Última atualização: 31/12/2018
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Prólogo

Nem mesmo o vento gelado do inverno constante foi capaz de conter o grupo que se aproximava do bosque. Era uma noite fria em Omelas, a nevasca era forte, seus pés afundavam conforme pisavam na neve, mas isso apenas os incentivava a seguir em frente com mais determinação, afinal, era a prova de que o tempo estava acabando e que o ritual precisava ser novamente iniciado para por fim no inverno rigoroso que tomava a cidade nos últimos anos. Era essa, afinal, a maldição da cidade. Todos sabiam a única forma de pará-la, mesmo que evitassem tocar no assunto.
Era a vida de um por todos os outros, sempre foi assim. Um sacrifício necessário, mas não fazia com que se sentissem menos culpados por entregar uma de suas crianças. Um de seus filhos, e de mãos dadas seguiram apoiando um ao outro. Saber que era necessário não fazia com que fosse mais fácil. Tentaram evitar que o ritual fosse iniciado, tentaram ter esperança de que fosse apenas uma lenda, mas a cada dia ficava mais óbvio de que se aquilo não fosse feito, ninguém se salvaria no final.
O grupo visualizou as luzes ao longe, ao redor da maior árvore da cidade, e algumas lágrimas foram derrubadas. Era fácil reconhecê-la, era fácil saber que havia algo místico sobre ela. Apenas aquela árvore ainda vivia com o inverno interminável de Omelas e o ancião da cidade, o único que havia presenciado mais de um ritual e sabia como fazê-lo, já os aguardava ali.
— Boa noite. — o senhor falou por educação assim que se aproximaram, mas ninguém respondeu. Ele não esperava também que respondessem de fato. Não era uma boa noite e para um dos casais ali, jamais seria.
— O… o que vai acontecer depois? — uma das mulheres gaguejou, com lágrimas presas na garganta. Eram sete ao total. Sete mães para sete filhos. — Quando terminarmos, o que vai acontecer com o… Escolhido?
O homem a encarou com pesar. Estava tão bem com aquilo quanto qualquer um no grupo. Queria não ser o responsável por iniciar aquela tragédia, mas era o que mais conhecia a real necessidade daquilo.
— Não precisamos falar sobre isso. — respondeu com calma, mas a mulher negou a cabeça.
— Precisamos saber. — falou agora um dos pais, não dando oportunidade para que a mulher o fizesse. — Antes… Antes que aconteça, nós vamos saber quem é?
— Não é bonito. — o senhor respondeu com tristeza e sentiu as próprias lágrimas prestes a darem indícios de escorrer. Na sua época, perdeu o melhor amigo para a cidade. — Em algum momento ele vai saber que é ele. — explicou, quando notou que ninguém cederia. — E raramente eles entendem, é normal que tentem lutar contra isso, contra o chamado, mas não há nada que possa ser feito.
O som do choro ficou mais forte, alguns casais se abraçaram e outros seguraram com mais intensidade suas mãos juntas. Todos compartilhavam da mesma dor.
— Então… É isso? Ele vai tirar a própria vida? — perguntou novamente um dos pais, o único que teve coragem o suficiente para fazê-lo. — Ele vai literalmente se sacrificar pela cidade?
— Eu temo que sim. — o ancião respondeu, e ninguém perguntou mais nada, ou o que aconteceria se não fosse feito daquela forma. Estava evidente afinal e se um não se entregasse por todos, o lugar em que estavam presos simplesmente ruiria. Não sobraria pedra sobre pedra para contar a história de Omelas.


Capítulo 1

ATUALMENTE


— CARAMBA, EU DISSE! — berrou, exausto de tanto correr em meio a penumbra. O tempo estava acabando, afinal, era a madrugada mais fria daquela semana e antes de mover as pernas mais rápido pelos trilhos, observou em volta a respiração pesada de e , que também estavam com dificuldade para acompanhar a velocidade dos outros quatro.
— ANDA, ! — ofegou, levantando uma das mãos para o alto a fim de mostrar o trem que diminuía a velocidade gradativamente. — , . — gritou desesperado para os outros dois, notando que mal conseguiam acompanhar o ritmo dos outros. Eles estavam bem mais à frente.
O barulho dos freios do trem começaram a ficar mais forte e estremeceu com o pensamento de deixá-lo para trás.
Não podia deixá-los para trás.
A promessa feita entre eles era de fugirem todos juntos, nem que isso os levasse até seu último suspiro. Não cogitaram nenhuma outra possibilidade. Não deixaram completar a frase quando ele tentou impor que era tudo ou nada. No caso, todos ou ninguém. Sabia o real motivo por terem feito isso. Era ele o amaldiçoado. Se ficasse, estava fadado a morte, mas ele não poderia deixar um para trás correndo o risco deste ter que tomar o seu lugar para salvar Omelas com sua vida, e contra a sua vontade.
Era tudo ou nada, mas aquela pequena frase que por meses lhe trouxe esperança, agora lhe trazia apenas o mais profundo desespero ao perceber que , e não estavam conseguindo alcançá-los para tomarem o trem. O único trem, a única chance antes do sacrifício final. O trem fantasma que apenas era capaz de ver e ouvir.
Era só uma lenda a princípio, descoberta após muito custo. Era o fio de esperança. Um possível expresso que apareceria às 23:00 horas da noite mais fria do mês de julho, nos trilhos da cidade. Uma chance única para os condenados. Ninguém sabia o que acontecia com a cidade se este fosse embora. Ninguém sabia como tomava o trem se ninguém podia vê-lo ou ouví-lo. Ninguém nunca havia fugido de Omelas antes, era impossível, mas então lá estavam eles, diante da oportunidade única que estavam prestes a perder.
— Eu estou no meu limite… — respirou entrecortado, diminuindo o ritmo enquanto as passadas de e começaram a ficar mais rápidas. — Não… aguento…
! — , cansado, fez uma pausa, segurando na mão do amigo e ajudando-o a aumentar o ritmo dos passos. Ele também estava prestes a desistir, mas sabia que não podia fazê-lo, por . O garoto não iria sem eles e ali, em Omelas, morreria. Jamais se perdoaria por não ser forte o suficiente para salvar o melhor amigo. Jamais suportaria perder o melhor amigo. Tanto quanto suportava a ideia de deixar qualquer um para trás. — Vem, amigo. Eu te ajudo. — ele o impulsionou para frente com toda a força do corpo. — Corre, ! Corre.
— Eu não consigo. — choramingou em desespero por não aguentar mais correr e pior, por atrapalhar a conseguir alcançar a única oportunidade que tinham de fugir daquela cidade. — Vão! — Ele ordenou, se libertando das mãos de . — Saiam dessa cidade e não fiquem presos por minha causa. — seu coração começou a bater mais rápido que o normal em seu peito e aquelas palavras foram tão libertadoras que ele soube que estava fazendo o certo. Os amigos precisavam seguir em frente e lutar pela liberdade. Pela vida longe de Omelas.
— Ninguém vai ficar para trás! — gritou, parando de correr para se voltar para o grupo.
, você precisa ir! — devolveu no mesmo tom, xingando ao olhar para os trilhos e não ver a droga do trem para saber se estava ali ainda ou não. — ! Que droga, você precisa continuar.
— Eu não vou se não forem todos!
— Você tem que ir, ! Corre de uma vez! - , no meio do caminho entre os dois grupos, gritou também.
— Não! Eu não vou me salvar enquanto vocês ficam para trás! Nós não sabemos o que vai acontecer se alguém ficar!
, nós não temos tempo para discutir sobre isso! - gritou também. - Vem logo! Você precisa vir!
O trem apitou e sem conseguir se conter, o garoto olhou para a plataforma de forma automática, o que foi suficiente para que os amigos, que o conheciam desde o nascimento, saberem o que havia acontecido. Era aquela a hora.
— Arraste ele se for preciso, ! — gritou, mas enquanto o garoto voltava para alcançá-lo, negou com a cabeça. Se não poderiam ir todos, então ele preferia que tudo acabasse ali.
— Me desculpa. — sussurrou, deixando que uma lágrima escorresse de seus olhos. Era medo do pensamento que surgiu em sua cabeça, medo de morrer, mas ele nunca antes achou aquilo tão certo.
, não! — gritou, sua voz sendo ofuscada pelo grito dos outros.
Era triste que depois de terem chegado tão longe, precisasse acabar daquela forma, mas se fosse pelos amigos, então podia fazer com satisfação.
Era mais do que uma vida pelo bem de Omelas. Era a sua vida pela vida dos amigos. Um preço baixo a pagar pelo bem dos outros seis.

