Última atualização: 03/09/2019
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- Prólogo -

A PESSOA PARADA DO OUTRO LADO DA RUA, escondida na área escura que não era coberta pelas luzes dos postes, observou enquanto a garota saía do local de trabalho, abraçando-se para barrar o vento gelado que vinha junto da noite. Ela trancou as portas do lugar e a figura a viu se afastar, o cabelo preso em um rabo de cavalo balançando em suas costas.

Sabia para onde ela ia, é claro. Já fazia semanas que calculava todos os passos dela. Possuía uma rotina comum, nada surpreendente: faculdade, trabalho, uma vez ou outra ia para o bar ou alguma festa. Mas hoje era quinta-feira, o que significava que ela faria o caminho faculdade-emprego-casa, pegando o ônibus das 20h30 no ponto há alguns quarteirões dali e desceria há duas ruas da casa dela, preferindo caminhar, então, não pelo caminho mais curto, mas o mais iluminado.

Esse era um problema sobre ela: era atenta. Usava os fones de ouvido apenas dentro do transporte público, as chaves entre os dedos formando um soco inglês caseiro. O telefone na outra mão, pronto para acionar a polícia. Pegava o caminho mais iluminado da rua e sua localização sempre compartilhada com algum conhecido. Morava sozinha, mas trancava bem as portas e janelas, além de possuir um cachorro que percebia quando alguém estava no portão.

Por isso demorou tanto para a pessoa resolver entrar em ação. Geralmente era mais rápido, mais fácil, suas vítimas mais propensas a erros e distrações, mas ela lhe deu um desafio que soube apreciar. Qual era a graça, afinal, se fosse tão fácil assim? Era bom quando uma garota trouxesse essas dificuldades, aumentando seu desejo pelo jogo de gato e rato que tanto lhe trazia prazer.

Andou na direção contrária, indo para o ponto que seria o terceiro após o da garota. E esperou, pacientemente. Quando o ônibus chegou, subiu, pagou em dinheiro e sorriu ao vê-la como ela sempre esteve nas últimas semanas: a cabeça encostada na janela, os fones de ouvido ligados, os olhos fechados. A figura se sentou alguns bancos atrás dela e por um segundo, desejou poder sentar-se mais perto, para sentir seu perfume.

Balançou a cabeça, censurando-se. Teria tempo para isso mais tarde. Observou a paisagem pela janela, tão familiar após semanas em que a via diariamente, enquanto tentava parecer o mais normal possível. Era o que restava, já que deixara o celular em casa, incapacitando qualquer possibilidade de conectar a sua pessoa ao caminho dela. Desceu, então, vinte minutos depois, duas paradas antes da dela e pegou o atalho, o que ela não escolhia pela falta de iluminação. E esperou mais alguns minutos. Quando a viu, caminhando rapidamente, sorriu. Mesmo com a rua vazia, viu como os ombros da moça relaxaram brevemente e a postura se modificou. Ela sempre abaixava a guarda quando estava chegando em casa.

Enquanto andava atrás dela, com passos silenciosos, sentiu todos aqueles sentimentos voltando à tona, enchendo seu corpo, arrepiando até o último fio de cabelo. Sentiu a adrenalina, a ansiedade, a alegria, o tesão, que correu por suas veias, esquentou seu sangue e deu-lhe a familiar fome que sempre aparecia quando estava tão perto de atacá-las. Mas, acima de tudo, sentiu o desgosto e a raiva, o ódio e a repulsa em relação a ela, suas ações e palavras, seu perfume, suas roupas, seus cabelos, seu sorriso, sua postura, todo o seu ser.

A pessoa a desprezava e adorava. Tudo junto. Todos esses sentimentos que faziam sua boca encher com o mais puro desgosto, ao mesmo tempo que sua pele arrepiava, sua genital se excitava, seu coração batia forte. O desejo, o ódio, a repulsa. Era para isso que vivia.
Agarrou-lhe o braço, de repente.

Ela virou, assustada, as chaves em punho, pronta para atacar, seus olhos arregalados e assustados, a postura dura pela adrenalina e o susto. E, por um milésimo de segundo, a figura apreciou o rosto dela, os lábios, a maciez da pele e sentiu como se estivesse pegando fogo, principalmente quando o olhar da garota mudou de choque para reconhecimento.

Ela sorriu por um momento, quase riu até. E a figura sorriu para ela, não aguentando o prazer que lhe consumia. Adorava os olhos delas. Como o brilho desaparecia por um milissegundo e era substituído pelo total horror.

A garota abriu a boca, talvez para rir, talvez para censurar-lhe – “Que susto que você me deu!” -, mas antes que pudesse dizer algo ou notar qualquer coisa, a pessoa agarrou-lhe os cabelos e, com uma rapidez surpreendente, bateu sua cabeça com toda força no muro do beco ao lado, a nocauteando.

A noite pareceu ficar mais silenciosa e escura do que já estava. Agarrando o corpo dela, arrastou-a para longe das vistas dos vizinhos que poderiam, por um lapso, resolver olhar pela janela. Colocou-a no porta-malas do carro que havia estrategicamente escondido em um matagal escuro perto do local e, com um sorriso nos lábios e um brilho no olhar, desapareceu.

A polícia só foi acionada dias depois, quando a vizinha, estranhando os latidos famintos do cachorro dentro da casa, resolveu ligar.


- Capítulo 1 -

OUVIR A VOZ DE SEU IRMÃO NO TELEFONE foi provavelmente a única coisa boa que aconteceu no dia de merda que estava tendo.

- Nada ainda? – perguntou Natã do outro lado da linha, com um tom de voz que fazia a garota adivinhar que ele provavelmente sorria com pena dela.
- Hoje foi ainda pior do que ontem – contou, prensando o celular entre a bochecha e o ombro esquerdo, tentando amarrar os cabelos pretos e compridos em um rabo de cavalo alto. – Toda fiação elétrica do apartamento estava à vista, era um incêndio iminente.
- E a casa? – perguntou ele. suspirou e arrumou a mochila sob o ombro.
- Infiltração nas paredes, tanta umidade que parece que a Amazônia crescia lá.
- Que pena, irmãzinha – suspirou seu irmão com empatia. – Mas e o emprego? Pelo menos algo bom aconteceu?
- Estou chegando lá agora – respondeu ela enquanto esperava o sinal de pedestres abrir. – Mas sério, Natã, eu não aguento mais isso. Não consigo achar um lugar que preste para morar que não custe um olho da cara e meus dois rins. Mas ao mesmo tempo não acho um emprego que não tenha um salário que beire à escravidão ou que exija comprovante de residência. Preciso de uma casa para ter um emprego, mas de um emprego para ter uma casa e ninguém me dá nenhum dos dois!
- Primaverinha, não fique assim! – riu ele usando seu apelido de infância. – É a sua estação do ano, é o seu momento! E eu já disse mil vezes que você pode ficar aqui o tempo que precisar.
- Já estou morando com você há três meses, Natã – argumentou ela. – E não tenho nem como te ajudar a pagar as contas que estão aumentando por minha causa. Não é justo com você.

Ela atravessou na faixa de pedestre segurando a barra do vestido florido para baixo, evitando que a brisa que vinha dos movimentos dos carros piorasse ainda mais seu dia, mostrando sua calcinha para todos na rua. Ignorando os comentários grotescos gritados para ela por um homem que passava, continuou a conversa.

- Eu decido o que é justo para mim e o que não é, muito obrigado! – murmurou ele. podia imaginá-lo revirando os olhos. – E eu decido que é justíssimo para mim servir de apoio para minha irmãzinha agora que ela finalmente saiu das garras daquele merda que chamamos de pai.
- Natã... – começou a censurá-lo, mas foi interrompida.
- Nem se atreva! Você sempre encontra uma desculpa para ele, por isso só saiu daquele pesadelo agora, enquanto eu já dei o fora há seis anos. Papai é grosseiro, alcóolatra e abusivo. Sair da lá foi a melhor decisão que você tomou.

suspirou e por um momento teve que se sentar em um dos bancos velhos e cobertos de folhas que encontrou na calçada. Passou a mão pelas coxas e tirou a franja dos olhos, fechando-os em seguida.

- Eu sei – murmurou sob sua respiração. Relaxou os ombros em seguida, abriu os olhos e observou o tráfico de carros. – Só é difícil não se sentir um fardo, sabe?
- Sei bem, é a especialidade do papai – respondeu Natã. – Mas eu não sou ele, você não é ele e nós agora podemos construir nossas vidas. E é isso que você está fazendo. Não se cobre tanto.

Ela sorriu de canto de boca e sentiu o coração cantar. Ela o amava tanto.

- Eu sei. Obrigada, Natã. – respondeu. Olhando para o outro lado da esquina, ainda sentada, encontrou seu destino. – Ei, eu cheguei no lugar. Falo com você mais tarde.
- Boa sorte na entrevista, Primaverinha! Vou pedir pizza para o jantar!

A biblioteca pública da cidade partiu de um projeto de estímulo cultural do município. Todas as prefeituras das cidades vizinhas contribuíram em um fundo financeiro que, após alguns anos, foi capaz de custear o projeto. Ela não se parecia com as bibliotecas que eram mostradas nos filmes estadunidenses, tão enormes que pareciam quase castelos, mas tinha seu charme apresentado por paredes coloridas cobertas por pôsteres de obras famosas de ficção juvenil e vasos de flores embaixo das janelas de vidro. Ao lado da porta de vidro, na enorme janela de vidro da direita, um cartaz feito à mão repousava com a frase: “VAGAS DE EMPREGO”.

Torcendo os lábios, suspirou. Estava tão desesperada por um emprego, por finalmente ter sua independência financeira, que estava disposta a arriscar qualquer vaga que encontrasse. Claro que isso lhe trouxe uma enxurrada de vagas horríveis, com cargas horárias e salários que beiravam à escravidão e empregadores grosseiros, elitistas e, muitas vezes, assediadores que lhe sugeriam absurdos em troca de um aumento salarial. Ela correu de todos eles e sentiu-se cada vez mais desanimada, o sonho de ser dona da própria vida parecendo ficar cada vez mais distante. Sonho esse que crescia dentro dela desde bem jovem, quando sua mãe se foi e o pai, amargurado, afundou-se na bebida e no próprio ressentimento.

Mas então, um dia, como o milagre de uma boa chuva depois de meses de tempo seco, ela encontrou em uma rede social a postagem da vaga de emprego na biblioteca pública da cidade. Mesmo com a divulgação sendo pobríssima em informações sobre vaga, ligou sem pensar duas vezes e marcou a entrevista que estava prestes a fazer. Foi animador e assustador ao mesmo tempo, pois esse emprego era como uma luz no fim do túnel que poderia nunca ser alcançada. Tinha experiência como vendedora e atendente, mas não na área em questão. Existia até mesmo o curso especializado de Biblioteconomia que, a última vez que checou, não possuía no currículo. Mas era apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cheiro e a sensação dos livros nos dedos e eles foram seu refúgio por tantos anos, que seria gratificante poder retribuir o carinho, trabalhando ali.

Com um último suspiro, alisou o vestido e abriu a porta. O frescor provindo do ar condicionado foi bem-vindo ao se encontrar com o suor que escorria pelas costas dela, fruto do dia nublado, mas extremamente abafado.

A biblioteca era ainda mais charmosa por dentro do que por fora. As paredes eram cobertas de livros de todos os tipos de capas, gêneros e tamanhos. As estantes independentes distribuíam-se pelo salão encaixando-se como um quebra-cabeça. Mesas foram espalhadas por todo o local, assim como poltronas, puffs e até mesmo pequenos tatames com mesinhas, brinquedos e livros infantis.

Encostada na coluna que sustentava o meio da sala, estava uma mesa de madeira com um computador e algumas pastas espalhadas em cima. Atrás dela, uma jovem negra com um incrível black power e utilizando um uniforme preto, com um avental de bolso com “Biblioteca Municipal” bordado. Enquanto se aproximava, percebeu que a menina tinha um crachá com uma foto dela e seu nome.

- Oi! – exclamou chamando a atenção da atendente.
- Olá! – respondeu ela com um sorriso cativante. – Como posso ajudá-la?
- Eu tenho uma entrevista para a vaga de emprego
- Ah, sim! – exclamou a atendente olhando para o computador. Depois de alguns cliques, continuou: - , certo? Do horário das 15 horas?
- Eu mesma! – respondeu ela com um sorriso nervoso.
- É um prazer conhecer você, – disse a menina enquanto saía de trás da mesa e passava a guiá-la para os fundos da biblioteca. – Meu nome é Janaína, mas eu atendo mais por Jana. Quem vai te entrevistar é o Elias, porque ele tem mais tempo de experiência do que eu.

Ela bateu com o nós dos dedos em uma porta de metal e a abriu em seguida. Atrás dela encontrava-se o que parecia ser um longo depósito de arquivos, muito provavelmente todos os dados e catalogações dos livros disponíveis na biblioteca.

- Elias? A entrevista das 15 horas chegou – chamou Janaína para o que parecia ser uma sala vazia.

então escutou o barulho de papéis e em seguida de rodas rolando. De trás de um dos arquivos mais ao fundo, um homem talvez dois, no máximo três anos mais velho que ela apareceu. Era branco, de cabelos loiros encaracolados e olhos pretos profundos. No colo dele estavam uma pilha de papéis e arquivos enquanto suas mãos rolavam as rodas da cadeira de rodas em que se encontrava.

- Oi! – disse ele com um sorriso deslumbrante enquanto se aproximava. – , certo?
- Isso! – respondeu ela enquanto o cumprimentava. – É um prazer conhecê-lo.
- Vamos nessa, então. Vou te apresentar o lugar. – Ele então pegou o conteúdo em seu colo e estendeu para Janaína. – Você consegue terminar de catalogar isso para mim, Jana?
- É claro! – exclamou ela um pouco alto demais. – Sem problemas.

seguiu Elias para fora da sala e permaneceu ao lado dele, tentando acompanhar o ritmo a cadeira de rodas.

- Não gosto muito do estilo de entrevistas formais, sabe? – contou ele. – Prefiro algo mais despojado, principalmente porque todos do grupo tem quase a mesma idade. Então acho mais legal levar os entrevistados para um tour pela biblioteca enquanto faço perguntas, principalmente porque a divulgação da vaga não era bem detalhada. Desculpe por isso, sou péssimo com tecnologias, prefiro tudo pessoalmente.
- Parece ótimo para mim – ela respondeu, sem saber ao certo o que dizer. Sentiu as mãos ficarem suadas e escondeu-as atrás das costas. – E está tudo bem sobre a divulgação, acho bom saber mais sobre a vaga pessoalmente.
- Bem, o horário de atendimento da biblioteca depende dos dias da semana. De segunda a sexta é das 9 às 18 horas e de sábado das 9h às 16h. As vezes acontece de alguém ficar até mais tarde arrumando e catalogando os livros, principalmente de quinta, sexta e sábado que são os dias que mais lotam e o trabalho aumenta, mas nunca chega a passar das 20 horas.

Os dois iam lado a lado pelo salão, Elias desviando das estantes com uma enorme habilidade que fez com que entendesse o porquê de estarem distribuídas daquela forma.

- De domingo não abrimos e você pode escolher um dia de folga na semana. A vaga que você está disputando é bem simples, basicamente recolher os livros devolvidos, colocar a devolução no sistema e colocá-los no lugar certo nas prateleiras. O salário é o que você viu na postagem.

Ele passou, então, a apontar para os lados e para cima.

- A biblioteca tem dois andares. Tentamos deixar os mais procurados aqui embaixo e mais perto da porta para atrair mais gente. Temos seções especiais para os infantis, para os nacionais, suspense, romances e assim por diante. Além de mim e da Jana, temos mais três pessoas que trabalham aqui, mas uma está no dia de folga e as outras duas no andar de cima. Alguma dúvida?
- Acho que não – respondeu ela mordendo o canto da boca. – Acho que você respondeu tudo.
- Ótimo! Agora é a sua vez. – Virou a cadeira levemente para ela e sorriu. – Me fale sobre você.

disse tudo que acreditou ser nem que levemente relevante para conseguir a vaga. Contou de suas experiências como balconista de uma lanchonete e garçonete de um restaurante, empregos que ficou respectivamente dois e três anos, até que se mudou para a cidade, saindo da grande São Paulo para o interior. Disse sobre seu amor pela literatura e escrita, sua facilidade de lidar com o público, principalmente os jovens, que eram os que a biblioteca mais buscava atrair. Afirmou ser organizada e trabalhadora, além de não se importar em ficar até mais tarde.
No fim, quando sua garganta já arranhava de tanto que falou, encolheu os ombros.

- Acho que é só isso.
- É muito para assimilar – brincou Elias com olhos brilhantes. – Mas é um bom currículo, principalmente porque buscamos priorizar quem tem paixão pelos livros, já que precisamos cuidar deles com muito carinho.

Aquilo trouxe um sorriso aos lábios dela e um pouco de esperança brotou em seu peito. O salário era normal, não pagava um aluguel sozinho, mas juntando com sua parte da herança deixada por sua mãe, talvez ela conseguisse alugar um pequeno apartamento ou kitnet.

- Fico feliz. – Elias a acompanhou até a porta e os dois apertaram as mãos.
- Foi um prazer, – disse ele com um sorriso matador. – Vou te ligar em poucos dias para dar uma resposta sobre a vaga, mas se te anima saber, você é uma das que mais se encaixam no perfil que procuro.

Ela sorriu para ele e teve que se controlar para não dar pulinhos alegres.
Se despediu e saiu. O dia, nublado e abafado, de repente parecia ensolarado e refrescante. Ignorando os comentários assediadores, as buzinas dos carros e o suor que voltava a escorrer em suas costas, correu até o ponto de ônibus alguns quarteirões dali, voltando para a casa com um sorriso que seu irmão notou automaticamente e foi capaz de suspirar esperançosa pela primeira vez em semanas.

🔪👤

Elias demorou por volta de três agoniantes dias para ligar. Quando o fez, saltou do sofá em que estava com Natã, jogando o balde de pipoca no ar e sujando o tapete do irmão.

- Você vai limpar isso! – exclamou ele.
- Shh! – ela censurou, atendendo o celular. – Alô?
- Alô, ? – respondeu a voz familiar do outro lado da linha. O coração dela bateu forte.
- Eu mesma.
- Oi, , é o Elias da biblioteca! Estou te ligando para avisar que você conseguiu a vaga.

Cobrindo o microfone do celular rapidamente, soltou gritinhos alegres enquanto pulava pela sala. Natã, percebendo sua reação, começou uma dança da vitória extremamente constrangedora.

- Muito obrigada! – exclamou ela tentando se acalmar. A voz dela devia estar afetada, pois Elias soltou uma risada.
- Eu que agradeço, acho que você é perfeita para a vaga. Se puder passar aqui amanhã para tirarmos uma foto sua e assim montarmos o seu crachá, seria ótimo.
- Claro, posso sim! Te vejo amanhã, então.
- Perfeito. Até amanhã.

Desligou o celular, trocou olhares com Natã por um milésimo de segundo e gritou em vitória. Seu irmão gritou também e ambos pularam no sofá, felizes, histéricos e dançantes até que o vizinho debaixo bateu com um cabo de vassoura no apartamento deles mandando-os calarem a boca.

🔪👤

Quando entrou novamente na biblioteca, Janaína a reconheceu e abriu um enorme sorriso.

- Você conseguiu a vaga! – exclamou dando-lhe um abraço rápido. – Gostei de você assim que te vi. Fico feliz que Elias te escolheu.
- Obrigada, Janaína – respondeu sentindo-se nas alturas. Antes que pudesse dizer algo mais, Elias apareceu.
- Olha nossa nova garota! – brincou ele. – Vamos para os fundos, tem uma parede branca perfeita para a foto.

Ela o seguiu até lá e sentou-se em um banquinho, deixando a parede branca atrás de si. Daquela forma, ficava da altura exata de Elias, que pegou uma câmera fotográfica e apontou para ela.

- Pode sorrir, se quiser – disse ele. Ela assim o fez e tirou algumas fotos.

Ele, como na última vez, a guiou até a saída. Mas dessa vez, quando ela estava prestes a sair, Elias exclamou:

- Nossa, quase esqueci!

Foi até o balcão, pegou um papel que estava debaixo do teclado do computador e entregou para .

- Um cara passou aqui mais cedo e pediu para que a gente pendurasse isso em algum lugar. Ele está alugando uma casa por um preço muito bacana e eu lembrei que você disse que estava procurando um lugar para morar, então guardei para você.

observou o papel e abriu um enorme sorriso, o coração martelando contra o peito. Era um anúncio simples, com o endereço da casa, o preço extremamente baixo e tentador e um número de telefone ao lado das palavras “Proprietário Paiva”.

Animada, se despediu e começou a ligar para o número no momento que colocou os pés na calçada. A linha discou e discou e discou e conforme mais demorava mais ansiosa ela ficava.

Uma sensação apareceu, de repente e suavemente, como uma formiguinha subindo pela espinha dela. Uma sensação engraçada porque, apesar de nunca ter sentido antes, sabia exatamente do que se tratava. A sensação de estar sendo observada.

Contudo, antes que pudesse realmente entender aquilo que seus instintos lhe indicavam, uma voz extremamente masculina atendeu a ligação.

- Alô?
- Alô, Paiva? – perguntou ela.
- Sim – respondeu silabicamente.
- Meu nome é e eu fiquei sabendo por um colega que você está pensando em alugar uma casa.

O silêncio cresceu do outro lado da linha, como se ele estivesse processando e analisando as palavras dela.

- Ah sim, a casa. Desculpe, eu estava trabalhando. Me dê um minuto.

Ela ouvir conforme ele se mexia, junto de barulhos de ferramentas e de portas abrindo e fechando. Depois de alguns segundos, ele retornou.

- Quando você está disponível para visitar?
- Contanto que seja antes da semana que vem, qualquer dia. Começo meu emprego novo depois e fica complicado para mim.
- Você consegue sexta a tarde?
- Sim!
- 14 horas, então.

E desligou, deixando-a plantada na calçada, confusa, mas ainda esperançosa.

- Capítulo 2 -

A casa ficava em um condomínio aberto que ainda estava em construção. Sendo assim, a portaria ainda não era muito elaborada, com apenas uma cabine de vigia entre duas cancelas, uma com uma placa escrita “Entrada para Moradores/Visitantes” e outra com “Saída para Moradores/Visitantes”. Dentro da cabine havia um homem por volta dos quarenta anos, grisalho e extremamente concentrado na pequena televisão de antena à frente, que transmitia um jogo de futebol.

Descendo de sua bicicleta, permaneceu alguns segundos parada, mas ele não percebeu sua presença. Ela então limpou a garganta uma e outra vez, mas ele só olhou para cima após a terceira tentativa.

- Oh, olá mocinha! – disse ele um pouco constrangido enquanto abria a pequena janela que os separava. – Posso ajudá-la?
- Oi! Eu vou na casa número treze me encontrar com Paiva.
- Paiva? – exclamou o homem franzindo as sobrancelhas. – Que engraçado, o Sr. Paiva não costuma receber muitas visitas.

Ele então inclinou-se para a fora da janelinha e apontou para o horizonte dentro do condomínio.

- A maioria das casas não foi construída, então não tem muito como errar. Os lotes são distribuídos numericamente, então é só a senhorita seguir por essa rua e virar à direita ali na frente.

- Entendi! Qual seu nome?
- Marcelo.
- Obrigada, Marcelo. Pode me chamar de , se quiser.

Ele sorriu para ela e voltou ao seu jogo. subiu de volta na bicicleta e entrou no condomínio, apreciando a brisa que batia em seu rosto naquele dia quente.

Conforme pedalava, observou o condomínio ao seu redor. Era extremamente vazio, com lotes e mais lotes de terrenos de grama verde, postes de luz distribuídos entre cada um. Alguns com placas de “Vende-se” e outros com “Vendido”. Alguns terrenos com casas começando a ser construídas, montanhas de terra e tijolos distribuídos na calçada. Em seu caminho, encontrou apenas cinco ou seis casas completamente construídas – algumas com diversos terrenos entre si – e uma delas com duas crianças que brincavam no jardim da frente.

Ao chegar na casa treze, que tinha uma moto preta estacionada na frente, parou abruptamente, permanecendo estática no meio da rua, a bicicleta encostada no quadril e um semblante confuso no rosto.
A casa era bonita, sem andares e com um sótão. Era de estilo americano, sem muro e com uma pequena escada de poucos degraus que levava a uma varanda e uma porta de madeira. Em uma das laterais, uma garagem com tamanho para um carro e com portão automático do estilo que abre através de um controle remoto.
O anormal sobre ela é que simplesmente não estava terminada.

Havia pilhas de tijolos e uma pequena montanha de terra na lateral do jardim. A pintura das paredes era de um alegre amarelo, mas não estava pronta, com rastros de pintura como se alguém não estivesse alcançando a parte mais alta. O telhado existia, mas ainda estava sem a maioria das telhas e a garagem estava aberta, mostrando em seu interior pilhas de madeira, latas de tinta e ferramentas.

deu alguns passos em direção a casa, mas parou quando alguém apareceu dos fundos pela lateral. A pessoa encostou uma comprida escada na parede da casa e deixou um latão de tinta amarela no chão. Quando se virou para ela, os dois prenderam o ar.

Ele talvez fosse um dos homens mais bonitos que já tinha colocado seus olhos sobre. Bem mais alto que ela – o que era uma surpresa, já que ultrapassava os 1,75 de altura -, com cabelos pretos e encaracolados. Ele também era de descendência asiática, mas enquanto ela era japonesa, ele parecia ser de descendência filipina, com a pele mais escura e a mandíbula mais marcada.

Os olhos pretos dele olharam para os dela com tanta intensidade que se sentiu extremamente autoconsciente.
Se esse era o proprietário, ela seria uma mulher feliz.

- Hm, oi... – murmurou ela tentando encontrar sua voz. Sentiu os próprios olhos se arregalarem quando percebeu que ele estava sem camisa. – Desculpe, eu...

O homem olhou para baixo e pareceu, assim como ela, notar apenas naquele momento que estava com o tronco amostra. Seu rosto ficou, automaticamente, com uma expressão facial de constrangimento.

- Sinto muito, isso não é muito apropriado – murmurou ele, caminhando até a varanda e recolhendo uma camiseta preta e suja de respingos de tinta que estava jogada no batente. Vestiu-a – para o enorme desprazer de – e olhou para ela novamente. – Agora sim. Você veio visitar a casa, certo?
- Sim, isso mesmo – respondeu ela aproximando-se dele, não sabendo especificar se o suor de suas mãos eram efeitos do calor, da bagunça que a casa se encontrava ou dos olhos penetrantes que a encaravam.

Ele percebeu o olhar no rosto dela e perguntou se havia algum problema.

- Não, quer dizer... Bem, eu não esperava muito isso. Achei que a casa estivesse pronta.

Ele franziu as sobrancelhas rapidamente, parecendo tão (se não até mais) confuso e surpreso do que ela, o que era absurdamente ridículo já que ele era o dono de uma proposta de aluguel de um imóvel inacabado.

- É sério? Ele não te explicou?

inclinou a cabeça para o lado, como um filhote de cachorrinho confuso com o que era dito. Ele? Ele quem? Elias talvez... fora ele que entrara em contato com o proprietário dias atrás, afinal.
Antes que ela pudesse continuar o raciocínio e perguntar-lhe sobre, continuou.

- Bem, não importa. Você já está aqui, então... – argumentou com um encolher de ombros. – Eu sou , sou um dos proprietários da casa. Seu nome é , certo?

Ela assentiu com a cabeça e descansou a bicicleta no chão. Seguiu atrás dele enquanto entravam na casa, tentando focar em suas palavras e não nos músculos de suas costas.

A casa estava um pouco melhor por dentro do que por fora. Após a porta da frente seguia-se um longo corredor com chão de madeira e paredes sem pintar. À esquerda um cômodo médio que serviria perfeitamente como sala, se estivesse terminado. O piso do chão estava pela metade, as paredes com apenas a primeira camada de tinta e havia ferramentas, pedaços de madeira e serragem espalhados por todo chão.

- Por que alugar uma casa inacabada? – perguntou de repente surpreendendo os dois.

suspirou levemente e encolheu os ombros.

- Estou passando por alguns problemas financeiros – explicou. – O homem que deveria cuidar da instalação da fiação era um charlatão que me passou a perna e a empresa que deveria trocar o piso também sumiu com meu dinheiro. Teria que parar a obra de vez se não pensasse em algo para fazer e bem... Os corredores só precisam ser pintados, tenho um quarto pronto, na cozinha apenas a dispensa está em construção e tem um banheiro que falta apenas detalhes mínimos para acabar. Eu também instalei wi-fi aqui até que a obra termine. Uma pessoa sozinha consegue viver aqui sem problemas, então pensei que talvez tivesse alguém tão desesperado quanto eu aponto de aceitar a proposta.

Coloca desesperada nisso.

- É por isso que o preço está tão baixo? – perguntou olhando ao redor. – Ainda é uma casa muito grande, existem apartamentos bem menores custando muito mais e que nem cozinha tem.
- Por isso e por umas coisinhas mais. – Eles continuaram o tour enquanto ele explicava.

observou que a cozinha era uma graça, com móveis em preto e branco e um balcão no centro, com uma linda luminária em cima. Belas janelas mostravam a rua e o jardim lateral da casa e a dispensa, não terminada, estava com a porta fechada. Depois seguiram até o final do corredor para uma área vazia que tinha, na parede à frente deles, outro corredor, sendo esse mais largo do que o primeiro e, na parede da esquerda, uma adorável lavanderia com um tanque, estantes, uma máquina de lavar e uma porta de vidro que abria passagem para o quintal.

- A obra não acabou, então morar aqui também é não ter muita paz. Estou sempre com algo para fazer, perfurando paredes, martelando pregos, cerrando madeira, essas coisas. É muito barulho. – explicou enquanto andavam pelo novo corredor.
- Você faz tudo sozinho? – perguntou ela levemente espantada, mas compreendendo de onde vinham os músculos dos braços e ombros dele que estava até agora apreciando.
- Eu prefiro – disse encolhendo os ombros como se não fosse nada demais. – As vezes Luan vem me ajudar, principalmente quando a tarefa precisa de mais de uma pessoa, mas geralmente sou só eu mesmo.

Ignorando a primeira porta do corredor, abriu a segunda, do lado daquela, mostrando-lhe um adorável banheiro com azulejos floridos e delicados. Havia um vazo sanitário, uma banheira com um chuveiro embutido e uma cortina, duas janelinhas altas, uma pia e, acima dela, um pedaço de pano cobrindo o espelho.

- Esse é o banheiro que eu falei. Está praticamente pronto, eu só preciso colocar um lustre – disse ele apontando para o teto, onde viu que uma lâmpada se encontrava sozinha e pendurada por uma fiação. – E o espelho.

Ele retirou o pano e uma falha retangular feita de tijolos apareceu na parede da esquerda.

- Não tive tempo de ir atrás de um espelho e não é algo tão essencial agora. – Ele colocou o pano de volta e virou-se para ela. – Tudo bem para você?
- Posso viver sem um espelho – respondeu, encolhendo os ombros como ele.

passou por ela para voltar ao corredor e os dois acabaram um pouco espremidos no batente da porta. ficou cara a cara com o queixo dele e sentiu seu perfume. Por um momento viu como os olhos dele se esquentaram e torceu para que não fosse algo que criou em sua imaginação.

- Desculpe – murmurou ele ainda com os olhos fixos nela. Depois afastou-se e abriu a porta seguinte. – Esse é um dos quartos que falei.

não pode evitar de sorrir enquanto olhava o cômodo vazio. Era amplo, redondo, com chão de madeira clara e lindas janelas compridas que iluminavam o ambiente e tinham como vista os fundos da casa e o horizonte do condomínio.

- É lindo – suspirou, começando a imaginar seus objetos ali. Não tinha muitos, na verdade. Abandonou seu pai com tudo que era possível caber dentro de duas malas e uma mochila, mas Natã tinha trocado alguns móveis recentemente e guardou os velhos, além de afirmar que eles encontrariam o que for preciso em bazares locais.
- É meu cômodo favorito – disse com um pequeno sorriso nos lábios que fez o estômago de se contorcer. Era a primeira vez que o via sorrir e soube, naquele momento, mesmo com aquele sorriso mínimo, que esse homem era bonito demais para o bem dela. – Achei que ia gostar.
- Por quê? – perguntou curiosa enquanto se aproximava das janelas. Ele encolheu os ombros.
- Não sei. Apenas pressenti.

Ela queria que ele explicasse mais, uma corajosa vontade de flertar aparecendo, mas se conteve. Não sabia muito sobre a vida desse homem e, apesar de nunca ter sido tímida quando se tratasse do sexo oposto, não sabia se era comprometido e com certeza ninguém recomendaria começar uma relação com o homem que poderia se tornar seu senhorio.

- Tem mais uma coisa que você precisa saber – disse ele encostado no batente da porta. – O aluguel é até a casa ficar pronta. Deve demorar por volta de seis ou sete meses, já que estou sozinho e preciso fazer o piso da sala, arrumar a fiação, pintar as paredes, terminar o telhado e ainda nem comecei a dispensa ainda. Quando tudo estiver pronto teríamos que reavaliar, pois muito provavelmente vou me mudar para cá.
- Então, deixe eu ver se entendi – disse andando pelo quarto, olhando para ele de vez em quando e contando nos dedos. – A proposta é que eu passe a morar em uma casa só parcialmente construída, em que teria que viver quase diariamente sozinha com um homem desconhecido e sem estabilidade para saber se terei lugar para morar daqui seis meses?

A resposta dele foi um encolher de ombros. Os olhos pretos fitaram-na de maneira profunda novamente e avaliou suas possibilidades.

Qualquer pessoa normal pensaria que isso era loucura por todos os motivos citados e ela se incluía na estatística, mas, ao mesmo tempo, era uma chance em um milhão. O aluguel era baixíssimo e estava certo em afirmar que um quarto, um banheiro, uma cozinha e uma lavanderia eram o suficiente para ela viver. Em seis meses, com seu novo salário e uma boa administração do que restou do dinheiro que tinha de sua mãe, ela provavelmente teria economizado o suficiente para um apartamento, caso tenha que sair.
Existia, é claro, o fato de que estaria com constantemente e sozinha. Não queria soar paranoica – ainda mais porque anos de uma criação extremamente restrita acabaram por deixá-la relapsa demais com sua própria segurança -, mas sabia que isso poderia acatar em situações perigosas para ela já que era uma mulher jovem e solitária, em um ambiente totalmente novo, com um homem desconhecido. Contudo, havia algo nele, algo que ela não conseguia explicar, mas que não deixava seus instintos atiçados.

Ou pelos menos não de uma forma ruim.

