Última atualização: 30/08/2020

Prólogo

Ser uma agente disfarçada não era o meu maior problema. Fingir ser outra pessoa tinha um ar de liberdade que eu não me dava o luxo de aproveitar muito ou seria um ciclo vicioso que eu dificilmente me libertaria. Eu gostava dos joguinhos de ter nomes falsos, criar uma personalidade compatível, decidir os gostos e que tipos de coisas eu deveria odiar. Meu problema era estar enfiada nesse caso há dois meses e eu sequer sabia o que era ter uma boa noite de sono, um descanso digno de um ser humano, uma comida feita sem pressa...
Philippe deveria estar muito mal humorado, quando decidiu que eu seria uma peça importante para fechar aquele caso. Era um inferno. Doze vítimas em dois meses e cada vez que estávamos mais perto de pegar o assassino, ele se mostrava sempre um passo adiante na nossa direção e isso era outro problema: o estresse! A tensão que me acompanhava dia e noite, enquanto eu tentava não desistir em deixar a minha aparência desleixada e as olheiras à mostra. Eu ainda tinha alguma dignidade.
Estar em casos de perseguição de assassinos em série não era exatamente o meu trabalho. Eu era mais especializada em espionagem e tudo o que envolvia esse meio, então, naquela manhã, quando meu parceiro ligou-me avisando que tínhamos uma localização do assassino, eu me permiti respirar um pouco aliviada. Eu não teria feito isso se eu soubesse como tudo ia acabar, claro. Também não teria reclamado tanto do trabalho no caso, quando ser fugitiva e precisar fugir dos assassinos, ao invés de prendê-los, era muito pior.
.
Aquela voz irritante ecoou no meu ouvido através da escuta que eu usava. Não respondi por pura implicância, já que aquele idiota sabia que eu odiava que me chamassem assim e eu insistia que ele deveria mudar, mas ele gostava de causar esse efeito sobre mim.
A velocidade do metrô diminuiu um pouco e o vagão que eu estava começava a se esvaziar.
Olhando ao redor, só havia um grupo de pessoas e mais para o fundo, uma mulher com uma criança no colo que não parava de chorar. Respirei fundo, pensando comigo mesma que eu só precisava ficar ali até avançar as duas estações seguintes, onde finalmente o assassino entraria e então eu pudesse prendê-lo para acabar com os meus tormentos de noites mal dormidas. Talvez eu até aproveitasse a banheira nova do apartamento que eu mandei colocar.
Sim, um banho quente parecia relaxante o suficiente para me acalmar.
. — A voz de insistiu e eu revirei os olhos, ajeitando a minha postura no banco.
— Eu te odeio! — Murmurei e ele riu, um riso de escárnio e convencido. — Está tudo bem.
Assim que informei isso, um tiro ecoou através das janelas no momento exato em que o metrô parou na estação seguinte. O choro da criança se intensificou e por puro instinto, eu tinha me abaixado no chão e retirado a minha arma das costas, onde havia ficado escondida.
Quando olhei ao redor, tentando ver se não havia ninguém machucado, dois homens passaram pelas portas abertas, ambos armados. A pequena multidão desesperou-se quando ele apontou na direção de todo mundo.
continuava me chamando pela escuta, mas eu não estava concentrada para responder e simplesmente retirei-a do meu ouvido.
Quando o primeiro homem fez menção de atirar, eu fui mais rápida e mirei certeiro em seu peito e não perdi tempo em atirar no outro, observando quando os dois estavam caídos ensanguentados no chão.
— Saiam! — Ordenei para os passageiros, que não hesitaram nem mais um minuto e se dispersaram para fora, mas a mulher e o bebê permaneceram.
Eu ainda estava tentando entender o que diabos tinha acabado de acontecer, mas nada fazia sentido. O metrô ainda estava parado e me certificando que estava seguro, eu me levantei do chão e caminhei na direção da mulher.
— Senhora? — Chamei.
Ela parecia assustada e segurava a menina com firmeza em seus braços, sussurrando algo que eu não entendia, embora a menina só chorasse mais e mais.
— Não posso protegê-la. — A mulher murmurou.
— O que disse? — Perguntei.
Eu tinha entendido o que ela disse perfeitamente, eu só não sei por que ela disse isso. A mulher olhou para mim e assentiu, mas nada nela parecia normal e nem fazer algum sentido.
— Quem é você? — Ela devolveu a pergunta.
— Sou a Agente Especial... — tentei dizer, mas ela me interrompeu antes que eu completasse a apresentação.
— Então você pode protegê-la.
Fiquei ainda mais confusa, mas o choro da menina tinha diminuído, com a mulher balançando-a em seu colo. Coloquei a escuta de volta, no momento exato em que pedia a minha localização, mas não era essa a informação que eu passei.
— Tem algo errado, .
Ele soltou um palavrão baixinho de alívio. Não prestei muita atenção, porque a mulher continuou a falar e era como se eu precisasse decifrar enigmas. E só para um esclarecimento, eu não era boa nisso.
— Por favor, vão vir mais. — Disse. — Esse inferno não passa, vão sempre vir mais e… — ela me entregou a criança e eu peguei sem jeito, surpresa.
Precisei deixar minha arma cair no chão para conseguir segurar a menina direito em meus braços, mas eu também não tinha me preparado para o que aconteceu logo a seguir. Outro tiro ecoou, os estilhaços de vidro caído no chão, acertando a mulher bem no meio da testa e ela estava morta no mesmo segundo.
Eu tinha me abaixado de novo, procurando a minha arma, olhando na direção de onde o tiro veio, mas não consegui uma visão.
Dando uma última olhada para a mulher, ouvindo a menina começar a chorar de novo, como se tivesse entendendo que a mãe tinha acabado de morrer, eu peguei a minha arma e saí do metrô, que ainda estava parado e com as portas abertas; por que, eu não sabia.
Eu só passei a andar na multidão, com pressa demais, tentando não derrubar a criança dos meus braços, porque eu era desastrada para aquilo. A estação estava ficando cada vez mais cheia, a multidão sendo atraída pela curiosidade do que tinha acabado de acontecer e quando me chamou mais uma vez, eu respondi:
— Eu não sei o que acabou de acontecer, , mas não vai ser hoje que eu vou prender aquele desgraçado. Porque, aparentemente, tinha um bebê em perigo.