+++
TRÊS MESES ANTES

Fazia tanto tempo que não via o sol, que sequer lembrava da sensação. Do que era ter luz contra a sua pele, ou o calor. A maldição da cidade fazia com que cada dia fosse mais frio que o anterior, mais triste também. As vezes ele se perguntava o motivo da tristeza, o porquê de todos andarem de cabeça baixa das ruas, falarem tão baixo. Questionava se era a maldição, ou apenas uma consequência dela e dos dias frios que trazia.
Era de se esperar afinal, que uma hora todos se acostumassem com o frio, mas parecia ser o contrário. só não sabia dizer se era como se a falta do calor sugasse também a vida das pessoas ou se era apenas a culpa por saber que que aquilo só passaria quando alguém se sacrificasse por todos. Pior, desejar que isso acontecesse para que pudessem ver o sol novamente.
Mas preferia viver no inverno eterno de uma cidade triste do que ver o sol de novo sob aquelas circunstâncias. Sob a pena da vida de um de seus amigos, porque sabia que seria um dos sete.
Sentado do lado de fora da janela do seu quarto, o garoto suspirou, aproveitando a altura para olhar os muros da cidade. Era engraçado, nada de fato os impedia de sair, mas ninguém jamais havia saído de Omelas. Por curiosidade, ele e seus amigos já haviam tentado, mais de uma vez, mas sempre acabavam voltando para a igreja da cidade, no relógio da torre. Independente de onde pelo muro tentavam sair, era lá que apareciam sempre que atravessavam.
Não que houvesse alguma coisa do outro lado de qualquer forma. No verão, tudo que viam do outro lado era areia, como a de praia, e escuridão. No caso, graças ao inverno, só se via o chão coberto de neve e um vazio assustador gritando que mesmo que houvesse como sair, não teria nada para ser visto.
pensou se não seria mais fácil então, simplesmente pular dali. Ele sempre desejou tanto se libertar. Se pulasse, se libertaria e pouparia um dos amigos de ter que fazer isso. Poderia trazer a alegria de volta para a cidade com seu sacrifício, e o verão. O parque que costumavam frequentar podia voltar a funcionar e todos teriam seu final feliz.
Satisfeito com aquela idéia, levantou. Era o mais perto que chegaria da liberdade, ou de fazer algo por si mesmo, mas então, ao ouvir risos de algum lugar mais abaixo, congelou onde estava.
Mas o que diabos ele estava pensando?
não era suicida. Ele queria se libertar para poder viver, para ser feliz longe dali. Ele não queria que tudo acabasse, ele queria viver de verdade e arregalou os olhos ao se dar conta do que ele esteve prestes a fazer.
Ele ia se jogar? Ele realmente cogitou se jogar?
E então o pânico cresceu em seu peito. Passou tanto tempo preocupado com a possibilidade de um dos amigos ser a oferenda que nem passou por sua cabeça que pudesse ser ele. E se fosse ele?
! — gritou lá de baixo e ainda assustado, o garoto desceu o olhar para encará-lo. — O que está fazendo de pé ai, ficou idiota?
— Mais do que o normal, no caso. — acrescentou aos risos e riu também.
— Ficou mais idiota do que o normal? — reformulou a pergunta, mas não soube o que responder.
— Estamos subindo. — avisou, mas se virou para a janela quando ouviu passos já dentro de seu quarto.
— Eles estão subindo. — respondeu, jogando-se sobre a cama do garoto sem qualquer convite. Já tinham passado desse nível de intimidade há alguns anos. — E deixa de ser idiota, sai logo dai antes que caia. — revisou os olhos antes de estremecer. — Mas que frio faz no inferno desse lugar!
— Esse é o objetivo. — respondeu, jogando-se sobre o puff azul em um dos cantos do quarto. - Agora a tendência é ficar mais frio até que…
— Cala a boca, não fale disso. — o repreendeu, jogando nele o travesseiro de .
— Vamos ter que falar uma hora. — o respondeu, sentando-se no chão ao lado de que já havia se acomodado. - E eu acho que… Eu acho que foi ontem.
— O quê? O ritual? — perguntou, sentando-se ereto sobre o puff enquanto dobrava a atenção que prestava no assunto. , por sua vez, sentiu sua temperatura corporal ir a zero mesmo sob as roupas grossas de inverno e tenebroso, colocou a cabeça para dentro do quarto, não entrando por temer denunciar seu interesse repentino e exagerado no assunto. E se fosse ele? E se ele já estivesse sofrendo as consequências da maldição? — Por que você acha isso?
— Estava fazendo menos sei lá quantos graus na madrugada de ontem, mas de repente meus pais acharam uma ideia excelente dar uma volta no meio da noite. — justificou e bufou, como se demonstrasse insatisfação por ter ficado preocupado por besteira. Como se aquilo não significasse nada além de um alarme falso.
— Eu tenho certeza que existem outros motivos para fazer um casal sair sozinho no meio da noite, especialmente quando eles tem um filho. — respondeu, entrando no quarto e esperando passar para fechar a porta.
fez uma careta, como se só então pensasse sobre isso.
— Obrigado, eu realmente queria adquirir um trauma. — ele falou e deu de ombros enquanto puxava as pernas de para se sentar ao lado dele na cama do mais novo.
— Exatamente por isso eles sairiam, bebezão. — debochou despreocupado.
— Eu acho… — falou, de repente sentindo-se prestes a chorar. Aquele assunto lhe trouxe de volta memórias da noite anterior. Memórias das quais não se lembraria se aquele assunto entrasse em pauta dali há alguns dias, por exemplo. — Eu acordei no meio da noite, ouvindo vozes. Parecia um choro e achei que tivesse acontecido alguma coisa. — continuou, odiando dizer aquilo em voz alta. Fazia com que tudo parecesse mais real e ele odiava aquela realidade, aquela maldição e aquela cidade. — Eu levantei apressado e tudo voltou a ficar em silêncio quando eu tropecei para sair da cama. Achei que tinha sonhado, ou que tinha vindo da rua. Esperei um pouco, mas não ouvi mais nada então voltei a dormir. E se…?
, para. — se sentou, tentando esconder a preocupação com algumas palavras rudes. — Você pode mesmo ter sonhado. Não precisa ter começado.
, ninguém mais aguenta esse frio. Os aquecedores não dão mais conta. — justificou.
— Está frio porque esse idiota está com a janela aberta. — apontou para . — Dá pra entrar e fechar isso? — falou autoritário e obedeceu sem dizer nada. estava tão assustado quanto todos os outros, e aquela era sua forma de demonstrar isso. , aliás, sempre teve uma forma um tanto quanto peculiar de demonstrar afeto, mas ele não precisava dizer o que sentia para que os outros soubessem. Estava ali, sempre que ele olhava para os mais novos como um pai orgulhoso, mesmo quanto estavam sendo idiotas. Ou quando brigava para que comessem, que colocassem a blusa, ou que saíssem do telhado porque podiam morrer, como há pouco.
— Você sabe que não é só isso. Está finalmente acontecendo. — falou, com uma seriedade que raramente demonstrava apesar de ser o mais velho. — Ia acontecer mais cedo ou mais tarde e aconteceu.
— Não. — negou com a cabeça, recusando-se a aceitar que um deles estava fadado a morte. — Ninguém está sentindo nada de diferente, está? Estamos todos bem.
— Não sabemos como funciona a maldição, . — o respondeu com calma. Uma que ele definitivamente não sentia diante da situação, mas que fingiu sentir. — Não sabemos se vai mudar alguma coisa ou se vai simplesmente acontecer.
— Então precisamos saber. — devolveu inabalável. — Sondamos nossos pais e se isso não resolver, invadimos a casa do ancião.
— Invadir, ficou louco? — respondeu, perplexo, de onde estava, sentando ao lado de enquanto dividiam um espaço que certamente não fora feito para suportar duas pessoas.
— Eu não vou deixar ninguém ser o sacrifício de nada! — retrucou, aumentando o tom de voz inconformado que tivessem realmente debatendo o assunto.
— Não funciona assim, . — respondeu com pesar e todos se voltaram para ele, atentos ao que tinha a dizer. Especialmente , que sentia seu coração prestes a sair pela boca. — Não vão escolher um para matar. É espontâneo. — explicou, e sentiu o medo crescer em seu peito com a fala.
— Espontâneo? — o garoto perguntou, surpreendendo-se consigo mesmo por soar tão firme. — O quê? Alguém vai simplesmente sentir uma necessidade maluca de se matar?
— Pelo que eu entendi, é. — respondeu e apenas concordou com a cabeça.
— Isso… — negou, recusando-se a aceitar aquela possibilidade. — Tem que ter alguma coisa que possa ser feita e só vamos descobrir se procurarmos. Se fizermos o que for necessário para encontrar. — disse com convicção. — Não vamos perder ninguém. Não podemos. E se qualquer coisa mudar, se alguém sentir qualquer coisa diferente, vai contar porque precisamos impedir o que quer que seja isso.
— E se não tiver o que fazer? — perguntou receoso. Ele cresceu sonhando em fugir de Omelas e ao mesmo tempo, ciente de que era impossível. Ele cresceu temendo o dia em que aquele momento chegaria, o de perder um membro do grupo, e saber que a pessoa poderia ser ele, o assustava tanto quanto.
Não sabia dizer se tinha mais medo de morrer, ou de perder alguém que amava.
— Você vai se perdoar por nunca ter tentado? — devolveu, e apenas o encarou. Se fosse um deles, não. Mas e se tentar apenas fizesse tudo ficar pior para ele? Ter esperanças de que poderia ter salvação quando não tinha.
— Nunca vou me perdoar se um de nós precisar morrer pelos outros. — respondeu por e o mais novo lutou para controlar o misto de sentimentos conflituosos em sua mente. Deveria ficar satisfeito por ser ele e não os outros, mas estava tão assustado com a possibilidade de perder a própria vida que simplesmente não conseguia. Isso, claro, trazia também a culpa. Ele podia ouvir aquela vozinha no fundo de sua mente dizendo que talvez o momento no telhado não fosse nada. Estavam apenas no segundo andar, ele não morreria se caísse.
Mas se não fosse ele, seria um dos outros.
só queria que todos pudessem ficar bem.
— Não vamos deixar que aconteça. — levantou da cama, e fez sinal para que fizessem o mesmo.
— O quê? — perguntou, confuso, mas apenas repetiu o gesto.
— Vem logo. — insistiu, e quando todos pararam em um círculo, ele olhou para o rosto de todos, um a um, antes de continuar. — Se qualquer um de nós sentir qualquer coisa fora do normal, vai contar. Isso é uma promessa. Se qualquer coisa mudar, vai contar. Precisamos saber, precisamos nos prevenir enquanto buscamos uma forma de fugir disso, sair de Omelas, e vamos conseguir.
— Ninguém jamais saiu de Omelas antes, . - respondeu cabisbaixo, mas o outro não se abateu por isso.
— Como você sabe? Quem saiu não pode contar, pode? Não está mais aqui. — retrucou antes de suspirar. — Eu sei que ter esperança só vai fazer doer mais se tudo der errado, mas não podemos só ficar parados, esperando que aconteça. Maldições começam por um motivo e sempre têm uma forma de serem quebradas. Precisamos descobrir a nossa, lutar por isso e postergar o sacrifício pelo máximo de tempo que pudermos assim que descobrimos o escolhido.
estendeu uma das mãos para frente, em sinal de punho.
— Então a promessa é fazer tudo que for possível. — falou e concordou, estendendo sua mão também.
— Fazer tudo que for possível e lutar. — repetiu, acompanhando com o olhar quando ergueu seu próprio punho, seguido de com um sorriso no rosto e . foi o próximo, com um olhar de satisfação no rosto. Um que não era comum naquela cidade, nos tempos difíceis que se faziam e apenas vacilou ao entrar ali.
? — chamou, a preocupação evidente em seu tom de voz. — Está tudo bem? — perguntou e o garoto lutou para esconder seu olhar amedrontado antes de encará-lo.
— Sim. — respondeu, erguendo seu punho para se juntar aos outros.
— Se tiver algo errado, precisa nos dizer.
— Não tem nada de errado. — garantiu, suspirando antes de desviar o olhar para suas mãos juntas no meio da roda.
— Faremos o que for possível. — disse também, mesmo sem ter a certeza de que isso era o melhor, ou do quanto daquele pensamento de desistir, era apenas a maldição falando por si.


