Última atualização: 05/07/2018

A demência é uma doença mental caracterizada por prejuízo cognitivo que pode incluir alterações de memória, desorientação em relação ao tempo e ao espaço, raciocínio, concentração, aprendizado, realização de tarefas complexas, julgamento, linguagem e habilidades visuais-espaciais. Essas alterações podem ser acompanhadas por mudanças no comportamento ou na personalidade (sintomas neuropsiquiátricos). (Associação Brasileira de Alzheimer).

A Terapia Ocupacional é uma profissão cujo objetivo principal é tornar as pessoas capazes de participar das ocupações da vida cotidiana. Uma ocupação pode ser definida como “um grupo de atividades que tem significado pessoal e cultural e permite a participação social”. A participação em ocupações cotidianas permite que as pessoas construam sua identidade, saúde e bem estar. As pessoas podem sofrer restrições ou impedimento na participação em ocupações devido a alterações na estrutura e/ou funções do corpo, causadas por condições físicas ou mentais (saúde) ou devido a restrições criadas pelo ambiente (físico, social, atitudinal, legal). (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo).

Foto nº 01 – Quem é ela?

- Ainda lembro exatamente como ela estava vestida quando a vi pela primeira vez. Ela usava um vestido preto, uma sandália de salto e seus cabelos estavam bagunçados, dando a ela um ar de rebeldia. - ele suspirou – Ela era a garota mais linda daquele bar e a única pessoa que não estava vestindo verde – soltou uma risada fraca – Era Saint Patrick's Day.
- Diferente isso, mas me conta como foi? Você tomou a inciativa ou ela veio falar com você?
- Menina, você não tem ideia do furacão que era essa garota - disse sorrindo - Eu observei ela a noite toda, observei ela dar o fora em todos os caras que se aproximaram dela. Acho que aquele dia sua única companhia era seu copo de cerveja. – correu o olhar pelo ambiente, estava em uma sala arejada com cortinas brancas, o som da televisão contrastava com o barulho dos pássaros do jardim. O sofá de couro marrom brilhava com a luz do sol que invadia pela janela. Só retornou seu olhar ao ouvir a voz de Jasmim, chamando seu nome.
- Então , me conte porque você não falou com ela aquele dia?
- Falei com quem? – o velho olhou incrédulo e confuso, não sabia do que a jovem a sua frente estava falando.
Jasmim suspirou e mostrou para a foto que estava em sua frente – Você estava me contando sobre como a conheceu – apontando para a jovem que estava estampada na fotografia.
- Ah sim, conheci ela no Banco – Sorrindo.
- No banco? Não foi em uma festa de Saint Patric? - suspirou Jasmim, ela sabia que não seria um processo fácil.
coçou seus cabelos de forma pensativa. - Simplesmente não teria papo com ela aquela noite, ela tinha terminado um namoro, segundo ela porque o cara era cretino e machista. Descobri isso anos mais tarde – piscando com apenas um olho, seu olhar era de cumplicidade com a menina. - Ela é um furacão, não sei como nenhum furacão não recebeu seu nome ainda. Todos percebiam sua presença. Ela é a pessoa mais teimosa que eu já conheci, ela é decidida e empoderada. Não abaixa a cabeça e luta até o fim pelos seus ideais.
- Uaaau, então realmente a mulher era brava - Jasmim disse sorrindo e se ajeitando na cadeira de madeira que estava sentada. A garota sabia que precisava anotar em suas coisas essas confusões de . Não iria prolongar no assunto e lhe causar frustração. - Vamos colar essa foto então, nosso álbum precisa ficar lindo - disse empolgada, enquanto apontava para a foto da garota.
Na fotografia estava uma garota de aproximadamente 25 anos, a jovem de cabelos ondulados sorria enquanto segurava uma garrafa de Corona. Suas bochechas tinham duas listras feitas com tinta, uma listra branca e outra azul. A mesma estava usando uma calça jeans escura, uma camiseta dos Chelsea e no pé seu velho Oxford Salmão. Ao fundo, na parede, várias bandeiras de times de futebol, mostrando que a jovem estava em um típico Pub inglês.
- Vamos sim, você acha que aqui está bom? - Perguntou para a jovem, enquanto colocava a fotografia na parte superior da folha de papel couchê reciclado.
- Sim, está ótimo! Mas lembre-se que é seu álbum, e você pode escolher como deseja montar.
- Eu quero aqui mesmo – decidido. pegou a cola bastão que estava a sua frente na mesa e passou por toda a borda posterior da foto, colando-a no local que tinham escolhido.
- , mas me conta uma coisa! Quando foi a primeira vez que você falou com ela?
- Eu falei com ela a primeira vez no banco que eu trabalhava.
- E como foi essa conversa? - perguntou ajudando o idoso a terminar de colar a foto.

Fazia dois meses que eu estava trabalhando no Citibank, eu estava fazendo consultaria jurídica quando ela apareceu no banco. era uma jovem advogada que precisava de consultoria para realizar um investimento, ela alegava que não era possível sobreviver com aposentadoria do governo. E que todos precisavam fazer um investimento para futuro.
- Boa tarde, meu nome é . Sou atendente jurídico de investimentos - eu disse estendendo a mão para jovem garota que estava a minha frente.
- Boa tarde Sr. , eu sou . - retribuindo a mão.
- Pode se sentar Sra. - ofereci a cadeira para a mesma se sentar e me sentei em seguida - Em que posso te auxiliar hoje, Sra. ?
- Então, Sr. . Recentemente eu comecei a trabalhar como advogada e pensando na situação atual da economia mundial e do nosso país, eu gostaria de realizar um investimento para o futuro. Acredito que essa crise global pode afetar na minha aposentaria e eu definitivamente não quero trabalhar anos e anos, para não poder me aposentar no futuro. - ela disse calmamente e suspirando ao final, a sensação era de que a garota havia tirado um fardo de suas costas com aquele desabafo. Ela era linda, mesmo com toda aquela preocupação que a rondava.
- Entendo Sra. - Disse sorrindo para ela, acredito que foi uma tentativa de conforta-la, afinal eu pensava da mesma forma - O Citibank trabalha com diversos tipos de investimento...
Então apresentei os diversos tipos de investimento, mas aquela mulher me hipnotizou da mesma forma que ela fez no bar. Ficamos quase uma hora falando sobre investimentos, ela parecia entender do assunto, e se apresentava muito segura sobre o que ela queria para o futuro dela. Mesmo depois da sua saída do banco, eu não consegui parar de pensar nela.


- Ela devia ser incrível - disse Jasmim sorrindo e recolhendo os materiais que estavam espalhados pela mesa a sua frente.
- Sem dúvidas, ela era e ainda é incrível. - Os olhos do idoso brilhavam ao falar da jovem advogada.
- E quando essa foto foi tirada? – apontando para a foto colada no álbum.
- Quando essa foto foi tirada?! – disse com receio e desviando o olhar. Aparentava estar pensando - Não me lembro muito bem quando essa foto foi tirada. Mas acredito que foi...

Era final da Champions League, Londres estava em êxtase. Afinal, Chelsea estava na final contra o Bayer de Munique. tinha me convidado para ir assistir ao jogo em um Pub, eu não estava muito animado vendo todos aqueles caras gritando para a TV. Eu até gosto de futebol, mas o meu velho Boton não ganha muitas coisas.
Foi quando eu a vi, ela segurava uma garrafa de Corona no meio da torcida e cantava animada. Ficamos trocando olhares, até ela se aproximar.
- Ei, acho que eu te conheço de algum lugar – disse a garota se aproximando – Já sei, você cuida dos meus investimentos no banco, certo? – sorriu ao dizer, ao mesmo tempo em que parava ao lado de garoto.
- Exatamente, Sra. – bebendo um gole de sua cerveja.
- Oh, você gravou meu nome! Você sabe todos os meus dados, você tá me seguindo? – se divertindo com as caretas que o jovem fazia a sua frente.
- Definitivamente não. - se aproximando do ouvido de e dizendo – Eu detesto o Chelsea.
- Meu Deus, temos um intruso aqui – gargalhando - Mas, me diga Sr. Do Banco, qual é mesmo o seu nome? – levantando a sobrancelha e bebendo um gole da sua cerveja em seguida.
- . – estendendo a sua mão para garota.
- Eu sou a e você já sabe – apertando a mão de .


- , eu preciso ir agora. Volto quarta-feira para continuarmos nosso álbum. - A jovem se levantou, se despedindo do idoso.
- Sem problemas, até mais...? - o velho evitou continuar a frase, devido não se lembrar o nome da mulher que estava a sua frente.
- Jasmim, meu nome é Jasmim - disse carinhosamente - Tchau .
- Claro, uma Flor com nome de Flor. Tchau Jasmim - se levantando da cadeira com auxílio da bengala que estava ao seu lado.

Foto nº 02 – Enfim Formado.

