Última atualização: 17/07/2018
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Capítulo I


Abri meus olhos lentamente quando ouvi alguém chamar meu nome e logo senti meu corpo todo dolorido. Definitivamente, dormir em uma sala de espera de hospital era extremamente desconfortável. Quando direcionei minha cabeça para procurar a voz que havia me acordado, encontrei a figura de meu amigo sentado na poltrona à minha frente.
... Ela acordou! — disse, olhando para mim e esboçando um leve sorriso, contudo, sua expressão estava estranha. — Mas ela... — então o sorriso de foi desaparecendo de seu rosto, assim como sua coragem de terminar a frase que havia começado. De súbito, levantou de seu lugar e sentou-se cuidadosamente ao meu lado. Pude senti-lo pegando em minha mão e percebi que havia algo em seu olhar. E, apesar de estar olhando em meus olhos com a boca levemente aberta pronta para dar continuidade a sua frase, sua fala não saía, como se não conseguisse escolher as palavras que utilizaria para continuar.
Sua demora para prosseguir iniciou uma reação em meu corpo: meu coração começou a ficar cada vez mais apertado, enquanto minha respiração ficou presa nos meus pulmões e cada músculo de meu corpo parecia travado como se aguardasse suas próximas palavras para voltar ao normal. A incômoda pausa de foi interrompida por , que, saindo do corredor e nos encontrando no sofá, percebeu nossas expressões e nosso silêncio e deduziu a conversa que estávamos tendo. Por isso, quando se aproximou de mim em passos lentos, disse com a voz estranhamente baixa:
— Os médicos disseram que pode ser temporário. Ela não perdeu completamente a memória, mas não me reconhece, nem a mim e nem ao , diz nunca ter nos conhecidos. E... Pelo o que parece, ela não sabe nada sobre você e nem sobre o pequeno . — os olhos de encheram-se de lágrimas enquanto dizia estas palavras. O impacto da notícia me fez abaixar a cabeça e fechar meus olhos, e minha mente foi levada a relembrar os últimos anos de minha vida ao lado dela.
Há alguns anos, eu havia me mudado para a pacata cidade em que moravam meus amigos a fim de me afastar da cidade grande, o lugar no qual a correria do cotidiano, o trabalho estressante e o estilo de vida agitado haviam despertado em mim algo que não conseguia controlar. Após um acidente causado por um descontrole em um bar, que me rendeu algumas cicatrizes e uns dias de prisão, e vieram até mim me oferecendo ajuda. Depois de longas conversas — das quais apenas me submeti por insistência deles — constaram que eu realmente estava com um problema de vício por álcool. Isso fez com que eles insistissem em me levar para ficar junto deles e, mesmo um pouco relutante em deixar meu emprego e sair da cidade, aceitei, porque talvez dar um tempo de todo o peso da cidade, assim como estar com eles por perto, pudesse me fazer bem. E, de fato, a vida no pequeno vilarejo localizado nas encostas do mar me oferecia nada além de paz, com muita calmaria e uma rotina sem grandes novidades.
Em uma noite, sentado no cais, percebi a aproximação de uma jovem, que aparentava estar alheia ao mundo ao seu redor, com o olhar fixo no mar, mas perdida nas ondas de seus próprios pensamentos. Inexplicavelmente, ela me chamou a atenção, não era o tipo de mulher que costumava cruzar habitualmente. Seus traços fortes e incomuns, mas incrivelmente belos, combinavam com seus grandes olhos de aparência sonhadora, somado a isso havia algo nela que exalava uma atração magnética. E, de repente, tudo o que meus ouvidos queriam era conhecer o som de sua voz, meus olhos queriam fitar diretamente os seus, minha pele implorava por experimentar o toque da sua. Cada parte de mim desesperadamente queria conhecê-la. Então, juntando todo o desejo crescente em mim, tomei coragem e puxei assunto com ela e, para minha surpresa, engatamos em uma conversa. Depois de algumas risadas provocadas pela minha falta de tato para esconder o quão estava atraído por ela durante a conversa, para a minha felicidade, ela me beijou!
Nosso beijo se transformou em algo mais e acabamos nos entregando um ao outro naquela noite, e posso dizer que cada beijo, cada toque e cada carícia que trocamos em meus lençóis foram diferentes e demasiadamente melhores de tudo o que já havia experimentado antes. Por isso, quando acordei no dia seguinte e percebi que ela não estava mais em minha cama, senti um aperto no coração... Até que percebi que havia um bilhete em um post-it azul preso no abajur ao lado do meu travesseiro, ansiosamente peguei o mesmo, já levantando do colchão. Nele dizia que, caso eu quisesse vê-la outra vez, naquela manhã deveria ir à floricultura da cidade. E assim o fiz, praticamente correndo. E, no momento em que a avistei caminhando em meio aos girassóis, bebericando um café enquanto seus olhos brilhantes perdiam-se nas flores, soube que havia encontrado algo único.
Contudo, muitos dias se passaram até que eu a visse outra vez depois daquela manhã, mas, em todo esse tempo, pensava nela, sempre me pegava andando pelas ruas desejando encontrá-la novamente. Só então quando já havia cansado de criar expectativas, a encontrei uma noite, no mesmo cais em que nos conhecemos e meu coração de súbito bateu tão forte, que parecia querer sair de dentro de mim e se jogar em seus braços. Quando me aproximei, pude perceber algo estranho: inicialmente, ela parecia receosa em falar comigo, desviava o olhar e demonstrava estar com medo por alguma razão que eu desconhecia. Até que, após alguns minutos de uma conversa em breves e rápidas sentenças, ela me fitou com um olhar intenso e então me disse algo que me deixou sem reação: ela estava grávida. E eu... Bem, eu não soube o que dizer. Naquele momento, não conseguia encontrar exatamente uma forma de me portar ou o que dizer a ela frente a essa notícia inesperada. Meu longo silêncio fez com que ela se afastasse de mim e desaparecesse na escuridão das vielas da cidade.
A verdade é que eu não imaginava levar uma vida com um filho ou qualquer situação próxima de uma vida conjugal com alguém naquele momento, na situação que me encontrava — me adaptando a uma nova cidade, organizando um escritório em que pudesse trabalhar à distância para a empresa de meu pai e tentando seguir os passos da reabilitação. Por mais que estivesse perdidamente atraído por aquela menina, que até agora não sabia nem o nome, existiam coisas a pesar antes de entrar em um relacionamento. Mesmo assim, me senti responsável em arcar com as consequências e, quando sua figura surgiu em minha porta alguns dias depois da sua revelação, fiquei satisfeito em podermos conversar e chegar a um acordo.
Posso dizer que fui uma figura presente durante a gravidez e me mostrei decidido e confiante para explicar toda a nossa situação para meus amigos, meu pai e os pais dela também. Nos meses finais da gravidez, me senti impulsionado a estar perto para ajudá-la e, por isso, pedi para que morássemos juntos e, mesmo um pouco receosa, ela aceitou por precisar de ajuda. Com o tempo de convivência, enxerguei que minhas primeiras impressões eram verdadeiras: ela era o tipo de mulher por quem você se apaixona de primeira, porque ela era única, não apenas por sua beleza, mas por sua personalidade e presença. Divertida, engraçada e inteligente, ela sabia conversar sobre todas as coisas e sempre deixava evidente que era decidida acerca de sua vida, seus desejos e suas convicções.
Nós vivemos durante os três últimos anos juntos e todos achavam que nós formávamos o casal perfeito, mas, contrariando todas as expectativas, éramos apenas mãe e pai de e nada mais que isso. Desde nossa primeira conversa sobre a gravidez, ela deixou claro que não precisávamos estar em um relacionamento apenas por conta do bebê e assim entramos num acordo de respeitar o espaço um do outro. Então, explicitamente, não tínhamos nenhum status de relacionamento, não assumimos nenhum compromisso além da criação do nosso filho. Por isso, nos mantivemos livres e, é claro, tivemos alguns momentos juntos, saíamos e, por algumas vezes, chegamos a sentir um clima diferente entre nós dois, que rendeu uns beijos avulsos e umas risadas constrangedoras depois. Mas a verdade é que tínhamos uma vida independente, podíamos sair com outras pessoas, porque éramos apenas duas pessoas dividindo uma casa, que demonstravam um carinho imenso um pelo outro e criavam um bebê juntos.

Voltei das minhas lembranças com apertando minha mão. Despertei do passado, piscando algumas vezes para me localizar, parecia que, em alguns segundos, eu havia revivido todos os últimos anos. Quando mal havia terminado de levantar a cabeça para olhar para frente, saiu disparando a falar e soltando várias perguntas:
— Acho que você precisa vê-la, né! O que deseja fazer em relação à perda de memória? Vai contar a ela o que aconteceu, conversar sobre o acidente e sobre sua vida juntos de que maneira? E sobre o Kookie? Ah, já entrou em contato com os pais dela? Porque...
, acho que metralhar ele com todas essas perguntas não vai ajudar né? — disse , interrompendo o amigo e olhando para mim com um olhar de cumplicidade. Em seguida, ele caminhou até meu filho e o pegou no meu colo. Minha mente estava tão confusa e me sentia tão anestesiado pela notícia que percebi que havia esquecido que meu filho ainda dormia em meus braços, segurando o livro que sua mãe lia todos os dias antes de colocá-lo para dormir. Havia insistido em trazermos para o hospital para que ela ouvisse a historinha enquanto estivesse no seu sono demorado. Quando o pegou no colo, mexeu a cabeça, piscou algumas vezes, apertou mais o livro contra seu corpo com os braços e olhou ao redor, mas logo voltou a fechar os olhos e afundar seu rostinho no pescoço do padrinho, voltando a dormir rapidamente. — Então, eu estava lá quando ela acordou, chamei o médico e vim aqui te buscar, mas, como você estava dormindo com o no colo, resolvi deixar que continuasse descansando e fiz companhia a ela. Nós conversamos um pouco, não entrei em detalhes sobre muita coisa porque acho que quem deve esclarecer as coisas e estar lá agora com ela é você.
Assenti com a cabeça e me levantei lentamente da poltrona, indicando que iria até o quarto. Recebi olhares de encorajamento de e e me dirigi ao corredor em que estava localizado seu quarto. O que dizer a ela? Eu conseguia lembrar que estávamos discutindo, lembrava que havia bebido naquela noite, mas as lembranças não estavam precisas na minha mente. Recordava a sensação de nervoso, de uma explosão de raiva, do som de uma freada brusca, de uma figura repentina e estranha na estrada, o carro capotando e, depois, acordar no hospital. Por isso... O que eu diria para ela? Como contá-la sobre o estado dela? Como fazer ela recordar do nosso filho? Como encarar a mulher que eu havia amado todos esses anos, sem ter coragem de lhe contar, e que agora sequer lembrava de mim?
Enquanto caminhava de encontro à porta, uma velha música surgiu em minha mente, era uma das favoritas dela e sempre a ouvia no carro ou pelos cantos da casa nos dias chuvosos, sempre justificando que dias assim combinavam com uma dose de música nostálgica. A chuva lá fora batia, forte e incessante, contra a janela do hospital assim como meu coração fazia contra meu peito; minha mão girava a maçaneta e minha mente cantarolava sua música: A felicidade está apenas esperando do lado de fora, mas será que ela poderia ser alcançada se batesse à 80km por hora? Você pode fazer com que ela entre ou vá embora. A felicidade pode ser parecida com bater na sua porta e você simplesmente me deixar entrar.

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¹A música é “Happiness”, da banda The Fray.


