FFOBS - No Coração da Fazenda, por Ray Dias

Última atualização: 27/06/2018

Prólogo

"I always thought this heart was made of steel and bulletproof..." Ouça: (Jack Daniels - Eric Church)


Tantas coisas acontecem em nossas vidas, e de repente nos vemos perdidos e incrédulos. Perdidos, por sentir as mãos atadas, sem noção do rumo a se tomar. Incrédulos, por olhar à nossa volta e enxergar turvo. Então surgem perguntas como: “Como isso foi acontecer?”, “Quando eu deixei que as coisas caminhassem para isso?”, “E agora, que decisão tomar?”.
É tão comum passar por essas pegadinhas da vida! Mais comum do que andar para frente, mas, nós nunca estamos verdadeiramente preparados para estes baques.
Para cada pessoa há um caso diferente que pesa o tamanho do problema. Mas, também é bem possível que as mesmas situações se repitam em pessoas distintas e tomem soluções iguais. Ou diferentes. Ou solução nenhuma.
Eu estava bastante confusa com os últimos acontecimentos. E pensava neles enquanto o ônibus seguia estrada à fora. Eu, , a inabalável. Aquela que todos olhavam com admiração por empenhar-se em tudo o que acreditava. Quem diria, que a delegada de vinte e cinco anos, tão nova para algumas pessoas, teria preocupações, como diria papai: “de gente grande”.
Eu morava sozinha no centro de São Paulo há algum tempo. Meu pai era delegado e, dele herdei o amor à profissão. Minha mãe foi professora, e ambos estão falecidos há um ano.
Tudo caminhava lentamente, porém de uma forma saudável, até recentemente. Para não dar muitos rodeios iniciemos do fato principal: o mundo caindo na minha cabeça.
Recebi na última semana uma carta de uma parenta distante. Uma tia de Minas Gerais, irmã de meu pai. Na carta ela avisava que estava vindo me visitar. E assim foi. Muitos abraços e beijinhos ao nos reencontrar e todos aqueles rituais de “vamos colocar as fofocas em dia”, porém minha tia não veio a passeio, somente. Conversas iam, conversas vinham e descobri que meus pais não eram biologicamente os meus pais, e consequentemente ela também não era minha tia. E notícia ou vestígio algum existia, sobre os meus pais biológicos.

Flashback

— Como assim, adotada?
— Desculpe querida, eu deveria tê-la dito isso antes. Afinal, fazem dois anos que eles faleceram.... Mas, eu não sabia como surgir depois de anos sem lhe ver e contar algo assim...
— Mas, por que eles nunca disseram nada, titia?
— Seus pais não te viam como uma filha adotada. Para eles, você sempre foi filha e ponto. Mas, eu compreendo que é importante que você saiba.
— Céus.... Não bastando as últimas confusões...
— O que está acontecendo, querida?
— Eu fui vítima de uma armação corrupta de colegas de trabalho e estou respondendo a um inquérito judicial. Minha carreira está praticamente morta. Minha casa também não é minha, titia. Desde que a loquei eu pago os impostos, e isso desde que papai faleceu.
— E a antiga casa de seus pais?
— Eu tive que vender, tia. Na época eu ainda estudava, e não tinha como pagar o tratamento da mamãe. Papai gastou muito com aquilo, e depois que ele faleceu, eu tive que me virar. Infelizmente, mamãe não resistiu e eu precisei pagar a conta do Instituto.
— Mas, não sobrou dinheiro algum daquela casa?
— Sobrou, claro. Mas, está guardado. Eu pretendia juntar um pouco mais, e comprar uma casa própria. Não mexo naquele dinheiro, e graças a Deus eu consegui poupar e tenho uma boa reserva, mas, não queria ter que mexer nela... Afinal, agora mais do que nunca, eu não sei mais quando e quanto vou poder repor do dinheiro que eu tirar.
— Céus ! Por que não me disse antes?
— Ah titia, nós não temos contato, não é?
— É verdade.... Eu deveria ter sido mais presente, me desculpe por isso.
— Não há o que desculpar.
— Mas, , por que está preocupada com o aluguel? Está atrasado? Você precisa de ajuda para pagá-lo?
— Não. É que terei de entregar a casa.

Fim do Flashback.

Se não fosse pela infelicidade do proprietário falecer, talvez eu ainda estivesse por lá lidando com todos os meus problemas, descontroladamente sim, porém em meu próprio teto.
Após a minha descoberta da ilegitimidade paterna, tia Laura mantinha contato frequente. Não sei se por culpa, por zelo, ou apenas por solidariedade, mas também, não fazia diferença. Eu não a culpava. Ela era apenas a tia e não tinha obrigações de sinceridade sobre um assunto que meus falecidos pais deveriam ter esclarecido. No entanto, seus desvelos foram acolhedores e nos tornamos mais próximas. Assim, como ela fazia questão, o parentesco entre nós continuava.
Ao saber de toda minha desolação ela me convidara para morar com ela no interior de Minas. Eu não poderia ir, mas também, não tinha como ficar. Eu “gozava” de ser uma sem-teto no momento. A única saída era apelar para a estadia de titia, e tomar providências e justificativas perante à lei para que o mais rápido possível, eu reconquistasse o controle da minha vida.
Então, lá estava eu, dentro do ônibus que acabara de pegar em Belo Horizonte, após desembarcar no aeroporto de Confins, e seguindo para uma fazenda inóspita. Não tenho nada contra fazendas, mas, nunca fui uma garota do campo. Eu sou um desastre com atividades de cultura rural.
A minha vida deu um nó. Virou de ponta cabeça e só me restavam fortes desafios. Eu me felicitava de uma única coisa: eu poderia estar completamente sozinha nos problemas e na vida, mas, a tia Laura generosamente fora solícita e embora eu não soubesse se havia motivos escondidos para isso, ou até quando seria assim, eu era muito grata a ela. Logicamente, meu “passeio” à casa dela seria provisório. Eu daria um jeito logo, nunca gostei de ser um incômodo para ninguém.


Capítulo 1 - A Chegada

"Maybe something new is what you're needing" Ouça: (For the First Time - Darius Rucker)


O ônibus chegou à rodoviária pacata de apenas quatro plataformas, ao fim da tarde. Ela já me esperava lá. Pareceu-me muito diferente e mais saudável do que quando fora à minha casa em São Paulo. Ares de interior fazem isso. Os cabelos presos em coque, com um vestido floral que batia à altura das canelas, despojado e confortável. Um casaco de lã grosso, pois fazia bastante frio. E nisso eu acabei pecando. Logo eu, uma paulista da garoa! Achei muito singelo o chinelinho “vovó” que titia usava, com meias pretas. Bem típico.
Peguei a minha bagagem, pouca, duas malas apenas. Caminhei em direção a ela que me estendia os braços cristãmente apoderando-se de um largo sorriso mineiro. Abraçou-me forte.
— Bem-vinda querida.
— Muito obrigada dona Laura.
— Dona? Não sou dona de nada! Me chame de tia, por favor. – ralhou comigo como se eu fosse uma criança.
— Certo. Tia.
— Você está tão abatida, !
Seus olhos exageradamente azuis denunciavam o reflexo de uma face sem cor, abatida e frustrada.
— Não tem sido muito fácil. – eu disse sem humor.
— As coisas vão se ajeitar. Confie em Deus. Quero que se sinta bem aqui. Agora vamos! Não repare o carro.
Eu sorri. O carro era uma picape Ford F-100, ano sessenta e cinco na cor preta. Conservada. Eu gostei. A tia, uma senhora de cinquenta e três anos dirige como uma tartaruguinha, mas, muito bem até. Fomos conversando e eu fiquei bem mais cansada pela vagareza e o trepidar da estrada de cascalhos. Ela falou-me: “Não é longe, eu que sou um pouquinho devagar, mas também, para quê pressa? ”; e riu complementando com: “Meu filho não gosta nada, que eu pegue um volante. Um bobo”.
Por não termos muito contato ao longo de nossas vidas, eu não sabia nada da titia. Se ela era viúva, casada, desquitada, se tinha ou não filhos e filhas, netos, bisnetos… Suas visitas em toda a minha vida foram três, e bem rápidas. A primeira quando eu tinha oito anos, a segunda quando eu era uma rebelde de quinze anos e a terceira, recentemente em minha casa.
De tudo o que conversávamos, ela me falava sobre a filha mais velha e a neta. Contava-me ardilosa, as aventuras da netinha de sete anos e vagamente, sobre os planos futuros da filha de trinta. Dizia que nos daríamos muito bem, mas, nada comentava sobre o tal filho.
Ao chegarmos ela pediu sorrindo para eu abrir a porteira.
“Cuidado com a lama”, ela advertiu assim que eu abri a porta. Meus tênis sofreriam com a visão que tive. Desci e fui andando sem perceber o lugar, não por desinteresse, mas, por possuir uma mente cheia de preocupações aleatórias e descompromissada com as novidades daquele lar.
Olhei à frente e a fachada do casarão antigo era bem bonita. Era bem simples também. “Puxe essa alavanquinha”, disse-me a tia ao perceber minha total falta de intimidade com a porteira. Eu ri discreta do sotaque que soava muito bonitinho. Empurrei a porteira rústica um pouco pesada e as galinhas que estavam soltas no quintal corriam loucas e desnorteadas, assim como outros animais pequenos. Um cachorro franzino com olhos preguiçosos de esguelha, eriçou as orelhas caídas, em pontudas, ao ver que a velhota adentrava com o carro.
Assim que tia Laura desceu, o canino correu espevitado até ela latindo alegre. Era mansinho, pois, nem mesmo se aproximou de mim. Fechei a porteira e já próxima ao carro peguei as malas. Avistei uma garotinha e uma mulher, ambas lindas, recém-chegadas à varanda nos esperando. Titia ao lado delas. Olhavam-me curiosas. Supus ser a neta com a mãe, a filha da titia.
— Rosa, , esta é a . – titia apresentou-nos.
Rosa, a filha, me abraçou muito simpática desejando-me boas-vindas. , a garotinha, me olhava tímida.
, não vai cumprimentar a ? Rosa disse sorrindo para a menininha. A pequena olhou-me, fez “sim” com a cabeça e veio até mim apertando a boneca em seus braços.
— Oi. – eu disse.
— Oi.
— Gostei muito do seu vestido. – falei abaixando-me para ela e sorrindo.
— Você é muito bonita. – ela falou com os olhinhos redondos de jabuticaba, brilhando.
— Ora, obrigada. Você é muito linda. Parece uma bonequinha! – eu sorri acariciando o rostinho dela.
Assim que mencionei levantar, ela me abraçou e me puxou pela mão para dentro da casa.
— Você está gelada! Lá dentro tem uma fogueirinha. Vamos!
Olhei para titia e para Rosa que sorriam satisfeitas nos seguindo. Tirei os sapatos sujos antes de entrar e titia mais do que rapidamente, quase como um vulto, pegou-os de minha mão entrando pelos cômodos.
A sala era tão aconchegante! Colchas de fuxico cobriam os sofás e poltronas. Havia cortinas longas e brancas nas janelas, um enorme tapete que cobria parte da sala onde se encontravam os sofás e no meio do tapete uma mesinha de centro rústica feita à mão. Pequenos artefatos artesanais e outras mobílias espalhavam-se na casa. Um pilão de madeira enfeitava o canto da sala próximo à janela.
Eu não pude deixar de rir quando vi sentada, com a boneca no colo, sorrindo para mim e batendo com a mãozinha no chão ao seu lado. A fogueirinha na qual ela se referia, era uma lareira.
— Vem, senta aqui comigo. Você vai acabar, ficando tossinha.
— Ficando tossinha? – eu perguntei.
— O pai dela a chama assim quando ela fica resfriada. – Rosa falou e nós duas rimos.
Titia retornou à sala com o café que Rosa tinha preparado antes de chegarmos e alguns biscoitos caseiros em uma tigelinha.
— Coma querida, depois você sobe, toma um banho, e descansa.
Ela colocou a bandeja perto da garotinha na lareira.
— Rosa chame o seu irmão, por favor.
E Rosa saiu. Titia ficou cheia de dedos após isso:
, gostaria de pedir desculpas a você por qualquer coisa que possa dizer. Eu gostaria de tê-la dito antes, mas talvez você não viesse…
— O que foi?
— Ele é um pouco difícil, sabe… Turrão, teimoso. E está um pouco desconfortável por recebermos uma nova moradora, desconhecida para ele. Mas, assim que vocês se conhecerem melhor vão se dar muito bem.
Ótimo, como se não bastasse todo o peso de me sentir como um estorvo, eu realmente era incômodo para alguém.
— Tudo bem, tia. Compreendo.
Eu não poderia dizer outra coisa, poderia?
A comia gostosamente os biscoitos e advertiu-me que, se eu não os comesse ficaria fraquinha. Fazia caretas dizendo também que estavam deliciosos. Eu sorri. Muito amável, a pequenina.
Assim que me levantei levando as xícaras à cozinha, titia me advertiu que não era para lavá-las, pois, eu estava muito cansada. Argumentei contra, mas, aquela senhora é muito boa com seus argumentos. Eu via que teria de praticar os meus.
Segui pelo corredor que ligava sala e cozinha avistando de relance, a correr até a porta de entrada. Ao chegar à sala avistei o homem, que supus ser . Ele também me viu e colocou a garotinha no chão desfazendo a cara feliz por uma feição desprezível. Rosa falou algo em tom baixo no ouvido dele, e passando por mim ela sorriu. Fiquei imóvel encarando-os.
, esta é a . – Rosa disse nos olhando, curiosa: — Vou até a cozinha chamar mamãe.
— Boa tarde. Ou melhor, boa noite.
Ele pronunciou sem olhar para mim, apenas colocando seu chapéu em um suporte atrás da imensa porta dupla do casarão.
— Boa noite. – respondi.
Titia chegou e sorriu para nós. Percebi o olhar apreensivo dela para o homem. brincava com seus brinquedos perto da lareira.
— Boa noite filho, já cumprimentou a ?
— Sim. – respondeu ele, me olhando de cima a baixo, indiferente.
— Ela é muito bonita. – dizia olhando para mim e sorrindo tímida.
— Você que é, boneca. – eu dei-lhe uma piscadela com um largo sorriso. — Tia, eu gostaria de me repousar e tomar um banho se for possível.
— Claro, minha querida. O penúltimo quarto à esquerda, no corredor superior é o seu. O banheiro fica na última porta de frente ao corredor.
— Obrigada. Se todos me dão licença…
Eu disse pegando minhas malas à beirada das escadas. olhava-me de soslaio.
ajude-a com as malas, por favor. – disse titia.
— Ah não precisa, obrigada.
Eu sorri para ele que me ignorou completamente. Tirou as bagagens das minhas mãos e subiu. Segui pelas escadas, calada e com olhos espantados.
Ele seguiu em silêncio abrindo a porta do “meu” quarto. Entrou e deixou as malas ao pé da cama. Eu não entrei.
— O banheiro é ali. – disse ele apontando a porta próxima à minha, porém de frente para o corredor.
— Obrigada, desculpe por incomodá-lo.
Minha frase soou um pouco arrogante. E entendo que a intrusa de fato, sou eu. Mas eu não tenho um gênio muito fácil e acho que não vai ser muito agradável conviver com . Se Deus quiser, será tudo provisório.
Ele saiu me encarando sobre os ombros. Tentei não dar tanta importância àquilo e fui descansar. Meu quarto era simples e agradável. Um guarda-roupa antigo com espelho, uma escrivaninha em um canto, tapete no meio, criado-mudo ao lado da cama, acima dela uma janela e ao lado uma sacadinha pequena e florida com longas cortinas em tom verde-claro e porta em esquadria de madeira com vidraças.
Rosa me chamou mais tarde para o jantar, porém eu dormia. Estava exausta dos problemas, da viagem e chateada por uma recepção grosseira de , mas, confortável por ter sido bem recebida pelas mulheres da casa. Afinal era só manter distância dele, que um não pisaria no calo do outro.


Capítulo 2 - Conhecendo o Novo Lar

"When you hear somebody say somebody hits like a girl. How does that hit you?" Ouça: (Female - Keith Urban)


O Sol incidia fraco pela janela. Abri os olhos calmamente e percebi quão cedo era. Levantei indo ao banheiro fazendo o mínimo de barulho e escovei os dentes, em seguida tomei um banho. Para meu espanto geladíssimo. Batia o queixo ao sair do chuveiro. Ao voltar para o meu quarto, puxei um agasalho e vesti meias.
Abri a janela e a portinha da sacada. Assisti ao nascer do sol ali, uma vista linda! Eu podia ver um casarão azul desbotado, algo parecido com um celeiro e um vasto campo verde. Montanhas ao fundo desenhavam o horizonte como um quadro. Não eram montanhas muito longínquas.
saía do celeiro naquele momento, e tentei não deixar aquela figura junto a lembrança da noite anterior estragarem o meu dia. Dei as costas para a sacada e desci. Ao chegar ao térreo, nenhum movimento. Fui timidamente andando até a cozinha e como o cômodo ainda dormia, eu resolvi preparar o café.
Procurei sem o menor vestígio de intimidade: o bule, o coador, o pó de café e outros utensílios. Um pedaço pequeno de bolo estava sobre a mesa. Bolo que sobrara. Havia biscoitos caseiros no pote, mas, da forma que vi a pequenina comê-los no dia anterior, supus não terem sobrado muito mais do que aqueles que estavam ali. Então procurei ingredientes para preparar outro bolo. Encontrei fubá, queijo e erva-doce. Então assim seria: bolo de fubá cremoso com queijo. Enquanto a água fervia e o forno a lenha aquecia, eu batia a mistura homogênea.
Acima da pia avistei um relógio engraçadinho. O rosto de uma vaquinha com os números e ponteiros que marcavam seis da manhã. Eu deveria ter acordado aproximadamente às cinco horas. Não é o meu horário habitual, mas também, nem tão mais cedo do que isso. Untei o tabuleiro que com muito vira e revira encontrei. O forno a lenha preaquecido já pegava brasa. Passei o café e, o tabuleiro já estava no forno. Aumentei a lenha a fim de que as chamas subissem e rapidamente o bolo assasse.
Com uma canequinha de barro – dessas dos tempos de vovó – servi meu café. Fui até a varanda da frente, e por um instante o meu mundo conturbado e de ponta-cabeça desaparecera. Que linda paisagem eu avistara! Um horizonte alaranjado, a enorme bola de fogo solar suspendendo no céu, as galinhas cacarejando pelo quintal como se louvassem aquele amanhecer. Canelinha, o cãozinho franzino da casa, era a imagem da preguiça. Deitado sobre as patinhas cruzadas, à beira da escada da varanda olhando o sol e o festejar das galinhas tão indiferente… Para ele deveria ser monótono passar todos os dias pela mesma cena, mas, para mim era novidade. Uma garota da selva de pedra, da grande cidade de São Paulo diante à vida aparente.
Fiquei absorta naqueles novelos de natureza e magia da vida até Rosa se aproximar me desejando “bom dia”. Conversamos um pouco e segui com ela para a cozinha. Ela tinha em seus braços alguns papéis e na mesa da cozinha apinhou-se a corrigi-los. Últimas provas de uma turminha do ensino fundamental para quem ela dava aulas. Servi a ela uma xícara de café e ao ver as xícaras que eu pegava ela riu dizendo: “Oras, as xícaras novas estão na prateleira superior do armário branco, ”. Então eu contei a ela que preferia as velhas e tradicionais xícaras de barro. “São as preferidas de também, só usa essas!”, ela disse sorrindo.
Ao terminar com as pouquinhas provas, Rosa subiu novamente para organizar suas coisas. Titia desceu feliz e sorridente me abraçando forte. Fazia frio e ela tinha os cabelos úmidos.
— Titia, a senhora não deveria molhar a cabeça tão cedo assim, ainda mais neste frio.
— Falou como eu ralhando, com o povo desta casa, . – e deu uma risada fina e estridente, mas, gostosa: — Está certa! Rosa tem um negócio que seca os cabelos. Não posso ser mau exemplo, não é?
— É como papai dizia: é melhor prevenir do que remediar!
Dito isso ela retornou aos cômodos superiores. Retornei ao meu bolo que já estava pronto. Retirei o tabuleiro e o parti nele mesmo, afinal, “bolo quente não se desenforma!”. Dizia mamãe quando eu ainda era uma mocinha. adentrou pela porta da frente da casa, após retirar as botinas cobertas de lama, e as deixando ao pé da varanda. Entrou pendurando o casaco grosso de lã no suporte atrás da porta. Vestia uma camisa xadrez, naquele estilo que julgamos, bem caipira. Veio até a cozinha me encarando aparentemente ainda mal-humorado.
Na noite anterior eu até me deixei amedrontar com as grosserias dele, mas, “pera lá”! Sou uma delegada! Soa até ridículo. Carreguei minhas ventas com a minha pólvora interior e caso ele agisse estupidamente, eu também lhe daria uns coices. Evitava me olhar enquanto lavava as mãos na pia, onde eu estava apoiada.
— Bom dia. – eu lhe disse.
— Bom dia.
Ele não sorria, mas, seu olhar demonstrou uma trégua. Ou talvez eu tenha interpretado errado. Independente disso decidi ser gentil, quem sabe ele fosse gentil também?
Peguei então uma canequinha de barro e antes de servi-lo perguntei:
— Com açúcar ou sem?
Ele me olhou surpreso e insistiu que eu não precisava me incomodar. Afirmei não ser incômodo algum.
— Sem.
— Também prefiro assim. – eu disse entregando-lhe a caneca. — O bolo está quentinho. Não deve ser tão bom quanto o de sua mãe, mas, garanto que é gostoso.
Ele sorriu irônico e comeu. Aproveitando a brecha resmungou um: “dá para comer”.
Ele realmente não estava disposto a ser gentil e, diante desse fato a saída era ignorá-lo. Titia e Rosa vieram à cozinha caladas. Eu poderia jurar que elas nos espionavam. chegou um pouco depois, bem faminta.

