Finalizada em 25/12/2020

Capítulo Único


“O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.”
- Carlos Drummond de Andrade


Vancouver, CB, CN


tinha conseguido convencer todos nós, exceto Jensen e Justice, a passarmos o Natal em Vancouver com a sua família e comemorarmos aqueles dias festivos com a garantia de muita comida, bebida, gargalhadas e neve. Muita neve. Não seria o meu primeiro Natal no hemisfério norte, mas estava sendo o mais congelante de todos. O Canadá ressignificou o termo inverno rigoroso para mim e, por isso, eu passava mais tempo dentro de ambientes com calefação do que conhecendo os pontos turísticos da cidade ou brincando nos parques, como James e Daniel.
Meu sangue latino e minha criação quase à beira-mar em um país tropical não estava preparado para aqueles dias gelados, nublados e com as camadas de neve que se transformavam em barro. Neve é algo muito bonito e romântico, mas descobri que faz uma sujeira sem tamanho e causa um transtorno dos infernos. Nesses dois dias que já estava em solo canadense, repensei várias vezes se ia continuar preferindo o inverno ao verão, ou se, finalmente, ia aceitar minhas origens e admitir que a estação quente, mesmo com suor e odores ruins, tornara-se minha favorita.
- O que você está fazendo? – sua voz grave preencheu o ambiente, e logo sua silhueta parou no batente da porta.
Jensen encarava-me de braços cruzados, usando calças de moletom cinzas e uma camiseta de manga curta branca, deixando à mostra sua recente tatuagem no braço esquerdo e esnobando a temperatura baixa que o dia trazia.
Exibido.
Desviei os olhos de seu corpo, evitando ficar mais tempo admirando seus braços com músculos bem definidos e ainda mais sexy com a tatuagem, e foquei a visão no filme que tinha pausado na televisão.
- Pretendo começar um filme. – respondi, cruzando uma perna sobre a outra, ainda esticadas, sob o edredom grosso.
- E o plano de ir encontrar os casais?
- E ficar de castiçal? Não, obrigada. – franzi o cenho. – Já vou ter que aguentar isso na véspera e no dia de Natal, não preciso adiantar os acontecimentos.
- Você não está vindo comigo por pura teimosia. – acusou.
- Já conversamos sobre isso. – revirei os olhos, não querendo ter a mesma discussão de novo. – Posso começar meu filme?
- Alguém está mal humorada. – Jensen sorriu e aproximou-se da cama, jogando seu corpo ao meu lado direito e apoiando a cabeça em um dos braços, encarando-me. – Nunca conheci alguém que ficasse tão ranzinza nas férias como você, principalmente nas férias de inverno.
- É o excesso de não ter nada para fazer. – retruquei, vendo seu sorriso aumentar.
- E por que você não foi para o Brasil?
- Está tentando me fazer voltar para Austin?
- Não, apenas estou perguntando seus motivos para não passar o Natal com sua própria família. – disse, ficando um pouco sério. – Duas semanas de folga do hospital me parecem tempo o suficiente para viajar para o Brasil e aproveitar um pouco por lá.
Recostei a cabeça na cabeceira da cama e soltei um longo suspiro.
- Meu irmão ficou noivo.
- E o que isso tem a ver? – Jensen franziu o cenho, aparentemente confuso. – Não está feliz por ele?
- Claro que sim, imbecil.
- Seu carinho comigo é surpreendente. – o tom irônico de sua voz fez-me sorrir para ele. – Então qual o problema?
- Além de ter que encarar horas e horas de viagem até lá, meus quinze dias de férias girariam em torno do noivado dele e eu teria que aguentar todas as minhas tias e primas me perguntando quando eu deixarei de ser a solteirona da família.
- Ah, esse é o verdadeiro problema. – ele sorriu de novo, rolando o corpo e ficando deitado de barriga para cima. – Mas você até noivou, por que continuam pegando no seu pé?
- Quase casar é sinônimo de solteirice para elas. E o fato de ter terminado o noivado para seguir meu sonho profissional não é algo que as agrade muito.
- Pelo menos você não o deixou depois do casamento e com uma filha bebê. – apesar de tentar soar naturalidade, reconheci o tom de amargura em sua voz.
- Você nunca deu um ultimato para ela, Jensen.
- O que torna tudo muito pior, não? – ele sorriu com escárnio. – Talvez se eu tivesse feito como seu ex-noivo, pelo menos, teria uma justificativa.
Suas palavras duras ressoaram fundo e não consegui pensar em nada para lhe dizer que fosse capaz de diminuir sua mágoa.
- Não se arrepende da escolha que tomou? – ele perguntou, depois de ficarmos presos naquele silêncio pesado.
- Não, nem por um segundo. – confessei.
- Por quê? – com as mãos cruzadas atrás da cabeça, observei seu rosto virar para mim e seus olhos verdes encararem-me com pura curiosidade.
- Porque estou feliz aqui. – desviei de seu olhar e passei a encarar meus dedos entrelaçados sobre meu colo.
- Mas não foi difícil largá-lo?
Entendi o que ele estava querendo saber. Através da minha própria experiência, Jensen queria buscar respostas para o que tinha passado com Danneel; entretanto, jamais conseguiria lhe dar o que procurava porque eu não era ela e porque Guilherme não era Jensen.
- Existem inúmeras razões que atenuaram meus sentimentos e me fizeram escolher ir para Austin.
- Conte-me sobre elas.
- Por que toda essa curiosidade agora?
- Nós nunca realmente conversamos sobre isso.
- E daí?
- E daí que quero saber mais sobre você.
Por um segundo, Jensen talvez tenha sido capaz de ouvir as batidas dentro do meu peito depois de dizer tais coisas.
- Por quê? – questionei.
- Porque você é uma incógnita e estou tentando te entender, sem sucesso, há meses. – mirei seu rosto e o vi sorrir em minha direção.
- Mas se eu começar a te contar tudo, que graça vai ter?
Jensen revirou os olhos, impaciente.
- Se não quer me contar, tudo bem. – disse, contrariado e levantando-se da cama num pulo.
Antes que ele saísse do quarto e me deixasse ali sozinha com sentimentos de culpa por não me abrir com ele, falei:
- Um dos motivos foi porque ele não era a pessoa certa. – o vi parar de caminhar e girar o tronco em minha direção. – Nós dois nos dávamos bem, tínhamos a mesma rotina e o sexo era bom. – reparei em como seu maxilar contraiu-se ao me ouvir naquele momento. – Mas, com o tempo, percebi que o que achei ser amor era apenas um profundo carinho.
Jensen voltou para a cama, outra vez pondo-se ao meu lado.
- Então as pequenas diferenças começaram a se tornar mais evidente. – continuei.
- Como assim?
- Nossa relação ficou automática. – dei de ombros. – Quando saíamos para um encontro, nossos assuntos nunca fugiam da medicina. Não havia mais risadas tolas ou a implicância dos apaixonados. Não passávamos de dois amigos que tinham se acomodado com a relação. – respirei fundo antes de continuar. – Quando ele me pediu para escolher entre ir para Austin e o nosso futuro juntos, a primeira coisa que me veio à mente foi: “graças a deus.”
- Não pode estar falando sério.
- Estou. – ri, nervosa e envergonhada. – Ele me deu um motivo para sairmos da inércia e acabar com tudo.
- Como pode não ter ficado triste?
- Na época eu fiquei devastada. – retornei a olhá-lo. – Senti meu eu coração quebrar em inúmeros pedaços porque achei que estava perdendo aquela pessoa que sempre ficaria ao meu lado, mesmo com o rumo que o nosso relacionamento estava tomando. Hoje consigo compreender que perdi um grande amigo e que nós dois acabaríamos separados cedo ou tarde.
- Entendi.
O silêncio recaiu sobre nós novamente e desejei saber o que ele estava pensando.
- Se o que sentia era apenas amizade, por que fazia sexo com ele e não comigo? – perguntou, de repente.
Olhei incrédula para ele, encontrando divertimento em suas írises verdes.
- Vou considerar essa sua pergunta como uma brincadeira descabida. – rebati, tentando ignorar o calor que senti em minhas bochechas.
- , estou falando sério.
- E eu sou a mamãe Noel. – revirei os olhos e afastei o edredom, jogando-o sobre ele e me levantando da cama.
- Mesmo?! – em questão de segundos, senti seus braços abraçando-me por trás, impedindo-me de chegar ao banheiro da suíte. – Porque fui um bom menino esse ano e quero meu presente de Natal.
Meu corpo arrepiou-se por inteiro ao ter sua voz sussurrada em meu ouvido e era como ser transportada para meses atrás.
- Jensen, achei que tivéssemos acordado sobre nunca falarmos sobre aquele final de semana.
- Quem está falando dele é você. – ele girou-me ainda dentro de seu abraço e nos colocou frente a frente. – Simplesmente disse que queria meu presente de Natal.
- Não vou transar com você de novo.
- Foi tão ruim assim?
- Você sabe que não. – ele fez menção de que ia retrucar, mas o impedi. – Assim como você também sabe o motivo de não fazermos sexo novamente.
Ele suspirou derrotado.
- Já que é assim, posso pedir outro presente de Natal? – cerrei os olhos, assentindo lentamente, e vi um sorriso largo se abrir em seus lábios. – Venha para Dallas comigo, vamos passar o Natal juntos.

