Última atualização: 01/04/2020
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- Prólogo -

A PESSOA PARADA DO OUTRO LADO DA RUA, escondida na área escura que não era coberta pelas luzes dos postes, observou enquanto a garota saía do local de trabalho, abraçando-se para barrar o vento gelado que vinha junto da noite. Ela trancou as portas do lugar e a figura a viu se afastar, o cabelo preso em um rabo de cavalo balançando em suas costas.

Sabia para onde ela ia, é claro. Já fazia semanas que calculava todos os passos dela. Possuía uma rotina comum, nada surpreendente: faculdade, trabalho, uma vez ou outra ia para o bar ou alguma festa. Mas hoje era quinta-feira, o que significava que ela faria o caminho faculdade-emprego-casa, pegando o ônibus das 20h30 no ponto há alguns quarteirões dali e desceria há duas ruas da casa dela, preferindo caminhar, então, não pelo caminho mais curto, mas o mais iluminado.

Esse era um problema sobre ela: era atenta. Usava os fones de ouvido apenas dentro do transporte público, as chaves entre os dedos formando um soco inglês caseiro. O telefone na outra mão, pronto para acionar a polícia. Pegava o caminho mais iluminado da rua e sua localização sempre compartilhada com algum conhecido. Morava sozinha, mas trancava bem as portas e janelas, além de possuir um cachorro que percebia quando alguém estava no portão.

Por isso demorou tanto para a pessoa resolver entrar em ação. Geralmente era mais rápido, mais fácil, suas vítimas mais propensas a erros e distrações, mas ela lhe deu um desafio que soube apreciar. Qual era a graça, afinal, se fosse tão fácil assim? Era bom quando uma garota trouxesse essas dificuldades, aumentando seu desejo pelo jogo de gato e rato que tanto lhe trazia prazer.

Andou na direção contrária, indo para o ponto que seria o terceiro após o da garota. E esperou, pacientemente. Quando o ônibus chegou, subiu, pagou em dinheiro e sorriu ao vê-la como ela sempre esteve nas últimas semanas: a cabeça encostada na janela, os fones de ouvido ligados, os olhos fechados. A figura se sentou alguns bancos atrás dela e por um segundo, desejou poder sentar-se mais perto, para sentir seu perfume.

Balançou a cabeça, censurando-se. Teria tempo para isso mais tarde. Observou a paisagem pela janela, tão familiar após semanas em que a via diariamente, enquanto tentava parecer o mais normal possível. Era o que restava, já que deixara o celular em casa, incapacitando qualquer possibilidade de conectar a sua pessoa ao caminho dela. Desceu, então, vinte minutos depois, duas paradas antes da dela e pegou o atalho, o que ela não escolhia pela falta de iluminação. E esperou mais alguns minutos. Quando a viu, caminhando rapidamente, sorriu. Mesmo com a rua vazia, viu como os ombros da moça relaxaram brevemente e a postura se modificou. Ela sempre abaixava a guarda quando estava chegando em casa.

Enquanto andava atrás dela, com passos silenciosos, sentiu todos aqueles sentimentos voltando à tona, enchendo seu corpo, arrepiando até o último fio de cabelo. Sentiu a adrenalina, a ansiedade, a alegria, o tesão, que correu por suas veias, esquentou seu sangue e deu-lhe a familiar fome que sempre aparecia quando estava tão perto de atacá-las. Mas, acima de tudo, sentiu o desgosto e a raiva, o ódio e a repulsa em relação a ela, suas ações e palavras, seu perfume, suas roupas, seus cabelos, seu sorriso, sua postura, todo o seu ser.

A pessoa a desprezava e adorava. Tudo junto. Todos esses sentimentos que faziam sua boca encher com o mais puro desgosto, ao mesmo tempo que sua pele arrepiava, sua genital se excitava, seu coração batia forte. O desejo, o ódio, a repulsa. Era para isso que vivia.
Agarrou-lhe o braço, de repente.

Ela virou, assustada, as chaves em punho, pronta para atacar, seus olhos arregalados e assustados, a postura dura pela adrenalina e o susto. E, por um milésimo de segundo, a figura apreciou o rosto dela, os lábios, a maciez da pele e sentiu como se estivesse pegando fogo, principalmente quando o olhar da garota mudou de choque para reconhecimento.

Ela sorriu por um momento, quase riu até. E a figura sorriu para ela, não aguentando o prazer que lhe consumia. Adorava os olhos delas. Como o brilho desaparecia por um milissegundo e era substituído pelo total horror.

A garota abriu a boca, talvez para rir, talvez para censurar-lhe – “Que susto que você me deu!” -, mas antes que pudesse dizer algo ou notar qualquer coisa, a pessoa agarrou-lhe os cabelos e, com uma rapidez surpreendente, bateu sua cabeça com toda força no muro do beco ao lado, a nocauteando.

A noite pareceu ficar mais silenciosa e escura do que já estava. Agarrando o corpo dela, arrastou-a para longe das vistas dos vizinhos que poderiam, por um lapso, resolver olhar pela janela. Colocou-a no porta-malas do carro que havia estrategicamente escondido em um matagal escuro perto do local e, com um sorriso nos lábios e um brilho no olhar, desapareceu.

A polícia só foi acionada dias depois, quando a vizinha, estranhando os latidos famintos do cachorro dentro da casa, resolveu ligar.


- Capítulo 1 -

OUVIR A VOZ DE SEU IRMÃO NO TELEFONE foi provavelmente a única coisa boa que aconteceu no dia de merda que estava tendo.

- Nada ainda? – perguntou Natã do outro lado da linha, com um tom de voz que fazia a garota adivinhar que ele provavelmente sorria com pena dela.
- Hoje foi ainda pior do que ontem – contou, prensando o celular entre a bochecha e o ombro esquerdo, tentando amarrar os cabelos pretos e compridos em um rabo de cavalo alto. – Toda fiação elétrica do apartamento estava à vista, era um incêndio iminente.
- E a casa? – perguntou ele. suspirou e arrumou a mochila sob o ombro.
- Infiltração nas paredes, tanta umidade que parece que a Amazônia crescia lá.
- Que pena, irmãzinha – suspirou seu irmão com empatia. – Mas e o emprego? Pelo menos algo bom aconteceu?
- Estou chegando lá agora – respondeu ela enquanto esperava o sinal de pedestres abrir. – Mas sério, Natã, eu não aguento mais isso. Não consigo achar um lugar que preste para morar que não custe um olho da cara e meus dois rins. Mas ao mesmo tempo não acho um emprego que não tenha um salário que beire à escravidão ou que exija comprovante de residência. Preciso de uma casa para ter um emprego, mas de um emprego para ter uma casa e ninguém me dá nenhum dos dois!
- Primaverinha, não fique assim! – riu ele usando seu apelido de infância. – É a sua estação do ano, é o seu momento! E eu já disse mil vezes que você pode ficar aqui o tempo que precisar.
- Já estou morando com você há três meses, Natã – argumentou ela. – E não tenho nem como te ajudar a pagar as contas que estão aumentando por minha causa. Não é justo com você.

Ela atravessou na faixa de pedestre segurando a barra do vestido florido para baixo, evitando que a brisa que vinha dos movimentos dos carros piorasse ainda mais seu dia, mostrando sua calcinha para todos na rua. Ignorando os comentários grotescos gritados para ela por um homem que passava, continuou a conversa.

- Eu decido o que é justo para mim e o que não é, muito obrigado! – murmurou ele. podia imaginá-lo revirando os olhos. – E eu decido que é justíssimo para mim servir de apoio para minha irmãzinha agora que ela finalmente saiu das garras daquele merda que chamamos de pai.
- Natã... – começou a censurá-lo, mas foi interrompida.
- Nem se atreva! Você sempre encontra uma desculpa para ele, por isso só saiu daquele pesadelo agora, enquanto eu já dei o fora há seis anos. Papai é grosseiro, alcóolatra e abusivo. Sair da lá foi a melhor decisão que você tomou.

suspirou e por um momento teve que se sentar em um dos bancos velhos e cobertos de folhas que encontrou na calçada. Passou a mão pelas coxas e tirou a franja dos olhos, fechando-os em seguida.

- Eu sei – murmurou sob sua respiração. Relaxou os ombros em seguida, abriu os olhos e observou o tráfico de carros. – Só é difícil não se sentir um fardo, sabe?
- Sei bem, é a especialidade do papai – respondeu Natã. – Mas eu não sou ele, você não é ele e nós agora podemos construir nossas vidas. E é isso que você está fazendo. Não se cobre tanto.

Ela sorriu de canto de boca e sentiu o coração cantar. Ela o amava tanto.

- Eu sei. Obrigada, Natã. – respondeu. Olhando para o outro lado da esquina, ainda sentada, encontrou seu destino. – Ei, eu cheguei no lugar. Falo com você mais tarde.
- Boa sorte na entrevista, Primaverinha! Vou pedir pizza para o jantar!

A biblioteca pública da cidade partiu de um projeto de estímulo cultural do município. Todas as prefeituras das cidades vizinhas contribuíram em um fundo financeiro que, após alguns anos, foi capaz de custear o projeto. Ela não se parecia com as bibliotecas que eram mostradas nos filmes estadunidenses, tão enormes que pareciam quase castelos, mas tinha seu charme apresentado por paredes coloridas cobertas por pôsteres de obras famosas de ficção juvenil e vasos de flores embaixo das janelas de vidro. Ao lado da porta de vidro, na enorme janela de vidro da direita, um cartaz feito à mão repousava com a frase: “VAGAS DE EMPREGO”.

Torcendo os lábios, suspirou. Estava tão desesperada por um emprego, por finalmente ter sua independência financeira, que estava disposta a arriscar qualquer vaga que encontrasse. Claro que isso lhe trouxe uma enxurrada de vagas horríveis, com cargas horárias e salários que beiravam à escravidão e empregadores grosseiros, elitistas e, muitas vezes, assediadores que lhe sugeriam absurdos em troca de um aumento salarial. Ela correu de todos eles e sentiu-se cada vez mais desanimada, o sonho de ser dona da própria vida parecendo ficar cada vez mais distante. Sonho esse que crescia dentro dela desde bem jovem, quando sua mãe se foi e o pai, amargurado, afundou-se na bebida e no próprio ressentimento.

Mas então, um dia, como o milagre de uma boa chuva depois de meses de tempo seco, ela encontrou em uma rede social a postagem da vaga de emprego na biblioteca pública da cidade. Mesmo com a divulgação sendo pobríssima em informações sobre vaga, ligou sem pensar duas vezes e marcou a entrevista que estava prestes a fazer. Foi animador e assustador ao mesmo tempo, pois esse emprego era como uma luz no fim do túnel que poderia nunca ser alcançada. Tinha experiência como vendedora e atendente, mas não na área em questão. Existia até mesmo o curso especializado de Biblioteconomia que, a última vez que checou, não possuía no currículo. Mas era apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cheiro e a sensação dos livros nos dedos e eles foram seu refúgio por tantos anos, que seria gratificante poder retribuir o carinho, trabalhando ali.

Com um último suspiro, alisou o vestido e abriu a porta. O frescor provindo do ar condicionado foi bem-vindo ao se encontrar com o suor que escorria pelas costas dela, fruto do dia nublado, mas extremamente abafado.

A biblioteca era ainda mais charmosa por dentro do que por fora. As paredes eram cobertas de livros de todos os tipos de capas, gêneros e tamanhos. As estantes independentes distribuíam-se pelo salão encaixando-se como um quebra-cabeça. Mesas foram espalhadas por todo o local, assim como poltronas, puffs e até mesmo pequenos tatames com mesinhas, brinquedos e livros infantis.

Encostada na coluna que sustentava o meio da sala, estava uma mesa de madeira com um computador e algumas pastas espalhadas em cima. Atrás dela, uma jovem negra com um incrível black power e utilizando um uniforme preto, com um avental de bolso com “Biblioteca Municipal” bordado. Enquanto se aproximava, percebeu que a menina tinha um crachá com uma foto dela e seu nome.

- Oi! – exclamou chamando a atenção da atendente.
- Olá! – respondeu ela com um sorriso cativante. – Como posso ajudá-la?
- Eu tenho uma entrevista para a vaga de emprego
- Ah, sim! – exclamou a atendente olhando para o computador. Depois de alguns cliques, continuou: - , certo? Do horário das 15 horas?
- Eu mesma! – respondeu ela com um sorriso nervoso.
- É um prazer conhecer você, – disse a menina enquanto saía de trás da mesa e passava a guiá-la para os fundos da biblioteca. - Meu nome é Janaína, mas eu atendo mais por Jana. Quem vai te entrevistar é o Elias, porque ele tem mais tempo de experiência do que eu.

Ela bateu com o nós dos dedos em uma porta de metal e a abriu em seguida. Atrás dela encontrava-se o que parecia ser um longo depósito de arquivos, muito provavelmente todos os dados e catalogações dos livros disponíveis na biblioteca.

- Elias? A entrevista das 15 horas chegou – chamou Janaína para o que parecia ser uma sala vazia.

então escutou o barulho de papéis e em seguida de rodas rolando. De trás de um dos arquivos mais ao fundo, um homem talvez dois, no máximo três anos mais velho que ela apareceu. Era branco, de cabelos loiros encaracolados e olhos pretos profundos. No colo dele estavam uma pilha de papéis e arquivos enquanto suas mãos rolavam as rodas da cadeira de rodas em que se encontrava.

- Oi! – disse ele com um sorriso deslumbrante enquanto se aproximava. – , certo?
- Isso! – respondeu ela enquanto o cumprimentava. – É um prazer conhecê-lo.
- Vamos nessa, então. Vou te apresentar o lugar. – Ele então pegou o conteúdo em seu colo e estendeu para Janaína. – Você consegue terminar de catalogar isso para mim, Jana?
- É claro! – exclamou ela um pouco alto demais. – Sem problemas.

seguiu Elias para fora da sala e permaneceu ao lado dele, tentando acompanhar o ritmo a cadeira de rodas.

- Não gosto muito do estilo de entrevistas formais, sabe? – contou ele. – Prefiro algo mais despojado, principalmente porque todos do grupo tem quase a mesma idade. Então acho mais legal levar os entrevistados para um tour pela biblioteca enquanto faço perguntas, principalmente porque a divulgação da vaga não era bem detalhada. Desculpe por isso, sou péssimo com tecnologias, prefiro tudo pessoalmente.
- Parece ótimo para mim – ela respondeu, sem saber ao certo o que dizer. Sentiu as mãos ficarem suadas e escondeu-as atrás das costas. – E está tudo bem sobre a divulgação, acho bom saber mais sobre a vaga pessoalmente.
- Bem, o horário de atendimento da biblioteca depende dos dias da semana. De segunda a sexta é das 9 às 18 horas e de sábado das 9h às 16h. As vezes acontece de alguém ficar até mais tarde arrumando e catalogando os livros, principalmente de quinta, sexta e sábado que são os dias que mais lotam e o trabalho aumenta, mas nunca chega a passar das 20 horas.

Os dois iam lado a lado pelo salão, Elias desviando das estantes com uma enorme habilidade que fez com que entendesse o porquê de estarem distribuídas daquela forma.

- De domingo não abrimos e você pode escolher um dia de folga na semana. A vaga que você está disputando é bem simples, basicamente recolher os livros devolvidos, colocar a devolução no sistema e colocá-los no lugar certo nas prateleiras. O salário é o que você viu na postagem.

Ele passou, então, a apontar para os lados e para cima.

- A biblioteca tem dois andares. Tentamos deixar os mais procurados aqui embaixo e mais perto da porta para atrair mais gente. Temos seções especiais para os infantis, para os nacionais, suspense, romances e assim por diante. Além de mim e da Jana, temos mais três pessoas que trabalham aqui, mas uma está no dia de folga e as outras duas no andar de cima. Alguma dúvida?
- Acho que não – respondeu ela mordendo o canto da boca. – Acho que você respondeu tudo.
- Ótimo! Agora é a sua vez. – Virou a cadeira levemente para ela e sorriu. – Me fale sobre você.

disse tudo que acreditou ser nem que levemente relevante para conseguir a vaga. Contou de suas experiências como balconista de uma lanchonete e garçonete de um restaurante, empregos que ficou respectivamente dois e três anos, até que se mudou para a cidade, saindo da grande São Paulo para o interior. Disse sobre seu amor pela literatura e escrita, sua facilidade de lidar com o público, principalmente os jovens, que eram os que a biblioteca mais buscava atrair. Afirmou ser organizada e trabalhadora, além de não se importar em ficar até mais tarde.
No fim, quando sua garganta já arranhava de tanto que falou, encolheu os ombros.

- Acho que é só isso.
- É muito para assimilar – brincou Elias com olhos brilhantes. – Mas é um bom currículo, principalmente porque buscamos priorizar quem tem paixão pelos livros, já que precisamos cuidar deles com muito carinho.

Aquilo trouxe um sorriso aos lábios dela e um pouco de esperança brotou em seu peito. O salário era normal, não pagava um aluguel sozinho, mas juntando com sua parte da herança deixada por sua mãe, talvez ela conseguisse alugar um pequeno apartamento ou kitnet.

- Fico feliz. – Elias a acompanhou até a porta e os dois apertaram as mãos.
- Foi um prazer, – disse ele com um sorriso matador. – Vou te ligar em poucos dias para dar uma resposta sobre a vaga, mas se te anima saber, você é uma das que mais se encaixam no perfil que procuro.

Ela sorriu para ele e teve que se controlar para não dar pulinhos alegres.
Se despediu e saiu. O dia, nublado e abafado, de repente parecia ensolarado e refrescante. Ignorando os comentários assediadores, as buzinas dos carros e o suor que voltava a escorrer em suas costas, correu até o ponto de ônibus alguns quarteirões dali, voltando para a casa com um sorriso que seu irmão notou automaticamente e foi capaz de suspirar esperançosa pela primeira vez em semanas.

🔪👤

Elias demorou por volta de três agoniantes dias para ligar. Quando o fez, saltou do sofá em que estava com Natã, jogando o balde de pipoca no ar e sujando o tapete do irmão.

- Você vai limpar isso! – exclamou ele.
- Shh! – ela censurou, atendendo o celular. – Alô?
- Alô, ? – respondeu a voz familiar do outro lado da linha. O coração dela bateu forte.
- Eu mesma.
- Oi, , é o Elias da biblioteca! Estou te ligando para avisar que você conseguiu a vaga.

Cobrindo o microfone do celular rapidamente, soltou gritinhos alegres enquanto pulava pela sala. Natã, percebendo sua reação, começou uma dança da vitória extremamente constrangedora.

- Muito obrigada! – exclamou ela tentando se acalmar. A voz dela devia estar afetada, pois Elias soltou uma risada.
- Eu que agradeço, acho que você é perfeita para a vaga. Se puder passar aqui amanhã para tirarmos uma foto sua e assim montarmos o seu crachá, seria ótimo.
- Claro, posso sim! Te vejo amanhã, então.
- Perfeito. Até amanhã.

Desligou o celular, trocou olhares com Natã por um milésimo de segundo e gritou em vitória. Seu irmão gritou também e ambos pularam no sofá, felizes, histéricos e dançantes até que o vizinho debaixo bateu com um cabo de vassoura no apartamento deles mandando-os calarem a boca.

🔪👤

Quando entrou novamente na biblioteca, Janaína a reconheceu e abriu um enorme sorriso.

- Você conseguiu a vaga! – exclamou dando-lhe um abraço rápido. – Gostei de você assim que te vi. Fico feliz que Elias te escolheu.
- Obrigada, Janaína – respondeu sentindo-se nas alturas. Antes que pudesse dizer algo mais, Elias apareceu.
- Olha nossa nova garota! – brincou ele. – Vamos para os fundos, tem uma parede branca perfeita para a foto.

Ela o seguiu até lá e sentou-se em um banquinho, deixando a parede branca atrás de si. Daquela forma, ficava da altura exata de Elias, que pegou uma câmera fotográfica e apontou para ela.

- Pode sorrir, se quiser – disse ele. Ela assim o fez e tirou algumas fotos.

Ele, como na última vez, a guiou até a saída. Mas dessa vez, quando ela estava prestes a sair, Elias exclamou:

- Nossa, quase esqueci!

Foi até o balcão, pegou um papel que estava debaixo do teclado do computador e entregou para .

- Um cara passou aqui mais cedo e pediu para que a gente pendurasse isso em algum lugar. Ele está alugando uma casa por um preço muito bacana e eu lembrei que você disse que estava procurando um lugar para morar, então guardei para você.

observou o papel e abriu um enorme sorriso, o coração martelando contra o peito. Era um anúncio simples, com o endereço da casa, o preço extremamente baixo e tentador e um número de telefone ao lado das palavras “Proprietário Paiva”.

Animada, se despediu e começou a ligar para o número no momento que colocou os pés na calçada. A linha discou e discou e discou e conforme mais demorava mais ansiosa ela ficava.

Uma sensação apareceu, de repente e suavemente, como uma formiguinha subindo pela espinha dela. Uma sensação engraçada porque, apesar de nunca ter sentido antes, sabia exatamente do que se tratava. A sensação de estar sendo observada.

Contudo, antes que pudesse realmente entender aquilo que seus instintos lhe indicavam, uma voz extremamente masculina atendeu a ligação.

- Alô?
- Alô, Paiva? – perguntou ela.
- Sim – respondeu silabicamente.
- Meu nome é e eu fiquei sabendo por um colega que você está pensando em alugar uma casa.

O silêncio cresceu do outro lado da linha, como se ele estivesse processando e analisando as palavras dela.

- Ah sim, a casa. Desculpe, eu estava trabalhando. Me dê um minuto.

Ela ouvir conforme ele se mexia, junto de barulhos de ferramentas e de portas abrindo e fechando. Depois de alguns segundos, ele retornou.

- Quando você está disponível para visitar?
- Contanto que seja antes da semana que vem, qualquer dia. Começo meu emprego novo depois e fica complicado para mim.
- Você consegue sexta a tarde?
- Sim!
- 14 horas, então.

E desligou, deixando-a plantada na calçada, confusa, mas ainda esperançosa.

- Capítulo 2 -

A casa ficava em um condomínio aberto que ainda estava em construção. Sendo assim, a portaria ainda não era muito elaborada, com apenas uma cabine de vigia entre duas cancelas, uma com uma placa escrita “Entrada para Moradores/Visitantes” e outra com “Saída para Moradores/Visitantes”. Dentro da cabine havia um homem por volta dos quarenta anos, grisalho e extremamente concentrado na pequena televisão de antena à frente, que transmitia um jogo de futebol.

Descendo de sua bicicleta, permaneceu alguns segundos parada, mas ele não percebeu sua presença. Ela então limpou a garganta uma e outra vez, mas ele só olhou para cima após a terceira tentativa.

- Oh, olá mocinha! – disse ele um pouco constrangido enquanto abria a pequena janela que os separava. – Posso ajudá-la?
- Oi! Eu vou na casa número treze me encontrar com Paiva.
- Paiva? – exclamou o homem franzindo as sobrancelhas. – Que engraçado, o Sr. Paiva não costuma receber muitas visitas.

Ele então inclinou-se para a fora da janelinha e apontou para o horizonte dentro do condomínio.

- A maioria das casas não foi construída, então não tem muito como errar. Os lotes são distribuídos numericamente, então é só a senhorita seguir por essa rua e virar à direita ali na frente.

- Entendi! Qual seu nome?
- Marcelo.
- Obrigada, Marcelo. Pode me chamar de , se quiser.

Ele sorriu para ela e voltou ao seu jogo. subiu de volta na bicicleta e entrou no condomínio, apreciando a brisa que batia em seu rosto naquele dia quente.

Conforme pedalava, observou o condomínio ao seu redor. Era extremamente vazio, com lotes e mais lotes de terrenos de grama verde, postes de luz distribuídos entre cada um. Alguns com placas de “Vende-se” e outros com “Vendido”. Alguns terrenos com casas começando a ser construídas, montanhas de terra e tijolos distribuídos na calçada. Em seu caminho, encontrou apenas cinco ou seis casas completamente construídas – algumas com diversos terrenos entre si – e uma delas com duas crianças que brincavam no jardim da frente.

Ao chegar na casa treze, que tinha uma moto preta estacionada na frente, parou abruptamente, permanecendo estática no meio da rua, a bicicleta encostada no quadril e um semblante confuso no rosto.
A casa era bonita, sem andares e com um sótão. Era de estilo americano, sem muro e com uma pequena escada de poucos degraus que levava a uma varanda e uma porta de madeira. Em uma das laterais, uma garagem com tamanho para um carro e com portão automático do estilo que abre através de um controle remoto.
O anormal sobre ela é que simplesmente não estava terminada.

Havia pilhas de tijolos e uma pequena montanha de terra na lateral do jardim. A pintura das paredes era de um alegre amarelo, mas não estava pronta, com rastros de pintura como se alguém não estivesse alcançando a parte mais alta. O telhado existia, mas ainda estava sem a maioria das telhas e a garagem estava aberta, mostrando em seu interior pilhas de madeira, latas de tinta e ferramentas.

deu alguns passos em direção a casa, mas parou quando alguém apareceu dos fundos pela lateral. A pessoa encostou uma comprida escada na parede da casa e deixou um latão de tinta amarela no chão. Quando se virou para ela, os dois prenderam o ar.

Ele talvez fosse um dos homens mais bonitos que já tinha colocado seus olhos sobre. Bem mais alto que ela – o que era uma surpresa, já que ultrapassava os 1,75 de altura -, com cabelos pretos e encaracolados. Ele também era de descendência asiática, mas enquanto ela era japonesa, ele parecia ser de descendência filipina, com a pele mais escura e a mandíbula mais marcada.

Os olhos pretos dele olharam para os dela com tanta intensidade que se sentiu extremamente autoconsciente.
Se esse era o proprietário, ela seria uma mulher feliz.

- Hm, oi... – murmurou ela tentando encontrar sua voz. Sentiu os próprios olhos se arregalarem quando percebeu que ele estava sem camisa. – Desculpe, eu...

O homem olhou para baixo e pareceu, assim como ela, notar apenas naquele momento que estava com o tronco amostra. Seu rosto ficou, automaticamente, com uma expressão facial de constrangimento.

- Sinto muito, isso não é muito apropriado – murmurou ele, caminhando até a varanda e recolhendo uma camiseta preta e suja de respingos de tinta que estava jogada no batente. Vestiu-a – para o enorme desprazer de – e olhou para ela novamente. – Agora sim. Você veio visitar a casa, certo?
- Sim, isso mesmo – respondeu ela aproximando-se dele, não sabendo especificar se o suor de suas mãos eram efeitos do calor, da bagunça que a casa se encontrava ou dos olhos penetrantes que a encaravam.

Ele percebeu o olhar no rosto dela e perguntou se havia algum problema.

- Não, quer dizer... Bem, eu não esperava muito isso. Achei que a casa estivesse pronta.

Ele franziu as sobrancelhas rapidamente, parecendo tão (se não até mais) confuso e surpreso do que ela, o que era absurdamente ridículo já que ele era o dono de uma proposta de aluguel de um imóvel inacabado.

- É sério? Ele não te explicou?

inclinou a cabeça para o lado, como um filhote de cachorrinho confuso com o que era dito. Ele? Ele quem? Elias talvez... fora ele que entrara em contato com o proprietário dias atrás, afinal.
Antes que ela pudesse continuar o raciocínio e perguntar-lhe sobre, continuou.

- Bem, não importa. Você já está aqui, então... – argumentou com um encolher de ombros. – Eu sou , sou um dos proprietários da casa. Seu nome é , certo?

Ela assentiu com a cabeça e descansou a bicicleta no chão. Seguiu atrás dele enquanto entravam na casa, tentando focar em suas palavras e não nos músculos de suas costas.

A casa estava um pouco melhor por dentro do que por fora. Após a porta da frente seguia-se um longo corredor com chão de madeira e paredes sem pintar. À esquerda um cômodo médio que serviria perfeitamente como sala, se estivesse terminado. O piso do chão estava pela metade, as paredes com apenas a primeira camada de tinta e havia ferramentas, pedaços de madeira e serragem espalhados por todo chão.

- Por que alugar uma casa inacabada? – perguntou de repente surpreendendo os dois.

suspirou levemente e encolheu os ombros.

- Estou passando por alguns problemas financeiros – explicou. – O homem que deveria cuidar da instalação da fiação era um charlatão que me passou a perna e a empresa que deveria trocar o piso também sumiu com meu dinheiro. Teria que parar a obra de vez se não pensasse em algo para fazer e bem... Os corredores só precisam ser pintados, tenho um quarto pronto, na cozinha apenas a dispensa está em construção e tem um banheiro que falta apenas detalhes mínimos para acabar. Eu também instalei wi-fi aqui até que a obra termine. Uma pessoa sozinha consegue viver aqui sem problemas, então pensei que talvez tivesse alguém tão desesperado quanto eu aponto de aceitar a proposta.

Coloca desesperada nisso.

- É por isso que o preço está tão baixo? – perguntou olhando ao redor. – Ainda é uma casa muito grande, existem apartamentos bem menores custando muito mais e que nem cozinha tem.
- Por isso e por umas coisinhas mais. – Eles continuaram o tour enquanto ele explicava.

observou que a cozinha era uma graça, com móveis em preto e branco e um balcão no centro, com uma linda luminária em cima. Belas janelas mostravam a rua e o jardim lateral da casa e a dispensa, não terminada, estava com a porta fechada. Depois seguiram até o final do corredor para uma área vazia que tinha, na parede à frente deles, outro corredor, sendo esse mais largo do que o primeiro e, na parede da esquerda, uma adorável lavanderia com um tanque, estantes, uma máquina de lavar e uma porta de vidro que abria passagem para o quintal.

- A obra não acabou, então morar aqui também é não ter muita paz. Estou sempre com algo para fazer, perfurando paredes, martelando pregos, cerrando madeira, essas coisas. É muito barulho. – explicou enquanto andavam pelo novo corredor.
- Você faz tudo sozinho? – perguntou ela levemente espantada, mas compreendendo de onde vinham os músculos dos braços e ombros dele que estava até agora apreciando.
- Eu prefiro – disse encolhendo os ombros como se não fosse nada demais. – As vezes Luan vem me ajudar, principalmente quando a tarefa precisa de mais de uma pessoa, mas geralmente sou só eu mesmo.

Ignorando a primeira porta do corredor, abriu a segunda, do lado daquela, mostrando-lhe um adorável banheiro com azulejos floridos e delicados. Havia um vazo sanitário, uma banheira com um chuveiro embutido e uma cortina, duas janelinhas altas, uma pia e, acima dela, um pedaço de pano cobrindo o espelho.

- Esse é o banheiro que eu falei. Está praticamente pronto, eu só preciso colocar um lustre – disse ele apontando para o teto, onde viu que uma lâmpada se encontrava sozinha e pendurada por uma fiação. – E o espelho.

Ele retirou o pano e uma falha retangular feita de tijolos apareceu na parede da esquerda.

- Não tive tempo de ir atrás de um espelho e não é algo tão essencial agora. – Ele colocou o pano de volta e virou-se para ela. – Tudo bem para você?
- Posso viver sem um espelho – respondeu, encolhendo os ombros como ele.

passou por ela para voltar ao corredor e os dois acabaram um pouco espremidos no batente da porta. ficou cara a cara com o queixo dele e sentiu seu perfume. Por um momento viu como os olhos dele se esquentaram e torceu para que não fosse algo que criou em sua imaginação.

- Desculpe – murmurou ele ainda com os olhos fixos nela. Depois afastou-se e abriu a porta seguinte. – Esse é um dos quartos que falei.

não pode evitar de sorrir enquanto olhava o cômodo vazio. Era amplo, redondo, com chão de madeira clara e lindas janelas compridas que iluminavam o ambiente e tinham como vista os fundos da casa e o horizonte do condomínio.

- É lindo – suspirou, começando a imaginar seus objetos ali. Não tinha muitos, na verdade. Abandonou seu pai com tudo que era possível caber dentro de duas malas e uma mochila, mas Natã tinha trocado alguns móveis recentemente e guardou os velhos, além de afirmar que eles encontrariam o que for preciso em bazares locais.
- É meu cômodo favorito – disse com um pequeno sorriso nos lábios que fez o estômago de se contorcer. Era a primeira vez que o via sorrir e soube, naquele momento, mesmo com aquele sorriso mínimo, que esse homem era bonito demais para o bem dela. – Achei que ia gostar.
- Por quê? – perguntou curiosa enquanto se aproximava das janelas. Ele encolheu os ombros.
- Não sei. Apenas pressenti.

Ela queria que ele explicasse mais, uma corajosa vontade de flertar aparecendo, mas se conteve. Não sabia muito sobre a vida desse homem e, apesar de nunca ter sido tímida quando se tratasse do sexo oposto, não sabia se era comprometido e com certeza ninguém recomendaria começar uma relação com o homem que poderia se tornar seu senhorio.

- Tem mais uma coisa que você precisa saber – disse ele encostado no batente da porta. – O aluguel é até a casa ficar pronta. Deve demorar por volta de seis ou sete meses, já que estou sozinho e preciso fazer o piso da sala, arrumar a fiação, pintar as paredes, terminar o telhado e ainda nem comecei a dispensa ainda. Quando tudo estiver pronto teríamos que reavaliar, pois muito provavelmente vou me mudar para cá.
- Então, deixe eu ver se entendi – disse andando pelo quarto, olhando para ele de vez em quando e contando nos dedos. – A proposta é que eu passe a morar em uma casa só parcialmente construída, em que teria que viver quase diariamente sozinha com um homem desconhecido e sem estabilidade para saber se terei lugar para morar daqui seis meses?

A resposta dele foi um encolher de ombros. Os olhos pretos fitaram-na de maneira profunda novamente e avaliou suas possibilidades.

Qualquer pessoa normal pensaria que isso era loucura por todos os motivos citados e ela se incluía na estatística, mas, ao mesmo tempo, era uma chance em um milhão. O aluguel era baixíssimo e estava certo em afirmar que um quarto, um banheiro, uma cozinha e uma lavanderia eram o suficiente para ela viver. Em seis meses, com seu novo salário e uma boa administração do que restou do dinheiro que tinha de sua mãe, ela provavelmente teria economizado o suficiente para um apartamento, caso tenha que sair.
Existia, é claro, o fato de que estaria com constantemente e sozinha. Não queria soar paranoica – ainda mais porque anos de uma criação extremamente restrita acabaram por deixá-la relapsa demais com sua própria segurança -, mas sabia que isso poderia acatar em situações perigosas para ela já que era uma mulher jovem e solitária, em um ambiente totalmente novo, com um homem desconhecido. Contudo, havia algo nele, algo que ela não conseguia explicar, mas que não deixava seus instintos atiçados.

Ou pelos menos não de uma forma ruim.

E ela queria tanto ter sua própria casa, seu próprio quarto e não uma cama improvisada no sofá de seu irmão. Natã sempre dizia que ela não era incomodo, que poderia passar anos ali sem problemas, mas sabia que ele estava sendo apenas gentil, pois as contas aumentavam por causa dela e ele não tinha a mesma privacidade de antes. Não era justo que ela continuasse vivendo às suas custas para sempre.

- Existe algo de positivo em morar aqui? – disse brincando com a situação. Além de um proprietário extremamente gostoso, é claro, pensou.

Ele sorriu para ela, divertido e quase deu tapinhas nas próprias costas, feliz por finalmente ter feito tirar o semblante sério do rosto. Ele se mexeu e ela o acompanhou até a janela, olhando para o horizonte que ele apontava.

- Tem uma piscina no condomínio – disse simplesmente.

finalmente viu o pequeno quadrado azul, ao longe, que brilhava pelo reflexo da luz do sol. Havia algumas casas construídas mais perto da piscina, mas os terrenos que seriam capazes de barrar a vista da janela e impedir que ela pudesse ver a água de longe ainda estavam vazios.
Ela riu com prazer e encolheu os ombros.

- Negócio fechado.

🔪👤

a guiou até a porta da casa e observou enquanto subia em cima de sua bicicleta. A luz do sol estava cada vez mais fraca no céu graças ao cair da tarde e a uma enorme nuvem de chuva que se aproximava.

- Quando descobrir o melhor dia para a mudança é só me falar.
- Sem problemas – respondeu ela. – Eu te envio uma mensagem.
- Até lá, então – ele murmurou. – Cuidado com a chuva.

E fechou a porta, sumindo dentro da casa.
Ao chegar na portaria, parou na cabine do porteiro e bateu no vidro.

- Sim, mocinha? – perguntou Marcelo abrindo a janela e tirando os olhos da televisão.
- Seu Marcelo, você conhece bem os moradores daqui? – perguntou curiosa.
- Não conheço os que apenas compraram os terrenos, mas os que já moram aqui ou vem com frequência, sim. – respondeu ele. – Por quê?
- O que acha do ?
- O Sr. Paiva? – disse com um semblante pensativo. – Não sei muito sobre a vida dele, apenas que é um dos proprietários da casa junto do irmão. Mas ele vem todos os dias sem falta e é um jovem muito educado, sempre me cumprimenta quando chega e quando sai e uma vez o vi ensinando uma das crianças daqui a nadar na piscina.

Ela deu um sorriso de canto de boca ao imaginar , aquele silencioso e alto homem ensinando uma pequena criancinha a dar braçadas. Marcelo percebeu e deu uma risadinha.

- Ih, vai me dizer que ele conquistou a mocinha também? Minha sobrinha é impossível, sempre tentando tascar uma olhada nele quando vem fazer o favor de entregar meu almoço.

Corando, sentiu-se como uma menininha apaixonada de doze anos e não mais como a mulher feita de vinte e quatro que era.

- Tchau, Seu Marcelo! – exclamou embaraçada enquanto saía em disparada em sua bicicleta.

Ouviu o porteiro rir ao longe e pedalou com mais velocidade, para fugir da chuva.

- Capítulo 3 -

descobriu, logo no primeiro dia, que seu trabalho seria bem mais difícil do que esperava.

Acordou no primeiro segundo do toque do despertador e saltou rapidamente da cama improvisada no sofá da sala. Com a ansiedade e animação martelando em suas veias e fazendo seu sangue fluir mais rápido, tomou uma ducha, escovou os dentes e penteou os cabelos longos, lisos e pretos. Depois vestiu as roupas pedidas pelo emprego – camiseta e calça preta e um sapato fechado – e arrumou sua bolsa com o celular, a carteira, os documentos, fones de ouvido e uma pequena bolsinha com produtos de higiene básica. Saiu em disparada em seguida, indo até a cozinha.

Natã, que já estava de pé, comia cereais em uma tigela, apoiado na pia e vestindo pijamas. Ele riu da animação dela e a observou enquanto bebia um copo de suco em um gole só.

- Você provavelmente é a única pessoa do planeta que está ansiosa para ir trabalhar em uma segunda-feira de manhã – zombou. Ela apenas mostrou-lhe a língua e começou a comer torradas e uma das frutas da mesa.
- Por que ainda está de pijama? Você disse que ia me dar uma carona – disse ela amuada quando terminou.
- E eu vou – respondeu Natã simplesmente, terminando seu cereal e pegando as chaves do carro. – Vamos nessa.
- Não vai se vestir? – riu ela enquanto o seguia.
- É segunda-feira de manhã, Primaverinha. A sociedade pode perdoar um homem de pijama.

Natã dirigiu até a biblioteca e estacionou bem na frente. Virou-se para ela com um sorriso feliz e acariciou sua bochecha.

- Hora de viver a vida, Primaverinha – murmurou e , por um momento, controlou-se para não chorar. Viu o orgulho brilhando nos olhos dele, nos olhos de seu irmão que sempre a apoiou e defendeu, mesmo ao longe, quando ele foi o único capaz de cortar laços com seu pai quando ambos fizeram dezoito anos.

O abraçou com carinho e deu-lhe um beijo na bochecha.

- Obrigada, Natã. Eu te amo.
- Eu também te amo, irmãzinha. Agora saia desse carro antes que eu desça de pijama para abrir a porta para você.

Ela voou para fora porque sabia que ele era muito capaz disso.

🔪👤

chegou uma hora mais cedo porque precisava passar por um rápido treinamento antes do seu primeiro dia. Havia uma placa na porta dizendo que estavam fechados, mas, como Elias havia lhe informado por mensagem no dia anterior, sabia que estava destrancada. Quando entrou na biblioteca, Janaína, novamente, foi quem a recepcionou, enquanto colocava uma pilha de livros em cima do balcão.

- Bem-vinda! – exclamou alegre com um sorriso que iluminava todo seu belíssimo rosto, seus cabelos crespos amarrados por um deslumbrante turbante colorido. Depois, fez um sinal para que a seguisse e a levou até um conjunto de armários embutidos nos fundos da biblioteca.
- Pode deixar sua bolsa aqui – afirmou entregando-lhe uma chave com o número quatro esculpido no chaveiro. – Ninguém vai mexer, os clientes geralmente nem percebem que os armários existem.

Entregou-lhe seu crachá e um avental de bolso bordado e riu da expressão do rosto dela.

- Feinho, eu sei. Mas o bolso vem a calhar quando você tem livros demais nas mãos. Vou te ensinar como usar o sistema e depois te apresento para o resto da equipe quando eles chegarem.

O sistema não era dos mais complicados. Era basicamente um formulário em que tinha que encontrar o processo de empréstimo da biblioteca e preencher quando foi devolvido, que horas, por quem e – em caso de atraso – de quanto seria a multa, além de receber a informação do local exato onde o livro deveria ser recolocado. Quando já parecia mais acostumada com o computador, cerca de um pouco mais de trinta minutos depois, outros dois funcionários chegaram.

O primeiro a se apresentar foi Matheus, um garoto negro transsexual tímido que parecia ter entre dezoito e dezenove anos. Ele era mais baixo que (o que, sinceramente, era algo que ela já estava acostumada), com cabelos pretos, óculos e alargadores nas orelhas.

A segunda era uma garota da mesma idade que Matheus, chamada Raquel. Magricela, branca como leite e extremamente ruiva, ela possuía milhares de sardas pelo rosto, ombros e colo. Era, ao contrário do companheiro de trabalho, uma grande tagarela que não parou de falar desde que colocou os olhos sobre .

- É um prazer conhecer você! – exclamou abraçando-lhe forte. Era mais alta do que Matheus, mas ainda chegava apenas ao peito de . – Finalmente alguém aceitou essa vaga. Eu não aguentava mais ter que fazer tudo sozinha.

sentiu um leve comichão com as palavras da colega, como se houvesse algo mais ali que ela não estava enxergando. A sensação piorou quando Janaína fez uma expressão estranha e começou a falar como se quisesse mudar de assunto, mas não teve tempo para persistir no sentimento, então acabou por esquecê-lo.

- A Carol é mais uma moça que trabalha aqui, mas ela se casou esse fim de semana e está em lua de mel, só volta daqui um mês e meio. Você não precisa se preocupar porque ela é a pessoa com mais tempo de experiência da equipe depois do Elias, então é ele que vai ficar sem dupla. Eu e o Matheus cuidamos da recepção e do empréstimo dos livros, você e a Raquel da devolução e todo mundo ajuda os clientes a achar as seções e esse tipo de coisa.
- Um mês e meio em lua de mel? – perguntou um pouco surpresa.
- Ela tem família na Europa – explicou Jana rindo de sua expressão. – E estava com férias pendentes. No fim juntou o útil ao agradável e pediu férias para emendar com a viagem.

Elias entrou nesse momento, vestindo o uniforme e com uma mochila sobre as pernas. Ele deu bom dia a todos e sorriu ao vê-la.

- Jana cuidou bem de você? – perguntou brincalhão.
- É claro! Ela é ótima.
- Ela é sim, sabia que conseguiria – disse ele e notou como as bochechas de Janaína coraram com prazer. – Bem, são quase nove horas, então todos ao trabalho! Espero que tenham um ótimo dia e se tiver qualquer problema, , é só me chamar.
- Pode deixar, chefinho! – respondeu Raquel em seu lugar, agarrando a mão de e a puxando para longe. Os cabelos crespos saltavam enquanto ela andava. – Vem! Ainda dá tempo de te mostrar onde fica cada seção.

Matheus olhou para ela e sussurrou com os lábios: “Boa sorte!”. Janaína deu-lhe um polegar para cima e Elias uma piscadela e o coração de se esquentou ao perceber o grupo incrível no qual agora fazia parte.

Foi quando os clientes começaram a chegar que o humor dela azedou. Havia se esquecido o quão difícil era trabalhar com público.

Era impressionante a quantidade de clientes sem razão que poderiam aparecer em uma biblioteca. Clientes que devolviam livros com meses de atraso e ficavam revoltados em ter que pagar a multa, que rasgavam, molhavam, rabiscavam as obras, perdiam os livros e se recusavam a pagar novos, que insistiam que tinham direito de comprar o livro da biblioteca mesmo que ela explicasse que havia uma seção específica com obras à venda e que essa, infelizmente, não fazia parte. E, entre outros diversos problemas, o clássico: “Moça preciso que você ache um livro para mim. Não sei o nome, nem o autor, nem de que ano ou de onde é, mas é um romance com um casal na capa”.

Foi em um dos momentos que Raquel assumiu o comando e deixou que ela fugisse para respirar em uma seção vazia por alguns minutos, que percebeu a presença dele.

Não soube explicar a razão pela qual chamou sua atenção. Era um homem normal, branco, alto, loiro, sentado em uma das mesinhas com um notebook fechado, um livro aberto e uma garrafa térmica e metálica. Não havia nada ali que chamasse atenção, que tivesse qualquer indício de que algo estava errado. Mas por alguma razão ela o notou e encarou-o por alguns segundos, sem entender por quê.
Foi interrompida pelo som da cadeira de rodas de Elias e sua aparição logo depois.

- Você está bem? – perguntou ele seguindo seu olhar e olhando para o homem com as sobrancelhas franzidas.
- Sim, estou – murmurou ela. – Só vim respirar um ar. Tinha me esquecido de como os clientes podem ser difíceis.
- Confie em mim, eu entendo – respondeu ele mudando seus olhos para ela e rindo. – Tente ser o gerente em uma cadeira de rodas, ninguém te leva a sério.

se sentiu mal por Elias automaticamente. Mal podia imaginar como deveria ser difícil estar em uma cadeira de rodas tendo que levar livros, documentos, pastas para lá e para cá e ainda lidar com a grosseria e falta de respeito de algumas pessoas.

- Sinto muito, deve ser horrível – disse com empatia.
- Está tudo bem, você se acostuma. Foi bem pior no começo porque tive que passar pelo choque de parar de andar.
- Você teve um acidente? – perguntou não conseguindo segurar a curiosidade. Por sorte, Elias não pareceu incomodado em responder.
- Tive, poucos anos atrás. Moto, noite escura, na chuva e em alta velocidade, a receita para o desastre. Derrapei e bati em um carro no cruzamento. Acordei um mês depois com os dois braços quebrados, costelas fraturadas e sem sentir as pernas.
- Meu Deus! – exclamou, arregalando os olhos.
- Pois é – murmurou ele com os olhos um pouco vidrados como se a cena estivesse se repetindo em sua mente. – Nunca acharam o motorista, acho que ele ficou com medo e fugiu. Eu tento fazer fisioterapia pelo menos duas vezes por semana desde então e estou um pouco melhor. Consigo ficar de pé por uns segundos sozinho e esses dias até dei alguns passos.
- Fico feliz – disse ela com tamanha sinceridade que os olhos de Elias até brilharam. Sentindo como o ar ficou pesado, lembrou-se que queria falar com ele sobre outra coisa. – Mudando de assunto, eu queria te agradecer. Consegui um lugar para morar!
- Naquela casa que te dei o panfleto? – perguntou ele sorrindo. – Que bom! Fiquei um pouco apreensivo depois, pensando que nem sabia nada sobre aquele homem e o indiquei mesmo assim, mas fico feliz que deu certo.
- Deu sim. O proprietário é um cara legal.

E gostoso.

- Quando você se muda?
- Provavelmente no sábado. Queria que fosse antes, mas meu irmão trabalha e ele queria me ajudar na mudança. A propósito, tudo bem se eu sair no máximo uma horinha mais cedo? Por causa da mudança.
- É claro! Não se preocupe.

Elias sorriu, parecendo feliz por ela e encostou a mão em seu braço em um gesto amigo que trouxe um arrepio na espinha de . Rapidamente, ela ajeitou a coluna e gaguejou:

- B-Bem, é melhor eu ir... A pobre Raquel não pode ficar sozinha lá para sempre.

E saiu em disparada, voltando para o caos que era, principalmente, a seção dos romances eróticos, sem entender a própria reação.
O homem misterioso voltou na terça, na quarta, na quinta e na sexta. Sempre um dos primeiros a chegar e um dos últimos a sair.

se perguntou por um tempo se ele não tinha um emprego, mas avaliou que o homem sempre trazia o notebook consigo e muitas vezes ficava horas lendo e digitando nele. Podia ser um escritor, um revisor ou qualquer tipo de cargo que demande muito tempo no computador e isso não fazia de sua presença estranha, pois muitas pessoas procuravam o silêncio e o conforto da biblioteca para conseguirem se concentrar.

Ela começou a acreditar que o que sentia era pura paranoia quando perguntou sobre o homem aos colegas e mais ninguém parecia ter notado que ele existia.

- Não sei quem é não – lhe disse Janaína na terça-feira enquanto as duas organizavam as cadeiras nas mesinhas que ficaram uma bagunça após algumas crianças usarem. – Mas ele parece tranquilo. Talvez o Matheus saiba de algo, melhor perguntar para ele.

Infelizmente, não foi o caso.

- Nunca o vi antes, eu acho – respondeu Matheus na quarta-feira enquanto os dois levavam pilhas de papéis aos arquivos do fundo. – Mas ele é um gatinho! Talvez a Raquel saiba de alguma coisa, fofoqueira do jeito que é.

Mas nem mesmo Raquel, que sabia tudo sobre os clientes que vinham com mais frequência, soube lhe dar uma informação.

- Ele eu nunca notei – disse a menina na quinta, enquanto as duas devolviam livros de mistério para suas respectivas estantes. – Nunca o vi por aqui, mas talvez seja melhor você perguntar ao Elias ou à Carol quando ela voltar, já que eles são os únicos que trabalham aqui há mais de três meses. Talvez ele seja um cliente antigo ou um ex-funcionário. Agora, se você quiser saber sobre aquela moça de cor-de-rosa e óculos de sol, eu sei que ela adora alugar livros eróticos com sadomasoquismo.

Elias também não sabia lhe informar muito sobre o homem. O cargo de gerente o deixava principalmente na parte administrativa da biblioteca e no pesado cargo de ter que catalogar em papéis físicos cada um dos livros novos que chegava à biblioteca (a prefeitura exigia tal depois que um apagão há três anos queimou os computadores e fez com que todos os arquivos online desaparecessem).

- Desculpe, eu conhecia mais os clientes quando comecei a trabalhar aqui – ele lhe disse na sexta enquanto a ajudava a resolver um problema de bug no computador. – Mas agora fico tanto nos arquivos que não conheço mais ninguém. Por quê?
- Ah, por nada – mentiu . – Ele só me parece familiar, mas acho que é coisa da minha cabeça. Ninguém conhece ele.

Elias não pareceu acreditar nela, mas deixou sua mentira passar.

- Acho que só a Carol vai conseguir te ajudar, então. Ela trabalha aqui há um pouco mais de um ano, entrou logo depois de mim. Se esse cara é um cliente antigo ela vai saber te dizer.

Não foi preciso, contudo, esperar Carol voltar para que tivesse contato com o homem misterioso.
Na sexta-feira, quando faltava apenas vinte minutos para fecharem e o sol já se punha deixando o céu em um belíssimo tom alaranjado, Raquel bateu no quadril de com o próprio e deu-lhe uma piscadela.

- Pode ir mais cedo se quiser, eu me viro. Considere um presente de comemoração pela primeira semana de trabalho.

, exausta e estressada após uma longa discussão com uma mulher que simplesmente achava um absurdo ter que pagar por um novo livro após o filho de seis anos dela ter arrancado todas as páginas da obra – “Criança é assim mesmo, vocês deveriam estar preparados para isso!” -, ficou tão feliz que quase deu-lhe um beijo na boca. Contudo, se conteve e apenas abraçou a nova amiga apertado.

- Você é um anjo – murmurou nos cachos ruivos de Raquel e depois foi aos fundos da loja, onde guardou o avental e recolheu sua bolsa.

Por precaução, abriu-a e olhou o que tinha dentro. Depois de ter o celular roubado mais de três vezes quando morava em São Paulo, tornou-se um pouco paranoica com seus pertences e sempre checava a bolsa após um período fora de sua vista. Abriu a carteira e sorriu ao ver que todos os seus documentos e cartões estavam ali, além de uma adorável foto polaroid dela, Natã e a mãe deles quando os dois eram crianças.

Ela sorriu observando os traços asiáticos da mãe, de quem herdara os próprios, sentindo uma saudade imensa do brilho no olhar dela e de seu perfume. Distraída, retirou o passe de ônibus da carteira e colocou no bolso traseiro da calça. Guardou a carteira na bolsa e, com uma despedida rápida ao resto dos colegas, retirou-se da biblioteca.

Foi quando estava na esquina, quase colocando os fones de ouvido, que ouviu um grito atrás de si.

- Ei! !

Ela olhou para trás, confusa, sem reconhecer a voz. Quando o viu, empalideceu.

Era o homem misterioso da biblioteca.

E ele corria em sua direção.

Ela permaneceu parada na calçada, pálida e confusa, seu cérebro tentando assimilar o que estava acontecendo.

não conhecia esse homem, apesar de sentir dentro de seu núcleo que precisava saber quem ele era. Como ele a conhecia? Ele andava a observando? Por que vinha a seu encontro?

- Você deixou cair isso – disse o homem estendendo a ela um bilhete de ônibus com o nome dela gravado. colocou a mão no bolso traseiro, de repente, e percebeu que estava vazio. Esticou a mão para recuperar o objeto, mas antes que conseguisse, o homem abaixou o braço e voltou a falar. – Há quanto tempo você trabalha na biblioteca?

Desconfiada, respondeu com relutância:

- Essa é a minha primeira semana...

O homem pareceu avaliar suas palavras e permaneceu ali, mudo e pensativo, olhando atentamente para ela. Sentindo-se desconfortável, levantou a sobrancelha e ele, parecendo levemente constrangido, estendeu o bilhete novamente.

- Aqui.

Ela tirou o objeto da mão dele e colocou de volta no bolso, dessa vez olhando a ação para ter certeza que não erraria novamente.

- Qual seu nome? – ela perguntou enquanto se virava.

Foi surpreendida, contudo, com o fato de que ele já se afastara dela e sua pergunta ficou pairando no ar, sem resposta.

- Capítulo 4 -

Uma amiga de trabalho de Natã emprestou-lhes sua caminhonete para realizar a mudança, o que tirou um peso dos ombros de . Não havia como pagar um caminhão, que seria até mesmo um exagero, já que as únicas coisas difíceis de transportar eram seu novo colchão usado, cadeiras e uma escrivaninha e um armário alto e estreito que ainda estavam desmontados.
O coração dela batia forte contra seu peito enquanto guardava no automóvel caixas com talheres, copos e pratos protegidos com jornal. Era quase inacreditável que aquele momento tinha chegado: ter sua própria casa, seu próprio lar, em que ela iria decidir onde colocar os móveis (quando os tivesse), que comida cozinhar para o jantar, que horas sair e voltar.
Era libertador, lindo, eufórico. Foi como finalmente arrancar as correntes que a prendiam a seu pai, mesmo que já tivesse partido há três meses.

Inútil do jeito que é, você não duraria um mês sem mim.

Mas ela durou não só um mês, mas três sem a ajuda dele, sem uma palavra além das ligações que as vezes ele fazia, mas desligava logo depois que atendia, pois seu orgulho não permitia que assumisse que sente a falta dela.
E agora ela duraria sem a ajuda de ninguém além de si própria, provando a ele, mesmo que apenas dentro de si mesma, já que não se falavam, que estava completamente errado.
Sentou-se no banco da frente e afivelou o cinto. Natã colocou uma última caixa atrás, no chão e sentou-se no lugar do motorista. Quando deu a partida e começou a levá-los até a casa, o estômago de encheu-se de borboletas.

- Ansiosa? – perguntou Natã de repente, quebrando o silêncio.
- Por quê? Está muito na cara? – perguntou ela tirando os olhos da paisagem na janela.
- Levando em consideração que você roeu suas unhas até a carne, um pouco. Mas não precisa, sabe. Vai ser incrível, tenho certeza.

Ela sorriu para ele, carinhosa. Natã era seu melhor amigo desde que nasceram, provavelmente até antes disso, quando estavam dentro da barriga da mãe deles. Ele sempre foi seu porto seguro, educado, compreensivo e carinhoso em todos os aspectos que o pai deles era bruto, arrogante e abusivo.

- Eu sei – murmurou ela voltando a olhar pela janela. – É só que é tudo que eu sempre quis, sabe?
- Eu sei bem! – riu seu irmão e se lembrou de quando os dois brincavam de casinha e ela sempre era a dona da casa. – E quem diria que seu sonho iria se realizar com uma casa em construção e um proprietário gostosão.

O queixo de caiu e ela soltou uma exclamação chocada.

- Eu nunca disse que ele era gostosão!
- Mas eu assumi que seria, já que você mal falou sobre ele – Natã riu. – Você nunca fala sobre os caras que se interessa e isso que deixa tudo óbvio. Foi como quando você se apaixonou pelo Eduardo Amarantes da nossa sala e até falou para mim que nem sabia que ele existia, sendo que a gente sempre voltava de carona com a mãe dele.

cobriu o rosto com as mãos e o sentiu queimar com o sangue que lhe subiu até as bochechas. Natã riu e ela não pode se conter, rindo junto. era mais uma razão pela qual ela estava tão nervosa em se mudar. Não havia tido quase nenhum contato com ele desde que se conheceram, além de algumas poucas mensagens profissionais em que combinaram a data e a hora em que a mudança ocorreria, mas ela já pode notar que ele não era só muito bonito, mas também educado e gentil, como o porteiro havia lhe dito.
Ela não pode evitar em desenvolver uma leve quedinha por ele, mas tentou lidar com a situação como a mulher adulta e responsável que era e não como uma adolescente boba e apaixonada.

- Meu Deus, que vergonha – chorou. – Não me faça ficar constrangida perto dele, eu te imploro. Ele é bem gato, mas é do tipo caladão e é o proprietário, pelo amor de Deus.

Natã apenas riu dela e relaxou. Apesar de ser brincalhão e gostar de perturbá-la, seu irmão era respeitoso e sabia que odiava ser envergonhada em público. Ela sabia que, por ter pedido que não fizesse, ele não faria.
Eles chegaram no condomínio e Natã parou o carro na frente da cancela. Marcelo abriu o vidro e sorriu para ele, esticando-se do banco do passageiro para a janela do motorista.

- Oi, Seu Marcelo! – cumprimentou e viu ele sorrir ao reconhecê-la.
- Oi, mocinha. O Sr. Paiva me avisou que você está se mudando. Fico feliz!

A cancela se abriu e Natã e acenaram para o porteiro enquanto entraram com o carro. Ela guiou seu irmão pelo condomínio, vendo mais um terreno vendido e o progresso nas construções.
Quando chegaram à casa e estacionaram na frente da moto de , ele saiu pela porta da frente (vestido uma camiseta, desta vez) e sentiu as mãos suarem ao apreciar sua linha da mandíbula, sua pele escura reluzindo graças à luz do sol e seus olhos pretos que olharam diretamente nos dela.

- Oi – ele cumprimentou.
- Oi! – ela sorriu tentando parecer relaxada enquanto saía do carro. As borboletas em seu estômago mais pareciam abelhas no momento. – Esse é meu irmão Natã. Natã, esse é o , o proprietário.

Os dois apertaram as mãos e se cumprimentaram. Quando não estava olhando, Natã piscou para e esticou as pontas dos lábios para baixo, em um sinal de apreciação.

- Precisa de ajuda? – perguntou referindo-se aos objetos na caminhonete e fazendo-a engolir a risadinha que tinha crescido em seu peito. Assentiu e eles começaram a retirá-los.

pegou duas caixas pesadas e entrou na casa com um sorriso no rosto, apreciando o leve progresso que já havia feito desde o dia que ela o conhecera. O chão da sala parecia pronto e a parede do corredor estava pintada. Ela chegou em seu novo quarto e se alegrou ainda mais vendo como os raios do sol entravam pelas grandes janelas de vidro na parede à frente da porta.
Depositou as caixas no chão e se virou para buscar mais. Contudo, entrava pela porta naquele momento e deu um salto para trás, evitando bater no corpo dele.

- Que susto! – riu. – Como você é tão silencioso sendo grande desse jeito?

Ele abriu um sorriso, achando-a divertida e rindo com ela. Ignorando sua pergunta e mostrando-lhe os pedaços de madeira em seus braços, respondeu:

- Seu irmão me disse que isso vinha para o seu quarto. Precisa de ajuda?

Ela recolheu alguns dos pedaços – evitando, para seu próprio bem, tocar na pele dele – e olhou em volta mordendo o lábio, buscando onde seria o melhor lugar para montar sua nova mobília.

- Preciso de uma caixa de ferramentas, se puder me emprestar. Acho que consigo montar sozinha.

trouxe-lhe o que pediu e decidiu por deixar o armário (simples, sem porta e composto por estantes internas) na parede à frente das janelas, mas um pouco afastado da porta. Enquanto martelava as peças juntas, trouxe sua escrivaninha e passou a montá-la, fazendo um favor a ela. Depois, Natã trouxe o colchão, duas malas, sua mochila e um estreito espelho, deixando-os no chão e dizendo que ia arrumar a cozinha.
O que mais demorou na mudança foram as montagens da estante e da escrivaninha. Depois de terminadas, as poucas coisas que sobraram foram retiradas da caminhonete rapidamente e deixadas em seus respectivos lugares. focou em seu quarto, organizando suas roupas e sapatos no armário, colocando seus livros, notebook e um adorável cacto na escrivaninha e arrumando sua cama – que era apenas o colchão no chão – com o lençol, a coberta e os travesseiros.
Quando terminou, afastou-se até a porta e sorriu observando seu trabalho. Parecia tão adorável, tão aconchegante, que a garota não se conteve e sacou o celular. Tirou uma foto linda, focando nos raios de sol saindo da janela e iluminando o colchão dela, que ficava embaixo e postou em seu story no Instagram, com a legenda: “Vida nova!” e uma sequência de corações.
Naquele mesmo segundo, como se estivesse esperando a postagem dela, uma pessoa com um estranho nome de usuário respondeu o story, dizendo:

@anony171819: Seu quarto ficou lindo!

franziu as sobrancelhas, confusa. Não reconhecia a conta, que não possuía foto nenhuma e que com certeza não seguia, pois a mensagem chegara em suas solicitações. Clicou no perfil da pessoa e estranhou ainda mais ao ver que não tinha nenhuma foto postada, nenhum seguidor e que a única pessoa que seguia era a própria e mais umas dez contas esquisitas.
Pensou, por um segundo, que a pessoa poderia ser seu pai, orgulhoso demais em colocar sua própria identidade ao admitir que estava feliz por ela. Mas descartou a ideia logo depois, concluindo que ele não só não saberia como baixar o aplicativo, mas não se importava o suficiente para perder tempo com isso.
Tentando ser educada, deu de ombros e respondeu simplesmente:

@_primaveril: Obrigada!

Em menos de dez segundos, a pessoa falou novamente:

@anony171819: Você se mudou recentemente?
@_primaveril: Sim, me mudei hoje
@anony171819: Onde fica?
@_primaveril: Perto do centro
@anony171819: Mas qual o endereço?

Um alarme soou no fundo da mente de , graças a pergunta. Por que uma conta fantasma teria tanto interesse no local onde ela morava? Incomodada, resolveu ignorar e nem ao menos visualizou a mensagem. Colocou o celular no bolso e andou pelo corredor. Quando estava chegando na cozinha, seu celular começou a vibrar.
“Número Privado” brilhou na tela e , novamente, franziu as sobrancelhas. Não havia ninguém que pudesse estar ligando para ela e seu pai apareceu de novo em sua mente, as últimas ligações mensais que fizera desde que ela se mudara sendo lembradas de repente.

- Alô? – respondeu desconfiada. Ninguém lhe respondeu, o outro lado da linha permanecendo estranhamente silencioso. – Pai?

A pessoa desligou de repente. suspirou, um pouco de alívio e um pouco de frustração, porque muito provavelmente era realmente seu pai que tinha ligado. Ele havia feito isso pelo menos uma vez por mês nos últimos três meses, provavelmente sendo assim sua maneira de saber se ela ainda estava viva, já que eles não conversavam. O estranho é que era sempre seu número salvo que brilhava na chamada e não um número privado e desconhecido.
Dando de ombros, entrou na cozinha, sorrindo ao ver e Natã conversando e arrumando os poucos copos e talheres nas estantes e esquecendo sobre a ligação e as mensagens. Ela os ajudou, colocando as compras de supermercado que havia feito nas estantes e na geladeira que já estava na casa. Quando terminaram, Natã despediu-se de e deu um beijo na testa de .

- Eu sei que você é uma merda para responder no WhatsApp, mas vou sentir saudades de te ver todo dia, então por favor faça um esforço – disse para ela com os olhos marejados de alegria. Depois, aproximou-se do ouvido dela e cochichou: - E beija esse homem, ele é um partidão.

riu dele e acenou, achando divertido o drama que ele fazia como se eles fossem morar há dias um do outro e não apenas vinte minutos. Quando Natã saiu com a caminhonete e ela fechou a porta, falou:

- Não sabia que tinha um irmão.

Naquele momento a garota percebeu que estava sozinha com ele pela primeira vez em muito tempo e sentiu-se, de repente, extremamente quente.

- Eu tenho – contestou passando por ele e se sentando em uma das cadeiras do balcão da cozinha. permaneceu de pé, no batente da porta, os olhos negros sem sair do rosto dela. – Três minutos mais velho.
- Ele é um cara bem legal – respondeu ele com um sorriso pequeno, mas simpático.
- Natã é o melhor. Ele é um dos caras mais legais que eu conheço, é meu melhor amigo – elogiou. De repente, lembrou-se de uma informação que o porteiro lhe dera: - Você também tem um irmão, não tem?
pareceu surpreso por ela possuir essa informação e sorriu com o canto da boca, brincalhão.
- Como sabe que eu tenho um irmão? – perguntou. sentiu as próprias bochechas corarem.
- O Seu Marcelo me contou – respondeu fingindo não estar envergonhada. Corou mais ainda quando ele levantou uma sobrancelha.
- Você estava perguntando sobre mim para o porteiro? – perguntou em um tom de voz que podia jurar que era de flerte. – Está me stalkeando, ?
- Não estou te stalkeando! – argumentou envergonhada. Ele riu e ela cobriu o rosto com as próprias mãos. – Estava só querendo saber se você é um cara legal. Não pode culpar uma garota por querer saber se o cara que vai estar na casa dela constantemente não é um babaca.
- Ei, está tudo bem – respondeu ele erguendo as palmas das mãos em sinal de rendição. – Não culpo você, está certa em se preocupar. Eu tenho um irmão sim, sou o mais novo, como você.
- Não consigo te imaginar sendo o irmãozinho de alguém – riu ela, imaginando um pequeno garotinho de olhos, cabelo e pele escura, correndo atrás de um menino mais velho, implorando para brincar. sorriu, parecendo tímido.
- Por incrível que pareça, eu sou. Mas nós não nos damos bem como você e seu irmão. Minha relação com ele é... Complicada.
- Ele mora longe? – perguntou , não querendo deixá-lo triste por abordar a relação ruim com o irmão, mas extremamente curiosa.
- Não, mora aqui na cidade mesmo – respondeu ele, sentando-se no banco à frente dela e olhando pela janela da cozinha. – Mas nossa relação nunca foi das melhores. Ele é um cara difícil de lidar.
- Ele é bonitão também? – perguntou ela sem pensar. Quis pular pela janela quando ele levantou uma sobrancelha, em uma expressão paqueradora e percebeu que havia assumido na cara dele que o achava atraente.
- Eu gosto de pensar que sou o mais bonito – brincou, encostando os braços cruzados no balcão e inclinando-se em direção a ela. Seus olhos a fizeram se sentir quente, principalmente pelo brilho que viu surgir. – Mas ele é bonitão sim, apesar de que nós não nos parecemos nem um pouco. Eu puxei minha mãe e ele a dele, a única coisa que temos em comum são os olhos e os cachos que herdamos do nosso pai.
- Também não me pareço com meu pai. Ele é branco e minha mãe era japonesa, foi dela que eu e meu irmão herdamos nossa descendência. – parou de falar por um segundo e, sentindo a garganta fechar um pouco pela ansiedade que ainda era abordar o assunto sobre seus pais, resolveu mudar de assunto. – Então, além de seu irmão, me fale sobre você. Para me acalmar sobre ter um estranho ao redor, é claro.

sorriu para ela pelo canto da boca e sentiu-se mais corajosa em flertar, sorrindo de volta. A criação que teve nunca lhe deu grandes oportunidades de contato com o sexo oposto, principalmente depois que sua mãe morreu e seu pai piorou ainda mais. Machista, controlador e racista como era, tentou colocar para baixo da mesma maneira que fizera tantos anos com a esposa.

- Você não tem razão para ir nessa festa, não quero filha minha perambulando por aí com um bando de moleques. Quer dizer, não que eu tenha que me preocupar muito com isso. Que garoto ia querer uma japinha como você? – ele costumava dizer quando ela perguntava se podia ir em alguma festa que seus amigos haviam convidado.

Mas observou por muitos anos como as palavras xenofóbicas de seu pai iam destruindo a autoestima de sua mãe dia após dia e se recusou, desde que teve consciência para tal, a deixar que ele a afetasse dessa maneira. As palavras ainda doíam e muitas vezes ela se olhou no espelho e sofreu, a voz dele ecoando em seu subconsciente. Mas enchia-se de coragem, batia na porta do irmão e o convencia a pular a janela e ir à festa com ela mesmo assim.
Nesses poucos eventos que teve a chance de conhecer novas pessoas, se permitiu há todas as novas experiências que pode, pois não sabia quando iria ter a chance de experimentá-las novamente. Por isso, bebeu, dançou e flertou, sendo sortuda em ter Natã ao seu lado, sempre a protegendo de qualquer coisa. Bebeu e aprendeu – ao vomitar horrores no banheiro da casa de uma menina da sala dela – que odiava ficar bêbada e precisava banir as bebidas destiladas da vida dela, principalmente o corote. Dançou e aprendeu que amava todos os tipos de música, do funk ao pagode, do samba ao MPB, do rap ao pop, desde que fosse capaz de dançar, rebolar os quadris e se sentir a mulher mais bonita do mundo. E, por fim, flertou como queria e com quem queria, apreciando o sentimento de se sentir desejada e bonita. Foi, contudo, sempre cuidadosa, principalmente ao perder a virgindade, escolhendo os homens que mais se distanciavam de seu pai: educados, gentis, respeitosos.
A última coisa que precisava é cair no ciclo vicioso que havia visto tantas vezes com outras mulheres e acabar se relacionando com o próprio pai em um corpo mais jovem.

- Não há muito o que falar – respondeu à sua pergunta, parecendo modesto. – Não sou um cara interessante.
- Ah, fala sério! quase gritou de tão indignada. Até parece que um homem daquele não era interessante. – Qualquer coisa! Quantos anos tem? Qual faculdade fez? Por que está construindo a casa?

Ele abriu a boca para responder, mas seu telefone tocou. Aquilo lembrou de que o dela não parava de vibrar em seu bolso, mas continuou a ignorá-lo, observando atender a ligação.

- Alô? – ele disse. Seu rosto se iluminou por um momento, mas depois ficou sério. – O quê? Como assim?

sentiu a curiosidade brotar no próprio peito, mas ficou calada. Não era da conta dela, no final das contas.

- Puta que pariu, que merda! – exclamou parecendo irritando e a garota se surpreendeu pela quantidade de palavrões. – Meu Deus, cara, eu sinto muito. Você quer que eu vá aí? Tudo bem, te vejo daqui a pouco.

Ele desligou o celular e passou as mãos pelo rosto e os cabelos, parecendo abalado.

- Era o Luan – respondeu. – Não sei se você sabe, mas aquela garota que sumiu há alguns meses é a irmã dele. A polícia acabou de ligar e disse que não tem mais nenhuma pista sobre o paradeiro dela. Eles até tinham um suspeito, mas não deu em nada.

Era estranho porque falava como se ela conhecesse o tal Luan e soubesse sobre o sequestro da irmã dele. ficou constrangida por isso e fingiu saber do que ele estava falando, apesar de não fazer ideia. parecia tão abalado que nem notou.

- Meu Deus, que horror! – exclamou ela, sentindo empatia pelo desconhecido.
- Eu sei – suspirou , tirando suas próprias chaves do bolso, de repente. – Desculpe, tenho que ir. Te vejo depois, tudo bem?
- Sim, claro! – disse levemente decepcionada que a conversa dos dois foi interrompida. – Te vejo depois.

Ele saiu da cozinha, mas apareceu alguns segundos depois, metade do corpo surgindo no batente da porta.

- Fico te devendo essa conversa – disse e deu-lhe uma piscadela.

Chocada, nem ao menos respondeu, permanecendo estática na mesa da cozinha e com um sorrisinho no rosto.
Seu celular voltou a vibrar e dessa vez ela checou o que era. Sem ao menos desbloquear, verificou como dezenas de notificações do Instagram apareceram, mensagens da conta anônima que falara com ela mais cedo.

@anony171819: Não vai me responder?
@anony171819: Me responde por favor
@anony171819: Oi, me responde por favor!
@anony171819: Por que você não me responde?

Mais mensagens seguiam sendo enviadas, minuto após minuto, sem parar, há mais de quarenta minutos. avaliou o que fazer e não soube ao certo que medida tomar. Não queria ser rude, mas essa pessoa estava realmente a irritando.

@_primaveril: Estou ocupada, não posso responder agora, desculpe.

Achou que talvez isso fizesse a pessoa se tocar, mas não funcionou muito bem. Continuou mandando-lhe mensagens, primeiramente se desculpando, mas depois tentando continuar com a conversa, perguntando sobre os interesses dela. Irritada, silenciou o celular, impedindo-o de vibrar com as notificações e resolveu tomar um banho para relaxar, ignorando as mensagens o resto do dia.

👤🔪

Naquela madrugada, acordou o brilho da tela do celular. Graças a sensibilidade, teve dificuldade em abrir os olhos, mas percebeu que a luz provinha de uma ligação para seu aparelho e que era por volta das duas da manhã. Atendeu, a voz grogue murmurando:

- Alô?
- , oi! – disse a voz de do outro lado da linha. – Desculpe estar te ligando a essa hora, mas só voltei para casa agora e percebi que esqueci minha mochila aí. Posso ir buscar? O carregador do meu celular está nela.
- Pode, claro – murmurou ela sonolenta, afundando o rosto no travesseiro. – Você precisa que eu abra a porta?
- Não, eu tenho a chave. Só achei melhor te ligar para você não se assustar caso me ouvisse entrando.
- Tudo bem – suspirou, o sono embalando-a novamente. – Mas da próxima vez não precisa ligar não, viu? Só entra.

Ele riu do sono dela, desculpou-se novamente e se despediu. olhou o celular para desligá-lo e notou as centenas de notificações da pessoa anônima, que não apenas lhe mandou mais de trinta mensagens ao longo da noite, como também passou a curtir suas fotos.
Irritada e ainda grogue pelo sono, entrou no perfil anônimo e o bloqueou sem pensar duas vezes. Adormeceu rapidamente em seguida e apenas teve um leve lapso de consciência quando ouviu abrir e fechar a porta da frente.

- Capítulo 5 -

construiu uma confortável rotina depois de sua mudança e descobriu rapidamente que compartilhar a casa com seria mais fácil do que pensara.
No domingo, ele lhe mandou uma mensagem dizendo que não ia trabalhar na construção para que ela pudesse ter um momento para conhecer melhor a casa sozinha, o que a deixou grata.

Passou o resto do dia fazendo exatamente isso. Abriu todas as janelas e apreciou como o sol batia na casa de uma forma que a deixava inteiramente iluminada. Depois, foi ao banheiro e organizou seus produtos de higiene pela pia e na estante de vidro que ficava dentro do chuveiro.
Por reflexo, se virou para dar uma olhada em sua aparência no espelho, para então dar de cara com o espaço vazio em cima da pia, onde ele deveria estar. Com um muxoxo, avaliou que era melhor ir atrás de um o quanto antes.

Ao sair, lembrou-se, em um estalo, da porta ao lado que nunca lhe mostrara o interior. Tentou abrir, mas ficou frustrada ao perceber que estava trancada, não cedendo as tentativas dela de jeito nenhum. Suspirou curiosa e apenas decidiu que perguntaria sobre a porta depois.
Em seguida, foi até a cozinha e preparou o café da manhã. Agradeceu aos céus pelo fato de que uma geladeira, um fogão e um micro-ondas já vinham com a casa, mas não deixou de estranhar. Era algo mais para perguntar ao senhorio.
Também encontrou uma vassoura e uma pá e aproveitou para varrer o chão de madeira, pois amava andar descalça ou de meias e a construção espalhava pó por todos os ambientes.

Quando terminou, resolveu dar uma volta pelo condomínio. Encontrou a cópia do controle da garagem em cima do balcão da cozinha e tirou sua bicicleta de lá, pois concluíra que que era melhor pedalar do que andar, principalmente por não saber o quão grande o lugar realmente era.
No caminho, observou que havia muito mais famílias com crianças do que ela imaginava. Antes só conhecia de vista as da casa algumas ruas antes da dela, mas agora percebera que havia até um parquinho infantil construído, com gangorras, balanços, brinquedos de escalada e até um gira-gira. Além disso, viu algumas crianças brincando na rua, jogando bola, pulando corda e passeando com um cachorro.

Aproximou-se da piscina, que era seu destino de mais interesse, mas ao ver a quantidade de pequenos gritando e jogando água nos pais, que estavam nas esteiras tomando sol, mudou de ideia. Olhando o horário de funcionamento, resolveu que voltaria a noite, para aproveitar um pouco de privacidade e o sossego.
Passou o resto do domingo assistindo séries e filmes em seu notebook e o dia seguinte chegou mais rápido do que ela esperava. Conforme a semana passou, percebeu duas coisas: que a casa era mais que perfeita e que ela e possuíam uma ótima harmonia.
Morar na casa tornou-se incrivelmente fácil e confortável. Suas coisas pareciam ser feitas para estarem ali e ela amava entrar pela porta e sentir o frescor do interior depois de um dia quente, tirando os sapatos e sentindo o chão frio nos pés. Houve uma vez ou outra que sentiu um desconforto esquisito ao se trocar em seu próprio quarto, principalmente na frente das janelas, mas era algo que provavelmente vinha de uma paranoia boba gerada por um ambiente novo.

Sobre , não haviam problemas. Alguns dias ele chegava no horário em que ela estava saindo para o trabalho, então era capaz de dar-lhe bom dia e apreciar seus cachos, bagunçados como os de alguém que acabou de acordar. Em outros, contudo, ela saía de casa antes que chegasse e só o encontrava por volta das 19 horas, quando voltava do trabalho e ele já estava de saída.
Não havia, portanto, muito tempo para conversar, mas mostrou-se genuinamente interessado nas opiniões dela sobre a casa e passou a perguntar-lhe sobre sempre que podia, o que fez com que as conversas por mensagens deles progredissem. Qual cor ela preferia para a sala? Tinha alguma preferência de lustre? Queria que comprasse cortinas para o quarto dela?
sentiu-se feliz em ser incluída, já que, no final de tudo, morava naquela casa. Achava que branco deixava tudo elegante, o lustre mais simples era suficiente e não precisava de cortinas, muito obrigada, a luz do nascer do sol batendo em seu rosto na verdade a ajudava a acordar de manhã.
A vida era boa e confortável, repleta de momentos de paz e tranquilidade, com um emprego bacana, novos amigos incríveis e um senhorio deliciosamente bonito e simpático.

Ou pelo menos assim era contanto que tirasse de cena as três maiores perturbações de sua vida que a rodeavam como abelhas em um picolé derretido pelo sol: a pessoa anônima na internet, as ligações privadas e o homem misterioso da biblioteca.
A pessoa anônima não se deixou abater pelo bloqueio que lhe dera na madrugada de sábado para domingo. Logo na manhã seguinte, ela acordou com uma solicitação de amizade no Facebook e uma mensagem arquivada de uma conta sem foto, sem amigos e com o mesmo nome da conta que ela havia bloqueado no Instagram.

A mensagem dizia: “Não sei o que fiz de errado, mas desculpa qualquer coisa. Por favor, me desbloqueie”.

sentiu-se mal por um momento, culpada até. O anônimo era inconveniente, mas não havia dito nada ameaçador além de perguntar seu endereço, o que poderia apenas indicar que não estava acostumado com convívio social e não sabia bem os limites de uma conversa com um estranho.
Resolvendo dar-lhe uma segunda chance, aceitou a mensagem, mas não o adicionou no Facebook (apesar de não precisar, já que sua conta era aberta). Respondeu pedindo desculpas pelo bloqueio, mas disse que as vezes não estava disponível para conversar e que não era legal receber tantas mensagens.

Achou que aquilo resolveria, principalmente porque a pessoa pareceu compreensiva e se desculpou novamente e a conversa seguiu-se, extremamente não interessante, mas inofensiva.
Mas, infelizmente, pouco tempo. O anônimo parecia ficar mais impaciente a cada minuto que demorava para responder, como se desconfiasse que ela poderia estar falando com outra pessoa e sentisse que ela lhe devia satisfações.
Também se recusava a responder quando ela perguntava qual era seu nome ou se eles se conheciam. Contornava apenas respondendo que era um “admirador tímido”.
A falta de paciência para esperar pela resposta dela deixava-o agressivo, ao ponto que o bloqueou novamente. Não importava se ela não podia responder porque estava no trabalho ou no chuveiro ou simplesmente dormindo, como ela se atrevia em deixá-lo esperando? Por que ela o evitava?

Por volta da quarta-feira, cansou de vez após vinte mensagens enviadas enquanto ela estava trabalhando. Quando finalmente teve tempo de olhá-las, viu que, entre as diversas tentativas de chamar-lhe a atenção, havia uma que dizia: “Vamos nos encontrar algum dia, podemos ver um filme e jantar”.
Extremamente desconfortável, tentou ser gentil e respondeu simplesmente: “Desculpe, não saio com estranhos”.
Teve como resposta que se ela quisesse saber a identidade dele, teria que comparecer ao encontro. Ela se recusou de novo e recebeu, então, a gota d’água:

“Se você não aparecer vai pagar caro por isso”.

Bloqueou-o, assustada, mas isso só serviu para deixá-la ciente de que não adiantaria. Apenas algumas horas depois outra conta apareceu, em seu Instagram e em seu Facebook, lhe mandando mensagens que ela se privou de responder.
E assim persistiu por quase duas semanas. As mensagens seguiam um padrão que facilmente identificou. Ele lhe mandaria mensagens se desculpando, dizendo que não deveria ter a irritado e continuaria falando mesmo que ela não respondesse, até que ficaria bravo, a xingaria e acusaria e então o bloquearia.
As ligações privadas, por sua vez, não eram tão constantes, mas chegavam a ser mais assustadoras. Se repetiram nos primeiros dias ocorrendo apenas uma vez, geralmente a noite. O outro lado da linha estranhamente silencioso. Contudo, conforme o tempo passou, tornaram-se frequentes, cinco ou seis vezes aos dias, mas com um detalhe: sempre quando ela estava livre para atendê-las. Não recebia ligações enquanto dormia ou enquanto estava no trabalho, mas quando seu turno terminava ou acordava de manhã, o celular vibrava com “Número Privado” brilhando na tela, como se quem ligasse soubesse a rotina que ela tinha.
Por fim, havia o homem misterioso que continuava a aparecer todos os dias sem falta em seu local de trabalho. Continuava, a maior parte do tempo, na dele, lendo ou trabalhando, sentando-se em uma das mesas da entrada, que notou depois de um tempo que lhe dava uma ampla visão de todo o espaço da biblioteca.

Ele tentou falar com ela algumas vezes mais, depois do dia que devolvera seu passe de ônibus, mas as conversas pareciam extremamente inofensivas. notara, contudo, que muitas vezes ele lhe observava atentamente, seguindo-a com o olhar enquanto ia de um lado para o outro trabalhando, parecendo tão curioso sobre ela quanto ela era sobre ele.
adotou um estilo de vida que se consistia em ignorar essas três perturbações para apreciar as coisas boas da sua vida. Por isso, continuou bloqueando as inúmeras contas fakes do anônimo, passou a ignorar as ligações privadas e tentou ao máximo ficar nas seções mais afastadas da mesa do desconhecido.
Foi capaz de perceber, muito tempo depois, que também ignorou um pressentimento que lhe apareceu no fundo da mente e que gritava para ela que algo estava prestes a acontecer, como se estivesse sentada na primeira cabine de uma montanha russa, esperando, com um arrepio na espinha, que o carrinho começasse a subir nos trilhos, enquanto ouvia a contagem regressiva do funcionário que apertaria o botão.
Depois de duas semanas de sua mudança, os instintos dela provaram-se mais certos do que nunca.

👤🔪

- Ok, estou cansada disso – disse de repente para Raquel, na sexta-feira, enquanto as duas, sentadas no chão, arrumavam uma pilha de livros de romance na parte inferior da prateleira. – Desembucha. O que vocês ficam cochichando às minhas costas?

Raquel corou rapidamente, suas orelhas e pescoço tomando uma cor avermelhada como seu cabelo. ficou feliz por sua reação, porque sabia que a tinha colocado contra a parede.

- Não sei do que está falando – respondeu sua amiga, de repente muito interessada em um romance histórico com um homem seminu de cabelos compridos na capa.
- Sabe sim! – rebateu tirando o livro das mãos dela. – Você e o Matheus sempre estão trocando olhares e cochichando e param de falar quando eu chego. Com a Janaína é a mesma coisa. É como se tivesse um segredo que só eu não sei e sinto isso desde que cheguei aqui!

Raquel suspirou, parecendo cansada e olhou ao redor, como se estivesse esperando que alguém as vigiasse. Depois, inclinou-se e sussurrou:

- Eu nunca achei que a gente devesse esconder isso de você, para ser sincera, mas todo mundo me mandou ficar quieta, então fiquei. – franziu as sobrancelhas, mas Raquel falava rápido e continuou antes que pensasse em responder. – Todo mundo ficou preocupada em você largar o emprego que nem as outras três pessoas, se acabasse descobrindo sobre a garota que trabalhava aqui e morreu.
- O quê?! – exclamou um pouco alto demais, recebendo uma censura de Raquel.
- Shh! Se eles descobrem que te contei vão brigar comigo. Uns três ou quatro meses atrás uma menina que trabalhava aqui sumiu depois que ficou até mais tarde e ninguém nunca mais viu ela.
- Sumiu?
- Sumiu, menina. Um dia estava aqui e no outro puff! Acho que o nome dela era Mirela, Micaela... Sei lá! Pelo que eu entendi a polícia achou que ela podia só ter dado o fora, sabe? Fugido com alguma namorada ou algo assim, mas o irmão dela garantiu que ela não ia deixar de falar com ele ou abandonar o cachorro dela.
- E não souberam mais nada sobre ela? Você disse que ela morreu.
- É que essa é a minha hipótese – argumentou Raquel voltando a arrumar os livros na prateleira, como se as duas conversassem sobre o tempo lá fora. – Poxa, quatro meses sumida... Acho que saiu no jornal um tempo atrás que a polícia está até pensando em desistir, porque não encontram mais nenhuma pista.
- E vocês acharam que eu ia desistir do emprego por causa disso? – perguntou confusa.
- A menina trabalhava no nosso cargo – explicou Raquel. – E isso foi suficiente para as outras três pessoas que vieram fazer entrevista aqui. Era só elas descobrirem que era aqui que ela trabalhava que pronto, davam no pé, como se fosse amaldiçoado. Eu fiquei, não acredito nessas coisas.
- Você não a conhecia?
- Não, entrei faz uns três meses, junto da Janaína. O Matheus veio um mês depois. Muita gente que trabalhava aqui vazou depois que ela sumiu, só o Elias e a Carol ficaram e conheciam ela pessoalmente. Disseram que era incrível. Acho que já vi a cara dela na TV quando ela sumiu, mas não me lembro bem.

permaneceu pensativa sobre isso o resto do dia. Sentia-se estranhamente apegada à desconhecida, como se tivessem um vínculo especial. Talvez fosse pelo cargo que agora pertencia a ela ou simplesmente ao fato que também era uma mulher jovem que estava vulnerável como a outra (Micaela ou Mirela, quem sabe) e não podia evitar em sentir uma grande empatia por ela.
Exausta e sobrecarregada, sentou-se no ponto de ônibus e esperou. De repente, seu celular começou a vibrar e ela viu que era mais uma das dezenas mensagens do “admirador secreto” que possuía. Dessa vez, contudo, não era uma sequência de “Olás” não-respondidos, mas um enorme texto que ficava pior a cada linha.


"Oi, sei que não vai me responder, mas queria te contar uma coisa que quero te falar desde que te chamei pela primeira vez.
Estou completamente apaixonado por você, desde quando coloquei os olhos sobre você. Vejo suas fotos e me apaixono cada vez mais pelo seu sorriso, pelos seus olhos... Sinto que conheço você, como se fomos destinados a ficar juntos para sempre. Queria saber se não poderíamos sair algum dia, eu poderia te buscar em casa e te levar para jantar.
Sonho com você todas as noites, penso em você a cada segundo do meu dia e cada conversa que tivemos só tive mais certeza que você é a mulher da minha vida. Queria poder tocar em você, sentir você, beijar você. Quero construir uma família com você e sei que é o destino que fiquemos juntos.
Desculpe se te assustei em outras mensagens, mas a ideia de não te ter na minha vida me deixa maluco e eu perco a cabeça. Talvez isso tenha feito você pensar mal de mim, mas eu sei que consigo fazer você me amar...



A mensagem continuou, mas não tinha mais estômago para ler. Com as mãos tremendo, teve certeza que nunca se sentiu tão desconfortável em toda sua vida, o coração martelando assustado contra seu peito.
Ela não havia trocado mais do que um dia de conversa com esse homem. Nunca o havia visto e era extremamente perturbador que ele confirmasse o seu amor por ela sendo que eles simplesmente não se conheciam.
A história era tão absurda que ela não soube como responder. Como dar o fora em uma pessoa claramente fantasiosa? Principalmente alguém que simplesmente a ameaçou por recusar-se a compareces em um encontro? Já era péssima em dispensar pessoas em situações normais.
Continuou encarando a mensagem e seu rosto ficou mais pálido quando o admirador, percebendo que ela havia visualizado, começou a cobrar sua resposta.

A: “Não vai me responder?”.
“Desculpe, eu não sei como te responder...”.
A: “???”.

“Nós mal nos conhecemos”
, enviou, começando a explicar, mas sendo logo interrompida por ele dizendo: “Como não? Conversamos todos os dias!”. Aquilo foi, sinceramente, o cúmulo. Conversavam todos os dias? Ela não o respondia há quase duas semanas, como era possível que ele havia criado toda essa fantasia em sua cabeça?
Com a imagem de aparecendo em sua mente, de repente, escreveu:

“Eu estou vendo outra pessoa, desculpe”.

O anônimo não respondeu, o que deixou tudo ainda pior. Seu silêncio arrepiou os pelos dos braços, das pernas e da nuca de , como se a avisasse que ele havia ficado extremamente furioso, seu silêncio sendo quase perigoso.
Ela guardou o celular na mochila, como se aquilo fosse a proteger dele, mas a sensação permaneceu até horas mais tarde, quando estava deitada na cama, o quarto levemente iluminado pela luz dos postes da rua do condomínio, que entrava pelas janelas sem cortina.

👤🔪

No meio daquela noite, acordou com um som.
Demorou um tempo para entender ao certo o que estava acontecendo. Confusa e sonolenta, coçou os olhos com os dedos e franziu as sobrancelhas, tentando ouvir melhor.
Era um som leve, que ela não podia reconhecer e nem saber de onde vinha. Era como se se espalhasse pelas paredes, deixando mais difícil descobrir sua origem. Vinha da cozinha? Do corredor? Do sótão?
Permaneceu deitada por alguns minutos, quieta e congelada, tentando entender o que exatamente estava acontecendo. Quando percebeu que era incapaz, levantou-se quieta e caminhou até a porta. Ali, com a mão na maçaneta, hesitou por um segundo, as pernas levemente arrepiadas.
Deveria realmente seguir em frente? Talvez não fosse nada, provavelmente ratos ou morcegos que entraram pelo telhado. Não era melhor deixar para lá?
Balançou a cabeça, censurando-se.

Sou uma adulta, pensou. Moro em um condomínio, com portaria. Não tem como ser uma pessoa. Posso lidar com isso.

Forçando-se a ser corajosa, saiu do quarto, mas deixou o número da polícia discado no celular só por precaução. A escuridão que teve que enfrentar até achar o interruptor fez seu coração martelar forte contra seu peito, como se, de repente, todos os fantasmas possíveis passassem a assombrar sua casa. Com passos silenciosos, acendeu a luz do corredor e foi andando pela casa, iluminando cada cômodo que entrava.
Quando acendeu a luz do pequeno hall, que iluminou levemente a cozinha, a sala e a lavanderia, o som parou.
A casa encheu-se de um silêncio tenebroso que arrepiou todos os pelos do corpo de .

Sou uma adulta, sou uma adulta, sou uma adulta.

Acendeu a luz da lavanderia.

Vazia.

Virou-se, apreensiva e pensou em ver a sala. Não conseguia se lembrar, pela adrenalina, se havia arrumado a fiação do cômodo, mas podia iluminá-lo com a lanterna do celular. Deu alguns passos em direção ao seu destino, quando ouviu um leve som que a fez paralisar.
Foi extremamente baixo, quase passando em branco. Mas tinha instintos à flor da pele e foi capaz de captá-lo, principalmente pelo silêncio extremo que se encontrava o ambiente. Como se algo – ou alguém – tivesse esbarrado levemente em outra coisa e feito-a bater na parede.
Voltou-se para a cozinha e apertou o interruptor. O cômodo se iluminou e franziu as sobrancelhas ao ver uma das janelas abertas. Tinha certeza que havia fechado todas mais cedo. Entrou e quando passou pela dispensa, arrepiou-se inteira.
A mesma sensação de dias atrás. Olhos sobre ela, olhos em suas costas.
Quando olhou para trás, nada. Ninguém. Apenas o corredor vazio e iluminado.
Olhou então para a dispensa, que possuía a porta de madeira do tipo com frestas curvas que dificultavam o exterior de ver o interior, mas não o contrário.
Aproximou-se dela, achando-se tonta. lhe dissera que não havia nem começado a construi-la, então provavelmente ali só havia amontoados de madeira, latas de tinta e poeira. Não havia com o que se preocupar.
Mesmo com esse pensamento em mente, sua mão foi chegando cada vez mais perto da maçaneta. Quando a tocou, o metal gelado esfriando sua pele suada, algo passou por seu campo de visão.
Com um grito de terror, abaixou-se instintivamente. Cobrindo o rosto com os braços, tentou olhar em volta, cega pela adrenalina, para ver um solitário morcego sobrevoá-la novamente, assustado. Ele voou mais algumas vezes em círculos, batendo na luminária e nas paredes, para finalmente encontrar a janela e sair para a noite escura.
sentou-se no chão por alguns segundos, a mão sobre seu peito, tentando acalmar a própria respiração.

- Puta que pariu – xingou, em seguida soltando uma risada nervosa. – Que susto.

Levantou-se, ainda trêmula e fechou a janela com força. Dando outra risadinha, deu a situação por resolvida e voltou para seu quarto, o susto tão vivido em seu peito que se permitiu deixar as luzes acesas.
Demorou a dormir novamente, mas quando o fez, esqueceu completamente do inconveniente, principalmente do suspiro de alívio que ouviu após o ataque do morcego e que ela tinha, por um segundo, percebido que não havia saído da própria respiração.


- Capítulo 6 -

No dia seguinte o admirador secreto continuou sem responder-lhe, o que deu a horas de paz que soube apreciar.
Seu humor floresceu com a perspectiva de que talvez o homem tivesse resolvido deixá-la sozinha. Não seria a primeira vez que conseguiu paz após dizer que estava comprometida para algum estranho que não sabia aceitar um “não” como resposta.
A revoltava como os homens só pareciam respeitar outros homens, chegando até a pedir desculpas por assediá-la a algum amigo de que fingiu ser seu acompanhante e não para ela. Era difícil, frustrante e, de certa forma, assustador não ser vista como um indivíduo próprio, com vontades e direitos, mas sim como uma extensão de seus companheiros do gênero masculino.
Mas, apreensiva como estava, se mentir sobre ter um namorado era suficiente em fazer o homem anônimo a deixar em paz, estava feliz em ter inventado essa história.
Elias notou o bom-humor dela, enquanto lhe acompanhava até os armários no fundo e a observava guardar sua mochila.

- Alguém acordou feliz hoje – apontou ele com um sorriso, os cabelos loiros e cacheados extremamente bagunçados.
- Dormi bem – mentiu ela, acreditando que, como o admirador havia sumido, não havia razão para falar sobre ele. – Mas acho que não posso dizer o mesmo de você.

Elias estava com uma cara horrível, apesar de estar bonito como sempre. Olheiras roxas pendiam embaixo de seus olhos pretos e ele parecia mais pálido e estressado.

- É a fisioterapia – suspirou cansado. – Não estou tendo bons resultados. Estou estagnando no processo e acabo ansioso e não consigo dormir.
- Nossa, sinto muito – disse empática enquanto amarrava o cabelo em um rabo-de-cavalo alto. – Não sei como poder te ajudar, mas caso precise de algo é só falar.
- Não se preocupe, está tudo bem – sorriu ele guiando-a com sua cadeira de rodas até o balcão principal. – Mas obrigado, sei que posso contar com você.

Os olhos dele brilharam e percebeu que isso acontecia com frequência quando os dois conversavam. Ele também costumava sorrir com mais frequência e tocar-lhe o braço sempre que podia.
Suspeitava que Elias poderia estar gostando dela ou no mínimo desenvolvendo uma quedinha. Sempre teve instintos apurados para o mundo à sua volta, principalmente nesse critério. Era boa reconhecendo gestos intencionais de não-intencionais e sentiu que aquele era o caso de seu gerente.
Apesar de não corresponder aos sentimentos na mesma medida, não podia negar que Elias era um pedaço de mau caminho. Os cabelos, seu rosto e sorriso eram a perfeita combinação que o faziam parecer o mocinho principal em um filme de comédia romântica. Também tinha ombros largos e ela acreditava que, ao ficar de pé, provavelmente era mais alto que ela (o que era difícil).

Ele era gentil, também. Muito atencioso e prestativo, sorridente e amigável, o garoto estrela que impressionaria seus pais na mesa de jantar. gostava de ser amiga dele e o apreciava fortemente como gerente, principalmente por ser extremamente simpático com os outros membros da equipe, deixando-os faltar sem penalizações sempre que surgia imprevistos de grande porte.
Mas havia um obstáculo no caminho que poderia tomar caso quisesse se envolver: tinha certeza que Janaína gostava dele e as duas tinham se tornado muito próximas nas últimas semanas.
Notava os olhares que a amiga lançava para Elias, como suas bochechas se avermelhavam sempre que ele a elogiava. Também percebeu como ela sempre se prontificava para ajudá-lo e como gaguejava caso, de surpresa, aparecesse na rodinha em que conversavam.

Se Elias percebeu, não deixou transparecer. Mas isso impediu de enxergar o gerente com outros olhos, incapaz de desenvolver qualquer sentimento por ele ou se quer pensar em tal, enquanto não soubesse se isso era um problema para Janaína.
O primeiro cliente do dia entrou pela porta, chamando a atenção dos dois. Elias foi atrás dele e o resto do dia passou sem maiores problemas. Quando o relógio bateu às 16 horas, trancou as portas de vidro e todos se despediram, deixando-a e seu gerente sozinhos na calçada.

- Vai direto para a casa hoje? – perguntou Elias, observando enquanto ela procurava os fones de ouvido em sua bolsa.
- Graças a Deus – riu . – Estou exausta e está um calor tão absurdo que só quero finalmente testar a piscina do meu condomínio. E você?
- Provavelmente vou na fisioterapia de novo – suspirou ele encolhendo os ombros. – Talvez ter um pouco de progresso me ajude a dormir à noite.

Ele continuou falando, mas não prestava mais atenção. Como em uma cena de filme, em que tudo passava a se movimentar em câmera lenta, ela reconheceu uma figura alta, loira e familiar.
O homem misterioso da biblioteca encontrava-se com as costas apoiadas na parede externa da lanchonete do outro lado da rua. Não olhava para ela, mas sim ao redor, para os pedestres e motoristas que compunham o caos do centro da cidade.
sentiu que havia algo na postura e nos olhos do homem, como se ele não estivesse apenas distraído, mas buscando algo ou alguém.

- Onde fica sua fisioterapia? – perguntou apressadamente, fazendo com que Elias fizesse uma careta confusa.
- Alguns quarteirões para lá, por quê? – respondeu ele apontando para a direita.
- Quer uma ajuda? – perguntou ela sentindo as mãos suarem. Seu ponto de ônibus atual ficava na direção onde o homem misterioso olhava e ela preferia não ter que passar onde ele poderia vê-la. – Posso ir até lá com você se quiser!
- Tem certeza? – perguntou desconfiado. – Não vai sair do seu caminho?
- Não! Sem problemas – exclamou pegando na parte de trás da cadeira de roda e começando a levá-los na direção que Elias tinha apontado. Ficou envergonhada, depois, reconhecendo que fora grosseira em começar a levá-lo por aí sem que antes ele dissesse que estava de acordo, mas seu coração batia tão forte naquele momento, a ansiedade bombeando seu sangue, que não percebeu.

Elias apenas encolheu os ombros e a guiou pelo caminho. Não parecia incomodado com a presença dela, muito pelo contrário. Parecia quase radiante com o fato dela ter se oferecido em acompanhá-lo. Ele falou durante todo o caminho, mas não prestou atenção, sendo capaz de responder apenas com resmungos encorajadores, a imagem do homem ainda fresca em sua mente.
Quem era? O que queria? Por que sentia dentro de si mesma que precisava conhecê-lo, como se ele fosse uma das peças chaves de um grande quebra-cabeça da vida dela que o destino estava montando?

- Fica ali no fim da rua – disse Elias apontando para uma pequena clínica de fisioterapia com paredes brancas e um elegante letreiro prateado. – Posso ir sozinho daqui para frente, não quero que perca seu ônibus.

sorriu para ele, agradecida e se despediu. Depois, sentou-se no ponto de ônibus há alguns metros e suspirou, aliviada, a cabeça pendendo entre suas pernas.
Ergueu-se novamente e olhou na direção em que Elias havia ido, vendo-o entrar na clínica.

👤🔪

Aquela noite foi provavelmente a mais quente que pode se lembrar de viver nos últimos meses. Mesmo vestindo apenas sutiã, um short minúsculo de pijama e pés descalços no piso gelado da cozinha, ainda era capaz de sentir o suor descendo por sua coluna vertebral e se acumulando por seu rosto.
Suspirou, frustrada. Tinha tomado um banho gelado quando voltara do trabalho, mas isso só a refrescou por alguns poucos minutos. Abriu todas as janelas e deixou até a porta da frente aberta em uma tentativa – malsucedida, porque não havia quase nenhuma brisa lá fora – de ventilar a casa.
Terminou de jantar e colocou a louça em sua pia, apreciando, pela primeira vez, o ato de lavá-la, a água gelada ajudando a diminuir sua temperatura corporal. Depois, resolveu concretizar o que já queria há um bom tempo e correu para seu quarto.
Encontrou, em uma das estantes do armário, seu antigo biquíni preto e o vestiu com rapidez. Sorriu ao se olhar no espelho, apreciando sua silhueta, curvas, estrias, celulites e pintas.

Vestiu, então, um short jeans por cima – apenas no caso de encontrar algum vizinho no caminho até a piscina – e calçou seus chinelos. Depois, recolheu seu celular, uma toalha e suas chaves e fechou cada uma das janelas da casa que tinha aberto.
Por fim, trancou a porta da frente e saiu pela noite. Pensou em pegar a bicicleta, mas teria que voltar pedalando com o biquini molhado e achou que seria uma péssima ideia.
Tirou esse tempo para apreciar o condomínio, quieto e pacífico. Observou as poucas casas ao redor até a piscina, sorrindo ao ver a janelas iluminadas pela luz interior, ouvindo uma vez ou outra o barulho da televisão ou a risada de alguém.
Era cedo ainda, no máximo vinte para às 20 horas, mas a noite era escura e as árvores que cercavam o condomínio pareciam levemente assustadoras, formando uma mancha escura ao horizonte que se movimentava de vez em quando com a rara brisa que passava.
acelerou o passo, levemente tensa, com a mesma sensação de paranoia quando se vai à cozinha escura buscar um copo d’água durante a noite. Suspirou aliviada quando viu as luzes da piscina, seu estado de tensão fazendo a motocicleta estacionada na calçada passar despercebida.

passou rapidamente ao lado da grade de metal e, por relance, observou que não havia ninguém na piscina. Satisfeita, contornou o espaço e entrou pela porta de arame há alguns metros, que ficava entre um chuveiro ao ar livre e os vestiários feminino e masculino.
Ainda distraída, aproximou-se da piscina e se curvou, colocando seus pertences no chão. Quando se ergueu novamente, contudo, levou um susto tão grande que uma exclamação aguda saiu de seus lábios antes que pudesse controlar.
Uma figura emergiu da água azul, aparecendo de repente, transformando-se de uma mancha escura para um lindo homem de pele e cabelos escuros e olhos fechados.
Um homem que conhecia bem.
parecia tão surpreso em vê-la quanto ela estava. Seu grito o assustou, que arregalou os olhos de repente, para depois fechá-los rapidamente.

- Merda – xingou ele enquanto esfregava os punhos nas pálpebras, os olhos queimando pelo cloro. Quando conseguiu enxergar novamente, olhou para ela confuso e continuou: - Você me assustou.
- Eu te assustei? – perguntou revoltada, ainda com a mão contra o peito, seu coração martelando tão forte que ela sentia as batidas em seus ouvidos. – Você quase me matou do coração.

Os dois ficaram paralisados por um segundo, se olhando, de repente percebendo a seminudez um do outro. não pode conter-se em observar como os cabelos pretos dele estavam para trás, após passar os dedos por eles e de como seus olhos e sua pele ficaram mais escuros graças a iluminação interna da piscina, que deixava a água em um tom de azul neon.
Percebeu também, contente, que ele a notou. Viu como os olhos dele passaram de seu rosto para sua silhueta e foi como se sentisse seu olhar, que queimou cada centímetro da pele que passou por cima.
viu que ela notou a forma como olhou para seu corpo e corou, parecendo de repente muito concentrado nas árvores ao redor.
riu da situação, uma parte pela alegria de ver que ele retornava à atração que sentia e outra porque era adorável ver um homem como , alto, masculino e quieto, corando como um adolescente sendo pego no pulo.

- Você veio nadar? – perguntou , corando mais ainda depois, quando ela, debochada, gesticulou para o próprio corpo vestindo roupa de banho. Sentia-se estúpido, de repente e abismado com o poder que tinha em fazê-lo perder o raciocínio lógico. – Posso sair, se quiser ficar sozinha.
- Não! Está tudo bem – respondeu quando ele ameaçou sair da piscina. O via tão rapidamente ao longo da semana que não gostaria de desperdiçar a única chance de ter uma verdadeira conversa com ele. – Sua companhia não me incomoda.

Ele sorriu com o canto da boca e virou de costas, dando-lhe privacidade para retirar o short e entrar na piscina. Grata, fez exatamente isso e suspirou de alegria ao sentir a água em contato com sua pele.

- Não te vi hoje quando voltei – comentou ela inclinando a cabeça para trás e molhando os cabelos.
- Resolvi terminar mais cedo – explicou enquanto a observava. Queria se aproximar dela, mas não sabia se isso a deixaria desconfortável, então permaneceu encostado na outra beirada da piscina. – O calor estava me matando.
- E está na piscina desde então? – perguntou ela brincalhona enquanto o observava. A cor azul neon da piscina dava um aspecto sensual à cena, deixando levemente corajosa para flertar.
- Infelizmente, não – sorriu, suas covinhas aparecendo de repente e fazendo borboletas voarem no ventre dela. – Tive a péssima ideia de voltar para casa, achando que um banho resolveria. Resolvi vir aqui quando vi que não havia jeito.
- Você nada muito aqui? – perguntou colocando os cabelos negros sobre um ombro, dando-lhe o aspecto de uma sereia que acabou de sair da água.
- Menos do que eu gostaria, sinceramente. Mas tento vir sempre que posso, principalmente à noite. Gosto da privacidade.
- Eu também! – exclamou ela. – É muito difícil vir aqui em horários mais cheios, o condomínio tem muitas crianças.
- Confie em mim, eu sei – riu . – Ensino algumas delas a nadar.
- Está brincando! – exclamou aproximando-se devagar. – É com isso que trabalha? É professor de natação?
- Mais ou menos. Acabei não terminando a faculdade de Educação Física, então não tenho o diploma, mas algumas mães e pais daqui conhecem minha mãe, então me chamam para dar umas aulas para os filhos deles.
- É como você ganha seu sustento? – perguntou curiosa, agora na frente dele. – Você ainda me deve aquela conversa que prometeu, sabe.
- Tudo bem, você me pegou! – riu mostrando-lhe as palmas das mãos em sinal de rendição. – As aulas me ajudam muito porque a galera que mora aqui tem tanta grana que não sabe nem onde gastar, então me pagam bem. Como eu moro sozinho e não pago aluguel, é quase suficiente.
- Você já tem imóvel próprio? – perguntou um tanto chocada. – Quantos anos tem?
- O apartamento onde eu vivo foi presente do meu pai – explicou ele achando a careta que ela fez engraçada. – E, para a sua informação, eu tenho vinte e dois anos.
- Vinte e dois?! – gritou. caiu na gargalhada. – Nem fodendo que sou mais velha que você! Você parece ter uns vinte e cinco.
- É a minha sina – disse ainda gargalhando. – Meu irmão fica puto com isso. Ele vai fazer vinte e sete, mas sempre acham que eu sou o mais velho.
- Comigo é ao contrário – disse fazendo biquinho. – Sempre tive rosto de criança. A única coisa que me salva é a minha altura. Ter mais de um metro e setenta impede que me deem dezenove anos, enquanto na verdade tenho vinte e quatro.

Com um estalo, algo que ele disse chamou sua atenção.

- Mas por que construir a casa então? – perguntou se dando conta. – Você me disse que provavelmente viria morar aqui depois que a construção terminar. Por que faria isso se já tem um lugar?
- É uma longa história – suspirou . – Mas acho que da para resumir dizendo que minha avó sempre quis que eu morasse em uma casa construída para mim e por mim. Essa casa é a chance de realizar essa vontade dela. Sem contar que não gosto de depender do meu pai. Aceitei o apartamento porque era uma boa oportunidade e não sou burro, mas gostaria de ter um lugar que é meu e não dele.

olhou para o rosto dela e sorriu, seus lábios parecendo, de repente, convidativos. Um silêncio cresceu entre os dois e sentiu suas próprias bochechas corarem, os olhos pretos dele tão profundos nos dela que chegou a ficar tonta.

- E você trabalha com mais alguma coisa para se manter? – perguntou tentando quebrar a tensão sexual que começara a se formar no ar.
- Faço alguns freelas como garçom aqui e ali e dava aulas de inglês para crianças, mas isso antes de começar a trabalhar na casa. Agora terminá-la é meu trabalho em tempo integral.
- Você é cheio de talentos, não é? – disse ela impressionada. – Ensina a nadar, falar inglês, é garçom, arquiteto e construtor.
- Ah, que nada – disse ele, modesto e um pouco tímido. – Eu só sou razoável em várias coisas. Meu irmão que sempre foi o gênio. Ele é formado em programação e ciência da computação e trabalhou em várias empresas famosas de desenvolvimento tecnológico.
- Um diploma não diz nada sobre a inteligência de ninguém – aconselhou . – Eu, por exemplo, gosto de pensar que sou muito esperta e nunca fiz faculdade. Mas entendo como se sente, meu irmão também foi o filho de ouro da família.
- Nunca teve interesse?
- Na verdade, sempre tive – contou ela encostando o braço curvado para fora da piscina e deitando a cabeça por cima dele. – Sempre fui apaixonada pela sociedade, pelas pessoas e pela forma que agem. Quis muito estudar Ciências Sociais ou talvez Literatura, já que também sou a louca dos livros, mas não passei de primeira e nunca mais tive chance de tentar.
- Os cursinhos eram caros demais? – perguntou simpático, ficando na mesma posição que ela, seus rostos próximos um do outro.
- Sim, mas também por causa do meu pai – explicou sentindo a garganta fechar um pouco. – Ele não é o cara mais legal do mundo e é ainda pior quando se trata de incentivar seus próprios filhos. Colocou na minha cabeça que não passei porque simples era incapaz de passar e que continuar tentando era perca de tempo e dinheiro.
- E seu irmão? – perguntou e sentiu seu coração se esquentar ao ver a empatia brilhando nos olhos dele.
- Passou de primeira em uma federal e deu no pé o mais rápido que pode. Não o culpo, sabe? Agora vejo que meu pai disse tudo aquilo porque havia perdido poder sobre Natã e não queria perder sobre mim também. Mas foi difícil na época.
- Não posso dizer que entendendo totalmente, mas sei um pouco como é – respondeu . – Meu pai também não é o pai do ano, apesar de sempre ter pego leve comigo. Com meu irmão sempre foi pior, não me lembro um minuto que os dois estavam juntos sem brigar.
- Ele é falecido?
- Não, está vivíssimo – explicou . – Mas é ausente desde que me conheço por gente, então tenta preencher os buracos dando para a gente coisas caras. O clichê de sempre.

Os dois permaneceram em um silêncio confortável, olhando nos olhos um do outro, atraídos como imãs. sentiu seu estômago dando cambalhotas enquanto observava as características dele, suas sobrancelhas pretas e grossas, seu maxilar quadrado, suas covinhas, seus olhos puxados.

- Posso te perguntar uma coisa que sempre quis saber? – perguntou ele baixinho. Ela assentiu e continuou: - Por que aceitou se mudar para a casa? Não te culparia se tivesse fugido quando viu que teria que basicamente dividi-la comigo. Não é muito seguro para uma moça sozinha.
- Sinceramente, porque estava desesperada – respondeu dando de ombros e viu como riu, rindo junto dele. – Queria sair da casa do meu irmão o mais rápido possível porque queria finalmente começar a minha vida. Quando vi o quanto você estava cobrando pelo aluguel e contas da casa... Foi como um sonho se tornando realidade, então aceitei.

Ela olhou para ele e mordeu os lábios, observando em seguida como os olhos de se moveram para sua boca.

- Mas também... – continuou, corajosa. – Senti algo bom sobre você, como um pressentimento.
- Um pressentimento? – perguntou ele, levantando uma sobrancelha, parecendo presunçoso.
- Minha mãe sempre disse que eu tenho um sexto sentido apurado – contou dando risada. – Ela costumava me contar que quando criança eu sempre sabia quando algo importante estava para acontecer. Uma vez disse para ela que estava sentindo algo dentro de mim e no dia seguinte ela e meu irmão tiveram um acidente de carro.
- Você está zoando! – exclamou arregalando os olhos.
- Juro por Deus – prometeu ela. – Natã quebrou o braço e minha mãe teve um corte na testa. E o doido é que era para eu ir com eles, mas me recusei. Chorei e bati o pé dizendo que não ia de jeito nenhum.
- E o que seus instintos dizem sobre mim? – perguntou ele, seu tom de voz extremamente paquerador. – Que eu sou o cara mais legal do mundo? O amor da sua vida?
- Não é assim que funciona! – riu ela com as bochechas vermelhas. – Não sou vidente ou algo do tipo. Só tenho pressentimentos fortes sobre acontecimentos e pessoas, as vezes não sei nem os interpretar, dizer se são pressentimentos bons ou ruins. Apenas senti que havia algo sobre você. Minha mãe costumava dizer que eram nossas ancestrais nos aconselhando. Ela amava essa questão espiritual.
- Ela faleceu?
- Sim, quando eu tinha doze anos. Ela tinha problemas cardíacos desde que nasceu e teve duas paradas cardíacas. Na segunda não resistiu.

notou, de repente, como os dois haviam se aproximado, seus narizes quase se tocando.

- Não sei se entendi muito bem toda essa sua sensitividade.
- Não é nada sobrenatural! – riu . – Não sei explicar todo esse lance do acidente, mas o resto é uma questão instintiva mesmo. É como... Como com meu gerente!
- O que tem ele?
- Ah... – corou ela, ficando tímida. – Não quero parecer presunçosa, mas acho que tem uma quedinha por mim. Nunca me disse nada que passasse essa impressão, mas eu percebo as ações dele, entende? É um pouco assim que funciona. Percebo algo atrás de suas ações e olhares. Não sei o que é, então tento adivinhar. Geralmente acerto.
- Bem, sendo sincero, não posso culpá-lo por ter uma quedinha por você.

falhou em segurar um sorriso e desviou o olhar do dele. Depois de alguns segundos, ouviu sua voz dizer baixinho:

- ?
- Sim?
- Se quer saber – sussurrou para ela. – Fico feliz que seu pressentimento gostou de mim.

Ela pensou em corrigi-lo, explicar que os instintos dela não lhe diziam quem era bom ou não, apenas faziam sentir que havia algo mais nas situações ou pessoas que ela não estava percebendo, mas se calou.
Viu como ele se aproximou ainda mais, sua respiração quente no rosto dela. Fechou os olhos e inclinou-se, ansiosa, sentindo os lábios dele quase tocando os dela, milímetros de distância, a pele se aproximando como beijos de borboleta...

- Com licença, a piscina vai fechar! – disse uma voz atrás deles, no mesmo instante que uma luz branca e forte iluminou seus rostos.

e se afastaram por impulso e olharam em direção a voz. O aprendiz de vigia, que tinha por volta da idade deles e era extremante tímido, olhava-os constrangido, atrás da grade que demarcava o perímetro da piscina.

- Desculpe – murmurou ele, abaixando a lanterna. – Me mandaram vir fechar a piscina, já deu dez horas.
- Não, tudo bem! – exclamou com as bochechas pegando fogo. – Nós não vimos a hora passar, desculpe.

Nadou até a escadinha da piscina e agarrou sua toalha. Saiu, cobrindo-se rapidamente, sentindo como se todo seu corpo estivesse pegando fogo, a realização que chegara tão perto de beijá-lo tomando conta de sua mente.
a seguiu e os dois saíram da área da piscina, dando espaço para que o vigia pudesse apagar as luzes e trancar as portas dos vestiários. Já na calçada, murmurou:

- Precisa de uma carona para casa? Eu vim de moto.
- Não precisa, obrigada – respondeu ela, tímida, enquanto tirava a água dos cabelos. – Estou toda molhada, é melhor que eu volte a pé.

Ele assentiu levemente e, por um momento, contemplou o rosto dela. Depois, inclinou-se e plantou um beijo doce e quente em sua bochecha.

- Boa noite, – murmurou, sua respiração quente tocando-lhe a pele, antes de subir em sua motocicleta e, com um aceno, partir.

Distraída, chegou rapidamente em casa. A noite, extremamente silenciosa, ecoava os passos dela por toda área. Quando chegou à porta e colocou a chave na fechadura, algo chamou sua atenção.
Foi um barulho baixo, quase imperceptível, mas que seus ouvidos não deixaram passar.
Um estalo, como um galho quebrando graças à pisada de alguém.

olhou sobre o próprio ombro, desconfiada, os pelos de sua nuca arrepiando-se de repente. A mesma sensação que sentira há um pouco mais de três semanas, quando conseguiu seu emprego e na noite anterior, na cozinha.
A sensação se estar sendo observada.
Seus instintos se afloram, como se gritassem “entra na casa! ”, então assim ela o fez. Trancou a porta atrás de si e suspirou aliviada, sentindo-se protegida de repente.
Sua paz, contudo, durou pouco. Ao entrar em seu quarto, pronta para tirar o biquini molhado, foi surpreendida pela janela aberta, essa que tinha certeza que havia fechado antes de sair.

Quando se aproximou para fechá-la, percebeu, como no dia em que visitara a casa, como a vista dava perfeitamente para a piscina em que estivera a menos de quinze minutos atrás.
Naquela madrugada, enquanto dormia, duas mensagens apareceram seu celular, mas que só foi capaz de ler na manhã seguinte. Uma de , que adoravelmente lhe mandara:

Adorei a noite. Devíamos fazer mais vezes ! Estou ansioso para te ver amanhã ”.

E outra do homem anônimo que a assediava na internet:

Você vai ver que nós somos perfeitos um para o outro. Eu vou fazer você me amar ”.

- Capítulo 7 -

O retorno do homem anônimo abalou muito mais do que ela esperava.
Mesmo com seu sumiço de apenas um dia, fora capaz de construir uma esperança de que estava livre dele. Que não acordaria mais com dezenas de mensagens em todas as suas redes sociais ou teria que lidar com ligações inconvenientes ao longo de todo dia – que ela, avaliando melhor, percebeu que faria muito sentido se fossem feitas por ele.

A pergunta era: como conseguira seu número? E por que era simplesmente incapaz de deixá-la sozinha? O que havia nela de tão especial que conquistara a atenção dessa pessoa, fazendo-a criar todos os tipos de ilusão em sua mente? Ela havia perguntando-lhe se eles se conheciam, se haviam conversado alguma vez pessoalmente, mas ele sempre contornava suas perguntas, mudando de assunto ou apenas afirmando que era tímido demais para expor quem era.
Nem mesmo a mensagem de foi capaz de acalmar seu o coração ansioso, que, desesperadamente, batia contra seu peito, latejando em seus ouvidos.

Jogou o celular contra o balcão da cozinha e suspirou, frustrada. Sentou-se em uma das cadeiras e enfiou o rosto nas mãos, tão chateada que se sentia ao ponto de chorar.
Sentiu o balcão tremer e levantou o olhar, vendo como uma ligação privada aparecia em seu aparelho. Ela quase rosnou de raiva, frustação, tristeza, todos esses sentimentos se aflorando em seu sangue.
Tentou ao máximo ignorar, terminando de preparar seu almoço e tentando comer, apesar de sentir como se a comida descesse por sua garganta como se fosse bolas de algodão e não conseguiu terminar nem ao menos metade do prato.

Alguns minutos depois, ouviu um barulho ao lado da casa, como se alguém transportasse uma escada e foi até a lavanderia, checando pela porta de vidro. Viu em toda sua glória, esticando um comprido toldo em cima da grama e começando a pintar as paredes inacabadas.
Não havia notado sua chegada, mas estava tão distraída e abalada que era compreensível. Foi ao seu quarto, trocando os pijamas por uma adorável blusinha amarela e um macacão jeans curtinho, retornando à cozinha em seguida para pegar uma jarra d’água.
Quando viu seu celular, abandonado no balcão, vibrar novamente, teve uma ideia.
Atendeu a ligação pela primeira vez em dias, mas não disse nada. Observou como o outro lado da linha permaneceu mudo, mas que o desconhecido não desligou. Largando o objeto no balcão novamente, deixou-o ali, a ligação correndo e saiu da casa, segurando a jarra com água e dois copos.

Vamos ver quanto tempo ele aguenta ficar na linha, pensou.

- Precisa de ajuda? – perguntou à , ao sair da casa.

Ele se virou para ela, do topo da escada e abriu um enorme sorriso que fez sorrir junto.

- Oi! – exclamou descendo. – Não sabia se você ia acordar cedo ou tarde, então resolvi começar aqui por fora para não te acordar sem querer.
- Tarde – respondeu rindo. – Eu sou uma dorminhoca convicta. Não coloco cortinas no quarto para me forçar a acordar com a luz do sol.

sorriu para ela e lhe estendeu um pincel coberto de tinta.

- Eu adoraria uma ajuda – disse. Depois, olhou-a de cima a baixo e elogiou: - Gostei da sua roupa.
- Ah, essa coisa velha? – brincou começando o trabalho. – Nem pensei muito, vesti qualquer coisa que achei.

guiou-a no começo com a pintura, mostrando-lhe a melhor forma e os melhores lugares para se fazer. esqueceu sobre a ligação anônima rapidamente, lembrando do momento que tiveram na piscina na noite anterior e se deixando deliciar com a presença de seu senhorio, paquerador e gentil como sempre.

- Você consegue pensar em alguma noite mais quente do que a de ontem? – perguntou tentar iniciar uma conversa.
- Não – respondeu ele com os olhos brilhando maliciosamente. – Com certeza nunca estive tão quente em toda a minha vida.

As bochechas de coraram ao pegar o duplo sentido de sua frase e tentou mudar de assunto, a fim de esconder sua reação.

- A casa é muito quente por dentro – desabafou. – Tive que ficar seminua e abrir todas as portas e janelas para tentar ter alguma brisa.
- Não tem medo de ser a “vizinha pelada” do condomínio? – brincou . soltou uma gargalhada.
- Para quais vizinhos? – constatou. – A casa mais perto fica ali na esquina e eles só tem vista para a sala, que eu nunca uso de qualquer jeito. Mas não valeu a pena mesmo. A única coisa que me refrescou foi a piscina.
- Devíamos nadar mais vezes juntos – comentou olhando para com o canto de olho, uma sobrancelha levantada e um sorrisinho nos lábios. – Foi uma noite bacana.
- Devíamos mesmo – respondeu ela sentindo suas bochechas ficarem rosadas. – É uma pena que o Marcelo não é o porteiro da noite, ele provavelmente daria um tempinho a mais para a gente.
- Quem me dera – disse ele, com o tom de voz paquerador. – Mas o outro porteiro nem fica muito, na verdade. Ele geralmente deixa o coitado do aprendiz dele fazendo todo o trabalho e dá uma sumida.

não soube o que responder, então ficou quieta. Uma vez ou outra, quando voltava tarde do trabalho, encontrava o porteiro da noite, chamado João e seu aprendiz, de nome Henrique, na cancela, verificando os carros que entravam e saiam. Quem parecia trabalhar mais era Henrique que, como não conhecia os moradores ainda, checava as placas dos carros ou os documentos dos pedestres e verificava no sistema.
Se estava registrado, ele permitia a passagem. Se não, Seu João, emburrado e com cheiro de cigarro, resolvia o problema.
Os dois permaneceram conversando por algumas horas. Assuntos triviais que teve prazer em saber sobre ele, como as músicas que gostava de ouvir, seus livros e filmes favoritos.
Quando ele lhe perguntou sobre sua adequação na casa, algo estalou em sua mente.

- Ah! Tem uma coisa que esqueci de te perguntar – disse , lembrando-se de algo de repente. – O que tem naquela porta ao lado do banheiro? Tentei entrar um dia e estava trancada.

desceu a escada e colocou o balde de tinta na grama. Depois, com as mãos sobre os quadris, suspirou e disse:

- Não sei.
- Como não sabe? – perguntou chocada, imitando a posição dele. – É a sua casa!

riu de sua indignação e limpou a testa suada com um pedaço de pano. Sua pele estava adoravelmente coberta de pinceladas amarelas.

- Estou construindo a casa agora, mas o projeto não é meu – explicou ele. – É do meu irmão.
- Oh... – exclamou , de repente se sentindo boba. – É verdade, você comentou que havia outro proprietário quando nos conhecemos. Mas por que nunca vi seu irmão?
- Porque ele desistiu da casa há alguns anos – explicou . Vendo a curiosidade brilhando no olhar dela, continuou: - Minha avó materna sempre nos disse que seu sonho era poder construir casas para nós dois. Meu irmão não é neto biológico dela, mas foi basicamente criado por ela e pela minha mãe, então é como se fosse.
- Ah! Você mencionou isso ontem para mim!

Ele sorriu e se sentou no toldo no chão, enchendo um copo de água. o acompanhou e continuou a ouvir sua história.

- Me lembro dela comentando sobre esse sonho desde que sou criança: o de poder nos presentear com casas que nós mesmos poderíamos construir. Vovó teve uma infância muito pobre e só foi ter uma casa de verdade quando se casou com meu avô. Acho que dar isso para a gente é uma maneira de evitar que passemos pelo que ela passou.
- É muito gentil da parte dela – elogiou , sentindo subitamente saudade dos próprios avós. – Queria ter mais contato com meus avós maternos, mas eles voltaram para o Japão há muitos anos. Só os vejo algumas vezes por vídeo-chamada.
- Minha avó é uma pessoa incrível – respondeu . – Ela sempre foi a melhor de todas, somos extremamente próximos. Ela ganhou um bom dinheiro vendendo algumas terras que eram do meu avô depois que ele morreu e disse que nos daria quando fosse a hora. E a hora chegou para o meu irmão: ficou noivo há uns anos e começou a construir essa casa para ele e a noiva dele.

Ele tocou a lateral da casa com carinho por alguns segundos e continuou:

- Acontece que o noivado não deu muito certo. Acho que por volta de uns dois anos atrás a noiva do meu irmão simplesmente o abandonou e não deu mais notícias.
- Ela só sumiu?
- Sumiu do mapa – disse concordando com a cabeça. – Não sei muito bem o que aconteceu, ele não gosta de falar sobre isso e nunca explicou direito, mas pelo que parece eles tiveram uma briga feia e ela deu o fora com o carro dele e nunca mais voltou. Meu irmão ficou destroçado e tomou uma sequência de decisões ruins que pioraram ainda mais a vida dele. Não acho justo entrar em detalhes, já que é a vida dele e não a minha, mas foi uma péssima época.
- E quando você resolveu tomar conta do projeto?
- Há alguns meses, quando minha avó ficou doente – respondeu ele, seu semblante ficando cabisbaixo, de repente. – Ela já está muito velhinha e o tempo todo precisa ser internada. Faz um tempo que estou tentando lidar com o fato de que ela pode partir a qualquer momento.
- Sinto muito – murmurou colocando a mão sobre a dele. sorriu para ela e apertão seus dedos, agradecido.
- Está tudo bem – respondeu com um sorriso fraco e um dar de ombros. – É por isso que comecei a trabalhar na construção, quando vi que ela poderia morrer sem realizar o sonho de dar uma casa para nós. Achei que, se eu conseguisse terminar o projeto, seria mais fácil para ela partir.

O coração de se encantou com as palavras dele e ela chegou à conclusão, naquele mesmo segundo, que poderia se apaixonar facilmente por esse lindo, gentil e sensível homem à sua frente.

- Essa é uma das coisas mais lindas que já ouvi – elogiou, recebendo um sorriso tímido em troca. – Mas não explica a porta desconhecida.
- Meu irmão... – começou a dizer antes de suspirar. - ... Não é um grande fã da história. Ele nunca superou o abandono da noiva, para ser sincero. Acho que por ele a casa seria queimada até a última lasca de madeira, então o fato de que eu voltei a construi-la deve ter ferido os sentimentos dele, como se ela representasse toda a merda que aconteceu nos últimos anos.

Ele parou alguns segundos, o queixo apoiado no joelho da perna dobrada, os olhos fixos nas nuvens do céu, perdidos em pensamentos.

- Eu só consegui entrar na casa porque minha avó tinha uma cópia da chave e me colocou como um dos proprietários também, mesmo contra a vontade dele. Nossa relação, que já não era boa antes, piorou ainda mais agora, ao ponto que meu irmão não responde minhas mensagens ou ligações. A porta está trancada porque ele não me deu a chave e, sinceramente, duvido que vai dar.
- E como você vai fazer? Depois que a construção terminar...
- Provavelmente quebrar e mudar a fechadura, mas resolvi que só iria ter essa dor de cabeça depois. Já estou com a grana curta demais para ficar pensando em destruir portas.

permaneceu silenciosa, processando suas palavras, sua curiosidade pulsando em seu peito. Queria perguntar mais, saber mais, entender mais. Por que a noiva do irmão dele o abandonara? Qual era o nome dela? Qual o nome dele?
Quase perguntou, abrindo a boca até, mas , talvez abalado pela conversa, levantou-se de repente, suspirando e dizendo:

- Bem, não precisamos perder nossa tarde ouvindo minha história. Que tal terminarmos essa parede e depois eu posso preparar algo para jantar?
- Está me convidando para cozinhar para mim na minha própria casa? – perguntou , paqueradora, com uma sobrancelha.
- Se estiver tudo bem para você, sim – disse parecendo nervoso com a ideia de ofendê-la. – Mas se não quiser, tudo bem.
- Tá brincando? – exclamou ela sorrindo. – E perder a oportunidade de ter você cozinhando para mim? Como se eu fosse burra a esse ponto.

Os dois voltaram ao trabalho, mas não conseguiram terminar a pintura como haviam planejado. Em algum momento, uma pequena folha grudou no pincel de , que chacoalhou o objeto na tentativa de tirá-la. A ação, contudo, fez com dezenas de gotas de tinta saíssem voando, a maioria direto para o rosto de .
Ele a olhou chocado por alguns segundos, confuso com o que acontecera. Depois estreitou os olhos para ela, principalmente quando começou a dar gargalhadas de nervoso:

- Desculpe! Juro que foi sem querer! – tentou explicar, mas não acreditou.

Em um movimento rápido, cobriu todo seu peito de tinta amarela. Uma exclamação chocada saiu da garganta de e, antes que percebesse, estava correndo ao redor da casa, em uma guerra de tinta que sujou a grama, as paredes, janelas e seu corpo inteiro.
Ria tão alto e com tanta força, que basicamente chorava. parecia estar se divertindo tanto quanto ela, perseguindo e sujando-a com um sorriso enorme nos lábios. Após duas voltas na casa, quando estavam na parte de trás, conseguiu agarrá-la pela cintura, rodando-a no ar por alguns segundos e depois se deitando com ela na grama.

Olhou para o rosto dela, apreciando como o sol que se abaixava no horizonte iluminava toda a sua pele, assim como o sorriso enorme que tinha nos lábios. Adorou o olhar de , feliz e brilhante e como as manchas de tinta espalhadas por seu rosto e pescoço se destacavam em comparação ao seu cabelo.
Ela era provavelmente a mulher mais linda que ele já colocara os olhos sobre. Não havia nada nela que não o deixava completamente encantado.
viu a intensidade em seus olhos e parou de rir, suspirando com expectativa. Viu como ele encarou seus lábios e inclinou-se, fechando o espaço entre os dois, beijando-o antes que algo pudesse os atrapalhar como na última vez.

, como ela havia imaginado, beijava muito bem. Sentiu as mãos dele pressionando seus quadris, os cachos macios entre seus dedos, a língua dentro de sua boca e percebeu que sua pele estava pegando fogo, um ardor que não queria nunca parar de sentir.
Puxou o corpo dele para mais perto, sentindo seu tronco duro e sua pele quente. Sorriu contra o beijo conforme ficou mais intenso e ouviu um suspiro escapar dos lábios de , que apertou seus quadris ainda mais com suas mãos fortes e ásperas.
se sentiu embriagada, completamente bêbada por seu gosto, calor e perfume.

Não queria que aquele momento terminasse nunca.
Queria beijá-lo por toda eternidade.

De repente, seu estômago roncou, fazendo ele quebrar o beijo com um sorriso de canto de boca. percebeu naquele momento que o sol se punha e que eles haviam passado quase cinco horas do lado de fora, pintando as paredes e jogando conversa fora.
Os lábios dela quase formigavam pelas faíscas que saíram do beijo deles.
Ela adorou.

- Que tal alimentarmos você primeiro? – sugeriu. – E depois podemos retornar ao que estávamos fazendo em um lugar mais confortável.

Ela o ajudou a recolher a lona suja, a tinta e a escada, guardando os objetos na garagem. Depois, entrando pela porta que juntava o local com a cozinha, suspirou dizendo:

- Acho melhor nós nos limparmos antes que sujemos toda a casa.

Foram até o banheiro, que pareceu de repente muito menor, e tentaram se limpar na pia, sem sucesso. Era pequena demais e a falta de um espelho atrapalhou na limpeza das partes do corpo que não conseguiam enxergar.
Dando risada, a guiou até a lavanderia para se limpar no tanque e brincou, sua voz ecoando pelo corredor e chegando à cozinha:

- Me lembre de comprar logo um espelho para o seu banheiro!

Quando estavam finalmente limpos, foram até a cozinha, conversando sobre o que ele poderia cozinhar para o jantar, a barriga de roncando graças ao almoço mal aproveitado.
Ela, contudo, congelou de repente, quando seu olhar caiu sobre o próprio celular, que esquecera que havia deixado sobre o balcão.
O que viu ali deixou seu estomago enjoado automaticamente.
A ligação privada ainda corria, cinco horas depois de tê-la iniciado.
O homem permanecera cinco horas na linha, sozinho.
Em um movimento rápido, desligou a chamada. Ele teria sido capaz de ouvi-los? Se sim, o quanto?

- Você está bem? – perguntou preocupado, vendo como o rosto dela ficou pálido de repente.

Ela pensou em responder, mentindo que teve apenas um momentâneo mal-estar, mas seu celular começou a vibrar loucamente no segundo seguinte.

A: “De quem é essa voz masculina?”.
A: “É o seu namoradinho?”.
A: “Avise esse merdinha que se ele não ficar longe de você ele vai se arrepender”.

- ? – perguntou se aproximando, olhando desconfiado para o celular dela. – O que houve?

Como conseguiu meu número?”, perguntou ela por mensagem, falando com ele pela primeira vez em semanas. A resposta arrepiou todos os pelos de seu corpo:

A: “Eu sei tudo sobre você, bobinha”.

Ficou tão abalada pelo que lera que não impediu quando ele pegou o celular de sua mão gentilmente e começou a ler as mensagens. Em poucos minutos, suas sobrancelhas grossas se franziram e ele pareceu extremamente preocupado.

- Meu Deus, , quem é essa pessoa? – perguntou.
- Não sei – admitiu baixinho. – Acho que nunca o vi na vida, mas está tudo bem! É só um cara desconhecido que fica me mandando mensagens.
- Não parece tudo bem para mim. Ele fica te ligando? Como sabe seu número se você não o conhece?
- Não sei! Ele não nunca me diz quando eu pergunto, então só o bloqueio e ignoro.
- , isso parece muito sério para mim – disse sentando-se ao lado dela e segurando sua mão. – Esse cara parece obcecado por você! Já pensou em denunciar na polícia?
- E o que eu denunciaria? – rebateu sentindo-se extremamente exausta. – Que tem um cara me mandando mensagens sem parar no Facebook? Ninguém me levaria a sério, . Eles não levam a sério nem mulheres com denúncias pesadas de violência e abuso!

Ele ficou mudo por alguns segundos, entendendo que estava certa, mas parecendo tão frustrado quanto ela.

- Tudo bem, tem razão – concluiu. – Mas há quanto tempo isso vem acontecendo?
- Desde que me mudei.
- Isso já faz quase um mês! – exclamou preocupado e chocado. – Por que começou a falar com ele em primeiro lugar? É bizarro!
- Eu... Eu só...

Isso era uma questão que ela questionava a si mesma há quase um mês. Por que se deu ao trabalho de responder à mensagem dele, uma conta claramente falsa com mensagens claramente invasivas?
De onde vinha essa necessidade de sempre agradar, de sempre ser a mais simpática e amável mulher? Sempre preocupada com os sentimentos dos outros, mesmo que lhe custe o próprio bem-estar?
No fundo no fundo, ela sabia. A voz de seu pai sempre estava ali, baixa em seu ouvido, sussurrando como se fosse um pequeno diabinho em seu ombro.

Vocês mulheres são todas criaturas arrogantes e mal-educadas. Sempre se achando a última bolacha do pacote, boas demais para devolver um ‘bom-dia’ que seja. É por isso que alguns homens não conseguem se controlar, vocês vivem os atiçando para depois nos tratarem como se não fossemos nada.

Ele estava errado. Racionalmente, ela sabia. Ele era um machista nojento que teve o que merecia e agora vivia sozinho sem os dois filhos que não aguentaram mais seus abusos. Mas Deus, era tão difícil tirar essa necessidade de dentro dela, essa vontade constante de que gostem dela, que a apreciem, de não ser a garota arrogante e atiçadora que seu pai a convenceu que seria pelo simples fato de ser mulher.
Como no nono ano, quando um garoto chamado Tiago, de sua turma, chamou-a de puta arrogante quando disse que não devolvia seus sentimentos. Se sentiu tão mal que aceitou beijá-lo mesmo sem querer.
Ou no segundo ano do Ensino Médio quando João, um garoto um ano a frente, gritou com ela dizendo que era um absurdo que ela não quisesse transar já que, afinal, ela o estava beijando até agora na festa. chorou enquanto se desculpava.

Era uma necessidade íntima, criada e alimentada por seu pai, de buscar constantemente a aceitação masculina que nunca teve em casa. Os homens precisavam gostar dela e como ela se atrevia a ser tão cruel a ponto de magoar os sentimentos dos pobres coitados?
prometeu a si mesma, quando cresceu, que não seria mais essa menina. Fugiu de homens que lembrassem seu pai, beijando e transando com meninos respeitosos e gentis, como . Não seria o que seu pai disse que iria ser, não deixaria mais ele afetá-la assim.
Seria independente, de todas as formas que alguém conseguia ser. Iria ter relacionamentos saudáveis, cuidaria de si mesma, não colocaria os sentimentos dos outros sobre seus próprios.

Mas era mais fácil falar do que fazer. Mesmo negando esses sentimentos, eles nunca chegavam a desaparecer totalmente, atingindo-a em seus momentos mais vulneráveis.
E as vezes, sem perceber, como foi no momento que resolveu respondê-lo pela primeira vez, agia instintivamente a fim de agradar e ser gentil, mesmo que isso vá contra ao que realmente quer.

- Por favor, prometa que vai me avisar se a situação piorar. Podemos pensar em alguma forma de fazê-lo parar – continuou ao ver que ela não conseguia responder sua pergunta.

sorriu levemente, cansada, mas sentindo-se, pela primeira vez em semanas, com esperança de que a situação se resolveria. Contar a alguém, principalmente a ele, tirou um enorme peso de suas costas, fazendo-a menos solitária e desamparada.
permaneceu lá até altas horas da noite, distraindo-a com suas maravilhosas habilidades culinárias, terrível gosto para filmes e beijos macios e quentes. sentiu-se grata de uma forma que não soube nem expressar, sabendo que ele o fazia para que ela se sentisse melhor.
Quando se foi, se deitou em sua cama, onde permaneceu acordada por um longo tempo, olhando para as janelas de vidro do quarto e sentindo, de repente, que deveria comprar cortinas para cobri-las.

👤🔪

A história de se entrelaçou com os casos de jovens desaparecidas na segunda-feira após seu expediente.

- Posso te perguntar uma coisa? – perguntou Elias atrás dela, enquanto a observava a trancar as portas da biblioteca.
- Claro! – respondeu ela voltando-se para ele e arrumando a mochila sobre o ombro.
- Eu estava pensando... – disse o bibliotecário chefe parecendo tímido, acionando um alarme dentro de , que, de repente, parecia saber onde aquilo ia parar. -... E achei que, sei lá, talvez nós pudéssemos sair na quarta-feira, já que é feriado. Para tomar uma cerveja ou ver um filme, quem sabe.

Merda. Essa provavelmente era uma das situações que mais odiava ter que passar: dar o fora em alguém.
Olhou nos olhos Elias e viu algo por trás, que interpretou como esperança. Engoliu seco, pensando em e em seus beijos que faziam seus dedos do pé se contorcerem e soube que não poderia aceitar o convite de Elias. Não seria justo com ele se ela lhe desse a ideia de estar interessada – mesmo ele sendo um dos homens mais bonitos que ela já havia visto -, sendo que muito provavelmente ela já havia desenvolvido sentimentos por seu senhorio.
E havia Janaína também, que se tornara uma grande companheira e que com certeza era completamente apaixonada por Elias, provavelmente há muito mais tempo do que tinha de emprego.

Seus sentimentos também valem, você não precisa sair com ele. Seus sentimentos também valem, ele pode lidar com a rejeição, repetiu a si mesma como um mantra.
Com sua amiga em mente, ainda não conseguiu ser sincera e mentiu:

- Na quarta eu não posso! Combinei de sair com a Janaína e dormir na casa dela, desculpe. Quem sabe outro dia!

Ele sorriu tímido para ela, um pouco decepcionado, mas parecendo aceitar suas palavras.

- Tudo bem! Quem sabe outro dia – respondeu, se despedindo e indo embora em seguida.

Suspirando aliviada, andou até o ponto de ônibus e esperou de pé, com um ombro encostado em uma das colunas. Sabendo que Janaína precisava saber sobre a história que havia inventado, enviou:

Que tal uma noite das meninas na quarta-feira?”.

A resposta veio alguns minutos depois.

Oba! Eu estava pensando em fazer compras e depois tomar um açaí, o que acha?”.
Você é o amor da minha vida!” respondeu com um sorriso no rosto. “Depois filmes e pizza na sua casa?”.
Perfeito!”.

Alguém agarrou o braço de , de repente.
Com o coração batendo forte pelo susto, se virou com rapidez. Seu sangue fluía por suas veias, quente pela adrenalina, pulsando em suas orelhas pelo desespero.
Era ele? O homem que a perseguia? Ele havia a encontrado?
Por sorte, não fora o caso. rapidamente percebeu que quem segurava seu braço era uma pequena idosa de dedos ossudos com um celular na outra mão e olhos confusos no rosto.

- Oh! – exclamou a senhora, olhando atentamente para o rosto dela. - Desculpe, achei que você fosse uma menina que vi no jornal.
- Tudo bem! – respondeu colocando uma mão sobre o peito, tentando acalmar sua respiração. – Acontece.

A mulher, contudo, continuou a encará-la, confusa e desconfiada.

- Algum problema? – perguntou .
- Não! É que é até assombroso como vocês são parecidas... É uma menina que desapareceu e levei um susto porque achei que fosse você.

A senhora lhe mostrou a tela de seu celular, onde uma matéria jornalística dizia:

JOVEM DE 20 ANOS CONTINUA DESAPARECIDA APÓS 10 DIAS.


Abaixo da manchete, uma foto que fez ofegar.
Ser asiática incluía, infelizmente, ouvir constantemente comentários de como todos os asiáticos pareciam iguais. Em um país racista como o Brasil, esses tipos de falas eram rotineiras ao longo de todos os vinte e quatro anos de vida que possuía.
A garota na fotografia era asiática, como suspeitou que seria. Mas aquele não era um caso de apenas estereótipos racistas: era quase como se olhar em um espelho.

Tinham o mesmo cabelo preto, liso e comprido. Os mesmos olhos e aparentavam a mesma idade. A única coisa que as separavam eram os óculos que a garota usava e uma quantidade considerável de sardas e pintas em sua pele: fora isso, eram assustadoramente parecidas.
sentiu seu estômago embrulhar por um segundo. Seus instintos formigavam, dizendo para ela algo que não era capaz de entender ainda.
A senhora se desculpou novamente e subiu em seu ônibus, que havia acabado de chegar. Chegou em casa e foi tomar um banho, na tentativa de espairecer, mas seus instintos continuaram arrepiando sua nuca até dias depois.

- Capítulo 8 -

Algo muito estranho aconteceu na noite de terça-feira.

A temperatura caíra surpreendentemente a noite, tendo como acompanhante uma ventania que balançou as árvores e arrancou as folhas.
achou aquele clima levemente assustador. Era possível ouvir o vento uivando do lado de fora e alguns galhos batiam nas janelas da cozinha, o que a assustava de vez em quando.
Além disso, sentia, conforme andava ao redor do balcão, lavando a louça e cozinhando, aquele formigamento na nuca que descia por sua espinha como uma gota de suor em um dia quente.
Sempre que se sentia dessa forma, como se estivesse sendo observada, o homem anônimo vinha à sua mente, mas negava-se a acreditar que era o caso.

Ele não sabia onde ela morava, pouquíssimas pessoas sabiam. E mesmo se soubesse, não conseguiria entrar, pois não era morador, então não tinha a placa de seu carro ou sua identidade registrada no sistema e nem o controle remoto que abria a cancela automaticamente.
Ele teria obrigatoriamente que passar pela portaria, onde o barrariam e isso lhe trazia o mínimo de sentimento de paz.
A sensação era provavelmente apenas fruto da paranoia que estava criando graças a perseguição virtual que sofria. Como quando se assiste um filme de terror e depois precisa andar por um corredor escuro até o quarto.

Mesmo assim, resolveu jantar em seu quarto. Sentada em sua cama com as costas apoiadas nos travesseiros, aproveitou e abriu seu notebook para assistir à algum filme ou série.
Permaneceu assim por pelo menos uma hora, entretida, até que ouviu um barulho.
Eram sons de passos, misturados com o barulho do vento, mas que se destacavam pelos galhos e folhas se quebrando pelo peso das pegadas.
As sobrancelhas de se franziram e ela olhou ao redor, pausando o que assistia e focando em sua audição. Por sorte, os passos pareciam se afastar de seu quarto, onde estava extremamente exposta pelo vidro das janelas.
O som desapareceu, mas apenas depois de alguns minutos soube relaxar. Suspirou, aliviada e voltou a assistir seu filme. Devia estar ouvindo coisas ou talvez fossem apenas os filhos da casa mais próxima. Eles gostavam de brincar no terreno ao lado da casa dela.

Sentiu frio, de repente.
Folhas pequenas entraram voando pela porta aberta de seu quarto.
Confusa, se levantou. Como estava ventando dentro da casa? Havia fechado todas as portas e janelas, tinha certeza.
Andou com passos lentos, silenciosos e inseguros. Sentia o vento vir através do corredor, atingindo suas pernas e arrepiando sua pele.
Andou pelo corredor, sentindo-se fria e insegura, tremendo levemente com a adrenalina.
Quando chegou perto da lavanderia, olhou a porta da frente e levou um susto.
Estava aberta. Escancarada. O vento uivando enquanto passava pelo batente, trazendo várias folhas para dentro, que entravam na sala e na cozinha, se espalhando por todos os cômodos.
Andou rapidamente, quase correndo, escorregando graças as meias em seus pés e bateu a porta com força, o barulho ecoando por toda casa. Trancou-a e ficou ali, parada, com a mão na chave e respiração levemente ofegante.

Ficou silenciosa, esperando qualquer outro barulho aparecer, mas não foi capaz de ouvir nada.
Trancou a porta de seu quarto ao voltar e cobriu as janelas com um lençol, prendendo-o com uma fita, em uma tentativa de se sentir menos paranoica. Precisaria colocar mais despertadores no celular, pois acordar sem a luz do sol seria ainda mais difícil, mas era algo que estava disposta a lidar.
Depois, mandou uma mensagem à , dizendo:

Oi! Você passou aqui em casa agora pouco? Ouvi um barulho e a porta estava aberta, achei que poderia ser você... ”.

Mas ele não lhe respondeu e se forçou a dormir, na tentativa de mentir para si mesma de que aquilo não foi nada demais.

👤🔪

Janaína era uma das melhores companhias que já tivera na vida. Até mesmo fazer compras – uma tarefa que, particularmente, achava muito monótona – fora divertido por estarem juntas. Sua companheira de trabalho era linda e espirituosa, sorridente e inteligente, além de extremamente engraçada.
Foi muito bom, na verdade, ter o dia seguinte tão ocupado e cheio de novidades, para distraí-la do acontecimento da noite anterior. Era bom fingir que fora apenas um caso de esquecimento, que provavelmente apenas não trancara a porta direito e o vento forte a fizera abrir.
Mesmo que seus instintos coçassem, dizendo-lhe que esse não era o caso.

- Tem um lugar que vende açaí naquela avenida próxima da imobiliária, quer ir? – perguntou Jana enquanto dirigia seu carro, com no banco do passageiro.

O trânsito estava caótico, cheio de motoristas que não davam setas, ciclistas tentando não serem atingidos e pedestres que não davam a mínima para a faixa. As vezes desejava um carro, para nunca mais ter que pegar o ônibus lotado das 18 horas, mas quando lembrava como era ser motorista nessas situações, mudava de ideia. Mesmo tendo que lidar com o sufoco e mal cheiro de um transporte público lotado, as vezes ela tinha sorte e era capaz de encontrar um lugar para sentar-se.

- E que ser humano negaria um açaí? – brincou em resposta. – Pé na tábua, mulher!

O lugar era uma linda sorveteria especializada em açaí, mas que também vendia sorvetes e outros tipos de sobremesa. Possuía as paredes roxas e tablados de madeira, com o nome “Açaí das Meninas” estampado em um letreiro colorido.
Após montarem seus açaís, o de sua amiga quase transbordando em leite ninho, e Janaína sentaram-se nas mesinhas de madeira escura do lado de fora, apreciando a luz acolhedora do sol e os carros e pedestres que passavam.
Elas conversaram coisas triviais por um tempo, apreciando o quão bonita sua amiga era e como seus cabelos crespos reluziam quase como uma áurea ao redor de sua cabeça, graças à luminosidade.

Era bom voltar a ter uma companheira, principalmente nessa nova etapa de sua vida. Foi difícil construir amizades na adolescência, principalmente quando raramente podia sair ou convidar qualquer um para passar um tempo em sua casa.
Conseguiu criar alguns laços, mas nada que pudesse superar os anos de isolamento que viveu. Agora, todas aquelas pessoas tornaram-se amigos virtuais que curtiam suas publicações e uma vez ou outra comentavam em alguma postagem.

- Você morava com seu pai antes daqui? – perguntou Janaína em um certo momento.
- Sim, em São Paulo, perto do Parque Ibirapuera.
- E sente saudades? As vezes preciso ligar para o meu pai mais de uma vez por dia de tanta falta que sinto dele.
- Na verdade... Não. – respondeu com um suspiro, apenas feliz em perceber que se sentia confortável em conversar sobre isso com Jana. Ela era acolhedora e gentil, sempre disposta a ouvir. – Meu pai não é o pai do ano e nem nunca foi. Sair de lá foi a melhor decisão de todas.
- Ele era violento? – perguntou a amiga com olhos gentis. não se importou com a intimidade da questão.
- De várias maneiras. Emocionalmente, psicologicamente, fisicamente. Principalmente para mim. Ele pegava mais leve com o meu irmão.

Jana pegou sua mão e sorriu. Deus, era tão bom finalmente ter uma amiga a quem confiar aquilo.

- Sinto muito querida, isso é uma merda. Mal posso imaginar. Fico feliz que esteja aqui agora, longe dele.

Seu celular começou a vibrar com uma ligação, de repente, e sorriu – de alegria e alívio –, ao ver que era .

- Oi! – atendeu sorridente. Janaína notou sua alegria repentina e perguntou com os lábios: “Quem é?”.
- Oi, – respondeu sua voz grossa e quente, lhe arrepiando deliciosamente. – Te liguei para avisar que não vou poder ir te ver hoje. Minha avó passou mal e estou aqui no hospital com ela.
- Oh, não! – exclamou tristemente. – Ela está bem?
- Sim, foi só um susto. Mas vai ficar aqui um tempo, então vou ficar com ela.
- Não tem problema, sério – respondeu empática. – Eu entendo super. Estou saindo com uma amiga hoje, de qualquer jeito.
- Que bom! – respondeu , feliz por ela. corou ao chegar à conclusão que ele provavelmente percebera sua falta de amigos. – O Luan disse que consegue colar na casa para acelerar umas coisas que eu precisava. Tudo bem para você? Ele tem uma cópia da chave.
- Claro, sem problemas. Vou dormir na casa da Janaína.
- Tudo bem, nos vemos amanhã, então. Estou louco para te ver.
- Também estou louca para te ver – respondeu, as bochechas cada vez mais coradas, principalmente pelo olhar que Jana lhe lançou. De repente, lembrou-se de algo. – Espera! Te mandei uma mensagem ontem à noite, mas você não respondeu.
- Que mensagem?
- Eu ouvi um barulho do lado de fora da casa ontem à noite e depois encontrei a porta aberta. Achei que poderia ter sido você.
- Não, não fui eu – respondeu parecendo preocupado. – Tem certeza que me mandou uma mensagem? Não apareceu nada para mim.
- Tenho sim.
- Espera um segundo, vou checar. – A linha ficou muda por alguns segundos, enquanto ele checava as mensagens que trocavam no WhatsApp. Depois, voltou e disse: - , a única coisa que você me mandou ontem à noite você mesma apagou.
- Como assim? – perguntou confusa. Deixou a ligação em espera e entrou em suas mensagens com . Um arrepio desceu por sua espinha quando viu, no lugar da mensagem que enviara, as palavras: Você apagou essa mensagem.
- Que esquisito – murmurou retornando a falar com ele. – Desculpe, devo ter apagado sem perceber...
- Está tudo bem, ? Como assim você ouviu passos ontem à noite?
- Esquece, está tudo bem – respondeu ela com a mente confusa, mal conseguindo se concentrar. – Eu só devo ter esquecido de trancar a porta e estou imaginando coisas.

Despediu-se e desligou antes que ele pudesse dizer alguma coisa. Sua mente borbulhava como se houvesse um enxame de abelhas dentro de seu crânio.
Ela estava sendo paranoica. Morava em um condomínio, tinha portaria, ele não poderia entrar.

- Você está bem? – perguntou Janaína preocupada.
- Sim – suspirou largando o celular. – Está tudo bem.

Disse aquilo mais para si mesma do que para a amiga, mas pareceu convencê-la

- Então... Quem era?! – perguntou Janaína curiosa e brincalhona, mudando de assunto.
- Ah... Só o – respondeu com um sorrisinho.
- o ? Como se um cara que fosse um cara deixaria esse sorrisinho no seu rosto! - riu da amiga, seu humor melhorando consideravelmente.
- Ele é meu senhorio, proprietário da casa onde eu moro – respondeu e riu ainda mais com o olhar chocado de Jana. – Não me olhe assim! Se você o visse saberia que não tive nenhuma opção além de me envolver com ele.
- Vocês já se beijaram?
- Algumas vezes...
- MENTIRA! – berrou Janaína, excitada por e recebendo olhares censuradores dos pedestres na rua. – E como foi? Ele beija bem?
- Com certeza! – confessou com as bochechas vermelhas. – Ainda estamos naquela fase esquisita que nos cumprimentamos com beijo na bochecha porque não sabemos muito bem o que fazer, mas sempre acabamos dando uns amassos depois.
- Faz tempo que estão juntos?
- Nem um pouco! A gente começou a ficar, tipo, três dias atrás, no domingo. Mas a casa ainda precisa de vários consertos então sempre que eu chego do trabalho ele está lá e desde que nos beijamos acaba ficando até mais tarde.
- E você gosta dele?
- Sinceramente? – perguntou. Quando Janaína assentiu ansiosamente, suspirou: - Sim. É engraçado porque só começamos a ter mais tempo juntos agora, mas sinto que gosto dele desde o momento que nos conhecemos. Ele é simplesmente um cara incrível, sabe? É tão gentil, engraçado e educado. É como um ursinho de pelúcia lindo e gostoso que sabe cozinhar.
Janaína soltou uma gargalhada e continuou a questioná-la.
- Fala mais! Quero saber tudo!

tagarelou sobre , feliz em ter alguém para compartilhar os novos sentimentos que cresciam em seu coração como botões de flores. Disse-lhe sobre como tinham os mesmos gostos musicais, o mesmo humor e de que tinha certeza que o viu chorando quando assistiram o final da terceira temporada de Stranger Things na noite anterior.
Sobre como ainda sentia que era cedo para transar com ele, querendo conhecê-lo melhor antes de tomar esse passo, assim como fizera com os parceiros que já tivera. E de que ele parecia genuinamente feliz de estarem construindo um relacionamento, o que notara nas vezes que o pegou olhando para ela com olhos brilhantes e um sorriso nos lábios e nas mensagens que lhe enviava, dizendo que algo o lembrou dela ou que estava louco para vê-la.
Quando não tinha mais nada a dizer, viu uma chance em conversar sobre algo que queria há muito tempo.

- E você, Jana? Como está seu coraçãozinho?
Janaína ficou quieta, tímida, com as bochechas vermelhas.
- Ah... Tem alguém... – murmurou. – Mas acho que você já sabe quem é. Todo mundo meio que sabe.
- É o Elias? – perguntou, recebendo um aceno como resposta.
- Eu sou óbvia, não sou? – chorou Jana afundando o rosto nas mãos.
- Não! – mentiu para a amiga se sentir melhor. – Eu só sou bastante observadora, só isso.
- Obrigada por mentir – riu Janaína, ainda parecendo cabisbaixa. – Mas eu sei que todo mundo sabe disso. Até ele deve saber.
- Você já tentou dar o primeiro passo?
- Não, não tenho coragem – admitiu Jana. – Namorei minha ex-namorada por muitos anos e percebi, quando a gente terminou, que não sei mais como chegar em ninguém. Além disso não sei como se sente sobre mim.
- Olha, você é provavelmente a mulher mais linda que eu já vi – elogiou sendo sincera. – E ele não é burro, com certeza sabe disso.
- Obrigada – agradeço com os olhos brilhando de alegria. – Sério, significa muito. Mas o Elias é o cara mais legal do mundo, sabe? Fico pensando que mesmo se não quiser sair comigo vai acabar fazendo para não ferir meus sentimentos e é a última coisa que eu quero.
- Tenho certeza que ele vai ser honesto com você, Jana – respondeu. – Não vejo Elias enganando ninguém.
- Eu sei – suspirou sua amiga. – É pura paranoia da minha cabeça. Gosto dele há tanto tempo, não só romanticamente, mas como amigo também, então tenho medo de estragar tudo.
- Eu acho que vale a pena tentar – aconselhou. – Você mesma diz que Elias é um cara superlegal. Tenho certeza que não vai ficar estranho entre vocês se ele não quiser, apesar de que duvido que seja o caso.

Janaína sorriu, agradecida e as duas pagaram e saíram, com destino à casa dela para fazer uma noite de filmes.
No caminho, contudo, foi surpreendida com uma notificação.

- Que estranho... – murmurou para si mesma.
- O quê? – perguntou sua amiga enquanto dirigia.
- O Google me mandou uma notificação pedindo para que eu avalie a loja de açaí – explicou. – Mas eu nunca deixo a minha localização ligada.
- Tem certeza? Às vezes você acionou sem querer.

entrou em seu e-mail, desconfiada e viu que sua localização estava, de fato, ligada.
Aquilo acionou um alarme em sua mente.
Não havia nenhuma chance de ela ter configurado sem perceber. Ela mal estrava em seus e-mails, muito menos na parte das configurações.
Aquilo deixou um mal-estar em seu estômago, juntamente com a mensagem apagada que voltou a surgir em sua mente.
Foi apenas um tempo depois que tudo passou a ter sentido.

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- Amiga, posso te perguntar uma coisa? – disse Janaína horas depois, quando as duas estavam largadas em sua cama, assistindo um filme de terror.
- Claro, pode falar – respondeu, abaixando os gritos da mocinha que fugia do psicopata com uma faca.
- Quando você me pediu para segurar seu celular mais cedo, eu notei umas mensagens esquisitas – contou. sentiu seu estômago afundar. – Desculpe! Não quis xeretar, mas elas ficavam vibrando e aparecendo sem parar, então acabei vendo.
- Está tudo bem. Sério, eu sei que não fez por mal.
- Fiquei preocupada – confessou Jana, pausando o filme em seguida. – As mensagens pareciam tão invasivas e raivosas, está tudo bem?

ficou quieta por alguns segundos, pensativa, avaliando se era preciso deixar sua amiga ainda mais preocupada ao explicar exatamente o que estava acontecendo. Por fim, lembrou-se do peso que saiu de seus ombros ao confessar tudo à e suspirou, dizendo em seguida:

- Mais ou menos. Tem esse cara que fica me mandando mensagens e ligando já faz quase um mês, sem parar. Não sei quem ele é, não faço a mínima ideia se nos conhecemos pessoalmente ou não, mas nada que eu faça faz ele desistir.
- Já o bloqueou?
- Inúmeras vezes! Essas mensagens que você viu são provavelmente da décima quinta conta falsa que ele criou. Eu o bloqueio em tudo: Facebook, Instagram, Twitter. E ele sempre volta.
- O que ele quer?
- Pelo jeito, eu. Ele fica declarando seu amor por mim, dizendo que nós estamos destinados a ficar juntos, que sou tudo que ele consegue pensar...
- Meu Deus, que assustador! – exclamou Janaína genuinamente horrorizada.
- Pois é! Não sei nem como é a voz dele: quando me liga sempre fica em silêncio. A única coisa que me dá paz é pensar que ele não tem meu endereço e mesmo que tivesse, seria barrado na portaria.
- Já pensou em trocar de número? – sugeriu sua amiga.
- Até pensei, mas tentei fingir para mim mesma que não era necessário, sabe? Seria admitir que isso está ficando perigoso – ponderou . – Mas se você também acha que é melhor, vou trocar. Vou bloquear minhas contas também, já devia ter feito isso há muito tempo.

O fez naquele exato momento. Sacando o celular, bloqueou a nova conta anônima e rapidamente tornou privadas todas as suas redes sociais.
Sentiu-se aliviada, um pouco mais segura, sabendo que pelo menos ele não seria mais capaz de ver suas fotos e publicações.
Mas sua alegria durou pouco.
Em alguns minutos, seu celular vibrou com novas mensagens de uma nova conta. Depois, começou a tocar. Tocou, tocou e tocou, diversas vezes, sem parar, mesmo com ela recusando a chamada.
De repente, parou.
E algo pior aconteceu.
O celular de Janaína começou a tocar. “Número Privado” brilhando na tela.

- Meu Deus – chorou sentindo o próprio rosto perder a cor. – É ele.
- Como ele tem meu número? – perguntou Jana horrorizada, jogando o celular longe. A chamada ainda discando.
- Eu não sei! – exclamou com lágrimas nos olhos. – Como ele sabe que estou com você?

A lembrança da localização ativada em seu e-mail a fez quase desmaiar. Depois, a foto que Janaína postara das duas em seu story no Instagram. Ele provavelmente vigiava seus amigos também. E sabia exatamente onde estava.

- Meu Deus, Jana, eu sinto muito!
- Não é sua culpa – respondeu a amiga, assustada, mas empática. – Esse cara é maluco.

A ligação parou e uma mensagem apareceu. Com as mãos trêmulas, quis poupar Janaína de lidar com isso e pegou o celular.

A: “Diga para a sua amiga me responder AGORA!”.

foi capaz de sentir a frustração dele através da tela, atingindo e embrulhando seu estômago.

- Vou respondê-lo – disse pegando o próprio celular.
- Não! É o que ele quer! – exclamou Janaína.
- Não vou permitir que ele fique te assediando também, Jana. Vou mandá-lo ficar longe de você.

Com dedos trêmulos e a visão embaçada pela adrenalina, enviou a sua nova conta falsa no Facebook:

Não se atreva a envolvê-la nisso. Deixe-a em paz ”.

A resposta veio segundos depois.

A: “Abra suas contas novamente ”.

Não! ” respondeu ela sentindo uma fúria crescer dentro de seu peito. “Não ligue mais para ela. ME DEIXE EM PAZ ”.

A: “Abra suas contas e não ligo mais para ela ”.

pensou sobre as palavras dele, avaliando o quão verdadeiras seriam. Pensou seriamente em aceitar, mas Janaína leu a mensagem e não permitiu.

- Não se atreva a dar o que ele quer – argumentou. – Isso só vai encorajá-lo a te chantagear.
- Não é justo com você, Jana.
- Com você também não! – exclamou sua amiga. – Eu e você vamos trocar de número e tudo estará resolvido. Mande-o se foder!

não o mandou se foder, apesar de querer muito. Temendo a reação dele, foi menos raivosa, mas ainda firme, dizendo: “Se continuar envolvendo meus amigos, eu te denuncio na polícia. Juro por Deus que abro um B.O. contra você ”.

Ele não respondeu por alguns minutos, o que era incomum. Isso fez com que um rastro de alívio descesse sobre sua coluna vertebral, a esperança de que talvez o tivesse assustado.
Quando falou, quis chorar. Seu sangue gelou esfriou em suas veias como se fosse feito de gelo.

A: “Você pode tentar fugir o quanto quiser, bobinha. Eu sei tudo sobre você. Não tem para onde correr. Mas continue tentando, eu adoro esse joguinho de gato e rato ”.

- Capítulo 9 -

Desde o dia em que voltara da noite com Janaína, a casa de a fazia se sentir extremamente paranoica.
Sentiu assim que colocara os pés dentro do corredor principal. Uma aflição. Um arrepio. Seus instintos gritando, confusos, como se estivessem perdidos em uma floresta, ouvindo barulhos, mas sem saber o que estava vindo.

Não havia explicação racional para esse sentimento que cobriu seu peito como raízes de uma planta venenosa, apertando, esmagando, tirando seu ar, quebrando-lhe as costelas. A casa estava exatamente como deixou. Progresso nas calhas do telhado e na sala, mas nada muito fora disso.
A única coisa que realmente chamou sua atenção foi o novo espelho no banheiro.
Percebeu-o quando foi tomar um banho merecido após seu trabalho. Jogando suas coisas rapidamente na cama, despiu-se e seguiu até o banheiro, nua, com uma toalha macia em mãos.
Quando entrou, levou um susto com o próprio reflexo, desacostumada a vê-lo naquele ambiente.

colocou um espelho? Em que momento?

Voltando para seu quarto, pegou seu celular e, depois de se envolver em sua toalha, tirou uma selfie, enviando-a para com a legenda: Obrigada pelo espelho! Não tinha me dito que ia colocar.
A resposta veio alguns minutos depois.

Espelho? Não instalei nenhum espelho aí ”.
Eu também não... ” respondeu ainda por mensagem, com as sobrancelhas franzidas. “Não viu ele aqui hoje? ”.
Trabalhei no telhado hoje ” ele respondeu instantaneamente. “Não entrei no banheiro. Provavelmente foi o Luan, quando veio ontem. Eu já tinha comentado com ele sobre precisar instalar um espelho logo ”.

aceitou as palavras dele, pois faziam sentido. Ainda assim, olhou para o pedaço de vidro com uma expressão curiosa.
Era um espelho normal, embutido no pedaço de parede que antes mostrava apenas tijolos. Era de tamanho médio, tanto de comprimento quando de largura, mostrando até um pouco abaixo de seus seios.
Nada de esquisito. Apenas um espelho comum.
De repente, enviou-lhe outra mensagem.

Acho que essa foto que você mandou não está muito boa. Talvez seja melhor tirar de novo, sem a toalha ”.

Rindo, deliciada pelo flerte, esqueceu sobre o espelho e não pensou mais sobre ele até muito tempo depois.
👤🔪

Houve uma série de eventos que aconteceram um atrás do outro nos dias que se passaram, como desventuras em série que trabalharam como dominós: em sequência, iam aumentando de tamanho até que os maiores caíssem, causando estragos.
O primeiro deles foi a perda do controle remoto de sua garagem.
Foi rápido e imperceptível, como a maioria das perdas de objetos são. Estava saindo do trabalho, na sexta-feira, ansiosa e animada por um fim de turno particularmente cansativo.
Conversava com Elias e Janaína enquanto trancava a porta da biblioteca. Uma conversa boba, sobre a última temporada de uma série que os três assistiam como fanáticos. Nada demais.
gargalhava sobre a opinião revoltada de seu bibliotecário chefe sobre a morte de um personagem específico, quando, de repente, tropeçou em sua cadeira de rodas e caiu de cara no chão.

- Meu Deus, ! Você está bem? – exclamou ele preocupado.

Envergonhada, só pode observar que sua bolsa abrira e todos os seus objetos saíram rolando pela calçada. Seu joelho ardia e seu rosto queimava com o constrangimento.
Finalmente de pé, graças à ajuda de Janaína, olhou para sua perna e viu como uma linha de sangue escorria pelo machucado.

- Merda – xingou com os dentes cerrados, sentindo mais embaraço do que realmente dor.

Sua bolsa for erguida a frente de seu olhar e ela a pegou sem pensar muito. Quando olhou para cima, para agradecer, perdeu a voz.

- Você está bem? – perguntou o homem misterioso que frequentava a biblioteca há um mês.

O rosto de empalideceu conforme olhava nos olhos dele, que a observavam atentamente. Não soube o que dizer, além de apertar a própria bolsa contra o peito e ficar ali, como uma estátua.
Ainda não sabia dar nome aos sentimentos que afloravam em seu peito quando estava na presença do homem misterioso. Ele ainda frequentava a biblioteca, diariamente, com pouquíssimas exceções que se destoavam pelo fato de que não reconhecia o ambiente da biblioteca sem sua presença, já que a tivera desde o primeiro dia de trabalho.
Ele só... Se destacava tanto dos demais. Algo que só ela podia perceber e que não compreendia, pois não havia absolutamente nada em suas ações que era possível considerá-lo como esquisito. Entrava na biblioteca de manhã, passava o dia inteiro e saía um pouco antes de fechar.

Não falava com ninguém, além de inocentes momentos em que perguntava sobre um livro ou seção. Trabalhava em seu computador, bebia café, lia alguns livros. Era calmo e educado. Normal.
Mas sabia que havia algo em seu olhar. O mesmo que vira no dia que fugira dele levando Elias ao fisioterapeuta: atento, observador como um falcão, quieto e misterioso.
Ele olhava ao seu redor como se buscasse algo. Como se buscasse alguém . E quando os olhos pausavam nela, podia sentir que eles permaneciam ali, avaliando-a mais do que as outras pessoas.

- Suas coisas – disse Janaína, entregando-lhe alguns de seus pertences que haviam se espalhado pela rua. – Você está bem?
- Claro – suspirou alguns segundos depois, balançando a cabeça e tentando controlar sua ansiedade. Agarrou seus pertences da mão dela e deu-lhe um sorriso nervoso. – Obrigada.

Alguns pedestres começaram a ajudar a recolher mais algumas de suas coisas, o que fez com que quisesse fugir pelo constrangimento.
Enfiou os objetos em sua mochila com pressa, agradecendo os amigos e os dois homens e a mulher que não conhecia e ajeitou suas roupas, ignorando a ardência no joelho, que ainda sangrava.

- É melhor eu ir, vou perder meu ônibus.

E saiu correndo, abandonando-os, confusos. Só foi capaz de suspirar, aliviada, quando se sentou dentro do transporte público.
Foi na portaria, quando Marcelo parou-a na cancela, que o segundo dominó caiu.

- Chegou uma carta para você!

Um mau pressentimento desceu por sua espinha.
Franzindo a testa, pegou o envelope da mão dele e o analisou. Era branco, com apenas duas coisas escritas: o endereço do condomínio e o nome dela. Nada além disso.

- Você sabe quem mandou? – perguntou ainda encarando o objeto.
- Não sei, desculpe. O correio entregou e achei estranho porque sua casa não estava endereçada. Só soube que era para você porque reconheci seu nome.

o agradeceu e seguiu seu caminho, a carta misteriosa pesando em sua mão como se carregasse chumbo.
Quando parou na frente de sua casa, observou o rastro de sangue que secara em sua perna. Indo até uma pequena torneira na lateral, perto de um pequeno amontoado de flores, lavou o machucado e o sangue o melhor que pode, rangendo os dentes pela ardência.
Ao seu lado, visualizou sua bicicleta, encostada na parede e lembrou-se que havia esquecido de colocá-la para dentro na noite anterior. Observando como nuvens cinzas se acumulavam no céu, começou a procurar o controle remoto da garagem em sua bolsa.
Não o encontrou de jeito nenhum. Retirou tudo que estava lá dentro, um por um e suspirou, frustrada ao ver que havia perdido.

Deve ter caído na calçada e ninguém viu, pensou.

Bufando, cansada, entrou pela porta da frente e depois na garagem pela porta que dividia com a cozinha. Utilizando o botão da parede interna, abriu a porta da garagem e colocou a bicicleta para dentro.
Depois, jogou suas coisas no balcão da cozinha e abriu a carta. Assim que começou a ler, desejou não ter feito.
Não havia nada nela além de uma frase, escrita repetidamente por três folhas sulfites inteiras.

Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo...

Ela sabia que era dele. De seu perseguidor. Não havia absolutamente nenhuma outra explicação, nenhuma outra pessoa que lhe enviara algo tão bizarro como aquilo.
Um arrepio desceu por sua espinha quando compreendeu o que aquela carta significava: ele sabia onde ela morava. Sabia seu endereço e enviou-lhe aquilo para que ficasse ciente disso.
Lágrimas acumularam-se em seus olhos, enquanto seu sangue começou a bombear tão depressa que seu corpo inteiro tremia. pegou seu celular e com dedos trêmulos, ligou para .

- Oi! O que foi? – cumprimentou ele, alegre e as lágrimas nos olhos dela começaram a escorrer ao ouvir sua voz.
- ... – gaguejou, buscando ar, sentindo como se seus pulmões estivessem encolhendo.
- ? O que aconteceu? – perguntou , a voz automaticamente mais grossa e preocupada.
- Ele me achou – chorou ela, tentando manter o controle, mas sentindo um ataque de pânico se alastrar por seus ossos. – Ele sabe onde eu moro.
- Onde você está? Ele está aí?

Ela podia ouvir o barulho de chaves e o imaginou em seu apartamento, apressado, preparando-se para voltar até a casa e ver como estava. Isso acalmou seu coração, a perspectiva de que estaria com ela.

- Estou em casa – explicou. – Recebi uma carta. Tenho certeza que ele mandou, acho que quer me avisar que sabe onde eu vivo.
- Eu chego em dez minutos.

chegou em sete e nunca esteve tão grata em vê-lo. Quando abriu a porta e olhou em seus olhos, brilhando de preocupação, chorou lágrimas de estresse e pânico, afundando o rosto em seu peito e sentindo os braços dele ao seu redor.

- Ei, você está bem? – ouviu a voz dele perguntar em seu cabelo, abraçando-a mais forte. negou com a cabeça e suspirou. – Onde está a carta?

Ela o levou até a cozinha e entregou-lhe o pedaço de papel. Viu como suas sobrancelhas franziram e seu rosto ficou vermelho, pela raiva que crescia em seu peito.

- Filho da puta, doente – xingou rangendo os dentes. – Nós temos que ir à polícia, .
- Eu sei – respondeu tentando beber a água com dedos trêmulos. – Mas tenho medo do que irei ouvir. O que tenho contra ele? Uma “carta de amor”? Mensagens inconvenientes?

Sentiu a frustração saindo de como ondas de calor e percebeu que se sentia da mesma forma. Cansada, estressada, exausta.

- Devemos confrontá-lo? – perguntou.
- Não sei – respondeu . – Na quarta-feira ele tentou me chantagear e Janaína me aconselhou a não ir na onda dele. Ela acha que o responder é dar o que ele quer.
- Acho que ela está certa – confessou , voltando a abraçá-la e plantando um beijo em sua testa. – Mas nós vamos na polícia. Nem se for apenas para deixá-los cientes, não vamos deixar passar.
- Eu prometo – respondeu fechando os olhos e encostando a testa em seu peito. – Vou tentar pedir folga em algum dia da semana e então irei.

As cartas continuaram chegando. Nos dias que não tinha correio, eram os e-mails, o terceiro dominó.
E-mails idênticos as cartas, enviados por uma conta falsa, sem assunto e com frases repetidas. E-mails que não havia como bloquear ou denunciar, porque, assim como as contas em redes sociais, apareciam novos, de novo e de novo.

Eu vou fazer você me amar. Eu vou fazer você me amar. Eu vou fazer você me amar. Eu vou fazer você me amar...

Quando sua estadia na casa fez um mês, alguns dias depois, em um sábado à noite, o quarto dominó – e começo dos maiores – caiu. Se a vida fosse uma montanha russa, estaria chegando ao fim do ansioso começo do passeio e, sem saber, prestes a começar de verdade as curvas e loopings.
Foi uma noite normal. Silenciosa e fria, o que fez com que deixasse todas as janelas e portas fechadas.
Não que ela fosse deixá-las abertas de qualquer forma. Nunca esteve tão paranoica, checando as trancas a cada dez segundos.
Estava em seu quarto, secando o cabelo após tomar banho, vestindo uma camiseta grande que pegara emprestado de e meias até as canelas.
Foi quando começou a pentear os fios, que ouviu um barulho.

Todos os pelos de seu corpo se arrepiaram e ela prendeu a respiração, tentando ouvir melhor.
Conhecia esse barulho, qualquer um conheceria.
Andou com passos silenciosos, trêmulos, as pernas bambas e dormentes pela a adrenalina que se espalhou por suas veias.
O barulho ecoava pela casa, martelando em sua cabeça, sendo gravado em seus ouvidos. Quando ela chegou ao final do primeiro corredor, perto da lavanderia e olhou para a porta da frente, congelou.
A maçaneta se movia, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda. De novo e de novo.
Alguém estava tentando abrir a porta.

Sempre imaginou, ao assistir filmes ou ouvir histórias de situações como aquela, que seria uma pessoa reativa. Iria se impor, chamar a polícia, gritar e pedir ajuda.
Não foi o que aconteceu.
Congelou como uma estátua. Completamente incapaz de reagir, as pernas tão dormentes, a mente tão desconecta, que ficou ali, sem se mexer, olhando fixamente para a maçaneta.
Ela parou, de repente.
E outra coisa aconteceu.
Um pedaço de papel começou a ser passado por debaixo da fresta da porta, para dentro da casa, devagar, o som áspero do material raspando no chão de madeira.
Quando tudo se silenciou, ouviu passos se afastando da casa, mas só foi capaz de se mexer muitos minutos depois.
O pedaço de papel era, na verdade, um envelope de papel quadrado, com um CD dentro. o recolheu com as mãos trêmulas e viu que havia um recado atrás.

Como sei que você adora música, fiz uma playlist para você.

Ela sabia que era um presente de seu perseguidor.
Correu até seu quarto, com o coração batendo forte. Agarrando o notebook, agradeceu a si mesma do passado por ter coberto as janelas com um lençol, sentindo-se extremamente vulnerável no momento.
Colocou o CD para tocar e passou a ouvir as músicas, uma atrás da outra, sentindo um enjoo surgindo da boca de seu estômago, subindo pelo esôfago até a garganta.
Não eram apenas canções de amor.
Eram canções de perseguição.

The Police, em “Every Breath You Take”, cantou para ela em inglês:

Oh você não vê
Que você pertence a mim?
Como meu pobre coração dói
A cada passo seu

A cada movimento que você fizer
A cada promessa que você quebrar
A cada sorriso que você fingir
A cada pedido que você fizer

Eu estarei te observando.

“Animals”, do Maroon 5, por sua vez, disse:

Querida, estou caçando você hoje à noite
Te persigo, para te comer viva
Como animais, animais
Como animais-mais
Talvez você ache que pode se esconder
Posso sentir seu cheiro de longe

Houve uma infinidade de músicas, tantas que ficou tonta. E todas com a mesma mensagem: ele a amava, eles ficariam juntos, ele estava à espreita e não havia para onde fugir.
Seu celular tocou.

Gostou do meu presente, bobinha? ”.

No movimento mais rápido que foi capaz de fazer em toda sua vida, pegou seu celular.

- Portaria, boa noite.
- Oi! Seu João, oi... – divagou, tentando controlar os batimentos cardíacos e a voz afetada. – Boa noite. Eu recebi um... Presente, agora pouco, alguém passou ele por debaixo da minha porta, mas não é de ninguém que eu conheça. Você sabe se apareceu alguém diferente ou estranho aí na portaria, querendo entrar?
- Alguém estranho? Não – respondeu o porteiro. – Hoje à noite nenhum pedestre veio, apenas carros.
- E alguém dentro desses carros o senhor não conhecia? Algum carro era diferente?
- Os carros que entraram até agora abriram o portão pelo controle pessoal, não interagi com nenhum deles.

sentiu uma onda de frustração e decepção tomando conta de seu corpo. Não houve pedestres, os carros eram de moradores... Como ele havia entrado?

- Tudo bem... Obrigada, mesmo assim.
- Provavelmente é alguma brincadeira das crianças – respondeu Seu João tentando acalmá-la. – Não se preocupe com isso.
- Claro... – respondeu , sentindo-se como um balão murcho, sabendo que as crianças não tinham nenhuma relação com essa história. – Deve ser isso. Boa noite.

Após desligar, contemplou a playlist em seu computador, que zombava dela. A humilhava. E como cenas de um filme, tudo que passou no último mês passaram em sua mente: as mensagens, as ligações, a chantagem, as cartas, o presente.
Seu celular tocou novamente.

“Sempre penso em você quando escuto essas músicas. Espero que agora você pense em mim também”.

Raiva nasceu em seu coração, como uma chama, que cresceu e cresceu até que ela tremia tanto que teve que afundar o rosto nas mãos.
Estava cansada daquilo, completamente exausta.
Não havia conseguido ser liberada do emprego nas últimas tentativas, mas agora não importava mais.
Recebendo ou não a folga, iria na polícia e colocaria um ponto final nessa história.

- Capítulo 10 -

O departamento de polícia ficava há um ônibus de meia hora e uma caminhada de quinze minutos da casa de . O calor escaldante que lhe queimava o topo da cabeça não ajudou, tornando sua ida pouco agradável.

Quando chegou, foi ainda pior. Passou tanto tempo sentada, esperando, ouvindo gritos, choros e resmungos de outras pessoas que, assim como ela, precisavam urgentemente recorrer à polícia, que teve que se controlar para não ter um ataque. Ficou sentada até as nádegas doeram, as costas estalarem e a ansiedade piorar ao ponto de sentir que iria vomitar ali mesmo. Não havia como se distrair, já que, esperta, deixara o celular desligado, para que seu perseguidor não soubesse de sua localização.
Mas nada, nada mesmo, poderia prepará-la para o que iria ouvir.

- Desculpe, mas não há nada que possamos fazer por você.

As palavras do policial à sua frente fizeram seu corpo ficar frio e anestesiado. Os sons ao seu redor cessaram e demorou-lhe um bom tempo para entender exatamente o que ele dissera.

- Como assim? – exclamou, mal conseguindo formar palavras. – Como não há nada? Eu te disse sobre as mensagens, as ligações, as cartas... Esse homem me persegue!
- Eu sinto muito – disse o policial, parecendo ligeiramente triste por ela, mas não tão preocupado quanto deveria estar. – Mas não existe nada na Constituição brasileira contra a perseguição. Nenhuma lei, nenhum parágrafo que criminalize isso. O máximo que poderíamos fazer é acusá-lo de perturbação da ordem, mas a pena seria uma multa, no máximo.
- Mas e sobre o CD? Ele foi até a minha casa! E não é só isso, eu ando encontrando minhas janelas e portas abertas, ouço passos ao redor da casa...
- Não tenho como explicar o presente, mas você mesma disse que a portaria afirmou que nenhum estranho entrou no seu condomínio. E sobre as portas e os barulhos, provavelmente são apenas pegadinhas das crianças. Isso acontece o tempo todo.

permaneceu ali, olhando fixamente para o rosto do policial, mas sem realmente vê-lo. Quieta e totalmente perdida, sentiu-se tão sem esperança que podia prever um ataque de pânico chegando, tomando-lhe os pulmões, apertando sua garganta, fazendo seu corpo suar.
Não havia o que ser feito. Ninguém ali podia ajudá-la. Não a portaria, não a polícia, não a porra da Constituição brasileira.
Ele não iria parar. Não havia como impedi-lo.
Lágrimas queimaram em seus olhos, ao mesmo tempo que sua garganta fechou. O policial, parecendo ter pena dela, cruzou os dedos das mãos e se inclinou para frente.

- Olha, você é uma moça bonita, por isso que ele está agindo assim. Quer meu conselho? Continue o ignorando. Apague suas redes sociais se for preciso, mas não se preocupe. Ele vai desistir em algum momento. Se te acalma, compre câmeras de vigilância e as instale. Mas, a menos que uma ameaça real aconteça, não temos nada contra ele além de declarações de amor. Caso aconteça, volte e veremos o que fazer.

levantou-se, mas não saiu imediatamente, as pernas bambas a impedindo. Ele havia a ameaçado? Sua cabeça girava com tanta rapidez que era incapaz de se lembrar. Ele mandava tantas mensagens que é como se ela se afogasse nelas, incapaz de identificá-las.

- Obrigada – sussurrou sem forças e retirou-se apoiando-se pelas paredes, desesperada.

Precisava sair dali, precisava sair dali.
Viu a porta do banheiro feminino, de repente.

Graças a Deus.

Entrou abrindo a porta com força e correu para dentro da cabine mais colada à parede. Sentou-se na privada, em cima da tampa e cobriu o rosto com as mãos.
Chorou. Um choro com soluços que tremiam seu corpo inteiro. Chorou de tristeza, de desespero, de fúria. Mas, principalmente, chorou pelo fato de tinha tantas expectativas para esse momento de sua vida, tantos sonhos e esperanças que estavam sendo jogados no esgoto por um homem obcecado e incapaz de respeitá-la.
Lembrou-se da última vez que precisara recorrer à polícia, a única vez que criara coragem em buscá-los quando em relação ao seu pai. Lembrou de sua mãe, encolhida no chão da cozinha, enquanto seu pai estava em cima dela, berrando-lhe palavras horríveis e chutando-lhe ocasionalmente. Natã estava muito assustado, também encolhido em um canto, chorando e foi a única que criou coragem o suficiente para tentar impedir aquilo de acontecer.
Tinha apenas nove anos, mas ainda era capaz de ver os próprios dedos pequenos e trêmulos discando o 190 e gaguejando para a mulher que atendera:

- Ele está batendo na minha mãe. Ela não para de chorar.

Não sabia o próprio endereço, mas tinha sorte de morar na frente de um restaurante que almoçavam de vez em quando. Foi capaz de dar o nome do local e a polícia achou a casa dela com facilidade. Conseguia se lembrar do barulho da viatura, das luzes vermelhas rodando, do olhar chocado e então raivoso de seu pai, que nunca olhara para ela com tanto ódio como naquela noite.
E então se lembrou de tudo ser resolvido em uma conversa no batente da porta. Ficou atrás, olhando para os grandes homens adultos, com olhos assustados. Observou trocarem meia dúzia de palavras, ouviu “mal-entendido” e “você sabe como as crianças são” e então, com um sorriso e um aperto de mãos, a polícia se foi.
E ela ficou. Ainda podia sentir a dor do espancamento que levara em todas as partes do corpo.
A polícia não a ajudou antes e se sentiu extremamente tola ao acreditar que ajudariam agora. Quinze anos se passaram e nada mudou.
Não soube quanto tempo ficou ali. Poderiam ser horas, minutos ou segundos que mais pareciam uma eternidade.
Mas quando as lágrimas cessaram e ela era apenas uma bagunça vermelha e com o nariz escorrendo, ouviu vozes no banheiro masculino, que atravessavam a parede fina que os separava.

- Você viu com o que aconteceu com o Renato?
- Não muito – respondeu uma segunda voz masculina – Ele realmente foi afastado?
- E substituído pela Clarissa!
- Tá brincando, porra? A novata?
- Que porra é essa, né? Pelo jeito o irmão da vítima ameaçou levar aos jornais que ele estava sendo negligente com o caso da irmã e toda essa merda. E aí acharam melhor trocar ele de caso.
- Não era a Clarissa que tinha vindo com aquela conversa de que se tratava de um assassino em série?
- Sim! – riu a primeira voz, como se aquilo fosse a ideia mais ridícula que ele já tivesse ouvido. – Ela acha que existe alguma ligação com outros casos. Porra, agora todas as mulheres desaparecidas sumiram pela mesma razão?
- Você sabe como são as mulheres – debochou o outro homem. – Qualquer coisinha elas já entram em pânico. A garota voltava sozinha do trabalho no meio da noite, lógico que ia dar merda, está cheio de maluco por aí. Acontece.

ouviu o barulho da descarga e da porta abrindo e fechando, conforme os dois homens saíam do banheiro. Permaneceu sentada ali por mais alguns minutos, absorvendo suas palavras, enojada pelo deboche e o descaso que davam à uma menina que claramente havia desaparecido.
Mas houve algo mais. Um formigamento na base de sua coluna, um sinal claro de que seus instintos queriam que ela notasse que havia algo ali que não estava dando a devida atenção.
Saiu da cabine sentindo as costas e as pernas doerem pelo tempo que ficou sentada. Lavou o rosto com água fria, tentando amenizar a vermelhidão e o inchaço, mas só ajudou um pouco. Andou apressadamente para fora da delegacia, pegou o primeiro ônibus que viu e, apenas quando estava bem longe do lugar, andando pelas calçadas de uma área remota do centro da cidade, ligou seu celular.
O objeto vibrou alto continuamente, tanto que as pessoas ao redor olharam para curiosas. Ligações perdidas de , ligações perdidas do número privado, mensagens e mais mensagens dos dois.

A maioria de dizia: “Me liga, é urgente”.
As do anônimo exigiam: “Onde você está?”.

Com o coração batendo forte, ligou para . Ele havia dormido na casa dela depois do acontecimento do CD, na tentativa de acalmá-la (o que com certeza ajudou, já que sua presença era viciante e deliciosa) e ido ao hospital no dia seguinte visitar a avó. Suas mensagens deixaram-na ansiosa, imaginando que a situação provavelmente piorara. Ela teria falecido?
No segundo toque, ele atendeu.

- , graças a Deus. Onde você está?
- Estou na rua, perto do centro. Por quê? O que aconteceu?
- Alguém rasgou as rodas da minha moto – contou parecendo apressado. – Estacionei há alguns metros do hospital e quando voltei estavam completamente destruídas. Arranharam a lataria também. Eu acho que pode ter sido o homem que te manda mensagens.

sentiu seus pés ficarem frios conforme sua pressão caiu. Encostou-se na parede de um estabelecimento e sentou-se no chão sujo e cinzento da calçada, sentindo sua respiração voltar a falhar.

- Como sabe que foi ele?
- Arranharam “fique longe dela” na lataria. Você precisa voltar para casa, . Já chamei a polícia e meu mecânico, depois vou te encontrar e podemos abrir um boletim de ocorrência.

Ele sabia sobre . Ele o ameaçou. Ele descobriu onde ele estava, provavelmente rastreando a localização do celular dele como fez com o dela.

- A polícia não vai ajudar – chorou afundando o rosto das coxas das pernas dobradas. Alguns pedestres que passavam, carregando sacolas de compras, lhe lançaram olhares estranhos.
- Como assim?
- Eu acabei de sair da delegacia – respondeu entre soluços. Os fios pretos de seu cabelo colavam nas bochechas molhadas pelas lágrimas. – Disseram que a Constituição não criminaliza a perseguição. A menos que algo realmente perigoso aconteça, não posso fazer nada. Não existe nada contra ele.
- Puta que pariu – xingou , sua voz furiosa verberando pelo telefone. – Eu não acredito nessa merda. Volte para a casa, por favor. Tranque tudo e me espere. Eu vou ir até você depois que terminar tudo aqui.

A ligação terminou e ficou mais alguns minutos ali, paralisada, em completo choque, observando o sol se pôr ao horizonte. Ela fora cedo para a delegacia, mas o tempo que demorou para chegar lá, ser atendida e depois o que gastou chorando no banheiro, fez com que o dia corresse diante de seus olhos.
O celular vibrou de novo. Número privado.
A raiva que cresceu dentro de si, rápida e brutal, alastrou-se por seu sangue em uma velocidade impressionante. Ódio. Desgosto. Pura fúria que a cegou e moveu nos próximos minutos. Todas as barreiras que havia criado graças ao seu pai, obrigando a si mesma a ser boa e gentil, se romperam. A água que jorrou e a inundou era feita de pura raiva e adrenalina.

- Como você se atreve?! – berrou ao atender a ligação, chamando atenção das poucas pessoas que ainda estavam na calçada. – Como se atreve a ir atrás dele?

O homem, é claro, não respondeu. O outro lado da ligação mortalmente silencioso.

- Fique longe dele! – continuou a gritar, tão furiosa que todo seu corpo tremia. O braço que não segurava o telefone movia-se de um lado para o outro, em gestos de raiva. – Fique longe da Janaína, FIQUE LONGE DE MIM! Pare de me ligar! Pare de me mandar mensagens! Eu não te amo, eu nem ao menos te conheço, porra. Quero que me que deixe em paz! Não fale mais comigo, não vá na minha casa, não me mande presentes.

Por último, gritou com todas as forças:

- Eu não te aguento mais! Tenho nojo de você! EU TE ODEIO! ME. DEIXE. EM. PAZ!

Então, de repente, ela ouviu. Uma respiração. Do outro lado da linha. Uma respiração alta, irregular, completamente furiosa.
Todos os pelos de seu corpo se arrepiaram e um calafrio desceu por sua espinha.
O homem desligou e não soube dele o resto do dia.

👤🔪


foi dormir sem que tivesse conseguido vir até a casa dela. A polícia e o mecânico demoraram para chegar e ele ainda não havia nem ao menos conseguido abrir um boletim de ocorrência.

- Prometo que passo aí assim que sair daqui – ele lhe disse no telefone. – Esses caras não estão me levando a sério, mas eu juro que daqui algumas horas eu chego.

Exausta física e emocionalmente, como estava, não se deu ao trabalho de jantar. Apenas tomou um banho quente e relaxante, vestiu-se com uma camiseta de que chegava até suas coxas e deitou-se em seu colchão, a coberta até seu queixo.
Em poucos minutos, adormeceu pela exaustão.
Duas horas depois, algo a acordou.
Uma luz, forte, branca, brilhou em seu rosto, acordando-a e irritando seus olhos sonolentos.
abriu-os com dificuldade, tendo que esfregar seus punhos nas pálpebras. Quando finalmente conseguiu abrir os olhos, procurou a origem da luz e congelou instantaneamente.
Puro terror se alastrou por suas veias, impossibilitando que ela conseguisse mover um músculo de seu corpo.
Atrás das janelas de seu quarto, há apenas um metro e meio dela, a luz de uma lanterna atravessava o tecido fino do lençol que ela usava como cortina improvisada. Segurando essa lanterna, apontando-a diretamente para o rosto de , havia um homem.

Não pode ver detalhes dele, apenas sua silhueta. Ele era um vulto escuro e enorme, extremamente assustador, parado ali, sem se mexer, iluminado pela luz externa dos postes do condomínio, afastados o suficiente para não atravessarem suas janelas, mas perto o suficiente para construir a figura do homem. Ela não conseguia ver o rosto dele, mas sabia, no fundo de seus ossos, que ele estava olhando diretamente para ela.
Muito tempo depois, se deu conta de que ele provavelmente não conseguia vê-la. Como em uma cabana de lençóis, a luz apenas refletia o outro lado para ela, que estava contra sua fonte. Mas a adrenalina não a permitiu de pensar com coerência.
Devagar, tremendo como nunca tremeu, os olhos fixos na silhueta do homem na janela, escorregou a mão lentamente pelo colchão e alcançou seu celular. Ainda sem desviar o olhar, começou a pensar para quem ligar primeiro. A portaria chegaria nela mais rápido, mas se seu perseguidor resolvesse atacá-los, não havia muito como se proteger a si e a eles. Deveria ligar mesmo assim? Eles devem ter algum treinamento para lidar com invasões...
Pegou o celular para ligar para o porteiro, mas o número de brilhou naquele instante em sua tela, ligando para ela, provavelmente para lhe atualizar sobre a situação na delegacia. Um pensamento então a ocorreu.

está com a polícia!

Atendeu com dedos trêmulos e os pensamentos correndo como uma multidão enlouquecida.

- Oi , estou ligando...
- Ele está aqui.

Ela sussurrou as palavras, tentando ser o mais silenciosa possível. Mas no silêncio da noite, não importou. Suas palavras ecoaram pelas paredes e ele a ouviu.

BUM. BUM. BUM.

saltou, assustada, quase saindo da própria pele. O telefone quase caiu de suas mãos, escorregando por pouco por seus dedos trêmulos.
Seu perseguidor passou a bater nas janelas com o punho fechado. De novo e de novo, batidas fortes, furiosas contra o vidro que poderia ceder há qualquer momento.

- Ele está aí? Que barulho é esse? – gritou do outro lado da linha, parecendo extremamente preocupado.
- Ele está aqui, na janela.

BUM. BUM. BUM.

- Está batendo contra a janela.
- Estou indo com a polícia aí agora mesmo – respondeu e pode ouvi-lo se levantando e pegando suas coisas. – As janelas e as portas estão trancadas?
- Acho que sim, mas não consigo pensar direito.

O que ela ia fazer antes de atender a ligação dele? Era importante, mas o desespero desligou seu cérebro e parecia ser incapaz de lembrar.

BUM. BUM. BUM.

- Cheque a porta da frente e fique longe das janelas. Continue na linha comigo, está bem? Nós estamos a caminho.

levantou-se o mais rápido que suas pernas trêmulas permitiram e abriu a porta do quarto, calma, silenciosa. As batidas ainda aconteciam, altas, pesadas, como se ele quisesse que ela soubesse de sua presença, como se exigisse que ela soubesse que estava há poucos metros dela.
A porta abriu mais um centímetro...
E rangeu.
As batidas pararam e o mundo congelou. prendeu a respiração e nem mesmo um único fio de cabelo em sua cabeça se moveu. Ela olhou para a janela, para a silhueta parada e a luz branca e forte e na contagem de uma respiração, tudo voltou a se mexer muito depressa.
A luz sumiu e ele desapareceu. soube instantaneamente o que estava acontecendo.
Ele ia em direção a porta.
Correu. Escorregando nas próprias meias, batendo nas paredes, sentindo o coração martelando contra os ouvidos. Correu o que pareciam horas, quilômetros e não apenas alguns segundos em uma distância de dois corredores.
A porta parecia tão longe, seus passos tão altos, o terror em suas veias tão extremo que podia sentir um ataque de pânico sendo criado em seu peito.
Tocou na maçaneta ao mesmo tempo que ele. No momento em que a segurou, firme entre seus dedos sobre uma força que não sabia que tinha, percebeu como o homem, do outro lado, tentou virá-la.
Estava trancada.
Graças a Deus, estava trancada.
Demorou para perceber que estava chorando, sentada no chão, com as costas contra à porta. Chorava de soluçar, o rosto coberto pelas próprias mãos, as batidas de seu perseguidor do lado de fora, tão fortes que ela podia sentir a madeira tremer e chacoalhar contra seu corpo. Nunca esteve tão assustada em toda sua vida.
E então, rápido como veio, ele se foi.
As batidas pararam e pode ouvir seus passos afastando-se da casa.

A sirene da polícia veio logo depois.
Mas como no começo do dia, eles não foram de grande ajuda.

- Não foi nenhuma criança! – esbravejou , apertando ainda mais a coberta ao redor de si. As luzes que piscavam das viaturas estavam dando-lhe dor de cabeça. – Era um homem, alto e com ombros largos! Eu vi a silhueta dele, tenho certeza.

O policial da vez, como o outro, parecia sentir mais pena dela do que a preocupação que deveria. Toda aquela situação era tão ridícula que ela queria gritar, berrar, chorar e socar alguma coisa.
Eles não estavam levando-a a sério!

- Moça, só estou dizendo que essas coisas acontecem – disse o policial calmamente, como se ela fosse uma criança. – Esses tipos de pegadinhas acontecem o tempo todo. Entendo que esteja assustada, mas você viu as gravações. Ninguém entrou.

Aquilo aumentou ainda mais sua frustração. Em uma tentativa de acalmá-la, levaram-na para ver as imagens das câmeras de segurança da portaria. Não houve ninguém suspeito entrando, principalmente após a chegada dela há algumas horas. Todos os pedestres, que não eram moradores, tinham autorização para entrar. Não havia nada suspeito com os carros também: dois brancos, um preto, um vermelho, três pratas. Todos entrando automaticamente com o controle remoto pessoal, sem ao menos abaixar o vidro.
Sentiu os braços de passando por cima de seus ombros, seu calor fazendo-a se sentir um pouco melhor. Queria afundar o rosto do peito dele e chorar, mas já se sentia humilhada o suficiente para fazer isso na frente do policial.

- Se faz você se sentir melhor, vamos fazer uma varredura pelo condomínio por dentro e por fora. Mas, sinceramente, acredito que não há pelo que se preocupar.
- Ei, está tudo bem – murmurou em seu ouvido, abraçando-a mais forte. – Durma em casa essa noite.

Ela acenou com a cabeça, concordando com a ideia, achando-a reconfortante, mas não o suficiente para apagar o arrepio em sua nuca, a sensação contínua de que aquilo mal tinha começado.

- Capítulo 11 -

dormiu com naquela noite.

O apartamento dele ficava em um complexo de pequenos apartamentos, com um portão com interfone e que cada morador possuía a chave para abrir.
Cansada física e emocionalmente como estava, nem percebeu o caminho que fizeram de Uber até lá. Podia sentir a noite fria congelando seus ossos e a cabeça e os olhos pesados. As mãos de lhe esfregava as costas, tentando aquecê-la e dar conforto.
Precisava dormir. Comer. Tomar um banho. Chorar, gritar, socar alguma coisa.
Ouviu a porta destrancar e abrir, mas entrou sem processar muita coisa. De repente, algo muito macio e peludo roçou em suas canelas, ronronando.
Uma linda gata peluda e branca esfregou seu pelo nela e sentiu um sorriso se abrir em seus lábios. Ela amava gatos e sempre se sentia melhor na presença deles.

- Olá, lindinha – disse pegando o animal no colo e coçando suas orelhas.
- O nome dela é Duquesa – sorriu também fazendo carinho na gata.
- Como no desenho?
- Sim, achei que combinava com ela.
- Combina – respondeu . – Não sabia que tinha uma gata.
- Eu a tenho há muitos anos – explicou guiando-a até o quarto dele. – Quando eu tinha uns quatorze ou quinze anos, encontrei ela na beira da estrada filhotinha e perdida. Não podia deixá-la sozinha, então a levei para casa.
- Sua família aceitou bem? Meu pai não gosta de animais, acho que ele surtaria se eu fizesse isso.

se sentou no colchão de , sentindo-se finalmente levemente confortável. Os lençóis eram macios e ela só queria deitar-se ali, com a gata e aquele homem lindo e fingir que nada de ruim estava acontecendo.

- Meu pai já não estava morando mais com a gente, então foi tranquilo. Minha mãe e minha avó amam gatos e se apaixonaram tanto pela Duquesa que foi até difícil trazê-la para cá quando me mudei.
- E seu irmão?

suspirou por um momento, tirando os sapatos e o casaco. apreciou seu corpo e Duquesa espreguiçou-se e se deitou no colchão.

- Meu irmão não curtiu muito, mas é porque ela não é muito fã dele. – Ele inclinou-se e deu um beijinho na testa da gata. – Está sempre fugindo dele ou tentando atacá-lo. Acho que o santo não bate.

Ele então agachou-se na frente dela e eles ficaram frente a frente. acariciou seus cabelos e encostou a bochecha na palma da mão dele.

- Você está bem? Quer tomar um banho ou comer alguma coisa?
- Não sei – murmurou com a voz baixinha e cansada. – Acho que preciso de um banho, mas está tão tarde e eu tenho que trabalhar amanhã.
- , não pode ir trabalhar amanhã... – aconselhou com as sobrancelhas franzidas e os olhos preocupados. – Olha o susto que você passou. Você precisa descansar e precisamos ver o que vamos fazer a partir de agora.

Ela olhou para as próprias mãos, ponderando suas palavras. Estava com tantas dores pelo estresse e com a cabeça tão pesada que só queria dormir, dormir e dormir. Sabia que ele estava certo, mas amava seu trabalho e não estava lá há tanto tempo. Tinha vergonha de pedir para faltar assim, tão em cima da hora, mas sabia que era besteira.
Elias não se importaria, esse era o tipo de bibliotecário chefe que ele era. Sabia que seria compreensivo, então apenas suspirou e acenou com a cabeça.

- Eu sei que está certo – confessou esfregando o rosto. – Acho que vou tomar um banho então.

Ele pegou uma toalha no armário, uma troca de roupa dele para ela e entregou-lhe. Depois a guiou até o banheiro do lado de fora, a porta antes do quarto. Duquesa seguiu os dois e sentou-se na tampa do vaso sanitário.

- Ela gosta de você – sorriu dando um beijo na testa de . – Parece que quer ser sua protetora.

Ele a deixou sozinha e suspirou de aliviou ao sentir os jatos de água quente em seu corpo. Lavou os cabelos feliz ao sentir o cheiro do xampu e do sabonete de e permaneceu tanto tempo debaixo da água que sua pele saiu vermelha e enrugada. Era um pouco difícil fechar os olhos, como se esperasse que seu perseguidor aparecesse, arrancando a cortina do chuveiro e esfaqueando como em um filme de terror, então evitou ao máximo fazê-lo.
Depois, sentiu-se quase humana enquanto penteava os cabelos na frente do espelho. Observou a própria face, as olheiras profundas debaixo dos olhos e suspirou, cansada. Parecia melhor do que sentia, mas isso não melhorava a situação. Nunca estivera tão assustada na vida e seus olhos eram incapazes de espelhar o quanto.
Quando saiu do banheiro, foi surpreendida com , que lhe entregou uma tigela de morangos com leite condensado.

- Achei que podia aumentar seu astral – disse ele, parecendo levemente tímido.

sorriu para ele, sentindo o coração encher de carinho. Pegando o rosto dele em suas mãos, deu-lhe um beijo quente, devagar e delicioso nos lábios.

- É muita gentileza sua, – suspirou contra a boca dele, sentindo-se segura pela primeira vez desde a visita de seu perseguidor. – Obrigada.

Enquanto comia, sentindo a doce melhorar seu humor, apreciou o apartamento de pela primeira vez. Era um pouco pequeno, mas eficiente, com apenas uma cozinha, uma sala, um banheiro e um quarto. A cozinha vinha primeiro, ao lado da porta de entrada e era separada da sala apenas por um bonito balcão de mármore. Nenhum dos dois cômodos tinham porta. Depois, em um pequeno corredor de um metro e meio, estavam o banheiro, na parede da direita e o quarto, no fim.
Era charmoso e aconchegante, um apartamento de solteiro, mas organizado e com cheiro de limpeza. Era fácil imaginar morando ali, tirando os sapatos na entrada, colocando sua mochila no sofá e as chaves no balcão. Era caseiro e ela adorou.
Sentando-se no sofá, puxou as pernas para cima e suspirou ao sentir a maciez do estofamento. Duquesa deitou-se encolhida ao lado dela, ronronando.

- Você está cansada? – perguntou sentando-se em uma cadeira ao lado de onde ela estava.
- Muito – respondeu, fechando os olhos. Depois de um suspiro, os abriu novamente. – Mas não acho que conseguiria dormir agora, sinceramente. Não consigo desligar minha cabeça.
- Não te culpo – disse ele, pegando-lhe a mão e acariciando seus dedos. – Mal posso imaginar quão assustada você deve estar, . Eu quase infartei quando você me atendeu. Nunca fiquei tão assustado por alguém.
- Obrigada por se preocupar – disse , tentando dar-lhe um sorriso, mas conseguindo levantar os lábios só alguns centímetros. – É bom não passar por isso sozinha.
- Você tem algum plano do que fazer?
- Não – suspirou frustrada. Acariciou o pelo de Duquesa tentando ganhar algum conforto. – A polícia trata tudo como se fosse só uma brincadeira inofensiva.
- Você disse que eles disseram que só poderiam fazer algo caso tivesse um perigo real – ponderou . – Deve ter algo nas mensagens que configure como ameaça. Talvez o boletim de ocorrência que eu abri te ajude.
- Talvez... Ele me manda tantas mensagens sem parar que acabo ficando sobrecarregada, mas uma vez ele disse algo sobre eu fazer o que ele queria ou iria me arrepender.
- Aí! Eles têm que aceitar isso como ameaça.

não respondeu, perdida em pensamentos. Era uma chance. Uma pequena esperança de que a polícia a levasse a sério. Mas no fundo, ela não acreditava que aquilo ia acontecer. Ele foi até sua maldita casa, bateu em suas janelas, tentou entrar pela porta da frente. Se aquilo não fez a polícia se preocupar, ela sinceramente não sabia o que faria.

- O que mais ele faz? – perguntou tentando entender melhor a situação.
- Me liga várias vezes por dia com um número privado. As mensagens vêm geralmente pelas redes sociais, mas eu as fechei há um tempo, então tudo que ele manda fica nas solicitações. Ele também manda mensagens por SMS.
- Nada no WhatsApp?
- Não, mas acho que ele tem acesso. Lembra há um tempo que eu te mandei uma mensagem e você não respondeu? Você falou que eu tinha apagado a mensagem, mas não apaguei. Tenho certeza disso. Acho que ele pode ter hackeado meu número e tem acesso às minhas conversas.
- Puta que pariu – suspirou passando as mãos pelos cabelos. Parecia tão assustado quanto ela e se sentiu grata por ele estar levando-a a sério. – Você precisa mudar de número. Urgente.
- Preciso é mudar de aparelho – confessou . – Acho que ele tem minha localização também. Quando eu saí com uma amiga do trabalho ele ligou para ela, para mostrar que sabia onde eu estava. Deve ter hackeado minha localização pelo e-mail ou até mesmo o aparelho.
- Amanhã vamos atrás de um novo para você.
- Não tenho como comprar um novo celular, – disse observando-o se levantar e começar a andar em círculos. –Andei pensando sobre isso e acho que mudar de número por enquanto vai melhorar as coisas. Posso excluir os aplicativos do meu e-mail do celular. Se for por ali que ele sabe minha localização, provavelmente vai impedi-lo.
- Tem certeza sobre isso?
- Não – respondeu sendo a mais sincera que podia. – Mas tenho que partir de algum ponto.
- E como vai fazer em relação a sua casa? – perguntou apoiando o rosto do punho. Seus olhos profundos e preocupados. – Pode ficar aqui o tempo que quiser, sabe?
- Eu sei – respondeu dando-lhe um sorriso carinhoso. – E não consigo nem expressar quão grata eu sou. De verdade. Mas sendo sincera... Não sei o que fazer.

parou por alguns segundos, pensativa, sentindo como se tivesse algo entalado em sua traqueia.

- Estou apavorada – admitiu. – Como nunca estive na vida. Quando ele era apenas uma pessoa incomoda na internet, tudo bem. Era frustrante, mas no máximo eu só excluiria minhas redes sociais e isso terminaria.
- Só que agora ele saiu da internet – a completou.
- Exatamente! – exclamou, seus cabelos caindo em seu rosto. – Ele sabe onde eu moro, ele tem acesso ao condomínio e ninguém me leva a sério! Eu não sei como ele faz isso, mas nem aparece nas câmeras de segurança da portaria. E ele sabe sobre você! Foi até você, destruiu sua moto, te ameaçou.
- Mas ao mesmo tempo – continuou, contemplando as próprias mãos e tentando fazer seus pensamentos terem coerência. – É a minha casa.
Ela olhou para , que segurou sua mão e lhe deu um sorriso encorajador.
- Eu sonho em sair da casa da minha família desde que tive idade para entender que o comportamento do meu pai não era comum. Que ouvi-lo gritar e humilhar minha mãe não era comum. Que ser humilhada não era comum. Mas não queria apenas dar o fora de lá, queria construir uma vida minha, com a minha casa, o meu emprego, as minhas coisas. E eu não quero ser como aquelas personagens de filmes de terror burras, que sabem que tem alguém ali, mas não fazem nada além de esperar a própria morte, mas quando penso em abandonar a minha casa, um lugar que estou vivendo há apenas um mês, mas que comecei a construir um lar, fico com tanto ódio. Ódio da polícia, ódio da portaria, mas principalmente ódio dele.

se levantou, ansiosa, sentindo o sangue borbulhar com as próprias palavras. Passou a andar pela sala, quase em círculos, com os próprios braços se abraçando a procura de conforto.

- Aquela é a minha casa! Um lugar onde posso dormir sem ser chamada de preguiçosa, comer sem ouvir sobre o meu peso, arrumar como quero sem escutar que eu não sirvo nem para deixar as coisas em ordem. E não é justo! Não é justo que eu tenha que sair porque esse filho da puta é doente e ninguém além de você acredita em mim!

Sua voz quebrou e levantou-se em um salto. Abraçou-a com carinho, o calor de seu corpo reconfortando-a como um cobertor felpudo em uma noite fria. Duquesa entrelaçou-se em seus pés, ronronando.

- Não posso dizer que gosto da ideia de você voltar para lá – murmurou ele em seu cabelo. – Mas você é adulta e vou apoiá-la em suas decisões. Podemos comprar cortinas para você, aquelas bem grossas e fechaduras novas para as portas. E se quiser, posso dormir lá nos dias que sentir que preciso.
- Não te incomodaria?
- É claro que não! – respondeu ele afastando-se alguns centímetros e sorrindo com olhos brilhantes. – Eu já passo meus dias lá de qualquer jeito. Só teria que voltar para alimentar a Duquesa e ver como ela está.

riu com o nariz e suspirou, sentindo o perfume dele fazendo-a se sentir melhor.

- Obrigada. De verdade.
Ficou em silêncio por alguns segundos, pensativa e disse:
- Acho que ainda é muito assustador voltar para lá. Posso passar uns dias aqui, até sentir que estou pronta para voltar.
De repente, o celular de começou a tocar e ele franziu as sobrancelhas para o identificador de chamadas.
- É o seu irmão – disse, entregando-lhe o aparelho.
Confusa, atendeu.
- Alô, Natã?
- , graças a Deus! – exclamou a voz dele do outro lado da linha. – Você não me atende, te liguei um milhão de vezes. Imaginei que poderia estar com e arrisquei. O que houve?
- Acabou a bateria – mentiu. – E eu esqueci de recarregar, desculpe. Mas já são quase duas da manhã, por que está me ligando? Aconteceu alguma coisa?

O coração dela disparou por um momento, avaliando a razão dele ter ligado. Era seu perseguidor? Ele fizera algo com Natã?

- Acordei com uma angústia enorme no peito. Tenho certeza que é meu sensor de gêmeo. Você está bem?

fechou os olhos e suspirou.
Havia muitas mitologias acerca das pessoas gêmeas, a maioria delas pura especulação mentirosa. Mas tinha uma, que não era regra, mas encaixava-se perfeitamente no caso de e seu irmão.
Eles eram capazes de sentir que algo estava errado com o outro.
Desde que eram pequenos, havia aquela sensação esquisita, aquele pressentimento no fundo do peito de que alguma coisa não estava certa, de que algo ruim estava para acontecer. Demorou para entender que não era ela que seria afligida, mas sim Natã, mas quando foi capaz de ter essa percepção, tudo ficou mais claro.
Quando seu irmão sofreu um sequestro relâmpago, ela sentiu seu desespero. Quando quase se afogou ao cair em uma piscina antes de aprender a nadar, Natã ficou com falta de ar. Todas as vezes que o pai deles gritava e humilhava , ela recebia uma mensagem de seu irmão, perguntando se estava tudo bem, mesmo morando há quilômetros de distância.
Ela sabia que não adiantava mentir para ele sobre isso. Natã sabia. Era simples assim.

- Não – respondeu, a voz baixinha e cansada. – Umas coisas aconteceram.
- O que houve? Foi o ? Você precisa que eu te busque?

sorriu levemente, feliz em saber que tinha ele para proteger suas costas e que, mesmo adorando , Natã não duvidaria um segundo se ela dissesse que ele havia feito algo.

- Não, não fez nada – respondeu. – É outra coisa. Mas eu queria conversar com você pessoalmente sobre isso, tudo bem?
- Claro, Primaverinha – ouviu a voz dele responder, calma e carinhosa. – Mas é melhor que você me conte tudo. Tem certeza que está segura?
- Tenho, estou na casa de . Está tudo bem agora. Eu te ligo, ok?

Natã desligou e sentiu os braços de serpenteando em sua cintura.

- Como tem o telefone do meu irmão?
- No dia que você se mudou, ele disse que um colega estava precisando de uma ajuda na pintura e passei meu telefone para ele – explicou pegando o aparelho de volta e guiando-a. – Você está cansada? Quer ir dormir?

avaliou as palavras dele por um momento e suspirou, cansada.

- Quero, mas preciso avisar que não vou trabalhar amanhã. Você pode me emprestar seu notebook? Não quero ligar meu celular. Se ele estiver mesmo conseguindo rastrear minha localização, não quero que ache sua casa.

preferiu mandar uma mensagem para Janaína, porque ela provavelmente seria a que checaria as redes sociais primeiro na manhã seguinte. Mentiu dizendo que estava doente, que sentia muito e que se desculparia com eles pessoalmente depois. Desligou o computador rapidamente em seguida, pois ele percebeu que ela ficara online e começou a lhe enviar mensagens que se recusou a ver.
Quando foi se deitar e percebeu que estava recolhendo um travesseiro e uma coberta, disse:

- Não me importo de dormir com você.
- Tem certeza?

se sentou no colchão, sentindo as molas chacoalhando seu corpo levemente.

- Sim, está tudo bem.

Ele voltou a empilhar os travesseiros na cama e os dois se deitaram embaixo das cobertas. Duquesa se enrolou em seus pés, ronronando. A única luz disponível era a do abajur ao lado da cama, baixa e alaranjada.

- Não me importo de dormir no sofá – disse a voz de , baixa, rouca e gentil.
- Eu prefiro você aqui – admitiu com um pequeno sorriso. – Não acho que seria capaz de dormir sozinha, de qualquer jeito. É bom saber que está aqui comigo.

Ele pegou-lhe a mão levemente e plantou um leve beijo na palma. sentiu como se seu coração estivesse derretendo e se espalhando por todo seu corpo.

- Você me chamou de namorado – comentou ele com um olhar divertido. Quando viu sua careta confusa, completou: - Mais cedo, para o policial.

sentiu o próprio rosto queimar com constrangimento. Ela e nunca haviam discutido termos para definir o relacionamento dos dois. As coisas só foram crescendo ao passar das semanas, com encontros frequentes na casa dela – onde os dois pediriam pizza e passariam a madrugada assistindo filmes e séries –, beijos que começariam leves e terminariam ardentes e suados – com com as pernas ao redor da cintura dele, suspirando ao sentir suas mãos apertando-lhe as nádegas – e noites suaves na piscina, onde as vezes só ficariam em silêncio, boiando ao lado um do outro, com os dedos tocando levemente.
Eles estavam ficando a menos de um mês, tudo se movendo de uma forma rápida e intensa. Mas não tinha do que reclamar.
E depois parecia que não existia um momento apropriado para abordar a situação. O que deveria fazer? Pausar o episódio de Brooklyn Nine-Nine, deixar de sentir o abdômen dele sobre seus dedos ou deixar de apreciar seu perfil na luz neon da piscina para perguntar: “Ei! Mudando de assunto, a gente está namorando ou algo assim?”.
Então resolveu deixar para lá. Tudo estava dando certo do jeito que estava, então não havia por que tentar classificar o que eles tinham no momento.
Até esse pequeno ato falho estragar tudo.

- Ah... – balbuciou como uma tola, uma risadinha de nervosismo atravessando seus lábios logo em seguida. – Eu disse? Nem percebi. Desculpe. Acho que foi o calor do momento.

sorriu levemente para ela, parecendo divertido. Seus olhos brilhavam com milhares de sentimentos.

- Pode chamar, se quiser. Eu não me importo.

O coração dela inchou de uma forma que não achou que fosse humanamente possível. Sentiu como se fosse leve como uma pena, sendo levada pelas nuvens graças a brisa da primavera.

- Isso seria um estranho pedido de namoro? – brincou tentando se recompor.
Os olhos de brilharam e ele riu.
- Só se você quiser.

A voz dele era baixa e grossa, quase tímida. A imagem daquele homem, alto e masculino, tímido à sua frente como um menino com sua primeira paixonite, fez com que quisesse explodir em risadinhas apaixonadas.
Ela sorriu para ele, aproximando-se e colocando suas bochechas na palma das mãos.

- Eu quero – respondeu.

O beijo que ele deu em seus lábios em seguida, quente, macio e reconfortante como um cafuné, fez com que sentisse segura pela primeira vez em muito tempo.

👤🔪


Quando acordou na manhã seguinte, sentiu-se por um momento como se estivesse saindo de uma névoa densa e úmida. Um calor delicioso cobria todo o seu tronco e a maciez de uma coberta acariciava sua pele. Algo peludo e quente ronronava em seus pés.
Demorou para lembrar onde estava, mas quando o fez foi uma mistura de emoções. Sabia que o calor vinha dos braços de , que circulavam sua cintura. Sabia que o ronronar vinha de Duquesa, encolhida no pé da cama. Mas também sabia que estava ali porque o homem que a perseguia havia aparecido em sua casa, a memória atingindo-a como um balde de água fria.
Coçando os olhos com as mãos, espreguiçou-se, sentindo os tornozelos estalarem. Depois virou-se para e sorriu ao ver seu rosto, os olhos fechados e a expressão calma e pacífica.
Levantando-se sem acordá-lo, foi até o banheiro, sendo seguida pela gata que lhe deu um leve miado de bom dia. Lá, lavou o rosto e escovou os dentes, suspirando enquanto sentia o corpo acordar de verdade.
Ao voltar para o quarto, parou no batente da porta, observando com um sorriso no lábio o quão atraente era.
Como se pressentisse algo, Duquesa não voltou para o quarto, preferindo deitar-se nas almofadas do sofá.

- Você está me olhando dormir? – perguntou ainda de olhos fechados e com a voz rouca de sono.
- Não – mentiu sentindo as próprias bochechas corarem. Saiu do batente da porta e caminhou até a cama.
- É como aquela cena bizarra do Crepúsculo – riu se ajeitando no colchão, virando de barriga para cima.
sentou-se em cima dele, as nádegas sobre suas coxas.
- Você é o Edward e eu sou a Bela – continuou. riu e sentiu suas mãos acariciando o topo das coxas dela, lhe arrepiando a pele.

Eles ficaram em silêncio por um momento, olhando um para o outro. sentiu dentro de si um desejo que já estava ali há muito tempo, apenas aguardando o momento certo para desabrochar por seu corpo, alastrando por suas veias e acumulando-se no ventre.
Curvou-se e o beijou. A língua dele entrou em sua boca e ela suspirou, sentindo o próprio corpo pegar fogo. As mãos dele partiram para a sua cintura, apertando-lhe e era como se seus dedos lançassem pequenas labaredas pela pele dela.
Corajosa, colocou a ponta dos dedos por debaixo da camiseta dele, esticando a palma das mãos e passando-as lentamente pelo abdômen de . Sentiu os músculos se contraírem, a excitação dele começar a pressionar contra o corpo dela e sorriu quando um suspiro saiu de sua respiração.
Por um segundo, sentiu uma leve hesitação por parte dele. Quebrando o beijo, colocou os cabelos, que caiam como uma cortina, para trás das orelhas e perguntou gentilmente:

- Você não quer?
- Querida, eu quero você desde o momento que coloquei os olhos sobre essas pernas lindas e esse sorriso que você tem – contou ele. sentiu suas bochechas corarem e percebeu que os olhos dele nunca estiveram tão escuros. – Mas estou pensando no que aconteceu ontem à noite. Tem certeza sobre isso? Não quero que o faça porque está em um momento frágil, quero que seja porque realmente tem vontade.
- Eu tenho – respondeu carinhosamente, acariciando a bochecha de . – Eu quero há muito tempo, na verdade. Mas sempre nos encontramos na minha casa e lá...

Ela parou por alguns segundos, avaliando os próprios sentimentos e buscando palavras que conseguissem explicá-los.

-... Lá é como se eu estivesse sendo vigiada o tempo todo. Não sei explicar. Já faz um tempo que é como se centenas de olhos estivessem espalhados pelos corredores, me observando, vigiando todos os meus passos.

Ela olhou para ele e sorriu, sabendo que estava fazendo aquilo porque queria, porque finalmente tinha saído das garras dos olhos invisíveis e sentia-se em um ambiente confortável o suficiente para fazer.

- Não conseguiria transar com você lá, mesmo querendo. Mas aqui... Me sinto segura. Me sinto confortável. Sei o que quero e quero você.

Não soube quem iniciou o beijo depois. Talvez ela. Talvez ele. Talvez ambos. Mas antes que pudesse pensar, seus lábios tocaram os dela e o beijou com prazer, sentindo o calor de seu corpo irradiando sobre a pele dela.
A camiseta que vestia sumiu e sentiu quando as palmas das mãos dele viajaram, devagar e suaves, do quadril pela cintura e de lá até seus seios. Suspirou prazerosa e cada som de prazer que exalava deixava-o mais confiante.
De repente, estava debaixo dele, sentindo suas mãos apertando-lhe as nádegas. Tirou-lhe a camiseta e sentiu o peitoral pela ponta dos dedos, enquanto enroscava as pernas ao redor de sua cintura. A boca dele foi até seu pescoço e tudo se seguiu estranhamente rápido e lento depois disso. Como se estivesse se desconectando de seu corpo, ao mesmo tempo que podia sentir cada célula que o preenchia.
Era inteiramente feita de sensações.
Sentiu os lábios dele descendo, do pescoço para a clavícula, da clavícula pelos seios, para então derreter em seu ventre e em sua intimidade.
Enfiou os dedos pelos cachos dele, sentindo a maciez dos fios e de sua língua, úmida, quente e experiente.
Sentiu o prazer crescendo no baixo ventre, florescendo e aumentando, como se subisse em uma montanha-russa, cada vez mais para cima, pronta para descer a primeira curva.
Impediu-o de continuar. O fez erguer a cabeça, puxando-o levemente pelos cabelos e sorriu ao ver como os olhos dele brilhavam, negros como ela nunca o vira.
Ela não precisou dizer nada para que ele entendesse. Não queria alcançar esse pico sozinha, o queria junto com ela.
Seus lábios voltaram a beijar-lhe o pescoço, pequenas mordidinhas que arrepiaram toda a sua pele. Ele se aproximou de seu ouvido e sussurrou:

- Você é tão linda que me desmonta inteiro.

sentiu todo o seu corpo derreter. Foi capaz apenas de dar-lhe um tímido sorriso e beijar-lhe os lábios com carinho, esperando que aquilo passasse a ele o quanto suas palavras fizeram bem a ela.
Viu-o buscar uma camisinha, nu em toda a sua glória, apreciando sua deliciosa silhueta com prazer.
Deus, devia ser ilegal ser bonito desse jeito.
Ele voltou até ela e os dois se uniram, ao mesmo tempo que se beijaram, um suspiro prazeroso saindo nos pulmões de , fazendo sorrir contra seus lábios.
E como uma dança, os dois se moveram em sincronia, o prazer aumentando cada vez mais, o carrinho da montanha-russa subindo, subindo, subindo, chegando à maior de todas as curvas.
sentiu as mãos dele apertando suas nádegas, as próprias unhas lhe arranhando as costas, a respiração de contra o ponto sensível entre sua orelha e o pescoço. Ouviu os próprios gemidos e suspiros, os sons que saiam da garganta dele e fechou os olhos com força, sentindo como se fosse pegasse fogo. Quando a beijou novamente, a língua tocando a dela, macia, sensual e prazerosa, gozou. Longa e fortemente, um ápice que a fez ver estrelas.
Tudo se dissipou como uma névoa. era uma poça de lava derretida que pesava como uma pena, fundindo-se com os lençóis e travesseiros.
olhou para ela com seus olhos pretos brilhantes como nunca viu e os dois sorriram um para o outro. Ele a beijou levemente na têmpora e murmurou:

- Oi.

deu uma risadinha e suspirou alegremente.

- Olá, estranho.

Ele sorriu para ela, as covinhas aparecendo, dando-lhe borboletas no estômago. Saiu de cima dela para deitar-se ao lado, recuperando o ar e se deitou de lado, em direção a ele.
tocou a ponta dos dedos em sua bochecha suada e depois encostou suas testas juntas. Os dois fecharam os olhos, apenas sentindo o mundo a sua volta, a sensibilidade de suas terminações nervosas ainda formigando sobre a pele.
Quando a barriga de roncou alto, riu.

- Café da manhã?
- Por favor.

- Capítulo 12 -

foi incapaz de voltar para casa durante longos dias.

Ela e saíram para fazer compras no shopping da cidade, enorme, gelado e lotado, a fim de deixar o lugar onde morava mais seguro. Gastando o que não tinha, comprou cortinas pesadas e grossas para o seu quarto e mais diversas outras para a cozinha, banheiro e lavanderia, os cômodos que frequentava. Depois comprou uma nova tranca para a porta da frente, do tipo de cordinha que permitia que a porta abrisse apenas alguns centímetros e um novo chip para o seu celular.
Tudo isso, contudo, não foi suficiente para fazê-la de sentir segura em seu próprio lar. Quando chegaram, a fim de instalar a tranca e colocar as cortinas, todos os pelos de se arrepiaram.
Ela olhou para a casa abraçando a si mesma, encolhida como uma menininha assustada, como se aqueles olhos imaginários de repente tivessem braços que poderiam agarrá-la a qualquer momento. Não foi capaz de ajudar na troca de tranca e em pendurar as cortinas, permanecendo do lado de fora, na calçada, quase como se esperasse que ele fosse saltar de seu esconderijo.

Teve certeza, com muita tristeza, de que seria incapaz de viver ali por enquanto. A luz da lanterna dele ainda brilhava contra a visão dela, seus socos contra o vidro ressoando em seus ouvidos.
Como seria capaz de dormir tranquilamente se, bem ali, de dia e na presença de , sentia-se mais vulnerável do que nunca?
Ficou na kitnet de pelos dias que se seguiram, mas percebeu que aquele era o único local onde se sentia segura. Cada vez que a porta da biblioteca se abria, tremia levemente, como se esperasse que aquele fosse o último som que ouviria antes que ele a pegasse. Ao fazer compras, saltava assustada cada vez que um vendedor se aproximava perguntando o que ela queria. Não usava mais os fones de ouvido e estava constantemente na presença de alguém, pedindo para que Elias ou Janaína esperassem junto dela no ponto de ônibus ou que a cobrissem nos horários que deveria ficar até depois do expediente.

Não explicou exatamente o que estava acontecendo. Elias era o mais perdido, sempre perguntando se algo havia acontecido, se precisava de alguma ajuda. Janaína parecia entender melhor, desconfiada e preocupada, mas a tranquilizou dizendo que ela e estavam lidando com a sua “situação”. Sentia, naquele momento, como se fosse a única pessoa a qual seu perseguidor podia realmente afetar. Ele não tinha interesse em Janaína, apenas mostrou seu poder sobre ela para chegar em e a fazer sentir medo. Seu plano deu certo, mas ela estava disposta a carregar esse fardo sozinha, se isso significasse que a amiga não olharia sobre o ombro a cada segundo, assustada, como ela estava fazendo.
Era apenas quando chegava na casa dele, protegida entre as paredes e com Duquesa ronronando aos seus pés, que sentia-se realmente segura o suficiente para abaixar a guarda.
Possuía mais momentos de paz do que no último mês pelo simples fato de que se recusava a usar o próprio celular. Trocou de chip e apagou todos os aplicativos de redes sociais, deixando apenas o WhatsApp. Se encontrava com muito mais tempo livre e um insuportável tédio a maioria das vezes, triste por não poder compartilhar em seu Instagram as lindas fotos que tirou de Duquesa, mas se sentia aliviada por não receber mais as inúmeras mensagens e ligações por parte dele.

Ficava apreensiva, contudo. Não sabia ao certo se o melhor era ter notícias dele ou não. O silêncio e a paz eram libertadores, mas o fato de não saber se seu perseguidor estava alegre ou irritado, se sabe ou ela está ou não, se está planejando algo, deixava ansiosa e ainda mais paranoica.
Como nas outras vezes, o silêncio dele a assustava mais que suas palavras.
Tentou avaliar o que fazer em seguida, mas encontrou-se em um beco sem saída. Durante a semana que se passou, esse era o único pensamento que ficava em sua cabeça, distraindo-a no trabalho e fazendo-a dormir muito tarde. O que fazer para que aquilo acabe?
Tinha medo de voltar para casa e não sabia os próximos passos dele. era capaz de dar-lhe um lugar seguro para ficar e sabia que teria o apoio emocional de Janaína e Natã, mas não havia mais nada que eles poderiam fazer sem estarem em perigo.

Valeria a pena ir à polícia de novo?
Talvez.

Poderia levar consigo, até Janaína se for preciso para deporem sobre seu perseguidor. Seu namorado tinha um boletim de ocorrência pela destruição de sua motocicleta e talvez o universo fosse bom com ela, deixando que fosse atendida por um policial que levasse sua denúncia a sério.
Pensou sobre isso durante toda a semana depois do ocorrido, mas principalmente no dia seguinte ao seu ataque, sentada no sofá, enquanto acariciava as orelhas de Duquesa, que estava deitada em seu colo. cozinhava na cozinha ao lado, separada da sala por apenas um balcão e uma coluna de mármore e a televisão estava ligada em um jornal local.
mal ouvia o que era dito, perdida em seus próprios pensamentos, até que as palavras chamaram sua atenção.

Mais uma jovem desapareceu na região metropolitana de São Paulo, há uma semana, na noite de domingo. A jovem havia saído com amigos e voltou sozinha para casa. A família prestou queixa quando recebeu uma ligação avisando que ela não havia comparecido ao trabalho...”.

pegou o controle-remoto, pronta para mudar de canal. A última coisa que precisava eram de mais motivos para se sentir preocupada e triste.
Quando apontou o objeto para a televisão, contudo, congelou ao dar de cara com a foto da menina desaparecida.
Elas eram quase idênticas.
A menina que a encarava na tela tinha cabelos pretos compridos presos em um rabo de cavalo. Era alta como ela, mas bem mais magra. O nariz era levemente mais comprido, os lábios mais finos e ela tinha um piercing na sobrancelha, mas possuía a mesma descendência asiática que .
Um arrepio macabro desceu por sua espinha.

As autoridades ainda não têm pistas sobre o seu paradeiro, mas a investigadora Clarissa da Penha afirma que a jovem é a sexta desaparecida nas mesmas circunstâncias desde o ano passado“.

Desligou a televisão rapidamente, quase que por um instinto.
Tentou controlar os próprios pensamentos, que zumbiam dentro de seu cérebro como um enxame de abelhas enlouquecidas. Seu coração batia tão forte que martelava em seus ouvidos.
Deus, por favor, não.
Que isso seja paranoia dela, uma paranoia horrível que se alastrava em cérebro como erva venenosa e intoxicava seus pensamentos.
Por favor, que não seja o que está pensando. Por favor. Por favor.

- A comida está pronta!
A exclamação alegre de fez saltar de onde estava. Duquesa fugiu de seu colo, lhe lançando um olhar reprovador e seu namorado franziu as sobrancelhas ao finalmente notar a expressão em seu rosto.
- Amor, você está bem?
permaneceu silenciosa por alguns segundos, sentindo os arrepios passando pela própria pele.
Ela estava bem?
- Não sei – respondeu sendo sincera. – Eu não sei.

Deus, que ela estivesse enganada. Que fosse tudo uma coincidência.
Se fosse mais do que isso, sabia que não seria capaz de lidar.

👤🔪


Algo bom aconteceu dentro do redemoinho caótico e assustador que estava cada vez mais enfiada. Em um certo dia, enquanto saía das portas do supermercado, com os braços lotados de sacolas, foi surpreendida por alguém.
Levou um enorme susto, de primeira. Cada vez mais paranoica, encontrava-se sempre à flor da pele, saltando ao menor dos sons.
Não era seu perseguidor, contudo e sim uma pequena e magricela menina, bonita como um botão de flor, com tranças de lã cor-de-rosa contornando seu rosto. Em uma das mãos, estendia-lhe um panfleto.
Apressada, não foi capaz de parar para falar com ela. Encontrava-se desencoraja a ficar parada em qualquer lugar por muito tempo, sinceramente, mas, há alguns metros, quando finalmente leu o que o panfleto dizia, paralisou no lugar.
Olhou o pequeno pedaço de papel em sua mão e sentiu o próprio coração martelando com força. Um sorriso raro surgiu em seus lábios.
Aquilo não resolveria o problema, muito longe disso. Mas talvez lhe desse a sensação de força e controle da situação que tanto sonhava em possuir novamente.

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As aulas de defesa pessoal aconteciam dentro de uma academia caseira que oferecia também aulas de diversas artes marciais. se sentiu em casa assim que pisou os pés lá.
A professora era uma capoeirista com um sorriso enorme e acolhedor. A sala possuía um enorme espelho que tomava uma parede inteira e um chão de tatame.
Junto de , outras dez mulheres estavam presentes como alunas. Gordas, magras, altas, baixas, negras, brancas, asiáticas, jovens e velhas.
Nenhuma delas conversou, no entanto, todas tímidas demais para falar alguma coisa. não se importou, contudo. Estar ali, cercada de mulheres, pronta para aprender pelo menos o mínimo para se defender, deixava com a sensação de estar segura.

- Muito bem, meninas, é um prazer conhecê-las – cumprimentou a professora com olhos brilhantes e maternos. – Meu nome é Ágata e eu serei a professora de vocês.
Todas sorriram para ela, mas ninguém falou. Isso a fez rir.
- É normal que as primeiras aulas sejam mais silenciosas – contou. – Vocês estão todas aqui por razões muito pessoais e únicas. Algumas já presenciaram um passado de violência, outras viveram esse passado e as vezes tem as que não passaram por essas situações, mas querem se preparar.
- Algumas aulas, principalmente as primeiras, não serão práticas no sentido de ensinar-lhes movimentos – continuou. – Mas são aulas muito importantes, porque saber se defender vai muito além do que aprender a se defender da violência. É também sobre aprender a reconhecer a violência antes de acontecer.

Ela separou a sala em duplas e ficou emparelhada com uma menina com piercings na boca, nariz e sobrancelha, cabelos pretos e batom da mesma cor.

- Oi – disse sorrindo levemente.
- E aí – respondeu a garota, ficando muda em seguida.
- A nossa primeira aula vai ser um exercício de contato visual – disse a professora Ágata quando todas já tinham suas duplas. Quando viu os olhares confusos das alunas, continuou: - Os olhos contam as intenções das pessoas. Neles você pode ver se elas estão felizes, tristes, irritadas e, o mais importante, se irão fazer algo com você. Olhar nos olhos de seu agressor é o primeiro passo para estar à frente dele. Mas muitas de nós temos uma dificuldade enorme em conseguir ter uma mínima conversa com contato visual.

sentiu aquelas palavras dentro de si. Eram poucos os momentos que conseguia manter o contato visual com alguém por um tempo longo.

- Como vão conseguir olhar nos olhos do agressor de vocês, para conseguir saber as intenções dele, se não são capazes de fazer isso com a colega à frente, uma pessoa completamente inofensiva? Por isso, quero que se conheçam. Conversem, sempre com contato visual.

e a menina se olharem e depois desviaram o olhar. Essa, por incrível que pareça, seria uma das tarefas mais difíceis para ela.

- Porra, que merda – suspirou a menina, bufando frustrada em seguida. Depois, voltou os olhos para e forçou-se a permanecê-los ali. – Tudo bem, vamos logo com isso.
riu e se obrigou a olhar para a garota. Ela tinha olhos cor de mel.
- Meu nome é Catharina – disse a menina colocando as mãos nos quadris. podia sentir que ela estava ficando desconfortável e tentava se manter no exercício assumindo uma postura durona. – Qual o seu?
- – respondeu, desviando o olhar por instinto. Merda.
- Nome bacana – comentou Catharina desviando o olhar também. Bufou irritada e não pode segurar uma risada.
Sua parceira riu também e as duas voltaram a se olhar.
- Isso é difícil para cacete, não acha?

Ela não fazia ideia do quanto. As palavras de seu pai ainda ressoavam em seus ouvidos.

Você não levanta os olhos para mim, sua bostinha. Quem você pensa que é?

ainda podia sentir o tapa que ele lhe dera na nuca, tão forte que a cabeça dela foi jogada para a frente e a testa colidiu com o batente da porta. Nem se lembrava da razão de estarem discutindo. Apenas que se atrevera a olhá-lo nos olhos enquanto ele gritava absurdos para ela.

- Por que você está aqui? – perguntou Catharina levantando uma sobrancelha.
- Por que você está aqui? – rebateu imitando seu gesto.
- Touché – respondeu ela, ficando em silêncio por algum tempo. Quase desviou o olhar, mas, com um suspiro, continuou olhando para ela. – Tenho uma ex que acha que tem direito de partir para cima de mim. A polícia não ajuda em porra nenhuma, então quis pelo menos aprender a me defender.

Catharina conseguiu dizer aquilo sem desviar o olhar, o que foi extremamente impressionante, principalmente porque percebeu que ela estava super desconfortável.
Sentiu que devia a ela uma resposta adequada, então forçou-se a olhar em seus olhos e disse:

- Tenho um perseguidor.

Os olhos de Catharina se arregalaram.

- Como nos filmes americanos?
- Tipo isso – respondeu , quase desviando olhar. Deus, como aquilo era difícil! – Ele começou a me perseguir online primeiramente, mas há um pouco mais de uma semana apareceu na minha casa.
- Puta que pariu! E aí?
- Chamei meu namorado, ele trouxe a polícia, mas ninguém o encontrou.
- Você sabe quem ele é?
- Não sei, na verdade. Nunca vi o rosto dele e ele nunca me disse quem é. É como se fosse um fantasma, sem rosto, aparecendo e desaparecendo quando bem entende.
- E a polícia?
- Não ajuda em porra nenhuma – respondeu imitando as palavras ditas a ela anteriormente. – Me disseram que provavelmente era alguma pegadinha.
- Deus, sinto muito por isso – disse Catharina parecendo sentir mais tristeza por do que por si mesma. – Espero que você consiga quebrar o nariz desse desgraçado.

entendeu de verdade, naquele momento, toda a ideia do exercício imposto. Viu nos olhos da menina a compaixão e a empatia, sentimentos que talvez não conseguisse ver em uma outra situação, onde com certeza não estaria com contato visual por tanto tempo.
Sentiu-se próxima a ela, familiar e parecia compreender melhor seus sentimentos.
Quando foi embora da aula, tinha um novo contato no celular (“Salve meu nome como: A Catharina Que Vai Arregaçar O Babaca Que Te Persegue!”) e um sorriso feliz nos lábios.

👤🔪


O mundo virou de cabeça para baixo de repente, como geralmente acontece nessas situações.
Não houve um aviso prévio, nenhum acontecimento que deixasse ciente de que um tsunami de acontecimentos estava vindo em sua direção.
Tudo estava bem (ou tão bem quanto poderia estar nessa situação), até que não estava mais, apenas alguns dias antes da volta de Carolina, a bibliotecária que pegara uma folga de um mês e meio para sua lua mel.
saíra do expediente completamente inconsciente do que a esperava e caminhou até a esquina, onde esperaria a carona de . Seu telefone tocou e ela sorriu ao ver o nome dele na tela.

- Oi!
- Oi, amor – respondeu ele com uma voz um tanto nervosa. Parecia tentar esconder isso, mas percebeu. – Eu não vou conseguir te buscar hoje. Teve um problema aqui na casa e eu tive que correr para comprar algumas coisas. Ainda estou indo para a loja. Vou demorar para chegar em casa. Você consegue ir de ônibus?

franziu as sobrancelhas para as palavras dele, sentindo que algo estava fora do lugar. Ignorando os próprios sentimentos, contudo, respondeu enquanto andava:

- Claro, sem problemas. Está tudo bem?
- Sim! Claro! – respondeu ele um pouco rápido demais. – Só um problema com a fiação. Eu te vejo em casa, ok? Tem uma chave reserva em cima do batente da porta.

Como em um efeito borboleta, assim que desligou o celular, seu mundo se encontrou com o de um pequeno garotinho, que trombou com ela na calçada e cobriu seu colo com Coca-Cola.
Uma exclamação de surpresa saiu de seus lábios e sentiu o líquido cobrindo-lhe o peito, encharcando a camisa, entrando em sua calça e escorrendo pelas pernas e calcinha.
Os olhos do menininho se arregalaram e o pai dele parecia extremamente constrangido.

- Meu Deus, moça, eu sinto muito!
- Desculpa! Desculpa! – exclamava o pequenino com lágrimas de constrangimento nos olhos.

se recuperou do choque e pode sentir o açúcar da Coca-Cola grudando em sua pele.

- Está tudo bem! – disse tentando acalmá-lo. Um pouco da bebida havia pegado seus cabelos também. – Acontece! Foi sem querer.
- Jesus, moça, você está toda molhada. Deixe-me arrumar algo para te secar – disse o pai olhando em volta, buscando algum estabelecimento que os ajudasse.
- Não, é sério! Está tudo bem! – respondeu ela vendo o tamanho do constrangimento dos dois. – Eu estou indo para casa agora, não precisa se preocupar.

Após quase cinco minutos tentando convencê-los de que estava tudo bem, se afastou, pensando no que fazer.
A casa de ficava bem mais longe do que a dela em relação ao centro da cidade. Eram dois ônibus até lá, quase uma hora e meia em um transporte público lotado, quente e abafado, com a bebida em seu corpo cada vez mais pegajosa.
A casa dela, no entanto, ficava a apenas um ônibus de distância. Ela poderia ir para lá, trocar de roupa, tomar um banho e voltar com quando ele decidisse que o trabalho estava feito.
precisava pegar mais roupas, de qualquer jeito. E estava no horário de verão, então ainda demoraria para escurecer. estaria de volta antes que ela percebesse.
Com esse pensamento em mente, pegou seu ônibus, permanecendo de pé todo o caminho. A bebida descera pela calça (que graças a Deus era preta) e ela podia sentir toda a área da frente, até um pouco das nádegas, molhada.
Quando chegou no condomínio, deu um abraço em Marcelo, o porteiro, pela janela da portaria. Era bom revê-lo e ele lhe deu um sorriso paternal e acolhedor.

- Isso aqui é chato sem você, senhorita!

andou depressa até sua casa, sentindo o tecido da calça grudando e raspando na pele de suas pernas. Havia Coca-Cola até dentro de seus sapatos, grudando as meias nos dedos. Estava fedida e grudenta, precisa de um banho e roupas novas e sentia saudade da própria casa.
Virou a esquina, passando pela única casa perto o suficiente para ver dentro da dela, na esquina do bloco...
E congelou.
Havia uma motocicleta estacionada na frente da sua casa, que sabia que não era de .
E uma pessoa no quintal.
Um homem.
De costas para ela, agachado perto da garagem, lavando as mãos na torneira.
Ele levantou-se. Alto, magro, loiro.
Se virou.
sentiu as pernas ficarem bambas. Teve que se segurar em um poste de luz para não cair no chão.

O homem da biblioteca.

O homem que vinha todos os dias, mas que se tocara que hoje não havia aparecido.

Ele estava ali. Na casa dela. No quintal dela. Parecendo tão familiarizado com o local que o estômago de se embrulhou.

A ficha caiu como se um balde de água fria tivesse sido jogado em cima de sua cabeça.
Ele era seu perseguidor.
Só podia ser, não havia outra explicação.
Por que estaria sempre na biblioteca, olhando para ela, perguntando-lhe quando começou a trabalhar ali? Por que ela sentiria aquele grito dentro de si mesma que havia algo sobre esse homem, algo que ela precisava descobrir?
Viu-o abrir a porta e entrar dentro da casa e deu meia volta antes mesmo de entender o que fazia. Quando se deu por si, estava correndo, desesperada, o tecido da calça, grudento, arranhando suas coxas, os pés batendo tão forte no chão que quase ecoavam pelo condomínio.
Sacou o celular enquanto corria.

- 190, qual a sua emergência?
- Acabei de ver um homem entrando dentro da minha casa – contou ela sem fôlego vendo a portaria se aproximar.
- Senhora, me passe seu endereço por favor e explique melhor a situação. Você está segura?
- Moro no Condomínio das Amoreiras, casa 13. Fica na rua Helenita de Machado Cunha, número 552. Estou dentro dele, mas estou voltando para a portaria. Acho que ele não me viu.
- Estou mandando uma viatura agora mesmo. Você tem um porteiro, síndico ou vizinho para ficar com você? Você tem certeza que não conhece esse homem e que ele não tem permissão de estar aí?
- Vou ficar com meu porteiro. Esse homem aparece todos os dias no meu local de trabalho, mas não o conheço. Ele não tem a minha permissão de estar aqui, eu garanto.

A ligação se encerrou e chegou à portaria. Marcelo deve ter visto sua expressão aterrorizada, pois pareceu extremamente preocupado de repente.

- , você está bem?
- Posso entrar aí? Por favor, tem um homem na minha casa.
- Um homem? – exclamou ele horrorizado. Abriu a porta para ela e entrou dentro da pequena cabine da portaria, sentindo-se mais segura. – O Sr. Paiva...?
- Saiu! É um homem que não conheço. Eu chamei a polícia, eles estão vindo. O senhor viu alguém estranho passar?
- Hoje meu horário foi diferente. Tive que levar meu filho ao médico, então o jovem Henrique me substituiu. Ele foi embora quando eu cheguei, apenas dez minutos antes de você.

A polícia chegou mais rápido do que esperava e tudo se moveu em um ritmo que ela não foi capaz de acompanhar.
Como em um sonho, parecia estar fora do próprio corpo. Observava a cena de fora, como uma assombração, congelada no local, incapaz de reagir, no papel de espectadora da própria vida. O som era abafado, todos se moviam de forma caótica, rápido e devagar ao mesmo tempo.
Quando voltou a si, estava sentada perto de sua casa com um casaco ao redor dos ombros. Marcelo o emprestara para ela, em uma tentativa de conforto que foi levemente bem-sucedida.

- Deus, que absurdo. Um homem sendo capaz de entrar aqui assim, invadindo sua casa. Eu vou dizer umas poucas e boas ao João, eu juro. Que tipo de treinamento ele está dando para o menino? É um inconsequente...

Ele continuou a falar, irritado, mas parou de ouvir. As vozes do homem misterioso ecoando em suas orelhas, exclamações que gritou conforme foi empurrado para dentro da viatura.

- Eu tenho permissão de estar aqui! Isso é tudo um mal-entendido! EU TENHO PERMISSÃO!

Ele não a viu, por escolha pessoal de . Não sabia como funcionava todo o processo policial em situações como aquela, mas o policial que apareceu fora o mesmo da vez que sua casa foi atacada e ele pareceu reconhecê-la instantaneamente. Quando lhe contou sobre um homem desconhecido – que aparecia todos os dias em seu local de trabalho – entrando em sua casa sem permissão, ela observou as bochechas do homem corando de vergonha.
O policial sabia que não havia levado suas súplicas a sério na primeira vez. E que, se tivesse, toda aquela situação poderia estar sendo evitada. Por isso, foi tão gentil com ela quanto possível, talvez por arrependido, talvez por ter medo que ela o denunciasse por negligência.
Em qualquer um dos casos, foi grata.

- Geralmente a senhorita teria que nos acompanhar até a delegacia para abrir um boletim de ocorrência – ele lhe dissera. – Mas acredito que você esteja muito abalada com isso, então por enquanto apenas o levaremos sob custódia de invasão à propriedade privada, já que o pegamos em flagrante. Voltaremos em alguns dias para recolher as imagens das câmeras de segurança e para que você registre a ocorrência. Tudo bem? Pode ir lá quando se sentir confortável, vou tentar mantê-lo preso o máximo que conseguir.

Ele também permitiu que ela não tivesse um contato direto com o homem, permanecendo escondida na cabine da portaria até que ele fosse levado. suspirou de alívio ao ouvir suas palavras. Sabia que não estava pronta para enfrentá-lo. Não ainda. Não aqui, onde a única pessoa que conhecia era o porteiro simpático do condomínio.
Quando o homem já estava no banco traseiro da viatura, o policial se aproximou dela e lhe mostrou alguns objetos.

- Encontramos isso com ele. Acredito que foi assim que entrou.

Entregou-lhe o controle da cancela, distribuído apenas para os moradores, para que tenham a possibilidade de entrar diretamente, sem ter que se registrar na portaria. Depois as chaves da casa dela, cópias extras sem chaveiro e que não pertenciam a .
Eles se foram levando a motocicleta de seu perseguidor com eles e ela ficou um tempo ali, estática, observando as luzes da sirene se afastando. Depois, foi levada até sua casa por Marcelo, como uma marionete que teve seus cabos cortados.
Sentiu-se apreensiva em entrar na casa. A ficha de que o homem que a perseguia não estava mais lá, preso no banco de trás de uma viatura, ainda não havia caído. Era como se ele fosse um fantasma, um ser onipresente, sempre à espreita, apenas esperando por ela.
Ficou na calçada um tempo, recuperando o próprio fôlego, tentando acalmar seus pensamentos que zumbiam dentro de sua cabeça como uma multidão enfurecida.
Marcelo ainda falava, alheio ao ataque de ansiedade que a atacava, até o barulho de uma moto chamou a atenção dos dois.
apareceu, estacionando perto deles. Tirou o capacete e uma expressão confusa marcava suas feições.

- Amor? O que você está fazendo aqui? – perguntou. Depois de notar o choque nos olhos dela, pareceu mais preocupado: - O que aconteceu?

não respondeu de primeira. Correu até ele, saltando em seus braços e o abraçando com tanta força quanto era possível.
O perfume e o calor dele a acolheram e ela sentiu lágrimas brotando no canto dos olhos, borrando sua visão. Deus, isso estava mesmo acontecendo? Acabou? Era o fim desse pesadelo?
Se sim, por que ela sentia no fundo de suas estranhas que estava longe de acabar? Por que seus instintos continuavam encolhidos, olhando ao redor assustados, sussurrando-lhe que aquilo era um erro, que ela ainda estava em perigo?
Só percebeu que estava tremendo quando a palma da mão de , quente e firme, apertou a base de suas costas.

- Eu o peguei – respondeu baixinho, como um suspiro, contra o peito dele. Parecia dizer aquilo mais para si mesma do que para . – Eu o peguei.
- Do que você está falando? – perguntou ele separando-os o suficiente para olhar em seus olhos.
- O homem – disse ela. – O homem das mensagens. Ele estava aqui. Ele estava aqui, mas eu o vi e chamei a polícia. Eles o levaram. Eu o peguei.

Os olhos de espelhavam toda a confusão que ela sentia, mas ele parecia extremamente mais confuso. Olhou em volta, como se procurasse alguém e depois voltou os olhos para ela.

- Havia um homem aqui? É isso que está me dizendo?
- Tem que ser ele – disse ela, novamente parecendo falar com os próprios pensamentos. – Ele aparece todos os dias onde eu trabalho. Todos. Os. Dias. E estava aqui! Aqui! Tem que ser.
Suas mãos tremiam.
- Tem que ser ele, .
Lágrimas de desespero escapavam de seus olhos.
- Não tem outra explicação.

Sabia que parecia a beira de um surto, com os cabelos completamente descabelados e os olhos selvagens. parecia confuso, triste por ela, preocupado. Seus olhos honestos como sempre foram.
De repente, lembrou-se de suas roupas grudentas e fedidas e suspirou.
Uma distração daquela maluquice. Era o que precisava.

- Preciso me trocar – murmurou virando de costas.

Sentiu as mãos de tentando agarrar-lhe o braço, para impedi-la de continuar. Mas escapou dele e abriu a porta ao mesmo tempo que ouviu sua voz gritar:

- , espere!

A porta se abriu e pela segunda vez em menos de uma hora, congelou. Dessa vez, contudo, não foi capaz de se segurar em lugar algum e, quando suas pernas bambearam, caiu de joelhos no chão.
As paredes do corredor, antes de uma elegante cor de branco, encontravam-se inteiramente pichadas. As palavras, pintadas de tinta vermelha, espalhavam-se por toda a casa, escorrendo até o chão, tão similar com um massacre sangrento que sentiu vontade de vomitar.

ONDE VOCÊ ESTÁ?
ONDE VOCÊ ESTÁ?
ONDE VOCÊ ESTÁ ?


Os braços de a abraçaram por trás, tentando tirá-la do chão. De repente, o fato dele parecer tão abalado ao telefone fez todo sentido.

- Não queria que visse isso assim, querida – disse a voz dele em seu ouvido, quente, reconfortante, familiar. – Queria te contar sobre antes que visse, prepará-la o máximo possível, eu sinto muito.

não conseguia falar. Sua voz parecia ter se perdido dentro de seu corpo, assustada, fugindo da garganta e se escondendo pelos órgãos, para evitar se apresentar em uma situação tão horrível.
Deixou-se ser levantada por e bebeu a água que lhe entregaram, como uma criança obediente, catatônica, incapaz de reagir. Seus olhos estavam grudados nas palavras espalhadas pelas paredes.
Palavras que foram cravadas em seus ossos, contaminando seu sangue, como uma praga que se alastrou pelos órgãos até o coração.

Ele estava preso. A polícia o levou.

Ela o pegou. E não o contrário.

Mas havia algo, no fundo de si, que a fazia ser incapaz de acreditar nas próprias palavras.

- Capítulo 13 -

não esperava que sua volta para casa fosse fácil, mas também não fazia ideia de que seria tão difícil.
Após o ataque de ansiedade que teve, tudo passou como um borrão. Sabia que fora levada até a casa de , que acariciou seus cabelos e beijou suas têmporas com carinho, mas apenas voltou a si após acordar na cama dele, sentindo o pelo macio de Duquesa perto de seu rosto.

- Oi, amor – disse quando ela saiu do quarto, fraca e sonolenta. Ele saiu da cozinha, de onde preparava algo para ela e acolheu em seus braços. – Como está se sentindo?
- Não sei explicar – respondeu fraquinha, sentando-se no sofá. A mão dele, apoiada em suas costas, deu-lhe certo conforto. – Parece que estou presa em um sonho. É tão confuso. Achei que vibraria de felicidade quando a polícia o pegasse, mas só consigo sentir angústia.
- Me explique melhor o que aconteceu. Você estava tão nervosa quando te encontrei que não entendi quase nada do que houve.

lhe contou tudo. Sobre o menino que derramou sua bebida em cima dela, sobre sua ida até o condomínio para trocar de roupa, sobre ver o homem misterioso entrando na casa. Contou sobre a ligação para a polícia, a ajuda de Seu Marcelo, como o policial parecia culpado por ter sido negligente e deu-lhe um longo espaço de tempo para abrir o boletim de ocorrência, talvez por pena, talvez para evitar que ela abrisse uma queixa contra ele.
No fim, perguntou:

- Esse homem... Como ele era?
- Alto, magro, caucasiano e loiro – respondeu, estranhando o tom de voz dele. Parecia que tinha algo pesando em sua mente. – Por quê?
- Nada, amor, não se preocupe – ele respondeu. Algo em sua voz atiçou os sentidos dela. – E você tem certeza que não o conhecia?
- É claro – disse impaciente. – Eu lhe disse. É o mesmo homem que aparece o tempo todo onde eu trabalho. Falei com ele uma vez, na minha primeira semana. Não faço ideia de quem seja.

não respondeu, pensativo. Parecia conflituoso, como se todas as questões do mundo estivessem bagunçadas dentro de sua cabeça.
Não sabia explicar o porquê, mas simplesmente sabia que havia mais do que ele estava lhe contando.

- , tem algo que você gostaria de me contar? – perguntou séria.
- Sinceramente? – respondeu ele ainda sem olhar para ela. Olhava para frente, com as costas curvadas e a boca coberta por uma das mãos. – Sim. Mas acho que você merece saber tudo da maneira certa, sem nenhum buraco na história. Não sinto que tenho como te contar agora.
- ...
- Amor – começou ele se voltando para ela e segurando suas mãos. – Eu juro para você que se eu estivesse entendendo o que aconteceu, te contaria. Mas não entendo. Preciso que confie em mim agora. Preciso que confie que eu vou atrás disso, vou entender cada detalhe e então te darei a resposta que merece. Por favor, confie em mim.

viu a sinceridade e o desespero nos olhos dele. Parecia confuso, nervoso, assustado, horrorizado e mais um trilhão de sentimentos misturados que não soube nomear.
Queria debater com ele, pois não queria ficar no escuro. Ela merecia saber. Mesmo que ele não soubesse explicar, apenas o básico seria o suficiente.
Mas, ao mesmo tempo, ela estava tão cansada. Física, psicológica e emocionalmente. De absolutamente todas as formas que se é possível estar cansado. Sempre fora a pessoa que tinha que lidar com todos os males que aconteciam, mesmo antes de sua mãe morrer e estava exausta disso.
Quando seu pai gritava e jogava os pratos contra a parede, era que ia até sua mãe, puxando-lhe pela mão para fora da cozinha e secando suas lágrimas.
Quando ele partia para cima de Natã, que entrava no meio, levando cotoveladas e socos tão fortes que acabava com o lábio partido e as costelas roxas.
Quando havia problemas no trabalho, era nela que o estresse de seu pai era aplicado. E quando Natã partiu para a faculdade, seis anos atrás, ficou ainda pior. Como seu irmão se atrevia a deixá-los? Aquele pedaço de merda inútil e ingrato, sem um pingo de gratidão com seu pai.
E como ela se atrevia a ficar feliz por ele? Era tão ingrata quanto o irmão. Um pedaço de merda inútil que ele devia ter mandado para a adoção assim que nasceu. Ele nunca quis uma menina, no final das contas. Era para ser apenas Natã.
Ela foi a pior surpresa que seu pai já recebeu. Ele sempre deixou isso bem claro.
Fechando os olhos, tentou acalmar as memórias que a assombravam. Estava cansada de estar cansada. Exausta de sempre ter problemas para lidar, sendo eles dela ou não.
Abandonou seu pai porque estava cansada de sofrer. Veio atrás de Natã e de uma nova vida porque queria finalmente a paz que sempre almejou.
E então seu perseguidor apareceu e ela caiu novamente nesse ciclo vicioso de preocupação e violência constante.
Tudo que ela queria era paz.
E quando se ofereceu para lidar com a situação por ela, indo ele atrás de respostas, com olhos tão sinceros, ela só foi capaz de suspirar aliviada.

- Tudo bem – respondeu. – Eu confio em você.

Ele sorriu para ela e deu-lhe um beijo suave nos lábios. Sua boca era quente e macia, familiar e prazerosa. Era bom tê-lo ao seu lado.

- O que eu faço agora? – perguntou mais para si mesma do que para ele. – Acha que devo voltar para casa?
- Você quer voltar? – perguntou ele deixando-a apoiar a cabeça em seu ombro. Beijou-lhe os cabelos com carinho.
- Quero voltar a ter o controle da minha vida – respondeu sincera. – Se voltar para lá for o primeiro passo, sim. Mas não sei se consigo.
- Não precisa voltar de uma vez – aconselhou. – Sabe que pode ficar aqui o quanto quiser. A Duquesa vai sentir sua falta.

sorriu ao ver o brilho nos olhos dele, que denunciavam o fato de que não era apenas a gata que sentiria saudades.

- E sobre as pinturas nas paredes? – ela lembrou-se de repente. Um mal-estar apareceu em seu estômago. – Não sei se consigo encará-las de novo.
- Eu dou um jeito nisso – respondeu ele. – Acho que foram feitas ontem, mas não tenho certeza. Não sabia como te contar, então saí para resolver outros problemas e pensar em como abordar isso. Sinto muito que tenha descoberto do jeito que descobriu.
- Está tudo bem – respondeu ela. – Eu também não saberia como contar se eu fosse você. Pelo menos estava lá comigo quando aconteceu.
- Vou tirar umas fotos para termos provas, caso você queira denunciá-lo por isso também. E então vou apagá-las. Me dê um dia e elas sumirão. E então volte e veja como se sente sobre isso – continuou ele. – As portas aqui estarão sempre abertas para você. Sempre.

O plano se seguiu. No dia seguinte ainda dormiu na casa de , mas ele terminara o que prometera. Saiu de casa junto dela, as oito horas da manhã, mas voltou perto das onze horas da noite, suado, cansado, faminto e coberto de tinta branca.
Ela se sentiu tão grata que pulou em seus braços e deu-lhe um beijo que deixou os dois zonzos.
Mas, como dito anteriormente, voltar para a casa foi ainda pior do que ela esperava.
O tempo que passou com deixou-a mal-acostumada. Não havia olhos sobre ela, observando cada passo e cada respiração que dava. O celular era usado apenas para ligações e, desde que mudara seu número, não havia mais recebido notícias do número privado. conseguia dormir com mais facilidade, sentindo-se segura.
Assim que seus pés tocaram novamente o chão do corredor principal, todos os pelos de seu corpo se arrepiaram. Queria abrir as janelas, deixar a luz entrar, iluminar os corredores escuros e sombrios que antes lhe proporcionaram tanto conforto.
Mas não teve coragem. Seu perseguidor era como um espírito, uma criatura do lado de fora, observando-a pelas janelas, batendo do outro lado da porta. E mesmo que repetisse para si mesma que ele estava sendo mantido preso, pelo menos pelos próximos dias, seus instintos não abaixavam a guarda.
As paredes, embora novamente brancas, sussurravam pelos corredores: onde você está? Onde você está? Onde você está?
Cada vez que piscava, como em uma cena de filme, podia jurar que via as palavras novamente cravadas ao seu arredor, escorrendo até o chão como sangue.
Então deixou as cortinas fechadas e as luzes acesas por todos os cômodos. Trancava a porta atrás de si, mesmo se fosse apenas pegar algo no quarto ou na cozinha e checou todas as portas pelo menos três vezes. Evitava olhar para as paredes o máximo possível.
Logo na primeira noite, contudo, percebeu que seria incapaz de dormir. Permaneceu acordada, coberta até o queixo, suando com o calor, mas incapaz de tirar a colcha de cima de si mesma.
Seus olhos permaneceram fixos nas cortinas, como se a qualquer momento elas fossem cair e revelar seu perseguidor atrás do vidro das janelas, parado, olhando para ela.
Só adormeceu por volta das cinco horas da manhã, por pura exaustão. Acordou três horas depois, com o barulho do despertador, sentindo como se tivesse sido atropelada por um caminhão.

👤🔪


finalmente conheceu Carolina naquela manhã.
Estava de costas para a porta da frente, alguns minutos antes do começo do expediente, quando aconteceu. Separava alguns documentos no balcão de atendimento, quando ouviu a porta da frente se abrir.
Antes que pudesse se virar, ouviu um grito assustado seguido de uma exclamação:

- MEU DEUS!

levou um susto tão grande, que também gritou. Os papéis que segurava saíram voando de suas mãos, espalhando-se por todo o chão da biblioteca. Virou-se com a mão sobre o peito, sentindo o coração disparado.
Na porta, uma linda moça com olhos arregalados e cabelos crespos olhava para ela, extremamente confusa.

- Jesus, eu sinto muito! – exclamou a mulher após alguns segundos em que as duas se encararam. – Não queria te assustar.

Ela correu até e se agachou. As duas começaram a recolher os papéis espalhados, os olhos da desconhecida indo o tempo todo para o rosto dela.

- Desculpe, de verdade – disse ela lhe entregando algumas das folhas. – Não devia ter gritado. É que você... Bem, você se parece muito com uma menina que eu conheço.

Aquilo trouxe um mal-estar instantâneo ao estômago de .

- Como assim? – perguntou enquanto se levantavam.

A estranha parecia relutante, mas respondeu após alguns segundos de contemplação:

- Havia uma menina que trabalhava aqui, antes de você chegar. Agora vejo as diferenças, mas de costas... Deus, vocês são idênticas.
- Uma menina? – murmurou. Uma conversa que tivera há tanto tempo com Raquel brotou em sua mente.

Uns três ou quatro meses atrás uma menina que trabalhava aqui sumiu depois que ficou até mais tarde e ninguém nunca mais viu ela.

- A menina que sumiu? – As palavras fugiram de seus lábios antes que pudesse contê-las.

As feições da mulher voltaram a parecer chocadas. Depois, extremamente tristes.

- Oh! Eles te contaram – exclamou. – Achei que não fariam depois de todos aqueles desistentes. Sim, a garota que sumiu. A Mirella.
- Vocês eram amigas? – perguntou vendo como os olhos da moça ficaram enevoados, cheios de lembranças.
- Eu amo aquela menina com todo meu coração – respondeu ela. – Ela trabalhava aqui antes de mim, foi quem me ajudou quando entrei.
- Oh! Você é a Carol, então? A que estava na lua de mel?
- Eu mesma! – exclamou Carol mostrando-lhe o anel de casamento no dedo. Aquilo recuperou um pouco do brilho em seu olhar. – E você deve ser a . Desculpe novamente pelo susto.
- Nós somos tão parecidas assim? – perguntou ainda com isso na mente. Provavelmente fora só algo do momento, uma daquelas situações que você acha que alguém é seu amigo ao longe e depois vê que o desconhecido é totalmente diferente.

Só poderia ser um engano...

- Menina, você não faz ideia! – respondeu Carol sem perceber como a expressão de ficou automaticamente aterrorizada. – Quer dizer, agora eu vejo que ela é bem mais baixa que você e caucasiana, mas fora isso vocês poderiam ser parentes!

O barulho da cadeira de rodas de Elias interrompeu a conversa das duas. aproveitou o momento para tentar controlar as próprias mãos que tremiam.

- Eu sabia que tinha ouvido a sua voz! – exclamou o bibliotecário chefe enquanto se aproximava. Seu sorriso era enorme e ele parecia estar mais feliz do que já o tinha visto.

Carol correu até ele e deu-lhe um beijo estalado na bochecha. Parecia genuinamente feliz em vê-lo. Tentando ignorar os próprios sentimentos, focou nos dois.

- Como está Amanda? – ele perguntou sorrindo para Carolina com carinho.
- Casada! E comigo! – exclamou Carol tão feliz que deu pequenos saltinhos no lugar. Depois, apertou as bochechas de Elias. – Como eu estava com saudade de ver esse rostinho bonito! E esse seu coraçãozinho? Cheio de pretendentes?

notou as bochechas dele corando e sentiu que evitou olhar na direção dela. Elias parecida entender que ela não estava interessada, já que nunca mais pediu para sair novamente, mas isso não significava que ele havia deixado de ter uma quedinha por ela.
Carolina ficou alheia ao constrangimento do bibliotecário chefe e virou-se para sorrindo.

- Esse menino tem um charme que eu nunca vi igual. Você não concorda?

Foi salva de responder pelo barulho da porta. Raquel entrara na biblioteca e começou a gritar de alegria ao ver o retorno da colega. Carol a acompanhou e juntas elas gritaram com tanta euforia que sentiu os próprios ouvidos apitando.
Elias olhou para ela pela primeira vez no dia e franziu as sobrancelhas. Aproximou-se, parecendo preocupado.

- Você está bem? – perguntou gentilmente. – Parece cansada.

Cansada não chegava perto da forma como se sentia. Exausta talvez se aproximasse mais. Fingiu não ser o caso, contudo.

- Estou bem. Apenas tive uma péssima noite de sono.

Aquela noite mal dormida repetiu-se pelos próximos dias. Todos do trabalho passaram a notar, com exceção de Carolina, que parecia ser o tipo de pessoa simplesmente alheia aos detalhes.
se esquivava de suas perguntas, sabendo que não os convencia. As olheiras abaixo de seus olhos se destacavam como se ela tivesse levado socos no rosto.
Precisaram de poucos dias, dois completos para ser exata, para que desistisse da ideia de voltar a dormir na casa. Na terceira noite, após o expediente, uma enorme chuva caiu sobre a cidade.
nunca vira uma tempestade como aquela. O vento uivava do lado de fora, as folhas voavam em redemoinhos e, apesar de não ser tão tarde, o céu se cobria de nuvens pretas.
Estava na cozinha, lavando a louça, quando levou o susto. Após ouvir um enorme trovão, puxou levemente uma das cortinas de uma das janelas da cozinha, para olhar o estado da chuva.
De relance, olhou para o portão da garagem e congelou.
Estava aberto. Não inteiramente, apenas pela metade, mas claramente aberto. Um portão, que desde que ela perdera o controle, só abria por um botão que ficava dentro da garagem.
Ela o usara quando chegou, colocando a bicicleta para dentro. Mas fechou o portão. Tinha imagem clara da própria mão apertando o portão posicionado ao lado da porta que separava o local da cozinha.
Sentiu o coração disparar contra o peito e tentou lembrar-se de respirar.
Acalme-se, disse para si mesma. Ele não está aqui. O policial lhe garantiu que ele ficaria sob custódia. Está tudo bem. Tem alguma explicação.
Não teve coragem, contudo, de checar por si mesma. Ligou para a portaria com dedos trêmulos e checou novamente as trancas das portas da cozinha.

- Portaria, boa noite.
- Oi, Seu João! Tudo bem? É a , da casa 13! – disse tentando parecer o mais despretensiosa possível. – Desculpe incomodar nessa chuva, mas tive um problema aqui na minha garagem e eu preciso de uma ajuda.

Em qualquer outra ocasião, o porteiro da noite provavelmente não ajudaria nem um pouco. Era um sujeito carrancudo e mal-humorado, mais preocupado em fumar cigarros do que fazer o próprio trabalho. Mas, depois do acontecimento do homem da biblioteca, provavelmente levara tamanho bronca do porteiro Marcelo que estava assustadoramente gentil com ela.
Não precisou esperar muito. Em poucos minutos, uma batida veio da porta, por pouco não passando despercebida pelo barulho da chuva.
Por um segundo, congelou no lugar. Mas relaxou em seguida, após ouvir:

- Srta. ? É o Henrique, da portaria!

Destrancou a porta devagar e suspirou ao reconhecer o jovem parado na varanda. Nas mãos dele, um enorme pedaço de galho molhado e um guarda-chuva.
Percebendo a careta confusa dela, Henrique explicou:

- Encontrei isso preso embaixo do portão da garagem. Acho que a chuva deve ter feito ele cair e impediu de fechar. Esses portões geralmente têm um sensor de movimento para que ninguém seja esmagado por eles.
- É claro – suspirou aliviada. – Provavelmente foi isso mesmo. Obrigada, Henrique. Desculpe ter feito você vir aqui nessa chuva.
- Está tudo bem, imagino que esteja um pouco assustada pelo aconteceu – respondeu ele, tímido. Olhava para os próprios pés e pareceu construir coragem para olhá-la nos olhos. – Queria pedir desculpas por aquilo. Foi culpa minha.
- Está tudo bem – respondeu ela, vendo o tamanho da vergonha estampada no rosto dele. – Não tinha como você saber.
- Sim, mas sinto que podia ter evitado isso – Henrique explicou. – Quando comecei a trabalhar aqui eu checava cada uma das pessoas que entravam, mas os moradores começaram a reclamar. Achavam ridículo que eu os obrigasse a parar, já que possuíam controles que abrem a cancela automaticamente. Fiquei com medo de perder o emprego – continuou, sem tirar os olhos dos próprios pés. – Então parei de checá-los. O homem que você mandou prender já veio aqui algumas vezes, de moto. Eu só trabalho aqui há seis meses, mas ele sempre teve o controle da cancela, então achei que fosse morador.

sentiu um arrepio pela espinha, pensando em quantas vezes o homem estivera ali, rodeando sua casa, procurando a chance de entrar.
Deu um sorriso acolhedor para Henrique, contudo. Não o culpava pelo acontecido. Não podia jogar sobre os ombros dele o fato de seu perseguidor ser quem é.

- De verdade, não se preocupe com isso. Você estava apenas fazendo seu trabalho. Não posso culpá-lo por isso.

Ele sorriu agradecido e partiu. fechou a porta e sentiu-se automaticamente exausta. Não dormia bem há duas noites e o pequeno susto esgotara tudo que lhe restara de energia.
Ligou para em seguida e esperou ele atender a ligação.

- Oi, meu amor – disse a voz dele, feliz e acolhedora, do outro lado.
- Oi! – respondeu ela. – Desculpe ligar assim do nada, mas teria como você vir me buscar em casa? Não consigo dormir aqui mais uma noite.
- Aconteceu alguma coisa? – perguntou ele automaticamente preocupado.
- Não exatamente – explicou ela andando até o quarto, as luzes de toda a casa nunca sendo apagadas. – É só a casa em si. Ainda me sinto muito paranoica para dormir. Faz duas noites que durmo no máximo duas horas.
- Provavelmente deu um passo maior que a perna – suspirou triste por ela. - Está tudo bem, amor. Talvez seja melhor que você ainda não durma por aí mesmo. Podemos fazer assim: você volta depois do trabalho, para tentar se acostumar novamente com a casa, mas volta para o meu apartamento quando for dormir.
- Eu acho que é melhor – sorriu ela recolhendo uma toalha do armário. – Passos de bebê. Vou tomar um banho agora e devo estar pronta no máximo em meia hora. Tudo bem?
- Te encontro em meia hora, meu amor.

Entrando no banheiro, trancou a porta atrás de si e começou a se despir. Aquilo virara uma rotina desde que voltara. Ia na cozinha? Trancava a porta. Lavar a roupa? Porta trancada. Pegar algo no quarto? Virava a fechadura atrás de si.
está certo, pensou enquanto entrava no chuveiro e sentia a água quente bater contra os ombros. Ela não estava pronta para voltar para lá. Não totalmente. Queria voltar porque a voz de seu pai ainda lhe assombrava, desde a noite que resolvera o abandoná-lo.
Isso, foge! Como a filha da puta covarde e nojenta que você é. Fuja, garotinha medrosa do caralho!
Estava cansada de fugir. Cansada de abandonar tudo que construía, seus sonhos por seu pai, sua casa por seu perseguidor.
Mas admitia que fora um pouco demais. Faria como aconselhou.
Pensou no namorado enquanto lavava os cabelos e sentia o perfume do condicionador. Ele havia estado distante, sem continuar com a construção desde que ela voltara.

Provavelmente trabalhava no segredo que pedira a ela tempo para lhe explicar. Ainda não gostava da ideia de ficar de fora, mas havia tanto acontecendo em sua mente que , sinceramente, estava feliz que pelo menos algo estava sendo resolvido por alguém que não era ela.
Confio nele, pensou enquanto saía do chuveiro, secando-se com a toalha macia. Tudo vai dar certo.
Sentindo o cansaço em seus ossos, decidiu que fazia um tempo extremamente longo desde que cuidara de si mesmo. Por isso, na frente do espelho, penteou os cabelos e recolheu um creme para o corpo de perfume doce que não usava há séculos.
Espalhou o hidratante pelo corpo, suspirando satisfeita. Era bom sentir a maciez que trazia à pele dela, primeiro pelas pernas, subindo pelas nádegas até o abdômen.
Olhando-se no espelho, espalhou o creme pelos braços, costelas, pescoço, até os seios. Enquanto os cobria com creme, fechou os olhos e apoiou a lateral do rosto no ombro direito, apreciando o perfume de morangos.
Suas mãos navegavam dos seios ao pescoço, do pescoço ao colo, do colo pelos ombros.
Sentia falta de cuidar de si mesma. De ter momentos para apreciar o próprio ser, cuidando da pele ou dos cabelos, renovando-a

Um som quebrou o silêncio.
Ela ouvira... Um gemido?
Um gemido seguido de um suspiro.
Carnal, sexual, de alguém quase alcançando seu ápice de prazer.
E não viera dela.

Abriu os olhos com rapidez e encarou o próprio reflexo no espelho. Um arrepio desceu-lhe pela espinha até as pernas. O coração passou a bater contra o peito dela com tanta fúria que se encolheu de susto, de repente muito assustada.
O som parecia vir...
Aproximou-se do espelho, com as sobrancelhas franzidas. Mal respirava, tentando ouvir algum outro som, mas a noite voltou a permanecer extremamente silenciosa.
Tocou a parede gelada com a ponta dos dedos e se inclinou, muito devagar. Sentia como se algo fosse saltar de algum canto a qualquer momento, agarrando-a com brutalidade e a arrastando para longe. Abraçou a si mesma buscando conforto, mas não conseguiu. Seu coração martelava contra as orelhas, abafando sua audição.
Encostando o ouvido contra os azulejos, prendeu a respiração, contando os segundos.
Um, dois, três, quatro, cinco.
Nada.
Completo silêncio.
Voltou para sua posição original e olhou novamente o próprio reflexo. Teria imaginado o barulho? Talvez a falta de sono estivesse afetando sua cabeça.
Ela precisava de uma boa noite de sono. Urgente. Estava começando a enlouquecer ali.
O barulho da porta da frente chamou sua atenção.

- ? – chamou pelo corredor. – Você está pronta?

Envolvendo-se rapidamente pela toalha, lançou uma última olhada confusa ao espelho. Depois saiu do banheiro e exclamou:

- Me de cinco minutos!

O gemido foi esquecido, pelo menos por enquanto.

👤🔪


O halloween chegou rapidamente e com ele as decorações que cobriram cada espaço da biblioteca. Pequenos morcegos planavam sobre as cabeças das pessoas, pendurados por elásticos baratos e teias de aranhas falsas foram colocadas no canto.
A saga Harry Potter foi posicionada na vitrine, junto de vassouras e varinhas, assim como os incontáveis livros de terror de Stephen King. Os bibliotecários foram permitidos de utilizarem chapéus de bruxa junto do uniforme, o que achou divertido.
A única que a deixou desconfortável foi a pequena bruxa de brinquedo que soltava risadas assustadoras cada vez que alguém passava na frente. dava um pequeno salto assustado cada vez que acontecia e no fundo sabia que estava sensível pela paranoia que ainda a assombrava.
Foi fácil esquecer os infortúnios que passou enquanto o dia passava. Um projeto da prefeitura de incentivo à leitura traria nos próximos dias centenas de classes de ensino fundamental para a biblioteca e isso ocuparia os pensamentos de qualquer um.
gostava de crianças e elas pareciam gostar dela também, mas grupos enormes de crianças entre oito e doze anos transformaram seu pacífico local de trabalho em um pandemônio. Qualquer um que um dia teve que dar aula para uma turma de sexto ano com certeza tinha passagem direta para o céu.
Por isso, suspirou aliviada quando seu turno terminou e ela pode apreciar o som do silêncio. Além disso, uma onda de animação a percorreu, pois finalmente se encontraria com Natã para uma conversa.
Os dois não conseguiram se encontrar desde o dia que conversaram após o ataque em sua casa e seu irmão estava ficando impaciente, sabendo que algo estava errado. Hoje ele conseguira uma folga e em poucos minutos apareceu para buscá-la.
entrou no carro e recebeu um abraço de urso em troca. Sentiu lágrimas brotando no canto dos olhos quando a sensação de conforto e saudade a preencheu.

- Senti sua falta – Natã suspirou em seu cabelo.
- Eu também – respondeu ela beijando-lhe a bochecha.

Depois, seguiram até a casa dela e a encontraram vazia. havia pausado a reforma enquanto resolvia a tal situação misteriosa. Ela ainda tinha o prazer de vê-lo todas as noites quando dormia em seu apartamento.

- Está com fome? Eu devo ter água de coco, brigadeiro e alguns pães de queijo que assei ontem.
- Não sei como consegue beber água de coco, é nojento – disse Natã torcendo o nariz enquanto se sentava na bancada da cozinha. – E é bom saber que está seguindo uma dieta adulta e saudável. Parabéns, irmãzinha.
- fala a mesma coisa, ele odeia água de coco – contou. – Mas em compensação toma chá de pêssego, a bebida mais asquerosa da terra.
- Para a sua informação, chá de pêssego é o melhor chá – rebateu ele observando enquanto esquentava alguns pães de queijo no micro-ondas.
- Você deveria ser irmão dele, não meu – reclamou . – E para sua informação eu estou me alimentando muito bem. É que agora faço minhas refeições no .
- Por quê? – perguntou Natã desconfiado.

tirou os pães de queijo do micro-ondas e lhes entregou em um prato. Juntos os dois comeram.

- Isso faz parte do que precisamos conversar. Mas é uma história longa.
- Eu tenho a noite toda. Não poupe nenhum detalhe.

E ela não poupou. contou-lhe tudo: sobre as mensagens, as ligações, como acreditou que talvez fossem de seu pai, que também ligava de vez enquando para Natã. Disse-lhe sobre as cartas, os e-mails, as músicas, as ameaças, como a polícia não ajudou não apenas uma, mas duas vezes. E depois como a motocicleta de foi vandalizada, como surtou com o perseguidor ao telefone e depois sobre como ele apareceu em sua janela.
Natã apertou sua mão e ela terminou contando sobre os dias que passou com , como encontrara um homem em sua casa e o denunciara e, por fim, como ainda se encontrava incapaz de dormir ali, muito traumatizada e paranoica, sendo obrigada a continuar com o namorado na hora de dormir.
No fim, ela se sentiu leve como uma pluma ao tirar isso de seus ombros. Desde criança sempre fora ela e Natã contra o mundo. Saber que ele estava ciente da situação a fazia sentir como se fosse capaz de lidar com aquilo, pois seu irmão estaria ali com ela.

- E esse homem que você denunciou – disse ele após toda a história. – Você acredita que foi ele? Não senti certeza na sua voz.

suspirou por um momento, esfregando as mãos do rosto.

- Faz sentido ser ele – disse. – É um homem desconhecido, que aparece todos os dias onde eu trabalho desde a minha primeira semana. Ninguém que trabalha lá disse ter visto ele antes que comecei meu emprego. E eu o encontrei aqui. Com cópias da chave e o controle da cancela. Só... Faz sentido.
- Mas...
- Mas – repetiu bufando e fechado os olhos. – Você sabe dos meus instintos.
- Confio mais neles do que em mim mesmo.
- E continuo sentindo que algo vai acontecer. Não relaxei um minuto desde que tudo isso começou. Nem mesmo quando vi a polícia levá-lo. Se fosse mesmo ele, não estaria mais calma? Menos nervosa?
- O que acha disso?
- está escondendo alguma coisa – confessou. – Bem, não necessariamente escondendo porque ele jurou que ia me contar, mas disse que não sabe o suficiente para fazer isso agora.
- É estranho – murmurou Natã coçando o queixo, pensativo. – Você confia nele?
- Em ? Com certeza – respondeu de prontidão. – Desde o primeiro dia. Há algo nele que me faz sentir segura.

Natã permaneceu silencioso enquanto avaliava suas palavras. Depois, abraçou-a com carinho e beijou seus cabelos.

- Estou orgulhoso de você – murmurou ele com carinho. – Puto, porque não me contou antes, mas orgulhoso do quão forte você é.
- Forte? – riu ela tristemente com olhos marejados. – Só o que faço é chorar e fugir. Estou com medo o tempo todo.
- Isso não significa que não seja forte – aconselhou seu irmão. – Mas se esse é o problema, então não se preocupe. Seu irmão está aqui.

Ele lhe puxou as mãos e a fez se levantar. podia sentir o coração encher de calor.

- Vamos repetir um mantra que vai te ajudar – explicou Natã sorridente. – Agora repita comigo: o homem que me persegue é um grande de um cuzão.
- Natã, não sei como isso pode aju...
- Repete!

revirou os olhos e suspirou.

- O homem que me persegue é um grande de um cuzão.
- Ele é um covarde psicopata que merece passar o resto da vida preso.

Ela repetiu suas palavras, mal podendo conter um sorriso.

- E – continuou Natã. – Se eu tiver a chance, vou arrebentar o cara na porrada até ele perder a consciência.
- Natã...
- Repete, mulher!
- Se eu tiver a chance – disse revirando os olhos novamente. – Vou arrebentar o cara na porrada até ele perder a consciência.

Natã sorriu para ela e pegou suas mãos.

- Agora, por último. Repete: Eu não tenho medo dele.
- Eu não tenho medo dele – disse , tão baixinho que Natã quase não ouviu.
- Mais alto: eu não tenho medo dele!
- Eu não tenho medo dele.
- Eu não tenho medo dele!
- Eu não tenho medo dele!
- ISSO! EU NÃO TENHO MEDO DELE!
- EU NÃO TENHO MEDO DELE!

Os dois gritavam em plenos pulmões e sabia que se alguém passasse pela rua com certeza os ouviria. Não se importou, no entanto. Não podia impedir o sorriso que surgia em seus lábios e as risadinhas que brotaram em sua garganta.
Estar ali, com Natã, criando a coragem que lhe faltava, era quase bom demais para ser verdade. Permitiu-se sentir a alegria penetrar seus ossos, sem saber que há alguns quilômetros de distância, um homem ouvia tudo que diziam.

Havia uma carranca em seu rosto. Suas mãos estavam apertadas nos braços da cadeira em que estava sentado e seus olhos brilhavam em desgosto.
Ele não estava feliz. Novamente ela atrevia a desafiá-lo e insultá-lo.
Ah, mas se era um desafio que ela queria, então um desafio teria.
Um sorriso macabro brotou lentamente por seus lábios.

Vamos ver até onde vai essa sua coragem, bobinha.

- Capítulo 14 -

Foram precisamos de apenas mais alguns dias para que tudo desabasse novamente.
já começara a ter as coisas sob controle novamente. A conversa com Natã a revitalizou como água em uma planta sedenta e ela foi capaz de colocar a cabeça em ordem, pensando suas possiblidades e revendo decisões.
Pedira folga para o dia seguinte, mentindo sobre uma consulta médica. Elias aceitara de prontidão, simpático como sempre.

- Eu cubro sua parte, não se preocupe! Espero que esteja bem – ele dissera com olhos preocupados.

Não conseguiu contar-lhe o que realmente iria fazer: ir à delegacia, abrir o boletim de ocorrência contra o homem que encontrou em sua casa. Elias não sabia de nada que estava acontecendo, a única pessoa do trabalho um pouco mais ciente era Janaína. Os outros colegas notaram suas olheiras e saltos assustados cada vez que a abordavam de surpresa, mas não a pressionaram quanto a isso.
Já estava com tudo organizado mentalmente. Iria até lá e não abriria apenas um B.O. contra a invasão, mas contra todo o assédio que vinha sofrendo nos últimos dois meses. Não teria medo e reivindicaria para quem for que a atendesse o direito de denunciá-lo por perseguição. Não teria medo. Não teria medo. Não teria medo.
Foi esse mantra que recitou para si mesma, mais com a voz de Natã do que com a própria, enquanto colocava um pedaço de carne para descongelar. Já havia comprado a comida há muito tempo e era melhor que comesse logo antes que apodrecesse.
O tempo lá fora apresentava a mesma chuva de alguns dias atrás. Uma tempestade escura e cinza, que batia contra as janelas e fazia as árvores se curvarem graças ao vento. tentou não pensar muito na chuva. Ela, por alguma razão, estava particularmente assustando-a naquele dia. Eram apenas dezenove horas, mas o céu estava tão escuro que mais parecia madrugada.
Saindo da cozinha, com as mãos levemente fedorentas, foi até o banheiro para lavá-las. Sentindo o perfume do sabonete, sorriu e aproveitou para lavar o rosto e escovar os cabelos. Havia sido pega pela chuva enquanto chegava em casa e a água e o vento acabaram deixando os fios cheios de nós.
Quando voltou à cozinha, se esticou para pegar um copo no armário acima da pia. O movimento fez com que olhasse de relance pela janela e isso permitiu que visse o portão da garagem aberto pela metade.

- Porra, de novo? - xingou com um suspiro. Desistindo do que ia fazer, abriu a porta que separava a cozinha da garagem e viu como um enorme pedaço de galho impedia o portão de fechar.

Como ela não havia notado isso de novo?
Frustrada, aproximou-se do galho e o arrastou para a calçada. A chuva caía contra suas costas, encharcando a camiseta e escorrendo para suas pernas.

- Merda – xingou entre os dentes, sentindo a madeira molhada debaixo dos dedos. Depois, voltou correndo para a garagem, sentindo o frio começar a se alastrar por seu corpo.

Quando finalmente protegeu-se da chuva, sentiu medo.
Seus instintos gritaram, berraram, arrepiaram cada pedaço de sua pele. Alguma coisa estava errada. Alguma coisa estava muito errada.
Calma, disse para si mesma respirando fundo. Seu coração estava disparado. Por quê? Está tudo bem. Você está bem, nada vai te machucar. Você está paranoica.
Está tudo bem,
continuou dizendo para si mesma enquanto atravessava o cômodo até o botão que fecharia a garagem. Nada vai te machucar.
Estava errada.
E foram precisos apenas poucos segundos para se dar conta disso.
No momento em que chegou no botão, localizado ao lado do batente da porta que separava o local da cozinha, olhou por ela. Seus dedos encostaram no botão, seus músculos trabalharam para forçá-lo, começando a apertá-lo levemente...
E congelou.
Acima da bancada da cozinha, em seu campo de visão, estava apenas um único objeto preto, se destacando contra o mármore branco.
Um controle da garagem.
Seu controle da garagem.
O que havia perdido muitas semanas atrás e que não vira desde então.
Ele está aqui, tocou-se. Na casa. Com ela.
E assim que se deu conta dessa realidade, ele apareceu.
Como uma sombra, surgiu do corredor, aparecendo na porta que separava a cozinha do resto da casa, encostando-se no batente. Era alto, enorme, o maior homem que já vira ou talvez fosse apenas sua áurea amedrontadora que fez com que se sentisse pequena, frágil e insignificante.
Estava coberto de preto, da cabeça aos pés. Luvas pretas lhe escondiam as mãos. O pescoço coberto por uma blusa de mangas compridas e gola alta. Não era capaz de enxergar um pedaço de sua pele e nem o rosto e os cabelos: estavam cobertos por uma máscara de capuz, tão assustadora e deformada que mais parecia ter saído do filme “Uma noite de crime”.
Tudo aconteceu muito rápido em seguida.
Ele inclinou a cabeça para o lado, como se a contemplasse. Depois ergueu um braço e acenou para ela com os dedos, zombador. não lhe deu tempo de mexer-se mais que isso. Virou as costas e correu em direção ao portão ainda aberto da garagem.
Ele foi mais rápido, contudo. era alta, mas ele era mais. Com passos largos, alcançou-a antes fosse capaz de sair da casa.
Agarrou seus cabelos e puxou com força. O corpo de foi jogado para trás e ela caiu no chão, batendo o quadril contra o chão de concreto. Um grito de desespero atravessou seus lábios quando ele a arrastou até metade da garagem e subiu em cima dela.

- Por favor, não! – chorou ela quando o homem se sentou em cima de suas pernas e a imobilizou. – NÃO!

Um soco forte na bochecha fez seus ouvidos zumbirem. Uma dor aguda se alastrou por seu rosto, como se milhares de agulhas estivessem sendo enfiadas em sua pele. Foi incapaz de gritar, do jeito que ele queria. Sua visão ficou turva e ela fechou os olhos com força.
As mãos de seu agressor eram grandes e ele as pressionou sobre o pescoço de . De repente, não havia mais ar em seus pulmões.
Lembrou-se de usar os braços de repente. Desesperada, arranhou os dele em uma tentativa de fazê-lo lhe soltar. Por alguma razão, ele não apertava sua traqueia com cada vez mais força. Pressionava o suficiente para engasgar-se e ofegar, desmaiar se permanecessem muito tempo ali, mas não morrer.
Era como se não quisesse matá-la, apenas assustá-la.
Continuou a arranhá-lo e a se debater, mas suas unhas escorregavam no tecido da camiseta e ele era pesado, impedindo-a de se mover muito. Lágrimas desesperadas começaram a brotar em seus olhos e tentou lutar contra a névoa que começava a surgir em seu cabeça.
Não podia desmaiar. Não podia estar vulnerável a esse ponto, mal podendo imaginar o que ele faria com ela caso estivesse inconsciente.
Viu como ele se inclinou para ela e, em um ato desesperado, tentou arrancar-lhe a máscara. Queria ver o rosto dele, descobrir quem era seu perseguidor, acabar com esse mistério.
Mas ele viu as intenções nos olhos dela e jogou o tronco do corpo para trás, onde ela não o alcançaria. A mão de chegou perto, mas não conseguiu tocar no rosto dele. Com um bufo mal-humorado, seu agressor se levantou e ela ofegou por ar, desesperada, tossindo com tanta força que sua garganta ficou completamente arranhada.
Agarrou-lhe os cabelos e começou a arrastá-la novamente, em direção à cozinha. As pernas de se arrastavam e ela tentava prender os tênis no concreto, para impedi-lo de levá-la. Sua blusa se levantou e a base das costas começou a arder, arranhando contra o chão.
gritava, desesperada, segurando a base dos cabelos para tentar diminuir a dor do puxão do agressor. Lágrimas desesperadas escorriam de seus olhos.
Ele chegou até a porta e apertou o botão. começou a ouvir o portão se abrir, para então começar a se fechar. Notou, por sorte, que ele segurava seus cabelos com apenas uma mão e parecia levemente concentrado no portão.
Sem pensar, curvou o cotovelo e acertou-o precisamente contra o joelho dele. Seu agressor gritou em dor e caiu de joelhos. conseguiu levantar-se e correu, sentindo uma dor extremamente aguda no couro cabeludo. Um tufo enorme de seu cabelo permanecera preso nos dedos dele.
Correu desesperada, tropeçando nos próprios pés. Ele agarrou seu tornozelo e ela caiu contra o chão, batendo o queixo contra o concreto e sentindo o gosto de sangue enchendo sua boca. Desesperada, chacoalhou a perna com tanta força que sentiu o joelho estalar e conseguiu fazer com que ele a soltasse, principalmente quando a sola do tênis o acertou na testa. O portão se fechava. Podia ouvir o homem se levantando atrás dela, após se levantar. Em um último segundo, jogou-se no chão e rolou, conseguindo passar da enorme placa de metal por míseros centímetros.
A chuva cobriu-a instantaneamente. Não deu a si mesma tempo de processar nada. Não o hematoma que começava a surgir no quadril e na bochecha, não o enorme arranhão nas costas, não as gotículas de sangue que surgiam na parte de trás da cabeça graças aos fios arrancados com violência ou o enorme corte dentro da boca.
Correu. Sem olhar para trás, sem pensar duas vezes. As gotas de chuva pareciam enorme, entrando em seus olhos, encharcando as meias. O vento era tão forte que ela quase era jogada de volta para a calçada.

- SOCORRO! – gritava com todas as forças que tinha. – POR FAVOR, SOCORRO!

Se aproximava cada vez mais da casa que ficava na esquina de seu bloco. A única casa próxima que possuía moradores. A tempestade, que parecia ficar pior a cada segundo, abafava suas súplicas desesperadas.
Seus pulmões queimavam. Algo quente escorria por sua pele, talvez chuva, talvez sangue. Não teve coragem de olhar para trás. Não sabia se ele a seguia e preferia não descobrir.
Acelerou o passo. Seu corpo tremia, de adrenalina e de frio, mas ela não percebeu. Em um movimento rápido, tropeçou nas escadas dos vizinhos e bateu desesperada contra a porta.

- Por favor, abra a porta! – chorou contra a madeira, histérica. – Por favor, ele vai me matar! Sou a vizinha da casa treze! POR FAVOR!

A porta se abriu e , que nela se apoiava, caiu de cara contra um tapete felpudo.

- Meu Deus! – ouviu uma voz feminina exclamar atrás dela.
- Feche a porta! – exclamou, levantando-se em um pulo. Bateu a madeira com força e a trancou com a chave que estava na fechadura. Depois caiu sentada no chão, exausta.
- O que está acontecendo? – perguntou uma voz masculina surgindo. levantou o olhar e viu os olhos assustados de seus vizinhos. – O que aconteceu com você?!
- Querida, seu rosto... – disse a vizinha agachando-se até sua altura e tentando lhe tocar o machucado. sugou o ar com o toque, dolorida. – Quem fez isso com você?
- T-Tem... U-Um... – tentou dizer, mas os soluços a atrapalhavam. Seu corpo tremia tanto que seus dentes batiam alto. – U-Um home-em...
- Deus do céu, Carlos – disse a mulher com olhos cheios de pena. – Pegue uma toalha para a menina!
- Tem um homem – suspirou quando uma toalha cobriu seus ombros e outra começou a secar seus cabelos. – Um homem na minha casa.
- Um homem?! – perguntou sua vizinha desesperada. Ela e o marido se entreolharam, preocupados.
- Vou checar as crianças – disse Carlos subindo as escadas.
- Precisa chamar a polícia – disse tentando controlar a própria respiração. – Eu fugi e vim para cá. Não sei onde ele está.
- As crianças estão bem – disse Carlos descendo as escadas apressadamente.
- Chame a polícia – suplicou . – Agora! Ele pode estar vindo para cá.

🔪👤

Não foi o policial das outras duas vezes que compareceu ao chamado. foi muito grata quanto a isso. Seria incapaz de não sentir a humilhação ao relatar para ele, pela terceira vez, que havia um homem em sua casa.
Foi uma policial mulher chamada Jennifer que compareceu, o que a deixou feliz e mais confortável. Era jovem, talvez apenas alguns anos a mais que ela e de olhos expressivos. Quando se encontraram pela primeira vez estava sentada no sofá de seus vizinhos, com uma toalha e um cobertor sobre os ombros.
Os olhos de Jennifer se arregalaram ao ver o estado de , descabelada e com um enorme hematoma azulado na bochecha. Foi uma reação compreensível, mas foi capaz de perceber algo mais no olhar da policial. Olhou a de cima abaixo, focando nos cabelos e olhos de , como se a assombrassem.
A conversa foi simples. Havia um homem em sua casa, mascarado, que a agrediu até que ela conseguisse fugir. Infelizmente, ninguém o viu. Jennifer chamou reforços, que procuraram por ele em cada centímetro do condomínio e nas proximidades.
Como um fantasma, ele desaparecera.
Quando falou sobre a perseguição que sofria foi como se algo estalasse no olhar de Jennifer.

- Um perseguidor? – perguntou ela, tomando notas enquanto permanecia sentada ao lado de .
- Já faz dois meses que me persegue – explicou percebendo o quão geladas as próprias mãos estavam. – Começou online, com mensagens e ligações, mas então começou a mandar cartas e presentes para a minha casa. Depois apareceu uma noite, mas não conseguiu entrar.
- Você abriu uma denúncia?
- Tentei, quando os presentes começaram a chegar – contou . – Mas me disseram que não tinha muito o que podiam fazer.
- É claro – bufou Jennifer revirando os olhos, parecendo extremamente irritada e frustrada. Depois olhou para novamente e avaliou sua aparência novamente.

O brilho de reconhecimento que apareceu em seus olhos fez com que franzisse as sobrancelhas, confusa. De repente, Jennifer escreveu algo em seu bloco de notas e arrancou a folha. Entregando-lhe, disse:

- Ligue para esse número. Acho que essa pessoa vai te ajudar mais do que qualquer boletim de ocorrência. Diga que a policial Jennifer disse que vocês precisam se encontrar.

No papel lia-se as palavras “Investigadora Clarissa da Penha” e um número de telefone. o guardou com cuidado dentro do sutiã, a única parte seca de todas as roupas que usava.
Uma ambulância veio junto e eles a examinaram. Nada muito sério havia sido feito, apenas hematomas no rosto, garganta, boca e quadril, além de um arranhado nas costas e um machucado na parte de trás da cabeça. Suas cordas vocais provavelmente foram machucadas pelo enforcamento, então o profissional da saúde recomendou-lhe poupá-las por um tempo.
Quando já havia sido examinada, Jennifer se aproximou e perguntou-lhe:

- Você tem onde ficar? Acredito que não gostaria de ficar aqui.
- Tenho – respondeu, com brotando em sua mente rapidamente. – Mas não tenho como chegar lá.
- Posso te dar uma carona com a viatura – respondeu a policial. – Acho que é o mínimo que poderíamos fazer.

não voltou para a casa, apesar de agora ter certeza de que ele não estava mais lá. Um outro policial havia achado seu celular, que havia sido esquecido em cima de sua cama e lhe entregou. Foi grata, mas não mexeu nele. Já fazia semanas que servia apenas para mandar e receber ligações, nada mais que permitisse que seu agressor a contatasse.
A viagem foi silenciosa e passou como um borrão. não era capaz de prestar atenção em nada além do latejar em sua bochecha e da ardência na garganta, apesar de não ser algo que ela não estivesse acostumada. Deus sabe quantas vezes eram os punhos de seu pai batendo contra a carne dela.

- Ligue para o número que te dei – aconselhou a policial quando estacionou na frente do complexo de apartamentos de . - De verdade. Ela pode te ajudar.

a agradeceu por uma última vez e saiu do carro. Ela possuía uma cópia da chave do portão, então apenas entrou. Com passos vacilantes, andou devagar até a porta do apartamento que pertencia ao namorado e bateu nela com dedos trêmulos. Ainda não possuía a chave daquela porta.
abriu a porta alguns segundos depois, com uma expressão confusa. Quando os olhos dele caíram sobre ela, se arregalaram em choque.

- Meu Deus do céu! – exclamou desesperado se aproximando e agarrando-a pelos ombros. – , o que aconteceu?!

Ela não conseguiu falar de primeira. Sentiu as mãos dele a pressionando com gentileza, enquanto seus olhos chocados a varriam, procurando mais ferimentos. Nunca vira os olhos de tão assustados.
Abraçou-o e deixou seu perfume encher os próprios pulmões. Ele tremia tanto quanto ela.

- Foi ele? – perguntou contra seus cabelos. só foi capaz de assentir. O aperto dele se intensificou e suas mãos tremiam tanto que chacoalhavam.

De repente, precisava se sentar. A adrenalina sumira e suas pernas estavam tão fracas que ela podia despencar no chão como uma boneca feita de trapos a qualquer momento.
Saiu de seu abraço e passou pela porta rapidamente. Por um segundo ouviu-o tentar impedi-la:

- , amor...

Mas continuou a andar. Quando seus olhos caíram sobre o sofá, congelou. Todos os pensamentos em sua mente desapareceram como fumaça.
Sentado ali, com as costas curvas e olhos que a observavam com surpresa, estava o homem misterioso da biblioteca.
Às suas costas, a voz de apareceu, gentil e hesitante:

- Amor, esse é o Luan, meu amigo.

🔪👤

Ele continuava olhando para ela. Com o mesmo olhar avaliador que usara nos últimos dois meses em seu local de trabalho.
Com o copo com leite quente nas mãos, podia sentir os olhos dele sobre ela.
Luan – o homem misterioso da biblioteca. O melhor amigo de . Que vinha de vez enquanto ajudar na reforma da casa. Que tinha uma irmã desaparecida. E, pelo que dissera, estava ali com ele desde o começo da tarde, então com certeza não a atacou.
Deus, ela era uma idiota.

- Bem... – disse Luan pela primeira vez, esfregando as mãos e pressionando os lábios. – Isso não é nada constrangedor.

Uma risadinha de desespero rompeu pela garganta de . Deixou tudo ainda mais vergonhoso.

- Luan – disse com o tom de voz reprovador. Ele veio da cozinha e sentou-se ao lado do amigo. Os dois estavam à frente dela. – Por favor. Você disse que não estava bravo.
- Não estou! – afirmou Luan. Virou-se para ela e mostrou-lhe as palmas das mãos. – Não estou, de verdade. Quer dizer, não mais. Antes eu estava. Puto. Bem puto. Mas me explicou tudo e, sinceramente, não deu para continuar irritado com você. Mesmo que você tenha, tipo, literalmente me jogado na prisão.

jogou-lhe um olhar reprovador, mas sorriu levemente. Os olhos de Luan brilhavam de sinceridade, então ela relaxou. Mas apenas um pouco. Deus, havia tantas questões sem resposta.

- Eu só... – murmurou olhando para as próprias unhas, sujas por fiapos de tecido preto da blusa de seu agressor. – Não entendo. Tenho tantas perguntas...
- Acho que posso explicar algumas coisas – disse , esticando-se para acariciar a mão dela. – Quando você me disse que o homem que a polícia levou era loiro, alto e estava na casa, eu soube que era sobre Luan que você estava falando. Ele estava me ajudando na casa naquele dia, ficou lá enquanto eu saí para comprar algumas coisas. Você o viu e mandou prendê-lo, o que foi muito estranho, porque para mim, desde o começo, você e Luan se conheciam.

As sobrancelhas de se franziram.

- O quê?
- Eu explico melhor depois – respondeu ele. – O que acontece é que: se vocês já se conheciam, por que te assustou tanto vê-lo na casa? Por que você afirmava para mim que nunca o vira antes? Nada daquilo fazia sentido. Senti como se tivessem peças faltando e ao mesmo tempo... Me senti culpado.

Ele ficou em silêncio alguns segundos, com olhos tristes.

- Luan tinha uma cópia da chave e do controle da portaria porque eu dei a ele, muitos meses atrás, antes de conhecê-la. Ele as vezes vinha ajudar quando eu não estava, parecia prático que pudesse entrar direto. E me encheu de culpa, porque se ele fosse realmente o homem que te persegue, então fui eu que permiti que ele chegasse até você.

apertou a mão dele e deu-lhe um sorriso triste. Como ele poderia se culpar? Ela nunca o faria.

- Não fazia sentido ser o Luan, mas ao mesmo tempo eu não podia apenas aceitar a inocência dele só porque ele é meu amigo. Isso nunca impediu alguém de ser abusivo com outras pessoas. Então resolvi ir atrás de respostas.
- A polícia não ia investigar? – perguntou curiosa.
- Não os caras que me prenderam – disse Luan parecendo desgostoso. – Eles não moveram um dedo em relação a nada. Não me fizeram perguntas, não me interrogaram. Acho que só queriam me prender logo para salvar a própria pele, já que foram negligentes com você.
- Luan usou a ligação que tinha para ligar para mim e me implorou para vê-lo. Eu resolvi ir e pedi álibis de todos os dias que algo estranho aconteceu: quando você encontrou sua porta aberta, quando ouviu passos do lado de fora, o dia que atacaram a sua casa. Eu não tinha acesso ao telefone dele, então não teria como ver a questão das mensagens, mas achei que seria suficiente.
- Além disso pedi para o Marcelo me mostrar as câmeras de segurança – continuou. – Luan não apareceu em nenhum desses dias e nem nos outros. Os únicos dias que veio, seja de moto ou com o carro dele, foram nos que eu o chamei. Entrou e saiu nas horas que tínhamos combinado.
- A noite em que o cara te atacou eu estava trabalhando como freelancer em um restaurante – disse Luan. – Meu chefe confirmou para que eu estava lá.

A cabeça de girava. Eram tantas informações que pareciam estar sendo jogadas contra ela como bolas de futebol.

- E sobre a biblioteca? – perguntou de repente. – Por que ia para lá todos os dias? Por que me perguntou quanto tempo eu trabalhava lá? Eu sempre senti que você estava procurando alguma coisa ou alguém...
- Minha irmã trabalhava na biblioteca – disse ele simplesmente.

Aquilo trouxe um arrepio pelo corpo de . De repente, ela sabia exatamente de quem ele estava falando.

- Sua irmã é a garota que desapareceu?
- Mirella – corrigiu ele. – Minha irmãzinha. Ela desapareceu há cinco meses e não tive nenhuma notícia desde então. Ela costumava trabalhar no mesmo turno que você.
- Sim, eu sei. Meus colegas de trabalho me contaram.
- Minha irmã sempre foi muito precavida – divagou ele com olhos tristes e nebulosos. – Ela nunca foi do tipo que se colocava em perigo. Nós éramos muito próximos também. Todos os dias ela me mandava uma mensagem me falando sobre o dia dela e sobre as novidades. Um dia ela não me respondeu e depois no dia seguinte e no seguinte. A polícia me informou depois que ela estava desaparecida há dias. - Me disseram – continuou ele com uma risada seca e irônica. – Que ela provavelmente deu fuga com algum namorado ou algo assim. A maior besteira que eu já ouvi. Minha irmã não fugiria com alguém sem me contar. E isso nem faz sentido. Ela morava sozinha, só com o cachorro. Ela não precisava fugir com ninguém.

O rosto dele ficou vermelho pela indignação e podia ver suas mãos tremendo. O coração dela se afundou.

- A polícia parecia que não ia fazer muito, então comecei a pensar por mim mesmo. Me lembrei de uma vez que ela me disse que estava sentindo como se alguém estivesse a seguindo. Fazia dias que Mirella se sentia assim quando voltava para casa. Comecei a pensar se não havia mesmo alguém a perseguindo. Talvez essa pessoa fosse um daqueles perseguidores malucos e, se ele realmente existisse, poderia voltar para onde ela trabalhava.

Ele olhou para os olhos de de uma forma tão intensa que ela se encolheu.

- Eu comecei a ir até a biblioteca para ver se não via alguém esquisito ou algo assim. Não era muito, mas era o único plano que eu tinha. Mas foi então que eu vi você. , você não faz ideia do quão parecida é com a minha irmã. Não idênticas, mas de costas vocês são a mesma pessoa. Se realmente tivesse alguém que a perseguisse, fiquei pensando que talvez... Ele viesse atrás de você também.

As peças foram se encaixando como um quebra-cabeça e tudo começou a ficar mais claro de se entender. Ele estava mesmo a procura de alguém. Seus instintos estavam certos. Mas não era ela, como havia suposto, mas sim uma pessoa que talvez viesse por .

- Por que achou que nos conhecíamos? – perguntou para após alguns segundos de reflexão.

Ao invés de respondê-la, ele lhe perguntou:

- , como ficou sabendo que eu estava planejando alugar a casa?
- Pelo seu anúncio – disse simplesmente. Onde ele queria chegar?
- Amor, eu não coloquei nenhum anúncio sobre a vaga. As únicas pessoas com quem tinha comentado isso foram Luan e minha família.

Os pés de tornaram-se frios instantemente. De repente, era muito difícil respirar.

- Por isso achei que vocês se conheciam. Quando me ligou dizendo que queria ver a vaga, assumi que era alguma amiga de Luan e que ele havia comentado com você sobre isso.

se levantou em um salto. Suas pernas estavam bambas, mas ela as ignorou enquanto procurava o próprio celular.

- O que você está fazendo? – perguntou com os olhos arregalados.
- Ligando para o Elias – respondeu ela digitando o número com dedos trêmulos.
- Quem?
- Meu bibliotecário chefe – disse por fim colocando o aparelho na orelha. Elias respondeu alguns toques depois.
- Alô? – A voz dele estava cansada e sonolenta. não havia visto as horas, mas provavelmente já estava tarde.
- Oi Elias, desculpe te ligar a essa hora. É a .
- Oi, – Ela pode ouvir o barulho dos lençóis enquanto ele se mexia. – Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
- Sei que é uma pergunta estranha, mas você se lembra quando me deu aquele anúncio de uma casa que estava alugando?
- Acho que sim...
- Você me disse que um homem havia trazido o anúncio um pouco mais cedo. Você lembra desse homem? Como se parecia? Qualquer coisa.
- Putz, , já faz dois meses isso – disse ele refletindo por alguns segundos. – Eu não faço a mínima ideia de como ele era. Só lembro que veio dizendo que tinha um anúncio e queria saber se poderia deixar pela biblioteca.

O estômago de se afundou. Sentiu-se ainda mais fraca de repente.

- Tudo bem. Desculpe te ligar assim. Obrigada.
- Ah! Espera! – exclamou ele antes que ela desligasse. – Eu me lembro de ter ficado impressionado do quão alto ele era. Não sei se te ajuda, mas é tudo que tenho.

desligou e olhou para o próprio celular, contemplando as chamadas não atendidas de Natã. Ele provavelmente sentira que algo estava errado. Ligaria para ele depois.

- E aí? – perguntou Luan.
- Ele não se lembra de como o homem se parecia – respondeu frustrada sentando-se na cadeira em que estava novamente. Abraçou os próprios joelhos em busca de conforto. – Deus, nada disso faz sentido.
- Calma, vamos rever o que temos – disse Luan sabiamente, olhando para os dois. – Sabemos que tem um homem que por alguma razão persegue você. Ele consegue ter acesso a sua casa e, pelo que parece, provavelmente foi quem plantou o anúncio falso para te levar lá.
- Como ele saberia que estava atrás de um lugar para morar? – perguntou franzindo as sobrancelhas.
- Provavelmente pela internet – avaliou ela. – Eu publiquei em grupos de apartamentos e casas para alugar que estava procurando um lugar para viver. Ele pode ter me descoberto por causa dessas publicações.
- Faz sentido. Mas como ele sabia que a minha casa em específico estaria para alugar?
- Boa pergunta! – respondeu Luan apontando para com o dedo indicador. – Vamos fazer uma lista de pessoas que provavelmente sabiam disso. Eu comentei com alguns colegas que fazem freelancer comigo no restaurante, pelo menos dois deles estavam procurando um lugar para morar.
- Os funcionários do condomínio sabiam também – disse com olhos pensativos. – Eu contei para eles.
- Talvez eles tenham comentado com os moradores – avaliou . – Seu Marcelo sempre me conta as novidades do condomínio.
- Boa! Se o agressor for um morador ou um funcionário isso explica por que nunca ninguém sabe como ele entra – exclamou Luan. – Ótimo, então temos meus colegas de trabalho, funcionários do condomínio, moradores, eu, a mãe e a avó do ...
- Thomas.

e Luan olharam para ao mesmo tempo.

- Seu irmão? – perguntou Luan com as sobrancelhas franzidas.

pareceu avaliar as próprias palavras, mas balançou a cabeça devagar.

- Não sei. Eu contei a ele, mas você devia ter visto. Ele não trocava duas palavras comigo desde que lhe disse que ia voltar a construir a casa, mas quando o avisei que ia começar a alugá-la, ele atingiu um novo nível de raiva. Nunca o vi assim, achei que fosse partir para cima de mim. Não falo com ele desde então, já faz mais de sete meses.

Um silêncio caiu sobre eles até que suspirasse e se levantasse.

- Preciso de uma bebida – disse retirando-se para a cozinha.

o acompanhou com olhos tristes. Nunca o vira tão infeliz.
Aproveitando o momento, levantou-se para se sentar ao lado de Luan. Com uma voz baixinha e constrangida, disse:

- Sinto muito ter mandado prender você.

Luan riu e sorriu para ela.

- Ei, você estava sendo perseguida e viu um homem desconhecido entrando na sua casa. Chamar a polícia foi a coisa sensata a se fazer.

Os dois então olharam para , que procurava algo na geladeira.

- Você conhece o irmão dele? – perguntou Luan olhando para ela. negou com a cabeça. – Eu também não. Mas sei que não é um cara legal, só pelas histórias que conta. Espero nunca ter que conhecê-lo.

Por fim, suspirou cansado e disse:

- Algum plano?

As palavras da policial Jennifer brilharam na mente de e ela recolheu o número de telefone no sutiã.

- Na verdade, sim – respondeu. – Acho que sei exatamente o que fazer.

- Capítulo 15 -

AVISO DE GATILHO: o capítulo a seguir pode apresentar conteúdo sensível para algumas leitoras em relação a assédio e tentativa de abuso sexual.

A investigadora Clarissa da Penha era uma mulher marcante, de olhos quentes e com uma postura tão confiante que morreu de inveja.
As duas se encontraram no dia seguinte, em uma delegacia da mulher da cidade. Clarissa usava um lindo turbante vermelho nos cabelos e seus olhos se arregalaram quando caíram sobre . Por possuir enormes hematomas pelo corpo e rosto, sua reação deveria ser compreensível, mas enxergou algo mais em seu olhar. Algo que havia visto também na expressão da policial Jennifer.
Reconhecimento.

- Então, , pode começar do início – disse a investigadora quando as duas se reuniram em sua sala, junto de sua assistente. – Não poupe detalhes.

Ela não poupou. contou-lhe tudo, com a ajuda de impressões que havia feito das mensagens e dos e-mails e que havia levado junto de si na primeira tentativa de denúncia. A assistente anotava tudo em um bloco de notas com extrema rapidez e Clarissa uma vez ou outra também escrevia algo em seu pequeno caderno.
Parecia genuinamente interessada e preocupada com o que estava passando. Isso lhe permitiu cultivar a esperança novamente dentro do peito, que floresceu como um botão de flor.

- Você teria as cartas que ele lhe enviou? – perguntou a investigadora em um momento.
- Claro! Aqui – respondeu retirando os papéis da bolsa e lhe entregando.
- E você acredita que ele de alguma forma te hackeou aponto de ter sua localização? – A voz dela não era de forma alguma julgadora. Não parecia duvidar de ou acreditar que ele era uma menina boba e assustada. Parecia genuinamente instigada, o que lhe deu confiança para continuar falando.
- Com certeza. Nunca deixei minha localização ativada, sempre achei assustador a ideia de deixar o Google saber sobre isso. E de repente estava ligada e ele sabia com quem eu estava e a que horas. Sabe meu endereço e provavelmente o lugar onde eu trabalho também.
- E onde é?
- Na biblioteca municipal do centro.

Aquilo chamou a atenção de Clarissa, que encarou por alguns segundos, antes de trocar olhares conspiratórios com sua assistente.

- O quê? – perguntou franzindo as sobrancelhas. Seus instintos formigaram, dizendo que elas escondiam algo.
- Nada, não se preocupe – respondeu a investigadora com olhos carinhosos. – Apenas uma coincidência. Trabalho em outro caso sobre uma menina que trabalhava lá.
- A Mirella?
- Sabe sobre a Mirella? – perguntou Clarissa com as sobrancelhas para cima.
- Conheço o irmão dela – disse sentindo as bochechas corarem. Deveria contar como quase o prendeu por algo que não fez? Seria uma grande humilhação. – Ele é o melhor amigo do meu namorado.
- Bem, sim, a Mirella – continuou a mulher à frente dela. – Estou no caso dela há um mês...

Algo estalou na mente de . Lembrou-se instantaneamente da conversa que ouvira no banheiro masculino da delegacia, um mês atrás, sobre uma nova investigadora que tomaria frente no caso de uma moça desaparecida.

- Dizem que me pareço com ela – disse sem pensar, sendo guiada por seu sexto sentido. Clarissa, novamente, se entreolhou com a assistente Sofia. – Na verdade, já faz um tempo que ando vendo... Meninas que se parecem comigo. Desaparecendo, quero dizer.

A investigadora não a respondeu por um tempo. Olhava para o rosto dela, pensativa, como se a cabeça estivesse há quilômetros de distância. sentiu como se fosse a pessoa que pudesse ajudá-la, como se o encontro das duas fosse uma peça chave para todo esse quebra-cabeça.

- Acredito... – disse gentilmente com os olhos pregados nela. – ...Que é muita coincidência essas meninas e eu nos parecermos tanto.

Clarissa pensou por mais alguns segundos antes de dizer com um suspiro:

- Uma enorme coincidência, com certeza. – Virou-se então para a assistente e disse: - Sofia, pegue aquela pasta para mim, por favor.
- Esses com certeza não eram os caminhos que eu esperava que nosso encontro iria seguir – disse pegando a pasta das mãos de Sofia alguns minutos depois. – Mas o destino nunca deixa de me surpreender.

De dentro da pasta, observou-a tirar sete fotos reveladas. Quando a viu estender uma a uma sobre a mesa, teve que segurar os braços da cadeira com força para impedir-se de desmaiar.

- Essas são as sete meninas desaparecidas desde o começo dos sequestros por volta de um ano e meio atrás.

Todos os pelos de se arrepiaram. De repente, todo o oxigênio do mundo se esgotou e os pulmões dela secaram, encolheram-se como ameixas secas. Sua voz desapareceu, covarde, fugindo de sua boca para nunca mais voltar.
Todas se pareciam entre si e em relação a . Cabelos pretos e lisos, alguns maiores e outros menores, mas nada muito discrepante. Olhos pretos, rosto magro, brilho no olhar. Três delas de descendência japonesa, quatro delas caucasianas.

- Essa é Beatriz Camargo, desaparecida há um ano e cinco meses – disse Clarissa apontando para a menina da primeira foto, com um piercing no nariz e uma tatuagem de flor no ombro direito. – Vinte e cinco anos, sumiu depois de voltar sozinha de uma festa com as amigas. Sem notícias desde então.
- Essa – disse com o dedo na segunda foto, para uma menina de batom vermelho e maquiagem pesada nos olhos, além de um alargador na orelha. – É Laura Gimenes, desaparecida há um ano e um mês. Vinte e sete anos, sequestrada após voltar do trabalho sozinha durante a noite.
- Ana Júlia Guimarães. – A terceira foto mostrava uma menina mais jovem, com covinhas e aparelho nos dentes. – Dezenove anos. Saiu da casa do namorado uma noite, há nove meses e nunca mais foi vista.

A quarta foto, a última garota caucasiana: Mirella Almeida. Óculos, rabo de cavalo, sorriso igual ao de Luan. Foi a última a sair do trabalho há cinco meses. Sem notícias desde então.
Helena Yamamoto. A primeira garota asiática. A garota que viu em uma notícia mostrada a ela pela senhora que as confundira no ponto de ônibus. Óculos, sardas e pintas por toda a pele. Vinte anos. Saiu do cursinho para nunca mais voltar.
Camila Montenegro. vira sobre ela na televisão. Asiática, vinte e cinco anos, nariz comprido, lábios finos, piercing na sobrancelha. Saiu com os amigos na noite que seu perseguidor bateu com a lanterna em sua janela. Nunca mais a viram.

- Bruna Suzuki é a mais recente – disse a investigadora apontando para a última foto, de uma menina jovem, com cabelos trançados e maquiagem preta e pesada sobre os olhos. – Desapareceu ontem à noite, saiu sem contar para os pais. Os amigos perderam-na em um certo momento e não a viram mais. Tem só dezoito anos.

Desapareceu ontem à noite.

- Todas jovens, todas com características e silhuetas parecidas. Todas sozinhas, à noite, quando desapareceram – disse a investigadora olhando para as fotos com olhos nebulosos. – Nunca vi algo assim. Não somos uma cidade grande como São Paulo ou o Rio, mas também não somos uma cidade pequena. Acontecem desaparecimentos aqui todos os dias, mas sete meninas, tão parecidas, em situações tão semelhantes...

O silêncio reinou por alguns segundos até que tivesse coragem em dizer:

- Você acha que o meu caso tem alguma relação com o delas?

Clarissa a avaliou por alguns segundos. Os olhos da assistente Sofia passavam entre as duas como se assistisse uma partida de ping pong.

- Não sei – respondeu sendo sincera. – Quando me ligou achei que foi recomendada porque sou uma das mais especializadas em casos de violência contra a mulher na cidade. Mas então vi seu rosto e... Deus, foi como olhar para as fotos delas novamente. Levei um susto. E então me conta como um homem persegue você há dois meses...

Ela se silenciou por alguns segundos, pensativa.

- Não temos nada que possa nos levar até elas. Quebra meu coração, mas quanto mais eu procuro, menos eu encontro. Seja quem for o sequestrador, se for não só um homem, mas o mesmo homem todas as vezes, ele é como um fantasma. Não há corpos, testemunhas, nada. Se existir qualquer ligação entre você e elas, então o homem que te persegue é a melhor pista que tivemos em um longo tempo.

Com um pequeno sorriso esperançoso, a investigadora completou:

- E é como você disse, seria coincidência demais que todas vocês se parecessem tanto. Uma menina desaparecida é uma coisa, duas que se parecem pode até acontecer. Três é um pouco demais, mas agora, oito meninas em perigo? Todas que se parecem, sete delas sumidas? Acho que seria esperar muito do universo.
- Acha que pode ser um assassino em série? – perguntou lembrando-se dos policiais rindo da hipótese de Clarissa no banheiro da delegacia.
- Tenho minhas teorias – respondeu ela com um olhar aguçado. – Assassinos em série geralmente possuem padrões. Tanto em como e quando agir, quanto em relação às vítimas, seja em aparência ou em comportamento. É apenas uma hipótese... Que para mim faz muito sentido.

Para também. De repente, sentiu-se cheia de uma energia corajosa e cativante. Elas estavam chegando há algum lugar. Havia esperança, uma luz no fim do túnel. Ela não estava mais sozinha.

- Como posso ajudar? – perguntou com uma voz ansiosa. Os olhos de Sofia brilharam de excitação, mas as sobrancelhas de Clarissa se franziram.
- Bem, não posso colocá-la em situações de risco – respondeu. – Não vou usá-la como isca ou algo do gênero, não enquanto há um homem à solta que foi capaz de deixar seu rosto roxo desse jeito. Mas existem outras formas de ajudar. Você disse que as mensagens cessaram desde que excluiu as redes sociais e mudou de número. Se se sentir confortável, gostaria que as abrisse de novo e permitisse que tenhamos acesso. Além disso, gostaria que tentasse atender alguma ligação dele e deixar por pelo menos um minuto, para que tentemos rastreá-la.
- Não acho sensato que volte a morar em tempo integral na casa, mas seria bom que instalasse câmeras de segurança nas portas que dão acesso à ela. Se ele voltar, poderemos ter suas imagens – continuou. – Por enquanto deixe o resto comigo e com minha equipe. Vou atrás das câmeras de segurança do seu condomínio e vou buscar interrogar seus companheiros de trabalho. Já os interrogamos para o caso de Mirella, mas às vezes as pessoas possuem informações que nem mesmo sabem que são valiosas.

Sofia escrevia tudo que era dito pela chefe em uma velocidade impressionante. A cabeça de zumbia com as milhares de informações.

- Você disse que fez uma lista das pessoas que sabiam sobre a casa ser alugada, certo? – perguntou por fim. concordou com a cabeça. – Gostaria de tê-la. Também podemos ir atrás desse detalhe. Sei que é muita coisa para assimilar, mas está tudo bem para você?

A voz de seu pai ecoou por sua mente.
Você é uma putinha fraca e covarde.

Fraca e covarde
– e ela estava correndo porta fora, carregando o que os braços aguentavam, com a testa sangrenta, marcas de punho nas costelas e seu pai às suas costas, berrando, cuspindo, humilhando-a enquanto finalmente tomava coragem para deixá-lo para sempre.

Fraca e covarde – e suas costas estavam pressionadas contra a porta, o corpo inteiro tremendo, as lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto seu perseguidor esmurrava a madeira atrás dela, exigindo que o deixasse entrar.

Fraca e covarde – e estava correndo na chuva, desesperada, eufórica, com o rosto latejando e as pernas bambas, querendo fugir, fugir, fugir, para sempre, até não poder mais, até tão longe que ninguém nunca mais poderia machucá-la.

Estava cansada de ter medo. Estava cansada de ser violentada, de novo e de novo, tantas vezes, sem parar. Mudou-se porque prometeu a si mesma uma vida nova, porque prometeu a si mesma que iria começar a viver da maneira como bem queria.
Não ia deixar com que seu perseguidor tirasse isso dela. Não mais.
Contemplando as fotos das meninas desaparecidas, disse com uma firmeza que nem sabia que possuía:

- Eu topo.

👤🔪

- Você é muito corajosa – disse Sofia enquanto a guiava até a calçada. teve que se controlar para não se encolher com suas palavras. Ah, se ela soubesse...- Falo sério – continuou a assistente como se pudesse ler seus pensamentos. – Nem todo mundo concordaria em cooperar com a polícia para pegar o próprio agressor. Teriam muito medo e prefeririam fugir.
- Tenho medo o tempo todo – admitiu parando no chão de paralelepípedo e olhando para Sofia com um olhar inseguro.
- Não te faz menos corajosa – aconselhou ela com um adorável sorriso com covinhas. – Se tem medo é porque entende a gravidade da situação. Isso te faz esperta, não covarde.

As duas se despediram e as palavras continuaram na mente de até muito tempo depois. Não sumiram enquanto esperava no ponto de ônibus e nem enquanto andava no transporte público lotado, pressionada contra estranhos, mas com a mente tão longe que pouco se importou.
Pensou que poderia se distrair na aula de defesa pessoal, mas os olhos arregalados de Catharina quando viu seu rosto lhe disseram o contrário. Havia tentado cobrir os hematomas com maquiagem, mas pelo jeito não fizera um bom trabalho.

- Que porra aconteceu com você? – perguntou a nova amiga quando as duas se aproximaram.
- Digamos que tive uma visita de um certo alguém – respondeu retirando os sapatos e deixando a bolsa amontoada com as das outras colegas.
- Você está brincando comigo, porra – murmurou Catharina ainda com o queixo caído. – O cara que te persegue te atacou?
- Você não faz ideia – respondeu começando a alongar os braços. – Apareceu na minha casa, mas consegui fugir.
- Puta que pariu! Finalmente descobriu quem ele é? – perguntou a amiga imitando seus movimentos. Seus olhos cobertos de maquiagem preta continuavam arregalados.
- Não. O rosto dele estava coberto por uma máscara.
- Puta que pariu – xingou Catharina novamente enquanto observava a professora entrar na sala. – Parece uma bizarrice de filme de terror. Ainda bem que está bem, . De verdade. Eu sabia que conseguiria dar um perdido nesse filho da puta.

Todas na sala notaram os hematomas em , mas nada disseram. É como se houvesse um pacto silencioso na sala, compartilhado por todas aquelas mulheres que conheciam a violência de perto. Ao invés de dizer qualquer coisa e, inevitavelmente, acabar por expô-la publicamente, apenas a olhavam com olhos que diziam que ela era bem-vinda em pedir ajuda e uma vez ou outra uma mão carinhosa era plantada sobre seu ombro.
A sensação de conforto que elas lhe deram permitiu que um sorriso leve crescesse nos lábios de .

- A autodefesa não trabalha apenas em como sair de situações de risco – disse a professora Ágata em certo momento. – Ela também é sobre evitar entrar nessas situações. Por isso, quero que vocês façam o seguinte exercício: todas devem tentar tocar na base das costas das colegas ao mesmo tempo que evitam ser tocadas. Quero ver quanto controle possuem sobre diferentes partes do corpo ao mesmo tempo.

Foi uma tarefa difícil. pode perceber rapidamente que era mais desengonçada do que tinha conhecimento, talvez por ser tão alta, talvez por estar lotada de dores pelo corpo todo. Conseguiu evitar ser tocada nas primeiras vezes, enquanto todas as mulheres ainda estavam tímidas em começar, mas, quando a turma se tornou um frenesi que se movimentava como um furacão pelo espaço, ela sentiu mãos às suas costas o tempo todo.
No fim, foi capaz de sorrir quando conseguiu desviar de Catharina, que vinha sorrateiramente atrás dela. Com um jogo de quadril, se movimentou como uma enguia, de maneira nada graciosa, mas foi capaz de evitar o toque.
As amigas olharam-se sorridentes e permitiu-se sentir orgulho de si mesma depois de um longo tempo sem conhecer o sentimento.
Havia esperança a final.

👤🔪

não tinha dinheiro para comprar câmeras, mas Luan e Natã sim. Seu irmão emprestou-lhe sem pensar duas vezes, não aceitando o “não” dela como resposta.

- Eu pagaria todo o dinheiro do mundo se isso significasse que você vai ficar bem – dissera quando os dois conversaram na casa dele. – Eu estava economizando essa grana para trocar de geladeira. Posso viver com sorvetes derretidos se isso significa que você não está em perigo, então pega logo o dinheiro, mulher.

Luan foi outra história. Sua ajuda viera sem qualquer aviso, pegando desprevenida. Ela havia contado à sobre a conversa com a investigadora e ele, em consequência, comentou o assunto com o amigo, que não pensou duas vezes em ajudá-la.

- Se esse filho da puta é realmente o desgraçado que pegou a minha irmã – dissera ele com olhos selvagens. – Então é melhor que o prendam logo, senão eu não respondo pelas minhas ações.

teve sorte de que o dia seguinte de sua conversa com Clarissa era feriado. Encarar seus colegas de trabalho com aqueles enormes hematomas não seria uma experiência que gostaria de ter. Como os explicaria? Poderia tentar mentir, mas Janaína juntaria os pontos rapidamente.
Pensara muito sobre contar a eles sobre, mas precisava ainda tomar coragem. Parecia a coisa certa a se fazer, já que no final eles também poderiam estar em perigo por se relacionarem com ela. Mas como abordar a situação? Torcia para que a investigadora Clarissa entregasse o assunto nos interrogatórios e a poupasse da tarefa.
Como era feriado, a levou até o shopping para que pudessem comprar as câmeras. teve que comprar três, uma para a porta da frente, uma para a da garagem e uma para a lavanderia, o que lhe limpou o bolso rapidamente. Como não comprara junto de uma seguradora ou empresa de seguros, não havia quem instalasse para ela, mas assim foi melhor. Ela não teria dinheiro para pagar de qualquer jeito.

- Não deve ser tão difícil – disse enquanto os dois voltavam para a casa dela já cansados das compras. O shopping era longe e estava lotado da forma como apenas os feriados permitiam. – É só olhar o manual de instruções.

As instruções ajudaram, mas ainda foi uma tarefa extremamente árdua. não era profissional e não tinha absolutamente nenhum conhecimento que os ajudasse na parte elétrica da instalação. O calor não ajudou. Estava tão quente que ela parecia ser capaz de se afogar no próprio suor.
Eles haviam instalado apenas a câmera da porta da frente, quando o sol começou a se pôr e o estômago de roncou alto. sorriu para ela e sugeriu:

- Que tal uma pausa para jantar?
- Não tenho nada em casa – suspirou alongando as costas e sentindo-as doer. – Nada que alimente a nós dois, pelo menos.
- Posso ir comprar comida para a gente – disse seu namorado limpando o suor da testa. Ele parecia tão suado quanto ela, mas de alguma forma conseguia ficar ainda mais atraente.
- Tudo está fechado.
- O shopping está aberto.
- O shopping – disse ela recolhendo os manuais e ferramentas do chão da varanda. – Fica super longe.
- Eu não me importo de ir – disse ele pegando o rosto dela entre as mãos e dando-lhe um beijo na testa. – Alguma hora a gente tem que jantar de qualquer jeito e meu cérebro já está parando de funcionar. Posso buscar comida chinesa.

Os olhos de brilharam e sua boca salivou.

- Yaksoba e Kung Pao? – perguntou esperançosa.
- Com os rolinhos primavera de queijo que você ama – completou com uma risada, colocando o rosto dela entre as mãos. se inclinou e deu-lhe um beijo estalado nos lábios.
- Você é o melhor – disse, antes de observá-lo subir em sua moto e partir. Recolheu a bagunça que fizeram e prendeu os cabelos com coque no topo da cabeça.

Entrou na casa e suspirou ao sentir o frescor dos corredores gelados. havia revistado todo local e afirmou que estava vazio. Verificou cada quarto, banheiro e corredor, menos a porta que não possuía a chave, que continuava trancada como sempre, então ela não se preocupou.
Deixando os cabos, caixas com as outras câmeras, ferramentas e o manual de instruções sobre a bancada da cozinha, abriu a geladeira e recolheu a água de coco gelada que ansiava beber para refrescar o calor.
Enchendo um copo, bebeu grandes goladas e suspirou de alívio ao sentir a temperatura do corpo abaixar. Deixando o copo pela metade, tirou o celular do bolso e suspirou, procurando coragem. A investigadora lhe pedira para retornar às redes sociais em uma tentativa de atrair seu perseguidor novamente. Talvez a polícia conseguisse rastreá-lo. Era um risco a se correr.
Ela repetiu isso a si mesma enquanto olhava a tela do próprio celular em suas mãos, com os dedões girando em círculos. Clicando no Play Store, começou a digitar os aplicativos que precisaria baixar novamente: facebo-

Sua visão ficou turva de repente.
Pressionando os olhos com força, piscou várias vezes em uma tentativa de clarear a visão. Funcionou no primeiro momento, fazendo com que franzisse as sobrancelhas.
Que estranho.
Voltou a digitar e encontrou o aplicativo. Quando começou a baixá-lo, sua cabeça ficou coberta de névoa.
O que estava acontecendo?
Sua mente parecia ter sido coberta de fumaça, sua visão estava tão embaçada que não enxergava um palmo à sua frente. Sua pressão havia caído?
As pernas de bambearam e ela teve que se segurar no balcão pelos braços. Seus ouvidos apitaram e ela fechou os olhos com a mente extremante confusa. Seria uma insolação? Havia tomado tanto sol...
Pontos pretos dançaram em sua visão. Ia desmaiar? Sentia-se tão fraca, com tanto frio.
Se caísse bateria a cabeça. Precisava se deitar. Onde estava sua cama? Onde ela estava?
Seu braço bateu em alguma coisa. Ela ouviu um barulho de vidro se espatifando.

Tentou fazer as pernas funcionarem. Bateu pelas paredes, as mãos espalmadas apoiando-a. Cambaleava como se estivesse extremamente embriagada, tudo ao redor girando e girando, subindo e descendo.
Não conseguia falar. Ela sabia falar? Não se lembrava. Havia algo inchado em sua boca. Seria sua língua? Ela era grande desse jeito?
Tropeçou para dentro do quarto. Caiu de joelhos no chão. Respirava de maneira ofegante, como se tivesse corrido uma maratona. Arrastou-se com dificuldade e sentiu o colchão macio debaixo do corpo. Parecia uma nuvem. Como chegara até o céu? Sabia voar? Havia morrido?
Seu estômago se embrulhou. Deus, ela iria vomitar. Oh não, não, não, não. Seu pai ia ficar tão zangado...
Com esse último pensamento, tudo se apagou. Os membros dela amoleceram e desmaiou no segundo seguinte.

👤🔪

Sonhou com naquela noite.
Estava em uma sala, vazia, com chão, teto e paredes pretas. Escura, fria, sem nada além dela mesma, congelada de pé no centro de tudo.
A voz dele apareceu antes do corpo.

- Ah, bobinha, olhe para você – dissera à alguns metros dela. – Eu adoro olhar para você.

apareceu. Do nada, à frente dela, sem explicação. Sorriu para ele, dentro do sonho. Ele estava aqui, então ela estaria segura.
Mas havia algo em sua expressão, registrado em seu sorriso. Parecia... diferente. Frio, assustador. Um sorriso debochado, como um macabro gato de Alice no País das Maravilhas. Combinava com a voz dele, que agora ela notara que não era mais quente e acolhedora.
A voz dele deu-lhe arrepios ruins pela primeira vez.

- Você é a criatura mais linda na qual já coloquei os olhos – disse ele. ouviu seus passos antes que visse se aproximar. É como se ele fosse apenas o eco dos sons que se propagavam. – Mais linda que qualquer outra. Mais linda do que ela.

Ele chegou tão perto que podia sentir sua respiração. Tentou afastar-se, mas se surpreendeu ao ver que era incapaz. Estava congelada no lugar, como uma estátua, fadada a assim permanecer por toda a eternidade.
Não gostava daquele . Sua voz não estava certa, seu sorriso também não. Algo em seus olhos brilhava em maldade e malícia, embrulhando seu estômago.
Aquele não era o que ela conhecia. O seu . Era como se tivesse sido substituído por essa versão intimidadora e macabra, naquela sala preta, vazia e fria.

- Ah sim – suspirou o assustador, pegando uma mecha dos cabelos de e enrolando no dedo. – Ela esteve na minha mente por muito tempo, bobinha. Sabia disso? A maldita me contaminou por mais que tenho orgulho admitir.

A ponta dos dedos dele tocaram sua bochecha com carinho, mas tudo que pode sentir foi aversão. Não gostava do toque dele. Não mais. Aqueles não eram os dedos de , não os que trouxeram tanto calor e conforto à ela nos últimos meses.

- E então você apareceu – disse e pode sentir o sorriso macabro em suas palavras. – E foi como respirar novamente. Coloquei os olhos sobre você e soube que estávamos destinados a ficar juntos. Soube que você era a única.

Lábios tocaram-lhe as têmporas e lutou novamente para fugir. Parecia ter perdido todo o controle de seu corpo, como se ele tivesse sido inteiramente desligado. Apenas sua mente funcionava, perdida, confusa, gritando desesperada, implorando para ter o controle de volta.

- Às vezes você me lembra dela – admitiu ele, antes de plantar um beijo em sua bochecha. quis chorar. – Com seus cabelos pretos e sua teimosia burra. Mas está tudo bem. Posso perdoá-la por isso. Não é sua culpa parecer com aquela puta maldita. Você é mais linda que ela, não se preocupe.

As mãos dele desceram de seu rosto para os ombros e deles para os braços. tentou mexê-los, para empurrá-lo para longe, mas era como se eles não existissem. Uma das mãos continuou a se movimentar e acariciou a lateral do seio esquerdo dela.
Não!

- Não estou conseguindo me contentar mais com elas – disse o macabro enquanto seus dedos apertavam-lhe o seio. tentou gritar – “Não! Me solte!” -, mas sua boca não funcionava. Seus lábios foram costurados, os dentes arrancados, a língua colada no céu da boca e a voz completamente sequestrada.

Queria vomitar. Queria chorar. Queria que ele parasse de tocá-la, pois aquele não era . Não era sua voz, não eram seus lábios, não era seu toque.

- Elas são uma boa distração quando você me irrita – continuou agora apertando-lhe o seio por debaixo da blusa. Deus, por que o corpo dela não funcionava? – Faço com elas o que deveria estar fazendo com você. Sou um homem paciente, querida. Mais do que você merece que eu seja. Mas estou cansado de esperar.

As mãos dele lhe apertaram o pescoço em uma força que a imobilizaria se já não estivesse completamente incapaz de se mover. O medo que já se alastrava em suas veias piorou. Podia sentir seu corpo ficando frio e a adrenalina passando pelo sangue e bombeando seu coração, que disparou contra as costelas.
Nunca sentira tanto medo na vida.

- Estou cansado de esperar para ter o que nós dois sabemos que é meu – disse tão próximo dos lábios dela que ela podia sentir sua respiração quente. – Mas sei que seria imprudente agir agora. Ainda tenho muito o que me divertir com você.

Por fim, ele completou:

- Mas acredito que um pouquinho não vai fazer mal.

Beijou-a com brutalidade. tentou mexer-se novamente, gritando dentro da própria cabeça. Deus, por favor, não. Por favor, não. A língua dele lambeu a boca dela e ela sabia que se pudesse abrir os lábios, vomitaria.

- Sabia que beijar você seria doce – suspirou ele, prazeroso. A mão na base de sua garganta se intensificou e ela pode ouvir novamente o sorriso em sua voz. – Acho que vou me divertir um pouco mais.

As mãos dele desceram para o botão dos shorts dela.
NÃO!
Ela precisava se mexer. Agora!
Tentou. Rezou aos céus para que conseguisse. Mas seus membros estavam pregados, seus músculos eram feitos de cimento, seus ossos de chumbo. Seu corpo pesava quatrocentos quilos e era completamente incapaz de tirá-lo do lugar.
Suas pernas não conseguiam chutá-lo. Seus braços foram incapazes de empurrá-lo. Os lábios não o morderam ou gritaram por ajuda.
Tudo que foi capaz de sentir era uma lágrima desesperada vazando de um dos olhos e escorrendo pelas bochechas.
Ele abriu o botão e o zíper. Levantou os quadris dela com violência, começou a arrancar a vestimenta jeans. Era pequena, grudou e apertou nas coxas dela graças ao suor, arranhou a pele de com dureza.
Isso não estava acontecendo. Não podia estar acontecendo. Era um sonho. Um pesadelo. Algo macabro que sua mente criara.
Deus, então por que parecia tão real?
Por favor, não permita que isso aconteça. Por favor, por favor, por favor.
Ele parou, de repente.
pode sentir as mãos fortes e não bem-vindas apertando os quadris dela com violência.

- Seu namoradinho está chegando – disse ele com tanto desprezo na voz que parecia querer cuspir em . – Acho que vamos ter que fazer uma pausa na nossa festinha.

Colocou os shorts nela novamente, com violência. Depois, aproximou-se de seu rosto e rosnou:

- Aproveite-o em quanto puder, bobinha. O jogo de gato e rato já está acabando e o gato está prestes a te devorar.

E sua presença sumiu, tão rápido quanto apareceu e sabia que, se pudesse, teria explodido em soluços desesperados.

- Capítulo 16 -

acordou vomitando.
Quando conseguiu recuperar a consciência, teve poucos segundos depois de abrir os olhos para controlar a bile que lhe subia a garganta. Foi como sair de uma névoa quente e abafada, que obstruía sua respiração e revirava seu estômago. Conseguiu apenas desviar do colchão, jogando o tronco para o lado e vomitando no chão.
Seu estômago estava vazio, então foi apenas capaz de vomitar uma água gástrica que ardeu sua garganta como fosse fogo. O latejar em sua cabeça começou. Era como se alguém tivesse pregado pregos com brutalidade em seu crânio. O corpo inteiro doía como se tivesse se exercitado por horas sem se alongar propriamente.
O que houve com ela?

- ? – gritou uma voz do corredor quando ela limpou a boca com as costas da mão e se sentou no colchão. Seus braços mal a sustentavam. – Você acordou?

apareceu na porta e arregalou os olhos, parecendo preocupado.

- Deus do céu, você está bem? – perguntou afobado, agachando-se ao lado dela. – Achei que tinha dormido de cansaço. Você teve uma insolação? Como está se sentido? Quantos dedos eu tenho aqui?

apenas conseguiu olhar para ele fixamente. Era ele. . Mas não o do sonho. Seus olhos eram quentes, suas feições amorosas, sua voz confortável, seu toque bem-vindo.
O dela.

- ... – tentou dizer, mas o choro que cresceu em seu peito a impediu. Saltou em seus braços com violência, interrompendo suas palavras. Enrolando os braços pelo pescoço de , afundou o queixo no pescoço dele e deixou as lágrimas escorrerem.
- , você está bem? – ouviu a voz dele perguntar. A pressão de sua mão espalmada em suas costas ajudou a reconfortá-la. – O que houve? Teve um pesadelo?
- Quando você chegou aqui? – perguntou ela entre soluços. Sua voz parecia tão fraca quanto ela se sentia.
- Ontem à noite, um pouco mais de uma hora depois de sair.
- Ontem à noite?! – exclamou ela o afastando para olhar em seus olhos. – Que horas são?
- Sete da manhã – respondeu ele franzindo as sobrancelhas.
- Sete horas da manhã?! – repetiu ela novamente com olhos arregalados. Sua cabeça voltou a girar pela adrenalina que subiu. – Estou inconsciente há doze horas?
- Quando cheguei você estava apagada – contou com olhos suaves e preocupados. – Não acordou de jeito nenhum. Achei que estivesse muito exausta então dormi aqui com você e estava fazendo café da manhã enquanto te esperava acordar.

A cabeça de girava como se ela estivesse rodando sem parar. Ouviu-o perguntar com delicadeza:

- Você está bem?
- Não sei – respondeu com a voz fraquinha. – Desmaiei. Eu acho. Minha mente está tão confusa. Acho que sonhei. Um pesadelo horrível, em que você estava lá, mas não era você...

Parou de tagarelar e fechou os olhos, sentindo os dedos dele passeando por seus cabelos. As mãos dela tremiam. Sua cabeça girava. Não se lembrava do sonho, apenas de , um assustador, mãos tocando-a, mãos que não queria e medo. Tanto, tanto medo.
Sua cabeça pulsava como se seu coração tivesse sido transplantado para seu cérebro.

- Vai ficar tudo bem, amor – murmurou em seu ouvido enquanto continuava o cafuné. – Vou limpar essa bagunça para você e te pegar uma água, ok? Vai ficar tudo bem.

👤🔪

A rotina seguiu estranhamente pacífica nos próximos dias, mas não foi capaz de relaxar um único segundo. Seu corpo agia como se estivesse passando por um estresse pós-traumático, deixando-a paranoica e assustada, com terríveis insônias que a impediam de dormir mais de quatro ou cinco horas por noite (quando tinha sorte).
Sentia-se estranha de voltar para casa, mesmo de dia e na companhia de . Não entendia o porquê, mas algo lhe sussurrava ao pé do ouvido dizendo que havia alguma relação com o estranho pesadelo que tivera. Daria tudo para conseguir lembrar-se dele com detalhes, como se fosse a fonte de inúmeras respostas para os mistérios que a cercavam.
Voltou a morar com após o acontecimento. Tanto ele quanto Duquesa pareciam infinitamente felizes de tê-la por perto, o que tornou tudo um pouco mais fácil.
A investigadora Clarissa cumpriu o combinado e começou a trabalhar em seu caso. Quando entrevistou seus companheiros de trabalho, descobriu por Raquel, que não conseguia calar a boca sobre o assunto.

- Fiquei chocada quando vieram pedir para depormos – contou ela enquanto todos estavam juntos, arrumando o local antes do começo do expediente. – Quer dizer, eu nem trabalhava aqui na época! Aí fiquei pensando... Talvez tenha alguma relação com aquela matéria que vi no jornal, sobre um psicopata assassino em série ou algo assim.
- Você acha que ela foi sequestrada por um assassino em série? – perguntou Carol com os olhos arregalados enquanto organizava uma pilha de livros em uma estante.

Raquel assentiu com força e parecia extremamente entusiasmada com a própria teoria.

- Faz super sentido! – exclamou olhando em volta, quase como se sentisse prazer em desempenhar o papel de detetive. – Na matéria estava dizendo que a polícia tem essa teoria de que tem um cara sequestrando várias meninas, que nem aquele cara de uns anos atrás... O “Maníaco do Parque”, sabe? Acho que foi por isso que vieram falar com a gente.
- Bem, espero que o prendam logo – respondeu Matheus parecendo bem assustado com a situação. – Parece que estamos em um filme de terror americano. E os interrogatórios não são melhores. Fiquei suando frio e nem fiz nada.
- Foi péssimo – respondeu Carol com olhos levemente arregalados. – Não consigo me lembrar nem do que comi no café da manhã, imagina onde estava em um dia específico há cinco meses.

Eles continuaram conversando, mas apenas os ouviu em silêncio. Os olhos de Janaína estavam fixos na bochecha dela e sabia que, apesar de ter feito um bom trabalho escondendo o machucado com maquiagem, sua amiga sabia que algo estava errado.

- Posso falar com você rapidinho? – disse Jana agarrando-lhe pelo braço e arrastando-a até os fundos da loja antes que pudesse responder.

Entrando na sala de arquivos, fechou a porta e encarou com uma expressão séria.

- O que está acontecendo? – perguntou. Assim que abriu a boca, continuou: - E nem pense em mentir para mim. Sei que está escondendo algo há um bom tempo. E eles podem não ter visto, mas você nunca usa maquiagem e eu notei que tem um machucado no seu rosto.

Suspirando, apenas desistiu. Sentiu a humilhação familiar que sempre sentia na escola, quando alguém lhe perguntava sobre os hematomas e arranhões que tinha pelos braços. Sabia, contudo, que dessa vez era diferente. Seu perseguidor não era seu pai, que possuía prazer em agredir a mulher e os filhos apenas. Ele provavelmente era o responsável pela morte daquelas meninas e já havia ido atrás de Janaína para poder atingir .
Contar para ela era protegê-la, então assim o fez.

- É sobre aquele homem que me manda mensagens – respondeu vendo como os olhos de Jana se arregalaram em terror.

Contou-lhe tudo, até que a garganta ficasse seca e os olhos molhados por lágrimas não derramadas. A amiga abraçou-lhe apertado quando contou do ataque que a feriu e sorriu levemente, sentindo-se amada. No fim, completou:

- Raquel está certa. Falei com uma investigadora e ela acha que ele pode estar por trás dessas meninas desaparecidas. É assustador, Jana. Todas elas se parecem entre si e eu me pareço com elas.
- Eu sabia que tinha algo bem sério sobre essa situação toda – contemplou Janaína. – Fizeram um milhão de perguntas no interrogatório e eu nem trabalhava aqui na época da Mirella. Com a Carol e o Elias foi ainda pior, já que eles a conheciam. Elias disse que tem sorte de morar na frente de um estabelecimento que tem câmeras, porque só assim para comprovar que ele não saiu de casa no dia que ela sumiu.
- Desculpe não ter conversado com você antes – disse tristemente. – Agora consigo ver que ele não era um risco só para mim, mas também para quem está à minha volta. Se eu achasse que ele era um risco para terceiros teria falado com vocês há muito tempo.
- Querida, não se culpe – disse Janaína com carinho. – Ele é um estranho que começou a te perseguir pela internet. Como poderia saber que isso tomaria essas proporções?

Elas se abraçaram novamente e sentiu um adorável calor em seu peito, como se estivesse tremendo de frio e alguém finalmente colocasse um casaco quente sobre seus ombros.

- Agora venha – disse Janaína segurando sua mão. – Ainda estamos tendo aqueles passeios escolares e se as crianças chegarem antes que a gente arrume tudo eu vou ter um ataque cardíaco.

👤🔪

O aniversário de Carol chegou em poucos dias e todos no trabalho foram convidados. Ela o comemorou em um restaurante chique dentro do shopping, na noite de sábado.
Natã emprestou o carro para que ela pudesse ir até lá sozinha, então foi o que fez. Enquanto procurava um local no estacionamento, bufou ao ver que a maioria das vagas já estava lotada. As pessoas não tinham mais nada para fazer em um sábado à noite?
Encontrou uma vaga bem afastada do restaurante, que ficava entre o shopping e o estacionamento. Quando desceu do carro, arrependeu-se instantaneamente da roupa que escolhera.
As sandálias pretas e o vestido vermelho de alcinha pareceram-lhe uma boa ideia enquanto procurava o que vestir para um aniversário em um lugar tão refinado. pareceu concordar com ela. As pernas dela ainda estavam um pouco bambas pelo beijo que ele lhe dera e com certeza havia um pequeno chupão nascendo na base de seu pescoço.
Mas seus braços arrepiaram-se pelo frio e ela tentou cobri-los com os cabelos, já que havia esquecido o casaco. Andando rapidamente, sentiu a pequena bolsa saltando ao lado do corpo enquanto corria até o restaurante.
Ao chegar, ficou levemente impressionada com o local. A garçonete bem-vestida e maquiada a levou até a mesa e olhou em volta, apreciando a luz alaranjada, as colunas gregas e os enormes espelhos.
Ao chegar, abraçou Carol com carinho e sentou-se ao lado de Elias e à frente de Janaína. Ao olhar para o cardápio, arregalou os olhos com o preço dos pratos e bebidas.

- Eu devia ter jantado antes de vir – murmurou para os amigos com o queixo caído. Ambos deram risada e Elias se inclinou para ela, com um tom de voz conspirador.
- Não olhe o preço da água a menos que queira ter um ataque cardíaco – disse tirando uma risada dela. – Vamos dividir um prato?
- É o único jeito de conseguir pagar algo aqui – ponderou . – Você gosta de massa?
- É claro, eles têm um macarrão com camarão delicioso.
- Vamos dividir – completou dando-lhe um sorriso.

A noite continuou tranquilamente. jogou conversa fora com os colegas de trabalho e com a esposa e amigos de Carol durante horas. Comeu metade do prato que, apesar de extremamente caro, era delicioso e não viu as horas passarem.
Em um certo momento, levantou-se e foi ao banheiro. Lá, esvaziou a bexiga e, ainda sentada, respirou fundo antes de mexer no celular.
Foi difícil voltar a usar as redes sociais. Toda e qualquer notificação que chegava fazia o coração de disparar. Ela vivia em um estado constante de paranoia, sensível a qualquer som e movimento brusco.
Seu perseguidor não mandara nenhuma mensagem para ela, o que a deixou aliviada e frustrada ao mesmo tempo. Precisava que ele voltasse, porque agora a investigadora Clarissa tinha acesso às suas contas e iria tentar rastreá-lo. Mas não era corajosa o suficiente para chamá-lo, então se conteve em apenas observar como seu perseguidor permaneceu estranhamente silencioso.
Até agora.
Uma mensagem dele brotou em suas notificações e os dedos dela tremiam como se estivesse sofrendo um choque térmico.
Clicou na mensagem e a leu.
Teve sorte de estar sentada, pois suas pernas não aguentariam segurá-la depois de ler suas palavras.

Você fica deliciosa de vermelho”.

Nada mais fora mandado, mas não era preciso. Ele estava ali, em algum lugar. Talvez dentro do restaurante, mascarado como cliente, talvez no estacionamento, escondido entre os carros.
Ele estava ali. Era isso que queria que ela entendesse com sua mensagem. Queria que soubesse que estava perto e escondido, passando despercebido na multidão.
Olhou ao redor como se esperasse que ele fosse saltar de algum canto escondido do banheiro. Levantou com as pernas trêmulas e se arrumou. Ainda trancada dentro da cabine, ligou para a investigadora e lhe explicou sobre a mensagem.

- Vá para casa – aconselhou Clarissa com a voz séria. – Nós estamos indo aí fazer uma varredura. Ele provavelmente já foi embora, mas não vale a pena arriscar. Saía e vá para um lugar seguro.

Você fica deliciosa de vermelho.
voltou para a mesa e recolheu a bolsa. Suas costas se arrepiaram ao perceber que a mesa deles ficava ao lado de enormes janelas que mostravam o estacionamento.
Você fica deliciosa de vermelho.
Ele havia estado ali observando-a?
Você fica deliciosa de vermelho.
Por quanto tempo?
Os amigos notaram sua expressão pálida, mas mentiu dizendo que estava mal do estômago e precisava ir para casa.

- Vou te ligar e explicar tudo, prometo – disse para Janaína que a olhava preocupada. Contaria a verdade, como havia prometido, mas não no momento. Mal conseguia pensar direito.

Você fica deliciosa de vermelho.
Elias estava com a mesma expressão no rosto e disse antes que ela pudesse partir:

- Quer que eu te leve até o carro? É melhor do que ir sozinha.

Na verdade, ela preferia. Sentia-se tão nervosa e trêmula que andar sozinha no estacionamento escuro pioraria ainda mais seus nervos.
Os dois saíram e não pode deixar de notar uma leve tristeza no olhar de Janaína ao ver como Elias pareceu alegre quando concordou em deixá-lo acompanhá-la até o carro. Fez bem em o fazer, contudo. Já eram mais de onze horas da noite e o resto do shopping havia fechado. As vagas, que antes estavam lotadas de carros, estavam vazias e escuras.

- Você está bem? – perguntou ele enquanto os dois iam até o carro dela andando por dentro das vagas vazias.
- Vou ficar – respondeu abraçando o próprio corpo em busca de conforto. – Só... preciso ficar sozinha por um tempo.
- Algo que você queira compartilhar? Talvez que tenha relação com a ligação esquisita que você me fez no meio da noite uns tempos atrás?

Ele era mais perspicaz e observador do que lhe dava crédito. Olhou ao redor dos dois e estremeceu ao ver o longo pátio vazio. O único som que ecoavam eram seus próprios passos e o som da cadeira de rodas de Elias. A luz era alaranjada, vinda das propagandas nas paredes do shopping, mas não conseguiam cobrir todos os pontos do estacionamento, deixando pequenos espaços escuros e assustadores.

- Por enquanto, não se preocupe – respondeu com um sorriso amigável e leve. Não sentia que era tão necessário contar a ele sobre tudo como era com Janaína. assumiu que, por ser homem, Elias estaria completamente fora do radar de seu perseguidor. Não era uma vítima em potencial e não estavam em um relacionamento, então também não seria perseguido como foi. – Prometo que em algum momento eu te conto.

Eles chegaram até o carro e o destrancou. Antes que pudesse se despedir, Elias mudou de assunto:

- Deixa eu te perguntar... Você gosta de comida indiana?
- Não sou muito fã – disse sendo sincera. Ele pareceu um pouco decepcionado.
- Que pena. Ganhei um jantar para dois em um restaurante indiano graças a um sorteio, mas não sei quem levar.

Uma ideia brotou na mente de .

- Você devia convidar a Janaína – disse inocentemente. – Acho que ela gostaria de ir.
- A Jana? – perguntou ele com as sobrancelhas franzidas. – Acha que ela gostaria de jantar comigo?
- Tenho certeza de que ela amaria jantar com você – respondeu ela. – Acho que você é a única pessoa que não percebeu isso ainda.

Elias olhou para ela por alguns segundos e percebeu algo em seu olhar, como se as palavras dela o fizessem finalmente entender algo. Depois, sorriu para ela com um novo brilho nos olhos e disse:

- Obrigada, Ha. Acho que tem razão. Vou falar com ela.

Os dois se despediram e entrou no carro, trancando-se dentro dele. Pelo espelho retrovisor viu a cadeira de rodas de Elias se afastar e então ligou o automóvel e dirigiu até a casa de com as mãos ainda trêmulas e as palavras de seu perseguidor ainda ecoando em sua mente.

👤🔪

- Quando um agressor nos agarra pelo pescoço – disse sua professora de defesa pessoal na aula seguinte. – É instintivo que tentemos sair atacando seus braços. Dependendo da situação pode até funcionar, mas uma blusa de manga comprida é o suficiente para que nossos arranhões percam a eficiência.

sabia bem disso. Ainda acordava algumas vezes no meio da madrugada, tremendo e suando, após sonhar que seu perseguidor a estrangulara até a morte enquanto ela lhe arranhava os braços em desespero.

- Se isso algum dia acontecer com vocês, há um lugar certeiro que devem atingir para se soltarem: o rosto. Principalmente os olhos. Não tenham dó: enfiem as unhem nos olhos dele ou dela até que te soltem. Não fiquem para ver se realmente machucaram a pessoa. Corram.

e Catharina treinaram uma na outra. Foi mais difícil para a colega: era mais alta e seus braços mais compridos. Quando foi a vez de ser a agressora, Catharina bufou frustrada ao não conseguir alcançar seu rosto.

- O que eu faço nessa situação? – perguntou à professora levantando a mão. – Não alcanço o rosto dela.
- Se isso acontecer você deve tentar virar de lado – disse ela se aproximando, mas falando para que todas escutassem. Com as mãos de ainda no pescoço de Catharina, a professora Ágata pegou nos ombros da colega e torceu seu corpo, fazendo com que ficasse com um dos ombros voltados para a frente de .
- Tente alcançá-la agora – disse e Catharina assim o fez. A mão, que antes errava o rosto de por vários centímetros, tocou a palma no centro de seu nariz, os dedos tocando os olhos.
- Isso diminui a distância entre vocês – explicou. – Assim pode tocá-la com mais facilidade. Outra tática é levantar as mãos e bater com os cotovelos por cima dos braços da pessoa. Isso a obriga a dobrar os próprios membros por causa da dor e pode fazer com que soltem vocês.

Elas tentaram a tática e sentiu-se cada vez mais confiante em si mesma. Podia ver a mesma coisa na amiga, que tinha olhos mais brilhantes do que no primeiro dia de aula.

- Mas lembrem-se – continuou Ágata. - Não quero ninguém ficando para ver como o agressor está depois que ele ou ela soltarem vocês. Fujam. Gritem. Não continuem ali.

A aula acabou algum tempo depois e se despediu de Catharina. Sentada na recepção da academia, esperou por , que sempre vinha buscá-la, já que as aulas eram noturnas.
E rápido e inesperado, como cair no sono, seu perseguidor mandou-lhe um sinal de vida como da última vez.
“Número Privado” brilhou em sua tela e apertou o aparelho com força.
Rapidamente correu até um dos banheiros e trancou a porta. Com um suspiro, atendeu o aparelho e o colocou no ouvido. Precisava que ele ficasse o máximo de tempo possível na ligação.
Você consegue, você consegue, você consegue.

- Alô?

O outro lado da linha era silencioso como sempre.

- É você, não é? – perguntou engolindo seco. Ele não a respondeu. – Como conseguiu meu número novo?

Continue o enrolando. Fale sobre qualquer coisa.

- Algum dia vai me dizer quem você é? Algum dia vou saber por que faz todas essas coisas?

Silêncio.

- Tenho tantas perguntas. Quem é você? Por que faz isso comigo? Como descobriu meu número? Meu endereço? Como tem acesso à minha casa?

Ela falava quase mais com si mesma do que com ele naquele ponto.

- Por que me liga se nunca diz nada? Por que eu? Eu só... não entendo.

Tentou manter a voz calma e acolhedora. Queria gritar, xingá-lo, chorar em desespero. Mas manteve-se calma, como se seu pai estivesse ali, berrando em seu rosto, cuspindo em sua pele, apertando-lhe os braços. Sentiu-se novamente na pele que criou para si mesma, na amável e silenciosa, tranquila e acolhedora. No papel que precisou interpretar para sobreviver por anos.
Não queria mais ser aquela menina, mas sabia que, naquele momento, era o que precisava para que ele permanecesse na linha.

- Você me viu no restaurante, não viu? Falou sobre meu vestido vermelho. Eu não vi você, eu nunca vejo você. – Uma risadinha descontrolada e desesperada escapou por seus lábios. – Às vezes você parece algo que criei na minha cabeça. Parece até um fantasma.

A respiração dele mudou. Isso a encorajou a continuar.

- Me deu um baita susto o dia que apareceu na minha casa, mas houve um momento que... Não sei. Talvez seja algo da minha cabeça. Enquanto me atacava eu quase tive certeza de que você só queria me assustar.

A respiração ficou mais alta, como se estivesse correndo uma maratona.

- É por isso que faz isso, não é? Sente prazer em me ver assustada.

Ela ouvira... Um gemido?

- Mas por quê? O que tem de tão especial nisso?

Um gemido com certeza.
Ele estava gemendo do outro lado da linha.

- Por que eu? – não conseguia mais controlar a própria voz. Sabia que começava a soar desesperada e qualquer um que passasse do lado de fora seria capaz de ouvir seus apelos trêmulos e raivosos. – Por que sente prazer em me ver assustada?

Outro gemido. Tão sexual que ela teve dificuldade em engolir saliva.

- Por que você... O que...

Não conseguiu terminar a frase. O próximo som que ouviu a calou.
O gemido final. Alto, cru, carnal.
O tipo que atravessava a garganta de ], que atravessava a garganta dela, quando gozavam.
Deus, o que ele estava fazendo do outro lado da linha enquanto ela falava?
desligou a ligação em um susto. Sentiu-se suja de repente. Imunda. Queria vomitar, mas se segurou. Queria chorar, mas controlou as próprias lágrimas. Em troca lavou o rosto e a nuca com a água fria da pia e tentou controlar a própria respiração.
Olhando novamente para seu aparelho, foi capaz de permitir que um sorriso atravessasse seus lábios. Ali, brilhando e escancarado para ela, estava o tempo de duração da ligação.
Dois minutos e trinta e sete segundos.
Provavelmente o suficiente para rastreá-lo.
Um passo à frente para finalmente recuperar o controle de sua vida.

- Capítulo 17 -

teve notícias assustadoras na segunda-feira de manhã.
Elias não apareceu para trabalhar naquela manhã, o que era incomum. No tempo que trabalhou ali não o viu faltar um dia, mesmo quando estava doente. Quando viu que Janaína parecia abatida, sentiu os instintos se atiçando.

- Onde está o Elias? – perguntou colocando a bolsa dentro do armário nos fundos da biblioteca.
- Não ficou sabendo? – perguntou a amiga. – Ele foi atacado depois do aniversário da Carol.
- O quê?! – exclamou arregalando os olhos. - Atacado? Mas... Como...
- Ele voltou depois que te acompanhou e resolveu ir embora por volta de uma hora e meia depois. Estava esperando o Uber dele fora do shopping quando um cara apareceu do nada e o agrediu.

só foi capaz de ficar em silêncio, cobrindo a boca com uma das mãos. Seus instintos gritavam para ela. Havia algo mais ali. Algo que ninguém estava percebendo, ela inclusa.

- Ele me disse que, como foi fora do shopping, não tinha nenhuma câmera ou testemunha. O cara apareceu do nada, jogou ele para fora da cadeira de rodas e o agrediu. Depois deu o fora.

Janaína sacou o celular e mostrou fotos que Elias havia mandado para ela ao explicar o que acontecera. Seu rosto possuía um corte na boca e um hematoma roxo na bochecha, muito parecido com o que já havia sumido do rosto de .

- Ele fez algum boletim de ocorrência?
- Não sei – suspirou Janaína com olhos tristes. – Disse que o Uber chegou em seguida e o ajudou. Foi para a casa e está se recuperando. Eu o convenci a não vir hoje, você sabe como ele é.
As duas se olharam em silêncio por alguns segundos.
- , você acha que... Que isso pode ter algo a ver com o seu...
- Sim – respondeu com precisão. – Certeza absoluta.

Sacou o próprio celular e ligou para a investigadora Clarissa com uma rapidez impressionante. Ela atendeu após alguns toques.

- Investigadora Clarissa falando.
- Oi! É a – disse com a voz agitada. – Eu preciso falar com você urgente. Algo importante aconteceu, tem como nos encontrarmos?
- Se você conseguir correr para cá, seria ótimo. Eu também tenho algumas coisas para discutir com você.
trocou olhares com Janaína.
- Ir aí agora? – perguntou. Jana assentiu para ela com firmeza e entendeu que ela a cobriria. – Tudo bem, estou a caminho.

Agarrou seus pertences com rapidez e correu para fora da biblioteca. Depois, conseguiu pegar rapidamente o ônibus que precisava e foi até a delegacia onde a investigadora trabalhava.
Se encontrou sentada à frente dela quarenta minutos depois. Suas mãos suavam e seu coração estava disparado, mas parecia encontrar-se naquelas situações em que tudo trabalhava no piloto automático. Se a ficha de que Elias, seu primeiro amigo ali, fora agredido pro causa dela, caísse ali e agora, ela não conseguiria suportar.
Precisava lidar com tudo isso antes e seu cérebro sabia disso. Deixaria para lidar com os sentimentos de angústia, medo e raiva depois, quanto tivesse tempo para surtar.

- Se importa de discutirmos o meu tópico primeiro? – perguntou Clarissa arrumando uma pilha de papéis na mesa. A assistente Sofia sorria para com gentileza.
- Acho que tudo bem – respondeu imaginando o que seria tão importante assim.
- Bem, você se lembra do que conversamos da última vez, certo? – perguntou a investigadora colocando as fotos das meninas desaparecidas em ordem de sequestro sobre a mesa.
- Cada detalhe – respondeu e era verdade. Nunca mais seria capaz de esquecer o rosto e o nome delas.
- Eu andei pensando muito no seu depoimento e fiquei pensando em como encaixá-la nessa história toda – ponderou Clarissa. – Até que percebi uma coisa.
Ela pegou uma folha de papel em branco e a posicionou na mesa.
- Vamos fingir que essa folha é você. Você disse que se mudou há cinco meses, certo? – concordou com a cabeça. – Uma semana depois do desaparecimento da quarta vítima, Mirella.

Ela escorregou a folha em branco para o lado da foto de Mirella, separando-a das últimas três vítimas. De repente, algo se encaixou.

- Coincidentemente – disse a investigadora em um tom de voz que entendeu que ela não acreditava que era uma coincidência. – Você aparece justo na quebra de etnia entre as meninas.
As duas contemplaram as fotos por alguns minutos.
- Você conhece o caso do Maníaco do Parque? – perguntou Clarissa de repente.
- Não muito – respondeu . Ela era muito nova quando aconteceu, em 1998.
- O acusado, senhor Pereira, ficou conhecido como Maníaco do Parque porque era onde ele levava as vítimas dele em São Paulo. Ele as abusava sexualmente, assassinava e escondia os corpos por lá. Mas esse não é meu ponto.
Olhando seriamente para , continuou:
- O senhor Pereira, como outros assassinos em série, possuía um tipo preferido ao escolher as suas vítimas. Todas as mulheres possuíam idades semelhantes, cores de pele semelhantes, penteados semelhantes, rostos semelhantes.
- Como o meu perseguidor – contemplou .
- Se ele for o homem que as sequestrou, sim, como ele – disse Clarissa. – O que estou tentando dizer é que me perguntei por um longo por que a etnia das vítimas mudou... Mesmo que elas se pareçam bastante, não é comum que um assassino em série que demonstra uma preferência física de repente mude a etnia das vítimas assim de repente.

Um arrepio desceu pela espinha de . Naquele momento, ela realmente entendera onde a investigadora estava tentando chegar.
E sentiu-se extremamente enjoada.

- E então você aparece, com um perseguidor que passa a te perseguir apenas algumas semanas antes da quinta vítima, sendo extremamente parecida com o resto das meninas... E com descendência japonesa. – As bochechas da investigadora se avermelharam pela adrenalina que a cobriu. – Acho que o perseguidor, se for quem sequestrou essas garotas, mudou a etnia por sua causa.
não conseguiu responder. Os olhos de Sofia estavam arregalados como pires.
- O senhor Pereira atacava mulheres parecidas com a ex-namorada. Isso é comum entre assassinos em série, usarem terceiros para punir de forma figurativa alguém da qual tem rancor. E eu acredito que é o que houve com você. Acho que esse homem tinha alguém em mente, outra obsessão e a trocou por você. Ocasionou de vocês serem coincidentemente parecidas, mas com etnias diferentes.

permaneceu silenciosa por um tempo. Sofia teve que buscar um copo de água com açúcar para que ela parasse de tremer. Quando finalmente pode se acalmar, percebeu que uma parte de si estava feliz de finalmente estar recebendo as respostas que tanto buscava.
Algo fazia sentido. Era extremo e assustador, mas era uma resposta e ela se agarrou a esse pensamento para manter a calma.

- Não sei o que pensar sobre isso, o que fazer...
- Você não precisa fazer nada – disse a investigadora com olhos maternais. – Estou te deixando a par das minhas teorias porque acredito que talvez isso faça você lembrar de alguém ou de alguma coisa que nos ajude. Fora isso, apenas fique segura. Nós lidaremos com o resto.

contou-lhe sobre Elias em seguida, o que pareceu deixar Clarissa preocupada. Anotando algo em seu bloco de notas, ela arrancou a página em seguida e entregou à Sofia.

- Vamos tentar conversar com ele sobre o que aconteceu. Acho que foi muito prudente em me contar sobre isso. Faz todo sentido, principalmente porque seu agressor te mandou uma mensagem afirmando estar por perto.

por fim contou sobre a ligação do dia anterior, na academia e ficou feliz ao ver a excitação de investigadora, que disse que ia entrar em contato com a operadora e buscar rastreá-lo imediatamente. Elas conversaram mais um pouco até que sentiu a exaustão abatê-la. Era cedo ainda, provavelmente horário do almoço, mas as informações que recebera deixaram tão emocionalmente exausta que queria esconder-se embaixo das cobertas por dias seguidos.
Se despediu, mas antes que pudesse sair pela porta, Clarissa a chamou uma última vez e disse:

- Se puder, pode pedir para o seu namorado entrar em contato comigo? Ainda não conseguimos entrar em contato com o irmão dele. O telefone que ele deu está desativado e ele se mudou do endereço que foi passado. É um pouco estranho na verdade, não encontramos nada que nos levasse a ele. É como se tivesse sumido da face da terra.

🔪👤


A sorte começou a agir a favor de com o acontecimento da ligação, mas tornou-se melhor amiga dela no fim daquela semana.
Natã ligou para ela inesperadamente em seu horário de almoço e atendeu com um sorriso.

- Oi!
- Oi, Primaverinha, como você está? – respondeu ele.
- Bem e você? – ela disse.
- Tudo certo! Teria como você me fazer um enorme favor? Meu carro deu um leve problema ontem e eu deixei em um mecânico aí perto de onde você trabalha, mas não vou conseguir buscar hoje e preciso muito dele para ir trabalhar amanhã.
- Quer que eu busque para você? Que horas isso seria?
- A mecânica fecha às dezoito horas.
- É um pouco apertado para mim – respondeu ela com os lábios franzidos. – Meu turno acaba às dezoito em ponto, mas estamos sempre saindo mais tarde por causa da bagunça que anda ficando por aqui.
- O mecânico é meu amigo, posso pedir para ele deixar o carro na rua e levar a chave para você. Pode ser?
- Para mim está tranquilo! Aí vou até o seu apartamento e você me deixa na casa do .

Eles se despediram e terminou de almoçar. O resto do dia foi normal, apesar de caótico. Era o último dia que receberiam as crianças e ela, apesar de adorá-las, não pode deixar de suspirar aliviada. Ainda podia sentir a frustração de tentar arrancar o pirulito que uma delas colara sem querer em seu cabelo.

- Finalmente é o último dia – disse uma voz tranquila atrás dela. Elias apareceu com um sorriso amigável e se escondeu com ela na seção adulta, onde as crianças não eram permitidas. – Eu amo crianças, mas sinto falta de como aqui era tranquilo sem elas.
- Algumas idades são melhores que outras – ponderou . – A turma do quinto ano não foi tão ruim.
- Em compensação a do sexto... – ele fingiu que um arrepio havia descido por sua espinha.

riu, mas logo ficou séria. Seus olhos caíram sobre os machucados no rosto dele, melhores que os das fotos, mas ainda presentes. Ele notou o olhar dela e suspirou.

- Ha, já disse que não tem porque fazer essa cara – disse com um sorriso suave. – Não é sua culpa. Eu estou bem.

Ele havia ficado a par da história depois que a investigadora Clarissa entrou em contato com ele e, como já era esperado, foi tranquilo e gentil sobre isso. O típico Elias.
Ela abriu a boca para responder, mas o barulho da porta da frente chamou a atenção dos dois. Um homem vestindo um uniforme de mecânico entrou e correu até ele.

- Você deve ser a ! – disse ele entregando-lhe os documentos do carro e a chave. – Seu irmão me disse que eram parecidos.
- Alguns diriam até gêmeos – brincou ela pegando os objetos na mão. – Obrigada por nos fazer esse favor, foi muito gentil da sua parte.

O resto do dia passou antes que percebesse. Ela e Elias não falaram mais sobre o ataque que sofrera, mas, apesar de seus olhos gentis garantirem que ele estava bem, ela não podia parar de se sentir culpada sobre tudo.
Quando se deu conta, estava trancando as portas da biblioteca e se despedindo de Janaína, que havia sido resignada a arrumar tudo após o expediente com ela. O sol já havia se posto e as ruas estavam iluminadas pelos postes nas calçadas.

- Tem certeza de que não quer que eu a acompanhe? – perguntou a amiga. – Está escuro.
- Consigo ver o carro daqui – respondeu prendendo os cabelos em um rabo de cavalo. – E os outros comerciantes ainda estão na rua. Não quero atrasar você ainda mais.
- Amiga, estou de carro – respondeu Jana. – Não é incomodo. Sério. Vou com você.

Foi uma caminhada de no máximo dois minutos. O carro estava na esquina da quadra seguinte, na frente da mecânica fechada. o destrancou e abraçou Janaína com força.

- Obrigada por se preocupar – murmurou nos cabelos da amiga.
- É meu papel – brincou Jana com um sorriso nos lábios. Depois, despediu-se e permaneceu ali, na calçada, até ver ao longe Janaína entrando no próprio carro e indo embora.

Entrou no carro de Natã e trancou as portas. Colocando a bolsa no banco do passageiro, ajeitou o banco e os espelhos e deu partida no carro. Enquanto saía percebeu que um carro preto, estacionado há alguns metros e com janelas extremamente escuras, também foi ligado.
dirigiu por alguns minutos, pegando a avenida principal. O apartamento de Natã ficando um pouco afastado do centro, mas não tão quando o de , que era quase do outro lado da cidade.
Quando parou no sinal vermelho, percebeu, pelo espelho retrovisor, que um carro preto estava atrás dela, mesmo que suas laterais estivessem livres. Já passara o horário de pico e poucos carros se encontraram no centro da cidade.
O sinal se abriu e ela continuou dirigindo. Deu seta para a direita e entrou em uma esquina. O carro atrás dela também assim o fez.
Achou que ele provavelmente queria ultrapassá-la, então direcionou o carro lentamente para o lado, dando-lhe passagem. O motorista, contudo, apenas fez o mesmo movimento que ela e o carro preto continuou alinhadamente atrás do dela.
Algo apitou dentro de . Era o mesmo carro que estava estacionado perto da biblioteca? Parecia tão familiar...
Entrou em uma rotatória, deu seta para entrar na primeira saída e viu como o carro fez o mesmo. Não entrou, contudo, e ofegou ao ver que o motorista atrás dela fez o mesmo.
Ele estava seguindo-a?
Entrou em uma saída de último segundo e suspirou ao ver que o carro preto continuou na rotatória. Suspirou aliviada, mas o sentimento durou pouco tempo. O carro retornou rapidamente, saindo da rotatória e acelerando até que a alcançasse.
Ele estava seguindo-a!
É ele, sussurrou uma voz em sua mente. Você sabe que é ele.
Tentou olhar melhor para o carro, mas os faróis dele estavam tão altos que apenas queimaram as retinas dela. Os vidros eram extremamente escuros e ela não conseguia ver a placa, mas algo formigava dentro dela. Ela conhecia aquele carro de algum lugar...
Acelerou, tentando despistá-lo. Tentou não entrar em pânico enquanto pensava no que fazer. Não podia ir até a casa de Natã, o levaria direto para lá. Talvez conseguisse despistá-lo ou alguém na rua poderia notar que algo estava errado.
Entrou sem avisar em uma esquina, um pedestre na rua a xingou. Ele continuava atrás dela. Acelerou ainda mais, ultrapassou o sinal vermelho, entrou em esquinas sem padrão e explicação.
Bufou furiosa ao ver que ele continuava ali, colado na traseira dela. Entrou desesperada em uma rotatória, quase colidindo com uma moto que buzinou furiosamente para ela. Não teve tempo de pedir desculpas, rezando para que ninguém se machucasse.
Seu perseguidor ainda estava lá, mas suspirou ao ver que havia alguns carros entre eles agora. Um plano surgiu em sua mente e ela sorriu ao ter que parar no sinal vermelho.
Esperou. O sinal abriu, mas ela não se mexeu. Continuou parada atrapalhando o trânsito, com a mão na embreagem, esperando o momento certo. Os carros atrás começaram a buzinar, incomodadas.

- O sinal tá’ aberto, dona! – gritou o motorista do carro atrás dele, colocando a cabeça para fora da janela. – Anda logo!

fingiu estar tendo problemas em sair com o carro. As buzinas pioraram, começara a chover, as gotas atrapalharam sua visão. O sinal ficou amarelo e ela contou.
Um, dois, três.
Saiu com o carro, no segundo exato que viu o vermelho voltar a brilhar. Os carros atrás dela a xingaram e buzinaram, enfurecidos, mas ela sorriu, observando pelo espelho retrovisor como o carro de seu perseguidor ficou preso atrás de outros, impedido de seguir.
Ela o venceu dessa vez.
Rondou ainda por mais quinze minutos até ter certeza de que ele não a encontrara novamente. Depois, dirigiu rapidamente até Natã e buzinou loucamente no portão do prédio dele.
Ele apareceu na janela que dava para a rua e gritou:

- Que foi? Para que esse desespero?
- Abre o portão! RÁPIDO! – berrou ela de volta, colocando a cabeça para fora da janela e olhando ao redor nervosamente. A chuva caiu sobre ela e molhou seus cabelos. Ele assim o fez e ela estacionou na garagem com tanta brutalidade que quase bateu em outro carro.
- , o que está acontecendo? – perguntou Natã quando chegou, vindo pelo elevador. Ela o abraçou apertado e suspirou ao sentir seu perfume familiar e reconfortante.
- Tinha um carro me seguindo – murmurou ainda olhando em volta, mesmo sabendo que estava segura dentro da garagem.
- O quê?! – exclamou Natã com olhos arregalados, segurando-a pelos braços. – Como assim?
- Um carro preto me seguiu – contou um pouco sem ar. – Eu consegui despistá-lo depois de alguns quilômetros, mas foi assustador. Era ele, Natã. Eu tenho certeza. E foi tão estranho porque eu tenho certeza de que conheço o carro em que ele estava. O farol estava muito alto para que eu pudesse ver a placa, mas era preto e-

Parou de falar abruptamente.
Algo em seu cérebro estalou e uma epifania a encobriu, quase como uma iluminação divina. De repente, ela sabia de onde conhecia aquele carro.

- Me leva para casa – disse rapidamente, jogando as chaves para Natã e começando a contornar o carro.
- O quê? Agora? – disse ele confuso.
- Agora! – esbravejou ela entrando no banco do passageiro. Tremia demais para dirigir e precisava que ele fosse mais rápido.

Seu irmão não hesitou em obedecê-la e saiu com o carro da garagem. Ao entrar na rua, disse:

- Não sei onde mora.
- Não está me levando para o – respondeu ela seriamente. – Quero me leve para o meu condomínio.
- Mas pensei que você não ia mais-
- Eu explico tudo depois! – gritou ela nervosa. – Eu juro. Mas agora preciso que você vá para lá o mais rápido que puder.

Natã levou as palavras a sério e antes que percebesse, estavam na rua de casa. mal esperou ele parar o carro e saltou para fora, enfiando os sapatos na água da chuva que descia pelo asfalto como uma cachoeira.

- ! – ouviu seu irmão gritar, mas não lhe deu ouvidos. Correu até a portaria e bateu freneticamente na janela da cabine do porteiro.
- Seu João, sou eu, a ! Abra por favor!
- Jesus Cristo, menina – disse ele com um tom de voz censurador. O ajudante, Henrique, também estava lá dentro com olhos arregalados. – Que baita susto você nos deu.
- Preciso ver as gravações da câmera de segurança – ofegou ela sentindo as roupas encharcarem debaixo da chuva. Natã apareceu atrás dela e assistiu a irmã silenciosamente. – É muito importante! Por favor!

O porteiro abriu a cabine e os gêmeos entraram. O local ficou extremamente apertado, mas não se importou. Passou três dias para o porteiro: quando recebeu o CD com músicas assustadoras, quando seu perseguidor bateu em sua janela e quando a agrediu na garagem.
Quando João selecionou as três gravações, se sentou em frente a tela e os três homens ficaram atrás dela, olhando-a atentamente.
Assistiu a primeira gravação com rapidez, pulando para o horário próximo ao acontecimento. Clicou, clicou, clicou...
E, de repente, lá estava.
O carro preto passando pela portaria, abrindo a cancela automaticamente.
Pulou para a segunda gravação. Fez a mesma coisa. Suspirou.
O mesmo carro preto entrou.
Terceira gravação. Nem ao menos se surpreendeu.
Lá estava ele novamente.
Entrando tranquilamente, saindo apressadamente. Ambas as vezes abrindo a cancela automaticamente, sem falar com ninguém. No dia do CD entrou dez minutos antes de dar a ela e saiu cinco minutos depois. Nos outros dias permaneceu um tempo bem mais longo, mas sempre partiu assim que desaparecia da casa dela.

- Esse é...? – perguntou Natã quase lendo os pensamentos dela.
- O carro que me perseguiu hoje – completou ela com os olhos fixos na tela.
- do céu – exclamou Natã com um sorriso brotando nos lábios. – Você o pegou!

As palavras a acertaram como uma chuva de tijolos e lágrimas de alegria queimaram em seus olhos.

- Meu Deus – suspirou ela dando uma gargalhada que não conseguiu segurar. Parecia um sonho, bom demais para ser verdade.

Deu zoom na gravação e a pausou. Observando a placa do carro, brilhando claramente na tela, sorriu ainda mais e não pode deixar de murmurar para si mesma:

- Eu te peguei, seu filho da puta.

- Capítulo 18 -

- Posso te fazer uma pergunta? – murmurou a voz quente de em sua nuca, enquanto os dedos acariciavam os braços, causando-lhe pequenos arrepios.

se voltou para ele, com o corpo nu coberto pelos lençóis brancos e macios. Seus rostos ficaram próximos e ela o olhou com expectativa, esperando que falasse.

- O que a fez vir para cá? – perguntou tirando uma mecha de cabelo de seu rosto e o colocando atrás da orelha. – Digo, o que levou você a finalmente se mudar da casa do seu pai, depois de todos esses anos?

franziu as sobrancelhas levemente, surpresa pela pergunta e avaliando como respondê-la. Ela se perguntou isso por longos meses, principalmente nas noites silenciosas e solitárias ou em todos os momentos que teve pequenos gatilhos graças a maneira como era tratada.

- Foi por uma besteira, na verdade – murmurou ela com uma risadinha descrente. – Sempre que penso sobre isso, mais ridículo parece. Já passei poucas e boas nas mãos do meu pai. Já fui agredida, xingada, humilhada, maltratada, ameaçada. Mas o dia que o deixei foi por uma razão tão, tão...

Ela ficou silenciosa por alguns segundos, buscando a palavra certa.

- ...Boba – completou. – Se comparar com tudo que ele já nos fez, com tudo que sei que é capaz de fazer. Depois que Natã foi embora para a faculdade, há seis anos, meu pai ficou pior do que jamais o vi. Minha mãe tinha morrido, meu irmão o deixado, então toda a raiva dele era descarregada em mim. Se havia algum problema no trabalho, eu devia falar mais baixo e aprender o meu lugar. Qualquer problema no banco, eu era uma pirralha ingrata sanguessuga, mesmo que eu estivesse procurando um emprego que nem louca para conseguir ter alguma independência dele. O carro quebrou? Provavelmente usei escondido e a culpa era minha. A pizza demorou para chegar? Eu devia ter ligado mais cedo ou talvez feito o pedido errado, já que não era nem um pouco esperta.

Os dedos gentis de , passeando por seus fios, ajudaram-lhe a acalmar os pensamentos. Seu coração batia forte, mas encontrou força dentro de si mesma para enfrentar as memórias que passavam em sua mente como se assistisse à um filme.

- Não tinha passado na faculdade, como você sabe e ele me convenceu que fazer cursinho seria um desperdício de dinheiro, já que com certeza não passaria. As coisas começaram a melhorar depois de um ano, quando consegui um emprego de garçonete. O salário era pequeno e a carga horário absurda, mas me obrigava a passar horas e horas longe do meu pai, trabalhando tão duro que as vezes eu até esquecia que ele existia. Sinceramente? Só isso fazia valer a pena. Meu pai sempre acabava pegando parte do meu dinheiro sem pedir, mas eu consegui juntar algumas economias e isso foi me dando esperança, sabe? Podia pagar um curso técnico ou uma faculdade particular.

Um pequeno sorriso brotou nos lábios de e ela viu como ele pareceu orgulhoso dela. Deu-lhe um beijo casto nos lábios antes de continuar.

- Papai foi promovido no começo do ano passado e tudo mudou. Me pegou tão de surpresa que era como se eu estivesse presa dentro de um sonho. Ele começou a trabalhar mais com o que gostava e a ganhar um salário bem melhor. Isso melhorou o humor dele de uma forma que eu nunca vi antes e, de repente, eu morava com um homem completamente diferente. Ele ainda só gastava o dinheiro dele com ele e nunca tivemos reais momentos pai e filha, mas as surras acabaram, assim como os gritos, os xingamentos, as ameaças. Ele apenas gastava o tempo vendo televisão ou saindo com os amigos e eu finalmente descobri o que era viver em paz.

Os olhos dela ficaram marejados conforme as memórias a invadiram.

- Paz de verdade, entende? Sem gritos, sem machucados, apenas silêncio e momentos em que eu podia tomar banho pelo tempo que eu quisesse ou descansar na minha cama por longas horas. Os meses que se seguiram foram incríveis e eu realmente acreditei que ele havia se transformado em um homem novo. Só percebi que estava errada no dia que parti, cinco meses atrás. Ele me mandou pedir uma pizza e eu me esqueci qual era o telefone do lugar que sempre pedíamos, então perguntei à ele. Em resposta ele gritou: “Puta que pariu, , eu sei lá! Procura essa merda na internet, porra! Ou você é tão burra que nem isso consegue?”.

passou a lhe acariciar a bochecha e permaneceu silenciosa, reconhecendo a dor e a humilhação que surgiram em seu peito.

- Tive uma epifania com aquilo. Foi como um gatilho, como se eu estivesse esticando um elástico e ele de repente estourasse e batesse direto na minha cara. Papai não tinha mudado. Ele nunca ia mudar. Não importava quanto tempo tivéssemos de calmaria, ele sempre, em algum momento, voltaria a ser o que era. E eu havia descoberto o que era ter paz, eu finalmente sabia o que era uma vida normal, sem gritos e sem abuso e me recusei a voltar para o fundo do poço em que vivi toda a minha vida. Então me levantei de onde eu estava – continuou com os olhos nebulosos, distantes, como se estivesse há quilômetros de distância. – Fui até o meu quarto e enfiei tudo que eu podia em uma mochila e uma mala. Peguei tudo que pude imaginar que era necessário: sapatos, casacos, meu notebook, meu celular, meus livros e decidi, naquele momento, que eu ia embora.

Seu pai percebeu isso também. não sabia se foram as malas ou o olhar no rosto dela, sério e determinado como ele nunca havia visto antes, mas quando a viu, ela sabia que ele sabia que nunca mais iria voltar.

- Ele ficou puto – contou em um sussurro. – Gritava descontrolado, me chamando de ingrata, dizendo que eu merecia uma surra por desafiá-lo dessa forma. Partiu para cima de mim, bateu minha cabeça contra a parede e me socou nas costelas. Mas, pela primeira vez, eu não me encolhi e o esperei terminar. Eu o empurrei com uma força que, sinceramente, pegou nós dois de surpresa e corri para fora da casa. Ainda posso ouvir ele me chamando de putinha fraca e covarde.
- Deus, meu amor – suspirou beijando-lhe a testa. – Eu tremo de raiva só de pensar em tudo que você já passou. E pensar que agora você tem que lidar com aquele filho da puta te perseguindo.
- Confie em mim, se tem alguém revoltado com a situação toda sou eu – respondeu com uma risadinha cansada. – Mas nunca estive tão esperançosa. Eu fiquei muito amiga da assistente da investigadora, a Sofia e ela sempre acaba me passando algumas informações por debaixo dos panos. Disse que eles estão conseguindo avançar no rastreamento da ligação e da placa do carro e que é só uma questão de tempo.
- Amor, isso é incrível – disse com um sorriso enorme e genuíno.
- Eu sei! Estou tão feliz – respondeu ela com o mesmo sorriso aberto. – A investigadora Clarissa não pode me contar os detalhes da investigação, ela já ultrapassou os limites em algumas coisas que me confessou e não quero colocá-la em problemas. Graças a Deus, a Sofia acaba me dizendo tudo que pode. Ela sabe que é importante para mim ficar sabendo, mesmo que isso possa a prejudicar.
- Se eles descobrirem quem ele é, ela vai te contar?
- Provavelmente. Quer dizer, se descobrirem eles vão me contar com certeza, mas acredito que ela acabaria me avisando antes de todos, principalmente se achar que posso estar em perigo ou algo assim. Ela é uma ótima amiga.

a distraiu com beijos doces e quentes e arrepiou-se ao sentir suas mãos serpenteando pela cintura dela, pressionando-a até que tivesse que apertar as coxas juntas, sentindo o próprio calor crescer.
A conversa foi esquecida por enquanto.

🔪👤

Alguns dias depois, retribuiu-lhe a pergunta.

- Posso te perguntar uma coisa que sempre quis saber? – disse ela em uma noite, enquanto os dois faziam pipoca e se preparavam para assistir um filme.
- O que quiser – respondeu regulando o tamanho do fogo embaixo da panela.
- Por que você e o seu irmão não se dão bem?

A pergunta o pegou levemente de surpresa. pode notar isso pela forma como seus ombros ficaram mais rígidos de repente. Com os olhos focados na panela, enquanto despejava o milho da pipoca, começou a falar.

- Sendo sincero, eu me pergunto isso desde que me entendo por gente – disse ele com uma voz suave e olhos levemente tristes. – Thomas sempre foi... Uma pessoa difícil. Nosso pai se divorciou da mãe dele quando ele era muito pequeno e ele morou com ela até ter por volta de uns cinco anos. Eu não a conheço, mas minha mãe me contou um pouco sobre ela. Era muito relapsa com ele, deixava-o sozinho, nunca foi presente, as vezes Thomas passava fome porque ela esquecia de alimentá-lo. Nosso pai morava em outra cidade, onde conheceu a minha mãe e acho que as vezes até esquecia que Thomas existia.
- Pobrezinho – murmurou sem conseguir se conter. Ela conhecia o sentimento de solidão, principalmente quando era fruto de uma pessoa que devia amar e cuidar dela.
- Ele veio morar com a gente quando eu nasci – contou encostando-se no balcão que os separava, assim como a cozinha da sala. – Sempre pensei muito sobre isso, fiz terapia por um tempo até e acho que foi aí que começou o ressentimento dele. Sua mãe era super ausente e ele era uma criança sozinha que finalmente ia começar a passar tempo com o pai, mas, quando chegou, eu era um bebê e nosso pai focou em mim e continuou não o notando. Acho que ele tem sérios problemas de abandono e nunca foi capaz de superar isso.
- Você era um bebê – censurou com as sobrancelhas franzidas. – Ele não pode culpá-lo por isso.
- Tente dizer isso à ele – respondeu com um sorriso triste. – A mãe de Thomas mal ligava para ele e acho que o visitou no máximo uma ou duas vezes, então ele foi criado pela minha mãe e avó. Ele as ama muito e sei que elas o amam, mas também sempre senti por parte dele ressentimento em relação ao meu laço com elas. Sempre que brigávamos ele jogava na minha cara que eu era “o preferido”.
- Como se você estivesse novamente roubando alguém dele – avaliou tristemente.
- Exato. Thomas nunca permitiu que criássemos uma relação de irmãos. Eu sempre soube muito pouco dele, seus interesses, com quem andava, seus planos para o futuro. Meu irmão sempre foi um estranho, mas as coisas pioraram quando Marta o deixou. Para você ter uma ideia, ele nunca nem ao menos a apresentou para mim.
- Você nunca viu a noiva do seu irmão? – perguntou ela surpreendida.
- Nem em fotografias – contou começando a ficar revoltado. – Talvez ele tivesse medo de que ela fosse trocá-lo por mim, como ele convenceu a si mesmo que todo mundo da vida dele fazia sempre. Besteira completa, é claro. Eu queria conhecê-la porque ele a amava e ela o fazia feliz e eu queria fazer parte da vida do meu irmão, não porque tinha interesse em tirá-la dele.

segurou a mão de sobre o balcão e a acariciou, em um sinal de carinho. Isso trouxe um meio sorriso para os seus lábios.

- Quando ela o deixou, meu irmão se fechou ainda mais no mundo dele. Thomas sempre foi indiferente, mas ele se tornou uma pessoa muito mais amarga e violenta. Fez escolhas estúpidas, se envolveu em acidentes, saiu do emprego, mudou de número, se mudou. Isso faz dois anos e eu ainda não sei aonde ele mora ou com o que está trabalhando. Ele apenas se nega a contar, diz que não é problema meu. A única coisa que sei é que ele mora na frente de um estúdio de tatuagens, perto do centro. Foi o que minha avó conseguiu descobrir e me contar. Ele também não se abre mais com ela.
- Sinto muito por isso, querido – disse levando os dedos dele até os lábios e dando-lhe um beijo de conforto. – Não sei o que seria de mim sem o meu irmão.
- Não é fácil – murmurou ele com olhos distantes. – Acho que a última foto que tiramos juntos foi há cinco anos e ela está empacotada em alguma caixa aqui no apartamento. Não tenho fotos dele no celular, não o tenho nas mídias sociais, nem mesmo sei se ele ainda as usa. A investigadora Clarissa está tentando entrar em contato com ele desde que vocês conversaram pela primeira vez e é como se ele tivesse desaparecido da face da terra. É assustador, porque, quando ela me disse isso, percebi o quão distante ele se tornou de todo mundo, não apenas de mim.

A pipoca terminou de estourar e os dois se distraíram da conversa. Após se sentarem no sofá, com Duquesa à tiracolo, antes de começar o filme, terminou perguntando:

- Você acha que ainda há uma chance de vocês se reconciliarem?
- Não sei – respondeu pensativo. – Sempre estive disposto a perdoá-lo. Mesmo que eu tenha passado por poucas e boas, ele sempre passou pelos piores bocados. Quando nosso pai abandonou a minha mãe também e se mudou, pelo menos eu a tinha e a minha avó. Thomas não falava com a mãe dele há anos e passou a viver na casa da madrasta que amava como uma mãe, mas que sempre acreditou que o amava apenas como segundo lugar. Sempre achei que ele cresceria e veria que isso era uma grande besteira, mas perdi as esperanças quando comecei a trabalhar na casa.
- Ele não ficou feliz – disse .
- Nunca vi o meu irmão tão possesso na vida. Para ele era como se eu estivesse tentando roubar a casa dele também. Simplesmente não entendeu que eu estava fazendo isso pela minha avó. Ele sempre pensou o pior de mim, sempre acreditou que tinha algo de ruim nas minhas atitudes, que todas elas eram feitas com a intenção de prejudicá-lo de alguma forma.

Por fim, com um suspiro, terminou dizendo:

- Meu irmão é um estranho com problemas de abandono que me odeia com todas as forças do ser dele graças às paranoias que ele mesmo criou. Sempre quis que fôssemos como outros irmãos, como você e Natã, mas, sinceramente, as vezes acredito que o melhor mesmo é ficar longe dele.

🔪👤

O tempo passou, dias longos e arrastados que se tornaram em semanas longas e arrastadas, fazendo roer as próprias unhas até a carne, graças à ansiedade. Parecia que nenhum progresso acontecia, nenhuma pista nova surgia, nenhuma notícia surpreendente que acabaria finalmente com aquela situação. Sofia não lhe mandara mais novidades e por um tempo assustou-se ao pensar que talvez fosse isso, o ápice que conseguiriam chegar, a parede que a bloqueava de descobrir quem era seu perseguidor.
Até que, de repente, em um só dia, sua vida correu como um carro sem freio descendo a ladeira, capotando e virando seu mundo de cabeça para baixo.
Acordou em um sábado, no meio do mês de novembro, sem saber como o dia terminaria. Sorriu, preguiçosa, ao lembrar-se que era feriado. A biblioteca não abriria e deu-se ao prazer de suspirar e se afundar nos lençóis cobertos pelo perfume de . Sentiu os braços dele abraçando-lhe a cintura e voz grossa murmurando em seu ouvido.

- Bom dia – disse ele antes de lhe plantar um beijo no ombro. sorriu ainda mais. – O que está pensando em fazer hoje?
- Estou com saudades de andar de bicicleta – disse ela. – Estava pensando em ir ao centro. A prefeitura anda fechando a avenida principal para carros nos feriados igual fazem aos domingos na avenida paulista em São Paulo. Quer vir comigo?
- Não posso, amor, sinto muito, queria visitar minha mãe agora de manhã – disse ainda plantando beijos em suas omoplatas e ombros. – Mas posso fazer um café da manhã para nós e depois podemos almoçar juntos, o que acha?

Depois do café da manhã, a levou até o condomínio, onde recuperou sua bicicleta. Depois, pedalou até o centro da cidade e lá permaneceu por toda a manhã. Era um bom tempo de pedalada da casa até lá. Sentia as coxas endurecendo e latejando, mas andar de bicicleta, sentindo os cabelos ao vento, sempre lhe dera uma sensação de satisfação que fazia as dores musculares valerem a pena.
passou todo o começo da manhã no centro, pedalando de vez em quando ou apenas observando as famílias e casais que vinham passear, aproveitando a avenida fechada para carros. Ela pedalou com um sorriso no rosto, sentindo o calor do sol lhe esquentando a pele, sem saber o que a esperava apenas algumas horas depois. Estava tão distraída que apenas notou onde estava quando reconheceu a biblioteca em que trabalhava e a deliciosa padaria que ficava bem na frente.
Sentindo o estômago roncar levemente, lembrou-se do delicioso suco de laranja e do suculento croissant de chocolate que comprava pelo menos três vezes por semana no local. prometera-lhe fazer o almoço, mas ainda era onze da manhã e um docinho não fazia mal a ninguém, não é?
Prendendo a bicicleta com uma corrente no poste à frente, entrou na padaria e suspirou ao sentir o ar-condicionado. O dono, Luís, a reconheceu imediatamente, como sempre fazia depois que começou a aparecer dia após dia, desde quando começou a trabalhar no estabelecimento da frente.

- ! – exclamou ele atrás do balcão, enquanto entregava a máquina amarela de passar cartão para a cliente na frente da fila. – Não achei que a veria hoje! Vocês daquele lado da rua não abriram hoje.
- Mas vocês, desse lado, sim – sorriu ela aproximando-se do vidro, olhando os deliciosos doces e salgados. – Não descansa nem no feriado?
- Sabe como é, minha filha - respondeu ele indo até ela. – Vida de trabalhador é assim. Principalmente porque estou tendo que pagar pelo novo sistema de segurança.

Ele apontou para um canto perto da porta, atrás da vidraria principal. percebeu que dois homens uniformizados instalavam cabos e aparelhos na parede.

- Parece bem chique – comentou ela com um sorriso.
- Custou o olho da cara – respondeu Seu Luís tirando uma risada dela. – Mas os tempos andam muito difíceis, minha filha. Assaltaram a loja do Joaquim há umas semanas, aquela que fica no fim da rua e a da Marilene uns dias atrás. Vocês da livraria deviam ir atrás de um também.
- Não é comum locais com livros serem assaltados – disse ela, ignorando o fato que ele chamara a biblioteca de livraria. Já havia tentando explicar a diferença, mas ele continuava a falar dessa forma, então apenas se acostumou. – Vou querer o delicioso croissant de chocolate de vocês e um suco de laranja, só com gelo, por favor.
- O de sempre então – disse ele com um sorriso, entregando-lhe o doce. – Pode esperar nas mesas se quiser, minha esposa leva o suco para você.

se sentou em uma das mesinhas brancas e simples, suspirando ao separar pedaços do croissant quente com os dedos e sentir o chocolate derretido na língua. Em poucos minutos, Maísa, esposa de Luís, chegou com sua bebida e um sorriso maternal.

- Gostoso, querida? – perguntou.
- Como sempre! – elogiou . – Seu Luís me disse sobre o novo sistema de segurança.
- Menina, custou o olho da cara! – disse Maísa revirando os olhos. – Mas esse é o meu marido, sempre assustado. Você não tem noção do sistema que ele comprou. É daquele tipo americano, sabe? Se ele acionar a gente tem uns dois minutos para colocar a senha, depois disso ele liga para a polícia automaticamente. Um exagero.

Ela se afastou para atender um cliente no balcão e permaneceu sentada, saboreando sua comida. Já tinha terminado e estava prestes a se levantar quando ouviu uma voz infantil dizer:

- Não é a moça da televisão, mamãe?

A voz veio da mesa ao lado e automaticamente olhou para ela. Um pequeno garotinho, de no máximo seis anos, olhava-a com curiosidade e a mãe, envergonhada, apenas respondeu:

- Felipe, fale baixo. Não é educado falar dos outros.

O menininho ainda parecia confuso e isso fez com que compartilhasse do sentimento. Quando ele olhou para a televisão da padaria ela acompanhou seu olhar e ofegou.
Estava sem som, mas a manchete passava em uma faixa vermelha chamativa abaixo do perfil da jornalista.

POLÍCIA ESTÁ PERTO DE DESCOBRIR A IDENTIDADE DO SEQUESTRADOR DAS JOVENS DESAPARECIDAS

Ao lado, a foto de Bruna Suzuki, a última menina a desaparecer. Todo o ar ao redor foi extinguido, enquanto os pulmões de secaram e encolheram como frutas secas. As palavras da manchete repetiam-se em looping em sua mente.

Perto de descobrir a identidade do sequestrador.
Perto de descobrir a identidade do sequestrador.

Nem ao menos percebeu que havia se levantado e pago pelo pedido. Não viu o aceno que fez com a mão, não ouviu a própria voz – “Tchau! Até semana que vem!” – e não se deu conta dos próprios dedos abrindo a corrente que impossibilitava o furto de sua bicicleta.

Perto de descobrir a identidade do sequestrador.
Subiu na bicicleta e entrou na rua sem olhar.
Perto de descobrir a identidade do sequestrador.
Ouviu um grito: - Ei, moça! Sai da frente!
Perto de descobrir a identidade do perseguidor dela.

Alguém trombou contra com força, lançando-a para fora da bicicleta, direto para o chão. Sentiu o ombro atingir o cimento da rua e rangeu os dentes, tentando controlar a dor. A bicicleta caiu com um enorme barulho e, ao lado, um adolescente de calças folgadas e cabelo comprido também atingiu o chão, enquanto seu skate rolava para a calçada.

- Moça, você está bem? – perguntou ele com uma careta de dor enquanto segurava a cabeça. – Não consegui parar.
- Estou bem – disse levando-se e limpando a sujeira das pernas nuas. – Eu estava distraída, a culpa é minha.
- Foi mal de novo – respondeu o garoto recuperando o skate e se afastando. ficou alguns segundos examinando a si mesma, procurando ferimentos, mas só pode sentir o latejar no ombro, que provavelmente ficaria roxo.

Quando ergueu a bicicleta do chão, fez uma expressão triste ao ver que a cestinha que possuía na frente dela estava torta e amassada. Ela mal a usava, mas deixava a bicicleta com uma aparência adorável, então tentou consertá-la.
Enquanto tentava colocá-la de volta no lugar, começou a apertar seu entorno para desentortá-lo. Nesse momento, notou um pequeno objeto, preto como a cesta, escondido debaixo dela, preso entre as fitas que a compunham.

- O que é isso? – perguntou a si mesma arrancando e o examinando entre os dedos. Era feito de plástico duro e a única coisa que apresentava era um pequeno buraco, coberto de vidro, como uma...

Câmera.
Uma câmera.

quase podia ouvir os próprios neurônios zumbindo como um enxame de abelhas dentro de seu cérebro. Era difícil respirar. Era difícil se mover. Era difícil pensar, mas de alguma forma ela foi capaz de se lembrar das próprias palavras que disse à há muitas semanas atrás.

Lá é como se eu estivesse sendo vigiada o tempo todo. Não sei explicar. Já faz um tempo que é como se centenas de olhos estivessem espalhados pelos corredores, me observando, vigiando todos os meus passos.

Enfiou o objeto no bolso e pedalou com toda a velocidade que era capaz. Voltou ao trânsito com violência e pouco se importou com as buzinas que recebeu ao cortar caminho fora da ciclovia. Pedalava como se estivesse sendo perseguida, frenética, tentando controlar a respiração para conseguir ao menos chegar no condomínio.
Conseguiu em tempo recorde. Não sabia o quão rápido estava, mas devia ser muito, pois foi incapaz de parar e passou raspando por uma brecha ao lado da cancela. O porteiro Marcelo levou um susto e gritou:

- Senhorita , o que está fazendo? Vai se machucar!

Mas ela não lhe deu ouvidos. Sua mente não mais funcionava, repetindo freneticamente as mesmas palavras, como um disco velho, riscado e viciado.

Centenas de olhos espalhados pelos corredores.
Centenas de olhos me observando, vigiando meus passos.

Deus, por favor, não. Faça-a estar errada, faça isso tudo ser fruto da paranoia que se instalou na cabeça dela como uma praga venenosa.
Entrou na própria casa com tanta violência que a porta bateu contra a parede com um estrondo, fazendo um pequeno buraco surgir pelo impacto da maçaneta. olhava ao redor como se visse fantasmas, completamente desesperada e desorientada.
Onde está? Onde está?
Entrou no próprio quarto e o virou de cabeça para baixo. Procurava algo como se sua vida dependesse daquilo, histérica e furiosa, com os cabelos bagunçados e a respiração ofegante.

- Vamos, porra, onde está? – gritou de frustração para a casa vazia, jogando suas coisas pelo chão.

E, de repente, como se uma venda tivesse sido tirada de seus olhos, ela viu. Bem embaixo de seu nariz, escondidas despretensiosamente em cantos estratégicos e silenciosos.
Na parte debaixo de uma das fileiras do armário, a que ela colocava apenas as roupas mais caras e arrumadas e, por isso, mal mexia.
Embaixo da escrivaninha, afastado o suficiente para que ela não tocasse sem querer, mas próximo o suficiente para capitar perfeitamente sua cama.
No topo das cortinas, onde ela mal alcançava, então tão pouco olhava.
Pequenos objetos pretos de plástico, minúsculos, insignificantes e assustadores.
Câmeras.
Correu para fora do quarto, olhando desesperadamente cada canto da casa. Estavam em todos os lugares, em cada maldito centímetro.
Nos batentes das portas, em cima da geladeira, nos armários da cozinha que eram da mesma cor, no maldito lustre.
Câmeras, câmeras e mais câmeras, infinitos olhos observando cada passo que fazia, ouvindo cada palavra que dizia, controlando cada uma de suas ações.
Suas pernas não aguentaram mais. caiu como um peso morto no chão, com os ouvidos zumbindo e a visão quase embaçada pela adrenalina que a consumiu. Sua respiração foi cortada e ela apenas conseguiu ficar ali, ofegante, implorando por ar, com o rosto contra as próprias mãos e lágrimas escorrendo dos olhos.
A quanto tempo elas estavam ali? Deus, a quanto tempo ele a observava dessa forma?
Pensou em todas as vezes que se trocou e andou nua pelos corredores, em todos os beijos íntimos e sensuais que trocara com , em cada momento particular que viveu em sua casa, aproveitando da própria privacidade, dançando loucamente, falando sozinha, fazendo besteira.
Chorou mais forte pela humilhação que a consumiu até que sentiu o próprio celular vibrar no bolso. Não atendeu primeiramente, encostando as costas contra a parede e enfiando o rosto nos joelhos e os cabelos nas mãos, querendo desaparecer.
Mas o celular vibrou e vibrou e vibrou e ela, cansada, atendeu sem ao menos olhar.

- Alô? – respondeu com a voz tremida e irritada.
- ? Ai, graças a Deus você respondeu – disse Sofia do outro lado da linha, parecendo se não igual, até mais agitada do que ela se sentia.
- O que houve? – perguntou secando as lágrimas com um braço. - Sua voz está estranha.
- Eles descobriram – disse como se fosse um segredo. – Descobriram quem ele é, . O homem, o sequestrador, eles descobriram quem ele é e estão indo até a casa dele agora tentar pegá-lo.

🔪👤

O punho de bateu contra a porta do apartamento de . Ela tremia da cabeça aos pés como se estivesse sofrendo de uma forte hipotermia. Lágrimas escorriam de seus olhos e a voz de Sofia ecoava em sua cabeça.
Thomas Pinheiro Paiva.
O irmão de .
Bateu novamente, mais forte, mais rápido.
O irmão de a perseguia.
Bateu de novo.
O irmão de a assediava.
Esmurrou a porta.
O irmão de a torturava psicologicamente por mais de dois meses.
O irmão de , o irmão de , o irmão de .
A porta abriu.

- Oi amor! Desculpa a demora, eu... – começou a dizer, sorridente, até ver a expressão no rosto dela. Seu sorriso sumiu. – O que aconteceu?

Mais lágrimas brotaram nos olhos de . Ela não conseguiria dizer a ele. Como poderia contar algo assim? Quebraria seu coração.

- Você me disse que tinha uma foto do seu irmão em algum lugar – disse ela com a voz carquejada e sem fôlego.
- Sim...? – disse ele com a expressão cada vez mais confusa.
- Eu preciso dessa foto – disse com olhos selvagens. – Agora. É importante.

Ele abriu a boca e pode ver nos olhos dele que queria fazer-lhe inúmeras perguntas. Se conteve, talvez por seus olhos assustados ou sua voz tremida, mas não importava. Ela se sentiu grata, pois seria incapaz de explicar para ele a razão.
Ela sentia bem no fundo de si, dentro de seus ossos, que precisa ver o rosto dele. Saber como ele se parecia. Colocar um rosto no vulto misterioso e perigoso que a aterrorizava há tanto tempo.
Se seus instintos pudessem falar, como criaturinhas em seus ombros, diriam: “Veja o rosto dele. Agora. É importante”.
Eles entraram e foi até o quarto, abrindo os armários e tirando algumas caixas de dentro. Ele as revirou por vários minutos, que mais pareceram horas, olhando vários álbuns de fotos antigas reveladas.
já havia roído as unhas até o talo, sentindo-as doer e sangrar, quando o ouviu exclamar:

- Aqui! Achei!

O mundo inteiro se silenciou enquanto pegou a foto em mãos e finalmente, finalmente, descobriu como o homem que a perseguia se parecia. Ela nunca se esqueceria do toque da fotografia entre os dedos ou de como prendeu sua respiração sem perceber. Sentiu como se todas as pessoas do mundo estivessem segurando a respiração como ela, olhando aquele momento em câmera lenta, sem piscar.
Não foi capaz de perceber a linda mulher adulta, com o mesmo sorriso e covinhas que ou do próprio, com dezessete anos, rosto de bebê e corpo magro. Tudo que ela foi capaz de ver e processar foi o homem ao lado, de vinte e dois anos, alto, branco, de cabelos cacheados e olhos pretos, que não sorria e possuía uma postura rígida e irritada.
Cabelos que ela conhecia.
Olhos que ela conhecia.
Um homem que ela conhecia.
E, de repente, se perguntou como pode ser tão burra. Tão cega a ponto de não enxergar o que estava bem na sua frente, assim como as câmeras. Bem debaixo de seu nariz, sendo esfregado contra seus olhos que nada viam. As palavras de , ditas há tanto tempo que pareciam ser em outra vida, brilharam em sua cabeça.
Eu puxei minha mãe e ele a dele, a única coisa que temos em comum são os olhos e os cachos que herdamos do nosso pai.
Uma rachadura partiu violentamente o mundo em dois e caiu dentro dela. Ela era Alice, caindo pelo buraco do coelho, girando e girando, cada vez mais perdida e confusa, apenas esperando o momento em que bateria com força no chão e se despedaçaria como se fosse feita de porcelana.

- Amor? – murmurou vendo como ela ficou cada vez mais pálida e gelada.
- Esse é o seu irmão? – perguntou finalmente movendo os olhos da fotografia e olhando para ele. Suas mãos tremiam. – Esse é o Thomas, seu irmão?
- Sim – disse ele calmamente, sentindo o desespero em sua voz. – Por quê?

Ela olhou para a foto novamente e então virou-a para ele com violência. Apontando para o rosto do homem ao lado do jovem , disse:

- Porque esse é o Elias, o meu bibliotecário chefe.

- Capítulo 19 -

Poucos momentos na vida de a fizeram sentir como se um tapete estivesse sendo puxado debaixo de seus pés, roubando-lhe a respiração e fazendo com que caísse com força contra o chão.
Sentiu-se assim ao visitar a casa de uma amiga pela primeira vez, aos seis anos e perceber que a maneira como seu pai agia não era normal. Também experenciou o sentimento quando a mãe morreu, fraca e pálida em uma cama de hospital fria e, anos depois, quando Natã foi para a faculdade, deixando-a sozinha com um beijo na testa e a promessa de que a tiraria da casa do pai. Por fim, quando finalmente entendeu que o pai não mudaria, nem mesmo com as inúmeras chances que lhe dava.
Mas nada – nada – havia preparado para o que estava sentindo agora. Ali, sentada atrás de , agarrando-o pela cintura enquanto ele dirigia sua moto até o endereço que Sofia havia passado escondido por mensagem, sentia um turbilhão de sentimentos de uma vez só. Todos a sufocaram ao ponto de não saber se um dia voltaria a respirar.
Confusão, assombramento e alívio vieram pelo fato de que o perseguidor deixou de ser uma entidade sem rosto e nome, onisciente, capaz de alcançá-la em qualquer lugar. A identidade lhe fizera humano, lhe dera um rosto a qual buscar na multidão e isso melhorava tudo de uma forma que nunca imaginaria.
Dor e traição, que dilaceraram seu peito ao pensar que seu amigo, um dos primeiros que fizera ali, fora quem a apunhalou pelas costas e destruiu sua vida nos últimos dois meses.
Mas sentia culpa também. Culpa por sentir alívio enquanto via o que a verdade trouxe aos olhos de . Como aquele homem, alegre e alto-astral, envelheceu vinte anos na frente dela enquanto ouvia suas palavras.
É o seu irmão. Meu perseguidor. Meu perseguidor é o Thomas.
Viu-o o perder o ar em seus pulmões e se encolher como se ela tivesse lhe dado um tapa na cara. Seus olhos olharam para o rosto dela freneticamente, buscando qualquer sinal de que aquilo era apenas uma malvada brincadeira, mas nada encontrou. Ele soube que era verdade e os olhos de encheram de lágrimas ao vê-lo parecer perdido como um garotinho que se soltara da mãe e não o homem confiante que sempre fora.
Apertando os braços ao redor dele com mais força em cima da moto, tentou transmitir-lhe tudo que sentia. Eu sinto muito, meu amor, pensou com os olhos marejados. Sinto muito que tudo isso tenha acontecido.
Sentiu quando ele soltou uma das mãos da direção e entrelaçou os dedos com os dela, plantados em sua barriga, como se disse: estou aqui. Vai dar tudo certo.
Isso trouxe um leve e raro sorriso triste aos lábios de , que encostou a bochecha coberta pelo capacete nas costas dele. Fechando os olhos, deixou-os assim até sentir a velocidade da moto diminuir e estacionar.
Mesmo que não soubesse o número da casa, seria capaz de encontrá-la. Pelo menos quatro viaturas e um número enorme de policiais cobria a entrada e o jardim da frente, atrás de faixas amarelas características de cenas de crime.
franziu as sobrancelhas enquanto retirava o capacete e o entregava para . O que estava acontecendo? Sofia dissera que eles estavam ali para prendê-lo, mas algo parecia fora do lugar.

- Jesus – ouviu o namorado suspirar ao lado, com os olhos caindo sobre o estúdio de tatuagem fechado em frente à casa, provavelmente se lembrando das palavras que dissera à ela dias atrás.

A única coisa que sei é que ele mora na frente de um estúdio de tatuagens, perto do centro.
As palavras de Janaína brilharam na mente de de repente.
Elias disse que tem sorte de morar na frente de um estabelecimento que tem câmeras, porque só assim para comprovar que ele não saiu de casa no dia que ela sumiu.

- Desculpem, vocês vão ter que dar a volta no quarteirão – disse um policial conforme eles se aproximaram das faixas amarelas. – Apenas pessoal autorizado.
- Eu preciso falar com a investigadora Clarissa – exclamou apressadamente. – É importante.
- Minhas ordens são para impedir que pessoas não autorizadas entrem – ele insistiu.

Como se tivesse sido conjurada, viu como a investigadora saiu da porta da frente da casa para a calçada e gritou:

- Investigadora Clarissa!

Ela ouviu o chamado e franziu as sobrancelhas ao ver , ali de pé, com os olhos selvagens. Aproximando-se, disse para o policial:

- Pode ir, Carlos. Eu os conheço. – E depois voltou-se para com uma expressão confusa. – O que está fazendo aqui? Como soube que nós-

Clarissa interrompeu a si mesma e suspirou com a conclusão que chegara na própria mente. Com uma careta desaprovadora, suspirou o nome de Sofia.

- Por favor, não fique brava com ela. Eu precisava vir aqui, ela não fez por mal – implorou .
- Tínhamos que vir – disse tirando uma foto dobrada do bolso. – Thomas Paiva é o meu irmão e ele-
- Eu sei – suspirou a investigadora com uma expressão triste. – Sinto muito por isso, nós iríamos ligar assim que terminássemos aqui, mas não posso deixá-los passar, não é autorizado. Sem contar que você não deveria estar na rua, . É perigoso.
- Espera – cortou-lhe sentindo a própria respiração começar a falhar. – Vocês não vieram aqui para prendê-lo? Por que eu continuaria em perigo?

Houve uma leve hesitação por parte da investigadora. sentiu o próprio coração martelando nas orelhas.

- Porque não o pegamos, . A casa estava vazia quando chegamos. Ele desapareceu.

Todo o universo se silenciou. não tinha mais controle de si mesma e nem de seus próprios pensamentos. Não havia uma célula de seu corpo que não estava tremendo.

- O quê? – perguntou com a voz tão fraca quanto se sentia. pareceu perceber seu medo, pois segurou seus braços por trás, impedindo-a de cair de joelhos no chão.

A investigadora parecia querer dar-lhe um abraço, mas aquilo provavelmente ultrapassava os códigos de conduta da polícia ou algo assim, então não o fez. Com a mente a milhão, notou algo.

- Se ele não está aqui por que cercaram a casa? O que tem nela?

Clarissa, novamente, ficou silenciosa, parecendo estar passando por um debate mental. Dando-se por vencida, suspirou e disse:

- Encontramos... Evidências dentro da casa. Coisas, honestamente, perturbadoras e sinceramente-

não ouviu mais. Passando por debaixo da fita amarela, deu passos largos até a casa, ouvindo a investigadora a chamando atrás de si. Seus instintos berravam em sua mente, obrigando-a a continuar andando apesar do medo paralisador em suas veias.
impediu Clarissa de parar ao dizer algo, mas não foi mais capaz de ouvi-los ao entrar na casa. Nenhum dos policiais iniciais olhou para ela, assumindo que tinha permissão de entrar já que havia ultrapassado as autoridades do lado de fora.
Não havia vida dentro da casa, nenhum detalhe que denunciasse o fato de que alguém realmente morasse ali. Não havia nada caseiro nos móveis da sala ou em quaisquer outros objetos que compunham a decoração, impecavelmente limpos e arrumados. Parecia mais um local de exposição do que um lar e isso era, por alguma razão, algo que tornou tudo mais sinistro.
observou como um fotógrafo e um número enorme de agentes se aglomeravam em um quarto, tirando inúmeros computadores, notebooks e câmeras de dentro.
Ali, sussurraram seus instintos. Veja o que tem lá.
Ela foi em transe, mal percebendo quando uma policial, olhando para ela confusa, disse:

- Ei! Você tem permissão de estar aqui?

A voz dela ecoou, quase como se estivesse a escutando debaixo d’água. Alguém cutucou seu ombro, uma mão tentou agarrar-lhe o braço, mas os olhos dela se fixaram no interior do quarto.
Sua respiração foi cortada. Todo som do mundo acabou. Ela só percebeu que não piscava quando seus olhos cheios de lágrimas começaram a arder. O que via só podia ser explicado em uma palavra:
Fotos.
Centenas, milhares de fotos espalhadas pelas paredes, cobrindo cada centímetro do espaço que a deixou de repente extremamente claustrofóbica. Seu cérebro finalmente entendeu o que acontecia e gritou desesperado.
É você nas fotos!
Ele estava certo. Eram fotos dela, milhares de imagens de si mesma, em todas as situações possível, tiradas que todos os ângulos e de todas as distâncias existentes. Algumas por câmeras normais, outras com resoluções que deixavam claro que foram tiradas das câmeras que encontrara espalhadas por toda sua casa.
Fotos dela tiradas do lado de fora da casa, onde era possível vê-la pelas janelas da cozinha, cozinhando, jantando, falando ao celular.
Do lado de fora da casa varrendo o chão, sentada na varanda lendo um livro, de longe, de perto, as vezes com um zoom tão grande que apenas o rosto dela aparecia. Em algumas fotos calma, em algumas sorridente, em algumas concentrada, em outras mal-humorada.
Fotos na rua, entrando e saindo de lojas, carregando sacolas, olhando para algum lado da calçada, com os cabelos voando, o celular na orelha, um sorriso no rosto.
Deus, fotos dela dormindo. Tiradas da janela, quando ela ainda não as tinha coberto, de longe e de perto, vários e vários dias. Algumas com ângulos que sabia que só podiam ter sido tiradas de dentro de sua casa.
Fotos dela na piscina, algumas de longe outras tão perto, sozinha, lavando os cabelos, nadando, sorrindo, beijando .
Fotos com , mas que ele mal aparecia. Sua presença estava claramente cortada das fotos. Algumas foram cortadas por uma tesoura, deixando apenas ela, outras tinham o corpo dele, mas o rosto havia sido queimado ou arranhado com um objeto pontudo.
Sorrindo, falando, comendo, cozinhando, limpando, andando, dormindo, lendo, ouvindo música, dançando, se trocando, com roupa, sem roupa. estava em cada uma das fotos, de novo e de novo, de todas as formas, em todos os momentos nos últimos dois meses.
Se aproximou sem sentir as próprias pernas de três pequenas fotos em particular. Reconheceu a si mesma, no dia em que fora na biblioteca, encontrar Elias – não, Thomas -, para tirar fotos para sua identificação.
Fotos que estavam bem ali, na frente dela. As fotos que provavelmente começaram tudo.
Sentiu uma dor aguda nos joelhos. Demorou para que percebesse que os machucara porque caíra em cima deles após perder a força para segurar a si mesma em pé.
Lágrimas escorriam por seus olhos. Alguém agarrava seus braços e falava em seu rosto, tentando fazê-la reagir, perguntando se estava tudo bem. Seu cérebro não entendia nada.
Sentia-se suja, nojenta, asquerosa. Queria correr, se esconder, raspar a própria pele fora para nunca mais sentir-se dessa forma novamente.
apareceu. Ela sentiu seu calor. Ouviu sua voz, apesar de não entender o que dizia. Alguém estava gritando. Seu rosto familiar apareceu na frente dela, olhando-a com olhos assustados. Ele falava, mas não entendia. Ficou surda de repente, sua visão turva, talvez pelas lágrimas, talvez pela adrenalina.
Só percebeu que era ela quem gritava enquanto chorava quando a garganta arranhada passou a arder.

👤🔪

observou silenciosamente o grupo de policiais que andavam ao redor de sua casa.
Alguns dias haviam se passado desde o surto que tivera na sala coberta de fotografias. a tirá-la de lá e cuidara dela até que se acalmasse. A investigadora Clarissa pediu que entrassem em contato quando estivesse se sentindo bem o suficiente e ela o fez três dias depois. As duas, junto de , discutiram tudo que sabiam.

- Seu irmão conseguiu mudar de nome – disse a investigadora para quando se reuniram. – Não sei como, contudo, porque após os dezoito anos só é possível fazer isso indo na Justiça e não é possível mexer no sobrenome. Mas de alguma forma ele conseguiu: foi de Thomas para Elias e retirou o sobrenome do pai de vocês. Ficou só com o da mãe, “Pinheiro”, que é, para a sorte dele, um dos sobrenomes mais comuns do país.
- Jesus – suspirou esfregando as mãos no rosto em sinal de cansaço e frustração. – E como chegaram até ele sem saber da mudança de nome?
- O carro está no nome de batismo, foi através da descrição de e pela placa que conseguimos rastreá-los pelo departamento de trânsito. A casa está no nome de Elias, então não havia como conectar os dois, mas chegamos nela de outra forma. Seu irmão é esperto. O rastreamento das ligações apenas nos levou para antenas muito afastadas de onde ele mora, provavelmente feitas por celulares descartáveis. Ele também nunca entrava ou saía com o carro pelo portão da frente, que era coberto pelas câmeras de segurança do estúdio de tatuagem. Por isso, quando checamos o álibi dele, não vimos nada suspeito: ele sempre chegava pela calçada, de cadeira de rodas, entrava na casa e não saía até o dia seguinte.
- Cadeira de rodas? – perguntou com as sobrancelhas franzidas em confusão. – Meu irmão não usa cadeira de rodas.

Clarissa e se entreolharam e foi a vez dela de esfregar o rosto com as mãos. Era impressionante como Elias fora capaz de enganar a todos com suas mentiras. As “agressões” que ele sofrera há algum tempo apareceram em sua mente e quis bater em si mesma. Que coincidência ele ter sido agredido por um homem anônimo, em uma rua escura e sem testemunhas, justo no momento em que a investigadora estava suspeitando de todos. Quase pode vê-lo batendo o próprio rosto contra um poste para criar os machucados.

- Elias... Quer dizer, seu irmão, como o conheci, usa cadeira de rodas. Ele me disse que teve um acidente há dois anos e que precisa dela desde então – murmurou com a garganta se fechando.
- Thomas teve um acidente – contou ainda confuso. – De moto, há dois anos, quando Marta o deixou levando um dos carros dele. E ele precisou usar a cadeira de rodas por um tempo, mas apenas enquanto estava no hospital. O acidente prejudicou os joelhos dele, mas nada que o impeça de andar.
- Ele fingiu precisar dela – disse a investigadora com um semblante sério. – Como eu disse, ele é esperto. Provavelmente assumiu que estaria completamente fora de suspeita se fingisse ter uma condição física como essa e não está totalmente errado. Nós o investigamos por que eu insisti, pois não descarto ninguém. Se fosse qualquer outro investigador provavelmente não teria pensado duas vezes em vê-lo como inocente. Nós checamos com a clínica de fisioterapia que você nos passou o nome, . Nenhum Elias ou Thomas é paciente de lá.
- Ele entrou lá para me despistar – concluiu baixinho, mais para si mesma do que qualquer outra coisa.
- É o que eu acho também. Como eu disse, a casa está no nome de Elias e ele sempre fazia questão de passar na frente das câmeras usando a cadeira de rodas e saindo apenas no dia seguinte. Na época isso era prova suficiente de que ele não havia feito nada, mas a busca pelo dono do carro criou a reviravolta. Não há nada além do carro no nome de Thomas Pinheiro Paiva. Ele era quase inexistente, pelo menos nos últimos dois anos. Começamos a desconfiar que Thomas poderia estar usando uma identidade falsa, então fomos atrás das câmeras do percurso que você disse que percorreu com ele atrás de você, . Conseguimos encontrar pelo menos sete câmeras de segurança em pontos diferentes que nos ajudaram a seguir o carro dele. Depois que você o despistou, nós fomos coletando imagens dele até perto do bairro em que mora. Como eu disse, seu irmão é esperto, mas havia algo que ele não sabia: a casa atrás da dele colocou câmeras de segurança por volta de um mês atrás. Por causa disso, conseguimos vê-lo estacionar algumas casas ao lado, descer e pular o muro da própria casa, entrando pelos fundos. Acredito que é assim que ele conseguiu criar o álibi: entrava pela frente e saía pelos fundos, assim parecia que ficava em casa durante os sequestros.

Um silêncio se instalou pelo trio. A cabeça de girava com a quantidade de informações. Queria segurar a mão de , mas o olhar no rosto dele, tão aterrorizado e triste, fez com que quisesse explodir em lágrimas e se esconder.

- Se não fossem por essas novas câmeras nós nunca conseguiríamos relacionar o carro com o seu bibliotecário chefe. Ele cobriu cada uma de suas pegadas, menos essa, pois não sabia dela. Tivemos sorte.
- E sobre as outras meninas? – perguntou levemente. – Há algo que leve até elas?

A expressão da investigadora ficou sombria, como se as lembranças que viessem à sua mente fossem tristes demais para lembrar.

- Como os vizinhos instalaram o sistema de segurança há um mês, só é possível vê-lo saindo na noite que a última vítima desapareceu. Saiu e voltou um pouco antes do sol nascer, com roupas diferentes. Mas, mesmo isso não sendo o suficiente, o que achamos no apartamento.... Com certeza é. Fotos e... Gravações, que são informação sigilosa.

Ela não disse mais nada, mas não foi preciso. Os instintos de lhe deixaram alerta o suficiente e até parecia ter uma ideia do que se tratavam essas gravações. Imagens de meninas chorando e implorando, morrendo enquanto estavam sendo gravadas invadiram sua mente e teve que respirar fundo para não vomitar. Haviam tantas emoções dentro dela que ficou feliz quando a investigadora não entrou em mais detalhes. Não seria capaz de lidar com eles.
Eles continuaram conversando, até que lhe contou sobre as câmeras que encontrara. Aquilo parecia fazer total sentido para Clarissa, que provavelmente desconfiara delas ao ver algumas das imagens de espalhadas pelas paredes do quarto, claramente tiradas de sistemas de segurança. Isso levou-a a chamar um grupo de policiais que iriam se certificar de que todas foram tiradas.
E aqui estavam. sentada em uma das cadeiras da cozinha, com o tronco deitado sobre o balcão, observando os homens e mulheres que iam de um lado para o outro, abrindo portas, gavetas e janelas, observando cada canto do ambiente.
e Natã estavam lá também, recolhendo as coisas dela. Não conseguiria mais viver ali. Não com ele ainda desaparecido, talvez não em qualquer situação. Ficaria com por enquanto, até que tudo isso se resolvesse.
Precisava de um outro lugar para morar, mas agora pensava na questão financeira. Com que dinheiro? Parou de ir ao trabalho desde que descobrira quem Elias era de verdade. Sabia que ele estava desaparecido, mas não conseguiria ir lá novamente, encarar aquelas paredes em que estivera tão perto dele ou dos companheiros de trabalho.
Não sabia se eles sabiam e não era capaz de encará-los. Pelo menos por enquanto. Não conseguia lidar com seus olhares de pena e, no fundo, tinha medo de talvez enxergar a dúvida em seus olhos. Elias era o garoto de ouro, gentil, cavalheiro, amigável. Carol, por exemplo, o amava como um irmão. Acreditariam que fora capaz de fazer tudo isso?
Elias. Era duro pensar nele como Thomas. A mente de continuava a insistir no nome antigo, no nome pelo qual ele a enganou por todo esse tempo e estava tão cansada que apenas resolvera que o nome dele não importava. Ela o odiava de todas as formas, então apenas escolheu chamá-lo pelo nome falso pela praticidade.
Uma mão carinhosa pousou em seu ombro e se virou para ver Natã ao lado, com um sorriso gentil e olhos tristes.

- Eles terminaram de checar seu quarto. Quer colocar suas roupas na mala? Achei que preferiria se fosse você mesma a mexer em suas calcinhas.

Ela deu uma pequena risadinha e tentou lhe dar um sorriso tranquilizador. Era como se ele pudesse sentir toda a tristeza e medo dentro dela. Talvez pudesse. Mas ela queria de volta seus olhos brilhantes, desejando não ver mais a nebulosidade que agora a encarava e que sabia que estava ali por tudo que acontecera com ela.

- Obrigada Natã, eu vou – disse, dando-lhe um beijo na bochecha em seguida.

Com pernas e braços fracos, recolheu todas as suas roupas e as colocou nas malas. Segurando as lágrimas, também guardou os livros, os lençóis e foi até o banheiro, guardando os produtos de banho e higiene. Quando estava prestes a sair, contudo, olhou de relance para o espelho e congelou.
Observou o próprio reflexo por alguns segundos até que uma memória auditiva reapareceu em sua mente, ecoando dentro de seu cérebro. Apenas isso, a contagem de uma respiração e ela entendeu tudo.
Deus, é claro.
Largando os potes de shampoo e condicionador no chão, correu até a garagem, desviando de e dos policiais, que a encararam surpresos. Seu namorado exclamou o nome dela, confuso, mas não deu ouvidos.
Na garagem, mexeu em algumas caixas, fazendo barulho, até que encontrou um enorme martelo que usava na construção. Ofegante, correu de volta para dentro, sobre o olhar e sobrancelhas franzidas dele e parou na frente da porta ao lado do banheiro, que nunca fora aberta.
Em golpes fortes e barulhentos, bateu o martelo na maçaneta. Seus músculos doíam e leves grunhidos saíam de seus lábios. O barulho de metal ecoou pela casa, chamando a atenção de todos.

- , o que você está fazendo? – perguntou Natã olhando para ela como se tivesse perdido a cabeça.

Ela não respondeu. O suor se acumulou em sua testa e ela podia ver o próprio cabelo voando ao redor, grudando no rosto, conforme seu corpo se mexia pelos movimentos.
A maçaneta cedeu e com um último suspiro, jogou o ombro contra a porta, que se abriu com um estalo.
O interior do quarto era abafado, empoeirado e escuro. apertou o interruptor, acendendo a luz e ofegou em seguida.
A primeira coisa que viu foram as paredes pintadas de azul claro, cobertas por pequenas nuvens delicadas. Havia um buraco na parede, provavelmente feito por um soco. Haviam estantes cobertas de pequenos brinquedos quebrados, um tapete felpudo branco imundo, um enorme urso de pelúcia despedaçado, um cavalinho de madeira caído como se tivesse sido chutado e um berço aos pedaços, como se tivesse sido arremessado contra a parede.
Um quarto de bebê.
Sujo, escuro, destruído e abandonado.
Ele tem um filho? Elias tem um filho?
O pensamento atravessou sua mente enquanto seus olhos passeavam pelo resto do quarto. Quando caíram para a direita, na parede que o lugar dividia com o banheiro, seu corpo ficou tão fraco que ela não foi capaz mais de segurar o martelo, que caiu no chão com um baque surdo.
Havia ali uma cadeira, uma mesa, notebooks, uma câmera em um tripé. E, acima de tudo aquilo, na direção em que a câmera apontada, havia algo...
Um buraco. Uma janela? Parecia...
se aproximou com passos lentos e cautelosos. Pode ouvir entrando pela porta e seu suspiro de susto ao ver o que ela via, mas nada disse. Perdera a voz completamente ao entender o que estava à sua frente.
Era um espelho, mas não um comum. Dentro do buraco que agora ela entendia que havia sido aberto por Elias, estava um pedaço de vidro, completamente transparente, que mostrava com clareza o outro lado, o banheiro dela.
Ela.
E imaginou a si mesma ali, em frente à ele, separada por um espelho falso, tomando banho, escovando os dentes e os cabelos, lavando o rosto, passando creme no corpo completamente nu.
Ficou silenciosa por alguns segundos, sem ao menos piscar. se aproximou dela cautelosamente, quase como se estivesse com medo de que ela fosse quebrar a qualquer segundo.
Mas, diferente da outra vez, não foi apenas a tristeza e o medo que a consumiram. O ódio apareceu, fervendo em seu sangue, endurecendo suas feições e respiração.
No momento em que esticou a mão para tocar seu ombro, andou para frente furiosamente, empurrando a cadeira de lado, subindo na mesa com os joelhos e enfiando as duas mãos em punho contra o espelho falso.
O vidro tremeu, mas não trincou. continuou socando-o, ignorando que tentava puxá-la pela cintura. Suas mãos começaram a doer, o vidro rachou e, após alguns golpes, estraçalhou-se em dezenas de pedaços, que caíram no chão, espalhando-se por todo o piso.

- Desgraçado! – gritou com todas as forças, sentindo lágrimas quentes de ódio escorrendo pelas bochechas. – Desgraçado! Desgraçado!

O corpo inteiro de tremia enquanto caía para trás, de encontro com o peito de . A lateral de suas mãos sangrava graças aos pequenos e profundos cortes promovidos pelos pedaços de vidro cortantes.
Houve uma comoção ao redor. foi arrastada para fora, cega pela fúria e pelas lágrimas, mexendo o corpo como uma criança birrenta tentando sair dos braços de . Mal via as próprias pernas balançando ou as unhas cravando nos braços dele, apertando os olhos com força e sentindo tantos sentimentos ao mesmo tempo que era capaz de desmaiar.
Vozes preenchiam o ar, tantas ao mesmo tempo, tão diferentes, que é como se tivesse sido transportada para um país no qual não falava a língua, permanecendo cada vez mais confusa e perdida, enlouquecendo a cada segundo.
Sentiu o ar do lado de fora atingir seu rosto e percebeu, de repente, que faltava ar em seus pulmões. Desesperada, tentou respirar, soluçando, com o peito expandido com violência e a boca aberta, sugando o oxigênio em agonia como um peixe fora d’água.
Natã apareceu na frente de seu rosto, cobrindo suas bochechas com suas mãos, tão quentes, tão macias, tão familiares.

- Você está bem – ele disse, com tanta firmeza que ela quase acreditou em suas palavras. – Respire. Estamos aqui. Respire.

Ele sugou ar com força e o imitou. Minutos foram passando, com ela imitando seus gestos como uma marionete, até que sua cabeça parasse de girar. Quando finalmente foi capaz de encontrar a própria voz, com a garganta arranhada e ardendo e os olhos molhados e inchados, disse fraca e suplicante:

- Por favor, me tira daqui.

Eles assim o fizeram e nunca mais voltou para a primeira casa que chamou de lar.

🔪👤

As semanas se passaram até que dezembro chegasse junto do insuportável calor do verão brasileiro. Luzes pisca-pisca iluminaram as casas e lojas, junto dos inúmeros sinos, bonecos que imitavam Papai Noel e renas de pelúcia. A programação televisiva passou a repetir especiais de natal anuais, assim como filmes de romance natalinos e as cidades do interior de São Paulo foram ficando cada vez mais vazias, com seus habitantes enchendo os carros de malas e partindo para a costa, em Santos ou no Guarujá, para passar o final de ano.
Para , o tempo que passou se arrastou devagar e morbidamente. Os dias eram longos e sombrios, com horas que pareciam nunca passar e noites ainda piores. Parecia ser incapaz de lembrar como era conseguir colocar a cabeça no travesseiro e adormecer com tranquilidade.
Elias ainda estava desaparecido. Desaparecera no ar como fumaça, mas continuava a assombrá-la como fizera desde o começo. Não saber onde ele estava era pior do que qualquer cenário que pode imaginar estar inserida.
Todas as noites adormecia com o abajur ligado e acordava gritando, suada e trêmula, no meio da madrugada. Seus pesadelos se repetiam constantemente. Não havia como se esconder. Ele era invisível e onipresente, esperando quieto nas sombras, esticando a mão no escuro e agarrando-lhe os braços com violência.
Ele a puxava para o desconhecido e sentia como se estivesse se afogando, engolida pela escuridão que tomava seus pulmões, sufocando-a. Gritava, chorava, implorava, mas tudo que recebia em troca eram olhos cruéis e um sorriso demoníaco.
Eu vou pegar você, bobinha, ele dizia em seus pesadelos com um aperto tão forte que ela quase não acreditou que seu cérebro fora capaz de criar aquela sensação. Enganei a todos uma vez, posso fazer de novo. Prepare-se. O lobo mal está chegando.
Ela passou a maioria dos dias trancafiada dentro do apartamento de , assustada demais para sair. Ele e Natã se preocuparam, mas ela recusou-se a sair até que pudessem lhe dar certeza de que não corria mais perigo.
Eles não podiam, então ali continuou pelas próximas semanas, com Duquesa como companhia. As vezes Natã vinha visitá-la, com seu humor reconfortante e abraços quentes, o que a fazia se sentir levemente melhor. Janaína também viera, uma visita que pegara de surpresa.
Ela apareceu na porta de com olhos preocupados e marejados. Quando trocaram olhares pela primeira vez desde que descobrira quem Elias era de verdade, as duas explodiram em lágrimas assustadas.
Janaína apertou-lhe com tanto fervor que sentiu falta de ar. O sentimento foi bem-vindo, contudo, pois trouxe uma sensação de segurança que agarrou como se fosse uma tábua de salvação. Depois, lhe atualizou sobre tudo e as duas choravam juntas a cada frase que completavam.
Sua amiga contou-lhe sobre como a equipe logo notou o desaparecimento dela e de Elias e de como se preocuparam ao não conseguirem notícias.
- A polícia veio logo depois – disse assoando o nariz. – Eles nos interrogaram novamente e explicaram tudo. Disseram que foi... O E-Elias que fez tudo aquilo com você... Que fez tudo aquilo com aquelas meninas...

Ela explodiu em lágrimas novamente e a abraçou mais apertado. Mal podia imaginar o que sentiria caso descobrisse que o homem a qual estava apaixonada era o criminoso que sequestrou e fez Deus-sabe-o-que com várias meninas.

- Jesus, , eu sinto tanto – suspirou Jana secando os olhos com os antebraços. – Tanto. Eu nunca poderia imaginar que ele faria algo assim. Ele enganou a todos nós por anos. Você deveria ver a cara da Carol quando eles nos contaram. Achei que fosse desmaiar. Ela gostava dele como se fosse um irmão mais novo.
- Ele também me enganou, Jana – disse tentando acalmá-la. Também chorava lágrimas constantes, mas dessa vez não por si mesma. Estava tão afundada dentro da própria dor e desespero que mal percebera como Elias havia afetado também à outras pessoas. – Trabalhei com ele por quase três meses, vendo-o todos os dias, sendo enganada por ele todos os dias.

Olhando para trás, houveram inúmeros momentos que lhe passaram despercebidos. Todas as vezes que se arrepiava ao seu redor, sentindo-se sufocada e nervosa, interpretando como uma reação ao fato de que não sabia lidar com a quedinha que ele tinha por ela, como acontecera tantas outras vezes.
Todas as vezes em que o pegara olhando para ela de forma esquisita e que não fora capaz de interpretar, principalmente quando atendia usuários do gênero masculino.
Ou simplesmente os momentos de minúsculas coincidências, como no dia que encontrara na piscina pela primeira vez, sentindo que alguém a observava e depois encontrando sua janela aberta. No dia seguinte, Elias parecia cansado e estressado, mas disse a ela que fora por causa da fisioterapia.

- E pensar – suspirou Janaína ainda secando os olhos. – Que nós íamos sair.
- Sair?! – exclamou exasperada.
- Sim! – respondeu a amiga com uma expressão raivosa no rosto. – Ele me chamou para um encontro um pouco depois do aniversário da Carol. Eu estava tão animada, agora mal posso imaginar o que ele teria feito comigo. Se eu acabaria como...

Ela se engasgou nas próprias palavras e a abraçou. O pesar cresceu em seu peito como hera venenosa ao lembrar de si mesma, dizendo à Elias que Janaína adoraria sair com ele.
Abraçou a amiga ainda mais apertado e fechou os olhos, rezando ao universo que finalmente desse a paz que todos que foram afetados por ele mereciam.

👤🔪

Se fizesse muito esforço ela quase poderia fingir que a paz que desejara havia chegado. Não houve notícias, progressos ou qualquer tipo de mudança que levasse ela ou a polícia a encontrar o paradeiro de seu perseguidor.
Até que, como todas as outras vezes, o mundo se abriu de repente e tudo virou de cabeça para baixo. Novamente, era Alice, caindo pelo buraco do coelho, indo direto contra o chão, batendo tão forte que nunca esqueceria aquele momento.
Foi em uma noite de domingo, perto do natal. se preparava para dormir, observando enquanto arrumava os travesseiros com um semblante triste.
Ah, .
Era difícil olhar para ele as vezes, principalmente graças a dor tão constantemente em suas feições. Ele envelheceu pela tristeza bem na frente dela, principalmente ao lidar com as consequências dos atos do irmão, tendo que contar tudo à família deles.
Quando ele voltou desse encontro, viu tanto desespero em seus olhos vermelhos pelas lágrimas que desabou de tanto chorar, agarrando-se à ele como ele se agarrava à ela.

- Você está bem? – perguntou ele. Os dois estavam se preparando para dormir, puxando o lençol para se deitarem, iluminados apenas pela luz do abajur. – Você não tem dormido bem e passou o dia todo tão abatida...
- Estou bem – disse tão baixinho que ela mesma quase não se ouviu. Os dias que haviam se seguido foram péssimos, mas nada comparado à aquele. Tivera pesadelos violentos e assustadores e passara cada momento do dia como se estivesse tendo um ataque de ansiedade constante. Sentia-se alerta, mas tão exausta ao mesmo tempo que era incapaz de pensar.

Eles se deitaram e viraram um em direção ao outro. olhou para e sentiu uma enorme dor no peito. Seus olhos, antes tão brilhantes e quentes, agora constantemente olhavam para ela quase como se pedissem perdão.
Ele se culpava muito pelo que acontecera, por não ter percebido tudo antes, mas nunca poderia colocar a culpa sobre os ombros dele. O irmão de enganou a todos, sem exceção.
Pousando a palma de sua mão na bochecha dele, sorriu suavemente em uma tentativa de melhorar seu humor.

- Vai dar tudo certo – disse, apesar de não acreditar nas próprias palavras. – Não se preocupe.

As palavras tinham gosto de gesso e o peso de duas toneladas. Eram mentiras deslavadas, mas pareciam deixar mais feliz. Ele sorriu, beijou-lhe a testa e apagou as luzes. Em poucos minutos adormeceu e , completamente exausta, o acompanhou.
Até que acordou de repente algumas horas depois.
Como se estivesse sendo mantida de baixo d’água e finalmente pudesse respirar, abriu os olhos e se sentou subitamente, extremamente ofegante. Seu coração batia tão forte que parecia poder quebrar suas costelas e o quarto estava tão escuro que ela se perguntou, por um segundo, se não havia perdido completamente a visão.
SAIA DAI!
Seus instintos gritavam, rugiam e ela se viu em um estado de tão sufocante desespero que quase podia sentir o sabor do sentimento em sua boca. Tentou sair da cama, mas suas pernas ficaram presas entre os lençóis e ela caiu no chão, batendo com tanta força que o som reverberou pelo apartamento.
Sentiu o chão gelado contra o rosto e mãos e tentou se soltar, chacoalhando as pernas que tanta força que sentiu as coxas arderem.
FUJA. SAIA DAI.
SAIA DAI AGORA!

- ? – sussurrou assustada, ainda presa pelas pernas. – , você precisa sair de cima dos lençóis, estou presa.

Ele não respondeu e o silêncio repousou sobre o coração de como uma bigorna feita de chumbo. Por que ele não respondia? Ela estava puxando o tecido com tanta força que era impossível não o acordar.
Antes que pudesse dizer outra coisa, ouviu Duquesa, na porta do quarto, miando de forma perturbadora. Ela sibilava com violência, como se estivesse acuada, assustada e furiosa.
A respiração de piorou. Seus pulmões pareciam ser feitos de ferro, incapazes de se expandir e lágrimas de desespero brotaram no canto de seus olhos.

- Duquesa? – murmurou franzindo as sobrancelhas. Era incapaz de enxergar qualquer coisa, mas podia perceber, por sua audição, que ela não estava longe. – Duquesa, o que foi? O que está acontecendo?
- Essa porra dessa gata nunca gostou muito de mim.

As palavras que ouviu não saíram da garganta dela e nem da de . Foram ditas com desprezo e ironia e eram pronunciadas por uma voz tão familiar que todos os pelos de se arrepiaram.
Foi pega por tamanha surpresa que não pode conter o grito que explodiu por seus lábios. De repente, uma luz foi acesa e apertou as pálpebras juntas, tentando conter a ardência que percorreu suas pupilas.
Quando foi capaz de abrir os olhos novamente, presenciou a cena de seus piores pesadelos. Ali, automaticamente, lágrimas de medo começaram a cair de seus olhos.
Sob a cama, ela pode ver a quem decidira chamar de Elias, sentado ao lado da cômoda de cabeceira, perto de . Ele olhava para ela com olhos que ela não foi capaz de reconhecer e tinha a mão na cordinha do abajur, que acabara de acender.
Sua postura era descontraída, como se eles estivessem se reunindo para jantar. Sua energia, contudo, era tão tenebrosa e assustadora, que achou que fosse capaz de desmaiar ali mesmo.

- Olá, , meu amor – disse ele com um sorriso macabro crescendo pelos lábios. – Nós precisamos conversar.



Continua...



Nota da autora: Uau. Que momento!!! Estou super sem palavras com todo o retorno que vocês me deram. Nós batemos 200 comentários e 6500 visualizações! Eu estou explodindo de felicidade.
Chegamos na reta final da história e eu não podia estar mais feliz. Obrigada a todas por todo apoio que vem me dando e por estarem realmente gostando da história. Sinto que fico falando a mesma coisa todo capítulo mas é que estou MESMO sem palavras e só tenho como ficar agradecendo mesmo!!
Entrem no grupo do face!!! Assim não vão perder nenhuma atualização <3
E segura coração!
Alguém vivo ai?



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Buttercup
Nota da Scripter:
Essa fanfic é de total responsabilidade da autora, apenas faço o script. Qualquer erro, somente no e-mail.


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