Após o café não vi mais o , ele havia saído da casa e não voltou. Rosa e titia começavam a pensar no almoço. Então puxou-me para dar uma volta na fazenda.
— Boneca, mas, eu tenho que ajudar com a casa.
Eu falei sem graça e ela mais do que prontamente olhou para a mãe, e a avó com olhos de piedade.
— Não , tudo bem. Mamãe e eu vamos adiantando as coisas aqui. Até porque, estuda à tarde. Ela quer te mostrar a fazenda.
— É querida! Aproveite e passe na horta! Traga-me umas folhas de couve!
Assim, seguimos a pequena e eu.
O dia parecia, não mais tão frio como ao amanhecer, porém nem quente. Apenas ameno. Brisas suaves das montanhas mineiras. Eu sentia o ventinho brincalhão cortando meu rosto e bagunçando meus cabelos. As preocupações, os fantasmas e tormentas minhas continuavam, porém quando eu me entregava àqueles ares sentia como se esses monstros hibernassem, se escondessem ou até mesmo me esquecessem.
— Vovó falou que você vai ficar para sempre! – de imediato a pequenina soltou.
— Bem… Sabe , eu ficarei apenas o tempo suficiente.
— Ela também disse que você acha isso.
— Ah é? E estou errada?
— Eu não sei. Mas, eu prefiro acreditar que sim. Papai me disse que quando a gente acredita com vontade, acontece.
— Ele está certo.
Eu sorria da inocência da pequenina que não sabia dos monstros da minha vida.
— Então a senhorita estuda à tarde?
— É! Na mesma escolinha que minha titia trabalha!
— Sua mãe também trabalha lá?
— Minha mamãe?
— É… Ela estava corrigindo algumas provinhas hoje bem cedo.
estrondou uma risada tão gostosa! Dessas de doer à barriga e tudo.
— Eu disse algo errado?
— Sim! Você acha que a titia Rosa é a minha mamãe!
Ela apontava o dedinho para mim gargalhando cada vez mais gostoso. Então dando conta do meu erro comecei a rir bem divertida junto a ela.
— Bem! Mas o que eu poderia pensar?
— Que ela é minha titia sua bobinha. – falou e continuou pulando, caminhando à frente.
— A horta é ali! Vem! – ela gritou apontando e correndo.
Abri a portinhola da horta, que por sinal tinha lindas e frondosas plantações. Enquanto eu colhia as couves, colocava-as em um cesto. Após sairmos de lá, nós continuamos com o passeio. me mostrou o chiqueiro, o celeiro, os pastos com o gado, os cavalos, as ovelhas e o galinheiro.
Um rio passava ao fundo da propriedade. Atravessando-o chegava-se ao outro lado da propriedade de titia, porém por lá, nada mais tinha a não ser as verdejantes campinas onde os bois e vacas pastavam. Voltamos para a casa e junto à titia preparamos o almoço tipicamente mineiro: arroz branco, feijão, torresmo pururuca, couve refogada e angu. Céus, eu já imaginava que engordaria!

Rosa ficou com a arrumação da casa, pois segundo ela, era melhor já que após o almoço ela teria que ir trabalhar. arrumou seu material escolar, assistiu os seus desenhos animados e almoçou. À metade das onze horas foi tomar banho. Pediu minha ajuda para arrumá-la. Na hora de pentear os cabelos a pequenina pediu que eu os arrumasse como os meus: em uma trança escama de peixe. E ao acabar com os cabelos, ela queria passar o mesmo batom que eu. Era de um tom rosado muito fraquinho, que se assemelhava ao tom de boca, porém brilhava. Então, ao finalizar, descemos as duas: eu e “minha cópia”.
é uma criança tão amável! Me tratou com tanto carinho desde que eu cheguei, que me senti muito acolhida. Ao aparecermos as duas no topo da escada, titia e Rosa a elogiaram, e a pequenina fazia pose de princesa. estava ao lado delas, recém-chegado ao cômodo e olhava para a criança, hipnotizado. Então ao perceber que eu a deixei dando seu pequeno show, subiu novamente alguns degraus e puxando minha mão descemos as duas, majestosas. Não pude deixar de rir com as caras e bocas da menina.
correu até pulando nele e o abraçando.
— O que achou papai? Estou bonita?
Papai? Pa-pai? Sim, a minha cabeça estava muito confusa! Ele tinha apenas vinte sete anos, certo que isso não significa nada, mas, como eu não percebi nenhum vínculo paterno entre ambos?
— Linda, minha filha.
— Igual à ?
— Mais bonita do que a .
Senti um prazer correr o rosto dele ao tentar me menosprezar com a frase.
— Não papai. Ela é muito mais bonita.
A menina disse e descendo do colo dele veio até mim abraçando-me.
— Obrigada !
Ela me agradecia e nos cumprimentávamos com beijinhos no ar sem tocar os rostos, para não tirar o batom, como eu acabara de ensinar a ela. Voltei à cozinha e a menina ficou na sala assistindo ao fim de seus desenhos. Todos fomos almoçar.
, hoje meu noivo vai vir aqui para tratarmos dos últimos preparativos do nosso casamento. Você vai adorar conhecê-lo!
— Ora, muitas felicidades. Eu não sabia!
— Ela iria te contar ontem no jantar.
falou ríspido como se aquilo fosse um absurdo.
— Bem, eu devo desculpas a todos por não ter vindo jantar ontem. Eu estava exausta e precisava mesmo descansar. Acreditem, eu não seria boa companhia no estado em que eu estava.
— E quando você é boa companhia? – novamente me alfinetou, desta vez sendo repreendido por titia.
Instaurou-se um clima desconfortável, até Rosa quebrá-lo:
— Então , logo eu irei me mudar.
— É uma pena. E ao mesmo tempo não é tão ruim, afinal, agora que somos amigas poderemos falar e nos ver, sempre, não é?
— Com certeza! E eu estarei tranquila sabendo que você estará aqui cuidando da mamãe, da e do mais difícil: o .
Ela e titia riram, mas, e eu nos olhamos rivais.
— Eu agradeço muito a consideração de vocês, mas, eu não pretendo ficar muito tempo.
— Isso é o que a senhorita pensa. – disse titia.
— Não tomem como uma desfeita, mas, eu realmente preciso organizar minha vida, titia. Hoje mesmo se possível eu gostaria de ir aos correios saber se tem algo para mim. É claro que, somente andando pela cidade é que eu saberei das oportunidades.
se levantou e colocando seu prato na pia saiu silencioso.
— Ele acha que não é saudável sua convivência com , pois, se você realmente sair, sabemos que ela vai se apegar muito a você. – disse Rosa.
— E ele não está errado. Hoje falou que eu ficaria para sempre aqui e eu conversei com ela, mas, ela é firme e acredita muito nessa minha permanência. Coisa que pelo que notei, titia colocou na cabeça da menina.
— Você não vai embora daqui querida. – titia disse convicta e sorrindo para mim. — Você pode não acreditar, mas, eu sei que não vai.
Depois de tudo aquilo eu resolvi não tocar no assunto para não contrariar a titia. Rosa saiu para trabalhar, para estudar e as levaria.
— Você não vai ao correio? – me perguntou.
— Sim.
— Vamos então. Não tem lotações por aqui.

Tocar na playlist: (Round Here Buzz - Eric Church)


A picape era cabine simples, mas fomos os quatro para a cidade. sentada no colo de Rosa, e eu no meio do banco. Chegando à cidade as duas foram para a escola que era bem no centro da pracinha e me levou até o correio me explicando onde eram os comércios da cidade. Não havia carta alguma para mim, nem telegrama, nem entregas, nem nada. Então voltamos silenciosos ao carro.
dirigiu até a delegacia da cidade. E parando em frente a ela me olhou.
— Não quer dar uma olhada por lá?
— Com certeza se houvesse alguma carta para mim na delegacia, seria de urgência tanta que o próprio delegado entregaria.
Fiquei desconcertada com aquela atitude, pois, ele não pretendia fazer favor algum, apenas me provocar.
— Certo. E não quer entrar lá? Você é delegada, não é?
— Sim…
Então ele interrompeu-me:
— Se bem que, se você entrar é capaz de não voltar.
Eu não acreditava que ele estava usando meus problemas pessoais para me afetar. Porém desci do carro e o deixei falando sozinho. Saí caminhando a esmo, e enfurecida na verdade. Cheguei até o centro da pracinha. Parei. Olhei em volta indignada comigo mesma. Eu estava me rendendo a uma provocação infantil? Que ridículo! Dei meia volta e caminhei novamente ao encontro do estúpido do , esse por sua vez vinha ao meu encontro.
— Escuta aqui cara, quem você pensa que é? Tudo bem você não gostar da ideia de ter uma estranha sob o mesmo teto que o seu. Você não gostar de mim sem me conhecer é injusto, mas, muito comum! Agora seja homem e deixe as coisas bem claras! Não venha utilizar os meus problemas pessoais para me afetar! Sinceramente, nem a sua filha teria atitude tão infantil! Eu juro : eu não pretendo ficar naquela casa por muito tempo, então tenha caridade, por favor! Eu sou uma sem-teto agora e jamais planejei essas mudanças todas na minha vida, tá? Então seja inteligente e me ajude a encontrar uma casa e um emprego, em vez de ficar me provocando! Eu não conheço nada por aqui e vou mesmo precisar de outras pessoas! Sem dúvidas seria melhor para nós dois!
— Eu sei exatamente o que você quer. E não estou de acordo com a sua presença. O que eu puder fazer para me livrar de você será feito. – ele disse entrando novamente no carro e olhando para mim pela janela concluiu: — Não pense que as ideias da minha mãe serão concretizadas.
Acelerou com o carro e foi embora.
Fiquei tão indignada com toda a frieza e estupidez da reação dele que me senti desnorteada. Àquela altura a pracinha em peso me olhava. Eu compus um concerto público do mais alto escalão. Um barraco, precisamente.
Pessoas na porta da delegacia que supus serem o delegado, o escrivão e um policial civil olhavam em minha direção estudando-me. Logicamente por parecer uma pessoa sem classe que fica gritando pela rua, e o principal: por nunca ter sido vista.
Cidade de interior, notícias corridas e o infeliz fato de todos saberem uns, das vidas dos outros. E o engraçado nisso tudo é que eu mesma espalhei a notícia para todos, mas, teria um lado bom nisso: eu não explicitei os meus problemas mais sérios e agora todos sabiam que eu procurava emprego e casa.
Se bem que… Alguém empregaria uma escandalosa? Começo até a rir em lembrar das ideias que tive! Pensei em fazer como alguns dos delinquentes que me deparei na minha curta carreira: começar um drama e chorar. Aquilo mudaria um pouco as coisas, não é? Pelo menos mudaria a figura de perante aqueles espectadores… Ou não.
Sorri sem graça aos oficiais à minha frente e dando-lhes as costas andei até uma vendinha típica de interior, uma mistura de mercearia e bar. Puxei uns trocadinhos e comprei um guaraná, que para a minha doce surpresa, ainda era daqueles refrigerantes antigos engarrafados em vasilhames de vidro, iguais aos vasilhames de cerveja. Isso me retomou lembranças da minha infância. Sem dúvidas os refrigerantes das garrafas de vidro sempre foram mais saborosos.
A vendinha estava vazia e aproveitei para “namorar” a arquitetura do minúsculo centro urbano e a decoração do botequim. Comecei por onde estava: o balcão onde eu me sentara tinha o tampão de ardósia e as paredes eram de tijolinho vermelho. As banquetas de madeira esculpidas à mão, muito rústico e bonito. Nada rústico chique como se costuma ver nas cidades grandes montados propositalmente, ali, o sol refletia o simplismo. As mesinhas tinham em sua base, grandes tocos de troncos, tampão também de madeira e as cadeiras, de madeira e palha forradas e trançadas. Humilde e aconchegante. Nas paredes decorações roceiras, típicas.
Partindo o olhar para fora do estabelecimento, os comércios circundavam a praça. A praça com banquinhos brancos, jardins e no centro dela uma igreja. Em volta: a delegacia, a escola de frente para a delegacia, o mercadinho onde eu estava, a farmácia, a sorveteria, uma padaria e uma casa. Sim, apenas uma casa de frente à praça. Morador privilegiado, pois, era tudo muito bonitinho de se dar de cara todos os dias. E claro, como toda praça de interior que se preze, carrinhos de pipoca e algodão-doce. Crianças corriam, soltavam pipas, brincavam, pulavam corda, amarelinha, elástico… Tudo isso, na pracinha que parecia um parque de diversões.
Um garotinho entrou na vendinha e voltando-se à senhora vendedora pediu: “Saquinho de um real, de bolinhas de gude dona Carlota!”. Olhou para mim como se me analisasse e enquanto eu sorria para ele, agradeceu à senhora. Sorriu para mim e voltou às brincadeiras.
Há quanto tempo eu não via bolinhas de gude! E ao lado do pote das bolinhas no balcão avistei um pote com piões e outro com ioiôs!
— Com licença, por favor, quanto custa o ioiô? – não pude me segurar.
— Dois reais. Quer um?
A senhora dizia-me sorrindo. Acredito que pelo meu espanto e maravilha diante àquelas coisas.
— Sim, por favor.
Não esperei nem ela conferir o troco e já fui amarrando a linha, colocando-o no dedo e brincando. Peguei o troco da mesma forma que o garotinho, que deu mais atenção às bolinhas do que à devolução do seu dinheiro. A senhora começou a rir de mim e eu gargalhava deliciosamente. A sensação de voltar anos atrás era tão… Inexplicável eu admito, e era um anestesiante de problemas incrível!
— Há anos eu não vejo um ioiô! – eu disse para a senhora.
— É delicioso… Chegaste à cidade há muito tempo?
Eu deveria mesmo demonstrar trejeitos de garota urbana.
— Ontem na verdade. Prazer, sou . – estendi a mão livre para cumprimentá-la, sem parar de brincar com o ioiô.
— Carlota. – ela respondeu-me seu nome. — Seja bem-vinda .
— Muito obrigada.
Eu sorri e retornei ao meu banquinho guardando o brinquedinho no bolso do moletom.
— E o que está achando?
— Estou maravilhada com os repuxos na memória. É tudo muito lindo. – eu sorri.
— Entendo. Eu também repenso na minha infância quando paro para admirar tudo em volta. Assim como esse garotinho eu corria até esse balcão e pedia ao meu avô, os piões e ioiôs.
Dona Carlota olhava para o nada como se relembrasse as próprias narrações. Conversamos bastante, ela me indicou alguns pouquíssimos empregos, mas, nada dentro da minha carreira. Eu não poderia falar-lhe sobre o fato, pois, isso levaria às explicações de “por que não olha na delegacia? ”. Agradeci a ajuda e despedi-me dela prometendo voltar. Fui até a praça, e o padre que caminhava até a igreja me cumprimentou. Respondi com um sorriso. De repente senti uma mão em meu ombro. Era o sacerdote que voltara para me fazer um convite:

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— Boa tarde. Por que não entra para conversar um pouco com Deus sobre sua vida?
Poderia ser que as fofocas tivessem corrido mais do que carro de fórmula um e chegado aos ouvidos do vigário, ou aquilo foi um sinal de Deus. Nunca fui religiosa do tipo que sempre ia à igreja. Tentei seguir dogmas cristãos algumas duas vezes, mas, o meu coração não se liberta de certos conceitos e minha cabeça procura razão para tudo. Sempre tive fé na existência de um Deus, mas, me prender à religiosidade não era possível.
Assustei-me com aquilo e muito sem graça aceitei. Como recusar uma conversa com Deus? Seja no parque, na praça, na escola, na delegacia, em casa ou na igreja, Deus nos ouve e sempre está do nosso lado. Não era preciso que eu entrasse naquele santuário para falar com Deus, mas, se Ele me convidara – pois eu preferi acreditar que o padre servira de instrumento divino para aquele apelo do que fofoqueiro – eu não recusaria.
— Sim. Claro.
Respondi e acompanhei o solícito sacerdote.
A igreja era muito bonita e antiga. Arquitetura renascentista com pinturas que nos dão vontade de chorar.
O padre me disse para ficar à vontade e que se eu precisasse conversar com ele, apontou-me a sacristia onde estaria. As minhas pernas naquele momento demonstraram a necessidade da minha fé. Pois sem perceber, eu me aproximei imediatamente do altar e quando dei por mim estava ajoelhada. Pausei todos os meus pensamentos. Esqueci tudo ao redor. A mente ficou escura. Vazia. Então as palavras saíam por minha boca, em sussurros como badalos do meu coração.
Coisas que pensei ter superado, como a descoberta da minha adoção, o fim do meu antigo relacionamento; vieram à tona naquele esboço de oração. E coisas que eu nem cogitaria partilhar com Deus no quesito “preocupações” também, entre elas, a complicação de abandonar titia e naquela casa e o medo que eu sentia de . Medo, exatamente isso. Este sentimento opressor que eu negava assumir sentir por ele.
Hoje percebo que meus medos surgiram após ter sido realmente traída pela verdade de quem eu era; traída por quem julgava serem os meus amigos e traída por meus próprios sentimentos. E quando eu fiz aquela recém-descoberta eu não a aceitava!
Medo? Que absurdo, eu sempre fui muito forte e decidida. Inadmissível um sentimento tão covarde em mim! Contudo, aprendi que para ser forte não se repele a covardia e que sentir medo não é sinal de fraqueza. É sinal de humanidade.
Senti-me renovada após aquela oração. Foi bom compartilhar meus incômodos, pois, ainda que titia, e Rosa fossem muito gentis e adoráveis comigo, transformava tudo em uma nuvem tempestuosa. E cá para nós, quem consegue sentir-se confortável com uma tempestade prestes a cair qualquer momento? Lamento, mas, eu não tenho este dom.
Despedi-me agradecida do padre e voltei para a praça. Perguntei as horas ao pipoqueiro e o tempo marcava uma e trinta da tarde. Eu já estava na cidade há uma hora e meia, e sem dúvidas, o bronco que me deixou por lá, já teria voltado para a fazenda.
Então avistando um senhor, aparentemente no auge de seus sessenta e poucos anos e sentado na calçada em frente à ilustre casinha privilegiada da praça, eu decidi perguntá-lo como poderia voltar à fazenda.
— Boa tarde.
— Tarde! – respondeu com sotaque forte mineiro.
Ele escutava um rádio de pilha antigo, tocando modas de viola muito boas, por sinal.
— Como vai o senhor?
— Eu estou bem, só tentando pegar um solzinho safado para esquentar e espantar um pouco desse frio besta. – ele disse e deu uma gargalhada muito simplória — E você “minha fia” ? – perguntou.
— Estou bem também, muito obrigada. Mas, estou também perdida por estas bandas.
Eu sorria suplicante, e ele endireitando a coluna corcunda e com as sobrancelhas arqueadas em dúvida, me perguntou:
— Uai! É?
Eu sorri sem graça e continuei.
— Estou morando com minha tia Laura, na fazenda dela. O senhor a conhece?
— Ô! Se, conheço! Coralina! Amiga minha das antigas. Mas, eu não sabia que ela tinha uma neta já marmanjona.
Gostei daquele senhor pelo bom humor e pela sinceridade nas palavras. Se aquela moça da cidade ficaria ofendida? O problema seria dela.
— Não senhor, sou sobrinha.
— Ah sim! Ela tem apenas a zinha de neta, né!
— Sim… – ele sorria divertido, e eu sorrindo de volta retornei a falar: — Pois bem, eu me perdi na cidade e não sei como voltar à fazenda. O senhor saberia me ajudar?
— Mas, ocê vêi sozinha?
— Não, o me trouxe, mas, nos separamos.
— Ele deve de ter visto um boi, não é? – não entendi a pergunta, mas logo ele foi explicando: — Pra esquecer ocê, deve ter avistado um boi gordo pra fazenda.
— Ah sim, pois é! Eu não tenho certeza, apenas nos perdemos.
— Ele deve estar te procurando.
— Não, eu disse a ele que resolveria algumas coisas, então ele deve ter pensado que eu dei no pé.
Utilizei do vocábulo regional. Estava até gostando daquelas “gírias”, ditados e sotaque. Rosa, , titia e não falam de modo caipira como algumas pessoas da cidade.
— Uai, eu hein. Esse minino tem umas ideias muito frouxas! Deixar uma moçona nova na cidade, perdida e solta assim? Na minha época nóis cuidava melhor das nossas mocinhas! – e novamente a risada simplória.
Eu não resistia àquela risada e gargalhava junto.
— Deve ter sido uma época boa, essa do senhor. – eu disse sorrindo.
— Aqui não tem lotação. Pelo menos não pras bandas da fazenda! Ocê tem que ir de a pé. Eu até ajudaria, mas, só se eu chamar o Carlinhos.
— Carlinhos?
— É meu afilhado. Ele trabalha lá na farmácia.
— Não precisa incomodar. Eu até vou gostar de ir andando!
Ocê conhece o caminho da estrada?
— Conheço sim, eu só não sei como chegar até lá.
Patavina que eu conhecia coisa alguma! Menti para que ele não incomodasse o afilhado e, depois seria melhor aprender a andar a pé até a fazenda. Sem dúvidas andar no carro com o , de novo, seria difícil, se não, no mínimo arriscado.
— Então faz assim: ocê vai andando até a rodoviária. Sabe donde é?
— Sim, sim.
— Pois é! É lá! Aí ocê caminha um pouquim mais pra frente, e vai ver uma escola estadual. Continua andando, que uns… – ele parou pra pensar — deiz metro à frente da escola ocê vai ver o cemitério. Aí continua andando, mas, cuidado com os mortos! – ele gargalhou me encarando, e eu sorri confusa.
— É piada moça! – rindo continuou: — Então mais ou menos outros deiz metro depois do cemitério ocê vai ver uma rua cheia de casebres, o povo lá é gente fina dimais da conta. Tenho até um conhecido lá que ficou de me visitar faz tempo! achando que ele até morreu. Ou enricou né!
Esses cortes de foco nas conversas de interior também são muito divertidos. É o que puxa um desencadeamento de assuntos que nos fazem até se perder.
Ocê entra nessa rua e vai toda a vida. No fim dela ocê vai ver uma placa assim “Entrada da Estrada Cascalhosa” e aí ocê já chega à estrada. Vai toda a vida tamém, depois do terceiro mata-burro tem duas entradas, aí eu não lembro qual que é, mas ocê disse que sabe né?
— Sei sim!
Eu apostava no uni-duni-tê mentalmente.
— Como é o nome do senhor?
— É Aguinaldo! Mas, todo mundo me conhece como, Guino! E a vossa graça?
.
— Ô ! Então faz isso que eu te falei minha fia. Mas ó, não demora não porque é muito chão pra andar e logo escurece. Quando a gente no mato, nem vê o tempo passando!
— Ah com certeza. Muito obrigada Senhor Aguinaldo. Foi de muita ajuda!
— Da onde. Carece de agradecer não. Depois ocê volta pra tomar um café e prosear mais!
— Voltarei. – eu sorri agradecida.
— Diga pra Cora vim aqui. Ela tá sumida e eu não gostando disso não.
— Pode deixar que eu mandarei o recado direitinho.
Novamente disse adeus e fui embora. Segui todo o caminho como o senhor Aguinaldo me ensinara. Porém ao chegar às duas outras entradas eu não sabia qual seguir. Em uma, a placa com seta dizia “Rancho das Flores” e na outra dizia “Rancho do Riacho Doce”. Lamentei não ter perguntado se tinha nome na fazenda, ou ter prestado mais atenção ao chegar de viagem. Optei pela primeira seta. E foi o meu martírio.
O sol se pôs e eu andava perdida no meio da estrada de floresta densa. O desespero também se apresentava, e eu resolvi voltar. A minha sorte foi ter utilizado de inteligência e ter marcado uma cerca com um galho grande de eucalipto que caiu na estrada. Trancei o galho naquela cerca, assim eu reconheceria o caminho certo caso decidisse voltar. Finalmente consegui voltar às duas placas e então ao ler de novo “Rancho do Riacho Doce” eu quis me matar. Riacho Doce. Riacho. Um riacho era o que dividia as terras da fazenda! Como não pensei nisso? Só poderia ser aquele caminho! Mas, e se a coincidência não fosse essa? Tentei repensar na porteira que eu abri, a fim de relembrar qualquer possível escrito nela. Recordei-me de uma miragem entre “oce” ou “ore” que poderia ser o fim de qualquer uma das duas palavras das placas. Olhei para o céu pedindo ajuda a alguém por lá e seguindo os meus instintos fui pela ideia do riacho mesmo.
Eu vestia um suéter preto e uma calça de moletom. A mesma roupa que coloquei após o banho de manhã. Eu precisava de um banho e ao me lembrar de que seria banho frio lamentei novamente por escurecer. Felicitei por ter calçado botas antes de sair, pois, a ideia de: mato, escuridão e chinelos à mercê de qualquer peçonha, me espantavam ainda mais!
Enquanto eu vagueava sempre à frente, eu rezava também. Não tinha lanterna, não conhecia o caminho e a escuridão me dava “olá”. Como fui burra e orgulhosa em não aceitar a ajuda do afilhado do senhor Aguinaldo! De repente uma luz surgiu atrás de mim, e ao olhar para trás percebi um jipe que diminuía a velocidade à medida que se aproximava.
— Boa noite. Vai para onde?
— Boa noite. Estou procurando a fazenda da dona Laura Coralina. – eu ainda não havia entendido essa história dos nomes diferentes de titia — Poderia me indicar o caminho?
— Entra aí, estou indo para lá! Você é a ?
— Sou sim. E você?
— Marcelo. O noivo da Rosa.
— Ai, graças aos céus!
Entrei no jipe menos assustada, mais calma e até feliz.
— Rosa disse que eu gostaria de conhecê-lo, mas, não imaginei que seria tanto! – eu dizia sorrindo com as mãos sobre o rosto.
— Acalme-se. Ela me ligou avisando que você sumiu, e para eu ficar de olho na estrada. Estão todos desesperados atrás de você. está desde cedo te procurando na cidade, voltou para cá e te procurou na floresta depois voltou para buscar as meninas na escola e já estão em casa, eu suponho.
— Idiota. Ele que me largou lá!
— Estou sabendo dos conflitos. Não dê importância . está com o orgulho ferido somente.
— E eu não? Depois dessa então…
Ao chegarmos à fazenda já tínhamos nos conhecido um pouco melhor. Eu pude perceber sombras das pessoas pela janela andando de um lado ao outro, nervosas. Canelinha latiu ao ver nosso carro entrando na fazenda. Descemos e fomos até a varanda. vinha rápido e desesperado para fora. Assim que me viu, ele ficou estático me encarando assustado. Olhando-me dos pés à cabeça. Marcelo deu-lhe boa noite e entrou. Ficamos ambos ali parados. Eu raivosa e ele desesperado.


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Entrei e o deixei sozinho na varanda. Titia estava sentada em uma poltrona visivelmente nervosa. correu e me abraçou chorosa. Rosa também veio até mim, abraçando-me e perguntando se eu estava bem. Preocupei-me com titia e fui até ela.
— Calma tia, está tudo bem. Eu estou bem.
— A encontrei andando na estrada, já a caminho de casa. – disse Marcelo, meu herói.
— O que aconteceu ? – titia perguntava, séria.
— Nada demais. Entrei em uma vendinha e fiquei por lá conversando com dona Carlota, depois fui à igreja e por último seu Aguinaldo me explicou como chegar aqui. A propósito ele pediu para cobrar-lhe uma visita tia. Não tive como avisá-los que eu estava bem. Me perdi voltando para casa. Peguei um outro caminho, mas, voltei e quando segui pelo caminho certo o Marcelo me encontrou.
! – titia estava furiosa, eu não sabia que era possível vê-la daquele jeito, pois, ela sempre esboçava tranquilidade.
Ele chegou até a sala e olhando culpado para ela, se aproximou de mim.
— Desculpa pelo modo como agi . Não devia tê-la deixado, sozinha. — Eu não sou mais criança . Sei me cuidar. Não se preocupe comigo porque eu não espero isso de você.
Todos nos olhavam, como se tentassem entender o que haviam perdido para a situação estar naquele pé. Ele abaixou a cabeça, visivelmente contrariado. Naquele momento eu queria poder dar uma surra nele, mandá-lo preso por desacato à autoridade! Quanta raiva eu sentia dele. é tão… Faltam-me palavras. Ele é um enigma sem respostas.
Tia Laura finalmente se levantou e me abraçou pedindo desculpas e dizendo o quanto se preocupara. Foi preparar um chá para acalmar os ânimos gerais. Marcelo e Rosa foram também com ela.
Meu ioiô caiu do meu bolso e ficou animada ao ver. Disse-me que tinha vários e como que, instantaneamente, o medo que percebi no rostinho dela quando me viu chegando, desaparecera. Deixei-a brincar com o ioiô e prontamente ela correu para mostrar a avó. ainda estava parado à minha frente. E eu subi para tomar um banho, deixando-o onde estava, mas, ele me seguiu. Entrei no quarto e quando percebi, ele já estava lá dentro, atrás de mim.
— O que você está fazendo aqui? Saia daqui !
— Nada justifica o que eu fiz. Você poderia ter… Algo poderia ter acontecido com você. Fui infantil em te deixar lá.
— Que bom que você reconhece isso. Agora saia.
— Espera! Você me deixou nervoso! Eu não podia ficar nem mais um minuto perto de você!
— Eu não quero suas justificativas , só quero distância.
— Escuta! Eu vou te ajudar a encontrar um lugar para morar e um emprego. Você precisa mesmo se afastar daqui o quanto antes. Viu o estado da minha filha? Minha mãe fica colocando ilusões na cabeça dela. E eu não quero você muito perto dela.
— Não vejo necessidade disso, e isso só vai magoá-la ainda mais. Eu não pretendo ignorar a sua filha. Eu pretendo ignorar você.
— Somos dois. Eu só não quero magoada por culpa sua. Eu vou vigiar você e qualquer coisa que você possa dizer a ela.
— Não vou magoá-la. Não sou um monstro como você pensa.
— Assim que eu tiver qualquer novidade eu te aviso. Você já trouxe muitas perturbações para essa família.
— Não! Eu não vou deixar você me transformar no problema! – eu disse me aproximando dele raivosa.
Encarando-o bem nos olhos continuei:
— Você é que tem perturbado a sua família! Caso não percebeu você é o único que me odeia e que tem me desprezado, desde antes mesmo, de eu chegar!
Ele me empurrou levemente afastando-me de perto dele e saiu batendo a porta. Bufei de raiva jogando meu suéter longe. Novamente a porta se abriu e era .
— Ei! Eu estou trocando de roupa!
— Desculpe. – saiu novamente.
Suspirei tentando me acalmar, e puxei roupas limpas do armário. Minha toalha, estava estendida sobre a cadeira do quarto, onde eu havia esquecido pela manhã. Joguei-a no ombro e fui ao banheiro tomar um banho surpreendentemente quente enquanto eu esperava gelo. Ao voltar para meu quarto, já vestida, estava sentado em minha cama com uma toalha nos ombros nus, descalço e com o habitual jeans surrado. Confesso que é um homem lindo. Insuportável e incomodativamente lindo.
— O que?! – me assustei ao deparar-me com ele ali.
— Eu só queria dizer que você não vai conseguir o que você quer. Você se faz de boba dizendo que vai embora, não é? Então vamos transformar seu drama em realidade. Você vai embora dessa casa o quanto antes. Eu já não suporto mais vê-la fazer cena.
Ele tinha mesmo a necessidade de ficar repetindo aquilo toda hora? Eu já havia entendido o ódio dele!
— Ah cala essa boca, seu estúpido! Eu que não suporto mais os seus surtos. Sai já daqui!
Assim que ele saiu, Rosa bateu à porta do meu quarto perguntando se estava tudo bem.
— O que ele veio fazer aqui no seu quarto? – ela perguntou.
— Me intimidar. Tudo bem Rosa, pode ir, eu já desço.
Ela desceu e eu me sentei na cama. As lágrimas desciam compulsivas e eu soluçava. Por que tudo estava dando errado? Por que desse jeito? O dia fora tão confortável longe dos meus problemas e de repente o pesadelo volta duas vezes pior!
Cansada de me lamentar maquiei levemente o rosto para esconder o cansaço e o choro. Fui ao encontro da parte feliz da família que me esperava para o jantar. Marcelo foi muito legal e Rosa estava animada para falar das coisas de seu casamento. era um recente raio de sol na minha atual escuridão. Tenho certeza de que aquela pequenina teria algo muito doce a me dizer. Sempre.


Capítulo 3 - Menos Um

Ao chegar à cozinha estavam todos aprontando a mesa e eu fui ajudá-los:
— Tia, a água do chuveiro estava quente. O que aconteceu?
Eles começaram a rir, inclusive que disse um: “A gente esqueceu de contar pra ela!”, entremeio suas risadinhas melodiosas.
— Sistema de serpentina , você tem que acender o fogo a lenha para aquecer a água. Desculpe pelo banho frio de ontem.
— Ah tudo bem Rosa! Eu só estava preparando-me psicologicamente para outro daqueles enquanto eu andava em busca da fazenda. – começamos a rir.
Então apareceu e eu não consegui sorrir mais. Eu não deveria deixar essa frustração me tomar, mas, eu teria que extravasar de alguma forma. Não sou de fazer a cínica. Tento esconder quando estou mal para não atingir aos outros com preocupações, mas, fingir que tudo está um “mar de rosas” também não é do meu feitio.
sentou-se na cadeira de sempre, Rosa ao lado de Marcelo. Na outra ponta da mesa em frente à , sentou-se titia. Ao perceber aquela organização eu poderia jurar que uma conspiração contra mim fora armada. Mas, não era uma ideia real. Olhei para a pequenina e como eu poderia pedir para ela trocar de lugar? Primeiramente seria muito infantil da minha parte e depois, alguma hora eu teria que aceitar o pouco espaço entre e eu. Afinal, morávamos na mesma casa, certo? Então me sentei sendo seguida por ele. Não olhávamos um para o outro.
Enquanto jantávamos, Rosa e Marcelo contavam seus preparativos, todos já na reta final. Estavam muito felizes. Então Rosa me contou a data e eu me espantei visivelmente.
— Já é neste final de semana próximo?
— Sim ! No sábado! Não é fantástico?
— Sim. Sim. É fantástico. Mas, eu não esperava chegar e encontrar alguém com malas prontas para sair.
bufou sarcástico. Seria por isso que ele me culpava? Talvez pensasse que eu estava tentando tomar o lugar de alguém. O lugar de Rosa. Mas, ele seria tão ridículo assim?
— E você será minha madrinha.
— Como? – nesse momento, tanto eu quanto o , olhamos para ela perplexos. — Rosa, não quero ser ingrata, pelo contrário! Fico radiante com o convite, mas, você deveria escolher para sua madrinha alguém mais apropriada, mais íntima, não acha?
— Sou obrigado a concordar com ela.
estava furioso. Titia sorriu discreta, brincava com a comida fingindo não prestar atenção em nada, muito marota. Rosa apenas sorriu para nós.
, eu não tenho amigas nas quais eu possa fazer esse convite. E você é da nossa família. Pelo menos eu te considero como tal.
— Rosa, me desculpa de novo, mas você mal me conhece… E como ser madrinha de um casal que eu mal conheço a história?
— Bem, você pode não se sentir da família, mas é. E se quiser um tempo para pensar não há problemas… Uma hora você vai perceber.
— Tempo para ela pensar? Que tempo? Daqui há quatro dias, vocês se casarão e logicamente não haverá madrinha se você não mudar logo! – bradava.
— Ele está certo…
Eu olhei-o com raiva recebendo o mesmo olhar em troca.
— Você não quer ser minha madrinha ?
Rosa chantageou-me com a pressão diante todos à mesa e com a expressão mais tristonha que já presenciei. Muito impróprio da parte dela jogar sujo daquele jeito.
— Não é isso, só não quero que você se arrependa depois.
— Essa mulher até agora, não disse nada mais sensato.
continuou comendo e fitando o próprio jantar sem escapar às alfinetadas para mim. Olhei para ele de canto, muito contrariada por não poder respondê-lo à altura.
— Não irei me arrepender. Você é da família. Posso considerar um sim?
— Pode.
Eu disse de muito contragosto, não por ser madrinha, mas, por achar uma atitude um tanto precipitada da parte de Rosa e Marcelo.
— Da família… Era só o que me faltava! – terminou seu jantar levantando-se rude, afastou a cadeira de modo bruto e largou sua louça na pia, em seguida indo recolher-se.

