Última atualização: 04/01/2018

Prólogo


Dentro do cômodo a iluminação era escassa, e a sensação térmica sufocante. Todavia, eles não se importavam. Nenhum dos três amigos presentes dava a mínima para o clima externo quando travavam cada um seu conflito interno.
Problemas surgiam o tempo todo com a vida que levavam, e alguns deles eram grandes o suficiente para fazê-los parar de ignorar tudo o que acontecia a sua volta.
— Estamos muito ferrados — sorriu com escárnio antes de jogar a cabeça para traz e escorá-la na parede. Com um suspiro, Benjamin O'Dimm, o único homem do grupo, fechará os olhos.
— Diga que não foi agora que você percebeu isso. — pediu Izzy com certa raiva na voz, depois de uma baforada do cigarro que segurava entre os lábios novamente.
— Quando a Liz estava aqui — fez uma pausa — eu não precisava perceber nada, ela fazia isso por mim.
fez uma careta para o amigo e Izzy revirava os olhos.
— Vamos tirar a Liz de lá, só precisamos pensar em algo — encostou a bochecha no ombro de Benjamin quando o ouviu suspirar mais uma vez.
— Vamos nos prostituir, nossa vida já é uma merda mesmo. — Izzy murmurou irônica.
Inquestionavelmente irritante, era como descrevia a amiga quando a mesma estava com problemas. Era mais fácil pensar sem suas ironias.
— Pensemos pelo lado bom, seremos despejados daqui, em alguns dias, pelo menos a Liz não vai precisar dormir na rua conosco.
— Meu Deus, Izzy. Cale a merda dessa boca. — Benjamin esbravejou.
A amiga não se intimidou.
— Não temos dinheiro para o aluguel, para a fiança, advogado... mas ainda estamos com um estoque de cocaína completo.
— Sem drogas até conseguirmos pensar em algo, não é? Você quem sugeriu isso. — lembrou-a. — E é você quem segura um cigarro agora. — Suspirou, antes de murmurar irritada — No que a abstinência nos ajuda mesmo?
— É o mais racional. Podemos vender essa droga. E você não vai morrer agora, está a três horas sóbria! – Respondeu gesticulando com os braços.
— Voltamos a discutir sobre droga, enquanto a Liz está precisando de nós — Benjamin interrompeu antes que ela pudesse retrucar. —Não importa o que virá depois, precisamos da Liz com a gente. Prometemos que iria ser assim! — socou a escrivaninha ao seu lado, e se afastou. Ele era o único que já apresentava sinais de abstinência, suava frio e se movimentava constantemente. Ansioso e irritado.
Ambos encontravam-se sentados no chão, ao lado da cama de Benjamin. Izzy de frente para os outros dois.
— Ela é minha irmã, Ben. É claro que vamos tirá-la da cadeia nem que... — A voz já rouca de Izzy foi abafada pela estridente campainha.
Todos se entreolharam em um misto de emoções. arrastou as costas pela parede manchada enquanto se levantava, mas sentiu alguém segurar sua jaqueta.
— Pode ser a polícia, . — Benjamin estremeceu.
— Ou pode ser Leonard, eu pedi dinheiro para ele por mensagem, talvez... — Izzy foi mais uma vez interrompida pela campainha.
— Eu vou atender — disse tão nervosa quanto os demais e afastou a mão de Ben de si. Avançou até a porta fechada do quarto, e atravessou a sala. Ao abrir a porta de entrada, não hesitou, sabendo que se pensasse corria o risco de não fazê-lo.
Seu coração já se agitava antes mesmo de dar de cara com uma das representações humanas do inferno na Terra para .
Emily .
Seus batimentos gelaram por um instante, e se viu dando um passo para trás. Uma digna cena de espanto.
Antes fosse a polícia, pensava ela, que já sentia o estômago revirar e o refluxo corroer a garganta. A vontade de chorar que havia oprimido desde a notícia de que Liz havia sido presa, na noite anterior, se tornou quase insuportável naquele momento. simplesmente não sabia se queria abraçar-se e chorar desoladamente ou agarrar os cabelos da mais nova e prender em alguma hélice.
— Olá — a menina sorriu como se estivesse envergonhada. Seus ombros se encolhiam á medida que encarava nos olhos.
Oh, não era vergonha. Era medo.
— O que você quer aqui? — Perguntou entre dentes, percebendo que de repente sua respiração acelerava.
— E-eu apenas vim entregar um recado, q-que meu pai supôs que você gostaria de saber. — Sua voz era melodiosa, apesar de trêmula. E não deixou de reparar, mesmo em meio a tantas sensações, o pronome possessivo e egoísta que a loira usará para se referir ao pai, que apesar de tudo, foi como um pai para ela também.
— Então diga. — engrossou a voz, sentindo-se mais capaz diante do medo de Emily.
— Amanhã... faremos uma festa de boas-vindas para ...
Foi o ápice. Ela não achou que podia ser pior, mas estava prestes a explodir. Não entendia o que a mais nova dizia depois do nome dele, e nem como havia chegado á cozinha antes de colocar tudo do estômago para fora. Sentiu os dedos finos de alguém segurando seus cabelos e outra mão lhe afagar a cintura quando seu corpo estremeceu em um sinal de que não havia mais nada que pudesse sair dali.
Os soluços foram inevitáveis, e por um momento toda aquela adrenalina a fizera esquecer do motivo de sua reação, ela só parecia lutar para não morrer do que quer que tenha causado aquilo... até perceber quem ainda estava ali, e ousava, audaciosamente, lhe oferecer um copo d’água.
Ela encarou o rosto jovem de Emily antes de empurrar seu braço com força fazendo o copo de vidro espatifar-se no chão, e cacos de vidro se espalharem para todos os pontos cardiais da cozinha.
— Saia daqui! — Gritou quase sem fôlego.
— Ben, ajude aqui! — Izzy que segurava seus cabelos, a deixou para acompanhar Emily assim que Ben adentrou a cozinha.
— Hey. — abraçou-a depois de encará-la assustado. — O que você fez?
— Ele não... ele não pode... — soluçava loucamente.
— Acalme-se, — afastou-a um pouco de si para que pudesse olhá-la nos olhos. — Calma.
Ela tremia, e soluçava inconscientemente.
— Ela está em choque? — A voz de Izzy parecia distante, mas ainda sim afobada. — É abstinência? O que vamos fazer, Benjamin? — Seu rosto pareceu aterrorizado quando ela se aproximou da amiga.
— Tentem se acalmar, por favor – Ben se irritou com a falação de Izzy e guiou até uma cadeira próxima á janela, antes de se afastar.
— Fala comigo, . — Pediu a amiga assustada.
— Eu não posso. — respondeu em um suspiro.
— Eu estou aqui — Izzy se ajoelhou ao lado da amiga e apanhou suas mãos.
— Eu ainda não o superei, Izzy — Fechou os olhos quando sentiu a primeira lágrima rolar sob sua pele. A primeira, depois de muito tempo.


Capítulo 1 – Plan B


Atenção: O capítulo 1 é a continuação da cena do Prólogo, o que torna a leitura do mesmo essencial para o entendimento da história.
Friday, 11:26 a.m - Staten Island, New York - USA.

— Isso! É o que iremos fazer! – Izzy se pôs de pé de repente, sacando o celular que parecia minúsculo em seus dedos longos e digitando qualquer coisa fervorosamente.
— Ainda prefiro a primeira opção – Ben murmurou fitando um ponto fixo qualquer. Parecia que não se dirigia a ninguém em específico.
bufou. – Eu não vou pedir dinheiro para os , Benjamin. Esquece. Isso não é uma opção. – Retrucou com a voz preguiçosa. Estava dopada de calmantes, o que para Izzy era melhor que heroína, e se havia dado certo talvez não fosse abstinência que lhe causara o surto.
Ben se ajeitou na poltrona marrom de forma a se inclinar na direção de e olhá-la nos olhos ameaçadoramente. Ela estava deitada na cama de casal do quarto dele e de Liz desde que passará mal com a visita da menor. Havia dormido parte da manhã e acordado á pouco, disposta a ajudar.
Ou nem tanto, na concepção de Ben.
, isso não é sobre você. – apontou para o rosto da garota como se lhe aplicasse uma bronca – É sobre a Liz, e sobre como ela deve estar desesperada agora. Então faça o favor de engolir a merda desse seu orgulho se quiser ajudar. – cuspiu as palavras duras e retornou a postura anterior com o dorso escorado á poltrona e os olhos fechados, em sua maneira de tentar se conter.
— Hey, Ben. Já resolvemos okay? Faremos uma pândega e venderemos toda porra que conseguirmos dentro dessa espelunca. – Izzy chamou a atenção de ambos enquanto acendia mais um cigarro. Pouco se importava se mal havia ventilação ali, fato que contribuiu para a irritação de Ben quando a observou.
— O quanto nós arriscamos fazendo isso? Podemos todos ir á cana! Mas a patricinha da tá aqui com o prato feito e se recusa a comer! – Aumentou o tom de voz, e o sangue parecia ferver em seu rosto.
Nos segundos de silêncio que se seguiram, Benjamin se pôs de pé e se afastou da cama em um longo e pesado suspiro. Seus passos eram firmes contra o carpete sujo, e ele apertava os próprios bíceps, magros e desenhados com feridas vermelhas, adquiridas provavelmente na noite anterior, em uma forma de controlar o nervosismo. Parou em frente á pia do banheiro que pertencia àquela suíte, e encarou-a apenas.
— É difícil pra ela – Izzy defendeu. – É difícil pra todo mundo.
— Por favor, cale a boca, Müller! – Ben cuspiu e bateu a porta do banheiro com força.
— Desculpa, O’Dimm – tentou estender a voz para que ele ouvisse, sem muito sucesso – Eu... não seria capaz...
— Está tudo bem, . – A amiga lhe acariciou os pés descalços – Eu vou cuidar de tudo. Apenas se recupere para amanhã á noite, okay? – e sorriu maternalmente. – E não estraguem tudo – disse mais alto para que Ben ouvisse também. Abandonou o quarto em seguida.


Sunday, 00:45 a.m — Staten Island, New York – USA.