Capítulo 1 - Zune

Ela dormia como um anjo. Meu corpo inteiro implorava um descanso como o dela, a cama sussurrava o meu nome e eu estava tentada a me deitar ao lado daquele pequeno ser humano e me afundar em um sono tão profundo quanto. Mas abriu a porta, educado como era, sempre entrando sem bater ou anunciar a sua presença, e era só por isso que eu nem me dava o trabalho de me virar para saber que era ele entrando.
— O que você está pensando? — Ele me questionou.
Vire-me de frente para ele, parando de observar a menina dormindo e o vendo colocar algumas sacolas em cima da mesinha improvisada que eu tinha. Meu apartamento não era um luxo. Eu só precisava de uma cama, uma cozinha, banheiro e uma televisão, e eu tinha essas coisas, então para mim bastava.
— Em como eu também queria ser um bebê no momento. — Respondi, o desânimo correndo pela minha voz, demonstrando o meu cansaço.
Meu parceiro riu, tirando uma barra de chocolate da sacola e veio até mim, entregando-me. Não hesitei em abrir e começar a morder as barrinhas pequenas, sentindo até meu corpo relaxar um pouquinho, quando senti o gosto do chocolate derreter na minha língua e eu mal me dei conta de que tinha parado atrás de mim e começou a fazer massagem nos meus ombros.
Ele sempre fazia isso e eu nunca reclamava. Não dormíamos juntos, como a maioria dos nossos colegas pensavam, nem sequer éramos envolvidos romanticamente, nós simplesmente tínhamos aquele tipo de intimidade o suficiente para eu permitir que ele me tocasse de modo muito íntimo, às vezes.
— Um pouco mais embaixo... — pedi, sentindo suas mãos pararem no meio das minhas costas e pressionar a minha pele. — O que descobriu?
— Ainda estão analisando as digitais. — Respondeu-me, um tom de voz baixo demais, mas que eu conseguia entender perfeitamente, uma vez que estávamos muitos próximos. — Sei tanto quanto você.
— Ou seja, nada. — Completei, mordendo mais uma barra de chocolate, sentindo-me sonolenta, mas eu não podia dormir agora. Mesmo se eu pudesse, desconfiava que eu não conseguiria. — Você acha que estão atrás dela?
A menina ainda dormia. Não sabíamos nada sobre ela. Seu nome, sua idade, nem se tinha família viva.
Depois do ocorrido, encontrei no ponto de encontro e contei tudo o que havia acontecido. Mandamos uma equipe de legistas e os investigadores para analisar a cena e tentar entender o que aconteceu. Como a única família da criança tinha acabado de ser morta antes de me passar qualquer informação coerente, optei por trazê-la até o meu apartamento e esperar os resultados das digitais, e Philippe decidir o que deveríamos fazer. Ele dava as ordens, eu só as seguia.
— Não tenho como ter certeza... — me respondeu. — Do jeito que você falou sobre a mãe, ela parece estar em perigo.
Relaxei com a massagem do meu parceiro e bati nas suas mãos para que ele parasse de me tocar. Estava bom o suficiente e eu estaria bem mais satisfeita se eu conseguisse um banho quente nos próximos minutos antes que eu precisasse resolver alguma coisa nova.
Eu não podia fazer muita coisa senão esperar os resultados preliminares das investigações, mas estava demorando muito e geralmente não demorava tanto assim, mas eu estava cansada demais para questionar alguma coisa.
Coloquei o restante da barra do chocolate em cima da mesinha, junto as outras sacolas.
— E o assassino? — Questionei.
deu de ombros, sentando-se na beira da cama com cuidado. Eu o bateria se ele acordasse a menina e eu precisasse lidar mais uma vez com ela chorando. Foi difícil o suficiente conseguir acalmá-la.
— O caso foi passado ao FBI.
— Não acredito que eu fracassei a esse ponto! — Comentei, sentindo-me inútil pela primeira vez em muito tempo, mas por outro lado, eu tinha me livrado daquele fardo. Torcia para que o FBI tivesse resultados melhores em conseguir captar aquele desgraçado infeliz, que sempre escapava pelos meus dedos como se fosse a coisa mais fácil do mundo.
— Você se importa se eu dormir um pouco? — Ele me perguntou.
Mordi meu lábio, encarando-o como se estivesse analisando a pergunta, mas no fim, acabei dando de ombros. Ele já tinha se deitado ao lado da menina, mas virado de lado oposto, ficando de costas para ela.
— Não. — Respondi, mesmo que eu não precisasse mais. — Porque você não vai conseguir mesmo.
Ele me mostrou o dedo do meio e eu sorri, aproveitando a deixa para seguir até o banheiro. A banheira estava lá, vazia, e eu liguei a torneira, deixando encher com a água morna. Enquanto isso, fui me despindo devagar, sentindo cada parte do meu corpo doer com o meu esforço e amarrei o meu cabelo em um coque firme.
Senti o alívio me atingir e encostei a cabeça na beira da banheira, fechando os olhos por um momento, tentando relaxar. Talvez eu conseguisse cochilar por alguns minutos, apesar da minha dificuldade para dormir nos últimos dias. Eu andava muito tensa, mesmo. Todo o caso tinha me levado ao limite do estresse. E eu ainda não tinha encontrado uma forma de me aliviar e apesar da minha médica ter receitado alguns remédios, eu não gostava de recorrer a eles se eu tivesse alguma outra opção antes.
Todo dia, antes do meu horário de trabalho, eu passava na sala de treino e tentava extravasar. E ajudou, por um tempo.
Não percebi que eu tinha mesmo cochilado, quando acordei de repente, ouvindo um choro infantil e uns bipes irritantes soar do quarto. Terminei o meu banho o mais rápido que eu podia, saindo da banheira enrolada na toalha e esfreguei o meu rosto com as mãos, na tentativa de me despertar agressivamente.
estava em pé, com a menina no colo, andando de um lado para o outro, como se quisesse fazer ela parar de chorar. Não estava funcionando.
— O que aconteceu? — Perguntei.
Andei até os nossos celulares, vendo que os bipes eram as mensagens de urgência que a Agência nos mandava e silenciei sem ler nada. Eu tinha tempo para isso.
— Eu não sei... — ele respondeu. — Ela acordou chorando.
Olhei o relógio, percebendo que já era noite e que estava ficando tarde. Eu não tinha dormido tanto assim, não teria conseguido, mas pelo menos serviu para me deixar um pouco mais desperta do que sonolenta, porque eu consegui raciocinar sem nenhuma dificuldade o motivo da garota estar chorando tanto.
— Ela está com fome.
parou de andar, encarando a menina nos próprios braços, sua expressão reflexiva, e então seus olhos espertos voltaram para mim.
— Eu não tinha pensado nisso! — Admitiu.
— Como se eu estivesse surpresa... — murmurei.
— Eu ouvi.
Dei de ombros e fui até o mini guarda-roupa que eu tinha, puxando uma calcinha e vestindo-a por debaixo da toalha. Em seguida, puxei uma calça e uma camisa, vestindo-a e joguei a toalha em um canto qualquer, pegando o meu celular em seguida.
Verifiquei todas as notificações, ainda ouvindo o choro da criança. Abri a primeira mensagem mais importante.
— Estão com os resultados! — Informei ao meu parceiro. — Precisamos ir para a Agência.
— Podemos resolver esse problema aqui primeiro? — Ele apontou com o queixo para a menina no braço e eu revirei os olhos, guardando o celular na calça.
Andei até a porta, abrindo-a e tinha certeza que ele não sabia o que eu estava fazendo e muito provavelmente pensasse que eu estava fugindo, mas a minha vizinha da porta da frente tinha duas crianças pequenas, então deduzi que ela sabia certamente como alimentar um bebê com fome.
Dei duas batidinhas na porta, ouvindo o som distante do choro da menina nos braços de e não demorou um minuto inteiro para que a porta fosse aberta, revelando uma mulher que claramente estava cansada.
— Oi, Cris. — Murmurei, com um sorriso gentil, compadecendo-me do seu cansaço. Não era pelo mesmo motivo, mas cansaço é cansaço, certo? — Eu queria te pedir um favor.
Contei a ela bem por cima o que tinha acontecido, para explicar por que eu tinha um bebê com fome no meu apartamento, e tive que esperar ela fazer uma mamadeira de leite morno para eu entregar ao . No meio tempo esperando, certifiquei-me de ficar bem longe das duas crianças dela, que estavam destruindo toda a casa brincando. Eu não odiava crianças. Gostava delas. Mas não achava que eu tinha um jeito certo de lidar com elas. Meu instinto maternal nunca apareceu e eu esperava que continuasse assim. Lidar com o trabalho que eu tinha e com uma criança no mundo era até demais!
Quando Cris apareceu com a mamadeira de leite, eu agradeci, aliviada. Voltei para o meu apartamento, mas, estranhamente, tinha conseguido acalmar a menina e agora ele estava sentado na cama, com ela deitada no seu colo e eu via a baba dela escorrendo do sorriso.
Pigarreei, atrapalhando o que quer que ele estivesse fazendo. Ele levantou os olhos na minha direção e encarou a mamadeira que eu o mostrava. Andei até ele e entreguei, para que ele alimentasse a menina logo e fôssemos para a Agência, antes que ficasse tarde demais. Eu ainda queria estar de volta antes da madrugada.
— Não achei mesmo que fosse insensível a ponto de deixar a Zune com fome.
Estreitei os olhos para o que ele tinha dito e me perguntei se eu tinha ouvido certo as suas palavras.
. — Chamei, um tom sério e controlado de voz. A menina parecia estar satisfeita por estar sendo alimentada. — Você acabou de dar um nome para ela?
Meu parceiro olhou-me de novo. Ele segurava a mamadeira da menina, enquanto ela tomava todo o leite tranquilamente e me encarou por alguns segundos, enquanto eu esperava a resposta da minha pergunta.
— Eu não aguentava mais ela sem um nome. — Justificou-se.
— Zune?
— Não é bonito?
, eu vou te bater! — Ameacei, mas como ele estava com uma criança no colo, desisti. — Você não pode se apegar a ela. Provavelmente, ela será mandada para alguém ainda hoje.
— Eu não estou apegado. — Defendeu-se.
— Você é um mentiroso.
Deixei meus ombros caírem, afastando a irritação que eu tinha adquirido nesse meio tempo. Eu queria muito não me estressar de novo e só queria uma solução para aquele caso que parecia ser mais um que me tiraria o sono. Eu precisava de um descanso, pelo amor de Deus!
— Temos que ir.
Peguei o celular dele e a chave e fiz menção para ele se levantar logo. segurou a menina com jeito e passou pela porta primeiro e eu fui em seguida, trancando-a. O elevador não demorou muito para chegar no meu andar, então entramos em silêncio, enquanto eu sentia meu celular vibrando no bolso. Apertei o botão do térreo e esperei chegar.
Assim que as portas do elevador se abriram e nós três saímos, eu olhei para a portaria, onde havia três homens discutindo com o porteiro. Teria sido uma cena normal, se eu não tivesse notado que os três, sem exceção, estavam armados.
... — chamei, fazendo ele parar de andar e apontei com a cabeça para onde eu estava olhando.
respirou fundo.
— Escadas de emergência?
— Por aqui. — Virei-me, andando na frente para que ele pudesse me seguir.
Mas eu devia estar com algum tipo de má sorte, porque esbarrei com uma mulher que estava segurando taças de vidro e como consequência, todas se espatifaram no chão. Soltei um xingamento baixinho.
— Mil desculpas! — A mulher exclamou.
Neguei com a cabeça rapidamente, indicando que estava tudo bem e que na verdade a culpa tinha sido minha, e por mais que eu apressasse para que ela me deixasse ir embora, ela continuava pedindo desculpas.
. — chamou.
Quando olhei para trás, os três homens tinham notado a gente e estavam vindo na nossa direção, apesar dos protestos do porteiro.
Puxei meu parceiro na direção das escadas no momento em que o primeiro tiro foi dado e a gritaria tinha começado. Empurrei a porta de emergência, deixando descer na frente, já que estava com a menina, que tinha recomeçado a chorar. Passei a mão nas minhas costas, onde eu geralmente guardava a minha arma, mas percebi que tinha esquecido.
— Você trouxe a sua arma? — Perguntei.
Continuamos correndo, descendo as escadas com o máximo de cuidado que podíamos. Eu podia ouvir os passos e as vozes dos homens que estavam atrás de nós, e quando me estendeu a sua arma, peguei sem hesitar.
Não demorou muito para que chegássemos ao estacionamento, mas quando começamos a correr no meio da pista, procurando o carro do meu parceiro, eles passaram pela porta.
— Ligue o carro! — Gritei para .
Ele segurou Zune com mais firmeza nos braços, mesmo que ela estivesse ainda chorando, e eu tentei mirar nos homens. Eles atiraram primeiro e fui pega de surpresa quando o tiro atingiu a minha perna e eu gemi de dor.
Escondi-me atrás de um carro, tentando dar cobertura para que encontrasse o seu carro e o ligasse de uma vez. Minha perna doía e eu sentia o sangue escorrer, mas consegui acertar um deles, agora caído no chão.
Ouvi me chamando e tentei abrir caminho até ele, conseguindo desviar de outro tiro que foi disparado. Quando corri até o meu parceiro, acertei mais um no caminho, deixando somente um para me livrar.
Cheguei até o carro que ele estava e já estava lá dentro com a Zune, no banco passageiro. Entrei do outro lado, girando a chave e ligando o carro, apertando no acelerador e dando partida. O filho da puta lá atrás ainda tentou atirar, quebrando o vidro da parte de trás, mas consegui ser rápida o suficiente em sair do estacionamento.
Fui dirigindo em uma velocidade alta até eu ter certeza que não estávamos sendo seguidos e diminuir.
— Você está machucada. — Ouvi a voz de dizer e quando ele tocou na minha perna, soltei um gemido de dor.
Notei que Zune tinha parado de chorar e estava com a cabeça deitada no ombro de .
— Vou sobreviver. — Respondi.
Meu parceiro me encarou, como se estivesse pronto para dizer algo, mas abriu a boca e fechou logo em seguida. Aparentemente, o que quer que ele fosse dizer, tinha desistido. Ele soltou um suspiro e eu joguei a arma para o banco traseiro, de repente, dando-me conta de uma coisa.
— Para onde nós vamos? — Questionei, mantendo meus olhos na estrada.
Mesmo que eu não o olhasse, sabia que sua testa se franziu em confusão.
— Não podemos ir para a Agência. Se eles encontraram onde eu morava, vão nos encontrar lá também. — Respondi, antes que ele falasse.
não respondeu. Ficou em silêncio por alguns segundos.
Eu podia ir para a Agência e deixar que outros resolvessem aquele caso. Podia pedir férias adiantada, porque eu estava mesmo precisando descansar. Mas agora eu estava intrigada o suficiente para surgir em mim a necessidade de proteger àquela menina. E a julgar pelo silêncio do meu parceiro, soube que ele tinha chegado à mesma conclusão.
— Eu tenho um lugar.



Capítulo 2 - Fugitivos

Não consegui dirigir a noite toda. Em algum momento, eu e trocamos de lugar e eu fiquei segurando a menina com cuidado, enquanto ela dormia nos meus braços.
Tivemos que fazer uma parada forçada em uma farmácia e meu parceiro comprou os itens necessários para conseguir fazer um curativo que pelo menos estancasse o sangue, já que eu estava quase perdendo a consciência por estar me sentindo fraca demais. Ele tinha insistido para me levar a um hospital, mas teriam perguntas demais e seríamos facilmente localizados, então eu recusei.
Com o curativo feito em minha perna e um cochilo de algumas horas, fui acordada com cutucadas leves e percebi que já tinha amanhecido e ele tinha estacionado em frente a uma casa, cujo jardim era enorme.
— Onde estamos? — Questionei, mas ele não me respondeu.
Só abriu a porta do carro e saiu do banco do motorista, deixando-me falando sozinha e eu resmunguei contrariada com tamanha má educação da parte dele, mas saí do carro também e com o movimento, Zune também acordou.
já estava na porta da casa e eu só vi uma mulher parada, abraçada a ele em seguida e eu me movi lentamente até eles, porque fazer esforço aumentava a dor da minha perna cinco vezes mais.
Quando soltou a mulher, ele veio até mim, que já estava perto e tirou Zune dos meus braços. Não expressei o meu alívio por isso, mas sem o peso de um bebê nos braços, eu consegui não colocar tanta força na perna esquerda, onde estava o ferimento.
, essa é a Laila. — Ele me apresentou e eu tentei sorrir para a mulher, porque ela tinha um sorriso simpático e caloroso na minha direção, e quando fez menção de me abraçar, impediu. — Ela está machucada.
Laila notou o ferimento da minha perna e fez uma expressão de horror.
— O que aconteceu? — Questionou. A pergunta não foi especificamente para mim ou para , mas nenhum de nós respondeu e ela bufou. — Entrem logo.
Agradeci baixinho e entrei sem cerimônia nenhuma. Eu não sabia quem era aquela mulher ainda, mas eu não era tão burra a ponto de não notar a semelhança entre eles e eu já sabia que eram irmãos. Embora eu não soubesse que meu parceiro tinha uma irmã.
— Eu vou colocá-la com Annabelle. E você...
Virei-me na direção dela, vendo-a apontar para mim com Zune nos braços. Não percebi o momento em que ela a pegou de .
— Sente-se no sofá que eu vou limpar isso. — Apontou para o sofá e em seguida para o meu ferimento, sumindo pelas escadas em seguida.
Meu parceiro me encarou e eu me sentia tonta, mas, mesmo assim, segui para o sofá, onde me sentei com o maior prazer, já que ficar em pé estava exigindo de mim um esforço enorme.
— Ela é enfermeira. — me informou e eu assenti, sentindo-o se sentar ao meu lado.
Não era a primeira vez que eu tinha levado um tiro, mas cada vez era pior que a outra.
Senti segurar a minha mão e tocar a minha testa, verificando que eu estava suando frio. Provavelmente eu também estava quente, o que era normal, considerando a gravidade do meu ferimento e eu ainda estar com a bala perfurada dentro da minha pele. Era a parte que eu mais odiava do trabalho.
— Laila vai cuidar de você. Depois vamos descansar um pouco e decidimos o que fazer depois, ok? — Ele me apresentou as opções.
— Ela sabe? — Perguntei com a voz baixa.
— Que nós temos um caso? — Brincou, o seu sorriso tentando amenizar a situação e eu revirei os olhos. — Claro que não.
— Continue tentando.
Ele gargalhou e eu me senti melhor ao ouvir o som da sua risada.
passava por muita coisa e algumas delas eu não entendia, mas ficava aliviada quando ele demonstrava aqueles pequenos sinais de que estava indo tudo bem. Nossa parceria tinha sido a melhor coisa que aconteceu para mim.
Eu estava prestes a fechar os olhos, quando ouvi a voz de Laila, mas a àquela altura, eu não estava entendendo muita coisa com sentido. Eu só me sentia cada vez mais tonta e mole, os dedos de apertando os meus, mas eu não tinha força para devolver o gesto. Por fim, eu acabei desmaiando antes mesmo da irmã dele aplicar a anestesia.