Titia fez uma careta depois que o filho saiu e o ambiente tornou-se mais descontraído. Não na minha mente. Após todos estarem devidamente saciados, titia pôs-se a arrumar a cozinha com a ajuda da pequenina . Rosa e Marcelo ainda queriam discutir na minha presença e na presença de sobre os preparativos. Aquilo exigiria um grande esforço e um ânimo surreal, para suportar a presença do homem mais insuportável que eu já havia conhecido. Coloquei uma água para ferver com ervas de camomila à vontade, enquanto titia e arrumavam a cozinha. Marcelo subiu para chamar o e, com um mau humor mil vezes maior, ele juntou-se a nós na sala.
Rosa falou sobre as decorações, o cardápio, tudo já muito bem esclarecido, mas, precisava tratar conosco sobre as roupas de padrinhos e o que nós preferíamos.
Nós?
— E então, vocês pretendem combinar seus trajes? – ela disse olhando para e eu.
— Nós? – eu disse prevendo o pior.
— Vocês serão juntos os padrinhos da Rosa.
Marcelo falava sorrindo por já saber o rebuliço que aquilo causaria. Somente ali, eu percebi porque revoltara-se tanto com o convite dado a mim. Eu suportaria aquela situação?
— Por mim acho apropriado você escolher a cor e cada um se vira com o traje separadamente. – falei enérgica.
— Certo… Amor, o que você acha? – perguntava Rosa ao noivo.
— As madrinhas poderiam escolher tons pastéis. A poderia escolher algum tom de nude. Ela tem uma pele linda, acho que cairia bem com a cor. O que acha ?
Ele não respondeu nada para Marcelo e nem sequer nos olhou, continuou lendo uma revista qualquer. Tão infantil!
— Eu acho apropriado. – Rosa dizia divertida com tudo aquilo. — ?
— Acho ótimo, assim ninguém ficará prestando atenção em mim.
— E os padrinhos irão com traje comum. Tom escuro. Alguma preferência ?
— Minha única preferência seria qualquer outra madrinha para minha irmã.
Eu decidi não dar importância a nada daquilo, afinal, teríamos ensaios a serem feitos durante as tardes por aquela semana e isso implicaria em suportá-lo por mais tempo do que eu previ.
Depois de tudo aquilo, os chás foram servidos. insistiu para que fosse dormir e tentou levá-la, mas, a pequena agarrou-se a mim e pediu para ficar mais um pouco. Ele já estava muito irritado e então se recolheu.
Eu também não demorei a me deitar levando para dormir. Acendi as luzes do quarto dela. Ela vestiu seu pijaminha e agarrou-se a uma pelúcia. Ficou paradinha em um cantinho apenas observando enquanto eu preparava a cama dela.
— Prontinha . Escovou os dentes?
— Sim.
— Hum… Posso conferir? – ela abriu um sorriso enorme já se sentando em sua cama e depois disse que seu pai sempre checava o hálito dela com uma “baforada”.
— Então , dê-me uma baforada caprichada! – ela fez e nós começamos a rir — Você escovou direitinho! Boa noite, boneca.
! – ela abraçou-me quando eu beijei sua testa.
— O que foi?
— Me conta uma história?
— Conto, mas, você terá que fechar os olhos e tentar dormir.
Tá. Ela virou-se abraçando seu cavalinho de pelúcia. Fechou os olhos e esperou a história.
Encontrei um livro de contos clássicos na cabeceira da cama dela e abrindo-o comecei a ler. Ela adormeceu brevemente.
Assim que percebi o sono profundo da pequenina ajeitei seu cobertor. Sentia-me sendo observada. Fui até a janela conferir o trinco e fechei as cortinas. Quando saí avistei a porta do quarto de sendo fechada. Direcionei-me ao meu quarto e adormeci logo.

Tocar na playlist: (Simple - Florida George)


De manhã fui acordada por uma garotinha sorridente e descabelada que abria meus olhos com os dedinhos pequenos. Muito marota.
? O que foi? – eu dizia sonolenta.
Ela deitou-se debaixo da minha coberta e ao meu lado.
— Você tem que acordar . Você dorme muito!
— Quantas horas?
— Cinco e meia.
— E o que você faz acordada há essa hora? – espantei com o horário.
— Eu fui dormir com meu papai, mas, ele acorda cedo. Eu fingi que estava dormindo quando ele saiu e vim pra cá! Bom dia! Acorda!
Ela balançava-me tentando impedir minhas pálpebras cansadas de se fechar. é muito esperta para a idade dela. Sempre à frente das outras crianças.
— Hã… Tudo bem, já estou indo.
Ela ficou sentada à cama aguardando-me. Descemos logo após eu ter me vestido. Titia já preparava o café, correu para as sessões de desenho animado na TV.
— Bom dia titia.
te acordou, não é?
— Sim, mas, tudo bem… Preciso mesmo habituar-me com os horários da fazenda. O que posso fazer hoje?
— Primeiramente sente-se e tome café.
Ela sorriu me esticando uma caneca de café, em seguida, levou o café de e ajeitou os cabelos desgrenhados dela.
— Titia, cadê o resto do pessoal? – eu perguntei quando ela voltou à cozinha.
— Rosa e Marcelo ainda dormem e já está te esperando.
— Me esperando? – comecei o dia com essa surpresa nada boa.
— Ele vai te ensinar como funciona a rotina da fazenda. Há pouco foi para o celeiro, pode ir para lá ao terminar o seu café. – ela falou simpática.
— Claro, estou indo.
— Calce as botinas.
Calcei as botinas próximas à porta de saída e fui até o celeiro. Percebi que titia ficou me observando furtivamente enquanto eu seguia o meu caminho. Lógico que eu deveria fazer alguma coisa para ajudar na fazenda e não contestei contra isso, pois, era o mínimo que eu poderia fazer. No entanto, uma dose dupla de logo ao amanhecer? Antes mesmo de rever o sol? Esbocei uma careta indiferente.
Ao entrar no celeiro ele recolhia o feno e colocava os feixes em um carrinho de mão.
— Bom dia. – eu disse.
Ele parou e me olhou sério. Não se esforçaria nem um pouco para tornar aquilo agradável. Tudo bem, eu aguentaria.
— Bom dia.
— O que devo fazer?
— Estou juntando os feixes de feno para os cavalos. Você consegue carregar o carrinho para as coxias?
Fui em direção ao carrinho de mão e suportando o peso peguei-o indo em direção às coxias dos equinos.
— Só os cavalos da direita! Eu ainda não prendi os outros. Se você abrir a porta eles podem sair. – ele alertou-me.
Distribuí o feno para os animais amigáveis. Eu estava com medo de irritá-los, mas, o que são aqueles cavalos diante o ?
— Venha aqui um instante , tenho que lhe mostrar como prendê-los.
Fui até o lado contrário, o da esquerda, onde ele encontrava-se e após aprender como agir, responsabilizou-se pelos animais daquele lado. Ele distribuiria o feno, a água e limparia o local. Eu terminaria limpando meu lado e dando água a eles.
Antes de colocar água nas baias deles, achei melhor limpar todo o esterco, do contrário faria uma bagunça pior. Procurei uma pá e comecei a limpar com um pouco de receio de tomar coices, mas, os animais comiam tranquilamente. olhava-me vez ou outra sem nada dizer. Eu nem mesmo falava com ele. Procurei tudo o que precisei sozinha. Orgulho meu, talvez? Que fosse!
Depois de todos os estercos recolhidos no carrinho de mão fui dá-los água. Estavam sedentos. Em um dos cochos, enquanto um dos cavalos bebia água eu acariciava-o. Então tomei um susto, pois, o animal repentinamente ergueu seu pescoço e deu-me uma bufada de nariz molhado em meu rosto. Limpei-me assustada e comecei a gargalhar fazendo carinho naquele ser tão inocente. olhou-me rabugento.
Ao sair daquela parte, eu teria que dar um fim naquele esterco. Mas, onde jogaria?
, onde coloco o esterco?
— Na horta, é adubo natural. Mas, primeiro ele tem que secar, junte com o outro monte que está lá.
Eu até cheguei a imaginar aquilo: adubo natural. Fui até a horta e com a pá fui distribuindo o monte de estrume fresco que secava ao sol. Logo chegou com a outra parte e continuamos trabalhando juntos e calados. Assim que terminei, puxei uma mangueira e lavei o carrinho e a pá, fez o mesmo e guardamos os materiais de volta no celeiro.
Após essa tarefa fomos até o curral. Ele me explicou como tirar leite das vacas, primeiro amarrando as patas traseiras delas e depois apertando as tetas. Conseguimos retirar dois galões de vinte litros de leite, manualmente. Trabalhoso, inclusive.
ainda me explicou que depois de retirado o leite, as vacas deveriam ser levadas até a outra margem do rio, onde pastavam durante o meio dia. Enquanto pastavam, o curral era limpo. Depois do almoço elas deviam ser trazidas de volta. E assim fizemos, depois de colocar os galões na camionete, ele montou em um cavalo e levou-as para o pasto. Eu fiquei lavando o curral até ele voltar.
Ao voltar ele deixou o cavalo na coxia, colocou os galões na carroceria e entrou na camionete.
— Pode recolher os ovos no galinheiro e dar milho às galinhas enquanto eu vou em casa buscar a comida dos porcos e levar o leite.
Fiz o que ele pediu e ele não demorou a voltar. colocou os ovos da cesta dentro da camionete. Jogamos milho misturado a farelo para os patos, que rondavam o galinheiro.
— Onde os patos ficam?
— Soltos. Ficam sempre no riacho. De manhã se aproximam do quintal e do galinheiro para comerem.
pediu para que eu o acompanhasse até o chiqueiro. Chegando lá, havia um balde de mistura composta por restos de verduras, legumes, frutas… Enfim, lavagem.
— Não é sempre que damos lavagem a eles, pois esperamos juntar bastante orgânicos. Normalmente eles só comem a ração.
— E com que frequência você prepara a lavagem?
— Há cada duas semanas. – abriu a porteira do chiqueiro, com o balde em mãos e advertiu: — Entre, e cuidado para eles não fugirem.
Entrei e estendeu-me o balde de comida que eu distribuía no cocho, porém, eu tomei uma rasteira de um dos porcos e caí no meio da sujeira. estava limpando o lugar e imediatamente parou o que fazia, me olhando assustado e começou a gargalhar. Nem mesmo estendeu-me sua mão para ajudar.
Fiquei furiosa e levantei-me sozinha. Saí do chiqueiro deixando-o gargalhar e limpar o lugar sozinho.
— Pode ir, já acabou por essa manhã… – ele disse em meio a gargalhadas altas. — Tome um bom banho, esse cheiro custa sair!
Petulante, ainda zombava de mim enquanto eu me distanciava nojenta. Quando apareci no quintal dos fundos da cozinha tirei as botas e lavei-as no tanque. Eu deveria tomar um banho na ducha que havia ali, mas, como tirar minhas roupas e lavar-me naquele quadrado de madeira exposto? De fato, o pessoal na fazenda, em ocasiões como essa tomavam banho ali. Todos iriam me enxergar, mas, pelo menos, não veriam mais pele nua do que o necessário.
— Titia! – gritei.
Todos estavam na mesa da cozinha e dava para ver perfeitamente onde eu estava.
! O que aconteceu? – titia perguntou. — exagerou dessa vez!
Rosa falou bravia para Marcelo ao seu lado, logo, também surgiu na varanda e começou a rir.
brincou com os porquinhos! – ela ria divertida. — Vovó não gosta que a gente brinque com os porquinhos ! – gritou para mim, tão inocente.
— Não foi o , Rosa. Eu caí no chiqueiro. Como faço titia?
— Entre nesse reservado da ducha e retire suas roupas. Vou te trazer toalhas e roupas limpas. Tem sabonete aí!
— Use esse sabão de gordura também, . Ele vai ajudar a limpar e tirar o cheiro. Depois se esfregue com o sabonete. Que azar você ter caído lá, antes que terminassem de lavar o chão! – dizia Rosa para mim.
— Estava correndo tudo, bem demais... – resmungei.
— Ele não tem culpa mesmo? – Rosa se apoiou na parede do quadrado, e me olhou incisiva a fim de descobrir a verdade.
— Não, desta vez não. – respondi abrindo a ducha e tremendo de frio pela água gelada que tocou minha pele.
Rosa, Marcelo e entraram assim que eu comecei a tomar banho. Depois titia trouxe minhas coisas e retirou-se. Enquanto eu tomava banho, chegou e descarregou a camionete com o que havíamos recolhido. Ele me olhou no banho e riu. Eu apenas o encarei com raiva.
— Vai levar as coisas para a cidade agora, filho?
— Sim mãe, só o tempo de eu tomar um banho. Não demorarei a levar as meninas à cidade.
— Tudo bem, sem pressa. Marcelo levará Rosa e .
entrou e titia aproximou-se de mim, ajudando a esfregar meus cabelos.
— Como foi ? Fora o tombo com os porcos...
— Tranquilo, muito trabalhoso, mas, tranquilo. Aprendo rápido.
não te irritou?
— Tudo nele me irrita, mas, deu para sair ilesa se não fosse o chiqueiro.
— Sei… - ela riu baixinho — Agora ele irá à feira da cidade vender os produtos que vocês recolheram.
— Interessante. – eu disse terminando de lavar os cabelos e começando a me secar.
— Saiu bem o cheiro?
— Sim titia, obrigada. Por sorte o estrago não foi tão grande! – eu já me vestia naquele pequeno quadrado de madeira.
— Mãe! As patas botaram também, eu tive que separá-las! - aproximou-se da varanda dos fundos conversando com a mãe.
Incrivelmente ele não estava emburrado. Era a primeira vez que eu o via, despreocupado, sem estar rabugento, sem rugas de raiva. E ele é realmente lindo. Depois de acabar passei por ele entrando à casa sem direcioná-lo palavra alguma.

A manhã correu e não demorou na cidade, antes do almoço estava em casa. Voltou com o dinheiro e sem nenhum ovo, leite, galinha ou verdura que havia levado para a feira.
Eu, finalmente cheirosa, desci para a cozinha e titia preparava o almoço.
— Quer ajuda?
— Não querida. Muito obrigada. Marcelo já recolheu as verduras na horta para mim e está quase tudo pronto.
— E o que posso fazer?
— O que você quiser.
— Então eu limparei a casa. Onde estão as coisas?
— No quartinho dos fundos. Mas não se preocupe em limpar tudo de uma só vez. Aqui, Rosa e eu fazemos as coisas devagar e com calma, há muito serviço e a casa é muito grande, não precisa se desesperar.
— Certo… E por onde começo?
— Limpe só a parte de cima. Os quartos. A parte debaixo arrumamos depois.
Seguindo os conselhos de tia Cora, eu limparia apenas o segundo andar: os quartos, o banheiro e o corredor. Rosa tomava seu banho para ir ao trabalho e se arrumava para sair. Na verdade, arrumava-a.
Passei pelo quarto dela, e ambos estavam de costas à porta. Fiquei observando-os, escondida. Achei aquela cena muito singela, ele não refletia o ogro de sempre.
— Tranças com lacinhos papai! – pedia para ele.
saberia mesmo, arrumar uma menininha com tranças e lacinhos?
— Já entendi filha… De que cor?
— Azul!
— Azul? Mas, você não gosta de azul. Verde não é a sua cor preferida?
— É… Mas a gosta de azul!
— Ela te disse isso? – era perceptível que ele não gostara nada do que acabara de ouvir.
— Não. Eu vi nas coisas dela que ela tem muita coisa azul… Eu tenho muita coisa verde, então ela gosta de azul né, papai?
— Sim filha, ela deve gostar. Mas, por que não usa a sua cor favorita?
— Porque eu quero ficar igual à , né papai! Dã! – ela dizia rindo e batendo na testa dele.
Saí dali antes que eles me vissem. mudou até a postura quando a pequena pronunciou meu nome. Ele realmente me detestava, e odiava ainda mais, o fato da filha gostar de mim. Pensei até que ele estivesse certo, afinal, eu pretendia ir embora e a pequena boneca cada dia se apegava mais a mim. Comecei a limpeza pelo banheiro, depois fui para o meu quarto. Assim que comecei a limpá-lo, veio me chamar para almoçar, mas, não parei a faxina. Ela despediu-se de mim com um longo e estalado beijo. A menina estava linda.
— Olha ! Papai passou batom em mim. – ela fez um biquinho me mostrando.
— Você ensinou direitinho para ele! Está linda!
— Não ensinei ! Papai sabe passar batom!
Foi muito engraçado ouvi-la dizer aquilo que soou tão ao contrário do pretendido.
— Então me dê um beijinho daqueles que eu te ensinei para não borrar!
Adverti, mas, a menina agarrou-me pelo pescoço e apertou tanto a minha bochecha que saiu quase sem fôlego.
— Pode ficar com o meu batom! – ela disse apontando com seus dedinhos pequenos para minha bochecha marcada e saiu correndo.
— Cuidado com a escada! – eu gritei.
Assim que acabei a faxina no meu quarto e no quarto de , segui para o quarto de . Eu fiquei receosa de entrar ali, porém, eu estava fazendo um favor e ai dele se reclamasse!
Para minha surpresa o quarto de era muito bem organizado. Limpei tudo direitinho, mas, em um momento específico, uma pulga instalou-se atrás da minha orelha. No criado-mudo dele estavam expostos alguns papéis com anotações, uma caneta, um relógio e o ioiô da . Tirei tudo e abrindo a primeira gaveta, coloquei-os lá dentro, porém avistei alguns papéis picados.
“Até que ele não é tão organizado”, pensei.
Ao pegar o montinho de papéis picadinhos fui montando-os e descobri uma fotografia. A fotografia de uma linda mulher grávida. Por que aquilo estaria ali daquela forma? Uma foto como aquela deveria estar em um belo porta-retratos. E quem seria aquela mulher bela? Virei às pecinhas ao contrário montando o verso dela, que apresentava a frase “nove meses da . Aquela bela mulher era a mãe da .
Percebi que nada sabia sobre a história da pequena e decidi que alguém iria me contar! Antes de guardar a foto fui pega em flagrante por titia. Ainda bem que fora ela!
— Desculpe tia, eu vi os papéis picados e iria jogá-los no lixo.
— Tudo bem. – ela sorriu simpática observando a fotografia montada em cima do criado-mudo. — O nome dela é Bruna. Linda, não?
— Muito linda. Eu… Posso perguntar o que aconteceu?
— Ela e foram namorados de infância. Quando estavam no último ano do ensino médio, queria fazer faculdade de engenharia agronômica e ela, sempre sonhando muito alto queria ser modelo. Iria para a capital investir nisso. Mas aí ela engravidou. Apareceu aqui e nos pegou de surpresa logo no início da gravidez. Ela queria abortar e seguir a carreira. Em nenhum momento foi uma mãe ligada à gravidez. Meu filho ficou tão feliz e com tanto medo dela tirar a criança, que imediatamente convidamos Bruna a morar aqui conosco até o fim da gestação. amadureceu muito com a vinda de . Você não imaginaria o rapazote sem juízo que ele era! Bruna insistia na ideia de não ter , porque segundo ela, o corpo não seria o mesmo e a sua carreira estaria destruída.
— Que absurdo!
— Sim. Rosa e eu nos mexemos muito para encontrar o tal agente que queria lançar ela e convencer o homem a esperar a gestação. Por sorte, ela é realmente linda e ele se interessava muito na carreira da Bruna, não queria perdê-la. Questões de lucro… Esse mundo é tão supérfluo…
— Eu sei bem como é titia. Em um repente as pessoas deixam de ser o ponto importante. – eu falei recordando-me da minha situação.
— Você tinha que ver o modo como ela se comportava diante da gravidez… Sem nenhum interesse, nenhum amor! Com isso, a gestação foi arriscada, sempre na vigília de médicos e lógico, com os olhares afiados de para que ela não fizesse nada contra o bebê.
Nós ficamos um tempo em silêncio, eu estava abismada. Titia guardou os restos da foto e pegou-me pela mão e nos sentamos na cama de para continuar a conversa.
— Ela foi o único amor do . Essa fotografia estava escondida… Mas, tenho pegado ele a observá-la algumas noites antes de dormir… Alguma coisa trouxe as lembranças dela. Quando nasceu, a casa inteira ficou radiante, com exceção é claro da Bruna, que não via a hora de se recuperar e ir embora. Ela nem mesmo amamentou, a .
— Esta mulher é um monstro! Céus… A é o ser mais amável, mais perfeito que eu já conheci. Uma criança como ela merece tanto amor!
— Você está certa. Mas, a Bruna não é como você. Desde o primeiro instante que você veio para cá eu sabia que se apegaria a você e você a ela!
— Sim tia, mas, eu preciso conversar com ela. Quando eu for embora não quero que ela sofra.
— Você não vai embora. Nem adianta retrucar! Eu sei do que estou falando. — Certo… – eu não discutiria com titia, pois nunca funcionava. – Mas, o que sabe sobre a mãe?
— Nada. decidiu dizer-lhe que a mãe morreu. Pelo menos até ela ter maturidade de entender o abandono materno. Entender… Ela nunca entenderá, mas, quando for maior poderemos ter essa conversa abertamente.
— Entendo.
— Por enquanto, essa fotografia deve ficar escondida.
— Ela nunca viu uma fotografia da mãe?
— Viu sim… Na escola costumam pedir essas coisas. Mas, não nutrimos isso até porque, da última vez, quando viu que a mãe nunca sorria, ela perguntou por que a mãe sempre estava triste.
— Deve ser tão confuso para ela...
— Agora ela não se importa tanto. Ou melhor, não demonstra. Ela se importa na verdade! Ela precisa de uma mãe, toda criança precisa.
— E ela merece muito, muito, carinho e amor.
— Pois é. Ai, ai… – ela disse se levantando. — Vou esconder essa fotografia.
Titia se levantou juntando os pedacinhos e os colocando dentro de uma caixinha, e de volta à gaveta. Permaneci sentada e pensativa, até titia se virar para mim percebendo o silêncio:
— Não vai almoçar?
— Prefiro terminar aqui primeiro.

