Última atualização: 29/07/2019
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Capítulo 1

Quando recebeu o telefonema das amigas da Alemanha para passar alguns dias na casa delas, para aproveitarem juntas o início da gravidez inesperada da mais nova, se achou a pessoa mais sortuda do mundo inteiro. Alena e Mitzi eram as melhores pessoas, e poder compartilhar com elas a experiência de ser mãe era algo magnífico. Era como ler diversos livros sobre maternidade, mas sem realmente pegar nenhum livro sobre o assunto. Eram as experiências do dia a dia, coisas que nenhum teste de revista especializada era capaz de dizer.
escolheu a primeira passagem de avião que encontrou, e, ciente que a barriga de quase quatro meses estava começando a ficar aparente, tentou escondê-la por trás de roupas escuras e um pouco mais largas, mas nada disso bastou quando se viu sendo fotografada por paparazzi, que ela nem fazia ideia de que estavam no aeroporto. Ela já se preparou para estampar alguns perfis de fofocas na internet, principalmente depois do ano novo agitado que passou em Fernando de Noronha, com um certo jogador de futebol colado nos seus calcanhares. Por mais que tivesse sido ok o encontro e a distração, era uma alma livre, ou gostaria de ser, que não se prendia a nada e a ninguém, e o fato de a caixa postal e o aplicativo de mensagens viverem lotados de recados do bendito atacante lhe tiravam do sério, principalmente porque ele morava em um país ao lado do dela.
Dortmund seria uma ótima escolha, então, para esvaziar a mente e se afastar daquele universo completamente maluco em que vivia. Nada de aparências, explicações e fofocas. Apenas ela e as amigas, que nada tinham a ver com suas escolhas equivocadas. Claro que rolavam alguns puxões de orelha, umas broncas aqui e ali, mas a modelo não se sentia mal, muito pelo contrário. Era bom saber que as duas se preocupavam com suas escolhas e irresponsabilidades e que ficavam em seu pé, de um jeito que sua mãe já não ficava mais.
O voo foi tão tranquilo que nem sentiu o aperto no coração que normalmente sentia quando estava tão longe do chão. O tempo da viagem foi como um bom calmante, porque ela finalmente teve um momento para não pensar em nada do que estava acontecendo em terra firme. Apenas colocou os fones de ouvido, deu início à sua playlist favorita, e só tornou a abrir os olhos quando a prestativa aeromoça da companhia aérea a chamou para comunicar que o processo de aterrissagem seria iniciado.
Düsseldorf estava exatamente como ela se lembrava. A neve ainda estava aparente em alguns cantos da cidade, que ela cruzou em um Uber, chamado para levá-la até a casa da ruiva que ela tanto sentia falta. Enviou uma mensagem discreta às amigas, sinalizando que estava quase chegando e, assim que estacionaram na porta, foi recebida com beijos e abraços, que ela prontamente respondeu. Até o pequeno Grig, sempre tão calado e até mesmo envergonhado, a recebeu com um abraço carinhoso, como se já conhecesse a tia de outros carnavais. tinha essa coisa de alma com as pessoas à sua volta. Era como se encontrasse as pessoas e as conhecesse de tanto tempo que não tinha noção de que, na verdade, o encontro havia acontecido há algumas semanas.
Largou as malas no quarto de hóspedes na casa da ruiva e se viu dividindo a sala com Salazar sem maiores problemas, algo que a deixou feliz, visto que até mesmo Mitzi estava dividindo o cômodo com o animal, sem que o mesmo precisasse estar coberto. Muito se creditava à gravidez, que a havia deixado mais permissiva em relação a seus medos e suas angústias. Não que tocasse a cobra ou permitisse que ela tocasse seu corpo, mas vê-la já não lhe causava tamanho desconforto.
— Achei que você não viria mais nos ver, a Alemanha nem é tão distante assim da Espanha, amiga. — Alena começou, assim que serviu as três com um chá fresco e quentinho, o que fez a modelo querer abraçá-la apertado devido ao frio que sentia.
— Confesso que fiquei um pouco sem tempo para nada, tive que resolver diversas pendências com o meu agente, por conta da minha gestação. Perdi alguns contratos até, mas nada de novo sob o sol, não é mesmo? Quem quer mulher grávida fazendo campanha de beleza? Noventa e cinco por cento das marcas dizem não. — respondeu enquanto mexia seu chá, tentando adoçá-lo com o açúcar estranho que Ale usava em sua casa.
— Mas nada que te deixe em uma situação ruim, certo? — Mitzi comentou, pegando um dos gêmeos, que choramingava baixinho, para servi-lo com a mamadeira, que a criança tanto esperava.
— Não mesmo. Eu já não queria mais trabalhar com algumas dessas marcas, minha gravidez funcionou apenas como uma desculpa para encerrar uma parte dos contratos. Eram marcas que já não representavam mais a pessoa que eu sou e as coisas que eu acredito. — a outra completou, vendo as duas acenarem com a cabeça em concordância.
Elas ainda esticaram a conversa por mais algum tempo, esperando que os jogadores que faltavam chegassem à residência para que, juntos, pudessem sair para jantar. simplesmente proibiu as amigas de cozinharem para ela, não queria dar trabalho algum, e aproveitou que Alena e Mitzi mudaram de casa apenas para que a morena pudesse dar banho em seus filhos e trocá-los e para tomar conta do pequeno Grigori, que deveria estar tomando banho, e não pulando na cama dos pais, achando o máximo o fato de poder voar, graças ao colchão de molas ali instalado.
— тетка , você pretende morar perto da мама algum dia? Ela sempre fala de você com saudade e carinho. E eu não gosto da мама assim. — o pequeno disse, quando se cansou de pular na cama, e ficou encarando a mais velha em busca de uma resposta.
Por um instante, engoliu em seco, sem saber como reagir. Ela sempre soube que crianças costumavam falar a verdade, doa a quem doer, e perceber que ela causava tamanha saudade na amiga a fez repensar suas escolhas. Será que realmente Barcelona era a sua casa no mundo? Ou será que estava na hora de mudar de ares e procurar um novo lugar para chamar de lar?
— Eu não sei, pequeno. Mas é algo que eu te juro que penso com carinho. Talvez eu venha sim, algum dia, viver mais perto da sua mãe. Acredito que não na mesma cidade, mas aqui por perto, por que não? — a jovem respondeu enquanto coçava o queixo com uma mão, e a outra fazia um carinho distraído na barriga.
— когда рождается ребенок? — o pequeno ruivo perguntou, em russo, fazendo com que arqueasse a sobrancelha, encarando-o admirada.
Como uma criança tão pequena podia falar uma língua tão difícil com tamanha facilidade? Mesmo que ele estivesse xingando-a, daria seu melhor sorriso. Era apaixonada por aquele garoto ruivo, dos olhos carinhosos. Sabia que um bebê ruivo não era exatamente uma opção na sua vida, a menos que tivesse um filho com Alena, mas ela esperava que o bebê que estivesse em seu ventre um dia pudesse ser tão inteligente quanto o garoto que a encarava feliz da vida.
— O que você perguntou, Grig?
— Ele perguntou quando o seu bebê vai nascer. E eu queria saber por que ele ainda não está de banho tomado, dona . — a voz de Alena preencheu o quarto, fazendo os dois mais novos se olharem de forma cúmplice.
A troca de olhares entre os dois pareceu durar uma eternidade. Eram como duas crianças, compartilhando segredos e confidências sem ousarem abrir os lábios. E se sentia ainda mais importante, por saber que, mesmo com tão pouco tempo de convivência, Grigori já confiava o suficiente nela, a ponto de lhe deixar entrar em seu mundo de uma forma tão pura como aquela. se sentia ainda mais sortuda do que quando recebeu o telefonema das amigas um tempo atrás.
— Eu ainda estou esperando uma resposta. — Ale tornou a dizer, estalando alguns dedos para chamar a atenção dos dois.
— Acho que perdemos a noção da hora. — foi a primeira a se pronunciar, rindo da cara de culpado que Grig fez.
— Eu quis pular na cama, mama, e acabei me divertindo além do necessário, e fiz a tia perder a noção da hora. — ele justificou, como um adulto, no auge dos seus quase cinco anos de idade.
— Bom, não importa o que aconteceu, vamos para o banho antes que seu pai cheg...
— Falavam de mim? — André colocou apenas metade do rosto para dentro do quarto, rindo quando percebeu que havia assustado todos os presentes no cômodo.
— Não morre mais, hein, loiro? — comentou assim que se recuperou do susto.
— Ainda bem, e seja bem-vinda, . Vai ser um prazer enorme ter você aqui em casa. — ele respondeu, enquanto caminhava para dentro do quarto, deixando um beijo na esposa, um abraço no filho, e então um cumprimento na jovem.
— Bom, vou deixar vocês se arrumarem e vou supervisionar o banho desse adultinho aqui. Até daqui a pouco. — respondeu, chamando Grigori com a mão e dando privacidade ao casal.
Ela levou o garoto até o banheiro que tinha dentro do quarto dele, e então o ajudou no banho, com uma paciência invejável. Ficou tão distraída ajudando-o que nem percebeu quando Alena parou por alguns instantes na porta, observando-a cuidar de seu menino. Se ela tivesse reparado, veria o sorriso orgulhoso da ruiva ao perceber que ela seria uma excelente mãe.
Assim que o menino ficou pronto, a modelo resolveu que era sua hora de se aprontar, já que estava ficando tarde para saírem para jantar. Mitzi e Roman tinham acertado de encontrar com os amigos direto no restaurante combinado, para evitar maiores confusões de percurso. E, em questão de minutos, estava pronta. Não precisava de muita coisa. Afinal, ela se sentia linda do jeito que estava.
Quando ela caminhava em direção às escadas da residência dos Tupolev-Schürrle, sentiu o celular vibrar dentro da pequena bolsa que levava consigo, e aproveitou para descobrir de quem era a mensagem.

“Quer dizer que você está pelo meu país e nem me avisou?”


A mensagem era de um número alemão que a jovem conhecia muito bem.

“Decisão de última hora. Não avisei nem a mim mesma, se você quer saber…”


“Alguma pretensão de passar por Munique? Queria muito te reencontrar.”
“Acho que sinto saudades.”


“Ainda não sei se vou… Mas se eu for, eu te aviso.”
“Como assim acha que sente saudades? Ou você sente, ou você não sente…”


“Você sabe que eu sinto saudades, mocinha. Eu só estava te testando…”
“Ficarei esperando. Venha, por favor.”


só percebeu que havia chegado ao andar de baixo da casa quando tirou os olhos da tela do celular e reparou que Alena a encarava com uma sobrancelha arqueada. A modelo sabia bem o que se passava na cabeça da amiga. “Por que raios você está sorrindo feito boba para o celular?”. E era exatamente assim que se sentia, feito boba, vivendo como uma adolescente que não mede as consequências do que faz, mas que, pela primeira vez, poderia fazer o que tanto desejava sem ninguém a recriminando por aquilo. Porque ninguém sabia. Apenas ela, ele e Katerina Fedorov, um anjo incrível, que foi quem os apresentou. E como era bom o gostinho de viver o princípio de uma relação, ainda que ela fosse um espírito livre. Era bom ser livre ao lado dele, no fim das contas.

(...)


odiava gastar muito tempo no celular. Abria o que era importante, como por exemplo o Instagram, para atualizar as pessoas que gostavam de acompanhar seus trabalhos como modelo. Além do aplicativos de fotos, seu celular servia apenas para ter aplicativo de mensagens instantâneas e fim. Ela, realmente, evitava gastar mais tempo do que o necessário no aparelho eletrônico, mas, naquele instante, se fazia necessário. Um perfil de fofocas no Instagram havia postado uma foto da modelo no aeroporto de Barcelona, e sua barriga estava mais evidente do que ela gostaria. Ela pretendia contar sobre a gravidez apenas no momento ideal, e ainda não era o momento exato para aquilo. Não quando ela sequer sabia o que seria de seu futuro.
— Aconteceu alguma coisa, ? Você não larga o celular… — Ale perguntou, obrigando a mais nova a desviar os olhos do celular.
— O Daily News, aquele perfil famoso de fofoca das redes sociais, sabe? — a modelo questionou, vendo não apenas Ale, mas também Mitzi e André assentirem para ela, indicando para que continuasse. — Eles postaram uma foto minha que dá para ver a barriga. Eu não acredito nisso. — ela bateu na própria testa, em sinal de frustração.
— Mas você sabia que, uma hora, ia ser impossível esconder esse bebê, certo? — Mitzi falava de forma doce, fazendo a mais nova lhe encarar.
— Mas eu não esperava que fosse tão cedo… Ainda não estou pronta para falar abertamente sobre isso, apesar de eu até já ter uma carta em mente sobre quando resolver realmente divulgar essa informação… — a mais nova rebateu, ainda incomodada.
Entretanto, ela não ia permitir que aquilo estragasse o jantar que estava tendo, com seus melhores amigos. Não mesmo. Ela podia deixar aquela fofoca durar por mais tempo antes de finalmente assumir o que todos já sabiam. E, quando ela o fizesse, seria por querer que os outros conhecessem mais sobre si e sobre a vida que estava começando a criar.


Capítulo 2

Quando finalmente conseguiu pegar o trem que a levaria até Munique, o coração parecia saltar pela boca. As borboletas não paravam de voar dentro do ventre inchado, e o medo de que as coisas já não fluíssem mais como antes a assolava por completo. Descansou a cabeça na janela da primeira classe, colocando os óculos escuros e os fones de ouvido, e foi servida com um suco gelado de laranja e algumas coisas para comer. A viagem era curta, mas eles a serviram enquanto esperavam o trem encher por completo. Ela só queria chegar logo e encontrar quem tanto a esperava.
Fazia pouco mais de cinco meses que o havia conhecido, e guardou a sete chaves o primeiro abraço carinhoso, que aconteceu alguns dias depois de se conhecerem, o primeiro jantar a dois, quando tinham pouco mais de um mês de convívio e mensagens até de madrugada, e também o primeiro beijo, que veio cercado de incertezas. Estranhava aos montes o fato de nenhum site de fofoca tê-los encontrado durante um desses momentos, mas suas idas a Munique eram escondidas, quase secretas, e, por isso, apenas um pequeno número de pessoas sabia que ela estaria em terras alemãs.
Assim que o trem começou a se movimentar, apenas fechou os olhos e se deixou concentrar na música que saía pelos fones, ignorando o lugar onde estava. Concentrou-se em dublar as músicas apenas para si, sabendo que, assim, a viagem acabaria muito mais rápido.

(...)


Assim que o solavanco do trem foi sentido, foi uma das primeiras passageiras a levantar do assento que estava, já buscando a pequena mala de mão, que Alena havia lhe emprestado porque Munique não estava na rota para aquele momento. Mas como que ela negaria um pedido tão nobre quanto aquele? Claro que ela iria, principalmente quando a saudade falava por si, obrigando seu coração a se apertar e formando uma mínima bolinha.
Observou as pessoas em volta e viu a pequena pessoa que a esperava entre todas as outras. Era arriscado colocar uma pessoa famosa para buscá-la na estação. Por isso, quando Kat avisou que estaria por Munique, a modelo não pensou duas vezes antes de pedir para que ela fizesse o intermédio entre os dois mais uma vez.
A pequena sorriu assim que viu a amiga descer do trem, e a sensação de estar em casa, que preencheu o coração de , foi tão absurda, que ela praticamente quis sair dali direto para procurar um lugar para morar.
— Fizeram uma boa viagem? — foi a primeira coisa que ouviu, assim que alcançou Katerina.
— Melhor que muitas que eu já fiz, para ser sincera. Daria até para morar naquele trem, de tão confortável. — respondeu, fazendo a amiga sorrir.
— Agora vamos, que tem alguém desesperado dentro do carro. — ela disse, já puxando a outra em direção à saída.
Kat, na maior parte das vezes, se esquecia de que, por ser pequena, conseguia se infiltrar no meio das pessoas, diferente de , que era maior e mais desajeitada. A outra era tão graciosa que nem parecia de verdade, e juntas, entre encontrões e vários “sorry” que foi obrigada a distribuir pelo caminho, quando sem querer atropelava o pé de alguém com a mala de rodinhas, elas finalmente chegaram na saída. A modelo procurou o carro de marca com os olhos e, quando finalmente encontrou o modelo que tanto procurava, deixou um sorriso escapar por entre seus lábios. Lá estava ele, a alguns passos de distância. Kat a ajudou a colocar a pequena mala no porta-malas e, com dois beijos e um sorriso cheio de significados, deixou a jovem sozinha.
Se alguém falasse que não sabia como agir daquele ponto em diante, a pessoa estaria mais certa do que nunca. Ela caminhou até a porta da frente do carro, que foi aberta pelo lado interno. Puxou-a com cuidado para que ninguém visse quem estava no interior e agradeceu imensamente pelos vidros do carro serem escuros, o que lhes proporcionava uma privacidade ainda maior. Ela sabia que não havia passado despercebida na saída da estação, e muito menos quando entrava no carro, mas, se pudesse, evitaria ao máximo qualquer tipo de reconhecimento possível para a pessoa que estava ao seu lado.
— Fizeram uma boa viagem? — o homem ao seu lado questionou, depois de lhe dar um selinho e de fazer um carinho na barriga da modelo, o que lhe ocasionou arrepios na pele.
Ela ficava beatificada toda vez que ele tinha uma atitude como aquela. Eles já se conheciam quando resolveu que queria ser mãe, sem esperar para encontrar um pai. Talvez ele pudesse ter sido o pai ideal, mas isso ela nunca saberia. Não porque não gostava dele, mas, sim, porque ela queria desprendimento. era uma alma livre, daquelas que não se importava com julgamentos, daquelas que, mesmo encontrando o que talvez fosse o amor da sua vida, preferiu ter uma filha de produção independente. Se a vida lhe desse outra rasteira, ao menos a criança ainda seria sua, e somente sua. Era absurdo demais pensar assim?
— Fizemos sim. Obrigada por mexer os pauzinhos com a passagem. — respondeu enquanto o encarava de lado, vendo-o arrancar com o carro antes que chamassem atenção demais.
— Qualquer coisa para te ver, Schatz. — ele respondeu, em um alemão cheio de sotaque a deixando boba por um instante, enquanto deixava um carinho sutil na coxa da outra. — Por sinal, olha para o banco de trás.
virou a cabeça apenas para encontrar um enorme buquê de rosas vermelhas, uma de suas flores favoritas, apoiado no banco às suas costas, e ela podia jurar que aquele era o gesto mais lindo que alguém já tinha feito para ela.
Não era acostumada a ganhar flores, bombons e demonstrações grandiosas de afeto. Não que não soubesse o que era aquilo, porque sabia muito bem. Tanto seus pais, quanto seu irmão sempre demonstraram o carinho que sentiam por ela, e ela demonstrava de volta na mesma intensidade. Mas quando se tratava dos relacionamentos que tinha, eram raras as demonstrações. Simplesmente porque, desde que tivera seu coração partido na adolescência, nunca mais se permitiu entregar aquela parte tão inocente de si a outro alguém. Dizem que gato escaldado tem medo até de água fria, e era exatamente assim que se sentia. Ela temia sempre pelo pior, porque sabia muito bem como era a dor de ser quebrada em mil pedaços e não voltar mais a ser inteira.
Entretanto, aquele homem estava fazendo o trabalho muito bem. Ele a estava recuperando, fazendo-a acreditar que o amor realmente existia, e que não era porque um tonto lhe quebrou o coração, que todos os outros fariam exatamente o mesmo. Porque ele não o faria, e sabia muito bem disso. Ele lutou por incríveis cinco meses para ganhar seu coração. Entre mensagens, carinhos e demonstrações, ele seguia tentando. Cada porta que a jovem fechava era uma janela que ele abria, e não deixou passar nenhuma mínima oportunidade de lhe provar que seguiria fazendo isso, até que simplesmente deixou de fechar as portas e manteve as janelas abertas. E foi exatamente naquele momento que ele entrou, e eles caminharam entre segredos, cumplicidade, carinho e amizade até aquele ponto.
Logo o condomínio que a jovem conhecia de passagem apareceu em sua frente, e ela ficou se perguntando por quanto tempo havia se distraído, a ponto de perder toda a paisagem nevada no caminho. Sorriu para o perfil do jogador enquanto ele abaixava o vidro para passar na portaria do lugar. O carro automático permitiu que ela segurasse a mão dele, que ainda estava em sua perna, assim que teve oportunidade, e dessa forma eles rumaram até a casa de paredes claras e um gramado coberto pela neve branca.
— Seja bem-vinda à minha batcaverna. — ele soou engraçado enquanto o portão automático se fechava atrás deles.
— Então é aqui que você se esconde? — ela retrucou, assim que pôde se livrar do cinto de segurança, e conseguiu abrir a porta do carro em direção ao ar externo.
Deu graças a Deus pelo casaco pesado que vestia, já que a lufada de ar que passou pelo seu rosto provocou até dor de tão gelada que se encontrava.
— Só de pessoas que não são convidadas a participar da minha vida. — ele rebateu, tirando a mala dela do porta-malas. — Você vai ficar quantos dias aqui? Porque pelo peso da sua mala, acho que é um mês.
— E se eu passasse um mês? Acharia ruim? — ela respondeu, encarando-o por cima do ombro, com uma sobrancelha arqueada em forma de desafio.
— Eu acharia incrível. Inclusive, estou armando um plano para te sequestrar e não te devolver nunca mais. — ele falou enquanto passava por ela para abrir a porta da frente da casa, deixando um beijo estalado em sua bochecha.
— E se eu disser que posso estar realmente procurando uma casa por esses lados? Assim, como quem não quer nada…
— Por que não mora na minha? Tem bastante espaço. Cabe eu, você, o Snoopy e o bebê tranquilamente. E ainda corre o risco de a gente ficar alguns dias sem se ver. Nem sei para que minha agente escolheu uma casa tão grande, no fim das contas. — ele rebateu, abrindo a porta para que a jovem adentrasse o ambiente primeiro.
— É uma bonita casa, preciso dizer. Sua agente tem um ótimo gosto. Posso contratá-la para comprar a minha também? — tentou soar sutil enquanto negava em enigmas o convite dele para morar com ela.
Por mais que não devesse nada a ninguém e fosse muito bem acostumada a cometer loucuras, simplesmente mudar de país para morar com o cara que estava se empenhando em roubar seu coração a todo custo ainda não estava entre seus planos. Não quando ela não iria sozinha. Levaria consigo um cachorro, um filho e, por que não, toda uma bagagem enorme e pesada de tudo o que viveu. Ela nunca ia sozinha, seu passado ia junto, e ela tinha muito medo de machucar as pessoas que gostava por isso.
Ela nunca fora uma pessoa fácil de lidar. Com os hormônios da gravidez, estava pior ainda. Em noventa por cento das vezes acordava de mau humor, odiava as coisas fora do lugar, era metódica com tudo e mais um pouco, e perdia a paciência com tanta facilidade que lhe parecia até um dom.
— Está com fome? — ele questionou com a voz mais alta, vindo do que ela julgava ser a cozinha.
— Minha educação está me mandando dizer que não, mas meu estômago está implorando para que eu diga sim. — ela respondeu, com um sorriso amarelo nos lábios, enquanto espiava para dentro do cômodo.
— O que você prefere? A cozinheira deixou frutas, saladas pré-prontas, e tem comida congelada no freezer. — ele tornou a questionar, apontando para a geladeira abarrotada de comida.
— O bebê está pedindo uma salada de frutas… Mas ela quer com um doce que tem lá no Brasil, que se chama leite condensado… Sabe se vende aqui? — ela respondeu, atraindo o olhar dele para si.
— Posso questionar algum colega brasileiro, vai que eles têm em casa… — o jogador completou, já tirando o celular do bolso.
O primeiro número que ele discou foi o de Rafinha, um dos brasileiros do elenco e que morava no mesmo condomínio, e o palavrão que ele disse quando o outro não atendeu demonstrou a frustração que ele sentia por não conseguir uma resposta. Respirou fundo e discou o número de outro colega, que também morava a algumas casas de distância e agradeceu a Deus quando ele lhe atendeu.
— Thiago? — ele ficou mudo por alguns instantes enquanto ouvia a resposta do outro lado. — Então, você sabe onde eu acho aquele doce brasileiro, que você come? O leche condensada, Thiago. — a careta que ele fez quando ouviu alguma resposta que não o agradou fez com que gargalhasse. — , fala aqui para ele o nome do doce, porque a gente não está se entendendo. — ele retrucou de cara fechada enquanto passava o celular para a modelo.
— Thiago?
— Oi, . Queria dizer que é muito bom finalmente descobrir a voz da mulher que esse garoto tanto falava sobre. — o Alcântara mais velho respondeu do outro lado, deixando o rosto da modelo vermelho de vergonha. — Mas me diga, que doce é esse que você quer?
— Eu tô com desejo de salada de fruta com leite condensado. disse que tinha frutas aqui, e, como eu tô grávida, veio na hora a vontade. — ela desembestou a falar, só depois percebendo que havia falado demais.
— O filho é dele? — o outro jogador tinha a voz estridente, como de quem estava chocado com a notícia.
— Não, gravidez independente, por favor! Mas me diz, onde eu acho essa maravilha do mundo moderno? — ela tentou desviar o assunto de qualquer jeito.
— Eu tenho umas latas aqui em casa, e por um milagre estava saindo com a minha família para comermos fora. Eu passo aí e deixo umas latas com vocês. — ele respondeu, e percebeu pelo tom de voz que havia um sorriso bem brasileiro do outro lado da linha.
— Não sei nem como te agradecer.
— Só faça o feliz, que ‘tá tudo certo. Agora deixa eu ir logo, senão uma criança nasce com cara de leite condensado e eu não quero ser culpado.
E, então, a chamada foi encerrada, obrigando a cair na gargalhada no mesmo instante. Isso fez com que olhasse para ela como se ela tivesse vindo de outro mundo, que ele desconhecia totalmente.
— O que ele disse? — ele perguntou, tentando ler a face da mais nova.
— Ele disse que tinha umas latas e vai passar aqui para trazer em alguns instantes. Obrigada por ser incrível. — ela disse, lhe roubando um selinho.
— Eu que agradeço, agora vai escolher um filme enquanto eu corto umas frutas e a gente espera o Thiago trazer o bendito doce. — ele respondeu, lhe roubando mais um selinho.
— A gente vai escolher o filme juntos, senão eu vou acabar escolhendo um que você não gosta, e eu não quero ouvir reclamações. — respondeu, levando a mão à cintura, obrigando a rir da cena. — Vou é fazer alguma bebida quente para a gente enquanto isso e vou pegar uma das saladas para a gente jantar, ok? — mal esperou uma resposta, já abrindo a geladeira, atrás do que pensava em fazer, e tudo o que pôde fazer foi sorrir com o jeito agitado da outra.
escolheu algumas saladas que já estavam prontas na geladeira e sorriu quando entendeu o recado em cima, de que elas não estavam temperadas. Continuou fuçando a geladeira do outro e encontrou mostarda normal, mostarda em grãos, mel e limão, que, junto de um pouco de pimenta e sal, se transformaram em um molho delicioso para a salada, este que ela virou em um pote único. Achou pão de forma, e, com a devida autorização, depois de ouvir alguns gracejos por perguntas se podia utilizar algo que ela sabia que podia, os transformou em crutons, e algumas amêndoas torradas deram o toque final. A presença de um abacate maduro na geladeira garantiu a ambos algo que ela era craque, um delicioso guacamole para acompanhar a salada, e, para beber, um delicioso chá, que, apesar de ser de sachê, era de uma ótima marca.
Enquanto ela terminava os ingredientes, a campainha tocou, e largou as frutas que cortava pacientemente para buscar o bendito doce, que ele jurou a si próprio fazer um estoque na próxima vez que fosse ao mercado. estava tão focada em misturar as coisas que nem percebeu quando o outro voltou a cozinha junto de dois casais de amigos.
— Você é bem mais bonita pessoalmente que por fotos, e olha que eu já tinha te achado bem bonita nas imagens que esse cara aqui mostrou.
— Scheiße, vocês querem me matar do coração? — soltou um palavrão que havia aprendido de tanto ouvir Mitzi e Alena falarem, levando a mão ao coração assim que ouviu uma voz inesperada.
— Desculpe, não foi nossa intenção. — Thiago respondeu, levantando as mãos em forma de pedido de perdão.
— Meu marido adora pregar peças nas pessoas, desculpa o jeito dele. — a mulher ao seu lado comentou, dando um tapa estalado no braço do homem. — A propósito, sou Julia, esposa desse sem educação aqui. E como eu sei que ele não vai apresentar, esses são Rafael, meu cunhado, Marina, sua namorada e meu pequeno bebê, Tyler.
— Sou , como vocês já devem saber. E você não é uma fotógrafa que faz o maior sucesso no Instagram, Marina? Certeza que já vi as suas fotos… — a mais nova respondeu, sorrindo.
— Talvez seja? De verdade, eu não sei. — a brasileira, ela tinha que ser brasileira, não importava como, lhe respondeu com um sorriso largo no rosto, ainda que seus olhos demonstrassem que ela estava acanhada por ter sido reconhecida.
— Acho até que eu sigo a sua conta… — pareceu pensar por um instante, tentando lembrar onde havia deixado o celular para poder confirmar se realmente a seguia.
— Depois eu olho e te sigo também, pode deixar. — Nina respondeu, deixando a conversa fluir, finalmente começando a se sentir mais à vontade.
— Bom, vamos a pergunta que não quer calar... Vocês trouxeram o meu doce? Por favor! — se pudesse, teria se ajoelhado no meio da cozinha para implorar pelo doce.
— Tem umas quatro latas aqui dentro e também o endereço do mercado onde o pode encontrar essa maravilha para você. De nada. — Thiago respondeu, indicando uma sacola com um aceno de cabeça, e quis pular no pescoço dele como forma de agradecimento.
— Vocês fizeram duas pessoas muito felizes, podem apostar. Meu bebê está dando cambalhotas de felicidade, obrigada. — a modelo não sabia como agradecer.
— Bom, agora nós já vamos, porque nossa reserva nos espera e devemos dar privacidade ao casal. — Julia disse enquanto puxava Thiago pelo braço, já que o outro parecia entretido demais para se dar conta de que era hora de ir embora.
— Até qualquer dia, . — o Alcântara mais velho respondeu, acenando brevemente e fazendo a modelo gargalhar.
Enquanto fechava a porta da sala, rindo dos comentários dos amigos, aproveitou para terminar a comida que fazia e adiantar o corte das frutas, já que o jogador parecia devagar demais.
— Ei, esse era o meu trabalho. — ele reclamou, assim que voltou para a cozinha e encontrou a modelo cortando as uvas que ele havia deixado para trás.
— Você demora demais, . Nós estamos com fome, assim não dá. — ela rebateu, sorrindo. — Mas termina aquelas frutas ali e ‘tá bom. Tem comida suficiente.
E foi num clima leve e feliz que eles concluíram não só aquelas tarefas, como a primeira noite de algumas que passou por ali. Dividiram não só o sofá, como o talher da salada, o copo do chá e a salada de frutas devidamente adoçada pelo leite condensado emprestado. Um filme qualquer passava na televisão, mas eles nem se importavam com aquilo. Estavam mais focados em aproveitar a presença um do outro, como se aqueles momentos raros pudessem se esvair por completo. E, talvez, eles pudessem sim, mas eles sabiam que sempre poderiam fazer novos momentos, onde seriam mais e mais felizes.


