Última atualização: 08/11/2018

Capítulo 1 - Mudanças

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.” (Leon C. Megginson)

Os fones de ouvido já machucavam minhas orelhas.
Eu passava as músicas aleatórias na mesma rapidez em que a paisagem avançava pela janela. Paisagem que, ironicamente, combinava com a música enjoada que eu decidira deixar tocando. Tinha uma animação desnecessária, que já me dava dor de cabeça.
Em um ato de total rebeldia, retirei os fones sem cuidado algum, como se aquilo fosse simplesmente fazer a raiva aliviar um pouco. Eu estava cansada. Cansada de sempre passar pela mesma coisa, cansada por estar a mais de duas horas sentada em um banco traseiro desconfortável de algum carro ridículo que meu pai julgava ser ideal para a viagem.
Era isso. Eu estava simplesmente cansada. Cansada até mesmo do meu próprio drama.
Por horas, tudo não passava de borrões nas janelas, devido à velocidade em que estávamos. Em um dia normal eu estaria elogiando minha mãe pelo ponteiro do velocímetro marcar 100 km/h, mas meu humor simplesmente não permitia.
- Por que não no centro? - minha mãe ergueu as finas sobrancelhas, me encarando pelo retrovisor central, como se aquela fosse uma pergunta muito ruim para o momento – Londres parece realmente bonita. – dei de ombros, tentando deixar de lado o assunto que eu mesma comecei. Pela décima vez. Ela pareceu relaxar na direção, mantendo seu olhar na estrada. Meu pai, como sempre, no banco do carona, jogava algo irritante em seu tablet. Desde que ele descobriu essa tecnologia – e Angry Birds, ficou mais difícil conquistar a sua atenção.
A única coisa que me restava era encarar a janela embaçada. Algumas casas pareciam realmente distantes uma das outras, dando espaço para um grande destaque de verde, junto com jardins e árvores que deviam ter mais de duzentos anos. Duzentos anos no mesmo lugar. Por que aquilo soava tão interessante para mim?

A cada distrito que passávamos apenas casas e mais casas. Alguns pequenos comércios na beira da estrada principal. Nada de prédios, o que já significava um mau sinal. Algumas pessoas sempre dizem que quando começamos a ver somente mato na estrada, estamos perdidos. Minha grande amiga de Nova Iorque, Bree, diz que se não vemos prédios, estamos em um lugar pior.
O interior.
Ah, sim. Era oficial. Eu estava no interior.

Nosso destino, enfim, e infelizmente, não era a cidade cosmopolita de Londres. Muito infelizmente. Indo na contramão de tudo o que já fizemos, e de todos os outros doze lugares em que já moramos, estávamos indo diretamente para o interior. Minha mãe dizia que era bem melhor do que o subúrbio, mas eu simplesmente não conseguia ver tanta diferença entre os dois. Para mim, dava no mesmo. Tecnologia atrasada, falta de internet, casas velhas de madeiras e gente caipira.
- Eu li em um blog que o distrito de Cotswolds é o mais antigo da Inglaterra. A arquitetura é muito século X e a apenas duas horas de Londres! – meu pai comentava feliz. Ele é o mestre dos comentários aleatórios, para tudo e sobre tudo. Semana passada ele tagarelou por horas com um amigo sobre as regras do rúgbi e como este é um esporte de classe. Às vezes eu me pego pensando em como ele tem tempo para saber de tantas coisas.
- Se é tão perto assim de Londres, por que não Londres?
- Minha querida, só estamos tentando algo novo. – pude vê-lo sorrir ao conseguir derrubar três alvos com um passarinho só – Tenho certeza que você vai gostar.
Minha mãe balançava a cabeça, em afirmação – A casa é linda. – e dirigiu seu olhar para mim, pelo espelho central – Você sempre quis morar em uma casa grande.
- Nosso trato ainda está de pé?
- Com certeza. Assim que arrumarmos tudo, você pode ter o que quer.
E o que eu queria era um cachorro. Na falta de meus antigos amigos e do meu irmão, eu teria ele.

Meu pai continuava tagarelando sobre o incrível condado de Gloucestershire, onde ficava o distrito de Cotswold, que ia ser a nossa nova casa. Eu ainda, sinceramente, não sabia como ele possuía forças para isso. É a nossa décima terceira casa nova.
Que tipo de pessoa se anima com a décima terceira mudança?
- Vocês sabiam que Cotswold tem o metro quadrado mais caro da Inglaterra?
Mesmo cansada dos comentários aleatórios de papai sobre o lugar mais caipira do mundo, aquilo me chamou atenção. O que faz um distrito típico do século X ter apenas famílias ricas? Naquele momento eu pude entender um pouco o que estávamos fazendo ali. Mesmo sendo interior e bizarro, ainda era um condado de ricos.
Típico dos meus pais. Estava ali a diferença do subúrbio.
Mas eu não poderia deixar a oportunidade de ser chata passar – Então não vamos ver carroças por aqui?
- Pelo contrário! – ele exclamou, mas isso não fez a minha cara emburrada passar – Os moradores aqui têm uma ótima condição. Acho mais fácil vermos apenas carros caros e importados.

Papai continuava falando demais, até que uma placa enorme toda decorada nos apontou que tínhamos chegado ao nosso novo destino. “Bem vindos à Veneza da Inglaterra, Bourton-on-the-Water, no condado de Gloucestershire”.
Se o interior já soava péssimo, imagine morar na Veneza da Inglaterra.
- O nome do rio que corta a vila é Windrush. – meus olhos se fecharam automaticamente, minhas mãos levadas as minhas têmporas, buscando paciência – Jogadores britânicos disputam todo ano em equipes um jogo aquático nesse rio. Dura cerca de trinta minutos, deve ser divertido de se ver. – ele suspirou alto – Dizem que essa disputa acontece há mais de um século!
Minha mãe passava devagar pelas ruas, observando os dois lados junto com meu pai. Haviam várias lojinhas feitas de pedra, cafés e eu podia jurar ter visto até mesmo um pub – Acho que aqui vamos conseguir tomar o típico chá inglês, que também é chamado de cream tea. Ele pode ser servido com ou sem leite e acompanhado de scones caseiros, geleia e cloted cream. Cloted cream é um creme de leite encorpado, típico da Cornuália. Incrível!
Incrível seria se alguém se importasse com cloted cream como meu pai.
Nem minha mãe conseguiu reprimir a careta – Você gravou isso tudo?

Após darmos algumas voltas, de acordo com o nosso GPS alugado, havíamos chegado. E o nosso destino era uma casa enorme. Eu tive de suspirar ao sair do carro. Nossa décima terceira casa nova era realmente linda.
E eu odiava ter que admitir isso.
Parecia que tinha saído de um filme ou algum livro de época famoso. Toda ornamentada em calcário e muito verde das plantas que subiam pelas paredes externas e janelas, aquela era a maior casa que já tivemos. Tinha dois andares, sem contar com o provável sótão. Era completamente diferente dos apartamentos antigos que alugávamos na cidade grande.

O que mais chamava atenção era a falta de muros. Nenhuma casa da rua de pedras tinha um muro as separando, e parecia que no condado inteiro de Gloucestershire isso não existia. A parte da frente dava em um enorme gramado verdinho, com alguns tipos de flores e plantas decorando naturalmente a entrada da casa.
Mesmo emburrada com o lugar e toda essa palhaçada de décima terceira mudança, eu senti algo gostoso ao ver a casa. Parecia e soava diferente de qualquer outra coisa que eu já tenha vivido.
Mesmo que eu realmente não quisesse confessar isso.
Meu pai colocou suas pesadas mãos em meus ombros – O que achou? É bonita, não é? – apenas agitei a cabeça, afirmando. Olhei para seu rosto e ele parecia realmente feliz. Não pude conter de me sentir mal por estar tão chateada por estar nesse fim de mundo. Eu mal tinha culpa de me sentir assim, já havia feito muito sacrifício para acompanhá-los por todos os lugares.
Ele então pegou uma grande caixa no porta-malas do nosso carro alugado. Esta tinha uma grande etiqueta com a palavra “Sobrevivência”. Isso significava documentos, tecnologia, e qualquer outra coisa que devia estar lá primeiro do que o caminhão de mudanças, caso acontecesse algum imprevisto – Nós precisamos comprar coisas típicas da Inglaterra e do distrito para colocar em nossa casa. – meu pai continuava falando sem parar sobre o nosso adorável distrito da Inglaterra – Será que eles fazem churrascos com os vizinhos por aqui?

Por dentro a casa se mostrava ainda mais maravilhosa. Por sorte, o caminhão de mudanças já havia chegado e o caseiro responsável por nos entregar as chaves já havia colocado boa parte das caixas dentro da casa. Algumas outras foram entulhadas na garagem. Como a casa já estava completamente mobiliada, nossos móveis foram descartados na França. Lembrar disso fez com que o meu mau humor se despertasse novamente. Seria o ápice da minha vida em Cotswold caso o meu quarto estivesse decorado como para uma menininha.
Em vez de todo aquele branco e aparelhos de última geração que às vezes nos davam até ‘bom dia’, nossa casa era 70% madeira. Eu não posso dizer que não era bonita ou aconchegante. Era sim. Mas eu ainda preferia o luxo da cidade grande e da geladeira que me avisava as coisas bobas que sempre esqueço.
Mas a casa em geral não me importava. O ponto principal era: meu quarto. Meus pais haviam avisado que ficava no segundo andar da casa, o que já me agradava. Quanto mais longe do jardim bonito, melhor.
Subi as escadas de madeira e, para minha surpresa, elas não faziam barulhos de velhice como em qualquer casa do interior. Seguindo instruções de meu pai, segui até a segunda porta a direita. Era grande e larga, de madeira escura.
Abri a porta devagar, logo suspirando aliviada. Era um quarto de gente normal. Havia uma cama de casal no meio, um armário grande e cor de marfim do lado direito (será que todas as minhas roupas caberiam ali?). No lado esquerdo uma janela enorme que mantinha uma vista para o Rio Windrush, por vários metros de distância. Na parede em frente à cama, ao lado da porta, havia um grande espelho de corpo todo.
Era o ideal. Parecia um pouco com um quarto de algum filme bobo americano para garotas de quinze anos, só que do interior e caipira. Mas eu ainda achava que, com meu toque pessoal, poderia me sentir bem ali dentro.
Não que eu realmente me importasse na decoração, já que não sabia quanto tempo que poderia chamar aquele local de meu.

Cheguei perto do espelho, meu reflexo parecia cansado e de saco cheio. Minhas roupas ficavam em um contraste absurdo com o quarto, modernas demais. Passei as mãos em meus cabelos, que estavam em um tamanho médio. Eu gostava do que via. Principalmente por ser tão diferente do que via e vi ao meu redor.
O problema de mudar constantemente era sempre o pavor de aceitação, ainda mais quando você tem que enfrentar uma nova escola. Eu estava preparada para ser o centro das atenções em Bourton-on-the-Water?
Sem modéstia ou qualquer outra coisa, eu realmente gostava do que via em meu reflexo. Gostava das roupas que vestia, gostada de minha silhueta e, sem dúvidas, gostava dessa sensação de diferença. Eu sempre tive uma fisionomia normal, me sentia bonita, mesmo sem ter o corpo do que muitos costumam chamar de “gostosa”. Eu sabia que conseguia chamar atenção, se quisesse. Na verdade, sabia que qualquer menina conseguia fazer isso. Bastava autoestima e uma roupa que você julgasse bonita.
Mas, com o pouco que eu tinha visto sobre aquela vila, o medo principal não era ser o alvo de perguntas bobas, como “como é a cidade grande”, “quantos países você conhece” ou “quantas línguas você fala”, mas sim o fato de que, por somente ter quatro mil habitantes, aquele local era o mesmo de sempre. Todo mundo se conhecia, não era possível ser o contrário. Eu teria o desafio de fazer amigos em um lugar que todo mundo se conhece desde que nasceram.

Sacudi a cabeça, tentando me libertar desses pensamentos. Deixaria isso para amanhã, na escola nova. Ajeitei os fios desajeitados de meu cabelo com as mãos, e um movimento pela janela me chamou atenção. Dei passos largos até o local, logo a abrindo para cima, com facilidade. Pelo menos as corredeiras pareciam novas.
A vista era bonita, eu devia confessar novamente. No fundo, bem fundo mesmo, eu via o corte do rio Windrush. Mais perto, campos verdes com muitas árvores e casas de pedras. Vizinhos.
Alguns adolescentes de uniformes, provavelmente da The Cotswolds School (meu pai já deu uma palestra sobre ser a única escola de formação da região e que pessoas de outras vilas vinham estudar aqui), passavam perto do rio, alguns rindo e deitando na grama verde demais. Será que alguém pulava naquele rio intocado? Aquilo era completamente diferente de tudo o que eu já tinha passado em minha vida. Verde demais, sossego demais.
Meu pai apareceu em meu campo de visão, em nosso jardim – Minha querida, sei que a vista é linda, mas venha nos ajudar!
Desci as escadas em passos largos, logo encontrando meus pais. Coloquei algumas caixas para dentro, ajudando com o conteúdo em outras. Mamãe se concentrava nas coisas de cozinha, enquanto meu pai ficou responsável pelos equipamentos eletrônicos e outras coisas da sala de estar. Minha mãe não era nem um pouco tecnológica, mas duvido que fique sem assistir seu CSI diário na televisão paga.

Olhando pela grande janela da frente, uma criança passou brincando com uma bola de futebol, provavelmente indo para o campo verde perto das pequenas pontes.
- Nós podemos tirar um fim de semana e ir até Londres para assistirmos uma partida de futebol. – meu pai chegou de repente, observando a janela junto comigo. Eu nunca gostei muito de esportes, mas era sempre divertido ir a estádios com ele. Em Nova Iorque eu ia assistir beisebol só para usar mãos de espuma gigantes e comer cachorro quente – Estou em dúvida se quero torcer para o Manchester United, Arsenal ou para o Tottenham Hotspur. – ele falava agora mais para si mesmo – Será que Cotswolds tem um clube próprio?
Tive de controlar a minha vontade de rir com sarcasmo. Se Cotswold tinha um time próprio de futebol? Parecia uma boa piada aos meus ouvidos, já que a região não parecia ter ao menos eletricidade.
- Tenho que escolher antes do jogo, porque dizem por aqui que um dos principais rivais do Arsenal é o Tottenham, já que eles disputam regularmente o North London Derby.
Não fazia ideia do que era North London Derby e nem gostaria de saber. Além de ser o rei dos comentários aleatórios, meu pai também ganhava a coroa com suas explicações demoradas. A regra sempre foi: só pergunte algo a papai se você realmente precisa saber, pois perderá bons minutos – e até horas, com suas histórias gigantes sobre tudo.

Chequei meu celular pela décima vez, enquanto meu pai tagarelava sobre alguma coisa sem importância para mim – Vocês realmente me trouxeram para um lugar sem sinal de telefone?
Meu pai parou de falar sobre futebol – Vamos ter internet em alguns dias.
- E até lá eu fico incomunicável?
Mamãe apareceu do nada – Deixe de ser dramática. Até o começo da próxima semana já temos tudo instalado em nossa casa.
Quase sufoquei – O que vocês esperam que eu faça por aqui? – eu fazia gestos exagerados, enquanto eles me olhavam com calma – Querem que eu vá sentar na grama e ler livros de história medieval para saber mais sobre aqui?
Minha mãe revirou os olhos – Faça o que quiser, só não fique reclamando. O lugar é lindo, você vai achar coisas para fazer.
Meu pai parecia concordar – E principalmente ao ar livre! Vai ser ótimo.
Mamãe continuou – , vá conhecer a vila, fazer amigos.
Aquilo me atingiu como uma bala provavelmente faria. Eu não era antissocial, mas, sempre que fazia amigos, nos mudávamos. Era como se minha vida fosse um jogo em que a tarefa para mudar de fase era conquistar amigos.
A olhei de cara feia – Vocês estão mesmo felizes nesse fim de mundo? – deram de ombros – Vou fazer exatamente o que disse, que ai já vamos embora mais cedo.

Sai de casa com mamãe chamando por meu nome, mas já era tarde demais. Eu não queria ser grossa com meus pais. Sempre fomos uma família bem feliz e harmoniosa, mas era sempre difícil nos primeiros dias. E eu sabia que ela entendia isso. Eles tinham a companhia um do outro, em qualquer lugar do mundo. Eu era a filha que tinha que ir junto, apenas.
As ruas estreitas de pedra me deixavam com pior humor. Como alguém pode preferir essa cidade congelada no tempo a uma grande metrópole, onde tudo é completamente acessível, fácil, prático e as suas ordens? Eu não conseguia entender.
Os cidadãos de Cotswolds se encontravam espalhados em pequenos cafés, bancos de pedra nas calçadas e sentados na grama próximo à divisão do rio. Perdi a conta de quantos sorrisos recebi ao passar por tudo aquilo.
Tudo ficava pior ao perceber como Bourton-on-the-Water parecia coisa de filme romântico e meloso. A placa de entrada não mentia nem um pouco, o distrito era sim a Veneza da Inglaterra. As casas de pedra, os caminhos de flores e extensos jardins… E o grande rio cruzando as ruas. Tudo parecia extremamente lindo e perfeito, de um jeito completamente irreal. Romeo e Julieta poderiam facilmente morar aqui com suas famílias complicadas.

Mas o que mais irritava era a falta de sinal. De telefone. Que tipo de cidade, em pleno século XXI, tem problemas com rede telefônica? Eu andava com meu celular em mãos, como uma maluca procurando sinal. Alguns curiosos olhavam as casas ao redor, com câmeras de última geração nos pescoços. Flashes e mais flashes. Poses e mais poses ridículas perto dos grandes lagos e imóveis mais antigos. Turistas. Eu odiava ser turista. Odiava viajar. Mas naquela hora eu queria pertencer ao grupo de viajantes, pois só assim eu não deveria ter de morar no fim de mundo do século X chamado Cotswolds.
Com certeza, Bourton-on-the-Water seria o pior dos treze lugares em que já moramos. Eu estava certa antes mesmo da escola. Na cidade grande eu simplesmente me enfiava entre todos, despercebida, apenas parte de uma multidão. Incrivelmente, eu me sentia parte de alguma coisa, de certa maneira. Em Cotswolds, eu não sabia como fazer aquilo. Não sabia nem como começar. Não queria admitir, mas seria péssimo ser completamente ignorada em uma vila com menos de quatro mil habitantes.
As pessoas pela vila não pareciam ligar para novidades. Eu era uma novidade. Ficaria para trás, com certeza.
Seria apenas mais um ano longo, sem amigos, vivendo num fim de mundo.

A melhor decisão do momento foi sentar em um dos vários bancos velhos de pedra escura, espalhados pela margem do rio. Eu já havia desistido do meu celular. Respirei fundo, analisando ainda mais aquela vila idiota. E, mais a minha direita, havia uma loja de esquina, que se nomeava “Mercearia” no letreiro. Algumas letras ao lado estavam bem apagadas, dificultando minha leitura de longe. Bem original. E caipira.
Andei na direção da tal loja. Talvez eu conseguisse o que queria: meu cachorro. Bem, não exatamente meu cachorro, mas pelo menos uma luz de onde consegui-lo. Meu pai sempre disse que as menores lojas são as que mais possuem informações, porque geralmente são de familiares locais.
O mercado não parecia ser grande coisa, mas provavelmente seria o único na rua onde eu me encontrava. Eu não poderia me deixar se perder em Cotswold. E muito menos em uma vila ridiculamente pequena e velha como Bourton-on-the-Water.
O local era maior do que por fora. O chão de madeira escura parecia ter sido polido a pouco tempo. Diversas prateleiras ficavam no meio da loja, assim como nas paredes indo até o teto, como se fossem armários de madeira antigos com vários nichos. Algumas pessoas olhavam produtos diferenciados nas prateleiras, já que o mercado parecia vender de tudo. Um garoto de cabelos castanhos tentava ajudar uma senhora com um chapéu duas vezes maior que a circunferência de sua própria cabeça. Suas roupas eram mais do mesmo: cinza e cafona, como toda Cotswolds.
Parei no meio das prateleiras, sem saber o que fazer. Era óbvio que ali eu não acharia um cachorro para levar para casa. O menino me olhou de lado e meu coração quase parou quando ele simplesmente deixou a velha de lado e decidiu vir até mim.
Pela primeira vez eu tinha chamado a atenção de alguém naquele lugar idiota. Sua expressão era absolutamente calma, como se fosse normal garotas se perderem pelo mercado da região. Ele parou ao meu lado, deixando um sorriso a mostra.
- Olá, tudo bem? – eu nunca tinha percebido o quanto amava o sotaque britânico. É tão bonito quanto o francês, mas o das pessoas de Cotswold parecia ser mais forte que o normal, mais carregado por ser do interior. Eu poderia falar o dia inteiro se tivesse um sotaque desses. Dois anos na França e eu mal conseguia forçar como eles falam de verdade.
Concordei entre gestos, não querendo prolongar muito aquilo – Você sabe onde eu posso conseguir um cachorro?
Ele franziu o cenho, parecendo pensar – Não acho que temos isso por aqui.
Aquilo era o fim do meu dia – Não há cachorros aqui?
- Claro que tem, mas não para comprar. – acho que a minha reação arrasada o preocupou – Talvez você precise ir a Londres. Tem locais de adoção por lá. – e pareceu dar de ombros – Está de passagem na cidade?
Não consegui reprimir a careta em meu rosto. Podia até ser falta de educação, mas foi impossível. Pelo fato de, infelizmente, eu não estar apenas de passagem e pelo fato de eu querer um cachorro não o faça perceber que eu também moro nesse fim de mundo – Infelizmente não. – suas sobrancelhas se ergueram em surpresa – Moro aqui agora. Acabamos de chegar.
- Possuem parentes por Cotswolds? – balancei a cabeça em negação. Isso fez com que sua expressão se tornasse confusa – Ah, estão vindo de Londres?
- Paris.
- Paris? – as feições confusas continuaram em seu rosto, mas eu juro que pude ver um sorriso reprimido. Qual era a graça por virmos de Paris? – O que te traz até Cotswolds?
- O emprego do meu pai. Ele é consultor financeiro. Está trabalhando com as contas públicas da Inglaterra, algo assim. – sempre foi difícil explicar para as pessoas os motivos de tantas viagens e mudanças, o mesmo para explicar direito o que meu pai fazia. O fato era que, por ser especialista em desenvolvimento econômico de regiões com negócios e indústria de larga escala, ele vivia viajando, de acordo com os interesses dos países. Geralmente era convocado quando algum problema financeiro grande estava acontecendo no local.
As viagens constantes eram chatas, mas o sonho particular que papai tinha de “combater a fraude pública no mundo” (como ele mesmo dizia) era bonito. Humanitário, eu sempre achei.
O foco da vez era a Inglaterra, não sei exatamente o distrito ou condado, mas foi isso que me fez ir parar em Bourton-on-the-Water. Eu não sabia o que estava acontecendo pela Inglaterra e nem me interessava.
- Isso parece complicado. – ele fez uma careta confusa, coisa que eu já esperava. É sempre assim – Mas Cotswold?
Dei de ombros, ignorando seus olhares curiosos. Para que tanto interesse em uma estrangeira qualquer? Parece que isso não acaba nunca – A resposta dele foi “qualidade de vida”. Mas por que a surpresa? Esse lugar é tão caipira assim que não recebe gente da cidade grande para morar?
Seu olhar me intrigava. Globos azuis como o mar. Será que a minha grosseria desnecessária tinha o afetado? Bom, naquele momento pouco me importava. Eu ainda queria um cachorro.
Ele então me observou de cima a baixo, talvez analisando as minhas roupas. Acompanhei o seu olhar. Eu vestia saia e blusa preta, junto com um casaco no estilo sobretudo vermelho sangue. Não havia nada demais, mas já era o suficiente para me destacar como diferente em Cotswold. Mas tanto faz. O que afinal esse desconhecido tinha a ver com a minha vida? – Garotas como você passam por aqui apenas como turistas. Tiram fotos, compram coisas inúteis nos mercados e depois vão embora.
Então estava certo. Eu havia ofendido o primeiro caipira do local.
Naquele momento eu poderia socá-lo até seu rostinho lindo ficar roxo – O que você quer dizer com isso? – espera aí, rostinho lindo? – Quem você pensa que é? Nem me conhece!
Ele mal se afetou com as minhas palavras rudes – Me desculpe se te ofendi, mas só disse a verdade. – e simplesmente deu de ombros – Você não combina com Cotswold.
Por mais irada que eu estivesse aquilo me confortou. Eu não “combinava” com Cotswold. Talvez esse tenha sido um dos melhores elogios que eu recebi nos últimos meses.
Mas eu não podia deixar aquilo barato. Eu não sabia explicar por que, mas precisava jogar minha frustração em alguém – E você? – meus olhos analisaram novamente suas roupas, até chegar ao seu rosto. Trajes cinza e branco, sem personalidade alguma. Nenhum sinal de vergonha ou timidez por parte dele – Fica por aqui espalhando grosserias ou só gosta da velharia?
Seu olhar tranquilo ainda me atingia – Eu cresci aqui, então já me acostumei. Mas desde que visitei Londres vi que a vida pode ser diferente. – ele deu um sorriso para uma senhora que passou entre nós – E eu trabalho aqui, caso não tenha percebido.
Resolvi me calar. Toda a simpatia anterior fora derrubada facilmente. Se todas as pessoas de Cotswold fossem desse jeito, preferia não pedir ajuda para nada durante nossa estadia por Bourton-on-the-Water. Humores voláteis, como na cidade grande. Será que pelo menos isso aquele fim de mundo se pareceria com Nova Iorque ou Paris?
O garoto bonitinho deu de ombros, mexendo em algo nas prateleiras ao meu lado e logo sendo chamado por um senhor usando roupas sociais demais.

Olhei em volta. Eles realmente vendiam de tudo. Nas prateleiras era possível encontrar desde temperos a camisetas com “I LOVE BOURTON” ou “RIO WINDRUSH PASSA AQUI”. Guarda-chuvas, bolsas, itens de farmácia e muitos outros.
Se eles queriam ter uma loja sem definição, conseguiram.
- Está matriculada na escola? – sua voz rouca me atingiu novamente, assim que estava pronta para colocar meus pés fora do mercado. Dei meia volta, observando-o subir em uma pequena escada de madeira velha, para alcançar as prateleiras altas da parede. Nelas, garrafas coloridas com algum conteúdo desconhecido estavam enfileiradas.
- The Cotswold School. – não consegui reprimir uma careta. Até o nome da escola soava velho, chato e antiquado – Se você estuda, provavelmente é lá, certo? Acho que aqui não tem outra escola.
Ele me olhou de lado enquanto colocava algo em uma das prateleiras – Você tem razão. Estudo lá também.
A única coisa que fiz foi um barulho estranho com a boca – Legal.
O garoto desceu a pequena escada, ficando próximo de mim novamente. Seu humor de volta ao modo “simpático”. Deve ser instinto natural dos nativos por aqui – Como você veio da cidade grande deve estar achando tudo um saco, mas você acaba se acostumando. – tive de reprimir uma gargalhada. Quem já morou em Nova Iorque, Paris, Chicago, Flórida e Holanda não se acostuma tão fácil com um fim de mundo que se chama de “Veneza do interior da Inglaterra” – Aqui nós temos algumas coisas legais para se fazer. Tem vários cafés, restaurantes e pubs. E as pessoas gostam de se encontrar, fazer piquenique perto do Rio, essas coisas.
- Tantas coisas, menos cachorros.
Ele soltou uma risada que eu fiz o máximo para não sorrir junto, ainda tinha que me fingir de ofendida – Vá a Londres, é bem perto.

Um garoto mais ou menos da altura do menino entrou no mercado. Seus cabelos claros estavam completamente bagunçados, mas, diferente do outro, suas roupas eram menos sóbrias – E aí meu irmão! Vamos?
O garoto do mercado olhou para ele, concordando de prontidão – Só um segundo, vou pegar minhas coisas lá dentro.
O loiro me olhou de lado, sorrindo de leve. Realmente simpatia deve ser algo normal em Cotswold – Tudo bem?
Apenas concordei com a cabeça. Ele tirou um celular do bolso, discando algumas coisas na tela sensível. Não consegui reprimir um suspiro de alívio. Meu pai não havia mentido, existia sim internet no fim do mundo. Eu só tinha que descobrir como fazer o meu celular funcionar e pronto.
A porta dos fundos se abriu com rapidez e o garoto do mercado saiu depressa, carregando uma mochila preta nos ombros. Ele gritou algo para um homem que havia acabado de aparecer atrás da máquina registradora, logo andando até a nossa direção. Ou melhor, até o seu amigo.
Eles se cumprimentaram com um meio abraço. E depois disso ele olhou em minha direção – Boa sorte com o cachorro, a gente se vê. – e andou para fora do mercado. Antes de sair, virou-se novamente, com um sorriso que julguei ser sincero – Bem vinda a Cotswold!
Ver o menino do mercado com seu amigo havia me machucado. Pois me fazia lembrar um fato bem constante da minha vida: eu não tinha amigos. E, mais uma vez, estava em um local completamente estranho. Sem conhecer ninguém. Doía mais pela nostalgia que eu sentia em todo começo de cidade/país novo. Meus amigos que me acompanhavam até o momento, de longe, faziam mais falta ainda. A minha vontade era de dar uma de rebelde e pegar o primeiro voo até Nova Iorque, só para vê-los de perto mais uma vez.

Sentada mais uma vez no banco gelado de pedra, de frente para aquele rio estúpido, eu via o outro lado da vila, onde dois adolescentes andavam de bicicleta, correndo um atrás do outro. Eu ainda sabia andar naquilo?


FLASHBACK

Eu reclamava pela milésima vez – Eu não vou fazer isso!
Seus olhos verdes reviraram novamente – , deixa de ser menininha.
Fiz uma careta ofendida – Eu não sou menininha!
Bree cortou a conversa, me ameaçando com um empurrão – Anda logo!
Logan ria da minha cara de espanto – Princesa, confia em mim. Está segura.
O medo da vez era: aprender a andar de bicicleta. Quando criança, com todas as viagens loucas, meu pai nunca tinha parado para me ensinar a andar naquele treco. Depois de um joguinho de “eu nunca” ridículo (bem ridículo mesmo, quem diz que nunca andou de bicicleta na vida?), Logan e Bree me obrigavam a andar naquele veículo de morte.
- Eu tenho treze anos e moro perto do metrô. Preciso mesmo fazer isso?
O Central Park estava até vazio para a época. Algumas pessoas passeavam de bicicleta, outras de patins ou skate. No fundo, em uma quadra de baseball, uma gritaria constante.
Bree se sentou na grama, como sinal de desistência – Logan, deixa ela. Quando chegar o dia em que a bicicleta for o único meio de transporte que ela terá, vamos ver como vai ser!
Revirei os olhos em sua direção – Deixe de ser dramática. Onde eu estaria para ter só bicicletas? Na roça? – ela deu de ombros. Logan continuava parado ao meu lado – Não vai me livrar dessa?
- Se você tentar assisto aquele filme de mulherzinha com você.
Aquilo sim foi um incentivo – Pipoca dupla?
Ele riu mais ainda – O quanto você quiser.
Respirei fundo, já imaginando o desespero de minha mãe quando visse o meu futuro machucado – Vamos nessa.

FIM DO FLASHBACK


Observando a vila, via muitas pessoas andando de bicicleta. Parecia ser o transporte mais normal da região.
Ri sem humor algum, falando alto – Bree, sua filha da puta.
Um casal que estava sentado às margens do rio olhou para trás, com cara feia. Nem me dei o trabalho de pedir desculpas, logo saindo daquele lugar.
Derrotada e sem cachorro, meu destino era voltar para aquela casa de comercial de margarina. A caminhada não parecia ser longa, caso eu não me perdesse. Mais uma vez. Não poderia me deixar perder naquele buraco.
Enquanto caminhava, meu casaco vermelho sangue pesava em meus ombros, mas não conseguia me importar com isso. A única coisa que eu não poderia fazer era se entregar a esse universo antigo, como meus pais já haviam feito. Por mais que eu adorasse usar cinza, decidira que aquela cor estava banida do meu armário.

Sem muita dificuldade, cheguei novamente a nossa nova casa. Ela, pra minha raiva, continuava linda.
Adentrei pela porta central, logo encontrando papai e mamãe sentados no grande sofá branco, em frente à televisão um pouco grande mais. A maioria das coisas já tinha achado o seu local apropriado, mas isso não diminuía a sensação de bagunça e papelão amontoado.
E, bom, tínhamos sinal de televisão.
Assim que percebeu minha presença, meu pai logo tratou de dar dois “tapinhas” ao seu lado vago, para que me sentasse – Querida, conseguiu seu cachorro?
- Ainda não, acho que vou precisar ir a Londres.
Meu pai concordou, rindo de algo do filme maluco e preto e branco que eles assistiam. Nós já tínhamos televisão a cabo ou era assim que as pessoas de Bourton-on-the-Water ainda viam seus canais? – Me parece um bom motivo para conhecer Londres.
Me acomodei no sofá branco até que o filme acabasse. Minha mãe subiu as escadas, desejando boa noite. Meu pai zapeava alguns canais, como se buscasse alguma desculpa para que pudesse ir dormir cedo também – Como foi seu passeio? – apenas resmunguei alguns comentários sobre falta do que fazer e a simpatia exagerada das pessoas – Nós conhecemos nossos vizinhos enquanto você estava fora. – meu pai chegava ao canal quinhentos, ainda insatisfeito com a programação – Acho que vai ser fácil fazer amigos por aqui.
Felizmente, meu pai não tinha percebido a ironia em minhas palavras. Pensando no episódio do mercado, me vi falando – Acho que não vai ser tão fácil assim.
- O que, minha querida?
Eu não podia falar para o meu pai, em nosso primeiro dia na cidade nova, sobre como seria difícil fazer novas amizades pela região. Todos se conhecem desde que nasceram, era como se eu fosse o indivíduo extra que ninguém precisava – Nada, pai.
A televisão foi desligada. Meu pai se levantou, logo estendendo sua mão para que eu a pegasse. Nós caminhamos até a escada, subindo-a em seguida. Paramos na porta do meu quarto novo, enquanto meu pai soltava alguma curiosidade sobre o tipo de madeira que usaram na construção da casa.
Algo como do século passado, como Cotswold inteira.
- Nós vamos ser felizes aqui, você vai ver.
Seu sorriso tinha o que eu mais gostava no mundo. Sinceridade. E aquilo fazia com que eu tivesse esperanças de que não fosse tudo como Chicago ou como na França. Seria diferente, pois já estávamos fazendo, infelizmente, o diferente: estávamos no interior.
O maior problema mesmo era saber por quanto tempo seriamos felizes em Cotswold. Ou se o nosso tempo por ali daria tempo de criar algum tipo de felicidade.
Sem ter o que falar, aceitei seu beijo de boa noite na testa – Confio em você, pai.



Capítulo 2 - Comportamentos


"O comportamento é um espelho em que cada um vê a sua própria imagem." (Johann Goethe)

Eu odiava primeiros dias.
Principalmente primeiros dias em lugares que, aparentemente, todos se conheciam há anos.

O caminho da nossa nova casa caipira até a escola não foi um dos piores. Por ser perto, pelo menos não precisava pegar o ônibus cafona e cinza (o subúrbio parecia ter problemas com cores) com pessoas que eu não fazia questão de socializar tão cedo. Eu não tinha nenhum plano para sobreviver àquela escola ou a todos os dias em Bourton-on-the-Water, a única coisa que me vinha à cabeça era reclamar. Com um pouco de insistência, talvez a população de quatro mil caipiras resolvesse ouvir alguém sábio da cidade grande e fazer as coisas do jeito certo.
Seria um ótimo começo que tudo isso fosse demolido e apagado do mapa.
Problema resolvido.
Meus pais insistiam em fazer com que eu amasse o interior. Falavam besteiras sobre ar puro, falta de buzinas às sete horas da manhã de um dia útil e como aquilo iria rejuvenesce-los. Minha vontade era ter um pote com poluição urbana só para jogar em alguém que me enchesse o saco naquele primeiro dia de aula.

Além de toda aquela confusão de nova mudança e novas pessoas, eu ainda tinha que lidar com um fato que provavelmente iria acontecer: por não fazer parte daquele ambiente, eu seria excluída. Não podia deixar que uma cidade pequena como aquela me fizesse sentir excluída. Como eu poderia ser excluída de algo assim?
Por ter chegado à cidade há apenas um dia, meus uniformes não estavam exatamente do melhor tamanho para o meu corpo, o que me fazia sentir mais deslocada ainda. Enquanto as meninas gostosas usavam a saia da menor maneira possível, eu estava me enquadrando nas saias das nerds, esquisitas e renegadas. Em nenhuma escola dos diversos países em que já tinha morado tive de usar uniformes tão clássicos e antiquados quanto aquele. Eu me sentia indo para alguma aula de poção junto com o lerdo do Longbottom (já que, de acordo com meu sábio pai, algumas gravações de Harry Potter foram feitas por toda região de Cotswolds).

O diretor da renomada The Cotswold School me olhava com atenção.
— Você já passou por muitas escolas. — e sorriu amarelo. A minha cara feia não se alterou — Mas muito boas, por sinal. Tenho ótimas recomendações.
Recomendações? Meu pai havia aprontado mais uma vez. Que tipo de pessoa que troca de escola dez vezes tem alguma boa recomendação? Não fiz nem questão de responder ao senhor grisalho sentado à minha frente.
— A senhorita tem algum interesse nas matérias extracurriculares de nossa instituição?
— Sinceramente? — ele acenou em afirmação, ainda mantendo seu sorriso moldado no rosto velho — Não. —, que, depois de minha pronúncia, murchou.
— Bom, nós temos muitas atividades interessantes. Teatro, Ciências, Esportes… — continuei olhando-o sem expressão alguma — Acho que a senhorita pode analisar melhor nossas opções, pois todos os alunos devem fazer atividades extras para concluir sua formação.
— Até mesmo os que provavelmente não estarão por aqui até o fim do ano letivo?
Eu não me encaixava no tipo de garota problema. Nem um pouco. E nem gostaria de ser a rebelde da cidade cinza e sem sal. Mas aquela escola e todo o ambiente rústico e imbecil de Cotswold me tiravam do sério. Toda aquela gentileza, fofura e falta de sujeiras nas ruas, tudo, completamente tudo, me irritava. E isso afetava diretamente meu humor e simpatia.
Talvez eu realmente precisasse de um plano para irmos a Londres o quanto antes.
Quando saí da sala do diretor até me senti mal, eu realmente não era esse tipo de pessoa, mas já havia passado. Provavelmente eu ia ser vista como um problema de curto tempo para a diretoria, já que, pelo meu adorável histórico, ele também não imaginava que eu fosse ficar muito tempo pela região.

Ao sair da sala do diretor, encostei meus ombros lentamente na parede branquíssima dos corredores, aguardando a pessoa que vinha me ajudar com a escola. Eu não conseguia parar de questionar que tipo de lugar tinha aquilo. Quem precisava de um orientador particular em uma escola no meio do nada?
A falta de imperfeições em Bourton-on-the-Water era surreal. Eu observava as pessoas andando pelo pátio super bem ornamentado e se esquivando pelos corredores com armários recém-pintados. Nada daquilo parecia certo ou normal. Os uniformes passados demais, os cabelos dos alunos brilhantes demais. Sorrisos demais às sete da manhã. Parecia que eu estava vivendo um dos piores filmes da atualidade, onde todos exalavam uma felicidade constante e eu simplesmente não conseguia sentir o mesmo.
A última pessoa que eu gostaria que fosse meu orientador na escola era algum popular fútil ou a garota mais linda do lugar. Meu uniforme era o mais cafona, eu tinha mau humor e não havia penteado os cabelos ao sair (como forma de protesto). Mas, como o destino nunca foi muito favorável aos meus desejos, vi uma garota perfeita caminhando até a minha direção, cumprimentando quase todos que passavam pelo largo corredor. Ela mantinha seus cabelos perfeitamente loiros moldados por uma tiara dourada, assim como o sorriso extremamente branco em seu rosto. Suas vestes eram as mesmas que as minhas, na técnica, pois eu parecia muito uma versão pobre das princesas da Disney perto daquela perfeição toda.
— É , não é? — a menina me olhou de lado, guardando alguns papéis em sua prancheta branca. Concordei em um sussurro. O que aconteceu comigo? Uma garota perfeitinha do interior não teria poder algum contra mim — Seu nome é lindo. Último ano? — ela me entregou uma pastinha com vários papéis dentro.
— Obrigada. — peguei o objeto em suas mãos, com cuidado — Sim, último ano.
Ela parou à minha frente, sorrindo abertamente:
— Sou Zara Ward. Penúltimo ano, chefe da comissão estudantil de direitos humanos. — ela fez uma careta — E sua orientadora na escola.
Ótimo. Até nome de princesa ela tinha.

Após sua apresentação nada modesta, Zara me levou em todos os cantos possíveis da escola. Para uma cidade do interior onde cabras, ovelhas e feno são atrações principais, a escola era grande. O suficiente para que eu me sentisse completamente perdida entre corredores, grandes portas e muita gente. E para uma cidade do interior onde não existem cachorros para se comprar ou adotar, havia muitas crianças e adolescentes pelo pátio principal. Se existia algum lugar secreto na vila onde os alunos pudessem descontar suas frustrações com cigarros, bebidas, baseados ou fazendo sei lá o que, eles escondiam bem.
— Nossa escola recebe todos os estudantes das regiões próximas. Stroud, Stow-on-the-Wold e outros. Por isso você vai ver muita gente que não pertence à nossa vila. — concordei com um gesto enquanto olhava as pessoas passando pelos enormes corredores — A psicóloga da escola quer vê-la depois. — ela ainda sorria para mim. E eu já estava extremamente cansada disso. Além dos olhares que recebíamos constantemente dos demais alunos. O pior era receber esses olhares por estar ao lado de Zara, somente — Você pode ficar depois do horário algum dia?
— Psicóloga?
— Procedimento padrão para novos alunos. — assim que ela terminou de rabiscar algo na prancheta, levou seus olhos até os meus — Te vejo mais tarde, boa aula!
Só então eu percebi que estava parada em uma das diversas salas de aula da The Cotswold School. E na grande porta estava o mesmo número que constava na primeira folha do meu papel de admissão.
Quando estava pronta para entrar na sala, Zara deu meia volta, me chamando alto pelo nome. A garota loira continuou me olhando. Sem entender nada, continuei parada em meu lugar.
— Você não pode usar isso.
— O quê?
— Seu casaco. — ela disse com a maior naturalidade possível, me analisando novamente — É vermelho. As cores da escola são cinza, azul e amarelo.
Analisei meu sobretudo vermelho sangue. Eu com certeza teria um azul no armário.
— O de cor azul está em casa, o que eu tenho que usar?
Zara deu de ombros.
— O suéter da escola.
Reprimi uma careta.
— Esse? — apontei para ela — Cinza?
A garota sorriu um pouco.
— Cinza. Te vejo depois.
Me dando por vencida, retirei a última peça de roupa que me separava da cafonice caipira de Bourton-on-the-Water. A partir daquele momento, eu era um deles, já que, pelo menos na The Cotswold School, era obrigada a ser como todos.

As aulas passavam com uma velocidade fora do normal, fazendo com que eu tentasse arrancar meus cabelos de quinze em quinze minutos. Por ter chegado à vila e à escola no meio da semana, me sentia completamente perdida, e nem aquela prancheta perfeita demais iria me ajudar com os desafios do dia.
Eu fazia o máximo para prestar atenção no que os professores diziam, mas a minha mente ia para longe. Meus olhos analisavam cada canto da sala, cada rosto, cada acessório esquisito e cinza, talvez buscando algo que fosse um pouco familiar para mim, algo que eu pudesse reconhecer e tentar uma aproximação. Primeiros dias eram sempre terríveis e, com o meu mau comportamento, as coisas poderiam ficar piores.

Depois de me perder em alguns corredores largos demais, consegui finalmente adentrar a sala de literatura inglesa (coisa que eu não estava nem um pouco feliz de encontrar na minha grade de horários). Contornando com os olhos todos os presentes, eu o vi. Com seu cabelo bagunçado, o jeito desleixado de sentar na carteira ridiculamente branca e sua jaqueta de couro. Sim, jaqueta de couro. No meio do mar cinza de alunos, ele usava uma jaqueta de couro preta. Mesmo olhando de longe, parecia a solução de todos os meus problemas com Cotswold.
Seus olhos extremamente azuis me acompanharam até que eu me sentasse na cadeira ao seu lado. Felizmente, era a única disponível.
No fundo e ao lado do possível rebelde de Bourton-on-the-Water.
Pelas cidades e países que tinha passado, mesmo sendo difícil fazer e manter amigos, não era tão complicado assim arrumar alguém para um relacionamento curto. Depois de Nova Iorque, onde tive um namorado (o primeiro e de verdade), a tristeza daquele estranho fim de uma relação tinha mexido um pouco com a forma com que eu agia em frente aos garotos. Eu não era o tipo de menina que ficava com todos, mas, quando gostava do que via, me esforçava um pouco para ter.
Lembrar de Logan, meu ex-namorado da América do Norte, ainda me deixava um pouco nas nuvens. Mesmo com um quase fim conturbado e com várias histórias que tivemos, era complicado pensar que provavelmente nunca ficaríamos juntos. Na França, depois que nos vimos, a separação foi tão difícil que eu tinha decidido que iria acabar com aquela tortura e que tentaria manter a melhor distância enquanto ainda sofresse com as frequentes mudanças de papai. Logan era alto, com os olhos verdes como um oceano provavelmente era de pertinho. Seu sorriso era lindo e me fazia derreter toda vez em que o via. Nosso envolvimento começou com uma amizade inocente e, quando vimos, já éramos um casal sem ao menos nos beijar. Era incrível pensar em como éramos inocentes, de verdade.
Mas, pensando nos outros lugares em que estive, Logan era a curva fora do meu “perfil” de garotos. Sempre tive uma queda por caras mais decididos e diferentes, e provavelmente em Cotswolds não seria ao contrário, já que a única pessoa que tinha chamado a minha atenção até o momento era a que vestia uma jaqueta de couro — indo na contramão total de toda a região.

Durante toda a aula chatíssima, senti o olhar do menino me queimando. Eu estava pronta para perguntar qual era o problema dele, mas não podia perder a oportunidade de fazer alguma amizade. Já pelo estilo ele era diferente. Talvez fosse diferente também dos demais habitantes de Bourton-on-the-Water e se interessasse por novidades. No caso, a novidade do momento era eu. E eu faria o rebelde da sala se interessar por mim.
Ter alguém para passar o tempo seria mais fácil do que arrumar novos amigos. Poderia já estar imaginando coisas demais, mas o garoto parecia um bom escape para a solidão que daqui uns dias me alcançaria.
Senti algo tocando meu braço, o que me fez sair daquele devaneio em plena sala de aula. Assim que virei o rosto, meus olhos se fixaram naquele oceano azul escuro.
— Você é a menina que chegou da cidade grande.
Aquilo não foi uma pergunta.
— Eu mesma.
Ele reprimiu uma risada, que parecia irônica. Só deixava melhor a sua pose de bad boy — Bom, seja bem vinda a Cotswolds.
Fiz uma careta.
— Obrigada, eu acho.
Ele piscou o olho direito, logo saindo da sala de aula como se nada tivesse acontecido. Na minha mente aquilo já era um baita progresso. Eu havia falado com alguém interessante no meu primeiro dia.

Ao reparar que metade dos alunos se levantaram em direção à saída da sala junto com o menino rebelde, voltei a me sentir perdida naquela multidão. Parecendo perceber minha confusão, a garota que estava a duas cadeiras à minha frente me encarava com uma expressão divertida no rosto.
— Precisa de ajuda para procurar a próxima aula?
Seu sotaque era mais forte do que o do menino do mercado e isso me fez suspirar. Eu nunca conseguiria ter aquilo e, assim, sempre seria a pessoa diferente do local. Não que eu quisesse ser comparada a algum caipira da Veneza da Inglaterra, mas não era nada legal ser a pessoa mais deslocada da região.
Peguei a pasta com vários papéis que tinha recebido mais cedo, a qual eu ainda julgava completamente desnecessária, já que não me ajudava a andar por aqueles corredores imensos. Li a terceira linha do material, que dizia “Biologia II”. Meu estômago chegou a embrulhar.
— Biologia II. Tenho que andar mil quilômetros para chegar lá?
A menina sorriu. Sua pele escura brilhava com o pouco sol que batia da janela do canto e isso só a deixava mais bonita. Eu gostava daquilo, parecia diferente também. Como eu.
— Me chamo Mila. — seu sorriso (branco demais, como todos da vila) pareceu o mais convidativo até o momento. Até mesmo que o do rebelde. Então foi impossível não retribuir.
.
— Sua aula é aqui mesmo. Quer sentar ao meu lado?
Peguei minhas poucas coisas e andei até a cadeira ao lado de Mila. Seria legal ter uma boa companhia durante a morte que estava por vir em Biologia II.
— Obrigada.
O sinal tocou e uma nova quantidade de alunos adentrou a nossa sala de aula. Em questão de segundos, um professor alto e careca já estava falando coisas que não pareciam nem um pouco interessantes.
Eu sentia o olhar de Mila ao meu lado, mas, mesmo gostando da aura da menina, não estava a fim de ser a pessoa nova que socializa com todos no primeiro dia. Com esse mau humor, mantive minha postura até a tortura de uma hora e quarenta acabar.