🞄🞄🞄

Abri meus olhos devagar e gemi involuntariamente, quando mexi a minha perna sem querer. Quando pareci mais desperta, olhei ao redor, notando que eu estava sozinha e tentei me levantar com uma careta expressando o quanto aquilo estava sendo desconfortável, mas consegui me manter sentada e com as costas apoiada na parede da cama. O quarto tinha uma decoração simples e eu não conseguia adivinhar de quem era. Talvez fosse simplesmente um quarto de hóspede.
— Que bom que acordou.
entrou no quarto e eu o recebi com um sorriso ao perceber que ele vinha carregando uma bandeja de comida e eu não tinha notado até agora o quanto eu estava com fome. Não tinha comido a noite inteira e isso me fez pensar na Zune, que era a mais importante em ser alimentada.
Eu ia abrir a boca para perguntar, mas não precisei, porque Laila entrou em seguida com as duas mãos na cintura, uma expressão séria. Lembrava a minha mãe quando estava prestes dar me dar uma bronca.
— Vocês não alimentam essa menina? — Ela perguntou, adivinhando o que eu estava pensando.
— A culpa é dela. — não hesitou em apontar para mim e eu estreitei os olhos na direção dele, indignada pela traição.
— Canalha! — Murmurei.
Voltei a olhar para Laila e encolhi os ombros, como se eu fosse mesmo a culpada.
— Eu sinto muito. Nós esquecemos. Estávamos fugindo de…
Ela nem mesmo me deixou terminar.
— Não me importa de quem é a culpa. Ela precisa comer pelo menos de quatro em quatro horas. — Reclamou. — Estamos entendidos?
Olhou de para mim e quando assentimos, ela descruzou os braços da cintura e deu um sorriso simpático para mim.
— Que bom que está bem, querida.
Assenti, acenando em agradecimento mudo.
Ela olhou feio para o irmão e saiu logo em seguida. revirou os olhos e caminhou até mim, sentando-se na cama o mais próximo que podia, por causa da minha perna. Não doía tanto quanto antes agora, mas ainda latejava.
— Enquanto você dormia, eu tentei cozinhar a sua coisa favorita. — Ele disse, colocando a bandeja com cuidado do meu lado.
Observei as opções. Tinha um copo de suco de laranja, um cacho de uva e brownie de doce de leite. Minha coisa favorita.
— Experimente. — Ele pediu.
Fiquei com água na boca e não hesitei em atender o seu pedido. Peguei o pedaço de brownie e mordi um pouco mastigando, mas engoli com uma careta desgostosa e devolvi o resto do brownie à bandeja.
— Meu Deus, ! — Soltei uma risada, limpando a minha boca. — Isso está péssimo.
Ele me olhou com uma expressão ofendida.
— Não posso ter ficado duas horas na cozinha para nada, mulher.
— Bom, então experimente você.
Ele me olhou desconfiado, mas como eu tinha praticamente o desafiado, ele pegou um pedaço e mordeu também. Sua careta me comprovou que eu estava certa.
— Um dia eu acerto.
Balancei a cabeça, rindo. Ele era simplesmente péssimo na cozinha, mas eu sempre lhe dava o benefício da dúvida toda vez que ele preparava algo na esperança que ele pudesse ter melhorado. Infelizmente, suas tentativas pareciam piorar a cada vez que ele decidia cozinhar.
— De qualquer forma, obrigada. — Olhei-o com carinho e recebi um aperto na minha perna boa.
me ofereceu o copo de suco e eu aceitei, bebendo até a metade. Ouvi os apitos dos nossos celulares e observei ele se levantar para ir pegar. Eu tinha até esquecido que tinha conseguido resgatar os nossos aparelhos, mas esqueci de muita coisa durante a noite inteira.
— Que horas são? — Perguntei.
Quando um agente sumia, a ASME tinha a regra de esperar vinte e quatro horas por um contato e se depois disso não surgisse nada, eles eram obrigados a nos contatar e rastrear.
— Fim de tarde.
Meu parceiro me entregou o meu celular e quando abri a barra de notificações, estava cheio de mensagens de diversos destinatários, mas me concentrei nas mensagens importantes que envolvia a Agência.
— Ainda não deu vinte e quatro horas... — comentei, sentindo-se agitada.
As mensagens nada mais indicavam sobre os resultados das investigações, mas não era isso que estava me chamando a atenção, era eles estarem vindo até nós sem que eu e iniciasse o protocolo de resgate.
— Por que eles estão vindo até nós?
— Eu não sei. — Ele me respondeu.
levantou, indo até a janela, observando algo. Engoli a seco ao notar a sua expressão. Não deveria ser uma coisa ruim eles estarem vindo, mas eu não estava com uma sensação boa. E geralmente, não gostava de ignorar a minha intuição.
— Eles não estão vindo... — disse. — , eles já estão aqui.
— Quantos?
Forcei-me a levantar da cama, aliviada que eu me sentia melhor e mais forte do que eu estava antes, mas não conseguia andar completamente ainda. Eu precisava ser cuidadosa se eu não quisesse que o esforço fizesse minha perna voltar a sangrar e eu fosse precisar ser medicada de novo. Já foi sorte o suficiente a irmã de ser enfermeira e eu não ser forçada a ir para um hospital, onde eu seria coberta de perguntas e atrairia atenção indesejada.
Meu parceiro balançou a cabeça, indicando que não conseguia saber quantos dele estavam ali na frente da casa.
Calcei os meus sapatos, notando que eu estava com um vestido e imediatamente soube que era de Laila.
— Vá atendê-los! — Falei. — Eu vou atrás da sua irmã.
Ele assentiu.
— Terceiro quarto à esquerda. — E saiu do quarto.
Eu fui logo em seguida, andando até o terceiro quarto que ele tinha indicado e quando entrei no mesmo, tinha uma garota de mais ou menos cinco anos de idade, ajoelhada no chão perto da cama, enquanto Laila segurava Zune deitada nas pernas e ela sorria.
— Desculpa atrapalhar... — murmurei, indicando a minha presença e Laila levantou os olhos na minha direção. — Acredito que eu e precisamos ir.
Seu olhar tinha perguntas, mas, por algum motivo, ela não os fez. Simplesmente fez um aceno de cabeça para a mais velha, que levantou do chão e pegou uma bolsa do outro lado do cômodo. Laila levantou com Zune nos braços e entregou-a para mim. Em seguida, me estendeu uma bolsa grande.
— Eu tinha roupas guardadas da Annabelle quando era pequena e coloquei para ela. — Indicou a Zune com um sorriso. — Tem tudo o que ela precisa e mamadeiras prontas para quando ela estiver com fome.
Assenti.
— Obrigada, Laila.
— Não por isso! — Seu sorriso foi gentil. — Se cuidem.
Eu estava prestes a responder, quando um barulho de algo caindo chamou a nossa atenção. Laila pediu que Annabelle se escondesse e eu peguei a bolsa, colocando-a sobre o meu ombro e segurei Zune com força demais, caminhando com cautela e descendo as escadas com Laila atrás de mim. Quando cheguei na sala, tinha dois homens caídos no chão e estava com um machucado no rosto, segurando a arma de um deles.
? — Foi Laila quem chamou.
— Estão só desmaiados. — Ele respondeu, mas olhou para mim. — , eles querem levar a menina.
— Eu entendo isso, mas…
Ele não me deixou completar.
— Não, você não entendeu! — Apressou-se em dizer, indo até a janela e olhando escondido para o que quer que fosse lá fora. — Tem algo errado.
Pisquei meus olhos, tentando compreender se eu estava mesmo certa em ter a sensação ruim sobre aquela situação.
olhou para mim e apontou para um dos homens desacordados no chão.
— Esse é Ryke Folk. E caso isso não refresque a sua memória, ele é um dos contatos anônimos de Philippe.
Puxei a respiração, distraída por mãos pequenas tocando as minhas bochechas. Alguém queria brincar aqui, mas eu não tinha tempo.
— Ele só é contatado quando precisa limpar alguma sujeira que a Agência não pode lidar. — continuou a explicar. — Seja lá para que querem a menina, , não é para proteger.
Barulhos do lado de fora nos deixou despertos. se aproximou de onde eu e sua irmã estávamos e eu desviei das mãozinhas da Zune.
— Laila, tem algum jeito de sairmos daqui? — Ele perguntou com pressa.
Ela balançou a cabeça ligeiramente.
— Há um carro na garagem. — Respondeu. Observei ela se afastar e voltar com uma chave. — Aqui está. Podem sair por trás.
Deixei-os se despedirem, agradecendo mais uma vez pelos cuidados e a hospitalidade e fui na frente, entrando na cozinha e acessando a porta que levava à garagem. Havia um Porsche preto estacionado e eu fui direto para o banco passageiro, colocando o cinto e a bolsa no banco de trás, tentando deixar a menina segura em meus braços também. Não demorou muito para que meu parceiro entrasse no banco ao meu lado e ligasse o carro rapidamente.
Quando olhei pelo retrovisor, Laila estava lá, apertando algum botão que abriu a porta da garagem, deixando-nos prontos para sair.
— Seu celular? — Perguntei, já que eu tinha esquecido o meu.
Ele tirou o aparelho do bolso e me entregou e eu joguei pela janela. respirou pesado e pisou no acelerador, dirigindo como um louco.
— Tudo bem, Zune. — Murmurei, abraçando-a. — Está tudo bem.
Mas, estranhamente, ela estava calma e soltou uma risadinha. Eu sabia que ela não entendia o que estava acontecendo, mas não imaginava que ela fosse ficar tão calma.
O vidro da parte de trás do carro se estilhaçou e eu protegi a menina com meu abraço, escutando vários tiros ecoarem, enquanto tentava despistá-los. Quando parecíamos estar longe e me certificando que não estávamos sendo seguidos, endireitei minha postura sobre o banco. Zune ainda estava calma, para o meu alívio.
— Vá para casa do Simon. — Falei a , minha respiração desregulada. — Precisamos retirar o nosso rastreador ou vão nos encontrar novamente.
Ele assentiu.
E agora eu estava mais do que disposta em descobrir para onde ou o que todo aquele caso me levava, e por que um bebê era o centro disso tudo.



Capítulo 3 - Simon

:

Doeu pra caralho retirar os rastreadores.
Eu tinha parado na farmácia para comprar os itens que precisávamos para conseguir tirar, mas não tinha morfina. Primeiro, eu deixei que fizesse o corte no meu braço e retirasse o mini chip que havia dentro, fazendo um curativo logo em seguida.
Cortar a pele doía e enfiar os dedos para encontrar aquela porra de rastreador era uma tortura pior ainda.
Nós ficamos estacionados de frente para um bar falido qualquer, deixamos Zune no banco de trás com o cinto de segurança impedindo que ela caísse. E então foi a minha vez de cortar a pele do braço da minha parceira e quando eu via suas caretas de dores, tentando não gritar tão alto pelo desconforto, eu decidi que se algum dia nós voltássemos para aquela Agência, não iriam colocar aquilo dentro de nós de novo.
Terminei o curativo nela e encarei os bancos e o chão do carro manchados de sangue.
— Vamos arranjar outro carro.
Ela concordou com um aceno de cabeça e abri a porta, saindo. Peguei a menina no banco de trás, enquanto ela pegava a bolsa e caminhamos em busca de um outro transporte, porque aquele já estava comprometido, uma vez que fomos vistos sair. E agora que tínhamos nos livrado do rastreador e não tínhamos celular, só precisávamos dar um jeito de conseguir chegar até Simon.
Sem um meio de nos encontrar, teríamos um tempo para seguir a nossa própria investigação.
— Ah, minha nossa! — Abanei o ar na minha frente, sentindo o mau cheiro invadir a minha narina.
— O quê? — perguntou, parando de andar e se virando para mim.
Apontei para Zune e para a fralda dela, vi o sorriso nascer nos lábios da minha parceira e eu soube o que significava: tinha sobrado para mim, claro!
— Devíamos nos revezar, sabia? — Retruquei, apontando um dedo em riste para ela.
— Não conte comigo.
Fingi que não ouvi a sua falta de colaboração e olhei ao redor. Nossa melhor chance de trocar a fralda de uma criança era entrar naquele bar, que parecia entregue às moscas.
fez uma careta, mas deixou claro que não tínhamos muita escolha, então entramos juntos. Estava quase vazio, exceto por dois homens que, a julgar pela aparência desleixada, não via banho ou sol havia muito tempo.
— Esse fim de mundo tem banheiro? — Minha parceira questionou e eu engasguei um riso.
! — Ralhei com a voz baixa e ela me lançou a melhor expressão de “o quê?!” que ela sempre fazia quando sabia que estava aprontando, mas não conseguia controlar. — Desculpem pela minha parceira, ela queria ter sido mais educada... — cutuquei as costas dela para que ela ficasse quieta assim que eu a vi abrir a boca para me retrucar. — Nós podemos usar o banheiro?
O mau cheiro só piorava e eu estava torcendo que eles permitissem, porque eu não aguentaria Zune muito tempo nos braços com a fralda suja. Seria um castigo sem tamanho.
Os dois homens deram de ombros depois de trocarem um olhar e apontaram para os fundos, voltando a fazer sei lá o que.
Caminhei com ao meu lado e eu não sabia o que era pior. O mau cheiro do banheiro ou o da Zune.
— Céus! — Minha parceira murmurou. — Vou querer uma indenização psicológica quando tudo isso acabar.
Soltei uma risada, empurrando a porta. Era um banheiro minúsculo. Havia um batente pequeno o suficiente para caber a menina deitada, enquanto eu a limpasse.
— Você não pode deitá-la nessa sujeira! — disse.
— Eu sei. Segure ela. — Entreguei a menina para os braços dela, que segurou.
Tirei a minha camisa, colocando em cima do pequeno batente e peguei Zune de volta, deitando-a somente em cima da camisa, impedindo que ela tivesse contato com a sujeira de fora. se afastou e, estranhamente, eu sentia o seu olhar em mim, mas ignorei. Só me concentrei em limpar a menina, que parecia mais agitada que o normal, balbuciando coisas sem sentidos e fui instruindo para que minha parceira retirasse somente o que eu precisasse da bolsa.
Joguei a fralda suja no lixo com uma careta e coloquei outra limpa nela, ajeitando o seu vestido. Não demorou mais do que cinco minutos em que ficamos presos ali. Agradecendo aos dois homens, nós saímos do bar.
Andamos um pouco até um estacionamento pequeno de um supermercado.
— Não tem câmeras. — constatou.
Olhei ao redor, observando que o movimento estava fraco também. Exceto por um casal logo à frente, não seríamos pegos se fôssemos rápidos.
Quando procurei a minha parceira com os olhos, ela já tinha sido mais rápida do que eu e quebrado a janela de um carro, que a julgar pela sua escolha, chamaria menos atenção. Assim que ela conseguiu abrir a porta, e por algum milagre, o carro não soou o alarme, esperei para ver se ela conseguiria ligar o carro através dos fios.
— Entre logo. — Ela mandou.
Abri a porta do passageiro e entrei com Zune nos braços, que lambia a própria mãozinha pequena e babava na minha pele exposta. Eu tinha jogado a camisa fora, resolvendo não arriscar em pegar doenças desconhecidas depois de ter usado para forrar aquela bancada suja.
não perdeu tempo em dar partida e logo estávamos na estrada.
O silêncio recaiu sobre dois, exceto pelo barulho que a menina fazia com a boca. Eu me sentia exausto, mas toda vez que pensava em dormir, eu lembrava dos pesadelos que tinha e às vezes preferia não ceder à tentação de um bom sono. Eu também sabia que tinha percebido isso, mas não sabia por que ela não tinha tocado no assunto ainda. Parecia um código entre nós não tocar em assunto pessoal um do outro. E enquanto ela não fazia isso comigo, eu não fazia com ela.
— Você tinha me perguntado se a Laila sabe... — comecei a falar, vendo-a assentir devagar. — Ela não sabe tudo, todos os detalhes. Ela sabe que é perigoso, mas, mesmo assim, não pergunta.
continuou mantendo os olhos na estrada.
— Você pediu que ocultasse que você tem família? — Questionou-me.
— No começo, não. — Respondi, depois de alguns segundos de silêncio.
Eu não sabia se ela tinha conhecimento de que eu já fui casado. Nunca tinha contado, mas era fácil descobrir sobre alguém dentro da Agência, se fizesse as perguntas certas.
— O que aconteceu? — desviou os olhos para me olhar por um momento. A estrada estava calma e não estávamos muito longe da localização de Simon.
— Pessoas erradas. — Foi tudo o que eu respondi.
Não me sentia preparado para conversar sobre isso ainda, não com ela. E talvez, não com ninguém. Era uma dor que eu levava sozinho, com mais maturidade agora, mas não queria compartilhar e relembrar de tudo.
— Você não tem família? — Tentei mudar de assunto.
Zune balbuciou de novo no momento em que ela me encarou. Um sorriso pequeno surgiu no canto dos seus lábios. Talvez fosse impressão, mas era um sorriso melancólico, embora sincero.
— Eu tenho você.
Duas horas depois, ela estacionou o carro duas quadras antes da casa de Simon. Achamos mais seguro nos livrar do automóvel antes que alguém se desse conta que foi roubado e os agentes chegassem até nós novamente. Eu ainda tentava juntar as peças. Não fazia sentido nenhum eles terem sido mandados para nos atacar. Queríamos a mesma coisa, não era?
