FFOBS - Storm Passes Away, por Hellica Miranda

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Última atualização: 26/06/2020

Introdução

She’s a good girl
She’s a good girl, loves her mama
Loves Jesus and America too
She’s a good girl, crazy ‘bout Elvis
Love horses and her boyfriend too

(Free Fallin’ – Tom Petty)

Lia –


O vento gélido batia de encontro ao meu rosto a cada passo que eu dava.
Era meu primeiro dia em Londres e o frio já estava quase fazendo com que ela desistisse de sua aventura.
Não era mais nenhuma garotinha, precisava admitir, mas também não era grande coisa como adulta.
A grande prova disso era a imagem que eu via ao olhar para baixo: jeans surrados (mas quentinhos, eu contestaria) e um par de tênis All Star que um dia foram vermelhos, mas agora eram de alguma cor entre bordô e preto.
Carregava o violão preso às costas enquanto atravessava a rua em direção à London Eye.
- Que loucura estou fazendo? – sussurrei para mim mesma, vendo o ar girando para fora da minha boca conforme falava.
Respirei fundo antes de parar por ali, tirar o violão do estojo (que eu deixei cuidadosamente aberto e exposto no chão) e começar a tocar.

She's a good girl, loves her mama
Loves Jesus and America too
She's a good girl, crazy 'bout Elvis
Loves horses and her boyfriend too


A lembrança do meu namorado não deixou um calor confortável, como costumava fazer. Eu estava a um oceano de distância de Lucas. Nós não nos falávamos havia dias, e eu tinha quase certeza de que ele nunca mais me procuraria.

Yeah, yeah
It's a long day living in Reseda
There's a freeway runnin’ through the yard
And I'm a bad boy cuz I don't even miss her
I'm a bad boy for breakin’ her heart


Sorri ao perceber que algumas paravam para ouvir. Não apenas colocar algum dinheiro no estojo, mas realmente me ouvir cantar.
And I'm free, free fallin’, fallin’
And I'm free, free fallin’, fallin’


Parei para sorrir de verdade para seu público: um pequeno grupo de dez pessoas, mas que estavam mesmo ouvindo o que eu cantava, e que pareciam gostar.

All the vampires walkin’ through the valley
The move west down Ventura Boulevard
And all the bad boys are standing in the shadows
And the good girls are home with broken hearts


Um casal de mãos dadas se aproximou. Em outra época, quando eu ainda estivesse no Brasil e há alguns dias sem ver o namorado, o meu desejo seria que aqueles dois fossem eu e Lucas. Que ele estivesse ali, segurando minha mão. Mas não foi assim, não daquela vez. Eu apenas sorri para eles, por estarem felizes, por estarem vivendo a eternidade que tinham juntos.

And I'm free, free fallin’, fallin’
And I'm free, free fallin’, fallin’
Free fallin’ Now I'm
Free fallin’


Tudo que importava era a música. Estava ali para isso, havia deixado toda a minha família na fazenda para me arriscar em outro país, outro continente.

I wanna glide down over Mulholland
I wanna write her, her name in the sky
I wanna free fall out into nothin’
Oh, I'm gonna leave this world for a while


Outro grupo se aproximou para me ouvir. Um garoto, jovem, uma mulher e um homem mais velhos.
Talvez fossem pais e filho, pensei.
O garoto cerrou os olhos, em uma atitude que eu conhecia muito bem. Ele estava fechando os olhos para apreciar a música?
Não pude evitar o sorriso.

Now I'm free, free fallin’, fallin’
Free fallin’, fallin’


Quando encerrei a música, o pequeno público aplaudiu.
Curvei-me em um agradecimento desajeitado, enquanto todos eles colocavam alguma quantia em dinheiro no estojo aos meus pés.
O garoto com os pais se aproximou, tirou a carteira do bolso, abaixou-se e colocou três notas de cem libras no estojo.
- Espera aí. – eu disse. Ele olhou para mim, surpreso. – O que você está fazendo?
- Hum... Dinheiro? – ele disse, apontando todas as outras notas ali.
- Sim, eu sei, mas... Trezentas libras?
- Você é boa nisso. – ele deu de ombros.
- Obrigada, mas... Por isso você joga fora trezentas fucking libras?
Ele esboçou uma risada, mas não foi uma risada normal, era contida, como se ele quisesse evitá-la.
- O quê? Você não dá a mínima para o dinheiro dos seus pais? – apontei o casal atrás dele.
O garoto fez uma careta.
- Eles não são meus pais. São meus agentes.
- Agentes?
- Sou cantor. – ele disse, parecendo entediado e, ao mesmo tempo, curioso.
- Ah. – meus olhos idiotas, com certeza, estavam brilhando. – É um prazer conhecê-lo...?
- Jake. – ele esticou a mão e eu o cumprimentei.
- Lia.
Ele comprimiu os lábios (aquele cara tinha algum problema em sorrir) e assentiu para mim.
- Olha... Você deve achar estranho, mas... Por que você não aparece na sexta nesse lugar aqui? – ele perguntou, me entregando um papel.
- Clifton?
- É, fica em Nottingham.
Assenti.
- Está bem.
- Jake. – a mulher disse, puxando-o pelo braço. – Temos que ir, você está atrasado.
- Eu vou ver você em Clifton na sexta? – ele perguntou.
Fiz uma careta em dúvida, mas ele já tinha ido.
E, ao que tudo indicava, tinha levado toda a minha criatividade com ele.
Tudo que consegui encontrar em minha própria mente foi uma música do Drew Chadwick que nem era tão boa assim.

Out of all the flowers in the bunch
Oh you stood out just like a sore thumb
From the way you shining in the sun
I picked you up, yeah, you became my only one
Even though your petals they were broken baby
That didn’t mean that I won’t open them


O público para a segunda música era relativamente menor, restrito a um grupo de seis pessoas: dois idosos, uma garotinha de mãos dadas com os pais e uma senhora de meia idade.

Just when the light hits, when the sun rises, beauty is priceless
I’ll spin you like a carousel
Forget the mirror on the wall
Yeah, you’re the prettiest of them all
Yeah, you’re the prettiest, prettiest of them all


Para mim, o público já era grande o suficiente. Quando costumava cantar em minha cidade, cantava para o meu fechado grupo de amigos, tocava músicas aleatórias em meio às risadas das amigas e alguns flashes de câmeras dos que ainda insistiam em filmar, mesmo sabendo que eu nunca deixaria que divulgassem.
“Quando for famosa, nós vamos divulgar.” – Lucas costumava dizer.
Mas, naquele momento, tudo que ocupava a minha mente eram um endereço e uma data. Clifton, sexta-feira.

You’re like a fairytale
Look at all the clouds up in the sky
Right above you is a butterfly
I see you struggling to get by
Something in my stomach is telling me it’s a sign
Because your wings, they were broken baby
But that don’t mean she won’t open them


***
Quando finalmente cheguei ao apartamento e coloquei o violão sobre a cama, pude ver os lucros de meu primeiro dia como artista de rua em Londres.
Fora as trezentas libras de Jake, eu tinha conseguido um bom dinheiro. O suficiente para pagar o aluguel do mês, supus.
Estava tão eufórica que nem mesmo o cansaço seria capaz de fazer-me dormir, então tirei uma muda de roupas do armário e corri para um banho quente.
A água não era tão quente como eu queria para conseguir suportar o frio de Londres, mas estava dando meu melhor.
Dez graus negativos? Por favor, eu mal aguentava vinte graus no Brasil.
Vesti-me como um boneco de neve, sobrepondo inúmeras camadas de roupa em uma tentativa de me aquecer.
Soltei um palavrão quando percebi que a janela não fechava direito, deixando uma fresta aberta, o suficiente para o frio de fora entrar.
Liguei o aquecedor, que não parecia ter muito efeito também, a não ser o cheiro de poeira eminente no ar.
Embrenhei-me em meio aos edredons e cobertores em cima da cama, incomodando-me um pouco com o cheiro de mofo que vinha da parede. Próxima prioridade: pintar o apartamento.
Soltei um espirro, talvez pelo frio, talvez pelo cheiro de mofo, isso eu nunca saberia.
E aquele era apenas o primeiro dia.

***
- Oi, mãe. – eu disse, apoiando-me no balcão que separava a sala da cozinha.
- Até que enfim, notícias! O que você andou fazendo?
- Cantando.
- Ah, é claro. E o emprego?
- Mamãe, por favor, não vamos começar.
- Que voz é essa? Você está gripada?
- Acabei de acordar. – disse, puxando as torradas da torradeira e colocando-as no prato.
- Escute, eu falei com a sua tia. Ela vai levar seus primos aí em duas semanas, acha que podem ficar na sua casa?
- Eu não caibo aqui nem sozinha, não tem como colocar duas crianças aqui.
- São cinco dias, Alice.
- Estou falando, eles não vão caber aqui, é um cubículo.
- Tá bom, eu vou falar com a sua tia, mas... Alice?
- Hum?
- Procure um emprego. Sua cantoria na rua não vai te sustentar.
Pensei em dizer a ela sobre as quinhentas libras só com duas músicas, mas deixei de lado. Minha mãe veria.
Peguei o violão em cima da mesa e saiu, trancando a porta em seguida.
O local da apresentação do dia seria o Palácio de Westminster. Não exatamente o Palácio, mas algum lugar bem próximo a ele, o mais próximo que eu conseguisse ficar.
Escolhi meu ponto estratégico, de onde as pessoas precisavam desviar caso realmente quisessem ignorar-me.
A primeira música escolhida foi Everything I Own, da banda Bread.

Ajeitei a correia do violão e comecei a tocar.

You sheltered me from harm
Kept me warm, kept me warm
You gave my life to me
Set me free, Set me free
The finest years I ever knew were all the years I had with you


Algumas pessoas passaram e olharam para mim, mas ignoraram.
Talvez fosse a voz de gripe, afinal.
Talvez só estivessem desanimados para uma terça-feira, o que era bem provável, também.

I would give anything I own Give up my life, my heart, my home I would give everything I own just to have you back again

Depois de uma hora e apenas algumas libras, desisti de ficar no frio e fui embora.
Na verdade, minha casa era um cubículo de 40 metros quadrados, tudo separado por paredes finas e um balcão.
A casa parecia ter o cheiro de mofo impregnado em sua estrutura, porque eu já tinha limpado dezenas de vezes e o mesmo cheiro ainda estava ali.
Tentei desemperrar a janela, mas não consegui, então apenas ignorei meu desejo por ar fresco (mesmo que extremamente frio).
Tentei também rotear a internet de um dos vizinhos, mas sem sucesso, então passei o dia inteiro entre jogos idiotas que eu nem sabia jogar.

Jake –


- Você gostou daquela garota? – Jane perguntou, sentando-se ao meu lado no sofá do camarim.
- Você ouviu a voz dela? Ela é muito boa.
- Você fez um convite para ela, não fez?
- Clifton na sexta.
Eu odiava perguntas. Se eu não vivia fazendo perguntas aos outros, devia ser tratado da mesma maneira. Era sempre a mesma coisa, a mesma intromissão desnecessária na minha vida. Reparou no pronome possessivo? Então, isso indica realmente o que diz.
- E você acha que ela vai?
- Não sei. Por que não para de fazer perguntas?
- Você manifestou interesse por uma garota!
- Achou que eu fosse gay?
- Então achou certo, Jane, ele é gay. A gente tá junto. – Tom jogou-se em cima de mim no sofá.
- Sai daqui com essa bunda gorda, otário. – eu o empurrei, rindo.
- Quem é a garota que quer roubar o meu Jakeboy de mim?
- Uma artista de rua. – Jane respondeu, animada. – O pior de tudo: ela é muito bonita.
- Não tive tempo de olhar na cara dela. – respondi. – Só ouvi a voz dela. Não estou apaixonado por ela porque gostei da música que ela faz.
- Ela não. O Tom Petty. – Jane ironizou.
- E você a chamou para sair? Deu uns beijinhos?
- Ele a chamou para ir a Clifton na sexta.
- Vai passar na casa dela de Limusine?
- Não, Tom. Ela pode pegar um táxi, um ônibus, andar, qualquer coisa.
- Quanto romantismo! Vem cá, me beija.
- Sai, Tom!
- Agora ele só quer saber da... Como é o nome dela mesmo?
- Lia. – respondi. – Eu acho.
- Acha nada. Você tem certeza. Jake, não minta para os seus amigos.
- Vamos ver isso na sexta.
Eles me olharam, curiosos, mas tudo que eu fiz foi dar de ombros.
- Quando é o próximo show?
- Sábado. – Jane respondeu, checando em seu Blackberry. – Acha que dá tempo de fazer tudo o que quiser com ela?
Preferi ignorar a pergunta.
- Sobre o que estão falando? – Jack perguntou, entrando no camarim também.
- Jake conheceu uma garota e vai sair com ela na sexta.
- Não vou sair com ela. Só talvez ela vá até Clifton quando eu estiver lá também. E eu quero ir dormir, a gente pode ir logo?
- Se você buscar o motorista, claro. – Jane disse.
Aconteceu que o idiota do motorista da van se perdeu, o que nos fez esperar até quase quatro da manhã. Eu já tinha fumado três cigarros e bebido duas cervejas, o que nunca é uma boa combinação, quando ele chegou para nos deixar no hotel. É claro que toda a combinação explosiva me deixou acordado por longas horas, horas estas que deviam ser minhas poucas de descanso e que eu não aproveitei.
Mas não foi de todo ruim. Durante a madrugada, me lembrei da garota da rua, tocando um violão arranhado com todo amor do mundo enquanto cantava uma canção que nem me agradava muito, mas com uma voz tão doce que eu podia amarrá-la à cabeceira da minha cama e pedir que me cantasse para dormir toda noite.

***

A semana demorou um tempo insuportável para passar. Quando consegui encostar meus pés no chão na quinta-feira, já estava me arrastando com ansiedade para a sexta.
Fomos para Clifton de manhã, vimos meus pais e depois fui para o hotel, porque eu não tinha realmente uma casa, apenas malas que eu carregava comigo por vários hotéis.
Quando anoiteceu, eu estava aflito. E se, no final de tudo, eu estivesse mesmo esperando por ela? Esperando que aquela garota mais agasalhada que um boneco de neve, flutuando dentro de muitas camadas de roupas, fosse para aquele bar, naquela noite, me visse cantar e gostasse da minha música como eu gostei da dela.
- Ansioso pelo seu encontro? – Tom perguntou.
- Não é uma porra de um encontro. Eu só quero vê-la cantar outra vez.
- Vê-la. – Tom destacou. – Jane, o Jake quer ver a garota logo, dá para você terminar de se vestir?
Outra coisa que era um saco em viver em hotéis: ter que dormir em uma suíte anexada aos quartos de Jane e de Jack e Tom. Eles nunca fechavam as portas, justamente para ficarem gritando uns com os outros.
- O que vocês vão fazer hoje? – perguntei.
- Dar uma volta. – Jane disse, fechando os brincos. – Ou você acha que é o único que pode se divertir? Estamos esperando o motorista passar aqui e nos pegar.
- Por que a gente não tem um carro?
- Porque todo mundo vive bêbado.
- E não dá para carregar um carro nas costas. – Jack completou.
O celular de Jane apitou.
- Pode respirar mais tranquilo, queridinho, o carro chegou.

***

O bar em que eu costumava tocar com os Rubiks alguns anos antes ainda era como eu me lembrava. Eu fazia questão de voltar ali sempre que tinha alguns dias ou semanas vagos na agenda, porque era um bom lugar, onde você podia sentar e ouvir uma boa música, ou levantar-se e cantar, se quisesse.
Naquela noite eu estava lá pelos dois motivos. Queria cantar e queria ouvir aquela garota cantar.
Mas eu nem sabia se ela estaria lá, para começar.
Então não procurei uma mesa para sentar e esperar, apenas fui até o pequeno palco de madeira que sempre rangia, peguei meu violão e comecei a cantar.

I hurt myself today To see if I still feel I focus on the pain The only thing that's real

Algumas pessoas pararam de beber para olhar brevemente para o palco antes de constatar que eu estava de volta. Eles nunca pareciam animados em me ver, porque eles não eram garotas de quinze anos (elas nem entravam naquele bar mais, porque era proibido). E isso me fez pensar se Lia, a garota da rua, tinha mais de quinze anos (era um risco que eu corria, claro).

The needle tears a hole The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything


É claro que ela não tinha chegado. Talvez ela nem fosse. Eu não devia pensar como um babaquinha adolescente. Ela devia ir para algum pub moderninho de Londres, ouvir uma música bem ridícula tocada por algum DJ também ridículo. Eu nem sabia porque tinha esperança nas pessoas.

What have I become, my sweetest friend?
Everyone I know goes away
In the end


Então ela entrou. E ela era muito bonita mesmo. E eu não sei como a reconheci. E não sei como eu conseguia pensar tantas coisas ao mesmo tempo.
A garota acenou com a cabeça rapidamente para mim, pensando que eu não fosse ver, mas eu vi.

And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt


Ela vestia um longo casaco vermelho (que ela não deixou pendurado ao lado da porta), jeans e botas esquisitinhas que eu só usaria caso estivesse amarrado nu no Pólo Norte e fosse tudo que eu tivesse para me aquecer.

I wear this crown of thorns
Upon my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair


Ela fechou os olhos brevemente e começou a balbuciar a música. Eu quase sorri, porque ela sabia a letra de verdade, e porque ela parecia querer ouvir a música.

Beneath the stains of time
The feelings disappear
You are someone else
I am still right here


A garota me encarava fixamente, do mesmo jeito que eu devia olhar para ela, então eu não podia reclamar por isso. E porque ela era bonita, claro. Nunca é ruim quando garotas bonitas olham para você. Talvez.

What have I become, my sweetest friend?
Everyone I know goes away
In the end

And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt


A garota tirou o celular do bolso e eu me decepcionei, porque ela não estava mais prestando atenção na minha música, mas depois ela desligou o aparelho e colocou-o no bolso do casaco outra vez.

If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way


Quando terminei a música, algumas pessoas aplaudiram, e ela foi uma delas. Não foram muitas, como eu estava me acostumando nos shows, mas todas aquelas pessoas estavam ali para beber um pouco e jogar conversa fora. A música era só... Alguma coisa?
Desci do palco e fui até a mesa dela. Ela levantou a cabeça para me encarar.
- Oi. – ela disse.
- Você veio.
- Você ainda lembra de mim. – ela constatou, surpresa.
Claro que eu lembrava.
- Sua vez. – eu disse, apontando o palco.
- O quê?
- É só subir e cantar. – disse. – Você trouxe seu violão?
Ela negou com a cabeça.
Estiquei o meu para ela.
- Pode usar o meu.
Cacete. Eu emprestei meu violão para ela no nosso primeiro encontro? Isso foi pior do que levá-la para a cama!
A garota assentiu e sussurrou um “obrigada” para mim antes de pegar o violão e ir para o palco.
Lia era mesmo muito bonita. Tinha cabelos longos e bem lisos, que muitas garotas invejariam ter. E ela não era aquele conjunto previsível de pernas longas e magricelas, braços longos e um corpo muito magro. Ela tinha curvas. Curvas que eu podia ver mesmo com o casaco gigantesco.
Eu estava fazendo uma vistoria corporal na garota, tenho que confessar. Quem não faria?
Mas foi quando ela começou a cantar que meu queixo realmente caiu. Tipo, realmente.
Eu já ficara maravilhado quando a ouvi cantar uma música que eu nem gostava. Imagina quando ela abriu a boca para cantar Donovan naquele palco?
Eu devia, realmente, amarrá-la à cabeceira da minha cama e mandar ela cantar Donovan para mim com aquela voz todas as noites.

Yellow is the colour of my true love's hair,
In the morning, when we rise,
In the morning, when we rise.
That's the time, that's the time,
I love the best.


Ela tinha uma voz encantadora. Por que ela não cantora?
Espera aí, ela nem tinha quinze anos, no final de tudo.
Lia cantava de olhos fechados, às vezes.

Blue's the colour of the sky-y,
In the morning, when we rise,
In the morning, when we rise.
That's the time, that's the time,
I love the best.


Ela abriu os olhos rapidamente, talvez para ver se eu estava assistindo, eu acho.

Green's the colour of the sparklin' corn,
In the morning, when we rise,
In the morning, when we rise.
That's the time, that's the time,
I love the best.


Lia era tão boa que as pessoas estavam mesmo largando suas bebidas para vê-la e ouvi-la.
Quem não se impressiona com uma garota baixinha tocando violão (meu violão) e cantando com aquela voz?
Meu celular tocou, mas eu ignorei. O que podia estar acontecendo de importante? Jack e Tom bêbados? Qualquer coisa, não era importante.

Mellow is the feeling that I get,
When I see her, m-hmm,
When I see her, oh yeah.
That's the time, that's the time,
I love the best.

Freedom is a word I rarely use,
Without thinking, m-hmm,
Without thinking, oh yeah.
Of the time, of the time,
When I've been loved.


Ah, sim. Realmente. Uma música nunca falou tantas verdades em um único dia.
“Liberdade é uma palavra que raramente uso”. Parecia que ela tinha escolhido a música de propósito.
Lia encerrou a música com os últimos acordes e, literalmente, todo mundo aplaudiu.
Que garota.
Eu só não aplaudi porque estava ocupado de mais olhando para ela com a cara rachada para conseguir me lembrar de como se aplaudia alguém.
Ela desceu do palco e andou de volta até a mesa.
- E aí? – perguntou.
- Bom. – respondi. – Você gosta do Donovan?
Ela assentiu e sentou-se novamente onde estava antes.
E agora? O que eu fazia? Levantava, ia para o palco e fazia disso um ciclo? Conversava com ela? Ia embora?
- Então... – perguntei. – De onde você é?
- Do Brasil. – ela respondeu.
Eu assenti.
- Eu sou daqui. De Nottingham.
Dessa vez, ela assentiu.
- Não tive tempo para conhecer o lugar, mas talvez eu volte outro dia.
Não tinha ninguém no palco. Lia e eu não tínhamos nenhum assunto em comum.
- Por que a gente não vai lá? – perguntei, apontando o palco.
- Nós dois?
Assenti outra vez.
- Mas e se não soubermos cantar as mesmas músicas?
- Crying, do Don McLean. Sabe cantar?
Ela assentiu.
- Então vamos lá.
Gesticulei para que ela fosse primeiro, e Lia voltou para o palco. Subi logo em seguida, e ela acenou para que eu começasse.

I was all right for a while, I could smile for a while
But when I saw you last night, you held my hand so tight
When you stopped to say "Hello"
And though you wished me well, you couldn't tell


Lia me encarou, como se esperasse que eu dissesse para ela cantar. Assenti, tentando encorajá-la, ela deu de ombros e começou a cantar também.

That I'd been cry-i-i-i-ng over you, cry-i-i-i-ng over you
Then you said "so long”, left me standing all alone
Alone and crying, crying, crying cry-i-ing
It's hard to understand that the touch of your hand
Can start me crying


Ela olhou novamente para mim e fez o mesmo gesto que eu havia feito a ela.

I thought that I was over you but it's tru-ue, so true
I love you even more than I did before but darling what can I do-o-o-o
For you don't love me and I'll always be



Terminamos a música juntos, e nossas vozes combinavam com perfeição, como se devêssemos fazer isso sempre, como se fosse natural.

Cry-i-i-i-ng over you, cry-i-i-i-ng over you
Yes, now you're gone and from this moment on
I'll be crying, crying, crying, cry-i-i-ing
Yeah crying, crying, o-o-o-o-ver you


Fomos aplaudidos. Aplaudidos de verdade, como se as mãos do nosso público estivessem expressando fúria com a violência dos tapas. Mas eu sabia que não, era animação. Eles tinham gostado daquela mistura da minha voz e da de Lia.
E eu também tinha, queria repetir, de verdade.
Descemos do palco, passando pelo corredor aberto entre as pessoas que aplaudiam e nos elogiavam.
- Acho que eles gostaram. – ela comentou, sorrindo.
Sorri de leve para ela.
- Você canta muito bem.
- Obrigada, eu acho. Você também canta, mas imagino que você já não precise mais cantar por aqui.
Assenti. Ela estava certa, eu não precisava mais cantar ali, mas ainda gostava muito da sensação.
- Pois é. – concordei. – Mas é sempre bom voltar para casa.
- Mas e aí. – ela disse, dando a entender que ia mudar de assunto. – Você é muito famoso?
Eu ri da inocência dela.
Eu era muito famoso? Eu nem sabia quão famoso eu era.
- Não sei, talvez sim.
- Vamos ver... – ela disse, pensativa. – As garotas correm atrás de você, gritando como loucas?
- Acontece.
- Paparazzis seguem você até mesmo na sua casa?
- Bem, de certa forma sim, mas eu não tenho uma casa.
- Mesmo? – ela perguntou, parecendo indignada. – Você não tem casa?
- Não, eu durmo em hotéis porque nunca tenho tempo para parar.
- Isso resumiu tudo. – ela disse, parecendo um pouco desanimada. – Você é bem famoso.
- É, talvez eu seja. Mas não duvido nada que você possa ser também, em breve.
- Se eu tiver algum dinheiro para mandar para casa, já ficarei satisfeita.
- Seus pais precisam da sua ajuda financeira? – perguntei, interessado.
- Não, mas eu gostaria de provar a vitória sobre a descrença deles.
Eu ri.
- Eles não apoiam sua carreira.
- É, eles não apoiam. Acham que eu devia ser advogada, porque eu “falo bem”.
- Pais severos devem ser interessantes.
- Seus pais são o quê... Dois hippies malucos?
- Mais ou menos. Eles meio que tentam cantar também, mas é um pop antigo meio doido, não faz sentido algum. Meu pai era enfermeiro e minha mãe era vendedora de uma loja.
- Bem... – ela disse, pensativa. – Meu pai é empresário, então ele nunca está em casa, mas nunca deixou faltar qualquer coisa, além da própria presença, claro. A minha mãe era bailarina. Ela largou a carreira porque engravidou muito cedo. É uma loucura. Acabei com a vida dela. – ela abriu os braços, como se assumisse toda a culpa.
- Acho que não. Não é como se você tivesse culpa, se alguém a tiver, são os seus pais.
Ela não pareceu mais confortável, claro. Eu nunca conseguia fazer com que garotas se sentissem confortáveis.
- Eu já me acostumei com a minha mãe me culpando o tempo inteiro e querendo que eu viva o que ela teve que deixar de viver para dar a luz a uma garota, chamada eu.
Eu ri outra vez.
- Ela era uma boa bailarina?
- Sim, era. Ela estava ficando famosa e tudo. Ia ser a principal de um grupo de balé importantíssimo, mas daí ela conheceu o meu pai e... boom, três meses depois lá estava eu nas duas tirinhas azuis do exame de gravidez.
- E seus pais ficaram juntos porque se gostavam ou... Por obrigação?
- Eles se gostam, de um jeito maluco e torto, mas gostam. Só que a minha mãe sempre o culpa por ter estragado a carreira dela, como se ele tivesse me feito sozinho e jogado no colo dela.
Aquela garota era uma máquina de falar coisas malucas, mas ela era divertida, e eu mal conseguia parar de rir das coisas que ela dizia, mesmo sabendo que eram sérias.
- Seus pais moram aqui em Nottingham? – ela perguntou.
- Ainda moram. Ele na casa dele, e ela na dele.
- São separados. – ela concluiu.
- Desde quando eu consigo me lembrar.
- Você sofreu com isso?
- Um pouco, talvez. Mas agora eu mal me lembro.
- Meus pais já se separaram uma vez, mas durou apenas dois dias. Ele voltou para casa.
Assenti. Ela parecia ter uma boa história para contar quando ficasse famosa.
- E como é a sua casa no Brasil? – perguntei.
Ela pareceu pensar um pouco.
- Uma casa meio doida, do lado de fora é clássica e imponente e, por dentro, é moderna e toda nova. Moramos lá porque a minha mãe gosta, mas meu pai e eu passamos um bom tempo na fazenda, onde eu posso, ou podia, não sei, montar a cavalo e cuidar dos animais.
- Montar a cavalo? Mesmo?
- Fiz hipismo durante toda a minha vida, estava prestes a competir profissionalmente, mundialmente, mas escolhi a música. Deixei todo mundo doido.
- É boa no hipismo também?
- Ganhei todos os campeonatos da minha cidade e alguns da região, dos sete aos dezessete, não teve para ninguém. – ela pareceu feliz em se recordar.
- Acha que vai voltar para o hipismo algum dia?
- Se minha carreira nunca der certo mesmo, com certeza vou tentar o hipismo, sempre foi minha segunda opção. E minha égua, a Jade, está me esperando no Brasil com muita paciência e dúvidas.
Eu ri mais uma vez. Como ela podia imaginar uma égua esperando por ela e com dúvidas sobre onde estava a dona?
- Jade é minha égua desde... hum, sempre. É quase uma filhinha, tirando o fato de que ela não, sabe, ela é uma égua e eu... Você entendeu. – ela suspirou, envergonhada. – Estou falando de mais e roubando seu tempo, não estou? Estou. Eu faço isso com todo mundo que me dá a oportunidade de falar, então... Não me dê a oportunidade de falar, está bem? Estou te incomodando, vou embora.
Ela fez menção de levantar-se, mas eu a segurei pelo braço antes que ela pudesse, de fato, se levantar.
- Não está, não. Você e eu estamos conversando, e estou gostando, não estou incomodado.
Ela corou.
Bem, eu não tinha dito aquilo como um flerte, mas eu estava irremediavelmente flertando com ela o tempo todo. Era bom que ela expressasse alguma reação. Ela tinha recebido minha primeira investida.
- Bem... Então acho que é a sua vez de falar.
- Ah, sim. Sobre o que quer ouvir?
- Sua carreira, sua família... Eu não sei, o que quiser falar.
- Minha carreira, acho que estou mais confortável para falar sobre ela.
Lia assentiu.
- Eu larguei a escola quando era mais novo. – disse. Ela pareceu surpresa. Claro que ela nunca faria algo do tipo, dava para ver em seus olhos. – E a BBC resolveu me aceitar para cantar como um novo talento no Festival de Glastonbury e... boom, ganhei um contrato com a Mercury aos dezessete anos.
- Estou um ano atrasada. – ela brincou.
- Você tem dezoito? – perguntei. – Você acabou de sair da escola, então.
- Pois é, por isso estou aqui.
- Deixe-me adivinhar. – eu disse. – Sua mãe te prometeu que deixaria tentar sua carreira aqui, mas só depois do ensino médio, e ela esperava que você esquecesse a ideia maluca até lá.
- Exatamente. – ela disse. – Mas eu não esqueci, e aqui estou. Será que a gente pode beber alguma coisa? Estou com sede.
- Claro, eu pego para você. – ia me levantar para pegar algo, mas Lia me impediu.
- Eu posso ir pedir, onde é que fica?
- Não, tudo bem, eu vou. O que você quer? Uma cerveja ou algo mais sofisticado?
- Não quero te incomodar, vamos lá, deixa que eu vou.
Rolei os olhos.
- Como você é teimosa. Vamos os dois então.
E fomos.
No fim das contas, Lia pediu uma cerveja (e brigou com o cara para que ela viesse bem gelada) e falamos mais sobre a mãe sistemática dela e meus pais doidos.
Perdemos a noção do tempo, porque, quando percebemos, o bar já estava fechando e o cara do balcão foi avisar que tínhamos dez minutos, mas ele realmente estava nos expulsando.
Deixamos o bar com o violão e cansados, mas nenhum de nós queria dormir, eu tinha certeza.
- E agora você vai para onde? – ela perguntou.
Balancei a cabeça.
- Não sei. E você?
- Acho que vou esperar amanhecer e voltar para Londres. – ela disse, séria.
- Ah, me desculpe por isso, te meti em uma fria.
- Não tem problema. – ela riu. – Até que foi legal, obrigada.
- Posso te levar de volta para Londres amanhã à tarde?
- Isso foi uma pergunta?
- É, eu acho que foi.
- Por favor. – Lia riu. – Seria maravilhoso se você pudesse.
- Tudo bem, então vou te levar para casa amanhã.
- Claro, obrigada. – ela disse, agradecida. – Espere aí, vamos dormir na rua?
- Se você não estiver com medo, podemos fazer um passeio.
Ela arqueou as sobrancelhas, pensativa.
- Bem, por mim tudo bem.
Levantei-me e ofereci a mão para que ela se levantasse também.
- Para onde você quer ir? Wollaton Hall and Park?
- Podemos deixar o passeio histórico para outro dia? A gente podia... Dar uma volta pelas ruas e... Só.
- Se você prefere.
- É, acho que eu prefiro.
Eu ri.
Ela queria mesmo conhecer as ruas de Nottingham? Ninguém melhor do que eu pra mostrá-las.
- Quer conhecer a Clifton Bridge? The Grey Mare?
- Qualquer coisa, vamos lá. – ela disse, finalmente levantando-se.
Estava frio, e Lia parecia muito agasalhada, mas ela continuava tremendo.
Qual era o problema com o organismo dela?
- Está com frio? – perguntei.
- Ainda não me acostumei. – ela disse. – Está muito frio.
Eu poderia fazer a cena romântica e dar meu casaco a ela, mas eu não tinha um casaco. Porque, para mim, não estava muito frio, e minha camisa estava dando conta.
Eu também não iria abraçá-la, é claro, porque tínhamos acabado de nos conhecer e seria... no mínimo estranho.
- Tenho uma ideia.
Então, eu a levei até o estacionamento do Marley’s Markets, onde eu e meus amigos costumávamos ficar.
Não tinha ninguém lá, porque deviam ter ido para algum outro lugar.
Mas o estacionamento pelo menos era quentinho e coberto, e era de fácil acesso.
Era um pouco criminoso, mas nada que a cidade inteira – inclusive a polícia – não soubesse.
- Então... – ela disse, andando em círculos pelo local. – Você e seus amigos vinham até aqui?
- É... A gente bebia e fumava e...
- Sou alérgica a nicotina. – ela disse, dando de ombros.
- Mesmo? – perguntei, surpreso.
Nunca ouvi algo do tipo, e isso era uma merda.
Nunca daria certo, afinal, uma garota alérgica a nicotina e um fumante assíduo, mais conhecido como eu.
- Mesmo. É uma porcaria. Você fuma?
Assenti.
- Fuma? Poxa, que merda, não?
Aquela era a hora em que ela se tornava um pé no saco e começava a brigar comigo por fumar?
Achei que sim, mas ela não o fez.
- Tive uma crise quando tinha quinze anos, porque um amigo do meu pai chegou em casa fumando. Foram dois minutos até ele apagar o cigarro, mas mesmo assim eu precisei passar algumas horas no hospital, com um tubo de oxigênio e tudo o mais.
Balancei a cabeça outra vez.
Mas por que eu estava pensando nisso? Pensando no fato de que “nunca daria certo”? O que eu esperava?
- Mas e aí, que tipo de música você canta nos seus... shows? – ela perguntou.
- Hum... Acho que... Indie rock e folk, blues, não sei, talvez country... Alguma coisa.
Ela riu.
- De que tipo de música você gosta? – perguntei, sentindo uma necessidade tosca de agradá-la. Se ela dissesse que gostava de pop, talvez eu dissesse que fazia alguns coveres de One Direction no meu show. Que babaca otário, Jake, que babaca otário.
- Gosto de rock. De qualquer tipo. E música country, daquelas bem velhas. – ela disse, rindo. – Gosto... bem, de Rolling Stones e do Elvis e... Johnny Cash.
Assenti.
Que maravilha. Eu nem precisaria pintar os cabelos e cantar algo como Britney Spears.
- Você gosta também, não é? – ela perguntou. – Você cantou muito bem aquela música, então imagino que você goste desse tipo de música, estou certa?
- Sim, está.
- E o que você canta é parecido? Você compõe suas próprias músicas?
- Sim e... Sim.
- Mesmo? – ela perguntou, parecendo encantada. Ah, garota... – Por que você não canta uma para mim? Quer dizer, por que você não canta uma para eu ouvir?
- Está bem.
Ela me entregou o violão – que por algum motivo ela carregava – e eu pensei rapidamente em uma música para tocar.
Meus dedos nas cordas do violão foram mais rápidos que minha mente e, mesmo sem saber, eu já sabia que música tocar.

Stuck in speed bump city
Where the only thing that’s pretty
Is the thought of getting out
There’s a tower block overhead
All you’ve got’s your benefits
And you’re barely scraping by



Ela balançava sobre os pés, o que talvez significasse que ela estava gostando, ou fingindo muito bem.

In this trouble town
Troubles are found
In this trouble town
Words do get ’round

Kick the bottom make troubles flee
Smoke until our eyes would bleed
Sparkle pop the seed
Hear the sirens down the street
The kids get light on their feet
Or they’ll be in the back seat


Nessa parte ela fez uma careta engraçada e rolou os olhos, o que quase me fez rir no meio da música, mas eu me contive.

In this trouble town
Troubles are found
Sitting on the pavement
Boy you’ve missed your payment
And they’re gonna find you soon
If there’s a beating in the rain
If there’s a little bit of pain, man
You’re the one it happens to

Ela começou a assoviar a música, o que era, claramente, o sinal que faltava de que ela gostava da música.

If I talk of getting out
I only hear the laughter loud
It’s got an ugly echo
Somewhere there’s a secret road
To take me far away I know
But ’til then I am hollow

In this trouble town
Troubles are found
In this trouble town
Fools are found


Lia começou a rir, e eu não entendi absolutamente nada, mas fiquei encarando-a enquanto ela ria, parecendo nostálgica e feliz.

Sitting on the pavement
Boy you’ve missed your payment
And they’re gonna find you soon
If there’s a beating in the streets
If there’s a feeling of defeat
You’re the one it happens to
Stuck in speed bump city
Where the only thing that’s pretty
Is the thought of getting out

Quando terminei a música, ela já não ria mais, mas ainda parecia um pouco nostálgica.
- O que foi que houve? – perguntei.
- Essa música... Meio que se parece comigo, sabe, com a minha cidade.
Eu assenti.
- Ser caipira é uma merda. – ela disse.
Eu ri.
Ela estava certa, afinal.
- E você nunca compôs suas próprias músicas?
- Ah... Sim, mas...
- Então eu quero ouvir. – disse, entregando o violão para ela de volta.
Ela riu.
- Você não quer, não.
- Sim, eu quero, vamos lá.
- São músicas toscas e...
- Não tem importância, eu quero ouvir.
Ela deu de ombros e começou a tocar.
- Foi você quem pediu. – avisou.

You don't know how I love
You don't know how I feel
You don't know how I touch in real

You don't know how I stay
You don't know my mistakes
You don't know what is for me real
You don't know what I think about you


O cara para quem ela fez a música devia ser um otário idiota, porque ela cantava com raiva, como se a letra da música a lembrasse de um período ruim de sua vida.

To get where I am.
Boy I'm dreaming with you every night.
Everywhere.
I want to wake up
I want to wake up


Ou não. Ela devia ser terrivelmente apaixonada por ele.

This must be a nightmare.
I want to wake up
I want to wake up
Of this nightmare.

Please wake me up I'm feeling something
I don’t wanna know.
Because I really know.
I'm in love.
I'm in love.

It would be wrong
I don't want to feel.
Baby, wake me up.
Baby, wake me up
Baby, wake me up
Now.

So you wake me up
So you wake me up
And I put my makeup
And now
I forgot what I was going to say*


*Música de própria autoria, ou seja, nada sério, fui eu mesma que escrevi.

- Eu te disse, é uma porcaria. – ela disse, rindo. – Escrevi para o meu namorado, quando tinha catorze anos, ele era um babaca às vezes e...
- Entendo. Você gostava muito dele?
Ela suspirou, parecendo pensar na resposta.
- Não sei. – disse, baixinho. – Supostamente, eu devia amá-lo.
- E amava?
- Não sei. – ela repetiu.
- Você escreveu mais músicas para ele?
- Mais um monte. – ela gargalhou. – Mas também escrevi música para alguns outros garotos e...
- Garotos com quem você queria estar?
Ela pareceu pensar outra vez.
- Sim. – respondeu baixinho, outra vez. – Mas eu não podia, porque estava com ele. – ela pareceu dizer isso a si mesma, e não a mim. Ela devia ter uma boa história com esse cara. – Eu estive a vida inteira com ele, nunca tive espaço para estar com nenhum outro garoto, além dele.
Assenti, e ela não pareceu querer falar mais a respeito.
- Eu beijei um garoto, um outro garoto, uma vez, mas nós tínhamos terminado por um tempo. Me senti livre, e isso foi errado. – ela estava falando para si mesma outra vez.
- Quer tocar outra coisa? – perguntei. – Podemos tocar alguma dos Rolling Stones ou Beatles, ou qualquer coisa que você quiser.
Ela balançou a cabeça.
- Está bem. A gente pode tocar I can’t get no.
Comecei a tocar a música no violão antes que ela mudasse de ideia.
E comecei a cantar.

I can't get no satisfaction
I can't get no satisfaction
'Cause I try, and I try, and I try, and I try


Ela captou a mensagem e começou a cantar.

I can't get no
I can't get no
When I'm drivin' in my car
And that man comes on the radio
He's tellin' me more and more
About some useless information


Quando ela cantava, as veias de seu pescoço ficavam evidentes sob sua pele branca de porcelana, e ela parecia linda daquele jeito, sem nenhuma maquiagem, sob a luz fraca do estacionamento do Marley’s, e com as veias saltadas no pescoço.

Supposed to drive my imagination
I can't get no
Oh, no, no, no
Hey, hey, hey
That's what I say


Eu sabia que minhas veias ficavam como as dela, mas eu não ficava tão bonito quanto ela era.

I can't get no satisfaction
I can't get no satisfaction
'Cause I try, and I try, and I try, and I try
I can't get no
I can't get no

Nossas vozes ficavam bem juntas. Era um fato quase científico e, se alguém fizesse uma pesquisa sobre isso, comprovaria que ficavam bem melhores do que sozinhas.
When I'm watchin' my TV
And that man comes on to tell me
How white my shirts can be
But he can't be a man, 'cause he doesn't smoke
The same cigarettes as me
I can't get no
Oh, no, no, no
Hey, hey, hey
That's what I say
I can't get no satisfaction
I can't get no girl reaction
'Cause I try, and I try, and I try, and I try
I can't get no
I can't get no


Ela cantou o verso seguinte, parecendo animada como se estivesse bêbada, mas ela não estava, não com apenas uma cerveja.

When I'm ridin' round the world
And I'm doin' this and I'm signing that
And I'm tryin' to make some girl
Who tells me, baby, better come back later next week
'Cause you see I'm on losing streak

I can't get no
Oh, no, no, no
Hey, hey, hey
That's what I say
I can't get no
I can't get no


- Você está com sono? – perguntei, guardando o violão.
- Hum... Não. Você está?
Balancei a cabeça, negando.
- Vamos passar a noite toda aqui? – ela perguntou.
- Se você quiser.
- Ninguém vai chegar?
- Não, mas se chegar, nós corremos.
Ela riu.
- Não vamos congelar?
- Vamos. – respondi.
Ela gargalhou, desta vez.
- Então tudo bem.
Passamos o resto da madrugada encolhidos contra a porta dos fundos do mercado, falando sobre músicas e cantando algumas coisas, até que Lia dormiu.
Ela era ainda mais bonita dormindo.
Não havia nenhum vinco em sua testa, e seus olhos estavam fechados sutilmente, sem nenhuma pressão em suas pálpebras.
Ela quase sorria, e acho que estaria o fazendo se ela não estivesse com frio.
Torturei-me mentalmente por não andar com um casaco, assim eu poderia cobri-la e fazer algo a que ela pudesse me agradecer depois.
Mas eu não andava com um casaco.


Capítulo 1: Rock and roll can never die

They give you this, but you pay for that
And once you're gone, you can't come back
When you're out of the blue and into the black

(Hey Hey, My My – Neil Young)





Quando eu acordei, todas as minhas articulações doíam, sem exceção.
Talvez fosse o frio, ou o fato de que eu dormia encostada na parede de um mercado em Clifton, Nottingham.
Eu estava ligeiramente encostada contra Jake, o cara que eu havia conhecido de verdade na noite anterior. E ele era muito gelado, mas eu não me incomodava, não queria me levantar.
E não teria levantado se não fossem os dois garotos entrando no estacionamento com uma camiseta azul e vermelha escrito “Marley’s Markets”.
Droga. Eram funcionários.
- Jake. – sussurrei. – Jake. – mais uma vez. – Jake, acorda. – comecei a sacudi-lo.
Ele abriu os olhos preguiçosamente.
- O que é que está acontecendo? – ele perguntou, parecendo muito irritado.
- Funcionários do mercado estão chegando. – disse. – Temos que sair.
Ele levantou o olhar, encarando os dois rapazes que chegavam.
- Merda. – ele disse, levantando-se rapidamente e me puxando.
- O que foi? Vamos ser presos? – perguntei.
- Pior.
- Ora, ora, ora. – um dos garotos disse, e eu já senti medo e entendi o que Jake estava dizendo. O outro garoto riu. – Olha só quem está aqui, Robbie.
- Jake Bugg voltou para o lar? O cara que ia cair fora.
Entendi imediatamente o porquê da letra da música.
- E ele trouxe uma garota, hum? E é bem bonitinha. – o garoto andou até nós.
- Fica longe dela, idiota. – Jake disse, colocando-se à minha frente.
- Ah, por que, cara? Todo mundo dividia as garotas aqui, lembra?
- Jake... – sussurrei.
- Eu não estou mais aqui, e ela não é daqui. – Jake grunhiu.
- Jake, por favor, a gente pode só ir embora e...
- Olha lá, Jake, sua garota quer ir embora, eu posso levá-la se você quiser.
- Eu vou levá-la.
Jake pegou minha mão e me guiou até o lugar por onde entramos à noite.



***

- Jake...? – chamei.
Estávamos andando havia alguns minutos, e ele ainda segurava a minha mão e parecia nervoso.
- Você está bem? – perguntei.
Ele suspirou.
- É que... É que aqueles caras são uns idiotas, . Eu não gosto deles e... Fica longe deles, ok? – ele soltou minha mão e passou a sua pelos seus cabelos.
- Eu nunca mais vou vê-los. – disse. – Só se você me trouxer de novo.
- Não vou trazer você outra vez. – ele disse, e eu me senti uma merda. – Não para onde eles possam estar.
- Está bem. – concordei. – Você ainda vai me mostrar a cidade? Ou quer ir embora?
- Prometi que ia te mostrar a cidade, então vou fazê-lo.
- Obrigada.
- Não precisa me agradecer por nada, eu só te ferrei. – ele riu com ironia. – Fiz você dormir no frio e agora você está rouca e depois você teve o desprazer de conhecer aqueles dois otários, sinto muito.
Eu ri.
- Foi divertido, e eu tenho milhares de receitas para a rouquidão, então não se preocupe com isso. E quanto aos otários, eu conheço vários.
Ele sorriu.
- Pronta para conhecer minha cidade problema*?
Desta vez, eu ri.


* Referência à música Trouble Town.



***

Jake e eu passeamos pela cidade o dia inteiro, começamos algo que podíamos chamar de música e, quando eram quase cinco horas da tarde, ele me levou para uma lanchonete onde havia alguns garotos e garotas para tomarmos o clássico chá do horário.
Jake pediu chá com champagne, o que era bem maluco, mas eu sabia que era bom, porque já havia tomado.
Eu pedi café, porque estava um pouco cansada e com muito frio, e me arrependi tremendamente por não ter levado agasalho.
Algumas garotas foram até a mesa falar com Jake e os garotos o cumprimentaram de longe.
As garotas eram todas bonitas, mas muito iguais. A maioria usava camisas de flanela xadrez e jeans e os cabelos repicados, e a outra parte tinha cabelo loiro e usava roupas caras.
Elas pareciam todas personagens de um filme, o que era engraçado e ao mesmo tempo intimidador. Eu só parecia... de fora.
- Eles são todos iguais, mas são legais se você der uma chance. – Jake disse, acompanhando meu olhar.
Eu assenti.
Jake terminou seu chá e eu comprei um croissant de queijo para comer no caminho, porque estava com fome.
Encontramos o grupo dele no centro da cidade.
A mulher que estava com ele no outro dia, que eu sabia que era sua agente, e dois rapazes que eu não conhecia, mas que ele me apresentou como Jack e Tom, seus companheiros de banda e de estrada.
A mulher era Jane, e ela devia ter uns trinta anos, e era bem bonita, mas ela tratava os garotos como uma mãe.
Peguei carona com eles de volta à Londres, e eles me deixaram em frente ao meu prédio.
Quando cheguei ao apartamento, recebi uma mensagem de texto e nem precisei pensar para confirmar que era Jake.

“Boa noite x” e depois mais uma: “Odeio esse fucking x”.

Eu estava com muito sono, e acabei dormindo mesmo antes de responder às mensagens.


***

Acordei tarde no dia seguinte, mas, mesmo assim, saí para cantar na rua.
Desta vez, cantaria perto da London Eye.
Guardei meu violão no estojo e parti.
Estava frio na rua, mas não tanto quanto nos dias anteriores, então eu estava bem usando apenas quatro blusas, o que era um recorde.
Escolhi o local que seria meu palco por algumas horas e comecei a cantar antes que pudesse pensar muito.

Take this bird in, with its broken leg We could nurse it, she said Come inside for a little lay down with me If we fall asleep it wouldn't be the worst thing But when I wake up, and your makeup is on my shoulder

And tell me if lay down, would you stay now? Let me hold ya, ohh


Meus dedos doíam um pouco por causa do frio e por causa da inegável gripe que estava se desenvolvendo, mas as cordas do violão pareciam anestesia, por mais que eu soubesse que, quando chegasse em casa, talvez as pontas dos dedos estivessem marcadas por ferimentos cheios de sangue que pareceriam memórias de guerra, mas era só a música. E eu sentiria dor, mas tocaria o violão de novo e a dor cessaria.
Era assim que funcionava.

But if I kiss you will your mouth read this truth Darling how I miss you, strawberries taste how lips do And it’s not complete yet, mustn't get our feet wet Cause that leads to regret, diving in too soon. And I'll owe it all to you, oh, my little bird

Por algum motivo, não foi de Lucas que eu me lembrei.
Senti como se estivesse cometendo um crime, mas, no fundo, eu sabia, eu sempre soube. Se um dia cheguei a amá-lo, eu não o amava mais.

If we take a walk out, in the morning dew We can lay down, so I'm next you Come inside for a little homemade tea And if you fall asleep, then at least your next to me And if I wake up, say it's late love get back to sleep I'm covered by nature and I'm safe now Underneath this oak tree, with you beside me

Por que eu havia levado tudo tão longe, então? Porque eu estava vivendo uma vida inteira com um cara que eu nem tinha certeza se amava ou não?
Algo estava errado comigo.
Interrompi a música antes de acabá-la, e corri para casa.
Cantei toda a letra mentalmente durante o caminho, mas minha mente precisava de outra coisa. Eu precisava falar com Lucas, e era urgente.

***

Bati a porta do apartamento e entrei correndo, em busca do computador.
A internet não era a melhor coisa do mundo, mas devia permitir uma conexão rudimentar com o Skype para que eu falasse com meu namorado e tivesse certeza sobre todas as maluquices em que eu vinha pensando.

- ? – ele perguntou, esfregando os olhos. Que horas deviam ser no Brasil? Sete da manhã? Bem, ele devia estar acordado, de qualquer forma. – Oi, meu amor. Estava esperando que você ligasse antes. Achei que não fosse ligar mais.
Lucas era muito bonito. Tipo, muito bonito mesmo. Lucas era o tipo de qualquer garota. Com aqueles olhos azuis maravilhosos, o cabelo loiro-acinzentado curto e toda aquela massa muscular. Ele parecia a personificação do John, de Querido John, só que muito real. Ele era como um deus grego, todas as garotas matariam por um namorado como ele.
E ele era o típico bom moço, o namorado perfeito para a Miley Stewart – aquela que ficava loira e virava Hannah Montana. Ele era bom com as coisas da fazenda, sabia fazer de tudo e cuidava de todos os animais com perfeição, era inteligente e criativo, mas não tinha nenhuma ambição. A única coisa que ele pensava sobre o futuro era a faculdade de medicina veterinária na universidade da cidade vizinha.
Lucas não queria muita coisa, ele era feliz com pouco, mas tinha uma família que o amava mais que tudo, e todos eram muito equilibrados, coisa que a minha família não era.
- , meu amor?
- Ah, oi, Lucas. – balancei a cabeça, me libertando de toda a linha de pensamento que transformava o possível amor da minha vida em um completo oposto de mim.
- Ei, oi. Aconteceu alguma coisa? Você não parece bem.
- Está tudo bem. – concordei.
Eu não podia dizer adeus à única coisa certa que eu tinha na minha vida.
- Então tá. – ele deu de ombros. – Fiquei preocupado, você não deu notícias. Também não sabia se devia ligar ou você estaria trabalhando ou algo assim. Espero que tenha conseguido algum emprego...
- Na verdade não, não consegui. Também não estou procurando.
Ele balançou a cabeça.
- Se você precisar de algum dinheiro, sabe que pode me pedir.
- Está tudo bem, Lucas, não se preocupa. Estou indo bem. Inclusive... Acho que vou sair para cantar outra vez.
- Outra vez? Mas ainda é cedo.
- Tem muita gente na rua disposta a pagar por música.
Ele riu.
- Tudo bem, eu te ligo mais tarde, está bem? – ele perguntou, eu assenti. – Eu te amo, .
Merda.

