Reasons Why

Última atualização: 22/05/2018

Capítulo 1 - Mudanças

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. (Leon C. Megginson)

Os fones de ouvido já machucavam minhas orelhas.
Eu passava as músicas aleatórias na mesma rapidez em que a paisagem avançava pela janela. Paisagem que, ironicamente, combinava com a música enjoada que eu decidira deixar tocando. Tinha uma animação desnecessária, que já me dava dor de cabeça.
Em um ato de total rebeldia, retirei os fones sem cuidado algum, como se aquilo fosse simplesmente fazer a raiva aliviar um pouco. Eu estava cansada. Cansada de sempre passar pela mesma coisa, cansada por estar a mais de duas horas sentada em um banco traseiro desconfortável de algum carro ridículo que meu pai julgava ser ideal para a viagem.
Era isso. Eu estava simplesmente cansada. Cansada até mesmo do meu próprio drama.
Por horas, tudo não passava de borrões nas janelas, devido à velocidade em que estávamos. Em um dia normal eu estaria elogiando minha mãe pelo ponteiro do velocímetro marcar 100 km/h, mas meu humor simplesmente não permitia.
- Por que não no centro? - minha mãe ergueu as finas sobrancelhas, me encarando pelo retrovisor central, como se aquela fosse uma pergunta muito ruim para o momento – Londres parece realmente bonita. – dei de ombros, tentando deixar de lado o assunto que eu mesma comecei. Pela décima vez. Ela pareceu relaxar na direção, mantendo seu olhar na estrada. Meu pai, como sempre, no banco do carona, jogava algo irritante em seu tablet. Desde que ele descobriu essa tecnologia – e Angry Birds, ficou mais difícil conquistar a sua atenção.
A única coisa que me restava era encarar a janela embaçada. Algumas casas pareciam realmente distantes uma das outras, dando espaço para um grande destaque de verde, junto com jardins e árvores que deviam ter mais de duzentos anos. Duzentos anos no mesmo lugar. Por que aquilo soava tão interessante para mim?

A cada distrito que passávamos apenas casas e mais casas. Alguns pequenos comércios na beira da estrada principal. Nada de prédios, o que já significava um mau sinal. Algumas pessoas sempre dizem que quando começamos a ver somente mato na estrada, estamos perdidos. Minha grande amiga de Nova Iorque, Bree, diz que se não vemos prédios, estamos em um lugar pior.
O interior.
Ah, sim. Era oficial. Eu estava no interior.

Nosso destino, enfim, e infelizmente, não era a cidade cosmopolita de Londres. Muito infelizmente. Indo na contramão de tudo o que já fizemos, e de todos os outros doze lugares em que já moramos, estávamos indo diretamente para o interior. Minha mãe dizia que era bem melhor do que o subúrbio, mas eu simplesmente não conseguia ver tanta diferença entre os dois. Para mim, dava no mesmo. Tecnologia atrasada, falta de internet, casas velhas de madeiras e gente caipira.
- Eu li em um blog que o distrito de Cotswolds é o mais antigo da Inglaterra. A arquitetura é muito século X e a apenas duas horas de Londres! – meu pai comentava feliz. Ele é o mestre dos comentários aleatórios, para tudo e sobre tudo. Semana passada ele tagarelou por horas com um amigo sobre as regras do rúgbi e como este é um esporte de classe. Às vezes eu me pego pensando em como ele tem tempo para saber de tantas coisas.
- Se é tão perto assim de Londres, por que não Londres?
- Minha querida, só estamos tentando algo novo. – pude vê-lo sorrir ao conseguir derrubar três alvos com um passarinho só – Tenho certeza que você vai gostar.
Minha mãe balançava a cabeça, em afirmação – A casa é linda. – e dirigiu seu olhar para mim, pelo espelho central – Você sempre quis morar em uma casa grande.
- Nosso trato ainda está de pé?
- Com certeza. Assim que arrumarmos tudo, você pode ter o que quer.
E o que eu queria era um cachorro. Na falta de meus antigos amigos e do meu irmão, eu teria ele.