Capítulo II


estava deitada sob lençóis brancos, com os braços ao lado do corpo e a cabeça repousada nos travesseiros. Seu rosto estava levemente inclinado para o lado, de modo que permitia que seus olhos observassem a chuva que castigava fortemente os vidros da janela do quarto. Ela parecia muito frágil naquele estado, algo diferente do que comumente aparentava, vê-la daquele jeito me fez desejar correr até a cama e envolver seu corpo com meus braços, como uma maneira de protegê-la de qualquer coisa ruim que poderia querer lhe fazer algum mal.
Assim que o som da porta batendo atrás de mim chegou aos seus ouvidos, ela virou o rosto em minha direção e, mesmo que houvesse me dito que ela não lembrava de mim, assumo que, bem no fundo, tinha esperança de que, quando nossos olhares se cruzassem, ela magicamente me reconhecesse. Contudo, como na vida real nada é da maneira como sonhamos, não foi isso que aconteceu. Ao invés do que esperava, ganhei um olhar tímido e confuso dela.
— Hum... Oi! — ela disse e então percebi que estava há algum tempo calado e parado na porta só a observando, e isso realmente deveria ser estranho, ela estava me interpretando como um cara esquisito que de repente entrou no seu quarto para ficar encarando-a. — Você deve ser , certo? — ainda estava me fitando com um olhar confuso, mas havia um tom firme em sua voz. tinha esse dom de mostrar quem era só no seu falar, passava segurança e confiança nas suas palavras, mas também tinha um tom doce.
— Sim, sou eu! — respondi, esboçando um leve sorriso de canto, mas logo deixei a expressão desmanchar, porque pisquei algumas vezes quando percebi que ela havia falado meu nome. Eu tinha delirado por alguns instantes ou ela, de fato, havia dito mesmo?! — Você... Sabe... Meu... Nome? — perguntei gaguejando um pouco, afinal de contas, não esperava que ela pudesse saber quem eu era, eles haviam me dito que ela não se lembrava de mim. Foi impossível conter a faísca de esperança que surgiu em meu peito.
— Sei, sim, me falou um pouco sobre minha vida e algumas coisas que eu havia esquecido, e isso inclui você, certo? — e logo a faísca que surgiu tão de repente apagou! Ela não se lembrava. Ela não sabia quem eu era. Ela só conhecia meu nome. — Ainda estou bem perdida, mas, pelo o que entendi com o pouco que me explicaram, parece que estou fazendo uma pequena performance de Dory. E você é o Martin, pai do nosso Nemo, né?
Ela podia não recordar-se de nós, mas parece que não tinha esquecido de alguns detalhes. E esse era um deles. Procurando Nemo era nosso filme de fim de semana desde que passou a gostar de assistir desenhos animados. era daquelas que colocava o filho para assistir aos desenhos que gostava repetidas vezes até que eles passassem a gostar também, logo, foi uma festa quando uma das primeiras palavras do nosso bebê foi Nemo. Perdi as contas de quantas manhãs acordei no sábado e peguei eles deitados de conchinha no sofá vendo televisão, sem mencionar as vezes em que e ele ficavam cantarolando pela casa as canções repetitivas da Dory. Logo, abri um sorriso automático e não consegui conter meus olhos de encherem rapidamente de lágrimas.
— Eu disse alguma coisa errada? — ela se mostrou receosa quando viu minha expressão, então fui logo tratando de passar os dedos sob os olhos a fim de disfarçar e pigarreei antes de respondê-la.
— Não, você não disse nada demais. Só estou feliz em ver que você está bem. E que tenha usado essa referência. — eu disse e dei um sorriso para ela, apesar de sentir dentro de mim uma vontade crescente de chorar.
— Foi o primeiro que assisti no cinema e é minha animação favorita, e me pareceu meio adequada à nossa situação no momento. — ouvi o som de uma risada fraca dela e a cena de ela sorrindo depois de todos aqueles dias em coma naquele quarto trouxe de volta o desejo de tomá-la em meus braços. — Eu achei que você fosse trazer ele com você. É o nome dele?
— Sim, ! Mas, desde pequeno, você chama ele de Cookie, porque ele tinha um rostinho redondo e dava vontade de morder... Palavras suas. — novamente abri um sorriso e pude vê-la retribuindo com o mesmo gesto. Era oficial: eu não conseguia conter meu sorriso na presença dela ali na minha frente. Dei alguns passos na direção da cama e coloquei minhas mãos sobre a cama timidamente. Mesmo distante, sem lhe tocar, eu sentia que, de alguma forma, só de encostar em sua cama, podia sentir seu calor. — Ele está dormindo, praticamente apagado pelo cansaço, e também achei melhor vir sozinho antes de trazê-lo, não tinha certeza de como você estava ou como poderia reagir a mim... Nós... Quero dizer, a ele.
— Você fez certo! — ela me respondeu, parecendo ignorar minha confusão no final da frase. Pareceu querer ajeitar-se para sentar na cama com as costas apoiadas, por isso, rapidamente fui de encontro a ela e a ajudei a ajeitar os travesseiros em suas costas para que ficasse confortável. Por ser uma ação automática, por alguns instantes não percebi o quão próximo havia ficado dela e, assim que me dei conta de seu toque em meu braço, pude sentir meu corpo estremecer. — Obrigada! Você pode me responder algumas perguntas? disse pouco sobre as coisas... Ele disse que talvez você fosse o melhor para esclarecer certas dúvidas minhas.
— Sim, eu posso responder o que você quiser. — apontei para a poltrona ao lado da cama, como que pedindo a permissão dela para sentar, que logo entendeu meu pedido silencioso e fez um movimento positivo com a cabeça permitindo que eu sentasse ali.
— Quantos anos tem? — me perguntou, olhando para mim enquanto me sentava no assento.
— Vai fazer 4 no final do ano. — podia sentir minhas mãos suando por conta do seu olhar sobre mim. Precisava me acalmar. Não havia motivos para que eu ficasse nervoso, ela estava só fazendo perguntas normais, referentes ao nosso filho. Só que, quando ela chegasse na questão acerca de nós dois, como eu poderia explicar? Será que agora era o momento apropriado para revelar meus sentimentos por ela? Passei anos com um monte de sentimentos reprimidos aqui dentro que me bagunçavam e me deixavam confuso e nervoso quase sempre. Eu nunca havia tido coragem, antes do acidente, para falar sobre o que eu sentia e pensava sobre nós dois e nossa relação. Se ela perguntar... Ela vai perguntar, eu vou precisar dizer algo, então preciso me acalmar.
— Nós nos conhecemos há quanto tempo? — pude vê-la ajeitando seu cabelo, puxando um pouco para frente, um movimento muito típico dela quando estava relutante em falar alguma coisa, como se usasse sua franja como uma “cortina” para falar sobre um assunto que estava com vergonha de iniciar, mas não queria transparecer.
— Quase a mesma idade do nosso filho, alguns meses de diferença. — passei as mãos lentamente sobre meu jeans enquanto respondia. Não podia deixar meu nervosismo à mostra. Era só uma conversa sobre nós dois, não tinha nada demais ou, pelo menos, não tinha nada demais até ela vir com a seguinte pergunta...
— E ele é seu? Digo... Você é o pai? — disse, mantendo um tom descontraído, mesmo assim o pouco de autocontrole que tinha estava começando a caminhar para a beira do precipício. Parabéns, , você vai pirar na frente da sua mulher... Quer dizer, da , a mãe do seu filho, não sua mulher.
— Sim! Nunca fizemos um teste, mas sei que você não mentiria pra mim, sempre confiamos um no outro, desde o início. — comecei a frase de uma forma um pouco insegura, mas a verdade era aquela, ela sempre me passou confiança, eu nunca duvidei. — Quando me contou sobre a gravidez, conversamos e acreditei na sua palavra. E, depois que ele nasceu, bom... Eu só tive mais certeza, somos muito parecidos um com o outro, mas preciso dizer que ele puxou seu nariz. — dei um sorriso fraco apesar do nervosismo e ela retribuiu me fitando com um olhar divertido.
— Agora estou curiosa, já estava antes, mas agora fiquei imaginando uma mistura sua... Com o meu nariz. — ela tocou seu próprio nariz e soltou um breve gargalhada. Como podia sorrir daquela maneira tão espontânea naquela situação? Me impressionava! Sério! Ali estava em uma cama de hospital, o braço preso a uma agulha, claramente com alguns quilos a menos devido a alimentação restrita e carregando uma aparência pálida e cansada, que se refletia pelas bolsas escuras sob os olhos, mesmo assim ela conseguia dar aquele sorriso tão único dela. — Então quer dizer que te conheci e que um breve tempo depois engravidei de você?
— No primeiro encontro, na verdade! — minha fala saiu rápida, fiquei curioso para saber qual seria sua reação com minha resposta.
— Uau... Sério? Uau! — foi engraçado ver que se impressionou. — Você deve ser bom! — senti meu rosto esquentar levemente. — Hum... A gente não usou nenhuma proteção?
— Sim, usamos e não funcionou. Acho que era pra ser, né?! — e, aproveitando o quase elogio, não pude conter minha vontade de responder: — E, sim, eu sou bom, muito bom! — reprimido sentimentalmente? Sim! Mas inseguro das minhas habilidades na cama? Nunca! Vi que minha resposta fez com que ela mudasse sua postura, logo colocou sua mecha de cabelo antes jogada na frente do rosto para atrás da orelha e sabia que ela estava demonstrando interesse no caminho em que a conversa estava. podia ser muito boa em se impor com sua voz e manter uma pose segura, mas bastava prestar atenção nos movimentos sutis dela (algo que eu fiz bastante nos últimos anos) e sua linguagem corporal sempre mostrava coisas que sua comunicação verbal não dizia.
— Nós, por acaso, temos algum relacionamento? Somos casados ou algo assim? — e então ali estava uma das perguntas que tanto receava que aparecesse. Minha garganta pareceu secar instantaneamente e, se minha voz não aparecesse nos próximos instantes, ela poderia ouvir claramente meu coração batendo contra meu peito violentamente.
— Temos um relacionamento... Mas não desse jeito. — as mãos começaram um movimento mais frequente no tecido da calça, podia sentir que elas estavam se desfazendo em suor. Meu nervosismo ficou evidente quando comecei a alterar a velocidade da minha resposta: — Explicando melhor, somos bons amigos, criamos nosso filho juntos e por isso moramos juntos, mas a verdade é que não somos casados, noivos, namorados, nem nada do tipo.
— Isso dá certo? — o tom dela mostrava que estranhou algo que eu disse e, quase que imediatamente, respondi a ela.
— Como assim? Criamos muito bem, dá cer... — ela tocou uma das mãos e me interrompeu.
— Eu quis dizer se dá certo esse lance entre nós dois... Sabe, morar juntos sem sermos nada um do outro, não temos nada físico ou algo assim? — a conversa tinha que chegar logo a esse ponto tão rápido? Ela estava me obrigando a dizer algo, eu precisava falar o que sentia. Então ela riu quando eu balancei a cabeça positivamente como uma resposta para sua pergunta, então tirou sua mão da minha, fazendo um gesto um pouco debochado, colocando a mão no peito como se expressasse alívio.
— Ufa, estava começando a achar que tinha algo errado comigo ou sei lá... Você é bem... Digo, me conheço, né, morar no mesmo teto que você e não rolar nada seria no mínimo estranho. — sua expressão divertida me permitiu relaxar e, depois de ouvi-la dizendo isso, tive que acompanhar seu riso.
— A gente já teve uns momentos... — dei um leve pigarro antes de prosseguir com a frase: — Alguns beijos, mas nada sério! — poderia ser o momento de dizer o que guardava todos esses anos, mas ela estava sorrindo e o clima estava leve, eu não precisava falar sobre aquilo agora, teria outro momento melhor e mais apropriado. Por isso, repeti o discurso que havia ouvido dela na noite em que conversamos sobre a gravidez pela primeira vez, a fala que ficou pairando entre nós dois durante todo esse tempo e que, de certa maneira, tinha definido toda nossa interação: — Queremos ser livres... E respeito seu espaço... Você me deixa ser livre. — tentei deixar a minha fala a mais descontraída possível.
— Eu entendi. Moramos juntos por conta do nosso filho, temos uma boa convivência na mesma casa. — ela levantou uma das sobrancelhas e lançou um olhar intrigado. — Isso não atrapalha seus relacion...
— Eu nunca tive nenhum depois de te ter nosso filho! — falei prontamente, interrompendo ela, o que foi algo idiota da minha parte, eu assumo. Poderia até não esclarecer agora tudo sobre nós dois: nossa relação ambígua, nossos momentos íntimos, os sentimentos que ficavam no ar e os olhares carregados de tantas coisas não ditas que já havíamos trocado... Mas, se tinha algo que eu deveria deixar claro para ela, é que não havia outra pessoa. — Vocês são minha prioridade!
— E quanto a mim? Você por acaso sabe se eu tive ou tenho...
— Não! — Mas uma vez a interrompi e, sim, mais uma vez percebi de imediato que estava sendo idiota, principalmente porque dessa vez minha voz saiu mais alterada do que deveria. Dava para responder tranquilamente, eu também sei disso. Mas pensar nela com outra pessoa me deixava nervoso, mas não do jeito inseguro que estava antes, era nervoso de raiva. E não consegui disfarçar. Ao contrário dela, que tinha uma linguagem corporal sutil para demonstrar o que não queria dizer verbalmente, eu não conseguia me controlar em algumas situações, principalmente quando sentia raiva. Me levantei bruscamente da poltrona, ainda encarando ela e mantendo a entonação de voz alta: — Procure outra pessoa para esse tipo de pergunta! Eu não sei de todas as respostas da sua vida, ! — sentia a raiva queimando minha boca e tinha certeza que cada palavra que havia dito saiu carregada dela.
— Ok! — minha mudança de atitude repentina fez com que ela ficasse na defensiva. Eu podia ver que havia ficado assustada por alguns instantes. Sua postura ficou ereta e ela levou um pouco as costas para trás, meio que se afastando. O clima no quarto havia ficado estranho, era quase possível apalpar a tensão que havia se instalado no ar. Tudo por culpa minha e do meu descontrole. Estava tudo indo bem e eu estraguei tudo. — O que aconteceu? — percebi que sua voz estava séria e seu olhar, pesado.
— Nada aconteceu, eu estou... — tentei me defender. Será que havia como reverter minha repentina atitude agressiva? Eu poderia tentar... Mas ela me interrompeu, ríspida.
— O que aconteceu no acidente, ?
Apertei meus lábios forte um contra o outro e pude sentir que minha respiração ficou presa. Tenho certeza que o estado em que estava foi o que havia feito se perguntar sobre o que aconteceu no acidente. Eu podia sentir o olhar dela sobre mim, ela desconfiava que aquilo tudo o que aconteceu com ela poderia ser minha culpa?! O nervosismo que sentia por falar sobre nossa relação e a raiva que me tomou há alguns minutos por sua pergunta sobre ter outro homem em sua vida foram substituídas pelo desespero da pergunta dela sobre o acidente.
— Nós... Eu e você... Nós dois estávamos... — comecei a balbuciar vergonhosamente, mas então fui interrompido pelo som da porta se abrindo.
De súbito, virei meu olhar a tempo de ver a figura de um homem de cabelos cor de caramelo e olhos expressivos atrás de uma armação de óculos dourada, vestido com um pesado sobretudo e cachecol, segurando um buquê de rosas azuis, uma mala de viagem e uma caixa de chocolates.
— VOCÊ ESTÁ ACORDADA! — a voz alta e grave tomou conta do quarto. Rapidamente, ele correu até a cama, abraçou , que prontamente retribuiu seu abraço fortemente, o que me fez piscar os olhos algumas vezes.
— Você está bem, minha pequena? — minha surpresa com sua aparição escandalosa se desfez no momento em que eu identifiquei quem estava ali. Desespero? Nervosismo? Não, lá estava a raiva outra vez. Podia sentir aquele sentimento quente e forte subindo gradualmente outra vez.
— Estou, sim, ! Que bom que você está aqui!