***


Voltei à rua com milhões de músicas que eu poderia tocar. Optei por uma que nunca falharia: Hey Jude.
Enquanto eu tocava, algumas pessoas paravam, juntavam-se em um círculo que só aumentava, e colocavam algum dinheiro no estojo do meu violão. Alguns faziam elogios, outros apenas ouviam, mas a sensação era maravilhosa.
Todo músico deve, um dia, experimentar tocar na rua. Nada é parecido com isso.
Quando já estava na terceira música, a multidão começou a aumentar, e os comentários também. Isso não era normal.
Parei de tocar, para tentar ouvir algo do que diziam.
“Jake Bugg (...) ontem à noite (...) Clifton”.
Ah, não, por favor...
Uma garota usando uma camiseta do Arctic Monkeys se aproximou de mim, parecendo muito curiosa.
- Você é aquela garota que estava com o Jake Bugg em Clifton ontem? – perguntou.
Não respondi. Bela porcaria, , bela porcaria.
A garota virou a tela do celular para mim e ali estava eu, de mãos dadas com aquele cara de Clifton.
- Ahn, eu...
- Vocês estão namorando? – a garota perguntou. – Digo... É claro que estão, mas desde quando? Como você se chama?
- Me desculpe, eu não...
Meu celular começou a tocar, e eu tirei-o do bolso para ver.
Era Lucas.
Ainda podia ficar pior. Bem pior.


Jake –


Jane entrou no quarto do hotel correndo, com uma daquelas revistinhas instantâneas de fofocas inúteis, e parecendo desesperada.
- Você está ferrado. – ela grunhiu.
- Bem ferrado. – Tom completou, entrando logo depois dela.
- O que foi que aconteceu? – perguntei, soando entediado como realmente estava.
Jane jogou a revista em cima de mim, aberta em uma página específica.
“A primeira namorada pública de Jake Bugg?”
- Que porcaria é essa? – perguntei, levantando-me, exaltado.
- Você e sua garota estão estampando todas essas revistinhas e todos os sites. – Jane respondeu, com um olhar preocupado. – Sinto muito, mas você vai ter que fazer alguma coisa importante, decidir-se entre sim ou não.
- Ela não é minha garota! A tem um namorado!
- Puta merda! – Jane praticamente gritou, cobrindo a boca em seguida. – Isso é muito ruim. O que vamos fazer? O que nós vamos fazer?
- Ficar quietos como sempre. – respondi. – Acha que eu ligo para eles?
- A garota tem um namorado! Você mesmo disse, será que você não ouviu?
- Isso é problema dela. – resmunguei. – E isso aqui é problema meu. – completei, atirando a revista no balde de lixo.
Abri a porta do quarto e saí, mas não antes de ouvir Jack dizendo para os outros: “ferrou”.

***

Eu não tinha muitos lugares para ir àquele horário, uma vez que as garotas já deveriam ter saído do colégio e transformado a cidade em uma grande ameaça.
Subi para a cobertura do hotel, onde também costumava haver legiões de menininhas gritantes, mas, por sorte, estava vazia.
Abri a internet no celular e acabei indo ler notícias sobre mim pela primeira vez.
Porcaria de garota dos infernos.
Mas ela era muito bonita, e as fotos estavam quase artísticas.
“Espero que o namorado dela seja bem feio.” – pensei.
Eu era muito babaca, mesmo.




- Lucas?
- Que porcaria de fotos são essas? É assim que você vai ficar famosa, ? Você nem ia me contar? Quer dizer... Isso é um plano de marketing ou você está me traindo de verdade?
- Não é nada disso, Lucas! O Jake é só...
- Estou indo para Londres. – e ele desligou.
Será que ele estava falando sério?
Guardei o violão e deixei a multidão para trás.
Corri para casa, e começou a chover quando eu ainda estava longe de mais de chegar.
Tive que procurar um abrigo seguro enquanto chovia – e choveu por muito tempo.
O abrigo, no caso, era um dos milhares de Starbucks espalhados por Londres.
Pedi um café, por conveniência, e recolhi-me a uma mesa bem excluída.
Se ainda tivesse alguma coisa para piorar, eu ia ficar maluca.


***



Consegui me livrar do Starbucks quatro horas depois. Ainda chovia, mas não muito.
Estava muito frio, e eu não estava muito agasalhada. Tinha também o fator gripe e o fator roupas molhadas. Resultado final? Eu estava um lixo e iria ficar ainda pior.
Comecei a calcular quantos dias teria que ficar sem cantar por causa da voz de gripe somada a rouquidão... pelo menos uns cinco.
Peguei um ônibus para chegar mais cedo em casa – e cheguei.
Corri para tirar as roupas molhadas e tomar um banho quente.
Vesti meu pijama de pelúcia e me enrolei embaixo de todos os cobertores, esperando por um milagre que não me deixasse gripada por muito tempo.

Não consegui dormir, e isso era um pouco óbvio, porque meu corpo estava queimando em febre, e eu nem precisava de um termômetro para confirmar.
Do lado de fora da pequena janela do apartamento, Londres estava a todo vapor, como sempre.
E perguntei-me onde estava Jake Bugg.
Digo... Por que eu nunca tinha ouvido falar daquele cara, se ele era famoso a ponto de ter fotos de nós dois em revistinhas? E como eu nunca tinha ouvido falar sobre ele, sendo que ele cantava músicas tão boas e tinha influências tão boas?
Bem, o mundo era bem pequeno às vezes, mas, na realidade, ele era estupidamente enorme.
Talvez eu nunca mais fosse vê-lo, mas aquelas fotos estariam para sempre nos limites da internet – e na minha cabeça.


***

Ouvi a campainha tocar, e pensei que fosse fruto da minha imaginação. Era, ao mesmo tempo, cedo e tarde de mais para visitas. E eu nem tinha alguma visita para receber.
Levantei-me como um bêbado e abri a porta.
Puta merda. Puta merda. Puta merda.
- Lucas?!
- Eu disse que vinha.
- Você é maluco! O que você está fazendo aqui?
- Vim cuidar do que é meu, não é? Parece que ter deixado você vir para Londres foi uma péssima decisão.
- Deixado? Lucas, você não manda em mim.
- Está bem, não mando, mas você não tem muito juízo, não é? Quem é aquele cara? Por que vocês estavam de mãos dadas em uma cidadezinha no fim do inferno?
- Ele é cantor, estava fazendo uma apresentação na cidade e me convidou para ir também.
- E as mãos dadas encaixam em qual contexto?
- Nós dormimos em um estacionamento, e chegaram uns caras...
- Vocês o quê?!
- Lucas, pelo amor de Deus, não aconteceu nada! Se tivesse acontecido, ele provavelmente estaria aqui agora. E eu não estaria tentando me explicar, não seja ridículo.
- Ridículo é como vai ficar minha imagem depois dessas porcarias de fotos.
- Dane-se a porcaria da sua imagem, Lucas! Ninguém nem liga para você além daquelas patricinhas mimadas que querem que você me traia.
- Mas eu não seria capaz!
- Nem eu! Merda, Lucas, eu também não seria capaz de trair você. Não sei porque estamos tendo essa conversa ridícula, nós não nos vemos há tempos e estamos brigando por um motivo tão ridículo quanto este e...
- Me desculpe. – ele disse, puxando os cabelos para cima em um ato clássico de nervosismo. – Eu sei que sou idiota, mas ... Eu amo você. Você é a melhor coisa que eu tenho na vida e... pensar em te perder para um cara qualquer, que não sabe nada sobre você, que não sabe sua cor favorita, ou sua banda favorita... Ou como te fazer sorrir. Estamos vivendo isso há tanto tempo que não consigo imaginar uma vida diferente disso.
- Você está certo. Eu também não consigo.
Mas eu queria descobrir.


Jake –


Sete dias haviam se passado desde a publicação das fotos.
Nenhuma notícia de , nem mesmo uma aparição pelas ruas mais movimentadas.
Havia outras garotas com voz e violão na rua, mas todas eram muito sem graça comparadas a ela.
Decidi que iria procurá-la.
Ainda me lembrava do endereço de seu pequeno apartamento, e era para lá que eu iria.
Peguei um táxi, porque eu era um idiota sem carro – mas, em legítima defesa, Jack já dissera que eu não podia carregar um carro nas costas.
Londres era um lugar bem legal, mas talvez o que Shakespeare dissera sobre a Dinamarca fosse também aplicável a Londres. Havia algo de podre.
Ou era só um cheiro estranho.

***



Quando o táxi parou em frente ao pequeno prédio de , que ficava esmagado entre dois prédios maiores, eu me senti como um garotinho de doze anos apaixonado por uma garota do último ano que às vezes dava um beijinho em sua bochecha e ele achava que ela o amava, mas ela só estava zombando dele.
É uma metáfora um pouco grande de mais, mas se você se atenta a ela, faz algum sentido.
Desci do carro – pensei em voltar para dentro dele – e caminhei até a calçada do apartamento.
Quando eu ainda estava atravessando a rua, saiu do prédio.
Pensei em acenar, mas antes que cometesse esse erro, vi que ela não estava sozinha. Tinha um cara bem grande segurando a mão dela, vindo logo atrás.
Puta que pariu. Ele era bem grande. E ele era um cara bem bonito, que faz o tipo de todas as garotas. Tinha um par de olhos azuis e tantos músculos quanto o Minotauro.
Sério, ? Sério, mesmo?
Não havia competições com o Brad Pitt adolescente.
Só podiam estar me zoando.
Aproveitei os carros passando pela rua e voltei correndo para o táxi antes que ela me visse.
Era uma baita sacanagem, de verdade.
Ela devia ter me dito que o namorado dela era o maldito Brad Pitt rejuvenescido! Eu pensei que o cara fosse gordo e nerd, e usasse óculos redondos com All Star sujo para parecer cool.
Isso foi um puta soco no estômago.
O que quero dizer é que era a garota mais legal que eu já havia conhecido na vida, e nós tínhamos conversado por poucas horas, mas havia sido suficiente para eu ter certeza de que queria mais daquela garota.
Mas quem ia ter alguma coisa era o Brad Pitt.
Ponto para o Brad Pitt e um cigarro para mim, por favor.


Capítulo 2: 2 AM

2 am and she calls me 'cause I'm still awake
Can you help me unravel my latest mistake
I don't love him, winter just wasn't my season
Yeah, we walk through the doors, so accusing their eyes
Like they have any right at all to criticize
Hypocrites, you're all here for the very same reason!

Breathe (2AM) – Anna Nalick


-


- Onde vamos almoçar? – Lucas perguntou, guardando o celular no bolso depois de falar com a mãe – Conhece algum bom lugar por aqui?
Na verdade eu não estava nem aí. A situação toda era tão desconfortável que eu estava pedindo mentalmente para que Lucas desaparecesse no meio do vento.
- ?
- Ahn... Não conheço nenhum lugar. Eu só venho cantando e...
- Então, vamos procurar.
Lucas voltou a digitar no celular, e eu quis enfiar o aparelho goela abaixo dele.
- Encontrei um restaurante. Fica a duas ruas daqui.
- Está bem.
Começamos a andar pelas ruas frias de Londres. Lucas muito animado e eu como se tivesse sido acertada por um pombo com dor de barriga.

Lucas puxou a cadeira para mim – como sempre fazia – e eu nem agradeci. Estava tão desanimada que nem conseguia disfarçar.
Eu não o queria ali e isso era tudo.
Ele fez o pedido e deixou o celular sobre a mesa, parecendo muito animado em ouvir o que quer que eu tivesse para contar a ele.
- Não venho fazendo nada. Só cantando. Não conheci ninguém ainda...
- E o que foi fazer em Cli... Cli o que mesmo?
- Clifton.
- Isso. O que foi fazer lá?
- Assistir a um show. Do Jake Bugg.
- Aquele cara lá das fotos?
- É.
- Por quê?
Rolei os olhos, irritada.
- Porque eu quis, Lucas.
- Hum... Tá. E ele é bom?
- É, muito bom. – respondi, virando a cara para que ele entendesse que eu não ia responder mais nenhuma pergunta idiota.
- Seus pais estão brigando muito. – ele disse. Não era nenhuma novidade, mas era um assunto que me interessava um pouco mais. – Seu pai está passando mais tempo em casa e sua mãe está ficando muito irritada.
- Não sei porque não se divorciam logo.
- !
- O quê? Estou errada? Eles nem podem dizer que é por minha causa, eu já tenho 18 anos e nem moro mais com eles.
O garçom chegou com as nossas bebidas e eu fingi que estava distraída com meu suco para evitar os assuntos sem noção de Lucas.
Na verdade, os assuntos eram os mesmos, mas tudo estava me deixando muito entediada.
Almoçamos em silêncio, já que Lucas já tinha falado todas as coisas sobre as quais ele sempre falava.
- Acha que posso ficar um tempo com você no seu apartamento? Sei que é pequeno, mas minha passagem de volta é para daqui a duas semanas.
Meus olhos se arregalaram e meu queixo caiu instantaneamente.
- ? O que aconteceu? Você está bem?
Assenti, tentando me recompor.
- Acho que pode. – respondi.
- Então tudo bem, vai ser ótimo. – ele disse, me dando um beijo antes de entrar no táxi.

***


Eu não conseguia entender se Lucas sempre fora um sem noção e eu nunca percebera, ou se ele havia ser tornado depois da minha mudança para a Inglaterra.
Ele tinha um milhão de TOCs de organização e espaço, e meu apartamento não permitia que ele fizesse muitas exigências.
Ele também não gostava muito do frio e parecia estar morrendo a cada 10 minutos e seu nariz estava sempre entupido.
Eu também não sabia se eu sempre fora tão impaciente e nunca percebera ou se havia me tornado depois.
Fosse o que fosse, a presença de Lucas no meu apartamento me deixava irritada.

- Lucas, precisamos ir ao supermercado. A comida está acabando e...
- Por que você não pede um delivery?
- Estamos pedindo delivery a cinco dias. Não tenho mais dinheiro para tanta comida de fora. E de qualquer maneira, eu preciso comprar algumas coisas. Papel higiênico, sabonete, xampu... Você gastou todo o meu xampu.
- Esqueci de trazer. – ele deu de ombros. – Achei que não tivesse problema.
- É xampu de mulher, acho que tem problema...
- Tudo bem, então eu te dou um dinheiro e você vai lá. Está frio demais lá fora para eu sair.
- É Londres, não espere que esteja como no Rio de Janeiro.
- Falando em Rio, acha que podemos ir lá nas férias?
- Eu não tenho férias, Lucas...
- Tá, você não precisa trabalhar como uma maluca. Seus pais têm dinheiro, não consigo entender o motivo de você estar fazendo isso. É uma humilhação, olha só para esse apartamento.
- Estou achando ótimo. Isso se chama independência, Lucas.
Lucas pareceu ficar irritado.
- Você acha que eu não luto pela minha independência?
- Fazer faculdade em uma cidade que fica a menos de 20 quilômetros é o que você chama de lutar pela sua independência? Você nem pensa em sair de casa!
- Que bobeira, o que isso diz sobre mim?
- Diz que você não pensa em um futuro, Lucas! – bufei, irritada. – Diz que você não pensa em nada.
Lucas levantou-se, sentando na cama.
- , o que você está...
- Acho que é melhor a gente parar por aqui, Lucas.
- É, realmente, essa briga não tem sentido.
- Não estou falando da briga. Estou falando de nós, do nosso namoro.
Lucas arregalou os olhos.
- ...
- Não posso mais fazer isso, Lucas. Preciso crescer.
Seus olhos se encheram de lágrimas.
- Eu não amo você, Lucas. – assumi. – Provavelmente nunca amei, e sei que você também não me ama. Você só não sabe disso. Estamos fazendo isso por anos como se fôssemos um casal que se ama, como se fôssemos felizes, mas não somos. Nós só estamos fazendo isso porque nos sentimos sozinhos, porque isso é conveniente para nós, mas... Não tem mais sentido. Não quero mais ser essa pessoa.
- Isso tudo porque eu não quis ir ao supermercado? – ele disse, forçando um risinho. Nem ele mesmo conseguia se convencer com aquilo. – Tudo bem, , podemos ir ao mercado...
- Não é por isso, Lucas, não é. Eu não quero ser rude com você, mas não tem outro jeito. – suspirei. – Por favor, Lucas, vai embora.
Ele também suspirou.
- Está falando sério?
- Estou. Vá embora, por favor.
- Tudo bem. – ele disse. – Eu vou para algum hotel, te dou um tempo e você pensa melhor sobre isso. Depois eu te ligo.
Comecei a chorar, mas tentei manter a calma.
- Lucas, não. Eu quero que você vá embora, para casa. Para a sua vida, a vida que você quer ter. Eu vou ficar aqui, com a vida que eu quero ter.
Lucas assentiu.
- Tá bom. – foi tudo o que ele disse antes de partir.

Jake –


Duas horas da manhã.
Estava muito tarde e, ao mesmo tempo, muito cedo.
Eu não conseguia dormir, apesar dos roncos de Jack e Tom ao meu lado e os assovios sonolentos de Jane no quarto ao lado.
Minha cabeça doía um pouco, mas eu não tinha nenhum remédio, e também não podia pegar algum na bolsa de Jane. Eu nem mesmo sabia qual remédio tomar.
Quando meu celular começou a tocar, achei que eu estava sonhando. Meu celular nunca tocava, a não ser quando Jane ligava, mas ela estava dormindo.
Quando peguei o aparelho embaixo do travesseiro, duvidei mais ainda. Era .
A namorada do Brad Pitt adolescente.
Coloquei o celular de volta no lugar, mas ele continuou tocando.
Decidi atender.
- Hum... Jake?
Caramba. Não era sonho nenhum, eu estava mesmo acordado. Que otário.
- ?
- É, oi. Desculpa te acordar...
- Eu já estava acordado... Tá tudo bem?
suspirou do outro lado do telefone.
- Sim. Está tudo bem, eu só... Queria saber se está tudo bem. – ela riu. – Não consegui dormir, então me lembrei de você e... Quer dizer, não que eu tenha me esquecido de você, mas também não que eu pense em você o tempo todo, é só que...
- Tudo bem. – eu ri. – Quer sair para fazer alguma coisa?
- Você está em Londres?
- Estou. – concordei.
- Tudo bem, então. O que acha da Carnaby? Ouvi falar de lá, mas ainda não fui.
- Se você quiser ver pernas de garotas, gente bêbada e alguns músicos, é o lugar perfeito.
riu.
- Tudo bem. Então nos encontramos lá em meia hora?
- Claro.
- Está bem. – desligou o telefone.
- Cara, com que você estava falando às duas da manhã? – Tom perguntou, com voz de sono.
- Com a . – respondi, levantando-me da cama e me vestindo rapidamente.
- A garota que você levou para Clifton?
- É, ela mesma.
- Às duas da manhã? Vocês vão para qual motel?
- Não seja ridículo. Nós só vamos para Carnaby.
- Acho que tem algum motel em Carnaby.
- Tom!
- Caramba, por que vocês estão acordados a essa hora? E falando tão alto? – Jack perguntou.
- Jake está saindo com a . – Tom respondeu.
- Quem está saindo com quem? – era Jane, de pijama na porta do nosso quarto.
- Jake está saindo com a . – Jack explicou.
- Minha nossa, Jake! À essa hora? Aonde vocês pretendem ir?
- Carnaby. – Tom respondeu.
Suspirei.
- Será que vocês podem me deixar falar?
Todos assentiram.
- Tchau. – eu disse, deixando o hotel.
Fosse o que fosse, algo me dizia que o Brad Pitt adolescente não era uma preocupação.
Não em Carnaby, às duas da manhã.

Ela era bonita demais. Incrivelmente bonita para uma garota sozinha em Carnaby de madrugada.
Vestia um casaco preto que lhe batia nas canelas, mas, ainda assim, apertava-se contra si mesma. Aquela garota estava sempre morrendo de frio?
Tinha o rosto corado e os lábios inchados por causa do frio que parecia machucá-la, mas que eu mal sentia.
Quando me notou, ela sorriu, e eu não pude fazer nada além de sorrir de volta.
- Sinto muito por ter te feito sair à essa hora. – ela disse fazendo uma careta. – Mas eu não tinha mais ninguém.
A forma como ela disse aquilo fez meu coração bater um pouco mais forte no peito. Juro que senti exatamente isso.
- Você tá com fome? – perguntei. Foi a primeira coisa que consegui dizer. Ficar em silêncio com ela era ótimo, mas eu gostava muito da voz dela para ficar por tempo demais sem ouvi-la.
- Um pouco e você?
- Não estou, mas te acompanho.
Ela sorriu.
- Vamos dar uma volta primeiro? Vi um barzinho no caminho com uma competição de covers do Elvis.
Eu fiz uma careta involuntária.
- Tudo bem. – concordei.
O bar em questão não ficava muito longe de onde estávamos, e até era um bom estabelecimento.
Os caras que competiam sobre quem era o melhor Elvis estavam, na maioria, caracterizados. Isso deixou muito animada.
- Caramba, olha aquele ali! – ela apontou um deles, enquanto puxava uma cadeira para assistir.
Ficamos em silêncio durante as apresentações. Meu olhar se dividia entre os cantores e a garota bonita sentada comigo.
sequer me olhou. Parecia concentrada demais nas músicas e cantarolava a maioria bem baixinho.
Quando o pessoal do bar escolheu o melhor cover do Elvis, finalmente olhou para mim, deu um sorriso e disse:
- Cara, eu estou com muita fome.
A maneira como ela falou me fez rir. Às vezes parecia uma criança contente.

Paramos em um pequeno quiosque, onde comprou crepes de queijo suíço e uma lata de refrigerante.
- Você estava mesmo acordado ou ficou com pena? – ela perguntou.
- Estava deitado, mas acordado. – respondi. Ela fez uma careta envergonhada. – Mas foi uma boa surpresa.
deu um sorrisinho tímido.
- Me desculpe, eu fui muito sem noção.
- Eu estava pensando em você. – soltei.
- É mesmo? Pensando o quê?
- Eu passei no seu prédio esses dias e... Não sei, você e seu namorado são um casal bonito. – cocei meu couro cabeludo para disfarçar meu nervosismo.
- Ah. – ela suspirou. – Ele não é mais meu namorado. Terminamos.
Meu coração mandou lembranças dentro de mim mais uma vez.
- Sinto muito. – eu disse.
- Não é problema. Eu não estava feliz com aquilo. Foi melhor assim, não é? – ela disse, bebendo um gole de seu refrigerante e deixando uma marca com a bebida acima dos lábios.
Ela parecia mesmo uma criança.
Comecei a rir.
- O que foi? – perguntou, curiosa.
- Você tem um bigode de refrigerante. – respondi, apontando para ela.
- Ah, sim, desculpe. – ela esfregou um guardanapo com força, secando a bebida da pele. – Mas, e aí, você não vai sair em turnê nem nada?
- Vou. Em alguns dias, mas não vou muito longe. Só que vou passar duas semanas fora.
- Que pena. – ela fez um biquinho triste. – Quer dizer, é ótimo, mas... – deu de ombros.
Depois que ela terminou de comer, demos mais algumas voltas pelo bairro e pegamos um táxi.
Fiz questão de deixar primeiro em seu prédio e depois voltar para o hotel.
O dia já estava quase amanhecendo, mas a última coisa que eu queria fazer era dormir.

***

Quando acordei, Jane estava quase surtando ao lado da minha cama enquanto Tom batia em mim com um travesseiro.
- Até que enfim! – ela gritou. – Achei que você estivesse morto! Estamos chamando a uns 20 minutos e você nem reage!
Fechei os olhos por causa do incômodo da luz.
- Que horas são? – briguei.
- Nove horas! – Jane gritou, como se fosse um absurdo.
- Porra, Jane. Nove horas? – tirei a cabeça debaixo do travesseiro para encará-la.
- Que horas você chegou? – ela perguntou, me encarando com um olhar acusador.
- As cinco. – resmunguei. – O que não te dá o direito de me acordar a hora que quiser.
Ela suspirou.
- Sou sua agente, então dá sim. – Jane puxou meu edredom com tudo, jogando-o no chão enquanto começava a chutar minha perna para que eu me levantasse. – Você tem uma entrevista na BBC Radio em menos de duas horas.
Resmunguei novamente enquanto me arrastava para fora da cama em direção ao banheiro.
Me olhei no espelho com o mesmo desânimo que sempre o fazia, só para me deparar com uma versão pré-morta de mim. Que bosta. Eles iam entupir minha cara de maquiagem para eu estar apresentável na live do Facebook.
Tomei um banho rápido sem me preocupar por ter usado o sabonete com cheiro de morango e baunilha de Jane, saí enrolado na toalha e peguei a roupa que Jane segurava nas mãos logo em frente à porta.
Uma camiseta verde escura, jeans pretos e uma jaqueta de couro preta que eu nunca tinha visto e devia ter custado uma fortuna. Minha agente nem se preocupou em escolher sapatos, porque ela sabia que nada tiraria dos meus pés os tênis Nike que eu estava usando a uns dois meses. Eram os sapatos mais confortáveis que eu já tivera.
Fomos de táxi para a rádio, com Jane digitando sem parar no celular e os caras batendo papo alto sobre um jogo de futebol que eu não assistira e que estava me deixando puto por não saber nada a respeito.
Descemos em frente à BBC para dar de cara com umas duas dezenas de fãs com cartazes e presentes. Jane gesticulou para que eu fosse falar com elas e eu assenti, indo até lá de boa vontade, recebendo um monte de ursinhos de pelúcia, caixas de chocolate e cartinhas perfumadas enquanto tirava mais selfies do que eu podia contar.
Quando a última garota me abraçou, satisfeita com a atenção, entramos no estúdio.
Fui para uma sala reservada fazer exercícios vocais com a fonoaudióloga, Melanie, que já estava esperando ali.
Como previsto, poucos minutos antes do programa começar, uma garota baixinha com um cinto cheio de pincéis chegou correndo até mim e, sem dizer nada, começou a rebocar meu rosto com um monte de produtos um pouco gosmentos.
Apesar da quantidade de vezes que já haviam feito isso comigo, eu era incapaz de me acostumar. Mas era só mais uma das coisas que eu precisava fazer em nome da música e do meu amor por ela.