- Como você conseguiu essas fotos? – pergunto , tirando algumas fotos de uma caixa pequena de papelão.
- Sua filha Grace que trouxe para podermos colar no seu álbum – explicou calmamente a jovem.
- Grace esteve aqui? Poxa, porque ela não me esperou, eu preciso ir para casa – disse aborrecido.
- Acredito que ela tinha alguns compromissos, mas ela volta – confortando – Vamos escolher uma foto para colar no seu álbum – Mostrando para o senhor um álbum de capa azul marinho que estava a sua frente sobre a mesa.
colocou as fotos ao lado e pegou o álbum que Jasmim acabará de lhe mostrar. O homem tocou o caderno de brochura observando todos os detalhes que podia. Ao abrir o álbum, esboçou um gemido de surpresa, seguido por um sorriso.
- Essa é , minha esposa – apontando para a foto que estava colada na primeira página.
- Muito bonita ela, você tem bom gosto – sorrindo para o idoso - Vamos escolher uma nova foto para colar junto com essa. – colocando novamente a caixa de papelão na frente do idoso.
- Têm tantas fotos – pegava e soltava as fotos rapidamente após olha-las – Essa foto é legal – sorriu ao mostrar a foto para a jovem a sua frente.
Ao fundo da fotografia era possível ver a faixa com os dizeres "Parabéns Formandos da London School of Economics and Political Science*"
Um rapaz sorridente de calça social preta, camisa branca e gravata azul, levantava sua taça de champanhe com a mão direita. Ao seu lado esquerdo, uma senhora de meia idade usando um vestido longo preto, também sorria para a foto. Era possível também observar a semelhança entre ambos.
- Me conta mais sobre essa foto, quem é essa ao seu lado? – Se ajeitando na cadeira – Você também podia me contar um pouco mais sobre sua família.
- Essa é minha mãe, essa foto foi tirada no dia da minha festa de formatura. Você perguntou sobre minha família, bom vamos lá – E novamente foi possível ver o brilho nos olhos do idoso.

Eu nasci na cidade de Bolton, cidade natal dos meus pais e toda minha família. Meu pai faleceu quando eu tinha 10 anos, minha irmã mais velha e minha mãe sempre trabalharam fora para manter a casa, ambas sempre investiram na minha educação. Sou muito grato a elas. Aos 19 anos eu me mudei para Londres, tinha acabado de passar no curso de Economia da LSE. Não foi nada fácil, nunca tinha feito nada em casa e de repente eu me vi sozinho na cidade grande. Não foi fácil fazer faculdade, estudar, trabalhar, cuidar do meu quarto no alojamento. Ainda bem que no segundo semestre eu ganhei um companheiro de quarto e meu melhor amigo, .
Nos dois primeiros anos de faculdade eu trabalhei como garçom em um restaurante no centro, trabalhei também de atendente em uma livraria, até conseguir um estágio na minha área. Foi assim que entrei no Citibank. Trabalhei dois anos como estagiário (fui o faz tudo, atendi no caixa e depois fiquei como auxiliar de investimento) e um pouco antes de me formar eu fui efetivado Atendente Jurídico de Investimento.
Essa foto é de um dos dias mais felizes da minha vida, nunca vou esquecer do sorriso da minha mãe. Eu sabia que ela estava orgulhosa pelo homem que eu estava me tornando.
Nunca mais tive coragem de deixar Londres, ela faz parte do que eu sou. Se em Bolton eu cresci, aprendi valores. Em Londres eu amadureci e aprendi a dar valor a vida.


- , você também está maravilhoso. - disse minha mãe sorrindo para meu colega de quarto.
- Obrigada tia, eu sei que sou o cara mais gato - disse o garoto, levantando a sobrancelha. também estava de terno preto, camisa branca e gravata azul, cor do seu curso.
- Senhor!!! É muito narcisismo em uma só pessoa – Vicky, minha irmã, se aproximou de nós e me entregou uma taça de champanhe.
- Deixa disso, Vicky. Eu sei que você me ama e só não assume nosso amor, porque seu pequeno irmão não ia aceitar – Ele fez a sua maior cara de sedução para minha irmã, que apenas retribuiu com uma careta. Ele definitivamente irritava mais minha irmã do que eu.
-Vamos parar vocês dois - disse minha mãe sorrindo – Agora, por favor, tire uma foto minha e do meu . - Sorrindo orgulhosa para mim, ela estava radiante.
Nós nos deslocamos até o painel que tinha a faixa parabenizando os formandos, minha mãe ficou ao meu do lado esquerdo, eu a abracei e ergui a minha taça quando Vicky e o fotógrafo da festa tirou nossa foto. Lógico, que depois ocorreu uma série de fotos minha com a mamãe e Vicky, eu e o , eu e Vicky e, todos juntos.

- Então essa é a foto que você quer colar hoje no álbum? – perguntou Jasmim, enquanto observava o senhor a sua frente sorrir ao olhar a foto em suas mãos.
- Sim, eu quero colar essa foto junto a foto da minha pequena rebelde. - desviou o olhar da foto para a garota a sua frente.
- Aqui está a cola - entregando um tubo de cola bastão para o mesmo – Pode passar a cola e colar.
posicionou a foto em cima da mesa de madeira, abriu o tubo de cola com dificuldade. Passou o bastão de cola pelas extremidades da foto, a segurou pelas mãos.
- O que eu faço mesmo com essa foto? - Questionou confuso para garota a sua frente.
- Vamos colar ela no álbum – mostrando o álbum para .
- Ah sim, vou colar ao lado da foto da . – Disse posicionando cuidadosamente a foto no álbum.
- Sabia que eu fui orador da minha turma? - disse sorrindo enquanto colava sua fotografia.
- Sério? Não sabia, me conta como foi isso.

Faltava dois meses para a formatura quando decidiram que eu deveria ser orador, o tempo passou tão rápido que praticamente não tive tempo para elaborar o discurso. No dia da minha colação de grau, eu estava tremendo e suando em baixo daquela beca, era responsabilidade demais. Acordei dos meus pensamentos quando escutei a cerimonialista chamar o meu nome, eu deveria fazer o discurso e o juramento do curso.
Caminhei em direção ao palco do anfiteatro, passei pela minha turma e as demais turmas, subi os degraus do palco concentrado em não cair. Sorri para minha professora, ela era paraninfa da turma, ela foi praticamente uma mãe para mim, várias vezes ela acolheu minhas angustias e me incentivou a continuar.
- Boa noite a todos. – Minha voz saiu um pouco tremula de nervoso, respirei fundo e tentei focar meu olhar na minha mãe – Gostaria de agradecer imensamente a presença de todos. Cada um que está aqui hoje à noite, têm um motivo, paixão pela profissão, sucessor dos negócios da família, prestigiar um familiar, se alegrar com a conquista do companheiro ou companheira, saudar os novos colegas de profissão. – Respirei profundamente, corri o olhar pelo público, então continuei. - Quando eu era pequeno, eu sonhava em ser igual meu pai, ele era bombeiro. Eu tinha 10 anos, quando ele saiu de casa para trabalhar e não voltou mais. Ele salvou várias vidas aquele dia, mas não conseguiu salvar sua própria vida – senti minha voz embargar e a emoção tomar conta, flash daquele dia tomou minha mente. - Então abandonei aquela ideia, por medo, em respeito à minha mãe. Eu cresci, me apaixonei por números e consegui entrar pra LSE , o jovem garoto de Bolton precisou encarar o mundo e se mudar para Londres. - sorri e escutei as risadas fracas pelo auditório -. Não foi fácil, nenhum pouco fácil. E, eu sei que para muitos também não foi. É preciso ter força, garra e dedicação. Somos tão jovens e despreparados ao entrar na faculdade, mas a vida e o sistema te cobra. Manter um emprego em paralelo a rotina de estudo intenso, contas, notas, boletos, horas complementares, tcc, são tantos prazos dentro e fora. Que existe momentos que pensamos em desistir. Nesses momentos eu lembrava daquele garoto que sonhava em ser bombeiro para deixar seu pai orgulhoso. – sequei a pequena lagrima que resolveu cair e embaçar a minha visão-. Eu demorei para perceber, que hoje ele estaria orgulhoso de mim pelo homem que eu me tornei. Por tudo que passei, aprendi e cheguei até aqui. Então hoje eu quero dizer à todos que estão aqui, principalmente para nós formandos. Não foi um caminho fácil, cada um teve que enfrentar/derrubar seus próprios medos e demônios, e conseguimos chegar aqui, hoje! Não devemos temer o futuro que o mundo nos reserva a partir de agora. Devemos olhar para ele com sorriso e se orgulhar da pessoa que está saindo da universidade. Hoje somos mais fortes que ontem e amanhã seremos melhor que hoje. As pessoas a nossa volta devem sentir orgulho de nós, mas nós principalmente devemos nos orgulhar da pessoa que nos tornamos. – dobrei cuidadosamente o papel que estava meu discurso e encarei o auditório – Obrigado a todos! - O som das palmas invadiu o meu ouvindo, procurei minha mãe e consegui ver que ela estava chorando abraçada com Vicky. Nós tínhamos conseguindo.


Jasmim sorriu para o idoso, recolhendo as fotos espalhadas pela mesa e fechando o tubo de cola em seguida. Enquanto arrumava suas coisas, observou o Sr. olhando para o relógio, o mesmo apresentava estar inquieto - Algum problema ? – Demostrando estar preocupada.
- Eu preciso ir embora e a Audrey não vem logo – olhando para os lados, apreensivo – Será que você pode ligar para ela?
- Não posso ligar Sr. , mas fica calmo, logo ela está ai. Acredito que é melhor você esperar para jantar. – Calmamente, enquanto se levanta e pegava suas coisas.
- É pode ser – bufando - Só espero que ela não demore.
- Não vai demorar.

* Escola de Economia e Ciência Política de Londres

Foto nº 03 – O primeiro Beijo

- Olá , como você tem passado? - a jovem se aproximou de e sentou ao seu lado no sofá.
- Oi, eu estou bem sim, só um pouco preocupado. - abrindo um sorriso cabisbaixo.
- Posso saber o motivo dessa preocupação?
- Eu acho que eu estou esquecendo das coisas e preciso ir pra casa, está me esperando. - olhando para os lados e demonstrando estar preocupado.
- Ah entendi. Às vezes acontece de esquecermos algumas coisas - pegando na mão do senhor.
- Fico preocupado com esses esquecimentos – intrigado – Me diz uma coisa, que dia é hoje da semana?
- Eu entendo essa sua preocupação, por isso é importante participar do atendimento individual e dos grupos que acontece aqui na casa. Hoje é quarta-feira.
- Eu participo. Meu Deus, eu preciso ir embora, tenho um compromisso com a hoje. - desesperado e olhando para os lados a procura de sua bengala.
- Sr. , agora não tem como o senhor sair. Vamos construir seu álbum? - perguntou, tirando da sua ecobag o álbum de capa azul marinho.
- continua viajando? – a garota concordou com a cabeça – Bom, enquanto ela não volta podemos fazer, acho que não vou conseguir ir pra casa tão cedo – sorrindo e pegando o álbum da mão de Jasmim.

"Chego em 5 minutos"
Meu celular apitou, era uma mensagem da . Hoje parecia ser mais um dia normal, apenas uma quarta feira, inicio de noite em Londres, mas não era. Eu consegui chamar para tomar um café, eu devia ter chamado para um jantar chique em um restaurante, mas a primeira coisa que perguntei da última vez que a vi, era se ela topava tomar um café comigo. E agora estou eu aqui na Starbucks esperando ela chegar.
Estava tão distraído nos meus pensamentos que não percebi quando o furacão parou ao meu lado, sempre sorrindo, ela me trouxe para a realidade. Ela usava uma calça social preta e uma blusa de manga longa branca com alguns detalhes em dourado, usando seus sapatos de saltos. Parecia outra , era incrível como ela parecia tão séria com as roupas sociais e tão despojada aos finais de semana, ela definitivamente era uma menina em um corpo de mulher.
- E aí, já sabe o que vai pedir Bank? - apontando para o letreiro com cardápio.
- Acho que vou pedir um Caramelo Macchiato - falei analisando o cardápio.
- Jura? – surpresa - Essa é a melhor bebida quente, só peço ela - sorrindo - Apesar de você não torcer pro Chelsea, acho que combinamos - batendo em meu braço.
Era incrível sua empolgação e seu sorriso, sem dúvidas eu estava me apaixonado por essa mulher. Se bem, que não sei se é possível se apaixonar em tão pouco tempo.
Fizemos nossos pedidos, pediu Caramelo Macchiato como disse anteriormente, e nos sentamos em um sofá, em uma parte mais afastada do salão. Enquanto tomávamos nossa bebida, conversamos sobre nossa infância, nossos gostos musicais, viagens, faculdade, sonhos e trabalho. Me peguei várias vezes olhando para seus lábios, me distraindo com seu sorriso, enquanto sua voz doce me encantava, principalmente quando gargalhava ou fazia uma piada sem graça. Ela era uma mulher facilmente admirável.
- Uau - assustada, olhando para o seu relógio - Estamos aqui há tanto tempo e não percebi a hora passar.
- Quando a conversa é boa, o tempo passa devagar, igual a ampulheta do professor Horácio em Harry Potter - eu disse, rindo da referência nerd que tinha acabado de fazer. Eu realmente não queria ir embora, queria ficar ali horas e horas desfrutando da sua companhia.
- , acho que precisamos casar. Você gosta de Beatles, toma Caramelo Macchiato e ainda cita Harry Potter - olhando nos meus olhos e gargalhado - você deve ser o homem da minha vida.
- É, tô começando a considerar isso – sorriu tímida e abaixou o olhar, eu tinha acabado de deixar ela envergonhada. Me aproximei do seu rosto e coloquei uma mecha do seu cabelo atrás da orelha. Ela tocou minha mão com a sua bochecha, demonstrando gostar do carinho. Ela ergueu seu olhar, eu encarei aqueles olhos profundos, como a frase de um autor de um livro que eu li, ela tinha “olhos de ressaca de cigana”. Seus olhos me transmitia um misto de timidez e desejo. Desviei o olhar para sua boca, sua respiração estava mais acelerada quando nos aproximamos. No momento que ela fechou os olhos, eu sabia que ela estava me permitindo beijá-la.
Foi incrível, acho que toquei o céu e voltei. Nos beijamos lentamente, ela acariciava minha nuca, em contrapartida eu bagunçava seu cabelo. Aos poucos encerramos o beijo, precisávamos de ar. Mas, ao ver ela sorrindo, me aproximei e beijei ela novamente.
Ali simplesmente foi o início de tudo.


- Então vamos colar essa foto - Olhando para a foto que o senhor segurava, e olhava com tanto carinho.
- Sim, quero outra foto da minha pequena nesse álbum - com olhar apaixonado. Com ajuda de Jasmim, colou a nova foto no álbum.
Assim que acabou de colar, o Sr. se despediu de Jasmim e ficou caminhando pelo ambiente com auxílio da bengala, ele estava impaciente, foi até o portão várias vezes e retornou para a sala da casa. Jasmim tentou chamar e convencê-lo a ler um livro ou fazer caça palavras, atividades que o idoso sempre gostou de fazer. Entretanto, ele se negou e preferiu continuar caminhando.

A terapeuta ocupacional, então se despediu mais uma vez, ela sabia que aquele dia seria longo, a síndrome do pôr do sol, a agitação para voltar para casa, a saudade da esposa estava aumentando. Os momentos de lucidez, a percepção de algo errado, o esquecimento do diagnóstico.
A jovem percebia que o carinho que nutria pelo idoso ia muito além que o profissional. Várias vezes acabava se lembrando de momentos com o avô, da saudade que sentia. Também sabia do carinho dos netos de com ele. As enfermeiras sempre comentavam da presença da família, dos passeios aos finais de semana.
Naquela quarta-feira, Jasmim decidiu ir tomar um café na Starbucks. Ao chegar lá, ficou relembrando da fotografia nova do álbum: era a foto de e sorrindo. Ambos estavam sentados no mesmo sofá que se beijaram pela primeira vez. O garoto mordia a bochecha da namorada enquanto a mesma fazia careta e segurava um copo de Caramelo Macchiato. Tomar café às quartas na Starbucks era rotina do casal, quase um ritual que mantiveram durante muitos anos. Era uma maneira de renovar e celebrar aquele local tão especial para ambos.

Foto nº 04 – Fish and Chips

Estava deitado, na minha cama no alojamento, ouvindo música e olhando para o teto quando percebi um barulho na porta.
- Ótimo, agora esse povo gosta de invadir alojamentos - resmunguei enquanto pausava a música que tocava, com certeza era alguém que estava participando da festa no campus.
Após um estrondo e vários xingamentos, a porta se abriu, revelando um menino magrelo, com cabelos castanhos.
- Ei, foi mal cara. Não queria te acordar - o rapaz disse entrando no quarto e trazendo consigo uma mochila, dois sacos pretos e um violão.
- Não estava dormindo - me sentei na cama - Agora, você pode me dizer quem é você, e o que faz no meu quarto? – resmunguei impaciente.
- Aah claro – coçando a cabeça e sorrindo torto, ele nem tinha percebido que tinha invadindo o meu quarto e nem tinha se dado o trabalho de se apresentar - Eu sou , seu novo companheiro de quarto - estendendo a mão livre para mim.
- Olá , eu sou , mas pode me chamar de - apertando sua mão firmemente. Acho que precisava mostrar para aquele magrelo quem era o macho alfa - Como você percebeu, eu sou seu colega de quarto.


- Porque toda essa rivalidade com o rapaz que tinha acabado de conhecer - Jasmim sorriu encarando o rapaz.
- Não sei, mas acho que isso só rolou por 5 minutos, até ele tirar o vídeo game de um dos sacos pretos. – rindo para a garota.

Eu estava cansado, tinha sido um péssimo dia no restaurante que eu trabalhava. Era sábado à noite e o que eu mais queria era minha cama. Abri a porta do meu alojamento e simplesmente me deparo com agarrando uma loira.
- Caralho , vou ter pesadelos - disse sério e fechando a porta atrás de mim.
- Ops - não sabia se ajeitava a camiseta ou o cabelo - Eu achei que você ia chegar mais tarde meu amor - olhou para a garota ao seu lado, a mesma sorria divertida - Essa é Lindsay, diga olá pra minha nova paixão – apontando para a Lindsay.
- Você é uma piada - sentei na minha cama em frente a ambos - Desculpa Lindsay, sou . Infelizmente eu vou ser o empata foda, mas é que eu estou realmente cansado e quero minha cama - sorri, tentando consolar a menina.
- Sem problemas , teremos outras oportunidades, não é ? - piscando para , lógico que ele concordou com um sorriso gigante, ele era bizarro - Agora , tem pizza na geladeira se te animar - ela abriu um sorriso gentil, me consolado dessa vez.
- Gostei dela, – Sorri para meu amigo, que simplesmente me retribuiu com - Eu sei, eu sou foda - Ele era ridículo na verdade.
Passamos horas conversando, rindo, tomando cerveja e comendo pizza. Eles definitivamente combinavam, ela era tão pirada quanto ele. Lindsay contou que conheceu na aula de “A Vida no Contexto Cósmico”. Aula que o foi assistir por curiosidade, já que nem está inclusa na sua grade de aulas.
Naquela noite Lindsay disse que a livraria perto do seu trabalho estava precisando de atendente. Me propus ir lá conhecer, talvez fosse mais fácil ser atendente de uma livraria do que ser garçom.


- Ele é meu melhor amigo, faz tempo que eu não o vejo. Acho que a última vez foi em seu aniversário - disse encarando a foto em suas mãos. O retrato tinha dois garotos sentados na areia da praia, ambos de bermuda. olhava para baixo, enquanto aparentemente tocava o violão que segurava, já estava apenas ao seu lado sorrindo.
- Então, vamos colar no seu álbum . Isso é um livro com sua memórias e pessoas importantes para você.
- Acho que vai ficar bacana, só não entendo pra que isso. - disse encarando a jovem a sua frente seriamente.
- Isso - mostrando o livro - e os atendimentos de terapia ocupacional vão lhe ajudar recontar sua história, resinificando momentos e suas emoções, além de estimular suas funções cognitivas (memória, atenção e orientação temporal). Isso – mostrando as fotos que estavam na caixa de vime - faz parte de quem você é, da sua história.
- Interessante! Ainda bem que você tem paciência com velho - sorrindo - Isso não é pra qualquer um. Audrey fez uma boa escolha sobre você - demonstrando estar orgulhoso da filha.
- Obrigada - Retribuindo o sorriso - Eu realmente amo o que faço e sim, tenho muita paciência e gosto de saber sobre as histórias de vida de quem eu atendo. Agora precisamos colar está foto - apontando para o álbum.
Enquanto o Sr. colava a foto dele com o amigo, Jasmim reforçou a importância de participar das atividades que a casa oferecia, como dança sênior, atividade de artes e expressão, atividades corporais e os grupos de terapia ocupacional que sua colega realizava uma vez por semana.

estudava Ciências Sociais, ele era totalmente paz e amor, enquanto eu era agitado e extremamente calculista com as coisas. Era uma amizade totalmente equilibrada. Acredito que ele era o Fish e eu o Chips, a dupla dinâmica. Passávamos horas conversando, jogando videogame e escutando música. Ele esteve nos meus melhores e piores momentos. E naquela semana que eu conhecia Lindsay, consegui meu emprego na livraria.

Foto nº 05 – Definições!

- Boa tarde . - sorrindo - Vejo que está acompanhando - olhando para uma mulher loira de aproximadamente 40 anos.
- Boa tarde! Essa é Audrey - sorrindo animado, enquanto apontava para a moça loira ao seu lado.
- Audrey? - A mulher interrompeu - depois de 37 anos. Você ainda pensa que eu sou a Audrey - gargalhando - é Grace, pai. - alterando o seu olhar entre o velho e Jasmim.
- Prazer, eu sou a Jasmim, Terapeuta Ocupacional - estendo a mão para a mesma à sua frente e recendo o cumprimento de Grace. - , o que aconteceu? Você estava tão animado? - Curiosa e abaixando para encarar .
- Eu não consigo me lembrar das coisas tão facilmente - sua voz saiu trêmula e angustiada, conseguiu notar o semblante de preocupação das mulheres a sua frente. Ao percorrer seu olhar no ambiente, notou algumas pessoas sentadas do outro lado da sala, todos mais velhos, próximo da porta e estava duas mulheres de branco conversando. - Onde eu estou? - Desviou seu olhar para a Grace - não conheço esse lugar! — Jasmim se afastou, Grace suspirou pesadamente antes de responder aquela pergunta mais uma vez.
- Esta é sua nova casa, você tem ficado aqui alguns dias. Estamos organizando o seu apartamento. - Sorrindo e tentando tranquilizar o idoso.
- Está dedetizado de novo? - Grace assentiu com a cabeça - Esse apartamento está dando muito trabalho, preciso falar com para nos mudarmos logo. - Sorrindo e com a voz mais calma.
- Sim, pai. Vocês precisam conversar. Mas agora eu preciso ir conversar com algumas pessoas e você tem terapia ocupacional com aquela jovem – apontando para Jasmim que se aproximou sorridente.
- , antes de você falar com e voltar para seu apartamento, vamos fazer a nossa atividade? - Disse a jovem gentilmente, enquanto se aproximava e olhando com ternura para o Sr. que concordou com um sorriso. - Então, vamos lá! - Ajudando o senhor a se levantar.

- Eu realmente tenho preguiça só pensar que preciso arrumar uma mala, ainda hoje – disse, se estendendo sobre a canga que tínhamos levado e colocado no chão, ela ficou olhando para o céu do Green Park.
- Não vai ser tão ruim assim, . - Me ajeitei de lado, de uma forma que pudesse encará-la. Coloquei uma mecha dos seus cabelos para atrás da sua orelha, suspirei! - Você vai estar perto de casa - tentando animar minha garota.
- , eu sou de Hartford, não se esqueça! - Gargalhando - Eu vou estar perto da sua casa garoto, Manchester é mais próximo de Bolton do que de Hartford – apertando minha bochecha como se eu fosse uma criança.
- Essas garotas da capital, ficam fazendo pouco caso com a minha pequena Bolton. – retribui o sorriso e dessa vez apertei o nariz dela, o que fez ela sorrir ainda mais - Manchester é legal, tem várias coisas para fazer lá. Você vai passar uma semana lá, vai poder conhecer vários lugares. - Deitando novamente ao seu lado.
- Pode ser - suspirou - estava pensando aqui, eu vou precisar de uma guia para conhecer Manchester, você podia ir comigo?
- , você deve ser louca! Como vou passar uma semana longe do trabalho e outra, você vai estar trabalhando o dia inteiro, eu vou ficar encarando a parede do hotel – seriamente, não tinha como ficar longe do banco por uma semana.
- Aí senhor certinho, você não disse que tinha várias coisas legais em Manchester? – ela respondeu em um tom debochado, o que me fez revirar os olhos, ela sempre conseguia arrumar argumentos contra mim. Ela me deixava sem rumo, abalava minhas estruturas, era simplesmente impossível negar algo a ela.
- Posso pensar e tentar pegar a sexta- feira, mas com uma condição. – Levantei as sobrancelhas tentando seduzi-la.
- Entendo, eu só acho que os meninos de hoje em dia sempre querem algo em troca - roçando seus lábios no meu - Mas, me diga. Qual é a condição?
- Você anda conhecendo muitos meninos interesseiros – disse roubando um selinho e me afastando em seguida - Queria passar em casa e pelo menos almoçar com mamãe e Vicky, você topa ir comigo? – Queria apresentar ela para minha família, era importante pra mim ter todas reunidas, as mulheres da minha vida.
- Olha, eu topo - não tive tempo de protestar sua resposta, pois colocou seus dedos em meus lábios, na tentativa de me pedir silencio – Quero que você me diga uma coisa, eu vou chegar lá e dizer: “Olá queria Kathy, eu sou a garota maluca que seu filho conheceu no bar e ele beija de vez em quando”- imitando alguém formalmente se apresentando para outra pessoa, o que me fez gargalhar novamente e beija-la em seguida, era possível perceber o meu sorriso durante o beijo, eu sei que ela também estava sorrindo. Quebrei o beijo e me afastei o suficiente para tirar os meus óculos e encara-la. Já estava na hora de mudar aquela situação, já estava pensando nisso, talvez foi necessário um empurrão dela para eu tomar coragem -Você pode se apresentar como a minha namorada! – Mordi os lábios inferiores, temendo sua reação.
- Namorada? – ela mordeu o canto dos lábios de forma sexy e tímida, concordei com a cabeça - Você tem certeza disso? – Mais uma vez ela me fez gargalhar, ela estava insegura. Minha menina estava insegura com a minha decisão. Assenti novamente com a cabeça.
- Então Sr. do Banco - seriamente - agora o Sr. é comprometido – roubando um beijo meu novamente.
Ficamos ali curtindo o sol do Green Park durante toda tarde, eu estava tão feliz, ela estava feliz. Queria demonstrar a ela o quanto ela era importante para mim e que não havia motivos para se sentir insegura.


Jasmim ficou encarando a foto por alguns segundos antes de fechar o álbum. Na foto estava um casal no auge da juventude, era uma selfie de ambos ( e ). Ao fundo as árvores e um Sol brilhante, tão brilhante quanto o brilho apaixonado do olhar dos dois. A jovem desviou o seu olhar para que ainda conversava com Grace enquanto tomava café e comia alguns biscoitos. Se questionou como deveria ser ter um amor tão forte quanto e tiveram, será que um dia teria está sorte?

Foto nº 06 – Somos uma Equipe

estava sentado em um banco de madeira, o móvel de madeira rústica era um contraste no jardim da casa. O velho olhava o horizonte, distante e perdido em seus pensamentos, não percebendo a presença de Jasmim, quando a mesma sentou ao seu lado. A jovem ficou observando , o idoso tinha rugas e marcas de expressão, a pele fina e avermelhada pelo Sol fazia o contraste com os cabelos brancos, os anos não escondiam que aquele homem um dia foi muito bonito.
- Boa tarde - atraindo o olhar de pela primeira vez - Como você está? - Sorrindo para o senhor. retribuiu o sorriso, porém voltou a encarar as flores a sua frente - - tocando o braço do mesmo - Como o senhor está?
- Não sei, estou sentindo uma sensação ruim, não sei se é saudades. Só é algo que me angustia - despejou todas as informações, na sua voz era possível notar a tristeza, que também estava evidente em seu olhar. - Quero ir para minha casa, preciso cuidar das coisas do banco, fica brava quando deixo as coisas para o final de semana. - Encarando Jasmim que respirou profundamente. - Além disso, faz tanto tempo que não almoçamos na casa do e Lindsay.
- Realmente são muitos sentimentos e muita saudade, principalmente - repousando sua mão sobre a do idoso, era sua tentativa de acalmar através do toque suave - Será que podemos encontrar outra forma de matar essa saudade? Já que não vamos conseguir ir pra casa hoje e nem almoçar no , me conte o que você faria lá. – Curiosa.
negou sua cabeça e suspirou tristemente. Jasmim retirou de sua ecobag a caixa com as fotos de e entregou para o mesmo. A jovem sabia que palavras não seriam o suficiente, tentou acalmar sua respiração. Ela sabia que a relação de carinho com paciente poderiam ultrapassar o vínculo terapêutico, sabia que nutria esse carinho pelo o Sr. , ele lembrava o seu falecido avô - um sorriso triste brotou em seus lábios - ela sabia como era sentir saudades de alguém querido.
estava olhando as fotos uma a uma em silêncio, quando soltou uma gargalhada misturada de alegria e tristeza. Na foto estava , , e Lindsay. O primeiro casal estava sentado no chão da sala, o segundo estava sentado no sofá preto. Todos sorriam para a foto. Próximo a e tinha uma mesa de centro com caixa de pizza, uma petisqueira e algumas garrafas de long neck de cerveja.

estava deitada com a minha camiseta dos Ramones e de calcinha, ela sorria divertida enquanto cantava Yellow Submarine. Eu tinha acabado de sair do banho, aquela vista era sensacional. era sensacional.
- Porquinha, vai tomar banho - pegando uma camiseta na minha cômoda e vestindo. riu enquanto pegava sua roupa e cantava em um microfone imaginário.
- Meu Deus, pobre Beatles se remoendo no túmulo - tampando meus ouvidos.
- Eu sou a quinta voz dos Beatles – ela simplesmente mostrou a língua pra mim, olhei incrédulo para ela, que se apressou em responder - Eles só não descobriram minha voz a tempo - Ao dizer isso foi em direção ao banheiro e me deixou com cara de paisagem, mas com um sorriso enorme.
(...)

- , a pizza chegou! Você pode pegar, por favor? – gritei da cozinha.
- Caraca ! - Caminhando até a porta - eu sou visita aqui, pede pra sua namorada que já é da casa - resmungando.
- , você não é visita! – Tentei falar sério com ele, enquanto carregava o engradado de cerveja para a sala e apoiava na mesa de centro.
- Você já foi mais romântico meu amor - disse sorrindo e tentando me abraçar após deixar as pizzas em cima da mesa.
-Eu realmente não entendo a relação deles - gargalhava ao olhar para tentando me beijar.
-Eu já desisti de entender - Lindsay deu um gole em sua cerveja - e também, já aceitei que eu sou a outra na vida do - piscando para o namorado, que retribuiu com enorme sorriso.
- Vocês se merecem – Disse sorrindo para Lindsay, enquanto limpava o meu rosto que tinha deixado todo babado.
(...)

- Gente, agora é sério - ria, enquanto tentava fazer sua garrafa de cerveja como microfone.
- Você já disse isso hoje - ria ao beber sua cerveja, ela já estava um pouco alterada com a cerveja.
- Mas tô falando sério, cunhada! - bravo - , pede pro seu amor me respeitar - fazendo um bico enorme.
- Amor, não vamos contrariar a criança – sussurrei no seu ouvido, estava sentada no meio de minhas pernas.
- , nosso filho não pode mandar em tudo - tentando ficar séria, mas as lágrimas nos seus olhos diziam o quanto aquela situação estava sendo engraçada.
- Tá ok! Você sempre vai ditar as ordens com nossos filhos.
- Amooooor - resmungou alto, chamando atenção de todos e principalmente de Lindsay, que estava concentrada comendo os amendoins da petisqueira - Eles não me deixam contar a novidade.
- AMOOOOR - imitando o garoto - É só você falar - apertando a bochecha do mesmo que estava sentado ao seu lado.
- Hoje eu me senti um homem - falou sério. -Desde quan...- não me deixou terminar de falar e se posicionou na frente de todos em pé –
- Eu pedi Lindsay em casamento - sorrindo imensamente e olhando para a namorada que mandava beijos - E ela aceitou - dando socos no ar.
teve uma crise de riso com a reação de , enquanto eu só conseguia ficar chocado. Ele tinha pedido ela em casamento e ela aceitou. Meu amigo iria casar, meio impossível de acreditar nisso.
- Você deve ter entendido errado – Eu disse zoando com sua cara, ele apenas balança sua cabeça dizendo “ela disse sim”. Olhei para Lindsay que escondia sua cara de vergonha, o casal definitivamente combinava um com o outro, eles estavam há tanto tempo juntos e pareciam um casal recém formado.
- Agora fala , o que você queria dizer a eles - Lindsay tentou ficar séria e incentivando o namorado.
- Ah é - o garoto deu um tapa em sua cabeça com sua mão esquerda – Já estava me esquecendo – dando um longo gole na sua cerveja.
- Eu achei que essa já era novidade, meu filho – sorriu para o garoto, que retribuiu mostrando a língua pra ela. - Fala logo, estamos curiosos – tacando um amendoim no garoto.
simplesmente se ajoelhou na frente se todos e então disparou a falar – , você aceitar fazer parte desse momento da minha vida? Você aceita ser meu padrinho de casamento? – fingindo carregar uma caixa de alianças.
- Claro meu amor – Eu só conseguia sorrir, enquanto caminhei em sua direção e lhe abracei. Simulamos um beijo na boca, até ambos caírem para o lado. Era possível perceber que todos estavam sorrindo, estávamos felizes.


No mesmo dia a noite, Jasmim recebeu uma mensagem de Audrey. Contando que o melhor amigo de , , tinha sofrido um infarto naquela tarde, foi socorrido e precisou realizar uma cirurgia às pressas. Seu estado de saúde era grave e Audrey não teve coragem de dizer ao pai, mas sabia que durante toda aquela semana, tinha falado muito do amigo.
Pressentimento? Saudade? Conexão? Não era possível explicar, o que Jasmim sabia é que de alguma forma sentiu, essa conclusão não era profissional e sim pessoal. Existe fatos e situações que são inexplicáveis.

Foto nº 07 – Primeiro Natal

- Não acredito que você está me fazendo montar uma árvore de Natal da sua casa - disse soltando uma risada frustrada ao final, ela estava toda confusa de como passar aquele pisca-pisca por todo o pequeno Pinheiro que havíamos comprado naquela manhã. - Só monta menina, tudo na vida tem uma primeira vez - eu disse separando a guirlanda, feita de galhos secos com detalhes pratas e um laço vermelho no centro, para colocar a porta do apartamento.
- Que menino revoltado você, só acho engraçado esse espírito natalino, eu nunca vivi isso - largando os piscas-piscas e se aproximando de mim.
- Eu sei - suspirei e tirei aquele cabelo que estava próximo a sua boca - Eu não estou bravo, na verdade estou feliz em poder fazer isso com você e receber minha família aqui - beijei suavemente seus lábios, eu poderia beijar ela por horas e não iria cansar. Era tão suave e doce. partiu o beijo, riu e deu as costas, de volta para a árvore de Natal.
- Sabe que música me lembra esse momento?
- Não, qual? - me aproximando e auxiliando ela com o final do pisca-pisca.
- Dear Prudence - disse sorrindo, abrindo mão do pisca-pisca e pegando uma bolinha vermelha com brilho para colocar na árvore.
- Não consigo ver ligação com essa música, o céu não está azul e não temos nenhuma Prudence aqui - rindo e ligando na tomada o pisca-pisca, tinha um pensamento tão viajado às vezes, me surpreendia.
- Claroooo que tem! Pensa, o dia está lindo lá fora, mesmo que não esteja um dia de calor e o céu não está azul. Olha esse pôr do Sol - apontando para a janela da sacada, eu olhei na direção e era possível ver o céu alaranjado com alguns tons de rosa, que mesclava com os primeiros tons escuro da noite que caia. Sem dúvidas era uma linda vista, apesar do dia frio que fazia em Londres.
- Essa música diz sobre aqueles dias que encontramos a beleza em pequenos detalhes e ela se funde com nossos sentimentos - sorriu envergonhada - Quando encontramos um propósito e nos sentimos felizes, como transbordar energias positivas e coisas boas. É assim que eu me sinto ao seu lado - mordeu seus lábios inferiores, ela estava tímida, minha menina estava se declarando pra mim e eu só conseguia pensar no quanto me sentia assim ao lado dela.
- Eu sei como é isso, são esses momentos que eu me sinto infinito - Fazendo referência à Vantagens de ser Invisível.
- Exatamente - sorrindo ao concordar. Seu sorriso era capaz de iluminar a cidade, ela era espontânea, ela era autêntica e decidida, ela era a pessoa certa. Me aproximei dela e roubei um beijo, era carregado de sentimentos, eu sabia que não estava só e tinha ela ao meu lado, eu estava transbordando.


- Naquele dia fizemos amor pela primeira vez, não era sexo. Era muito mais que o desejo e naquele dia eu tive certeza que amava - suspirou e olhou para Jasmim, que retribuiu com um sorriso triste.
- Então, esse foi o primeiro Natal de vocês juntos - apontando para foto.
- Sim, foi o primeiro. Recebemos naquele dia minha mãe, meu padrasto e minha irmã com o namorado. Eu me senti tão completo e tão feliz, não faltava nada ali. - passava os dedos delicadamente sobre a foto dele e de de mãos dadas, em frente a árvore de Natal, o rapaz jovem vestia uma calça jeans escura e um polo branca, enquanto a menina usava um vestido de manga longa azul com estampa florais.
- O que você deseja para esse Natal, ? - Jasmim chamou sua atenção ao colocar suas mãos sobre a do velho.
- Poder estar com a minha família reunida, jantar juntos e ficar na sala conversando enquanto na TV passa aquela programação de Natal - cabisbaixo.
- Tente aproveitar esse momento Sr. . Juntos vocês podem curtir novos momentos e recriar histórias.
-Talvez você tenha razão, as meninas disseram que viriam me buscar. Parece que não tem como ficar no meu apartamento e vai para sua cidade. Não sei o que aconteceu pra ela ir para lá. A família dela nem tem espírito natalino - intrigado com a ausência da esposa.
- Talvez ela tenha algum motivo, não fique bravo, acredito que logo ela volte – sorrindo gentilmente.
Jasmim se despediu de com abraço apertado, desejou boas festas e relembrou do atendimento da próxima semana. Desejou que o mesmo aproveitasse o Natal com as filhas.

Ao sair da casa naquele dia, pensou na sua vida e na sua família. Como entendia e seu desejo por estar com a família reunida, esse seria o primeiro Natal sem o seu avô, pensou na tristeza de e no quanto sua vó também devia estar triste.
Perdas e rupturas são terríveis, ao envelhecer é a morte próxima, é a saudades daqueles que já foram. Como tornar isso mais alegre e menos angustiante.
Jasmim encaminhou um e-mail para Grace e Audrey contando sobre os acontecimentos da sessão, como fazia todas as semanas e comentou sobre a importância de passar as datas natalinas junto à família, o quanto faria bem para o idoso, principalmente para a ressignificação da data, além de ser algo totalmente importante para o idoso.

estava com a família durante a ceia de Natal, olhava os netos reunidos, os agregados e o pequeno bisneto no colo de uma neta, todos conversavam e sorriam. Se lembrou da felicidade que sentiu no primeiro Natal com , buscou a mesma pelo ambiente, mas não encontrou. O peito apertou, a tristeza e o desesperou tomou conta.
Paul, seu neto, se aproximou e questionou se estava tudo bem com o avô, o mesmo não conseguia dizer o que estava sentindo, olhou ao redor e não reconheceu o ambiente, estava sentado em um sofá preto, a sala era grande e estava enfeitada para o Natal, ao seu lado direito estava uma mesa de jantar, ao seu lado esquerdo estava uma árvore de Natal grande com vários presentes, a sua frente tinha um móvel com uma TV e várias fotos. Ele não sabia onde estava, olhou aquelas pessoas todos a sua volta, não reconhecia ninguém. Onde estava? Quem era essas pessoas?
- ? Cadê ela? - a voz embargada e o desespero tomaram conta, olhou para alguns rostos e alguns desviaram o olhar, outra abraçou o marido e chorava. O que estava acontecendo? Uma garota parecida com se aproximou, ela segurava um bebê de colo.
- Vô - sentando ao seu lado e segurando em uma das suas mãos - A vovó precisou ir para Dartford, ela tinha que resolver algumas coisas lá, mas logo ela volta - sorrindo ao olhar para o idoso.
- Dartford? - a jovem confirmou com a cabeça - E por que estamos aqui e não lá?
- Porque minha mãe - apontando para Audrey que estava próxima à mesa de jantar - Achou melhor ficarmos aqui na casa dela, já que eu tô com esse pequeno aqui - apontando para o filho nos seus braços.
sorriu e olhou para o pequeno no colo da neta. Os demais na sala aliviaram com o sorriso do idoso e aos poucos retornaram seus assuntos.
Ele não estava mais perdido, estava em casa, está tudo bem.

Foto nº 08 – “Você é especial. Talvez isso seja Amor"

As notas do piano ecoavam no ambiente. observava o jovem tocar graciosamente; as músicas alternavam entre canções populares e clássicas.
O velho respirava tranquilamente, sentindo o poder e a emoção das notas tomarem conta. Ao fechar os olhos, mergulhou no mar de lembranças.

despertou dos seus sonhos com a melodia de piano que invadia o local. Olhou o ambiente e demorou para se localizar. O quarto em tons brancos e azul celeste recebia a iluminação do sol que chegava através da sacada de vidro. Vagou seu olhar pelo ambiente até se deparar com , concentrada, tocando seu piano de armário. O instrumento de cor escura era o contraste para aquele quarto praiano.
Bournemouth. Eles estavam em Bournemouth. Na casa dos pais de , mais precisamente no seu antigo quarto.
A garota estava entregue ao instrumento, de olhos fechados, cabelos soltos e camisola lilás. sentou na ponta da cama, mais próximo à garota, e observou.
Liberdade. Esse era o seu sentimento, ela parecia tão solta e entregue ao momento.
— Desculpa te acordar — disparou ao pegá-lo lhe observando.
— Sem problemas, meu amor. Adorei acordar e te ouvir tocando piano. — A jovem abaixou a cabeça em um sorriso tímido e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Não acredito que você ficou sem graça! — Se moveu até ela e sentou-se ao seu lado.
— Eu também não sei porque fiquei. — Ela franziu a testa. — Acho que tocar piano me deixa emotiva ou me lembra da garota que eu já fui um dia.
— E como era essa garota? — Ele beijou seu ombro descoberto pela camisola. Era nítido que ela lutava contra algo em seus pensamentos. A expressão suave tomou feição de dor, até a risada forçada sair.
— Não era interessante e, talvez, você nem queira saber. Quer que eu toque um pouco mais para você? — Ela abriu aquele sorriso que o conquistou. assentiu com cabeça, enquanto observava a música tomar vida através dos dedos de .
Talvez fosse preocupação, talvez fossem seus demônios. Ele queria saber e exorcizar cada um deles de sua memória. Ela não se sentia à vontade. Manter o espaço e apoiá-la era o que devia fazer.
Enquanto ela tocava, distribuía pequenos beijos sobre seu ombro e a curva do seu pescoço. Observou seus pelos se arrepiarem e sua respiração alterar.


despertou dos seus pensamentos quando a música sessou e o jovem se aproximou.
— Vovô, você está bem? — Perguntou o rapaz, enquanto se ajeitava ao lado do velho.
— Estou, sim. — Disse sorrindo. — Apenas me recordei da sua avó. Você me fez lembrar da primeira vez que ela me disse eu te amo. Ela não disse com todas as letras, mas foi da maneira dela. — pegou a foto que estava ao seu lado e deslizou seus dedos pela imagem de .
— Vocês eram um casal incrível e apaixonados. Não sei se hoje em dia é possível encontrar um amor assim. — Observou a foto junto ao avô. — Espero um dia ter a sorte de vocês.
— E você terá. Só precisa ficar atento aos detalhes da vida. — Deu pequenos tapas nas costas do neto.