Capítulo 3

A jovem não podia acreditar que aquilo realmente estava acontecendo, não quando todos sabiam a dificuldade que ela sentia em se ver dividida por times de futebol. Não que fosse uma exímia torcedora, porque ela definitivamente não era. Se alguém lhe pedisse para dar o nome dos jogadores titulares da seleção do próprio país, ela não saberia responder. Talvez dissesse Neymar, por ser um nome bastante aparente na mídia, e só. Esse era um grande resumo do que sabia sobre futebol. Além de saber, por algumas questões lógicas, que eram 11 jogadores em campo para cada time, e que eles tinham que fazer gol no goleiro adversário, que ela sabia quem era porque ele vestia uma roupa diferente dos demais.
Isso era algo que ela só se atentou depois de Mitzi lhe frisar, durante um dos jogos do Borussia Dortmund que ela assistiu com as amigas, que Roman vestia uma roupa diferente porque ele tinha uma função especial, e não porque era idiota e tinha confundido os uniformes — sim, a modelo tinha questionado as faculdades mentais do amigo, quando o viu com uma cor diferente em campo. E ela, torcedora nata, se viu com o coração dividido em um momento em que tudo o que ela não queria era ter o coração dividido. Quando o agora namorado — ainda que não tivesse acontecido o pedido formal — a convidou para assistir a uma partida de futebol do time que ele jogava, ela não esperava que fosse, justamente, contra o time dos amigos amarelos e pretos. E o pior, que o time dele fosse o rival do time que ela supostamente deveria amar e torcer.
Durante todo o trajeto até o estádio, enquanto vestia a camisa adversária, imaginou a quantidade de formas que Alena e Mitzi inventariam para torturá-la e, por que não, matá-la por tamanha desonra. Vestir a camisa vermelha e azul era considerado o pior dos pecados, segundo as mensagens que recebeu das amigas, quando enviou uma foto inocente no grupo que tinha com as duas quando já estava trajada para a partida.
Assim que chegou ao estádio, foi recebida por várias pessoas que ela julgou serem do staff do clube e foi encaminhada diretamente para o camarote, onde, finalmente, pôde encontrar o namorado, que já estava no estádio há horas, ainda que não fosse jogar devido a uma lesão.
— Finalmente te achei e quero te matar. — disse, assim que colocou os olhos no namorado.
— O que aconteceu? — respondeu, depois de roubar um selinho da outra.
— Você devia ter me avisado previamente que o jogo de hoje era contra as abelhinhas. Alena e Mitzi querem a minha cabeça numa bandeja de prata por eu vestir vermelho e azul em um dia como esse. — a modelo falava depressa, exacerbada e levemente irritada.
— Mas eu te avisei que hoje era dia de der Klassiker, Schatzi. — ainda que ambos falassem em espanhol, amava o apelido em alemão e o repetia sempre que podia.
— E eu lá tenho a obrigação de saber que esse palavrão significa que Bayern e Borussia vão se enfrentar? Fala a minha língua, . — a jovem respondeu enquanto se afastava do namorado para ir até o buffet do camarote.
— Na próxima, eu te aviso com antecedência, ‘tá? — ele falou, manso, assim que a abraçou por trás.
— Não vai ter próxima vez, porque eu vou me abster de assistir esses jogos, simplesmente porque não sei para quem torcer. Hoje mesmo, como eu vou ficar feliz com os seus colegas fazendo gol no marido da madrinha da minha filha? Ou neles batendo no marido da outra madrinha da ? Eu não tenho coração para isso, . — respondeu, parecendo transtornada, e o namorado apenas gargalhou de sua reação exagerada.
— ‘Tá tudo bem, não precisa escolher nenhum time para torcer, ok? Contanto que você continue usando minha camisa, o resto é apenas resto. — ele disse, sutil, e a outra finalmente pareceu encontrar seu centro quando lhe puxou para um beijo.
deixou que seu corpo se envolvesse ao do jogador, na forma mais pura que conheciam, enquanto ela o puxava para mais perto e buscava trazer seu humor de volta à normalidade. Sentiu o celular vibrar dentro da bolsa e se afastou do namorado o mínimo possível, apenas para ler o recado que havia recebido. Se tratava de uma foto de Alena e Mitzi, devidamente vestidas de amarelo, lhe mostrando a língua, com a seguinte legenda “Desonra! Desonra pra toda a sua família. Desonra pra tu, desonra pra tua vaca”, e a mais nova apenas gargalhou quando se deu conta de que usaram uma frase de um de seus filmes favoritos. Aquelas sim eram as melhores amigas que ela poderia sonhar em ter, mesmo quando a modelo sabia que elas realmente estavam bravas com a desonra.

(...)


não sabia onde se enfiar quando o juiz apitou o fim do primeiro tempo. O enorme placar da Allianz Arena indicava que o time de vermelho e azul vencia por cinco gols de diferença, e a jovem se odiava por ser tão pé quente, quando deveria ser totalmente pé frio. Tudo bem se o time do namorado ganhasse por um a zero, talvez uns dois gols, mas acabar o primeiro tempo ganhando de cinco era algo que ela não sabia como lidar.
Buscou o celular na bolsa para enviar uma mensagem para Ale, e o palavrão que encontrou na tela do celular a fez repensar três vezes antes de digitar qualquer coisa para a amiga. Mas ela não podia culpá-la, já que a própria se sentia bem mal com o que estava acontecendo. Ou podia?
— ‘Tá tudo bem? — perguntou, assim que encarou a namorada.
— Vocês precisavam ganhar de cinco, cariño? Poxa, um a zero não era suficiente não? — a modelo rebateu, fazendo o outro rir.
— A gente não tem culpa se o Borussia não sabe se defender, amor. — ele respondeu, com um leve chacoalhar de ombros.
— Borussia sabe se defender sim, viu? Mas fica difícil se defender quando o time de vocês fica lá martelando, não é? Vê se manda eles se controlarem no segundo tempo, até a está irritada aqui dentro. — a modelo respondeu, fazendo uma leve birra e colocando um bico nos lábios, que seria engraçado se ela não estivesse na casa dos vinte e cinco anos.
— Não posso garantir muita coisa. — ele respondeu, roubando um beijo dela e tentando evitar que o pior acontecesse.
E ele realmente não podia, já que, assim que o segundo tempo iniciou, algum jogador de Bayern, que não fazia a menor ideia de quem era, fez questão de ampliar o placar, deixando um seis a zero bem grande e um gosto amargo na boca da modelo, que não sabia onde enfiar a própria cara pela terceira vez no dia.
Ela só queria voltar logo para casa, tirar aquele uniforme vermelho e azul e pedir perdão para as madrinhas mais lindas que sua filha poderia ter. Não que ela tivesse culpa no resultado do jogo em questão, mas, ainda assim, ela se sentia culpada. Principalmente quando fez questão de postar uma foto no próprio Instagram, da modelo devidamente trajada com seu uniforme e com a barriga aparente na camisa apertada, escrito “meus amuletos da sorte”.
E, por mais inofensiva que a foto pudesse aparentar ser, ambos sabiam que ela teria o poder de causar uma enorme revolução. Primeiro porque era a primeira foto realmente pública do casal, já que o Instagram da modelo era bloqueado. Segundo porque indicava que era mais importante para ele do que ela pensava, e terceiro porque eles finalmente selavam o compromisso que nem sabiam ao certo que tinham. Aquela foto era o pedido que faltava, aquele formal, na frente dos pais. Era cumplicidade, respeito, carinho e amor.
Muito amor.


Capítulo 4

Some spring's afternoon in May

O dia tão esperado finalmente havia chegado, e estava além do radiante. A casa estava toda enfeitada nos mais diversos tons de rosa, com uma linda mesa cheia de doces do jeito que ela mais gostava. O nome estava desenhado por todos os cantos, junto de diversas fotos da evolução de sua barriga mês a mês. Em cima de cada pratinho, havia uma lembrancinha especial, além dos cartões com os nomes de cada convidado, para que todos sentassem em seus devidos lugares. Ela pensou que seria uma boa manter, por exemplo, os jogadores do Bayern levemente afastado dos jogadores do Borussia, apesar de ter certeza de que todos estariam ali em clima de pura festa. Havia flores para sinalizar a primavera que a mais nova tanto adorava, além da vista incrível que a casa de tinha de um vale, preenchido por pequenas mudas de flores, que já ganhava um colorido excepcional. caminhou para checar a área onde ficariam os mais novos, apenas para se certificar de que tudo estava nos conformes. A quantidade de crianças seria um pouco grande, e ela precisava que tudo se mantivesse sob controle.
Voltou para sala, apenas para se certificar de que livro de assinaturas estava disposto no lugar certo e que todos os convidados receberiam, na saída, as lembrancinhas que ela planejou nos mínimos detalhes. Foi observar a cozinha, e o cheiro delicioso que a seguiu fez seu estômago roncar desesperado, obrigando-a a roubar um dos pães que estavam dispostos nas bandejas e recebendo um olhar torto da própria mãe, que cuidava, junto de dona Amparo, sua sogra, e de Inés, sua cunhada, daquela parte com muito esmero. Depois foi até a sala de TV, apenas para encontrar , seu pai, seu Alejandro, seu sogro, e seu irmão conversando animadamente no sofá, enquanto Jon, Isabella e Matteo conversavam em outro, obrigando-a a sorrir largamente com a forma que aquilo caminhava.
A campainha logo soou, chamando a atenção de todos, e eles sabiam que aquela era a indicação de que seus convidados começavam a chegar. Caminhou apressada até a porta, que já havia sido aberta por uma das recepcionistas que havia obrigado-a a contratar, e sorriu largo quando viu Rowan e Kimmich passarem pela porta. Abraçou os dois apertado, ouvindo a inglesa e o alemão lhe desejarem felicidade, além do afago característico que recebeu na barriga avantajada. Mal terminou de receber os dois e percebeu que sua casa havia se tornado uma sede do Bayern por tabela. Thiago Alcântara, Rafinha, James Rodríguez, Vidal e Javi Martínez chegaram fazendo o barulho característico de vários homens reunidos, junto de suas esposas e seus filhos. Aquilo era algo que adorava, a casa cheia, preenchida com muito carinho.
O tempo que teve para beber uma água após cumprimentá-los foi o suficiente para ouvir mais vozes na entrada, o que significava mais pessoas. Reconheceu os pequenos Fernanda, Marco e Nina antes mesmo de encontrar o sorriso largo de Luna, que caminhava de braços dados com Joan e Nohemi, e Sergio vinha logo atrás, numa conversa animada com Marco e Elias. Todos cumprimentaram a jovem com muitos abraços e muitos chamegos, já que ela era uma das mais novas, se não a mais nova, e merecia toda a atenção naquele dia especial. E, quando ela já se preparava para ir conversar com os amigos, pôde ouvir passos apressados em sua direção, além de algumas reclamações que ela conhecia muito bem.
— тетка !
Ela se virou assim que um par de mãos envolveu suas pernas, como se a abraçasse de um jeito meio desajeitado, fazendo um sorriso puro surgir entre seus lábios.
— Meu amorzinho, que saudades que eu estava de você. — a modelo respondeu, antes de puxá-lo para cima e o envolvendo em um abraço em seu colo.
Apesar de ter total certeza de que a encarava, se controlando ao máximo para não lembrá-la do esforço que o doutor havia proibido-a algumas semanas atrás, não se importou. Apenas largou o menino para pegar a pequena Evelina entre os braços, não sem antes deixar um beijo estalado na bochecha de Noah. A bebê logo prendeu o dedo da outra entre suas pequenas mãozinhas, obrigando-a a sorrir. Imaginava quando seria a vez de fazer aquilo, e podia jurar de pés juntos que se debulharia em lágrimas.
— Às vezes eu acho que meus filhos esquecem que eu existo quando estou perto de você. — Alena parecia levemente enciumada, ainda que jurasse que não era uma pessoa ciumenta.
— Nem começa, Alena. Eu sou só a tia que eles passam um tempão sem ver, por isso que você acha que eles preferem a mim, mas é mentira. — respondeu, não sem antes revirar os olhos para a amiga.
— Daria tudo para te ver segurar todas essas crianças que estão à sua volta nesse momento. — a voz doce de Luna se fez presente, obrigando a sorrir.
Só então ela baixou o olhar, a tempo de ver que estava cercada por Mia, Martin, Noah, Grigori, Fernanda, Nina e Marco, o que fez sua felicidade ser completa. Enquanto se deixava levar por essa mágica maravilhosa, sentiu um flash explodir na sua direção e, assim que levantou os olhos, pôde ver Jordyn por trás da câmera, sorrindo com a imagem que havia acabado de capturar.
— Eu disse que você era só convidada hoje, Jordyn. Nada de fotos. — tentou soar brava, mas sua risada preencheu a sala logo em seguida, tirando toda a sua credibilidade.
— Ale me disse para fotografar algumas coisas, já que ela tinha quase que total certeza de que você esqueceria de contratar um fotógrafo, e eu penso que ela estava certa. — a loira respondeu enquanto levantava os braços.
— Ai, gente, é difícil demais organizar uma festa assim. — a mais nova estava a ponto de se debulhar em lágrimas, quando todos explodiram em risadas.
— Fica tranquila que está tudo lindo, do jeito que você e a merecem. — Mitzi soava doce enquanto tentava dar um abraço na amiga-irmã.
— Essa festa estava vermelha demais, ainda bem que os amarelos chegaram para dar um jeito nisso. — André acabou por comentar, atraindo todos olhares, alguns até mesmo enviesados, ainda que todos soubessem que era uma brincadeira.
— Sem essa de time de futebol por aqui, pelo amor de Deus. Hoje somos todos team e fim, nas cores rosa e branco. Satisfeitos? — argumentou, antes de ir resolver alguma pendência que sua mãe tentava lhe sinalizar.
Ela foi até lá enquanto os outros convidados começavam a se misturar, incluindo Tyler e Roman, que estavam mais calados do que o habitual. O primeiro possivelmente por ainda estar se sentindo um pouco deslocado, já o segundo, porque tinha vergonha de qualquer coisa. Mas aquilo — os amigos todos reunidos — era o que realmente importava para , a sensação de estar cercada por todos que gostavam dela, que a ajudaram a superar problemas, a deixar sua vida mais colorida e mais cheia de amor.
— Não fica pegando as crianças no colo, mi amor. Você sabe o que o médico disse… — falou baixinho, se aproximando da namorada, que encarava o nada depois de ajudar a mãe na cozinha.
“Não faça esforço, porque sua filha pode nascer a qualquer momento”. — ela disse, imitando a voz grossa do médico que havia lhe atendido no hospital. — Eu não vou esquecer essas palavras, pode deixar, mi amor. E você sabia que a está dando cambalhotas de amor? Parece até que ela sabe que está sendo celebrada, não me aguento.
— Nossa filha é esperta demais. — disse casualmente enquanto fazia um carinho na barriga da mulher, e ela o encarou de olhos arregalados.
— O que você disse? — ela não sabia dizer se estava emocionada ou assustada, mas algo lhe dizia que a primeira opção era a mais plausível.
nunca havia se referido a como sua filha, e também nunca cobrou que ele dissesse algo assim. Não que ele dissesse sempre “sua filha”. Ele costumava chamar a criança de bebê, ou de algum jeito carinhoso, mas sem expressar pronomes possessivos, e por isso a jovem imaginou que apenas quando ele segurasse a criança nos braços possivelmente passaria a chamá-la de filha. De qualquer forma, aquela havia sido uma grata surpresa, inesperada, que veio como o mais doce dos presentes.
— Eu disse que a nossa filha é esperta demais. Falei algo de errado? — ele parecia confuso.
— Você usou o pronome nossa, e essa é a primeira vez que você se refere a como sua filha também. Isso me deixou emocionada. — respondeu, tentando controlar as lágrimas.
— Mas eu sempre falei dela como minha filha, nunca me referi a ela de outra forma. também é minha. Posso não ser o pai biológico, mas com certeza serei o pai de coração, porque, no fim das contas, é isso que importa. — ele disse, tão seguro, que foi incapaz de conter as lágrimas, que vieram fartas, fazendo com que ele risse, apaixonado.
puxou a namorada para um abraço lateral, já que a barriga enorme dela só permitia abraços assim, tentando fazer com que ela controlasse as lágrimas, que pareciam não ter fim. havia esperado aquele momento desde que assumiu o relacionamento publicamente com ele. Desejava que ele chamasse a pequena de sua na intimidade dos dois, e aquilo fez dela a mulher mais feliz e mais completa de todo o mundo. Sua família era completa, como nunca antes.

(...)


A festa corria de vento em popa, e, enquanto todos celebravam a nova vida, entre brindes e brincadeiras, parecia estar em outro planeta. Nem mesmo a escapada de Snoopy, que invadiu a festa, arrancando risadas das crianças e um pequeno desespero dos organizadores que os dois haviam contratado, diminuiu o tamanho do sorriso que ela trazia nos lábios.
Logo chegou a hora de cortar o bolo que havia sido preparado com tanto carinho, e, então, era hora do tão temido discurso, que foi exigido por todos os presentes aos gritos.
— Ok, eu faço um discurso… — começou, em inglês, para garantir o entendimento geral. — Primeiro de tudo, queria agradecer a presença de cada um de vocês nessa tarde mágica que eu estou vivendo. Cada um que se dispôs a sair de sua casa e, por que não, de seus países para virem aqui celebrar um pouquinho que seja a existência desse bebê que eu carrego. Confesso que, num primeiro momento, eu achei que não fosse dar conta, achei que não era suficiente. Mas vendo vocês todos aqui, eu sei, mais do que nunca, que não estou sozinha, e que também nunca estará sozinha. Ela terá a maior e melhor família que eu poderia desejar, e isso é o mais importante de tudo. E aqui, na frente de todos vocês, eu quero agradecer principalmente ao , meu , por ter comprado essa loucura e por querer fazer parte disso. Você me aceitou com meus pesadelos, com meus traumas, com meus fantasmas, e transformou tudo isso em sonho, em luz. Você me aceitou com mais do que eu poderia pedir para você aceitar. Você aceitou uma vida que vai ser dependente de você, e eu sou tão grata, tão orgulhosa. Obrigada por todo o amor diário que você nos dá e por aceitar que eu bagunçasse sua vida tão arrumadinha. Cheguei feito um furacão, e você me aceitou de peito aberto, aceitou que eu fizesse da sua vida uma bagunça, uma confusão. Eu te amo com todas as forças que tenho dentro do meu ser. Você é a melhor coisa que poderia ter me acontecido e veio para coroar a mudança dos meus pesadelos para sonhos. Eu te amo! — as lágrimas que escorriam do rosto da modelo eram as mais puras que alguém poderia derramar.
— Ouuun! — um enorme coro pôde ser ouvido, fazendo com que todos caíssem na risada.
— Beija, beija, beija… — nem precisou virar o rosto para saber que André havia se juntado a Rafinha, Elias, Thiago e Sergio, naquele grito que seria vergonhoso, se não fosse direcionado à modelo. Mas ela sabia que estaria vermelho feito pimentão, e ela achava aquele detalhe uma das coisas mais fofas relacionadas a ele.
Ela não se importou de se aproximar do namorado e puxá-lo para um beijo simples, que logo se tornou em algo maior do que o previsto e precisou ser terminado sob gritos de “procurem um quarto” e “por favor, temos crianças no recinto, respeito”, obrigando todos a rirem ainda mais.
— Agora eu tenho mais um anúncio para fazer. Prometo ser breve, e aí podemos voltar a festa, porque… viemos celebrar, não é? Enfim… O que eu tenho para dizer é que decidimos quem vai batizar essa pequena princesa na minha barriga. — começou, mas foi interrompida antes que pudesse continuar.
— Tenho que dizer que ela que escolheu, mas eu aceitei de muito bom grado, porque eu sei que são pessoas incríveis e que vão cuidar da nossa princesa como se fossem as mães dela. — falou, fazendo todo mundo encará-lo estranho, porque se referir a mãe no plural.
— Bom, já estragou uma parte da surpresa, como lhe é comum, mas enfim… Sim, não terá um convencional casal de padrinhos. Achei justo que fossem duas madrinhas, as duas pessoas que, depois da minha mãe, foram as que mais me apoiaram em tudo. E é por isso que eu entrego a vocês duas, Mitzi e Alena, a vida da minha princesa, porque sei que, se um dia eu faltar, ela vai encontrar em vocês exatamente o que eu seria, a mãe incrível que eu sei que vocês são. Amo vocês.
As lágrimas que escorriam não eram mais exclusividade da modelo, mas sim espelhadas no rosto de praticamente todos os presentes, e era lindo ver que as amigas, em especial Ale e Mit, estavam tão ou mais emocionadas do que ela.
era terrivelmente grata a tudo o que tinha, e, naquele momento, sua gratidão estava reservada aos amigos, que se apertaram na sala da casa do jogador em Munique para dedicarem, um pouquinho que fosse, de amor ao bebê que era gerado.
era grata, sempre seria, e isso lhe bastava.


Capítulo 5

Some months later…

As dores que sentia no baixo ventre não poderiam ser normais. Não quando ela já se encontrava no oitavo mês de gestação, e seguia contando. O desespero que lhe corria as veias por estar sozinha na enorme casa que mantinha afastada do centro de Munique não poderia sequer ser explicado.
O jogador estava treinando, a empregada já havia sido dispensada e nenhuma amiga próxima poderia ser contatada. Rowan e Fedorov não estavam em Munique, Alena e Mitzi estavam em Düsseldorf e Dortmund, respectivamente, e Marina, Maya, Fleur e Luna também estavam longe demais para uma chamada de última hora — na melhor das hipóteses, elas levariam por volta de umas três horas para chegarem ao destino, sendo que ela não se sentia tão bem em chamá-las. Eram amigas praticamente de redes sociais, mas esperava, um dia, chamá-las de amigas. Além disso, ela ainda não se sentia confortável o suficiente para discar o número da esposa de um dos colegas de , ainda que todas tivessem se mostrado solícitas e, inclusive, tivessem dito à mais nova que ela poderia ligar por qualquer motivo que fosse. Mas ela tinha vergonha e não conseguiria chamar, ainda que soubesse que era extremamente necessário.
Resolveu por tirar a roupa toda e caminhou até o banheiro para jogar uma ducha de água morna, principalmente na barriga, pedindo aos deuses para que o contato com a água morna diminuísse um pouco a dor estranha que sentia. Ainda não era hora das contrações, não podia ser. ainda tinha mais um mês ali dentro. Pelo menos era o que sua médica havia lhe dito.
Enquanto deixava a ducha morna cair por sobre o ventre, ouviu alguma porta ser aberta e implorou para que fosse , ou mesmo que fosse alguém que pudesse lhe ajudar.
¿Cuñada? — ouvir a voz de Inés fez com que um alívio percorresse toda a espinha da modelo.
— No banheiro, cuñada, pelo amor de Deus. — ela não fazia ideia da urgência e da dor que sentia até ouvir sua voz soar daquela forma, indicando que algo estava terrivelmente errado.
acreditava muito em deuses, acreditava na presença divina de um ser superior que cuidava e protegia a todos que a presença dele se entregavam, e ela teve certeza daquilo quando viu pelo canto dos olhos a cunhada abrir a porta do banheiro, ao mesmo tempo em que um fino fio de sangue começava a escorrer de dentro de si, alarmado não apenas ela, mas também sua cunhada, que não disse nada. Apenas puxou o telefone do bolso da calça e discou o número da emergência, pedindo por socorro.
Ainda que acreditasse na presença divina, ela não era de orar, de manter uma conversa projetada e decorada com aquela força divina que a protegia. Ela gostava de dialogar, como se realmente fossem amigos de longa data e conversassem sobre a vida e as amenidades que aconteciam no dia a dia, então foi uma surpresa, até mesmo para ela, quando se deu conta de que rezava em silêncio, alguma reza que sua falecida avó havia lhe ensinado quando era apenas uma criança.
Sentiu a mão de Inés lhe segurar a face, gelada e trêmula, os barulhos desconexos, antes de perder, pouco a pouco, a linha tênue da consciência. Se lhe perguntassem a última coisa que ela viu, antes de se entregar ao torpor que sentia anestesiar todo o seu corpo, essa coisa seriam os olhos castanhos que ela tanto amava. , seu , havia chegado para salvá-la, e aquilo era o que lhe bastava.

(...)


POV —

A dor que eu sentia assim que tentei abrir os olhos parecia alucinante. Minha cabeça rodava como um todo enquanto ouvia bem distante um misto de vozes e o som de aparelhos que eu julguei serem máquinas de hospital. Ao menos eu estava viva, e queria acreditar que a minha filha também estava. Tentei abrir uma vista de cada vez, deixando que elas se acostumassem, pouco a pouco, à fina claridade que entrava pelas janelas do quarto que estava. Ainda era dia, algo que me dava uma noção de que meu desmaio não havia durado tanto tempo.
— Ela acordou. — a voz sofrida do meu noivo chamou minha atenção, me obrigando a procurá-lo com o olhar e sentindo a respiração falhar quando o encontrei.
parecia mais cansado do que deveria, a meu ver. Os olhos fundos e avermelhados indicavam algo que eu, provavelmente, não gostaria de saber. Mas, ainda assim, ele me encarou com uma calma, uma paz de espírito, que eu invejava, porque sabia que precisaria dela naquele instante, coisa que eu não teria.
Frau , como você se sente? — um homem todo vestido de branco, que eu julguei ser o médico ali presente, me questionou, me fazendo desviar os olhos que estavam presos aos de .
— Cansada e com dor, muita dor. Principalmente na parte de baixo da minha barriga. — eu respondi enquanto tentava levar a mão até a região que doía, sem sucesso.
— Você não pode se mexer, precisa evitar o máximo possível os movimentos. Você teve um descolamento leve de placenta, e isso pode causar problemas graves para a sua bebê. — o doutor falava pausadamente, me fazendo respirar fundo e engolir em seco.
— Mas como a está? Está tudo bem com ela, não é? — questionei, sentindo minha nuca pinicar de nervoso e um som chatinho indicar que meu coração começava a acelerar.
— Sua bebê está bem, mas a gestação como um todo precisa cuidados a partir desse momento. Você está no oitavo mês, um dos meses mais complicados, no geral. Vamos dar algumas medicações tanto para você, quanto para a bebê, e vamos tentar ao máximo induzir o parto para que aconteça o quanto antes, para evitar maiores problemas. Sei que a senhora quer um parto natural, então vamos nos esforçar para que ele aconteça, mas pode ser que não consigamos… A senhora precisa estar preparada para tudo. — ele respondeu, me deixando sem ar.
O doutor verificou alguns equipamentos que estavam ligados a mim, injetou alguma coisa no cateter que estava preso ao meu pulso, e eu senti, quase que instantaneamente, a dor começar a cessar, me trazendo um alívio momentâneo. Segurei a mão do da melhor forma que pude, e ele me encarou cabisbaixo. Sabia que aquilo seria terrivelmente estressante para ele, o mesmo tanto que era para mim.
Mas, naquela altura, o mais importante de tudo era que chegasse ao mundo com saúde, e nada mais. Não me importava comigo, desde que ela estivesse bem.

(...)


Midnight

POV —

O barulho do monitor cardíaco me acordou no meio da madrugada, chamando minha atenção instantaneamente. Abri os olhos, assustado, mas não enxerguei nada no breu que se encontrava o quarto. Acendi o abajur, que ficava ao meu lado, e encarei a mulher deitada na cama, repousando tranquila, com a respiração compassada e o tronco subindo e descendo em paz, o total oposto do barulho estressante daquele monitor, que pulsava em desespero. Optei por levantar da poltrona apertada e desconfortável e caminhei em direção ao corredor para procurar alguma enfermeira que pudesse me ajudar.
— Senhor? Aconteceu alguma coisa? — uma enfermeira me parou, assim que eu abri a porta do quarto.
— Um dos monitores cardíacos está acelerado demais, mas eu não sei dizer qual deles é. Minha noiva está dormindo tranquila na cama, então acredito que seja o da minha filha. Você pode checar, por favor? — pedi, o mais gentil que consegui, ainda que meu coração estivesse tão ou mais descompassado que o monitor, que ainda gritava dentro do quarto.
— Claro que sim, vou só chamar um médico para nos acompanhar. Um instante. — a enfermeira respondeu, antes de sair na direção oposta à do quarto que estávamos.
Voltei para o lado de dentro, me aproximando de , que ainda dormia tranquila e alheia a tudo o que acontecia. Passei a mão em sua testa, apenas para sentir um suor frio e levemente grudento, que chamou minha atenção. O quarto estava resfriado pelo ar condicionado leve que haviam ligado pouco antes de deitarmos, então não havia motivo para aquele suor que se acumulava na testa dela.
— O senhor pode nos dar licença, por favor? — o médico pediu gentilmente, se colocando entre o meu corpo e o dela, sem que eu percebesse sua entrada. — O monitor é o dela, por favor, cheque a pressão. Senhor , o senhor precisa deixar o quarto e nos aguardar no corredor.
Eu não tive tempo sequer de pensar naquele pedido, já que um enfermeiro surgiu do nada e me arrastou para fora do quarto, antes até que tivesse alguma reação. Me deixei ser arrastado para fora do quarto, tentando ao máximo ajudar com o que eu podia. Eram as duas mulheres da minha vida ali, e eu faria qualquer coisa para que elas ficassem bem.

(...)


POV —

Eu parecia estar vivendo um sonho, daqueles que você não consegue acordar, mesmo que faça o maior esforço para tal. Tentei abrir meus olhos quando a primeira pontada surgiu, mas eles pareciam colados. Tentei gritar quando a segunda pontada se fez presente, mas minha voz não saía, minha boca sequer se abria. Tentei me mexer quando senti a terceira pontada, mas meu corpo estava assustadoramente imóvel.
Entretanto, ainda sim, eu conseguia ouvir tudo o que acontecia ao meu redor. Ouvia as máquinas, as vozes, os desesperos. Eu sabia, minha filha estava nascendo, mas parecia não haver nada que eu pudesse fazer para ajudar. Senti uma injeção na minha veia, e, ao fundo, uma voz dizendo para que eu me esforçasse um pouco mais, que eu tentasse reagir, porque eles precisavam de mim, precisavam da minha ajuda.
Respirei fundo o máximo de vezes que eu consegui, me obrigando a reagir, a tentar, a lutar, e foi durante uma dessas respirações que eu senti uma nova pontada, aguda, bem embaixo da minha barriga. Acho que a dor serviu como uma descarga elétrica que se alastrou por todo o meu corpo, me obrigando a abrir não só os olhos, como os lábios, libertando o grito que parecia silenciado. Eu queria implorar para que aquela dor fosse embora, mas eu sabia que era parte do que viria a seguir, das inúmeras horas que eu poderia passar, vivenciando aquela experiência maluca que eu tanto lutei para ter.

(...)


— Third Person POV —

O suor frio que brotava na testa da jovem e escorria por seu rosto, se perdendo no decote da vestimenta hospitalar que ela usava, era a clara demonstração do esforço que ela fazia para trazer — sua — à vida. Ela apertava as bordas do colchão, até que os nós de seus dedos não tivessem mais cor alguma, junto com seu lábio esbranquiçado durante as mordidas e terrivelmente avermelhado ao fim delas. Ela descontava toda a dor que sentia nas mais diversas coisas que havia ao seu redor, mas nada fazia diminuir a pressão estarrecedora que havia na parte mais baixa do seu corpo. Ela queria poderia ficar em pé, queria caminhar pelo quarto como havia sido ensinada ao longo dos meses em que estudou para que aquele parto normal pudesse acontecer, mas era impossível. Era impossível porque sua placenta havia descolado de forma parcial prematuramente, e, por isso, ela precisava ficar de repouso absoluto. Repouso esse que era quebrado a cada força que ela fazia, afastando a coluna do colchão, tentando encontrar uma forma de empurrar sua barriga, empurrar sua filha, para encontrar a saída.
— Vamos contar até três e você faz força, . Vamos trazer essa menina para o mundo. — a obstetra, que havia acompanhado a jovem ao longo dos meses, disse, enquanto via uma enfermeira lhe enxugar o suor e, por que não, as lágrimas, ao momento tempo em que a outra ajudava na força que ela deveria fazer na barriga.
urrava a cada nova tentativa, sentindo seu corpo pedir por um descanso que não lhe seria merecido antes de ouvir o choro fino com o qual ela sonhava há pouco mais de oito meses. Mas algo lhe dizia, no fundo do seu ser, que não era daquele jeito que a filha queria vir ao mundo, o que a desesperava, deixando sua respiração e o batimento cardíaco descompassado.
Ouviu a interjeição da médica em algum momento entre a consciência e a falta dela e tentou forçar o corpo para entender o que acontecia, mas não conseguiu. A dor era maior do que qualquer movimento que ela pensasse em concluir, lhe obrigando a soltar o corpo e as lágrimas e pedindo aos céus que a ajudasse de uma vez, porque ela sentia que não aguentaria mais. Sentiu uma movimentação maior no quarto e, pelo canto do olho cansado, viu entrar no quarto e correr para o seu lado. Agradeceu por ter o noivo ali, antes de sentir o calor causado pela anestesia que nem sabia que tomava, e, então, o corpo amolecer, até que ela adormecesse.

(...)


Acordou algumas horas depois, sentindo um pinicar na parte mais baixa da barriga e, quando tentou levar a mão até lá, foi impedida por uma mão maior que a sua, e sorriu de lado quando percebeu quem lhe segurava.
— Você precisa descansar. Vocês foram guerreiras até o final, mi amor. Agora é hora de descansar. — comentou, baixinho, antes de lhe deixar um beijo demorado na raiz do cabelo.
— Como ela está? — perguntou, testando a voz, que saiu arranhando a garganta, lhe causando um desconforto.
— Viva e sendo muito bem cuidada. No momento, é nisso que precisamos nos atentar. Ela ficará bem, mas você precisa focar em si própria, precisa ficar bem também. — ele respondeu, segurando a mão dela e lhe passando força.
— Ela corre algum risco? — ela questionou, sentindo uma lágrima escorrer.
— Shiu, não vamos pensar nisso, ok? Ela vai ficar bem, é o que importa. — se esquivou, deixando com que a mente da jovem vagasse para muito longe. — Ei, psiu, não pensa nessas coisas, ok? Vem cá, eu fotografei a nossa pequena. Não sabia se era o momento ideal, porque acho que isso não vai acalmar seu coração, mas você precisa ver que ela está viva.
Ele tirou o celular do bolso da calça e abriu a galeria atrás da imagem que ele havia falado. Realmente, a foto não era nem um pouco tranquilizadora. parecia minúscula perto da mão enorme de e terrivelmente frágil com o tanto de fios que estavam ligados a ela, possibilitando que ela continuasse a viver. Sua menina não parecia em nada com o que ela havia sonhado, mas, ainda assim, era sua guerreirinha, sua força, seu porto seguro. E ela sabia, lá no fundo do seu ser, que sua menina daria a volta por cima e que ficaria bem. Ela precisava que saísse daquela e ficasse bem. Ela não fazia ideia do que poderia lhes acontecer, mas estar em algum lugar em que sua filha não estivesse estava completamente fora de questão.
E , além dela, sabia disso melhor do que ninguém. Então, ele se aconchegou o melhor que pôde ao lado dela, tentando lhe passar a calma e a segurança que ela precisaria para levar os próximos dias a diante.
Dias aqueles que demorariam horrores a passar, principalmente quando a modelo deixou o hospital apenas acompanhada do noivo, implorando a Deus para que o momento de buscar sua filha chegasse o quanto antes e elas pudessem, as duas, dormir em paz no quartinho que ela havia criado para a pequena com todo o carinho do mundo.
Ela acreditava, lá no fundo de seu próprio ser, que eles seriam uma família. Ela não aceitava nada além disso.


Capítulo 6

Venezia, Italia

Aquele seria o primeiro tapete vermelho dela depois do término da gravidez. ainda faria quatro meses e se encontrava no peito da mãe, devorando o leite que havia em seus seios para poder ficar com a babá no hotel. No entanto, nem mesmo isso havia impedido de se dispor a pegar um voo até Veneza para desfilar pelos tapetes vermelhos do festival de cinema que acontecia na cidade. Em seu dedo, um enorme anel de pedra azul chamava a atenção de todos que colocavam os olhos na jovem, um verdadeiro sinal de que, finalmente, a havia pedido em casamento, algo que nunca esqueceria.
— Conte-me mais sobre essa joia preciosa no seu dedo, mocinha. — Matteo d’Angelli, seu maquiador e melhor amigo, questionou, enquanto desenhava o rosto da modelo com seus produtos milagrosos, escondendo a cara de mãe que mal dormia à noite.
— Você conhece essa história por todos os ângulos, Matteo, non inizia. — ela respondeu ao mesmo tempo em que sentia o amigo bater com o pincel cheio de pó em seu rosto, com mais força que o necessário, apenas para encher seu saco.
— Mas eu não conheço essa história… Você não acha que deveria me contar não? — Gonçalo Silva, um fotógrafo que havia conhecido em um trabalho anterior, perguntou, afastando a câmera os olhos para encarar os dois, que riam de algo que ele não fazia ideia o que era.
A modelo, entre uma gargalhada e outra, esticou a mão para pegar um pedaço da pizza de Nutella, evitando ao máximo incomodar a filha, que ainda mamava, alheia ao mundo que se encontrava. Estava misturada às maquiagens que Matteo sempre levava consigo, obrigando os outros a darem risada do quão despreocupada ela era com o próprio peso e com as coisas que comia. realmente não se importava com o que ela comia, já que ela se matava na academia para que pudesse viver aqueles prazeres simples da vida, como comer alguns — talvez os oito — pedaços de pizza antes de entrar em um vestido longo extremamente colado e com uma fenda enorme em uma das coxas.
— Nós estávamos passeando pela Marienplatz, devia ser umas onze da noite. não estava querendo dormir, e nós resolvemos andar com ela no carrinho pela cidade por ser um momento tranquilo até mesmo para o , que, ainda que não fosse um dos jogadores mais importantes do time na época, era bastante solicitado quando andávamos na cidade durante o dia. Isso seria um pouco incômodo por conta da pequena, não é? Mas enfim… Estávamos andando pela praça. Eu adorava admirar aquele lugar durante a noite, consegue ser ainda mais lindo, e, quando chegamos na frente da Frauenkirche, ele simplesmente parou, olhou no fundo dos meus olhos e se ajoelhou. No começo, eu não entendi nada, confesso até que pensei que o sapato dele tinha desamarrado, mas aí ele tirou a caixinha do bolso e boom, aqui está essa belezura no meu dedo, chamando a atenção de todo mundo por onde eu passo. — levantou a mão para que os dois pudesse admirar a peça que ela trazia no dedo, e Gonçalo aproveitou o movimento para fotografar aquele momento que a modelo dava um de seus mais lindos sorrisos, completamente apaixonada.
— Ele é mesmo um maravilhoso, não é? Quem sabe eu não encontro, um dia, um homão assim para cantar Beyoncé para ele… — Matteo comentou, arrancando risada de todos no quarto, inclusive de Isabella, que havia acabado de entrar onde a amiga se arrumava.
‘Cuz if you liked it then you should have put a ring on it. — a assistente já entrou cantando, garantindo a diversão.
— Não era bem essa música que eu tinha em mente, não é, Isabella… Essa fica para os meus ex, que não me valorizaram. — D’Angelli parecia contrariado enquanto falava, mas apenas parecia. Seu sorriso demonstrava que ele estava se divertindo com tudo aquilo.
— Ainda bem que eu já garanti a minha, certo? — respondeu rapidamente, antes de fechar os olhos para que Teo terminasse o que estava fazendo antes.
— Vejo que a conversa estava ótima, mas vocês já pensaram em terminar logo essa maquiagem e essa troca de roupa? Você está quase atrasada para o red carpet, mocinha. — Isa disse, puxando levemente a orelha de todos no quarto, como a verdadeira relações públicas que era.
— Chegou a garota relógio. A gente já está quase acabando, Fazzo. Non disturbarci, ci stiamo godendo Venezia e la pizza Nutella, per favore. Per non parlare del fatto che non ha ancora finito il suo pranzo. Aspetta. — Matteo respondeu, revirando os olhos, como lhe era característico, apontando de leve para a bebê, que ainda se encontrava grudada ao seio da mãe.
deixou a gargalhada escapar, rendendo mais uma foto maravilhosa nas lentes de Gonçalo. Ela amava os amigos maravilhosos que tinha, não podia negar. Amava cada mínima coisa referente a eles, mas, principalmente, a relação de amor e ódio que Matteo e Isabella tinham, lhe garantindo inúmeras gargalhadas a qualquer momento.

(...)


O trajeto feito de barco conseguia ser ainda mais maravilhoso do que ela se lembrava. amava Veneza por isso, porque em 90% dos trajetos que quisesse fazer na cidade, você precisava entrar numa gôndola e navegar pelas águas que haviam invadido a cidade tantos anos antes. Era mágico, sexy e divertido, exatamente como as fotos que tanto Matteo, quanto Gonçalo, faziam questão de tirar, praticamente obrigando a modelo a fazer caras e bocas, coisa que ela nem gostava.
Os meninos desceram primeiro, esticando a mão logo em seguida para a modelo, que se segurou neles para poder deixar o barco que se encontrava. Ela precisava ainda caminhar um pouquinho antes de finalmente alcançar o tapete vermelho, repleto de jornalistas e fotógrafos. Sorriu uma última vez para os amigos, que fizeram a foto final, antes de andar pelo tapete vermelho, chamando a atenção de todos que se apinhavam só para ter uma foto bonita dela. Apenas uma imagem que lhes garantiria a capa de alguma revista famosa, que adoraria estampar a imagem de por aí, principalmente se a imagem garantisse um vislumbre da enorme peça que ela levava no dedo, a confirmação de que a relação com o jogador de futebol realmente ia de vento em polpa.
— Estamos aqui com , a modelo brasileira que vem conquistando cada dia mais e mais passarelas ao redor do mundo. Como você está? — um jornalista questionou assim que ela se encostou na grade para as entrevistas em vídeo.
— Estou maravilhosa, e você? — a modelo rebateu, o sorriso preenchendo o rosto de orelha a orelha.
— Estou ótimo, obrigado. Como está sendo essa temporada por Veneza? Veio assistir a algum filme em específico do festival?
— Confesso que estou bem animada para assistir Nasce Uma Estrela com a Lady Gaga. Suspira também chamou bastante a minha atenção, apesar de não ser meu tipo de filme favorito, e, claro, estou aqui para acompanhar os brasileiros que vão se apresentar no festival. Eu preciso apoiar meu país, não é mesmo? — a modelo respondeu, bastante animada. — Veneza é sempre maravilhosa em qualquer época do ano. Amo os passeios de gôndola, os canais e, obviamente, o fato de que tudo nessa cidade, e na Itália como um todo, nada em Nutella.
— Vejo que você veio muito bem acompanhada por esse enorme e brilhante anel… Podemos dizer que temos um casamento sendo organizado?
— Sim, podemos. Esperamos a bebê nascer, e as coisas finalmente se acertarem para tornar tudo isso público.
— Ficamos sabendo que você vivenciou momentos horríveis durante e no pós-parto. Você pode falar sobre?
— Na verdade, eu gostaria de não falar mais sobre isso… Tudo o que eu tinha para dizer está lá no meu Instagram, que eu tornei público exatamente por isso. Basta vocês acessarem a publicação que eu fiz. Aquele foi e será meu único pronunciamento sobre esse assunto, desculpe. — tentou ao máximo evitar que seu rosto se tornasse uma carranca.
Ela não gostava de tocar naquele assunto. Só Deus sabia como havia sido difícil colocar em palavras o que havia vivido com o parto de sua princesa nas redes sociais. Os momentos de terror que passou ainda estavam bem vivos em sua mente, e, se pudesse fingir que aquilo nunca havia acontecido, ela adoraria poder fazê-lo. Evitava falar sobre com amigos e familiares. Nem mesmo conseguia arrancar dela mais do que o que ela havia colocado em palavras em sua rede social. Fora um desabafo único, e fim. Ela havia trancafiado aquele assunto em um baú, que fora arremessado no fundo do oceano de sua mente para nunca mais voltar.
— Preciso dizer que você está maravilhosa nesse vestido. — o jornalista mudou rapidamente o assunto para evitar que um clima tenso ficasse presente na entrevista. — Quem assina essa perfeição?
— Ralph & Russo assinam o vestido. As joias são Chopard, no colar e no anel. Andrea Conti nos brincos e Jaeger-Le Coutre na pulseira. Os sapatos são Jimmy Choo, e quem assina a escolha final é a minha personal, Rita Lazzarotti. — ela enumerou cada uma das peças que usava, lembrando-se de dar o nome para cada pessoa que se envolveu, direta ou indiretamente, com a produção do look que ela usava.
— E a maquiagem, quem assina?
— Meu maquiador e amigo Matteo d’Angelli, e o cabelo foi criação da Amanda Schön. Eu tenho um ótimo time de beleza, não é?
— Com certeza, você está maravilhosa. Obrigado por parar por aqui para nos dar uma palavrinha, suas entrevistas são sempre incríveis.
— Eu que agradeço o carinho e atenção de sempre, obrigada.
E, como que por um passe de mágica, Isabella apareceu por trás da modelo, lhe indicando por onde deveria seguir. Ela caminhou em passadas largas até um cantinho, onde Matteo deu os últimos retoques na maquiagem, que começava a derreter pelo calor das luzes que havia no lugar, e Amanda ajeitou o cabelo, que tinha se mexido levemente com o vento da região. Então, ela voltou para o centro do tapete, onde fez uma última leva de fotos, enquanto caminhava para a primeira exibição de filmes daquele dia, desejando do fundo do coração que o filme fosse bom, ou ela aproveitaria da sala escura para repousar os olhos, que quase não ficavam abertos quando ela tinha um momento de pseudossilêncio.
amava ser mãe, amava o fato de ter dado a vida a uma menininha linda, mas seu corpo lhe cobrava o cansaço das horas a mais que passava acordada, administrando a vida de mãe, noiva e modelo ao longo os dias. E eram exatamente nessas horas de silêncio que o corpo lhe cobrava as horas a menos, lhe dando sono demais, principalmente quando não podia. Mas ela não se importava, afinal de contas, ela era ser humano, e, por isso, tinha a liberdade de se dar ao luxo de dormir, em plena apresentação de filme, em um dos festivais de cinema mais importantes do mundo.
Ela simplesmente podia, e não havia ninguém que lhe dissesse o contrário.

Glossário:
Non inizia – Não começa
‘Cuz if you liked it then you should have put a ring on it – Porque se você gostava, então deveria ter colocado uma aliança aqui
Non disturbarci, ci stiamo godendo Venezia e la pizza Nutella, per favore. Per non parlare del fatto che non ha ancora finito il suo pranzo. Aspetta. – Não nos atrapalhe, estamos aproveitando Veneza e a pizza de Nutella, por favor. Sem contar que a ainda nem acabou de almoçar. Espere.


Capítulo 7

Milan, Italy

Se perguntassem a como ela se sentia naquele momento em questão, ela não faria ideia do que responder. Quando lhe convidaram para estar no desfile de Dolce & Gabbana, ela imaginou que era para sentar, muito provavelmente, na primeira fila para acompanhar mais um desfile incrível da marca, como acontecia ano após ano. Não que ela já não tivesse desfilado para marca, porque tinha desfilado sim, mas tinha sido há tanto tempo que ela nem conseguia mais lembrar como exatamente aquilo tinha acontecido. A única coisa que ela se lembrava era que o convite tinha vindo do próprio Stefano, que, desde a criação do Instagram, a rede social em si e o próprio perfil, adorava repostar as fotos da modelo com os looks da sua marca.
Quando chegou ao hotel em Milão, se assustou quando encontrou não apenas uma carta de boas-vindas escrita à mão pelos estilistas, como também um convite em letras douradas para que integrasse a passarela da marca depois de tantos anos. Ela não podia estar mais radiante. Sentia saudade dos desfiles italianos, que fez por tantos anos quando buscava apenas um lugar ao sol. Voltar àquela passarela em questão era como provar não só para si, mas como para o mundo todo, que ela havia conseguido, que estava lá por merecimento.
— Como você está se sentindo? — Gonçalo foi o primeiro a perguntar, obrigando a modelo a afastar os olhos do convite dourado para encará-lo.
— Sonhando? — ela parecia incerta. — D&G foi um dos meus primeiros desfiles europeus, você tem noção disso? Foi uma das primeiras passarelas que eu fiz quando estava começando e ganhei o direito de fazer uma passarela famosa nessas terras de cá… É como voltar no tempo.
— Não é um throwback só seu, viu? Eu estava com você naquele desfile, é um voltar no tempo para mim também… — Isa disse, encarando a amiga, enquanto se relembrava daquela época.
— Foi onde a gente se conheceu, você lembra? — Matteo disse, obrigando a puxar na memória aquele momento.
— Claro que eu lembro, você dançou funk para mim. É meio impossível de esquecer. — rebateu, fazendo todo mundo gargalhar.

Some place in the past

se sentia terrivelmente deslocada naqueles bastidores enormes. Ela não conhecia nenhuma das modelos, e muito menos tinha sua melhor amiga ali para lhe dar um apoio moral. Estava sozinha, esperando para fazer o primeiro shooting para algumas marcas italianas, que iriam escolher alguma daquelas tantas mulheres para desfilarem suas roupas no fashion week italiano. A brasileira encarava seu reflexo no espelho, tentando ajeitar sozinha, sem nenhum sucesso, seu cabelo e sua maquiagem, querendo causar uma impressão positiva para tentar alcançar uma marca grande.
Quindi sei la modella brasiliana di cui parlano così tanto? — um jovem, com um jeito bem afetado, parou ao lado dela, iniciando uma conversa em um italiano que ela não sabia como responder.
Scusa, non so come parlare italiano. recitou a frase que tanto tinha estudado através do Google Tradutor, rezando para que tivesse falado certo e que se fizesse entender.
O jovem a encarou, surpreso com a resposta, e lhe deu um sorriso lateral, que ela julgou ser a melhor forma que ele encontrou para respondê-la.
English? — ela tentou, esperando que funcionasse.
— Não sou o melhor no idioma, mas podemos tentar. — ele respondeu no idioma questionado, fazendo-a suspirar aliviada. — Eu perguntei se você é a brasileira que as pessoas estão falando tanto.
— Estão falando de mim? — ela parecia surpresa.
— E como… Estão te comparando a Gisele Bündchen e tudo. — ele estava animado, animado até demais para quem estava naquilo há horas.
— As pessoas exageram muito. Eu jamais chegaria aos pés da Gisele, que sonho. — a modelo, sempre sincera, respondeu.
Ela sabia que não teria como sequer chegar aos pés da modelo gaúcha, que era, com certeza, muito mais do que só uma modelo. Gisele era um exemplo de vida para ela. Era, claro, uma inspiração e tanto, mas isso ainda era muito longe de chegar, um dia, a ser como ela. Era um abismo muito grande, e ela sabia que poderia escalar um Everest inteirinho e, ainda assim, estaria bem longe da übermodel.
— Bom, você não precisa ser a Gisele, mas você pode conquistar o que ela conquistou. Não ser melhor do que ela, até mesmo porque, sendo bem sincero, acho impossível alguma modelo superá-la um dia, mas você pode fazer sua própria passarela de vida e conquistar as coisas que te farão chegar perto do que ela chegou. Eu acredito nisso. — o italiano respondeu. — A propósito, me chamo Matteo d’Angelli. Sou maquiador, fotógrafo, e adoro o funk, sério. — ele continuou antes de rebolar o quadril, obrigando a modelo a gargalhar.
— Bom, sou Ana , modelo brasileira, como você deve saber. E, por sinal, eu adorei o rebolado. Inclusive, se tivesse rebolando assim numa balada, eu juraria que você era brasileiro. — ela riu, obrigando-o a rir com ela e achando graça de tudo aquilo.
— Quer saber de uma coisa? Vou cuidar de você e te deixar linda para você conseguir um desfile top. Se bem que eu tenho certeza de que você conseguiria um com ou sem a minha ajuda.

Some place in the past


— Você tentando falar italiano também foi uma das melhores coisas que eu já vi. A frase feita no Google foi maravilhosa, por sinal. — Matteo disse, não deixando a modelo cessar o riso.
— Ia ser muito difícil aprender italiano tão rápido. A viagem aconteceu do dia para a noite. Não dava para eu estudar muitas frases prontas, por isso resolvi aprender uma que poderia me tirar de muitas confusões. Que bom que funcionou contigo, não sei o que teria acontecido se você não soubesse falar inglês.
— A gente teria dado um jeito, acredite, mio piccolo cristallo.
— Não duvido disso. — ela respondeu, abraçando o amigo de lado.
— O momento nostalgia está bom, mas você já olhou a hora no convite? Você tem que estar em vinte minutos no local do desfile e, pelo andar da carruagem, não vai sair daqui tão cedo… Como diria o Matteo, andiamo presto. — falou Isabelle, sempre a mãe e a cabeça da turma.
fechou os olhos e se permitiu ser maquiada e fotografada até que as pessoas achassem que era o suficiente. E ela realmente esperava que fosse.

(...)


O trajeto até onde seria o desfile foi feito em meio a muitas risadas e muita diversão, como sempre era quando se tratava daquele grupo. Ainda enquanto estava na van, recebeu uma chamada da própria mãe, que estava terrivelmente animada com aquele comeback da modelo para as passarelas italianas. Conversou também com o pai, que lhe desejou boa sorte. Assim que desligou a chamada, o FaceTime apitou, indicando que a chamava por vídeo, e só ela sabia o quanto aquela chamada era imprescindível. Sentia uma saudade absurda do noivo ali com ela e desejava que ele estivesse lá de qualquer jeito. Ele era seu amuleto da sorte, seu trevo de quatro folhas.
Que hermosa te ves, cariño. — ele começou a chamada elogiando-a, e a modelo simplesmente não sabia o que fazer.
Son sus ojos, cariño, son sus ojos. — ela respondeu, completamente envergonhada.
— Ela está envergonhada, que coisinha mais linda. — Isabelle gritou, ouvindo o resto da van entrar na brincadeira e deixando a modelo ainda mais envergonhada.
— Para com isso, me deixem conversar com o meu noivo em paz, pelo amor de Deus. — ela disse, exasperada, fazendo todo mundo rir.
— Pelo visto a bagunça está ótima, não é? Mas cadê a minha filha? — o jogador perguntou, procurando com o olhar.
— Ficou no hotel, cariño, dormindo com a babá. Ela mamou e apagou, como sempre... Achei injusto e desnecessário trazê-la para o desfile. Ela ainda é muito pequena, e eu deixei o quarto cheio de mamadeiras. — ela explicou.
— Cheio mesmo. Se eu a visse tirar mais um miligrama que fosse de leite desses peitos, eu não sei o que faria. Sério. Ela tirou até secar, até não restar nadinha... De fome, a bezerrinha de vocês não morre. — Gonçalo comentou, fazendo todo mundo rir.
— E você estava prestando bastante atenção, não é, Gon? Por quê? — questionou, ainda lembrando das quinhentas milhões de fotos que ele fez enquanto ela tirava leite dos seios.
— Para poder fazer aquelas fotos iradas que você viu. Sério, as suas fotos com a bomba de leite nos seios ficaram ótimas.
— Você tirou fotos enquanto bombeava leite para a mamadeira da nossa filha? — questionou, sem acreditar.
— E ficaram lindas, principesso. Lindas e de um extremo bom gosto. Parabéns, Gonçalo. — Matteo se pronunciou, chamando atenção de todos.
— Não por isto... A dica da foto foi sua mesmo, Teo. Eu jamais teria imaginado que esses cliques ficariam tão lindos. — Gonçalo respondeu.
— O papo está ótimo, mas será que vocês vão me deixar conversar com o meu noivo, por favor? Daqui a pouco a gente chega no local do desfile, e eu ainda não consegui conversar em paz com ele... De verdade, vocês sabem o quanto esse ritual é importante pra mim. — pediu, a voz uma oitava mais alta.
E, então, cada um olhou para um lado, dando a falsa sensação de privacidade que o casal precisava para poder conversar, como sempre faziam antes do desfile. Para , a ausência da chamada era como um fato horrível. Ela sequer sabia como havia conseguido passar tanto tempo sem que aquele ritual estivesse presente na sua vida, como estava a partir do momento em que eles resolveram ficar juntos pela primeira vez. Fossem simples fotos, fosse o desfile de sua vida – se ela não falasse com ele e ouvisse, na voz doce e melodiosa do espanhol, um boa sorte, nada sairia como o planejado.

(...)


O backstage estava tomado por diversas modelos de todos os lados do mundo, inclusive algumas brasileiras que eram bem conhecidas da mais nova. Deixavam-a mais em casa do que da primeira vez em que cruzou a passarela para a marca italiana, quando não conhecia ninguém além de si mesma, naquele espaço que lhe era tão parecido com a lembrança que ela tinha de alguns anos antes. Fotografou e se deixou fotografar, como sempre acontecia antes de um desfile como aquele. Precisava lotar suas redes sociais com fotos de bastidores, que ela sabia que receberiam uma infinidade de curtidas e de repostagens, fossem elas de fãs, redes sociais de fofoca ou sites confiáveis, que cobriam sua trajetória desde que o nome dela se tornou importante àquele ponto. Ela só queria cruzar a passarela o quanto antes e mentiria se dissesse que não estava tão ou mais nervosa do que da primeira vez. As mãos e os pés ainda suavam, o estômago ainda parecia se apertar, e o ar faltava nos segundos antes de cruzar a passarela, como era acostumada. Era quase parte de um ritual que ela não se cansaria de repetir.
— Sério que você ainda fica nervosa? — Gonçalo questionou, não acreditando naquilo.
— O dia que eu deixar de ficar nervosa acho que posso me aposentar, sério. É essa sensação que me faz viva e que me garante que eu estou no caminho certo. — respondeu, sorrindo para o amigo.
— Você está mais do que certa, porque essa é a melhor sensação de todas. Boa sorte, de todos nós. — ele disse, antes de começar a se encaminhar para sair do backstage.
— Estão todos nos lugares reservados? — ela perguntou apenas por perguntar. Era óbvio que todos estavam acomodados nos lugares previamente reservados.
— Sim, todos nós. Vai e brilha, mulher. Essa passarela é sua. Nos surpreenda como sempre, mas seja surpreendida também. Faz bem. — ele disse, antes de sair quase que correndo dos bastidores, deixando a modelo sem entender o que estava acontecendo.
queria gritar para que o português voltasse até ali para lhe explicar direitinho que coisa era aquela de se deixar ser surpreendida, mas não teve tempo, já que, além de ele ter saído correndo, lhe avisaram que ela precisava ir para a área de preparação pré-passarela.

De onde ela estava, ela podia ouvir a música que tocava na área aberta, junto do barulho sutil que o público fazia. Ainda que houvesse recebido o convite para abrir o desfile, se sentiu no dever de negá-lo, sabendo que haveria pessoas melhores e mais capacitadas do que ela para fazê-lo. Mesmo assim, tinha ouvido de todos os envolvidos que ela era a mais capacitada entre todos e, por que não, a mais merecedora. Mas ela não podia aceitar tamanha responsabilidade, principalmente porque não estava pronta para tal situação. Deixou que a primeira modelo tomasse sua posição, estando algumas pessoas atrás dela, e pediu a bênção antes que o desfile realmente começasse.
Um desfile D&G era, basicamente, um acontecimento quando se tratava semana de moda, e aquela, em especial, tinha tudo para ser grandiosa de uma forma não imaginada. Enquanto esperava sua vez, a modelo repassava mentalmente tudo o que tinha feito para chegar até ali, o caminho cheio de pedras e espinhos que havia percorrido, todos os nãos que havia recebido, cada mínima coisa que tinha passado para merecer uma posição de destaque e de presente num desfile como aquele, quando deixou de pedir para ser convidada.
O portal que vinha antes da escada que, já na visão do público, ligava o pequeno palco à passarela parecia querer engoli-la, mas ela não permitiria. Respirou fundo, esticando a coluna e empinando o queixo, andando assim que recebeu a autorização para tal. Caminhou lentamente, lembrando de cada mínima aula que recebeu desde que começou naquele universo, dando o melhor de si e o melhor que os anos haviam lhe ensinado e lhe calejado para fazer. Evitou encarar as pessoas à sua volta, que ela sabia que lhe aplaudiam, visando apenas o fim da passarela, focando apenas no amontoado de fotógrafos que estavam se aglomerando para tentar a melhor foto.
Não se permitiu sorrir um segundo que fosse no caminho de ida, liberando seu melhor sorriso assim que deu as costas para toda aquela bagunça de flashes e gritos, finalmente aproveitando o que lhe era mais do que um emprego, mas, sim, a razão de ela não enlouquecer. Não fotografava ou desfilava apenas porque tinha jeito ou porque era bonita, os fazia porque era sua forma de se manter sã, ainda que o universo não fosse o melhor para tal. Se sentia útil e viva, porque era isso que aquele emprego trazia para ela. Não que ela visse a vida de modelo como um emprego, porque era além disso. Sua carreira era sua vida, basicamente tudo o que ela tinha, ainda que tivesse perdido muitas coisas, mesmo com a decisão mais acertada de todas, que era sua filha. Ficava grata porque aqueles dois, Domenico Dolce e Stefano Gabbana, não haviam desistido dela, simplesmente por querer ser o que sempre sonhou em ser, por se tornar mãe. Por fazer o mais puro de sua existência, aquilo que fora criada para fazer.
Encarou o público à sua volta, reconhecendo um ou outro rosto, antes de encontrar um sorriso que lhe era terrivelmente conhecido. O que fazia ali ela não saberia dizer, não quando havia falado com ele mais cedo, podendo jurar que ele estava deitado na cama que dividiam, já bem mais frequentemente, em Munique. Mas não seria ele se não trouxesse consigo uma surpresa exatamente como aquela. Reconheceu na mão dele sua flor favorita em toda a vida, um girassol extremamente amarelo, ainda que parecesse murcho devido à ausência de sua principal fonte de vida. Aquele era o homem que ela tanto amava e que amaria por toda a eternidade, se assim fosse a vontade do destino.
E ela queria que fosse, sim, a vontade dele.
Queria desesperadamente.

Glossário:
Quindi sei la modella brasiliana di cui parlano così tanto? - Então você é a modelo brasileira de quem eles falam tanto?
Scusa, non so come parlare italiano - Desculpa, eu não sei como falar italiano.
mio piccolo cristallo - meu pequeno cristal
andiamo presto - anda logo


Capítulo 8 (parte I)

Santorini, Greece

O sol que fazia em Santorini naquele dia parecia perfeito para abençoar não só um dia, mas uma vida inteira. A luz que entrava pela janela do quarto dava uma sensação tão grande de paz e pertencimento que a modelo podia jurar que aquilo era algo que ela nunca havia sentido antes na vida, de uma forma geral. Encarou o pequeno berço que havia ao lado de sua cama apenas para ver o sorriso mais lindo que o mundo havia lhe dado. lhe encarava de uma forma tão terna, como se soubesse e entendesse cada mínima coisa que se passava na cabeça da mãe, e a jovem desejou que o celular estivesse mais perto para fotografar aquele momento tão delas. O olho no olho, até mesmo a troca sutil de respirações, que pareciam ritmadas pela forma com que se completavam. Tateou o outro lado da cama, querendo chamar sem quebrar o contato visual com a filha, mas encontrou apenas o vazio. Onde estaria o jogador, afinal, senão ao seu lado na cama? A resposta veio no segundo seguinte, quando abriu a porta com os pés, já que as mãos se ocupavam de segurar uma enorme bandeja de café da manhã.
— Será que algum dia eu vou conseguir te surpreender com um café na cama, mi amor? — questionou, já ciente de que deveria desistir daquela empreitada, que nunca havia funcionado.
— Mas é sempre uma surpresa, porque eu nunca estou esperando a sua bandeja, cariño... — ela respondeu, desviando os olhos, mais uma vez, por alguns segundos da filha para encarar o noivo, que já tinha depositado a bandeja na cama e caminhava para sentar ao seu lado.
Antes que ele pudesse lhe responder, a modelo o puxou para um beijo casto, ciente de que , ainda que não entendesse, mantinha os olhos de jabuticaba bem espertos nos dois, prestando atenção a cada mínima coisa que eles faziam. A pequena não era de reclamar. Muito pelo contrário, era um doce de criança, aceitando cada pequena coisa que deixavam para ela. Não reclamava de passar horas num carrinho, de se sentar no cadeirão, ou mesmo de ficar dentro de um berço improvisado como chiqueirinho quando estavam em casa.
A modelo sequer acreditava que tinha tido tamanha bênção com a filha, já que sua mãe fazia questão de lhe lembrar – várias vezes, por sinal – como ela fora uma criança um pouco complicada quando mais jovem. Não que se jogasse no chão e garantisse um verdadeiro e vergonhoso espetáculo em ambientes públicos. Quanto a isso, sua mãe lhe garantia que ela era uma santa, mas, quando bebê, a modelo simplesmente odiava cadeirão, bebê conforto, carrinho e qualquer outra coisa que tivesse sido inventada para manter um bebê sentado por muito tempo. Não fazia ideia do motivo, afinal de contas, era pequena demais para se lembrar, porém sua mãe lhe dizia que ela fazia um show e tanto quando a mãe tentava largá-la depois de algum tempo de colo. Ela aceitava, além de mudar de colo, apenas o berço, mas somente quando queria dormir e mais nada. Já , quanto a isso, em relação a , realmente não precisava reclamar.
Pescou uma uva da bandeja, que agora se encontrava aos seus pés, e viu, pelo canto dos olhos, que levantou os bracinhos para ser retirada do berço, provavelmente porque queria mamar, sem fazer um ruído sequer. ainda engoliu mais umas duas ou três uvas antes de ouvir um início de choro, o que indicava que a pequena realmente queria sua atenção, e, enquanto virava para retirá-la do berço, já afastou a alça do pijama que vestia, liberando o seio que a pequena, assim que teve contato, rapidamente agarrou.
— Queria poder fotografar esse momento… É tão linda a forma como ela te olha. De verdade, eu fico apaixonado. — disse enquanto segurava no ar um cacho de uvas, que logo seria estendido para a modelo, que aceitou de bom grado.
— E por que não fotografa? — ela respondeu, tentando equilibrar a filha e as uvas ao mesmo tempo.
— Me deixa ajudar aqui. — ele disse no mesmo momento em que tirava o cacho da mão dela, apenas para levá-lo à boca, ajudando-a a comer. — E sobre a sua pergunta, eu estou fotografando, mas é com os olhos. As fotografias de vocês que trago na mente são as mais lindas de todas, pode apostar.
— Você é maravilhoso demais… Tem certeza de que é humano? — ela rebateu, se aproximando devagar para lhe roubar um beijo enquanto largava o peito por um curto espaço de tempo, apenas para sorrir.
E quem olhasse a pequena, com alguns meses ainda, podia jurar de pés juntos que ela entendia exatamente o que se passava. E talvez entendesse mesmo, porque o amor é fácil de ser compreendido, principalmente quando se tem a pureza de uma criança.

(...)


Cada vez que sentia uma onda mais forte bater no barco, ela repensava por que raios tinha aceitado aquele passeio. Não que ela não gostasse de andar de barco. Muito pelo contrário, adorava, mas aquela era a primeira vez que andava de barco com um bebê de colo, e cada movimento que o transporte fazia deixava seu coração apertado com medo de que a pequena viesse a se sentir mal. Tamanha preocupação só poderia ter lhe nublado o olhar, porque, do contrário, caso olhasse para o lado, veria a empolgação da filha no colo de cada vez que a lancha escolhida se mexia. Pararam próximos de uma praia um pouco mais deserta e armaram no barco mesmo um piquenique, junto de uma pequena piscininha para que a pequena pudesse aproveitar o mesmo tanto que os pais aproveitariam o mar.
, você passou protetor solar nela? — andava de um lado para o outro, checando a cada dez segundos que o sol não estava pegando forte demais na piscininha na qual se divertia como se não houvesse amanhã.
Cariño, essa é a décima vez que você me pergunta isso, e pela décima vez eu te digo: sim, eu já passei protetor nela. Passei até dois fatores diferentes no corpo, e um bem mais forte no rosto, que está protegido pelo chapeuzinho que a minha mãe comprou para ela aproveitar essa viagem. Pare de se preocupar tanto e aproveite, por favor. — ele respondeu, com a calma e paciência de sempre, sem levantar um músculo do lado da piscina em que a filha se encontrava jogando água para tudo quanto era lado.
— E se a gente colocá-la um pouco mais para o lado? Tirá-la desse sol forte… Ela é muito pequena, não pode pegar esse sol todo, . Pelo amor de Deus. — a modelo parou do nada, já se abaixando para pegar a filha no colo e empurrar a piscina de plástico um pouco mais para o lado, onde estaria coberta pelas sombras.
— Você lembra do que o pediatra falou na última consulta? Ela precisa tomar sol. Ela precisa de vitamina D tanto quanto a gente, amor, e esse sol está ótimo para ela, porque ele não está forte, diferente do que você pensa. — ele respondeu, ainda tentando manter a paciência, mas levantou um dedo assim que viu a modelo abrir a boca para protestar. — E, antes que você comece com mais uma síncope, eu estou monitorando o tempo dela no sol. Vinte minutos de exposição nesse sol de agora e depois mais vinte durante o pôr do sol. Pode deixar, relaxa um pouco que eu sei o que eu estou fazendo. Sou tão pai quanto você é mãe.
— Vou confiar em você, mas se algo der errado…
— Você não vai me deixar esquecer pelos próximos meses. Eu sei, dona . Eu sei bem disso.
E, então, a modelo relaxou. Tirou a canga, que ela nem tinha percebido que ainda usava, e se permitiu deitar na borda do barco para tomar um pouco do mesmo sol que a filha, ainda que sem as devidas proteções. Afinal, o que vale para Chico não necessariamente precisa valer para Francisco, não é? Distraiu-se tão facilmente que nem percebeu quando se aproximou com o celular para fotografá-la. A cabeça estava longe, perdida em algum momento deles que ela não gostaria jamais de esquecer e que certamente não iria.

(...)


— O que você acharia da gente se casar aqui em Santorini? — a ideia simplesmente surgiu na cabeça da modelo enquanto olhava o Instagram do hotel em que eles se encontravam naquele momento, jogados nas espreguiçadeiras da área externa do quarto. A pequena já dormia há um tempo do lado de dentro.
— Como assim se casar aqui? — o jogador respondeu, encarando o mar escuro pela noite.
— Isso mesmo que você ouviu, . O que você acha de a gente se casar aqui em Santorini? — ela rebateu, ainda insistindo na pergunta.
— Você quer voltar aqui para se casar, é isso? — ele parecia perdido quando colocou os olhos nela, tentando entender onde ela queria chegar.
— Não, amor, eu estou falando do agora. De a gente se casar durante essa viagem, em segredo, aqui em Santorini.
— Você sabe que nossas famílias nos matariam, não é? Sem contar nossos amigos. Eu sequer consigo contar nos dedos a quantidade de pessoas que ficariam revoltadas se a gente se casasse sem convidar ninguém.
— Você sabe que festa de casamento é só uma desculpa para a gente gastar uma fortuna e encher a barriga de outras pessoas que não a gente, certo? — a modelo questionou enquanto o encarava, risonha. — Sem contar que a gente tem aqui tudo o que precisa. A noiva, o noivo e o resultado do nosso amor.
— Mas a gente precisa de testemunhas, não?
— Isso precisa para se casar no civil. Eu não tô falando para a gente só se casar aqui e esquecer do resto do mundo, tô falando de só dar uma leve adiantada nas coisas por aqui. Eu não quero mais esperar para te chamar de marido, caramba. — a modelo fez um biquinho fofo enquanto tentava a todo custo convencer o homem.
— Mas como que vamos arrumar um casamento do dia para a noite, ? Você só pode estar maluca, por favor. — se sentia completamente resignado. Afinal de contas, se a ideia havia cruzado a cabeça da modelo, era porque ela sabia exatamente como fazer para aquilo acontecer.
— O hotel que a gente está hospedado faz esse serviço, amor. Amanhã mesmo eu ligo para a recepção, damos um jeito. O importante é a gente casar e fim.
— Tudo bem. Eu aceito essa ideia maluca, mas com duas condições. — ele realmente estava resignado.
— E quais são as suas condições, futuro marido?
— Primeiro, quero te ver de noiva, com direito a buquê, véu, tudo que tem direito, e depois a gente vai organizar uma lua de mel decente. Eu sei que, como diria seu pai, comemos o bolo antes da festa e temos um bebê conosco, mas nós também temos amigos e podemos planejar uma lua de mel, pelo menos para um futuro próximo.
— Quando a passar o primeiro aniversário, prometo que a gente pensa numa lua de mel maravilhosa, ok? Mas, por ora, ela é muito pequena, e é muita responsabilidade deixar nossa filha com alguém, mesmo que seja com os nossos pais… Não sei se eu aguentaria.
— Bom, se você realizar agora a primeira condição, já será suficiente, por enquanto.
— Ok, tenho que arrumar vestido, véu, buquê, uma roupa para a , um terno para você e um lugar para a gente se casar… Já te disse que eu adoro missões praticamente impossíveis?
E sim, ela realmente amava missões completamente impossíveis, principalmente porque, em noventa por cento dos casos, conseguia realizá-las. O que, naquele momento, não foi diferente, já que, na manhã seguinte, a modelo ligou para a recepção do hotel e ouviu um sonoro e grandioso “sim” para todas as coisas que pediu. Desde os desejos do futuro marido até os seus próprios, que lhe garantiram, inclusive, um lindo bolo para comerem depois da pequena cerimônia.


Capítulo 8 (parte II)

Aquela, com certeza, não era a primeira viagem de para Santorini. Já tinha ido umas outras três ou quatro vezes para aquele lugar em si, ou mesmo para as cidades próximas, mas ela podia jurar de pés juntos que nunca tinha visto um céu tão azul e um sol tão brilhante quanto os que iluminavam a ilha naquele dia. Ela tinha certeza de que aquele dia lindo, pintado a dedo por Deus, fruto do amor e da felicidade que sentia dentro de si. Sabia que chamava atenção de algumas pessoas ao redor, já que via alguns celulares apontados em sua direção, mas não estava nem aí. Ela se sentia tão ou mais bonita do que quando estava grávida da sua princesinha, que já estava dentro da pequena igreja que o pessoal do hotel arrumou, provavelmente no colo do pai. Entre uma olhada e outra pelas pessoas ao redor, percebeu que muitos não faziam ideia de quem ela era, mas sentia os bons desejos que emanavam em sua direção, por vontade ou não. E essa era a mágica de casar-se em um lugar como aquele, onde apenas os dois eram o centro principal, onde apenas os dois sabiam o que estava acontecendo.
Uma música sutil começou a tocar dentro da igrejinha, e ela soube que aquela era sua deixa para caminhar até o altar. Não queria marcha nupcial, não queria nada do convencional. Essas particularidades de todo e qualquer casamento ficariam restritas para quando se casasse com as famílias e os amigos como testemunha. De resto, queria apenas o que eles gostavam e podia jurar que ambos haviam se encantado com as músicas gregas que se faziam presente a cada esquina que passavam. A Grécia era encantadora, e, a partir daquele momento, quando ambos colocaram os olhos sobre o outro, sabiam que aquela terra de deuses e deusas teria eternamente um sabor especial.
O trajeto era pequeno entre a porta e o altar, mas ela fez questão de caminhar tranquila, pé ante pé, porque sabia que nada lhe seria tirado de supetão. Ambos não iriam a lugar algum, não sem levar o outro junto. No colo do pai, estava alheia a tudo, batendo palmas como se sua vida dependesse daquilo, e essa era a graça que via no mundo. A pureza de sua filha e o sorriso de olhos marejados do homem que estava estático lhe encarando.
— Eu não fazia ideia do quão linda você podia ficar usando um vestido branco. — foi a primeira coisa que ele disse quando ela chegou perto o suficiente para escutar.
— Queria poder dizer o mesmo em relação ao seu terno, mas eu já sabia muito bem o estrago que ele é capaz de causar. — ela sussurrou de volta, causando nele um riso largo e um leve rubor nas bochechas, já rosadas pelo sol forte da cidade.
Abaixaram-se, ele ainda com a pequena no colo, para que a pequena cerimônia pudesse ser realizada. Ela apoiou o buquê de flores brancas à sua esquerda, já ele deixou sentada no chão à sua direita, e a menina simplesmente entendeu que algo sério acontecia, mesmo sem nem saber o que era. Eles trocaram um olhar, perdidos em pensamentos e desejos, que sequer precisavam ser verbalizados.
— Estamos aqui reunidos, os quatro, para celebrar, aos olhos do Pai, a união desse casal jovem e saudável. Não tenho muitas formalidades porque sei que isso é mais uma benção do que um casamento em si, mas quero dizer-lhes que vos unirei perante aos olhos do Deus que cada um de nós aqui presente acredita, para que tenham todas as bênçãos que buscam. — o padre local começou, em um inglês carregado de sotaque, chamando a atenção dos dois. — Vocês trazem a mim, a esta pequena igreja, o desejo de se unirem em espírito e de terem a benção do Pai criador. Preciso perguntar-lhes, por pura formalidade, é de livre e espontânea vontade que estão aqui, juntos, a celebrar esta união?
— Sim. — a palavra cruzou os lábios dele antes que o padre pudesse terminar de falar.
— Sim.
— Digam seus votos em voz alta, para que todo e qualquer ser de luz possa ouvi-los e, então, abençoá-los.
— Eu, , aceito-te, , nas boas e nas más, para amar-te e respeitar-te, prometendo-te ser fiel, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, nas vitórias e nas derrotas, pelo resto de minha vida. Amarei, cuidarei, protegerei, respeitarei e defenderei sob qualquer circunstância, sendo você o futuro que eu escolhi para mim. Prometo, ainda, cuidar e zelar pela vida não só de nossa filha, como de todos os frutos que nosso amor seja capaz de nos deixar alcançar. Os amarei hoje, e seguirei amando-os pelo caminho que a eternidade me permitir. — a modelo iniciou, recitando aquilo que havia estudado o dia anterior inteiro.
— Eu, , aceito-te, , nas boas e nas más, para amar-te e respeitar-te, prometendo-te ser fiel, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, nas vitórias e nas derrotas, pelo resto de minha vida. Amarei, cuidarei, protegerei, respeitarei e defenderei sob qualquer circunstância, sendo você o futuro que eu escolhi para mim. Prometo, ainda, cuidar e zelar pela vida não só de nossa filha, como de todos os frutos que nosso amor seja capaz de nos deixar alcançar. Os amarei hoje, e seguirei amando-os pelo caminho que a eternidade me permitir. — foi a vez dele redizer o que ela havia dito, trazendo, ao olhar dela, algumas lágrimas que tão logo cairiam.
— Que Deus lhes conceda todos os frutos bons que vossas árvores serão capazes de produzir e que vocês tenham, dentro de si, sempre a luz do amor, da paciência, da gentileza e da coragem, para levarem adiante esse matrimônio, que já começou pautado em muito amor e coragem. Não sei quais são as histórias que os trouxeram até aqui no dia de hoje, mas posso ver, nesta pura troca de olhar, que se Ele quis que seus caminhos se juntassem, é porque era pelo e para um bem maior. A felicidade de vocês. Lhes loto de bênçãos e de desejos de amor e deixo aberto um espaço para que vocês possam dizer o que seus corações mandarem. — o padre então continuou, sorrindo para os dois, que já eram um misto puro de emoções.
— Peço espaço para lhe falar as coisas mais belas que eu conseguir. Apesar de saber que não sei se serei capaz de dizer coisas tão lindas quanto a imagem que tenho aqui à minha frente, imaculada pela luz que entra das janelas, trazendo uma aura de amor e paz que enche meu coração, dentro do peito, com um amor que eu nunca fui capaz de sentir em toda a minha vida. Te ver assim, usando esse vestido branco, esse véu, me faz pensar no momento em que te conheci, alguns meses atrás. Sim, meses, porque quando a gente encontra o que quer, meses passam a ser eternidade dentro da gente, numa conta completamente diferente e inimaginada.
A voz dele, embargada pela emoção do momento, fazia o coração dela palpitar dentro do peito, como se ele quisesse sair e bater livre por aí. A pele arrepiava a cada nova palavra, tal como se uma corrente de energia cruzasse seu corpo e sua mente.
— Quando eu te conheci, minha pequena , sabia que tinha perdido as rédeas do meu próprio mundo. Eu sabia que tudo o que tinha, um dia, viria a ser seu, porque eu já era seu sem nem saber. O que é uma coisa louca, porque o amor deixa a gente dependente de um jeito que pode parecer errado, mas que também parece certo. Eu não fazia ideia do que devia esperar quando a Kat te apresentou para mim, porque ela disse que você era confusa e complicada. Mas um complicado bom e um confuso compreensível, segundo a própria. E, no instante em que ela te descreveu, eu sabia que precisava te encontrar, precisava entender que tipo de pessoa era essa, que deixa o comum com gosto de diferente. Que furacão era esse, que se metia na nossa vida, arrasava o nosso caminho e, ainda assim, a gente pedia bis.
— Eu vou matar a Katerina por me descrever desse jeito, pode apostar. — a modelo gargalhou, interrompendo o, agora, seu marido, obrigando-o a lhe olhar de lado, como uma forma carinhosa de repreensão. — Desculpa, moço. Pode continuar.
— Onde eu estava mesmo, antes de você me interromper?
— Você estava falando do momento em que me conheceu… Um furacão, um complicado bom e confuso compreensível, segundo ela...
— Ah, sim, e então você apareceu, e eu preciso te dizer que uma coisa muito louca aconteceu. Sabe quando os românticos dizem que quando a gente encontra o amor da nossa vida, parece que soam uns sinos nas igrejas e nosso coração parece ter saído do peito e estar batendo em outro lugar? Eu senti isso, vivi isso, no momento em que coloquei meus olhos em você. Desprendida, destemida, viva. Dona de si, da própria vida, a ponto de querer e ter uma filha sem precisar de mais ninguém além de si mesma. Algumas pessoas ainda ficam chocadas quando eu digo que é sua, noventa por cento sua, e só um pouquinho minha. As pessoas não entendem como eu consegui aceitar uma coisa assim, e eu lhes digo que o amor muda tudo. O amor puro e sincero, aquele que dá sem querer nada em troca, apenas aceita. Porque é isso que ele é: puro, sincero, verdadeiro, e nasce a qualquer momento, exatamente como o meu amor por você nasceu. Eu me perco em meio às palavras, porque é difícil dizer tudo o que sinto nesse momento, lembrar de cada mínimo detalhe que eu jurei jamais esquecer porque sabia que, um dia, ia gostar de revivê-los. — tinha os olhos perdidos em algum lugar além da modelo, nas lembranças que sua mente bombardeava de forma desenfreada.
Não que estivesse muito diferente. Na cabeça da modelo, se passavam cenas de um passado curto, mas muito bem aproveitado. Coisas que ela, assim como ele, tinha dito, tinha jurado a si própria que jamais gostaria de esquecer. Algumas passavam como memórias nítidas, outras, já meio falhadas, envelhecidas, por serem de momentos mais distantes, mas ela tinha a certeza de que aquilo pouco importava, porque eles ainda fariam muitas e muitas memórias juntos.
— Eu não quero me estender mais do que já me estendi, mas queria lembrar aqui cada mínimo momento em que eu te amei, sempre mais em relação ao anterior. Eu te amei quando você surgiu na minha vida, quando você me contou sobre a , enquanto ainda éramos amigos, quando você disse que sentia algo por mim, sem entender o que era, mas te amei ainda mais quando você entendeu e quis me amar de volta. Eu te amei quando você deixou Dortmund para passar uns dias comigo, quando você deixou que eu cuidasse de você, quando fez da minha casa a sua. Eu te amei quando você aceitou assistir meu jogo, mesmo que sendo contra os seus amigos. Eu te amei quando você disse que queria ficar, quando disse que Munique já era sua casa, quando me disse o primeiro “sim”, e eu te amei, ainda mais, quando você disse o segundo “sim”. Eu te amei quando você lutou bravamente para que a viesse ao mundo, quando aceitou comprar o meu trabalho e entendeu pacientemente que, um dia, eu posso estar em Munique, no outro, em Paris, na semana seguinte, em Londres, e que isso faz parte de quem eu sou. Eu te amei quando você não desistiu dos seus sonhos, mesmo dizendo que os meus eram maiores e mais especiais, quando você abriu mão de algumas coisas suas pelas minhas, quando brigou bravamente para não abrir mão de nada. Eu te amei quando você foi reconhecida e te amei o dobro quando deixaram de te reconhecer. Eu te amo todos os dias e vou te amar por todos os próximos, porque você é a pessoa mais especial que conheço e faz de mim o homem mais feliz do mundo. Eu te amo, dia sim, dia sempre, e nada mundo vai mudar isso. Eu te amo. — o jogador discursou, levando a uma enxurrada de lágrimas que, nem se ela quisesse, seria capaz de controlar.
— Eu sequer sei o que te falar nesse instante, porque meu coração está tão inundado de amor com essa declaração que parece que qualquer coisa que eu diga nunca será suficiente para responder à altura isso que você fez… Eu só posso te agradecer e agradecer por ter tentado, por ter lutado, por ter demonstrado. Só posso te agradecer por ter querido, por ter me ajudado a ser quem eu sou hoje. A de anos atrás, aquela bem menininha, sonhava exatamente com você desse jeitinho que é. E, se eu pudesse voltar no passado para encontrar com ela, diria pra ela não mudar uma vírgula sequer do que a gente viveu, porque o amor que ela demonstrou ao longo dos anos, sem ser correspondido de forma justa, um dia, seria devolvido para ela com toda a sua força. Obrigada por ser maravilhoso, por aceitar minha confusão e minha bagunça emocional. Eu te quero para sempre, nos dias bons e nos ruins. Te amo. — a modelo parecia engasgada nas próprias palavras, mas, ainda assim, sentiu seu coração ser entregue, na melhor forma que conseguiu, para o homem do sorriso doce e envergonhado. O homem da sua vida.
O padre ainda disse algumas coisas, estendendo mais algumas bênçãos ao casal, mas ambos já não se sentiam mais ali. Suas almas já tinham transcendido, estavam além do comum e se encontravam em algum lugar do universo, celebrando, entre si, o fato de agora serem juntas o que eram sós.
E ambos desejaram a cada estrela escondida no céu, que ainda era iluminado por um sol brilhante, que o amor deles durasse para sempre. E eles sabiam que o amor duraria, porque era o que estava escrito para acontecer.


Continua...



Nota da autora: Oi gente linda, tudo bom?
Olha eu aqui com mais uma fic com jogador de futebol… Eu sei, eu preciso mudar o tipo do meu principal, mas é difícil, porque futebol é tão meu universo, quando eu me dou conta… Lá vou eu com mais um… HAHAHAHAHA Mas esse ai é diferente de qualquer outro que eu já escrevi antes, ao menos isso né? Ainda é espanhol, mas agora é o meu bebê Bernat… Cuidem dele viu? Porque eu já tô ficando com ciúmes...
Bom, caso queiram conversar, falar sobre a fic, ou, simplesmente, divulgar algo que vocês escrevam, é só me mandar nas redes sociais aí embaixo. Vou ficar muito honrada com o retorno!
Vejo vocês na próxima!
Um beijo, um queijo e um cheiro,
Ju ❤



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