E ela queria tanto ter sua própria casa, seu próprio quarto e não uma cama improvisada no sofá de seu irmão. Natã sempre dizia que ela não era incomodo, que poderia passar anos ali sem problemas, mas sabia que ele estava sendo apenas gentil, pois as contas aumentavam por causa dela e ele não tinha a mesma privacidade de antes. Não era justo que ela continuasse vivendo às suas custas para sempre.

- Existe algo de positivo em morar aqui? – disse brincando com a situação. Além de um proprietário extremamente gostoso, é claro, pensou.

Ele sorriu para ela, divertido e quase deu tapinhas nas próprias costas, feliz por finalmente ter feito tirar o semblante sério do rosto. Ele se mexeu e ela o acompanhou até a janela, olhando para o horizonte que ele apontava.

- Tem uma piscina no condomínio – disse simplesmente.

finalmente viu o pequeno quadrado azul, ao longe, que brilhava pelo reflexo da luz do sol. Havia algumas casas construídas mais perto da piscina, mas os terrenos que seriam capazes de barrar a vista da janela e impedir que ela pudesse ver a água de longe ainda estavam vazios.
Ela riu com prazer e encolheu os ombros.

- Negócio fechado.

🔪👤

a guiou até a porta da casa e observou enquanto subia em cima de sua bicicleta. A luz do sol estava cada vez mais fraca no céu graças ao cair da tarde e a uma enorme nuvem de chuva que se aproximava.

- Quando descobrir o melhor dia para a mudança é só me falar.
- Sem problemas – respondeu ela. – Eu te envio uma mensagem.
- Até lá, então – ele murmurou. – Cuidado com a chuva.

E fechou a porta, sumindo dentro da casa.
Ao chegar na portaria, parou na cabine do porteiro e bateu no vidro.

- Sim, mocinha? – perguntou Marcelo abrindo a janela e tirando os olhos da televisão.
- Seu Marcelo, você conhece bem os moradores daqui? – perguntou curiosa.
- Não conheço os que apenas compraram os terrenos, mas os que já moram aqui ou vem com frequência, sim. – respondeu ele. – Por quê?
- O que acha do ?
- O Sr. Paiva? – disse com um semblante pensativo. – Não sei muito sobre a vida dele, apenas que é um dos proprietários da casa junto do irmão. Mas ele vem todos os dias sem falta e é um jovem muito educado, sempre me cumprimenta quando chega e quando sai e uma vez o vi ensinando uma das crianças daqui a nadar na piscina.

Ela deu um sorriso de canto de boca ao imaginar , aquele silencioso e alto homem ensinando uma pequena criancinha a dar braçadas. Marcelo percebeu e deu uma risadinha.

- Ih, vai me dizer que ele conquistou a mocinha também? Minha sobrinha é impossível, sempre tentando tascar uma olhada nele quando vem fazer o favor de entregar meu almoço.

Corando, sentiu-se como uma menininha apaixonada de doze anos e não mais como a mulher feita de vinte e quatro que era.

- Tchau, Seu Marcelo! – exclamou embaraçada enquanto saía em disparada em sua bicicleta.

Ouviu o porteiro rir ao longe e pedalou com mais velocidade, para fugir da chuva.

- Capítulo 3 -

descobriu, logo no primeiro dia, que seu trabalho seria bem mais difícil do que esperava.

Acordou no primeiro segundo do toque do despertador e saltou rapidamente da cama improvisada no sofá da sala. Com a ansiedade e animação martelando em suas veias e fazendo seu sangue fluir mais rápido, tomou uma ducha, escovou os dentes e penteou os cabelos longos, lisos e pretos. Depois vestiu as roupas pedidas pelo emprego – camiseta e calça preta e um sapato fechado – e arrumou sua bolsa com o celular, a carteira, os documentos, fones de ouvido e uma pequena bolsinha com produtos de higiene básica. Saiu em disparada em seguida, indo até a cozinha.

Natã, que já estava de pé, comia cereais em uma tigela, apoiado na pia e vestindo pijamas. Ele riu da animação dela e a observou enquanto bebia um copo de suco em um gole só.

- Você provavelmente é a única pessoa do planeta que está ansiosa para ir trabalhar em uma segunda-feira de manhã – zombou. Ela apenas mostrou-lhe a língua e começou a comer torradas e uma das frutas da mesa.
- Por que ainda está de pijama? Você disse que ia me dar uma carona – disse ela amuada quando terminou.
- E eu vou – respondeu Natã simplesmente, terminando seu cereal e pegando as chaves do carro. – Vamos nessa.
- Não vai se vestir? – riu ela enquanto o seguia.
- É segunda-feira de manhã, Primaverinha. A sociedade pode perdoar um homem de pijama.

Natã dirigiu até a biblioteca e estacionou bem na frente. Virou-se para ela com um sorriso feliz e acariciou sua bochecha.

- Hora de viver a vida, Primaverinha – murmurou e , por um momento, controlou-se para não chorar. Viu o orgulho brilhando nos olhos dele, nos olhos de seu irmão que sempre a apoiou e defendeu, mesmo ao longe, quando ele foi o único capaz de cortar laços com seu pai quando ambos fizeram dezoito anos.

O abraçou com carinho e deu-lhe um beijo na bochecha.

- Obrigada, Natã. Eu te amo.
- Eu também te amo, irmãzinha. Agora saia desse carro antes que eu desça de pijama para abrir a porta para você.

Ela voou para fora porque sabia que ele era muito capaz disso.

🔪👤

chegou uma hora mais cedo porque precisava passar por um rápido treinamento antes do seu primeiro dia. Havia uma placa na porta dizendo que estavam fechados, mas, como Elias havia lhe informado por mensagem no dia anterior, sabia que estava destrancada. Quando entrou na biblioteca, Janaína, novamente, foi quem a recepcionou, enquanto colocava uma pilha de livros em cima do balcão.

- Bem-vinda! – exclamou alegre com um sorriso que iluminava todo seu belíssimo rosto, seus cabelos crespos amarrados por um deslumbrante turbante colorido. Depois, fez um sinal para que a seguisse e a levou até um conjunto de armários embutidos nos fundos da biblioteca.
- Pode deixar sua bolsa aqui – afirmou entregando-lhe uma chave com o número quatro esculpido no chaveiro. – Ninguém vai mexer, os clientes geralmente nem percebem que os armários existem.

Entregou-lhe seu crachá e um avental de bolso bordado e riu da expressão do rosto dela.

- Feinho, eu sei. Mas o bolso vem a calhar quando você tem livros demais nas mãos. Vou te ensinar como usar o sistema e depois te apresento para o resto da equipe quando eles chegarem.

O sistema não era dos mais complicados. Era basicamente um formulário em que tinha que encontrar o processo de empréstimo da biblioteca e preencher quando foi devolvido, que horas, por quem e – em caso de atraso – de quanto seria a multa, além de receber a informação do local exato onde o livro deveria ser recolocado. Quando já parecia mais acostumada com o computador, cerca de um pouco mais de trinta minutos depois, outros dois funcionários chegaram.