Eu esperava milhões de perguntas sobre a cidade grande, minha vida e o porquê de meus pais estarem me torturando com o interior. Mas em nenhum momento Mila ou alguém da The Cotswold School pareceu interessado na nova menina problema do local. Eu poderia conviver com aquilo, já que realmente não gostava de responder às mesmas perguntas de sempre. “O metrô é realmente aquilo que a gente vê nos vídeos do Facebook?”, “Os prédios são realmente daquele tamanho, igual nos filmes?”, e o famoso “Você já viu tal artista em tal lugar?”. Sempre um horror. Principalmente pelas pessoas se interessarem apenas pelos estereótipos de cada lugar em que já vivi. Isso me faria pensar se, daqui há alguns anos, alguém me perguntaria algo sobre Bourton-on-the-Water. Eu não saberia o que responder de bom.
Vila de quatro mil habitantes, no meio do nada, que possui um campeonato esquisito de futebol no Rio esquisito que corta todo o local.
Não tinha atrativos nem para escrever um parágrafo completo.
Antes de sair da sala, Mila me encarou com seus olhos brilhantes.
— Fiz algo que te chateou?
Fiz uma careta ao levantar da minha mesa. Seu olhar era extremamente preocupado. Se eu questionava o meu comportamento grosseiro na vila, eu também questionava a gentileza exacerbada da população local. A menina acabou de me conhecer e estava muito preocupada comigo. Isso daria um bom filme de terror.
— Não, está tudo bem. — ela não pareceu convencida, pois sustentou aquele olhar. Por que ela simplesmente não poderia ser como as pessoas da cidade grande? Se eu esbarro em alguém em Paris ou deixo alguém falando sozinho em um corredor de Nova Iorque, sou simplesmente ignorada. Fácil, simples e prático. Custava muito a galera se esforçar desse jeito? — O que foi?
Mila sustentou o olhar por mais alguns segundos, dando de ombros em seguida.
— Nada.
Saímos da sala lado a lado, entrando naquele mar de pessoas no corredor recém encerado. Mila acenava para diversas pessoas e aquilo fez com que meu coração congelasse. Eu realmente não queria me envolver com pessoas populares da escola de adoradores de feno.
— Por favor, não me diga que você é popular na escola.
Ela franziu o cenho como se minhas palavras tivessem saído em mandarim.
— O que te leva a pensar que eu sou popular?
Me ajeitei nas roupas cinzas cafonas e grandes demais, tentando disfarçar a irritação.
— Você não para de falar com todo mundo.
, essa é uma cidade pequena. Todo mundo se conhece. Eu entendo que você deve ser uma garota criada em cidade grande, mas tem que se adaptar ao interior. Todo mundo se cumprimenta por aqui.
Aquilo era o suficiente para que eu fugisse de Mila, antes que meu mau humor liberasse uma voadora na menina, que não tinha nada a ver com a minha merda de vida.
Resolvi ignorar seu comentário.
— Ah, você sabe onde eu consigo um chip novo para o meu celular? — a menina balançou a cabeça em afirmação, como se essa fosse a parte mais fácil do seu dia.
— Claro. Vai até ao mercado depois da ponte de pedra. Tem uma fachada antiga, mas lá você encontra de tudo.
Ótimo. Eu teria que voltar no último lugar que gostaria de ir.
Sorri para Mila, já andando em direção ao portão de saída da escola, pronta para ficar livre de toda aquela educação com desconhecidos.
— Obrigada!

Eu novamente procurava por rostos conhecidos no pátio de saída, apenas para me enganar. Quem conhecido eu poderia achar em uma cidade em que estava há apenas um dia? De longe vi o menino do mercado. Ele cumprimentou rapidamente uma menina de cabelos castanhos, sem parecer ter muito interesse. Provavelmente o caipira local era a sensação da escola e era só isso que me faltava.
Apertei o passo para fora da The Cotswold School, visto que um grupinho de meninas mais novas já começava a fofocar com os olhares pesando sobre mim. Eu não tinha tempo para aquilo e nem queria me interessar sobre possíveis fofocas da escola sobre a “nova garota da cidade grande”. Ser essa pessoa já era o suficiente para meu dia ficar ruim.

Decidida a fazer o caminho de casa sem me perder, ouvi um assobio muito perto. Na cidade grande eu nunca olharia para trás, mas meus sentidos estavam esquisitos no interior.
O menino rebelde da jaqueta de couro acenava. Parei de andar até que seus passos me alcançassem. O garoto jogou sua mochila no ombro direito, me olhando de lado.
— O que achou do seu primeiro dia?
— Uma morte menos terrível do que eu esperava.
Ele riu pelo nariz.
— Com o passar dos dias piora. Está indo para casa?
Dei de ombros. Eu queria ser simpática com ele (já que queria que o menino rebelde tivesse interesse em mim), mas não queria companhia até o mercado do garoto louco. Deus, como pode ser difícil ter bom humor.
— Indo para casa.
O menino continuou andando ao meu lado.
— Meu carro fica do outro lado.
Fiz pouco caso. Não queria saber porquê ele iria embora de carro numa vila onde temos quatro mil habitantes. E eu também não estava na minha melhor aparência, então queria fugir daquele papo o mais rápido possível. Precisava ajustar aqueles uniformes e pentear o cabelo para colocar o meu plano em prática.

Andando da escola até nossa casa caipira, o menino rebelde permanecia ao meu lado e isso só me fazia questionar onde estaria o tal carro do garoto. Acabamos passando em frente ao mercado “vende de tudo”. Parei próximo à entrada, o que fez o menino me olhar com interesse.
— Você mora por aqui?
Achei uma pergunta boba, porque perto do mercado só se via outras lojinhas específicas e restaurantes pequenos. E também pelo “por aqui”, como se a vila fosse algo que não pudesse ser contornada a pé em alguns minutos.
— Preciso ver se tem algo no mercado para o meu celular.
Ele ajeitou a mochila novamente nos ombros.
— Meu carro está do outro lado da ponte. Te vejo amanhã na escola?
Tive de sorrir, já que o interesse dele em mim fazia com que eu me sentisse menos deslocada dentro daquela vila.
— Claro. A gente se vê.

Adentrei o mercado em passos largos, sem fazer questão de olhar quem estava presente no balcão, mas sabia que o garoto do mercado poderia estar por lá. Não queria gastar minha saliva com novas conversas. Comigo, havia mais duas pessoas olhando as prateleiras e eu realmente achei que eram turistas pela quantidade de souvenirs e camisetas esquisitas da região que carregavam em suas pequenas cestas de ferro. Na pequena parte de “faça você mesmo”, eu olhava todas as cores de linhas, tentando achar a mais próxima do cinza cafona dos uniformes.
Mesmo estando bem concentrada em minha tarefa, com o canto dos olhos vi o menino que já esperava atrás do balcão principal. Ele passava as compras de alguém no computador. Com o passar dos minutos dentro do mercado e encarando aquela quantidade precária de carretéis de linha, sentia o olhar do menino do mercado me queimando, mas realmente não estava afim de mais conversa com desconhecidos. Todos os tipos de linhas pareciam distantes demais e aquilo começava a me irritar. Eu continuaria com os uniformes mais desajeitados da região.
Cheguei mais próximo do balcão, colocando os dez carretéis coloridos que mais pareciam chegar perto das cores bizarras da The Cotswold School. O menino do mercado me olhou de lado, já começando a passar os pequenos pacotinhos na caixa registradora.
— Só tem essas cores?
Ele mal olhou para minha compra.
— O cinza mais claro deve ficar bom no uniforme. Já precisei usar uma vez.
Concordei com um gesto.
— Eu preciso ir a Londres para fazer meu celular funcionar ou é só cachorros que não temos por aqui?
Esperava por um sorriso ou um olhar qualquer, mas sua expressão dura não se alterou.
— Temos alguns acessórios por aqui.
Respirei fundo, um pouco intimidada por toda aquela dureza.
— Você sabe o que é um nano chip de celular?
Ele franziu o cenho, finalmente levando seus olhos até os meus. Só aí percebi que o menino também usava as roupas cinzas da escola. Parecia cansado e eu arriscava dizer que ele estava com a pele mais branca do que da última vez.
— Qual o modelo do seu celular?
Tirei o mesmo da mochila.
— Esse aqui. Você não deve conhecer.
Ele franziu o cenho novamente, como se tivesse ficado ofendido com a minha afirmação. Eu era obrigada a saber se alguém do interior entendia de tecnologia?
O menino foi até o canto do balcão e pegou uma embalagem rosa demais.
— Está aqui.
— Vocês só têm essa marca?
Eu não entendia nada de telefonia na Inglaterra, mas, a julgar pela primeira impressão do pacote, aquilo provavelmente não era a melhor opção do país.
O menino fez pouco caso.
— É o que os turistas mais compram.
Tive de rir.
— Por falta de outra opção neste fim de mundo, não é?
Ele nem sequer me olhou.
— Se você quer que o seu telefone funcione por aqui, vai ter que ser esse mesmo.
Resmunguei em voz “baixa” (ou pelo menos tentei):
— Realmente não dá para esperar grande coisa dessa vila caipira.
— Você só morou em cidades grandes? — me surpreendi com sua pergunta.
O olhei sem pudor. Seus olhos pareciam mais claros do que da última vez que o vi.
— Pareço com alguém que já usou botas de cowboy e coletou feno por aí como vocês?
O garoto do mercado pareceu me ignorar novamente, colocando o chip no balcão. Sua voz se mantinha firme, mesmo que seu sotaque carregado demais deixasse tudo mais leve.
— Já que nada aqui é à sua altura, vá procurar em outro lugar. — e finalizou com um sorriso que eu julguei como cínico — Aliás, boa sorte com isso.
Eu precisava, mais do que tudo, arrumar um jeito de sobreviver e permanecer sã no interior. Principalmente onde o único lugar que vendia coisas diferentes na região era velho e decadente. E aparentemente tinha como vendedor um garoto que não ia com a minha cara. Não queria brigar com as pessoas e nem mesmo ficar explicando como a cidade grande era 100% diferente de tudo aquilo que eles conheciam. Ficava cansada só em pensar nesse debate desnecessário de “interior decadente cheio de feno e velharia” x “cidade grande desenvolvida e moderna”.
— Obrigada. — sorri com vontade — Sua grosseria me faz lembrar a cidade grande. Vocês aceitam libra aqui ou é alguma moeda do século passado?
Ele continuava sem expressão ao contar o troco.
— Obrigado pela preferência.
Eu realmente não sabia de onde tinha saído aquela ignorância, mas provavelmente, por algum motivo (além do meu mau humor), eu tinha pisado no calo do caipira da Veneza da Inglaterra.

Saí do mercado a passos largos, logo dando de cara com a menor ponte de pedras já construída no mundo (sem exageros, pois provavelmente era sim). Ela ajudava a atravessar uma parte mais estreita do Rio Windrush, onde ao redor tinha muita grama verdinha e bancos de pedra para admirar a região. O lugar era bonito, isso eu não podia negar, mas ainda era velho e pequeno. Meu único pensamento era se o rio poderia ser fundo o bastante para que eu me afogasse junto com meu uniforme cinza.

Mesmo sem referência alguma, aquela pintura natural me lembrava bons lugares…

FLASHBACK Bree escovava os seus cabelos acobreados pela milésima vez.
— Você sabe o que fazer, não é?
Eu não fazia a mínima ideia do que fazer, mas não queria demonstrar minha insegurança. Os meus quatorze anos recém-feitos me davam uma coragem incrível.
— Claro! Já li todas as revistas possíveis.
Minha amiga concordou.
— Use todas as dicas, então. Eu não posso te ajudar muito com isso.
A questão da vez era: Logan tinha me convidado para uma tarde no Central Park. Não era o lugar mais romântico do mundo, mas tínhamos um local preferido: uma escada de pedras perto do chafariz. Me lembrava os filmes bobos que costumávamos ver juntos. E eu estaria tranquila como nos filmes, mas Bree insistia em dizer que aquela seria a data do nosso primeiro beijo.
Aquilo me dava arrepios dos pés a cabeça.
Ao chegar ao nosso ponto de encontro, Logan já me esperava com um grande sorriso nos lábios. Seu cabelo claro e olhos verdes pareciam mais convidativos do que nunca. Nos abraçamos e sentamos em um local próximo ao chafariz, mas ainda um pouco distante da multidão que costuma passar diariamente no local.
Pela minha expressão de pânico e falta de assunto (o que era bem raro), o menino deu uma risada.
— Bree encheu a sua cabeça?
Meus olhos se arregalaram ainda mais.
— Sobre o quê? O que aquela mentirosa te disse?
Logan deu de ombros.
— Não me disse nada, . Eu só te conheço bem demais. E conheço nossa amiga também.
Minhas bochechas queimaram, mas felizmente eu não corava com facilidade.
— Desculpe, só estou nervosa.
Ele pareceu mais curioso, sem deixar o sorriso no canto dos lábios.
— E posso saber por quê?
Eu tinha que ser direta ou teria um infarto a qualquer momento.
— Isso é um encontro?
— Tudo que chamo você para fazer é um encontro. — eu não tinha uma resposta para aquilo — Eu gosto de você.
Meu coração batia de forma descompassada, como se fosse sair do meu peito. Eu já esperava alguma confissão, pois sentia um clima entre a gente. A verdade era que eu não sabia que ia ser tão direto assim. Logan costumava falar o que vinha a sua cabeça, e dizer o que sentia por mim, pelo jeito, não ia ser diferente.
Abri a boca várias vezes para dizer algo, mas nada saía.
— Logan…
— Não precisa se declarar, . Só quero saber se você sente o mesmo.
Depois de segundos estática, sofrendo por dentro, com aquela ansiedade gritando em todo meu corpo, me permiti soltar as palavras que tanto guardava há um tempo.
— Eu gosto de você.
Logan sorriu.
— Ótimo. — e um segundo depois nossos lábios já estavam colados.
FIM DO FLASHBACK

Além de lembranças boas em um lugar que eu amava, isso me fazia lembrar também a possível quantidade de mensagens que teria em meu celular e e-mail. Aquele pensamento fez com que eu suspirasse alto. Eu sentia falta de ter uma conversa com alguém que já me conhecesse e que já soubesse pelo menos o mínimo sobre minha personalidade, gostos e problemas de família.
O episódio com o menino do mercado só servia para confirmar uma coisa: seria realmente difícil ter amigos em Bourton-on-the-Water.
A única alternativa era andar até nossa nova casa, respirando todo o ar puro demais de Cotswolds.


***


Pensar sobre meu comportamento me afetava um pouco. A cada cidade que passávamos (ou país ou continente), minha defesa pessoal ganhava mais um alerta. Ficava cada vez mais difícil me abrir com alguém ou simplesmente aceitar uma gentileza a toa. Lembrar da menina da sala de aula me deu dor no estômago. Por que eu tinha que ser desse jeito?

Encarando a tela do meu notebook, eu só conseguia constatar uma simples questão: ainda estávamos sem internet. Papai tinha prometido que tudo estaria resolvido no primeiro dia da mudança, mas ele sempre era enrolado com tecnologias e coisas parecidas. Tudo que fosse além de seu tablet e jogos de aplicativos já parecia complexo demais para ser resolvido sozinho.
Mesmo sem conexão com o mundo de verdade (e com a cidade grande, claro), vasculhei algumas pastas antigas da máquina, sem procurar algo específico. Eu não queria olhar fotos antigas e muito menos conversas salvas no histórico do computador. Queria apenas que alguma coisa fizesse sentido para mim nos próximos dias. Meu irmão sempre costumava dizer que o ser humano consegue sobreviver apenas cinco dias sem comunicação com o mundo exterior, e eu já estava há quase dois dias completos sem telefone, internet ou qualquer mensagem de alguma rede social.

Fechei o computador com pouca delicadeza, talvez tentando descontar a minha frequente frustração naquele ato. Olhando minha janela grande demais eu podia ver boa parte da vila, além do corte do Rio Windrush e as bruscas pontes de pedras por toda a sua extensão. Algumas pessoas passavam andando calmamente, outras com mais velocidade em suas bicicletas top de linha.
Eu realmente não estava afim de abraçar o interior como meus pais tanto desejavam, mas precisava de um plano urgente para conseguir sobreviver ao lugar sem danos muito sérios. A ideia seria me ocupar com a maior quantidade de atividades possíveis, para que o interior realmente não me afetasse tanto. Faria com que papai me levasse a Londres todos os finais de semana e, com certeza, conseguiria o meu cachorro o quanto antes.
Ele seria o responsável por escutar todas as minhas lamentações.

Ouvi duas batidas fracas, o que fez com que minha atenção se virasse para a porta agora aberta. Meu pai entrou no quarto com uma das mil caixas que estavam espalhadas no corredor do andar superior. Ele fez uma careta, como se já se arrependesse da discussão que ele mesmo iria provocar.
— Querida, você sabe que temos um prazo de 48 horas para desfazer caixas e malas.
Sim, eu sabia. Era uma regra boba que minha mãe havia inventado com meu irmão mais velho, Arthur, alguns anos atrás. Ao contrário de mim e papai, os dois não conseguiam suportar um resquício de bagunça.
E eu tinha escolhido que aquela provocação iria ficar algumas semanas espalhada pela casa.
— Como tive que ir para a escola no dia seguinte, eu tenho direito a mais prazo.
Ele ponderou a minha resposta, provavelmente agora se arrependendo da discussão que iria travar com mamãe depois.
— Domingo?
Sorri fraco.
— Vou fazer o meu melhor.
— E como foi o primeiro dia de aula?
Dei de ombros.
— Como todos os outros.
Meu pai pareceu pensar, finalmente colocando a caixa perto da cama de madeira.
— Fico feliz. Me deixe feliz também com essas caixas, por favor.
— Claro, pai.
Assim que ele ia deixar o quarto, voltou para soltar uma pequena bomba:
— Domingo vamos receber algumas pessoas da vila aqui em casa. Não fuja.

Minha expressão nem se alterou, mesmo que meu coração pudesse estar batendo um pouco mais forte que o normal. Era esperado que meus pais fizessem isso, principalmente no interior. Sempre quando nos mudamos para uma cidade nova, eles faziam questão de convidar os vizinhos mais próximos do nosso apartamento e então era organizado um grande jantar de “boas vindas” (para eles mesmos).
Suspirei pela décima quinta vez no dia. Além de mil caixas, o final de semana seria de tortura social.


Os próximos dias na The Cotswold School foram tranquilos e sem muitas novidades. Por ter chegado no meio da semana, e também por já ter perdido duas semanas chatíssimas de aulas, eu fazia o possível para não dormir na sala e conseguir acompanhar o ritmo dos outros alunos. Eu poderia reclamar do chão branco demais, das paredes esquisitas, dos armários perfeitos e dos alunos sorridentes, mas ficava difícil tentar falar mal do ensino da instituição. Se havia uma escola utópica para ser estudada sobre o seu funcionamento, provavelmente seria aqui na Veneza da Inglaterra.
Durante o intervalo, procurei me sentar com alguém próximo da última aula que tive, para tentar aproximação pelo menos para conseguir as matérias das semanas anteriores. Mesmo de mau humor, aquele ainda era o último ano do ensino médio, e não dava para queimar mais ainda o meu currículo estudantil. Meu pai tentava consertar com jantares, indicações e alguns favores, mas quase sempre não funcionava.
Lanchei com uma menina engraçada no segundo dia e ouvi muitas fofocas da escola, mesmo não conhecendo ninguém. A garota parecia feliz em ser a primeira a contar os podres da galera para a novata.
No dia seguinte, consegui três companhias para o intervalo. As meninas, que provavelmente se conheciam desde a infância — já que falavam sobre diversos assuntos de forma íntima, pareciam animadas demais com a minha presença. Como sempre, respondi perguntas bobas da cidade grande e, principalmente, sobre qual era o meu tipo de garotos (aparentemente o interior tinha um tipo certo também que eu não me encaixava). As três meninas loiras, as quais eu nem lembrava o nome segundos depois de sermos apresentadas, eram legais, mas nenhuma conexão tinha sido feita entre nós. Eu não ia aguentar estar em um grupo onde se combinava a cor de esmalte em cada semana.
Realmente, se isso era Cotswolds, eu era bem diferente.

Ainda vestindo roupas largas demais para o meu corpo, fui obrigada a ir até a psicóloga da escola, o que já tinham me comunicado que era uma atividade obrigatória entre novos alunos. Depois daquela tortura, que faria com que eu ficasse mais uma hora extra dentro da escola, eu correria para casa e ajustaria todas as minhas roupas, pois já estava cansada de puxar a saia cinza e cafona a cada dois minutos.

Assim que cheguei à secretaria geral de alunos (que tipo de escola precisa de uma secretaria para cada nível escolar?), uma mulher baixinha me direcionou até a sala de acompanhamento psicológico, mais para o final do corredor. A sala era branca demais, com móveis de madeira de lei e grandes poltronas azuis, uma das cores da escola.
Sentada em frente a uma grande mesa, estava a tal psicóloga. O nome Silver Williams pousava em uma placa dourada e enorme em cima da mesa.
Me aproximei, logo sentando em uma das poltronas grande demais. Seu sorriso se iluminou.
! Que prazer te conhecer.
Apenas assenti com a cabeça, esperando aquele teatro acabar o mais rápido possível.
— Li sua ficha e achei incrível. Quantas mudanças?
— Treze.
— Quantas línguas você fala?
Fiz uma careta, me surpreendendo com a pergunta.
— Três.
Não era surpresa que, depois de tantas mudanças, o Inglês não fosse meu único idioma. A verdade era que eu aprendia com mais facilidade por viver nos lugares por um tempo considerável. Com Inglês e Francês tinha sido assim. O Português eu herdava da família, mesmo tendo saído do Brasil com menos de um ano. Minha mãe insistia que saber Português ainda seria um diferencial para mim em algum estágio da vida. Como não tínhamos voltado no Brasil desde os meus cinco anos de idade — e também não tínhamos plano algum de parar em Portugal ou algum país doido da África, eu realmente duvidava daquilo.
Silver anotava tudo em um caderno minúsculo.
— Bom, deixa eu me apresentar. Sou a doutora Silver Williams. — e apontou para a placa ridícula com o seu nome marcado — Psicóloga chefe da The Cotswold School. Meu trabalho aqui é garantir a integração de novos alunos, como você, além de servir de apoio para alunos já adaptados, em qualquer situação. Você ficaria surpresa com o número de adolescentes que surtam no último ano.
— Posso imaginar.
— Então, , me conta um pouco sobre os seus planos. Vi aqui que você está no quarto ano, já sabe o que quer fazer depois da formatura?
Eu já havia pensado nisso algumas vezes, mas sempre evitava ir muito a fundo. Não sabia nem onde estaria na semana que vem, imagine só no próximo ano. A ideia de ir para a faculdade me deixava em êxtase, mas também trazia um pânico crescente. Entrar na faculdade, onde quer que fosse, significaria estabilidade na minha vida. E estabilidade significava também que eu teria que deixar a minha família para trás. Eu não era como Arthur, que havia ficado em Nova Iorque para fazer o seu curso e deixado essa loucura dos meus pais de lado.
Ainda precisava de apoio emocional.
Resolvi responder a coisa mais simples, pois, se entrasse muito no assunto, Silver iria me massacrar com suas opiniões baseadas em Freud e Sartre.
— Ainda não sei.
Eu sabia que tinha problemas, muitos problemas mesmo, só não precisava ouvir isso da psicóloga perfeitinha da escola limpa demais.
— Temos um programa de apoio de estudos para as universidades de Cambridge e Oxford, caso tenha interesse.
Eu não tinha, mas resolvi pegar o folheto que ela segurava em suas mãos sobre o tal programa. Cambridge e Oxford pareciam ótimas, mas eu ainda precisava de tempo para decidir o que realmente queria fazer nos próximos anos.
Aquela pressão de “último ano” me dava dor de estômago.
Com a minha falta de papo, Silver continuou:
— Sabe pelo menos o curso que quer fazer?
— Não. Mas talvez escolha Design de Moda ou algo parecido.
Sua expressão se iluminou novamente.
— É uma ótima escolha! Já aplicou para as suas atividades extracurriculares? Não temos nada ligado diretamente à moda, mas você pode participar das que são mais criativas, vai te ajudar a ganhar pontos na hora de escolher a universidade.


Se eu ia ser obrigada a escolher algo extra para fazer na escola, meu maior protesto era ir na direção onde eu poderia fazer mais coisas erradas. Talvez a escola se incomodasse e me mandasse embora antes mesmo de meu pai achar que era a hora de deixar essa experiência do interior de lado.
Eu olhava a lista gigante de atividades extracurriculares sem entender como existia aquilo tudo no fim do mundo. Carreguei meu papel até a secretaria do quarto ano, onde encontrei um homem gorducho com um sorriso esquisito no rosto.
— É aqui que eu posso fazer inscrição nas atividades extras?
O cara sorriu mais, ainda sem mostrar os dentes.
— Boa tarde! Sim, senhorita. Em quais gostaria? Líder de torcida?
Franzi o cenho, sem conter a língua em minha boca.
— Existe essa cafonice aqui?
Ele escondeu o quase sorriso na hora.
— Você é da área de ciências, então?
Legal. No fim do mundo ou éramos líderes de torcida ou nerds.
O uniforme fora das proporções normais me incomodou mais ainda.
Resolvi acabar com aquilo antes mesmo de começar ou eu subiria na mesa para falar umas boas verdades para ele.
— Vou fazer essa aqui. — e apontei no grande folheto.
Ele chegou mais perto para olhar e depois assentiu.
— Culinária doméstica?
Com certeza eu explodiria um forno no primeiro dia.
— Sim.
— Apenas essa?
— Qual outra que eu possa causar algum estrago por aqui?

Culinária doméstica, Oficina de Artes e Línguas.
Era o que eu faria para me ocupar durante aquele ano na The Cotswold School. Culinária para tentar explodir uma das salas ou, com sorte, envenenar alguns alunos com comidas e temperos ruins; Artes por ser algo mais próximo do que eu gostaria de trabalhar algum dia, então faria um esforço para me sair bem. E Línguas, bem, eu já sabia falar Francês, então era a maneira mais fácil de conseguir pontos extras no meu currículo escolar já tão denegrido e manchado pelas diversas mudanças.
A orientação era que eu deveria procurar a sala de cada atividade para me “apresentar” ao grupo. Aparentemente não havia nenhuma classificação para aquilo, se inscrevia quem queria e entrava quem estivesse com vontade também. Pareceu o suficiente para mim.

O grupo de Culinária era pequeno (o que eu já esperava), com um total de quase onze pessoas. Na sala tinham várias bancadas com fogões acoplados, fornos e utensílios de cozinha que eu nunca tinha visto na vida. Algumas garotas me contavam animadas que seria ótimo ter uma referência da culinária francesa e eu simplesmente sorri, deixando-as achar que eu sabia alguma coisa de cozinha.
Quem me dera. Elas iriam descobrir a verdade da pior forma.
No grupo de Artes, encontrei mais pessoas em um espaço dividido entre área de “pensar” e área de “produzir”. Achei bem cafona, mas relevei no mau humor, já que era a atividade que poderia chegar o mais próximo ao que eu provavelmente faria na faculdade. O pessoal da área de produção mexia com pedaços de madeira, ferro, tinturas, panos e outras coisas que não consegui acompanhar. A galera do planejamento se empenhava em organizar um grande mood board que ia do teto ao chão, com referências de projetos, fotos, datas e alguns post-it amarelo gritante. No total era uma bagunça só, mesmo com tudo devidamente em seu lugar, com as paredes e chão brancos demais.
Eu gostava. Conseguiria estragar outra sala perfeitinha da instituição.
Mas foi o grupo de Línguas que mais me chamou atenção. A sala era menor do que as demais que visitei, com muitas cadeiras e duas mesas grandes, postas uma em frente a outra. Não tinha ideia do que o grupo de Línguas fazia para ganhar pontos extras para a faculdade, mas com certeza seria a parte mais fácil do meu dia.
Uma garota ruiva me olhava com a sobrancelha arqueada. Sua maquiagem era escura demais para aquele horário do dia.
— Precisa de ajuda?
Dei de ombros.
— Me inscrevi aqui. Pediram para que eu viesse me apresentar.
A garota cerrou os olhos, mas ainda mantinha um pequeno sorriso no rosto.
— Que ótimo. Qual língua você fala?
— Francês e Português.
Sua expressão nem mesmo se alterou. Ela provavelmente estava bem acostumada a ver adolescentes falando línguas totalmente desnecessárias para a sua idade.
— Legal. Nosso grupo funciona toda quinta. — e me entregou um folheto. Estava começando a ficar cansada de folhetos — Se quiser ficar hoje para dar uma olhada, fique à vontade.
— O que vocês fazem por aqui?
Ela pareceu ignorar minha pergunta.
— Estamos precisando de uma pessoa para liderar uma parte da América do Sul. Você é fluente em Português?
— Sim.
A garota ruiva cutucou um menino alto demais.
— Temos a pessoa que faltava.
O sorriso do garoto cresceu assim que me olhou.
— Perfeito! Você pode ficar hoje?
Era minha vez de ignorar todos ali.
— O que vocês fazem por aqui mesmo?
Os dois me olhavam com interesse agora.
— Debates. — a ruiva mexia na pontinha de seu longo cabelo — Desde o ano passado, fazemos debates aqui como se fosse uma ONU júnior. Discutimos sobre assuntos de nível mundial como porta-vozes de países.
OK. Eu poderia falar umas boas verdades sobre alguns países em que já vivi.
— Eu fico. Português?
— Brasil. Senta ali no canto.
— E vamos falar sobre o quê?
— Paz mundial.
Minha risada saiu sem que eu pudesse evitar.
— Eu vou ser o Brasil falando sobre paz mundial?
Eles não acharam graça nenhuma no que eu disse.
— Sim. Vamos começar?


A morte da primeira semana não tinha sido o debate esquisito sobre a paz mundial. Na sexta-feira, quando estava pronta para ir embora ao som do último sinal, boa parte da minha sala permaneceu sentada e só então percebi que a maioria vestia roupas diferentes da minha.
Meu coração palpitou quando pensei no que poderia vir a seguir. Cutuquei a menina que tinha me ajudado na aula de literatura inglesa.
— Não estamos liberados?
Ela olhou a minha direção com um sorriso simples.
— Temos educação física.
Era uma ótima hora para correr daquele lugar. Mas, assim que levantei, um cara de meia idade apareceu dentro de nossa sala.
— Como prometido, vim buscar vocês na sala hoje, pois tenho um comunicado: os testes para o time de futebol estão abertos até a próxima quinta-feira. Isso vale também para as líderes de torcida. — algumas meninas comemoraram. A garota ao meu lado nem se abalou. Graças a Deus — Então, vamos lá?
Cutuquei Mila novamente.
— É obrigatório?
E ela deu de ombros, já colocando sua mochila nas costas.
— Sim, como qualquer outra atividade dentro dessa escola.

E a sorte da semana foi que, como eu tinha chegado muito em cima do começo das aulas (ou melhor, tinha perdido o começo), ninguém tinha avisado meus pais sobre as diferenças dos uniformes. Aparentemente o cafona que eu usava não era o único da instituição. Os alunos deviam ter roupas diferentes para o frio (com calça, casaco e meia-calça) e para atividades físicas (shorts, camisa cinza esquisita e short-saia para as meninas).
A minha opção, coisa que o treinador não gostou nem um pouco, foi ficar apenas olhando toda aquela aula péssima acontecer. Eu não era o tipo de garota com o melhor porte atlético e muito menos era amante de esportes ou coisas parecidas. Não tinha o mínimo interesse em correr dez vezes aquela quadra poliesportiva enorme e também não estava afim de ver garotas loiras demais pulando com pompons coloridos para animar o time provavelmente ruim da escola.

Vindo da cidade grande, eu conhecia muita coisa e muita gente — e outros países e continentes, mesmo que não os levasse durante a minha vida. O interior parecia perfeito aos olhos de quem visse, mas tudo ainda soava bem esquisito e forçado demais para mim. Será que aquelas pessoas já tinham vivido algum problema comum da sociedade, como bad hair day ou festas ruins? Pegar o metrô cheio demais às sete da manhã, derrubar café na sua blusa limpinha, pisar em um coco de cachorro com sua bota nova… Essas coisas. Aquele lugar realmente era perfeito demais para ser verdade. Eu me sentia em um filme bizarro, provavelmente americano, onde todo mundo tem a vida que sempre sonhou. E, por me sentir em um filme, tinha outra coisa que não saia da minha cabeça: toda perfeição sempre é chamariz para alguma coisa bem errada.
Será que eu era a coisa bem errada naquele lugar?
Esperava que sim.

Saindo da escola (finalmente), meu olhar encontrou novamente o garoto rebelde da jaqueta de couro. Ele estava encostado em um carro preto, que parecia velho porém conservado o bastante para ser categorizado como estiloso. Seu semblante despreocupado o deixava ainda mais atraente. O menino conversava com um garoto de mesma estatura, porém com cabelos um pouco mais escuros.
Talvez por encará-lo demais, seus olhos azuis escuro se encontraram com os meus. Aquilo me fez lembrar que eu ainda tinha um jeitinho de fugir daquela esquisitice do interior, mesmo que ele ainda fosse um caipira de Cotswold. Sua jaqueta de couro me indicava que eu podia julgar pela aparência, pois ele provavelmente seria um adolescente diferente para a região. De tudo o que eu tinha vivido na cidade grande, ele era a coisa mais próxima de uma boa lembrança naquela velharia de Bourton-on-the-Water.
Ainda me encarando, o garoto sorriu de lado, piscando um de seus olhos lindos para mim. Resolvi aceitar aquilo e sorri de novo.
Estava decidido.
Eu realmente faria o rebelde da vila se interessar por mim.



Capítulo 3 - Lições

“A vida dá lições que só se dão uma vez.” (Winston Churchill)

— Conseguiu achar o seu celular?
Aquele assunto me deixava com dor de estômago. A questão era que, nos últimos dias, meu celular tinha simplesmente desaparecido. O irônico era que eu tinha o chip em mãos (finalmente e vindo de Londres, por papai), mas nada de achar o celular. Eu já havia procurado meu aparelho pela casa inteira, já tinha deixado um aviso no quadro arrumadíssimo dos “Achados e Perdidos” da escola e até mesmo feito a exata rota do dia em que o perdi. E, com a falta de sucesso em tudo isso, só me restava uma opção: o mercado decadente da região.
Meu corpo lutava desde a semana passada para não ir até lá, mas eu sabia que, se o garoto do mercado tivesse visto meu celular, ele ainda estaria lá, intacto.
E sem mensagens, sem uso, sem internet. Sem vida social.
Suspirei alto.
— Ainda não. Mas acho que descobri onde possa estar.
Meu pai deu uma pequena risada.
— Como você conseguiu perder algo em uma vila de quatro mil habitantes?
Eu ainda não sabia como conseguia fazer muitas coisas naquela vila de quatro mil habitantes (como, por exemplo, sobreviver), mas não queria chatear papai. O meu mau humor diário já fazia isso por si só.
— Com certeza quem achou, guardou. Então tenho um problema a menos.
Ele ponderou com os olhos enquanto se levantava em direção ao escritório. O telefone fixo gritava por todos os cantos da casa.
— Espero que resolva o seu problema com as mil caixas no andar de cima também. Não se esqueça que vamos ter visitas amanhã.
Esperei papai sair da sala para bufar alto. Aquilo era uma tarefa que eu tentava evitar também, como a busca pelo meu celular inútil. A questão era que eu não tinha aberto uma caixa sequer da mudança e elas transbordavam do meu quarto para o corredor do segundo andar. No fundo minha mãe ficava louca com aquela falta de organização proposital, mas eu via que ela tentava não descontar mais frustração em mim.
Eu já era a frustração em pessoa.

Subi as escadas em segundos, encarando aquela quantidade de caixas de papelão marrom ridiculamente empilhadas uma em cima da outra. Seria trabalho para todo o final de semana.
Abri as caixas devagar, uma por uma. Já tinha aceitado que meu sábado seria todo perdido naquela tarefa. Depois de horas, me vi sentada no meio do quarto com todo aquele caos à minha volta. Muitas caixas de roupas e casacos pesados, objetos pessoais, livros e tudo o que foi possível trazer na mudança Paris-Cotswolds. Mas uma específica tirava a minha paciência e eu relutava para não abri-la.
A caixa das recordações.
Quando você se muda com frequência, é normal que suas recordações sejam guardadas além de um diário bobo e cafona. Eu costumava não só escrever sobre as coisas que via e vivia, mas também tentava guardar objetos, entradas de museus, ingressos de shows, cartas e muitas, muitas fotos.
Isso me fez pensar se eu teria alguma foto de lembrança em Bourton-on-the-Water.
Provavelmente não.
Olhar aquela caixa no meio da bagunça só me fez suspirar. Era o momento de mexer na ferida. A mudança de Paris não tinha sido a pior, mas eu sabia que dentro daquilo acharia bem mais do que a França.

A caixa, já surrada pelo tempo de uso, fazia com que uma sensação de nostalgia transbordassem pelo meu corpo e mente. Eu amava relembrar coisas boas, mas, depois que a sensação de conforto da lembrança ia embora, só restava a tristeza mesmo. Tristeza de não conviver mais com aquelas pessoas, tristeza por não ter feito tudo o que eu gostaria no pouco tempo em que vivi naqueles lugares.
A cada foto que se passava em minhas mãos, meu coração apertava ainda mais. Em uma delas, a minha preferida, eu via minha grande amiga de Nova Iorque, Bree, e meu ex-namorado (também nova iorquino), Logan. Nós três fazíamos caretas diferentes, no auge de nossos trezes anos. Crescer e viver na cidade grande abria a minha mente para muitas coisas, mas eu ainda sentia (mesmo depois de passar um tempo considerável em algumas das maiores cidades do mundo) falta de alguma coisa. Nem Nova Iorque me fazia sentir completa.

Em meio a um bolo de fotos antigas, um pequeno papel chamava a minha atenção. Doía por eu já saber de quem seria, mesmo sem conseguir lembrar exatamente sobre o que era aquela cartinha. Por mais doloroso que fosse, suas palavras doces e inocentes ainda me acalmavam. Mesmo quando ele estava do outro lado do oceano.

,
Hoje descobri que sem você na escola tudo fica realmente sem graça. Não ri de mim. É a verdade. Não vejo a hora do nosso cinema de sexta-feira. Você pode escolher qualquer filme de menininha que quiser, desde que eu possa te abraçar o tempo inteiro.

Com amor,
Logan.”


Com aquela nostalgia à flor da pele, resolvi que era a hora certa de ensaiar uma carta para minha amiga Bree. Provavelmente ela estaria tranquila esperando notícias do fim do mundo, mas despedaçava o meu coração a nossa falta de comunicação. Ela era a única pessoa que eu confiava minha amizade e isso era triste de várias formas.

Peguei uma folha em branco de um dos cadernos jogados naquela bagunça. Já que eu estava no interior, escreveria a punho e depois, com internet, mandaria por e-mail para ela. Eu tentava pensar em tudo o que sentia e como colocar aquilo em palavras. Palavras que não soassem deprimidas ou ingratas, como eu sempre tentava fazer no início de alguma mudança. Já era complicado demais para mim, imagine fazer os outros ouvirem suas lamentações do outro lado do oceano.
Segurei a caneta na mão esquerda, dando início a um dos mil e-mails que viriam durante o ano. Eu sentia falta de comunicação, sentia falta de um diálogo com alguém que já soubesse coisas sobre mim e, principalmente, sentia falta de sentir algo verdadeiro sobre as pessoas.
Bourton-on-the-Water ainda soava irreal e surreal para mim.

“Bree,
Você acaba de receber a sua primeira mensagem direto do fim do mundo. Parabéns! Já sabendo como meu humor deve estar (bem ruim, só para te confirmar), vou tentar te contar de forma simples tudo o que tenho vivido no interior da Inglaterra. A palavra mais recorrente em minha cabeça é: frustração. Não por estar longe de vocês e do meu irmão, mas sim por estar em um lugar em que eu não acho real. Em breve vou te enviar umas fotos bem sinistras daqui para que você possa entender 1% da história. Bourton-on-the-Water, a mini vila de quatro mil habitantes que meus pais resolveram abraçar, é ridícula. A atração daqui é um rio que corta toda a extensão da vila, com pontes ainda mais ridículas de pedra para atravessar. Não tem cachorros para adotar e também não existem lojas de roupas na moda. Aqui tudo é cinza e desbotado, o que não combina com a paisagem verde e colorida. Não dá para entender.
Ah! Eles possuem aqui uma mini vila, como uma maquete gigante, da própria vila. Como se aqui não fosse pequeno o suficiente, eles fazem uma versão reduzida para turistas.
Deixando o sentimento ranzinza de lado, sinto sua falta. Sinto falta de nossas conversas, das suas grosserias e das nossas ligações de madrugada. Assim que as coisas se normalizarem por aqui nossa rotina deve se ajustar também. Ainda estou com dificuldades da internet, celular e pessoas, claro.
Espero que esteja tudo bem em Nova Iorque.
Sinto como se nunca tivesse saído daí.

Mil beijos direto da Veneza da Inglaterra.
Sua amiga, .”



***


O final de semana já parecia infinito pela arrumação do meu novo quarto e, para completar, meus pais decidiram que teríamos visita no domingo à tarde. E, quando eles dizem “visita,” eu sempre esperava metade da região para uma grande festa de boas vindas aos vizinhos.
Era sempre assim.
Dentre as muitas lições do interior, uma delas era “seja um bom vizinho”. Eu não sabia quem tinha falado isso para meus pais, mas também não estava interessada em descobrir muito mais sobre ser um caipira.

Parecia que metade da vila estava em nosso imenso quintal verdinho e sem cercas. Meu pai fazia hambúrgueres na grelha recém comprada (não sei onde e nem quando) enquanto mamãe verificava se todos os convidados tinham bebidas geladas em suas mãos. Os copos que ela distribuía eram grandes e tinham pequenos canudos branco e vermelho, deixando tudo o mais clichê possível.

A grande desculpa da festa improvisada era conhecer os vizinhos e, quem sabe, fazer novas amizades. Esse segundo destaque servia mais para mim, já que não tinha tido muito sucesso na The Cotswold School nos primeiros dias.
Meu pai me puxou para perto de uma família arrumadinha demais.
, esses aqui são os Hunt.
Cumprimentei um a um. A mãe tinha os cabelos mais loiros da região, presos em um rabo de cavalo baixo sem um fio solto. Seu sorriso parecia sincero. O pai, com os cabelos um pouco mais escuros, mas ainda loiros, era alto e tinha uma barba esquisita (talvez por ser branco demais e ainda loiro). Ao seu lado, aparentemente, os dois filhos. Um mais baixo com óculos de grau enormes, que me cumprimentou sem graça. O maior, talvez um pouco mais velho do que eu, acenou com a cabeça. Provavelmente estavam lá obrigados, como todos os outros filhos presentes.
Quando o menino mais velho olhou para o lado, eu tive um estalo. Era o mesmo garoto que tinha chegado no mercado decadente e saído com o menino do mercado decadente.
Realmente estávamos em uma vila bem pequena.
Ele me olhou engraçado, seus olhos claros quase fechados com a claridade momentânea de Cotswold.
— Acho que já te vi por aí. Seja bem vinda a Cotswold.
O mais baixinho olhava para os pés.
— É, bem vinda a Cotswold.
O pouco que ouvi da conversa dos pais, tinha descoberto que a família Hunt era uma das produtoras da região. Fazia total sentido que papai convidasse quem fosse influente, para conhecê-los e também para que ficasse sabendo de tudo o que acontecesse por ali. Ele tinha essa facilidade de adentrar os meios sociais mais altos. E em Bourton-on-the-Water com certeza não seria diferente.

Me distanciei daquele papo de produção de feno e cabras caipiras, andando novamente pelo enorme quintal abarrotado de pessoas. Olhava para todos com um sorriso no rosto, como já tinha aprendido quando mais nova. Aquele teatro realmente não era um problema para mim. Eu e Arthur, meu irmão mais velho, sempre acompanhamos nossos pais nas festas da alta sociedade onde todos sorriem demais sem necessidade alguma.
E, no meio daquelas pessoas irreconhecíveis, eu o vi novamente.
O garoto rebelde da jaqueta de couro.
Seu sorriso era maravilhoso enquanto contava alguma coisa para um menino da mesma idade que ele. Suas roupas eram diferentes de qualquer um da região, principalmente pela jaqueta que gritava “cidade grande”.
Me aproximei dos dois, ainda admirando a beleza do garoto rebelde.
— Vejo que meu pai convidou todo o distrito.
O menino, ao perceber minha aproximação, sorriu mais ainda. Seus olhos azul-escuros brilhavam no pouco sol que fazia.
— Vim representar Stow-on-the-Wold. Como você está?
— Bem, obrigada. — olhei para o amigo dele — .
O garoto respondeu algo que eu não compreendi, visto que o rebelde encostou em meu braço esquerdo.
— E eu sou Kyle.
O olhei surpresa. Não tinha reparado que ainda não sabia o nome dele.
— Então, Stow-on-the-Wold?
Kyle continuou com o sorriso lindo.
— Fica a alguns minutos daqui. Você provavelmente não vai querer conhecer, mas, se quiser, conta comigo.
— Tem mais de quatro mil habitantes?
Ele riu com o nariz.
— Eu estudo em Bourton-on-the-Water, o que você acha?
Franzi o cenho com a surpresa. Se Bourton fosse a maior vila de Cotswold, eu estava realmente mal. Precisava arrumar um plano para irmos para Londres o quanto antes.

No meio tempo que falamos sobre besteiras, o tal amigo de Kyle sumiu. E eu não me importava com aquilo, já que estava mais interessada em saber sobre a vida do rebelde.
— Já se adaptaram por aqui?
Neguei com gestos.
— Se você visse quantas caixas tem dentro do meu quarto, ficaria horrorizado.
Eu não tinha acabado com as caixas, mas pelo menos tinha respeitado a regra de não termos bagunça nas áreas comuns da casa. Tudo bem, por mim, meu quarto permanecer uma zona.
Ainda era um protesto silencioso contra o interior.
Ele olhou para algumas pessoas que conversavam animadamente ao nosso lado, logo me olhando de soslaio.
— Seria um ótimo lugar de se conhecer.
Meu corpo se aqueceu por um momento. O que seria ótimo mesmo é ter alguém interessado em mim, tanto em amigo quanto para qualquer relacionamento. Tinha anos que eu não me relacionava mais sério com alguém, depois de Logan, em Nova Iorque. Na França os poucos casos eram passageiros, ninguém que me despertasse alguma coisa a mais. E, por não ter uma situação “encerrada” com Logan, tudo parecia mais do mesmo.
Ninguém parecia à altura do que eu já tinha vivido antes.
Resolvi ignorar o comentário de Kyle. Mesmo com o plano de fazer o rebelde se interessar por mim, eu ainda queria a oportunidade de ter alguém para conversar antes de estragar tudo com um relacionamento vazio e sem futuro.
— Nós estamos em algumas aulas juntos, não é?
E então ele riu. De mim, comigo. Tanto faz, mas só riu. Depois balançou a cabeça em negação.
, você não precisa ativar o seu modo do interior comigo. — aquilo fez meu corpo arrepiar — Eu não quero saber sobre as aulas naquela escola perfeitinha.
— Do que quer saber então?
Kyle deu de ombros, encostando em uma cadeira livre.
— Quero saber sobre você. O que uma garota como você — e me olhou apertando os olhos azul-escuros — veio fazer no século passado?
Seu olhar me intrigava.
— É uma longa história.
Ele olhou em volta, me incentivando a falar.
— É uma boa fuga disso tudo aqui.
Contei ao menino o básico da minha vida: muitas mudanças, meu pai doido pelo interior e a minha clara preferência pela cidade grande. Kyle ouviu tudo com atenção, como se tentasse gravar cada palavra que saísse da minha boca. Sua atenção exagerada me deixava feliz, mas também desconfiada.
Desconfiada se ele queria ser meu amigo ou simplesmente me agarrar por alguns dias. O jogo era meu.
Sua atenção foi tomada de mim quando um senhor mais velho o puxou para falar com outros senhores mais velhos ainda. O menino me deu uma piscadela com o olho direito ao se afastar — Eu ainda quero saber de tudo, .

Ao me ver sozinha, olhei novamente em volta. As pessoas comiam os hambúrgueres de papai, que ainda tagarelava sem parar com todos. A entrada do quintal da casa tinha algumas bandeiras esquisitas, que provavelmente eram de referência ao distrito de Cotswolds ou ao condado de Gloucestershire.
E, como a vila toda estava por lá, Zara não seria diferente. Ela estava acompanhada de duas pessoas, provavelmente seu pai e sua mãe. Os cabelos loiros brilhavam mais fora da escola e aquilo me irritava um pouco. Mesmo não a conhecendo, algo dentro de mim dizia que eu precisava ficar longe daquela menina. Eu com certeza não era uma garota problema, mas não queria dar sorte ao azar. No interior a minha realidade podia se inverter e, por pouca sorte, a garota perfeitinha da região cismar com a minha cara.
Eu realmente não precisava disso.

Papai pediu a atenção de todos, me chamando para se juntar a ele e mamãe. Andei até os dois, enquanto o mais velho já começava um de seus longos discursos. Além de sabe-tudo, meu pai tinha uma ótima aptidão para palestrar desnecessariamente. Como o pessoal da região ainda não o conhecia, pareciam animados. Eu daria um mês para que eles já não perguntassem mais nada diretamente a ele.
— Queridos recém amigos! — papai falou alto e vi muitos sorrisos de volta — Em nome de nossa família gostaria de agradecer a ótima recepção aqui na vila de Bourton-on-the-Water! Tem poucos dias que chegamos para morar nessa casa incrível e, mesmo com vários empecilhos, escola nova depois do início das aulas, — nessa parte ele olhou para mim de um jeito carinhoso, e mesmo constrangida eu não pude deixar de retribuir — falta de internet… — boa parte do seu público riu — Já temos a certeza de que será um período maravilhoso compartilhar esse local com todos vocês. Muito obrigado e vamos comer hambúrgueres!
O olhando falar, percebi que o mesmo vestia um avental branco com os dizeres “I LOVE BOURTON”, provavelmente comprado no mercado da grosseria em pessoa. E aquilo fez uma ponta de coragem aparecer no meu corpo.
Estava na hora de buscar meu celular perdido.
Era uma ótima saída para fugir daqueles sorriso brancos demais, do interesse repentino na cidade grande e, principalmente, de enfrentar Zara. Não queria ser amiga dela e nem de qualquer grupo que ela pertencesse. Eu tinha que encontrar meu próprio lugar e espaço em Bourton-on-the-Water. Questão de honra à cidade grande.

Esperei a palestra de papai terminar para conseguir sair da visão das pessoas e fugir até o mercado decadente. Para que não dessem meu sumiço, apenas indiquei aos dois que iria verificar se ainda tínhamos gelo o suficiente para não fazer feio com o pessoal do interior. Aquela desculpa horrível pareceu o suficiente para minha mãe, visto seu enorme sorriso no rosto. Provavelmente ela tinha achado que eu finalmente iria abraçar o interior.
Talvez nunca, mãe.

Como já era esperado por mim, o restante da vila parecia deserto. Meus pais realmente já tinham começado a missão “boa vizinhança”. A margem do Rio Windrush só contava com as folhas caídas das árvores próximas e as pontes de pedras por sua extensão não agrupavam uma sequer alma. Pelo caminho, todo meu corpo relutava em dar meia volta, mas eu precisava fazer aquilo. Eu estava evitando ao máximo pisar naquele lugar, já que tinha aceitado a falta de carisma minha com aquele menino. Não precisava e nem queria me esforçar para melhorar aquilo.
Eu torcia para que ele não estivesse por lá também, mas, como não tinha o visto em nossa casa, achava difícil ter tirado o dia de folga. O que ele faria em um final de semana naquela região sem nenhum atrativo?

Assim que coloquei meus pés no recinto, seus olhos caíram sobre mim. A sua expressão (antes feliz) ficou sem uma reação.
O garoto parecia organizar uma das várias prateleiras altas do mercado. Uma variedade irritante de produtos se espalhava por elas.
— Ah, a menina do cachorro. — ele desceu da pequena escada lentamente, fazendo pouco caso da minha presença ou necessidade de ajuda — Veio fazer mais grosserias?
Não pude me conter em revirar os olhos.
— Você fala como se fosse a pessoa mais gentil e educada do mundo.
— Eu me esforço de vez em quando.
Antes que eu pudesse me controlar, as palavras saltaram de minha boca:
— Se esforce mais.
Ele nem sequer revirou os olhos, provavelmente já cansado da discussão sem motivo que teríamos a seguir.
— O que você quer?
O ideal seria ir direto ao ponto ou nos mataríamos antes de eu conseguir o meu celular de volta. Eu ainda precisava de internet e linha telefônica para sobreviver aos quatro mil caipiras.
— Acho que deixei meu celular por aqui na última vez que vim.
O garoto me olhou estranho, mas então andou até o balcão, se abaixando para pegar algo. Ele veio até mim, jogando o aparelho em minhas mãos.
— Sorte sua que eu guardo qualquer porcaria que esquecem por aqui.
Bom, tudo bem se ele começar, não é?
— Normal você achar que é porcaria, talvez não saiba diferenciar as coisas.
Ele me olhou novamente sem emoção.
— Acha que eu não conheço coisas de marca? — nem fiz questão de responder — Você agora deve estar se perguntando se eu sei o que é internet, não é?
Dei de ombros.
— Você que está dizendo isso.
Ele deu um sorrisinho, tirando algo do bolso. Era um iPhone de última geração. Nem eu tinha aquele modelo mais recente.
— Aqui é uma cidade pequena, não uma roça. Posso voltar pro meu trabalho sem ser perturbado agora?
O menino deu de ombros pela minha falta de resposta. Minha cabeça girava. Como começamos a discutir mesmo?
— Ei, não acabei!
Mais uma vez, eu tinha falado demais.
Ele deu meia volta no mesmo momento.
— O que você quer mais? Já te entreguei o celular.
Eu não sabia o que dizer, mas não podia deixar que ele fosse embora assim, de novo. Queria entender o que estava acontecendo e porquê meu inconsciente fazia com que eu simplesmente atacasse aquela pessoa, sem motivo algum.
Queria entender também o porquê de ele não estar comendo hambúrgueres e tomando bebidas geladas demais em nosso quintal. Será que ele não tinha ido por minha causa?
Balancei a cabeça devido a toda aquela confusão gritando em minha mente. Então disse a primeira bosta que veio em minha cabeça.
— Quero saber onde compro coisas para cachorro por aqui.
Ele olhou em volta do mercado, depois para o próprio corpo, como se procurasse por algo. Logo seus olhos azul-claros estavam me encarando novamente. Azul como o mar. Mas sua expressão não combinava com a delicadeza daquela cor, era de puro cinismo.
— Isso aqui é um mercado. Só eu vejo isso? — não tive nem tempo de me pronunciar antes da próxima grosseira — Não um ponto gratuito de informações.
Eu não conseguia ser forte como ele. Meus olhos reviraram no mesmo momento.
— Deve ser pela sua simpatia que os negócios não vão bem.
Eu não sabia o que acontecia comigo. Só sabia que precisava brigar com aquele desconhecido. A minha última frase pareceu ter efeito, finalmente.
— Se eu tivesse coisas de cachorro aqui, te dava de graça só para não vir mais.
E então eu fiz uma coisa que nunca me permiti. Fiquei boquiaberta.
— Como é que é?
Eu sabia, lá no fundo, que não tinha direito algum de ficar ofendida com as grosserias, pois eram recíprocas. Mas eu fiquei. Era como se o interior inteiro me desse uma voadora desnecessária.
— Qual parte você não entendeu? — ele disse e simplesmente me deu as costas, indo mexer em algo no largo balcão. Minha boca permaneceu completamente aberta.
Aquilo foi o suficiente para meu surto momentâneo.
— Seu caipira, quem você pensa que é?
— Não. Quem você pensa que é? — ele repetiu a minha pergunta, dando bastante ênfase no “você” — Chegou há poucos dias e só porque veio da cidade grande acha que todos aqui devem te tratar como rainha?
— Como é que é?
— Como pode ver: não espere isso de mim.
O que estava acontecendo comigo?
Eu não queria brigas e muito menos inimizades. Eu já não tinha amigos, imagina fazer inimigos com apenas alguns dias morando na cidade? Sem chances. Também não precisava soltar mais farpas e veneno com alguém como ele. Ele ainda era bonitinho demais para isso. Acho que, depois de tudo, eu só queria ficar ali, conversando com alguém sem precisar fingir aparências. Não importava no nível de desastre social que fosse.

Então eu me vi fazendo algo que eu não me permitia há anos. Admitir culpa. Talvez seja o ar puro demais de Cotswold.
— Tudo bem, eu sinto muito. — ele me olhou rapidamente, como se não acreditasse nem um pouco no que acabara de ouvir. Nem eu mesma acreditava. Talvez seja mesmo a abstinência da poluição das cidades grandes — Eu não quero brigar.
Ele fez um barulho com a boca que soou mais como um “tanto faz”.
— O que eu preciso dizer para você me tratar bem, como faz com todo mundo?
— Experimente chegar aqui soltando um “boa tarde” ou simplesmente um “por favor” antes de me pedir algo.
Ali estava mais uma das muitas lições que eu iria aprender em Bourton-on-the-Water. As pessoas do interior se cumprimentam o tempo todo, se conhecem e, como descobri naquela discussão, se ferem rapidamente com falta de educação básica.
Respirei fundo, controlando minha raiva.
— Tudo bem. Me desculpe. — suas sobrancelhas se levantaram em surpresa — Fui mal educada. Não é só porque odeio esse lugar e odeio morar aqui que tenho que descontar meu mau humor nas pessoas. Satisfeito?
O garoto ainda me olhava de lado.
— Não, mas já está bem melhor.
— Pode falar comigo sem brigar agora? — ele nem se deu o trabalho de me olhar novamente. Meus olhos reviraram pela quinta vez no dia — Por favor.
E, com isso, o menino começou a simplesmente rir. De mim, comigo. Tanto faz.
— Você é realmente uma pessoa difícil, não é?
— Quer que eu repita o “por favor”?
Ele me encarava, cínico.
— Seria ótimo.
— Por favor.
— Deixa para a próxima. — e deu as costas, indo para os fundos do mercado, me deixando completamente sozinha e com a maior cara de idiota de Cotswold. O quê?
A única coisa que consegui fazer foi encarar a pequena porta que o menino entrou, incrédula. Sorte não ter mais ninguém dentro do mercado ou eu teria que ser mal educada com mais pessoas por aqui.

O menino dos olhos azuis apareceu novamente segurando algo em mãos, como se nada tivesse acontecido. Eu ainda olhava sem reação para tudo aquilo. Ele realmente iria me deixar ali falando sozinha?
— Qual é o seu problema?
Ele me encarou como se não entendesse.
— O que foi?
— Eu disse “por favor” e você simplesmente me ignorou.
— Não é só porque você resolveu ser educada que eu tenho que obedecer algo.
E, pela segunda vez no dia, em um curto espaço de tempo, aquele menino tinha me deixado boquiaberta.
— Quer saber? — ele me olhou de lado, fazendo pouco caso — Eu não preciso da sua ajuda. E muito menos de qualquer coisa que venha dessa cidade caipira idiota.
Suas sobrancelhas se levantaram novamente.
— Boa tarde.
Aquilo fez com que a ira inundasse todo o meu corpo. Em cada pedaço do meu ser, eu podia sentir uma vontade imensa de socá-lo até a morte. Mas a única coisa que pude fazer foi respirar fundo, revirar os olhos novamente e caminhar para a saída. Já não bastava morar em uma cidade onde bolos de feno podiam ser atrações especiais, imagina aturar provocações de um morador caipira.
Quando eu já estava colocando meu pé para fora, ouvi um assobio em minhas costas. Olhei em sua direção novamente, incrédula com seu ato.
— Você briga comigo duas vezes e nem me diz o seu nome? — e deu de ombros — Como vou dizer para meus amigos que uma louca veio aqui discutir comigo de novo?
Sorri, cínica.
— Continua chamando de “garota do cachorro”.
Ele me olhou sério, sem cortar o contato visual.
— Por favor, fala.
E foi naquele momento que eu aprendi que algumas palavras são muito fáceis de serem usadas com diversos tipos de interpretações, principalmente se for para manipular um outro alguém. Ele podia ser muito bom ator ou o “por favor” dele transbordava sinceridade.
Aquilo me deixou sem ação. A única coisa que eu poderia fazer era ser uma pessoa melhor, já que pedir desculpas não pareceu muito convincente.
.
Ele apertou os olhos e eu pude jurar que vi um sorriso no canto de seus lábios.
— Bom te conhecer, .
— E você, vai ficar como “garoto do mercado” ainda? Ou prefere “garoto mau do mercado”?
Ele riu.
— Isso seria bom, nunca me acharam muito rebelde por aqui.
— Imagino porquê.
— Na verdade, não imagina não.
— Se a sua grosseria fizer parte da sua personalidade, imagino sim.
— Você é a única pessoa nessa vila que está fazendo grosserias por aí.
— Vai dizer ou não?
E, pela primeira vez, eu vi um sorriso sincero em seu rosto. Então percebi que, além de ser uma briga infantil e sem contexto algum, ele estava gostando de me provocar daquele jeito.
.


***


A segunda semana seria diferente.
Tinha passado a última noite do final de semana remodelando meus uniformes grandes e cafonas. Minha saia poderia estar um pouco curta demais, mas aquilo não fez com que eu chamasse atenção pelos grandes corredores da The Cotswold School. Ou eu continuava muito ruim para o padrão local ou tinha alguma coisa errada. Não parecia como nos filmes adolescentes, mas eu tinha meu celular de volta e poderia ignorar qualquer um.

Minha percepção dos primeiros dias naquela escola não tinham se alterado em nada. Os corredores continuavam brancos demais e os alunos, perfeitos. Por já ter escolhido me integrar em alguns grupos de atividades extracurriculares, talvez fosse mais fácil focar nas pessoas que participavam deles, e não nas centenas de estudantes esquisitos e penteados demais que passavam pelos mil blocos diferentes da The Cotswold School.
Seria menos um esforço para mim.

Uma coisa que ainda não tinha feito era correr atrás da chave do meu armário, que começaria a fazer falta nessa semana, visto a lista enorme de materiais que tinha recebido na prancheta perfeitinha de minha orientadora escolar, Zara. Então a primeira coisa que fiz naquela segunda-feira de manhã foi organizar a minha vida.
Isso iria me distrair da saia curta demais e dos poucos olhares que recebia.
Eu sinceramente não queria ser a atração da escola dos adoradores de feno, mas precisava confessar que aquela falta de interesse na garota nova me deixava com a auto estima em um nível que eu nunca havia presenciado antes. Não era uma garota cheia de si ou que se achava a rainha do local, longe de tudo isso, mas eu entendia que possuía o meu charme quando tinha vontade.
E, se um uniforme curtinho não fez isso, não sabia o que tinha de errado. Se era eu ou a região mesmo. Com qualquer uma das opções eu ficaria feliz, afinal, eu não combinava com Cotswolds, certo?
Certo.

Assim que fechei a porta branca do meu armário, percebi que tinha uma pessoa encostada próxima ao mesmo. Uma garota de cabelos caramelo meio cacheados me observava com atenção, como se esperasse que meu ritual matinal com o armário se acabasse logo.
Virei em sua direção, mantendo o contato visual que ela mesma estabelecia. Isso fez com que a tal garota desse um passo para frente, esticando sua pequena mão a mim.
— Oi, me chamo Alene.
Realmente, simpatia era uma coisa que eu tinha que me acostumar muito rapidamente no interior. Ou então eu não sobreviveria.
.
— Eu sei. — ela deu de ombros, fazendo um gesto para que eu a acompanhasse pelo corredor. Sem muito saber o que fazer, acompanhei a menina — Em que ano está? Último?
Olhei com o canto dos olhos para Alene, que parecia andar tranquilamente.
— Isso. Você é algum tipo de orientadora?
Eu odiaria ter outra garota bonitinha demais vomitando regras da escola para mim.
A menina dos pequenos cachos riu. E eu podia jurar que era de mim, não comigo.
— Imagina! Apenas gosto de conhecer as pessoas novas na escola. Tudo bem para você? — ela pareceu pensar — Não que a gente receba muitas pessoas novas por aqui.
A única coisa que pude fazer foi dar de ombros. Alene começou a tagarelar algo sobre as pessoas que passavam, mas eu não dava muita atenção às suas falas. O que mais me chamava atenção era o fato de todos ficarem nos observando. Senti o mesmo desconforto como quando estava com Zara por esses mesmos corredores. Provavelmente ela era uma das populares patricinhas do local e, por estar ao seu lado no momento, recebia os olhares maldosos da manhã.
Eu não sabia se ficava feliz ou triste por isso.
— Foi bom te conhecer, até depois! — ela deu um pequeno aceno, enquanto se distanciava calmamente. Continuei sem entender nada sobre aquela aproximação repentina de Alene. Não tinha reconhecido a garota de nenhuma das aulas em que fiquei acordada na última semana e provavelmente também não tinha a visto pelos grandes corredores da escola. Mas se a menina queria apenas conhecer a garota nova da cidade grande, então eu aceitaria aquilo.

Depois do nosso primeiro final de semana no interior, e depois de ficar muito puta da vida com tudo, eu me sentia anestesiada. Ainda queria reclamar (e muito), mas tinha decidido que não gastaria toda a minha energia com isso. Se eu tinha que viver um ano de interior — ou menos, caso papai surtasse em breve ––, eu viveria com indiferença.
Tinha aprendido que o que a gente não sente não guarda. E eu faria o interior ser uma página em branco em minha vida.

Antes que eu pudesse seguir novamente meu caminho, a menina deu meia volta. Seu cachinhos fizeram um movimento engraçado, como se ela estivesse em um comercial cafona de xampu.
— Ah! Esqueci de uma coisa! — procurei continuar na mesma posição, esperando outra reação da garota — Você está oficialmente convocada para a seleção do time de futebol feminino. Pela própria líder do grupo.
Reprimi uma forte careta. Eu queria perguntar quem tinha me inscrito naquilo ou se ela estava me confundindo com alguém de Cotswold, mesmo que tivesse acabado de me conhecer. Mas, caso a resposta fosse positiva, eu ficaria extremamente arrasada. Eu realmente preferia guardar o que a grosseria em pessoa dona do mercado havia dito para mim.
Eu não combinava com Cotswolds.
Eu definitivamente não combinava com Cotswolds.
Procurei então dar de ombros, já que não conhecia ninguém do time e nem faria questão. A primeira bola que eu chutasse eles já me colocariam para fora do ginásio, sem ao menos completar o teste de equipe.


Durante toda a semana, eu corria de aula em aula e mantive meu compromisso com os grupos que tinha me inscrito quando cheguei. A diversão da semana foi quando as garotas de Culinária Doméstica descobriram que eu era um terror na cozinha.
1 , 0 Cotswolds.
A atividade mais esperada por mim era o grupo engraçado de Línguas, já que eu imaginava que nada poderia ser mais bizarro do que debater a paz mundial com alunos que sempre moraram na roça. Era terrível confessar, mas estava animada com a possibilidade de ter com quem conversar dentro daquela escola, mesmo que em outro idioma.

Andando de uma sala para outra, fui surpreendida em um dos blocos próximo ao grupo de Línguas.
! — parei no corredor ao mesmo tempo que ouvi meu nome. Ao me virar, dei de cara com Zara, que sorria abertamente. Talvez se falasse o nome dela várias vezes ela aparecia perto, como uma assombração pronta para entregar papéis e seus próximos horários naquele lugar grande demais — Vejo que conseguiu ajeitar um pouco os uniformes.
Acompanhei seu olhar, que media meu corpo por inteiro, logo parando em minhas pernas um pouco descobertas demais.
— Fiz o possível para melhorar isso.
Zara pareceu concordar, mesmo fazendo uma leve careta.
— Entendo. Como estão os primeiros dias por aqui?
— Normais.
Ela sorriu um pouco mais.
— Ainda sem amigos? — aquilo foi como um tapa na cara — Eu li a sua ficha, sei que você tem dificuldade de se encaixar nos lugares. Tem certeza que não precisa de ajuda da psicóloga?
Minha vontade era jogar a primeira coisa na cabeça loura da princesa do feno.
— Não, obrigada. Estou bem.
A menina deu de ombros, me olhando de um jeito que, depois, julguei como sacana.
— Talvez aqui não tenha espaço para você, .
Aquela provocação descarada, as paredes brancas demais, o corredor com muita luz e muitas pessoas lindas sorrindo o tempo todo só comprovaram uma teoria: eu realmente estava em um filme ruim de adolescente.
Mal tive como responder Zara, que saiu andando como se tivesse me falado a maior gentileza do mundo.

Adentrei a sala de Literatura Inglesa ainda com as pernas bambas. Estava acostumada a pessoas maldosas na cidade grande e também ao conceito de má educação, mas nunca tinha sentido tão diretamente. As histórias de implicância com alunos e tudo mais passavam por mim e por meu grupo de colegas como se o assunto nem existisse, mesmo que estivesse acontecendo sempre à nossa volta.
Nunca tinha sido o alvo daquilo.
A menina que tinha falado comigo na semana passada, Mila, também parecia pouco interessada em minha pessoa. Sentei ao seu lado e tudo o que consegui foi um sorriso e um “bom dia” educado. Provavelmente eu tinha a chateado pela minha falta de educação.
E aquilo era bem triste, de verdade.
Minhas pernas ainda estavam fora de controle e meu coração batia um pouco mais rápido que o normal, mas eu tentava respirar fundo para entender o motivo daquele ataque sem necessidade de Zara. Assim que o professor de Literatura Inglesa começou a falar, minha mente foi embora junto com suas palavras chatas, tentando procurar se realmente havia um motivo para tudo aquilo estar acontecendo ou se eu poderia simplesmente estar em um pesadelo muito, muito ruim.


***


Minha segunda semana, que tinha tudo para ser um pouco melhor, foi mais do mesmo. Falando com pessoas aleatórias, assistindo às mesmas aulas chatas e tentando ignorar a perfeição diária que eu não conseguia acompanhar nem em meu melhor dia com meu cabelo matinal.

A melhor parte dos meus dias na The Cotswold School era a hora do intervalo, onde eu podia dormir onde quisesse ou comer alguma das coisas saudáveis demais que se vendia na cafeteria central. Eles tinham outros lugares para comprar lanches, mas eu julgava o local do pátio principal como o menos saudável e isso me agradava bastante.
Sabe se lá porquê.
Após pegar o lanche que julguei como o menos pior, esbarrei com a menina do cabelo caramelo novamente. Alene. Ela fez questão de que eu sentasse com ela e seu grupo, e eu torcia para que não fosse ninguém do time de futebol feminino.
Eu realmente estava fora daquilo. Esporte e suor não combinavam comigo.
Andei lentamente até a mesa da minha suposta nova colega, tendo uma surpresa agradável logo de início. Kyle, o menino da jaqueta de couro preta também estava lá. E seu sorriso parecia ainda mais bonito do que no churrasco cafona de papai.
Ele estava sentado de uma forma despojada e me cumprimentou com um aceno, como se fizesse pouco caso da minha presença em sua preciosa mesa do intervalo. Se ele ia jogar o jogo da indiferença, eu sabia andar nas regras.
Alene se sentou ao seu lado, me puxando junto. Kyle deu um longo beijo em sua bochecha direita.
Se o rebelde da região tinha namorada, isso seria realmente decepcionante.
À sua frente, um menino moreno balançava seu copo cheio de gelo, fazendo um barulho estranho. Kyle tomou parte das apresentações.
— Já conhece Alene. Este é Leon. — e apontou para o menino ao seu lado. Só depois percebi que era o mesmo que estava conversando com ele em nosso quintal, o mesmo que eu também não tinha prestado atenção no nome.
O tal Leon me olhava com interesse.
— Já ouvimos algumas coisas de você. Alene não perde tempo.
Eu queria me sentir ofendida, mas dei de ombros. O que for que tivessem ouvido de mim, provavelmente era fofoca bizarra da cidade grande. Não tinha o que esconder de nenhum dos países e cidades em que tinha saído, então pouco me importava.
— Não ouvi de vocês, mas não vamos fazer disso uma competição.
Não queria ser vista como a rebelde de Bourton-on-the-Water, mas aquele garoto em nossa mesa me dava um pouco de esperança para aquela vila. Não era arrogância, prepotência. Era por seu estilo despojado e moderno, o que já o distanciava gritantemente do resto do pessoal da The Cotswold School.
Alene chamou minha atenção, enquanto os dois meninos pareciam me medir.
— Já escolheu algum grupo da escola?
Franzi o cenho para aquela pergunta.
— De extracurriculares?
Todos riam na mesa, o que fez a menina continuar.
— Não, . Um grupo para ficar junto sempre, fazer amigos.
Qual era o problema das pessoas do interior e amizades? Cada um tinha o seu tempo e eu já percebia que o meu não seria respeitado por ali. Eu teria que ser obrigada a achar um grupo qualquer antes que todos iniciassem meu massacre social.
Decidi dar de ombros novamente.
— Acho que vou ser a garota que lancha com pessoas diferentes todos os dias.
Kyle me olhou de lado.
— Justo. Pode ficar aqui, se quiser.
— Caso eu enjoe da perfeição?
Ele passou a mão em sua jaqueta, provavelmente satisfeito por eu ter relacionado ele abertamente como um escape do interior.
— Por favor.

Escutar um “pode ficar aqui” passou despercebido de mim, pois eu ainda não considerava aquilo como uma realidade. As palavras maldosas de Zara ainda ecoavam em minha mente e, pelo menos por um tempo, seria difícil que eu não concordasse com ela.
Talvez eu realmente não fosse adaptável a Cotswolds.
E eu gostava daquilo.
Mas por que também doía tanto sentir a exclusão social de todos?

Nas demais aulas durante a semana, tentei colocar o plano da ‘indiferença’ em jogo, mas não deixava passar uma pequena oportunidade de tentar conversar com alguém. Lá no fundo, bem no fundo mesmo, ainda tinha uma ponta de esperança que eu poderia encontrar alguém com o mínimo em comum.



***


Assim que adentrei a sala de Línguas, todos pararam de falar. Não sabia qual era o debate esquisito da vez, mas de uma coisa eu tinha certeza: eu não estava atrasada.
Me aproximei de uma menina com cabelos escuros, que ainda não tinha gravado o nome.
— Começaram mais cedo hoje?
Algumas pessoas fofocavam em suas bancadas e aquilo me deu um desconforto instantâneo. Será que alguém tinha ouvido a provocação de Zara?
Ou simplesmente concordavam com ela…
A garota parecia impaciente.
— Desculpe, . Precisamos começar mais cedo hoje, não foi possível te avisar antes.
Ao ouvir aquelas palavras, foi praticamente impossível conseguir esconder a decepção que eu sentia. Eu não gostava de joguinhos entre grupos e muito menos ser alvo de algo sem saber o porquê. Além do mau humor, eu não havia feito nada de ruim para qualquer um caipira daquela vila.
— Não entendi, fiz algo que vocês não gostaram aqui no grupo?
O garoto alto demais, Hayden, me olhava triste. A menina ruiva com a maquiagem escura demais, Bronwen, não media muito as suas palavras.
— A escola é fofoqueira, , mas a maioria das coisas são verdades.
Aquilo fez o meu corpo gelar. Eu já tinha ouvido alguém da escola falar que tinha “ouvido coisas sobre mim” essa semana, e aquilo não podia ser nada bom.
— O que quer dizer com isso? — ela não mudou sua expressão cínica — Eu realmente não estou entendendo o que eu tenho a ver com os boatos dessa escola.
A ruiva suspirou alto.
, eu sinto muito, mas as pessoas dessa escola parecem não querer ficar perto de você… Alguém espalhou um boato de que sua família só veio para o interior porque você não foi aceita em Londres.
Minha visão ficou turva por alguns segundos.
— Como é?
A menina continuou.
— Algo sobre você ter problemas sociais, pegar coisas que não são suas… que ninguém deve confiar na sua índole.
Aos poucos meu mundo pareceu se destruir em mil pedacinhos diferentes. Mal tinha chegado na vila e já tinha a pior reputação possível, mesmo que nada fosse verdade. Se alguém estava com vontade de me deixar mal por ali, estava fazendo um ótimo trabalho.
Tudo que eu pude fazer foi levantar o rosto e deixar transparecer o mínimo de tristeza em minhas feições.
— Tudo bem, obrigada pelo aviso.
A expressão da ruiva pareceu amolecer por alguns segundos.
— Eu realmente sinto muito.
— Vocês querem que eu saia do grupo de Línguas?
O super alto, Hayden, pulou de sua cadeira.
— Claro que não!
Bronwen fez um gesto para que ele se acalmasse.
— Não, . Nós não somos como os hipócritas dessa escola. — e suspirou novamente — Vamos ficar de olho em você, mas todo mundo é inocente até que se prove o contrário.

Saí da sala do grupo meio sem chão. Eu ainda queria bancar a garota que não se importava com nada do interior, mas ficava mais difícil a cada dia que se passava. Eu não tinha amigos e não tinha perspectiva de melhora nisso.
Parei no grande pátio central, vendo alguns alunos andarem por ali. O sinal principal tocou, fazendo com que em poucos segundos o espaço se enchesse de todo o tipo de estudantes. O grupo dos nerds, das patricinhas, dos roqueiros (mesmo de roupa cinza), dos artistas, dos renegados e dos esportistas.
E eu não conseguia me encaixar em nenhum deles.
Tudo provavelmente por causa de um boato inventado por sabe-se lá quem.
Doía pensar que minha exclusão em uma vila de quatro mil habitantes se dava por causa de pessoas de baixa índole, que se davam o trabalho de me atingir sem ao menos me conhecer.

Em poucos dias, eu tinha aprendido várias lições diferentes com o interior. As pessoas se afetam na hora com falta de educação (como “bom dia” e “como vai a família?”); todo mundo se cumprimentava, independente de já terem se visto vinte vezes durante o mesmo dia; todo mundo sorria demais, mesmo que parecesse quebrado por dentro; as coisas eram perfeitas e tudo tinha o seu lugar (menos algo vindo da cidade grande).
E a principal, que eu iria guardar para sempre: o interior também podia ser mau.

Ao chegar em casa, senti como se a máscara da indiferença tivesse caído rapidamente de meu rosto, dando passagem para as lágrimas que eu segurava desde a provocação ridícula que tinha recebido de Zara.
“Talvez aqui não tenha espaço para você, ”.
Aquilo fazia mais sentido a cada dia que eu vivia na vila, pelos olhares, acontecimentos recentes e falta de conexão com qualquer coisa daquele lugar.
Em todas as mudanças, o meu período de adaptação tinha sido difícil, mas nada se comparava ao que eu estava passando em Bourton-on-the-Water. O sentimento de vazio era tanto que eu me permitia chorar abertamente por toda aquela confusão e injustiça social que estava passando.

Ouvi a porta do quarto sendo aberta e mal esperei que alguém falasse primeiro.
— Eu quero ir embora.
Mamãe parecia realmente surpresa, ainda com a mão na maçaneta da porta entreaberta. Eu reclamava, ficava de birra e implicava com tudo quando a gente se mudava, mas nunca chorava. Nunca.
Chorar era difícil para mim e me fazia sentir mais fraca do que o normal.
, o que aconteceu?
Estar em prantos era novidade até para mim e, enquanto minhas lágrimas caiam pelas bochechas, minha mãe ia ficando cada vez mais assustada — Não importa o que aconteceu, mãe! Eu quero ir embora desse lugar agora.
— Você pode conversar comigo. Alguém implicou com você na escola?
Tive que franzir o cenho para aquela pergunta, já que eu nunca tinha passado por problemas em nenhuma das escolas.
Sequei o rosto com as palmas das mãos, em derrota.
— Não importa, mãe. Podemos seguir um pedido meu pela primeira vez, por favor?
Minha mãe se recompôs, provavelmente evitando a possível briga que teríamos ao entrar naquele assunto. Eu sempre seguia os dois pelas mudanças mais loucas em todo canto do mundo. Em treze mudanças, essa era a primeira vez que eu pedia para ir embora.
O semblante de mamãe mudou por completo.
— Vou conversar com o seu pai. Mudar de vila, talvez?
Meus problemas não iam acabar apenas mudando de vila, já que a The Cotswold School recebia alunos de todo o distrito. Nada ia mudar em minha vida.
O meu pedido poderia parecer um pouco demais, mas eu precisava de um forte motivo para fazê-lo e a implicância de Bourton-on-the-Water comigo era mais do que o suficiente.
— Não. Londres.



Capítulo 4 - Amizades

“A amizade é, acima de tudo, certeza — é isso que distingue do amor.” (Marguerite Yourcenar)

Novamente aquele pátio lotado me intimidava.
Não esperava coisa diferente depois de toda a loucura que vivi nas últimas semanas dentro da vila de Bourton-on-the-Water e da própria perfeição surreal da The Cotswold School. Eu tinha ido de rebelde da cidade grande à excluída social por, supostamente, roubar coisas, criar mentiras e, pelo que tinha chegado aos meus ouvidos naquela manhã: vender coisas ilícitas por aí.
Eu precisava entrar para o livro de recordes mundiais pelo volume de má reputação adquirida em tão pouco tempo, em um só lugar e com quatro mil habitantes.

Depois de tudo o que tinha descoberto, ser indiferente ficava cada dia mais difícil. Buscando a minha sala para a próxima aula, eu via pessoas passando pelos corredores ridiculamente limpos demais, ainda sem prestar atenção na garota nova. Bom, a garota nova e cleptomaníaca, claro.
Abri meu armário brilhoso, limpo e lustrado demais, e encontrei um dos mil livros que precisaria para acompanhar aquela semana. Em um cantinho tinha deixado um adesivo motivacional cafona que meu pai sempre me entregava nos inícios de mudanças. Para Cotswold ele usou “O segredo da vida não é ter tudo o que você quer, mas amar tudo que você tem”. Respirei fundo olhando aquilo. Ainda conseguia ver com clareza a sua expressão quando minha mãe sentou nós dois na sala de estar e contou sobre a minha cena em prantos para que fossemos embora para Londres. Mesmo com o semblante abatido, ele tinha prometido.

— Londres?
— Qualquer lugar bem longe de Cotswold, pai.
— Vou fazer o possível para agilizar isso.


Aquela ponta de esperança era o que me fazia estar de pé dentro daquela escola esquisita. Eu teria que aguentar tudo e todos por pouco tempo, já que meu pai nunca deixava uma promessa passar.
Era uma das suas melhores qualidades.

Voltando a olhar para aquela multidão de cabelos arrumados demais às oito da manhã, eu não podia deixar de imaginar como poderia ser a minha nova vida em Londres. De volta para a cidade grande. Imaginava se as escolas seriam mais a minha cara e se as pessoas seriam mais simpáticas e menos perversas com quem acaba de chegar. Seriam as pessoas de Londres tão loucas quanto Nova Iorque? Ou tão fashionistas quanto Paris? Os pensamentos de estar novamente na cidade grande me deixavam nas nuvens. E esse sentimento de lembrança e saudade sempre me traziam boas recordações.

FLASHBACK
Já havia perdido a conta de quantos minutos estava ali, deitada em uma toalha felpuda na grama, apenas olhando as nuvens que passavam no céu. Até que um furacão em forma de pessoa senta ao meu lado, derrubando o lanche que eu tinha deixado semi acabado por ali.
Nem precisava olhar para saber quem era.
— Eu amo essa cidade!
Bree se jogou ao meu lado, me cutucando com o cotovelo esquerdo. Olhei em sua direção e seu sorriso estava mais largo do que sempre. Algo realmente bom devia ter acontecido.
— George finalmente reparou em você?
Ela me cutucou novamente, ainda sorrindo.
— Isso seria incrível, mas não. — e revirou os olhos junto comigo — Ele ainda vai se arrepender por isso.
Fiz apoio com meus cotovelos, olhando agora a grande movimentação do parque.
— O que de tão incrível aconteceu então?
Minha amiga me olhou de lado.
— A escola é incrível, tenho amigos incríveis, minha bolsa nova da Saint Laurent chegou…
Tive de revirar os olhos novamente.
— Você conseguiu, não é?
Ela levantou com pressa, batendo palmas animadas em seguida.
— Adivinha quem conseguiu os ingressos mais incríveis para aquele show?
FIM DO FLASHBACK

A verdade era que eu sentia falta da cidade grande em todos os aspectos. De mobilidade urbana e acesso à cultura até coisas bobas e fáceis, como ir em um show de algum artista da moda. Eu sentia falta de inclusão, de opções e alternativas. Coisas que não conseguia ver nem nas pessoas de Bourton-on-the-Water.


Era hora do intervalo e, depois de escolher o melhor lanche possível (com as poucas opções que existiam dentro da instituição), fui interrompida da minha paz e devaneio quando um garoto entrou na minha frente (engomadinho demais, vale ressaltar). Seu olhar era curioso e eu estava pronta para acertar minha bandeja nele, caso viesse me contar mais algum boato maldoso.
Realmente estava cansada de ser a sensação rebelde do lugar.
— Você é a garota que veio da cidade grande, não é? Me chamo Dominic.
Concordei com gestos.
.
— Eu conheço vários lugares também, meus pais gostam de viajar.
Aquilo me pareceu interessante. Alguém viajado em Cotswold?
Fiz pouco caso, já que “gostar de viajar” poderia muito bem ser “visitar todos os distritos cafonas do interior da Inglaterra”.
— Já esteve em Nova Iorque?
Dominic me olhou incrédulo.
— Como visitar os Estados Unidos sem passar por lá?
Aquelas palavras mudaram o meu dia. Seria possível achar pessoas sãs em Bourton-on-the-Water? Pessoas que já tenham saído dessa bolha de perfeição e conhecido o mundo real. Das cidades grandes, metrópoles, trânsito infernal e um belo índice de poluição visual, sonora e do ar.
Cara, como eu sentia falta de Nova Iorque.
— Vem sentar em nossa mesa, vou te apresentar alguns amigos.
E então apontou para uma mesa um pouco cheia demais no meio do pátio. Eu não estava muito a fim de comer sozinha, então, na hora, pareceu uma boa ideia. E pareceu uma boa ideia verificar se a galera viajada da vila de quatro mil habitantes acreditava nos boatos sinistros que rondavam por aí.
Não custava nada conferir.

No meio dos amigos de Dominic, fui bombardeada de perguntas sobre minha vida e a cidade grande. Eu me sentia bem falando dos lugares que tanto amava. Respondi perguntas sobre minha família, meus interesses e, principalmente, Nova Iorque. O grande grupo se apresentou com pressa e eu não fazia ideia se tinha conseguido gravar o nome de todos, mas não me importava muito no momento.
Antes que o intervalo terminasse, a minha orientadora pessoal, Zara, apareceu na mesa, sentando-se como se fizesse aquilo todos os dias. E provavelmente fazia.
Até que a princesa da Veneza da Inglaterra se deu conta de minha presença, ficando extremamente surpresa.
! — e, depois de se recompor muito rápido, mostrou seu lindo sorriso a todos — Vejo que já conhece meus amigos.
Senti um tom exagerado no ‘meus’, mas preferi deixar de lado. Depois da última que tinha levado de Zara, queria fugir de um possível novo confronto. E queria fugir também de qualquer grupo que ela pertencesse.
Eu realmente não precisava aguentar nada daquilo, ainda mais da rainha do feno.
Dominic me olhou de lado, talvez imaginando se eu já tinha tentado enfrentar a senhora popular da região.
— Estávamos contando à sobre nossos planos de fazer uma bela viagem de formatura.
Lewis, que tinha um cabelo espetado, olhou para o menino.
— E como isso está quase impossível, já que o nosso grupo não se forma junto.
Dominic sorriu presunçoso.
— Mais tempo para planejar nossas merecidas férias, não é, ?
Zara permaneceu com seu olhar em mim. Sem entender, a encarei de volta. Tinha algo de errado comigo ali?
— Você não pode usar isso.
Minha única reação foi encará-la, incrédula. Os demais na mesa se calaram na mesma hora. Olhei para minha roupa, já identificando a causa.
— É azul.
Ela continuou sem expressão alguma.
— É azul demais.
Tive de segurar a minha gargalhada, deixando apenas um riso tocar meus lábios. Aquilo era sério? Pela expressão de Zara, era. E ela ainda aguardava alguma reação minha sobre sua intervenção.
Respirando fundo, tirei o sobretudo azul, colocando-o em cima da mesa.
Abri a bolsa ao meu lado, tirando de lá o suéter cafona e cinza. O vesti com rapidez. Zara deu um sorriso sem mostrar os dentes.
— Bem melhor.
— Algum de vocês viu Harriet? — Lewis abriu a boca, talvez tentando cortar o clima tenso na mesa.
Skye amassou uma bolinha de papel.
— Eu a vi mais cedo gesticulando demais com aquela prima estranha dela.
Dominic parecia aéreo à conversa boba.
— Zara, — a menina olhou para ele, sorrindo — sabia que o pai de é importante em Londres?
O rosto de Zara ficou sério. Eu queria correr daquela mesa.
Olhei para Dominic, querendo extinguir a pauta “vamos saber mais sobre ”.
— Meu pai é consultor financeiro. Nada de emocionante. — dei de ombros, fazendo pouco caso daquilo. Já estava de saco cheio de explicar o porquê de trocarmos tanto de país — Ele está resolvendo alguns problemas por aqui, eu acho.
Zara me analisava, séria. Eu não entendia, mas, por um segundo, a cor pareceu fugir de seu rosto. Ela logo se recompôs, sorrindo de leve.
— Parece importante.
Dominic parecia interessado.
— Ele resolve problemas grandes? De empresas?
Neguei com gestos, enquanto terminava de engolir um pedaço de meu sanduíche.
— Países, estados. Essas coisas. Ele trabalhou anos na Casa Branca, hoje viaja o mundo onde precisam dele.
Zara me olhava estranho. Dominic se aproximava de mim cada vez mais.
— Parece realmente importante.
Dei de ombros, tomando um gole de suco.
— Acho que sim.

Uma garota adentrou o pátio do refeitório completamente agitada. Seus cabelos castanhos tinham mechas laranja por toda parte, com a frente presa com um pequeno laço amarelo, deixando seus fios jogados para trás. O sol era pouco na manhã, mas ela carregava em seu rosto grandes óculos azuis em formato de coração.
Podia até ser uma combinação bem exótica, mas eu gostava. Gostava porque finalmente tinha visto alguém que parecia estar na mesma situação que eu: odiava aquele uniforme cinza cafona e, principalmente, o jeito velho como as pessoas se vestiam por aqui.
O menino rebelde, Kyle, não era tanto assim, só colocava a jaqueta por cima do uniforme antiquado.
— Tem como essa garota ser mais estranha? — a tal da Caitlin falou, com puro cinismo em sua voz — Que coisa ridícula.
— Como é o nome dela mesmo? — Lewis fez pouco caso — Ela tem aula com a gente, não é?
Foi a vez de Skye dar de ombros.
— Não faço ideia. Não reparo em gente do tipo dela.
A menina das mechas coloridas não podia ouvir o que esse pessoal falava, mas eu senti raiva por ela. Se aquela mesa em que eu estava sentada era a mais legal e viajada de Bourton-on-the-Water... Eu definitivamente não combinava com nada de Cotswold!
A garota excêntrica sentou em uma mesa próxima à nossa. Perto o suficiente para que Lewis e Aaron, que estava calado até o momento, jogassem pedacinhos de guardanapo na menina. Eu sentia vergonha. Sentia vergonha por estar sentada naquela mesa, participando daquele episódio ridículo.
Foi ali que eu percebi que Bourton-on-the-Water não ia ser diferente da cidade grande em um sentido: existiriam grupinhos fúteis e sem noção também. E eu, desde o começo, deveria escolher as minhas possíveis amizades.
Não era aquilo que eu queria fazer parte, mesmo que por pouco tempo.

Não satisfeitos com os pedaços de guardanapo, os dois garotos falavam gracinhas sobre a menina. Esta nem ao menos se dava ao trabalho de responder ou olhar para os idiotas do meu lado. Já devia, infelizmente, estar acostumada.
Aquela cena me deu tanto nojo que a única reação normal foi pegar a minha bandeja e levantar. Dominic segurou em meu punho.
, o que houve? — e sua expressão preocupada parecia realmente sincera — Fizemos algo que te chateou?
Zara, Caitlin e Skye fofocavam algo no canto, enquanto o resto da mesa ainda perturbava a menina ao lado. Nenhum deles parecia ver que aquilo não estava certo.
Aquilo serviu como um estalo em minha mente. podia não ser a melhor pessoa de Bourton-on-the-Water, mas pelo menos parecia ter uma índole melhor do que todo esse pessoal junto. Falava na cara. Eu não sabia dizer porquê aquela brincadeirinha deles me magoava tanto. Talvez seja por eu não me sentir parte desse lugar, assim como a menina do cabelo laranja.
Sacudi a cabeça em negação.
— Não, só preciso ir resolver umas coisas na secretaria. — ele não pareceu muito convencido, mas me soltou para ir — A gente se vê.

Depois de alguns passos para longe daquela mesa, já respirava melhor. Coloquei minha bandeja em um dos lixos e decidi procurar o que fazer. Eu não tinha nada para resolver na secretaria.
Dominic veio correndo ao meu encontro.
— Será que eu posso te levar para conhecer a região qualquer dia desses?
A raiva se dissipou no mesmo segundo em que as palavras de Dominic invadiram meus ouvidos. Eu queria morrer de rir. Gargalhar na cara de Dominic até não aguentar mais. Se eu queria que alguém me desse um tour particular por Bourton-on-the-Water? Ninguém merecia aquilo. Muito menos eu.
Mas o meu instinto de educação estava bem aflorado, coisa que não funcionava há dias. Já bastava brigar com desconhecidos loucos pelos mercados da região, eu não poderia fazer o mesmo pela escola, afinal, seria uma prisão diária.
— Claro, por que não?
Ele sorriu abertamente, acenando com a cabeça.
— A gente se vê então.


Após o fim do último sinal, decidi que sairia daquele lugar o mais rápido possível, para evitar qualquer pessoa, mesmo que novos conhecidos. Eu não queria bater papo, não queria ouvir os boatos sobre mim e também não queria fazer parte de qualquer coisa ali dentro.
Passei batida por Kyle, que apenas deu um aceno esquisito com a mão. Respondi com um gesto, ainda em passos largos para fugir da The Cotswold School, sem precisar abrir a boca.
Nem o meu plano de fazer o rebelde da vila se interessar por mim fazia sentido agora. Tudo o que eu queria era correr de lá o mais rápido possível.

Na esquina que me libertaria do quarteirão imenso que era aquela escola, a grosseria em pessoa entrou em meu campo de visão. Eu já conseguia respirar melhor fora daquele ambiente tóxico, então me permiti diminuir os passos. se despedia de algumas pessoas com um livro grosso em uma de suas mãos.
Até que seus olhos pararam em mim.
E o sorriso murchou na hora.
Seus passos até mim, ou até a rua, já que eu continuava andando como uma tartaruga, pareceram durar horas.
— Estava me esperando para mais grosseria?
Ele podia ser irritante, mas ainda o achava bonitinho demais. Seus olhos azuis-claros estavam um pouco fechados devido a claridade do dia e seu cabelo com pequenas ondas nas pontas pareciam mais desgrenhados (provavelmente por ele ter dormido em alguma aula chata).
E, se fosse por esse motivo, já tínhamos algo em comum além do grande potencial para espalhar grosseiras por aí.
— Alguém já disse que você é muito pretensioso?
Ele sorriu, balançando a cabeça em negação.
— Não estou afim disso hoje.
Dei de ombros, sem ao menos responder. Resolvi dar novamente início à minha caminhada para casa, ignorando qualquer pessoa.

Poucos minutos depois (e bem longe da escola), senti passos ao meu lado, me acompanhando.
— Trégua?
Era .
— Como quiser.
— Ótimo. — ele sorriu, ajeitando em suas mãos o livro que ainda parecia pesado e desnecessário demais — Será que conseguimos conversar sem um jogar o outro no rio?
— Podemos fazer isso?
— Nadar no rio é proibido.
Franzi o cenho para aquela informação. Nadar em rios é proibido desde quando?
— Que notícia boa.
pareceu concordar, mas logo mudou de assunto.
— A fofoca do dia é que você não durou muito na mesa de Dominic. O que houve?
Estranhei sua pergunta por uma fofoca da escola, mas podia deixar essa discussão para depois. Estávamos sendo legais.
Pelo menos ele não estava perguntando se eu tinha roubado algo de algum armário naquela semana.
— Eles podem ser legais, mas fazem coisas que não concordo.
pareceu concordar novamente. O silêncio se instalou enquanto andávamos a caminho de nossas casas. Depois da nossa última briga no mercado decadente, eu mal sabia como me comportar ao seu lado. Eu não podia me dar ao luxo de ter inimigos em Cotswold, afinal, nem amigos eu tinha.
. — ele me olhou de lado, como um incentivo a continuação da minha fala — Olha, me desculpa pela última vez que nos falamos. Eu não sou assim.
— Está tudo bem, não se preocupe.
Tive de respirar fundo.
— Isso significa que você aceita minhas desculpas ou não?
— Isso realmente interessa ou muda alguma coisa?
Parei de andar no mesmo instante. Era quase como um déjà-vu. Eu já podia me ver gastando palavras rudes e mal educadas com ele por todo o caminho. Eu já podia até mesmo me ver jogando ele no rio proibido. Mas eu não queria aquilo, e queria muito menos que ele me tratasse indiferente como todo mundo por aqui. Já era o suficiente vir morar no fim do mundo e ter um boato falso de cleptomaníaca espalhado por aí. Estava cansada de grosserias.
— Sim, muda tudo.
E foi só nesse momento que ele percebeu que eu já não o acompanhava lado a lado.
— O que houve? — continuei parada, olhando-o — Tudo bem! Está desculpada.
Andei a passos largos até chegar ao seu lado novamente.
— Obrigada.
— Sinto muito pela grosseria ontem também.
— Você teve seus motivos.
— Isso, com certeza. — o olhei no mesmo momento, como se não acreditasse naquilo. Até pedindo desculpas ele tinha que implicar comigo? — Ok! Deixa isso pra lá, é melhor.
— Eu não te devo satisfação alguma, mas essa cidade me irrita.
sorriu de lado com o meu comentário.
— Já tive esses dias.
— E quando isso vai passar?
Ele sorriu mais ainda, balançando a cabeça.
— Nunca.
— Outra notícia boa, obrigada.
Ele deu de ombros.
— Não é Paris, mas dá para sobreviver.
O olhei de lado.
— E Londres?
Minha esperança ainda estava bem acesa. Toda vez que lembrava da expressão de papai eu tinha forças para acreditar que iríamos conseguir ir para Londres o quanto antes. Então qualquer assunto sobre aquela cidade me interessava bastante.
— Não conhece Londres? — neguei com a cabeça — Vale a pena. Não tem nada a ver com tudo isso aqui.
Isso eu já esperava, mas deixei passar novamente para que nossa trégua continuasse valendo. Eu queria saber sobre as coisas diferentes que aquela cidade grande tinha, quais eram as coisas imperdíveis, os melhores lugares para se frequentar. Sabia que estava esperando muito de alguém que morava (provavelmente) desde sempre naquele fim de mundo, mas queria aproveitar o bom momento que estávamos passando.
— Alguma dica legal sobre Londres?
Ele deu de ombros novamente.
— Fui poucas vezes para me divertir, mas posso te contar algumas coisas que acho interessantes.

Sem perceber, fiz o caminho do mercado com ele. Isso fez com que , ao chegar na fachada do local, me olhasse confuso.
— Precisa de algo do mercado?
Eu não podia dizer que simplesmente me distrai muito com a sua presença e suas dicas de Londres, então acabei o seguindo. Tinha que inventar qualquer desculpa.
— Não, mas vou almoçar ali no restaurante da esquina. É bom?
Ele concordou com gestos enquanto entrava no mercado.
— É sim. Meu pai é muito amigo da dona, costumávamos almoçar lá sempre nos finais de semana.
Tive que entrar correndo para acompanhar suas falas. Estava sonhando ou ele simplesmente estava contando algo da sua vida por pura vontade, sem patadas?
Ele parou atrás do balcão, após se abaixar para deixar sua mochila. Aquela era a minha hora.
— Bom, vou indo então.
Quando ia me responder algo, uma menina baixinha de cabelos longos e loiros saiu pela porta atrás dele.
, que demora foi essa?
? Então o meio ogro tinha um apelido legal. Ele olhou para trás, logo puxando a menina para mais perto, abraçando-a de lado.
— Deixa de ser pentelha, foram dez minutos só. — a menina fez uma cara enfezada, que logo se dissipou com o beijo que deu em sua testa — Foi rapidinho. — ela se desvencilhou de seus braços, logo ajeitando o cabelo. O nariz empinado combinava direitinho com o garoto a sua frente — Vai para casa agora, vai.
E, com isso, a tal menina loira percebeu que eu encarava aquela cena como uma idiota.
— Precisa de algo? — seus grandes olhos azuis me fitavam com curiosidade — Gostei do seu casaco.
Como protesto silencioso, eu tinha colocado de volta meu sobretudo “azul demais”.
Eu sorri em resposta.
— Não, obrigada. — e reparei que ela usava uma jaqueta rosa com muito estilo para alguém da idade dela — Gostei do seu casaco também.
riu, saindo detrás do balcão.
— Annabelle, essa aqui é a . Ela estuda lá na escola.
— Oi, . — ela me fitou de cima a baixo novamente, mas ainda com um sorriso singelo no rosto. Annabelle aparentava no máximo onze anos — É nova na cidade?
nem deixou que eu respondesse.
veio de Paris.
O olhar da menina se iluminou.
— Uau! — e então chegou mais perto de mim — É sério? Lá deve ser lindo. — e se virou para e depois para mim de novo — É lindo, não é?
Não pude deixar de rir.
— É sim. Muito lindo.
ainda ria da reação da garota.
— Agora vai, pirralha.
A menina fechou a cara, logo me fitando novamente.
, você tem irmãos?
Levantei as sobrancelhas, em surpresa pela sua pergunta.
— Tenho um, mais velho.
Ela suspirou, olhando de canto de olho para .
— Espero que não seja chatinho como o meu.
a agarrou pela cintura, fazendo a menina rir novamente.
— Eu ouvi isso, peste. Vai pra casa antes que meu pai venha me perturbar!
Ela se soltou, fazendo uma reverência exagerada.
— Como quiser, querido irmão. — e eu não contive meu sorriso junto a eles — Tchau, ! Qualquer dia me conta sobre Paris.
Isso sim era novo. O garoto do mercado sendo realmente simpático e alegre com alguém.
Vi Annabelle se afastar, atravessando a ponte de pedra.
— Ela é linda.
me olhou engraçado.
— É de família essas coisas.
A sorte da minha vida era que eu não corava fácil.
— Vocês são irmãos de verdade?
Ele riu, cínico.
— Continuamos na trégua, certo?
— Claro. — dei de ombros — Vou indo.
Ele me olhou de lado, deixando escapar um sorriso.
— Espera. Quero te fazer um convite. — mas logo o sorriso se fechou por completo — Se você não for grossa de novo, claro.
Franzi o cenho de imediato, pouco me importando com o final da sua fala.
— Um convite?
Meu corpo paralisou no mesmo momento. Um convite. queria me fazer um convite. Não sabia se fazia pouco caso daquilo ou se alimentava minha mente de poucas esperanças, já que poderíamos voltar a brigar a qualquer momento.
E ele poderia me convidar simplesmente para ‘conhecer a região’.
Respirei fundo, enquanto ele mexia em alguma coisa no caixa. Tentava com todas as forças me manter serena, pois não sabia o que estava por vir.
Ele sacudiu a cabeça em afirmação.
— Vou encontrar uns amigos mais tarde. Quero que você vá comigo.
Por um momento eu vacilei. Eu queria amigos, mas não sabia onde estava me metendo. E eu não queria fazer parte do grupo em que estive na hora do intervalo. Não queria nem ao menos ser chamada para ser parte dele.
— É o grupo de Dominic?
E então a grosseria em pessoa riu.
— Está louca? Não.
— Posso saber pelo menos do que se trata? — ele levantou as sobrancelhas, me olhando esquisito, como se já esperasse algo rude sair de minha boca. Ele havia começado. Odiava que me chamassem de louca — Quero estar preparada caso você me chame para olhar as cabras da região.
Seus olhos claros cerraram.
— Você acha que sabe de tudo, conhece de tudo, não é? — não fiz a menor questão de responder. Nós íamos começar a brigar de novo? — Ótimo, melhor assim. — e me ignorou, voltando a mexer no computador a sua frente — Te pego assim que anoitecer.
— Vai ao menos perguntar onde eu moro?
— Só tinha uma casa a venda em toda a vila. Sei onde você mora.
Revirei os olhos.
— Te encontro na esquina.
Ele concordou com um aceno, sem tirar os olhos do computador.
Era a minha deixa para ir embora de vez.


***


Fiz o possível e o impossível para estar pronta antes de anoitecer.
A coisa mais caipira que presenciei em Bourton-on-the-Water era o costume de combinar um horário de acordo com o sol e não com números certos de um relógio.
Depois de ficar quarenta minutos esperando a noite cair (porque certamente eu não sabia que horas isso acontecia), inventei uma desculpa aos meus pais de que teria uma atividade extracurricular na escola junto ao time cafona de futebol feminino. Eles não compraram de início, mas, depois que eu disse que era obrigatório, valia nota e iria para o meu currículo escolar já muito manchado por treze mudanças, eles pareceram mudar de opinião.

Sai de casa caminhando até a esquina, conforme o combinado de mais cedo. Ele estava encostado em um muro de pedras, com uma das pernas no mesmo. Sua feição despreocupada só fazia com que ele parecesse mais bonito do que eu me lembrava.
Aquilo gelou meu estômago. Não por ele ser atraente, mas pelo fato de que eu estava sendo convidada para tentar ser amiga dele e de seus outros amigos. Provavelmente amigos de infância.
Em todas as mudanças, a parte mais difícil era se entregar para a amizade, pois o medo de ir embora a qualquer momento era constante. Eu não conseguia fazer amigos de verdade, porque só pensava em como seria ruim deixá-los depois de um curto período de tempo. A verdade é que doía bastante conhecer pessoas incríveis e simplesmente ir embora. Somente em Nova Iorque que consegui me libertar um pouco mais. Acredito que tenha sido por minha pouca idade e também por termos ficado tanto tempo direto lá. As viagens eram curtas naquele período, então a nossa casa de verdade se mantinha fixa na América do Norte. Era como se eu só fosse fazer uma viagem de férias e voltasse, já que não tinha idade o suficiente para ficar em casa sozinha.
Então aquela sensação desesperadora encontrou meu corpo novamente.
se descolou da parede de pedras, soltando um singelo “E ai”. Diferente de todos os dias que o vi, ele estava moderno e com estilo. Sua calça jeans era escura e sua blusa, branca com detalhes azuis que combinavam com seus olhos claros.
Ele estava lindo. E era bem difícil admitir isso.
falava algo e foi então que eu reparei em uma coisa ao seu lado. Uma bicicleta.
— Você só pode estar brincando.
Ele me olhou estranho, talvez não entendendo o porquê de minha reclamação repentina.
— O que houve? — mantive meu olhar na bicicleta. Ele acompanhou, rindo alto em seguida — Nem comece a reclamar.
— Eu não tenho uma bicicleta para acompanhar você.
franziu o cenho, talvez achando graça da minha expressão.
— E quem disse que você precisa de uma?

A muito contragosto, aceitei subir na bicicleta verde. Eu mal me lembrava de como andava naquilo, imagine confiar em alguém para ir de carona.
— Se você nos derrubar, te jogo no rio proibido. — ria com as minhas reclamações. Eu as fazia enquanto tentava me ajeitar da melhor maneira em sua bicicleta. Não era das mais novas ou do último modelo lançado (como se eu soubesse muito sobre bicicletas), mas parecia o suficiente para a região.
O garoto esperava pacientemente eu me ajeitar no quadro central, colocando então as mãos na parte que sobrava do guidão.
— Pronta? — sacudi a cabeça em afirmação. Ele colocou os braços por cima dos meus, segurando nas pontas. Aquela aproximação fez com que eu suspirasse — Tente não nos derrubar.
Eu precisava admitir que a sensação era diferente. Mais do que isso, era ótima. Quando você mora apenas em cidades grandes, barulhentas e cheias de falta de espaço, você simplesmente esquece de pequenas coisas boas como essa. O céu escuro estava completamente estrelado, e, graças a grande área de vegetação e plantações, eu podia vê-lo tranquilamente. Nada de postes de luz, nada de aviões cruzando o céu de dois em dois minutos. Nada daquele barulho caótico de buzinas e pessoas reclamando da vida.
Meu Deus, o que estava acontecendo comigo?
Mas é claro que eu não ia admitir isso para . Pelo menos não agora.
Ele continuava sereno, pedalava em um ritmo ideal, fazendo com que o vento nos atingisse sem muita força.

Nós cruzamos a vila e logo chegamos em uma estrada de terra que só tinha mato de ambos os lados, assim como grandes fazendas e celeiros abandonados em terrenos distantes e enormes.
Depois de alguns minutos na estrada de terra mal iluminada, diminuiu a velocidade, parando em frente a uma cerca de madeira velha, tão velha que só tinha alguns metros e um portão baixo que, acredito eu, nem fechava mais.
Ele saltou da bicicleta depois que fiz o mesmo.
— Não foi tão ruim assim, foi? — neguei entre gestos. Estava evitando o máximo falar, não queria brigar de novo. O que eu queria era aproveitar cada momento daquela noite — Vamos entrar.
Assim que acompanhei seus passos, meus olhos foram dominados pela imagem de um grande celeiro. A falta de luz na área externa dava um ar sombrio ao local e eu só pude imaginar essa falta de iluminação em uma cidade como Nova Iorque. Nada bom.
Eu devia realmente considerar a falta de poluição como um motivo para a minha maluquice. Naquele momento, tudo o que conseguia pensar era em como eu havia aceitado “encontrar uns amigos” em um celeiro abandonado, no meio do nada que é Bourton-on-the-Water.
fez menção em abrir a grande porta, me olhando sobre o ombro esquerdo. Com toda certeza eu mantinha a minha cautela.
— Tudo bem ai? — concordei entre gestos novamente, ainda observando atentamente o local quase abandonado — Fica tranquila, lá dentro é mais bonito.
— Vocês são um grupo de motoqueiros rebeldes, por acaso?
Ele riu pelo nariz, balançando a cabeça, como se minha cautela o divertisse.
— Você não veio da cidade grande? Aposto que isso aqui é nada.

Depois de prometer várias coisas a vários deuses, entrei no tal celeiro, logo atrás de .
E realmente era mais bonito por dentro.
O local, mesmo coberto por quadrados prensados de feno, tinha uma ambientação diferente. Várias luzes, como pisca-pisca fixos, rodeavam as paredes do local. O chão batido era salpicado com feno, como se alguém tivesse feito nevar trigo ou algo assim. Apesar de ser um grande espaço aberto, um grupo de adolescentes se mantinha junto, no canto direito, local onde uma música baixa tocava.
Eles tinham uma caixa de som bluetooth dentro do celeiro abandonado.
Uma mesa antiga era decorada com várias garrafas de vidro, que supus automaticamente ser com conteúdo alcoólico.
cumprimentou todo mundo com um grande “e aí”.
A música foi colocada em pause.
Seria um grande momento para correr daquele lugar.
— Galera, quero apresentar a vocês uma pessoa. — falou mais alto, conquistando mais ainda a atenção de todos. Mais ainda porque, desde que colocamos o pé dentro desse celeiro, os olhares são só para nós. Ou para mim. Tanto faz — Essa aqui é a . Chegou à cidade há poucas semanas, estuda na The Cotswold School, assim como nós.
Recebi alguns olhares mais convidativos, outros nem tanto. Pude reconhecer alguns rostos da escola e das atividades extracurriculares que eu tinha escolhido. A menina que havia me ajudado no primeiro dia, Mila, acenou brevemente com uma das mãos.
Uma garota de longos cabelos ruivos vestindo apenas roupas pesadas e pretas levantou seu copo em minha direção.
— Bem vinda a Cotswold! — e então bebeu todo o conteúdo de uma vez — Ou ao inferno, se preferir.
Me controlei para não deixar que meus olhos se abrissem demais, afinal, eu ainda era a garota da cidade grande que já sabe e viu de tudo. Dei de ombros, olhando de soslaio para . Ele apenas revirou os olhos — Essa é a Bronwen. Personalidade forte.
Olhei para a menina ruiva no mesmo momento. Não tinha a reconhecido em meio a tanto maquiagem preta.
— Nos conhecemos. Grupo de Línguas.
pareceu concordar em meio a careta que Bronwen fazia para mim. Aquilo me lembrou que a menina tinha prometido ‘ficar de olho’ no que eu faria dentro da escola.
Onde eu tinha me metido? Se já era difícil, imaginava que seus amigos não seriam diferentes.
Um garoto pálido de cabelos negros se levantou, vindo até nós.
— Não consigo nem falar o tamanho do prazer que é te conhecer, . — e então me olhou de cima a baixo — Você é muito linda, cara!
pôs a mão na frente do garoto, antes que ele pudesse chegar mais perto — Nem começa, Noah.
O menino riu, dando uma piscadela para mim. Ele era baixinho e usava roupas largas de skatista. Seu boné colorido com os dizeres “NIGGA” parecia grande demais para sua pequena cabeça — É só para ela conhecer as principais características de todo mundo. — e gargalhou, voltando ao seu lugar em um bolo quadrado de feno.
O garoto Hayden (o alto demais e também da extracurricular esquisita de Línguas) falou comigo em Francês, enquanto a ruiva rebelde ao seu lado revirava os olhos.
— Bem vinda, !
O baixinho Noah o olhou de lado.
— Quê?
— Ela está em nosso grupo de Línguas.
Noah ajeitou o boné na cabeça.
— Cara, que sorte a sua!
Vi revirar os olhos e respirar fundo, mexendo em algo no bolso.
— Então, . — e me olhou de lado, logo apontando para quem tinha me comprimentado em Francês — Você já conhece Hayden. — seu dedo foi até a garota que eu também já conhecia, mas ele talvez não soubesse disso — Mila. — ao seu lado um garoto com estilo muito parecido com , porém com cabelos mais claros. O mesmo garoto que eu havia visto com em meu primeiro dia em Cotswold (e também no super churrasco de papai) — Mason. Você não vai vê-lo na escola, ele já se formou ano passado. — e contornou o celeiro, apontando para outro garoto de cabelos claros, porém de menor estatura — E Riley, seu irmão.
Os dois meninos que estavam em nossa casa na última semana acenaram brevemente, parecendo lembrar de mim também.
Bourton-on-the-Water era realmente uma vila muito pequena.
— Não vai me apresentar por quê, ? — o tal do Noah reclamou, ajeitando novamente o boné grande demais.
Quando eu ia questionar, a grande porta do celeiro se abriu em um rompante, logo adentrando uma menina afobada, com uma bolsa amarela nas mãos. A reconheci no mesmo momento em que a vergonha atingiu o meu corpo. Era a menina que o grupo de Dominic chamava de esquisita no intervalo mais cedo, enquanto eu ainda estava presente na mesa.
— Vocês não vão acreditar no que eu... — ela falava completamente animada, mas, ao perceber a minha presença, se calou — Oi! Quem é a novata? — e andou mais ainda pelo celeiro, chegando perto de nós. Pela sua expressão, ela não havia me reconhecido. E, se tivesse, estava fingindo bem — Finalmente temos gente nova! Teve votação e eu fiquei de fora, né? — ela abanou o ar, me analisando em seguida — Tudo bem? — concordei com a cabeça, rindo de seu jeito — Me chamo Ella, e você?
.
— O que você acha de bebidas afrodisíacas?
Eu mal consegui responder, pois logo fui cortada por .
— Como você pode ver, Ella também tem uma personalidade forte.
Ella foi até , dando um leve tapinha em sua bochecha.
— Você vai me amar quando vir o que tenho aqui!

A cópia loira de , Mason, deu um passo à frente.
— Apresentações feitas, que ótimo. Posso reclamar sobre a minha vida agora?
Franzi o cenho no mesmo instante. Estariam todos da região finalmente contaminados pelo meu mau humor constante? Talvez eu tenha conseguido espalhar um pouco de poluição urbana das minhas mil caixas da mudança.
pareceu reparar na minha expressão confusa.
, pelo menos uma vez na semana nós fazemos a noite da reclamação. Cada um diz o que tem sido um saco e pronto.
Todos se sentaram nos bolos de feno próximos. Mila me puxou pelo braço delicadamente, fazendo-me sentar junto a ela. Seu interesse em mim, diferente da última vez que a vi, me fez sorrir.
— Reclamar? Acho que posso fazer isso.
deu de ombros.
— Te convidei de propósito hoje, já que reclamar parece ser uma das suas maiores qualidades.
— Posso reclamar de você.
— Fique à vontade, acho que você não será a única.
A minha vontade era abrir a boca e dizer umas boas verdades a ele, mas resolvi dar de ombros também. Mason apertou os olhos, como se a nossa pequena discussão o cansasse.
— Posso começar então? — todos ficaram em silêncio — Meu pai quer que eu arrume um emprego de verdade. Ele acha que trabalhar no bar do Sheppard é vergonhoso para a família. — ele e Riley reviraram os olhos ao mesmo tempo — O meu problema é que eu não quero criar ovelhas ou vacas, então não tenho muitas opções aqui em Bourton-on-the-Water.
se levantou rapidamente.
— Você não pode se mudar agora, Mason.
Mason o olhou de volta.
— Não vou me mudar.
A grosseria do mercado pareceu relaxar.
— Então o que vamos fazer sobre isso?
— Nada! Eu gosto de trabalhar no bar. E do que adianta tentar algo novo agora? Ano que vem vamos para a faculdade mesmo.
“Vamos para a faculdade”? Era bom saber que eles tinham planos de vida fora de Cotswold.
O grupo começou a discutir fervorosamente sobre o problema de Mason, mas a menina de preto interrompeu.
— Eu tenho uma reclamação! — a menina ruiva se levantou, se virando diretamente para — Quem você pensa que é para trazer alguém do nada para o nosso espaço?
A expressão do menino não se alterou.
— Não começa, Bronwen.
— É, não começa, princesa punk de Cotswold. — o tal Noah “NIGGA” falou, recebendo um xingamento da menina — Só porque ela é linda e tem uma incrível bun…
o cortou.
— Cala a boca, Noah.
O baixinho me olhava.
— Ela não é do tipo que fica com as bochechas vermelhas. Gostei!
Eu ia responder, mas falou primeiro.
— Nem se dá o trabalho, vai por mim.
Bronwen marchou até o outro lado do celeiro, indo em direção à suposta mesa de bebidas. Mason se deu por vencido, visto que seu assunto tinha morrido.
— Beleza. Quem é o próximo agora?

Eu não tinha o que reclamar naquela noite, então só ouvi os desabafos daqueles adolescentes diferentes. Na verdade, eu tinha sim o que reclamar, mas pretendia não assustá-los com tudo o que eu poderia dizer. Se eu tinha ganhado uma chance de participar de algo normal, tentaria um pouco mais que o habitual.
Depois que todos revelaram suas mágoas e irritações, a música no grande celeiro antigo voltou e pequenos grupinhos de conversas foram feitos. ria de alguma coisa com Mason e eu pensava se eles eram amigos inseparáveis. Parecia que sim. Os demais conversavam entre si, comiam alguns salgadinhos na mesa improvisada e tomavam líquidos suspeitos em copos transparentes.


Observar aqueles adolescentes espalhados pelo celeiro velho me trazia esperança de que viver em Bourton-on-the-Water por algum tempo não seria o meu fim. Suas roupas tinham estilo, mesmo que diversificados, e isso me fazia sentir em casa. Na cidade grande. Eram coisas que eu não conseguia ver pelas ruas da vila, que parecia sempre extremamente antiquada.
O menino chamado Noah era facilmente um skatista. Suas bermudas largas faziam par com a camiseta de tal tamanho. Boné virado para trás, além da personalidade despreocupada. Eu gostava, era urbano o suficiente para me levar de volta a realidade.
A garota Bronwen era claramente a rebelde do grupo. Suas roupas negras e cabelo cor de fogo se misturavam com a expressão carrancuda. Bonitinha, mas parecia que ficava de mau humor vinte e quatro horas por dia. Ela conversava com Mila, a menina que fazia Literatura Inglesa e Biologia II comigo. Seus cabelos negros brilhavam na pouca luz dentro do celeiro e ela parecia realmente interessada no que a outra falava. Seu vestido rosa claro entrava em contraste com a sua pele negra. Ela era linda e agia como uma princesa indefesa, ao contrário da menina a sua frente.
Noah mostrava algo para o irmão de Mason, Riley. O garoto concordava, fazendo seus grandes óculos de grau preto balançarem. Os dois não deviam ter mais do que quinze anos. Riley usava um suéter bordado com alguma referência de Star Wars, que não fiz muita questão de entender.
Hayden, o mais alto de todos, tinha uma expressão risonha ao ouvir alguma besteira (provavelmente) da conversa entre Noah e Riley. Seus cabelos cor de areia eram bagunçados e suas roupas combinavam de uma forma esquisita, e eu não conseguia dizer se o estilo dele era de esportista ou década de noventa.
. Completamente diferente da escola e do mercado, ele podia facilmente penetrar nas ruas de Nova Iorque, Londres e qualquer outra metrópole. Qual era o problema dele? Suas roupas eram muito melhores que as cores cinzas ridículas da The Cotswold School que ele insistia em usar até no trabalho. Mason podia ser claramente irmão do garoto do mercado, tirando o fato de que era loiro. Seu estilo era muito parecido, roupas na moda, mas com aquele desleixo que todo homem tem. E que faz total diferença para ser mais atrativo.
E por fim, Ella. A garota mais excêntrica que tinha conhecido em dezessete anos. Suas mechas coloridas brilhavam e seu grande laço verde no topo da cabeça deixava tudo mais incrível. Sua personalidade era clara: fazia o que tinha vontade sem se importar com o que o resto da população pensaria. Ella ajudava a consolidar aquela esperança de sobreviver, já que ela conseguia fazer isso muito bem pela vila, mesmo com tanta implicância e intolerância.

Ao meu ver, sozinha no meio daquelas pessoas diferentes e esquisitas, me encontrei em algum lugar. Mila fez um gesto para que eu chegasse mais próximo, o que fez com que a garota ruiva se afastasse.
— Então, — olhei ao redor do celeiro, falando alto e ignorando os olhares de Bronwen a minha direita — vocês são o grupo de populares da escola que se encontram escondidos?
Parte do grupo deu uma risada divertida, o que me fez ficar intrigada. Eu tinha falado algo demais? parecia se divertir com a minha frustração.
— Esse não é um grupo que Dominic pertenceria. — Mason tentou explicar, fazendo todos pararem de rir — Não somos populares. É como se fossemos o contrário.
— Isso é um grupo de renegados? — falei, sem ao menos pensar.
franziu a testa.
— Isso doeu.
Minha boca abriu, mas nada saia.
— Me desculpe, eu…
E então ele abanou o ar, rindo novamente.
— Brincadeira. Mas, sim, é como se fosse.
Mila chamou minha atenção.
— Os populares da escola são Zara, Dominic, Skye, Aaron, Lewis e Caitlin. Eles tiram um pouco de sarro de algum de nós, mas nunca em conjunto. — ela concluiu, dando um tapa em Noah por algum comentário que não entendi — Ninguém sabe do nosso grupo ou que andamos juntos. Por isso não ficamos juntos na escola, assim ninguém perturba a gente.
Mason completou:
— Dentro do celeiro nós não julgamos, não brigamos e não questionamos. É um lugar livre para que todos nós possamos fazer o que bem entendermos.
concordava com o amigo.
— Aqui nós podemos ser nós mesmos, fazer o que quisermos. — e tomou mais um gole do que seja lá dentro do seu copo — Cotswold não nos domina aqui dentro.
Meu corpo inteiro parecia formigar.
Era como se fosse uma legião. De renegados. Em Bourton-on-the-Water.
Cada um parecia ter um estilo específico, mas todos tinham uma coisa em comum além da amizade.
Eles não combinavam com Cotswold.
— Então, — voltei a olhar para todos — vocês possuem um clube secreto e convidam uma desconhecida? — todos concordaram, menos Bronwen, que ainda fazia pouco caso da minha existência. Não que eu me importasse — E se eu fosse maluca e contasse a todos pela manhã? O grupo de vocês já era.
Mila disse simplesmente:
— Confiamos em você.
— Eles confiam. — Bronwen nem sequer me olhou.
Mason a olhou, atravessado.
— Se e Mila confiam, todos nós confiamos.
Aquilo me chocou em dobro. confiava em mim?
O mesmo que tinha trocado farpas comigo desde o primeiro dia em que nos vimos?
Mason continuou:
— Você tem o suficiente: odeia Cotswold. Portanto, bem vinda ao celeiro.
Então a grosseria do mercado deu um passo para frente, abraçando Ella de lado e acabando com todos os meus questionamentos.
— Que comece a nossa noite!

O “comece a nossa noite” era claramente uma abertura para que todos dessem início a ingestão de álcool do dia.
Hayden, o menino do debate, distribuiu copos a todos, e até mesmo para mim. Eu queria correr ao mesmo tempo em que queria ficar e compartilhar tudo com aquele grupo maluco.
O problema da vez era que aquilo eu não estava acostumada. De beber e tudo mais. Eu mal tinha experimentado algumas cervejas, não saia escondido e nem fazia coisas ilegais. Era simplesmente tudo o que eu evitava da cidade grande.
Ou, na verdade, tudo o que nunca tinha experimentado.
Sei que idolatro Nova Iorque e todas as outras cidades imensas que já moramos, mas o bom de todos esses lugares, ao meu ver, era a acessibilidade à cultura (museus, shows de bandas incríveis e últimos lançamentos do cinema mundial), transporte (uma entrada de metrô a cada esquina), boas lojas de moda (de todos os tipos e gostos) e a parte de gastronomia (onde um fast food é melhor que o outro!).
Mas a parte de festas loucas e ficar de ressaca…
Essa parte da minha vida não combinava com um filme de adolescente, ou algo bem doido de seriado, como Gossip Girl.
Nada mesmo.

Olhei novamente para copo transparente em minhas mãos. Será que eu conseguiria ser rápida o suficiente para jogar o conteúdo em algum canto sem alguém perceber? Mila ainda se mantinha perto de mim, conversando algo com a menina exótica mais nova, Ella. Vi uma parte do grupo se juntando em uma pequena roda, com seus devidos copos transparentes cheios em mãos e aquilo me deu um mau pressentimento. caminhou até o local onde o pessoal sentava nos grandes retângulos de feno.
E uma ideia louca passou pela minha cabeça.
— Por favor, não me diz que vocês vão jogar verdade ou consequência.
Mila franziu o cenho, falando mais alto em direção ao garoto do mercado.
— Vamos jogar alguma coisa?
me olhou estranho e eu percebi que mesmo de longe ele tinha reparado em minha pergunta.
, eu lá sou homem de jogar verdade ou consequência? — seu tom era zombeteiro, mas suas palavras fizeram com que meu corpo todo acelerasse. Apenas o fato de ele se chamar de “homem” já fazia isso.
Suspirei alto pelas reações de meu próprio corpo estúpido.
— Menos mal então.
Ele observou o copo em minha mão.
— Você ainda não bebeu ou isso já é outra dose?
— Está me controlando?
E então levantou os braços, como se julgasse a si próprio inocente.
— Vou te deixar em paz.


Depois de ouvir um pouco mais sobre o celeiro, os dias que eles se encontravam e como faziam para que ninguém desconfiasse, me sentei em um dos bolos de feno do outro lado, longe da música. Mila me acompanhou, sentando-se ao meu lado.
— Você está em algumas de minhas aulas, não é? — acenei com a cabeça em concordância. Eu me lembrava bem de Mila, pois foi a única que me ajudou no primeiro dia com horários e salas. Sem contar que eu a achei uma das garotas mais bonitas do lugar, com sua beleza tão simples e natural. Não era impactante como Zara, mas ainda assim, linda — Imaginei que fosse te convidar.
E lembrava da grosseira que tinha feito com ela também.
Não pude conter a expressão surpresa.
— E por quê?
— Você não combina com Cotswold. Não está claro isso?
— É a segunda pessoa que me diz isso em poucos dias.
Ela piscou para mim, sorrindo.
— E esse é o primeiro requisito para fazer parte de nosso grupo.
— Então vocês fingem que não são amigos na escola? Ou pela cidade?
Ela ainda me olhava sorridente. Seu vestido de babados rosa claro só a deixava mais fofa.
— Não todos, nós apenas procuramos não andar com o grupo inteiro, mas as pessoas acabam sabendo que nos conhecemos. É uma vila bem pequena. — ela fazia pequenos gestos enquanto falava — Por exemplo, não tem como fingir com e Mason. Eles são melhores amigos de infância.
— E o resto do pessoal?
é amigo de infância de Bronwen também. Riley entrou por ser irmão de Mason. — eu ainda tentava entender a relação dessas pessoas aleatórias dentro do celeiro — Noah é melhor amigo de Riley. Os únicos que não possuem uma relação direta com alguém aqui são Hayden e Ella.
— Mas então como eles vieram parar aqui? Do mesmo jeito que eu fui convidada?
Ela sacudiu a cabeça, parecendo pensar um pouco.
— Riley estava com problemas para fazer amigos, até que Noah chegou de Stroud. Os pais dele possuem negócios aqui nas fazendas. Mas, mesmo os dois ficando amigos na escola, eram muito humilhados lá. Mason não aguentava mais isso e trouxe os dois para conviver no celeiro. Melhorou a auto estima dos garotos. — ela olhou para frente, logo rindo de Bronwen dando um escândalo com Hayden sobre alguma coisa que agora estava derramada no chão já sujo do celeiro — Hayden ganhou o seu lugar quando ajudou e Mason a saírem de uma enrascada há uns dois anos atrás. Ninguém entra em muitos detalhes, mas foi o suficiente para tê-lo aqui. E, bom, Ella você pode imaginar apenas ao vê-la. Ela não combina com nada disso aqui e, assim como você, isso é o suficiente.
Eu ainda estava transbordando admiração por tudo aquilo.
— E você?
— Além de ser namorada de Mason, eu sofria um pouco de bullying. Você deve imaginar porquê. — eu não entendia porquê, mas resolvi deixar para outro momento — Meu primeiro encontro com o Mason foi aqui. Ele diz que já confiava em mim.
Tudo o que eu pude fazer foi suspirar. Em pensar que eu achava estar completamente sozinha nesse fim de mundo. Ali, naquele celeiro velho, eu percebi que estava errada, muito errada. Aquelas pessoas haviam se unido para sobreviver às maldades e maluquices de Bourton-on-the-Water, simplesmente pelo fato de quererem muito mais do que tudo aquilo.
Realmente incrível.
— Mila, nem sei o que te dizer. Isso é incrível.
Ela sorriu novamente, concordando.
— É sim. e Mason juntos sempre dá em ideias incríveis.
— Garota da cidade grande. — Ella chegou perto de nós — Que bom ter gente nova aqui no celeiro.
Mila se levantou do feno, me deixando sozinha com Ella, que esboçou um sorriso. Eu queria saber mais sobre as ideias de Mason e , mas era a hora exata para me desculpar por mais cedo com aquela menina.
— Olha, eu queria pedir desculpas por mais cedo e…
Mas fui completamente interrompida.
— Eu não me importo com o que o grupo de Dominic fala ou com qualquer outra pessoa da escola ou da vila. — Ella sorriu novamente — Eu sei que você não faz parte deles, por isso nem precisa se preocupar.
Aquela cena bizarra ainda se passava em minha cabeça.
— Mas eu podia ter te defendido.
, — ela levantou as sobrancelhas, como se me contasse um grande segredo — eu não me importo. — podiam ser simples palavras, mas fizeram um sentido enorme. Ella não se importava. E isso era mais do que o suficiente — Então não se preocupe também.
Mila se sentou conosco novamente, segurando uma garrafinha de água mineral. Será que eu conseguia me livrar daquele copo e ficar só na água gelada também?
— Conta mais sobre você, .
Ella parecia animada novamente.
— É verdade que você veio de Paris? — concordei entre gestos, cheirando novamente o conteúdo do meu copo. Nada bom — Ah, deve ser perfeito! A moda, as pessoas, o romance no ar.
Minha expressão se comprimiu em uma careta depois de tomar um gole daquilo. Não sabia o que era pior: a bebida ou a animação das meninas com o romantismo da França.
— A moda sim, mas o resto não é tudo o que pensam.
Expliquei um pouco como tinha chegado até Cotswold. Contei de algumas cidades que já morei, do que eu gostava e como estava sendo a minha receptividade em Bourton-on-the-Water.
— Você se acostuma. — Mila olhava para os meninos a frente — Essa velharia, falta de cor nas pessoas. — a menina ajeitou os babados de seu vestido de princesa — Só não deixa que isso domine você.
Era exatamente o que eu estava tentando fazer.
— É sério que devemos usar só as cores da escola? Cinza? — as meninas concordaram. Olhei para Ella, que levantou as sobrancelhas em dúvida — Não implicam com você?
— O diretor já tentou várias vezes, mas eu continuo no meu direito. — Ella fez pouco caso, comendo algo que eu não entendi o que era.
Mila me cutucou de lado.
— Você não tem noção de como aquele velho a detesta!
Ella soltou uma risada, talvez relembrando as batalhas que já teve com o diretor da escola.
— É bem simples, garota da cidade grande. — seus grandes cílios piscavam para mim — Eu uso as cores da escola, não tem como ele me proibir.
— Mas e o seu cabelo?
— Isso meu pai já resolveu.
Tive de sorrir, imaginando como ele conseguiria burlar a chatice da The Cotswold School.
— Como?
— Doando a nova biblioteca. — meu riso cessou na hora — Isso me permitiu cabelos coloridos naquele lugar antiquado.
Então estava aí o motivo de eu ser barrada com o meu casaco “azul demais” para a escola. E foi naquele momento que eu me senti de volta à minha querida Manhattan, mas de uma forma mais caipira, se isso era possível. Como meu pai havia dito, as pessoas de Cotswold eram realmente ricas. Mas aquilo soava muito distante e estranho para mim, então ver Ella falando sobre doações de bibliotecas me levou a uma nova realidade sobre o meu novo lugar de estadia.
As pessoas realmente tinham dinheiro por lá, mas por que não iam embora daquele fim de mundo?
Ou explodiam tudo e começavam do zero, soluções boas assim.
— Hoje não pude usar meu casaco por ser azul demais.
Ella e Mila me olharam incrédulas.
— O quê?
— Exatamente o que vocês ouviram. ‘Azul demais’.
— Quem te disse isso, ? — Mila parecia chocada — O diretor?
— Minha orientadora.
Ella revirou os olhos.
— Pior ainda. Você aceitou isso?
— Ela ficou me encarando, eu tirei para não discutir. Não estava afim.
Mila parecia irritada, mas todo seu conjunto angelical fazia com que ele permanecesse no estágio fofinha.
— Algumas pessoas aqui são assim. Elas agem como se fossem donas do colégio ou da vila, e principalmente das regras absolutas. Querem que você se sinta inferior.
— Tirando isso, temos boas pessoas por aqui. — Ella tentou ser positiva.
Eu não queria apontar nomes e fiquei feliz por Mila e Ella deixarem essa passar. Provavelmente elas sabiam muito bem de quem eu falava, mas realmente não queria criar intrigas ou comentar qualquer coisa maldosa que Zara tinha falado para mim, além do meu casaco muito azul para a região.
Mas, pensando naquilo, meu corpo tremeu um pouco com o sentimento de raiva. Quem aquela garota pensava que era para me barrar de usar um casaco? Ali eu percebi que as expressões de Zara eram como um confronto pessoal.
Ela não queria que eu chamasse mais atenção.
“Talvez aqui não tenha espaço para você”.
Não sabia se já era a bebida falando por mim (pequenos goles podem sim te deixar bêbado), mas as palavras saíram de minha boca.
— Na próxima não vou aceitar mudar de casaco.
Ella bateu palmas, logo pedindo um brinde. Reprimi a careta no mesmo momento, juntando nossos copos (e garrafinha de água).
— É isso aí!

Para disfarçar o gole sofrido na bebida esquisita, olhei ao redor do celeiro.
Noah e Riley riam de alguma coisa que Hayden mostrava a eles — e até mesmo Bronwen, a ruiva do debate que tinha prometido ficar de olho em mim, sorria com alguma coisa da dupla de amigos.
E, no fundo do celeiro, sentados em um bloco de feno grande, estavam a grosseria do mercado decadente e seu melhor amigo. sorria ao lado de Mason, dividindo um cigarro. O cheiro que veio até mim não foi o de um cigarro qualquer e, mesmo com pouca experiência nessas coisas, eu sabia o que era. Maconha.
Tentei fazer o máximo para não parecer chocada, mas, como nada é fácil na vida, ele percebeu o meu olhar e fez um gesto com uma das mãos, me chamando para ir até eles. Provavelmente pensava que eu fazia aquilo quase todos os dias na cidade grande.
Deixei as meninas tagarelando ao meu lado, andando poucos passos até . Ele deu dois tapinhas no espaço livre do grande quadrado de feno em que estava sentado.
— Senta aqui. — fiz o que me fora pedido, ainda incerta dos meus próximos passos — E aí, gostou do pessoal?
Antes que eu pudesse responder, ele pegou o cigarro das mãos de Mason, que agora soprava a fumaça para o alto. Tudo o que consegui foi dizer exatamente a verdade.
— Acho que me sinto parte de alguma coisa.
Ele tragou forte, concordando com a cabeça.
— Bem vindo aos renegados de Bourton-on-the-Water. — e soltou a fumaça para o alto — Quer?
Neguei com gestos, sacudindo meu copo quase cheio, que agora parecia ser de conteúdo infinito — Estou bem. O que vocês costumam fazer por aqui?
— Como você já deve ter percebido desde que pisou aqui, Bourton-on-the-Water não tem muito o que fazer. Principalmente para adolescentes. Então nós nos viramos sozinhos.
— Fazendo um grupo secreto no meio do nada?
Ele balançou a cabeça, devolvendo o baseado ao amigo.
— Quando éramos mais novos, nos juntávamos aqui escondidos de nossos pais para beber licor de menta, furtado da casa de Mason.
Tive de rir.
— Licor de menta?
balançou a cabeça novamente, me olhando de lado.
— Hoje nossos pais acham que nos encontramos em algum lugar, mas nunca desconfiaram daqui.
Não podia deixar aquilo passar.
— Licor de menta?
Eu não fazia ideia do que era aquilo, mas parecia algo bem caipira.
— Só não acho que imaginem que hoje seja para beber vodca. — ele enfatizou a bebida alcoólica, me olhando sugestivamente, como se esperasse mais um questionamento meu. Fiquei calada, segurando minha risada — E whisky barato, claro.
Mason deu uma risada junto com ele.
— Whisky barato é a melhor coisa que existe.
A garota ruiva passou por nós, cortando o celeiro sem antes me jogar um olhar esquisito. Acompanhei os seus passos, falando para os meninos ainda sentados no bolo de feno.
— Eu acho que ela não foi muito com a minha cara.
Mason revirou os olhos, abraçando Mila pela cintura, que tinha aparecido ali do nada.
— Não se preocupe. Bronwen tenta manter uma pose de rebelde, mas ninguém leva muito a sério.
Mila concordou, brincando com os dedos de Mason.
— E você é a rebelde da vez. Garota da cidade grande, deixa claro seu ódio por Cotswold, essas coisas.
— Ela acha que posso tirar o lugar dela aqui?
Será que ninguém mais tinha ouvido os boatos bizarros sobre mim na escola?
Mila abanou o ar com uma das mãos.
— Ela é gente boa, mas é meio maluca. Não se preocupe.


O resto da noite foi preenchido com mais conversas e mais descobertas sobre cada um ali. A minha cabeça girava com tanta informação e principalmente pelas duas bebidas suspeitas que tinham me servido.
Eu precisaria aprender algo sobre álcool ou implorar para que eu fosse café com leite como Mila parecia ser.

Olhando novamente todo o exterior daquele celeiro velho, eu realmente me senti parte de alguma coisa. Ali dentro a minha crise de choro para papai e mamãe mal faziam sentido e eu quase me esquecia de toda a maldade que tinha vivido nos meus poucos dias em Bourton-on-the-Water.
Tinha vontade de saber mais sobre aquele grupo e sobre aquelas pessoas. Queria ver como Riley podia ser mais um geek doido e Noah um pequeno galanteador com bonés grandes demais para sua cabeça. Hayden e seu porte atlético, mas que arrasava no Francês e nos debates mais esquisitos que eu já tinha visto na vida. Ella e sua essência fora do comum, com cabelos coloridos e uma atitude incrível para uma garota tão jovem. Até mesmo Bronwen, para descobrir o que poderia causar nela essa aversão a mim, fora os boatos pesados da escola.
Queria saber mais sobre Mason, seu jeito despojado e seu melhor amigo de infância, . Sobre eu tinha mil e uma dúvidas e vontades…
E Mila. Com todo aquele jeito de princesa, o que era quase 100% diferente de mim, eu sentia a vibração mais incrível do mundo. Algo me dizia que viveríamos coisas incríveis naquela vila. Juntas.

Com a cabeça a mil e antes que Mila subisse em sua bicicleta rosa chiclete, um impulso tomou conta de meu corpo. Eu precisava consertar a besteira que tinha feito no primeiro dia de aula. E precisava que aquela menina visse que eu estava sim interessada em tê-la em minha vida.
Peguei nas mãos de Mila, tirando ela de perto do pessoal.
— Mila. — ela me olhava com atenção — Me desculpe se te tratei mal no meu primeiro dia de aula. Eu não sou assim.
A expressão da menina ficou abatida.
— Eu só estava tentando me aproximar.
pediu? — o meu pensamento foi: será que tinha pedido para Mila verificar se eu era maluca antes de me convidar para o grupo secreto?
A menina balançou a cabeça. Seus olhos escuros ainda pareciam chateados.
— Não, . Só estava tentando ser sua colega.
Aquilo me machucou como um golpe de boxe provavelmente faria. Enquanto eu despejava mau humor e falta de interesse por tudo e por todos, no primeiro dia mesmo tinha uma menina incrível que só queria conversar comigo e, quem sabe, ser minha colega.
Mila continuou:
— Quando contei a Mason, ele disse que era para eu deixar de lado, porque não tem como ser colega de alguém que não quer isso.
Eu era uma pessoa horrível.
Apertei suas mãos.
— Eu sinto muito. Sou uma pessoa horrível.
Mila deu de ombros, me dando um meio abraço.
— Está tudo bem agora, de verdade. Já entendi o seu jeito.
Tomei um pouco de distância dela, sem entender.
— Meu jeito?
— Esse ar sabe-tudo da cidade grande.
— Tem certeza que não influenciou?
A menina sorriu sincera.
— Não, . Eu só fui com a sua cara, queria que fôssemos colegas de turma.
— E agora? — perguntei, receosa.
Mila sorriu ainda mais, subindo em sua bicicleta. Mason vinha logo atrás.
— Agora acho que vamos ser amigas.

Olhar Mila ir embora com o namorado me fez ter uma das melhores sensações de Bourton-on-the-Water. Eu conseguia ver simplicidade, felicidade e sinceridade. Em tudo.
O resto do pessoal já pedalava na estrada de terra mal iluminada, indo em direção ao centro da vila. Antes de desaparecer de nossa vista, ouvi Noah gritar.
— Muito, muito prazer, ! Sonha comigo!
— Cidade grande.
Um assobio baixo me despertou. Quando olhei para o lado, me esperava próximo de sua bicicleta verde.
— Acho que isso vai pegar, não é?
O garoto do mercado tinha uma expressão divertida, como se achasse graça da minha frustração momentânea.
— Provavelmente, sim.
— Acho que prefiro “menina do cachorro”.
Ele me olhou de soslaio antes de subir na bicicleta, ignorando completamente meu comentário anterior.
— Você nunca tinha feito nada disso, não é?
Por mais que ele estivesse completamente certo, me senti ultrajada com o seu cinismo.
— O que te faz pensar isso? Apenas sou fraca para bebidas.
— Pode confessar, . — ele deixou a bicicleta de lado, cruzando os braços no peitoral. Sua expressão séria tentando conter um riso o deixava ainda mais lindo — Não vou te julgar por isso. Ainda estamos no celeiro.
Fiquei alguns segundos sem falar nada, logo bufando alto em desistência.
— Você está certo. Não sou a rebelde da cidade grande que vocês acham.
— Ninguém te acha uma rebelde da cidade grande. — abri a boca, como se tivesse sido desmascarada de uma bela mentira — Que foi? Fala sério, . Não é só porque você tem mau humor na escola que é uma garota problema.
— Tudo bem. Como você soube que nunca fiz essas coisas?
— Você ficou horrorizada com o baseado. — ele segurou uma nova risada, logo se recompondo — Aliás, me desculpe por isso. Não foi certo.
pedindo desculpas? O que ele fumou devia realmente ser muito forte.
Tentei ao máximo parecer natural.
— Não foi nada demais.
Ele não pareceu muito convencido, mas me olhou de lado, puxando a bicicleta para si novamente.
— Ok, menina do cachorro. Vamos, vou te deixar em casa.
— Você vai andar de bicicleta bêbado?
— Se você quiser ir a pé... Pelo meu estado nós chegamos só de manhã.
Antes de subir na bicicleta, relutante, vi palavras saindo involuntariamente de minha boca.
. — ele me olhou de prontidão, suas sobrancelhas levantadas — Por que me trouxe aqui hoje?
— Preciso realmente te dar um motivo para isso?
Meu coração disparou. Bebidas fazem isso, certo?
— Todas as vezes que nos falamos, quase nos matamos.
Ele riu sereno, encostando-se na cerca velha de madeira.
— Eu já te disse, . Você não combina com isso tudo. — e fez um gesto como se quisesse me mostrar os arredores — Você não precisa sofrer sozinha. É isso.
Foi a minha vez de levantar as sobrancelhas, surpresa.
— Então isso quer dizer que a gente não briga mais?
Ele sacudiu a cabeça, divertido.
— Só se for necessário. Por exemplo, quando você transborda grosseria.
— É coisa da cidade grande.
Aquilo pareceu o suficiente para ele.
— Vamos?
Eu estava quase pronta para ir embora (já que só tinha sobrado nós dois naquele meio do nada), mas precisava tirar a dúvida que martelava em minha cabeça o tempo todo.
— Você ouviu o que falam de mim na escola?
Ele respondeu sem medir palavras:
— Que você é uma péssima amizade?
Respirei fundo.
— Algo assim. E que eu roubo coisas.
fez uma careta.
— Ouvi sim, . Só não achei que fosse verdade.
Sorri com vontade sem ao menos perceber.
— E não é. Obrigada.
— Na verdade, ninguém do grupo acreditou.
Eu queria dizer que Bronwen acreditava um pouco, já que parecia não ir com a minha cara, mas deixei para outro momento.
— Vamos?

Após alguns minutos em silêncio, enquanto pedalava sua bicicleta tranquilamente, eu consegui pensar em como o meu dia tinha sido louco. Fazer novas amizades era sempre um desafio, mas às vezes acontece sem ao menos você perceber. E ali estava eu, andando de bicicleta com a pessoa que eu considerava ser a mais grossa e antipática da região.

Ao chegar em minha casa, me deparei com um dos muitos desafios da vila. Eu teria que subir pela parte de fora até a janela do meu quarto, no segundo andar. Além de ser parte do “batismo” do celeiro, disse que seria bem mais fácil do que explicar aos meus pais o cheiro esquisito de maconha e álcool assim que eles ouvissem passos pela casa.
Eu resolvi acatar, afinal, realmente não fazia esse tipo de coisa na cidade grande.

— Antes de você ir: uma confissão.
Meu coração deu um pulo, muito provavelmente pela bebida. Sério.
— Sobre o quê?
cerrou os olhos, mantendo a voz baixa devido à hora.
— Como você tem nada a ver com isso tudo aqui, foi fácil ver isso desde o primeiro dia que te conheci. — e então ele esclareceu algo que eu nem sabia que precisava — Esperei você se encaixar em algum grupo na escola para ter a certeza. E, como isso não aconteceu, eu tive a confirmação de que você precisava estar no celeiro com a gente.
Eu queria fazer mil perguntas sobre aquilo, principalmente pelo fato de ele ter me monitorado em silêncio nas últimas semanas, mas deixei passar. Deixei passar por estar um pouco alta e por simplesmente estar aproveitando tanto aquele momento que não queria mais brigas ou grosserias com .
Queria só receber um sorriso e, quem sabe, encontrar com eles numa próxima vez.
— Obrigada. — o menino pareceu satisfeito — Estou pronta.
me observou escalar a escada improvisada até o segundo andar, que dava diretamente na janela do meu quarto. Eu usava os pedaços de madeira que as trepadeiras cresciam em cima, pisando em cada um com o maior cuidado possível. Sua risada abafada já me dava nos nervos.
— Quer parar? — sussurrei olhando para baixo, em sua direção — Vai me fazer cair!
Ele revirou os olhos, ainda me observando escalar a parede.
— Sobe logo isso, não tenho a noite toda.
— Grosso!
Consegui jogar meu corpo para dentro do quarto, caindo sem muitos estragos. Olhei para o jardim. estava me observando, sem expressão.
— Tudo certo aí?
Concordei com um gesto, o que foi o suficiente para que ele subisse novamente em sua bicicleta verde. Antes que ele desse a primeira pedalada, chamei seu nome.
. — ele olhou para cima, pelos ombros. Bebidas nos fazem falar demais, certo? — Obrigada.
Certo.
Ele sorriu e eu não pude deixar de acompanhar.
— Te vejo mais tarde?
Franzi o cenho.
— O quê?
Ele sorriu mais ainda.
— É um jeito de falar, . Você acostuma.
E então ele foi embora, pedalando até sumir na escuridão.
“Você acostuma”. Eu teria amigos de novo.



Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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