15 Days of Quarantine

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Última atualização: 11/11/2020

Prólogo

Dois dias antes do isolamento no hotel.

"Um novo vírus mortal está se espalhando pelo mundo. O novo corona vírus, também conhecido com Covid-19, começou na China e agora se espalha pela Europa. A situação está preocupante na Itália, com número de casos e mortes subindo a cada segundo. A orientação da OMS é para todos ficarem em casa; usar máscaras se tiver que sair; usar álcool em gel e lavar sempre as mãos. Evitem contato físico com outras pessoas e, se possível, fiquem sempre há um metro e meio de distância."

A televisão do refeitório estava ligada em um canal de notícias local, e todos estavam prestando atenção no que a repórter estava falando. A coisa estava ficando séria, todos no hotel estavam tomando os devidos cuidados, mas ainda sim estávamos extremamente assustados com isso. Tantas vidas sendo tiradas, voos sendo cancelados. Pessoas cancelando a hospedagem no último minuto pois não poderiam mais vir para Roma, a capital da Itália. Era triste ver as ruas, sempre tão cheias de vida, se esvaziarem aos poucos.

"A Espanha também está apresentando números preocupantes."

Me coração saltou ao ouvir sobre a Espanha.
- Toni, aumenta um pouco o volume, por favor?
- Claro, princesa! - ele respondeu, pegando o controle e aumentando.
- Valeu! - exclamei, voltando a prestar atenção na televisão.

"O primeiro ministro da Espanha decretou estado de emergência em todo o país. As aulas presenciais foram canceladas, todas as escolas foram fechadas, assim como os principais aeroportos."

Meus pais, minha avó e uma das minhas irmãs moravam há alguns anos na Espanha, mais especificamente em Madrid. Os três eram de risco, e meu coração apertava sempre que recebia notícias de onde eles moram. Era horrível estar tão longe deles, sem poder fazer muito para ajudá-los ou cuidados. Me consolava saber que minha irmã estava lá, mas me doía não poder sair correndo e ir para perto deles.
- Você tem falado com seus pais, ? - perguntou Olivia, minha melhor amiga e ajudante na confeitaria.
- Tenho sim, eles já estão bem, já estão se isolando. Mas eu posso imaginar como eles devem estar agoniados de ficar presos, sabe como eles são, não sabe?
- Sei bem. - Ela respondeu, rindo. - Lembra quando fui para Madrid com você e seu pai nos levou em um tour pelas melhores padarias da região? E depois sua mãe nos levou para fazer compras.
- Pois é, eles não param! - exclamei, rindo com ela. - Isso que me deixa agoniada, espero que eles respeitem o que estão pedindo.
 Nesse momento, nosso gerente geral, Sr. Enrico Valente, se juntou a nós no refeitório para a reunião, como prometido. Ele nos informou que, por causa de um único caso de um hóspede do hotel, teríamos que fechá-lo parcialmente. Isso significa que que não receberíamos hóspedes novos, mas os que estavam não poderiam sair. Isso também significava que nós teríamos que morar lá por um tempo. Ele disse que receberíamos um e-mail com todos as informações necessárias.
- Morar aqui? - sussurrei para Olivia enquanto colocamos nossas máscaras e saímos do refeitório, voltando para a confeitaria. - Que loucura.
- Vai ser bem divertido, imagina? Vamos treinar para quando formos morar juntas! - ela disse empolgada, enquanto arrumava seu avental. Eu ri do tom infantil que ela adotou.
- Ainda está nos meus planos, gatinha. - Respondi. - Agora vamos focar nesses pudins, eles não vão ficar prontos sozinhos.


Capítulo 1 - Pijamas

Primeiro dia da quarentena.