O primeiro a se apresentar foi Matheus, um garoto negro transsexual tímido que parecia ter entre dezoito e dezenove anos. Ele era mais baixo que (o que, sinceramente, era algo que ela já estava acostumada), com cabelos pretos, óculos e alargadores nas orelhas.

A segunda era uma garota da mesma idade que Matheus, chamada Raquel. Magricela, branca como leite e extremamente ruiva, ela possuía milhares de sardas pelo rosto, ombros e colo. Era, ao contrário do companheiro de trabalho, uma grande tagarela que não parou de falar desde que colocou os olhos sobre .

- É um prazer conhecer você! – exclamou abraçando-lhe forte. Era mais alta do que Matheus, mas ainda chegava apenas ao peito de . – Finalmente alguém aceitou essa vaga. Eu não aguentava mais ter que fazer tudo sozinha.

sentiu um leve comichão com as palavras da colega, como se houvesse algo mais ali que ela não estava enxergando. A sensação piorou quando Janaína fez uma expressão estranha e começou a falar como se quisesse mudar de assunto, mas não teve tempo para persistir no sentimento, então acabou por esquecê-lo.

- A Carol é mais uma moça que trabalha aqui, mas ela se casou esse fim de semana e está em lua de mel, só volta daqui um mês e meio. Você não precisa se preocupar porque ela é a pessoa com mais tempo de experiência da equipe depois do Elias, então é ele que vai ficar sem dupla. Eu e o Matheus cuidamos da recepção e do empréstimo dos livros, você e a Raquel da devolução e todo mundo ajuda os clientes a achar as seções e esse tipo de coisa.
- Um mês e meio em lua de mel? – perguntou um pouco surpresa.
- Ela tem família na Europa – explicou Jana rindo de sua expressão. – E estava com férias pendentes. No fim juntou o útil ao agradável e pediu férias para emendar com a viagem.

Elias entrou nesse momento, vestindo o uniforme e com uma mochila sobre as pernas. Ele deu bom dia a todos e sorriu ao vê-la.

- Jana cuidou bem de você? – perguntou brincalhão.
- É claro! Ela é ótima.
- Ela é sim, sabia que conseguiria – disse ele e notou como as bochechas de Janaína coraram com prazer. – Bem, são quase nove horas, então todos ao trabalho! Espero que tenham um ótimo dia e se tiver qualquer problema, , é só me chamar.
- Pode deixar, chefinho! – respondeu Raquel em seu lugar, agarrando a mão de e a puxando para longe. Os cabelos crespos saltavam enquanto ela andava. – Vem! Ainda dá tempo de te mostrar onde fica cada seção.

Matheus olhou para ela e sussurrou com os lábios: “Boa sorte!”. Janaína deu-lhe um polegar para cima e Elias uma piscadela e o coração de se esquentou ao perceber o grupo incrível no qual agora fazia parte.

Foi quando os clientes começaram a chegar que o humor dela azedou. Havia se esquecido o quão difícil era trabalhar com público.

Era impressionante a quantidade de clientes sem razão que poderiam aparecer em uma biblioteca. Clientes que devolviam livros com meses de atraso e ficavam revoltados em ter que pagar a multa, que rasgavam, molhavam, rabiscavam as obras, perdiam os livros e se recusavam a pagar novos, que insistiam que tinham direito de comprar o livro da biblioteca mesmo que ela explicasse que havia uma seção específica com obras à venda e que essa, infelizmente, não fazia parte. E, entre outros diversos problemas, o clássico: “Moça preciso que você ache um livro para mim. Não sei o nome, nem o autor, nem de que ano ou de onde é, mas é um romance com um casal na capa”.

Foi em um dos momentos que Raquel assumiu o comando e deixou que ela fugisse para respirar em uma seção vazia por alguns minutos, que percebeu a presença dele.

Não soube explicar a razão pela qual chamou sua atenção. Era um homem normal, branco, alto, loiro, sentado em uma das mesinhas com um notebook fechado, um livro aberto e uma garrafa térmica e metálica. Não havia nada ali que chamasse atenção, que tivesse qualquer indício de que algo estava errado. Mas por alguma razão ela o notou e encarou-o por alguns segundos, sem entender por quê.
Foi interrompida pelo som da cadeira de rodas de Elias e sua aparição logo depois.

- Você está bem? – perguntou ele seguindo seu olhar e olhando para o homem com as sobrancelhas franzidas.
- Sim, estou – murmurou ela. – Só vim respirar um ar. Tinha me esquecido de como os clientes podem ser difíceis.
- Confie em mim, eu entendo – respondeu ele mudando seus olhos para ela e rindo. – Tente ser o gerente em uma cadeira de rodas, ninguém te leva a sério.

se sentiu mal por Elias automaticamente. Mal podia imaginar como deveria ser difícil estar em uma cadeira de rodas tendo que levar livros, documentos, pastas para lá e para cá e ainda lidar com a grosseria e falta de respeito de algumas pessoas.

- Sinto muito, deve ser horrível – disse com empatia.
- Está tudo bem, você se acostuma. Foi bem pior no começo porque tive que passar pelo choque de parar de andar.
- Você teve um acidente? – perguntou não conseguindo segurar a curiosidade. Por sorte, Elias não pareceu incomodado em responder.
- Tive, poucos anos atrás. Moto, noite escura, na chuva e em alta velocidade, a receita para o desastre. Derrapei e bati em um carro no cruzamento. Acordei um mês depois com os dois braços quebrados, costelas fraturadas e sem sentir as pernas.
- Meu Deus! – exclamou, arregalando os olhos.
- Pois é – murmurou ele com os olhos um pouco vidrados como se a cena estivesse se repetindo em sua mente. – Nunca acharam o motorista, acho que ele ficou com medo e fugiu. Eu tento fazer fisioterapia pelo menos duas vezes por semana desde então e estou um pouco melhor. Consigo ficar de pé por uns segundos sozinho e esses dias até dei alguns passos.
- Fico feliz – disse ela com tamanha sinceridade que os olhos de Elias até brilharam. Sentindo como o ar ficou pesado, lembrou-se que queria falar com ele sobre outra coisa. – Mudando de assunto, eu queria te agradecer. Consegui um lugar para morar!
- Naquela casa que te dei o panfleto? – perguntou ele sorrindo. – Que bom! Fiquei um pouco apreensivo depois, pensando que nem sabia nada sobre aquele homem e o indiquei mesmo assim, mas fico feliz que deu certo.
- Deu sim. O proprietário é um cara legal.

E gostoso.

- Quando você se muda?
- Provavelmente no sábado. Queria que fosse antes, mas meu irmão trabalha e ele queria me ajudar na mudança. A propósito, tudo bem se eu sair no máximo uma horinha mais cedo? Por causa da mudança.
- É claro! Não se preocupe.

Elias sorriu, parecendo feliz por ela e encostou a mão em seu braço em um gesto amigo que trouxe um arrepio na espinha de . Rapidamente, ela ajeitou a coluna e gaguejou:

- B-Bem, é melhor eu ir... A pobre Raquel não pode ficar sozinha lá para sempre.

E saiu em disparada, voltando para o caos que era, principalmente, a seção dos romances eróticos, sem entender a própria reação.
O homem misterioso voltou na terça, na quarta, na quinta e na sexta. Sempre um dos primeiros a chegar e um dos últimos a sair.

se perguntou por um tempo se ele não tinha um emprego, mas avaliou que o homem sempre trazia o notebook consigo e muitas vezes ficava horas lendo e digitando nele. Podia ser um escritor, um revisor ou qualquer tipo de cargo que demande muito tempo no computador e isso não fazia de sua presença estranha, pois muitas pessoas procuravam o silêncio e o conforto da biblioteca para conseguirem se concentrar.

Ela começou a acreditar que o que sentia era pura paranoia quando perguntou sobre o homem aos colegas e mais ninguém parecia ter notado que ele existia.

- Não sei quem é não – lhe disse Janaína na terça-feira enquanto as duas organizavam as cadeiras nas mesinhas que ficaram uma bagunça após algumas crianças usarem. – Mas ele parece tranquilo. Talvez o Matheus saiba de algo, melhor perguntar para ele.

Infelizmente, não foi o caso.

- Nunca o vi antes, eu acho – respondeu Matheus na quarta-feira enquanto os dois levavam pilhas de papéis aos arquivos do fundo. – Mas ele é um gatinho! Talvez a Raquel saiba de alguma coisa, fofoqueira do jeito que é.

Mas nem mesmo Raquel, que sabia tudo sobre os clientes que vinham com mais frequência, soube lhe dar uma informação.

- Ele eu nunca notei – disse a menina na quinta, enquanto as duas devolviam livros de mistério para suas respectivas estantes. – Nunca o vi por aqui, mas talvez seja melhor você perguntar ao Elias ou à Carol quando ela voltar, já que eles são os únicos que trabalham aqui há mais de três meses. Talvez ele seja um cliente antigo ou um ex-funcionário. Agora, se você quiser saber sobre aquela moça de cor-de-rosa e óculos de sol, eu sei que ela adora alugar livros eróticos com sadomasoquismo.

Elias também não sabia lhe informar muito sobre o homem. O cargo de gerente o deixava principalmente na parte administrativa da biblioteca e no pesado cargo de ter que catalogar em papéis físicos cada um dos livros novos que chegava à biblioteca (a prefeitura exigia tal depois que um apagão há três anos queimou os computadores e fez com que todos os arquivos online desaparecessem).

- Desculpe, eu conhecia mais os clientes quando comecei a trabalhar aqui – ele lhe disse na sexta enquanto a ajudava a resolver um problema de bug no computador. – Mas agora fico tanto nos arquivos que não conheço mais ninguém. Por quê?
- Ah, por nada – mentiu . – Ele só me parece familiar, mas acho que é coisa da minha cabeça. Ninguém conhece ele.

Elias não pareceu acreditar nela, mas deixou sua mentira passar.

- Acho que só a Carol vai conseguir te ajudar, então. Ela trabalha aqui há um pouco mais de um ano, entrou logo depois de mim. Se esse cara é um cliente antigo ela vai saber te dizer.

Não foi preciso, contudo, esperar Carol voltar para que tivesse contato com o homem misterioso.
Na sexta-feira, quando faltava apenas vinte minutos para fecharem e o sol já se punha deixando o céu em um belíssimo tom alaranjado, Raquel bateu no quadril de com o próprio e deu-lhe uma piscadela.

- Pode ir mais cedo se quiser, eu me viro. Considere um presente de comemoração pela primeira semana de trabalho.

, exausta e estressada após uma longa discussão com uma mulher que simplesmente achava um absurdo ter que pagar por um novo livro após o filho de seis anos dela ter arrancado todas as páginas da obra – “Criança é assim mesmo, vocês deveriam estar preparados para isso!” -, ficou tão feliz que quase deu-lhe um beijo na boca. Contudo, se conteve e apenas abraçou a nova amiga apertado.

- Você é um anjo – murmurou nos cachos ruivos de Raquel e depois foi aos fundos da loja, onde guardou o avental e recolheu sua bolsa.

Por precaução, abriu-a e olhou o que tinha dentro. Depois de ter o celular roubado mais de três vezes quando morava em São Paulo, tornou-se um pouco paranoica com seus pertences e sempre checava a bolsa após um período fora de sua vista. Abriu a carteira e sorriu ao ver que todos os seus documentos e cartões estavam ali, além de uma adorável foto polaroid dela, Natã e a mãe deles quando os dois eram crianças.

Ela sorriu observando os traços asiáticos da mãe, de quem herdara os próprios, sentindo uma saudade imensa do brilho no olhar dela e de seu perfume. Distraída, retirou o passe de ônibus da carteira e colocou no bolso traseiro da calça. Guardou a carteira na bolsa e, com uma despedida rápida ao resto dos colegas, retirou-se da biblioteca.

Foi quando estava na esquina, quase colocando os fones de ouvido, que ouviu um grito atrás de si.

- Ei! !

Ela olhou para trás, confusa, sem reconhecer a voz. Quando o viu, empalideceu.

Era o homem misterioso da biblioteca.

E ele corria em sua direção.

Ela permaneceu parada na calçada, pálida e confusa, seu cérebro tentando assimilar o que estava acontecendo.

não conhecia esse homem, apesar de sentir dentro de seu núcleo que precisava saber quem ele era. Como ele a conhecia? Ele andava a observando? Por que vinha a seu encontro?

- Você deixou cair isso – disse o homem estendendo a ela um bilhete de ônibus com o nome dela gravado. colocou a mão no bolso traseiro, de repente, e percebeu que estava vazio. Esticou a mão para recuperar o objeto, mas antes que conseguisse, o homem abaixou o braço e voltou a falar. – Há quanto tempo você trabalha na biblioteca?

Desconfiada, respondeu com relutância:

- Essa é a minha primeira semana...

O homem pareceu avaliar suas palavras e permaneceu ali, mudo e pensativo, olhando atentamente para ela. Sentindo-se desconfortável, levantou a sobrancelha e ele, parecendo levemente constrangido, estendeu o bilhete novamente.

- Aqui.

Ela tirou o objeto da mão dele e colocou de volta no bolso, dessa vez olhando a ação para ter certeza que não erraria novamente.

- Qual seu nome? – ela perguntou enquanto se virava.

Foi surpreendida, contudo, com o fato de que ele já se afastara dela e sua pergunta ficou pairando no ar, sem resposta.




Continua...



Nota da autora: Oi pessoal! Obrigada pelos comentários! Vocês são dez <3 tenho alguns capítulos já escritos e estou tão ansiosa para ver a reação de vocês sobre elesss. Se tiverem alguma teoria já em mente ou alguma ideia e quiserem compartilhar vou ficar MUITO feliz!
Claro que não vou dar spoilers sobre, mas vou adorar ler e saber como a cabeça de vocês está trabalhando!
Beijos e até o próximo!

Nota da Scripter: Adorando a relação da Harumi com o irmão e simplesmente apaixonada pela completa diversidade de personagens nessa história. Mas agora cada novo personagem que aparece, fico me perguntando quem é o stalker! Ai que nervoso.

Essa fanfic é de total responsabilidade da autora, apenas faço o script. Qualquer erro, somente no e-mail.


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