Izzy havia feito um ótimo trabalho. Quem comprasse um ingresso para aquele pandemônio pagava igualmente sua passagem para o inferno. Provavelmente, o inferno não era a meta de ninguém, mas o que garantia sua ida... se não fosse bom, ninguém se submeteria, certo?
Os pensamentos de a distraíram de seus afazeres. Ela era quem preparava as bebidas á moda do cliente e da casa, e seus poucos segundos de distração acumularam três clientes, aparentemente, insatisfeitos.
Não costumava se distrair, e quando acontecia não hesitava em apelar para o pó, pois era quando se lembrava dos reais medos e precisava fugir deles. Gostava de ocupar sua mente com os problemas pequenos quando tinha um maior para resolver. Naquele dia, ela tinha dois: Liz estava presa, e havia voltado depois de quatro anos. O último por si só a destruía em um milhão de pedaços. E para ela, havia sido quase impossível não criar pensamentos suicidas desde que ficara sabendo, isso porque não curtia muito esse lance.
Por que doía tanto, aliás? Desde que ele fora embora, e ela se afundou em drogas e depressão, passou a se fazer essa pergunta. O amava, claro, mas foram quatro anos... e nem este tempo foi capaz de responder o porquê sentia seu coração ser espremido toda vez que ouvia aquele nome. A intensidade da dor nunca diminuía. E isso a irritava.
Não perdeu tempo hesitando sobre o certo ou errado, possuiu parte das drogas do estoque que tinham para a festa. Precisava esquecê-lo. Nem que fosse apenas por aquela tarde.
Prometeu que estaria sóbria, ou quase isso, para trabalhar naquela pândega que Izzy arranjara, dessa vez por Liz. E estava se saindo bem até ali.
— As pessoas estão indo embora e não são nem uma da manhã ainda – Izzy murmurou se escorando no balcão inquieta. Ela era quem recebia os clientes naquela noite, mas naquela hora ninguém entrava; a porta estava ocupada pelo fluxo de pessoas saindo.
— Não temos dinheiro suficiente para a fiança ainda, e muito menos para pagar essas bebidas para Carl – Foi Benjamin que resmungou.
— Ai, é tudo culpa minha – Izzy gemeu cobrindo o rosto com as mãos. – Eu não devia ter sido tão dura com eles no início... eu...
— Ora, o que eles queriam? Que você dançasse sem roupa e houvesse um ménage no meio da sala? – Indagou irritado.
— Não seria má ideia. – soltou mais para si mesma do que para os amigos. Pulou no balcão improvisado, que separava a sala de estar da cozinha no estilo americana, e se ajoelhou sobre ele antes de se ajeitar e jogar as pernas longas para o outro lado com todo e cuidado e sensualidade que conseguiu juntar, enfim ficando de pé, e recebendo um olhar horrorizado de Izzy e um reprovador de Ben. Era alto o suficiente para que ela não tenha parecido nada sexy ao fazer aquilo.
se sentia culpada por não poder ajudar seus amigos com o benefício de sua família rica. E principalmente, por proporcionar a eles ainda mais preocupações com o seu surto psicótico dias atrás. Aquela vergonha que iria passar seria sua forma de se redimir. Se aquilo não desse certo, ao menos ela haveria tentado. Puxou o rapaz gordo e alto, á quem serviu uma bebida, segundos atrás, e o puxou para o centro do cômodo que exalava um odor tão adocicado que chegava a ser enjoativo. Piscou para ele antes de gritar para que todos ouvissem:
— Têm certeza que irão perder isso, rapazes? – arrancou a camisa de flanela, deixando escorregar pelos braços até encontrar o chão, revelando um top preto com tiras que enfeitava seu busto e seus parcos seios. Retirou do bolso do avental rosado amarrado a cintura, um pequeno controle remoto com o qual elevou ainda mais o volume da música.
Tocava Jason Derulo, e empinou a bunda para dançar de costas para o gordão. O mesmo não demorou muito para entrar no clima e remexer também, em sincronia com a moça. Mesmo que ambos não fossem fãs da pista de dança, se submeteram aquele desastre cultural. Ela riu quando ele apanhou sua cintura com ambas as mãos e acompanhou seus movimentos até o chão sem nem se quer desiquilibrar.
Izzy vendo que os outros se empilhavam á porta para poder assistir aquela cena cômica, tratou de indicar o balcão do bar improvisado para Ben, para que este assumisse o lugar de como barman. Seguiu para o centro do cômodo de recepção junto á amiga, trazendo consigo um rapaz e uma mulher que pareciam estar prestes a abandonar o lugar antes de começar a dançar. Seus passos se diferenciavam da amiga, não eram jocosos ou divertidos, exibiam sensualidade.
Os companheiros de Izzy a imitaram, e em segundos, vários dos convidados que já estavam de partida se juntaram a pista de dança de , ou ao bar apenas para assistir. Aqueles que antes estavam esparramados nas poltronas se levantaram para dançar também. Eram tantos desconhecidos juntos em um espaço um tanto quanto diminuto, que se Isaac Newton os visse, nunca diria que dois corpos não ocupam o mesmo espaço.



Saturday, 5:36 p.m – Staten Island, New York – USA.