***

Dallas, TX, EUA


Os sorrisos cúmplices de meus amigos assombraram meus sonhos durante aquelas seis horas de viagem de Vancouver até Dallas. Espantosamente, aceitou com muita facilidade a comunicação de Jensen de que eu estaria embarcando com ele para o Texas naquela noite, e, mais surpreendente ainda, foi ouvir o tom de mágoa de Thomas¹ ao dizer que tinha perdido sua chance comigo porque o ator tinha sido mais rápido. Na despedida com os parentes de , resolvi fingir demência ao ver o sorriso satisfeito de Jensen após a declaração do irmão de minha amiga.
Pousamos em solo texano no início da manhã e, enquanto o taxi nos levava até a casa de seus pais, deixei que meus pensamentos corressem livres.
Os Ackles não sabiam da minha vinda, já que meu amado amigo disse que gostaria de lhes fazer uma surpresa. Particularmente, ele queria agradar Justice, de quem estava morrendo de saudades. Compreendi seus motivos, ao mesmo tempo que buscava uma explicação lógica por todo aquele carinho que a família dirigia a mim. Depois do Halloween, Mackenzie e Donna surpreenderam-me ao me convidar para um café, onde passamos horas conversando e, por fim, trocamos nossos números. As consequências daquela tarde com as duas mulheres foi a presença constante de ambas em minha vida. Volta e meia Donna me ligava para trocar alguma ideia sobre o comportamento de Justice ou de Jensen, enquanto Mackenzie fazia questão de me mandar, pelo menos, umas quatro mensagens por dia dos mais diversos assuntos.
Diferente dos americanos que eu tinha conhecido, os Ackles foram acolhedores e amáveis desde o dia em que nos conhecemos. Assim como os atores de Supernatural que estavam presente naquela noite de dia das bruxas. Inclusive colocaram-me em um grupo de conversa cujo único propósito era irritar Jensen e Jared, o que me causava inúmeras gargalhadas pelos corredores do hospital. Particularmente, Misha e Mark eram meus favoritos porque sabiam exatamente como tirar os outros dois do sério. Provavelmente porque tinham mais tempo de convivência que os outros.
Quando alcançamos o bairro residencial onde ficaríamos hospedados naquelas duas semanas, reparei nas casas decoradas, lembrando-me de que não tinha comprado nenhuma lembrança para meus anfitriões.
- Jen, preciso ir às compras. – falei, chamando sua atenção. – Não comprei nada para a sua família.
- , não se preocupe com isso. – respondeu com um sorriso tenro. – Eles não irão se importar.
- Mas eu irei. Não posso aparecer na casa de seus pais do nada sem presentes de Natal!
O motorista, até então compenetrado no caminho, soltou uma risadinha baixa.
- O senhor não concorda comigo? – perguntei a ele, que me olhou pelo retrovisor. – Estou sendo a hóspede penetra. Não seria mal educado da minha parte aparecer sem nada?
- Creio que sim, senhorita. – o senhor me respondeu.
- Viu, ele também concorda comigo. – retruquei, olhando para o loiro.
- Ele só concordou por educação.
- Duvido. Você não concordou só por educação, não é?
- Não, senhorita.
- Viu, só?! Se não quiser ir comigo, não tem problema. Podemos te deixar com as malas na casa deles e eu sigo para o shopping center mais próximo.
- Tenho quase certeza de que as lojas não estarão abertas. – retrucou.
- É quase véspera de Natal, Jensen. É óbvio que as lojas estarão abertas para atender os desesperados como eu.
- Ela tem razão, senhor. – intrometeu-se o motorista. – As lojas do NorthPark Center estarão abrindo em poucos minutos.
Ele suspirou derrotado ao meu lado.
- Você não vai desistir, não é?
- Não. – sorri, vendo-o balançar a cabeça em incredulidade.
- Devemos dar a volta? – o motorista perguntou.
- Não, vamos até a casa de meus pais, largamos as malas e de lá vamos às compras. – explicou.
- Vai ir comigo? – perguntei, confusa.
- Vou.
- Mas e quanto a JJ? Ela deve estar louca para te ver.
- Tenho certeza de que vai estar dormindo até voltarmos.
- Jensen, você não precisa ir comigo. – de repente, senti-me extremamente culpada por afastá-lo por mais um tempo de sua família. – Fique em casa e eu volto em poucas horas.
- E deixar você passeando sozinha por Dallas?
- Por mais que eu ache muito fofa sua preocupação, estou acostumada a me virar sozinha por cidades desconhecidas. – brinquei, vendo-o revirar os olhos. – Fique em casa, curta sua filha e seus pais. Volto antes que perceba.
- Nunca consigo ganhar de você, não é?
- Não quando eu tenho argumentos infalíveis.
- Chegamos. – o motorista anunciou, encerrando a nossa boba discussão.
- Volte antes do almoço, está bem? – Jensen falou autoritário e eu concordei com um aceno, vendo-o descer do carro e, com a ajuda do motorista, pegar nossas malas no bagageiro. – , antes do almoço. E não depois.
- Sim, senhor. – foi a minha vez de revirar os olhos, vendo-o se afastar em direção à porta de entrada da casa de dois andares. Assim que o motorista retornou ao seu lugar, falei: - Ao NorthPark Center, por favor.