***


Mesmo com os cinco copos de café que tomei nos intervalos na rádio, assim que voltamos para o hotel, eu capotei, jogado na cama de sapatos e tudo.
Quando acordei estava sozinho e chovia fraco do lado de fora.
Peguei meu celular no criado-mudo e não pude evitar uma pontada de alegria quando vi a mensagem não lida:
“Obrigada por ontem. Desculpa por ter sido tão inconveniente.
Fiquei alguns minutos olhando para a tela e deixando as engrenagens do meu cérebro rodarem em busca de uma resposta. Quando dei por mim já tinha apertado enviar.
“Quer sair para comer alguma coisa”, eu tinha mandado, sem o ponto de interrogação.
Antes que eu pudesse corrigir, a resposta de chegou com uma vibração no celular.
“Sim. Com certeza. Absolutamente.”
Foi difícil não rir com a resposta dela.
“Está em casa? Passo para te buscar.”
“Não. Estou a uns 200 metros do museu de cera. Acha que consegue vir até aqui?”
“Chego em 15 minutos”.
Minha ansiedade me fez chutar baixo demais, uma vez que demorei quase o triplo para finalmente chegar ao museu de cera e ver a garota empacotada em blusas de frio uns metros para a frente.
Paguei o taxista e desci, caminhando na chuva até ela, que estava de costas.
Como era possível que eu já fosse capaz de reconhece-la mesmo quando ela estava de costas? Dei de ombros para a minha própria pergunta enquanto caminhava até ela.
- Bu. – brinquei. Ela deu um grito horrorizado enquanto se virava num pulo e, no mesmo instante, eu me arrependi da estupidez de um garoto de cinco anos que eu tinha acabado de fazer.
Quando me viu, sorriu de orelha a orelha e soltou uma gargalhada alta enquanto jogava seus braços ao meu redor.
Congelei na mesma hora, mas ela não percebeu. Ainda gargalhava por causa de sua reação exacerbada e, por fim, eu também não consegui me segurar por muito tempo, em nenhum dos sentidos. Comecei a rir também e retribuí seu abraço empolgado.
- Você quase me matou do coração! – ela disse, se afastando, mas mantendo os braços sobre meus ombros. Seus olhos estavam vermelhos e úmidos de tanto rir, e a imagem me fez sorrir mais abertamente do que eu estava acostumado.
- E aí – eu disse. – Onde você quer comer?
Ela deu de ombros.
- Podemos ir ao McDonald’s? – ela perguntou, me olhando com uma expressão infantil de incerteza e um pouco de medo. – É ridículo, eu sei, mas estou matando pelas batatinhas fritas deles.
Eu assenti.
- Acho que posso fazer isso por você.
Ela sorriu, pegando o estojo do violão no banco e colocando-o nas costas.
- Quer que eu leve? – perguntei.
Ela deu de ombros.
- Não precisa. É um peso com o qual já me acostumei, até sinto um pouco de falta quando não estou carregando.
Eu assenti.
Caminhamos algumas quadras até o McDonald’s mais próximo, parecendo imunes à garoa fina que parecia incomodar todo mundo nas ruas. Nenhum de nós tinha um guarda-chuva.
foi até o balcão fazer seu pedido enquanto eu escolhia uma mesa afastada e varria para fora da mesa alguns farelos deixados por quem quer que estivesse ali antes.
Quando ela voltou trazendo dois copos de milk shake, dois hambúrgueres e duas batatas fritas, não pude me sentir mais honrado do que aquilo.
- Trouxe comida para você. – ela disse. – Um pouco de glúten nunca matou ninguém, não é?
Eu ri.
- Provavelmente matou sim.
Ela também riu.
- Eu sei. Que horror... Com certeza matou sim. – disse, enfiando a batata frita em um potinho de plástico com ketchup e empurrando a bandeja para mais perto de mim.
De repente me senti uma pessoa péssima. Aquela garota ganhava seu dinheiro tocando e cantando na rua, e estava ali pagando uma refeição completa para mim, um cara que não tinha nem noção de tanto dinheiro que ganhava. Mas eu sabia que, se fizesse algum comentário, a deixaria ofendida, então pensei na única maneira que pudesse ser boa de todos os jeitos:
- Obrigado por pagar. – eu disse. – Prometo que eu te pago o dobro de milk shakes, hambúrgueres e batatas fritas quando formos jantar hoje à noite.
Ela sorriu para mim com os lábios sujos de ketchup. Mais uma vez não pude resistir a sorrir de volta para ela.
- Então, coma. – ela ordenou, apontando para a minha refeição. – Você está tão magro que, se minha avó te visse, ela te faria comer sem parar por três horas.
Eu ri, pegando o pacotinho de batatas fritas e começando a comer.
- Eu ouvi você na BBC mais cedo. – ela disse. – Estava ótimo.
Senti meu rosto ficar vermelho.
- Mesmo? – assentiu. – Obrigado.
Ela deu um sorrisinho antes de voltar a comer seu sanduíche.
Puta merda. Como uma garota podia ser tão extraordinariamente linda fazendo uma coisa tão banal?


Capítulo 3: Shrimp

I’ve been to Hollywood
I’ve been to Redwood
I crossed the ocean
For a heart of gold
I’ve been in my mind
It’s such a fine line
That keeps me searching
For a heart of gold
Heart of Gold – Johnny Cash

Jake –



- Você chamou-a para jantar? – Tom perguntou, incrédulo.
Eu apenas assenti.
- Estou oficialmente chocada. – Jane disse, por sua vez. – Não achei que você conseguiria fazer isso tão rápido. – ela bateu palminhas de animação. – Vou comprar roupas para você usar... E um perfume... E... Você já fez a reserva? Já sabe onde vão jantar?
Dei de ombros.
- Não, ainda não pensei nisso. – confessei.
- Ótimo. – Jane sorriu, pegando o celular no bolso dos jeans e começando a digitar. – Boa tarde! É a Jane River. Quero fazer uma reserva para hoje à noite. Sim... O horário está ótimo. Uma mesa romântica para dois. Sim, sim. Isso mesmo. Claro. Obrigada.
Ela desligou e, sorridente, virou-se para mim.
- Você tem uma reserva na melhor mesa do Ormer Mayfair para as oito e meia. Isso me dá algum tempo para comprar as coisas que você vai precisar para fisgar o coração dessa garota ainda hoje.
Fiz uma careta para ela, mas Jane não ligou nem um pouco.
Pegou a bolsa sobre a mesa e partiu como um raio.
Jack e Tom me encaravam com muita expectativa.
- Vocês também não. – grunhi, indo direto para o chuveiro, onde poderia conseguir alguns minutos de paz para pensar. – Porra. – resmunguei.
Ainda bem que eu tinha Jane. Porque estava completamente perdido.



Antes de voltar para casa e me arrumar para jantar com um cantor famoso, passei por algumas ruas movimentadas com meu violão, parando ocasionalmente para cantar algumas músicas.

Thrown like a star in my vast sleep I open my eyes to take a peep To find that I was by the sea Gazing with tranquillity ‘Twas then when the Hurdy Gurdy Man Came singing songs of love

Na minha terceira parada, algumas pessoas pararam para ouvir, o que me deixou bastante animada.

Then when the Hurdy Gurdy Man
Came singing songs of love
Hurdy gurdy, hurdy gurdy, hurdy gurdy, gurdy he sang
Hurdy gurdy, hurdy gurdy, hurdy gurdy, gurdy he sang
Hurdy gurdy, hurdy gurdy, hurdy gurdy, gurdy he sang

Uma garota com os cabelos loiros cheios de mechas rosas se aproximou, parecendo intrigada com o som que ouvia de longe.
Sem pensar duas vezes ela começou a cantarolar comigo.

Histories of ages past
Unenlightened shadows cast
Down through all eternity
The crying of humanity
‘Tis then when the Hurdy Gurdy Man
Comes singing songs of love

Quando terminei a música e tirei o dinheiro do estojo para guardar no bolso, a garota se aproximou.
- Você fez um ótimo trabalho nessa música. – ela disse, sorrindo abertamente para mim. Eu sorri de volta e ela me estendeu a mão. – Meu nome é May.
- Prazer em te conhecer, May. Sou a . – sorri de volta para ela. – Fico feliz que você tenha gostado da música.
- Na verdade, eu já tinha ouvido você tocando hoje. – ela disse. Fiz uma careta de confusão. – Perto do museu de cera. – May explicou. – Achei muito bom... E foi uma surpresa encontrar você outra vez ainda hoje.
- Que loucura... Quer dizer... Quais são as chances disso acontecer?
Ela riu.
- Meus pais têm um pub em Carnaby. – May começou. – Aqui. – ela esticou um cartão de visita. – Eu estava pensando... Será que você não tem interesse em tocar lá toda quinta? Nós faríamos um contrato breve e...
- Eu quero! Claro que quero! – respondi, olhando o cartãozinho em minha mão. – Com certeza, quero.
May riu.
- Então, vai ser ótimo. – ela disse. – Aqui, digita seu número. Assim a gente pode entrar em contato logo.
Eu digitei meu número no celular dela, nos despedimos e eu peguei o trem para casa.

***

Assim que encarei todas as minhas roupas esticadas sobre a cama e sobre o balcão, tive certeza de que não sabia o que vestir para um jantar. Eu nem sabia para onde ia!
Por sorte eu tinha um vestido preto de mangas compridas, que eu vesti sob um imenso casaco verde que eu tinha levado, com meia-calça preta e minhas botas mais bonitas.
Me encarei no espelho depois de pronta, me sentindo insegura, mas ajeitada. Sentei-me sobre a cama da forma mais cuidadosa que pude, evitando amassar a roupa toda.
As oito, ouvi a campainha tocar.
Meu coração pareceu parar por alguns segundos enquanto eu atendia ao interfone.
- Oi. É o Jake. – a voz conhecida disse.
Não consegui elaborar uma resposta. Pensando friamente, um oi teria sido melhor que o silêncio que deixei no ar até chegar lá embaixo.
Jake estava parado em frente à porta, com as duas mãos nos bolsos de uma calça jeans preta muito bonita.
- Oi. – finalmente respondi. – Gostei da jaqueta. – eu apontei, rindo.
A jaqueta que ele usava era do mesmo tom de verde do meu casaco, o que nos deixava com uma aparência uniformizada enquanto caminhávamos até o táxi que nos esperava do lado de fora.
Surpreendentemente tocava a mesma música que eu cantara na rua algumas horas antes, quando encontrara May.

Histories of ages past
Unenlightened shadows cast
Down through all eternity
The crying of humanity
‘Tis then when the Hurdy Gurdy Man
Comes singing songs of love

Não consegui pensar em nada para puxar assunto com Jake, então foi ótimo quando ele começou a cantarolar a música, porque fiz o mesmo e, de repente, não era mais estranho estarmos sentados lado a lado no banco de trás, indo para um encontro.
Pela primeira vez eu era capaz de admitir. Estava indo para um encontro.

***

Nunca, na minha antiga vida, eu tinha ido a um primeiro encontro. Lucas era uma certeza antiga, tão intrínseco no meu dia a dia que parecia parte da minha essência, quase uma parte viva de mim. Mas agora eu sabia que não era. Sabia o que tudo aquilo tinha significado e o que não tinha significado, e estava indo para um primeiro encontro de verdade, por alguém por quem eu me interessava de verdade, alguém que atraía meus olhares de soslaio e que fazia minhas mãos tremerem nos bolsos do casaco.
Pela primeira vez na vida, eu experimentava a sensação agridoce de fazer algo novo com alguém diferente.
Quando o carro finalmente parou em frente ao restaurante, senti todo o sangue correndo pelas minhas veias congelar exatamente nos pontos onde estavam. Era um lugar muito bonito.
Eu já tinha estado em lugares como aquele com minha família e até mesmo com Lucas antes, mas a sensação era completamente diferente. E nova. Como todo o resto do que estava acontecendo comigo ali.
Jake não esperou o motorista abrir a porta, mas saiu correndo para abrir a porta do meu lado. O fato de que ele parecia tão desesperado quanto eu estava me consolou e animou.
Ele me ofereceu o braço, e eu aceitei, me sentindo como uma dama nos anos 60.
Como era possível que ele me fizesse sentir tantas coisas diferentes ao mesmo tempo? Como era possível que, sem que eu criasse expectativa alguma, ele superasse todas elas?

Jake –


A mesa que Jane tinha escolhido ficava numa área reservada e tranquila do restaurante, com uma música ambiente tocando baixinho no fundo, quase parte da estrutura do lugar, como as paredes e as velas decorativas.
Por algum motivo, eu não era exatamente capaz de descrever a expressão da garota que me acompanhava. Ela parecia encantada e assustada, tudo ao mesmo tempo. Exatamente como eu estava.
- Boa noite. – o maître se aproximou de nós, junto com um garçom trazendo uma bandeja com garrafas de vidro de água, que rapidamente posicionou sobre a mesa. – Este é o nosso cardápio, e esta nossa carta de vinhos. Todas as harmonizações estão listadas embaixo, mas qualquer dúvida, podem chamar um de nossos garçons e ficaremos satisfeitos em apresenta-los nosso chef e o sommelier da casa para ajuda-los. – ele sorriu para , provavelmente admirado com sua beleza, como o mundo inteiro deveria ficar.
Ela agradeceu e sorriu de volta.
Assim que o homem se afastou da mesa, começou a rir.
- O que foi? – perguntei, quase rindo também, mas ainda perdido quanto ao motivo.
- Esse cara, – ela disse, no meio da risada. – é a cara do meu tio Tadeu.
Eu ainda não tinha entendido nada, mas o riso dela era tão contagiante que imediatamente comecei a rir também. O casal da mesa de trás nos lançou olhares quase assassinos, que só nos fizeram rir ainda mais. Furiosa, a mulher encarou-nos e grunhiu “Sh”.
- Que mau humor. – comentou, fazendo uma careta.
- Acho que devíamos chamar o Tadeu para ela.
Ela imediatamente voltou a rir, uma gargalhada que a fez ficar toda vermelha.
- O jeito como você fala Tadeu. – ela explicou. – Eu provavelmente vou gravar para ouvir em casa quando estiver desanimada.
- Eu sempre posso falar Tadeu para você pessoalmente.
Ela continuou rindo.
- Obrigada! Isso é muito gentil, de verdade.
Eu sorri para ela, entregando-a o cardápio do restaurante.
- O que você gostaria de comer, senhorita? – perguntei.
- Honestamente? – ela disse. – Qualquer coisa. Estou morrendo de fome. Se demorar muito, é possível que eu cometa um crime.
Eu sorri.
- Eu nunca comi aqui. – admiti. – Nem em muitos lugares parecidos. Não tenho a menor ideia do que é bom.
deu uma olhada no cardápio, parecendo séria e concentrada na imersão na lista de pratos.
- Isso parece muito bom. – ela apontou um dos pratos no cardápio, e me encarou em expectativa.
Eu assenti.
- Vou confiar no seu bom gosto.
- Se for horrível, podemos sair correndo e encontrar um Burger King. – ela sugeriu.
- A ideia é perfeita.
Pedimos os pratos, e esperamos conversando sobre a vida de no Brasil. Ela não tinha irmãos, mas tinha um monte de primos e uma porrada de tios. Uma família muito maior do que eu podia imaginar. Ela era campeã de hipismo e tocava quatro instrumentos além do violão e da guitarra: violino, bateria, piano e gaita. Também era capaz de se comunicar em cinco idiomas na linguagem de sinais de seu país. Depois de alguns minutos de conversa, cheguei à conclusão que, se fosse possível que alguém tivesse dois cérebros, essa pessoa era .
- Eu falo muito sobre mim e você me dá corda para desviar de falar de si mesmo. – ela finalmente disse. – No más. Quero saber tudo sobre você. E estou sendo muito gentil te dando a chance de falar, porque posso muito bem digitar seu nome no Google e descobrir tudo por conta própria.
Eu ri.
- Bom... Eu não tenho irmãos... Não sou campeão em nenhum esporte, na verdade, mas eu adoro futebol... Só falo um idioma... Eu tive uma epifania aos 12 anos para decidir ser músico, mas não sei o que causou isso...
- Então que bom que teve. – ela disse, erguendo a taça de vinho e sorrindo para mim. – Eu ouvi todas as suas músicas ontem. Devo admitir que são muito boas.
- Estou devidamente honrado. – ergui minha própria taça de vinho e fizemos um brinde engraçado.
Nossos pratos chegaram e comemos em silêncio, exceto pelos murmúrios de prazer com a comida mais gostosa que eu já tinha comido na vida.
- Não vai ter Burger King para nenhum de nós dois. – eu disse, depois de alguns minutos. – Isso é a melhor coisa que eu já comi.
De boca cheia, assentiu.
- Eu poderia comer isso todos os dias da minha vida. – concordou.
De repente, minha garganta começou a coçar e tive a horrível sensação de que estava sufocando.
- Jake? Jake, o que está havendo? – imediatamente se levantou de seu lugar e foi até mim, levantando meu rosto com a mão. – Puta que pariu, Jake, você é alérgico a camarão?
Eu não sabia. Eu era?
- Ai, merda, o que eu vou fazer? – ela puxou os cabelos nervosamente antes de sair correndo e chamar o maître.
Em cinco minutos, uma ambulância chegou ao restaurante e eu não conseguia dizer uma só palavra.



- O que aconteceu? – a agente de Jake perguntou, antes mesmo de me alcançar no corredor do hospital. – Está em todo lugar que ele teve a porra de uma overdose em público!
- O quê? – perguntei, chocada. – Ele teve uma crise alérgica!
- Como ele está?
- Eu não sei, estou esperando o médico voltar... Ele estava sendo medicado.
Jane suspirou.
- Que loucura. – ela disse.
Eu assenti.
- Você está bem? – Jane perguntou. – Deve estar assustada... Sinto muito por isso, querida.
- Estou bem. – afirmei. – Só um pouco preocupada. Eu não tinha a menor ideia de que ele era alérgico e...
- Não se preocupe. Ninguém tinha. Jake tem o paladar de uma criança de cinco anos, nunca experimenta nada novo, então não tínhamos como saber.
Eu assenti.
O médico finalmente apareceu no corredor, sorrindo como se estivéssemos nos encontrando casualmente para discutir amenidades.
- Como ele está? – perguntei. Minha mente gritava “Como ele está, porra? Por que você não fala logo?”, mas eu era um pouco mais educada que isso.
- Ele está bem. – o médico disse. Jane e eu suspiramos de alívio. – Ele está dormindo agora, e provavelmente vai dormir por várias horas seguidas como efeito colateral do antialérgico.
Jane assentiu.
- Podemos leva-lo para casa?
- Sim, claro. Ele deve ficar mais meia hora em observação, mas, depois disso, você pode leva-lo para casa, sim.
- Ah, graças a Deus. Obrigada, doutor. – Jane disse. – Bom. – ela suspirou. – Agora eu tenho que ameaçar processar alguns jornalistas idiotas por falarem merda na internet. Você pode ficar aqui e esperar ele ter alta oficialmente, por favor?
- Com certeza. – confirmei.
- Obrigada, você é um doce. – ela me deu um abraço de meio milésimo de segundo antes de virar as costas e sair gritando com alguém no telefone.
Pouco mais de 30 minutos depois, uma enfermeira apareceu dizendo que poderíamos leva-lo embora. Esperei alguns minutos até que Jane voltasse, e fomos até a enfermaria, onde ele estava, para busca-lo.
Seu rosto ainda estava um pouco vermelho, e o pescoço cheio de bolinhas vermelhas que pareciam picadas.
- Oi. – ele disse, esticando o braço em nossa direção. – Oi, Jane.
- Oi, Jake. Pronto para irmos embora?
Ele assentiu.
O ajudamos a se levantar, uma vez que ele ainda cambaleava, grogue por causa dos medicamentos.
Passei um braço dele sobre meu ombro e Jane fez o mesmo.
Enquanto caminhávamos para fora do hospital, ele olhou para mim com os olhos semicerrados, sorriu e disse:
- Você é tão bonita.
Senti meu rosto queimando, e Jane riu baixinho, continuando a arrastá-lo para fora.
- Vamos, garanhão. Quando você estiver acordado de verdade vai morrer de vergonha disso.


Capítulo 4: Changes

I'm moving through some changes
I'll never be the same
Something you did touched me
There's no one else to blame

Changes — Yes



Jake —



Quando abri os olhos, minha cabeça estava queimando. Eu me sentia a Bela Adormecida, meio entorpecido, mas ainda muito exausto e perdido.
Olhei ao meu redor, encarando cada canto do hotel enquanto processava tudo.
Eu estava no restaurante. estava sentada logo à minha frente. Havia um prato cheio de camarões à mesa e... Cacete. A ambulância. O hospital.
As memórias foram voltando tão rápido que fechei os olhos outra vez, como se isso pudesse impedi-las.
Precisei de algum esforço para levantar, me arrastando até a porta e checando o quarto anexo. Tom e Jack não estavam lá, então devia ser bem tarde.
Voltei para a cama, procurando meu celular, e olhei o horário na tela. Já passava das duas da tarde.
Procurei o contato de Jane para enviar uma mensagem, mas logo a porta do meu quarto abriu.
Esperando que fossem Jack e Tom, não liguei muito, apenas segui para o banheiro, pouco me importando em fechar a porta. Estava tudo embaçado na minha cabeça, e eu trocava as pernas mais que um bêbado, e errava a mira na privada como um bebê.
— Jake...? — era a voz de Jane.
Virei-me um pouco em choque, mas não muito preocupado, já que Jane infelizmente já tinha presenciado cenas como essa. E então quase caí para trás, morto para cacete.
Jane não estava sozinha. estava com ela.
Não sei quanto tempo demorou para eu reagir e bater à porta do banheiro com força, mas pareceu uma eternidade.
Puta que pariu. Eu só conseguia xingar. Nada mais passava pela minha cabeça. Cacete de vida desgraçada.
Dei descarga e parei em frente à pia, jogando água no rosto e, depois, me olhando no espelho. Eu parecia um balão de festa infantil. Quase podia ver a porra do Pennywise me carregando por aí.
Não queria sair do banheiro. Que maricas. Eu queria sentar no chão — correndo o risco de esbarrar em alguma poça fujona de mijo — e chorar pela vergonha que era a minha existência.
Não sei quanto tempo passei parado em frente ao espelho, admirando a minha maravilhosa aparência de aliem vermelho, mas duas batidas na porta me despertaram do transe.
— Sai daí. — era a delicadeza de Jane. — Tome uma ducha. Ela está lá fora. Tem roupas para você penduradas na porta.
Abri uma fresta da porta, apenas para olhar para Jane do lado de fora.
— Quanto você acha que ela viu? — sussurrei.
— Provavelmente tudo que tinha para ver.
Podia ver que Jane estava se segurando para não rir. Podia também ver o futuro. A história virando piada entre Jack e Tom para o resto da vida.
Bati a porta outra vez e, ainda furioso e envergonhado, me enfiei embaixo do chuveiro gelado.
Todos os acontecimentos dos últimos minutos serviram para clarear meus pensamentos, que viraram pura vergonha. Olho para o lado de fora, onde pequenas poças de urina se amontoam no chão.
A que meleca eu resumi minha existência?
Naquele momento eu não tinha a menor ideia.
Me sequei e vesti as roupas limpas que Jane deixara na porta, depois me dedicando a fazer um trabalho digno limpando e enxugando o chão com papel higiênico e shampoo do hotel.
Precisei respirar fundo milhares de vezes antes de ter coragem de sair do banheiro.
Não fazia muito sentido, já que provavelmente teria ido embora, e para nunca mais voltar ou aparecer na minha vida outra vez.
Jane estava sentada na minha cama, de pernas cruzadas, digitando no celular como sempre.
Ela desviou os olhos da tela para me encarar e dar uma boa olhada em mim.
— Cara... — ela disse, depois de me olhar de cima a baixo. — Quer passar um pouco de corretivo? — perguntou, abrindo a bolsa e vasculhando lá dentro até achar um potinho com tampa preta.
Olhei minha cara outra vez no espelho do quarto. Não seria má ideia.
Me perguntei o que afetaria mais a minha dignidade: a aparência lamentável de balão vermelho de It, ou passar maquiagem na cara.
Decidi encarar a realidade como ela era. Quem nunca sonhou em ser um ícone do cinema?
— Não, obrigado. — respondi. Ela deu de ombros e jogou o corretivo de volta na bolsa.
— Você deve querer saber da . — ela supôs. Eu assenti. — Está lá fora, sentadinha como a lady que é. E vou te dizer uma coisa.
Eu parei para encará-la.
— Se você não casar com essa garota, juro por Deus que eu te abandono.
Senti meus olhos se arregalando involuntariamente, de surpresa.
— Pare de enrolar. Ela está te esperando lá fora.
Eu assenti, seguindo até a porta.
— Jake. — Jane me interrompeu. Virei-me de volta para ela. — Ela passou a noite no sofá do meu quarto, preocupada com você.
Isso me fez sentir uma alegria inesperada, um calor reconfortante no coração, mas um frio imenso na barriga. Borboletas no estômago é o cacete. Eu estava era abrigando uma frota de aviões de guerra na minha barriga.
Abri a porta, ainda com o coração a mil.
Sentada na poltrona verde no corredor, estava linda como sempre. Mesmo vestindo as mesmas roupas da noite anterior e parecendo cansada, qualquer pessoa com olhos reconheceria que ela era linda. Alguém sem olhos também. Todo mundo.
— Oi. — eu disse.
Ela percebeu minha presença e se levantou imediatamente.
— Como você está? — ela perguntou, desconfortavelmente movendo as mãos na barra do vestido preto.
— Bem. Eu... quer dizer... Estou meio atordoado ainda. — respondi, desviando um pouco o olhar. Eu realmente não conseguia olhar para ela por muito tempo.
— Você nos deu um susto noite passada. — disse, dando um sorrisinho. — Depois ficou maluco de antialérgicos e começou a falar besteira. — ela precisou segurar uma risada.
De repente me lembrei. Eu pendurado entre Jane e pelos corredores do hospital. Eu olhando diretamente para ela e dizendo que ela era “tão bonita”.
Dessa vez quem precisou conter o riso fui eu.
— Não era. — respondi. Ela me olhou com curiosidade. Encurtei a distância entre nós. tinha cheiro de cafeína. Estranhamente, eu queria esfregar o nariz nela. — Não era besteira. — expliquei. — Eu estava falando sério.
corou.
— Obrigado. — eu disse, ousando estender o braço até toca-la no rosto. Ela não demonstrou nenhuma reação negativa, pelo contrário, deu um sorrisinho, então mantive a mão em seu rosto. — Obrigado por cuidar de mim. E por ainda estar aqui depois de... Bem... Tudo.
Ela riu.
— Tudo bem. Eu faria de novo. — ela me olhava nos olhos, e os dela eram tão brilhantes...
Deslizei o polegar por sua bochecha.
?
— Hum?
— O que acontece agora?
Não sei dizer se foi ela ou se eu mesmo respondi à pergunta.
Mas, quando me dei conta, nossos lábios estavam colados, e a mão dela pousava em minha nuca da mesma maneira que a minha, que se movera para sua cintura.
Não sei se o beijo durou 10 segundos ou 10 minutos, mas, quando nos afastamos, meus lábios ardiam. Meu corpo todo ardia. Mas não era dor. Eu sabia bem disso.
Pela primeira vez eu tinha certeza absoluta sobre o que sentia, e estava disposto a admitir isso. Eu estava apaixonado por aquela garota.




Quando bati a porta do meu minúsculo apartamento logo atrás de mim, eu era uma mistura de sentimentos e sensações conflitantes e intensas.
As últimas horas tinham sido malucas, completamente fora de tudo que eu pudesse ter imaginado.
Meu primeiro encontro fora, de certa forma e ao mesmo tempo, um desastre e incrivelmente maravilhoso.
É claro que boa parte dele se passara com Jake capotado de antialérgicos, mas, mesmo assim, tudo valera a pena, pelo menos para mim.
A maneira como nossos lábios se encontraram na manhã seguinte ao desastre do camarão fora suficiente para ofuscar toda a tragédia anterior. Inclusive Jake usando o banheiro de porta aberta.
Na verdade, eu simplesmente não conseguia sequer considerar os momentos ruins. E além de tudo, eu tivera a oportunidade de conhecer Jane, uma verdadeira business woman, mas ainda assim uma mulher educada e empática.
Para melhorar ainda mais, assim que me joguei sobre minha cama pequena demais, meu celular vibrou com uma mensagem de texto.

“Oi. É a May. Lembra de mim?
Meu pai estará no bar hoje às seis. Acha que consegue aparecer por lá para ele te ouvir cantar?”

E ela anexou uma localização.
Provavelmente esse dia não poderia ficar melhor.
Decidi tirar um cochilo até as cinco, antes de me arrumar e pegar o trem até Carnaby.
Obviamente não consegui tirar um cochilo. Minha cabeça estava a mil, surtando com as novas e infinitas possibilidades que pareciam surgir de todas as direções.
Acabei levantando, demorando mais que o necessário no banho e, depois, me arrumando com alguma dignidade. Meu melhor par de jeans, uma camisa social branca e a jaqueta de couro que minha mãe me dera de presente algum tempo antes.
Meus pensamentos foram direto para ela. Minha mãe... O que ela acharia de tudo que estou vivendo agora?
Infelizmente só podia imaginar.

***


O bar do pai de May se chamava Foy’s Royce, o que eu acho ser um nome que soa muito bem.
As portas estavam abertas, e podia ver que May estava ali, praticamente pendurada em um dos banquinhos no balcão, balançando os pés de um lado para o outro.
Antes mesmo que eu entrasse no bar, ela me viu, e levantou correndo.
! Que bom que você veio! — um homem mais velho surgiu atrás do balcão, provavelmente o pai dela. — Pai, pai! Essa é a ! Que bom que você trouxe seu violão! Pai, você vai amar a cantando! Você vai ver! Quer dizer, ouvir!
O pai de May saiu de trás do balcão, com um pano de prato azul jogado nos ombros.
— Prazer em te conhecer. Meu nome é Matthew.
.
— E então... Vamos ao que interessa? — ele perguntou, sorrindo.
Eu assenti, tirando meu violão do estojo e passando a correia pelo pescoço.


There are places I remember
All my life, though some have changed
Some forever, not for better
Some have gone and some remain

All these places had their moments
With lovers and friends, I still can recall
Some are dead, and some are living
In my life, I've loved them all



Enquanto eu cantava, evitava olhar para Matthew, mas podia ver pelo canto do olho que ele balançava a cabeça ao som da música, parecendo estar seguindo a melodia e a letra.
May estava dançando. Poderia ser cômico, mas ela era tão graciosa que estava bonito, mesmo que um pouco fora de sintonia.


But of all these friends and lovers
There is no one compares with you
And these memories lose their meaning
When I think of love as something new

Though I know I'll never lose affection
For people and things that went before
I know I'll often stop and think about them
In my life, I love you more


May continuava dançando e Matthew continuava balançando a cabeça de um lado para o outro, mas também passara a batucar os dedos no balcão do bar.


Though I know I'll never lose affection
For people and things that went before
I know I'll often stop and think about them
In my life, I love you more

In my life, I love you more


Quando terminei, finalmente ousei olhar de verdade para eles.
Matthew sorriu.
— Se você quiser, assinamos o contrato agora.


Capítulo 5: Falling like the stars

And I need you to know that we're falling so fast
We're falling like the stars
Falling in love
And I'm not scared to say those words
With you I'm safe
We’re falling like the stars
We’re falling in love


Falling Like the Stars — James Arthur


Jake —


Desde o beijo, demorou três dias até que eu tivesse tempo para ver de novo. Por sorte, ela também estava ocupada, ensaiando para estrear em um novo trabalho como cantora fixa em um bar em Carnaby chamado Foy’s Royce. Ela estava empolgada com sua estreia na quinta-feira seguinte, e eu estava nervoso com a possibilidade — quase certeza — de que eu não estivesse lá para prestigiá-la.
— Terra chamando Jake. — Tom exclamou, me atingindo com uma batata frita.
Fiz uma careta, olhando para ele com indignação.
— O que foi? — perguntei, irritado.
— Em qual planeta você está? — Jack perguntou.
— Planeta . — Tom respondeu, e os dois começaram a rir.
— Parem de importuná-lo. — Jane disse, olhando para os dois com cara feia. Fiz uma careta convencida. — Ele é só um garoto apaixonado.
Dessa vez os três riram, e eu balancei a cabeça, cada vez mais irritado e constrangido com a situação.
Meu celular estava logo à minha frente, mas não vibrava com uma nova mensagem havia mais de uma hora. Apertei o botão discretamente, mas a tela não se acendeu. Apertei de novo. Nada. Uma terceira vez. Nada ainda.
— Meu celular pifou. — eu disse. — Preciso comprar um novo.
Jack, Tom e Jane se entreolharam, como se compartilhassem alguma conversa telepática.
— Podemos passar no shopping agora. Temos umas duas horas antes do ensaio ainda. — Jane sugeriu.
Eu assenti.
Tivera o mesmo celular por tanto tempo que só a ideia de usar outro aparelho já era um pouco assustadora. E, para ser sincero, eu não sabia merda nenhuma sobre as novas tecnologias. Qualquer merda capaz de receber mensagens já estava bom.
Deixamos o restaurante e pegamos um táxi para o shopping mais perto. Haja paciência para tanta gente circulando de um lado para o outro com os braços carregados de sacolas.
No caminho para a loja de celulares, Jane parou em frente a oito vitrines, subitamente apaixonada por vestidos, bolsas e sapatos que ela prometeu voltar para comprar quando eu não estivesse ali “enchendo o saco”.
— Afinal de contas, quanto é que você ganha? — perguntei.
Ela deu de ombros.
— Para te aturar, pouca coisa não pode ser. — ela deu um tapinha no meu ombro, seguindo à nossa frente para a loja.
Uma garota de cabelos loiros presos em um rabo de cavalo se apressou pra nos receber ainda na porta.
— Sejam bem-vindos! — ela disse, com um sorriso imenso aberto para nós. — Posso ajudar?
— Viemos comprar um celular novo para esse rapaz. — Jane respondeu, apontando discretamente para mim.
Dei de ombros. A garota ainda sorria. Talvez fosse garota propaganda de algum dentista.
— Claro, claro! Aliás, se me permite, sou muito sua fã! — batendo os cílios imensos, ela rodou o rabo de cavalo dourado entre os dedos. — Qual modelo você procura?
— Qualquer um. — respondi, desviando o olhar dela pela loja inteira. Puta que pariu, quanta coisa cara.
— O mais recente. — Jane respondeu.
— Claro, me acompanhem.
Nós andamos atrás da garota até uma bancada com um modelo ligeiramente grande com opções de várias cores.
— Você tem preferência por armazenamento? — a garota do rabo de cavalo loiro perguntou, entregando alguns panfletos para nós.
Eu queria responder que qualquer coisa estava ótimo — apesar de caro para cacete —, que eu só precisava de um aparelho capaz de trocar mensagens e ligações, e que o meu estava sem funcionar, então eu não sabia se tinha respondido minha última mensagem, mas não disse nada.
Jane acabou escolhendo um aparelho e pagando com meu cartão de crédito, sobre o qual nunca encostei a mão.
Quando deixamos o shopping, ela me entregou o celular, já configurado, com um sorriso sacana no rosto.
— Prontinho. Você já pode mandar mensagem para a .
Merda.
Meu desespero, pelo jeito, tinha sido bem óbvio.
E assim eu seguia... Só ladeira abaixo. Mesmo assim, como um pateta, a primeira coisa que fiz foi enviar uma mensagem para .

“Oi. Celular pifou. Comprei um novo. Como você está?”

Ela não demorou muito para responder, dizendo que a questão do celular era uma bosta, e que estava ansiosa para a apresentação no Foy’s Royce.

“Quer uma ajuda? Posso tocar violão.”
“Com certeza. Nos encontramos aqui?”
“Que tal pegar alguma comida hoje à noite?”
, arrisquei. “Sem camarão xD”, completei.

Ela respondeu com um emoji de risada, e disse que mal podia esperar. Quem mal podia esperar era eu.


***



Eu passei para buscá-la às sete, com um carro — e motorista — arrumados por Jane, apesar das minhas tentativas de deixar tudo o mais simples possível.
parecia ter captado, mesmo de longe, o meu espírito para aquela noite. Ela vestia um casaco vermelho com jeans, parecendo ainda linda para cacete, mas com uma minúscula produção.
Depois do fiasco no restaurante requintado, algo me dizia que a melhor ideia que poderíamos ter era uma passada no bom e velho Burger King.
Por algum motivo, nenhum de nós dois sabia muito bem o que dizer, então estávamos tão quietos que o motorista olhava pelo retrovisor toda hora, provavelmente para checar se estávamos vivos.
Bem, eu não tinha certeza se eu estava.
Minhas mãos estavam suando, e eu as esfregava freneticamente nas pernas da calça, desesperadamente tentando manter o controle do meu próprio corpo.
Parecia que tudo estava mais desconfortável do que antes, e comecei a me perguntar se o beijo tinha sido um erro. Talvez quisesse me dizer isso, mas não tivesse coragem. Talvez ela tivesse aceitado o convite justamente para me dizer isso.
Pensar nessas hipóteses me fez começar a suar ainda mais, então virei-me subitamente para ela, disposto a falar alguma coisa — qualquer coisa —, mas, quando vi, ela também estava olhando para mim, parecendo igualmente nervosa. Talvez ela quisesse mesmo me dizer que estava arrependida.
… — eu falava tudo tão devagar que comecei a me questionar se tinha mesmo sido alfabetizado. — Escuta, sobre o que aconteceu aquele dia…
— Sim…? — ela me olhava com curiosidade, mas visivelmente tensa.
— Preciso ser sincero, tá bom? — respirei fundo, buscando coragem no meu novo — e patético — modo de ser.
— O que foi? — perguntou, o cenho crispado. Era bem mais difícil articular qualquer frase quando eu não conseguia entender o que as expressões dela diziam.
— Eu não me arrependo. — eu disse. Ela parecia ainda mais confusa. — Do beijo. Eu não me arrependo. Mas, se você se arrepende, tudo bem. Eu acho que posso lidar com isso. — eu podia? Bem, eu não tinha a menor ideia. Mas sabia que não queria.
— Me arrepender? — ela perguntou. Eu assenti, envergonhado, abaixando a cabeça como um cachorrinho. — Jake? — chamou. Eu olhei para ela. tinha um sorrisinho engraçado no rosto, e comecei a me perguntar o que aquilo queria dizer. Ela estava me zoando?
Mas então uma coisa aconteceu. Uma coisa realmente boa para caralho. encurtou a distância entre nós no banco de trás, levou as duas mãos a mim, puxando meu rosto em sua direção, para olhar para ela. Eu podia sentir que estava tremendo e ofegante, parecendo um garotinho bobão.
— Eu não me arrependi. E não vou. Não com você. — ela disse, antes de encostar delicadamente os lábios nos meus, e eu me torcer em um malabarismo confuso, no banco de trás do carro, para envolvê-la com meus braços.
Eu nunca tinha estado tão vulnerável na vida. O motorista provavelmente assistia pelo retrovisor sempre que podia, mas essa não era a parte mais importante. A parte mais importante era que me tinha nas mãos. Do jeito mais literal possível. Ela tinha um controle assustador sobre mim e, no entanto, eu o cedia a ela de bom grado. E simplesmente não ligava.
Contanto que ela estivesse ali, perto de mim, tocando em mim, isso não importava. Não importava muito que eu parecesse idiota, que parecesse frágil, que parecesse apaixonado. Eu só queria estar perto dela. Queria ter a oportunidade de beijá-la daquela maneira sempre que possível.
E, a mera possibilidade de que, talvez, ela quisesse o mesmo, já era o suficiente para mim.





Nós comemos alguns hambúrgueres no Burger King, parando de mastigar apenas para conversarmos brevemente sobre qualquer coisa — qualquer coisa mesmo, desde aquecimento global à Victoria Beckham — e rir em sintonia.
Eu me sentia boba. Como se estivesse sob efeito de alguma droga. Completamente aérea, mas extremamente satisfeita. Apesar das borboletas no estômago (junto com muito hambúrguer e batata frita), eu nunca me sentira tão bem em toda minha vida.
Jake era incrível. Ele era uma pessoa real, a própria pessoa, e alguma coisa me dizia que ele estava cada vez mais perto de se tornar a minha pessoa também.
— Com licença. — um funcionário da lanchonete parou ao lado da nossa mesa, interrompendo uma sessão de gargalhada no meio. — Vamos fechar em cinco minutos.
Jake e eu nos entreolhamos e começamos a rir outra vez. Estávamos sendo expulsos.
— Claro. Obrigada. — eu disse, depois de recuperar a compostura. — Já estamos indo.
Acabamos saindo de lá carregando um saco grande para viagem, com vários pacotes de batata frita.
— Fomos literalmente expulsos. — Jake disse, sorrindo para mim. Droga. Toda vez que ele sorria eu tinha vontade de largar tudo e beijá-lo até cansar, como tínhamos feito no carro. Mas isso não era nem um pouco aceitável. Nem compreensível. Nem racional.
— Eu nem vi o tempo passar. — confessei.
— Aberta a uma sobremesa? — ele questionou.
Comecei a rir. Eu estava tão cheia, tão cheia, que andava com um pouco mais de dificuldade.
— Nem fodendo. — deixei escapar.
Jake soltou uma gargalhada engraçada, e eu não consegui rir de volta. Estava imóvel, perdida, observando-o como um fenômeno fantástico. E eu sabia que tinha muita sorte por poder presenciar uma cena como aquela. Jake não era um rapaz risonho. Ele não saía sorrindo nas fotos de paparazzi ou nos tapetes vermelhos. Eu vira no Google. As pessoas falavam da cara fechada e do mau humor constante.
Às vezes ele era aquela pessoa. A pessoa da cara fechada, da expressão neutra, a pessoa um pouco repelente. Mas eram dois lados de uma mesma moeda, e eu gostava dos dois.
— Você está cansada? — ele perguntou, diminuindo o passo para olhar para mim.
Balancei a cabeça, negando. Eu provavelmente estava cansada, mas não me sentia de fato assim.
— Você está? — resolvi perguntar. Ele também negou. — Então o que vamos fazer agora?
— Filmes. — ele disse. — O que acha de irmos assistir um filme? O Curzon tá com uma temporada de exibição de clássicos nesse horário. — Jake sugeriu.
— Sim. Absolutamente sim.
Voltamos para o carro com o motorista de Jake e partimos para o Curzon, no Soho.
Informei Jake de que eu pagaria os ingressos e saí na frente dele para a bilheteria, mesmo sem saber o que íamos assistir.
— É Bonequinha de Luxo. — o funcionário na bilheteria disse, parecendo curioso para ver se eu estava sozinha, o que realmente era o caso de algumas garotas na fila e na bomboniere do cinema, mas a curiosidade se desfez quando Jake se aproximou.
— Bonequinha de Luxo. — eu repassei para Jake. Ele fez uma careta, mas deu de ombros.
— Tudo bem. Sem problemas. — ele respondeu, acariciando meu ombro gentilmente.
O vendedor nos entregou os ingressos, e fomos direto para a fila da bomboniere. Algumas garotas começaram a reconhecer Jake, e ele começou a ficar um pouco desconcertado. Até que uma garota de cabelos roxos resolveu se aproximar.
— Oi! Olha, desculpa incomodar vocês, mas eu sou muito sua fã! Estava no seu show mês passado e… Eu só queria saber se podemos tirar uma foto… Porque eu sou muito sua fã!
Jake olhou para mim disfarçadamente, e eu sorri, incentivando-o.
— Quer que eu tire? — perguntei.
Ela sorriu abertamente.
— Sim! Obrigada. Você é muito legal. E bonita. — a garota de cabelos roxos disse, esticando a mão e me entregando seu celular, já com a câmera aberta.
Jake posou ao lado dela para a foto e, quando ela recebeu o celular para conferir, deu um pulinho de alegria.
— Ficou incrível! Obrigada. De verdade. Para os dois. Vocês são lindos juntos! — ela disse, antes de sair correndo de volta para o lugar onde estava com algumas outras meninas.
Jake estava um pouco corado.
— Você está bem? — perguntei.
— Sim. Estou, sim. É que… Mesmo depois de tanto tempo, eu ainda não me acostumei. Fico um pouco envergonhado. Quer dizer… Eu não tenho nada de mais. — ele explicou. — Sou só um cara. Que canta. Sabe?
Eu assenti, sorrindo para ele.
— Me parece suficiente para querer uma foto com você. — brinquei.
Ele tirou o celular do bolso.
— Você quer? — perguntou. — Ainda não tenho nenhuma foto aqui.
Eu ri.
— Seria uma honra.
Jake desconcertadamente tirou uma selfie de nós dois, comigo levemente apoiada em seu ombro esquerdo. Ele deu o melhor de si para sair sorrindo, e só o esforço já foi suficiente para mim.
Ver o resultado logo depois do clique foi ainda melhor. Apesar de ter ficado um pouco tremida (ele não tinha nenhuma habilidade tirando selfies), ficou linda. As luzes amareladas do cinema davam um toque de calor à imagem, e iluminava com brilho nossos rostos e olhares. Não podia ser melhor. Ok, talvez se estivesse menos tremida.


***



Conseguimos dois assentos na última fileira, e assistimos ao filme em silêncio, exceto pelo barulho das pipocas sendo mastigadas.
Jake não tentou nada durante o filme, e eu não tinha nenhuma opinião definitiva sobre isso. Eu tinha achado bom? Ou tinha esperado que ele me beijasse no meio do filme?
Bem… Jake não era esse tipo de cara e, na verdade, eu não esperava um romance típico com ele. Não nos beijaríamos no cinema. Não era nossa cara.
Quando o filme terminou, seguimos a horda de cinéfilos notívagos cinema afora, e esperamos alguns minutos até o motorista chegar.
— Sabe… — Jake disse, assim que o carro saiu. — Não é um filme tão ruim.
— É um filme muito bom. — eu revidei.
Ele fez uma careta.
— Não vamos forçar, tá? É um filme mais ou menos. Mas os personagens pelo menos parecem reais, não é? Eles fazem coisas que pessoas de verdade provavelmente fariam.
— Tipo…?
— Sei lá… Fugir… Para começar uma nova vida. Ir atrás dos sonhos. Fazer merda e ficar com as pessoas erradas… Beber demais. — ele riu. — A Holly tinha um objetivo… E ela foi atrás dele.
— Mas meio que desistiu. — respondi.
— Ela se apaixonou. — ele deu de ombros. — Ela tinha algumas opções a seguir, mas escolheu o Paul. Só que, na minha opinião, não precisava ter sido tão dramático. Ela não precisava ter fugido e… Eu não sei. Eles poderiam ter sido felizes antes, sem precisar escolher muita coisa, não é? Sem precisar questionar tanto. Tenho certeza que ele teria compreendido quase tudo que ela quisesse. Ele estava apaixonado por ela. E claramente.
— Faz sentido. — eu respondi. — Mas deu certo depois… É o que vale.
— É. É o que vale. — ele concordou.
Jake deu ao motorista — Robin — o meu endereço, e ele dirigiu até lá enquanto ainda comentávamos sobre o filme.
Jake talvez não admitisse, mas ele tinha gostado do filme. Eu tinha certeza. Guardei uma nota mental para procurar o livro em um sebo para ele assim que possível.
Quando me dei conta, já estávamos parados em frente ao prédio onde eu morava.
Ficamos em silêncio alguns instantes, com Robin olhando pelo retrovisor de tempos em tempos, como se tentasse descobrir porque eu estava demorando tanto para descer.
— Você… Quer entrar? — perguntei, olhando para Jake. Ele me encarou com curiosidade. — Só para… Eu não sei. Beber alguma coisa…? — sugeri.
A verdade é que eu não tinha nada em mente, só queria passar mais tempo com ele. Eu sabia que ele entraria em turnê logo, e ficaríamos muito tempo sem nos ver. Talvez tudo aquilo não sobrevivesse à distância. Talvez não tivéssemos tanto tempo assim.
Jake pareceu sair do transe em que se encontrava, balançando a cabeça brevemente.
— Sim. Claro. — ele respondeu.
Consegui ouvir Robin dando uma risadinha no banco da frente, mas ignorei. Não era nada do que ele estava pensando.
Jake desceu do carro, falou alguma coisa para Robin pela janela e me acompanhou enquanto eu abria a porta e subimos juntos.
Destranquei a porta do apartamento — meu minúsculo apartamento — e entramos.
Jake não pareceu surpreso ou decepcionado com o tamanho e a aparência do meu “lar”, então me senti menos desconfortável.
Mas estava começando a cair a ficha sobre que tipo de coisas ele podia estar pensando.
— Você sabe, eu não te chamei para…
Ele soltou um risinho.
— Eu sei. E eu não vim por isso.
Respirei aliviada.
— Quer beber alguma coisa? — perguntei. — Cerveja… Vinho de supermercado… Água.
Ele sorriu.
— Adoro vinho de supermercado.

***


Uma garrafa de vinho barato e muita conversa aleatória depois, de alguma forma acabamos sentados encolhidos na minha cama minúscula e desconfortável, ligeiramente bêbados e cansados.
— Estou exausta. — confessei.
Escorado em mim, ele levantou os olhos para me encarar.
— Quer que eu vá? — Jake perguntou.
— Onde? — perguntei. O álcool, o glúten e o sono estavam me deixando muito devagar.
— Embora. — ele respondeu, sorrindo suavemente.
Balancei a cabeça, embriagada de cansaço — e vinho de mercado, é claro —. Eu não queria.
— Você pode ficar? — perguntei. Eu provavelmente não tinha consciência de que minha voz soava manhosa e pidona, mas teve um ótimo efeito. Jake assentiu, se esticando na cama e jogando o edredom da Hello Kitty por cima de nós dois.
Eu estava prestes a cair no sono quando lembrei de uma coisa importante que me fez levantar num salto e puxá-lo pela mão, assustando-o.
— Jake. Uma coisa importante.
Ele olhou para mim com os olhos arregalados.
— Escovar os dentes. — eu disse, e ele soltou uma gargalhada maravilhosa.


Capítulo 6: Wait for me

You are not alone tonight
Imagine me there by your side
It's so hard to be here so far away from you
I'm counting the days till
I'm finally done
I'm counting them down, yeah, one by one
It feels like forever till I return to you
But it helps me on those lonely nights
It's that one thing that keeps me alive


Wait for me — Theory of a Deadman


Jake —



Várias coisas aconteceram na manhã seguinte à noite do Burger King e Curzon.
As estúpidas borboletas na minha barriga me deram a impressão de que eu não conseguiria dormir ali, provavelmente preocupado demais em como eu me pareceria enquanto estivesse capotado, ou se eu falaria durante o sono, ou se a quantidade excessiva de hambúrgueres no meu estômago iria ativar uma usina nuclear no meu organismo.
No entanto, não demorou muito para que estivéssemos ambos realmente capotados. Quer dizer, eu não assisti à cena remotamente, mas, da última vez que olhei para antes de dormir, ela estava caindo no sono.
E, quando acordei de manhã, eu me sentia ainda mais estúpido.
Ela estava deitada com seu corpo encolhido contra o meu, a cabeça apoiada em meu peito — já que eu usava quase todo seu travesseiro — enquanto eu a abraçava com o braço esquerdo, provavelmente procurando, inconscientemente, protegê-la de uma queda violenta da minúscula cama.
ainda estava dormindo, e me atrevi a passar alguns momentos olhando para ela. Eu podia observar muitas coisas naqueles pequenos instantes, como a marca da covinha em sua bochecha, ou uma cicatriz muito pequena, quase imperceptível, do lado esquerdo de seu queixo.
Mas a mais importante das coisas que pude observar foi que eu estava apaixonado por ela. Não me apaixonando. Apaixonado. E, embora eu já desconfiasse disso desde o primeiro momento, eu tinha certeza exatamente enquanto assistia seus olhos se abrindo pela primeira vez de manhã.
Era mais ou menos como estar bêbado. E de ressaca. Uma pontada subindo o caminho inteiro pelo estômago, quase me afogando em nervosismo, ao mesmo tempo em que meu coração batia mais forte. Parecia que eu ia vomitar.
Era idiota e eu queria sair correndo, cavar um buraco e desaparecer porque, por mais que músicas sobre amor saíssem com facilidade pela minha garganta e fluíssem pelos meus dedos, eu nunca estivera realmente assim.
olhou para mim — a primeira coisa que ela viu ao acordar — e sorriu. Então eu sabia que estava mesmo atravancado ali. Eu não iria correr. Eu não iria cavar um buraco. Porque valia a pena ficar um pouco tonto, desde que ao lado dela.
— Oi. — ela murmurou, ainda imóvel. Provavelmente porque o espaço era nulo e qualquer movimento poderia levá-la direto para o chão.
— Oi. — respondi.
— Tudo bem? — perguntou, esfregando os olhos lentamente.
Não pude evitar sorrir. Ela ainda não estava completamente desperta, mas em algum lugar no limiar entre o sonho e a consciência.
— Você tá com fome? — ela perguntou, se movendo devagar para sentar na pontinha da cama. — Eu poderia oferecer alguma coisa, mas acho que só tenho burritos velhos e bananas.
Balancei a cabeça, negando. Eu estava com fome? Acho que não.
— Mas eu tô. — ela disse, sorrindo de um jeito rebelde. — Vamos, levanta, vamos comprar café.
Ela me puxou pela mão e eu cambaleei para encontrar equilíbrio, praticamente tombando para cima dela.
Eu queria beijá-la, mas, ao invés disso, se aproximou de mim e apertou meu nariz de brincadeira. Eu teria odiado se qualquer outra pessoa fizesse algo do tipo. Mas com ela não foi possível.
— Bom dia. — ela disse, sorrindo, e correndo para o banheiro.
Fiquei parado ali por alguns segundos, estático com o choque de tantas novas constatações me atingindo ao mesmo tempo antes de me abaixar e pegar meus sapatos.

***



Apesar de muito simples, o bairro onde morava tinha uma cafeteria comandada por um francês — quem me disse ter chamado por um bom tempo de Pierre antes de descobrir se chamar Jerry — que servia pãezinhos quentes e café fresco quase o dia inteiro.
Escolhemos uma mesa perto do balcão, e pedimos pães com queijo e bacon e dois cafés, pelos quais paguei antes mesmo de que pudesse pensar a respeito.
Comemos em silêncio, apreciando o tipo de paz que só se encontra em pães quentes e cafés bem feitos e a música francesa que eu não conhecia — e não entendia —, mas que me parecia muito bonita.

Rappelle-moi le jour et l'année
(Lembre-me o dia e o ano)
Rappelle-moi le temps qu'il faisait
(Lembre-me do tempo que fazia)
Et si j'ai oublié
(E se eu esqueci)
Tu peux me secouer
(Você pode me sacudir)

Et s'il me prend l'envie d'm'en aller
(E se me der vontade de ir embora)
Enferme-moi et jette la clé
(Me tranque e jogue a chave fora)
Aux piqûres de rappel
(Com doses se reforço)
Dis comment je m'appelle
(Me diga como eu me chamo)


Depois, é claro, eu percebi que entoava os versos da música bem baixinho, completamente para si, e não ousei me intrometer. Seus sussurros musicais eram suficientes.

Si jamais j'oublie, les nuits que j'ai passées
(Se um dia eu esquecer das noites que passei)
Les guitares et les cris
(As guitarras e os gritos)
Rappelle-moi qui je suis
(Lembre-me de quem sou)
Pourquoi, je suis en vie
(Porque estou vivo)
Si jamais j'oublie les jambes à mon cou
(Se um dia eu me esquecer de como escapar)
Si un jour je fuis
(Se um dia eu fugir)
Rappelle-moi qui je suis
(Lembre-me de quem sou)
Ce que je m'étais promis
(O que eu prometia a mim mesmo)

Rappelle-moi mes rêves les plus fous
(Lembre-me de meus sonhos mais loucos)
Rappelle-moi ces larmes sur mes joues
(Lembre-me das lágrimas nos meus olhos)
Et si j'ai oublié, combien j'aimais chanter
(E se eu esquecer do quanto eu amava cantar)


percebeu que eu a observava e, entre um verso cantado e um gole de café, sorriu para mim.
— Eu gosto muito dessa música. — confessou. — É uma dessas músicas que você pensa que sempre existiu, mas na verdade é super nova.
— Sobre o que fala? — perguntei.
Ela bebeu um gole de café antes de continuar.
— É sobre alguém que tem medo de esquecer de si mesmo. — respondeu. — Alguém que tinha sonhos ousados, que tinha uma vida agitada com guitarras e gritos… E que tem medo de esquecer essas coisas. É sobre alguém que era um monte de coisa, e tem medo de deixar de ser.
Eu assenti.
— Então eu estava certo. É uma música bonita.
sorriu.
— É. — concordou. — É uma música muito bonita.

***


Depois do café e, apesar de não estar nem um pouco a fim, tivemos que encerrar oficialmente nosso encontro, que durara bem mais que um encontro normal. Eu provavelmente tinha um monte de compromissos sobre os quais não me lembrava e, além do mais, eu estava começando a me sentir malcheiroso.
Decidi não ligar para Robin e peguei um táxi de volta para o hotel.
Já no elevador, lembrei de como eram meus amigos e de como eles se comportariam quando eu chegasse, depois de passar a noite fora.
Foi mais ou menos como eu imaginei.
Quando abri a porta, estavam os três no meu quarto, olhando as telas dos celulares.
Jane, que estava sentada na cama, levantou em um pulo.
— Mais 20 minutos e eu ia chamar a polícia. Eu juro. — ela disse, me olhando de cara feia.
— Conta. Conta pra gente, campeão. — Tom jogou uma almofada em mim. — Como foi a noite?
Ele e Jack me olhavam com muita expectativa e, de repente, Jane também.
— É, Jake! Para de mistério! Como foi? — ela perguntou, parecendo aflita e empolgada demais, como sempre ficava quando estava ansiosa por alguma informação que ela não podia conseguir por si mesma.
— Foi ótima. — respondi, seguindo para o banheiro.
Tom e Jack correram na minha frente, bloqueando o caminho.
— Isso não é contar tudo. — Jack protestou.
— Eu nunca disse que ia contar tudo. — respondi, fazendo cara feia para ele, que rolou os olhos.
— Vocês…? — Tom perguntou, e fez um gesto ridículo.
— Claro que fizeram. Ou ele não chegaria a essa hora. — Jack respondeu, como se fosse óbvio.
Jane continuava em silêncio, só observando. Talvez ela fosse me agarrar pelo colarinho, me prender de castigo e me obrigar a contar tudo, só para poder saber.
— Nós comemos hambúrgueres, fomos ao Curzon, depois escovamos os dentes e dormimos. — respondi, dando um sorrisinho irônico antes de bater a porta do banheiro.
A cara de decepção deles foi impagável.
Do lado de fora, eles ainda gritavam em protesto, indignados, e isso incluía Jane.





Eu não sabia muitas coisas com certeza absoluta. Só o básico. Precisamos de oxigênio para respirar. Todo mundo morre um dia. Mas, assim que fechei a porta atrás de mim, sozinha no meu apartamento deprimente, uma nova certeza entrou para a lista.
Eu estava apaixonada por Jake. E era muito provável que estivesse desde o primeiro dia, quando ele me viu cantando na rua e me deixou 300 libras de gorjeta. Talvez não, talvez tivesse acontecido em algum momento desde então… Como o jantar que acabou com ele chapado de antialérgico no hospital… Ou a manhã seguinte, em que nos beijamos pela primeira vez.
Eu nunca entendi as coisas com muita facilidade, então não podia definir no meu calendário mental quando isso tinha acontecido. Talvez eu sempre tivesse sido apaixonada por ele. Mesmo antes.
Balancei a cabeça, mandando os pensamentos para longe.
Eu precisava ensaiar. Tinha total liberdade criativa para escolher as músicas — até mesmo minhas próprias composições —, mas ainda estava indecisa. Peguei meu violão, sentei-me na cama e tirei da gaveta do criado-mudo manco o caderno com as músicas que vinha ensaiando.
Comecei a dedilhar Like a Rolling Stone, acertando os acordes até me enquadrar no tom da melhor maneira possível.

Once upon a time, you dressed so fine
Threw the bums a dime in your prime, didn't you?
People'd call, say: Beware, doll! You're bound to fall!
You thought they were all kiddin' you
You used to laugh about
Everybody that was hangin' out
Now you don't talk so loud
Now you don't seem so proud
About having to be scrounging for your next meal


Quando comecei a prestar atenção de fato na letra que estava cantando, me senti estranha. Ironicamente, quase tudo se encaixava.

How does it feel?
How does it feel?
To be without a home?
Like a complete unknown?
Like a rolling stone?


Eu não tinha mesmo um lar. Ao meu redor, só o apartamento mofado e exíguo que alugava.
E tinha um passado que me impedia de buscar algo melhor. Eu poderia ligar para o meu pai e falar a verdade sobre o apartamento, mas isso significaria abrir mão de toda a independência que eu conquistara quando dera as costas e partira para Londres. Eu estaria dando à minha mãe a vantagem. Ela estaria certa, mais uma vez. Eu seria só uma menina sonhadora.

You've gone to the finest school, all right, miss lonely
But you know you only used to get juiced in it
Nobody has ever taught you how to live out on the street
And now you're gonna have to get used to it
You said you'd never compromise
With the mystery tramp, but now you realize
He's not selling any alibis
As you stare into the vacuum of his eyes
And saying: Do you want to make a deal?


Então eu percebi que talvez fosse melhor desligar todos esses pensamentos. Focar de verdade na música. Me preparar para estar naquelas músicas quando fosse tocá-las no Foy’s Royce.
Cantei os versos seguintes tentando me manter distante, mas a música só me puxava mais para perto.

You never turned around to see the frowns on the jugglers and the clowns
When they all did tricks for you
You never understood that it ain't no good
You shouldn't let other people get your kicks for you
You used to ride on the chrome horse with your diplomat
Who carried on his shoulder a siamese cat
Ain't it hard when you discover that
He really wasn't where it's at
After he took from you everything he could steal


Quando chegasse a hora, no Foy’s Royce, eu não precisaria estar na música. Eu seria a música. Em seu estado mais puro.

Princess on the steeple and all the pretty people
They're all drinkin', thinkin' that they got it made
Exchangin' all precious gifts, but you better take a diamond ring
You better pawn it, babe!
You used to be so amused
At napoleon in rags and the language that he used
Go to him now, he calls you, you can't refuse
When you ain't got nothing you got nothing to lose
You're invisible now, you got no secrets to conceal


***

Dias depois, completamente perdida no meio de um monte de roupas sem graça e há poucas horas da minha primeira apresentação como cantora fixa do Foy’s Royce, eu me sentia enjoada de tanta ansiedade.
Eu tinha feito apresentações em bares antes de me mudar para Londres. Tinha cantado em festas, mas nunca como uma cantora. Só como “alguém que cantava”, se é que isso faz sentido.
Depois de muito hesitar, escolhi meu clássico vestido preto, meia-calça e botas, e consegui completar o visual com um sobretudo xadrez que comprara num brechó no dia anterior.
Inacreditavelmente, eu parecia respeitável.
Guardei o violão no estojo e peguei meu celular para checar uma última vez. Não tinha nenhuma mensagem.
Jake estava trabalhando intensamente nos dias anteriores, como já esperava. Os materiais de divulgação de sua nova turnê estavam a todo vapor e, a cada dia, ele se apresentava em rádios ou programas de televisão, ou canais no Youtube…
Era muita coisa, e era um pouco ingênuo acreditar que ele teria tempo para me assistir no Foy’s.
Tínhamos nos falado pouco nos últimos dias, e não tínhamos nos visto nenhuma vez. No entanto, nada parecia ter mudado em relação aos meus sentimentos.
Eu queria vê-lo. A cada minuto de cada dia. E cada mensagem que trocávamos era um pequeno alívio, mas nunca o suficiente.
Estar apaixonada era, ao mesmo tempo, aventuroso e cansativo. Eu não conseguia viver o momento, mas apenas esperar o que viria a seguir. Um pouco idiota.
Guardei o celular na bolsa carteiro, pendurei o estojo do violão nas costas e parti.
Tudo bem se ele não tivesse tempo para ir. Não era culpa dele. Eu — e meu coração apaixonado — esperaria a próxima chance.

***


May e Matthew estavam no bar quando cheguei, com um rapaz alto que provavelmente era funcionário do bar.
Como se me conhecesse a vida inteira, May me puxou para um abraço, saltitante de empolgação enquanto tagarelava sobre como esperava que fosse minha apresentação.
Os clientes provavelmente chegariam a qualquer minuto, então subi para passar o som brevemente antes de começar.
Minhas mãos formigavam de nervosismo, e eu provavelmente erraria alguns acordes por causa disso.
Sentada no banquinho de madeira em cima do palco, com tantas coisas lutando por um espaço na minha mente, eu só conseguia pensar em uma coisa.
Eu queria que minha mãe visse. Queria que ela visse e sentisse orgulho.
Mas eu sabia que isso não aconteceria. Ela nunca sentiria orgulho de quem eu era. Não enquanto eu não fosse quem ela gostaria que eu fosse. E eu não estava disposta a ser.
Senti o nó subindo pela minha garganta, e interrompi a nota que estava cantando no meio, fingindo estar satisfeita. May e o pai não pareceram perceber nada.
Eles ainda ajeitavam algumas coisas atrás do balcão e nas mesas, mas os clientes já começavam a chegar, aos poucos.
Meu horário oficial começaria às oito e meia, e eu ainda tinha 30 minutos até lá.
— E aí? — o rapaz alto perguntou, subindo no palco e parando logo ao meu lado. — Está ansiosa?
Eu assenti, dando um sorriso nervoso.
— Não fique. Tenho certeza que você vai se sair muito bem. — ele sorriu com gentileza. Não consegui evitar olhar para ele com dúvida. — Minha irmã não conseguia parar de te elogiar. — ele explicou, dando de ombros.
— Sua irmã…? A May? — às vezes eu podia ser um pouco lenta.
Ele assentiu.
— A maluquinha do cabelo rosa. — ele apontou para ela, que respondeu mostrando a língua.
Depois de saber dos fatos, realmente fazia sentido. Eles se pareciam bastante.
— Meu nome é Michael. — ele disse, esticando a mão para me cumprimentar.
.
— Ótimo nome. — Michael sorriu.
Ele se parecia com o pai, apesar de ser um pouco mais alto, e tinha os mesmos cabelos loiros de May, exceto pelas mechas rosa, obviamente.
— Então… Bem… Eu vou te deixar ensaiar mais um pouco. — ele disse, sorrindo outra vez. Que cara sorridente. — Boa sorte.
— Obrigada. — eu assenti, voltando ao meu violão.

***


Às oito e meia em ponto, o bar já estava lotado. Todas as cadeiras e banquinhos estavam ocupados, e eu sabia que era hora de começar.
E não hesitei.
Like a Rolling Stone foi a primeira, seguida por Down by the River, do Neil Young.

Be on my side
I'll be on your side
Baby
There is no reason
For you to hide
It's so hard for me
Staying here all alone
When you could be
Taking me for a ride


Eu tinha acabado de começar quando o vi.
Jake estava parado pouco à frente da porta, assistindo de longe, já que não tinha nenhum lugar disponível. Com ele, Jane e os garotos da banda, parecendo um pouco surpresos demais.

Yeah, she could drag me
Over the rainbow
Send me away
Down by the river
I shot my baby
Down by the river
Dead, oh, shot her dead

Be on my side
I'll be on your side
Baby
There is no reason
For you to hide
It's so hard for me
Staying here all alone
When you could be
Taking me for a ride


Jake percebeu que estava olhando para ele e acenou discretamente.
Eu queria parar de cantar, descer do palco e correr até ele.
Estupidamente, alguns dias distante tinham me feito sentir saudade.

Yeah, she could drag me
Over the rainbow
Send me away
Down by the river
I shot my baby
Down by the river
Dead, oh, shot her dead


Eu ainda precisava cantar mais uma música antes de terminar, então uma ideia um pouco maluca — e ousada demais — me veio à mente.

Come, come on a ride,
I’ll take you through the stars, space and time
Words won’t mean a thing,
‘cause there’ll be no words where we’re going


Jake reconheceu a música nos primeiros acordes, antes mesmo de que eu começasse a cantar.
Ele sorriu, e os rapazes da banda começaram a mexer com ele, empurrando-o de brincadeira, até Jane mandá-los parar.
Eu sorri também.

In your sleep, in my dreams
Well, I’m crawling through the haze,
I’ve been dreaming for days out long

Be more true out linking,
Where the blue skies go so make a mistake.
Dream, mine all alone
That in the heading smoke all I do is blow


Cantei o resto da música olhando para todos que estavam ali, buscando uma conexão com cada um, o que não foi difícil. Todos olhavam para o palco, ainda que conversassem um pouco entre si.
Eu estava feliz, e isso era mais que o suficiente.
Apoiei o violão no banquinho enquanto descia do palco, sob alguns — bons — pares de aplausos.
Quando cheguei até ele, instintivamente nos abraçamos.
— Obrigado. — Jake disse, assim que nos separamos.
— Pelo quê?
— Por melhorar minha música. — ele sorriu, brincando.
Fiz uma careta.
— Achei que você não conseguiria vir. — comentei.
— Também achei.
— Mas demos um jeito, ou ele ia ficar muito insatisfeito. — Jane disse, aproximando-se de nós dois. — A propósito, parabéns, . Você é ótima. — ela me deu um abraço carinhoso e um sorriso gentil.
! — ouvi a voz de Michael atrás de mim. — Estávamos te procurando. — ele disse, um pouco ofegante. May estava logo atrás dele. — Queremos saber se você quer beber alguma coisa com a gente.
Você quer saber. — May cutucou, fazendo uma careta rebelde. — Ele quer saber, .
Logo ao lado, Tom pigarreou e tossiu propositalmente. Eu me virei para olhar para eles.
Jack, Tom e Jane não podiam ostentar expressões mais chocadas, mas a de Jake estava completamente neutra.
— Se o convite se estender a todos nós. — eu respondi, sorrindo, e puxando Jake para perto.
Michael abriu a boca, surpreso.
— Ah! Ah… Então sim, claro. Claro que sim. — ele deu de ombros. May parecia emburrada enquanto seguíamos para o balcão do bar, onde pegou algumas cervejas para nós.
Jake tentava conter um sorriso, mas eu sabia como ele se sentia, e isso era bom.
— Você está bem? — perguntei, só para provocar.
— Estou ótimo. — ele respondeu, ainda segurando minha mão, e levantando as duas entrelaçadas.
Para quebrar um pouco o gelo, Jack e Tom puxaram assunto com May e Michael, enquanto Jane digitava freneticamente no celular.
— Senti sua falta. — Jake disse, olhando para baixo, como se estivesse envergonhado.
— Sentiu? — ele assentiu. — Também senti. Saudade.
— O quê? — Jake questionou, sem entender a palavra em português.
— Saudade. — repeti. — Quer dizer que senti muito sua falta.
Ele assentiu, compreendendo.
— Saudade. — repetiu. Eu assenti, sorrindo.
— Meninos. — Jane interrompeu. — Vamos embora? Temos compromisso amanhã cedo, e não quero ninguém de ressaca.
Jack e Tom concordaram.
— Quer uma carona, ? — ela perguntou. — Estamos com o Robin.
Eu concordei também, e subi para buscar meu violão.
— Ei, . — era Michael. — Sinto muito por… Agora há pouco. Eu não sabia.
Dei de ombros.
— Tudo bem. Não foi nada. — ele assentiu e desceu do palco. — Eu também não sabia. — murmurei, brincando comigo mesma enquanto descia com o estojo do violão nas costas.
Robin já esperava por nós do lado de fora, e formamos uma fila para ocupar os sete lugares restantes.
Como exatamente era possível que eles sempre estivessem com os carros certos nos momentos oportunos?
— Robin, vamos deixar a em casa. — Jane disse. — Tenho certeza que você sabe o endereço.
Senti meu rosto corar com o comentário.
Toda a viagem foi em silêncio, exceto por alguns comentários ligeiramente bêbados de Jack e Tom, e comentários de Robin sobre o trânsito.
Quando chegamos, soltei o cinto e abri a porta.
Jake desceu atrás de mim, atravessando a rua até a porta do meu prédio.
— Obrigada por ter ido. — eu disse, olhando para ele, que me devolveu um sorriso fraco. — Significou muito para mim.
— Para mim também. — Jake respondeu, segurando minha mão. — Ainda vamos estar assim quando eu voltar? — ele perguntou.
Eu ri.
— Se você quiser. — respondi.
Ele assentiu.
— Sim. De preferência. — disse, me puxando para um beijo.
O beijo pode ter durado alguns segundos ou uma eternidade, porque eu não era capaz de me localizar no tempo.
Quando nos afastamos, ele ainda me abraçava pela cintura.
— Então espere por mim. — Jake disse, lentamente me soltando.
— Eu vou. — respondi, selando nossos lábios uma última vez antes de correr para dentro do prédio, sem olhar para trás, porque eu sabia que o veria de novo.


Capítulo 7

Take a piece of my heart
And make it all your own
So when we are apart
You'll never be alone

Never be Alone — Shawn Mendes




Eu precisava admitir. Era estranho estar sem Jake.
No entanto, este pensamento sozinho era capaz de me assustar.
Eu tinha acabado de sair de um relacionamento de anos, em que eu fora extremamente acomodada e dependente. Tudo que eu menos queria no mundo era que isso se repetisse. Mesmo que as coisas fossem diferentes com Jake, e que eu me sentisse como toda protagonista de romance adolescente — com frio na barriga, nas nuvens, etc.
Um pouco mais de duas semanas depois de que ele viajara para o início da turnê, aceitei um convite de May para almoçar em um restaurante brasileiro que acabara de inaugurar.
Vesti jeans e camiseta com um par de All Star que pedia — implorava — para ter um fim em sua vida útil. Mas eu não pretendia descartá-lo. Não antes da sola soltar do restante do sapato.
Quando cheguei, vários minutos de viagem de trem depois, May já estava na porta.
— Oi! — ela exclamou, anulando a distância entre nós para me dar um abraço. Os cabelos loiros e rosa estavam presos em dois coques laterais, com alguns fios soltos, fazendo-a parecer algum personagem de desenho animado. — Está ansiosa? Pela comida. — ela explicou.
Dei uma boa olhada no restaurante.
Tinha uma fachada elegante, mas marcante, e um logotipo estiloso em verde e amarelo. O cheiro podia ser sentido desde fora, completamente atraente e intrigante.
Meu estômago roncou.
— Acho que isso responde tudo. — May disse, e caímos na gargalhada. — Eu nunca comi comida brasileira, então, se você puder me explicar tudo, eu vou adorar.
Eu ri, pegando o cardápio em cima da mesa e começando a narrar e explicar cada prato.
Hum… Acho que vou escolher uma fijoadan. E… mendaioca, com certeza. Também vou querer a coisa de arroz com carne seca e… bolenio de bacalau.
Eu gargalhei da pronúncia dela, e ela riu comigo, um pouco envergonhada. May era uma figura.
Chamamos o garçom, que se aproximou de nós falando português.
— Boa tarde. Sejam bem-vindas!
— Oi! Obrigada. — respondi, sorrindo para ele.
— Brasileiras? — ele perguntou, apontando para nós.
— Só eu.
— Que ótimo! Seja muito bem-vinda. Meu nome é Felipe. Minha mãe é a dona. — ele disse, apontando a mulher de cabelos pretos curtos atrás do balcão. Ela acenou. — O que vão querer hoje?
— Ela quer uma feijoada, uma porção de mandioca, arroz carreteiro e bolinho de bacalhau. Eu quero só a feijoada. — respondi.
Felipe gargalhou.
— Você não vai se arrepender! — ele disse, em inglês, para May.
Ela sorriu para ele.
— Obrigada!
Depois que ele saiu, ela se virou para mim.
— Que gato! — suspirou. — São todos supergostosos assim no Brasil? — May perguntou, empolgada.
— Depende do seu ponto de vista! — gargalhei.
Ela deu um tapinha no ar.
— Besteira! Felipe é meu ponto de vista. — ela se virou até o balcão, seu olhar encontrando o do garçom, e deu um tchauzinho antes de se voltar a mim. — Mas me conta… Você tá pegando o Jake Bugg?
Senti meu rosto queimar de vergonha. Que tipo de pergunta era aquela? E que tipo de resposta eu deveria dar?
Dei de ombros, tentando fingir costume.
— Depende do seu ponto de vista. — provoquei. May fez uma careta. — Não sei… Talvez eu saiba quando ele voltar.
— Você é muito corajosa! — ela exclamou. — Eu nunca faria isso!
Fiz uma careta, tentando entender sobre o que ela estava falando.
— Namorar um famoso. Um famoso do tipo que sai em turnê. — May explicou. — É suicida! Tipo assim… Ele sai em turnê. Vai para todo lugar que existe, conhece todo tipo de gente que existe… Ele conhece todo tipo de garota que existe. O que me garantiria que eu sou tão especial a ponto de não ter minha linda cabecinha enfeitada com um par de chifres colossal?
Senti uma pontada no estômago enquanto ela falava. Quase um completo enjôo. Uma reviravolta das boas. Minha avó chamaria carinhosamente de “revertério”.
Eu poderia também chamar de insegurança.
Tudo que May falava depois disso começou a passar direto pelos meus ouvidos. Não processei sequer uma palavra. Nem mesmo quando os pratos chegaram e ela atacou a comida como um leão selvagem atacando um cervo.
O que me garantiria que eu era tão especial a ponto de não ter minha “linda cabecinha” enfeitada com um par de chifres colossal?


***



May me deixou em casa depois do almoço, ainda tagarelando o suficiente para não perceber que eu estava completamente dispersa, longe demais daquela conversa.
Entrei no meu apartamento desejando que aquele sentimento horrível fosse embora logo, mas ele se apossou de mim durante o resto do dia.
Mesmo enquanto eu afinava o violão e ensaiava as músicas para a apresentação seguinte no Foy’s Royce, ou enquanto pendurava todas as roupas que jaziam espalhadas pelo apartamento… Nada me distraía o suficiente.
O fato de não ter nenhuma mensagem de Jake no celular me deixava ainda mais tensa.
Quais eram as chances, afinal?
Quando ele voltasse, eu seria águas passadas, não seria?
Olhei a tela do celular outra vez, batalhando comigo mesma por algum controle. Eu não ia mandar mensagem. Não ia.
Bloqueei o celular outra vez e respirei fundo.
Precisava de ar puro, não o ar enclausurado e mofado do apartamento. Mas sair não era uma boa ideia, porque a garoa fina que aparecera no começo da tarde já ameaçava se tornar uma verdadeira chuva torrencial.
Eu estava presa. No meu minúsculo e deprimente apartamento. Com meu crescente e absurdo ciúme, e minha grandiosa insegurança.
Não ajudou muito quando, quase meia hora depois, a energia elétrica caiu e fiquei largada no escuro e no frio.
Senti vontade de chorar, mas segurei.
Que se dane, pensei. Não sou feita de açúcar.
Peguei um casaco impermeável vermelho no armário e meu guarda-chuva — também vermelho, me deixando num visual perfeito de Po, dos Teletubbies — e saí do apartamento, enfrentando a chuva para lugar nenhum.
As calçadas ficavam extremamente escorregadias na chuva e, só até sair da frente do prédio, escorreguei e quase caí umas cinco vezes, mas segui firme, como se tudo isso estivesse nos meus planos.
Na rua, as pessoas corriam de um lado para o outro, cobrindo, inutilmente, as cabeças com bolsas e pastas de couro, olhando para mim como se eu fosse louca.
Até que ponto elas estariam certas?
Tive a resposta quando, menos de 15 minutos depois de sair de casa, meu guarda-chuva quebrou, voando sua capa para longe demais para que eu pudesse buscar, e eu continuei andando, apanhando das gotas geladas de chuva.
Inesperadamente, ouvi uma buzina, mas ignorei completamente. Eu não era a única pessoa na rua. E ninguém, absolutamente ninguém poderia aparecer para me salvar.
! — eita porra.
Me virei imediatamente para o meio da rua.
Em um Cadillac Eldorado vermelho, Michael, o irmão de May, acenava para mim do banco do motorista, dirigindo muito devagar.
— Você tá querendo se matar? — ele berrou. — Vem, entra aqui. Sai dessa chuva, pelo amor de Deus!
— Vai molhar todo o seu carro! — gritei de volta.
— Já está molhando! — Michael gritou, apontando o vidro aberto. — Meus bancos são de couro, !
Eu gargalhei. Pela frase e pela situação toda.
Corri até o outro lado, abrindo a porta do passageiro e entrando o mais rápido possível.
Michael imediatamente fechou os vidros.
— Você é maluca. — ele afirmou, depois desviou o olhar do caminho por um instante, apenas o suficiente para sorrir para mim e balançar a cabeça.
— Sinto muito. — respondi, mas dando de ombros.
Eu era maluca mesmo. E estava com muito frio.
— Você está bem? — Michael perguntou. — Tremendo muito.
— Morrendo de frio. — expliquei.
— Maluca. — ele continuava balançando a cabeça. — Estava indo para onde? Salvar a vida de alguém? — ele brincou.
Mostrei a língua, no gesto mais infantil possível.
— Tomar um ar. — respondi.
Michael gargalhou. Ele tinha uma risada contagiante.
— Tomar uma água, não é? — provocou, ainda rindo. — Quer tomar um café? — ele perguntou, apontando uma cafeteria que começava a encher, com refugiados da chuva.
Eu assenti.
Ele sinalizou e estacionou o carro na última vaga disponível, depois descemos correndo para entrar na cafeteria.
Uma garota de cabelos ruivos se aproximou de nós, sorrindo mais que o necessário para Michael.
— O que posso trazer para vocês?
— Um espresso. Grande, por favor. — respondi.
— O mesmo que ela. — Michael respondeu.
A garçonete sorriu ainda mais para ele antes de dar meia volta e se apoiar no balcão para repassar o pedido.
A esta altura, a cafeteria já estava lotada, e os recém-chegados estavam prestes a sair no tapa por uma mesa e uma xícara de café.
Por sorte, a garçonete voltou rápido e entregou o café de Michael e, depois, o meu. Eu sorri para ela, tentando indicar que era um terreno disponível para ela tentar, mas ela não pareceu perceber.
Ela estava certa. Michael era realmente bonito. No entanto, eu não poderia ligar menos para isso.
Bebi um gole do meu café, agradecendo mentalmente por aquele pouquinho de calor. Meus membros pareciam prestes a congelar, e eu tinha certeza que meu sangue tinha sido substituído por água gélida de chuva.
— Para onde estava indo? — Michael perguntou, curioso. Dei de ombros. — Aconteceu alguma coisa? Para você precisar tomar um ar com essa chuva violenta caindo. — ele explicou.
Suspirei.
— Na verdade, não… Mas sabe quando parece que estamos presos na nossa própria mente?
Michael assentiu.
— Sei, sim. Não conseguimos escapar de pensamentos que não deveríamos ter. — ele disse, olhando fixamente para mim, seus dedos caminhando lentamente em direção aos meus.
Senti meu rosto arder quando entendi o que ele queria dizer.
Não precisava ser nenhuma especialista ou supergênio para saber que Michael se sentia atraído por mim, e que não pretendia disfarçar.
Mas fingi não perceber nada. Apenas afastei minha mão, segurando a xícara de café entre as duas, e assentindo enquanto desviava o olhar para as vidraças, por onde a chuva escorria.
— Sinto muito, . — Michael disse, seguindo meu olhar até que se encontrasse com o seu. — Eu gosto de você. Você pode falar qualquer coisa, inclusive que eu nem te conheço direito, ou que aquele cara existe. Isso é verdade, sim. Mas não me incapacita.
Não consegui dizer absolutamente nada. Estava atônita. Isso nunca tinha acontecido comigo.
— Então… Quer mais um café? — Michael perguntou, apontando com a cabeça para o balcão.
Suspirei, ligeiramente aliviada por não ter que prolongar mais aquele assunto.
— Não, obrigada. Quero uma carona para casa, se não se importar.
Michael riu e balançou a cabeça, levantando-se de sua cadeira enquanto rodava a chave do carro entre os dedos.
— Você é durona, . Muito durona. — ele comentou, ainda rindo. — Meio maluca também. Mas vou deixar você entrar no meu carro de novo.
Eu sorri para ele, seguindo-o de volta para o carro.
Permanecemos em silêncio durante todo o caminho, até Michael parar bem em frente ao ponto onde me encontrou um pouco antes.
— Você mora em qual deles? — perguntou, se referindo aos prédios, todos muito parecidos.
— Aquele ali. — apontei meu prédio, e ele dirigiu alguns metros até lá, parando em frente ao portão.
— Durma bem, . — Michael disse, assim que abri a porta do carona. — Talvez sonhe comigo.
Desci do carro, procurando manter o mínimo de contato visual possível até estar longe o suficiente para dizer algum agradecimento genérico.
No entanto, assim que pisei do lado de fora, um barulho estrondoso reverberou por toda a rua.
O susto foi tão grande que tropecei no meio-fio, caindo para cima do carro de Michael.
— O que aconteceu? — ele perguntou, abrindo a porta do motorista e descendo correndo até mim.
Algumas pessoas apareciam correndo, assustadas, e eu ainda não tinha a menor ideia do que estava acontecendo.
Michael me ajudou a me manter em pé novamente, e saiu andando na direção de onde o barulho viera.
Permaneci imóvel, basicamente quase me cagando de medo, até que ele voltasse.
— Um poste caiu. Os bombeiros estão chegando, a rua vai ser interditada.
Meus olhos se arregalaram.
— Alguém se machucou? — perguntei, tentando inutilmente enxergar alguma coisa contra a chuva e da distância em que estava.
— Não, não. Teve um engarrafamento ali atrás, mas ninguém se machucou. — ele suspirou. — Não tenho a menor ideia de como isso é possível, mas ninguém se machucou.
— Ainda bem. — agradeci mentalmente. Um acidente do tipo é sempre cruel.
— Mas temos um problema. — Michael observou.
Franzi uma sobrancelha, esperando algum outro acontecimento catastrófico.
— Está tudo bloqueado. Não tenho como ir embora.
Puta que pariu., pensei. Agora tenho que abrigar o cara que deu em cima de mim o dia todo.
— Você pode ficar até abrirem o trânsito outra vez.
O problema maior era que eu não tinha a menor ideia de quando isso seria e, só de imaginar toda a situação, eu já estava tensa e constrangida.


Jake —



Eu deixei o palco pouco depois da meia noite, e precisei lutar contra o impulso de ligar para assim que voltei para o camarim.
Tive que me conter, porque, muito provavelmente, estava dormindo. Não era muito a cara dela ficar acordada durante a madrugada, olhando o teto e vendo as horas passarem diante de si.
Ela fazia sentido no universo, o que não era minha realidade. Eu podia estar naquele palco e em outros milhares, mas ainda me sentia como se não pertencesse a nenhum propósito.
Talvez por isso meu coração batesse mais forte, minhas mãos suassem e minhas pernas formigassem perto dela. Talvez fosse, além da garota mais incrível que já conheci na vida, o meu grande propósito.
— Ei, pombinho. — Jane bateu na porta entreaberta. — Está pronto? — ela olhou para mim, e percebeu o celular na minha mão. — Jake, se você quer ligar, para de ser idiota e liga.
— Está tarde. — respondi, guardando o celular no bolso.
— E daí? Seu interesse segue um cronograma de horário? — ela ergueu a sobrancelha, sinalizando todo seu sarcasmo. — Liga. — Jane disse, dando as costas e indo embora.
Peguei o celular outra vez, e voltei a encará-lo, quase apavorado.
Dei de ombros, buscando qualquer mísera coragem que em mim habitasse, selecionei o contato de e apertei para ligar.
Chamou uma, duas, três vezes. Mas, quando ela atendeu, não estava com voz de sono.
— Jake?
Suspirei, buscando alguma coisa para dizer, mas, de repente, eu estava mudo, quase catatônico. Nenhuma palavra saía.
— Jake? — ela repetiu.
— Oi. — finalmente consegui responder. — Sinto muito por ligar agora, é só que…
— Não tem problema. — ela adiantou. — Não tem problema nenhum. — suspirou brevemente antes de continuar. — Como você está? Como está indo a turnê?
— Está bem… Estou bem. Eu só… Queria saber de você.
, onde eu deixo a toalha? — a voz masculina soou do outro lado da ligação e, no mesmo instante, meu estômago pareceu se revirar dentro de mim. Fiquei paralisado, apenas semiconsciente, com inúmeras possibilidades transitando em minha mente. Quem era aquele cara? O que ele estava fazendo na casa dela? Por que ele precisava de uma toalha?
Senti meu próprio rosto empalidecer, minha boca secar e meus olhos permanecerem arregalados em profundo choque.
Eu era um idiota. Deus do céu. Eu era o maior idiota de todos. O que tinha na minha cabeça?
— Jake? — a voz de me chamava, mas eu não conseguia articular nada para dizer.
Sentir ciúmes era uma coisa completamente nova, e tinha acontecido do jeito mais extremo de todos.
Fiz a coisa mais sensata que consegui pensar no momento. Desliguei a ligação e o celular e joguei-o o mais longe possível, no outro sofá do camarim.
No mesmo instante, Jack bateu na porta, abrindo-a em seguida.
— Temos que ir, cara.
Eu apenas assenti.
— Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou.
Balancei a cabeça, ainda cem por cento incapaz de falar qualquer coisa, apenas pegando o aparelho de volta no sofá e seguindo Jack para irmos embora.


***


Não sei se me ligou, porque deixei o celular desligado abandonado no banco do carro, como se fosse uma bomba. O que, de certa maneira, era.
Se Jane ou os caras falaram qualquer coisa comigo durante o caminho, também não sei, porque minha cabeça estava um turbilhão e não conseguia me concentrar em qualquer outra coisa.
Desci do carro antes de todo mundo, subindo para o quarto sozinho, ligeiramente consciente de que os três já deviam estar fofocando sobre mim àquela altura, mas não conseguia realmente me importar com isso.
Tranquei as duas portas do quarto, impedindo que algum deles tentasse entrar em seguida, e me joguei na cama, ainda um pouco catatônico.
A voz daquele cara não conseguia sair da minha cabeça, quase como se tivesse se enraizado no meu cérebro, reverberando e repetindo constantemente.
Precisei ficar ali, completamente imóvel e em silêncio, pelo que deve e pode ter sido uma eternidade, até me levantar, ir para o banheiro, arrancar as roupas suadas do show e me enfiar embaixo do chuveiro.
Me senti uma garotinha de filme adolescente, deixando a água quente cair por bem mais tempo do que o necessário, absorto no som das gotas e, ocasionalmente, repassando os acontecimentos anteriores.
tinha outro cara? Apesar de não fazer sentido nenhum, era uma possibilidade. Não nos conhecíamos há tanto tempo assim, e ela podia ter seguido em frente radicalmente depois do término com o namorado.
A ideia me deixava enjoado. Era mesmo possível? Como ela poderia estar saindo com outra pessoa? Quem seria essa pessoa, se ela estava sempre ensaiando, se encontrando comigo ou tocando na rua e no bar?
De repente me lembrei do cara no bar, convidando-a para beber. O olhar dele para ela… A voz dele.
Era ele. O cara no telefone era o cara do bar.
A conclusão foi uma reviravolta assustadora. Ela tinha se encontrado com ele depois. Ela tocava no bar, ele estava sempre lá. O que poderia ter acontecido? O que ela poderia ter sentido e, principalmente, o que eu poderia ter perdido?
Precisei ficar ruminando essas perguntas por muito tempo, então desliguei o chuveiro, me sequei e vesti o roupão do hotel, provavelmente usado por milhares de estranhos antes de mim e, sabe Deus como fora higienizado, sem me importar com essa questão, porque não conseguia me importar com nada.
Me joguei na cama outra vez, jogando o edredom por cima de mim, e encarando o teto.
Depois de algum tempo, resolvi ligar o celular de novo.
Sim. tinha ligado. Duas vezes.
Quase três horas já haviam se passado, e me perguntei se o cara do bar ainda estava com ela.
Eu não tinha certeza de nada. Principalmente se seria capaz disso.
De repente, tive uma constatação que me atingiu como um soco.
Peguei o celular de novo — eu estava me tornando cada vez mais dependente daquele pedaço metálico de merda — e liguei para Jane.
Ela me atendeu com voz de sono, irritada e curiosa.
— O que foi? — perguntou. Quase pude visualizar completamente a cena: ela esfregando os olhos, olhando o horário na tela do celular, cem por cento puta por ter sido acordada.
— Quando é o último show?
— O quê?
— Jane, quando é o último show? — eu fizera as contas mentalmente, mas não podia confiar completamente no meu próprio senso.
— Em três dias. Por quê?
— Porque eu preciso resolver uma coisa. — respondi, desligando a ligação.


Capítulo 8 - What I Want

'Cause what I want
And what I need
Has now become the same thing
You've been offering.
As days go by,
I've finally become what you want me to be.

What I Want — Slash




Se eu pudesse voar, voaria até a superfície do sol e morreria queimada por lá.
Porque esse é meu nível de estupidez. O nível de quem consegue perder o cara por quem está apaixonada na primeira oportunidade.
Ele não retornou minhas ligações, mas desisti depois da segunda. Talvez se eu tivesse ligado mais vezes…
Precisei dar um tapa na minha própria testa para interromper de novo o ciclo de pensamentos que estão me matando desde a noite anterior.
Felizmente, Michael, a causa de toda a merda que escorreu sobre a minha vida nas últimas horas, fora embora durante a madrugada, quando conseguiram liberar um desvio para os carros.
Pelo menos um pouco de noção ele tinha.
Por pior que tudo parecesse, eu ainda tinha que ensaiar para o próximo show e, se possível, sair para tocar na rua. O dinheiro do contrato no bar me garantia alguma estabilidade, mas eu ainda precisava de visibilidade. Precisava ser ouvida por pessoas reais, vivendo suas vidas reais.
E que não fossem tão ferradas quanto a minha.
E eu precisava desabafar também, mas simplesmente não tinha com quem.
A coisa mais próxima de uma amiga que tinha era May, mas falar com ela sobre o que acontecera estava fora de questão. Como eu poderia dizer que o irmão dela tinha, com a inexistência de uma palavra melhor, fodido tudo que estava dando certo na minha vida?
Eu simplesmente não podia.
Escondi as olheiras com um pouco de corretivo e hidratei os lábios antes de pegar o estojo do violão e partir para a rua.
Acabei caminhando sem rumo, sem a menor ideia de onde iria parar, até dar de cara com um parquinho.
Crianças brincavam animadamente, enquanto alguns pais se misturavam ou se perdiam completamente com seus celulares.
Era uma boa oportunidade.
Talvez a energia das crianças conseguisse restituir um pouco da minha, que parecia ter sugada para fora do meu corpo pelo próprio Drácula.
Me sentei em um banco vazio, tirei o violão do estojo e comecei a dedilhar.

If I got locked away
And we lost it all today
Tell me honestly
Would you still love me the same
If I showed you my flaws
If I couldn't be strong
Tell me honestly
Would you still love me the same?


Algumas crianças pararam para olhar, mas depois voltaram para seus brinquedos favoritos.
A quem eu poderia culpar?
Eu mesma não parecia tão empolgada, mas perdida na letra da música, tentando buscá-lo e perguntar tudo que estava não-dito.

Right about now
If I judge for life
Bae, would you stay by my side
Or is ya going to say good-bye
Can you tell me right now
If I couldn't buy you the fancy things in life
Shawty would it be alright
C'mon show me that you are down

Now tell me would you really ride for me
(Would you really ride for me)
Baby tell me would you die for me
(Tell me would you die for me)
Would you spend your whole life with me
Would you be there to always hold me down


Minha tentativa de improvisar um rap suave no meu tom finalmente atraiu alguns olhares dos adultos, inclusive de uma mulher carregando um bebê em um sling e segurando a mão de uma garotinha.
As duas pararam logo à minha frente, prestando atenção no que eu cantava.
Eu sorri para elas antes de continuar.

Tell me would you really cry for me
(Would you really cry for me)
Baby don't lie to me (baby don't lie to me)
If I didn't have anything
I want to know would you stick around


A verdade era que eu não tinha nada para oferecer. Nada que valesse a pena. E ele devia saber disso.
Ele não iria voltar. Não para mim.
Ele provavelmente já não o faria, mas a voz de Michael e a frase fora de sentido o haviam espantado para sempre. Eu sabia.

If I got locked away
And we lost it all today
Tell me honestly
Would you still love me the same
If I showed you my flaws
If I couldn't be strong
Tell me honestly
Would you still love me the same?


Senti meus olhos arderem enquanto cantava, e minha voz se tornar ligeiramente embargada.
Me diz, Jake., implorei. Você ainda me amaria?
Era estúpido, e eu sabia. Nós nunca tínhamos chegado a este ponto. E nunca chegaríamos.
A garotinha se soltou da mãe, e sentou ao meu lado no banco, encarando o violão, encantada.
Ela tirou do bolso algumas moedinhas e, sorrindo de orelha a orelha, depositou-as no estojo aos meus pés.
Sua atitude pareceu incentivar outras criancinhas, que encheram o estojo do meu violão de moedinhas.
Eu não poderia estar mais contente. Mesmo se aquilo tudo fosse, de fato, muito dinheiro.
— O que você quer ouvir? — perguntei à garotinha sentada ao meu lado.
Ela sorriu outra vez.
— One Direction! — respondeu, sem hesitar.
Tive que me esforçar para não fazer uma careta.
Não era muito meu tipo, mas eu até conhecia algumas coisas.

Your hand fits in mine
Like it's made just for me
But bear this in mind
It was meant to be
And I'm joining up the dots
With the freckles on your cheeks
And it all makes sense to me


Infelizmente, a primeira que me veio em mente também me lembrava dele.
Aparentemente, qualquer merda lembraria.
Mas a voz doce e infantil da garotinha cantando comigo conseguiu me distrair o suficiente.
E era tudo que eu queria.
Distração.

I know you've never loved
The crinkles by your eyes
When you smile
You've never loved
Your stomach or your thighs
The dimples in your back
At the bottom of your spine
But I'll love them endlessly


Outra menina se junto à minha pequena plateia, mas esta era um pouco mais velha. Ela mantinha as mãos nos bolsos da calça jeans, enquanto olhava para mim fixamente.

I won't let these little things
Slip out of my mouth
But if I do
It's you
Oh, it's you
They add up to
I'm in love with you
And all these little things


Eu estou, Jake.
, pensei. Estou apaixonada por tudo em você que pode me fazer me apaixonar.

You can't go to bed
Without a cup of tea
And maybe that's the reason
That you talk in your sleep
And all those conversations
Are the secrets that I keep
Though it makes no sense to me

I know you've never loved
The sound of your voice on tape
You never want to know how much you weigh
You still have to squeeze into your jeans
But you're perfect to me


A garota com as mãos nos bolsos colocou algumas notas no estojo do violão e se afastou um pouco, dando espaço para outra pré-adolescente se aproximar, com seu celular apontado para mim.

I won't let these little things
Slip out of my mouth
But if it's true
It's you
It's you
They add up to
I'm in love with you
And all these little things


Terminei a música antes do esperado, já que o restante da letra me fugia à mente.
O dinheiro no estojo não era grande coisa, mas o sorriso orgulhoso da garotinha ao meu lado era.
— Você canta bem. — ela disse, em toda sua sinceridade infantil, pulando do banco.
— E conseguiu manter essa criaturinha sentada por mais que 10 segundos. — a mãe disse, sorrindo para mim. — E meu bebê dormiu. Obrigada. — ela colocou gentilmente mais alguns euros no meu estojo antes de pegar a filha pela mão outra vez e partir.
Coisa que eu fiz logo em seguida.
Enquanto eu caminhava de volta para o apartamento, todas as minhas últimas decisões me apareciam como fantasmas na mente.
Eu tinha feito certo? Em deixar tudo para trás e ir para Londres com as minhas economias bobas, tentar a sorte, completamente sozinha, numa vida que em nada lembrava a minha?
Eu tinha feito certo? Ao terminar com meu namorado da vida inteira e, logo depois, cair nos braços de um cantor famoso que nunca mais voltaria por mim?
Eu tinha feito certo? Ao me deixar me apaixonar, tão inesperada e intensamente, a ponto de estar voltando para casa chorando e ruminando todos os últimos passos que me levaram àquele lugar?
Eu simplesmente não sabia dizer.
Não sabia de mais nada.


Jake —



Assim que meus pés tocaram o chão fora do carro, senti meu estômago se revirar. Idiota.
Eu precisava aceitar, mas simplesmente não sabia como.
Por que caralhos aquela garota tinha que aparecer na minha vida? Por que ela tinha que aparecer e bagunçar tudo?
Eu nunca fui muito organizado, mas sua chegada virou meu mundo de cabeça para baixo.
É difícil enxergar quando se está ao contrário. E é difícil se manter firme quando seus pés não estão no chão.
Estupidamente, olhei para meus tênis enquanto caminhava. Nada faz sentido., pensei. Nada faz sentido, .
Pensar no nome dela me deixou mais nervoso. Como se não bastassem todos os outros sintomas, eu passara a me sentir trêmulo, repentinamente alheio ao mundo ao meu redor, como se minha mente se concentrasse em uma única coisa, distante de mim, uma única pessoa.
Eu queria andar devagar e prolongar o suspense, mas também queria chegar mais rápido e acabar com tudo de vez.
Mas gente nunca sabe o tempo que tem… Meu pai me dissera isso uma vez.
Eu atravesso a rua, a passos mais largos que o normal, decidido a optar pelo segundo caminho, e paro em frente ao prédio.
Parece monstruoso e amedrontador, e eu dou um passo para trás assim que aperto o botão da campainha.
Espero alguns instantes.
Nada.
Aperto outra vez.
Nada.
E mais uma.
Nada. De novo.
Percebo que, simplesmente, não considerei que isso poderia acontecer.
Quantas coisas podiam mudar em alguns dias? Eu não sabia, e também não sabia como descobrir.
Eu poderia tirar o celular do bolso e ligar, mas isso definitivamente não estava nos meus planos.
Eu não queria resolver tudo por telefone. Não queria que um áudio resumisse tudo.
Precisava lidar com a minha decisão, frente a frente, como um homem adulto e independente. Mas eu não me sentia assim.
Hesitante, apertei a campainha outra vez.
Ainda nada.
Algumas pessoas passaram caminhando pela calçada, olhando para mim com curiosidade. Parado ali, indeciso, confuso, com as mãos nos bolsos e parecendo estupidamente deslocado, eu era mesmo uma atração curiosa.
Eu precisava ir embora.
Suspirei, frustrado, e dei meia volta, pronto para partir outra vez, sem resolver o problema que estava me matando por dentro.
— Jake?
Puta que pariu.
Fechei os olhos, apertando-os com força, esperando que algum tipo de mágica me deixasse invisível.
Eu achava que estava preparado. Realmente achava que tinha analisado a situação por completo, que tinha total controle… Mas eu estava errado. Outra vez.
Abri os olhos outra vez, percebendo que a mágica não tinha acontecido, e que eu ainda estava ali, parado inexplicavelmente, parecendo uma estátua feita por um aluno da quinta série.
Eu era uma piada.
Ela chamou outra vez.
Finalmente tomei coragem e olhei de volta para ela.
estava parada há uns quatro passos de mim, segurando, em cada mão, uma sacola com livros.
— Jake, o que… — ela também não sabia o que falar.
Pelo menos não estávamos tão desequilibrados na gangorra.
Abri a boca para responder, mas não consegui.
Puta merda. Eu tinha desaprendido a falar. Simples assim. Tinha regredido uns bons anos na minha própria evolução como ser humano.
Mais um pouco disso e eu voltaria para o carro engatinhando.
continuou olhando para mim, confusa, segurando com tanta força as sacolas com os livros que os nós de seus dedos ficaram assustadoramente brancos.
E eu, assustadoramente assistindo-a, completamente mudo.
, eu… — olhando para o rosto dela, um pouco do nervosismo borbulhante em meu estômago se dissolveu. Eu não tinha muito o que fazer. — Eu sei que é ridículo, e você provavelmente não vai entender nada, mas preciso que você me escute. Está bem? Só um instante.
Ela assentiu, apertando os lábios em sinal de nervosismo.
— Estou apaixonado por você, . — as palavras pularam para fora, quase contra a minha vontade. Provavelmente soaram trôpegas e desengonçadas, mas saíram. — Estou apaixonado por você desde o instante em que eu te vi, em que eu te ouvi. Estupidamente, talvez tenha sido antes disso e...
me olhava, boquiaberta. Seus olhos estavam marejados me encarando.
— Jake, eu… Puta que pariu, o meu cérebro parou de funcionar, eu não sei o que dizer e… Você tá falando sério? — eu assenti, confuso com sua reação. O que eu esperava, aliás?
De repente, ela sorriu.
O sorriso mais lindo que eu já tinha visto na vida. O sorriso mais irresistível de todos.
Eu não pensei, apenas encurtei a distância de quatro passos entre nós, e a puxei para mim, pela cintura, envolvendo-a entre meus braços, desejando que ela nunca pudesse partir.
As sacolas que ela carregava caíram no chão, no exato instante em que meus lábios tocaram os dela.
Foi como a primeira vez. No corredor do hotel, destruído depois de uma trágica — e alérgica — noite, encantado, ofuscado, pela existência daquela garota. Meus lábios formigando como se tocassem estrelas, e eu sabia que era verdade.
Nós nos beijamos até precisarmos nos afastar o suficiente para respirar outra vez. Eu olhei para ela, o rosto inteiro corado, mas os lábios e o nariz vibrando de vermelho, e não consegui evitar sorrir. Ela simplesmente arrancava tudo de mim. Sem nem precisar pedir.
— Jake?
Hum? — murmurei, fechando os olhos, o rosto ainda colado no dela, aproveitando sua presença, a proximidade, seu perfume.
— Estou apaixonada por você. — ela disse, as duas mãos nos meus braços, apertando, mas com delicadeza. — Desde o primeiro instante. — ela sorriu, levantando o rosto o suficiente para me olhar diretamente. — Talvez… Desde antes.
Balancei a cabeça, incrédulo com a maneira como aquela garota, a garota por quem meu coração estava quase explodindo, beirava a perfeição.
Ela deslizou suas mãos de meus braços até meu pescoço, envolvendo-o com sutileza, e matando a mínima distância entre nós, encostando seus lábios nos meus outra vez.
Nosso beijo foi menos aflito, mais delicado, e provavelmente acabou cedo demais.
— Eu achava que você me odiava… Que você tinha entendido tudo errado e… Achasse que o Michael e eu…
. — eu a interrompi. — Eu não tinha nada a ver com isso… Não tinha o direito de achar nada. Não tinha. E é por isso que estou aqui. — ela me encarou, a confusão voltando em seu olhar. — Eu quero ter tudo a ver com isso. E foda-se Michael, foda-se qualquer outra pessoa, eu não ligo. Só uma coisa me importa agora, e só você pode resolver para mim.
— O quê? — ela perguntou, franzindo o cenho.
— A questão é a seguinte…Você quer ser minha namorada?


Capítulo 9 - Brand New Start

There ain't no lover like the one I've got
Ain't no lover like the one I've got
She and I have a brand new start
I gotta give all my love


(Brand new start — Little Joy)



Quantos palavrões você conhece?
Sério. É uma pergunta séria.
Eu conheço um monte. E todos eles passaram pela minha cabeça depois da pergunta.
Um segundo — ou 10 anos — podia muito bem ter se passado, mas eu ainda estava imóvel, incrédula, absolutamente chocada.
Tantas coisas me haviam ocorrido, mas nenhuma delas envolvia Jake parado em frente ao meu portão, perguntando se eu queria ser sua namorada.
É claro que eu queria! Caramba.
? — ele me chamou de volta para a Terra. Jake estava vermelho e parecia um pouco… nervoso? — Você não…?
— Quero! — finalmente respondi, um pouco eufórica demais. — Claro que quero!
Jake soltou o ar pesadamente, avançando um passo em minha direção.
Ficamos em silêncio por um tempo, completamente incapazes de processar o que estava acontecendo e fazer qualquer coisa.
O que se faz quando, literalmente, acaba de começar um namoro?
Meu pensamento foi interrompido pelo celular de Jake tocando em seu bolso.
O clima estranho foi pausado enquanto ele tirava o aparelho do bolso e atendia.
— Jane? — ele ficou em silêncio por um tempo, depois franziu o cenho e olhou para mim. — Tem certeza? — mais silêncio. Que porra tá acontecendo? — Tudo bem. Vou checar. — e desligou, virando-se de volta para mim em seguida. — Você já foi pra Barcelona?

***


Sim. Eu já tinha ido a Barcelona.
Mas não. Eu nunca tinha ido a Barcelona com meu namorado famoso. Numa turnê. Nem nos meus sonhos.
— Você pode ficar com a Jane nos bastidores. — Jake explicou. — E não vai ser tão cansativo. São duas noites em Sussex e depois três noites em Barcelona. Estaremos de volta na terça de manhã.
Eu precisava reconhecer: era mesmo uma oferta tentadora. Mas também uma armadilha perigosa. Eu podia aparecer como a namorada do cantor. E só isso. E não era o que eu queria ser.
— O que me diz? — Jake perguntou, parecendo estranhamente ansioso. — ?
— Ah, Jake… Me desculpe. Não acho que seja uma boa ideia.
Ele me encarou, com choque nos olhos.
— Vai ser como se… Eu estivesse me aproveitando.
Ele sorriu. Uma expressão marota e engraçada.
— Exatamente! Se aproveitando de alguns dias com seu namorado.
Não consegui evitar sorrir também.
— E, além do mais, a gente pode colocar você para trabalhar. Sempre tem algum equipamento para carregar, um cabo para trocar… — ele continuava me encarando com uma sobrancelha erguida em desafio.
— Tá… Vamos considerar que eu aceite. — ele sorriu de novo. — Mas… E o bar? Eu tenho um trabalho.
Jake fez uma careta.
— Talvez uma folga? Você estará de volta para a próxima apresentação. Será que você não pode falar com o…
— Matthew.
Jake assentiu.
— Está bem. Vou perguntar. Mas não se acostume.
Ele passou um braço pela minha cintura e me puxou para um beijo.
Com isso eu podia me acostumar. Em algum momento. Porque, por enquanto, era sempre como pequenas explosões cósmicas dentro de mim.


Jake —


— Espera aí. — Tom disse, fazendo uma cara de susto e surpresa muito exagerada. — Repete para mim. Acho que não entendi direito. Você o quê?
Rolei os olhos e fiz questão de mostrar o dedo do meio para o celular.
Do outro lado da tela, numa inédita chamada de vídeo, estavam Tom, Jack e Jane. Esta última não parecia muito surpresa, mas animada.
— Ele a pediu em namoro! — Jack entoou, repetindo a frase várias vezes. — E ela aceitou. — completou.
— Sempre achei que ela fosse um pouco maluquinha mesmo. — Tom brincou, dando de ombros.
— Vocês são ridículos. Maluco sou eu, por ser amigo de vocês. Já devia ter chutado os dois.
— Contrato! — Jack berrou.
Nós todos rimos.
— Estamos felizes por você, pequeno Jake. É quase como ver um filho finalmente crescendo. — Tom levou as mãos ao coração teatralmente. — Me sinto mãe.
Balancei a cabeça.
vai para Barcelona com a gente. — anunciei.
Os dois trocaram olhares, boquiabertos.
— Como é que é?
Ao fundo, Jane sorria.
— E, se vocês ficarem fazendo piadinha, vou chutar vocês para fora do carro.
— Ah, não. Nem vem. Nós vamos fazer piadinha. É para isso que estamos aqui.
— Tenho certeza que está em uma das cláusulas do contrato, inclusive. — Jack observou.
— Vou desligar. A gente se fala depois. Vou ajudar a com as malas.
— Vai tirar as roupas dela?
— Vou fingir que não ouvi. — disse, apertando o botão para interromper a chamada.
apareceu de volta na porta.
— Tudo pronto. — ela disse. — Mas estou morrendo de fome.
Olhei o horário na tela do celular.
— O Robin chega em meia hora. — disse. — Você tem ovos?
assentiu, abrindo a geladeira.
— E bacon. — observei. — Perfeito. Não precisamos de mais nada.
Ela deu de ombros e soltou uma gargalhada.
E eu servi ovos mexidos e bacon para a minha namorada.

***


Partimos para Sussex e chegamos pouco antes de escurecer.
Robin nos deixou em um restaurante italiano, onde nos encontramos com Jane, Jack e Tom.
Os ovos com bacon já tinham perdido o efeito e, para variar, estávamos mortos de fome.
Jane sorriu exageradamente quando chegamos, e eu tinha quase certeza de que ela estava a um pequeno passo de bater palmas e dar pulinhos de alegria.
Ter uma namorada não era grande coisa.
Mas ter a como namorada, de fato, era grande coisa.
Ela cumprimentou os três, timidamente, e nos sentamos lado a lado.
— Que bom que você veio, . — Jane disse, sorrindo para ela. — Estamos muito felizes. Você vai se divertir, tenho certeza.
— Obrigada, Jane. Sério. Pela oportunidade. E pelo convite.
Jane ampliou seu sorriso ainda mais.
— Com você aqui, provavelmente o Jake vai fazer os melhores shows da carreira dele. — Tom disse. Eu o fuzilei com o olhar.
corou.
— Bom… O que você quer comer? — perguntei a ela, tentando desviar o assunto.
Mas isso fez com que Jane suspirasse apaixonadamente em um barulhinho fofo, que arrancou gargalhadas de todos à mesa.
conseguia mudar tudo ao seu redor.
Começando pela minha vida inteira.


Capítulo 10 - A Thing Called Love

You can't see it with your eyes, hold it in your hands
Like the rules that govern our land
Strong enough to rule the heart of every man, this thing called love


(A Thing Called Love — Johnny Cash)




Os shows em Sussex já foram um aperitivo incrível do que era estar em turnê.
Como a maioria dos fãs de Jake estava realmente na Inglaterra, precisei me esconder em alguns momentos, me esgueirando pelos corredores enquanto ele tirava fotos com adolescentes que poderiam jogar bosta em mim, mesmo que ele não fosse o Justin Bieber.
Fora essas situações, tudo correu perfeitamente bem.
Eu acabei mesmo carregando equipamentos e trocando dois ou três cabos nas duas noites e, durante o dia, ajudava na passagem de som.
Ainda no primeiro dia, aprendera tudo que podia sobre amplificadores, e colocara as lições em prática rapidamente.
Meu pai ligou no segundo dia. Contei a ele sobre Jake. Ele quis saber se minha mãe já sabia. E me contou que estavam se separando.
Não consegui processar a informação de imediato. Talvez no futuro.
Jake deu uma entrevista antes do segundo show. Eu percebi que ele nunca sorria durante as entrevistas. Aparecia sempre misterioso e lindo nas imagens, tocando violão como um anjo. Completamente irretocável, quase perfeito. Ainda que um pouco distante do meu Jake.
O meu Jake.
Vivi anos sem ele. Anos vazios. Nada seria o mesmo depois de conhecê-lo.
Ele não tinha nada de extraordinário, além do único fato de ser quem ele era. Eu o amava. Amava quem ele era.
Não haveria tempestades, não existiria neblina, não existiria tristeza. Não se ele estivesse comigo. A partir daquele momento, era tudo sobre ele.

***


Chegamos em Barcelona de madrugada.
Vimos o sol nascer pela janela de um táxi dirigido por um brasileiro.
Tomamos café — aguado e fraco — na única cafeteria que encontramos aberta.
Ainda que Jane, Jack e Tom estivessem conosco, a presença de Jake era a única coisa que eu podia notar.
Pegamos o mesmo táxi na ida para o hotel.
Apesar do cansaço — nenhum de nós tinha dormido desde o segundo show em Sussex —, Jake e eu não fomos nos deitar. Não imediatamente.
Nos sentamos à beira da piscina do hotel e ficamos ali completamente em silêncio, por mais de uma hora. Minha cabeça apoiada em seu ombro, minha coluna envolta por seu abraço carinhoso e com cheiro amadeirado. Meu coração palpitando louca e apaixonadamente.
Depois, finalmente, fomos dormir.
Ainda que separados por uma parede, meu corpo todo parecia sentir falta dele. E minha mente parecia saber. Já que, assim que peguei no sono, comecei a sonhar com ele.

***


Dormimos pouco.
Se quiséssemos aproveitar a oportunidade e dar um passeio pelas ruas coloridas de Barcelona, não podíamos nos dar o luxo de dormir demais.
E valia a pena. Com toda a certeza do mundo. Valia a pena.
Almoçamos em um restaurante perto do Museu Nacional d’Art de Catalunya, e entramos com o primeiro grupo.
Nenhum de nós entendia muito da parte técnica, mas tudo era lindo. O próprio museu era arte.
Jake pegou minha mão e andamos assim pelos corredores, parando ocasionalmente por mais tempo em frente a algumas obras de arte.
— Ela se parece com você. — ele disse, apontando para uma lady representada sobre uma das telas.
Seu vestido carmim se estendia atrás de si, despontando no movimento enquanto ela aparentava caminhar. Ela olhava para nós por sobre o ombro, e um sorriso discreto se formava em seus lábios rosados. Ela era bonita demais para se parecer comigo, então eu só ri.
— O que é engraçado? — Jake perguntou, sorrindo também. Apenas dei de ombros e balancei a cabeça. — Você está legal? — ele de repente parou à minha frente, segurando minhas duas mãos entre as suas.
— Meus pais estão se separando. — respondi, tentando parecer pouco afetada com a frase enquanto a deixo sair e tomar forma no ar.
Jake fica mudo. É claro que ele não sabe o que dizer. Senti-me mal por ter compartilhado, mas a sensação ruim adormeceu quando ele me puxou para um abraço.
— Sinto muito. — Jake disse. — Não sei o que dizer além disso…
— Não se preocupe. — respondi. — Foi melhor assim. É só que… Eu não sei, parece que isso tem tanto a ver comigo.
Ele assente.
— Mas não tem. Está bem? Não tem a ver com você.
O sentimento de ter destruído o passeio tomou conta de mim quando reparei em seu olhar pesaroso.
— Desculpe… Eu não queria ter acabado com o clima.
— Jamais. — ele disse, dando um beijo na minha testa e voltando a me puxar pela mão pelo corredor. — Você é o clima, . E, além do mais, essas obras são todas lindas, mas prefiro olhar para você.
Eu comecei a rir.
— Cafona demais? — ele perguntou, ruborizando de repente.
— Sim. — respondi, sorrindo e puxando-o pela gola da camisa. — E eu amei. — aproximei meus lábios aos dele por um pequeno instante.
— Bom… Poderia ser bem pior. — ele disse. Eu assenti. Poderia ser bem pior. Seria bem pior. Se ele não estivesse comigo.
Deixamos o museu depois de pouco menos de três horas. Então, sem planos, andamos pelas ruas, observando as pessoas, as construções…
Compramos cappuccinos e nos sentamos para beber na calçada de paralelepípedos da cafeteria, envoltos pelo clima preguiçosamente perfeito.
Um garoto se aproximou vendendo rosas, e Jake comprou todas para mim. Não consegui fazer nada além de rir e beijá-lo centenas de vezes.
Tudo que parece clichê e brega é incrivelmente lindo quando é com ele, observei.
Nada no mundo faz sentido, exceto Jake. Exceto tudo que estou sentindo. Tudo que ele me faz sentir.

Voltamos para o hotel assim que anoiteceu.
Jane ficou boquiaberta quando viu o montante de rosas que eu trazia comigo.
— Quando foi que você virou um príncipe? — ela perguntou, apertando as bochechas de Jake.
Ela não era muito mais velha que ele, mas, às vezes, fazia parecer ser sua mãe.
Jake fez uma careta, mas ficou todo vermelho.
— Acho melhor vocês dois começarem a se arrumar para o jantar. — Jane disse, cortando o assunto para evitar mais constrangimento. — , trouxe uma coisinha para você vestir. Espero que não se importe. — ela me esticou uma caixa preta. — Achei que combinasse com seus olhos. Vai ficar linda nele.
Eu sorri para ela, grata e sem palavras, surpresa pelo gesto.
Eu poderia muito bem dizer que não precisava, mas precisava, sim. Eu não tinha nada a altura de um jantar com os empresários que moviam a carreira de Jake.
Jane me dera um vestido verde. Um lindo vestido verde evasê, com decote quadrado e saia pregada.
Eu nem precisava vesti-lo para saber que serviria, mas não tinha ideia de como ficaria até que estivesse com ele no corpo.
Jake não estava muito diferente do visual de sempre: preto, da cabeça aos tornozelos. Os sapatos eram azuis.
— Eu odeio essa camisa. — ele confidenciou, surgindo atrás de mim no espelho enquanto arrumava as mangas.
— Você fica lindo nela. — respondi, sorrindo para ele.
— Não como você nesse vestido. — ele disse, me puxando pela cintura.
— Eu posso te emprestar, se você quiser. — brinquei.
— Consigo pensar em maneiras melhores de tirar ele de você. — assim que o disse, Jake corou. Ficou tão vermelho que parecia prestes a explodir.
Comecei a rir.
— A gente tem que ir. — disse, empurrando-o porta afora. — Mas isso fica para depois.
No escuro, não pude ver se Jake ficou mais vermelho. Mas, com toda certeza, eu sim.

***


O jantar era em outro hotel. Na cobertura reservada, cercada por velas e rodeada por inúmeros garçons, servindo a todo instante.
A maioria dos convidados era composta por homens. Todos acima dos 40, acompanhados de esposas lindas e sem expressão, ou por garotas mais jovens e mais altas, igualmente sem expressão. Olhando para as primeiras, eu podia ver um pouco da minha mãe.
Em poucos minutos, Jake foi interceptado por três homens mais velhos, incluindo o que estava com ele na primeira vez em que o vi. Um homem naturalmente engraçado, com óculos escuros apoiados entre os cabelos cuidadosamente despenteados.
— Tente não odiar todo mundo. — Tom disse, observando meu olhar e me entregando uma taça de champagne. — Parece difícil, mas é melhor rir das caras deles.
Realmente. Todo mundo ali tinha um pouco de graça.
Tom, Jack e eu procuramos por nossa mesa e nos sentamos, ligeiramente isolados de todos os acontecimentos principais.
Jane conversava com um homem cujos botões da camisa ameaçavam estourar e voar para todos os lados, com uma mão sedutoramente apoiada sobre o ombro dele. Provável patrocinador. Provável, não. Com aquele sorriso, Jane certamente conseguiria.
Durante as horas seguintes, Jake não teve mais que alguns minutos disponíveis para passar com a gente.
Conhecendo-o como eu arriscava dizer que conhecia, sabia que ele não podia estar odiando nada mais do que estava odiando aquilo.
Depois do jantar servido por garçonetes altas de terninho e cabelos presos em coques irretocáveis, a esposa de um dos sócios da gravadora anunciou alegremente uma sessão de karaokê beneficente.
— Nós devemos olhar pelas crianças de todo o mundo. Mas devemos, antes de tudo, olhar para as crianças que nos cercam. Aquelas que vivem em abrigos, traumatizadas por acontecimentos demasiadamente dolorosos para serem enfrentados por tão jovens criaturas. Nos divertindo aqui essa noite, faremos doações que mudarão os rumos de tais crianças. — ela sorriu, olhando por todos os cantos, como se sorrisse para cada um dos presentes. Todos sorriam de volta para ela. — Não se envergonhem, meus queridos! E, para estimular que todos aqui tenham seu momento aos holofotes, abrirei eu mesma as apresentações da noite!
Ela gesticulou com braços magros e uma dúzia de homens surgiu empurrando uma imensa plataforma com rodinhas, onde estavam, além de um piano nada discreto, vários instrumentos musicais.
— E não é que isso aqui virou o programa do Faustão? — não pude segurar o pensamento dentro da minha cabeça.
Todos à minha mesa olharam para mim.
— O quê? — Jack perguntou, ao que todos igualmente me encararam esperando por uma resposta.
— Nada. Eu estava dizendo que é lindo. — disfarcei, voltando a encarar a mulher que cochichava alguma coisa ao ouvido do rapaz ao piano.
E ela começou a cantar.
Claro que ela sabia cantar. Aquela era a mulher perfeita. Não dava nem para chutar sua idade. Se ela dissesse 30, qualquer um acreditaria. Se dissesse 205, acreditaria também.
Ela cantou uma canção em italiano, e algumas pessoas levantaram-se, depositando cheques em uma urna de acrílico. Um homem passou um cartão de crédito. De onde surgiu a porra da maquininha?, pensei.
Depois da Mulher Perfeita, outras pessoas se aventuraram em seus “momentos aos holofotes”. Umas tão ruins que a Mulher Perfeita gesticulava delicadamente para diminuírem o áudio do microfone. Outras não aguentavam nem metade de suas canções, e desatavam a rir, por puro efeito do álcool.
Quando a Mulher Perfeita perguntou quem era o próximo, Jane me cutucou.
— É sua vez. — ela disse.
— O quê? Ah, não. Obrigada, mas…
— Que tal a adorável senhorita de verde? — a Mulher Perfeita perguntou, apontando para mim com sua taça de champanhe.
Ai, merda.
Jake sorriu para mim.
— Sim, adorável senhorita de verde. — ele disse. — Vai lá e mostra como faz. — levantou-se e, gentilmente, me ofereceu a mão.
Olhei para ele, incrédula, e balancei a cabeça.
Àquela altura, todos os olhares estavam sobre mim.

Jake —

É claro que ela foi lá e mostrou como se fazia.
Sentou-se sozinha ao piano e, depois de alguns segundos de indecisão, os acordes de Imagine, do John Lennon, começaram a soar pelo salão.

Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today


não precisou cantar mais que a introdução para que os burburinhos e cochichos começassem a soar.
Jane sorriu para mim.
— Eu disse que isso ia acontecer. Ela é puro talento, Jake. E essa é a oportunidade perfeita para verem. Quer dizer, ouvirem.

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace


Três pessoas se levantaram. Pararam em frente à urna, preencheram seus cheques e os depositaram, sorrindo para antes de voltarem a seus assentos.

You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope some day you'll join us
And the world will be as one


Ela estava roubando a cena.
era, como Jane havia dito, talento puro. E é claro que estavam todos ouvindo. Era impossível não perceber.
Também era impossível não perceber que grandes nomes da indústria estavam falando sobre ela.
Ao meu lado, Jane sorria, maravilhada.

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world


Àquela altura, nossa anfitriã estava chorando. E um monte de gente tinha se levantado para deixar seus cheques ou esbanjarem seus cartões de crédito milionários em doações.
Ninguém mais tinha conseguido levar tantas pessoas à urna.

You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will live as one


Quando finalmente encerrou a música e levantou-se do piano, foi aplaudida de pé.
Não tinha o menor espaço para negar.
Aquela garota era música, da cabeça aos pés. Boa música. E eu gostava de ouvir. Porque a amava. Da cabeça aos pés.
Quando ela se levantou, foi abraçada pela anfitriã como uma velha amiga.
parecia em choque. Ela procurou por mim entre a multidão de pessoas aplaudindo e sorriu, ainda que não conseguisse se desfazer do choque em seu rosto.
Quando ela finalmente conseguiu voltar à nossa mesa, tive que me esforçar para não beijá-la.
Jane tinha dito repetidas vezes para que eu não o fizesse. Assim não deixaria muito espaço para que dissessem que qualquer oportunidade surgida depois daquela noite se devia ao fato de que se tratava da minha namorada.
— Aquele último cara colocou um cheque de 70 mil libras! — ela disse, tentando manter o tom de voz baixo. — 70 mil libras. Cacete.
— Você foi maravilhosa. — respondi, de olho no casal que se aproximava de nós, atrás dela. Os anfitriões.
— Que linda voz você tem. — o homem disse, esticando a mão para apresentar-se para . — Mario.
. — ela disse, sorrindo para ele. — Muito obrigada.
— É um prazer conhecê-la, . Espero que me perdoe pela falta de rodeios, mas tenho que perguntar. Na verdade, tenho certeza de que você é uma cantora profissional. E excelente, devo dizer. Mas onde quero chegar é à seguinte questão: conheço seu agente?
arregalou os olhos, boquiaberta.
— Claro que conhece, Mario. — Jane sorriu para ele. — De longa data.
Ele sorriu de volta para ela.
— Mas é claro. Jane River. Mais um de seus talentos inigualáveis.
olhava para mim, incrédula, sem conseguir disfarçar. Balancei a cabeça para ela seguir a onda.
— Eu disse para o Mario que não era a ocasião específica para tratar de negócios. — a esposa disse, sorrindo para todos nós. — Mas também não poderia deixar passar a oportunidade de exaltar um talento tão inegável. Sua voz tocou meu coração como nada o havia feito em muito tempo, . Você não tem apenas talento. Você tem um dom. — ela disse, apertando a mão de entre as suas.
A expressão de choque de se transformou em um sorriso. O sorriso de pura alegria.
— E, se minha esposa aprecia, eu aprecio cem vezes mais. Por isso, e por este não ser o momento adequado, gostaria de convidá-las para uma conversa no meu escritório. Você e sua agente, é claro.
olhou direto para Jane.
— Vai ser um prazer, Mario.
— Então posso ligar para você quando estiver de volta a Londres? — ele perguntou.
Jane assentiu.
— É claro. Fique à vontade. Você tem o meu número. e eu vamos adorar conversar com você.
— Ótimo! — Mario disse, juntando as mãos como se comemorasse.
E devia mesmo.
Porque sua esposa estava certa. não tinha apenas talento. Ela tinha um dom.
E, puta merda, que dom.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Nota da beta: Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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