Capítulo III


*FLASHBACK — 4 ANOS ATRÁS*
Equilibrava com certa dificuldade duas sacolas de papel com compras de supermercado nos braços enquanto segurava uma sacola com alguns filmes em uma mão e tentava pegar o molho de chaves que estava no meu bolso de trás. A quantidade de coisas que segurava juntamente com o pouco movimento que conseguia ter por conta do paletó que eu vestia acabou me levando a derrubar uma das sacolas de compras no chão na entrada da casa de . Bufei enquanto me agachava para pegar os itens que tinham se espalhado pelo chão. As latinhas de refrigerantes já estavam descendo os degraus e chegando até o portãozinho que dava acesso à rua e, para piorar a situação, a tampa do pote de sorvete havia desencaixado com a queda e agora o tapete da frente da porta estava manchado de marrom e cheirava a chocolate.
Coloquei a outra sacola no chão e corri até as latinhas, já prevendo que, quando uma delas fosse aberta, ia praticamente explodir na mão da pessoa, o que me fez pensar em fazer uma brincadeira com , mas, ao julgar o estrago de sujeira que já havia feito na entrada e o atual humor dela, deixei a ideia quieta. Terminando de colocar o pote, as latas e os pacotes de biscoito de volta na sacola, resolvi usar minha inteligência para algo que deveria ter feito desde o início: deixar os itens no chão, pegar a chave no bolso, abrir a porta e depois voltar a pegar as sacolas.
Quando finalmente consegui entrar na casa, empurrei a porta com o pé, me dirigi até a pequena bancada que dividia a sala da cozinha e coloquei as compras e o molho de chaves ali. A casa de era bem decorada, não com um monte de itens, mas de maneira minimalista e planejada, paredes e cortinas brancas, móveis antigos e bem conservados, um jukebox em um canto e um grande sofá azul que ocupava o centro da sala e ficava de costas para uma porta de vidro de trilho, que, quando arrastada e aberta, dava para a área de trás da casa, formada por um jardim simples que dividia o espaço de grama da extensão da areia há poucos metros. Tendo um corredor que ligava todos os cômodos, em menos de 20 passos era possível verificar toda a casa, que, mesmo pequena, era aconchegante, e, por sua proximidade com a praia, estava sempre carregada de frescor e baunilha — uma mistura do cheiro do mar e de .
Há algumas horas havia desembarcado no aeroporto e planejava ficar no centro, porque havia marcado um almoço com meu pai para apresentar o relatório da minha viagem a Xangai, discutir durante a tarde alguns transmites acerca da instalação de nossa nova filial — que, após meses de um duro trabalho de análise e planejamento, estava finalmente em fase de instalação no local onde eu estivera nas últimas quatro semanas.
Assim que localizei minhas malas e comecei a caminhar para parte exterior, liguei ansioso para , mesmo sabendo que a veria no dia seguinte, estava com vontade de saber do bebê e também com saudade da sua voz que não ouvia há muitos dias.
Julguei pelo horário em que estava ligando que ela possivelmente demoraria para atender, porque deveria estar ocupada no laboratório ou até mesmo perdida em algum ponto do oceano, e por isso eu teria que insistir até que ela ouvisse o som do celular ou voltasse do mar, mas, para minha surpresa, nos primeiros toques ela atendeu a ligação. estava com uma voz estranha que me preocupou e logo me fez perguntar se tinha algo errado na ultrassonografia, que ela disse que faria no período em que eu estaria fora, mas, para meu alívio, tudo estava certo com o bebê, o problema era relacionado ao trabalho dela. Ela me contou que havia sido colocada em licença maternidade antecipadamente, porque o laboratório a teria afastado de sua pesquisa pelo risco que os mergulhos poderiam provocar ao feto e à gestante, por isso ela estava chateada e cabisbaixa.
Então, a primeira coisa que fiz quando nossa ligação terminou foi cancelar a reunião com meu pai, que primeiro caçoou de mim por conta do meu comportamento preocupado, mas deixou que enviasse tudo por Sedex e fosse à empresa apenas na próxima semana. Em seguida, atravessei algumas quadras a pé, mesmo com as malas dificultando a caminhada, entrei em um hipermercado e peguei várias besteiras que sabia que adorava comer. Logo após finalizar as compras, corri até uma loja e comprei alguns DVDs. Retirei meu carro do estacionamento privado em que ele havia ficado nas últimas 6 semanas e fui até ela, porque sabia que precisava de alguém para conversar e alguma coisa boa para se distrair da frustração de ser afastada do trabalho que tanto amava.
Andei pela casa a fim de encontrá-la, olhei o quarto, a cozinha, a área de serviço e percebi que a luz do banheiro estava apagada no fim do corredor, aparentemente ela não estava em nenhum lugar — o que me pareceu estranho, já que naquele horário ela estaria no laboratório, mas, como foi afastada, deveria estar em casa. Tirei o paletó e o coloquei pendurado nas costas da cadeira da cozinha, peguei meu telefone para ligar para e perguntar se ele havia encontrado com ela pelo centro ou se a mesma havia passado em sua floricultura, mas, quando estava discando seu número, ouvi a risada dela do lado de fora de casa, mais precisamente no jardim de trás, que eu ainda não tinha olhado, já que as cortinas estavam tampando as vidraças. Estranhei um pouco ouvi-la rindo, porque no telefone realmente parecia triste, mas mesmo assim senti meu coração aquecer de felicidade por imaginar que ela estaria ali tão perto com um sorriso no rosto.
Caminhei rapidamente até as cortinas a fim de afastá-las e ver onde ela estava e o que estava fazendo. Assim que fiz, pude ver vestida com um grande moletom branco, parada em cima de uma esteira de ginástica em uma posição em que um dos seus pés estava plantado no chão e o outro apoiado em sua coxa, suas mãos estavam abertas e pressionadas uma contra a outra na altura do peito enquanto suas costas estavam encostadas em um homem que amparava sua cintura.
estava tentando se equilibrar enquanto o cara que segurava sua cintura parecia lhe dar instruções enquanto a mantinha firme e ereta, mas visivelmente ela parecia a ponto de cair caso ele a soltasse, o que parecia fazer com que ela risse e só perdesse ainda mais o equilíbrio. O homem era alto, talvez uns 15 centímetros a mais que e alguns poucos a mais que eu, tinha todo um jeito de surfista, talvez fosse alguém que tivesse conhecido na praia durante alguma de suas apresentações na ONG de preservação marinha que era voluntária. É, talvez fosse... Alto, cabelos descoloridos, pele dourada, e segurava com tanta firmeza... Ok, estava com ciúmes? Não, o ato de segurar a cortina com um pouco mais de força e fazer com que uma das argolas dela se quebrasse não podia ser ciúme.
? — o barulho da argola da cortina quebrando fez com que olhasse na direção da porta.
— Oi! — soltei a cortina e olhei para cima. É, eu teria que consertar aquilo depois.
Corri a porta de vidro no trilho, saindo da casa e alcançando o espaço gramado em que eles estavam. O vento forte do mar fez logo meus cabelos se bagunçarem e meus olhos piscarem algumas vezes. Assim que cheguei perto deles, o homem soltara a cintura de e estendera a mão para me cumprimentar, mas, antes que eu pudesse amassar sua mão... Quer dizer, apertar sua mão, percebi se desequilibrando e seu corpo pendendo para frente, meu instinto foi segurá-la antes que batesse no chão, mas o outro foi mais rápido e a amparou.
— Eu te disse que deveria fazer as posições de chão, lembra? — ele fez com que ela plantasse os dois pés no chão e a soltou, em seguida colocou sua mão em posição para me cumprimentar novamente. — Você deve ser , certo? Eu sou ! — apertei sua mão e percebi que ele implementara uma certa força contra a minha.
, que já estava de pé da maneira adequada para uma mulher de 5 meses de gestação, esperou que rompêssemos nosso aperto de mão para vir até mim e me abraçar apertado, envolvendo seus braços em torno do meu pescoço e me puxando para si, o que fez com que eu contornasse suas costas e fechasse os olhos por alguns instantes, sentindo o cheiro de baunilha que exalavam de seus cabelos. Por um momento esqueci de tudo ao meu redor, sentir seu corpo contra o meu era simplesmente a melhor sensação do mundo. Nosso abraço durou alguns segundos apenas, mas foi como se toda a correria da viagem e o cansaço acumulado até chegar aqui tivessem sido apagados porque ela simplesmente merecia, o contato dela fazia todo meu esforço valer a pena.
, esse é ! — separou se corpo do meu e ficou entre eu e ele — E , esse é , um velho amigo de universidade.
— Um velho amigo da universidade? Seu único, verdadeiro e melhor amigo! — ele deu uma risada — Ela simplesmente era uma daquelas que arrumava briga com todas as pessoas possíveis e foi sendo excluída da galera legal, mas, como eu sou resistente e perseverante, acabei ficando e estou aqui até hoje. — o tal tinha um sorriso meio bobo enquanto falava e bateu levemente em seu braço quando ele terminou a frase.
— Você é ridículo! Eu era simplesmente a pessoa mais legal que você conheceu naquele campus, e, se não fosse por mim, não teria chegado a subir naquele palco para pegar seu canudo!
— Me ajudou mesmo em uma única matéria e eu estava há semestres na sua frente...
— Semestres na minha frente, — ela o interrompeu — e devendo matéria obrigatória do primeiro período, fazendo aula com calouros e finalmente cumprindo a disciplina por causa de uma.
— Uma única matéria, !
— E Química Inorgânica? Eu nem estava na mesma turma que você e mesmo assim te ajudava a fazer os trabalhos... E Bioquímica I e II? Nem eram obrigatórias para mim e puxei para te ajudar.
— E graças a isso você teve base para a pesquisa...
— Não foge do assunto! Você deve seu diploma a mim!
— Ok, ok! — fez um sinal de rendição enquanto sorria, levantando os dois braços com as palmas das mãos viradas para frente e mostrava um olhar de vitória por ter “ganhado” a conversa com seu argumento.
— Prazer em te conhecer, ! — eu finalmente pude falar alguma coisa, que saiu meio sem jeito, porque estava um pouco acanhado para falar depois de perceber que eles realmente eram bem amigos e eu meio que parecia um intruso no meio da conversa. — Então você também é biólogo marinho?
— Não, minha vida seria muito mais fácil se eu fosse... — a menina levantou a mão para bater no braço dele novamente, mas, desta vez, prevendo seu movimento, se esquivou e segurou sua mão — Você sabe que estou brincando! — ele levou a mão de até seus lábios e beijou o dorso dela, deu um sorriso depois e a soltou. — Eu sou formado em Biomedicina.
— Eu e nos conhecemos porque ficamos na mesma turma de Química Geral e acabamos fazendo dupla em vários trabalhos juntos durante o semestre, aí a gente se aproximou e não se largou mais. — assim que ela terminou de falar, um telefone começou a tocar entre nós três e o amigo de começou a espalmar as mãos nos bolsos do seu jeans até que tirou seu aparelho do bolso de trás, levantou o dedo como se pedisse um momento e deu alguns passos para se afastar da gente e responder a ligação.
— O que vocês estavam fazendo? — de todas as perguntas que estavam rondando minha cabeça, logo essa pulou para fora da minha boca sem eu conseguir conter.
estava me ensinando algumas posições de Yoga, segundo ele a atividade pode me acalmar, relaxar meus músculos e ainda trazer alguns benefícios pro meu corpo durante a gestação.
— Não me pareceu muito seguro quando cheguei.
— Ah, aquilo de certa forma foi minha culpa. Ele disse pra fazermos as posições deitadas ou sentadas, mas eu estava cansada de ficar encostada o dia inteiro.
, há quanto tempo você está em casa?
— Menos de uma semana, mas eu estava cansada de ficar em casa sentada sem fazer nada! Então saí para pedalar, encontrei na confeitaria, fizemos um leve rodízio de tortas, aproveitamos para passar na floricultura do e levar para ele as sobras do que não conseguimos comer.
— Você e daqui a pouco vão explodir dentro daquela confeitaria. Certeza que metade da renda que a Sra. Kim tira naquele lugar vem do bolso de vocês. — minha fala fez com que ela olhasse pro lado, sorrindo e se fazendo de desentendida.
— Bom, depois voltei pra cá e fui tomar um banho de mar, porque o laboratório pode me impedir de mergulhar, mas não controla o acesso ao oceano, né... — dei uma risada com o jeito dela de desafiar as ordens à sua própria maneira.
— Mas não é perigoso? — perguntei mesmo assim.
— Eu pesquisei para ter certeza absoluta que eles não estavam aproveitando minha gravidez para me dar uma rasteira e passar minha pesquisa para outra pessoa, porque se fosse isso eu ia quebrar cada tubo de ensaio daquele laboratório! Mas a justificativa era válida. De fato é perigoso para mulheres gestantes mergulhar por conta da pressão e dos gases usados para auxiliar no mergulho.
— Então o que estava fazendo na água agora pouco se sabe... — falei, preocupado, mas ela me interrompeu, colocando o dedo nos meus lábios, o que me fez levantar uma das sobrancelhas.
— Eu não posso mergulhar! Mas não encontrei em nenhum lugar alguém que dissesse que não posso nadar próximo à superfície. — ela soltou o argumento, fazendo uma cara de sapeca. Balancei a cabeça de leve, segurei seu dedo que estava nos meus lábios e mordisquei ele.
— Que bom, então! Porque sinto que seria uma tarefa muito difícil pra mim te manter afastada do mar. — deu uma risada quando terminei de falar e nesse momento voltou, já emendando uma frase a nossa conversa.
— Você não estaria sozinho para cuidar dela nessa tarefa se fosse preciso. — ela deu língua para nós dois e se aproximou para dar-lhe um beijo na bochecha — Então, eu preciso ir! Parece que minhas caixas de mudança já chegaram e preciso checar se está tudo certo. — a informação me pegou de surpresa, então ele estava mudando para nossa cidade? Será que seria por conta de ?
— Que pena! Mas gente vai poder conversar mais agora que você está perto de mim novamente! — ela o abraçou de lado e encostou a cabeça em seu ombro.
virou o corpo também a abraçando e foi encaminhando-a para dentro de casa, o que fez com que eu ficasse pra trás, mais uma vez sendo o intruso da situação, o que poderia ser uma impressão minha, mas a forma como ele tomava ela pra si fortaleceu essa ideia. E o gesto de pegar no rosto dela e virar pra si enquanto sussurrava algo em seu ouvido, que a fez rir quando alcançaram a porta, realmente provou minha hipótese de que eu era um intruso entre eles. Até que balançou a cabeça, virou-se em minha direção e estendeu seus braços para mim, o que me fez ir até ela. Então comecei a perceber que me fazer me sentir daquele jeito era uma atitude que partia dele, não dela. Ou será que eram somente coisas que estavam na minha mente porque talvez eu estivesse sentindo um pouco de ciúme da relação deles dois? Eu tinha direito de sentir ciúme? Não, não tinha. Porque eu era só um amigo de . Ah, e também pai do filho que ela esperava. Sim, o pai de um filho nosso, meu e dela. Então, ok. Eu tinha algum direito. Não, não tinha. Eu precisava apagar isso da mente, porque estava sendo ridículo.
— Simplesmente amo o que o vento faz nos seus cabelos, ! — sorriu e pegou em minha mão me puxando para dentro quando cheguei próximo a ela, e em seguida passou ambas as mãos nos meus fios de cabelo para despenteá-los mais ainda. Podia ser coisa da minha cabeça, mas eu podia jurar que senti um olhar estranho de olhando para nós, mas logo ele deu as costas e caminhou até a porta.
— Então vejo você depois, ! — ela tirou a mão esquerda dos meus cabelos, colocou a palma dela nos lábios e depois fez um movimento como se jogasse um beijo no ar para , que deu um sorriso de lado e fechou a porta.
— Beijos voadores? Você está andando muito com o ! — ela riu e afastou-se de mim, deixando seu olhar cair sobre as sacolas que estavam sobre a bancada e um sorriso tomou conta de seu rosto.
— O que você trouxe? — ela num instante já estava tirando os itens de dentro das sacolas.
— O que alimenta uma formiga? — fui atrás para ajudá-la a guardar as coisas no armário e na geladeira. Antes de chegar nela, parei na cadeira em que havia deixado meu paletó junto com a sacola de filmes para mostrar a ela que havia lembrado das nossas conversas nos meses anteriores. Chequei as mensagens que tínhamos trocado sobre cinema e conferi quais filmes que ela havia comentado que gostaria de assistir já estavam disponíveis em DVD, desde do início imaginei que as guloseimas e os filmes poderiam dar uma boa maratona no sofá.
— Você sabe que eu amo quando você me alimenta... Não me arrependo de ter te dado minhas chaves. — ri do seu comentário e, quando estava prestes a mostrar-lhe os filmes, a porta da frente voltou a se abrir — Ué, , voltou?!
— Eu esqueci as chaves da moto aqui dentro, estava lá fora revirando os bolsos, mas não as encontrei em lugar nenhum... Elas podem ter caído quando estávamos lá fora ou no sofá quando caímos pelo ataque de cócegas.
— Eu posso conferir! — queria mesmo aproveitar alguns momentos de paz com a , então me pus a procurar, fui até o centro da sala de estar, olhar entre os assentos do sofá.
— Você também precisa levar seu casaco, deve estar todo molhado, me desculpa!
— Não precisa devolver, pode ficar para dormir com ele como fazia no nosso apartamento antigamente. — por que ele soava como se precisasse mostrar de um jeito ou de outro que eram íntimos? — Estão aqui! Encontrei! — parei de mexer nas almofadas do sofá e olhei para , que colocava as chaves no bolso, seus olhos passaram rapidamente pelos itens do mercado que estavam sendo retirados da bancada para os armários de cozinha — Você vai passar a noite comendo porcaria, ? Ah, não! Vamos jantar lá em casa!
— Mas sua mudança não acabou de chegar? — perguntou distraída, arrumando os itens da compra no armário acima da pia. E eu estava prostrado no mesmo lugar, ainda processando a frase que ele havia dito.
— Sim, mas foram as roupas e os livros, meus móveis e os outros itens já estão no lugar desde ontem. Passo no mercado, abasteço meu armário para te alimentar de forma decente e você pode aparecer às 19h. O que acha? — olhou para esperando uma resposta.
— Por mim, tudo bem! — ela respondeu, fechando o armário embaixo da pia e levantando lentamente — Vamos, ?
— É... . — disse com uma pausa como se precisasse fazer um esforço para lembrar meu nome e virou-se para mim. — Eu mato um pouco mais da saudade que estou da e ainda posso tentar conversar com você direito, você me pareceu um cara bem calado, mas não posso te deixar assim, tenho que conhecer melhor o pai do filho da minha pequena.
*FIM DO FLASHBACK*

— Te ver acordada é maravilhoso! — agora separava o abraço entre eles, mas continuava próximo, colocando em seguida as mechas de cabelo de para trás das orelhas da mesma, e segurou seu rosto com ambas as mãos, como se a emoldurasse para olhá-la bem. — Você acordou há muito tempo?
— Acordei há algumas horas e estou me sentindo bem, só um pouco cansada e também com um problema de memória pelo que disseram. — deu um meio sorriso por conta da última frase dita.
— Sinto muito! Por conta do impacto da pancada que você sofreu na cabeça, imaginávamos que algo assim poderia acontecer. Conversando com seus médicos, eles chegaram a comentar a respeito, sobre as possíveis sequelas que poderiam surgir.
— Você conversou com os médicos sobre isso? — perguntei um pouco surpreso. Nas últimas três semanas em que ela esteve em coma, nós dois estivemos em vários momentos na sala de espera. Às vezes, quando estava chegando pela manhã no hospital, havia visto que ele tinha passado a noite com ela, o que não era de se estranhar, por serem bem próximos e também porque alguém precisava estar lá naqueles horários e eu não podia, tinha que cuidar de Jungkook quando ele estava fora do período da creche, além disso levá-lo ao hospital todos os dias com a mãe naquele estado não me parecia correto. Assim, mesmo que eu e ele não tivéssemos entrado em um acordo explícito, havíamos criado uma espécie de “revezamento”, em que eu sempre estava no hospital em períodos da manhã e da tarde e ele durante a noite e a madrugada. E, mesmo sabendo que não tínhamos o melhor relacionamento, esperava que coisas relacionadas a que algum dos médicos chegasse a comentar seriam compartilhadas, porque claramente ambos estávamos muito preocupados com ela.
— Ah... . Você está aí. — seu olhar de surpresa pra mim foi meio que um absurdo, visto que eu estava ao lado da cama e não me enxergar ali era praticamente impossível.
— Sim, estou aqui! — parecia que não tinha muita consideração por mim, e ignorar minha presença ali era a maior prova.
Apesar disso, tentei manter o mínimo da educação. — Em que momento conversou com os médicos? Acho que cruzamos no corredor ontem mesmo, seria bom se tivesse me informado.
— Eu conversei com eles durante o café da manhã no refeitório há alguns dias. Podemos falar sobre isso depois, ? — então virou novamente o rosto na direção da , o que me fez entender que a pergunta era retórica — Eu prometi aos seus pais que te colocaria em uma chamada de vídeo assim que acordasse.
— Eles não estão aqui? — assim que perguntou, apertei os lábios um contra o outro. Eles não estavam ali, não se falavam há quase quatro anos, não conhecem nosso filho e o último encontro dela com os pais não acabou bem. Por isso, não acho que foi uma boa ideia trazer os pais dela para a conversa naquele momento.
— Infelizmente não. — ela pareceu chateada com minha resposta, os olhos dela perderam o pouco do brilho que tinham. Eu sabia que ela e sua família nunca tiveram um relacionamento bom mesmo antes de ela me conhecer e, durante os últimos anos, aprendeu a lidar com eles afastando-se, mas agora não lembrava disso e ter chamado a atenção para isso agora foi inapropriado.
— Por que eles não vieram? — perguntou, insistindo, e vê-la daquela maneira me deu um pouco de pena.
— Eles estão em viagem, estão sempre com a agenda lotada, mesmo assim querem falar com você. — declarou, defendendo os pais dela, e eu só queria que ele percebesse que aquilo não era uma boa ideia e se calasse.
— Será que podemos deixar isso pra depois? — tive que propor a ele, implorando pra que ele percebesse o tom de voz um pouco enfático.
— Eles estão preocupados, . E eu prometi a eles... — contudo, não conseguira concluir sua frase, porque o interrompeu.
— Não acho que eles estão exatamente preocupados, ! — ela se expressou com uma voz parecia estar carregada de frustração.
— Isso é um pouco injusto com eles, não acha? — céus, aquilo estava torturante. Não, ele não podia aceitar que estava sendo contrariado? Ele que queria tanto seu bem ao mesmo tempo parecia que não podia suportar a ideia de se queimar com os pais dela, tinha que insistir. Só que eu não ia deixar, ela visivelmente não estava se sentindo confortável.
— Ela não quer falar com eles agora. — me aproximei da cama e apoiei a mão levemente no ombro dele, como se pudesse, através desse movimento, forçar a ele não insistir mais neste assunto. — E não tem problema algum, não é, ? — meu gesto fez com que ele me encarasse, depois voltasse a olhar pra ela.
— Me desculpe, ! Eu gostaria apenas que você pudesse entrar em contato com rostos familiares neste momento. — ela assentiu com a cabeça, parecendo abatida. olhou para minha mão, ainda apoiada em seu ombro, o que fez com que eu a retirasse dali.
— Você poderia pegar a mala que eu deixei na porta, ? — sua fala pareceu uma maneira de quebrar o clima que havia se instalado entre nós e por isso só concordei em pegar a mala, sem pensar muito no porquê ele não podia levantar e pegar a própria mala.
Quando cheguei até o portal da porta e encarei a mala, me surpreendi amargamente e respirei fundo ao constatar que havia ultrapassado os limites, mais uma vez... Como sempre fazia.

