Nine Years

Última atualização: 08/01/2019

Capítulo Único

fechou os olhos naquela tarde, o silêncio presente na casa a embalando em um leve cochilo, o som da chuva caindo no telhado funcionando como uma playlist calma enquanto ela imaginava as pequenas gotas de água escorrendo pela janela, lentamente descendo em direção ao peitoril. Ela se lembrava de quando era criança e o quanto fingia que as gotas estava apostando corrida umas contra as outras, negligenciando o fato de que elas estavam traçando o seu próprio fim assim que atingissem o chão.
Mas então ela cresceu e a chuva se tornou o sinônimo de um dia ruim. Ela encararia a janela e contemplava as folhas molhadas dançando pelo ar, a brisa carregando-as em largos círculos para longe da árvore, as separando para sempre. Era poético ver a água cair no asfalto, pequenas poças se formando onde a rua encontrava a calçada, para a alegria das crianças pulando nelas cobertas por suas capas. Ela sentia inveja delas e de seus espíritos livres, suas gargalhadas a irritavam, a inocência deles fazia com que ela desejasse ser criança para sempre.
Mas tudo isso era passado agora. Agora, ela aproveitava tudo novamente, seu corpo cansado sorrindo internamente enquanto ela ouvia os sons das gostas de água caindo do céu, regando o pequeno jardim que ela tinha do lado de fora, o tempo frio mantendo todo mundo dentro de casa para que ela não tivesse que se preocupar com nenhum barulho vindo da rua, interrompendo a serenidade que tinha caído sobre sua casa. Ela precisava de um descanso de 15 minutos para que pudesse voltar a funcionar. Era tudo o que ela estava pedindo.
abriu os olhos mais uma vez, um sorrindo agraciando seu rosto quando ela viu um pequeno porta-retrato na mesa de cabeceira, suas mãos instantaneamente pegaram o objeto, as pontas de seus dedos acariciando a relíquia como se precisasse ser mantida sempre em proteção. A moldura de madeira era simples, sem nenhum adorno, sem nenhum tipo de material especial sendo usado, mas a foto que guardava significava o início de tudo que ela tinha vivido.
Era possível vê-la, isso era inegável. tinha um vestido longo rosa ouro com um decote em V fundo que ia alinhado com a cintura num material brilhante, alças finas conectando-o às costas de fora e a saia de tule, nos pés, um sapato de salto nude. Ela sorria lindamente para a câmera, os olhos esfumados brilhando em empolgação assim como o igualmente excitado garoto que a segurava entre os braços, a altura dele sobressaindo-se à dela, mesmo que com aqueles saltos, a camisa branca perfeitamente colocada para dentro da calça social preta, o smoking perfeitamente alinhado e a gravata num azul escuro que parecia fazer com que ele ficasse ainda mais bonito.
E foi com essa foto, tão antiga e ainda assim tão especial, que se sentiu jogada dentro de suas memórias, especialmente as daquele dia, sua visão perdendo o foco no objeto em suas mãos enquanto ela deixava as reminiscências tomarem conta dela.
O sinal alto indicando o final das aulas ainda ressoava pelos ouvidos dela, seu corpo sendo arrastado pelas suas melhores amigas enquanto ela tentava, da melhor maneira que podia, forçar seus pés a se mexerem. Ela estava perdendo tempo e sabia que precisava fazer alguma coisa antes que fosse tarde demais. Mas como ela poderia fazer algo se não conseguia dizer duas palavras na frente do garoto? Por que ele iria concordar com qualquer coisa que ela tinha à dizer?
- É a sua última chance, - Let disse, as palavras entrando na cabeça de e fazendo seu coração correr um pouco demais, o estômago revirando. Ela não poderia conseguir. Ela não conseguiria. - Lau, vamos lá. O que você tem a perder?
- Respeito próprio, - ela sussurrou, a voz presa no fundo da garganta enquanto ela tentava se livrar de suas amigas e correr para longe dali. - Eu não quero que ele pense que eu sou uma otária.
Olhou para o garoto na frente delas, o cabelo bagunçado caindo da testa, a pele naturalmente bronzeada, quase como se ele e o sol fossem amantes íntimos e o astro beijasse cada pedaço à mostra do garoto, contrastando lindamente como os quentes olhos castanhos, pequenas sardas no rosto dele e a adorável cicatriz que ele tinha na bochecha esquerda adicionado ao ar de garoto que ele tinha. Ele tinha um sorriso lindo, do tipo que poderia fazer parte de um comercial de pasta de dente e ainda assim ele o distribuía para quem olhasse em sua direção. Seus olhos tinham ternura e ela poderia jurar que tinha o visto ajudando uma família de patos a atravessar o estacionamento uns dias atrás. Ele era um desses garotos perfeitos que saiam de um livro e ela conseguia entender perfeitamente porque não queria ir até ele e perguntar o que tinha de perguntar.
- Olha, - Bel começou, seus olhos na amiga. - Se ele não quiser ir com você, é perda dele. Você é uma garota incrível, doce, inteligente e linda. Se ele disser não, então ele é o otário, entendeu?
- Sem contar que ele seria um completo idiota por recusar uma veterana. - Julia completou, seus braços cruzando sobre o peito, um sorriso em seu rosto enquanto cutucava .
olhou para o garoto a alguns metros dela, as costas contra seu armário, rindo de alguma coisa que seus amigos tinham dito. Ele parecia tão livre e feliz que era como se ela pudesse sentir ondas de positividade vindas dele e espalhando por todo mundo. Ele era como uma onda de contentamento, o sorriso capaz de iluminar milhares de cidades e o jeito que jogava a cabeça para trás toda vez que ria fazia com que a garota sentisse a vibração do som e ele atingia sua própria alma, balançando-a por dentro. Era ridículo ter uma queda tão forte por um cara que ela mal conhecia, mas em todos os lugares que ela olhava, lá estava ele.
- É agora ou nunca. - Mal disse empurrando a amiga carinhosamente, fazendo-a tropeçar um pouco para frente, dando-a nenhuma outra opção. Ela iria fazer aquilo.
Engolindo o bolo que tinha se formado em sua garganta, respirou fundo, os pés parando por um momento para que ela pudesse se reequilibrar. Ela não acreditava que estava prestes a perguntar à ele se queria ir ao baile com ela. Ela não acreditava que tinha deixado suas amigas convencê-la e ela não acreditava que estava tão perto dele que o garoto tinha a visto e estava dando total atenção à ela. Era surreal tê-lo ignorando todos seus amigos, que ainda não tinham parado de falar - ela tinha percebido -, e estava olhando para ela com aquele sorriso adorável. Ela tinha que dizer alguma coisa. Ela tinha que achar as palavras antes que ele pensasse que ela era louca.
- Oi. - ela murmurou, as mãos segurando fortemente a barra da camiseta, os nós dos dedos quase brancos.
- Oi. - ele sussurrou de volta, os olhos procurando pelo rosto dela por um momento antes de perceber o que estava fazendo e desviando o olhar, um pequeno rubor presente nas bochechas dele. Ele não acreditava que estava sendo tão estranho.
- E-eu não sei se você se lembra de mim. - ela começou, os olhos nunca saindo do chão. A,h Deus. Ela era patética. Ela não conseguia nem chamar um cara para sair sem parecer que era melhor morrer.
“Você é a ,” ele sorriu, o rosto ainda um pouco vermelho pelo jeito que ele tinha se pegado olhando para ela. Porque ele já a tinha visto antes. Como não poderia? Ela estava em todas as partes. Ela fazia parte do jornal da escola, a mesa em que ela geralmente se sentava era perto da dele, ela sempre achava um jeito de se sentar perto dele nas noites de jogos, o armário dela era do outro lado do corredor e ela tinha o sorriso mais lindo que ele já havia visto. E ele sempre desejou poder falar com ela, mas a garota estava sempre cercada pelas amigas e ele se sentia um pouco intimidado. Mas agora ela estava sozinha e ele poderia ter uma chance. Certo?
- Isso. - ela disse sem fôlego, o coração frenético e sua cabeça gritando. Ele sabia quem ela era. Ele sabia o nome dela. Ah, meu Deus, o que estava acontecendo? Ela se sentiu tentada a dar as costas para ele e voltar para suas amigas, as mãos suadas correndo pelas pernas da calça jeans enquanto tentava se acalmar. Ok, então ele sabia quem ela era. Ela já tinha meio caminho andado. Tudo o que restava era perguntar. - Isso. Eu estava pensando, quero dizer, se você quiser é claro, porque você pode dizer não. Quero dizer, você não tem que fazer nada disso e eu só queria perguntar caso você não estivesse fazendo nada. - Ela estava fora de controle. Não conseguia parar de divagar, seu cérebro gritando para que ela parasse. Ela podia sentir suas amigas revirando o solhos, ela podia ver o sorriso que ele tinha no rosto e, claro, ele estava tentando seu melhor para não rir dela. Ela tinha estragado tudo. – Cacete. - ela murmurou.
- Tá tudo bem. - ele disse suavemente, os dedos roçando levemente contra o queixo dela, o toque tão gentil que ela mal podia sentir, mas era o suficiente para uma onda de choque correr pelo corpo dela, acordando todas as células em seu sistema, o braço eriçando completamente. E ela tinha certeza de que ele podia sentir isso também. - Respire fundo algumas vezes e continue.
contou mentalmente até 10, inspirando e expirando algumas vezes antes de dar um sorriso tímido para ele, uma leve cor rosa tingindo o rosto dela enquanto tentava mais uma vez.
- Você está bem? - ele perguntou em preocupação, as mãos a meio caminho entre seus corpos. O garoto assistia enquanto ela fazia que sim com a cabeça, os lábios pressionados em uma linha fina, os olhos voltados para o chão. - Você quer começar de novo? - outro aceno com a cabeça e dessa vez ele não disse mais nada, esperando pela garota dizer o que queria.
- Oi. - ela começou novamente, uma pequena risada escapando quando ele sorriu para ela. - Então, eu estava pensando, e você pode dizer não, se você não gostaria de ser meu acompanhante para o baile?
O que quer que fosse que o garoto estivesse esperando, com certeza não era aquilo. Ele era apenas um cara do segundo ano zoando com seus amigos. Quando ele imaginaria que uma garota incrível iria chamá-lo para ser seu acompanhante no baile dela? E então foi a vez dele surtar. A respiração ficou presa no fundo da garganta, os olhos arregalados enquanto ele encarava a garota na frente dele. Ela estava falando sério?
- Me desculpe. - ele disse gentilmente, as mãos voltando para o lado do corpo. - Eu estou apenas… Uau. Sério?
Timidamente, ela concordou, os olhos nunca encontrando os dele. Era impraticável já que ela não seria possível de sustentar o olhar dele por muito tempo. Os olhos dele perfuravam os dela, faziam suas pernas tremerem sem precisar de muito esforço. Ele era totalmente fora da liga dela e ela não podia nem acreditar que ele estava considerando a possibilidade de sair com ela, ainda mais se tratando de algo bobo como o baile.
- Quero dizer… Você é
você e eu sou eu, - ele continuou. - O que poderia fazer você querer ir comigo?
E foi então que ela percebeu. Ele estava tão perdido quanto ela. Ele estava tão nervoso quanto ela estava e agora era possível ver. O jeito que ele ficava puxando a gola da camiseta, como se estivesse o sufocando, o jeito que ele olhava para ela em contemplação, pensando como uma garota daquelas tinha aparecido na frente dele e tinha percebido que ele estava ali. Ele estava tão apaixonado por ela quanto ela estava por ele e isso era algo que não conseguia imaginar.
- Bom. - ela começou um pouco mais confiante. - Você é você, pra começar. - O sorriso que ele deu significava tudo no momento. Ela sabia que tinha dito a coisa certa. - Como eu poderia não querer?
sentiu as mãos dele buscando pelas dela novamente, numa carícia suave dessa vez, os dedos dele lentamente interlaçando entre os dela, trazendo a mão direita dela perto de sua boca antes de, confiantemente, dar um beijo, um sorriso deslumbrante aparecendo em seus lábios.
- Eu adoraria ir ao baile com você, .
E isso havia sido nove anos antes. Nove anos desde que ela arranjou coragem de chamar um cara estonteante para o baile. Nove anos desde que ela tinha andado por aquele corredor e tomado a decisão que mudaria a sua vida. Nove anos desde que ela tinha deixado Noah entrar na sua vida. Ou melhor ainda, nove anos desde que ele a trouxe para a vida dele para todo o sempre, sem intenção a princípio.
Quase uma década tinha se passado e não havia um único momento em que ela não pensava nisso, não tinha um único detalhe que ela havia esquecido sobre aquele dia ou os que se seguiram. Eles estavam guardados na parte mais segura de seu cérebro, a parte reservada para pessoas especiais em sua vida e a maior quantidade de coisas era reservada para ele, claro.
Um choro ecoou pela casa, acordando de seus pensamentos, uma dor chata irradiando da parte inferior de seu abdômen quando ela se forçou a levantar. Bom, ela teria que viver com aquilo por mais alguns dias. Era tudo por um bom motivo. Mas antes que ela pudesse sair do quarto, passos corridos podiam ser ouvidos da sala de estar, os pés batendo contra a escada de madeira rapidamente, passando por ela e entrando no quarto ao lado.
Um pouco mais devagar dessa vez, voltou a caminhar, seus passos tão leves que não foram ouvidos, fazendo caminho até o quarto de onde o choro havia vindo, encontrando Noah lá, o torso sem camisa virado de costas para ela, seus braços aninhando o recém-nascido perto de seu peito, balançando o bebê de um lado para o outro numa tentativa frustrada de fazê-lo voltar a dormir.
A garota parou na porta, seu corpo apoiado no batente enquanto assistia a cena que se desenvolvia em frente à ela. Ela conseguia ouvir os sussurros vindo de um Noah descalço, o cabelo de quem acabara de acordar caindo sobre a testa, os músculos das costas flexionando todas as vezes que ele embalava o bebê, suas mãos grandes segurando o pequeno corpo quase sozinhas.
Ela poderia ficar e assistir os dois por dias, o jeito que a voz de Noah fazia com que o pequeno milagre deles se acalmasse, os olhos do homem nunca se afastando do pequeno amontoado de roupas que ele segurava nos braços.
- Vamos lá, Campeão. - ele murmurou um pouco aflito, o bebê ainda não tendo acalmado. - Nós não queremos acordar a mamãe, certo? Ela ficou acordada a noite toda cuidando de você. - ele sorriu. - É, ela ficou sim. E agora você vai ajudar o papai, ok? Nós vamos tomar conta da mamãe, Ben.
sorriu intimamente. Ela não conseguia acreditar que sua vida tinha seguido por aquele caminho. Ela conheceu o homem de seus sonhos na escola e agora lá estava ela, parada a na porta do quarto do filho deles, assistindo-o fazer o seu melhor em fazer o bebê voltar à dormir. Era uma vista incrível de se ver e ela não pode deixar escapar o suspiro de satisfação de seus lábios, a quietude do quarto carregando o som para longe, fazendo Noah virar-se para ela, sues olhos se encontrando culposamente.
- Ele te acordou? - ele perguntou, a voz nada acima de um suspiro, ela percebeu. Ben deveria estar voltando a dormir.
- Não exatamente. - ela admitiu indo até ele, suas mãos lentamente traçando a ponte do nariz de Ben gentilmente, um truque que ela aprender com a mãe, observando enquanto o recém-nascido fechava os olhos novamente. - Ele está bem?
- Só um pouquinho inquieto. - Noah deu de ombros, os olhos se desviando do filho e mirando a garota exausta em sua frente. - Nada que eu não possa aguentar enquanto você, senhorita, dorme. Você está com olheiras e parece muito cansada.
- Esse é o seu jeito de dizer que eu estou feia? - ela brincou, os braços cruzados sobre o peito.
- Esse é meu jeito de dizer que voe precisa descansar. - ele sussurrou dançando de um lado para o outro. - Eu não quero que você se prive de dormir.
ficou na ponta dos pés, a diferença de tamanho deles ainda um pouco demais, e apoiou-se nos ombros do namorado, plantando um beijo rápido em seus lábios.
- Eu te amo. - ela disse com uma expressão sonhadora enquanto olhava para ele.
- Eu também te amo. - ele disse de volta, os olhos perdidos no dela, o coração correndo pelo pequeno contato que tiveram.
Nove anos e nenhuma coisa tinha mudado no jeito em que eles se faziam sentir.




Fim.



Nota da autora: Sem nota.

Nota da beta: Que história mais lindinha! <3
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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