Olhei para minha mala vazia em cima da cama, ponderando uma última vez se deveria mesmo deixar meu apartamento e passar a quarentena no quarto minúsculo do hotel em que trabalho. A pandemia de Covid-19 em Roma está cada vez pior; os números de morte e casos aumentavam a cada minuto e estava totalmente fora de controle. Não tinha vacina, o tratamento ainda era um pouco desconhecido, e os cuidados eram inúmeros: usar máscara no rosto; lavar as mãos sempre que possível ou usar álcool em gel; evitar aglomerações; higienizar absolutamente tudo; evitar sair de casa. E o pior de todos: ficar à um metro e meio de distância de todas as pessoas, não podendo encostar nelas e se for se aproximar, tem que estar com a maldita máscara. Sem toque, sem aproximação, sem abraços ou beijos. Sem contato humano, a não ser o virtual. Casamentos, festas de aniversário, baladas? Esquece.
Eu nunca havia vivenciado algo do tipo. Era assustador pra todo mundo. Eu tive o privilégio de até o momento nem eu e nem ninguém da minha família ter se contaminado ou falecido. Grande parte da minha família ainda morava no Brasil, mas a que sempre morou comigo estava em Madrid, na Espanha, onde a situação estava ficando tão feia quanto na Itália. Lá estavam meus pais, minha avó e uma de minhas irmãs. A outra morava aqui em Veneza, e também estava isolada em casa com o marido. Eu morava no centro de Roma pois havia aceito a vaga de confeiteira chef há dois anos atrás. Era meu sonho, é claro, mas se eu soubesse que o ano seria desse jeito, teria voltado para a casa dos meus pais antes de os aeroportos fechassem. Nesse caos, eu só queria poder estar com eles.
- Quer saber? Dane-se, eu vou. – falei em voz alta para as paredes, suspirando e atirando as roupas dobradas de qualquer jeito. Olhei para o relógio e já eram 6h30 da manhã, mas não estava com pressa, hoje na verdade seria minha folga.
Juntei alguns cremes corporais e de cabelo, perfumes e produtos que estavam no banheiro. Eu não pretendia ficar tanto tempo, mas não tínhamos previsão alguma de quando estaríamos vacinados e livres. Essa pandemia estava atrapalhando tudo: relacionamentos, economia, turismo. O hotel estava com a ocupação em 10%, sendo que costumava sempre estar 100%. Por causa de um único caso de contaminação de um hóspede, teremos que ficar presos no hotel por pelo menos 15 dias. Quinze dias que eu já desejava que passasse rápido.
Meu trabalho era perto, mas por segurança, decidi ir de carro. Até para não ter que arrastar minha mala pesada pela rua. Quando cheguei, fiz todo o processo de higienização, aferição da temperatura e ganhei um kit de segurança com máscaras de pano, álcool em gel e lenços umedecidos para limpar tudo no quarto, mas eu mesma já estava com um litro de álcool 70º na bolsa. Subi para o quinto andar, onde ficariam todos os funcionários, e fui para o quarto 501. Usei os lenços e o álcool para higienizar todas as superfícies possíveis, sentindo meu braço reclamar um pouco. Depois, tomei um banho e desci para tomar o café da manhã e participar da reunião matinal da equipe da cozinha. Dessa vez, todos os poucos funcionários que restaram (sobreviventes que não eram do grupo de risco e não foram mandados embora) estavam reunidos no restaurante. As luzes da cozinha estavam todas acesas e alguns funcionários já trabalhavam lá dentro, a essa hora já deviam estar preparando o café e o almoço para levar pro quarto dos hóspedes.
- Buongiorno! - exclamei tentando falar um pouco mais alto devido a voz abafada por conta da máscara de pano. Era ruim para respirar e falar, mas pelo menos me sentia protegida.
Todos responderam um pouco desanimados enquanto cada um pegava uma bandeja com alguns itens do nosso café: uma fatia de pão italiano com manteiga ou algum patê, uma caneca com café ou chá e uma fruta.
O italiano era uma língua linda que eu ainda não era fluente, mas me virava como dava, tendo comigo a sorte de que todos ali sabiam falar inglês, o que ajudava muito. E o fato de que o italiano é muito parecido com o português. Meu cérebro era essa grande mistura de línguas.
Peguei uma das bandejas e me coloquei no meio do círculo que se formou.
 - Buongiorno, Ollie. O que aconteceu aqui? Todo mundo parece desanimado. - perguntei em inglês para uma das minhas ajudantes da confeitaria e minha melhor amiga, Olívia, que estava ao meu lado apoiada em uma das mesas.
Ollie era a típica garota italiana: romântica, culta e extremamente linda. Seus cabelos pretos e lisos caiam brilhantes até a cintura (quando ela não o prendia e colocava a touca) e seus olhos verdes e sorriso largo faziam todos os homens caírem de amores por ela.
- Buongiorno, Principessa! - ela respondeu, e eu sabia que atrás daquela máscara rosa claro estava seu sorriso radiante. - Estão dizendo que o gerente quer fechar a cozinha, mas acredito que sejam só boatos.
- Fechar? E como os hóspedes vão comer? - exclamei chocada. Aquilo não fazia nenhum sentido, não havia necessidade de fechar a cozinha, ela era tão essencial quanto os outros setores.
Ollie apenas deu de ombros, depois voltou a me olhar com o cenho franzido.
- Espera, não era pra você estar em casa? - ela questionou.
- Eu sei que é minha folga, mas decidi vir pra cá hoje para organizar as coisas... - respondi, vendo-a me olhar confusa.
- Não foi isso que eu quis dizer... - ela começou, mas foi interrompida quando o gerente geral, Sr. Enrico, se juntou a nós. Tentamos nos afastar o máximo que dava, respeitando o um metro e meio de distância.
- Buongiorno a tutti. - ele exclamou quando todos ficaram quietos. Os dois meninos que estavam na cozinha vieram se juntar a nós. - Como todos sabem, estamos passando por um momento muito delicado. Não irei me aprofundar novamente sobre essa maledetta doença, pois já falei muito sobre ela na última reunião.
O Sr. Enrico Valente era um homem de meia idade que estava sempre com seu terno caríssimo impecável, nenhum fio de cabelo saia do lugar, gesticulava demais com as mãos (mais do que os italianos consideram normal) e por mais que fosse rígido e sério, ele tinha um bom coração.
- Gostaria de agradecer novamente à todos que aceitaram passar um tempo morando em nossas acomodações, por segurança de vocês, dos hóspedes e das nossas família. - ele olhava no fundo dos olhos de cada um. - Sem vocês, o Hotel Raphaelli não estaria aberto. Espero que seja uma grande experiência para todos... - ele parou ao colocar os olhos em mim. Todos se viraram no mesmo instante e eu pude sentir minhas bochechas queimarem. Minha vontade era cavar um buraco e entrar nele para que todos parassem de me olhar.
- Senhorita , o que está fazendo aqui? Você não deveria estar em casa? - ele questionou, parecendo muito surpreso.
- Oi, Senhor Valente. Eu sei que é minha folga, mas eu queria vir antes para...
- Folga? Senhorita, você foi afastada. Não iremos abrir a confeitaria! Você não recebeu o e-mail? - ele exclamou, ainda surpreso e um tanto apavorado. - Ai, mamma mia!
- Fechar a confeitaria? Mas e a cozinha? E o que farão com as sobremesas? - questionei indignada.
- A cozinha continuará aberta com a ajuda do chef Ricciardo, da senhorita Olivia e dos outros dois meninos, Enzo e Antonio. - ele falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. - Compraremos os doces da padaria aqui da rua, teremos menos gastos e menos pessoas trabalhando, para nossa segurança.
- Ok, então eu posso ajudar na cozinha. - falei, dando de ombros.
- Não, senhorita, não podemos ter mais um funcionário na cozinha, temos que reduzir! - ele falou, passando a mão pelos impecáveis fios de cabelo que lhe restavam.
- Está bem, então eu vou embora...