Meu pai continuava tagarelando sobre o incrível condado de Gloucestershire, onde ficava o distrito de Cotswold, que ia ser a nossa nova casa. Eu ainda, sinceramente, não sabia como ele possuía forças para isso. É a nossa décima terceira casa nova.
Que tipo de pessoa se anima com a décima terceira mudança?
- Vocês sabiam que Cotswold tem o metro quadrado mais caro da Inglaterra?
Mesmo cansada dos comentários aleatórios de papai sobre o lugar mais caipira do mundo, aquilo me chamou atenção. O que faz um distrito típico do século X ter apenas famílias ricas? Naquele momento eu pude entender um pouco o que estávamos fazendo ali. Mesmo sendo interior e bizarro, ainda era um condado de ricos.
Típico dos meus pais. Estava ali a diferença do subúrbio.
Mas eu não poderia deixar a oportunidade de ser chata passar – Então não vamos ver carroças por aqui?
- Pelo contrário! – ele exclamou, mas isso não fez a minha cara emburrada passar – Os moradores aqui têm uma ótima condição. Acho mais fácil vermos apenas carros caros e importados.

Papai continuava falando demais, até que uma placa enorme toda decorada nos apontou que tínhamos chegado ao nosso novo destino. “Bem vindos à Veneza da Inglaterra, Bourton-on-the-Water, no condado de Gloucestershire”.
Se o interior já soava péssimo, imagine morar na Veneza da Inglaterra.
- O nome do rio que corta a vila é Windrush. – meus olhos se fecharam automaticamente, minhas mãos levadas as minhas têmporas, buscando paciência – Jogadores britânicos disputam todo ano em equipes um jogo aquático nesse rio. Dura cerca de trinta minutos, deve ser divertido de se ver. – ele suspirou alto – Dizem que essa disputa acontece há mais de um século!
Minha mãe passava devagar pelas ruas, observando os dois lados junto com meu pai. Haviam várias lojinhas feitas de pedra, cafés e eu podia jurar ter visto até mesmo um pub – Acho que aqui vamos conseguir tomar o típico chá inglês, que também é chamado de cream tea. Ele pode ser servido com ou sem leite e acompanhado de scones caseiros, geleia e cloted cream. Cloted cream é um creme de leite encorpado, típico da Cornuália. Incrível!
Incrível seria se alguém se importasse com cloted cream como meu pai.
Nem minha mãe conseguiu reprimir a careta – Você gravou isso tudo?

Após darmos algumas voltas, de acordo com o nosso GPS alugado, havíamos chegado. E o nosso destino era uma casa enorme. Eu tive de suspirar ao sair do carro. Nossa décima terceira casa nova era realmente linda.
E eu odiava ter que admitir isso.
Parecia que tinha saído de um filme ou algum livro de época famoso. Toda ornamentada em calcário e muito verde das plantas que subiam pelas paredes externas e janelas, aquela era a maior casa que já tivemos. Tinha dois andares, sem contar com o provável sótão. Era completamente diferente dos apartamentos antigos que alugávamos na cidade grande.

O que mais chamava atenção era a falta de muros. Nenhuma casa da rua de pedras tinha um muro as separando, e parecia que no condado inteiro de Gloucestershire isso não existia. A parte da frente dava em um enorme gramado verdinho, com alguns tipos de flores e plantas decorando naturalmente a entrada da casa.
Mesmo emburrada com o lugar e toda essa palhaçada de décima terceira mudança, eu senti algo gostoso ao ver a casa. Parecia e soava diferente de qualquer outra coisa que eu já tenha vivido.
Mesmo que eu realmente não quisesse confessar isso.
Meu pai colocou suas pesadas mãos em meus ombros – O que achou? É bonita, não é? – apenas agitei a cabeça, afirmando. Olhei para seu rosto e ele parecia realmente feliz. Não pude conter de me sentir mal por estar tão chateada por estar nesse fim de mundo. Eu mal tinha culpa de me sentir assim, já havia feito muito sacrifício para acompanhá-los por todos os lugares.
Ele então pegou uma grande caixa no porta-malas do nosso carro alugado. Esta tinha uma grande etiqueta com a palavra “Sobrevivência”. Isso significava documentos, tecnologia, e qualquer outra coisa que devia estar lá primeiro do que o caminhão de mudanças, caso acontecesse algum imprevisto – Nós precisamos comprar coisas típicas da Inglaterra e do distrito para colocar em nossa casa. – meu pai continuava falando sem parar sobre o nosso adorável distrito da Inglaterra – Será que eles fazem churrascos com os vizinhos por aqui?

Por dentro a casa se mostrava ainda mais maravilhosa. Por sorte, o caminhão de mudanças já havia chegado e o caseiro responsável por nos entregar as chaves já havia colocado boa parte das caixas dentro da casa. Algumas outras foram entulhadas na garagem. Como a casa já estava completamente mobiliada, nossos móveis foram descartados na França. Lembrar disso fez com que o meu mau humor se despertasse novamente. Seria o ápice da minha vida em Cotswold caso o meu quarto estivesse decorado como para uma menininha.
Em vez de todo aquele branco e aparelhos de última geração que às vezes nos davam até ‘bom dia’, nossa casa era 70% madeira. Eu não posso dizer que não era bonita ou aconchegante. Era sim. Mas eu ainda preferia o luxo da cidade grande e da geladeira que me avisava as coisas bobas que sempre esqueço.
Mas a casa em geral não me importava. O ponto principal era: meu quarto. Meus pais haviam avisado que ficava no segundo andar da casa, o que já me agradava. Quanto mais longe do jardim bonito, melhor.
Subi as escadas de madeira e, para minha surpresa, elas não faziam barulhos de velhice como em qualquer casa do interior. Seguindo instruções de meu pai, segui até a segunda porta a direita. Era grande e larga, de madeira escura.
Abri a porta devagar, logo suspirando aliviada. Era um quarto de gente normal. Havia uma cama de casal no meio, um armário grande e cor de marfim do lado direito (será que todas as minhas roupas caberiam ali?). No lado esquerdo uma janela enorme que mantinha uma vista para o Rio Windrush, por vários metros de distância. Na parede em frente à cama, ao lado da porta, havia um grande espelho de corpo todo.
Era o ideal. Parecia um pouco com um quarto de algum filme bobo americano para garotas de quinze anos, só que do interior e caipira. Mas eu ainda achava que, com meu toque pessoal, poderia me sentir bem ali dentro.
Não que eu realmente me importasse na decoração, já que não sabia quanto tempo que poderia chamar aquele local de meu.

Cheguei perto do espelho, meu reflexo parecia cansado e de saco cheio. Minhas roupas ficavam em um contraste absurdo com o quarto, modernas demais. Passei as mãos em meus cabelos, que estavam em um tamanho médio. Eu gostava do que via. Principalmente por ser tão diferente do que via e vi ao meu redor.
O problema de mudar constantemente era sempre o pavor de aceitação, ainda mais quando você tem que enfrentar uma nova escola. Eu estava preparada para ser o centro das atenções em Bourton-on-the-Water?
Sem modéstia ou qualquer outra coisa, eu realmente gostava do que via em meu reflexo. Gostava das roupas que vestia, gostada de minha silhueta e, sem dúvidas, gostava dessa sensação de diferença. Eu sempre tive uma fisionomia normal, me sentia bonita, mesmo sem ter o corpo do que muitos costumam chamar de “gostosa”. Eu sabia que conseguia chamar atenção, se quisesse. Na verdade, sabia que qualquer menina conseguia fazer isso. Bastava autoestima e uma roupa que você julgasse bonita.
Mas, com o pouco que eu tinha visto sobre aquela vila, o medo principal não era ser o alvo de perguntas bobas, como “como é a cidade grande”, “quantos países você conhece” ou “quantas línguas você fala”, mas sim o fato de que, por somente ter quatro mil habitantes, aquele local era o mesmo de sempre. Todo mundo se conhecia, não era possível ser o contrário. Eu teria o desafio de fazer amigos em um lugar que todo mundo se conhece desde que nasceram.

Sacudi a cabeça, tentando me libertar desses pensamentos. Deixaria isso para amanhã, na escola nova. Ajeitei os fios desajeitados de meu cabelo com as mãos, e um movimento pela janela me chamou atenção. Dei passos largos até o local, logo a abrindo para cima, com facilidade. Pelo menos as corredeiras pareciam novas.
A vista era bonita, eu devia confessar novamente. No fundo, bem fundo mesmo, eu via o corte do rio Windrush. Mais perto, campos verdes com muitas árvores e casas de pedras. Vizinhos.
Alguns adolescentes de uniformes, provavelmente da The Cotswolds School (meu pai já deu uma palestra sobre ser a única escola de formação da região e que pessoas de outras vilas vinham estudar aqui), passavam perto do rio, alguns rindo e deitando na grama verde demais. Será que alguém pulava naquele rio intocado? Aquilo era completamente diferente de tudo o que eu já tinha passado em minha vida. Verde demais, sossego demais.
Meu pai apareceu em meu campo de visão, em nosso jardim – Minha querida, sei que a vista é linda, mas venha nos ajudar!
Desci as escadas em passos largos, logo encontrando meus pais. Coloquei algumas caixas para dentro, ajudando com o conteúdo em outras. Mamãe se concentrava nas coisas de cozinha, enquanto meu pai ficou responsável pelos equipamentos eletrônicos e outras coisas da sala de estar. Minha mãe não era nem um pouco tecnológica, mas duvido que fique sem assistir seu CSI diário na televisão paga.

Olhando pela grande janela da frente, uma criança passou brincando com uma bola de futebol, provavelmente indo para o campo verde perto das pequenas pontes.
- Nós podemos tirar um fim de semana e ir até Londres para assistirmos uma partida de futebol. – meu pai chegou de repente, observando a janela junto comigo. Eu nunca gostei muito de esportes, mas era sempre divertido ir a estádios com ele. Em Nova Iorque eu ia assistir beisebol só para usar mãos de espuma gigantes e comer cachorro quente – Estou em dúvida se quero torcer para o Manchester United, Arsenal ou para o Tottenham Hotspur. – ele falava agora mais para si mesmo – Será que Cotswolds tem um clube próprio?
Tive de controlar a minha vontade de rir com sarcasmo. Se Cotswold tinha um time próprio de futebol? Parecia uma boa piada aos meus ouvidos, já que a região não parecia ter ao menos eletricidade.
- Tenho que escolher antes do jogo, porque dizem por aqui que um dos principais rivais do Arsenal é o Tottenham, já que eles disputam regularmente o North London Derby.
Não fazia ideia do que era North London Derby e nem gostaria de saber. Além de ser o rei dos comentários aleatórios, meu pai também ganhava a coroa com suas explicações demoradas. A regra sempre foi: só pergunte algo a papai se você realmente precisa saber, pois perderá bons minutos – e até horas, com suas histórias gigantes sobre tudo.

Chequei meu celular pela décima vez, enquanto meu pai tagarelava sobre alguma coisa sem importância para mim – Vocês realmente me trouxeram para um lugar sem sinal de telefone?
Meu pai parou de falar sobre futebol – Vamos ter internet em alguns dias.
- E até lá eu fico incomunicável?
Mamãe apareceu do nada – Deixe de ser dramática. Até o começo da próxima semana já temos tudo instalado em nossa casa.
Quase sufoquei – O que vocês esperam que eu faça por aqui? – eu fazia gestos exagerados, enquanto eles me olhavam com calma – Querem que eu vá sentar na grama e ler livros de história medieval para saber mais sobre aqui?
Minha mãe revirou os olhos – Faça o que quiser, só não fique reclamando. O lugar é lindo, você vai achar coisas para fazer.
Meu pai parecia concordar – E principalmente ao ar livre! Vai ser ótimo.
Mamãe continuou – , vá conhecer a vila, fazer amigos.
Aquilo me atingiu como uma bala provavelmente faria. Eu não era antissocial, mas, sempre que fazia amigos, nos mudávamos. Era como se minha vida fosse um jogo em que a tarefa para mudar de fase era conquistar amigos.
A olhei de cara feia – Vocês estão mesmo felizes nesse fim de mundo? – deram de ombros – Vou fazer exatamente o que disse, que ai já vamos embora mais cedo.

Sai de casa com mamãe chamando por meu nome, mas já era tarde demais. Eu não queria ser grossa com meus pais. Sempre fomos uma família bem feliz e harmoniosa, mas era sempre difícil nos primeiros dias. E eu sabia que ela entendia isso. Eles tinham a companhia um do outro, em qualquer lugar do mundo. Eu era a filha que tinha que ir junto, apenas.
As ruas estreitas de pedra me deixavam com pior humor. Como alguém pode preferir essa cidade congelada no tempo a uma grande metrópole, onde tudo é completamente acessível, fácil, prático e as suas ordens? Eu não conseguia entender.
Os cidadãos de Cotswolds se encontravam espalhados em pequenos cafés, bancos de pedra nas calçadas e sentados na grama próximo à divisão do rio. Perdi a conta de quantos sorrisos recebi ao passar por tudo aquilo.
Tudo ficava pior ao perceber como Bourton-on-the-Water parecia coisa de filme romântico e meloso. A placa de entrada não mentia nem um pouco, o distrito era sim a Veneza da Inglaterra. As casas de pedra, os caminhos de flores e extensos jardins… E o grande rio cruzando as ruas. Tudo parecia extremamente lindo e perfeito, de um jeito completamente irreal. Romeo e Julieta poderiam facilmente morar aqui com suas famílias complicadas.

Mas o que mais irritava era a falta de sinal. De telefone. Que tipo de cidade, em pleno século XXI, tem problemas com rede telefônica? Eu andava com meu celular em mãos, como uma maluca procurando sinal. Alguns curiosos olhavam as casas ao redor, com câmeras de última geração nos pescoços. Flashes e mais flashes. Poses e mais poses ridículas perto dos grandes lagos e imóveis mais antigos. Turistas. Eu odiava ser turista. Odiava viajar. Mas naquela hora eu queria pertencer ao grupo de viajantes, pois só assim eu não deveria ter de morar no fim de mundo do século X chamado Cotswolds.
Com certeza, Bourton-on-the-Water seria o pior dos treze lugares em que já moramos. Eu estava certa antes mesmo da escola. Na cidade grande eu simplesmente me enfiava entre todos, despercebida, apenas parte de uma multidão. Incrivelmente, eu me sentia parte de alguma coisa, de certa maneira. Em Cotswolds, eu não sabia como fazer aquilo. Não sabia nem como começar. Não queria admitir, mas seria péssimo ser completamente ignorada em uma vila com menos de quatro mil habitantes.
As pessoas pela vila não pareciam ligar para novidades. Eu era uma novidade. Ficaria para trás, com certeza.
Seria apenas mais um ano longo, sem amigos, vivendo num fim de mundo.

A melhor decisão do momento foi sentar em um dos vários bancos velhos de pedra escura, espalhados pela margem do rio. Eu já havia desistido do meu celular. Respirei fundo, analisando ainda mais aquela vila idiota. E, mais a minha direita, havia uma loja de esquina, que se nomeava “Mercearia” no letreiro. Algumas letras ao lado estavam bem apagadas, dificultando minha leitura de longe. Bem original. E caipira.
Andei na direção da tal loja. Talvez eu conseguisse o que queria: meu cachorro. Bem, não exatamente meu cachorro, mas pelo menos uma luz de onde consegui-lo. Meu pai sempre disse que as menores lojas são as que mais possuem informações, porque geralmente são de familiares locais.
O mercado não parecia ser grande coisa, mas provavelmente seria o único na rua onde eu me encontrava. Eu não poderia me deixar se perder em Cotswold. E muito menos em uma vila ridiculamente pequena e velha como Bourton-on-the-Water.
O local era maior do que por fora. O chão de madeira escura parecia ter sido polido a pouco tempo. Diversas prateleiras ficavam no meio da loja, assim como nas paredes indo até o teto, como se fossem armários de madeira antigos com vários nichos. Algumas pessoas olhavam produtos diferenciados nas prateleiras, já que o mercado parecia vender de tudo. Um garoto de cabelos castanhos tentava ajudar uma senhora com um chapéu duas vezes maior que a circunferência de sua própria cabeça. Suas roupas eram mais do mesmo: cinza e cafona, como toda Cotswolds.
Parei no meio das prateleiras, sem saber o que fazer. Era óbvio que ali eu não acharia um cachorro para levar para casa. O menino me olhou de lado e meu coração quase parou quando ele simplesmente deixou a velha de lado e decidiu vir até mim.
Pela primeira vez eu tinha chamado a atenção de alguém naquele lugar idiota. Sua expressão era absolutamente calma, como se fosse normal garotas se perderem pelo mercado da região. Ele parou ao meu lado, deixando um sorriso a mostra.
- Olá, tudo bem? – eu nunca tinha percebido o quanto amava o sotaque britânico. É tão bonito quanto o francês, mas o das pessoas de Cotswold parecia ser mais forte que o normal, mais carregado por ser do interior. Eu poderia falar o dia inteiro se tivesse um sotaque desses. Dois anos na França e eu mal conseguia forçar como eles falam de verdade.
Concordei entre gestos, não querendo prolongar muito aquilo – Você sabe onde eu posso conseguir um cachorro?
Ele franziu o cenho, parecendo pensar – Não acho que temos isso por aqui.
Aquilo era o fim do meu dia – Não há cachorros aqui?
- Claro que tem, mas não para comprar. – acho que a minha reação arrasada o preocupou – Talvez você precise ir a Londres. Tem locais de adoção por lá. – e pareceu dar de ombros – Está de passagem na cidade?
Não consegui reprimir a careta em meu rosto. Podia até ser falta de educação, mas foi impossível. Pelo fato de, infelizmente, eu não estar apenas de passagem e pelo fato de eu querer um cachorro não o faça perceber que eu também moro nesse fim de mundo – Infelizmente não. – suas sobrancelhas se ergueram em surpresa – Moro aqui agora. Acabamos de chegar.
- Possuem parentes por Cotswolds? – balancei a cabeça em negação. Isso fez com que sua expressão se tornasse confusa – Ah, estão vindo de Londres?
- Paris.
- Paris? – as feições confusas continuaram em seu rosto, mas eu juro que pude ver um sorriso reprimido. Qual era a graça por virmos de Paris? – O que te traz até Cotswolds?
- O emprego do meu pai. Ele é consultor financeiro. Está trabalhando com as contas públicas da Inglaterra, algo assim. – sempre foi difícil explicar para as pessoas os motivos de tantas viagens e mudanças, o mesmo para explicar direito o que meu pai fazia. O fato era que, por ser especialista em desenvolvimento econômico de regiões com negócios e indústria de larga escala, ele vivia viajando, de acordo com os interesses dos países. Geralmente era convocado quando algum problema financeiro grande estava acontecendo no local.
As viagens constantes eram chatas, mas o sonho particular que papai tinha de “combater a fraude pública no mundo” (como ele mesmo dizia) era bonito. Humanitário, eu sempre achei.
O foco da vez era a Inglaterra, não sei exatamente o distrito ou condado, mas foi isso que me fez ir parar em Bourton-on-the-Water. Eu não sabia o que estava acontecendo pela Inglaterra e nem me interessava.
- Isso parece complicado. – ele fez uma careta confusa, coisa que eu já esperava. É sempre assim – Mas Cotswold?
Dei de ombros, ignorando seus olhares curiosos. Para que tanto interesse em uma estrangeira qualquer? Parece que isso não acaba nunca – A resposta dele foi “qualidade de vida”. Mas por que a surpresa? Esse lugar é tão caipira assim que não recebe gente da cidade grande para morar?
Seu olhar me intrigava. Globos azuis como o mar. Será que a minha grosseria desnecessária tinha o afetado? Bom, naquele momento pouco me importava. Eu ainda queria um cachorro.
Ele então me observou de cima a baixo, talvez analisando as minhas roupas. Acompanhei o seu olhar. Eu vestia saia e blusa preta, junto com um casaco no estilo sobretudo vermelho sangue. Não havia nada demais, mas já era o suficiente para me destacar como diferente em Cotswold. Mas tanto faz. O que afinal esse desconhecido tinha a ver com a minha vida? – Garotas como você passam por aqui apenas como turistas. Tiram fotos, compram coisas inúteis nos mercados e depois vão embora.
Então estava certo. Eu havia ofendido o primeiro caipira do local.
Naquele momento eu poderia socá-lo até seu rostinho lindo ficar roxo – O que você quer dizer com isso? – espera aí, rostinho lindo? – Quem você pensa que é? Nem me conhece!
Ele mal se afetou com as minhas palavras rudes – Me desculpe se te ofendi, mas só disse a verdade. – e simplesmente deu de ombros – Você não combina com Cotswold.
Por mais irada que eu estivesse aquilo me confortou. Eu não “combinava” com Cotswold. Talvez esse tenha sido um dos melhores elogios que eu recebi nos últimos meses.
Mas eu não podia deixar aquilo barato. Eu não sabia explicar por que, mas precisava jogar minha frustração em alguém – E você? – meus olhos analisaram novamente suas roupas, até chegar ao seu rosto. Trajes cinza e branco, sem personalidade alguma. Nenhum sinal de vergonha ou timidez por parte dele – Fica por aqui espalhando grosserias ou só gosta da velharia?
Seu olhar tranquilo ainda me atingia – Eu cresci aqui, então já me acostumei. Mas desde que visitei Londres vi que a vida pode ser diferente. – ele deu um sorriso para uma senhora que passou entre nós – E eu trabalho aqui, caso não tenha percebido.
Resolvi me calar. Toda a simpatia anterior fora derrubada facilmente. Se todas as pessoas de Cotswold fossem desse jeito, preferia não pedir ajuda para nada durante nossa estadia por Bourton-on-the-Water. Humores voláteis, como na cidade grande. Será que pelo menos isso aquele fim de mundo se pareceria com Nova Iorque ou Paris?
O garoto bonitinho deu de ombros, mexendo em algo nas prateleiras ao meu lado e logo sendo chamado por um senhor usando roupas sociais demais.

Olhei em volta. Eles realmente vendiam de tudo. Nas prateleiras era possível encontrar desde temperos a camisetas com “I LOVE BOURTON” ou “RIO WINDRUSH PASSA AQUI”. Guarda-chuvas, bolsas, itens de farmácia e muitos outros.
Se eles queriam ter uma loja sem definição, conseguiram.
- Está matriculada na escola? – sua voz rouca me atingiu novamente, assim que estava pronta para colocar meus pés fora do mercado. Dei meia volta, observando-o subir em uma pequena escada de madeira velha, para alcançar as prateleiras altas da parede. Nelas, garrafas coloridas com algum conteúdo desconhecido estavam enfileiradas.
- The Cotswold School. – não consegui reprimir uma careta. Até o nome da escola soava velho, chato e antiquado – Se você estuda, provavelmente é lá, certo? Acho que aqui não tem outra escola.
Ele me olhou de lado enquanto colocava algo em uma das prateleiras – Você tem razão. Estudo lá também.
A única coisa que fiz foi um barulho estranho com a boca – Legal.
O garoto desceu a pequena escada, ficando próximo de mim novamente. Seu humor de volta ao modo “simpático”. Deve ser instinto natural dos nativos por aqui – Como você veio da cidade grande deve estar achando tudo um saco, mas você acaba se acostumando. – tive de reprimir uma gargalhada. Quem já morou em Nova Iorque, Paris, Chicago, Flórida e Holanda não se acostuma tão fácil com um fim de mundo que se chama de “Veneza do interior da Inglaterra” – Aqui nós temos algumas coisas legais para se fazer. Tem vários cafés, restaurantes e pubs. E as pessoas gostam de se encontrar, fazer piquenique perto do Rio, essas coisas.
- Tantas coisas, menos cachorros.
Ele soltou uma risada que eu fiz o máximo para não sorrir junto, ainda tinha que me fingir de ofendida – Vá a Londres, é bem perto.

Um garoto mais ou menos da altura do menino entrou no mercado. Seus cabelos claros estavam completamente bagunçados, mas, diferente do outro, suas roupas eram menos sóbrias – E aí meu irmão! Vamos?
O garoto do mercado olhou para ele, concordando de prontidão – Só um segundo, vou pegar minhas coisas lá dentro.
O loiro me olhou de lado, sorrindo de leve. Realmente simpatia deve ser algo normal em Cotswold – Tudo bem?
Apenas concordei com a cabeça. Ele tirou um celular do bolso, discando algumas coisas na tela sensível. Não consegui reprimir um suspiro de alívio. Meu pai não havia mentido, existia sim internet no fim do mundo. Eu só tinha que descobrir como fazer o meu celular funcionar e pronto.
A porta dos fundos se abriu com rapidez e o garoto do mercado saiu depressa, carregando uma mochila preta nos ombros. Ele gritou algo para um homem que havia acabado de aparecer atrás da máquina registradora, logo andando até a nossa direção. Ou melhor, até o seu amigo.
Eles se cumprimentaram com um meio abraço. E depois disso ele olhou em minha direção – Boa sorte com o cachorro, a gente se vê. – e andou para fora do mercado. Antes de sair, virou-se novamente, com um sorriso que julguei ser sincero – Bem vinda a Cotswold!
Ver o menino do mercado com seu amigo havia me machucado. Pois me fazia lembrar um fato bem constante da minha vida: eu não tinha amigos. E, mais uma vez, estava em um local completamente estranho. Sem conhecer ninguém. Doía mais pela nostalgia que eu sentia em todo começo de cidade/país novo. Meus amigos que me acompanhavam até o momento, de longe, faziam mais falta ainda. A minha vontade era de dar uma de rebelde e pegar o primeiro voo até Nova Iorque, só para vê-los de perto mais uma vez.

Sentada mais uma vez no banco gelado de pedra, de frente para aquele rio estúpido, eu via o outro lado da vila, onde dois adolescentes andavam de bicicleta, correndo um atrás do outro. Eu ainda sabia andar naquilo?


FLASHBACK

Eu reclamava pela milésima vez – Eu não vou fazer isso!
Seus olhos verdes reviraram novamente – , deixa de ser menininha.
Fiz uma careta ofendida – Eu não sou menininha!
Bree cortou a conversa, me ameaçando com um empurrão – Anda logo!
Logan ria da minha cara de espanto – Princesa, confia em mim. Está segura.
O medo da vez era: aprender a andar de bicicleta. Quando criança, com todas as viagens loucas, meu pai nunca tinha parado para me ensinar a andar naquele treco. Depois de um joguinho de “eu nunca” ridículo (bem ridículo mesmo, quem diz que nunca andou de bicicleta na vida?), Logan e Bree me obrigavam a andar naquele veículo de morte.
- Eu tenho treze anos e moro perto do metrô. Preciso mesmo fazer isso?
O Central Park estava até vazio para a época. Algumas pessoas passeavam de bicicleta, outras de patins ou skate. No fundo, em uma quadra de baseball, uma gritaria constante.
Bree se sentou na grama, como sinal de desistência – Logan, deixa ela. Quando chegar o dia em que a bicicleta for o único meio de transporte que ela terá, vamos ver como vai ser!
Revirei os olhos em sua direção – Deixe de ser dramática. Onde eu estaria para ter só bicicletas? Na roça? – ela deu de ombros. Logan continuava parado ao meu lado – Não vai me livrar dessa?
- Se você tentar assisto aquele filme de mulherzinha com você.
Aquilo sim foi um incentivo – Pipoca dupla?
Ele riu mais ainda – O quanto você quiser.
Respirei fundo, já imaginando o desespero de minha mãe quando visse o meu futuro machucado – Vamos nessa.

FIM DO FLASHBACK


Observando a vila, via muitas pessoas andando de bicicleta. Parecia ser o transporte mais normal da região.
Ri sem humor algum, falando alto – Bree, sua filha da puta.
Um casal que estava sentado às margens do rio olhou para trás, com cara feia. Nem me dei o trabalho de pedir desculpas, logo saindo daquele lugar.
Derrotada e sem cachorro, meu destino era voltar para aquela casa de comercial de margarina. A caminhada não parecia ser longa, caso eu não me perdesse. Mais uma vez. Não poderia me deixar perder naquele buraco.
Enquanto caminhava, meu casaco vermelho sangue pesava em meus ombros, mas não conseguia me importar com isso. A única coisa que eu não poderia fazer era se entregar a esse universo antigo, como meus pais já haviam feito. Por mais que eu adorasse usar cinza, decidira que aquela cor estava banida do meu armário.

Sem muita dificuldade, cheguei novamente a nossa nova casa. Ela, pra minha raiva, continuava linda.
Adentrei pela porta central, logo encontrando papai e mamãe sentados no grande sofá branco, em frente à televisão um pouco grande mais. A maioria das coisas já tinha achado o seu local apropriado, mas isso não diminuía a sensação de bagunça e papelão amontoado.
E, bom, tínhamos sinal de televisão.
Assim que percebeu minha presença, meu pai logo tratou de dar dois “tapinhas” ao seu lado vago, para que me sentasse – Querida, conseguiu seu cachorro?
- Ainda não, acho que vou precisar ir a Londres.
Meu pai concordou, rindo de algo do filme maluco e preto e branco que eles assistiam. Nós já tínhamos televisão a cabo ou era assim que as pessoas de Bourton-on-the-Water ainda viam seus canais? – Me parece um bom motivo para conhecer Londres.
Me acomodei no sofá branco até que o filme acabasse. Minha mãe subiu as escadas, desejando boa noite. Meu pai zapeava alguns canais, como se buscasse alguma desculpa para que pudesse ir dormir cedo também – Como foi seu passeio? – apenas resmunguei alguns comentários sobre falta do que fazer e a simpatia exagerada das pessoas – Nós conhecemos nossos vizinhos enquanto você estava fora. – meu pai chegava ao canal quinhentos, ainda insatisfeito com a programação – Acho que vai ser fácil fazer amigos por aqui.
Felizmente, meu pai não tinha percebido a ironia em minhas palavras. Pensando no episódio do mercado, me vi falando – Acho que não vai ser tão fácil assim.
- O que, minha querida?
Eu não podia falar para o meu pai, em nosso primeiro dia na cidade nova, sobre como seria difícil fazer novas amizades pela região. Todos se conhecem desde que nasceram, era como se eu fosse o indivíduo extra que ninguém precisava – Nada, pai.
A televisão foi desligada. Meu pai se levantou, logo estendendo sua mão para que eu a pegasse. Nós caminhamos até a escada, subindo-a em seguida. Paramos na porta do meu quarto novo, enquanto meu pai soltava alguma curiosidade sobre o tipo de madeira que usaram na construção da casa.
Algo como do século passado, como Cotswold inteira.
- Nós vamos ser felizes aqui, você vai ver.
Seu sorriso tinha o que eu mais gostava no mundo. Sinceridade. E aquilo fazia com que eu tivesse esperanças de que não fosse tudo como Chicago ou como na França. Seria diferente, pois já estávamos fazendo, infelizmente, o diferente: estávamos no interior.
O maior problema mesmo era saber por quanto tempo seriamos felizes em Cotswold. Ou se o nosso tempo por ali daria tempo de criar algum tipo de felicidade.
Sem ter o que falar, aceitei seu beijo de boa noite na testa – Confio em você, pai.





Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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