***


Estava me sentindo como uma pessoa rica e famosa caminhando por aquele shopping center sofisticado com inúmeras sacolas nas mãos. Além das diversas lojas de marcas mundialmente reconhecidas, o lugar possuía junto à decoração de Natal, um pequeno palco redondo onde um piano negro de cauda era tocado por um senhor usando terno. Uma outra área era reservada para exposições de arte e a que era exibida no momento eram estátuas contemporâneas de uma artista plástica francesa chamada Marguerite Humeau². Encantei-me com o trabalho dela e, mais tarde, tentaria me lembrar de procurar por outros trabalhos seus.
O som de meu celular tirou minha atenção da estátua nomeada Echo, e gelei ao ler o nome de Jensen no visor.
- , falei para você estar de volta antes do almoço.
- Mas eu ainda não almocei. – ousei, sabendo que tinha perdido completamente a noção do tempo.
- Deixe de ser engraçadinha. Estou indo aí te buscar.
- Não precisa, vai demorar o dobro do tempo. – voltei a caminhar pelos corredores daquele lugar imenso, desviando-me das pessoas e encontrando dificuldade em equilibrar o aparelho no ouvido e carregar todas as minhas sacolas. – Menos de trinta minutos estarei aí.
- Ótimo. Estamos te esperando para comer. – e desligou.
Maravilha, eu merecia ganhar um prêmio. Além de ser a convidada de última hora para o Natal deles, ainda os fazia se atrasar para comer. Onde estava minha cabeça quando tinha aceitado vir com ele?! Ah, sim, anestesiada no meio de seus braços.

Jensen


Fechei a porta com o maior cuidado, não querendo acordar meus pais ou Justice, embora desconfiasse de que minha mãe já estava na cozinha depois de sentir o cheiro do café. Deixei as malas próximo à escada e caminhei até onde o cheiro de café fresco surgia.
- Jensen! – mamãe exclamou assim que me viu cruzar o batente da porta da cozinha, vindo abraçar-me apressada e com excesso de zelo. – Que saudades que eu estava de você!
- Eu também, mãe. – respondi, correspondendo ao seu abraço.
- Você parece bem. – ela pegou meu rosto com as mãos, estudando-o com cuidado. – A menina parece estar fazendo-o feliz.
Girei os olhos, afastando-me um pouco.
- Ainda não desistiu dessa história?
- Claro que não, por que desistiria? – retrucou, rindo. – Uma mãe sempre consegue ver o que é o melhor para o filho.
- Mãe, você e só se viram algumas poucas vezes, como pode ter tanta certeza de que seríamos um bom casal?
- Uma das coisas boas de envelhecer é reconhecer as oportunidades da vida, sejam elas boas ou ruins. – ela pegou uma caneca de café, enchendo-a e alcançando-a para mim. – E a médica é uma das raras oportunidades boas que não devem ser ignoradas.
- Mudando de assunto... – interrompi. – Ela veio junto. Vai passar as festas conosco.
- Oras, e onde ela está? – perguntou, confusa, caminhando até a porta da cozinha e espiando o resto da casa.
- Foi ao shopping comprar presentes de Natal.
- A essa hora?!
- Sim, o motorista garantiu que teriam lojas abertas. – bebi um pouco do café, sentindo-me um pouco menos cansado pela viagem.
- E por que você não foi junto com ela?! Não te criei para deixar uma moça perambulando sozinha por uma cidade desconhecida.
- Também disse isso a ela, mas insistiu e disse que eu deveria aproveitar meu tempo com vocês.
Reparei no sorriso encabulado de minha mãe, enquanto ela se virava para começar a fazer as panquecas do café da manhã.
- Como eu disse, é uma oportunidade boa demais. – arqueei a sobrancelha, terminando com o líquido em minha caneca.
- Onde está JJ? Ainda dormindo?
- Sim, ela e seu pai ficaram brincando até tarde ontem. Mas acho que você deva ir acordá-la, ela vai ficar feliz em te ver.
Assenti, deixando a caneca sobre o balcão e dando um beijo em sua bochecha antes de caminhar apressado para onde sabia que minha filha estava. Ao abrir a porta do quarto que costumava ser de Mackenzie, encontrei Justice dormindo abraçada ao Nemo que tinha lhe dado de aniversário, sendo quase do mesmo tamanho que ela. Sorri com a cena, aproximando-me a passos lentos e silenciosos da cama de casal, onde me sentei próximo a ela e estudei seu rosto por algum tempo.
Seus cabelos não estavam mais tão loiros quanto os meus, tinham escurecido um pouco e crescido alguns centímetros, lembrando a tonalidade da cor bronze dos de Danneel. Contudo, seguiam lisos como os meus e orgulhei-me de reparar que ela tinha herdado de mim o formato do nariz e dos lábios, sem falar a cor dos olhos, ainda fechados. Parecia um pequeno anjo dormindo com aquele pijama rosa estrelado, abraçada ao peixe palhaço e perdida em sonhos tão profundos. Justice crescia tão rápido e longe dos meus olhos que todos os dias eu me questionava se estava fazendo o certo em mantê-la afastada durante aqueles meses.
O show estava longe de terminar, embora algumas conversas sobre encerrar as aventuras dos irmãos Winchester na décima quinta temporada tenham começado a surgir. Ainda assim, seriam mais três anos longe dela e de sua criação, e o que mais eu perderia? No próximo verão, ela fará quatro anos, idade ideal para começar a escolinha, e será que irei perder suas primeiras amizades? Os primeiros trabalhos? O primeiro dia dos pais?
Acariciei sua cabeça com delicadeza, querendo que o tempo parasse e que eu pudesse admirá-la por horas e horas. Quanto tempo ainda me restava de histórias noturnas e chás da tarde com suas bonecas? Parecia que se eu piscasse, ela já estaria entrando na adolescência e me aparecendo com um namorado em casa. Impedi que uma lágrima escapasse e me apoiei sobre ela, depositando um beijo em sua fronte.
- Hei, little bird. – soprei em seu ouvido, vendo-a se remexer abaixo de mim. – Está na hora de acordar. – ela resmungou, tirando um sorriso de mim. – Little bird, vou cantar para você.. – brinquei, e ela resmungou de novo. – Talking to the songbird yeaterday, flew me top lace not far away...
- Gru, quero dormir. – ainda de olhos fechados, Justice me empurrou para longe.
- She’s a little pilot in my mind, singing songs of love to pass the time… - continuei, agora começando a lhe apertar a barriga, despertando-a aos poucos. – Gonna write a song so she can see, give her all the love she gives to me..
- Gru! – ela abriu os olhos, afastando minhas mãos e se sentando. – Gru?!
Sorri, achando graça de sua confusão quando finalmente pareceu acordada para entender que eu estava realmente ali.
- Gru! – Justice atirou-se em meus braços, abraçando-me pelo pescoço fortemente.
- Senti sua falta, little bird. – beijei novamente sua fronte, apertando-a contra mim.
- Eu também! – ela disse e, quando a afastei para encarar seus orbes, percebi seus olhos um pouco marejados.
- Hei hei, por que está chorando?
- Muitas saudades. – respondeu, fazendo bico.
- Estou aqui e vou ficar vários dias do seu lado. – acariciei seus cabelos, tentando alinhá-los um pouco. – E trouxe uma surpresa para você.
- Mesmo?! – seus olhos verdes brilharam com a notícia.
- Mesmo, mas você só vai receber na hora do almoço. – assisti um bico se formar em seus lábios e considerei contar sobre a presença de antes da hora, mas sabia que seria muito mais legal se eu não fosse impaciente. – O que achar de descermos e comermos as panquecas de blueberry da vovó?
- Sim! – ri com sua empolgação, pegando-a no colo e voltando para a cozinha.

***


- Ela disse que vai chegar em menos de trinta minutos. – comuniquei aos meus pais depois de desligar o celular.
- Minha surpresa, Gru? – JJ perguntou de onde estava sentada na frente da lareira.
- Ela mesma. – acariciei outra vez seus cabelos, deixando-a entretida com as bonecas.
- Gosto bastante dessa moça. – meu pai falou, sentado na poltrona bebendo um copo de whisky com uma perna cruzada sobre a outra.
Arqueei a sobrancelha, sentando-me na poltrona à sua frente e esperando uma explicação.
- Ela te tira da zona de conforto. – continuou ele. – É uma moça simples e bastante inteligente.
- Sem contar que mesmo com a rotina pesada, ela sempre encontra uma forma de ficar com quem ama. – minha mãe complementou, sentando-se no sofá posicionado entre as poltronas.
Percebi a crítica a respeito de Danneel, e optei por ficar calado.
- Que moça? – Justice perguntou do chão, olhando-nos curiosa.
- Uma moça muito especial. – minha mãe respondeu, sorrindo.
- Lucy? – JJ tentou de novo, e, sem perceber, sorrimos por sua astúcia. – Gosto da Lucy.
- Nós também, querida. – meu pai disse, olhando-me com divertimento. – Seria bom se ela entrasse para a família, não?
- O que você acha de ter uma mamãe, JJ? – estreitei os olhos perante a pergunta de minha mãe, não gostando daquela intromissão.
- Só a Lucy. – minha filha deu de ombros e voltou a se concentrar nas bonecas.
Levantei-me irritado, achando falta de educação e de limites de meus pais. Uma coisa era eles, Mackenzie e todos os meus amigos conspirarem para nos verem juntos, outra coisa bem diferente era eles começarem a colocar ideias na cabeça de minha filha.

***


- Lucy! – o grito estridente de Justice no andar debaixo fez-me levantar da cama de Mackenzie, onde tinha decidido me esconder, e descer as escadas.
- Surpresa! – disse, sorrindo sem graça e recebendo o abraço empolgado de minha filha.
- Você está atrasada. – falei, sério, reparando nas inúmeras sacolas que recaiam ao seu lado.
- Desculpe. – ela respondeu, ainda agachada e abraçada a Justice. – Tem certeza de que você é a Justice?
Assisti ela se afastar um pouco de JJ e olhá-la curiosa, mas com um sorriso ladino.
- Sim, Lucy, sou eu!
- Mas você está tão grande!
- Mas sou eu, sou eu! – ela insistiu, manhosa, e, mesmo de costas, sabia que ela estava com um bico manhoso em seus lábios.
riu, abraçando-a outra vez.
- Está bem, você me convenceu. – Justice riu, e a abraçou de novo.
- , seja bem vinda. – minha mãe falou, parada a menos de um metro delas, com meu pai abraçando-a pelos ombros.
- Donna, Allan, muito obrigada por me receberem aqui. – disse, levantando-se e puxei Justice para meu colo. – Desculpem aparecer sem aviso.
- Deixe de ser boba. – foi a vez dos meus pais se aproximarem e a abraçarem, e seu rosto corou de vergonha.
Após a recepção calorosa e depois de colocar as compras dela no quarto onde ela ficaria aqueles dias, minha mãe a puxou para a cozinha e as duas se entreteram com conversas sobre as tradições brasileiras nas festas de final do ano. Quando o almoço foi servido na sala de jantar, elas conversavam animadas com Justice seguindo-as e intrometendo-se nos assuntos, até que desviou sua atenção totalmente para a pequena, que começou a tagarelar sobre seus últimos dias. Junto com meu pai, nós dois apreciávamos divertido as duas mulheres explicarem para Justice onde as renas moravam e porque ela não poderia andar em uma quando o papai Noel aparecesse na noite seguinte, mas que talvez ela conseguisse vê-las pelas janelas.
A tarde transcorreu da mesma forma: parecíamos, de fato, uma família. E, no momento em que Mackenzie e Joshua souberam que eu tinha trazido , meus irmãos com seus respectivos pares e crianças apareceram para tumultuar nossa tarde. Gabe e Juliet, meus sobrinhos e filhos de Joshua, desenharam com Justice e depois brincaram juntos na neve. Minha irmã juntou-se à minha mãe e Rachael e bombardeou com inúmeras perguntas sobre seu país natal e o que podíamos fazer para tornar o nosso Natal um pouco mais brasileiro. Enquanto a médica falava sobre a salada de repolho e sobre um tal de arroz à grega, explicando como se fazia, eu, meu pai, Adam – o namorado de Mackenzie e Joshua ficávamos com um olho nas crianças e outro na reprise da Super Bowl de 1987.


Desde que entrara pela porta daquela casa de dois andares e senti o clima acolhedor, não consegui um momento de paz e silêncio para digerir o que estava acontecendo. Eu largara mesmo Vancouver somente por que Jensen tinha me pedido ou alguma expectativa tinha sido criada em minha mente?
Fechei a porta do quarto que me foi destinado e pude, finalmente, reparar na decoração. Era o antigo quarto de Jensen e estava cheio de recordações de sua adolescência. A tinta azul escuro das paredes combinava perfeitamente com os móveis de madeira clara. Abaixo da janela com vista para o quintal, havia uma escrivaninha e, ao seu lado, uma estante com livros diversos. Aproximei-me dela, reconhecendo alguns autores e encontrando exemplares de física e matemática. Franzi o cenho, tentando imaginar um Jensen adolescente carregando aqueles volumes em uma escola tipicamente americana.
Dei meia volta e reparei que ao lado da porta do quarto havia uma cômoda de madeira com enormes gavetões e uma televisão sobre o tampo, de frente para a cama de casal. Do outro lado do quarto, um armário médio preenchia a parede, e uma pequena poltrona encaixava-se no canto. Algumas estantes aéreas estavam penduradas na parede da cabeceira da cama, e, nelas, troféus de futebol americano e fotos de eventos escolares.
Sorri, aproximando-me das fotos. E pensar que ele tivera uma infância americana tão típica.
Será que ele tinha sido o rei do baile de formatura? Capitão do time de futebol?
Será que seu primeiro amor fora uma líder de torcida ou uma nerd de biblioteca?
Ri dos meus próprios pensamentos clichês e sentei-me na cama. Enfim, um pouco de silêncio.
O que eu estou fazendo?
Passei a mãos nos cabelos, evitando de suspirar pela milésima vez naquele dia.
Treze dias com os Ackles. Como foi que isso aconteceu?
Bufei irritada com minhas confusões mentais e levantei-me, decidida a tomar um banho e depois aproveitar o silêncio da casa para ver um filme embaixo das cobertas. Donna e Allan tinham saído para visitar um amigo hospitalizado, Mackenzie e Adam falaram que iam encontrar alguns amigos, Joshua, Rachel e as crianças voltaram para casa, enquanto Jensen estava dando banho em Justice na suíte de seus pais.

***


- Thomas Crown Affair³? – pulei de susto no sofá, ouvindo uma risadinha atrás de mim antes de seu corpo aparecer ao meu lado.
- Você está querendo me matar do coração?
- Não, longe disso. – ainda rindo, ele sentou-se ao meu lado, na ponta esquerda do sofá e, imediatamente, aquelas lembranças vieram assombrar minha mente. – Não sabia que gostava desse filme.
- Eu amo esse filme. – disse displicentemente. – Além dos atores e dos diálogos, ele tem uma das melhores cenas de sedução do cinema.
Ele não disse nada, apenas concordou com um aceno e puxou um pouco da coberta para si. Seu corpo ficou terrivelmente próximo ao meu, da mesma forma que tinha acontecido naquele final de semana em Austin, e comecei a torcer para que ele não fosse capaz de ouvir o ritmo descompassado do meu coração.
- Vai me fazer companhia? – ele assentiu. – E onde está Justice?
- Dormindo, acho que se cansou demais depois da tarde agitada. – sorri ao reconhecer o carinho típico em sua voz toda a vez que falava da filha. – Obrigado por ser sempre tão gentil e verdadeira com ela.
- Sabe que não precisa agradecer por isso.
- Preciso sim, você não tem nenhuma obrigação de passar o tempo lhe dando atenção.
- Ackles, entenda uma coisa. – virei o tronco para ele, olhando-o. – Sua filha tem meu coração desde que quis enrolar meu cabelo quando nos conhecemos. Jamais vai ser uma obrigação para mim ficar com ela, faço isso porque gosto.

Jensen


Incrível como suas palavras espontâneas e sinceras repercutiam com tanta força dentro de mim. Sem tentar me conquistar, sempre parecia dizer as coisas certas, nas horas certas. E todos os dias, sem exceção, que estávamos juntos, ela me surpreendia de alguma forma. Fosse com uma declaração como a recém feita, fosse com um sorriso maroto acompanhado do tradicional revirar de olhos.
- Podemos? – ela perguntou, indicando com a cabeça com o filme pausado no streaming.
- Pode.
Ela assentiu e se ajeitou no sofá, para em seguida dar play no filme.
Tê-la ao meu lado, mesmo tão próxima, não era o suficiente e mesmo entretidos na história que se desenrolava na tela, puxei para perto, e automaticamente ela repousou sua cabeça em meu ombro enquanto a abraçava pela cintura. Sorri satisfeito. Bem melhor assim.


Os primeiros meses depois daquele nosso final de semana foram incrivelmente difíceis para mim e, se não fosse por Ezra me atolar de cirurgias complexas, eu teria perdido a cabeça com as memórias e sensações daqueles dois dias. Depois das férias de verão, as coisas ficaram mais fáceis, já que ele precisou voltar para Vancouver para seguir as gravações da nova temporada, enquanto eu tocava minha vida em Austin. De agosto em diante, nos encontramos pessoalmente em poucas ocasiões, e todas sempre com mais pessoas à nossa volta. Era a primeira vez em semanas que conseguíamos ficar realmente sozinhos em uma situação mais íntima.
Minha racionalidade queria manda-lo para o quarto de JJ, pedir que ele respeitasse os limites e não me abraçasse daquela forma; entretanto, a lembrança de seus lábios em meu corpo e de todas as sensações que ele causava em mim gritavam para que nós dois repetíssemos o que fizemos meses atrás.
Iludi ao pensar que Steve McQueen³, em um dos meus filmes favoritos, fosse conseguir captar minha atenção o suficiente para me fazer esquecer que o homem que eu amava estava sentado ao meu lado, relaxado, exalando aquele maldito perfume de loção pós barba e me segurando com tanta proteção e carinho. De imediato, não percebi o exato momento em que ele me abraçou e me colocou tão próxima de si. Foi somente quando Faye Dunaway³ caminhou despreocupadamente pela biblioteca e parou para admirar o tabuleiro de xadrez, pouco antes da melhor cena começar – na minha opinião, e quando senti sua mão apertar minha cintura.
- Você joga? – mordi o lábio, ansiosa pela cena que se desenrolaria, mas, principalmente, por sentir seu calor contra o meu corpo.
- Experimente.
Apertei, inconsciente, sua perna ao mesmo tempo em que a cena de xadrez e sedução se desenrolava na televisão. Senti um arrepio na base da coluna percorrer meu corpo quando sua mão foi para dentro da minha blusa e começou um carinho sutil em meu quadril. Respirei lentamente, evitando olhá-lo até que senti sua mão ficar mais ousada, aproximando-se do meu umbigo e descendo lentamente.
Dois podem jogar esse jogo, pensei, inclinando minha cabeça para o lado oposto à sua, deixando meu pescoço exposto, sabendo que isso atiçaria sua atenção. Pude sentir seu olhar no lugar em que ele tinha confessado achar sexy demais para ficar à mostra, e, marotamente, apertei outra vez sua coxa, para, então, arranhar a mesma sobre o tecido da calça em direção a sua virilha, parando próxima a ela.
Senti seu hálito bater em minha nuca, e sua mão brincou com o elástico da parte de baixo do meu pijama. Controlei a enorme vontade de fechar os olhos e aproveitar tudo o que ele estava despertando em mim apenas para provocá-lo mais. Conhecia Jensen o suficiente para saber que quanto mais tempo eu mantivesse meus olhos fixos na televisão, mais tentado ele se sentiria.
Não me enganei quando ele ousou, passando a mão por dentro da barra da minha calcinha e riu baixo, porém satisfeito, quando pressionei uma perna contra a outra, numa tentativa de ainda esconder o prazer que seu toque estava atiçando em mim. Finalmente virei o rosto para ele, encontrando o seu a centímetros do meu, e perdi o ar com a mesma intensidade que perdi a razão quando nossos olhares se encontraram. Antes que eu pudesse reagir a ele, seus dedos alcançaram minha intimidade e o vi fechar os olhos de prazer ao me sentir encharcada com seus carinhos.
Arfei e inclinei meu corpo em sua direção, buscando seu membro sob a calça e sentindo-o latejar entre meus dedos. Jensen abriu os olhos e com uma habilidade sobrenatural, colocou-me sentada sobre si. Não precisamos trocar uma única palavra para explicar o que estava acontecendo ali, sabíamos mais que não éramos os mesmos há algumas semanas, assim como conseguimos postergar o que queríamos repetir há tanto tempo. Tentamos estabelecer limites e fingir apenas amizade, e, por alguns meses conseguimos graças à distância, mas quando estávamos juntos o mundo parecia preencher-se de tensão sexual e eletricidade. Na verdade, mal víamos a hora de ceder ao desejo de nossos corpos juntos outra vez.
Ainda sustentando nosso contato visual, suas mãos voltaram à minha cintura e resmunguei quando não o senti mais dentro de mim, vendo-o sorrir ladino. Ele tirou a parte de cima do meu pijama, deixando-me nua do quadril para cima.
Naquele momento não me importei que estávamos na sala de estar da casa de seus pais, ou que Donna e Allan pudessem voltar a qualquer momento. Não me importei com Justice que poderia descer as escadas e nos encontrar naquela situação. Tudo o que existia era ele, e tinha certeza que eu era a única coisa que ele pensava, porque seus olhos me diziam isso.
Éramos outra vez apenas Jensen e , um homem e uma mulher que se conheciam do avesso e que compartilhavam uma cumplicidade pouco vista. A minha frente estava o homem por quem eu era apaixonada há seis anos e o meu melhor amigo. O homem que conhecia todas as minhas imperfeições e, ainda assim, parecia fascinado com o que via em mim.
Toquei seu rosco com as mãos e aproximei nossas testas, de forma que nossos lábios se encostaram lentamente, um pouco receosos, mas não menos sedentos um pelo outro. Estávamos nos encontrando novamente e a sensação era absurdamente boa demais. Nossos corpos colaram-se e pude sentir todo o seu desejo pulsar perto do meu quando gemi entre o beijo ao sentir seu toque em meu seio.
- Allan, não esqueça de pegar as uvas-passas! – a voz estridente de Donna, vindo do jardim, rompeu a nossa bolha e, antes que ela abrisse a porta e nos pegasse naquela situação, saí de cima de Jensen, peguei minha blusa do pijama e a vesti, sentando-me ao seu lado e respirando fundo, tentando recuperar o fôlego enquanto fingia prestar atenção no filme.
- Não acredito nisso. – ele resmungou, jogando a cabeça para trás depois de passar as mãos nos cabelos e bagunça-lo.
- Calado.

***


Logo após a chegada de Donna e Allan, terminei de assistir o filme automaticamente e pude sentir os olhares de Jensen sobre mim a todo momento. Assim que os créditos apareceram, desejei boa noite a todos e subi rapidamente com as cobertas em mão. Atirei-me na cama após fechar a porta com cuidado e não sei quanto tempo fiquei me revirando até ouvir batidas suaves na mesma. Sentei-me, alerta.
- Sim? – perguntei receosa.
Uma fresta se abriu e a cabeça loira de Jensen apareceu, com um sorriso tímido.
- Posso entrar? – perguntou, e assenti.
Ele fechou a porta atrás de si e trancou-a. Arqueei a sobrancelha, curiosa e nervosa com tudo aquilo.
- Qual o motivo para ter trancado a porta?
- Acho que precisamos terminar o que começamos lá embaixo. – seu olhar malicioso descompassou meu coração e trouxe de volta a excitação que tentei controlar durante aqueles minutos finais do filme.
- Você está louco?! – sussurrei, soando um pouco histérica, quando ele se aproximou. – Seus pais estão do outro lado do corredor e Justice no quarto da frente!
- Simples, a porta está trancada e você não poderá fazer muito barulho.
Quis me enfiar embaixo das cobertas e me esconder do mundo depois do seu comentário, tamanha a vergonha que senti, mas, ao invés disso, peguei um dos travesseiros e arremessei em sua direção. Jensen desviou, rindo e aproximou-se rapidamente da cama, pondo-se de joelhos e segurando-me pela nuca, colando nossos lábios com urgência.

Jensen



- Prometo não contar à sua mãe onde você passou a noite se me ajudar a pendurar as renas no telhado da garagem. – congelei ao ouvir a voz divertida de meu pai do outro lado do corredor.
Terminei de fechar a porta do quarto de e, por fim, o encarei, sentindo-me, novamente, um adolescente que foi pego no flagra.
- Não sei do que você está falando. – tentei desconversar.
- Ah, não? – ele riu, aproximando-se. – Saindo do quarto dela antes dos outros acordarem, sem a parte de cima do pijama apesar do frio e com interessantes arranhões nos ombros?
Depois de vinte anos era constrangedor ser pego naquela situação por meu pai, e mais embaraçoso ainda era ouvi-lo dizer tais coisas e saber que, pelo resto de nossa estadia ali, ele faria inúmeras piadas para mim.
- Só vou tomar um banho e me agasalhar e já desço para ajudar o senhor.
- Sempre um garoto esperto. – ele piscou, ainda sorrindo divertido.

***


O dia passou tumultuado sem que eu ou pudéssemos ficar um minuto sozinhos. Além de ajudar a pendurar as renas iluminadas no telhado da garagem para que Justice pudesse vê-las das janelas, nós dois fomos ainda escolher o pinheiro de Natal. Minha mãe gostava de pegá-los sempre no dia da véspera, quando o cheiro natural e amadeirado preenchia a sala junto com os outros odores de lenha queimando e comidas no fogo. Era, de fato, uma atmosfera especial.
Enquanto realizávamos essas tarefas, minha mãe resolveu ensinar a fazer a torta de maçã da família, e Justice observava as duas com fascinação sentada no seu banquinho da cozinha. Elas passaram a manhã organizando e preparando as comidas para a ceia, parando apenas para o almoço e, depois, para decorar a árvore.



- Isso, agora para o crumble, você precisa misturar a manteiga, a farinha, o açúcar e as castanhas rapidamente. – Donna falou, instruindo-me sobre a torta de maçã. – Lembre-se de que a mistura não precisa ficar uniforme.
- Entendido. – respondi, seguindo suas ordens.
- Eu quero. – Justice falou, sentada em sua cadeirinha e com os olhos grudados em mim.
- Mais tarde, passarinho. – respondi, e seu semblante ficou confuso ao ouvir a palavra em português.
- O que é pas..inho? – ela tentou, arrancando um sorriso de mim.
- Pas-sa-ri-nho. – repeti devagar, vendo-a tentar me imitar. – É little bird na língua do meu país.
- Pas..inho. – tentou outra vez, concentrada nos sons. – Pasrinho..
- Sabe, ela vai ficar um bom tempo repetindo até aprender. – Donna cochichou em meu ouvido, divertida, e assenti. – Vocês duas se dão tão bem.
- Justice é um tesouro, é impossível conhecê-la e não se apaixonar. – respondi automaticamente, mas sendo sincera com cada palavra.
Donna riu e voltou à sua tarefa: terminar de fazer o recheio do peru antes de colocá-lo no forno por algumas horas.
- Lucy.. – Justice resmungou, manhosa, e levantei meus olhos para ela. – Quero comer.
- Mas você comeu faz pouco tempo. – olhei para a senhora que mantinha o sorriso nos lábios.
- A torta! – retrucou a pequena.
- Ah.. a torta é só para a noite, mas... – girei o corpo procurando alguns ingredientes ao meu redor e sorrindo satisfeita ao encontrar as latas de leite condensado que comprara no dia anterior. – Se você se comportar, vou fazer um doce muito, muito, gostoso para o almoço.
Os olhos verdes brilharam de expectativa, enquanto ela sorria e voltava a se concentrar nas suas massinhas de modelar em suas mãos.
- Estou curiosa sobre os doces brasileiros, como é mesmo o nome?
- Para a janta vou fazer o pudim, mas para o almoço, algo mais rápido: brigadeiro.
- Pudim? – ela pareceu surpresa, e acenei concordando. – Que estranho, pudim no Natal. Mas o brigdeiro. – fingi não ter reparado no erro em sua pronuncia. – Nunca comi, apesar de ser bastante famoso.
- Pois então hoje irá comer. – brinquei. – Vai ser a primeira vez que faço ele aqui nos Estados Unidos, já estava na hora de compartilhar um pouco da minha cultura com vocês.
À medida que as horas da manhã foram passando, nós duas conversamos sobre diversos assuntos. Desde minha família e meu país, até a história da família deles e a infância e adolescência de Jensen. Deliciava-me saber mais sobre cada um deles, contudo, cada detalhe a mais sobre o ator enchia meu coração de carinho.
Ainda não tinha assimilado corretamente o que tínhamos feito na noite anterior, parecia surreal demais, e, quando não o encontrei ao meu lado, presumi que manteríamos segredo de todos. E, com ele fora de casa, foi fácil me entreter em outras coisas e evitar pensar em seus lábios sobre meu corpo. Entretanto, quando ele e Allan chegaram com flocos de neves nos casacos, carregando um enorme pinheiro e os colocando no local indicado da sala de estar, meu coração parou novamente.
Aquela cena poderia se repetir para sempre, e eu poderia me acostumar com novos Natais naquela casa ao lado daquelas pessoas, ao lado dele.
Almoçamos os lanches que os dois trouxeram e Donna me liberou para ajudar Jensen a decorar a árvore, uma tradição que ele fazia desde pequeno e que estava ensinando JJ a fazer o mesmo. Enquanto ele abria as caixas de enfeites e Justice retirava empolgada as decorações de dentro dela, recostei-me sobre o braço do sofá, admirando a cena.
- Está parada aí por quê? – ele perguntou, parando o que fazia para me olhar.
- Não quero atrapalhar a tradição de vocês.
- Deixe de ser boba, venha cá. – agachado em frente àquelas caixas, Jensen estendeu-me a mão com um sorriso carinhoso. – Quero você aqui.
Assenti e peguei sua mão, não controlando o hábito de morder o lábio pelo embaraço que seu olhar me causou.
- Lucy! – Justice exclamou, segurando um enfeite de pássaro branco nas mãos e com os orbes brilhando. – Pasinho!
Ri, assentindo e me aproximando dela.
- Pas-sa-ri-nho. – repetiu comigo, e ela o fez, pronunciando corretamente dessa vez. – O que acha de colocá-lo bem no alto? – ela assentiu, e a peguei no colo, levantando-a para que pendurasse o enfeite em um galho mais alto.
- Passarinho voa! – disse, rindo-se toda orgulhosa.

Jensen


Completamente surpreso, assisti a cena se desenrolar bem diante de meus olhos. Justice Jay e sempre se deram bem, mas aquela cumplicidade acompanhada de carinho no semblante das duas, foi um choque para mim. De forma alguma encarava a amizade das duas como algo ruim, pelo contrário. A forma como minha filha olhava com admiração e amor para a médica, sendo retribuída com a mesma intensidade, encorajava-me a tomar uma atitude a seu respeito e a mudar o tipo de relação que temos.
- Perdi alguma coisa? – perguntei, depois que colocou Justice no chão.
- Little bird é passarinho. – JJ falou, pegando outros enfeites e os distribuindo pelos galhos mais baixos.
riu, aproximando-se de mim outra vez.
- A chamei de passarinho hoje de manhã, tradução em português de little bird. – ela explicou, e assenti.
Passamos o resto da tarde arrumando a árvore de Natal e perdi a conta de quantas gargalhadas demos com Justice ou quantos toques roubados tive com . Qualquer movimento era desculpa para tocar sua pele e ficar próximo. Eu estava extasiado e viciado por ela, e mal via a hora para tê-la, outra voz, presa entre meus braços.

***


- Lucy... – JJ chamou enquanto subíamos as escadas para nos arrumarmos para a ceia. parou no degrau acima e nos olhou. – Me arruma?
- JJ, não vamos dar trabalho para a , ok? – falei frente à falta de reação dela e beijando o topo da cabeça de minha filha.
- JJ, claro que eu te arrumo. – um sorriso radiante iluminou seu rosto. – O que acha de fazermos tudo juntas?
- Sim! – Justice soltou o abraço de meu pescoço e estendeu os braços em direção da médica, que a pegou no colo.
- , não precisa. – tentei, sendo calado apenas com um olhar. – Certo, vou deixar a roupa dela em cima da cama do teu quarto.
assentiu e terminou de subir os degraus com cuidado, pedindo que Justice a esperasse no banheiro enquanto pegaria tudo o que precisava. JJ correu empolgada até o cômodo no final do corredor e, assim que vi a médica adentrar no quarto, a segui, abraçando-a por trás.
- Jensen.. – ela inspirou, estremecendo em meus braços.
- Posso tomar banho junto com vocês? – sussurrei em seu ouvido.
- Claro que não. – disse, afastando-me e pegando as toalhas.
- Mas não vou ver nada de novo. – insisti, divertido em ver suas bochechas coradas.
- Não. – antes que pudesse retrucar, ela virou-se no batente da porta, dessa vez com brilho de divertimento nos olhos. – Se você se comportar hoje, quem sabe, mais tarde, eu deixe minha porta destrancada.
Ela piscou, deixando-me sozinho e atônito com sua declaração. nunca tomava a iniciativa e vendo-a fazer isso agora amadurecia a ideia de segurança e cumplicidade que tínhamos.

***


- Onde está minha pequena estrela cadente?! – Mackenzie perguntou, parada na sala de estar, com Adam ao seu lado.
- Se arrumando com a . – minha mãe respondeu.
- Oh! – as três mulheres – uma vez que Joshua, Rachel e as crianças tinham chegado junto com minha irmã, trocaram olhares divertidos e dirigiram-se para a cozinha.
- Quando vai ser o casamento? – Joshua brincou, sentando-se no sofá.
Meu pai aproximou-se com um copo de whisky para cada um de nós e depois sentou-se em sua poltrona.
- Não sei, Adam quem tem que nos dizer. – retruquei, sentando-me no outro extremo do sofá, vendo meu cunhado, totalmente acanhado, fazer o mesmo na poltrona remanescente.
- Não estou preparado para ver Zie se casando. – Joshua falou. – Estava me referindo a você e mesmo.
Revirei os olhos e bebi um gole do whisky, sentindo o líquido queimar a garganta e esquentar meu corpo e preferindo ignorar aquele comentário.
- Isso porque você não os viu hoje à tarde, arrumando a árvore. – meu pai provocou.
- O quê?! – Joshua empertigou-se no sofá, olhando-me como se eu fosse um extraterrestre. – Você deixou outra pessoa além de JJ arrumar a árvore?! Você nunca deixa ninguém se aproximar!
- Mas deixou . – meu pai respondeu por mim. – Tenho até umas fotos para provar.
- Fotos?! – olhei para meu pai que estendia o celular para meu irmão mais velho e vi os dois se divertindo às minhas custas. – Quando que você tirou fotos nossas?
- Você esquece que estou casado com uma mulher muito engenhosa. – bufei ao descobrir que meus pais passaram a tarde nos espiando e registrando momentos nossos.


Terminei de escovar os cabelos de Justice e coloquei a presilha em força de laço neles, impedindo que sua franja caísse sobre seus olhos.
- Uau! – ela disse, quando paramos em frente ao espelho interno do armário de meu quarto.
- Estamos muito bonitas, né? – sorri para ela pelo reflexo, que me sorriu de volta. – Pronta para descer?
- Sim! – ela pegou minha mão e começou a me puxar para fora do quarto.
- JJ, não caminhe tão rápido ou vamos cair. – alertei, tentando não tropeçar na barra do vestido com aqueles saltos.
- Lucy.. – ela disse, descendo o primeiro degrau. – Pode me arrumar sempre?
- Claro que sim, sempre que você quiser.
- Papai é muito atrapalhado. – ela dizia, descendo os degraus com cuidado e segurando o corrimão com sua mão direita, e com a outra a minha.
- É mesmo? – perguntei, divertida.
- Sim... – descemos o último degrau juntas. – Ele sempre troca minhas meias. Diz que é legal.
Não soube dizer se foi o bico manhoso, a reclamação ingênua ou imaginar a cena de Jensen colocando meias trocadas em Justice de propósito que me soou tão engraçada, talvez fosse todas as alternativas. Só percebi que tinha gargalhado com o comentário dela quando senti os olhos dele sobre nós.

Jensen


O barulho de saltos na escada interrompeu nossa conversa e fez-me girar o tronco para não perder a cena. Justice descia as escadas falando algo e bastante concentrada nos próprios passos. Ela usava um conjunto de saia e suéter de lã xadrez preto e branco, com um sapatinho preto e um laço preso nos cabelos, completamente adorável. Corri os olhos até sua mão que segurava a de e estudei a médica, exuberante no vestido verde longo, de mangas longas e uma fenda frontal comportada e, ao mesmo tempo, terrivelmente sexy.
- Alguém pega o babador. – Josh provocou, fazendo meu pai e Adam rirem baixo.
Quando gargalhou de algo que JJ lhe disse, foi como se um raio de lucidez tivesse me atingido e iluminado todo o meu ser. Rapidamente tudo o que tínhamos vivido juntos, desde o nosso primeiro contato naquele festival, nosso reencontro, os meses afastados, nossa amizade até nossas carícias mais recentes, passou como um filme em minha mente.
Ela sempre estivera em minha vida, mesmo com quilômetros e alguns anos nos separando, permaneceu assombrando minha mente. E agora ela estava ali, rindo descontraída com minha filha a poucos metros, parecendo tão natural ao nosso lado e tão dona de si, captando meu olhar a qualquer movimento e fazendo coração bater descompassado. Ao cruzar seu olhar com o meu e notar o rubor em sua face, entendi que estava apaixonado por ela.

***


- Nunca pensei que fosse gostar de uvas-passas na comida. – Rachel comentou, repetindo a porção do arroz à grega preparado por . – Esse seu arroz está delicioso!
- Obrigada, Rachel. – disse, sorrindo sem jeito.
- Isso porque você não comeu o doce de hoje de tarde. – mamãe implicou.
- O que você fez? – Mackenzie perguntou curiosa, olhando para sentada do outro lado de Justice.
A ordem da mesa retangular era: meu pai na cabeceira com minha mãe ao seu lado direito, depois Mackenzie, Adam, Gabe e Juliet. Joshua encabeçava a outra ponta, com Rachel em seu lado direito, , JJ e eu.
- Brigadeiro. – ela respondeu.
A boca escancarada de Mackenzie me deu vontade de jogar uvas-passas nela, porque a sua dramatização era impagável.
- E eu perdi isso?! – Zie se queixou.
- Nós perdemos. – Josh completou, ranzinza.
- Vocês perderam. – meu pai provocou, rindo.
- Posso fazer amanhã se quiserem. – ela sugeriu, sem jeito.
- Amanhã não passaremos com vocês. – Rachel anunciou e Zie concordou com um aceno. – Mas você não volta para Austin sem fazer para a gente o doce brasileiro mais famoso do mundo.
- Brideiro? – Justice interrompeu, levantando a cabeça do prato e nos olhando. – Lucy, você vai fazer brideiro de novo?!
- Hoje não, querida, outro dia. – ela acariciou os cabelos de Justice, e meus olhos vagaram de sua mão até as pernas cruzadas sob a mesa, destacando a fenda.
- Ah... – Justice resmungou, voltando a prestar atenção na própria comida.
- Parece que você tem uma fã. – minha mãe brincou, e sorriu tímida.
- Eu diria que são fãs, no plural. – Josh provocou, me lançando um sorriso ladino.
Foi a minha vez de ficar com vergonha, já que as tentativas de minha família em nos ver juntos tornaram-se explícitas. Mas que culpa eles tinham se perceberam antes de nós dois o que estava bem a nossa frente?



O álbum do concerto de Natal dos Três Tenores preenchia o ambiente após o jantar, e as vozes de Plácido Domingo, Luciano Pavarotti e José Carreras conseguiram acalmar um pouco meu coração. Desde que Jensen me encarara com tanta profundidade após descer as escadas com Justice, reparei que fui o alvo de sua atenção por toda a noite. Estava consciente de que o vestido que escolhera realçava meu corpo, mas era mais do que desejo que via em seus orbes verdes.
Na noite passada, os mesmos olhos me transmitiram paixão e carinho, nada além do que eu já estava acostumada a ter dele; entretanto, um brilho diferente e muito mais intenso os iluminava, algo semelhante com o que eu via acontecer entre e Jared ou Daniel e James.
A ideia de que Jensen poderia estar nutrindo algum sentimento mais forte por mim deixou-me desconcertada por toda a ceia e, em diversos momentos, precisei usar a desculpa de que estava com saudades de minha família quando não notava que me incluíam na conversa.
- Você está quieta. – ele sentou ao meu lado no sofá, onde observava Donna e Allan dançarem juntos no lugar onde a mesa de centro costumava ficar durante o ano. – Não quer ligar para eles?
Precisei de uns segundos para entender que por eles, Jensen queria dizer minha família. Pelo visto ele também acreditara em minha desculpa.
- Falei com eles mais cedo, lá são três horas na frente. – expliquei.
- Então por que segue quieta? Aconteceu alguma coisa? – seu tom preocupado acendeu um sinal de alerta em mim.
- Estou bem, Jensen. – sorri, tentando lhe acalmar. – Apenas estou processando tudo o que está acontecendo.
- Não pense demais, consigo ver as engrenagens de sua cabeça quando faz isso. – brincou. As vozes dos cantores foram substituídas por uma melodia mais animada, que não reconheci, mas que fez Jensen sorrir largo. – Vem, vamos dançar.
Antes que eu pudesse dizer não, ele pegou minha mão, levantando-me com facilidade e girando-me antes de enlaçar minha cintura com uma de seus braços e segurar minha mão com o outro. Nossas pernas entrelaçavam-se, nossos hálitos misturavam-se e nossos olhares estavam focados um no outro, nos deixando alheios do mundo. O brilho ainda estava presente e o seu sorriso ladino davam-me a certeza de que Jensen queria me dizer alguma coisa.
- Vai deixar a porta destrancada essa noite? – ele sussurrou em meu ouvido, no momento em que descansei a cabeça em seu ombro.
Mackenzie piscou arteira para mim enquanto dançava com Adam, já Joshua e Rachel, assim como Donna e Allan, estavam perdidos em suas próprias bolhas.
- Você quer que eu a deixe destrancada? – soprei contra seu pescoço, vendo os cabelos em sua nuca se arrepiarem.
- Gru! Gru! – Justice gritou, e nos afastamos rapidamente, assim como os outros casais que também dançavam na sala.
- O que foi?! – Jensen correu para o lado da filha, que observava, junto com os primos, alguma coisa na janela que dava para o quintal.
- Renas, papai! – ela disse, apontando para o lado de fora da janela e sorrindo encantada para nós. – Renas!

***


- Vamos tentar. – ele sussurrou, e seus braços apertaram minha cintura.
- Tentar o quê? – perguntei, confusa, e apoiei o queixo em seu peito nu para encará-lo.
Jensen afastou meu cabelo para trás e olhou-me com aquele mesmo sentimento que vim tentando desvendar durante toda a noite. Ele sorriu e beijou meus lábios com delicadeza, enquanto sua mão fazia um carinho leve em meu dorso.
- Nós dois. – soprou contra meus lábios, e, ao abrir os olhos, suas írises verdes reluziam para mim. – Eu acho que a gente se pertence. ¹ Thomas é um personagem fixo da longfic Sinapse, um dos irmãos da cirurgiã plástica.
² Marguerite Humeau é uma artista plástica francesa, atualmente residente de Londres, formada pela Royal College of Art em 2011.
³ Thomas Crown Affair (1968), filme norte-americano estrelado por ³Steve McQueen (Thomas Crown) e ³Faye Dunaway (Vicki Anderson).




FIM



Nota da autora: : E o maior spoiler do ano sobre Sinapse, chegou. Resolvi dar esse presente para vocês como forma de agradecimento por me acompanharem nesses meses. Espero que tenham gostado. Feliz Natal para vocês, meus amores. ❤️





Outras Fanfics:
Universo de Sinapse
Sinapse [Restrita - Atores/Em andamento]
Our First Halloween [Atores - Shortfic/Finalizada]

Outras fics:
Em cada extremo, nós [Restrita - Originais/Em andamento]


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