O Canto da Sereia

Última atualização: 24/04/2020

Capítulo 1

12 de agosto, 2019,

Arrumei minha gravata, demonstrando um pouco do nervosismo que ameaça tomar conta de mim. Tudo dependia desse encontro, se eu voltaria para casa com o rabo entre as pernas, implorando um trabalho na companhia da família, ou se meu livro finalmente ia ser publicado. Pensando agora, talvez não tivesse sido uma boa ideia apoiar tanta expectativa sobre um tio que eu nunca havia conhecido e que odiava meu pai com todas as forças.
Quase tudo que eu sabia sobre tio Harry, descobri através de matérias de jornais sobre sua editora. Meus pais sempre mudavam de assunto quando o papo era o porque da briga, mas eram bem enfáticos sobre quem era o culpado. O máximo que pude deduzir, foi que Tio Harry havia saído de casa e deixado meu avô na mão, mas o motivo continuava sendo um mistério. Parte de mim esperava ganhar algum crédito com ele por ter feito basicamente a mesma coisa.

- Com licença - uma garota de cerca de vinte anos me chamou do balcão, a voz mais simpática que o normal. - O senhor Brooks mandou chama-lo.
Agradeci rapidamente e segui em direção ao seu escritório. Observei que a secretaria continuava me seguindo com os olhos, até fechar a porta atras de mim. Nada mal.
Olhei em volta rapidamente, tentando entender um pouco melhor com quem iria lidar. O quarto era extremamente arrumado, todo feito de madeira e seria completamente normal se não fosse um detalhe: a quantidade de fotos de Harry, parecia que a sala inteira era um santuário para o cara. Todas as fotografias eram dele sozinho portanto algum prêmio ou junto de alguém importante, o mesmo semblante em todas, uma mistura orgulho e superioridade.

- Bem, quem diria que seria assim que conheceria meu sobrinho.

Um senhor de uns 50 anos me olhou de cima a baixo, enquanto apagava um cigarro rapidamente. Procurei semelhanças com meu pai, mas não encontrei nada. Imagino que ele fazia o mesmo me encarando, vasculhando cada centímetro do meu rosto.

- É um prazer conhece-lo, Sr. Brooks.

Ele manteve o rosto sério por alguns segundos, me fazendo refletir se realmente tinha sido uma boa escolha ter ido até la. Estava me preparando para virar as costa e ir embora quando ele soltou uma gargalhada.

- “Senhor Brooks”, para com isso garoto, só porque eu e seu pai nos odiamos não significa que eu te odeie também. Pode me chamar de Harry. Vamos agora, sente-se aqui.

Aceitei a sugestão com um aceno de cabeça. Até agora as coisas iam bem.

- Então, não posso dizer que não fiquei surpreso quando recebi seu e-mail, ainda mais com o quão enigmático ele foi.
- Eu não sabia exatamente como deveria agir com o senhor, então decidi contar só o necessário e resolver o resto ao vivo.
- Está certo garoto, mas agora precisa me explicar. Pelo o que eu entendi, você quer publicar aquele livro que me mandou, certo?

Seu tom de voz não me deu muita confiança. Parecia muito condescendente.

- Sim! Claro que precisa de alguns ajustes, e é minha primeira tentativa de escrita de verdade, também só consegui escrever alguns...

Ia continuar listando todos os contra do livro quando ele me interrompeu com um sinal.

- Eu gostei da história, de verdade, porém falta alguma coisa. Sua sorte é que eu sei exatamente o que é isso. Experiência. Se fosse qualquer outra pessoa, eu mandaria para fora e falaria para ela retornar daqui alguns anos, mas você, além de ser meu sobrinho, tem muito potencial, então vou te dar uma chance.
- Poxa senhor, seria muita bondade, vou me esforçar de verdade, reescrever os capítulos que te mandei, seguir os prazos, o que você mandar.
- Calma lá garoto, eu não disse que ia publicar *esse* livro, eu disse que ia te dar uma chance - ele olhou para o lado e abaixou a voz, num tom confidencial. - Você conhece Noah Ezra?

Obviamente eu conhecia, o cara estava em todos os jornais. O norte americano mais jovem a se tornar um milionário. Herdou uma construtora quase falida do pai e em alguns meses conseguiu torna-la a maior do estado. Ele acabou virando uma espécie de celebridade, por ser jovem e bonito, fazendo várias propagandas, o que triplicou sua fortuna.

- Claro, a cara dele está na internet inteira.
- Exatamente, e como um bom homem de negócios, ele resolveu investir ainda mais em sua imagem, encomendou uma biografia a minha editora.

Arrepiei um pouco com a responsabilidade que estava me sendo oferecida. Cheguei ao escritório querendo publicar um livro relativamente bobo de mistério e saia com a oportunidade de escrever um livro sobre o cara mais influente da America do Norte? Como se estivesse lendo meus pensamentos, Harry começa a rir.

- Claramente, você não vai escrever a biografia inteira. Temos um time de especialista pra isso, mas esses caras são todos velhos demais para o trabalho que eu preciso. Você, por outro lado, seria perfeito. Seriam apenas alguns capítulos, sobre a vida íntima dele.
- Você quer que eu me aproxime dele então?
- Claro que não! Isso que eu te falo sobre experiência - ele balançou a cabeça, me julgando. - Ezra provavelmente vai querer ser pintado como um santo, jamais ia admitir ter feito uma coisa errada, mas nossas pesquisas apontam o contrário.

Harry pega uma pasta e desliza sobre a mesa até mim. “ ” estava escrito em letras garrafais. Dentro, o primeiro documento era uma foto 3x4 ampliada de uma garota. Ela parecia ter a minha idade, com cabelos ondulados escuros e pele bronzeada, olhos enormes que pareciam meio assustados.

- Quem é essa?
- Antes da fama, no ensino médio, eles eram um casal. Os pais da menina morreram e Ezra, que tinha começado a ganhar dinheiro, comprou um apartamento para os dois. Tudo lindo, ela entra na faculdade com o dinheiro dele, dois anos maravilhosos passam e do nada alguma coisa acontece. larga a faculdade e alguns meses depois é encontrada morando na rua. Foi um trabalho enorme encontra-la, imagino que esteja se escondendo dele, por isso é de extrema importância que isso não saia daqui.

De repente não estou mais tão confortável na cadeira.

- O que exatamente você quer que eu faça?
- Eu arrumei um trabalho para você numa livraria que ela frequenta, vai se aproximar dela e descobrir como era o relacionamento dos dois. Você ficara encarregado de escrever alguns capítulos sobre, seu nome não vai constar nos dos autores, mas vai ganhar uma coisa ainda mais importante do que crédito: experiência. Seu livro tem potencial, , mas não é crível, escrever sobre algo que aconteceu de verdade vai fazer você notar as diferenças.
- Não sei, não, tio Harry, me sinto meio mal por usar a garota desse jeito. Ainda mais com uma história traumática por trás.
- Se você conseguir isso, eu publico seu livro.

Pela primeira vez na tarde, Harry se cala e espera. Minha consciência entra em guerra com a razão. Era realmente uma oportunidade única de conseguir experiencia, e se eu não fizesse meu tio provavelmente arumaria outra pessoa para o trabalho. Finalmente, com um suspiro resignado, aperto a mão de Harry.
Tenho a sensação estranha de que acabo de vender minha alma.


Capítulo 2

12 de novembro, 2019,

- , essa é a terceira vez no mês que ela não aparece.
John era o cúmulo da agitação, os olhos arregalados percorrendo o lugar inteiro. Não duvidava nada que tivesse cheirado alguma coisa no banheiro, mas claro, não cabia a mim dar palpites, pelo menos não enquanto ele estivesse pagando meu salário no dia certo.
- Ela acordou meio mal hoje, ainda vai aparecer, só tá um pouco atrasada, relaxa cara.

Coloquei total certeza na voz, tentando parecer mais confiante do que realmente estava. Sereia tinha essa mania de seguir suas próprias regras, o que era um charme, quando não colocava meu emprego na reta.

- Eu não me importo se ela esta de coma - a voz dele afinou, um obvio esforço para não gritar. - Se eu estou pagando mil dólares para ouvir a voz dela, então ela vai aparecer aqui, nem que seja só o cadáver.

Parecendo perceber a deixa, a silhueta de Sereia entra pela porta do bar, não ha um único resquício de culpa por estar uma hora atrasada.

- Doente, né? - John fica vermelho como um tomate. - Você acha que eu tenho cara de palhaço por acaso, Sereia? E você , vale a pena perder seu emprego por causa de um rabo de saia?
- Meu Deus, John, quanto estresse! Eu tenho tudo planejado, já sei que todos os seus cinco clientes nunca chegam antes das dez - o sorriso dela não chega aos olhos, o ódio pelo chefe fica claro. - E, sinceramente, rabo de saia? Estamos nos anos 90? Não sei se você ouviu sobre a nova moda, chama feminismo.
- As vezes parece que você se esquece que eu posso mandar os dois pra rua na hora que eu bem entender.

Sereia parece meio abalada, um pouco da máscara de garota má se quebra. Acredito que ela ainda se lembra dos dois meses que passou morando na rua, a única coisa que a faz refletir sobre suas atitudes é a possibilidade de voltar para aquele lugar.

- Você vai demitir a gente, é isso?

Ele fica quieto por um momento analisando-a por inteiro. Até demais.

- Ainda não, mas essa é a última chance, outro dia atrasada e é rua.

Com o ar de superioridade, ele vira as costas e anda em direção ao banheiro. Mais uma carreirinha, para comemorar, provavelmente. Expiro um ar que nem sabia que estava segurando.

- O que aconteceu? Não da pra segurar sua barra toda vez que você resolve que não quer vir trabalhar.

Os olhos dela estão meio marejados e me arrependo um pouco de ser grosso.

- Não é questão de querer trabalhar - ela solta um suspiro como se estivesse conversando com uma criança. - Você é mais inteligente que isso, parece até que escolhe ignorar algumas coisas.
- Bom, já que você é tão superior a mim, porque não explica o que esta acontecendo? Ou eu devo comprar uma bola de cristal? Agora que estou pensando sobre provavelmente seria um bom investimento, essa não é a primeira vez que você passa a agir toda misteriosa e estranha e espera que eu adivinhe o porque.

Ficamos os dois nos encarando, as pupilas dela eram um reflexo das minhas: Puro fogo. Alguma coisa muda de repente, ela desvia o olhar e quando volta a me encarar não ha uma única emoção no rosto.
- Eu não tinha ideia queria que virássemos amigas adolescentes! Vou te contar todos meus traumas enquanto faço suas unhas, o que você acha disso?
- Ah, eu deixaria você fazer até meu cabelo se isso significasse te entender um pouquinho mais. Acho que os caras que você pega sabem mais da sua vida do que eu.
- Sabe , você é um amor, mas as vezes é um babaca.
- Babaca? Eu fui isso exatamente quando? Quando eu te arranjei um emprego? - ela revira os olhos e se afasta, dando a entender que cansou da discussão. -Quando eu evitei que você perdesse esse mesmo emprego umas dez vezes? Quando eu te tirei das ruas?

Assim que falo a última frase, sei que passei dos limites. Sereia percorre em dois passos a distância que havia colocado entre a gente.

- É, você tem razão, não faço ideia do porque de ter me ajudado, ia ser *tão* menos trabalhoso me deixar la para morrer - o rosto dela volta a ser uma mascara, só o sarcasmo escapa. - Quando você tirar a cabeça do seu umbigo e parar de sentir tanta pena de si mesmo a gente conversa de novo.

Marchando em direção ao pequeno camarim que compartilhamos, ela me deixa para trás ainda meio puto, mas sem conseguir lembrar o motivo. Os primeiro clientes do bar entram, um grupo de quatro garotos, todos com cerca de 20 anos. Se John voltasse e percebesse que já havia pessoas no lugar e ainda não estávamos tocando, provavelmente seria a gota d`água . Respiro fundo me preparando para lidar com Sereia.

- Ei - falo em tom meio conciliatório. - Me desculpa pela explosão...

Ela me interrompe antes que eu possa concluir.

- Relaxa, em casa a gente conversa sobre. Já tem clientes, né? Vamos subir rápido, tô pronta.

Eu sei que não vamos terminar essa conversa nunca, mas com ela era sempre assim, nunca saber que humor esperar e viver sempre aguardando o próximo momento de vulnerabilidade. Antes que eu possa insistir no assunto, ela já está no palco pequeno no meio do bar, acenando para o “público”. Entro correndo com meu violão a tira colo. Começamos a tocar e como sempre uma espécie de magia envolve Sereia, ela parece completamente espontânea. Pela primeira vez na noite não parece estar lutando contra si mesma. John podia falar o que quiser, mas não a demitia porque ela era boa. Havia uma razão para que seu apelido fosse Sereia. Quando a musica acaba, o bar ja tem outros três pequenos grupos novos.
Depois de algumas músicas, percebo que um dos garotos do primeiro grupo está completamente alheio a conversa dos companheiros, os olhos fixos em Sereia. Fico mais estressado do que deveria, toda noite pelo menos um cara tentava ficar com ela, imagino que a vejam como uma especie de troféu, uma conquista que eles exibiriam para os amigos no dia seguinte. Ela sabe disso, mas parece não se importar, quando percebe o interesse do garoto passa a cantar olhando diretamente na direção dele. Um sorriso cafajeste aparece em seu rosto e fica assim por várias músicas consecutivas. Minhas mãos tremem para tirar aquele olhar convencido dele na base do soco, erro alguns acordes por falta de concentração. Sereia finalmente para de encara-lo e me olha, uma preocupação misturada com curiosidade aparece em seu rosto. Aproveitando que a musica acabou ela abaixa o microfone.

- Ei, o que foi?
- Nada, , só confundi o acorde.

Na hora que falo seu nome verdadeiro sei que entreguei meu jogo. Ela sabe que apenas quando estou irritado a chamo assim. Suas sobrancelhas se levantam em uma pergunta silenciosa, ignoro completamente começando a próxima música. Sereia não tem muita paciência pra drama e resolve apenas revirar os olhos, me pergunto se ela realmente gosta de mim ou se sou apenas o brinquedo favorito dela. Assim que meus pensamentos começam a ir mais longe me reprimo: Querendo ou não *eu* gostava dela e não a deixaria ir embora por causa das escolhas erradas que ela parecia tomar só por diversão.
Finalmente a última música acaba, desço do palco sem me despedir da plateia, que evoluiu para um total de vinte pessoas. Os clientes costumavam ser os mesmos, o que significava que sabiam que depois do fim de nosso show restavam ainda trinta minutos do bar aberto. Todos viraram as costas e ignoraram completamente o agradecimento de Sereia. Ela vem para o camarim com o olhar humilhado que tem toda noite.

- Bando de selvagens. Seguem o álcool como se fosse sangue.

Olho meio descrente em sua direção, normalmente quem corria para beber antes do final do expediente era ela.

- Alguns te chamariam de hipócrita, mas eu vou chamar apenas de estranha.

Sereia revira os olhos, bem humorada novamente.

- Por favor, , eu tenho modos. Nem uma pessoa bateu palma no final. Eu poderia ter dado um discurso nazista que eles não perceberiam.
- Ah, então o Don Juan de hoje não ficou para ouvir seus agradecimentos? Muito triste realmente, não existe mais cavalheirismo.

Ela joga a cabeça para trás para dar um riso debochado.

- Então é isso que foi o seu “Apenas errei um acorde”? Medo de dormir sozinho?

Nós dois dividimos um apartamento há um ano, e por mais complicado que fosse nosso relacionamento, até que era uma convivência bem pacífica.

- Sim, você sabe que tenho medo do escuro.

Ela revira os olhos e sai do camarim, indo aproveitar bebidas grátis, cortesia de sua aparência. Continuo a observa-la de longe, o garoto de mais cedo a oferece uma cerveja que ela aceita de bom grado. Suspiro meio derrotado. Não importa o quanto me esforce, para Sereia eu ia ser para sempre apenas um amigo. Claro que não odiava completamente a friendzone, eu sabia que ela tinha mais sentimentos por mim do que por qualquer outro babaca que passava a noite, mas as vezes eu quase queria que ela dormisse comigo sem nenhum sentimento.
Ainda estou perdido em pensamentos quando meu celular toca, ao passar os olhos pela tela estremeço. Estou fodido.

MARIA
Precisamos conversar. Amanhã.


Capítulo 3

13 de agosto, 2019, Sereia


Algumas emoções começam a chegar a mim, todas fragmentadas. Dor. Confusão. Raiva. Vergonha.
Isso provavelmente significa que acordei.
Encaro o teto do meu quarto, porque não quero olhar para o lado e ver a bagunça que ele se tornou. Como de costume, tento refazer meus passos e decidir quando tudo deu errado, mas meus erros vão mais longe do que minha memória consegue pensar no momento. Penso em quantas vezes falei “Bom, esse é o fundo do poço” e quantas vezes continuei descendo. Respiro fundo e repito o meu mantra de sempre:

- Se não tem solução, não tem problema.
- Acordou pensativa?

Vejo meu colega de apartamento apoiado no batente com um bom humor inegável. Qualquer sinal de emoção negativa é varrido pra debaixo do meu semblante, não merecia o encosto de amizade que eu havia me tornado, eu tentava meu máximo pra fingir estar melhor por ele.

- Eu sempre sou pensativa, é meu charme. Você por acaso estava me espionando dormir? Creep.

Para minha surpresa ele cora um pouquinho.

- Se você não estivesse roncando tão alto eu ainda estaria dormindo.

Fico com um pouco de vergonha, por mais que não acreditasse muito que estivesse de fato roncando, é meio quando falam que tem um negocio no meio dos seus dentes só para abalar a confiança.

- Tá bom, mas vou passar a trancar a porta, só por garantia.

Ele me da a língua e desencosta do batente, voltando para o corredor. Aproveito que estou sozinha de novo para dar um último suspiro. Eu amava muito , e nunca seria capaz de retribuir tudo que ele fez por mim, mas eu meio que queria estar sozinha um pouco, precisava de espaço para desabar. Às vezes me passava pela cabeça sentar eu, ele e um litrão de cerveja e explicar tudo que havia acontecido, as coisas bobas e as sérias, mas não conseguia tirar forças para isso. Minha cabeça continuava com os mesmos medos, de que ele começasse a se sentir obrigado a ser meu amigo por pena, ou que ele achasse um saco. A imagem minha chorando copiosamente enquanto ele segura um bocejo era geralmente a última antes de eu deixar a ideia de lado.

- Surpresa!

aparece novamente na minha porta, dessa vez com uma mesinha com um pão na chapa e um copo de leite. Pela décima vez na semana me pergunto o que fiz para merecer isso.

- Você me mima demais! - dou um beijo estralado na bochecha dele, seu semblante é de pura alegria. - O que vai ser de mim quando você decidir casar?
- Bom, poderia ser a esposa, se você quisesse.

Ele diz isso brincando, mas me deixa meio triste. Não importa o quanto eu goste dele, era perfeito demais para a bagunça que eu era. Tava de bom tamanho arrastar uma pessoa só pro fundo do poço. Quanto mais eu conhecia ele, mais arrependida eu ficava de continuar abusando de sua boa vontade.

- Relaxa, Sereia, foi só uma piada eu não to implorando pra você se casar comigo - o bom humor ainda esta lá, mas obviamente ele esta chateado. - Caramba, sempre me surpreende o tanto que você abomina a ideia de ficar comigo.
- Você sabe que não é isso. Eu não sou egoísta a ponto de te meter no meio da minha confusão.
- Bem, acho que é meio tarde pra isso, a gente mora junto há um ano, eu obviamente já tô no meio dessa confusão. Eu só queria que você me deixasse te ajudar.

Abro a boca pronta pra contestar ele, mas desisto no meio do caminho.

- Você tem razão - isso faz com que ele fique meio chocado, acho que estava se preparando pra mais uma briga sem fim. - Obrigada por não desistir de mim.

Ele fica sem graça, coça a parte de trás da cabeça e olha pro lado. Normalmente falava as coisas fofas, ter mudado de posição foi igualmente estranho pra mim e para ele.

- Nem se eu quisesse eu conseguiria. Acho que caí no canto da Sereia.
- Eu sei que você que inventou esse apelido, e foi ele que nos deu o primeiro emprego, mas é tão brega.

Mudo de assunto tentado deixar o momento para trás, é sempre meio assustador abrir meu coração e falar o que queria sem ironia.

- Ah, eu acho fofo, você parece muito mais inofensiva.

Continuamos conversando por um tempo, mas tem que visitar os pais. Até me ofereço para ir junto, mas ele me convence que precisa ir sozinho. Com a perspectiva de um dia inteiro a toa, decido descer e comprar um livro para passar o tempo. Nosso apartamento tinha a localização perfeita para mim: duas quadras de distância do trabalho, uma mercearia na frente do prédio e uma livraria ao lado. Por mais que o dinheiro não sobre exatamente todo mês, pelo menos observar os livros e fazer planos de como comprar todos da minha lista de desejo, faziam com que minha alma entrasse no nirvana.
Com meus planos decididos, coloco uma camiseta um número maior que o meu e uma calça jeans. Desço do prédio contando o dinheiro que tenho destinado a bobeiras. Ainda estou terminando de contar as moedas quando entro na livraria, uso minhas costas para empurrar a porta, sem olhar de verdade para os lados. Após saber a quantidade exata que possuo, guardo o dinheiro de volta na bolsa e olho em volta decidindo qual estante examinar primeiro. Antes que consiga terminar de vasculhar a área, meus olhos se prendem em uma figura que me encara. Um jovem de uns 20 anos, com cabelos loiros bagunçados, ele tem um ar de badboy, que não sei explicar exatamente *como* se manifesta, já que estava simplesmente sentado numa livraria me encarando atônito. Fico meio sem graça com toda atenção e dou uma checada na minha aparência disfarçadamente no reflexo da vitrine. Me pergunto se por acaso tem um buraco em minha calça que não tinha notado antes, ou alguma mancha em minha camiseta. Ainda estou repassando todos os possíveis defeitos vergonhosos que apresento quando ele para de me encarar e começa a andar em minha direção.

- Boa tarde - ele parece meio desinteressado. - Posso te ajudar?
- Me ajudar com o que?

Volto a ficar com medo de ter feito algo muito estúpido, a ponto dele oferecer ajuda. Um sorriso de lado despreocupado aparece em seu rosto.

- A escolher um livro - ele pega um crachá pendurado em seu pescoço e balança na frente dos meus olhos. - Eu trabalho aqui.

Ótimo, se ele não me achava idiota antes agora lá se vai toda a boa primeira impressão. Porque eu sequer me importo com passar uma boa primeira impressão?

- Ah, certo! Desculpa, não precisa, prefiro escolher sozinha.

Observo ele se afastando e dou um beliscão em minha mão, para me trazer de volta a realidade. Decido caminhar atá a estante de mistério.
Estou há uns trinta minutos dentro da loja, carregando agora dois livros: um da Agatha Christie e um do Saramago. Bufo de frustração, meu orçamento só me permite levar um deles. Apoio eles em cima de uma prateleira e resolvo decidir as coisas de forma madura, através de uni duni tê. Acabo apontando pro Saramago, mas mordo os lábios indecisa. Com um suspiro começo:

- Minha mãe mandou eu escolher esse daqui, mas como sou teimosa escolhi... esse... daqui.
- Quer ajuda para escolher?

O vendedor de mais cedo se aproxima, um sorriso debochado no rosto. Me pergunto quantas vezes vou passar vergonha na frente dele.

- Acho que sim. Só tenho dinheiro pra um.
- Vamos fazer um acordo, que tal? Eu te dou um deles de presente e você concorda em sair para tomar café comigo qualquer dia.

Abro a boca algumas vezes para responder, meio em dúvida se escutei direito. No final acabo dando um sorriso, já saí com caras muito piores e por muito menos.

- Fechado. Qual o seu nome?
- , senhorita - num gesto teatral ele faz uma reverência. - E o seu?
- Todo mundo me chama de Sereia.
- Mas esse é seu nome verdadeiro? Pais hippies ou o que?
- Não! Meu nome é , mas por algum motivo todas as pessoas que eu convivo chegaram a conclusão que Sereia combina mais.
- Eu gosto de - por algum motivo maluco ouvir alguém dizer isso faz com que meu coração amoleça um pouco. - Vamos, vou embrulhar os dois para você.

Ele anda em direção ao caixa onde faz um embrulho para presente em um dos livros, e coloca o outro em uma sacola de papelão. Agradeço ele mais uma vez antes de voltar para o apartamento. Quando vou tirar o livro da sacola tenho uma surpresa, atras de um marcador de página está escrito um número de telefone.
Estou no segundo capítulo quando chega em casa. Abre a porta com força fazendo com que eu pule do sofá no susto. Quando me vê na sala ele tenta disfarçar a expressão transtornada, passando a mão pelos cabelos, como se tentasse dissipar a tensão.

- Você esta bem? - pergunta idiota, , obviamente ele não estava. - Quer dizer... O que aconteceu?
- Lembra todas as vezes que você começa a chorar do nada e eu nunca te forço a contar o motivo? - aceno com a cabeça meio perdida. - Essa é a hora que você me retribui.

Sem mais nem menos ele vira as costas e entra em seu quarto, batendo a porta com força. Ouço o barulho de chave virando.
Ainda tento voltar a me concentrar no livro, mas alguma coisa muito estranha havia acontecido, e algo que dizia que me atingiria em cheio.


Capítulo 4

13 de agosto,


Conferi pela décima vez se o endereço estava certo. Maria estava mais de meia hora atrasada e por mais que ela não fosse a pessoa mais pontual do mundo, parecia desesperada demais ontem para decidir não aparecer. Começo a achar que ela esta armando uma pegadinha, me deixar preocupado para que eu perceba o quanto ainda me importo e decida que foi um erro o término. Era tão a cara dela fazer isso. Suspirei me perguntando no que tinha me metido.
Maria era uma famosinha do Instagram, o que significa que seu trabalho era receber dinheiro para divulgar coisas. Receber muito dinheiro para divulgar coisas. Sua mãe era mais rica ainda, dona da boate mais cara da cidade. Ou seja: mimada.
Quando começamos a nos ver, eu estava completamente iludido, sem saber o que tinha acontecido para eu ter tanta sorte, ela era acostumada com playboys que faziam primeiros encontros em iates, e mesmo assim foi eu quem a conquistou. Depois ficou o obvio o motivo dela ter algum interesse em mim, como uma boa princesa, ela precisava de um súdito. Provavelmente achou que namorando comigo eu jamais teria coragem de negar nada e dedicaria todo meu tempo para mima-la, e eu estava pronto para atender todas essas expectativas. Bom, pelo menos antes de Sereia aparecer.
Terminamos há um ano e nenhuma recaída nunca tinha acontecido. Até três meses atrás.
Vejo o Audi branco que ela dirige se aproximando, finalmente. Acho que sentia mais falta dele do que da dona. Observo quando ela sai do carro, os cabelos loiros escondido num echarpe e o rosto coberto por um óculos de sol enorme, parecia uma modelo indo escondida para uma cirurgia plástica.

- Nós temos um problema.

Me assusto um pouco com sua aparência, mesmo com os olhos cobertos, algumas olheiras escapam, vejo até mesmo um pontinho vermelho, como o começo de uma espinha. A Maria que conheço se importa mais com sua imagem do que com sua vida, e sair de casa sem estar perfeita? Com certeza alguma coisa estava errada. O problema que o conceito de errado de Maria variava de “Um paparazzi tirou uma foto minha que saiu feia” para “Meu ex contratou um atirador de aluguel para te matar”. Decido tentar ser otimista.

- Oi pra você também Mah, estava morrendo de saudades.

Ela revira os olhos para meu comentário, provavelmente percebendo que o tom nada feliz dele.

- Tem como você fingir que não me odeia só hoje? É sério.
- Eu não te odeio, não sinto nada por você - ela estremece um pouco com minha dose de sinceridade. - Até sentir raiva seria mais esforço do que você merece.

Maria me responde num sussurro.

- Você nunca vai me perdoar, não é mesmo?

Mesmo que não seja um assunto feliz dou uma risada.

- Eu já te perdoei, mas não tem como esquecer o que aconteceu.

Ficamos nos encarando por alguns segundos, até que ela reconstrói a imagem confiante de sempre. Ombros levantados, olhar acima da minha cabeça, como se eu não fosse digno o bastante para que ela abaixasse o rosto.

- Bom, é melhor você aprender a lidar com esse seu problema de raiva, nós vamos ter um filho.

13 de novembro,

Aparentemente a livraria não costumava ficar muito cheia, nas últimas cinco horas, apenas dois clientes entraram. Isso era meio um alívio, havia ficado tão preocupado com o encontro com que não tinha sobrado tempo para me preocupar com o fato de nunca ter trabalhado como vendedor antes. Agora, com a cabeça mais clara, era meio óbvio que as chances de encontrar com ela no primeiro dia eram mínimas, portanto a preocupação imediata era aprender a mexer no caixa.
Harry não me deu um dia de descanso antes de começar minha missão, acho que tinha medo de que minha consciência me convencesse a não ser um babaca. Claro, eu estava me sentindo culpado e tudo mais, mas havia algo ainda mais assustador, que me fez virar a noite pensando se deveria desistir: a dificuldade da missão que aceitei. Estudei os arquivos de até saber de cabeça todos os dados, mas, mesmo assim, sentia que não conhecia nada sobre ela. Vários meses de pesquisa tinham levado a cinco páginas de informações e eu deveria escrever a história de sua vida em dois meses.
Sem saber muito o que pensa,r minha mente começou a criar toda uma personalidade para ela, na tentativa de torna-la mais humana talvez, encarando sua 3x4, imaginei umas mil versões possíveis para aquela garota de olhos arredondados.
Estava entediado olhando pela milésima vez a foto, quando ouvi a sineta da loja tocando. Meus olhos dispararam para a figura que entrava na livraria.

- Puta merda.

Como se estivesse em uma partida de Ping Pong, deixei meus olhos viajarem da menina, que entrava distraída, contando moedas, para a foto em minhas mãos. Algumas coisas estavam diferentes, na foto o cabelo era mais curto e liso, a pele menos bronzeada, as bochechas mais cheias, a cara parecia mais infantil, mas não havia como negar: contra todas as possibilidades, ali estava . Tentava decidir se era sorte ou azar.
Guardei a foto, mas continuei a encara-la. Meu cérebro funcionava a velocidade recorde, tentando criar alguma desculpa para poder me aproximar. Ainda estava com os olhos presos nela quando nossos olhares se cruzaram. Ela franziu as sobrancelhas um pouco, provavelmente sem entender porque um desconhecido olhava-a com tanto interesse. Finalmente desviei os olhos, ainda sem saber exatamente o que fazer, mas sabendo que tinha que fazer algo. Forço meus pés a irem em direção a ela, tentando controlar a sensação de desespero.

- Boa tarde, posso te ajudar?

Forço ao máximo parecer normal, ignorando o fato de estar a encarando que nem um maníaco ha apenas alguns segundos atrás. Ela me devolve um olhar confuso.

- Me ajudar com o que?

Sorrio da falta de jeito dela, como se não estivesse acostumada com interações sociais.

- A escolher um livro, eu trabalho aqui.

Como se para provar, mostro o crachá pendurado em meu pescoço. Suas bochechas coram enquanto ela responde meio enrolada.

- Ah, certo! Desculpa - balança a cabeça ligeiramente, parecendo tentar colocar os pensamentos no lugar. - Não precisa, prefiro escolher sozinha.

Observo enquanto ela se dirige ainda meio perdida para uma estante qualquer.
Sinto uma emoção estranha observando-a de longe, ela parecia inocente demais para estar no meio dessa bagunça. Tento me convencer de que aparências enganam e até onde eu sei, ela podia ser uma psicopata. Passo a próxima hora olhando sua jornada para escolher um livro, achava que estaria enjoado de sua cara depois de uma noite encarando sua foto, mas vê-la se movendo e vivendo, era diferente. Para começar, havia muitas mais dicas sobre sua personalidade, me peguei numerando vários detalhes, as unhas feitas com pontas descascadas, o cabelo ligeiramente mais bagunçado de um lado, provavelmente onde ela adormeceu em cima, tudo se juntando e fazendo uma nova imagem em minha cabeça sobre ela.
Tentava planejar o próximo passo, desviando meus pensamentos da tentação de tentar descobrir todos seus segredos apenas por observa-la. Luto contra o impulso de simplesmente puxar conversa, não queria assusta-la, mas estou preocupado com quando vou ter outra oportunidade para tentar mais um avanço. Quero ser cuidadoso, mas também quero me livrar logo desse trabalho. Quando volto a prestar atenção, ela está em duvida entre dois livros, penso que essa será a melhor hora para tentar criar algum laço, sem criar muita suspeita, já que se tratava de uma atitude esperada de um vendedor.

- Quer ajuda para escolher?

Quando me aproximo percebo que usa uma cantiga para ajudar a decidir. Não consigo segurar um sorriso.

- Acho que sim - ela parece meio envergonhada, mas sua expressão se fecha no instante seguinte. - Só tenho dinheiro pra um.

De repente uma luz me ilumina, meio no impulso, sem planejar muito, tenho um plano.

- Vamos fazer um acordo, que tal? Eu te dou um deles de presente e você concorda em sair para tomar café comigo qualquer dia.

Ela parece pronta para recusar e meu coração se aperta de ansiedade, eu estaria fodido se ela me desse um toco de cara. Com certeza passei a imagem de ser um doido completo. Depois do que parece uma eternidade ela responde.

- Fechado - um sorriso decidido ilumina seu rosto. - Qual o seu nome?
- , senhorita - faço uma reverencia, porque quero agradece-la de verdade. - E o seu?
- Todo mundo me chama de Sereia.

Isso era novidade. Ela não era ? Seria alguma gêmea perdida? Havia mudado de nome para fugir? Tento manter a calma quando rolam na minha cabeça milhões de teorias.

- Mas esse é seu nome verdadeiro? Pais hippies ou o que?
- Não! Meu nome é - suspiro de alívio. - Mas por algum motivo todas as pessoas que eu convivo chegaram a conclusão que Sereia combina mais.
- Eu gosto de - e pelo incrível que pareça estou sendo sincero, o nome parecia casar com ela, enquanto Sereia parecia artificial. - Vamos, vou embrulhar os dois para você.

Na hora que ela sai da livraria, sinto como se um peso fosse tirado das minhas costas, solto uma respiração que não tinha percebido que segurava. O encontro havia sido um sucesso. Pelo menos de primeira não tinha destruído tudo. Mesmo assim, estava incomodado, acho que ainda nutria uma esperança secreta de que ela seria antipática ou maldosa, tornando um pouco mais fácil carregar o fardo de engana-la.
A realidade me acerta num choque.
Eu iria ser um babaca. E precisava fazer as pazes com isso logo, se esperava sobreviver mais de um mês.


Capítulo 5

20 de agosto, Trabalhar no espaço apertado que Harry havia alugado e chamado de apartamento era uma tortura. Ele esperava que morando perto de , as chances de nos esbarramos aumentariam, mas sem querer gastar muito, acabei em um espaço que consistia em um quarto/cozinha/banheiro, com carpetes encardidos que pareciam a cena de um assassinato. A estratégia também não me parecia muito vantajosa, não é como se as pessoas costumassem falar: “Bom dia! Nossa, estava doida para desabafar sobre a história inteira do meu relacionamento traumático, você teria um minuto?”. Sendo assim, meu carro havia se tornado meu escritório desde então. Ja havia virado rotina rodar noite adentro, esperando uma súbita inspiração que faria com que meu livro se tornasse mais realístico, me livrando assim da tarefa atual, muito mais desafiadora. Por enquanto, tudo continuava igual, nem uma palavra diferente do manuscrito original.
Tinha fechado as janelas do carro, por que o clima estava mais frio que o normal, uma brisa que vinha do mar parecia surgir de todas as direções, fazendo com que fosse impossível se esconder dos corredores de ventos. Estava embrulhado em um cobertor relendo pela terceira vez o mesmo parágrafo quando fui pego de surpresa. Saindo de um bar, apareceu vestindo uma calça solta de tecido fino e uma blusa que mal cobria sua barriga, independente do frio. Eu mal a reconheci. Na livraria, no nosso primeiro e único encontro, ela parecia tímida e bondosa, ingênua até, como se nunca tivesse sofrido com nada na vida. Agora, sua fisionomia inteira parecia quebrada, havia tanta dor em seus traços que por um momento achei que pudesse estar ferida, suas costas encurvadas tremiam, mas não parecia ser de frio. Observei quando um homem mais velho saiu de dentro do bar, parecendo transtornado. Na hora que o viu, pareceu se transformar em uma terceira versão, abriu um sorriso que misturava deboche com nojo e arqueou o peito e o nariz. Não tinha outro jeito de descrever, ela parecia maldosa, parecia que chutaria uma criancinha se estivesse entediada. Um pensamento me acertou em cheio: essa mulher não se chamava . Essa mulher se chamava Sereia.
O velho gritava com ela sobre a irresponsabilidade dela, que era sua culpa alguém não estar lá, como que queria mata-la por o fazer perder dinheiro. Eu observava mortificado dentro do carro, sem entender muito bem o que estava acontecendo. Ela respondeu a todas as críticas com uma frase, baixo de mais para que eu conseguisse ouvir, mas sua expressão pingava veneno. Tudo ficou silencioso por alguns segundos, parecia que o mundo tinha prendido a respiração. Ele falou algo mais e entrou. Sua pose de durona caiu no mesmo momento. Observe-a sentar no meio fio e chorar copiosamente, os ombros parecendo estar sendo abalados por terremotos. Foi quase que um instinto descer do carro com a coberta, sabia que não podia deixa-la assim. Assim que me aproximei, seus olhos levantaram desconfiados e assustados, até que uma fagulha de reconhecimento surgiu. Na mesma hora ela tentou se recompor, as lágrimas pararam de descer e o rosto parecia mais com o que eu conheci na livraria.

- Deixe eu adivinhar: eu não te liguei e você decidiu vir cobrar ao vivo a promessa.

Me sentei ao seu lado colocando a coberta em suas costas, senti quando ela estremeceu, recebendo o calor.

- Bom, você não me deixou escolha. Tá tudo bem?

Ela da uma risada leve, parecendo um suspiro. Parece estar fazendo um esforço enorme.

- Tudo ótimo, como você pode perceber. Acabo de ser demitida.

basicamente sussurra a última frase, seu semblante demonstra incredulidade.

- E agora? O que você planeja fazer?
- Procurar outro bar decadente para cantar,
- Não deve ser assim tão difícil, a cidade ta cheia deles.

Tento falar em tom de piada, para anima-la, mas o máximo que recebo de volta é sua figura enterrando o rosto nas mãos. Lentamente, ela levanta os olhos, a fisionomia mais parecida com a desesperada de mais cedo.

- Eu não posso voltar pra rua.

Fico em silêncio porque não sei o que responder. O máximo que consigo fazer é puxa-la para um abraço desajeitado de lado. Percebo que um aroma de canela sai de seus cabelos, seu corpo esta tremendo levemente, mesmo com a coberta. Ficamos os dois meio desconfortáveis por algum tempo, o único som são dos ocasionais soluços de . Toda a paz e calma aparente se desfazem na hora que uma figura surge cambaleante na esquina. Observo Sereia se levantar como se tivesse fogo em suas roupas e percorrer em três passos a distância entre os dois.

- O que você estava pensando, ? Tem alguma noção do que acabou de causar?

O menino a princípio parece perdido, como se fosse um sonâmbulo acabando de acordar, mas logo depois um sorriso orgulhoso surge em seu rosto.

- Agora você pode ir trabalhar sem se preocupar com aquele babaca te assediando, eu deixei bem claro o que ia acontecer se ele continuasse agindo desse jeito.
- Ele demitiu a gente! O que achava que ia acontecer? Por isso eu não te conto nada! O primeiro desabafo que tenho com você, eu volto pra rua.

O sorriso orgulhoso do cara se desfaz, agora parece que ele levou uma série de socos no estômago.

- Ele não pode fazer isso.

Uma risada amarga se mistura ao som do choro de .

- Bom, ele acabou de fazer.

Observo o garoto passar as mãos desesperados pelo cabelo e andar de um lado pro outro.

- Nós não vamos pra rua, , o aluguel do mês já tá pago, você é a cantora mais talentosa dessa cidade, vamos arrumar outro emprego fácil.

Nem mesmo ele parece acreditar nas palavras, quase consigo ouvir a interrogação no final.
Estou decidindo ainda se devo sair de fininho e entrar no carro, mas uma vozinha aparece na minha cabeça dizendo que Harry ia ficar puto se eu perdesse essa briga. Também não tenho certeza se devo deixar sozinha no estado que está. Antes que perca a coragem entro no meio.

- Ei, vocês dois não estão bem pra conversar sobre isso agora, certo? Podemos deixar isso pra amanhã? Vem, , eu te dou uma carona pra casa.

Coloco todo esforço do mundo pra parecer inofensivo e sensato, mas mesmo assim, o cara me olha como se eu tivesse acabado de xingar a mãe dele.

- Sério mesmo, ? Você procurou primeiro um playboyzinho qualquer ao invés de me chamar?
- Que?- De novo vejo sua versão malvada surgindo, cada palavra cortante. - Eu não chamei ninguém, tem como você parar de ser carente assim? A gente obviamente tem problemas maiores do que sua paixonite por mim.

Ouch. Começo a perceber o tamanho do vespeiro que me meti. Quase consigo ouvir o barulho do coração do menino se partindo, sua cara passa de raiva, pra tristeza, pra um vazio enorme em segundos.

- Bom, fique a vontade pra lidar com seus problemas sem minha paixonite te atrapalhando. Não vou dormir em casa hoje, ela é toda sua - ele vira de costas, mas parece mudar de ideia e se aproxima de mim. - Espero que esteja ciente que a cara de boazinha só dura até que ela se sinta ameaçada, tem alguma coisa quebrada nela e eu, se fosse você, fugiria antes que ficasse tentado a consertar.

Não sei muito bem o que responder e quase agradeço quando ele se afasta cambaleando. continua na mesma posição, mas não esta mais chorando, parece envergonhada e assustada.

- Eu realmente preferia que você não tivesse visto isso.

Não sei muito bem o que responder, abro e fecho a boca várias vezes. Vejo no olhar de que ela meio que esperava que eu dissesse que estava tudo bem, que não estava assustado. Por baixo da pose de durona só uma garota que queria que um semi-estranho a dissesse que não a achava patética, que não via nada quebrado nela. Repasso várias frases que vão conforta-la, ensaio como dizer que tudo vai se resolver, mas antes que eu consiga falar alguma delas, uma outra pergunta escapa.

- Você namora?

Quero socar a cabeça na parede na mesma hora que falo. Obviamente esse não era o problema principal. Ela me olha com os olhos divertidos, seu semblante agora parece quase normal.

- Meu Deus, não - ela sorri de lado antes de ficar triste de novo. - não tem uma paixonite por mim também. Eu só falo isso porque é o jeito mais fácil de ganhar uma discussão com ele.

Era obvio que o menino tinha sim uma quedinha por ela, mas decido não argumentar. Um pensamento estranho passa pela minha cabeça. Aquela menina do arquivo pequeno, que em breve seria apenas um capítulo de uma biografia, tinha uma vida. Não sei o motivo, mas tive a impressão que encontraria a foto 3x4 sentada na livraria pronta pra desabafar sobre seu passado, não passou pela minha cabeça que ela tivesse seguido em frente, encontrado meios de sobreviver e estivesse talvez até mesmo pronta pra amar de novo. Me sinto um merda. Quer dizer, eu sempre fui um merda, mas acho que até então em nenhum momento da minha vida cheia de babaquices isso ficou tão claro.
Respiro fundo resignado, eu tinha que ir até o final, mas seria na base da redução de danos.
Faço uma promessa a mim mesmo, vou interferir o mínimo possível na vida dela, entrar e sair sem que ela perceba. Não vou me envolver com seus dilemas atuais. Seria menos um pra bagunçar a vida que tentava construir, pouco a pouco.
Com a nova meta em mente, tento construir uma parede em volta de todos meus pensamentos sobre Sereia. Ela é apenas mais uma de minhas personagens, a diferença que sua história já tinha sido escrita por outro autor.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.

Nota de Beta: Será que ele vai mesmo conseguir não se envolver?? Tenho minhas sérias dúvidas. Mas estou morta de curiosidade pra saber o que aconteceu no bar pra chegarem nessa discussão.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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