Roteiro de Viagem: Brasil

Última atualização: 26/06/2020

Capítulo 1 - O Transporte do Fumo

Norte


- , pelo amor dos deuses, para de graça.
- Pelo amor dos deuses não, gata. Pelo amor de tupã, você quer dizer – a garota abriu a mala mais uma vez e tentou colocar mais um pacotinho de fumo dentro. – Vocês vão me agradecer quando chegar lá.
- O que ela tá fazendo?
perguntou se esgueirando pela porta, várias malas estavam no chão esperando pra ser carregadas.
- Colocando mais fumo na bolsa – respondeu, entregando a mala mais próxima nas mãos de . – Ela tá crente que vai achar o curupira por lá e dar fumo pra ele pra não ser comida viva.
- Vocês vão me agradecer quando chegar lá - falou mais uma vez, antes de passar pela porta carregando a mala já fechada. – Eu sou sensitiva, sinto que vamos encontrar com ele. E não, ele não vai me comer viva, no máximo, no máximo me bater um pouco e me deixar pra morrer no meio da mata.
As amigas se entreolharam e depois olharam pra esperando que ela fosse rir da piada. Mas não parecia que aquilo ia acontecer.
- Sei, sei, como se isso fosse melhor do que ser comida viva - abanou a mão segurando um riso. - Ela já até falou em tupã e tudo.
Então finalmente riu, sendo seguida de , enquanto parava e olhava pras duas com uma expressão nada feliz no rosto. Enquanto não pararam de rir, a garota enraivecida não parou de encarar.
- Estão prontas? - o seu Cardoso perguntou assustando , que deixou a bolsa de mão cair, espalhando uma porção de saquinhos de fumo em seus pés. – Vai me explicar o que é isso ou vamos cancelar a viagem?
- Seu Cardoso, ela é louca, o senhor já sabe.
murmurou enquanto saía de perto pra não levar bronca. nada falou, seguindo a amiga.

++++++++


- Então é isso, tchau mãe, tchau pai – abraçou os dois, deixando pequenas lágrimas saírem pelos cantos dos olhos. Odiava viajar sem os pais, mas tinha que fazer aquela viagem com as amigas. – Eu vou sentir muita saudade.
- Cuidado com esse negocio de fumo por aí. Ainda não comprei essa história.
- Pode deixar, seu Cardoso – riu, sabendo que ele conhecia bem a loucura da filha pra achar que ela faria algo além de dar o fumo pro tal curupira. – A gente vai cuidar bem dela.
apenas deu de ombros, fungou mais uma vez e passou a área de embarque, acompanhando as amigas.

++++++++


- Vamos, gatona, sente aí no seu lugar – sorriu, puxando a amiga pra perto de si, a encaixando na janela, enquanto sentava do outro lado, no corredor, pra ficarem perto uma das outras. – Eu nem acredito que a gente conseguiu passar a segurança com esse tanto de fumo entranhado nas suas coisas.
- Fiquei com medo disso também – sorriu enquanto ajeitava seu cinto. – Você deveria ter deixado pra comprar lá.
- Pensei nisso – ela sorriu. – Mas vou deixar pra comprar a cachaça lá.
- É sério mesmo? Pra que cachaça?
- Não se pode entrar na mata sem uma oferenda pra ele, – explicou à amiga como se fosse obvio, segurou uma risada.
rolou os olhos, naquele instante ela soube que aquela seria uma viagem super-hiper-mega longa.

++++++++


- Chegamos, graças aos deuses, aeroporto de Manaus.
- Tupã – falou sem nem olhar a amiga, estava mais preocupada com o tempo que levariam pra chegar ao hotel. – Pelo amor de tupã, eu já te disse . Se não vai cultuar o cristianismo, pelo menos cultue deuses brasileiros. É uma vergonha a gente ter uma cultura tão bonita e vocês resolverem chamar por deuses romanos.
- Sabemos, sabemos – colocou a mão por cima dos ombros da amiga. – Se não isso, pelo menos cultue a religião de pessoas que colonizaram o Brasil e resolveram que a cultura deles era o que importava...
- Você tá bem engajada, amiga – Luna colocou o braço por cima do de e apertou a amiga no meio. – Quem diria que antes de fazer essa viagem, tudo o que te importava, eram as marcas estrangeiras...
- Principalmente aquelas famosas onde se comem muitos hambúrgueres por poucas verdinhas...
- Chega vocês duas – se soltou e se afastou delas o suficiente pra ver plaquinhas com seus nomes. – Parem de tirar onda e vamos embora de uma vez.

++++++++


O primeiro dia do roteiro da viagem tinha sido o mais tranquilo possível, depois de descansar em um hotel em Manaus, no dia seguinte, elas começaram a “viagem pra dentro da selva”. Ficariam em um hotel onde poderiam conhecer e aprender sobre o que de mais rico tinham em seu país de origem. Até chegar ao hotel de destino, andaram de lancha onde puderam observar o encontro das águas dos Rios Negro e Solimões, apreciaram a forma incrível como as águas dos dois rios não se misturavam por nada e o modo como cada um tinha sua temperatura e cor. Depois, por um tempo que elas não contaram, andaram de carro, percebeu que estavam, de fato, em território amazonense, não que não soubesse disso, mas ainda custava a creditar que era tudo de verdade. Por vezes sentia seus olhos marejarem, era a realização de um sonho poder conhecer mais do seu Brasil. Depois disso fizeram mais uma parte do trajeto de barco, onde puderam ver furos e igarapés, jurava que tinha visto um boto cor de rosa por ali, mas deixou pra contar pras amigas depois, sentia que talvez, mais tarde, pudesse encontrar o boto pessoalmente...
- Finalmente terra firme – se jogou no chão, fazendo outros hóspedes rirem. – Sério, foi maravilhoso o passeio, mas com a fome que eu tô, estava começando a passar mal...
- Sim, sua esfomeada – ajudou a amiga a se levantar, enquanto um moço passava com uma bandeja com copos de suco. Ela catou dois assim que ele chegou mais perto. – Toma aqui, vê se para de show que você está passando vergonha.
- Hmm, que delícia, do que que é?
Perguntou ao moço que sorriu com o comentário.
- Cupuaçu, fruta típica da nossa região.
- Puta merda, hein – o moço se assustou com o comentário e sorriu sem graça. – É gostoso demais, querido. Posso pegar mais um?
- Não, moço, obrigada, deixa que a gente cuida dessa draga agora. Desculpa o vexame.
puxou de lado, enquanto ela virava o copo com o resto do suco. Depois de despacharem suas malas para seus quartos e pegarem suas chaves, seguiram para o restaurante do hotel onde seria servido o almoço.
- Pra que essa mochila, ? Pelo amor de D... – fez careta e rolou olhos. – Tupã, pelo amor de Tupã, tá pesando uns dez quilos.
- Não exagera, você vai me agradecer quando a gente entrar na mata, de novo. Aqui tem repelente, protetor labial, protetor solar, desodorante, cachaça e alguns pacotes de fumo – ela foi tirando tudo da mochila, ao passo que as amigas arregalavam os olhos. E as pessoas ao redor olhavam curiosas. – A gente vai conseguir fugir do curupira...
tapou a boca da amiga enquanto tentava segurar uma risada e os vizinhos de mesa do restaurante riam de verdade.
- Guarda isso aí sua louca – começou a juntar as coisas e jogar de qualquer jeito na mochila, sob protestos alterados de . – É sério que tu acredita nisso mesmo de oferenda com fumo e cachaça?
E tudo que fez foi dar um sorrisinho de canto.


Capítulo 2 - A decepção do primeiro dia

- Você viu, louca da minha vida – bufou, sorriu e abraçou a amiga emburrada. – Não encontramos nada que fizessem jus ao seu contrabando de fumo.
- Teoricamente, não foi contrabando – tirou as mãos da amiga de cima de si e agarrou a mochila. – E segundo, a gente chegou aqui ontem. Não deu tempo de ver nada desse tipo de coisa.
Estavam voltando ao hotel, depois de um maravilhoso passeio de canoa. Tinha sido basicamente uma das melhores experiências da vida. Agora o jantar cairia super bem já que o café da manhã regrado a frutas típicas locais – que por sinal tinham feito extremamente feliz com a variedade de sabores – e o almoço rápido que fizeram pra não perder o passei, não tinha matado a fome da , que resmungava todo o caminho de volta desde que deixaram as barcas.
- E, não sei se você sabe, mas as coisas ruins que assolam esse vasto mundão, só aparecem à noite – largaram as mochilas em uma mesa qualquer e se enfiaram no meio da fila do buffet. – Até parece que você não assistiu um bilhão de filmes de terror na tua vida sem graça.
- Tem sentido.
murmurou e Julia rolou os olhos, continuou concentrada em encher seu prato com tudo que via de diferente do que comia no dia a dia.
- Só me falta vocês me dizerem que a noite a gente vai sair em caçada dessas tais coisas. Não que eu acredite nem nada, mas acho que sair no meio da floresta amazônica sozinhas, não é lá muito boa ideia.
- Claro, claro, ser humano do céu, tu não me ouve? – parou a meio caminho de encher a boca outra vez de um tal de pato no tucupi que ela nem sabia se tinha realmente gostado, logo depois de se sentarem mais afastadas dos outros. As amigas não queriam mais passar vergonha com o assunto do fumo. – Eu já te falei, eles só aparecem se a tua santa burrice machucar a floresta. E é claro que, no meu turno, isso não vai acontecer.
- Sei, sei. Além do que, você fez todo aquele ritual de colocar um copinho de cachaça e alguns punhados de fumo na entrada do hotel e perto do barco que levou a gente pra passear... você não acha que isso é machucar a floresta? Afinal, foram coisas feitas pelo homem jogadas ali...
abriu a boca, ficara sem resposta pela primeira vez na viagem, as amigas começaram a rir da expressão dela. Bufou irritada.
- Tá bem, tá bem, mas não é como se a não tivesse recolhido tudo depois, ingrata. E eu ia catar tudo depois que os espíritos da floresta entendessem a oferenda. Estava salvando nossas vidas. Mas não vou fazer mais – encheu a boca outra vez e sorriu ladina. – Vou deixar vocês morrerem.
Então o almoço se seguiu com assuntos leves, enquanto explicava como seria dolorida a morte das duas.

++++++++

- Todos prontos para o passeio? Vamos dar uma volta de barco procurando jacarés.
O guia falou mais alto, estavam se organizando pra entrar no barco, várias pessoas, incluindo e , estavam mais do que encolhidas, abraçadas umas às outras com medo de serem comidas por onças e sucuris gigantes. Pobres tolos, sucuris não engolem pessoas adultas. ia pensando consigo mesma, à medida que se aconchegava ao lado das amigas na Barco. Sentia pena de como as pessoas eram bem desinformadas.
- Qual é, vocês estudaram biologia na escola? – perguntou de lado as amigas que rolaram os olhos. Falava alto para que fosse ouvida por mais gente. – Se não mexer com o bicho, ele não mexe com a gente. Além do mais, o mais perigoso que a gente vai achar aí dentro, é o Cobra Honorato. E, convenhamos, ele nem é tão perigoso assim.
Algumas pessoas riram, as amigas colocaram as mãos entre o rosto mortas de vergonha, o guia gargalhou, achando graça da veemência da menina. Conhecia bem aquela lenda. Ao passo que algumas pessoas pediam explicações sobre o que era a tal cobra e se ela era peçonhenta, o guia se viu na obrigação de contar.
- A lenda conta que a índia Tapuia sentiu a gravidez quando se banhava nas águas do rio Claro– os suspiros de alivio foram ouvidos por toda a barco, felizes por não ser mesmo uma cobra de verdade. – Teve os filhos nas margens do Cachoeiri, entre os rios Amazonas e Trombetas. Vieram ao mundo na forma de duas serpentes escuras. A mãe lhes deu os nomes cristãos de Honorato e Maria. Eram gêmeos. Não podiam viver na terra. Criaram-se nas águas. O povo os chamava Cobra Norato e Maria Caninana.... Cobra Norato era forte e bom. Não fazia mal a ninguém. Pelo contrário, salvou muita gente de morrer afogada. Lutou contra peixes grandes e ferozes. Passava o dia nadando, esperando a chegada da noite. Quando a lua surgia no céu, ele saía da água, arrastando o corpo pela areia. Então, Cobra Norato se desencantava. Deixava o couro da cobra na margem do rio, e se transformava num belo rapaz. Adorava festas. Ia dançar, ver as moças, conversar com os outros rapazes. Pela madrugada, enfiava-se novamente no couro da cobra que deixara na margem e mergulhava nas águas do rio....
“Sua irmã, Maria Caninana, era má e violenta. Jamais visitou a mãe. Afundava embarcações, feria peixes pequenos. Por isso, Cobra Norato a matou, depois de uma luta terrível. As duas serpentes se engalfinharam no meio do rio Madeira, transformando suas águas calmas num imenso redemoinho...”
“Para virar homem de uma vez por todas, Cobra Norato precisava de alguém que ajudasse a desencantá-lo. Antes de mais nada, era necessário encontrá-lo dormindo. Depois, deveriam se jogar três pingos de leite de mulher na boca da cobra e dar uma cutilada de ferro virgem na sua cabeça. Ela, então, fecharia a boca e da ferida na cabeça sairiam três gotas de sangue. Assim, Honorato ficaria homem para o resto da vida....
“Mas a cobra assombrava. Todos tinham medo. Demorou para aparecer alguém que quisesse ajudar. Certo dia, a cobra nadou pelo Tocantins. Deixou o corpo na beira do rio e foi dançar. Fez amizade com um soldado e pediu que o desencantasse. O soldado topou e fez tudo o que era preciso. Honorato suspirou descansado. Queimou o couroda cobra. As cinzas voaram.
”Ele estava, enfim, livre da maldição.”
sorriu, tinha um brilho nos olhos, quase como se fosse chorar. Era uma lenda linda, mas...
- Tem certeza? – todos olharam pra ela. – Sério, como podem ter certeza de que ele não está, nesse exato momento, abaixo de nós, esperando alguém pra salvar ele?
Algumas pessoas estremeceram, e suspiraram em conjunto, o guia riu.
- É só uma lenda, mocinha. Além do mais, nada mesmo prova que ele foi libertado – ele murmurou depois de pararem os motores do barco. Ligou a lanterna e lançou um olhar pra . – A gente vai observar os olhos dos jacarés, se quiser, pode ficar atenta, os olhos do Honorato brilham dourados no fundo do rio...
sentiu um arrepio por todo o corpo, no momento seguinte se pôs a observar o rio com mais cautela. Veria o que queria, gostando os outros ou não, mas, à medida que o guia mostrava como os jacarés ficavam imóveis e com os olhos vermelhos, ia ficando chateada porque nada parecia acontecer.
Ficaram mais um tempo por ali, o guia trouxe um dos jacarés pra dentro do barco, coisa que maravilhou muita gente, outras apenas ficaram o mais longe possível, se deixou levar pelo encanto do momento, talvez nunca mais tivesse a chance de passar a mão num bicho tirado diretamente da floresta. Nem sabia se podia, mas pediria ao guia.
Perto da li, olhava atentamente pro rio, se sentindo feliz por terem combinado aquela viagem e ter conseguido realizar. Por mais que sentisse vergonha das loucuras da , sabia que, com ela junto, as coisas seriam bem mais divertidas. Pensava em como seria o passei do dia seguinte, quando sentiu apertar as unhas em volta do seu braço com força, quase ao ponto de machucar. Se virou pra ela rapidamente e viu que a garota tinha lágrimas nos olhos e parecia prestes a gritar.
- Me diz que eu tô alucinando e que eu não tô vendo aquilo.
De longe, parecendo estar no fundo do rio, um brilho laranja chamou atenção, Julia sentiu o sangue gelar. Olhou pra , que ria feliz próximo ao guia, tentando chegar mais perto do pequeno jacaré que tinha trazido dentro do barco. Ao voltar os olhos pra o local do rio onde viu o brilho, decidiu o que fazer.
- Nenhuma palavra disso com a – falou baixinho pra enquanto essa engasgou um soluço de pavor. – Ela já é surtada demais sem isso.



Continua...



Nota da autora: ideia retirada de um livro de infância que eu amava. E também de um sonho que tive depois de ler uma fanfic de Supernatural que se passava no Brasil. Porém, os irmãos Winchester não vão aparecer por aqui, infelizmente, rsrs. Espero que curtam descobrir um pouquinho mais sobre o nosso folclore.
Informações fixas: As informações da viagem foram retiradas desse site, tal qual como pesquisas feitas na wikipedia.




Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus