Os Oito Reinos

Última atualização:09/01/2021

Prólogo


O mundo criado por ela, a Deusa da Vida, era simplesmente terrível. Era confuso, ela queria criar algo ideal, mas toda criatura precisava destruir algo para manter a própria vida. Era relativamente pacífico, talvez até demais, entediante eu diria. As vezes a Deusa dormia por anos a fio, sem nada mudar ou nenhuma criatura nova surgir, chegou num ponto em que ela achou que deveria criar algo mais interessante, se superar. E se alguma criatura fosse capaz de pensar da mesma forma que ela? Era um desafio, o que uma criatura faria com esse tipo de pensamento? Tentaria se opor a Deusa ou a amaria? Ela sentia tanta falta de incertezas que escolheu correr o risco, afinal se esse mundo desse errado era só o destruir e recomeçar.
Ela então resolveu dividir seu mundo em 8 reinos, com uma criatura semelhante a si em cada uma e responsável por ele. O reino dos mortos, da luz, da tempestade, do mar, da pedra, das raízes, do vento e da vida, sua casa. Por último, ela dividiu uma parte do seu poder em 8 cristais, um para cada reino, que sustentava cada um deles, mas tudo bem, o cristal da vida era o único que mantinha controle sobre todos os outros e este sempre estaria sobre seu poder e de seu filho semelhante. Em toda sua sabedoria, era fácil supor, um ser semelhante seria sábio como ela era.
Milhares de anos depois, o desequilíbrio do planeta mantinha a Deusa satisfeita e muito bem ocupada, seus 8 filhos haviam criado mais semelhantes a eles e populado os reinos com o poder do cristal e com criaturas tão complexas o caos era garantido e muito bem recebido, ao menos para a Deusa. O único local do qual ela não suportava o caos era no seu próprio reino. Ela vivia em um palácio e no próprio reino como uma de suas criaturas, era adorada e respeitada por todos, exceto por seu próprio filho e Guardião do Reino da Vida. Vita não se interessava pelo caos provocado pela mãe e prefere ficar trancado em seu quarto, fazendo experimentos com suas próprias criações.
Os seres do reino da vida eram seres humanoides assim como a Deusa e Vita, pequenas flores e folhas, das mais variadas cores, saiam misturadas a seus cabelos. Caules de plantas cresciam em seus ossos, perfurando seu caminho até a pele onde desabrocham pequenas flores e até mesmo frutos na época certa. Vita criava animais de diferentes tipos, sempre misturados a plantas, folhas e flores e era o que mais adorava fazer em seu quarto, por ser criado pela mãe, talvez fosse o mais infantil de seus irmãos.
Em um momento muito importante para tudo que irá se seguir, Vita sentou-se no jardim do palácio durante uma noite de luas cheias. Seu gato, de pelos verdes longos e compridos e pequenas asas nas costas, se juntou a ele. O rapaz então pegou a jarra que trouxe consigo, água misturada a pó das luas, que às vezes se aproximavam tanto do reino, que ele conseguiu fazer com que a areia delas viajasse até ele por anos até que ele pudesse colocar no jarro, e jogou a água no chão com cuidado formando um círculo.

— Lo, esse é um momento muito importante, eu nunca usei esse pó antes. – Lo miou em resposta. – Eu sei, mas mamãe não pode ficar sabendo, é uma surpresa.
A água brilhava, e a luz das luas fez com que ela cintilasse. No meio do círculo, se formou uma espécie de espelho, mas sua superfície se mexia como um mar agitado, o gato olhou para Vita e miou mais uma vez.
— Não há com o que se preocupar, Lo. – Ele se aproximou do círculo e com cuidado, o tocou com a ponta do dedo, subitamente uma mão agarrou a dele. Em desespero ele se jogou para trás puxando a pessoa para fora do espelho movimentado, que desapareceu.
Vita encarava a silhueta que ainda segurava sua mão. Ela poderia ser semelhante a ele, se não tivesse nenhuma planta de qualquer tipo saindo de si. A moça estava de olhos arregalados e por muito tempo não soube o que dizer. Até que o grito finalmente saiu.
— Acalme-se, criatura.
— Onde eu estou? – Ela fala com a voz trêmula.
— No reino da vida.
Ela olha ao redor as árvores brilham fluorescentes, com folhas de cores roxas, rosas e azuis. O rapaz que a encara tem uma flor branca crescendo na bochecha.
— Eu... Tava no shopping, em São Paulo?... Eu só bati no espelho sem querer... Isso é algum tipo de cenário?
Vita encarou Lo, que miou novamente e Vita revirou os olhos, o gato realmente o avisou dos riscos.


Capítulo 1


Eu poderia infartar a qualquer momento, um garoto meio planta me olhava com um gato que parecia um arbusto voador, eu sei que minha psicóloga falou que eu deveria tentar parar de ficar divagando e viver mais no mundo real, mas será que pirei de vez? Ou era um sonho? Me belisquei algumas vezes e o garoto arqueou uma sobrancelha, pegou um caderninho e anotou coisas.
— Ok, cheguei à conclusão que estou sonhando e que aparentemente você será meu guia aqui.
— Como você sabe que é um sonho?
— Porque nada disso é real, obviamente. – Afirmei batendo em minha roupa para retirar a sujeira da terra de onde caí.
— Real é o que você vê, você me vê então sou real, mesmo que seja em um sonho.
— Se apenas eu te vejo não é real. – Ele levantou a sobrancelha outra vez e fez mais anotações
— Sua realidade então se baseia na dos outros?
Parei pra pensar um pouco, surpresa com a pergunta. Eu estava confundindo a mim mesma no meu próprio sonho com questionamentos filosóficos? Observação: Anotar esse diálogo quando acordar. O garoto escrevia no caderno então olhei ao redor para observar o que minha mente tinha criado, a noite era iluminada por muitas estrelas, eu nunca tinha visto tantas assim, ainda mais em São Paulo. Eu estava em um jardim, mas mais adiante eu conseguia ver um palácio que mais parecia uma árvore gigante e moldada nesse formato, com várias torres e galhos que saiam do seu topo, e deles saiam diversas flores que brilhavam em tons coloridos.

— É o seguinte, minha mãe não pode te ver, então não faça escândalo e venha aqui. – Ele falou colocando a mão no chão, de onde apareceu uma espécie de plataforma de madeira, eu me aproximei e pisei nela. O gato verde bateu as asas e levantou voo, indo na direção de uma das torres do castelo.
— Por que sua mãe não pode me ver? — Ele me olhou como se eu fosse a criatura mais estúpida do mundo e me ignorou enquanto subíamos na plataforma de madeira, que era levantada por troncos que cresciam rapidamente, nos levando até a janela da torre que o gato já havia adentrado. Ele desceu da plataforma com leveza para dentro de um quarto e ficou me encarando enquanto eu ficava parada na plataforma olhando ao redor.
— Pela Deusa, você quer uma bandeira para sinalizar sua presença também? – Ele estendeu a mão pra mim com certa ignorância e me ajudou a descer da plataforma, que desceu e todo o tronco encolheu até voltar a terra. – Lo, por que as Luas teriam mandado uma humanóide tão mediana para mim?
é meu nome e eu não sou mediana se você quer saber eu tiro notas muito decentes na faculdade. – Meu Deus, porque eu estava me botando pra baixo dessa forma? Minha autoestima era razoável.

Aparentemente Lo era o gato, que miou preguiçosamente enquanto se alongava. Olhei ao redor pelo quarto e fiquei pensando de onde meu subconsciente poderia ter imaginado tudo aquilo. O quarto era quase como uma floresta, era mato pra todo canto, era enorme e muito maior que meu apartamento com certeza. Haviam várias escrivaninhas lotadas de papéis e potes de vidro com coisas brilhantes e gosmentas, o quarto era iluminado por luzes em formato de circunferência que flutuavam pelo quarto. Quando retornei minha atenção para o rapaz ele me olhava curioso.

— Ainda pensa que está em um sonho... ? – Ele falou meu nome lentamente como se fosse algo super diferente.
— Mas é claro.
— Sua tranquilidade em um reino desconhecido me assusta. – Ele disse sentando em uma rede grande no meio do quarto, que aparentemente era sua cama. Era feita por galhos e folhas que até pareciam ser macias.
— Garoto, racioci...
— Meu nome é Vita e eu tenho milhares de anos, tá certo que eu morro e renasço a cada...
— Foda- se, garoto. – Repeti. – Raciocina comigo, porque um alienígena falaria português se não fosse um sonho meu? – Falei sentindo a ansiedade já atacando.
— Português?
— Isso, a minha língua.
— Eu não falo português, eu produzo sons com a boca e você transforma esses sons em mensagens, aqui. – Ele disse apontando pra própria cabeça. — Eu falo o que eu falo.
— Qual a sua língua?
— Minha língua são os sons e o que interpreto a partir deles, já disse. — Eu o encarei e ele sorriu. Era tudo tão vívido, eu sentia meu corpo como sempre. Eu conseguia me movimentar rápido diferente do que acontecia normalmente em meus sonhos, mas não tinha opção ali, ou era um sonho ou eu havia enlouquecido.
— Como eu vim parar aqui? – Perguntei, sentindo meu coração apertar um pouco, pensando melhor, eu lembrava de forma vívida de estar no shopping minutos atrás.
— Eu fiz um ritual, com as Luas. – Ele disse apontando pela janela onde eu conseguia ver, de fato, umas cinco Luas de diferentes tamanhos.
— O que você esperava do ritual? – Minha psicóloga teria MUITO o que ouvir.
— Eu crio seres, entende? – Nossa, mas é claro que eu entendo. – Eu esperava conseguir criar um ser com a magia da Lua..., mas não um humanoide, apenas um animal.
— Você não me criou, eu já fui criada faz tempo. – Ele riu.
— Sim, aparentemente ao invés disso criei apenas um portal. Eu nunca tinha usado poder da Lua... Seu cabelo já era branco antes?
— Que? – Falei desesperada procurando um espelho no lugar, até que fiquei em frente a um pequeno que havia na escrivaninha e sim, meu cabelo estava tão branco que brilhava.
— Foram as Luas, você deve estar ligada a elas de alguma forma. Olha... – Ele se levantou e se aproximou de mim, falando mais baixo e perdendo um pouco o tom de ignorância. – Tem um tempo que eu procuro os poderes das Luas pra me ajudar com a minha mãe e com o meu povo. Ela é uma Deusa pra muitos aqui, mas eles não a conhecem de verdade, ela não quer o bem de ninguém.
— Eu acho que já deu. – Falei me afastando do garoto esquisito que criei, já estava assustada e não acordava de jeito nenhum não importa o quanto os beliscões doessem. Só tinha uma alternativa, a gente sempre acorda quando morre nos sonhos. Virei pra janela, meu coração palpitava no peito, aquilo parecia loucura, eu não sentia que era o certo a se fazer, mas eu já não respirava direito tamanha era a confusão na minha cabeça.
Corri e me atirei do alto da torre, eu não estava acordando e a queda parecia muito real, ouvi a voz do garoto na minha cabeça falando palavras que eu não entendia e senti algo dentro de mim, senti coisas finas como agulhas perfurando minha pele por todo o meu corpo e gritei. O chão chegou e tudo ficou preto.


Capítulo 2


Quando abri os olhos, lá estava ele de novo, o garoto da flor na cara me observando. Me sentei assustada, por que eu não tinha acordado ainda?

— Me tira daqui. – Eu só consegui falar baixo, desesperada. Ele se aproximou devagar e eu pude observar melhor seu rosto, as flores que antes decoravam seu cabelo e sua face haviam desaparecido dando lugar a algumas folhas secas, seus olhos verdes que antes brilhavam um pouco, pareciam mais opacos. Antes estava vestindo apenas uma bata comprida marrom, agora usava outra bata, só que florida e com bordados dourados.
— Me escuta, por favor. – Lágrimas de desespero começaram a sair dos meus olhos. – Não se mata de novo, porque vai ser a última vez. Eu só consigo realizar um feitiço poderoso assim por vida.
— ME TIRA DAQUI. – Eu gritei e ele arregalou os olhos, tampando minha boca com a mão.
— Eu não sei como fazer você entender isso, mas você não tá na merda de um sonho e você já percebeu, só não quer aceitar. – Ele falou sussurrando no meu ouvido, atropelando as palavras como se estivesse com pressa de terminar de falar. – Se ela perguntar seu nome é Floreli e você é uma semelhante, eu te enfeiticei pra parecer. – Ele se afastou e olhou nos meus olhos, destampando minha boca devagar. – Se ela souber que você veio das Luas ela vai te matar.

Não tive tempo de processar o que ele disse porque a porta do quarto abriu com um estrondo, Vita se afastou de mim num salto e abaixou a cabeça pra silhueta que surgiu na porta. Ela era a criatura mais bela que eu já vi, era como se uma árvore tomasse o corpo de uma mulher, tinha flores por todo o corpo principalmente pelos cabelos cacheados longos e volumosos que se misturavam aos galhos. Ela usava um vestido comprido, de textura fina e bordado com uma linha que parecia feita de ouro. Puxei o cobertor de folhas até o pescoço pra esconder minha roupa de outro planeta.
Ela andou até estar na frente de Vita e ele levantou a cabeça um pouco, mas sem olhá-la nos olhos. Ela deu um tapa no rosto dele tão forte que ouvi o estalo, minha expressão se contorceu e engoli em seco sem saber se deveria dizer algo.

— Por que uma garota caiu em queda livre do seu quarto? E mais importante, por que você usou o dom que eu te dei para salvar ela? – Ela falava num tom ameaçadoramente baixo com Vita que apenas olhava pros próprios pés.
— Ela quis invadir meu quarto e eu a empurrei em reflexo pela janela, mais uma fanática, senhora. Eu... Usei cipós para tentar segurá-la, não sei como agi tão rápido, mas ela ainda sofreu o impacto, fiz isso por pensar que talvez isso atrapalhasse o equilíbrio no reino da vida, não quero nosso povo irritado por matarmos ninguém.
Me forcei a manter a expressão mais vazia possível, mas o medo tanto meu quanto o de Vita era palpável. Ela me analisou e pude ver seus olhos verdes brilhantes me encarando, imediatamente desci o olhar assim como Vita.
— Há algum tempo quero discutir isso com você. “Nosso povo” está me entediando.
Vi o garoto levantar os olhos por um momento e depois descer outra vez, balançando a cabeça levemente em confusão.
— Achei que a paz era necessária pra manter o controle.
— E como isso tem funcionado para o Reino da Luz? — Vi o maxilar de Vita enrijecer, como se quisesse responder algo que não deveria. – A paz traz controle até você não poder fazer nada que queira para não irritar as criaturinhas felizes, isso que é falta de controle. Hoje isso acaba. – Ela gesticula e duas coisas gigantes feitas de madeira vem do corredor, vindo na minha direção, os olhos assustados, meus e de Vita se encontraram.
— ESPERA. – Ele entrou na frente, levantando as duas mãos pros monstros que pararam no mesmo momento. A Deusa o olhou de cima a baixo e ele abaixou as mãos e o olhar. – Eu menti... Me perdoe, senhora. Eu estou apaixonado, eu a via escondido em meu quarto, mas eu temia que ela atrapalhasse nossos projetos, empurrei ela da janela quando veio me visitar e... depois me arrependi e tentei salvar a garota. – Ele disse rapidamente o que fez com que eu e sua mãe o olhássemos confusas.
A Deusa soltou uma gargalhada que não parecia feliz e me fez sentir mais desconfortável do que quando achava que estava presa em um sonho. Aquilo tudo era real, o medo era real.
— Quando eu penso que você poderia deixar de ser o meu filho mais inútil, você parece se superar. – Ela olha pra mim e depois pra Vita. – E agora você pensa que eu vou deixa-la viva para você ter um romance e ser o Guardião mais patético dos Reinos?
Ele pareceu confuso novamente, eu quase conseguia ver sua mente borbulhar com as ideias, ele procurava uma maneira de me salvar e eu ficava cada vez mais em pânico.
— Você disse que não quer mais manter a paz em nosso reino. Depois do que fiz a moça nem mesmo olha na minha cara e seus pais devem estar aterrorizados... – Ele se aproximou da mãe e disse num sussurro conspirador. – Se a forçarmos a casar comigo o povo não vai ficar feliz.
Ao mesmo tempo que eu sabia que ele estava tentando me salvar, o rumo daquela conversa não me agradava de nenhuma forma. Eu só queria sair viva daquele momento para que Vita pudesse me mandar de volta pra casa.
— NÃO, SEU MONSTRO. – Eu gritei tentando me levantar da cama para encenar minha parte do teatro e percebi que minhas pernas não se mexiam, Vita deu um sorriso que o fez se parecer muito com sua mãe, ele levantou a mão em minha direção, fazendo galhos surgirem do chão abruptamente e agarrarem meus braços e minhas pernas me prendendo a cama, coisa que realmente doeu e me fez gritar outra vez, só que mais realista. A Deusa sorriu, satisfeita.
— Talvez ainda haja esperança pra você, Vita. – Ela falou, virando as costas e seguindo para o corredor. – Vou avisar seus irmãos para virem para a cerimônia, amanhã.
— Amanhã?
— O que foi isso? – Ela falou parando de andar. Após um momento de silêncio, ela seguiu para o corredor e as portas se fecharam.


Capítulo 3

Assim que ouvimos a porta fechar Vita soltou os galhos e se aproximou de mim, me ajudando a sentar na cama com cuidado, ele suspirou e todos os meus ferimentos se curaram. Eu me sentia muito fraca, como se precisasse de dias de sono, mas minhas pernas agora podiam se movimentar de novo.

— Você foi bem. Você nunca esteve machucada, eu só usei um feitiço de disfarce. Os ferimentos somem depois que é feita uma ressuscitação, mas ela não pode saber que eu te revivi. – Ele sorriu fraco.
— Eu não vou me casar com você. – Falei de certa forma um pouquinho desesperada por dentro. Ele riu. Como a expressão dele agora estava relaxada, sem a mãe por perto. – Quer dizer, eu preciso ir pra casa.
— É claro. – Ele se levantou da cama, onde antes estava sentado ao meu lado. – Nós vamos fugir, um dos meus irmãos provavelmente não virá, ele também não aprova nada do que minha mãe faz porque ele tem que lidar com todas as consequências do que ela faz em primeira mão. É pro reino dele que devemos ir.
— Como vamos fugir?
— Amanhã, quando todos estiverem nos esperando. O caminho vai estar mais livre do que agora, além disso ressuscitar não é fácil. Você precisa descansar. – Ele também parecia que precisava, as folhas de seu cabelo estavam secas e ele tinha olheiras profundas, desconfiei que ele passou a noite toda gastando sua energia para me trazer de volta a vida.
— E esse seu irmão pode me levar para casa, certo? – Ele deu um pequeno sorriso tentando me encorajar e assentiu. Era um alívio, minha vida era uma merda sim, mas não acho que seria melhor viver no mesmo mundo que aquela mulher.

Vita se sentou em uma “poltrona” de madeira com folhas que não parecia muito confortável, deu um gole num cantil de tamanho razoável e suspirou, fechando os olhos. Não ousei perguntar o conteúdo daquilo e tentei adormecer também.

Quando abri os olhos, logo os fechei novamente depois de ser quase cegada pela luz que entrava no quarto. Quando eles se adaptaram, vi Vita ainda adormecido na poltrona do meu lado, suas mãos estavam apertadas no cantil, mas sua expressão parecia a mais calma que eu já vi, de quem estava num sono profundo. Sorri ao ver que algumas folhas secas haviam ficado verdes novamente e vinhas se misturavam aos seus cabelos cacheados que pareciam mais sedosos.

— Ei. – Falei encostando em sua mão e ele acordou alarmado, olhando pros lados. Quando o pequeno susto passou, se levantou. Ele correu até o armário e pegou uma mochila.
— Eu trouxe isso do meu quarto ontem enquanto você dormia depois de morrer. – Ele falou casualmente. – Veste isso.

Ele me deu um vestido simples, parecido com aqueles vestidos simples de camponesa que víamos em filmes medievais ou sei lá, da Disney. Ele tirou lá de dentro outra roupa de um tecido parecido, mas masculinas, uma calça e camisa simples. Ele virou de costas pra mim, começando a se trocar e foi difícil não permanecer olhando, ele tirou a bata e vi que no meio das suas costas tinha uma espécie de cicatriz em espiral, como se fosse o meio de um tronco, ele também era magro. Daí ele começou a tirar a calça e virei em súbito de costas, sentindo as bochechas queimarem, tentei me concentrar em minhas roupas, troquei os jeans e a camiseta pelo vestido.
Devidamente vestidos, ele subiu na janela e estendeu a mão para mim, me ajudando a subir sem que eu tropeçasse na minha roupa da Disney. Uma plataforma subiu enquanto ele estendia a mão em sua direção e subimos nela, desci olhando o reino dessa vez na luz do dia e senti meus olhos lacrimejarem. Era um lugar lindo e muito verde, um bosque cheio de pessoas que aparentemente moravam dentro de árvores gigantes, meus ouvidos se encheram de vozes misturadas aos sons de pássaros. Vita colocou o capuz e pude ver que todas as pessoas atravessavam ao longe uma ponte de madeira até o palácio. Todas elas eram como Vita, os cabelos floridos e da pele nascem folhas e mais flores, tirei um momento para reparar em como eram um povo bonito.
Vi o gato verde do dia anterior vir da janela da torre do quarto de Vita e pousar em seu ombro, fazendo com que o garoto desse um sorriso e esfregasse seu rosto no pelo verde do gato.

— Estão indo para o casamento. – Ele falou enquanto olhava as pessoas, sua voz levemente embargada. Era óbvio a tristeza que ele sentia, segurei sua mão e dei um leve aperto.
— Eu também fugi de casa, sabe. – Ele me olhou com curiosidade. – Minha vida não era boa lá no meu... Planeta. Eu estava fugindo da minha mãe também.
Me calei não querendo mais falar sobre ela por agora, já sentindo um nó na garganta. Ele sorriu fraco, apertando minha mão de volta e depois soltando. Começou a andar rapidamente na direção oposta das pessoas e eu o segui.
— Pra onde vamos? – Falei enquanto andávamos pela cidade praticamente vazia. Era indescritível a arquitetura do lugar, é como se fosse uma cidade de fadas, mas de tamanho real. Era colorido pelas flores que cresciam nos troncos das árvores e em cada tronco tinha uma pequena porta redonda com uma plaquinha e provavelmente um nome escrito em uma língua que eu não conhecia, do morador.
— Nós vamos andar até chegarmos no Reino dos Espíritos. Os Reinos... Eles mudam de lugar todo dia. – Ele falou sem me olhar nos olhos.
— Que? Nós não sabemos o caminho, é isso?
— Nós andamos e vamos chegar em outro Reino, mas não tem como saber qual é até estar nele.
Eu parei de andar e o olhei, sentindo algo borbulhar dentro de mim.
— Tem algo que você não tá me contando e eu preciso saber em que merda você tá me metendo. – Ele também parou de andar e vi a raiva na minha voz refletida no olhar dele, que por um momento, pareceram escurecer, o verde se tornou cinza e me senti confusa, com certeza ele estava escondendo algo. Ele estava diferente de quando o conheci, eu conseguia sentir isso embora não soubesse dizer como.
— Nós não temos tempo pra isso. Se você quer ir pra casa tem que me seguir. – Ele andou até mim e estendeu a mão, abaixando o tom. – Por favor.
— Por que sua mãe não podia saber que você me ressuscitou? Que diferença faria? – Pareci pegar ele de surpresa, que aparentou assustado por um segundo, então novamente com raiva, abaixou a mão repentinamente e me encarou, seus olhos já verdes como antes.

Continuou andando claramente decidido a me ignorar, Vita sabia que eu não tinha opção a não ser segui-lo de qualquer jeito. Era muito difícil tudo aquilo, eu estava num mundo caótico e tinha de confiar cegamente no que aquele cara me dizia, eu sentia muita fome e tinha medo do que teria pra comer. Depois de alguns minutos andando pela mata densa, não haviam mais casas.

— Eu vou morrer de novo se não comer algo. – Falei baixo. Vita abriu a mochila na mesma hora e me estendeu o que parecia ser um pão normal e suspirei aliviada.

Passamos dois dias desse jeito, só eu falava algo quando estava com fome e o nosso pão já parecia estar acabando. Acampávamos durante a noite e eu sempre sentia como se algo estivesse nos observando, com certeza a mãe dele procurava por nós e eu não sabia o que poderia acontecer se ela encontrasse. O único que me acalmava era o pequeno Lo, que se esfregava em meus pés quando me via chateada. Eu ainda não tinha me acostumado com minha nova realidade e toda vez que eu dormia parecia que ia acordar no meu quarto, mas não, o rosto que eu via quando acordava era sempre do garoto florido e nunca mais o da minha mãe. Nesse tempo percebi que talvez eu nem mesmo sentisse tanta saudade assim de São Paulo ou da minha mãe problemática, eu estava num País das Maravilhas e não tinha porque querer rejeitar isso... Tinha uma mulher querendo me matar mas, detalhes, quer dizer, tinha magia ali.
Uma coisa que eu também tinha costume de pensar era o que minha psicóloga teria a dizer sobre minha situação, quer dizer, seria tudo isso uma fuga doida da minha mente do mundo real? Eu usei drogas e esqueci e agora tô em coma? Coma nem deve ser assim, falam que dá pra saber que tem gente com você ou quando falam com você. Mas quem iria falar comigo?
Toda noite, Vita parecia sussurrar algo antes de dormir, como uma oração e sempre bebia um gole do cantil que eu não sabia como ainda tinha algo dentro. Uma noite enquanto fazia isso, me senti incomodada, eu nunca tinha agradecido por ele ter me trazido de volta a vida e já estava cansada de não nos falarmos. Enquanto ele parecia hipnotizado pela fogueira e Lo dormia enrolado em seus pés, me sentei ao seu lado.

— Me desculpe, você salvou minha vida e nunca agradeci. – Ele olhou para mim brevemente e depois tornou a olhar pro fogo.
— Você tinha razão, tem muita coisa que eu não estou te contando. – Ele se virou para mim. – Eu sinto meus poderes enfraquecendo, isso significa que estamos chegando no próximo reino.
— E o que tem a ver você estar fraco? Eu realmente gostaria que você falasse tudo de uma vez.
— No meu reino eu morro a cada 100 anos e renasço pelo poder do cristal, eu sou o guardião dele e ele é o meu. Em outros reinos... Eu posso morrer de vez. – Ele provavelmente conseguiu notar o quanto minha expressão ficou assustada e continuou. – Eu ainda terei poderes se tiver fonte da Vida por perto, plantas, mas não vou conseguir fazer feitiços que não tenha a ver com elas.
Suspirei pesadamente e procurei na bolsa mais um pedaço do pão que estávamos racionando, para encontrar ela vazia.
— Nós vamos ter que nos virar mais um pouco agora. – Ele estendeu a mão para uma árvore próxima e eu observei enquanto um galho espesso veio até ele, se transformando em um arco, nas duas pontas dele Vita amarrou algo elástico parecido com cipó. – Isso é pra mim.

Então ele se levantou e estendeu a mão para o alto onde uma espessa camada de galhos e folhas da floresta tampavam parcialmente o céu, eles se afastaram, dando lugar a luz que vinha das Luas e das estrelas. Lo miou com a claridade nova, olhou ao redor e depois voltou a dormir.

— E isso aqui é pra você. – Eu estava vendo Vita animado de verdade pela primeira vez. – A boa notícia é que as Luas estão em todo lugar e você precisa aprender a usar o poder que elas te dão. A má... É que não sou só eu quem pode morrer.


Capítulo 4

Vita se sentou na grama e indicou com a mão para que eu me sentasse na sua frente, ergui uma sobrancelha curiosa e me sentei com as pernas cruzadas uma na outra no chão, assim como ele.

— Então, quais são os projetos que você tinha com sua mãe, que uma “fanática” como eu poderia atrapalhar? – Falei rindo e ele olhou pro lado, parecendo incomodado com minha curiosidade (como sempre).
— Isso de pesquisar as Luas foi ideia da Deusa, ela sabe que elas têm muito poder, mas não entende elas. Em uma das cartas que troquei com meu irmão Guardião do Reino dos Espíritos, ele disse que pesquisou muito sobre, fez experimentos. É um poder maior do que qualquer Deus pode ter. – Ele fez uma pausa, agora tornando a olhar pra mim. – Eu fingia que não tinha encontrado nada sobre sempre que ela me perguntava e dizia que capturar o pó delas demoraria milhares de anos, imaginei que o que quer que saísse do portal eu poderia esconder e tentar extrair o poder... Fanáticos são apenas súditos que são obcecados pelos Guardiões das mais diferentes maneiras.
— Eu não facilitei a parte de se esconder pra você. – Ele deu um pequeno sorriso e me estendeu as mãos.
— Chega de conversa. Segure minhas mãos. – Ergui a sobrancelha, mas obedeci e segurei suas mãos, macias e maiores que as minhas. – Quando eu medito é quando eu consigo criar as melhores criaturas, é quando canalizo meu poder, então é isso que você vai tentar.

Eu tinha visto alguns animais dos mais diversos tipos enquanto andamos pelo bosque, Vita parecia genuinamente feliz quando olhava pra eles. Tinham pássaros do tamanho de moscas, cada um era de uma cor e cantavam músicas em uníssono, vi também alguns animais pequenos que tinham pelos castanhos, laranjas e verdes, que lembravam esquilos.
Vita soltou minhas mãos devagar, estendendo as palmas de suas mãos abaixo das minhas de forma que quase se tocassem e fechou os olhos. Senti um arrepio por todo o corpo e de alguma forma eu conseguia sentir a energia saindo de suas mãos e passando para as minhas, percorrendo todo o meu corpo. Ele sorriu, ainda com os olhos fechados e vi que ele emanava uma áurea verde suave, o que me fez ficar surpresa e sentir a paz que ele conseguia me transmitir. Ao nosso redor, flores começaram a crescer emanando a mesma aura que ele.
Tentei fazer o mesmo e fechei os olhos, me concentrando nas luzes das Luas que penetravam na minha pele ao mesmo tempo que sentia a energia de Vita dentro de mim. Então, eu senti uma energia, tão avassaladora que meu coração bateu mais rápido, era como se ela passasse pelo meu corpo inteiro penetrando até meus ossos. Não era calma como a de Vita e sim como entrar em um lugar um frio e escuro que te faz tremer de tanto medo.
Abri os olhos e vi Vita com os olhos também abertos e assustados. Eu não estava mais na frente dele e sim acima, flutuando. Eu conseguia sentir e ver uma aura negra saindo de mim e ouvia sussurros que eu não entendia.

, por favor mantenha calma. – Vita disse, mas eu sentia o medo em sua voz e foi como se aquilo me fizesse entrar em um transe maior, os sussurros ficaram mais rápidos e Vita se levantou olhando ao redor. – As Luas... Elas invocam...

Começaram a sair das árvores, sombras com formato de pessoas, quanto mais elas se aproximavam mais eu sentia meu coração bater forte e gritos em meus ouvidos. Vi Vita erguer as mãos e ao nosso redor surgir uma redoma de luz, nos separando das sombras.
Eu estava completamente paralisada, tudo que eu conseguia fazer era sentir a energia e observar, tudo que eu queria era gritar, mas nenhum som saía da minha boca. As sombras atravessaram a redoma e Vita recuou caindo no chão, em choque. Agora eu podia vê-las com clareza e senti o mais completo pavor, eram sombras de pessoas mortas, podres, que tinham os olhos negros e vazios. Algumas tinham rasgos no peito ou no rosto de onde saía um líquido negro. Elas se aproximavam de Vita, com sorrisos vazios.

! Faça-os parar! Por favor... – Ele falou, estendendo as mãos tentando perfurar as sombras com suas estacas de madeira vindas do chão, que apenas atravessam as silhuetas sem fazer qualquer efeito.
Vita me olhou e cerrou os punhos, que ainda brilhavam emanando uma pequena áurea verde clara, ele estava indefeso.


Capítulo 5


Eu observei em horror, uma morta-viva de cabelos negros compridos se aproximar dele. Seus punhos perdiam o brilho enquanto ele tentava criar outra redoma ao seu redor. Ela ignorou e atravessou de novo.
Vita então ficou de pé mais uma vez e levantou a mão com a palma estendida pra ela, gritando numa língua que eu não entendia, sua mão brilhou e paredes de espinhos surgiam do chão com velocidade mas, ela atravessava cada uma delas enquanto o garoto andava pra trás, até suas mãos perderem o brilho e ele cair de joelhos no chão, exausto.
Vi Lo chegar voando como um jato, sibilando e pulando na cara dela, tentando arranhá-la, mas suas pequenas patas apenas a atravessavam. Ele parou pousando do outro lado, confuso.
Eu sentia meu rosto molhado pelas lágrimas enquanto observava ela ficar na frente de Vita, que levantou o olhar para ela, derrotado. Ela estendeu a mão até ele, agarrando seu pescoço e levantando ele lentamente, Vita não lutou, não parecia ter força alguma.
Ele ia morrer . Eu não conseguia me mexer, eu olhava para meus braços que estavam estendidos na minha frente, com as palmas pra cima. Minhas veias brilhavam numa cor branca e eu conseguia ver meus cabelos compridos brilharem no mesmo tom.
Ela gritou, parecendo apertar o pescoço dele com mais força e ele finalmente parecia reagir, debatendo as pernas e tentando tirar as mãos dela, sem sucesso. Lo observava, se encolhendo.

— Não... – Eu consegui sussurar. —NÃO! — Eu gritei olhando pra ela.
A zumbi horrorosa tirou os olhos dele e olhou pra mim, parecendo me ver pela primeira vez.
— Não. — Repeti firme.
Ela o soltou na mesma hora e ele caiu no chão ajoelhado, puxando ar desesperadamente. Lo voou até ele e se esfregou em suas pernas, miando alegremente.
SAIAM. — Eu gritei e os monstros começaram a virar sombras outra vez, eu sentia meu corpo voltar ao chão. Só a morta viva ainda me olhava com curiosidade sem se mexer, ela era surda, porra? Cheguei ao chão e olhei pra Vita, que ainda fazia um chiado horrível de quem puxava oxigênio com urgência. A mulher então, abaixou a cabeça pra mim suavemente e andou devagar para trás, se tornando uma sombra e se misturando as outras que foram se dissipando.
Suspirei aliviada, corri até Vita e me ajoelhei na sua frente colocando a mão em seu ombro, ao me ver ele me abraçou com força, ainda ofegante, abracei de volta surpresa.

— Foi... Tudo culpa... Minha... — Ele falou entre respiradas pesadas ainda me abraçando. —Não devia... Ter feito você... Sem saber... O que poderia...
— Não fala agora. Só respira. — Falei o soltando devagar e ele se concentrou em respirar por um tempo.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Ele já respirava melhor e só me olhava, parecendo absorver o que aconteceu, assim como eu.
— Seus olhos estavam brancos e brilhando. — Ele falou, parecendo de certa forma, admirado? — Seu cabelo... Flutuava e na sua testa formou uma lua. — Ele tocou na minha testa delicadamente. — Tinha uma linha brilhando da lua até seu nariz e embaixo dos seus olhos.
— O que foi que eu fiz Vita? — Falei, sentindo a ficha cair do que eu tinha sido capaz de fazer e do desespero que senti.
— Você tem o mesmo poder que meu irmão de certa forma, Guardião dos Espíritos. Ele também consegue invocar espíritos, mas para conversar apenas... Eles nunca se materializam. – Ele falou colocando a mão em seu pescoço e esfregando. Lo miou e ele pegou o gato no colo, dando um beijo em sua cabeça e depois o devolvendo ao chão. – E também não o obedecem, por isso que o trabalho dele é criar barreiras no Reino dele para que não saiam... Mas você simplesmente fez com que os espíritos surgissem do chão.
Meu coração ainda estava acelerado e eu tremia. Ele se levantou, colocando o arco dele que estava caído no chão atravessado nas costas.
— Seu... Poder. – Eu olhei pra ele ainda ajoelhada no chão. — Eu senti tanta paz... Era como se eu fosse, sei lá, uma plantinha só vivendo.
Ele riu alto e depois tossiu um pouco, levando a mão ao pescoço dolorido. Em seguida se ajoelhou em apenas uma perna, me olhando.
— A natureza traz paz, é a essência dela, já a essência da morte... Bom você viu por você mesma. Aquela é a essência do seu dom, não sua, .
— Até onde tem como separar isso? – Eu falei, puxando uma folha do cabelo dele o que fez ele levar a mão à cabeça e reclamar.
— Você tem um ponto, eu acho. – Ele falou ainda esfregando onde eu tinha arrancado a folha.
— Ninguém vai estranhar meu cabelo branco no próximo reino? – Falei passando a mão por ele.
— O feitiço que fiz para você parecer com meu povo deixa o enfeitiçado e quem enfeitiçou ver a forma original, mas os outros vão te ver cheia de flor no cabelo assim como eu, não se preocupe. – Ele falou sorrindo e se levantando, estendeu a mão para mim e me ajudou a levantar em seguida.

Andamos durante a madruga e quando o sol nascia, senti minha barriga roncar profundamente. Vita me olhou e riu.

— Você não sente fome nunca não? Só bebe disso aí. – Falei apontando pro cantil dele, o que fez com que ele fechasse a cara por um momento.
— Guardiões... Não precisam comer tanto. – Ele falou sério, sem me olhar, decidi não comentar mais nada.

Ele parou ao lado de um arbusto grande, levantou a mão e a passou pelas folhas com delicadeza, da ponta de seus dedos saía uma pequena luz verde quase imperceptível a luz do sol. O arbusto, como se tivesse sido acelerado no tempo, se encheu de frutos muito parecidos com amora, minha boca encheu da água e logo catei o máximo possível, enchendo nossa mochila.

Com meu buchinho agora cheio de amoras, seguimos viagem. Percebi que há muito tempo não sentia falta do meu celular, ele estava na minha bolsa lá no shopping, mas sumiu quando passei pelo portal. Na verdade, eu não sentia falta de nada, eu sentia o sol queimar minha pele e era como se eu nunca tivesse sido tão feliz. Talvez porque realmente nunca tivesse sido. Eu não precisava viver mais no mundo real, nem com as pessoas que sentiam pena de mim por causa do meu pai, nem com minha mãe alcoólatra. Eu não acho que quero voltar pra casa.
Sorri com a minha situação e sorte, sendo criação da minha mente ou não, eu tinha fugido do mundo que eu odiava e agora tinha uma nova chance nesse. Diferente do outro mundo, agora eu tinha alguém, eu acho. Vita não sabia parecer ser amigo de ninguém há muito tempo e era difícil saber o que passava pela cabeça dele.
Andamos mais algumas horas até as árvores começarem a diminuir e eu sentir uma brisa leve. Com o tempo, a brisa passou a aumentar, balançava meus cabelos e eu tinha que fazer um pouco de força para andar. Vi uma construção enorme a frente, era uma grande redoma ao redor de uma cidade com prédios gigantes e tortos, fazendo curvas e até ficando na horizontal, se conectando a outros. Pareciam ser feitos de metal puro.

— Vita... O que é isso... – Falei assustada e curiosa, ele me olhou e sorriu de lado, parecendo se divertir com meu choque. Ao nos aproximarmos do portão da grande redoma eu vi melhor a cidade. Parei, agarrando o braço de Vita quando consegui perceber que as coisas que eu via voando ao redor dos prédios eram pessoas.
— Bem vinda ao Reino do Vento, acho que vai gostar daqui pelo que me contou de São Paulo.



Capítulo 6


Ele colocou o capuz e se aproximou da entrada, dois homens com asas nas costas e algumas penas pelo corpo e rosto nos olharam.

— Visitantes da Vida? —Os dois que eram aparentemente os seguranças da entrada nos olharam, cruzando os braços. Eu só conseguia olhar para as asas enormes deles, encantada.
— Sim, somos apenas turistas. —Vita falou batendo na mochila e o som das moedas de ouro batendo umas nas outras foi audível. Eles sorriram e apertaram um botão, fazendo com que os gigantes portões de metal se abrissem para os lados.

Fiquei paralisada observando, todas as pessoas tinham asas e voavam, todas pareciam muito ocupadas passando rapidamente de um lado para outro. Haviam espécies de prédios gigantes de metal que se encontravam no meio do céu, como se a gravidade tivesse decidido permitir isso, mas nenhuma entrada principal, as portas de cada apartamento pareciam ficar do lado de fora. As ruas eram agitadas e as pessoas falavam alto vendendo as coisas mais diferentes, haviam barraquinhas de comida, vendendo roupas, temperos, jóias, umas pedras brilhantes, plantas, eu andava ao lado de Vita tentando não me perder.

— Ninguém aqui pode te reconhecer?
— As pessoas não se importam muito com Guardiões de outros reinos, eles só sabem que eu existo, é pouco possível que alguém me reconheça nessa roupa de camponês. Já a minha mãe... Tem quadros dela em todas as casas. —Ele falava enquanto andávamos e esbarrávamos em outras pessoas que andavam na rua e outras que pousavam de repente no chão.
— Pra onde vamos? —Ele parou de andar vendo que eu me perdia entre as pessoas na calçada, as vezes simplesmente parando para encarar um cidadão de olhos amarelos e penas no rosto. Ele estendeu o braço pra mim e eu entrelacei meu braço no dele.
— Eu não consigo imaginar como é ver... Como é que você chama? —Ele disse andando um pouco mais devagar. Ao nosso redor não tinham apenas pessoas com penas, algumas também eram feitas de pedras, tipo aquele cara do quarteto fantástico. (eu sempre achei o poder dele o mais tosco). Outras eram como Vita (e eu, não posso esquecer disso), andando sempre em famílias grandes.
Alienígenas.
— Tá... Mas você precisa se concentrar, o reino é relativamente grande e lotado demais —para a Deusa nos achar, mas ela consegue. —Ele parou em frente a o que parecia um edifício, só que ele se dividia e ia pra várias direções no alto, eu não conseguia ver do chão onde ele terminava no céu. —Seu nome é Floreli, não esquece.

Assenti e o acompanhei, passando pela entrada adentramos um salão grande cheio de vozes e música, com pessoas dançando e bebendo. Por dentro, parecia uma típica taverna medieval. Vita foi comigo até o balcão, uma mulher esguia com olhos amarelos de pupilas finas nos olhou de cima a baixo, seu rosto tinha algumas penas negras assim como a cor de sua pele, diferente do povo de Vita, que eram pálidos e um pouco esverdeados.

— O que posso fazer por vocês? —Ela disse colocando a mão na cintura.
— Um quarto. —Vita disse colocando uma moeda na mesa, apertei o braço dele e ele pareceu entender. —Mas antes duas sopas de orá, por favor.

Franzi o cenho com isso de orá, mas fingi conhecimento e assenti, feliz por ele ter entendido que eu estou sempre com fome. Nossos braços ainda estavam entrelaçados e a balconista ficou nos olhando.

Lua de Pólen? —Vita pareceu ficar avermelhado e me olhou rapidamente.
— Isso... Vem, vamos sentar. —Ele falou me levando pra uma mesa sem olhar pra mulher nem pra mim.
— O que é Lua de Pólen? —Perguntei me sentando, feliz por estar prestes a comer uma comida quentinha depois de dias andando e comendo pão e frutinhas.
— É uma viagem... Que casais do Reino da Vida fazem depois de se casarem. —Ele falou ainda sem me olhar.
— Você falou que a gente tava nisso? —Falei tentando soar plena, mas meu coração acelerou um pouco. —Lua de Mel?
— Achei mais fácil do que explicar qualquer coisa... Mel?
— É como chamamos essa viagem no meu planeta. —Ele parecia olhar ao redor, especialmente pra uma mesa onde um jovem metade pássaro, as penas azuis e uma espada longa na cintura, estava conversando com um homem pedra, tipo umas 3 vezes meu tamanho. —O que foi?
— A gente teve sorte de vir parar nesse reino, ele é relativamente seguro, pelo menos pra quem não é daqui. Temos que ter reforços pro próximo reino. Você também precisa treinar... Aquilo.

A mulher veio até nossa mesa e trouxe duas tigelas grandes de algo muito cheiroso, colocou na nossa frente e eu dei um berro. Era um líquido roxo vívido saindo fumaça, dentro daquilo, boiando, tinham olhos. A música parou e todos me olharam, Vita estava pálido e com os olhos arregalados.

— E-ela não tem costume... De ver orá... —Vita falou pra mulher, que tinha levado a mão ao coração com o susto. A música voltou a tocar lentamente e as pessoas foram parando de nos olhar, quando a mulher saiu, Vita colocou a mão na boca e pela primeira vez desde que o conheci, ele estava rindo.
Eu olhava pra Vita horrorizada, ele pegou um olho com uma colher e colocou na mesa, partindo aquilo no meio, por dentro parecia um repolho.
— É só uma fruta. —Ele falou, tentando se recompor e parar de rir.

Encarei a sopa mais uma vez, vendo que os “olhos” não pareciam tanto assim com olhos. Vita levantou as sobrancelhas pra mim e fez um sinal com a colher, para que eu experimentasse. Coloquei lentamente um repo-olho na boca e mastiguei. Meu Deus como era bom, fiz o clássico barulhinho da Ana Maria Braga.

— Viu? Maluca... —Ele falou balançando a cabeça, em pouco tempo já tinha ficado sério de novo —Já volto, não se preocupa.

Ele se levantou e foi até a mesa que ele observava tanto, falou algo com os dois homens que eu não conseguia ouvir por causa da música, vi mostrando a bolsa de ouro pra eles. Em pouco tempo Vita voltou a se sentar comigo junto com os estranhos.

— Prazer, moça. —O meio pássaro jovem estendeu a mão pra mim e eu lhe dei minha mão, ele a levou a boca, dando um beijo. —Me chamo Sialia.

Observei ele se sentar à mesa, Vita olhou ele de canto de olho, sentando entre nós dois. Na minha frente sentou o homem pedra gigante. Ele sorriu e assentiu pra mim.

— Eu sou Argon. Menino planta, Miosótis, contratou eu e Sialia. —Ele me olhou esperando que eu dissesse algo, mas eu não disse. —Como chama a menina planta?
— Floreli. —Falei, quase pensei em questionar o Miosótis, mas logo percebi que era o nome falso de Vita.
— Eu também disse para não fazerem perguntas. —Vita disse, sério. —Amanhã de manhã nos encontramos aqui e vamos pro local que combinamos, lá explico mais detalhes. —Ele pausou e olhou pros dois, daí eu vejo se dou o pagamento.
Os dois se olharam e depois assentiram.
— Somos bem treinados, senhor Mios... Mio...
— Pode chamar de Otis, se quiser.
— Bem mais fácil! —Ele deu uma risadinha grossa e levantou o braço gigante, a mulher da taverna veio até a mesa com um bloquinho na mão e uma pena. —Uma rodada pro chefinho na minha conta!
— Você me deve Argon. —Ela falou com a mão na cintura.
— Eu pago, Li. —Sialia disse, pegando quatro moedas de prata do bolso e entregando pra moça, ela dá um sorrisinho quando ele se dirige a ela e pega o dinheiro.
— Obrigado, amigo. —Argon dá um tapa nas costas de Sialia, que parece mais uma porrada, o rapaz só sorri parecendo acostumado com o cumprimento.

Em pouco tempo cervejas chegaram e o homem pedra deu um tapão na mesa, alegre, em meio segundo desceu a bebida toda. Sialia fez o mesmo, em um tempo um pouco maior. Eu dei uma boa golada, já estava acostumada com bebidas depois do que passei com minha mãe e seria bom descansar por um dia e relaxar. Vita deu apenas um pequeno gole.
Todos do bar se levantaram e se organizaram no corredor, mulheres de um lado e os homens de outro, uma música alegre começou a tocar e Argon levantou os braços, feliz, e se levantou.

— O trabalho é só amanhã! —Ele falou correndo até a fila, ficando de frente a outra mulher pedra, que sorriu pra ele. Sialia sorriu vendo o amigo.
— Não posso deixar ele sozinho... Você vem comigo? —Sialia levantou e estendeu a mão pra mim, querendo que eu fosse dançar com ele. Vita olhava de mim pra Sialia.
— Ela tem que descansar pra amanhã. —Vita falou, seco.
— Na verdade, isso me faria muito bem! —Falei levantando, sem pegar a mão do rapaz ainda. —Vem, Otis?
Ele olhou de mim pra Sialia e cruzou os braços, olhando pra cerveja.
— Não.
Franzi o cenho, decepcionada. Peguei na mão de Sialia, que sorriu, e segui ele até a fila.


Capítulo 7


A música era tocada rapidamente no violino por um homem pássaro colorido, enquanto duas mulheres tocavam flauta e um tambor, as pessoas começaram a dançar em casais, com minha palma da mão encostada na de Sialia, eu tentava acompanhar o ritmo rápido deles. Nós trocávamos de pares sorrindo, até que voltei ao meu, que me girou algumas vezes enquanto eu ria.

— Você até que dança bem pra ser do Reino da Vida, sei que não são muito de festa. — Sialia falou, enquanto girávamos ao redor um do outro com as palmas encostadas, ele sorria assim como eu.

Trocamos de pares novamente, eu dançava com homens pedra e pássaros até que cheguei em Argon, que parecia incomodado.

— Acabei de saber o que aconteceu com Vita, sinto muito.
— O que? — Perguntei assustada enquanto trocava de par, ele só me olhou triste. Procurei Vita nas mesas e lá estava ele, de braços cruzados... Me olhando. O olhei de volta preocupada e ele só desviou o olhar para o copo de cerveja.

Quando retornei a Sialia, ele me girou de novo e me puxou para ele dançando animadamente, mas agora eu estava preocupada, ele sabia que Vita estava ali?

— Argon me falou... De Vita? — Eu tentei falar baixo.
— Sim, você não sabe? Seu Guardião fugiu com a noiva. — Eu suspirei aliviada e ele sorriu de lado. — Também não gostava dele? Quer dizer, o que se espera de alguém como ele?
Imediatamente parei de dançar e ele me olhou confuso.
— Está cansada?
— Quem você pensa que é pra falar assim do... De um Guardião? — Eu olhei de relance pra Vita, que olhava desanimado pro próprio copo, quase vazio. Sialia sorriu, como se eu tivesse dito uma piada.
— Ele não faz literalmente nada pro próprio reino, é só uma sombra da mãe. — O que? Não tinha sido Vita que criou toda a fauna e flora? — Dizem que ele ia forçar a garota a se casar com ele, deve ter fugido com ela sequestrada. A Deusa está devastada, é o que dizem.
— Cala a boca. — Eu falei, sentindo minhas bochechas queimarem, a música tinha terminado e a nossa conversa estava audível. — Você não pode falar desse jeito dele... Você...
— Deve falar pior. — Vita apareceu atrás de nós. Tomei um susto, colocando a mão no peito. — Flo sempre fica um pouco em negação falando do nosso Guardião, queria tanto que ele... — Ele deu um sorriso forçado. — Fosse melhor, sabe?

Sialia olhava dele para mim, parecendo ainda um pouco confuso.

— Que tal subirmos, Flo? — Ele estendeu o braço pra mim e eu imediatamente entrelacei no meu, Sialia assentiu com a cabeça, parecendo decepcionado, e virou as costas indo para uma mesa.

Ao chegar no quarto, ele era razoavelmente grande, com uma cama fofa e a cabeceira de metal. Em frente a ela, uma lareira de pedra. Perto da janela, uma poltrona grande coberta por uma manta, do lado de uma mesinha de canto com um lampião.

— Esqueci de te avisar que eu não sou um bom Guardião. Pelo menos pelo que meu povo sabe. — Ele abaixou em frente a lareira, tentando acendê-la. — Minha mãe pegou o crédito de tudo de bom que eu criei pro reino. Eu sou só um acessório.
Ele nem parecia triste falando aquilo, parecia mais que tinha aceitado.
— Nós vamos destruir ela. — Eu falei casualmente, me sentando na cama e sentindo ela afundar, Vita me olhou curioso.
— Achei que você só queria ir pra casa. — Ele disse finalmente conseguindo acender a fogueira e se sentando ao meu lado.
— Eu... Posso ir depois. — Falei tentando sorrir e encorajar ele. — Pra onde vamos amanhã com aqueles dois?
— Quero ver eles lutando, além de treinar você. — O olhei curiosa. — Seu dom só funciona de noite, com a Lua. De dia você precisa saber se defender do que a Deusa vai mandar atrás de nós.
— Por que ela mesma não vem? — Enchendo-o de perguntas como sempre, também né, o cara nunca me contava nada com detalhes.
— E chamar atenção? Ela não quer que saibam que está desesperada pra me encontrar, sem mim o Reino da Vida não vai durar muito. — Ele se levantou e pegou um pouco de lenha ao lado da lareira, com uma pequena faca ele começou a talhar a madeira, voltando a se sentar na poltrona. — Agora, descanse.
— Por que não duraria? — Falei deitando e me cobrindo com o lençol que coçava um pouco.
— Eu sou seu guardião. Quanto mais tempo eu fico longe... Mais fraco o cristal e mais fraco o reino, o povo pensa que ela é a fonte de energia, não eu. — Ele falou suspirando triste. — Mas tudo vai compensar no final, ela dividiu o poder dela entre os cristais, não é tão invencível quanto todo mundo pensa.

Dei um pequeno sorriso ao ouvi-lo com esperança de tudo dar certo e fechei os olhos, tentando dormir. Eu ouvia o barulho baixinho das labaredas e de Vita talhando a madeira, me sentia segura.

Acordei com Vita encostando no meu ombro e sorri ao ver que ele parecia animado, me espreguicei na cama dando um bocejo alto.

— Acordou na hora do almoço, anda, já deu até tempo de eu ir na feira. — Ele jogou uma roupa em mim e percebi que ele próprio usava uma roupa diferente. Usava uma capa com um capuz, sua roupa completamente de couro, assim como suas botas. Atravessando suas costas estava seu arco junto com um conjunto de flechas que ele provavelmente passou a noite talhando.
Levantei da cama animada e olhei a roupa que ele me deu. Era igual a dele, totalmente de couro, um colete, uma calça, bota e luvas. Ele se virou e eu me troquei.

— E aí? — Perguntei pra ele, que me olhou de cima a baixo e depois olhou pra janela rapidamente.
— Hã... Ficou legal. — Ele falou rápido. — Cadê o Lo, hein? Ele saiu voando do meu ombro assim que chegamos e depois não voltou.

Como se tivesse ouvido seu nome, o gato chegou voando pela janela e pousou na cama, soltando um longo miado.

— Ele deve ter gostado de ver todo mundo voando que nem ele. — Falei rindo e pegando um biscoitinho de gato mágico na mochila de Vita e entregando pra ele, que comeu satisfeito.
— Chegou na hora, amigo. — Lo voou para o ombro dele e saímos do quarto e do hotel, andando mais uma vez pela rua abarrotada de gente enquanto Vita segurava minha mão para eu não me perder, ele segurava um papel na mão, imaginei que fosse um mapa.
Andamos um tempo para fora da cidade e fora da redoma, a vegetação pela qual passávamos lembrava muito uma savana, até que chegamos num ponto onde Vita parou, olhando pro papel. Bem na nossa frente, havia uma árvore especialmente grande com vários arbustos ao redor, quando nos aproximamos, vimos que logo em baixo dessa árvore tinha uma espécie de alçapão. Vita bateu nele três vezes.
Uma mão gigante de pedra abriu o alçapão e logo vi Argon com um grande sorriso.

— Bem vindos, amigos!


Capítulo 8


— Oi Argon! — Falei acenando e ele sorriu pra mim.
— Venham, entrem antes que alguém veja. — Ele indicou com a mão para entrarmos e sumiu na entrada. Vita e eu seguimos por uma escadaria de pedra até chegarmos num grande porão.
— Olá novamente. — Sialia andou até nós, fazendo uma pequena reverência para mim e Vita, depois sorriu pra mim. — É bom te ver de novo, Flo. Oi gatinho! — Ele estendeu a mão e passou com cuidado a mão na cabeça de Lo que estava no ombro de Vita. Apenas acenei com a cabeça, ainda chateada pelo que ele disse de Vita.
— Agora você pode dizer por que dois cidadãos da Vida estão aqui procurando segurança extra? Ou seja lá o que seja o trabalho que vocês tem pra gente. — Sialia perguntou.

Olhei ao redor do porão, era meio úmido e não cheirava muito bem. Tinha uma mesa no centro com copos de cerveja em cima e dois bancos, o resto do local parecia um centro de treinamento, com sacos de areia pendurados, alvos, espadas e arcos, além de alguns equipamentos que pareciam feitos para mineração, como picaretas e capacetes com lanterna.

— Vejo que vocês vão com frequência na mina. — Vita disse, ignorando a pergunta de Sialia, ao ver os equipamentos assim como eu.
— É o único jeito de ir pro reino meu, Otis deve saber. — Argon respondeu. — Seu gato não é muito normal, né? — Ele falou observando o mesmo voar até a mesa e começar a se lamber... Em vários lugares.
— Sim, eu sei. Por isso escolhi um homem pedra. — Argon olhou pra Sialia e depois para Vita, que ignorou as perguntas sobre Lo.
— O senhor Otis sabe o quanto é perigoso ir pros próximos reinos? Perigoso passar pela mina! —Argon disse. Vita colocou a mão no rosto, parecendo pensar no que fazer para convencê-los de ajudar.
— Nós apenas precisamos passar pela mina, estou pagando o suficiente para não fazerem perguntas. —Argon olhou parecendo desconfiado e Sialia deu de ombros. — Só precisamos ficar um tempo aqui pra Flo... Se preparar.
— A mina não é lugar pra ela. — Argon me olhou e depois olhou pra Vita, eu revirei os olhos.
— Eu posso decidir onde é meu lugar. — Falei saindo de perto deles e indo para perto das armas. Olhei as armas, espadas medievais de metal com cabos simples, alguns arcos e flechas simples de madeira, sentei no chão olhando os alvos. Eu não sei por quanto tempo Vita vai conseguir fingir que somos normais, se a mãe dele chegar a nos encontrar vai ficar tudo muito óbvio, e caso ele tenha que usar a Vida? Ouvi passos se aproximarem e olhei Vita sentar-se no chão ao meu lado.
— Nós vamos trazer comida, então fiquem... À vontade. — Sialia falou nos olhando e subiu pela escadaria com Argon.
— Como vamos fazer isso, Vita? — Perguntei depois que tive certeza de que eles já estavam longe.
— Vamos evitar usar nossos dons perto deles até que seja necessário. — Ele disse se levantando e colocando a mão nas minhas costas, percebendo que eu parecia triste. — Eles não vão descobrir por um tempo, tá tudo bem.
— Não é isso... Você disse pra eles que ia me preparar. — Ouvi ele tomar um gole do cantil que agora sempre ficava pendurado no pescoço dele e tirar duas adagas da parede.
— Eu vou. Você tem que saber se proteger sem usar o dom, principalmente se não estiver de noite e não dar pra você invocar as sombras. — Ele estendeu as adagas para mim.
— Eu... Só posso invocar a noite? — Falei me levantando e pegando as pequenas espadas um pouco curvadas.
— As suas sombras não aparecem na luz, a não ser que seja a luz da Lua. — Ele pareceu se preparar e suas mãos começaram a brilhar na cor verde, nas paredes do porão tinham pequenos matinhos que começaram a crescer violentamente. — Agora se defende. — Folhas compridas e esguias como cordas vieram na minha direção enquanto Vita movia os braços rapidamente na minha direção, vi uma delas agarrar meu pé e me jogar no chão com tudo.
— O meu dom... — Ele falou enquanto eu me levantava e mais uma folha agarrou meu pé, o que me fez cair no chão de novo. —... É o mesmo que o da minha mãe, talvez mais fraco...
— PARA, MERDA! — Falei caindo de novo, dessa vez tentei cortar a folha antes que chegasse em mim, sem sucesso.
— Então, você precisa saber... Caso ela se desespere ao ponto de vir atrás da gente. É claro que ela não vai usar algo tão inofensivo quanto folhas. — Ele balançou a cabeça quando eu caí de novo.

Com todo ódio que eu juntei depois de cair umas 10 vezes, finalmente cortei uma das folhas antes que me fizesse cair, fui correndo na direção do Vita, que sorria.

— Eu vou te matar! — Gritei correndo na direção dele e ele riu, puxando meu pé com uma folha enquanto eu corria, me fazendo derrapar e cair de cara no chão. Levantei o mais rápido possível e corri até ele de novo, cortando algumas folhas no caminho e pulando quando via que iam agarrar meu pé. — Filho da puta!
— Não posso discordar! — Ele falou sorrindo. Corri até ele mais uma vez, cheia de ódio, tentando evitar as folhas o máximo possível até que uma agarrou minha cintura com força, outras folhas foram subindo, segurando meus braços e pernas e subindo até meu pescoço.— Se solta. — Vita falou, com os punhos cerrados brilhando verdes, assim como seus olhos. Eu me mexia mas não conseguia, as adagas caíram da minha mão e eu sentia a folha apertar mais meu pescoço.
— Vi... — Eu tentava falar mas minha voz não saía, eu sentia o medo... A aura negra começava a emanar suavemente de mim, eu sentia vontade de vomitar. Olhei as folhas ao redor de mim começarem a morrer e me soltei. Vita sorria, agora sua aura verde tinha sumido e a minha também dissipava enquanto eu me recuperava. Vita se aproximou de mim e tocou meu ombro, o que fez eu dar um empurrão nele.— Por que você me forçou a fazer isso? — Falei com raiva, as folhas dele viraram pó e se misturaram ao chão já sujo do porão.
? —Ele falou confuso. — Você tem que saber usar isso ao seu favor! — Ainda magoada, não soube mais o que dizer, sentei sentindo meu corpo doer das quedas. Nosso treinamento já tinha durado algumas horas provavelmente. Ele me olhava sério.
— Me desculpa, tá bom? Eu só quero que você saiba o que fazer caso...
— Tá. Já entendi. — Interrompi e fui sentar num dos bancos. Fiquei fazendo carinho em Lo enquanto Vita parecia meditar, uma pequena aura verde parecia emanar dele... Mas não me fazia sentir mais do mesmo jeito que antes. Além da sensação de paz eu também sentia algo a mais, uma espécie de aura quente, uma sensação de poder... Quase como se fosse o oposto do medo que a minha aura me fazia sentir.

Ouvi um baita barulho do alçapão pesado abrir e vi Vita abrir os olhos, parando de meditar. Argon e Sialia entraram, com Argon carregando um grande saco que colocou sobre a mesa. Ao abri-lo, colocou na mesa um pedaço enorme do que parecia carne seca, alguns pães e frutas do tamanho de maçãs, mas de cores variadas.

— ALMOÇO NA MESA! — Ele falou alto e sentou com tudo no pequeno banco, que envergou um pouco. Fui correndo me sentar no outro banquinho, cheia de fome. Sialia sentou no chão ao meu lado, comendo uma fruta redonda de cor azul bebê.
— E aí? O que fizeram enquanto saímos? — Ele falou me olhando e dando uma mordida na fruta. Olhei de lado pra Vita, que vinha na nossa direção.
— Treinamos um pouco. — Ele olhou pra espada pendurada na cintura de Sialia. — Talvez seja melhor você ensinar ela a usar as adagas mais tarde.

Sialia sorriu largo e assentiu. Ele tinha a pele negra por baixo das penas, assim como todo o espaço de seus olhos, da íris a esclera. Suas penas iam de azul claro a escuro, quando ele me olhava, parecia que tentava olhar dentro da minha alma, era difícil encará-lo. Peguei uma fruta da mesma cor e mordi, tentando esconder minha cara de surpresa quando o sabor azedo invadiu minha boca. Apenas Vita notou, me deu um pequeno sorriso e mesmo ainda um pouco chateada, não pude evitar sorrir de volta.


Continua...



Nota da autora: Agradeço muito por ler até aqui! Eu criei uma playlist da história, recomendo ouvir enquanto lê, de vez enquando vou atualizar. Para acessá-la, clique aqui.
"Twitter onde aviso sobre atualizações: @OsOitoReinos"



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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