Capítulo 2

tremia de frio quando olhou para a neve sob seus pés descalços. Àquela altura, cada noite era mais fria que a anterior e não fazia qualquer sentido que ele estivesse descalço naquele frio, no meio da cidade. Foi pensando sobre isso que ele se deu conta de outro detalhe, como o fato de não ter ideia de como havia chegado ali. Estava na praça, embaixo de um das maiores nevascas que já havia presenciado e vestia apenas uma calça de moletom e uma camisa fina de mangas compridas. Definitivamente finas demais para o frio que fazia.
O garoto cruzou os braços em frente ao peito e confuso, olhou ao redor. Não havia uma única pessoa na rua, e nem era de se estranhar. O frio era tanto que até mesmo seus ossos chegavam a doer. Louco era ele de ter saído de casa.
Foi então que se perguntou se aquilo também era uma consequência do ritual. Talvez ele também levasse sua sanidade e o garoto tinha caminhado até a praça no meio da noite em uma forma de se matar inconscientemente. Era assim que funcionava, não era? Suicídio inconsciente? Caminhar pela rua com uma blusa tão fina no meio de uma noite em Omelas só podia ser mais uma tendência suicida. Morte por hipotermia, quem sabe. Não podia negar que fazia sentido.
Decidido a não deixar que as coisas terminassem daquela forma, não tão rápido e sem luta, deu o primeiro passo para frente, mesmo que ainda não tivesse um plano ou mesmo um lugar para onde ir. Podia, quem sabe, quebrar a janela de um carro para se proteger do frio ou invadir uma casa. Seria péssimo, é claro, explicar para as pessoas o motivo disso, mas não era como se ele tivesse muitas opções. Era isso ou a morte, e ele não queria morrer. Não estava pronto independente de soar como egoísmo e tampouco deveria ser julgado por querer viver.
No final, era uma situação cruel. Não só pelo sacrifício, mas pela forma como aquilo abalava seu psicológico. Fazia você culpar a se mesmo por ter medo, se condenar por escolher lutar, escolher viver e o ódio que sentiu foi o combustível necessário para que ele conseguisse dar mais um passo, sem olhar para o chão.
Seus dedos doíam tanto em contato com a neve que ele teve medo de olhar e descobrir que estavam roxos. Apenas torceu para que a dor fosse um sinal de que ainda não haviam congelado.
Por quanto tempo, afinal, estava ali? Por quanto tempo havia andado até chegar ali? A praça ficava há uns cinco minutos de caminhada de sua casa. Fazia cinco minutos que ele andava inconsciente naquele frio? Isso era possível?
sentiu sua garganta se fechar, mas lutou para se manter firme. Ele e os garotos haviam feito uma promessa. Conseguiriam dar um jeito naquilo, mas para isso ele tinha que ficar vivo e chorar não ia adiantar.
Os outros podiam não estar ali, mas sabia que não estava sozinho e tinha que fazer isso por eles. Sabia que se estivessem ali, pediriam para continuar e foi por isso que ele ergueu a cabeça e deu mais um passo, mesmo que todas as juntas de seu corpo doessem como se cada passo exigisse um esforço ainda maior.
Mas foi então que ele se deu conta de algo. Apenas uma porta aberta de início, mas que no meio da noite era de se estranhar. não sabia que horas eram, mas não havia uma única luz acessa nas casas, o que o fazia imaginar ser de madrugada.
Se era tão tarde, por que haveria uma porta aberta?
Mas do outro lado da rua, notou também uma janela quebrada. Do outro, um carro batido no poste e mais portas abertas. Comércios com fachadas derrubadas, paredes pichadas, lixo na rua e nada que indicasse qualquer espécie de civilização.
sentiu seu corpo todo se arrepiar, mas o motivo agora não era apenas frio.
Não tinha como seu tempo ter acabado quando mal havia começado, tinha? Sequer havia tido a certeza de ser ele, então não podia ser isso. Não ainda. Se recusava a aceitar que fosse, que tinha acabado e só ele havia sobrevivido porque se recusou a morrer. A morte de todos os outros não podia ser consequência. Ele queria acreditar nisso, mas o medo que tomou conta de todo o seu corpo dizia o contrário.
”A culpa é sua.” ouviu de um ponto qualquer atrás dele e pulou de susto, virando-se imediatamente. Ele procurou o dono daquela voz, sabia que era familiar embora soasse longe demais para que ele fosse capaz de reconhecer ou encontrar a fonte.
”Essa é a consequência de ser um covarde” — ouviu novamente, do outro lado, e também se virou para procurar quem falava. Mais uma vez, no entanto, não encontrou nada.
”Se desde o início tivesse feito o que precisava, isso não teria acontecido” — ouviu novamente, agora a sua frente, mas não adiantava procurar a fonte, não havia ninguém além dele ali.
— Queria viver, ? — voltou a arregalar os olhos ao reconhecer a voz como sendo a de . Era igual a primeira que falara, mas agora estava próxima o suficiente para que ele ligasse a pessoa. Seguiu o som, e agora pôde encontrar o amigo. estava na sacada de uma das casas, mas diferente do que esperava, não se sentiu aliviado por ter o amigo com ele, muito pelo contrário. tinha olheiras fundas ao redor dos olhos, como se estivesse doente, e uma corda ao redor de seu pescoço que fez o coração de vacilar.
, o que você… — o garoto gaguejou, dando alguns passos dolorosos em sua direção, mas tudo o que o amigo fez foi sorrir, de forma completamente diferente do seu habitual. O que ele conhecia era sempre alegre e divertido, mas aquele sorriso não tinha nada de alegre. Era um sorriso perverso e quase doentio. diabólico, como se estivesse se divertindo com a situação e principalmente, com o medo de .
— Agora viva sozinho. — falou apenas antes de pular e horrorizado, nem ao menos teve tempo de gritar, sentindo o coração parar completamente com a cena. Não levou nem mesmo um minuto. Foi imediato. A cabeça de simplesmente pendeu para o lado e o som que seu corpo fez ao cortar o ar quando desabou foi algo que soube, ficaria para sempre em sua memória, assombrando-o por toda eternidade.
O corpo sem vida de balançou na corda suspensa na sacada e sentiu as lágrimas quentes rolarem por seu rosto, queimando a pele tão fria com o vento do inverno.
não sabia o que pensar, não sabia o que fazer e sequer foi capaz de emitir qualquer som. Apenas ficou ali, parado, encarando o corpo de J- pendurado logo mais a frente enquanto era consumido pelas lágrimas e pela dor de perder um amigo. Seu melhor amigo. Dor o suficiente para anestesiá-lo e privá-lo de qualquer outra reação além daquela, de ficar ali repetindo a cena mentalmente por vezes demais.
— Preferiu lutar, ? — reconheceu a voz de , atrás de si, mas de alguma forma ele soube o que lhe esperava. Perderia mais um, sentiu aquilo em sua alma e apenas fungou antes de se virar para ele, muito mais lentamente do que faria em qualquer outra situação. Tinha medo do que viria a seguir e precisou prolongar aquilo, mesmo ciente de que era inevitável.
Quando seus olhos se encontraram com os de , de pé sobre o telhado de um comércio próximo, sentiu um soluço se formar em sua garganta, mas não conseguiu fazer nada além de negar com a cabeça e implorar para que não pulasse com um sussurro inaudível que foi totalmente ignorado.
— Agora lute sozinho. — completou a frase antes de pular como J- havia feito há pouco.
levou uma das mãos até a boca, aterrorizado com o que quer que fosse aquilo. Seu corpo foi tomado por tremores, pelo menos duas vezes mais forte do que os que já o tomavam devido ao frio. Ele sabia que esse não era mais o motivo. Nem ao menos conseguia sentir o frio com a visão a sua frente, o corpo de tão sem vida quanto o de J-.
Mas foi com um estalo que se deu conta, aquilo podia ser apenas um sonho. Tinha que ser um sonho.
— Por favor, acorde. — implorou com os olhos fechados. — Acorde, por favor, acorde. — pediu, sentindo sua respiração falhar em meio às lágrimas intensas que já derrubava, prestes a sucumbir ao terror de perder duas das pessoas que mais amava.
— Preferiu ser forte, ? — ouviu agora, e suas pernas vacilaram, fazendo-o cair de joelhos na neve. O garoto não abriu os olhos agora. Mesmo que aquilo fosse um sonho, perder os amigos doía demais, vê-los daquela forma doía demais e ele negou com a cabeça enquanto continuava, mentalmente, implorando para que fosse tudo um sonho. Jamais poderia suportar se não fosse. — Seja forte… Sozinho. — completou e de olhos fechados apenas ouviu o som de seu pescoço quebrando quando pulou, com a corda amarrada no mesmo lugar que os outros dois haviam amarrado.
O garoto tapou os ouvidos enquanto abaixava a cabeça para não ver quem era o próximo, mas ainda assim ouviu a voz de com a próxima frase.
— É só um sonho. — repetiu em voz alta para abafar o som proveniente da morte de , e de depois dele, seguido por . — É só um sonho. — falou mais uma vez, quase não podendo reconhecer a própria voz em meio às lágrimas.
Mas o som de passos finalmente o fizeram abrir os olhos e o garoto ergueu a cabeça assustado apenas para ver os seis amigos ali, parados bem a sua frente.
Em choque, ele caiu para trás, olhando ao redor. O corpo sem vida de cada um deles ainda prendia nos lugares de onde haviam pulado e ele engoliu em seco, sentindo todo o pouco calor que restava em seu corpo se esvair de uma só vez.
— A culpa é sua. — falaram em coro, dando um passo em sua direção e imediatamente se arrastou para trás, apavorado.
Nenhum dos amigos se parecia com seus amigos. Os olhos mais escuros que o normal, pupilas dilatadas demais para ser normal. Olheiras tão fundas quanto as de J-, a pele tão pálida quanto a própria neve e expressões secas, totalmente sem vida.
— A culpa é sua, . — repetiram, se aproximando mais um passo e, dessa vez, tudo o que o garoto conseguiu fazer foi encará-los enquanto mais um passo os colocavam próximos o suficiente para tocar seus pés.
— A culpa é toda sua! — aumentaram a voz, que refletiu por toda a praça em um eco apavorante. olhou brevemente para trás, sentindo um arrepio intenso tomar conta de seu corpo e quanto se voltou para frente, já era tarde demais. Seus amigos, todos os seis, se jogavam sobre ele e com um grito tudo o que fez foi cair para trás, sendo consumido pela escuridão.

+++


O grito de pareceu tão real que o impacto de sua voz fez com que despertasse. Ele olhou para a frente, buscando entender o que estava acontecendo, e notou que seu corpo não respondia mais aos seus comandos. Estava frio, muito frio, e ele soube de imediato que essa parte não havia sido somente fruto de sua imaginação, nem algo inventado por alguma parte de sua mente junto com aquele sonho. Era tudo real. O vento, a neve, a maldição e principalmente o fim de Omelas, cada dia mais próximo.
— Não… — sussurrou, entrando em estado de transe entre a realidade e o que havia visto há pouco tempo. Na morte de cada um dos seus amigos.
Sem que pudesse controlar, deixou que a confusão dominasse todo o seu inconsciente, repassando de novo e de novo toda a dor que havia sentido ao ver os amigos cometerem suicídio bem na sua frente. – Foi só um sonho... – tentou lembrar a si mesmo, mas nem mesmo isso foi o suficiente para que sua mente se desligasse daquele terror.
Aquilo, o sonho, era mais um artifício da maldição para fazer com o que ele desistisse? Ou era um presságio do que aconteceria de verdade se ele não se entregasse?
— Não… — ele voltou a repetir, em estado de choque. Seus amigos jamais o culpariam por ficar vivo. Era um sonho, era a maldição tentando induzi-lo e ficou perturbado ao notar a força que ela tinha. Jamais conseguiria tirar aquele sonho de sua mente e apenas ficou ali, parado, tentando recobrar a consciência enquanto gritava por seu nome de algum lugar que, para ele, parecia muito distante, mesmo que na realidade tivesse parado bem ao seu lado.
? ?! — balançou o corpo dele em desespero e finalmente pôde sentir algo além da inércia. Seus pés ardiam, seus dedos doíam e o frio parecia invadir cada músculo do seu corpo.
— O que está acontecendo? — perguntou desnorteado, como se finalmente se desse conta de ali, ao seu lado. Aos poucos, a realidade a sua volta passou a fazer algum sentido, mas quando notou que vestia apenas o pijama fino no frio de Omelas, já era tarde e suas pernas vacilavam.
— Calma! — imediatamente envolveu seu corpo em um abraço apertado, sustentando seu peso para evitar que caísse. — O que você… — sem fôlego, não conseguiu terminar a frase, apertando o garoto com mais força ao notar o quão gelado estava e o quanto ele tremia. — Que loucura é essa ?! O que você pensou saindo assim?! — rapidamente, ele empurrou o corpo do amigo para dentro da enorme casa e aos gritos, tentou acordar alguém para ajudá-lo a aquecer o garoto.
— E... eu… — não conseguiu falar, batendo os dentes com força uns contra os outros devido aos tremores causados pelo frio. Ele levantou uma das mãos, segurando forte no ombro de tentando não desmaiar quando sentiu sua consciência se esvaindo. Suas mãos pareciam pegar fogo com o frio congelante e em algum momento, notou que já não era capaz de sentir os próprios pés. Até mesmo parte do seu rosto latejava com o contato direto com a neve sem nenhuma proteção. — , não sinto… — tentou dizer, sendo tomado pelo desespero de acordar em meio a neve sem ter ideia de como havia chegado até ali.
! ! — gritou em pânico, vendo os olhos dele ficarem focados em seu rosto e a sua respiração mais lenta. — Cara, não desmaia. Não feche os olhos, por favor. — segurando o peso do amigo com dificuldade, ele caminhou com para o enorme sofá ao lado da lareira. — Você só precisa ficar aquecido…
, está muito frio... — o puxou para perto, com os lábios completamente roxos em busca de qualquer fonte de calor.
? — apareceu e segurou o amigo pelo pulso, reparando na maneira desnorteada que ele cambaleou para o lado e caiu contra o sofá. Só então notou que algo não estava certo e sentiu o pânico lhe dominar ao notar o quão gelado estava. — O que aconteceu? ? O que foi? — desesperado, balançou o amigo para frente e para trás, mas o garoto não respondia mais a nenhum comando.
— Não sei! – gritou afobado, se afastando de para cobrir com a manta do sofá. - Escutei alguns barulhos no andar debaixo, acordei assustado e não encontrei o na cama. — explicou rapidamente, atordoado sem saber o que mais poderia fazer para melhorar a condição do amigo. — DEUS! POR QUE NINGUÉM ACORDA? — ele berrou novamente, tentando fazer com que alguém escutasse.
se encolheu com a coberta ao redor de seu corpo, e jogou-se também no sofá de imediato, trazendo o amigo para seus braços na mínima esperança que com o contato do seu corpo ajudasse com a hipotermia.
! O que aconteceu? — desceu as escadas, pulando alguns degraus muito assustado com a gritaria que havia formado ali. — O que ele tem? O que aconteceu?! — ele levou uma das mãos até os cabelos, olhando desamparado para tremendo nos braços de .
, pega alguma coisa quente na cozinha pra ele! — implorou, não sabendo mais o que fazer com todo o pânico que fazia sua cabeça rodar. — Preciso aumentar esse fogo. — ele buscou o saco de lenhas que sempre ficava ao lado e rapidamente começou a jogar contra a chama da lareira.
, eu estou com você. — aninhou o amigo por entre os braços sem intenção nenhuma de soltá-lo naquele momento. A respiração dele ficou tão curta e lenta que tentou não pensar no pior. Não tinha condições nenhuma de sair naquela madrugada e muito menos chamar a ajuda de algum médico. O centro hospital estava fechado a essa hora e por causa da grande quantidade de gelo, os carros estavam cobertos sem ter como sair dos lugar. — , busca uma bacia de água quente para colocar os pés dele. – ordenou, e deixou de lado o que fazia para obedecer.
— MEU DEUS, O QUE HOUVE?! — surgiu dois minutos depois, descendo as escadas com vários cobertores nas mãos após ser instruído por , que ele encontrou no caminho. Rapidamente, seguiu em direção ao sofá da sala e cobriu o garoto com os cobertores. — ! ! NÃO FECHE OS OLHOS. — gritou em desespero, temendo que o amigo tivesse entrado em colapso com o frio.
— Não sei mais o que fazer. — apareceu, vindo da cozinha com uma enorme caneca cheia de leite quente. – Cadê os pais dele?! – perguntou, notando que nenhum deles havia aparecido ainda, mesmo com a gritaria.
Com as mãos, trêmulas tentou empurrar o líquido quente por entre os lábios de , que girou a cabeça de um lado para o outro parecendo sentir dor naquela região sensível.
— Não deixe-o dormir! — ordenou, envolvendo o amigo com mais cobertas enquanto ainda o segurava contra o corpo. — , tente aquecê-lo! E fique conversando para que ele faça o mesmo. — desesperado, ele a todo custo começou a fazer massagens por toda parte do corpo de , sabendo que de alguma maneira isso ajudaria na circulação do sangue.
O que fazer em caso de hipotermia era a primeira coisa que aprendiam nos cursos de primeiros socorros na escola e por sorte, ele ainda lembrava alguma coisa.
— Ei, ? — pressionou ambas as mãos no rosto dele, chamando a atenção do garoto. — Beba um pouco de leite, por favor? Só um pouco. — pediu, empurrando a caneca novamente contra a boca dele. — ? ? — aflito com a situação e com a falta de reação dele, soltou um longo grito pela garganta, assustando os amigos e despertando do transe que se encontrava.
— Isso! — comemorou ao vê-lo despertar. — Tudo bem, . Nós estamos com você, não vamos a lugar nenhum. — confortando e deixando-o aquecido, trouxe da cozinha uma enorme bacia com água quente, mergulhando os pés dele para ajudar o aquecimento total de todas as partes do corpo dele que tiveram um contato mais direto com o frio.
— Alguém sabe o que aconteceu com o e com o ? — perguntou curioso, não conseguindo encontrá-los em nenhum lugar da sala. — Não é possível que ainda estão dormindo com todo esse escândalo! — ele ficou assustado, não sabendo como os dois tinham um sono tão pesado daquele jeito.
— O que aconteceu com ele? — quis saber finalmente ao ver o amigo recuperando a cor dos lábios. Ele não tremia tanto e o olhar desesperado de ficou mais suave notando que a respiração dele normalizou com a massagem e a bacia com a água que aquecia os pés. — Por que ninguém quer me responder? — ele novamente questionou, recebendo olhares indiretos e vagos sem qualquer explicação.
o encontrou do lado de fora da porta. Ninguém sabe como ele desceu sozinho, ou o motivo. — começou a falar, preocupado com a situação do amigo.
Pensar na maldição era inevitável. Se perguntar se o que havia acontecido não era por isso, mesmo que ainda não entendesse muito bem como havia terminado naquele estado.
Tinha que ser muito louco para sair de casa em um frio daqueles, especialmente de pijama, e vendo o garoto um pouco melhor, sentiu seu coração vacilar com aquela possibilidade.
Não era , era? Aquilo não podia ser a maldição já se manifestando, podia?
— Não, tem que ter uma explicação. — falou, recusando-se a aceitar aquela possibilidade mesmo que ninguém tivesse ao menos verbalizado qual era. — Não é ele, não pode ser ele.
— Vai ser um de nós, . — falou já mais calmo, sem tirar os olhos de que voltava a fechar os olhos. — ? Acorde. — pediu, mas antes que se inclinasse para sacudí-lo, que ainda o segurava nos braços o fez, e mesmo perdido o garoto voltou a abrir os olhos. — , o que está sentindo? — perguntou, levantando-se quando apenas fechou os olhos novamente ao invés de respondê-lo.
— Ele está perdendo a consciência! — se alarmou ao sentir o corpo do garoto amolecer em seus braços. — ?! — gritou, mas o garoto apenas murmurou qualquer coisa inaudível antes de sucumbir de uma vez.