— Eu estou morrendo de fome! — reclamou.
Continuei andando ao seu lado, só mais uma quadra. Zune resmungou algo inaudível e minha parceira olhou para ela.
— Ah, meu Deus. Você também.
Droga! Tínhamos esquecido de alimentar a coitada de novo e ainda bem que Laila não estava aqui, ou eu seria obrigado a escutar um esporro de mãe preocupada. Tudo estava uma bagunça tão grande que lembrar de alimentar um bebê de poucos meses parecia um grande esforço.
tirou da bolsa uma mamadeira com leite pronto, agitando no ar, vendo Zune quase pular do meu braço para agarrar o seu alimento.
— Já estamos chegando, Zune. — Ela murmurou.
Encarei-a.
— O que você disse?
— Que já estamos chegando.
— Não isso... — neguei. — Você a chamou pelo nome. Você reclamou comigo por isso e agora está chamando-a pelo nome?
Ela mexeu os lábios de um modo sedutor. Bom, sedutor para mim, porque com certeza ela não tinha consciência disso.
Atravessamos a última rua e entramos em um bairro que parecia quase deserto e era justamente por isso que Simon tinha se enfiado ali. Quase no fim do mundo.
— Eu achei que teríamos que entregar ela na mesma noite... — defendeu-se, dando de ombros para demonstrar o seu descaso com o meu argumento. — E Zune é um nome muito… apropriado.
Soltei uma risada, beliscando a sua cintura, recebendo um olhar de reprovação e eu me afastei.
— Viu, Zune? — Conversei com a menina, que me olhou na menção do nome. — Parece que alguém está se apegando a você também.
— Não seja idiota! — Ela murmurou.
Paramos em frente a uma casa grande, com decoração simples e jardim descuidado. Balancei a cabeça e acompanhei , que foi logo na frente, batendo três vezes na porta sem perder tempo.
Em menos de um minuto, Simon apareceu. Ele abriu a boca e sua expressão irritada se suavizou ao perceber que éramos nós parados ali.
— Você viu um fantasma? — o chutou.
Ele resmungou um “ai”, seguido de um “bruta” e logo a abraçou, dando espaço para que ela entrasse primeiro.
— Por que você está com um bebê nos braços e sem camisa? — Questionou-me, os olhos levemente curiosos. Ele ajeitou os óculos no rosto e se afastou para me dar espaço e eu entrei.
— Longa história.
— Eu tenho tempo — Simon disse.
Ele trancou a porta atrás de si. Aproveitei que a minha parceira tinha se sentado no sofá e andei até ela, entregando Zune no seu colo, indicando a mamadeira que ela segurava. Não dei brecha para ela reclamar, então ela revirou os olhos, ajeitou a menina no colo e colocou a mamadeira na boca dela, alimentando-a.
— Vocês já se livraram da tensão sexual? — Simon perguntou, apontando para nós dois descaradamente.
— Você já deixou de ser inconveniente? — retrucou, arrancando uma risada dele.
— Então? — Ele tentou, virando-se para mim.
— Não. — Respondi.
Era uma pergunta simples, com uma resposta simples. Eu e também nunca tocamos nesse assunto. Ela continuou calada, fingindo que eu não respondi nada e alternou a sua atenção para a menina em seu colo, de repente, achando-a bastante interessante de observar.
— Simon, precisamos de uma ajuda... — usei um tom de voz sério e ele me observou.
Dos pés à cabeça, parando por alguns segundos no curativo em meu braço e em seguida, observou , também parando no curativo do braço e da perna dela.
— O que aconteceu?
E contamos a história toda. Ele ouviu tudo em silêncio, pedindo que eu me sentasse do outro lado do sofá, enquanto ele sentou-se na poltrona menor. Vez ou outra, ele fazia uma careta ou ajeitava os óculos sobre o rosto de novo, alternando o olhar entre mim, e Zune, que agora dormia.
Não percebi o quanto eu estava cansado até ter terminado de contar tudo.
— Certo... — Simon disse. — Isso é péssimo.
— Não me diga! — Ironia escorreu no tom de voz da minha parceira e nosso amigo a ignorou.
— Vocês querem me fazer invadir um servidor e acessar informações secretas?
— Sim. — Respondi. — Tenho certeza que bloquearam o nosso acesso.
Simon era um hacker habilidoso. Ele conseguia hackear qualquer coisa sem ser pego por isso e era a nossa melhor opção no momento. Invadir o servidor da Agência era a única maneira de eu e conseguir o acesso aos arquivos da investigação sobre Zune. E descobrir o que eles sabiam.
— Vai levar um tempo. — Simon aceitou.
Olhei para e assenti, concordando.
— Nós esperamos. — Falei. — Podemos descansar?
Simon levantou-se da poltrona, ajeitando os óculos mais uma vez.
— Qualquer quarto lá em cima estão livres... — ele informou. — Vou pedir algo para comer.
foi a próxima a se levantar e eu a acompanhei.
— Obrigada, Simon! — Ela disse, dando um sorriso cansado ao garoto. — Senti sua falta.
Ele balançou a cabeça e a deixou subir as escadas com a menina dormindo em seu braço. Peguei a bolsa que ela deixou no sofá e caminhei, parando na frente de Simon antes de seguir as escadas.
— É importante que não saibam que estamos aqui.
— Não se preocupe! — Ele deu um tapa leve no meu ombro, tranquilizador. — Não podem rastrear o meu servidor.
— Obrigado.
Ele dispensou o meu agradecimento com um aceno e eu subi, procurando qual foi o quarto que escolheu. Andei até o último do corredor, vendo a porta entreaberta. Ela tinha colocado Zune na cama e estava sentada, olhando-a dormir.
Deixei a bolsa em uma poltrona pequena que tinha ali e andei até a minha parceira, minhas mãos pousando em seus ombros e costas, iniciando uma massagem. Uma mania que eu gostava de ter e que ela nunca reclamava.
— Tensão sexual? — Ouvi-a perguntar, com um ultraje na voz e eu tentei não rir muito alto.
Apertei os ombros dela com um pouco de força, olhando Zune dormir.
— Ele percebe as coisas — Respondi, provocando.
Ela beliscou a pele da minha mão.
— Não há tensão sexual.
Abaixei a minha cabeça perto o suficiente de seu rosto. Beijei a sua bochecha delicadamente, por pura provocação e em seguida, desci o beijo pelo seu pescoço exposto, vendo-a pular de surpresa.
— Continue se enganando.
Afastei-me dela, pronto para ir direto ao banheiro e finalmente ter o prazer de um banho morno. Precisava relaxar e afastar a ideia de que eu não podia alimentar seja lá o que houvesse entre nós. Tocar me deixava quente de um jeito que eu não ficava havia tempos e eu não tinha pensado sobre tensão sexual nenhuma até Simon ser inconveniente o suficiente para me lembrar.
Eu não achava que havia tensão sexual também. Não da forma como uma deveria parecer. Era algo mais.
— Eu te odeio!
Ouvi ela murmurar e sorri.
Era sempre algo mais.



Continua...



Nota da autora: Oi, oi!
Quero agradecer pelo carinho a você que está lendo e acompanhando OB. Fico muito contente que estejam gostando da história, porque eu amo demais escrever ela e amo mais ainda os personagens.

Até a próxima!

Você pode entrar em contato comigo pelo twitter: @aurocarstairs.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus