Our First Halloween

Última atualização: 30/10/2020

CAPÍTULO ESPECIAL DE SINAPSE

“Nunca me senti tão bem. Este vazio dentro de mim está se preenchendo.”
- O Estranho Mundo de Jack

Jensen
Havia três ocasiões em que as federações americanas pareciam esquecer suas diferenças e agiam como um único povo: o dia da independência, o Halloween e as festividades de final do ano. Qualquer outra época, os estados mantinham suas próprias tradições. E, não diferente de como era todos os anos, as ruas estavam tomadas pelas mais criativas decorações de terror, e a nossa, em questão, estava um rebuliço. O motivo de tanta empolgação para o Halloween deste ano era a presença da brasileira que nunca tivera a experiência de participar de um.
Diferente de nós, os brasileiros não têm a cultura do Dia das Bruxas tão forte. Pelo o que tinha nos explicado, alguns lugares, como condomínios fechados, ou bares e boates faziam uma comemoração apenas na noite do dia 31 de outubro, mas nada que mobilizasse a comunidade, como nós.
Ezra me explicou que essa diferença de tradições vinha desde a época da colonização. Para os latinos, a Páscoa era um feriado muito mais significativo que o Halloween ou o dia de Ação de Graças. Ao contrário de nós, que fomos colonizados pelo norte europeu, onde a cultura céltica e nórdica era muito mais forte. Por isso, todos estavam empenhados em proporcionar para a médica uma noite inesquecível.
Violet e Frank estavam se dedicando como nunca. A nossa querida senhora Greyman tinha decorado todo o arco da entrada de sua casa com luminárias de abóboras e transformado seu jardim em um cemitério, cheio de falsas lápides nas quais ela mesma estava pintando o nome de cada um de nós. Já Frank, abusou de sua ex profissão, e criou um enorme esqueleto para colocar entre as lápides. Já Jared estava empenhado em decorar sua casa com teias e enormes aranhas artificiais, onde em cada abertura a gente enxergava alguma das coisas. A soleira de sua porta estava realmente incrível com as enormes pinças de aranha que ele tinha colocado, como se fosse uma enorme boca.
Os Harper optaram por pendurar em todas as suas árvores e no teto de sua varanda, luminárias chapéus de bruxa e morcegos enquanto, no jardim, empilharam em alguns pontos estratégicos, enormes quantidades de fenos com corvos e abóboras. As crianças, Alan, Victor e Rose tinham ficados com a tarefa de jogar papel higiênico em todas as árvores da nossa rua, e eles se divertiram muito fazendo isso.
Justice Jay, apesar de estar achando assustadora as decorações, também estava dedicada a ter uma noite muito divertida. Por ela, não exagerei na nossa decoração, e todos os fantasmas e abóboras que espalhei em nosso jardim eram sorridentes e menos aterrorizantes do que o resto da rua.
A verdadeira decoração, contudo, estava no interior da casa que eu estava construindo.
Desde o início do ano, como uma tentativa de fugir do que quer que estivesse acontecendo entre e eu, empenhei-me em adiantar a obra da minha casa. As fundações, finalmente, tinham sido terminadas, assim como as paredes externas, algumas internas e o telhado. A casa, em si, teria dois andares, saíra maior do que eu planejara, e não fazia ideia de como ia dividir todos os cômodos ou para quê ia usar tanto espaço, mas, para o Halloween, o enorme salão térreo que eu estava planejando dividir em outros três cômodos seria perfeito para uma noite memorável.
tinha descoberto que era viciada na animação The Nightmare before Christmas¹, e, apesar de ser sobre o Natal, serviu de inspiração para toda a decoração interna do lugar. Por fora, havia apenas abóboras, morcegos e falsas pegadas no caminho até a porta, esta, contudo, exibia apenas o sorriso costurado do personagem principal. De forma alguma deixamos que ela entrasse na casa para ajudar, uma vez que queríamos surpreendê-la. Por isso, enquanto Ezra a distraía com a decoração da própria casa, nós montávamos um verdadeiro cenário da animação.
Graças a nossa profissão e contatos, foi mais fácil do que o normal, conseguir uma decoração de qualidade. Assim que a pessoa abrisse a porta da casa, ia se encontrar com boneco de tamanho real do Jack, curvado e estendendo uma das mãos para o lado, de forma que apontasse para onde a festa aconteceria. O arco que dividia o hall de entrada com o salão fora decorado como se fosse a abertura de um cemitério, onde, na parte superior, lia-se Welcome to the Nightmare. Dentro da sala, todo o ambiente fora decorado como se tivéssemos mergulhado dentro da animação, com bonecos de todos os personagens espalhados, morcegos pendurados e, em uma das paredes, um enorme cenário da lua cheia atrás do morro onde Jack e se encontram foi pendurado. As luzes elétricas foram estrategicamente posicionadas, e, sobre as poucas mesas que colocamos, enchemos de velas amarelas.
- Isso está incrível. – Jared falou, orgulhoso, ao meu lado, observando tudo ao nosso redor.
- Nem me fale. Acho que nos superamos dessa vez. – respondi.
- Na verdade, temos que agradecer a e a sua irmã. Se ambas não tivessem se aliado e organizado tudo, não teríamos conseguido fazer algo tão legal.
Assenti, concordando totalmente com suas palavras.
Quando minha família e nossos amigos ficaram sabendo que estávamos pretendendo organizar uma festa de Halloween para , com um tema surpresa, todo mundo se convidou para ajudar e para participar da comemoração. Ninguém ainda a tinha conhecido, e todos estavam ansiosos por conhecê-la, já que a médica se tornara uma constante em nossas vidas. Então esta foi a oportunidade perfeita. Mackenzie tinha chegado no início do mês, e, em dois dias, tinha conhecido e fizera dela sua mais nova melhor amiga. A proximidade das duas me incomodava, principalmente, porque minha irmã não cansava de fazer comentários sobre nós dois sermos perfeitos um para o outro. Seu namorado, Adam, estava para chegar na manhã seguinte, e seria a primeira vez que iria conhecê-lo. Meus pais viriam, assim como Joshua, Rachel e as crianças, e deveriam chegar também amanhã de manhã.
Quanto ao pessoal do elenco, alguns tinham chegado na noite anterior, como Misha, sua família, e Jim. A dupla Mark, assim como Ruth e Felicia viriam diretamente para a festa.
Por algum motivo, eu sentia-me incrivelmente nervoso por apresentar para todos. Embora a aprovação de Mackenzie fosse a mais importante, tendo em vista que ela é a pessoa mais exigente que eu conheça, ainda queria que meus amigos gostassem dela.
- Bem, amanhã só precisamos vir com o pessoal da vizinhança um pouco antes e colocar as comidas. – Jared falou, caminhando para a saída da casa. – E quanto à música?
- Temos que pegar o meu stereo e trazer também, a playlist está sendo feita por Daniel.
Já que a festa era para , também havia convidado o casal Daniel e James.
- Quero muito ver a cara dela com tudo isso. – ele disse, saindo de casa. Fechei a porta atrás de mim e caminhamos juntos pela rua.
- Somos dois. – dei de ombros.
- Dá para acreditar? – ele riu.
- No quê?
- Em tudo o que aconteceu nesses últimos meses. Quem diria que a nova vizinha seria alguém como ela e que ela se tornaria tão importante para nós.
Como não sabia o que dizer, apenas concordei em silêncio.
- Mas ainda não me conformo que vocês dois não estão juntos.
- Jared, desista. – revirei os olhos, inconformado como tanto ele, quanto Mackenzie, faziam questão de tocar nesse assunto.
- Não posso desistir. Vocês dois são perfeitos um para o outro.
- Ela é minha melhor amiga, nada além disso.
- Essa relação pode evoluir para algo mais. Não dizem que os melhores romances surgem de amizades?
- Se dizem isso, eu não sei. Só sei que um romance entre nós está fora de cogitação e jamais irá acontecer.
- Como pode dizer isso com tanta certeza? – perguntou, parando em frente ao jardim da minha outra casa, e parei ao seu lado.
- Porque está esperando um príncipe encantado, e eu não sou um. Nem quero ser. Nos vemos amanhã, preciso ir buscar Justice. – falei, afastando-me e caminhando para dentro de casa, sem ouvir sua resposta.
Era verdade. Depois de todos aqueles meses de convivência, a única coisa que aflorou entre nós foi uma amizade sincera. Na médica, eu encontrei segurança. Com ela, podia conversar livre sobre meus medos e minhas inseguranças, assim como estava livre de julgamentos e tinha alguém a quem recorrer quando precisasse de ajuda. respeitava o meu espaço e a minha decisão de jamais se envolver amorosamente com alguém e, diversas vezes, cuidara de JJ quando eu tinha um encontro ou até mesmo me arranjara alguma conhecida para uma saída. Éramos amigos, bons amigos, e seu comportamento me dizia exatamente isso: ela não estava interessada em mim porque eu não me enquadrava nos critérios que ela procurava em um homem. E nós dois estávamos confortáveis nessa situação. Qualquer um que dissesse o contrário, estava enganado.


- Estou tão animada! – a voz de ecoou do meu banheiro para o meu quarto, onde ela terminava sua maquiagem para a festa de Halloween.
- Tenho que concordar. Acho que nunca te vi tão animada. – comentei, terminando de colocar o vestido de retalhos e jogando os cabelos, extremamente lisos, para trás. – Achei que você já estivesse acostumada com esse tipo de festa.
- Ao Halloween, sim! – ela apareceu na soleira da porta. – Mas uma festa de Dia das Bruxas com metade do elenco de Supernatural e com os melhores amigos?! Ainda me parece surreal demais!
Ela sorriu e notei o quanto ela estava incrível com aquela fantasia de Daenerys Targaryen. Os cabelos loiros estavam com o famoso penteado da personagem: meio solto, com algumas mechas trançadas e outras caindo sobre o rosto. O vestido escolhido, era longo e azul celeste, com detalhes em dourado e prata, e um longo decote que alcançava quase o seu umbigo, onde uma espécie de cinto metálico marcava sua cintura. Nos ombros, do mesmo material metálico, desciam camadas de tecido que a faziam parecer vestir uma capa. tinha me lembrado que a personagem usara esse modelo quando ainda estava em Qarth. De qualquer forma, ela estava linda demais e, possivelmente, conseguiria impressionar Jared.
Sorri satisfeita. Aqueles dois estavam em uma dança de gato e rato há semanas, sendo bastante divertido e cansativo de observar. Talvez essa fosse a noite em que meu amigo finalmente tomaria alguma atitude.
- Como você pode estar tão contida? – ela perguntou, aproximando-se de mim e fechando o zíper do meu vestido.
- Nervos de aço. – brinquei, e ela revirou os olhos.
- Finalmente vai conhecer o seu queridinho! Lembre de tirar uma foto com ele.
- Você esquece que acho muito inconveniente ficar pedindo por fotos.
- Que seja, é o Mark Sheppard. Essa noite mande essa compostura toda para os infernos e trate de se divertir. – assenti. – Agora senta aqui que vou fazer sua maquiagem.
Fiz o que ela me mandou e fiquei quieta, deixando que minha amiga cuidasse dessa parte da minha fantasia.
Quando o mês iniciou e a ideia de fazermos uma festa de Halloween surgiu, jamais imaginei que teria chegado a esse ponto. Bater de porta em porta pedindo por doces era algo que eu sempre quisera fazer desde que era criança, mas não era típico da minha cultura, então, deixei de lado e me conformei com a ideia de que seria uma experiência de vida que não teria. Fazer tal coisa depois de adulta me parecia ridículo, exceto se eu estivesse acompanhando alguma criança, então adorei e apoiei a sugestão de comemorarmos de alguma forma.
As crianças estavam sendo acompanhadas pelos pais neste momento, enquanto os adultos que não tinham esse compromisso, estavam empenhados nas fantasias. Às 21h todos iríamos até a casa que Jensen estava construindo. Ezra cantarolava pela casa canções de filmes de terror, sendo a trilha sonora de Tubarão a mais frequente.
O som de batidas na porta, depois de vários minutos de silêncio entre nós duas, fez se sobressaltar.
- Pode entrar. – ela disse.
Ezra abriu a porta e meu queixo caiu ao vê-lo exatamente igual ao Pinguim representado por Danny DeVito em Batman: Returns, de 1992. Assim como o personagem, Ezra usava uma espécie de macacão de dormir branco, um lenço estranho, um sobretudo preto com pele na lapela, uma peruca com longos cabelos negros cacheados e um chapéu preto.
- Uau! – falamos juntas, vendo-o balançar um guarda-chuvas em suas mãos cobertas com luvas negras.
- Ezra, você está incrível! – falei, espantada.
- Obrigado, minha querida! – disse, sorrindo. – , você pode fazer a maquiagem? Só falta isso para eu colocar o nariz postiço e o monóculo.
- Dois segundos e termino a , aí faço a sua rapidinho. – ela disse, retomando a minha maquiagem. – Estamos atrasados?
- Cinco minutos para as nove. – ele disse, sentando-se na ponta de minha cama, com o guarda-chuvas no colo.
- Ok, vamos demorar mais uns dez, então não teremos tantos problemas. – ela disse. – , estenda os braços.
Fiz o que ela pediu e desenhou em ambos os meus braços, em pontos estratégicos, pontos de costura, característico da personagem ser uma boneca toda costurada. Após, ela fez a mesma coisa na base do meu pescoço e até o meio dos meus seios. Por fim, afastou-se e sorriu satisfeita, estendendo-me um batom vermelho.
- Isso você pode fazer. – peguei o batom e fui até o espelho.
- Caralho, , como você fez isso? – disse, surpresa com a maquiagem que ela tinha feito, ouvindo-a rir. Eu estava exatamente igual a , sem exceção. Para a ocasião, e Mackenzie tinham me convencido a tingir o cabelo em vermelho, com aquelas tintas que após lavar saía tudo, então não vi problema. Meu rosto todo, branco, estava cheio de costura, e os cílios enormes e postiços tinham aumentado meus olhos. Passei o batom nos lábios com cuidado.
Pronto.
De todas as festas à fantasia que eu tinha participado, de todas as fantasias que eu já tinha vestido, esta era, de longe, a minha favorita. Não somente por ter ficado tão idêntica à personagem, mas por tudo o que ela representava. A da animação era apaixonada por Jack e, apesar de todos os seus esforços, ela não conseguia demonstrar corretamente os seus verdadeiros sentimentos. De alguma forma, nós duas éramos parecidas.
Como previsto, em dez minutos, terminou a maquiagem de Ezra e o ajudou a colocar o nariz postiço e o monóculos, então, prontos, saímos juntos da casa e caminhamos de braços dados, com o mais velho no meio, até a casa em construção no final da rua.
- Como está se sentindo com esse primeiro Halloween? – ele perguntou.
- Não sei dizer. – respondi, sincera.
- Não está nervosa? – insistiu.
- Ela tem nervos de aço. – brincou, me citando.
- Acho que vai ser uma noite memorável. – ele disse.
- Creio que sim.
Inúmeros carros estavam estacionados em frente à casa em construção. Quantas pessoas tinham sido convidadas? Tentei espiar pelas janelas, mas todas estavam cobertas com lonas ou fechadas com venezianas, impedindo-me de ver a movimentação interna.
O jardim estava decorado de forma simples, provavelmente por causa de Justice e das outras crianças. Algo muito assustador seria um incômodo para elas. Sorri pela atenção de Jensen com esses detalhes, mas franzi o cenho ao ver na porta um sorriso costurado.
Ezra separou-se e avançou, abrindo a porta e sendo seguido por .
Assim que entrei fui tomada pela surpresa. Céus.
Meus olhos vagaram do enorme boneco de Jack que nos recebia para o arco decorado de entrada do cemitério. Dei passos incertos naquela direção, já tendo perdido meus companheiros de vista. Sobre o arco, lia-se Welcome to the Nightmare, e alarguei o sorriso. Meus ouvidos captaram a música de início da minha animação favorita, chamando minha atenção para o salão que se abria diante de mim. Levei a mão sobre a boca, não conseguindo acreditar no que estava vendo.
Era como estar dentro do filme: as abóboras espalhadas, o enorme boneco do bicho papão, do prefeito, as três crianças monstros, inclusive a lua com o monte em espiral. Tudo estava de acordo com o que me lembrava da animação.
Uma movimentação entre aquelas pessoas mascaradas que me observavam captou minha atenção, finalmente me fazendo perceber que os outros convidados já tinham chegado e que eu era a última. Do meio deles surgiu Jensen Ackles vestido de Jack Skellington.

Jensen
- Querido, você está tão incrível com essa roupa. – minha mãe falou, ajeitando a gravata escandalosa da fantasia.
- Você está fazendo com que eu pareça ter quinze anos novamente. – resmunguei, tirando suas mãos de mim com delicadeza.
- Oras, estou apenas animada e feliz. – ela disse, sorrindo.
- Eu sei. – correspondi seu sorriso.
Ela e meu pai tinham chegado pela manhã e passaram a manhã me perguntando por que não iriam conhecer antes da festa. Eu tinha explicado que ela estaria no hospital até o meio da tarde e que seria gentil da parte deles deixarem-na descansar um pouco antes da festa. Convencidos com a minha justificativa, eles confabularam com Mackenzie e Jared um futuro onde e eu ficaríamos juntos. Em algum momento, Justice juntou-se a ele e comentou que gostaria muito que a médica fosse sua mãe, sendo, esta a gota d’agua para aquele tipo de conversa.
- Adorei ver vocês de Fred e Wilma. – falei, vendo meu pai abraçar minha mãe pelos ombros.
- Eu que dei a ideia! – Mackenzie falou, aproximando-se com Adam ao seu lado.
Ela e o namorado, que não me parecia ruim, mas que ainda não tinha me convencido, também usavam fantasias de casal: ela de Minnie e ele de Mickey.
- Por que não estou surpreso? – resmunguei. – Afinal, por que você me fez vir de Jack?
- O sentido dessa festa toda não é para agradar a ? – ela disse, como se fosse óbvio, e assenti. – Ela vai vir de Sally, e não seria ridículo uma Sally sem Jack?
- Seria, mas por que eu e não Jared, por exemplo?
- Porque o gigante ali – ela apontou para Jared fantasiado de Khal Drogo e que conversava animado com um Misha vestido de Alladin a poucos metros de nós – tem um alvo esta noite.
- Mackenzie, o que mais você está aprontando? – perguntei, suspeitando de minha irmã.
- Digamos que irá vir de Daenarys. – ela confessou, sorrindo ladina. – Esses dois precisam urgente acabar com a tensão sexual, e hoje vai ser a noite.
- Alguém deveria te contratar como casamenteira. – meu pai falou, achando graça de toda a situação.
- Eu só enxergo o óbvio. – disse, modesta. – Mesmo que o óbvio esteja bem longe de ser visto por algumas pessoas. – encarou-me, fuzilando-me com os olhos.
Suspirei, resignado e me afastei, caminhando até meus melhores amigos.
- Mark de Senhor Incrível está impagável. – ouvi Misha falar assim que me aproximei deles.
- E, de alguma forma, típico de sua personalidade. – comentei.
- Verdade. Apesar de ser estranho vê-lo sem os ternos de Crowley, ele ainda escolheu uma fantasia egocêntrica. – Jared completou.
Mark conversava com Ruth, Pellegrino e Felicia próximos a mesa de bebidas. Ruth estava de Merida, Felicia era Hermione e Pellegrino era o Batman. Além deles, observei Violet, de Mortiça, e Frank, de Gomez Addams, aproximarem-se de minha família. Os Harper era a turma do Scooby: Jason e Mellody, eram Fred e Daphne, Rose era a Welma, Alan e Victor, Scooby e Salsicha. Daniel e James estavam de Mario e Luigi, respectivamente.
Justice corria animada, vestida de Tinkerbell, ao lado dos primos, Gabriel, fantasiado de Pikachu, Juliet, de Cinderela, e dos vizinhos. Os filhos de Misha, West e Maison Marie, também brincavam junto, e usavam fantasias de Homem Aranha e Branca-de-Neve, respectivamente. Todos sob os olhos atentos da esposa de Misha, Victoria, que era a Jasmine da festa.
- Devíamos dançar. – Misha falou, aproximando-se da esposa e a fazendo se distrair das crianças. – Querida, deixe eles brincarem. Se caírem e se machucarem, estão sendo crianças.
- Além do mais não temos nenhuma louça de vidro aqui. – falei. – Podem relaxar.
- Eu ouvi que vamos dançar? – Mark, ou melhor, O Senhor Incrível, falou, aproximando-se de nós, acompanhado de todos os outros.
- É para isso que uma festa serve. – Misha respondeu, com a eterna brincadeira de um implicar com o outro.
- Mas onde está a convidada de honra? – Ruth perguntou, procurando por .
- Ainda não chegou. – falei.
A voz de Tom Walker cantando Radioactive foi substituída pela trilha sonora da animação que dava vida à nossa festa.

Boys and girls of every age Wouldn't you like to see something strange?

- Ainda bem que estou solteiro, porque um de vocês pode, por favor, me apresentar essa deusa que acabou de entrar? – Mark Pellegrino, nosso Batman, falou, encarando o arco de entrada do salão, por onde a silhueta de aparecia, seguindo Ezra.
Frank e Violet aproximaram-se dela e de Ezra, e os cumprimentaram felizes. De canto de olho, observei Jared, e não consegui conter a risadinha. Meu amigo olhava para a loira completamente embasbacado, e, pela primeira vez desde Sandra, vi o gigante ficar sem saber como agir com uma mulher.
- Aquela é a . – falei.
- E pela cara do Alce, ela já tem dono. – Sheppard falou, tentando atrair a atenção do meu amigo, que sequer se mexeu.
- Alguém foi hipnotizado. – Felicia brincou.

Come with us and you will see
This, our town of halloween

Instantes depois, um terceiro vulto apareceu pelo arco.
não tinha a mesma beleza estonteante de , também não estava vestida para chamar a atenção de todos os homens do local, mas, para mim, ela parecia ser a única mulher do lugar. Não escondi meu sorriso ao vê-la, e, deixando meus amigos com seus comentários, caminhei até ele, feliz por ter ouvido minha irmã e ter colocado a fantasia de Jack.

This is halloween, everybody make a scene
Trick or treat till the neighbors gonna die of fright
It's our town, everybody scream
In this town of halloween

Misha
Estava achando tudo muito hilário e a única coisa que me faltava para melhor apreciar o espetáculo que se desenvolvia bem na minha frente era um balde de pipoca. Jared estava hipnotizado pela loira estonteante que entrara há pouco, e, se não estava enganado, os dois estavam vestidos com fantasias que se completavam. O penteado da mulher lembrava o da personagem Daenerys, e meu amigo tinha se vestido de Kahl Drogo. Seria o destino tão bem elaborado ou mãos maquiavélicas, vulgo Mackenzie Ackles, era a responsável por fazer isso acontecer?
Entretanto, a maior surpresa da noite não estava na loira e no que ela causava no nosso amado gigante. Não, o bonito e tocante de ver foi o sorriso que Jensen abriu ao ver a Sally que surgiu sobre o arco da sala.
- Vocês viram isso? – Sheppard comentou, apontando para Jensen e Sally.
- O sorriso idiota? Ou o brilho nos olhos? – Ruth questionou, também sorrindo.
- Ou a mudança de postura? – Felicia complementou.
- Tudo isso! – Sheppard respondeu.
Observamos, sem descaramento algum, Jensen curvar-se como um cavaleiro, estendendo uma de suas mãos, e colocando a outra atrás das costas, para a mulher, que riu, aceitando sua mão. Ele ajeitou a postura e depois falou algo para ela, enquanto a via observar o cenário ao redor, mantendo sempre o sorriso largo no rosto.
- Como ele pode não perceber que está completamente apaixonado? – Mackenzie falou, aparecendo do nada, com os braços cruzados.
- Porque ele é um idiota. – Sheppard disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Jensen, então, enlaçou a médica pela cintura e caminhava com ela até onde estava sua família quando foram interceptados por Justice, que se atirou nos braços da mulher. A mais nova exibia suas asas de Tinkerbell, enquanto as outras crianças observavam mais atrás. Percebi que todos no salão observavam a cena sem nenhum pudor. A mais velha, então, apontou para as outras crianças, e Justice foi puxando cada uma pela mão, apresentando-os. Jensen, com as mãos nos bolsos das calças listradas, observava a cena agora com um sorriso tenro. Ele não mais parecia aquele homem que carregava o mundo nas costas ou que tinha o coração quebrado. Pelo contrato, meu amigo estava leve e irradiava tranquilidade ao lado daquela mulher. Justice, então, pegou a mão da Sally e a puxou para onde estavam seus avós, com Jensen caminhando despreocupadamente atrás deles, enquanto as outras crianças vinham até nós.
- Ela disse que eu sou o super herói favorito dela. – West falou perto de nós.
- E que eu sou a Branca de Neve mais bonita que ela já viu. – Maison completou.
- Quem é ela, queridos? – perguntei, sabendo exatamente a resposta, mas curioso com o que eles tinham interpretado da cena.
- A nova namorada do tio Jensen. – West falou inocentemente.
Todos nós rimos. Se uma criança de seis anos conseguia interpretar corretamente o que estava acontecendo, como dois adultos eram tão cegos?


Cada passo de Jensen em minha direção arrancava-me um suspiro e precisei de todo o meu autocontrole para não deixar transparecer o rebuliço que se criou em meu interior.
- Bem-vinda ao seu melhor pesadelo. – ele disse, curvando-se e fazendo pose para me receber, estendendo a mão.
- Muito obrigada. – falei, rindo pela graça e pegando sua mão. – Você que teve a ideia?
Referia-me a decoração.
- Por mais que eu gostaria de me responsabilizar por isso, foi quem sugeriu. – Jensen, já ereto, ainda segurava minha mão e falava com tamanha naturalidade, que não entendi como ele podia não perceber meu coração descompassado. – Mas mereço uma recompensa porque me empenhei bastante com tudo.
- Por favor, diga-me como posso te recompensar. – brinquei, evitando olhá-lo diretamente nos olhos e buscando autocontrole ao analisar a decoração.
- Vou pensar em algo e mais tarde te digo. – disse, colocando-se ao meu lado e abraçando-me pela cintura. – Quero te apresentar o pessoal, vamos lá.
Assenti, deixando que ele me guiasse, mas, poucos passos dados, Justice surgiu no meu campo de visão e sorri ao vê-la, abaixando-me e abrindo os braços para recepcioná-la com um abraço, que foi imediatamente correspondido fortemente.
- Minhas asas! – ela falou, afastando-se e depois me dando as costas, para exibir suas asas.
- Você é a Tinkerbell mais bonita que eu já vi!
Ela virou-se, com um sorriso.
- Vai jogar o pó de Pirlimpimpim em mim? – perguntei, apontando para o saquinho de pano que ela tinha amarrado na cintura, e ela assentiu, rindo. – Oba, quero voar bem alto essa noite!
- Juntas?! – seus olhos brilhavam de animação.
- Com certeza! – respondi, e ela riu de novo, colocando uma das mãozinhas dentro do saquinho de pano e jogando purpurina em nós duas, e rimos juntas. – O efeito demora para começar. – expliquei com uma mentira.
- Verdade!
- E quem são seus amigos? – apontei para as outras crianças paradas atrás dela.
Justice virou-se e puxou uma menina vestida de Cinderela.
- Minha prima Juliet. – Justice largou a menina e depois afastou-se para puxar um menino vestido de Pikachu. – Primo Gabe. – ela foi puxando um por um e falando seus respectivos nomes: primo West e prima Maison.
- Muito prazer em conhecer todos vocês! – falei. – Vocês não são a Cinderela e a Branca de Neve de verdade? – brinquei, fingindo estar desconfiada, e elas negaram com as cabeças tímidas. – Porque são as mais bonitas que já vi. Acho que vocês são de verdade e não querem me contar onde ficam seus castelos.
- A gente voa até os castelos depois, Lucy! – Justice falou, intrometendo-se na conversa.
- Combinado! – então, virei-me para os meninos. – West, sabia que o Homem Aranha é o meu herói favorito? Eu e o meu irmão lemos todos os quadrinhos e vimos todos os filmes.
- Sério? – ele perguntou, animado, e confirmei com a cabeça.
- Seríssimo. – seu sorriso alargou, e virei-me, então, para o outro. – E você, Pikachu, é simplesmente o Pokémon mais forte de todos. Mais do que o Charmander ou que o Mil-Two.
- Eu também acho! – Gabe falou, animado. – Todo mundo diz que o Charmander é o mais forte, mais eu não concordo. O Pikachu não precisa evoluir como os outros para ser forte.
- Exatamente, ele já é super forte sendo ele mesmo.
- Lucy, você já conhece minha vovó e meu vovô? – neguei com a cabeça, e, diante da minha resposta, Justice puxou-me pela mão.
Quase me desequilibrei e caí, mas por não estar com sapatos altos, consegui levantar-me sem nenhuma humilhação e deixei que ela me puxasse até onde o resto de sua família estava.
Puta que pariu!
Observei as pessoas ao redor e quis dar meia volta e sair correndo. Puta que pariu! Estou num lugar onde a maioria das pessoas são parentes e amigos de Jensen. Que tipo de festa de Halloween era essa? Eu realmente tinha entrado num tipo de pesadelo e não tinha como acordar. Mais próximos de uma roda onde um casal idoso conversava com outro casal mais jovem, entendi quem eram: Donna e Alan Ackles, os pais de Jensen, e Joshua e Rachel Ackles, irmão e cunhada dele.
- Vovó! Vovô! É a Lucy! – JJ falou/gritou, quando estávamos perto o suficiente.
A senhora fantasiada de Wilma sorriu acolhedora para mim, enquanto o senhor, fantasiado de Fred, pegava Justice no colo e a erguia alto, fazendo-a rir.
- O nome é . – Jensen falou, parando ao meu lado.
- Boa noite, Sra. e Sr. Ackles. – sorri tímida e estendi minha mão.
- Querida, por favor, apenas Donna. – ela disse, aproximando-se e apertando minha mão, para, em seguida, me dar um beijo em cada lado do rosto. – Muito prazer em finalmente conhecê-la, .
- O prazer é todo meu.
- Até que enfim podemos colocar um rosto na famosa Lucy. – o pai de Jensen falou, ainda segurando Justice com um dos braços, e com a outra me estendia a mão em cumprimento. Ao olhar para ele, vi a semelhança com o filho, e entendi de onde ele tinha herdado todo aquele porte masculino.
- , este é meu irmão, Joshua, e minha cunhada, Rachel. – Jensen nos apresentou.
E, da mesma forma que Donna me cumprimentou, o casal mais novo também.
- Jensen me contou que você é professora de ballet. – falei para Rachel, tentando começar uma conversa.
Engatamos uma conversa, junto com Donna, a partir daí. Fora mais fácil do que eu tinha imaginado conhecer a família do homem por quem eu era secretamente apaixonada e publicamente apenas meu melhor amigo. Falávamos sobre o espetáculo que a Broadway estava apresentando neste ano – Rei Leão -, quando Jensen colocou a mão em meu ombro, interrompendo nossa conversa.
- Vamos, o pessoal do elenco tá encarando. Se eu não te apresentar para eles, vou estar morto antes do amanhecer.
Assenti, mais uma vez sorrindo sem jeito.
- Vai lá, querida, temos o resto de nossas vidas para conversar. – Donna disse.
Franzi o cenho. O que ela queria dizer com isso?
Com um aceno de cabeça, deixei que Jensen me puxasse pelo salão, caminhando até uma outra rodinha. Oh céus, é o Mark Sheppard! Oh, céus! Apertei o braço de Jensen, empolgada que conheceria o ator do meu personagem favorito.
- Tente se controlar e não dar uma de groupie perto dele. – resmungou Jensen.
- Estou tentando, mas é o Mark. – retruquei.
- Eu sou infinitamente mais bonito, mais jovem e mais divertido e você nunca ficou tão empolgada assim comigo.
- Bem, é porque é você.
Jensen parou de andar e me encarou, pedindo por uma explicação.
- Estou ofendido.
- Não esteja. Dean era o meu personagem favorito até o Crowley aparecer.
- Como isso foi acontecer?
- Ele é dono do melhor humor do mundo, e é, de longe, o personagem mais inteligente.
- Ah, é, esqueci. Você e essa história de beleza interior.
- Se fosse isso, Dean seria para sempre meu personagem favorito. – confessei.
- Mas então por quê?
- Sei lá, Jen. Só sei que eu vibro de empolgação toda a vez que o personagem aparece. É como se toda vez ele viesse com uma surpresa nova.
- Está dizendo que o Dean é previsível?
- Exatamente isso.
- Quer dizer que você gosta de ser surpreendida, é isso?
- Sim e não.
- Explique-se.
- Precisamos falar sobre isso logo agora? – ele cruzou os braços, e, instintivamente, coloquei minhas mãos em seus ombros e me aproximei um pouco. – Desfaça esse bico.
- Como posso não ficar emburrado se você está toda caidinha pelo Mark?
- Eu não estou caidinha pelo Mark, eu apenas admiro o personagem dele, caramba.
- Em outras palavras, você o prefere a mim.
Revirei os olhos.
- Não seja idiota. Isso é completamente impossível, já que eu nem o conheço. – sorri satisfeita, vendo seu crispar de lábios, inconformado com a minha resposta.
- Se você fizesse parte do universo de Supernatural, interpretasse uma personagem feminina, com quem ficaria? – ele estreitou os olhos.
- Com o Dean, é óbvio. – respondi sem pensar duas vezes.
Jensen arregalou os olhos, surpreso.
- Mas você prefere o Crowley!
- O Crowley é o vilão que todo mundo ama, é como aquele amigo implicante e chato que a gente defende com unhas e dentes, mesmo não aguentando mais sua voz. – expliquei. – E o Dean é o Dean, seria impossível não se apaixonar por ele.
- Estou confuso e você não faz o menor sentido.
Afastei-me e abaixei as mãos ao lado do corpo.
- Você não vai me apresentar para os seus amigos? – precisava fugir desse assunto, caso contrário, eu acabaria dizendo que me apaixonaria pelo Dean porque o personagem o traduzia em todas as formas, ou seja, a qualquer momento, eu acabaria confessando que era apaixonada por ele desde o festival.
- Vou. – disse, dando-se por vencido e voltando a caminhar.
Aproximamo-nos da roda onde estava parte do elenco de Supernatural e fui apresentada a cada um, sendo recebida com carinho por eles.
- O que você está encarando, Jared? – perguntei.
- Estou surpreso que você ainda não pediu por uma foto com o Mark. – ele disse, e ouvi Jensen bufar ao meu lado.
- Comigo?! – ambos os Mark falaram.
- Sheppard. – Jensen explicou. – Crowley é o seu personagem favorito.
- Não me diga! – Mark Sheppard sorriu convencido. – Alguém reconhece o valor do Rei do Inferno!
- O Rei Fajuto do Inferno. – Pellegrino resmungou. – Como uma mulher inteligente como você pode preferir ele?
- É o que eu ainda estou tentando entender. – Jensen falou.
- Crowley tem o humor e o sotaque inglês, além de ser incompreendido. – disse, rindo.
Mark Sheppard aproximou-se e me abraçou pelos ombros.
- Minha cara, você acabou de entrar para a família real. – brincou ele, e ri de novo.
- Agora tudo faz sentido. – Jared falou. – Você apenas se derrete pelo sotaque inglês.
- Jensen, quem sabe se você começar a falar com sotaque inglês e não com esse seu neandertal, consiga conquista-la. – Ruth brincou, e Jensen revirou os olhos.
- E você não está chateada por não ser sua personagem favorita, já que vive dizendo que ninguém é melhor do que Rowenna? – foi a vez de Misha falar.
- Estou inconformada.
- Não fique, eu apenas não sei quem é a sua personagem. – confessei.
Mesmo tendo os dois atores como vizinhos e já estando há tanto tempo em solo americano, eu ainda não tinha colocado em dia o seriado por falta de tempo. O fellow estava consumindo cada hora do meu dia, e, quando não estava no hospital, estava estudando ou aproveitando com o pessoal. Seriados, filmes, notícias e livros tinham ficado em um terceiro plano.
- Como assim? – Victoria, a esposa de Misha, perguntou.
- Eu parei de ver Supernatural antes de terminar a quinta temporada.
- Mas como você perdeu o melhor?! – Mark Pellegrino questionou.
- Precisava focar em terminar a faculdade, depois veio a residência e agora o fellow. – encolhi os ombros, como se me desculpasse.
- Pelo menos um de nós tem que ser inteligente. – ele respondeu, com um sorriso.
- Querida, apenas me prometa que, quando terminar de ver o seriado, mude de opinião quanto ao seu personagem favorito. – Ruth pediu, segurando minhas mãos.
- Negativo! – Sheppard se intrometeu, e, então, vi iniciar uma discussão entre os atores sobre qual personagem merecia ganhar o título de meu favorito.
- O que está acontecendo? – sussurrei para Jensen ao meu lado.
- Briga de egos. – disse, sorrindo. – Bando de idiotas, mal eles sabem que até o final da série o seu favorito vai ser o Dean.
- O Dean está proibido de entrar na disputa. – Felicia disse, um pouco feroz.
- Por quê?! – ele perguntou.
- Porque o Dean é você, idiota. – Pellegrino falou. – E ela sempre vai escolher você.
Estremeci com o que tinha ouvido e tentei disfarçar meu desconforto com um sorriso. Minhas mãos tremeram um pouco e cruzei os braços atrás do corpo, enquanto tentava controlar o subir e descer da minha respiração. De forma alguma eles poderiam perceber o quanto aquela fala era verdadeira e o quanto o ator me afetava.
- Não falei com o Dan e com o Jay ainda, nem com o resto do pessoal. – comentei apenas para Jensen ouvir. – Depois eu volto aqui.
Dei meia volta e me afastei, deixando todas aquelas pessoas em uma discussão infundada, e Jensen sem entender muita coisa. Precisava fugir deles e principalmente de Jensen para conseguir reorganizar meus pensamentos e para acalmar meu coração. Procurei por Ezra, encontrando-o próximo a mesa de bebidas e conversando com Violet, Frank e o casal Harper. Cumprimentei cada um deles e depois procurei pelos meus amigos.
conversava animada com Dan e Jimmy em frente à um dos janelões de vidro que dava para o quintal da casa. Suspirei aliviada e me aproximei deles, abraçando meu casal favorito pelos ombros, colocando-me entre os dois.
- Até que enfim a celebridade apareceu! – Dan falou, virando o corpo e me encarando. Sorri fracamente para ele. Imediatamente ele me abraçou forte e sussurrou em meu ouvido: - o que aconteceu?
- Sentimentos. – sussurrei de volta, e ele apertou-me um pouco mais.
Daniel era o único para quem eu tinha contado sobre como me sentia de verdade a respeito de Jensen. Não que eu não confiasse em James ou em , mas os dois, no momento que tivessem minha confissão, moveriam o mundo para que eu e Jensen virássemos um casal. E isso não aconteceria. Nunca aconteceria.
Incompatíveis era a palavra, lembrança de uma conversa de meses atrás, que definia o que somos um para o outro. E era essa palavra que me colocava de novo nos eixos quando pensava ter interpretado algo entre nós dois que fosse mais do que amizade.
- Vamos dançar! – Daniel falou, de repente.
- Primeiro me deixe abraçá-la também! – James disse, puxando-me para os seus braços. – está um arraso, mas você sempre brilha com essa personalidade singular.
Revirei os olhos, embora estivesse sorrindo, com o velho elogio de meu amigo.
- Adorei a fantasia dos dois! – disse, sendo abraçada pelos ombros por James, agora todos em roda.
- Obrigado, lindinha! – James respondeu. – Ideia minha, é claro. Mas tenho que parabenizar a pela festa.
- Eu sei, eu sei. – minha amiga disse, convencida.
- Já falou com Jared? – perguntei, maliciosa.
O rosto de minha amiga ficou rosado e ela deu um sorriso nervoso.
- Curiosamente ele está de Kahl Drogo. – continuei.
- E que visão dos deuses, não é mesmo? – James implicou, entendendo minha provocação. – Uma pena que já sou comprometido.
- E mesmo que você não fosse, ele não daria a mínima para você. – Dan retrucou, sério.
- Amor, não precisa ficar com ciúmes!
- Não estou. – ele deu de ombros, sorrindo. – Só estou achando a festa muito parada.
- Verdade! – disse, mudando completamente de atitude. – Vamos dançar!
Ela virou-se e afastou-se de nós, caminhando até onde o stereo estava, conectado com algum computador. De repente, uma melodia conhecida começou a tocar, e sorri ao ouvir o gritinho de empolgação de James. Meus dois amigos puxaram-me pela mão e, quando ficamos no centro do salão, James me rodopiou, fazendo-me gargalhar.

Oh, don't you dare look back
Just keep your eyes on me
I said: You're holding back
Daniel coreografou a fingiu cantar as primeiras estrofes, e, então apontou para mim, instigando-me a seguir com a parte da música.

She said: Shut up and dance with me
This woman is my destiny
She said: Oh, oh, oh
Shut up and dance with me

Fiz o que ele propôs e cantei a parte indicada, soltando-me aos poucos. Então, ele e James seguiram dramatizando toda a letra da música. aproximou-se a tempo de cantar comigo a mesma frase que me era destinada.

We were victims of the night
The chemical, physical, kryptonite
Helpless to the bass and the faded light
Oh, we were born to get together
Born to get together

Um quinto ser aproximou-se de nós e reparei numa longa e falsa trança e um tórax despido. Jared tinha se juntado e dançava descontraído com a gente, pouco reparando na timidez de minha amiga ao seu lado.

She took my arm
I don't know how it happened
We took the floor and she said

Justice e as outras crianças apareceram e numa dança infantil, eles pulavam e moviam os pequenos corpos conforme o ritmo agitado da música, causando diversas risadas em nós.

Oh, don't you dare look back
Just keep your eyes on me
I said: You're holding back
She said: Shut up and dance with me
This woman is my destiny
She said: Oh, oh, oh
Shut up and dance with me

Então foi a vez de Ezra, Violet e Frank aparecerem. Meu mentor entrou na rodinha fazendo uns movimentos ridículos com o seu guarda-chuva misturado com passos de John Travolta em Os Embalos de Sábado a Noite. Se tinha uma coisa que eu jamais poderia imaginar seria essa cena: um dos maiores neurocirurgiões do mundo fantasiado de Pinguim tentando dançar com estilo em uma festa de Halloween.

A backless dress and some beat up sneaks
My disco tec Juliet teenage dream
I felt it in my chest as she looked at me
I knew we were born to be together
Born to be together
She took my arm
I don't know how it happened
We took the floor and she said

Por fim, o elenco de Supernatural se aproximou em fila, todos imitando Misha, quem liderava a fila indiana: eles moviam os ombros pra cima e para baixo conforme o ritmo da música, depois giravam os braços em frente o corpo e davam socos no ar. Gargalhei com a cena, não me dando conta de que Jensen não estava entre eles.

Oh, don't you dare look back
Just keep your eyes on me
I said: You're holding back
She said: Shut up and dance with me
This woman is my destiny
She said: Oh, oh, oh
Shut up and dance with me

Senti alguém segurar minha cintura e girar-me em sua direção, e, tentando não desequilibrar e cair, espalmei minhas mãos em Jack, ou melhor, em Jensen. Ele mantinha o sorriso divertido e as mãos em minha cintura, e seus olhos convidavam-me para dançar junto de si. Ele girou-me mais duas vezes e então me puxou para ficar mais próximo, cantando a próxima parte olhando em meus olhos.

Deep in her eyes
I think I see our future
I realize this is my last chance
She took my arm
I don't know how it happened
We took the floor and she said

Eu estava enlouquecendo tentando entender o que aquela noite estava significando, ainda mais quando ele me abraçou, beijou minha bochecha, ainda movendo o corpo no ritmo da música, e sussurrou a próxima estrofe em meu ouvido.

Oh, don't you dare look back
Just keep your eyes on me
I said you're holding back
She said: Shut up and dance with me
This woman is my destiny
She said: Oh, oh, oh
Shut up and dance

O que ele estava fazendo? O que Jensen queria com tudo isso? Estávamos na frente de sua família, minha família, nossos amigos, assim acabaríamos passando a imagem errada para todos. Ou, no mínimo, aumentaríamos os boatos de que éramos mais do que amigos. Minhas pernas fraquejaram e meu corpo movia-se automaticamente conforme a música terminava, deixando que ele me guiasse durante o último refrão.

Oh, don't you dare look back
Just keep your eyes on me
I said you're holding back
She said: Shut up and dance with me
This woman is my destiny
She said: Oh, oh, oh
Shut up and dance with me
Oh, oh, oh, shut up dance with me¹

Ao fim da música, sorri para ele e me afastei, juntando-me ao resto da roda e dançando a próxima melodia, tão animada quanto a anterior. Minha mente estava alheia ao que acontecia ao meu redor, e meu corpo movia-se tão mecanicamente que não entendi como ninguém percebeu.
Nós dois éramos incompatíveis. Eu, uma romântica com o desejo de amor para vida toda; ele, um pai solteiro que nunca mais queria um relacionamento. Nossas prioridades amorosas foram claras desde o início, e criamos a nossa relação de amizades sabendo que nada além disso surgiria entre nós. Então, por que ele tinha se dado ao trabalho de organizar tudo isso?
Meus olhos vagaram novamente para a decoração do lugar, depois para a minha roupa e pararam, por fim, nele. Jensen vestido de Jack, o par romântico da minha personagem, dançava com sua filha do outro lado da roda. Parei de dançar e dei dois passos para trás. Preciso de uma bebida.
Caminhei até a mesa das bebidas, servindo-me de algo de cor vermelha, e bebi sem cerimônia. O gosto doce e desagradável da vodka queimou minha garganta e larguei o copo, procurando por outra coisa para beber, mas não encontrei outro tipo de álcool. Por mais que eu detestasse vodka, teria que servir para a noite. Lidar com meus sentimentos por Jensen estava fora de cogitação. Enchi novamente o copo e me afastei, parando, sem perceber, em frente ao painel da lua, e comecei a beber de novo.
Todos dançavam animados ao som de The Killers, inclusive a família de Jensen. Eu era a única alma solitária confusa demais para conseguir curtir todo aquele momento.
Por que a festa tinha sido com a decoração da minha animação favorita?
Por que Jensen estava sendo tão atencioso e carinhoso?
Por que ele fizera questão de me apresentar a sua família e aos seus amigos?
E por que raios ele estava fantasiado de Jack?
Olhei para o copo em minhas mãos e suspirei ao ver que já tinha bebido mais da metade. Eu precisava de mais álcool. Terminei de beber o resto, fiz o caminho de volta para a mesa, enchi mais e, então, voltei para o painel.
Amanhã eu iria me arrepender terrivelmente por beber tanta vodka, mas era a única forma de fugir das palpitações do meu peito e do bolo em meu estômago. Se eu fizesse alguma besteira, o álcool seria a desculpa perfeita, e não meus ridículos sentimentos.
- Acho que nunca te vi beber tanto em tão pouco tempo.
Fechei os olhos, amaldiçoando-o. Ele não estava dançando com Justice?
- Está tudo bem? – perguntou, em tom preocupado.
Olhei para seu rosto, vendo a mesma preocupação em seus olhos verdes.
- Sim. – menti.
- Então o que você está fazendo aqui parada?
- Bebendo?
- Não seja engraçadinha comigo.
- Não seja intrometido. – ele arqueou uma sobrancelha com minha resposta, para, em seguida, levantar as mãos em sinal de paz e se afastar, deixando-me sozinha de novo.
O que eu estava fazendo?
, que merda você estava fazendo?
- Espera, Jen. – falei, puxando-o pela manga de seu paletó listrado. – Desculpe, eu fui uma estúpida.
- Sim, você foi. – ele virou-se, ficando a minha frente e cruzou os braços.
Ok, leitura corporal: ele não estava a fim de aproximação e tinha ficado realmente puto com minha grosseria.
- Desculpe. – repeti, e ele assentiu. – Eu só não estou entendendo nada. – confessei.
Sua face suavizou um pouco, porém ele manteve os braços cruzados.
- Do que você está falando?
- Por que tudo isso? Por que essa festa, essa decoração?
Jensen riu e baixou os braços, e suspirei aliviada ao vê-lo baixar a guarda. Sua risada aquecia meu peito da mesma forma que embrulhava meu estômago.
- Você está quebrando a cabeça por causa disso?
Assenti, e ele balançou a cabeça em negação, divertido.
- , foi tudo por você. – respondeu, enfim, sério.
A batida do hit do ano começou, e Closer transformou toda a atmosfera ao nosso redor. Pensei ter ouvido errado, mas os olhos verdes que eu amava há tanto tempo encaravam-me com uma seriedade rara, e meu coração soube que suas palavras tinham sido sinceras e significativas.
Jensen se aproximou, e a nossa diferença de altura ficou mais evidente à medida que apenas um palmo separava nossos corpos. Precisei levantar o rosto para seguir encarando-o, e não sabia se era o álcool ou suas palavras que me levaram a segurar em sua camisa, quebrando o pouco espaço entre nós e juntando nossos corpos.
- Por quê? – perguntei, e senti suas mãos em minha cintura.
Não existia mais ninguém além de nós.
Meu coração batia apressado, e pude sentir que o dele se comportava da mesma forma.
- Porque não existe Jack sem Sally. – disse, apertando minha cintura e com um sorriso nervoso.
Fechei os olhos e suspirei, colocando a testa em seu peito e quebrando o contato entre nossos olhos. Essa não era a resposta correta, Jensen. Pelo menos não era a resposta que eu precisava. Esperei meu coração se acalmar e me afastei novamente, forçando um sorriso que eu sabia convencê-lo, afinal, era o mesmo sorriso que eu lhe dava todos os dias que o via sair com alguma outra mulher. Era o meu sorriso falso que o convencia de que eu não me importava, de que estava tudo bem sermos só amigos.
- Obrigada, este é o melhor Halloween. – beijei sua bochecha e me afastei, retornando para os meus amigos, lugar de onde não deveria ter saído.




Fim.



Nota da autora: Happy Halloween, my darlings! 🧟‍♀‍👻🎃
Por favor, não me matem pela forma como terminou, esses dois não irão se acertar tão rápido, ou pelo menos, não tão cedo. Espero que, ainda assim, tenham gostado desse capítulo especial de Sinapse, que foi escrito com muito amor e carinho para esse dia! Quero deixar avisado que essa festa será apenas comentada na história original com o desenrolar dos eventos, mas que é interessante pois é quando a pp finalmente conhece a família de Jen e parte do elenco de SN. Torço para que tenham gostado e, quem quiser me fazer sorrir ainda mais por acompanhar essa história me dá um feedback. Um beijão e feliz dia das bruxas, bruxinhas e bruxinhos!
¹ Shut up and dance, da banda de rock norte americana Walk on Moon.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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