Última atualização: 24/06/2020

Prólogo - O início de todas as outras coisas

.

- Acredito que seja isto, . Apreciamos o trabalho que você nos prestou enquanto cooperava conosco.
O homem, que tinha lá pelos seus trinta e poucos, o porte másculo, alto e bem representado assentiu, numa postura cordial, mas sem muita simpatia.
A mulher a sua frente não escondeu o desprezo em seus olhos – que diziam muita coisa por si só – e muito menos na expressão, mantendo a postura irredutível e inabalável de sempre. Jamais demonstraria o quão profundamente frustrada e estarrecida realmente estava – sabia muito bem qual era o verdadeiro motivo de estar sendo demitida. , entendendo que seu tempo ali havia terminado, literalmente, assentiu, sem dizer mais nada. Não tinha mais nada para dizer. Ali, precisava ser profissional e aceitar o que lhe era cometido: uma demissão. Claramente injusta, mas uma demissão.
Retomou sua carteira de trabalho que estava na mesa, já assinada com a devolução, e não fez questão de, ao menos, apertar a mão do ex-chefe em agradecimento pelos quatro anos que havia trabalhado na empresa. Apenas pegou sua bolsa, sua dignidade e seu mau humor e saiu do majestoso e espelhado prédio da Kapplan & Co, que ficava em uma das avenidas mais estratégicas e movimentadas de toda Los Angeles. Enquanto caminhava para fora do prédio, repassou mentalmente os acontecimentos dos últimos dois meses:
Levar um chifre, check.
Pegar o namorado no flagra junto com seus amigos de trabalho, check.
Terminar um namoro de dois anos e meio, check.
Ser demitida por um chefe incompetente, check.
pegou o celular, observando que o sinal estava fechado e clicou no contato fixado do aplicativo de mensagens – que era o grupo com seus dois melhores amigos – para mandar um áudio na força do ódio que amaldiçoasse até a vigésima geração de William Kapplan, mas não conseguiu terminá-lo: foi subitamente interrompida pelo impacto do que pareceu ser um carro baixo chocar-se fortemente contra a extremidade de sua perna, fazendo com que rolasse por cima do capô e caísse no chão, batendo a cabeça.
Tudo ficou escuro por um tempo. Conseguia ouvir barulho e vozes que pareciam estar chamando por ela, mas não usavam seu nome. Tudo doía. Suas pernas, sua cabeça, seu corpo, seus olhos.
“Acho que esse é o celular dela, mas está bloqueado”, a voz masculina que parecia estar muito muito longe ressaltou. Conseguiu abrir um pouco os olhos com a visão completamente distorcida e pensou ter visto um rosto conhecido – e estupidamente famoso – a sua frente, um cara que ela tinha certeza que sabia quem era, porém, ela jamais lembraria o nome naquele momento, e muito menos pararia para tentar. Os olhos verdes que a observavam com muita atenção e sua feição demonstrava nervosismo. O rosto mais próximo do que ela esperava.
Fechou de novo os olhos, inevitavelmente, se não bastasse o esforço que tinha que fazer para mantê-los abertos, tudo estava confuso demais, ela só poderia estar delirando. Ouviu alguém comentando que ela havia conseguido abrir os olhos, mas desistiu de lutar contra sua própria consciência.
Foda-se, pensou, amanhã me preocupo com isso.
E apagou de vez.


1.

Quando abriu os olhos naquele quarto branco e iluminado demais, piscou algumas vezes até se acostumar com a claridade. Observou o quarto. Era um hospital. Ok. Fazia sentido. Tinha dores por todo o corpo, sentia uma parte de suas costas meio raladas, alguns arranhões pelos braços e o que notou ser uma tala no joelho. Merda, pensou, era só o que faltava. Perguntou-se o que raios estaria fazendo na outra vida para que o Universo estivesse atacando tão forte contra ela (e marcando todos os gols, aparentemente): talvez uma espécie de líder nazista ou um serial killer – porque não havia outra explicação para tudo que havia lhe acontecido nas últimas semanas.
Qual seria esse hospital? Por quanto tempo estivera desacordada? Quem havia a trazido aqui? Deus do céu, quem pagaria a conta? Este parecia um hospital caro. se desesperou um pouco – receberia, sim, uma quantia de seguro desemprego, mas ela contava pra segurar por algumas contas até que encontrasse um outro lugar pra trabalhar. Estava sozinha em LA faziam alguns anos – minha mãe e Mark, ah não, pensou. Será que eles faziam alguma ideia do que havia acontecido? Será que estava preocupados? Onde estava seu celular? –, mas nem em sonho imaginou que algum dia passaria por alguma situação remotamente parecida com esta. Seus lábios estavam secos, o seu corpo estava fraco e queria mais que tudo, apenas, dar um jeito de sair dali e dormir em sua própria cama. Precisava falar com ou . Precisava mandar um áudio no grupo gritando por socorro. Avistou um copo de água na cabeceira, onde também tinha uma bandeja com iogurte e algumas frutas, mas ela não alcançava, porque sua perna direita estava imobilizada. Sentiu a frustração de uma vida inteira recair sobre seus ombros. Era isto. Aquela havia sido a gota d'água que faltava.
Pela primeira vez em semanas, quis chorar. Estava amargamente frustrada. Queria o colo da sua mãe e fingir que nunca havia se mudado para Los Angeles. Queria uma panela de brigadeiro e o seu box de Friends com os bloopers de todas as dez temporadas. Queria alguém pra fazer carinho no seu cabelo até que dormisse, acordando com o emprego dos seus sonhos e uma perna que funcionasse.
Engoliu o choro ao ver um rapaz cuja face não reconheceu entrar no quarto sem bater. Ela não estava nem aí para quem era, só queria alguém que pudesse tirá-la dali o mais rápido possível. Era de ótima aparência – lá pelos seus vinte e oito anos, tinha um rosto bonito, gentil e amigável. Não era o rosto que havia visto durante o acidente. Sorriu, meio sem graça para , que ficava mais confusa a cada passo que ele dava, porém uma faísca de curiosidade piscou na sua cabeça confusa. Entregou para ela um celular com a tela estraçalhada. E depois colocou uma sacola da Apple em cima da mesinha ao seu lado.
- Oi, . Finalmente você acordou!
- Ah, não... – ela recebeu o celular nas mãos, olhando pra ele com uma profunda tristeza. – Pelo menos você tá vivo.
Ela destravou o celular, na intenção de mandar mensagem para a amiga, até que o rapaz começou a falar:
- Sinto muito, mas atendi o seu celular por você. Sua amiga, , está vindo pra cá – o rapaz se explicou. deu de ombros e assentiu, respirando fundo, se preparando mentalmente para entender o que havia acontecido. – Você passou um bom tempo desacordada, pude até te comprar um celular novo visto que destruímos o seu. Tivemos que mexer na sua bolsa pra conseguir seus documentos também, me desculpe. Você não é daqui, não é? Sua mãe, pelo visto, também não mora aqui...
Ele se sentou ao lado da garota, na poltrona da visita, olhando-a nos olhos, sem tirar o sorriso no rosto. Ofereceu-a, também, a bandeja com a comida, em que ela resolveu pegar só o iogurte e a colher, e assentiu em agradecimento, desconfiada. Não era o rosto que ela tinha visto ao abrir os olhos durante o acidente. Será que estava mesmo delirando? Que diabos de horas eram?
Ela tinha acabado de ganhar um celular novo? Conteve-se para não abrir a sacola com o celular novo na hora como uma louca desesperada. Muitas informações ao mesmo tempo – não estava conseguindo raciocinar. O que deveria fazer agora? Aceitar o celular? Agradecer? Por que ou não haviam chegado ainda? Quem era aquele cara?
- Não, não sou. Quem é você? – ela respondeu, por educação, uma das dúvidas do rapaz e perguntou, direta. Tomou uma colher de seu iogurte, sentindo-se cansada e com muita dor, tudo seu corpo doía. Sua cabeça também doía. Estava desconfortável e julgava um péssimo horário para ter que fazer sala com estranhos, mas decidiu que precisava saber o que estava acontecendo e ele parecia ter as respostas. – Você que passou por cima de mim? E bom... Obrigada? Eu não sei o que fazer. Não precisava ter feito isso.
O rapaz sorriu de lado, parecendo sentir-se mais aliviado que a garota tinha assumido uma postura mais tranquila.
- Por favor, não se preocupe com isso, é o mínimo – O rapaz respondeu. – E bom, não fui exatamente eu, na verdade. Eu vim representando o...
- Cantorzinho famoso? – interrompeu-o. Lembrou-se do rosto que havia visto ao abrir os olhos. Fechou os olhos com força, quase se lembrando de onde o conhecia... – O carinha da boyband, né?
Ele soltou uma risadinha simpática, jogando seu charme. Era esperto, tinha notado, era bom no que fazia: conquistar pessoas. A garota apenas o encarou, desconfiada.
Passou a se sentir irritada.
- Isso. Meu nome é Aaron Hart. Eu sou o representante do ex carinha da boyband – ele disse sorrindo, simpático. – . Ele sente muito. E gostaria muito que
você aceitasse o celular novo.
- Claro que sim – destilou cada gota de ironia que conseguiria e revirou os olhos ao sentir a irritação tomar conta do seu corpo com as informações. – Entendido o recado. Você poderia ir embora?
Aaron arregalou um pouco os olhos. Pareceu um pouco confuso com a reação súbita da mulher ao seu lado. Não que tivesse demonstrado muito, apenas era boa em notar essas coisas.
- Na verdade... Eu tenho que conversar com você – arqueou uma sobrancelha, ainda sem responder nada, muito menos fazer questão de parecer cordial. Tomou mais um pouco do seu iogurte, observando cada detalhe de seu rosto: era boa com linguagem corporal. Pode notar que por dentro ele estava meio nervoso apesar da postura impecável, eloquência perfeita e carisma que não dava para negar nem por um minuto. Estava na áurea dele. Em cada palavra que dizia. – Nós realmente sentimos muito pelo acontecido. Eu te peço desculpas por tratar disso com você num momento tão delicado, mas espero que você entenda a situação das agendas superlotadas e toda a burocracia. Viajaremos amanhã bem cedo. está bem no meio da produção do seu próximo álbum.
Um pequeno momento de silêncio enquanto o rapaz esperava que respondesse e esta não fez questão. Ele continuava tentando fazer daquele momento o mais informal possível, por mais que a mulher soubesse que ele estava prestes a tratar de assuntos, sim, formais.
- Nós arcamos e arcaremos com tudo relacionado ao hospital e ortopedistas, visto que você sofreu uma lesão no joelho e vai ter que se submeter a mais algumas consultas, medicamentos, ressonância magnética, bem como seu telefone, e qualquer prejuízo que você venha a ter que possa ter sido causado pelo acidente – ele iniciou, e assim que ia argumentar, ele pediu com a mão que ela o deixasse terminar. – Nós fazemos questão. Já está tudo pago. Não é passível de ser retornado.
Ele sorriu com complacência, assentindo. nem sabia o que pensar. Estava cansada, mal humorada e com raiva.
- Eu não pedi isso.
- É o mínimo que poderíamos fazer.
Por mais que quisesse, se sentiu fisicamente fraca para confrontá-lo, então apenas respondeu:
- Enfim... – ela fez um gesto com a mão, pedindo para que ele falasse de maneira mais objetiva.
A verdade é que se sentiu bem ofendida. Primeiro porque não faziam nem cinco minutos que ela tinha acordado de uma possível concussão e já estava tendo que lidar com um desconhecido falando de processos burocráticos, segundo que nem tinha sido ele que havia gerado o acidente. Tudo que ela queria naquele momento era ser tratada como uma pessoa – e que a pessoa que realmente havia feito aquilo tomasse responsabilidade pelo que havia feito e demonstrasse o mínimo de respeito com a situação em que a havia colocado.
O rapaz suspirou, parecendo sentir-se um pouco culpado.
- É o justo, . Por mais que ambos estivessem distraídos, está bem e você está aqui.
- De alguma forma você está implicando que a culpa é minha de o seu cliente ter atropelado uma pessoa ao ultrapassar o sinal vermelho? – soltou. Era exatamente por isso que odiava gente rica. Eles sempre davam um jeito de se eximir da culpa. – E achou uma ideia boa conversar comigo sobre isso agora? Nesse momento?
Ela precisou colocar pra fora. O rapaz não pareceu assustado, mas surpreso.
- Eu jamais faria isso – levantou as duas mãos pra cima em rendição, mas ainda sem dar-se por vencido. A postura simpática como se fossem melhores amigos conseguia deixar ainda mais irritada. – Como disse, sinto muito pelo que aconteceu. Mas acho que podemos trabalhar com isso de um jeito em que ambos saiam satisfeitos. – encarou-o, cética. Piscou algumas vezes. Incrédula. – O que eu posso fazer por você?
- Fazer por mim? – perguntou, fechando os olhos com força, pensando se aquilo não seria um pesadelo ou um delírio coletivo ou algo relacionado ao Efeito Mandela. Não poderia ser possível que o tal Aaron achasse a situação minimamente digna.
estava muito puta.
- Sim, como uma maneira de te recompensar – assentiu, usando uma conotação usual, como uma boa conversa de fila de supermercado. Mas as entrelinhas estavam bem claras para .
- Você quer dizer, garantir que eu não vou falar merda na internet.
O rapaz piscou pra ela, com um sorriso esperto.
- Sendo muito franco, , eu não conheço você – ele deu um sorriso cúmplice, tentando, a todo custo, manter um clima minimamente agradável, forçando a garota a baixar guarda. – Já passei por todo tipo de gente na indústria que eu trabalho, se é que você me entende. O álbum do está prestes a ser lançado e eu preciso cuidar da imagem dele no momento. Eu realmente sinto muito que tenhamos que conversar assim, mas achei melhor do que por telefone, ou até mesmo de maneira mais hostil, que seria através de um advogado. Não posso ser displicente. Espero que me entenda.
- Não entendo.
- É só me dizer o que quer. Não tem nada nesse mundo que eu não possa te dar.
Ah, Aaron Hart. Se apenas o senhor soubesse que certas coisas não podem ser compradas.
- Eu quero que você saia daqui agora – o pedido, dessa vez, soou mais como uma ameaça, enquanto a mulher a sua frente olhava bem nos olhos dele com um desprezo invasivo. não desviou o olhar nem por um segundo.
Ele assentiu, se rendendo.
- Espero que se recupere bem, . Nós mandaremos notícias.
Como um bom entendedor de relações interpessoais, Aaron Hart entendeu que não seria tão fácil assim de contornar como a maioria das últimas pessoas com quem tinha conversado para limpar a bagunça que fazia (coisa que ele era muito bom em fazer), mas algo dentro dele o dava a certeza de que ela não faria nada de estúpido por enquanto. Um bom marketeiro sabe a hora de entrar e a hora de sair.
Naquele momento, era a hora de sair.


.

- Ela não quis? – o cantor perguntou, sem acreditar. Cacete, pensou, mais um b.o, ele não queria nem pensar na repercussão que aquilo poderia ter, principalmente depois de Aaron ter ido falar com a garota e ela ter dispensado ele. Já conseguia ver as manchetes, tenta subornar vítima de acidente causado por irresponsabilidade no trânsito e é dispensado. – Como assim?
- Não querendo, , não dá pra comprar todo mundo pra você – Aaron revirou os olhos.
sabia que Aaron estava puto, e com razão – era uma espécie de assistente pessoal, que trabalhava para Fletcher, seu real empresário. Aaron era o cara com o maior poder de convencimento que já tinha conhecido – cuidava de toda a parte midiática e relacional de , bem como organizava as agendas e o acompanhava por onde fosse, apagando os incêndios que acendia.
Em outras palavras, uma babá, por mais que odiasse afirmar. – Eu nem cheguei a mostrar um contrato pra ela. Achei que ela fosse me bater ou qualquer coisa do tipo pelo jeito que me olhava.
Encararam-se. deu um sorriso amarelo e desconfortável, enquanto Aaron continuava com a mesma expressão repreensiva e irritada.
Sabia que aquilo poderia dar um escândalo sem precedentes, porque estava mesmo errado, e tudo que não precisava era de mais um escândalo depois de Camille. Já podia pensar em toda a merda que escutaria de Fletcher, em como a imprensa faria o possível para se aproveitar da situação tão próximo do lançamento do seu álbum. O pior é que ele havia mesmo sido um irresponsável: não viu a garota, não viu o sinal vermelho, e apesar de o carro não estar numa velocidade muito alta – bom, depende do referencial –, ele sabia que a culpa era única e exclusivamente dele. Por sorte, já estava com Aaron no carro, o que facilitou muito as coisas. Ambos estavam no celular, no entanto. Nem pararam pra pensar: de maneira muito rápida, saíram do carro e, antes que se começasse algum tumulto, carregaram a menina para o banco de trás e a levaram para o hospital, acreditando que seria mais rápido e menos turbulento que uma ambulância. Não havia sido uma batida muito forte, no entanto – não havia sangue no chão e a menina tinha pulso, apesar de estar desacordada. foi com ela no banco de trás, nunca antes estado tão nervoso na vida, e nem visto Aaron tão explosivo também.
”Você tava com merda na cabeça?”, ouviu apenas a primeira coisa que ele disse durante os dez minutos até o hospital mais próximo, porque nas outras, tudo que ele conseguia pensar era se tinha ou não matado alguém por sua própria irresponsabilidade. Era só uma mensagem que ele tinha recebido de Fletcher que já o havia ligado três vezes por conta do atraso. Foram cinco segundos que estragaram tudo.
Enquanto segurava a mulher no banco de trás de seu carro, perguntou-se qual era o seu nome. Quem ela era. De onde vinha, o que fazia, se estava tendo um dia importante. Para onde ela iria. Onde estariam seus pais e como ela reagiria ao acordar – e por favor, por favor, que ela acordasse. tentou dar alguns tapinhas na cara dela, mas a mulher não se movia. Seu coração ia a mil e ele nunca achou que pudesse ficar tão preocupado assim com alguém.
Ao chegar no hospital, ambos lidaram com as burocracias necessárias. Passaram à tarde lá até ter mais notícias, mas só conseguiu relaxar quando o médico lhe assegurou que ela ficaria bem, só precisava repousar e esperar o efeito do remédio passar. Decidiram que o melhor era que ele voltasse pra casa enquanto Aaron ficaria e esperaria que a garota acordasse para conversar com ela – afinal, não sabiam como ela iria reagir, ou até mesmo se ela lembrava que havia sido ele que estava dirigindo o carro. Muita coisa podia ser sondada e evitada. Fora a parte de estar nervoso demais para lidar com a situação.
Ele queria falar com ela, desde o início. Mas Aaron conseguiu convencê-lo do contrário.
Ela estava bem – o médico que a estava acompanhando os garantiu de que ela poderia, até mesmo, ter alta no dia seguinte, depois de um tempo em observação. Ficaria em repouso por uma semana ou duas semanas e, depois de alguns exames e poucas sessões de fisioterapia, seria como se nada tivesse acontecido. Fisicamente, pelo menos.
- E agora? – perguntou. Aaron foi para o seu apartamento assim que saiu do hospital, umas duas horas depois dele. Dois amigos da garota haviam chegado e ela não estaria mais sozinha no hospital.
- E agora que a gente vai precisar atrasar a ida pra Flórida. Amanhã, você vai lá.


No outro dia de manhã, estava nervoso. Primeiro porque chegaria na Flórida um dia depois do combinado com Fletcher, perderia a primeira passagem de som e chegaria apenas duas horas antes do show. Confiava na sua banda e sabia que, quando chegasse, estaria tudo certo – mas nunca havia perdido uma passagem de som antes, pelo menos não como artista solo, e toda essa situação era uma merda.
Segundo porque precisava que a conversa com a garota fluísse exatamente como esperado – um contrato assinado. não precisava de mais um problema naquele momento e tudo que queria era resolver aquela situação logo. Talvez ela se sentisse mais confortável com ele. Talvez fosse uma fã? Talvez a conversa com Aaron – que era a pessoa mais convincente que ele conhecia na vida – tivesse sido muito cedo e ela precisasse de um tempo pra processar o que tinha acontecido.
Estava na frente da porta do quarto da mulher, . Respirou fundo. Durante esse meio tempo, pensava nas coisas que diria: precisava muito pedir desculpas.
Queria que ela soubesse que ele não era um cuzão irresponsável que havia posto o assistente pra ir resolver uma situação tão delicada como esta. Queria que ela soubesse que ele não era uma pessoa ruim – só desligada e meio desatenta. E que queria, de alguma forma, compensá-la pelo que havia acontecido. Não fazia ideia de como diria essas coisas, mas tinha certeza que, no final, a garota ia acabar aceitando. As pessoas sempre acabavam concordando com ele. As pessoas sempre acabavam fazendo o que ele queria.
Bateu na porta, que estava fechada, antes de entrar. Quando virou os olhos pra ela, ela estava rindo, meio sentada e meio deitada na cama do hospital, que parecia ser bem espaçosa. O quarto era amplo, tinha espaço, duas poltronas, a cabeceira do lado da cama e uma tv em frente. Ela parecia estar tranquila enquanto conversava com a amiga, sentada na poltrona do lado – mas sua expressão logo mudou ao olhar para . Ficou um pouco mais séria e meio confusa.
Os traços dela não pareciam ser muito americanos – o rosto estava sim, pálido pelo acidente e pelo tempo no hospital, e a boca ressecada, mas ainda sim, era muito bonita. Não se lembrava de ter pensado sobre isso durante toda a correria da primeira vez que havia posto os olhos nela. Só conseguia pedir aos céus que ela estivesse viva e bem.
- Oi. , né? Posso entrar? – perguntou, com o rosto entre a porta e a parede. A garota suspirou e a amiga prontificou-se em responder:
- Claro que sim – a loira que agora falava olhou de soslaio para a amiga como quem diz algo com os olhos e o deu um sorriso frouxo. – Eu sou a .
- – ele apertou a mão da mulher, sorrindo de volta. Parecia ser muito simpática.
tinha uma estatura mediana, cabelos loiros e olhos muito curiosos, sua expressão era leve e usava um vestido longo e florido que deu a uma impressão vívida e alegre. Ela parecia muito mais feliz em vê-lo do que a amiga, mas ele poderia imaginar os motivos. – Você parece ser nova demais pra ser a mãe da . – fez uma piada, tentando quebrar o clima de tensão; ela riu um pouco, dando de ombros.
- A uns, a vida dá fama e grana. A outros, o encosto da – ela fez piada também e o cantor não conteve uma risada frouxa, pegando a referência, mas não soube muito bem como reagir. Não havia sido uma alfinetada, mas ainda assim, se sentiu um pouco constrangido pela falta de intimidade. Voltou seu olhar para a outra mulher em sua frente, que revirava os olhos e arqueava uma sobrancelha para a amiga. – Larga de ser chata e tira essa carranca da cara. Vou ali, comprar um café pra gente. Quando eu voltar, eu espero encontrá-la com um sorriso no rosto e lábios hidratados. O lipbalm tá aí na cabeceira.
E quase implorou com os olhos, por favor, que ficasse. Mas quando notou, ela já havia saído pela porta deixando-o sozinho com , a carrancuda.
Tudo bem. Ele a havia atropelado. Ela estava com uma tala no joelho. Ela não havia gostado de conversar com o seu agente. Ele tinha licença poética para uma carranca.
- Então...
- Eu – ele começou, e primeiro, olhou para todos os ângulos do quarto, menos os olhos dela, que o encarava como quem não tem medo de nada. – Sou o . – foi o que ele conseguiu explicar. Nervoso demais. Nervoso como não ficava em muito tempo.
Era óbvio que sabia quem ele era, mas não parecia estar intimidada com toda a pompa de . Na verdade, ela nem ao menos parecia estar chateada com ele. Só realmente demonstrava não estar interessada no que quer que ele estivesse fazendo ali, e essa era uma reação que não recebia havia algum tempo.
- Massa – ela respondeu ironicamente, no automático. O rapaz soltou uma risadinha infame, sem saber muito bem como reagir à alfinetada, em pé ao lado de sua cama, completamente perdido. , que costumava ter um dom nato para o entretenimento, não fazia ideia de como conquistar seu novo público.
- E você é a .
A mulher a sua frente encolheu os ombros, fazendo uma expressão de quem o acha bizarro e riu pelo nariz, porém sem simpatia alguma: sua risada era de completa ironia.
- Eu sinto muito, . De verdade mesmo. Eu não sei o que te dizer. A culpa foi toda minha e eu queria muito poder voltar atrás...
Encarou-o por alguns segundos, parecendo tentar decifrá-lo. sentiu o estômago revirar um pouco ao se encontrar completamente intimidado pelo jeito que a garota o olhava – como há muito tempo não ficava. Como se estivesse completamente vulnerável. Como se ela pudesse ler seus pensamentos, ver através de suas roupas.
Não era um olhar de ódio. Não era um olhar de desejo. Não era um olhar de admiração. Não era um olhar de escárnio. Não era um olhar confuso. Não era um olhar de desgosto.
As pessoas não costumavam ter reações mínimas quando se tratava de . Era sempre algo grande, a sua presença sempre causava um impacto. Mesmo que um impacto ruim.
Ali, ele não se sentiu . Não havia perspectiva, não havia peso, não expectativa.
Ele era só mais um cara.
- Você sente muito pelo que, exatamente? – a mulher a sua frente perguntou, num tom minimamente curioso, cruzando os braços, recostada na parte de trás da cama. – Por estar dirigindo e mexendo no celular ao mesmo tempo? Por ter me atropelado? Por mandar seu representante vir aqui cinco minutos que eu acordei de uma concussão me oferecer dinheiro pra não falar bosta na internet? Ou por ter assumido por si mesmo que eu falaria bosta na internet sem nem trocar duas palavras comigo? Pelas semanas que eu vou ter que ficar mancando? Ou por não ter tomado responsabilidade pelo que você fez?
Ai. arregalou os olhos um pouco, sem ter a mínima ideia do que responder. Todas as opções? A primeira, principalmente?
Como diabos ele havia conseguido ser uma pessoa tão ruim num período de mais ou menos vinte e quatro horas?
Quer dizer, sabia que não estava sendo a melhor das pessoas nos últimos meses, mas, de maneira geral, as pessoas demoravam um pouco mais para descobrir essa sua faceta.
- Cinco minutos? – foi o que conseguiu responder, meio desacreditado. A consciência de pesou alguns bons quilos a mais na hora. Ao se colocar na situação dela também ficaria muito puto, e até quis explicá-la, mas lhe faltavam as palavras e ele não soube o que fazer. ficou nervoso. – Eu realmente não sabia... Foi um dia complicado pra gente também. Eu fiquei muito preocupado e a gente só tentou resolver as coisas de um jeito em que ambos se saíssem bem nessa situação. Você não sabe o alívio que senti ao saber que você estava bem. Eu realmente espero que você me perdoe. E perdoe o Aaron, também. Tentamos lidar com tudo da melhor maneira possível.
- O que, exatamente, é se sair bem dessa situação pra você? – perguntou-o, direta.
As íris que não desgrudavam das dele nem por um segundo e nem baixavam a guarda.
Ele quis fazer uma careta de desgosto, mas poupou-se. Pensou por um segundo. Bom, para ele, sair bem seria algo do tipo que isso não se tornasse um escândalo e que não fosse muito enfatizado na mídia.
Para ela, uma grana a mais, talvez, uma foto com ele? Que ele a seguisse no Instagram? Um contato para um emprego melhor? Estava disposto a conseguir qualquer uma dessas coisas. Mas a cada palavra que ela dizia parecia estar mais errado, e as suas opções, se esvaiam como água caindo pelos dedos.
- Que a gente esquecesse o que aconteceu ontem, virasse melhores amigos e risse dessa situação daqui a alguns meses? – deu de ombros, respondendo com um sorrisinho de canto de lábio, apesar de não ser exatamente o que ele estava pensando. Mas jamais diria o que ele estava pensando.
O que ele estava pensando estava mais para: que você aceitasse a merda da grana e eu nunca mais tivesse que olhar na sua cara. Mas ela não pareceu ser muito adepta à esta ideia quando apresentada da primeira vez.
piscou algumas vezes, realmente surpresa dessa vez.
- Você acha que eu sou otária? – o tom, dessa vez, foi mais ácido e menos contido do que os outros. havia perdido total controle da situação e estava ciente disso, portanto, só seguiu agindo sem pensar, se utilizando de uma outra abordagem.
- Você não é daqui, né? De onde você é?
parecia ter perdido completamente a paciência, porque ela respirou fundo, com um sorriso carregado de sarcasmo, sem respondê-lo. – Quando você sai daqui? Você vai precisar de alguma coisa? O médico deu novas notícias sobre o seu joelho?
- Por que você não se poupa o trabalho e vai, sei lá, fazer uma boa ação pra ver se passa esse seu peso na consciência? Que tal cantar na praça, gravar um show beneficente, uma viagem em um dos países da África? – Ela respondeu, por fim. – Com certeza esquecem essa história de acidente em cinco minutos. É assim que funciona para caras como você.
- Eu não quero me poupar o trabalho, eu quero consertar as coisas com você. Eu realmente acredito que posso fazer isso. Se você deixar...
tentou continuar, mas foi interrompido pela voz rouca e rude de .
- Eu acho que faz algum tempo que ninguém te diz umas verdades porque você é tipo o sonho americano – ela começou, revirando os olhos. – Mas se ninguém te diz, tudo bem, eu posso te falar: o mundo não gira ao seu redor, infelizmente. Eu não sabia que você existia até outro dia. Eu não tô nem aí pro que você quer ou deixa de querer. Eu não ligo se você fez merda e quer consertar as coisas, eu não ligo se você ficou preocupado, e eu não ligo pra nada que você fale ou venha me falar porque eu não acredito em você. Você deixou bem claras as suas intenções pelo modo como você agiu. Eu não quero o seu dinheiro. Eu tô cagando pra se você é o ou o Barack Obama, eu não tenho interesse em manter contato com você, porque eu não gosto de você, porque você não foi uma pessoa legal comigo. – ela assentiu, com uma expressão bem mais tranquila. – E você poderia ter sido mais expressivo em Dunkirk. É isto.
O cantor estava muito mais do que chocado. Sua boca até tinha se aberto um pouco. Escutou com atenção cada palavra que a garota tinha dito e, de todos os jeitos que ele pensou que essa conversa pudesse terminar, esse não era um deles. Piscou algumas vezes pra mulher a sua frente, antes de suspirar fundo e abrir a boca algumas vezes, em que nada saía. Sua mente nunca trabalhou tão lentamente assim antes numa discussão com uma desconhecida. Ficou completamente travado. Ela mantinha a expressão lúcida e mais leve no rosto, sorrindo com a boca fechada, como se tivesse acabado de dizer pra ele que o dia estava ensolarado hoje, enquanto tentava processar tudo que havia que escutado. Depois de alguns segundos de um silêncio que não era desconfortável, mas compreensível, ela resolveu continuar: - Mas pode ficar tranquilo, eu não vou falar nada na internet. Vai ter que confiar em mim, cara.
Ela disse, por fim, e o cantor achou melhor dar a conversa por terminada, porque ele estava começando a ficar puto. Mais expressivo em Dunkirk?
Havia recebido elogios de Nolan pela interpretação!
Tudo bem que ele tinha sido um merda, mas pelo menos estava tentando consertar as coisas e ser uma pessoa melhor. Tinha adiado a merda da sua viagem pra Flórida só para conversar ela e estava aqui, totalmente exposto a uma desconhecida, colocando sua carreira em risco, investindo seu tempo, para que no final, ainda tivesse que ouvir um sermão de alguém com quem nunca tinha conversado na vida antes. Por favor. Mais expressivo em Dunkirk? Quem raios ela pensava que era, afinal? A porra da Meryl Streep?
Era só a merda de uma tala no joelho por duas semanas, caralho, não poderia ser tão absurdo assim, e ela poderia ter morrido ou sei lá, e pelo que parecia, estava viva e com a língua bem afiada. Ele estava tentando se desculpar, afinal, até quis recompensá-la. Quem é que nega dinheiro, pelo amor de Deus?
Respirou fundo, engolindo o sapo e saindo da sala do hospital, encontrando uma sentada nas cadeiras ao lado do quarto, na recepção do andar, com seu copo de café da cafeteria do hospital. Ela sorriu pra , solidária, e o estendeu o outro copo de café que tinha na mão.
- Esse é frappuccino, é o que a mais gosta. Mas você pode beber, parece estar precisando – ela disse, enquanto o cantor se sentava ao seu lado, olhando para um ponto específico em frente, sem acreditar na conversa que tinha acabado de ter. – Eu imagino que ela não tenha sido a pessoa mais simpática do mundo.
riu.
- Ah, que é isso, a sua amiga é bem agradável – tomou um gole do café que ela tinha oferecido e quis xingar o seu bom gosto. – Me recebeu com abraços e flores.
- Olha, me desculpa, não dá nem pra julgar. Mas você já deve ter ouvido bastante lá dentro, então não vou te dar mais um sermão – deu um meio sorriso, compassiva. – Eu estava odiando você até olhar na sua cara, também, mas aí você me cativou com toda essa áurea de e eu esqueci que estava com raiva de você.
O cantor riu, sentindo-se mais confortável com a garota ao seu lado e expirou fundo.
- A sua amiga é um pouco mais rancorosa, no entanto.
- É. Não foi de mim que você passou por cima com um carro – retrucou, piscando, e deu de ombros, vendo-o fazer uma careta. – Na real, vocês foram mesmo uns babacas. Você, porque precisa atentar no trânsito, mocinho, algo mais grave poderia ter acontecido. E o seu cara por ser um filho da puta insensível. De todo jeito, que bom que você pelo menos tentou fazer a coisa certa agora. Talvez um pouco atrasado.
- Eu ando sempre atrasado, ultimamente – desabafou, respirando pelo nariz. – Ela me falou um monte – riu de nervoso ao se lembrar das palavras de . – Eu não sei mais o que eu posso fazer. O Aaron não fez por mal, nós realmente ficamos muito preocupados com ela, mas a gente precisava resolver as coisas logo porque a minha vida em si é uma burocracia sem fim e eu tenho que dar conta pra muita gente. Nós fizemos tudo o que pudemos para que ela tivesse o melhor cuidado e tratamento.
- Ela tem dessas, mesmo – a amiga riu, olhando pra cima, parecendo imaginar o que havia dito. – Mas não se preocupe. Ela é uma das pessoas mais honestas que eu conheço, nunca faria algo pra te prejudicar.
- Eu achei que ela foi um pouco mais honesta do que o necessário – respondeu, rindo um pouco, ao terminar de tomar o seu café. – Você pode me passar o número dela? E o seu, também. Só para o caso de acontecer alguma coisa. Eu vou deixar o meu com você e você pode me dar notícias. Eu realmente quero saber como ela vai estar nas próximas semanas.
Normalmente, nunca passaria o seu número pessoal e sim o de Aaron, mas não queria que Aaron se envolvesse muito mais nessa situação. Iria tentar ir melhorando as coisas aos poucos, e por isso, decidiu assumir o risco que, naquele momento, lhe pareceu justo.
- Claro. Eu coloco meu número aí, você me dá um oi, e eu te mando o contato dela. – e foi exatamente o que a garota fez, assim que deu a oportunidade. – Pronto. Qualquer coisa, pode falar comigo.
- Muito obrigado, . Foi muito bom conhecê-la – sorriu, sincero, e assentiu, sorrindo de volta. – E se a precisar de qualquer coisa, por favor, não deixe de me avisar.
- Tá tudo bem, , fique tranquilo. Se preocupe apenas em parar no próximo sinal vermelho.


2.

.

Aquela havia sido uma semana difícil para .
Era mais fácil não pensar nas coisas quando se estava muito ocupada o tempo todo – e era exatamente essa a sua rotina na Kapplan. As oito horas que deveria trabalhar se transformavam em pelo menos doze, entre responder mensagens, anotar ideias aleatórias e resolver problemas dos outros. Por um lado estava triste, porque sentia falta de trabalhar, de por a mão na massa, era muito boa no que fazia e gostava de sua equipe de trabalho. Por outro, se sentia livre – sabia que não queria passar o resto da vida trabalhando numa agência publicitária, por mais influente, reconhecida e mundialmente requisitada que fosse.
De todo jeito, ficar em casa parada, com a perna pra cima e assistindo Brooklyn Nine-nine não parecia mais conseguir distraí-la, depois de alguns dias. Deitada na cama, repassava certas cenas na sua cabeça – De William Kapplan a Travis Foster e de Travis a e de ao seu assistente mequetrefe e até mesmo chegando ao seu próprio pai, só conseguia pensar em como odiava homens e em como eles eram seres impassíveis de confiança.
Nos primeiros dias, a raiva parecia consumí-la – foram os dias do choro. Assistiu com todos os filmes ruins e tristes que conseguia pensar e comeu muito sorvete e brigadeiro. Xingou-os de todos os nomes que conhecia, inclusive em português. Ela não fazia nada além de passar raiva, comer e dormir. Escreveu um milhão de textos raivosos em seu bloco de notas e desenhou uma série de coisas bizarras e sinistras. Até que chegaram os dias de tristeza, negação, e os de completa apatia.
No meio de um desses, decidiu que deveria ligar para sua mãe contar logo sobre o acidente. Atendeu na primeira ligação, mesmo que fosse uma quinta feira a tarde.
- Oi, mãe – disse, dando um tchauzinho pra tela. – Cadê o Gus?
Gus era o meio irmão de , de cinco aninhos.
- Não me venha com “Oi, mãe” depois de uma semana inteira sem falar comigo – a mulher reclamou. – Não acredito que ligou pro Mark e não ligou pra mim.
Patrícia era belíssima, a típica mãe bonita e rica de um seriado adolescente. A aparência sempre impecável, os olhos castanhos com cílios longos, os cabelos soltos em ondas escovadas e perfeitas, e o rosto, na maioria das vezes, maquiado. Patrícia era uma mulher classuda e de nome importante onde moravam, Long Island, na parte litorânea do estado de Nova Iorque, e estava sempre muito bem ocupada – trabalhava com produção de eventos, de casamentos a festas de empresas importantes, onde costumavam morar antes de se mudar para Los Angeles.
poderia, sim, ter ligado para a mãe antes, mas havia sido uma conversa difícil contá-la sobre a demissão da Kapplan, e como não quis entrar em detalhes, apenas ouviu a mulher dialogar sobre a oportunidade que estava perdendo, mas que sabia que encontraria algo novo rápido. Era exaustivo contar coisas difíceis para Patrícia , porque, apesar de ser uma mãe (minimamente) compreensiva, ela era do tipo de pessoa que fazia qualquer coisa dar certo. E nos últimos meses, tudo parecia estar dando completamente errado para . – E o Gus tá na natação. O seu irmão vive perguntando de você, . Bem que você podia pegar uns dias pra nos visitar já que não tá trabalhando. O que você acha? Eu posso ver as passagens agorinha! – viu sua mãe sorrir e sorriu também, um sorriso chocho e amarelo e fracassado, já cansada e arrependida de ter ligado.
Amava sua mãe, meu Deus, como amava, mas ela era, provavelmente, a pessoa mais acelerada que havia conhecido.
- Eu já vou no aniversário do Gus que tá na porta, mãe – fez com a mão para que ela se acalmasse. – Vai com calma, Patrícia .
- Você não tem saudades da sua mãe?
- Eu tenho muitas saudades, mas Long Island é tão, tão distante quanto o castelo da Fiona.
- Engraçadinha. Quando eu te ver, vou te dar um abraço e muitas palmadas – respondeu e riu. – Que tal fazermos um facetime em família, amanhã à noite? Hoje não, porque tenho que acompanhar o Mark num jantar.
- Tudo bem, mamãe, fica marcado. Mas tenho que te contar uma coisinha antes.
- O que você aprontou agora, ?
- Antes de tudo, eu ESTOU BEM, certo? Tá tudo bem – assegurou, enquanto a mãe arqueava a sobrancelha. – Mas sofri uma lesãozinha no joelho porque... Eu fui... Atropelada.
- O QUE? , O QUE ACONTECEU? Eu estou indo para Los Angeles agora! Como você me conta isso assim? Como você está se sentindo? Aconteceu algo além da lesão?
Patrícia ajustou a postura, olhando para os lados, como se realmente fosse arrumar suas coisas a qualquer momento e voar para Los Angeles. O que fez entrar num desespero mínimo.
- Não, não, mãe, calma! Tá tudo bem. Eu só tô com essa tala no joelho e vou ter que ficar em repouso por alguns dias – tirou da câmera frontal e mostrou a sua perna imobilizada. – Já já tiro esse trambolho e volta tudo ao normal.
- Você está bem mesmo, então? Onde está o ? Ele tem cuidado de você, não tem, depois que terminou com o traste?
Patrícia AMAVA .
- Tem sim, mãe. E eu estou bem sim. O cara assumiu todo o b.o e tá tudo resolvido. E você nem acredita quem foi o imbecil que me atropelou.
- Quem? Eu conheço?
- O , mãe. Aquele da boyband que a Yas amava.
- Calma, me deixa pesquisar aqui no Google a cara dele – ela pareceu concentrada por alguns segundos em que sua tela estava travada. E então, voltou. – MEU DEUS! Foi ele?
- Foi sim. E foi um otário.
- Não me digaaaa! E aí?
- Não pode contar pra ninguém, ok, mãe? Ninguém. Muito menos a Yas. Eu me comprometi legalmente que isso não cairia na mídia.
Foi mais um compromisso consigo mesma por pura questão de que queria torturá-lo, mas não deixava de ser um compromisso.
- Não vou contar, , eu sei manter um segredo – revirou os olhos. Mas é claro que não sabia. O sangue que corria em era um sangue fofoqueiro e ela sabia exatamente de onde ele tinha vindo. – Como assim? Ele não te tratou bem?
- Ele foi até menos pior que o assistente dele. Mas aí eu lidei da melhor forma possível.
- Aposto que você falou um monte pro menino.
- Ele atropelou a sua FILHA!
- Você não morreu, morreu?
- Eu me recuso a responder isso.
- Ainda bem que você falou umas poucas e boas pra ele. Tem que tomar muito cuidado no trânsito! Você tá vendo, quando eu falo pra você não correr com o carro...
- Como é que isso foi parar num sermão pra mim? Eu que fui atropelada!
- Se me escutasse, não era atropelada. Mas escuta, ele é bem bonito, né? Você não trocou telefones com ele?
- Que fetiche estranho, mãe, eu não vou ficar de papo com o cara que me atropelou!
E então, a mãe riu.
- Eu não sei mais o que te falta acontecer, . Me desculpe. Quando coloquei minha filha no mundo, não imaginava que ela fosse ter que passar por tanta doidice!
- Muito engraçado, Patrícia . Tô rindo horrores.
- Foi só um acaso, , aproveita a oportunidade, chama ele pra sair, conhece uns famosos bonitões, você passou tempo demais com o embuste. Você tá na sua melhor idade, ! Vai dar uns pegas num cara rico e gostoso e pelo menos dar um motivo pra esse acidente ter acontecido!
- Tá bem, mãe. Vamos falar de outra coisa. Tô só esperando tirar essa coisa pra começar a mandar os currículos. Soube que estão recebendo currículos na Netflix.
- Por que você não escreve um filme e lança de maneira independente? Você sabe que consegue.
arregalou os olhos e riu. Achava que estava sonhando alto quando pensou em conseguir um trabalho na Netflix, mas Patrícia conseguia ir até mais longe.
- Eu amo você, mãe, obrigada por ser a pessoa mais otimista de todas.
- , você me ensinou a ser otimista. Quando estava tudo errado e éramos só nos duas num apartamento minúsculo em Recife, eu olhava pra você e via o quanto que você acreditava em mim.
- Mãe...
- É verdade, , e você sabe que consegue até um Oscar se você der na sua telha que é isso que você quer. Você não tem mais nada a perder. Esse é o momento pra você focar em você e se reconstruir. Seu namorado bosta foi embora, você foi saiu de um emprego que não te levaria aonde você quer e está presa em casa com um computador do lado. Pare de reclamar da vida, como sei que tem feito, e vá usar o tempo livre que você tem pra algo útil.
e sua mãe se encararam por um momento em que esta sentiu seu coração se aquecer e sua mente mudar de rumo.
- Tudo bem, Patrícia , entendido o recado.
- Eu amo você, . Vamos ter que trabalhar essa coisa de você me chamar de mamãe, como as filhas normais fazem, mas fica pra depois. Me ligue amanhã de noite para conversarmos, ok?

.

Uma semana havia se passado desde o incidente com e não houve um dia só desde então em que ele não tivesse pensado na garota, e em como ela estava, e em todas as coisas que ela havia o dito. Ele não achava que era o centro do mundo. Pelo amor de Deus. Ela deveria conhecer outras pessoas da indústria musical antes de falar um ai sobre ele. Ele era um dos mais bonzinhos, se quisesse saber.
Tudo bem, ele esperava um tratamento diferente do que recebeu dela, mas não era porque ele era famoso ou porque tinha dinheiro, ou porque era . Mas porque... Bom, porque ele queria um tratamento diferente. Quando parou pra pensar melhor sobre, acreditou ser a falta de costume – fazia muito tempo que ninguém o confrontava daquele jeito. Nem mesmo Florence, sua mãe. Talvez sua irmã Leslie, mas ela era mais nova, então ele não dava muita atenção. De Fletcher e Aaron, já estava cansado de levar broncas, então nem mais levava a sério.
Como ela tinha a audácia de dizer todas aquelas coisas pra ele sem ao menos conhecê-lo quando ele estava tentando fazer algo legal pra ela?
Tudo aquilo o deixava puto, por mais que soubesse, lá no fundo, que estava errado. Não queria ouvir a voz da consciência. Queria encontrar com essa garota de novo e fazê-la escutá-lo e xingá-la até a última geração. Mas também queria que ela melhorasse logo. Também queria saber se ela estava sentindo muita dor. Queria saber se havia algo que poderia fazer para ela.
Ok. Tudo bem. Talvez se sentisse um pouco culpado pelo acidente. E talvez esse pouco se tornasse muito quando ele se prolongava nos pensamentos.
Viu no contato que o havia passado. . não era um sobrenome americano. Mal conseguia pronunciar esse nome. Procurou por ela no Instagram, ignorando as outras milhares de notificações, e depois de entrar em alguns perfis, pareceu identificá-la.
O seu perfil era aberto. Na sua biografia tinha que ela tinha 23 anos e algo chamado Recife que tinha uma seta para LA. Talvez fosse o nome da cidade dela, concluiu. A mulher tinha mais de mil seguidores e parecia ser muito ativa na rede social, na verdade, parecia ser uma especialista em Instagram: o tipo de feed organizado sem querer. Tinham alguns vídeos em compilação do que pareciam ser momentos que faziam sentido pra ela. Em um deles, alguns segundos ela mostrava a praia, e depois passava por sua Piña Collada e, então, um pequeno trecho de rindo com um outro cara. Tinham vários vídeos. Algumas fotos dela tiradas de ângulos aleatórios mas que pareciam se encaixar perfeitamente, fotos com amigos, com a família, mas de um jeito diferente. Parecia ela. Abriu a última foto que ela havia postado sozinha, e então, parou pra notar o quanto a mulher era realmente bonita – ela estava sentada num banco alto de frente pra uma bancada do bar, com o braço apoiado no próprio banco e olhava pra foto de lado sem sorrir. Por trás, as bebidas, as luzes azuis, uma grande vitrola, os stickers e o ambiente escuro do bar, as milhares de coisas que davam uma ideia de estar numa discoteca dos anos 80. A pouca luz do ambiente refletia especificamente no seu rosto límpido e tão expressivo que poderia lhe contar uma história. Ele observou a foto, que não tinha nada além de em uma camisa de mangas preta, e tudo que conseguia pensar era que, se ele estivesse naquele bar, naquele dia, jamais a deixaria passar.
Em outra foto, com um vestido azul de alcinhas em que ela parecia estar correndo na Ponte de São Francisco, com toda a vista da cidade por trás. O vento levava a saia do seu vestido e ela ria, empolgada, com os cabelos bagunçados e os braços soltos, o corpo um pouco borrado. Bem diferente da garota que ele tinha conhecido, na verdade. Ou talvez tivesse sido só o momento.
se viu, mesmo sem entender direito o porquê, querendo participar daquele mundo, ver como é, lembrar do que é ser uma pessoa normal com seus amigos normais, ir num bar e passar despercebido. Era como se o perfil dela tivesse algo a dizer e gostava disso. Ficava mais curioso a cada foto que via: como se estivesse vendo duas pessoas diferentes, a pessoa antipática e pouco cordial que conheceu, e a que postava fotos com legendas aleatórias, respondia seus comentários de maneira espontânea, tão engraçada que ele até quis ser amigo dela.
Inconscientemente, buscou por alguma foto que minimamente desse a ideia de um namoro e não encontrou. Ela postava muitas fotos em polaroid com seus amigos, ou com efeito analógico, e em muitas dessas fotos, ele encontrou o cara do vídeo com , e a própria . Viu apenas algumas fotos em que eles estavam sozinhos, também, e por mais que parecessem próximos, as legendas não demonstravam um relacionamento: uma delas era uma selfie com seus rostos próximos à câmera, em que ambos estavam com o nariz e as maçãs brancos de protetor solar. fechava os olhos com força e ria, os cabelos molhados e o fundo de praia, e o cara do lado dela dava língua de olhos fechados também. Na legenda, tinha escrito “a gente aguenta os amigos insuportáveis porque eles nos levam na praia”. Depois, clicou numa foto que era sua mão segurando uma polaroid. Na primeira, estavam ela e , abraçadas, de pijamas grandes e engraçados, cada uma com uma toalha enrolada na cabeça. abraçava de lado, aproximando seus rostos, e tinha a boca aberta, de olhos fechados e mão livre levantada. Já tomava algo num canudo de um copo de abacaxi, com um meio sorriso. E na do lado, uma selfie, em que aquele mesmo cara tirava, também de pijamas engraçados e também de toalha na cabeça – ele fazia uma careta, enquanto os abraçava sorrindo e estava a ponto de dizer alguma coisa, olhando pros amigos. Achou a foto engraçada e confortável.
A legenda dizia “eu vou me deixar ser brega por um momento e dizer que não sei o que seria de mim sem a (o acabou vindo no combo)”.
Entrou, então, no perfil desse cara. , o seu nome. Já o Instagram dele não parecia ser tão bem cuidado assim – ele postava desordenadamente fotos com efeitos meio psicodélicos (boa parte delas tiradas com o HUJI), tinha um pouco mais de seguidores que a , por volta dos cinco mil, muitas fotos de paisagem e sozinho, e algumas fotos com ela e com , outras fotos com seu cachorro, que era um Pit Bull chocolate com a maior cara de bobo. Ele cantava também, aparentemente, tinha alguns vídeos seus tocando violão e outros instrumentos e cantando que não se interessou muito em ver. Também tinham alguns anúncios do que pareciam ser pequenos shows em bares que ele tocaria.
Clicou na foto mais recente que tinha com ela. Estavam os três num ambiente com luz negra, tinha os lábios pintados em verde neon e alguns traços marcados de tinta neon rosa no rosto. A foto estava meio borrada, o tal tinha os braços relaxados ao redor das duas, sorrindo largo, enquanto ria abraçada olhando pra eles, e a estava de braços cruzados, com uma expressão emburrada, de quem não quer tirar a foto. estava ainda mais bonita naquela foto. Na legenda ele dizia: “eu disse pra que a era a minha melhor amiga de todas e essa foi a reação dela”. Alguns comentários de risada na foto e a brasileira, que colocou um emoji revirando os olhos, e continuou “você é o maior babaca de todos os tempos, ”.
Clicou em uma foto mais antiga, em que os três estavam vestidos de gala, num possível casamento – o fundo da foto era uma espécie de arco rústico da decoração do lugar, posicionados bem no centro, , com um taxido preto clássico e uma gravata preta, as segurava pela cintura, e ambas estavam voltadas pra ele, sorria sem mostrar os dentes e estava séria, com a boca entreaberta, e um vestido preto que deixava suas costas nuas e os cabelos soltos e bagunçados, como sempre. A legenda dizia “sim, se você está curioso, nós somos um trisal e eu seria o cara mais sortudo do mundo se elas não ficassem de tpm na mesma semana”. achou engraçado, indo ver os comentários, em que respondia com um “fuck u ” e respondeu “nos seus sonhos”.
Por um momento, sentiu uma ponta de inveja deles. Decidiu parar porque havia ido longe demais nisso de stalkear – o que era hilário, caso alguém parasse pra descobrir. tinha tudo. Ele tinha tudo o que queria, tanto que, chegou num ponto, em que ele nem mais precisava se esforçar pra conseguir essas coisas. Tudo chegava nele e às vezes ele nem pedia.
Mas ele nem mesmo se lembrava do que era sair com seus amigos, digo, amigos de verdade, não lembrava a última vez que tinha tido coragem de postar uma foto com alguém que gostasse sem se preocupar com as especulações. Não se lembrava da última vez que tinha sido minimamente ele mesmo no Instagram ou em qualquer outro lugar, sem postar fotos de câmeras profissionais tiradas por Helene, sua fotógrafa oficial. Não se lembrava da última vez que tinha tomado um porre com os amigos e realmente se sentido em casa, ao invés de apenas estar tentando não ficar sóbrio com pessoas que pareciam ser seus amigos. Mas no fundo ele sabia que não eram.
Na verdade, se perguntou se tinha algum amigo realmente íntimo que não fosse da banda ou o Aaron e o Fletcher, que pudesse socorrê-lo no hospital, por exemplo, como aconteceu com . Não encontrou nenhum em quem confiasse de verdade.
Decidiu voltar pro perfil de e ver os stories. Ela havia postado uma foto com a caixinha de perguntas e já havia respondido algumas, com piadinhas internas e outras perguntando sobre o acidente.
O que aconteceu com seu joelho? Vamo no Flip! E ela postou uma foto da perna dela, com a tala envolta e a muleta que aparentemente ela ainda estava usando, recostada na mesa de centro de vidro, do que parecia ser a sua sala de estar.
Na foto, ela escreveu, “eu sofri uma lesão no joelho e tô tendo que ficar de repouso essa semana pra poder ficar boa na próxima. Aproveita o festival por mim, mas vê se não vai dar pt, você não sabe lidar com essas coisas de open bar”. agradeceu mentalmente por ela não ter especificado nada sobre o acidente, riu pelo nariz e pensou se deveria fazer uma pergunta ou não. Riu do seu próprio pensamento um segundo depois. É óbvio que não.
Porém, seguiu-a no Instagram, de todo jeito. Estava interessado no que ela postava e não via problema em acompanhá-la.
E logo após tê-lo feito, teve uma ideia.



3.

.


Unknown Number
Sonho britânico 10:27 am


Sonho britânico? Que? não fazia ideia de quem era. O número era desconhecido e, como era mensagem de texto, ela não tinha como ver a foto. Como sentia saudades do Whatsapp nesses momentos. Havia acordado fazia pouco tempo – visto que estava se deixando ter uma ou duas semanas de férias depois de todo o ocorrido da última sexta feira. Ser demitida e ainda atropelada por um músico metido a rockstar ex boybander no mesmo dia era um mérito que poucas pessoas no mundo poderiam ter.
Portanto, desempregada, andando de muletas e com os temíveis chifres que pareciam enfeitar sua cabeça toda vez que ela se olhava no espelho, ainda estava na cama quando respirou fundo ao ver a mensagem com o número desconhecido, minimamente curiosa para saber sobre o que se tratava.

Quem eh vc 11:12 am


Unknown Number
Ué, foi você que disse que eu era o sonho americano 11:13 am
Mas é que eu sou da Inglaterra 11:13 am

Você só pode estar BRINCANDO 11:13 am


estava putíssima. Pelo amor de Deus. Será que ela não teria uma trégua? Era inacreditável que o dito cujo estivesse falando com ela como se nada tivesse acontecido. Ela queria esganá-lo. Ela queria matar porque SABIA que isso tinha dedo dela.

Eu não ACREDITO que você deu meu número pro 11:13 am
EU QUERO QUEBRAR SUA CARA 11:13 am



DO Q Q CE TA FALANDO 11:13 am
O TÁ TE MANDANDO MENSAGEM 11:14 am
OQ Q ELE DISSE 11:14 am

Vc é uma VACA TRAÍRA 11:14 am


revirou os olhos para o surto de , irritada, e voltou para a conversa do cantor, que, por algum motivo, estava conversando com ela como se fossem os melhores amigos do mundo.

Eu juro 11:14 am
Sou de Manchester 11:14 am

Problema seu 11:15 am


Você não notou o meu sotaque? 11:15 am
Eu notei o seu 11:15 am

Pq vc acha que a gente é amigo? 11:16 am


Eu te segui no instagram 11:16 am
É assim que funciona com a gente, os millennials 11:17 am
Vc nao sabia? 11:17 am


quase quis rir um pouco mas não deixou que isso alcançasse expressão alguma do seu corpo. Ela jamais admitiria que estava achando a conversa engraçada. Tomou um susto quando viu que o rapaz realmente havia seguido ela no Instagram, mas ficou tranquila ao ver que esse havia sido o único contato que eles tinham tido. Quando entrou no perfil dele era como se tivesse se tornado mais real, e ela piscou algumas vezes, tentando assimilar que era ele mesmo, (com seus vinte e poucos milhões de seguidores), que a seguia na sua rede social que não tinha nada de muito especial além de sua produção de conteúdo aleatória e sua vida mais que normal. E não o seguiu de volta por pura pirraça.
Ainda sim, parecia surreal demais. Quando, na vida, iria imaginar que seria atropelada por um cara super famoso que ficaria mandando mensagem aleatória uma semana depois de tê-lo mandado sumir? Isso tudo só podia ser uma falha na matrix. Essa era a única explicação. Talvez a da realidade alternativa seja realmente uma matadora de aluguel ou uma ajiota ou fornecedora de drogas para crianças e o Universo, confundido com as milhares de realidades diferentes existentes no multiverso, a estivesse fazendo pagar.
NÃO FUI EU, CACETA, ela quis gritar, ME DÁ UM DESCONTO.
Mas o Universo não pareceu escutá-la.


ME RESPONDE LOGO SUA VACA 11:17 am
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA 11:17 am
MEU DEUS O QUE TÁ ACONTECENDO 11:18 am


Viu a mensagem que havia acabado de mandar, e ignorou, voltando pra outra conversa, disposta a resolver o tópico pendente.

N 11:18 am

Vamo lá, 11:19 am
Vc topa sair comigo hoje? 11:19 am
A gente tem que conversa melhor 11:19 am
E aí você pode passar a noite inteira me xingando 11:19 am

Eu n sei pq você tá tratando isso como uma possibilidade 11:21 am
E nem pq vc ta me chamando de 11:21 am


QUANTA audácia. Ele realmente achava que se insistisse um pouco, acabaria por dizer-lhe sim, como todas as outras pessoas do mundo. Mas ela estava determinada a confrontá-lo.
. Puft. Até parece. Vá tomar no seu cu. Você me atropelou.

Pq a gente é amigos 11:21 am

Eu juro que vou jogar seu número na internet 11:22 am


Vc eh muito minha amiga pra fazer isso 11:22 am


, então, quebrou o fluxo de mensagens contínuas, bloqueando o celular e decidindo, apenas, ignorá-lo. Colocou o travesseiro no rosto e gritou, frustrada.
É claro que não jogaria seu número na internet, mas gostaria de pensar que sim, o faria, porque ele merecia. Queria, de verdade, que ele a deixasse em paz. Porque a situação era bizarra demais. Ela não precisava de mais uma coisa.
Tudo deu certo, afinal, mas se não tivesse dado? E se ela tivesse perdido a perna? E se ela tivesse perdido a memória? E se ela tivesse MORRIDO? Tudo porque o cantorzinho é um irresponsável, não só na vida, mas no trânsito, e achava que podia resolver tudo com dinheiro e uns sorrisinhos mequetrefes de lado.
Eram ótimos sorrisinhos de lado, sim, mas não o suficiente.
Não que achasse que ele realmente fosse uma pessoa ruim – não tinha, mesmo, como tirar essas conclusões, ela não o conhecia, e bom, eles haviam sido minimamente – minimamente – cuidadosos com ela. Mas não gostava da forma que o agente dele a havia tratado, não gostava que eles tivessem assumido suas pretensões sem antes conhecê-la também, não gostava que eles pensassem que ela preferiria uma pilha de dinheiro aleatório ao invés de simplesmente ser respeitada e tratada como um ser humano. Não gostava do fato de eles acharem que poderiam comprar a sua voz – apesar de estar muitíssimo feliz com a câmera de seu novo celular. Porra. Eram tantas controvérsias.
jamais se submeteria a isso, principalmente quando não fez nada de errado para ser abordada daquela maneira. E então pensou, e se fosse uma fã do seu trabalho, como se sentiria? Bom, se o John Mayer tivesse feito aquilo com ela, ela com certeza estaria bem mais devastada do que estava atualmente. Porque era o John Mayer.
Mas o John Mayer jamais agiria assim.
Fora tudo aquilo, a deixava com raiva porque era tipo de pessoa que achava que poderia ter tudo o que queria com o simples fato de apenas querer. E estava disposta a ir de encontro ao ciclo.
Afinal, o que tanto ele queria com ela? Garantir que ela não diria nada pra imprensa? Se aproximar para manter a situação segura? Estava com peso na consciência?
A cada conclusão que chegava sozinha, se sentia mais irritada. Tomou um banho demorado, deixou o celular de lado, e aí, ao fazer seu caminho – longo, com essas muletas ridículas e essa tala filha da puta – a cozinha, entrou como um furacão pela porta da frente, e logo atrás, , segurando uma barca enorme de sushi na mão e fechando a porta cautelosamente atrás de si.
Ela jamais poderia reclamar. A amiga sabia muito bem como ganhar seu perdão.
- Como é que você para de me responder do nada com um BAFO desses, ? – perguntou, ao ir até a amiga, dando-lhe um abraço rápido e chacoalhando-a pelos ombros. , que vinha logo atrás, colocou as coisas na mesa da sala de estar e já começou a desembalar o conteúdo, cumprimentou-a com um simples aceno de cabeça, parecendo mais interessado na comida do que no assunto que discutiam. O que era estranho, porque era o maior fofoqueiro da história. Todo mundo ali amava uma fofoca. – Me dá esse seu celular aí que eu quero ler a conversa!
- Lê em voz alta – acrescentou, com a boca cheia de arroz. soltou ar pelo nariz.
era o cara mais legal que ela já conheceu na vida, tinha certeza disso, mas jamais admitiria em voz alta. Nunca havia conhecido um único homem sequer que ela conseguisse confiar tanto tão rápido. Nem mesmo seu namorado, quando namoravam, e bom, vejamos só no que deu.
Ele era alto, bronzeado, tinha cabelos loiros nos ombros e a maior pose de surfista que se pudesse encontrar em toda Califórnia. Haviam se conhecido antes mesmo que ela conhecesse , bem quando chegou em LA, pois morava no apartamento da frente e ambos faziam faculdade na UCLA, sendo que ela fazia Filmes, televisão e mídias digitais e ele fazia Música. Então iam juntos para a faculdade todos os dias.
- Você é uma cobra, isso sim, como você passa meu número pra esse cara? – revirou os olhos, entregando o celular pra ela. – , explica pra ela que não é porque o cara é famoso que a gente sai dando o número de todo mundo por aí.
- Mas é o falou, como se fosse justificativa plausível. – Eu faria. – deu de ombros e levantou um dedo específico pra ele. – E você faria também. Quem não faria o , porra?

Unknown Number
Ok tudo bem eu parei 11:29 am
A gente não é amigos ainda 11:29 am
Mas a gente pode vser 11:29 am
Vai, 11:35 am
Na moral 11:58 am


EU TÔ INDO PRA CASA 12:22 pm



- Ele até mandou mensagens em horários diferentes, ó, que bonitinho – disse, ao pegar o celular e ler as últimas mensagens, mostrando-as pra que assentia, sentado ao seu lado, mostrando que estava lendo. – Você nem me respondeu, babaca.
- Eu não vi que você tava vindo pra casa, senão eu te mandava ir tomar no cu e deixar a barca aqui no elevador – respondeu, respirando fundo. Com um pouco de dificuldade, sentou-se a mesa, apoiando a perna na cadeira da frente, ao lado de , enquanto fazia o mesmo, tirando o conteúdo da caixa e entregando os hashis para a amiga. – E você também, , toma cuidado com o lado que você vai tomar nessa história.
- Mas eu sempre tô do lado da – ele deu de ombros, e ambos bateram um high-five sem ao menos se olhar.
lhe entregou uma expressão enraivecida.
- Larga de ser ingrata – ela exclamou, rindo. – Desculpa, mas a conversa de vocês tá muito engraçada. Eu sou de Manchester, você não notou o meu sotaque? – a loira imitou uma voz grossa e um sotaque britânico, olhando pra , que riu com escárnio, fazendo rir também e cuspir um pouco de molho shoyu. gargalhou da cena, com a boca aberta e cheia de arroz e fez uma careta pros dois. – Eu não consigo dizer se ele tá tentando quebrar o clima ou tentando dar em cima de você de um jeito bem awkward. Eu não imaginaria que ele flertava assim.
- Ele pode flertar do jeito que ele quiser. Ele é o .
- Eu não tô entendendo essa sua tara pelo cara que me atropelou, .
- Ué, mas é exatamente por isso riu, e o fuzilou com os olhos. – Tá, foi mal, muito cedo. Ele realmente foi sacana. Eu acho que, pananã, grava isso hein que muito provavelmente nunca vai acontecer de novo: a nossa querida pet está certa.
- Muito obrigada – agradeceu, acostumada com o apelido, e comeu um pouco mais do seu sushi.
- Ah, qual é, foi um acidente. E ele tentou se desculpar um milhão de vezes. Eles arcaram com as despesas e até queriam dar uma indenização pra , mas ela é tapada e fez doce.
- Você negou dinheiro? – perguntou, um pouco exasperado. – Você é retardada? É tipo regra constitucional. Grana você nem pergunta, só aceita. Com certeza tá na bíblia.
- Cala a boca, , você ACABOU de inventar isso.
- , o é burro, mas ele tá certo. Você tá desempregada. E deve ter alguma lei sobre isso de indenização sim, né?
se desconcentrou da discussão pra voltar a um tópico importante que veio na sua cabeça. Era óbvio. Era muito mais que óbvio pra ela que:
- Ele não tá flertando comigo – disse sua conclusão em voz alta, sem querer, e a encarou, chocada.
- Por que você voltou pra esse tópico que ninguém mais lembrava? – perguntou, rindo, enquanto encarava com curiosidade e um sorriso escancarado no rosto. Ela sabia que ele estava provocando. Ela sabia que ele não a deixaria mais em paz quanto a isso. gargalhou.
- A gente estava falando disso agora a pouco! – defendeu-se.
- Não, não, a tava falando que tinha sido um acidente. E realmente, foi um acidente, ele não teve intenção de te machucar, me convenceu de novo.
- Ele não queria me dar uma indenização, ele queria comprar a minha voz!
- Ué, mas você tá calada, num tá? Você podia ficar calada de graça, que nem você tá agora, dura, sem grana e tal, ou você podia ficar calada e rica – chegou a sua própria conclusão, passando o sushi no molho teryaki. – Isso sim é lógica, .
olhava para com a expressão de pouquíssimos amigos e respirou pelo nariz. De novo. Cansada.
- Enfim revirou os olhos. – A questão é que eu não sei porque ele tá sendo tão insistente e isso tá me irritando.
- Eu acho que ele pode estar interessado – deu de ombros. – Essa história nem estourou, foi muito bem abafada, saíram algumas notícias sobre o ter se envolvido num acidente, mas ninguém nem demonizou ele. E bom, acho que ele notou que se você quisesse falar alguma coisa, já teria falado.
- É óbvio que ele tá interessado. Sou eu, ué – brincou, dando de ombros e piscando pros amigos. – Mas eu não quero manter contato com ele.
riu.
- Porque você é o tipo de todo mundo imitou a voz da amiga, numa piadinha que eles tinham, fazendo pouco caso.
- A é claramente o tipo de todo mundo, mas não é essa a questão – retrucou, dando de ombros, como se analisasse a situação de maneira mais séria. – A questão é: quais são as verdadeiras intenções do astro do rock?
- Pelo amor de Deus, ele não é um astro do rock, parem de levantar a bola dele, muito puxa saco – a garota aumentou o tom de voz, por fim, e e a encararam, meio chocados, meio rindo do pequeno surto da amiga. – Ele é só um cantorzinho de pop pra garotas de 12 anos que alavancou com uma boyband ridícula que ele nem queria fazer parte de início – arfou, enquanto os amigos continuavam perplexos. – Eu estou cansada. É isto. É por essas e outras que ele acha que é o rei de tudo.
Um segundo de silêncio, e então, os dois amigos caíram na gargalhada, e aí a não aguentou e começou a rir também.
- Eu tenho certeza que você quer dar uns pegas nele – concluiu, por fim. – E o álbum dele é foda, pode admitir. Ele é muito bom.
- Eu nunca nem ouvi.
- Que mentira, !
- Querida pet, vamos direto ao ponto: você quer dar uns pegas no . Tá tudo bem dizer isso em voz alta. Tem aquela parada de por pra fora e tal, elaborar a angústia. E acho que ele pode querer também. Nenhum homem manda tantas mensagens assim só por peso na consciência com uma desconhecida. Principalmente quando se acham o rei de tudo.
- É real, eu não passo da primeira mensagem – deu de ombros. – E ele até curtiu suas últimas fotos no Instagram, né?
suspirou, se arrependendo de contar tantos detalhes pros amigos. E então, riu, balançando a cabeça, porque ela não conseguia mesmo acreditar que tudo aquilo estava acontecendo.
- E daí que ele curtiu minhas últimas fotos do Instagram? Ele me atropelou.
- Eu acharia uma honra ter sido atropelado pelo , ele é gato pra caralho – afirmou, mas só riu da cara dele. o encarou desacreditada no quão longe ele ia nas piadinhas. – Ah, vai dizer que a sua vida era muito mais legal antes disso? Seu ano foi uma merda de todo jeito. Você já tá ficando boa, ele tentou se retratar e pelo menos tem uma coisa diferente acontecendo, ué. , dessa vez, foi quem o encarou desacreditada, e ele levantou as mãos, sem saber o que tinha feito de errado.
- O que o terrivelmente está tentando dizer é que você pode superar esse atropelamento, deu de ombros. – Foi só o jeito do Universo fazer vocês se encontrarem. É tipo, detalhe pequeno, diante da história de vocês.
- É. Ou isso aí.
- Nem me fala em Universo.
- Eu realmente acho que o Universo te odeia – constatou, por fim, dando dois tampinhas no ombro da amiga ao seu lado em compaixão. – Mas sério, agora, sem encher o saco. Eu não confio nele, cê tá certa. A gente tem que ficar de olho nesse cara aí.
- Você muda de opinião rápido demais, .
- Acho que ele só quer mesmo garantir que eu não vou por a boca no trambone.
- Ou, garantir que você vai sim, por a boca no trambone dele retrucou e, novamente, ele e bateram um high-five. Novamente, sem nem se olharem. riu, revirando os olhos.
- Que eu saiba, você que é o músico aqui – ela piscou. – Eu te dou as honras.
- Ué, você sabe que se me der passe livre eu vou usar, não sabe?
olhou pra , curiosa. – Meu Deus, eu posso participar? Eu já te contei que eu sempre tive essas vibes de voyer e tal.
- A GENTE PODE GRAVAR!
- Eu tenho quase 100% de certeza que ele vai concordar com isso – assentiu, depois de limpar o canto da boca. – Vocês sabiam que foi assim que a Kim Kardashian ficou famosa?
- Ah, , minha doce brasileirinha. Eu vivi esse momento! Foi a partir daí que as pessoas começaram a ser chamadas de millennials. A Kim Kardashian, tipo, dividiu a história no meio – explicou-se, e o olhou pra ela de canto de olho, rindo, desacreditado.
- E eu tenho quase 100% de certeza que as pessoas não são chamadas de millennials por isso. Ou que ela dividiu a história.
- Eu acho que ele só tá querendo ser legal com você, sei lá – a disse, ignorando , depois de encará-lo, incrédula, por alguns segundo e passando a falar mais sério então. – Não custa nada dar uma oportunidade de ele se redimir. No mínimo, como nosso sábio ancião disse, você conhece alguém diferente e tem uma história legal pra contar. Até pra tirar o Travis da cabeça um pouco...
- Eu não sei o seu conceito de legal, mas eu não gostei de ter sido atropelada – disse e riu, por fim. – E chega, por favor, eu tô ridiculamente cansada dessa história toda. Em alguns dias eu vou no hospital tirar essa caceta de tala e a gente vai pro Puzzle porque eu tô precisando dar um pt. Sem . E o que eu falei sobre o Travis?
- Proibido de ser mencionado levantou os olhos, fazendo uma boquinha com a mão, como quem diz que ela tá fazendo drama. – Alguma hora você vai precisar conversar direito sobre isso, você sabe.
- Não.
- Péssima em elaborar a angústia. Nunca vai superar.
- Já tava mais que na hora do Travis vazar, isso sim, . Todo mundo sabia que você merecia muito melhor.
- Com licença? pareceu ofendida, então. – Eu claramente já superei o Travis.
- Aham. Ok. Eu adoraria ficar aqui ouvindo você mentir sobre como superou o Travis em cinco minutos numa rapidinha com um cara do Tinder, mas eu tenho que ir embora, porque alguém tem que trabalhar neste grupo. Namasté!
- Você teve real um orgasmo em cinco minutos? – perguntou, curioso, enquanto se despedia e saía pela porta. – Você lembra o que ele fez?

.

“... Quase duas semanas depois do misterioso acidente que envolveu e uma mulher de 23 anos, residente em LA, finalmente, temos mais luz no que realmente aconteceu. A pessoa, a quem encontramos através de uma das nossas fontes, pediu que nós não revelássemos seu nome, mas nos contou o que aconteceu: ‘Foi apenas um acidente, eu estava distraída no celular ao atravessar a rua e acabou que ele não conseguiu frear a tempo. Eu sofri apenas uma lesão no joelho, mas em uma semana poderei voltar as minhas atividades normalmente.’ Perguntamos, é claro, qual havia sido a reação do cantor mediante a tudo que aconteceu, e ela respondeu, de maneira simpática: ‘ e Aaron, seu representante, foram muito legais e responsáveis comigo e cobriram todas as despesas necessárias, sempre me perguntando do que eu precisava, foram bem atenciosos. Nós estamos em bons termos, é uma coisa que pode acontecer com qualquer pessoa’.

- Você pediu pra ela fazer isso? E ela fez? – Aaron arregalou os olhos, assustado. – Você trabalha com tortura e eu não sei? Hipnose? Aqueles sites de feitiço online? – Ele perguntou, sarcástico, e revirou os olhos. Estavam dando um tempo no estúdio, Aaron estava deitado no sofá, rolando a tela do celular por todas as informações relacionadas a notícia e estava sentado na poltrona, com o rosto apoiado em uma das mãos, puto.
- Foi assim que eu te contratei, não lembra?
- O pior de tudo é que tá tendo uma repercussão boa, afinal. Você viu seu Twitter? Tá bem movimentado.
não estava entendendo nada. Afinal, qual era a dela? Quando viu a notícia de que ela havia se pronunciado, seu coração gelou, porque porra, se ela falasse metade do que disse pra ele na mídia, ele com certeza estaria bem fudido. E aí, leu a notícia.
Aquela garota não fazia sentido nenhum.
- Eu não tô entendendo nada, Aaron, eu não pedi pra ela fazer isso – o rapaz desabafou, emburrado. – Ela te xingou, depois me xingou, depois ignorou minhas mensagens, não aceitou nada do que a gente ofereceu, disse que não ia dar garantia nenhuma de que não ia falar merda pra imprensa e aí fala bem de mim e até de VOCÊ pra mídia. Não foi ela que estava distraída, fui eu. A gente não foi atencioso com ela. A gente foi bem bosta, na verdade. Ela assumiu a culpa e tudo.
- E do que você tá reclamando, ? Ela fez porque quis, então – Aaron perguntou, e riu pelo nariz, sem entender o ponto. – E por que essa entonação toda no você?
- Você foi bem mais babaca que eu, convenhamos – deu de ombros e Aaron revirou os olhos. – E eu estou reclamando porque isso não tá certo. Não faz sentido.
- A questão é que a gente tem um problema a menos pra se preocupar, – Aaron se levantou, olhando pro cantor ao seu lado, que parecia não estar convencido. – Cavalo dado não se olha os dentes.
Faziam algumas semanas do acidente, duas talvez, e desde aquela vez em que tentou mandar mensagens para , ela deixou de o responder e ele só acompanhou toda a sua saga no Instagram, rindo vez ou outra dos seus stories. Tinha visto que ela havia tirado a tala e que tinha cumprido com as sessões de fisioterapia certinho.
A sua última tentativa de contato havia sido uns dias antes, um link no youtube de um vídeo em que um cachorrinho dizia “me desculpe, você é bonita” repetidamente por três horas seguidas. Ela não o respondeu de novo. Abriu a conversa, disposto a falar umas poucas e boas para , que, a propósito, ele descobriu que nem o seguia de volta no Instagram. Olhou pra conversa. Sabia que ela não o iria responder, então, resolveu tentar uma outra estratégia.

Oi, 3:18 pm
É o 3:18 pm
3:18 pm
Eu não sei se você conhece outro 3:18 pm
Vc consegue manter um segredo? 3:18 pm


não respondeu prontamente, então, resolveu se distrair respondendo algumas outras mensagens e jogando Clash of Clans por um tempo, até que resolveram voltar a trabalhar. Estavam quase terminando a terceira música do álbum a ficar pronta, mas parecia nunca estar satisfeito com o resultado final, sempre querendo alterar alguma coisa.
- É isso, cara, eu desisto de você – Mitch, o seu guitarrista, desabafou, sentando em cima de uma daquelas cadeiras que giram. – Ela estava foda, até você tirar a melhor parte.
- Só ficava bom num tom muito agudo – explicou. – Mas eu acho que quero ela de volta.
Sarah, a baterista de meio metro mas muita brabeza, pareceu um pouco mais complacente, por incrível que parecesse. – Tá tudo bem. A gente descansa ela por esses dias e escuta ela semana que vem de novo, e aí vocês decidem. Eram oito e pouco da noite quando decidiram dar o dia como terminado e, finalmente, voltou a conversa com , que havia o respondido algumas horas antes.


Oi, 5:44 pm
Quer dizer 5:44 pm
5:45 pm
Eu sou a rainha dos segredos, ME CONTA 5:45 pm
Eu vou fingir que não estou surtando porque você sumiu e eu não estou curiosa 7:21 pm


sorriu ao ler as mensagens, respondendo-as logo em seguida.

Hahahahah não é nada demais8:42 pm
Eu queria te perguntar, na verdade 8:42 pm
O q q tá acontecendo 8:42 pm
Acordei com a notícia e não entendi nada 8:43 pm


É 8:44 pm
A é louca 8:44 pm
E talvez meio impulsiva 8:44 pm
Ela já tinha feito quando me contou 8:44 pm
Mas com certeza foi muito bom pra você, né? 8:45 pm

Sim 8:45 pm
Mas 8:45 pm
????????????? 8:45 pm


HAHAHAHAH 8:46 pm
Desculpa 8:46 pm
Mas isso tudo é muito engraçado 8:46 pm

Eu não tô entendendo nada 8:47 pm
Eu queria falar com ela, mas ela não me responde 8:48 pm
Ela ainda me odeia tanto quanto antes? 8:48 pm


Sim, sinto muito8:48 pm
Tudo bem, 8:48 pm
Eu vou te dar uma ajudinha de amiga 8:48 pm
Na broderagem 8:49 pm
Pq aparentemente vc nao vai deixar isso de lado8:49 pm

Vc é um anjo 8:49 pm


Vou te propor um esquema 8:49 pm
Vc tá livre amanhã de noite? 8:50 pm


4.

.

contava que aquele era o seu dia de sorte.
Havia, finalmente, abandonado a tala do joelho, e podia, assim, voltar a vida normal, com alguns cuidados de início, segundo o médico, sem muito esforço físico ainda, correr nem pensar. Havia passado a tarde com o ortopedista e a fisioterapeuta, recebendo uma pancada de recomendações e medicamentos e blá blá blá. não estava nem aí, porque hoje ela iria gastar todo seu fundo desemprego no Puzzle, seu bar favorito, onde seu melhor amigo e uma de suas pessoas favoritas na vida tocaria naquela noite – e que o nunca soubesse disso, amém.
Era a primeira vez que realmente saía de noite desde o tal dito cujo dia do combo demissão+acidente e, três semanas depois, sem ex e nem estrelinha do rock no pé pra encher o saco, sem um trabalho que ela não aguentava mais pra ter que bater cartão e sem a porra da tala no joelho, finalmente se sentiu livre. Com um tubinho preto de alcinhas e batom vermelho, os cabelos soltos e um all star branco, ela havia criado expectativa para uma noite com seus amigos em que ela pudesse desopilar das coisas que haviam acontecido nas últimas semanas.
Havia chegado mais cedo com para ajudá-lo a montar o som – na verdade, ela mais fazia companhia mesmo, ou ia pegar uma coisa ou outra no carro ou no staff quando necessário. Era só voz, violão, e um amigo dele de faculdade que tocava o cajon.
Adorava ver cantar, amava a voz dele e como ele sempre colocava uma música ou outra de John Mayer porque sabia que ela gostava. Ele sempre demonstrou ser muito apaixonado por música e, quando cantava, era quando ele não parecia se importar com mais ninguém no mundo e só fazia aquilo que ele com certeza havia nascido pra fazer.
Ela estava sentada no banquinho em que cantaria, no pequeno palquinho, tomando uma Budweiser e observando enquanto o amigo passava o som com o violão.
chegaria depois, porque queria dar uma passada em casa e trocar de roupa depois do trabalho. Mandou uma mensagem para a amiga que dizia “Vem logo” e esperou até terminar, porque ele não gostava de ser interrompido quando estava passando o som. Estava se sentindo entediada e resolveu voltar até o bar, quando sua cerveja acabou, para pedir outra.
O Puzzle não era um bar grande, pelo contrário, era bem pequeno e intimista, com uma vibe meio alternativa underground, havia ganhado o coração de pela decoração rústica, a faceta estranha, o ambiente com algumas iluminações azuladas e o fato de poucas pessoas irem lá. Fora que o chopp era barato e se localizava literalmente na frente do seu prédio, só atravessar a rua. tocava por lá algumas vezes no mês, por comodidade e porque eram velhos conhecidos dali, amigos de todos os garçons. Aquele era o bar em que , e consolidaram a sua amizade, principalmente na época da faculdade – eles eram os membros mais assíduos daquele pub, que quase todo dia apareciam por lá.
ficou conversando com Carlito, o bartender, de maneira muito espontânea e tranquila, como sempre, quando terminou de arrumar tudo e veio até ela, buscar sua própria cerveja.
Carlito era um costa riquenho típico, com um sotaque carregado, barba por fazer e algumas histórias loucas pra contar, algumas pulseiras e uma corrente de ouro, o sorriso no rosto sempre presente e a alma de um peregrino nato.
- Você fica nervoso ainda? – perguntou pro amigo. – Tipo, você já tocou aqui tantas vezes.
- Aqui parece a minha casa, na real – ele respondeu, dando de ombros, enquanto Carlito lhe dava a long neck. – Mas nunca é igual. Essa é a melhor parte. A gente tem que conquistar o público, ganhar a atenção, sabe?
- Mi casa, su casa, mi hermano – Carlito disse em espanhol, em toda a sua simpatia e cordialidade, colocando no copinho uma dose de Tequila e empurrando uma para cada. arregalou os olhos com a proposta.
Tequila sempre era uma boa ideia, mas nunca era. – Pra esquentar a garganta. E pra você, porque você é a chica mas bonita del bar.
- Carlito, eu te amo. Por que você não casa comigo logo? – perguntou, frustrada, e os três riram. – De verdade. Você é a pessoa mais legal que eu conheço. A gente daria um casal incrível.
- Não é como se você conhecesse muita gente com essa cara de cu – respondeu e fez uma careta, bebendo sua dose e dando um soco de lado no amigo. – Ai. Você sabe que é verdade.
- Eu não sou tão chata assim. Sou, Carlito?
- No, no, no. Esse bar não seria o mesmo sem a nossa brasileña – ele piscou pra ela. – Não sei como vai ser quando eu tiver que ir embora. Vou ficar com saudade.
- Ah, não, você não pode ir embora daqui. O que vai ser de mim sem você, mi corazón? perguntou, encenando, e o garçom deu uma risada gostosa, terminando de limpar o balcão.
- Eu não resisto – Ele disse, por fim, fazendo um gesto com a mão como quem desiste e não tem mais o que fazer.
adorava a relação que tinha com Carlito, em que eles brincavam de ser apaixonados um pelo outro e ele jamais havia passado os limites ou entendido as coisas de maneira diferente.
- Você puxa muito o saco dela, Carlito. Por isso que ela se acha.
- Larga de ser invejoso e vai lá fingir que toca bem.
- O que posso fazer? Como resistir a esses olhinhos aqui, este rostito, ? – Carlito segurou o queixo de com a mão, mostrando o rosto dela para , que virou os olhos, com um sorriso de lado no rosto. Ele retirou e começou a gesticular de acordo com o que dizia: – Mas deixa eu contar pra vocês, daqui, quero ir descer por toda a América do Sul, ver o Chile, a Argentina, quem sabe eu não passo pelo Brasil? A Colômbia, vocês sabem…
- Você é um cara que com certeza sabe como viver a vida – , que afirmava com a cabeça, pegou a sua long neck e levantou entre os três, propondo um brinde. – Ao Carlito!
E eles brindaram, dando um gole na cerveja.
– Carlito, mais uma dose de Tequila pra nossa pet, por minha conta.
- Seu pedido, uma ordem.
- Você tá querendo me enbebedar, ? – tomou a sua segunda dose com uma careta, rindo logo depois.
O loiro riu, dando de ombros.
- Pra ver se você fica um pouquinho mais simpática – Ele deu de ombros. – Vou lá, fingir que toco bem.
- Quem sabe você não consegue convencer alguém – gritou, enquanto andava e lhe dava um dedo médio, de costas.
Exatamente às oito da noite, começou o show. Já era pra estar lá. Deu um toque para a amiga, enquanto Carlito ia atender outras pessoas, mas não estava preocupada em estar sozinha, até estava gostando na verdade. Depois da segunda dose de Tequila, se sentia meio balançada, apesar de ainda estar lúcida, e continuou a beber sua cerveja ao ouvir os primeiros acordes de Snap Out of It, mimicando a letra da música com os lábios, empolgada.
- Você não tem cara de quem curte Arctic Monkeys – e então, ela ouviu a voz por trás de seu ouvido.
É claro que ela se lembrava da voz. E do sotaque, que com certeza ela havia notado desde a primeira vez que o ouviu cantar, desde a primeira vez que o ouviu falar, até quando o viu. Será que já havia bebido tequila demais?
Era óbvio que ele era o sonho britânico (ela sabia que ele não era americano, desde o começo, mas não podia perder a alfinetada) e ele estava logo atrás dela, esperando por uma reação que não fosse sentir todo o seu pescoço se arrepiar. Ah, o brilho, maldita Tequila, maldita, maldita.
Quando ela se virou, parecia mentira. Parecia que ela estava tendo uma alucinação. Não podia ser verdade.
O que raios ele estava fazendo ali?
, então, se desfez de toda sua etiqueta social e pôs a mão na cara do cantor. Virou-se totalmente e o encarou, enquanto ele deu uma risada, com um olhar confuso, e a brasileira apalpava seu rosto com a mão pra ter realmente certeza de que ela não estava vendo coisas.
Era . De novo. No seu bar favorito. Procurando por ela. Quis gritar e xingar o Universo ou os astros ou o destino ou qualquer coisa que estivesse tão determinado a tirar a sua paz.
Tudo que ela queria era beber com seus melhores amigos e seu garçom favorito até vomitar as tripas e se divertir muito por uma noitezinha só.
- Ah, não. Você tá mesmo aqui. – ela disse, suspirando fundo, e tirando as mãos do rosto do rapaz. Deu-se por vencida. Ele riu pelo nariz e deixou o sorriso estampado no rosto. Sempre simpático demais, sempre parecendo feliz em vê-la, sempre com piadinhas e sacadas infames, enquanto fumegava pelo nariz.
- Eu também tô feliz em te ver, , tô feliz que você tá bem – o cantor, que usava uma camiseta de botões e listras coloridas e uma calça preta, se recostou na bancada, enquanto o observava, desesperada, pensando que aquilo não poderia ser real. Como diabos um cara conseguia ser tão bonito sem, sei lá, fazer um pacto com as trevas? – E que você parece interessada na minha cara.
- O que você tá fazendo aqui? – Ela perguntou, por fim. Cruzou os braços. – E eu não estou interessada na sua cara.
- Eu vim ver você – ele disse, por fim, resolvendo ser direto também. Ambos estavam em pé, de frente um pro outro. , com a postura ereta, os braços cruzados, a expressão desafiadora – , recostado na bancada, tranquilo, com um sorrisinho sapeca no rosto que a mulher odiava. deu um longo gole na sua cerveja, enquanto sentia o seu coração bater acelerado e não tirava os olhos dos dele, porque jamais se renderia. – Afinal, foi você quem disse que nós estávamos em bons termos, não foi?
Fez um barulho estranho e fechou os olhos com força, frustrada. Depois de três long necks e duas doses de tequila, a sua cabeça já estava ficando nas nuvens e, ao vê-lo ali, na sua frente, aquele cara não mais parecia o cantor distante e inalcançável, mas só alguém que parecia despertar muitíssimos sentimentos confusos nela sem nenhuma razão muito fundamentada. Ela queria gritar. Abriu os olhos de novo, notando que o tal esperava por sua resposta, encarando-a em expectativa como se ela fosse um problema matemático que ele estava louco para resolver.
- Bom, eu não sei se você notou, mas não foi exatamente daquele jeito que aconteceu.
- É, essa é a questão. Por que você faz isso e, ao mesmo tempo, não me deixa ao menos conversar com você?
- POR QUE você quer conversar comigo? – Ela perguntou, num desespero disfarçado de raiva, que acabou se tornando numa guarda mais baixa e manha. – Sério, você acha que por que você me atropelou a gente tem uma ligação, uma conexão sinistra, é isso? Marcou a sua vida ou te emergiu espiritualmente? Você é, na verdade, o maníaco da machadinha? Você tem tesão em masoquismo, você gosta que te xinguem e te ignorem? Você se sente culpado? Eu simplesmente não consigo chegar a uma conclusão – Ela tagarelou, tentando explicar de maneira clara e coesa o que se passava na sua cabeça. Se sentia meio alta e talvez um pouco mais falante que o necessário, conseguia discernir o que estava acontecendo, mas precisava colocar pra fora pelo menos alguma de suas frustrações. Por algum motivo, aquele pareceu o momento correto. Queria entendê-lo. Queria saber o que ele pensava. – Mas eu não sei mais o que fazer. Eu não sei o que você quer.
torceu os lábios, parecendo parar pra pensar em como realmente se sentia em relação aquilo, tentando não rir. Passou a língua por eles lentamente antes de dizer:
- Eu não acho que eu precisaria de um motivo específico para estar interessado em conversar com você – argumentou, simplesmente, com seu sotaque dos infernos e expressão despreocupada. – Você me chamou atenção. Não entendo porque você acha isso tão bizarro. É isso. É assim que as pessoas se conhecem. - Qual parte você não entendeu, pelo amor de Deus? – perguntou, como se ele falasse coisas loucas, e ele sorriu diante da intensidade da garota em falar qualquer coisa, observando-a encolher os ombros, como se não soubesse mais o que fazer.
- Eu não entendi a parte em que você me xinga minha cara mas fala bem de mim por trás – ele começou, com um tom meio sarcástico e meio divertido, enumerando com os dedos, olhando fixamente para o seu rosto. o confrontava com o olhar, como quem não dá crédito para o que ele está falando. – Inclusive, eu não entendi como você teve coragem de falar aquelas coisas sem me conhecer mas, por algum motivo, eu não consegui parar de pensar nessa conversa porque você estava absolutamente certa – continuou, e sentiu o canto de seus lábios darem um mínimo sorriso involuntário e convencido. Se tinha uma coisa que amava no mundo, essa coisa era estar certa. – Eu não entendi porque você não quis aceitar o meu pedido de desculpas e, mesmo assim, faz uma coisa que seria boa pra mim – Ele afirmou, fazendo o número quatro com o dedo. – E, por último, eu não entendi o seu estilo musical. Te achava mais pra um Pink Floyd ou um metal louco com toda essa sua raiva concentrada.
piscou algumas vezes pra ele, admirando a sua habilidade em ser aleatório, mas não parecia convencida. Por mais que ele estivesse ali, com a cara lavada, tentando mais uma vez, por algum motivo do mundo, manter uma conversa com ela, ela simplesmente não parecia acreditar que não tinha nada por trás.
- Pra que você parasse de se preocupar com a possibilidade de um escândalo surgir e me deixasse em paz – ela disse, por fim, suspirando e relaxando os ombros. – E eu já te dei isso, que era o que você queria. Ou se, sei lá, é culpa, você pode ir embora. Não precisa mais se sentir culpado. Eu te perdôo, , por ter me atropelado! – a mulher quase declamou, olhando fixamente nos olhos dele, e gesticulou de maneira intensa.
sorriu, balançando a cabeça pro lado, como quem discorda.
- Eu agradeço imensamente por você ter feito isso, de verdade, apesar de não achar justo com você – deu um passo pra frente, deixando seus corpos mais próximos, mas ainda minimamente distantes. olhou bem nos olhos de , que se sentia completamente exposta todas as vezes que ele fazia isso, mas continuou com a postura reta, esperando que ele continuasse. – Mas não era isso que eu queria, e me desculpe se, de alguma forma, eu dei a entender que fosse.
- Tudo bem. Você ganhou créditos comigo quando admitiu que eu estava certa sobre você ser um babaca – sorriu de um jeito sincero para o rapaz. – O que você quer, então?
- Eu vou te propor um desafio – desviou os olhos dela por um momento, deixando os seus lábios moldarem um sorriso metido e triunfante, de quem sabia que estava indo pelo caminho certo. riu sarcasticamente, sem acreditar na pergunta que ele estava fazendo.
- Você não me conhece, ...
- Tudo bem. Me deixa te conhecer, então – propôs, por fim. E então, voltou a olhar nos olhos dela, em um claro confronto. – Você me dá as próximas horas e a gente vê no que dá.
- Como isso se encaixaria num desafio? perguntou, cruzando os braços e revirando os olhos.
- Eu te desafio a mudar sua ideia sobre mim – Ele explicou. – Se até o fim da noite você ainda não quiser mais olhar na minha cara, eu te juro, eu sumo. Você não vai nem lembrar que algum dia a gente se bateu.
- Você me bateu, no caso.
- O carro te bateu – Ele pareceu mais impaciente dessa vez, querendo que ela aceitasse logo. – Que por um acaso do destino, eu estava dirigindo. Mas não é essa a questão. E aí, se você tiver mudado de ideia, você simplesmente para de me ignorar.É só isso.
Se encararam por alguns minutos em que tentava conter a expectativa e procurava em seu rosto algum sinal de que ele não estivesse sendo minimamente verdadeiro, mas não encontrou.
- Certo. Mas eu tenho regras.
- O que você quiser, milady – ele se curvou um pouco, como quem cumprimenta alguém importante. – Pode dizer.
- Regra número um, se você quiser transar hoje, vá arrumar outra pessoa logo – ela enumerou, do mesmo jeito que ele, e ele riu, assentindo com a cabeça. – Regra número dois, hoje você não é o , cantor mundialmente famoso gatíssimo preocupado com a imagem etc ok? Hoje você pode ser só o .
riu da honestidade de que pareceu não ter percebido o que tinha dito e continuou com a postura impassível.
- A parte do gatíssimo eu não tenho como conter, infelizmente – ele deu de ombros, como quem não pode fazer nada. – Mas gostei de saber que é assim que você me vê. E eu também tenho uma regra.
- Eu não disse que você podia ter regras – , ainda com os dedos levantados, o cortou. estava pronto para retrucá-la quando a garota riu e o empurrou de leve, o fazendo baixar a guarda e rir também. – Tudo bem, eu estava brincando. Você pode ter uma regra.
- Muito obrigada pela permissão, – ele fingiu estar realmente grato, revirando os olhos. – Você tem que se dar o benefício da dúvida.
- Tudo bem, fechado então.
- E como a gente vai selar essa proposta?
- Ué. Com Tequila.



- Tudo bem – assentiu, ao sentarem numa mesa para quatro. Eles tinham um balde com algumas long necks e gelo no centro, e sentavam um ao lado do outro, de frente para que, notou, deu uma piscadela marota para , fazendo-a revirar os olhos ao ver também – fato que passaria despercebido a , se ele não tivesse notado também que o cara que cantava era o mesmo dos vídeos e fotos do seu Instagram.
Mas ele nunca comentaria nada relacionado ao seu dia de stalker louco. – Como você veio parar aqui? E não me venha com “de carro”. Eu sou muito esperta e já previ tudo – ela deu um sorriso convencido e virou-se um pouco pra , que virou-se um pouco pra ela também. Estavam de frente um pro outro, agora.
Devia admitir tinha uma beleza diferente da que estava acostumado a apreciar. O rosto, o formato do corpo no vestido, o modo como deixava seu cabelo meio bagunçado, a boca pintada de vermelho, a maquiagem leve e os olhos demarcados faziam com que ele sentisse uma vontade urgente de olhar para ela todas as vezes que tinha oportunidade.
- A , é claro – respondeu, se aproximando um pouco por causa do barulho, e deu de ombros como quem já sabe. – Eu falei com ela que queria dar um jeito de falar com você e ela me disse que hoje você estaria aqui.
- Você já chama ela de ? – perguntou, rindo, desacreditada. – Pelo amor de Deus...
- Qual é, , já tá com ciúme? – perguntou, convencido, e recebeu uma careta da garota em resposta, que o fez soltar uma risada. – É claro, a gente já é amigo, desde o hospital, eu sou um cara muito legal. Você que não me deu uma oportunidade.
- Para de reclamar. Tô te dando a honra de aproveitar a noite comigo, você deveria estar agradecendo.
- Aí é que você se engana – disse, tomando um gole da sua cerveja. – Eu estou te dando a honra de aproveitar uma noite comigo.
fez questão de gargalhar na cara dele.
- Tô achando bonitinho você pensar que vai ganhar a aposta. Continua – ela sorriu com escárnio para o cantor, que molhou os lábios, sem retrucar.
- Não foi uma aposta, , foi um desafio – corrigiu, espelhando o sorriso dela. – Mas se fosse uma aposta, eu com certeza ganharia. era, sim, um pouco competitivo, mas naquele momento, ele só queria instigar e ver qual seria a sua reação. Dar a ela algo que ela não fosse esquecer facilmente.
- , você com certeza vai se arrepender disso – a mulher a sua frente ajeitou a postura, passando a trocar o sorriso para um desafiador. – Vamos, manda aí, qualquer coisa.
- Você não quer...
- Anda, .
- Tudo bem, vou pegar leve com você no começo – olhou ao redor um pouco e parou no rosto dela, que o encarava com expectativa. – Eu aposto que você não vira essa cerveja de uma vez só.
fez uma cara de pouco caso, vendo que sua cerveja estava quase cheia. Deu de ombros e virou. observou o busto da mulher se levantar na medida em que ela inclinava a cabeça pra trás e colocava na boca a garrafa. A pequena gota que começou a cair no canto do lábio e fazendo uma trilha do queixo até o pescoço que ele acompanhou assiduamente. No começo ela ia bem, mas aí, foi começando a ficar mais difícil, riu e ela quase riu também, mas se esforçou para manter-se concentrada, e por fim, deu o último gole, batendo a garrafa na mesa e colocando a mão na boca. assentiu em aprovação, rindo, e ela riu também, dando um empurrãozinho nele de lado.
- Muito fácil...
- Você foi muito espertinho tentando me sabotar com a sua risada.
- É contagiante, eu sei, você pode admitir – ele deu de ombros e a garota virou os olhos. – E você, o que me manda, ?
- Espera, eu ganhei a aposta. Eu não vou ganhar nada?
- Um Big Mc.
- Ok, justo, mas eu prefiro um McTasty – ela deu de ombros. – Eu aposto que... Você não sobe nessa cadeira e rebola gostoso.
deu uma gargalhada até ver que a garota falava sério. Ela olhava pra ele, com a sobrancelha arqueada, e ele fez um pfff com a boca, se pondo de pé na cadeira, olhando para os lados, e quando o fez, se levantou também, incrédula, porém no chão, e então, ele fez uma espécie de twerk em cima da cadeira por três segundos, do nada, no meio do bar. arregalou os olhos, rindo surpresa da dança e puxando-o pelo braço para que ele descesse da cadeira logo. a encarou, enquanto continuava a rir e ambos sentaram de novo.
- Eu. Não. Acredito – ela tentava falar, mas não conseguia parar de rir. – Eu nunca vou esquecer esse momento.
- Mas e você, como veio parar aqui? – perguntou, realmente interessado. Pegou mais uma cerveja, visto que a sua já tinha terminado.
- Eu sempre quis fazer algo relacionado ao audiovisual – a brasileira sorriu ao mencionar a sua verdadeira paixão, o que não deixou passar. Havia notado que ela gostava de fotografia e da desenvolvimento de vídeos por causa do seu Instagram, mas não fazia ideia que queria seguir isso pra vida. – Desde criancinha. Quando eu fiz treze anos, minha mãe se casou com o Mark, que é americano, e nós viemos morar em Long Island.
se perguntou o que havia acontecido com o seu verdadeiro pai. quis saber porque UCLA e não NYU, já que sua família morava em Nova Iorque. quis saber se ela sentia muitas saudades do Brasil. Mas achou que eles não estavam lá ainda.
- Faz quanto tempo que cê tá aqui, então? Uns seis anos?
- Vão fazer dez anos agora, em setembro.
- Caraca, é bastante tempo. Você tá na faculdade ainda? – perguntou, meio sorrateiro. não tinha cara de que ainda estava na faculdade, ela parecia muito mais com uma empresária bem sucedida. – Você fez comunicação audiovisual?
- Não, não – ela deu uma risada pelo nariz. – Eu terminei faz mais de um ano, quase dois. Fiz Filmes, Televisão e Mídias Digitais.
- Você se graduou em Cinema? Já viu o filme Dunkirk? – Perguntou, sarcástico, o que fez revirar os olhos, visto que já tinha comentado sobre o filme no episódio do hospital. – Você tem que admitir que só queria ser chata. Dunkirk se tornou um clássico cinematográfico com a minha contribuição.
- Sim, eu já vi, – um sorrisinho de canto de lábio. – Você é muito amostrado. Clássico cinematográfico, pelo amor de Deus.
- E o que realmente achou?
- É um filme muito interessante e bem construído. Atuações ok. Direção fantástica. O Nolan é realmente um dos meus preferidos, acho que só perde pra Greta.
- Ah, qual é, , admite, eu fui incrível – retrucou, sem comprar o discurso dela. – Nada que você me disser vai me provar que acredita no contrário.
- Eu já vi melhores, ué.
- Me diga um – ele fez o um com o dedo, usando bastante entonação na última palavra da frase.
- Você realmente quer entrar nessa lista?
E riu pelo nariz, negando com a cabeça.
- Tudo bem. A gente pode discutir isso de novo depois – Ele torceu o lábio. – Você gostava do seu curso?
- Nossa, eu amava demais – comentou, se inclinando um pouco pra frente, empolgada com o assunto. – Foi a melhor decisão que eu já tomei, de certeza. Eu tinha dezessete anos, estava sozinha na Califórnia com um apartamento só pra mim, fazendo o curso dos meus sonhos na UCLA. Eu sou basicamente uma comédia romântica dos anos noventa... até que eu deixei de ser.
- E o que você é agora?
- Talvez um Friends misturado com Grey’s Anatomy? The OC podia ser também, se eu fosse adotada por um casal rico do Orange County e tivesse uma overdose ao invés de aparecer em Long Island toda aleatória e com uma franja emo. Você sabe alguma série com os Hamptons?
- Bom, tem As Branquelas – riu pelo nariz. – Mas Grey’s Anatomy não é uma série de médicos meio trágica?
- Você me atropelou. Eu fui no médico – revirou os olhos ao fazer uma expressão cética, mas manteve o sorrisinho no canto do lábio. – Em Grey’s Anatomy, tudo dá errado até que você se encontra com duas opções: 1) dá um pouco certo até dar errado de novo, 2) você morre. Eu quase morri, então como eu não morri total, acho que essa opção foi cortada por hora. Mas também tô esperando o momento em que vai dar um pouco certo, porque tô na parte da temporada que dá tudo errado já faz um tempo.
- Você não quase morreu, , você ficou com o joelho ruim por uns quinze dias.
- Ei, você não tem direito de opinar na minha série. Com licença?
- Tudo bem, tudo bem. E qual série você acha que eu seria? – perguntou, curioso e sorrateiro. pareceu analisá-lo por um tempo, com os braços cruzados.
- Você é Gossip Girl com The Voice com qualquer outro filme do Adam Sandler.
gargalhou.
- Você só colocou o Adam Sandler pra me encher o saco. E foi X Factor.
- Qualquer coisa que te faça dormir a noite, rockstar – ela deu de ombros, rindo também. – E você? Como foi esse rolê com Simon Cowell?
- Eu fiz um metade de um período de faculdade, só – , agora, estava totalmente inclinado pra ela. – Entrei em administração de empresas, mas aí, do nada, eu resolvi tentar o X Factor, só por tentar mesmo. Caraca, isso foi a... nove anos atrás? Normalmente, eu sempre tenho a sensação de que foi há uns três.
- Você participou de uma boyband! falou, empolgada. – Nossa. A música de vocês era tão ruim que eu gostava.
riu.
- Achei que você “mal sabia quem eu era até semana passada”.
- Eu posso ter tentado te irritar um pouco...
deu de ombros, como quem já sabia, mas continuou:
- Foi um projeto interessante – o cantor pareceu demorar um pouco para achar a palavra certa. – Não é o tipo de música que eu paro pra escutar, também. Mas foi muito importante pra pessoa que eu sou hoje.
- O que você acha que mudou? – ela perguntou, realmente curiosa.
- As prioridades, talvez, os limites, o tipo de músico que eu quero ser. As coisas não parecem mais ser tão extremas quanto antes.
- É muita pressão, né?
- É. Principalmente por ser um público mais novo e a gente ter que dar bem mais satisfação...
- E como você começou a se interessar por música?
- Minha mãe. Ela me ensinou a tocar piano quando eu tinha uns seis anos – deu um sorriso ao falar da mãe. – Ela me ensinou a cantar, também. Aprendeu tudo com a minha vó, que aprendeu tudo com a mãe dela – explicou. – Minha mãe cantava em barzinhos, tipo esse aqui. Foi assim que ela conheceu o meu pai.
não soube o porquê, mas gostou do olhar que a lançou pra ele quando ele contou essa parte da história que, por algum motivo, era a primeira vez que ele chegava nesse ponto com alguém que não fosse minimamente próximo. Mas saiu naturalmente.
- Meu DEUS! – A garota parecia muito empolgada. – A sua mãe é a mãe mais legal de todas. Seu pai ficou caidinho por ela, né?
assentiu veemente.
- Não tem muito como não se apaixonar por ela, na verdade – encolheu os ombros. – Encontrou com ela tocando um dia e ficou de quatro na hora. Eles passaram um tempo juntos, mas ela não queria nada tão sério. Até que eu cheguei sem querer.
riu, parecendo inerte.
- E aí?
- E aí que ela acabou aceitando o pedido de casamento dele depois da terceira tentativa. E eles tão aí até hoje, vinte e cinco anos juntos. Minha mãe ainda toca, às vezes, no bar do lado de casa, que por acaso é deles hoje em dia, lá em Manchester. o encarou, perplexa.
- Eles, com certeza, zeraram a vida. Eles tem cerveja de graça! Eles tem um bar só pra eles!
riu e, ao arquear a sobrancelha, pareceu ter uma ideia incrível.
- Beleza. Já sei o que eu quero apostar – Ele disse, do nada. – Eu aposto que você não vai ali na frente do palco e dança do jeito mais estranho que você conseguir. Completamente fora do ritmo.
No caso, estava tocando Get Lucky.
arregalou os olhos.
- Você acha que eu vou cair no seu joguinho?
- Bom, se você quiser amarelar...
E então, se prontificou a levantar. Puxou o cantor pela mão, e eles pararam na frente de , que os encarou como quem não entende NADA, e então, enquanto começava a dança, ficou só olhando e rindo, de longe, se balançando casualmente, enquanto observava meio maravilhado os passos mais estranhos que ele já tinha visto, como se fossem as únicas pessoas no bar – além do fato de ter performado alguma coreografia de High School Musical quando não sabia mais o que fazer e como não se encaixava na melodia da música de jeito nenhum, ele abaixou a cabeça, colocou as mãos no joelho e gargalhou.
- Você é a pior dançarina da vida inteira – comentou e bateu nele de lado, o cantor levantou os olhos pra ela, ainda rindo, e fez o mesmo passo que havia feito em cima da cadeira, do mesmo jeito, e então, foi quem gargalhou. Foram interrompidos por uma que parou na frente dos dois com a maior cara de quem não está entendendo nada.
- De todas as coisas que eu poderia imaginar que estaria acontecendo quando eu chegasse – olhou de um pro outro, incrédula. – Essa com certeza não estava nem perto de ao menos estar na lista.
Os dois foram parando de rir aos poucos e abraçou a amiga, cumprimentando-a.
- Você demorou DEMAIS, – reclamou. – A gente teve que se entreter de outras formas.
- Daí a gente decidiu que fazer apostas era a melhor alternativa – Foi a vez de cumprimentá-la, que colocava uma das mãos no rosto, em negação. – É bom te ver de novo, .
- Vem, vamo sentar, o já deve estar terminando – puxou os dois pela mão, voltando para a mesa onde estavam. se deixou ser levado pela brasileira, ainda rindo um pouco. Ele não sabia ainda, mas aquela noite – aquela seria uma noite que ele jamais esqueceria.


5.



- Tá, tudo bem, que? – perguntou, enquanto terminava de contar sobre a história do rapaz que ela tinha acabado de conhecer. – Ele postou um story seu no primeiro encontro?
E assentiu com uma expressão incisiva ao pegar sua cerveja. havia notado que ela também era bem intensa toda vez que gesticulava.
- E ainda teve a audácia de me marcar – mostrou o celular para e , que estavam na sua frente. O cantor mantinha sorrateiramente o braço apoiado na cadeira de , que sentava ao seu lado, mas isso não queria dizer nada demais. – Olha isso que ele escreve aqui embaixo. “Quão sortudo eu sou?” e um emoji apaixonado.
Eles observaram a foto, em que sorria para o próprio celular em que estava mexendo, olhando pra baixo. Dava pra ver que eles estavam num restaurante legal e tinha um jarrinho com uma flor na mesa. Os dois deram uma risadinha.
- Foi a primeira vez que vocês saíram? – perguntou, rindo debochado. – Muito emocionado, porra...
- Foi sim, e o pior é que ele é tão bonito, mas só sabe falar de Whey Protein e UFC. Fez um escândalo quando eu pedi a minha Coca. Inclusive, vou pedir uma coca.
- Ele pode ter realmente gostado de você – falou, achando nada demais. Para , nada nunca era nada demais, havia notado. Ele passava uma vibe mais deboísta de quem não liga pra nada.
Fazia pouco tempo que o tal havia sentado a mesa, eles se cumprimentaram cordialmente e continuou a contar a história do seu date, o rapaz com quem ela havia saído antes de chegar no Puzzle. Ele, até então, parecia ser tranquilo e divertido, o tipo de pessoa que não levava muitas coisas a sério. E também havia gostado bastante do pocket show que ele havia acabado de apresentar no bar que o fizera lembrar-se de seus pais.
A verdade é que, naquele momento, não se sentiu completamente de fora, mesmo estando num grupo já formado. Era como se ele estivesse conversando com pessoas que ele conhecia há algum tempo. Como se fizesse parte. Como se não fosse uma aberração de outro planeta com quem as pessoas têm que medir as palavras e fazer esforço pra agradar e voltar completamente a atenção para. – Já já sai, , foi só um story.
- É claro que não foi, , e se tem um cara muito gato que segue ele e o nosso destino foi interrompido por conta desse maldito story?
- Eu acho é pouco, . Quem mandou me enganar? – observou rir sarcástica depois de ter feito o comentário e deu uma risadinha baixa também. Coisa que estava acontecendo com frequência. Achar interessante tudo que ela falava.
- Você não pareceu se importar muito com isso de ser enganada quando estavam dançando sozinhos como dois hippies doidos de doce no meio do bar – quem retrucou. – Quer dizer, você parecia uma hippie drogada dançando High School Musical, os passos do foram encantadores, devo dizer. Inclusive, o que diabos foi aquilo? Você realmente subiu na cadeira ou foi um delírio coletivo? Porque o Carlito disse que também viu, aí eu me senti melhor comigo mesmo.
gargalhou e fechou a cara pro amigo que tinha dito que dançava mal, usando o dedo médio, enquanto deu de ombros, negando com a cabeça.
- Eles apostaram etc. Não tente entender.
- A achou que eu fosse amarelar – deu de ombros. – Mas ela não sabe do que eu sou capaz ainda.
- Caralho, , a gente achou alguém tão competitivo quanto a . Fudeu.
- Vocês estão perdendo o foco! A gente PRECISA falar sobre o story!
- , foi só um story! Para de surtar. Qual é o problema?
- O problema é que ele não é sortudo, ué, porque eu não estou com ele – explicou, como se fosse óbvio. – Ninguém posta um story desses com alguém que conhece há 5 minutos. É tipo, regras implícitas do primeiro encontro. Todo mundo sabe disso.
- Ou, talvez, ele queria fazer ciúmes em alguém – pontuou, desconfiada. – Será que ele tem uma ex?
- Sei lá. Enquanto ele falava eu só ouvia “blá, blá, blá, como 470 ovos por dia, blá”.
- Agora você sabe como eu me sinto conversando com vocês – sorriu sarcástico e riu. – Exceto com você, , é claro. Quando você fala é tipo uma orquestra de anjos ou a Oitava Sinfonia de Beethoven.
riu, ouvindo as duas mulheres ao seu lado gargalhar também, e eles brindaram as cervejas. Observou que virou um pouco os olhos, mas continuava com um sorrisinho de canto presente.
- A mesma sensação que eu tive enquanto você cantava, .
- Eu não to acreditando nessa broderagem aleatória...
- Me deixa , hoje é o melhor dia da minha vida, PORRA! A gente tem que tomar um shot. Vou chamar o Carlito pra tomar com a gente. CARLITOOOO!
- Meu bar está ficando muitíssimo importante – Carlito, ao chegar na mesa com o pager em que anotava os pedidos, estendeu a mão para , que segurou num cumprimento cordial e prontamente sorriu. – Yo soy Carlito.
- , prazer em te conhecer, Carlito. De onde você é? – Perguntou, se mostrando realmente interessado, ao notar o sotaque e a língua estrangeira que tinha utilizado.
- Nascido em Costa Rica, mas sou do mundo todo, meu amigo – Carlito respondeu, em toda sua pompa simpática e animada, e todo mundo da mesa pareceu se animar também. – E pra selar a sua vinda nesse bar, bem aqui, um shot da melhor Tequila que a gente tem.
- Só o que ganha Tequila nesse bar, é isso? Tá me desprezando, Carlito? – reclamou, meio manhosa, cruzando os braços. – Achava que nosso amor era de verdade.
Carlito colocou a mão no coração, fingindo um ataque, e todos riram quando ele voltou a si com um sorriso largo no rosto e todo o charme que carregava.
- Mi amor... Tens mi corazón – Ele disse, gesticulando, enquanto torcia o lábio, se fazendo de desacreditada. – Toma, , mas só dessa vez, porque sabes que és mi favorita.
revirou os olhos, enquanto deu uma risadinha gostosa e tomou a dose. riu também, negando um pouco com a cabeça, gostando de observar a relação que eles mantinham com Carlito, que parecia tão próximo como um deles. Mas não podia negar que ele entendia Carlito com todas as letras.
Não tinha muito como resistir a nada que a pedisse, com aquele sorrisinho esperto de quem sabe que consegue exatamente o que quer e o cabelo longo que caía pro lado...
- Esse só dessa vez com a tá rolando há um ano e meio já, desde que você passou a trabalhar aqui, Carlito.
- Você é um pé no saco. Tá desocupado? Não tem mais o que fazer?
- Pelo menos eu tenho um emprego.
A brasileira se deslocou e deu um murrinho no braço dele. De novo.
- Você devia chamar a para cantar com você uma música – Carlito deu a ideia, apontando para . – Ela ganha um emprego, tu ganha o coração do público com esse rostinho.
gargalhou, e bateu um high-five com o garçom costa riquenho, que deu risada animada logo depois, como quem ri da própria piada.
- Carlito, por que você quer mandar todo mundo embora do meu bar? – brincou. – Você sabe que é verdade, . Só não é pior que a .
, que estava mexendo meio desesperada no celular até então, levantou a cabeça, sem entender muito, ao ouvir seu nome.
- Ei!
- Eu bem me lembro da noite de karaokê em que essas duas não queriam largar o microfone – O garçom deu uma risada, balançando a cabeça em negação, enquanto colocava a mão no rosto com vergonha alheia. travou o celular na hora, rindo também. direcionava o olhar para todos eles, interessado, querendo saber o que havia acontecido, com a expressão simpática e um meio sorriso, se perguntando o que diabos havia acontecido e, por um segundo, sentindo vontade de ter participado daquele momento.
- O que aconteceu nesse karaokê?
- Vai dizer que você não amou a nossa performance, Carlito? – perguntou como quem não acredita. – Esse bar nunca esteve tão movimentado quanto naquele momento, pode admitir!
- É, de pessoas desesperadas! pareceu concordar, enquanto Carlito ria e lhe dava uma cotovelada de lado. – Porque você e a sóbrias já precisam de umas boas doses de semancol. Imagina bêbadas.
- Imagina bêbadas cantando Lonely do Akon.
- A me OBRIGOU a cantar essa música!
- Eu achei Lonely a escolha perfeita – comentou, assentindo firmemente com a cabeça para as meninas. – Essa música é um CLÁSSICO.
- MUITO obrigada, agradeceu, gesticulando de maneira bem intensa e revirou os olhos. – Tá vendo, ? Eu sou a rainha da discoteca! Você devia me agradecer!
- Não pareceu que você tava obrigada não, . – acrescentou. – Às vezes, quando eu to com deitado na cama e não consigo dormir, sou assombrado pela sua voz gritando “So lonely” enquanto a tentava manter o tom no último refrão.
e se entreolharam e gargalharam juntos, ouvindo o músico continuar: – , elas não queriam largar o microfone pra deixar outras pessoas cantarem. Lembra, , que você bateu na minha cabeça com aquele protótipo de cacete? Eu juro que quis te jogar no lixo aquele dia.
- E eu, tive que correr atrás de ti, guapa – Carlito riu. – A tentando brincar de pega.
- Se não lembro, não fiz – ela deu de ombros. – Mas eu lembro de querer vomitar depois.
- Antes tivesse ficado só na vontade – deu um sorriso sarcástico pra , que o espelhou, e então o rapaz soltou um sorrisinho sapeca.
- No fim, pegou pelas pernas como um saco de batatas e Carlito conseguiu me conquistar com sua lábia costa riquenha.
- Carlito, eu exijo que você tome esse shot com a gente agora – chamou, levantando seu copinho. – Por minha conta, dessa vez.
Carlito, então, depois de comemorar, colocou os shots pra todo mundo e eles viraram de uma vez, dando boas risadas logo depois.


- A deu em cima de mim um dia que eu tava tocando violão no café da faculdade, acho que foi no meio do primeiro período, né? – tentou confirmar olhando para , já que, aparentemente, eles começaram juntos na faculdade.
Estavam, agora, conversando sobre como os três haviam se conhecido, depois de algumas horas discutindo a vida amorosa de e conversando com Carlito quando ele podia dar uma paradinha, vez ou outra. estava realmente curioso para saber como havia acontecido e não achou que fosse acabar se divertindo tanto quanto estava naquele momento. Desde o começo havia simpatizado com , mas quando chegou, achou que ainda fosse precisar de certo trabalho para começar a se abrir – o que acabou sendo exatamente o contrário. Estavam juntos já fazia um tempo e tinha no peito uma sensação diferente da que ele vinha sentindo nos últimos tempos. Estava numa fase mais antissocial, meio introspectiva, precisava admitir. Todas as pessoas que ele conhecia eram chatas e arquitetadas demais e ele só queria poder conversar sem ter que pensar 10 vezes antes de montar uma frase – porque não podia falar o que queria. Porque não se sentia confortável em relaxar. Porque desconfiava de todo mundo que chegava perto dele. Porque bajuladores passavam a encher o saco depois de alguns anos.
Mas ali... Pela primeira vez em tanto tempo, não era o foco e estava confortável e em paz com isso, por mais incrível que parecesse. Observou revirar os olhos, enquanto se gabava. Riu pelo nariz da história.
- Nossa, você ama essa fic que você inventou, né? Eu tive um surto psicótico no dia, você sabe, às vezes acontece com as pessoas.
- , todo mundo sabe que você tinha uma paixonite contida por mim. Todo mundo sabe.
- Ninguém sabe, otário, porque é mentira – ela retrucou. – E se quer saber, eu te achei bonito de primeira, mesmo, mas de que adianta ser bonito se é um completo bunda mole?
- O que aconteceu depois disso? – perguntou, tomando um gole de sua cerveja logo depois, porque realmente queria saber, e – que parecia estar amando observar aquela interação entre e , quem respondeu, olhando pra ele como quem gosta de provocar.
- E aí que nós saímos de lá os três junto com o Nate, eu acho, né? E a desistiu nos primeiros cinco minutos – Riu. – Sendo que o é meu vizinho de porta, então ele foi a primeira pessoa que eu conheci aqui em LA, a gente sempre tava junto, íamos juntos pra UCLA. Depois desse dia aí que a gente saiu com a , a gente só não deixou de sair... até hoje.
- O me curou dele mesmo, como diria a minha personagem injustiçada, Emma Morley. Descanse em paz.
- Você sabe que a Emma é secretamente apaixonada pelo Dexter desde o começo, não sabe? – sorriu, triunfante. – Só comprovou o meu argumento.
- E você sabe que o Dexter é um filho da puta fracassado, não sabe? – sorriu ainda mais largo. Eles se encaravam em desafio quase perto demais para segurança: , com um sorriso desleixado e triunfante, e parecia demonstrar estar indiferente, mas mordia o lábio inferior com força enquanto direcionava pra ele um olhar enérgico e desafiador.
- Danem-se Emma, Dexter ou qualquer analogia com personagens fictícios que vocês estejam querendo fazer ao invés de dizer exatamente o que pensam, vocês dois são idiotas – cortou-os, por fim, com a língua meio embolada. – O que importa é que eu sou a cola que gruda esse grupo inteiro e eu aposto que você, , não sobe ali no palquinho e canta alguma coisa.
E então, dez segundos de tensão em que pareceu considerar a possibilidade de negá-la – era o mais sábio a se fazer – e se passaram. Se alguém o gravasse ali, o bar ficaria um caos e ele nunca mais poderia voltar, bem como a bronca que levaria de Fletcher por cantar de graça aleatoriamente. Mas o seu orgulho jamais deixaria que ele negasse.
- , quando você quiser realmente me lançar um desafio, você me chama, ok? – virou o resto de sua cerveja e levantou-se, tentando não pensar muito nas consequências do que faria. – , você me daria a honra de me acompanhar?
E então, se levantou, num impulso rápido e ansioso, com uma expressão surpresa. Os três riram um pouquinho e ele pigarreou pra disfarçar.
- Pff. Não é como se eu tivesse muito ocupado...
E os dois andaram até o palco conversando sobre possíveis músicas que eles cantariam. Pegaram os dois violões – o que usava e o back up, caso algo desse errado com o primeiro, ou alguma corda estourasse – e decidiram que faria uma base e o solo, bem como, tocariam 3 músicas. Na primeira, cantaria e faria a segunda voz. Nas outras duas, o contrário.
Conversaram por alguns minutos, testaram rapidamente os tons e decidiram que o improviso seria bom o suficiente. estava acostumado em improvisar quando alguém pedia uma música num bar, e , bom, era – simplesmente estava no sangue. Chamaram o cara do cajom e se colocaram no palco.
Assim que subiram, as pessoas do bar começaram a bater palmas e se animar, alguns gritinhos e olhares surpresos se fizeram presentes. sorriu, agradecendo, e cumprimentou as pessoas, enquanto se sentava num banquinho ao lado de .
- E aí, galera. Tudo bem? – sorriu, e uma onda de “uuhh”’s e “gostoso” começou a subir, bem como umas mãozinhas com celulares. Ele riu. – Eu sou o , pra quem não me conhece. E eu gostei muito do bar de vocês, de verdade. Quero vir aqui mais vezes. Por isso, eu queria pedir que esse pequeno...
- Momento? – deu de ombros, tentando completar uma palavra que não conseguia encontrar.
- Isso. Momento. Ficasse, sabe como é, só entre nós – ele deu uma piscadinha, e as pessoas pareceram entender o recado pois baixaram seus telefones. – Para que eu possa voltar mais vezes e ter momentos espontâneos, tipo esse. E de graça. Nem vou cobrar couvert hoje.
E uma onda de risadas e gritos animados inundou o bar de novo, assim como algumas palmas soltas. Um em especial, inclusive. O olhar de estava sobre ele e não se desgrudava. Ele sorriu pra ela e a encarou por um momento.
Um sorriso mais específico do que os últimos que ele tinha dado. Era um sorriso instigante. Ela levantou a longneck pra ele, incentivando-o a continuar, com uma sobrancelha arqueada. A expressão em um contínuo desafio.
- Agora vai ser um pouco diferente, a gente vai improvisar aqui e cantar umas músicas aleatórias que a gente gosta – Foi a vez do de falar. – E a gente decidiu começar com Come Together.
As vozes deles se encaixavam perfeitamente, enquanto , um pouco nervoso, mas ao mesmo tempo nunca antes tão a vontade, se deixava levar pelo que ele mais gostava de fazer e sabia que fazia bem. O ambiente daquele bar era aconchegante, pequeno e o fazia sentir-se acolhido e em casa – a voz de , grave e limpa, exalava a confiança e a tranquilidade de quem parecia fazer aquilo há muito tempo, mesmo que não houvesse cantado essa música profissionalmente antes, e a sensação que teve ao cantar com ele foi de segurança, sintonia e empolgação. gostava de improvisos, e a sua voz, rouca e rasgada, parecia surtir um efeito de encaixe. Foi assim também por Lonely Boy e então, terminaram com Elephant Gun.
Por algum motivo, a última música pareceu chamar mais a atenção de – de quem ele não havia tirado os olhos –, pelo que havia notado. Ela o encarava como se não houvesse outra pessoa no bar e ele retribuía sem deixar a desejar – ambos presos numa troca secreta que, para eles, ninguém mais podia perceber. O cantor claramente gostava de ter toda a atenção do ambiente voltada pra ele – mas a atenção de ... com certeza valia mais que as outras. Ele só não havia entendido o porquê ainda.

Quando terminaram o show e se despediram do palco, e passaram um tempo conversando no balcão do bar, com o pretexto de pegar mais algumas cervejas. perguntou sobre o futuro musical de e este o contou suas ambições e onde queria chegar. Conversaram por um tempo sobre artistas que admiravam e compartilhou um pouquinho sobre sua experiência na indústria.
não lhe passava a sensação de ser um oportunista (esses, o famoso conseguia enxergar de longe) como a maioria das pessoas com quem conversava sobre isso. Ele, na verdade, parecia mais um verdadeiro apaixonado do que qualquer outra coisa, um entusiasta e eterno otimista – podia sentir a verdade nas palavras do rapaz quando este disse que jamais deixaria de fazer música, mesmo que tivesse que tocar em bares pelo resto da vida, o que não lhe parecia a pior idéia do mundo.
E então, quando viu uma oportunidade de direcionar o assunto, pareceu pigarrear, meio nervoso.
- A vai me matar se souber, mas eu vou falar mesmo assim – disse, dando de ombros, virando sua cerveja em mais um gole. – Porque você é suave e vai entender.
- Pode falar. Sem crise.
- A não parece, mas é a melhor pessoa que você vai conhecer no mundo todo – ele encolheu os ombros, meio bêbado e gesticulando um pouco, mas ainda sim, de maneira coerente. – De verdade, e eu posso provar. Ela parece meio durona, chata e antipática, ácida, inacessível e respondona pra caralho, cheia de cricri etc, mas tem o coração do tamanho da Costa Oeste.
riu pelo nariz da referência, assentindo para que continuasse, sem entender muito bem onde ele queria chegar.
- Ela me conta tudo. E eu sei que você insistiu muito pra vê-la.
Assentiu, deixando que ele falasse. havia aprendido com o tempo que esse tipo de conversa era importante e não podia negar a intencionalidade que o havia feito chegar ali.
- E eu não preciso protegê-la, sabe, porque ela faz isso muito bem, você notou – e então os dois riram, trocando um olhar cúmplice e concordando. – Mas eu sei que você vai entender o que eu tô falando. Tipo. Ela passou por muita merda nos últimos meses e não precisa de mais uma coisa pra lidar agora, e você, hm, não é um cara, hm, digamos que tenha uma vida comum, então...
E quando iria interrompê-lo, não deixou, estendendo a mão pra ele, pedindo para continuar.
- E eu não tô te acusando de nada. Juro. Eu só queria dizer pra você ser claro com ela independente do porquê de você estar aqui. Se você está interessado, diga pra ela. Se você quer ser apenas amigos, diga pra ela. Se você só quer dar uns pegas, tá tudo bem, só diga pra ela. Saiba o que você quer e diga.
assentiu e não achou que nada mais precisasse ser dito. O único problema nisso tudo era que ele não fazia idéia do que queria.
- Tudo bem, . Eu entendo.
- Me desculpa se eu fui um otário e tô passando dos limites. Realmente te achei um cara massa e tô feliz que você se importou em ficar de bem com a depois de tudo que aconteceu.
também não sabia o que estava fazendo ali, também, e não queria necessariamente pensar que precisava ter um interesse específico além de, apenas, deixar acontecer. Não queria decidir. O que sabia era que queria vê-la de novo. Queria sair com eles de novo e queria conhecê-la mais. Queria participar da sua vida de algum jeito. Não se estava puto com o por ter falado essas coisas – afinal, entendia, que toda a insistência havia sido minimamente estranha, e entendia que era famoso e isso sempre complicava tudo, mas não tinha intenção nenhuma de ser um babaca de novo.
- Não foi. Acho legal que vocês são tipo uma família – assentiu. – Eu me diverti muito com vocês hoje e quero poder fazer isso mais vezes, mas acho que é isso por enquanto.
Eles apertaram a mão um do outro e deram um abraço típico de homens antes de voltar pra mesa onde estavam.


.


As did I, we drink to die, we drink tonight
Far from home, elephant guns
Let’s take them down, one by one
We’ll lay it down, it’s not been found, it’s not around
Let the seasons begin



Algo mudou dentro de sobre a visão que tinha de quando o ouviu cantar sua música favorita, o hino de sua vida. Algo mudou dentro de ao vê-lo fazer aquilo que mais parecia amar no mundo. Algo mudou dentro de . Disso ela tinha certeza.
Ela estava um pouco alta, sim, mas aquele não parecia ser o que ela se lembrava – ou pelo menos a imagem que ela havia criado dele. O com quem ela havia passado a noite tinha cheiro de roupa fresca e nenhum cricri de gente rica e famosa, tinha uma voz rouca e conversava sobre coisas reais. O que ela tinha conhecido era uma pessoa normal, que se interessava em ouvir o que ela tinha a dizer e que apenas queria se divertir. Ela jamais admitiria em voz alta que gostava daquele , no entanto.

And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the night, all night, all night
And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the silence
All that is left is all I hide


E com isso, eles terminaram o show. Demoraram um tempo conversando juntos, provavelmente sobre música, numa bancada do bar antes de voltar pra mesa.
Enquanto eles não voltavam, e não pareceram ver o tempo passar enquanto se divertiam, bêbadas, e conversavam sobre coisas aleatórias. Estavam no meio de um papo bizarro sobre possíveis planos de viagem quando os outros chegaram, e eles seguiram o papo tranquilo até, mais ou menos, umas quatro da manhã, quando decidiram que estavam bêbados demais e precisavam ir pra casa.
Todos se despediram, pagando a conta dividida por quatro. No fim, pagou todos os shots que o Carlito havia oferecido pra ela por conta da casa, porque era o que ela sempre fazia. Saíram do bar, atravessaram a rua e e se despediram de , entrando no prédio. , no entanto, resolveu ficar com ele mais um pouco até o carro chegar. Ele morava num condomínio um pouco longe do centro de Santa Mônica, em Hollywood Hills.
- E aí, , qual foi o veredito? – ele perguntou, enquanto estavam sentados na escadinha da entrada do prédio de , lado a lado. Pertinho. – Eu sei que você me amou.
Ela riu um pouco, encolhendo os ombros, sem querer pensar muito no que dizer. Levantou-se, então, vendo fazer o mesmo, ao notar que seu carro tinha chegado.
- Eu sou difícil, , você sabe...
- Tudo bem, , tudo bem, mas eu ainda vou conseguir te fazer admitir.
Ele sorriu pra ela, em alguns segundos que se encararam, mordia o lábio sentindo algo diferente na boca do seu estômago, então, virou o olhar pro lado e pigarreou.
- Bom, seu cara... Qual é o nome dele mesmo?
- Tim.
- Tim já está aí. Bebe água antes de dormir pra não acordar morto.
Ele assentiu, com uma das mãos na nuca e um sorriso terno.
- Eu te aviso amanhã, então, meu paradeiro.
sabia que ele tinha soltado uma verde.
- Você pode tentar. Quem sabe eu não te respondo.
E com isso, ela se virou e entrou até a porta do seu prédio, deixando para trás um que a observou em cada segundo que sua vista pode alcançar, e então, foi embora.


6.

Mas não havia mandado o seu paradeiro, nem no dia após, nem durante a semana. E era orgulhosa demais para tomar qualquer iniciativa. Não era um cantorzinho famoso metido a estrela do rock mela cueca que a faria correr atrás.
Não entendia o porquê de estar esperando tanto pela notificação, no entanto – fazia tempo que ela não sentia esse tipo de coisa. A espera. A ansiedade. A expectativa.
Quase três meses que tinha terminado com Travis e eles não tinham estabelecido nenhum contato – o que realmente soava estranho, visto que conversaram todos os dias pelos últimos dois anos e pouco, quase três. Mas ela o havia bloqueado em todas as redes sociais desde o primeiro dia, depois de muito chororô, surtos de raiva em que quebrou um vaso na parede da sala (deixando uma marquinha eterna no fundo branco e uma muito puta, por sinal) e algumas stalkeadas aleatórias. Ele tentava contatá-la, vez ou outra, mas ela ignorava prontamente.
Não estava pelos cantos se lamuriando, também, já havia passado dessa fase. Dois caras do Tinder lhe renderam dois encontros únicos bem ok. Com um, tinha até conseguido chegar a ter uma rapidinha de boas no carro, e foi legalzinho, mas só de pensar em vê-lo de novo sentia vontade de fingir que estava com febre e nunca mais voltou a respondê-lo. Com o outro, levantou-se da mesa brava e impaciente depois de vinte minutos de conversa porque o apoio do rapaz a Trump era absurdamente broxante, e mais do que isso, irritante num nível em que ela não conseguiu ouvir mais nada que o rapaz falasse depois da frase “Bom, eu ainda acredito que ele era a melhor opção pra economia mundial”, quando engataram um assunto sobre ser brasileira e, no caso, imigrante. Patético. era uma entusiasta de debates políticos, sim, da liberdade de expressão, mas por favor. Tenha um pouco de senso.
No fim, nada que a fizesse sentir aquelas coisinhas, sabe? De querer olhar o celular de vez em quando pra ver se alguém mandou mensagem. Verificar seus próprios stories pra ver se a pessoa os tinha visto. Uma vez, até abriu a conversa do cantor no aplicativo de mensagens (em que nem mesmo havia salvado o número dele) só pra ter certeza de que nada havia chegado. Mas nada novo havia chegado. E assim se passaram alguns dias, em que , entediada, resolveu seguir o conselho de sua mãe e tentar começar a escrever alguma coisa, porque estava saturada de se sentir improdutiva. Sentada no sofá de sua casa, enquanto e não chegavam para a quarta do vinho (Wine Wednesday!), em que seus amigos se juntavam na sua casa para tomar vinho e fofocar sobre a vida como bons jovens de vinte e tantos, com o Mac em seu colo e uma taça de vinho na mão, ela olhava para a página em branco sem fazer ideia de por onde começar.
Sobre o que escreveria, como sua história começava? Ela não tinha ideia nehuma. Por que o que ela estaria escrevendo seria minimamente interessante a ponto de alguém querer investir? Quem seriam seus personagens? Era uma história de fantasia, romance, drama, comédia? Definitivamente não era fantasia e muito menos comédia, disso tinha certeza, comédia era a última coisa que a brasileira iria querer escrever no momento. O que tornaria sua história instigante? Precisava de algo mais palpável antes de passar pro formato de roteiro.
Nada lhe parecia bom o suficiente. Só conseguia pensar em coisas óbvias. Não se sentia confortável em escrever um suspense e não tinha muito interesse em criar um novo mundo fantástico com vampiros, lobisomens ou criaturas feias que todo mundo se afeiçoa só porque é feio o suficiente pra se tornar fofinho. precisava de algo que pudesse tocar. Algo real. Coisas reais.
Suspirou. Odiava se sentir improdutiva. Foi até a varanda do apartamento e decidiu fumar o seu cigarro enquanto observava o movimento de fim de tarde na cidade de Santa Monica. Tinha voltado com o hábito em algum dos surtos que teve enquanto ficava em casa presa com uma tala no joelho. Levantou-se com o cigarro em uma mão e o copo que fazia de cinzeiro em outra, apoiou-o na mesinha ao lado do sofá, colocou Alceu Valença pra tocar no aplicativo da televisão e dançou ao som de um dos cantores que mais representavam a sua cidade, musicalidade que a lembrava de seus avós, Antônio e Luma, lá no Brasil. Pensou neles um pouco saudosa, da sua casa antiga e simples de frente pra praia de Porto de Galinhas, sentou-se de novo e olhou para a tela em branco. Fumava o seu Malboro com ansiedade, balançando os pés freneticamente, num embate mental com o computador a sua frente. Jogou a bituca no copinho e foi até a cozinha, comeu um pedaço de queijo do reino, viu o que tinha na dispensa na ponta dos pés, pensou que deveria pedir para a trazer abacate para eles fazerem guacamole e comer com doritos, mandou uma mensagem de áudio engraçada para a amiga, deu uma ajeitada na sala pra ficar mais arrumadinha, dançou mais um pouco, sentou-se de novo, esparramou-se no sofá, encarou o teto e observou a tela em branco mais um pouco. Dessa vez, resolveu tomar sua segunda taça num banho de banheira. Nada podia estragar seus ânimos numa banheira com espuminhas e sais cheirosos.

O girassol nos seus cabelos, batom vermelho e girassol
Ô, morena, flor do desejo
Ah, teu cheiro em meu lençol


E lá, deitada, ouvindo Girassol, uma de suas músicas preferidas, lembrando do apelido que seu avô tinha lhe dado e já entrando no brilho, pegou o celular e resolveu ver o Instagram de novo. Depois de checar algumas notificações, resolveu colocar no stories uma foto de suas pernas dobradas semicobertas pela espuma que também mostrava a taça que segurava com a outra mão, editou, e então, postou. E alguns minutos depois, ao ver que havia aberto seu story, abriu o perfil dele e percebeu que ainda não o seguia. Riu. Que irônico. Chegava a ser engraçado que a seguia no Instagram e ela não seguia de volta. Esperou que ele a mandasse uma mensagem por uns dois minutinhos, respondesse com um foguinho, sei lá, qualquer coisa, mas ele também não o fez.
Ah, , qual é, pensou, não deve ser tão ruim assim fazer um esforcinho, sabe, beijar de boca um pouco, mesmo que ele tenha te atropelado. Não custava nada ver no que iria dar. Quer dizer, beijar a boca dele? De onde você tirou isso, ?
A verdade é que, durante aquela noite, aquela que passaram juntos no seu bar favorito em que ele estava com as suas pessoas favoritas cantando a sua música favorita, havia, sim, mudado de ideia sobre o rapaz – e por mais que, apertar aquele botão significasse que ela estava cedendo, não parecia ser tão ruim assim perder um pouco a moral. Pelo menos o vinho a garantia que não. Então seguiu o rapaz na rede social, e não só isso, mas curtiu a última foto que ele postou. E a penúltima. E a antepenúltima, só pra deixar claro, caso ele não tivesse entendido o recado. Ela nem sabia se ele notava esse tipo de notificação com tantos seguidores que tinha.
Algumas risadas de nervosismo depois, viu a notificação de que respondia a foto que havia postado: “eu já tô aqui na sala, sai logo desse tapaué de creca”, a que foi respondida com “creca tem nessa sua bunda mal lavada”.
Mas rapidamente terminou o banho e trocou de roupa, indo encontrar com os amigos na sala da casa.
- Finalmente, . Achei que ia ficar nadando na sua sujeira por mais meia hora – disse-lhe, sorrindo ironicamente, enquanto abria o doritos e comia, sentado na bancada da cozinha. já tinha sua taça de vinho na mão, tirando algumas coisas da sacola, em pé ao lado dele. – E esse cabeludão que você botou na televisão é muito bom, por mais que eu não esteja entendendo uma palavra que ele diga.
- Ele é da minha cidade. Recife. Lá no nordeste do Brasil. Escreveu essa música enquanto esperava a sua filha nascer – explicou, sorrindo ao falar de sua cidade, enquanto se sentava de frente pra ele, na bancada da cozinha americana. – O nome da música é Anunciação. É bem característica da cultura de lá – a brasileira traduziu com orgulho. se sentou ao lado de enquanto repunha as taças com o vinho. – E é a sua língua que nada em sujeira enquanto você fala, porque você só fala merda.
E ela e bateram um high five.
- Tá bom, a gente só tem doritos pra comer, sério? – reclamou enquanto pegava uns com a mão e passava no potinho de cheddar. – A gente falhou com a larica. Você terminou seus b.o antes de mim, devia ter trazido algo, .
- Ué, a não faz nada, reclama com ela – ele apontou com a cabeça. – Tem um mercado bem no fim da rua. Eu estava muito ocupado no curso de produção, porque, você sabe, eu sou muito DJ.
revirou os olhos pra entonação sarcástica.
- A última coisa que eu achava que você fosse fazer na vida era música eletrônica.
- Ah, é, esqueci. Foi legal? O que você faz lá além de... – os entreolhou, sem saber o que ele fazia lá. – produzir?
- Sabe o mixer, aquele painel enorme com vários botões que os DJs tem?
- Aqueles em que eles fingem que fazem alguma coisa enquanto a galera frita? perguntou e riu. revirou os olhos.
- É assim que eles conseguem alterar a versão original da música, seja na hora do show, seja antes – explicou, pacientemente. – E se chama deep house, é bem mais leve que, sei lá, Skrillex que vem com um dub step pesado. Dá até pra acrescentar uns toques de Jazz bem maneiros. A escuta lo-fi pra estudar que eu sei!
- Pelo amor de Deus. Qualquer coisa é melhor que Skrillex. Faz anos que eu não escuto, mas só de lembrar que existe eu fico com vontade de me MATAR – ela retrucou. – Mas pra que isso? Achei que sua vibe fosse uma coisa mais Ed Sheeran ou Coldplay...
- É. Um negócio meio voz e violão, acústico MTV etc... – foi gesticulando enquanto falava. – E agora você me vem com um summer eletrohits 2005.
riu da própria piada e riu também, enquanto elas brindavam as taças de vinho e tomavam mais um gole.
- Você sabe que você citou artistas que fazem músicas completamente diferentes, né? – as olhou com uma careta. – Por mais que eles sejam, sei lá, meio tristes.
- Por isso que eu falei da vibe.
Os três deram uma risadinha, mas ele continuou a explicar, pacientemente.
- É legal porque eu tenho mais tato em realmente produzir músicas, movimentar nelas, criar algo original – ele gesticulou, explicando. – Eu não quero trabalhar com isso, mas dá pra conseguir umas gigs de vez em quando, e eu tenho um monte de conta pra pagar, sabe.
- Você é o Jake Peralta da música, .
- , você sabe que não tem como não levar isso como um elogio.
- Ué, exatamente, mas – e foi interrompida pelo som do seu celular tocando.
Era um número desconhecido. Mas ela tinha quase certeza de quem era. Todos eles sabiam quem era só pela expressão no rosto de . Seu coração parou por um momento enquanto seu celular tocava em cima da mesa e todos a encaravam em silêncio, ao passo que ela encarava o celular, atônita.
- Você não vai atender? – quem perguntou.
- Eu não sei se quero – ela disse. Mas ela pegou o celular em mãos logo após. – Alô?
- Oi, .
E o sotaque veio junto do apelido. sentiu sua barriga gelar e arregalou os olhos, enquanto ria um pouco e segurava o braço da amiga querendo saber o que estava acontecendo.
- Oi, .
surtava ao seu lado enquanto dava um sorrisinho esperto. “O que ele tá falandoooooo?”, balbuciava a amiga, que não obteve resposta porque não estava conseguindo se concentrar em mais de uma coisa ao mesmo tempo naquele momento.
- Decidiu finalmente fundamentar nossa amizade me seguindo no Instagram? Eu não poderia me sentir mais honrado.
- Aposto que você esperou ansiosamente por esse dia, famosinho. Fico feliz por você.
- Ansiosamente, , eu contei os minutos encarando sua foto por semanas a fio – ele disse, rindo, num tom sarcástico, e deu uma risadinha também. – E é por isso que eu acho que esse momento deve ser celebrado.
deu um sorrisinho vitorioso e, então, fez a última coisa que ela achou que faria:
- Tô tomando um vinho com seus amigos e aqui em casa, você pode vir aqui fazer seu ritual de entrada no grupo se trouxer comida. Mas tem que ser algo bem gostoso.
- Qual é a sua pizza favorita?

.

Os dias haviam se passado, mas não conseguia desempacar da terceira música do álbum, nem mesmo depois de ter deixado ela descansar por tanto tempo. Nada parecia bom o suficiente.
Ele estava lá no estúdio faziam seis horas e nada parecia estar certo, nada parecia bom o suficiente. Estava passando por um aparente bloqueio criativo ou talvez ele simplesmente não estivesse na melhor fase para compor. Nem mesmo sabia o que tinha pra falar. E música precisava fazer algum sentido pra ele – ultimamente, nada fazia. O processo de criação, antes divertido e espontâneo do primeiro álbum, agora, soava-lhe mais como um dia de tortura que se emendava em outro e em outro e em outro e parecia não ter fim.
Enquanto seus amigos tocavam, criavam, produziam em vário picos de criatividade e pareciam estar em perfeita sintonia toda vez que ele tentava mudar alguma coisa, ele só conseguia se sentir triste e contrariado. Em pé, tentando gravar a música que aparentemente estava pronta mas que ele secretamente ainda odiava, ficava mais e mais frustrado com uma harmonia incrível que não parecia dizer nada do que ele realmente queria dizer. Estava errando tantas vezes que Aaron quase entrou no estúdio e o fez engolir o microfone. Talvez fosse o seu inconsciente tentando sabotá-lo porque sabia que tinha algo de errado – o inconsciente sempre sabe de tudo. Pensou numas letras antigas que poderiam se encaixar perfeitamente naquela melodia, mas não queria cantar sobre Camille de novo. Já tinha umas quatro músicas prontas que havia gravado já haviam sido sobre ela. Fora as do álbum anterior.
queria escrever e cantar e viver algo novo, mas não tinha nada de novo acontecendo – ele nem se lembrava da sensação. Era sempre a mesma coisa. Encontrar alguém legal. Gostar um pouco. Quebrar a cara. Ficar triste. Fumar um. Sair com alguém que ele nem se interessa só pra não morrer de tédio. Acabar morrendo de tédio mesmo assim. Escrever sobre isso.
Mas ele já tinha escrito músicas demais sobre Camille. Chega. Precisava de um basta. Precisava de um tempo. Precisava sair dali antes de ter um burn out e seus miolos queimarem. Precisava de um lugar diferente, de pessoas diferentes, de assuntos diferentes e, principalmente, precisava relaxar.
Por isso, ao desistir pelo dia, enquanto mexia no celular e viu a notificação de no Instagram, se viu obrigado a agarrar a oportunidade – o que teria a perder, afinal? Eles haviam se divertido da última vez.
E sim, ele disse que iria mandar mensagem depois, mas acabou deixando de lado só pra se poupar o trabalho. Ou talvez só não quisesse ser rejeitado de novo. não se prestou a pensar muito sobre.
, desde o início, foi como uma pontadinha mínima de esperança que tivesse se acendido no coração do cantor que parecia ter tudo e na verdade não tinha nada – não a esperança de ter algo com ela, ou de que eles pudessem se envolver romanticamente ou qualquer coisa assim. Mas a esperança de fugir. De entrar num outro mundo. Isso era tudo que ele precisava – não estava muito bem da cabeça quando ligou pra , mas era bom em fingir. Já não estava muito bem da cabeça havia algum tempo, na real, e não sabia muito bem o que fazer com isso. Nem com quem conversar sobre. E provavelmente não eram próximos o suficiente pra isso ainda.
Apesar disso, do nada se viu sentado nos banquinhos altos da bancada que separava a sala da cozinha americana do apartamento que dividia com , tomando vinho, comendo pizza e dando risada.
Era um apartamento bem comum, simples e não tinha nenhum tipo de luxo. Pelo contrário – o tamanho mediano, a decoração limpa e com poucas coisas, todo formentado em cores claras que combinavam, jarros de planta pendurados nas paredes, muitas e muitas fotos espalhadas por toda a sala, alguns quadros com cartazes de filmes (entre eles Moonlight, Cidade de Deus e Parasita), um sofá que parecia muito aconchegante de frente pra uma tv de tamanho comum. A mesa, um pouco afastada dessa área de televisão, era feita para quatro pessoas, mas aparentemente eles gostavam mais de ficar sentados na bancada que separava a sala da cozinha americana. Ele conseguia ver o toque de ali, nas fotos, principalmente, na praticidade e também, no ar simples e aconchegante que o ambiente passava. O apartamento era prático, cheiroso e visualmente limpo.
nem viu o tempo passar enquanto as taças iam e vinham.
- Mas na real eu só vim aqui pra saber de uma coisa. Eu literalmente não consegui dormir pensando nisso – começou, numa mudança de tópico repentina. Todos se entreolharam, curiosos, quando finalmente disse: – O que aconteceu com o boy do whey? – perguntou a , ouvindo a risada de , que sentava ao seu lado dessa vez, e ao lado de , que estava bem na sua frente.
- Ela saiu com ele de novo!
- O quê? Eu não tô acreditando, .
- A tem uma obsessão por agradar todo mundo. Até gente aleatória – observou enquanto dava de ombros, logo depois de dar um gole no seu vinho.
- É claro que eu tenho. Por que você acha que eu ainda moro contigo? – Ela revirou os olhos. abriu a boca pra reclamar, mas foi mais rápida ao dizer: - é claro que é porque você é a melhor rommate do mundo, .
E abraçou a amiga de lado.
- Ou porque você mora exatamente na minha frente, . Se eu fosse você ficava de olho – aconselhou. – Ela é uma cobra! – sussurrou a última frase pra amiga como um segredo e riu um pouco, enquanto lhe respondia com um dedo do meio.
- Foi insuportável de novo, mas dessa vez eu realmente não AGUENTEI mais enquanto ele falava, daí eu...
pareceu não querer terminar a frase.
- Deu um beijão de boca nele no meio do restaurante fino, de língua e tudo! – gritou, rindo e apontando pra amiga, que revirou os olhos. – E daí o resto é censurado.
- É, a gente saiu de lá, se pegou no carro, valeu mais a pena – explicou. – Ele é bem bom quando não tá falando nada. Foi um beijo útil.
- Útil, ? Útil? – riu pelo nariz. – O seu beijo foi útil?
- É, ué, uma estratégia. O mundo é dos experts, , você não sabia? Só fala bosta, mas beija bem. Minimamente útil.
- Eu te entendo, assentiu. – É a real. Ela já tava lá mesmo, ué. Não tem pra que perder a viagem.
- Viu? , eu nunca te critiquei – bateu um high-five com ele.
- , ele atropelou a sua melhor amiga! – ouviu reclamar, com uma expressão incrédula. riu, enquanto bebia sua taça e olhava pro lado, como se não fosse dele que estavam falando.
- A questão é que ele postou OUTRO story e agora está mandando mensagens de bom dia!
- Você tá namorando, . Tá na coleira. – provocou, recebendo de um levantamento de taça de quem concorda.
- Não, não, não, esse não é o pior – disse, com escárnio. – Ele manda mensagens de bom dia MOTIVACIONAIS.
gargalhou e quase se engasgou com o vinho, enquanto lhe dava alguns tapinhas nas costas e revirava os olhos.
- Isso não pode ser possível!
- Bom dia, . Já paguei o de hoje, e você? – A mulher leu o comentário, suspirando. – Não deixe que nada fique entre você e o seu objetivo!
, e riram por algum tempo depois que leu a mensagem com uma expressão de frustração, mas depois se rendeu e riu também.
- O que você respondeu, ?
- Escuta, , essa é a melhor parte.
- Ok, não deixe também! Beijos. – ela leu o resto da conversa, rindo. – Ah, o que é que se responde a isso, pelo amor de Deus? Depois ele ainda mandou uma foto do seu prato de salada com muitos ovos cozidos e um “você tá aí? Dá notícias!”. Notícias. Eu não tenho que dar notícias pra ele. Eu não sou, sei lá, a CNN.
- Acho que cê tem mais cara de E! – respondeu e riu pelo nariz. Achava engraçado como ele sempre parecia levar perguntas sarcásticas a sério. – Você é bem fofoqueira.
- Cara. Eu só fico pensando na quantidade de pum que ele deve soltar – comentou do nada. – Vai dizer que sou só eu? Você citou essa parte dos ovos umas três vezes. Ninguém comenta sobre ovos tanto assim. E vocês sabem, ovos e pum são um pacote completo, não dá pra separar.
riu, claro, porque parecia que as coisas que falava geravam reações nele que ele não conseguia muito controlar – nem parava para pensar nisso, na verdade. Olhou pra ela com o sorriso descansado no rosto de quem conseguia, finalmente, relaxar. Ao observá-la, notou que usava uma camisa branca e límpida de botões que acabava deixando o decote pender discreta e quase imperceptivelmente quando descansava a postura e se inclinava para a bancada. Os cabelos estavam presos num coque frouxo e ela não usava maquiagem. Não parecia estar muito arrumada, mas ainda sim, se pegava com os olhos fixos nela por um tempo maior que o necessário, vez ou outra. Sem nenhum motivo aparente. Totalmente involuntário.
Algo sobre era algo a se apreciar.
- Não, , só você pensou sobre puns, porque você é nojenta – fez uma careta, balançando a cabeça de um lado pro outro em negação.
- Eu também pensei sobre os puns, mas não tanto quanto a . Foi mais um “Cara, ele deve soltar um monte de pum”.
- Isso na verdade só piora as coisas pra , .
- Ele gamou em você, deu de ombros, cortando a discussão aleatória. Notou que, se não fizesse isso eventualmente, os três poderiam passar horas discutindo coisas inúteis. O que era bem engraçado, na real, mas ainda estava estudando as maneiras de entrar nas discussões de maneira efetiva.
- Ou ele tá entediado e você é minimamente padrão.
- Minimamente padrão? deu de ombros. – Nem você mesmo acredita em você mesmo, . Supera.
- Eu acho que nunca vou te superar, , essa é a questão...
- É uma pena, porque eu não posso beijar a boca de DJs.
- Como assim não pode? perguntou com uma careta.
- Eu me proibi, ué. Músicos não são confiáveis. Foi mal, . Super te respeito como pessoa.
- Eu também sou músico, .
- Mas um músico que eu não respeito como pessoa.
riu, dando de ombros e jogou uma bolinha de guardanapo nela.
- É justo, , eu também não beijo músicos – piscou pra ela, ouvindo as risadas das pessoas que o acompanhavam. – E eu não sabia que você também era dj, .
- Eu não sou, a só quer encher o saco – ele revirou os olhos. – Mas tô terminando um curso mais específico de produção musical. Paguei algumas cadeiras sobre isso na UCLA. Dá pra conseguir uma grana com as gigs por enquanto. E peraí, você não beija músicos? Meu sonho acabou, é isso?
- Não se iluda, , o atira pra todo lado.
- Caramba, , quanto ciúme, você tá me sufocando...
- A gente conversa sobre isso a sós mais tarde – sussurrou, para , como se fosse um segredo, fazendo-os dar uma risadinha, mas depois voltou ao assunto: - Produção é a parte que eu menos gosto de fazer, mas acho genial. Dá uma trabalheira, né?
- Vocês não querem ir montar uma barraca lá numa rave em Torrance, também?
- Tirar a camisa, com uma bandana na cabeça, óculos escuros, um pirulito na boca, ficar pulando ao som do bate estaca... – continuou a piada, e deu dedo pra elas, com um sorriso sarcástico.
- A só tá querendo um motivo pra me ver sem camisa – brincou, piscando, e nem conteve o sorrisinho de sarcasmo. e gritaram, bêbados, diante da piadinha, e a brasileira deu de ombros.
- Eu posso só jogar no Google, – ela quem piscou pra ele dessa vez, desbloqueando o celular. – E vou fazer isso agora mesmo. Google. gostoso molhado sem camisa.
riu, achando que ela estivesse brincando, mas daí, se aproximou dela e afastou o próprio prato tentando se aproximar pra ver a tela também. Várias fotos dele apareceram em pequenos quadradinhos da página, em vários momentos diferentes, mas aparentemente, ela tinha clicado em uma específica. Ele se aproximou também pra ver qual era.
Observou enquanto os três comentavam sobre a foto que tinha escolhido, negando com a cabeça. Era uma foto dele na Austrália, com um calção preto da Adidas, óculos escuros e mexendo no celular, numa lancha.
- Hmmmm... A gente vai dar notas ou a gente não vai se utilizar desse sistema de padronização machista que objetifica o corpo de mulheres no ? – o perguntou, olhando pra as meninas, quase que pedindo permissão.
- O é homem. A gente pode objetificar ele sem problemas.
- É claro que a gente não vai – a cortou a amiga, dando zoom na foto. E então ela se virou pra ele. – Mas eu daria 10, só pra te dizer.
- Eu também queria te dizer que eu também daria 10 – assentiu. – E a vai dizer que não, mas ela também daria com certeza.
- Cala a boca, . O meu 10 tá reservado pro John Mayer, é uma pena, mas você pode ficar com um sete pra oito justos, o que é muito bom, porque eu sou meio exigente.
e a encararam com tédio enquanto sorriu como quem não acredita muito.
- Mas olha, voltando, eu tava querendo umas ideias sobre isso, peguei umas referências de Daft e não tô conseguindo encaixar. Talvez você podia colar no estúdio comigo essa semana, o que tu acha? – perguntou olhando pra .
Gostava do feeling musical que ele tinha e percebeu isso no estilo de da outra vez que tinham tocado juntos. Eles podiam conversar mais um pouco e ajustar algumas coisas, realmente podia utilizar umas ideias novas pra terminar a música em que ele estava empacado haviam algumas semanas. Não lhe parecia nada demais.
Mas pareceu não ter palavras, enquanto ele observou o olhar de feliz com o que parecia realmente ser algo importante pro amigo. Ele só esqueceu das etiquetas e abraçou num longo agradecimento.
- Mas é CLARO que eu vou! - Você vai matar o , .
- Que nada, tô precisando de uma mente limpa e talentosa mesmo – Sorriu. – Mas agora já são uma da manhã e acho que já aluguei vocês demais por hoje.
- Ahhhhhhh... – e reclamaram, e assentiu, se levantando.
- Vamo lá, eu te levo lá embaixo.
se despediu deles com certo pesar, porque a verdade é que ali, mesmo com o pouco tempo, ele se sentia em casa.


.

Jogaram um pouco de conversa fora quando desceram no elevador e pararam logo depois da portaria do prédio de , sentando bem na escadaria que dava pra calçada, onde haviam ficado na última vez.
havia chegado de carro, mas decidiu chamar o motorista para buscá-lo e pegar o carro no outro dia, porque agora ele era muito responsável com o trânsito etc.
jamais admitiria em voz alta, mas estava gostando de passar tempo com ele. Era sempre natural e sem pressão. Gostava quando ele contava alguma história, apesar de tê-lo feito poucas vezes. Gostava do interesse que ele tinha em conversar com seus amigos e de como sempre tinha uma piadinha convencida pra fazer e de como ele olhava pra ela como se não tivesse mais ninguém na sala – e ela fingia não notar. Ele não era uma pessoa que conversava bastante sobre si mesmo, na verdade, como ela esperava – pelo contrário, ele sempre parecia estar mais interessado em escutar sobre os outros. A bebida já havia baixado e a noite se seguia, mas ela se pegou pensando que gostaria que ele ficasse mais um pouco.
- Você tem que estar no estúdio amanhã cedo? – perguntou. Estavam sentados lado a lado e abraçava as pernas e mantinha a cabeça recostada em seu joelho, olhando pra ele, enquanto apoiava sua cabeça na mão do braço que estava recostado em sua própria perna, virados um pro outro.
- Não. Eu dei um day off pra todo mundo amanhã – ele suspirou, e realmente achou que ele parecia precisar de um tempo. – tava pensando em, sei lá, ir pra Malibu e sumir pelo dia. E você, o que tem pra fazer amanhã?
- Eu tô desempregada, na verdade. Fui demitida cinco minutos antes de um tal ex boybander me atropelar com o carro esportivo dele. Você acredita?
Viu arregalar os olhos e abrir a boca, sem acreditar, a culpa clara e nítida em sua expressão. Mas não parecia tão afetada assim, porque continuava com o deboche explícito na no rosto.
- Cinco minutos antes do acidente? – ele piscou várias vezes, sem saber o que dizer. – Caraca, eu...
- Tá tudo bem, , a gente já passou dessa fase – a brasileira riu, empurrando ele de leve com a mão, e ele colocou a mão livre no peito e expirou, com alívio.
- Eu não saberia viver sem o seu perdão, – ele disse, e agora, colocou a mão livre no ombro dela. revirou os olhos e depois deu um sorrisinho. O ombro dela, agora, estava quente. Ele manteve a mão ali. – Mas ainda bem que essa fase passou. Acho que eu não ia aguentar outro discurso daqueles. E gosto de conversar com você.
- É só não fazer merda de novo.
- Isso vai ser difícil pra mim, . Merda é o que eu faço de melhor.
- Ah, pára. Você também sabe rebolar gostoso.
Ouviu a risada gostosa e rouca de enquanto ele ainda mantinha a cabeça apoiada na mão, e pensou que era muito óbvio o motivo de ter milhões de garotas completamente apaixonadas por ele ao redor do mundo – bom, desde que eles passaram a ter uma convivência mais saudável, ela não havia parado pra pensar nesse tipo de coisa muito a fundo. Mas naquele momento parecia fazer sentido.
Tudo nele era autêntico e perfeitamente famous material. O maxilar destacado, os olhos profundos e cheio de segredos da parte escondida de uma vida exposta, os cabelos pra trás como se ele viesse de uma outra década, o colar e a camiseta de botões entreaberta que deixava um pedaço de suas tatuagens a mostra. Os anéis. A voz rouca e harmoniosa. O seu gosto, cordialidade e carisma. Como parecia saber conquistar cada pessoa ao seu redor.
espantou os pensamentos quando percebeu que eles estavam indo longe demais e que talvez estivesse o encarando por tempo demais também.
Encararam-se por alguns segundos de silêncio confortável, com um carinho que ela não sabia que sentia por ele, antes que o carro de finalmente chegasse, e então, ambos se levantaram.
- Então, já que você não tem nada pra fazer amanhã, aproveitando que meu carro vai ficar bem aqui na frente da sua casa, cê vem passar o dia na praia comigo – ele concluiu, e antes que pudesse reclamar, continuou: - Eu sei que você vai querer negar porque você adora dificultar as coisas, mas não nega. Vamo comigo.
- Tudo bem, . A gente vai pra praia amanhã. Eu posso fazer isso por você.
Ele riu, descarado, até fechou os olhos e colocou a cabeça pra trás, e então, olhou pra ela de novo, tão intenso quanto conseguia, e deixou o sorriso ir se fechando aos poucos, até repousar no canto do lábio.
- Boa noite, .
- Boa noite, .
E ele assentiu, virando-se de costas, descendo as escadas e entrando no carro que veio buscá-lo.
Dessa vez, ela quem o observou ir embora, até que não pudesse mais ser visto.

- Ele te chamou pra QUE? – viu se levantar do sofá, que no momento dividia com enquanto eles mexiam no celular e conversavam deliberadamente, antes que chegasse.
Mas não se conteve ao ouvir a notícia.
- Eu não sei o que TÁ ACONTECENDO.


Oi 1:42 am
Essa caixa de conversa é meio humilhante pq só tem mensagens minhas 1:42 am
Não me ignora dessa vez ok 1:42 am
Eu vou passar aí às 9h 1:43 am
E aí você vai poder viver o seu sonho de me ver sem camisa 1:43 am
Mas dessa vez pessoalmente 1:33 am


Leu as mensagens em voz alta pros dois amigos fofoqueiros, e enquanto Olívia corria até ela pra ver as mensagens com seus próprios olhos, apenas levantou os olhos do celular, com um sorrisinho sapeca.
- Você sabe o que isso quer dizer, né, ?
- Que eu vou pegar um solzinho...
- Que você vai dar BEIJO DE BOCA! – Olívia gritou, empolgada, e a brasileira deu de ombros, sem negar. Porque haviam sim possibilidades da parte dela.
Um dia de praia com um cara gostoso e minimamente gente boa? Isso era muito menos do que o Universo estava devendo a ela. Que se iniciassem os pagamentos.
- Finalmente vai tirar a teia dessa sua boca de tártaro...
- , vai pra CASA – literalmente deu um chute na perna dele, que continuava sentado no sofá. Ele reclamou, afagando a canela atingida enquanto ria da cara da amiga. – Anda, tá na hora já. Cansei se você. Até semana que vem. Não me aparece mais aqui esses dias.
- Tudo bem, , mas olha, quem avisa amigo é – o loiro disse, se levantando e rindo, com todo o gingado e simpatia que possuia, e a amiga acabou rindo também e revirando os olhos. Pegou pela cintura e deu um beijo estalado na bochecha dela antes de sair, gritando: - Escove os dentes antes de irrrr!


7.

- Você pretende passar quantos dias em Malibu? – riu da mochila enorme que estava no banco de trás do carro, ao colocar a sua própria ao lado, que parecia minúscula em comparação. – Deveria ter me avisado que era pelo fim de semana.
O rapaz ao seu lado deu uma risadinha e se esticou para trás, recostando a cabeça no encosto do banco e olhando para pelo que ela só poderia imaginar que seus olhos pareciam, porque ele usava um Wayfarer preto sob o capô do seu Jaguar Antique aberto. Ele já parecia estar no clima com o seu calção amarelo e a camiseta branca, as mãos no volante, o cotovelo apoiado na porta e o sorrisinho amostrado que sempre pendia pro lado quando olhava pra ela. Se deixou ser olhada por ele, com um meio sorriso também, antes que ele respondesse.
- Eu só sou preparado, ué – se defendeu, cruzando os braços. E então, colocou as mãos na ecobag que estava no colo de , xeretando o que tinha dentro. – Você, pelo visto, achou que fosse morrer de fome. Vou pegar um snickers. Ué, você também fuma? Não sabia.
- Tem várias coisas sobre mim que você não sabia, .
- Entendi, , você é misteriosa, blá, blá.
- Vou ignorar o seu deboche para te perguntar o que é uma roadtrip sem petiscos. Me fala, pode falar...? Não é nada. Além do que, não tem maneira melhor de economizar. Ou você acha que dinheiro dura pra sempre? A minha poupança, do jeito que anda, com certeza não vai.
Ouviu o cara rir ao seu lado enquanto dava uma mordida no chocolate.
- Você não vai precisar se preocupar com isso hoje, .
- Claro que não vou. Porque eu também trouxe, pananã, duas garrafinhas térmicas de água, um pacote que sobrou do Doritos de ontem, mais outras duas barrinhas de snickers, um potinho com castanhas e amendoins, maçã, banana, um outro potinho com morangos, e mais um potinho, mas dessa vez com abacate. Você gosta de abacate?
O cantor ao seu lado olhou dentro da ecobag, parecendo um pouco chocado, e então, riu mais um pouco, incrédulo.
- Tá tentando compensar pelo tabaco com as frutas?
- Sim. Tudo na vida se resolve com equilíbrio, meu caro – ela disse, com um sorriso sagaz, e piscou pra ele. – E também to querendo saber se você gosta de abacate, que você não me contou.
- Eu gosto muito de abacate!
- Tá vendo? Duvido você achar abacate na praia daqui. Seu dinheiro não compra tudo, famosinho. Se fosse em Recife, minha cidade, aposto cê achava em algum lugar. Lá tem tudo na praia.
- Se eu falar que você tá certa você para de tagarelar?
- , eu nunca paro de tagarelar...
- Porra. É isso. Tô fudido então. Por mais que você seja uma matraca, vou te dar a oportunidade de ouro de escolher a primeiríssima música da nossa roadtrip. – o rapaz falou, sério, e até levantou os óculos e se virou um pouco para ela antes de continuar a falar. – Esse é o um momento definitivo para nossa relação, . Não me decepcione.
Ele se levantou um pouco, sacou o celular do bolso, e colocou no aplicativo do Spotify. Entregou o celular para a brasileira ao seu lado.
- Ah, mas só a primeira? Eu deveria escolher todas – ela reclamou. – E a gente não tem uma relação.
- Não, aqui a gente trabalha com democracia. Uma minha, uma sua. E a gente é amigos agora, então a gente tem um tipo de relação.
- Nossa, a gente vacilou demais. A gente deveria ter feito uma playlist pra isso – resmungou. – E é mais como um início de possibilidade de amizade.
- A gente pode fazer uma playlist depois. Só com as melhores do dia – Sugeriu. – E você só tá se fazendo de difícil, por isso eu não vou te dar bola.
- Boa! Tem que ser unânime pra entrar.
- E a gente tem que pensar num nome bem legal.
- and ’s day of fun!
fez uma careta.
- Mas o Joey odeia esse dia.
- Pegar referências de Friends é um progresso, campeão – ela levantou a mão para um high five, e ele bateu, revirando os olhos. – E bom, eu claramente sou o Joey.
- , como bem sabemos, você vai pagar a língua de novo – ele disse, dando de ombros e piscando pra ela. Ele se virou para frente de novo e colocou cinto. – Vai, você começa.

Eles passaram algum tempo colocando algumas músicas em fila, um de cada vez, para que não precisasse pegar no celular durante a viagem e eles pudessem manter o suspense de qual música o outro escolheria. Ao terminar, finalmente partiram.
, pessoalmente, amava viagens de carro – desde as famosas roadtrips até passeios aleatórios e descompromissados que tinha com os seus amigos pela cidade. Amava a liberdade da rua e as luzes que dançavam. Era mais ou menos uma viagem de uma hora até Malibu, mas ela não estava preocupada, ou indiferente e calada como normalmente ficava. não era das pessoas mais sociáveis e não fazia muita questão de ser.
Mas havia algo no jeito em que conversava com ela. Ele sempre estava interessado demais em ouvir o que ela tinha a dizer – interessado demais em olhar pra ela sempre que podia virar o rosto, o jeito que eles mal conversavam sobre tópicos óbvios sobre a sua vida e como não havia nada ali além de uma simples... conversa. Ela se sentia confortável em apenas conversar com ele, porque ele não parecia estar conversando com ela apenas por ter outras intenções. Ele realmente parecia querer conversar com ela. E era bem seletiva com muitas coisas, mas principalmente, seletiva sobre as pessoas com quem gostava de conversar.
Não conseguia entender como conseguiu entrar na pequeniníssima lista em tão pouco tempo.
Mas também havia algo no jeito em que dirigia. Por algum motivo, notou que gostava de observá-lo sorrateiramente enquanto ele o fazia. Como apoiava o outro braço na porta e recostava a cabeça no sinal vermelho, com a outra mão ainda na direção. As mãos grandes em volta do volante tomando o controle do carro.
Poderia fazê-lo por muito tempo – e ainda bem que ela o teria.
- Eu não acredito que a sua primeira música foi do Panic! – Ele comentou, rindo um pouco. A música que ela havia escolhido sem pensar muito, só porque queria ouvir mesmo, era Sarah Smiles. – Eu nunca teria adivinhado.
se virou um pouco pra ele, dobrando a perna e cruzando os braços, numa posição de defesa, mas o sorriso presunçoso estava lá, estampado.
– Ué, não é sofisticado o suficiente pra você, gênio da música cult?
- Não é sofisticado pra ninguém, – ele respondeu, dando de ombros. – Mas é legal. Eles são autênticos. É o tipo de música nostálgica que eu não escuto mais. Eu escutava algumas quando tinha uns treze anos e era uma espécie de wannabe hipster.
riu pelo nariz da definição.
- Eu amo essa música, ela faz eu me sentir num musical. Tem uns solinhos de saxofone acessíveis – disse. – E eu amo musicais. Os clipes deles são teatrais e aparentemente sem sentido nenhum, arte pela arte, sabe? – continuou explicando. – O Brandon consegue ser romântico sem ser piegas e artístico sem ser clichê.
- Você é do tipo arte pela arte? – Ele retomou, torcendo um pouco o lábio. – Eu acho que isso não existe.
- Tudo precisa ter um significado belo por trás, então?
- Tudo já tem um significado – ouviu responder. – Mesmo inconscientemente, tá lá, de algum jeito. Não sei se necessariamente belo, depende do que você considera belo. Até só a própria estética já diz alguma coisa sobre quem tá criando. Não tem como não colocar um pedaço de você no que você tá fazendo.
pareceu parar para refletir por um momento.
- O que você acha que é belo, ? – ela perguntou, e estava mesmo profundamente curiosa.
Ele não pareceu constrangido em pensar um pouco enquanto olhava pra estrada. Lambeu os lábios, parecendo realmente querer expressar algo que estava em sua cabeça com as palavras certas.
- Pra mim, belo é tudo aquilo que é real – ele sintetizou, por fim. – o que é de verdade, o que não mascara, o que comunica e traduz. Acho que o possuir beleza não tem muito a ver com palavras bonitas ou limpeza visual ou estética por si só. Pode ser trágico, ou alegre, ou assustador. Pode ser feio.
- Tem mais a ver com a profundidade – ela continuou, pra ele, que sorriu pra ela, sem mostrar os dentes.
- Tem muito a ver com a profundidade – ele pareceu satisfeito em concordar. – Mas aí sou eu que acho. As definições literárias podem ser meio diferentes da minha opinião.
- Você traz beleza nas suas músicas, .
- Você traz beleza por si só, .
E eles se encararam por um momento em que , ainda com a cabeça virada pra ele com a perna cruzada, pela primeira vez desde que se conheceram, não soube o que responder. Um friozinho na boca do estômago e o coração que escapava uma batida no sorriso que ela não pode conter.
Mas foi só por um momento.
- As pessoas sentem uma necessidade de romantização. Você não acha? – Ela questionou. – Tem que ter romance. Tem que ter palavras bonitas e pessoas que só se apaixonam por uma pessoa a vida toda porque foram feitas pra ser e um clipe com um casal que briga por ciúme e depois dá certo. Ou fazer de um dos personagens uma pessoa ruim só pra que pareça justo terminar com ele. Nem tudo dá certo, às vezes porque não dá mesmo, não porque alguém é ruim. No primeiro clipe de Panic! que eu vi, todo mundo tava de rosto hiperbolicamente pintado num casamento em que a própria noiva é pega beijando outro cara e é isso. Eu ficava com raiva disso quando era mais nova. Eu queria que desse certo no final.
- I Write Sins, Not Tragedies. Clássico – ele assentiu. – E hoje não?
- Hoje eu acho que eu seria a própria noiva – ela disse, colocando a mão na testa e suspirando, e deu uma risadinha e olhou pra ela de lado. – Eles são metafóricos demais. Sabe? Eu não sei, acho que classificaria como belo. Mas acho também que eles só estão querendo se divertir e causar e se expressam de maneiras estranhas.
- Por outro lado, às vezes as pessoas só querem fugir da realidade um pouco e a arte também pode ser isso – encolheu os ombros. – A arte tem que ser um meio de fuga pra todo mundo. Pra quem quer expor sentimentos reais e pra quem quer fingir que eles não existem. Pra quem quer se apropriar de outros sentimentos, o que não deixa de ser real.
- Fico pensando que alterna, sabe? Às vezes é fuga. Às vezes é encontro.
- A fuga do que se sente e o encontro do que não se sabia que podia sentir.
- A fuga do que se pensa e o encontro do que não sabia se sentia ou não – completou, por fim.

.


Você traz beleza nas suas músicas, .
O cantor tirou os olhos da estrada e virou-os para a mulher ao seu lado, que tinha a perna meio dobrada, o corpo inclinado de lado e a cabeça, então, apoiada no encosto.
Já havia escutado isso de algumas pessoas. Já havia ganhado prêmios e sido elogiado por cantores famosos. Pessoas realmente importantes.
Mas a aprovação de fez o seu coração se aquecer e todo o esforço, de repente, fez sentido como nunca antes. Ele só continuava sem saber o porquê disso ainda.
Fazia algum tempo que já haviam chegado. Passaram a viagem inteira debatendo sobre arte e as músicas que eles escolheram – quando realmente encontravam espaço entre a conversa que parecia não acabar. Seguiram por Amy, Kaleo, Oasis, Coldplay, Daft Punk, Queen, Tyler The Creator, Masego, Pink Floyd, Daniel Caesar, Inner Wave e outras bandas clássicas e músicas que talvez não fossem tão conhecidas assim. Era fácil e instigante conversar com porque, ele havia notado, ela sempre tinha um pitaco pra dar – sempre uma opinião formada sobre tudo que eles já haviam conversado até então. Até sobre as músicas que havia escutado pela primeira vez. Era como se qualquer coisa fosse importante o suficiente para que ela analisasse e ele realmente gostava de saber como sua mente funcionava. Gostava de ouvir o que ela tinha a dizer.
Talvez por isso a surpresa. não tinha muita certeza se gostava ou não do tipo de música que ele fazia.
Eles, agora, já estavam muito bem acomodados numa parte mais deserta do que se chamavam de praias privadas de Malibu. Não tinha muita gente ali, afinal, era uma quinta feira do início de Outubro, a temporada estava baixa e as pessoas estavam trabalhando.
O mar estava transparente e a areia branquinha. Eles tinham duas cangas estendidas, estavam sentados lado a lado enquanto passava protetor nos braços e ele fazia piadinhas aleatórias porque sentia que queria aproveitar cada mínimo segundo que tinha com ela. A ecobag da brasileira estava ao seu lado, e ele tinha trazido do carro apenas o óculos escuros, a carteira, o violão, e uma outra camiseta.
- E aí, como eu tô? – a brasileira perguntou, com o rosto todo branco de protetor, o boné pra trás e o óculos escuros – ambos de , fazendo uma pose de malandra, já só com o biquíni com uma estampa meio hippie e um shorts jeans de cintura alta. deu uma risadinha esperta, achando que ela não poderia ficar mais bonita e rapidamente pegou o celular para tirar uma foto, e continuou na pose, só que o risinho passou a querer fugir dos seus lábios. E então, quando ela viu que ele continuava, fechou a cara de brincadeira e tentou tirar o celular da sua mão, enquanto ele continuava a tirar fotos. – Você é muito espertinho. Aposto que vai ficar olhando pra minha foto antes de dormir.
- Eu já faço isso com o seu instagram, – deu de ombros, piscando pra ela, que arqueou a sobrancelha e negou com a cabeça, tirando o óculos de sol, parecendo levemente balançada com a piadinha, sem querer demonstrar. gostava das reações que gerava nela. – Vem cá. – e ele segurou o rosto dela com uma mão, e passou a espalhar o protetor pelo rosto da brasileira ao seu lado com a outra.
No começo, ela manteve os olhos fechados. passava o dedo pelo rosto de com cuidado e espalhava o conteúdo para que ficasse de maneira uniforme. E então, sem avisar, ela abriu os olhos. Sentiu seu coração acelerar com a proximidade.
Os olhos mais corajosos que ele já havia encontrado. Mas não houve desconforto algum naquela troca – pelo contrário, sentia que poderia ficar ali, procurando pelos pequenos traços na cor das íris de pelo resto do dia sem se importar.
Até que ele terminou e sorriu. Ela não sorriu de volta.
- Vem cá, agora eu passo na sua cara.
E ela o fez, de joelhos, porque ele era mais alto, mas ela tinha bem menos tato do que ele.
- Você tá tentando se vingar de mim?
- Por que você acha que eu vim na praia contigo? – ela deu uma risadinha. – Você vai morrer hoje, . Manda logo uma mensagem de adeus pra sua mãe. E passa essa coisa aqui na boca pra não ressecar.
E entregou em sua mão um hidratante labial que ele pegou. Ele pegou e o posicionou a sua frente. Enquanto lia a embalagem e suas informações, respondeu:
- Eu não posso morrer antes de acabar o álbum, senão eu vou ficar rondando preso aqui na terra por não ter cumprido a minha missão etc. – deu de ombros, passando o lipbalm e, logo depois, a língua pelos lábios só pra sentir o gostinho, como se tivesse 5 anos. – Porra, tem gosto de morango. É docinho.
concordou com ele, pegando o produto de volta e piscando. observou enquanto passava o hidratante em seus próprios lábios como se estivesse em slowmotion antes de guardar porque a boca de era convidativa demais. Balançou a cabeça um pouco, desnorteado.
- Você pode puxar o pé das pessoas, ué! Muito mais divertido do que cumprir missão e coisas sérias...
- Vou puxar o seu pé, .
- Duvido que cê tenha coragem – falou, se levantado e batendo o short, que estava cheio de areia. Ele se levantou também e tirou a camiseta, tentando não observar a garota enquanto ela tirava a peça de roupa, afinal, não queria ser um babaca e não tinha muita certeza do que estava realmente acontecendo entre eles, por isso, preferiu jogar salvo por enquanto e manter o clima tranquilo em que eles se conheciam e passavam tempo juntos apenas porque queriam, sem muita pressão ou definição.
Mas foi difícil, deveria dizer. Difícil demais. estava arrebatadoramente gostosa com o biquíni na bunda redondinha, andando confiante e lentamente até o mar, a silhueta imponente e curvilínia, as pernas que poderiam andar por dias... Sentiu seu corpo arrepiar e o pau latejar. Não saberia dizer o quanto observá-la ali, naquele momento tão simples, mexeu com a cabeça do rapaz. Ele, enquanto observava a mulher andar até o mar, e então, virar-se pra ele, com um meio sorriso e o chamando com a cabeça, nem pensou duas vezes: andaria com ela até o outro lado do país, se fosse preciso, se pudesse observá-la daquele jeito durante o trajeto. Levantou-se, saiu correndo, pegou a garota de lado pelas pernas e pelo torso, correr pro mar enquanto ela ria e então, afundar com ela numa parte mais funda.
E então, ela se levantou, rindo, o sol refletindo no seu rosto e o sorriso largo que ela só mostrava em momentos específicos. Jogou água nele, que jogou nela de volta, até que jogou mais forte e decidiu que ela não era o tipo de pessoa que cedia. Mas ele também não cedia fácil assim.
- Pô, , entrou no meu olho – colocou as mãos no olho e abaixou a cabeça, vendo a garota vir até ele de maneira rápida e preocupada. – Cacete, tá ardendo muito.
- Meu Deus, me desculpa, você machucou? Tá ardendo? – A brasileira se aproximou, segurando o pulso dele com uma mão e o rosto com outra. – Me deixa veeeeeer...
E então, ele tirou as mãos dos olhos, dando uma risada escrachada, e bateu nele, rindo também. , então, se abaixou, e puxou-a pelas duas pernas, fazendo com que ela caísse na água de novo. não conseguia não rir.
- HARRY STYLES, eu vou te matar – a brasileira reclamou, pulando nas costas dele e tentando dar um caldo, mas ele era alto demais e tinha os pés muito bem fincados na areia. Então ela só ficou fazendo força pra baixo enquanto ele debochava, rindo, imóvel.
- Vai, . Continua tentando.
E aí ela desistiu e puxou um pouco o cabelo dele, que finalmente havia se abaixado e ficado quieto, mas deu de ombros.
- Você é muito debochado mesmo...
A água estava geladinha e perfeita para o dia ensolarado que eles pegaram em Malibu. O mar não tinha muitas ondas e eles puderam só ficar sentados, um de frente pro outro, conversando enquanto aproveitavam a sensação boa que a água salgada trazia.
- Você só não gostou porque ficou toooda preocupadinha – ele piscou pra ela, como quem entende tudo. Olhou para o rosto da mulher a sua frente, com os cabelos molhados pra trás e o rosto limpo, os cílios molhados e os lábios rosados do sal, enquanto ela só mantinha fora d’água dos ombros pra cima, e fez a sua melhor expressão de quem não está nem aí pra ele. – Você é louca por mim, , só não admite porque é orgulhosa demais. você tá machucado? Tá ardendo? Me deixa ver...
- Eu só não sou um monstro, bobo. E a minha voz não é assim, péssimo imitador – ela deu língua pra ele. – O que acontece com você na praia, ein?
E jogou mais um pouquinho de água nele.
- Eu tenho uma teoria que a praia e os ambientes de show despertam o TDAH mais do que outros ambientes.
- Você tem déficit de atenção?
- É, mas quase ninguém sabe – deu de ombros. – É bem controlado hoje em dia, na real, eu tinha uns quinze quando descobri, passei um tempo tomando remédio e tudo... pude culpar isso a minha impossibilidade de aprender química – ambos riram pelo nariz. – Mas às vezes eu tenho uns picos de hiperatividade incontroláveis. Não que esse tenha sido um desses, eu só queria te irritar mesmo.
revirou os olhos com um sorrisinho.
- Eu também odiava química se quer saber. Você sente que isso te afetou muito?
- Acho que sim. Eu tenho uns hiperfocos, mas pra outras coisas eu não consigo manter a atenção por muito tempo sem me esforçar bastante, um esforço meio doloroso até – ele explicou. – Tipo, quando eu descobri que tinha, eu passei dias lendo tantos artigos sobre isso, porque eu fiquei meio...
- Surpreso?
- É, acho que surpreso – assentiu. – Não é nada tão grave assim. Às vezes só é meio frustrante. Nem sempre eu posso escolher no que prestar atenção ou não. Acho que seria pior se eu tivesse seguido com a vida acadêmica.
- Hiperfocos seriam coisas que você se interessa muito aleatoriamente? – perguntou curiosa.
- É, mais ou menos isso – ele balançou a cabeça de um lado pro outro. – Por exemplo, se eu tenho que ler algo, eu paro de cinco em cinco minutos sem perceber, mesmo se for algo que eu queria saber sobre. Vou beber água, ao banheiro, mudo de aplicativo no celular, e depois volto. O que é bizarro, porque eu realmente gosto de ler – ele explicou. – Mas eu posso tocar violão por duas horas direto sem parar que eu nem vou notar o tempo passar. Porque é um dos meus hiperfocos. Eu não consigo ver um filme inteiro sem perder a atenção e me forçar a voltar, mas eu consigo assistir futebol vidrado e passar um bom tempo cozinhando e esquecer qualquer outra coisa.
- Que estranho. Acho que uma das primeiras coisas que eu concluí sobre você é que você era uma pessoa prestava atenção.
- Talvez eu só esteja interessado – ele deu de ombros. – Ou com um hiperfoco.
ficou em silêncio por alguns segundos, parecendo encontrar algo de muito intrigante no rosto de depois de sua fala sugestiva. Os olhos de eram como faíscas que incendiavam seu corpo inteiro só com o olhar. Pela seriedade no rosto dela, o rapaz não imaginou que, naquele momento – cacete, que momento, predominantemente desatento de qualquer coisa fora do rosto impecavelmente desenhado de e hiperfocado em como os olhos dela pareciam descer e subir do seus lábios até os seus próprios olhos – iria pular em cima dele, empurrando os ombros dele pra baixo e, por tê-lo pego de surpresa, finalmente conseguido derrubá-lo na água.
levantou, com um sorriso contrariado, e revirou os olhos, enquanto observava rir.


– Mas deixa eu te perguntar, você acha que isso tem a ver com sua produtividade? Como vai a produção inadiável do álbum?
agora dividia com o seu potinho de abacate, em que um dava uma colher por vez. Já fazia algum tempo em que eles haviam saído da água e estavam sentados em cima das cangas, um ao lado do outro, apenas conversando sobre coisas aleatórias. usava os óculos escuros de porque tinha esquecido os seus e ele não pedia de volta, porque achava bonitinho que ela usasse suas coisas, mesmo com os olhos meio fechados por causa do sol porque insistiu em deixar o boné pra trás. Ele passou o pote de volta pra ela, antes de responder:
- Produtividade? Isso existe? Eu achava que era lenda – o cantor brincou, meio frustrado, ainda com um restinho de abacate na boca. riu, fazendo uma careta. – Tá uma merda, . Já faz meses que eu tô nessa e não consigo mais fazer uma música que eu realmente goste. Parei na segunda. Preciso de umas dez, no mínimo.
- Você acha que tem a ver com isso?
- Acho que isso piora as coisas, na verdade. Mas não é exatamente por isso.
, nesse momento, encolheu os ombros e passou a olhar pro mar, como uma maneira inconsciente de dizer que não queria chegar muito a fundo naquilo no momento. colocou a colher com a fruta na boca, mastigou o seu abacate curiosa e torceu o lábio, insistindo.
- E o que é?
- Eu devo ter me iludido com meu próprio álbum, eu acho – ele riu um pouco da definição, e riu também, passando de volta o pote. – Tinha tantas ideias antes de começar a produzir, até escrevi algumas quando estava em tour. Foi só começar a ser oficial que passei a odiar todas elas e aí agora eu acho que quero fazer um tipo de música diferente, mas nada nunca parece bom o suficiente.
- Bom o suficiente ou belo o suficiente?
voltou a olhar pra ela e a encarou, parecendo refletir sobre o que ela disse. Ele colocou o pote de lado, e ela também decidiu que não queria mais abacate. Então fechou o pote, guardou, e abraçou as próprias pernas, apoiando sua cabeça entre seus joelhos, olhando pra ele através dos óculos. Os cabelos molhados pra trás, caindo por suas costas.
- Você diz, como...
- Como se você não estivesse sendo verdadeiro consigo mesmo sobre o que você realmente quer fazer. E aí nunca parece o suficiente porque você está fazendo música pra outra pessoa.
- Você não acha que a música também é pro outro?
- Eu acho que é também – ela tirou os óculos, colocando-o no topo de sua cabeça. – Mas se todo mundo tá curtindo o que você tá fazendo menos você, tem alguma coisa de errado.
- Você sempre fala tudo o que pensa, né?
- E você nunca fala tudo o que pensa.
Mais alguns segundos de silêncio confortável, mas tenso, em que eles se encararam, e posicionou o olhar com firmeza, em forma de desafio, como sempre fazia.
, que tinha os braços por cima dos joelhos dobrados, virou de lado, dando de ombros. – Mas e você? Me conta o seu rolê. E me dá um desses morangos aí. Eles tão muito bons.
Nesse momento, pegou a sua carteira de Malboro e colocou um cigarro entre os lábios, acendendo-o com o isqueiro.
fez o mesmo, notando que gostava de observá-la enquanto tragava. Era como se ela tivesse o dom de deixar qualquer coisa mais atraente.
- Você já ouviu falar na Kapplan?
- Era a empresa que fazia os vídeos da Gucci antes de desvincularem. Você trabalhava lá? Não tem muito a ver com Cinema. – comentou, a fumaça saindo de sua boca com as palavras.
- Nossa, é mesmo, você é embaixador da Gucci! Eu quase peguei a Gucci. – disse, chocada, com os olhos meio arregalados. Até levantou a cabeça e se virou de lado, sentando como um indiozinho e segurando no pulso dele, surpresa. – Que bizarro. Eu ia dirigir os seus comerciais.
- Você que dirigia os vídeos? – arqueou uma sobrancelha, com um sorriso satisfeito. – Tá vendo? É o destino, . A gente ia se bater de algum jeito.
- É, eu meio que dava um conceito ao que o idealizador da marca queria passar e dirigia durante a execução – ela pontuou, dando de ombros, tentando explicar de uma maneira acessível a trabalheira que tinha na Kapplan e como se virava em mil pra dar conta de tudo. – Foi o mais perto de um filme que eu consegui chegar. – deu um sorrisinho amarelo e quase frustrado.
- Mas como você foi parar lá?
- Eu consegui um estágio no meu terceiro período de faculdade, nessa área de audiovisual – Começou a explicar. – No começo, eu só dava conta das redes, Instagram e Facebook. É parte do meu curso também e eu só queria ganhar hora, mas eles se apaixonaram por mim. Até hoje eu não sei como foi isso. Não queriam largar o osso de jeito nenhum e eu tentei um monte de vezes. Mas acabou que eu nunca saí porque eles sempre me faziam uma oferta melhor pra eu ficar. Já viu aquele recorte do Robert Pattinson no elevador, da Dior? Fui eu que fiz. E também todos os seguintes.
Porra, pensou, porra, porra, caralho, é óbvio que ele sabia qual era, foi a primeira vez que viu qualquer coisa sobre Camille na vida. Não podia acreditar. A conhecia a Camille. A conhecia a Camille. Ela tinha dirigido a porra de um comercial com a Camille.
agradeceu por estar com um cigarro na mão naquele momento, pois pode descontar nele a ansiedade do pensamento da possibilidade de interação -Camille-.
Nunca daria certo.
- Sim, , essa série de propagandas é foda – ele elogiou, se perguntando se ela sabia que Camille era sua ex. tentou disfarçar o desconforto. – A Kapplan é uma empresa enorme – comentou, tentando não pensar sobre e desviar o assunto. – Você passou quanto tempo lá?
- Quatro anos e um pouquinho – respondeu. E ele arregalou os olhos a olhou como se fosse bastante tempo. – E aí, fui demitida.
- Mas o que aconteceu? Foi do nada?
- Sendo muito sincera? – ela arqueou a sobrancelha, apagando a bituca e guardando tanto a sua quanto a dele num saquinho de lixo. – Eu acabei o namoro e o meu chefe, o Kapplan filho, tinha acabado de assumir a supervisão de marketing. Daí ele deu em cima de mim e eu não quis sair com ele, ele ficou putinho e me demitiu.
- Não acredito, !
- É. Ele deu a desculpa que foi por conta de uns erros técnicos, mas eu sei que é mentira. Eu dava conta da Dior e da Coca e eles me amavam. Foi logo uma semana depois que isso rolou. – ela deu de ombros.
- Você não pode processar ele por assédio?
- Eu não sei, ele não foi incisivo ou algo assim. Ele me chamou pra sair, eu disse que não, e então ele passou a me tratar meio indiferente, sabe? Barrar meus projetos, descredibilizar minhas ideias – ela disse, expirando com certo pesar. – Eu fiquei com muita raiva no começo. Acho que ele merecia, sim, um processo, mas eu não tenho provas, nem testemunhas. Só a minha palavra contra a dele. As chances são mínimas e ele tem bem mais grana que eu. Ele é só branco, rico, hétero e mimado demais.
- E agora, como você tá se sentindo com isso?
- Acho que se ele não tivesse me demitido, eu nunca sairia de lá. Era confortável e eu tinha bastante espaço, a grana era boa, mas sei lá... – assumiu. – Eu acho que estava acomodada e não era uma tortura, mas nunca seria feliz de verdade, sabe? Completa, satisfeita.
- Então acabou sendo bom no fim, né?
- Acho que sim. Eu me sinto livre – ela levantou os braços e inclinou a cabeça, rindo um pouco. – E ao mesmo tempo preocupada com as minhas contas, mas principalmente como se trocentos quilos tivessem saído das minhas costas. A sorte é que eu sou minimamente organizada.
- E daí você tá procurando emprego?
- Não.
riu e ela espremeu os lábios em controvérsia.
- Não?
- Não. Eu tenho lido bastante, na verdade. Distribuído alguns currículos.
- E o que você tem lido?
- Essa semana eu acabei de terminar de reler um dos meus preferidos – ela deu de ombros, tirando um livro de sua ecobag chamado In Watermelon Sugar, que pode ser traduzido como açúcar de melancia, mostrando-o. Ele pegou o livro em mãos e leu seu encarte enquanto a escutava falar.
- E sobre o que é esse livro?
- É meio sarcástico. Se passa num lugar chamado euMorte pós-apocalíptico em que tudo é feito de açúcar de melancia.
- De novo. Surpreendente – ele virou o rosto de lado pra ela, negando com a cabeça, balançando-a de um lado pro outro porque simplesmente não conseguia prever seus movimentos. Imaginava um George Orwell, Jane Austen ou qualquer coisa assim. – Eu queria ler. Posso ficar com ele por um tempo?
- Certo. Você pode sublinhar com lápis as partes que você mais gostar. Eu gosto de ver depois.

assentiu, meio ansioso, pensando que iria se esforçar mesmo em terminar aquele livro, por mais que nem mesmo se lembrasse da última vez que tinha terminado um.
- E o que mais você tem feito?
- Eu pensei em escrever um filme independente.
E então, quem riu. Mas pareceu encantado.
- Cacete, . Eu gostaria muito de ver um filme seu – incentivou, e sentiu uma pontada de satisfação na boca do estômago subir pela sua barriga, mas só assentiu, em agradecimento. – E sobre o que você tem escrito?
- Nada.
Ambos riram dessa vez. pôs as duas mãos no rosto, meio frustrada.
- Acho que tô mais parecida com seu processo de produtividade do que qualquer outra coisa.
- Você não tem uma ideia geral?
- Não muito.
- Tá bem. Então a gente vai fazer uma tempestade de ideias aqui. Ok?
deu um sorrisinho de canto de boca no esforço em que o rapaz estava fazendo para ajudá-la e sentiu que, naquele momento, ele havia ganhado pelo menos uns cem pontos a mais com ela.
- Vamo pensar. Do que você gosta de falar sobre? De maneira geral. Tipo, livros, séries...
- Eu gosto bastante de conversar sobre músicas, e filmes e sentimentos – ela olhou pra cima, tentando escolher. – Definitivamente, eu gosto de entender como a mente das pessoas funciona. Gosto de saber sobre o que elas sentem e pensam e porque isso acontece.
- Certo. Me fala 3 filmes que te marcaram e porque você ama eles. Fora os cartazes pendurados na sua sala. Eu lembro deles.
- Puts – reclinando-se para trás e apoiando as mãos atrás das costas. – Tá bom. Ruby Sparks, definitivamente. A Origem. Frances Ha.
- Ruby Sparks? – deu uma risadinha. – E você fez Cinema?
debochou, mas deu de ombros, inabalável.
- Você sempre presume coisas arrogantes sobre os meus gostos e normalmente nunca acerta.
- Deve ser porque eu sempre acho que você vai falar sobre coisas meio conceituais de primeira, mas aí você me vem com algo bobo – ele assumiu. – E aí depois você fala as coisas conceituais como se elas não fossem tão interessantes quanto as coisas bobas.
- Eu não ligo muito pra isso de ser cult tanto quanto eu deveria. E gostaria. Às vezes eu só queria ser uma cinéfila comum, sabe? – revirou os olhos, com um sorrisinho, e riu pelo nariz. – Acho que tem um monte de coisa chata por aí que a galera idolatra porque é o que é socialmente respeitável.
- Tudo bem. Você tem uma opinião pra tudo. Entendi – retrucou, ironicamente, e bateu nele de lado. – E o que você mais gosta nesses filmes?
- Tem pontos específicos em cada um deles. Deixa eu pensar – olhou pra cima, tentando entender. – Eu amo a fotografia de Frances Ha e como eles representam as frustrações da vida, porque às vezes as coisas não dão certo mesmo, além do fator Greta. Puta merda, como eu amo essa mulher... A direção dela é uma coisa de outro mundo. Também tem a parte de as personagens principais não serem um casal, e não estarem apaixonadas, mas fala sobre a dependência emocional que uma amizade pode trazer e as pessoas não falam muito sobre isso. Acho que é o meu filme favorito da vida.
- Certo.
- A Origem porque é profundo e significativo em cada detalhe. Porque mostra o funcionamento doentio de uma mente programada pra se sabotar. A progressão do filme é assustadoramente bem construída e o próprio Nolan é fantástico, você sabe. Eu amo tudo sobre esse filme. É genial. E também tem Her. Nossa, , eu consigo sentir cada segundo desse filme...
- Vou fingir que você não colocou um filme a mais porque é bonitinho ouvir você falando de filme. Mas e Ruby Sparks?
deu uma risada pelo nariz e olhou um pouco pra baixo, antes de continuar a falar:
- Ruby Sparks é mais pessoal, eu acho, mais clássico pra mim. Foi o primeiro filme que me colocou a pulga atrás da orelha do “ei, eu acho que quero fazer isso aí também”. Eu tinha... treze, catorze anos? Tinha acabado de chegar aqui e ver filmes era o que me confortava – ela se inclinou um pouco pra frente, gesticulando. – A metáfora que eles fazem entre o criar um personagem e idealizar uma pessoa. A cena em que ele finalmente nota o quão perturbador é o fato de ela simplesmente se tornar tudo o que ele deseja que ela seja e o quão confusa ela fica durante o processo, mas no final, não consegue não fazer. – explicou.
- Então, basicamente, você gosta de desenvolver os processos relacionais dos personagens. É a sua parte favorita dos filmes?
- É, acho que sim. Você notou rápido.
- Foi só uma síntese de algo em comum entre os três – ele deu de ombros, piscando pra ela. – Eu gosto de processos criativos, sabe, quando não são os meus durante um bloqueio.
- Tudo bem, , você pode se esconder por trás do meu por enquanto.
- É tudo que eu preciso no momento. – disse, com uma mão no peito e uma encenação dramática, e ela empurrou ele com o pé de areia. – Agora me fala você algo que você nota que em comum que te chama atenção entre os três.
- Os diálogos. Definitivamente os diálogos. Todos tem diálogos tão subjetivos e carregados. Eu literalmente sou apaixonada por diálogos.
- E aí, acho que você já tem um norte agora de por onde começar a pensar a estrutura. O que você quer?
- Eu quero fazer um filme significativo. Eu quero personagens reais que passam por situações e coisas reais e mocinhos que também são vilões, porque todo mundo é um pouco vilão e um pouco mocinho. Eu quero pessoas que tenham defeitos e relacionamentos que frustram. Acho que, realmente, prefiro focar nas relações e nos processos de subjetividade do que nos conflitos.
olhou pra ela com o que sentiu que eram olhos orgulhosos e levantou a mão, para que eles fizessem um high five. , então, num impulso, ignorou a mão dele e o puxou para um abraço apertado e animado de agradecimento, parecendo pegá-lo desprevenido. O primeiro abraço que eles tinham dado.
Não soube descrever muito bem como se sentia ao ser abraçado por . De repente, ele não se sentia apenas quente por fora, mas por dentro também – o toque de seus corpos e o mínimo encostar da pele dela com a sua o fez querer prolongar a sensação. Conforto. Segurança. As peles arrepiadas e as respirações descompassadas.
- Você é uma mente brilhante, . Sabia?
Ele sorriu largo pra ela, também surpreso com o elogio inesperado. Mas logo voltou a pompa, transformando esse sorriso num presunçoso. Ela se afastou rápido demais.


.

o observou, enquanto ele se virava pra trás e tirava o violão da grande caixa preta em que ele tinha trazido. Foi nesse momento, apenas, que a ficha dela caiu.
Caceta, caceta, caceta, o que tá acontecendo, ela pensou, o que diabos estava acontecendo? As pessoas literalmente pagavam e muito caro pra ver esse cara cantar e tocar e ela estava ali. Ao lado dele. E mal sabia cantar duas de suas músicas, apesar de ter tirado algum tempo durante aquela semana para ouvir o tão falado álbum do e alguns vídeos dele no Youtube.
A parte surpreendente é que ele era, sim, realmente, genial, brilhante, fantástico.
Ele passou a dedilhar algumas notas, mas eram de uma música conhecida, ela notou. E então, ele começou a cantar Elephant Gun de novo. E , no começo, não quis atrapalhar porque a voz dele era tão bonita, tão crua e tão rouca, e ela o encarou sem nenhuma vergonha enquanto ele, concentrado, tocava uma das músicas preferidas de como se já soubesse disso. Mas aí chegou num momento em que ela não conseguiu mais se segurar e passou a cantar junto também, arrancando algumas risadinhas no meio da música de pela voz ruim. Rapidamente, sacou o celular, apontando a câmera pro céu, captando apenas o som de suas vozes no áudio e a imagem do céu límpido na imagem. Ela riu um pouco também, mas se deixou levar – e eles cantaram outras muitas músicas juntos durante toda a tarde, e em cada música que se passava, se sentia seu coração aquecer mais um pouco, sem saber muito bem discernir o que aquelas sensações significavam.


.

Passaram o resto do dia conversando e rindo e a sensação que tinha era que poderia passar o resto da vida conversando com a brasileira, sem nem ver o tempo passar – exatamente como aconteceu da outra vez. Quando parou pra notar, já estava quase escuro e isso indicava que era a hora de voltar pra casa. Na volta, pararam na MC e ele finalmente pagou o Big Tasty que estava devendo pra ela desde o primeiro dia de aposta. Mataram a fome no drive thru e seguiram de volta, dessa vez com o capô abaixado, porque ficou com frio, apesar de já estar seca da água do mar.
Olhou para a mulher ao seu lado tagarelando sobre como ele havia colocado uma música dele mesmo só pra garantir que ela ouviria e riu, porque realmente, ele só fez pra irritar, mas parou de prestar um pouco de atenção nas palavras que ela dizia e passou a observar o quão sortudo se sentia apenas por ter passado o dia com ela, sem que mais nada acontecesse, num dos sinais vermelhos em que pararam, antes da estrada.
estava lá, presunçosa e firme, dando mais uma de suas infinitas opiniões sobre as coisas – com o corpo bronzeado do sol e ainda de biquíni e shorts de cintura alta, sem camiseta dessa vez, os cabelos naturais já secos mas com o aspecto praiano e meio frizzado que preenchiam seus ombros e os peitos redondos e avantajados que aumentavam ondas em seu cabelo, os lábios hidratados com o lipbalm de morango bem docinho que ela fez questão que ele passasse também, o rosto corado e as sardinhas de quem passou o dia no sol, as mãos que sempre gesticulavam com intensidade e a voz rouca que se mostrou mais evidente do que nunca naquele específico dia em que ela decidiu se abrir mais que o normal.
Talvez porque estavam sozinhos. Talvez porque já haviam se visto outras vezes. Ou porque resolveu dar um pé de confiança pra alguém que ele sabia que ela não devia – talvez tivesse uma tendência intríseca de estragar as coisas.
Estava fascinado pelo contorno do seu rosto na luz e a forma que seus lábios se mexiam.
- Terra pro . O sinal tá verde de volta. Falei demais?
- Você fala demais mais do que eu imaginava – ele brincou, voltando a olhar para a olhar pra via, e virando o rosto para ela periodicamente, sempre que tinha chance, porque não queria desperdiçar nenhum momento em que pudesse olhar pra ela. – E eu não sabia que você já tinha escutado meu álbum. A gente nunca falou muito sobre isso.
- Esse é o momento?
- Esse é o momento.
respirou fundo, parecendo pensar por um instante. estava ansioso pra ouvir o que ela tinha a dizer.
- Acho que você é de outra década.
Ele riu.
- Outra década?
- Você parece que veio de outro lugar, não sei, é como se... Como se você não conseguisse se encaixar.
Eles ficaram em silêncio por um tempo, enquanto o cantor pareceu absorver as palavras assustadoramente reais que tinha usado para descrevê-lo.
- É diferente de tudo que eu já vi antes. – pontuou, por fim.
- Posso te fazer uma outra pergunta?
- Manda.
- Você ainda acha todas aquelas coisas de mim?
- Eu acho que você tá um pouco perdido, – ela deu de ombros, sincera. – Mas tudo bem. Eu também tô.
Deve ter sido por isso que a gente se achou, ele pensou, mas não disse. Assentiu, satisfeito com uma resposta honesta e o coração limpo, enquanto eles voltavam a tagarelar sobre mil coisas no caminho pra casa e cantar as músicas que eles finalmente gostavam em comum, e também pensou que viveria naquele momento por muitíssimos anos.

* Friends: seriado de comédia americano conhecido pelos personagens: Joey, Chandler, Phoebe, Monica, Rachel e Ross.
* Joey and Janice’s Day of Fun: nome dado ao momento em que Joey, melhor amigo de Chandler, e Janice, a atual namorada de Chandler, tirariam o dia para passar juntos e tentar se aproximar, visto que Joey não gostava de Janice. Joey ODIOU o dia.
* Panic! At The Disco: banda popular nos anos 2000/2010, conhecidos por seus clipes macabros, perfomances teatrais e letras sem muito sentido semântico. I Write Sins, Not Tragedies foi um dos primeiros singles da banda a fazerem sucesso. No clipe, a noiva trai o noivo com um dos convidados, fantasiados com maquiagens que pareciam máscaras e agindo de maneira teatral.
* Arte pela arte: lema que diz que a arte não precisa de um significado para ser arte.
* TDAH: Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, em que as pessoas que possuem esse transtorno podem ter dificuldade em manter uma atenção ou foco para os níveis considerados normais, ser hiperativo e/ou impulsivo.
* Hiperfoco: fenômeno gerado em pessoas com TDAH em que elas possuem mais facilidade em concentrar a atenção em picos de interesse aleatórios.
* Belo: aquilo que, para a arte, é atraente. O conceito pode mudar de acordo com as gerações e correntes literárias, porém mais conhecido por estar interligado a objetos formais e esteticamente aceitos.
* Aqui o link do comercial da Dior da Camille e do Robert
Pattinson: https://youtu.be/Ocjdar1yqW8


8.



se deitou ao lado de no chão de tatâme em que faziam abdominais e respirou fundo, sentindo seu coração acelerado e a respiração ofegante. Olhou para a amiga, tão exausta e suada quanto – talvez um pouco mais e riu dela.
- A gente ainda tem que fazer mais uma de perna, .
- , eu te amo, mas vá à merda – reclamou.
- Desistiu do projeto pernas brasileiras?
- Eu só não desisti de respirar porque é automático, , porque senão eu desistia também.
A amiga riu, fechando os olhos por um curto período de tempo.
- Ah, qual é. Nem foi tão pesado assim. Seu boy do whey ficaria orgulhoso. Já deu seu bom dia motivacional de hoje? Você pode mandar uma mensagem dizendo que “tá pago”.
- Cala a boca.
estava feliz de poder voltar a sua rotina de exercícios – era o que fazia ela se sentir minimamente sã diante de toda a loucura que havia vivido nos últimos meses. Não que trabalhar na Kapplan fosse fácil ou leve pra sua saúde mental. Ter um cargo relevante numa agência de publicidade e propaganda pode ser um fator estressor para ansiedade – principalmente quando se lida com marcas tão grandes – e a brasileira havia vivenciado isso na prática com toda a responsabilidade que caía sobre ela. Era um alívio não ter que lidar mais com isso.
Correr sempre foi um hábito na vida de porque sempre foi um hábito na vida de Patrícia . E se existia uma coisa difícil de se fazer nessa vida, essa coisa era dizer não para Patrícia . Por muito tempo odiou o fato de sua mãe obrigá-la a correr, mas hoje em dia, agradecia com todo seu coração.
- Vai dizer que não está apaixonadinha?
- Que apaixonada o que, pet, me respeita! – se virou de lado ficando de frente para a amiga enquanto olhava distraidamente algo no seu celular. – Inclusive, hoje eu tenho um outro encontro. Não vou dormir em casa, ok?
- Porra, você e o tinham que se organizar pra marcar coisas em dias diferentes. Eu preciso da atenção de pelo menos um de vocês pra me sentir viva por dentro, sabe?
levantou os olhos com uma cara de tédio e então, os revirou.
- Ah, . Por que você não treina com uma siririca? Ou baixa o Tinder de novo.
- O Tinder é uma merda, .
- Você que não sabe usar. É exigente demais. Já vai dando dislike sem nem ver outras fotos.
- Eu não vou sair com um cara que posta foto sem camisa no Tinder. Que saco. E nem com um cara que tenha a bio chata. Pô, cê tá no Tinder, se esforça um pouco, mostra um pouco de criatividade...
- Tinder é lugar pra mostrar os peitos, ! Pra ver foto de gente bonita. Cê não tá no clube do livro, não. Eu não sei mais o que eu faço com você.
- Desmarca o date e vamo numa baladinha top. Vaaaaamo. Juro que faço um rolê de hétero contigo. Se a gente tivesse no Brasil, podia ser um show da Marília Mendonça ou do Mateus e Kauan. Sertanejo não é muito meu tipo, mas faria por você.
olhou para a amiga brasileira sem entender muito bem sobre o que ela falava, mas já estava acostumada com as referências usava mesmo que ninguém entendesse.
- O que porra é sertanejo? riu, ao ouvir a amiga tentar usar a palavra portuguesa. – Nomes em português são muito difíceis. Marilea?
- Quase. Marília. Acho que seria tipo um country? Tenho certeza que você ia gostar. Você é a cara do sertanejo universitário. Já o seria um rolê mais Los Hermanos na Fundição Progresso.
- Fica pra amanhã, amorzinho. Deixa só eu te mostrar esse homem – disse, passando novamente a voltar seus olhos para o celular por alguns segundos e depois, virou o celular para a amiga.
Ele realmente parecia ser bonito pra quem achava ele bonito. Crossfiteiro. Tirava umas fotos com camisa social e cara de bravo, às vezes uns sorrisinhos, numas baladas de gente rica, sempre com cerveja na mão, selfies de gopro em várias paisagens diferentes porque ele aparentemente fazia umas três viagens por ano pro exterior. Ele era empreendedor, pelo que dizia sua bio, dono de uma rede de restaurantes chiques por Beverly Hills e afins.
fez uma careta. Esse era exatamente o tipo de cara de quem ela saía correndo.
- Por que, ?
- Ah, ele é um gato! Vai dizer que não?
- Ele é playba.
- Ele não é playboy, , ele só não é um dos escritores frustrados ou professores de filosofia que você normalmente se interessa.
Rolou os olhos.
- Não é assim, ok? É só que eu me sinto atraída por pessoas artisticamente conscientes.
- Você gosta é de gente que vai fuder sua cabeça, , isso sim. É só um carinha aparecer com uma camiseta de flanela em umas cores mais neutras, óculos e um livro do lado, talvez um cabelo cacheado, daí ele fala coisas do tipo – se levantou, apoiou seu corpo no cotovelo e limpou a garganta antes de fazer uma voz mais grossa bem péssima e continuar: - “ei, eu estou vazio por dentro e preciso de alguém para suprir todas as minhas necessidades emocionais mais profundas enquanto eu finjo que essa pessoa é tudo que eu preciso o tempo todo e faço ela se sentir responsável por todas as coisas que acontecem na minha vida porque eu provavelmente tive problemas com meus pais e canalizei tudo isso pro meu ideal romântico da mulher perfeita que vai me amar incondicionalmente mesmo quando eu não mereço” e aí você quer dar pra ele porque vai poder, finalmente, alcançar a sensação de ser suficiente pra alguém. Embora essa sensação não se sustente sozinha por muito tempo.
abriu e fechou a boca algumas vezes, piscando bem rápido, incrédula, sem saber muito bem o que pensar com esse soco no estômago, antes de responder:
- Por que você não vai analisar o seu cu? – disse, ironicamente. – Você já tem pacientes o suficiente.
- Ah, , você sabe que é minha preferida...
Mas nesse momento, o celular de tocou, assim que revirou os olhos para a amiga. E dessa vez, ela tinha, sim, o número salvo.
parecia não ter coragem de atender – afinal, tinham se falado por uns cinco dias inteiros desde que haviam ido pra praia juntos. , logo no dia seguinte de manhã, mandou a playlist and ’s day of fun pra ela compartilhando do Spotify, o que achou bonitinho porque a playlist tinha em torno de cinquenta músicas. E isso deve ter dado um trabalhinho.
Mas ela travou na possibilidade de falar com ele no telefone, sabe, assim, direto, por Deus, odiava falar no telefone, tinha que dar respostas muito rápidas e ela gostava da amplitude de poder respondê-lo com tempo e sem pressão. Por que não mandava uma mensagem, ao invés? Prático, rápido, e ela responderia quando quisesse.
Viu pegar o telefone da sua mão e atender antes que pudesse reclamar.
- Oiiiii, ! Sim, sim, sou eu, a . Eu tô ótima, e você? Você já reconhece minha voz? A gente é MUITO amigos! Tô chocada. – E então, passou um tempo ouvindo ele falar. Risadas. – Hahahaha, eu sei, eu entendo. Mas você tá indo bem, cara. passou mais um tempo ouvindo ele falar e então, riu de novo. – É, eu tenho que te contar todos os babados depois. Atendi porque a tava longe, mas já vou entregar pra ela. Sim, sim, hahahaha. Obrigada. Vamo ver isso aí sim. Beijo.
estava chocada com aquela conversa quando recebeu de volta o celular e colocou no ouvido, tentando se concentrar na conversa e não no fato de que ele e também agiam como bons amigos. O que estava acontecendo? Esse era o mesmo cara que ela via na TV? Pelo amor de Deus. A única vez que falou com ele no telefone estava totalmente no brilho. E o brilho consegue fazer coisas fantásticas que a sóbria não chega nem a sonhar em fazer. Seu coração acelerou ao ouvir a dita cuja voz e a brasileira teve que morder o lábio na expectativa.
- E aí, .
- Oi, . Saudades?
Deu uma risadinha pelo nariz.
- Foi você quem me ligou. Você que deve estar aí, chorando.
- Eu não posso negar, estou mesmo. Cinco dias sem você e mal posso respirar – respondeu, num tom cético, e a brasileira não pode deixar de dar um sorrisinho de canto de lábio. a encarava, balançando a cabeça de um lado pro outro, com um sorriso esperto ao observar a interação da amiga com o cantor. – Como você está?
- Eu voltei pra academia hoje. Pra sua sorte, meu joelho tá funcionando. Sabe que ia ter que me dar o seu se não estivesse, né?
, ainda deitada no tatâme, balançava a perna esquerda que estava dobrada e apoiada na direita vez ou outra.
- Eu daria, sem problemas. Sou muito generoso. E tenho dois – ele respondeu, soltando uma risadinha que ele sempre dava depois de fazer uma piadinha ruim, como se fosse a coisa mais engraçada do mundo. E às vezes era mesmo, mas só porque era ele que tava falando. – O que eu não faria por você, ?
- Posso pensar em várias coisas.
Chamar pra um encontro, por exemplo.
- Você só quer ser chata. Agora eu quero falar de outra coisa.
- Ah, é? Do que você quer falar?
- Eu acabei de terminar a terceira música do álbum!
- Puta merda, ! Não acredito! – até se levantou, sentando-se, com um sorriso tão largo que conseguia sentir do outro lado da linha. Ela fez alguns sons inexprimíveis e ouviu a risada gostosa dele contra o telefone. – Eu tô tão feliz! Como ela se chama? Pera. Você também tá feliz, né? Você gostou muito da música?
- Eu tô muito feliz, . Mas você parece mais feliz que eu.
- Eu quero ouviiiiiiiiiiir!
- Só depois.
- Olha aí. Já é mais um pra lista de coisas que cê não faz por mim.
- Calma, , a espera vai valer a pena. Eu juro.
- Tudo bem, . Mas eu tô muito feliz. Foi só pra isso que você ligou?
- É. Eu tava com muita vontade de te contar. Você tá sabendo antes da minha mãe. Não conta pra ela.
sentiu o coração aquecer um pouco com aquela informação. Mal podia conter o sorrisinho que crescia na ponta da sua boca.
- Ah, . Vai ser difícil, você sabe, com todo contato que eu tenho com a Dona...
tinha certeza de que ele havia revirado os olhos no outro lado da linha, depois de rir pelo nariz.
- Florence.
- Florence? O nome da sua mãe é Florence? É lindíssimo.
- Fui eu que escolhi.
- Ah, pelo amor de Deus...
- Hahaha. Escuta, eu vou ter que voltar a gravar. Tô no pique pra próxima música. Inclusive o acabou de voltar do almoço com a Charlie.
- QUE? O tá aí? O que ele tá fazendo aí? Ele nem me contou! Pera, ele saiu com uma Charlie? E vai ter outro date de noite?
Dessa vez, e se entreolharam. com os olhos arregalados e a boca em um “o” e perguntou quem era Charlie. fez que não sabia com a cabeça.
- Sim, e ele me ajudou pra caralho nessa música. Sabia que ele toca uns 97 instrumentos? Você ficaria orgulhosa, pico de produtividade a mil. Ou de hiperatividade, não tenho certeza ainda do diagnóstico.
sorriu, e arqueou a sobrancelha pra ela de maneira sugestiva.
- Eu tô bem orgulhosa mesmo, . Vou colocar um broche na sua jaqueta de escoteiro.
- Quer saber o nome da música?
- Fala.
- Watermelon Sugar.
- Como o livro?
- Como o seu livro preferido.
engoliu em seco, piscando várias vezes, sem saber muito bem o que responder. Foi salva pelo gongo porque o finalmente serviu pra alguma coisa e ela pode ouvir sua voz gritando algo no fundo que ela não conseguiu entender, mas o cantor soltou uma risada e continuou:
- Você ouviu?
- Não, eu não ouvi, mas sei que o falou merda.
- Hahahaha. Ele é engraçado, né?
- O que ele te disse, ?
- Nenhuma mentira. Tô indo, tá? Te ligo depois.
- Mas o que ele te falou?
- Não precisa ficar com saudade, . Já já eu apareço de novo.
E então, desligou, deixando uma meio confusa e com uma sensação quentinha no coração deitada no tatâme da academia.

.

Camille, ao atingir o seu ápice, se deixou descansar em cima de por alguns segundos, apenas para jogar-se ao seu lado na cama com a respiração ofegante. Virou somente a cabeça pra ele, que olhava pro teto, sem encostá-la. Tinha uma de suas mãos recostada no torso dele. se perguntava o porque diabos tinha feito o que acabara de fazer.
- Ei... – Camille o chamou. Apoiou sua cabeça no braço dele, que estava recostado em seu peitoral, encarando-o, mas ele não virou os olhos para a modelo ao seu lado. A francesa subiu uma de suas mãos ao seu cabelo, passando-a por seu rosto e pousando ali.
Conteu o ímpeto de fechar os olhos ao toque como se ainda tivesse algum poder sobre ele. Talvez não o mesmo, mas ainda estava ali – mas apenas onde encostava.
Por dentro, não conseguia sentir nada. Não tinha raiva, não tinha rancor, não tinha desprezo, não tinha tristeza. Era completamente vazio. Desceu os olhos para Camille, tentando entender o que se passava. Olhou pra ela, bem no fundo dos olhos. Os olhos azuis que pouco tempo atrás o fazia tremer por dentro. A boca com lábios grossos, nariz fino e maxilar demarcados que ele sentia que poderia observar pelo resto da vida. O cabelo loiro e longo que sempre cheirava tão bem e que ele sempre queria tocar, agora, parecia não surtir efeito nenhum.
Completamente apático, como sempre terminava, de um jeito ou de outro.
- Então... – ele a ouviu dizer, com o sotaque demarcado.
- A gente não tem que conversar sobre isso.
- Claro que não. Porque você tá ok com isso – viu a francesa revirar os olhos. – E daí do nada você aparece de novo, a gente conversa um pouco, mas isso não é suficiente pra você, e aí a gente transa e você fica assim. Emocionado.
Aquelas palavras mais lhe soaram como um soco no estômago. Nesse momento, se levantou um pouco, afastando-a, que passou a ficar sentada ao seu lado, observando-o com um espectro de irritação. Mas ... Ele estava bem mais irritado.
Irritado porque, primeiramente, aquilo era uma mentira completa. Ele não estava emocionado. O problema era justamente o oposto. E ele sentia uma necessidade absurda de deixar isso claro, por mais que estivesse nessa nova empreitada de tentar ser menos escroto etc.
A única pessoa que pareceu conseguir o fazer sentir alguma coisa, e caralho, ele havia sentido tantas coisas com Camille que, por um tempo, acreditou que nunca mais iria sentir algo tão intenso por ninguém; e tudo isso, simplesmente, sumiu. Não tinha mais nada.
Olhava pra Camille e pensava que ali não tinha mais nada além de uma pessoa por quem ele costumava sentir coisas. E era isso que o fazia voltar atrás, vez ou outra. Ele queria sentir tudo aquilo de novo. Mas nada acontecia.
- Eu não preciso da sua caridade, Camille. Obrigada.
E tirou o lençol, revelando sua nudez, se levantando da cama, pronto para procurar a sua calça jeans e ir embora dali o mais rápido possível.
- Bom, pareceu o contrário quando você estava gozando – estava de costas quando a francesa o disse, mas ele sabia que ela havia revirado os olhos. Parou sua procura para encará-la, do meio do quarto para a cama de casal do Hilton.
estava perplexo. E ficava cada vez mais perplexo a cada frase que ela usava para representar a relação que eles tinham. – Eu achei que você sabia que era só isso.
- Como pode ser? – ele perguntou, mais para si mesmo do que pra ela.
- A gente faz isso bem, chérie – Camille se levantou e foi andando até ele, abraçando-o, ainda do mesmo jeito que se encontrava, apoiando a cabeça em suas costas e recostando-a ali. Ao sentir o beijo da francesa em seu ombro, em seu braço, em seu pescoço, fechou os olhos, tentando se lembrar de tudo o que sentia quando ela o fazia antes, desejando voltar a ter as mesmas sensações. – Eu continuo amando você. Do mesmo jeito.
Abriu os olhos, bufando pelo nariz.
- Então por que você quis abrir a merda do relacionamento? – perguntou, com uma voz rasgada e rude, mas sem afastá-la. Sentiu em sua pele o expirar profundo e cansado da modelo que ainda se mantinha abraçada ao seu corpo. A sensação de tê-la perto ainda o fazia arrepiar. Era Camille, afinal de contas – e inconscientemente, cada mínimo toque gerava um turbilhão de expectativas de que algo pudesse ressurgir. Explodir de novo. Despertar. Mas não acontecia.
A francesa o encarou como quem não aguentava mais esse assunto.
- Porque eu quis, . – ela disse, por fim, se afastando. Parou atrás dele em uma distância razoável e ele se virou pra ela, disposto a continuar a conversa. Camille mantinha a postura perfeita e o corpo majestoso, sem nenhuma vergonha de sua nudez. Ele riu pelo nariz, sarcástico, revirando os olhos, pegando sua calça jeans do chão e colocando-a, enquanto ela continuava a falar. – Não sei o que te dizer além do fato de que outras pessoas também fazem isso muito bem e eu quero me relacionar com elas.
E deu mais um passo para trás.
- Você poderia ter me avisado antes.
- Como você me avisou em Viena? – ela quem revirou os olhos, indo agora procurar suas próprias roupas. Ele franziu a testa.
- Nós nem estávamos num relacionamento na época, Camille, é completamente diferente!
- Você poderia ter me avisado antes. – ela retribuiu, com um sorriso cínico, depois de colocar o seu vestido e cruzar os braços. – Você ficou lá, chorando no telefone como se eu tivesse te magoando, como se não tivesse culpa de nada e eu tive que te escutar como se tivesse culpa de tudo por estar longe.
- Eu nunca disse isso. – disse, gesticulando com as mãos. – Às vezes parece que você fez isso tudo pra me punir. Eu tive que saber por outras pessoas, porra! Você tava em Nova Iorque saindo com outro cara enquanto eu voltava da Inglaterra, que por acaso, você não quis ir comigo! Logo depois do que aconteceu!
- Claro. Porque tudo é sobre você – Camille riu com escárnio. Ambos de pés, um para o outro, no meio da suíte presidencial do Hilton, que parecia ficar menor a cada minuto que se passava em que os dois pareciam sentir-se mais sufocados. – É tudo sobre a sua agenda, e o seu álbum, e os seus shows, e a sua música de merda, e o cacete do seu umbigo.
- A minha mãe, porra! Eu fui ver a minha mãe! – ele disse, mais alto dessa vez. – A minha mãe que eu não via por uns seis meses, desde que você decidiu que não queria pisar o pé lá de novo, por motivo nenhum, e eu tinha que ficar me fudendo pra te encontrar!
- Eu não te impedi disso, eu não te impedi de ir lá! Não é justo o quanto você me culpa por isso. Eu só não pude ir!
- Você não quis ir, Camille. Você tava sempre drogada demais pra fazer qualquer coisa. Realmente um martírio ficar uma semana sem cheirar pó, eu imagino...
- Caralho, pára de querer me controlar! E daí? E daí se eu quiser cheirar pó todos os dias da minha vida? É a minha vida! – a francesa gritou, por fim, num último suspiro desesperado, sentindo sua respiração ofegar e os olhos queimarem. Ficaram estáticos por alguns segundos, em silêncio, encarando um ao outro, com o que pareciam ser quilômetros de distância dentro da suíte presidencial do Hilton. – Eu só quero tomar as minhas próprias decisões. E essa foi uma dessas. É isso. Essa é a minha decisão. Ou a gente fica aberto e se vê quando der ou a gente não se vê mais.
E então, se encararam. Ninguém sabia mais o que dizer. Não conseguiam se entender. E então, Camille continuou:
- Eu acho que a gente não tem que se ver mais, chérie.
- É. Acho que não.
- A gente... A gente se faz mal...
ficou em silêncio ao ouvir aquela que ele pensava ser a mulher de sua vida deixá-lo para trás.
- Eu te amei muito, Camille. Eu te amei pra caralho. Eu posso não ter feito muita coisa, mas porra, eu te amei.
- Essa é a questão, , eu acho que você não sabe o que é amar – a francesa disse, dessa vez, com a voz um pouco embargada. – E eu queria muito ser a pessoa a te ensinar, mas eu não posso. Porque eu também não sei.
observou enquanto Camille dava de ombros e abaixava a cabeça, vendo uma lágrima escorrer por seu rosto pálido e sua pele lisa. Ela pegou a sua bolsa que estava na cabeceira, andou até ele em olhá-lo nos olhos, deu um beijo demorado em seu rosto e depois saiu pela porta, sem olhar para trás.

.

estava deitada no sofá tentando encontrar algo pra assistir na Netflix já fazia algum tempo quando ouviu uma notificação de mensagem. Pensou ser que havia esquecido a chave de novo ou em mais um encontro falido que acabou mais cedo e aí ele apareceria com duas garrafas de vinho e umas boas histórias pra contar. Já estava mais que conformada com a noite falida e sozinha que teria, até que pousou os olhos no seu celular.
Para sua surpresa – e satisfação de expectativa – era . Eles não tinham se falado mais depois da ligação que ele havia feito pra ela na parte da tarde. Ela havia respondido a mensagem dele, e então, chá de sumiço. Nada que tivesse preocupado muito , afinal, ela sabia que ele tinha uma agenda complicada e que estava tentando focar na produção do álbum, bem como ela tinha seus próprios assuntos para resolver. Havia feito faxina na casa inteira e até começado a escrever um esboço com a ideia que havia tido para o seu filme.
Ela estava se sentindo produtiva naquele dia. sentiu falta de fazer exercícios durante o tempo que ficou parada e estava feliz que as coisas pareciam estar voltando a se encaixar. Não estava esperando que fosse respondê-la.
Muito menos quando eram quase uma e meia da manhã.


Eu tô no Puzzle há um tempão e você não tá aqui 1:22 am

Oq 1:23 am
Vc ta no puzzle? 1:23 am
Oq vc ta fazendo no meu bar 1:23 am


Comprando pão 1:23 am
Hahahhahahahah 1:24 am


torceu a boca ao revirar os olhos e dar um sorrisinho. Provavelmente ele já estava bêbado.

Como vc foi parar aí 1:24 am
Surtado 1:24 am


Eu queria que vc tivesse aqui quando eu chegasse 1:25 am
Porque vc disse que vem todo dia 1:25 am
Mas vc nao tava 1:25 am
Aí eu fiquei te esperando eu acho 1:26 am


O coração de pareceu saltar ao ler as mensagens. O nervosismo tomou conta da boca do seu estômago. Porra, como queria vê-lo. Piscou algumas vezes pro celular, tentando se certificar de que realmente estava lendo certo.

Mas voce nao me avisou 1:27 am
Louco1:27 am


Eu estava tentando ser casual 1:27 am
Mas foda-se 1:28 am
Vem logo pra cá 1:28 am

Eu odeio você 1:30 am


Respondeu, por fim, e sabia que ele tinha entendido o recado. A questão agora é que eram uma e meia da manhã de uma terça e ela estava de pijama assistindo Netflix. Se fosse qualquer outro cara ela, muito provavelmente, só teria ignorado a mensagem. Por que será que ela queria tanto ir na merda do Puzzle ver o ? Será que ela estava recebendo os sinais certos? Será que, indo encontrar com ele de madrugada, ela mesma estava mandando os sinais certos?
Afinal, quais eram os sinais certos? E os errados? Por que ele tinha vindo pro Puzzle? Por que não podia ser qualquer outro bar? Por que ele não havia chamado qualquer outra pessoa? Puta merda, por que tinha que pensar tanto?
Tomou um banho e se arrumou sem pressa, colocando um shorts jeans de cós baixo que ficava solto e curtinho em suas pernas e uma camisa social de listras azuis aberta por cima de um top cropped preto que deixava seu abdômen à mostra. Batom vermelho fosco e um pouco de rímel, cabelos soltos e estava pronta. Pegou a identidade, o cartão e o celular, colocou numa bolsinha pretinha pequenininha e seguiu para o bar, em que lhe bastava atravessar a rua.


.

De todas as diferentes maneiras que pensou em terminar a noite, aquela, com certeza, não se encaixava numa delas. Depois da discussão devastadora que havia tido com Camille, se sentia cansado, desgastado e vazio. Ele estava insatisfeito. A sensação de ter alguma coisa faltando. A sensação de que, pelo amor de Deus, ele precisava sentir alguma coisa. Mas sozinho no quarto de hotel não parecia ser o melhor lugar para ficar bêbado naquele momento. Ele precisava de alguém que não soubesse de nada – nada sobre Camille ou qualquer coisa relacionada a sua carreira de maneira mais profunda. Alguém que não fizesse parte desse mundo. Alguém que pudesse lhe prover uma realidade alternativa por algumas horas.
Foi por isso que ele acabou no Puzzle lá pelas meia noite e pouco. Foi o último lugar onde se sentiu assim, fora a casa de – que ele mal conhecia, por acaso, mas parecia que já se fazia tanto tempo. Era muito tarde para ligá-la, ele sabia, mas puta merda, como ele queria. E ele sabia que poderia, se quisesse, porque a sensação que ele tinha era a de que realmente ele poderia fazer qualquer coisa. Ele sabia que estava conquistando a brasileira aos poucos, mesmo que não soubesse ainda o tipo de interesse que tinha por ela, e sinceramente, nem queria pensar muito nisso. Só conseguia pensar que ela era a pessoa perfeita para fazê-lo fingir que sua vida era boa de novo.
Ele passou um bom tempo no bar, conversando com o Carlito. Um ótimo terapeuta, se quer saber. Uma pessoa ou outra, ao ver que estava sozinho, vinha falar com ele e pedir pra tirar foto. Não se lembrava quantas cervejas ou quantos copos de gin havia tomado enquanto ouvia algumas de suas infinitas histórias com atenção, realmente interessado, por mais que os pensamentos ruins sobre o quanto ele tinha tudo o que queria mas sua vida continuava uma merda vinham e voltavam, vez ou outra.
E no meio de uma delas, eles entraram no assunto da .
- Faz tempo que ela vem aqui, né? – perguntou, só por curiosidade. – Vocês se conhecem há quanto tempo mesmo?
- Ah, desde antes de eu chegar. E eu cheguei faz... Um ano e meio? Quase dois – Carlito respondeu, enquanto enxugava alguns copos de cerveja com uma toalha branca. deu uma golada na sua longneck. – Uma vez ou outra vinha com o Travis, mas sempre com e depois do trabalho.
- O ex dela, né? – chutou, jogando uma verde para ver se conseguia saber o pouco mais da vida da brasileira. Carlito parecia ser próximo o suficiente.
- É. Mas deixe que ela te conte essa história – Carlito disse, com o sotaque carregado e a risada alta que o contagiou um pouco. Virou mais um gole, sorrindo sorrateiro pro garçom, que de bobo não tinha nada. – E você, cantor famoso? Como você foi parar na vida da minha brasileira favorita?
- A gente se bateu na vida, aqui perto – ele respondeu, dando de ombros, rindo um pouco. A voz já meio embargada pelo álcool. – E agora parece que eu não consigo fazer muitas outras coisas sem voltar pra essa rua específica da cidade.
- É exatamente assim com a – Carlito riu, dando pra ele um shot. – Por conta da casa. Pra ver se você toma coragem de fazer o que quer fazer.
E o fez. Resolveu que mandar uma mensagem seria o mais prudente a se fazer e o fez, recebendo uma resposta imediata, que fez a boca do seu estômago esfriar um pouco. Passou mais algum tempo conversando com Carlito, dando algumas boas risadas e compartilhando algumas experiências de viagens aleatórias, quando o costa riquense pontuou com a cabeça para a entrada do bar, em que a tal brasileira acabava de passar pela porta. Era sempre bom demais ver chegar.
As luzes azuladas e a quantidade coisas penduradas nas paredes que davam ao bar um tom meio anos oitenta conseguiam deixá-la mais bonita do que ele esperava que estivesse. Ela se destacava diante de todas as coisas e de todas as pessoas ao seu redor – parecia mais bonita todas vezes que a via, não que ele soubesse como isso poderia acontecer, mas o deixava encantado. Não sabia muito bem descrever em que ponto o rapaz passou a sentir tanta atração pela mulher, mas não se importou muito em descobrir – o seu rosto, o seu corpo desenhado, o seu jeito de andar tomaram toda a sua atenção, como sempre fazia, desde a primeira vez. Ela sorriu largo pra Carlito e como ele queria que aquele sorriso tivesse sido pra ele, dando um tchauzinho animado. E então, olhou pra , arqueando a sobrancelha com um olhar meio desconfiado. Andou até o cantor, sentando-se ao seu lado na bancada. Observou o garçom pegar sua mão e beijá-la. sorriu de lado, esperando a sua vez.
- Agora, para a señorita – Ele lhe deu uma longneck de Budweiser. – A sua favorita.
- Carlito, você sabe muito bem como me ganhar – ela disse, abrindo a cerveja com o braço e tomando um gole, finalmente virando-se para . Carlito voltou ao seu trabalho, enquanto e se levantavam e iam se sentar numa mesa pra dois. – E você, gênio da música? Não tem uns shows pra fazer ou uma rodinha de fãs para autografar os peitos?
- Eu também adoro a sua companhia, revirou os olhos, enquanto ela se aproximava para dar um beijinho no rosto de comprimento.
- Quem disse que eu gosto da sua companhia, ?
- As atitudes falam mais que as palavras, – o cantor deu de ombros, brindando sua própria longneck de Heineken com a sua Budweiser. – E ainda nem são duas da manhã e você já está aqui, bebendo comigo nessa terça feira à noite.
- Eu tenho certeza que você é narcisista – viu revirar os olhos. Observou-a enquanto seus lábios vermelhos deliciosos envolviam o bico da garrafa de cerveja.
- E eu tenho certeza que você é a mulher mais bonita de toda Los Angeles – ele se viu dizendo, muito sem pensar, mas não sabia muito bem o porquê. As coisas estavam saindo da sua boca de maneira que ele não sabia muito bem como controlar.
pareceu surpresa por um momento, mas então, assentiu pra ele, dando de ombros, enquanto eles não desgrudavam os olhos um do outro.
- Tá galanteador hoje. Aprendeu muito com o Carlito?
riu.
- Porra, eu fiquei com a sensação de que eu podia conversar com ele pelo resto da vida – confessou e riu pelo nariz. – Ele tem muita história pra contar. Eu queria ouvir todas.
observou enquanto o olhar de pra ele mudava de tom – antes, desafiador, desconfiado, e agora, logo depois que ele o disse, suas sobrancelhas relaxaram, como se ele tivesse dito algo certo. Ele não sabia o que era, mas o olhar terno de sobre ele fez seu peito escapar uma batida.
- Acredite, mais de ano que o conheço e ele sempre vem com uma nova – ela assentiu. – Mas e você, cara? O que me conta? O tá doido com essa coisa de estar participando do seu álbum. Cê tinha que ver os áudios dele surtando. Depois que eu fui reclamar que ele não tinha me contado, é claro.
sorriu de lado.
- O é absurdo, . Ele pegou o feeling que eu queria muito rápido. Foi totalmente diferente do que o que a gente tava fazendo antes, a música só saiu porque ele tava lá. Já tá tudo certo com o Aaron pra ele continuar com a gente até o fim da produção do álbum, eu ainda preciso de umas oito ou nove músicas pra ficar pronto. Em resumo, eu tô fudido. Tá uma merda. Eu queria morrer.
, com dificuldades em manter a linha de raciocínio e falar de maneira eloquente, viu sorrir orgulhosa, achando que seu desabafo era puro drama.
Mas ele estava falando sério. E foi a primeira vez na noite que ele conseguiu colocar isso para fora.
- Tá nada, cê tá indo bem. Uma música de cada vez. Vai dar certo – Ela assegurou, com um sorriso terno. – Você tem um emprego difícil. É muita pressão. Toma seu tempo. Vai com calma.
E realmente se sentiu mais confortável ao ouví-la dizer isso. A encarou com uma certa ternura e até um pouco de admiração, se perdendo no tempo enquanto observava a sua feição tranquila e leve, meio inclinado pra mesa com uma expressão um tanto surpresa. Mas porra, por que é que ele se sentia tão inclinado a receber a aprovação da nas coisas que fazia? Por que só o fato de ter aparecido fez o seu dia ter valido a pena?
Não, não, não. Essa noite estava indo pro lugar errado. Aquele não era um momento pra ele conversar sobre as coisas e nem de descobrir que sentia coisas. Era um momento pra ele fingir que elas não existiam. Por isso, ele teve uma brilhante ideia.
- Vamo brincar de 3 perguntas? – ele sugeriu, com um sorrisinho de lado. – Eu te faço uma pergunta, e se você não quiser me responder, você bebe um shot. E o contrário.
- Você gosta mesmo de se comprometer, né? Tudo bem, . Começa.
- Se você pudesse pegar qualquer cantor famoso hoje, com quem seria?
- O Zayn. Ele com certeza era o meu preferido – ela disse, séria, o nome do ex parceiro de banda de , que abriu a boca num O perfeito, ofendido. Logo o Zayn, caralho. riu, negando com a cabeça. – Acho que não. O John Mayer. Certeza. Ou o Daniel Caesar...
- Era só um, – ele cortou, e riu, virando os olhos. – E ainda foi a resposta errada. Mas vai, sua vez.
- Qual famosa você já pegou? Tem que ser uma secreta!
- A Adele.
- Queeeeeee? – pareceu chocada demais e deu de ombros, com um sorriso convencido. – Ela beija bem? Ela tem cara de quem tem lábios muito macios.
O cantor riu, concordando.
- Ela tem lábios bem macios, mesmo. Foi uma noite bem aleatória e divertida, mas aí ela voltou com um ex aí.
- Você levou um toco da Adele? Que perrengue chique!
- Não foi um toco, tá? – revirou os olhos como se estivesse irritado. – Foram dois.
Então os dois riram.
- Você já fumou maconha?
- Eu ando com o . Atualmente músico de bar, paga de dj numas festinhas por Santa Monica, cabeludo, metido a surfista. O que você acha?
- E você não fuma mais hoje em dia?
- Faz tempo que não, o Travis... – a brasileira começou a explicar, mas, quando viu que estava falando mais do que o momento permitia, deu um sorriso esperto e piscou pra ele. – Você tá trapaceando, rockstar.
- Porra – ele riu um pouco, revirando os olhos. – Não era pra você notar.
- E você?
- Chuta...
riu da expressão que ele usou.
- A gente pode fazer isso de próxima, então.
- Fechado.
- Última pergunta, . Use com sabedoria.
- O que aconteceu entre você e o seu ex?
E eles se encararam por alguns segundos. observou o semblante da mulher a sua frente mudar escurecer. Os olhos de , antes brilhantes, agora pareciam distantes e sombrios, e se perguntou se tinha ido longe demais enquanto sustentava o olhar mais eficaz e incômodo que ele já havia conhecido.
Mas era incômodo de um jeito bom. Incômodo de um jeito que o desafiava. Esperou que ela fosse dar alguma resposta que desviasse o assunto ou xingá-lo de alguma coisa, só que ela só sorriu, debochada como sempre, e tomou o seu primeiro shot de tequila da noite.


9.

.

mal conseguia acreditar.
A sorte (será que era sorte mesmo?) é que aquela era uma terça feira, às três e pouca da manhã, as luzes dos prédios estavam apagadas e a sua rua completamente vazia, e por isso, ninguém viu colocando os bofes pra fora literalmente dois passos depois da porta que separava o Puzzle da rua da sua casa.
- Vem cá, . Um passo de cada vez. – sustentava um braço dele no seu ombro enquanto o cantor apoiava o outro na barriga.
- Você é assustadoramente forte pra uma pessoa da sua altura – ele conseguiu dizer, e quis matá-lo por fazê-la rir enquanto o carregava para o seu apartamento, bêbado e tendo vomitado. Entraram no elevador, depois de subir as poucas escadinhas que os levavam para o hall do prédio com dificuldade.
- Eu não sou tão baixa. Você que tem dois metros.
- Um e oitenta e três. Você acha que vão ficar muito putos com a gente se eu vomitar no seu elevador? Eu posso comprar um novo.
E riu de novo, ouvindo-o dizer com a língua meio embolada, mas quase quis chorar também. Não podia ser real. Ela não estava carregando um cantor famoso, (que por acaso a atropelou e quis pagá-la pra ficar calada) pós-vômito no elevador da sua casa, depois de ter um fracasso de flerte com o ele no seu bar favorito porque ele mandou mensagem pedindo que ela fosse pra lá às quase duas da manhã de uma terça feira. E ela FOI.
- Você não vai comprar nada, . Fica quieto e aguenta mais um pouco.
estava um pouquinho no brilho quando aconteceu, mas logo passou quando viu o rapaz correr até a rua colocar tudo pra fora já quando estavam pra ir embora. Eles realmente haviam feito a tal competição de shots e até conversaram e riram por um bom tempo de coisas completamente aleatórias, e por fim, o desastre.
A brasileira saiu com ele do elevador e abriu a porta de sua casa com a mão livre, logo depois levando ele até o banheiro de visita. Deixou-o a vontade enquanto ia no seu quarto pegar uma toalha e umas roupas antigas de Travis ou de que provavelmente cabiam nele. Ele com certeza tomaria um banho. Ninguém vomitado se quer chegaria perto de seu sofá.
Foi na cozinha também e pegou um grande copo de água e uma aspirina. Estava sentado no chão de frente pra privada com a cabeça apoiada na parede quando ela chegou no banheiro.
- E aí, cara? Como tá?
- Eu já era morto por dentro, agora eu acho que eu tô morto por fora também – murmurou, sem mover muito a cabeça. riu dele.
- Vai, , toma um banho. Tem umas roupas quentinhas aqui pra você e bebe esse copo de água todo, ok?
viu assentir, sem muita força, antes de fechar a porta do banheiro atrás de si.


.

Fazia muito tempo que ele não se sentia tão bêbado assim. Não fazia muita ideia do que estava acontecendo, nem quando deixou que a água morna escorresse por seu corpo, nem quando colocou uma calça de moletom e uma camiseta branca que tinha dado pra ele. Claramente se sentia um pouco mais confortável, mas continuava sequelado e as chances de voltar a vomitar eram grandes. Há quanto tempo algo desse tipo não acontecia? Talvez alguns meses?
Ah, é claro. Desde que viu Camille pela última vez. Mas da outra vez ele vomitou na sua própria privada.
Quando saiu do banheiro, sem saber muito bem o que fazer, encontrou na sala do apartamento, mexendo no celular. Ela usava um short curtinho de pijama de algodão e uma camiseta gigantesca do Tupac que deixava suas pernas a mostra. Havia tirado toda a maquiagem e tinha os cabelos presos num coque. Ao notar que ele havia chegado, ela sorriu pra ele, deixando o celular na bancada e indo até ele com o copo d’água.
- Vai, bebe mais.
- Eu já bebi muito.
- Vai ser bom pra você, – ela assentiu, olhando pra ele com olhos que sorriam e ele não conseguiria negar nem em um milhão de anos, por mais que não quisesse colocar mais nada pra dentro. – Isso.
E pegou o copo de novo, apoiando na bancada.
- , eu...
- Tá tudo bem, – disse, dando de ombros. – Descansa um pouco, não dá pra dirigir assim. Vem cá, você pode dormir no meu quarto. A só vem amanhã depois do trabalho então eu durmo no dela.
- Eu não mereço você – reclamou, mais pra si mesmo do que pra ela, que deu de ombros concordando, pegando um pote com frutas e puxando ele pela mão até o que seria o quarto dela com um sorriso de lado. Um sorriso terno e aconchegante. – Eu não mereço nada disso.
riu pelo nariz, deixando o pote com uma colher ao lado da cabeceira. Ela desforrou o cobertor grosso e se acomodou nele, com um sorrisinho no rosto pelo conforto, e a brasileira fechou as cortinas. Quando estava prestes a sair do quarto, não pode conter o ímpeto de chamá-la de novo, porque, por algum motivo, não podia deixar que ela ficasse longe:
- ... – se esforçou a dizer, com a voz um pouco fraca.
- Oi, .
Também estava gostando do jeito meio carinhoso que o apelido estava saindo da boca dela mais vezes que o normal naquele dia.
- Você não topa ficar aqui? E ver um filme... Ou qualquer coisa que você quiser.
E negou com a cabeça, virando-a de um lado pro outro, mas se enroscou no cobertor, bem ao lado do cantor, perto demais, mas numa distância segura, ele ainda parecia meio pálido e os cabelos ainda úmidos, mas pode sentir o olhar de sobre si como se fosse algo especial. sorriu enquanto a observava, com as costas apoiadas no travesseiro. Sentia dali o seu cheiro. O cheirinho de pêssego do seu hidratante o deixava inebriado e com vontade de aninhá-la consigo.
Mas não o fez. Porque não podia.
- Como você tá, ?
- Meu estômago ainda tá meio embrulhado. Ardendo.
- Eu não estava falando disso.
E respirou fundo, sem saber como é que parecia ter todas as sacadas sobre ele que pessoas levariam pelo menos alguns meses pra descobrir.
Ele realmente não estava nos seus melhores dias, mas não queria muito admitir, queria acreditar ter disfarçado muito bem durante a noite. E muito menos conversar sobre isso naquele momento – só era absurdo como conseguia fazer tudo parecer mais confortável, era absurdo como ele não se importou em parecer mais vulnerável na frente dela, era absurdo como ele não precisava fazer nada além de tê-la perto pra se sentir melhor sobre qualquer coisa, era um absurdo que ela ficasse tão linda com pijamas comuns e uma camiseta velha, era um absurdo que ela fosse tão cheirosa e estivesse ali, bem do seu lado, ambos deitados na mesma cama e era um absurdo que não pudesse fazer exatamente o que mais queria: puxá-la pra perto, enroscar a perna dela no seu torso e repousar sua mão a mão em sua coxa enquanto ela descansava a mão e a cabeça no seu peito. Mas aquele não era o momento de tentar alguma coisa com . Não naquela situação.
Ele não podia arriscar perdê-la.
- Eu tô... ok, eu acho. Normal.
- A gente não precisa conversar sobre isso agora – ela deu de ombros. – Mas... Se você precisar desopilar um pouco, ou fugir da loucura, eu tô aqui. E tudo por aqui é bem comum e com pouquíssima visibilidade. Você tá seguro.
riu, fechando os olhos um pouco, sentindo sua cabeça girar.
- Você é a pessoa comum mais diferente que eu já conheci.
- E você é o único famoso que eu conheço – e ambos riram. Se encararam por alguns segundos cheios de cumplicidade e compreensão e um coração acelerado, os pelos arrepiados, a tensão que se construía enquanto tranquilamente mantinha sua cabeça meio inclinada recostada na parede.
- Vamo pesquisar umas comédias românticas na Netflix e ver o que a gente acha?


.

Quando acordou, tinha a cabeça apoiada no seu peito, virado de bruços, abraçando sua barriga. Arregalou os olhos sem saber o que fazer e teve um mini surto de uns dez ou vinte segundos em que a noite foi repassada na sua cabeça, travada na sua cama, sem mover um milímetro. A expressão de puro pânico descrevia seus pensamentos. “Puta merda, puta merda, puta merda”.
Mas no meio disso tudo, também sentiu vontade de passar a mão por seus cabelos ao descer os olhos sobre o rapaz.
A netflix estava pausada e o controle estava na mão dele. Tentou pegar o celular sem que o acordasse para ver que horas eram.
Nove da manhã. Tudo bem. Não era tão tarde assim. Talvez ele ainda não estivesse atrasado. Podia ter esse tipo de informação com o .

Preciso de vc 9:22 am
URGENTEEEEEEEEE 9:22 am
Responde logo idiota 9:24 am



Eu tô na cozinha 9:25 am
VC E O EIN 9:25 am
Fui ver se vc tava em casa 9:25 am
E dei de cara com esta CENA 9:26 am


Em seguida, manda uma foto da exata cena em que se encontravam, em que estava recostado de bruços no colo de e ambos dormiam tranquilamente. revirou os olhos. Por quanto tempo ficaram assim? Como isso aconteceu sem que ela percebesse?
Não podia negar que a sensação era aquecedora e que ela poderia ficar ali mais um pouco sem pestanejar.

Vc ta na minha casa?9:25 am
Puta merda 9:25 am
Q ideia idiota da te dar uma chave 9:26 am


Vou pensar nisso quando vc incendiar a casa 9:27 am
Com suas receitas ridículas 9:27 am
E precisar de alguém pra te salvar 9:28 am

Cala a boca 9:28 am
E me frita um ovo 9:28 am


Claro 9:29 am
Vou fritar 2 9:29 am
Um pra vc 9:29 am
E um pro seu NAMORADINHO 9:30 am


decidiu que era inútil e, então, se concentrou em sair debaixo dele sem acordá-lo, o que conseguiu fazer com sucesso, agradecendo a todos os deuses que conseguia lembrar – talvez fosse meio constrangedor que se encontrassem sóbrios naquela posição. Foi ao seu banheiro, tomou um banho rápido, trocou o shorts de pijamas por um jeans e foi novamente ao encontro do amigo, que já a encarava com um sorrisinho desconfiado. Ele havia feito alguns ovos e panquecas e café.
- E aí, como foi a noite, sra. ?
- Fala baixo, palerma. Não rolou nada.
- Como assim?
Eles quase sussurravam.
- A gente foi no Puzzle, bebemos, ele botou as tripas pra fora e aí dormiu aqui porque ainda tava passando muito mal.
- Ah. Eita. Você ficou de babá.
gargalhou, rindo da cara da amiga que parecia um pouco frustrada, e então, colocou no prato da bancada a última fornada de panquecas e tirou algumas para por no seu prato e comer com mel. sentou no banquinho, de frente pra e separados pela bancada, dando de ombros.
- Foi de boas, ok? Poderia ter transado? Poderia. Mas acho que o mercúrio retrógado ta me tirando.
- Imagino que sim – ele disse, com a boca cheia. – Mas não parecia isso, sabe, quando fui te acordar. Parecia que vocês eram um daqueles casais que não conseguem desgrudar.
- Nem eu sei como a gente foi parar desse jeito – confessou, suspirando, querendo dar fim ao assunto. Colocou as duas mãos no rosto e abaixou a cabeça por apenas um segundo, quando se lembrou de que era com que estava lidando. – Não é pra comentar nada. Tá?
deu uma risadinha sarcástica.
- Tá.
- ... Sério.
- Tá bem.
- Eu te conheço, porra.
- Você não confia em mim?
- É óbvio que não! – o sussurro mais parecia um grito desesperado.
- A gente tem que trabalhar essa sua raiva, . Tá meio estressada. Eu só vou dar umas dicas pro de como te fazer relaxar – provocou, rindo um pouco, e recebeu um dedo do meio em resposta.
- A gente nem ficou ainda. Nem selinho. Nada.
- Nada?
- Nada.
- O que é isso?
- Sei lá. A gente é amigos?
- Não, . Eu e você somos amigos. Vocês mal conseguem olhar um pro outro sem flertar.
- Você está flertando com outras pessoas, ? – e então, a voz. Aquela voz. sentiu seu coração parar. Sua coluna ficou tensa e a brasileira engoliu em seco sem virar o rosto. – Eu sou ciumento, sabe.
sentiu um arrepio subir lentamente por sua espinha antes de piscar várias vezes para , que deu um sorrisinho desafiador, e então, viu que o rapaz sentava-se ao seu lado na bancada. Porra. Porra. Porra. Ele ouviu a conversa? Porra.
O melhor a se fazer era fingir que nada estava acontecendo. Ele tinha a cara meio amassada e o cabelo bagunçado. Claramente de ressaca. Lindo. O mais lindo que ela já havia visto. sentiu uma vontade ardente de beijá-lo. Não sabia o que responder, então, voltou para a postura defensiva e distante:
- É, eu não consigo evitar, sou uma encantadora de homens – Piscou pra ele, tentando tomar as rédeas da situação e não demonstrar nenhum mínimo ponto de descontrole. Respirou fundo, colocando uma panqueca no prato que tinha na frente dele, tentando evitar o contato visual pelo menos por aquele momento e desviar o assunto. – Come.
- Eu tô com muita fome.
- Noitão, ein? – perguntou. – Sua cara tá horrível.
- Sua mãe gostou bastante.
- A gostou também.
A brasileira engoliu em seco, arregalando os olhos e se engasgando com o café, mas os dois caras com quem compartilhava a bancada só riram, despreocupados. Sentiu a mão de afagar suas costas em tapinhas que quase poderiam passar despercebidos se não fosse aquela mão grande e quente desencadeando pequenas explosões na pele das suas costas.
- Acho que já tá na hora de vocês irem pro estúdio, não? Eu tenho várias coisas pra fazer e cansei de vocês.
- Você sabe que ninguém compra esse seu papinho, né? – disse, terminando de comer. – A louça é sua, eu fiz a comida.
- Eu forneci a casa.
E então, ambos olharam para , que comia um pedaço da sua panqueca com a mão, desviando o olhar.
- Merda. Tudo bem. Eu lavo a louça.
- Eu vou indo lá, deixar o casal a vontade. Ops – riu, sarcástico, como se tivesse dito alguma coisa errada, e só o encarou com uma expressão cética, fuzilando-o com os olhos, numa expulsão clara e silenciosa. – Quando eu voltar, a gente vai direto pro estúdio, belê?
assentiu, enquanto terminava de comer e foi guardando as coisas que ele não iria mais usar. Estavam satisfeitos com o silêncio, quando decidiu perguntar, sabe, só a título de curiosidade e nenhuma preocupação:
- Tá se sentindo melhor?
- Tô, tô sim. Só meio lerdo. Eu não sei como te agradecer.
- Tá tudo bem. Você não tem noção de quantas vezes esses dois deram pt na vida. Eu já sou treinada.
riu pelo nariz. sentia o olhar dele a observando em cada movimento que fazia, respondendo-o enquanto guardava as coisas na geladeira.
- Vocês três parecem morar juntos. Ele sempre toma café aqui?
- É, quase isso. A gente tenta fazer as refeições juntos – disse, se sentando de novo, de frente pra ele agora, na parte da cozinha. – A família da Oli é meio bad vibes e a do meio que caga pra ele. A gente acabou virando uma outra família.
assentiu com um meio sorriso.
- E a sua? É de boas? v- Hoje em dia, sim, mas a gente já passou por uns maus bocados – deu de ombros, observando-o enquanto ele terminava de comer. – A mudança pros Estados Unidos pode ser traumática pra uma adolescente emo de 13 anos.
deu uma risadinha gostosa.
- Você era emo?
- Você não?
Ele negou veemente com a cabeça em uma expressão de desaprovação.
- Minha mãe me educou bem, sabe.
fez uma careta pro cantor que deu de ombros, com um sorrisinho de lado de quem gosta de provocá-la. Virou os olhos.
- Era uma forma autêntica de expressão crítica a sociedade e percepção da existência.
- Você tá falando isso pra mim ou pra você mesma?
- Cala a boca. Você só é privilegiado de ter tido uma família funcional. Eu precisava do Simple Plan e do Paramore pra sentir que pertencia a algum lugar.
- , fica tranquila, tá tudo bem. Todo mundo já chorou com o clipe de Wake Me Up When September Ends em algum momento da vida.
riu pelo nariz sem poder negar.
- Algumas pessoas talvez tenham passado por esse momento mais vezes que o normal...
- Você sentia muita falta de morar no Brasil, né?
- Nossa. Nem me fala. Os primeiros meses aqui foram os piores da minha vida. O ambiente colegial daqui é bem tóxico, eu ainda estava aprendendo a língua. Demorei muito até conseguir fazer amigos.
- Você não é das mais simpáticas de primeira, mesmo.
- Claro que não. Eu estava completamente cercada por idiotas. Americanos tem a cabeça no cu – ela revirou os olhos ouvindo a risada do cantor. – Me perguntavam com frequência se existia rede wi-fi lá ou se a gente se locomovia através de cipós. a encarou desacreditado.
- Não é possível.
- Eu juro. Chegava em casa chorando quase todo dia. Pegava briga com os meninos da sala e saía batendo em todo mundo – eles riram juntos, enquanto balançava a cabeça em negação, colocando as mãos na cabeça. – Eu já passei por poucas e boas nesse país, vou te contar...
- E hoje em dia, você voltaria a morar lá?
- Acho que não. Eu acabei me adaptando, no fim das contas – sorriu, dando de ombros. – Eu amo meu país, sinto muita falta da minha cultura, do toque e do calor das pessoas, sabe? Mas minha vida tá aqui, meus melhores amigos tão aqui, minha família, o melhor lugar pra crescer na minha profissão...
E contou pra ele mais um pouco sobre a sua experiência em se mudar pros Estados Unidos. Contou também da inúmera quantidade de vezes que as pessoas tentavam falar em espanhol com ela porque juravam que era a sua língua mãe. Da xenofobia que sofreu com alguns de seus professores na faculdade que menosprezavam qualquer uma de suas ideias e a tratavam de forma mais dura e a descreviam como a latina. Do assédio por ser brasileira. demonstrava atenção e cuidado ao escutá-la – como sempre, como se fosse a pessoa mais interessante do mundo falando sobre os tópicos mais interessantes do mundo.
Levantou-se em algum momento durante a conversa e realmente passou a lavar a louça da casa de com muito cuidado, enquanto ela o encarava da bancada, compartilhando suas experiências e se sentindo cada vez mais confortável em se abrir pro cantor – o que lhe parecia assustadoramente novo. Mas novo de um jeito bom.

.

Quando acordou, pensou, merda, merda, merda, merda, eu não paro de fazer merda.
Se fazer merda fosse uma faculdade, com certeza estaria lecionando lá. Seria o reitor. Essa parecia ser a sua maior habilidade. Era um especialista em fazer exatamente o oposto do que deveria.
Há tempos não perdia o controle como no dia anterior – lembrava-se de conversar bastante com Carlito, e depois conversar bastante com , lembrava-se de sua língua embolada e da sua cabeça girando. Dos shots de tequila, dos copos de gin, fora as cervejas. E do seu estômago ardendo como se fosse feito de pólvora e ele tivesse engolido um fósforo aceso. Isso tudo sem contar o trabalho que deu pra .
Lembrava-se de se sentir melhor depois do banho, de se sentir tão cuidado pela brasileira e de como tudo parecia certo pela primeira vez no dia no momento em que eles estavam deitados um ao lado do outro, rindo e tentando decidir uma comédia romântica pra assistir. Mas no fim de tudo, morreram em Friends. E depois disso não se lembrava mais de muita coisa.
Vamo pesquisar umas comédias românticas na Netflix e ver o que a gente acha?, lembrou da frase que usou pra tentar convencer e riu de si mesmo com a pouca consistência.
Não fazia ideia de que horas eram. Sentia sua cabeça estourar e parecia que faziam meses que ele não comia. Notou que não estava mais no quarto e tentou entender como diabos ele tinha se deixado parar ali. Puta merda, tava tudo errado.
Pegou seu celular e viu que eram quase dez horas da manhã. Aaron estava louco a sua procura e ele respondeu chegaria no estúdio mais tarde naquele dia, sem muitas satisfações.
Respirou fundo, fechando os olhos com força e olhando ao redor pela primeira vez. Foi quando passou a notar o quarto de e como ele conseguia enxergar um pedaço dela em cada centímetro.
As paredes eram brancas e com algumas estantes amadeiradas cheias de livros e dvd’s e caixinhas, e uns desenhos enormes de estampas de flores que pareciam ter sido feitos a caneta. Bem embaixo, no pé de uma delas, um girassol em contorno e traços finos. Uma dessas paredes, em sua maior parte, envolvida por um mural engradado que parecia ter um milhão de fotos e alguns desenhos em papel e aquarela. se levantou e foi até o tal mural, curioso e mais interessado que o normal.
Muitíssimas fotos de Olívia e , como esperado, algumas polaroids e outras reveladas de maneira analógica. Muitos rostos que desconhecia e algumas fotos de paisagem. Fixou os olhos em uma foto específica, revelada de maneira analógica, que tinha a data de 15/01/2017. A foto era tirada de cima, em que uma que parecia mais nova e com os cabelos bem curtinhos, estava deitada na neve, usava um gorro vermelho e uma sorria encantadoramente, virada de lado, em que uma criança, também toda empacotada com roupas de neve parecia gargalhar, mostrando o sorriso que tinha alguns dentes faltando e fechava os olhos, parecendo receber cócegas. Um menininho que parecia ter dois ou três anos. E ao lado do menino, uma outra mulher, belíssima, igualzinha a , que completava o sanduíche e os abraçava de volta, com um sorriso fechado e uma expressão terna e carinhosa.
olhou para a foto com admiração e sentiu seu coração se aquecer. Aquela era a mãe de ? E ela tinha um irmão mais novo? Qual era o nome dele? Com quantos anos ele estaria agora? E o pai, onde estava? Por que será que ela decidiu fazer uma faculdade tão longe deles?
Tentou conter-se as informações que tinha e estava decidido a conseguir mais informações posteriormente. Não sabia muito bem o porquê de a vida da brasileira parecer tão interessante aos seus olhos a ponto de ele sentir a necessidade de desvendá-la. Era como se ele sempre quisesse saber mais sobre ela. Ouvir mais sobre ela. Descobrir mais sobre o que ela gosta e as coisas que ela viveu.
Ao lado dessa foto, uma polaroid só de , segurando um algodão doce enorme no que parecia ser um parque de diversões durante a noite. Ela olhava pro lado, quase sorrindo, olhando pras diversas luzes que as atrações refletiam, e parecia feliz. A cor do seu rosto parecia mais destacada pelo flash da câmera, os traços marcados, a boca rosada e o cabelo cheio que envolvia seus ombros e descia ao seu colo. Usava uma calça de cós baixo e uma camiseta enorme do Red Hot Chilli Peppers. A fotografia de tonalidade escura dava um ar de nostalgia – e o cantor nem sabia explicar o porquê de ter se aficionado tanto a uma foto tão simples, mas chegou a conclusão de que essa era toda a magia de : ela fazia coisas simples parecerem geniais.
E então, uma outra foto. Tirada do lado de fora da janela do banco da frente de um carro, numa estrada, em que estava rindo com a cabeça e o braço pra fora da janela, de óculos escuros e cabelo preso num coque e um girassol preso na orelha, em que aparecia um pedaço da porta, da janela aberta e do capô do carro. passou alguns segundos observando o sorriso aberto e largo da mulher que tinha dentes grandes e alinhados e sentiu vontade de participar daquele momento com ela, porque com certeza tinha sido um momento fantástico.
E essa era a sensação que ele tinha todas as vezes que estava perto dela. Era mágico. Era extraordinário.
Sacou seu celular do bolso, olhou em volta pra ver se ela estava chegando e tirou rapidamente uma foto daquela foto em específico. Só porque queria tê-la consigo. Quando saiu do quarto, deu de cara com e , e ficou conversando com eles por um tempo até a hora de ir pro estúdio.



- O que te deu, cara?
- Que me deu o que?
- Tá simpático. Inspirado.
Ouviu Mitch dizer, enquanto escrevia algumas coisas no caderno e tirava algumas notas no violão. Tomou um sustinho antes de responder:
- Ué. Eu sou carismático mesmo.
- Não... Alguma coisa tem aí – Mitch encarou o amigo, desconfiado.
Não era dos mais faladores e esse era um dos motivos para o qual era um de seus melhores amigos e sempre seria: Mitch trazia consigo um silêncio confortável, poucas palavras e genialidade em tudo o que fazia. Muito diferente da maioria das pessoas que conhecia no meio da música – todo comunicativos demais, expansivos demais, falantes demais, necessitados de atenção demais. Mitch era o completo oposto. Fazia com que se sentisse confortável para, apenas, relaxar. – É a Camille? Você a viu?
- Não, porra, esquece a Camille.
- Caralho, acordei o monstro – Mitch levantou as mãos, se rendendo. – Ok. Se não é a Camille... É aquela doida que você atropelou? Vocês tão se pegando?
- Shhhhhh finalmente tirou os olhos do violão e olhou para os dois lados, sussurrando e gritando ao mesmo tempo. – A gente não tá se pegando.
- Que?
- É. Não rolou.
- Mas vocês não passaram o dia juntos na praia ou sei lá? – Mitch perguntou, se sentando na cadeira giratória de frente pro amigo. Todo mundo estava na outra sala gravando seus respectivos instrumentos da música que havia ficado pronta. colocou o caderno ao seu lado no sofá e assentiu, apoiando os braços no violão. Não tinha resposta pra esse evento, também.
- Fomos. Fomos na praia, fomos no bar, fomos na casa dela, fomos no quarto dela...
Mitch o encarou sem entender muito. Não fazia muito o tipo do rapaz aquele tipo de situação.
- No quarto dela? Mas vocês não se conheceram, sei lá, ontem? O que você foi fazer lá?
fez uma careta. Também era meio confuso pra ele.
- Já faz algumas semanas, na real. Um mês? Dois? Acho que pouco mais de um mês...
- E o que você tá fazendo?
- Sei lá. Eu gosto de passar tempo com ela. Acho que é isso.
- Vocês tão saindo?
- Não como um encontro.
- Então você a vê só como uma amiga?
- Não. Mas a gente conversa bastante.
Mitch parecia mais confuso a cada pergunta respondida.
- Então você quer chamar ela pra sair? O que deu em você? Você e a Camille terminaram de vez?
Dessa vez, quem se assustou com a quantidade de coisas que o amigo perguntava. Mitch nunca parecia tão interessado assim em sua vida amorosa ou em qualquer outra coisa no geral que não fosse música, então aquela situação realmente deveria parecer estranha.
- Porra, Mitch, quanta pergunta difícil – tapou o rosto com a mão e respirou fundo, notando que não tinha a resposta pra quase nenhuma daquelas perguntas. – Eu não sei que porra deu em mim. Eu não tô pensando muito sobre isso. Ela só...
- Só?
- Me faz sentir... bem.
- Porra, .
- O que?
- Eu já tenho o seu diagnóstico.
revirou os olhos.
- E qual é o meu diagnóstico, Mitch?
- Você, meu querido, está apaixonadinho.


10.

, um pouco incomodada por estar usando sapatos de salto e com uma expressão de poucos amigos (mais real do que metafórica, na verdade), estava sentada num banquinho alto que ficava ao lado do bar da festa de reunião de ex-alunos de fraternidades/irmandades da UCLA. Não que tivesse participado de alguma irmandade na faculdade, só o pensamento lhe gerava arrepios e uma sensação de náusea. Primeiro que nunca se deu bem com as líderes de torcida do colégio e as meninas da Kappa Delta Theta Alpha (insira aqui várias letras gregas que nunca decoraria porém conseguia identificar pelo estereótipo) conseguiam ser piores. Segundo que com certeza perderia o resto de sua saúde mental se tivesse que dividir uma casa com mais dez ou doze americanas loiras ricas magras padrão que tinham a Regina George como espírito animal.
Não que se encaixasse muito nesse grupo, também. Ela era bem mais sensata. Mas uma característica da amiga, talvez a melhor, talvez a pior, era que ela podia ser como um camaleão: sempre se adaptaria. Sempre faria amigos. Sempre seria adorada pelas pessoas, não importa onde estivesse, não importa com quem estivesse. Viveu o sonho da garota de cidade pequena de morar numa irmandade por alguns meses até, finalmente, passar a levar a universidade a sério, pedir arrego e descobrir que havia um quarto vago no apartamento de alguns meses depois de terem se conhecido naquele café. Hoje em dia tratava mais essa fase como um surto coletivo do que qualquer outra coisa, mas ainda sim, conseguiu convencer a amiga a participar da reunião com um único e simples argumento: open bar. De graça.
Também não corria o risco de encontrar com Travis. O amante da psicanálise, entusiasta de Lacan e futuro academicista, mestrando aos 25 anos jamais se prestaria a sair de casa numa quinta feira e ficar bêbado numa festa de fraternidade com pessoas da antiga faculdade. Talvez num barzinho, na sala de casa, num festival de música alterna ou num show de uma banda underground que ninguém nunca nem ouviu falar o nome, mas jamais em qualquer lugar com a possibilidade de tocar música eletrônica ou pop comercial. Era o tipo de gente que ele desprezava, fazia piada – os caras da fraternidade, no caso, porque bem se lembrava de vê-lo de papinho com uma ou outra daquelas meninas pseudomodelos sempre que brigavam. Chato pra caralho esse filho da puta, pensou ao virar seu copo de gin e, dessa vez, pedir um drink mais docinho ao barman ao seu lado enquanto mexia no celular, um pouco entediada, um pouco com raiva por ter lembrado do embuste.
Tinha bastante gente de variados cursos no salão – o ambiente era bonito, moderno e espaçoso, apesar de parecer menor pela quantidade de gente. Era o salão de festas que ficava na cobertura de um prédio enorme e luxuoso da Sunset Blvd. Tinha muita gente ali. A música era alta e as pessoas estavam animadas dançando e conversando entre si. se encontrava um pouco mais pro centro batendo um papo animado com algumas de suas amigas de Psicologia – que também eram amigas ou ao menos mínimas conhecidas de Travis, no caso, o que deixava com menos vontade ainda de socializar com elas. Ao passar o olho pelo lugar, não encontrou ninguém que realmente fizesse questão de reencontrar. Apenas um ou dois de seus amigos de Cinema participaram de fraternidades e ela nem ao menos conseguia encontrá-los ali ainda. Queria que tivesse vindo também, mas estava preso no estúdio com .

, vc me paga 00h02am



HAHAHAHAHAH 00h23am
P vc aprender a me dar valor 00h23am
Aposto q a te largou p ir fofocar 00h24am

Se a gente estivesse no the sims00h26am
A seria a porra de uma borboletinha social 00h26am
Como q tem tanto assunto com gente aleatória caceta 00h26am



Vc q eh chata p caralho na vdd 00h27am
Mas td bem 00h27am
Olha 00h28am
To aqui escrevendo músicas 00h28am
Sozinho num estúdio 00h28am
Com o 00h28am
Vc não me é tão interessante no momento 00h29am

Ótimo 00h29am
Escreve uma música 00h29am
Com o 00h29am
Sobre ir tomar no cu 00h30am



HAHAHAHAHAH vc q eh entendida do e de cu 00h31am
Bem não sei q foi exatamente isso q aconteceu 00h31am
Qdo encontrei ele no seu quarto 00h31am

Kkkkkkk cala boca otario 00h32am
N fala isso em voz alta ENTENDEU 00h32am



Mas ele amou a ideia00h33am
Até propôs um flashback 00h33am
E sugeri q o nome da musica podia ser “o cu da 00h34am


gargalhou, sem acreditar em como podia ser absurdamente louco, olhando pro celular e tomando mais um gole do seu drink. Tirou uma selfie com o canudinho na boca e olhando pra cima, sem se importar muito com a aparência, e mandou para o amigo.

Eu preciso ficar mais bêbada pra aturar vcs 2 juntos 00h35am


- ? Numa festa de fraternidade de novo? Eu devo estar sonhando...
Ouviu, bem no pé do ouvido, a voz conhecida e quente, notou um sorrisinho crescer no canto da boca antes de sentir o seu banquinho girar sem que fizesse esforço algum, porque a pessoa atrás de si o estava fazendo. Bloqueou o celular sem ver o que o amigo tinha respondido ao abrir o seu mais largo sorriso da noite para um velho conhecido, que a espelhava com um semblante enérgico, surpreso e admirado. – Nossa. E alguns anos atrás eu achava que não dava pra tu ficar mais gata. Mas vou te contar, hein, ... Tô até nervoso. Subiu um calor.
O rapaz a olhou de cima a baixo, com o costumeiro xaveco, mas não se sentiu invadida e muito menos desconfortável. Pelo contrário. Estava bem mais que acostumada com o jeito do rapaz de falar e se portar. Deu uma risada solta antes de se levantar e passar os braços ao redor do antigo amigo e o apertou contra si com saudade e alegria.
- Nate! Não to acreditando! Eu não te vejo desde a tua despedida pra Praga... No início do ano?
- No início do ano passado, , depois disso, a gente só trocou mensagem. Você ainda levou aquele palerma do Travis. Quer dizer, pessoa adorável... – pontuou o rapaz a sua frente com um sorriso irônico, e a brasileira ao seu lado deu de ombros, torcendo o lábio. – Cadê ele, inclusive?
- A gente terminou, se é o que quer saber, Nathaniel – revirou os olhos, com um sorrisinho de canto de lábio e cruzou os braços. O rapaz piscou algumas vezes, pensando se tinha ou não cometido uma gafe tão monstruosa assim, meio imóvel, mas deu uma risadinha pelo nariz. – Pode comemorar...
- Finalmenteeeeeee! – Ouviu o amigo gritar, parecendo realmente feliz e emocionado. Pegou a mulher pela cintura, fazendo-a rir, e a girou no ar, deixando-lhe um beijo estalado na bochecha no final. – Esse deveria ter sido um beijo de boca, você sabe, pra celebrar os velhos tempos, mas vou te deixar na vontade pela noite. Ou pelo início dela. A não ser que você queira um beijo agora, porque eu te dou.
riu de novo, o abraçando com os olhos fechados, porque realmente sentia saudades da liberdade que tinha com um de seus melhores amigos de faculdade. A primeira pessoa que Travis vetou sem necessariamente vetar, porque era muito elucidado sobre relacionamentos abusivos para agir diretamente ou dizer qualquer coisa, mas por debaixo dos panos deixava os rastros que a brasileira se sentia impelida a seguir: as frases subentendidas, a expressão fechada, os olhos distantes, os apertos na cintura, o “quando a gente chegar em casa a gente conversa” e os olhares de ciúme de quem já a culpava por estragar a noite.
, no começo, se convencia de que ele estava certo e de que qualquer pessoa ficaria enciumada, afinal, Nate não era um amigo qualquer – era o amigo colorido, o amigo liberal, o amigo que tinha os benefícios. Qualquer um podia notar a química absurda que eles trocavam, era só bater o olho em como o semblante de ambos parecia mais leve quando estavam juntos. Era tudo muito sem compromisso e funcionava muito bem pros dois, que não estavam muito afim de namoro ou de romance nos anos da faculdade. Saiam vez ou outra, bebiam, fumavam um, passavam uma noite juntos e depois cada um pra sua rota. Também tinha aquelas rapidinhas entre o estágio e a faculdade quando estavam sem tempo, os beijos apressados trocados no banheiro quando se encontravam em festas que nem sabiam que estariam, a provocação de ver um ou outro ficar com outras pessoas, o flerte despretensioso mascarado de piadinha que muitas vezes era piadinha mesmo. Foi assim que começaram: na aula Fundamentos do Teatro, Nate sentou-se ao lado de na primeira oportunidade que teve; fez uma piadinha sobre o professor e ganhou a simpatia da garota mais rápido que muita gente. Apesar de terem se afastado um pouco com o tempo e a vida, nutria um carinho imenso e eterno pelo cara que além de ter beijado algumas – muitíssimas – vezes, também era um amigo foda. Talvez não o mais presente de todos, e talvez não o primeiro a pensar em ligar quando estava passando por um perrengue, mas aquele que ela podia conversar sobre qualquer coisa no mundo. E eles sempre conversavam.
- Você não muda, né, embuste? – perguntou, ao colocar as duas mãos no rosto dele, olhando o nos olhos bem de perto, com um carinho que ela não fazia questão de esconder. Sentiu Nathan colocar a mão em seu pulso e viu o seu sorriso corriqueiro se alastrar pelo rosto em um charme memorável. – Que saudade que eu tava de você! Tá visitando? O que tu tem feito?
- Vem cá que eu te conto – Nate disse, puxando a garota pelo braço até a parte aberta do ambiente em que algumas pessoas fumavam. Tirou dois cigarros da carteira e deu um pra , como nos velhos tempos.
, que tinha parado de fumar com a mesma frequência, aceitou sem resguardos. Ele acendeu o Malboro que já estava entre os lábios da mulher a sua frente e logo depois, acendeu o seu também. – Feliz de ver que sua perna tá em ótimo estado, .
Deixou a ambiguidade da frase dizer por si só ao piscar pra garota ao seu lado, que riu, dando-lhe uma cotovelada fraquinha. Haviam trocado algumas mensagens sobre o acidente pelos melhores amigos do Instagram (por onde sempre acabavam respondendo um story ou outro) umas semanas antes, em que ela contou do fatídico dia e da fatídica pessoa que havia gerado o acidente, em que eles compartilharam algumas boas risadas com a fofoca. Porque, como todo bom amigo de , Nate não passava de um belo fofoqueiro.
Mas estava decidida a só aproveitar o momento. O Malboro lhe era quase terapêutico. Ao tragar, tirar com os dedos o cigarro dos lábios e então soltar a fumaça, a vista dos principais prédios da cidade acordada, as luzes que brincavam pela rua já não tão movimentada assim, ela sorriu pro lugar de pertencimento que havia encontrado, e então, sorriu também pro cara ao seu lado, que lhe observava com olhos curiosos, tragando seu próprio cigarro.
- Vai ficar aí me olhando com essa cara de James Dean mesmo?
Nathaniel Harris possuía o tipo de beleza que ia muito além das descrições físicas. Estava no jeito em que conquistava todo mundo ao seu redor, no carisma, na pouca vergonha, na coragem, no charme, na aventura, na intensidade e no desapego. Estar com Nate era a certeza de que você iria se divertir e a garantia de que você teria que deixá-lo ir, no fim da noite. Obviamente não teria que se preocupar com nada além da ressaca: não tinha mal entendido, não tinha cobrança, não tinha tempo ruim. Não conseguia pensar em nenhuma vez que tivesse realmente discutido com ele (ou tentado, porque ninguém jamais conseguira o feito de realmente fazê-lo levar qualquer coisa a sério) em que ele não tivesse contornado a situação com maestria. Era uma alma solta e livre no mundo com quem compartilhava algumas de suas memórias favoritas.
O rosto pálido, a boca rosada, o cabelo preto cheio e bagunçado que cobria sua testa, os olhos pequenos e a camisa social de gola redonda por cima de uma camiseta branca. Mais bonito do que se lembrava. Levantou a cabeça pra ele, como quem pergunta o que foi.
Ele deu de ombros, a expressão sempre animada e aventureira.
- É bom te ver livre, . É bom te ver de novo, na verdade.
- Você quer tirar vantagem da minha liberdade, isso sim. Acha que me engana? - respondeu, logo depois de tragar novamente. A fumaça saía com suas palavras. Fechou os olhos por alguns segundos para sentir o gosto do tabaco e a sensação da pressão caindo. Respirou fundo. Conseguia sentir os olhos de Nate sobre si mas não tinha nenhum resquício de incômodo ou vergonha.
- Isso também – consertou, rindo um pouco. – Mas dá pra ver no seu rosto a mudança. A tua energia parecia que tava, sei lá, drenada. Meio murcha...
- O chamava ele de dementador – ela deu de ombros e eles soltaram uma risada. – Eu nem sei como as coisas chegaram ao ponto que chegaram. Eu não conseguia enxergar, eu acho.
- Que ele te fazia mal?
- É. E que ele tava me traindo, também. Diz ele que foi só no último mês, mas vai saber né...
- O filho da puta te botou chifres? – Nate parecia indignado, ao soltar a fumaça pela boca com rapidez, a expressão de incompreensão. – Ele já parou pra olhar pra você? Puta merda. Eu nunca vou namorar de novo, , mas se fosse pra eu namorar, eu com certeza namoraria contigo. E nem é só porque você tem um rostinho bonitinho...
recebeu um afago no rosto enquanto encarava o rapaz ao seu lado com uma expressão divertida, de quem queria saber onde ele queria chegar com o discurso.
- Você é muito babão. Nem dá pra te levar a sério.
- É claro que eu sou babão. Olha só pra você, porra – o rapaz deixou o cigarro na boca, pegou a mão livre da mulher ao seu lado e levantou o seu braço, fazendo-a dar uma voltinha enquanto a observava de cima a baixo. – Gostosa. Belíssima. Mais inteligente do que eu jamais poderia sonhar em ser. Divertida. Meio doida.
Provavelmente vai pagar a conta se a gente sair pra jantar. O que mais é que precisa?
sorriu sem mostrar os dentes. Um sorriso sincero de quem se sentia em casa com um coração quentinho de um lugar seguro em que ela se sentia apreciada e que ela sabia que sempre poderia voltar, mesmo depois de um tempo longe. Não só pelo jeito que Nathan falava dela – mas pelo olhar. O cuidado solto, o jeito de tratar e a empolgação natural de estar perto. A liberdade. O estar perto por querer e não por achar dever. Ele a olhou de volta com os olhos ternos e sorridentes, e ela não precisava dizer mais nada, porque Nate já sabia, e ele não precisava dizer nada também, porque tinha entendido.
- Por que você nunca falou nada?
- Sobre não gostar do Travis? Eu deixava isso bem claro, .
- É, mas eu dizia pra mim mesma que era só brincadeira.
- Acho que ele era meio demais. Não tirava o olho de você um segundo, nas conversas que você tava tendo, ficava o tempo todo em alerta. Eu sei que ele me odiava. Você não se sentia sufocada?
suspirou. Não havia parado para... conversar de verdade sobre isso com ninguém ainda. Nem com . Nem com . Ninguém. Não queria dar o braço a torcer. Trocava um ou outro comentário, às vezes uma choradinha ou outra, falava coisas soltas e depois voltava atrás, terminando o assunto. Mas com Nate era diferente.
Naquele momento, ela não se privou de compartilhar com ele algumas coisas, simplesmente porque era o jeito que eles funcionavam.
- Nossa, demais, mas quando a gente brigava eu me sentia tão mal, tão mal... Tinha horas que eu não conseguia olhar na cara dele, de ódio, de raiva. Mas, ao mesmo tempo, parecia errado quando ele não tava perto. Como se eu tivesse fazendo alguma coisa errada.
- E agora?
- Agora parece que eu tô limpa – ela deu uma risadinha. – Sabe? A sensação de tomar banho depois da academia?
- Tô orgulhoso de você, – O amigo a abraçou de lado. – Tô feliz que se livrou disso. Faz pouco tempo, né? Tu sente falta dele?
- Acho que uns três meses – ela balançou a cabeça ao dizer. – E olha, eu nem sei te dizer. Aconteceu tanta coisa desde então... Só o próprio acidente me ocupou por algumas semanas. Sair da Kapplan.
Nate riu. Gargalhou. esperou o rapaz terminar com uma expressão cética, mas acabou rindo também.
- É por isso que eu te amo, caralho. Tua vida é uma comédia! te ATROPELOU! Só acreditei quando fui comentar a foto que tu tinha postado no Instagram esses dias e vi que ele já tinha curtido. Inclusive, um dos meus passatempos favoritos era irritar o Travis com meus comentários polêmicos nas tuas fotos sozinha. Que pena.
riu e eles bateram um high-five.
- É, o ruim é que a parte mais antiga do meu feed tá desorganizada porque eu excluí as fotos com ele etc.
- Ainda com a noia de organização, né, ? Nunca vai parar?
- Eu não consigo evitarrrrrrr – a garota chiou, manhosa, com uma das mãos no rosto. – Dá pra gente falar de você agora? O que você tá fazendo aqui? Eu achei que tu tava na Europa!
- Eu terminei a especialização de fotografia, inclusive , te contei né? Eu sempre lembrava de tu lá! A FAMU é a tua cara! Trampei lá por Praga mesmo por uns meses e decidi voltar por um tempo, até saber o que realmente quero fazer, se quero renovar o visto etc. Cheguei essa semana mesmo. Tô pegando uns freelas por enquanto antes de saber onde eu quero aplicar currículo. Sabe quem me contatou pelo Linkedin?
- NÃO! Quem? Não foi o William, foi?
Nathan assentiu veementemente, como quem conta a fofoca do ano, e revirou os olhos.
- Ele mesmo. William Kapplan.
Nathan era um gênio da fotografia e não havia uma pessoa que visse seu portfólio que pudesse negar. Era conhecido em LA no meio, tinha um sobrenome imponente na área que se estabeleceu com seus pais. Ele e pagaram várias aulas de produção audiovisual juntos e ela sempre podia vê-lo ser assediado pelos professores diante do seu dinamismo e autenticidade, que também conheciam seu sobrenome – o que não tirava o crédito da genialidade do rapaz. Nate parecia ter olhos a frente de seu tempo: sempre enxergava por um ângulo que ninguém nem tinha pensado. O seu foco não necessariamente era cinema, na verdade, nem ele mesmo ainda tinha descoberto seu foco. Mas a Kapplan era uma oportunidade única pra ele e ela sabia disso.
- E o que você disse? Você vai, né? Eles tão precisando mesmo de alguém pra fotografia. Boatos que a Heineken não curtiu o novo cara. E eles pagam bem, Nate. Saudades do meu vale refeição...
- Ah, sei lá, não me imagino trabalhando pra Kapplan, é quadrado demais pra mim. Você ainda conseguia dar a louca e fazer uns comerciais fora da curva, mas é difícil quando você não tá dirigindo. Fora a parte que ele foi o maior cuzão do mundo contigo. Não sei. Tu sabe que eu nunca trabalhei fixo, também...
- Você tem que fazer terapia pra tratar essa sua fobia de compromisso. Tudo bem não querer namorar, mas porra, nem pra assinar carteira?
- Qual é, ? Eu já namorei sim!
- Você namorou a Mona por um mês, Harris, uns quatro anos atrás! O Big Brother dura mais que isso!
- O importante é que o pedido de namoro foi feito e aceito. O resto é mero detalhe – o rapaz virou-se completamente pra ela, então, e a virou completamente pra ele também, ao apoiar-se em seus ombros. – Mas chega de falar de ex. Hoje é uma noite importante.
- Ah, é, Harris? E por que essa noite é importante?
- Se me der a honra, milady – e ele estendeu a mão pra ela, abaixando um pouco a cabeça numa encenação barata com um sorriso de lado. – Eu vou te lembrar o que realmente é se divertir pela noite.

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A noite tinha sido muito mais que produtiva. A quarta música estava praticamente pronta e era uma das favoritas do cantor até então. Definitivamente um dos singles. Estavam no estúdio desde as nove da manhã e ele poderia dizer que estava satisfeito, porém exausto. Tinham parado pelo dia e agora estavam espalhados Mitch, e Sarah nos sofás do espaço pra descanso comendo uma pizza e fumando um antes de dar o dia como terminado por aquela quinta feira, lá pras duas da manhã.
- Você toca o que mesmo?
tragou o baseado, revirando os olhos, pela terceira vez que lhe perguntado. Ouviu Charlotte dar uma risada divertida com os olhos pequenos e puxados cobertos pela franja do cabelo alaranjado.
- Eu vou falar pela última vez, cacete fingiu estar irritado, com uma voz controlada, mas depois deu uma risada e pegou um pedaço de pizza. também riu. Eles estavam achando tudo muito engraçado. – Violão, ukelele, baixo, violino, piano, gaita e arranho na guitarra, mas não é muito lá meu forte.
- Todos esses? Você é um gênio da música? Você é secretamente irmão do Jacob Collier*?
- Sem mais maconha pro porque essa merda tá queimando a cabeça pouca que ele tem. Dá cá que eu fumo – e passou o baseado pra Sarah, a baterista, que tragou o beck tranquilamente. – Mas conta aí, prodígio, onde cê aprendeu tudo isso. Família de músicos?
pigarreou, enquanto terminava de engolir a pizza.
- Meus avós eram violinistas de uma orquestra. Ninguém mais da família se interessou por música, só eu. Então eles focaram a atenção na única possibilidade de passar pra frente – ele explicou, dando de ombros, soltando a fumaça do baseado que havia acabado de voltar pra ele. – Era música o dia inteiro. Até hoje é, na verdade, mas eu cresci nessa secura. Passava o dia tocando com eles.
Enquanto os amigos conversavam, podia sentir os olhos mais baixos e a visão alterada, a sensação de endorfina liberada e de relaxamento que a maconha trazia fazia com que ele se sentisse leve e despreocupado. Tudo que ele queria era chegar em casa e tomar um banho demorado. Mas ele também tinha a sensação de que queria ver a de novo. Um negocinho no peito. Uma vontade que ele não sabia de onde vinha. As palavras de Mitch ficavam ecoando na cabeça dele, vez ou outra.
Eles conversaram durante o dia sobre coisas aleatórias – porque, aparentemente, agora, ele não sabia muito bem como não falar com ela sempre que tinha oportunidade –, mas ela havia parado de responder desde que chegara na tal festa de fraternidade. E depois da pequena conversa com , o havia parado de responder do nada também. Perguntou-se o que ela estava fazendo e se ela estava se divertindo. Com certeza sim. sempre era sinônimo de uma noite interessante e imprevisível. Resolveu abrir o Instagram e se distrair um pouco com o celular antes que alguém decidisse que era a hora de ir embora, só porque ele sentia o corpo meio pesado e estava com preguiça de levantar. E é claro que os stories de foi a segunda coisa que ele procurou ao abrir o aplicativo, depois de abrir qualquer coisa sobre qualquer pessoa que ele nem prestou atenção, no meio da multidão de notificações que recebia continuamente.
Não a primeira, nunca a primeira. Ele não estava curioso a esse ponto.
O último story que ela tinha postado, alguns minutos antes, era o repost de alguém. Puta merda.
sempre estava absurdamente bonita demais para que ele prestasse atenção em qualquer outra coisa. Passou algum tempo voltando em um vídeo sem som em preto e branco, com um aspecto meio vintage, em que ela, em pé, com um vestido que parecia cintilante e solto de alcinhas que deixava bem claro que ela não estava usando um sutiã, dançava com os ombros de olhos fechados segurando um copo de chopp com a vista de uma varanda no que parecia ser uma avenida cheia de prédios atrás, e quando abria os olhos, notando que estava sendo filmada, ria e oferecia o copo. Embaixo, bem pequeno, a frase “de férias com a ex”. Era o ex dela? Eles tinham terminado em bons termos? Por que será que ela não tinha contado pra ele quando perguntou, então? Será que eles voltaram? Não entendeu porque aquele pensamento lhe pareceu incômodo. Parou pra notar o nome da pessoa que tinha postado. Nathan. Tentou se lembrar se já tinha ouvido esse nome antes. Será que eles já tinham mencionado algum Nathan? Não conseguiria dizer. Outro nome. Talvez algo com P? Ou T? Trennor? Trapper? Riu sozinho do próprio pensamento. Terry? Voltou o vídeo mais algumas vezes só porque queria olhar para .
- Cara...
- Oi – respondeu, desinteressado, enquanto ainda olhava o celular.
- O Mitch e a Sarah já foram e tu nem notou. Você quer mais tempo pra rever o vídeo da ou a gente já pode ir?
, que havia pegado uma carona com , perguntou, com um sorriso sarcástico. finalmente bloqueou o celular e olhou para , e então olhou para o estúdio limpo e organizado e o fato de só terem eles dois ali. Deu uma risada involuntária tentando processar as informações, apesar de sua mente estar funcionando de maneira mais lenta. Porra. Quando foi que eles levaram as caixas de pizza e jogaram fora a água e as bitucas dos cinzeiros? Eles nunca faziam isso.
- Foi você que arrumou as coisas?
- É claro. Você tava meio ocupado stalkeando a minha amiga. Não quis atrapalhar.
levantou o dedo do meio pra ele com um sorriso sarcástico.
- O nome do ex dela é Nathan?
deu um sorrisinho esperto, como quem já sacou tudo, cruzando os braços, com os olhos vermelhos e baixinhos, em pé com o boné pra trás, encarando-o de frente pra ele.
- Tá interessado mesmo, né, ?
- Eu só quero lembrar o nome, porra.
- Travis.
- Travis! Isso, caralho! Eu sabia que era com T!
- E no que você tinha pensado?
- Trapper.
E os dois gargalharam, enquanto se levantava e pegava o resto de suas coisas. Mas antes de sair pela porta, perguntou:
- E quem é esse Nathan?
- Ué. Achei que você só queria lembrar o nome.

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nem fazia ideia de como havia chegado ali, no banheiro luxuoso da cobertura de um cara que ela nem fazia questão de saber quem era, com uma das mãos de Nathan em seu pescoço, apertando com vontade, enquanto ela sentia sua intimidade pulsar, ficando entre a parede e o corpo do cara prensado ao seu. O beijo dele era tão gostoso quanto se lembrava, as mãos sempre sedentas e firmes apertando no lugar certo, o seu pau imponente roçava na intimidade dela por cima da roupa e ela podia sentir cada parte do seu corpo explodir de tesão. Porra. Quanto tempo fazia...
Gemeu ao sentir os beijos do rapaz trilharem um caminho molhado por seu pescoço e as mãos descerem a barra do vestido, enquanto ele parecia querer gravar com os olhos cada parte do corpo de .
Lambeu sua barriga da mulher, que dobrou o vestido pra cima, olhando pra baixo enquanto ele se ajoelhava. xingou e apertou os olhos com força em expectativa quando o rapaz apalpou a sua bunda com as duas mãos, com força, fazendo a garota se curvar para frente e brincou com a barra de sua calcinha. Ele primeiro observou com desejo o tecido de renda branca e transparente que a mulher usava por cima da intimidade e deu mais um beijo na sua coxa. Olhou pra cima, então, bem nos olhos, com um sorriso safado.
- Preparada, ?
- Anda, Harris – ela pediu, ansiosa, segurando o cabelo dele com força. – Tá com pena de quem?


*Jacob Collier: cantor britânico conhecido por alcançar tons de voz baixíssimos e pela longa gama de instrumentos a qual tem total afinidade.


11.

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A sensação que eu tinha quando eu acordei era a de estar voando.
Meu estômago ardia um pouco pela ressaca (gin e tônica me enganaram facilmente), mas eu senti meu corpo leve enquanto minha pele nua se enroscava nas cobertas macias, aconchegantes e com cheirinho de amaciante da minha própria cama. Me peguei sorrindo pro teto do meu quarto antes de tomar coragem pra levantar e nem me importei muito com o fato de que Nate não estava mais ali. Provavelmente tinha deixado alguma mensagem com alguma desculpa – tudo que me importava era que ele tinha cumprido muito bem o papel dele pela noite. Especialmente bem. Maravilhosamente bem.
Ah, o sexo. O sexo pode ser terapêutico na vida da mulher contemporânea. O bom sexo. O sexo em que a gente também goza no final – ou antes, ou durante, ou mais de uma vez, como foi o meu caso. Depois de alguns meses de sofrimento (puta merda, perdi as contas), a vida estava me retribuindo aos poucos e eu estava aceitando o pagamento parcelado de bom grado.
Saí pelada mesmo pela casa e fui comer alguma coisa – sozinha, dessa vez, porque a estava trabalhando e o no estúdio com o . Preparei uma saladinha e comi com frango grelhado, logo depois fui correr pelo quarteirão e quando voltei, dei uma olhada no Linkedin, onde eu só recebia contatos de agências de publicidade. Respirei fundo, aceitando minha derrota, ignorando a frustração que vinha com ela e fui tomar um banho demorado de banheira. Aproveitei pra abrir a caixa de mensagens e dar sinal de vida pras pessoas.

Nate
Tive que ir resolver umas coisas e não quis te acordar 10h51am
Valeu pela noite, 10h51am
A gente pode repetir enquanto eu to aqui :) 10h51am
Ps.: tinha esquecido que vc ronca 10h51am

Travis
, eu preciso falar com você 1h24pm
Será que eu posso te ligar depois? 1h24pm


Vc bêbada eh uma desgraça né , não dá pra ler esse lixo q vc digitou 03h52am
Trombei de sutiã com o Nate comendo sanduíche na cozinha 11h02am
Vc me paga, bruxa 11h02am
Porém lacrou ein ele ta mo gostoso 11h03am


A gente podia se ver hoje né 1h23pm


Ignorando completamente as outras mensagens – engoli a seco com uma específica, mas foi fácil de me distrair dessa vez: ao ler a última, a específica, eu arregalei os olhos, surpresa demais – não só com a mensagem aleatória, mas também com o que ele tinha escrito. A gente pode se ver hoje.
É claro, caralho, é claro que a gente pode se ver hoje! A gente pode se ver amanhã, também, e semana que vem, se você quiser.
Senti meu coração dar aquela acelerada e só notei o sorrisinho crescer nos lábios quando meu celular vibrou com outra mensagem, me dando um leve susto. E aí percebi que talvez eu tenha passado mais tempo que o necessário encarando a mensagem que ele tinha mandado. Porra. Isso não podia ser boa coisa. O que estava acontecendo comigo, pelo amor de Deus?
Eu nunca nem tinha beijado a boca dele. Não por falta de vontade.

Hoje é teu dia de sorte, 3h41pm
Acho que consigo arrumar um tempinho pra você 3h41pm



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O dia tinha sido mais curto (apesar de bem produtivo) no estúdio porque depois das catorze horas seguidas do dia anterior, todo mundo tinha saturado um pouco – decidimos, lá pelo fim da tarde, que era melhor a gente dar uma desopilada e voltar no domingo. Enquanto dirigia pra casa, que ficava do lado oposto da cidade, ouvindo Inner Wave, de repente, sem notar, comecei a pensar na – de novo, porque eu sempre acabava pensando nela, de um jeito ou de outro. Estava se tornando perigosamente frequente.
Senti vontade de ligar pra ela no caminho, ouvir sobre o que ela estava fazendo. Já tinha mandado mensagem, já a tinha chamado pra sair, mas não conseguia evitar a urgência de querer falar com ela toda vez que eu tinha um tempinho livre. Quase como pra aproveitar enquanto as coisas eram boas e leves e eu ainda não tinha cagado com tudo – coisa que eu faria, eventualmente, e tinha consciência disso. E uma pontinha de esperança de que não, talvez, se o universo estiver comigo nessa.
Mas também queria mostrar pra ela a nova música que a gente fez e saber qual era a opinião dela, porque ela sempre tinha um pitaco pra dar. Queria agradecê-la por ter me apresentado ao e toda a contribuição que ele estava trazendo pro álbum, com os mil e um instrumentos que ele tocava e as referências imprevisíveis que ele trazia. Queria contar pra ela que estava gostando do livro que ela tinha o emprestado e queria saber também se ela já tinha tido uma ideia mais específica pro roteiro do filme que queria escrever.
Também queria perguntar quem porra era Nathan e o porquê do não querer me contar. Respirei fundo ao entrar no caminho arborizado do condomínio em que minha casa estava localizada em Hollywood Hills.
A real é que eu podia fazer qualquer coisa nessa sexta feira – essa era uma das vantagens de ser famoso e morar em Los Angeles: gente rica ama dar festa e reunir gente influente e teoricamente (mas só teoricamente) interessante com open bar de bebida e de droga, e com isso, eu recebi algumas mensagens hoje com convite pra ir na social da Kendall – com quem eu tinha ótimos termos depois do término de alguns anos atrás. Antes da Camille. Mas eu não poderia estar menos interessado.
Por algum motivo, eu só queria ver a , e eu nem queria pensar sobre isso. Eu só queria vê-la. Seja no bar pequeno na frente da sua casa, seja na sua sala de estar com cartaz de filme clássico, seja na praia, ou no cinema, ou em qualquer lugar do mundo.
Mas eu já sabia exatamente para onde eu a levaria.


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- Eu não acredito que você me trouxe num parque de diversões! riu, ao parar o carro no estacionamento do Pacific Park, o parque do píer de Santa Mônica – o qual eu já tinha ido algumas vezes na vida por morar bem pertinho, mas já fazia muito tempo. A gente saiu do carro e foi andando até a entrada do parque. Ele já tinha comprado os bilhetes, portanto, a gente só fez entrar mesmo e eu apontei pro algodão doce, porque não ia nunca perder essa oportunidade.
- Ué, e o que você achava que a gente ia fazer? – perguntou, logo depois de me ver tirar o dinheiro do bolso e conversar com o rapaz que vendia o algodão doce gigantesco e rosa num carrinho característico.
Sentamos num banquinho mais escondido e continuamos a conversar.
- Ir num tapete vermelho de uma marca famosa. Uma festa no bangalô da Lady GaGa. A estréia de Mulher Maravilha. O festival de Cannes – respondi sarcasticamente e eu não podia ver, mas tinha certeza que ele havia revirado os olhos, de óculos escuros e boné (que contrastava com a camiseta branca com estampa dos Rolling Stones e a calça preta provavelmente mais cara que o meu apartamento) de noite como se isso fosse disfarçar qualquer coisa. – Deixa eu te perguntar uma coisa. Você acha que é o Clark Kent?
E então ele riu, virando o rosto pra mim e cruzando os braços.
- Eu gostaria de ser o Clark Kent.
- Você não foi tão assediado assim das outras vezes que a gente saiu.
- Não dá pra ficar contando com a sorte. Eu fui muito zoado na internet por causa do vídeo que vazou da gente dançando no meio do bar, sabia? Muita sorte sua que cê tava de costas de onde gravaram.
Eu ri, dando de ombros.
- Eu realmente não ligo. Perdi minha dignidade há um tempo já – quando peguei meu namorado me pondo uns belos chifres junto com todo mundo que trabalhava comigo na Kapplan, por exemplo. Mas não era um bom momento pra trazer isso à tona. – Você não gosta quando as fãs vem falar com você?
- É claro que não. Elas são insuportáveis – respondeu, enquanto terminava de mastigar, e eu fechei a cara pra ele, incrédula pela piada ácida, mas ele só deu uma risadinha. – Óbvio que sim, elas são a razão da minha vida, me enchem de amor e carinho. Principalmente quando eu to carente, o que pode acontecer eventualmente. Eu não tenho um coração de gelo, sabe? Por mais que pareça.
Eu quem ri dessa vez. Estava achando engraçado que ele estava usando óculos escuros durante a noite, mas parecia estar dando certo.
Ele havia me perguntado se eu tinha algum problema em ir para algum lugar público com ele no telefone antes de irmos e eu disse que não, porque não tinha mesmo. Não tinha muito problema com exposição. Não podia ter se eu fosse seguir a carreira que eu realmente queria no Cinema. E bom, aquela era uma parte da vida dele, e caso eu quisesse continuar participando da vida dele, teria que me acostumar. Mas não esperava que a gente fosse vir para um lugar tão aberto assim. Nem sei de onde ele tirou a ideia de me trazer num parque de diversões.
Eu amava o Pacific Park. O píer de Santa Mônica me trazia boas lembranças, principalmente dos primeiros anos que me mudei pra cá. As luzes dos brinquedos pela noite se misturavam de maneira atraente e colorida, o sorriso das crianças era largo e eu gostava da sensação de estar num parque de diversões. Só não imaginava que num possível (date? Será que eu deveria chamar isso de date? Será que a gente ia se beijar? Será que eu deveria beijá-lo? O que estava acontecendo? Porra, , você não para de noiar, quantos anos você tem?) momento com esse seria o lugar que nós iríamos.
- É claro que não. Seu coração é todo derretidinho que nem manteiga. Você só usa essa vibe de bad boy misterioso pra bolar na primeira impressão.
- Bad boy misterioso? – ele fez cara de desentendido e riu um pouquinho, comendo mais um pouco do algodão doce rosa que a gente dividia sentados num banquinho de madeira. Eu gostava da maneira que a boca desenhada dele formava um sorrisinho sapeca e divertido quando eu falava algo aleatório. Eu gostava da maneira que ele sorria fácil, na verdade.
- É. Tipo quando a gente se conheceu e você chegou no hospital todo sonso, se fazendo de sério. Mas daí cinco minutos depois você tava fazendo piadinha porque você não se aguenta. Piadinha ruim, inclusive.
- É claro que eu tava sério, os boatos que corriam sobre você eram sombrios. Nunca tinha visto o Aaron com medo de ninguém antes. – Ele deu de ombros, se explicando. – Mas pode falar, , desde o primeiro dia, cê só tava se fazendo de difícil. Eu sei que você ficou encantada com minha faceta bad boy comediante: o melhor dos dois mundos.
Eu até joguei a cabeça pra trás pra rir enquanto ele gesticulava teatralmente, olhando pra ele com uma expressão de falso desprezo que ele não parecia comprar. Era quase como se nós dois estivéssemos sempre torcendo a boca pra não sorrir o que o outro falava. O sorriso, quando não aberto, sempre preso no cantinho do lábio. Como se não conseguíssemos olhar para qualquer outro lugar enquanto o outro estivesse ali.
- Ué, eu achava que tinha que ser engraçado pra ser comediante – eu cruzei o braço livre e ele fez uma careta pra mim, por debaixo do óculos e do boné, enquanto mastigava o algodão. – Você podia usar essa vibe bad boy mais vezes, inclusive. Combina com o conceito que você tenta passar.
- Eu não sei porque você tá falando disso como se fosse uma vibe, . Eu sou um bad boy. O bad boy que ganhou seu coração.
Ele abaixou os óculos e deu uma piscadela pra mim, e eu neguei com a cabeça, sem acreditar no quão metido ele era.
- Tira essa coisa, quero olhar pra sua cara – eu soltei, espontaneamente, e arranquei os óculos do rosto dele, pendendo no meu peito. deu um sorrisinho controverso, cruzando os braços pra mim dessa vez, enquanto eu segurava o algodão doce que a gente comia, encarando ele de volta sem vergonha nenhuma.
- Você sabe que acabou de se declarar pra mim, não sabe?
Ri pelo nariz, assentindo ironicamente.
- O discurso do emocionado...
Para de negar. Você assumiu que quer ficar olhando nesses olhos esverdeados aqui – e apontou pros seus próprios olhos, com um sorriso de triunfo, como se tivesse acabado de ganhar uma batalha. Eu dei de ombros.
- Mas eu quero mesmo. Você tem ótimos olhos, . Bem bonitos.
Eu revelei, simplesmente, com toda honestidade que podia colocar na voz, como se não tivesse falado nada demais, porque eu não achava que fosse nada demais mesmo, mas ele pareceu não esperar por essa resposta, porque arqueou uma sobrancelha em surpresa, mas logo depois sorriu, debochado, ao fim do nosso algodão doce.
- Você tá tão afim de mim...


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Se eu achava que a era louca por vida, ou louca quando ficava bêbada, eu nunca a tinha visto num parque de diversões. Se eu não tivesse me aproximado dela, jamais diria que a mulher séria, fechada e ácida que eu conheci no hospital seria a mesma mulher que não conseguiu aceitar perder no tiro ao alvo e por isso se propôs a tentar mais quatro vezes, sem deixar ninguém da fila passar, só porque queria provar um ponto, e perdia rindo. Uma pena que ela não fosse tão boa de mira assim. Ela me deu o urso grande que ganhou na brincadeira, mas tomou de volta depois porque se arrependeu de me dar.
A gente foi em todos os brinquedos. Todas as montanhas russas. Ela sempre começava com uma careta e olhos bem fechados, mas sempre acabava rindo e gritando no final. Eu não podia gritar com ela porque precisava guardar a voz, então eu só esperava terminar a porra da tortura. Como eu odiava montanha russa, puta merda.
Eu tive a ideia de trazer ela pra cá porque lembrei da foto no seu quarto em que ela parecia realmente feliz de estar num parque de diversões. E eu acho que, inconscientemente, eu queria vê-la tão feliz assim de perto.
Algumas pessoas me pararam pra tirar fotos e falar comigo durante a noite, mas ela não parecia se importar – ficava rindo pra mim de longe enquanto eu tentava dar conta dos grupinhos de garotas que se formavam ao meu redor e me esperava pacientemente. E logo que as aglomerações se desfaziam, ela me pegava pelo braço, empolgada, para irmos no próximo brinquedo.
- Calma, você não curte montanha russa? – eu perguntei, enquanto me deixava ser levado por ela, que era bem mais forte do que parecia. estava tão bonita com o traje mais casual, um vestido solto e curto com estampas meio psicodélicas, uma jaqueta jeans enorme e um vans. Os cabelos longos soltos voando e argolas nas orelhas, segurando o ursinho com o outro braço. A essa altura, e eu já tinha tirado o boné também, pra que não voasse, e guardei na pequena bolsinha de ombro que ela carregava consigo.
- É, mais ou menos.
- E por que você tá me fazendo ir em todas as que existem no mundo?
Ela virou os olhos pro meu exagero com um sorriso e parou no meio do nada, ainda segurando meu braço. Eu parei com ela por impulso.
- Porque eu amo!
E ela não concluiu o pensamento, e eu não disse nada também, dando a deixa para que ela continuasse. Ela só voltou a me puxar.
- Ué, , explica.
Ela parou de novo, no meio do nada. Olhou pra mim por alguns segundos, parecendo ponderar, ainda me segurando pelo braço.
- O Travis odiava parque de diversão. Achava bobo. Faz anos que não venho porque ele nunca queria vir, e eu acabava fazendo o que ele queria fazer. A gente vinha no píer e eu o chamava pra vir, mas ele sempre cortava – deu de ombros, olhando pro lado dessa vez. A primeira vez que ela contava alguma coisa sobre o que tinha acontecido. Eu ouvi atentamente, olhando pro rosto dela, porque ela o mantinha virado pro lado, sem querer retribuir. Parecia estar com vergonha.
Acho que entendia um pouco. A impressão que me passou, desde o primeiro dia, foi a de uma mulher segura e decidida, que jamais se deixaria levar por alguém. E eu sabia que ela era exatamente isso, jamais pensaria diferente. Mas a gente nunca consegue explicar o que acontece na nossa cabeça durante um relacionamento tóxico. Deixei que ela continuasse a falar: - No começo é meio ruim. Eu me sinto meio presa na subida. Mas depois é bom, porque eu me sinto livre. Como se eu fosse deixar de fazer por um medo bobo e infundado e no final me sentisse corajosa por fazer. É como se eu tivesse superado alguma coisa ou qualquer uma dessas baboseiras que ninguém liga mas que na verdade todo mundo entende.
- Você consegue fazer uma montanha russa ser poética, . Uma poeta meio bukowskiana*, mas uma poeta – eu comentei, e ela riu, voltando o olhar pra mim dessa vez. Eu a puxei pra perto pelo braço que ela segurava e a grudei em mim, sentindo os braços dela envolverem o meu torso por impulso. Eu queria beijá-la bem ali, enquanto nos encarávamos como se não tivesse mais ninguém, no meio do fluxo de pessoas passeando pelo parque e as luzes que alternavam entre azul, rosa e vermelho e dançavam sincronizadamente pelo rosto de , deixando-a ainda mais iluminada – como se fosse possível. Mas eu não podia beijá-la ali. E como se lesse meus pensamentos, abaixou os olhos e se desvencilhou, ficando a um passo de distância – o que parecia muito mais. – Fico feliz de ter te trazido aqui, então.
- Também to feliz que você me trouxe pra cá. E sem nem saber de nada disso.
- Eu sei de tudo, ...
E eu a vi revirar os olhos com um sorrisinho quando ela voltou a me puxar para o próximo brinquedo.


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Só me dei conta de que realmente tinha vindo parar na casa gigantesca de quando pisei o pé no caminhozinho entre o jardim do quintal enorme que separava as enormes e esverdeadas árvores que compunham todo o caminho até a estrutura branca de três andares e emendava com uma piscina em formato ondulado que parecia ter o tamanho do meu bairro. A sua casa em Hollywood Hills, um bairro que eu nunca imaginei que entraria, era lindíssima, sim, mas gigantesca demais.
Quando eu falo gigantesca, eu falo a maior casa que eu já entrei na vida – e olha que Patrícia mora num dos setores mais bem quistos de Long Island com o Mark. Nada comparado a mansão absurdamente espaçosa que o tinha pra morar sozinho.
Quando terminamos de ir em todos – e eu reitero, todos os brinquedos do Pacific Park, e com isso eu também assumo que estava postergando a volta pra casa, nós decidimos que já estava na hora de ir. Mas eu queria mais tempo com ele. Eu queria mais contato. Acho que tudo isso rolava de uma maneira meio inconsciente, meio que espontânea, eu joguei uma de que tava com fome como quem não quer nada, e ele me chamou pra comer uma pizza, como quem não quer nada. Na sua casa. Que ele mesmo ia preparar.
Eu não estava nem louca de dizer que não, mas deveria estar bem louca de dizer que sim. As meia horinha de carro passaram rápidas enquanto a gente cantava juntos algumas músicas aleatórias e papeávamos sobre histórias antigas de parque de diversão. me contou da vez que foi na montanha russa do Potter pela primeira vez quando tinha 12 anos e defecou de nervoso bem na volta principal. Eu não o deixei em paz o caminho inteiro. Eu também descobri que ele não gostava muito de montanhas russas, o que me fez ponderar o porquê ele tinha me levado lá.
- Esse é a minha casa. Pode ficar a vontade, mas não muito – brincou, jogando as chaves na bancada da cozinha, e eu o segui, tirando meu casaco e deixando no cabideiro ao lado da porta.
- Você vomitou no meu banheiro. Eu posso fazer o que eu quiser aqui – eu dei de ombros, sentando na bancada que ficava no centro da cozinha, de frente pra ele, que estava com o corpo recostado na outra grande bancada, que tinha duas pias e um fogão embutido. Os fornos ficavam na parede, um em cima do outro. Coisa de gente rica.
Ele negou com a cabeça, cruzando os braços, e um meio sorriso se formou nos lábios, aquele charme que ele não conseguia conter e os olhos de flerte que pairavam sobre mim de um jeito que me fazia aquecer por baixo. Nos encaramos por alguns segundos. Puta merda. Eu queria beijar a boca dele o tempo todo. Por que é que a gente não estava se beijando?
- Então quer dizer que você sabe fazer pizza?
- Eu sei fazer muitas coisas – ele respondeu, com a voz rouca e clara, arqueando uma sobrancelha sugestiva pra mim, com a conotação ambígua escrachada na frase pelo jeito que me olhava, e eu sustentei o olhar em desafio, esperando sua próxima reação. – Posso te mostrar.
- Quero que me ensine.
Eu podia sentir o calor se espalhando pelo meu corpo enquanto ele me observava detalhadamente. Dos meus pés, as minhas pernas despidas cruzadas na bancada, ao meu busto decotado, os cabelos que caíam pelos ombros, meus lábios vermelhos e então, meus olhos curiosos, só para fazer o caminho todo de volta de novo. Pareceu ponderar ao lamber os lábios.
Ele andou até mim, parando na minha frente, sem sorrir dessa vez. Ficamos a poucos centímetros um do outro, e quando eu notei, ele espalmou minhas duas pernas, uma com cada mão, as separou sem delicadeza e se colocou dentro delas.
Eu acho que até tremi um pouco. Definitivamente tremi.
- Primeiro a gente tem que te tirar daí – e me pegou pelas coxas, sem avisar, me fazendo apoiar os braços em seus ombros e abraçar seu torso com as pernas, me girou e me colocou no chão ao seu lado, que deslizei meio surpresa, meio inebriada com o contato, meio frustrada quando me vi sem ele. Suas mãos subiram automaticamente para a minha cintura deixando uma trilha de calor que eu senti em cada centímetro da minha pele. Ele, então, assentiu pra mim, que meio desnorteada, acabei assentindo pra ele também, sem saber muito bem o que fazer. Me virou bruscamente pela cintura, fazendo sentir o impacto do seu corpo atrás de mim ao me deixar de costas pra ele, e então, ele continuou, bem no pé do meu ouvido: - agora, você vai ali naquele armário e pega a farinha de trigo, o sal e o óleo.
- Você é meio mandão – eu fui, à contragosto, sem olhar pra trás, enquanto fazia exatamente o que ele tinha me mandado, sabendo que ele ainda me observava. Deixei que meus quadris balançassem de propósito e ouvi a risada quente e gostosa dele.
- Você ainda não viu nada...


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era uma péssima aluna e conseguia ser pior como cozinheira. Rebatia tudo, questionava tudo, dava outras sugestões do que ela achava que deveria ser feito ao invés de simplesmente seguir a receita. Eu achava bonitinho porque ela realmente parecia empenhada a aprender a fazer a massa da pizza, mas não tinha jeito nenhum. Fiquei olhando enquanto ela esmurrava a massa – que já estava meio pesada – com força.
- , você tem que colocar mais farinha de trigo e moldar ela com delicadeza até desgrudar da sua mão. Assim, ó – e eu me coloquei atrás dela, de novo, óbvio, porque eu não ia deixar passar a oportunidade de encostar nela de alguma forma. Envolvi o braço dela com o meu e, por cima de suas mãos, misturei a massa na tigela junto com ela, que parecia estar meio tensa com a proximidade. Mas eu estava perfeitamente tentado. Inebriado.
Eu estava tentando ir aos poucos pra ver até onde ela me deixava ir, sem forçar nada, sem apressar nada, sem que as coisas acontecessem antes do tempo – e isso demandava muito autocontrole. Eu não sabia onde a estava e nem mesmo onde eu estava com tudo isso de Camille, e não podia me dar ao luxo de fazer qualquer coisa que a afastasse minimamente. Mas ao mesmo tempo... Era difícil resistir. Era difícil demais.
Tudo nela me fazia querer me manter perto. Tudo sobre ela me fazia querer ter contato com a sua pele, de alguma forma, e quanto mais eu tinha, mais eu queria, eu não ficava satisfeito, e acredito que jamais ficaria. A sua mão macia. O seu cabelo com cheirinho de pêssego. O perfume pouco adocicado. Os inúmeros brincos prateados na orelha e a tatuagem grande em traço fino em cima do braço até o ombro. O corpo curvilíneo e a alça fina do vestido que caía, vez ou outra. Saí de trás dela e fui pegar os outros ingredientes pra fazer o molho antes que fizesse alguma besteira impensada.
- Cozinhar é chato – ela pareceu desistir quando eu soltei a mão dela e deixei que continuasse sozinha. Eu sorri um pouco. – Me deixa meio entediada.
- A gente já tá terminando a massa. Daí é só montar a pizza e voi lá.
- Você gosta de cozinhar?
- Eu gosto – dei de ombros. A massa já estava num ponto bom, então eu deixei ela descansar um pouco na tigela e foquei no molho de tomate. – É meio terapêutico.
Podia sentir seus olhos sobre mim enquanto eu esmagava os tomates na panela. Gostava da sensação que acometia meu corpo quando ela ficava me observando, o que vinha acontecendo com frequência, e deixei que o fizesse sem pegá-la no flagra.
- Quem te ensinou?
- O meu pai. Lembra que te falei que eles tinham um bar lá na Inglaterra? É o que se chama de gastrobar, na verdade. É um bar que também é uma pizzaria e outros petiscos, tipo nachos. Eu tinha uns bicos de pizzaiolo em troca de umas libras antes do X Factor.
, agora sentada com pernas de índio na cadeira da cozinha, sorriu pra mim quando me virei pra ela.
- Seus pais parecem ser muito legais.
- Eles são mesmo.


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Fazia tempo que eu não ficava chapada. Talvez uns seis meses. e fumavam com frequência, mas pararam de fazer isso na minha frente pra eu não sentir vontade. Travis começou a ter umas crises de ansiedade quando a gente fumava e ficava de cara feia quando descobria que eu tinha fumado sem ele, acho que porque ele esperava uma espécie de solidariedade que eu me vi meio obrigada a ter, então eu a tive, mesmo sem querer. Quando a gente terminou, eu pensei que seria a primeira coisa que eu faria, mas fui deixando passar por ter perdido o hábito.
Não tem nada tão gostoso quanto fumar maconha depois de um tempo sem fumar. É quase como as primeiras vezes, quando você fica risonho demais, seus pensamentos fluem rápido demais, sua mente parece que expande um pouco pra uns detalhes que você nunca tinha visto antes. Seu corpo, sua pele, seus ouvidos ficam mais sensíveis. Seus poros abertos. Sua visão toma um aspecto diferente.
continuava lindo, claro, com os olhos pequenininhos, rindo da minha reação boba e intensa a qualquer coisa que ele tinha dito, porque fumar maconha me deixava mais boba e sorridente que o normal e acho que ele estava gostando de me ver mais solta. Estávamos sentados nuns sofazinhos localizados na frente da sua piscina que davam entrada pra porta da casa, do lado de fora, e perguntou se eu não queria dar pé aquela proposta que eu tinha feito no bar enquanto a pizza ficava pronta e eu topei. Nós nos sentamos ali, esparramados um ao lado do outro, e ele me disse que queria ver se eu ainda tinha habilidade pra bolar um beck* depois de algum tempo – o que, é claro, eu fiz com maestria com os apetrechos dele. A seda, o dichavador, o pilão, a piteira*, e a flor verdinha e cheirosa que ele ofereceu.
Era excitante fazer as coisas que eu gostava de novo. Era excitante fazer as coisas que gostava de novo com o . Nós estávamos conversando coisas aleatórias depois de fumar enquanto esperávamos a pizza ficar pronta. Pink Floyd tocava nos aparelhos de som embutidos na parede.
- Porra, eu acho que tinha me esquecido o quanto eu gostava de fazer isso – eu comentei, com a cabeça recostada no sofá, virando pro lado e olhando para . Ele olhou pra mim de volta, com a cabeça recostada também. Totalmente virados um para o outro, agora.
- O importante é que tu tá fazendo de novo agora.
- É. Só não imaginava que fosse ser nessa casa gigantesca que provavelmente foi cenário de Pânico. Você não tem medo de morar aqui sozinho?
- É o bairro mais seguro de toda Los Angeles. Tem todo um sistema de segurança articulado 24/7.
- Acho que o demo não precisa de passe livre, não, que eu saiba. Mas acho que vale a pena a experiência por essa piscina.
riu ao meu lado.
- Eu gosto dela também.
- Eu aposto que você não dá um tchibum nela agora.
Trouxe de volta a brincadeira, encarando ele como quem sabe que ele vai desistir. revirou os olhos, se levantando, e tirou os sapatos. Eu abri um sorriso largo, vendo agora, ele pegar meus pés e se prontificar a tirar os meus sapatos, levantando minha perna pra cima enquanto eu tentava me afastar dele, me debatendo com as pernas e me segurando no sofá, rindo demais e pedindo pra ele parar, e ele ria também, me provocando, mas já era tarde demais.
Quando eu menos esperei, me puxou de vez pela perna e pela cintura, sem ao menos tirar a camisa, andou até a borda me segurando e, por fim, se jogou abraçado comigo na piscina.


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, ainda rindo, me empurrou fraquinho no ombro assim que a gente levantou. Eu tentei tirar a água dos olhos, rindo também, e me virei pra ela. Tudo parecia engraçado demais. Estávamos só a um passo de distância. Ela, com uma expressão irritada (apesar do sorrisinho querendo pender no lábio avermelhado), cruzou os braços por cima do vestido colado ao seu corpo.
- Você trapaceou!
- Claro que não trapaceei. Você apostou que eu não dava um mergulho na piscina, e cá estou eu. Ganhei a aposta de novo.
- Quem disse que você ganhou da última vez?
- Você tá aqui, não tá? – eu dei de ombros. – Só não quer assumir que perdeu pra mim.
- Eu nunca perdi pra você, .
- Você acabou de perder! , sério, já tá chegando a hora de você assumir que-
- Shhhhh – eu senti o dedo de encostar nos meus lábios e automaticamente travei com o contato, ficando em silêncio, olhando fixamente pro dedo na minha boca esperando que ela continuasse, mas tudo aconteceu muito rápido. – Cala a boca, bobo. Eu quero testar uma coisa.
E finalmente, me beijou.

*Bukowski é um autor estadunidense dos anos cinquenta conhecido por um estilo coloquial, boêmio, meio agressivo e que não faz questão de parecer formal. Uma poesia bukowskiana, por exemplo, é uma poesia de um realismo sujo, que não se importa muito com a formalidade das construções das frases, mas se expressa de maneira mais aberta.
*Bolar um beck significa enrolar um baseado. A seda é a fina camada de uma espécie de papel que envolve a maconha por fora. A piteira, um pequeno pedaço de papel no início do beck que é enrolado de maneira a ajudar a tragar. O dichavador é o que “esfarela” (Rala? Destrói? Deixa quase umas migalhinhas?) a folha ou flor de maconha, para que possa ser envolta pela seda e formar, assim, o baseado. O pilão ajusta o formato da folha dichavada no baseado, pra deixar ele mais acochadinho. O beck é o próprio baseado.


12.

E é claro que eu me deixei levar. Não conseguiria pensar numa pessoa nesse mundo que não o fizesse.
Seu dedo polegar, que antes contornava meus lábios com curiosidade, agora fazia um caminho demorado até o meu pescoço; as minhas mãos desceram sem pressa para a sua cintura, explorando cada centímetro de sua pele macia e molhada e, ao pousar, apertei com vontade, tentando expelir de alguma forma a tensão que elas carregavam ao ter tão próxima de mim. Finalmente. Finalmente, era só o que eu pensava. Virei seu corpo, empurrando-a com força contra a parede da piscina na intenção de diminuir o espaço concebido entre a gente o máximo que eu podia. A língua de brincava com a minha devagar e intencional, quase como se quisesse me torturar, quase como se quisesse investigar cada parte que encostava; como uma descoberta gostosa e ardente que fazia o sangue em minhas veias correr quente e rápido. O seu beijo tinha um gosto doce de morango e as minhas papilas pareciam saltar desesperadas em satisfação ao sabor do encontro com as de . Desenhei cada curva molhada do seu torso ao subir minha mão direita, percebendo cada detalhe, gravando cada minúcia, até que encontrei o destino final no seu cabelo e dei um puxão incisivo, entrelaçando os meus dedos ali, passando a guiar o beijo. As unhas de fincaram o meu pescoço quando eu a pressionei ainda mais contra a parede da piscina num impulso irresistível de moldar o seu corpo com o meu, de ter seu corpo no meu, de fazer a gente ser um só, enquanto sua mão descia pelo meu peitoral deixando seus rastros, fazendo sua trilha por dentro da camiseta. se curvou para frente soltando um gemido delicioso que me fez latejar. Não havia nenhum centímetro entre nós. Eu peguei a sua perna com a outra mão e apertei sua coxa com todo o tesão contido que eu tinha naquela mulher por tantos meses e ela gemeu de novo, dessa vez um pouquinho mais alto.
Tudo sobre era especialmente delicioso e me tirava a razão. Me fazia perder a cabeça de um jeito que eu nem sabia que podia. A forma despreocupada com que me beijava mas descontava isso no desespero em que suas mãos demonstravam ao me tocar, cada pedacinho de mim. O gosto doce dos seus lábios grossos e avermelhados, o contato exposto da sua pele com a minha, os arrepios trocados e os nossos corpos grudados – a cada lugar que encostava, com seus dedos, com a sua boca, com a sua pele, gerava uma pequena explosão no centímetro de contato. Minha pele queimava com seu toque. Meu lábio ardia com o seu beijo.
Eu puxei seu cabelo com força mais uma vez porque ela parecia gostar, ouvindo-a suspirar contra minha boca e sentindo seu quadril roçar levemente contra o volume evidente entre minhas pernas. se apertava contra mim como se quisesse fundir nossos corpos. Eu estava pronto pra fuder com ela logo ali na piscina. Eu queria mais. Eu precisava de mais. Eu estava arrebatadoramente perdido. Entregue. Eu faria qualquer coisa para ter naquele momento.
Mas distraído e extasiado pelo seu gosto e pelas sensações que ela despertava em todo meu corpo, senti morder meu lábio inferior, separando-os de vez. Encarou-me com nossos rostos próximos, um meio sorriso divertido, e quando eu estava prestes a beijá-la de novo, apoiou sua cabeça no meu ombro, rindo, e desvencilhando sua perna do meu torso. A risada foi crescendo com o passar dos segundos e eu olhei pra ela de lado, que tinha a cabeça afundada no meu peito. Dei uma risada também, desgrudando nossos corpos.
- Então... Você passou no teste. Parabéns, cara.
brincou, com um sorriso debochado e eu ri, dando um caldo nela logo depois, que afundou na piscina. Levantou da água revoltadíssima, fazendo de tudo pra me derrubar também. A gente ficou brincando um pouco na água antes de lembrar que a pizza ainda estava no forno e eu ofereci outras roupas para que ela pudesse comer confortável.

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Entrei na cozinha com os cabelos ainda úmidos, a camisa de lã de mangas longas e gola redonda que tinha o cheirinho do seu perfume e que ia até a metade da minha coxa e quase cobria o shorts que ele tinha me emprestado (e eu tive que dobrar várias vezes até ficar num tamanho razoável) porque minhas roupas estavam ensopadas – a calcinha, bom, a calcinha de renda preta que eu tinha escolhido propositalmente ao sair de casa porque não sou boba e iria sair com , eu preferi lavar e secar com um secador que ele havia me emprestado quando fui tomar banho no banheiro de hóspedes. Me garantiu que as outras roupas secariam rapidinho também com as máquinas de gente rica que ele possuía na sua área de serviço de gente rica, as quais ele mal sabia mexer, na verdade, então a gente deu umas boas risadas por lá tentando descobrir como mexer antes de ele me apresentar o quarto de hóspede da sua casa para que eu pudesse tomar banho na suíte.
era ótimo em deixar o clima confortável, mesmo depois do bendito acontecido que ninguém conseguia entender ainda. Deve ser uma coisa de pessoas públicas.
O observei tirar duas cervejas da geladeira com os cabelos um pouco úmidos também, um shorts preto da adidas e uma camiseta de botões estampada aberta com mangas curtas. Puta merda, ele não sentia frio? Eu parei na porta da cozinha, meio travada, meio lenta, com os resquícios do efeito da flor ainda no meu cérebro. Observava o ponto específico bem ali, no meio, onde ficava a tatuagem de borboleta, mesmo sendo míope. Os gominhos que saltavam do seu abdome e o peitoral demarcado e tatuado. Destampou a longneck de Budweiser com a própria mão e eu ficava me perguntando o porquê de ele ter que deixar tudo o que fazia tão absurdamente atraente. Por Deus, isso deveria ser proibido; eu não tinha saúde mental para lidar com esse tipo de situação tão inesperada.
- ? – fui desperta de meu momento hipnótico por sua voz divertida e um meio sorriso convencido. – Tudo bem?
- Tudo bem, obrigada pelas roupas. Tão quentinhas. – fui me aproximando dele, que me entregou a cerveja já destampada logo depois que eu me abracei com a sua camisa de lã. O cheiro que me deixava inebriada. Ficamos de frente um pro outro, enquanto ele descia seus olhos sobre minhas pernas descobertas e assentia a cabeça em aprovação.
- Eu ia sugerir que você ficasse sem, mas achei que você não aceitaria.
Engoli em seco, sem conseguir conter o sorriso pela piadinha infame e arqueei a sobrancelha pra ele. Talvez tivéssemos perdido todos os limites depois dos eventos anteriores.
- Você, no entanto, aderiu a ideia sem problemas. – respondi, pelo modo que havia deixado a camisa aberta, arrisco dizer que de maneira proposital. Não havia nada que tirasse o sorrisinho cafajeste do rosto dele, que passou a beber sua cerveja olhando pra mim de maneira bem sugestiva e deu de ombros. Nossos olhos só se desgrudavam quando os dele se voltavam pros meus lábios sem disfarçar. A boca dele meio rosada e molhada de cerveja.
- E você gostou, pelo visto. Tava me encarando e tudo.
Ah, a quem eu estava querendo enganar a essa altura do campeonato?
- Gostei mesmo. Gostei bastante. – e cruzei os braços, dando de ombros, sem vergonha de admitir. Com um friozinho na boca do estômago e um arrepio na nuca pela tensão do momento.
- Você tá me paquerando, ? – perguntou, tentando usar a inocência para esconder o seu sarcasmo. Eu lambi meus lábios vagarosamente. O coração parecia pular pela boca.
- O que você acha?
- Que você quer me beijar de novo.
- Você é convencido demais.
Ele deu um passo pra frente.
- E você tá com medo.
- Fui eu que te beijei da primeira vez.
- E por que parou no meio?
- Porque você não beija tão bem quanto eu pensava – eu rebati, com um sorriso desafiador dessa vez, e ele riu da minha cara de pau, cruzando os braços. Sabia que eu só queria provocar. Os braços firmes, travados, forçados na frente do corpo. As deliciosas linhas de divisão. A tensão ainda era tão palpável que eu pensei poder tocá-la com minhas próprias mãos. Estávamos a uma distância mínima um do outro, eu podia sentir sua respiração batendo no meu rosto enquanto eu olhava pra cima, tentando manter a pose.
Uma pena que ele fosse tão mais alto que eu.
- É assim que você tá tentando se convencer?
- Mas – e eu dei mais um passo pra frente ficando ainda mais perto. Eu deslizei meu dedo indicador pelo seu braço e então, pelo peitoral nu enquanto falava: – Eu posso te dar uma chance de se redimir...
Os meus olhos desceram e subiram dos seus olhos para os seus lábios, enquanto ele me encarava de cima.
descruzou os braços, sem pressa nenhuma, e quando menos esperei, colocou uma mecha do meu cabelo úmido atrás da minha orelha. O toque dele fez com que eu entrasse em um estado de alerta completo, dos pés a cabeça, todo o meu corpo preparado em expectativa. De repente, entrelaçou seus dedos no meu cabelo e puxou meu pescoço pra frente com força, prendendo minha nuca na mão, me fazendo olhar pra cima. Bem nas íris.
Eu sentia a respiração dele na minha boca quando ele se inclinou pra frente. Tão perto. Tão perto...
- Ah, eu com certeza vou aproveitar essa chance – ele assentiu, parecendo registrar cada parte do meu rosto, minhas maçãs, meus olhos, meu nariz, meus lábios, o maxilar, o cabelo, o corpo, seus olhos passeavam com liberdade por cada centímetro da minha pele. E então, se inclinou mais um pouco, grudando seu lábio no meu ouvido. Arrepios se espalharam pela minha pele e eu senti a excitação, lá embaixo, gritar. Sussurrou bem no pé do meu ouvido: - mas vai ser quando eu quiser.

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- Manguebeat?
- É. Manguebeat. Tem uns aspectos de rock, samba, hip hop... Depende da banda. Foi um movimento muito importante pra cultura do meu estado, começou lá pelos anos 90. Essa música de Nação Zumbi é mais romântica, mas o movimento mesmo começou com a ideia de expor o descaso do governo tanto com a biodiversidade do mangue na minha cidade, como com a parte periférica.
Eram quase três da manhã e eu estava acordado com no terraço rústico e decorado que funcionava quase como uma cobertura aberta da minha casa. O céu estava limpo, com pouquíssimas nuvens e uma estrela ou outra, o vento não era muito frio. O lugar tinha um ambiente gostosinho, com alguns sofás, luzes, mesas de centro, uma jacuzzi e um minibar. Mas a melhor parte era a vista de Los Angeles garantida pela altura das montanhas de Hollywood Hills e a pouca iluminação do ambiente aberto.
Eu decidi que a gente comeria por lá porque queria mostrar o lugar pra . Nós estávamos sentados, conversando e bebendo num sofá de frente pra vista já fazia algum tempo, mesmo depois de comer – e também de eu passar pelo menos uns dez minutos discutindo com ela até fazê-la admitir que a minha pizza era sim a melhor que ela já tinha comido. Conseguimos chegar ao consenso de que era uma das melhores.
Depois de algumas cervejas, eu poderia arriscar que já estava meio animada. O riso frouxo, o brilhinho nos olhos, o jeito mais carinhoso e lento de falar...
A gente começou a falar da cidade em que ela havia nascido no Brasil. Ela me contou que era uma cidade litorânea, que amava o apartamento minúsculo que dividia com sua mãe e ficava a cinco minutos da praia, sobre um feriado chamado carnaval que acontecia ali por perto e que era uma das maiores festas do Brasil em que todo mundo se fantasiava pra ficar bêbado, dançar e seguir uns blocos no meio da rua. Nisso, ela começou a me mostrar alguns aspectos específicos da cultura e da música de lá.
Nós estávamos lado a lado, sentados no sofá, conversando por horas, mas estávamos virados um pro outro.
- Como é o nome mesmo da sua cidade?
- Recife. Fica num estado chamado Pernambuco, no nordeste.
- Eu não fui lá, infelizmente, mas adoraria conhecer. A melhor parte do Brasil é, com certeza, a diversidade. Essa música é diferente de tudo que eu já ouvi.
- Me deixa te mostrar uma que eu gosto muito. Não é maguebeat, mas é bem característica da cultura baiana, um dos nossos estados, que é tão importante e autêntico quanto. Eu gosto dela porque ela mistura uns dos ritmos mais brasileiros que temos: samba, MPB e com resquícios de Olodum. O Olodum é um desses blocos de carnaval lá da Bahia, por exemplo, mas acabou se tornando também uma ONG que promove ações sociais contra o racismo e em busca de direitos civis. É bem importante.
- O que significa esse nome? Deusa do amor?
- Seria algo como Goddess Of Love – explicou, dando de ombros. – É bem simbólico. Muitas deusas das religiões afrobrasileiras são representadas por mulheres.
- Passa essa sensação mesmo...
- Qual?
- De fascínio. De devoção. Entrega.
- Vem. Vou te mostrar como se dança.
se pôs de pé, na minha frente, e me estendeu a mão. Eu aceitei, meio contrariado, meio encantado, acabei me pondo de pé na sua frente, que me puxou para um ponto seguro um pouco distante do sofá.
- ...
Ficamos de frente um pro outro. Ela me encarava com um sorriso sapeca e eu acho que fiquei meio sem reação na expectativa do que estava por vir. Mordi o lábio, esperando seu próximo direcionamento – em todo o processo ela olhava bem nos meus olhos, como sempre, sem desviar. Pegou minhas duas mãos e colocou na sua cintura, ainda sustentando o olhar. Me atrevi a descê-las até a barra da camisa, em sua coxa, e então subi até a sua cintura por dentro, deixando meus dedos em contato com a pele exposta do seu quadril por debaixo da lã. Eu pude sentir os arrepios na sua pele e quis trazê-la mais pra perto, mas deixei que ela me dissesse o que fazer. Colocou suas duas mãos no meu pescoço e grudou o nosso corpo, me fazendo expirar fundo pelo nariz.
- Vou te guiar.
E movimentou o quadril no ritmo da música, ainda parada no mesmo lugar, e eu observei o movimento com atenção, sabendo que eu jamais conseguiria ter tamanho gingado – e nem pretendia, nem precisava. , com certeza, dava conta. Molhei os lábios pela desenvoltura que ela apresentava, e então, senti que ela deu um passo para frente, forçando minha perna a dar um passo para trás. – Agora, você dá um passo pra frente. Do mesmo jeito que eu fiz com você.
E nós seguimos mais naturalmente a partir disso, apesar de que eu ainda estivesse meio duro, claramente fazia o trabalho por nós dois com perfeição. O corpo dela, latino e moldado, parecia ser feito para dançar daquele jeito – desinibido, quente, sensual, solto e o fazia com maestria, o quadril que parecia ter vida própria, seu torso que a acompanhava nos passos mais deliciosamente compassados que já havia experimentado me levando consigo sem dificuldade alguma, os nossos corpos sincronizados. Íamos pra frente, pra trás, pro lado, sempre com o corpo de grudado no meu, suas pernas roçando nas minhas e a melodia gostosa com letras que eu não entendia – mas a carga libidinal era tanta que só intensificava a minha vontade de beijá-la de novo. Sua cabeça recostou no meu peito em algum momento e eu fechei os olhos, sentindo o calor do corpo de junto ao meu, sentindo o cheiro que seu cabelo expelia, a pele macia contra os meus dedos que envolviam a sua cintura. As sombras das luzes do terraço que apareciam e desapareciam com nossos movimentos. O céu que parecia mais perto e aberto e estrelado e o vento que beijava os nossos corpos tão juntos que pareciam um só.
E então, um ponto de curiosidade me fez despertar:
- O que... ele está dizendo? – eu perguntei, a voz que falhou um pouco. A música parecia repetir-se. Ela não moveu a cabeça pra dizer:
- Tudo fica mais bonito quando você está por perto – ela traduziu, sem cantar, apenas com a voz rouca e baixa perto de mim, num ritmo mínimo que acompanhava a música. Eu abri meus olhos ao sentir que ela afastou sua cabeça do meu peito, sabendo que ela direcionaria seus olhos pro meu rosto enquanto nós ainda dançávamos. – Você me levou ao delírio por isso eu confesso: os seus beijos são ardentes...
Eu observava atentamente enquanto a boca dela se mexia ao dizer as palavras em inglês – a expressão séria, até que sorriu um pouco envergonhada, ao abaixar os olhos e continuar: - Quando você se aproxima o meu corpo sente... – eu, nesse momento, levantei seu queixo com o dedo. Estava enfeitiçado – a sua voz, as palavras que dizia, a melodia de fundo, o formato do seu rosto, e eu queria que ela dissesse as palavras olhando pra mim. – Os seus beijos são ardentes... Quando você se aproxima, o meu corpo sente.
E ela não cantou, agora, ficou em silêncio, mas eu pude ouvir as vozes melodiosas exclamando: ah, oh. Ah, oh. Ah, oh.
parou de dançar antes que o refrão terminasse e eu parei com ela. E então, começou a sambar, na minha frente, lenta e deliciosamente, no ritmo da música, sorrindo de lado, me encarando vez ou outra, girou em seu próprio lugar com seus pés compassados, seus quadris se encontravam com meus olhos de maneira quase magnética, todo o seu corpo parecia ter sido feito para aquela dança arrebatadora que mais me enlaçava como um feitiço, as mãos que as vezes caíam na cintura enquanto ela continuava a cantar. – O cupido me flechou… – Os seus movimentos eram quase como um feitiço – e meus olhos, fascinados, não conseguiam desvencilhar. Ah, oh. Ah. Oh. Ela me estendeu a mão e eu a puxei pra perto, expirando ao impacto do nossos corpos, um contra o outro. Não nos movemos. Os nossos rostos próximos demais. – Vem pra cá, deusa do amor.
Assim que ela terminou a frase, eu beijei pela segunda vez na noite.

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Não conseguia explicar o porquê de meu coração bater tão acelerado. Já havia beijado vários outros caras antes, mas algo na boca do meu estômago evidenciava que aquela não era só mais uma situação aleatória. Os meus olhos estavam fechados, a minha língua sentia o gosto gelado de cerveja no encontro com a de que pareciam velhas amigas conversando de maneira íntima e conhecida. Pouco importava qualquer outra coisa. Tudo que conseguia pensar eram as sensações que o beijo me trazia: o pulsar da minha intimidade, o friozinho na barriga, os arrepios na nuca enquanto as mãos bobas dele passeavam pelo meu corpo deliberadamente por dentro da blusa. Quando desceu as mãos – grandes, rudes, espaçosas – até as minhas coxas e as impulsionou pra cima sem dificuldade, como se levitasse uma pena, eu as entrelacei no seu torso, e quanto mais contato a gente tinha, mais eu queria. Não era suficiente. Nunca era suficiente. Ele me levou até o sofá de novo, me posicionando com cuidado, ficando de joelhos entre as minhas pernas dobradas. Nesse momento, abri os olhos, expondo um sorriso safado, e me apoiei nos cotovelos. Dei de cara com um que espelhava o meu meio sorriso, dissecando-me com olhos devoradores enquanto tirava a própria camisa.
- Não demorou muito, né? – provoquei, sobre a conversa na cozinha. – Achei que fosse mais determinado...
colocou mão na minha coxa novamente, de dentro pra fora, fazendo o contorno da minha perna e subiu o dedo pela minha pele exposta a sua frente, que tremi com o deslizar da pequena unha dele sobre a minha perna. Um tapa forte e estalado na parte de fora da coxa que me fez impulsionar pra frente, surpresa, com um ofegar rápido e descompassado, sentindo a parte quente do contato arder e o sorriso sádico e cafajeste de se alastrar pelo rosto – o que me deixava ainda mais molhada. Na verdade, eu já estava mais molhada do que me lembrava de ter ficado na vida e o encarava em muita expectativa. Continuou brincando com os seus dedos na minha perna (que secretamente ansiava pelo próximo tapa), a expressão debochada ainda explícita na minha cara. negou com a cabeça com uma desaprovação, pegando o meu rosto com a mão e apertando com força, fazendo meus lábios se encontrarem num bico.
- Inferno de mulher... Tá com uma boquinha esperta, . Vamo ver se ela dura até o fim da noite – e voltou a me beijar com voracidade. Eu, com as mãos agora entrelaçadas no cabelo dele, puxava pra trás, descontando ali toda a tensão que se espalhava por meu corpo ao senti-lo friccionar a sua ereção já imponente bem ali, onde deveria, onde eu ansiosamente esperava, no meio das minhas pernas arreganhadas. Arranhei a nuca dele sentindo sua respiração ofegante e descompassada contra mim. tirou a minha blusa de lã com rapidez e jogou-a pra trás, parando para, pela primeira vez, observar os meus seios redondos já expostos. Os bicos duros e empinados. – Caralho. Gostosa. Gostosa pra caralho. Gostosa demais.
Eu sentia os olhos devotos e desejosos de sobre mim como se quisesse gravar o momento para sempre e, logo depois, passou a língua pelos lábios com uma excitação explícita. Arqueei a sobrancelha pela demora, ansiosa, impaciente, e ele, que não media os olhos sobre o meu corpo, me puxou mais pra perto com a mão que apalpava minha perna. Já a outra, espalmou o meu seio, apertando com vontade, e eu tremia de tesão ao passar as unhas por suas costas – era quase como se a mão dele fosse feita para aquele momento, ali, me apalpando do jeito certo, apertando com força o bico do meu peito, eu entrelaçava minha perna no seu torso tentando trazê-lo o mais perto que conseguia. Subiu a mão bem para a carne da bunda, espalmando com vontade, deixando ali mais um tapa estalado e inesperado que me fez curvar para frente e fincar meus dedos com força, sentindo descer os beijos e mordidas pelo meu pescoço com tamanha precisão, deixando ali sua marca. Incomodada, impaciente, insana de tesão, eu queria arrancar aqueles shorts que a impediam de ter o verdadeiro contato que eu queria.
- Anda logo, ...
- Calma, – ele soprou nos meus lábios, enquanto eu o observava com uma raiva explícita e uma expressão suplicante. – Eu vou te fuder até você gritar. Mas vai ser do meu jeito.
Meu corpo estremeceu com o tom de voz que usou e os olhos que escureceram. O sorriso sacana ainda escancarado parecia dizer que ele sabia exatamente o que queria fazer comigo. E eu jamais poderia negar – o jeito mandão e bruto que ele havia assumido para falar me fazia pingar ainda mais.
Apalpava meu seio quando foi descendo os beijos, devagar, como se quisesse me enlouquecer ou me torturar, e olhava pra cima, pro meu rosto, memorizando cada expressão minha de descontrole absurdo por cada mínimo toque dele. Porque era exatamente o que acontecia. Tremi em expectativa quando ele abaixou o shorts que eu usava, com força, e eu tratei de me livrar dele o mais rápido que pude, ao ver se ajoelhar ante ao sofá em que eu já estava deitada, de pernas abertas, submissa ao próximo passo que ele indicaria. Deu de cara com a calcinha preta que eu agradeci mentalmente por ter escolhido e desviou o olhar dela só pra olhar pra minha cara com uma safadeza descomunal em aprovação.
Brincou com a barra da minha calcinha enquanto apertava a minha coxa e separou-as ainda mais. Deu um beijo ali, bem no meio, bem na minha coxa, e foi subindo até o meu sexo, soprando ali sem nenhum pudor, sem nenhuma pena. Os arrepios se espalhavam por todo meu corpo enquanto eu arfava e já começava a me contorcer de tesão. Eu queria chorar de excitação, de expectativa, de ansiedade, eu queria que ele me tocasse, eu precisava que ele fosse mais rápido, mas estava especialmente dedicado em me fazer perder a cabeça. Pegou as bordas da calcinha que ficavam na minha cintura e tratou de descê-las logo também, até que eu ficasse completamente nua no terraço aberto da sua casa – e eu nem sentia frio. Pelo contrário. Meu corpo inteiro estava inflamado em chamas.
passou o dedo pelo meu sexo encharcado e riu pelo nariz, satisfeito e arrogante. Continuou a brincar com seus dedos por ali, e eu, sedenta, desesperada, grunhi de insatisfação, querendo reclamar.
- Você já tá tão molhada assim, ? – e então, enfiou dois dedos, logo de cara, e os tirou, molhados, encharcados com a minha excitação. Abri a boca num gemido contido ao notar que ele me observava. Em cada momento. Em cada mínima expressão. Resolveu agora esfregar o exato ponto do meu clitóris com força numa fricção deliciosa e enlouquecedora e dei um grito esganiçado, passando a tentar rebolar pra intensificar a sensação. – Me responde, . Pra quem é que você tá molhada assim?
Eu me recusei a responder enquanto ele continuava a me masturbar, e caralho, eu nem sabia como explicar o quanto a sua voz rouca e grave falando comigo daquele jeito só deixava tudo melhor, tudo mais quente, mas eu não queria admitir que estava tão desesperada assim. O ritmo da sua fricção foi diminuindo quando ele apertou meu clitóris com força e eu contraí meus lábios instantaneamente e ainda mais. A pressão contra o meu grelo que só aumentava e eu ofeguei alto num gemido sôfrego.
- Responde.
- ... – eu abri os olhos, e num ato claro de desespero, comecei a rebolar ainda mais contra os seus dedos tentando voltar ao ritmo delicioso que ele mantinha antes, mas ele estava determinado. se inclinou sobre mim de novo e apertou levemente meu pescoço de onde ele estava. A expressão no seu rosto de puro contentamento. Me curvei pra frente, ficando com o rosto ainda mais perto do dele.
- Eu quero saber pra quem é que você tá rebolando que nem uma puta, .
- É pra você, porra – eu respondi, por fim, com a voz falha e o tom fraco. – Foi você que fez isso comigo.
O vi assentir em satisfação antes de voltar a me beijar e continuar a friccionar meu clítoris com o ritmo de um furacão. Era um prazer absurdo que corria nas minhas veias ao receber de um olhar tão sedento, tão lascivo. O modo que ele me tocava tão certeiro me deixava insana. Eu arranhava as suas costas sem pena nenhuma tentando descontar a tensão que ele causava o meu corpo – quente e completamente alerta a qualquer mínimo toque seu – e, quando sentiu que eu estava chegando lá, tirou o dedo, me fazendo ofegar de frustração.
- ... – eu reclamei mais uma vez, abrindo os olhos. Mas ao sentir lamber a minha barriga em beijos desejosos e lentos até chegar lá, desceu pela minha pélvis, lambeu o suor da minha virilha e eu mordi o lábio pra não gritar. Nossos olhares se encontraram de novo.
Eu sentia a sua respiração contra o meu sexo. Ele estava disposto a me provocar. Meus lábios tinham espasmos, vez ou outra, e quando eu menos esperei, ele abocanhou o meu clitóris e sugou de um jeito que me fez apertar as pernas contra a sua cabeça. De repente, não tinha mais resposta, não tinha mais palavra certa no dicionário que descrevesse o que se passava pela minha cabeça – eu só conseguia pensar que nenhuma semântica no mundo dava conta de expressar a explosão de prazer que eu sentia enquanto ele abocanhava os meus grandes lábios. Chupava, mordia, brincava, sua língua livre e independente por todo o meu sexo, enquanto a minha respiração descompassada se fazia cada vez mais ofegante. Eu, agora, gemia sem vergonha, sentindo minhas pernas tremerem, as que ele apoiou nos seus ombros enquanto eu esfregava a minha buceta na cara dele.
Chupou com gosto e maestria num dos melhores orais que já tinha recebido enquanto meus lábios passaram a pulsar cada vez mais intensos e ele apertava minha bunda com força pra se apoiar. Meu clitóris já gritava, inchado, quando o meu ápice chegou, junto com o meu gemido de redenção. Deu um último beijo ali enquanto a minha perna ainda dava alguns sinais de espasmos e ele desvencilhou seu rosto das minhas pernas, se levantando.
Eu estava completamente satisfeita e entorpecida pelo prazer elétrico que o orgasmo já havia me causado. Meu coração ainda acelerado e o suor escorria pelo meu rosto, enquanto o sorriso debochado dele jamais saia de seus lábios e uma expressão sacana quase saltava de sua face. Levantou-se, com o pau estourando sob o short e a cueca, e se livrou dos dois rapidamente, com movimentos precisos, me deixando com a fotografia mais bem desenhada que já havia visto na vida: , completamente nu, com o pau imponente, de frente pra mim, e toda Los Angeles atrás dele. Eu jamais poderia ficar parada diante dessa cena.
Fiquei de quatro no sofá e engatinhei até ele, na pouca distância que tínhamos, ficando ajoelhada a sua frente para me levantar. Troquei de posição com ele, deixando-o em pé de frente ao sofá. Eu sentia o seu pau tocando na minha barriga e isso fez com que eu apertasse minhas pernas, uma contra a outra, sentindo uma contração específica. Me ajoelhei na sua frente enquanto ele se dispôs a sentar. Enlaçou a mão nos meus cabelos com firmeza, puxando pra trás, deixando a minha face inclinada pra ele e eu soltei uma risada de nervoso ansiosa pelo que ia acontecer. Nós nos encaramos, cúmplices, enquanto eu sentia a sua mão firme pressionar meus cabelos pra trás, e então, a minha mão fez menção de envolver e pressionar o cacete a minha frente; eu lambi lenta e vagarosamente da cabeça até o fim da estrutura e ele deu um suspiro sôfrego com a provocação. Passei minha mão de maneira lenta pelo membro ereto a minha frente, que parecia estar prestes a explodir. Seu maxilar travado. As mãos fechadas em punho.
- Vai, . Me chupa logo.
E eu prontamente obedeci, já voltando a me sentir molhada pelo jeito que ele me ordenava, pelo jeito que me olhava como se o pertencesse, na expectativa de tê-lo por completo na minha boca. Puta merda, deveria ser proibido ser tão delicioso assim, era só o que eu conseguia pensar. Deixei que os meus olhos por um momento apreciassem a magnitude do membro que eu chuparia em alguns instantes. Queria sentir cada parte. Apoiando minhas mãos em suas pernas, beijei seus arredores com beijos molhados. Envolvi com meus lábios a sua glande com precisão, cada centímetro dela, disposta a dar o melhor boquete que ele já teria recebido nessa vida e na outra e suguei com vigor, agora de olhos fechados. Chupei mais um pouco aquela parte, me deliciando com o sabor, e passei a masturbá-lo devagar com uma de minhas mãos, aumentando o ritmo progressivamente. Ele ofegou em sofrimento e eu abri meus olhos para encará-lo, recebendo como resposta a sua expressão desesperada.
- Não provoca assim, ...
Mas eu estava disposta. Eu estava disposta a deixá-lo louco tanto quanto. Brinquei com a ponta com a língua e os dentes, enquanto a minha masturbação alternava entre rápida e fraca, observando a sua impaciência aumentar. Ele, então, puxou minha cabeça pra trás e resmungou: - . É pra me chupar todo.
E dessa vez, eu o engoli, com um sorrisinho rebelde. Eu o engoli todo. Eu sentia a minha boca ocupada por seu membro imenso e me deliciava com cada mínima parte da estrutura, chupando com toda força que eu tinha, levando-o até a garganta, até lacrimejar. Sua mão me guiava ao apertar meus cabelos entre os dedos, meus lábios pressionavam o seu pau em movimentos precisamente calculados, e o som de aprovação que saia da sua boca era música pros meus ouvidos, bem como os seus olhos revirando de prazer ao meu toque havia se tornado o meu filme preferido. Quando eu acelerei o ritmo da sucção, jogou a cabeça pra trás, e eu estava disposta a ir até o fim, agora também masturbando a base com rapidez. Observei, sem parar os movimentos, enquanto ele abria os olhos com a expressão descompassada.
- Porra. Vem cá – ele se curvou pra frente e eu parei, tirando o seu membro molhado da minha boca, e eu me levantei com um sorriso perverso. Não esperei por nenhum comando dessa vez, enquanto ele colocava a camisinha, e ele também não se opôs ao me observar abrir as minhas pernas sobre as suas e sentar no seu pau quente e duro sem nem avisar. Eu gritei bem no seu ouvido – de dor, de tesão, de excitação, de tremor. O membro dele ocupou todo o espaço que tinha dentro de mim antes mesmo que eu pudesse me acostumar: grosso, volumoso, espaçoso, invasivo. Meus braços se apoiaram nos seus ombros e as suas mãos apertaram minha bunda com uma pressão que com certeza deixaria marcas, e então, ao sentir abocanhar o meu seio de um jeito que me fez contorcer de prazer, ele levantou o seu rosto para olhar pra mim com as íris verdes e atenciosas que me faziam congelar por dentro e queimar por fora. Me deu um selinho demorado antes que eu passasse a sentar deliciosamente no membro ereto, dando um gritinho esganiçado ao experimentar a grossura agora em movimento. O movimento de subida e descida mais alucinante que já tinha experimentado.
- Tão gostosa... – ele suspirou bem no pé do meu ouvido, com a voz falha, com uma mão apalpava a carne da minha bunda, com a outra me apoiava pela cintura. Ele beijou e lambeu o meu pescoço enquanto eu intensificava os movimentos, sentindo seu pau esfregar meu clitóris, prestes a explodir de novo, desejando internamente memorizar cada som que saía da boca dele. – Eu quero você toda em mim, .
A cada palavra que ele dizia eu ficava mais excitada, como se isso fosse possível, me fazendo querer ir mais rápido, e então, eu comecei a rebolar, deixando que seu pau conhecesse cada textura da parede da minha vulva, cada movimento brasileiro que eu carregava no quadril. – Rebola pra mim desse jeitinho...
E eu continuei o fazendo, sem me deixar parar por mais cansada que estivesse, sentindo minha respiração ofegar e o coração acelerar, e eu notei que já estava chegando ao ápice de novo. investia buscando por mais contato e a dor que me causava era deliciosa e viciante. Colocou uma das mãos no meu pescoço e me puxou pra perto, juntando nossas línguas em sincronia num beijo cúmplice que só me deixou com mais tesão. Eu continuava empinando a minha bunda no pau dele, aproveitando a sensação de calor que percorria meu corpo, e ele voltou a investir seus beijos em meu pescoço. Sugou a minha pele enquanto metia com força e apalpava os meus seios que balançavam enquanto eu quicava.
- ... – e eu dei um sorriso malicioso ao vê-lo fechar os olhos com força, contraindo os lábios só pra sentar de novo. E mais uma vez. Esfregava minhas paredes lambuzadas e contraídas no pau dele até a glande, e ao chegar lá, sua mão deu um tapa estalado na minha bunda que me fez gritar, só pra depois apalpá-la com vontade. Eu continuei a cavalgar mais uma vez e rapidamente, sentindo meus lábios, agora, fazerem um movimento de contração involuntário, meus olhos reviraram e minhas pernas tremeram quando eu apoiei minha cabeça na sua testa, sentindo meu corpo se eletrizar e então, gozamos juntos.
Nossas respirações se misturaram enquanto suas mãos continuavam apoiando a minha bunda, sentada nas suas pernas. recostou a cabeça nas costas do sofá, exausto, e eu aproveitei o momento de nossas respirações se acalmarem para ficar mais um pouco com ele dentro de mim, me jogando em cima dele.
Ele me deu mais um beijo no pescoço, fazendo um carinho na minha bunda com o polegar e eu levantei o rosto pra olhar pra ele, que sorriu doce, me dando um selinho demorado.
- Porra. O que foi isso? – ele perguntou e eu ri, juntando nossas testas. – Isso foi absurdo.
E então, eu levantei a perna, saindo de cima dele e se sentando ao seu lado.
- Los Angeles tá me vendo nua, .
- Sorte dela. E minha, também.
- Mas eu to com frio – respondi, apertando minhas pernas com os braços, e virou-se pra mim, negando com a cabeça e mordendo os lábios. Me deu mais um selinho, me puxando pra perto, nos deixando entrelaçados.
- Você é sempre dengosa assim? – eu fiz careta pra ele, que sorriu de novo, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. – Tudo bem. Hoje você pode.
Ele se levantou, me estendendo o braço. Eu neguei com a cabeça. – Vem. A gente toma um banho e dorme.
- Me dá carona.
- Ah, não, , você me deixou fraco.
Eu olhei pra ele sugestiva, juntando a cabeça no ombro e torcendo o rosto pro lado. Ele revirou os olhos, cruzando os braços.
- Vem cá. Mas só porque você é uma puta de uma gostosa.
se inclinou pra me pegar pelas pernas que logo enlaçaram a sua cintura, e riu pra mim enquanto eu passava os braços pelo seu pescoço e apoiava minha cabeça no seu ombro, deixando alguns beijinhos ali.
Eu senti quando ele deu mais um tapa estalado na minha bunda, repousando as mãos ali enquanto a gente fazia o caminho até o banheiro da sua suíte.
- Ai, caralho! Você tá desenfreado com esses tapas!


13.



Quando acordou, ainda meio desnorteado, estava deitada de bruços com o rosto virado pra ele e uma expressão leve e terna no rosto meio coberto pelos cabelos. Seu braço envolvia a cintura da menina ao seu lado, também deitado de bruços, e o cantor nem notou o sorrisinho que apareceu no seu lábio ao observar a mulher deliciosamente nua deitada ao seu lado. Alguns flashbacks surgiram na sua mente enquanto ele repassava os acontecimentos da noite anterior: o primeiro beijo na piscina, o flerte na cozinha, as horas de conversa que pareceram minutos, a dança com , o momento no terraço e finalmente, o encontro no sofá. Depois um segundo encontro no box do banheiro enquanto tomavam banho. E então, logo depois de acordar com um beijo, tirou uma mecha de seu cabelo do rosto e a fez rir com algumas piadinhas sugestivas. A risada que deveria tocar na rádio. O suficiente para um terceiro encontro. O encontro de bom dia, o melhor jeito de acordar, com uma prensada contra a janela de vidro do seu quarto.
Era gostoso e fácil passar tempo com . Parecia que cada minuto era divertido e instigante. Fazia tempo que não se divertia tanto com outra pessoa. O dia passava rápido demais entre tomar banho de piscina, algumas cervejas e se pegar em qualquer mínima oportunidade. Era só o que faziam. mal tinha palavras para explicar a química e as faíscas que piscavam todas as vezes que direcionavam o olhar um para o outro, e tudo que ele conseguia prestar atenção naquele momento estava relacionado a ela – por exemplo, no modo que tinha mania de enrolar a ponta do cabelo quando estava desinteressada, ou nos pés que não paravam de balançar (nunca), ou na sua antiga camiseta dos Ramones que ficava mil vezes melhor quando ela vestia. Reparou que não gostava de por mel nas panquecas, mas compensava na abundância de chantilly. Que alguns fios ficavam soltos quando ela prendia o cabelo num coque. E que era muito boa em geografia, visto que parecia saber das capitais de todos os lugares do mundo inteiro.
Já era fim de tarde quando se dispuseram a arrumar a cozinha bagunçada das refeições do dia. E de repente, um sorriso que se alastrou pelo rosto de ao notar que crescia uma onda de arrepios na espinha da mulher em sua frente ao expirar sua respiração contra a nuca dela enquanto ela lavava a louça. Usando apenas a sua camiseta e uma boxer emprestada. Só a silhueta de parecia tirar por completo a sua sanidade – os hormônios eram liberados com mais intensidade e rapidez pelo seu corpo, seus olhos independentes e magnetizados que não desviavam a atenção da estatura desenhada e curvilínea a sua frente, que parecia completamente inerte a todos esses efeitos, quase como se não soubesse do que era capaz. Tentou conter a vontade urgente que parecia consumi-lo de dentro para fora por tocá-la e tê-la para si pela quarta ou quinta vez naquele dia, ele já não sabia mais, nem se importava. Precisava aproveitar cada mínimo segundo. Cada mínimo centímetro. Cada mínimo momento. Cada gota do líquido delicioso que a boceta de expelia. Cada mínima faísca. Ela, que tagarelava qualquer coisa sobre produtos industrializados terem péssima qualidade alimentícia, parou de falar no momento em que entraram em contato. As mãos dele passaram a explorar livres e desimpedidas o corpo dela com a pressão certa em cada curva enquanto tentava – e falhava – manter-se concentrada no que fazia. Os beijos molhados no pescoço. Apertou a cintura contra a dela e esmagou-a contra a bancada, os quadris perfeitamente encaixados e ele passou uma das mãos pela nuca nua de com um toque quase místico.
- ...
Deu uma risadinha frouxa, apoiando a cabeça no ombro dela e beijando o seu maxilar.
- O que, linda?
- Eu fiquei com a louça – se explicou, molhou os lábios e respirou fundo. Os pés de batiam freneticamente contra o chão e ele, ao perceber, desceu por toda a extensão de sua coxa direita e apalpou-a, com força, na intenção de fazê-la parar de tremer. Totalmente efetivo. Bastou o pousar de seus dedos para fazê-la contrair-se. – Eu tenho que me... concentrar.
- Eu estou te desconcentrando, ? – soltou uma risada pelo nariz, deixando, novamente, sua respiração contra o pescoço dela, bem ali, na cozinha, recostados um contra o outro, imprensados, e ela engoliu em seco. – Mas eu nem tô fazendo nada...
- Óbvio que não – respondeu, a voz falha e baixa, dando de bandeja a um sorriso convencido e triunfante ao abanar o nariz pelo pescoço dela, acariciando por dentro da sua coxa com o polegar. se contorceu em sua frente num roçar involuntário.
- Não? – Perguntou, agora, passando suas mãos por toda extensão da pele exposta de . Ela negou com a cabeça, sem dizer nada, já de olhos fechados, enquanto sentia as mãos grandes e ásperas de passearem livremente por seu corpo. As coxas. A virilha. O quadril. A barriga. A cintura. Os peitos. Apalpou-os. Apalpou-os com vontade, deixando bem no pé do ouvido dela um gemido de satisfação. Brincou com os bicos duros entre os dedos e se empinou para trás. Desceu novamente por debaixo da camiseta até explorar seus braços, num deslizar torturante e lento até parar na bunda dela, onde apertou com força, quase com posse. Ela se contorceu, sentindo as primeiras pontadas começarem a surgir. – Então você não vai se importar se eu fizer isso aqui... – sussurrou. Os rastros de seus lábios pelo pescoço de . Arrepios por todos os lugares. Os olhos sempre atentos. Ouviu trancar os dentes, já inclinando a cabeça pra trás e apoiando no seu peitoral, inerte e entregue, fechava os olhos e pressionava os lábios um contra o outro. Causar todas essas sensações em era uma de suas conquistas pessoais favoritas e se aproveitaria disso todas as vezes que pudesse. Prensou seu corpo ao de sem dó, sentindo o seu próprio corpo queimar de novo. Ainda beijando o seu pescoço e o lóbulo de sua orelha, lavou as mãos de tirando a espuma e, quando ela menos esperava, trouxe-as pra trás, prendendo seus pulsos com uma só mão. Com a outra, puxou o seu cabelo pra trás, ao por a boca bem no pé do seu ouvido, dizendo: – A louça vai ter que ficar pra depois, . Agora eu vou meter em você nessa bancada.

.

Estremeceu ao ouvir o jeito que sussurrou no seu ouvido, autoritário, tirano, a agonia gostosa de ter seus pulsos presos enquanto ele brincava com a sensibilidade da sua pele, e jamais se acostumaria – a voz rouca e o tom exigente que ele impunha a fariam incendiar como se estivesse envolta por gasolina e ele fosse a faísca solta. Como fogos de artifício em todas as partes do seu corpo. Beijou a mulher com vontade e sem delicadeza nenhuma, apesar de usar a língua lentamente, gerando uma expectativa que fazia seu estômago congelar de nervosismo e ansiedade. se desvencilhou das mãos de , prendendo-as por trás no seu cabelo e arranhando seu pescoço, e empinou a bunda, rebolando intencionalmente contra o volume que já saltava. Viu o cara apoiar as duas mãos, uma de cada lado na bancada, arfando, enquanto ela roçava com força contra o seu quadril. Mesmo se quisesse, seria completamente incapaz de controlar os gemidos que saíam despreocupados de sua garganta enquanto ela aproveitava o contato, inebriada. levou sua mão grande e pesada de encontro com a bunda de num tapa estalado e espalmado que a fez gritar de tesão e sua respiração descompassar. E depois mais um. A sua bunda queimava deliciosamente. Virou-a pra frente, olhando a de cima a baixo, sério, os olhos que borbulhavam de desejo, e exibiu um sorriso confiante e ofegante de quem sabia era ela que o deixava daquele jeito. A boceta já estava encharcada e gritando por atenção quando o empurrou, entre beijo, até a outra bancada, a ilha que ficava no centro da cozinha, e passou a mão por todo seu abdome contraído e peitoral, arranhando sem dó. Os sons maravilhosos de satisfação que saíam da boca dele e ela poderia passar o resto da vida escutando. Até que desceu a mão para a sua bermuda, envolvendo por fora mesmo o volume que encontrava, colocando pressão num movimento de vai e vem, mas resmungou sem paciência, se propondo a tentar tirar a bermuda. deu um tapa na mão dele que logo tirou, olhando pra ele com reprovação, e sentiu sua boca salivar ao abrir o botão de sua bermuda com paciência. Os olhares de pesavam sobre si a cada segundo em que ela, com uma imprudente lentidão, descia o tecido, encarando o pau duro que saltava. , agora ajoelhada a sua frente, subiu o olhar até ele, sedenta, ao abaixar a boxer, segurando o membro com a mão direita. Pressionou a glande o suficiente para fazer soltar um gemido sôfrego e impaciente, puxando seu cabelo pra trás com força e autoridade, enquanto , já escorrendo pelas pernas, sorria com olhos dissimulados. Passou a língua pelos lábios e olhou para o rapaz a sua frente de maneira sugestiva.
- Tire a camisa. Eu quero ver você toda enquanto você bate pra mim –, ouviu a voz rouca e conhecida dizer e obedeceu sem pesar, ficando com os seios expostos e eretos bem de frente pra ele, que a admirava com suas taças verdes brilhantes que expeliam luxúria e a faziam sentir a mulher mais desejada do mundo. Ele passou a mão pelos seus seios num deslizar tortuoso e provocativo que fazia querer gritar de tesão. – Tão bonitos, . Teu peito me deixa louco – ouviu grunhir, soltando o seu cabelo, que caiu sobre o busto. Ele observava a cena com toda atenção em cada detalhe do corpo de ali presente, a meia luz que pausava no seu rosto da janela... – Você é toda linda, . Você me deixa louco – e voltou a entrelaçar seus cabelos, só pra poder puxar com a força que sabia que ela gostava. Ela envolveu o pau dele todo com a boca, olhando-o bem em seus olhos turbulentos, foi até o fim e voltou, chupando a glande com um pouquinho mais de força só pra provocar. Ele observava cada um de seus movimentos. Ouvindo um resmungo, tirou-o da boca e passou a mão por sua própria boceta encharcada com a lubrificação, para, por fim, envolver o pau duro e firme com a mão e iniciar o movimento lento e obstinado, pra cima e pra baixo, pra lá e pra cá, que se intensificou progressivamente enquanto o rapaz revirava os olhos e grunhia deliciosamente em satisfação. Manteve-se assim por um tempo até aumentar o ritmo e bater rápida e incansavelmente, vendo-o perder o equilíbrio recostado na bancada. Nesse momento, o seu corpo foi puxado para cima pelo braço – rapidamente, as mãos dele apalparam a carne da sua bunda exposta e puxou-a para frente. , apoiando-se nos seus ombros, abraçou a cintura de com as pernas, que deu suporte a suas coxas com as mãos e a colocou na bancada. , rápido como nunca tinha visto, pegou o preservativo na bermuda e envolveu o membro. Beijaram-se por um tempo gostoso demais em que a respiração descontrolada de parecia fazê-la explodir, e ela, ao repartir, sorriu safada pra ele, puxando-o mais pra perto – como se fosse possível. enterrou o seu pau nos grandes lábios num roçar delicioso que fez desaprender o aspecto da sanidade, arfando perigosamente com um coração disparado. Ela iria morrer de excitação. Não era possível que alguém pudesse respirar tão rápido. Não era possível que alguém conseguisse sentir tanto tesão sem se desconfigurar. brincava com o sexo dela de um jeito que a fazia revirar os olhos em um prazer que nunca chegava onde ela esperava e tudo que ela pensava era que queria se fundir ao corpo dele como nunca antes. Fazê-lo esquecer que existia um mundo lá fora. Foder com ele até sentir esfolar. O coração batia rápido, o sangue corria quente, as mãos exploravam cada detalhe do seu corpo exposto e entregue, não conseguia pensar em outra coisa... Ela precisava senti-lo dentro de si. Quente. Firme. Duro.
- Mete em mim, . Agora. Nessa bancada.
Ele molhou os lábios durante a troca de olhares, as íris verdes que faziam os lábios de contraírem por si só. O sorriso cafajeste se alastrou por seu rosto e o cheiro de sexo inundava a cozinha. Passou o dedo pela boceta encharcada de só pra sentir a lubrificação.
- Deliciosa – ele assentiu. E sem avisar, estocou com força, puxando pra perto pela bunda. Ela quase gritou num gemido estridente e abafado, abraçando-o, excitada e emergente, abocanhando o pau dele para dentro. O início foi lento e arrebatadoramente extasiante. As paredes apertadas de recebiam com gosto e maestria as investidas fortes e agressivas de que não tinha dificuldade nenhuma em meter de tão lubrificada que a mulher estava. A posição fazia com que o pau dele roçasse diretamente com o clítoris de , que gemia sem dó e sem vergonha bem no pé do seu ouvido, enquanto ele ia descendo os beijos do seu pescoço pro seu colo, lambendo o vale entre seus seios, chupando bem ali o suficiente para deixar uma marca, e ela se contorcia num prazer que a inundava por inteiro. segurou o pescoço de com uma força calculada e ela se contorceu em excitação, tinha todos os seus sentidos aguçados – ouvia a respiração pesada de ao pé do seu ouvido, sentia no paladar o gosto do suor de sua pele enquanto beijava e mordia e chupava a curvatura do seu pescoço para expelir a tensão, a ponta dos dedos emaranhadas no seu cabelo macio e suado... Levantou a cabeça, olhou para bem nos olhos ao sentir que ele aumentava o ritmo das estocadas. Rápidas demais. Fortes demais. Avassaladoras. Catastróficas. Os olhos mais escuros e selvagens que ela já havia visto. – Tão apertada, ... Eu não vou aguentar.
Até que a sua visão foi ficando turva, foi perdendo as forças, explosões se espalharam por todo seu corpo porque ela estava, finalmente, chegando lá, só com a penetração, só com o cacete grosso e espaçoso do rapaz ocupando todo o espaço entre as paredes e chegando até o fim. Com suas pernas que tremiam e os lábios que contraiam sozinhos, o coração que explodia e a endorfina se espalhando por seu corpo, se apoiou pra trás, dando a um total acesso para continuar a estocar. E poucos segundos depois, ele quem gozou, num último grunhido satisfatório e revigorante. Permaneceram assim até que voltaram a respirar normalmente, e deram uma risadinha gostosa antes de trocar um beijo cúmplice, em que , mais uma vez, deu uma carona para até o banheiro.

.

Não entendia o porquê da necessidade de tomar banho o tempo todo, mas jamais perderia a oportunidade de ter em vista o corpo de desnudo e molhado sempre que pudesse. Que captura cinematográfica. Ela ensaboava o corpo dele enquanto ele ria de alguma música infantil que ela cantava em português e ele jamais conseguiria entender ou imitar, e ele massageava o seu cabelo longo com xampu enquanto a água escorria com espuma pelo vale dos seios da mulher a sua frente, e entre risadas, tapinhas, cócegas, beliscões, lutinhas bobas, beijos sob a água corrente, pareciam não conseguir desgrudar. Organizaram a cozinha de verdade dessa vez. E depois, decidiram pela sala de cinema, com uma aparentemente cansada deitada sobre seu corpo, de cabelos úmidos e moletom. Linda. Tão linda que chegava a ser injusto e incoerente. Cada momento que se passava, ficava mais bonita aos seus olhos – e não havia semântica no mundo que pudesse descrever o fenômeno de, simplesmente, observar descansar.
observava o rosto calmo que respirava tranquilo ao cochilar durante um dos episódios de The Office que eles assistiam. Tinha em mãos o livro que ela tinha emprestado e lia com atenção, mas vez ou outra, em uma de suas distrações – que o TDAH explicava facilmente, não era nada relacionado ao interesse contínuo e intrínseco que parecia ter por cada mínimo movimento que ela conduzia –, descia o olhar até , deitada sobre seu corpo, abraçando-o com um mini sorrisinho inconsciente nos lábios. Sem conseguir evitar, usou a ponta dos dedos para contornar o perfil de seu rosto, trilhando um caminho delicado e cuidadoso iniciado pela ponta das bochechas, foi até as maçãs e voltou, subiu a testa e então delineou o nariz, chegando, finalmente, aos lábios desenhados e contornados. passou o dedo envolta, desceu até o queixo, as sobrancelhas, e por fim, um beijo no seu cabelo, sem ter a intenção de acordar. Respirou fundo. Não deveria ter sido pego.
- ? – ela chamou, sem abrir os olhos. Estava abraçada com a sua cintura enquanto a cabeça estava apoiada no peito dele. Seus olhos continuavam fechados.
- Oi, .
- O que é que tá acontecendo?
- Você cochilou. E agora eu to lendo.
Ela deu uma risadinha com os lábios fechados.
- O que você está lendo?
- In Watermelon Sugar.
Observou o sorriso de aumentar um pouco pelo rosto, mas ela não levantou os olhos, os manteve fechados com a cabeça recostada no seu peitoral. Aconchegou a cabeça ali.
- Lê pra mim... Lê a última parte que você sublinhou.
, apoiando o livro nas costas dela enquanto a envolvia com os braços, voltou algumas páginas e começou a ler em voz alta:
- “As duas estrelas da noite, agora, brilhavam lado a lado. A menor se moveu até a maior. Eles estavam bem perto agora, quase se tocando, então elas iam juntas e quase se tornavam uma enorme estrela só. Mas eu... eu não saberia dizer se isso seria justo ou não”.
sorriu.
- Essa é uma das minhas partes preferidas também.
Disse, num tom baixo, e foi quase involuntário o beijo que deu em sua testa. Porque ele queria. Porque ele queria beijá-la.
Mas era claro, era óbvio, era lúcido, que se fosse mesmo para encaixá-los em estrelas, era a estrela maior. Brilhante, linda, dourada. Brilhante demais pra ele. Brilhante como a áurea de uma estrela dourada. A maior de todas. Maior que o sol.
Girassol. Lembrou-se das referências. A foto. O desenho no quarto dela. A pequena tatuagem em contorno fino no pulso.
, ao olhar pra baixo, viu sorrir suave, mesmo que ele não entendesse muito bem o motivo. Abandonou o livro e pousou suas mãos em , deitada sobre ele, passando os dedos pelo cabelo longo e macio da mulher deitada sobre si. Não queria que se movessem.
- , o que é isso?
Perguntou, num tom tranquilo, e ele entendeu exatamente o que ela queria dizer, mas jamais saberia o que responder. Não sabia o que pensar. Não sabia o que deveria fazer.
O que era isso, no entanto? O que estavam fazendo? Onde chegariam?
Tudo que ele sabia era que não poderia se afastar de . Nem por um centímetro – nem agora, nem depois. Tudo que sabia que era que não estava disposto a perdê-la.
- Como assim?
- O que é a gente?
Parou para pensar no trecho que acabara de ler.
A menor se moveu até a maior. Eles estavam bem perto agora. Será mesmo que isso seria justo? Seria justo envolver em toda a bagunça que ele se encontrava?
- A gente é amigos... Não?
Respondeu, por pura falta de opção e de elucidação.
E , que ainda mantinha os olhos fechados, assentiu e voltou a cochilar.



acabou chegando no fim da tarde para que ele e resolvessem algumas coisas referentes a uma das músicas que estavam produzindo – o que acabou sendo bom, visto que o cantor estava se oferecendo um milhão de vezes para deixar em casa, mas ela não queria dar mais trabalho. Comeram, conversaram por algumas horas, discutiram os tópicos pendentes e, por fim, e decidiram que era a hora de voltar para casa.
Na frente da mansão, , já com suas próprias roupas, não sabia muito bem como se despedir de . já estava no carro, esperando.
- Cuidado quando voltarem. – aconselhou, com a mão na nuca, mexendo no cabelo. – O é meio lerdo com as curvas das montanhas...
riu, dando de ombros. Estavam próximos, mas nem tanto. O clima era confortável, mas algo pairava no ar. Todo mundo sabia. Mas ninguém dizia nada.
- Não se preocupa, a gente se vira. Tchau, .
Então, um toque na sua mão. Ela olhou para baixo, onde o contato havia se estabelecido, e depois para as íris verdes que gritavam por atenção. não sorria como costumava fazer. Sua expressão era meio difícil de ler.
- ...
- Oi.
- Obrigado por ontem e por hoje. E por todas as outras vezes, também.
- Você vai sumir, né? – soltou, meio aleatória, meio sem querer, num tom irritadiço e uma expressão desconfiada e expirou fundo, revirando os olhos. – Tudo bem, eu não ligo. De nada, cara. Tô indo.
Ouviu a risada frouxa de soar ao seu lado assim que se virou para andar até o carro e arqueou as sobrancelhas, sentindo seu braço sendo puxado para trás. a abraçou pela cintura, encaixando a cabeça na curvatura do pescoço da mulher a sua frente e depositando um beijo ali.
- Tem outros aposentos da casa que eu ainda quero te mostrar, – ele sussurrou, bem no pé do ouvido. estremeceu, sem conseguir evitar o nervosismo, e por fim, trocaram um olhar cúmplice ao se separar. – Eu não vou a lugar nenhum.



- Deixa eu ver se eu entendi direito – foi o primeiro a se pronunciar, levantando a mão ao lado do rosto e fechando os olhos, enquanto negava com a cabeça. – SEIS VEZES? Ele, então, deu uma risada sugestiva, levantando a sua longneck para brindar com , que o ignorou. bateu por ela, parecendo animada também.
- Sim, , dá pra focar na parte importante agora?
- , ESSA é a parte importante. Você transou loucamente. Você transou tanto que vai precisar passar pomada. E agora a gente finalmente deu um jeito nesse seu mal humor insuportável. Sempre soube que era tensão sexual frustrada.
Levantou o dedo do meio para , com uma risada incrédula, voltando a tomar sua cerveja e expirar fundo, sexualmente satisfeita, mentalmente confusa, emocionalmente desnorteada.
Passou o dia evitando pensar naquilo. Foi correr, fez faxina na casa, ajudou a organizar umas tabelas de horário, foi na feirinha comprar frutas coloridas, e no fim da noite, resolveram se encontrar no Puzzle assim que saiu do estúdio para debater o tópico mais evidente até então: .
- , será que não vai ter um dia na sua vida que você vai dizer alguma coisa útil quando eu preciso ouvir?
- Esquece o , , ele tá só feliz por ter transado com por tabela através de você. O que realmente é importante debater aqui é: é grande? É grosso? Ele faz um bom oral?
- , cacete, fala baixo...
- , a gente precisa saber!
- Puta merda, , você quer dar pra ele? Porque eu realmente acho que posso arrumar isso aí.
- Anda, pet, para de enrolar!
revirou os olhos com um sorrisinho, tomando um gole da sua Budweiser, enquanto e davam gritos na mesa.
- Ele é gostoso pra caralho, sim, porra. Que se foda! A gente meteu o dia todo mesmo! – exclamou, rindo, propondo o seu próprio brinde dessa vez, e eles brindaram com ela, gritando. – Mas pera, pera, pera, essa é a questão! Eu não sei o que acontece agora.
- Como assim não sabe?
- É. Ele falou que a gente era amigo.
arqueou a sobrancelha e fez uma expressão de indiferença, enquanto os três passaram um tempinho em silêncio, olhando um pra cara do outro, tentando chegar a uma conclusão.
- Amigo tipo friendzoned?
- Eu não sei. Ele não deixou muito claro e eu também não perguntei.
- Ele te mandou mensagem hoje?
- Mandou assim que saí de lá perguntando se eu já tinha chegado. Aí a gente meio que se responde desde então, mas não tipo... “bom dia” ou coisas assim. É só um assunto contínuo e espaçado porque ele é ocupadíssimo e eu não vou ficar respondendo na hora que nem uma otária. Eu sempre espero uns cinco minutos.
- Você é literalmente a única pessoa que ele responde, assentiu, cruzando os braços como quem sabe que tem razão. – Eu sei disso porque ele fica com um sorrisinho quando tá mexendo no celular no estúdio e aí o Aaron aparece do nada na sala de gravação gritando “Por que você nunca responde essa merdaaaa?”.
- Eu tenho certeza que vocês vão se pegar de novo – soltou, dando de ombros. – Eu já sei. Manda uma NUDE!
- Nude? – fez uma careta. – Eu só mandava nudes pro Travis. Ele não parecia se empolgar muito.
- Caralho, . Por que você não manda nude pra MIM? – revirou os olhos, parecendo meio revoltado. – O Travis é o cara que eu mais desprezo na vida. Pronto. Acho que é isso. Ele conseguiu esse feito.
- Esquece o Travis, a gente tem assuntos mais importantes pra lidar aqui!
- A pergunta é: você quer, ? Você quer ficar com ele de novo? – perguntou, dando de ombros, olhando bem nos olhos da garota ao dar sua opinião. – Se você quiser, você fala, “e aí , vamo se pegar de novo”. Se não, você fala, “e aí cara, não quero te pegar de novo”. Simples.
- Eu não vou chegar pra ele e falar essas coisas, , tá doido? Eu ainda gosto de pensar que tenho dignidade!
- E por que você perderia a dignidade em assumir que gostou de ficar com alguém, ? Você tá nos anos cinquenta? Você quer um avental e sapatos boneca e luvas pra tirar o bolo de laranja do forno? – revirou os olhos. – Acorda, pet. Ele não precisa ser o . Ele é só mais um cara. E não é ele quem decide o que vocês são ou não.



é visto com garota misteriosa em parque de diversões compartilhando um momento íntimo. Na foto, tirada à distância por um fotógrafo amador, o cantor e sua companheira parecem se divertir ao conversar num banco e dividir um algodão doce, ambos sentados de lado, de frente um para o outro. Fofo, não? Não foi possível identificar o rosto da mulher ao seu lado, no entanto, pela qualidade e distância da foto. A fonte informou que pareciam despreocupados e conhecidos de longa data, e que não foi vista nenhuma forma de contato explicitamente íntimo. Será essa a mais nova vítima do queridinho do Reino Unido? Já sabíamos que o relacionamento com a modelo francesa Camille Rowe passava por tempos turbulentos, mas seria esse o estopim? estaria traindo Camille Rowe com a tal garota de cabelos castanhos? Seria ela o motivo de eles não estarem mais juntos? Não seria nenhuma novidade para nós, que acompanhamos desde o início a trajetória do rapaz de Cheshire, conhecido como o membro conquistador e mulherengo da boyband One Direction, da qual fazia parte.

- É isso, ? É essa merda que você tem pra me dar antes de lançar a porra do seu segundo álbum? Depois de tudo que eu fiz pra abafar teus escândalos com a drogada louca da Rowe? Depois de ter se livrado sabe Deus como daquela merda de acidente? É essa a imagem que você vai passar pra quem vai comprar o cacete do seu disco? Tu quer mais um processinho nas costas, é isso que tu quer? – Aaron gritou no telefone, mais puto que o normal, enquanto , deixando o celular no viva voz, fumava calmamente o seu baseado no terraço da sua casa enquanto ouvia o sermão. – Você é um puta irresponsável, inconsequente! Não adianta passar dias, meses, semanas, tentando arrumar a merda da sua imagem se você caga tudo indo na porra de um parque de diversões com uma garota aleatória! E ainda sem segurança, sem avisar!
- Aaron...
- Não me vem com porra de Aaron, eu tô puto com você! Não podia ser um lugar fechado? Você tem uma casa de três andares, porra, não dava pra arrumar um espaço vago por aí? Na merda do seu salão de jogos! Vai jogar sinuca, cacete! Vai transar na piscina, aluga a porra da Disney se quiser andar numa montanha russa!
tragou a erva, inspirando com lentidão e soltando a fumaça logo depois, na certeza de que responder qualquer coisa seria inútil. Aaron só precisava colocar pra fora porque iria ouvir ainda mais de Fletcher.
Também tinha o fato de a maconha deixá-lo bem mais calmo.
- Quem é ela, porra? Quem você queria agradar tanto assim? Parque de diversão na sexta feira à noite? Isso não pode ter sido aleatório.
- É a .
- Quem porra é , ? – perguntou exaltado no telefone e alguns segundos de silêncio se passaram em que expelia a fumaça pela boca e esperava que chegasse à conclusão sozinho. – Aquela ? A que você ATROPELOU?
- É.
- A que me EXPULSOU da sala de hospital?
- É.
Então, Aaron riu. Aaron riu muito. Era uma risada nervosa e descontrolada, meio assustadora até, e encolheu os ombros enquanto fumava o beck calmamente, tentando segurar seu próprio riso. A conversa, que antes tinha um tom profundamente ansioso e travado, tinha se tornado meio engraçada no fim das contas.
- Eu não vou mais conseguir ter essa conversa com você agora. Mas espero que você saiba que você é um irresponsável de merda. O que porra tá acontecendo, ?
- A gente se resolveu, é isso. Conversamos e a gente tem se visto.
- E a Rowe?
- Porra, eu e a Camille terminamos de vez, já que essa é uma informação tão valiosa e relevante pro mundo.
- Eu to pouco me fudendo pra quem você fode, , sinceramente – Aaron explicou, expirando fundo, parecendo estar cansado demais para continuar a conversa. – Eu me preocupo com a sua visibilidade, com o que as pessoas pensam de você como artista. Infelizmente as pessoas estão interessadas na sua vida pessoal e a gente tem que dar conta disso também. E eu sei que é isso é uma merda, mas essa foi a vida que você escolheu. Só tome cuidado, porra, e agora nem to falando de você. To falando da doida brasileira, mesmo. Falta um triz pra mídia descobrir quem ela é e cair em cima. Tenho certeza que você não quer isso. Sabe muito bem o que acontece com elas.
- Tá. Vou me cuidar.
- Amanhã às 9h no estúdio. A gente ainda não terminou essa conversa.
E desligou o telefone.
Respirou fundo e decidiu que precisava de mais um cigarro antes de ir dormir. As gravações no estúdio estavam fluindo bem melhor – a construção do álbum estava chegando num caminho que ele finalmente curtia mais e mais e queria aproveitar isso, mas não conseguia totalmente. De alguma forma, sempre acabava exatamente ali: no terraço da sua casa de três andares, sozinho, com mil e uma pessoas em que ele poderia ligar para dar uma festa, ou ir numa social e usar drogas, mas ninguém com quem ele realmente quisesse conversar. Ninguém com quem ele realmente pudesse conversar. Ninguém que tivesse interesse no sóbrio.
Ninguém que não fosse .
As palavras de Camille ainda rondavam a sua cabeça, vez ou outra, como uma música chiclete irritante que se repete sem cessar. Você não sabe o que é amar, . A gente se faz mal. O jeito em que ele transou com ela por hábito e o jeito que ela transou com ele por pena. As palavras que usavam para descrever um ao outro – antes, uma paixão devota e uma fissura explosiva; agora, uma apatia inerte e um desprezo camuflado. Os olhos azuis, agora turvos, o encaravam sem admiração alguma, cheios de rancor, cenas mal resolvidas, conversas vazias em que ninguém dizia o que realmente pensava. E... vazio. Era assim que se sentia. Era assim que Camille fazia com que ele se sentisse. Era exatamente o que o relacionamento deles representava: um espaço que agora era vazio. Oco.
Por muitos meses, Camille era só que o pensava, ela era tudo que ele sentia. Estava obcecado por ela. Obcecado por seus amigos autênticos, engraçados, drogados, estilosos, modelos de marcas finas. Obcecado pela forma que os lábios dela envolviam um cigarro após o outro, um papel após o outro, dançando livremente músicas animadas dos anos oitenta em blazers brancos e sutiãs pretos que deixavam seu corpo pálido à mostra na medida certa. Camille parecia ser exatamente o que ele precisava. E viveu por meses intensamente e de novo a emoção do que parecia ser o sentimento mais intenso da sua vida. Viajou com Camille por Veneza, por Paris, por Malta, por Dubai e assim se seguiriam por todos os lugares mais bonitos do mundo se dependesse dele.
Mas sentiu falta de ficar sóbrio. Os amigos de Camille começaram a ficar irritantes demais quando ele não estava drogado. Interesseiros demais, também, sempre em busca da próxima social exclusiva que teria acesso, sempre em busca do próximo contato. As notícias e as fofocas que os rondavam e nutriam deixavam sufocado. A estabilidade estava parecendo mais atraente para , mas para Camille não; para Camille nunca. Como se o mundo sem efeitos psicodélicos fosse doloroso e catastrófico e cancerígeno demais para se experimentar. Quase como se um não chapado não fosse interessante e animado o suficiente. Fodeu seu ego. Fodeu seu ego notar que Camille ainda chorava quase todo dia pelo ex. Foi quando começou a perceber que o seu nome e o seu dinheiro poderiam comprar qualquer coisa, menos a que ele mais queria: o desejo do seu objeto de desejo. E com o tempo ele também descobriu que, sóbria, Camille não lhe despertava mais uma faísca se quer. Brigavam muito mais do que conversavam e se odiavam bem mais do que apreciavam a presença um do outro. Acabavam transando pra resolver as coisas e de alguma forma continuavam ali: enquanto o baseado estivesse aceso e o pedaço de LSD estivesse bem debaixo da língua da francesa, ele poderia lidar. Respirou fundo. Uma parte dele sentia que Camille havia fodido a sua cabeça. Outra parte dele sentia que estar com Camille e seus amigos de merda – salvo um ou outro – era melhor do que estar sozinho. Uma parte dele sentia que se afastar de Camille lhe trazia paz. Outra parte dele queria que Camille sentisse sua falta de novo; viesse atrás dele de novo... Não para que voltassem. Não para que se vissem. Mas só pela certeza de que se é precisado por alguém. A garantia de alguém o buscava. De repente, em sua própria mente alterada pela droga, sentiu-se preso, travado, sufocado.
Uns flashbacks passaram a bombear a mente de . Um apartamento vintage, pó branco espalhado na mesa, umas garrafas de cerveja quebradas e uma Camille sentada no chão. Os lábios vermelhos borrados de batom, os olhos inchados e um caco de vidro de uma cerveja derramada. Fechou os olhos querendo esquecer. Querendo apagar aquele dia.
E então, os abriu, notando que não sentia mais nada. Que não tinha mais nada. Nada além de sua própria culpa maquiada de apatia. Nada além da angústia que apertava o peito não porque perdeu Camille; mas porque perdeu a si mesmo.
Entrou no bloco de notas do celular e passou a digitar o que lhe vinha à mente. E se ele tivesse se perdido completamente? E se ele houvesse se tornado alguém que nem ele mesmo queria por perto?
Vinte e sete milhões de seguidores de seguidores no Instagram. Mais de quinhentas mensagens na caixinha do aplicativo. Uma lista de contatos com os nomes mais importantes da indústria musical. Milhares e milhares e milhares e milhares de libras. Inúmeros convites para entrevistas e participações especiais. Fãs espalhadas por todo mundo. Ele tinha todas as opções. Ele poderia chamar quem quisesse, para onde quisesse, para fazer o que quisesse. Não havia nada que ele não pudesse fazer.
E diante de tudo isso, jamais se sentira tão sozinho como ao fumar o seu cigarro no terraço de sua casa enorme de três andares, que estava completamente vazia.



Sozinha em casa, depois de cumprir com os aspectos normais da sua rotina – tomar café da manhã com os amigos, ir na academia, organizar pagamentos, ignorar as ligações de Travis, , sentada na sua cadeira branca de frente para uma bancada com o seu computador, com seus devidos óculos, abraçava uma de suas pernas apoiada na cadeira tentando conter a ansiedade. As ligações de Travis mexiam um pouco com a sua cabeça – a palpitação instantânea e desconfortável, a enxurrada de pensamentos desconexos e ansiosos, a boca seca e a postura tensa e dura não a deixavam negar. Não passou muito tempo ali. A angústia lhe abateu como um tornado e ela, ao tentar se distrair na internet, encontrou o que não devia. Lendo as palavras tão duras e tão humilhantes daquela notícia, levantou-se de súbito e sentiu-se frustrada. Raiva. A mente girava rápido demais sem que ela conseguisse processar o que estava lendo. Não poderia ser verdade. Não poderia ser verdade. Ela sabia que não era verdade. A notícia havia lhe pego completamente desprevenida pelo modo que havia sido escrita – tão suja, tão incoerente, tão sensacionalista. , de repente, se sentiu exposta demais, e o peso de uma repercussão negativa sobre o seu envolvimento com foi mais assustador e explosivo do que pensava que seria. Sentia-se completamente invadida e desconfiada. Camille Rowe? não poderia ter uma namorada, principalmente se ela fosse Camille Rowe.
conhecia Camille. Tinham feito uma série de comerciais da Dior juntas. Ele não esconderia isso dela. Ele não mentiria sobre um relacionamento – ou melhor, omitiria. Provavelmente era tudo um mal entendido.
Mas bom, ela também pensava isso sobre Travis. E olha só no que deu. Por que é que ele continuava ligando? Por que ele mandava mensagens como se nada tivesse acontecido? Por que Travis ainda achava que podia fazer com ela exatamente o que queria? Seu coração acelerou de novo. A respiração descompassada. Os pensamentos rápidos demais.
Diante de todo esse caos, viu seu ponto de fuga se chacoalhar. Nós somos amigos. Seria por isso? , que até então havia se tornado um lugar seguro, aquecedor, divertido e espontâneo, havia se tornado também mais uma de suas dúvidas e arrependimentos por acabar confiando nas pessoas.
Mais uma mensagem de Travis. havia chegado ao seu limite.
Sem conseguir conter-se mais, num mínimo deslize, gritou ao se levantar. Gritou o mais alto que conseguia. Gritou pelo maior tempo que conseguia. Com as mãos na barriga até perder o fôlego e recuperá-lo, só pra poder gritar mais. Gritou alto e forte – e não deixou de gritar quando, num impulso, pegou o vaso de orquídeas posicionado ao lado do seu notebook e jogou com toda a força que tinha contra o primeiro lugar que fosse.
Que ironia ter caído bem no meio do espelho do seu quarto. Sem que os pedaços do vidro caíssem no chão, o impacto criou, a partir de um ponto em comum mais parecido com uma raiz, quatro longos troncos de rachadura que partiam do centro e iam até o topo. ofegava em sua respiração rápida e pesada junto a uma garganta que doía pelo esforço repentino ao ouvir as rachaduras crescerem no espelho. Observou a si mesma de longe a partir das fissuras do seu espelho quebrado. Os olhos ferviam e o busto levantava e abaixava. Não conseguia tirar os olhos do espelho. Desconfigurado. Despedaçado. Danificado.
havia perdido tudo o que ela julgava fazê-la ser quem era. havia perdido tudo que achava que queria. Estava completamente desnorteada.
Com a roupa que estava, uma legging de cintura alta e uma camiseta top cropped, colocou seus tênis, os fones de ouvido e decidiu que precisava sair de casa.
Precisava correr. Precisava colocar pra fora a angústia que sentia ao parar para pensar em sua própria vida por mais de um minuto. A angústia que sentia ao parar e pensar no seu fracasso. Precisava parar de fugir, mas ao mesmo tempo, não conseguia parar de correr. Corria como se sua vida dependesse disso. Corria como se, no ponto de chegada, encontrasse a solução de todos os seus problemas. Ela chegou. Mas não estava lá.
Deu de cara com a praia de Santa Mônica, meio vazia naquela tarde. Acelerou os passos, desviando as pessoas que andavam calmamente a sua frente pelo píer.
não tinha mais namorado, nem orgulho, nem emprego, nem sanidade. Sentia-se completamente louca. Descompensada. Descontrolada. Queria gritar, quebrar coisas, bater em alguém. Três meses antes jamais cogitaria encontrar-se estado. E o pior de tudo era que por mais livre que se sentisse, não conseguia deixar de sentir todas as outras coisas que vinham com a liberdade: dor, raiva, indiferença, tristeza, ódio, desprezo, nojo... nem sabia que poderia sentir tantas coisas assim. Como tudo foi acontecer ao mesmo tempo? Como Travis foi capaz de trair a sua confiança? Como William Kapplan foi arrogante o suficiente para acabar com sua carreira? Como ela mesma se deixou trabalhar como publicitária por tanto tempo? Que espécie de carreira era a que ela estava construindo com muita dedicação e sem amor nenhum? Era só com a carreira que mantinha essa relação? Seu emprego não era tão ruim. Ela conseguia encaixar uma coisa ou outra. Definitivamente melhor do que estar desempregada.
E Travis, puta merda, chifres? Todas as noites de sumiço repentino. Todas as ligações perdidas e desculpas mal dadas... E ela nem notava. Às vezes, mais pro fim, nem sentia falta. Era mesmo apaixonada por ele? Será que o amava tanto quanto pensava? Por que ele se sentiu no direito de fazer isso com ela? Logo depois de... abanou os pensamentos. Respirou fundo.
Ao chegar na areia, automaticamente sentiu seus olhos arderem, parou de correr num impulso e se permitiu chorar. As lágrimas corriam livremente por seus olhos enquanto ela, parada no meio da areia, deixava que as pessoas passassem livremente ao seu redor, descumprindo uma ordem clara que Patrícia havia lhe dado cedo demais: nunca deixe que lhe vejam chorar. Sentou-se no ponto mais vazio da praia.
Eram raros os momentos em que se deixava chorar. Aprendeu com Patrícia que chorar não resolvia problema, o que resolvia problema era fazer alguma coisa a respeito. nem mesmo se lembrava da última vez que tinha chorado e nem queria lembrar. Mas o que ela poderia fazer, afinal, com vinte e três anos e nenhuma experiência no que mais amava no mundo? Estava atrasada. Completamente deixada para trás. Tinha feito todas as escolhas erradas possíveis. Tinha perdido o completo controle de sua vida chorando sozinha no meio da praia de Santa Mônica no meio da tarde.
Nem podia evitar comparar-se com seus amigos. ia muito bem no trabalho; atuava como psicóloga numa clínica psicanalítica e lecionava uma vez na semana numa faculdade pública. , além de suas famosas gigs pela cidade, estava ganhando a melhor experiência que poderia ter ao participar da produção de um álbum gigante como seria o de . O próprio Nathan, a pessoa mais desapegada que conhecia, ganhando reconhecimento em seus freelas como fotógrafo e diretor de fotografia.
E ela... Bom, ela lançava currículos com seu portfólio por todos os lugares que imaginava. Fazia algumas interações pelo Linkedin, procurava conversar com alguns contatos da área, mas nada parecia acontecer. Estava, oficialmente, desempregada por dois meses – depois de cinco anos trabalhando sem parar. Tamanho peso essa palavra tinha. Desempregada.
Soava mais para si mesma como inútil, inerte, improdutiva, encostada, desvalorizada, não boa o suficiente.
poderia ser uma gênia dos curta metragens, interlocutora de comerciais bem produzidos, entusiasta de uma interação genuína entre atores e diretores que construíam um mundo que outras pessoas poderiam acessar e amar e viver junto. Mas quem ela queria enganar? Dirigir um filme? Escrever um filme inteiro? Sozinha? Se ela nem ao menos conseguia um espaço mínimo de assistência numa rede de streamings? Por favor.
quis voltar anos atrás. Quis olhar para si mesma, tão orgulhosa de ganhar um cargo importante numa agência publicitária sendo tão nova, com a voz de Travis no fundo da sua mente que dizia “você pode crescer muito aqui, , talvez isso de cinema não seja mesmo pra você”. Quis voltar atrás e dizer para si mesma que talvez servir café como estagiária por um tempo não fosse tão ruim assim se, no fim das contas, alguém pudesse dar chance a uma de suas idéias.
Mas agora já era tarde demais. E chorou copiosamente, por um bom tempo, a cabeça apoiada nas pernas, ouvindo Radiohead e pensando que jamais imaginaria se encontrar onde estava; tinha um namorado que a amava, um emprego estável e uma carreira progressista pela frente. E ela era feliz.
Ou um namorado que a traía, um emprego que suportava e uma profissão que não escolheu. era feliz?
Ao se acalmar, decidiu comprar um Dippin Dots e fazer o caminho de volta pra casa, pensando que não queria limpar a bagunça que tinha deixado. Chegou, tomou um banho confortável, colocou um vestido longo e ouviu alguém bater na porta.
No fim das contas, era uma outra bagunça que teria que limpar naquela tarde. Porque ao abrir a porta do seu apartamento, deu de cara com a última pessoa que esperaria ver naquele dia.


14.

ALERTA GATILHO PRA RELACIONAMENTO ABUSIVO. Esse capítulo mostra discussões e reflexões entre e sobre duas pessoas que mantiveram um relacionamento abusivo por muito tempo. Se este é um tópico que você não se sente confortável lendo sobre, que te traz memórias ruins ou que pode te provocar algum tipo de crise, não leia. Sinta-se a vontade para deixar um comentário e eu posso te explicar o que acontece no capítulo de maneira geral, sem entrar nas especificidades, para que não haja prejuízo na leitura dos próximos. Ou, caso você leia e se identifique com algum dos padrões descritos, procure ajuda profissional. Sinalize alguém de confiança. Converse sobre isso <3

piscou algumas vezes, sem reação, a expressão de completo desespero estampada em seu rosto ao travar, impotente, recostada a porta. A boca entreaberta e o olhar surpreso.
Era a primeira vez que se viam desde o fatídico dia.
Travis tinha olheiras ao redor dos olhos que eram disfarçadas pelos óculos arredondados em estampa de tartaruga. Como quem não dorme por dias a fio, seu rosto estava empalidecido, o maxilar demarcado, mais magro. O cabelo castanho jogado pro lado tinha o brilho de sempre, mas tinha certeza que não era pelo cuidado. Sua postura, sempre perfeita, agora, se mostrava exausta e retraída. Ele engoliu em seco, olhando-a de cima a baixo e abrindo a boca para dizer alguma coisa, mas nada saía. Parecia tão inerte quanto .
Alguns segundos se passaram em que um observava a fisionomia do outro tentando encontrar resquícios das informações que perderam por três meses. sentiu seu coração acelerar de nervoso e encontrou-se confusa sobre o que deveria fazer. Era Travis. Ali, bem na sua frente, o seu namorado, o seu melhor amigo por tantos anos. A pessoa com quem compartilhou algumas de suas memórias mais bonitas. Os seus sentimentos mais profundos. Ele tinha a mesma boca fininha, a barba cheia que arranhava e os olhos sempre observadores. Tinha o mesmo cabelo jogado pro lado. A camiseta de flanela xadrez que ela adorava e os óculos que ela roubava pra si só para irritá-lo, porque mal conseguia enxergar um palmo à sua frente sem eles.
Era Travis. Uma série de flashes passou por sua cabeça como um filme empurrado, rápido e nostálgico, que a brasileira não pode conter. e Travis dançando pelados e ridículos pelo seu apartamento quando saía. Travis com uma expressão de puro desespero, a postura tensa e as mãos fincadas no banco do passageiro enquanto ria de nervoso ao tentar aprender a fazer uma curva com o carro numa das vezes em que ele tentou ajudá-la a melhorar suas habilidades de direção. Travis a observando com um sorriso apaixonado num jantar à luz de velas enquanto lia uma das cartas que ele a escrevia todos os dias dezesseis de todos os meses que passaram juntos. Os dois sentados sob a macieira que ficava ao lado do Centro Acadêmico de Teatro da UCLA em um dos infinitos piqueniques que faziam nos intervalos no meio da tarde. Travis abrindo a porta do quarto com um sorriso esperto e compassivo ao segurar uma xícara de chá quando ela estava muitíssimo gripada e envolta por mil cobertores, fanha e manhosa. Alguns dos inúmeros e turbulentos jantares de família em que Travis buscou sua mão por conforto debaixo da mesa enquanto os pais dele gritavam um com o outro. Travis envolto por lençóis e levantando a cabeça que estava posicionada entre suas pernas ao terminar de chupar a sua boceta. O prazer que a fazia sentir. Compras e mais compras com Willa, enquanto Travis, apesar de contrariado, levava sua irmã mais nova feliz e animada no seu passeio preferido: ir ao shopping e tomar sorvete. sentando no colo de Travis e abraçando seu pescoço enquanto ele continuava a escrever sua tese de mestrado no notebook e buscava sua boca para um selinho, eventualmente, enquanto ela lia um livro qualquer.
Travis. O cara que ela tinha encontrado beijando outra mulher em um pub em Venice ao ir num happy hour com todos os seus colegas de trabalho.
Parecendo cair em si, , de repente, passou de nostálgica à enfurecida num estalar de dedos.
- Vai embora daqui, Travis.
tentou fechar a porta, mas ele segurou com a mão, se colocando entre o vão.
- , por favor, eu juro que não vou tomar muito do seu tempo...
- Como você sabia que eu ia estar em casa agora?
- Eu encontrei com a Janice no médico esses dias. Ela me disse que você saiu da Kapplan. Eu... sinto muito. Você gostava de trabalhar lá.
- Não era o que eu queria pra mim.
Assentiu. Pareceu buscar coragem pra dizer:
- Eu... Eu preciso conversar com você, . Só um pouco.
- Foda-se o que você precisa, Travis. Você me pegou num péssimo dia.
observou o rapaz a sua frente morder o lábio e expirar fundo, olhando pra cima, profundamente frustrado, só para virar o olhar pra ela de novo depois.
- Me deixa falar com você. Você não sabe o quanto eu preciso disso.
, sem mais forças pra discutir, resolveu deixá-lo entrar de novo. O clima não era estranho ou desconfortável, afinal, eram duas pessoas que se conheciam até demais, mas era diferente e incômodo. Tinha algo diferente sobre aquele momento. Eles estavam diferentes. Apenas três meses se passaram, mas eles estavam completamente diferentes. Eles eram diferentes. Não sabiam muito bem como agir.
Primeiro, Travis parecia observar cada detalhe do apartamento – como se não o tivesse visto por séculos, como se entrasse no Louvre pela primeira vez. Mas não estava nos seus dias de maior paciência.
- E aí – perguntou de braços cruzados, em pé, no meio de sua sala de estar. Travis, à sua frente, balançou a cabeça, incomodado, as mãos trêmulas, como se procurasse as palavras certas.
- Eu não sei – ele começou, passando as mãos pelo rosto e expirando. – Eu não sei o que dizer. Eu não sei o que estou fazendo aqui, , mas eu precisava te ver – abriu os braços e encolheu os ombros ao continuar. Gesticulava lentamente ao falar, com toda a didática e eloquência de um academicista. – Eu precisava olhar pra você.
Ela não sabia o que responder. Continuou evitando seu olhar. A expressão de completa indiferença quase perfeitamente montada.
- E sei que eu não mereço. Eu sei que eu nunca mereceria você, em um milhão de anos, principalmente depois do que eu fiz. Mas se não viesse aqui, e se não visse você eu... Eu estava à ponto de enlouquecer de vez...
- Eu não ligo. – ela disse, apenas. Mas ela sabia que Travis sabia que era uma grande mentira.
- Eu estou perdido, , completamente desorganizado. Eu não durmo. Eu não consigo mais produzir... Eu não consigo escrever, eu não consigo fazer anotações sobre os meus pacientes. Eu só consigo pensar em você. E no que você está fazendo. E que eu perdi você. Eu só consigo pensar que eu fui o cara mais imbecil do mundo por ter tido você e te perdido. Eu só consigo pensar que você era tudo que eu tinha e agora eu não tenho mais nada.
virou o rosto de lado e expirou com pesar, molhando os lábios, sentindo o peso de um mundo inteiro em seus ombros. Sentia-se num muro de bombardeio com uma espingarda apontada para a maçã em sua cabeça.
Não tinham realmente conversado depois do que aconteceu, mas ela sabia. sabia de tudo. No apartamento dele, depois de alguns gritos e pedidos de desculpas, pegou suas coisas e nunca mais voltou. Ainda recebia algumas mensagens e ligações aleatórias – nunca as atendia, no entanto.
- E tudo bem se perder você fosse perder qualquer outra pessoa, mas você, , olha só pra você... – de repente, o rapaz se inclinou um pouco para frente e colocou a mão no rosto de , os olhos vermelhos queimavam escondidos atrás do óculos. queria chorar de novo. Seu coração estava pesado e o seu corpo todo doía. Olhava para ele com os olhos marejados, as sobrancelhas juntas, a expressão de raiva e tristeza e dor e desconfiança estampada do seu rosto ante ao toque. – Tão linda... Você é um pedaço de mim. É como se alguém arrancasse a minha perna... O meu braço. Você é uma parte de mim, .
logo tratou de afastar a mão dele e limpar o seu rosto com as suas próprias mãos.
- Por quê? Por que, então, Travis?
Perguntou, finalmente, o que estava engasgado por meses bem no fundo de sua garganta. A resposta que ela nunca procurou ter.
- Porque eu... – e ele pausou, olhando para baixo e dando um meio sorriso mórbido. – Eu te amava mais.
quis gritar.
- Você não pode fazer isso.
- Eu precisava provar que não precisava mais de você do que você precisava de mim.
- Você não pode fazer isso!
- Foi tudo muito sem pensar direito... O meu analista diz que-
- Foda-se o seu analista, Travis!
- Eu já tinha te perdido muito antes – constatou, continuando o seu discurso, dando um passo à frente. – Eu tinha te perdido muito antes daquele dia... quando eu te prendi, quando eu desejei ser pra você o que você era mim.
Uma pausa. não disse nada. Ela não sabia o que dizer. Tantas coisas se passavam por sua cabeça, todas emaranhadas como um fone de ouvido numa gaveta velha, e ela se poupou de fazer qualquer esforço. Liam o rosto um do outro. Um livro aberto. – Você... O espírito mais livre que eu já conheci. E eu queria a garantia de que você ficaria comigo pra sempre. Eu... Eu não podia te perder. Porque eu acabaria exatamente assim. Com a cabeça fodida, desnorteado, tomando remédio pra dormir...
- Eu não quero saber disso, Travis.
- Eu sabia que você não olhava mais pra mim do mesmo jeito. – ele continuou, mesmo assim. – Eu não soube lidar com isso... E eu perdi tudo.
Alguns segundos de silêncio em que se sentia violada. Por que as inseguranças dele pesavam tanto sobre seus ombros? Por que é que ela se sentia culpada em vê-lo sofrer?
- Você não pode fazer isso, Travis. Você não pode fazer isso. – colocou novamente, exasperada, ao passar as mãos pelo rosto com um desespero urgente, querendo mais que tudo sair correndo dali e não ter que lidar mais com aquilo. Não queria mais ouvir. Fechou os olhos com força, esperando que ele entendesse nas entrelinhas o apelo que ela não conseguia verbalizar, esperando que ele lesse a sua mente. Eu não suporto mais ouvir a sua voz. As suas justificativas me atravessam. Você faz com que eu me sinta mal sobre mim mesma. Sobre as minhas escolhas. A sua presença me suga. Olhar pra você dói.
- Não, não, ... Eu não fazia ideia do que eu estava fazendo – justificou, com o rosto cheio de remorso, o discurso arrastado e os olhos pedintes. Deu mais um passo para frente, curvando-se, tentando alcançar a altura do seu rosto. – Eu me arrependo todos os dias e eu... Eu não sei o que aconteceu com a minha cabeça... Eu fiquei com tanto, tanto medo de te perder, ...
Eu confiava tanto em você, Travis. Você era a pessoa que eu mais confiava no mundo. Você não só me enganou por um mês inteiro. Você mudou tudo o que o nosso relacionamento significava.
- Pára. – ela pediu.
Por que você fez isso? Por que você fez isso e diz essas coisas? Por que é que não foi suficiente? Eu fiz tudo o que eu podia. Até quando eu não queria. Até quando eu não te queria por perto. Eu realmente não te queria mais, Travis. Mas eu fiquei. E você me fodeu.
- E aí eu te perdi...
Ele tentava se aproximar. Ela se afastava. Os olhos ainda não se desgrudavam.
- Pára.
não conseguia dizer nada além disso. Parecia que nenhuma outra palavra era foneticamente acessível. Sua cabeça borbulhava, gritava, doía, seus olhos queimavam e o seu coração estava apertado demais. Apesar disso, nada além daquela palavra conseguia sair da sua boca.
- Nada no mundo pode doer tanto quanto te perder.
- Pára! PÁRA!
O seu discurso é agonizante. A sua presença é desconfortável. Você desperta sentimentos ruins em mim, Travis. Eu não consigo te perdoar.
- Eu só preciso que você entenda que eu amo você. Eu ainda amo você do mesmo jeito, , eu amo você, e eu amo a sua casa, e eu amo a sua família, e eu amo ouvir você falando por vários e vários minutos sobre os filmes que eu sempre odiei ver, e eu amo o seu cheiro...
Você não me ama, Travis, você ama uma que não existe. Você ama a que você moldou.
- Pára! Pára!
- E eu amo que você me deixou entrar mesmo quando eu não merecia porque você é a melhor pessoa que eu conheço, eu amo as músicas brasileiras que você me fazia ouvir, eu amo reler as tuas cartas sempre rasuradas porque você tem preguiça de reescrever...
Por que você não para? Eu tô te pedindo pra parar! Por que você precisa me ver chegar ao limite? Por que é que você me viola?
- PÁRA, TRAVIS! – gritou, por fim, empurrando ele e segurando com força na gola da sua camisa, olhando bem nos olhos dele com uma agonia explícita e um coração que parecia passar por um processo cirúrgico sem anestesia. O bisturi que a dissecava sem dó. O rosto vermelho e os olhos que saltavam. Virou de costas, com as mãos no rosto. Respirou fundo. – Pelo amor de Deus, pára. Eu não aguento mais. Eu não aguento mais ouvir.
- Me perdoa, , mas eu precisava que você soubesse. Eu precisava colocar isso pra fora porque...
- Não. Não tem desculpa. Você fodeu tudo. Você mentiu pra mim, VOCÊ me traiu, você jogou no lixo tudo que a gente tinha juntos! VOCÊ fez isso, VOCÊ que acabou com a gente, não fui eu, não fui eu! Não fui eu! – gritou, por fim, quase como quem tenta convencer a si mesma, virando-se para ele dessa vez e olhando bem nos fundo das íris castanhas ao vomitar coisas aparentemente desconexas sem pensar. estava, sem sombra de dúvidas, sem nenhum controle e apontava o dedo para ele; as palavras saíam de sua boca sem que ela nem ao menos percebesse. Começou a se aproximar do rapaz, gesticulando com as mãos em cada palavra que dizia: – Você tinha essa ideia doentia de que eu era sua, você fala... fala que você me perdeu como se eu fosse, sei lá, o seu bicho de estimação, o seu troféu de pódio, uma das conquistas da sua vida, como ser laureado na faculdade! Eu NÃO sou sua! – , num último suspiro, então, vestiu uma expressão de completo desprezo. Respirava, ofegante, o seu busto subia e descia, enquanto se encaravam como se rasgassem um ao outro. Travis usava uma expressão impassível no rosto quando voltou a empurrá-lo. – Isso é o MÍNIMO que você merece! Eu quero que você se foda! Eu quero que você se FODA! Você me ouviu? Eu quero que você se FODA!
Gritou, mas nada parecia fazer com que a dor saísse. Gritou, colocou pra fora, rasgou a sua voz, mas a sensação que tinha era de que poderia passar o resto da vida gritando, e gritando, e gritando. Não parecia resolver. Nenhuma daquelas palavras parecia elaborar a sua verdadeira dor. A sua boca estava molhada, o seu rosto vermelho, os olhos marejavam e queimavam, mas ela jamais deixaria as lágrimas caírem na frente dele de novo. Travis a segurou pelos braços com certa força e ela foi parando aos poucos. Soltou-se dele com asco quando trocaram alguns segundos de silêncio. Por fim, Travis virou a cabeça para o lado. Molhou os lábios antes de dizer:
- Faz tempo que você tá vendo esse cara?
Perguntou, com a voz baixa e falha, ignorando tudo o que tinha acabado de falar. Ela travou, piscando algumas vezes, dividida entre estar incrédula pela pergunta e nervosa por ele, teoricamente, saber.
- Vendo... que? Do que você tá falando?
- Eu reconheci você, . Na notícia. O seu vestido. A porra do parque de diversão que você tanto ama. Na foto, de longe, seu cabelo cobre o rosto, mas eu sei que é você.
Por que é que é tudo sobre você e o que você sente, Travis? Por que é que você não presta atenção em nada do que eu falo?
engoliu em seco com os olhos arregalados. Negou com a cabeça. Não podia ser verdade. Não podia ser verdade.
- Eu não acredito.
- Eu te reconheceria a quilômetros de distância, . Eu sei que é você. Só não sei o que você tá fazendo com esse cara.
- Foi por isso que você veio aqui? Pra saber se eu já tinha te superado? Foi pra saber se eu já tava fodendo com outra pessoa?
- Não, é claro que não! Tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e eu me preocupo com você, , esse cara só quer-
- Cala a boca! Cala a boca! – o interrompeu, gritando de novo, e à esse ponto, tinha perdido todos os limites. – Você não sabe nada sobre isso! Eu não devo mais nenhuma satisfação da minha vida pra você! Pare com essa merda de que você se preocupa comigo!
- É claro que eu me preocupo. Você é a pessoa que eu mais amei no mundo, !
- Travis, PÁRA de falar! Eu não suporto mais ouvir! Você não entende? Eu não suporto mais ouvir! – colocou as mãos na cabeça ao falar. Abaixou o olhar, respirando fundo. Engoliu a saliva com a respiração que ainda ofegava. – Você tá aqui só pra fazer eu me sentir culpada porque você tá mal. Eu não sou a culpada.
- ...
- Acabou. Já chega. É isso. – disse, por fim, soltando os ombros e virando o rosto a porta numa clara incitação. Ele assentiu, parecendo entender.
- Tudo bem. Acho que a gente falou o que a gente precisava falar. Eu... Entendo que você se sinta assim. Eu não espero que você me perdoe. Mas eu espero que a gente fique bem algum dia porque eu não consigo imaginar a minha vida sem você. É como se... Não fosse eu.
Eu tentei te falar o que eu precisava, Travis, mas você não me escutou.
- É. Quem sabe.
- Eu só vim aqui porque eu não podia deixar que você achasse que eu não te amava ou que você não era a coisa mais importante do mundo pra mim. Porque eu amo, . E você é uma das pessoas que mais me importa no mundo. Os quase três anos que a gente passou juntos foram os melhores da minha vida. Eu precisava muito que você soubesse disso.
Você só ama a si mesmo, Travis.
assentiu, os lábios torcidos, sem olhar pra ele e sem saber o que responder também. O movimento de seus dedos era desconfortável.
- E por você ter sido tão importante assim pra mim e pra minha família, eu acho que é justo que você saiba... – Ele, então, mordeu o lábio antes de dizer. – A Nanna... Descansou ontem de madrugada. O velório vai ser hoje às quatro.
O coração de despencou. A sua guarda baixou, os seus lábios secaram e tudo ao seu redor pareceu girar por um momento. De repente, todas as outras coisas pareceram perder a importância.
- Travis, eu não sei nem o que dizer...
- Ela já estava... Internada de novo desde a semana passada...
Travis parou de falar quando , sem pensar, o abraçou. Abraçou-o tão forte que poderia juntar todos os seus pedaços num só de novo se durasse tempo suficiente – mas não haveria tempo suficiente no mundo. Foi como se tivesse esquecido (ou escolhido esquecer, mais uma vez) a fúria que a dominava alguns segundos atrás e estivesse pronta para cuidar da dor que ele sentia. De novo. Inspirou o perfume característico e conhecido. Fechou os olhos e sentiu também seus olhos marejarem. A avó de Travis, a matriarca dos Foster, era também um ponto de segurança e conforto para a conjuntura disfuncional e abusiva que a família dele apresentava – a qual conheceu de perto. Estava lutando contra problemas respiratórios faziam alguns anos, mas sempre mantinha o bom humor e o carinho que os pais de Travis jamais demonstrariam. sentiu o peso do mundo das costas ao saber que Travis havia perdido alguém tão importante, alguém que ela conhecia bem e sabia que ele amava tanto, e que ela também passou a sentir carinho nos momentos de convivência. Odiou-se por tudo o que dissera. Um aperto no coração tão grande que nem se podia dimensionar – a vida que não voltava e as palavras ditas, que também não voltavam.
Tão específicas. Eu quero que você se foda, ela se lembrou, é o mínimo que você merece, quase querendo pedir desculpas.
De repente, estava confusa de novo. Será mesmo que precisava ser tão dura? Será que Travis não tinha suas próprias questões?
Permaneceram desse jeito por um tempo, até que ela o afastou e segurou seu rosto com as mãos:
- Ela está em paz agora, Trav...
Travis, com as lágrimas que caíam, encolheu os ombros.
- Eu não sei o que fazer, . Eu não sei o que vai ser...
- Eu sei...
- Ela era a minha pessoa favorita.
- Eu sei.
Abraçou-o de novo, sentindo as lágrimas molharem seu pescoço, se perguntando o que estava acontecendo, se perguntando o que estava fazendo, pensando que aquele era o cara que ela costumava amar e não amava mais, pensando que aquele era o cara que tinha traído sua confiança, desmontado o seu orgulho, e ao mesmo tempo, como, por que não conseguia mandá-lo embora e lidar com seus problemas sozinho? Por que tinha que estar ali, abraçando ele, curando sua dor e engolindo a sua própria quando ele foi quem lhe causou tanta no início de tudo?
O que fazia permanecer naquele ciclo? O que fazia gritar todas aquelas coisas para alguém? Empurrá-lo daquele jeito?
O que fazia sentir tanta raiva e, logo depois, tanta pena, e por fim, tanta apatia?
Com o passar dos segundos, ela notou, o abraçava, mas não sentia nada por ele. O abraçava porque ele precisava.
Mas do que precisava?



Golden as I open my eyes
Holding focus, hoping, take me back to the light
I knew you were way too bright for me
I’m hopeless, broken, as you wait for me in the sky…


E nada mais saía. não conseguia colocar mais nada na música. Essa parte simplesmente não saía da sua cabeça. Repetia em looping. You’re so golden. You’re so golden. não sabia mais como continuar a música porque ele não conseguia parar de pensar no fato de que provavelmente havia visto aquela porra de notícia e era exatamente por isso que não o respondia desde o dia anterior. Checava o celular de cinco em cinco minutos. Já eram quase sete horas da noite e nenhuma notícia dela. Ela nunca havia passado tanto tempo assim sem respondê-lo ou sem contá-lo alguma coisa sobre o seu dia. E em menos de dois meses, já era a segunda música que escrevia para ela. A garota que ele atropelou.
- , você sabe da ? – perguntou como quem não quer nada, resolvendo largar o caderno na mesa e ir pegar uma cerveja no minifreezer porque estava realmente meio ansioso. Não só por causa da . Mas também por causa da , era o que tentava se convencer. E se tivesse ficado chateada por que ele disse que eram amigos? E se ela esperasse por mais? O que ele deveria ter dito? Será que queria ser mais que amigos com ? Definitivamente. Mas o que era isso? O que ele queria ser? Estava pronto para namorar de novo? estava pronta para namorar de novo? Namorar? Quem falou em namoro? Será que era justo?
deu um sorrisinho sacana ao respondê-lo:
- Olha só... Todo preocupadinho.
- Fala sério, porra.
Sentiu o conforto do gosto da Heineken geladíssima descer pela sua garganta e isso fez seus ombros relaxarem.
- Deixa eu ver aqui, então, para o senhor Zangado... – revirou os olhos com um sorrisinho mínimo para a piadinha que referenciava a história da Disney e esperou enquanto ele abria o celular. – Não. Ela real sumiu pelo dia e nem chegou a visualizar nenhuma mensagem no grupo com a , onde a gente sempre dá notícias etc. Que estranho. Só a vi de manhã, umas oito... Antes de vir pra cá.
- Porra. Cadê a ?
- É tão importante assim?
Era. Era importante demais. Era a coisa mais importante sobre o seu dia.
- Não. Só... Vai que aconteceu alguma coisa. Sei lá. Você não acha estranho?
cruzou os braços e deu de ombros, sem comprar o que o amigo falava. Seu sorriso era esperto e a expressão de divertimento.
- A não é boba, ok? Ela não vai se deixar levar por uma notícia de site sensacionalista. Fica tranquilo.
o encarou, surpreso. Talvez fosse meio óbvio que isso o estivesse incomodando, mas não achou que teria coragem de comentar qualquer coisa. As pessoas nunca tinham. Sempre pisavam em ovos com . Era engraçado como sentia que agora, muito mais que um colega de profissão, estava se desligando da ponte de e se tornando seu próprio amigo aos poucos. E gostava da ideia de ter um novo amigo nesse momento.
- Eu só não queria que ela tivesse que passar por isso...
- É uma escolha que ela tem que fazer, ué. Não você.
- Você é meio sábio às vezes, sabia ? – elogiou, levantando a cerveja num brinde ao amigo. – Nem parece que tava colocando hashi no nariz algumas horas atrás.



- Obrigado, . Você não sabe o quanto isso foi importante pra mim.
- Tá tudo bem.
Tinham acabado de chegar do velório. Estavam na frente do prédio de . O rapaz não precisou de muito para convencê-la a acompanhá-la durante a cerimônia, que mais se pareceram horas de tortura para a brasileira. Observou uma parte de Travis ser enterrada por completo naquele dia, e apesar da dor que a família sentia, havia também o fechamento de um ciclo. A única parte que a fez sentir melhor foi ver Willa, sua ex-cunhada geniosa e petulante novamente e prestá-la sua comoção, do jeito que podia: um sorriso compassivo e um abraço reconfortante. Esteve lá para Travis em todos os momentos. Mais uma vez, apesar de não querer. A sensação que tinha era a de que precisava sair de lá o mais rápido possível. E quando finalmente puderam ir embora, voltaram num silêncio reflexivo durante todo o caminho de carro. Sentia os olhares eventuais de Travis vez ou outra sobre si, mas fingia não notar, olhando pela janela enquanto o A Rush Of Blood To The Head tocava no som embutido.
- Eu... Posso te ligar? Outro dia?
- Não, Travis. Acho que a gente fica por aqui.
- Eu não sei como te agradecer... Eu realmente senti muito sua falta.
Mas ela já tinha dito coisas ruins suficientes por um dia. Ele segurou a mão dela com força. Ela olhou para o encontro de dedos, suspirou e delicadamente os separou.
- Você é forte. Vai superar.
- Eu não quero desistir de você ainda.
E sem mais forças pra discutir, , exausta demais e confusa demais, pensou “foda-se essa merda, lido com isso depois”, e encolheu os ombros, entrando no prédio sem olhar pra trás. Limpou as mãos no vestido durante todo o caminho.

X

- Pet, você tá bem?
- Eu tô bem sim – respondeu, meio desconfiada, sem levantar os olhos do celular. Rolava o Instagram sem ao menos prestar atenção no que via. Não era o tipo de pergunta que fazia normalmente: só engatava um assunto na lata, contava uma coisa aleatória que tinha acontecido ou perguntava coisas específicas sobre o que ela tinha feito, tipo, se tinha ou não pagado a taxa do condomínio ou se tinha notícias de alguns dos currículos que estava deixando. Mas naquele dia em específico o semblante de era quase maternal e aquilo, com certeza, era o que deixava mais irritada. – E você? – perguntou, desinteressada.
- O que você fez hoje? – não respondeu, soando casual, sentada na mesa de jantar, comendo um pouco do seu macarrão com queijo. apenas mexia na comida, sentindo o olhar da amiga sobre si; conhecia o tom. Conhecia o olhar. Estavam prestes a ter uma conversa de família.
Não tinham muitas dessas. Aprenderam a conviver perfeitamente com o passar dos anos, inclusive com . Eles realmente agiam como uma família; a família que eles tinham escolhido já que as suas – muitas vezes distantes, disfuncionais ou desinteressadas – não pareciam cumprir o papel de maneira saudável. As discussões, que aconteciam vez ou outra, eram raras e facilmente resolvidas, como em qualquer relacionamento com convivência frequente.
Tinha acabado de chegar do velório e no quarto quando passou pela porta, indo direto tomar um banho demorado – esfregou com força suas mãos, esfregou com força seu rosto, esfregou com força seus braços, esfregou com força seus ombros e pescoço, esfregou com força a sua boceta, esfregou com força o seu cabelo, esfregou com força suas pernas, mas o sabonete não parecia ter a substância necessária para fazer sentir-se limpa de novo.
Com seu pijama de flanelas mais confortável, meias e pantufas, sentou-se de frente para a rommate na mesa de jantar, onde a salada e a massa estavam postos. Estava mentalmente e fisicamente e emocionalmente exausta e sabia que era esperta o suficiente para notar que ela não queria conversa – a amiga costumava respeitar esses momentos. Apreciaria a presença silenciosa e aconchegante de ao comer. Era só o que precisava. Mas naquele dia específico, a amiga não estava tão disposta assim à deixar o silêncio tomar espaço e continuou: – Digo, além de ter quebrado o seu espelho com um jarro de flor.
Ignorou o comentário sarcástico porque não estava nem um pouco disposta a ceder.
Contaria para outro dia sobre todo o fator Travis e ligações e família e velórios etc. Tudo que não queria naquele momento era uma conversa profunda e desgastante e na qual iria sorrateira e quase imperceptivelmente fazer pensar sobre o assunto.
Não precisava pensar sobre o assunto. Precisava esquecê-lo.
- Nada demais. Fui correr, dei uma volta na praia.
- E encontrou o Travis no meio do caminho? – perguntou, insistente, e jogou o garfo no prato, já estarrecida. Maldito dia. Devia ter tomado uma carrada de Rivotril e esperado o próximo. Quem sabe tivesse mais sorte.
Era insuportável o quanto a conhecia. Era insuportável que não deixasse as coisas para lá.
- E como diabos você sabe disso?
- Olha pra você, . Eu moro com você há cinco anos. Eu te conheci antes e depois do Travis. Acompanhei todos os anos de relacionamento de vocês. Eu sei quando alguma coisa tá acontecendo com você. Eu sei o que ele é capaz de fazer com a sua cabeça. Eu sei o porquê daquele buraquinho na parede, ó – Ela apontou para uma mínima rachadura entre dois cartazes de filmes na parede da sala. – Exatamente pelo jarro que você jogou, dois meses atrás. Exatamente quando o Travis fez o favor de ficar te ligando sem parar.
- E você poderia, por favor, me dizer como é que eu estou, já que você sabe disso tão melhor do que eu? – nesse momento, se levantou da cadeira, usando o tom irritado. permaneceu sentada, mas virou-se para a brasileira, que andou até o meio da sala cruzando os braços.
Outra coisa que estava quase no topo da lista de “coisas que irritam muitíssimo a ” era a capacidade de de manter-se perfeitamente estável durante uma discussão, usando de toda a sua áurea de psicóloga, como se nada pudesse alterar o equilíbrio dos seus chakras.
- Murcha. Deprimida. Exausta. Drenada. Sem energia. Sem vida, ! Você é a pessoa mais enérgica que eu conheço!
- Não posso apenas ter tido um dia ruim?
- É claro que teve um dia ruim. Você estava com ele! É isso que eu estou falando!
- Você não sabe de porra nenhuma, ! Mas você tem essa mania absurda e irritante de querer dizer o que é melhor pra todo mundo!
respirou fundo, com paciência, dando de ombros.
- O que é que aconteceu então, ?
- Nada demais, ele veio aqui em casa e me falou umas coisas...
- Você deixou que ele viesse aqui em casa? – nesse momento, quem levantou, mostrando-se incrédula e profundamente irritada. nem podia acreditar que havia realmente entrado naquele tópico naquele momento. Jamais, em um milhão de anos, conseguiria explicar para em palavras a dimensão do dia que havia tido.
- Sim, não é como se eu tivesse muita opção quando ele está parado na porta me esperando!
- Você poderia mandá-lo embora, por exemplo. – retrucou, sarcástica, e revirou os olhos. – Você deixou claro que não queria vê-lo, . Vir aqui em casa é invasivo demais!
- Eu tentei, tá certo? – abriu os braços, gesticulando em rendição, numa postura defensiva de primeira. Molhou os lábios, exausta e baixou um pouco a guarda ao continuar: - Mas não dá, ele não me escuta, fica insistindo demais, aparece do nada...
- Porque você não diz não pra ele, você não faz o corte! explicou, pacientemente, colocando o dedo na cabeça, como se estivesse deixando algo óbvio passar. – Você se anula pra suprir as demandas dele, ! Você não consegue ver isso? Que ele te exige o que você não pode dar? Que ele te responsabiliza por isso, te fazendo acreditar que é você que está querendo isso, quando é ele?
Era isso. havia finalmente conseguido o que queria. estava prestes a explodir de novo. Como encostar uma agulha na bexiga.
- Pare de me cobrar sobre isso como se eu fosse a porra de uma marionete, ! E pare de usar essa MERDA de vocabulário psicanalítico comigo! Você está sendo exatamente igual ao Travis!
, exaltada, usando um tom de voz agressivo, encarava com olhos enfurecidos. Fazer o corte. Maternar. Suprir demandas emocionais. Se anular. Mentalmente desorganizado. Desejo recalcado. Elaborar a angústia. Era exatamente o tipo de coisa que Travis falava numa discussão. As palavras pareciam ecoar na cabeça dela, deixando-a ainda mais furiosa, as lágrimas que já queriam sair de novo, mas as conteve. Fechou-os com força só quando era seguro, tentando se livrar das lembranças.
- Ei, ei... O que tá acontecendo? – , então, entrou no apartamento de repente, interrompendo a conversa com as mãos levantadas, já rendido. – Dava pra ouvir do corredor...
Pronto, pensou, revirando os olhos, fodeu, a família buscapé estava completa.

não parecia nem um pouco abalada pelas palavras de e isso também entrava para a listinha. Muito pelo contrário – era quase como se tentasse mostrá-la alguma coisa que ela não enxergava, mas assumiu uma postura mais dura ao contar para o que estava acontecendo ali. O clima era pesado e ele, sempre com a áurea pacificadora good vibes e inabalável, não parecia estar balançado com isso. Pelo contrário. era necessário. Eles três tinham o equilíbrio perfeito. Funcionava assim para qualquer uma das variáveis. Os laços que haviam criado e escolhido já eram firmes demais para que algum deles faltasse.
Mas naquele momento... Naquele momento em especial, só queria que ambos explodissem.
- O Foster tá rondando a e ela tá putinha porque eu to falando o que ela não quer ouvir. Mas eu não ligo, , me desculpa. A gente tá há três meses tentando conversar com você sobre isso, porque é óbvio que terminar um relacionamento abusivo de anos afetaria qualquer pessoa, mas você sempre dá uma de durona e que não quer conversar. Você sempre foge. Eu aposto que ele tava te mandando mensagens, não tava?
- E se estivesse? Isso não é da conta de vocês! Isso sou eu quem resolve! Parem de se meter na minha vida!
- Tacar um jarro no espelho e sumir não é resolver, ! – gesticulou, quase suplicando com as mãos, como se tivessem uma dificuldade de comunicação, mimicando como se falassem línguas diferentes. O tom ainda estava controlado, mas a entonação intensa na voz demonstrava a aflição que tentava conter. Os olhos de marejavam e ela, a manteiga derretida do grupo, estava prestes a chorar. Mas os não eram olhos de pena. Eram olhos de cuidado. – Eu só to preocupada com você! Você tá empurrando com a barriga!
- , você jogou um jarro no espelho? – ouviu perguntar num tom também preocupado e virou-se para ele com uma expressão de quem está entediada. Cruzou os braços. Ele estava em pé entre as duas, perpendicular, e a encarava com olhos curiosos e em alerta.
- Sim, caralho, e daí? Eu não posso pegar a porra do meu jarro e jogar na porra do meu espelho dentro da porra do meu quarto ou isso quer dizer que eu sou louca? Eu não posso sumir pelo dia porque é um absurdo?
- , eu não to dizendo que você é louca. Mas esse não é um comportamento saudável, se permitir entrar de novo nesse ciclo vicioso não é saudável! Isso é um sinal de que você tá guardando muita coisa, tentando lidar com tudo sozinha... Tá tudo bem contar com seus amigos... – suspirou. – A gente só quer que você converse sobre essa angústia, ...
- E que você, puta merda, pare de ver esse cara! Ele te faz mal. Ele te traiu, ! Ele fodeu sua cabeça!
observou repreender com o olhar pela escolha de palavras e o modo ácido que as soltou e bufou, fazendo um barulho com a boca. Ela era forte o suficiente para lidar com a sua própria merda. Não precisava ser envolta em plástico bolha para não ser atingida pela vida. Não precisava que e a protegessem do mundo.
- Como se você nunca tivesse sido um macho escroto antes, .
Ambos pareceram ignorar a sua afirmação. porque não era facilmente atingível e que parecia mais interessada em outro tópico.
- Isso não é sobre o , . Você precisa parar de se culpar pelas coisas que o Travis fez, independente de como as coisas aconteceram antes, de acreditar nas coisas que ele te fala...
- , PÁRA de me analisar!
- Eu não tô te analisando, , eu tô constatando o óbvio! Você consegue facilmente dizer “não” pra todo mundo, mas pra ele você não consegue, porque ele te manipula, ele consegue entrar na sua cabeça!
- Tá, chega disso, a gente só vai brigar e não vai chegar em lugar nenhum – colocou as duas mãos pra frente, expirando de maneira pesada, olhando nos olhos de cada uma, uma de cada vez, como se quisesse acalmá-las. – , a gente não vai conseguir nada agora, assim. Acho melhor dar um espaço pra ela...
- Ah, agora você é sensato, senhor , se comunique com ela, a já passou por muita merda esse ano”. – exasperou, parecendo irritada e fazendo uma voz masculina ridícula ao imitar o amigo, que fechou os olhos com força e demonstrou arrepender-se imediatamente do momento em que contou isso para . Depois, arregalou-os pra ela como quem repreende e deu de ombros com um sorriso sarcástico. – Foda-se. Não vem dar uma de homem racional acalmando as mulheres emocionais demais pra cima de mim. Você se meteu primeiro.
revirou os olhos, dando de ombros. Mais uma vez não pareceu se importar muito. Tinham coisas mais importantes para resolver.
- O quê? – quase gritou, esganiçada, com a boca escancarada, colocando a mão no rosto e sentindo seu estômago despencar. Quando pensou que não podia piorar. – Você falou isso pra ele?
- Em minha defesa, eu estava bêbado e extasiado pela presença icônica de na minha frente pela primeira vez.
- Naquele dia? No primeiro dia? Vocês passam de TODOS OS LIMITES! – gritou com o rosto vermelho de raiva, as mãos trêmulas e os olhos que, finalmente, decidiram se deixar levar. E em uma das poucas vezes da vida, ela não se importou. As lágrimas caíam livres e desimpedidas por seus olhos. – Eu simplesmente não acredito que você fez isso, ! Você não tinha o direito! – ela se virou, então, para , gesticulando intensamente com as mãos. – E vocês, , fala TANTO sobre eu querer ser inconscientemente ou o cacete da mãe do Travis, olha só, VOCÊ tentando me “maternar*” – ela fez as aspas com as mãos, o veneno que quase escorria enquanto ela usava o termo científico. – e faz isso com todo mundo ao seu redor! Se eu não digo não pro Travis, você não diz não pra NINGUÉM, porra! Tá feliz? Tá satisfeita? E eu não sou a porra da pet de vocês!
- Então pare de agir como uma criança que precisa da porra dos seus pais – ele disse, simplesmente, num tom baixo, áspero e eficaz, dando de ombros. – Não atacar a só porque ela tá te mandando a real seria um bom começo. Contar pra gente que o Travis tá te rondando também! Esse cara precisa te deixar em paz! Você não tem que resolver tudo sozinha, !
O silêncio que se fez foi absoluto por um segundo inteiro em que encarou com tudo que ela ainda não tinha demonstrado para nenhum deles.
Dor.
Paternidade era um assunto delicado para . Apesar de Mark fazer um bom trabalho como substituto, não era algo que ela, também, costumasse conversar. Todos eles sabiam disso, mas não parecia arrependido. Sua postura era impassível e o olhar, diferente de suas palavras, desafiador de maneira carinhosa. engoliu em seco, expirando fundo, passou as mãos pelo rosto e pelo cabelo, apertando o rabo de cavalo, e então, disse:
- A gente só tá preocupado, , é só isso. A gente te ama e quer te ajudar, mas você não conversa com a gente. É difícil demais te ver assim de novo. Faz três meses que a gente faz piada disso como se não te afetasse esperando que, em algum momento, você fosse falar. Mas você não fala, .
- Vocês querem que eu fale, não é? – , nesse momento, começou a juntar suas coisas numa bolsa. Chave do carro, documentos, dinheiro, óculos e celular. Pegou o seu sobretudo no cabideiro e deu o sorriso mais satírico que conseguiu, com os olhos e o rosto vermelhos e inchados, parando a frente da porta e saudou teatralmente: – Eu quero que vocês, e , e Freud e Lacan, e o Travis e o , e todos os homens e todos os psicanalistas que existem, e também o Donald Trump e toda a família Bolsonaro, vão todos juntos pra puta que vos pariu! E aí, quando vocês chegarem lá, espero que vocês tomem bem no meio do cu! Eu não volto pra casa hoje!
E bateu a porta atrás de si.

Oi 9h21pm
Vc ta ai 9h21pm
Vamo transar 9h21pm


Continua...



Nota da autora: oi, gente. tô até me sentindo meio culpada nessa nota de autora depois desse capítulo tão pesado cheio das drs. e é um capítulo que não tem muito do nosso boyzinho, né? mas eu garanto que no próximo ele tá beeeeem presente RISOS. eu fico com o coração partido pela Isabella por conta de toda a situação com o Travis e tô me esforçando pra não passar um paninho pras coisas que ela falou, mas eu sou muito team Olívia que ela precisava de uma intervençãozinha sim. e vocês, o que acharam? a Oli e o Pat forçaram a barra ou não? eu sou a maior defensora da Olívia que esse site poderá conhecer, então vocês podem sim xingar ela nos comentários, tá liberado, mas saibam que eu vou XINGAR DE VOLTA, hahahahaha. e eu nem tô brincando LOL. eu realmente queria que vocês me dissessem o que acharam de tudo que rolou <3 esse foi um capítulo muito difícil de escrever e eu tava meio insegura de colocar (apesar de ele ser muitíssimo importante e esclarecedor, nota de agradecimento a Mi por ser tão perfeita e ler antes pra me dar segurança. inclusive, se vocês não leram wallflower ainda, CORRAM PRA LER PORQUE É PERFEITA) porque vai meio que de encontro com a vibe mais deboísta de quase todos os anteriores, mas esse capítulo é um turning point necessário na vida da nossa querida pp e vocês vão poder entender isso aos pouquinhos. enfim, sem mais delongas, eu criei um raio de um grupo no facebook que até agora (o presente momento em que estou escrevendo essa n/a) eu sou a única participante, então vou deixar o link pra quem quiser participar aqui embaixo. e lá a gente pode conversar pra caramba e super interagir e eu posso postar spoilers porque eu tenho alguns capítulos já escritos RS então é isso, amigas. stay tuned, se cuidem, continuem respeitando as recomendações da OMS e me forneçam um biscoitinho por esse capítulo sofrido que eu chorei escrevendo eh isso confessei coloquei pra fora finalmente alguém sabe precisava desse desabafo beijo xau xxx lica




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