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Última atualização: 18/09/2020

Prólogo

17 de maio de 1998.

encolheu-se mais embaixo da cama. Os gritos ecoavam pelo quarto de forma agoniante, ele sentia vontade de fazer alguma coisa, porém, as lágrimas rolavam de seus olhos inocentes e a calça de moletom quentinha jazia encharcada de urina tamanho era seu medo — era mesmo um covarde como seu pai costumava dizer quando o via chorar por ter ralado o joelho. Em um baque alto e perturbador, viu e ouviu o corpo esguio e bonito de sua tia cair diante de seu rosto. A mulher tinha os olhos abertos — que parecia encará-lo com pesar — e sua boca escorria sangue lentamente, como se estivesse mostrando-o o que ele havia deixado acontecer. Em questão de segundos, o corpo fora arrastado pelo chão, deixando um rastro grande e grosso de sangue por onde passava — e o olhar perdido e sem vida continuou a encará-lo até que sumisse pelo corredor.
secou as lágrimas e se arrastou pelo chão, saindo de debaixo da cama e ignorando o cheiro forte de sangue que dominava o ambiente. Com passos lentos e silenciosos, seguiu o longo rastro escarlate, ansiando por encontrar alguma forma de buscar por sua mãe sem fazer barulho e finalmente conseguir sair dali, já que sua tia Leslie, de apenas vinte anos, não tinha mais salvação.
Um grito de horror ecoou pelo corredor, fazendo-o pular e bater contra a parede, engolindo seu próprio gemido de dor e medo. Pensou em seguir o som ou ir diretamente para a sala, onde ficava o telefone fixo, mas paralisou por completo, urinando nas calças outra vez em puro desespero. À sua frente, parado e segurando pelos cabelos a cabeça de sua mãe, estava ele. O monstro que invadira sua casa. O assassino. O desgraçado que queria destruir sua vida.
A faca grande, afiada e grossa jazia na mão esquerda calejada e de dedos tortos. A lâmina brilhante pingava sangue, as gotas indo de encontro ao chão branco, manchando-o em poças pequenas.
O assassino sorriu para ele — os lábios grossos e vermelhos, os dentes amarelados e sujos. Lentamente, o homem pôs a língua para fora — essa manchada e cheia de marcas, provavelmente áspera e nojenta — e levou-a até à faca, lambendo-a por inteiro, provando do sangue de sua mãe — e provavelmente de sua tia também.
sentiu-se travar. Encharcou-se outra vez, ao mesmo tempo em que as lágrimas caíam de seus olhos. Quis gritar, avançar e bater naquele desgraçado que havia estragado sua vida, porém, o medo falava mais alto — suas pernas tremiam, bambas, e impediam-no de correr em qualquer direção que fosse; sua boca estava seca; o estômago doía e o enjoo era forte demais, tanto que quase não conseguia segurá-lo. Sua respiração estava acelerada, ofegante, e sua mente inocente não sabia o que fazer. Os olhos revirados de sua mãe pareciam penetrar sua alma. Os cabelos desgrenhados entre os dedos daquele assassino, o rosto pálido, os lábios roxos — aquela era a imagem que ele jamais conseguiria apagar de sua mente. Sua mãe era tão linda — tia Leslie tinha herdado sua beleza, eram muito parecidas. Os olhos cor de mel, claros, tão bonitos sob o sol. A boca sempre pintada de vermelho. Os cabelos sempre bem cuidados, penteados e no lugar, fio por fio. Sua mãe era tão linda. Tia Leslie era linda. Aquele homem, à sua frente, ainda deliciando-se com o sangue delas, havia lhe tirado o que mais amava... e parecia divertir-se com o desespero de suas lágrimas.
deu um passo para trás, sem ao menos perceber que estava começando a se mover. Ao mesmo tempo, o assassino deu um para frente. E outro, e outro, e outro. Quando se deu conta, já corria pelo corredor, voltando para o quarto de onde não deveria ter saído. Fechou a porta atrás de si com pressa, não encontrando a chave para trancá-la. Não se atentou a isso, entretanto, logo pondo-se a correr em direção a janela do outro lado do cômodo. Abriu-a com pressa, no instante exato em que a porta escancarou e bateu contra a parede. O assassino ainda tinha a cabeça de sua mãe e a faca suja nas mãos, mas não parou de correr atrás do pequeno .
O garotinho, assustado e choroso, jogou-se através da janela aberta e não se importou com a queda — qualquer coisa era melhor que continuar dividindo a casa com aquele homem horrível. Antes de encontrar-se com o chão duro do andar debaixo, sentiu-se ser agarrado pela mão áspera do assassino, mas não se deixou abater nem mesmo ao perceber que sua camisa estava rasgada. Empurrou-se para frente com força, sacudindo os braços e gritando até que conseguisse soltar-se daquela mão imunda.
Em segundos, foi de encontro ao chão, caindo torto e sobre o pé, torcendo-o com o impacto. Ainda assim, com dor, sujo e desesperado, o garoto correu, mancando, rua afora, implorando mentalmente para que alguém o encontrasse.
Como se uma divindade ouvisse suas preces, uma viatura surgiu diante de seus olhos, no fim da esquina, e foi até ela com pressa, ignorando o tornozelo possivelmente quebrado. Para sua sorte, como se o destino quisesse recompensá-lo por suas perdas, seu tio Mike estava ali, parado, fumando um cigarro e rindo com os amigos.
— Tio Mike! — Gritou a plenos pulmões, atraindo a atenção dos adultos. O desespero ficou explícito nos olhos de Mike, que logo pôs-se a correr em direção ao sobrinho, pegando-o no colo de imediato. — A mamãe e a tia Leslie estão mortas!

E como um baque, acordou assustado, erguendo-se sobre a cama e sentindo o suor grudar em todo seu corpo, fazendo com que seus cabelos longos enrolassem ao redor de seu pescoço.
O pesadelo, mais uma vez. Olhou para o relógio digital ao lado de sua cama e suspirou.

06h45.
17 de Maio de 2020.


1. Boas-Vindas

Tornar-se um agente recrutado pela MI6 ainda parecia um sonho para . Quando criança, ele imaginava-se vestindo ternos caros e fazendo serviços secretos e mirabolantes em prol da sociedade inglesa. A agência de inteligência foi seu foco durante toda a vida, sobretudo quando completou dezoito anos e finalmente pôde ter o prazer de viver uma vida normal quando foi admitido para cursar Direito na universidade de Oxford.
Logo após finalizar o ensino médio, conseguiu convencer seu tio que já era hora de voltar para casa, mesmo que, de fato, não fosse. O mais velho, porém, ainda era relutante quanto àquela decisão. Estavam há pouco tempo longe de casa, precisavam esconder-se mais — de preferência até o momento em que aquele maldito assassino estivesse morto ou preso; o que não era o caso, Mike ainda recebia relatórios anuais de Londres a respeito dele —, era o que sempre dizia ao sobrinho ansioso. O garoto, contudo, sempre o respondia que já estava pronto para voltar à Inglaterra, não aguentava mais viver nos confins da Nova Zelândia e que todo aquele caso já deveria ter sido esquecido. Entendia a preocupação do tio acerca de suas vidas, principalmente tendo o histórico que tinham e, é claro, o acordo feito com a própria MI6 — onde seu tio trabalhou por longos anos e fora “enterrado com honras” quando precisaram partir às pressas.
Ainda assim, com protestos e recomendações infinitas, retornaram ao seu país de origem para que pudesse cursar a graduação dos sonhos na universidade dos sonhos.
formou-se em Direito com honras e sendo considerado um aluno de excelência, recebeu propostas de emprego incríveis, mas, mesmo sob os protestos e argumentos sensatos do tio, recusou um a um com uma educação pomposa e que fazia seus professores suspirarem em pura tristeza. Logo após a formatura, inscreveu-se no concurso para ingressar a Interpol, sabendo que teria grandes condições dado o seu currículo exemplar. Além da graduação em Direito, havia feito inúmeros cursos livres relacionados à área, sem contar seu estágio ao lado de um dos maiores promotores da cidade. O rapaz tinha feito os contatos certos, havia chegado sorrateiramente entre os grandes da cidade e da universidade, sabendo exatamente com quem e como falar. Mesmo assim, levou certo tempo até conseguir entrar na agência. Fora recusado no primeiro concurso, então decidiu que trabalharia na área de criminologia até que conseguisse o que queria.
Sua vida não havia sido fácil no período de tentativas, embora tivesse, sim, um certo privilégio devido à sua escolaridade e ao currículo excelente. ainda precisou advogar, defender um punhado de bandidos, mostrar seu valor e aceitar um cargo baixo e que não pagava tão bem assim na Interpol quando foi aprovado na terceira tentativa do concurso — na primeira, não havia sido aprovado por ser um recém-formado, e na segunda ficou a uma vaga de distância do tão sonhado emprego; uma mulher havia tirado dois pontos a mais, sendo assim, aprovada, e ele descartado. Agora, alguns poucos anos depois, no auge dos 32, finalmente conseguiu a tão aclamada promoção e transferência para o MI6.
não sabia há quanto tempo estava parado em frente ao prédio grande e antigo, admirando-o e sentindo o coração palpitar. O estômago revirava em ansiedade e as mãos suavam levemente. Ainda assim, por fora, ele parecia pleno, analista e curioso. Sem pensar muito mais, atravessou a rua e adentrou a recepção, sendo olhado de soslaio por metade dos funcionários que rondavam o local. Não se preocupou com aquilo; sabia que fazia o perfil das pessoas que passeavam por ali diariamente. A roupa social, cara e muitíssimo bem passada, caía bem em seu corpo esguio e grande, os cabelos longos estavam presos em um rabo de cavalo alto e a barba grande e grossa cobria-lhe metade do rosto, deixando-o um ar sério e ameaçador, já a pele acobreada, claramente um tom de bronze causado pelo sol, fazia-o parecer que não era natural do país — o que era bom para ele, já que ninguém além de seus chefes deveriam saber sua verdadeira nacionalidade.
parou no balcão principal do local, atraindo a atenção do recepcionista rapidamente. O rapaz, que parecia ser pouca coisa mais novo, o encarou com curiosidade e, com a voz cuidadosa, perguntou:
— Bom dia. Em que posso ajudá-lo, senhor?
— Bom dia… — respondeu, tentando ler o crachá pendurado no peito do rapaz. — Kyle. Estou aqui para falar com a Sra. Slander, meu nome é . Ela está a minha espera.
Kyle assentiu positivamente, mas, ainda assim, puxou o telefone do gancho e discou os números rapidamente. Após alguns segundos de conversa, o rapaz desligou o aparelho e encarou .
— Só um instante, Sr. , a assistente da Sra. Slander está vindo ao seu encontro para guiá-lo pela agência. Seja muito bem-vindo.
— Obrigado, Kyle — respondeu num tom de voz baixo e calmo, lançando um sorriso pequeno e simpático para o rapaz.
ficou ali por alguns segundos, apenas olhando ao redor e analisando a decoração simples e comum do local; chegou à conclusão de que seu novo lar era belíssimo, possuía muita classe e referências históricas. O elevador, à sua direita, abriu-se e atraiu sua atenção ao revelar uma mulher alta e corpulenta, como uma fisiculturista. Ela tinha basicamente sua altura — e ele era alto; realmente alto —, sua pele era negra e reluzente, bonita e aparentemente macia, os cabelos eram cacheados e armados no topo de sua cabeça, extremamente escuros e bonitos; os olhos pareciam mortais, num tom escuro de castanho, como se tentasse hipnotizá-lo a todo tempo.
— Sr. ? — A mulher perguntou, tirando-o de seu devaneio, estendendo-lhe a mão em um cumprimento formal.
— Sou eu — respondeu e segurou-a pela mão com firmeza e cuidado, sentindo a maciez como ele já esperava. — Você é a assistente da Sra. Slander, creio eu.
— Podemos dizer que sim — a mulher respondeu e indicou o elevador, para que ele entrasse. Assim que as portas de metal se fecharam diante dos dois, a mulher se virou para . — Eu sou a agente e serei responsável pela sua adaptação aqui na MI6.
‘É claro’, pensou. Não seria tão simples entrar naquela agência, e obviamente seria vigiado por alguém de confiança da atual diretora geral do local.
— É um prazer conhecê-la, agente .
— O prazer é meu, agente respondeu no momento em que as portas se abriram. — Seja bem-vindo à MI6.
deu um sorriso pequeno e um tanto quanto tímido para a mulher ao seu lado. Ela, no entanto, não disse mais nada, apenas continuou andando e guiando-o até uma enorme sala de portas e paredes de vidro. Era possível enxergar uma mulher baixinha e de cabelos brancos no interior da sala, ela parecia centrada demais em uma pilha de papéis.
sequer bateu à porta, abrindo-a rapidamente e deixando um espaço para que passasse. Ao adentrarem o cômodo, a mulher não se deu ao trabalho de encará-los de imediato, continuando suas atividades normalmente, enquanto eles continuavam de pé à sua frente.
— Bom dia, Sr. — a voz rouca e baixa da mulher cortou a sala, e ela finalmente se levantou para cumprimentá-lo. Ela tinha cabelos incrivelmente lisos e os olhos levemente puxados, deixando claro a descendência asiática. — Espero que a agente tenha lhe recebido bem.
— Bom dia, Sra. Slander — cumprimentou-a de volta, ignorando o fato de que era medido dos pés à cabeça. — A agente foi ótima.
— Bom, é realmente bom que vocês se deem bem — Sra. Slander murmurou, deixando claro o fortíssimo sotaque britânico que carregava. — Creio que passarão longos momentos juntos nesta sua primeira semana.
— Não sabia que aqui o trabalho era dividido por parcerias — comentou, atraindo a atenção da senhora que lhe lançou um sorriso irônico.
Não é — Slander deu de ombros, apoiando-se em sua mesa em seguida. — Você será vigiado e testado durante os primeiros dias, é um procedimento padrão — respondeu, por fim, a pergunta muda de . — Os testes que fez foram apenas para… mostrar-nos que é capaz de aguentar o que fazemos por aqui. Queremos ver se é real, se vale a pena investir em você ou se devemos enviá-lo de volta para a Interpol.
engoliu um suspiro cansado — detestava ter de submeter-se àqueles testes insanos, eram coisas desnecessárias e que raramente usava em campo. Tudo o que queria, naquele momento, era pegar um caso, resolvê-lo e voltar. Entretanto, percebeu que aquilo demoraria um pouco para acontecer quando notou que a Sra. Slander se encaminhou para o fundo da sala, onde havia uma porta estreita. A senhora destrancou-a com tranquilidade, e permaneceu em silêncio e impassível. soube que era para caminhar até o outro lado da porta quando Slander deixou-a escancarada para ele.
O choque foi inevitável. sempre ouviu que a sede da MI6 era cheia de segredos e saídas secretas, porém, não esperava haver uma espécie de centro de treinamento atrás da sala da chefe principal. Ele atravessou para o outro lado e percebeu que andava atrás de si, pronta para fechar a porta logo que tivesse a permissão da Sra. Slander, que apenas piscou um dos olhos para como se o desejasse sorte.
Devagar, os agentes desceram os poucos degraus que haviam sob a porta e seguiram. admirava os detalhes espalhados, tais como alvos em todos os cantos, armas colocadas em lugares estratégicos, cordas grossas penduradas no teto, sacos de pancadas… uma variedade enorme de apetrechos e obstáculos. Ali, teve certeza de que passaria a semana inteira mostrando suas habilidades e sendo avaliado sem a menor previsão de quando começaria os trabalhos de fato.
— Você pode se trocar ali atrás, há um vestiário e uma muda de roupas especial para o treinamento — explicou ao parar ao seu lado, após darem uma volta inteira pelo local. — Quanto mais rápido começarmos, mais rápido terminaremos. Tenho que partir para uma missão ainda hoje, então… — deixou no ar.
a encarou nos olhos por alguns segundos, sentindo-se intimidado pela aura que eles possuíam; o tom daquela íris ainda o deixava tonto e sem palavras.
— Você vai entrar em missão? — Repetiu. — Não era você a minha “responsável”? — fez aspas com os dedos, finalmente jogando sua dúvida no ar.
sorriu.
— Minhas missões duram, em média, doze horas, novato.
— São tão simples assim? — provocou, fazendo com que soltasse uma risada divertida.
— Você nem imagina o quanto — respondeu, por fim. — Agora, por favor, vá se trocar. Quero ver se suas habilidades são páreas para mim.
se sentiu desafiado ao ouvir aquilo. podia ser alta e forte assim como ele, mas, insinuar que ele não tinha habilidades boas o suficiente? Era um agente de campo, tinha vivido toda sua vida pós-tribunais nas ruas, correndo atrás de bandidos e prendendo-os com maestria. Havia passado em todos os testes iniciais da MI6, era forte, resistente, não sentia medo de quase nada, pulava da altura que fosse necessário… era óbvio que ele era páreo para ela, do contrário, não estaria ali. Poderia não ser melhor, já que tinha a aura superior e o olhar naturalmente desafiador, mas, bem, ele poderia, sim, encará-la de igual para igual — era um homem habilidoso, no fim das contas. Por fim, seguiu até o vestiário e fez o que lhe fora ordenado.
Quando voltou ao local de treinamento, já tinha os cabelos presos em um coque alto onde seus cachos ficavam presos firmemente e uma arma de pequeno porte nas mãos habilidosas. perguntou-se se deveria fazer o mesmo, porém, não teve tempo de concluir seus pensamentos — uma chuva de balas voou em sua direção, fazendo-o pensar rápido e jogar-se no chão, arrastando-se em direção a algum obstáculo. parecia não temer nem hesitar conforme puxava o gatilho, mostrando que era boa de mira toda vez que uma bala raspava por entre os fios de cabelos de , que jazia arrastando-se de canto em canto em busca de uma solução rápida e que o fizesse escapar ileso daquela chuva de tiros.
O primeiro cartucho de acabou e, calmamente, ela tirou o ‘pente’ vazio da arma e puxou outro do cós da calça. Esse foi o momento perfeito para levantar-se e correr rapidamente em direção a qualquer arma que pudesse se defender — não arriscaria ficar tão próximo de naquele momento, onde ela tinha nas mãos uma arma recém carregada.
E foi ali, encarando-a de longe enquanto ela sustentava um sorriso de escárnio nos lábios grossos, que entendeu por que suas missões duravam apenas doze horas — e também entendeu que não era nem um pouco páreo para ela ainda.

÷

terminou de prender os cabelos em um rabo de cavalo alto e encarou-se no espelho uma última vez. Até que estava apresentável depois da surra que levou de . Aquela mulher era incrivelmente forte, esperta e ligeira; o que o deixou completamente zonzo no primeiro momento de treinamento. Após o episódio dos tiros repentinos, partiram para a briga corpo a corpo, e mostrou-se tão forte quanto ele — se não mais, em determinados momentos. Por um segundo, sentiu-se humilhado porque sabia que estava sendo assistido pela Sra. Slander e algumas outras pessoas através dos vidros colocados estrategicamente ao redor — não que ele pudesse vê-los, porque não podia, mas tinha certeza que existiam; do contrário, aquele campo de treinamento não ficaria nos fundos da sala de Slander. Contudo, o sentimento de humilhação passou tão rápido quanto veio, mostrando-o que estava mais encantado e admirado do que qualquer outra coisa. Percebeu, então, que era a pessoa perfeita para ser sua guia naquele lugar; adoraria trabalhar e treinar com ela outras vezes.
saiu do banheiro ajustando a manga do terno e aproveitando para ver a hora no relógio de luxo que usava no pulso. Já passava do horário de almoço e ele sequer havia percebido, de repente sentindo-se faminto. Ainda assim, ignorou suas necessidades e encaminhou-se até à sala da Sra. Slander outra vez, encontrando-a novamente entre papéis e computadores em uma pesquisa acirrada.
— Com licença, Sra. Slander — murmurou educado, fechando a porta atrás de si.
— Agente , você foi recrutado para uma missão — Sra. Slander disse alto, sem tirar a atenção dos papéis sobre a mesa. — Passe na sala ao lado e pegue o kit que foi preparado especialmente para você. É seu último teste para mostrar-nos seu valor; espero que não falhe. Seria terrível ter de transferi-lo outra vez.
— Falhar não faz parte da minha vida, Sra. Slander — rebateu firme, convicto de que lidaria bem com qualquer missão que fosse.
— Você tem oito horas para realizar a missão a partir do momento em que pegar o kit — Slander explicou calmamente, encarando-o nos olhos. — Preciso que seja muito mais rápido do que foi no treinamento com a agente . Se correr ou se esquivar naquela velocidade na missão que lhe foi dada, não terá sequer tempo de raciocinar para voltar até aqui e entregar seu relatório.
— Irei cumprir minha missão, seja ela qual for, Sra. Slander.
— Eu espero que sim, não quero me arrepender de ter escolhido você e não o outro candidato.
apenas assentiu, agradecido. No entanto, algo no tom de voz e no olhar da Sra. Slander deixava-o desconfiado. Ela sempre o analisava demais, medindo seus traços nos últimos detalhes, como se o conhecesse de algum lugar. Parecia, também, pegar mais em seu pé no que de outros agentes — sabia que tinham entrado outros, ele havia sido o último escolhido, mas, mesmo assim, não havia visto ninguém além dele participando dos treinamentos e encontros esporádicos com Slander.
— Posso lhe fazer uma pergunta, Sra. Slander?
— Claro que sim. À vontade.
— Nós nos conhecemos de algum lugar? — perguntou de uma só vez, jogando verde. Não era como se fosse enganar a mulher responsável pelo maior centro de inteligência e espionagem que existia na cidade de Londres, mas, não custava a tentativa.
— Acredito que não, Sr. . Por quê?
— Nada, apenas tive a impressão. A senhora não me é estranha.
— Não sou estranha para ninguém, rapaz — a senhora sorriu. — Apareço na televisão muitas vezes para dar coletivas desde que assumi a frente da agência. Mas, se me permite dar uma opinião pessoal, eu preferia a época em que éramos invisíveis e ninguém sabia quem estava por trás da MI6. Burocracias midiáticas não são meu forte.
deu uma risada fraca, sabendo que a mulher se referia ao primeiro discurso público feito por um diretor da MI6, no fim de 2010. De fato, não fazia o menor sentido já que acabavam sendo alvo de bandidos e terroristas mais do que o normal. Não era muito inteligente deixar-se à mostra em todos os canais televisivos, ainda mais no auge da internet e toda a sujeira que ronda a rede.
— Sendo assim, nos encontramos dentro de oito horas, Sra. Slander.
— Boa sorte, Sr. .
assentiu tranquilo, mas não ignorando o tom misterioso da mulher ao lhe desejar sorte. Algo não estava certo com ela, tinha certeza, porém, seria melhor se apenas ficasse quieto e deixasse tudo como estava. Ao menos naquele momento. Afinal, tinha uma missão para realizar com sucesso e mostrar seu valor dentro da agência. Só assim, sendo excelente, que conseguiria atingir seu real objetivo naquele lugar.
Por fim, retirou-se da sala e seguiu até à porta ao lado. Deu duas batidas, mas não recebeu nenhuma resposta. Tentou mais uma, duas, cinco vezes. Pensou que talvez aquela sala fosse de acesso livre para os agentes, então, abriu a porta e adentrou o cômodo devagar. O local era tão espaçado e bonito quanto à sala da Sra. Slander, com a diferença que não era todo feito de vidro. Havia uma mesa grande repleta de papéis bagunçados, um computador ligado e uma xícara de chá fumegante, onde a fumaça saía lentamente, convidando quem quer que fosse seu dono para um gole relaxante.
estranhou a situação. A sala era claramente habitada por alguém, o que o fez chegar à conclusão de que alguém deveria atendê-lo. Desconfiado, levou a mão direita até o cós da calça social que vestia e pegou sua tão amada pistola, que estava sempre presa ao seu corpo de alguma forma. Aproximou-se da mesa com cuidado, observando ao redor em busca de algum indício de invasão. Contudo, sentiu-se escorregar levemente ao pisar em alguma coisa; pensou ser um papel ou um bocado de chá, então olhou para baixo com cuidado, mantendo a atenção ao redor. Encontrou, por fim, uma poça de sangue manchando a sola e a ponta de seu sapato. Engoliu a seco e vasculhou a sala em silêncio, olhando atrás das estantes repletas de livro, a porta anexada à parede tal qual a da Sra. Slander e não havia pista alguma; nenhum sinal de arrombamento, invasão ou qualquer coisa que fosse. Por fim, seguiu até o outro lado da mesa, encontrando o corpo de um homem alto jogado ao chão. Apenas isso, o corpo, dos ombros para baixo. Não fazia ideia de quem poderia ser aquele homem, mas fora degolado com devoção e cuidado. O cenário estava incrivelmente limpo, a não ser pela poça de sangue que saía do local onde deveria estar a cabeça do rapaz e escorria pela sala em um rastro grosso e medonho.
engoliu a seco e respirou fundo, tentando não deixar que memórias lhe invadissem a mente. Perguntou-se, ali, se aquela não era sua missão; desvendar aquele possível homicídio em oito horas; ou se aquele homem quem seria o responsável por lhe passar os detalhes que precisava. Ainda com a boca seca e confuso, permitiu-se caminhar ao redor do corpo, tentando não tocar ou pisar em nada, e encontrou um envelope branco de médio porte entre os dedos do cadáver. Abaixou-se com cuidado, guardando a arma novamente no cós da calça, e retirou um lenço branco e delicado do bolso do terno, usando-o para pegar o envelope com cuidado. Abriu-o com as pontas dos dedos, visando não danificá-lo ou sujá-lo de alguma forma já que se tratava de uma prova importantíssima. O conteúdo do envelope o surpreendeu mais uma vez naquele dia e o fez empalidecer. O ar parecia rarefeito e o desespero lhe deixou tonto. Por pouco, não caiu estatelado ao lado do corpo, apoiando-se rapidamente na parede mais próxima.

“Vejo que finalmente conseguiu realizar seu sonho de fazer parte do MI6, meus parabéns, ! Entretanto, preciso que saiba: eu nunca o perdi de vista, sempre o acompanhei, conheço sua rotina, sua vida, seu disfarce. Já teve coragem de contar aos seus novos companheiros de trabalho quem realmente é? Se eu fosse você, o faria. Manter segredo não resolverá nossos problemas, pequeno . Irei aonde você for. Agora, lhe deixo este presente de boas-vindas, para que você seja capaz de mostrar seu valor à sua nova chefe — a missão que lhe prepararam não era o suficiente para seu conhecimento e habilidade. Esta, porém, sei que é, porque você busca por mim desde muito novo. Sinto lhe informar, meu bem, que serei encontrado apenas quando eu quiser. Sendo assim, deixo-lhe este homem sem cabeça. Sua missão, agora, é descobrir o porquê e quem ele é. 1, 2, 3… valendo!

Com carinho e uma imensa saudade,
seu amigo de longa data,
J.L.”


2. Uma Chance

não conseguiu pregar o olho por um segundo sequer. Às seis da manhã já estava de pé e arrumado, pronto para seguir até à MI6 outra vez. Sua missão do dia anterior havia sido repassada para outra pessoa, fazendo com que ele e Slander pensassem sobre como resolver o caso do agente morto sob suas vistas em plena luz do dia. O primeiro passo foi fazer o acontecimento ficar longe da mídia, já que a inteligência não estava em uma boa fase — muitos casos em aberto e sem repostas, cybercrimes acontecendo quase todos os dias, mortes desenfreadas ao redor do Reino Unido e nenhuma autoridade estava sendo capaz de controlar o caos —, um cenário muito diferente do comum por ali, já que os escândalos dos últimos anos envolviam apenas política e um ou outro caso de algum atentado devidamente prevenido.
Na noite anterior, quando chegou em casa, onde ainda dividia com seu tio — recusavam-se viver separados dadas às circunstâncias — e narrou-o os acontecimentos, além de mostrar uma foto do bilhete direcionado a ele, Jasper, como seu tio era chamado agora, suspirou e confirmou que aquela era a letra dele sem nem precisar olhar para o bilhete outra vez. O mais velho havia acompanhado os primeiros meses de investigação em solo londrino e, depois, passou a receber tudo através do correio e pôde comparar as cópias de bilhetes e afins; tinha memorizado até a curvatura de cada letra de James.
— Seu disfarce está comprometido — Jasper murmurou. — Ficamos muitos anos aqui, o tempo que passamos na Nova Zelândia não foi o suficiente… Era isso que eu temia todo esse tempo, filho.
— A diferença é que agora sei me defender, tio — o encarou. — Nós ficaremos bem, não vou deixar que nada lhe aconteça.
— Não temo por mim, — Jasper o segurou pelas mãos e suspirou. — Naquela época, eu também sabia me defender. Sei até hoje. Mas, ainda assim, tivemos que sumir do mapa. Temo termos de fazer isso outra vez, agora que sua vida já está encaminhada e seus sonhos sendo realizados.
— Não viveremos sob temores, tio, deixe-o achar que está no controle. Somos mais espertos. Tenho meus contatos, darei um jeito de…
— De o quê? Confrontá-lo? Jamais lhe deixaria fazer tamanha estupidez. Deixe-o vir até você e crie um elo de confiança com os agentes que já conhece, mostre-se capaz de resolver este caso e jamais, sob hipótese alguma, diga quem realmente é. Eles descobrirão eventualmente, devem estar virando sua vida do avesso nesse momento, mas não abra a boca.
— Os documentos não desapareceram para sempre?
— Nada desaparece para sempre da MI6, filho. Mas, para sua sorte, a pessoa que me ajudou em todo nosso processo de desaparecimento ainda está viva e pode nos ajudar de novo se precisarmos.
agarrou-se àquelas palavras do tio. Não queria demonstrar e jamais iria, de fato, mas estava apavorado. Ainda não sabia lidar com tudo o que aquela história lhe causava, as imagens dos corpos nunca saíram de sua cabeça, mesmo tendo visto tantos outros ao longo da carreira e tendo intensas sessões de terapia. Nada seria capaz de tirar de suas memórias o jeito que sua mãe e sua tia ficaram. No entanto, não se lembrava muito das feições do assassino; apenas da língua machucada, os dentes sujos e a forma firme que ele segurava a faca. Não lembrava se tinha cabelos longos ou não, a cor dos olhos, o formato do rosto… Era um borrão. O sorriso, no entanto, lhe atormentava todas as noites e fazia com que tivesse pesadelos terríveis. Até que, ao entrar para a Interpol, conseguiu dar rosto ao sorriso medonho. Em uma das missões, teve acesso à lista e arquivos dos homens mais procurados na Inglaterra nos últimos 25 anos, e o maldito estava lá, encabeçando a lista.
Ignorando os pensamentos e as lembranças conturbadas, virou o último gole de seu café quente e sem açúcar. Arrumou os últimos detalhes que precisava, pegou sua tão amada glock e saiu de casa — não sem antes conferir se estava tudo bem com o tio no quarto no fim do corredor do primeiro andar.
O caminho até à MI6 não foi muito demorado, ainda era cedo e a cidade não estava totalmente acordada, portanto, o trânsito não lhe fora um problema. Guardou o carro no estacionamento subterrâneo da agência e dirigiu-se ao terceiro andar do prédio, onde a Sra. Slander já o aguardava ansiosa.
— Sra. Slander, agente cumprimentou-as com educação, cortês.
— Bom dia, agente — Slander o respondeu, encarando-o de cima à baixo. — Como foi sua primeira noite como agente da MI6?
deu um sorriso mínimo e abriu o botão do terno para sentar-se à frente das duas mulheres.
— Uma noite e tanto, devo dizer. Mas, apesar de tudo, tranquila. Temos alguma novidade sobre o ocorrido de ontem?
— Hum… — Sra. Slander murmurou, ainda encarando-o desconfiada. — Antes, tenho uma pergunta para lhe fazer, agente.
— À vontade.
— Por que nós não conseguimos encontrar nada sobre seu passado? — Sra. Slander perguntou direta.
— Como assim? Todo meu passado está explícito em meu currículo e nos documentos que sei que possuem sobre mim desde minha volta para a Inglaterra — respondeu tranquilo, num tom tão convincente que seu tio ficaria orgulhoso.
— Não é possível que um homem como o senhor, que sempre viveu lidando com criminalidade e, agora, está aqui na MI6 ter um passado tão limpo — Slander deu de ombros. — Todos nós temos algo para nos envergonhar ou sujar a ficha.
— Bom… Eu, não — respondeu impassível, sustentando o olhar que lhe era jogado. — Sinto muito por decepcioná-los neste quesito. É a única coisa que faz eu não me igualar ao resto de vocês? Não ter uma sujeira na ficha?
— Na verdade… — a agente tomou a fala. — O que nos diferencia é que você sabe esconder o que quer esconder. Não faz sentido algum você, com um passado tão limpo e perfeito, atrair a atenção de um assassino… Ainda mais do porte deste.
— E qual seria o porte deste assassino, agente ? — perguntou, encarando-a nos olhos.
— Ele é um velho conhecido da inteligência. Você deve saber muito bem quem é, já que ele está no TOP 5 de mais procurados pela Interpol, sua antiga casa.
— Bom, eu só vou saber isso se vocês me disserem o nome do sujeito.
— James Langdon — Sra. Slander murmurou. — Em sua ficha diz que você quase o pegou há alguns meses atrás.
— Ah. Este homem — riu em um escárnio disfarçado. — Realmente lembro de ter seu nome na lista, mas nunca cheguei a procurá-lo, de fato. Foi apenas uma coincidência encontrá-lo em um momento em que eu não estava trabalhando. Ainda assim, o persegui e quase o peguei.
E só ali, enquanto era interrogado de maneira sutil, que percebeu que nunca estivera livre de James Langdon. Sabia seu nome desde o início e que deveria pegá-lo em algum momento, porém, não pensou que tinha sido reconhecido no episódio em que correu atrás dele em uma noite fria de inverno. A neve sob seus pés o atrasou na corrida, não permitindo que chegasse a James antes dele alcançar o carro em que lhe ajudou na fuga. lembrava de ter ficado muito frustrado com a situação, e lembrava, também, de ter escondido do tio que sabia tanto sobre o outro — e não era como o próprio Jasper não o procurasse também; nunca superou, nem iria, a morte das irmãs.
— Um homem como você jamais deixaria um homem como ele fugir — murmurou. — Não sei se devemos acreditar em você, agente . Um único dia aqui na MI6 e você conseguiu nos virar de cabeça para baixo.
— Estava nevando. Se consegue correr na neve sem escorregar, lhe dou meus mais sinceros parabéns, agente , você realmente é incrível e experiente — respondeu à altura. — Não me responsabilize por um assassinato. Não sou o bandido que vocês procuram, e não consigo entender o motivo de estar sendo interrogado ao invés de estar ajudando nas investigações que sei que estão acontecendo por debaixo dos panos. O bilhete direcionado a mim não me torna um assassino.
— Não estamos interrogando você — Sra. Slander se defendeu.
— Claro que não, estamos tendo uma conversa amigável e informal sobre um crime que aconteceu sob as dependências da MI6 ontem — rebateu com tranquilidade, mostrando-as que ainda era um advogado apesar de ter se tornado um agente secreto. — Eu não sou o inimigo, se é o que querem saber. Terão de confiar em mim a partir de agora.
— Confiança não é bem nosso forte, agente — Sra. Slander disparou. — Contudo, não vejo motivos para não mantê-lo no caso. Melhor do que isso, lhe entrego este primeiro assassinato como missão.
— A senhora acredita que haverá outros. — afirmou e Sra. Slander suspirou.
— Tenho certeza disso, rapaz. Eu estou aqui desde o primeiro assassinato cometido por James Langdon, há mais de vinte anos atrás. Ele sempre volta para me assombrar.
— Prometo que o farei sumir para sempre — jurou com uma convicção jamais vista. Suas feições finalmente sofreram alterações; as sobrancelhas se juntaram, o maxilar trincou e os olhos pareceram escurecer. Havia ódio ali — o mais puro ódio.
— Não prometa o que não pode cumprir, agente — murmurou, olhando-o firmemente; também tinha sede de pegar aquele homem.
— Eu não costumo fazer isso, agente a encarou de volta. — Não descumpro promessas.
— James Langdon é meu praticamente rosnou. — E pretendo pegá-lo antes de você.
— Agente — Sra. Slandar a chamou. — Não é o momento para isso. Quem pegar James, para mim, está perfeito, desde que ele seja pego.
— Pensei que a missão seria minha, Sra. Slander — murmurou.
— Bem, a missão é sua… — Slander fez uma pausa. — E da agente , também.
— Achei tê-la ouvido dizer que não trabalhamos com esquema de parcerias — murmurou. — E também… As missões da agente costumam durar doze horas. O que não foi o caso desta, pelo que posso ver.
soltou uma risada fraca, revirando os olhos. Sabia que ele usaria aqueles argumentos, estava preparada para aquilo. Ainda assim, não iria abrir mão daquele momento. Ela precisava tirar James das ruas e o faria nem que precisasse passar por cima de , embora simpatizasse muito com ele.
— Toda regra possui uma exceção. James Langdon é a nossa exceção desde 1997, quando cometeu o primeiro assassinato — Sra. Slander murmurou. — Espero que vocês possam trabalhar juntos para resolvermos este problema. Lembrem-se que ele assassinou um colega de vocês bem debaixo de nossos narizes. Isso é um ultraje a nós e nossa história.
— Não me importo de trabalhar em conjunto — confessou, era verdade; não tinha problema nenhum em ter companhia nos trabalhos que fazia. — A única coisa que não farei, é abrir mão da missão.
ficou em silêncio por alguns segundos, encarando os outros dois que ficaram quietos também, observando-a. Sabiam que ela não costumava trabalhar com ninguém, era a típica agente solitária que resolvia os problemas e voltava para casa como se nada tivesse acontecido. Um suspiro lhe escapou e, em seguida, ergueu as mãos na altura dos ombros, rendendo-se àquele acordo amigável. Não tinha muito o que fazer a não ser aceitar; se aquele fosse o único método de ter James nas mãos, ela faria o sacrifício de adotar um parceiro. Já teria de passar as próximas semanas treinando e sendo babá de , qual seria o problema de tê-lo em seu encalço até mesmo quando procurava o maior assassino da atualidade? Com ela por perto, pelo menos, não corriam o risco de perdê-lo nem mesmo se precisassem correr sobre a neve — ela não costumava escorregar.

soltou um suspiro fraco ao observar focado em correr e desviar das balas que eram atiradas contra ele. Ela, no entanto, não era a atiradora da vez, estava ali apenas para observar e dizê-lo o que poderia ou não mudar em sua postura de campo. Até àquele momento ele estava indo bem, não tinha muito no que ser corrigido — era um agente treinado e experiente, afinal.
Embora o observasse e tentasse lembrar de suas falhas e acertos, parecia estar longe. Seu olhar estava perdido, correndo pelo centro de treinamento como quem não queria nada; e sua cabeça, bem… Vagava entre os últimos acontecimentos, a conversa que haviam tido mais cedo e todos os conselhos da Sra. Slander. Mas, ainda assim, não conseguia não pensar no que tinha de errado com . Nenhum homem no mundo era tão limpo e certinho daquela forma; ele certamente possuía um segredo muito grande e bem escondido, que conseguia deixar longe até mesmo de uma agência especializada em encontrar podres alheios.
não queria ter de se intrometer na vida alheia, mas aquele cara estava pedindo. Fingir que não haviam segredos, recusar-se a responder as perguntas diretamente e dar rodeios em meio a uma conversa era demais; não deveria fazer algo assim se não queria que descobrissem sobre seu passado — mesmo que soubesse o quão inteligente e esperto era; ela também não ficava para trás. No entanto, o entendia, é claro, também tinha seus segredos jamais ditos e que conseguia manter longe da agência, mesmo que poucos, já que o maior deles a Sra. Slander levou pouco mais de um ano para descobrir. era apenas um novato ali dentro, precisava ser exposto ao menos para os superiores — e ela faria questão de ajudá-los a descobrir, assim como fizeram consigo. Não era questão de vingança ou raiva por ter sido descoberta cedo demais, longe disso; era uma questão de justiça, nenhum agente ali dentro tinha segredo. Todos foram expostos à Sra. Slander, tiveram de confessar os piores crimes que já haviam cometido — ninguém estava isento de cometer erros antes de pisar na MI6 — e com não poderia, nem seria, diferente.
— E então? — interrompeu seus pensamentos, chamando sua atenção ao ter concluído o primeiro treinamento. Ele tinha o corpo totalmente banhado em suor, fazendo com que a camisa branca grudasse em seu peitoral e ficasse transparente; ‘uma visão e tanto’, foi o que pensou ao olhá-lo mais de perto.
— Você foi bem, mas acho que pode fazer melhor — respondeu, por fim, observando-o suspirar e tirar os fios soltos de cabelo do rosto. — Que tal repetirmos?
— Céus, , não precisamos repetir esse treinamento — reclamou. — Estou ciente do que preciso fazer em campo, já sou um oficial treinado.
— Você sequer sabe desviar de obstáculos direito — comentou. — E não use seu tamanho como desculpa, eu tenho quase sua altura e consigo desviar de tudo perfeitamente. Também preciso que você melhore sua mira, não é possível que um agente federal não saiba mirar em um alvo. Você tem algum tipo de problema de visão ou só é ruim mesmo?
— Por que você me odeia? — dramatizou. — Não há necessidade de repetirmos. Eu juro.
— Quem decide se há necessidade de algo ou não, sou eu — apontou para si mesma. — E se estou dizendo que precisamos repetir o treinamento, é porque precisamos. Você não é privilegiado nos treinamentos só por que recebeu um bilhetinho de um assassino.
soltou uma risada fraca em puro escárnio, olhando para a mulher à sua frente com atenção. Estava óbvio para ele que aquela situação, para , era pessoal. Ela ainda pensava que ele tinha algo escondido e que sua relação com o assassino ia além do que dizia, o que não era ao todo mentira, nem ao todo verdade. Ele tinha uma história com Langdon, mas não podia simplesmente sair contando por aí; ninguém além de seu tio sabia o que de fato havia acontecido, nem mesmo para os melhores amigos que tivera na vida deu-se o trabalho de contar sua verdadeira história. Não seria a MI6 que o faria dizer — nem mesmo se o fizesse correr por mais duas horas sem parar.
— Não estou pedindo por privilégios, agente murmurou firmemente, aproximando-se alguns passos e encarando a mulher nos olhos. — Estou pedindo por um pouquinho de confiança. Eu não estaria aqui se não fosse capaz. Você está inventando desculpas para me deixar de fora da investigação, sei que está usando um ‘ponto’ pequeno no ouvido e escutando todo o desenrolar do que temos até agora. Mas, preciso lhe dizer: não ficarei de fora disto apenas por causa de seus caprichos. O “presente” — fez aspas com os dedos — foi direcionado a mim, então tenho todo direito de participar de tudo. Não pense que você é a única inteligente e esperta por aqui.
— Não importa o que você acha que está acontecendo, agente . Não lhe devo satisfações. Volte para seu treinamento, só sairá dele quando todos os alvos forem partidos ao meio.
— Pode me castigar o quanto quiser, agente , não me importo. Não sei se viu em meu currículo, mas eu costumo ser excelente em tudo que faço. Não será diferente nas tarefas passadas por você.
— Ótimo.
— Mais uma coisa — voltou para bem perto da agente, encarando-a profundamente, e sussurrou: — Você vai confiar em mim e vai entender que não tenho nada a esconder. Nós dois, juntos, vamos pegar James Langdon. Não deixe que suas frustrações e caprichos atrapalhem seu trabalho, porque, a mim, não irão atrapalhar. Vim para essa agência com um foco, , e não irei desviar dele por sua causa.
— Não tente me intimidar, rebateu. — Você sabe que isso é um caminho sem volta. Não tente me fazer odiar você.
— Eu não preciso te intimidar e acredito que jamais conseguiria — deu de ombros. — E, bem, ao que parece você já me odeia. Dê-me uma chance de fazê-la mudar de ideia a meu respeito; deixe-me conquistar sua confiança e mostrar que estou aqui para ajudar, para somar, e não para tomar seu lugar ou algo do tipo.
— Você jamais tomaria meu lugar — riu irônica. — Você só terá uma chance, , e espero que não a desperdice. Sei que esconde algo muito sério, não tenho pressa em descobrir porque, afinal, quem não esconde alguma coisa? Só não tente me enganar e me passar para trás, você não sabe do que sou capaz.
— Uma chance é tudo o que eu preciso. Você também não sabe do que sou capaz para ter o que quero e preciso, agente sorriu sem mostrar os dentes. — Temos mais em comum do que você imagina.
Após aquelas palavras, não teve tempo de rebater ou questionar, pois já havia voltado para o campo de treinamento. No entanto, não podia negar nem esconder o arrepio que lhe subira a espinha ao ouvir aquilo. era um maldito quebra-cabeça que viu-se obrigada a tentar montar; aquele homem não era comum e tinha algo muito grande para esconder — para ela, agora, descobrir era uma questão de honra; e ela nunca desonrou a si mesma.


3. A Visita

era conhecida como o terror dos contrabandistas e traficantes. Todos sabiam que seriam presos quando ela aparecia. Suas passadas lentas e silenciosas, a sombra da silhueta curvilínea desenhada na parede, os cachos escapando da touca que se tornara sua marca registrada… eles simplesmente sabiam. Não entendiam, no entanto, como uma mulher como ela conseguia ser tão ágil e silenciosa -seu quase um metro e oitenta era meramente ilustrativo, ela não se encaixava em nenhum estereótipo de pessoas altas; não era desastrada nem atrapalhada, sabia se colocar nos lugares sem chamar atenção, tinha o controle dos próprios membros e uma coordenação motora de dar inveja. era surreal, e era isso que a fazia ser incrível em seu trabalho.
Sob um olhar amedrontador, o último pirata entregou-se, antes mesmo de deixar-se ser massacrado pela agente ágil como os companheiros. Estavam perdidos em algum ponto do oceano que ele jamais saberia se localizar. A intenção era invadir o local, pegar o carregamento de drogas que se encaminhava à Londres e então os grupos seriam divididos, cada um com uma quantidade de cocaína, e cairiam no mar novamente, para bem longe dali. Porém, quando tinham as drogas em mãos, surgiu -tinham dado o maldito azar de roubar uma carga que ela teria de apreender.
sorriu com escárnio e curvou-se um bocado, ficando cara a cara com o último pirata de pé -seus companheiros estavam espalhados pelo navio, alguns com braços ou pernas quebrados, outros com furos de tiros no peito ou cabeça; era um completo show de horrores. não sentia pena de quem estava do outro lado, azar era o deles de terem nascido como seus inimigos.

— Muito obrigada pela cooperação. — Sussurrou em um tom rouco e suave ao mesmo tempo. — Levarei este carregamento comigo e vocês, que tiveram a sorte de sobreviver, estão presos. Vocês têm o direito de permanecerem calados, tudo o que disserem poderá e será usado contra vocês no tribunal. — finalizou, usando a frase burocrática enquanto algemava o homem ajoelhado. Os outros, porém, deixou soltos, ninguém teria coragem de tentar algo contra ela, tampouco poderiam ou conseguiriam se mover. Seu trabalho estava feito.
Olhou seu relógio de pulso e sorriu orgulhosa. Cinco horas. Era um novo recorde e mais uma missão bem sucedida para seu currículo.
— Os piratas também foram detidos. — murmurou para o microfone embutido em seu relógio, sabendo que alguém da MI6 a escutaria. — Estou deixando o local. A polícia comum deve chegar em dois minutos.
Entendido, agente 326. — Uma voz robótica e cansada ecoou na escuta em seu ouvido.

varreu o local com o olhar uma última vez, certificando-se de que não restara ninguém. Ao longe, um espertinho tentava alcançar uma arma que estava a poucos centímetros de distância. revirou os olhos e sacou sua própria arma, deu alguns passos à frente e mirou na cabeça do indivíduo, acertando-a com apenas um tiro. Não faria falta, nem mancharia seu trabalho. Aquilo serviu como um recado para os outros, que continuaram em silêncio e jogados no chão.
Com uma postura impecável e passos delicados demais para uma agente assassina, seguiu em direção à beira do navio. Encarou o mar escuro e sorriu para a Lua, que brilhava cheia, logo acima do oceano; era uma paisagem e tanto. Sem pensar duas vezes, pulou.
O contato com a água fria não a incomodou tanto quanto na primeira vez em que fez um trabalho daquele tipo. Pelo contrário, foi até reconfortante ser abraçada pelo oceano daquela maneira. Com cautela, nadou por entre as ondas relativamente altas, cortando-as com cuidado e atenção, sabendo que a alguns metros dali encontraria sua fiel carona.
Ao encontrar o barco de porte pequeno com um emblema quase imperceptível da MI6, deu duas batidas fortes na lataria, tentando manter-se parada e apenas mexendo os pés, para que o mar não a levasse para longe novamente. Em poucos segundos, uma escada feita de cordas grossas caiu ao seu lado. sorriu e pendurou-se rapidamente, segurando-a pelas laterais com força e maestria.

— Garota, cada dia que passa você me surpreende mais. — a voz estridente de Ivy Reynolds adentrou seus ouvidos. — Fiquei encantada com sua performance hoje. Até gravei para me divertir mais tarde.
— Você deveria parar de me gravar em missões, Ivy. — murmurou brincalhona, já arrancando as roupas molhadas e pegando a toalha grande que lhe era estendida. — Não quero estragar o seu casamento, caso você seja pega assistindo essas coisas. Também não quero que as pessoas descubram seus fetiches estranhos.
— Ah, meu bem, lhe garanto que isso só irá apimentar ainda mais meu casamento. — Ivy riu alto. — A Kate certamente ficaria apaixonada por você, caso a visse nesses momentos.
— Olha, você fica esperta, viu? A Kate é um mulherão daqueles, se ela se apaixonar por mim, farei questão de roubá-la de você.
— Você não tente testar minhas habilidades em campo, agente , não sabe do que sou capaz de fazer.

explodiu em gargalhadas e abraçou a companheira de trabalho de um jeito amigável, fazendo-a rir também.
Ivy e se conheciam há muitos anos, fizeram faculdade juntas em Cambridge e, depois, acabaram se afastando por seguirem carreiras diferentes. Ivy era uma cientista e piloto (de carros, aviões e barcos) brilhante e acabou entrando para a aeronáutica; e , após formada em Química Forense, seguiu diretamente para a vida investigativa, trabalhando para a polícia durante longos anos até ser indicada para a Interpol e, em seguida, MI6, depois de ter tomado gosto pelo trabalho em campo, tornando-se agente. Por um acaso do destino, ambas se encontraram novamente em um teste para a MI6, retomando a amizade que tanto sentiam falta. Atualmente se davam muito bem e tinham uma sincronia fora do habitual quando trabalhavam juntas; tinham um índice de 95% de sucesso e aproveitamento, poucas foram as missões que deram errado e/ou resultaram em alguma morte do lado da MI6.

Após algumas horas, já estava em frente à sua casa e ainda soltava risadas devido às brincadeiras de Ivy. A madrugada estava gelada e um tanto incômoda, o que não era comum para a época do ano, mas nem isso fora capaz de atrapalhar o bom humor de ambas as amigas.

— Está entregue, princesa. — Ivy disse com um sorriso amigável nos lábios rosados. — Qualquer coisa, já sabe, número 5 na sua discagem rápida.
— Muito obrigada, meu bem. — agradeceu e beijou a bochecha da amiga. — Pode deixar, mamãe, qualquer emergência você será a primeira pessoa para quem ligarei. Digo o mesmo para você, sou o número 7 na sua discagem rápida.

Ivy apenas assentiu e logo saiu do carro, indo a passos longos para sua casa. Sabia que Ivy a observaria entrar em casa -como se ela fosse uma donzela em perigo e não uma agente secreta-, mas não se importou. Deu um último aceno em direção à amiga e entrou.
Sua casa não era muito grande, nem muito pequena. Era aconchegante. Principalmente para um bairro como o que morava; meio longe do centro da cidade, pequeno e extremamente calmo para uma pessoa como ela. As casas tinham um bom espaço entre uma e outra; muros altos, nas que tinham quintal, e as portas de entrada eram separadas apenas por pequenos degraus. Era uma vizinhança tranquila que deixava em paz, e também disfarçava seu verdadeiro trabalho -para todos ali, ela era apenas uma professora universitária que ficava mais tempo dentro de laboratórios do que em casa-. Era bom deixar de ser a agente , 326, ao menos um pouco. Nesses momentos, costumava lembrar-se quem realmente era, além de permitir-se sentir falta de suas perdas e pedir perdão por todas as vidas que tirava diariamente, mesmo que fossem de pessoas ruins e que tentavam matá-la também. se tornava humana quando trancava sua casa e sentia-se acolhida pelas paredes coloridas que abrigavam-na há tantos anos.
Após tomar um banho morno e vestir-se com seu pijama mais confortável, jogou-se em sua cama e sorriu ao perceber seus três gatinhos enrolados um no outro em meio aos cobertores e travesseiros. Aconchegou-se ao lado dos bichanos e suspirou aliviada por ter um colchão macio para dormir; suas missões não costumavam lhe dar tantos luxos assim.
Finalmente poderia descansar, depois de quase 24 horas acordada e trabalhando, foi o que pensou até escutar um grito cortar toda a vizinhança. Seus gatos se mexeram curiosos, erguendo as orelhas felpudas e balançando-as, comprovando que não havia inventado aquilo em seu próprio consciente.
Levantou-se devagar e caminhou até à janela do quarto, observando a rua vazia. Outro grito ecoou e pôde perceber que vinha da casa da frente, que pertencia à Susan Raymond, uma mulher solteira e mãe de uma garotinha linda de apenas oito anos. E isso foi motivo suficiente para pegar sua Glock, estrategicamente colocada ao lado de sua cama, e sair de casa. Sabia que ninguém iria se meter por parecer apenas uma briga de casal ou qualquer merda do tipo, em que todos preferiam mais se calar do que oferecer ajuda. Mas, ela era diferente e iria até lá. Sempre ficaria ao lado da mulher, mesmo em uma situação em que ela estivesse errada. Não tinha medo de pôr a mão no fogo desde que pudesse ajudar alguém -mesmo que essa ajuda consistisse em enterrar o corpo de um homem branco qualquer-, ela o faria com gosto.
Ao aproximar-se mais da casa, conferiu se, em meio à pressa, tinha pego o celular da agência também e, no exato momento, pôde ver na janela o rosto assustado da filhinha de Susan. Ela chorava e implorava por ajuda, com o rostinho vermelho e as mãos sujas de sangue. De sangue.
, então, ergueu o olhar para atrás da garotinha, e foi quando o viu. Seu corpo travou por dois segundos e, em seguida, um ódio lhe tomou por inteira. Não importou-se em puxar a Glock e destravá-la rapidamente, logo jogando o ombro contra a porta de madeira da casa da vizinha. Ao notar que o batente já estava cedendo, afastou-se alguns passou e chutou a porta com força, arrombando-a sem piedade alguma.

— Laila, venha para cá! — gritou para a garotinha que correu imediatamente para atrás de si. O maldito homem estava lá, com aquele sorriso amarelado e a faca ensanguentada nas mãos. varreu o local e não encontrou nenhum corpo, nem nada que denunciasse a morte de Susan. Sendo assim, preferiu acreditar que a mulher estava viva.

James Langdon estava parado a apenas alguns metros de distância, em carne e osso, pronto para ser morto ou preso, mas estava travada -tal como quando tinha aproximadamente a idade de Laila e passara por aquela mesma situação.

— Oi, . — James murmurou e abriu mais seu sorriso. — Eu lhe trouxe um presente.

não pensou muito, apenas apertou o gatilho. Contudo, pela primeira vez na vida, sua mira a enganou, fazendo-a errar o centro do corpo de James. A bala resvalou pelo braço direito do assassino e ele sequer se moveu, apenas manteve o sorriso intacto na boca -o que irritou ainda mais a agente.

— Pegue isto e disque o número 5, Laila. — murmurou para a garotinha enquanto lhe entregava o celular, sem desviar o olhar de James. — Vá para minha casa. Ele não fará nada com você.

Logo que a garotinha saiu da casa correndo e tropeçando nos próprios pés, porém com o celular já contra a orelha, e James se moveram ao mesmo tempo. , para frente, começando a correr. James, para à direita, em direção ao corredor escuro, também correndo.
Uma caçada às escuras se iniciou naquela casa, que era duas vezes maior do que a de . podia ouvir os barulhos que James fazia propositalmente, percebendo que eles se misturavam aos gritos sôfregos de Susan. Quanto mais o som do choro de Susan aumentava, mais desesperada ficava. Entrou em um impasse: ir atrás do assassino ou ajudar a vítima? Seu ego lhe gritava para correr atrás de James, com a desculpa de que ele poderia fugir e ir até Laila, mesmo que tivesse plena certeza que ele não faria isso -crianças não eram o seu foco, nunca foram-. Sua razão, porém, dizia para que buscasse por Susan, já que a ajuda estava a caminho e poderiam pegá-lo no meio do caminho -a MI6 nunca levava mais do que três minutos para chegar em um local sob ameaça, principalmente com uma das principais agentes em risco-.
Outro grito de Susan escapou no exato instante em que James soltou uma gargalhada em algum lugar em meio à escuridão -ele sabia o dilema que estava enfrentando, e isso o divertia mais do que qualquer outra coisa naquele momento-.

— Você não vai escapar de mim, James. — disse alto, sem abaixar a arma e olhando ao redor, a fim de encontrar o possível local em que Susan estava.
— Eu estou bem aqui, agente . — James praticamente sussurrou, fazendo congelar. Ele parecia estar bem à sua frente.
Sem pensar, apertou o gatilho duas vezes.
— Errou, meu bem. — A voz insuportável soou novamente. — A Susan está na porta atrás de você. Ela não tem muito tempo. Precisa decidir o que vai fazer.
— Eu vou te matar!
— E permitirá que Susan morra comigo?

ignorou sua própria razão e começou a atirar no escuro, mirando de um lado para o outro, até descarregar o cartucho. A risada de James ecoou novamente ao escutar o clique da arma vazia. Ao pé do ouvido de , do seu lado esquerdo, soprou levemente, arrepiando-a por inteiro.

— Eu estou aqui agora. — sussurrou, por fim.

pensou rápido, acertando-lhe uma cotovelada no rosto e jogando-o no chão. Segurou-o pelo pescoço e urrou com ódio, cega de vontade de matá-lo de uma vez por todas. James continuou parado, aceitando o aperto em seu pescoço. O sorriso continuava lá, embora não pudesse ver muito bem.

— A Susan. — James murmurou com dificuldade. — Ela não tem mais uma perna.

E então o soltou abruptamente. Chocada demais para continuar com qualquer ação -Susan sangraria até a morte se não recebesse ajuda-. se levantou às pressas, procurando pela porta que James falara. Não pensou no ódio que sentia, em seu ego, em nada. Apenas correu às cegas para que conseguisse chegar a tempo até a vizinha ferida. Quando conseguiu abrir a porta, a cena que encontrou parecia um show de horrores. Susan tinha o rosto ferido e o cabelo loiro -sempre tão bem cuidado e longo, até o meio das costas- cortado acima dos ombros, torto, e sua cabeça sangrava por trás, manchando os fios de vermelho. Sua perna esquerda jazia cortada realmente. Seu joelho, ou o que sobrara dele, sangrava muito e manchava os pedaços de pano que James usara para estancar o sangue. Ela estava morrendo.

— Estou aqui. — murmurou. — A ajuda está chegando e sua filha está segura. Não durma, Susan. Continue comigo.
Susan assentiu devagar, sentindo todo seu corpo protestar. Não sabia o quanto mais aguentaria, mas ficou feliz em saber que sua princesinha estava segura.
— Esse é o seu presente, , agora não precisa mais sentir ciúmes de .

Foi a última coisa que ouviu antes de permitir que James sumisse pela escuridão novamente. Ele não queria matar ninguém naquela noite, apenas mostrar que estava no controle. E não havia nada que ela ou qualquer agente da MI6 pudesse fazer em relação àquilo. O jeito era dançar conforme a música que ele tocava, por mais pavoroso que pudesse ser.


A rua estava lotada de policiais, ambulâncias e curiosos. encontrava-se sentada na calçada de sua casa com Ivy ao seu lado. Mais à frente, com os cabelos desgrenhados e respiração ofegante, acertava os últimos detalhes com os policiais responsáveis pela investigação, tentando explicá-los que, a partir daquele momento, o caso seria assumido pela MI6, por mais raro que fosse uma situação como aquela. Acontece que, ao chamar ajuda, a pequena Laila ligou para o número da emergência também. E uma patrulha que estava muito perto do bairro acabou chegando primeiro e assumindo o local, o que não deveria acontecer já que seria uma chamada restrita e direta para a MI6, mas não tinham como prever que a criança acabaria ligando para algo além do número 5 da discagem rápida de . Ainda assim, não se preocuparam tanto com isso, a prioridade era salvar a menina e sua mãe, as burocracias judiciais resolveriam depois.

— E então? — perguntou baixo assim que se aproximou.
— Eles querem detalhes do caso, sendo que não podemos, nem vamos dar. — respondeu, sentando-se na frente de , sem se importar se estava um tanto quanto na rua e sujando suas roupas de grife no asfalto imundo. — Como está se sentindo?
— Não sei… — deu de ombros. — Você tem notícias da Susan?
— Ouvi dizer que ela perdeu muito sangue, mas foi levada ao hospital ainda com vida. Provavelmente entrou em cirurgia… só teremos notícias pela manhã — encolheu-se um pouco, sentindo-se mal pela colega de trabalho, mesmo que não estivessem em um clima bom. E só então percebeu Ivy ali, em silêncio, observando-os. — Agente . — murmurou, estendendo a mão para a mulher que a apertou sem delongas.
— Agente Ivy Reynolds. Lamento as circunstâncias que estamos nos conhecendo, novato.
— Eu também… — suspirou e voltou o olhar para , que parecia irritada e cabisbaixa. — O que aconteceu, ?
— Eu quase o peguei. — respondeu direta e sentiu Ivy apertar seu ombro com carinho. — Na verdade, eu o peguei. Eu o tive em minhas mãos. Quase o matei sufocado depois de, milagrosamente, errar os tiros que tentei dar. Ele parece mais esperto, mais jovem, mais forte. Não sei o que está acontecendo com esse desgraçado, mas ele nos tem na mão. Teremos de jogar o jogo que ele quiser, como ele quiser.
— Está tudo bem, a prioridade eram as vítimas, não podemos perder mais ninguém. — tentou tranquilizá-la. — Você precisa descansar. Tem algum lugar seguro para ficar?
— Minha casa é meu lugar seguro, . — rebateu firme. — Não sairei daqui por causa dele.
— Eu fico aqui com ela. — Ivy se ofereceu, sabendo que tentaria resistir, mas, em algum momento, cederia.
— Não preciso de uma babá. Eu só quero pegar esse desgraçado.
— Não vamos pegá-lo hoje, . — explicou pacientemente. — Não perca o controle, é isso que ele quer. Não o dê esse presente.
— A única coisa que eu vou dar a ele é a passagem só de ida para o inferno — murmurou entredentes. — Ele vai pagar por tudo o que fez.

ficou em silêncio por alguns segundos, apenas observando . O ódio que ela carregava e exalava ao falar de James era quase palpável, e Ivy parecia saber exatamente o porquê. Ele, no entanto, não fazia ideia de nenhum motivo que pudesse causá-la tamanho desgosto. Quer dizer, até imaginava, porque sentia aquilo desde o dia em que tivera sua vida desgraçada por aquele maldito assassino. Perguntava-se, enquanto fitava as duas amigas meio abraçadas, se havia passado pelo mesmo trauma que ele, se tinha a mesma sede de vingança e se tinha perdido alguém para aquelas mãos asquerosas. O mais curioso, se ela tivesse passado pelo trauma, era: ela havia conseguido escapar também, como ele que pulara de uma janela… ou James a deixou sobreviver como um caso antigo que ouvira falar, depois de algumas pesquisas internas?

— O que James fez para você, ? — deixou o pensamento escapar, alto demais, chamando a atenção de e Ivy, que o encararam apreensivas. Ivy, por medo da reação que a pergunta causaria e , porque não sabia se deveria confiar naquele homem ainda e porque não queria expor-se tanto. Porém, quando se deu conta, já deixava seus pensamentos escaparem pelos lábios também:
James Langdon matou meu pai.


4. O Primeiro Caso

Naquela madrugada, ligou o notebook logo que chegou em casa. Não se deu ao trabalho de trocar de roupa, nem nada. Sentou-se à mesa da cozinha com uma caneca de café ao seu lado e pôs-se a digitar: . Inicialmente, apenas no Google para ter certeza das informações básicas, existência de redes sociais ou qualquer coisa que lhe fosse relevante. De pé, no batente da porta da cozinha, seu tio o observava curiosamente.
— Bom dia, tio. Insônia?
— Bom dia, filho. Sim. Você teve uma emergência no trabalho?
— Sim — respondeu baixo, ainda focado no notebook. — James Langdon atacou uma vizinha de uma colega, a agente .
Jasper não respondeu, apenas puxou uma cadeira e sentou-se ao lado do sobrinho, que já abria programas e páginas muito avançadas para sua pobre mentalidade antiga. Jasper não era mais adepto à tecnologia para evitar ser encontrado; ele ainda vivia nas sombras, saindo apenas quando necessário e sempre um tanto quanto disfarçado. Era um homem conhecido, então tentava evitar ao máximo o contato em determinados lugares da cidade. Não precisava de ninguém lembrando-o de seus tempos sombrios, como o engraçado agente Mike Phillips.
— O sobrenome dessa mulher não me soa estranho. — Jasper comentou. — Qual a ligação dela com o caso?
— James matou o pai dela. — respondeu ao mesmo tempo em que lia os documentos expostos na tela do notebook, tentando ser rápido, antes que alguém notasse sua invasão no sistema da MI6.
— Pensei que James só assassinasse mulheres.
— Eu também. — olhou o tio por alguns segundos. — É por isso que estou fazendo uma pesquisa aprofundada. Acho que é como nós.
— Uma sobrevivente?
— Algo do tipo. Mas acho que ela, na verdade, é o caso antigo… aquele que ele deixou uma criança escapar propositalmente.
— O primeiro caso. Eu cheguei a ler um pouco sobre ele. Na época, eu não ficava responsável pelos casos da cidade. Sei muito pouco sobre James Langdon.
— Isso. O primeiro caso. Ele aconteceu em 1997, um ano antes de nós.
— Um assassinato que não deu certo, porque não tinha uma mulher em casa e ele preferiu poupar a criança?
— Não, degolar um pai não seria o suficiente, ele degolaria a menina.
— Então, por que ela sobreviveu?
— É isso que quero descobrir, tio.
— Talvez uma mudança de padrão. Ou talvez não exista um padrão.
— Não. Era o primeiro caso. Ele vigia as vítimas e depois ataca. Não faria sentido vigiar um homem. — suspirou. — Não ter um padrão… não explicaria os casos seguintes, de ‘98 para frente.
— Certo. Ele pode ter vigiado a família inteira e, quando chegou a hora, a mulher não estava em casa.
estava prestes a concordar com a teoria do tio, mesmo que ela não fosse tão boa -ainda era um ponto de partida-. Porém, ao ler uma frase específica em um dos arquivos de , a qual ele percebeu não ter alterado a documentação após o assassinato do pai, concluiu que não poderia ser aquilo. A teoria não fazia mais sentido, não servia de mais nada. Não havia mulher alguma na casa de , a não ser ela mesma.
fechou as páginas rapidamente e limpou todo seu histórico de navegação em questão de segundos, visto que seu tempo já tinha acabado e alguém estava perto demais de descobrir que ele estava fuçando os arquivos da MI6. Encarou o tio, suspirou e disse:
não teve uma mãe.


Ao pisar na MI6 naquela manhã, notou que havia algo errado -e era algo que ia além do que havia acontecido na noite anterior-. Um calafrio lhe tomou o corpo e ele seguiu impassível, caminhando pelos corredores a passos longos, porém lentos. Não sabia o que faria naquele momento, já que suas missões estavam todas indo por água abaixo -James Langdon não queria lhe dar paz, e pensar nele fazia com que quase entrasse em pânico-. O problema de toda aquela situação era que muito provavelmente James sabia sobre seu passado, do contrário, não insinuaria isso no bilhete ao lado do agente morto. O ruim de ter acontecido algo do tipo, era que se tornava o combustível perfeito para que todos na agência desconfiassem de seu trabalho e comprometimento com a agência. Sra. Slander e estavam muito desconfiadas, o que ficava claro para os outros agentes também -dos quais fingia não perceber os olhares afrontosos, desconfiados e, alguns, até mesmo amedrontados-.
— Invadiram o nosso sistema essa madrugada — a voz de invadiu seus ouvidos de surpresa, fazendo-o segurar-se ao máximo para não pular de susto. — Não quis te assustar, agente .
— E vocês conseguiram ver quem foi? — perguntou e deu de ombros, como se o susto fosse pouca coisa; de fato era, queria mesmo saber sobre sua invasão no sistema.
— Não, a pessoa é bem esperta e saiu antes mesmo que pudéssemos rastrear o número do IP.
— E há alguma chance de conseguirem rastrear depois? Não entendo muito dessas tecnologias avançadas.
— Não sei, nossos técnicos são bons e sempre fazem milagres… por quê, preocupado?
— Não, nem um pouco — riu da tentativa da agente. — Só curiosidade.
sorriu ironicamente e continuou caminhando ao lado do novo colega de trabalho. Sabia que teriam mais uma manhã intensa de treinamentos pesados, além, é claro, de ter de chamá-lo para uma missão especial que levaria cerca de dois dias para ser resolvida. No início, relutou em aceitar a ordem da Sra. Slander em ter de convidá-lo, no entanto, entendeu que era necessário. Precisavam testar seu desempenho em campo, entender o que ele tinha de tão diferente e se, de fato, serviria para agência, apesar de lhe parecer tão misterioso ao mesmo tempo em que era tão transparente. Nenhum agente daquele lugar era tão transparente e sincero daquele jeito; ele ainda era um alvo de desconfiança.
— Nós temos uma missão. Embarcamos hoje à noite — murmurou assim que fecharam a porta do campo de treinamento que era situado atrás da sala da Sra. Slander. — Ela terá a duração de dois dias.
— Pensei que você não fazia missões longas assim — comentou sinceramente, achando estranho já que era experiente e conseguia resolver todas as missões em questão de horas.
— Não faço, mas preciso ficar de olho em você — ela respondeu sorrindo. — Não que você precise, não acho isso, mas a Sra. Slander acha que temos que lhe testar um pouco mais. Nada melhor do que um serviço de campo para isso.
— E o que precisamos fazer?
Matar.
— Achei que nosso foco era prender bandidos.
— Nessa missão, é matar.
— E precisamos de dois dias para isso?
— Quando se trata do chefe de um dos maiores ponto de tráfico de drogas do Oriente Médio atualmente, sim.
apenas assentiu. Não era muito fã de missões que precisavam matar pessoas e depois fingir que era o herói da nação, que apenas reagiu aos ataques — isso era sempre o que a mídia fazia parecer, sendo que, nos bastidores, recebiam aquele tipo de ordem direta: matar, não reagir; apenas chegar e matar. Tudo isso só contribuía para as injustiças do mundo e para que a mídia continuasse a vender a imagem de “lugares incrivelmente perigosos” em partes dos continentes Asiático e Africano. Ele preferia as missões em que derrubava portas, invadia casas e/ou galpões e pegava carregamento de drogas, bandidos, assassinos em flagrante, pessoas ruins de verdade. Não que o traficante procurado no Oriente Médio não fosse, não era essa a questão; ele preferiria invadir sua casa revestida de ouro e repleta de seguranças armados e sair vivo com o traficante ao seu lado algemado -isso era mostrar serviço, para -. Matar não era a solução, ao seu ver, tampouco seu trabalho -mesmo que já tivesse precisado fazê-lo mais vezes que pudesse contar-; ainda era um policial, no fim das contas. Entretanto, não concordava com aquelas atitudes impensadas, brutais e desnecessárias. Não queria ser um assassino e igualar-se às pessoas que buscava prender e isolar da sociedade, embora já o fosse mesmo contra sua vontade.
Após vestirem roupas propícias para treinamento, parou à frente de e encarou-o nos olhos.
— Hoje treinaremos luta corpo a corpo, minha favorita — disse num tom de voz baixo. — Mas, antes de começarmos, gostaria de lhe perguntar uma coisa.
— À vontade — murmurou, girando o pescoço para os lados sem quebrar o contato visual.
— Encontrou o que procurava? — disparou, esticando os braços para trás do corpo, alongando-os.
— Como assim?
— A invasão no sistema... sei que foi você. Estava procurando informações minhas, eu sei porque fiz isso com você também. Mas, e aí: encontrou o que procurava?
engoliu a seco disfarçadamente e sequer piscou, mantendo-se sério, enquanto lhe sorria de forma irônica e divertida ao mesmo tempo -céus, como era ingênuo-; é claro que saberia, é claro que ela o vigiava também.
— Me diga você, , encontrou o que procurava?
Encontrei mais do que você gostaria que eu encontrasse.
E, de surpresa, pela primeira vez naqueles dias de treinamentos intensos, deu o primeiro passo e atacou, tentando acertá-la com um soco não muito forte. desviou prontamente, como se já esperasse por aquilo, e deixou uma gargalhada alta escapar da garganta. era um homem engraçado e previsível — ela, no entanto, era experiente e veloz; ele também não era páreo para ela na luta corpo a corpo, por mais forte e alto que fosse.
Uh-la-la debochou. — Parece que encontrei um ponto fraco no tão inteligente e limpo agente .
— Sem mais conversas, agente . Vamos treinar. Não era o que queria?
— Como quiser, donzela debochou e chamou-o para a luta com o dedo indicador, deixando claro que não sentia um pingo de medo que fosse.
Homens não a intimidavam.

Já era noite quando abriu os olhos de um breve cochilo, dentro do avião pilotado por Ivy. Estava exausto, completamente exausto. Os treinamentos com estavam cada dia piores e mais intensos, o que o fazia questionar-se se aquilo era proposital ou se era o ritmo da MI6 com os novatos. Não era como se eles não soubessem ou não vissem o quão experiente ele era; afinal, por isso havia sido aprovado. Porém, ainda assim, faziam-no treinar pesado com , que era a pessoa que mais o intrigava naquela agência. Ele não queria treinar quando estava ao seu lado; queria lhe fazer perguntas, saber sobre sua vida, entender o que ela havia sofrido nas mãos de James e por que o pai dela havia sido o alvo. Tudo o que ganhava da veterana, porém, eram porradas e tiros -literalmente. Às vezes, com um bocado de sorte, conseguia desarmá-la e descontar os golpes duros e dolorosos que recebia -e ela o xingava por isso e o fazia rir. Era engraçado vê-la tão empenhada em mostrar-se melhor do que ele; não precisava tanto, ele sabia, aceitava e assumia que ela era mil vezes melhor e por isso estava ali, treinando-o tão arduamente.
— Bom dia, Bela Adormecida — murmurou ao seu lado, com os olhos ainda fechados e uma expressão tranquila no rosto. Sequer parecia estar sendo enviada para matar um dos homens mais perigosos do Oriente Médio, tampouco que havia passado por um ataque de James Langdon na noite anterior.
— Não dormi tanto assim, Shrek rebateu com a voz rouca e baixa, fazendo virar-se para ele com os olhos arregalados.
— Shrek? Sério?
— Qual o problema, só você pode dar apelidos aqui? Além do mais, é a única animação de contos de fadas que conheço e gosto. Não tenho culpa se seu repertório é cheio de princesas chatas.
— Eu não acredito que vocês estão discutindo sobre desenhos animados e contos de fadas — a voz de Ivy fez-se presente no local. — Inacreditável.
— E o que você está fazendo aqui? Não deveria estar pilotando? — perguntou, revirando os olhos. — E para sua informação, desenho animado é pura cultura.
— Shrek, em especial, é pura cultura — pontuou com firmeza, olhando através da janela. Ainda faltavam alguns minutos até chegarem no interior de alguma cidade do Kuwait.
— Para sua informação, minha querida , eu tenho um copiloto. Agora, pasme: quando preciso fazer algo, ele fica no comando e pilota em meu lugar. Não sei se percebeu que já estamos no fim da viagem e eu preciso esticar minhas pernas e dar um recado importantíssimo para vocês.
— Vá em frente, Ivy — foi quem pediu com um sorriso simpático nos lábios, ignorando emburrada ao seu lado.
— Bem, já estamos sobrevoando o Kuwait — Ivy começou e assumiu sua postura de agente, encarando-a com total atenção. — Dentro de alguns minutos vamos descer um pouco o avião, quando estivermos passando sobre uma província isolada em Al Jahra*, a preferência é deixar na base agrícola da cidade. A essa hora, ninguém vai notar vocês. Então, é só procurarem por um dos nossos infiltrados, o agente 590, ele estará pela região os aguardando.
— O avião não chamará atenção na hora de pousar? — questionou inocentemente, achando estranho pousarem em meio a uma área agrícola com um trambolho daquele de tamanho.
Ivy sorriu para ele e ergueu uma das sobrancelhas, olhando para em seguida e sustentava um sorriso de diversão na boca.
— Você não contou para ele, né? — Ivy perguntou e deu de ombros.
— Não contou o quê? — soou ainda mais confuso.
— O avião não vai pousar, princesa — respondeu. — Nós vamos saltar de paraquedas. Espero que tenha treinado paraquedismo nos seus poucos meses no exército.
suspirou. É claro que saltariam de paraquedas.

e aterrissaram com maestria e tranquilidade, mas, ainda assim, sentindo a adrenalina correr na veia. A escuridão ajudava a camuflá-los após livrarem-se dos equipamentos de paraquedismo, deixando tudo para trás, sabendo que o tal agente infiltrado sumiria com tudo em alguns minutos. O local em que caíram era enorme, repleto de plantações de coisas que sequer conheciam. Caminharam em meio às terras em linha reta, como foram instruídos, e pararam a alguns metros dos enormes paraquedas.
Um assobio ecoou pelo matagal, atraindo a atenção de ambos. puxou sua tão amada glock do cós da calça e levou o pulso à boca, murmurando:
— Estamos em solo, caminhando em direção ao agente 590.
Entendido — a voz de Ivy ecoou em seu ouvido, assim como no de .
Ivy iria ficar rondando o país enquanto eles executavam a missão. Obviamente, acharia uma pista de pouso escondida e boa o suficiente para que ninguém desconfiasse de seu avião, e logo que iniciassem a missão, voltaria para buscá-los ali, no mesmo lugar.
seguia a alguns passos à frente de , olhando ao redor e esperando outro sinal do agente, o que não demorou a acontecer, com outro assobio ecoando, dessa vez mais à sua direita. Seguiram o som com as armas em punho e sempre ditando as coordenadas para Ivy, que os seguia lá do alto com atenção. Qualquer problema, ela agiria do céu.
— Vocês demoraram — uma voz firme e levemente suave ecoou, atraindo a atenção dos dois. — Podem abaixar a arma. Encontrei os aliados — ele murmurou contra o próprio pulso, onde usava um relógio igual aos de de . — Venham comigo, vou colocá-los no transporte em direção à Cidade do Kuwait, estamos a mais ou menos 32 quilômetros a oeste dela. A essa hora da madrugada, chegarão rápido. O alvo estará em um hotel de luxo. Vocês têm uma reserva lá, poderão avaliar o espaço quando chegarem pela manhã. Procurem por Aisha assim que se instalarem, ela saberá o que fazer para ajudá-los.
e apenas assentiram, ainda com as armas em punho -e ninguém parecia se importar com esse detalhe. Um carro preto e discreto se aproximou e as portas se abriram. embarcou no banco do passageiro e no de trás. O motorista sequer os olhara, pouco se importando com o que aqueles estrangeiros podiam ou queriam fazer. Estava ali apenas para transportá-los até à cidade principal do país.
— Estamos em movimento em direção à Cidade do Kuwait — murmurou em seu próprio relógio, atenta.
Ivy, do outro lado, murmurou seu típico “Entendido” e manteve-se presa ao transporte dos agentes; esperava que aquilo desse certo. Era o tipo de missão que não podia ter falhas, qualquer passo em falso resultaria no fim definitivo da MI6 -e na expulsão de , que tinha uma missão de ouro em suas mãos de novato.

Chegaram à Cidade do Kuwait quando o Sol começava a nascer. O hotel era grande, bonito e com detalhes dourados; facilmente arrancava suspiro de turistas, era o lugar perfeito para alguém como o alvo da MI6 se instalar. e , porém, não faziam o perfil das pessoas que tinham acesso àquele hotel naquele momento -estavam levemente descabelados, suados e ainda com as roupas da missão. Saíram do carro sem receber uma instrução sequer, e não pretendiam tentar algum tipo de contato para saberem o passo seguinte.
— Bem, vamos em busca de Aisha — sussurrou, ainda ponderando se deveriam ou não adentrar o hotel.
, contudo, assumiu uma postura séria e passou as mãos pelos cabelos longos, soltando-os do rabo de cavalo frouxo que os segurava. Jogou-os para o lado e desembaraçou o que conseguiu com as pontas dos dedos, ajustando o terno em seu corpo em seguida, batendo-o algumas vezes para que saísse qualquer resquício de poeira. Não estava apresentável ainda, sequer parecia o homem milionário que deveria, mas dava para disfarçar bem -conseguiu ver através dos vidros escuros da porta do hotel. Após alguns segundos, virou-se para e se aproximou. Tomando o devido cuidado, tocou as madeixas encaracoladas da mulher, soltando-as do coque alto que ela usava. Ajustou os cachos com um cuidado incomum, encarando-a nos olhos e avaliando como ficaria melhor. Sorriu ao conseguir colocar os cachos espalhados e abertos sobre a cabeça de , deixando que um ou outro caísse sobre sua testa e olhos.
— Você fica bem assim — murmurou. — Agora, esconda melhor sua arma e ajuste a roupa. Tem poeira por toda parte de você.
revirou os olhos e segurou um sorriso, fazendo o que lhe fora pedido. estava sendo um bom parceiro até aquele momento. Após terem certeza de que estavam mais apresentáveis, ofereceu um dos braços para , num claro sinal de cavalheirismo, e fora prontamente aceito. Juntos, de braços dados e narizes empinados, adentraram o hotel de luxo. Logo atrás deles, dois homens, que pareciam seguranças, também entraram, carregando um punhado de bolsas grandes como se fossem deles.
sorriu ao reconhecer um dos dois, e logo soube que estavam em segurança e com mais aliados.
— Temos boas companhias — murmurou rente ao ouvido de , dada a altura próxima. — Já trabalhei com um deles.
— Ótimo, isso facilita nosso disfarce — sussurrou de volta, antes de finalmente parar em frente a recepção e começar o que sabia fazer de melhor: fingir ser quem não era.
— Bom dia, sou Aisha Al-Madini! Em que posso ajudá-los? — a recepcionista disse em um inglês perfeito, sorrindo.
— Temos uma reserva em nome de Robert Campbell — sorriu. Não demoraram muito para perceberem que aquela era a Aisha que precisavam encontrar; as feições joviais da garota mudaram rapidamente ao escutar o nome falso de . Foi algo como alívio, apreensão e reconhecimento ao mesmo tempo.
— É claro — Aisha sorriu outra vez, digitando algo no computador à sua frente. Não demorou muito a confirmar e dar um papel para que assinasse como Robert e, em seguida, os cartões de acesso ao quarto. — Tenham uma boa estadia, qualquer coisa basta ligar para o número 4252.
— Obrigado, Aisha, tenha um bom dia — respondeu educadamente e apenas assentiu, ainda observando a garota e as coisas ao redor.
Os homens com as bagagens os seguiram em silêncio durante todo o percurso do térreo até o décimo andar, pareciam averiguar cada mínimo passo que davam, assim como os dos outros hóspedes que eventualmente passaram pelo elevador até que chegassem ao andar desejado. Ao chegarem em frente ao quarto, foi quem passou o cartão na fechadura, abrindo a porta em questão de segundos. Por saber que era possível a missão ter vazado, puxou sua arma disfarçadamente, sabendo que faria o mesmo ali na porta, assim como os homens das bagagens.
Entraram no quarto devagar, fazendo uma varredura detalhada enquanto o homem que conhecia permanecia na porta, vigiando o movimento pelos corredores -as câmeras segurança, no entanto, não conseguiram pegá-los, tinha certeza.
— Limpo! — gritaram os outros três em uníssono, e só então a porta foi fechada, com todos dentro.
— Bom te ver novamente, agente — o homem murmurou, largando a bolsa pesada que carregava ao pé da enorme cama de casal que havia no centro do quarto. — Não temos muito tempo, então serei breve: amanhã vamos seguir o alvo durante o dia inteiro, ver quais os melhores pontos de acesso e montar o posto do atirador. Pela breve observação que fiz, o prédio da frente é o melhor local para visualizar todo o quarteirão e tem uma visão privilegiada para a cobertura, onde o alvo está hospedado.
— Igualmente, Clint — murmurou. — Certo, muito obrigada. Faremos isso amanhã. Como podemos contatá-los?
— Nós viremos até vocês — o outro homem quem respondeu. — Descansem um pouco, vocês não terão tempo para dormir depois.
Assentiram um para o outro e os “bagageiros” saíram do quarto. , sentindo o cansaço começar a tomar seu corpo, sentou-se à beira da cama, retirando os sapatos sociais.
— Uau, que clichê — começou, sentando-se ao lado do parceiro. — Só temos uma cama.
— Isso é um problema para você? — provocou com um sorriso, tirando o terno sujo.
— Definitivamente, não — revirou os olhos. — Uma cama desse tamanho e com essa qualidade nunca seria um problema só porque preciso dividir com você.
— Ótimo, não é um problema para mim também — arrancou a camisa social, ficando apenas com o colete à prova de balas branco. — Só que, bem, preciso lhe alertar: eu amo dormir de conchinha, então, por favor, não me chute se eu acabar nesta posição com você.
— Céus, , não se atreva! — exclamou um tanto quanto risonha, sem acreditar no que ouvia sair da boca daquele homem de quase 2 metros de altura. — Não acredito que estou passando por isso. Ainda mais com um novato.
— Um novato muito experiente — ressaltou. — Mas, brincadeiras à parte… eu realmente gosto de dormir agarradinho.
— Não acredito nisso…
— O que é, ? Achou que eu fosse mais um daqueles agentes durões e que negam que gostam de um chamego?
— Sim, é como normalmente agentes secretos são.
— Não sou um agente qualquer.
— Estou vendo que não. É um agente carente.
— Sou. E daí?
revirou os olhos outra vez e deu de ombros — tudo o que queria era um banho quente e dormir, não uma discussão sobre chamegos e carência com . Antes de adentrar o banheiro, porém, disse firmemente:
— Você não vai dormir de conchinha comigo. Não temos intimidade para isso — ‘ainda’, completou mentalmente de maneira automática, sem entender-se por ter tal pensamento.
— Você é quem sabe...
Alguns minutos mais tarde, ao deitarem-se lado a lado e pegarem no sono quase imediatamente, quem acabou abraçada ao corpo grande e forte de -e ele, ao notar, não se importou; apenas abraçou a parceira com mais cuidado e aconchegou-se contra ela como um filhote de gato carente, sorrindo satisfeito.

Quando abriu os olhos, já não estava mais ao seu lado. Espreguiçou-se e varreu o quarto com os olhos. Através das cortinas abertas em frente à enorme cama, pôde ver que o céu já começava a escurecer novamente. Distraiu-se ao observar as cores do céu se mesclando harmoniosamente, lembrando-a da missão quase impossível que tinha pela frente. Normalmente ela gostava de fingir que era invencível e conseguiria passar por qualquer bandido que fosse, porém, naquela missão, em especial, estava apreensiva. Era a primeira vez servindo de “babá” de um outro agente e sem permissão para se envolver diretamente na ação, que era responsabilidade de outra pessoa. Caso tudo desse errado, ela deveria deixar e partir, mesmo que isso indicasse o fim definitivo da MI6.
ainda achava arriscado deixar uma missão tão importante nas mãos de um novato, não conseguia entender totalmente o fascínio de todos os seus superiores em relação a , tampouco o porquê de sempre deixarem-na ao lado dele -não se conheciam, não eram amigos e não tinham nada em comum até então. Aquilo não fazia sentido, mas, ainda assim, acatava as ordens sabendo que não tinha nada além daquilo para fazer. Não queria ficar “de castigo” novamente, tendo de lidar com questões burocráticas e missões regionais que consistiam em prender assaltantes de bancos. Não que não fosse um tópico importante, claro que era, mas ela gostava de chegar aos mandantes, nos chefes de quadrilhas, era uma agente treinada para isso, para viajar o mundo em busca de tiranos ricos e não seus subordinados; isso era missão para a polícia local.
Um cheiro quase hipnotizante de sabonete e perfume invadiu o quarto ao mesmo tempo em que o vapor começou a escapar através da porta do banheiro, tirando de seus devaneios de imediato. Olhou em direção ao banheiro e o ar ficou preso no peito, travando sua respiração quase de imediato. Com os cabelos longos soltos e molhados, saía do cômodo tranquilamente e distraído. Vestia apenas uma toalha branca enrolada no quadril, pouco abaixo do umbigo, deixando à mostra o peitoral bonito e malhado, com uma camada de pelos finos tomando-o por inteiro. A barriga possuía quadrados tão perfeitos que sentiu vontade de tocá-los por um momento, apenas de curiosidade. era, de fato, um homem bonito. Tinha as pernas grossas e malhadas, proporcionais ao corpo -diferentemente da maioria dos homens que conhecia-, ombros e costas largas, pescoço esguio e boa postura, braços firmes e musculosos, rosto bem desenhado e maxilar marcado -uma obra de arte gratuita e que agraciava a visão de quem quer que o olhasse-.
— Finalmente acordou — murmurou ao perceber o olhar analítico sobre si. — Desculpe estar assim — apontou para o próprio corpo seminu —, eu não esperava encontrá-la acordada. Você parecia cansada.
— É — murmurou, finalmente soltando a respiração. — Eu estava cansada, mesmo. E não precisa se preocupar em aparecer seminu na minha frente, agente . Você não é o primeiro, tampouco será o último, homem que vejo assim.
riu e deu de ombros.
— Sei que não, agente — rebateu. — É apenas uma questão de respeito. Não temos intimidade ainda. Embora sejamos marido e esposa neste hotel.
Ainda repetiu e jogou as cobertas para o alto, revelando o corpo igualmente forte, grande e bonito dentro de um conjunto de baby doll vermelho. — Está insinuando que um dia seremos íntimos, agente? — encarou-o com provocação e diversão nas expressões bonitas e ainda um tanto sonolentas.
encarou-a de volta e sorriu, respondendo finalmente:
— Claro que sim. Somos parceiros, é natural que se crie uma intimidade.
— Colegas de trabalho. Temporariamente parceiros.
— Como preferir chamar. Não me incomodo com rótulos.
— Você é ridículo — finalmente riu, enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro. — Vou tomar um banho.
— Tudo bem. Temos uma reserva no restaurante do hotel para às 19 horas.
— Nossa, como estamos sofisticados. Nunca havia sido tão mimada antes em uma missão.
— Pois é, parceira. Recebemos até mesmo roupas novas de grife. O seu pacote está em cima do sofá — respondeu e apontou para o móvel do outro lado do quarto.
— Roupas de grife? Isso é além do que eu imaginava para uma missão de extermínio — murmurou um tanto quanto incomodada, curiosa e desconfiada. Aquilo não era normal. Vigília em um restaurante dentro de um hotel de luxo e repleto de segurança? Não, definitivamente não era normal.
— O que foi? — perguntou, encarando-a.
— Nada… — piscou devagar e voltou a andar em direção ao banheiro, deixando o parceiro intrigado para trás. Talvez fosse melhor não compartilhar certas coisas com ele ainda; ainda estava muito deslumbrado com a MI6 para ser informado de toda a sujeira que ainda existia na agência.
tomou um banho longo e relaxante, como há muito tempo não fazia. Mesmo que estivesse preocupada e confusa com tudo o que estava acontecendo, decidiu aproveitar. Eram os últimos momentos de paz antes de dar a missão como completamente iniciada. Quando seu celular apitou informando que já eram 18h40min, levantou-se da banheira de porcelana e seguiu até o chuveiro, tomando uma ducha quente e demorada o suficiente para deixá-la com a sensação de estar completamente limpa. Enrolou-se na toalha e abriu a porta do banheiro, não encontrando Ben pelos arredores -o que a fez agradecer mentalmente, porque não queria passar pelo constrangimento inverso ao que passara minutos antes, quando o encontrou seminu. Foi até o sofá a passos largos, pegando a caixa que continha seu nome e ainda estava devidamente lacrada, mostrando que Ben sequer tentara dar uma olhadinha. Curiosa, avaliou o quarto outra vez, procurando pelo companheiro. Encontrou-o, por fim, na sacada do quarto e falando ao celular enquanto encarava o céu já escuro e com algumas estrelas salpicando-o. Mesmo de costas, pôde notar que Ben estava lindo. Ele vestia uma calça de linho fino vermelha e um par de sapatos pretos bem engraxados e limpos. Na parte superior, no entanto, não vestia nada e parecia não se importar com o vento gelado que o acertava em rajadas lentas, porém fortes o suficiente para bagunçar a parte solta de seu cabelo -ele tinha um típico ‘coque samurai’ com algumas mechas soltas na parte de trás, deixando-as cair sobre a nuca e ombros-. Como se sentisse o olhar em suas costas, Ben virou-se segurando o celular firmemente na orelha e a encarou, pegando-a no flagra.
suspirou e desviou o olhar rapidamente, voltando para o banheiro com sua caixa em mãos. Ao fechar a porta, suspirou e balançou a cabeça negativamente -sentia-se queimar apenas por lembrar-se do olhar que a lançara; não sabia que era capaz de carregar tanta tensão por conta de um mísero agente, do qual ela só queria se aproximar, inicialmente, para fazer bem seu trabalho e descobrir seus segredos para, finalmente, ficar em paz e sem desconfiar tanto do colega.
Olhou para o celular outra vez. 18h55min. Certo, tinha cinco minutos para arrumar-se e chegar até o restaurante -e ela sabia que isso não aconteceria, então já estava ensaiando as desculpas para justificar seu atraso-. Após vestir-se e passar uma maquiagem rápida, porém chamativa como gostava, saiu do banheiro e sentou na cama para calçar as sandálias pretas e de saltos grossos, sem importar-se com sentado na mesma e apenas observando-a em silêncio -completamente vestido, desta vez-; ela reparou no conjunto de terno vermelho, mas preferiu ficar em silêncio.
— Estou pronta — sentenciou ao levantar-se da cama devidamente arrumada.
, no entanto, fitou-a dos pés à cabeça e engoliu a seco, tentando manter a boca fechada. sorriu divertidamente ao perceber que não era a única a sofrer pela beleza alheia. E ela sabia que estava linda; sentia-se belíssima, na verdade, mais do que o normal.
O conjunto de saia de longa amarela e uma blusa fina e curta dourada com detalhes brancos faziam-na sentir como se fosse, de fato, a mulher milionária que interpretava naquele momento. Era como se exalasse poder apenas por vestir um conjunto caro e que moldava seu corpo curvilíneo e musculoso na medida certa.
— Você está linda — murmurou enquanto se levantava rapidamente, ajustando as roupas em seu próprio corpo. — Vamos?
— Obrigada, novato, você também está lindo — sorriu simpática e entrelaçou seu braço ao de , que estava estendido em sua direção. — Vamos, estou pronta para instaurar o caos neste hotel.
riu e balançou a cabeça negativamente — era mesmo uma figura.
Quando chegaram no restaurante, foram bem recepcionados e logo se acomodaram à mesa, com uma belíssima visão de todo o espaço. Quando a recepcionista se retirou, deixando-os sozinhos, puderam ver um envelope de tamanho médio sobre a mesa. Não tinha nada escrito, mas sabiam que eram coordenadas para ambos. averiguou o salão atentamente e ocupou-se em abrir o envelope com cuidado.
— O alvo está aqui — murmurou enquanto voltava sua atenção para o cardápio.
— Parece que hoje terá uma festa na cobertura em que ele está hospedado — murmurou de volta, colocando os dois convites sobre a mesa e empurrando-os para a parceira. — Fomos convidados.
ergueu o olhar para ele e sorriu de forma irônica.
— É claro que fomos convidados.
Após alguns minutos, fizeram um pedido de alguma comida típica e não esperaram muito. Fingiam conversar e mexer no celular quando, na verdade, estavam vigiando e fotografando o alvo.
— Posso te fazer uma pergunta, ? — perguntou baixo, largando os talheres que segurava com cuidado.
— Vá em frente, novato.
— Por que está tão tensa e desconfiada com essa missão?
bebericou sua taça de vinho branco e encarou o colega, ponderando se deveria ou não comentar suas suspeitas. Achou melhor não, já que poderiam estar sendo vigiados sem saber.
— Impressão sua, . Não estou desconfiada, apenas fiquei surpresa com o quão imerso estamos nesses personagens quando não há a menor necessidade disso. Amanhã provavelmente todos saberão quem somos de verdade.
— Eu sei que nos conhecemos agora — começou calmamente, bebericando a própria bebida. — Mas eu sou bem observador e consegui gravar alguns trejeitos seus… você é mais transparente do que pensa que é. Não foi apenas surpresa, , pode falar comigo. Se está acontecendo alguma coisa, acho que preciso saber. Afinal, esse é meu trabalho também.
— Está tudo bem, donzela, não fique imaginando coisas — sorriu e voltou a fitar um ponto atrás de , onde o alvo estava sentado com seus seguranças e alguns amigos. — Vamos focar no nosso trabalho para irmos embora o mais rápido possível. Nosso alvo está sentado à mesa com os seguranças, além dos que estão na entrada do restaurante e em algumas mesas ao redor. Ele parece ser algo grande.
— Espero que um dia sejamos amigos ou ao menos tenhamos confiança o suficiente um no outro para você me contar os segredos da MI6 — deu de ombros, mas averiguou as informações que lhe foram dadas. — Estou tentando imaginar como passarei por tantos seguranças na hora ‘H’.
— Tenho certeza que dará um jeito — sorriu de forma travessa. — Além do mais, estarei sendo seus olhos em algum desses prédios e prometo que irei informá-lo direitinho por onde passar. Agora, acho que você deveria sentir vontade de ir ao banheiro. Nosso alvo está se movendo em direção ao toilette.
revirou os olhos e levou o guardanapo de pano até à boca, limpando-a com classe. Levantou-se com sua postura magnífica e caminhou em direção ao banheiro masculino. Logo que entrou, pôde ver o homem vestido em um terno roxo chamativo parado em frente a um dos mictórios. Aproximou-se como quem precisava apenas aliviar-se, ignorando completamente a dupla de segurança na porta. Pôde reparar com uma olhadela rápida que o homem usava um broche banhado em ouro grudado no peito, além de várias outras joias nos pulsos e pescoço. concentrou-se em realizar suas necessidades, mesmo contra sua vontade, para que não ficasse muito óbvio que estava apenas vigiando o outro.
O homem ao seu lado fechou as calças e seguiu até às torneiras, lavando a mão enquanto fitava através do espelho -ele não era idiota, afinal, e havia reparado nas olhadas disfarçadas. , porém, sequer moveu-se enquanto sentia o olhar alheio queimar suas costas; torcendo para que não desse nada errado e o homem não viesse confrontá-lo. Por fim, fechou suas próprias calças e virou-se em direção às torneiras para lavar as mãos. Lavou-as ignorando o olhar curioso sobre si, fazendo-se de sonso. Secou as mãos com as folhas de papel dispostas ao seu lado e jogou-as no lixo. Quando estava prestes a sair do banheiro, um dos seguranças invadiu o espaço e uma simples palavra que ouviu, o fez entender o porquê de tantas pessoas ao redor de seu alvo:
— Está tudo bem, Alteza?
sentiu-se travar, e uma onda de conhecimentos básicos o pegou de surpresa. Tráfico no Oriente Médio. Rios de dinheiro. Joias valiosas. Roupas de grife. Hotel de luxo. Era óbvio que o homem que precisava pegar não era apenas um investidor de petróleo ou algo do tipo, que traficava por diversão. O país ainda mantinha o sistema de monarquia constitucional, onde havia uma família real que participava ativamente da política e da economia do país, tendo certo poder, mas não de forma direta ou soberana, como na monarquia absoluta -em que os monarcas comandavam todo o país-.
saiu do banheiro como se não tivesse ouvindo nada, mas sua cabeça estava um turbilhão de pensamentos confusos.
— Quando pretendia me contar que precisamos assassinar um membro da família real do Kuwait? — foi a primeira coisa que perguntou ao sentar-se de frente para novamente, logo tomando os talheres nas mãos novamente, beliscando a sobremesa posta à sua frente; provavelmente a pedido da parceira.
— Estragaria toda a diversão da missão, novato — sorriu tentando aliviar a tensão.
— Não há nada de divertido aqui, , não sei se tem noção disso — murmurou, tentando manter uma expressão impassível no rosto. — Precisamos assassinar um, possivelmente, príncipe em um país estrangeiro. Vamos bagunçar ainda mais a política e a economia deles para simplesmente posarmos de heróis europeus?
— Veja bem, : — o fitou nos olhos — para mim, não importa o que ele é, a bagunça que ficará este país ou qualquer outra coisa, estou aqui a trabalho e executarei minha parte. Se quiser desistir, a hora é agora. Sei que não justifica, mas temos que ter em mente que ele é, na verdade, um traficante perigoso e assassino que precisa ser retirado das ruas imediatamente. Sendo quem ele é, acha que alguém desse lugar teria coragem de prendê-lo ou até mesmo matá-lo? Às vezes somos enviados para fazer o trabalho sujo de outras pessoas. Isso ajuda à nossa economia girar dentro da MI6. Não estou dizendo que concordo, tive meus momentos assim como você no início, mas, com o tempo, aprendi a ter frieza e fazer o que preciso fazer. E ele não é bem um príncipe, acho que se casou com uma princesa legítima; é apenas o marido dela, não vai fazer tanta diferença.
— Eu não me importo com quem ele é. O problema aqui é que vamos fazer aquilo que deveríamos punir.
— Não é para mim que você deve dizer isso, . Entendo sua revolta, acredite em mim, eu realmente entendo. Mas não há nada que possamos fazer a não ser executar a missão. Do contrário, será o fim da MI6.
— Estou começando a achar que essa talvez seja a melhor opção. Não quero estragar minha vida me tornando um assassino particular do nosso governo genocida.
— Sinto lhe informar, novato, você escolheu a profissão errada. Deveria estar nas universidades participando dos movimentos de conselhos estudantis e indo para as ruas cobrar melhorias e mudanças. Ir para o Direito, para a área de criminologia e, depois, para as agências de inteligência e serviço secreto, não é a melhor opção quando se tem esse tipo de pensamento. Fomos enviados aqui para salvarmos a MI6 em prol do governo, não cabe a nós questionar isso. Ao menos não agora, a essa altura do campeonato.
— Não é possível que ache tudo isso normal, .
— Não acho, , mas já estou aqui há tempo demais para tentar mudar ou desistir. Não sei fazer outra coisa a não ser fingir ser quem não sou para atrair alvos, matá-los ou levá-los presos para a Inglaterra. E você, é tão diferente assim? Se for, recomendo que abandone o barco agora. Se continuar, não terá mais volta. Pode se tornar alguém como eu, ou pior.
— Por que aceita tudo isso, ?
— Porque preciso pegar James Langdon de alguma forma. E você, novato, por que decidiu tentar o recrutamento da MI6? Algo me diz que foi pelo mesmo motivo.
— Não acha que isso é egoísmo?
— O ser humano é egoísta, . E não fuja das minhas perguntas. Eu sei que você tem algo a mais com James Langdon, ele o chamou de “amigo de longa data”. Tenho certeza que compartilham um segredo importante, e vou descobrir qual é. Seu falso moralismo e o punhado de ideais revolucionários não são o suficiente para me enganar.
— Não quero te enganar, . Entrei para a MI6 porque quero fazer justiça.
— A MI6 não é um lugar para fazer justiça, donzela. A MI6 é um lugar para fazer sujeira e varrer para debaixo do tapete.
sentiu um arrepio lhe cruzar o corpo ao ouvir a fala da companheira. Naquele momento, sentiu-se mais tenso do que enganado. Sabia que sujeira e mau caratismo existiam em todos os lugares, todas as profissões, principalmente nas áreas governamentais e da justiça — nada era de fato justo. Contudo, não imaginava que a MI6 fosse tão suja quanto o resto. Doía ter de assumir, mas: estava certa. Todos os seres humanos eram egoístas, e ele não era diferente.
Também estava ali para pegar James Langdon, mas ele jamais diria em voz alta.
— Você tem duas opções, : — voltou a falar, fitando-o nos olhos intensamente. — Ir à festa esta noite e traçar o caminho que terá de percorrer amanhã, ou ligar para Ivy solicitando o voo de volta. Qual vai escolher?
, sem desviar o olhar, respondeu:
— Espero que esteja pronta para varrer mais um punhado de sujeira para debaixo do tapete.
sorriu satisfeita, embora sentisse a culpa pesar em seu coração como em todas as outras vezes -havia estudado e trabalhado tanto para tornar-se agente, assim como , e não uma assassina-. Através dos olhos penetrantes do novato, enxergou um pouco de si mesma há alguns anos atrás. E essa conexão a fez voltar a questionar se tudo aquilo valia a pena. Ao lembrar-se da forma que seu pai fora brutalmente assassinado em sua frente, concluiu que, sim, valia a pena; a vingança era a única coisa que a mantinha viva. Desistir de pegar James Langdon era desistir de si mesma e de sua própria vida -era assinar seu atestado de óbito-. E sabia que para era algo parecido, e era questão de tempo até que ele assumisse.
— Sábia escolha, novato — foi o que respondeu, enquanto virava o resto de vinho que ainda tinha em sua taça.

*Al Jahra: cidade no Kuwait.


Continua...



Nota da autora: Oi, gente! Eu espero que estejam gostando, muito obrigada por acompanharem e comentarem sempre! Fico muitíssimo feliz! Agora, finalmente, vamos começar a ver a história tomar forma e vamos entender os protagonistas, eles têm ambições muito parecidas, mas pensam de forma muito diferentes, só que é isso que faz eles serem a combinação perfeita. O problema é que ainda não conseguem enxergar isso xD Logo, logo teremos eles dois começando a perceber essas nuances e criando um laço muito importante para nossa trama. Enfim, não deixem de comentar e de entrar nos meus grupinhos no Facebook e no WhatsApp pra receber spoiler! Até a próxima <3



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