Titia desceu e eu continuei meus afazeres. Assim que acabei fui almoçar. Já na mesa do almoço, não avistei . Supus que pela hora ele já teria almoçado e estaria recolhendo as vacas do pasto. Titia tricotava na varanda.
Ao acabar de comer, escovei os dentes e limpei a cozinha. Juntei-me à titia na varanda me deitando em uma das redes. surgiu tempo depois, distante montado em um cavalo. Eu estava certa, ele recolhera as vacas. Deixou o cavalo em que havia montado solto, e soltou o restante.
— É bom para eles sair um pouco das coxias. Toda a tarde ele faz isso. – disse titia que me observava por cima dos óculos enquanto tricotava.
De longe observei, guardando a cela no celeiro e saindo de lá vindo para a casa. As galinhas ciscavam próximas à varanda onde titia e eu estávamos. Eu balançava-me na rede observando-as na incansável tarefa de riscar as unhas e meter o bico no chão. Canelinha, como sempre, não dava importância a elas. continuava vindo com a cabeça baixa e chapéu vaqueiro na cabeça. Naquele sol da tarde, sem dúvidas o chapéu era adorável.
Levantei e enchendo a vasilha de água do cachorrinho com o líquido mais fresquinho chamei-o, e abanando o rabinho, alegre, matou sua sede. Eu sorri e voltei à varanda deitando-me novamente na rede. já se aproximava.
— Canelinha tem preguiça até de beber água. – disse titia para mim, assim que voltei.
Bença mãe. – disse beijando a cabeça da senhora.
— Deus te abençoe, meu filho. – titia respondeu-lhe enquanto ele entrava casa adentro e continuou a falar do cachorro: — Canelinha tem preguiça de tudo . É um cãozinho de enfeite.
De fato, se dependêssemos da proteção canina dele, mais poderíamos contar com os latidos de . Comecei a rir discreta com esse pensamento. Olhei para a porta da sala e deixava o chapéu no lugar de sempre, depois com as botinas sujas nas mãos seguiu aos fundos da casa. Voltei a admirar a fazenda e as galinhas.
Naquele instante todas as minhas preocupações surgiram imediatas. Eu estava vivendo um sonho. Uma fazenda bonita, afastada de tudo, pessoas legais, ou quase isso. Enfim, novos ares. Entretanto eu não poderia apenas desfazer-me dos problemas antigos como em um passe de mágica. Acordei de meus pensamentos com um susto.
jogou sobre minha barriga um bolo de jornal e uma caneta. Titia nos observava séria ainda tricotando. Olhei para ele sem nada entender.
— Te trouxe o jornal da cidade. É para você ver os classificados. Você é delegada, não é? Leia a segunda página, abriu concurso para o posto na capital.
Disse e dando-me as costas saiu. Como ele conseguia? Toda vez que eu pensava nos meus problemas ele surgia para me massacrar ainda mais! Era como se ele reconhecesse quando eu estava sofrendo e surgisse para piorar a situação.
— Ah! Mas, eu vou arrancar as orelhas desse moleque! – titia fez menção de se levantar e eu a impedi antes.
— Não tia! – falei mais alto, me sentando na rede fazendo-a se acalmar: — Ele está certo.
— É muito atrevimento, querida! – ela levantaria quando eu intervi novamente.
— Ele me fez um favor! Eu pedi para ele… – então ela olhou para mim surpresa. — Eu preciso arrumar um emprego.
— Ora… – ela esboçou um sorriso satisfeito voltando a tricotar mais contente:— Fico muito feliz que vocês estejam se entendendo.
Eu sorri sem graça apenas.
— Eu vou subir e analisar isso melhor.
Assim o fiz. Fui para o meu quarto e sentando-me na cama folheei o jornal. Interessei-me pelo concurso para a capital, mas, eu não poderia exercer minha profissão até o fim do julgamento. E nenhuma carta chegava! Eu estava cada vez mais desesperada, Lucas conseguira não só acabar com o meu coração, mas também, com a minha carreira. Comecei a chorar fracamente. Folheando os classificados da cidade fui marcando as poucas vagas possíveis.
surgiu na porta do meu quarto com um sorriso muito perverso no rosto. Eu limpei minhas lágrimas ao percebê-lo e ele retirou o sorriso do rosto ao perceber que eu chorava. Rapidamente de sarcástico ele fora para ranzinza.
— E então? Conseguiu alguma coisa?
— Eu marquei alguns anúncios.
— E quando você vai para a capital fazer este concurso e nos deixar livres da sua presença?
Ele disse entrando no meu quarto e parando à minha frente. Eu novamente estava furiosa com ele e a sua capacidade de espezinhar os sentimentos alheios.
— Lamento , mas, eu não posso fazer este concurso.
Eu me levantei indo em direção ao guarda-roupa separando alguma roupa, já marcava três horas da tarde e às cinco após pegar Rosa e na escola, ele e eu teríamos o infeliz ensaio de padrinhos.
— O que?
O incômodo era visível demais, ele realmente contava com o concurso para se ver livre de mim:
— E por que não?
— Eu não devo explicações a você. É pessoal. Não posso e pronto.
— Eu sabia que você inventaria uma desculpa! Está vendo como você é hipócrita?
— Ah, por favor! Me poupe!
— Fica choramingando por aí dizendo que vai embora e quando arrumo a oportunidade perfeita você inventa moda!
— Caramba! Eu vou sair daqui, tá? Eu vou aos lugares que marquei no jornal essa tarde!
— Mas, você ainda estará na cidade!
— Ah! A cidade é sua agora?
— Não, mas, quanto distante melhor! – ele gritou comigo saindo do quarto.
Eu massageava minha cabeça com as mãos quando ele voltou:
— E arrume-se por que…
— EU SEI!
Gritei com ele indo até a porta e batendo-a na cara dele. Fiz uma pirraça ridícula no quarto. Separei as roupas e fui ao banho.
Saindo do banheiro enrolada na toalha encontrei com ele novamente no corredor. Não nos olhamos e entramos em nossos quartos batendo as portas juntos.

Vesti uma calça social escura, uma camisa social branca e um saltinho baixo. Deixei os cabelos soltos com um feixe da franja presa para trás e pegando minha bolsa desci.
— Você está adorável!
— Obrigada tia. Nada demais.
— Vai somente ao ensaio?
— Não, vou tentar um emprego.
— Boa sorte.
— Obrigada.
já está te esperando na camionete. Boa sorte com ele também.
— Ai tia, muito obrigada! Sei que ele é seu filho, mas… – sem saber como me expressar sem ofendê-la, apenas sorri e fui em direção ao carro.
Entrei na camionete com os olhares de titia da varanda. deu a partida e meu celular tocou. Depois de tanto tempo, quem estaria me ligando?
— Alô?
meu amor… Como você está?
Ao ouvir aquela voz eu gelei. E imediatamente fechei a cara. , calado, ficou observando curioso.
— Lucas! Por que está me ligando seu filho de uma… O que você quer?
Ora , nós podemos superar tudo aquilo, não é?
— Não, não podemos! Eu vou te colocar na cadeia! Pode ter certeza disto seu bandido! – àquela altura eu gritava e já estava incomodado.
Pare com isso! Você sabe que não tem mais jeito para você… Inclusive, eu até poderia depor a seu favor! Eu te amo , não quero ver a minha garota sofrer! – à cada palavra que eu escutava mais raiva eu sentia.
Eu já estava vendo a cena: Lucas com cara de cínico rindo de mim. Cretino!
— Porque me ligou? Fale logo!
Convido você a vir ao meu iate para um passeio amanhã. Tenho novidades sobre o seu processo… Pode ser de grande ajuda a você! Está em suas mãos.
— Iate? Como você subiu rápido, não? Eu nunca confraternizarei nada com você! Mantenha-se fora do meu caminho! Eu vou provar que você é o bandido dessa história e…
Poupe esforços. Sua carreira está acabada. Amanhã às 16 horas. Se você não vier, enfim… Será um desperdício de talento… Você sempre foi tão justa delegada.
Ele encerrou o telefonema e eu estava aos cacos! Quando pensei que toda a trama havia sido revelada, ele ainda preparava mais. Eu precisava urgentemente ter notícias do meu processo.
Disquei os números de Ângelo, meu amigo advogado que me ajudava com o julgamento.
— Ângelo? É a , assim que chegar em sua casa me ligue, por favor! É urgente. Lucas me ligou com ameaças… Bem, aguardo seu contato.
Deixei o recado na secretária eletrônica. Recostei a cabeça para trás e fechando os olhos eu imaginava coisas positivas a meu favor. Senti um incômodo grande e quando virei meu rosto, encarava-me como se exigisse explicações. O carro estava parado.
— O que foi agora? – me ajeitei virando para ele, bravia.
— Pode começar a explicar tudo!
— Então titia não te contou nada?
— Não entrou em detalhes.
— Então pronto! Não te interessa!
— É lógico que interessa! Ainda mais, depois de presenciar este diálogo! Você está metida com o quê?
— Ai , por favor! Eu estou cansada de você, cansada da sua irritação, cansada de ter que olhar para a sua cara! Então pise neste acelerador para que eu resolva a minha vida e me afaste de você o quanto antes!
— Ainda temos o ensaio!
— Pois é! Vai ficar me enchendo ou vamos logo à cidade?
— Você me explicará tudo mais tarde! – ele concluiu enérgico dando a marcha.
Continuamos o percurso calados. Eu pensava no que Lucas estaria, por fim tramando. E … Bem obviamente ele me detestava ainda mais após presenciar aquilo tudo. Se, ainda sem saber de nada ele já me odiava, me assimilando a mil crimes como imagino que faria, é que ele desejaria meu desaparecimento o mais rápido possível.

Ao chegar à cidade, ainda eram quatro e meia da tarde, horário de saída da escola. Ele me deixou em frente a um escritório de contabilidade e foi à escola. Deixei meu currículo com o homem responsável, respondi a um questionário e preenchi um formulário. Cidades pequenas… Eu juro que esperava uma entrevista, mas, pelo visto o escritório não tinha tanto movimento assim. Torci para que desse certo.
Como não tinha tempo de ir a outros lugares me apressei à igreja. Chegando lá todos estavam a postos, menos eu.
estava ajoelhada no altar rezando. Muito fofa. Assim que entrei, resmungou qualquer coisa. O outro casal de padrinhos e os noivos viraram sua atenção para mim.
— Boa tarde, lamento o atraso.
— Boa tarde. – responderam todos, menos o ogro.
— A benção padre. – peguei a mão do sacerdote em respeito.
— Deus te abençoe minha filha. Como está?
— Bem. Eu acho.
Eu me segurei para que minha expressão não atrapalhasse na entrevista, mas, no caminho de volta à igreja eu recomecei o martírio de preocupações e todos devem ter percebido.
terminando sua oração veio correndo até mim deslizando pelo chão da igreja como uma molequinha bagunceira e me abraçou.
— Pronta para se casar? – ela me perguntou.
— Não! Quem te disse isso? – eu perguntei a ela surpresa.
colocou a mão na testa, um pouco constrangido e sussurrou para ele mesmo: “Aí vem!”, quem percebeu sorriu com aquilo.
— Uai! todo mundo aqui! Eu que vou levar os aneizinhos, o padre e os três casais! Só falta a vovó!
— Ah… – eu estava muito sem graça, mas, o restante que já conhecia a pequena gargalhava diante da inocência dela, inclusive o padre.
Antes que eu terminasse de falar, escondendo seu sorriso pela molecagem da filha, interveio:
, o que o papai conversou com você ontem?
— Que hoje você ia ensaiar com a o casamento! – ela disse confusa, porém óbvia, colocando as mãozinhas ao lado dos ombros.
— Sim , o casamento da sua tia Rosa com o tio Marcelo. Eles é que vão se casar. Seu pai, tia Margarida, tio João e eu somos os padrinhos. – eu disse acariciando o rostinho dela.
— Ah… Então eu só vou levar um anelzinho? – ela murchou como flor fora da água.
— Eu deixo você levar dois! – Marcelo disse abraçando-a como se fosse novidade.
Ela arregalou os olhos e sorrindo muito feliz o abraçou.
— Bom, então vamos iniciar. – disse o padre.
Nós, padrinhos, começamos atravessando até o altar e nos colocando nos nossos lugares. atravessou a igreja, depois deu a volta por trás do público, discretamente e entrou novamente levando a irmã ao altar. Tudo certo, e eu que achava não precisar repetir aquilo, sofri. O padre pediu que voltássemos mais duas vezes, na última já vestidos. Após sair dali um policial aguardava-nos na porta da igreja.
— Senhorita Andrade?
— Eu mesma.
— Queira acompanhar-me, por favor.
Rosa, Marcelo e olhavam-me preocupados. brincava com alguns passarinhos que voavam na praça da igreja.
— Tudo bem. Podem ir. – eu disse para eles.
— Marcelo, você pode levar Rosa e para mim? – perguntou .
— Claro. Até mais. – eles distanciaram-se, despedindo de nós.
Cadê o papai e a ?
— Eles vão passear . – disse Rosa para a pequena.
— Por que está indo comigo? – perguntei para o ogro ao meu lado.
— Porque eu vou descobrir o que está acontecendo de um jeito ou de outro!
Um grosso. Ao chegar à delegacia, o delegado veio conversar comigo sobre o meu processo. Documentos tinham chegado e por ordem do juiz, a delegacia da cidade deveria saber sobre o que acontecia, inclusive sobre minha presença. Primeiramente, por eu ser suspeita e depois, porque eu teria de prestar novos esclarecimentos na cidade onde eu estivesse, se necessário. não poderia ouvir a minha conversa com o delegado, mas sondou todos os policiais possíveis para saber o que ocorria. Percebendo que eu era uma pessoa tranquila o escrivão e até mesmo o delegado apostaram na minha sinceridade.
— Apesar de achar que você é inocente, você sabe… Nós não podemos achar, nós precisamos provar. E as provas estão contra você .
— Entendo perfeitamente delegado Moura.
— É lamentável ver uma colega de profissão passando por isso. Bem, qualquer novidade nós entraremos em contato, nós estaremos atentos a você. Desculpe por isso, mas, faz parte do protocolo.
— Não deve se desculpar. É a nossa profissão. Meus bons antecedentes falarão por mim ao fim de tudo isso. – eu disse levantando-me e cumprimentando-o. — Até mais e muito obrigada.
Saí daquela sala e o delegado logo veio cumprimentar que mais parecia uma barata louca. Ele o encheu de perguntas afastando-se de mim, mas, o policial se manteve calado. Discrição do ofício.
se remexia agitado ao meu lado. Coçava o nariz, a boca, a cabeça. Estava inquieto.
— Ora acalme-se! Que irritante! Eu não sou uma bandida, tá legal? Não viu que até o delegado acredita em mim?
— Gabriel é tão inexperiente quanto você!
— Não sou tão inexperiente quanto pensa.
— E confia demais nas pessoas!
— Eu não sou criminosa, !
— Não posso me acalmar até escutar a sua versão da história.
— Ainda bem que o delegado não é você!
— É de fato uma pena! – entrou no carro emburrado.
— Escuta... – eu disse chamando-lhe a atenção.
O automóvel já andava.
— Por que diz que o chefe da delegacia é tão inexperiente quanto eu?
— Gabriel pegou o posto na delegacia há um ano e meio. Em uma cidade pequena como essa, dá impressão que ele ainda está estagiando.
— Você parece conhecê-lo bem.
— Não vem com essa de querer sondar do cara só para jogar sujo!
— Ai! Como você é impossível! Eu te odeio, sabia?
— É recíproco. – virei o rosto e ele continuou sério.
— Mas te respondendo… Estudamos na mesma faculdade. Nos conhecemos desde moleques.
— Você ainda é um moleque.
— Cala a boca ou eu te jogo deste carro em movimento.
Ele falou sério, mas, eu sorria de canto olhando pela janela. Como ele era idiota! Que tipo de ameaça foi aquela?

Em casa eu li os papéis que tinham chegado e consistiam de novas datas dos julgamentos. Ângelo ligara e disse que as coisas estavam difíceis para o meu lado, mas, que conseguira um trunfo. Uma testemunha que ajudaria muito.


Capítulo 4 - O Casamento de Rosa

Tocar na playlist: (Woman, Amen – Dierkys Bentley)


Durante a semana, não insistiu mais em saber dos meus problemas. Em contrapartida estava superprotegendo de mim. A pequenina nada entendia com as atitudes do pai. Quando eu me aproximava, ele a afastava. E não adiantava Rosa ou titia insistirem nas discussões, ele era o pai e tinha o direito de não querer a filha perto de uma suspeita.
Acha mesmo que eu colocaria uma pessoa perigosa dentro da nossa casa? – dizia titia em uma das discussões que furtivamente flagrei.
Não mamãe, mas, quem disse à senhora que está certa sobre o caráter dela?
Eu estava colocando aquela família uns contra os outros. E nada de emprego. Eu perdia a fome, o ânimo e nem mesmo o ar mágico da fazenda me satisfaziam mais.
Por falar em fazenda, cada dia era uma nova cicatriz, um novo tombo e novos desastres. Entre alguns deles: alguns cavalos fugiram do estábulo e tivemos, e eu, que os perseguir.
Eu juro! Juro que se eu não conseguir me livrar de você, eu morro!
— Então somos dois, seu idiota!
— A culpa foi sua, como você deixa a droga da porteira aberta? Será que não pensa, garota?
— Seu estúpido! A culpa também foi sua! Se tivesse disposto a trabalhar em equipe, eu saberia que era para deixar a droga da porteira fechada!

Novas discussões.
Num outro dia, me esqueci de amarrar os pés de uma das vacas e quase morri se não fosse por que acalmou a vaca e afastou-a de mim.
Não se meta se for para me atrapalhar!
— Ah pode deixar! Eu não vou me meter mais, senhor fazendeiro! Faça tudo sozinho!
— Eu fazia antes e estava tudo ótimo!

Novas discussões.
Ainda tiveram os porcos que me derrubaram mais vezes. Também fugiram e tive que tentar pegá-los sozinha, enquanto o me humilhava com comentários e risadas. Acho que nada é pior do que perseguir porcos. Muitas discussões se deram.
Naquela semana a bruxa estava à solta na fazenda. Nos ensaios tudo ocorreu bem. No dia do casamento de Rosa, a fazenda estava toda enfeitada para a festa. Arrumação simples, mas, linda.
Na varanda, flores espalhadas e balões pendurados no telhado. Uma mesa de comida fora colocada ali. Pouquíssimas pessoas foram chamadas à festa.
Antes de ir para a igreja, eu estava no topo da escada, escondida ao corredor flagrando chorando no colo de titia:
A senhora disse que seria como nos filmes das princesas… – ela dizia abraçada a avó.
E será querida! Mas, estas coisas demoram um pouquinho. – a avó consolava carinhosamente a neta.
surgiu pela porta da frente fazendo titia e , que estavam sentadas ao sofá, prestarem atenção nele e eu que me escondia no corredor também. Ele entrou na sala, apressado.
Você está lindo papai! correu para abraçá-lo.
Obrigado, filha…
Ele retribuiu o abraço e deu-lhe um beijo. E sorriu.
sorriu. E como era lindo o sorriso dele. Eu nunca o vira sorrir e fiquei assustada com todo o brilho de seu rosto. Ele estava feliz pela irmã. Vestido com uma camisa branca social, colete prata por cima. Calça preta e sapatos a caráter, só faltaria o terno. Os cabelos penteados de um jeito jogado, mas elegante. Como se houvesse uma franja no estilo, Tom Cruise na frente. Lindo. Os olhos azuis dele refletiam uma alma que ele deveria ter. Talvez uma alma que se apoderara do corpo dele. Eu não conseguia humanizar o . Por mais que eu tentasse, ele não passava de uma escultura de pedra.
Estão todas prontas?
— Sim filho! Vou chamar a .
— Mande ela se apressar! Rosa já deve estar na porta na igreja aguardando!
– o rosto tão perfeito se desfez na mesma imagem de sempre. — Mulher insuportável.
A cada dia odiava-me mais e eu, compreendia menos. Não compreendia de onde vinha tanto ódio. Assim que tia Cora me gritou eu desci as escadas.
deu um grito espantada, ao me ver. Colocou suas mãozinhas sobre as bochechas como se não acreditasse no que estava vendo. Tia Cora e viraram-se então para mim.
Eu vestia um longo vestido em tom nude, de seda ao modelo grego. A saia esvoaçante e o corpete comportado em seda brilhante com trançado no desenho da cintura a simbolizar um cinto. Sem decote atrevido. Faixas de seda fina pendiam caídas em meus braços. Simples e lindo.
— É uma princesa vovó!
subiu as escadas gritando e parou alguns degraus à frente para me observar de perto. Estava assustada.
— É a , . – tia Cora sorria para mim admirada.
? Você é uma princesa!
Eu ria divertida com a garota.
— Não, você é que é!
— Você é uma princesa da Disney! Não é, papai?
ainda estava sério e austero me observando dos pés à cabeça. Virou-se sem dizer nada e saiu pela varanda.
— Vamos . – eu dei a mão para ela.
— Papai não vai brigar?
— Se ele brigar, eu brigo com ele.
— Não quero que vocês briguem.
— Tudo bem! Ele disse que hoje não vai brigar comigo.
A menina sorriu e fomos até o carro. Na igreja a cerimônia foi emocionante. A decoração estava perfeita, ao estilo campestre: arranjos de flores do campo, enfeitavam os bancos da igreja, e o altar, de maneira majestosa. E no caminho para a festa fui obrigada a voltar com o ogro. Calados.
Viemos para casa, junto à titia e antes de todos os convidados para recebê-los.
Ao chegarmos, com exceção de , nós fomos preparar os últimos retoques. Aos poucos todos foram chegando. Logo após, os noivos. e eu teríamos que fazer pose de “bons padrinhos”, isto é, fingir que nos dávamos bem e nos apresentar juntos diante os convidados. Enquanto conversávamos, de muito contragosto próximos à varanda, algumas pessoas foram aproximando-se de nós.
Eita, mas, a festança no agrado hein?
— Senhor Aguinaldo! Como é bom revê-lo! – sorri largo o cumprimentando:
— Como o senhor está?
— Melhor agora, moça bonita perto é sempre uma alegria!
Senhor Aguinaldo deu sua risada tão gostosa, que eu admirava. Sempre com tanto bom humor e galanteios.
— Ah, obrigada. O senhor é muito gentil.
um galantão, né rapaiz? – ele disse batendo nos braços de ao meu lado.
— Ora senhor Aguinaldo, com tanto serviço uma hora eu deixaria de ser um moleque magricelo, não?
Ele riu junto com o velhote e parecia que nós não estávamos incomodados um com o outro.
— E espevitado! – o velhinho concluiu risonho: — Agora… Cê, num é nada bobo, né não?
O velhinho piscava gargalhando para ele e batia em seus braços com os cotovelos.
— Uai, por quê seu Aguinaldo?
— Já arrumou uma moçoila bonitona de novo! Essa, aí tamém parece modele-te de revista, iguais às de minha época! – o velho sorria inocente.
Fiquei totalmente sem graça e de olhos arregalados após aquele comentário. Só não sei dizer se por ele ter tocado no assunto da mãe de ou por ter pensado que nós dois estávamos realmente juntos. Que horror. e eu? Impossível.
— Nós não estamos namorando, seu Aguinaldo. – respondeu gentilmente e de forma descontraída.
— Uai! Não? – o velho tornou-se incrédulo: — Cê tá marcano essa bobeira?
Nós rimos tentando ser corteses, particularmente, eu procurava um buraco para enfiar minha cabeça.
— Pois é… Eu não faço o tipo da . – o respondeu e me olhou sorrindo.
Quase acreditei na farsa dele.
— Que dó! – ele me olhou espantado: — Óia mocinha, o Zé Pirraça é um dos mió partido da cidade. É o mais bonito! Dá uma checada nos zóiões azul dele!
E o velhote, ria inflamando o ego do ogro ao nível máximo.
Ele realmente estava fazendo campanha para o ? Que vergonhoso!
— Eu acabei não te apresentando o meu afilhado! Ô Carlinhos! – o senhor chamou um rapaz simpático e bonito para perto de nós: — Carlinhos, essa aqui é a . A moça bonita que eu te falei!
— É um prazer conhecê-la. – o rapaz cumprimentou-me muito simpático.
— Ora, o prazer é meu. – respondi gentil: — E muito obrigada pelos elogios senhor Aguinaldo.
— Meu padrinho é um galanteador. – disse Carlinhos e nós rimos.
Passamos um pouco mais conversando e divertindo-nos com os comentários do velhinho. parecia não se importar com a minha presença. Então eu pedi licença aos senhores e fui até titia cumprimentar alguns conhecidos dela. Após isso, avistei a senhora Carlota, proprietária da vendinha onde passei o primeiro dia brincando de ioiô. Ela falou comigo, mas, brevemente se despediu, pois segundo a própria, não poderia demorar. Despediu-se e eu fiquei onde estava. Em pé bebericando meu suco e observando todas as pessoas festivas. Eu não conseguia pensar na minha face com sorrisos como aqueles que ali planavam.
— No que está pensando, senhorita? – um rapaz se aproximou ao meu lado e eu virei para olhá-lo.
— Ora… Como vai?
— Muito bem! Mas diga-me: o que lhe incomoda?
— Por que acha que algo está me incomodando?
— Porque rostos bonitos como o seu devem nos passar, serenidade e não preocupação.
Fiquei sem palavras.
— Está certo senhor Moura…
— Ah não! Eu não sou muito mais velho do que você! Gabriel, apenas.
— Gabriel… – eu sorri. — Eu pensava em... quando eu conseguirei experimentar esta felicidade toda.
— Casamento?
— Não. Não que eu não queira me casar, mas, eu gostaria de ter um punhadinho de felicidade ultimamente, independente do que a trouxesse.
— Me acompanha? – ele me olhou sorridente indicando os bancos afastados espalhados no meio do quintal.
Eram bancos de praça, pintados de preto e enfeitados com flores brancas. Lírios brancos. Sentei-me e Gabriel repetiu o gesto. Ficamos um de frente ao outro.
— Sabe … Posso chamá-la assim?
— Claro!
— Sei que aqueles problemas devem estar te incomodando bastante. Depois que vocês saíram, eu fiquei pensando sobre o seu caso na delegacia. Estudei as cópias que recebi dos seus processos e você tem antecedentes bons. É uma delegada séria. Coloquei-me no seu lugar e cheguei à conclusão de que, se fosse comigo eu já teria surtado. Você é muito forte e corajosa. Eu não deveria ter um veredito pessoal sobre o seu caráter, mas… Já sentiu quando você olha nos olhos de alguém e enxerga toda a alma daquela pessoa?
— Já. Intuição. Eu sempre sigo a minha. Nem sempre, na verdade. Se eu tivesse a escutado não passaria por nada disso agora.
— Que bom que não escutou então!
— Como?
— Sem nada disso você não estaria aqui com sua tia e primos. E nós não teríamos, nos conhecido. – ele ficou um pouco corado e abaixou a cabeça sorrindo.
— É… Por esse lado… Mas sabe, não somos parentes. Não de sangue. Contudo, titia, Rosa e me recebem como se há anos eu frequentasse a família.
— E ?
— Digamos que se nada disso tivesse ocorrido, não ter o conhecido seria meu maior presente.
Eu disse indiferente correndo os olhos pelas pessoas procurando aquele que era a pedra no meu sapato. Não o vi. Gabriel sorriu e continuamos prestando atenção um no outro e conversando.
— Como eu dizia… Eu sei que você é uma boa pessoa e está sofrendo uma injustiça. Colocando-me no seu lugar eu não teria a mesma força de disfarçar o sofrimento, como você tem feito. Pensei muito em você aquele dia e desde então, não consigo parar de ler seus papéis. Pode contar comigo, certo?
— Você não sabe o quanto é bom ouvir isso.
— Nem imagino. Sei disso. Mas, se aceita um conselho, Deus nos coloca nas situações certas por mais que pensamos serem erradas. Isso aconteceria com você algum dia, porque Ele te colocou no caminho da sua felicidade. Caberá a você escolher a estrada certa.
Lágrimas fraquinhas escorreram por meu rosto. Eu nunca havia pensado daquele modo. Foi tão reconfortante. Gabriel enxugou minhas lágrimas e naquele momento titia se aproximava de nós.
— Não estrague a maquiagem. Por mais que você não precise dela. – ele disse e riu enquanto seus dedos enxugavam minhas lágrimas. Não pude deixar de sorrir.
— Você está certo. Alegria, por mais difícil que possa ser!
— E sabe… Meus investigadores também acreditaram em você.
— Obrigada. – eu disse apertando a mão dele e titia parou em nossa frente encarando nossas mãos com um sorriso muito sem graça.
— Gabriel. Olá. Como vão as coisas?
— Tudo muito bem dona Laura. Parabéns pela festividade.
— Ah sim, muito obrigada. Sai uma filha e entra outra. – ela sorria para mim — … Rosa e Marcelo vão dançar com os padrinhos agora.
— Está bem, tia Cora.
está te procurando. Vamos?
— Já vou. Peça a ele para me esperar na varanda, por favor.
Eu disse e ela sorriu para Gabriel de uma forma que julguei estranha, nos dando licença.
— Você também a chama de Coralina? – me perguntou Gabriel.
— Não chamava, mas, o senhor Aguinaldo disse assim uma vez e eu acabei me acostumando. Sabe o porquê, de Coralina?
— Meu avô dizia que quando eram crianças, Dona Laura tinha uma boneca com nome de Coralina que era a sua preferida, e ela queria se chamar Coralina. Então as outras crianças a chamavam assim.
— Legal. – eu disse sorrindo para ele.
Gabriel desviou o olhar brilhante, de mim para algo, atrás de mim. Olhei também e era em sua figura rabugenta de sempre.
— Como vai, ? – perguntou-lhe o amigo.
— Bem. , temos que ir.
É um bruto!
— Nos vemos Gabriel. Foi um prazer. – eu disse o abraçando e levantando-me. Ele, cordialmente se levantou também.
— Concede-me uma dança mais tarde?
— Claro. – eu sorri sem graça, com me puxando pelas mãos.
— Qual o seu problema? – ralhei séria com diante àquela situação.
— Quero me livrar logo disto. – ele disse me olhando dos pés à cabeça muito, mas, muito grosseiro.
Dançávamos os padrinhos e noivos. Era terrível ter que dançar com ele, e até pensei em pisar-lhe os pés algumas vezes, mas, tive medo de que ele fizesse um escândalo. Muito próprio dele. Depois passei para os braços do outro padrinho. A dança seguiu tranquila e por último dancei com o noivo.
— Como está se sentindo “senhor mais novo marido sortudo”? – perguntei risonha, ao Marcelo.
— Nas nuvens. É o dia mais feliz da minha vida. Como se eu despertasse hoje para a razão de eu viver.
— É uma honra presenciar esse amor entre você e a Rosa. Vocês merecem ser muito felizes e eu lhes desejo tudo de melhor.
— Obrigada . E você?
— Eu o quê?
— Quando vai nos dar a honra de presenciar o seu casamento?
— Ah não mesmo! Eu não quero saber de romances tão cedo.
— Não sei… Acho que alguém pensa diferente de você.
Marcelo disse apontando-me a figura de Gabriel em pé no meio de todos a nos observar. Acenei para ele.
— Não viaje, Marcelo. – eu sorria sem graça.
— Ele está interessado. Eu percebo estas coisas. – Marcelo brincava comigo.
— Bem… Ele tem sido um cavalheiro.
— Já é um progresso. – ele sorria divertido. — E ?
— Não estrague a conversa, por favor.
— Vocês precisam parar com isso.
— Ele me odeia. Não tenho culpa.
— Está disposta a reverter esta situação?
— Estive no início, mas, agora o melhor é que, um não pise no calo do outro. – eu disse e Marcelo sorria maroto.
— Falando em pisar nos calos dele…
— O que?
Neste momento os casais trocaram novamente para suas formações originais e lá estávamos: o ogro e eu dançando insatisfeitos.
Assim que a dança terminou demos uma última encarada desprezível um para o outro e uma voz atrás de mim salvou-me. Vi a mão esticada ao meu lado e me virei.
— Me concede uma dança?
Gabriel perguntou e conseguiu arrancar um sorriso que a figura de conseguia sufocar.
— Mas é claro! – peguei na mão dele e o segui.
Antes, como um bom gentil que ele é, Gabriel pediu licença e agradeceu ao pelo “empréstimo” da dama. Detestei o comentário.
— Não quero parecer um galanteador barato, mas, adorei vê-la dançar. – disse-me o delegado.
Passamos o restante da festa, juntos. Dançamos, conversamos e rimos. Rimos como há muito tempo eu não fazia. E com “muito tempo” eu falo de mesmo antes de toda a minha vida desabar.
Eu não conseguia pensar em uma companhia tão boa que estivera em minha vida como a de Gabriel, talvez porque de fato nunca houve. Seria até injusto com meus amigos, dizer algo assim, mas realmente, o Gabriel era diferente. Ele tinha uma mansidão e trazia um aconchego que na euforia de São Paulo, não havia entre eu e meus poucos amigos.
Titia ficava nos mapeando furtivamente. Embora ela achasse que não percebíamos, nós somos delegados e temos naturalmente o “complexo da vigilância” e sempre sentimos quando nos observam. A partir disso fomos buscando os olhares e entre um disfarce e outro avistamos a senhora Laura Coralina a nos espiar.
Fiquei preocupada com a atitude dela. Estaria ela desgostosa pela minha proximidade com Gabriel ou estaria feliz?
Em certo momento estávamos sentados no banco e ríamos harmonicamente quando fomos interrompidos pela sombra de , outra vez.
— Mamãe pediu para te chamar, Rosa já vai jogar o buquê.
— Eu agradeço, mas, não vou participar da brincadeira. – ele ficou em pé ao meu lado olhando confuso e de repente algo pesado caiu em meu colo.
Assustada, eu olhei para minhas pernas e lá estava aquele magnífico buquê. Todas as mulheres me olhavam, desanimadas. Rosa sorria e pulava alegre, com a e a titia maravilhadas.

“Parabéns ! Você é a próxima! ”.


Ela gritou da varanda de onde jogou as flores. ainda me encarava atarantado e Gabriel ria divertido com toda a cena, e acredito que com a minha careta espantada.
Por quê? Por que logo eu que estava sentada? Eu tinha que me sentar de frente para a varanda? Também, como eu adivinharia!?
— Para quem não queria o buquê hein… – Gabriel dizia rindo, divertido: — Acho que o destino está brincando com você!
— Só pode! – eu disse meio zonza.
Levantei ainda assustada e fui até a noiva dar o abraço nela. sentou-se no meu lugar enquanto eu ia até Rosa. Ela me abraçou cheia de pulos e eu não conseguia mover nenhum músculo. Apenas um, que me possibilitou dizer-lhe:
— Você fez de propósito?
— Não! A vida é que está pregando umas peças em você! – ela respondeu de volta.
Abracei Marcelo e logo todos começamos a nos despedir dos noivos. estava agarrada à minha perna e à medida que os noivos foram embora, as pessoas também começavam a ir.
, foi bão dimais da conta vê ocê! Cê ainda me deveno aquele cafezinho com prosa! O coador é velho, mas o café é bão! – e a risada mais singela veio à tona novamente.
— Até mais , foi um prazer. – achei o afilhado farmacêutico, muito simpático!
— Senhor Aguinaldo pode me esperar! Eu não vou demorar muito a bater por lá não! Foi um prazer conhecê-lo também Carlos!
— Até mais zinha! – disseram o velhote e o afilhado.
A boneca às minhas pernas, e eu, nos despedimos de todos e enfim, meu novo amigo surgiu.
— Bem, foi ótimo estar com você e poder conhecê-la melhor .
— É recíproco Gabriel.
Ficamos sorrindo um para o outro até pigarrear e me cutucar.
— Bom! Até mais então! – ele me abraçou e beijou-me o rosto. Retribuí o ato— Eu te ligarei assim que tiver mais notícias, inclusive sobre o trabalho. — Ah, por favor, eu preciso mesmo trabalhar!
apareceu ao nosso lado, arqueando uma sobrancelha para mim ao ouvir o que eu dissera. Ele deu a mão à filha chamando-a para entrar e se preparar para descansar.
— Até mais . – disse Gabriel simpático e sorridente.
Para que desperdiçar simpatia com o ? Como ele consegue ser amigo dele?
— Até mais. – ele disse e se afastou.
Fiquei muito sem graça com a atitude dele.
— Ele deve estar cansado. – eu disse ao jovem delegado.
— Nada. Sei bem por que ele está assim. Conheço de longe, o garotão aí.
Gabriel disse rindo, com as mãos nos bolsos e balançando a cabeça de um lado para o outro sorridente.
Despediu-se novamente e entrando em seu carro foi embora. Logo todos haviam feito o mesmo e eu comecei a limpar as coisas, mas, titia surgiu e impediu-me:
! Por favor! Deixe isso aí menina! Já guardei as comidas e agora vamos todos descansar.
— Tudo bem titia, eu arrumo rapidinho.
— Não! Vá tirar seu belo vestido, tomar um banho e descansar. Amanhã arrumamos aqui fora!

Entrei e fiz o que ela disse. Logo titia foi se deitar e ficamos apenas , e eu acordados. Eu estava em meu quarto lendo novos classificados que não obtinham novidades, quando a pequenina surgiu toda cheirosa ao lado de minha cama.
— Ei, por que não está dormindo?
— Estou com medo
A abracei puxando-a para se deitar ao meu lado. Cobri . Confortei-a em meu corpo e pousei as leituras no criado-mudo.
— Medo do quê?
— Tia Rosa foi embora e papai fica falando que você também vai. Eu não quero ficar sozinha…
Um infeliz! Ele precisava dizer aquilo a uma criança?
— Você nunca estará sozinha. Tem seu pai e sua avó que moram aqui com você. A tia Rosa também não está te deixando sozinha, ela só mudou de casa! Agora, ela e o tio Marcelo se casaram!
— E como nos filmes vão ter filhinhos!
Daí eu me recordei daquela manhã em que a garota comentava algo com a avó sobre filmes:
A senhora disse que seria como nos filmes das princesas…
— E será querida! Mas essas coisas demoram um pouquinho.

— Sim. Mas isso pode demorar um pouquinho. Onde está seu pai?
— No banho. Você vai me deixar sozinha, ?
A pequena tinha os olhos marejados e me encarava como se daquela resposta dependesse a sua vida.
— Não. Nunca! Seu pai não gosta muito de mim , mas, eu já disse para ele que, nada vai me impedir de estar sempre perto de você. Eu sempre estarei contigo, mesmo que eu não more no mesmo lugar. Lembre-se sempre disso, tá?
Tá. Por que o papai não gosta de você?
— Eu acho que ele tem ciúmes de você comigo.
Inventei uma resposta porque nem mesmo eu, conhecia a verdadeira resposta.
— Eu te amo ! – ela disse e me abraçou forte.
Tão forte como eu nunca pensei que aqueles bracinhos poderiam abraçar. Retribuí o gesto com lágrimas nos olhos.
Só então percebi estático. Parado, com a toalha enrolada na cintura, em frente à porta do meu quarto, nos olhando. Não sei quanto tempo ele estava ali, mas, o olhei de uma forma tão vazia e dolorosa que ouso dizer que a expressão dele provinha disso. Como ele poderia falar aquelas coisas para ? Sei que para ele, provavelmente, a verdade é que eu estava ali apenas para desestruturar a família e que logo eu iria embora friamente, mas, ele não deveria compartilhar aquilo com a pequena. Ela estava sofrendo e eu ainda mais.
Ele saiu antes que e eu, desfizéssemos aquele carinho. Então logo, voltou a se deitar abraçada ao seu cavalinho de pelúcia. De repente a menina se ergueu sorridente.
! Pentia meus cabelos?
— Claro. Mas, você não está com sono?
— Não, mas, quando tia Rosa pentia eu fico.
— Está bem, boneca. Eu penteio! – falei com ênfase a palavra que ela dissera errado, a fim de fazê-la notar o erro. Mas, era apenas uma menininha de sete anos.
— Eu vou buscar a minha escova de cavalinhos lá no meu quarto. – ela desceu toda desengonçadinha da minha cama. Era um pouco alta e ela tinha que dar um pulinho muito fofo.
— Cuidado, pequena. – eu disse e ela sorriu.
Saiu pela porta e depois apareceu de volta com uma mãozinha na cintura e na outra, seu dedinho indicador apontava para mim. Com uma cara brava ela disse:
— Não dorme hein! Me espera!
— Não vou dormir. – eu prometi e ela saiu correndo.
Não levou nem três minutos que ela saiu, para aparecer como uma ventania no meu quarto, ainda apenas de toalha na cintura. Como se estivesse nos espionando, escondido.
— O que você pensa que está fazendo?
Ele disse todo estufado na beira da minha cama. Eu desci me sentando na ponta dela, o encarando fria.
— Eu quem pergunto! Sua filha está sofrendo com as coisas absurdas que você está dizendo a ela!
— Eu estou apenas dizendo a verdade! É melhor do que a iludir!
— Você não sabe de nada! Eu amo a e nunca a faria sofrer! Você não enxerga que é você quem está causando problemas para sua família? Por que você tem que fazer eu me sentir tão mal? O que você ganha com isso?
Assim que terminei de falar vi a parada na porta nos observando com olhos arregalados. olhou para trás e a viu também.
— Não diga nada que… – ele dizia em tom mais baixo dando passos à frente, mas, tropeçou no meu chinelo e acabou caindo em cima de mim em minha cama.
Assustados com aquilo apenas ouvíamos a risada divertida de . Ele se levantou um pouco, ainda se apoiando na cama e sobre mim.
— Nada que a iluda! – concluiu a fala e saiu sério.
Fiquei desconcertada com a situação e não me levantei. disse ao pai antes dele sair:
— Vovó disse que você não pode ficar só de toalha, papai! Tem mocinhas aqui.
Ela falava para o corredor e entrou rindo alegre e saltitante. Fechou a porta do meu quarto e subiu na minha cama. Eu ainda estava deitada atônita olhando o teto até que a carinha de apareceu sobre o meu rosto mostrando as canjiquinhas brancas. Sentei-me e ela ainda ria. Eu deveria estar como um tomate. Estendeu-me a escova dos cabelos e se virou. Endireitei-me e comecei a pentear os cabelos dela.
— Você acha o meu papai bonito, ?
Crianças…
— Ah… O seu pai é bonito sim, . – ela colocou as mãozinhas no rosto de um jeito nervoso, como se aquilo tudo fosse uma pegadinha.
— Mas você é muito mais! – eu respondi descontraindo as ideiazinhas frouxas que deviam pairar na pequena cabecinha de .
— Você também é! – ela disse virando e sorrindo.
Penteei os cabelos dela enquanto ela cantava algumas cantigas de criança. Em meio a um acorde e outro ela bocejava. Logo estava com sono e eu parei. Deitei-a ao meu lado em minha cama e logo ela adormeceu.
Não consegui dormir. Fiquei pensando e repensando em todo aquele dia. Relembrava freneticamente as palavras de Gabriel sobre “tudo acontecer como deve ser”, depois Marcelo e eu conversando sobre Gabriel. Ponderei que Marcelo até tivesse razão sobre tentar uma trégua com , mas, o problema nunca fora eu. Ao pensar nas coisas que ele disse à e depois dentro do meu quarto, eu ficava irritada. Como ele podia? Será que eu conseguiria uma trégua pela ? E o que me guardaria, aquela nova vida?
Fiquei pensando nessas coisas até o relógio marcar uma hora da madrugada. Decidi então fechar os olhos e tentar dormir. Parei de acariciar os cabelos da pequena. Ajeitei-me na cama e a abracei. Ela abraçava a pelúcia. Cochilei. De relance ouvi algo como a porta abrindo fraca e não dei importância, mas, a sensação de ser observada não passava. Abri os olhos e tomei um grande susto. estava parado ao pé da minha cama, sem camisa e apenas de bermuda olhando singelo para a filha. Quando me notou acordada ele ficou estático, sem expressão, sem palavras e até diria, sereno.
— Está aí há muito tempo? – eu perguntei.
— Um pouco. Estava observando vocês dormindo.
O que teria acontecido com ele?
— O que você quer?
— Só buscar a . É mais confortável para vocês duas. – ele disse se aproximando de nós e quando se abaixou para pegá-la eu segurei sua mão o impedindo.
— Não. Se não se importa eu prefiro que ela fique… – olhamos nos olhos um do outro sem nos reconhecer. — Custou dormir e agora está tão bem… E depois ela vai ficar chateada. Vai achar que fui eu que…
— Tudo bem. – ele disse interrompendo e se levantando. — Boa noite.
— Boa noite.
Ele saiu do quarto e eu ainda fiquei pasme.
Nenhum olhar opressor?
Talvez fosse apenas um sonho e eu acordasse logo.


Capítulo 5 - Cavalgada

Na manhã seguinte acordei cedo, embora tenha ido dormir tarde. Nem mesmo titia havia se levantado. Ela estava realmente exausta no dia anterior. O relógio marcava cinco horas da manhã. Passei um café, e preparei rapidamente um bolo e o coloquei para assar.
O dia estava frio, como um típico dia mineiro. Como eu estava apenas com a minha camisola eu me aquecia no fogareiro a lenha. Não demorei muito na cozinha, e subi silenciosamente. Ainda mais cautelosa em meu quarto, para não acordar a minha pequena boneca, eu peguei uma calça de moletom e um suéter fino.
Desci já vestida. Com a caneca de barro que eu tanto gostava servi-me de café forte. Bebendo um pouco e diminuindo a intensidade do fogo para que o bolo não queimasse calcei as botinas indo a pé tratar dos animais. Canelinha ainda dormia, mas troquei sua água e servi sua ração matutina. Recolhi os ovos do galinheiro. As criaturinhas já estavam acordadas há tempos e os galos empoleirados no telhado do galinheiro bradavam o cacarejar do novo dia. Joguei milho a eles. Meu relógio marcava cinco e trinta e cinco. já deveria ter acordado. Enquanto eu jogava o milho das galinhas, os patinhos aproximavam-se do lado de fora do galinheiro e eu os alimentei também. Após as galinhas terem diminuído o desespero da fome, eu abri a porta do galinheiro para elas saírem.
O ranger da camionete aproximou-se e parou. desceu do carro vindo até mim.
— Bom dia. – ele disse.
— Bom dia. Eu passei um café.
— É eu já bebi. – ele estava ríspido de novo.
Eu sabia que não demoraria muito com aquela serenidade da noite anterior. Porém, ele não me ignorou como sempre fazia, ao sair logo trabalhando. Estava parado olhando as galinhas se espalharem no quintal.
— Vou colocar os ovos na camionete. Importa-se se fizer tudo sozinho hoje? Eu quero arrumar a varanda e a frente da casa e estou com um bolo no forno.
— Pode ir. – ele concordou e seguiu para seus afazeres.
Deixei os ovos no carro e voltei para o casarão. Tirei as botinas na porta dos fundos. Voltei ao fogão aumentando levemente o fogaréu das lenhas. Enxuguei as louças que eu havia acabado de lavar naquela manhã. Varri a cozinha e a sala. Deixei para limpar melhor depois. O bolo assou e o retirei colocando para esfriar.
Dirigi-me à frente da casa, calçando novamente as botinas. Organizei os bancos de “praça” em seus lugares – e eram um pouco pesados – e retirei as flores já murchas. Das mesas de comidas retirei os forros colocando-os no tanque de molho e lavando um pouco depois. Limpei-as. Uma das mesas ficava na varanda dos fundos da casa, mas eu não conseguiria retirá-la, a outra era emprestada.
Limpei toda a varanda, rasteei e varri o quintal da frente. Logo o sol nascia. Assim que admirei o nascer do sol fui tomar banho. Àquela altura o relógio marcava sete horas. Titia acordara e nos esbarramos no corredor.
— Bom dia tia!
— Mas, já está de pé?
— Há muito tempo!
— Que horas são?
— Deve passar um pouco mais das sete.
— O que?! Perdi a hora!
— Relaxa, a senhora pode. Estava exausta, não?
— Um pouco, querida.
— Vamos tomar café! Assei um bolo.
— Há que horas levantou?
— Cinco. – eu ri.
— Por quê?
—Não sei, apenas acordei. Preparei o bolo e o café. Fui tratar dos animais, aí apareceu e eu o deixei por lá. Vim arrumar a varanda e agora só falta limpar a parte debaixo da casa e fazer o almoço. – descíamos a escada.
— Animada! E ?
— Ainda dorme.
— Não a vi no quarto dela!
— Ela dormiu comigo. Ei titia! Eu queria lhe perguntar já há algum tempo… Por que, Coralina?
— Quando eu era criança, eu tive uma boneca com esse nome e eu sempre gostei do nome. Eu queria me chamar assim. A se chama por causa disso, mas, Rosa e preferiram em vez de Coralina. Ao me casar com o pai deles acrescentei o nome “Coralina” também.
— A mãe dela não optou no nome?
— Ela nem mesmo olhou a bebê. Assim que nasceu ela disse um “finalmente” e virou o rosto.
Assim que chegamos à cozinha, surgiu. Pediu benção a mãe, beijou-a e subiu para tomar um banho. desceu com ele. Todos nós tomamos café juntos. Nada de alfinetadas e maus olhares. Até então, nenhum olhar.
— Vovó! Papai ontem caiu de toalha em cima da !
lembrou-se gargalhando. engasgou-se com o café e olhou para a mãe, nervoso.
— Como foi isso, ? – ela me perguntou olhando o filho por cima dos óculos.
— Ah nada demais, ele foi ao quarto saber da e tropeçou no meu chinelo.
— Ah sim… E se machucaram com o contato, ? - senti um tom de ironia na voz da titia, e não entendi ao certo o que ela queria dizer.
Mas parecia entender muito bem.
— Não. Não foi nada, mãe.
Continuamos conversando e continuou contando da noite que tivera comigo. Graças aos céus ela não tocou no assunto da discussão entre o pai dela e eu.
, se arrume. Hoje, já que nos atrasamos iremos à missa das dez horas da manhã.
— Será que ela tem o costume de rezar, mãe? – a primeira alfinetada do dia!
É como dizem: alegria de pobre dura pouco!
— Eu não tenho o costume de ir à igreja, mas, eu irei titia. Foi a primeira coisa que fiz ao chegar à cidade, e já que a vida é nova, os hábitos também devem ser.
— Eu vou te mostrar meus coleguinhas, !
— Ah, com certeza eu vou querer conhecê-los .
Todos nos arrumamos e seguimos à igreja. No carro – que não é cabine dupla – tivemos que ir os três na frente, com em um dos colos. e titia discutiram para ver quem dirigiria o carro. Ele não gosta dela junto a um volante e particularmente prefiro que ela não dirija mesmo. Titia é daquelas “devagar e sempre”. Então o ogro dirigiu, eu estava no meio e titia ao meu lado com em seu colo.
Na missa encontrei Gabriel, mas, ele não me viu. Sentei-me com a minha “família” e enquanto eu escutava as palavras do padre, tudo o que Gabriel disse para mim na festa de casamento, sobre novas perspectivas e outras maneiras de interagir positivamente com os problemas, martelavam em minha mente. Sem dúvidas fora uma ótima homilia. Eu renovei minhas esperanças e decidi confiar mais nas providências divinas.
Na hora da comunhão, bem… Há muito tempo eu não comungava!
— Você não vai recebê-Lo querida?
— Ah tia… Eu não faço isso há tanto tempo…
— Mas vá! Não fique sem receber Jesus. Ele é a cura de tudo. Após a missa você se confessa com o padre.
E assim o fiz. Meus pés falhavam. Ao contrário do primeiro dia onde em um piscar de olhos eu estava ajoelhada em frente ao altar, aquela peregrinação até o encontro de Deus demorou. Eu ponderei voltar, mas, já que estava ali eu iria em frente. Eu precisava de Deus. Precisava estar ali. Voltar não era opção!
À medida que eu ia me aproximando, meu coração começava a explodir tudo o que eu sentia. Medo. Ódio. Frustração. Desconfiança. Tristeza. Vergonha. Desesperança. Derrota. Tudo o que me incomodava veio até a minha garganta como se eu fosse vomitar tudo ali. Eu rezava no caminho até o altar da igreja: “Senhor, te entrego tudo o que venho sentindo. Me faça mais forte. Me faça nova. E me faça aceitar as suas vontades”. Assim que comunguei, eu desabei em lágrimas.
Desde que chegara ali aquele fora o segundo grande passo daquela nova vida. Coincidentemente os dois tinham sido para Deus. Coincidentemente? Após o fim da celebração conversei com o padre e saí da igreja com uma coisa em mente: fazer tudo novo.
Dependeria apenas de mim.
A minha “família” aguardava na porta da igreja e conversavam com alguns conhecidos. Gabriel estava sentado no último banco da igreja que já estava vazia. Eu segui até ele e o padre vinha andando atrás de mim em direção à porta.
— Bom dia. – eu cumprimentei o delegado.
— Bom dia. Que bom vê-la aqui!
— Sim… Como está?
— Estou bem e você?
— Também. – sorríamos. — Por que está aqui atrás?
— Eu estava apenas refletindo. Um costume, após todas as missas.
— Refletindo sobre o que escutou hoje?
— Também. Há muito a se refletir.
— Sem dúvidas há.
— E você?
— Entreguei tudo a Deus. Você foi de grande ajuda e carinho, obrigada de novo, Gabriel.
— Não precisa me agradecer. Agradeça a Deus.
— Sim. Fiz e estou disposta a fazer isso de agora em diante.
— É bom... Hoje eu tive algo a mais a agradecê-lo. E também pedi, por quem eu agradeci.
Gabriel me olhou com extrema ternura. O padre nos fitava de um jeito que ele deveria julgar discreto, mas, nós percebemos. O sacerdote sorria, e seguiu para fora da igreja. Gabriel e eu fizemos o mesmo.
olhou para nós ao nos ver chegar, e o padre repetiu o gesto. Titia também. O padre, alternava esmiuçador seus olhares entre titia, Gabriel e eu, , e eu novamente. O que ele estaria pensando ao nos analisar daquela forma?
— Bom dia Gabriel. – disse titia.
— Bom dia a todos, como vão?
— Bem! – respondeu sorrindo.
— Que ótimo! Peço desculpas e lamento, mas, eu preciso ir agora… – Gabriel nos disse e olhou para mim.
— Tudo bem, nos falamos depois. – eu sorri para ele.
Ele pegou minha mão, a beijou e eu em contrapartida o abracei. Só fui pensar no que fiz, depois. Se ele não me abraçara, talvez fosse por estarmos em público. Afinal, ele era o delegado da cidade e poderia pegar mal… Cidades pequenas. Contudo, analisando melhor, também estivemos expostos a algumas pessoas da cidade na festa de casamento e não nos comedimos.
Ele foi se distanciando e nós, “a família”, seguimos à feira de rua que havia ao lado da igreja. Na feira vendia-se de tudo o que fosse alimento, animais de fazenda e comidas típicas, mas, já estava no final e segundo titia, as mercadorias já não eram as melhores.
estaria lá vendendo, se tivesse acordado mais cedo. me apresentou seus coleguinhas da igreja. Enquanto caminhávamos, a matriarca e a neta seguiram para uma barraquinha de biscoitos “da roça”.
sempre comprava alguns suspiros, marias-moles e biscoitos ali.
, leve a para provar o caldo de costela! – pediu titia.
Ele então foi andando e eu, o segui. Chegando lá fizemos os pedidos e o dono da barraquinha começou a puxar assunto. O que já era esperado, pois, eu era a atração.
— Quem é a moça, ?
— É uma sobrinha da minha mãe. – ele disse indiferente e eu sorri simpática.
— Não sabia que Cora tinha uma sobrinha tão bonita!
Os velhinhos da cidade são assanhados.
— Ah, muito obrigada. – agradeci.
Cê também num fala nada de ter uma prima bonitona, né Zé pirraça?
O senhor falou para , e pela segunda vez eu ouvira aquele curioso apelido.
— Ela não é minha prima, seu Tadeu. A minha mãe, que considera ela como parte da família.
Minha cara foi ao chão.
— E ela num é, uai?
Ele olhou para já conhecendo a atitude dele. nada respondeu e o velho rindo concluiu:
— Esse Zé Pirraça! Não muda!
Era a hora de eu devolver na mesma moeda e ainda matar a minha curiosidade!
— Senhor Tadeu, por que Zé Pirraça? Pouparam-me desta história! – eu olhei atrevida para que se limitou apenas a bufar.
— Desde muito novo, o era de pirraçar dimais da conta! Ele chutava pedrinha e tudo. Tomou uma vez, uma coça do pai e parou com isso, mas, continuava pirraçando com implicância! Se ele pirraçar muito com você, é porque tá de implicância.
Então era isso? Pirraça?
— Isso era nos tempos de moleque seu Tadeu. Eu já sou homem.
— Ah! Eu te conheço moleque. Eu num aposto dois réis nocê. – o velho gargalhou e nossos caldos chegaram quentinhos, e com um cheiro maravilhoso.
Enquanto comíamos em pé, em frente à barraca, nada falávamos um com o outro. Eu procurava titia e que de repente desapareceram. parecia um cão de guarda bravo, com aquela carranca.
Uma mulher loira de rosto redondo, lábios rosados e olhos de profundo verde se aproximou de nós sorridente. Ela parou em frente ao que ficou a encarando sem falar nada. Ele é muito estranho. Então ela desfez o sorriso para ele e olhou para o lado se dando conta da minha presença. Ficou visivelmente assustada.
— Bom… Dia. – ela me disse.
— Bom dia. – eu disse e olhei para o .
Ele continuava comendo o caldo indiferente a nós.
Não seria muita burrice minha perder a chance de “pirraçá-lo” um pouco?
— Não vai me apresentar a sua amiga, ?
Olhou-me furioso.
— Esta é a Lúcia. – disse sem o menor interesse.
— Prazer Lúcia. Sou a . – cumprimentei a mulher, sorrindo.
Ela ficou parada assustada me olhando da cabeça aos pés de boca aberta.
— Prazer… Você… É… Quem é ela, ? – ela olhou assustada para ele, mas, sendo simpática comigo.
— É a . – ele continuou frio.
— Eu sou sobrinha de consideração da dona Laura. – eu disse me deliciando com o caldo gostoso.
— Ah . E você morando aqui?
— Sim. Por enquanto, pelo menos.
olhou-me de viés e sorriu.
— Uai. Então bem-vinda, né?
— Obrigada, é muito gentil.
— Nada. – ela disse já mais calma. — Cadê e dona Laura? – falou o olhando.
— Sei lá. Elas estavam na barraca dos biscoitos.
— Então tá. – ela sorriu para ele. — Ôu, aqui , foi um prazer viu? – a moça me disse simpática.
— Ah obrigada! Também gostei de conhecê-la. Espero poder lhe ver de novo.
— É, pois é. – despediu-se e saiu sem olhar para trás.
Eu gostaria de conhecer as pessoas envolvidas com , como a Lúcia por exemplo, isso poderia me ajudar a conhecê-lo.
revirou os olhos depois que a mulher se afastou e terminando de comer, devolveu a tigela ao dono. Olhei para o senhor Tadeu que sorria com a situação.
— Eu fiz alguma coisa errada? – perguntei para ele.
— Nada, a Lúcia é tímida mesmo, sô! – o senhor respondeu.
Devolvi a tigela para ele e foi pagar, mas, eu fui mais rápida e paguei o meu. Ele tirou a nota da mão do senhor e devolveu me dizendo: “deve economizar para a sua mudança”. Fiquei calada e chateada. Guardei a nota em meu bolso e ele me observando contrariado, ajeitava o chapéu em sua cabeça.
— Seu rosto está sujo. – ele me disse indiferente.
— Onde? – comecei a passar a mão na testa e ele me olhou como se eu fosse uma idiota.
— Na sua boca, sua lerda!
— Ah, você disse o rosto, seu burro! – devolvi na mesma ignorância.
Passei a mão de um lado da boca.
— Do outro lado, lerda! – ele continuou olhando para mim, como se eu fosse idiota.
— Cale a boca! – eu falei e tentei limpar o outro lado, mas, perdeu a paciência e pegando outro guardanapo segurou meu rosto e limpou.
O senhor Tadeu ria e eu repreendia :
— Seu bronco! Está me machucando!
— Parece criança! – ele brigou ainda mais irritado.
Titia e chegaram sem entender nada do que viam e se entreolharam confusas. Eu estava irritada pela vergonha que ele me fazia passar, pelas grosserias e principalmente por não estar acostumada com aquela proximidade com ele.
— Pronto.
deu as costas e saiu. Nós três o seguimos. Eu acenei em despedida para o vendedor ainda massageando meu rosto dolorido e sorrindo ao mesmo tempo. Aquele imbecil do deixou meu rosto marcado e avermelhado com aquela mão pesada. Eu poderia denunciá-lo por agressão, mas, não deveria. Deveria? Titia e vinham atrás de nós, sem nada entender. A pequenina, na verdade, estava mais preocupada em comer. Entramos no carro e voltamos para casa.
Enquanto seguíamos o percurso da estrada, ligou o rádio e canções típicas das modinhas sertanejas tocaram. Eu fiquei observando a menina e recordando da fotografia de Bruna. é tão bonita quanto à mãe, mas, não tem os mesmos traços finos. Traços de “senhorita europeia”. O rostinho de embora delicado recorda-se muito à face do pai. Os olhos são os da mãe, castanhos escuros como jabuticabas. Até mais escuros que os meus. Eu, no lugar dela, ficaria triste por não ter ganhado a herança das irises azuladas de .
Olhei para ele, para a pequena e internamente para a imagem de Bruna. Uma família que em outra ocasião, seria linda como em “vida de margarina”. Bruna e , além da linda coincidência dos nomes formavam um lindo casal. Uma pena não ter sido como nos contos de fada. Estes contos que muitas garotas como pensam existir, mas, que na vida de garotas como eu, não passam de contos utópicos. Não existe “felizes para sempre” e se existisse, eu aposto o máximo de que a vida seria totalmente desinteressante. Imagine só: um momento em que você olha para os lados e vê tudo como você sonhou, vê que tudo está pronto. Eu não conseguiria conviver com esta comodidade toda. O que fazer depois que já se tem tudo o que se sonha?
Pensando assim comecei a compreender melhor os caminhos tortos do meu destino. Eu iria mesmo me conformar apenas à realização do meu sonho profissional, ao namoro “perfeito” com Lucas e fim? É ... porque eu tinha tudo o que eu queria! O resto seria consequência de muito trabalho. A partir desse momento eu vi o quão próxima do meu “feliz para sempre” eu estive e me alegrei por ele não acontecer. Seria tedioso passar a vida inteira apenas em prol da continuação de capítulos vazios de um livro com tão pouca história. Ainda mais agora, que eu sei o quão pouco eu tinha.
A vida estava me desafiando e eu como boa competidora iria ganhá-la. E depois da vitória trilharia novas metas a se conquistar. Quem sabe, essas metas não estavam ali ao meu lado? , como eu a amo! Eu não me imaginava sem aquele sorriso branco de pequenos dentes afiados se formando para mim desde que ela se tornou a minha maior alegria.
Uma filha como … Eu não sei se eu seria capaz de formar um ser naturalmente tão cheio de amor assim, mas, sem dúvidas eu amaria um filho meu como eu amava . Como pode? Uma mãe sem escrúpulos e um pai tão detestável como aquele, terem formado uma coisinha pequena tão cheia de ardil, inteligência, solidariedade e amor? Tanto amor! Eu poderia estar precipitando o meu julgamento sobre os pais dela, mas, aquele era o julgamento que eu era capaz de fazer, visto os fatos que eu conhecia de ambos.
Como pode uma mãe abandonar uma criança? Seja ela como ou não, e apenas por algumas capas de revistas? Algumas mulheres, tem o dom desmedido da maternidade, mas, não o merecem.
me cravava um olhar esguelho, de maneira curiosa. Talvez, estivesse se indagando por que eu olhava para ele e para tantas vezes. Eu apenas buscava as comparações.
Naquela tarde, depois de almoçarmos titia foi cozinhar alguns biscoitos de polvilho. Como ela se divertia na sua cozinha! quis brincar em seu quarto, e posteriormente quando o pai desceu, ela também desceu. A criança dava pulinhos e com as mãozinhas apertadas pedia-lhe: “Por favor, papai!”.
Os dois conversaram na sala, a menina o abraçou e o beijou e saiu correndo saltitante e cheia de risadinhas eufóricas, até a avó. Eu ainda procurava anúncios de casa e emprego, nos jornais sem nada encontrar. Estava desanimando com aquela frustração toda, mas, não me deixaria abater.
Eu estava sentada na varanda em frente à porta, à beira da escada. Encostava as costas na coluna da entrada e com as pernas cruzadas esticadas, eu me encontrava no meio das duas belas paisagens. À minha esquerda o casarão antigo e belo, à minha direita o quintal com as galinhas soltas, flores, um pouco mais à frente, campinas verdejantes e finalmente o horizonte de céu azul, com nuvens discretas e tímidos raios solares.
passou por mim, pulando minhas pernas sem pronunciar palavra alguma. Me fiz de indiferente e continuei lendo. Dei uma espiada nele, que sumia no horizonte em direção aos cavalos.
surgiu enfarinhada, com os cabelos grudados de massa. Parou na porta dando risadinhas sapecas com os braços estendidos para os lados, também cheios de farinha.
— O que você aprontou? – olhei assustada para o lindo monstrinho de farinha.
— Eu ajudei a vovó a fazer biscoitinhos de vento! – ela veio até mim, se sentando sorridente ao meu lado.
— Biscoitinhos de vento?
— Quando você morde, voa farelinho. – eu ri da comparação. — O que está lendo?
— Os classificados do jornal.
— E quem ganhou?
— Ganhou o quê, ?
— Clatisficado não é aquela palavrinha que tia Rosa ensinou que é quando alguém ganha alguma coisa?
A menina era tão inocente! E inteligente! Não pude deixar de rir.
— Sim , mas, classificados – dei ênfase à palavra – também é o nome de uma das partes do jornal.
— Ah tá! E o que tem neles?
— É a parte do jornal em que as pessoas dizem onde tem emprego e onde se tem casas, carros e coisas para comprar e alugar.
— Por que você tá lendo isso? Você vai embora? – a garotinha tinha um pensamento sagaz e prestou mais atenção na parte em que eu citei “casas”.
— Não por enquanto. Lembra que a falou, que tem que achar uma casinha para não incomodar mais vocês?
— Você não incomoda! Tia Rosa foi embora e agora tem mais espaço!
— Não se preocupe com isso . Eu estou procurando, mas, não vou embora por enquanto porque primeiro eu tenho que trabalhar.
— Então vou rezar para que você não trabalhe nunca. – ela escancarou os dentes deitando sua cabecinha no meu colo. Arregalei os olhos.
— Ora , eu tenho que trabalhar para ajudar nas despesas.
— Ah… , você quer ir embora por causa do meu papai?
— Ah. Não. Não é isso.
— Ele diz que não gosta de você, mas, você disse que é porque ele tem ciúme da gente, então eu vou abraçar muito, muito, muito ele e beijar muito, muito, muito, ele. Pra ele não ficar triste com você tá? – ela falou pra mim sussurrando como se me contasse um segredo.
… – eu disse sorrindo com os olhos marejados.
— O quê?
Suspirei fundo e sorri para ela, falando:
— Você tem que tomar um banho. Antes que vire um bolinho de .
Ela gargalhou lindamente e levantou me puxando. Quando entramos em casa titia gritou: “— , já esquentei a água!” e ela respondeu em outro grito: “— Já vou, vovó!”. A pequenina pediu para eu separar uma roupa bonita e esperar no quarto dela para arrumá-la. Assim aconteceu. Penteei os cabelos dela em rabo de cavalo, passei protetor solar nela e pegando seu chapeuzinho a princesinha falou para mim: “— Vamos passear!”.
Saímos pelas campinas e a garotinha pulava à minha frente cantando a música da história “chapeuzinho vermelho”.
— Aonde estamos indo? – eu perguntei vendo que já havíamos andado longe.
— Lá! – ela gritou apontando, para as campinas, depois do riacho.
— O que? Por quê?
— Vamos andar de cavalinhos!
, eu não sei montar. E depois, como chegaremos lá?
— Atravessando o rio!
A correnteza era um pouco forte e eu não me arriscaria a atravessá-la.
— Seu pai não vai gostar! E pode ser perigoso.
— Ele deixou! Ele tá esperando a gente!
— Como? – ela me olhava suplicante e eu tentava de uma forma delicada desfazer as ideias dela.
— Ele falou que eu podia vir andar de cavalinho às três horas! A vovó disse que já eram três horas!
— Tudo bem! Como ele vai saber que você está aqui sem nós atravessarmos o riacho?
— PAPAAII! – a pequenina gritou e olhou para mim, sorrindo. Ele não apareceu.
— BERNAARDO! – eu gritei mais alto para ajudá-la — Eu não vou com vocês, ? – eu disse enquanto ela olhava para o outro lado do rio.
— Por quê?
— Porque eu não ando de cavalinhos e titia está sozinha em casa.
Assim que terminei de falar surgia já atravessando o rio a cavalo.
— Então eu não vou!
… Vai com seu papai. – eu falei para ela já o olhando.
ficaria fulo se iniciasse uma pirraça por minha causa. Tristonha, ela me deixou pegá-la no colo e entregá-la para o pai. Ele sentou à sua frente e atravessaram o rio. Quando eles chegaram ao outro lado eu acenei para ela. desceu e virando, eu fui embora.
Ouvi barulhos vindos do riacho, mas, não olhei para trás para não ver com aquele rostinho triste. Até que apareceu montado à minha frente, me assustando.
— Que susto! O que você está fazendo? Deixou a boneca sozinha?! – olhei para trás e a vi, sentadinha sorrindo e acenando.
— Sobe. – ordenou.
— Não. Eu não vou! – eu teimei e ele desceu do cavalo. — Eu não sei montar ! – continuei teimando antes que ele retrucasse.
O ogro num ato rápido me pegou no colo, me colocando sobre o cavalo. ria e pulava batendo as mãozinhas do outro lado do rio.
— O que está fazendo? Eu quero descer! – eu brigava e ele ainda sério, montou.
— Fica quieta! Segure firme na rédea. Não balance muitos os pés.
Ele montou às minhas costas. Segurei as rédeas como ele pediu, eu ainda muito nervosa, o encarando. Ele passou os braços em volta dos meus para pegar a rédea. Eu estava sentada de lado e não parava de olhá-lo bravia.
— O que foi? Ela é minha filha! – ele reclamou.
Bufei e atravessamos o rio naquela situação incômoda. estava feliz e não parava de pular quando chegamos. desceu, me pegou no colo e me colocou no chão. Estávamos muito próximos, parados, ainda nos encarando revoltados.
— Eu vou embora. Vovó diz que é feio atrapalhar. – sussurrou para um patinho em seu colo nos acordando de nossa rincha por olhares.
colocou a menina no lombo do animal e foi guiando-o devagar pelo campo. Eu permaneci em pé, sorridente com as atitudes e gestos meigos de . Alguma coisa havia naquela criança que me hipnotizava e encantava cada vez mais. Assim que ela se cansou cochichou qualquer coisa com o pai que me olhou insatisfeito. Ela desceu, com a ajuda do pai e veio correndo até mim, enquanto vinha logo atrás, puxando o animal mais inteligente do que ele.
— Sua vez, !
, eu não vou montar. – eu sorria para ela de braços cruzados.
— Papai vai te ajudar! – olhei para ele. Ele revirou os olhos.
— Melhor não. Já está ficando tarde.
— Por que você não gosta do meu papai?
sorriu vitorioso para mim ao ouvir as palavras da filha. Ridículo.
— É o seu papai que não gosta de mim, . – eu respondi tão sedenta de virar o jogo que mal pensei na impressão que aquilo causaria à garotinha.
— Você tem ciúme papai? – ela perguntou inocente e sem ver alternativa concordou. — Mas, eu amo os dois, igual! – ela brigou com ele e comigo.
— Ai… Tudo bem . Eu monto.
Dei-me por vencida e me aproximei dos dois animais: o cavalo e . pulava e sorria. me pegou novamente no colo e me ajudou a subir. Desta vez ele disse para eu sentar de frente. Montou às minhas costas e “abraçando-me” segurou as rédeas novamente.
— Não saia daqui, escutou ? – ele ordenou para a filha que fez sim com a cabeça. — Não podemos demorar, não quero que ela fique muito tempo, afastada. – ele falou ao meu ouvido causando arrepios involuntários.
— Acho ótimo. – eu disse nada amigável.
Meu corpo estava rijo. Eu não movia nenhum músculo de tão incomodada com a proximidade entre nós dois. fez com que o animal corresse e à medida que a brisa chicoteava meus cabelos, eu ia me acalmando. Sensação de êxtase e anestesia.
Nunca imaginei o quão delicioso era, andar a cavalo. Apesar dos muitos balanços a sensação era ótima. me apertava em seus braços como forma de segurança, eu acredito. Meu nariz sentia sua respiração que batia em meu rosto de tamanha que era, a nossa proximidade. Em um momento fechei os olhos e esqueci tudo. Esqueci até mesmo de ali. Tive a impressão de que ele observava se eu estava bem, pois seu rosto se aproximou mais e eu senti sua barba “por fazer” roçando a lateral da minha face. Abri os olhos e como imaginei, ele espiava. Intercalando os olhares sobre mim e a sua frente ele perguntou:
— Está se sentindo bem? – de desprezível, sua feição se tornou curiosa.
— Sim, eu só relaxei. – eu disse sem graça ao perceber que na sintonia da brisa e do cavalgar, deixei meu corpo se abandonar nos braços fortes de .
— Tá. – ele disse estranho. — Vamos voltar, tudo bem?
— Claro. É melhor. – eu respondi e ele sorriu para mim.
Sorriu?
Para mim?
Ele poderia fazer aquilo, digo, sorrir daquele jeito como se fosse algo que ele sempre fizesse? E que sorriso! Apesar do meu ódio evidente, não posso mentir, ele é lindo. Um homem muito belo e sedutor. Eu não me incomodaria se sorrisse daquela forma, mais vezes para mim. Fiquei pensando naquela hora, como seria bom se tivéssemos sido amigos. Se ele desse uma chance de me conhecer. Mas, por alguma razão da qual eu ainda desconhecia, nós nunca seríamos amigos. Devia existir um motivo! Não poderia ser apenas pirraça dele!
Amigos… Aí está algo que e eu não seríamos. Amigos? Não!
dançava com os patinhos quando chegamos. O pai dela desceu e novamente me pegou no colo e me pôs ao chão. Sua mão escorregou para debaixo da minha blusa na hora de me descer do cavalo e tomamos um choque de peles. Quando eu estava ao chão frente a ele, ficamos nos encarando de olhos arregalados. Minhas mãos ainda em seus ombros e as dele ainda em minha cintura. Fomos acordados por uma garotinha travessa.
— Como foi ? – ela perguntou e eu imediatamente me recompus sorrindo e olhando para ela.
— Foi muito legal! Andar nos cavalinhos é ótimo. Você estava certa !
— Eu falei! – ela zombou indo até seu pai.
Novamente ele montou levando para a outra margem do rio. Daí eu me lembrei de que novamente repetiríamos aquilo. Olhei para o riacho e a correnteza já estava mais branda, me atrevi a atravessar o riacho a fim de evitar passar pelas mesmas sensações. , que já estava em terra do outro lado gritou para o pai dela que olhando para trás veio montado ao cavalo até mim o mais rápido possível.
— Fique aí! – ele pediu e eu parei de andar no riacho. Havia molhado um pouco mais do que os joelhos.
— Mas dá para passar.
Eu disse e ele já estava à minha frente, zangado.
— O riacho fica mais forte nessa época e quando você acha que dá para atravessar você é levado pela correnteza. Sem falar nos buracos. Os animais sabem onde pisam, nós não.
Montados no cavalo, nós fomos à outra margem. estava sério e eu me senti péssima.
— Desculpe. – eu disse.
— Nunca mais faça isso! – ele sussurrou bravo em meu ouvido.
Me soou também, um pouco preocupado. Descemos da montaria e seguimos de mãos dadas: , e eu. Exatamente nesta ordem, óbvio. Ele foi para as coxias se desfazendo da mão da filha com um beijo e nem olhou para mim. e eu fomos de volta ao casarão.
De repente tudo me soou confuso. O que tinha afinal acontecido naquela cavalgada?




Continua...



Nota da autora: Esta fanfic na verdade é o projeto de um livro antigo que não terminei. Então decidi postá-la aqui. Espero que vocês gostem da história, e comentem muito! O feedback que você traz, pelos comentários, é muito importante para as autoras.
CÉEEEUS! O QUE FOI ESSA CAVALGADA? Não sei para vocês, mas, está quente aí? Por que aqui, começou a ficar! Carol é mais espertinha do que pensamos, huh? Comenta aí que eu estou ansiosa pela tua mensagem! <3
A fanfic tem uma playlist no Spotify, cujo link está abaixo:





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Qualquer erro no script dessa fanfic, favor avisar no meu e-mail ou twitter.
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


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