7 Psicopatas

Última atualização: 06/11/2017

Prólogo

abriu os olhos e a primeira coisa que viu fora a imagem turva e fragmentada de seus próprios pés flutuando em meio ao cenário escuro e frio no qual se encontrava. Sentiu seu corpo congelar gradualmente e os ouvidos zumbirem com o som abafado das hélices e do motor no navio; viu caixas grandes e de madeira afundarem à sua volta, todas indo em direção ao fundo do mar, seguindo o completo esquecimento. Soube que o próprio corpo também teria aquele destino, e apesar de reconhecer que deveria lutar para voltar à margem, continuou imóvel, calmo e sereno, vendo os dedos das mãos suspensos na água doce e salgada.
Ao longe, avistou um reflexo dourado ondulando a correnteza interna, um contraste claro no meio do oceano escuro. soube que se tratava de no momento em que identificou a forma humana. era a única que poderia ter sobrevivido à explosão do navio, por mais contraditório que aquilo fosse.
O escritor começou a nadar em direção a ela, e apesar da fraqueza e do frio impedindo os seus movimentos, ele a alcançou em poucos segundos, quando o ar já começava a faltar em seus pulmões. Segurou-a em seus braços, vendo seus cabelos espalharem-se pela água, e observou o seu rosto, os olhos fechados de forma pacífica. Passou os dedos cuidadosamente pela pele exposta do pescoço da mulher e viu que a marca vermelha que a assombrava não estava mais ali, sentindo-se grato e aliviado quanto àquilo.
puxou consigo quando começou a nadar para a margem, seguindo o reflexo pálido da lua e tentando não ser arrastado para baixo com os escombros que ainda eram lançados do navio em direção às profundezas.
O mistério sobre se conseguiu alcançar o topo permanecera às sombras de Nothern Lake por anos.


Capítulo 01 - As Coisas Andam Estranhas em Northern Lake

pressionou o cigarro contra o fundo sujo do cinzeiro, bufando enquanto tentava manter os olhos abertos. Seu rosto se contorceu automaticamente quando os olhos do homem bateram contra o relógio de parede extremamente barulhento, qual marcava exatas três horas da manhã, sem mais nem menos. O gosto do chá gelado que tomara mais cedo ainda impregnava o seu paladar, deixando-o um tanto zonzo, e o seu nível de agonia e tédio aumentava cada vez que olhava o arquivo em branco na tela de seu computador.
, como todo bom escritor Irlandês, era viciado em álcool, cigarros e sofria de insônia. Seus cabelos castanhos estavam sempre bagunçados e sua casa parecia um grande depósito de móveis velhos e empoeirados. Sua mente sempre divagava para lugares além dos reais e situações incompreensíveis para pessoas comuns.
De um jeito ou de outro, porém, ele ainda era um escritor, autor de um thriller famoso em seu país e ex-marido de uma jovem mulher loura.
O problema de tudo aquilo era, basicamente, que não conseguia mais escrever.
Formular frases e elaborar roteiros tornara-se um dos mais complexos desafios na vida do escritor. Os títulos escapavam-lhe pela cabeça e nunca pareciam representar o que ele queria, assim como qualquer história nunca era boa o suficiente. Com o tempo, aceitou que sua fonte de inspiração havia acabado e que ele deveria arrumar outros meios de conseguir escrever, mas era realmente difícil. Ele tinha medo de decepcionar a si mesmo e aos seus fãs. Havia criado um romance tão bem aclamado no último ano que escrever algo inferior àquilo seria um assassinato à sua carreira e reputação. As pessoas comprariam e leriam a nova Obra achando que seria algo tão épico quanto Os Sete Psicopatas, e iriam se decepcionar.
não podia deixar aquilo acontecer, e essa era uma das razões pelas quais tudo o que ele escrevia não passava das pilhas de rascunhos para algo oficial.
fechou o notebook e massageou o espaço entre suas sobrancelhas. Sentia um pesar incômodo nos olhos, como se estivesse cansado da luz insistente do computador. Sua cabeça não doía, mas transportava sensações de enjoo e exaustão através do seu sistema nervoso que, para o resto de seu corpo, caía como veneno.
sentia-se emocionalmente cansado. Tirou os óculos e olhou por cima da mesa, encarando a vista que a janela de seu quarto guardava tão dramaticamente: um retrato quase surreal de uma floresta calma e escura, repleta de corujas e árvores e ventanias. A cabana na qual o escritor gostava de se esconder do mundo localizava-se bem no coração de toda aquela melancolia selvagem, como se tudo ali fosse raízes ligadas às paredes mal cuidadas da residência.
e sua cabana feita de madeira eram os únicos sinais de civilização dentro de um raio de dez quilômetros. Seria preciso uma picape e um senso de localização tão bom quanto o do próprio escritor para alcançar o refúgio do homem, e por causa daquilo nenhum fã ou paparazzi se arriscava a incomodá-lo.
também não via a necessidade de ter vizinhos. Nunca fora um homem sociável, mesmo que no último ano seu agente o obrigara a aprender a mostrar carisma em entrevistas e sessões de autógrafo, portanto a falta de seres humanos à sua volta não fazia diferença.
parecia uma espécie de lobo solitário. Orações e parágrafos eram as únicas formas de comunicação que ele entendia. As únicas coisas que faziam sentido e eram agradáveis.
Uma pena que o agradável não era gentil com ele; seu ponto forte, o refúgio de sua imaginação fértil, estava acabado: ele era um escritor que não tinha mais como escrever.
girou na cadeira de computador, sentindo as rodinhas arranharem o chão de madeira. Olhou para a sua mesa de trabalho e encontrou o jornal local que coletava todas as manhãs no posto de gasolina. Colocou os óculos de volta no rosto e leu a manchete acompanhada de foto e fontes que dizia:
"Garota desaparecia em Northern Lake"
O escritor leu a história da menina que saiu para ir à escola e nunca mais voltou. Examinou os relatos que diziam o quão estranho aquele sumiço era e concordou com eles, afinal Northern Lake era menor que muitas vilas ao Sul dos país.
Nada de ruim acontecia ali.
Afetado por aquela notícia e outros motivos, naquela noite, no meio da floresta silenciosa e dentro de sua cabana fria, ele resolveu se deitar mais cedo e, observando a madeira do teto de seu lar, dormir.
Talvez a inspiração um dia voltasse para lhe abençoar.

...
Northern Lake era uma cidade pequena e conhecida por ter um dos invernos mais rigorosos dos Estados Unidos. Não haviam ossos suficientemente fortes para resistir às tremedeiras causadas pelos vários graus negativos típicos das manhãs, tardes e noites do local.
sempre dormia com demasiados cobertores e o aquecedor ligado no máximo de sua precária potência, afim de conseguir manter-se quente durante as noites que sempre eram piores no meio da floresta.
Foi estranho, então, quando ele acordou fora de sua cama, longe de seus cobertores e deitado sobre o deck de madeira do lago Rordeth.
O sol que nascia sob o lago jogava luz contra o seu rosto e o homem se sentou, não sentindo tão bem os dedos nus dos pés. Olhou à sua volta e viu as árvores que margeavam o lago, as montanhas que isolavam a cidade do resto do país, e não entendeu nem por um segundo como havia ido parar ali. Levantar da cama e caminhar pela floresta parecia uma ideia impossível e distante, como se aquela situação, o frio e o barulho da água do lago se movimentando fosse um sonho no qual ele ainda estava preso.
se levantou, e apesar do sol que aquecia a parte de trás do seu pescoço, sentia tanto frio que as suas orelhas e a ponta de seu nariz ficaram dormentes. Os seus pés também continuavam no mesmo estado precário e congelado de antes e ele agradeceu por ter dormido de calças e moletom naquela noite, senão também perderia a sensibilidade dos braços e pernas.
O escritor voltou para a sua cabana, percorrendo o longo e escorregadio caminho colina acima, e se esgueirou para dentro do próprio chalé enquanto a manhã tomava o céu lentamente. Acomodou-se no conforto de um edredom quente, enrolando-se nele enquanto preparava uma xícara de café para aquecer-lhe também a alma, e perdeu-se na mais pura confusão enquanto esperava a água ferver.
Não entediada o que havia acontecido. Sentia-se perdido no tempo, sem saber que horas eram ou quanto tempo havia dormido. Pensou que poderia estar sofrendo de sonambulismo por conta do estresse pela falta de inspiração - o que não seria a primeira vez.
sentou-se na pequena mesa de madeira da cozinha e bebericou o seu café, refazendo todos os passos da noite anterior e tentando achar brechas para aquela confusão, mas não conseguiu pensar em nada que justificasse o que havia acontecido.
Parou de pensar naquilo quando o seu telefone tocou e ele o atendeu no segundo toque. O barulho da música padrão fez a sua cabeça doer como se alguém estivesse brincando de tiro ao alvo com uma espingarda no quarto ao lado. A voz na linha paralela soou tão doce que ele se esqueceu das dores por um breve momento.
- Papai?
sorriu quando ouviu a voz de sua filha. Chloe tinha apenas seis anos e cabelos tão louros quanto os da mãe. Era o amor da vida do escritor, e ele sofria todos os dias por não poder estar sempre ao lado dela.
- Diga, docinho. Aconteceu alguma coisa?
- Mamãe está doente.
- O quê?
Chloe, do outro lado da linha, suspirou.
- Ela tá na cama o dia todo. Eu acho que a mamãe está doente.
não entendeu se aquilo era algum tipo de linguagem infantil ou se ela estava reproduzindo um acontecimento de modo errado, mas resolveu levar ao pé da letra.
- Ela vai ficar bem, meu anjo. Sua mãe é forte.
- É, eu sei. Mas achei que você poderia dar um jeito de fazê-la sarar.
O escritor calou-se ao ouvir aquilo. Apertou mais o cobertor contra o corpo e esperou que a filha continuasse:
- Ela sempre ficava bem quando você cuidava dela, papai. Por que não cuida mais?
- A sua mãe sabe se cuidar sozinha - escolheu as palavras com cuidado. - Sempre soube, na verdade. Eu só lhe dava apoio. Não se preocupe que ela ficará bem.
- Foi o que ela disse - a criança concordou. - Mamãe também falou que às vezes você não ajudava tanto e apenas piorava.
O homem restringiu o impulso de xingar baixo pela grosseria de Rose, sua ex mulher, em relação a ele. ainda era pai de Chloe e, mesmo que ele e Rose tivessem se separado da forma menos amigável possível, ele ainda merecia respeito quando em relação à filha.
- Sua mãe sabe que você está me ligando? - perguntou, querendo mudar de assunto e notando de repente que Rose nunca permitira que a menina ligasse sozinha para o pai.
- Não. Eu peguei o telefone da bolsa dela. Estou com saudades de você - respondeu com a voz triste.
O coração de afundou dentro do peito.
- Eu sei que sente saudades, meu anjo, e eu também sinto; mas você não deve usar o telefone da sua mãe sem o consentimento dela e...
Enquanto terminava a frase, ouve um ruído do outro lado da linha. Em um segundo ele soube que o que havia acontecido, e a voz de Rose partiu a atmosfera que ele dividia tão carinhosamente com a filha:
- , eu já falei para você não ligar para a Chloe sem que eu esteja por perto. Que droga! Lembra-se da ordem de restrição?! Não piore as coisas para si mesmo.
O escritor sentiu todas as veias de seu corpo inflarem de ódio. Ele queria ser calmo e racional naquele momento, sabia que tinha de ser, mas Rose era tão injusta e teimosa que o homem perdeu o controle.
- Ela é a minha filha, Rose! Não pode tirá-la de mim.
- Ah, eu posso. Você só faz mal a ela e a todos à sua volta.
Aquilo o afetou da pior forma possível e o homem se recostou da cadeira, buscando apoio para se defender.
- Eu não faria mal a ela e você sabe disso - disse, e parecia uma súplica.
Rose demorou alguns segundos para responder.
- Você já fez, . Naquela noite, se lembra? Você feriu a sua própria filha e a mim. - Então o seu tom de voz se elevou: - Fique longe de nós duas!
Rose desligou o telefone antes que pudesse responder, e o homem não teve outra reação além da de jogar o aparelho pequeno e frágil que usava para se comunicar contra a parede.
Ele escutou o barulho que acompanhou os estilhaços de seu celular e acalmou-se lentamente, à medida que aprendia a controlar a respiração e os impulsos movidos pela raiva desenfreada. Seus dedos tremiam de frio e nervoso e seu coração parecia prestes a explodir.
O escritor tão teve muito tempo para se concentrar no ressentimento. No segundo em que pensou em levantar para recolher os destroços de seu celular o barulho das batidas na porta da frente o desviou de seu objetivo.
enrolou-se no cobertor e, ainda mal humorado, foi até a entrada da cabana, abrindo a porta e sentindo o frio do lado de fora invadir a sua sala.
- Por Deus, ! O que aconteceu?
O escritor revirou os olhos para o seu agente, Brian, e deu espaço para que ele entrasse.
- Não aconteceu nada. - respondeu, jogando-se contra o sofá.
- Não pode sair por aí enrolado em um cobertor como se isso fosse a última moda. Você é uma figura pública e tem uma imagem a manter!
- Figura Pública... - repetiu, não gostando da ideia - Eu só quero um pouco de paz.
- Você tem algo melhor que isso, camarada: fama; fãs e nome. Deveria estar feliz!
afundou ainda mais no sofá.
- É, eu acho que sim.
- Enfim - continuou Brian. - Passei pra te buscar para aquela entrevista na rádio local.
gemeu.
- Eu tinha me esquecido disso!
- Vamos, estamos atrasados. Espero você no carro, ok? Não se esqueça de pegar a grana a caneta de autógrafos.
Brian saiu pela porta da frente e ficou ali, jogado contra as almofadas de seu sofá mofado e sentindo o cobertor acolher-lhe em meio ao frio. Quando se convenceu de que era necessário, levantou-se e, arrastando o cobertor pelo chão de madeira, subiu as escadas do chalé e entrou em seu quarto.
Procurou o seu blazer, juntou-o com alguns conjuntos de peças sociais e tomou um banho quente antes de fazer a barba e se vestir. Procurou os sapatos e os calçou quando ouviu a voz impaciente de Brian acompanhar uma buzina apressada na parte debaixo do chalé. .
Quando se olhou no espelho, sentia-se melhor em relação à Rose, o incidente no deck e às saudades da filha. Parecia que uma mente ocupada era tudo o que ele precisava para se distrair de seus problemas.
Desceu as escadas e trancou as janelas e portas, encontrando-se com Brian ao entrar no Jipe do agente e sentir o aquecedor do veículo proteger-lhe do frio quase mortal da floresta. Sob o painel do carro havia o jornal da manhã, e sentiu-se compelido a lê-lo para passar o tempo.
Havia atualizações sobre o caso da garota desparecida, mas nada realmente tinha mudado: seu paradeiro continuava sendo um mistério. Além daquilo, ainda leu sobre uma embarcação que, por algum motivo, apareceu abandonada nas docas de Northern Lake. Um pequeno iate velho e precário que navegou até ali sem tripulação ou que fora abandonado em alto mar e deixado à deriva até a correnteza jogá-lo no cais mais próximo.
Enfim, os dois, Brian e , partiram com o carro, e quando atingiu a estrada por entre as montanhas o escritor olhou pela janela, para o lago e o deck ao longe, e pensou mais uma vez sobre como as coisas andavam estranhas em Northern Lake.


Capítulo 02 - A Tempestade Enfim Chega

sentou na cadeira almofadada do estúdio de rádio e esperou em silêncio enquanto o locutor do programa anunciava a sua presença. Estava frio por conta do ar condicionado e seus dedos quase não sentiam o toque da madeira lisa da mesa.
Quando percebeu, era a sua vez de falar. Ele buscou a voz no fundo da garganta e pigarreou, sorrindo simpático e respondendo à saudação de Alan, o apresentador:

- Boa tarde, Alan. É um prazer estar aqui!

O outro concordou e também sorriu, seguindo adiante com a entrevista:

- Você é , autor do best-seller mundial Os Sete Psicopatas, que foi lançado há alguns meses, mas isso todos em Nothern Lake já sabem - riu, logo acrescentando: - Você é o orgulho desse pequeno vilarejo!

sorriu e agradeceu. Alan continuou:

- Você pode nos contar um pouco sobre a história do livro?

concordou com a cabeça e começou:

- É a história de um hospital psiquiátrico localizado entre as montanhas, distante de tudo e de todos. Na ala feminina, existem sete pacientes, em especial, que desenvolvem um plano de fuga. Após provocar um motim e fazer de reféns funcionários e médicos, as sete resolvem adiar um pouco a fuga e usar a noite livre para se vingar dos enfermeiros que as maltrataram durante os anos em que estiveram internadas. Dentro desse grupo há todos os tipos de mulheres, com todas as idades e níveis de demência.
"A história narra essa noite de terror vivida pelos funcionários, além de contar os relatos pessoais de cada uma das sete psicopatas."

Quando terminou, Alan o olhava vidrado. Parecia um fã.

- Uau! Arrepiante! - comentou - Eu li o livro todo em uma noite e posso dizer que não há nada parecido no mercado. É genial.
- Obrigado.
- Mas, diga-me, , haverá uma continuação? Escutei boatos por aí e queria aproveitar a sua ilustre presença para esclarece essa dúvida.
- Sim, sim, Alan, haverá. Já comecei a escrever e não deve demorar muito - mentiu.

só conseguia pensar em Brian e em como ele ficava furioso quando o escritor negava novos projetos. O agente dizia que era um assassinato às esperanças dos fãs, e precisava de seus fãs.

- Já tem um título? - Alan perguntou.
- Tenho, mas é segredo - riu.

Alan concordou e deu continuidade à entrevista, perguntando curiosidades sobre a história, detalhes de sua vida pessoal e pedindo para que chamasse a próxima música.
Quando a entrevista acabou, o escritor agradeceu ao velho amigo pelo convite e saiu do estúdio, encontrando Brian esperando-o no corredor acarpetado do prédio.
Ele segurava um copo de café em cada mão e parecia orgulhoso.

- Você se saiu bem - parabenizou - Desviou das perguntas sobre a separação de forma delicada e não se exaltou.

pegou um dos copos.

- Eu sei o que eu faço, Brian. Vivi sem um agente por muito tempo.
- Eu sei disso. Até porque a sua carreira está um lixo.
- Ha-ha. - ironizou - Minha carreira está ótima.

Quando bebeu o liquido quente dentro de seu copo, praticamente o cuspiu para fora. O gosto era horrível.

- Droga, Brian, está sem açúcar!

O escritor se afastou do agente e andou em direção a um pequeno carrinho no fim do corredor, qual ficava perto do elevador. Lá, havia colheres de plástico e saches com sal e açúcar. esticou a mão para pegar um, mas uma voz o fez parar:

- Acredite: não vai melhorar.

Levantou os olhos e encontrou uma mulher loura sorrindo.

- Perdão?
- O café daqui é horrível. - disse ela - Além de que todos os saches são de sal. O açúcar acabou pela manhã.

recolheu a mão vazia. Estava prestes a soltar qualquer tipo de flerte inocente quando ela o interrompeu:

- Meu nome é - estendeu a mão - Prazer.

O escritor olhou para ela por um segundo antes de cumprimentá-la de volta. Preferia quando as pessoas já sabiam o seu nome.

- .
- O escritor?- ela perguntou, e parecia surpresa.

franziu o cenho. Estava acostumado com reconhecimento, admiração e surtos, mas não com aquele tipo desconfiado de surpresa.

- Sim, o escritor. Por quê?
- Nada, é só que... Não o imaginei desse jeito.
- De que jeito?
- Bonito.

Ele sorriu de canto.

- Estereótipos, eu sei - a moça deu de ombros - Mas imaginei um velho que não toma os seus remédios em dia e só usa blazer.
- Bem, você acertou duas de três.

riu envergonhada ao ver, tarde demais, que ele usava um blazer marrom escuro. a acompanhou sem ressentimentos, achando, na verdade, muita graça. Depois que o momento passou, a loura acenou com a cabeça e se despediu, começando a se afastar. a chamou antes que a mulher desaparecesse pelo corredor.

- Será que eu posso te pagar um café qualquer dia desses? - perguntou.

- Não - ela respondeu, tão séria e direta que se assustou. Não costumava levar foras. sorriu e continuou: - Eu pago o café. Você paga os donnuts.

concordou, aliviado internamente.

- É justo.

pareceu ficar contente e começou a andar de novo. a fez parar pela segunda vez e sentiu que aquilo estava ficando repetitivo.

- Você não me deu o seu número!

A mulher ainda andava quando respondeu:

- Açúcar!

abaixou os olhos para os saches de açúcar e encontrou um pequeno cartão prateado ali. Não havia o nome de e muito menos um número de telefone. A única coisa gravada no material gelado era o símbolo do infinito numa cor dourada.
não entendeu o significado daquilo, mas também não conseguiu encontrar em nenhum lugar do prédio, então optou por voltar para casa e tentar dormir um pouco.
Seguiu Brian até o Jipe do agente e ficou no banco do carona, em silêncio, durante todo o percurso para casa.
Em suas mãos, o cartão era gelado e tendia a escorregar pelos seus dedos.

...

Naquela noite, quando abriu os olhos, estava em pé diante do fogão de sua cozinha, com uma frigideira sobre o fogo e os pés nus contra o chão.
Ele abriu os olhos e pulou para trás quando sentiu a pele da mão queimar junto com o cabo plástico da frigideira, que começava a derreter devido ao tempo demasiado longo que ficara exposto ao fogo.
assoprou a queimadura e depois foi para a pia, deixando os dedos embaixo da água gelada e sentindo o alívio que o ato proporcionou.
Ficou ali por alguns minutos, esperando a dor passar, pensando em como o seu recente sonambulismo estava começando a ficar perigoso.

...

No dia seguinte, enrolou-se em seu cobertor e abriu o notebook sobre a mesa da cozinha, olhando o documento em branco à sua frente e esperando ter algum surto de inspiração.
Estava frio naquela manhã, como em todas as outras. A neve caía pelos cantos das janelas e sobre os galhos das árvores e fazia tudo ficar branco e preto demais. acabava por se sentir ainda menos inspirado naquelas situações. Seus dedos pareciam congelados e seu cérebro preocupava-se mais em tentar parar de tremer do que em realmente escrever.
Depois de quase três horas ali, resolveu ceder à derrota. Levantou-se da mesa e suspirou, tentando conformar-se, mais uma vez, com o seu estado criativo.
Pegou o cartão de de dentro do bolso e o encarou pela vigésima vez no dia; estava intrigado com o significado daquele símbolo e queria descobrir como aquilo o levaria à .
Tateou os bolsos atrás de seu celular. Jogaria-o no Google e veria se tinha algum significado. Não achou o aparelho, porém, e começou a procurá-lo pelos cantos da casa. Revirou todos os cômodos, mesmo que não tivesse passado por eles naquele dia, e só parou quando se lembrou de tê-lo deixado na estação de rádio.
Sobre o carrinho de café, enquanto conversava com .
correu até o lado de fora de sua casa e ligou o próprio carro, saindo apressado em direção à estrada nas montanhas. Precisava chegar à estação de rádio o mais rápido possível. Seria o inferno na terra se alguém achasse o seu telefone antes dele...
Toda a vida de estava naquele aparelho: rascunhos, contatos, agendas, lembretes...
Ele precisava se apressar.
Dirigiu o mais rápido que pôde, chegando ao local em mais ou menos vinte minutos.
Era fim de tarde e o sol começava a se pôr. estacionou de qualquer jeito e entrou pela porta da frente com pressa, pegando o elevador. Saiu no andar em que a rádio se localizava e avistou o carrinho ao seu lado, na saída do elevador, mas quando o alcançou, notou que seu telefone não estava lá.
Procurou por algum funcionário, esperando que alguém pudesse ter achado o aparelho e o guardado. Encontrou um jovem de cabelos negros e roupas desleixadas na porta do estúdio no qual dera entrevista mais cedo.

- ! - alegrou-se ele - O que está fazendo aqui? Vai dar outra entrevista?

O escritor olhou para o interior da sala e viu que só havia Alan dentro dela. O apresentador parecia focado em comandar o programa.

- Você viu um celular perdido por aí? - perguntou. - Prata, modelo novo.
- Não, desculpe. Mas você pode falar com o nosso faxineiro. Talvez ele o tenha encontrado.
- E onde ele está?
- Provavelmente no andar de cima, terminando o turno da tarde.

assentiu e se retirou, andando na direção do elevador. Apertou o botão do andar de cima e esperou impaciente enquanto a caixa de ferro o levava até o local.
Quando a porta se abriu, deu de cara com um corredor escuro e vazio.

- Oi? - chamou, mas ninguém respondeu.

Ficou parado na porta do elevador por alguns minutos, esperando algum movimento. Tudo estava silencioso e frio demais. notou que não havia ninguém ali, de fato, e que o andar era completamente vazio, como se estivesse abandonado.
Precisava de seu celular, porém, e se o faxineiro estivesse ali, teria que achá-lo.
Começou a caminhar pelo corredor, olhando para além das portas à procura de alguém. Parou no último cômodo, que como todo o resto do lugar estava vazio, e encarou o seu interior, intrigado com um fato.
Adentrou a sala e andou até o seu fim, chegando à grande janela de vidro que o permitia ver o céu e toda a extensão da pequena cidade níveis abaixo do topo da montanha.
Franziu o cenho para a imagem que viu, um tanto preocupado. Nuvens carregadas tomavam todos os centímetros disponíveis no céu, e pareciam se aproximar cada vez mais.
A tempestade da qual tanto lera sobre nos jornais havia finalmente chegado.
Virou-se para se retirar, pensando em como voltaria para casa com um tempo daqueles, mas parou subta e violentamente com o susto que se seguiu, onde, ao se virar, o escritor esbarrou em algo - ou alguém.
Um relâmpago estalou às suas costas quando deu dois passos para trás, e a luz produzida pelo fenômeno natural permitiu que o escritor reconhecesse quem estava ali.
Um senhor de uniforme azul e postura cansada o encarava, carregando um esfregão e um balde de água.

- No que posso ajudar, filho? - perguntou. Parecia um sujeito mal-humorado.
- O senhor é o faxineiro? - perguntou, recuperando-se do susto. Sentia-se um idiota.
- Sr. Cooper para você.
- Engraçado - ele riu - Eu tenho um personagem com esse sobrenome.

O velho não parecia muito disposto a ter conversas aleatórias, portanto, prosseguiu:

- Sr. Cooper, você teria visto um aparelho celular por aí?

O outro negou.

- Não sou coletor de lixo. Se algo está em um lugar que não deve estar e não tem dono, eu jogo fora.

Era tudo o que ele precisava.

- Mas o senhor viu? Mesmo que tenha jogado fora?
- Garoto, volte outra hora! Preciso terminar antes da tempestade. Não é seguro ficar aqui com toda essa escuridão.

não entendeu uma palavra do que o velho disse, mas resolveu se retirar. Lidar com os caduques alheios de um homem de sessenta anos não o ajudaria a achar o seu celular.
Voltou para o elevador e ficou parado no centro da caixa de ferro enquanto, após apertar o botão, esperava as portas unirem-se para isolá-lo daquela loucura.
A última coisa que viu antes de finalmente ser levado para o andar de baixo fora o reflexo de um trovão iluminar o corredor, fazendo as sombras do faxineiro projetarem-se pelo chão e tornarem-se gigantescas.

...

- Como assim você perdeu o seu celular?! - Brian estava furioso, quase desesperado. - E se alguém o encontrar?

estava jogado em seu sofá, olhando a lareira apagada.

- Eu voltei à estação de rádio para procurar, Brian, mas não achei e ninguém o encontrou.

O agente batia os pés incessantemente contra o assoalho de madeira da cabana de . Parecia pensar em algo.

- E se dermos uma recompensa por quem o devolver?
- Não acha dramático demais?
- Quem tem o número de telefone do Stephen King é você! E se passarem um trote em seu nome?
- Ninguém vai passar um trote para o Stephen King, Brian. - respondeu pacientemente - Vou comprar outro celular. Aquele já estava quebrado, de qualquer forma.

se lembrava bem do estrago que jogá-lo na parede por conta da raiva de Rose fizera.

- Então faça isso logo, , porque eu preciso manter contato com você e não posso vir a esse fim de mundo o tempo todo.
- Irei à cidade hoje à tarde - disse, levantando-se. Andou até a mesa da cozinha e pegou o cartão de - Enquanto isso, quero que você procure para mim o significado disto.

Brian pegou o cartão e o encarou.

- Do quê?
- De tudo. Do símbolo, cor, seus significados. Qualquer informação serve. Preciso achar uma maneira de me comunicar com a dona desse cartão.
- Tudo bem - concordou um tanto cético. - Mas pode ser simples.
- Como assim?
- Bem, é só um palpite, mas o centro de Nothern Lake é minúsculo e só possui oito ruas. O símbolo do infinito, se você o virar, transforma-se em um oito.

ergueu o cartão de Crowford contra a luz, colocando-o em comparação mental com a placa da rua Oito, qual exibia quase o mesmo símbolo do pequeno objeto em sua mão.

- Obrigado - disse - Pode ir agora.

Brian retirou-se, ainda bravo pelo sumiço do celular, e jogou-se contra o sofá, concentrado no cartão.

Naquela tarde, o escritor foi até a cidade para comprar um aparelho descartável. A tempestade estava em seu ápice quando ele estacionou. O vento que corria pelas ruas de Nothern Lake era colossal, do tipo que te impossibilita de andar, e o homem esperou dentro do carro enquanto as grossas gotas de chuva manchavam o seu para-brisa.
A tarde clara e tranquila transformara-se em pura confusão, deixando o céu escuro, negro, carregado de nuvens estrondosas. Relâmpagos estouravam ao fundo. Pessoas passavam ao seu redor escondendo-se atrás de seus casacos e lutando contra guarda-chuvas.
desceu do veículo e correu de cabeça baixa até a porta de entrada da loja de conveniências do posto de gasolina. Quando entrou, deparou-se com um réplica de si mesmo feita de papelão, achando estranho um estabelecimento daqueles gostar de vender livros.
Andou até o balcão e pediu para a atendente um telefone descartável, qual ela buscou em poucos minutos, registrando um número e catalogando o valor.
A moça tinha os cabelos laranja, curtos e despenteados.

- Gostei do estilo - comentou.

A menina sorriu e voltou a catalogar a venda, respondendo distraidamente:

- Fiz em homenagem à personagem de um livro.
- Qual livro? - ficou curioso.
- O seu. - ela respondeu de maneira casual - Psicopata Número Dois. É a minha preferida.

sentiu-se lisonjeado.

- Fico feliz que tenha gostado. - mas, no fundo, achava estranho uma adoração tão fútil a uma psicopata cruel.

retirou o dinheiro da carteira e, na hora de pagar, viu que as mãos da atendente eram machucadas. Cortes profundos nos dedos e nas costas das mãos faziam a sua pele ser um mar dolorido de hematomas rosados, de machucados recentes e frágeis.
Ele pensou em perguntar o que tinha acontecido, em oferecer ajuda, mas o barulho do alarme de seu carro disparando o fez desviar a atenção.
Do lado de fora começava a chover granizo em pequena quantidade, e uma pedra chocando-se contra a lata provocou o disparo do sistema de segurança.
terminou a compra e saiu da loja, voltando correndo para o seu carro, protegendo a cabeça contra qualquer objeto que pudesse cair dos céus.
Entrou no veículo e desembrulhou o aparelho recém comprado, salvando o número de Brian e mandando uma mensagem de texto ao agente, dizendo que usaria aquele telefone até o tempo melhorar e ele poder sair da cidade para comprar um melhor.
Ligou o carro, saindo do local, vendo através do vidro da loja de conveniências a moça de cabelos laranja sorrir para o escritor, as mãos machucadas apoiando o queixo e os olhos verdes vidrados na confusão que se instalava do lado de fora.



Psicopata Nº 01 - Black Angel

Kiara Watson era conhecida como Black Angel por conta de sua beleza extravagante e coração frio. Foi uma famosa ladra de bancos dos anos sessenta, começando a sua carreira na vida criminosa muito cedo, aos dezessete anos, na Inglaterra. Kiara foi capturada nos Estados Unidos da América, em seu aniversário de 40 anos, quando o detetive Thomas White, por quem ela sempre nutriu um ódio sobre-humano, conseguiu alcançá-la em uma parceria entre a Interpol e a Scotland Yard.
Kiara foi mandada para uma instituição psiquiátrica quando, depois de uma análise, profissionais e o júri chegaram à conclusão de que o comportamento da mulher durante as suas ações criminosas, torturando e matando pessoas sem pensar duas vezes, não era normal.
Kiara fugiu do Instituto Robert Ryan, localizado em Londres, após nove meses de cárcere, mas voltou a ser capturada quando, mais uma vez, Thomas White a deteve, dessa vez sozinho.
Kiara não teve filhos, muito menos um marido. Ela sempre viveu por conta própria, viajando o mundo, vivendo a sua vida de uma maneira um tanto maluca. Não deixou para trás os pais biológicos, e por saudade deles, tentou fugir do manicômio uma segunda vez, aliando-se a outras seis colegas também doentes e consideradas perigosas pela segurança nacional e internacional.
Ela morreu aos quarenta e três anos, em um incêndio, junto com as outras seis amigas psicopatas e mais trinta e dois funcionários do Instituto Robert Ryan.


Capítulo 03 - A Estranha Dentro do Armário

encontrava-se parado na recepção do grande Hotel Nothern Lake. Um nome extremamente criativo para uma cidade criativa, sim, mas ele não poderia reclamar de verdade. Os outros hotéis da região não tinham nomes melhores e muito menos eram mais aconchegantes. Todos seguiam um padrão enjoativo composto de madeira e lareiras decorando todos os pequenos quartos no formato de chalés. Aquele era o único lugar em toda a Nothern Lake que poderia dizer, com toda a certeza, não ter a cara do lugar. Era moderno e cheio de vidros em uma construção de cidades litorâneas. No térreo, havia uma piscina grande e quadrada, com guarda-sóis espalhados ao seu redor, um bar convidativo e muito espaço sobrando uma vez que o frio nunca deixaria ninguém ao menos chegar perto da água.
Talvez aquele fosse o motivo das diárias daquele lugar serem tão caras. Só pessoas malucas e extremamente ricas teriam a insana ideia de se hospedar em um lugar no qual não se pode usufruir de nada que é realmente convidativo e apenas observar e tirar fotos para o Instagram.

- Você vai ficar bem aqui - Brian apareceu ao seu lado. Carregava a mala do escritor e olhava para as chaves do quarto reservado. - Te busco pela manhã, assim poderemos ver o estado do seu chalé com mais calma.

apenas concordou com a cabeça, sem muita reação. Ainda não acreditava no que tinha acontecido. Não de verdade. Não ao ponto de aceitar com o coração pesado e aberto. Por algum fenômeno psicológico, ainda sentia o cheiro de queimado e via os seus pertences espalhados sob a crosta negra e grossa de cinzas que se formou ao redor do que antes fora o seu chalé.

- Ei, cara, vai ficar tudo bem. Eram só bens materiais - Brian bateu em seu ombro - O importante é que você está bem.

O escritor não conseguiu concordar e apenas pegou a sua mala, seguindo para o elevador, onde se sentiu ligeiramente melhor quando isolado. Ainda pensava nas palavras dos bombeiros, três rapazes jovens demais que lamentaram a tragédia e culparam a lareira sempre bem aquecida de pelo incêndio que destruiu o seu chalé. O homem ainda pensava na hipótese em que ele estaria dentro de sua casa. Aquela na qual comprar um celular descartável não fosse preciso e, dormindo, seu corpo fosse tomado e queimado pelas chamas que antes o forneciam segurança.
Ele morreria ali, ou, heroicamente, acordaria e conseguiria conter o fogo.
Nunca iria saber. Só sabia que, sem explicações ou avisos prévios, Deus resolvera fazer o seu precioso chalé virar um amontoado de cinzas em meio à floresta verde escura que o cercava.
Sem ter mais onde se esconder do frio, então, teria de permanecer no Hotel Nothern Lake por algum tempo. Pelo menos até conseguir resgatar o seu tão amado chalé ou encontrar outro lugar para se acomodar. Seria difícil, afinal, vivera tanto tempo naquele esconderijo que não sabia mais como se virar em algo que não fosse feito de madeira e vidro. Mas ele conseguiria, sem dúvidas.
seguiu direto para o seu quarto. O corredor do hotel era longo, amarelado e escuro. As portas de madeira avermelhadas estavam polidas e ainda cheiravam a lustra-móveis, o chão acarpetado desenhava um caminho de formas florais até o fim do trajeto. colocou a chave que recebera de Brian na fechadura e suspirou junto com o barulho da porta se abrindo.
Quando a visão branca, clara e limpa do quarto tomou os seus olhos castanhos, já se sentia cansado. Sua roupa cheirava a queimado e suas mãos guardavam restos de fuligem. Não sabia como o tinham deixado entrar naquele lugar em um estado daqueles. Agradecia mentalmente que Brian fosse o responsável por suas finanças e não o deixasse guardar dinheiro vivo em sua cabana. Ele estaria completamente ferrado se não fosse por isso.
tomou um banho e depois jogou-se na grande cama de seu quarto, rodeando-se de almofadas e tentando fazer com que o barulho dos raios em meio à tempestade ficasse mais baixo. A chuva parecia não ter fim. A janela de seu quarto mostrava toda a Nothern Lake morro abaixo, a piscina do Hotel transbordando pelo excesso de água e as nuvens carregadas que chegavam aos montes e pareciam querer ficar.
se assustou quando seu celular tocou. Ainda não tinha se acostumado com o barulho estridente que o aparelho descartável fazia.

- Alô?
- ? - a voz do outro lado perguntou. Era rouca e ele não soube identificar se era feminina ou masculina.
- Sim.
- Aqui é da estação de rádio. Achamos o seu celular.

As duas frases, curtas, breves e bem articuladas, fizeram o escritor se surpreender. Achou que nunca mais veria seu aparelho na vida. Ficou agradecido e ansioso para tê-lo em suas mãos, apressando-se:

- Eu posso buscá-lo agora mesmo. Qual o seu nome? Procurarei por você.

esperou por uma resposta, mas nada veio. Ele se levantou e pegou o casaco, tão entediado naquele lugar que preferia enfrentar uma tempestade maligna a ficar sentado assistindo TV. Brian ficaria furioso se soubesse que o escritor saiu - para o agente, tudo levaria à morte.

...

- Senhor ? - chamou a recepcionista quando o homem passou pelo balcão de entrada - O senhor já vai sair? Está chovendo muito lá fora. A ponte foi interditada.

Ele parou e respondeu gentilmente:

- Tudo bem, Char, eu não vou sair da cidade. Preciso chegar à estação de rádio.
- Bem, o senhor tem que passar pela ponte para isso.

ficou visivelmente decepcionado. Char, como ele a conhecia simplesmente pela mulher odiar o seu nome e sobrenome e não contar a ninguém, mordeu o próprio lábio e abriu uma gaveta da parte interior de seu balcão. Tirou de dentro dela um grande mapa e deslizou pela madeira até estar perto do escritor.

- Tem outro caminho por dentro da floresta, mas, de verdade, é arriscado demais. O que há de tão importante na estação de rádio?

não soube responder. Dizer que queria buscar o seu celular era de longe o cúmulo do ridículo. Talvez houvesse alguma razão oculta para tal comportamento e vontade de sair de lá. Talvez fosse porque da estação ele poderia ver os restos de sua cabana e o lago no qual vivera metade de sua vida. Talvez quisesse apenas circular e ver rostos familiares. Alan era um bom amigo e com certeza estaria lá. Ou talvez ele só quisesse o seu celular.
Pegou o mapa e saiu sem responder Char. Ela balançou a cabeça enquanto observava-o partir, apoiando o queixo nas mãos e voltando a folhear sua velha revista de cosméticos lançados em 1992.
protegeu-se ao sair na chuva e seguiu para o seu carro. Percebeu que o Jeep de Brian jazia parado ali e não entendeu o que o agente poderia estar fazendo no hotel àquela hora, depois de se despedir e no meio daquela tempestade.
Andou até o carro do amigo e viu que a chave estava no painel. As portas destrancadas permitiram que entrasse no veículo e desligasse o motor. No banco de trás a bolsa e os pertences de Brian estavam jogados e escorregando até o chão. estranhou porque Brian, apesar de maluco, era extremamente organizado e não deixaria seu precioso Jeep naquele estado.
desceu do veículo e observou que, ao redor do carro, pegadas manchadas pelas gotas de chuva eram fortes e recentes.
estudara muito sobre investigação policial para escrever Os 7 Psicopatas, e as duas semanas que passara seguindo um detetive bêbado da Scotland Yard, em Londres, parecia ter valido à pena não só para a sua carreira, mas para outras situações - como naquele momento, onde, de algum modo, sabia que se seguisse as pegadas, encontraria Brian.
Então assim o fez, seguindo pelo estacionamento feito de terra e pequenas pedras, sentindo seus sapatos deslizarem em pequenos cascalhos, a água escorrer por dentro de sua roupa e esfriar o seu corpo, sua respiração transformando-se em fumaça ao sair de sua boca e morrendo em meio às gotas violentas de chuva. Ele seguiu um caminho curto e quase inacessível até chegar a um corredor estreito na parte de trás do prédio, o mesmo corredor que o levaria à piscina do local. Continuou andando, sem mais pegadas para seguir, apenas deixando sua curiosidade guiá-lo, o sentimento de que não deveria estar ali o tomando cada vez mais, sendo mais forte até mesmo que o frio.
Viu grandes latas de lixo, um piso áspero, cadeiras de sol, guarda-sóis praticamente voando com o vendo. Viu a água azul da piscina suja e cheia de folhas, de pertences e objetos do bar que acabaram indo parar ali em algum momento da tempestade. se aproximou da água e deixou que ela molhasse os seus sapatos novos, deixou que toda e qualquer parte seca de si fosse embora junto com o período mais violento da chuva que enfrentava, quase não conseguindo andar por ser um pequeno e indefeso ser humano desafiando a natureza. Parecia poético e até mesmo triste, mas deixou de lado o pensamento filosófico para observar um objeto ainda maior perdido entre as folhas. Um objeto rodeado de um líquido vermelho que boiava para a margem e tornava-se cada vez mais reconhecível com os metros vencidos.
Um objeto que descobriu ser Brian.
O escritor não soube o que fazer de imediato. Tirar o corpo da água e tentar prestar socorros ou chamar ajuda? Estaria Brian morto ou apenas desacordado? Como ele tiraria o agente da água sem ser amordaçado pelos utensílios espalhados ao longo da piscina, todos grandes o suficiente para arrastá-lo ao afogamento e impedir a sua passagem?
Decidiu pedir ajuda, e, correndo até a recepção, molhado, sujo e assustado, assistiu enquanto Char ligava para a emergência. correu de volta para a piscina, onde, agora, mais perto da margem, conseguiu tirar Brian de seu leito. Ele sangrava e tinha um ferimento na testa. não sabia o que tinha acontecido ali, mas suspeitava que fosse um acidente. Talvez Brian tivesse caído na água ao parar para observar a tempestade, ou talvez escorregado. Ele não saberia, porque aparentemente o amigo estava morto.
ficou ali até o socorro chegar, pouco menos de uma hora depois. Quando colocaram Brian na maca, disseram que ele ainda respirava. acompanhou-o até os paramédicos colocarem-no na vã, seguindo o ritmo apressado e caótico que havia se estabelecido ali. Ficou para trás quando o agente abriu os olhos, encarando-o por trás dos globos esverdeados, puxando o braço do escritor com violência e tentando entregar algo a ele. Um objeto preso no meio de suas mãos. Um utensílio que não tinha visto que ele carregava.
Um lenço. Um simples lenço sujo de sangue.

...

esperava na pequena delegacia de Nothern Lake quando a xerife apareceu e pediu para que o escritor a seguisse até a sua sala. Todos no lugar o olhavam de soslaio e cochichavam entre si, provavelmente comentando sobre o fato do famoso escritor, prodígio da cidade, estar sentado em um banco sujo da delegacia local com sangue manchando praticamente toda a sua camiseta.
Ele se levantou e seguiu a jovem mulher ruiva até que entrasse em uma sala digna de filmes sobre cidades pequenas e delegacias caóticas. Sentaram-se ambos em lados opostos da mesa e a mulher foi a primeira a falar:

- Então, , você está me dizendo que alguém está recriando assassinatos recorrentes aos que aconteceram no seu livro?

O escritor concordou, tremendo de frio por ainda vestir as roupas molhadas. A xerife, que ele conhecia desde criança pelo nome de Scarlet Welling, lançava-lhe um olhar duro e sem prescrição. Parecia decepcionada pelo que o colega de infância havia se tornado.

- E que o seu chalé pegou fogo sozinho?

Novamente, ele apenas concordou. Não tinha certeza de nada e sentia-se cansado demais para debater.

- Escute, xerife, eu só quero descansar um pouco. Foi um longo dia.
- Um assassinato similar a um do seu livro? - repetiu como se fosse ridículo.
- Olha, eu só disse isso por causa daquele maldito lenço. Brian leu o meu livro e estava querendo me dizer alguma coisa nos seus últimos segundos de vida! Não deve ser tão difícil assim, para você, entender.

Ela concordou lentamente com a cabeça.

- Ou o seu agente era tão maluco quanto você.
- Ele morreu. Pode ter um pouco de respeito?
- Você pode? - retrucou - Porque o que está me dizendo ridiculariza a morte do seu agente. Um personagem de um livro, pelo amor de Deus! Prefiro acreditar que você o matou!
- Eu nunca disse que era um personagem! Eu disse que era um método similar, e você não pode negar. Além do mais, você não tem nenhuma prova de que sou o assassino!
- Tenho você, ensopado de sangue, na cena do crime.

se calou logo em seguida. Não entendia como Scarlet podia guardar tanta mágoa. Já havia se passado um ano desde o incidente com Rose, a sua esposa, e a xerife não parecia esquecer. Era como se ela nunca fosse aceitar que havia mudado.

- Olha - começou ele, mais calmo - Eu sei que não gosta muito de mim, mas, uma coisa é o que aconteceu há um ano e outra é assassinato.
- A sua mulher me ligou - ela o cortou - Você quebrou a ordem de restrição.
- A minha filha sentiu a minha falta e decidiu me ligar. Eu não ia rejeitá-la, se é o que sugere. Rose é maluca e exagerada.
- Como era há um ano?

Mais uma vez, ele se calou. Não havia necessidade de toda aquela lavação de roupa suja, principalmente porque o que acontecera entre e sua ex esposa não dizia respeito a ela. Scarlet havia entrado na história por ser uma funcionária pública e xerife da cidade, mas não tinha, realmente, o direito de opinar em sua vida pessoal.

- Há um ano as coisas eram diferentes - disse ele.

Scarlet olhou-o como se quisesse gritar para os quatro cantos do mundo que não acreditava em uma única palavra do que ele dizia. Parecia se controlar muito para não prendê-lo ali mesmo.

- Vá para casa, , nós conversamos pela manhã. Tenho uma cidade submergindo em água para cuidar e não posso perder o meu tempo com as suas maluquices. Não saia de Nothern Lake ou terá problemas, entendeu? Nem mesmo deixe o Hotel.

agradeceu e se levantou, saindo da sala. Do lado de fora, um policial esperava para levá-lo de volta para casa. A tempestade estava tão forte que os ônibus haviam tido suas rotas suspensas por causa das rodovias escorregadias e constantemente atacadas por postes caindo e animais assustados fugindo da floresta.
saía da delegacia quando tudo aconteceu. De repente, um carro que estava parado no estacionamento, de frente para a porta de entrada, se locomoveu e inexplicavelmente voou em direção ao prédio em que o escritor estava. O veículo chocou-se contra a porta de vidro e fez estilhaços espalharem-se pelo ar. protegeu o rosto com os braços. Estava perto demais porque queria sair, e o policial que o acompanhava caiu ao chão, visivelmente ferido com algum caco maior.
As pessoas se aproximaram para ajudar o colega ferido, mas não deixou de prestar atenção no fato que causara tudo aquilo: o carro ainda estava jogado contra a porta e parecia flutuar. Ficou daquele jeito por alguns segundos, até cair ao chão e provocar mais pânico com o barulho alto.

- O que está acontecendo aqui? - Scarlet apareceu pelo corredor, logo vendo o homem ferido e todo o resto.

Correu, dando ordens, pedindo um KIT de primeiros socorros e falando para que alguém ligasse para pedir ajuda. Os funcionários se locomoveram, mas não obtiveram sucesso porque as linhas estavam cortadas e os celulares haviam perdido o sinal. Scarlet então falou para que alguém levasse o homem ferido ao hospital, e se aproximou dela para dizer:

- Alguma coisa está realmente errada. Não deixe que ninguém saia daqui.

Ela o olhou como se fosse maluco.

- Não vou deixá-lo morrer aqui. O hospital está a menos de três quadras. Vão!

Dois outros policiais se moveram, carregando a vítima ao passar pela porta quebrada, saindo da delegacia. O resto das pessoas do lugar tomaram diferentes atividades para se ocupar, desde a limpeza dos cacos de vidro à preocupação com os outros feridos. seguiu Scarlet pelo corredor quando a xerife voltou para a sua sala.

- Você tem que me escutar - pediu ele - Mande os seus homens recuar. Eles estão correndo perigo.
- Por quê? - ela se virou, quase rindo – Por que um de seus personagens está lá fora e pode matá-los? Poupe-me, .
- Você não entende - ele insistiu, deixando o tom de voz baixo e quase assustado ao continuar: - Aquele carro... Ele voou. Literalmente voou em direção à delegacia, Scarlet.
- E?! Nós temos algo perto de um furacão tomando essa cidade. É normal.

não sabia como explicar que ele havia criado uma personagem com poderes psíquicos. Nem ele mesmo conseguia acreditar naquilo. Era ridículo apenas para se pensar, falar em voz alta, então, seria maluquice. Mas ele tinha esse sentimento... Algo acontecendo duas vezes no mesmo dia e de maneiras tão estranhas... Não podia ser coincidência.
Saiu da sala da xerife por não saber o que falar para convencê-la. Sem ao menos saber como convencer a si mesmo de que aquilo não era maluquice demais.
O corredor que o levaria de volta para a entrada da delegacia estava escuro, todas as luzes encontravam-se apagadas. O único meio de se guiar em meio àquilo tudo era por parte da luz dos raios passando pelas pequenas venezianas nas janelas. quase morreu de susto quando sentiu algo segurá-lo pelo braço e puxá-lo para um lugar iluminado.
O escritor ainda respirava com dificuldade quando levantou os olhos do toque em seu braço para o rosto da mulher loira encarando-o. Reconheceu que estavam no grande armário de vassouras da delegacia e que a estranha que o segurava não era tão estranha assim.

- ?!
- Você não deveria ficar na escuridão - disse ela. - Nunca fique no meio de tantas sombras.
- Do que você está falando?
- É perigoso.

apontou para o corredor escuro com a cabeça e então viu, assustado, algumas sombras se moverem. Elas cresceram até ter o formato de um ser humano, e então o barulho dos passos ficou audível. viu uma moça de cabelos laranja seguir na mesma direção que antes ele ia, e a reconheceu como a atendente da loja de conveniência, onde comprara seu celular mais cedo.

- O que ela está fazendo aqui?
- Seguindo você - respondeu .
- Mas... Por quê?
- Porque você a criou. Não é óbvio?

Ele ia responder que não quando as luzes do corredor se ascenderam. olhou para fora e viu que a menina havia sumido. Era muito estranho.

- Você precisa chegar ao policial antes dela.

puxou-o ao começar a andar, tão confiante e apressada que não percebeu que estava assustado como o inferno. Ele parou, fincando os pés no chão, e exigiu uma resposta antes de dar qualquer passo.

- Do que você está falando?!

revirou os olhos, visivelmente impaciente. Voltou alguns centímetros e começou a explicar enquanto o puxava:

- Ela é uma psicopata e precisa matar para continuar viva. É uma questão de literal sobrevivência, porque se ela não fizer isso, perde a sua essência, e quanto mais ela perde a sua essência, mais se esvai do nosso mundo. Um personagem sem característica não é um personagem.

Pela porta dos fundos, os dois seguiram em meio à tempestade até o carro que ele deduziu ser o dela. Lá dentro, com os limpador de vidro movimentando-se e as gotas de chuva manchando sua visão, ainda continuava confuso.

- Eu realmente não estou entendendo o que você está falando.

Já dirigindo, dando ré para sair do local, entrou na rodovia principal de Nothern Lake e seguiu na direção do hospital.

- Ela é um personagem. Saiu de dentro do seu livro. Não é só um método parecido, como você alegou para a xerife: é ela. O problema é que não é natural que ela esteja no nosso mundo, não como parte de uma realidade, não como personagem. Enquanto ela achar que é como nós, pode vagar por aí, mas se, em algum momento, ela sentir que é um personagem... As coisas perdem o equilíbrio, as duas realidades se corrompem e ela volta a ser apenas palavras em uma página amarela. Entendeu? Ela precisa entender que não é real.
- Mais ou menos. É loucura.
- Claro que é. Foi você quem inventou tudo isso, , deveria entender melhor do que eu.
- Do que você está falando?
- Abra o porta-luvas - ela apontou com a cabeça.

o abriu e, lá dentro, encontrou um livro de capa dura. Era bem velho e não havia título e nem o nome do autor.

- Que droga é essa?
- Suponho que não se lembre de ter escrito isso.
- É claro que eu não me lembro. Eu não o escrevi.
- Não, mas o seu personagem escreveu.

Ele a olhou confuso. Ela explicou:

- O seu novo livro não é uma continuação de Os 7 psicopatas. É outra história. A história de um escritor chamado Christopher Lynch que pode trazer qualquer coisa à vida apenas usando a sua imaginação e um velho livro sem título.

Olhando para o livro, ele rapidamente fez a conexão. Não podia ser real.

- Isso é loucura. Você é louca.
- Em algum momento as suas duas histórias se cruzaram e tudo se tornou real, como se uma explosão tivesse os envolvido e feito Christopher trazer as sete psicopatas à vida. Agora nós temos que achar Lych e fazê-lo ler o livro para colocar as psicopatas de volta em suas histórias, ou, de um jeito mais difícil, convencê-las de que são personagens. Assim elas voltam por conta própria. Entendeu?
- Eu acho que sim. Como você sabe de tudo isso?

Ela ficou calada por alguns segundos, apenas segurando o volante com mais força. Estacionou em frente ao hospital ao responder:

- Eu apenas sei.

Os dois desceram do veículo e encararam o grande e branco prédio à sua frente. segurava o livro sem título nos braços e tentava processar tudo o que tinha sido dito a ele. Não fazia qualquer sentido e com certeza era loucura. era apenas uma mulher doente que estava pregando-lhe peças. Por outro lado, o escritor tinha um sentimento de que aquilo era importante. De que era real.
Não pôde ignorar aquele sentimento. Não tendo a profissão que tinha, onde imaginação, intuição e realidade eram coisas realmente questionáveis.
Começou a andar junto a , pensando no que poderia fazer para evitar que uma psicopata sádica e fictícia matasse alguém naquela noite.



Capítulo 04 - A Lanterna e o Escritor

e passaram pela entrada do Hospital St. Bartholomew no exato momento em que um raio rasgou o céu de Nothern Lake. Os funcionários do lugar andavam para lá e para cá dentro de seus jalecos brancos e não perceberam os dois estranhos afobados ignorando metade das placas de "Permitida somente a entrada de funcionários". precipitou-se na direção do balcão de atendimento e perguntou pelo policial ferido.

- Ele está em cirurgia - disse a mulher do outro lado.

virou-se para com uma expressão preocupada e o escritor não entendeu o porquê daquilo. Ele deveria estar em segurança na sala de cirurgia.

- Isso pode não ser tão bom assim - explicou .
- Por quê?
- Elas são personagens perdidos no mundo real, , e eu não acho que uma parede pode impedi-las. Por outro lado, pode impedir a nós. Venha.

O escritor seguiu a mulher pelos corredores brancos do local, e era realmente estranho o modo como ela parecia saber exatamente em quais cruzamentos virar, quais portar entrar e quando se esconder. Andavam tentando se misturar aos demais visitantes quando todas as luzes do lugar se apagaram, deixando-os no meio de uma multidão doente e precipitada.

- O que foi isso? - perguntou .
- As sombras estão chegando - disse -, Venha!

Pegou-o pela mão e o puxou para longe do resto das pessoas. não entendia metade das coisas que estavam acontecendo, mas correu junto à quando, ao olhar para trás, viu que o chão antes claro começava a se transformar em algo tão escuro que quase não se era possível ver, como se as sombras estivessem literalmente engolindo cada pedaço do piso.

- Isso, seja lá o que for, está nos seguindo - ele disse, ofegante, quando os dois entraram em uma sala, com fechando a porta e trazendo itens para barrar a passagem de qualquer coisa que pudesse querer entrar. - Desde a delegacia. Por quê?!

Ele fazia perguntas e as ignorava, mantendo a sua atenção presa nas venezianas da cortina, tentando enxergar o que acontecia do outro lado da janela. percebeu que estava no quarto de um paciente, e que esse paciente os olhava assustado.

- Pare de fazer perguntas, fique quieto e se esconda - instruiu , caindo ao chão assim que pronunciara as palavras, abraçando os joelhos ao encostar as costas contra a parede que abrigava a janela de vidro.

fez o mesmo e se sentou ao seu lado, vendo que a tempestade não havia parado. Continuava chovendo do lado de fora, e apesar do apagão do hospital, os raios e trovões proporcionavam luminosidade para o quarto. O paciente deitado na cama, imóvel, olhava para os dois, mas parecia incapaz de fazer qualquer coisa a respeito da invasão. Ele estava com vários equipamentos ligados ao seu corpo, um respirador e um curativo na cabeça.
respirava com certa dificuldade, pois sentia medo. Um tipo de medo que nunca havia sentido na vida, qual fazia o seu corpo inteiro tremer, os dentes batendo uns contra os outros. , que estava até o momento concentrada em manter-se escondida, olhou para o estado emocional de e se sentiu obrigada a dar-lhe uma explicação.

- Elas estão aqui. As psicopatas.

No exato momento em que fechou a boca, passos foram ouvidos do lado de fora do quarto, arrastando-se pelo corredor. e se entreolharam e recuaram inconscientemente, vendo o homem deitado na cama movimentar os olhos para a janela, arregalando-os em uma expressão de puro medo. Uma sombra se projetou sobre o paciente, erguendo-se de forma monumental, mas grande demais para ser uma das sete psicopatas.
olhou para em busca de respostas, mas ela estava com os olhos fechados, prendendo a respiração como se aquilo fosse ajudá-la a manter-se fora de vista. Ela esticou a mão para segurar a do escritor, e com isso também fechou os olhos, respirando fundo e tentando pensar em qualquer coisa, menos no formato e no tamanho da sombra que ocupava a parede oposta do quarto, porque era inacreditavelmente grande.
E surreal.
De repente, as luzes se acenderam. se levantou e olhou para o corredor, que se encontrava vazio. O homem deitado na cama agora tinha os olhos fechados, os aparelhos zumbindo estridentemente e chamando enfermeiras por todos os lados. e tiraram as barricadas que haviam montado sobre a porta e correram para fora do local, torcendo para que não fossem vistos.
Antes de sumir pelo corredor, escutou uma das enfermeiras gritar que o paciente havia tido uma parada cardíaca.

...

- O que Diabos foi aquilo?!

e estavam agora no quarto de Hotel do escritor. A mulher andava de um lado para o outro com as mãos no queixo, de maneira pensativa, enquanto tentava não surtar, bebendo um copo de uísque fornecido pelo hotel.
Estava tentando parar, mas poderia abrir uma exceção.

- Não era uma das psicopatas - respondeu .
- Ah, jura?! Eu notei isso, afinal, não me lembro de ter criado nenhum tipo Godzilla, com sombras gigantescas!

continuava andando, sempre olhando para o chão, como se nem estivesse ali. Usava uma jaqueta vermelha e os cabelos longos e loiros soltos atravessando as suas costas. Calça jeans e botas surradas. De algum modo, não se parecia com ninguém que pudesse ter conhecido antes.

- Quem é você? - ele resolveu perguntar, andando até ela e a segurando pelos ombros. - Como sabe de tudo isso? O que era aquilo que estava nos perseguindo no hospital? Responda!

Tão rápido que não pôde ao menos processar, livrou-se de seu toque e o empurrou, jogando-o sobre a cama e torcendo o seu braço atrás de seu corpo. O escritor gemeu, mas o som saiu abafado pelo colchão, qual praticamente emoldurava a sua cara. não o soltou quando disse:

- Não toque em mim, entendeu?! E não peça por respostas. Eu estou fazendo um grande favor aqui ao te ajudar. O problema não é meu, é seu, e se quiser sobreviver para escrever o seu próximo meio de matar a humanidade, coopere e me obedeça. Estamos entendidos?

concordou, sentindo como se os músculos de seu braço estivessem sendo rasgados. o soltou e ele sentou na cama, massageando a pele machucada ao olhá-la com uma espécie assustada de indignação.

- Você também iria querer respostas se estivesse no meu lugar.
- Tenha um pouco de paciência e saberá tudo o que quiser saber. Por enquanto, apenas tente não ser assassinado por uma de suas psicopatas.

Ela pegou a bolsa sobre a poltrona no meio do quarto e se dirigiu para a porta. , vendo que ela partiria sem falar mais nada, se levantou e correu para alcançá-la, pensando uma segunda vez antes de segurá-la pelo braço e apenas pondo-se à frente da porta.

- Por favor, me diga alguma coisa. Qualquer coisa. Pelo menos sobre a escuridão e como me proteger dela.

A mulher parou, arrumando a bolsa sobre os ombros.

- Não é óbvio? - perguntou - Mantenha-se sempre perto das luzes. É a única maneira de a escuridão não te alcançar.

Assim, pegou uma lanterna de sua bolsa e a jogou para ele, saindo do quarto e deixando ali, parado, segurando o objeto nas mãos, com medo de apagar as luzes e encontrar o que quer que fosse que o estivesse perseguindo dentro da escuridão.

...

Durante toda a noite, segurou a lanterna firmemente contra o peito, como se ela fosse uma arma extremamente poderosa que o salvaria até mesmo dos piores demônios envolvidos na noite. Quando adormeceu, teve um pesadelo terrível com o homem que morrera no hospital, onde este, ao invés de apenas arregalar os olhos, começara a gritar ferozmente para o monstro no corredor, atraindo-o para o quarto, onde matou ele e .
Suado e ofegante, acordava, tremendo de frio, na sua cama de hotel, e ligava a lanterna para ver melhor o cômodo dentro da escuridão. Ele passava o feixe de luz por cada móvel e objeto, procurando algo estranho, mas depois de não encontrar nada, apenas voltava a dormir. Isso ocorreu pelo menos sete vezes na mesma noite.
Quando realmente acordou, estava no salão principal do hotel, apenas de pijama e com os pés descalças e sujos de lama manchando o carpete vermelho e caro do lugar. Ele olhou para as próprias mãos e viu nelas mais sujeira, a lanterna que lhe dera completamente coberta de terra. Levantou o rosto para Char, que o encarava de seu balcão, e andou até ela, perguntando o que havia acontecido.

- Eu não sei. Você apenas saiu durante a noite. - ela respondeu.

sentiu-se atordoado, principalmente porque a terra indicava que estivera em algum lugar no meio da floresta. Não sabia se, se preocupava mais por não ter se lembrando do que tinha feito ou o que tinha sido feito com ele, mas seus olhos estavam tão pesados que ele desmaiou em sua cama após tomar um banho, não conseguindo ao menos ficar acordado para se preocupar com os eventos do dia e da noite anterior.
Horas depois, quando acordou no meio da tarde, ligou para a delegacia e teve a informação de que o policial que queria salvar tinha, de fato, morrido durante a cirurgia - algo realmente estranho, já que não era nenhum procedimento sério. folheou jornais à procura de algo que indicasse uma investigação quanto ao caso, mas nada ocorrera, e as únicas manchetes de destaque eram a respeito das tempestade que assombravam Nothern Lake.
Certa hora da manhã, ouviu alguém bater em sua porta, e deu entrada para a camareira, uma jovem garota que não parecia ter mais de dezessete anos.

- Eu volto em alguns minutos - disse ele, saindo do lugar para não atrapalhar o serviço da moça.

desceu para o saguão principal e tomou um café, lendo mais uma vez o jornal fornecido pelo Hotel. Estranhou o fato do dia está relativamente claro, com o céu azul e um sol ardente, e decidiu sair para dar uma caminhada, pensando em como um tempo sozinho poderia fazê-lo esclarecer melhor as coisas.
Do lado de fora, encontrou Char varrendo a calçada e a cumprimentou.

- Você é a dona do Hotel, Char. Por que ainda faz essas coisas?

Ela riu e respondeu:

- Porque é o meu hotel e ninguém cuidaria melhor dele do que eu.

Ele concordou, rindo com ela, e se despediu, escutando os barulhos ariscos da vassoura contra o concreto da calçada diminuir à medida que se afastava. Andou até o seu carro e pegou a sua mochila, de repente tendo uma ideia. Voltou até Char, que se encontrava no mesmo lugar, e perguntou:

- Você sabe a direção que eu segui na noite passada, quando sai e fui para a floresta?

Ela pareceu pensar um pouco, mas logo se recordou e apontou:

- Para aquele lado.

Ele agradeceu mais uma vez e seguiu a direção que a mulher apontou, tirando de dentro de sua mochila a sua câmera fotográfica preferida, qual havia usado para fotografar a capa de Os Sete Psicopatas quando o livro teve a sua primeira edição lançada. fez questão de tirar a foto, porque queria que a capa transparecesse toda a essência da história. Acabou que a imagem embaçada de uma menina com os braços pálidos cheios de sangue serviu bem, mas não agradou o primeiro lote de leitores, e o livro quase não alcançou o número mínimo de vendas, melhorando apenas quando a segunda edição foi lançada, dessa vez com uma capa diferente.
adentrou a trilha indicada por Char, e começou a procurar indícios de que ele havia passado por ali na noite anterior. Achou galhos quebrados e os fotografou; um pedaço de pano do seu pijama também estava enterrado atrás de uma ou duas folhas; pilhas de lanterna caídas sobre a terra. Ele estava começando a ficar cada vez mais confuso sobre tudo.
Por fim, achou um cartão prateado com o símbolo do infinito cravado em relevo. Aquilo, por algum motivo, lhe deu arrepios.

...

Vendo as fotos no computador, não conseguiu juntar nenhum tipo de pista. Parecia apenas que ele tinha saído para dar uma volta em um momento completamente inoportuno e estranho, com uma lanterna em mãos e nenhum sapato nos pés. Zoom nenhum lhe proporcionou algum tipo de certeza, e sua única esperança era a de que o seu cérebro voltasse a funcionar cordialmente e ele se lembrasse do ocorrido.
pegou mais uma garrafa de uísque para beber, afogando-se no álcool amargo e nos mini chocolates que a camareira havia deixado sobre o seu travesseiro antes de sair. Quando se conformou de que não acharia nada, entrou na página inicial do Google e procurou pelo nome de , mas seu computador desligou antes que as informações pudessem ter sido carregadas. A bateria tinha acabado e o carregador estava no carro, muitos andares abaixo de onde o escritor se encontrava.
Cansado e precisando urgentemente de uma aspirina, ele se levantou e andou até o banheiro. Lavou o rosto e escovou os dentes, vendo no próprio reflexo a imagem perfeita de um homem à beira do abismo emocional. Ele precisava urgentemente sair de férias, esquecer toda aquela loucura e voltar a ser apenas um escritor bêbado no meio de uma cidade entre as montanhas.
Porém, ao se virar para sair do banheiro, notou que aquilo nunca mais seria possível. Não quando a sua vida havia se tornado um show de horrores; não quando os seus próprios personagens saíam de páginas para atormentá-lo e não quando o corpo de um homem morto era colocado na banheira de seu quarto de hotel, às três da tarde de uma terça-feira, quando a última coisa que ele queria era ter mais problemas.





Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus