Última atualização: 04/02/2020

Capítulo 1

Da genética: emparelhamento de cromossomos homólogos durante a meiose.
Da neurofisiologia: transmissão de um impulso nervoso de um neurônio para uma célula receptora com o objetivo de causar uma resposta no organismo.


Sempre foi complicado ser a pessoa que pensa fora da caixa, ainda mais quando os livros e as fantasias sempre foram meus melhores amigos. Não estou dizendo que fui antissocial durante toda a minha vida – pelo contrário! -, mas, mesmo na minha época de “popular” no colégio, nunca senti que me encaixava de verdade. Hermione Granger, Sirius Black, Hercule Poirot, Frodo, Aragorn e tantos outros personagens me entendiam muito mais do que minhas amigas de infância. Não foi por acaso que ganhei a fama de cdf da turma durante a adolescência, apesar das minhas notas não serem as melhores. O termo correto seria geek muito antes de se tornar uma febre entre os adolescentes. Durante o período letivo, envolvia-me no grupo de atletismo, no estudo das línguas estrangeiras e no grupo de estudos de química e de biologia; fora das aulas e das obrigações curriculares, ler, jogar D&D de mesa com meu irmão e os amigos ou RPG com fakes do extinto Orkut eram meus passatempos favoritos. Por fora, uma garota que seguia os padrões da sociedade; por dentro, meus verdadeiros sentimentos eram reprimidos.
Não foi novidade quando decidi cursar medicina, muito menos quando passei na primeira tentativa do vestibular após concluir o ensino médio. Fui cursar longe de casa, e só quando conheci a liberdade, me dei conta de como toda a minha vida não havia passado de uma gaiola. Diferente de como agia na adolescência, na vida adulta aprendi a respeitar meus sentimentos, e, literalmente, mandei pessoas se foderem por agirem como uns imbecis com outras pessoas. É desnecessário dizer que minha recém descoberta liberdade não se deu muito bem socialmente na faculdade, ainda mais quando entendi que estaria lidando com vidas e a fase de apenas estudar para as provas tinha ficado para trás. A partir daí, mantive minha fama antiga, mas com um termo mais ofensivo: a louca dos estudos, mas, dessa vez, eu gostava dela, porque tinha finalmente aceitado meu interior. E fiz jus à ela: fui monitora de anatomia, de técnica cirúrgica e de cirurgia ambulatorial, além de estar em terceiro no rank de melhores notas do meu ano. Se eu me esforçasse tudo o que as pessoas achavam, talvez eu estivesse em primeiro lugar, mas a cada intervalo que tinha dos compromissos da faculdade, eu voltava para os meus mais velhos e amados amigos – os livros.
Quem olha de fora, deve pensar que minha vida foi um mar de rosas e provavelmente deve estar me chamando de garota fútil. Antigamente eu me importaria com a opinião alheia, mas depois de tantos problemas pessoais, entendi que são apenas os pensamentos das pessoas que amo que contam, além dos meus. Ninguém jamais pode saber o que se passa no íntimo de outra pessoa, e é uma ofensa ousar dizer que sabe – cada um carrega a sua dor, aprende a andar com seus próprios pés e tem a sua história.
A minha história é complexa, cheia de dores e fugas, mas parece que ela ganhou novos tons de vida quando o conheci. Gosto de pensar que todos os passos que dei durante esses 27 anos de existência guiaram-me até o melhor capítulo do meu próprio livro.

The dawn is breaking

(5 anos antes)


“Nós somos do tecido de que são feitos os sonhos.”
William Shakespeare


- Por que tu nunca atende a porcaria do celular?
Levantei os olhos do livro de nefrologia que estava estudando e encarei minha melhor amiga. estava parada em frente à mesa que eu ocupava na biblioteca da universidade, olhando-me seriamente, como se fosse capaz de me matar apenas com os olhos. Normalmente era eu quem tinha essa expressão, mas algo deve tê-la realmente irritado para deixa-la daquela forma – ou alguém.
- O que aconteceu? – Perguntei, fechando o livro, mas lembrando de colocar o marcador de página para não me perder depois.
Era final de tarde, e por conta da troca dos turnos das aulas, a biblioteca estava um pouco mais cheia que o habitual. Praticamente todas as mesas de estudo estavam cheias, e alguns alunos também conversavam. O horário de silêncio nunca era respeitado nesses momentos, então a maioria usava fones de ouvido para abafar o murmúrio ao redor.
sentou-se na cadeira a minha frente, estendendo o próprio celular para mim. Confusa, peguei e vi que se tratava de uma foto. Ampliei e vi que era a foto da classificação de inscritos para um intercâmbio na UT Austin. Engoli em seco, sentindo meu corpo inteiro ficar rígido e tenso conforme olhava os nomes na lista. Se ela tinha se dado ao trabalho de me ligar – ela odeia falar no telefone – e depois de correr atrás de mim pelo campus, era porque meu nome estaria ali em algum lugar. E pronto, ali estava: , e, ao lado, aprovada para o serviço de Neurocirurgia. Um arrepio tomou meu corpo, do minguinho do pé até meu último fio de cabelo, e levantei meus olhos, já marejados, para encarar minha amiga.
- Eu passei. – Falei, sem realmente acreditar no que estava lendo. Ela assentiu, agora suavizando as feições e me dando um sorriso. – É sério isso? – mais uma vez ela assentiu. – Sério, sério, sério?
- Sim, , é sério! – ela riu, revirando os olhos antes com meu drama.
Fiz uma careta ao ouvir meu nome completo, mas logo esqueci dessa provocação e voltei a olhar para a tela do celular.
(5° ano), aprovada para o serviço de Neurocirurgia na Universidade do Texas em Austin, Estados Unidos da América
Ca-ra-lho!
- Meu deus. – falei, lendo e relendo aquela mísera frase. – Eu passei. Isso significa que...
- Você vai passar dois meses em Austin! – ela falou/gritou, fazendo com que algumas pessoas a mandassem ficar quieta. – Desculpem. – encolheu os ombros, pegou o celular das minhas mãos e começou a juntar minhas coisas. – Amiga, você deveria estar gritando de felicidade. Como pode estar tão contida?
Deixei que ela juntasse meus materiais e os colocasse dentro da minha mochila, observando seus movimentos sem de fato percebê-los. Na minha mente, milhares de pensamentos passavam voando, tão rápidos quanto a velocidade da luz e tão fugazes quanto um suspiro. Não conseguia focar em nenhum deles, porque era muito para assimilar.
- Vamos. – Ela disse, puxando-me pelo braço enquanto colocava minha mochila nos ombros. – Você precisa ver essa classificação com os próprios olhos.
Novamente, deixei que tomasse a frente da situação e puxasse-me para fora da biblioteca, ao longo dos corredores e dos prédios da nossa universidade, até chegar ao prédio da medicina. Na entrada dele, estanquei. E se tudo não passasse de uma brincadeira de muito, muito, mal gosto? Olhei desconfiada para a minha amiga a poucos passos a minha frente – não seria capaz de fazer isso. Ela era a pessoa mais da paz, quase uma hippie, que eu conheço. E ela sempre soube o quanto eu quis esse intercâmbio desde o momento que ele foi anunciado. Seria crueldade demais brincar assim. Se fosse mentira, certamente, nunca mais olharia na cara dela, e, infelizmente – ou felizmente – quando decido excluir uma pessoa da minha vida, foda-se a história que tivemos, porque eu excluo sem olhar para trás. Mas ela não faria isso, não comigo.
- Você vem ou não? – Ela perguntou, ainda segurando minha mochila.
Assenti, mas dessa vez caminhei sozinha. Passei por ela e, antes de entrar no nosso prédio, fechei os olhos e respirei fundo, fazendo uma pequena prece. Por favor, Deus, sei que não temos uma relação muito próxima, mas que seja verdade. Abri os olhos e, decidida, entrei no local. O hall não estava cheio, e reconheci dois estudantes calouros e um grupo de meninas que se formariam neste ano, mas nenhum olhava para o mural de avisos. Caminhei sozinha até ele, procurando pelo papel da classificação. E depois de quase infartar pensando que era mesmo uma brincadeira, encontrei a maldita folha. Cinco alunos haviam sido selecionados: dois para duas universidades alemãs, um para uma universidade francesa e dois para duas universidades americanas.

LISTA DE APROVADOS PARA INTERCÂMBIO EXTRA-CURRICULAR

Artur Pereira Lima (6° ano), aprovado para o serviço de Cirurgia Cardíaca na Universidade de Munique, Alemanha

Rafaela Dutra Alves (6° ano), aprovada para o serviço de Ginecologia e Obstetrícia na Universidade de Mannhein, Alemanha

Victor Oliveira (6° ano), aprovado para o serviço de Infectologia na Universidade de Paris-Sorbonne, França

(5° ano), aprovada para o serviço de Neurocirurgia na Universidade do Texas em Austin, Estados Unidos da América

Victoria Ferreira Rodrigues (5° ano), aprovada para o serviço de Neonatologia na Universidade de Columbia, Estados Unidos da America

Obs. Os alunos aprovados devem comparecer ao departamento de ensino até o dia 10/08 para a retirada da documentação necessária.

Eu tinha conseguido. Eu realmente tinha conseguido. Meu Deus.
Sem conseguir me reprimir mais, deixei que a emoção tomasse conta do meu corpo, e logo já estava chorando e tremendo de alegria. Iria passar dois meses no Texas, em uma das universidades mais prestigiadas dos EUA e aprendendo com gigantes da neurocirurgia. Então, comecei a rir. Puta que pariu, eu vou conhecer Ezra Hermann! Eu vou vê-lo operar! Puta que pariu!
Virei-me para trás, encontrando parada há alguns metros, olhando-me e esperando pacientemente minha reação. Corri até ela e lhe abracei, e juntas começamos a pular.
- Eu passei! – Gritei, pulando. – Eu passei!
- Tu vai pro Texas! – Ela gritou, rindo.
- Caralho, eu vou pro Texas! – Gritei mais uma vez, ignorando completamente que estávamos no meio do hall do prédio e que tinha outras pessoas ao redor. Afastei-me dela e gargalhei. – Eu vou passar o Natal na neve! – ri, começando a me dar conta de tudo o que ia passar.
- Filha da mãe! – ela disse, também rindo.
- Ver o Austin City Limits Music Festival! – falei, dando-me conta de que estaria na época do festival de música que celebra o rock, o folk e o bluesgrass. – E fazer turismo no Observatório McDonald!
- Ok, agora você está sendo nojenta. – brincou .
Recuperei o fôlego, aquietando meu corpo e respirando fundo.
- Amiga... – comecei a falar. – Eu vou conhecer Ezra Hermann. – e esse era, sem dúvidas, o maior motivo da minha alegria.
- Meu senhor, tu é muito nerd mesmo. – ela disse, revirando os olhos. – Vai passar dois meses no exterior, no mundo capitalista que tu tanto ama, rodeada de homens gatos e tudo o que te deixa feliz é conhecer um velho?
- Você não disse isso! – acusei, semicerrando os olhos e pasma. – É a porra do Ezra Hermann, o neurocirurgião que revolucionou a ressecção dos tumores de fossa posterior!
Novamente, ela revirou os olhos e deu de ombros, ignorando completamente o que eu tinha acabado de falar.
- Estou te ouvindo, mas não te entendendo. – ela disse.
- Inacreditável. – foi a minha vez de revirar os olhos, para em seguida ouvi-la rir. – O que é?
- , sei quem é o cara. Desde que você colocou na cabeça que vai fazer residência em neurocirurgia, Ezra Hermann é citado, pelo menos, uma vez por semana nas nossas conversas. É impossível não saber da existência desse homem quando ele tem uma groupie tão dedicada. – provocou.
- Tu é muito sem graça mesmo. – retruquei.
- Estou feliz por ti, mesmo. – ela disse, ficando séria. – Mais do que ninguém, sei o que tu passou e o quanto se esforçou pra conseguir esse intercâmbio.
De fato, os últimos meses não tinham sido fáceis, mas, sem dúvidas, tinha valido a pena.
- Obrigada. – sorri, grata. Estendi minha mão para pegar minha mochila, e após fazê-lo a coloquei no ombro direito. – Minha mãe vai surtar quando eu contar pra ela.
- Verdade.
- E meu pai vai me desencorajar. – franzi a sobrancelha, já pensando na conversa difícil que teria com ele.
- Só porque ele sabe que se a oportunidade aparecer, tu fica por lá mesmo.
- Pensando por esse lado, faz sentido. – rimos juntas.
- Tu não é louca de me deixar enfrentar o último ano do internato sozinha. Te arrasto pelos cabelos.
- Relaxa, temos um mundo para conquistar, .
- Tem noção do que esse intercâmbio vai representar na tua vida profissional?
Assenti, embora a ficha ainda não tivesse caído completamente. Respirei fundo mais uma vez e comecei a reunir coragem.
- Tá... – falei, empertigando-me. – Vou no departamento pegar as documentações e as orientações.
- Beleza. Te vejo amanhã na maternidade. – assenti, e em seguida demos as costas uma para a outra, seguindo caminhos opostos.
Nós duas estávamos no nosso quinto ano de curso, primeiro ano da fase conhecida como internato, que é quando a faculdade deixa de ser teórica e os alunos são inseridos na prática médica, passando por todas as grandes áreas da medicina: pediatria, ginecologia e obstetrícia (GO), cirurgia geral (CG), saúde mental (SM), medicina de família e comunidade (ESF), clínica médica (CM), urgência e emergência (UEM) e gestão. Neste mês estávamos passando na maternidade, uma subárea dentro da GO, depois passaríamos setembro no centro obstétrico; outubro, na gestão; novembro, na SM. Dezembro e janeiro seriam nossos meses de férias, e quem tivesse interesse, poderia se candidatar para uma das vagas do intercâmbio. Foi o que eu fiz. A prova tinha sido no mês anterior e, além da nota alcançada, o currículo do aluno também era analisado. Como eu já tinha feito estágios em hospitais de referência de neurocirurgia nas férias de verão da faculdade, tinha pontos a meu favor. E eu tinha, de fato, quase me matado estudando para a prova de classificação. Puta que pariu, eu merecia essa vaga.

3 meses depois


- Chamada para o voo DL104, de Guarulhos, SP, para Austin, Texas, portão 10.

Então era isso.

- Filha, tu tem certeza disso? – minha mãe perguntou, com os olhos vermelhos de tanto chorar há poucos minutos. Assenti. – Mas passar o Natal sozinha! Num país desconhecido!
- Mãe, para de drama! – meu irmão falou em minha defesa. – Duvido que ela passe sozinha. No primeiro dia lá já vai se enturmar e vai nem lembrar de dizer que está viva.
- , você não ouse me deixar sem notícias! – ela retrucou, fazendo-me revirar os olhos.
- E quando foi que eu já fiz isso? – respondi.
- Se eu não te ligasse todos os dias, só saberia que está viva uma vez por mês. – ela disse, repreendendo-me. Era verdade. Depois que saí de casa, simplesmente não via motivos para ligar todo santo dia, exceto para tranquilizá-la. – Trate de avisar quando chegar em Atlanta, depois em Austin e depois da universidade. E responda meus whats!
- Ok. Mas se eu não responder de imediato é porque estarei ocupada. – frisei a última palavra, apenas para garantir que eu não estaria indo lá apenas a passeio.
- Tu tá sempre ocupada.
- Mãe, sem dramas. – repetiu meu irmão.
- Última chamada para o voo DL104, de Guarulhos, SP, para Austin, Texas, portão 10. – anunciaram, fazendo-me dar conta do que estava prestes a acontecer.
Olhei para eles, sorrindo. Minha mãe não estava na sua melhor fase, mas, depois de descobrir uma traição e de ter um casamento de trinta anos jogado no brejo, era de se esperar. Apesar da tristeza dela, eu sabia o quanto ela se esforçava para não transparecer o quanto tinha ficado destruída. Meu irmão abraçava minha cunhada, mas se afastou dela e me puxou para um abraço apertado.
- Guria, vai conquistar o mundo. – ele disse, ainda me abraçando. – Eu seguro as pontas aqui.
- Obrigada, irmaozão. – falei, retribuindo o aperto do seu abraço. – Qualquer coisa me liga que volto correndo. – sussurrei.
- Não seja doida. – ele disse, afastando, mas mantendo-se na minha frente. – Muito a aprender você ainda tem.
Ri, não acreditando no que ele tinha dito.
- Tinha que citar o Yoda, né? – dei um tapa em seu ombro, segurando as lágrimas que ameaçam cair.
- Sempre. – ele disse.
Abracei minha cunhada, pedindo que ela cuidasse de todos enquanto estivesse fora e que me mantivesse informada dos problemas de casa, depois abracei mais uma vez minha mãe – que tentou, de novo, me convencer a ficar – e corri para o portão sem olhar para trás. Por mais que eu estivesse indo em direção ao meu sonho, nunca ninguém disse que seria indolor. Amadurecer dói. E se eu olhasse para trás, bem... como dizia mestre Yoda: “o lado negro não é mais poderoso, apenas mais rápido, mais fácil e mais sedutor”.

Saindo do aeroporto de Guarulhos, SP, viajaria 9h até o aeroporto de Hartsfiel-Jackson, Atlanta, e de lá pegaria outro avião para o aeroporto Internacional de Austin-Bergstrom, totalizando16h de viagem por causa da troca de aeronaves.

Foram as 16h mais longas da minha vida, e se não fosse pelo comprimido de Rivotril roubado do estoque particular da minha mãe, eu não teria conseguido pregar o olho nem por um minuto, tamanha minha ansiedade. Ninguém estava destinado a me buscar no aeroporto de Austin, de lá tive que seguir sozinha até o campus da universidade, onde um dormitório estaria a minha disposição para os próximos dois meses. Chegar em Austin não foi a perfeição que imaginei, e xinguei-me mentalmente por ter criado tantas expectativas logo de cara: não estava nevando. Muito frio, frio pra caralho, mas nada de neve. Na verdade, o taxista me contou, que é raro nevar em Austin, apesar da temperatura baixa, e que a última vez que nevou foi há seis anos, causando uma série de transtornos para a cidade. Enquanto ele me explicava o clima do local, deixei minha mente vagar em pensamentos, mal prestando atenção em suas palavras e nos cenários visíveis pela minha janela. Por algum motivo, meu coração estava inquieto, e, lá no fundo, o meu monstrinho social estava me aterrorizando. E se eu não fosse bem recebida? E se eu chegasse no serviço e descobrisse que tudo fora um erro do sistema? Afinal de contas, desde quando brasileiros são bem vistos no mundo acadêmico? Ainda mais estudantes de medicina brasileiros quando comparados com americanos e europeus? Senti-me pior que o cocô da barata. Mais insignificante que o protozoário da pulga do rato.
- Miss, we´re here. – ouvi a voz do senhor, trazendo-me de volta à realidade. Assimilei suas palavras, finalmente reparando que estava parada em frente a um prédio antigo de três andares, mas que ao centro possuía uma torre alta, de, sei lá, uns 20 andares. Talvez pelo horário – 7h30 da manhã – ou pelo período letivo, o campus ao redor do prédio estava pouco movimentado.
- Thank you. – respondi, abrindo a bolsa para pegar a carteira. Depois de pagar vinte e cinco dólares – uma fortuna! – pela corrida, peguei minha bolsa, minha mochila e minha mala extragrande e encarei mais uma vez o prédio. O primeiro andar tinha como acesso uma área com arcos romanos de tijolos beges, enquanto o segundo piso parecia ser de pedra lisa bege com duas escadarias laterais para o acesso. Já o acesso ao terceiro andar, de tijolos queimados e aparentemente com um terraço, e à torre - bege com um sino no topo – parecia ser interno, já que não consegui identificar nenhuma outra escada externa. Encarei minha mala e depois as escadarias laterais. Qual a probabilidade de o departamento de medicina ficar no térreo?
Suspirei, resignada, e comecei meu caminho até o prédio. Nem pensei em ir direto para as escadarias, já que estava torcendo para não precisar subi-las com aquela mala. Passei os arcos e deparei-me com portas de vidro, de dobradiças marrons, e todas, sem exceção, trancadas.
- Puta merda. – xinguei em português, dando meia volta e caminhando até uma das escadarias laterais. Parei em frente a ela e tentei contar os degraus, mas desisti depois do décimo quinto. – Puta que pariu. – xinguei de novo.
- Hã, olá. – ouvi uma voz atrás de mim, e virei-me rapidamente, assustada com o aparecimento repentino do ser. – Você precisa de ajuda?
Parado atrás de mim estava um rapaz, provavelmente da minha idade, de cabelos negros e cacheados, de olhos castanhos, mas com um sorriso suave. Vestia um casaco cinza de botões amarelos e uma calça skinnie preta, e calçava um coturno preto. Certo. Ponto positivo: simpático, solícito e estiloso.
- Por favor. – respondi, sorrindo agradecida. – Se não for incômodo. – encolhi os ombros.
- Não é incômodo algum. – ele disse, aumentando o sorriso. Eu podia apostar a quantidade de garotas que caíam de amores por aquele sorriso. E pelas covinhas! – Meu nome é James, mas pode me chamar de Jay. – disse, aproximando-se e estendendo a mão.
- Certo, Jay. – respondi, apertando sua mão. – Meu nome é Amelia, muito prazer.
Ele arqueou uma sobrancelha, sem desmanchar o sorriso Colgate.
- Sem apelidos?
Foi a minha vez de arquear uma sobrancelha.
- Precisamos ser amigos para eu te dizer meu apelido. – retruquei, e ele riu, soltando nossas mãos.
- Acho que se eu for carregar essa mala até ali em cima, poderia, ao menos, saber seu apelido.
Juro que pensei em mandar ele para aquele lugar, mas contive minha impaciência e evitei revirar os olhos, porque ele havia sido prestativo o suficiente para oferecer ajuda. E minha irritação não era com ele, mas sim com o fato de precisar que um estranho me ajudasse. Ser orgulhosa é um inferno, e talvez estivesse na hora de mudar essa característica. Por isso, acabei falando:
- .
- Muito prazer, . – ele disse, mantendo o sorriso. – Posso? – perguntou, apontando com a cabeça para a minha mala. Assenti, e então ele aproximou-se e pegou a mala, começando a subir os degraus. Parou depois de cinco degraus e pensei que ele fosse largar a mala ali e me deixar sozinha, mas James surpreendeu-me: - você não vem?
Sorri, começando a subir a escadaria.
- Precisa de ajuda? – perguntei, alcançando-o, e o vi negar com a cabeça enquanto seguia para o topo. – Está querendo me impressionar?
Ele riu, mas não falou nada, apenas seguiu subindo, e quando passamos do vigésimo segundo degrau – porque eu precisava contar -, chegamos ao topo, e graças aos céus, as portas de acesso ao prédio estavam abertas.
- Obrigada, James. – falei, estendendo minha mão para pegar o puxador da mala.
James sinalizou o número um com a mão direita e inclinou o corpo para a frente, colocando as mãos nos joelhos e respirando fundo.
- Você está bem? – perguntei, e ele repetiu o gesto. Esperei num misto de ansiedade e apreensão enquanto ele recuperava o fôlego e erguia o tronco. Não tinha percebido antes como ele era alto, devia ter mais de 1,85m, sem dúvidas.
- Na próxima vez que eu for dar uma de bom samaritano, espero que não precise carregar 5 toneladas. – brincou ele, voltando a sorrir. Dessa vez não consegui evitar revirar os olhos.
- Achei que você ia enfartar bem aqui. – respondi.
- Quase. Mas ainda não alcancei meu nível de sedentarismo para isso.
Ri. Pelo menos, bom humor ele tinha.
- Muito obrigada mesmo.
- Não há de quê. – ele deu de ombros e olhou ao redor. – Vai para onde agora?
- Procurar o departamento da medicina.
Ele fez uma careta e colocou as mãos dentro dos bolsos do casaco.
- Então você é uma dessas pessoas que gostam de cortar os outros. – ele disse, com um sorriso lascivo.
- Só aquelas que merecem. – retruquei, também com o mesmo sorriso nos lábios. – E você? Músico, escritor ou sociólogo?
Ele gargalhou, deixando a cabeça pender para trás e fazendo seus cachos negros sacudirem com o ato. Era uma cena bonita de ver: leve e descontraída. Uma pena que eu estivesse tão tensa para aproveitar apropriadamente; tristeza maior era perceber que se ele estava flertando comigo, eu não conseguia identificar, nem me interessar para descobrir se sim, ou se não.
- Nenhum desses. Economista.
- E desde quando economistas usam coturnos?
Ele arqueou a sobrancelha novamente, encarando-me.
- E desde quando médicas são simpáticas?
- Você me achou simpática?
- Você não se acha simpática?
- Pare de me responder com perguntas.
- E por que eu deveria fazer isso?
- Porque é irritante.
Ele riu, voltando a pegar o puxador da mala e começando a puxá-la em direção ao prédio.
- O que você está fazendo? – perguntei, alcançando-o na entrada.
- Vou te levar até o departamento da medicina. – disse, sem parar para me responder.
Assenti grata, e caminhamos em silêncio por alguns minutos. Vimos poucos alunos pelos corredores, e nenhum parou para cumprimentá-lo, ou indicou que se conheciam. Todos pareciam tão frios, fechados em seus próprios pensamentos, e encontrar James parecia ter sido um bom sinal do destino.
- Então, Jay.. – comecei, frisando seu apelido, vendo-o olhar desconfiado para mim. – Por que você está sendo tão legal comigo?
- Desconfiei de que você estaria se enfiando numa enrascada logo de cara.
- O que quer dizer com isso? O lance das escadas?
- Também. – ele assentiu, e parece ter pesado as próximas palavras antes de pronunciá-las. – Você parecia estar apavorada por entrar no prédio, mais branca que um fantasma, e nenhum aluno estrangeiro tem essa expressão no rosto se for cursar algo que não seja medicina, física ou química.
- Somos tão previsíveis assim?
- Ossos do ofício. – caminhamos até o final de um corredor, onde havia uma enorme porta dupla de madeira com uma placa dourada Departamento de Medicina, Universidade do Texas em Austin. – Físicos e químicos estão sempre preocupados com uma nova descoberta, uma nova teoria que irá revolucionar o mundo. E médicos, bem... preciso mesmo explicar?
Neguei com a cabeça, compreendendo bem seu ponto de vista. Apesar da medicina brasileira ser muito boa, era desvalorizada no exterior pela nossa carência em tecnologia quando comparada as nações ricas. E até mesmo entre esses países, a medicina americana era famosa por esnobar a prática de outros. Então parecia mais do que aceitável que todo aluno estrangeiro que chegasse para estagiar nos Estados Unidos ficasse mais nervoso que o Nemo fugindo do Bruce.
- Como você sabe tanto sobre isso? – perguntei, confusa.
- Meu namorado é formado em enfermagem, então acabei percebendo isso ao longo do tempo. – oh ho.. outch. Ele definitivamente não estava tentando me impressionar e, muito menos, em flertar comigo. Só estava sendo incrivelmente gentil.
- Você tem um bom olho. – falei, tentando disfarçar minha surpresa com a descoberta.
- E sou um bom leitor de personalidades, também.
- Vai dizer que lê o futuro nas horas em que não está trabalhando na Wall Street? – brinquei, vendo-o rir mais uma vez.
- Não, quem dera. Se fosse isso, já seria muito rico. Acreditam em qualquer coisa por aqui. É muito fácil enganar uns inocentes.
- Você está me enganando, James? – perguntei, brincando estar desconfiada, e ele sorriu de novo. Por Gandalf, ele não cansava de exibir esse sorriso?
- Nem um pouco. – respondeu. – Gostei de você no momento que vi as escritas do allstar.
Olhei-o boquiaberta, surpresa por ele ter prestado atenção no que eu tinha escrito nas laterais do meu allstar mais antigo e amado.
- Mentira que você conseguiu ler!
- Our time ir running out? – ele citou a inscrição. – Você tem bom gosto musical. Não é todo mundo que sai se declarando fã de Muse, ou que se declara fã o suficiente a ponto de escrever no tênis. E London calling? Definitivamente eu gostei de você. Poucos sabem apreciar The Clash.
Pisquei, incrédula com o que estava ouvindo. Em que momento ele tivera tempo de notar detalhes em mim? No meu sapato? Será que ele estava me stalkeando?
- Só uma pessoa muito singular usaria allstar num dia tão frio como hoje. – ele falou, parecendo compreender a confusão que se passava em minha mente.
- São confortáveis. – respondi a primeira besteira que veio em minha mente, não querendo dizer que eram meus tênis da sorte. Ah, sim. 22 anos na cara, quase formada em medicina, e eu ainda era supersticiosa e inocente o suficiente para acreditar em tênis da sorte. Ele assentiu, provavelmente fingindo acreditar na minha mentira.
- Quer que eu te espere? – ele perguntou.
- Não precisa. Tenho a impressão de que já abusei demais de você.
- Que nada. – ele disse, dando de ombros. – Que tal trocarmos instagram?
Cri cri cri. O que responder nessas horas?
- Eu não tenho redes sociais. – revelei, morrendo de vergonha por ver sua cara de choque.
- Real?
- Sim. – respondi, encolhendo os ombros. – Não gosto de redes sociais. Elas afastam as pessoas, quando deveriam aproximá-las.
James encarou-me por alguns segundos, ainda pasmo, e depois sacudiu a cabeça, parecendo se recuperar do choque que eu – uma extraterrestre do mundo moderno – deveria estar aparentando.
- Como eu disse: singular. – ele respondeu, estendendo a mão direita. Olhei-o confusa. – Me passa seu celular para salvar meu número. Caso precise de algo, é só ligar. E se outro cara atender, é Daniel, meu namorado. Vou falar de você para ele e ele vai querer te conhecer na hora.
Assenti, sem saber exatamente o que estava acontecendo no momento. Na verdade, não sabia o que estava acontecendo desde que vi a lista de aprovação. Senti que minha vida tinha virado um filme e que não era eu quem dirigia. O que raios estava acontecendo? O vi pegar meu celular de minha mão, digitar uns números, depois discá-lo para, enfim, me devolver o aparelho.
- Já peguei o seu também. Espero que a gente se veja de novo, . – ele disse, ajeitando a postura. – Garotas como você são difíceis de se encontrar hoje em dia. – assenti, e, antes que eu conseguisse elaborar uma frase para responde-lo, James bagunçou meu cabelo – como um irmão mais velho – e se afastou, deixando-me tão assustada como quando nos conhecemos há vinte minutos.
- Obrigada! – gritei, vendo-o abanar de longe e sumir na primeira curva do corredor.
Certo. Sozinha de novo.
Olhei da minha mala para a inscrição dourada. Posso fazer isso.
Fechei os olhos e respirei fundo três vezes, meu hábito terapêutico para momentos tensos. Posso fazer isso. Cheguei até aqui por mérito próprio. Mereço estar aqui. Abri os olhos, peguei o puxador da mala e bati na porta, abrindo-a logo depois de ser convidada a entrar.
- Bom dia, meu nome é , sou a intercambista brasileira para o serviço de neurocirurgia. – apresentei-me para uma senhora de cabelos grisalhos, óculos grossos e que vestia um suéter de lã vinho que me lembrou os tricotados pela Sra. Weasley. A partir dali, descobri que tudo era verdade. Eu passaria dois meses aprendendo com os melhores e abrindo portas para meu futuro como neurocirurgiã.
Precisei mostrar todos os meus documentos legais, carteira de vacinação, currículo, histórico acadêmico e ainda posar para a foto do crachá da universidade e dos hospitais filiados. Como eu tinha escolhido um serviço específico, eu não conheceria todos os hospitais conveniados com a universidade, e ficaria apenas no St. David´s Surgical Hospital, mas, se por algum motivo, eu desejasse conhecer algum outro serviço, teria permissão. Depois da parte burocrática, a senhora Groove entregou-me um guia de normas, juntamente com telefones e mapas do que eu poderia precisar, assim como me explicou como funcionaria o estágio e que eu me reportaria diretamente ao chefe do serviço: Ezra Hermann – meu coração parou neste momento, juro. Por fim, ela pegou o crachá – tecnologia de primeiro mundo é outra coisa – e depois entregou-me uma chave.
- Você irá dividir um apartamento a uma quadra do hospital com uma intercambista canadense. O nome dela é . Você na neurocirurgia, ela na cirurgia plástica. – explicou-me a senhora Groove. – Não fornecemos os alimentos, nem os produtos de limpeza, e deixamos sob responsabilidade de vocês a preservação do local. Ao final do período de estágio, deverá realizar a devolução da chave. No prédio, caso exista algum problema com o apartamento, poderá pedir auxílio para o zelador, o senhor Lopez. Alguma dúvida?
Se eu tinha alguma dúvida, no momento eu não conseguia nem saber meu nome. Então, apenas neguei com a cabeça, peguei a chave, os documentos, o crachá, enfiei tudo na bolsa e saí dali pronta para chegar ao local que seria minha moradia por dois meses. Ezra Hermann que me aguardasse!


Capítulo 2

“Se podemos sonhar, também podemos tornar nossos sonhos realidade”.
Tom Fitzgerald

Austin, Texas, Estados Unidos da América


E aqui estava eu: parada em frente ao prédio de cinco andares de tijolos vermelhos com portas e janelas brancas à francesa, e como a senhora Groove tinha dito: a uma quadra do hospital. O imóvel tinha um pequeno jardim com um banco branco e não possuía nenhuma grade circundando o local, nem nenhuma garagem em anexo. Entretanto, do outro lado da rua, havia um imenso parque arborizado. Caminhei pela estradinha de tijolos que dava acesso à entrada do prédio e, antes mesmo que pudesse pensar em pegar a chave na bolsa, um senhor de pele parda, cabelos negros e olhos castanhos, abriu a porta do prédio e aproximou-se com um sorriso simpático no rosto.
- Você deve ser a senhorita Santos. – seu sotaque era carregado, e reconheci imediatamente a cultura latina a minha frente. – Sou Enrique Lopez, o zelador e porteiro do prédio.
Assenti, sorrindo.
- Muito prazer, senhor Lopez. Sou , sim.
- Deixe-me ajuda-la, senhorita. – falou ele, pegando minha mala e carregando-a com facilidade pelos cinco degraus de acesso ao prédio. Qual é a mania de escadas dessa cidade?
- Por favor, senhor Lopez, sem senhoria. Pode me chamar de . – falei, alcançando-o. – E obrigada.
- Então a senhorita – o repreendi com o olhar – desculpe-me, , pode me chamar de Enrique. – sorri em resposta, adentrando no hall logo depois dele. O local era amplo, simples, mas aconchegante. No lado direito, a parede era toda espelhada e possuía um pequeno sofá de veludo cor de vinho; à esquerda, o balcão da portaria, também vinho, e com computador que indicava as câmeras de segurança. Ao lado do balcão, havia uma porta de madeira com o número 1 pendurado. Ao fundo do corredor, reto à porta de entrada, havia uma larga escala circular, e – felizmente, um elevador gradeado no meio dela. – Vai dividir o apartamento com a senhorita . – continuou ele, fechando a porta atrás de nós e afastando o vento frio que vinha da rua.
- Irei, sim. – respondi, dando uma rápida olhada em minha aparência no espelho: alguns fios de cabelo escapavam da trança embutida que tinha feito e que já se desmanchava, meu casaco de lã azul marinho parecia amassado pelas horas de voo, mas que combinava perfeitamente com meu allstar de mesma cor. Meu rosto demonstrava cansaço, mas em meus olhos era possível ver um certo brilho de realização por ter chegado tão longe. – Ela já chegou?
- Chegou ontem à noite, senhorita. – o repreendi novamente pelo olhar, e ele sorriu amarelo. – Vou demorar para me acostumar, menina .
Suspirei resignada. Provavelmente não conseguiria acabar com a formalidade, mas menina era menos formal que senhorita, teria que bastar.
- O meu apartamento é este aqui. – ele falou, indicando a porta com o número 1. – Pode me chamar a qualquer momento caso esteja precisando de algo ou algum problema no apartamento. – ele caminhou até o elevador, abriu a grade e colocou minha mala dentro dele, para depois entrar no mesmo. O segui e entrei. – O seu apartamento é o número 8, ficando no quinto andar, com vista para a rua e o parque à frente. Descendo a rua, vai ver vários comércios, tem um supermercado e agências bancárias também. Aqui é uma área muito boa para se morar. – continuou ele, enquanto subíamos até o andar. – Todos os outros apartamentos daqui também são alugados para estudantes que trabalham no hospital. No 5, tem duas irmãs gêmeas que uma é enfermeira e a outra nutricionista, as Simpson. No 2, tem um menino meio gótico, bastante quieto, mas sei que ele trabalha no St. Davids, só não sei no quê. – chegamos no andar, ele abriu a grade e me permitiu a passagem primeiro, para depois sair do elevador puxando minha mala. Caminhou para a direita, e o segui. – Todos os outros são mais quietos, se mantêm na sua. Às vezes, o 4 faz umas festas e temos que pedir para moderarem, mas são bons rapazes. Aqui estamos!
Paramos em frente à única porta à direita do elevador, com o número 9 também pendurado. Enrique apertou a campainha, e, quando ouvimos um grito de resposta, ele inseriu a chave que abria a porta. Entrei, sendo imediatamente seguida por ele.
Quando a senhora Groove me contou que iria dividir o apartamento com uma menina canadense que faria estágio na cirurgia plástica, o estereótipo de Barbie veio imediatamente em minha mente. E qual foi a minha surpresa ao ver que estava correta? A garota que apareceu de uma das portas era magra, alta, loira, de olhos incrivelmente azuis e usava um vestido grosso marrom que marcava suas curvas, e meia calças, com pantufas do Pernalonga.
- Oh my gosh! – ela disse, dando rápidos passos em minha direção e abraçando-me. Muito contato. Muito contato com estranhos. Congelei. – Não acredito que vou dividir meu apartamento com você! – ela disse, afastando-se do abraço, mas segurando-me pelos ombros.
- Você sabe quem eu sou? – perguntei sem entender nada.
- E você não sabe? – ela disse, parecendo surpresa. – A senhora simpática do departamento me falou toda orgulhosa ontem à noite que você é a primeira estudante mulher a conseguir o estágio na neurocirurgia com o Dr. Hermann! Você já é uma lenda só por estar aqui.
Pisquei, incrédula. Oi?
Estamos em que universo, exatamente? Ou em qual realidade?
Pisquei novamente, não acreditando no que tinha acabado de ouvir.
- Você não sabia! – colocou as mãos em frente a boca, demonstrando verdadeira surpresa, e afastando-se alguns passos.
Ouvi um risinho atrás de mim, e, em seguida, Enrique passou por mim puxando minha mala até uma porta que deduzi ser o meu quarto.
- E que falta de educação a minha. – voltou a falar. – Muito prazer, meu nome é , e serei sua roommate pelos próximos dois meses. Mas pode me chamar de Sally. – ela me estendeu a mão direita, ao mesmo tempo em que me olhava com certa ansiedade.
- , e o prazer é meu. – respondi, correspondendo ao cumprimento.
- Desculpe pela empolgação, mas é que é incrível. – seus olhos brilhavam enquanto falava. – Eu jamais teria coragem para encarar o mundo machista da neurocirurgia, e nem te conheço, mas já te admiro por isso.
- Obrigada, eu acho. – falei, começando a reparar no local.
A porta de entrada dava direto para um ambiente quadrado amplo: na parede da direita, havia uma bancada de cozinha sob medida de madeira escura que formava um L com a parede da frente, com um cooktop de 5 bocas, uma geladeira de duas portas cinza, um micro-ondas e uma cafeteira. Além da pia, obviamente. Havia armários aéreos, que eu não sabia se estavam vazios ou não, provavelmente que estivessem sem nada. Assim que terminava a bancada, na parede a frente, havia uma bay window, de estofado claro, que contrastava com uma mesa redonda de 6 lugares colocada no meio do ambiente. As paredes também eram claras, e havia duas janelas entre os armários aéreos, o que tornava o cômodo muito bem iluminado. Na parede da esquerda, haviam três portas: uma bem à esquerda, de onde tinha surgido; uma no meio que não fazia ideia do que poderia ser, e uma bem à direita, onde Enrique tinha entrado com a minha mala.
pareceu perceber onde minha atenção estava, pois logo em seguida recomeçou a falar.
- A porta da esquerda é o meu quarto, espero que não se importe por eu ter escolhido primeiro. Na verdade, ontem à noite cheguei tão cansada que escolhi o primeiro quarto que vi. A porta do meio – ela apontou – é a lavanderia. Achei o máximo termos nossa própria lavanderia! – ela bateu palmas animada. – E a outra é o seu quarto. Se você não gostar, podemos trocar.
Balancei a cabeça em negação.
- Capaz, sem problema algum. Mas e o banheiro? – tínhamos uma lavanderia e não um banheiro?
- Nossos quartos são suítes, mas os banheiros não se comunicam. O apartamento não é grande, mas extremamente prático e funcional, não?
- Com certeza. – falei, adentrando mais alguns passos. Não havia sofá, nem televisão, e no lado esquerdo da bay window, uma estante de madeira com design moderno, mas sem nada para preenche-la. Ao lado da porta de entrada, ficava o sistema de calefação. – Desculpe por não aparentar tanta empolgação, estou bastante cansada da viagem. – me expliquei, analisando o lugar meticulosamente com os olhos. Enrique saiu em seguida do quarto e parou a nossa frente.
- O banheiro parece estar em perfeitas condições, e o sistema de calefação também. – falou ele, com um sorriso gentil no rosto. Enrique não deveria ter mais do que 65 anos. – Qualquer coisa, as senhoritas podem interfonar, é só apertar #1, que virei. – ele disse, antes de caminhar até a porta do apartamento. – Espero que gostem da estadia aqui. Até logo mais. – disse, saindo do apartamento e fechando a porta.
- Você quer uma ajuda para arrumar as coisas? – perguntou, fazendo-me olhá-la.
- Na verdade, acho que vou tomar um banho e dormir algumas horas. E depois pensarei em arrumar as coisas. – respondi. – Ou você precisa de ajuda com algo?
- Pensei em sair para comprar comida, abastecer nosso estoque porque não temos nada, exceto a pizza que pedi ontem à noite. Mas gostaria que fosse junto para que pudesse comprar o que gosta. – era a segunda pessoa que estava sendo incrivelmente gentil comigo sem nem me conhecer, e não pude de agradecer mentalmente ao universo por isso.
- Obrigada, . Podemos ir, sim. Só me deixe tirar essa mochila das costas e esvaziar um pouco a bolsa.
- Mas se você quiser podemos ir mais tarde! – ela disse apressada.
- Melhor irmos agora, porque depois que eu tomar um banho, só vou querer colocar um pijama e dormir até amanhã. – respondi, com um sorriso no rosto. Ela assentiu em resposta.
- Então vou colocar os sapatos e colocar um casaco. – falou, caminhando em direção ao seu quarto. – Vi no maps que tem um mercado há duas quadras daqui. – gritou.
- Enrique falou, é só descer a rua. – respondi, caminhando para o meu próprio quarto. Na parede de frente à porta, havia uma enorme cama de casal de madeira clara com uma cabeceira acolchoada cor de chumbo com criados mudos da mesma cor em cada lado e cada um com um abajur de madeira de demolição; à direita da porta, uma enorme janela com persianas brancas e encostada a ela, uma bancada da mesma cor da cama com outro abajur – mas este metálico, com uma cadeira estofada azul esverdeada. De frente para a cama, bem ao lado da porta à esquerda, uma imensa cômoda de seis gavetas – duas pequenas em cima, e quatro gavetões abaixo -, e na parede restante, um espelho de corpo inteiro e uma outra porta que julguei ser o banheiro. Minha mala estava colocada sobre as cobertas cinzas da cama.
Deixei a bolsa sobre a bancada e tirei a mochila das costas para colocá-la sobre a cômoda, sentindo um alívio repentino por me livrar do peso do notebook. Então esvaziei a bolsa, deixando apenas o passaporte, o celular e a carteira dentro da mesma, bem como a chave do apartamento, e voltei para a sala, já encontrando pronta para sair.