Todos bufaram como se eu tivesse dito a coisa mais idiota que já ouviram. O senhor Enrico parecia prestes a arrancar seus cabelos quando ele respondeu:
- Ninguém está permitido a sair ou entrar neste hotel, . Agora somos apenas nós. Você vai ter que ficar aqui por pelo menos 15 dias antes de poder sair daqui. - ele respondeu, tentando se acalmar.
Sr. Enrico respirou fundo e continuou falando com todo mundo que estava ali, casualmente me lançando olhares preocupados. Assim que a reunião acabou, me despedi de Olivia e subi ao meu quarto depressa, sentindo raiva de mim mesma por não ter prestado mais atenção antes. Eu estava presa em um quarto pequeno onde eu não podia sair quando quisesse, e foi por pura desatenção minha.
Deitei na cama e fiquei encarando o teto enquanto meu cérebro estava a mil. A confeitaria, minha segunda casa, estava fechada. O que seriam dos almoços sem meus doces? Modéstia à parte, mas os meus eram bem melhores que os da padaria. Isso era tão injusto!
Me sentei na cama, sem conseguir ficar parada de tão agitada. Olhei para o café intocado em cima da pequena mesa e decidi comer pelo menos a banana. Enquanto dava a primeira mordida, meu celular tocou.
- Oi, mãe. - atendi desanimada e de boca cheia.
- O que houve, querida? - ela respondeu com a voz cheia de preocupação.
- A confeitaria foi fechada, mãe. Vim pro hotel atoa e agora não me deixam sair. O hotel inteiro está fechado por causa daquele maldito hóspede que pegou o vírus. - contei a ela, ainda comendo a banana.
- Meu Deus, . Mas vocês estão seguros? O hóspede ainda está ai?
- Não, ele foi para o hospital, eu acho. - falei terminando de comer a banana. Suspirei alto, limpando a mão em um dos lencinhos umedecidos. - O covid acabou com meu sonho...
- Não seja dramática, ! É temporário, você sabe disso. Seu sonho só está começando... E quem sabe por você estar aí eles não voltam atrás e reabrem a confeitaria?
Minha mãe é uma mulher muito sensata e muito prática. Com ela não tinha drama nem enrolação; ela é oito ou oitenta, sem meio termo. Eu admirava essa personalidade dela. Eu queria ter 1% da confiança dela e já estaria satisfeita.
- Obrigada, mãe. - respondi com sincera gratidão. - Mas e vocês? Como estão o papai e a vovó?
- Sabe como eles são, né? - ela respondeu e pude imaginá-la revirando os olhos. - Ansiosos e agitados, não aguentam mais ficar em casa.
- Mas só fazem duas semanas!
- Pois é, e você acha que eles entendem? - ela respondeu rindo. - Vou ter que desligar, meu amor. Mais tarde te ligo de novo, ok?
- Ok, mãe. Amo vocês. Se cuidem!
- Também amamos você e se cuida, ok?
Depois de desligar o telefone, desfiz minha mala, guardando tudo no pequeno armário que tinha no quarto e todos os itens de beleza e higiene foram arrumados no banheiro. Peguei um dos livros que havia trazido, era o Fangirl escrito por uma das minhas autoras favoritas, Rainbow Rowell. Mas eu já não aguentava mais ficar sentada naquele quarto, então depois de uma hora lendo, sai na varanda para tomar um ar. A vista era linda ali do alto, nunca tinha visto antes. Fechei os olhos por alguns segundos para sentir a brisa de Roma em meu rosto. Aos poucos comecei a ouvir uma melodia calma, logo abaixo de mim. Franzi a testa, pensando “meu Deus, eu já estou começando a delirar?”. Olhei para baixo e vi dois pés descalços apoiados na varanda, balançando conforme a melodia. Queria demais saber que música era aquela. De vez em quando a pessoa fazia uma pausa mas voltava a dedilhar o que eu imaginava ser um violão.
Me estiquei mais pra baixo a fim de tentar ver mais, mas o medo de cair falou mais alto e eu logo me endireitei, me afastando alguns passos da sacada e voltando a me sentar na cama. Olhei em volta, já me sentindo extremamente entediada. Liguei a tv para comprovar que nada interessante estava passando, então deixei em um programa de concurso de gastronomia e fiquei assistindo sem prestar muita atenção. Depois de algum tempo, meu estômago roncou e o relógio do meu celular mostrava que já eram uma e meia da tarde. Nessa hora, o telefone do quarto tocou.
- Alô?
- Principessa, essa cozinha está tão chata sem você! - disse Ollie. - Estou tentando convencer o Sr. Enrico a te trazer de volta, mas a verdade é que não tem absolutamente nada para fazer aqui.
- Ai, Olivia... Eu estou extremamente entediada. Eu pensei que passaria horas aí com vocês, me distraindo. Mas não poder fazer nada é horrível! - resmunguei, me deitando na cama e sentindo meu estômago reclamar novamente. - Ollie, tem alguma coisa pra comer ai?
- O almoço dos funcionários vai ser entregue daqui a pouco. Hoje é rondelli
alla salsa di pomodoro e parmegiana. Quer beber alguma coisa especial? - ela perguntou e imaginei seu sorriso travesso por detrás da máscara.
- Tem vinho tinto? - perguntei com o mesmo sorriso. Ela riu e respondeu:
- Pra você nós temos o mundo, chef! - e desligou.
A própria Ollie levou o prato até meu quarto, e a vontade de puxá-la para dentro para conversarmos a tarde inteira era enorme. Infelizmente não poderíamos fazer isso agora, mas com certeza fugiria para seu quarto ou ela para o meu antes de dormirmos.
E assim foi feito, depois de um almoço delicioso e uma tarde longa e tediosa, Ollie veio para meu quarto com alguns pedaços de bolo e pães recheados para comermos no jantar e acabar com a garrafa de vinho que ela trouxe no almoço. Não tinha problema em ficar sem máscara porque nós duas fizemos os dois tipos de testes antes de entrarmos aqui e das duas e de todos os funcionários que ficaram deram negativo. E de todos os funcionários do hotel, apenas uma camareira testou positivo e está afastada se cuidando. Era um alívio saber que todo os esforços que estamos fazendo há algumas semanas fez efeito.
Enquanto eu mastigava uma deliciosa fatia de pão recheado com calabresa, Ollie deu alguns tapas na minha coxa para chamar minha atenção. Estávamos as duas sentadas com as pernas cruzadas em cima da cama de casal e vendo um filme italiano antigo que eu me esforçava muito para entender sem legendas.
- Sabe quem está hospedado aqui com a gente? - ela falou animada, dando pulinhos e fazendo a cama balançar. Segurei nossas taças de vinho com firmeza, olhando-a assustada.
- Os lençóis brancos, Olivia! - exclamei, vendo-a gargalhar da minha cara. - Não sei, é alguém importante?
- Importante?! - ela falou quase engasgando com o gole de vinho que acabara de dar. Essa garota ia acabar manchando a roupa de cama e é claro que descontariam do meu salário. - É o Harry fucking Styles!
Agora foi a minha vez de quase engasgar. Não queria admitir para Olivia mas eu era uma grande fã de Harry desde a One Direction que, por sinal, eu ainda custava em aceitar a separação. Eu era fã a ponto de ter comprado o ingresso pro seu show no mesmo dia em que abriram as vendas. É claro que por causa da pandemia o show que seria em algumas semanas havia sido adiado, sem data definida.
- O bonitinho da One Direction? - questionei, tentando fingir indiferença enquanto bebia o vinho para tentar desengasgar.
- Primeiro que todos da banda são “bonitinhos”. - ela respondeu fazendo aspas. - Segundo que quem mais seria? O príncipe da Inglaterra? O Harry Potter?
- E o que ele está fazendo aqui no nosso hotel? - respondi depois de revirar os olhos.
- Bom, aparentemente ele não conseguiu um voo a tempo e ficou preso aqui com a gente. - ela respondeu com a boca cheia de croissant. - Boatos de que ele está escrevendo o terceiro álbum.
Arregalei os olhos enquanto meu cérebro puxava na memória a melodia que ouvira de tarde. Será possível?
- Você sabe o quarto que ele está? - perguntei, ainda fingindo não estar tão interessada mas sabendo que Olivia não estava caindo nisso, pois ela me olhava com os olhos semicerrados e um sorriso torto como se ela soubesse de tudo mas queria ver até onde eu iria com a mentira.
- Vai fazer uma visitinha? - ela brincou, me fazendo revirar os olhos e lhe dar um tapa de leve no braço dela.
- Não, garota! Até porque eu não quero me contaminar. Se for pra ficar presa aqui, que seja em segurança. - respondi, me levantando da cama e levando os pratos pra mesa, bebericando o restinho do meu vinho. - É que... Hoje de tarde eu ouvi alguém tocando violão no quarto de baixo. Sei lá, acho que pode ser ele.
Aquilo foi o suficiente para Olivia soltar um grito agudo e saltar da cama, quase derrubando o vinho pela terceira vez naquela noite. Corri até ela e peguei a taça de sua mão, colocando-a na mesa.
- Nós temos que ir lá! - ela disse empolgada, voltando a pegar a taça e finalizando o líquido que estava dentro.
- Não temos não, Olivia! Não pira. - respondi. - Nós temos que dormir porque a senhorita vai acordar cedo amanhã.
- Para nossa sorte, amanhã é minha folga e vou poder passar o dia todinho com você. - ela falou me abraçando desajeitada e apoiando a cabeça em meu ombro. Ela estava claramente bêbada.
- Não sei o que é pior, morrer de tédio ou ficar presa aqui com você. - brinquei mas me arrependi quando a vi fazer biquinho e seus olhos marejaram. - Jesus, Ollie, é brincadeira!
- Vamos lá, ! Só pra saber se é ele! - ela pediu com seus olhos verdes enormes e brilhantes e seu bico maior ainda. Suspirei, derrotada.
- Coloca a máscara. - respondi vendo-a saltitar até a cabeceira onde estava seu kit de máscaras. - Cinco minutos, ok? Depois voltamos pra cá e vamos dormir.
- Certo, chef! – ela respondeu batendo uma continência desajeitada, correndo até a porta. Coloquei a máscara no rosto, peguei um mini borrifador com álcool 70º e corri atrás dela, segurando-a pelo braço.
- Por favor, Ollie, faz silêncio! Não devíamos estar aqui. – sussurrei enquanto caminhávamos na ponta do pé pelo corredor até a escada de emergência que, para nossa sorte, ficava ao lado da porta do quarto onde o gerente estava dormindo.
Abri a porta da escada com cuidado e puxei Olivia comigo, que tampava a boca para não deixar o som da sua risada escapar. Descemos com cuidado as escadas, eu segurando Olivia com uma mão enquanto  segurava no corrimão com a outra. Eu não percebi o quanto ela tinha tomado de vinho, mas algo me dizia que Ollie era muito fraca pra bebida e, realmente, eu não tinha muitas lembranças da garota relacionada com bebidas.
Como achávamos que ele estava no quarto abaixo do meu, seguimos com cuidado até o 501. Ollie se escorou no batente da porta e levantou a mão fechada e estava prestes a bater quando eu segurei seu pulso e a olhei assustada.
- Olivia, espera! O que vamos falar para ele quando ele abrir? – sussurrei, puxando-a para longe da porta.
- Que somos fãs, ora! – ela respondeu, me olhando como se eu fosse idiota.
- Claro, ai ele vai com seus lindos cachos até a recepção e fala que duas fãs loucas vieram incomodá-lo durante a noite! – sussurrei entre os dentes. – Ninguém pode saber que estamos aqui, Ollie. Precisamos de algo mais convincente.
- Confia em mim. – ela respondeu, me puxando de volta para a frente da porta. Naquele momento, a última pessoa em quem eu confiava era na Olivia bêbada.
Ollie bateu com vontade na porta e se endireitou, ajeitando os cabelos lisos e loiros, jogando-os para trás. Nesses longos segundos, eu observava a beleza extrema da minha amiga. Não que eu me achasse feia, mas eu com certeza me diferenciava de todas as italianas, por mais que eu mesma fosse descendente. Elas eram tão bonitas e elegantes, até mesmo Olivia que mexia nas panelas e utensílios com delicadeza e parecia flutuar pela confeitaria. Eu não era nada delicada, esbarrava em tudo e todos e se no final do dia eu saísse da confeitaria com apenas uma mancha no avental e na minha roupa, havia sido um dia bom.
Um dos lados da porta dupla se abriu e um garoto alto com cabelos bagunçados, uma camisa aberta de mangas curtas e metade do rosto coberto por uma máscara de pano preta apareceu. Uma mão segurava a porta aberta e a outra, um copo de whisky com gelo; as duas tinham os dedos longos cobertos por anéis. Ele nos olhou de cima abaixo, os cenho franzido em confusão. Eu não sabia dizer se foi a bebida ou o seu olhar, mas meu corpo esquentou instantaneamente.
- Buona notte, Senhor Styles! – exclamou Olivia, e pude perceber que ela sorria largo.
- Buona notte. – murmurei baixinho. Minha voz era um sussurro ridículo, e tive vontade de falar mais alto apenas para disfarçar o barulho do meu coração batendo forte.
- Buona notte! – ele respondeu animado, seus olhos entregando o sorriso que estava coberto por aquele pedaço de pano idiota. – Como posso ajuda-las?
Ele me olhava como se me desafiasse a perder a postura. O desafio estava aceito, mas eu mesma não sabia se conseguiria cumpri-lo.
- Nós somos da equipe da cozinha e gostaríamos de saber se você gostou do almoço de hoje. Tipo uma avaliação, sabe? - ouvi a voz de Ollie falar e pensei “Sério, Olivia? Essa foi sua melhor ideia?”. Ele levantou as sobrancelhas, parecendo estar se divertindo.
- Foi ótimo, vocês tem o melhor fettuccine ao molho branco de toda a Europa. - ele respondeu rindo e depois nos olhou novamente de cima a baixo. - Mas... É comum vocês fazerem essa pesquisa vestindo pijamas?
Arregalei os olhos, sentindo meu rosto queimar. Por sorte a máscara tampava metade do rosto e ninguém podia ver o rubor nas minha bochechas. Meu Deus, que vergonha! Eu queria poder afundar no chão e cair direto no meu quarto pra me esconder embaixo das cobertas e nunca mais sair. Olivia decidiu ficar quieta logo agora.
- Sim! - eu falei, fazendo Ollie me olhar chocada. - É uma forma de fazer vocês, hóspedes, se sentirem... Em casa.
- Isso, em casa! - completou Olivia, e eu puxei de leve um de seus dedos. - Espero que você esteja tão confortável quanto nós duas.
Harry assentiu de leve, tamborilando os dedos na porta, esperando que a gente falasse algo ou fosse embora.
- É só isso, meninas? - ele perguntou, vendo que nós duas estávamos congeladas.
- Sim, desculpa o incômodo, senhorStyles. Até mais! - disse Ollie, sem realmente se mover.
Eu acenei e me virei, puxando Olivia comigo, que acenava e tentava se virar para trás.
- Espera, meninas! - ouvi Harry exclamar, dando alguns passos para fora do quarto. - Vocês realmente trabalham aqui?
Eu me virei na mesma hora e assenti.
- Sabem onde posso encontrar um piano por aqui? - ele perguntou, ajeitando a máscara que teimava em cair do seu nariz.
- No restaurante... Na parte coberta, claro. Mas não sei se está autorizado a usar. - falei, tentando manter Olivia em pé. Ela estava claramente com sono e ainda sobre efeito do álcool. Essa não era uma mistura muito boa.
- Mas é claro que podemos dar um jeitinho para o senhor Harry Styles, não é, ? - ela falou meio arrastado.
- Não somos nós que decidimos, Olivia, é o Enrico. - murmurei entre os dentes. - Precisamos ir. Tchau, Harry.
- Foi um prazer, meninas, voltem sempre! - ele falou rindo, acenando de novo.
Arrastei Ollie até o elevador de serviço, seria um desafio subir as escadas do jeito que ela estava. Quando cheguei no quarto, a fiz higienizar as mãos e tirar a máscara com cuidado. Eu a coloquei na cama e fui tirar a minha, separando-a para lavar no dia seguinte. Quando voltei, ela já estava dormindo pesado. A cobri e me enfiei embaixo das cobertas com ela, sem conseguir pegar no sono. Eu conheci o Harry fucking Styles (como diria Olivia), e tinha certeza de que meu coração não iria desacelerar tão cedo.