Não houve gritos de “surpresa” em uníssono, ou crianças correndo á sua volta, felizes por sua chegada. Seus parentes mal perceberam sua ilustre presença que, aliás, era o motivo daquele escarcéu todo.
Assim que Lola, a nova empregada, lhe abriu a porta de entrada e o recebeu com um sorriso acolhedor como se já o conhecesse, seu olhar recaiu sobre as várias pessoas que perambulavam desde o hall de entrada até o jardim detrás da casa. A empregada novata, até então era a única que percebera sua presença, e ele estava grato por isso, entretanto não esperava que fosse ser diferente. Duvidava que a grande maioria daquelas pessoas sequer soubesse quem era ele.
Bufou. Estava cansado. Queria ver seus pais e seus irmãos, não àqueles mesquinhos pomposos que nunca vira na vida.
Agarrou o braço rechonchudo de Lola quando a mesma ameaçou se afastar, e murmurou em seu ouvido. – Irei para o meu quarto. Se minha família perguntar por mim, diga onde estou. Caso não seja eles a perguntar...
— Entendi senhor – A jovem lhe sorriu acatando a ordem antes mesmo que ele terminasse de citá-la. – Acha que precisará de algo em seu quarto, senhor?
— Não. Obrigado. – Acenou com a cabeça para ela, dispensando-a.
Seguiu para os aposentos do terceiro andar da mansão com Ronald, o chofer, em seu encalço, carregando uma de suas malas. Os dois passando despercebidos pelas escadas.
Assim que entrou no segundo cômodo daquele corredor, encontrou seu quarto em um mundo paralelo do que havia sido anos atrás. As paredes não tinham mais o azul marinho com branco, de antes. Um tom pastel predominava, e os poucos móveis dali eram castanhos, não brancos. Sem pôsteres, bandeiras, brinquedos ou livros. Apenas um quadro, que ele apostava ser uma réplica de alguma obra de Vermeer, e um abajur com detalhes em dourado, embutido em uma pequena mesa de vidro que suportava uma Bíblia aberta.
Bufou novamente. Era possível que o sentimento ao reencontrar seu quarto não tenha sido familiar? Nada era como antes, e pensou por alguns segundos se aquele realmente era o lugar certo.
Logo, dispensou Ronald também, e passou a vasculhar as gavetas para ver o que encontrava nelas; uma mania que havia adquirido em seu tempo servindo o exército americano. Como se fosse haver algo de perigoso em algum lugar. Apenas se sentou no colchão para relaxar depois de revistar debaixo da cama, no mesmo tempo que foi surpreendido por uma risada.
— Max não nos deixou colocar uma bomba debaixo de sua cama, . Fique tranquilo. – não precisou ao menos focá-los em sua visão para saber a quem pertencia àquela voz e as risadas.
Se fossem outros, talvez, emburraria com a piada de mau gosto. Levantou-se em um súbito e sorriu largamente. – Irmãos. – Disse.
Mais risadas.
— Quem cumprimenta com um ‘irmãos’ em pleno século vinte e um? – Kellan caçoou, se aproximando e puxando o mais novo para um abraço.
— Desculpe, esqueci que na verdade vocês são meus fiéis bobos da corte – bateu nas costas do irmão sendo obrigado a se afastar do mesmo depressa, por um monte de cabelos dourados que se colocou astutamente entre os dois. – Você está enorme! – Agarrou a irmã caçula, abraçando-a forte.
— Até que você não está mais tão parecido com um esquilo também. – Emily murmurou sufocada pelo abraço de urso do irmão.
— Engraçadinha. – Bagunçou os cabelos volumosos da menina. – Não devia ter deixado você sozinha com Kellan tanto tempo.
— É, o que será de Emily sem ter aprendido as danças bizarras de ? Você está perdida, é melhor começar logo seus treinos de a dança-de-um-epilético-invertebrado, antes do baile de formatura. – Fingiu preocupação, sacudindo de leve a menina pelos ombros.
riu. – Não era tão ruim.
— Não era ruim, apenas péssimo – bateu nas costas do mais novo que sorria como um abestado.
— Vou querer ver isso um dia. – Disse Emily.
— Claro. Você verá assim que começar a tocar The Ramones lá embaixo. – Todos riram. — E o que está fazendo aqui em cima, ? Não sei se seu cérebro de massinha de modelar conseguiu perceber, mas a festa é lá embaixo.
— Onde estão nossos pais? E ? Não gostaria de ter que descer para reencontrá-los. – Torceu o nariz.
— Eles estão na mesa de jantar – Emily mordeu o lábio inferior. – Desça apenas para vê-los, e...
— Vou esperar. Não quero ter que lhe dar com tanta gente agora. – Suspirou, voltando para próximo da cama e se sentando na mesma.
— Mas , é uma festa pra você! Não pode ficar aqui neste quarto isolado do mundo! Não acha que já fez isso tempo demais? – Emily bateu o pé.
Ora, ora, seria aquela menina um projeto bem-sucedido de Jennifer ? Ele suspirou.
— Desça se quiser – Kellan interrompeu Emily, que estava pronta para protestar novamente. – Vamos estar na mesa de jantar, bro. – Sorriu fechado, puxando Emily para fora do cômodo e batendo a porta atrás de si.
ainda pôde ouvir os murmurinhos dos irmãos no corredor, diminuindo conforme se afastavam.
Estava cansado, era verdade. A viagem de carro de Carolina do Sul até Nova Iorque durara aproximadamente 13 horas, e no percurso mal havia se alimentado. Todavia, sua irmã estava certa, não encontrava justiça em recusar tão facilmente a recepção de seus pais, sem ao menos tentar revê-los em meio aquela zorra.
Levantou-se relutante e seguiu para o banheiro de sua suíte. Demorou-se ali. Molhou o rosto e bebericou a água que jorrava na pia. Sentou-se sobre a tampa do vaso sanitário e encarou o teto. Ah, ali também estava diferente. Agora era tudo branco e caramelo, e menor do que ele se lembrava. Talvez fosse a hidromassagem recém-instalada ao fundo, ou os pontos caramelos que dessem aquela impressão.
O chuveiro lhe interessou. Estava louco para tomar uma ducha e se jogar na cama, que agora era uma king size. Porém, sabia que se arriscasse o banho, não iria de encontro com a família naquele dia. Acabaria adormecendo instantaneamente. Tomou então, coragem para sair dali e trocar de blusa.
Assim que adentrou o closet, a porta dupla ao lado do banheiro, seu celular apitou. Uma mensagem, constatou pelo toque. Sacou o aparelho do bolso traseiro da calça jeans assim que jogou sua blusa suja em qualquer lugar.
“Mensagem de Benjamin Tesão”
Brilhava na tela. Era a enésima vez que Benjamin Amber pegava o celular do rapaz e salvava seu próprio contato com um apelido narcisista.
revirou os olhos, mas um sorriso despontou no canto de seus lábios ao ler a mensagem:
E a garota? Ainda uma santa perfeita?”
Apesar de acreditar que realmente fosse uma santa antes de partir, não alimentava a fé de que ela ainda fosse assim... virgem.
nunca havia falado dela para ninguém no tempo que esteve no exército. Sempre que precisava desabafar sobre alguma carta que ela lhe enviava, ou pela ausência delas, ele se referia á ela como “uma garota de Manhattan”. Não tinha tempo para fazer amizades e sair falando sobre seus romances para os soldados. E mesmo que o fizesse, eles não davam á mínima, não havia tempo para isso.
Mas Benjamin, estranhamente, havia se aproximado dele nos últimos meses em combate fora do país. E quando finalmente estavam livres de toda a pressão americana exercida sobre os soldados, bebeu. Bebeu muito álcool, e falou coisas que não devia. Entre elas, coisas que nem sequer ele sabia que eram verdade, coisas que só o álcool o fez entender.
Ele voltaria para Nova Iorque por ela.
É claro que estava com saudades da família. Mas naquela noite, quando o álcool era o imperador impiedoso de sua razão, ele só falará dela. Benjamin desde então, o provocava constantemente.
Nunca criei expectativas sobre isso”— respondeu para o amigo.
Pelo menos, tá gostosa?” – a mensagem foi tão rápida que não dera tempo de bloquear o celular novamente antes de recebê-la.
“Eu ainda não a vi” – Bloqueou o aparelho dessa vez. Sabia exatamente o que o amigo iria dizer.
Assim que o abandonou sobre uma cômoda, ele apitou novamente. resolveu ignorar e acabar logo com aquilo.
Vestiu-se, pensando em uma maneira de se livrar de pessoas inconvenientes que o atrapalhariam de chegar á mesa de jantar depressa e encontrar quem verdadeiramente ele gostaria.
Pensou em indicar bolinhos de camarão no jardim, já que tinha certeza que ninguém teria os comido, pois simplesmente não existiam. Nada de camarão era permitido na casa — Jennifer e Kellan apresentavam alergias apavorantes —, dessa forma o deixariam para correr atrás dos bolinhos inexistentes.
Riu de si mesmo. Era uma ideia ridícula. Entretanto, culpou o desgaste da viajem pela ausência de perspicácia e polidez em sua desculpa.
Abandonou o quarto em um suspiro, e não se preocupou em fechar a porta do cômodo. Caminhou até as escadas e desceu normalmente pelo terceiro e segundo andar, e quando chegou ao topo dos degraus que o levaria para o térreo acelerou significativamente os passos, na tentativa de passar despercebido.
Funcionou, aliás. A única pessoa que veio barrá-lo antes de conseguir chegar á sala de jantar, foi sua avó paterna, que não acreditou muito na história dos bolinhos de camarão. Mas o liberou depressa, limitando-se a abraçá-lo e a elogiar sua aparência. Ninguém naquela família se orgulharia de ele ter servido a nação como um mero soldado quando todos por parte de seu pai eram amantes da medicina, inclusive seus irmãos. Dessa forma, não esperava que com ela fosse diferente, por mais que fosse a pessoa mais doce que ele já havia tido a chance de conhecer.
Assim que se aproximou da mesa principal, sua irmã o apontou. Jennifer seguiu o dedo esticado da mais nova, e sorriu docemente quando seus olhos se encontraram aos do filho. Habilmente cortou o caminho que os separava sem tirar seus olhos do dela. Sua mãe levantou-se e abriu os braços para recebê-lo. Ele se encaixou ali, e no mesmo instante uma salva de palmas e assobios inundaram seus ouvidos. Acariciou os cabelos louros, de quem havia herdado suas próprias madeixas, e aspirou seu perfume na tentativa de se prender somente a presença dela e a de mais ninguém.
Por mais que as personalidades de ambos fossem controversas, e ela não tivesse engolido o orgulho para mandar uma carta sequer nos quatro anos em que ele esteve lutando a favor dos Estados Unidos e seus interesses, eles se amavam e havia sentido a falta um do outro, por mais que não tenha sido de forma arrebatadora. Eram mãe e filho, oras. Tinham que estar feliz por se encontrarem após tanto tempo.
— Você está lindo – Ela sussurrou melosa.
— Todos me dizem isso. – brincou.
Ela se afastou um pouco apenas para poder segurar o rosto com a barba por fazer do rapaz – algo que não se via há um bom tempo em decorrência das exigências em relação ao físico dos soldados –. Sorriu para ele. Parecia cansada, todavia seus olhos brilhavam de fascínio.
A farra dos visitantes finalmente cessou.
— Eles não mentem – beijou-lhe a bochecha e o abraçou mais uma vez antes de se virar para Maxwell que aguardava em pé ao lado dela. Sorridente, ela saiu e se pôs atrás de Max para que os dois pudessem se cumprimentar.
e Maxwell trocaram olhares sérios em um primeiro momento. Quem os visse diria que com certeza eles não se davam bem. Mas era totalmente o contrário. O pai da família fora a única pessoa que não se surpreendeu com sua ida para as Forças Armadas dos Estados Unidos da América assim que chegou a maioridade. O único que não o julgou.
— Quanto tempo – Max disse e um sorriso despontou no canto de sua boca.
O mais novo não esperou mais nada. Aproximou-se do pai com um único passo e o abraçou forte. Dessa vez, não houve palmas nem nada disso. Os fogos só acendiam em seus corações, que batiam a cem por minuto, se não mais.
Era o encontro mais turbulento, em um bom sentido, desde que chegara. Por um momento, pode sentir seu coração esquentar e um bolo formar em sua garganta, como se estivesse prestes a chorar. Mas não o fez. Deu fortes batidas no ombro esquerdo do mais velho, que retribuiu.
Ao contrário dele, seu velho não se conteve. Soluçou, e pode perceber que ele já chorava.
— Também senti sua falta, Max. – Sorriu para o pai quando se afastaram.
Maxwell retribuiu o sorriso do filho e deu leves batidinhas em seu ombro, mas nada disse e se sentou onde, aparentemente, estava antes.
— Sente-se conosco, filho – Foi Jennifer quem o disse, oferecendo um lugar entre os dois.
— Desculpe mãe... Eu estou cansado – lamentou.
— Mas não está com fome? – De repente pareceu preocupada.
Estava com fome, sim. Entretanto, não fora para comer que ele havia ido até ali. olhou ao redor pela primeira vez desde que se aproximara da mesa; todos os olhavam curiosamente. Não pode evitar o descontentamento com aquilo.
— Onde está ? – desviou o assunto. – Ainda não a vi.
Jennifer uniu as sobrancelhas em confusão e olhou para o lado; para Emily mais especificamente. A mocinha estava distraída, rindo para alguém que estava sentado do outro lado da mesa, e não percebeu o olhar irritado de sua mãe em sua direção.
— Pensei que Emily tivesse lhe contado. – De repente estava séria. – Ela não quis vir, na verdade, foi bem gros...
— Como assim “não quis vir”? Onde ela está afinal? – Juntou as sobrancelhas em sinal de confusão e perguntou mais alto do que pretendia. Olhou ao redor e todos ainda os encaravam.
— Eu não sei onde ela está... – o tom de voz irritado de Jennifer foi interrompido.
— Tá. Sabe ao menos que horas ela volta? — Tentou controlar o tom dessa vez. Não pretendia irritar a mãe, não naquele momento, apesar de não entender o porquê que o fazia tão facilmente.
— Ela não mora aqui, – Foi Kellan quem respondeu. Ele estava um pouco mais distante, ao lado direito de Maxwell, e encarava o nada com uma Heineken na mão.
Max abaixou a cabeça em meio á conversa. Parece que eles falavam alto demais.
— Por quê? – Cuspiu á pergunta para qualquer um que quisesse responde-lo.
— Ela estava dando problemas e... – Sua mãe sussurrava para que os demais presentes não a escutassem.
— Ela foi expulsa de casa? – Perguntou indignado, sem se preocupar com quem ouviria. – Vocês a expulsaram? – Se dirigiu ao pai.
— Você ao menos pensou na possibilidade de ela ter ido embora por livre e espontânea vontade? – Jennifer agarrou o braço de como se o repreendesse.
— Ela não faria isso. Me prometeu... – balançou a cabeça, tentando espantar de sua cabeça a imagem de adolescente e apaixonada. Aquilo não seria argumento para explicar o porquê não acreditava que ela teria ido embora por vontade própria. – Você disse que ela estava dando problemas. – disse entredentes.
— Vamos conversar sobre isso depois. – Pediu Jennifer apertando o braço do filho.
Ele a encarou nos olhos antes de desviar o olhar para a mão dela em seu braço. – Onde está?
— Eu já disse que não sei. – Agora era ela quem falava entredentes.
— Ótimo. – Puxou seu braço e passou por sua mãe em um rompante.
Ouviu as pessoas murmurando sobre a cena, enquanto dava passadas rápidas e brutas em direção ás escadas. Só parou ao trombar sem intenção em alguém que era admiravelmente pequeno. Não se preocupou em se desculpar até ouvir quem era.
— Oh, me desculpe, senhor.
Lola.
Abaixou a cabeça para olhá-la. Não havia percebido a necessidade de tal ato anteriormente. Seus cabelos ruivos escuro estavam soltos agora, provavelmente estava fora do horário de serviço.
Ela ia se afastando quando ele puxou seu braço gordinho mais uma vez. — Há quanto tempo trabalha aqui? – Perguntou subitamente.
— Há dois an... – Ele a interrompeu.
— Conhece Sanchez?
— Só de nome, senhor – a jovem corou.
— Certo – Soltou seu braço. – Obrigada.
A menina se afastou se desculpando com os olhos. E ele seguiu seu caminho depois de sorrir-lhe como se dissesse ‘tudo bem’.
Ao chegar ao quarto bateu a porta, e antes que pudesse se quer pensar no porquê de algo, três batida reverberaram por ela.
— Saí! – Ordenou em um grito grave.
— Não. – Ouviu a pequena irmã dizer já entrando no cômodo. – Vim te ajudar.
Riu em escárnio. – Pode ir embora, eu não quero carinho. – cuspiu.
— Nossa. Isso foi grosseiro. – Comentou a menina.
Segundos de silêncio.
Um suspiro. – Desculpe Emy. Eu só quero um tempo pra...
— Pode perguntar pra mim. Pergunte o porquê de ter ido embora. – Deu um passo á frente.
— Por quê? – se virou de frente para ela e a encarou.
— Ela estava com problemas. Muitos. Tinha terminado o colégio a força, e ia á muitas festas. Ninguém estava entendendo na verdade, só Kellan sabia das festas.
“Um dia ela foi parar na delegacia, e mamãe falou que não iria deixa-la mais entrar em casa. Estava com medo de ela envolver-nos em alguma encrenca. riu. Simplesmente, riu. Na frente de todos, até dos policiais e disse: ‘Graças a Deus’. Nunca mais a vimos aqui em casa depois disso.”
— Isso foi há quanto tempo? – Perguntou desconfortável. Não gostava de estar sabendo dessas coisas através de Emily.
— Três anos.
— Ela era de menoridade há três anos, não podia simplesmente sair de casa...
— Papai cuidou para que ela não fosse presa pelo que ela havia feito, e ela foi internada. Não me pergunte onde. – Deu de ombros. – E nem o porquê. No fim, parece que ao chegar á maioridade ela pôde sair. Está morando com alguns amigos no Great Kills.
— Me passa o endereço. – pediu de imediato.
— Já te passei pelo iMessage – piscou astuta.
— Obrigado, Emy – Sorriu para ela depois de um tempo, admirado.
– Não pense que fiz isso porque gosto dela. – Disse séria. A cópia perfeita de Jennifer, percebeu. – Isso, é apenas para que você veja que a mamãe estava certa em mandá-la embora. Você faria o mesmo se estivesse aqui.
abaixou a cabeça. Não discutiria com sua irmã, apesar de seu instinto o contrariar. — Mesmo assim, obrigado. – Sorriu-lhe forçado.
— Tudo bem. Só peço que não saia agora, espere as luzes se apagarem. Mamãe ficaria ainda mais chateada em vê-lo sair agora.
— Não se preocupe. Ela não irá ver-me correr atrás de hoje. – Piscou para ela e lhe deu as costas, indo para o closet.
Encontrou o celular onde o havia deixado, e quando voltou Emily não estava mais ali.


Sunday, 6:40 a.m – Staten Island, New York – USA.

A sala estava escura. As luzes que iluminavam ali horas atrás estavam apagadas, e o único vestígio de claridade que os permitia ver algo, era o feixe entre as cortinas.
Era dia então, mas algumas pessoas ainda estavam ali. Bebendo, fumando, cheirando e até mesmo dormindo. , em especial, havia se escorado á parede ao lado do sofá e escorregado as costas ali até que chegasse ao piso. Estava assim há horas, fazendo um rodizio de drogas juntamente com os amigos e outros desconhecidos que se distribuíam pelo sofá ou chão.
Não haviam se esquecido de Liz. Mas ao fim da noite, quando perceberam que as pessoas que restaram ali, não seriam capaz de pagarem sozinhas, o que restava para a fiança, resolveram se entregar aquilo. Beberam e se drogaram com todos os seis desconhecidos que ainda estavam na casa. E até então, ninguém estava sóbrio o suficiente para perceber no que haviam se metido.
— Droga! – resmungou Izzy irritada. – Tira essa merda de perna daqui, Francis. – Ela empurrou um ruivo de cabelos cacheados para longe.
O tal de Francis nem sequer reclamou. Parecia sonolento demais para isso. Então se escorou em outra garota, do seu lado esquerdo no sofá.
O silêncio não era constante. Ouviam-se ruídos de respiração, expiração, e de alguém abrindo embrulhos – provavelmente de cervejas, ou cocaína – a cada período de no máximo 10 segundos. havia contado, antes de se distrair demasiado com um baseado na mão.
Quando a campainha tocou, automaticamente formou-se uma careta no rosto de Izzy e . Benjamin estava dopado demais para sequer lembrar que morava ali também.
— Eu aten...do – Se interrompeu Izzy para afastar mais alguém de si, naquele sofá onde quatro pessoas se apertavam.
se ocupava com mais algumas tragadas na maconha enrolada á uma folha de tabaco, quando Izzy e suas risadinhas espertas lhe chamaram atenção. Fitou Ben, esperando que ele estivesse pensando as mesmas coisas que ela, mas Benjamin não estava ali. Não de verdade.
Na mente de , as coisas não pareciam muito sãs, todavia não perdia a esperança de que um bom samaritano lhe aparecesse á porta e lhes desse o que tanto precisavam. Naquele momento, era Liz de volta. Era a única coisa que fazia sentido para ela.
Izzy voltou com um sorriso torto no semblante meio abatido, depois de bons minutos discutindo e rindo com a porta entreaberta. Apalpava ritmicamente o bolso do short jeans que apresentava um considerável volume. observou-a admirada e sorriu á parabenizando inaudivelmente, naquele momento seu peito aqueceu com a esperança. Entretanto, uma silhueta acompanhara Izzy até ali.
— Sente-se. – Izzy indicou, consideravelmente rouca, o sofá para o homem de prováveis 1,90 de altura.
— Não. Obrigado. — O mesmo recusou.
, dessa vez, sentiu o calor do seu coração se esvair abruptamente, e ser tomado pelo frio.
Izzy o olhou com estranhamento, mas acabou dando de ombros e se voltando para o lugar onde anteriormente se encontrava. Dessa forma, abrindo o espaço entre , sentada no chão, e o homem que acabará de entrar.
Ela sabia. Reconheceria a voz em qualquer lugar e mesmo depois de quarenta anos. Seu coração já gelado foi espremido ao encontrar os olhos nublados e cobertos elegantemente por óculos quadrados de grau de . Estava escuro, mas ela estava o vendo perfeitamente.
— Oi .
TU-DUM
TU-DUM
TU-DUM...

Capítulo 2 – We Are Not Welcome.


December, 1998 – Manhattan, New York – USA.

— Não! Deve haver algum equívoco, algum erro! Não pode estar certo...

— Eu sinto muito, senhora . Mas por estar em um estado avançado, a senhora deve começar o tratamento urgentemente. O tratamento pode...
— Não – Murmurou atônita com os olhos sobressaltados e as mãos trêmulas – Quanto... Quanto tempo?
— A senhora adiou muito sua vinda aqui. Um estágio avançado de melanomas merece muita atenção e dependendo...
— Quanto tempo? – Repetiu a pergunta engolindo com dificuldade o choro que já objetivava se apossar dela.
— Em média, pessoas com este tipo de câncer no estágio quatro têm poucas chances de vida. Mas se houver um tratamento rigoroso, a senhora pode ter ainda de cinco á dez anos. – O médico adotou uma postura ereta e a encarou com seriedade. – Se começarmos o tratamento agora...
— As chances de eu sobreviver com quimioterapia e...
— Nesse caso, a quimioterapia não é muito indicada. Começaríamos com as cirurgias para retirar os tumores que se espalharam pelo diafragma e na cabeça. É claro que não eliminaremos totalmente, e o que sobrar será tratado com imunoterapia ou terapia alvo. Ou até mesmo radioterapia, se a senhora não escolher prosseguir o tratamento com minha equipe. – Ele tentou sorrir, mas aquilo não era apropriado para o momento.
Foram minutos de silêncio. Lana tentava processar a recente novidade. Um súbito mal-estar infringiu seu interior quando se lembrou das filhas pequenas, e as lágrimas desaguaram de seus olhos sem que antes pensasse que tal ato significava fraqueza, invulnerabilidade. Estava pálida, perplexa com a situação que se encontrava. Definitivamente não esperava por aquele veredicto.
Lana aos 35 anos capturava diversos olhares por onde passava. Sua fisionomia jovem e delicada era de causar inveja em qualquer ser do sexo feminino, e sua vida era sua realização. Tinha duas filhas pequenas, e , e um marido dedicado e amoroso que vencia enfim seus distúrbios emocionais cuidando das filhas, enquanto Lana era estilista em seu próprio ateliê honrado com três estrelas. Vestia as megeras de Nova Iorque que não tinham dinheiro para suprir seus guarda-roupas com Gucci e Prada.
Depois de meses ouvindo seu marido se queixar de diferentes manchas na pele da esposa, ela resolveu realizar os exames de rotina que deixara de fazer mesmo durante a gravidez, que havia sido um tanto quanto arcaica. Entretanto, eles se estenderam mais do que deveriam e a levaram para o consultório de um dermatologista que havia decretado um câncer melanoma em estágio quatro. Ela não estava preparada para aquilo.
— O que eu... O que devemos fazer agora? – Perguntou enxugando as lágrimas que pinicavam suas bochechas. Odiava chorar.
— Vou te transferir para o centro oncológico. O médico que cuidará da senhora é bem prestigiado e está de passagem por aqui – Sorriu de canto enquanto rabiscava em um papel, como se ser atendido por tal fosse uma honra. Súbita raiva subiu pela garganta de Lana. – Ele se chama Maxwell , cirurgião oncológico da Clínica Oncológica da Liberdade ¹. A senhora estará em boas mãos. – Lhe estendeu a guia.
— Nas mãos de Deus, espero – a mulher soltou um muxoxo seguido de um suspiro e se levantou. – Obrigada. – seguiu até a porta mantendo a postura de mulher forte e independente que sempre sustentou. Já havia admitido fraqueza ao se desmanchar em lágrimas na frente de seu médico, era demais por aquele dia, independente de sua situação. Agora encararia sua família; suas filhas e seu marido. Teria que ser forte como nunca.



Encolheu-se contra a parede em que estava escorada, no instinto de se afastar. Seu corpo já dava início ás reações que comumente ocorriam quando via o rosto jovem de em devaneios. Aquilo nunca acabava.
O bafo que o cômodo fechado exalava se tornara incômodo. Á sufocava de repente... Todavia dessa vez, ela forçou uma risada. Em consequência da repentina falta de ar, seu riso soava estranho, macabro talvez. Mas ela ria. Alguns certamente diriam que aquilo era efeito da erva, e provavelmente fosse, se tal ato não a machucasse tanto.
Ela riu quando ouviu da boca de Jennifer que não tinha mais permissão para entrar na mansão, em plena delegacia lotada. Riu quando seu pai por consideração disse que a deixaria na cadeia caso ela não tomasse jeito. Riu quando descobriu que Liz havia sido presa, pois estava com posse ilegal de droga em uma festa. E ria diante de seu primeiro amor, que havia a deixado por puro egoísmo. Ria de sua própria desgraça, por mais que em nenhuma destas situações ela realmente achasse alguma graça.
estava na sua frente depois de quatro miseráveis anos. E o misto de emoções se apoderava dela mais uma vez desde que ele havia partido; e com essa bagunça de cores, a enxaqueca a atingia em cheio em poucos segundos e sua cabeça passava a pesar toneladas mesmo apoiada á parede atrás de si.
Mas ela ria. Fungava em meio aos risos, que com o tempo pareceram escandalosos e insanos.
abaixou o olhar. Seu semblante esculpido por anjos contorceu-se em algo que se assemelhava a dor, e então rompeu a troca de olhares entre os dois, sem coragem de lhe dar com o fruto de seu próprio egoísmo.



August, 2001 – Manhattan, New York - USA.

— Você não parece nada bem. – Doutor encarava alguns exames em uma prancheta.
— Não é educado dizer isso á uma mulher. – Lana sussurrou rouca. Não parecia estar em condições de falar mais alto que aquilo.
Encontrava-se deitada no leito do hospital mais uma vez. Seus olhos lutavam para permanecerem abertos, pois queria dar ouvidos ao médico que havia atravessado Nova Iorque para vê-la.
O médico sorriu. Admirava a força de uma mulher que ainda fazia piadas em sua condição.
— Lana, disseram-me que você se recusa a fazer outra cirurgia. – Maxwell sentou-se á beirada da cama e fitou os olhos de sua paciente. Já se conheciam há um bom tempo para terem liberdade para tal aproximação.
Lana sorriu de lado. – Minha disse que eu não deveria fazê-la.
— Querida, sua filha tem quatro anos. Se ela soubesse ao menos que você corre o risco de não vê-la nunca mais, com certeza não diria isso. – o médico pegou na mão da mulher. – Você sabe que tem que fazer essa cirurgia.
— Eu não... Não tenho mais dinheiro pra esses tratamentos. – tossiu.
— Você não precisa pagar tudo agora, cuide-se e depois pense nisso.
— O senhor não entende – Tossiu novamente. – Meu marido sofre de distúrbios emocionais, ele não trabalhava e está fazendo isso agora para poder alimentar nossas filhas... E-eu não tenho mais condições para isso. É uma questão de tempo e ele terá um surto sem os remédios e tendo que lhe dar com tudo...
— Está certo. – Interrompeu-a. — Não se esforce falando demais, okay? – Maxwell apertou a mão da paciente carinhosamente. – Responda balançando a cabeça em sim e não, tudo bem?
Lana afirmou com a cabeça.
— Se eu conseguisse um bônus para essa cirurgia, você aceitaria fazê-la?
Dessa vez, Lana negou.
— E por que não? – Perguntou estupefato.
— Sabe Max – começou rouca então tossiu novamente. – Enquanto eu estiver aqui, minha família não estará bem...
— Você está errada, querida. É óbvio que eles não estarão bem é quando você os deixar. Você tem que lutar por eles. – Maxwell insistiu.
— Se eu os deixar, eles aprenderão á viver sozinhos. Mas enquanto estou aqui nessa cama, impossibilitada de qualquer coisa, sou um fardo para eles...
— Lana, querida, você pode melhorar se realizar a cirurgia. Não precisa ficar confinada a esta cama! Você pode ter muitos anos ainda se lutar.
— Quantas vezes minhas meninas já me viram nessa situação? – Seu rosto se contorceu, aparentemente ela choraria. – E quantas vezes mais elas teriam que me ver assim? O quanto elas terão que trabalhar para pagar ás cirurgias que eu não posso... – interrompeu-se quebrando o contato físico com seu médico e desviando o olhar do mesmo. – Meu marido está doente e tem que cuidar de alguém que também está, mais as crianças. Ele não merece isso.
— É contra o protocolo médico, eu lhe dizer o que deve fazer com sua própria vida. É uma escolha sua. – Maxwell se levantou do leito. — Sua família sentirá sua falta... Talvez mais que o peso que você diz que eles carregam.
O médico ainda passou os dedos pelo antebraço da mulher carinhosamente antes de se encaminhar até a porta para sair do quarto.
— Espere. – Lana o chamou. – Eu sei que pareço egoísta – fez uma pausa. Quando percebeu que o médico não diria nada, continuou – Andei pensando muito nisso. Ás vezes parece muito certo, mas em horas como agora... Eu não sei.
— Aceite a cirurgia bônus.
— Com uma condição – o médico se aproximou para ouvir melhor a mulher. – Se acontecer algo, quero ter assinado a ordem para que não me ressuscitem. Assim eu saberei. Se for para eu ficar, tudo dará certo, se não, estarei libertando minha família sem culpa.
O médico suspirou. Sempre soube que Lana era cristã, e confiava cegamente no caminho que teria que seguir. Não tinha medo de morrer, e se estava ali era pela vontade de Deus. Um tanto antigo, na opinião do médico. Mas cada um com sua crença, não é mesmo? Já havia se intrometido mais do que o saudável na vida de sua paciente.
— Seja como desejar. – Sorriu-lhe, seus lábios finos colados um no outro apenas adotaram uma curva singela.


Dias mais tarde...

— A cirurgia foi um sucesso. – Maxwell sorriu cansado para a chefa das enfermeiras que o questionara preocupada. – Ela acordará em breve.
— Então por que o marido dela está tendo um ataque? – a baixinha puxou os cabelos louros em sinal de nervosismo. – O que devo fazer?
— Desde quando você segue minhas ordens, Helena? – Perguntou divertido para a enfermeira rebelde. – O que está acontecendo?
— Ele está chorando e gritando compulsivamente ao lado do leito da esposa. Ninguém consegue acalmá-lo ou tirá-lo de lá! Uma das minhas enfermeiras quase levou um soco! – Helena narrava a situação exasperada, gesticulando com as mãos em direção ao quarto da senhora .
Maxwell juntou as sobrancelhas em confusão. – Vamos comigo até lá.
Ambos caminharam lado a lado até o quarto na ala dos pós-operatórios. Assim que cruzaram o corredor assistiram vários corpos vestidos com uniformes verde e branco, empilhados á porta do quarto que deveria ser o de Lana.
— Isso por acaso é um circo, seus incompetentes? – Foi Helena quem disse sua voz alta se elevando á dos gritos que vinham da sala. O que não tinha de altura, certamente tinha de potência vocal.
Todos os seus subordinados se afastaram rapidamente da porta e se dispersaram pelo corredor. Já os médicos, que graças á hierarquia de um hospital, eram considerados superiores a encararam de cara amarrada e somente se retiraram ao perceberem o olhar irritado com a falta de postura médica de Maxwell .
Quando finalmente teve chance de mirar o senhor , teve pena. A mulher ainda adormecida no leito aparentava uma plenitude invejável, enquanto seu marido era o oposto do estado de espírito da esposa. Chorava e batia o pé no chão infantilmente, gritando o nome de Lana em meio á gritos. As pequenas filhas do casal encontravam-se sentadas na poltrona dos visitantes e derramavam lágrimas silenciosas.
Uma das meninas se levantou com o rosto molhado e soluçando e andou até o pai. Cutucou-o na perna e puxou a calça larga que ele vestia com certo receio. – Papai – chamou chorosa.
Asher empurrou a menina com a perna sem qualquer delicadeza e a mesma quase caiu pra trás, abrindo o berreiro á partir dali.
O doutor encarou Helena com cara de poucos amigos. – O que essas crianças ainda estão fazendo aqui?
No mesmo instante, a chefe das enfermeiras adentrou o quarto e pegou a menina que fora empurrada no colo. Chamou a outra com a mão, que escorregou da poltrona e acompanhou as duas para fora dali.
— Senhor, isso é uma ala de pós-operatório. O senhor e o hospital podem ser prejudicados pelo barulho. – Maxwell se aproximou do homem para tocar-lhe o ombro amigavelmente. De nada adiantou. Era como se nem ao menos estivesse ali, ou como se não tivesse falado coisa alguma. – Ela está bem, irá acordar logo.
O homem desviou da mão do médico e se colocou de joelhos ao lado do leito. Parou de berrar, mas ainda chorava, agora com a cabeça deitada ao lado de Lana. – Não. – murmurou.
Fora tudo muito rápido desde então. As máquinas apitaram, os batimentos da paciente desaceleravam rapidamente. Maxwell acionou a equipe apertando o botão verde logo abaixo do leito, e pediu para que o marido se retirasse do quarto para que seguissem com os devidos procedimentos. O homem, ao contrário do que imaginou, levantou-se e saiu do quarto sem rodeios. A equipe chegou e aguardou ás ordens do cirurgião que parecia um tanto quanto perdido. – O que estão esperando? – gritou.
— Doutor, ela assinou o termo que nos proibi de ressuscitá-la. – um dos internos de cirurgia o lembrou da condição de Lana para aquela cirurgia.
Maxwell tinha a respiração acelerada, e sentiu uma pontada no coração ao perceber que Deus havia dado seu veredicto. Ela deixaria a família sem culpa, como dissera. Esperou certo tempo ao som do zunido constante que a máquina fazia ao anunciar uma parada cardíaca e então anunciou: - Hora do óbito, seis e cinquenta e duas da manhã. – Apertou pela última vez a mão de Lana, e passou pela porta de cabeça erguida, deixando para trás o corpo sem vida de uma amiga querida e paciente de longa data, e a equipe médica que se encarregaria de esvaziar o quarto.


Seu corpo se arrastou pela parede enquanto ela forçava as pernas para se levantar. Estava se sentindo pesada, e teve que parar de rir quando quase caiu em sua tentativa de se colocar de pé. Com as costas escoradas á parede, ela voltou a encará-lo. O sorriso insano vacilou. Ele estava mais perto, os olhos estreitos e tão azuis a fitavam.
— Hey – soou rouca e audivelmente satírica. Considerava-se uma ótima atriz; lutando contra a enxaqueca e as dores no corpo para agir normalmente.
Fraca. Era uma coisa que definitivamente não era. Orgulhosa? Não. Ela se amava, era diferente. Por mais que seu peito estivesse sendo esmagado, e a única forma aparente de amenizar tal dor fosse correr para os braços do cara que a abandonou e chorar, ela não o faria. E não choraria, por mais que o bolo em sua garganta a incomodasse. Finalmente provaria para si mesma, que assim como ele não precisava dela, ela não precisava mais dele.
Descolou ás costas da parede e cambaleou. Não foi preciso se equilibrar para não cair; dois braços fortes a ampararam pela cintura. Sentiu seu corpo paralisar. Céus. Era difícil mesmo em sonhos, mas como o rejeitaria se não conseguiria nem ao menos se mover?
— Oi – ele repetiu em um sussurro que a fez estremecer.
a apertou contra si com uma das mãos no meio das costas de e encaixou o rosto na curva de seu pescoço. O coração acelerara e ele sentia que era incapaz de largá-la, havia sentido tanta falta...
— Me solta. – pediu sem se mover.
Estava prestes a chorar... Ela não ia chorar. A sala estava em total silêncio, e a única que realmente parecia dar importância á cena dos dois era Izzy, que de qualquer forma, observava calada.
— Não... – Ele sussurrou a apertando ainda mais forte, aproveitando de todos os sentimentos bons de um reencontro que o tomavam sem piedade, apesar de toda a situação na qual a encontrou.
, eu quero que se afaste de mim – a menina fraquejou no fim da frase e choramingou.
afastou-se dela á contragosto e a fitou esperando entender o porquê daquilo. – Eu senti sua falta. – murmurou sorrindo, após segundos longos de silêncio por parte dela.
— Oh, jura? – Fingiu surpresa. Balançou a cabeça para não deixar que as lágrimas vencessem aquela guerra. Não. Ia. Chorar. – Eu morri de saudades suas. – As palavras rasparam em sua garganta. Agarrou um pedaço da camiseta azul clara que ele vestia, e nunca admitiria que aquele ato na verdade era pra se manter em pé. – Morri literalmente, sabe? Porque hoje, eu não sinto nada. – mentiu.


August, 2001 – Manhattan, New York – USA.

— Desculpe por te fazer chorar – Maxwell acariciou os cabelos escuros da menina que fungava em seu ombro. – Ela está em um lugar melhor.
— Minha mãe estava com d-dor – a pequena voltou a chorar com intensidade.
— Ei, ei. Ela não está mais com dor, querida. – caminhava com ela em seu colo pelos corredores do hospital. Asher havia sumido, e médicos se revezavam para cuidar das pequenas gêmeas até que ele resolvesse aparecer. – Olhe, se você parar de chorar eu prometo te dar um doce bem gostoso lá do refeitório, que tal?
A menina negou com a cabeça. – E-eu não quero doce – Soluçou. – Eu quero minha mãe. – diminuiu a voz na última frase e enterrou o rosto no pescoço do médico.
Ele estava se sentindo inútil em meio ao sofrimento das duas irmãs. É claro que um doce não faria a pequena esquecer-se da mãe! Era um absurdo. Ele definitivamente não havia aprendido nada com seus dois filhos em casa? Crianças não eram fáceis de enganar daquela maneira. Então ele a deixou chorar. Deixou-a sentir a morte da mãe como faria com alguém mais velho.
Apesar de se sentir péssimo, odiava Asher por ter feito o que fez. Contar ás filhas que a mãe havia falecido e depois desaparecer, as deixando sem nenhum consolo, era algo desumano. Mesmo com os problemas que enfrentava.
— Doutor – Ouviu a voz da chefe das enfermeiras enquanto a mesma corria em sua direção pelo corredor da ala pediátrica. – Achamos Asher. – A mulher sibilou para que a pequena ficasse alheia á conversa.
— Onde está? –O médico apenas movimentou os lábios sem sair som algum.
— Recepção, no térreo. – Estendeu os braços para pegar a menina no colo.
Maxwell deu um passo para trás por instinto.
— Vou cuidar dela, enquanto o senhor vai atrás dele.
— Eu já volto querida – Sussurrou para a menina que se agarrou mais forte ao pescoço do médico assim que ele se inclinou para entrega-la á Helena.
Correu até a recepção, com os passos mais apressados que pode. Ninguém sequer o estranhou. Ele era um cirurgião, e cirurgiões vivem á correr pelos corredores do hospital. Assim que chegou ao térreo, varreu o extenso local com os olhos e nada de encontrar .
— Asher estava por aqui? – Abordou a recepcionista rechonchuda que mastigava um bolinho.
A mulher engoliu antes de responder. – Acabou de ser levado, doutor.
— Levado para onde? – Juntou as sobrancelhas em confusão.
— Os policiais o levaram por atos de vandalismo no hospital. – Deu de ombros e mordeu mais uma vez seu bolinho.
— Vandalismo?
— Sim. Ele começou a quebrar tudo no banheiro e aqui na recepção também. – Balançou a cabeça demonstrando indignação.
— Os policiais sabem que ele tem problemas psíquicos? – Perguntou irritado para a recepcionista que deu de ombros de novo. – Vocês são uns imprestáveis. – Cuspiu antes de deixar o hospital em direção á delegacia.



— Quem é o senhor mesmo? – O policial esguio perguntou fazendo pouco caso.
— Eu sou médico da família. Vim alegar que o senhor tem sérios problemas psiquiátricos, acabou de perder a esposa e deixou duas filhas de quatro anos no hospital, sem ninguém.
— Certo. Certo. Os nossos próprios médicos o examinarão para comprovar qualquer problema de cabeça que o sujeito tenha. Se for verdade, entraremos em contato. – O rapaz sorriu fechado e já se preparava para lhe dar ás costas.
— Eu preciso repetir que ele deixou duas meninas pequenas no hospital, sozinhas? – Maxwell tentou controlar a voz, mas já queria pular no pescoço daquele garoto prepotente.
— O hospital já se ocupou em nos avisar sobre isso. – Uma mulher morena e baixa adentrou á sala e sorriu educadamente para o médico. – Já enviamos uma viatura ao hospital para trazê-las.
— Elas acabaram de perder a mãe, não é desumano trazê-las para uma delegacia? Crianças não deviam entrar em um lugar como esse em qualquer circunstância. – Bateu a mão na mesa, mesmo ainda contendo a irritação na voz.
— O que queria que fizéssemos? – a mulher cruzou os braços, desafiadora. – Vocês reclamam que elas são deixadas no hospital, reclamam que as acolhemos na delegacia. O que querem que façamos?
— Ache alguém que possa cuidar delas, fora daqui e do hospital. – Disse como se fosse óbvio.
— Não há ninguém. Já recebemos umas cinquenta ligações daquele hospital. O tempo em que vocês estavam com elas, nós estávamos procurando a família deles. E não há ninguém. – Ela inclinou a cabeça para o lado, e estreitou os olhos. – Mais alguma exigência?
— Se não há ninguém para cuidar das crianças, vocês irão liberá—lo, não é? Digo o senhor . Podemos cuidar das meninas até que isso aconteça. – Maxwell gesticulou com as mãos.
— Tem plena certeza de que o senhor é médico de Asher ? – Arqueou uma das sobrancelhas e se aproximou do médico. – O senhor não está em condições de cuidar de duas meninas pequenas. Ele precisa de tratamento. Além disso, não tem sequer uma cédula de qualquer valor imaginável em sua conta bancária ou carteira. Ele perderá a guarda das filhas em apenas uma audiência diante de um juiz.
— Isso não é certo.
— Então, por favor, me diga o que é? – A mulher aguardou a resposta, mas o silêncio permaneceu intocável. Era uma delegacia movimentada, estávamos falando de Manhattan. Mas a sala escura em que se encontravam parecia algum tipo de sala de interrogatório. Talvez houvessem pensado que ele seria algum tipo de testemunha do vandalismo, ou sei lá o quê. – Olha doutor...
. Maxwell .
— Doutor , entendo a preocupação com as filhas dos . Prometo lhe manter informado com o processo da guarda delas se quiser. – Sorriu fechado, catando um cartão sob a mesa e estendendo á ele logo em seguida.
— Certo. – Fazia tempo que não se sentia tão angustiado quanto se sentiu naquele momento.



September, 2001 – Manhattan, New York – USA.

— Doutor . Quanto tempo. – Monika ironizou. Havia recebido uma ligação da mesma pessoa naquela manhã.
— A senhorita me disse...
— Sim. Eu sei o que disse. – A mulher fez uma pausa, vasculhando as devidas informações no computador de sua sala.
— Então...
Monika suspirou. – Elas estão naquele orfanato no Morningside Heights desde semana passada. Hoje foi decidido que elas vão continuar por lá por tempo indeterminado. Enquanto o senhor será tratado na clínica onde conheceu Lana, a pedido do próprio.
— Obrigada, senhorita Haven. – O homem agradeceu com a voz fatigada antes de encerrar a ligação.
Era isso então. Esperou semanas para ter certeza de que as garotas ficariam bem, para enfim poder voltar para seus próprios filhos com a consciência leve. Entretanto, não foi o que acontecera. Elas não estavam bem. Haviam perdido a mãe, e o pai ás havia abandonado tudo em apenas um dia. Era natural que ambas estivessem perdidas, e eternamente traumatizadas. Como voltaria para casa sabendo de tal crueldade? Todavia o que poderia fazer para ajudar aquelas crianças?


Precisou de algum tempo para saber o que iria fazer em relação àquelas garotas. Voltou para seu lado de Nova Iorque, sua querida Ilha da Liberdade, e viu seus filhos e esposa. A temporada com eles fora uma das melhores que se lembrava em bastante tempo, e isso só fez o peso que ele sentia desde a morte de Lana aumentar consideravelmente. Já estava farto daquilo, e resolveu retornar á Manhattan mesmo sem pacientes para atender do outro lado da ponte.
e ? – A senhora ajeitou os óculos para enxergar melhor a tela do computador. – Ah, certo. está por aqui em algum lugar, mas ... – A mulher estreitou ainda mais os olhos. – Não, não tem ninguém com esse nome aqui.
— Tem que estar errado. A delegada Haven disse que ambas as meninas estariam aqui. – Maxwell se esticou para enxergar o que estava escrito no computador.
— Talvez ela já tenha ido embora – Virou a tela para si, estupefata.
— Como assim?
— Adotada.
— Tão rápido assim? – O homem questionou incomodado. – Ela chegou há poucas semanas.
— Algumas crianças têm sorte. – Deu de ombros.
Aquilo não era sorte para ele.
— Eu posso ver ? – batucou no balcão da recepção.
A mulher encarou-o desconfiada, analisando-o de cima abaixo. – O senhor é algum membro perdido da família da menina?
— Não, eu não sou. Sou um amigo da falecida mãe. – Coçou a cabeça sem graça.
— Certo. Vou fazer o seu cadastro enquanto chamam-na aqui. Documento, por favor. – Voltou a estreitar os olhos para a tela do computador quando o homem estendeu-lhe o documento. – July! – gritou estridentemente.
Maxwell deu pulo de susto no mesmo momento que uma jovem surgiu atrás de si. – Senhora. – a mesma abaixou a cabeça em respeito depois de sorrir para o visitante.
— A menina nova. . – a jovem assentiu. – Este homem quer vê-la. Pode trazê-la aqui. – a menina July se retirou em pulinhos. – Desculpe senhor... – a senhora leu seu nome no documento. – , mas as crianças estão praticando atividades na quadra, e elas ficam meio desanimadas quando veem um visitante que não vai tentar conhecê-las, entende?
— É claro, eu entendo. – assentiu com um sorriso fechado.
Ela devolveu seu documento e indicou cadeiras do outro lado do cômodo rústico onde predominava o tom marrom envernizado. Antes mesmo que alcançasse o compartimento indicado ouviu a vozinha da pequena :
— Max! – Correu até ele com lágrimas já manchando o seu rosto.
Maxwell surpreendeu-se com o apelido. Agachou-se para recebê-la com um abraço e assim que a menina alcançou seu pescoço, ele colocou-se de pé com a mesma em seu colo.
Ela ainda lembrava-se dele, das míseras horas em que passaram juntos em que ela apenas chorara em seu colo.


Ele negou com a cabeça. – Isso... O que está dizendo, ? – Sussurrou soando ferido com aquelas palavras.
A garota riu anasalado dessa vez, e contou até três mentalmente antes de se desfazer de seu apoio no rapaz á sua frente e marchar, não tão firme, até a porta.
— Você já foi embora uma vez. Não vai ser tão difícil repetir a dose. – abriu a porta e esperou que ele saísse com os olhos vidrados no chão sujo.
abriu a boca duas vezes, fechando-a em seguida sem saber o que dizer.
— Eu só estou pedindo que saia. – Rosnou entre dentes, sentindo seu corpo estremecer no mesmo momento em que seus olhos e punhos se cerraram.
Parecia que iria explodir vista por olhos alheios. Era quase isso. sentia que havia á levado ao estopim dos sentimentos que ela conseguiria reprimir em sua frente, o ápice de sua fraqueza. A aparente raiva que a fazia cerrar os punhos era na verdade sua enxaqueca espremendo sua cabeça como um mísero limão e seu coração e garganta queimando como o inferno. Estava prestes a desabar.
O outro assistia tudo com pesar. Queria abraça-la e tirá-la dali o quanto antes. Aquela garota não era sua doce e feliz Sanchez. Aquela garota estava rachada e perdida, todavia ele sentia que sua menina se escondia em algum lugar por trás daquela fachada perigosa, e ele ansiava salvá-la. Fora este sentimento que teve quando a abraçou, e que se manteve vivo dentro de si mesmo depois de ouvir suas palavras duras e a ver agir como alguém sem controle.
Sem saber o que fazer, e assustado com a situação, que apenas ele parecia estar presenciando enquanto os outros presentes nem sequer os olhavam, se aproximou dela mais uma vez e a puxou para mais um abraço.
soltou um grito. Não lutou para sair dos braços do mais velho, pois não tinha mais forças para tal. Apenas gritou tentando colocar pra fora tudo que a fazia tão mal através deste simples ato.
a segurou forte até que ela se acalmasse. Quando seu alarido caiu de tom e se transformou em pequenos gemidos que intercalavam com fungadas, ele se afastou para encará-la. Tentou tocar-lhe o rosto para enxugar as lágrimas finas que molhavam e avermelhavam sua pele, todavia a menina o respondeu com um empurrão em seu peito que o fez dar um passo para trás. Ela mesma enxugava seu choro agora.
— Eu te odeio – suas palavras se converteram em mais lágrimas, e sua voz soava dolorida e pequena.
Ela não havia conseguido manter-se forte a final, e aquilo á enfurecia intensamente.
— Eu queria entender o porquê disso, – o rapaz pediu pela primeira vez demonstrando sua total frustração.
— Vai embora.
— E-eu senti tanto sua falta, . – Tentou mais uma vez.
— Vai embora! – Ela exclamou dessa vez, correndo até o balcão de improviso que ainda estava ali e agarrando taças e garrafas de vidro para atirar nele.
Ele a assistiu jogar dois copos que passaram longe de seu corpo antes de colocar ambos os pés para fora do apartamento.
— Você está louca! – Alguém de dentro gritou para ela.
sentiu a necessidade de fechar a porta quando vizinhos vestidos apenas de pijama começavam se aglomerar nos corredores para ver o que estava acontecendo em plenas sete horas da manhã. Ele não conseguiu encará-los. Seu olhar caiu para seus pés e a saudade que antes sentia foi substituída pela mágoa, pela sensação de perda. Não podia mais ajuda-la a superar a dor como fizera em seus dias de adolescência, e isso o feria também.
Foi mais difícil deixar o lugar com a cabeça erguida do que jamais fora em qualquer outra situação.

September, 2001 – Staten Island, New York – USA.

Maxwell não conseguia tirar os olhos da menina, e esta por sua vez olhava ao seu redor com fascínio e curiosidade. Sempre andando perto um do outro, segurava parte do tecido da calça jeans frouxa do mais velho e se encolhia próxima á suas pernas longas todas as vezes que um estranho dava as caras.
Eles estavam caminhando pelo extenso jardim da casa dos no bairro nobre de Annadale. Á pedido de Maxwell, o chofer Ronald havia os deixado no portão invés de na porta de casa, apenas para que a pequena pudesse conhecer tudo.
O caminho que trilhavam não era extenso, mas também não era curto; era coberto de tijolos claros formando uma trilha que serpenteava entre as flores e a grama baixa até um banco branco e ornamentado que era romanticamente sombreado por uma árvore de copa larga e de um verde que coroava o gramado. Eles contornaram a árvore que ficava no meio de uma circunferência perfeita composta pela relva esverdeada que dividia a trilha de tijolos em dois.
Pararam para brincar com os cachorros que rolavam pelos cantos do jardim. agachada sob os joelhos, e Maxwell em pé apenas á observava.
— Ei! – Um garoto surgiu por detrás da grande árvore com um espécime de galho na mão. – Quem é v...
A menina se levantou e correu até Maxwell escondendo-se em suas pernas.
— Pai! – Ela ouviu a mesma voz gritar e no segundo seguinte o tal garoto estava próximo deles, e Maxwell o envolvera em um forte abraço. fez careta para cena.
— Hey! – Maxwell vibrou em meio ao abraço. – Como você está Kellan?
— Estou ótimo! Não sabia que o senhor chegava hoje! – O garoto dizia animado.
— Eu queria fazer uma surpresa – O outro explicou.
— E quem é essa aí? – O tal Kellan a apontou sem rodeios.
Maxwell a tirou detrás de suas pernas e a pôs ao seu lado. – Esta é , sua nova irmã.
Kellan arregalou os olhos surpreso. — Irmã?
— Sim. Este é Kellan, meu filho mais velho. – O mais velho se dirigiu a garota que se encolhia timidamente. – Diga ‘oi’. – pediu.
acenou com a mão arrancando um sorrisinho de Kellan que acenou de volta.
— Oi . – E então se voltou para o pai novamente – Mamãe não havia me falado nada sobre uma nova irmã.
— Isso é porque ela ainda não sabe. – Maxwell colocou o indicador sobre os lábios em sinal de que aquilo era um segredo.


Depois de contarem sobre a mais nova membra da família para todos da casa, seguiram á biblioteca. então conheceu Jennifer e , a mãe e esposa e o filho mais novo dos .
Maxwell apresentou á eles e então anunciou feliz da vida:
— Nossa nova filha! – correu até a esposa e beijou suas mãos. – Eu sei o quanto que você queria uma garotinha... – Ele desandou a falar.
Mas a pequena sequer prestava atenção em suas palavras. Seus olhos analisavam os de Jennifer que devolvia de forma confusa. Confusão esta que se converteu em irritação em poucos segundos. Enquanto seu marido falava animadamente as sobrancelhas de Jennifer se juntavam cada vez em sua testa, e com a mesma vincada, puxou as mãos que ele segurava e murmurou simplesmente:
— Não. – E deixou o cômodo.
Maxwell a seguiu com o semblante demonstrando o quão perdido estava com a reação da esposa, e naquela biblioteca sobraram apenas os dois: e .
Ela se sentiu desolada. Sentia, por mais que fosse pequena para entender, que havia chateado a mulher. Seus olhos se encheram de lágrimas quando notou que Maxwell á deixara sozinha, pela primeira vez desde que a resgatara do orfanato.
— Não precisa chorar – o menino sussurrou.
De onde estavam ambos conseguiam ouvir a discussão dos pais, sobre não aceitarem alguém estranho na casa sem ao menos conversarem antes. Fora a única parte que eles ouviram antes de Kellan surgir no corredor e fechar a porta da biblioteca.
— Por que ela está chorando? – O mais velho caminhou até o sofá onde estava sentado com um livro qualquer sob o colo, se remexeu um pouco ali e ergueu um controle que com alguns “clicks” liberou uma música alta.
— Hey ho, let's go! Hey ho, let's go! – Kellan gritou os primeiros versos do que mais tarde descobriria ser Blitzkrieg Bop dos Ramones. O garoto se pôs de pé no sofá e começou a pular — They're forming in straight line, they're going through a tight wind...
desatou a rir.
— Papai odeia essa música, Kellan – falou alto para que o outro escutasse.
O mais velho deu de ombros e apontando para o irmão cantou ainda mais alto — They're piling in the back seat. They're generating steam heat... – Fez alguns passinhos de dança ainda sob o sofá.
— Pulsating to the back beat. The blitzkrieg bop! – não se conteve, jogou o livro em cima da mesa de centro e acompanhou o irmão na cantoria. — Hey ho, let's go! – o mais novo também arriscou alguns passos de dança, o que fez sua dupla vocal cair na gargalhada.
— O que você está fazendo? – Kellan sentou-se no sofá com as mãos na barriga de tanto rir. – Pare , vai assustar a garota! – Apontou para a pequena que assistia á tudo com os olhinhos sobressaltados e molhados, e um dedinho na boca.
Com mais alguns “clicks” Kellan desligou a música de vez. E voltou a se jogar no sofá de antes.
— Vem cá. – Kellan a chamou com a mão e ela negou com a cabeça. – Vai buscar ela, .
— Eu não. Vai você. – Ele que ainda se recuperava da dança cutucou o irmão com o cotovelo.
O outro retribuiu, e assim entraram em uma pequena guerra que arrancou risadas de ambos. Quando se aproximou para cutucar Kellan mais uma vez se inclinando um pouco em sua direção, seu rival desviou e o empurrou de forma que ele caísse para fora do sofá.
Todos riram inclusive .
— Agora vai! – Kellan apontou a menina, mas quando a procurou com os olhos, ela já estava sentada na poltrona da sua mãe.
— Acho que ela sabe andar sozinha. – ironizou se acomodando no tapete mesmo.
— Hey! , certo? – a menina assentiu com a cabeça. – Quantos anos tem, ? – Kellan falava com uma doçura que provocou uma careta na face do irmão mais novo.
levantou quatro dedinhos de uma mão para ele. Ela ainda tinha o dedo da outra mão na boca, mas não o chupava como a maioria das crianças, estava mordendo a pontinha. Kellan de imediato reconheceu aquilo como nervosismo ou timidez. Edward Bechtel, um colega de sala de longa data também tinha essa mania que o fazia jurar que Ed seria capaz de engolir o dedo em uma apresentação importante.
— Uau! Como você é velha! – Tentou descontrair. – Bem, eu tenho doze anos. – Ele tentou mostrar nas mãos. – São dez. Mais dois. E tem nove. – Cutucou o mesmo para que ele mostrasse os dedos.
revirou os olhos e levantou nove dedos para a menina. Ela assentiu mais uma vez.
— Gostou da música que tocou? – Mais um balanço de cabeça em afirmação. – O não te assustou não, né? – Kellan riu quando levou um soquinho do outro no braço.
Antes que a menina pudesse responder, a porta se abriu abruptamente atraindo a atenção das três crianças.
— Já está na hora de dormir, garotos – Maxwell disse sério. Sua alegria de minutos atrás havia se esvaído completamente e ele ostentava o cansaço nos olhos.
Kellan e se levantaram dando boa noite para a e logo saíram deixando-os sozinhos na biblioteca.
— Venha . Já arrumei um lugar para você. – Sorriu dócil para ela que não pensou duas vezes antes de acompanhar seus passos para fora dali.


1. Clínica Oncológica da Liberdade : lugar de origem fictícia.

Capítulo 3 – Let's Blame Someone.


September, 2001 – Staten Island, New York – USA.

Estranhamente, Maxwell a guiou para a cozinha. Era espaçosa, e tudo que complementava o cômodo era de tons monótonos de branco ou preto. já havia passado por ali antes de subir para conhecer o andar de cima. Eles passaram por portas de vidro e de repente estavam fora da casa. Caminharam até uma casinha que fazia um conjunto com outras idênticas em tamanho, e estética. Essas “casinhas” ficavam depois do segundo jardim (o jardim detrás da casa), e da área das piscinas. Era um caminho duas vezes maior que o que fizeram naquela tarde pelo jardim da frente. Maxwell foi até a primeira porta e bateu duas vezes. Não conteve um suspiro quando a mulher dos cabelos alaranjados abriu a mesma curiosa.
— Boa noite, senhora Sanchez – coçou a nuca sem jeito.
A mulher riu. Chegava a ser contagiante a forma que ela inclinava o corpo e como seus olhos brilhavam enquanto parecia se divertir com a situação. Maxwell teria ficado ainda mais sem graça em outros casos, mas não foi o que aconteceu.
— Primeiramente, ainda gosto de utilizar o sobrenome de solteira. Senhorita Mahecha, por favor. – Brincou, e embora fosse costa-riquense e praticasse fluentemente o espanhol com seu mais novo marido, seu sotaque era suave. – E segundo, se quiser mesmo me agradar, Max – frisou o apelido do outro – Me chame apenas de Darla.
— Quantas vezes já discutimos isso mesmo? – Ele soltou um risinho.
Darla gargalhou outra vez.
— Acho que a mesma quantidade de vezes que o senhor precisava de um favor!
Maxwell sorriu de canto.
– Vamos! Diga-me o que trás o senhor e esta menininha encantadora aos meus aposentos de empregada? – pressionou as bochechas de , se referindo á ela com a voz melosa.
— Você já conheceu , certo? – Maxwell esperou pela resposta, mas bufou logo em seguida quando percebeu que a mulher tentava conter o riso, sem muito sucesso. – Você ouviu tudo o que Jennifer disse, não foi?
— Não chamarei a filha de um estranho de minha – imitou a patroa engrossando a voz. – Você deveria ter me avisado Maxwell! Se quiser decidir tudo sozinho, resolva sozinho! – após a encenação, Darla escorou—se no batente da porta e suspirou. – A patroa é osso duro de roer, apesar de que em parte concordo com ela. Não gostaria que meu marido tomasse decisões tão grandes sem meu consentimento. – Ela apontou o indicador como se o ensinasse.
— Eu iria trazê-la de qualquer maneira. – Deu de ombros e sorriu para .
A pequena sequer percebeu. Estava dedicada demais na tentativa de ver melhor o quarto da empregada por entre os espaços que o corpo pequeno da mesma não cobria.
— Quer entrar? – Darla se agachou para se dirigir á ela. assentiu com a cabeça e a mais velha segurou sua mão e a guiou até a cama onde as duas se sentaram.
O quarto não era grande, mas era uma graça na opinião de . Tinha vários bichinhos de pelúcia espalhados sob o guarda-roupa e a cama. Eram tantos que mal tinha espaço para as duas se acomodarem. As paredes eram branquinhas, como se houvessem sido pintadas recentemente, e o quarto era decorado com ornamentos simples, vermelhos ou marrons. Tinha uma porta ao lado da mesinha amarronzada de mesmo tom do guarda-roupa e que suportava um notebook e alguns papéis. Um barulho provinha de lá.
— Edgar está no banho. – Darla disse como se lesse os pensamentos da menina.
— Então... Pode cuidar dela? Somente até eu amansar Jenn, e tudo ficar bem. – Pediu com as mãos unidas em frente ao peito.
— Boa sorte para o senhor. – A mulher sorriu ainda fitando visualizar o quarto com olhinhos curiosos.
Maxwell adentrou o quarto e agachou-se ao pé da cama em frente á . Acariciou seu rosto pequeno e sorriu quando ela se inclinou para abraçá-lo.
— Você vai ficar aqui por um tempo, tudo bem?
A menina afirmou com a cabeça.
— Cuidarei bem dela. Fique tranquilo, Max! – Darla bateu no ombro do patrão com um tapinha.
Ambos não sabiam da onde surgira aquela aproximação entre eles. Entretanto, Maxwell considerava muito Darla e seu marido, e apostava que isso se dava ao fato de que os dois começaram muito cedo a trabalhar na casa, quando tinham apenas 13 e 17 anos. Foram simplesmente os primeiros subordinados dos desde que a família se mudara para os Estados Unidos.
Ele se despediu de Darla e com um beijo na testa antes de deixar o lugar com um “boa noite” sussurrado.
Naquela noite, conheceu Edgar Sanchez, o marido de Darla. Descobriu que eles tinham pouco mais de vinte anos, e que esta idade ela não conseguiria contar mais usando os dedos das mãos. Com isso, Edgar e Darla se divertiram ensinando a menina a contar com palitinhos coloridos até cem. E depois assistiram a um filme infantil sobre duas irmãs gêmeas que se conhecem na adolescência e tentam unir seus pais novamente, o qual Edgar havia alegado que sua irmã adorava. Dormiram sem que antes vissem os nomes correrem pela tela sob um fundo preto. estava entre o casal na cama que apesar de ter sido feita para um casal, não era tão espaçosa. Todos os ursinhos e bichinhos de pelúcia estavam no chão e apenas um deles estava entre os braços da menina quando tudo ficou escuro.


December, 2001 – Staten Island, New York – USA.

Era em datas como o Natal que percebia o quanto não se encaixava. Sentia-se a ovelha negra da família; um peixe fora d’água; um urso polar de férias na Califórnia! Não conseguia pensar em mais referências para a sua situação detestável, apenas concluía com este fato que definitivamente odiava o Natal.
Era a época onde ele tinha que falar, abraçar e presentear á todos enquanto ouvia-os fazendo críticas a qualquer átomo fora do lugar. Por que os pais o forçavam a participar daquilo? Por que não podia ser só ele, Kellan, Maxwell e Jennifer? Por que tinha que agradar parentes que ele só via uma vez no ano e que só sabiam criticar tudo e todos? Por que não podia discordar de nada do que diziam? Ah, pelo menos não tinha que passar por aquilo!
Oh . Esta estava com sua nova família, os Sanchez, em sua própria ceia. Simples e humilde, mas ainda sim melhor do que a em que ele estava. Sendo assim, ela ainda estava longe e não podia alegrá-lo com suas coisas de criança.
Sim, ele e Kellan se divertiam com a menina. Geralmente ela não falava nada e apenas ria ou mexia a cabeça afirmando ou discordando. Era engraçado como ele abusava de sua inocência ao fazê-la acreditar em mentirinhas como o ‘bicho-papão’ e em como Kellan a defendia, e no final eles acabavam em uma guerrinha de meninos em que sempre torcia por seu fiel defensor.
Não sabia dizer o quê aquela criança havia feito, todavia eles nunca se divertiram tantas vezes seguidas como passou a acontecer desde a chegada dela.
de certa forma se confortava com a ideia de Jennifer não ter aceitado adotar a menina. Pelo menos, ela não teria que passar pelo entediante e hipócrita Natal dos . Sem falar que ele adorava Darla e Edgar, e tinha certeza de que ela seria bem cuidada, apesar dos poucos recursos. Mas o que era dinheiro se comparado ao amor?
Além disso, não ser oficialmente irmã dele e de Kellan não fazia com que eles a vissem menos. Ela estava sempre andando pela casa, geralmente copiando os passos de Darla que corria pra lá e pra cá limpando e ajeitando as coisas em seus devidos lugares. E eles também iam para a escola juntos! Apesar de ela ser consideravelmente mais nova, os três sempre iam com Ronald até os colégios.
— Meia-noite! – Um primo dele exclamou e no mesmo momento todos começaram a se cumprimentar e desejar “Feliz Natal”.
Visivelmente deslocado, olhou ao redor nervoso. Seu pai o chamou com a mão. Ele seguiu até Maxwell correndo.
— Feliz Natal, filho. – Abraçou o menino pelos ombros e o guiou até a mesa da ceia.
apenas sorriu. Agradecia a Deus por seu pai entender o quanto ele odiava aquele tipo de coisa.
Não demorou muito e toda a família se reuniu á mesa. Todos os parentes presentes eram da família de seu pai, já que sua mãe era britânica e seus familiares encontravam-se na Inglaterra. A Medicina era como um bordão para os ; seus tios, primos e avós exerciam profissões médicas assim como seu pai, dessa forma, o assunto não poderia ser outro.
Dessa vez ele percebeu que não era o único que se sentia deslocado. Jennifer olhava inquieta para a mesa, e comia em silêncio. Ela era professora de inglês, e escrevia romances, é claro que ela não sabia o que era Linfadenomegalia!
— Que tal vermos os presentes, filho? – Perguntou para ele.
Terminaram o jantar e se retiraram da mesa sem mais delongas. Passaram a abrir os presentes, ele e sua mãe. Logo, Kellan e mais alguns primos chegaram e começaram a fazer o mesmo.
— O que você ganhou? – Sua mãe perguntara.
— Meias, um livro... – Ele dizia desanimado.
— Hey, bro! – Kellan o chamou ao mesmo tempo em que lhe tacou uma caixinha fina e transparente.
A caixinha caiu longe e Jennifer pegou para ele e o entregou.
— Um CD? – Questionou ela.
não precisou de mais nada. Abriu o maior sorriso e agradeceu ao irmão com um abraço.
— Sobrou um presente. – Alguém disse. – Está sem nome.
Curiosos cercaram a caixa de embalagem roxa com estrelinhas, mexendo-a pra lá e cá para ouvir o que tinha dentro.
— É minha! – Ele e Kellan gritaram de súbito e foram até seus primos que balançavam o presente.
— Ah sério? Vocês gostam de estrelinhas roxas? – Caçoou um deles.
— É pra nossa amiga. – Kellan explicou pegando o presente.
— Que amiga? – Outra voz.
— Vocês não conhecem. – explicou. – Vamos entregar para ela. – Chamou Kellan.
— Não. – Interferiu Jennifer. – Vocês vão ficar aqui e brincar com seus primos. Entregue o presente para a empregada quando ela vir tirar a bagunça!



O relógio já marcava quase três horas da manhã e a sala ainda estava repleta de gente. Kellan e quase dormiam em um dos sofás quando Maxwell os cutucou.
— Onde está o presente de ? – Perguntou em um sussurro.
— Debaixo da árvore. – Kellan respondeu sonolento ao contrário de que só de ouvir o nome da menina já havia despertado quase completamente.
— Eu vou pegar! – anunciou e pulou do sofá. Tomou cuidado para que sua mãe não o visse pegando o presente de volta.
Quando ele voltou, os três seguiram direto para o segundo jardim, lá encontraram Edgar que estava devidamente uniformizado para o trabalho. O mordomo os guiou até o quarto onde ele, a mulher e a filha viviam.
— Feliz Natal, garotos. – Desejou enquanto abria a porta de sua casa.
— Feliz Natal! – Os dois meninos disseram mais animados.
A porta se abriu e eles avistaram o quarto que era iluminado apenas pela televisão. O corpo de jazia sozinho na cama, já que provavelmente sua mãe também estava a trabalho.
Edgar suspirou. – Ela esperou por vocês a noite toda. Perguntava a cada cinco minutos. Eu e Darla custamos a deixá-la sozinha com tanta ansiedade.
Os meninos murcharam. Queriam tanto ter ido mais cedo visita-la. Era tão injusto eles terem que passar o Natal com pessoas de quem não gostavam e ainda deixar as que eles queriam por perto, esperando.
— Podemos acordá-la? – perguntou indeciso.
— Melhor não, garotos. – Foi Maxwell quem disse. – Já está tarde. E ela provavelmente fora dormir cansada. Apenas deixem o presente, e Edgar contará que vocês vieram.
Todos adentraram o quarto e deram beijos na menina desejando o tão previsível “Feliz Natal”. foi o último. Deu um beijo na bochecha farta e pálida de e deixou o presente de embalagem arroxeada perto dela.
— Desculpe por não ter vindo mais cedo, – Ele lamentou.
? – Ouviu a vozinha da menina chamar e tomou um susto. Ela não estava acordada, e nem acordara com aquele movimento todo em seu quarto. estava sonhando com ele.
— Eu prometo estar aqui das próximas vezes, . – Sorriu.


Sunday, 7:56 a.m – Staten Island, New York – USA.

Estava no piloto automático. Pegou um táxi de volta para Annadale e caminhou pelo primeiro jardim por minutos incontáveis. Era difícil assimilar tudo aquilo.
Sua . Sua garotinha.
De todos os sonhos bizarros que teve, a realidade vencera sem muito esforço. Entretanto para ele, aquilo ainda não parecia ser real. Não podia ser real. Como deixaram que tudo isso fosse acontecer? Quando ela caiu neste abismo em que ele não pôde perceber através de suas cartas? E o mais estranho e devastador de tudo, ele se questionava: Por que ela o afastou? Ela nunca o afastara. Afastara á todos, mas nunca ele. e tinham uma ligação especial, e desde sempre ele fora dela e ela era dele. O que havia acontecido? O que estava acontecendo?
Eram tantas perguntas que ele nem sabia se queria realmente as respostas ou se deveria gastar seus minutos rezando á Deus para que fosse apenas um sonho.
Adentrou a casa e seguiu automaticamente para onde as vozes soavam baixas. A sala de jantar. A bagunça que estava pela longa mesa no dia anterior fora substituída por comida matinal. Sua irmã e sua mãe estavam na mesa tomando café da manhã.
— Filho! Onde esteve? – Ouviu o tom preocupado de sua mãe, mas estava tão entorpecido em pensamentos que demorou segundos a mais para dar uma resposta.
— Fui ver . – Respondeu simplesmente.
A mãe desviou o olhar para a comida á sua frente. – E ela está bem?
forçou uma risada sarcástica, pois um bolo começou a se formar em sua garganta. – Bem? Como você tem coragem... Não! Como pode ser hipócrita á ponto de me perguntar isso? – Alterou-se. – Como eu não soube disso? Por que não me contaram sobre o que tinha acontecido com ela?
— Não pensamos que fosse lhe fazer bem se preocupar com problemas daqui. Aliás, foi por isso que você foi embora, não é? Para fugir dos problemas. – Jennifer respondeu com nítido rancor expresso na voz.
— Eu nunca entendi o porquê que a senhora implicava tanto com ela, mas nunca imaginei que seria capaz de fazer isso.
— Pera aí. O que eu fiz? – Perguntou confusa.
é uma boa garota. Ela não se envolvia com drogas...
— Isso era o que você sabia. – Jennifer interrompeu.
— ELA NÃO SE ENVOLVIA COM DROGAS! – vociferou, a raiva subindo por seu rosto o corando com um vermelho ardente. – Eu estava com ela a maior parte do tempo!
— Isso foi há quatro anos, .
— Em menos de um ano, na minha ausência, você a tirou daqui! Ela não tinha ninguém! Só a nós! Ela sempre teve somente a nós! – Lágrimas passaram a inundar seus olhos e o choro a embargar sua fala. – Ela sofria pela morte da mãe biológica e pela morte dos pais adotivos. Sofria por ter você e os empregados a tratando como lixo 24 horas por dia!
— Filho, eu... – Jennifer também não conteve as lágrimas, o que só irritou ainda mais.
— Não! merecia ser cuidada! Uma pessoa não se transforma no que ela se transformou sozinha, Jennifer. E você não a ajudou, somente contribuiu para o atual estado dela. Você tem culpa...!
— Ah! – Uma gargalhada estranha tomou conta do lugar, interrompendo . Todos procuraram com o olhar o dono da voz, e se depararam com Kellan ainda com as roupas do dia anterior, e uma garrafa de vidro na mão. Deploravelmente embriagado. — Culpa? – Riu mais um pouco. – Oh , . Você falando de é uma coisa linda de se ver... Agora, você falando de culpa é um pouco impertinente .
piscou algumas vezes tentando compreender aquela situação. Raiva e profunda frustração ainda o possuíam intensamente de forma que ele só desejava bater no irmão por tê-lo interrompido.
— Cale a boca – zombou. – Bêbado em plena manhã, realmente me surpreende ainda tentarem arrumar argumentos para defender o motivo pelo qual mandaram embora.
— Ela foi embora porque quis. – Kellan deu de ombros. – Ela odiava esta casa... Odiava todos nós! – Levantou os braços indicando a casa. – Menos você... – Ele esboçou um sorriso malicioso. — O queridinho dela, que mais tarde foi-se embora. Puff. Abandonou a pobre . E foi por isso que ela foi embora.
— Acha mesmo que vou acreditar neste papo de beb...
— Eu posso estar bêbado, . Mas sou sincero e certo ao dizer: Eu também amava . E senti tanta raiva de você. Tanta – Kellan atirou a garrafa de vidro longe. – raiva de você, maninho. Por tê-la machucado como machucou.
— E-eu não a machuquei.
— Você odiava isso aqui tanto quanto ela. E sabe o que você fez? É, foi pra o exército, pois lá não tem mamãe, papai e irmãos para te oprimirem. Mas se esqueceu de que ela iria continuar aqui sofrendo por ter mamãe e os empregados a tratando como lixo 24 horas por dia – repetiu as palavras de . – Você a abandonou. Egoísta como a própria frisou antes de ir embora. Você a machucou, . A culpa é sua, e você pode apostar que sabe disso.



Continua...



Nota da autora:
Primeiramente, obrigada á quem leu até aqui! Isso é realmente importante para nós. E aproveitando pra desejar um ótimo 2018 á todos vocês leitores e equipe do FFOBS!
Nossa primeira nota está sendo escrita apenas por uma das autoras (L. Abreu), e a explicação para tal é que o capítulo 3 foi terminado ás quatro e cinquenta da manhã de uma linda quarta-feira. UFA!
Além dos leitores (que são poucos ainda), gostaria de agradecer especialmente a Nicolle Por Deus que vem indicando a história e ajudando moralmente SNUFF á crescer! Obrigadíssima!
Sobre SNUFF, ela é a primeira história da L. Ramos, e nossa primeira parceria. NOSSA PRIMEIRISSIMA AQUI NO SITE. De todas as ideias que floresceram em nossa mente e que estão fazendo várias outras fanfics nascerem, SNUFF é com certeza nosso xodó, com o qual estamos trabalhando com mais amor e determinação e esperamos que todos venham curtir!
Desde já peço desculpas por erros ortográficos (como vírgulas em lugares estranhos), pois como eu disse estou enviando isso em uma linda madrugada onde estou caindo de sono aqui. MAS eu precisava enviar esta att ainda hoje pq eu não sei mais quando terei internet novamente.
Pessoalmente amei escrever o final do capítulo 2 e o capítulo 3! Espero que venham gostar tanto quanto eu! Comentários são sempre bem-vindos e eu tô sempre de olho aqui nele haha...Quero saber de tudo! Já me prolonguei demasiado, então aqui me despeço; até a próxima, anjinhos!
P.s:: A Nicolle é autora de “Questão de Tempo” localizada aqui no site mesmo. Pessoalmente amo a escrita dela, e QDT tá prometendo, apesar de ser curtinha igual á SNUFF, ela prometeu atts rápidas! Caso isso não seja verdade, eu puxo a orelha dela pelos leitores hehehe



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail. Para saber quando a fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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