*FLASHBACK — 4 ANOS ATRÁS*
Quase todo o jantar girou em torno de questões da minha vida, fez valer o que havia me dito naquela tarde e me fez um monte de perguntas, acerca da minha família, meus amigos, meu trabalho e minha rotina diária. Um pouco invasivo? Claro. Mas de certa forma compreensível, porque eu era um completo estranho para ele e estava agora inserido na vida de sua melhor amiga. Todavia, apesar de me sentir um pouco desconfortável com a situação, tentei lidar da melhor maneira possível, sendo educado e respondendo a ele e também à , que embarcou na conversa para descobrir algumas coisas que não tínhamos conversado antes.
Contei que era filho único de um empresário e uma atriz de teatro, que decidiram separar-se quando eu ainda tinha em torno dos 5 anos de idade e que, por decisão da minha mãe em investir em sua carreira, eu fui criado pelo meu pai, que sempre cultivou uma relação boa comigo, apesar de exigir bastante dos meus estudos. Ele sempre projetou em mim o futuro de sua empresa e eu sabia que tinha que ajudar ele, porque só tínhamos um ao outro, por isso, quando entrei para universidade, optei por estudar Administração e, logo depois de formado, fiquei à frente de um dos setores da empresa. Só que, depois de algum tempo, por problemas pessoais, tive que me afastar do trabalho direto no escritório e trabalhar apenas como consultor — essa parte proporcionou um pequeno desconforto na mesa, já que não expus exatamente o que me fez afastar-me do cargo, porque achei que não era necessário contar a ele sobre minhas crises de ansiedade e colapsos de estresse que ocasionaram no alcoolismo e consequentemente no episódio que levou o incidente no bar. foi educado e não insistiu no assunto apesar da minha resposta vaga, e assumo que fiquei aliviado quando trocou de assunto e perguntou o que fazia atualmente como consultor. Respondi que tratava de negócios ainda referentes à empresa de meu pai, mas que agora trabalhava à distância como Consultor de Logística, o que rendeu algumas questões da parte de , porque nem mesmo ela parecia entender exatamente o que eu fazia, e por fim ambos brincaram com o fato de eu ser um corporativista que morava na praia.
Seguido da sessão de perguntas sobre mim, também falou um pouco sobre si mesmo, e assim descobri que o melhor amigo de era o exemplar de vida saudável, já que, além de ter uma alimentação impecável, adorava corridas matinais na praia e esportes ligados ao mar, como windsurf e wakeboard. Além disso, formou-se em Biomedicina com louvor e menções honrosas — e, segundo ele, devia sua formação em grande parte à amiga, que foi sua parceira de estudos e maior incentivadora, e também aos pais dela, que não apenas o recebiam frequentemente na casa deles por não ter condições de voltar sempre para seu país em todas as férias, mas também o ajudaram financeiramente nos anos de graduação. Ele passou os últimos anos trabalhando em uma famosa empresa de produção de bioderivados, o que fez com que ele alcançasse uma boa estabilidade financeira e agora pudesse investir tempo e dinheiro em uma sonhada pesquisa.
Com esta última informação pude deduzir o motivo da sua mudança para a região onde morávamos e por isso arrisquei a pergunta de que seu motivo de estar aqui estaria ligado à pesquisa da no laboratório, e a resposta foi um sim, ambos escreveram o projeto que viabilizou o financiamento da pesquisa que buscava desenvolver uma droga antitumoral a partir de organismos marinhos. Seu envolvimento direto se daria na segunda fase da pesquisa, mas, com o afastamento de do laboratório por conta da gravidez, ele adiantou sua vinda para acompanhar de perto a equipe e para mantê-la informada.
Me surpreendi com o fato de , apesar de ainda não ter se estabelecido de maneira completa na nova casa, nos recebeu com uma ótima refeição e depois nos serviu uma sobremesa gelada incrível quando sentamos para conversar na sala de estar. Durante toda a noite foi atencioso e agradar a mim e a , o que tirou a impressão estranha que eu tive naquela tarde com nosso primeiro encontro há poucas horas.
Quando estávamos nos preparando para ir embora, ele se lembrou de ter comprado algo para nos presentear e subiu as escadas. , aproveitando a saída do amigo, foi ao banheiro e eu fiquei sozinho na sala esperando que retornassem. Estava um pouco ansioso para ir embora, porque queria descansar da viagem, já que, desde que havia descido do avião, ainda não tinha tido nenhuma oportunidade de deitar e relaxar um pouco. Mesmo que tenha passado as últimas horas sentado no sofá da casa de apenas conversando, eu precisava ir para o meu apartamento, tirar as roupas sociais, tomar uma ducha estupidamente quente, vestir uma boxer confortável e me jogar na cama. Aquele tempo sozinho ali fez com que meu corpo começasse a apresentar sinais de esgotamento, e por isso estava com o braço direito apoiado no encosto do sofá, os olhos fechados e os dedos pressionando a têmpora. Quando ouvi passos, voltei a abrir os olhos e enxerguei descer as escadas com uma grande caixa retangular azul-celeste com um laço branco bem amarrado.
— Você parece cansado, ! — ele chegou ao sofá e colocou a caixa sobre o mesmo no assento ao meu lado.
— Sim, tenho que assumir que estou bem cansado. Estive viajando a trabalho nas últimas semanas e não consegui pisar no meu apartamento ainda. — acompanhei ele com o olhar quando caminhou do sofá até o canto da sala em direção a um minibar.
— Isso parece cansativo mesmo! Você sempre viaja bastante assim? — enquanto me fez a pergunta, pegou dois copos de vidro e encheu com uma substância líquida transparente que, pela garrafa e o cheiro que logo se espalhou pela sala, parecia ser vodca.
— Esta foi a primeira viagem que fiz como consultor, estamos buscando meios de implementar uma filial da nossa empresa em Xangai e precisei ir até lá fazer negócios com empreiteiros e empresários da região que decidimos nos instalar. — respondi a ele enquanto acompanhava seus movimentos e, assim que repousou a garrafa de volta na prateleira, confirmei que meu olfato não me enganou, era a francesa Grey Goose que ele havia despejado nos copos. Sentia o cheiro da bebida aguçando meus sentidos e involuntariamente fechei uma das minhas mãos, havia quase 8 meses em que eu não colocava uma gota de álcool na boca e, por mais que na maioria dos dias não sentia falta, o cheiro me seduzia. — , me desculpe, mas eu não bebo.
— Oh! É verdade. — ele parou os movimentos e balançou a cabeça — Eu sei disso, a comentou algo comigo sobre isso. — ele pegou um dos copos e despejou o conteúdo do mesmo no outro, depois voltou até o sofá e sentou-se ao meu lado com o copo em punho. — Se importa?
— Não, a casa é sua, fique à vontade! — ele fez um leve gesto de agradecimento com a cabeça e deu um grande gole na bebida, o que me fez engolir em seco, ato que tentei disfarçar com um pigarro enquanto virei a cabeça para a direção oposta dele. Pra minha salvação, voltou para a sala e logo fez sua voz soar pelo recinto quando bateu os olhos no pacote no sofá.
— Que caixa mais linda, ! Essa cor parece o céu em dia de verão! — caminhou até a caixa.
— Pode abrir! — ele abriu um sorriso ao ver que ela tinha gostado sem mesmo abrir. Do que jeito que era, a caixa possivelmente seria aproveitada e teria alguma utilidade na casa para guardar seus objetos ou quem sabe uma nova caixa de lembranças, já que ela colecionava pequenas coisas de momentos marcantes para ela em caixas que guardava embaixo da cama. Em uma ocasião, abriu uma quando estávamos conversando sobre seu sonho de mergulhar no Parque Nacional Thingvellir, na Islândia, pegou recortes de imagens do lugar que havia cortado quando era criança de uma revista de mergulho. Não sabia se tinha feito de maneira intencional, mas, só de ver analisando a caixa por longos segundos sem puxar o laço, era prova que ela ia guardar com carinho.
— Isso é muito lindo! — , depois de sentar na poltrona a nossa frente com a caixa, colocou a caixa no colo e finalmente havia desfeito o laço que a envolvia e a aberto, revelando dentro algo que parecia um pedaço de nuvem. — Que manta mais maravilhosa, ! — ela retirou de dentro do embrulho, revelando a tal manta, que era felpuda, branca, com detalhes bordados em dourado e definitivamente cara.
— É uma manta para colocar no berço do bebê! — ela foi até ele, sentando-se ao seu lado, e lhe deu um abraço apertado ainda segurando a manta — Quando você me contou no telefone sobre a gravidez, corri para a loja e esta era a coisa mais bonita que vi, comprei e fiquei esperando o momento de nos vermos para te dar. — estava sorrindo com tanta alegria e seus olhos estavam levemente marejados, o que me fez até esquecer da sensação de desconforto causado pela bebida há alguns instantes e abrir um sorriso, ela estava se sentindo muito feliz com o presente.
— Muito obrigada de verdade! Este é o primeiro item de enxoval que ganhamos, não é mesmo, ? — balancei a cabeça, concordando com ela, e também agradeci a ele. A frase de me recordou que até agora eu não havia comprado nada para o enxoval, mas, até aquele momento, não havia me tocado que só haviam mais 4 meses para isso e o tempo tinha passado muito rápido.
— Tem um cartão de presente, na empolgação eu esqueci de colocar junto, porque escrevi hoje. — ele pareceu passar os olhos pela sala a procura do cartão e por fim seus olhos se fixaram na estante. — Ah, está ali em cima! — virou o olhar para mim e disse: — Se importa em pegar?
Levantei do sofá e caminhei até a estante, peguei o cartão temático com pequeno tigre na frente com os dizeres “Hoje é um dia especial...”, mas, antes que eu virasse para entregar o cartão à , outros objetos que estavam sobre a estante me chamaram a atenção, mais especificamente um molho de chaves, mas não era um molho de chaves qualquer, era o meu.
, o que minhas chaves estão fazendo com você? — pareceu um pouco surpresa com meu tom de voz, mas arqueou a sobrancelha quando me viu segurando as chaves. Ele, contudo, apenas passou o olhar de mim para as chaves.
— Quando eu voltei para pegar as minhas, elas estavam na bancada ao lado das suas e acabei pegando os dois molhos na pressa, foi um engano. — ele falou, dando de ombros. E naquele momento eu soube que aquilo era mentira, porque recordava nitidamente que quando cheguei na casa de não havia nada em cima da bancada, apenas os objetos que eu havia colocado: as sacolas de compras e as minhas chaves. Percebi que ele havia pegado minhas chaves propositalmente, porque em nenhum momento as suas estiveram lá.
— Aquilo são cópias? — arqueou uma das sobrancelhas, apontando para chaves avulsas na minha mão.
— Eu achei que não teria nenhum problema eu ter cópias porque nós tínhamos as chaves um do outro antes e, como percebi que havia dado para para que ele pudesse te ajudar, também pensei em ter para um caso de emergência. — a medida em que ele falava mais, eu não conseguia acreditar no tamanho da falta de noção que ele podia ter.
— Não era pra você ter feito isso! Acho que deveria ter me pedido, você sabe que lhe daria uma cópia sem problemas... — eu olhei pra , tentando parecer o mais calmo possível, mas sabia que meu olhar demonstrava que aquilo estava entalado na minha garganta.
— Também estou aqui para cuidar de você, não quis parecer intrometido, só fiz a cópia porque já que estavam comigo e eu não precisaria pedir depois, foi um gesto precipitado. — ele fez uma expressão de arrependimento.
— Tudo bem, agora que já tirou, não tem problema, pode ficar porque sei que se preocupa comigo. Só tem que pedir desculpas para o também, porque as chaves eram dele. — disse calmamente, não sabendo que estava mentindo e que, além de estar pedindo desculpa da forma mais falsa possível, ainda estava tentando justificar o suposto erro como excesso de preocupação.
— Você me desculpa? Foi uma mancada, fiz sem pensar. — ele me olhou com um sorriso de lábios fechados no rosto e todo o sentimento de desconforto pela presença dele que eu havia sentido naquela tarde retornou. Mas teria que engolir aquilo, porque não iria criar um clima desconfortável na sala de estar com o “autointulado” único, verdadeiro e melhor amigo dela. Não conseguia entender o porquê de ele estar agindo assim comigo, portando-se de uma maneira passivo-agressiva, para não chamar de falsa, então apenas concordei com a cabeça e resolvi deixar pra lá.
— Tá ok! — retribui o sorriso da mesma forma que ele havia me dado anteriormente. já havia demonstrado que não se importava muito com o que ele tinha feito e até estava entretida a admirar o presente de novo, só me aproximei e lhe entreguei o cartão.
— Eu posso ler ele pra você com a entonação de emoção que estava quando escrevi? — ele disse, dando uma risada, pegou o cartão de sua mão, mas, antes de começar a ler, deu um grande e último gole em sua bebida olhando pra mim e balançou a cabeça em direção a estante: — Pode deixar minhas chaves no lugar onde elas estavam, ?
*FIM DO FLASHBACK*

— Trouxe para você alguns itens que achei que gostaria de ter por perto quando acordasse. Alguns produtos de higiene pessoal, umas peças de roupas, suas pantufas... — ele prosseguiu falando com a , enquanto eu constatava que a mala que ele chegou carregando e agora pediu pra que eu pegasse na porta evidenciava que ele não apenas trouxe objetos pessoais para , ele havia trazido os objetos pessoais da ! Em uma bagagem que me pertencia e até com uma etiqueta de aeroporto com o meu nome! Respirei fundo, pensando em quanto ar eu teria que inspirar para não atacar por ter entrado no meu apartamento sem a minha autorização.


Capítulo IV


Pelo o nível de irritação que crescia dentro de mim e corria pelas minhas veias, acredito que, nem se me sentasse em posição de lótus e praticasse meditação no meio daquele quarto, meu estado de espírito voltaria ao normal, mesmo assim toda e qualquer técnica para não deixar o estresse me dominar era bem-vinda naquele momento, por isso decidi fazer o que podia: contar mentalmente até dez. Assim, praticando minha contagem, segurei a alça da mala e arrastei a mesma, em seguida a peguei do chão e a coloquei em cima da poltrona ao lado da cama.
— Aqui está a mala! Não quero interromper vocês. — estava decidido a guardar minhas questões com para quando estivéssemos fora do quarto. Não seria correto discutir na frente dela, eu nunca fiz isso antes e não era agora que eu iria fazer. — Quando terminar de conversar com a , posso falar com você lá fora?
— Claro, claro! — ele deu de ombros e virou-se para a mala.
— Se você precisar de alguma coisa, pode pedir para me chamarem que eu volto pra cá correndo, ok? — me forcei a falar com ela, tentando ignorar a presença do outro ali e ainda mantendo o autocontrole. assentiu com a cabeça e percebi que havia algo em seu olhar que ainda remetia ao momento que tivemos antes de seu amigo entrar no quarto. Caminhei para sair e, quando estava prestes a fechar a porta, ouvi sua voz:
— Nós vamos terminar nossa conversa depois? — senti que, apesar do tom calmo, sua voz demonstrava uma certa firmeza. Não era exatamente uma pergunta que ela estava me fazendo, estava mais para uma afirmação disfarçada.
— Sim! — parei meu movimento com a porta e balancei a cabeça positivamente.
— E ... Quando voltar, vai trazer ele? — seu olhar mostrava que havia uma certa ansiedade no pedido.
— Se você estiver se sentindo bem e quiser que ele venha, posso trazer ele, sim!
— Eu quero! Vou ficar esperando ansiosa, obrigada! — e finalmente, depois da montanha de sentimentos nos últimos minutos, pude ver ela sorrindo outra vez com minha resposta, o que me fez retribuir da mesma forma.

*


— E ? — e eu estávamos na cafeteira aguardando nosso pedido. Eu estava com as mãos dentro dos bolsos da calça social e encarava o jardim externo do hospital encharcado pela chuva à minha frente, a fim de evitar o olhar de meu amigo, que claramente denunciava que estava apreensivo. Por mais que eu estivesse tentando disfarçar, ele sabia que eu não estava no meu estado normal. Quando sai inquieto do quarto, ele pensou que fosse o nervosismo com situação da , mas, quando lhe contei sobre minha conversa sendo interrompida pelo e o fato dele ter entrado no apartamento para pegar coisas dela sem minha permissão, sua atitude passou a refletir preocupação comigo. Preocupação essa que ficou bem evidente no momento que praticamente me obrigou a vir no refeitório com ele para comprar um chá – como se camomila fosse me fazer engolir todas as coisas que estavam entaladas na minha garganta.
— Todo nosso diálogo foi ignorado por ele, que propositalmente virou de costas para ficar mexendo na minha mala.
— Você não sabe se foi proposital...
— Ele estava fingindo não prestar atenção, !
— A não percebeu nada estranho?
— Eu não sei! E, mesmo se ela percebesse, eu sou o estranho, ele é o melhor amigo! — eu quase rosnei o fim da frase e balançou a cabeça negativamente.
Nosso pedido ficou pronto, caminhou para o balcão para pegar os copos da mão da atendente e me aproximei também para pagar as bebidas, agradeci o serviço da moça e começamos a caminhar em direção ao elevador. Quando peguei um dos copos de sua mão e dei o primeiro gole, senti ele empurrar a base do meu copo pra frente para que eu continuasse bebendo.
— Isso aí, dê grandes goles... — ouvi ele dar uma risada e revirei meus olhos enquanto dava um passo para o lado, fazendo com que sua mão se afastasse da minha bebida.
— Para de palhaçada, limpador de vidro! — falei, me referindo à sua risada, que lembrava o som de um vidro sendo limpado, o que sempre fazia com que e eu nos acabássemos de rir quando ouvíamos.
— Olha o respeito comigo... — senti ele bater de leve na minha cabeça — É sério, até o fim desta bebida você vai se sentir mais calmo, tenho certeza.
— Eu não quero me sentir mais calmo, ! Desde muito antes do acidente você sabe que ele se intromete em tudo e me irrita. — paramos na frente do elevador e apertei o botão na parede.
— E nós sempre dissemos que você deveria ter dito isso à há muito tempo, não só sobre o seu incômodo com essa intromissão, como também sobre o que você reprime por ela aí dentro. — senti o dedo indicativo de apertando meu peito, apontando para meu coração, ilustrando o que quis dizer com a última parte de sua frase. Talvez por intervenção divina frente ao meu desconforto, nosso elevador apareceu e entrei rapidamente para fugir do toque de e do ponto da conversa que havíamos chegado, mas meu amigo ficou parado no mesmo lugar.
— Eu vou voltar para pegar algo para , senão ele vai reclamar até a próxima vida dizendo que esquecemos dele. — eu concordei com a cabeça e apertei o número do sétimo andar, porém, antes que a porta se fechasse, colocou a mão no vão a impedindo de fechar. — Você prestou atenção no que eu te disse, ?
— Sobre o ? Sim! Se não levar algo, ele vai reclamar eternamente, mas eu vou subindo.
— Quis dizer sobre o que sente sobre o e a ...
— E o que isso importa agora? Ela sequer lembra de mim! Ele está lá sendo o que sempre foi, a figura do melhor amigo preocupado, íntimo e protetor, e eu estou aqui. — eu sabia que dava para perceber a frustração que reproduzi junto com minha fala.
— Você precisa fazer com que as vontades e ações do não sobreponham às suas. A família que está lá em cima é sua, não dele. Se já tivesse feito isso, não estaria depois de todo esse tempo nem se sentindo intimidado por ele e nem se sentindo estranho para uma mulher que mora junto há quatro anos. — deixou que o elevador fechasse e eu me vi ali sozinho, percebendo que, de certa forma, ele tinha razão.
A verdade é que me sentia como um balde que foi colocado abaixo de uma goteira constante, todos aqueles anos da presença persistente e ações intrusivas de haviam me enchido gradualmente e agora eu sentia que estava a prestes a transbordar. Com esse pensamento em mente, quando vi as portas do elevador se abrirem e em frente da última porta do corredor a figura dele conversando com uma enfermeira, não pensei duas vezes, joguei a bebida na lixeira e parti em direção a ele.
— O que aconteceu? — vi a mulher entrar no quarto e fechar a porta depois da passagem dela alguns instantes antes de eu conseguir alcançar os dois.
— Pedi que ela ajudasse a tomar um banho e colocasse alguma roupa confortável que eu trouxe. — ele virou em minha direção depois que largou a maçaneta.
— Acho que isso pode fazer bem a ela mesmo! — balancei a cabeça, concordando com a ideia.
— Sim, sim! — ele disse enfaticamente, já desviando de mim e começando a caminhar pelo corredor, logo me vi andando atrás dele.
, por que você entrou em meu apartamento sem minha permissão?
— Você sabia que ela estava esperando o Jungkook crescer mais um pouco para voltar para casa dela ou achar um lugar mais adequado? — apesar do baque da informação, eu não ia deixar ele me intimidar ou fugir do assunto. Assim que ele fez menção de chamar o elevador quando chegamos no final do corredor, eu segurei seu braço.
— Não foi isso que te perguntei. — falei e agi de forma firme, e minha ação fez com que ele parasse, virasse o corpo e ficasse de frente para mim outra vez.
— Eu percebi que você estava ocupado com o menino, porque é algo totalmente novo pra você tomar conta do seu filho, mesmo sendo pai por três anos. — ele soltou o braço dele da minha mão com um puxão brusco e apertou o botão na parede.
— O que você disse?
— Disse que te ajudei, porque percebi que você não consegue fazer o mínimo! — com essa frase dele, me vi então no meu limite, eu tinha me controlado durante muito tempo, mas o balde havia transbordado. — Sabe, às vezes eu acho que sou mais pai do que você… — e, antes que terminasse a frase, quando as portas do elevador se abriram, voou para dentro dele com a força do meu punho contra seu rosto.
Só percebi que estava partindo em sua direção dentro do elevador quando senti meus ombros sendo segurados e minhas costas batendo contra a parede de metal atrás de mim. Meu sangue fervia dentro de mim e meus dedos da mão doíam, podia ver alguém gesticulando intensamente, mas minha mente não processava exatamente o que estava ao meu redor, porque a única coisa que mantinha minha concentração era o homem agora jogado no chão com uma das mãos na frente do nariz, que escorria sangue abundante pelo seu rosto.
— VOCÊ NÃO TOMOU O CHÁ?!?! — a voz alta de ecoou nas paredes, finalmente me trazendo de volta, então percebi que ele tinha largado os seus copos no chão e foi aquele que me lançou na parede se impondo entre e eu.
— Isso é porque você não aguenta a verdade? — o amigo de apoiou a mão melada de sangue no chão para levantar enquanto olhava para mim. — Então vou continuar dizendo... — empurrou ele para o chão antes que ele tivesse oportunidade de firmar os pés para se levantar de fato, mas ele não se calou. — Você é péssimo, ! E sente raiva de mim porque faço o que você não é capaz de fazer! — levantei meu punho, me lançando para frente, prestes socá-lo outra vez, quando meu amigo repetiu o mesmo movimento anterior e me empurrou novamente.
— PAREM! — as portas do elevador se fecharam, deixando nós três presos ali. Logo apertou algo no painel e continuou a falar alto, ele estava com os olhos arregalados e o rosto completamente vermelho. — VOCÊS TIVERAM ANOS PARA BRIGAR E RESOLVERAM FAZER ISSO AGORA? NO HOSPITAL? — gritou mais alto e, com toda a certeza, seja aonde aquele elevador estava passando, as pessoas conseguiram ouvi-lo berrar a plenos pulmões.
— Eu não terminei de conversar com ele! — me inclinei para frente em direção de , mas me pressionou com seu antebraço contra a parede.
— Você querendo conversar? Você querendo fazer coisas? Você realmente fazendo algo é novo. — tinha se levantado do chão e ria sarcasticamente enquanto passava o antebraço em seu rosto, manchando de sangue o tecido de seu sobretudo.
, você vai para casa agora, está entendendo? — tentava ignorar o outro falando e olhava concentradamente para mim.
— CALA A PORRA DESSA BOCA, VOCÊ NÃO SABE NADA SOBRE MIM! — eu forçava meu corpo, mas sentia me segurando contra minha vontade.
— Onde estava essa vontade de agir quando a atravessou o vidro da frente do carro e você ficou lá parado com um corte no supercílio? — continuava falando comigo apesar do meu amigo tampar minha visão dele.
— Você vai embora! E não vai voltar aqui até que esteja calmo! — olhou furioso para — Fica quieto, !
— É incrível como você sempre está relacionado quando algo ruim acontece com ela. — não teve que pudesse me segurar, mas desta vez ele se desviou do soco que me preparei para dar, puxou minha gravata para baixo e me acertou na lateral da costela. Não deu tempo de sentir a dor, porque, assim que as portas do elevador se abriram novamente, ele me lançou para fora, me fazendo cair no chão do estacionamento. Senti que a queda me fez bater contra o chão do mesmo lado em que eu havia levado o soco e minhas costelas doeram.
— Só vai embora! — percebi apertando o painel outra vez e impedindo de sair do elevador para vir em minha direção e as portas se fecharam.
Eu podia jurar que saíam de mim faíscas de dor e raiva enquanto pisava forte em direção ao meu carro, com o terno desgrenhado e completamente molhado por ter sido jogado no chão, e, assim que saí daquele estacionamento, podia jurar que, através dos meus olhos, a cidade chovia nos meus vidros em vermelho.


Capítulo V


Eu empurrava a chave na fechadura e tentava rodar de um lado para o outro e aquela merda simplesmente não girava. Não adiantava mudar o jeito, direcionar a ponta mais para esquerda ou mais para direita, trazer mais para trás ou empurrar mais para o fundo, nada fazia a chave abrir a maldita porta. Eu não conseguia acreditar que, somando a todas as coisas que já tinham acontecido naquele dia, agora eu não estava conseguindo entrar no meu próprio apartamento!
Será que isso aconteceu com o visitante indesejado esta manhã? Que droga de pensamento! Comecei a dar chutes na base da porta com força, ignorando completamente a possibilidade de algum vizinho daquele andar aparecer e ver meu comportamento agressivo no corredor; na verdade, estava pouco me importando com aquilo no momento, eu iria entrar, de um jeito ou de outro, e nada e nem ninguém ia me impedir.
Comecei a olhar para os lados, porque alguma coisa me faria descer abaixo aquele pedaço de madeira que me impedia de entrar. Tapete, mesa de canto, vaso com flores, espelho, extintor... Extintor de incêndio. Caminhei em direção ao extintor, tirando o blazer preto e deixando com que ele caísse no chão, não adiantava me preocupar com minha roupa agora, ela já estava completamente arruinada desde que fui jogado no chão do estacionamento pelo . Pensar no chute que me arremessou para fora do elevador me fez puxar minha gravata com força enquanto também a retirava e a deixava largada no corredor.
Arranquei o extintor da parede e voltei até a entrada, juntando toda a força que tinha para fazer aquele objeto colocar a porta abaixo. Então, levantei os braços e, quando estava pronto para forçar minha entrada no apartamento, ouvi uma voz familiar:
— O que você está fazendo?
— Tentando entrar! — aproximou-se de mim e dei um passo para trás, ainda segurando o pesado objeto no alto.
— Dá pra você abaixar este extintor de incêndio, por favor? — percebi que ele virou o seu rosto para o lado e seus lábios se movimentaram em um “Me desculpe!”, virei meu olhar na mesma direção que ele e vi que a vizinha da frente, uma senhora pequena e agora visivelmente assustada, estava nos observando por uma fresta. Revirei os olhos e voltei a me aproximar da minha porta, percebi que a mulher entrou de volta no seu apartamento rapidamente, mas, antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, mais uma vez fui interrompido, desta vez com uma mão no meu ombro. — , você não precisa colocar a porta abaixo, o que precisa fazer é tentar não abrir o apartamento com a chave do carro.
— O quê? — eu levantei a sobrancelha, surpreso com a frase, e ele logo apontou para a fechadura da porta e percebi que ali estava pendurada a chave da minha Ranger.
— Você nunca conseguiria entrar com essa chave, né? — se colocou na minha frente e segurou meus braços para que eu descesse o extintor — Agora, coloca isso no lugar, por favor! — mantinha uma voz muito calma e convincente, e me olhava no fundo dos olhos, o que fez com que eu me dobrasse ao seu pedido, além disso, a raiva me fez fazer um baita papel de idiota, e tinha que reconhecer isso.
— Ok! — mesmo carregando a vontade de descontar minha raiva e frustração quebrando a porta, andei até o fim do corredor e coloquei o extintor preso à parede. Eu não estava calmo ainda, podia sentir minhas mãos formigando e tremendo, além disso, minha testa suava por conta dos movimentos anteriores, mas desconfiava que também estava assim pelo nervoso que corria em cada parte de mim. Voltei a passos lentos e, antes de chegar na porta, me curvei para pegar a gravata e o blazer, uma peça da Armani arruinada pela tarde de raiva, chuva e briga. Quando me aproximei de , percebi que ele estava tirando uma chave de seu bolso esquerdo e destrancando minha porta.
— Você tem minha chave? — eu estava olhando para ele totalmente incrédulo — Será que nenhum de vocês tem a mínima noção de privacidade?
— Sim! — ele disse calmamente, apesar da minha pergunta malcriada, e entrou no apartamento — A pessoa que mora com você me deu uma cópia.
— Como assim? — eu fui seguindo ele em seguida.
— Você claramente se incomoda com umas coisas que ela não. — agora passava os olhos pelo cômodo enquanto tirava seu casaco e eu ainda o olhava da porta sem entender. — Eu tenho uma cópia, tem uma e , se não me engano, também. — Boquiaberto. Sim, essa era a única palavra que poderia me descrever no momento. Parado e boquiaberto. E parece ter percebido meu estado, porque, quando se virou para mim, deu uma risada baixa. — É sério que você não sabia disso? — fiz uma negativa com a cabeça e ele riu outra vez — É por conta do ! A gente sempre está levando e trazendo da creche, da natação, do parque, da praia... Todo mundo tem a chave da sua casa porque todo mundo olha o seu filho.
Isso pareceu um tapa sem mão na minha cara? Sim! Tão grande que me fez virar e fazer a porta fechar com força. Me virei pronto para rebater e afirmar que aquilo não era verdade, mas meu amigo continuava falando enquanto estendia seu casaco no cabideiro ao lado da entrada.
— Vocês estão sempre trabalhando... — e de repente parou de falar e caminhou até o meio da sala — O que aconteceu aqui?
Revirei os olhos com sua pergunta, mas sabia que ela fazia total sentido, eu não podia negar isso, porque sabia que ela havia surgido por conta das marcas de mãozinhas na cortina, dos desenhos de giz de cera nas paredes da sala, das toalhas de banho e roupas no sofá, dos calçados no corredor e da cozinha que estava com mais utensílios fora do que dentro dos armários.
— Três semanas com , isso que aconteceu! — joguei as peças que estavam na minha mão em cima do sofá e caminhei até a cozinha, sendo seguido por ele — Não sei como cheguei a esse ponto, mas ontem a hora do banho, o jantar e uma ligação de um cliente aconteceram ao mesmo tempo. — abri a porta da geladeira, percebendo que, além de tudo, eu ainda tinha esquecido de passar no mercado e agora não tinha praticamente nada para comer na casa a não ser sobras de fast-food do fim de semana. — Tudo que tinha feito queimou e eu tive que dar cereal de chocolate pra ele jantar. — bati a geladeira, encostei o corpo na bancada que ficava no centro da cozinha e coloquei as mãos no rosto. Nada estava dando certo, nada ficava no lugar, nada conseguia ser organizado do jeito que eu queria, a frustração crescia e se espalhava sem controle por todo lado.
— Para de bater as coisas! — vi passando por mim e abrindo os armários em seguida.
— Eu estava falando no telefone, preparando a comida e tentando convencer Cookie a parar de correr com uma toalha amarrada no pescoço, porque ele estava a ponto de tropeçar e cair, mas nada parecia fazer ele desistir de ser o Super-Homem às 11h30 da noite. — deixei meu corpo cair em cima da bancada, ficando com metade de mim deitado na superfície fria, e fechei os olhos.
levou ele no mês passado para ver Batman vs. Superman. — só de ouvir aquele nome eu soquei o punho no tampão de mármore que estava deitado.
— Você acha que eu não sei? — levantei meu corpo novamente — Ele só fala disso! E eu já fui o Batman, o Super-Homem, a Mulher-Maravilha e até o Alfred!
— Pelo estado dessa casa, você deve ter sido um péssimo Alfred!
— Vai à merda! — olhei em volta, vendo as louças sujas e as panelas com comida velha — Eu tenho tanta coisa para fazer, ! E eu não consigo terminar nada, toda vez que eu pego uma tarefa algo me interrompe, alguém me liga, lembro de algum trabalho, meu filho me chama ou simplesmente minha mente vai até ela. Tem roupa suja de semanas, tem marcas de mãozinhas em todo lugar, cereal e biscoito por tudo quanto é lado, essa louça imensa na pia para lavar.
E pronto, parecia que agora tinham aberto a válvula da frustração, ela iria escorrer pela minha boca: — O não para quieto, ele corre todo tempo e eu sempre acho que ele vai se machucar, tem brinquedos demais no chão, ele sai cedo demais da creche, eu não consigo entender os horários dele, nem fazer ele dormir na hora certa ou acordar, ele quer a mãe e tudo o que eu faço ele compara com outras pessoas, então diz coisas como “ faz assim...”, “ não faz...”, e pra completar NÃO PARA DE PERGUNTAR DA PORRA DO PADRINHO! — estava encostado na geladeira e me ouvia atento enquanto comia um pacote de bolachas que eu nem sabia que existia no armário, quando eu dei meu último berro, parou a mão dentro do pacote e arregalou os olhos — Desculpa! Sei que meu filho é inocente e não faz por mal, é que... Eu estou cansado, estressado e frustrado.
— Tudo bem, vamos por partes. Você não conhecia seu filho... — se aproximou e ficou parado na minha frente do outro lado da bancada. Apesar da sua voz serena, ouvir mais uma pessoa me acusando de não conhecer meu filho fez eu me sentir atacado.
— Eu conheço o meu filho! — tive que interromper ele — Só que eu trabalho, eu tenho reuniões e compromissos, eu estou aqui, só não faço esse tipo de coisa.
— Que tipo de coisa? Se dedicar ao seu filho?
— TUDO O QUE EU FAÇO É ME DEDICAR A ELE, TUDO QUE EU FAÇO É POR ELE! — Enquanto eu gritava, lembrava das palavras de , e, por mais que não estivesse ali naquele momento, eu queria que ele pudesse me ouvir, só que não era justo com , então logo me corrigi e abaixei o tom de voz — Eu trabalho mais de dez horas por dia, porque eu quero dar tudo pra ele, nunca pedi nada ao meu pai, nada aos pais da , porque tudo que temos é do nosso trabalho, e não quero que falte nada!
— Eu sei de tudo isso, , calma! — percebi que ele puxou um dos bancos da cozinha e sentou próximo à bancada, em seguida apontou para que eu fizesse o mesmo e, mesmo meio relutante, eu obedeci — Me diz: O que você tem que fazer no trabalho no momento?
— Tenho que responder os e-mails da minha caixa de entrada, que está lotada, preciso ler quatro propostas de empreiteiras de construção e deveria ter ido a São Paulo checar as especificações da nova instalação que vamos fazer.
— A empresa vai expandir para o Brasil agora?
— Sim, lidar com os brasileiros não é complicado, o problema é a língua, então comecei um curso online, mas as aulas estão atrasadas.
— Você não acha que isso é muita coisa, não?
— Eu preciso fazer minhas tarefas, !
— Você lembra quando veio para cá?
— O que isso tem a ver?
— Isso tem tudo a ver! Quando a gente te trouxe pra cá, você tinha agredido pessoas em um bar e foi preso, o estresse por excesso de trabalho te fez começar a beber diariamente, acumular frustração e se tornar uma pessoa que ninguém gostava.
— Eu não posso parar de trabalhar agora! Eu tenho uma família para sustentar, eu tenho um filho e eu preciso dar as coisas que ele precisa.
— O que gosta de comer? Qual é o bichinho de pelúcia favorito dele? Onde ele mais gosta de ir? — eu havia ficado em silêncio depois desta sequência de perguntas dele, porque de fato não sabia responder nenhuma delas, e isso fez me sentir muito mal — O fato de você não saber é a prova de que você não dá a ele o que precisa, porque ele precisa de você, não só do seu dinheiro!
— Eu faço tudo o que está ao meu alcance! — sabia que não adiantava me defender, mas alguma parte dentro de mim ainda queria mostrar que estava errado.
— Você não faz! Onde você estava quando a mãe do seu filho entrou em trabalho de parto? Quando seu filho deu o primeiro passo? Quando ele falou a primeira palavra dele? E quando ele teve o primeiro dia na creche? Trabalhando! Você voltou a trabalhar demais por conta deles, eu entendo, só que agora você está sempre viajando, em ligação, numa reunião, ocupado no escritório ou hospedado no centro da cidade! — conforme as palavras dele saiam, eu me sentia murchando no banco em que estava sentado — E é por isso que o seu filho pergunta de mim, do , do e da mãe, porque ele não está acostumado com você na rotina dele, e nem você com ele na sua rotina. — e o silêncio espalhou mais uma vez, eu não sabia que o que dizer, mas sentia algo crescendo desenfreado em mim e talvez fosse explodir quando alcançasse a minha garganta — E, amigo, você bater no não vai mudar isso... Ele mentiu quando falou do Cookie?
Então, sem aviso prévio, dó ou piedade, minhas lágrimas vieram! Eu não conseguia contê-las, porque tudo o que eu havia feito durante muito tempo foi me conter. Eu sabia que, desde antes do acidente, existiam momentos que em que eu queria largar tudo, parar em um canto e chorar, mas principalmente após o acidente eu queria isso, chorar e chorar até que não pudesse mais. Eu precisava daquilo, só não havia conseguido libertar isso antes. Mas, agora com aquela conversa, com a casa em silêncio e com a segurança que sabia que só podia encontrar em , desabei. Sabia que o som do meu choro se espalhava pelo apartamento, sentia minhas lágrimas caindo sobre a bancada e minha vista ficava cada vez mais embaçada, e meu amigo me compreendeu em silêncio.
Só após alguns minutos, que não sei dizer exatamente quantos, senti seu corpo próximo do meu e sua mão passando pelos meus cabelos, e encostei a cabeça no seu ombro.
, eu não aguento! Por mais que eu me esforce, eu não sou suficiente, eu sou um fracasso e faço tudo errado! — eu levantei a cabeça e apontei para a sala — Olha essa casa! O me acha um idiota, e aí ele entra aqui e vê a casa assim! Ele não mentiu e eu fiquei com raiva, porque... — escondi meu rosto com as duas mãos, virei de costas para ele e abaixei a cabeça outra vez, deixando minhas lágrimas rolarem — Ele estava certo nessa parte! Eu não mereço meu filho, nem a mãe dele! Eu nunca mereci ela! Eu juro que eu tento ser o suficiente, que eu tento ser bom para eles. E estou tão cansado, mas eu continuo, tento e tento, e mesmo assim faço tudo errado.
— Eu sei que você está tentando, a gente sabe que você tenta de verdade, só que você está tentando da maneira errada. — senti quando ele se afastou, ouvi seus passos irem para longe e depois se aproximarem, quando tocou meu ombro e o apertou de leve, tirei minhas mãos do rosto e olhei para ele, vendo que estava segurando uma garrafa de água em uma mão e alguns guardanapos na outra. Assenti, mostrando agradecimento, peguei os itens de sua mão, enquanto tomava alguns goles de água observei sua ação de trazer seu banco para perto do meu e sentar ao meu lado em seguida.
— Não sei mais o que eu faço... — eu disse quando deixei a garrafa em cima da bancada e passei a secar meu rosto. Sabia que minha voz estava embargada, mas, por mais que estivesse com vergonha de ter desmoronado daquela maneira, sabia que estava com a pessoa certa.
, a primeira coisa que você precisa fazer é ser o protagonista da sua própria vida, parar de ser o coadjuvante, a pessoa que observa de fora, e participar ativamente dela. — suas palavras me fizeram piscar algumas vezes enquanto lhe encarava — Digo isso porque você já percebeu que nunca faz as escolhas diretas na sua vida? Você deixa com que as coisas aconteçam, que os outros decidam, que as pessoas façam e digam por você, mas não toma posição e fala o que realmente quer! Você mora com a mulher que ama há quatro anos e nunca disse o que realmente sentia por ela, você tem um filho e não participa da vida dele, você praticamente deixou que um cara viesse de fora e fizesse papel de pai e marido da sua família. — senti ele colocando suas mãos em meus ombros — Eu te amo, amigo, mas você é a pessoa mais omissa que eu já vi na vida.
Quando ele me puxou para um abraço, eu deixei, porque senti que precisava. Após alguns instantes, pude ouví-lo falando baixo:
— Você realmente ama a ? — sua pergunta me fez engolir em seco, mas não havia mais barreiras ali, não depois de eu ter quase me desfeito em lágrimas na sua frente, por isso assenti com a cabeça, mas minha resposta silenciosa fez com que ele se afastasse e me olhasse nos olhos — Eu quero que você fale, seja sincero e diga!
— Sim! Eu amo , sempre amei! Quando a vi andando na sua loja no dia seguinte em que eu e ela nos conhecemos, ali foi quando senti pela primeira vez que a amava... — eu nunca havia dito isso em voz alta — Ela estava tão linda, o cabelo dela balançava, ela sorria e tinha cheiro de flores, e eu lembro de cada detalhe, porque desde aquela manhã eu tive certeza que ela era quem eu sempre estive procurando. — sei que cada frase minha saiu de forma lenta, porque a imagem daquele momento passou nitidamente pela minha mente e mais uma vez confirmei que eu a amava mesmo, só que dessa vez na frente de outra pessoa, que estava com os olhos marejados?
vai ficar muito puto quando souber que ele perdeu esse momento. — eu dei uma risada fraca e bati de leve com o punho no seu ombro, o que fez ele rir também — Por que você nunca disse isso pra ela?
— Basta olhar para ela e você vai saber... Ela não precisa de mim, de ninguém, aliás. E além disso, ela disse que a gente não precisava ter um relacionamento e que não queria nada comigo.
— E quantos anos tem isso? Se ela não quisesse estar com você, já não teria ido embora, ? Se ela realmente quisesse ser livre, ela não ficaria aqui e já teria arrumado outra pessoa, mas não foi o que ela fez. Dia após dia, nos momentos bons e ruins, ficou com você!
— Eu não sei! A gente nunca conversou sobre essas coisas.
— Você é uma das pessoas mais inteligentes e dedicadas que eu conheço, e sua mulher é uma das mulheres mais fortes e decididas que existem nesse mundo, mas emocionalmente falando vocês dois são péssimos. Vocês têm o mesmo modus operantis: vocês querem mostrar que se amam através de ações, tudo o que vocês fazem é se colocar como prioridades um do outro. E isso é muito bonito! Mas as palavras também são necessárias, o momento de conversar precisa chegar e o problema é que ele nunca chega pra vocês. — vi meu amigo levantar do banco e se dirigir até a pia enquanto levantava as mangas da camisa.
— Por que que você nunca me disse isso antes, ? — estava observando ele enquanto abaixava e procurava alguma coisa no armário embaixo da pia.
— Sei lá! Eu não estou na sua lista de contatos do Skype, nem na sua agenda de compromissos importantes. — ele gargalhou e eu acompanhei.
— Você é um idiota... Me desculpe por ter sido tão ausente na vida de todo mundo?
— Confio que você vai mudar isso, então desculpo! — percebi ele se virar com uma caixa de primeiros socorros e fiquei sem entender, mas assenti com a cabeça — Mas agora a primeira coisa que você vai fazer é me deixar limpar esse corte no braço.
— Desci o olhar para meu braço e, sim, tinha um corte aberto ali que podia ser visto por conta da manga da minha camisa levantada, que eu não tinha visto, mas que havia sangrado bastante e já estava com o sangue coagulado em torno da abertura. Lembrei da queda provocada por e associei o ferimento aquilo, era a única possibilidade. — E depois vai esperar seu amor receber alta, conversar com ela, ser sincero, dizer tudo o que você sentia e ainda sente, mas principalmente pedir desculpas. — quando percebi, já estava próximo com algodão e iodo na mão.
— Mas e o ? — mordi o lábio inferior de leve quando senti a ardência que o algodão provocou quando ele começou a limpar meu machucado — Eu odeio o !
— O também! — balançou a cabeça enquanto passava um novo algodão no ferimento — Eu não sei como conseguem alimentar esse tipo de sentimento dentro de vocês.
— Por favor, diz que odeia ele também, fica do nosso lado, amigo.
— Eu não odeio ninguém, ! — ele agora estava envolvendo aquela parte do meu antebraço em uma espécie de curativo e eu olhava atentamente — O é um cara legal e dedicado, ele se esforça muito em tudo o que faz e realmente tem um carinho muito grande pela amiga e pelo seu filho. Claro que ele tem defeitos, todo mundo tem, mas agora você tem que se preocupar nos seus defeitos, na sua culpa e corrigir seus próprios erros. — ele catou os algodões sujos e jogou no lixo, e em seguida levantou e guardou a caixa no lugar aonde havia pegado.
— Eu não lembro quando você fez Enfermagem na universidade, jurava que tinha feito Administração! — eu olhava admirado para o curativo muito bem feito por ele.
— Para de palhaçada! — ouvi então uma movimentação de panelas e olhei para a direção da pia, vendo-o concentrar a louça suja para um canto específico — Então, vamos limpar a casa? O vai chegar com o Cookie daqui a pouco e você não vai querer ouvir ele falar do estado desse lugar se estiver bagunçado. Você já deixou ele puto o suficiente por hoje.
— Ele te contou? — eu levantei e fui caminhando em direção à sala para pegar outros pratos e copos que estavam espalhados por lá.
— Claro que ele me contou, estou aqui por isso, porque, se ele viesse, não ia exatamente “conversar” com você, além disso, eu sou a pessoa mais sensata entre nós. — voltei, trazendo a louça, e coloquei junto com as outras que haviam sido separadas por ele. — E antes que você volte a arranhar o disco perguntando “E o ?”, saiba que ele não apareceu de novo lá, chegou na sala de espera sozinho.
— Tá bem!
— Agora é sério... Que cheiro é esse?!
— Carne assada carbonizada! — vi arregalando os olhos pra mim — Já te disse que eu queimei a comida porque ainda não aprendi a fazer duas coisas ao mesmo tempo quando uma delas envolve o Cookie. — meu amigo riu e virou o pescoço de volta para a pia, começando a lavar a louça.
— Vou te dar uma dica: Leva ele na praia. Deixa o correr bastante na areia e depois volta pra casa, dá um banho nele, prepara um mingau e você vai ver que ele vai apagar.
— Eu nunca vou à praia!
— O que é uma vergonha, porque você mora praticamente em uma, ! Faz um esforço, pelo amor dos deuses! — senti ele jogar água em mim e me afastei da pia — Agora, sai daqui! Liga pro e pede pra ele não vir pra cá e preparar o jantar, diz que vamos todos lá pra casa hoje. E vai arrumar esse apartamento, por favor!

*


— Aqui está! — se aproximou de mim com duas xícaras na mão e percebi que o conteúdo delas era diferente.
— Você realmente vai me obrigar a beber chá depois do jantar?
— Sim! E você vai tomar cada gota! Só então eu vou te perdoar pelo o que fez hoje. — ele ficou ao meu lado, deu um gole em sua xícara de café e fiz o mesmo com o chá, confirmando o que já sabia: sabor camomila.
— Não era pra eu ter me descontrolado daquela maneira.
— Eu esperava que você fosse perder o controle com o em algum momento, quem não perderia?!
! — dissemos alto ao mesmo tempo e demos uma risada conjunta.
— Meu namorado é muito iluminado! — acompanhei o olhar de e vi que ele observava caminhando na areia à nossa frente — Nós, meros mortais, não somos iguais a ele! — percebi que seu olhar havia caído de novo sobre mim e virei para encará-lo também — Me surpreendeu como você se aguentou durante tanto tempo, só podia ter esperado um pouco mais, sabe... Até estar fora do hospital!
— Eu sei que errei! E ainda te coloquei no meio! Me perdoa?
— Sempre! Você é meu melhor amigo, é claro que eu te perdoo! E, quanto ao , não se preocupa, ele não vai contar nada.
— Como sabe que não?
— Nós tivemos uma conversa!
— E eu posso saber o que conversaram?
— Não... Por enquanto, não.
deu mais um gole em sua bebida e me deu a xícara para segurar, em seguida foi se afastando de mim, e não insisti em saber da conversa deles por mais que tivesse ficado intrigado.
A lua brilhava forte e sua luz iluminava todo o deck dos fundos da casa dos meninos, além disso a areia refletia o brilho da lua, e eu podia ver se juntando a e em uma brincadeira de corrida. Meu filho sorria e parecia muito feliz, ter lhe tirado do apartamento realmente foi uma ótima ideia. As risadas deles se misturavam ao som das ondas e do vento, ouvir aquela mistura gostosa de sons fez eu me sentir alegre e isso levou meus pensamentos até ela, então sorri.


Capítulo VI


— Obrigada por me buscar! — estava do meu lado e era a primeira vez que estávamos juntos depois do nosso primeiro diálogo, que não acabou exatamente bem. Haviam passado três dias e nós tínhamos conversamos apenas pelo telefone, porque, além de estar tentando definir melhor uma rotina que se adaptasse ao meu ritmo e do nosso filho, eu também estava ocupado com a mudança dela para sua casa. Quando recebemos a notícia de sua alta no hospital juntamente com as recomendações médicas, concordamos que seria melhor para ela ficar na sua própria casa, na qual morava antes de nos conhecermos, já que estava familiarizada àquele ambiente e estar ali poderia ajudar no retorno de sua vida normal; por isso , e eu passamos as duas últimas tardes limpando sua casa, levando seus itens pessoais para lá, providenciando seus medicamentos e reabastecendo os armários com o que ela pudesse precisar para manter a dieta que lhe foi recomendada pelos médicos. E agora, no final da manhã de domingo, estávamos eu e ela a caminho de sua casa após a liberação do hospital.
— Por nada, não precisa agradecer! — assumo que estava satisfeito em finalmente ouvir sua voz. Durante todo o tempo no carro ela permaneceu quieta e eu também, já que ainda não conseguia saber por onde voltar ao ponto que paramos na nossa última conversa e nem mesmo pensava como iniciar uma outra que fosse descontraída. Então, a fim de iniciar um diálogo, perguntei: — Como você está se sentindo?
— Um pouco estranha, mas bem, só que com medo também… Ah, tudo isso misturado, eu acho. — ela soou um pouco confusa e parecia ter tropeçado na fala no meio da frase.
— Pode explicar? — ali estávamos os dois juntos, depois do acidente, em um carro novamente, e isso fazia com que o nervoso percorresse todo o meu corpo, por isso segurava o volante firmemente com ambas as mãos e buscava ser extremamente cuidadoso e atento na direção do carro. Essa situação provocou um silêncio de quase duas horas na estrada e que só agora estava sendo quebrado, no momento iniciar uma conversa ali se assemelhava à tentativa de romper com a névoa espessa em um dia de manhã gelada, no caso nossa névoa seria a tensão que claramente pairava entre nós.
— Me sinto um pouco estranha por estar nesse carro fechado e a essa velocidade. — essa frase me fez começar a deixar a velocidade cair gradualmente de 60 para 40 quilômetros por hora e ao mesmo tempo apertar um dos botões para que os vidros descessem, minhas ações parecem ter feito com que ela se envergonhasse, porque em seguida se desculpou rapidamente — Me desculpa, é só uma sensação, mas ao mesmo tempo me sinto bem, porque eu sinceramente não aguentava mais ficar dentro do hospital, o cheiro de éter me deixa triste. E o medo... É que eu estou indo conhecer um filho... Que eu não lembro que tenho... E nem sei como é. — eu estava atento às palavras dela e sua voz quebrada nas frases finais fez com que eu a olhasse brevemente, logo pude ver que ela me encarou e seu rosto refletia uma espécie de inquietação e medo também.
— Ele é uma criança de três anos espontânea e bem amorosa. — comecei a falar um pouco do jeito de , pensando que assim talvez eu pudesse ajudá-la a se acalmar de alguma forma — Pelo relacionamento que vocês tinham, e também com a convivência com os meninos, que gostavam de ficar conversando muito com ele, Cookie aprendeu a falar cedo, apesar de ser um pouco tímido fora de casa, com a gente ele é comunicativo e conversa muito, principalmente com você.
— Ele gosta de mim? — a voz dela agora parecia estar carregada de um tom de curiosidade.
— Está perguntando isso porque acha que não é uma boa mãe? — olhei brevemente para ela novamente, eu tentava analisar a forma como falava e por um instante lembrei daqueles agentes da Unidade de Análise Comportamental do FBI da série Criminal Minds. Parabéns, , o Agente Gideon ficaria orgulhoso de você.
— Eu faço pesquisas de campo e passo muito tempo no laboratório, quer dizer, até onde eu lembro era assim, minha vida acadêmica me ocupava e eu gostava disso, e também tem isso... — sua voz deu uma pausa e eu sabia o que ela falaria em seguida, porque era algo que tínhamos conversado quando estávamos planejando como lidar com a situação da sua gravidez: — Eu nunca tive o desejo de ser mãe, então não sei isso funciona pra mim.
— Você nunca parou de trabalhar na sua pesquisa, sempre lendo, escrevendo artigos e indo para simpósios, entrando e saindo do mar e ficando no laboratório para fazer coisas que não sei direito, porque sou burro para ciências biológicas, mas você me convenceu ser legal e importante e eu concordava — ouvi ela dar uma risada curta com minha sinceridade — Enfim, você estava sempre numa correria acadêmica e mesmo assim era uma boa mãe.
— O me contou um pouco sobre essas coisas, me prometeu ajuda a lembrar de tudo que fiz nesse tempo antes do acidente e que não lembro.
— Vocês conversaram nesses três dias? — tentei manter minha voz o máximo possível na calma, eu não sabia o que eles tinham conversado sobre “antes do acidente”, até onde conversei com ela e os médicos, parecia que não conseguia lembrar desde as semanas anteriores a que tinha me conhecido até o momento da batida de carro que sofremos, mas assumo que o que me preocupava ali agora era a briga que o amigo dela e eu tivemos no hospital, tinha medo de como ele havia contado isso para ela, mesmo o afirmando que não iria dizer nada.
— Sim, uma vez rápido e assim como você pelo telefone também, ele disse que estava ocupado com o laboratório e prometeu que íamos conversar melhor depois. — eu quase soltei uma respiração aliviada, mas me contive e percebi que ela demonstrou ter ficado triste com o fato de ter estado sozinha no hospital naqueles dias. A situação parecia irônica, porque todos os dias em que estava desacordada nós estávamos lá, mas justamente quando acordou, paramos de frequentar as salas de espera e seu quarto do hospital, eu porque estava cuidando das coisas para a volta dela e porque possivelmente não estava querendo aparecer com seu nariz quebrado. — Estou acostumada com ele, esse jeito esporádico do é normal.
— Hum? — a frase dela realmente me deixou sem entender, eu nunca tinha a ouvido falar algo assim do seu amigo, quer dizer ela e o pareciam muito presentes na vida um do outro no passado e ainda mais depois que ele veio morar na nossa cidade, estava sempre próximo, perto até demais.
— Não sei exatamente como é agora, ele tem alguns defeitos e um deles está relacionado a isso, já brigamos bastante por conta dos sumiços frequentes e a falta de compromisso com as coisas, mas ele é tudo pra mim, meu melhor amigo e única família de verdade que tenho. — então, ela parecendo perceber o que tinha dito, se corrigiu: — Ele era toda a família que eu tinha, quer dizer meus pais não eram exatamente... E ele sempre foi...
— Eu entendo! — tive que cortar sua fala, porque sabia que estava se enrolando e queria tranquilizar ela. Só que depois disso nosso assunto parece ter morrido, já que parecia que ela tinha ficado constrangida por esquecer que agora tinha um filho, e talvez eu, na vida dela, o que não era algo que eu poderia culpá-la, já que tudo era confuso e muito recente, compreendia isso. Mesmo assim, ouvir a frase “única família de verdade” relacionada ao , esquecendo de mim e do , fez com que eu perdesse um pouco do ânimo para continuar a conversar.
Voltei a focar apenas na estrada, que já estava chegando ao fim e tinha no horizonte a placa de nossa cidade anunciando boas-vindas, após alguns minutos, sua voz retornou:
— Eu não gosto de dirigir, não era boa nisso, mesmo em estradas assim, e você parece tranquilo, mesmo depois de estar dirigindo quase três horas direto — balancei a cabeça assentindo, esperando que ela continuasse e no fundo já sabendo que o que provavelmente viria a seguir seria aquela pergunta-chave: — Eu estava dirigindo no dia do acidente, não é? — minha postura ficou rígida em um modo automático, mas, por mais que eu tivesse entrado em aflição imaginando todas os cenários em que chegaríamos a essa conversa, não tinha para onde fugir, nós teríamos que falar sobre isso, então iria responder as perguntas dela de forma direta.
— Sim, era você que estava dirigindo naquela noite!
— Eu bati com o carro? — conseguia sentir seu olhar sobre mim, mesmo eu estando olhando para frente por conta da direção, conseguia ver que seus olhos estavam fixados em mim.
— Você perdeu o controle do volante, cruzou as pistas e acabou batendo em um poste. Eu estava de cinto e você não, então eu fiquei preso e minha cabeça ricocheteou contra o banco, mas você teve seu corpo lançado pra fora do carro. — engoli em seco no fim, porque todas as cenas entrecortadas do acidente estavam na minha mente, e eu sabia que havia mais detalhes que poderia dar, afinal de contas não tinha sido tão “simples” assim, mas eu tinha medo de trazer esse assunto agora, e resumir era explicar de alguma forma, ela ainda tinha muito o que absorver sobre outras coisas, não era preciso saber da discussão que estávamos tendo naquela noite e nem dos motivos que levaram a situação do acidente, eu não queria contar aquilo agora.
— Você também ficou hospitalizado? — não era exatamente esta pergunta que eu estava esperando que ela fizesse, porque achei que questionaria sobre as circunstâncias do acidente, mas ela estava demonstrando preocupação comigo ao invés disso?!
— Sim, tive traumatismo cerebral leve, fiquei em observação e fui liberado depois de alguns dias, enquanto você teve contusões pelo corpo, fraturou algumas costelas e sofreu traumatismo crânio-encefálico, então passou por uma cirurgia por conta das lesões cerebrais e não acordou, e então eu fiquei te esperando acordar os últimos 23 dias. — eu havia feito um segundo resumo de tudo o que os médicos me contaram, de certa forma, cada palavra deles ficou gravada na minha mente, assim como as sensações constantes de desespero e medo por não saber se ela iria acordar.
— O me viu daquele jeito?
— Sim! O tempo em que estive internado ele ficou com o , mas depois que levei ele pra casa, explicamos que você estava num “sono demorado”, mesmo ele insistiu muito que queria te ver e contar histórias de dormir pra você ficar bem dormindo, então ele contou um monte delas pra você. — estacionei o carro rente à calçada na rua da casa dela e pude ver quando abriu um sorriso com o que eu tinha dito — Você ouviu Chapeuzinho Vermelho, O Gato de Botas, O Pássaro Dourado e outras. Ah, e mais de uma vez a favorita de vocês dois: Os Porquês do Coração.
— Ele sabe ler? — eu retirava meu cinto, mas ainda olhava pra ela, que me encarava com o sorriso no rosto.
— Não, mas olha as imagens e meio que interpreta, aí cria umas historinhas engraçadas do jeito dele.
— Ele é muito inteligente! — ela realmente parecia admirada e aquilo me fez pensar no que ele fazia, era algo de certa forma impressionante para um menino de 4 anos de idade fazer, mas ele era criativo e muito inteligente, exatamente como a mãe, e não me contive em dizer:
— Sim, igual a você! — apesar de parecer surpresa por uns instantes, seu sorriso se alargou e eu podia ficar ali admirando sua expressão por toda uma vida. Mas desviou o olhar e fixou os olhos na casa que estava há alguns metros de onde estávamos.
— E se eu não souber lidar com ele? Eu não sei como agir nesta situação, eu posso estar diferente do que ele conhece e ele pode não gostar de mim. — então voltou seu olhar de volta pra mim e pude ver que a preocupação de antes havia voltado — Eu estou com medo, .
— Eu sinto medo todos os dias, mesmo antes do acidente, eu nunca tive certeza do que fazer e acho que até hoje não sei exatamente, mas acho que você não precisa se preocupar, porque ele te ama do jeito que você é, e, se sentir medo, eu vou estar do seu lado, tudo bem? — coloquei uma das minhas mãos sobre a sua e sabia que isso havia sido um gesto involuntário, porque queria desesperadamente confortar ela. Eu sabia que não teria problemas, sempre teve uma ligação muito forte com o filho e eu duvidava que isso poderia ser perdido por conta do acidente.
Depois que assentiu, saímos do carro e pegamos sua mala no porta-malas, estávamos subindo as escadas da frente quando lembrei de algo importante.
— Eu esqueci de te falar antes: meu pai está aqui com o , ele se ofereceu para ficar com ele enquanto eu fosse te pegar.
— Eu achei que ele estava aqui com , ou .
— Não, não. O e o estão trabalhando, e o ... — se recuperando do nariz quebrado tomando umas doses de Bourbon e ouvindo um jazz melancólico numa pose prepotente na sua sala de estar? Era meu cenário imaginário sobre como ele estava suportando a situação quando fiz uma aposta com o , que imaginou escondido no laboratório imprimindo fotos, cortando meu rosto delas e jogando ácido, só que tristemente a aposta não foi pra frente, já que nunca saberíamos a resposta e também porque chamou nossa atenção enfatizando que aquilo era muito idiota da nossa parte — Ele, bem, ele eu não sei. Meu pai está aqui, é isso. E eu já queria me desculpar, porque às vezes ele é um tanto caloroso.
— Caloroso? — ela fez uma expressão estranha repetindo o adjetivo que eu havia me referido ao meu pai.
— Não adianta eu tentar explicar muito, você vai ver. — percebi que ela tinha ficado insegura, porque, quando estava abrindo a porta, senti sua mão segurar a minha com força, fiquei surpreso, mas sabia que tinha que lhe passar segurança, então entrelacei nossos dedos e entrei com ela seguindo atrás de mim.
Meu pai apareceu no meu apartamento com uma caixa de contratos para serem revisados às 8 horas da manhã — o que eu achei uma afronta por ser domingo — reclamando das ligações perdidas e da minha ausência nas reuniões, mas logo lhe lembrei que estava de licença e que além disso hoje era o dia em que pegaria no hospital, então ele se ofereceu para ficar com o neto, pegou minhas chaves, disse que daria um jeito de providenciar o almoço e levar o menino para esperar a mãe na casa dela pela tarde.
E agora, lá estavam eles na cozinha. sentado em cima da bancada da pia e meu pai com uma colher de pau lhe dando algo para experimentar. Quando percebeu nossa entrada, disse para Cookie:
— Olha só quem chegou!
Assim que fechei a porta atrás dela e meu pai terminou de tirar o pequeno de cima da bancada, ele se aproximou correndo da mãe e parecia que ia explodir de felicidade, seus olhos pareciam duas estrelas brilhantes, o sorriso ia de um canto a outro dos lábios e os braços abertos vinham prontos para lhe dar um abraço. Tive por uns segundos uma pequena apreensão, achando que ela pudesse ficar assustada ou sem jeito com a reação apressada do filho, mas ao invés disso, ela soltou minha mão e abaixou no chão, recebendo o abraço apertado dele e retribuindo da mesma maneira.
parecia querer matar toda a saudade de uma única vez, e ela, por mais que não lembrasse do filho e estivesse aflita em todo tempo antes de vê-lo, parecia estar feliz por sentir todo o amor dele. Estava observando os dois aos meus pés, admirado com a cena daquele abraço, ambos de olhos fechados e os braços envolvendo o corpo um do outro, senti que meus olhos marejaram por conta das lágrimas que se formavam neles e percebi que, quando o abraço terminou, não era o único que estava assim.
O pequeno havia quebrado o abraço deles e tinha colocado cada uma de suas mãos de um lado do rosto da mãe, como se a tivesse emoldurando para que pudesse vê-la melhor — algo que já havia reparado que e reproduziam, mas que, por passar despercebido antes, não sei quem havia lhe ensinado. Esse gesto era algo que me fazia sorrir, porque passava um carinho atencioso e quando o fazia parecia querer prestar atenção em nós. A mulher o admirava de volta e, assim como o filho, estava observando cada detalhe do seu rosto em silêncio, até que ele disse:
— Você ficou dormindo muito, mãe. — falou, balançando a cabeça e ainda olhando atentamente para ela.
— Me desculpa! — ela deu uma risada baixa ainda sorrindo.
— Tá bom… — ele balançou a cabeça concordando, ficou na pontinha dos pés e lhe deu um beijinho na testa, em seguida se afastando e soltando seu rosto — Fiz desenho dos dias todos pra você ver, meu azul até acabou. — desta vez eu tive que rir junto com e juntamente com nosso riso estava o de meu pai, que a presença até então tinha fugido da minha mente, já que o encontro que estava observando tinha resumido todo o mundo a que precisava dar conta naquele momento — Vou pegar na mochila! — Cookie logo saindo correndo em direção à varanda de trás e eu sinceramente não sabia o porquê de sua mochila estar lá, mas quando ia perguntar lembrei de no chão. Lhe estendi a mão para que levantasse, o que ela fez e em seguida fez um breve gesto com a cabeça agradecendo, pude ver que estava deixando com que algumas lágrimas corressem livres pelos seus olhos, enfiei minha mão dentro do bolso interno do meu paletó e tirei um lenço para lhe oferecer.
Meu pai saiu da passagem da cozinha e finalmente veio ao nosso encontro. Assim que percebeu sua aproximação, esqueceu de secar as lágrimas e rapidamente fez uma leve inclinação, abaixando o tronco e a cabeça em reverência.
Cheoum poepgesseumnida — não só a frase como também todo o movimento dela me deixou um pouco surpreso, vê-la se referindo ao meu pai de um jeito tão formal e reproduzindo aquele gesto da minha cultura era claramente um reflexo de ter esquecido o tipo de relação que eles tinham, já que tanto eu quanto meu pai não nos preocupamos com isso nos nossos círculos sociais mais próximos. Mesmo assim, meu pai retribuiu também com um leve arco com o corpo e depois lhe estendeu a mão para cumprimentá-la.
— Sou Min Ji-Hyuk, pai do , mas acho que isso ele já teve ter te contado outra vez.
— Sim, me desculpa se não vim te cumprimentar assim que cheguei. — apertou a mão do meu pai com um certo receio e parecia bem nervosa.
— Seu coreano e seus modos continuam excelentes, querida, não se preocupe, por favor! Além disso, pela situação eu não esperaria nada diferente, estava quase ele mesmo pegando o carro pra te trazer pra casa. — meu pai lhe deu um sorriso e ela fez o mesmo, mesmo que de forma bem tímida. — Desculpa falar isso, mas essa é a segunda vez que eu te encontro pela primeira vez e você está ainda mais bonita. — de fato ela continuava tão bonita quanto a primeira vez que nos conhecemos, ou até mesmo mais do que antes, mas não tinha necessidade de falar aquilo naquele momento.
— Pai! — então tive que interromper a interação dos dois, porque ele já estava fazendo vergonha, me aproximei dele interrompendo-o e também lhe cumprimentei com o corpo, seguido de um rápido abraço, o que me fez receber um beijo no rosto. Nós tínhamos uma forma de tratar um ao outro diferente, porque mesclava um pouco das tradições, pois minha mãe introduziu muito dela em nossa relação e, assim como , não vinha de uma tradição coreana e nem era de origem asiática.
Assim que me separei dele, percebi que estava usando um avental para cozinhar e que claramente não lhe pertencia, já que os desenhos de conchas distribuídos por todo o tecido deixavam isso claro. Como se toda a situação já não fosse estranha o suficiente para ela, agora tinha um homem idoso barbudo de social e gravata desfilando com um avental por sua casa.
— Eu lembrei da primeira vez que você foi lá em casa e a rabugenta da Sook preparou aquele prato que meu filho disse a ela que era seu favorito, então eu resolvi fazer o mesmo, porque esse é o nosso segundo primeiro encontro, certo? , vai me ajudar a colocar a mesa. — eu precisaria explicar pra ela mais tarde que Sook na verdade era a governanta da casa e não minha mãe, mas fomos puxados para direções opostas, porque meu pai segurou meu braço e apareceu puxando a mãe para a varanda com empolgação. Estávamos nos distanciando e lhe dei um olhar encorajador para seguir o filho.
— Vai lá! — ela assentiu com a cabeça e logo estava na varanda junto com Cookie, ele já estava apontando com os dedos tudo que tinha feito nas folhas coloridas. Só desviei o olhar quando ouvi o barulho da tampa do fogão, meu pai tirou uma travessa grande do forno e bateu a tampa usando o pé.
— Me diz uma coisa: Desde quando você cozinha?
— Shhhhhhh… veio aqui e já trouxe tudo pronto, só colocar pra esquentar. — então ele deu uma piscadela.
— Eu não acredito que você pediu pro cozinhar — balancei a cabeça e comecei a pegar os pratos, talheres e copos dos armários, colocando-os em cima da bancada da pia — Por quê?
— Não queria que ela achasse que eu sou igual a você. — olhei pra ele indignado com a afirmação — Eu sou a figura paterna forte, sempre mostrando que sou um homem respeitável, porém também sou amoroso e o maior gesto de amor que alguém pode fazer pelo outro é cozinhar para aqueles que ama.
— Muito bonito! Só que você não sabe cozinhar, oh forte figura paterna.
— Só que ela não lembra e nem precisa saber! E você só tem que ajeitar a mesa do almoço e fazer uma cara amorosa quando eu soltar essa frase de efeito quando estivermos comendo. — revirei os olhos, segurando minha vontade de rir, e caminhei até a mesa com os utensílios para arrumar.
Pela mesa ser próxima da porta de vidro que separava a sala da parte exterior, eu conseguia escutar o diálogo entre nosso bebê e do lado de fora.
— E esse aqui é o Papai, só vê o terno, e esse aqui de blusa de flor é o , e você tá aqui dormindo e esse é o sol brilhando com os raios batendo na sua cara. Neste outro, você tá em pé, olha os olhinhos abertos, tá vendo? E o padrinho fica feliz e chora, mas o papai não tá, ele tá no outro, porque queimou a carne. Aí esse aqui, o Papai e o limpando a casa, os riscos assim com raiva, porque tava feia mesmo.
— Eles são lindos, você usa muitas cores.
— Sim, gosto do amarelo, mas usei muito azul porque você gosta muito.
— Eu estou vendo, meu cabelo azul e do também ficaram lindos!
— Cabelo do Papai é preto porque ele é sério, aí não podia.
— Entendi!? Tem mais aqui com você?
— Não, tá na parede da outra casa nossa.
— Vem aqui! Deixa eu olhar pra você… Realmente, nós temos o mesmo nariz.
— E buraquinho aqui quando a gente faz sorriso.
Eu estava tão entretido na conversa deles e imaginando toda a cena que acabei derrubando o arranjo de flores da mesa no susto quando meu pai puxou as cortinas que cobriam os vidros atrás de mim. Ji-Hyuk já estava fazendo a porta correr pelo trilho para abrí-la e quando virei ele tinha pego o menino do colo da mãe.
— Vamos almoçar? , vem ajudar a menina a se levantar.

*


— Aqui, filho! — segurei o copo que ele me passou e o observei sentar na espreguiçadeira ao meu lado — Não tem álcool no drink, relaxa.
— Eu nem pensei nisso. — sentados em frente na parte exterior atrás da casa a alguns metros do mar, víamos e andando de um lado para o outro na areia procurando algumas conchas para enfeitar o castelo de areia que tinham construído, quer dizer, algo que poderia ser um castelo se não parecesse só uma fileira de montinhos quadrados.
— Ela continua maravilhosa, mesmo com tudo o que aconteceu — concordei com a cabeça e dei um longo gole na bebida, que parecia uma batida doce de alguma fruta, e fiz uma cara estranha, duvidando que no seu copo aquilo ali estivesse “puro” — Depois daquele diploma de Cambridge, foi a melhor coisa que você já trouxe pra casa.
— Min Ji-Hyuk! — soltei uma gargalhada alta, depois escondi o rosto com uma das mãos brevemente, o velho acompanhou minha risada e deu um tapa leve na minha perna. O som da risada chamou a atenção dela, que olhou para nós e acenou, gesto que meu pai retribuiu.
— Não… — ele desviou o olhar dela, olhou pra mim parecendo fazer uma análise, depois voltou a olhar pra ela e tornou a me encarar — O diploma fica em segundo.
Voltei a rir por alguns segundos e finalizei a bebida, ficando um pouco arrepiado, já que o gelado da bebida mais o vento do litoral que batia em nós me faz sentir frio de certa forma. Coloquei o copo no chão, levantei da espreguiçadeira e caminhei até a mesa do quintal onde estavam dobradas algumas toalhas de banho que havia posto ali no dia anterior.
— Desculpa se atrapalhei o momento de vocês ou incomodei de alguma forma, eu estava preocupado com você que não atendia o telefone! — voltei até ele com duas toalhas nos braços, pronto para me desculpar pelo desleixo, quando ele completou a frase: — Mas, tudo bem, porque você estava cuidando deles e o tem a figura da mãe novamente, e isso é importante, né?
— Sim, o tem a chance de viver o que eu nunca pude… Se ela ficar aqui. — de modo automático me perdi nos meus próprios pensamentos, porque me lembrei de mim mesmo.
Ali mesmo fui levado aos momentos que tive com minha mãe, a maneira como ela gostava de dançar pela casa, como tudo parecia mais divertido quando sua voz preenchia o ambiente e ela fazia apresentações particulares pra mim no meio da sala. Só que essas lembranças se esvaiam muito rápido, porque as memórias mais claras e latentes da minha infância eram do seu último adeus e do seu carro desaparecendo no horizonte, das noites ouvindo meu pai chorando baixo quando achava que eu já tinha dormido e das vezes que apaguei deitado na janela esperando algum sinal dela retornando na estrada. Então, ao que pareceu o tempo de uma vida inteira, a voz dele me trouxe de volta:
— Ela ligou para saber da sua menina, se estava tudo bem depois do acidente. — fiz uma negativa com a cabeça, porque não acreditava que ele estava trazendo esse assunto outra vez — Sabia que ela vai vir pra cidade semana que vem? — e logo sua voz foi ganhando um tom diferente e crescente, como se estivesse tentando convencer uma criança a fazer algo que seria divertido: — A peça dela está em cartaz, você não quer levar eles lá para prestigiar ela? Eu compro os ingressos para nós todos. Ela sempre foi uma boa atriz, seria tão bom...
— Pai, você sempre deu tudo por mim… — queria dizer a ele que não queria conversar sobre o passado ou fingir que o que ela tentava fazer no presente era o suficiente para apagar minhas mágoas, mas ele me interrompeu.
— Eu sei! Só que eu gostaria que você tivesse sua mãe por perto, sabe, como e o , e o relacionamento tão próximo que eles têm, porque sinto como se você tivesse perdido sua mãe por conta dos meus erros… — sabia que ele estava começando a ficar emocionado com o assunto, como sempre ficava, porque eu sabia que ele se culpava por algo que na minha visão não era sua culpa. Por isso o cortei:
— Pai, minha mãe fez uma escolha! Você foi tudo o que eu precisava, nós não temos que trazer ela de volta pra nossa vida. — minha fala foi quebrada com o som estridente de um grito de criança, que me fez olhar na direção da praia, e pude ver Cookie balançando os braços e nos olhando.
— OLHA MEU CASTELO, VOVÔ! — meu pai rapidamente pegou os copos do chão e me empurrou pra frente, murmurando:
— Não vou pisar lá não, meu papel de avô acaba quando a areia começa. — deixando nossa conversa para trás, ele deu as costas depois de gesticular que eu estava indo em seu lugar, virou as costas e sumiu para dentro da casa.
Tentando fortemente esquecer que eu odiava a sensação de pisar na areia, respirei fundo e caminhei até eles sentindo aqueles grãos gelados grudarem na minha pele.
— Olha, papai, tem dois em cima do outro. — fiz uma expressão de admiração e abri uma das toalhas que havia pego na mesa para cobrir suas costas, realmente estava frio e o vento batia incessante.
— Acho que temos um arquiteto aqui. — enrolei ele com a toalha e recebi um olhar estranho do pequeno.
— Ar.. Que?
— É, quem constrói casas se chama arquiteto. — respondeu e ele logo balançou um dos dedos para nós dois em negação.
— Não vou fazer casa… Quando eu crescer eu vou dar comida pros peixes.
— Você quer trabalhar no mar? Igual a mim? — a mãe perguntou com um tom divertido.
— Não acredito que você vai escolher o que sua mãe faz?! — eu disse, fingindo estar indignado.
— Nem você e nem você! Vou ser sereia! — Cookie levantou meio desajeitado, tentando segurar com uma das mãos a toalha presa no corpo e foi caminhando até o mar, o que não me preocupou, porque sabia que ele nunca entrava no mar sozinho, mas sua mãe levantou preocupada para pegá-lo.
— Sereia? — ela segurou sua mão antes que ele chegasse mais perto do que deveria.
— É, da Ariel. — de repente olhou pra mim com uma cara preocupada — A mãe ainda não viu esse, logo o que tem mar, tem peixinho, plantinha igual àquela que ela trabalha! — então mudou seu olhar para — A gente pode assistir? — meu olhar foi dele até ela, esperei assim como ele uma resposta e ela veio com um aceno positivo.
— Por que que você não vai pedir pro seu avô fazer pipoca? — sugeri e logo estava ele correndo pela praia, deixando a toalha cair na areia assim como um monte de conchinhas dos bolsos.
— Se você não quiser ver o filme, tudo bem, eu converso com ele, porque sei que deve estar cansada. — percebi que ela olhava a corridinha desengonçada dele fazendo uma careta feliz.
— Não, tudo bem, eu realmente não quero que ele vá embora. — ela pegou seu celular do bolso da calça e acionou o modo da câmera, se aproximou daquele suposto castelo de areia que eles tinham construído e passou a tirar fotos — Ele é sempre assim?
— Com a gente, sim! Como eu havia te dito no carro, no meio de outras pessoas, que não conhece bem ou são estranhas, ele é muito tímido, quase como um caracol dentro casinha, na verdade até umas três semanas atrás ele não se comportava assim perto de mim. — minha fala fez com que ela me olhasse com uma expressão estranha. — Por quê? — guardou seu celular depois de bloquear a tela e deu uns passos em minha direção.
— Sobre isso e outras coisas importantes a gente precisaria conversar melhor. — aproveitei a aproximação dela e abri a toalha que restava no meu braço para fazer a mesma coisa que havia feito com — Com licença?
— Tudo bem... — ela me permitiu colocar a toalha nas suas costas, por um momento eu me achei meio bobo, porque aquilo não iria impedir o vento de bater nela e muito menos evitar o frio, mas pensei que, por ser de um tecido grosso, pudesse pelo menos quebrar um pouco do impacto do ar gelado. — Pode começar a falar.
Pisquei algumas vezes, ficando automaticamente estático ainda segurando a toalha, não sabendo exatamente como começar, porque achei que para falar aquelas coisas nós estaríamos em um ambiente diferente ou até mesmo passaria um pouco mais de tempo, ou sei lá.
— Espere, seu cabelo fica lindo, bagunçado assim, sabia? — então ela passou os dedos pelos meus fios bagunçados, um gesto espontâneo que sempre teve costume de fazer e que particularmente eu estava morrendo de saudade de sentir. — O que você realmente precisa me dizer, ?
— Eu te amo! — então foi a vez de ficar estática.

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¹처음 뵙겠습니다 /cheoum poepgesseumnida/ - É uma frase de tratamento que se assemelha com “Prazer em conhecê-lo”, mas pela etimologia a frase significa literalmente “Estamos nos vendo pela primeira vez” e dizer isso deixa implícito o ato ser uma satisfação para a pessoa. Esta expressão utilizada pela personagem é diferente da mais comum e informal - 만나서 반갑습니다 /mannaseo pangapseumnida/ - porque ela tratou Min Ji-Hyuk de uma maneira bastante polida e formal.


Continua...



Nota da autora:
Espero que tenham gostado da atualização!
Em breve voltarei com os próximos capítulos, que já estão prontos, por isso prometo que esta declaração inesperada não ficará sem uma continuação.
Até breve. <3



Outras Fanfics:
- I Know, You’re My Trouble (K-POP/ BTS — Shortfic)
- Under Ground Kings (Cantores/Restritas — Em Andamento)
- Inside Me (Originais/Restritas — Shortfic)

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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