Capítulo 2 - Red Velvet

Segundo dia de quarentena.

Acordei cedo demais, com uma leve dor de cabeça e todas as lembranças da noite passada me atingindo em cheio. Olhei para Olívia ainda dormindo ao meu lado, e me levantei para separar um remédio para a dor que ela iria sentir quando acordasse. Se eu, que não havia bebido mais de uma taça e meia de vinho, já estava sentindo um mal estar, imagine o que ela vai sentir quando levantar?
Depois fui até a varanda e observei a cidade vazia e silenciosa, iluminada apenas pela luz forte do Sol. Ninguém se atrevia a sair, os bares, restaurantes, padarias e bistrôs estavam quase todos fechados. Era triste ver minha Roma apagada; mesmo com tantas luzes acesas, ela não era a mesma sem os italianos animados falando alto demais, sem os turistas encantados com cada detalhe, sem os trabalhadores ficando até tarde na rua. Quando será que vamos voltar ao normal?
— Então é aí que você está.
Eu dei um pulo ao ouvir uma voz rouca falar do além. É claro que não era nenhum fantasma, era uma voz muitíssimo conhecida. Abaixei a cabeça e me curvei um pouco para enxergar a pessoa na sacada de baixo, me arrependendo amargamente ao sentir tudo girar. Voltei a posição de antes e respirei fundo com os olhos fechados.
— Vizinha? - ele chamou um pouco mais alto, me fazendo voltar e me abaixar com mais cuidado. Seu sorriso estava radiante sem aquela maldita máscara, provocando leves tremores em minhas mãos.
— Oi. Foi mal por ontem à noite, as ideias ideia da Olivia nem sempre são boas. - respondi tímida.
— Não precisa se desculpar, foi divertido - ele respondeu, rindo. — Ela está bem? Ontem ela parecia um pouco...
— Bêbada? - completei, o fazendo rir e concordar — Sim, mas ela ainda está dormindo. Ela não bebeu muito, mas aparentemente ela é muito fraca pra bebida.
— E você? Também é fraca? - ele questionou sem tirar o sorriso travesso do rosto.
Estreitei os olhos, me segurando firme no parapeito.
— Sou extremamente forte, muitíssimo obrigada - murmurei sorrindo para disfarçar a mentira, pois tudo ainda girava um pouco e eu sabia que o motivo era o vinho italiano.
— Qual é o seu nome? - ele perguntou. Voltei a olhá-lo e ele parecia mais inclinado ainda no parapeito, tentando me olhar.
— Você vai cair - murmurei, olhando-o com preocupação. Eram quatro andares (cinco no meu caso) que poderiam fazer um estrago em seu lindo rosto e em seu corpo tatuado. Imaginei o que faria com o meu, ridiculamente frágil.
— Então me responda antes que seja tarde demais! - ele exclamou enquanto ria, me fazendo rir também. Ele se inclinou mais um pouco, segurando firme na barra que o protegia.
— É - respondi. — Agora se afasta um pouco.
— Só ? - ele respondeu, sem me obedecer.
. . Pelo amor de Deus, toma cuidado!
— Muito prazer, . - ele voltou para uma posição mais segura, falando com seu sotaque forte que me dava arrepios bons pelo corpo. — Eu sou Styles. Harry Styles.
— Um britânico fazendo referência do James Bond, muito original! - exclamei rindo e vendo-o me olhar divertido.
— Ei, foi você quem começou! - ele retrucou. Depois de alguns segundos em silêncio, ele voltou a falar: - Vocês realmente trabalham aqui?
— Sim - respondi chocada por ele ainda não acreditar na gente. — Eu sou confeiteira chef e Olivia é minha ajudante. Ela ainda está trabalhando na cozinha, mas minha confeitaria está fechada há alguns dias.
— É uma pena, eu adoraria provar seus doces - ele falou me olhando sugestivamente. — E o que você está fazendo aqui?
— Eu não vi o email que me mandaram avisando que eu deveria ficar afastada, então eu acabei vindo e não pude mais sair - respondi dando de ombros.
— Que sorte a minha - ele respondeu, dando um sorriso torto.
Meu Deus, Harry Styles estava flertando comigo? Ou provavelmente eu estava com covid e deveria estar delirando de febre; talvez era o vinho, brincando com minha consciência. Coloquei a mão na testa e a temperatura parecia estar normal, então decidi culpar a bebida. Era isso, eu estava me iludindo e era o álcool ainda fazendo efeito no meu corpo.
— Pelo menos os da padaria são...Aceitáveis. - Falei, fazendo uma careta. Ele riu e balançou a cabeça.
— De jeito nenhum, eles são horríveis - ele falou. — Estou quase dando um jeito de sair daqui escondido para comprar doces decentes. Estou morrendo de vontade de comer um bolo red velvet coberto de chantilly.
A cara de prazer que Harry fez com a lembrança do doce fez meu corpo esquentar violentamente. Olhei para o céu para evitar a visão e, de repente, tive uma ideia louca e estúpida. E se eu fosse escondida na cozinha e fizesse um doce para ele? Poderia juntar o útil ao agradável: daria um doce decente à Harry e voltaria a fazer o que amava. Meu red velvet era uma das sobremesas mais pedidas no restaurante, seria injusto se ele não pudesse provar. Fechei os olhos com força e me obriguei a esquecer isso, era loucura e arriscado demais. Mas quando vi, as palavras já saíam da minha boca sem controle algum.
— Eu posso fazer o bolo pra você - falei, apertando os lábios. Eu o vi levantar as sobrancelhas e sorrir largo.
— Sério? Faria isso por mim? - ele perguntou sorrindo, apontando seu dedo comprido para si mesmo.
— Eu também estou com vontade. - menti, dando de ombros.
A verdade é que mesmo sendo uma confeiteira, eu não era grande fã de bolos. Tortas e pavês talvez, mas bolos eram sempre minha última escolha.
— Mas a confeitaria não está fechada? - ele perguntou, confuso.
— Eu dou um jeito - falei sorrindo de lado. Ele pareceu amar a ideia de fazer o doce escondido, pois me olhava como uma criança que acabou de saber que o Natal seria amanhã.

— Combinado, onde te encontro e que horas?
— Como!? - questionei confusa. — Harry, você não pode ir comigo.
— Por que não? - ele perguntou parecendo decepcionado. — Ah, vamos! Eu estou extremamente entediado aqui dentro, sem inspiração nenhuma pra escrever. Eu preciso sair daqui, !
Não sei se foi a forma como o meu apelido saiu dos seus lábios ou seus olhos verdes enormes que me lembravam os de Olivia quando queria pedir algo, mas eu não consegui resistir. Eu não era tão forte assim, no final das contas.
— Com quem está falando, ? - ouvi Ollie perguntar. Olhei para trás e ela estava sentada na cama, com uma mão na cabeça, os cabelos totalmente bagunçados e os olhos fechados. — Por que está tudo girando?
Me inclinei na varanda e Harry não estava mais lá. Droga
Entrei no quarto e falei para Olívia que estava apenas falando sozinha e ela nem questionou. Peguei uma garrafa de água e lhe entreguei para tomar o remédio. Ela me contou sobre o sonho estranho que ela teve, onde eu e ela íamos de pijama até o quarto do Harry Styles e ele abria e nos via desse jeito. Seus olhos se arregalaram quando falei que não tinha sido um sonho e ela reclamou da dor que sentiu. Eu a deixei ficar deitada e falei que ia buscar nosso café e a avisei que se quisesse vomitar, eu havia colocado o baldinho do lixo do lado da cama. Ela só respondeu com um murmuro e se deitou de novo. Pelo menos teria algo para me entreter durante o dia: cuidar da ressaca de Olivia.
Antes de sair, corri até o bloco de notas ao lado da cama e rabisquei as palavras "Me encontre às 23h30 no saguão principal. Faça silêncio e leve sua máscara. Assinado: sua vizinha do andar de cima". Desci um andar pela escada de emergência com o coração batendo a mil por hora. Quando cheguei ao 401, tomei todo cuidado para não fazer barulho, empurrei o pedaço de papel dobrado por baixo da porta e sai correndo até os elevadores de serviço.
Tive que me curvar e apoiar nos joelhos para conseguir recuperar o fôlego, correr normalmente já é um sacrifício para uma sedentária como eu, mas correr de máscara era muito pior. Quando cheguei ao andar do restaurante, no térreo, eu já estava respirando quase de forma normal, mas meu rosto ainda estava quente e eu provavelmente parecia cansada pois todos me olhavam como se eu fosse louca.
Me aproximei do buffet onde estavam servindo as bandejas e hoje tinha croissant, um pratinho com frios e suco de laranja, leite ou café para beber. Me aproximei de Antonio, responsável por colocar os itens nas nossas bandejas para que a gente não encostasse em nada. Ele falava com todos com uma simpatia e bom humor invejável.
Buongiorno, Toni - falei ao pegar uma bandeja com ele. — Como vai?
Buongiorno, mi amore! Vou bem, e você? - ele respondeu e pude imaginar seu sorriso enorme por trás da máscara azul descartável.
— Estou bem, sabe como é: um tédio só, não tenho muita coisa para fazer no quarto.
— Sei bem... As horas que não estou aqui trabalhando são bem chatas — ele falou distraído, colocando um daqueles copos descartáveis de café que vem com uma tampa em minha bandeja.
— Falando nisso... – comecei a falar, fingindo não estar tão interessada assim no assunto. — Que horas vocês estão fechando a cozinha?
— Estamos fechando às dez, ou dez e meia... Não estamos tendo muita coisa para fazer, então não tem porque ficarmos mais que isso.
— Sim, claro... – respondi, assentindo com a cabeça.— E vocês deixam a chave na recepção, certo?
Toni me olhou desconfiado, estreitando os olhos e franzindo a testa. Meu coração deu uma acelerada.
— Eu só quero saber se minha confeitaria está segura, só isso — respondi revirando os olhos e torcendo para ele acreditar na mentira.
— Sim, deixamos na recepção... – ele respondeu ainda desconfiado. Percebi que estava atrasando a fila então sai do caminho e entrei atrás do buffet, ficando ao lado dele.
— Será que posso levar o café da Olivia? Ela não está se sentindo muito bem para descer.
No mesmo instante eu me arrependi de ter falado isso, porque ele arregalou os olhos assustado.
— É covid? Mio Dio, Ollie é muito nova! — ele exclamou, balançando a cabeça.
— Claro que não, Antonio! Ollie testou negativo! — eu falei rindo de puro nervosismo, tentando pensar em uma desculpa melhor. — Ela está... Naqueles dias, sabe? Coisa de mulher.
— Ah, sim, claro! Vou separar o café dela então. Por quê não falou antes? – ele respondeu rindo, colocando mais um item de cada na minha bandeja. — Prontinho, senhorita . Mais alguma coisa?
— Na verdade, sim – respondi, vendo as pessoas nos observarem desconfiadas. — O Senhor Styles já pediu o café da manhã?
— Já sim, bem cedo. Acredito que agora ele esteja na academia – ele respondeu, voltando a dar atenção à pessoa que estava na nossa frente.
Minha imaginação foi longe, pensando em um Harry Styles sem camisa correndo na esteira ou levantando peso, seu corpo suado enquanto ele respirava ofegante. Um formigamento percorreu meu corpo enquanto eu me despedia de Toni e andava o mais rápido possível, fazendo de tudo para tirar essa imagem da minha cabeça. Ridícula, , isso que você é. Ainda se acha aquela garota de catorze anos que ficava o dia inteiro vendo vídeos da One Direction, suspirando pelo garoto de cabelos cacheados que, por delírio da sua mente, havia flertado com você.
Eu ainda me xingava mentalmente quando cheguei ao quarto e encontrei Olivia sentada na cama, bebendo mais água.
— Como você está? – perguntei, colocando a bandeja na mesa redonda no canto do quarto.
— Melhor, eu acho... – ela murmurou, deixando a garrafa de lado.
— Está com fome?
— Muita! – ela disse se sentando ao meu lado. Fui até o banheiro e lavei minhas mãos e minhas máscaras, pendurando-as para secar. Quando voltei, Ollie estava na varanda, olhando para baixo.
— Olivia! Você vai ficar tonta de novo, volta aqui! – falei andando até a porta de correr que separava a varanda do resto do quarto.
— Você estava falando com o Harry? – ela perguntou, me olhando desconfiada.
— Eu já disse que estava falando sozinha…
— Ah, claro, e eu sou a princesa Grace Kelly – ela disse em tom irônico. – Eu ouvi outra voz e não era ligação porque seu celular estava aqui na cama. Era ele, não era?
Mordi os lábios, sem querer admitir porque sabia que Ollie surtaria. Mas balancei a cabeça, confirmando suas suspeitas. Para minha surpresa, ela apenas arregalou um pouco os olhos e balançou a cabeça, imitando meus movimentos. Nós voltamos para a mesa e ela continuava com um sorriso no rosto
— Uau... Você vai pegar o Harry Styles…
— Ai Olivia, não fala besteira – eu falei quase me engasgando com o café. — Ele só estava dizendo que queria comer um doce, e eu... Bom, talvez eu tenha oferecido meu bolo red velvet pra ele.
Olivia explodiu em risadas, se arrependendo no mesmo momento por causa da dor de cabeça. Eu entendi perfeitamente o que ela pensou.
— Deus, como você é pervertida! – eu reclamei, segurando a risada. — Eu estou falando do bolo de verdade.
— Mas eu tenho certeza que ele vai querer o seu bolo – ela respondeu com o sorriso malicioso no rosto.
 Eu revirei os olhos, mas não pude evitar voltar na imaginação de Harry na academia. Não sei se ele iria querer o meu bolo, mas eu super comeria o buffet inteiro do Harry Styles. Olivia me olhava com um sorriso divertido no rosto enquanto bebericava seu chá.
— Você está imaginando ele comendo seu bolo, não está?
— Come seu café e ocupa essa boca pra não falar mais besteira – respondi, fazendo-a gargalhar de novo. Ela reclamou da dor mas não tirou o sorriso do rosto. — Bem feito.
Quando deu 23h20, eu e Olivia saímos do quarto com cuidado, verificando se não tinha ninguém no corredor. Dessa vez não estávamos de pijama, mas eu não havia me produzido muito, afinal eu iria cozinhar e gostava de fazer isso estando bem confortável. Eu tinha colocado apenas uma legging preta, o sapato de borracha que usávamos na cozinha e uma regata branca larga. Já Olivia colocou um shorts jeans curto, uma regata preta que valorizava seus seios e saltos altos simples mas bonitos. Ela se maquiou apenas para descer ao saguão, pois sua missão era seduzir o recepcionista que estaria de plantão durante a noite para pegarmos as chaves da cozinha com ele. Eu até me maquiei um pouco para não parecer tão acabada, mas nada se comparava com Ollie, que passou até batom mesmo sabendo que ficaria de máscara.
Quando chegamos na recepção, Olivia desfilava com toda sua elegância até o balcão comprido de mármore cinza e se inclinava sobre ele. Acelerei os passos para alcançá-la e tentei fazer o mesmo, porém eu era alguns bons centímetros mais baixa que minha amiga então eu parecia uma criança tentando alcançar o balcão na ponta dos pés. O recepcionista de plantão era Felipe, o único outro brasileiro que trabalhava no hotel e tão jovem quanto a gente; acabou se tornando um amigo nosso.
— Olá, Felipe! – disse animadamente Olivia, mordendo o lábio inferior. Eu achei extremamente exagerado, mas Felipe pareceu adorar.
— Oi, Ollie. E ai, – ele disse sorrindo, sem tirar os olhos do decote de Olivia. Revirei os olhos, sem acreditar no quão fácil aquilo seria. — Como posso ajuda-las?
- Fe, mi amore, você acredita que minha amiga aqui esqueceu seus remédios na confeitaria? – ela falou enquanto balançava sua cabeça e, consequentemente, seus cabelos dourados. — Só não esquece a cabeça porque está colada no corpo, certo?
Os dois riram e eu soltei uma risada forçada, ouvindo meu coração bater muito forte de ansiedade. Olhei em volta, procurando quem eu queria. E se ele não tivesse recebido o recado? Ou pior, e se tivesse desistido de fazer o bolo comigo? Eu o faria de qualquer jeito, mas não podia negar que minha empolgação era mais por causa de Harry do que pelo bolo.
— Será que você pode emprestar as chaves da cozinha pra gente? – ela pediu com seus cílios cheios de rímel piscando freneticamente e eu sabia que ela estava fazendo um bico enorme por debaixo da máscara.
— Só porque você é a chef, hein? E está me devendo um brigadeiro – ele falou rindo e estava falando comigo, mas ainda olhava para Olivia.
Ele pegou as chaves e as colocou no balcão. Nesse momento, Harry chegou ao saguão, olhando em volta e acenou ao cruzar seu olhar com o meu. Ele estava absolutamente lindo com uma camiseta branca com um desenho que eu não conseguia entender de longe, uma calça marrom boca de sino e uma máscara da mesma cor. Seus cabelos castanhos estavam meio presos e meio soltos. Eu levantei a mão discretamente e pedi para ele esperar onde estava quando ele ameaçou dar um passo. Me virei para o balcão, vendo que Ollie já havia tirado a máscara e jogava seu sorriso charmoso para o garoto do outro lado.
— Obrigada, Fe! Assim que der eu faço seu brigadeiro, prometo! – agradeci enquanto eu pegava as chaves. Abaixei a máscara por um segundo para dar um beijo na bochecha da Ollie que me desejou boa sorte em voz baixa.
Ela ainda conversava com Felipe e o distraia quando dei as costas. Andei apressada até onde Harry estava e o puxei pelo braço sem dizer nada, levando-o até a porta do restaurante.
— Boa noite pra você também, – eu o ouvi dizer baixinho, sua risada sendo abafada pelo pano da máscara.
— Boa noite, Styles – respondi sem olhar pra ele, tentando segurar o sorriso que teimava em surgir no meu rosto. — Agora fica quieto, por favor.
Atravessamos o salão escuro, desviando das mesas redondas, mas parei no meio do caminho para mostrar-lhe o piano de cauda que ficava em um dos cantos do espaço. Seus olhos brilharam de forma visível mesmo no escuro, e ele ameaçou andar em direção ao instrumento, mas eu segurei seu braço e balancei a cabeça, proibindo-o de ir até lá. Seus ombros murcharam mas ele continuou me seguindo.
Para ir até a confeitaria, teríamos que passar por dentro da cozinha. Não liguei nenhuma luz, mas eu já conhecia aquele lugar como a palma da minha mão, então eu não soltei a dele e continuei guiando-o para ele não esbarrar em nada.
Acendi apenas as luzes principais para não chamar atenção e dei uma boa olhada para minha confeitaria. Respirei fundo, sentindo o cheiro de baunilha, açúcar e chocolates, com laranja, morango e limão. O que eu mais amava era isso: essa mistura de aromas e sabores que, combinados, funcionam como mágica.
— Então esse é o seu palco? – ele perguntou, olhando em volta e respirando fundo, tentando sentir os mesmos aromas que eu estava sentindo. — Já estou apaixonado.
— Espere até sentir os sabores. – eu falei, sorrindo.
 Lavei minhas mãos e o chamei para fazer o mesmo. Seus olhos cor de esmeralda entregavam o sorriso largo que ele estava dando enquanto dividia a pequena pia comigo, fazendo nossos braços se esbarrar.

— Você vai fazer o papel da Olivia hoje, está bem? Então pode pegar um avental, ou vai acabar sujando sua roupa Gucci se for tão desastrado quanto eu.
— Espera, eu vou te ajudar a fazer? — ele perguntou surpreso, seus olhos verdes estavam arregalados.
— Não era isso que você queria? Você quem quis vir – perguntei confusa.
— Na verdade eu achei que iria apenas te observar fazer a obra prima e, de bônus, comer e aprender – ele disse, dando de ombros e cruzando os braços ao se encostar na bancada de inox.
— Cozinhar é uma arte que só se aprende na prática, Senhor Styles – respondi, vendo-o revirar os olhos.
— Por favor, me chame só de Harry – ele pediu. Eu ri e assenti.
— Enfim, Harry... - continuei, dando ênfase em seu nome. — Se quer aprender, vai ter que me ajudar.
— Ok, chef! – ele brincou, batendo continência. — O quê eu faço primeiro?
— Pega a batedeira. – pedi e ele ficou parado, olhando para os equipamentos na bancada de trás com cara de dúvida. — Você sabe qual é, certo?
— Claro que sei! – ele disse, mas continuou parado, revezando seu olhar entre os equipamentos.
— Certo, vamos mudar. Abre aquela geladeira e pega dois ovos, eu pego a batedeira – falei rindo, e ele assentiu envergonhado.
Peguei a batedeira pesada e a coloquei em cima do balcão, ligando-a na tomada.
— Harry, batedeira; batedeira, Harry. Agora estão devidamente apresentados.
— Muito prazer, senhora “Batedeira”. – Ele falou rindo, entrando na brincadeira. — Aqui estão seus ovos.
— Muito impressionada por você saber o que são ovos – brinquei, e ele soltou uma risada irônica.
— Posso não ser expert na cozinha, mas te garanto que sei fazer muitas outras coisas – ele falou se aproximando perigosamente de mim, seu rosto ficando a centímetros do meu.
Agradeci por estarmos de máscara, mas minhas mãos tremeram mesmo assim e ouvi um dos ovos se quebrando no chão enquanto meus olhos estavam grudados nos dele.
— Merda! – murmurei, colocando o outro ovo em um pote de inox e pegando o papel toalha para limpar o chão. — Distanciamento social, Harry, já ouviu falar disso?
— Eu testei negativo, – ele murmurou revirando os olhos. Eu lancei meu olhar mais bravo, fuzilando-o. Ele apenas riu e levantou os braços como se estivesse se rendendo. – Ok, foi mal, vou pegar outro ovo.
Ele me entregou o ovo substituto e perguntou o que mais poderia fazer. Era ridículo como meu coração estava acelerado e meu cérebro parecia não funcionar. Eu tentava puxar a receita na minha memória, mas estava com dificuldades de pensar. Abri um dos armários e tirei o livro de receitas que eu carregava desde a infância, onde minha avó anotava suas receitas e eu continuei anotando até a faculdade de gastronomia e a pós em confeitaria. Folheei até encontrar o bolo red velvet e consegui lembrar de tudo na mesma hora. Pedi para ele pegar a manteiga, um limão siciliano e o extrato de baunilha na geladeira; eu peguei todos os utensílios necessários e os ingredientes que estavam no armário. Quando estava tudo no balcão, ele parecia estar mais empolgado ainda.
Antes de começar, peguei meu celular e vi que Ollie tinha mandado algumas mensagens.
"Seria muito errado se eu beijasse o Felipe? No fim das contas, ele sabe flertar."
"Ele disse que testou negativo e não tem uma alma viva aqui no saguão. Posso??"
", EU BEIJEI O FELIPE!!"
Eu ri para a tela do celular e percebi que Harry estava colado comigo, olhando para o aparelho em minhas mãos. Eu o olhei incrédula com a intromissão dele.
— Com licença?
— Felipe é o recepcionista, não é? – ele perguntou, ignorando minha indignação. Eu assenti e guardei o celular, voltando a lavar minhas mãos. Ele soltou uma risada rouca. — Ela é rápida.
— Ela é doida – respondi, balançando a cabeça. — Bom, vamos começar?
Eu e Harry fomos acrescentando os ingredientes aos poucos, enquanto eu o ensinava o porquê das quantidades serem aquelas e cada função dos ingredientes naquela receita. Era surpreendentemente divertido e gostoso estar ali com Harry, o ser humano normal Harry, me fazendo esquecer que aquele era o homem que eu estava ansiosa para ver cantar em algumas semanas. Ele me questionava tudo, fazia piadas, e é claro que nos sujamos muito e, depois de colocar a forma no forno, começamos a rir do caos que era a cozinha e nós mesmos.
Preparamos o recheio de cream cheese enquanto o bolo continuava no forno e aproveitamos para limpar a cozinha e pegar os pratos. Depois de rechear e cobrir tudo, Harry olhava para o bolo com olhos de uma criança vendo doce pela primeira vez. Cortei uma fatia e o servi.
— Você não vai comer? – ele perguntou.
— Primeiro eu quero ver sua reação – falei, observando-o tirar a máscara.
Meu Deus, a beleza desse homem era desumana. Suas covinhas estavam visíveis por causa do seu sorriso largo, e a forma como seu rosto se transformou quando ele comeu o primeiro pedaço fez tudo valer a pena. Era muito satisfatório ver a reação positiva dos clientes ao comer meus doces, mas eram raros os momentos que eu conseguia fazer isso. Mas com Harry era um outro nível, ele deixava transparecer todos os seus sentimentos em sua feição. O prazer tomou conta do seu rosto enquanto ele fechava os olhos e gemia baixo, mastigando lentamente. Aquilo deveria ser proibido por lei. Tentei controlar o calor que subiu pelo meu corpo, agradecendo por estar apoiada na bancada porque minhas pernas ficaram bambas no mesmo instante.
— Caralho, , esse é o melhor bolo que eu já comi na vida! – ele falou com a boca cheia do seu segundo pedaço. — Meu Deus, você tinha razão, o sabor é ainda melhor que o aroma.
— Os dois se complementam – murmurei sem conseguir tirar os olhos da sua boca. Ele parou de mastigar e apontou pro bolo. Eu neguei com a cabeça e o vi revirar os olhos.
-— Não vou comer isso tudo sozinho – ele falou, pegando a espátula de cortar bolo e me servindo um pedaço. Tirei a máscara com relutância e me afastei dele o máximo que a bancada permitia. Ele riu do meu ato e balançou a cabeça.
— O quê? Se você não leva a covid à sério, eu levo – falei, comendo mais um pedaço. Estava realmente delicioso.
— Eu levo sim, ... Mas estamos isolados aqui, pelo menos eu estou isolado há alguns bons dias. Se todo mundo aqui dentro fez o teste e de todo mundo deu negativo, é loucura não me sentir seguro.
— É, mas... – eu tentei pensar em uma desculpa e o sorriso no rosto dele me desafiava a fazê-lo, mas eu apenas suspirei e dei de ombros. — Você está certo, mas mesmo assim...
— Eu não acho que você queira distância por causa do vírus – ele falou, seu sorriso se transformando em um carregado de malícia. Ele se aproximou um pouco, e eu já estava na ponta da bancada, sem ter pra onde ir a não ser que largasse o bolo ali e saísse correndo. — Eu acho que você está com medo.
— M-medo? De quê? – falei gaguejando enquanto ele se aproximava mais ainda. Minhas mãos tremiam tanto que tive que apertar o garfo para disfarçar. Seu rosto estava a centímetros do meu.
— De não conseguir fugir do cream cheese – ele respondeu, e de repente eu senti seus dedos passando algo cremoso em meu rosto.
Cazzo, Harry! – exclamei brava, limpando o creme do meu rosto.
 Harry gargalhou tanto que teve de segurar a barriga que doía e secava as lágrimas que caiam. Peguei um punhado da farinha que ainda estava no balcão e joguei nele, vendo-a voar até cair em seus cachos perfeitos. Ele parou de rir e se endireitou, me olhando chocado.
— É guerra? – ele questionou, abrindo a geladeira.
— Não, Harry, eu só revidei, agora estamos quites! – falei tentando me afastar e procurando algo que eu pudesse jogar nele.
Encontrei uma bisnaga com calda de morango dentro do armário e a preparei como uma arma. Ao mesmo tempo que ele jogava o resto de um suco de laranja de garrafa, eu joguei a calda. Ele jogou morangos enquanto eu jogava amendoins. Por fim, os dois estavam sentados no chão, no meio da sujeira, rindo tanto agora que era a minha barriga que doía.

— Eu estava precisando disso... – ele disse, tentando recuperar o fôlego. Me arrastei até ficar do seu lado com as costas apoiadas na bancada, tentando recuperando o ar. — O que significa cazzo?
— É tipo "porra" em italiano. – falei enquanto ria da sua pergunta. — Os italianos tem o segundo melhor xingamento do mundo.
— Qual é o primeiro? – ele questionou.
— O português do Brasil, é claro! – falei fingindo estar ofendida por ele não saber disso.
— Aaaah, é daí que vem seu sotaque! – ele exclamou como se tivesse descoberto as Américas. — Adoro o seu país.
— Tanto que até tatuou na sua coxa – murmurei rindo.
— Então quer dizer que você é uma fã? – ele falou divertido e me olhava como se eu tivesse lhe contado meu maior segredo.
— Digamos que eu tenha comprado o ingresso para o seu show na mesma hora em que começaram as vendas – confessei envergonhada. Ele me olhou surpreso e riu.
— Uau, e você não surtou até agora? Eu lembro de as fãs brasileiras serem as mais loucas e animadas de todas.
— Hoje eu descobri que tenho muito auto controle. – falei rindo.
— Eu também. - ele respondeu, dando um sorriso torto.
Respirei fundo, tentando ignorar minha mente que parecia gritar, me dizendo que o cara ao meu lado estava dando em cima de mim mais uma vez. Eu discutia mentalmente comigo mesma, respondendo que não passava de pura criação da minha imaginação fértil; eu era incapaz de acreditar que ele tivesse interesse em mim.
Me levantei com certa dificuldade, tentando não escorregar na sujeira do chão e o ajudei a se levantar, torcendo que ele não percebesse o quão trêmula estava a minha mão.
— Temos que limpar isso.
— E isso aqui também – ele disse, passando a mão em uma mecha do meu cabelo e tirando um pedaço morango que ficou preso. Ele ficou me olhando, dessa vez ele estava sério e até franzia a testa. Eu o ouvi cantarolar baixinho.  — Tastes like strawberries on a summer evenin'... And it sounds just like a song.
— Você está cantando sua própria música? – murmurei tão baixo quanto ele, com seu rosto a centímetros do meu e sua mão ainda em meus cabelos.
 Ele me olhava como se analisasse uma espécie desconhecida de ser vivo, mas isso não me incomodava tanto quanto deveria. Dessa vez, não tínhamos nenhuma máscara nos impedindo ou nos protegendo.
— Você me fez lembrar dela. – ele falou dando de ombros. Ele sorriu e se afastou, me deixando totalmente frustrada. — Onde estão os itens de limpeza?
Depois que eu e Harry arrumamos tudo em um silêncio constrangedor, nós limpamos nosso rosto o melhor possível e colocamos nossas máscaras. Uma pontada de tristeza acertou meu peito por não poder mais ver seu sorriso lindo, agora escondido atrás daquele pano ridículo. Encontrei Ollie na recepção, ocupando o lugar que era de Felipe. Ela disse que acontecera um "acidente" com a calça dele, fazendo-o ter que ir ao banheiro, e eu entendi tudo na mesma hora. Dei boa noite depois de chama-la de pervertida, deixei alguns pedaços do bolo com ela e fui encontrar com Harry na frente dos elevadores. Dentro do elevador, ele me olhava com os olhos brilhando, visivelmente estava sorrindo. E eu, como uma idiota, retribuia o olhar o tempo todo. Quando chegamos no quarto andar, ele parou na porta do elevador, segurando-a com a mão livre; a outra segurava um prato com metade do bolo que fizemos.
— Obrigada pelo bolo, de verdade. E desculpa pela bagunça. – ele falou, e eu assenti.
— Não tem que agradecer, você o preparou tanto quanto eu. – respondi sorrindo, mesmo que ele não pudesse ver. — E a bagunça valeu a pena.
— Valeu a pena mesmo, hoje foi bem... Diferente.
"Diferente? Que merda ele quer dizer com diferente?" eu pensei, me questionando se deveria considerar isso uma coisa boa ou ruim.
— Até mais. – ele falou enquanto soltava a porta, acenando para mim antes de dar as costas. Eu acenei de volta mas ele obviamente não viu.
— Até. – Murmurei para as paredes de madeira do elevador, sentindo que um pedaço do meu coração foi junto com o pedaço do maldito bolo red velvet.


Continua...



Nota da autora:Oi, meus amores! E o primeiro date aconteceu!! Meu Deus, que date dos sonhos, né? Me contem nos comentários o que vocês acharam! E não se esqueçam: isso é uma ficção! Na vida real, não esqueçam de usar a máscara se precisarem sair, lavar bem as mãos e manter o distanciamento social (sim, mesmo se for o Harry Styles!). Até o próximo capítulo! ❤


Outras Fanfics:
Moon Child


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