A La Frontera Boulevard era a avenida em frente ao nosso prédio, e se estendia por mais umas dez quadras abaixo. Durante o nosso percurso a pé, passamos por umas três concessionárias – espantei-me com o valor baixo dos carros -, por uma galeria de arte, um salão de beleza e uma loja de armas até chegarmos ao mercado que Enrique tinha nos indicado. Nesse meio tempo, descobri um pouco mais sobre minha roommate.
nasceu e cresceu em Vancouver, e que estava passando pelo último ano de curso de Medicina pela Universidade da Columbia Britânica. Explicou-me que no Canadá, todos que querem seguir a profissão, devem fazer uma undergraduate degree, ou seja, uma outra faculdade relacionada a ciência. tinha escolhido biologia. Depois de dois anos e formada bióloga, ela pode começar a cursar medicina, e o curso tinha quatro anos. No final, dava elas por elas no tempo de formação se comparado ao do sistema brasileiro. Entretanto, todos eram obrigados a fazerem residência médica assim que se formassem, porque no Canadá não se pode atuar como médico independente recém-formado – o que é bem diferente da realidade brasileira: se eu me formar e quiser sair fazendo plantão ou trabalhando em algum posto de saúde por um tempo, sem ter feito residência médica, supertranquilo. Então ela me contou de sua família: seu pai era historiador de formação e dava aula da mesma universidade em que ela e os irmãos tinham cursado, já sua mãe era bancária. Tinha quatro irmãos mais velhos, todos formados em medicina, e era a única filha do casal , o que – garantiu ela – gerava muitos atritos pela superproteção dos mais velhos. O mais velho, Steve, já trabalhava há anos, e tinha se especializado em traumatologia. Depois vinham os gêmeos, Matthew e David, o primeiro era pediatra e o segundo, obstetra; por fim, tinha Thomas, que estava fazendo especialização de medicina do esporte. Ela me contou que o interesse de todos pela medicina tinha vindo do avô materno, que fora médico de guerra e filho de médicos. Eles costumavam se sentar ao redor da poltrona do avô para ouvi-lo contar sobre suas experiências, e pegaram o amor pela profissão. Contou-me também que tinha três sobrinhos: John, Leo e Heather, os dois meninos filhos de Steve e, Heather filha de David. Era uma família grande, mas superunida, e que se não se reunissem uma vez por semana, sua mãe era capaz de começar a 3° guerra mundial. Sorri feliz por ela, tentando ignorar o pouco de inveja que senti ao pensar na minha família já tão machucada e desunida. Enquanto estávamos no mercado, reparei que ela é viciada em doces, principalmente as famosas jujubas, já que pegou oito – oito – pacotes delas. Perguntei-me mentalmente para onde todo aquele açúcar ia já que ela era tão magra.
- E por que você escolheu a neurocirurgia? Ou você já entrou querendo? – ela perguntou, enquanto desempacotávamos as compras, já de volta ao nosso apartamento. Parei um segundo de lhe alcançar os produtos para pensar na resposta.
- Na verdade, eu entrei na faculdade dizendo a mim mesma que jamais iria para neuro. – comecei, voltando a lhe alcançar os produtos de geladeira. – Mas então eu tive a cadeira de neuroanatomia e depois neurofisiologia, e me apaixonei. – ri, pelo nariz. – É clichê, eu sei. Depois disso, foi só descobrir se eu ia gostar da área cirúrgica ou não, e aqui estou.
- Uau. – ela disse, fechando a geladeira e se recostando no balcão da cozinha. – Eu jurava que tinha alguma história mirabolante por trás. Tipo algum parente neurocirurgião, ou alguma história trágica que lhe impulsionou para seguir a área... tipo Cristina Yang, sabe?
Ri, enquanto guardava os vários pacotes de café em pó que tínhamos comprado. Ainda bem que ela falou ser viciada em café, assim jamais faltaria essa maravilha dentro do apartamento.
- Não, nada de história trágica tipo Cristina Yang, nem parentes médicos, se quer saber. – respondi. – Meu pai é empresário, na área de exportação e importação. Minha mãe é professora do primário, e meu irmão é formado em ciências da computação. Sou a primeira e única médica da família.
- Isso não te torna menos especial. – falou ela, dando de ombros e tirando as botas.
- Não, acho que não torna. – respondi, baixo.
Ficamos alguns segundos em silêncio, já não sabendo mais o que contar para a outra. Eu ainda não tinha lhe perguntado por que escolher cirurgia plástica, já que a resposta me parecia um tanto óbvia, então deixei para saciar minha curiosidade mais tarde.
- Vou tomar banho e desfazer as malas. – falei, dirigindo-me ao quarto.
- Quer ajuda? – ela perguntou.
- Não, valeu. Guardo tudo bem rapidinho. – a vi assentir e depois entrei no quarto, fechando a porta logo atrás de mim. Recostei-me na porta e fechei os olhos.
Não tinha conseguido parar em nenhum momento desde que embarcara no avião em Guarulhos. Ok, eu ficara quase 16h sentada, mas minha mente não se desligara, mesmo dormindo eu tinha sonhado em estar aqui. Quanta coisa tinha acontecido em pouco mais de vinte quatro horas! A viagem, depois James, então toda a conversa com a senhora Groove, o apartamento, ... o que mais estava me esperando nesses dois meses?
- Okay, , você precisa se mexer. – falei sozinha, caminhando até a mala e tirando de dentro dela minha roupa mais confortável do inverno: meu moletom grosso da Disney Orlando.

Vancouver, Colúmbia Britânica, Canadá


- Não vejo a hora de chegar em San Antonio. – ouvi Jared falar, enquanto caminhávamos em direção ao carrinho do café.
- Mal consigo acreditar que já estamos terminando a gravação da quinta temporada. – falei. – E aí, Mark! – cumprimentei o dono do carrinho do café.
- Garotos! – ele respondeu. – O de sempre?
- O de sempre. – Jared falou.
- E como andam as gravações? – Mark perguntou enquanto preparava nossos copos de café. – Quase terminando?
- Só mais dois dias. – Jared respondeu, pegando seu copo grande de cappuccino. – Valeu.
- E depois férias com a família?
- Apenas Jared. Valeu. – respondi, pegando o meu expresso puro e já tomando um gole do mesmo.
- É, Jensen foi convidado para cantar em um festival de música em Austin. – assenti, confirmando a informação passada por Jared.
- Austin City Limits Music Festival? – Mark perguntou, e concordei com a cabeça. – Minha filha comprou os ingressos para dois dias do festival. Capaz de ir vê-lo lá.
- Legal, Mark. Se ela estiver por lá no mesmo dia, me avisa que coloco ela lá no backstage. – respondi, erguendo meu copo de café como cumprimento e voltando a caminhar para o estúdio.
- Danneel vai estar lá? – Jared perguntou, caminhando ao meu lado.
- Vai.
- E você vai propor lá?
E ali estava, a pergunta que eu sabia que Jared queria fazer desde que me flagrara em uma joalheria, dois dias antes, comprando o anel. Na hora, ele não tinha falado nada, mas eu conhecia bem o meu amigo, já considerado um irmão, e ele deveria estar morrendo de curiosidade para entrar no assunto.
- Vou. – respondi, impaciente.
- Deixe-me adivinhar. – começou ele, parando a minha frente e impedindo-me de seguir caminho. – Você vai lá, subir no palco e dedicar Crazy Love para ela. Depois, vai perguntar, na frente de milhares de pessoas, se ela quer se casar contigo. Isso mesmo?
O olhei incrédulo. Sou tão previsível assim? Ele riu.
- Jensen, você é previsível demais. – ele disse, ainda sorrindo, mas liberando espaço para seguirmos caminho. – Mas é um bom plano. Na frente de tanta gente, fica ruim ela dizer não.
- Você acha que existe essa possibilidade?
- Dela dizer não? – assenti. – Não. Desde Ten Inch Hero vocês são o casal meloso da turma. É óbvio que ela vai aceitar.
- Mas é óbvio que ela vai aceitar porque o pedido vai ser público?
- Não, seu retardado. Porque ela te ama.
Sorri satisfeito com essa resposta.
A verdade é que eu não aparentava, mas estava bastante nervoso com essa história. Nós dois já namorávamos havia dois anos, e, a cada dia que passava, me convencia que esse deveria ser o próximo passo. Por também ser atriz, ela entendia a vida corrida e a distância, e estava acostumada com os holofotes sobre nós. Agora nessa fase de auge de Supernatural, começamos a chamar mais atenções em qualquer lugar que íamos ou para qualquer coisa que fazíamos. O sucesso da série era tanto que estava afetando os relacionamentos pessoais de todos: Jared recém tinha terminado o noivado com Sandra porque ela não conseguia não se importar com fofocas que eram apenas fofocas, Misha estava encontrando dificuldade em sair com os filhos, e até mesmo Mark, que recém tinha entrado na série, era sempre assediado toda a vez que saía de casa.
Claro que estávamos muito felizes com o sucesso da série, era algo que almejávamos desde o primeiro dia de gravação. Ainda lembro de quando recebemos a audiência dos quatro primeiros episódios e, em seguida, o contrato da Warner para completarmos uma primeira temporada de vinte e dois episódios. Foi insano. Desde então, nos entregávamos cada vez mais ao seriado, e nossas vidas particulares acabavam em segundo plano. Só que agora, cinco temporadas depois, finalizando um arco da série e com outros projetos pessoais no caminho, eu sentia a necessidade de ter um descanso para poder focar nas pessoas que amo. Quando anunciaram que faltariam apenas mais dois episódios para serem gravados e que poderíamos fazê-los depois das festas de fim de ano, minha primeira atitude foi ir à joalheria comprar o anel de Danneel. E eu queria fazer o pedido o quanto antes. Se ela tivesse vindo acompanhar esses últimos dias de gravações, eu já o teria feito da forma mais clichê: em um restaurante romântico com a aliança dentro de alguma comida; entretanto, ela não veio, por algum problema na agência de modelos. Iríamos nos encontrar em Austin, para o festival de música, e de lá seguiríamos juntos para Dallas, ver minha família, com quem passaríamos o Natal.
- Se você demorar mais um pouco para tomar esse café, vamos terminar essa temporada só na próxima década. – Mark Sheppard resmungou, com o legítimo humor britânico.
Mostrei o dedo do meio para ele enquanto tomava mais um gole do meu café.
- Onde estão seus modos? – ele retrucou, fingindo ofensa. – Será que você finalmente foi vencido pela personalidade do Dean?
- Acho que é o contrário, Mark. – Misha falou, entrando na brincadeira. – Dean é o verdadeiro Jensen.
- Convencido, sabichão e arrogante? – Mark olhou para Misha, que assentiu. – Faz sentido.
Repeti o gesto vulgar e terminei meu café, jogando o copo plástico no lixo próximo.
- Não se esqueçam do porco e mal-educado. – Jared completou.
- Vocês são um pé no saco. – respondi, mas antes que pudessem retrucar, fomos chamados para voltar a gravar.

Austin, Texas, Estados Unidos da América


Encarei meu reflexo e sorri satisfeita com o resultado. Tinha escolhido uma calça jeans clara e um suéter de gola V vermelho. Por baixo, usava uma blusa térmica e meia calça, tamanho o frio que fazia lá fora. Tinha escolhido um cachecol chumbo, prendido meu cabelo em uma trança normal e colocado uma touca da mesma cor. Nos pés, optei por uma bota de montaria preta, mas tinha colocado os tênis dentro da mochila para conseguir aguentar o dia todo dentro do hospital. Minha face cansada fora suavizada por uma maquiagem leve, apenas para não deixar transparecer minha exaustão com os últimos dois dias. Encarei meus olhos, grata por ter herdado as cores de meu pai, e depois meus lábios com o batom nude.
- Posso fazer isso. – falei para mim mesma.
Toquei o pequeno medalhão de Nossa Senhora que usava no pescoço por baixo das blusas e orei em silêncio para que ela me guiasse nessa nova etapa. Com minha autoconfiança um pouco menos abalada, peguei minha mochila e o casaco preto e saí do quarto.
- Pronta? – perguntou. Ela vestia uma calça de sarja preta, uma blusa social branca e um cardigan alongado também preto. Calçava sapatos de salto, também pretos, e só quebrava a sobriedade por estar com um cachecol e com uma touca amarelos.
- Não. – respondi, sincera. Ela riu nervosa. – Mas vamos lá.
- Pink, o que vamos fazer hoje? – ela disse, abrindo a porta do apartamento.
- Tentar conquistar o mundo. – respondi, não acreditando que ela também gostava de Pink e Cérebro e vendo-a erguer o braço para cima com a minha resposta. – Vamos de uma vez, sua desmiolada. – falei, fechando a porta do apartamento atrás de nós.
Caminhamos quietas até o hospital, e consegui reparar que ela estava tão nervosa quanto eu. A todo instante ficava mordendo os lábios, enquanto eu torcia as mãos. Estacamos no jardim em frente ao enorme prédio moderno que estava a nossa frente. O St Davids não parecia um hospital, e se não fossem as placas de identificação, eu passaria pela frente achando que era alguma universidade moderna. A instituição era composta por três grandes prédios retangulares que formavam um U, sendo dois deles unidos em forma de L, e o outro que ficava do outro lado de um estacionamento de diversos andares. Todos, contudo, eram repletos de enormes janelas e possuíam, pelo menos, uma parte da parede envidraçada. Na parte central, havia um jardim que dava acesso as diferentes entradas e nele diversas pessoas circulavam. Do outro lado da rua, atravessando a avenida, havia um enorme lago que não me lembrava de ter passado na frente ontem com um píer de madeira restaurada.
- Acho que é isso. – falei, parando de torcer as mãos. – Vamos entrar e procurar o RH juntas? – perguntei nervosa, deixando transparecer no meu olhar o sentimento. assentiu, e logo recomeçamos a caminhada. Enquanto seguíamos as placas que indicavam onde ficava o setor de recursos humanos, deixei que meus olhos observassem detalhadamente todo o local. O lobby era enorme, com diversas poltronas de espera, alguns postos de informações para pacientes e seguranças parados próximos às entradas. – Com licença, somos as intercambistas esperadas pelos serviços de Neurocirurgia e Cirurgia Plástica. – falei, nos identificando, para uma recepcionista em um dos postos próximos às catracas de funcionários. – Exatamente para onde devemos ir?
- Crachás? – a moça perguntou, encarando-nos como se estivesse entediada. Estendemos nossos crachás e esperamos pacientemente e nervosamente por uma resposta. – Estão liberadas, devem se apresentar para o chefe de cada serviço. Passem as catracas, e peguem os elevadores dos funcionários. A Plástica é no quarto andar; neurocirurgia, no décimo terceiro. Bem-vindas.
- Obrigada. – respondi, pegando nossos crachás e fazendo exatamente o que tinham nos mandado. Enquanto esperávamos por um dos elevadores, ouvi choramingar ao meu lado. – Hei, o que foi?
- Este é um dos maiores centros de queimados de toda a América do Norte. – ela falou, mas não explicando nada com nada. – Sem mencionar os casos de reconstrução que vem para cá. , e se eu não for boa o bastante?
Peguei sua mão e a apertei, puxando-a para entrar no elevador assim que ele abriu as portas.
- Você é, . – falei, apertando nos nossos respectivos andares. – Se não fosse, não tinha chegado até aqui.
Ela assentiu, e apertou minha mão como em agradecimento.
- Mas peraí... – falei, olhando-a confusa. – Queimados e reconstrução?
- Ah, fala sério que você achou que eu estaria interessada na parte estética. – ela disse, se afastando no momento que as portas abriram no quarto andar. – Vejo você em casa. Arrebente!
- Você também. – e então, eu estava sozinha.

- Ouvi boatos de que Hermann aceitou uma aluna. – o homem de touca cirúrgica preta falou para o que estava a sua frente. – Uma mulher.
O que ouvia sua fala, parou de escrever o que estivesse escrevendo e tirou os olhos dos papeis, para encarar o homem que repassava a informação, com face realmente espantada.
- Depois de dez anos sem aceitar ninguém, ele resolveu aceitar uma mulher? – o outro assentiu, erguendo as sobrancelhas e dando um sorriso sacana.
Imediatamente, tirei o crachá do peito e o coloquei dentro do bolso do casaco. Discretamente, resolvi procurar pela sala do chefe do serviço, torcendo, intimamente, que ninguém reparasse em minha presença.
- O que me leva a pensar nas atividades extracurriculares dela. – falou o de touca, fazendo-me controlar minha vontade de caminhar até eles e dizer algumas verdades.
- Já não me basta termos que ficar de babá dos residentes, agora vamos ter que cuidar de uma estudante? – o segundo homem, por quem eu até então não tinha criado uma antipatia tão grande quanto pelo outro, falou, apoiando-se no balcão do posto de enfermagem. – Uma mulher na neurocirurgia! Isso é um absurdo!
Foi a minha vez de levantar as sobrancelhas, completamente descrente com o que eu tinha acabado de ouvir. Em pleno século XXI e após tantas conquistas de direitos, eu ainda ouvia esse tipo de comentário.
- Ei você! – parei de caminhar quando o homem de touca chamou, e tentei me fazer de surda, mas ele insistiu. – Você, moça, de trança e touca cinza. – filho da puta. – Está precisando de uma ajuda?
- Não, obrigada. – falei, recomeçando a andar e seguir reto no corredor, mas antes que eu pudesse continuar meu caminho, teria que cruzar com eles naquele posto de enfermagem.
- Você parece perdida. – o que estava apoiado no balcão falou.
- Já sei. Você deve ser a nova instrumentadora que estávamos esperando!
Assenti, optando por concordar com a mentira do que falar quem eu realmente era e de como minhas atividades extracurriculares não seguiam a imaginação daqueles homens machistas e presos aos séculos passados.
- Ruth é a nossa chefe de enfermagem, encarregada de todo o setor. – disse o de touca. – Sou o Dr. Garreth. Neurocirurgião pediátrico. – disse, entendendo a mão. E que outra opção eu tinha senão aceitar o aperto e retribuir o cumprimento com um sorriso forçado?
- Dr. Franco. – disse o segundo, antes encostado no balcão, e agora parado ereto ao lado do outro, também estendendo a mão em cumprimento. – Faço fellow na equipe do dr. Garreth.
- . – falei, sentindo cada célula do meu ser pulsar de raiva por ter que posar de civilizada até conquistar meu espaço. – Onde posso encontrar a enfermeira Ruth?
- Ela estava indo para a sala do Hermann, última porta no corredor, seguindo em frente. – respondeu Garreth.
Assenti, agradecida, e recuei dois passos antes de dar as costas a eles e seguir meu caminho, mas, sem antes de ouvi-los dizer alguma gracinha a meu respeito. Provavelmente, se eu fosse me lembrar de todos os exemplos que tive dentro da minha formação, eles estavam apostando quem seria o primeiro a me levar para a cama. Pobres coitados.
Ri pelo nariz, querendo estar presente quando alguém contasse a aqueles médicos que tinham acabado de conhecer a intercambista de Ezra Hermann. E que eu tinha ouvido exatamente tudo de preconceituoso que tinham dito. Mal podia esperar para provar a eles o quanto estavam errados em suas opiniões.
Enquanto seguia reto pelo corredor principal do andar, consegui reparar que ele se bifurcou quatro vezes – duas antes do posto de enfermagem, e duas depois, todos levando a corredores que, presumi, serem quartos de pacientes, UTI neuro e que algum deveria levar ao bloco cirúrgico. As paredes eram cobertas de instruções hospitalares e também de fotos de pacientes com médicos do serviço, e, apesar da neurocirurgia ser uma área crítica dentro da medicina, o lugar não tinha aura pesada e muito menos lembrava um velório. Pelo contrário, havia um clima de confiança naquele lugar, como se dissesse aos pacientes que estariam seguros ali, ou que, pelo menos, os médicos fariam de tudo para ajudá-los. Apenas percebi que tinha chegado ao meu destino, quando o corredor chegou ao fim, fazendo-me virar para a direita e encarar a porta branca com a identificação em uma placa chumbo.

Ezra Hermann, Md. Dr. PhD. Neurocirurgião.
Especialista em neoplasias do Sistema Nervoso Central.
Especialista em neurocirurgia pediátrica.
Chefe do Serviço de Neurocirurgia do St. David’s Surigcal Hospital

Voltei meu olhar para o meio do corredor, onde ficava o posto de enfermagem e percebi que os dois médicos já não estavam mais lá. Achei que ficariam para se divertirem às minhas custas, talvez realizando uma segunda aposta sobre como a suporta nova instrumentador seria demitida logo no primeiro dia. Suspirei resignada e olhei de novo para a porta. Antes que eu pudesse pensar em bater e esperar pela permissão de entrar, a mesma foi aberta de uma mulher, de uns quarenta e poucos anos, com olhos castanhos e rodeados por olheiras fundas.
- Posso ajudá-la? – ela perguntou, dando um passo para fora, fazendo-me recuar outros dois, e fechando a porta atrás de si.
- Meu nome é , e sou a intercambista para o estágio de neurocirurgia sobre a supervisão do Dr. Hermann. – falei tão rápido que por alguns segundos pensei que ela não tivesse entendi.
Eu já ia repetir todo o discurso novamente, quando ela assentiu.
- Dr. Hermann não está. – ela disse. – Você vai ficar sobre minha supervisão pelos próximos dias. – então, começou a caminhar em direção ao posto de enfermagem.
Hermann não estava? A olhei confusa, não sabendo direito o que pensar dessa informação. Mas se eu tinha que me reportar diretamente a ele, como poderia iniciar meu estágio sem sua supervisão? E pelos próximos dias? Era algum tipo de pegadinha? Não desmerecendo os serviços da enfermagem, mas eu tinha vindo para os Estados Unidos para aprender sobre neurocirurgia... Certamente tinha um grande mal entendido nisso tudo.
- Quando eu digo que você vai ficar sob minha supervisão, você deve me seguir e cumprir as ordens que estou lhe dando. – ela falou, parando de caminhar no meio do corredor e encarando-me com o olhar severo. Assenti, mais confusa que cego em tiroteio, e caminhei rápido até ela. – Meu nome é Ruth Sims, e sou a enfermeira chefe do setor da neurocirurgia. Nada passa por aqui em minha supervisão, nem mesmo os caprichos de alguns médicos. Seu papel aqui é aprender, ouvir, estudar e praticar quando houver permissão, caso contrário, você deve observar.
Enquanto ela começava a recitar a lista de orientações, do que eu deveria, poderia e talvez faria, Ruth organizava alguns papéis do posto, e somente ao aparecer nele, duas outras enfermeiras – que estavam sentadas em uma sala logo atrás do posto – apareceram e começaram a tocar o serviço.
- Você trouxe seu jaleco? – ela perguntou, distribuindo pranchetas – que supus serem prontuários – às outras enfermeiras.
- Sim. – respondi, ainda perdida e assustada com tudo isso.
- Alana – apontou para uma das enfermeiras de cabelos ruivos presos em um coque com lápis e com o rosto repleto de sardas, que se surpreendeu quando ouviu seu nome ser chamado. – Vai lhe mostrar o vestiário. Usamos o uniforme cirúrgico enquanto estivermos no hospital com o jaleco por cima. Você só deve tirar o seu jaleco e o seu crachá no momento que entrar no bloco cirúrgico, onde irá colocar o avental cirúrgico. Cabelos sempre presos, nada de maquiagem forte ou adereços. Aconselho a vir com calçados confortáveis. Não toleramos atrasos, faltas e muito menos que fique no celular. Se estivermos lhe entediando, a porta da rua é serventia da casa.
Se eu não tivesse passado por tantas merdas familiares e em relacionamentos, a essa altura eu já estaria chorando no apartamento e refazendo as malas para voltar correndo para o Brasil. Minha vontade era sorrir com a comprovação de que há males que, de fato, vem para o bem. Em outras épocas, eu não teria força para suportar tudo o que estava aguentando em menos de quarenta e oito horas.
- Você terá direito a todas as refeições oferecidas aos funcionários do hospital: café, lanches, almoço e janta. – ela seguiu falando, agora sentando em frente a um computador e digitando algo. – Seu horário será das 8h AM até às 6h PM, mas caso queira ficar para assistir a alguma cirurgia ou chegar antes, ficará a seu critério. Enquanto o Dr. Hermann não chegar, você cumprirá minhas ordens ou irá acompanhar o residente do primeiro ano do serviço, Dr. Ethan Reed. Ele está na emergência agora, e depois que você se trocar e conhecer as dependências do andar, irá encontrá-lo. Alguma dúvida? – finalmente ela me encarou, e não sei se foi a expressão que viu em meu rosto ou talvez tenha se dado conta da enxurrada de informações que despejou sobre mim, mas ela suspirou como se estivesse cansada e depois tentou dar um sorriso reconfortante. – Se você cumprir com tudo isso, garota, terá uma porta aberta aqui.
Assenti, sem ainda saber o que pensar a respeito de tudo. Queria perguntar onde Dr. Hermann estava e por quanto tempo ele ficaria fora, mas apenas ao olhar aquela mulher, que parecia mais uma força da natureza, guardei minhas dúvidas para mim.
- Alana. – chamou ela, e a enfermeira ruiva logo se postou ao seu lado. – Acompanhe a senhorita Santos até o vestiário, depois mostre a ela o hospital e, deixe-a, por fim, na emergência aos cuidados do dr. Reed.
- Sim, senhora. – respondeu a outra. E antes que eu ainda esboçasse alguma reação, a enfermeira ruiva caminhou até meu lado e puxou meu braço, arrastando-me por um dos corredores bifurcados do principal e soltando-me apenas quando se deu conta de que eu a seguiria.
- Não a leve a mal. – começou ela, caminhando uns dois passos a minha frente. – Ruth é rígida, mas tem um bom coração. E como ela disse, se você fizer tudo certo, terá um espaço aqui.
- Vou dar o meu melhor. – respondi, torcendo para que essa fosse uma boa resposta. Mas e se o meu melhor não fosse o suficiente para eles?


Capítulo 3

“A pessoa que não sente prazer com um bom romance, seja cavalheiro ou dama, só pode ser intoleravelmente estúpida”

Jane Austen


Austin, Texas, Estados Unidos da América


O dia passou voando, e durante todos os minutos que fiquei dentro do hospital, minha mente não parava de se perguntar o que eu estava fazendo ali. Cada hora realizando qualquer tarefa ou conhecendo qualquer ambiente do lugar, fazia-me acreditar que esse intercâmbio não passava de um erro, de que eu deveria estar aproveitando minhas férias do internato para recarregar as energias para o próximo ano, já que teria que, além de voltar à rotina, prestar as provas de residência pelo país a fora. Então, quando finalmente fui liberada das minhas obrigações do dia, voltei para o apartamento controlando para que as lágrimas não caíssem e que meus passos fossem rápidos o bastante, porque eu me conhecia bem demais – sabia que no momento que sentisse a água quente do banho escorrer em minha pele e me jogasse embaixo das cobertas, eu desabaria. E era tudo o que precisava no momento. Entretanto, quando cheguei em casa, ouvi a voz de conversando alegremente com alguém em seu quarto, lembrando-me de que por dois meses eu não moraria sozinha como estava habituada há quatro anos – e se tem algo que nunca gostei, foi de chorar na frente dos outros, muito menos de deixarem perceber o quão abalada emocionalmente eu estava. Talvez até quebrada novamente.
Cruzei rapidamente o apartamento, apenas acenando para a minha roommate enquanto ia para o quarto e fechava a porta atrás de mim. Recusei-me a chorar no banho, muito menos a deixar que o meu estado depressivo tomasse conta, então, depois que vesti o pijama, fui fazer uma das poucas coisas que conseguiam acalmar a minha tempestade interna: ver um dos meus filmes favoritos. Liguei o notebook, aconcheguei-me embaixo das cobertas e coloquei Casablanca para iniciar. Como num passe de mágica, o filme captou minha atenção e me fez esquecer o que estava acontecendo ao meu redor, desligando-me de tudo e todos.

­- A quem subornou pelo visto? Renault ou você mesmo?
- Eu mesmo. Meus preços eram muito mais razoáveis.
- Escute, Rick. Sabe o que é isto? Algo que nem você viu. Salvo condutos assinados pelo Gen. De Gaulle. Não podem ser rescindidos, nem mesmo questionados. Um momento. Esta noite eu os venderei por muito mais dinheiro do que já sonhei. E então, addio, Casablanca.¹


- Hei, o que você está fazendo? – ouvi a voz de e pausei o filme no computador, vendo minha mais nova amiga abrir a porta do meu quarto e encostar-se no batente dela com um suco de caixinha na mão.
- Começando a ver Casablanca. – respondi, como se não fosse nada demais, tentando não me incomodar com sua presença invasiva.
- Oh, gosh! Eu amo esse filme! – ela disse, correndo para a minha cama e sentando-se ao meu lado. – Me dá um espaço, sua folgada.
Olhei descrente para ela, como se pudesse dizer: hei, eu que sou a folgada? Mas ela apenas revirou os olhos, ajeitou um dos travesseiros nas suas costas e deu play no filme, ignorando totalmente minha indignação por ter se intrometido no meu momento.
- Tenho muitos amigos em Casablanca, mas, já que você me despreza... – a voz de Peter Lorre, interpretando o personagem Ugarte, chamou minha atenção de volta ao filme, fazendo-me concentrar naquela trama que já tinha cansado de ver inúmeras vezes, mas que, de certa forma, acalentava minha alma. E só Deus sabia como eu precisava de algum tipo de conforto nesse momento.

Vancouver, Colúmbia Britânica, Canadá


Finalmente tínhamos terminado as gravações do dia, e eu mal via a hora de chegar no meu apartamento, tomar um banho, colocar umas roupas confortáveis e apagar na cama. O dia tinha sido bastante exaustivo: com o final da temporada, principalmente com o final do primeiro arco da série, estávamos todos no limite. Queríamos dar aos fãs e a nós mesmos um fechamento digno para os irmãos Winchester, e por isso todo minuto dentro do set de filmagens acabava sendo intenso. Buscávamos a perfeição, ou, pelo menos, algo mais próximo a ela. E, como se não bastasse a pressão que nós nos colocávamos, Eric havia anunciado que depois de cinco temporadas, ele deixaria de ser o showrunner da série, e, por isso, a Warner e os diretores estavam desesperados atrás de uma nova pessoa que conseguisse assumir o seriado, como também nos manter sendo um dos programas de televisão mais queridos do público.
- Cara, eu estou morto. – Jared falou, abrindo a porta da cobertura que dividíamos.
- Nem me fale. – respondi, entrando logo atrás dele e jogando o casaco sobre o sofá da sala.
Quando tínhamos começado a série jamais imaginávamos que nos daríamos tão bem. Na verdade, achei que seria o oposto, já que quando Jared fez o teste para entrar na série, eu já estava escalado para ser o Sam. Aí, ele apareceu e Eric e os outros acharam melhor que eu assumisse o papel de Dean, e Jared, Sam. De qualquer forma, eu tinha entrado, e os caras realmente sabiam mais, tinham uma visão muito melhor do que eu. Não consigo me imaginar hoje, depois de cinco temporadas, interpretando outro personagem dentro da série que não Dean Winchester. E grande parte disso se deve a parceria que criei com Jared.
No início morávamos em um hotel próximo ao set, assim como outras pessoas do elenco, mas com o tempo, a notoriedade começou a chamar atenção, e os corredores do hotel já não eram mais tão privados. Decidimos alugar um espaço juntos, afinal passávamos apenas uma média de 5 a 7 meses gravando em Vancouver, enquanto nos outros meses tínhamos eventos de divulgação, entrevistas, tempo para fazermos projetos particulares ou para fugirmos para nossas cidades natais. Quando tínhamos tempo livre dentro do período de gravação da série, também mal ficávamos no Canadá. Cada folga era uma oportunidade para visitarmos nossas famílias e amigos, mesmo que isso significasse encarar 10 horas de viagem de avião.
Nossa cobertura era grande o suficiente para dar privacidade a cada um, então, mesmo que se em algum final de semana decidíssemos por ficar em casa, poderíamos muito bem não olhar para a cara do outro. Tínhamos escolhido o local por ser próximo ao set e pelo tamanho: no piso inferior, sala de estar, cozinha, sala de jantar, três suítes e um escritório que transformamos em um depósito de objetos que fomos coletando/ganhando ao longo da série. No andar superior, um dos cômodos envidraçados era para ser uma outra sala, mas fizemos uma academia; o outro cômodo, que tinha acesso para o terraço, era um mini salão de festas, para conseguirmos recepcionar amigos e familiares que vinham nos visitar de vez em quando ou até mesmo para curtir com o resto do elenco.
Cheguei a morar um tempo sozinho, na época em que Jared ficou noivo de Sandra, já que ela tinha resolvido se mudar para a cidade para que os dois ficassem mais próximos. Foram alguns meses bem silenciosos por aqui, e em algumas noites, tinha a impressão de que iria surtar por ficar tempo demais olhando para o teto. Contudo, nunca pensei em me desfazer do local. Nem mesmo quando tinha a sensação de ser muito grande e solitário e caro. Mas ainda bem que não vendemos a propriedade: quando a relação dos dois terminou, Jared perguntou – mesmo sem ter necessidade de fazê-lo, se poderia voltar a dividir o local, e lembro-me de simplesmente ter aberto a porta do apartamento e jogado sua antiga chave em sua direção. Nos dias que se seguiram ao término dos dois, não tinha um clima de felicidade por aqui, mas apenas sentar no sofá e ficarmos tomando cerveja em silêncio por algumas horas já bastava como desabafo. O importante é que nós sempre soubemos que não estaríamos sozinhos. Na tela éramos dois irmãos de sangue, fora dela, dois irmãos de alma. Nem mesmo com Joshua eu tinha a mesma cumplicidade.
- Vou pedir uma pizza, beleza? – Jared falou, e assenti em resposta, vendo-o caminhar pelo corredor em direção ao seu quarto.
Fiquei parado no meio da sala, com as mãos dentro dos bolsos do jeans, observando a vista que tínhamos de Vancouver pelo janelão. Em alguns dias eu iria propor Danneel, e muitas coisas mudariam. Quando me casar, minha casa não será mais este apartamento; nem haverá o mesmo silêncio; ou a certeza de que poderei guardar meus problemas apenas para mim. Quando me casar, tudo irá mudar. E, de certa forma, estou ansioso para dar o próximo passo, mas também estou apavorado. Mesmo que estivéssemos juntos há dois anos, não tínhamos passado mais de um mês em convivência diária, e temia que nossas características e manias pudessem colocar tudo a perder. Uma coisa era estar em um relacionamento à distância e ainda dividir a casa com outra pessoa do mesmo sexo – todo mundo sabe que a maioria dos homens não são exemplo de organização e limpeza. Outra coisa é conviver com quem se gosta todos os dias e transformar as características de ambos em uma harmoniosa. Aqui eu mantinha minha liberdade e fazia as coisas do meu jeito; se casar significa dividir, eu estava com medo de não saber fazer dar certo. Desviei o olhar da vista a minha frente e caminhei até o enorme sofá cinza em L, jogando-me nele e ligando a enorme televisão presa à parede à frente. Tirei os sapatos com os pés e os coloquei sobre a mesa de centro, zapeando até encontrar algum filme interessante, parando ao ver a cena preta e branco de Dooley Wilson conversando com Ingrid Bergman. Sorri satisfeito ao reconhecer a cena, trazendo-me a nostalgia de assistir ao mesmo filme com minha mãe quando era mais novo.

- Costumava mentir melhor, Sam.
- Deixe-o em paz, Srta. Ilsa. Você traz azar a ele.
- Toque uma vez, Sam. Pelos velhos tempos.
- Não sei o que quer dizer, Srta. Ilsa.
- Toque, Sam. Toque “As Time Goes By”.
- Não me lembro, Srta. Ilsa. Devo estar enferrujado.
- Eu cantarolo para você.¹


E então a melodia de uma das músicas mais clássicas do cinema de Hollywood preencheu o ambiente, junto com a voz de Dooley Wilson.
Se Danneel negasse meu pedido, não saberia como reagir. Não saberia nem se conseguiria manter a relação. A vergonha da rejeição provavelmente descontruiria tudo o que tínhamos e sempre haveria dúvidas em minha mente sobre o que eu poderia ter feito de errado para não ser aceito. Algum dia até poderíamos até conversar sobre isso, mas jamais seria a mesma coisa. Se houvesse um não, da minha parte, nossa relação estará condenada. Merda. Essa história de pedido de casamento vai me deixar louco eventualmente. Joguei a cabeça para trás, fechando os olhos e não acreditando que tinha me tornado tão inseguro.
- Eu sabia que você estava mal, só não imaginava que era para tanto. – Jared falou, e senti o sofá afundar um pouco longe de mim.
Abri os olhos e o olhei, vendo-o estender uma garrafa de cerveja em minha direção.
- Valeu. – agradeci, pegando a bebida. Brindamos e tomamos um gole, logo ficamos em silêncio, apenas ouvindo os diálogos subsequentes do filme.
- Casablanca, sério? – ele disse, apontando com a cabeça.
- É um clássico. – resmunguei de volta, e ele riu.
- Jensen, você está encucando demais com essa história de pedido. – ele disse, recostando-se no sofá e sorvendo mais um gole da bebida.
- Falou o cara que ficou de diarreia por uma semana antes de pedir a Sandra em casamento. – retruquei, mas logo me arrependi de minhas palavras. Era um assunto complicado esse. – Desculpe.
- Tudo bem. – ele disse, mas pude sentir seu desconforto. – Você tem razão.
Voltamos a ficar em silêncio, cada um preso aos próprios pensamentos.
Ninguém imaginava que Jared e Sandra fossem se separar. Eles eram tão ou mais melosos que Danneel e eu, e até já moravam juntos. O problema todo começou quando a série resolveu colocar a personagem Ruby na história, e boatos de que Jared e Katie tinham um romance além das câmeras começou. A cumplicidade dos dois era inegável, mas o que as pessoas de fora viam como química avassaladora, nós víamos um carinho fraternal. Só que os tabloides fazem de tudo para vender, e seguindo essa lógica, toda semana era uma foto interpretada de maneira errada e uma guerra mundial entre Jared e Sandra. Três meses de desconfiança dela e de brigas quase diárias, o noivado rompeu e cada um foi para o seu canto. E o casal Jared e Katie que tanto inventaram nunca chegou a acontecer.
- Eu nunca compreendi muito bem a moral desse filme. – ele disse de repente, e eu o olhei incrédulo. – É tudo tão clichê. Um Romeu e Julieta em meio a II Guerra Mundial.
Ele não podia estar falando sério. E o cara ainda se diz ator.
- Pode parar aí, Jared. – falei, ofendido com o que tinha ouvido. – O que tem de Romeu e Julieta em Casablanca?
- Cara, é um amor proibido!
- E daí? – respondi, incrédulo. – Você já prestou realmente atenção nos diálogos? E na trilha sonora?
- Nunca tive muita paciência. – ele respondeu, dando de ombros.
Balancei a cabeça, incrédulo.
- Pois hoje você trate de prestar atenção e depois conversamos. – respondi, aumentando o volume, recostando-me confortavelmente no sofá e dando por encerrada a discussão.
- Jensen, na boa, você está parecendo uma adolescente tola e apaixonada. – ele disse, depois de alguns minutos em silêncio enquanto assistíamos ao filme.
- Talvez porque eu esteja apaixonado. – respondi, revirando os olhos e deixando claro minha impaciência com esse assunto.
E depois disso ele não falou mais nada, derrotado e obrigado a assistir ao filme se quisesse continuar na sala. Quando a pizza chegou, ele nem se mexeu para atender a porta, e me levantei do lugar divertido ao vê-lo tão concentrado no filme que tinha criticado com tanto preconceito minutos antes. Ele nem mesmo piscou quando deixei a caixa de comida sobre a mesa e trouxe mais cervejas. Sorri divertido – parecia que mais alguém ali iria virar fã do clássico.
- E então? – perguntei, quando os créditos começaram a passar. A essa altura já tínhamos comido e tomado seis longnecks cada um.
- É brilhante! – ele disse, um pouco alterado pelo álcool e se virando para mim. – E aquele diálogo no final!
- Eu avisei. – retruquei, levantando a garrafa como se fosse brindar, orgulhoso por fazê-lo compreender o clássico. – Sempre é bom educar novas pessoas no mundo cinematográfico clássico. – falei arrogante.
Ele ergueu a sobrancelha, desmerecendo minha arrogância forçada.
- E você já conseguiu educar Danneel? Porque não consigo imaginá-la vendo um de seus filmes antigos... – ele respondeu, e não consegui compreender se era curiosidade mesmo ou se ele tinha perguntado para me provocar.
- Já tentei, mas para ela não existe filme antes da década de 70. – respondi, incomodado. Esse era um dos pontos que não tínhamos nada em comum. Mas não ter o mesmo gosto compatível com filmes não significava que um casal não tinha nada em comum ou que não possa dar certo. – O filme favorito dela é E.T. – dei de ombros.
- O que não deixa de ser um clássico.
- É... – concordei, resignado, levantando-me e pegando o máximo de garrafas de cerveja que consegui. – Boa noite, cara.
- Boa noite.
Depois de deixar as garrafas sobre o balcão da cozinha, segui para o quarto, começando a pensar em todas as coisas que eu e minha namorada não tínhamos em comum além dos filmes. A lista não era pequena, mas, se estávamos juntos há dois anos, era porque o que quer que tínhamos era muito mais importante do que gostos pessoais. E, apesar disso, eu a amava, e estava disposto a mudar para fazer dar certo.

Austin, Texas, Estados Unidos da América


- Here’s looking at you, kid¹. – eu, e Humphrey Bogart falamos juntos em um dos diálogos finais do filme, para alguns minutos depois ver os créditos aparecerem na tela do notebook. e eu ficamos quietas, absorvendo a trama que tínhamos acabado de assistir enquanto a melodia final preenchia o quarto.
- Esse filme.. – falou com a voz meio embargada, e percebi que ela enxugava os olhos.
- Não é?! – falei, tentando disfarçar que meus olhos também estavam marejados.
- Queria um amor que nem o do Rick e da Ilsa. – ela disse, sonhadora, deitando-se na cama e olhando para o teto.
Permaneci sentada, encostada na cabeceira da cama e com as pernas cruzadas, mas com o notebook no colo. Pensei um pouco em suas palavras, não sabendo ao certo se concordava com elas.
- Acho que prefiro um romance Darcy e Elizabeth². – respondi, depois de uns segundos pensando em casais que admirava e gostava. – Ou como Rosie e Alex³.
- Rosie e Alex de Simplesmente Acontece?
- É.. – respondi, lembrando-me do filme com carinho.
- Você é romântica! – ela disse, sorrindo empolgada, como se tivesse descoberto a muralha da China.
- E você não? – perguntei, confusa, encarando-a. – Acabamos de assistir Casablanca, repetimos metade das falas e você não é romântica? E qual é o problema em ser romântica?
- Justo! – ela disse, sentando-se num pulo e cruzando as penas, colocando o travesseiro sobre elas e ficando a minha frente. – Mas em minha defesa, não imaginava que alguém que escolhe neurocirurgia para a vida fosse romântica.
A encarei surpresa, com um misto de indignação e descrença pelo o que eu tinha ouvido. Qual é o problema das pessoas com a neurocirurgia mesmo? Ou o problema é só comigo?
- Não é para te ofender, sério. – ela começou a explicar, mantendo o sorriso no rosto. – Mas quantos neurocirurgiões ou neurocirurgiãs você conhece que são românticos?
- Não sei, não saio perguntando para eles sobre suas vidas pessoais... – respondi irônica, fazendo-a revirar os olhos. – Ou sobre quais os gêneros de filme ou livros que gostam...
- Deixa de ser chata. – ela disse, empurrando minhas pernas com um dos pés. – Na cirurgia a frieza geralmente toma conta, e convenhamos que não temos muito tempo para nos dedicarmos a romances bem elaborados.
- Ou talvez a gente simplesmente veja a vida como ela realmente é... – falei, lembrando-me da conversa que tinha ouvido entre os dois neurocirurgiões assim que tinha entrado no andar.
Ela franziu o cenho, claramente demonstrando confusão. Eu tinha partido da personalidade “adolescente sonhadora” para “adulta cínica e melancólica”. Era isso o que uma vida virada de cabeça para baixo fazia com alguém que, um dia há muito tempo, sonhara em encontrar sua alma gêmea. Até que essa pessoa se deu conta de que não existe esse tipo de coisa.
- O que você quer dizer com isso?
Dei de ombros.
- Nós vemos problemas todos os dias, quase nos matamos de esgotamento para dar uma segunda, terceira, quantas chances uma pessoa pode ter, e quando não conseguimos, temos que lidar com o sentimento de incompetência. – comecei. – Sem falar quando não vemos algum paciente abandonado pela família por causa da doença, ou a presença da dor de uma mãe perdendo um filho.
- Ok.. – ela disse, ainda confusa. – Eu entendo tudo isso, mas o que tem a ver com o romantismo?
- , conhecendo tanto a dor, será que automaticamente não começamos a nos programar para não sentir? Por que valeria a pena investir em romances elaborados quando sabemos que tudo é tão fugaz?
Ela olhou-me séria, antes de conseguir falar qualquer coisa.
- Nossa, que pensamento ruim para se ter.
- Mas é verdade. – falei, encolhendo os ombros. – A ideia não me agrada nem um pouco, só que é mais fácil viver relações superficiais do que acrescentar mais uma dor para a coleção.
Ela ficou encarando-me em silencio, e eu evitei olhar para ela. Meu orgulho de demonstrar minhas feridas, ainda mais para alguém que eu mal conhecia, impedia-me de explicar o que realmente estava me incomodando. Tudo o que eu tinha lhe dito era verdade, mas não justificava completamente minha descrença no romantismo da vida real. O mundo machista e as minhas desilusões passadas, sim. Mas eram histórias que ficariam para outro dia, ou que talvez nunca fossem contadas.
- O que aconteceu hoje? – ela perguntou, semicerrando os olhos.
Dei de ombros, antes de fechar o notebook e levantar-me da cama, para colocá-lo sobre a bancada do quarto.
- Não aconteceu nada. Foi um ótimo primeiro dia. – respondi de costas, tentando disfarçar minha ironia.
Ouvi um suspiro antes de ouvi-la falar novamente.
- Olha, sei que nos conhecemos há menos de dois dias. – virei-me para olhá-la, e estava se levantando da cama. – Só quero que saiba que pode contar comigo. Teremos dois meses de convivência, e você é a pessoa mais perto de uma amiga que terei aqui. Então, quando quiser desabafar, ou apenas beber e xingar o mundo, é só me chamar que estarei ao seu lado.
Ela também estava de pijamas, todo estampado de flamingos, e, se seu semblante não estivesse sério, eu jamais acreditaria naquelas palavras. Entretanto, me encarava com a seriedade de uma pessoa experiente, que já tinha passado por algumas coisas na vida, e que conhecia bem as adversidades da nossa profissão.
- Obrigada, . A recíproca é verdadeira. – falei, dando-lhe um sorriso que logo foi retribuído. – Eu só não quero falar sobre isso hoje, está bem? Quem sabe no final de semana se não tivermos que ir para o hospital...
- Está bem, não vou te pressionar a nada. – disse antes de sair do quarto. – Vou ir dormir, boa noite, .
- , pode me chamar de . – ela sorriu, assentindo. – E boa noite.
Assim que ela saiu do quarto, fechei a porta, organizei a mochila para o dia seguinte e coloquei alguns lembretes no celular, como, por exemplo, ter que retirar da biblioteca do hospital um livro sobre neoplasias do sistema nervoso central, já que o Dr. Reed tinha dito que eu assistiria a uma cirurgia na sexta feira e que perguntas seriam feitas. Eu tinha saído com tanta pressa do St. David’s que tinha esquecido completamente de pegar informações do caso desta cirurgia e de já locar o livro. Atirei-me na cama e me aconcheguei embaixo das cobertas, aproveitando a escuridão e o silêncio ao meu redor.
- Já começou tudo errado... – sussurrei, colocando um dos braços sobre os olhos e lembrando-me do dia infernal que passara.

horas antes


Alana tinha me levado ao vestiário, onde me dera um armário para colocar minhas coisas e um conjunto de roupas hospitalares azuis, com meu jaleco por cima. Ela esperou pacientemente enquanto eu me trocava, guardava minhas coisas e prendia meu cabelo em uma nova trança, mas agora embutida, para que nenhum fio ficasse caindo sobre meu rosto. Dali, ela me mostrou todo o andar, explicou-me quais leitos eram destinados a paciente pediátricos, adultos e para pacientes que não tinham seguro de vida. Mostrou-me o bloco cirúrgico, que ficava no 2 andar, com suas 18 salas de cirurgia, sendo a de números 17 e 18 destinadas apenas a neurocirurgia, porque eram as únicas que tinham os melhores microscópios eletrônicos. Além de neurocirurgia e cirurgia plástica, o St. David’s realizava cirurgias cardíaca, torácica, vascular, geral, traumatológica, pediátrica e, se necessário, atendia na obstetrícia porque esta área tinha um hospital de referência próximo que pegava os casos. Explicou-me que só recebíamos gestantes ali se o outro estivesse com os leitos lotados, o que era bem raro de acontecer.
Depois de conhecer o bloco cirúrgico, a segui pelo resto do hospital, e aprendi onde eram os laboratórios de pesquisa das diversas áreas, o refeitório, as salas de descanso destinadas a cada corpo de funcionários – cada andar tinha uma sala de descanso coletivo e dormitórios separados por profissão. Médicos chefes de equipe tinham um somente para eles, plantonistas e residentes outro, e intercambistas ou internos, dividiam outro. Quando terminamos o tour, ela levou-me até a emergência, onde o residente do primeiro ano estava.
- Dr. Reed, com licença. – Alana falou, aproximando-se de um homem alto, jovem e que usava as mesmas roupas hospitalares que eu por baixo de um jaleco. Assim que nos aproximamos mais dele, percebi que deveria ter mais de 1,90 de altura. Ele estava de costas quando ela o chamou pela primeira vez, mas virou-se assim que ouviu seu nome ser repetido.
Nunca escondi meu favoritismo pelos homens americanos, e Ethan Reed fazia jus a todas as minhas justificativas. Apesar de alto, percebia-se o porte atlético por debaixo daquelas roupas, os ombros largos e coxas grossas, sem mencionar a postura autoconfiante, um pouco até arrogante. Ele não usava touca cirúrgica, então seu cabelo curto e loiro, de um tom quase mel, contrastava com os olhos azuis profundos, e os lábios finos combinavam perfeitamente com o queixo quadrado escondido pela barba rala e bem cuidada. Tentei disfarçar o quanto a sua beleza rústica tinha me deixado desconcertada, mas acho que lá no fundo ele deve ter percebido, porque um sorriso discreto surgiu no canto de sua boca, o que me deixou ainda mais sem jeito.
- Sim? – ele perguntou encarando-nos, e sua voz rouca e grossa fez alguns pensamentos impróprios surgirem em minha mente.
- Esta é a senhorita , que irá acompanhar o serviço de vocês pelos próximos dois meses. – Alana disse, e pude perceber que ela também estava encantada pelo homem à nossa frente; entretanto, ao contrário de mim, ela não fazia questão de esconder isso.
Reed deixou de olhá-la para direcionar seus belos e escuros olhos azuis sobre a minha pessoa, e, por um momento, tive vontade de sair correndo de tanta vergonha pela intensidade de seu olhar.
- Ruth disse que ela irá acompanhá-lo enquanto o dr. Hermann estiver fora. – continuou Alana, com um sorriso nada discreto no rosto. Por um rápido momento vi confusão no semblante dele, mas que deve ter sido coisa da minha cabeça, já que ele assentiu.
- Muito bem. Obrigado, Alana. – disse ele, claramente despachando-a. – Mais alguma coisa? – perguntou, já que a enfermeira não saiu do lugar. Tirada do transe, ela balançou a cabeça em negação, deu um sorriso sem graça e saiu sem sequer olhar para mim em despedida. – Então, srta. , você fala? – assenti, e ele ergueu as sobrancelhas. – Tem um primeiro nome?
- . – respondi, e foi a vez dele assentir.
- Ótimo. – disse, dando-me as costas e caminhando em direção ao posto de enfermagem que ficava em um canto do ambiente. – Acredito que Ruth já tenha te passado todas as normas.
- Sim. – o acompanhei, já que teria que ser sua sombra.
- Siga as regras e não fique no caminho. Assim tenho certeza de que irá se sair bem durante esse intercâmbio. – sinceramente, eu estava começando a me incomodar profundamente com essa história de não ficar no caminho. Quem eles pensavam que eu era? Pior, que tipo de educação médica eles achavam que o Brasil fornecia? Como podiam se achar tão superiores assim? Só porque têm mais tecnologias que nós... – Agora de manhã ficaremos na emergência, almoçamos e depois iremos para o andar ver e evoluir os pacientes. Você não irá ter contato com nenhum paciente, irá apenas observar.
Se eu soubesse que seria assim, deveria ter ficado no Brasil para aproveitar as festas de final de ano ao lado da minha família.
- Talvez eu te peça algumas coisas, como buscar algum material ou chamar alguém. E mais algumas coisas. – seu sorriso agora era um tanto sacana, e toda aquela beleza que eu tinha visto, pareceu murchar perante meus olhos. – Vamos lá, leito 7. – ele deu meia volta no posto, parou na frente do computador para ler alguma coisa, depois saiu dali e caminhou em direção ao leito indicado.
Enquanto ouvia Reed falar com um senhor de 68 anos que tinha caído no banheiro e batido a cabeça, analisei um pouco o lugar ao meu redor. Consegui imaginar, no momento, que os hospitais americanos deveriam seguir um mesmo padrão, porque eu tinha a impressão de estar dentro da emergência da série Greys Anatomy, só que em um ambiente um pouco maior. Deveria ter uns trinta leitos e contei 6 salas de trauma, duas salas de exames de radiologia e dois postos de enfermagem, um em cada canto. Duas portas de vidro, uma em cada lado de cada posto de enfermagem, davam acesso à rua, mas apenas uma parecia ser entrada de pacientes trazidos por ambulância. Não consegui contar quantas pessoas faziam parte do corpo de atendimento, porque tudo acontecia muito rápido, e, se eu piscasse os olhos, perderia Reed de vista. E se isso acontecesse, eu estaria ferrada logo no primeiro dia.
A manhã inteira não fiz nada além de observar as consultas de emergência, com exceção de ir trocar a pilha da lanterna, buscar luvas, levar seringas para o descarte adequado e sentir-me uma inútil. Reed não me dirigiu a palavra em nenhuma vez, muito menos me apresentou para os pacientes quando se apresentava para atendê-los. No Brasil, mesmo em estágios meramente observacionais, é uma questão de educação e ética apresentar aos pacientes os acadêmicos que acompanham os médicos, já que eles devem estar cientes de que mais uma pessoa ouviria suas queixas. Aqui as coisas parecem ser completamente diferentes. E não somente em relação a isso. As consultas eram rápidas, objetivas e frias demais. Se cronometrei uma consulta por mais de 5 minutos foi muito. Tudo bem que na emergência temos que agir com rapidez e objetividade, mas em casos mais simples, podemos dar um pouco mais de atenção.
O horário do almoço chegou quando um plantonista da neurocirurgia entrou para assumir o lugar de Reed, então nos dirigimos ao refeitório em completo silêncio. Agora eu sabia qual era a sensação de ser uma sombra, ou uma marionete, e não estava nada feliz com isso.
- Você tem com quem se sentar? – ele perguntou, adentrando no refeitório.
- Não me importo de me sentar sozinha. – respondi, dando de ombros.
- Certo. – disse, entrando na fila do buffett. – Encontre-me em uma hora no posto do andar. – assenti, e depois disso não falamos mais nada, de novo.
Reed deixou-me para trás, na fila, e o vi caminhar em direção a uma mesa com outros homens, enquanto buscava uma mesa vazia para me sentar. O refeitório era grande, com umas quinze mesas redondas para umas 8 pessoas, tinha máquinas de doces, jarras de café e chás em uma mesa comprida no canto, e uma das paredes, que era envidraçada, dava para um terraço de madeira, com outras mesas redondas com guarda-sóis fechados. Naquele frio, não tinha uma viva alma almoçando lá fora. O local não estava lotado, mas cheio o suficiente para as conversas serem altas e não ter nenhuma mesa vazia. Acabei escolhendo uma distante de onde o residente tinha se sentado, que era ocupada por duas mulheres, uma delas deveria ser apenas um pouco mais velha do que eu, já a outra talvez estivesse entre os 35-40 anos.
- Com licença, posso me sentar aqui? – perguntei a elas, interrompendo sua conversa.
A mais nova, uma morena de olhos castanhos, com traços finos – que me fez lembrar as barbies morenas -, encarou-me dos pés a cabeça e deu um sorrisinho forçado enquanto assentia com a cabeça. A mais velha não falou nada, apenas ficou olhando-me enquanto eu me sentava do outro lado da mesa.
- Obrigada. – respondi, tentando ignorar os olhares atentos das duas.
- Você que é a intercambista do Hermann? – ouvi a morena perguntar depois de um tempo.
- Sim. – respondi, levantando meus olhos do prato de comida para encará-la.
- E é verdade que você é brasileira? – a outra perguntou, arregalando os olhos.
Estudei ambas por alguns segundos. A morena ofuscava a outra, não apenas pela juventude, mas principalmente pela aparência. Enquanto que a primeira fazia jus ao padrão de beleza americano – magra, lábios finos, rosto fino, cabelos bem cuidados e possivelmente de estatura mediada, com as unhas feitas e uma maquiagem básica; a outra era o seu oposto: seus cabelos eram ruivos ondulados, mas desgrenhados e mal presos em um rabo de cavalo baixo, tinha algumas poucas sardas preenchendo o nariz, rosto redondo, olhos castanhos e, aparentemente, mais baixa. Sem mencionar a postura: uma sentava-se ereta, autoconfiante de sua presença; a outra curvava-se, como se estivesse acostumada a ser ofuscada ou só notada por ficar próximo àquela morena.
- Sim, sou brasileira. – respondi, deixando os talheres sobre o prato, e as vi trocar um olhar cúmplice. – Por quê? – perguntei, ainda tentando ao máximo manter minha paciência.
- Meramente curiosidade. – a morena respondeu, e então me estendeu a mão. – Meu nome é Amy Mills, R2 do serviço de dermatologia. – apertei sua mão, aceitando o cumprimento. – E esta é Olivia Green, R3, também da dermatologia. – a outra também estendeu a mão, e repeti o gesto.
- . – falei. – Não sabia que o hospital também atendia especialidades clínicas.
- Só algumas selecionadas. – disse Amy, dando de ombros, em um comportamento arrogante. – Dermatologia, Infectologia, Cardiologia, Neurologia e Pneumologia. Estou esquecendo de alguma, Ollie?
Ou seja, quase todas.
- Gastroenterologia. – Olivia respondeu, como se recém tivesse ganhado um presente.
Certamente eu estava diante de uma antiga líder de torcida que queria manter seu domínio no ambiente pós high school e de uma mulher que esqueceu de aprender a pensar sozinha. E, ao me dar conta disso, senti meu estômago embrulhar. Se tinha algo que eu odiava, era essa história de hierarquia juvenil que parecia ter em todos os lugares do mundo, mas principalmente que se sobressaia aqui na América. Deveria ter bastante cuidado com essas duas se eu não quisesse me ver envolvia em um filme teen norte-americano.
- Verdade, como pude esquecer. – Amy falou com um sorriso cínico. – Sabe, é incrível que Hermann tenha te aceitado. – ergui as sobrancelhas, encarando-a. – Não é nada pessoal, mas ele não costuma aceitar alunos faz alguns anos, e quando todos soubemos que de repente ele tinha mudado de ideia, foi uma surpresa e tanto. Nos fez pensar no que pode tê-lo convencido. – seu sorriso agora era completamente maldoso. E como os filmes retratavam: a minha frente estava uma antiga líder de torcida muito filha da mãe que não sabia a hora de calar a boca. – Quem sabe ele não teve uma curiosidade de conhecer a medicina brasileira. Dizem que é bem famosa.
- Talvez a medicina que eu pratico e que é a ensinada no meu país seja diferente da que você esteja acostumada ou a que tenha aprendido. – respondi, sorrindo cinicamente para ela, e deixando bem claro que não levaria desaforo para casa, apesar de perceber que tinha me abalado por saber o que todos estavam conjecturando do motivo da minha vinda.
Amy perdeu a compostura por milésimos de segundo, mas se recuperou rápido. Se eu não fosse uma pessoa observadora, talvez nem tivesse percebido que ela tinha sido atingida pelas minhas palavras.
- Isso é o que nós vamos descobrir com o tempo, não é mesmo? – disse ela, encarando-me como se me desafiasse.
- Sem dúvida alguma. – respondi. Tinha perdido meu apetite com toda aquela conversa, e não vi sentido algum em continuar na companhia das duas. – Obrigada pela companhia, e foi um prazer conhecê-las. – falei com um sorriso extremamente cínico nos lábios, enquanto me levantava e pegava minha bandeja.
- Nos vemos por aí, brasileirinha. – a ouvi dizer enquanto me afastava, e respirei fundo, tentando controlar minha raiva.
Coloquei o prato, os talheres e a bandeja nos locais indicados, e caminhei até a mesa do café, percebendo que Reed estava ali, de costas para mim, conversando e rindo com os mesmos homens com quem tinha sentado durante a refeição. Eles não perceberam minha aproximação, mas pararam de conversar quando entrei no campo de visão e peguei um copo de café. Senti os olhos sob mim enquanto saía daquele lugar horrível e caminhava pelos corredores à procura de um lugar sossegado para passar o restante da minha hora de almoço. Vaguei até avistar as placas das escadas, e elas me pareceram um bom lugar para me esconder pelos próximos minutos enquanto terminava meu café.
Talvez eu esteja tendo um pesadelo e em algumas horas eu vá acordar e me dar conta de que nada disso é real; que vou chegar no St. Davids e ser bem recebida, que não ouvirei piadas ou comentários machistas, ou que não sofrerei preconceito por causa da minha nacionalidade, ou até mesmo que Hermann esteja presente para me receber. Suspirei cansada, encostando minha cabeça na parede e fechando os olhos. Doce ilusão. Estava vivendo uma experiência terrível, e nada mudaria isso. Era pedir demais que tudo fosse bom desde o início?
Não sei quanto tempo fiquei ali, relaxando com o silêncio que meu novo esconderijo proporcionava. Em nenhum momento ouvi alguma porta se abrir ou passos em minha direção. Fiquei sozinha presa em pensamentos e tentando acalmar meu turbilhão de emoções até me dar conta de que o horário de almoço poderia estar chegando ao final. Levantei, sentindo-me derrotada, joguei o copo do café no lixo, limpei minha roupa e juntei toda a força de vontade ainda restante no meu corpo para subir todos os seis andares faltantes e continuar o dia.
- Perdão. – falei depois de tombar com um senhor enquanto saía das escadas e adentrava no décimo terceiro andar. Ele era uma cabeça mais baixo do que eu, um tanto rechonchudo e usava um terno marrom desgastado, que não combinavam em nada com o allstar branco que usava. – O senhor está bem?
- Estou. – respondeu, um tanto seco. Qual é o problema dessas pessoas?! – Está perdida?
- Não, senhor. – respondi, analisando-o melhor.
Seus cabelos eram grisalhos e seus olhos, verdes. O rosto era marcado pelas linhas da idade, bem como por olheiras. Não tinha barba ou um bigode, mas seu olhar era vívido, sagaz. Apesar de ser mais baixo, tinha uma aura de autoridade que emanava para todos os lados, e mesmo com o terno antigo e a pasta de couro surrada, sabia que aquele senhor deveria ser alguém importante dentro do hospital, apenas pela forma severa que me olhou.
- Se o senhor está bem e não precisa de ajuda, já vou indo. – falei, sentindo-me minúscula perto de sua presença. Ele não disse nada, nem mesmo mexeu a cabeça antes de virar as costas para mim e começar a descer as escadas.
Nunca mais reclamo da educação dos brasileiros. Sério.
Eu juro.
Qual o problema desses americanos?
Dinheiro demais? Qualidade de vida boa demais? Escolaridade demais?
O que custa dar um sorriso simpático para alguém?
Eles precisam mesmo é de empatia, sem dúvida.
Suspirei, já cansada por estar naquele lugar e reuni o máximo de coragem que ainda restava dentro de mim antes de entrar no décimo terceiro andar e procurar por Reed. Não demorei a encontrá-lo, já que estava onde disse que estaria: no posto de enfermagem. Assim que ele me viu, parou de conversar com as enfermeiras, pegou um tablet e caminhou em minha direção.
- Vamos. – disse, caminhando para um dos quartos.
Mais uma vez ele não me apresentou e nem me colocou a par dos casos. Tudo o que eu deveria aprender, deveria ser por observação e pesquisa própria, então tratei de ficar atenta a cada anamnese4 e a cada exame físico que ele fez com todos os pacientes que vimos. Foram dezesseis pacientes que ocuparam quase toda a tarde, e pelas 5 PM, ele terminou todos, caminhou para uma sala que era identificada como sala de discussões, ligou um dos computadores e começou a evoluir o prontuário de todos os pacientes que tínhamos visto. Depois de 1h30 ali, parada, olhando ou para o teto ou para o residente, ele desligou o computador e se levantou.
- Você está liberada por hoje. – disse, parado em pé a minha frente. – Amanhã esteja aqui às 6 AM para acompanhar a rotina da UTI neuro. Vou encontrá-la no posto de novo. E sugiro que leia sobre meduloblastoma, já que vai ser a cirurgia de sexta de manhã, do paciente Frank Richards. Faremos perguntas sobre o assunto a você.
Assenti e saí da sala logo após ele.
- Até amanhã. – falou, afastando-se sem dizer mais nada.
Demorei um tempo até encontrar o caminho do vestiário, não somente por ter esquecido, mas também porque tinha criado expectativas de que esse intercâmbio ia ser o máximo e que tudo não tinha passado de uma pegadinha de mal gosto do Universo. O sonho tinha se tornado um pesadelo, e eu queria acordar o mais rápido possível.
O vestiário estava vazio, e o silêncio do lugar quase foi o suficiente para me fazer perder o controle. Meu corpo inteiro parecia que ia entrar em ebulição, e pensei em todos os mantras que Joanna tinha usado ao longo da faculdade para me acalmar, mas nenhum adiantou. Estava triste pelo dia, com raiva pelo preconceito que tinha sofrido e decepcionada com o médico que era meu ídolo. Joguei as roupas hospitalares no cesto de usadas e coloquei as minhas roupas o mais rápido possível. Soltei os cabelos, percebendo-os um pouco amassados por ter usado trança o dia inteiro, coloquei a touca e o cachecol. Dessa forma eu passaria ainda mais despercebida pelos corredores do hospital. Cada passo que eu dava para fora daquele lugar era uma tentativa de manter minha sanidade. Podia sentir minhas mãos tremendo dentro dos bolsos do casaco, e não era de frio. Logo que passei pelas catracas do térreo, avistei Reed em uma roda de conversas com alguns dos homens do almoço próximo a saída principal. Perto deles, o senhor com quem tinha tombado na escada conversava com outro. Se eu quisesse ir embora, teria que passar por eles ou esperar o grupo do bolinha se desfazer.
- É verdade que ela é brasileira? – um deles perguntou, sem se dar conta da minha aproximação. E vi Reed confirmar com um aceno. – Acha que vai conseguir levá-la para a cama? – parei de andar, não ficando muito próximas a eles para conseguir escutar sem ser notada.
- Com certeza. – o ouvi responder. – Ela é novinha e brasileira.
De cabelos soltos, touca e um cachecol cobrindo a parte inferior do meu rosto, eles certamente não tinham me reconhecido.
- Que habilidades será que ela tem? – ouvi outro perguntar à medida que me aproximei mais.
Meu coração se apertou dentro do meu peito. Era isso mesmo o que eles pensavam de mim? Como poderiam pensar algo desse tipo sobre alguém que nem conhecem? Ter esse tipo de preconceito? Eu queria chorar e, ao mesmo tempo, socar cada um deles por falarem tantas atrocidades de alguém que só queria aprender. E pior de tudo era que eu precisaria aguentar todos eles pelos próximos dois meses se eu quisesse provar que eles estavam errados.
- Para Hermann aceitá-la, deve ter algumas bem incríveis. – Reed disse, tirando sorriso sacanas dos outros.
Olhei-o com misto de raiva e mágoa. Ele pode não ter sido o mais simpático durante o dia – ok, nada simpático -, mas ele ainda é um médico; todos eles ainda são médicos, isso não deveria significar alguma coisa? Onde eles colocaram a parte do juramento que diz “nunca causar dano ou mal a alguém”?
Quando eles riram de novo sobre algum outro comentário, cheguei ao meu limite. Para mim bastava dessa palhaçada. Aproximei-me deles, baixei meu cachecol para descobrir meu rosto e pigarreei, finalmente chamando a atenção deles para a minha presença.
- Com certeza as minhas habilidades são superiores as suas, dr. Reed. – comecei, vendo o choque na cara de todos e percebendo que o senhor de terno marrom e seu acompanhante também prestavam atenção em nós. – Já que procuro usar as intelectuais para a prática médica. – sorri cínica para ele – Não tenho o hábito de pensar com meus órgãos sexuais. E da próxima vez que tiver tanta certeza de que consegue levar uma mulher para a cama só pela sua nacionalidade, pense bem se você conseguirá dar conta de uma brasileira. – terminei, despejando tudo o que eu não queria sobre eles, mas fazendo questão de demonstrar meu orgulho pelas minhas origens. – Um boa noite para vocês.
Cruzei a rodinha deles e passei pelo senhor de terno, que sorria para mim com um certo orgulho. Dessa vez, enquanto me afastava dele, o vi assentir para mim. Sorri sem graça e apressei os passos, querendo o quanto antes chegar em casa e desabar.
Eu nunca tinha perdido o controle. Nem uma vez sequer, e agora eu tinha arriscado colocar tudo a perder. Parabéns, .

¹ Diálogo/frase do filme Casablanca (1942), de Michael Curtiz.
² Protagonistas do romance literário Orgulho e Preconceito, de Jane Austen.
³ Protagonistas do filme Simplesmente Acontece.
4 Anamnese é a entrevista realizada pelo profissional da saúde ao seu paciente, com a intenção de iniciar a busca pelo diagnóstico clínico.


Capítulo 4

“Quem abandona a luta não poderá nunca saborear o gosto de uma vitória”.

Textos judaicos

Austin, Texas, Estados Unidos da América

Eu tinha chegado nos Estados Unidos em uma terça feira de manhã e meu primeiro dia no St. David’s Surgical Hospital tinha sido em uma quarta-feira. Provavelmente a pior da minha vida. E muito mais provavelmente a quarta-feira em que coloquei todo o meu futuro profissional no ralo. Tudo porque, pela primeira vez na minha vida, não consegui controlar minha língua. Me remexi inquieta na cama, evitando pensar na besteira que tinha feito no dia anterior. Hoje seria meu terceiro dia no país, segundo de estágio, e meu despertador já tinha tocado há cinco minutos, mas eu ainda não tinha conseguido reunir coragem para sair debaixo das cobertas. Até Ezra Hermann voltar sabe-se lá de onde, eu teria que ser a sombra de um homem arrogante, machista e sexista – e que, muito provavelmente, me odiava depois de tudo o que tinha lhe dito.
- Filho de uma égua. – resmunguei, jogando as cobertas para o lado e me levantando num pulo.
O meu celular marcava 04:37 AM e da janela sobre a bancada não se via nada além da escuridão da noite. Caminhei rápido até a cômoda e dela até a ducha do banheiro pelo frio que estava agora que tinha saído da cama. Optei por uma calça de moletom sobre meia-calça, um blusão de lã e tênis, já que teria que trocar de roupa assim que chegasse no hospital, mas já deixei os cabelos presos novamente em uma trança embutida. Assim que saí do quarto, senti o cheiro de café preencher o ambiente, e encontrei parecendo um zumbi sentada na mesa, com a cabeça apoiada sobre um dos braços e com uma caneca de café a sua frente.
- Bom dia. – falei, sentindo-me tão desanimada quanto ela aparentava.
- ‘Dia. – respondeu, resmungando e mantendo os olhos fechados.
- Seu café vai esfriar. – falei, dirigindo-me até a cafeteira e enchendo uma caneca para mim.
- Não importa. – a ouvi resmungar. Peguei um pedaço da pizza que sobrara da noite anterior – tinha feito questão de pedir enquanto assistíamos Casablanca – e mordi um pedaço, sentando-me a sua frente.
- Você não chegou a comentar como foi o seu primeiro dia. – falei, entre uma mordida e outra.
abriu os olhos, me olhou sonolenta, ajeitou a postura, tomou um gole de café para então falar:
- Uma bosta.
- Sério?
- Sim. – disse, sorvendo mais um gole. – A chefe de serviço é bem legal, mas os residentes são uns bostas. Me tiraram para a barbie Malibu.
Pelo visto, não era apenas na neurocirurgia que os residentes eram uns pé no saco.
- Antes barbie do que puta. – respondi, simplesmente, deixando escapar minha indignação com o dia de ontem.
- Você tá brincando! – ela falou, horrorizada. – Por quê?!
- Fama que as brasileiras enfrentam. – tomei mais um gole do café depois de acabar com minha fatia de pizza.
- Não acredito nisso!
- Acredite. Pior é ter que voltar para lá hoje.
Ela assentiu, mas não falou mais nada. Terminamos o nosso café em silêncio em poucos minutos, cada uma perdida em pensamentos, e terminamos de nos arrumar. Escovei os dentes, fiz uma maquiagem básica, peguei o casaco, a mochila, luva e touca e recostei-me no balcão da cozinha para esperar por . Já eram 5:23 AM, e dei graças aos céus pelo hospital estar a uma quadra de distância. Quando chegássemos lá, ainda teria que colocar o uniforme e estar pronta às seis horas no posto de enfermagem.
- Nós devíamos sair no final de semana. – falou, também vestida com uma calça de moletom, tênis e um suéter preto, com cachecol amarelo e touca preta. Seu casaco também era preto.
- E onde iríamos? – perguntei enquanto saíamos do apartamento.
- Vai começar o Austin City Limits Music Festival amanhã.
- Não está meio em cima da hora para conseguirmos ingressos?
- Para amanhã, sim. Mas acho que conseguimos comprar para sábado ou domingo à noite.
- Domingo à noite não é uma boa ideia, provavelmente teremos que madrugar no hospital na segunda.
- Dependendo das atrações, vai valer a pena perder umas horas de sono. – ela falou enquanto saíamos do prédio e seguíamos apressadas para o hospital, atentas a qualquer movimentação suspeita pelo caminho.
- Você tem razão. – falei, dando-me por vencida. Já que eu estava ali, era melhor aproveitar as coisas boas que Austin estava me oferecendo.
- Oba! – ela comemorou, batendo palmas e com um sorriso enorme. – Vamos nos encontrar no refeitório da hora do almoço e já vemos isso. Ouvi boatos de que Jensen Ackles irá se apresentar, só não sei quando.
- O ator de Supernatural? – perguntei surpresa.
Desde quando ele canta? Essa informação era completamente nova para mim.
- Sim! O que faz o Dean. – ela disse, claramente mais empolgada. – O Jared, que é o Sam, faz mais meu estilo, mas só de ver um deles ao vivo já fico animada e posso morrer feliz.
- Não é muito jovem para pensar em morrer feliz? – perguntei, rindo.
- Claro que sou! Mas se meus planos de morrer velhinha em uma cama quentinha não derem certo, pelo menos vou ter visto um deles ao vivo.
- Não acredito que você é assim tão fã da série. – respondi, achando engraçado toda a animação dela.
- E você não é? – perguntou emburrada, enquanto alcançávamos as portas principais do hospital.
- Não nesse nível – dei de ombros – Mas quem não gosta de Supernatural? – a olhei descrente, e logo sua feição emburrada deu lugar para outro sorriso de criança feliz. – Sério, , você está parecendo uma criança na véspera de Natal.
- Mas imagina só... a gente vai ver o Jensen Ackles de pertinho, quem sabe ele não olha e se apaixona? – ri de seu comentário, achando muito improvável que isso fosse acontecer.
- Ele não está junto com a atriz que fez One Tree Hill? – entramos no elevador e cada uma apertou no seu respectivo andar.
- A Danneel. Sim, eles estão juntos. – fez um muxoxo. – Mas o Jared está solteiro. Imagina se ele vier ver o amigo se apresentar e nos esbarrarmos por aí. – então ela sorriu que nem uma boba sonhadora.
Honestamente, eu estava bastante espantada com sua mudança de humor tão repentina. Ou com esses sonhos mirabolantes.
- Deixo qualquer um dos dois para você. – respondi, rindo.
- Fala sério que você não gostaria de ter algo com qualquer um deles.
- Se fosse para imaginar essa possibilidade, o Jensen faz mais meu estilo. Mas ele está em um relacionamento e por isso essa ideia toda é absurda para mim.
- Mas o Jared é solteiro.
- Pode ficar com ele todinho pra você. – respondi, e logo as portas se abriram no quarto andar.
- Nos vemos no almoço! E lembre-se de mandar os machistas para a puta que pariu. – ela disse, saindo do elevador e andando apressada.
- Você também! – respondi de volta, um pouco alto.
Assim que as portas se abriram novamente, agora no décimo terceiro andar, comecei a mentalizar que o dia de hoje seria melhor que o de ontem, e que eu não seria expulsa do programa. Pensamentos positivos são tudo, como diria . Se minha amiga estivesse aqui comigo, ela me mandaria manter a calma, jogar boas energias para o Universo e fazer o meu trabalho direito.

Como se eu fosse conseguir fazer tudo isso.

Entretanto, se o pior acontecer e eu for mandada embora do programa, aproveitaria a estadia americana para conhecer alguns lugares por aí, nem que tivesse que dormir num hostel com mais trinta pessoas ou em uma estação de trem. Nem a pau que eu ia deixar de ir no festival com – agora que ela me empolgara com a ideia -, ou de conhecer alguns pontos turísticos do Texas. Ia dar um jeito de tirar proveito dessa situação catastrófica. E certamente eu não comentaria com ninguém do Brasil sobre o ocorrido... porque se o fizesse, entraria para a história da minha faculdade, não somente como a estudante que jogou a melhor oportunidade no lixo, como também teria minha fama de louca aumentada.
- Bom dia, . – a voz da enfermeira Ruth tirou-me dos meus planos de emergência caso tudo desse errado, fazendo-me encará-la. Ela estava sentada em frente a um computador no posto de enfermagem e estava sozinha. Olhei para o relógio pendurado na parede: 05:47. Ok. Não estava atrasada. Ponto positivo.
- Bom dia. – respondi, bastante apreensiva.
- Hermann está em uma cirurgia de emergência, deve estar acabando. Pediu que assim que você chegasse, fosse esperá-lo em sua sala.
Hermann estava ali.
Hermann estava ali, tinha chegado e queria falar comigo em sua sala.
Era o fim. Agora eu tinha certeza.
- El-ele chegou? – gaguejei, praguejando-me por ter demonstrado meu medo.
- Sim, noite passada. Agora vá. – respondeu, despachando-me com a mão.
Assenti e tratei logo de caminhar. Minhas pernas pareciam feitas de chumbo, e cada passo dado parecia que eu levava um soco no estômago. Eu deveria ter me controlado ontem, deveria ter ficado de cabeça baixa e segurado minha língua. Deveria saber que me tratariam com desconfiança e preconceito, e jamais deveria ter criado expectativas sobre como seria esse intercâmbio. Eu deveria ter deixado a tola sonhadora no Brasil e ter encarnado meu lado cínico, porque obviamente­ ele seria de maior utilidade para sobreviver aqui. Como eu encararia minha família? Como eu aguentaria minha mãe dizendo eu te disse que era melhor ter ficado aqui, ou meu pai você só me fez gastar dinheiro. Pior ainda, como eu me encararia no espelho? Quantas outras histórias eu já tinha ouvido de mulheres brasileiras que passaram pelo mesmo preconceito? Ou quantas outras vezes eu já tive que provar que mulher pode ser neurocirurgiã e pode ser o que bem quiser? Quantas piadas machistas eu já tinha ouvido dentro de uma sala de cirurgia, ou quantos casos de professores distribuindo notas para alunas que caíam nas suas cantadas? Eu era mais do que calejada nesse ambiente machista e conservador, mas via as coisas mudando, via cada vez mais mulheres se formando como médicas e vi tantas outras serem cirurgiãs muito melhores do que homens que faziam parte de algum clubinho social. E por ver tudo isso em minha formação, quis acreditar que, em um país considerado desenvolvido, a realidade fosse outra, que aqui os direitos entre os sexos seriam muito mais respeitados, que a voz feminina era ouvida.
Eu tinha sido muito ingênua mesmo.
A realidade era muito diferente do que o esperado.
Aquela tinha sido a caminhada mais lenta que já tinha feito em um corredor de hospital, e quando cheguei ao final, encarei novamente a placa cor de chumbo com a identificação de Hermann. Bati na porta, mas ninguém respondeu. Óbvio, ele estava em cirurgia.
- Ruth me disse para esperá-lo dentro da sala... – resmunguei para mim mesma, forçando a fechadura e abrindo a porta.
No dia anterior eu não tinha conseguido ver um deslumbre do consultório de Hermann, mas hoje eu estava ali sozinha, sabe-se lá por quanto tempo, e aproveitei a solidão para analisar bem o local. Em frente à porta, metade da parede oposta era de vidro e tinha a vista para o outro lado do hospital, e um sofá de couro marrom ficava encostado na parede entre a porta e o vidro. De frente para o sofá, no lado esquerdo de quem estava na porta, uma mesa de mogno estava lotada de papeis e pastas, e tinha duas poltronas de couro também marrom à sua frente. Dei um passo para dentro e fechei a porta atrás de mim. Na parede ao lado da porta, um balcão também de madeira, com duas portas de correr, servia para exibir os inúmeros prêmios que ele já tinha ganhado ao longo da profissão, e a parede estava coberta de quadros de títulos, certificados e outros prêmios. Na outra metade da parede de vidro, havia uma estante de livros que chegava quase ao teto, e atrás da mesa, dois porta-arquivos de metal antigos. Senti como se tivesse entrado no escritório de algum diretor da CIA de algum seriado trash, e pior, senti-me extremamente diminuída à medida que ia lendo todos os prêmios que ele já tinha ganhado. Quem eu era perto de uma pessoa como ele?
E eu tinha posto minha oportunidade de aprender com um médico desses no lixo.
- Parabéns, , você ganhou o prêmio de idiota do ano. – resmunguei, dando as costas para os troféus e caminhando em direção a estante de livros. Apesar da maioria dos títulos serem sobre neurocirurgia, alguns outros de outras áreas da medicina, encontrei, mais embaixo, volumes da Agatha Christie, fazendo-me erguer uma sobrancelha.
- Pelo menos vou poder dizer que temos um gosto em comum. – resmunguei outra vez. Eu encarava sua coleção de atlas do corpo humano quando ouvi a porta ser aberta atrás de mim, fazendo-me dar um pulo e virar-me assustada na direção.
Estanquei, encarando Ezra Hermann entrar no escritório.
- Bom dia. – era o senhor de ontem, o senhor que eu tinha esbarrado na escada e depois que tinha ouvido todo o meu descontrole com Reed.
Céus, eu estou tão, mas tão ferrada.
- Bo-bom dia. – gaguejei, e logo tratei de me afastar da sua estante, vendo-o se aproximar de sua mesa pelo outro lado e então sentar em sua cadeira.
- Sente-se, senhorita . – ele disse, apontando para uma das poltronas a sua frente.
Fiz o que ele mandou, porque não sabia se conseguiria fazer qualquer outra coisa que não fosse obedecer a suas ordens tamanho o meu choque. Hermann colocou os braços sobre a mesa, entrelaçando os dedos e recostou-se na poltrona, encarando-me com uma seriedade que somente um homem com tanta autoridade conseguia. Engoli em seco perante seus olhos verdes, e tive vontade de baixar a cabeça envergonhada, mas a vozinha do diabo dentro de mim, ou seja, meu orgulho, fez-me sustentar seu olhar de cabeça erguida.
- Precisamos conversar sobre o que presenciei ontem. – ele falou depois de nos encararmos por alguns segundos. E assenti, pronta para o que viesse a seguir.

Vancouver, Colúmbia Britânica, Canadá

Tínhamos chegado ao set extremamente cedo e demorou um pouco até que todos estivessem bem acordados para darmos sequência às gravações do dia. Era o último dia de filmagem antes do recesso de final de ano, e todo mundo estava ansioso por esse descanso. Foram meses de trabalho intenso, longe das famílias e de qualquer período de lazer. Quando não estávamos filmando, estávamos ensaiando, indo a sessão de fotos, entrevistas e tantos outros compromissos. Podia contar nos dedos quantos finais de semana livre tínhamos tido, e se não fosse por Danneel ter sido muito paciente e ter vindo me visitar, teríamos ficado uns dois meses sem contato físico algum. Minha família eu já nem lembrava qual tinha sido o último dia que consegui vê-los, e mal via a hora para chegar em Dallas e reencontrar todos.
- Último dia. – Misha disse, parando a minha frente já com o figurino de Castiel, mas com uma terrível cara de sono.
- Cara, você está péssimo. – falei, pegando o figurino de Dean.
- Victoria ligou ontem contando que West não estava bem. – explicou. – Não consegui dormir quase nada de preocupação.
- Já teve notícias agora de manhã? – ele negou, e coloquei uma mão em seu ombro em solidariedade. – Vai ser só um mal-estar, cara. Daqui a pouco ela liga contando que já está tudo bem. Se algo mais sério tivesse ocorrido, ela já teria entrado em contato.
- Você tem razão. – ele disse, parecendo um pouco mais leve.
- Jensen Ackles, eu não acredito nisso! – a voz de Mark Sheppard entrando no camarim ressoou, e Jared vinha com um sorriso divertido logo atrás dele. – Um passarinho de dois metros de altura me contou que você é super fã de Casablanca!
- O quê?! – Misha falou, surpreso, e logo vi um sorriso divertido surgir em seus lábios. Rolei os olhos, não acreditando nisso.
Bando de fofoqueiros. Ou melhor, Jared-boca-de-jacaré.
- Esse mesmo passarinho me contou que você até recitou algumas frases ontem à noite. – Mark continuou, divertindo-se com a situação.
- Esse passarinho é mesmo um grande fofoqueiro. – retruquei, vestindo a camiseta do figurino. – E pelo o que eu me lembro bem, ele ficou bem animado com o filme.
Jared me olhou com raiva fingida, mas mantendo o sorriso debochado no rosto.
- Você também viu o filme? – Misha perguntou, divertido. E Jared assentiu.
- Meu deus, vocês dois podiam ao menos disfarçar que são um casal. – Mark falou, arrancando uma risada de Misha.
- Não dá. – comentei, ajeitando a roupa. – Não consigo resistir aos dois metros de altura de Jared.
Foi a vez do meu amigo rolar os olhos impaciente, mas sem perder o sorriso.
- E qual a sua desculpa, meu amigo? – Misha perguntou, encarando Jared.
- Ele precisava de atenção. – Jared respondeu, dando de ombros.
Mark e Misha trocaram um olhar cúmplice e, em seguida, aproximaram-se um do outro. Ergui a sobrancelha curioso com o que viria a seguir. Vindo deles, só poderia ser uma palhaçada bem ruim.
- Nós sempre teremos Paris, Ilsa. – Mark recitou, imitando a pose de Humpfrey Bogart, enquanto Misha interpretava o papel de Ingrid Bergman.
- Rick... – Misha falou, como um idiota apaixonado. Pelo amor de Deus, isso era uma vergonha.
- Here´s looking at you, kid. – Mark encenou, e eu tinha 100% de certeza que a cena toda estava errada. Minha cara de pavor deveria estar inédita, porque em seguida os três tiveram um ataque de risos.
- Michael Curtiz teria vergonha do que acabo de presenciar aqui. – disse, apontando um dedo para eles, depois de me recuperar da palhaçada dos três. – Nunca mais vou conseguir ver esse filme sem me lembrar dessa monstruosidade de vocês dois.
- Tadinho de você, Jensen. – Misha disse, debochado. – Não queríamos estragar o seu filme favorito.
Novamente revirei os olhos, e decidi sair dali antes que as piadas continuassem. E mesmo que eu tentasse fugir daqueles três ao longo do dia, as brincadeiras não pararam até que eu entrasse no clima também. Eles finalmente encerraram a piada depois que me fizeram posar para uma foto usando a capa de Misha e um chapéu, de forma que imitasse o personagem do filme. E pelo menos o nosso clima de despedida das filmagens do ano foi divertido, mesmo que tivesse sido às minhas custas.
- Estou pensando em te acompanhar até Austin. – Jared falou, no intervalo de uma das cenas.
Olhei para ele sem entender nada.
- E por que você faria isso?
- Quero ver o pedido. – deu de ombros.
- De tanto que você fala, daqui a pouco não vou fazer mais nada.
- Deixa de ser birrento, Jensen. Vai ser um evento único, e gostaria de ver.
- Ver o quê? – Misha perguntou aproximando-se de nós e nos olhando com curiosidade. E antes que eu pudesse falar qualquer coisa, Jared abriu o bico.
- Jensen vai pedir Danneel em casamento este final de semana, no festival de música.
- O quê?! – Misha abriu um sorriso e aproximou-se, para me dar um abraço. – Parabéns, cara! É um passo importante.
- Calma aí, eu ainda não pedi.. – falei, sem jeito e retribuindo desajeitadamente seu abraço.
- Mas o que importa é que você está pronto para essa etapa. – ele disse, baixando seu lado filosófico budista. – É uma evolução para a alma. – olhei-o incrédulo. Sério isso? – E como vai ser?
- Fui convidado a fazer uma participação num show de um amigo no Austin City Limits Music Festival, depois de cantar com ele, vamos cantar Crazy Love, dedicar a ela e depois propor. – expliquei, vendo a troca de olhares entre os dois.
- Um grande gesto. – Misha disse, por fim, parecendo estar em transe. – Algo me diz que ela irá gostar e que você terá uma resposta positiva.
- Você, por acaso, está tirando sarro com a minha cara? – às vezes eu não conseguia identificar quando Misha estava sendo irônico ou falando sério, e nesses momentos eu tinha a impressão de que Castiel era sua outra personalidade.
- Claro que não. – ele rolou os olhos. – Estou falando sério. E você vai estar lá para filmar e contar tudo pra gente, Jared?
- Estou pensando em ir.
- Se qualquer um de vocês for, ela vai suspeitar. Então nada disso. Tenho certeza de que vídeos não faltarão. – retruquei, cansado dessa história e saindo de perto deles. Já não bastava minha própria mente não parar de pensar no assunto e agora tinha que ficar ouvindo deles? Não queria acreditar, mas sempre existe a possibilidade de ouvir não, mesmo que minúscula.

Austin, Texas, Estados Unidos da América


- Observei o seu desempenho ontem. – Hermann começou a falar, sem dar indícios de que rumo a conversa tomaria. – Durante o dia inteiro tive olhos sobre você, e era para ser assim até o final da semana, quando eu tomaria minha decisão final.
- Decisão final? – perguntei, confusa. E como assim teve olhos sobre mim?
- Eu tinha elaborado um plano de observar de longe se você está apta para estudar comigo, se você possui o conhecimento técnico e o perfil do tipo de médicos que gosto de trabalhar. Sobretudo, precisava saber se você é capaz de lidar com a pressão. E só então, depois de descobrir tudo isso, eu decidiria se você poderia permanecer aqui até o final de janeiro, ou se nós lhe mandaríamos embora na próxima semana. – explicou. Ele levantou uma das mãos e massageou a fronte. – Entretanto, a grosseria, para não usar outra palavra mais forte, e a falta de ética de alguns colegas, impediram-me de seguir conforme o planejado. Peço, em nome de toda equipe, desculpas pelo o que a senhorita passou ontem.
Assenti. Eu não era louca de não concordar, muito embora meu interior estivesse com vontade de dizer que não era ele quem deveria me pedir desculpas, e que essas deveriam ser sinceras, e não apenas para evitar possíveis conflitos. Mas como eu disse... eu não era louca. Pelo menos, não tanto. Minha cota de loucura tinha esgotado no dia anterior.
- Pode ter certeza de que medidas severas já estão sendo tomadas contra o dr. Reed. – continuou, e, novamente, assenti. – Agora, gostaria de lhe informar que a senhorita irá permanecer no programa até o final de janeiro, se assim desejar.
Ele calou-se, e eu demorei a processar o que tinha acabado de ouvir.
Eu ia ficar, mas por quê?
- Desculpe, não estou entendendo. – respondi, sincera. E foi a vez dele retribuir o olhar de confusão. – Eu fiz uma prova difícil para estar aqui, tenho um ótimo currículo. Teoricamente eu não precisaria mostrar minhas capacidades, mas entendo o que o senhor quis fazer, e muito provavelmente eu faria o mesmo no seu lugar. – e no momento em que comecei a falar e a me expor, como eu seria capaz de controlar? Meu peito ardia em angústia, e tinha a impressão de que só conseguiria me sentir mais leve se colocasse tudo para fora. – Sou uma estrangeira, minha escola e prática médica diferem bastante da americana, e por isso consigo compreender a desconfiança e esse período de teste que o senhor pensou. O que eu não entendo é por quê, de um dia para o outro, o senhor está me aceitando depois de deixar bem claro o seu ponto de vista? – respirei fundo antes de continuar:
- A única resposta que me chega à mente, é que o senhor está tentando evitar que eu coloque um processo no hospital, sobretudo sobre o serviço. O senhor está me aceitando não porque acredita em mim, mas porque não quer um escândalo lhe envolvendo, ou envolvendo o hospital. – olhei para minhas mãos, que agora já estavam vermelhas de tanto apertá-las. – O senhor está sendo político, e não um mestre.
Enfim parei, permitindo restabelecer o contato visual.
Hermann tinha descansado as mãos sobre as pernas, e, apesar de estar recostado na poltrona com uma postura relaxada, eu ainda conseguia sentir toda a sua autoridade. Seus olhos verdes ostentavam um olhar divertido, que combinava com o leve repuxar que seus lábios davam para cima.
- Por muito tempo esperei que alguém tivesse coragem o suficiente para dizer o que pensa em minha frente. – falou, por fim.
- Não quis ofender o senhor, mas preciso saber se serei aceita aqui por é onde mereço estar, ou se é por uma conveniência.
- Da parte da diretoria do hospital, sua manutenção ao programa será apenas para evitar danos. – respondeu-me. – Da minha parte, depois de vê-la enfrentando todos de cabeça erguida, você merece estar aqui.
Assenti, deixando que ele seguisse.
- Veja bem... – recomeçou ele. – Neurocirurgia não é qualquer especialidade. E não falo isso para desmerecer as outras áreas médicas, falo porque é a verdade. Se você busca qualidade de vida, boas noites de sono, criar uma família grande e feliz, sinto lhe informar que, se seguir esse caminho, muitos desses objetivos não irão se realizar. Nossas vidas não são nossas, são dos pacientes. Nossos dias baseiam-se em um caso difícil atrás de outro, e a morte é uma velha conhecida. Quando não estiver dentro do hospital, deverá estar estudando. E vice-versa. Não quero lhe assustar, apenas estou lhe dando a verdade nua e crua. Se você busca prestígio, existem outras áreas mais tranquilas que poderão lhe ajudar a alcançar isso. – ele parou, mas manteve seu olhar firme sobre mim. – Pelo o que li do seu currículo, você já tem uma ideia da rotina, mas não o suficiente para perceber que está entrando numa floresta cheia de lobos. Trabalhamos em equipe porque é necessário, mas, dentro do ato cirúrgico, estamos sozinhos, e um erro nosso literalmente leva ao óbito um paciente. Não é como na cirurgia geral, por exemplo, que uma rafia¹ pode consertar um erro. Nosso mundo é microscópico, é cheio de detalhes e que ainda não possui todas as respostas. E, honestamente, nem sei se um dia conseguiremos ter todas as respostas. Você está conseguindo entender onde quero chegar?
- Sim. – respondi, sem hesitar. Nada do que ele estava me falando era desconhecido. Por muitos e muitos meses eu já tinha refletido sobre a especialidade, tinha tirado as mesmas conclusões durante e após os estágios que já tinha feito; entretanto, ouvir tais palavras de alguém com tanto renome era amedrontador.
- Contudo, a neurocirurgia é... – ele pausou novamente, até que sorriu antes de prosseguir. – Indescritível. – e seu sorriso aumentou mais ainda, fazendo-me arrepiar. – Nossas noites mal dormidas ou não dormidas são recompensadas com uma criança que terá a vida inteira pela frente depois de retirarmos um tumor de acesso difícil, ou depois de conseguirmos reverter uma paralisia causada por um AVC, ou melhoramos a qualidade de vida de um paciente com epilepsia. São tantas as possibilidades. E todas aquelas horas dentro da sala cirúrgica, trabalhando na microscopia, são revertidas em sensação de dever cumprido quando nosso paciente sai bem. E, mesmo quando não conseguimos, se fazemos nosso dever corretamente, a culpa que nos assola não é tão grande. É uma culpa possível de tolerar. Não somos deuses, jamais seremos, mas conseguimos tocar um pouco no improvável e algumas vezes conseguimos mudar o curso natural das coisas.
Quando me dei conta, estava sorrindo junto com ele. Ninguém tinha conseguido descrever tão bem o que eu sentia quando pensava na especialidade, quando estava trabalhando dentro dela ou quando me esforçava tanto para estar aqui, como ele tinha acabado de fazer.
- Você mostrou verdadeira coragem ontem à noite ao desafiar a autoridade do Dr. Reed, principalmente ao fazer isso na frente de todos os outros. – disse, desmanchando meu sorriso ao me lembrar do ocorrido. – E mostrou ainda mais coragem ao me questionar sobre os motivos para continuar no programa. Assim como demonstrou perspicácia e raciocínio rápido por notar os tramites legais envolvidos. São qualidades estimadas entre neurocirurgiões, mas que poucos têm. A técnica todo mundo pode aprender, já estamos desenvolvendo robôs para isso, mas a parte humana, a parte que se importa, nenhuma residência ou curso de medicina ensina. Independente do país. Por isso, decidi mantê-la, independente do que o hospital tenha me mandado fazer. Os médicos daqui estão precisando de algumas aulas sobre humildade e respeito, e acho que isso você pode ensinar a eles. Ninguém ouve mais um macaco velho como eu, mas novos ares são sempre vistos com desconfiança, e você não é qualquer brisa, senhorita . Você já deixou bem claro que é uma tempestade. – ele riu.
Foi de longe a comparação mais esquisita, ou o elogio(?) mais estranho que já recebi em minha vida, mas fazia sentido. Eu era uma desconhecida, vindo de um país com pouca credibilidade no meio, aceita por um homem que tinha o histórico de não aceitar alunos há anos. Alguma coisa ele tinha visto em mim sem nem mesmo me conhecer, e isso trouxe desconfiança ao círculo dele. Afinal, quem eu sou na fila do pão?
- Obrigada, eu acho. – respondi, sem saber o que poderia lhe dizer de diferente. Ele assentiu, como se dissesse não por isso.
- Então, senhorita . Você mantém o interesse no programa?

•••

- Todo mundo está falando que o residente do primeiro ano da neurocirurgia vai ser afastado. – comentou, sentando-se ao meu lado no refeitório.
- Férias forçadas. – respondi, enfiando um pedaço de brócolis na boca.
Eu tinha chegado há poucos minutos, e, assim que colocara os pés no refeitório, consegui sentir o olhar de algumas pessoas sobre mim. Ninguém falou comigo, nem ouvi alguma gracinha, mas os olhares acusatórios já diziam o suficiente. Servi meu almoço em silêncio, de cabeça baixa, sem querer chamar mais atenção do que já estava recebendo, e então sentei-me na mesa mais ao canto do local. Ironicamente ela parecia ter sido deixada especialmente para mim, já que ninguém se aproximou até chegar e se sentar.
- Você vai ser a número 2 dos mais odiados se se sentar comigo. – falei, depois de engolir.
- Veja minha cara de quem se importa. – ela deu de ombros, antes de morder seu hamburguer. Ergui as sobrancelhas surpresa por sua resposta tão sincera. – Você não está errada, sabe? Ninguém deveria ser tratado como você foi, e bem feito para qualquer sexista preconceituoso. Se me perguntarem, ele deveria é perder o título. Onde já se viu, médico, em pleno século XXI, fazendo esse tipo de coisa?!
Assenti, absorvendo com carinho cada palavra. não tinha nenhuma obrigação comigo, muito menos em me defender ou se expor no hospital. Pelo contrário, se ela fosse mesquinha, teria se mantido afastada de mim para evitar que a história não respingasse em si; entretanto, ela estava ali, ao meu lado, comendo um hambúrguer e tomando Coca-Cola como se nada pudesse atingi-la. Cheguei a acreditar que nada poderia mesmo atingi-la. E senti-me extremamente grata e feliz pelo carinho que ela estava me dedicando.
- Obrigada, . – agradeci, com um sorriso sincero nos lábios. Talvez ela não percebesse como estava sendo importante para mim ouvir tudo aquilo, e talvez eu não soubesse me expressar melhor para fazê-la entender, mas significava o mundo.
Eu não estou sozinha. – pensei, sentindo meu coração se acalmar e meus olhos umedecerem. deu um belo sorriso e assentiu, e não precisou falar mais nada para compreendermos que estávamos quebrando os paradigmas juntas.
- Você conseguiu ver sobre o festival? – perguntei depois de um tempo.
- Sim. – ela disse, terminando o refrigerante. – Jason Manns vai se apresentar no sábado à noite, e seu convidado especial será o Jensen. Ainda tem ingressos, já coloquei no meu cart...
- Olá. – uma voz grave falou a nossa frente, interrompendo nossa conversa.
Levantei os olhos para encarar o dono da voz, e dei de cara com um homem de uns talvez trinta anos, com olhos azuis e um belo sorriso. Ele usava a roupa azul do bloco cirúrgico por baixo do jaleco branco e segurava uma bandeja com comida.
- Posso me sentar com vocês? – perguntou, e reparei em seu cabelo raspado.
- Claro! – respondeu enérgica, e o vi aumentar ainda mais o sorriso e sentar-se à nossa frente. – Muito prazer, eu sou , e a muda aqui é .
- Daniel Lew, e o prazer é todo meu! – respondeu, aceitando a mão estendida de minha amiga e depois a estendendo para mim, que sem jeito, retribuí. – Então você é a garota que colocou Reed no lugar. – disse, depois de soltar minha mão.
Pisquei, ainda um tanto perdida com a aproximação dele. Ele estava querendo alguma fofoca, ou queria fazer que nem a barbie Amy e causar intriga? Olhei-o desconfiada, então, fazendo-o rir.
- Fique tranquila. Você fez o que muita gente queria fazer desde que ele chegou nesse hospital. – disse ele, também almoçando um hamburguer.
- É mesmo? – perguntou, animada. Seus olhos literalmente brilhavam de entusiasmo. – E minha amiga aqui se martirizando porque estava com a impressão de que queriam sua cabeça...
- ! – a repreendi, não acreditando que ela era tão descarada assim, e ele riu novamente.
- Fique tranquila quanto a isso. – ele deu de ombros. – Talvez a única pessoa que esteja querendo te matar seja a Mills... – disse, pensativo.
- A barbie Amy? – perguntei rápido demais, vendo-o rir, e só depois fui me dar conta de como tinha chamado a mulher.
- Então você já teve o desprazer de conhecê-la...
- Sim.
- Quem é a barbie Amy? perguntou, confusa.
- Uma residente da dermatologia. – respondi, lembrando do meu encontro com ela no dia anterior.
- Alguém com quem se deve ter cuidado. – ele falou, depois de comer metade do hamburguer com duas mordidas. – Você arranjou uma inimiga enquanto estiver aqui. – começou ele, assumindo um tom mais sério. – Ela tinha tentado a vaga para residência da neurocirurgia, mas reprovou na entrevista com o Hermann, e quando soube que ele ia aceitar uma aluna estrangeira para o intercâmbio, digamos que ela não aceitou muito bem...
Fiz uma careta, não acreditando na minha falta de sorte.
- O pai dela é um senador do Texas, e na época que ela cursava na Columbia, tentou o estágio, Hermann a recusou pela primeira vez nessa época. – continuou.
- Ah, puta que pariu... – falei em português, esquecendo-me de onde estava e com quem estava. Era só o que me faltava: arranjar uma inimizade com a barbie-texana-filha-de-papai-recalcada.
- O que você disse? – perguntou.
- Eu xinguei, em português. – dei de ombros.
- Você tem que me ensinar a xingar em português! – retrucou, animada. – Não acredito que não tinha pensado nisso antes.
Meu senhor, eu estava cercada de loucos.
Depois dessa, seguimos nosso horário de almoço com a conversa fluindo entre nós, e mais duas pessoas juntaram-se a nossa mesa. Daniel era enfermeiro do hospital há seis anos, e estava fazendo uma pós para se especializar em atendimento de unidade intensiva; tinha nascido e crescido em New York, mas fizera faculdade aqui no Texas, onde resolveu criar novas raízes. Como não sabe ser nada discreta, minha amiga logo perguntou se ele era solteiro, o que o fez rir e dizer que não, que tinha um relacionamento bom e duradouro, e que esperava que seguisse assim. As outras duas pessoas que se juntaram a nós foram duas enfermeiras: Polly e Dianna, ambas trabalhavam há mais de dez anos ali, e eram amigas próximas do homem à nossa frente. Em algum momento a conversa chegou ao tópico Austin City Limits Music Festival, e descobrimos que todos eles iriam.
- Nós temos que ver nossos ingressos. – falei, já animada com a ideia de conhecer um pouco da cidade com eles.
- Eu já comprei! – falou, animada. – Ia te contar isso quando Dan brotou na nossa frente.
Dan? Íntima assim tão rápido? Queria ter essa facilidade.
E como assim ela tinha comprado nossos ingressos?
- Como assim você já comprou? – exteriorizei, confusa.
- Comprando, oras. – ela deu de ombro, fazendo os outros sorrirem divertidos. – Você precisava ser animada, então resolvi te animar.
- Certo, mas quero saber o valor para te reembolsar depois.
- Você já me reembolsou quando decidiu ficar. – respondeu, simples assim. – Nosso intervalo está acabando, precisamos voltar.
Sorri, seguindo-os para fora do refeitório e voltando para o andar sem a companhia dos meus novos amigos. Sim, eu tinha decidido ficar. A escolha mais fácil seria dizer não, pegar minhas coisas e voltar para o Brasil e esquecer de tudo o que tinha acontecido, com a promessa de não processar o hospital; entretanto, como eu poderia dar as costas para uma oportunidade daquelas? Como negar a possibilidade de aprender e conhecer melhor Ezra Hermann? E, quem sabe, abrir uma porta para o futuro aqui?

•••

Vou embarcar em seguida. Mal consigo acreditar que vamos passar um tempo juntos.

Assim que vi a mensagem de Danneel, abri um sorriso, também mal conseguindo acreditar que o momento estava chegando. Era sábado de manhã, e eu tinha chegado ontem à tarde em Austin, indo direto para o Archer Hotel Austin, e somente depois de descansar umas duas horas, tomar um banho e comer o legítimo filé texano, fui ao festival dar uma espiada no que estaria me esperando. Tinha encontrado alguns conhecidos e me divertido um pouco, mas decidi por voltar cedo para o hotel e ter uma boa noite de sono, já que hoje faria um ensaio com o Jason um pouco antes do almoço e depois passaria o resto do dia no parque do festival.

Finalmente vamos ter muito tempo juntos.

Respondi, sorrindo com o duplo sentido das palavras em minha mensagem. Claro, se ela aceitasse o meu pedido de casamento na frente de milhares de pessoas. Encarei a caixa preta de veludo a minha frente – eu estava recostado na cabeceira da cama, com uma das pernas sobre a mesma, e a outra abaixada para fora, e o objeto contrastava com as cobertas brancas, como se me desafiasse a encará-lo. Talvez não fosse uma boa ideia fazer o pedido de forma tão pública assim, talvez eu estivesse impondo uma resposta em algo que deveria ser sem pressão alguma.
Preciso de ajuda. – mandei uma mensagem para Mackenzie, minha irmã mais nova e a única pessoa que aguentaria minhas inseguranças neste momento. Sua resposta não demorou dois minutos para chegar.

Mack
O que foi?

Estou repensando toda essa história de proposta de casamento.


Mack
POR QUÊ?! :oo

Público demais. E se ela não gostar?


Um minuto, dois minutos, cinco minutos se passaram e nada dela me responder. Joguei o celular sobre a cama, encostei minha cabeça na parede e suspirei, enquanto encarava o teto branco. A chance de Danneel não gostar era pequena. Entre nós dois, ela sempre foi aquela pessoa que gostava dos holofotes e que não se importava nem um pouco de ter a vida exposta – dizia que era pelas pessoas gostarem dela que tinha chegado tão longe, e nada mais justo do que retribuir dessa forma. Eu concordava em pensar que se não fossem nossos fãs e outras pessoas que tinham nos dado uma chance, não seríamos tão bem-sucedidos, mas gostava também da minha privacidade. Enquanto ela sempre tirava uma foto de onde estava, com quem estava ou o que fazia para postar, pelo menos, uma vez por semana, no twitter, eu já fugia das câmeras. Tirar fotos para mim era apenas para registrar algum momento que eu gostaria de guardar para sempre. Eu gostava da minha vida privada, enquanto Danneel nunca teve problema em se expor. Então, as probabilidades de ela não ficar feliz com tudo o que eu planejava, eram bem pequenas.
O celular apitou, tirando-me de meus pensamentos e fazendo-o pegá-lo. Era a resposta de Mackenzie.

Mack
Deixa de ser idiota. Se tem uma pessoa no mundo que vai gostar dessa sua ideia, é ela.

Sorri, agradecendo por ter entrado em contato com minha irmã.

Mack
E outra, ela te ama, cabeção. Junte coragem e vá fazer esse pedido de uma vez.

Valeu, Zie. Depois dou notícias.


Não esperei por sua resposta para me levantar da cama e terminar de me arrumar. Eu já estava com uma calça jeans, só precisei colocar o suéter bege, a jaqueta de couro marrom e colocar os sapatos antes de pegar a carteira com as chaves e os óculos de sol e sair do quarto. Estava na metade do corredor quando me lembrei que tinha deixado a aliança sobre a cama. Voltei correndo e peguei a caixinha, colocando-a no bolso interno da minha jaqueta. Encarei meu reflexo no espelho do elevador, rindo ao me dar conta, de que se tudo der certo, eu estaria noivo em algumas horas.

•••

definitivamente estava mais empolgada do que era possível uma pessoa estar para ir a um festival de música. Desde que tínhamos chegado em casa na quinta feira, pós expedientes do hospital, ela começara a pensar na roupa que usaríamos, e não descansou até encontrar o look perfeito – palavras dela, não minhas. Só que na sexta-feira, a minha mais nova amiga mudou de ideia e nos fez sair à noite a procura de novas roupas. Apesar do frio e do horário, conseguimos ver várias lojas abertas, mas foi só depois de umas duas horas de caminhada, que ela encontrou o que estava procurando. Voltamos para casa com cinco sacolas de roupas – gastamos mais do que deveríamos, uma sacola de fast food e extremamente felizes pelas coisas estarem começando a dar certo.
No sábado, eu tinha a certeza de que poderia dormir até mais tarde, mas me enganara tremendamente ao ser acordada por ela batendo na porta do meu quarto, dizendo que o café já estava pronto e que precisávamos sair antes do meio dia se quiséssemos curtir todas as atrações. Acontece que o ingresso que ela tinha comprado não era para um show específico, mas para o dia inteiro das atrações, o equivalente ao passaporte dos shows no Brasil, e por isso ela queria chegar lá cedo. No fundo eu desconfiava que toda essa ansiedade e animação era porque ela tinha lido, no almoço de sexta, um tweet do Jared Padalecki de que ele estava pensando em aparecer no festival para prestigiar o amigo. E bem, desde que nos conhecemos ela sempre deixou claro sua queda/penhasco pelo homem de mais de 1,90m.
- Como estou? – ela perguntou assim que abri a porta do quarto e a vi parada no meio da nossa sala/cozinha.
Ela usava uma calça de couro preta com um sobretudo gelo que chegava até metade de suas coxas; um par de botas de cano médio, bico fino e salto não muito alto, um cachecol enorme cinza e uma touca chumbo. Seus cabelos loiros estavam mais lisos que o normal – desconfiei que ela tinha feito chapinha para tirar as costumeiras ondas -, e o rosto tinha uma maquiagem leve, porém delicada. Arqueei as sobrancelhas, pasma por vê-la tão arrumada.
- Você está indo para um encontro ou para um festival? – perguntei, ignorando o fato de que ainda estava com meu pijama.
- Nunca se sabe... – ela deu de ombros, visivelmente envergonhada.
Então eu estava certa. Ela estava torcendo para esbarrar em Jared Padalecki lá.
- Você está linda, . – falei, vendo-a abrir um sorriso. – Jared vai ser um homem de muita sorte se te encontrar no meio de milhares de pessoas. – brinquei, e ela mostrou a língua.
- Idiota! – retrucou, e vi seu rosto ficar vermelho. – Você não vai se arrumar?
- Você não me chamou dizendo que o café estava pronto? – ela assentiu. – Então deixa eu comer e depois me arrumo, sua doida.

•••

- Você está bonita. – ouvi Daniel dizer logo depois de nos encontrarmos na entrada principal do festival, que sempre era realizado no Zilker Park, e sorri em agradecimento.
Eu me sentia bonita. Tinha colocado calças jeans pretas, um sobretudo cinza que não chegava na metade das minhas coxas e um cachecol xadrez marrom, branco e caramelo. Tinha prendido meus cabelos em um coque alto, e deixado alguns fios soltos, e calçado um par de botas estilo coturno pretas. fizera uma maquiagem básica, e me emprestara óculos de sol marrons e um chapéu estilo caubói – também marrom –, que combinamos de ficar revezando durante o dia.
- Você também está. – Daniel usava calças de sarja bege, uma blusa mais grossa preta com gola e uma camisa jeans por cima, com óculos de sol ray ban clubmaster classic. Precisava admitir que ele sabia se vestir muito bem.
- Aqui está! – achei ter reconhecido a voz, e, de repente, James estava parado a nossa frente, estendendo uma garrafa de água para Daniel. – ! – ele disse, espantando.
Surpreendi-me de ele sequer ter lembrado do meu nome. James aproximou-se e me deu um abraço caloroso, como se fossemos velhos amigos. Ou era eu quem tinha problemas demais com proximidade excessiva logo de cara. Problemas de família explicam.
- Então você é a garota que já chegou causando no St Davids! – ele disse, depois de se afastar e ficar com as mãos nos meus ombros, encarando-me.
- Não acredito que até você já sabe disso. – revirei os olhos.
- Claro que sim! – ele disse, animado. – Dan chegou em casa contando superanimado. E, quando ele disse que tinha convidado a sensação do momento para nos acompanhar, nem me passou pela cabeça que poderia ser você.
- Surpresa! – brinquei, arrancando um sorriso divertido de seus lábios.
- Vocês se conhecem? – Daniel perguntou, com uma cara de quem não estava entendendo nada.
- Ela foi a moça que ajudei semana passada. – explicou James, já voltando para ao lado de Dan, e os vi dar as mãos.
- A moça singular. – Daniel completou, e James assentiu, ainda sorrindo.
- Não acredito que esse apelido pegou. – resmunguei, claramente incomodada. – E não acredito que o seu namorado é o Dan!
- Olá, eu ainda estou aqui! – brincou, fazendo drama ao nosso lado.
Depois das devidas apresentações e explicações, seguimos para o portão de acesso e nos enfiamos no fluxo de pessoas que entravam no parque. Não havia uma fila gigante, nem pessoas se empurrando para ver quem entrava primeiro; também não vi ninguém preocupado se alguém ia ter suas coisas furtadas.
- Polly e Dianna não vem? – perguntei, procurando pelas duas.
- Chegaram de manhã cedo. – respondeu Dan. – Vamos encontrá-las eventualmente.
Assenti, satisfeita com a resposta e então reparando no local.
O lugar estava cheio, e pelo o que os meninos tinham dito, ia lotar, porque todo ano lotava, mas era muito raro dar algum problema, e, quando dava, era sempre algum inconsequente que tinha bebido demais e perdido o controle. Os dois tinham a tradição de virem todos os anos, já que tinham se conhecido ali, e era a forma de eles reviverem o momento e, ao mesmo tempo, reforçarem o que tinham entre si. Achei fofo da parte deles, e desejei que esse ano ocorresse tudo bem, que boas surpresas viessem e agradeci por eles estarem dividindo esse momento com duas estrangeiras tão diferentes.
O festival tinha seis palcos diferentes, mas apenas um era central, e as atrações desse só começariam depois das 08:00PM, então, até lá, ficamos curtindo shows de bandas que eu nunca tinha ouvido falar, de cantores reggae que eu achei que jamais fosse gostar mas que me enganei tremendamente, tiramos fotos, bebemos, brincamos num espaço do parque com brinquedos infláveis e dançamos um pouco na tenda de música country. Nessa última, James me ensinou a dançar de dupla, e, depois de inúmeras pisadas em seus pés, consegui dançar uma música inteira sem machucá-lo e sem ter uma crise de riso. Quando faltavam poucos minutos para o horário dos shows do palco principal iniciarem, nos juntamos a multidão, e, apesar das insistências de de tentarmos ficar mais próximo do palco, decidimos ficar nos fundos, onde tínhamos boa visão e não éramos esmagados, sem falar que conseguíamos respirar tranquilamente ali.
Quando o apresentador anunciou a banda de estreia da noite, eu surtei. Eu tinha sido uma lesada por não procurar nada da programação, e merecia ganhar o prêmio de mais desinformada do ano, já que minha banda favorita da atualidade estava entrando no palco. Em minha defesa, os últimos dias não tinham sido tranquilos a ponto de me deixar ter tempo para me preocupar em ver a programação.
No momento em que a voz Caleb Followill ecoou e os acordes de The Bucket começaram, eu não sabia se chorava ou se pulava de emoção por estar vendo um show do Kings of Leon, e nem me importei se estava me parecendo com uma fã histérica. Minha única certeza, naquele instante, era de que eu estava exatamente onde deveria estar.

¹Rafia: termo cirúrgico para sutura em ato operatório.

Continua...



Nota da autora: Hermann finalmente apareceu, e vocês não sabem o carinho que tenho por esse personagem e pela relação que pretendo criar entre nossa pp e ele. <3
Eu também não podia deixar de fora do festival Kings of Leon! Minha dica é que para o próximo capítulo se preparem para ouvir: Sex on Fire, 17, Closer, Radioactive e The End – não necessariamente nessa ordem.
Até a próxima att.


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


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