Capítulo 3

A lareira ainda estava acesa e dormia no sofá, sob uma pilha de cobertores, enquanto os outros andavam de um lado para o outro na sala, exceto por .
Não dava para ver nada do lado de fora, independente das luzes acesas na rua ou a lua no céu. A nevasca caia forte, e ele tinha um péssimo pressentimento sobre isso, como se fosse uma espécie de sinal para o que estava acontecendo.
acordou no meio da noite e saiu para fora, embaixo de um frio de menos sabe-se lá quantos graus, mas definitivamente o suficiente para que qualquer pessoa em seu juízo normal acordasse imediatamente.
Mas ele não acordou. Mesmo enquanto gritava, mesmo enquanto o sacodia, não acordou e enquanto pensava nisso sentia sua entranhas se revirarem em agonia. Era ele, o escolhido era e a nevasca um alerta, como se aquela merda de lugar tentasse jogar na sua cara o que estava fazendo, que apenas levar não era o suficiente, iria torturá-lo de todas as formas até que se entregasse de uma vez.
Pensar em perder qualquer um deles fazia com que seu estômago se embrulhasse. Pensar que não havia nada a ser feito além de ver o garoto sucumbir diante de seus olhos o enlouquecia.
— Não tem ninguém. — falou ao descer correndo as escadas e todos os outros se viraram para ele, inclusive que xingou baixo com aquela afirmação. Só faltava essa, definitivamente.
— Nem os pais dele? — perguntou surpreso e negou com a cabeça.
— Ninguém. — repetiu, voltando-se para o garoto desacordado sobre o sofá em seguida. — Como ele está? — perguntou, e negou com a cabeça enquanto respondia:
— Parece melhor. — disse, olhando para o amigo também.
— “Parece”, isso que me preocupa. — respondeu, suspirando inconformado enquanto se sentava no chão, de costas para a lareira e de frente para o sofá, encarando um adormecido.
— Não é como se tivéssemos outra coisa para fazer agora, no meio da noite e dessa nevasca. — o respondeu novamente, sentando-se ao seu lado e inclinando-se para frente, a fim de tocar a testa do mais novo sobre o sofá. — Ele está mais quente pelo menos. Já não treme mais e tem batimentos. Isso é bom.
— Mas ele não acorda. Por que ele não acorda? — respondeu assustado e abaixou a cabeça quando sentiu as lágrimas encherem seus olhos. Ver aquilo foi ainda pior para , que voltou a dar as costas para o grupo e se focar na janela, pensando em qualquer coisa que pudessem fazer para parar aquilo.
Tinha que haver algo a ser feito. Maldições tinham um ponto final e precisavam descobrir o final daquela. não era capaz de aceitar que não houvesse uma solução.
— Ele vai ficar bem. — respondeu a e, pelo reflexo da janela, pôde ver o mais velho tocar o ombro do garoto com uma das mão em sinal de apoio. — O corpo dele sofreu um trauma, e ele apagou, mas vai ficar bem. Ele só precisa de um tempo para se recuperar.
concordou com a cabeça, mesmo não parecendo levar muita fé naquilo ainda. Ele e olhavam preocupados para o garoto, mas quando pensou em dizer algo sobre aquilo, a porta da frente foi aberta com um estrondo, fazendo com que todos os presentes se assustaram com o ocorrido.
— Onde estavam?! — perguntou duas vezes mais alto do que o necessário, se pondo de pé ao ver e passarem pela porta. Ambos tremiam com o frio, mas de alguma forma pareciam acelerados e agitados demais, alarmando os outros de imediato. — O que vocês têm na cabeça de sair assim?! — continuou, mas interrompeu sua fala com outra coisa em mente:
— Por que saíram assim? — quis saber. — O que houve?
— Os pais do saíram no meio da noite, numa porra de nevasca dessas! — exclamou espantado, esfregando as mãos umas nas outras enquanto se aproximava da lareira. — Quem diabos faz isso?!
— O . — respondeu inocentemente e como se só então se dessem conta do garoto desacordado no sofá, se voltaram para ele, alarmados.
— O que houve aqui? — perguntou, aproximando-se de enquanto atropelada totalmente o assunto. — Por que estão todos acordados?
suspirou, abaixando a cabeça e mordeu o lábio inferior, nervoso com o assunto.
— O encontramos do lado de fora. — foi quem explicou. — Só de pijamas e descanso.
— Ele enlouqueceu?! — perguntou, espantado. — Saímos com roupa até o pescoço e quase congelamos! O que deu dele?! Ele está bem?! — ajoelhou em frente ao garoto, tocando sua testa, mas não se moveu. — Por que ele não acorda?!
— Ele desmaiou. — respondeu. — Nos o aquecemos, mas ele já está assim há algum tempo.
— Precisamos levá-lo ao médico! — exclamou, mas negou com a cabeça.
— Como? Olha o tempo lá fora, . Mal conseguimos sair e voltar. Como ainda vamos levá-lo se não tem nem ao menos como usar os carros?
— E não tem condições de simplesmente o colocarmos exposto a esse frio novamente. — ressaltou. — Aqui ele pelo menos está aquecido.
— Por que ele fez isso? — perguntou, dando-se por vencido, e foi ai que o clima da sala despencou ainda mais. Todos imediatamente se calaram enquanto arregalava os olhos. Os que presenciaram a cena toda já haviam pensado sobre o assunto, mesmo sem se aprofundarem nele ou falarem muito sobre isso em voz alta. Estava evidente a verdade, mas ninguém queria expor, temendo que isso de alguma forma tornasse tudo mais real.
E o maior desejo de todos ali basicamente era aquele: Que nada daquilo fosse real. Que tivesse como fugir daquela cidade, daquela maldição e daquela vida.
— Não… — negou, se recusando a acreditar que já havia chegado a hora. Sequer haviam começado a procurar ainda. Seguindo os pais de tiveram a primeira pista, não aceitava que aquilo tudo seria em vão, que se tornariam seis antes mesmo de ter a oportunidade de tentar. — Tão… rápido? Pode ter sido outra coisa.
— E por qual motivo alguém faria isso? — perguntou, negando com a cabeça enquanto, em seus pensamentos, as imagens de totalmente fora se si voltavam em sua mente. Passou vários minutos sacudindo o garoto, aos berros, antes que ele acordasse. Lembrou-se das palavras desconexas, das lágrimas que escorriam por seu rosto sem que o garoto percebesse o que fazia. Lembrou-se do medo que sentiu quando os tremores tomaram conta de seu corpo e do olhar tão assustado e perdido de quando finalmente voltou a si, sem conseguir entender nada do que havia acontecido ou de como havia terminado ali, no meio da noite. — Você não viu como ele estava quando o encontrei. — falou, sorrindo minimamente para disfarçar a amargura. — Ele estava assustado, apavorado. O que quer que isso seja, está mexendo com ele, o induzindo a fazer mal a si mesmo. Temos que fazer alguma coisa, pra ontem.
— Nós seguimos os pais dele. — falou de uma vez, voltando-se especificamente para . — Eles foram para o bosque. Não conseguimos chegar muito perto e estava nevando demais para que pudéssemos ouvir, mas era definitivamente o ritual e eles usavam um livro para fazê-lo.
— Um livro? — perguntou interessado e ergueu uma sobrancelha sem dizer nada, sentindo uma pontinha de esperança surgir.
concordou com a cabeça.
— Grosso e velho, do tipo perfeito para se passar de geração por geração com os segredos sujos de Omelas. — explicou. — Uma ótima sugestão de lugar por onde começar.
concordou sem dizer nada, e provavelmente teria rido satisfeito se o estado de ainda não o preocupasse tanto.
— O que me deixa mais espantado é que eles estavam fazendo, nossos pais, de todos nós, junto com o ancião. - falou cabisbaixo e negou com a cabeça.
— Como eles podem fazer isso? — perguntou. Desde o início sabiam que seus pais tinham que participar daquilo, mas ainda assim não podia acreditar que estavam envolvidos em algo tão terrível. Era igualmente decepcionado e triste. Não era só um deles que seus pais estavam entregando. Podia ser ele.
A cidade valia tanto assim? O suficiente para entregarem uma vida, mesmo que fosse o filho único?
Sua garganta se fechou, e não sabia o que o fazia se sentir pior, a traição dos pais ou a possibilidade de perder o amigo.
Antes que mais alguém pudesse dizer qualquer coisa, a porta foi novamente aberta, agora com mais calma, e novamente os garotos se voltaram para lá, todos juntos. Já se passava das quatro horas da manhã, e os pais de demonstraram surpresa ao ver todos ali, reunidos na sala de estar.
— O que estão fazendo todos aqui, acordados tão tarde? — perguntou a mulher, sorrindo como se tudo estivesse muito bem e sentiu dela o maior ódio que já havia sentido. Era uma mistura de raiva com a mesma dor e decepção de por saber que seus pais estavam fazendo parte daquilo. Todos se sentiam da mesma forma, aliás, mas nada era pior do que a raiva que sentiu dos pais de , porque ele havia sido o escolhido e eles estavam agindo como se não absolutamente fosse nada.
Era cruel, era brutal, e estavam entregando o próprio filho a isso.
— Pelos menos ficamos em casa. — devolveu, não se importando com qualquer espécie de respeito, formalidade ou com o fato de que estava na casa deles. — O que faziam na rua tão tarde? Num tempo desses?
A expressão no olhar do pai do garoto deixou bem óbvio que ele não tinha gostado do tom, mas a mulher apenas riu, para amenizar o clima. Típico dela, alias. Sempre tranquila, acalmando os ânimos, mas não deu certo dessa vez.
— Não são só os adolescentes que podem sair por ai a noite. Adultos também podem fugir um pouco às vezes, especialmente quando temos sete crianças em casa. — brincou, mas permaneceu olhando para ela com a mesma expressão. Sério, irritado, e ainda trincou os dentes.
— Entregar crianças pra morte se encaixa onde nessa fuga? — foi direto ao perguntar e a mulher imediatamente deixou o sorriso morrer.
— O que quer dizer com isso? — ela perguntou, mas o homem ao seu lado já tomava a frente, segurando-a pela mão como se tentasse transmitir forças a ela.
— Onde está ? — ele perguntou, dando pela falta do garoto, e a mulher imediatamente arregalou os olhos, perdendo toda a cor que sua face havia ganhado com o frio cortante do lado de fora. Ela foi a frente, e dois passos foram suficiente para ver que alguém estava no sofá, fazendo com que ela corresse até ali imediatamente.
! — exclamou apavorada. Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos e no segundo seguinte o homem já se abaixava ao lado dela em frente ao sofá.
? — ele chamou, sacudindo o garoto enquanto a mulher encarava em busca de respostas.
— O que houve? O que aconteceu com ele?!
— Vocês. — respondeu.
… — o repreendeu em tom de aviso.
— Não me repreenda, você sabe que é verdade. — respondeu ao amigo antes de se voltar aos pais de outra vez. — Essa porra de cidade aconteceu, esse ritual. E vocês participaram disso, entregaram o próprio filho!
Os pais do garoto imediatamente se calaram, arregalando os olhos novamente ao erguer o olhar outra vez para .
— Ele… é ele? — o pai do menino perguntou, mas a mulher já escondia o rosto nas mãos, deixando que as lágrimas se intensificassem.
— É triste saber que é o , mas estaria tudo bem se fosse um de nós? — voltou a dizer e foi quem tomou a frente agora, por mais surpreendente que aquilo fosse. O garoto tocou as costas do amigo com uma das mãos, segurando-o pelo braço em seguida.
, chega. — pediu gentilmente e suspirou, tentando controlar a si mesmo. A situação toda era revoltante, para se dizer o mínimo. Sentia-se traído, mas nem mesmo isso era pior do que saber que eles haviam entregado , o filho, para um sacrifício ridículo.
— Não. — se pronunciou também, desviando o olhar para os pais do garoto. — Eu também quero saber. Fomos criados juntos, como irmãos. Cada dia uma casa era nossa casa, um pai era o nosso pai, e então vocês se juntam e simplesmente decidem entregar um de nós?
— É um pelo bem de todos os outros, . — a mulher respondeu e o garoto jogou os braços para o alto, inconformado.
— Então tudo bem se esse alguém for o ?! Ou vocês tinham esperanças que fosse eu, ou quem sabe o ? Como vocês podem pensar assim?!
— Não foi nossa escolha, ! — a mulher se exaltou também, levantando-se do local onde estava, de frente para o filho. — É assim que as coisas são!
— E alguém fez qualquer coisa para ter certeza disso?! — ele perguntou exaltado, espantando a todos por isso. nunca tinha tido aquele tipo de reação com nada, mas lá estava ele, totalmente inconformado em saber que perderia um dos amigos. — Vocês simplesmente desistiram da gente! — gritou, deixando que uma lágrima escorresse por seu rosto enquanto a mulher soluçava. — Eu nunca vou perdoar nenhum de vocês por isso. Nunca!
… — a mão de tocou a dele e todos pararam imediatamente ao ouvir a voz fraca do garoto pronunciar o nome do amigo. Seu pai também foi às lágrimas agora, encostando o rosto no sofá enquanto sua mãe cobria os olhos, deixando-se consumir pelo choro.
olhou espantado para o amigo, e apertou sua mão de volta antes de se aproximar, abaixando-se ao seu lado para checar se estava tudo bem.
chorou de alívio e foi abraçado por , que acompanhou rindo mais tranquilo apesar de toda a situação. sorriu enquanto soltava o ar pela boca e , vendo todos ao seu redor, lutou para manter os olhos abertos.
— Não é o que estão pensando. — disse ele, mesmo que as palavras parecessem exigir muito esforço. Sua voz tremia, deixando claro que ele ainda sentia frio, mesmo com todas as cobertas e a lareira acesa. — Eu tive um pesadelo, com a maldição. — mentiu, fechando os olhos por alguns segundos enquanto formulava o resto da fala. Pensar doía também, como se até mesmo seu cérebro tivesse sido afetado pelo frio ou, quem sabe, congelado. — Pensei ter escutado um barulho quando acordei, ou ouvi, eu não sei… — piscou novamente, mas contra a sua vontade, dessa vez, teve certa dificuldade em abrí-los novamente.
— Depois você explica, . — pediu, aproximando-se por trás do sofá. — Quer que a gente te ajude a chegar no quarto? Suas roupas devem estar geladas.
concordou de imediato, e desistindo do que quer que tivesse a dizer, ele fez menção de se levantar, mas o garoto negou com a cabeça, segurando sua mão com mais força para que ele não se afastasse.
— Pensei no que conversamos assim que ouvi o barulho. e não estavam no quarto. — continuou o garoto, ignorando o pedido dos amigos. — Só consegui pensar que algo poderia ter acontecido e sai do jeito que estava. — ele olhou para , ciente do quão preocupado ele estava com aquela história e, principalmente, com o próprio . — Não sou eu. Pelo menos não ainda. — negou, sem nem ao menos pensar sobre o que fazia ou na mentira que estava contando horas depois de prometerem um para o outro que diriam a verdade imediatamente.
sabia que assim que eles descobrissem que era ele, tudo mudaria. Achar uma solução ficaria ainda mais urgente, a situação mais desesperadora. Ficariam ansiosos, nervosos, brigariam com as pessoas e quem sabe até entre si. não queria todos preocupados, especialmente com ele. Não queria ser tratado de forma diferente, não queria que nada daquilo interferisse no julgamento de nenhum deles sobre o assunto.
Um pelo outro, sabia que buscariam uma solução para a maldição e sem ao menos pensar sobre o que era ou não melhor, omitiu que o tempo, na verdade, era muito menor do que eles esperavam ser.
— Não sou eu. — repetiu, mas cansado voltou a fechar os olhos e, dessa vez, eles não voltaram a se abrir. Pelo menos não mais naquele dia.

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Todos já dormiam quando olhou ao redor, notando que só restava ele acordado. Devido ao frio excessivo, todos se reuniram na sala, em volta da lareira na casa do mais novo. , e dividiam no chão o colchão de casal da cama de . e , um segundo colchão, inflável, de solteiro, enquanto e usavam os sofás, um cada um. A nevasca caia forte, os impedindo de sair de casa. Estavam literalmente presos ali e os aquecedores quase não davam mais conta. se encolheu embaixo das cobertas, e se sentou no sofá com elas ao seu redor, olhando para a escada logo em seguida pensando nos pais sozinhos no andar superior, no frio. Eles estavam envergonhados depois da última discussão. se lembrava de pouca coisa na verdade, alguns gritos, exaltado, mas desde que acordara, seus pais não apareciam mais ali. Não precisava ser um gênio para saber o motivo.
suspirou, insatisfeito com a situação e sim, decepcionado com os pais. No fundo, uma voz gritava que era errado depois de terem feito tudo por ele a vida toda, mas eles sabiam que se fizessem o ritual, um deles ou mesmo o próprio teria que abdicar de sua vida. E fizeram mesmo assim. Olhar para fora o fazia questionar se estavam errados, por outro lado. Estavam literalmente presos em casa pois a neve já prendia as portas. A lenha logo acabaria, a comida também. Todos podiam morrer naquelas condições se o tempo não melhorassem. não queria morrer. não queria perder nenhum dos amigos, mas até que ponto as pessoas podiam ir para salvar a si mesmos? O instinto humano era se manter vivo, e era isso que tentavam fazer, se manter vivos, mesmo que o fato de entregarem outra pessoa para isso o decepcionasse tanto.
colocou os pés para cima do sofá, e abraçou os joelhos contra o peito. Olhando para o fogo, sentiu um arrepio atravessar sua coluna, ainda sentindo frio. Não sabia se ainda tinha relação com a hipotermia, mas os outros pelo menos pareciam aquecidos quando ele olhava.
— Ainda sente frio? — ouviu perguntar e pulou se susto, crente que estava “sozinho” até então. o encarou, mas não teve tempo de dizer nada antes que se levantasse, deixando os cobertores onde estavam, cobrindo que dormia com ele. — Caramba, que frio, frio, frio. — resmungou, correndo para entrar embaixo dos cobertores de . O mais novo abriu espaço, e dividiu a coberta com que imediatamente o abraçou de lado, exatamente como se tentasse aquecê-lo já que este era realmente o objetivo. — Eu falei que você deveria ter ficado no colchão com a gente. O frio não vai cessar tão cedo, você vai demorar para se recuperar assim.
não disse nada enquanto esfregava seus braços, mas após encará-lo por um instante, revendo o pesadelo em sua mente, acabou se jogando em seus braços, aninhando-se neles com se quisesse proteger de qualquer mal, como se pudesse, mas não podia porque era fraco. Não conseguia. Proteger e os outros significava apenas uma coisa, uma que ele podia fazer, mas não tinha coragem. Tudo o que ele sentia era medo. O mais puro medo. Sabia que era ele, mas pensar nisso apenas lhe fazia querer chorar. Estava com medo da morte.
— O que houve, ? — perguntou preocupado, abraçando-o de volta enquanto escondia o rosto em seu ombro. — Não está se sentindo bem?
— Não é isso. — respondeu, se afastando o suficiente para apenas encostar a cabeça em seu ombro. — Eu só tive um sonho ruim, e fiquei com vontade de te abraçar.
— O sonho ruim foi comigo?
— Foi com todos. Acho que é medo, do que está por vir. De perder um de vocês. — “ou todos, no caso”, pensou. Já que o amaldiçoado muito provavelmente era ele mesmo.
— Vai ficar tudo bem, Kookie! — respondeu, tão animado quanto era normalmente, mesmo que tentasse diminuir o som sempre tão escandaloso para não acordar os outros. — Agora temos uma pista. Podemos ir atrás desse livro e descobrir alguma coisa. Tem que ter algo.
— Livro? — perguntou, virando a cabeça para encará-lo, e abriu a boca em um “oh” como se lembrasse que ainda não sabia daquela novidade.
e eu os seguimos para a floresta hoje, seus pais e… Bom, os pais de todos nós. O ancião usava um livro, decidimos roubá-lo para saber o que tem lá, já que servia como um guia.
, mas… Se existisse uma solução no livro, você não acha que alguém já teria encontrado?
— Poderiam não estar tão empenhados. — respondeu, esperançoso. — Não sabemos quantos anos esse livro ficou sob custódia de uma só pessoa. Não sabemos se outra além do ancião se quer já viu esse livro, . E se ele nunca mostrou para mais ninguém? Só porque uma pessoa não encontrou nada, não quer dizer que não exista.
— Nós o conhecemos. Eu não acho que ele teria escondido se houvesse uma chance de nos salvar.
— Eu também, mas as vezes ele já fez tudo que achava possível.
não sabia se deveria se deixar ter esperanças, mas seu coração falou mais alto e se permitiu encher com ela. Talvez não devesse, estavam presos ali, não tinha nem mesmo como saber se a neve daria uma trégua para que conseguissem realmente fugir para a casa do ancião, mas , tão assustado com tudo, decidiu que esperar, por enquanto, era o melhor a se fazer.
Ouviram bocejar, e o encararam em tempo de vê-lo abrir os olhos pequeninos. Notando os dois ali, se sentou, com os cabelos desengrenhados, e piscou duas vezes como se tentasse assimilar quem era. riu por isso, enquanto se mantinha em silêncio apesar de achar graça.
— Quer abraçar o também? — perguntou, e apesar do rosto amassado e o estado de sonolência, quando fechou os olhos novamente foi devido ao enorme sorriso que abriu, levantando-se imediatamente e correndo para o sofá enquanto resmungava de frio.
— Gelado, gelado, gelado. — resmungou, praticamente se jogando nos braços de quando este o abriu para ele, rindo com a atitude do amigo. se esgueirou entre os braços de para se deitar com a cabeça em seu ombro enquanto o envolvia com os dois braços e olhou para em seguida, como se fosse a criança mais feliz do mundo por poder fazer isso. — Está melhor? — perguntou e concordou, então ele voltou a sorrir antes de voltar a fechar os olhos, bocejando pronto para dormir. — Ótimo. — disse ainda, antes de se aconchegar ali da melhor forma que podia. — Agora você não vai para nenhum lugar sem que eu esteja na sua cola. Sinta-se avisado. — bocejou sem abrir os olhos e concordou com a cabeça e um sorriso no rosto, mesmo que não pudesse ver.
— Eu vou estar ajudando. — concordou, e sorriu para ele também, desviando a atenção de já que este já vontara para o estado anterior de sonolência.
— Obrigado. — falou apenas, ciente de que não poderia dizem nem metade de tudo que se passava em sua cabeça. Não podia dizer que acreditava ser ele, não podia dizer que sentia medo e não podia dizer que cogitava fazer aquilo para salvá-los, mas podia agradecer a eles pelo apoio, pela preocupação e principalmente, por fazerem com que todos os seus anos até ali fossem os melhores que poderiam ser, independente de não saber quanto ainda mais teria dele para aproveitar.


Capítulo 4

Levou cerca de uma semana para que conseguissem sair de casa após a última nevasca que os prendera junto com . O frio, no entanto, em momento nenhum diminuiu, deixando claro não só para eles, mas também para toda a população, que o tempo estava acabando. As pessoas estavam assustadas, o evento que levava a salvação da cidade nunca antes demorara tanto e o grupo sentia os olhares reprovadores por onde passavam. Era um dos sete, todos sabiam, e os julgavam por não fazer nada a respeito, por não abrirem mão de sua vida pelos outros como se tivessem alguma obrigação disso.
Ficavam chocados em notar como as pessoas simplesmente se esqueceram das crianças que eles haviam sido. Amigos de escola já não se importavam mais com a amizade. Adultos que conviveram com eles por anos, que ajudaram a criá-los, agora só queriam saber quando abririam mão de suas vidas.
Era triste, cruel, mas tinham certeza de que, se assassinato bastasse, já os teriam matado para sobreviver.
Mas entre os sete ainda tinha outro problema, como o fato de todos ainda se manterem assustados e com suspeitas de que pudesse ser o escolhido, que pudesse haver um escolhido, mesmo antes de terem qualquer pista realmente útil além de um possível livro misterioso em um possível lugar. E por mais que tivesse tentado disfarçar, inventar uma desculpa qualquer, seus pensamentos ainda estavam naquele pesadelo perturbador e toda aquela angústia de ver seus amigos mortos por todos os cantos da praça de Omelas. Era apenas naquilo que pensava sempre que fechava os olhos e, justamente por isso, dormira tão pouco nos últimos dias.
Ele buscou ficar saudável, tentou prestar atenção nas pessoas ao seu redor para fingir animação, para sorrir quando sorriam e principalmente para eliminar as suspeitas que os outros, em especial , mantinham sobre ele. Sabia que havia prometido contar se chegasse a hora, mas quanto mais se preocupavam mais certeza ele tinha de que devia manter aquilo para si mesmo. Tinha medo do que o saber causaria aos outros.
Quanto antes tomassem ciência daquilo, antes sofreriam. E não sabia se seria capaz de fingir tranquilidade ou de esconder seu medo se os outros soubessem e o tratassem diferente por isso. Precisava ser forte e buscar por uma solução junto aos outros, mas precisava também garantir que ficaria tudo bem se não conseguissem e precisasse de fato ir. Morrer.
Omelas estava mais fria do que o normal, mas pelo menos agora tinham plano: Invadir a casa do velho durante a missa de domingo para buscar o livro que, até o momento, era a melhor ideia do grupo. A próxima envolvia um sequestro com amordaça, tortura e algumas coisas doidas que cabeça de decidiu ser uma boa ideia, mas que todos sabiam não ser sério. Não vindo dele, pelo menos.
— Nós sabemos o que estamos procurando? — questionou, atento ao movimento rápido de JungKook e que vasculharam uma prateleira logo a frente. Jogaram alguns livros velhos no chão, os que julgavam não ter importância, enquanto apenas os acompanhava com o olhar. A única parte do plano que ele havia entendido era o de ficar na porta da entrada principal, olhando pela janela e gritar para os outros caso o ancião voltasse mais cedo da missa. Não que ele estivesse fazendo direito de qualquer forma.
! — chamou sua atenção ao notar a desatenção do outro para a sua tarefa, preocupado com a possível volta do ancião. — Porta! — apontou para o local indicado. — Qual o problema? É só ficar vigiando! ― exclamou.
A verdade era que, por mais que tentasse se manter calmo, estava muito mais ansioso e nervoso do que os demais. Não era só a sua vida em jogo agora que se convencera de que era ele, mas também a vida dos outros caso ele demorasse para tomar uma atitude, pelo menos era nisso que acreditava depois dos sonhos tão vívidos que perturbavam sua mente. Isso sem contar o fato de saber como ficariam em perdê-lo, em perder um deles. já não estava em seu juízo perfeito. estava mais irritadiço que o normal. , no dia anterior, levantara a voz para , o que nunca antes havia acontecido. estava deprimido, mais sério e mais protetor.
Não queria que se perdessem, não queria que tivessem que viver toda uma vida em Omelas acreditando que não haviam feito o bastante para salvá-lo, como sabia que aconteceria.
— Eu só queria saber o que estamos procurando. — murmurou em um muxoxo. — Vocês sabem o que estamos procurando? — voltou a perguntar, olhando para no chão a espera de uma resposta.
— Você acha que estaríamos aqui se não soubéssemos? — resmungou, descrente para o fato de ainda não ter entendido aquilo. — , por que você fica atento ao plano? ― perguntou, não escondendo sua insatisfação. ― É só vigiar a porta. Consegue fazer isso? — reclamou, agora de pé na frente do amigo.
, olhe a porta e fique em silêncio, apenas. — pediu mais paciente, deixando os livros de lado para caminhar até o amigo. Segurou pelos ombros com delicadeza e então apontou novamente para o lado da entrada principal. ― É só vigiar. ― repetiu, decidindo que o lado lerdo de as vezes precisava de uma certa compreensão. ― Fica na porta, e esquece a busca. Só nos avise se o ancião voltar.
— Tudo bem. — concordou com um aceno, embora ainda insatisfeito e apenas o incentivou com um empurrãozinho em direção a porta.
— Será que o e tiveram sucesso no quarto dele? — perguntou, preocupado com a possibilidade de nunca encontrarem aquele livro. Já haviam vasculhado todo o escritório, mas era evidente que o homem não deixaria algo tão importante em qualquer lugar de fácil acesso. — E se o livro nem estiver na casa? — desconfiado, coçou a cabeça, suspirando ao pensar em possíveis lugares onde o livro poderia estar.
, estamos procurando em todos os lugares. — empurrou mais alguns livros para o lado, tentando enxergar com a pouca claridade algo velho, vermelho e com uma árvore antiga desenhada na capa, como havia dito que era. — Ele não iria tirar o livro de casa. O risco de alguém encontrar longe daqui é muito maior e ele jamais saberia. — sugeriu, mesmo não estando totalmente certo disso.
— Uhm… E por que o está procurando na cozinha? ― perguntou também após ouvir um resmungo vindo de lá, seguido por panelas caindo por todas as partes. ― Seria legal não destruir a casa. ― murmurou sozinho a última parte enquanto abria uma gaveta.
— Não entendi o que um livro estaria fazendo lá também. ― respondeu sem tirar os olhos do que fazia. ― Mas não quis arrumar uma discussão com o à essa altura. — deu de ombros, não notando o olhar desconfiado de ao levantar para se direcionar ao outro lado. não costumava ser tão sério, muito menos tão focado ou falar daquela maneira com ou sobre os outros. Era evidente que nenhum deles estava totalmente bem, ou agindo como normalmente agiam, mas havia algo errado com . Algo diferente, e não sabia dizer se era sexto sentido ou apenas paranóia depois de quase perdê-lo para uma hipotermia.
Mas quando exclamou repentinamente ao perder a paciência, quase como se comprovasse o que se passava na cabeça do outro, pulou no lugar.
— Argh, que droga! ― ergueu o tom de voz, deixando um tanto quanto confuso. ― Isso aqui parece um labirinto cheio de livros! Vamos ficar a madrugada toda procurando por um livro vermelho que nem sabemos se realmente existe! — frustrado, o garoto jogou-se na cadeira de veludo atrás da mesa, e por mais que não quisesse perder as esperanças pelos outros, sentiu certa dificuldade em não fazê-lo.
piscou duas vezes enquanto encarava , que até há pouco pedia para que ele não fizesse exatamente o que estava fazendo.
— Não podemos desistir. — falou, espalmando a mesa com as mãos para olhar dos olhos de . Precisavam ser a força um do outro se quisessem passar por isso. — Você acabou de me dizer isso, lembra? — insistiu. — Não é momento para um surto, já basta as coisas que estão acontecendo. — ele sustentou o olhar do mais novo, mas sentindo-se culpado por sua atitude, desviou sua atenção para outro ponto que não ele.
suspirou, insatisfeito consigo mesmo, mas independente disso não conteve os pensamentos em sua cabeça antes de verbalizá-los, sentindo o medo tomar conta de si mais uma vez.
— E se for mentira? E se essa chance na qual acreditamos, nunca existiu? — perguntou, e não soube dizer o quanto daquilo era ele e o quanto era a maldição trabalhando em levar suas esperanças e forças. Ela fazia muito aquilo, alias. Em um momento estava determinado e no outro se perguntava se não era mais fácil se jogar de um lugar alto.
— Ela tem que existir, . Ou isso quer dizer que um de nós vai morrer. — disse ele, e a mente de imediatamente respondeu “e se tiver que ser assim? Eu deveria ao menos fazer logo, não?”. tentou ignorar aquela voz, como vinha fazendo todos os dias, e respirou fundo, tentando se acalmar antes que fizesse algo para deixar desconfiado. Ou mais, no caso.
— E o que acontece se… — começou, encarando o amigo a sua frente com certa tristeza no olhar. — Se um de nós começar a fazer coisas estranhas? — perguntou, ciente de que aquela pergunta referia-se a si mesmo. O que fariam quando notassem que ele estava agindo de forma diferente? Que ele era o escolhido para o sacrifício?
— Estranhas tipo como? — perguntou com cautela, e desviou o olhar para responder, temendo que o amigo visse a verdade em seu olhar.
— Estranhas do tipo… Agir diferente, fazer coisas arriscadas, ou que podem tirar sua vida.
— Coisas do tipo as que você anda fazendo? — perguntou, e a surpresa fez com que olhasse para ele imediatamente, espantado e perplexo pela acusação, mesmo o tendo feito com certa calma. Não era uma crítica, não era para agredí-lo ou magoá-lo. Tinha apenas preocupação no tom de voz do amigo porque ele estava preocupado e , ciente de que ele estava certo, nem ao menos soube o que dizer. Por isso continuou. — Você não tem motivos para esconder nada de nós. Sabe disso, não sabe? — certificando que o olhar estivesse no rosto dele, perguntou com delicadeza, tentando fazer com que ele se sentisse confortável para falar sobre a madrugada mais estranha do ano. Ainda não sabia se acreditava na história de sobre ela.
— Por que essa pergunta agora, ? — , sentindo-se mais pressionado do que devia, especialmente quando falava com seu melhor amigo e não um estranho qualquer, empurrou a mesa velha para se levantar. Não foi a intenção ser agressivo, ou parecer agressivo de qualquer forma. Queria apenas fugir das perguntas de , mas o nervosismo fez com que exagerasse na força e um enorme barulho de algo caindo no chão, bem embaixo da mesa, chamou sua atenção.
— O que você fez? — abriu a boca assustado, temendo ele pudesse ter quebrado algo que os denunciasse.
— Cala a boca! — pediu por silêncio, em um sussurro um tanto quanto desesperado devido a preocupação de que o estrondo causado chamasse atenção dos vizinhos, mesmo que este não tivesse sido assim tão alto para isso.
— Cala a boca você. — respondeu sem entender o motivo da resposta, movendo os pés lentamente com medo de que algo mais começasse a desabar. A mesa era tão velha que só de respirar perto ela parecia ser capaz de desmanchar. — Tudo bem, abaixa e vê o que aconteceu. — ele fez alguns gestos com as mãos, mostrando o chão para o outro que ainda estava parado com as mãos na cintura.
— Abaixa você. — respondeu ainda aos sussurros, como se temesse que a mesa fosse cair sobre ele ou algo do tipo. Não era como se a mesa pudesse matá-los, mas se o velho cuidava de uma maldição, o que mais poderia fazer? Sem contar que coragem era o ponto forte de , não deles dois.
— Foi você quem derrubou um pedaço da casa. — devolveu e praguejou, ciente de que o outro estava certo. — E para de sussurrar, não tem porque sussurrar. — falou ainda, mas agora ele também sussurrava e ergueu uma sobrancelha ao encará-lo por isso. — Só vai logo, .
— Que droga. — resmungou, mas obedeceu, abaixando-se com certo cuidado. Embaixo da mesa agora tinha um enorme saco vermelho e ele sentiu uma pontada de esperança que fez seu coração acelerar ao vê-lo ali. — Será? — perguntou espantado e repentinamente eufórico, pegou o objeto antes de se levantar, deixando-o em cima da mesa.
— Será que é o livro? — perguntou enquanto ambos mantinham-se parados, encarando o saco vermelho e mordeu o lábio inferior.
— Acho que só tem uma forma de descobrir. — respondeu, tomando a frente e desenrolando a boca do saco com todo cuidado.
— Por favor, que seja o livro. — pediu enquanto assistia desfazer o nó e arregalou os olhos junto com o outro quando o viu fazer isso, após espiar dentro do saco. — O quê?! — exclamou, inclinando-se sobre a mesa para tentar espiar. — O que é? — insistiu e riu ao erguer a cabeça para ele novamente, feliz e totalmente emocionado.
— É o livro. — respondeu, rindo mais uma vez após ver o conteúdo. Capa vermelha com uma enorme árvore. A descrição exata dada por . — Definitivamente, é o livro. — repetiu, sentindo seu coração prestes a sair pela boca em um misto de euforia e satisfação. — É o livro, , o livro! — exclamou. — Achamos! — gritou para os outros, que vasculhavam outras partes da casa.
— O quê? — foi o primeiro a chegar, se juntando a eles quando abriu o livro sobre a mesa, sem nem pensar duas vezes. — O livro! Vocês acharam!
— Acharam? — perguntou, entrando as pressas no cômodo mesmo que isso deixasse a porta sem guarda, mas também ninguém se importou mais com isso. Ninguém ao menos lembrou disso, na verdade. Todos empolgados demais com o fato de terem encontrado o que procuravam. Isso sem contar a possibilidade que viram, imediatamente, de encontrar uma solução.
― Cadê? ― perguntou ao entrar apressado, com e vindo logo atrás. ― O que tem ai? ― voltou a perguntar ao se juntar aos outros, mas se voltou para em seguida, olhando dele para o livro já que o maknae se mantinha parado ali, com o livro aberto na primeira página com dizeres estranhos escritos sobre o nome da cidade. ― O que está esperando?!
― Vocês não tem medo de ler e descobrir que realmente não tem solução? ― perguntou ele, olhando por sobre os ombros para encarar e este bufou, afastando para tomar seu lugar em frente ao livro.
― Não temos tempo para isso, ! Invadimos uma casa só para ler esse livro. ― exclamou, virando a próxima página de imediato.
― Bom, no máximo chamarão nossos pais para uma bronca, caso sejamos pegos. ― observou despreocupado, parado ao lado de que passava as páginas.
― Mas não teríamos tempo de terminar de ler o que tem no livro. ― retrucou, folheando atrás de alguma coisa que ele nem ao menos saberia dizer qual era.
― Não vamos conseguir ler desse jeito, ! - protestou para a velocidade com a qual ele virava as páginas, e bufou simplesmente porque sabia que ele estava certo.
― Argh, olha a grossura disso! — reclamou inconformado. — Podia ter… Não sei, um sumário. Um sumário facilitaria muito as coisas.
― E você não acha que se tivesse um sumário escrito “como quebrar a maldição” alguém já não teria feito?! — perguntou com certo humor, e novamente reclamou.
― Droga. ― falou ele, como se somente então se desse conta disso. ― Mas tem que ter algo aqui! Não tem como o livro ser tão grosso sem essa informação. O que tanto teria para ser dito?
― Se você não parar para ler, jamais saberemos. — falou também, e o outro foi obrigado a concordar, finalmente parando de virar as páginas sem qualquer objetivo aparente, mesmo que este existisse.
― Certo. ― falou, voltando para a página inicial a fim de começar no início. Em silêncio, todos leram as primeiras linhas. e , sobre a cabeça de . nas pontas dos pés para apoiar a cabeça em seu ombro mesmo que não fosse totalmente necessário por terem quase a mesma altura. e estavam aos lados, inclinados sobre o livro enquanto tentavam ler naquela posição.
― É a lenda, explica como começou. ― falou ao chegar na metade, sentindo o coração prestes a pular de seu peito. Um garoto cheio de sonhos e que tanto quanto eles, desejava deixar a cidade fria.
― Não precisamos disso. ― passou a página, mas segurou seu pulso por um instante.
― Não se sente curioso em saber? — perguntou, e negou com a cabeça.
― Não temos tempo, .
― Tem uma hora para a missa terminar. ― apontou para o relógio, e suspirou ao acompanhar sua mão com o olhar.
― Vamos folhear. — sugeriu. — Não vamos mesmo conseguir ler tudo em uma hora, mas não podemos simplesmente pular todas as informações que nos permita entender melhor sobre isso.
― Parece bom. ― concordou, e mesmo com medo de não terem tempo o suficiente, fez o mesmo, passando o olhar rapidamente sobre as páginas para tentar entender alguma coisa o mais rápido que fosse possível.
― Eu não estou gostando de onde isso vai dar. ― comentou sobre a história, e os outros se voltaram para ele, menos e que permaneceram com os olhos no livro. ― Se a maldição ainda não existia, o que o impediu de sair?
― Estamos falando de mais de cem anos de diferença, . Eram outros tempos. ― falou, mas negou com a cabeça.
― O mataram. ― falou, já virando mais uma página enquanto os outros conversavam.
― O quê? ― perguntou, assustado, e dessa vez foi Junkook quem parou a leitura para explicar.
― Eram tempos de guerra, mas ele queria sair para estudar, se tornar médico no exército pelo que eu entendi, ajudar as pessoas, mas sua família tinha outros planos. Omelas já era uma cidade mística, povoada por bruxas e ele havia sido prometido a uma delas antes de nascer. Sua mãe não podia ter filhos, e recorreu a uma delas na esperança de conseguir.
― Você leu tudo isso em dez minutos?! ― perguntou, chocado.
― Deixe ele continuar. ― falou.
― Ele também não conseguiu ler tudo isso passando as páginas daquela forma. ― debochou e apesar da situação em que estavam, e acabaram rindo também.
― Gente, foco. ― pediu, e voltaram a ficar sérios para ouvir o mais novo. ― Continua, .
― O garoto não acreditava em bruxas ou em magia. Era cético, então juntou suas coisas para fugir.
― E então? — incentivou, mas deu de ombros.
― Não sei, está na próxima página.
! — reclamou, e o outro arregalou os olhos chocado.
― Você tirou o livro de mim! ― exclamou, então lhe deu espaço para que se juntasse a ele em frente a mesa. virou a página, e passou os olhos por ela.
― Como você sabe que ele morreu então? Se não terminou de ler? — perguntou, e não ergueu a cabeça para respondê-lo.
― Eu não disse isso, quem falou foi o . — esclareceu, sem olhar para o amigo. — Mas não é difícil deduzir isso também, porque tudo leva a esse final. ― continuou, passando mais uma página rapidamente enquanto falava. ― Aqui, ele foi morto. Queimado vivo.
― Adoro as bruxas, amigáveis. — ironizou, e riu de sua fala.
― O que houve? ― ignorou o comentário, olhando a espera de um novo resumo.
― Ele foi pego, e isso foi visto como traição. Tentaram obrigá-lo a se casar, mas ele não disse sim. As bruxas viviam ao redor da cidade, e jogaram uma maldição para que ninguém saísse. Como isso não foi o bastante, também fizeram com que o inverno fosse cada vez mais rigoroso a fim de obrigá-lo a uma atitude. ― passou mais uma página, voltando a ler.
― Ainda não terminou? — perguntou, confuso, enquanto encarava .
― Vocês não deixam. — respondeu o outro.
― Mas agora você disse que o mataram.
― Disse, porque agora tenho certeza que o mataram. — devolveu, e acabou rindo por ser apenas mais uma dedução.
― Continua antes de dizer, . – pediu, olhando por sobre os ombros ao desconfiar de ouvir um barulho.
― O que foi? ― perguntou, olhando para a porta também agora que o fizera.
― O não devia estar vigiando? — perguntou, e deixou o queixo cair.
― Eu vou ficar sozinho lá fora?
― Sim! ― todos disseram juntos, menos que ainda folheava.
— Isso é injusto! — protestou, fazendo um bico inconformado.
― Pelo menos vai ver se está tudo bem. ― pediu, e após suspirar, o fez, seguindo até a porta em silêncio.
― Ele não foi assassinado. ― falou, então se voltaram para ele. ― Mas tentaram. O vilarejo foi invadido por soldados japoneses no meio da noite. As bruxas que jogaram a maldição foram queimadas, mas ela não se desfez. Elas se garantiram que isso não aconteceria por vingança. Os soldados queriam a cidade, então teriam apenas o inverno constante. Um clima que impediria o plantio. Os soldados descobriram a maldição, tentaram terminá-la com o casamento já que a garota prometida era uma das poucas ainda vivas. Mas a família do garoto também havia sido assassinada e recusando-se a cooperar, ele se matou. Esperava-se que isso fosse condenar a cidade ao frio, mas isso fez justamente o contrário e a garota, agora descoberta como bruxa também, fechou os muros e garantiu que a maldição permanecesse, se repetindo para que os soldados que levaram a desgraça para o vilarejo morressem um a um.
― Que história… — começou, mas não soube como completar a fala. História cruel? Bárbara?
― Criativa? — perguntou, mas negou com a cabeça.
― Eu ia dizer horrível. — justificou, sem encará-lo.
― A gente já tentou sair, não dá. ― falou, se referindo ao comentário incrédulo de . ― Não tem motivos para acreditar que seja mentira.
― Mas ninguém tentou matá-lo. ― perguntou confuso, e todos o olharam surpresos por não terem notado sua volta. ― O quê? Não tinha ninguém lá fora, nem na rua. Ainda estão todos na missa. ― explicou antes de se voltar para . ― Você disse que tentaram matá-lo.
― Tentaram em algum momento, foi quando a população disse que só o casamento daria fim naquilo.
― Uma história linda, mas não nos ajuda em nada. ― falou, virando rapidamente a próxima página. ― Tem certeza de que não tem ninguém lá fora, ? ― perguntou, e o outro concordou.
― Absoluta.
― Certo. ― concordou, voltando a tomar a frente para olhar o livro. ― Não tem nada aqui além de novas histórias. ― reclamou. ― Só conta como ela continuou, até o próximo.
― Mas e o ritual? ― perguntou. ― O ancião faz um ritual para iniciar tudo, o próximo escolhido, porquê?
― Deve estar na próxima história. ― falou, tentando iniciar a leitura, mas foi impedido por .
― A gente definitivamente não tem tempo de ler todas.
― Mas a pista vai estar em uma delas. Se for só histórias, a pista vai estar escondida. ― falou, então foi até o final do livro para ver como elas continuavam. De fato, havia grande diferença entre as escritas. Ela havia se iniciado em uma caligrafia quase artística. Letras tão bem esculpidas que eram quase como um desenho a mão. Com o tempo, foram mudando, mas a julgar pela forma como se borravam, era de imaginar que havia sido escrita com tinta. Para a última história, no entanto, uma simples caneta esferográfica azul.
― Tem que ter mais coisa ai. Olha o meio. ― falou, tomando o livro para folhear também. ― Ele usava isso para um ritual. Não é possível que seja só isso, histórias.
― E se tiver outro livro, e se esse for só uma espécie de diário sobre a maldição? ― sugeriu, e imediatamente todos se calaram. Fez-se tanto silêncio que se perguntou se eram capazes de ouvir seu coração batendo mais forte devido a decepção e medo que sentiu, entrelaçando-se como se fossem um. Eles não haviam perdido todo esse tempo com algo tão inútil, haviam?
― Não, foi esse. ― também foi a frente. ― Estava escuro, mas era.
― Era ou vocês querem que seja? Porque caramba, eu quero muito que seja. ― comentou e ninguém abriu a boca para negar.
― Aqui! ― exclamou ao encontrar o ritual, e todos se voltaram de imediato para o livro. ― Eu falei que tinha um ritual.
― O que essas palavras querem dizer? ― perguntou quando nada do que estava escrito ali fez sentido e apenas negou.
― Eu não sei, mas nada do que o ancião dizia parecia mesmo fazer sentido.
― Mas para que um ritual? ― eu não entendi isso ainda. ― insistiu e os outros somente negaram. A única forma de tirar proveito daquele livro era lê-lo inteiro, de uma ponta a outra.
― Droga, eu sinto que estamos só perdendo tempo. — negou com a cabeça, decepcionado, e passou uma das mãos pelos cabelos enquanto tentava pensar em alguma solução.
― A gente vai ter que ler. ― falou, certo de que era a única solução. ― Podemos fazer um pouco cada dia, mas precisamos ler.
― Não sabemos quanto tempo temos antes da maldição se manifestar, . — respondeu, suspirando de forma preocupada. Sabia que o mais novo estava certo, mas o problema era que não tinham tempo, simplesmente.
― Mas não temos nenhum plano melhor. — defendeu a ideia, gostando daquilo tanto quanto os outros. A maldição já havia começado, com ele, e sabia disso. Sabia que não tinham muito tempo, mas aquela era a única solução, ou o mais próximo que tinham de uma.
― O ritual é para dar início a maldição. — falou, e imediatamente todos se calaram para encará-lo.
― O quê?! — perguntou, confuso sem saber de onde tinha vindo aquilo.
― Está escrito nas bordas, a lápis. ― falou, e virou o livro para ler as letras ali.
― Faz sentido. ― respondeu, e novamente voltaram a prestar atenção no que ele tinha a dizer. ― Na história a bruxa fala do sacrifício. Ela queria obrigar os soldados a matarem uns aos outros, como parte da vingança. Não fica muito bem explicado como lá, mas deve ser isso. Alguém tem que iniciar o feitiço, entregar um deles mesmo que indiretamente pela salvação dos outros.
― E o frio só termina quando alguém coloca fim na própria vida. ― falou, após ler o que estava escrito a lápis.
― Espera, não tem mais nenhuma instrução a lápis? ― perguntou, voltando a pegar o livro, e os outros se viraram para ele mais uma vez.
― O quê? Lembrou de mais alguma coisa que leu? — perguntou, mas ele negou com a cabeça.
― Não, é só que... A bruxa fala que ninguém vai descobrir como sair a cidade, antes de queimar. E se isso quis dizer que tem como, só que... Que ela escondeu a saída?
― Você acha?! ― perguntou chocado, falando três tons mais alto. ― Você deveria ter começado a contar a partir disso, !
― Não pareceu relevante! — o mais novo se defendeu.
― Você precisa rever sua definição de relevante! — gritou com ele também, mesmo que suas broncas sempre soassem como brincadeira.
― Nós sempre soubemos que não tem como sair, ok? ― explicou novamente. ― E a intenção era acabar com a maldição.
― Sair daqui sem olhar para trás também é ótimo se conseguirmos ficar vivos. Todos nós! ― respondeu e se deu por vencido para que não insistissem naquela discussão.
― Está bem, está bem! ― falou ele, voltando a passar as páginas. ― Estamos atrás de anotações a lápis, então. Ou só anotações. Qualquer coisa que ajudar.
― Espera, volta! ― falou, e imediatamente obedeceu, voltando a página que o outro havia indicado. ― Alí, “trilhos”?
― “Em que momento os trilhos deixaram de ser trilhos”? ― ler a frase no local indicado por , e franziu o cenho em seguida.
― Isso deveria fazer algum sentido? ― perguntou, mas apenas repetia a frase mentalmente.
― Não, faz sentido. ― o respondeu. ― Nós aprendemos na escola sobre o passado da cidade, sobre a importância dos trilhos. As pessoas provavelmente chegavam e deixavam a cidade por ele, mas em algum momento ele parou de funcionar, afinal, ninguém entra ou sai de Omelas.
― Mas isso é por causa da maldição. Eles existem, mas não dão em lugar nenhum. — falou, mas não se deu por vencido.
― Como sabemos que não? — questionou ele. — Nunca tentamos segui-los para ter certeza.
― Se fosse tão simples, alguém não teria conseguido? — perguntou.
― E se ninguém nunca tentou justamente por parecer tão simples? ― devolveu enquanto permanecia em silêncio, procurando um motivo que justificasse a escrita daquela frase.
“Alucinações”, ele leu rapidamente, então voltou para entender o motivo daquela palavra enquanto os outros discutiam sobre os trilhos. O rapaz daquela história viveu por tempo o suficiente para alucinar com barulhos de trem, além dos pesadelos cada vez mais constantes onde a cidade sucumbia devido ao seu egoísmo de se sacrificar com ela. sentiu um arrepio percorrer sua espinha pois já havia tido esse tipo de pesadelo, mas não ouvira barulho de trem nenhum. Cogitaram que, assim como os sonhos, o trem fosse algo que apenas o amaldiçoado da vez fosse capaz de ver, mas o rapaz perdeu a vida antes que pudessem comprovar a teoria.
― O que estão fazendo na minha casa? ― o ancião perguntou, surpreendendo a todos que estavam ocupados demais com outras coisas para notarem a aproximação do velho. ― Me devolvam esse livro. ― disse, estendendo a mão, mas fechou o objeto, segurando-o consigo enquanto os outros se colocavam a sua frente, tentando impedir que o homem o alcançasse. ― Isso não pertence a vocês.
― Não, mas é sobre a gente agora. A próxima história, e nós vamos escrevê-la. — defendeu, sem vacilar, mas o homem também não o fez.
― Eu escrevo no livro. ― respondeu, dando um passo para frente enquanto dava outro para trás.
― Nós só queremos encontrar uma solução para isso. — tentou, educadamente, e algo no seu tom de voz fez com que o coração do senhor fosse tocado. tinha aquele dom, o de tocar as pessoas. era mais sensível, calmo e só espalhava amor pelo mundo.
― Meu jovem... ― o homem suspirou, tirando da cabeça o gorro que o protegia do frio. ― Não existe uma solução. Em cem anos, ninguém encontrou. Por que acham que vão encontrar?
― Somos em sete, não mais um só lutando contra a cidade. ― respondeu, e o homem sorriu.
― Eu sei que você pensa que encontrou alguma coisa, mas não encontrou. ― o senhor falou, deixando os outros confusos por não terem acompanhado a última história lida por .
― É uma pista. Nos deixe levar o livro, podemos encontrar uma solução. Existe uma, e ele poderia ter encontrado se tivesse sobrevivido por mais alguns dias.
― A esperança só vai fazer com que a dor seja maior. ― o homem falou inabalável, voltando a estender a mão. ― Me devolve o livro, rapaz. Eu preciso dele...
― Para continuar seus rituais? Para simplesmente entregar um de nós? — perguntou, inconformado, mas nem mesmo sua brutalidade intimidou o homem.
― Não existe outra escolha. ― respondeu ele. ― É assim que as coisas tem que ser, é assim que sempre foram. Se um não morrer, todos morreremos, vai ser o fim de Omelas, para sempre.
― Nos deixe tentar, não precisa ser assim. — pediu, abraçando o livro com mais força, mas o velho não pareceu se importar.
― É a história. É assim, e eu preciso do livro.
― Nós crescemos aqui, tivemos aula com você. — falou, cabisbaixo. — Vai simplesmente fazer isso? Como vai colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo sabendo que vai matar um de nós?
― Eu nunca disse que ficaria tranquilo com isso, mas certamente vou me segurar sabendo que foi por um bem maior.
― Nós não vamos deixar que isso aconteça. ― falou, determinado. ― Não vamos deixar que ninguém morra.
― Se não for um de vocês, será o resto de nós. — o velho insistiu, e negou com a cabeça, recusando-se a aceitar que a sua morte era a única solução.
― Então vai todo mundo morrer junto. ― respondeu, cansado das desculpas do homem, cansado da crueldade escondida atrás da máscara criada pelo ancião de velho bonzinho. Em um acesso de raiva, simplesmente tomou o livro de , e o arremessou na lareira do outro lado da sala. Se o ancião não entregaria a eles, bom, pelo menos atrasaria aquele ritual ridículo.
! ― os outros gritaram, correndo até a lareira, mas o livro, já velho demais, pegou jogo quase no mesmo instante.
― Era nossa última chance, ! Haviam pistas ali! ― gritou, mas negou com a cabeça.
― Se nós não podemos usar o livro para descobrir o que precisamos, então chega! Não vai mais ter ritual, não vai mais ter escolhido.
― Você não tem noção do que você fez! ― o velho gritou, olhando desesperado de para o livro em chamas dentro da lareira. ― Você condenou a todos nós!
― Agora que é com você está preocupado?! ― perguntou, dando um passo na direção do homem. ― Pode ser um de nós, mas não pode ser você? É isso? Você é desprezível, e eu tenho nojo de você. De todos nessa cidade, por quererem o sangue de outra pessoa para salvar a si mesmo. Você não passa de um hipócrita, falando de salvar vidas ao mesmo tempo que condena outras. Que sair daqui? Nos ajude, então. Ou morra junto com todo mundo.
― Você não entende, não tem o que fazer!
― Então vamos todos morrer. Se não pode parar isso, então morremos todos e se não for agora, se não conseguimos salvar um de nós, vai ser no próximo inverno. ― ameaçou , chegando perigosamente perto do homem. ― Sabe a sua filha? O seu neto? Eles podem não ser os escolhidos para a próxima, mas não tem problema porque se um de nós morrer, a cidade inteira vai cair agora.


Continua...



Nota da autora: Quem é vivo sempre aparece, e aparecemos! Capítulo 03 foi reescito, e esperamos que tenham gostado. Comentem, pls!
Obrigada!


MAYH:


VIVI:



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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