Última atualização: 22/08/2018

Capítulo 1 - Mudanças

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. (Leon C. Megginson)

Os fones de ouvido já machucavam minhas orelhas.
Eu passava as músicas aleatórias na mesma rapidez em que a paisagem avançava pela janela. Paisagem que, ironicamente, combinava com a música enjoada que eu decidira deixar tocando. Tinha uma animação desnecessária, que já me dava dor de cabeça.
Em um ato de total rebeldia, retirei os fones sem cuidado algum, como se aquilo fosse simplesmente fazer a raiva aliviar um pouco. Eu estava cansada. Cansada de sempre passar pela mesma coisa, cansada por estar a mais de duas horas sentada em um banco traseiro desconfortável de algum carro ridículo que meu pai julgava ser ideal para a viagem.
Era isso. Eu estava simplesmente cansada. Cansada até mesmo do meu próprio drama.
Por horas, tudo não passava de borrões nas janelas, devido à velocidade em que estávamos. Em um dia normal eu estaria elogiando minha mãe pelo ponteiro do velocímetro marcar 100 km/h, mas meu humor simplesmente não permitia.
- Por que não no centro? - minha mãe ergueu as finas sobrancelhas, me encarando pelo retrovisor central, como se aquela fosse uma pergunta muito ruim para o momento – Londres parece realmente bonita. – dei de ombros, tentando deixar de lado o assunto que eu mesma comecei. Pela décima vez. Ela pareceu relaxar na direção, mantendo seu olhar na estrada. Meu pai, como sempre, no banco do carona, jogava algo irritante em seu tablet. Desde que ele descobriu essa tecnologia – e Angry Birds, ficou mais difícil conquistar a sua atenção.
A única coisa que me restava era encarar a janela embaçada. Algumas casas pareciam realmente distantes uma das outras, dando espaço para um grande destaque de verde, junto com jardins e árvores que deviam ter mais de duzentos anos. Duzentos anos no mesmo lugar. Por que aquilo soava tão interessante para mim?

A cada distrito que passávamos apenas casas e mais casas. Alguns pequenos comércios na beira da estrada principal. Nada de prédios, o que já significava um mau sinal. Algumas pessoas sempre dizem que quando começamos a ver somente mato na estrada, estamos perdidos. Minha grande amiga de Nova Iorque, Bree, diz que se não vemos prédios, estamos em um lugar pior.
O interior.
Ah, sim. Era oficial. Eu estava no interior.

Nosso destino, enfim, e infelizmente, não era a cidade cosmopolita de Londres. Muito infelizmente. Indo na contramão de tudo o que já fizemos, e de todos os outros doze lugares em que já moramos, estávamos indo diretamente para o interior. Minha mãe dizia que era bem melhor do que o subúrbio, mas eu simplesmente não conseguia ver tanta diferença entre os dois. Para mim, dava no mesmo. Tecnologia atrasada, falta de internet, casas velhas de madeiras e gente caipira.
- Eu li em um blog que o distrito de Cotswolds é o mais antigo da Inglaterra. A arquitetura é muito século X e a apenas duas horas de Londres! – meu pai comentava feliz. Ele é o mestre dos comentários aleatórios, para tudo e sobre tudo. Semana passada ele tagarelou por horas com um amigo sobre as regras do rúgbi e como este é um esporte de classe. Às vezes eu me pego pensando em como ele tem tempo para saber de tantas coisas.
- Se é tão perto assim de Londres, por que não Londres?
- Minha querida, só estamos tentando algo novo. – pude vê-lo sorrir ao conseguir derrubar três alvos com um passarinho só – Tenho certeza que você vai gostar.
Minha mãe balançava a cabeça, em afirmação – A casa é linda. – e dirigiu seu olhar para mim, pelo espelho central – Você sempre quis morar em uma casa grande.
- Nosso trato ainda está de pé?
- Com certeza. Assim que arrumarmos tudo, você pode ter o que quer.
E o que eu queria era um cachorro. Na falta de meus antigos amigos e do meu irmão, eu teria ele.

Meu pai continuava tagarelando sobre o incrível condado de Gloucestershire, onde ficava o distrito de Cotswold, que ia ser a nossa nova casa. Eu ainda, sinceramente, não sabia como ele possuía forças para isso. É a nossa décima terceira casa nova.
Que tipo de pessoa se anima com a décima terceira mudança?
- Vocês sabiam que Cotswold tem o metro quadrado mais caro da Inglaterra?
Mesmo cansada dos comentários aleatórios de papai sobre o lugar mais caipira do mundo, aquilo me chamou atenção. O que faz um distrito típico do século X ter apenas famílias ricas? Naquele momento eu pude entender um pouco o que estávamos fazendo ali. Mesmo sendo interior e bizarro, ainda era um condado de ricos.
Típico dos meus pais. Estava ali a diferença do subúrbio.
Mas eu não poderia deixar a oportunidade de ser chata passar – Então não vamos ver carroças por aqui?
- Pelo contrário! – ele exclamou, mas isso não fez a minha cara emburrada passar – Os moradores aqui têm uma ótima condição. Acho mais fácil vermos apenas carros caros e importados.

Papai continuava falando demais, até que uma placa enorme toda decorada nos apontou que tínhamos chegado ao nosso novo destino. “Bem vindos à Veneza da Inglaterra, Bourton-on-the-Water, no condado de Gloucestershire”.
Se o interior já soava péssimo, imagine morar na Veneza da Inglaterra.
- O nome do rio que corta a vila é Windrush. – meus olhos se fecharam automaticamente, minhas mãos levadas as minhas têmporas, buscando paciência – Jogadores britânicos disputam todo ano em equipes um jogo aquático nesse rio. Dura cerca de trinta minutos, deve ser divertido de se ver. – ele suspirou alto – Dizem que essa disputa acontece há mais de um século!
Minha mãe passava devagar pelas ruas, observando os dois lados junto com meu pai. Haviam várias lojinhas feitas de pedra, cafés e eu podia jurar ter visto até mesmo um pub – Acho que aqui vamos conseguir tomar o típico chá inglês, que também é chamado de cream tea. Ele pode ser servido com ou sem leite e acompanhado de scones caseiros, geleia e cloted cream. Cloted cream é um creme de leite encorpado, típico da Cornuália. Incrível!
Incrível seria se alguém se importasse com cloted cream como meu pai.
Nem minha mãe conseguiu reprimir a careta – Você gravou isso tudo?

Após darmos algumas voltas, de acordo com o nosso GPS alugado, havíamos chegado. E o nosso destino era uma casa enorme. Eu tive de suspirar ao sair do carro. Nossa décima terceira casa nova era realmente linda.
E eu odiava ter que admitir isso.
Parecia que tinha saído de um filme ou algum livro de época famoso. Toda ornamentada em calcário e muito verde das plantas que subiam pelas paredes externas e janelas, aquela era a maior casa que já tivemos. Tinha dois andares, sem contar com o provável sótão. Era completamente diferente dos apartamentos antigos que alugávamos na cidade grande.

O que mais chamava atenção era a falta de muros. Nenhuma casa da rua de pedras tinha um muro as separando, e parecia que no condado inteiro de Gloucestershire isso não existia. A parte da frente dava em um enorme gramado verdinho, com alguns tipos de flores e plantas decorando naturalmente a entrada da casa.
Mesmo emburrada com o lugar e toda essa palhaçada de décima terceira mudança, eu senti algo gostoso ao ver a casa. Parecia e soava diferente de qualquer outra coisa que eu já tenha vivido.
Mesmo que eu realmente não quisesse confessar isso.
Meu pai colocou suas pesadas mãos em meus ombros – O que achou? É bonita, não é? – apenas agitei a cabeça, afirmando. Olhei para seu rosto e ele parecia realmente feliz. Não pude conter de me sentir mal por estar tão chateada por estar nesse fim de mundo. Eu mal tinha culpa de me sentir assim, já havia feito muito sacrifício para acompanhá-los por todos os lugares.
Ele então pegou uma grande caixa no porta-malas do nosso carro alugado. Esta tinha uma grande etiqueta com a palavra “Sobrevivência”. Isso significava documentos, tecnologia, e qualquer outra coisa que devia estar lá primeiro do que o caminhão de mudanças, caso acontecesse algum imprevisto – Nós precisamos comprar coisas típicas da Inglaterra e do distrito para colocar em nossa casa. – meu pai continuava falando sem parar sobre o nosso adorável distrito da Inglaterra – Será que eles fazem churrascos com os vizinhos por aqui?

Por dentro a casa se mostrava ainda mais maravilhosa. Por sorte, o caminhão de mudanças já havia chegado e o caseiro responsável por nos entregar as chaves já havia colocado boa parte das caixas dentro da casa. Algumas outras foram entulhadas na garagem. Como a casa já estava completamente mobiliada, nossos móveis foram descartados na França. Lembrar disso fez com que o meu mau humor se despertasse novamente. Seria o ápice da minha vida em Cotswold caso o meu quarto estivesse decorado como para uma menininha.
Em vez de todo aquele branco e aparelhos de última geração que às vezes nos davam até ‘bom dia’, nossa casa era 70% madeira. Eu não posso dizer que não era bonita ou aconchegante. Era sim. Mas eu ainda preferia o luxo da cidade grande e da geladeira que me avisava as coisas bobas que sempre esqueço.
Mas a casa em geral não me importava. O ponto principal era: meu quarto. Meus pais haviam avisado que ficava no segundo andar da casa, o que já me agradava. Quanto mais longe do jardim bonito, melhor.
Subi as escadas de madeira e, para minha surpresa, elas não faziam barulhos de velhice como em qualquer casa do interior. Seguindo instruções de meu pai, segui até a segunda porta a direita. Era grande e larga, de madeira escura.
Abri a porta devagar, logo suspirando aliviada. Era um quarto de gente normal. Havia uma cama de casal no meio, um armário grande e cor de marfim do lado direito (será que todas as minhas roupas caberiam ali?). No lado esquerdo uma janela enorme que mantinha uma vista para o Rio Windrush, por vários metros de distância. Na parede em frente à cama, ao lado da porta, havia um grande espelho de corpo todo.
Era o ideal. Parecia um pouco com um quarto de algum filme bobo americano para garotas de quinze anos, só que do interior e caipira. Mas eu ainda achava que, com meu toque pessoal, poderia me sentir bem ali dentro.
Não que eu realmente me importasse na decoração, já que não sabia quanto tempo que poderia chamar aquele local de meu.

Cheguei perto do espelho, meu reflexo parecia cansado e de saco cheio. Minhas roupas ficavam em um contraste absurdo com o quarto, modernas demais. Passei as mãos em meus cabelos, que estavam em um tamanho médio. Eu gostava do que via. Principalmente por ser tão diferente do que via e vi ao meu redor.
O problema de mudar constantemente era sempre o pavor de aceitação, ainda mais quando você tem que enfrentar uma nova escola. Eu estava preparada para ser o centro das atenções em Bourton-on-the-Water?
Sem modéstia ou qualquer outra coisa, eu realmente gostava do que via em meu reflexo. Gostava das roupas que vestia, gostada de minha silhueta e, sem dúvidas, gostava dessa sensação de diferença. Eu sempre tive uma fisionomia normal, me sentia bonita, mesmo sem ter o corpo do que muitos costumam chamar de “gostosa”. Eu sabia que conseguia chamar atenção, se quisesse. Na verdade, sabia que qualquer menina conseguia fazer isso. Bastava autoestima e uma roupa que você julgasse bonita.
Mas, com o pouco que eu tinha visto sobre aquela vila, o medo principal não era ser o alvo de perguntas bobas, como “como é a cidade grande”, “quantos países você conhece” ou “quantas línguas você fala”, mas sim o fato de que, por somente ter quatro mil habitantes, aquele local era o mesmo de sempre. Todo mundo se conhecia, não era possível ser o contrário. Eu teria o desafio de fazer amigos em um lugar que todo mundo se conhece desde que nasceram.

Sacudi a cabeça, tentando me libertar desses pensamentos. Deixaria isso para amanhã, na escola nova. Ajeitei os fios desajeitados de meu cabelo com as mãos, e um movimento pela janela me chamou atenção. Dei passos largos até o local, logo a abrindo para cima, com facilidade. Pelo menos as corredeiras pareciam novas.
A vista era bonita, eu devia confessar novamente. No fundo, bem fundo mesmo, eu via o corte do rio Windrush. Mais perto, campos verdes com muitas árvores e casas de pedras. Vizinhos.
Alguns adolescentes de uniformes, provavelmente da The Cotswolds School (meu pai já deu uma palestra sobre ser a única escola de formação da região e que pessoas de outras vilas vinham estudar aqui), passavam perto do rio, alguns rindo e deitando na grama verde demais. Será que alguém pulava naquele rio intocado? Aquilo era completamente diferente de tudo o que eu já tinha passado em minha vida. Verde demais, sossego demais.
Meu pai apareceu em meu campo de visão, em nosso jardim – Minha querida, sei que a vista é linda, mas venha nos ajudar!
Desci as escadas em passos largos, logo encontrando meus pais. Coloquei algumas caixas para dentro, ajudando com o conteúdo em outras. Mamãe se concentrava nas coisas de cozinha, enquanto meu pai ficou responsável pelos equipamentos eletrônicos e outras coisas da sala de estar. Minha mãe não era nem um pouco tecnológica, mas duvido que fique sem assistir seu CSI diário na televisão paga.

Olhando pela grande janela da frente, uma criança passou brincando com uma bola de futebol, provavelmente indo para o campo verde perto das pequenas pontes.
- Nós podemos tirar um fim de semana e ir até Londres para assistirmos uma partida de futebol. – meu pai chegou de repente, observando a janela junto comigo. Eu nunca gostei muito de esportes, mas era sempre divertido ir a estádios com ele. Em Nova Iorque eu ia assistir beisebol só para usar mãos de espuma gigantes e comer cachorro quente – Estou em dúvida se quero torcer para o Manchester United, Arsenal ou para o Tottenham Hotspur. – ele falava agora mais para si mesmo – Será que Cotswolds tem um clube próprio?
Tive de controlar a minha vontade de rir com sarcasmo. Se Cotswold tinha um time próprio de futebol? Parecia uma boa piada aos meus ouvidos, já que a região não parecia ter ao menos eletricidade.
- Tenho que escolher antes do jogo, porque dizem por aqui que um dos principais rivais do Arsenal é o Tottenham, já que eles disputam regularmente o North London Derby.
Não fazia ideia do que era North London Derby e nem gostaria de saber. Além de ser o rei dos comentários aleatórios, meu pai também ganhava a coroa com suas explicações demoradas. A regra sempre foi: só pergunte algo a papai se você realmente precisa saber, pois perderá bons minutos – e até horas, com suas histórias gigantes sobre tudo.

Chequei meu celular pela décima vez, enquanto meu pai tagarelava sobre alguma coisa sem importância para mim – Vocês realmente me trouxeram para um lugar sem sinal de telefone?
Meu pai parou de falar sobre futebol – Vamos ter internet em alguns dias.
- E até lá eu fico incomunicável?
Mamãe apareceu do nada – Deixe de ser dramática. Até o começo da próxima semana já temos tudo instalado em nossa casa.
Quase sufoquei – O que vocês esperam que eu faça por aqui? – eu fazia gestos exagerados, enquanto eles me olhavam com calma – Querem que eu vá sentar na grama e ler livros de história medieval para saber mais sobre aqui?
Minha mãe revirou os olhos – Faça o que quiser, só não fique reclamando. O lugar é lindo, você vai achar coisas para fazer.
Meu pai parecia concordar – E principalmente ao ar livre! Vai ser ótimo.
Mamãe continuou – , vá conhecer a vila, fazer amigos.
Aquilo me atingiu como uma bala provavelmente faria. Eu não era antissocial, mas, sempre que fazia amigos, nos mudávamos. Era como se minha vida fosse um jogo em que a tarefa para mudar de fase era conquistar amigos.
A olhei de cara feia – Vocês estão mesmo felizes nesse fim de mundo? – deram de ombros – Vou fazer exatamente o que disse, que ai já vamos embora mais cedo.

Sai de casa com mamãe chamando por meu nome, mas já era tarde demais. Eu não queria ser grossa com meus pais. Sempre fomos uma família bem feliz e harmoniosa, mas era sempre difícil nos primeiros dias. E eu sabia que ela entendia isso. Eles tinham a companhia um do outro, em qualquer lugar do mundo. Eu era a filha que tinha que ir junto, apenas.
As ruas estreitas de pedra me deixavam com pior humor. Como alguém pode preferir essa cidade congelada no tempo a uma grande metrópole, onde tudo é completamente acessível, fácil, prático e as suas ordens? Eu não conseguia entender.
Os cidadãos de Cotswolds se encontravam espalhados em pequenos cafés, bancos de pedra nas calçadas e sentados na grama próximo à divisão do rio. Perdi a conta de quantos sorrisos recebi ao passar por tudo aquilo.
Tudo ficava pior ao perceber como Bourton-on-the-Water parecia coisa de filme romântico e meloso. A placa de entrada não mentia nem um pouco, o distrito era sim a Veneza da Inglaterra. As casas de pedra, os caminhos de flores e extensos jardins… E o grande rio cruzando as ruas. Tudo parecia extremamente lindo e perfeito, de um jeito completamente irreal. Romeo e Julieta poderiam facilmente morar aqui com suas famílias complicadas.

Mas o que mais irritava era a falta de sinal. De telefone. Que tipo de cidade, em pleno século XXI, tem problemas com rede telefônica? Eu andava com meu celular em mãos, como uma maluca procurando sinal. Alguns curiosos olhavam as casas ao redor, com câmeras de última geração nos pescoços. Flashes e mais flashes. Poses e mais poses ridículas perto dos grandes lagos e imóveis mais antigos. Turistas. Eu odiava ser turista. Odiava viajar. Mas naquela hora eu queria pertencer ao grupo de viajantes, pois só assim eu não deveria ter de morar no fim de mundo do século X chamado Cotswolds.
Com certeza, Bourton-on-the-Water seria o pior dos treze lugares em que já moramos. Eu estava certa antes mesmo da escola. Na cidade grande eu simplesmente me enfiava entre todos, despercebida, apenas parte de uma multidão. Incrivelmente, eu me sentia parte de alguma coisa, de certa maneira. Em Cotswolds, eu não sabia como fazer aquilo. Não sabia nem como começar. Não queria admitir, mas seria péssimo ser completamente ignorada em uma vila com menos de quatro mil habitantes.
As pessoas pela vila não pareciam ligar para novidades. Eu era uma novidade. Ficaria para trás, com certeza.
Seria apenas mais um ano longo, sem amigos, vivendo num fim de mundo.

A melhor decisão do momento foi sentar em um dos vários bancos velhos de pedra escura, espalhados pela margem do rio. Eu já havia desistido do meu celular. Respirei fundo, analisando ainda mais aquela vila idiota. E, mais a minha direita, havia uma loja de esquina, que se nomeava “Mercearia” no letreiro. Algumas letras ao lado estavam bem apagadas, dificultando minha leitura de longe. Bem original. E caipira.
Andei na direção da tal loja. Talvez eu conseguisse o que queria: meu cachorro. Bem, não exatamente meu cachorro, mas pelo menos uma luz de onde consegui-lo. Meu pai sempre disse que as menores lojas são as que mais possuem informações, porque geralmente são de familiares locais.
O mercado não parecia ser grande coisa, mas provavelmente seria o único na rua onde eu me encontrava. Eu não poderia me deixar se perder em Cotswold. E muito menos em uma vila ridiculamente pequena e velha como Bourton-on-the-Water.
O local era maior do que por fora. O chão de madeira escura parecia ter sido polido a pouco tempo. Diversas prateleiras ficavam no meio da loja, assim como nas paredes indo até o teto, como se fossem armários de madeira antigos com vários nichos. Algumas pessoas olhavam produtos diferenciados nas prateleiras, já que o mercado parecia vender de tudo. Um garoto de cabelos castanhos tentava ajudar uma senhora com um chapéu duas vezes maior que a circunferência de sua própria cabeça. Suas roupas eram mais do mesmo: cinza e cafona, como toda Cotswolds.
Parei no meio das prateleiras, sem saber o que fazer. Era óbvio que ali eu não acharia um cachorro para levar para casa. O menino me olhou de lado e meu coração quase parou quando ele simplesmente deixou a velha de lado e decidiu vir até mim.
Pela primeira vez eu tinha chamado a atenção de alguém naquele lugar idiota. Sua expressão era absolutamente calma, como se fosse normal garotas se perderem pelo mercado da região. Ele parou ao meu lado, deixando um sorriso a mostra.
- Olá, tudo bem? – eu nunca tinha percebido o quanto amava o sotaque britânico. É tão bonito quanto o francês, mas o das pessoas de Cotswold parecia ser mais forte que o normal, mais carregado por ser do interior. Eu poderia falar o dia inteiro se tivesse um sotaque desses. Dois anos na França e eu mal conseguia forçar como eles falam de verdade.
Concordei entre gestos, não querendo prolongar muito aquilo – Você sabe onde eu posso conseguir um cachorro?
Ele franziu o cenho, parecendo pensar – Não acho que temos isso por aqui.
Aquilo era o fim do meu dia – Não há cachorros aqui?
- Claro que tem, mas não para comprar. – acho que a minha reação arrasada o preocupou – Talvez você precise ir a Londres. Tem locais de adoção por lá. – e pareceu dar de ombros – Está de passagem na cidade?
Não consegui reprimir a careta em meu rosto. Podia até ser falta de educação, mas foi impossível. Pelo fato de, infelizmente, eu não estar apenas de passagem e pelo fato de eu querer um cachorro não o faça perceber que eu também moro nesse fim de mundo – Infelizmente não. – suas sobrancelhas se ergueram em surpresa – Moro aqui agora. Acabamos de chegar.
- Possuem parentes por Cotswolds? – balancei a cabeça em negação. Isso fez com que sua expressão se tornasse confusa – Ah, estão vindo de Londres?
- Paris.
- Paris? – as feições confusas continuaram em seu rosto, mas eu juro que pude ver um sorriso reprimido. Qual era a graça por virmos de Paris? – O que te traz até Cotswolds?
- O emprego do meu pai. Ele é consultor financeiro. Está trabalhando com as contas públicas da Inglaterra, algo assim. – sempre foi difícil explicar para as pessoas os motivos de tantas viagens e mudanças, o mesmo para explicar direito o que meu pai fazia. O fato era que, por ser especialista em desenvolvimento econômico de regiões com negócios e indústria de larga escala, ele vivia viajando, de acordo com os interesses dos países. Geralmente era convocado quando algum problema financeiro grande estava acontecendo no local.
As viagens constantes eram chatas, mas o sonho particular que papai tinha de “combater a fraude pública no mundo” (como ele mesmo dizia) era bonito. Humanitário, eu sempre achei.
O foco da vez era a Inglaterra, não sei exatamente o distrito ou condado, mas foi isso que me fez ir parar em Bourton-on-the-Water. Eu não sabia o que estava acontecendo pela Inglaterra e nem me interessava.
- Isso parece complicado. – ele fez uma careta confusa, coisa que eu já esperava. É sempre assim – Mas Cotswold?
Dei de ombros, ignorando seus olhares curiosos. Para que tanto interesse em uma estrangeira qualquer? Parece que isso não acaba nunca – A resposta dele foi “qualidade de vida”. Mas por que a surpresa? Esse lugar é tão caipira assim que não recebe gente da cidade grande para morar?
Seu olhar me intrigava. Globos azuis como o mar. Será que a minha grosseria desnecessária tinha o afetado? Bom, naquele momento pouco me importava. Eu ainda queria um cachorro.
Ele então me observou de cima a baixo, talvez analisando as minhas roupas. Acompanhei o seu olhar. Eu vestia saia e blusa preta, junto com um casaco no estilo sobretudo vermelho sangue. Não havia nada demais, mas já era o suficiente para me destacar como diferente em Cotswold. Mas tanto faz. O que afinal esse desconhecido tinha a ver com a minha vida? – Garotas como você passam por aqui apenas como turistas. Tiram fotos, compram coisas inúteis nos mercados e depois vão embora.
Então estava certo. Eu havia ofendido o primeiro caipira do local.
Naquele momento eu poderia socá-lo até seu rostinho lindo ficar roxo – O que você quer dizer com isso? – espera aí, rostinho lindo? – Quem você pensa que é? Nem me conhece!
Ele mal se afetou com as minhas palavras rudes – Me desculpe se te ofendi, mas só disse a verdade. – e simplesmente deu de ombros – Você não combina com Cotswold.
Por mais irada que eu estivesse aquilo me confortou. Eu não “combinava” com Cotswold. Talvez esse tenha sido um dos melhores elogios que eu recebi nos últimos meses.
Mas eu não podia deixar aquilo barato. Eu não sabia explicar por que, mas precisava jogar minha frustração em alguém – E você? – meus olhos analisaram novamente suas roupas, até chegar ao seu rosto. Trajes cinza e branco, sem personalidade alguma. Nenhum sinal de vergonha ou timidez por parte dele – Fica por aqui espalhando grosserias ou só gosta da velharia?
Seu olhar tranquilo ainda me atingia – Eu cresci aqui, então já me acostumei. Mas desde que visitei Londres vi que a vida pode ser diferente. – ele deu um sorriso para uma senhora que passou entre nós – E eu trabalho aqui, caso não tenha percebido.
Resolvi me calar. Toda a simpatia anterior fora derrubada facilmente. Se todas as pessoas de Cotswold fossem desse jeito, preferia não pedir ajuda para nada durante nossa estadia por Bourton-on-the-Water. Humores voláteis, como na cidade grande. Será que pelo menos isso aquele fim de mundo se pareceria com Nova Iorque ou Paris?
O garoto bonitinho deu de ombros, mexendo em algo nas prateleiras ao meu lado e logo sendo chamado por um senhor usando roupas sociais demais.

Olhei em volta. Eles realmente vendiam de tudo. Nas prateleiras era possível encontrar desde temperos a camisetas com “I LOVE BOURTON” ou “RIO WINDRUSH PASSA AQUI”. Guarda-chuvas, bolsas, itens de farmácia e muitos outros.
Se eles queriam ter uma loja sem definição, conseguiram.
- Está matriculada na escola? – sua voz rouca me atingiu novamente, assim que estava pronta para colocar meus pés fora do mercado. Dei meia volta, observando-o subir em uma pequena escada de madeira velha, para alcançar as prateleiras altas da parede. Nelas, garrafas coloridas com algum conteúdo desconhecido estavam enfileiradas.
- The Cotswold School. – não consegui reprimir uma careta. Até o nome da escola soava velho, chato e antiquado – Se você estuda, provavelmente é lá, certo? Acho que aqui não tem outra escola.
Ele me olhou de lado enquanto colocava algo em uma das prateleiras – Você tem razão. Estudo lá também.
A única coisa que fiz foi um barulho estranho com a boca – Legal.
O garoto desceu a pequena escada, ficando próximo de mim novamente. Seu humor de volta ao modo “simpático”. Deve ser instinto natural dos nativos por aqui – Como você veio da cidade grande deve estar achando tudo um saco, mas você acaba se acostumando. – tive de reprimir uma gargalhada. Quem já morou em Nova Iorque, Paris, Chicago, Flórida e Holanda não se acostuma tão fácil com um fim de mundo que se chama de “Veneza do interior da Inglaterra” – Aqui nós temos algumas coisas legais para se fazer. Tem vários cafés, restaurantes e pubs. E as pessoas gostam de se encontrar, fazer piquenique perto do Rio, essas coisas.
- Tantas coisas, menos cachorros.
Ele soltou uma risada que eu fiz o máximo para não sorrir junto, ainda tinha que me fingir de ofendida – Vá a Londres, é bem perto.

Um garoto mais ou menos da altura do menino entrou no mercado. Seus cabelos claros estavam completamente bagunçados, mas, diferente do outro, suas roupas eram menos sóbrias – E aí meu irmão! Vamos?
O garoto do mercado olhou para ele, concordando de prontidão – Só um segundo, vou pegar minhas coisas lá dentro.
O loiro me olhou de lado, sorrindo de leve. Realmente simpatia deve ser algo normal em Cotswold – Tudo bem?
Apenas concordei com a cabeça. Ele tirou um celular do bolso, discando algumas coisas na tela sensível. Não consegui reprimir um suspiro de alívio. Meu pai não havia mentido, existia sim internet no fim do mundo. Eu só tinha que descobrir como fazer o meu celular funcionar e pronto.
A porta dos fundos se abriu com rapidez e o garoto do mercado saiu depressa, carregando uma mochila preta nos ombros. Ele gritou algo para um homem que havia acabado de aparecer atrás da máquina registradora, logo andando até a nossa direção. Ou melhor, até o seu amigo.
Eles se cumprimentaram com um meio abraço. E depois disso ele olhou em minha direção – Boa sorte com o cachorro, a gente se vê. – e andou para fora do mercado. Antes de sair, virou-se novamente, com um sorriso que julguei ser sincero – Bem vinda a Cotswold!
Ver o menino do mercado com seu amigo havia me machucado. Pois me fazia lembrar um fato bem constante da minha vida: eu não tinha amigos. E, mais uma vez, estava em um local completamente estranho. Sem conhecer ninguém. Doía mais pela nostalgia que eu sentia em todo começo de cidade/país novo. Meus amigos que me acompanhavam até o momento, de longe, faziam mais falta ainda. A minha vontade era de dar uma de rebelde e pegar o primeiro voo até Nova Iorque, só para vê-los de perto mais uma vez.

Sentada mais uma vez no banco gelado de pedra, de frente para aquele rio estúpido, eu via o outro lado da vila, onde dois adolescentes andavam de bicicleta, correndo um atrás do outro. Eu ainda sabia andar naquilo?


FLASHBACK

Eu reclamava pela milésima vez – Eu não vou fazer isso!
Seus olhos verdes reviraram novamente – , deixa de ser menininha.
Fiz uma careta ofendida – Eu não sou menininha!
Bree cortou a conversa, me ameaçando com um empurrão – Anda logo!
Logan ria da minha cara de espanto – Princesa, confia em mim. Está segura.
O medo da vez era: aprender a andar de bicicleta. Quando criança, com todas as viagens loucas, meu pai nunca tinha parado para me ensinar a andar naquele treco. Depois de um joguinho de “eu nunca” ridículo (bem ridículo mesmo, quem diz que nunca andou de bicicleta na vida?), Logan e Bree me obrigavam a andar naquele veículo de morte.
- Eu tenho treze anos e moro perto do metrô. Preciso mesmo fazer isso?
O Central Park estava até vazio para a época. Algumas pessoas passeavam de bicicleta, outras de patins ou skate. No fundo, em uma quadra de baseball, uma gritaria constante.
Bree se sentou na grama, como sinal de desistência – Logan, deixa ela. Quando chegar o dia em que a bicicleta for o único meio de transporte que ela terá, vamos ver como vai ser!
Revirei os olhos em sua direção – Deixe de ser dramática. Onde eu estaria para ter só bicicletas? Na roça? – ela deu de ombros. Logan continuava parado ao meu lado – Não vai me livrar dessa?
- Se você tentar assisto aquele filme de mulherzinha com você.
Aquilo sim foi um incentivo – Pipoca dupla?
Ele riu mais ainda – O quanto você quiser.
Respirei fundo, já imaginando o desespero de minha mãe quando visse o meu futuro machucado – Vamos nessa.

FIM DO FLASHBACK


Observando a vila, via muitas pessoas andando de bicicleta. Parecia ser o transporte mais normal da região.
Ri sem humor algum, falando alto – Bree, sua filha da puta.
Um casal que estava sentado às margens do rio olhou para trás, com cara feia. Nem me dei o trabalho de pedir desculpas, logo saindo daquele lugar.
Derrotada e sem cachorro, meu destino era voltar para aquela casa de comercial de margarina. A caminhada não parecia ser longa, caso eu não me perdesse. Mais uma vez. Não poderia me deixar perder naquele buraco.
Enquanto caminhava, meu casaco vermelho sangue pesava em meus ombros, mas não conseguia me importar com isso. A única coisa que eu não poderia fazer era se entregar a esse universo antigo, como meus pais já haviam feito. Por mais que eu adorasse usar cinza, decidira que aquela cor estava banida do meu armário.

Sem muita dificuldade, cheguei novamente a nossa nova casa. Ela, pra minha raiva, continuava linda.
Adentrei pela porta central, logo encontrando papai e mamãe sentados no grande sofá branco, em frente à televisão um pouco grande mais. A maioria das coisas já tinha achado o seu local apropriado, mas isso não diminuía a sensação de bagunça e papelão amontoado.
E, bom, tínhamos sinal de televisão.
Assim que percebeu minha presença, meu pai logo tratou de dar dois “tapinhas” ao seu lado vago, para que me sentasse – Querida, conseguiu seu cachorro?
- Ainda não, acho que vou precisar ir a Londres.
Meu pai concordou, rindo de algo do filme maluco e preto e branco que eles assistiam. Nós já tínhamos televisão a cabo ou era assim que as pessoas de Bourton-on-the-Water ainda viam seus canais? – Me parece um bom motivo para conhecer Londres.
Me acomodei no sofá branco até que o filme acabasse. Minha mãe subiu as escadas, desejando boa noite. Meu pai zapeava alguns canais, como se buscasse alguma desculpa para que pudesse ir dormir cedo também – Como foi seu passeio? – apenas resmunguei alguns comentários sobre falta do que fazer e a simpatia exagerada das pessoas – Nós conhecemos nossos vizinhos enquanto você estava fora. – meu pai chegava ao canal quinhentos, ainda insatisfeito com a programação – Acho que vai ser fácil fazer amigos por aqui.
Felizmente, meu pai não tinha percebido a ironia em minhas palavras. Pensando no episódio do mercado, me vi falando – Acho que não vai ser tão fácil assim.
- O que, minha querida?
Eu não podia falar para o meu pai, em nosso primeiro dia na cidade nova, sobre como seria difícil fazer novas amizades pela região. Todos se conhecem desde que nasceram, era como se eu fosse o indivíduo extra que ninguém precisava – Nada, pai.
A televisão foi desligada. Meu pai se levantou, logo estendendo sua mão para que eu a pegasse. Nós caminhamos até a escada, subindo-a em seguida. Paramos na porta do meu quarto novo, enquanto meu pai soltava alguma curiosidade sobre o tipo de madeira que usaram na construção da casa.
Algo como do século passado, como Cotswold inteira.
- Nós vamos ser felizes aqui, você vai ver.
Seu sorriso tinha o que eu mais gostava no mundo. Sinceridade. E aquilo fazia com que eu tivesse esperanças de que não fosse tudo como Chicago ou como na França. Seria diferente, pois já estávamos fazendo, infelizmente, o diferente: estávamos no interior.
O maior problema mesmo era saber por quanto tempo seriamos felizes em Cotswold. Ou se o nosso tempo por ali daria tempo de criar algum tipo de felicidade.
Sem ter o que falar, aceitei seu beijo de boa noite na testa – Confio em você, pai.



Capítulo 2 - Comportamentos


"O comportamento é um espelho em que cada um vê a sua própria imagem." (Johann Goethe)

Eu odiava primeiros dias.
Principalmente primeiros dias em lugares que, aparentemente, todos se conheciam há anos.

O caminho da nossa nova casa caipira até a escola não foi um dos piores. Por ser perto, pelo menos não precisava pegar o ônibus cafona e cinza (o subúrbio parecia ter problemas com cores) com pessoas que eu não fazia questão de socializar tão cedo. Eu não tinha nenhum plano para sobreviver àquela escola ou a todos os dias em Bourton-on-the-Water, a única coisa que me vinha à cabeça era reclamar. Com um pouco de insistência, talvez a população de quatro mil caipiras resolvesse ouvir alguém sábio da cidade grande e fazer as coisas do jeito certo.
Seria um ótimo começo que tudo isso fosse demolido e apagado do mapa.
Problema resolvido.
Meus pais insistiam em fazer com que eu amasse o interior. Falavam besteiras sobre ar puro, falta de buzinas às sete horas da manhã de um dia útil e como aquilo iria rejuvenesce-los. Minha vontade era ter um pote com poluição urbana só para jogar em alguém que me enchesse o saco naquele primeiro dia de aula.

Além de toda aquela confusão de nova mudança e novas pessoas, eu ainda tinha que lidar com um fato que provavelmente iria acontecer: por não fazer parte daquele ambiente, eu seria excluída. Não podia deixar que uma cidade pequena como aquela me fizesse sentir excluída. Como eu poderia ser excluída de algo assim?
Por ter chegado à cidade há apenas um dia, meus uniformes não estavam exatamente do melhor tamanho para o meu corpo, o que me fazia sentir mais deslocada ainda. Enquanto as meninas gostosas usavam a saia da menor maneira possível, eu estava me enquadrando nas saias das nerds, esquisitas e renegadas. Em nenhuma escola dos diversos países em que já tinha morado tive de usar uniformes tão clássicos e antiquados quanto aquele. Eu me sentia indo para alguma aula de poção junto com o lerdo do Longbottom (já que, de acordo com meu sábio pai, algumas gravações de Harry Potter foram feitas por toda região de Cotswolds).

O diretor da renomada The Cotswold School me olhava com atenção.
— Você já passou por muitas escolas. — e sorriu amarelo. A minha cara feia não se alterou — Mas muito boas, por sinal. Tenho ótimas recomendações.
Recomendações? Meu pai havia aprontado mais uma vez. Que tipo de pessoa que troca de escola dez vezes tem alguma boa recomendação? Não fiz nem questão de responder ao senhor grisalho sentado à minha frente.
— A senhorita tem algum interesse nas matérias extracurriculares de nossa instituição?
— Sinceramente? — ele acenou em afirmação, ainda mantendo seu sorriso moldado no rosto velho — Não. —, que, depois de minha pronúncia, murchou.
— Bom, nós temos muitas atividades interessantes. Teatro, Ciências, Esportes… — continuei olhando-o sem expressão alguma — Acho que a senhorita pode analisar melhor nossas opções, pois todos os alunos devem fazer atividades extras para concluir sua formação.
— Até mesmo os que provavelmente não estarão por aqui até o fim do ano letivo?
Eu não me encaixava no tipo de garota problema. Nem um pouco. E nem gostaria de ser a rebelde da cidade cinza e sem sal. Mas aquela escola e todo o ambiente rústico e imbecil de Cotswold me tiravam do sério. Toda aquela gentileza, fofura e falta de sujeiras nas ruas, tudo, completamente tudo, me irritava. E isso afetava diretamente meu humor e simpatia.
Talvez eu realmente precisasse de um plano para irmos a Londres o quanto antes.
Quando saí da sala do diretor até me senti mal, eu realmente não era esse tipo de pessoa, mas já havia passado. Provavelmente eu ia ser vista como um problema de curto tempo para a diretoria, já que, pelo meu adorável histórico, ele também não imaginava que eu fosse ficar muito tempo pela região.

Ao sair da sala do diretor, encostei meus ombros lentamente na parede branquíssima dos corredores, aguardando a pessoa que vinha me ajudar com a escola. Eu não conseguia parar de questionar que tipo de lugar tinha aquilo. Quem precisava de um orientador particular em uma escola no meio do nada?
A falta de imperfeições em Bourton-on-the-Water era surreal. Eu observava as pessoas andando pelo pátio super bem ornamentado e se esquivando pelos corredores com armários recém-pintados. Nada daquilo parecia certo ou normal. Os uniformes passados demais, os cabelos dos alunos brilhantes demais. Sorrisos demais às sete da manhã. Parecia que eu estava vivendo um dos piores filmes da atualidade, onde todos exalavam uma felicidade constante e eu simplesmente não conseguia sentir o mesmo.
A última pessoa que eu gostaria que fosse meu orientador na escola era algum popular fútil ou a garota mais linda do lugar. Meu uniforme era o mais cafona, eu tinha mau humor e não havia penteado os cabelos ao sair (como forma de protesto). Mas, como o destino nunca foi muito favorável aos meus desejos, vi uma garota perfeita caminhando até a minha direção, cumprimentando quase todos que passavam pelo largo corredor. Ela mantinha seus cabelos perfeitamente loiros moldados por uma tiara dourada, assim como o sorriso extremamente branco em seu rosto. Suas vestes eram as mesmas que as minhas, na técnica, pois eu parecia muito uma versão pobre das princesas da Disney perto daquela perfeição toda.
— É , não é? — a menina me olhou de lado, guardando alguns papéis em sua prancheta branca. Concordei em um sussurro. O que aconteceu comigo? Uma garota perfeitinha do interior não teria poder algum contra mim — Seu nome é lindo. Último ano? — ela me entregou uma pastinha com vários papéis dentro.
— Obrigada. — peguei o objeto em suas mãos, com cuidado — Sim, último ano.
Ela parou à minha frente, sorrindo abertamente:
— Sou Zara Ward. Penúltimo ano, chefe da comissão estudantil de direitos humanos. — ela fez uma careta — E sua orientadora na escola.
Ótimo. Até nome de princesa ela tinha.

Após sua apresentação nada modesta, Zara me levou em todos os cantos possíveis da escola. Para uma cidade do interior onde cabras, ovelhas e feno são atrações principais, a escola era grande. O suficiente para que eu me sentisse completamente perdida entre corredores, grandes portas e muita gente. E para uma cidade do interior onde não existem cachorros para se comprar ou adotar, havia muitas crianças e adolescentes pelo pátio principal. Se existia algum lugar secreto na vila onde os alunos pudessem descontar suas frustrações com cigarros, bebidas, baseados ou fazendo sei lá o que, eles escondiam bem.
— Nossa escola recebe todos os estudantes das regiões próximas. Stroud, Stow-on-the-Wold e outros. Por isso você vai ver muita gente que não pertence à nossa vila. — concordei com um gesto enquanto olhava as pessoas passando pelos enormes corredores — A psicóloga da escola quer vê-la depois. — ela ainda sorria para mim. E eu já estava extremamente cansada disso. Além dos olhares que recebíamos constantemente dos demais alunos. O pior era receber esses olhares por estar ao lado de Zara, somente — Você pode ficar depois do horário algum dia?
— Psicóloga?
— Procedimento padrão para novos alunos. — assim que ela terminou de rabiscar algo na prancheta, levou seus olhos até os meus — Te vejo mais tarde, boa aula!
Só então eu percebi que estava parada em uma das diversas salas de aula da The Cotswold School. E na grande porta estava o mesmo número que constava na primeira folha do meu papel de admissão.
Quando estava pronta para entrar na sala, Zara deu meia volta, me chamando alto pelo nome. A garota loira continuou me olhando. Sem entender nada, continuei parada em meu lugar.
— Você não pode usar isso.
— O quê?
— Seu casaco. — ela disse com a maior naturalidade possível, me analisando novamente — É vermelho. As cores da escola são cinza, azul e amarelo.
Analisei meu sobretudo vermelho sangue. Eu com certeza teria um azul no armário.
— O de cor azul está em casa, o que eu tenho que usar?
Zara deu de ombros.
— O suéter da escola.
Reprimi uma careta.
— Esse? — apontei para ela — Cinza?
A garota sorriu um pouco.
— Cinza. Te vejo depois.
Me dando por vencida, retirei a última peça de roupa que me separava da cafonice caipira de Bourton-on-the-Water. A partir daquele momento, eu era um deles, já que, pelo menos na The Cotswold School, era obrigada a ser como todos.

As aulas passavam com uma velocidade fora do normal, fazendo com que eu tentasse arrancar meus cabelos de quinze em quinze minutos. Por ter chegado à vila e à escola no meio da semana, me sentia completamente perdida, e nem aquela prancheta perfeita demais iria me ajudar com os desafios do dia.
Eu fazia o máximo para prestar atenção no que os professores diziam, mas a minha mente ia para longe. Meus olhos analisavam cada canto da sala, cada rosto, cada acessório esquisito e cinza, talvez buscando algo que fosse um pouco familiar para mim, algo que eu pudesse reconhecer e tentar uma aproximação. Primeiros dias eram sempre terríveis e, com o meu mau comportamento, as coisas poderiam ficar piores.

Depois de me perder em alguns corredores largos demais, consegui finalmente adentrar a sala de literatura inglesa (coisa que eu não estava nem um pouco feliz de encontrar na minha grade de horários). Contornando com os olhos todos os presentes, eu o vi. Com seu cabelo bagunçado, o jeito desleixado de sentar na carteira ridiculamente branca e sua jaqueta de couro. Sim, jaqueta de couro. No meio do mar cinza de alunos, ele usava uma jaqueta de couro preta. Mesmo olhando de longe, parecia a solução de todos os meus problemas com Cotswold.
Seus olhos extremamente azuis me acompanharam até que eu me sentasse na cadeira ao seu lado. Felizmente, era a única disponível.
No fundo e ao lado do possível rebelde de Bourton-on-the-Water.
Pelas cidades e países que tinha passado, mesmo sendo difícil fazer e manter amigos, não era tão complicado assim arrumar alguém para um relacionamento curto. Depois de Nova Iorque, onde tive um namorado (o primeiro e de verdade), a tristeza daquele estranho fim de uma relação tinha mexido um pouco com a forma com que eu agia em frente aos garotos. Eu não era o tipo de menina que ficava com todos, mas, quando gostava do que via, me esforçava um pouco para ter.
Lembrar de Logan, meu ex-namorado da América do Norte, ainda me deixava um pouco nas nuvens. Mesmo com um quase fim conturbado e com várias histórias que tivemos, era complicado pensar que provavelmente nunca ficaríamos juntos. Na França, depois que nos vimos, a separação foi tão difícil que eu tinha decidido que iria acabar com aquela tortura e que tentaria manter a melhor distância enquanto ainda sofresse com as frequentes mudanças de papai. Logan era alto, com os olhos verdes como um oceano provavelmente era de pertinho. Seu sorriso era lindo e me fazia derreter toda vez em que o via. Nosso envolvimento começou com uma amizade inocente e, quando vimos, já éramos um casal sem ao menos nos beijar. Era incrível pensar em como éramos inocentes, de verdade.
Mas, pensando nos outros lugares em que estive, Logan era a curva fora do meu “perfil” de garotos. Sempre tive uma queda por caras mais decididos e diferentes, e provavelmente em Cotswolds não seria ao contrário, já que a única pessoa que tinha chamado a minha atenção até o momento era a que vestia uma jaqueta de couro — indo na contramão total de toda a região.

Durante toda a aula chatíssima, senti o olhar do menino me queimando. Eu estava pronta para perguntar qual era o problema dele, mas não podia perder a oportunidade de fazer alguma amizade. Já pelo estilo ele era diferente. Talvez fosse diferente também dos demais habitantes de Bourton-on-the-Water e se interessasse por novidades. No caso, a novidade do momento era eu. E eu faria o rebelde da sala se interessar por mim.
Ter alguém para passar o tempo seria mais fácil do que arrumar novos amigos. Poderia já estar imaginando coisas demais, mas o garoto parecia um bom escape para a solidão que daqui uns dias me alcançaria.
Senti algo tocando meu braço, o que me fez sair daquele devaneio em plena sala de aula. Assim que virei o rosto, meus olhos se fixaram naquele oceano azul escuro.
— Você é a menina que chegou da cidade grande.
Aquilo não foi uma pergunta.
— Eu mesma.
Ele reprimiu uma risada, que parecia irônica. Só deixava melhor a sua pose de bad boy — Bom, seja bem vinda a Cotswolds.
Fiz uma careta.
— Obrigada, eu acho.
Ele piscou o olho direito, logo saindo da sala de aula como se nada tivesse acontecido. Na minha mente aquilo já era um baita progresso. Eu havia falado com alguém interessante no meu primeiro dia.

Ao reparar que metade dos alunos se levantaram em direção à saída da sala junto com o menino rebelde, voltei a me sentir perdida naquela multidão. Parecendo perceber minha confusão, a garota que estava a duas cadeiras à minha frente me encarava com uma expressão divertida no rosto.
— Precisa de ajuda para procurar a próxima aula?
Seu sotaque era mais forte do que o do menino do mercado e isso me fez suspirar. Eu nunca conseguiria ter aquilo e, assim, sempre seria a pessoa diferente do local. Não que eu quisesse ser comparada a algum caipira da Veneza da Inglaterra, mas não era nada legal ser a pessoa mais deslocada da região.
Peguei a pasta com vários papéis que tinha recebido mais cedo, a qual eu ainda julgava completamente desnecessária, já que não me ajudava a andar por aqueles corredores imensos. Li a terceira linha do material, que dizia “Biologia II”. Meu estômago chegou a embrulhar.
— Biologia II. Tenho que andar mil quilômetros para chegar lá?
A menina sorriu. Sua pele escura brilhava com o pouco sol que batia da janela do canto e isso só a deixava mais bonita. Eu gostava daquilo, parecia diferente também. Como eu.
— Me chamo Mila. — seu sorriso (branco demais, como todos da vila) pareceu o mais convidativo até o momento. Até mesmo que o do rebelde. Então foi impossível não retribuir.
.
— Sua aula é aqui mesmo. Quer sentar ao meu lado?
Peguei minhas poucas coisas e andei até a cadeira ao lado de Mila. Seria legal ter uma boa companhia durante a morte que estava por vir em Biologia II.
— Obrigada.
O sinal tocou e uma nova quantidade de alunos adentrou a nossa sala de aula. Em questão de segundos, um professor alto e careca já estava falando coisas que não pareciam nem um pouco interessantes.
Eu sentia o olhar de Mila ao meu lado, mas, mesmo gostando da aura da menina, não estava a fim de ser a pessoa nova que socializa com todos no primeiro dia. Com esse mau humor, mantive minha postura até a tortura de uma hora e quarenta acabar.

Eu esperava milhões de perguntas sobre a cidade grande, minha vida e o porquê de meus pais estarem me torturando com o interior. Mas em nenhum momento Mila ou alguém da The Cotswold School pareceu interessado na nova menina problema do local. Eu poderia conviver com aquilo, já que realmente não gostava de responder às mesmas perguntas de sempre. “O metrô é realmente aquilo que a gente vê nos vídeos do Facebook?”, “Os prédios são realmente daquele tamanho, igual nos filmes?”, e o famoso “Você já viu tal artista em tal lugar?”. Sempre um horror. Principalmente pelas pessoas se interessarem apenas pelos estereótipos de cada lugar em que já vivi. Isso me faria pensar se, daqui há alguns anos, alguém me perguntaria algo sobre Bourton-on-the-Water. Eu não saberia o que responder de bom.
Vila de quatro mil habitantes, no meio do nada, que possui um campeonato esquisito de futebol no Rio esquisito que corta todo o local.
Não tinha atrativos nem para escrever um parágrafo completo.
Antes de sair da sala, Mila me encarou com seus olhos brilhantes.
— Fiz algo que te chateou?
Fiz uma careta ao levantar da minha mesa. Seu olhar era extremamente preocupado. Se eu questionava o meu comportamento grosseiro na vila, eu também questionava a gentileza exacerbada da população local. A menina acabou de me conhecer e estava muito preocupada comigo. Isso daria um bom filme de terror.
— Não, está tudo bem. — ela não pareceu convencida, pois sustentou aquele olhar. Por que ela simplesmente não poderia ser como as pessoas da cidade grande? Se eu esbarro em alguém em Paris ou deixo alguém falando sozinho em um corredor de Nova Iorque, sou simplesmente ignorada. Fácil, simples e prático. Custava muito a galera se esforçar desse jeito? — O que foi?
Mila sustentou o olhar por mais alguns segundos, dando de ombros em seguida.
— Nada.
Saímos da sala lado a lado, entrando naquele mar de pessoas no corredor recém encerado. Mila acenava para diversas pessoas e aquilo fez com que meu coração congelasse. Eu realmente não queria me envolver com pessoas populares da escola de adoradores de feno.
— Por favor, não me diga que você é popular na escola.
Ela franziu o cenho como se minhas palavras tivessem saído em mandarim.
— O que te leva a pensar que eu sou popular?
Me ajeitei nas roupas cinzas cafonas e grandes demais, tentando disfarçar a irritação.
— Você não para de falar com todo mundo.
, essa é uma cidade pequena. Todo mundo se conhece. Eu entendo que você deve ser uma garota criada em cidade grande, mas tem que se adaptar ao interior. Todo mundo se cumprimenta por aqui.
Aquilo era o suficiente para que eu fugisse de Mila, antes que meu mau humor liberasse uma voadora na menina, que não tinha nada a ver com a minha merda de vida.
Resolvi ignorar seu comentário.
— Ah, você sabe onde eu consigo um chip novo para o meu celular? — a menina balançou a cabeça em afirmação, como se essa fosse a parte mais fácil do seu dia.
— Claro. Vai até ao mercado depois da ponte de pedra. Tem uma fachada antiga, mas lá você encontra de tudo.
Ótimo. Eu teria que voltar no último lugar que gostaria de ir.
Sorri para Mila, já andando em direção ao portão de saída da escola, pronta para ficar livre de toda aquela educação com desconhecidos.
— Obrigada!

Eu novamente procurava por rostos conhecidos no pátio de saída, apenas para me enganar. Quem conhecido eu poderia achar em uma cidade em que estava há apenas um dia? De longe vi o menino do mercado. Ele cumprimentou rapidamente uma menina de cabelos castanhos, sem parecer ter muito interesse. Provavelmente o caipira local era a sensação da escola e era só isso que me faltava.
Apertei o passo para fora da The Cotswold School, visto que um grupinho de meninas mais novas já começava a fofocar com os olhares pesando sobre mim. Eu não tinha tempo para aquilo e nem queria me interessar sobre possíveis fofocas da escola sobre a “nova garota da cidade grande”. Ser essa pessoa já era o suficiente para meu dia ficar ruim.

Decidida a fazer o caminho de casa sem me perder, ouvi um assobio muito perto. Na cidade grande eu nunca olharia para trás, mas meus sentidos estavam esquisitos no interior.
O menino rebelde da jaqueta de couro acenava. Parei de andar até que seus passos me alcançassem. O garoto jogou sua mochila no ombro direito, me olhando de lado.
— O que achou do seu primeiro dia?
— Uma morte menos terrível do que eu esperava.
Ele riu pelo nariz.
— Com o passar dos dias piora. Está indo para casa?
Dei de ombros. Eu queria ser simpática com ele (já que queria que o menino rebelde tivesse interesse em mim), mas não queria companhia até o mercado do garoto louco. Deus, como pode ser difícil ter bom humor.
— Indo para casa.
O menino continuou andando ao meu lado.
— Meu carro fica do outro lado.
Fiz pouco caso. Não queria saber porquê ele iria embora de carro numa vila onde temos quatro mil habitantes. E eu também não estava na minha melhor aparência, então queria fugir daquele papo o mais rápido possível. Precisava ajustar aqueles uniformes e pentear o cabelo para colocar o meu plano em prática.

Andando da escola até nossa casa caipira, o menino rebelde permanecia ao meu lado e isso só me fazia questionar onde estaria o tal carro do garoto. Acabamos passando em frente ao mercado “vende de tudo”. Parei próximo à entrada, o que fez o menino me olhar com interesse.
— Você mora por aqui?
Achei uma pergunta boba, porque perto do mercado só se via outras lojinhas específicas e restaurantes pequenos. E também pelo “por aqui”, como se a vila fosse algo que não pudesse ser contornada a pé em alguns minutos.
— Preciso ver se tem algo no mercado para o meu celular.
Ele ajeitou a mochila novamente nos ombros.
— Meu carro está do outro lado da ponte. Te vejo amanhã na escola?
Tive de sorrir, já que o interesse dele em mim fazia com que eu me sentisse menos deslocada dentro daquela vila.
— Claro. A gente se vê.

Adentrei o mercado em passos largos, sem fazer questão de olhar quem estava presente no balcão, mas sabia que o garoto do mercado poderia estar por lá. Não queria gastar minha saliva com novas conversas. Comigo, havia mais duas pessoas olhando as prateleiras e eu realmente achei que eram turistas pela quantidade de souvenirs e camisetas esquisitas da região que carregavam em suas pequenas cestas de ferro. Na pequena parte de “faça você mesmo”, eu olhava todas as cores de linhas, tentando achar a mais próxima do cinza cafona dos uniformes.
Mesmo estando bem concentrada em minha tarefa, com o canto dos olhos vi o menino que já esperava atrás do balcão principal. Ele passava as compras de alguém no computador. Com o passar dos minutos dentro do mercado e encarando aquela quantidade precária de carretéis de linha, sentia o olhar do menino do mercado me queimando, mas realmente não estava afim de mais conversa com desconhecidos. Todos os tipos de linhas pareciam distantes demais e aquilo começava a me irritar. Eu continuaria com os uniformes mais desajeitados da região.
Cheguei mais próximo do balcão, colocando os dez carretéis coloridos que mais pareciam chegar perto das cores bizarras da The Cotswold School. O menino do mercado me olhou de lado, já começando a passar os pequenos pacotinhos na caixa registradora.
— Só tem essas cores?
Ele mal olhou para minha compra.
— O cinza mais claro deve ficar bom no uniforme. Já precisei usar uma vez.
Concordei com um gesto.
— Eu preciso ir a Londres para fazer meu celular funcionar ou é só cachorros que não temos por aqui?
Esperava por um sorriso ou um olhar qualquer, mas sua expressão dura não se alterou.
— Temos alguns acessórios por aqui.
Respirei fundo, um pouco intimidada por toda aquela dureza.
— Você sabe o que é um nano chip de celular?
Ele franziu o cenho, finalmente levando seus olhos até os meus. Só aí percebi que o menino também usava as roupas cinzas da escola. Parecia cansado e eu arriscava dizer que ele estava com a pele mais branca do que da última vez.
— Qual o modelo do seu celular?
Tirei o mesmo da mochila.
— Esse aqui. Você não deve conhecer.
Ele franziu o cenho novamente, como se tivesse ficado ofendido com a minha afirmação. Eu era obrigada a saber se alguém do interior entendia de tecnologia?
O menino foi até o canto do balcão e pegou uma embalagem rosa demais.
— Está aqui.
— Vocês só têm essa marca?
Eu não entendia nada de telefonia na Inglaterra, mas, a julgar pela primeira impressão do pacote, aquilo provavelmente não era a melhor opção do país.
O menino fez pouco caso.
— É o que os turistas mais compram.
Tive de rir.
— Por falta de outra opção neste fim de mundo, não é?
Ele nem sequer me olhou.
— Se você quer que o seu telefone funcione por aqui, vai ter que ser esse mesmo.
Resmunguei em voz “baixa” (ou pelo menos tentei):
— Realmente não dá para esperar grande coisa dessa vila caipira.
— Você só morou em cidades grandes? — me surpreendi com sua pergunta.
O olhei sem pudor. Seus olhos pareciam mais claros do que da última vez que o vi.
— Pareço com alguém que já usou botas de cowboy e coletou feno por aí como vocês?
O garoto do mercado pareceu me ignorar novamente, colocando o chip no balcão. Sua voz se mantinha firme, mesmo que seu sotaque carregado demais deixasse tudo mais leve.
— Já que nada aqui é à sua altura, vá procurar em outro lugar. — e finalizou com um sorriso que eu julguei como cínico — Aliás, boa sorte com isso.
Eu precisava, mais do que tudo, arrumar um jeito de sobreviver e permanecer sã no interior. Principalmente onde o único lugar que vendia coisas diferentes na região era velho e decadente. E aparentemente tinha como vendedor um garoto que não ia com a minha cara. Não queria brigar com as pessoas e nem mesmo ficar explicando como a cidade grande era 100% diferente de tudo aquilo que eles conheciam. Ficava cansada só em pensar nesse debate desnecessário de “interior decadente cheio de feno e velharia” x “cidade grande desenvolvida e moderna”.
— Obrigada. — sorri com vontade — Sua grosseria me faz lembrar a cidade grande. Vocês aceitam libra aqui ou é alguma moeda do século passado?
Ele continuava sem expressão ao contar o troco.
— Obrigado pela preferência.
Eu realmente não sabia de onde tinha saído aquela ignorância, mas provavelmente, por algum motivo (além do meu mau humor), eu tinha pisado no calo do caipira da Veneza da Inglaterra.

Saí do mercado a passos largos, logo dando de cara com a menor ponte de pedras já construída no mundo (sem exageros, pois provavelmente era sim). Ela ajudava a atravessar uma parte mais estreita do Rio Windrush, onde ao redor tinha muita grama verdinha e bancos de pedra para admirar a região. O lugar era bonito, isso eu não podia negar, mas ainda era velho e pequeno. Meu único pensamento era se o rio poderia ser fundo o bastante para que eu me afogasse junto com meu uniforme cinza.

Mesmo sem referência alguma, aquela pintura natural me lembrava bons lugares…

FLASHBACK Bree escovava os seus cabelos acobreados pela milésima vez.
— Você sabe o que fazer, não é?
Eu não fazia a mínima ideia do que fazer, mas não queria demonstrar minha insegurança. Os meus quatorze anos recém-feitos me davam uma coragem incrível.
— Claro! Já li todas as revistas possíveis.
Minha amiga concordou.
— Use todas as dicas, então. Eu não posso te ajudar muito com isso.
A questão da vez era: Logan tinha me convidado para uma tarde no Central Park. Não era o lugar mais romântico do mundo, mas tínhamos um local preferido: uma escada de pedras perto do chafariz. Me lembrava os filmes bobos que costumávamos ver juntos. E eu estaria tranquila como nos filmes, mas Bree insistia em dizer que aquela seria a data do nosso primeiro beijo.
Aquilo me dava arrepios dos pés a cabeça.
Ao chegar ao nosso ponto de encontro, Logan já me esperava com um grande sorriso nos lábios. Seu cabelo claro e olhos verdes pareciam mais convidativos do que nunca. Nos abraçamos e sentamos em um local próximo ao chafariz, mas ainda um pouco distante da multidão que costuma passar diariamente no local.
Pela minha expressão de pânico e falta de assunto (o que era bem raro), o menino deu uma risada.
— Bree encheu a sua cabeça?
Meus olhos se arregalaram ainda mais.
— Sobre o quê? O que aquela mentirosa te disse?
Logan deu de ombros.
— Não me disse nada, . Eu só te conheço bem demais. E conheço nossa amiga também.
Minhas bochechas queimaram, mas felizmente eu não corava com facilidade.
— Desculpe, só estou nervosa.
Ele pareceu mais curioso, sem deixar o sorriso no canto dos lábios.
— E posso saber por quê?
Eu tinha que ser direta ou teria um infarto a qualquer momento.
— Isso é um encontro?
— Tudo que chamo você para fazer é um encontro. — eu não tinha uma resposta para aquilo — Eu gosto de você.
Meu coração batia de forma descompassada, como se fosse sair do meu peito. Eu já esperava alguma confissão, pois sentia um clima entre a gente. A verdade era que eu não sabia que ia ser tão direto assim. Logan costumava falar o que vinha a sua cabeça, e dizer o que sentia por mim, pelo jeito, não ia ser diferente.
Abri a boca várias vezes para dizer algo, mas nada saía.
— Logan…
— Não precisa se declarar, . Só quero saber se você sente o mesmo.
Depois de segundos estática, sofrendo por dentro, com aquela ansiedade gritando em todo meu corpo, me permiti soltar as palavras que tanto guardava há um tempo.
— Eu gosto de você.
Logan sorriu.
— Ótimo. — e um segundo depois nossos lábios já estavam colados.
FIM DO FLASHBACK

Além de lembranças boas em um lugar que eu amava, isso me fazia lembrar também a possível quantidade de mensagens que teria em meu celular e e-mail. Aquele pensamento fez com que eu suspirasse alto. Eu sentia falta de ter uma conversa com alguém que já me conhecesse e que já soubesse pelo menos o mínimo sobre minha personalidade, gostos e problemas de família.
O episódio com o menino do mercado só servia para confirmar uma coisa: seria realmente difícil ter amigos em Bourton-on-the-Water.
A única alternativa era andar até nossa nova casa, respirando todo o ar puro demais de Cotswolds.


***


Pensar sobre meu comportamento me afetava um pouco. A cada cidade que passávamos (ou país ou continente), minha defesa pessoal ganhava mais um alerta. Ficava cada vez mais difícil me abrir com alguém ou simplesmente aceitar uma gentileza a toa. Lembrar da menina da sala de aula me deu dor no estômago. Por que eu tinha que ser desse jeito?

Encarando a tela do meu notebook, eu só conseguia constatar uma simples questão: ainda estávamos sem internet. Papai tinha prometido que tudo estaria resolvido no primeiro dia da mudança, mas ele sempre era enrolado com tecnologias e coisas parecidas. Tudo que fosse além de seu tablet e jogos de aplicativos já parecia complexo demais para ser resolvido sozinho.
Mesmo sem conexão com o mundo de verdade (e com a cidade grande, claro), vasculhei algumas pastas antigas da máquina, sem procurar algo específico. Eu não queria olhar fotos antigas e muito menos conversas salvas no histórico do computador. Queria apenas que alguma coisa fizesse sentido para mim nos próximos dias. Meu irmão sempre costumava dizer que o ser humano consegue sobreviver apenas cinco dias sem comunicação com o mundo exterior, e eu já estava há quase dois dias completos sem telefone, internet ou qualquer mensagem de alguma rede social.

Fechei o computador com pouca delicadeza, talvez tentando descontar a minha frequente frustração naquele ato. Olhando minha janela grande demais eu podia ver boa parte da vila, além do corte do Rio Windrush e as bruscas pontes de pedras por toda a sua extensão. Algumas pessoas passavam andando calmamente, outras com mais velocidade em suas bicicletas top de linha.
Eu realmente não estava afim de abraçar o interior como meus pais tanto desejavam, mas precisava de um plano urgente para conseguir sobreviver ao lugar sem danos muito sérios. A ideia seria me ocupar com a maior quantidade de atividades possíveis, para que o interior realmente não me afetasse tanto. Faria com que papai me levasse a Londres todos os finais de semana e, com certeza, conseguiria o meu cachorro o quanto antes.
Ele seria o responsável por escutar todas as minhas lamentações.

Ouvi duas batidas fracas, o que fez com que minha atenção se virasse para a porta agora aberta. Meu pai entrou no quarto com uma das mil caixas que estavam espalhadas no corredor do andar superior. Ele fez uma careta, como se já se arrependesse da discussão que ele mesmo iria provocar.
— Querida, você sabe que temos um prazo de 48 horas para desfazer caixas e malas.
Sim, eu sabia. Era uma regra boba que minha mãe havia inventado com meu irmão mais velho, Arthur, alguns anos atrás. Ao contrário de mim e papai, os dois não conseguiam suportar um resquício de bagunça.
E eu tinha escolhido que aquela provocação iria ficar algumas semanas espalhada pela casa.
— Como tive que ir para a escola no dia seguinte, eu tenho direito a mais prazo.
Ele ponderou a minha resposta, provavelmente agora se arrependendo da discussão que iria travar com mamãe depois.
— Domingo?
Sorri fraco.
— Vou fazer o meu melhor.
— E como foi o primeiro dia de aula?
Dei de ombros.
— Como todos os outros.
Meu pai pareceu pensar, finalmente colocando a caixa perto da cama de madeira.
— Fico feliz. Me deixe feliz também com essas caixas, por favor.
— Claro, pai.
Assim que ele ia deixar o quarto, voltou para soltar uma pequena bomba:
— Domingo vamos receber algumas pessoas da vila aqui em casa. Não fuja.

Minha expressão nem se alterou, mesmo que meu coração pudesse estar batendo um pouco mais forte que o normal. Era esperado que meus pais fizessem isso, principalmente no interior. Sempre quando nos mudamos para uma cidade nova, eles faziam questão de convidar os vizinhos mais próximos do nosso apartamento e então era organizado um grande jantar de “boas vindas” (para eles mesmos).
Suspirei pela décima quinta vez no dia. Além de mil caixas, o final de semana seria de tortura social.


Os próximos dias na The Cotswold School foram tranquilos e sem muitas novidades. Por ter chegado no meio da semana, e também por já ter perdido duas semanas chatíssimas de aulas, eu fazia o possível para não dormir na sala e conseguir acompanhar o ritmo dos outros alunos. Eu poderia reclamar do chão branco demais, das paredes esquisitas, dos armários perfeitos e dos alunos sorridentes, mas ficava difícil tentar falar mal do ensino da instituição. Se havia uma escola utópica para ser estudada sobre o seu funcionamento, provavelmente seria aqui na Veneza da Inglaterra.
Durante o intervalo, procurei me sentar com alguém próximo da última aula que tive, para tentar aproximação pelo menos para conseguir as matérias das semanas anteriores. Mesmo de mau humor, aquele ainda era o último ano do ensino médio, e não dava para queimar mais ainda o meu currículo estudantil. Meu pai tentava consertar com jantares, indicações e alguns favores, mas quase sempre não funcionava.
Lanchei com uma menina engraçada no segundo dia e ouvi muitas fofocas da escola, mesmo não conhecendo ninguém. A garota parecia feliz em ser a primeira a contar os podres da galera para a novata.
No dia seguinte, consegui três companhias para o intervalo. As meninas, que provavelmente se conheciam desde a infância — já que falavam sobre diversos assuntos de forma íntima, pareciam animadas demais com a minha presença. Como sempre, respondi perguntas bobas da cidade grande e, principalmente, sobre qual era o meu tipo de garotos (aparentemente o interior tinha um tipo certo também que eu não me encaixava). As três meninas loiras, as quais eu nem lembrava o nome segundos depois de sermos apresentadas, eram legais, mas nenhuma conexão tinha sido feita entre nós. Eu não ia aguentar estar em um grupo onde se combinava a cor de esmalte em cada semana.
Realmente, se isso era Cotswolds, eu era bem diferente.

Ainda vestindo roupas largas demais para o meu corpo, fui obrigada a ir até a psicóloga da escola, o que já tinham me comunicado que era uma atividade obrigatória entre novos alunos. Depois daquela tortura, que faria com que eu ficasse mais uma hora extra dentro da escola, eu correria para casa e ajustaria todas as minhas roupas, pois já estava cansada de puxar a saia cinza e cafona a cada dois minutos.

Assim que cheguei à secretaria geral de alunos (que tipo de escola precisa de uma secretaria para cada nível escolar?), uma mulher baixinha me direcionou até a sala de acompanhamento psicológico, mais para o final do corredor. A sala era branca demais, com móveis de madeira de lei e grandes poltronas azuis, uma das cores da escola.
Sentada em frente a uma grande mesa, estava a tal psicóloga. O nome Silver Williams pousava em uma placa dourada e enorme em cima da mesa.
Me aproximei, logo sentando em uma das poltronas grande demais. Seu sorriso se iluminou.
! Que prazer te conhecer.
Apenas assenti com a cabeça, esperando aquele teatro acabar o mais rápido possível.
— Li sua ficha e achei incrível. Quantas mudanças?
— Treze.
— Quantas línguas você fala?
Fiz uma careta, me surpreendendo com a pergunta.
— Três.
Não era surpresa que, depois de tantas mudanças, o Inglês não fosse meu único idioma. A verdade era que eu aprendia com mais facilidade por viver nos lugares por um tempo considerável. Com Inglês e Francês tinha sido assim. O Português eu herdava da família, mesmo tendo saído do Brasil com menos de um ano. Minha mãe insistia que saber Português ainda seria um diferencial para mim em algum estágio da vida. Como não tínhamos voltado no Brasil desde os meus cinco anos de idade — e também não tínhamos plano algum de parar em Portugal ou algum país doido da África, eu realmente duvidava daquilo.
Silver anotava tudo em um caderno minúsculo.
— Bom, deixa eu me apresentar. Sou a doutora Silver Williams. — e apontou para a placa ridícula com o seu nome marcado — Psicóloga chefe da The Cotswold School. Meu trabalho aqui é garantir a integração de novos alunos, como você, além de servir de apoio para alunos já adaptados, em qualquer situação. Você ficaria surpresa com o número de adolescentes que surtam no último ano.
— Posso imaginar.
— Então, , me conta um pouco sobre os seus planos. Vi aqui que você está no quarto ano, já sabe o que quer fazer depois da formatura?
Eu já havia pensado nisso algumas vezes, mas sempre evitava ir muito a fundo. Não sabia nem onde estaria na semana que vem, imagine só no próximo ano. A ideia de ir para a faculdade me deixava em êxtase, mas também trazia um pânico crescente. Entrar na faculdade, onde quer que fosse, significaria estabilidade na minha vida. E estabilidade significava também que eu teria que deixar a minha família para trás. Eu não era como Arthur, que havia ficado em Nova Iorque para fazer o seu curso e deixado essa loucura dos meus pais de lado.
Ainda precisava de apoio emocional.
Resolvi responder a coisa mais simples, pois, se entrasse muito no assunto, Silver iria me massacrar com suas opiniões baseadas em Freud e Sartre.
— Ainda não sei.
Eu sabia que tinha problemas, muitos problemas mesmo, só não precisava ouvir isso da psicóloga perfeitinha da escola limpa demais.
— Temos um programa de apoio de estudos para as universidades de Cambridge e Oxford, caso tenha interesse.
Eu não tinha, mas resolvi pegar o folheto que ela segurava em suas mãos sobre o tal programa. Cambridge e Oxford pareciam ótimas, mas eu ainda precisava de tempo para decidir o que realmente queria fazer nos próximos anos.
Aquela pressão de “último ano” me dava dor de estômago.
Com a minha falta de papo, Silver continuou:
— Sabe pelo menos o curso que quer fazer?
— Não. Mas talvez escolha Design de Moda ou algo parecido.
Sua expressão se iluminou novamente.
— É uma ótima escolha! Já aplicou para as suas atividades extracurriculares? Não temos nada ligado diretamente à moda, mas você pode participar das que são mais criativas, vai te ajudar a ganhar pontos na hora de escolher a universidade.


Se eu ia ser obrigada a escolher algo extra para fazer na escola, meu maior protesto era ir na direção onde eu poderia fazer mais coisas erradas. Talvez a escola se incomodasse e me mandasse embora antes mesmo de meu pai achar que era a hora de deixar essa experiência do interior de lado.
Eu olhava a lista gigante de atividades extracurriculares sem entender como existia aquilo tudo no fim do mundo. Carreguei meu papel até a secretaria do quarto ano, onde encontrei um homem gorducho com um sorriso esquisito no rosto.
— É aqui que eu posso fazer inscrição nas atividades extras?
O cara sorriu mais, ainda sem mostrar os dentes.
— Boa tarde! Sim, senhorita. Em quais gostaria? Líder de torcida?
Franzi o cenho, sem conter a língua em minha boca.
— Existe essa cafonice aqui?
Ele escondeu o quase sorriso na hora.
— Você é da área de ciências, então?
Legal. No fim do mundo ou éramos líderes de torcida ou nerds.
O uniforme fora das proporções normais me incomodou mais ainda.
Resolvi acabar com aquilo antes mesmo de começar ou eu subiria na mesa para falar umas boas verdades para ele.
— Vou fazer essa aqui. — e apontei no grande folheto.
Ele chegou mais perto para olhar e depois assentiu.
— Culinária doméstica?
Com certeza eu explodiria um forno no primeiro dia.
— Sim.
— Apenas essa?
— Qual outra que eu possa causar algum estrago por aqui?

Culinária doméstica, Oficina de Artes e Línguas.
Era o que eu faria para me ocupar durante aquele ano na The Cotswold School. Culinária para tentar explodir uma das salas ou, com sorte, envenenar alguns alunos com comidas e temperos ruins; Artes por ser algo mais próximo do que eu gostaria de trabalhar algum dia, então faria um esforço para me sair bem. E Línguas, bem, eu já sabia falar Francês, então era a maneira mais fácil de conseguir pontos extras no meu currículo escolar já tão denegrido e manchado pelas diversas mudanças.
A orientação era que eu deveria procurar a sala de cada atividade para me “apresentar” ao grupo. Aparentemente não havia nenhuma classificação para aquilo, se inscrevia quem queria e entrava quem estivesse com vontade também. Pareceu o suficiente para mim.

O grupo de Culinária era pequeno (o que eu já esperava), com um total de quase onze pessoas. Na sala tinham várias bancadas com fogões acoplados, fornos e utensílios de cozinha que eu nunca tinha visto na vida. Algumas garotas me contavam animadas que seria ótimo ter uma referência da culinária francesa e eu simplesmente sorri, deixando-as achar que eu sabia alguma coisa de cozinha.
Quem me dera. Elas iriam descobrir a verdade da pior forma.
No grupo de Artes, encontrei mais pessoas em um espaço dividido entre área de “pensar” e área de “produzir”. Achei bem cafona, mas relevei no mau humor, já que era a atividade que poderia chegar o mais próximo ao que eu provavelmente faria na faculdade. O pessoal da área de produção mexia com pedaços de madeira, ferro, tinturas, panos e outras coisas que não consegui acompanhar. A galera do planejamento se empenhava em organizar um grande mood board que ia do teto ao chão, com referências de projetos, fotos, datas e alguns post-it amarelo gritante. No total era uma bagunça só, mesmo com tudo devidamente em seu lugar, com as paredes e chão brancos demais.
Eu gostava. Conseguiria estragar outra sala perfeitinha da instituição.
Mas foi o grupo de Línguas que mais me chamou atenção. A sala era menor do que as demais que visitei, com muitas cadeiras e duas mesas grandes, postas uma em frente a outra. Não tinha ideia do que o grupo de Línguas fazia para ganhar pontos extras para a faculdade, mas com certeza seria a parte mais fácil do meu dia.
Uma garota ruiva me olhava com a sobrancelha arqueada. Sua maquiagem era escura demais para aquele horário do dia.
— Precisa de ajuda?
Dei de ombros.
— Me inscrevi aqui. Pediram para que eu viesse me apresentar.
A garota cerrou os olhos, mas ainda mantinha um pequeno sorriso no rosto.
— Que ótimo. Qual língua você fala?
— Francês e Português.
Sua expressão nem mesmo se alterou. Ela provavelmente estava bem acostumada a ver adolescentes falando línguas totalmente desnecessárias para a sua idade.
— Legal. Nosso grupo funciona toda quinta. — e me entregou um folheto. Estava começando a ficar cansada de folhetos — Se quiser ficar hoje para dar uma olhada, fique à vontade.
— O que vocês fazem por aqui?
Ela pareceu ignorar minha pergunta.
— Estamos precisando de uma pessoa para liderar uma parte da América do Sul. Você é fluente em Português?
— Sim.
A garota ruiva cutucou um menino alto demais.
— Temos a pessoa que faltava.
O sorriso do garoto cresceu assim que me olhou.
— Perfeito! Você pode ficar hoje?
Era minha vez de ignorar todos ali.
— O que vocês fazem por aqui mesmo?
Os dois me olhavam com interesse agora.
— Debates. — a ruiva mexia na pontinha de seu longo cabelo — Desde o ano passado, fazemos debates aqui como se fosse uma ONU júnior. Discutimos sobre assuntos de nível mundial como porta-vozes de países.
OK. Eu poderia falar umas boas verdades sobre alguns países em que já vivi.
— Eu fico. Português?
— Brasil. Senta ali no canto.
— E vamos falar sobre o quê?
— Paz mundial.
Minha risada saiu sem que eu pudesse evitar.
— Eu vou ser o Brasil falando sobre paz mundial?
Eles não acharam graça nenhuma no que eu disse.
— Sim. Vamos começar?


A morte da primeira semana não tinha sido o debate esquisito sobre a paz mundial. Na sexta-feira, quando estava pronta para ir embora ao som do último sinal, boa parte da minha sala permaneceu sentada e só então percebi que a maioria vestia roupas diferentes da minha.
Meu coração palpitou quando pensei no que poderia vir a seguir. Cutuquei a menina que tinha me ajudado na aula de literatura inglesa.
— Não estamos liberados?
Ela olhou a minha direção com um sorriso simples.
— Temos educação física.
Era uma ótima hora para correr daquele lugar. Mas, assim que levantei, um cara de meia idade apareceu dentro de nossa sala.
— Como prometido, vim buscar vocês na sala hoje, pois tenho um comunicado: os testes para o time de futebol estão abertos até a próxima quinta-feira. Isso vale também para as líderes de torcida. — algumas meninas comemoraram. A garota ao meu lado nem se abalou. Graças a Deus — Então, vamos lá?
Cutuquei Mila novamente.
— É obrigatório?
E ela deu de ombros, já colocando sua mochila nas costas.
— Sim, como qualquer outra atividade dentro dessa escola.

E a sorte da semana foi que, como eu tinha chegado muito em cima do começo das aulas (ou melhor, tinha perdido o começo), ninguém tinha avisado meus pais sobre as diferenças dos uniformes. Aparentemente o cafona que eu usava não era o único da instituição. Os alunos deviam ter roupas diferentes para o frio (com calça, casaco e meia-calça) e para atividades físicas (shorts, camisa cinza esquisita e short-saia para as meninas).
A minha opção, coisa que o treinador não gostou nem um pouco, foi ficar apenas olhando toda aquela aula péssima acontecer. Eu não era o tipo de garota com o melhor porte atlético e muito menos era amante de esportes ou coisas parecidas. Não tinha o mínimo interesse em correr dez vezes aquela quadra poliesportiva enorme e também não estava afim de ver garotas loiras demais pulando com pompons coloridos para animar o time provavelmente ruim da escola.

Vindo da cidade grande, eu conhecia muita coisa e muita gente — e outros países e continentes, mesmo que não os levasse durante a minha vida. O interior parecia perfeito aos olhos de quem visse, mas tudo ainda soava bem esquisito e forçado demais para mim. Será que aquelas pessoas já tinham vivido algum problema comum da sociedade, como bad hair day ou festas ruins? Pegar o metrô cheio demais às sete da manhã, derrubar café na sua blusa limpinha, pisar em um coco de cachorro com sua bota nova… Essas coisas. Aquele lugar realmente era perfeito demais para ser verdade. Eu me sentia em um filme bizarro, provavelmente americano, onde todo mundo tem a vida que sempre sonhou. E, por me sentir em um filme, tinha outra coisa que não saia da minha cabeça: toda perfeição sempre é chamariz para alguma coisa bem errada.
Será que eu era a coisa bem errada naquele lugar?
Esperava que sim.

Saindo da escola (finalmente), meu olhar encontrou novamente o garoto rebelde da jaqueta de couro. Ele estava encostado em um carro preto, que parecia velho porém conservado o bastante para ser categorizado como estiloso. Seu semblante despreocupado o deixava ainda mais atraente. O menino conversava com um garoto de mesma estatura, porém com cabelos um pouco mais escuros.
Talvez por encará-lo demais, seus olhos azuis escuro se encontraram com os meus. Aquilo me fez lembrar que eu ainda tinha um jeitinho de fugir daquela esquisitice do interior, mesmo que ele ainda fosse um caipira de Cotswold. Sua jaqueta de couro me indicava que eu podia julgar pela aparência, pois ele provavelmente seria um adolescente diferente para a região. De tudo o que eu tinha vivido na cidade grande, ele era a coisa mais próxima de uma boa lembrança naquela velharia de Bourton-on-the-Water.
Ainda me encarando, o garoto sorriu de lado, piscando um de seus olhos lindos para mim. Resolvi aceitar aquilo e sorri de novo.
Estava decidido.
Eu realmente faria o rebelde da vila se interessar por mim.



Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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