A água fria tocou os seus pés. Ao mesmo tempo, soltou um gritinho assustado por causa da temperatura da água.
— Exagerada. — chutou um pouco mais de água em direção a .
— Sacanagem fazer isso. — Se encolheu e abraçou seu corpo com os braços. — Está muito gelada.
— Está tão agradável. — Ele riu. — Talvez esteja. — Disse indo em direção a .
— Sai! Você vai jogar mais água em mim. — Ela gritou e simplesmente saiu correndo em direção à areia. levou uns segundos para compreender a situação e correr atrás dela. Aos poucos, ela foi perdendo o fôlego e diminuindo a velocidade, o que o fez chegar mais perto dela. Com o impulso para abraçá-la, os dois acabaram se desequilibrando e caindo sobre areia. Sua risada era melodia para os ouvidos de ; seus olhos, a mais bela das paisagens.
— Sua besta, agora eu virei um camarão empanado. — deu pequenos tapas no braço dele, forçando-o a se levantar. Ao invés disso, tomou impulso e beijou seus lábios.
— Você ainda continua saborosa. — sorriu observou sua cara de brava.
— Idiota! — lhe deu outro tapa e o empurrou para conseguir sentar na areia.
— Gata! — Ele piscou para ela, que apenas lhe mostrou a língua como resposta.
Então o silêncio tomou conta. Ao fundo, o som das ondas quebrando nas pedras e algumas gaivotas cantando. Estavam no meio da primavera, mas o Sol brilhava como em um dia de verão. Um pouco mais de um ano, talvez o ano mais feliz que teve, o ano com mais gargalhadas e abraços.
O silêncio não incomodava, a presença dos dois já bastava, assim como o contato dos seus dedos aquecidos pelo sol. observou brincar com seus pés na areia. Às vezes desconfiava que ela só tinha crescido no tamanho.
? — Escutou sua voz, daquela vez tão tímida.
— Oi. — Ele respondeu lhe encarando, enquanto a mesma continuava brincando com a areia em seus pés.
— Você já se sentiu amado? — Anebel ergueu os seus olhos e o fitou. — Sentiu como se fosse infinito e que nada ou ninguém seria capaz de tirar sua felicidade? — Ele sentiu um misto de ansiedade e nervosismo em sua voz.
— Acredito que sim, principalmente quando estou com você!
— Que clichê, . — Ela gargalhou. — “Principalmente quando estou com você”. — Zombou e imitou a voz de .
— Sua insensível. Pergunta e depois zomba dos meus sentimentos. — Ele se fez de ofendido e colocou uma mão em seu peito.
— Desculpa. — Riu sem graça. — Mas nunca perco a piada.
— Eu sei, meu amor. — Ele ergueu uma das sobrancelhas e abriu um sorriso gigante.
Voltaram a ficar em silêncio e encarar o mar, até o sussurro de invadir os ouvidos de :
— Você é especial! Talvez isso seja Amor. — Sua voz saiu falha, mas não a impediu de continuar quando encarou os olhos dela. — E, talvez, isso signifique que eu te amo.
E o mundo dele parou naquele momento. queria abrir o maior dos sorrisos, talvez seus batimentos tenham congelado. Ela o amava. Ela o amava e a frase ecoava em sua mente. Ela, enfim, disse. Tantas vezes ele pensou em dizer, mas teve medo de sua reação. Então ela obteve a coragem e demonstrou seus sentimentos.
— Linda, isso é amor! O amor mais puro e verdadeiro. — encarou os olhos de e colocou suas duas mãos sobre seu rosto. — E eu quero que saiba que eu também te amo!
Então ele selou seus lábios.


— Nossa, perdi a noção da hora. — Olhou para o celular. — Preciso ir, vovô. Tenho uma reunião importante no trabalho. — Se levantou e olhou para , que ainda encarava a foto.
— Sem problemas, o dever lhe chama! — sorriu. — Logo mais minha terapeuta chega. Você deveria conhece-la. — Piscou para o neto.
— Uau! Você se lembra dela? — Disse o rapaz, chocado com esse momento de lucidez do avô.
— Claro que eu me lembro da Jasmim. Por que não me recordaria dela? — Perguntou, confuso.
— Não sei, vovô. Desculpa se te ofendi. — Passou as mãos pelo cabelo. — Agora preciso ir. Tchau, vovô. — Abraçou e beijou seu rosto.
—Tchau, meu filho. Volte mais vezes para me visitar e tocar um pouco de piano para esse velho aqui. — Riu.
— Pode deixar que eu volto. — Caminhou em direção à saída.
O neto de cruzou a porta no exato momento que Jasmim entrou na sala, tão rápidos e apressados para seus compromissos que, na correria do dia a dia, deixaram escapar os detalhes e os sinais que a vida lhe indicavam.


Foto nº 09 – Se é amor tem... Desencontros


— Quais os planos para o final de semana? — Perguntei, enquanto tomava um gole de minha bebida. Como toda quarta feira, estávamos na Starbucks.
— Na sexta tem o aniversário da Izzy. Você vai comigo?
— Não sei. Só vai estar o pessoal do seu trabalho? — Eu não estava afim de ir, principalmente depois de uma semana cansativa.
— Não. O pessoal vai levar as namoradas e os namorados. Por isso pensei que você podia ir — ela estava animada. Ela sempre estava animada, muita positividade dentro de uma única pessoa. — Então, eu saio às 18h do trabalho. Acho que consigo te encontrar e depois vamos para lá, o que você acha?
— Podemos ver como fazer — disse na tentativa de não dizer não, mas também não dizer sim. Ela podia mudar de ideia. Podíamos ficar em casa curtindo um bom vinho e um filme.
— Quando você vem com esse discurso, já sei que você não quer ir — sua voz saiu um pouco alterada, talvez mais chateada do que brava.
— Não é isso, amor. Essa semana vai ser corrida — tentei justificar.
— É sempre assim. Você nunca quer sair com o pessoal. — Revirando os olhos e bebendo o gole de sua bebida.
— Você sabe que eu não gosto muito de sair, ainda mais durante a semana. Mas vai, meu amor. Vai lá e aproveita — tentei incentivar. Eu não gosto de sair, mas isso não a impede de sair com os amigos dela. Eu a quero feliz.
— Sim. Lá vai nas festas sem o namorado. De novo. Aí tenho que ficar sempre respondendo que você teve alguma coisa para fazer, afinal, você nunca vai — essa doeu. Ela realmente estava brava. Consegui ver no seu olhar o quanto ela estava magoada com isso. Realmente, eu não tenho saído muito com ela. Sabe, eu não sou muito sociável e detesto ir em lugares com varias pessoas. Mas, também, não quero deixar minha menina triste. Talvez seja melhor eu ir dessa vez.
— Está bem, . Eu vou com você — disse tentando ganhar um sorriso dela.
— Não precisa ir por pena ou porque eu estou reclamando, porque sei que você detesta ir nessas coisas. Mas, sabe, eu quero chegar e te dizer “ei, amor. Vai ter um evento, vamos?” e que você simplesmente diga “claro, . Eu vou com você”. Sem toda essa conversa — suspirou depois de desabafar. Ela estava certa. Precisamos abrir mão de algumas coisas e ceder para o relacionamento dar certo.
— Desculpa! Vou tentar ser diferente da próxima vez. Vai no aniversário e aproveita — tentando contornar a situação.


— Você foi no evento seguinte? — Jasmim perguntou curiosa para .
— Talvez eu tenha ido, mas, sabe como é, não é simples mudar — dando os ombros. — Brigamos muitas vezes por isso. Talvez o único motivo das nossas brigas. Mas faz parte do relacionamento — o senhor sorriu por confessar esse segredo.
— O senhor tem cara que era festeiro e não tão caseiro — disse, rindo.
— Talvez eu fui durante a faculdade. Mas, depois, o que eu mais queria era estar em casa, curtindo os momentos de calmaria. De loucura já bastava a rotina do dia a dia.
não aceitava isso?
— Ela aprendeu aceitar. Nunca a impedi de sair, mas ela queria minha companhia. Até o momento que os convites passaram a ser mais raros. Então, quando ela pedia para eu acompanhá-la, eu ia.
— Esse foi o segredo para ficarem juntos tantos anos?
— Acho que sim. É preciso equilibrar as vontades. Posso ver as fotografias novamente? — Estendendo a mão para pegar a caixa de fotos com Jasmim.
foi tirando as fotos novamente da caixa e colocando-as em cima da mesa. Entre elas, varias fotos do casal e da família . Jasmim podia sentir toda uma vida sendo passada através das fotos. Tantos momentos íntimos de uma família, reunidos em alguns cliques. Mas, ali, só era possível ver felicidade. Toda as brigas e tristezas estavam escondidas pelas fotos. Mas, mesmo assim, desejou poder ter uma família e uma história tão linda quanto a deles. Era triste pensar que, sem o álbum, as histórias dessas fotos iriam se perder junto à memória de .
— Ei, você decidiu qual foto quer colocar hoje? — Sorrindo e chamando atenção do senhor.
— Preciso escolher somente uma? — Disse ainda sorrindo e revirando a caixa de fotos.
— É uma foto por dia, mas vamos poder colar muitas fotos.
— Vamos colar essa de — apontando para uma fotografia que era possível ver a jovem sentada em um sofá preto, com as feições emburradas e de braços cruzados.
— Ela estava brava nesse dia — Jasmim riu ao entregar a cola bastão para .
— Provavelmente essa foto foi tirada depois de eu tê-la provocado. — O senhor passou cola por toda borda posterior da foto e colou no álbum a foto de , dando continuidade ao seu álbum de memórias.


Foto nº 10 - Promoção

O senhor caminhava pelo jardim da casa com auxílio de sua bengala e de Jasmim. A proposta era realizar atividade ao ar livre. O sentia sua perna direita doendo, mas, mesmo assim, isso não lhe impedia de caminhar e aproveitar a tarde ensolarada. Era o indício de primavera chegando, afinal, eles estavam na primavera. Não é mesmo?
— Estamos na primavera? — disse subitamente, quebrando o silêncio.
— Porque você acha que estávamos na primavera? — Questionou Jasmim.
— Porque já temos Sol, as árvores e os jardim já estão floridos... — se posicionando para apontar para o jardim que estava ao seu redor.
— Bom argumento. Realmente estamos na primavera — sorrindo. — Calma que eu te ajudo. — Auxiliando o senhor a se sentar na cadeira de madeira e lhe aproximando da mesa, também de madeira, que estava a sua frente.
— Me diga, : qual a data de hoje? — Tirando os materiais que seriam usados de sua ecobag azul turquesa.
— Hoje é terça — coçando a cabeça e tentando se lembrar a data. — Acho que 27 de março de dois mil e...
— Certo! 27 de março de qual ano? — Tentando incentivar a resposta.
— Não me lembro o ano ao certo, mas acho que 2011. — Desviando seu olhar para alguns detalhes da mesa, na qual possuía algumas ranhuras por se tratar de um móvel rústico.
Jasmim suspirou. estava perdendo sua orientação temporal. Acreditou que ele acertaria o mês, pois acertou sobre a primavera. Mas ele apenas acertou o dia da semana. Lá estava indo mais alguns pontos da avaliação que fez em , paciente desorientado temporalmente. Mas isso não era motivo para abater Jasmim. Isso significava que precisava lutar contra o tempo e intensificar os estímulos.
— O senhor acertou o dia da semana — sorrindo e tentando puxar atenção de , que também lhe retribuiu com um sorriso.
gosta de Hortênsias, sabia? — Apontando para as flores que estavam espalhadas pelo canteiro do jardim.
— Hortência é realmente linda, mas prefiro Jasmim — rindo da piada sobre as flores e seu nome.
— Sério? Normalmente as pessoas preferem rosas — intrigado com o dilema das flores.
— Rosas são bonitas, mas é tão comum...
— Engraçado, eu já ouvi isso antes — surpreso.

— EU CONSEGUI! PASSEI NO PROCESSO SELETIVO! EU SOU O NOVO SUBGERENTE DO BANCO — mandei a mensagem em caixa alta, talvez ela fosse capaz de entender o quanto eu queria gritar, mas, dentro do banco, é meio impossível fazer isso. Ela foi a primeira que eu quis contar sobre isso, a primeira que quis compartilhar os bons e maus momentos. Não demorou muito e meu celular apitou várias vezes seguidas

“ESSE É MEU GAROTO! PARABÉNS!!!!!!!!!!”

“Sabia que você ia conseguir! Você merece!”

“Você ainda tem muito para conquistar. Quero estar ao seu lado e ver suas vitórias!”

“Ah! E antes que eu me esqueça, onde vamos comemorar?”

Essa era a minha menina. Eu estava certo em tê-la ao meu lado. Para o que der e vier. Respondi-a e voltei a focar no trabalho. Agora as responsabilidades são dobradas.

(...)


O garçom trouxe mais uma rodada de cerveja. Alguns colegas de trabalho, e Lindsay, estavam todos presentes. Olhei no relógio, já estava tarde e nada de . Fala tanto de mim, mas vive presa no escritório.
Tomei um gole da minha cerveja. Eu estava tão feliz. Foi tão difícil chegar nesse posto, mas agora meu trabalho estava sendo reconhecido.
— Com licença, com licença! Cuidado, ! Você vai derrubar a Flor. — Sorri ao escutar sua voz. Agora estava tudo completo.
— Meu amor, desculpa a demora — estava afobada, mas sorrindo. Ela colocou o vaso que estava segurando em cima da pequena mesa.
— Vem cá, deixa eu te dar um abraço — abrindo os braços para que eu pudesse me aconchegar.
— Parabéns novamente, . Você merece o mundo! — Ela bagunçou meu cabelo e sorriu divertida.
— Obrigada, meu amor, por estar do meu lado nesse momento — passei a mão sobre seu rosto e lhe roubei um beijo.
— Ah! Já estava me esquecendo— pegando a Flor em cima da mesa. — Isso é para você— me entregando o vaso com uma Flor azul.
Nunca tinha recebido flores, sempre me surpreendendo.
— Flores? Isso é a primeira vez —disse sorrindo e pegando o vaso de suas mãos. — Ainda mais essas flores azuis fofas — rindo ao passar mão sobre as pequenas pétalas.
— Não te daria rosas, é muito clichê — gargalhou. — Essa flor é Hortênsia! Simboliza gratidão, respeito e admiração. — Ela colocou suas mãos sobre a minha, auxiliando-me a segurar o vaso. — Além disso, a cor azul significa amor infinito, que é como eu quero que seja o nosso amor. — Ela me roubou outro beijo, dessa vez mais tranquilo e cheio de amor.
— Ei, vamos lá! Mais um brinde para esse cara maravilhoso que logo será meu padrinho de casamento e vai me dar muitos sobrinhos — estava bêbado e erguia seu copo de cerveja, enquanto tentava abraçar .


Jasmim estava sentada em sua cadeira de balanço na varanda de seu apartamento. Se aconchegou no casaco e bebeu um gole de seu vinho enquanto encarava sua nova aquisição. Uma Hortênsias azul. A ideia era relembrar dos momentos difíceis e de ser grata com a vida por todas suas oportunidades.
Deixou a taça de vinho no chão e pegou seu notebook para digitar como foi sua sessão com .

“Realizado atendimento de Terapia Ocupacional para estímulo cognitivo (memória, atenção e planejamento), além de estimular a ressignificação da própria história.
se apresentou orientado quanto às estações do ano e dia da semana. Contudo, não soube informar corretamente a data e o ano.
Bom desempenho durante atividade, demonstrando estar mais calmo e organizado com suas memórias. Não apresentando dificuldade no planejamento e execução da atividade.
Está presente na foto colada no álbum , e . O primeiro, segurando um vaso de Hortênsias e ,os outros dois, erguendo um copo de cerveja em forma de brinde.
O Sr. segue em acompanhamento para estímulo/ manutenção das funções cognitivas e independência das atividade de vida diária.

Atenciosamente,
Jasmim Cooper
Terapeuta Ocupacional”




Continua...



Nota da autora: Meu Deus! Tanta coisa aconteceu! Dois empregos, pós e falta de inspiração. Mas o show do Styles e a carreira solo do Danny só me animou : ) Desculpa a demora, prometo que vou att com mais frequência. E vamos comentar S2 Obrigada Leninha, por aceitar betar minha história.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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