vai jogar pela copa do mundo. Mas voltando, sim, ele me ensinou a patinar.
— Existe copa do mundo de hockey? Shook. — A ruiva ajeitou sua posição na cadeira e fez um biquinho, pensando no que poderia falar — Seu namorado está perto de mim, tomo conta dele lá da Alemanha. — suspirou e sorriu de forma confortante — Não fique com esse pensamento de solidão, vá por mim, piora as coisas. Elias vai voltar logo e vai parecer que nada disso aconteceu. Vocês têm se falado todo dia?
— Existe! — Respondeu. — Comemorei quando ele foi chamado, mas agora não estou comemorando tanto assim porque sentir saudade é uma merda. Eu estava acostumada em tê-lo quase todo dia do meu lado e agora, pfff. Mas você está certa — a morena respirou fundo —, é melhor não ficar pensando muito. Então, só por curiosidade, você não sente falta de ninguém? 100% desapegada?
— Não me entenda mal, mas por que hockey é legal? Eu sou aquela pessoa chata que detesta 99% dos esportes e não vê sentido neles. — segurou o awn que queria soltar ao ouvir Joan dizer aquelas coisas sobre Elias. Naqueles momentos, ela percebia do que estava sentindo falta — Eu já disse que vocês são muito fofos? Porque vocês são. — Quando abriu a boca para responder a pergunta da americana, mordeu os lábios. Mentir não seria bom, Joan estava se abrindo ali, e bem… Ela teria de ser sincera também. — Quem eu quero enganar? Eu me afundei em saudades do maldito do . Mas não é aquela coisa sentimental ou física, eu não sei explicar. É necessidade, eu acho. Mas é ruim para caramba.
— Amiga, hockey é legal porque a porradaria faz parte do jogo! — Joan piscou. — Ainda estou aprendendo as regras, mas eu sou o tipo de pessoa que adora 99% dos esportes. E muito obrigada pelo elogio. Acho que, de fora, somos mesmo fofos, sempre leio o que as pessoas escrevem e fico meio “ah, se essas pessoas soubessem o que realmente acontece”. É engraçado. — Ela tomou um pouco do chá, dando um sorriso ao conseguir que abrisse um pouquinho a guarda. — É de fato muito ruim, principalmente quando você quer muito fazer coisas e não está com a pessoa que você quer fazer as coisas — as duas começaram a rir alto, quebrando um pouco o clima deprê.
— Ugh, homens metendo a porrada uns nos outros… Elias conhece algum jogador solteiro? — Ela piscou, marota — Só porque você tem cara de quem dá no vestiário isso não faz vocês dois menos fofos. Sexo é fofo. já havia devorado metade de sua comida e estava aproveitando o suco enquanto segurava a risada — É horrível! Freya sabe o quanto eu queria estar na cama dele agora mesmo e… parece que faz 84 anos. Isso é tão ruim. Eu não tenho nada com ele, mas fico procurando algo dele nos outros.
— Eu amo ver homens metendo a porrada uns nos outros, é sensacional. Uma vez Elias jogou um cara no vidro em menos de dezessete segundos de jogo, foi o dia mais feliz da minha vida — a morena sorriu, arteira. — Prefiro não comentar sobre sexo no vestiário, acontece… E outra, está preparada para ouvir uma verdade?
— Realmente, parece sexy demais. Vamos, eu vou dar uma olhada nos outros times para não acabar desejando os amigos de seu namorado. — A ruiva realmente abriu o Google para procurar jogadores de hockey gostosos enquanto gargalhava de Joan falando sobre Elias jogando o cara no vidro — Você quis ser o cara sendo jogado contra o vidro? Acontece… E, vamos lá, me conte essa verdade.
Mas é claro — Joan admitiu como se fosse óbvio. — Me diz quem você acha bonito que eu te digo se concordo. — Riu. — A verdade é: você está se apaixonando. Talvez. Não me mate por isso, mas precisa considerar essa opção. Pode ser que eu não seja a pessoa certa para falar de paixão, já que eu joguei no mundo que estava apaixonada por Elias desde que o vi naquela pista de gelo, mas eu só percebi que estava nesse nível de verdade quando senti a tal necessidade. Ele me fazia bem, a gente se fazia bem, então por que não? Eu gostava dele de todas as formas possíveis e, como tem naquele filme “A culpa é das estrelas,” a paixão se parece muito como pegar no sono, gradativamente.
— Esse Eddie Lack tem cara de psicopata… — fez uma careta e saiu passando — Seu homem está aqui, Tyler Seguin não me parece tão bonito, só gostoso e hmmm... Gabriel Landeskog está solteiro? Que homem da porra. — soltou o telefone — Loiro dos olhos azuis, você sabe de quem eu lembro? Isso mesmo. — Largou o telefone e soltou o ar com certa irritação. Refletia sobre o que Joan dizia e pensava se era ou não a coisa certa a se pensar sobre. Quer dizer, e se ela não estivesse e só pensasse que estava pelas coisas que estava ouvindo? — Mas não é paixão se eu só comecei a aturá-lo depois que transamos, não é? e eu acabamos brigando de alguma forma e… eu não sei, a gente só consegue ficar de boa sem brigas quando… Bem, quando eu estou gemendo alto demais para pensar em brigar.
— Eddie Lack é o ser humano mais fofo que eu já conheci na vida, sério, ele é a pessoa mais gente boa do mundo! Tyler Seguin, sem comentários. Gabriel, eu acho que está solteiro sim. Ele fala com Elias às vezes, mas acho que é porque sentem saudade de falar sueco. Eu não entendo porra nenhuma. E, então, você se lembra do seu loiro. Se alguém te faz ficar dessa maneira… — Ela colocou uma mão no queixo como se estivesse pensando. — Tem alguma coisa aí, não acha?
Fofo? fingiu acreditar, dando de ombros em seguida e se segurando para perguntar sobre o sem comentários sobre Tyler — Ugh, sueco? Eu tô começando a desejar mais esse rapaz. E eu entendo sueco! Me chama que eu traduzo a conversa para você. — finalmente se deu por vencida — Ele não é meu loiro. E talvez eu possa estar começando a sentir algo por ele, além da atração sexual. Satisfeita? Minha cabeça está confusa demais por causa de .
— Amém, ! Você tem problemas psicológicos causados por — Joan gargalhou. — Eu tô brincando. É uma ótima ideia te mandar todas as conversas deles que eu achar. Vou adorar saber se eles estão mesmo conversando sobre o novo recorde no videogame.
Eu tenho problemas psicológicos causados por . estalou o pescoço, sentindo a cabeça pesar, e talvez fosse pelo tanto de inglês que havia usado em seu vocabulário — Alguém traz a conta, por favor? — Deu um grito depois de tomar o resto do suco e se afundar nos próprios pensamentos — Joan, você está livre hoje à noite, não é? Porque nós vamos sair para beber e eu preciso esquecer que assumi isso.
Sim, naquela noite, elas saíram para beber, e dançou tanto que dormiu com os pés dentro de um balde de gelo. Vomitou das seis até às oito da manhã e voltou a dormir dentro da banheira. Joan, depois que bebeu todas e dançou até não aguentar mais, foi para o hotel,mandando mensagens sem sentido algum para o namorado, que foram lidas assim que ele acordou do outro lado do mundo. Ela recebeu uma ligação às 6 horas no horário local de Estocolmo. Elias estava sonolento e ainda dava risadas do que havia lido, mas, depois de alguns segundos, fez a linha “tô rindo, mas tô preocupado”. Ela dormiu com o celular na mão e, no dia seguinte, a ressaca a aguardava.
Dois dias mais tarde, elas prometeram marcar mais saídas como aquelas, e intimou Joan a passar um tempo com ela na Alemanha. Disse que arranjava até uma Copa de Tênis lá, mesmo não sabendo se realmente existia aquilo. A viagem de volta para Dortmund tinha sido cansativa, e dormiu o caminho todo agarrada ao novo presente favorito em todo o mundo: Stormy, a pelúcia mais fofa do mundo, também conhecida como mascote do Carolina Hurricanes.
O pensamento de que estava voltando para casa era reconfortante, de um jeito que não sabia se tinha que gostar do pensamento ou ter medo dele.
detestou pensar na cama fria e solitária que lhe esperava em Dortmund.


10 – Airplanes

10 de abril, 2017

gostava de falar.
E essa tinha sido uma descoberta magnífica para , já que ele pensava que a voz da mulher mal era ouvida numa conversa. Mas era totalmente contrário. falava demais. Ela falava sobre cobras, tortillas e batatas. Falava que estava com fome, que a posição estava ruim e que precisava fazer mais alguma tatuagem. Falava sobre a Califórnia e como ela tinha adorado San Francisco, mesmo que fosse quente demais. Falava sobre os vinte e um rabiscos espalhados em sua pele, como doeu para conseguir cada um e como ela queria chegar em trinta antes do fim do ano. Falava sobre Joan Brant e Elias Lindholm e de como hockey parecia ser bem mais legal que futebol.
E, mesmo que ela falasse demais, não dava a mínima para isso. Porque gostava de ouvi-la falar. Ouvia seus pensamentos sem nem pagar um euro por cada um deles, suas piadas ruins e coisas aleatórias como: “O que você gosta de comer depois do almoço?”
Contudo, por mais que estivesse fazendo algo que ela gostasse, ela não se tornava menos rabugenta ou azeda. Ainda era .
— Você não sabe mesmo cozinhar uma verdura? — Ela olhava perplexa para ele, sem entender por que diabos as verduras que tinha prometido olhar estavam parecendo papa — Você é burro? Como você sobrevive?
— Cozinheira. — deu de ombros, sentando numa das banquetas e se dando por vencido.
— Eu odeio gente rica. — rolou os olhos, olhando bem para suas preciosas batatas e pensando que, pelo menos, ela poderia fazer purê. Mas o brócolis estava perdido, a couve também e o que diabos seu espinafre estava fazendo ali? — Eu vou fazer um purê com tudo e você vai comer nem que eu enfie goela abaixo.
— Eu posso comprar nuggets?
— Se você entrar com carne na minha casa, eu juro que é a última vez que você entra. — Ameaçou, a raiva estampada no olhar — Okay, ainda tem brócolis e hambúrguer de quinoa. Sobrou batata?
— Sim. Você quer que eu corte?
— Sim, corta e a gente faz batata frita. Aliás, eu acho que tem aipim no congelador. Não sei se vale a pena gastar meu aipim com você depois que você ferrou minha comida. Eles custaram minha alma.
— Eu não quero sua alma, vamos de batata. — soltou uma gargalhada, abrindo o congelador e pegando o hambúrguer de quinoa — Quer que eu esquente o óleo ou a moça saudável vai assar a batata e o hambúrguer?
Batata frita, , não batata assada. — revirou os olhos, voltando a atenção para a gororoba estranha que estava todas as verduras amassadas. O toque de seu telefone se fez presente no fundo, e ela estreitou os olhos, percebendo duas coisas importantes.
1 — Aquele era o toque de Ingryd.
2 — O toque de Ingryd tinha parado.
— Alô? — A voz de ecoou pelo cômodo, e sentiu sua vida acabar naquele exato momento — Não, a ligação está certa. Você quer falar com a ? Certo. , é para você.
Quem está com você? — Ingryd nem se importou em cumprimentar a irmã, mania que normalmente era dela. A ruiva colocou o celular no viva-voz e segurou a risada, olhando fixamente para .
Um amigo. murmurou sem deixar a voz soar.
Um amigo. respondeu de imediato — Ninguém importante, o que você quer?
— Eu conheço essa voz, . — Ingryd soou extremamente curiosa, e a ligação mudou para vídeo chamada. aceitou sem nem perceber — Vire o telefone. Quem está aí?
— Ninguém. — fez sinal para que abaixasse e trocou a câmera pela traseira. O homem estava escondido atrás do balcão — Vê? Meu amigo foi no banheiro.
Enquanto e Ingryd conversavam, pensou no porquê de estar se escondendo da irmã da ruiva. Quer dizer, tudo bem que Ingryd era louca pelo Borússia e que poderia surtar muito, mas nada que fosse perigoso. Afinal, ela sabia que a mídia não era a coisa mais legal do mundo e entendia que qualquer coisa que saísse dali, ficaria ali.
— Oi, Ingryd. — murmurou, aparecendo ao lado de na câmera frontal. A ruiva rolou os olhos, e a loira só ficou parada antes do primeiro grito sair.
EU DISSE QUE CONHECIA ESSA VOZ! — Pulou do outro lado da câmera — Eu sabia que conhecia eespera aí. O que está fazendo em seu apartamento? Meu Deus. está em seu apartamento. ! O que você está fazendo com no seu apartamento?
As duas vozes saíram juntas numa desordem engraçada. disse “Eu sou o amigo” e, logo depois, murmurou “Estamos de saída”.
— POR ISSO VOCÊ ESTAVA NO JOGO! — Ingryd parecia ter solucionado o maior mistério da vida dela. Um barulho soou ao fundo, parecia uma porta abrindo — Oi, pai, sabia que a está saindo com um jogador do Borússia?
— Que estranho, ela não é quem odeia futebol? — Adrian apareceu ao fundo, mexendo em algumas coisas — É aquele que vive revezando entre o Borússia e o Bayern?
Pai! — Ingryd repreendeu o mais velho — Ele está noivo!
está saindo com um cara noivo?
— Eu não estou saindo com Mario Götze! — gritou, arrancando uma gargalhada de .
— Eu preciso contar isso para a Babi. — murmurou, sentando no balcão e nem se importando com a fã histérica na tela.
AI, MEU DEUS, VOCÊ CONHECE BABI VASCONCELOS! , VOCÊ PODE SER AMIGA DE TODAS AS WAGS! Me diz que algum deles está solteiro, eu preciso ser uma wag.
— Ingryd, menos, bem menos. — soltou um longo suspiro — Eu preciso trabalhar daqui a pouco e ainda tenho que fazer o almoço. Nos falamos depois.
E quando eu vou conhecer seu namoradinho? Vocês podiam vir para Mainz, nem é tão longe assim. , você quer passar um fim de semana aqui em casa?
— Ele não…
— Claro! Mas não somos namorados nem nada, só amigos mesmo. — murmurou, fazendo querer se jogar daquele mesmo andar e conhecer o chão da forma mais primordial possível — Eu vou te seguir no Instagram e a gente marca qualquer meio de semana que a esteja livre, ou durante o tempo que eu estou afastado, porque é bem mais fácil sair cedo da fisioterapia.
Eu quero morrer. entregou o celular para o loiro, que continuou conversando com a irmã dela como se fossem amigos de anos. A ruiva voltou sua atenção para a comida, nem reparando quando o homem parou atrás de si e passou os braços ao redor de sua cintura — , eu tenho uma faca na mão, eu realmente te aconselho a não ficar aí atrás.
! — rolou os olhos e começou a rir — Sua irmã está empolgada não porque você está saindo com alguém, mas porque é alguém que ela gosta e vai ter a oportunidade de conhecer. Eu não estou te pedindo em namoro.
— Só marcando de sair com minha irmã.
— Ela chamou e eu não ia rejeitar, não vou ser mal educado. — Ele explicou, beijando os cabelos dela — , eu já disse. Eu não estou obrigando você a ter algo sério comigo. Sua irmã é fã do time que eu jogo, e eu vou fazer o possível para ela se sentir bem comigo ou até mesmo com o time. Agradar as pessoas não é o fim do mundo e também não é uma coisa muito difícil para se fazer, não é como se fosse o maior esforço do mundo ser legal com alguém. Eu sei que, para você, isso é um esforço enorme, mas você pode tentar.
— Some da minha casa, vai. — A cara emburrada dela ia se desfazendo enquanto o homem brincava com seus cabelos. — Você nem me levou para conhecer a Sabrina e o seu sobrinho.
— Você não quer que eu conheça a Ingryd e agora está reclamando que não conhece minha irmã? — riu — É só marcar comigo, que eu aviso a ela e nós vamos até lá.
— Eu não, não sou sua namorada, lembra? Não tem para que eu conhecer sua irmã, a minha que é intrometida e curiosa.
não respondeu nada porque ele não sabia dizer o que ela queria com aquilo. não transmitia estar pronta para um relacionamento e muito menos parecia querer um.
Fizeram o almoço e comeram rapidamente, mesmo não estando com o melhor gosto do mundo. foi se arrumar para ir trabalhar, e ficou na cozinha mesmo, lavando a louça.
A ruiva parou em frente ao espelho e começou a enfiar os dedos no cabelo, com preguiça de procurar o pente para ajeitar a juba, mas sua atenção nem estava ali. Pensava em , em como ela tinha o enfiado na vida dela sem ao menos perguntar para si mesma se estava preparada para aquilo ou não. Ou se ele queria. Ela sabia como homens eram complicados, e aquela insistência toda do loiro podia ser só interesse passageiro, que uma hora iria chegar ao mais clichê dos fins.
Terminei. — A voz fora ouvida atrás de si, e olhou por cima do espelho apenas para vê-lo se jogar em sua cama — Você ainda está chateada com aquilo da sua irmã?
— Não. — Respondeu baixinho e foi até a cama, deitando ao lado do homem e se aconchegando em seu peito — Na verdade, eu estou chateada porque tenho que ir trabalhar. Ficar na cama está de bom tamanho.
. ainda tinha o tom de repreensão na voz — ‘Tá tudo bem, eu ignoro a existência da Ingryd. Posso fazer isso sem me sentir um monstro. Eu não sou tão legal assim, só finjo.
— Eu sei que não é, já te vi matando um ratinho que estava na ratoeira preso.
— Não era sua roupa que ele estava comendo.
— Que pena, porque eu tiraria-o de lá e colocaria na rua.
Ou no estômago de Salazar. Você quer me emprestar sua cobra para caçar ratos?
— Você é ridículo. — rolou os olhos e segurou a risada — Você tem fisioterapia, como vai faltar para irmos até Mainz? Até porque você volta a jogar nessa semana, não é? E o jogo amanhã? Eu tenho que ir com a Mitzi, prometi para ela que ia enaltecer Roman Bürki e gritar o quanto ele é bom no campo.
— Ingryd pode vir até aqui. Fácil, eu aposto que ela vai adorar assistir a um jogo da Champions aqui em Dortmund.
— Hm, eu vou falar com ela. — se remexeu na cama, pensando que aquela era uma saída mais fácil. Trazer Ingryd a Dortmund era acabar com milhões de pendências numa única vez. Além do que, não ir até Mainz significava não ver seu pai. — Ela tem faculdade, mas eu tenho certeza de que vai conseguir dar um jeito, ou não se importar em faltar alguns dias.
— Bem, eu também não me importaria. — se afastou de , indo até o aquário de Salazar para observar a cobra — Posso pegar?
— Você tem que perguntar isso para ele, , não para mim. Eu sou apenas a mulher que o alimenta. — riu, sentando na cama — Vamos lá, tenta aí.
estreitou os olhos de um jeito tão engraçado que mal dava para ver os glóbulos oculares por baixo das pálpebras. Abriu o aquário no maior cuidado do mundo, pegando com cautela alguns centímetros abaixo da cabeça assim como tinha visto pegar muitas vezes. Era pegajoso e gelado. Uma careta de nojo foi quase visível, e seria bem mais evidente se a ruiva não estivesse olhando de modo analítico para ele. Quando a serpente já tinha enrolado metade do corpo em , ele soltou a cabeça levemente, observando o jeito que Salazar parecia fitá-lo.
— É agora que eu começo a falar a língua das cobras? — O loiro brincou, recebendo uma cara de interrogação como resposta — Droga, , por que você não é normal e gosta de Harry Potter como todo mundo?
— Porque é chato. — Rolou os olhos, como se fosse óbvio — E como minha mãe diria, se eu tivesse uma, eu não sou todo mundo.
— Você certamente é a pessoa mais chata que eu conheço. — O loiro rolou os olhos e começou a prestar atenção unicamente na cobra, mesmo que sua mente estivesse trabalhando a mil — Tem o feriado da Páscoa.
— Eu vou para Madrid na páscoa. Vamos tentar trazê-la para o jogo dessa semana mesmo.
— Você já foi para Madrid antes?
— Muito pequena, não aproveitaria do jeito que eu provavelmente vou aproveitar hoje em dia. — A ruiva se estirou na cama e bocejou longamente, levantando em seguida para tirar a cobra da mão do loiro e puxá-lo em direção à saída — Eu preciso trabalhar.
Deixou em casa e seguiu o caminho do Serpentário imediatamente depois. Chegou e não cumprimentou ninguém. Foi direto para seu escritório e se afundou em pensamentos demais para um dia calmo.
sabia que tanto a irmã quanto o homem ficariam com aquilo na cabeça. Não sabia se era o certo a fazer, muito menos o que ela queria. Seria mesmo uma coisa tão errada não querer envolver na maluquice que era sua família? Quer dizer, o pai arranjava uma nova mulher a cada cinco anos, Ingryd era apaixonada pelo time que ele jogava e... ela não tinha mãe. Acabava aí.
Ao checar as notificações do Instagram, “ seguiu everlastingryd” foi a que mais chamou atenção de . Eles tinham um mês que ficavam e a ruiva sabia muito bem que não tinha uma terceira pessoa na história. Era literalmente um ficando só com o outro. Isso seria um passo para algo sério, certo?
Certo.
Mas a pergunta que não parava de piscar em letras garrafais na mente de era: eu estou preparada para algo sério?
Relacionamentos eram algo que mantinha distância desde que passara anos de sua vida ao lado de alguém e fora abandonada da noite para o dia com uma explicação muito fajuta. Mas não era Villain. queria algo com , e ela sabia disso porque percebia o jeito que ele olhava para ela. E também porque ele passou semanas tentando agradar a mulher, mesmo ela dizendo que sairia com ele num dia que não existia no calendário.
A falta de segurança da mulher poderia estar afetando-o. Quer dizer, devia ser horrível você se esforçar tanto para algo e alguém ir lá e cortar seu barato por ser muito Grinch para lidar com coisas felizes. Foi aí que deu o primeiro passo e o mais ousado de todos: abriu seu Instagram e escolheu a foto que havia tirado de quando o homem aparecera em sua porta naquela manhã. Era horário de almoço, e a primeira pergunta de fora sobre doces e por que ele tinha chegado de mãos vazias. Marcou o perfil de e escreveu a legenda, postando sem nem pensar.
“Eu não sei porque ele me olhou assim quando eu perguntei se ele trouxe sorvete. Alguém tem que respeitar minhas escolhas de almoçar doce.”
Não era uma legenda fofa e muito menos um passo tão extraordinário como havia soado na cabeça de , mas era um passo. Passo este que arrancou um sorriso do loiro assim que a notificação apitou em sua tela.
Não sabia se era pela surpresa da atitude dela de ter metido uma fucking foto pública no meio de tantas pessoas e ainda ter marcado-o, ou pelo fato de que realmente a primeira pergunta de naquela manhã fora sobre sorvete. O primeiro comentário foi de Mitzi, e se segurou para não perguntar o que diabos era OTP. Logo abaixo havia vários gritos de Ingryd e coisas sobre ela estar morta, que arrancaram só risadas do jogador.
Aproveitou que Ingryd estava online e foi até seu perfil, mandando uma mensagem para ela.

Você poderia vir para o jogo da UCL aqui em Dortmund.


Um tiro no escuro que demorou muito tempo para ser respondido. Não que Ingryd estivesse sem saco ou ocupada. Ela estava nervosa, muito nervosa. Por que caramba a irmã dela estava mesmo saindo com um jogador do Borússia Dortmund? Depois de longos minutos encarando a mensagem, decidiu que a resposta estava na hora de ser enviada.

Eu tenho aula, mas… se você me conseguir uma camisa autografada por Roman e Marco, eu consigo chegar aí hoje.


Era isso. Ingryd, naquela mesma tarde, estava em Dortmund. Apareceu às seis da noite na casa da irmã com uma mala e tantas perguntas que se arrependeu quase imediatamente.

••••


Ingryd Roberstkün Everlat tinha vinte e um anos, estudava Moda e nutria uma paixão pelo Borússia Dortmund por causa da mãe, que, antes de se mudar para Mainz, morava lá. Mãe de um gato branco chamado Snowbell e adorava rosa. Sua cantora favorita era Ariana Grande, e, com toda certeza, ela ficaria muito feliz também num show de Harry Styles ou da finada One Direction. Ingryd amava a família e fazia de tudo para estar perto de todo mundo sempre, fazia questão de ver os pais o máximo que podia e sempre tentava ligar para e manter contato com a irmã mais velha.
Em línguas mais fáceis para mundanos como nós: ela era o completo oposto de Furtwängler Roberstkün.
— Ingryd, não me faça ficar arrependida de ter te trazido até aqui. — O tom de ameaça de era perceptível — chega em dez minutos, e eu vou repetir o que eu já disse antes…
não é meu namorado, não vamos na casa da Mitzi, ninguém vai ligar pra Elena Bender e, se você me fizer passar vergonha, eu te corto em pedacinhos e coloco no congelador para ser o jantar de Salazar. — As irmãs repetiram juntas, e Ingryd tinha um tom de deboche muito engraçado, além de estar forçando uma voz nasalada e extremamente irritante.
O interfone tocou, e Ingryd arregalou os olhos, empurrando para atender antes da ruiva.
Sim, Sr. ? Pode mandá-lo entrar. Sim, sim, apartamento da Sra. Furtwängler. Obrigada, senhor. — Ingryd colocou o telefone de volta no gancho e sorriu — Eu vou precisar meditar muito para conseguir dormir essa noite. Meus remédios de ansiedade estão em dia, não estão? — Ingryd sentou numa cadeira do balcão e encostou os cotovelos na mesa, querendo conter um grito quando ouviu a campainha soar.
bufou, rolando os olhos e indo abrir a porta para o jogador. Quando , do outro lado do portal, ia tocar a campainha novamente, o objeto que bloqueava a entrada foi empurrado para dentro e uma totalmente irritadiça se fez presente.
Parece que vai sair fumaça de suas narinas. — Foi a primeira coisa que o loiro disse. Tinha uma sobremesa de confeitaria em mãos e um sorriso mínimo no rosto. Abaixou a cabeça para beijar a bochecha de e percebeu que ela estava quente também. Seria aquilo raiva?
Essa felicidade toda é irritante. Eu aposto que se ela ganhasse um Porsche, não ficaria tão feliz. sussurrou de volta, sorrindo sem mostrar os dentes e dando espaço para o homem passar. O barulho da porta fechando fez Ingryd levantar a cabeça, e ela já tinha aquele sorriso enorme nos lábios — Ingryd, você já o conhece, mas ao vivo é diferente. Esse é o . , minha meia irmã, Ingryd. Virem melhores amigos e não encham meu saco.
pegou a sobremesa na mão de sem nem perguntar o que era. O jantar havia sido planejado de última hora e o organismo de ia sentir por estar jantando quase dez da noite, mas valia a pena.
— É um prazer te conhecer. — Ingryd foi a primeira a se manifestar, estendeu a mão para um aperto cordial, e foi quem a puxou para um abraço mais íntimo.
fala muito bem de você quando não está soltando fumaça pelo nariz. — O jogador sorriu, tímido, e sentou na cadeira em frente à de Ingryd — Você veio de ônibus? — A loira confirmou com a cabeça — E como foi a viagem?
— Até rápida. Snowbell não ficou tão irritado como ele fica quando anda de carro, foi até um avanço.
Você tem um cachorro?
— Gato. — murmurou, voltando a atenção para os dois com a bola de pelo branca no colo — O que é muito chato, porque eu tenho que deixar minha cobra presa no aquário.
— Mas Salazar não consegue comer esse gato! — protestou, indo até a ruiva para acariciar o bichano.
— Ele acha que consegue. Os dois iriam acabar machucados e, como minha cobra não tem um miado insuportável e fica agourando pela casa, eu tenho que deixá-la presa. — Uma coisa naquela fala chamou atenção de . Não o tom debochado de e muito menos a braveza presente em sua voz, mas a cumplicidade entre as duas. falava mal de Ingryd metade do dia, mas era só deixar as duas juntas para perceber que elas se amavam. E, talvez, apenas um talvez, Ingryd fosse a pessoa que mais amasse no mundo.
Não era porque eles dois estavam num relacionamento instável que tinha medo de apresentar Ingryd a . Era porque tinha medo de uma reprovação.
— Você colocou esse nome por causa daquele filme do ratinho? — perguntou. Por mais que fosse óbvio, uma confirmação seria o começo de um assunto.
— Sim. — A boca dela se mexeu de forma engraçada quando respondia, e ela riu em seguida, escondendo o rosto entre as mãos — Eu tinha dezesseis anos quando ganhei e estava num momento de só assistir filmes e desenhos de animais falantes. Era Snowbell ou Pink. Por motivos óbvios, ele combina mais com Snowbell.
— Foi a mãe dela que escolheu o nome de Salazar. — apontou para Ingryd com o queixo, voltando sua atenção para o gato que arranhava sua calça — Ela só me explicou alguns anos atrás que era um presidente português… ou inglês? Eu não sei, mas ela gostava dele e sugeriu.
— Todo mundo acha que é por causa de Harry Potter e a fica muito irritada. — A voz de Ingryd parecia com a de uma criança e isso era adorável.
— Você nunca me disse por que detesta Harry Potter. — murmurou para , que apenas levantou os olhos para ele e fez uma careta.
— Eu só acho chato. — Ela soltou o ar — De verdade, eu já até fiz uma maratona com o Villain e Ingryd, assisti todos e continuo com a mesma opinião.
— Não sabia que você tinha um irmão.
Irmão? começou a rir, e Ingryd a acompanhou, gargalhando de um jeito que se sentiu totalmente o atrasado do rolê — Villain é meu ex-noivo.
— Você não me disse que tinha um ex-noivo. — Tinha algo muito engraçado no tom de voz de , algo que poderia ser facilmente identificado como um início de ciúmes.
— Oi, , tudo bem? Eu tenho um ex-noivo que me largou sem motivo aparente e se mudou para o Chile uma semana depois do término. — tinha uma dúvida no olhar, e Ingryd estava amando presenciar aquilo para poder surtar completamente depois.
— Realmente, não é um assunto legal. — O jogador riu de nervoso e coçou o pé do cabelo — Vamos jantar.
Os três pararam na mesa de jantar e começaram a se servir. sabia que seria uma comida saudável e vegana, então nem se preocupou em perguntar o que estava sendo servido. Colocou uma grande porção de tudo que estava ali e começou a comer. Estava sim com um gosto bom, e aquele toque de cebola e alho no fundinho estava deixando a comida ainda mais gostosa. Ele colocou um pouco mais de purê de abóbora, a única coisa que ele sabia mesmo o que era sem ter que pedir o cardápio do dia para .
— Eu estou com vergonha de pedir isso. — Ingryd quebrou o silêncio do jantar e mexeu na borda da saia — Você pode autografar minha bandeira? E quem sabe levar para os jogadores autografarem.
— Não precisa ter vergonha de pedir isso. — riu, limpando a garganta antes de voltar a falar — Vamos fazer melhor. No próximo jogo, você vai comigo até os bastidores e consegue o autógrafo de todos, até do Tuchel, se quiser. — O sorriso de Ingryd só ficava maior, e ele sentiu que estava acertando em cheio com ela — Posso até falar com quem estiver no jogo para tirar fotos com você. Aliás, Mitzi vai assistir o jogo com a . Você vai conhecê-la também.
— Eu vou morrer. — A mão de Ingryd parou em cima do peito e ela tinha olhos tão brilhantes que pareciam um cachorro que caiu da mudança — EU QUERO! Claro que quero, meu Deus, eu quero sim.
A animação da mais nova era algo contagiante, logo o clima tenso tinha sumido e os três conversavam aleatoriedades do dia a dia. Após o jantar, não esperaram muito tempo para atacar a sobremesa que tinha trazido, não antes de ouvir perguntando se não tinha nada de origem animal, fazendo os outros dois rolarem os olhos.
Um barulho irritante começou a soar do telefone de Ingryd, e ela bufou em seguida, indo até o aparelho e fazendo aquela cara de quem não merecia aquilo.
— Eu tenho que tomar o remédio. — Sua carinha triste era como um cachorrinho abandonado — Não acredito que eu vou perder o resto da noite com vocês.
— O remédio dá sono? — perguntou com curiosidade, vendo a cara de sem amigos que estava fazendo.
— Sim. — Ingryd foi até a geladeira pegar um pouco de água e soltou o ar em desistência — Eu não duro muito tempo quando o tomo, então vou me despedir logo. Foi muito bom te conhecer, . Espero que vocês dois comecem a namorar logo.
— Direta. — O loiro ria enquanto batia a mão na testa e arrastava pela cara, talvez querendo fugir dali — Nos vemos amanhã no jogo, Ingryd. Não esqueça do que te prometi. — Levantou para abraçá-la e apertou a loira contra si.
— Nem que eu quisesse ia esquecer. — Ela beijou a testa da irmã e murmurou algo no ouvido dela, dando mais um tchauzinho antes de ir.
— Remédio forte? — perguntou para , já esperando uma resposta rude.
— Ingryd é depressiva. — apoiou a cabeça nos braços e soltou um longo suspiro — Só que tem uma espécie de alergia ao remédio, então tem que tomar antialérgico e, consequentemente, não dura cinco minutos.
— Não é muito pesado para o organismo dela?
— É sim, mas quando eu disse isso, quase fui deportada da Alemanha. — A ruiva rolou os olhos e começou a tirar a mesa. pegou os pratos sujos e foi em direção à pia para lavá-los. Com ambos os serviços terminados e a comida restante guardada, seguiu para a sala e sentou numa poltrona muito confortável que adorava usar para assistir séries.
vestia uma calça jeans e um suéter marrom. Os pés estavam de pantufa porque a primavera tinha chegado, mas as chuvas não tinham ido embora, e o frio também não. Foi até o quarto trocar a calça jeans por uma de moletom e manteve as pantufas e o suéter, tirando só o sutiã. Quando a ruiva voltou, achou que ela iria reclamar que ele estava sentado em sua poltrona, mas a ação dela foi bem contrária a isso.
calculou a situação por dois segundos e sentou no colo de . Não só sentou, se jogou como se estivesse lidando só com a poltrona e não com uma pessoa também. Encostou a cabeça no ombro dele e se encolheu em seguida, fechando os olhos ao sentir a mão do homem em seus cabelos.
— Por que Ingryd é depressiva? — O tom de voz dele estava extremamente calmo, tão melodioso que podia dormir ali mesmo.
— Ela não conseguiu entrar na faculdade quando se formou, disseram que era por falta de referências, e então ela passou o ano inteiro trabalhando e correndo atrás de todos os nomes no ramo da Moda, mas não passou na prova. Só conseguiu mesmo ano passado, mas, antes disso, já tinha se afundado em depressão. — explicava, olhando para os pêlos loiros da barba de — Teve acompanhamento psicológico por um tempo. Até achamos que ela ia melhorar com o fato de ter entrado na faculdade, mas ela sofre ansiedade também. As coisas só acumulavam, e Ingryd parecia que ia surtar, adquiriu um transtorno alimentar e logo depois uma crise de bulimia por achar que era horrível por ter braços grossos e dobrinhas na barriga.
— Ela não vê o quanto é linda? — fez um bico, tentando primeiramente se colocar no lugar dela. Sabia que todas aquelas coisas eram problemas pessoais e, mesmo que parecesse fácil resolver, quando você é apenas espectador, não tem muito o que fazer ou até mesmo falar — Ela… não parece sofrer nada disso, sabe? Ingryd é tão espontânea, parece tão feliz. Eu fico contente que ela tenha você para apoiá-la em tudo.
— Ela é tudo o que eu tenho. — murmurou, mudando sua posição e focando o olhar na decoração da parede — Eu nunca tive uma boa relação com meu pai, sempre senti que ele me culpava pela morte de minha mãe, e eu sei que até hoje ele não gosta de mim. Eu não gostava de Ingryd quando era criança, achava que era por causa dela que meu pai me tratava com frieza.
— Aí você percebeu que não era culpa dela?
— Aí eu percebi que meu pai era um mané, que tinha três mulheres maravilhosas em casa e não sabia valorizá-las. A mãe da Ingryd foi uma ótima mãe para mim, mas eu sempre soube e senti que ela não era minha. Então, me sobrava Ingryd. Tinha meu sangue, gostava de mim por gostar e não porque sentia que devia fazer isso. Ela me dava desenhos de nós duas e me chamava para brincar com ela de boneca. Foi quando eu percebi que amava minha irmã e devia mantê-la comigo para sempre.
— Vocês duas têm sorte de ter uma a outra, principalmente com o pai que têm. — beijou o queixo de e apertou os braços ao redor dela — Quando vai me contar sobre Villain?
Quando você me contar sobre Montana Yorke.
— Ugh, essa foi afiada. — O alemão riu e mordeu a boca por dentro — Tudo com Montana foi muito rápido. Eu tinha saído de um relacionamento de cinco anos e, em poucos meses, comecei a namorar com ela. Só que ela era canadense e eu sempre morei aqui. Noivamos pela certeza de que um dia não teríamos problemas com distância, e então ela veio morar comigo. Mas sentia falta da família, dos amigos, da liberdade que ela tinha por conhecer quase tudo perto dela. Ela não gostava de sair muito, não tinha se acostumado com a língua e parecia sempre triste demais. Entramos num consenso e terminamos. Ela voltou para o Canadá e, pouco tempo depois, eu assinei o contrato com o Borússia.
Ela abandonou tudo para ficar aqui com você? confirmou com a cabeça, e engoliu em seco. Tentava não julgar a mulher, mas sua mente estava trabalhando a mil. Como alguém tinha coragem de largar tudo por um homem? — Vocês passaram quanto tempo juntos?
— Quase dois anos, eu acho. Um pouco a mais ou a menos, não sou muito bom com números. — Ele voltou a brincar com o cabelo dela, um tanto incomodado pelo assunto — Agora me conte sobre Villain.
— Nos conhecemos no início da faculdade e, por acaso, eu descobri que ele era primo da melhor amiga de Ingryd. Tudo parecia encaixar e, em todos eventos que eu ia, eu o encontrava. Foi um match perfeito, que tinha tudo para dar certo. Tínhamos gostos em comum, ele idolatrava meu pai e o sentimento era recíproco. A única coisa que não batia era que quando eu ganhei Salazar, a cobra não gostava dele e vivia fazendo a mão dele de mordedor. Mas era perfeito. Quando eu tinha que viajar, ele dava um jeito de ir comigo e, quando não podia, sempre estava ligando ou vendo como eu estava… E aí ele me pediu em casamento, então eu fui a pessoa mais feliz do mundo, até que tudo começou a dar errado. Brigávamos, ele tinha crises de ciúmes e não queria que eu saísse de casa, queria me levar no trabalho e na faculdade, não gostava caso eu saísse com amigos e reclamava de ciúmes de meu chefe! Até que ele me deu um pé na bunda porque eu não fazia as vontades dele. Disse para mim que não queria mais e se mandou para o Chile em pouco tempo. Claro que eu achei que era o fim do mundo, me afundei em álcool e passei um péssimo tempo assim. Eu cheirava a álcool, tinha garrafas escondidas pela casa inteira e vivia bêbada.
E aí?
— E aí que Ingryd e Thomás me internaram numa clínica de reabilitação, e eu percebi que estava fodendo minha vida por causa de um par de bolas e um pênis. Claro que largar o álcool estava sendo difícil e eu tentava me contentar com enxaguante bucal com álcool. Passei dois meses lá e voltei como se nada tivesse acontecido.
— Todos nós nos fodemos em algum momento da vida. — estava com o coração partido, sentia como se tivesse que cuidar de ainda mais. Mas, ao contrário dele, ela contava aquilo com o peito cheio de orgulho e aquela cara de eu sou mais forte que isso. E, realmente, era mais forte que aquilo tudo e o que mais a vida a reservasse.
— E estamos nos fodendo com constância. — Ela gargalhou, encostando a cabeça no peito dele e roubando o calor que o homem emitia — Queria que você dormisse aqui, mas Ingryd e eu estamos dividindo a cama.
— Dorme comigo aqui na poltrona então. — Propôs.
— Deus me livre, eu tenho um jogo para assistir amanhã e tenho que estar com a coluna inteira para acompanhar os gritos de Mitzi e os pulos também. — levantou com pressa, olhando para o homem com um sorriso nos lábios. Ela tinha uma expressão cansada e precisava mesmo de umas horas de sono — Levanta, você precisa ir para casa. Está tarde. Você não quer ouvir gritos de Mitzi Bürki, não é?
Holtzmann, eles não casaram ainda. — murmurou, se espreguiçando antes de levantar da poltrona e pegar suas chaves no aparador.
— Aposto que, em dois anos, eles estarão casados. — disse com certeza na voz, esfregando os olhos enquanto abria a porta — Boa noite, .
— Boa noite, liebe. — Beijou a bochecha dela e a própria teve de ser a ladra de beijo, arrancando um sorriso dele, que durou até o momento em que estava na própria cama, quase dormindo e com o rosto de nos pensamentos.
Oh, sim, iria dormir pensando nela. No quanto tinha aberto sua vida para ele e em como isso era importante para os dois.
Afinal, gostava de .


11 – Rough

06 de maio, 2017

Aquela noite não era uma noite qualquer, era a festa de aniversário do Serpentário Julian Hauptmann e, infelizmente, as duas sedes restantes não podiam se juntar para comemorar o dia. A internet unia os dois pela tag #28Julian’s, e o local estava completamente decorado com o tema. Cobras de plástico que pairavam sob a entrada eram o principal motivo para Mitzi ter rejeitado o convite. Alguns herpentológos estavam trabalhando com algumas cobras para dar pequenas aulas e uma exposição cuidadosa estava sendo feita mais à frente com o próprio Eric, que, por mais que vestisse smoking e sapatos sociais, tinha um boné virado para trás e cabelos bagunçados.
vestia calça social e um blazer preto-giz escolhido a dedo por Ingryd, que estudava moda e dizia que ele ficaria maravilhoso com ele. A blusa social era branca e o cabelo estava penteado como sempre. A pedido de Sabrina, que estava chamando-o de Titio Noel e outros apelidos engraçadinhos, tinha aparado a barba e parecia um pouquinho mais arrumado e menos um lenhador.
Todavia, tinha arranjado um novo significado para a palavra estonteante. Maravilhosa, divina, rainha do mundo, quem deixa nós vivermos no mundo porque tem pena de meros mortais como nós.
Esses eram elogios que havia dito quando vira a mulher sair do quarto. Segundo ele, era o que ouvia sobre a mulher quando comentava com Sabrina ou até mesmo Ingryd sobre ela. Mas isso não vinha ao caso, o importante era que a herpentóloga estava mesmo linda demais com o vestido vermelho de cetim, colado e com um decote tão profundo que desconcentrou o homem nos primeiros segundos. Aquele vestido comprado em Madrid era uma boa lembrança da loja EnBlancoyNegro, e com toda certeza ela adquiriria muitas peças daquele pedaço do paraíso.
— Eu estou com fome. — O jogador murmurou no ouvido de , um sorriso amarelo no rosto e a expressão de quem estava realmente com fome.
Eu também! fez uma careta, percebendo alguns olhares nada discretos em cima dos dois. Resolveu só ignorar, que ganhava mais com aquilo — Eu tenho certeza de que 99% das comidas aqui são com carne ou queijo, então eu vou procurar um suco.
— Não vai beber hoje? — indagou, passando os olhos pela mesa de comida para procurar algo que pudesse comer.
— Eu tenho certeza de que Eric está bebendo e daqui a pouco eu tenho que assumir com as cobras. Não quero nenhum acidente. — Explicou, prestando atenção na coisa mais bonita que veria naquela noite: uma placa no canto da mesa com VEGAN FOOD escrito. Paraíso. — Vai comer a comida com gosto de nada ou vai aumentar a cultura de assassinato a bichinhos inocentes e que poderiam estar tendo uma vida linda?
Você é chata que nem a merda. — O camisa 21 resmungava enquanto colocava comida vegana para si. Ele sabia bem que passaria o resto da noite enchendo seu saco se ele comesse carne ou algum derivado, além dos comentários como eu não vou te beijar e sua boca é parte de uma organização assassina, sai de perto de mim. Mas como ninguém era de ferro, roubou alguns pedaços de queijo e nem reclamou, porque a chatice dela era maior para carne.
— Eu também gosto muito de você. — beijou sua bochecha, rindo em seguida — Você vai para algum lugar depois de me deixar em casa? — Ele negou, sentando numa das mesas mais afastadinhas para que os dois pudessem comer em paz — Eu posso dormir na sua?
— Que tipo de pergunta é essa? — olhou para , aquele olhar que significava “se você pedisse para a gente ir para o Alasca agora, eu iria com você”, achando esquisito aquele pedido da ruiva — Claro que você pode. Aliás, vamos fazer algo amanhã? Não quero passar o domingo em casa.
— Algo como? — Interessou-se.
— Viajar. — Ele comia enquanto explicava — Pegar o carro e ir em algum lugar. Você só trabalha de tarde na segunda, podemos dormir lá mesmo e voltar. A gente almoça no caminho, e você vai direto para o trabalho.
— E o seu treino, Liebe?
— Só é pela tarde. — Cinco segundos após sua resposta, notou uma coisa muito peculiar. havia o chamado de Liebe. havia o chamado de Liebe. — Você tem algum lugar em mente? Porque podemos pegar o avi...
Oi. Com licença, eu estou atrapalhando? — Antes que pudesse responder que sim, estava atrapalhando, percebeu que o dono da voz era um ser de um metro e vinte, cabelos tão escuros que brilhavam e um sorriso sem a maior parte dos dentes. Ela prontamente negou com a cabeça e soltou um longo suspiro, contendo o sorriso bobo — Eu posso pedir um autógrafo? É que eu queria muito. — Os dois assentiram com a cabeça, e já foi procurando alguma caneta na bolsa de , até a frase seguinte — , meu nome é Kane. Você pode mandar um beijo para meu tio também, ele é seu fã.
paralisou. segurou a risada. Os dois se entreolharam e começaram a gargalhar.
— Você quer um autógrafo dele também? — A ruiva perguntou por cortesia, apontando para o homem ao seu lado.
— Pode ser também. — assinou no guardanapo e passou o papel para , que mexia a caneta entre as mãos e escrevia com delicadeza.
— Qual o nome do seu tio?
— Ah, você o conhece. — Kane riu, dando de ombros. Tinha um sorriso tão traquina no rosto que dava vontade de apertar até ficar vermelho — Um beijo para meu grande fã, Thomás Hauptmann.
nem precisou começar a escrever para levantar o olhar à procura do homem. Ele estava do outro lado, encarando a situação com uma cara de diversão. Pediu licença para e Kane e se permitiu correr em direção ao antigo professor. Quando Thomás levantou, foi só tempo de abraçar a eterna aluna favorita.
— Eu senti sua falta. — A mais nova foi a primeira a se posicionar, abraçada ao corpo dele com força.
— Eric não é um chefe tão ruim, e você está muito bem acompanhada. — A voz de Thomás era reconfortante de ser ouvida. passou quase dez anos lidando com aquele homem diariamente, claro que ela sentiria falta dele — Você sabia que as meninas montaram um pequeno laboratório de pesquisa?
— Felicity e Valerie? Elas sempre falavam disso. — Os olhos da mulher chegavam a brilharem — E o que houve com April?
— Foi para os Estados Unidos trabalhar com a National Geographic.
Aquela vadia! E o Kane? Ele é filho da Eva?
— Ah, você não sabe? — Thomás riu — Ele é filho do Eric.
Eric é casado?
— Não! — Thomás falou com obviedade e arregalou os olhos — Ele nos arranjou um sobrinho quando entrou na faculdade, mas todos nos juntamos para dar uma boa mesada ao menino, e ele não tem muito contato. Eric não leva jeito com crianças.
— Aparentemente, ele não leva jeito para muita coisa. — estreitou os olhos para o novo chefe, que tinha uma jiboia em mãos e ela estava enrolando ao redor do pescoço dele — Um minuto. se afastou do antigo professor e chefe, indo em direção ao atual chefe e fazendo a maior careta de desgosto que podia ser feita — Como eu não sou sua chefe?
— Você não é irmã de Eva Hauptmann. — Eric respondeu enquanto alisava a cabeça da serpente antes de segurar seu corpo e puxá-la para se enroscar em si.
— Eu odeio a meritocracia… — Rolou os olhos, voltando atenção para as pessoas que prestavam atenção nas coisas que Eric estava dizendo antes de se enrolar na cobra — Então, gente, esse é um tutorial do que não fazer com uma cobra. Não a deixem enroscar ao redor de seu corpo. Principalmente de seu pescoço.
A cobra parecia empolgada se enrolando ao redor da herpetóloga. As pessoas começaram a fazer perguntas para ela, colocando Eric totalmente de lado. E a Dra. Furtwängler adorou ser tratada daquele jeito, respondendo tudo o que podia e se sentindo tão à vontade que nem parecia que estava com um vestido caro, saltos altos o bastante para ela ficar dois centímetros maior que e uma serpente gigantesca em mãos. Claro que a parte que mais incomodava eram os saltos.
Doutora Furtwängler, como surgiu seu amor por cobras? perguntou, assustando algumas pessoas, entre elas a própria . A ruiva tinha um sorriso tão sapeca no rosto que conteve a vontade de estreitar os olhos quando ouviu. Já estava sentada no chão, com mais de uma cobra em mãos e com os saltos longe dos pés.
— Sabe aquele ditado que temos que superar nossos medos? Eu tinha medo de cobras. Morria de medo, mas aí eu percebi que, como qualquer outro bicho, elas eram seres que precisavam de compreensão. Meu pai dizia que era impossível eu sentir amor por uma cobra porque ela não era um bicho amoroso. Uma cobra não pode te fazer carinho, ele dizia. Se isso não é carinho, o que é? — Apontou para a menor delas, que parecia se divertir entre os cabelos da ruiva — A diferença é que eles não têm pelos e não tem veneno. Se tivessem, seria a mesma coisinha.
— Agora você não tem mais medo? — Uma garotinha perguntou. Estava agarrada à mãe com tanta curiosidade no olhar que era adorável de se ver.
— Eles são parte de mim, é impossível ter medo. Claro que às vezes eles me dão umas mordidas amorosas, mas não é nada que se preocupe. Já fui mordida tantas vezes que eu não devia me encher com isso.
Havia um círculo ao redor da mulher, e a noite foi levada com muitas perguntas. Todos já haviam esquecido da formalidade presente ali, e até mesmo , que estava terrivelmente acostumado com a presença de serpentes, brincava com uma delas e mostrava para outras crianças. Porém, aquele dia havia sido cansativo tanto para como para . Os dois não duraram muito mais que até um pouco depois das uma da manhã. Logo haviam se despedido de todos e estavam no carro de volta para casa.
Normalmente, quando pessoas bebiam, ficavam mais… agitadas. não precisava de álcool para ficar assim. Era só dar duas olhadas para : a barba desenhada, o sorriso verdadeiro no rosto e não o que ele usava para falar com repórteres, os olhos apertados e aquela expressão de que estava se divertindo muito.
tinha fogo dentro de si, quase como se fosse feita disso.
— Você acha que chegaremos rápido em sua casa? — arqueou a sobrancelha, mexendo na borda do vestido. Seu olhar estava exatamente como seus cabelos: pegando fogo. não precisava olhar em sua direção para saber o que ela queria fazer, sua voz soava arrastada demais, e ela tinha oitavas intenções por trás da melodia manhosa e interesseira.
Uma mão estava no volante e a outra alcançou a coxa da ruiva por baixo do vestido. Os dedos acariciavam com delicadeza e sempre chegavam a virilha, voltando quando parecia feliz por tê-la ali.
— Eu acho que ainda vamos demorar, não acho prudente ir rápido para casa, . — Sua voz estava tão calma que a ruiva sentiu os pelos se arrepiarem — Você está com pressa? — Os dedos tocaram a calcinha e puxaram o tecido, fazendo estalar contra a pele.
— Não… Sem pressa. — mordeu a boca, encostando a cabeça na janela do carro — , adianta.
— Você quer que eu adiante estando sem pressa? Eu não entendo você, . — Dirigiu seus dedos até a beirada da calcinha e penetrou o tecido, separando os grandes lábios até encontrar com o clítoris inchado e molhado. estava muito molhada, e não havia nem tocado nela até agora. A mulher abriu mais as pernas, dando espaço para a mão do homem se mexer com mais frequência em sua calcinha, mas sua espera foi tão grande quanto sua decepção.
Meio segundo depois, a mão do homem estava no volante novamente.
— O que você está fazendo? — A voz da mulher estava tão enfurecida, que normalmente acharia que ela se jogaria do carro.
— Dirigindo, . — Falou como de fosse óbvio — E eu preciso de toda minha atenção enquanto dirijo.
Você está certo. tinha raiva na voz, muita raiva. Raiva essa que só sentia quando Ingryd fazia alguma merda ou era extremamente inconveniente — Precisa mesmo se concentrar. — Sua voz agora soava mais… maquiavélica. Naquele momento, percebeu que iria fazer alguma coisa ruim.
gostava de fazer coisas ruins.
A ruiva tirou o cinto de segurança do corpo, ajeitando os cabelos antes de engatinhar até o banco do motorista. Sorriu travessa ao desafivelar o cinto da calça de e abaixar a cabeça em direção ao seu pau.
. puxou a cabeça dela pelo cabelo, segurou com força pela raiz e usou brutalidade para afastá-la — Não faça isso.
— Você acha que eu ligo para o que você fala? — Um sorriso maldoso estava presente nos lábios dela. Talvez aquele puxão tivesse deixando a ruiva ainda mais excitada. Talvez aquele puxão tivesse deixado com vontade de fodê-lo ali mesmo. Sentar em seu colo e rebolar até perder o juízo e as coxas doerem. Estavam na estrada ainda e o sinal vermelho do semáforo foi uma grande ajuda. Cada vez que tentava se aproximar mais de , mais força ele usava no puxão. Parecia que iria arrancar os cabelos dela a qualquer momento — Eu vou fazer o que eu quero e você vai deixar, vai continuar dirigindo enquanto é chupado pela boca que você mais gosta e ainda vai gozar nela. Sabe por que você não vai me impedir, ? — Sussurrou no ouvido dele enquanto lambia seu lóbulo, sentindo dor ainda pelo puxão — Porque eu como vadias como você no café da manhã. Você é um cachorrinho que gosta de ser domado, e eu estou aqui para te mostrar como é ser um leão.
Não havia resposta para aquilo, e, se houvesse, não sabia ainda qual era. Virou o rosto lentamente, soltando o cabelo dela para voltar com as duas mãos no volante. O sinal já havia aberto, mas não tinha ninguém na rua. Era de madrugada, e um completo vazio dominava o local.
— Faça. — Finalmente uma resposta saiu dele.
— Dê partida no carro.
— Eu não consigo me concentrar para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. — protestou, fazendo uma careta ao perceber que a mulher estava começando a se afastar — Você quer morrer? Eu vou bater o carro.
— Você nunca recebeu um boquete e continuou dirigindo para saber se vai bater ou não. — O olhar de era de tédio — Agora, dê partida.
E, como um cachorrinho dominado, deu partida, sentindo todo o corpo começar a ficar elétrico pela adrenalina presente no momento. voltou à posição que estava, os joelhos apoiados no próprio e as mãos já na calça do loiro, puxando a cueca e levando ao mesmo rumo que a calça havia tomado. Sem nem pensar se torturar era uma diversão ou não, enfiou todo o pau na boca. Apertava as bochechas por dentro e movia a cabeça, lambendo a glande quando o ar lhe faltava. Quando o primeiro gemido ecoou pelo carro, se empolgou. A boca fazia seu trabalho com agilidade, e uma risada foi ouvida de quando uma buzina soou tão alto que parecia que iam bater em qualquer outro carro. sabia que ele estava dirigindo praticamente em zigue-zague e que faltava pouco para o carro realmente batesse contra algo. Cada segundo que passava, ela chupava com mais vontade, lambia os lados e massageava suas bolas. segurou o cabelo dela com quase a mesma força que tinha usado antes, guiando à cabeça em movimentos de vai e vem cada vez mais rápidos. chupava com tanta vontade que não percebeu quando o corpo do homem estremeceu e o gozo dele jorrava em sua boca com força.
Dessa vez, não ligou que estava com o carro parado. Na verdade, eles já estavam em frente ao apartamento do homem. fechou a calça de qualquer jeito e soltou um longo suspiro.
Você estava dirigindo bem rápido para quem disse que não tinha pressa. — O tom de voz de sarcasmo era tão visível na voz de que ela segurava a risada.
— Às vezes eu sinto que estou pagando todos meus pecados com você. — soltou um suspiro, dirigindo as mãos ao pescoço da ruiva e trazendo o rosto dela para perto de si.
— E eles estão valendo a pena?
Ah — Um sorriso estava nos lábios de —, eu penso em pecar mais cada dia. — trouxe os lábios de até os seus, atacando a boca dela sem pena alguma. Os gostos se misturavam, e a sede do outro era saciada pelas duas partes naquele momento. A vontade de sempre, o desejo presente na porcaria da festa inteira. O fogo. Fogo esse que existia da raiz do cabelo até os dedos dos pés. Fogo esse que só era aceso na vida de quando ele encontrava aquela que conseguia domar todos seus lados. Que o fazia um cachorro domado e mostrava como ser um leão, como ela mesma havia dito. Era uma labareda pequena que começara com raiva e encontrara um meio termo em águas sendo jogadas em caras. Era companheirismo, ajuda e reciprocidade. Era amor, mesmo nenhum dos dois sabendo o real significado daquilo em voz alta, mas era uma chama de amor.
— Ei… — interrompeu o beijo, mordendo o lábio inferior do homem em seguida e ainda puxando-o com certa força — Não chupei você porque eu gosto ou para te agradar. Eu quero a retribuição muito bem feita com sua cabeça no meio de minhas pernas.
E por que minha boca só está ocupada com falas?
riu, saindo do carro e correndo para o apartamento do homem em seguida. Corria parecendo uma criança fugindo de alguém numa brincadeira. Ao entrarem em casa, o clima era completamente diferente.
prendeu contra parede. Não demorou muito para o vestido ser levantado até a cintura e a calcinha, abaixada até os pés. Quando as pernas da ruiva foram afastadas e encontrou o meio delas com a boca, não houve gentileza.
Lambia o clitóris em movimentos contínuos, desejando vestido nenhum no caminho para poder olhar nos olhos. Apoiou uma das pernas nos ombros e usou a mão livre para afastar os grandes lábios e chupar a carne inchada. Sentia o grelo pulsar em sua boca e ouvia os gemidos da ruiva, esfregando os pelos da barba em sua virilha quando podia. encaixou a boca do clitóris para cima e encontrou a entrada da mulher com os dedos, enfiando dois para masturbá-la enquanto ainda chupava. Girava os dedos e entortava, fazendo movimentos e simulações de entrar e sair, arrancando murmúrios cada vez mais altos de .
afastou um pouco a boca, lambendo a coxa e até arranhando com a barba antes de morder com força e chupar em seguida. Os dedos não paravam, continuavam frenéticos entrando e saindo da boceta da ruiva e, quando a boca do loiro voltou a acariciar e chupar o ponto mais sensível dela, não aguentou. Seu canal todo se contraiu de prazer e as pernas quase cederam, virando gelatina no exato momento. Seu corpo tremia em espasmos, e os olhos estavam comprimidos que nem a boca.
— Valeu a pena me chupar? — perguntou, ouvindo apenas um resmungo positivo vindo dela. Segurou as pernas da ruiva com agilidade antes de pegá-la no colo por completo até onde era seu quarto. Colocou na cama com delicadeza, abrindo o zíper do vestido e tirando todos os tecidos do corpo dela. Jogou os sapatos longe e fez o mesmo com a própria roupa. Tudo estava num bolo no canto do cômodo — Eu quero foder você. — Sussurrou para , mordiscando o pescoço dela e observando sua pele ficar eriçada.
— Aquieta o pau aí que eu preciso me recuperar. — riu, levantando o pescoço para olhar diretamente para o homem ao seu lado — ?
— Oi, meine liebe.
Você quer namorar comigo?
A pergunta pegou o homem de surpresa. Não que ele não quisesse namorar com ela, mas porque nunca tinham o pedido em namoro. Sempre era ele quem pedia, e isso passou uma sensação esquisita. Mas aquela era , não era? Ela era mandona e tinha uma segurança própria que ninguém tinha. É claro que ela teria a iniciativa.
Eu quero. sussurrou, como se fosse um segredo, puxando a mulher até si e apertando-a entre os braços com toda força possível.
— Sabe o que acontece agora? — perguntou num tom doce, meiga demais para aquela mulher.
O quê?
— Você vai me foder tão forte que eu vou ligar amanhã para o Serpentário e falar que tô com as pernas machucadas.
— Vão perguntar se você caiu de um cavalo. — riu, mordendo a orelha da mulher enquanto passeava uma das mãos pelo corpo, apertando a bunda com gosto.
— Ah não, foi pior que cair do cavalo. Montei nele.
Em meio a gargalhadas, enroscou as pernas ao redor da cintura de e trocou a posição dos dois, sentando no colo do homem com um sorriso sujo no rosto.
— Cansou de ser o cachorro domado? Você tem cara de quem gostou.
— Isso é culpa sua por ter me acostumado mal. — segurou as mãos da mulher, sentando na cama e prendendo-as atrás do corpo dela — Mas eu sugiro que você não se empolgue muito com isso. — Com muita paciência, o loiro se ajoelhou na cama e segurou os braços da mulher com mais força ainda — Você vai fazer o que eu mandar, certo? Um passo fora da linha e você irá se arrepender.
— Qual linha é essa que eu tenho que pisar fora? — O tom debochado de afetou o ego do homem. Ele tinha sido levado pela passividade muitas vezes já, aquela não seria uma delas.
— Eu não disse que você podia falar, . — Uma mão subiu entre as costas e ele segurou o cabelo dela entre os dedos, puxando para que o rosto dela chegasse ao seu lado — Sabe o que acontece se você me desobedecer? quis falar, quis gritar e expressar que não dava a mínima. Quis morder a boca dele e arranhar sua cara. Mas ela só negou com a cabeça, porque tinha acabado de descobrir que também gostava de ser mandada — Isso acontece.
empurrou o corpo de para frente, deixando suas costas deitadas e a bunda empinada em sua direção. A mão que estava no cabelo espalmou a carne antes de um ruidoso tapa ser diferido na bunda de .
Doeu. Doeu de um jeito terrível no primeiro momento, mas lá estava ele. O prazer animalesco que cresceu dentro dela e se expandiu por todo o corpo. Ela quis mais daquilo, mais daquela dor cheia de sensações gostosas.
— Entendeu? — negou com a cabeça, rindo num deboche falso só para receber mais um tapa. O desejo foi concedido, e, assim que o segundo tapa, mais forte e bruto que o primeiro, transpassou por todo o corpo dela, suas pernas ficaram fracas. — Entendeu? — Com os olhos empapadas de lágrimas e a boceta tão molhada que incomodava, concordou, sentindo o corpo voltar a ser colocado de pé. girou a ruiva, fazendo-o virar em sua direção. Mantinha um sorriso sacana nos lábios, sorriso esse que já havia presenciado, mas nunca com tanta… maldade.
Mas bem no fundo, estava apavorado. Ele nunca tinha sequer cogitado encostar o dedo em uma mulher e agora estava… desejando bater até na cara de . Eu estou mesmo batendo em alguém? Seu eu interno gritava, mas por fora ele só queria fazer mais.
puxou para cima de si. Sabia que, por mais que ele estivesse tentando de forma real, ele não ia durar muito na tentativa frustrada de ser o ativo. Ele era ativo sim, mas gostava de ouvir ser mandona e arrogante. A camisinha foi colocada com pressa, e logo guiou para se encaixar ao redor dele. Quando a mulher estava completamente sentada, o loiro ajeitou as costas e posicionou suas mãos na bunda dela. Guiava os movimentos com calmaria porque sabia que ela odiava aquilo. Puxava o corpo muito para frente e depois empurrava com lentidão para trás.
— Eu já disse que te odeio? — murmurou baixinho, nem se importando com aquele papo de mandar ou não. arqueou uma das sobrancelhas, levantando a mão para estapear a bunda da mulher, mas segurou-a antes que pudesse fazer qualquer coisa e estreitou os olhos em sua direção. O homem abriu a boca para reclamar e recebeu um tapa na cara. Um tapa tão forte que a mão de ardia.
E, para piorar de forma total a situação, havia gostado de receber o tapa. Nem havia sentido dor com a mulher rebolando em cima de si.
— Um dia, você vai fazer isso em mim, bonitinho. — Sorriu maldosa e segurou nos ombros dele, contraindo a boceta por dentro e apertando o pau do homem em si. Sorria sacana enquanto puxava o rosto dele em sua direção e roçava os lábios um no outro — Eu só não decidi ainda se vai ser hoje.
Uma mordida vinda de arrepiou , e ele empurrou o corpo dela para longe, jogando a mulher na cama e puxando sua bunda para cima e encaixando o pau na entrada da boceta, pincelando para não meter de vez. Antes mesmo que pudesse protestar, ele enfiou de uma vez só num desespero momentâneo. Segurou a garganta da ruiva com força, apertando os dedos ao redor enquanto entrava e saía com força, o barulho da foda bem dada ecoando pelo quarto se misturavam rapidamente aos gemidos.
Já decidiu? perguntou, apertando o pescoço com mais força enquanto a trazia para junto de si e encaixando os corpos suados. negou com a cabeça, arqueando as costas enquanto rebolava. Encostou a cabeça no ombro do loiro e riu, subindo uma das mãos para juntar um chumaço de cabelo e puxar com toda força possível. rosnou contra a boca dela, descendo uma das mãos para os seios, apertando o bico entre os dedos e torcendo em seguida.
O corpo dele começava a dar sinais de que não aguentaria por muito tempo. afastou as pernas de e encontrou a boceta inchada entre os dedos. Dedilhou o clitóris, melando os dedos entre a excitação e metendo com cada vez mais força, cada vez mais velocidade. Fazia movimentos circulares e depois para os lados, mexendo os dedos de forma mais rápida. Ele reagia àquilo com mais intensidade que ela, seu corpo todo vibrava ao entrar em contato com o pedaço de carne quentinho e molhado. Mas gemia, os olhos apertados e a boca aberta com sons pornográficos ecoando dela.
E, então, o nó atrás de sua barriga se desfez, estremecendo seu corpo de forma extrema enquanto a sensação maravilhosa do orgasmo se espalhava por cada canto de seu corpo. Tentou não se prender aos tremores e empurrou o namorado no colchão, ainda encaixada nele e sentando de costas para o homem. Apoiou as mãos nas pernas e rebolou, pegando velocidade e deixando o homem com a bela visão da bunda de em sua cara. Não demorou quase nada para chegar ao mesmo fim que ela, suado até o último fio de cabelo e com a respiração ofegante, parecendo que tinha acabado de jogar os 90 minutos de um jogo seguidamente e sem pausa alguma.
saiu de cima do homem, jogando a camisinha no lixo próximo a cama e depois se jogou na cama. Respirava ofegante e tinha uma maquiagem muito borrada, cabelos muito bagunçados e pernas muito doloridas. Parecia uma boa desculpa a queda do cavalo. Ou a montaria.
Riu baixinho, se encolhendo no abraço do homem e deixando o cansaço levar sua essência para qualquer lugar que a de estivesse.
Porque era chata muitas vezes, mas ela gostava de dormir daquele jeito com alguém como . Principalmente se a cama dele tivesse quebrado naquela exata noite e os dois só percebessem quando acordassem no outro dia.
gostava de quebrar camas.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.





Outras fanfics:
Barakah - Restritas/Originais/Em Andamento
Virginem - Restritas/Outros/Em Andamento

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus