Última atualização: 29/06/2020

Prólogo

Notícia Urgente:

Às vésperas do que os fãs julgavam ser o início da segunda etapa da turnê de um dos maiores grupos musicais da atualidade, Luke Hemmings (23) deu entrada em uma clínica de reabilitação em Sydney.
O Bronkers Institute, conhecida clínica de reabilitação, recebeu nesta manhã do dia 25 um dos integrantes de 5 Seconds of Summer, Luke Hemmings, acompanhado pelos companheiros de banda.
Conforme o “The Daily Telegraph”, os tratamentos do local onde está internado custam cerca de R$ 350 mil. E segundo um amigo do cantor australiano, ele fez uma chamada de emergência e duas ambulâncias foram enviadas à casa de Luke, onde os paramédicos teriam passado cerca de duas horas em atendimento, na semana passada.
Um dos assessores do cantor confirmou. "Ele quer estar melhor antes da segunda parte da turnê e esse não era o momento. Por isso adiamos todos os show da parte 2.", diz.
Para aumentar as preocupações, nas últimas entrevistas feitas a respeito do próximo álbum da banda, Luke apresentava sinais de oscilações de humor, inclusive faltando a mais recente que seria transmitida ontem no programa “The Graham Norton Show”. No entanto, o real motivo da internação ainda não foi divulgado e embora as especulações sejam problemas com álcool e/ou drogas, nenhuma hipótese foi confirmada.
Os fãs estão em choque e afirmam que Luke era o mais responsável e que nunca o imaginaram nessa situação, mesmo assim toda a internet se mobilizou em apoio ao cantor, mandando mensagens positivas para sua recuperação, e a tag #StayStrongLuke já está nos trending topics do Twitter.
Calum, Michael e Ashton não se pronunciaram a respeito do acontecimento nem pessoalmente e nem pelas redes sociais, mas esperamos que em breve eles esclareçam a situação e confortem os fãs, como sempre fizeram.
A família também não se pronunciou sobre o fato.
 


Capítulo Um

- Isso é ridículo! - Luke reclamou no carro pela quinta vez. - Eu não preciso ser internado. - bufou com os braços cruzados olhando pela janela.
- Você não quis falar com nenhum de nós, agora só nos resta isso ou perderemos o contrato. - Michael deixou claro que estavam de mãos atadas ali.
- Eu poderia simplesmente ir a um médico, ninguém saberia, agora já tem um circo de paparazzi formado aqui. - Luke colocou os óculos de sol se preparando para sair do carro, sem a menor vontade.
- Isso teria que ter acontecido a algum tempo. - Ashton falou a verdade e ganhou um olhar feio de Calum.
- Não adianta nada disso agora, gente. - Michael cortou antes que discutissem ali mesmo. - Nenhum de nós queria isso, mas é nossa situação agora.
Os quatro desceram do carro sem falar nada, por sorte os repórteres e paparazzi não podiam passar do portão e eles puderam entrar sem serem incomodados.
- Deixa que eu cuido disso. - Mike foi até a moça na recepção, os documentos já estavam todos preparados e ele só teve que ler e assinar como responsável.
- É para o seu bem. - foi tudo o que Calum conseguiu dizer ao se despedir de Luke.
- Logo você estará de volta, quem sabe até não compõe algo aqui. - Ashton deu um meio sorriso.
- Nós vamos te visitar sempre. - Mike afirmou enquanto se abraçavam. - Espero você para o meu aniversário. 
- Não faça nenhuma besteira. - foi tudo que Luke disse ao entregar o celular para o amigo.

Uma enfermeira logo apareceu e levou Luke até o quarto que seria dele durante o tempo que permanecesse ali. Não era muito grande, apenas uma cama, uma janela com grades, um guarda-roupa e uma porta que dava acesso a um banheiro simples. Ele não fez questão nem de ouvir o nome da mulher que o acompanhara até ali, apenas gravara a informação de que assim que estivesse pronto ele deveria ir para a área dos consultórios e passar pela primeira sessão de terapia.
Não arrumou nada no quarto, apenas se jogou na cama desejando profunda e repetidamente que aquilo não passasse de um pesadelo. Acabou cochilando por alguns minutos e para a sua infelicidade, constatou que tudo era real. Se levantou sem vontade e saindo pelo corredor fez o caminho inverso até a recepção, pois não fazia ideia de onde ficavam os tais consultórios.
A mesma moça ainda estava lá e explicou que era do outro lado da porta de vidro. Do outro lado havia uma espécie de sala de espera. Vários grupos de cadeiras e na parede lateral quatro portas, numeradas de 1 a 4 e com a plaquinha de “consultório” pendurada em cada uma delas. Como a sala toda estava vazia, Luke se sentou na cadeira mais próxima da parede e apoiou sua cabeça, fechando os olhos em seguida.
- Você deve ser novo. - ele escutou a voz feminina e se assustou ao vê-la sentada ao lado dele quando todos os outros assentos estavam disponíveis. - Nunca te vi por aqui. - não se incomodou com a expressão no rosto dele.
- É porque eu não deveria estar aqui. - Luke disse totalmente convencido daquilo.
- Noventa por cento das pessoas chegam aqui falando isso. - ela comentou com um tom divertido.
- Eu não faço parte dos noventa por cento. - rebateu rabugento.
- Vocês nunca fazem… - ela se levantou e se afastou. - E mesmo assim os encontro na terapia na semana seguinte. - deu de ombros.
- Você tem isso aqui toda semana? - Luke alternou o indicador entre ele mesmo e os consultórios.
- Todos temos. - ela confirmou com a cabeça.
- Então onde está indo? - perguntou um pouco mais alto quando ela passou pela porta de vidro.
- Eu disse que tinha terapia, não disse que era hoje. - ela sorriu e deu as costas para ele, caminhando para longe em seguida.
- Garota estranha… - murmurou para si mesmo e riu ao se lembrar que ele estava em uma clínica psiquiátrica e era assim que todos ali deveriam ser.
- Luke, vamos entrar? - uma voz falou atrás dele e ele se assustou novamente. - Sente-se. - indicou as poltronas e sentou-se na cadeira dela. - Eu sou , sou a psicóloga que vai te acompanhar durante o processo aqui. - e percebendo que ele não falaria nada ela continuou. - Que tal me contar o motivo de estar aqui?
- Não tem motivo, eu não deveria estar aqui. - Luke repetiu pela milésima vez.
- E o que você acha de ficar aqui sem motivo? - ela voltou a encará-lo e ele riu irônico.
- Um absurdo. Não acha? - rolou os olhos, aquilo era ridículo.
- O importante é o que você acha. O que você sentiu enquanto estava vindo para cá? - Luke respirou fundo antes de responder.
- Raiva… Me sinto traído. - no fundo sabia que seus amigos não tinham culpa da situação, mas ainda sim era o que ele sentia.
- E como é se sentir traído? - ela insistiu.
- Péssimo. - respondeu ainda sem emoção.
- E o que mais é péssimo? - Luke sentia que estava dando voltas infinitas em volta de um mesmo toco de madeira.
- Tudo. - respondeu cansado e ficaram os dois em silêncio por algum tempo. Luke não sabia quando tinha começado a sentir que tudo era péssimo, aquilo já tinha se tornado tão comum…
- Luke, como é para você estar aqui, agora, falando comigo? - questionou ajeitando os óculos no rosto.
- Um pouco torturante, para falar a verdade. - se mexeu na poltrona. - Me faz perguntas que parecem simples, mas são difíceis de responder. - suspirou frustrado.
- Por que você acha que é difícil responder? - Luke pensou um pouco antes de responder com um riso fraco.
- Estranhamente não consigo simplesmente responder qualquer coisa da boca para fora estando sentado aqui. - negou com a cabeça para si mesmo.
- Ótimo, a terapia é exatamente para isso! - ela parecia satisfeita com a resposta dele e isso deixou-o confuso. - Não precisa falar da boca para fora. Independente da sua resposta, não estou aqui para julgar ninguém. Nem para falar se o que você fez está certo ou errado. - vendo que Luke não fez menção de interromper ela continuou. - E se não estiver confortável tudo bem, podemos tentar novamente na semana que vem, se você quiser.
- Então você realmente acha que eu preciso ficar aqui? - perguntou claramente frustrado. No fundo acreditava que ela diria que ele não precisava estar ali e que podia sair por aquela porta o mais rápido possível.
- Você acha? Eu estou aqui para escutar a sua versão, não o que os outros falaram. – devolveu o peso da pergunta para ele, estava acostumada com esse tipo de comportamento. Para a maioria dos pacientes era difícil admitir que precisavam de alguma ajuda.
- Mas é por causa dos outros que eu estou aqui. - respondeu com raiva.
- E por que os outros te colocaram aqui, Luke? - ela perguntou fazendo questão de olhar nos olhos dele, que por sua vez desviava sempre o olhar com a sensação de que ela conseguia ver através dele.
- Porque acham que eu estou depressivo. - disse com um tom baixo, quase como se estivesse constrangido por falar aquilo em voz alta. respeitou o espaço dele e só voltou a questioná-lo novamente depois de algum tempo.
- E o que os levou a essa conclusão sobre você?
- Não sei. - Luke deu de ombros optando pela saída mais fácil, ele estava se fechando e percebeu, mas manteve o seu olhar fixo nele e depois de engolir demoradamente voltou a falar. - Eu sei, foi porque eu não quis ir a duas ou três festas.
- E você quer falar sobre isso?
- Não tem o que falar. - respondeu prontamente. - Eu só não estava em clima de festa, então era melhor não ir. - aquilo era bem óbvio, não sabia porque para os amigos era algo tão problemático.
- Uhum. - disse junto com um aceno positivo de cabeça e um silêncio maior que todos os outros se instalou na sala.
- Posso ir? - Luke perguntou procurando por algum relógio na sala e, pela experiência de , ela sabia que era melhor encerrar a sessão por ali.
- Claro. - ela sorriu se levantando e destrancando a porta em seguida. - Te aguardo na próxima semana. Se quiser conversar antes disso, só avisar para alguma das meninas da recepção.
Luke apenas acenou com a cabeça e saiu dali.

- E aí? Como foi? - perguntou assim que todos entraram na casa do namorado, dando um selinho em Mike em seguida.
- Horrível. - Calum respondeu se jogando no sofá. - Vim me perguntando o caminho todo se realmente era necessário.
- Cara, nós temos um contrato, estávamos de mãos atadas. - Ashton se sentou na poltrona ao lado.
- Foda-se o contrato, Ash. - Calum passou a mão com força pelo rosto. - Ele é nosso amigo.
- Calum, o Ash está certo. - falou e todos os olhares se viraram para ela. - Eu sou testemunha de quantas vezes o Michael tentou falar com ele e ajudá-lo de alguma forma e o Luke nunca quis.
- De qualquer forma, se ele não precisar ficar lá vai receber alta e tudo volta ao normal. - Mike não queria ficar repensando aquela decisão.
- Ele não ficou com o celular dele, né? - questionou com uma feição não muito boa, o que fez com que Calum e Michael se empoleirassem ao lado dela tentando ver o que ela via na tela do aparelho dela.
- O que foi? - Ash fez a pergunta que todos queriam já que ela se levantou rapidamente e bloqueou a tela.
- A notícia já se espalhou, está bem pior do que a verdade. - mas a preocupação dela foi em vão já que Mike estava procurando as notícias no próprio celular.
- Eu queria saber de onde saem essas fontes. - riu irônico. - Luke falou que nem viu essa ambulância, que ninguém entrou no apartamento dele. - jogou o celular na mesa de centro.
- Não vale a pena olhar isso. - Ashton fechou os olhos e deixou a cabeça encostar na parede. - Temos que seguir com nossas coisas. Replanejar as datas, para quando ele receber alta não atrasarmos demais.
- É, e temos que fazer um anúncio oficial sobre esse adiamento de turnê, possibilitar o reembolso de quem quiser. - Calum lembrou.
- Vamos organizar isso, fazer uma live até amanhã, no máximo. - Michael conferiu quantos shows seriam adiados no cronograma que tinha salvo no celular. - E antes que me esqueça, quando formos visitá-lo na semana que vem, teremos um encontro com a psicóloga dele.
- Por que isso? - estranhou, Luke não era nenhuma criança.
- Alguma coisa com o fato de que ele não se internou por vontade própria, eu acho. - deu de ombros.

Luke saiu do refeitório rumo ao seu quarto, ou isso era o que queria que os outros pensassem. Na primeira oportunidade virou no corredor que dava acesso à despensa, à sala de limpeza e a uma que parecia um escritório que não era muito usado. Descobrira aquele lugar sem querer na noite anterior, e rapidamente sua mente tinha bolado um plano. O local tinha saídas de ar, então alguma das tubulações deveria passar por ali, já que nenhum dos quartos tinha.
Caminhou o mais silencioso que conseguiu, verificando de tempos em tempos se não estava sendo seguido. Abriu a porta do tal escritório com cuidado e a fechou atrás de si. A claridade que vinha da cortina não era muita, mas era o suficiente para que ele achasse a tubulação que o levaria para fora daquele lugar. Empurrou duas caixas e subiu para que tirasse mais fácil os parafusos e tirasse a grade.
- Se tivesse tentado isso cerca de cinco horas atrás você teria quebrado o recorde. - Luke se assustou e desequilibrou, pulando desajeitadamente das caixas. Acendeu as luzes e a reconheceu.
- Você sempre aparece assim do nada para assustar as pessoas ou é só comigo mesmo? - ele a encarou com a sobrancelha erguida enquanto ela guardava uma pasta de papel em um armário.
- Para começar, eu já estava aqui quando você chegou. Não tenho culpa se não me viu. - deu de ombros. - E segundo, o mundo não gira porque você existe. - sorriu de lado.
- E o que você estava fazendo aqui? - ele continuou com a mesma expressão.
- Não é da sua conta. - deu alguns passos chegando mais perto dele. - E não vai funcionar. - deu dois tapinhas no braço dele e estava com a mão na maçaneta quando ele a puxou de volta para dentro da sala.
- Como sabe? - cruzou os braços ainda com um ar superior e ela começou a rir.
- Porque foi minha tentativa na segunda semana aqui. - confessou e se sentou em uma das caixas. - Sim, o recorde não é meu, infelizmente.
- O que aconteceu com “noventa por cento das pessoas dizem que não deveriam estar aqui”? - ele tentou imitá-la.
- Eu nunca disse que não fazia parte dos noventa por cento. - ela gargalhou da cara incrédula que ele fez. - Até agora você só tirou conclusões erradas sobre mim, talvez seja um sinal para você parar de pensar demais sobre você mesmo e prestar mais atenção nas coisas a sua volta.
- E agora você é psicóloga também? - rolou os olhos tentando disfarçar que a fala dela tinha de fato acertado ele.
- Não passo nem perto. - respondeu e ao perceber que alguém se aproximava ela correu e o puxou para que se escondessem atrás de uma estante cheia de livros.
- Mas o quê? - Luke tentou falar, mas ela tapou a boca dele no instante em que a porta se abriu.
Ouviram alguns passos, os dois seguraram até as respirações, estavam com sorte, pois logo as luzes se apagaram e ouviram o barulho da porta sendo trancada.
- Ótimo, estamos presos. - reclamou olhando feio para ela.
- Acho que o que você queria dizer era “obrigado”. Então, de nada. - sorriu sem mostrar os dentes e, tirando um clipe de um potinho na mesa, ela começou a mexer na fechadura.
- É claro que você sabe arrombar portas com clipe de papel. - resmungou.
- E várias outras coisas. Como já disse, você não me conhece. - e com um clique ela pode girar a maçaneta e depois de olhar e se certificar que não tinha mais ninguém por ali ela saiu logo depois dele.
- Por que não me dedurou? - ele questionou quando entraram num corredor mais movimentado.
- O que ganharia com isso? - Luke deu de ombros. - Além do que eu também estava onde não deveria. - ela o empurrou com o ombro, e sendo muito mais baixa que ele, não fez o efeito que ela esperava.
- Ok, já que temos um o segredo do outro, devemos nos apresentar. - ele estendeu a mão. - Sou Luke. - ela encarou a mão dele e ele estava quase desistindo quando ela sorriu e retribuiu ao aperto de mão.
- , mas pode me chamar de .
Luke não percebeu, mas estava ao final do corredor e deu uma piscadela para , que retribuiu com um sorriso mínimo na direção da psicóloga.
- Sem chances de saber o que você estava fazendo lá? - ele insistiu quando já estavam de volta no refeitório.
- Totalmente. Não sei se posso confiar em você ainda. - ele ponderou as palavras dela, faziam sentido, ele também não confiaria, estava numa clínica psiquiátrica afinal. - Mas você pode ganhar minha confiança me contando qual era o seu plano se alguém entrasse bem na hora que você fosse fugir.
- Diria que estava fugindo de alguém querendo um autógrafo. - respondeu rapidamente, gargalhou.
- Essa é, definitivamente, a pior mentira que já vi alguém contar na vida. - ela enxugou o canto dos olhos.
- Não é mentira! - Luke falou na defensiva e ela o encarou séria.
- E por que alguém ia querer um autógrafo seu? - ela segurou a vontade de rir da cara dele.
- Você não sabe quem eu sou? - ele procurou por algum sinal de que ela estivesse o zoando.
- Luke, oras. Você acabou de se apresentar. - ela riu fraco pegando uma gelatina na bancada. - Talvez você tenha algum problema de memória também. - deu as costas para ele, indo se sentar ou acabaria entregando a verdade.
Era claro que ela sabia quem ele era, sabia desde que o vira entrando lá, mas aquilo estava sendo divertido, afinal ela não via diversão há séculos. Logo ele apareceu com uma gelatina de morango, assim como a dela, em mãos e se sentou na cadeira ao lado.
- A propósito, aquela saída de ventilação é muito alta para pular para o lado de fora, e além disso, os muros estão bem longes, dá o mesmo efeito sair pela porta. - fez uma cara chateada, se solidarizando com a frustração dele.
- Não achei mesmo que daria certo. - Luke confessou. - Mas isso aqui é muito tedioso. Estou aqui há 4 dias e não aguento mais.
- É porque você não sai do seu quarto.
- Anda me espionando, ? - colocou um pouco de gelatina na boca.
- Claramente você tem problemas de memória, já disse que o mundo não gira porque você existe. - colocou o pote vazio de volta na mesa.
- Como sabe que não sai então? - ergueu a sobrancelha novamente.
- Porque não te vi na terapia de grupo ontem, nem nas salas de diversão. - ela deu de ombros simplesmente. - Devia aparecer, tem bastante coisa legal para fazer. Pelo menos ajuda a passar o tempo.
Luke se perdeu em pensamentos e quando voltou a si estava sozinho no refeitório.

Por algum motivo bizarro Luke tinha imaginado que as visitas aconteciam em uma sala específica, quase que como em um presídio, ficou um tanto surpreso quando viu várias pessoas caminhando livremente com os pacientes pelo local.
- Vocês vieram mesmo. - ele disse falsamente surpreso, no fundo ele estava esperando rever os amigos.
- Claro que sim. - Mike foi o primeiro a cumprimentá-lo, sendo seguido por Ash e Cal.
- Não é como se a gente fosse te jogar aqui para sempre, né? - Ashton deixou claro que Luke era importante para eles.
- Até porque nós precisamos de você! - Calum disse o óbvio e Luke riu fraco. - Não existe 5SOS sem você.
- Que interesseiros! - reclamou. - O que aconteceu com se preocupar com o bem-estar do seu amigo?
- Ah, tem isso também. - Calum riu com ele, satisfeito que a tensão entre eles parecia quase inexistente se comparada com o dia da internação.
- É legal aqui? - Ash perguntou se dando conta em seguida que a resposta óbvia seria não. - Na medida do possível. - consertou e Luke deu de ombros.
- Diz a que sim, mas eu não fiz questão de ir em lugar nenhum ainda. Passei quase todos os dias no meu quarto mesmo. - preferiu omitir a tentativa de fuga.
- E quem é ? - Cal perguntou, achando legal que Luke tivesse alguma companhia.
- É a única pessoa que falou comigo aqui. - Luke a procurou com os olhos por perto, mas não a viu. - Achei que ela estivesse aqui.
- Deixa eu adivinhar, ela quis um autógrafo seu. - Ash rolou os olhos como se estivesse cansado daquilo. A maior parte das fãs sempre tinham um interesse enorme por Luke.
- Ela não faz ideia de quem eu seja. - falou e os três o encararam, surpresos.
- Como alguém não sabe quem é você aqui na Austrália? - Calum não acreditava naquilo. - A não ser que ela seja uma idosa… - Mike deu um tapa na nuca de Calum.
- Que nada, ela deve ter a nossa idade. - Luke lembrou que poderia ter perguntado, apesar de que a maioria das mulheres achava aquilo indiscreto.
- Então ela deve estar aqui há um bom tempo. - Ash concluiu e Luke reparou novamente que não sabia sobre isso também.
- Já que você não mexeu essa bunda e nos levou para conhecer nada aqui, vou explorar o local. - Michael foi caminhando pelo corredor em que os visitantes tinham passado mais cedo.
Ele queria mesmo dar uma olhada na clínica, se achasse qualquer coisa muito estranha não hesitaria em tirar o amigo de lá. Ao mesmo tempo queria encontrar atividades que fizessem Luke sair do quarto, caso contrário não via como ele conseguiria melhorar.
Passaram pelos dormitórios e pelo salão onde eram feitas as refeições, que eram os únicos lugares que Luke tinha conhecido até então. Mais a frente tinha uma espécie de biblioteca, porém mais informal e podiam conversar por lá também, ao lado dessa tinha um salão de jogos, puderam ver uma infinidade de jogos nas prateleiras, alguns idosos jogavam xadrez, e três moças jogavam algo com baralho.
Do lado de fora da construção havia um gramado extenso, algumas mesas, e bancos de concreto, árvores espalhadas e ainda sobraria espaço suficiente para meio campo de futebol.
Luke realmente estava surpreso com tudo aquilo, o que falara havia sentido, afinal. Pensando sobre ela, acabou percebendo que não havia a visto em lugar nenhum aquele dia, e Calum, como se pudesse ler os pensamentos dele, fez a pergunta que o estava atormentando desde que o amigo mencionara .
- E a sua amiga?
- Deve estar no quarto dela. - deu de ombros. - Não passamos por ela hora nenhuma.
Calum tentou não demonstrar sua preocupação sobre o amigo estar vendo fantasmas ou criando amigos imaginários, por isso no tempo restante que passaram juntos conversaram sobre coisas banais, apenas para passar o tempo.
- Luke, onde ficam os consultórios? - Mike perguntou quando faziam o caminho para a saída.
- Depois daquela porta ali. - respondeu achando extremamente suspeita a pergunta.
- Eu vou ser honesto com você. - Mike falou apesar das caras de desaprovação de Ashton e Calum. - Nós vamos conversar com a sua psicóloga hoje.
- Por quê? Ela falou alguma coisa? - tentou não parecer preocupado, embora tenha falhado miseravelmente.
- Não, eles me avisaram no dia da internação que isso seria necessário. - Michael explicou. - Mas queremos o mesmo que você, só responderemos o que ela precisar saber.
- Tanto faz. - Luke deu de ombros e em seguida deu as costas aos amigos, ia voltar para o seu quarto, mas ainda pode ouvir Calum.
- Eu avisei que era melhor não falar para ele.



Capítulo Dois

- Fiquem à vontade. - disse ao abrir a porta do consultório para eles.
Calum e Michael dividiram o sofá enquanto Ash se sentou na poltrona. arrastou sua cadeira para que pudesse dar atenção aos três ao mesmo tempo, e assim que abriu a boca foi interrompida por um Calum desesperado.
- Antes de você começar a conversar com a gente, me responde uma coisa. - pediu a ela concordou com a cabeça. - O Luke está conversando mesmo com alguém aqui dentro? Porque ele mencionou uma garota da idade dele, mas só vimos pessoas bem mais velhas aqui hoje e ele não a encontrou em lugar nenhum para nos apresentar. - se explicou e Ash segurou um riso.
A imagem de conversando com ele no dia anterior no corredor logo apareceu na mente de .
- O que ele falou sobre ela? Vocês pediram para ele chamá-la? - indagou diretamente a Calum.
- Só que foi a única pessoa aqui que ele conversou. Não, mas andamos por todos os lados aqui e ele disse que não a viu hoje. E se for um daqueles amigos imaginários que só aparece quando ele está sozinho? - falou apreensivo.
- E só porque ela não estava onde vocês estavam ela foi inventada? O que te leva a achar que ele inventaria uma amiga?
- Eu tenho medo de que esse lugar o deixe pior ao invés de deixá-lo melhor. Nem sei se ele deveria mesmo estar aqui. - Calum externou sua maior preocupação sobre Luke.
- Uhum. - esperou para ver se algum deles falaria mais alguma coisa, e quando o silêncio deixou de ser confortável, retomou. - Então me falem um pouco sobre o motivo de ele estar aqui. O que aconteceu para que tomassem a medida de interná-lo?
- Ele não admite, mas ele está depressivo. Como não consegui fazer nada para ajudá-lo… - Michael resumiu e deixou a conclusão no ar.
- Na verdade tem uma merda de um contrato também. - Ashton achou importante explicar essa parte. - Como saíram notícias falsas sobre abuso de medicamentos e álcool, era isso ou perderíamos o nosso contrato com o resto da turnê.
- Entendo… - fez algumas anotações na prancheta em seu colo e voltou a encará-los. - Michael, você disse que não conseguiu ajudar. - ele concordou com um aceno. - Desde quando vocês percebem esse comportamento da parte dele? E o que é estar depressivo para vocês?
- Acho que ficou mais evidente quando ele parou de querer sair com a gente. - Mike foi o primeiro a falar e Calum concordou com ele.
- Ele era nosso parceiro de bebidas e recusou todos os convites das últimas festas.
- Para mim isso começou um pouco antes. - Ashton falou e todos os olhares foram para ele. - Acho que foi quando a Kiara terminou o namoro que ele começou a se afastar.
- É, mas nós achamos que era algo normal, que ele só precisava de um tempo por causa do término. - Michael explicou. - E estar depressivo, para mim, é não ter mais vontade de fazer as coisas, inclusive faltar aos nossos compromissos.
- É isso aí. - Ashton concordou com Mike e Calum balançou a cabeça concordando com os dois.
- E faz mais ou menos quanto tempo que eles terminaram esse relacionamento? Ele comentou alguma coisa com vocês sobre o término? - voltou a questioná-los. Tudo ali era importante para que ela pudesse entender melhor o que estava se passando com Luke.
- Uns sete ou oito meses, eu acho. - foi Ash quem fez as contas.
- Ele não falou com ninguém sobre. - Michael se lembrou de todas as vezes que tentou conversar com o amigo. - Por isso eu disse que não consegui ajudar. Todas as vezes que tentei falar com ele sobre qualquer assunto remotamente relacionado a isso ele mudava de assunto ou me deixava sozinho.
- Uhum. - fez mais anotações enquanto esperava se mais alguém tinha algo a dizer.
- Quanto tempo ele precisar ficar aqui? - Calum foi quem quebrou o silêncio fazendo a única pergunta que importava para ele.
- Não tenho como precisar isso ainda. - respondeu sincera. - Nós só tivemos uma sessão até agora e ele não se abriu muito. - e percebendo o olhar triste no rosto de Calum ela deu uma esperança, mesmo sabendo que não deveria. - Mas a tendência é que as coisas melhorem nas próximas. A é boa em fazer as pessoas se abrirem, por algum motivo. – sorriu.
- Então ela existe! - Ash afirmou surpreso e Mike riu.
- Sim, a é real. - Cal respirou visivelmente aliviado. - E dependendo do progresso ele pode sair algumas vezes com autorização da clínica e voltar. Não é nada tão rígido assim no caso dele. Luke passou pelo psiquiatra e ele não viu necessidade de medicamento. - todos pareceram bastante aliviados com aquela notícia e ela voltou a sorrir.
se levantou e guardou as anotações feitas, abrindo a porta em seguida.
- Obrigada por terem vindo. - se despediu com um aperto de mão de cada um deles. - E fiquem tranquilos, ele estará bem aqui.

- Ei, aí está você. - Luke disse colocando sua bandeja com o café da manhã na mesa em que estava sentada.
- Oi. - ela disse e logo mordeu uma torrada.
- Não te vi ontem em lugar nenhum. - ele comentou casualmente.
- Você me procurou? - perguntou com a sobrancelha arqueada.
- Na verdade não. - bebeu um pouco de suco. - Meus amigos estavam aqui ontem, queria te apresentar para eles.
- Não estava me sentindo bem. - foi tudo o que ela disse e Luke entendeu que era fim do assunto.
Estavam quase terminando de comer quando ela voltou a falar.
- Vai para a terapia de grupo de hoje? - perguntou quando viu os outros pacientes deixando o refeitório.
- Talvez… - foi vago e deu de ombros. - Acho que não. - foi sincero e ela continuou o encarando.
- Você não pediu nenhum conselho, mas quanto mais rápido você aceitar o funcionamento das coisas aqui, mais rápido você estará livre de tudo. - ela levou a bandeja dela até o balcão e Luke se levantou rápido fazendo o mesmo.
- Não sei se quero falar da minha vida com estranhos. - confessou desviando o olhar do dela.
- Você pode ouvir até se sentir pronto para falar. Ninguém é obrigado a nada. - ela explicou e ele a seguiu mesmo sem ter decidido se queria participar ou não.
- Posso perguntar uma coisa? - permaneceu em silêncio, o qual ele interpretou como uma resposta positiva.
- Você parece saber tanta coisa daqui, há quanto tempo está aqui? - Luke já tinha tido essa impressão em outros momentos, e, partindo do que os amigos lhe falaram, seria bom ele ter alguma companhia pelo tempo que ele precisasse ficar ali.
- Outra hora. - foi tudo que ela sussurrou e vendo que ela se sentara em uma das cadeiras vagas do círculo, Luke se viu obrigado a fazer o mesmo, pois todos ali os encaravam.
- Bom dia! Para quem não me conhece, sou o psicólogo Shane. - Luke evitou o contato visual, não queria ser escolhido para nada. - Alguém quer começar?
- Eu. - uma moça de uns 40 anos levantou o braço. - Minha medicação foi suspensa. - algumas pessoas aplaudiram e ele se sentiu mais deslocado ainda.
- Sorte a sua, aumentaram a minha. - um homem de uns 60 anos resmungou.
- O que aconteceu, Charles? - Shane o incentivou a continuar.
- Não recebi nenhuma visita novamente e tive outro surto. - mostrou a mão enfaixada. - Três filhos e nenhum tem a capacidade de vir ver quem fez tudo por eles.
- Ele deu socos na parede do quarto até abrir a mão. - sussurrou novamente e Luke conteve a sua reação de choque. Fez uma nota mental de nunca contrariá-lo.
À medida que as pessoas foram falando, Luke foi relaxando, em momento algum falaram diretamente com ele e como também não tinha falado nada ele se sentiu mais confortável em estar ali. Pôde perceber que as pessoas ali passavam por problemas variados e era simplesmente normal, sem julgamentos e sem condenações.
Ao final de uma hora, Shane encerrou a terapia em grupo do dia e sem esperar por Luke, ela já estava do lado de fora da sala.
- Aonde você vai? - ele gritou vendo que ela já estava do outro lado do corredor.
- Tenho terapia agora. - deu um tchauzinho para ele e seguiu o caminho.
Luke pensou em procurar por algum livro para passar o tempo, mas leitura nunca tinha sido um hobby e então foi para a sala de jogos. Não tinha percebido no dia anterior, mas havia um controle de quem podia jogar, já que alguns pacientes se descontrolavam quando perdiam e outros eram viciados.
- Ei, garoto. - Luke olhou para trás para ter a certeza de que era com ele que o senhor falava. - Sabe jogar? - apontou para o tabuleiro de xadrez.
- Aprendi a muito tempo, mas não sou bom. - Luke caminhou até o senhor e sorriu sem graça.
- Sente. - indicou a cadeira em frente. - Vamos jogar um pouco.
Luke se sentou e o ajudou a organizar o tabuleiro em seguida, começaram uma partida e mesmo com a vantagem em jogar com as brancas, ele perdeu impressionantemente rápido. Provavelmente teria ficado com raiva, mas ver o sorriso no rosto do senhor por ter ganhado de certa forma o deixou feliz.
Começaram uma segunda partida, agora Luke estava com as pretas e ele até jogava melhor assim. Acabou perdendo novamente, mas tinha sido uma partida melhor. Enquanto reorganizavam as peças ele contou a Luke um pouco sobre a vida dele. Ele tinha 65 anos, e tinha demência senil, o que o fazia esquecer de quase tudo constantemente e por isso a família tinha o levado para lá.
Luke, pela primeira vez, teve vontade de contar coisas sobre a infância dele, coisas em que ele não pensava há um bom tempo. E foi nesse momento que a voz de ecoou em sua mente: talvez seja um sinal para você parar de pensar demais sobre você mesmo e prestar mais atenção nas coisas a sua volta. Ele tinha feito uma pessoa feliz, tinha sido honesto sobre ele mesmo como há muito tempo não era e aquelas sensações eram estranhas, mas boas.

A terapia não tinha sido algo fácil para , o começo do mês de outubro era sempre cruel para ela e por isso ela tinha passado o resto do dia em seu quarto. tinha sugerido que ela aproveitasse a companhia de Luke, já que ela era sempre a mais nova ali, e que ela se divertisse e tentasse não pensar no que a consumia. Por isso ela tinha tomado coragem de sair do quarto e chamá-lo para a sessão de filme daquela noite. Bateu duas vezes na porta, que estava aberta, atraindo o olhar dele que estava em uma revista em quadrinhos de super-heróis.
- Ah, oi. - ele se sentou na cama e passou a mão no cabelo tentando arrumá-lo.
- Lendo quadrinhos? - perguntou surpresa.
- Era a única coisa naquela biblioteca que prendeu minha atenção. - ele riu fraco e ela o acompanhou.
- Hoje é dia de filme, vim saber se você queria ir. - explicou porque tinha ido até ali.
- E qual é o filme?
- Billy Elliot. - respondeu já vendo um ponto de interrogação se formar na cabeça dele. - É um clássico.
- Os 12 macacos também é um clássico, o Clube da Luta também. - e com esses exemplos podia dizer que ele não ia conseguir ver mais do que 30 minutos de filme.
- Sim, e provavelmente seriam gatilho para metade dos pacientes aqui. - imediatamente Luke se lembrou do homem que tinha dado murros na parede.
- Entendi. Me desculpa, mas parece muito chato. - se sentiu um pouco culpado, embora não devesse nada a ela.
- Vamos, a gente ganha a pipoca. Se você não quiser assistir a gente faz outra coisa. - sabia que aquilo podia passar uma impressão totalmente errada para ele, mas ela precisava ocupar a cabeça com alguma coisa.
- Tá… - se deu por vencido e levantou da cama. - Mas me conta sobre o que é o filme. - fechou a porta assim que passou por ela.
- Basicamente um garoto que se apaixona por balé e é ótimo nisso, mas ele é filho de um mineiro que obviamente é totalmente contra. - ela resumiu, já tinha visto algumas vezes e sabia até algumas falas de cor.
- Meu Deus, eu vou sair correndo na primeira cena. - e percebendo o olhar feio de na direção dele, tentou se explicar. - Eu acho que a história deve ser legal, mas , só consigo ver filme de ação.
- Você prometeu que ia tentar, se não conseguir eu saio com você. - ela repetiu.
- Nunca prometi nada. - Luke riu e a empurrou de leve, fazendo-a desequilibrar.
- Cala a boca e vamos pegar a pipoca. - entraram na fila e assim que entraram na sala cada um recebeu um saco de pipoca. - A propósito, isso aqui foi ideia da . - balançou de leve o saquinho.
Os dois se sentaram um pouco mais ao fundo, afinal ela sabia que sairiam dali na primeira oportunidade. O filme não demorou a começar e infelizmente a sala não estava muito cheia, o que dificultava a saída deles. não sabia quanto tempo havia se passado até que o enfermeiro vigia daquela noite finalmente adormecesse e segurou um riso ao ver que de fato Luke estava prestando atenção no filme. Ela o cutucou e pedindo silêncio os dois saíram da sala sorrateiramente, no entanto ela fez um caminho que ele não sabia aonde levaria.
- Anda logo, eu não vou te matar. - ela falou baixo e rolou os olhos.
Luke ainda estava receoso, mas entrou pela porta que ela tinha aberto e depois de andarem um pouco no escuro ele percebeu que estavam do lado de fora da construção.
- Uma das saídas escondidas daqui. - respondeu a pergunta muda no rosto de Luke.
- Como você pode saber tanta coisa? - ele fez a pergunta que inevitavelmente levaria ao assunto que ela ignorou na manhã daquele dia.
- Insônia. - ela riu baixo e eles continuaram andando até um dos bancos de concreto mais afastados.
- Eu estou falando sério! - Luke falou colocando um pouco de pipoca na boca.
- Eu também. - ela manteve o sorriso de lado, mas vendo que ele não ia simplesmente deixar aquilo de lado ela ficou séria. - Posso não responder essa por agora? - ele estava pronto para discordar, até perceber que ela realmente estava falando sério.
- Pode. Mas só se concordar em me contar outras coisas sobre você. - comeu mais pipoca enquanto ela parecia analisá-lo.
- Por quê? - amassou o saquinho já vazio nas mãos dela.
- Porque disse que seria bom eu conhecer alguém aqui. - disse a primeira coisa que veio à sua mente e, para a sua surpresa, ela riu.
- Você é um péssimo mentiroso, só para constar. - ele a olhou indignado. - não falou isso para você, sua sessão ainda é em dois dias.
- Ela falou na primeira sessão. - ele tentou sustentar a mentira, mas o olhar incrédulo dela o fez se entregar. - Tá, ela não falou nada disso. Mas você falou que eu deveria prestar mais atenção à minha volta, então. – abriu os braços deixando claro que estava seguindo o conselho dela.
- E o que você quer saber? - não gostava de falar sobre si mesma, mas ela era a responsável por ele estar ali agora, então o responderia.
- Sei lá. – comeu mais algumas pipocas. - Quantos anos você tem. - Luke falou a coisa mais óbvia que pensou.
- Vinte e seis. E você? - devolveu a pergunta como uma defesa, ele pensaria duas vezes antes de perguntar algo que ele mesmo não quisesse responder. Ou assim ela esperava.
- Vinte e dois. - ele riu. - Você parece mais nova. Falei para os meninos que você devia ser da nossa idade.
- Obrigada, eu acho.
- Você é de Sydney mesmo? - confirmou com a cabeça. - Eu também. - respondeu antes que ela perguntasse. - E o que faz ou fazia antes de vir parar aqui?
- Eu administrava uma fundação de arrecadação para crianças carentes.
- Nossa, que importante. Sempre quis saber como essas coisas funcionavam. - mentiu. - Você fez algum curso específico para isso?
- Fiz faculdade de administração, mas não é um pré-requisito nem nada do tipo. E não tem nada demais. Basicamente eu era responsável por gerenciar as doações e destiná-las às instituições que eram filiadas a nós.
- Vai continuar fazendo isso quando sair daqui? - sabia que a pergunta dele era inocente e que ele não fazia ideia do quanto mexia com ela.
- Provavelmente não, existe muita coisa para testar nessa vida. - ele pareceu satisfeito com a resposta e ela respirou aliviada. Era hora de mudar o foco.
- Sua vez. O que fazia antes de vir parar aqui? - pareceu genuinamente interessada e Luke continuou acreditando que ela não sabia quem ele era.
- Embora você não leve a sério, eu realmente sou músico. - ele contou e continuou o encarando com dúvida. - Não estudei nem nada, se dependesse de mim nem tinha terminado a escola.
- E o que você toca?
- Violão, guitarra e piano. E também componho.
- Impressionante. Não tenho talento para música. - confessou e riu fraco lembrando de quando os pais quiseram que ela aprendesse piano.
- Você podia ver um ensaio nosso algum dia.

A conversa continuou por mais algum tempo até julgar ser o limite para voltarem sem serem descobertos. A noite não tinha sido trágica afinal. Ela tinha se divertido bastante vendo Luke falar de sua música, era claro o quanto ele era apaixonado pelo que fazia. Não tocaram nos motivos de ambos estarem ali, já que nenhum dos dois se sentia confortável o suficiente para aquilo, por enquanto.

- Boa tarde, Luke. - o cumprimentou e fechou a porta assim que ele entrou no consultório. - Como você está hoje?
- Bem. - se sentou na mesma poltrona da sessão anterior.
- E como foi essa semana? - pegou um papel dentro da pasta e uma caneta e ajeitou os óculos, prestando atenção nele.
- Foi diferente de qualquer coisa que eu tinha imaginado. - riu fraco se lembrando dos lugares que tinha se metido com e sem . - Acho que eu estava encarando aqui como uma prisão.
- É?! - estava surpresa. - Me conte mais sobre isso, o que foi que mudou em relação a ser uma prisão?
- Ah. - Luke pensou um pouco no que responder. - Tem várias coisas para fazer, não preciso ficar preso no meu quarto, embora eu passe a maior parte dos dias lá. E também achei que seria julgado, mas parece que ninguém aqui faz ideia de quem eu sou.
- E como você se sente com isso? Com as pessoas não fazendo ideia de quem você é? - Luke precisou de mais um tempo para organizar os pensamentos, sabia que precisava ser honesto consigo mesmo para a terapia funcionar.
- Me incomodou de verdade no começo, porque era algo que eu estava acostumado. Mas de certa forma foi bom também porque me fez pensar como o Luke pessoa e não como Luke artista que eu venho sendo há algum tempo.
- E você quer falar sobre o Luke pessoa? - fez algumas anotações.
- Não sei. – deu de ombros. - É bem estranho, sabe? Às vezes parece que nem sei quem é esse Luke. - confessou pensando no quanto ele deixara ele mesmo de lado. - E falando em coisa estranha, é possível que eu tenha me sentido menos sozinho estando sozinho fisicamente do que quando estava cercado de pessoas? - se sentia confuso ao tentar expressar, mas tinha entendido exatamente o que ele queria dizer.
- Talvez isso se dê porque agora você está tendo um tempo para pensar e saber quem você é. Tanto como pessoa quanto como artista. - percebendo que ele parecia confuso ela continuou. - Às vezes é difícil colocar o pessoal e o profissional no mesmo plano. A tendência é que sempre um se sobressaia. - ele concordou com um aceno. - Você quer falar sobre estar se sentindo menos sozinho? - perguntou quando ele voltou a olhá-la.
- Pode ser… - foi uma resposta vaga, já que ele nem sabia como começar a falar sobre aquilo.
- Quando você começou a se sentir assim? - ajeitou os óculos e percebeu novamente ele desviando o olhar antes de responder.
- Acho que de vez em quando sempre bate essa sensação. Muito tempo longe de casa, convivendo com um círculo pequeno de pessoas dia após dia.
- Uhum. - mostrou que estava acompanhando e ele continuou.
- Mas acho que passou a incomodar mais quando o meu último relacionamento acabou. - coçou a nuca, mostrando certo desconforto.
- Como se deu esse término?
- Ela foi vista em uma festa com outro, como não fui eu que vi, deixei que ela me contasse e ela terminou tudo dizendo que eu amava mais a banda do que ela. Para mim ficou bem claro que eu gostava muito mais dela do que ela de mim. - continuou em silêncio e Luke respirou fundo sentindo um desconforto no peito ao falar sobre aquilo. - Eu a incluía em todos os meus planos futuros, eu tentava ao máximo conciliar as coisas para estar a maior parte do tempo com ela e não vi o término até que ele me acertasse na cara. - pode ver os olhos dele marejados, mas não o interrompeu. - Depois disso foi como se faltasse um pedaço de mim, uma coisa na minha vida que eu não consegui preencher. - passou as costas das mãos nos olhos e pigarreou. - Inevitavelmente eu não quis ir para lugar nenhum com receio de topar com ela em alguma festa ou evento, já que ela também é um pouco famosa e simplesmente me acostumei a ficar só.
- E você chegou a falar sobre isso com alguém? Sobre o que ela falou, o modo que vocês terminaram. Sobre tudo o que aconteceu? - era importante ele perceber que aquilo fazia parte da vida de qualquer um e que pedir ajuda não fazia dele fraco nem nada do tipo.
- Não. Parecia idiota demais me importar.
- Por que idiota? - se mexeu na cadeira achando curiosa a escolha de palavras dele.
- Porque ela foi só a primeira namorada, consequentemente o primeiro término, muitos outros provavelmente existirão ainda. - soltou um discurso pronto que tinha repetido a si mesmo mentalmente por muito tempo.
- Mas você não acha que se você dividisse esse fardo com alguém, ficaria mais fácil suportar tudo isso?
- Talvez sim, talvez eu só não quisesse ouvir meus amigos dizendo que já sabiam que isso ia acontecer.
- Por que eles já sabiam que isso ia acontecer? Eles alguma vez comentaram alguma coisa com você? - essas perguntas o fizeram perceber que a maioria das situações nem sequer tinham saído de sua própria cabeça.
- Não com essas palavras, mas o Michael sempre falava para eu não pular de cabeça, para ficar esperto. - deu de ombros. Pensando sobre isso agora, Luke conseguia ver apenas uma preocupação de amigo.
- Como você se sentia quando ele falava essas coisas? - ele percebeu que quase nunca prestava atenção realmente aos seus sentimentos.
- Normal, ele teve mais relacionamentos, acho que só estava meio que cuidando de mim.
- E como você se sente falando com alguém sobre isso agora? - tentou novamente que ele se permitisse sentir.
- Normal também. - sentiu que ele estava se fechando e talvez fosse o suficiente para aquela sessão. - De qualquer forma, já tem muito tempo, não faz diferença.
- Com certeza faz diferença, Luke. Tem bastante coisa para conversarmos ainda, podemos continuar na semana que vem?
- Tudo bem. Até semana que vem.



Capítulo Três

- Finalmente! - Luke se fez de ofendido com a demora dos amigos em aparecerem para visitá-lo. Praticamente todos os outros visitantes já estavam por ali e enquanto esperava pelos amigos percebeu que não havia sinal de ali de novo.
- Que ingrato! - Ashton imitou o gesto de ofendido dele. - A gente está querendo o melhor dele e é recebido assim. - os dois se cumprimentaram.
- Você é mesmo o Luke? - Michael perguntou o abraçando. - De bom humor? - Luke rolou os olhos.
- Como você está? - foi a vez de Calum o cumprimentar. - Você realmente parece… Bem.
- Estou bem. - assegurou aos amigos com um sorriso discreto. Os quatro caminharam até o refeitório e ocuparam uma das mesas. - Vou negar que admiti isso, mas acho que vocês fizeram certo em me trazer para cá.
- Ufa! - Cal sorriu em alívio. - Não aguentava mais me questionar se tínhamos feito a coisa certa.
- Quem diria que tudo o que você precisava era de férias da gente. - Mike falou em tom de brincadeira e se surpreendeu quando Luke confirmou com a cabeça.
- Tipo isso. Precisava me encontrar no meio de tanta bagunça que eu fui guardando dentro de mim. - e apesar do receio em admitir aquilo em voz alta para os amigos, ficou feliz em ver que realmente todos estavam apoiando.
- A propósito, demoramos a entrar aqui porque estávamos conversando com a sua psicóloga. - Mike contou e Luke fechou a cara instantaneamente.
- Escuta primeiro antes de emburrar. - Ashton deu um tapa na cabeça dele.
- Nós pedimos para te levar um dia para ficar com a gente, achamos que você deve estar com saudade de tocar. - Mike terminou de falar.
- É sério? - Luke foi pego de surpresa e Michael confirmou.
- Vamos te buscar na quarta, no final da tarde. - Cal avisou e passaram o resto do tempo juntos falando sobre coisas aleatórias, que quase sempre terminavam em alguma música ou ideia para uma música.
Estavam andando para a recepção quando Ash teve a impressão de estar sendo observado e se virou para trás, não viu ninguém e continuou andando. A sensação continuou e novamente não viu ninguém. Até que se virou para despedir de Luke e viu uma mulher os olhando por detrás de uma janela de vidro. Percebendo que Ash a vira, tratou de se abaixar, torcendo para que ele não tivesse visto nada.
- O que foi, Ash? - Calum perguntou vendo a testa franzida do amigo.
- Tinha uma garota ali encarando a gente. - apontou para o vidro e todos olharam para lá, não vendo ninguém.
Imediatamente Luke pensou em , mas não fazia sentido algum, pois ele tinha dito a ela que gostaria de apresentá-la aos amigos. E então como um clique ele entendeu tudo. Assim que se despediu dos amigos fez o caminho até a sala ao lado, mas ninguém estava lá. Ia até o quarto dela quando a viu deitada em um sofá com um livro aberto.
- Oi. - ela fez cara de surpresa, mas Luke não acreditou.
- Por que estava encarando meus amigos? - foi direto.
- Oi?! - ela continuou encenando e ele riu.
- Você conhece a minha banda e me conhece, pode confessar. - sorriu vitorioso e ela acabou rindo com ele.
- Óbvio que conheço, eu não sou retardada! - rolou os olhos e ele estreitou os dele.
- Por que fingiu o contrário? - ele se sentou quando ela tirou as pernas do sofá.
- Porque você ia achar que eu era uma fã atrás de autógrafo. - Luke abriu a boca para revidar, mas ela continuou. - Fala que não é verdade. Você chegou aqui se achando o rei, nem teria falado comigo.
- Mas por que se escondeu ao invés de ir lá?
- Eu não planejava ver vocês, nem ninguém, mas vi e quando percebi já estava encarando e não iria lá de jeito nenhum. - riu fraco, esperava enganá-lo por mais tempo.
- Você não recebe visitas? - Luke foi direto mudando completamente de assunto e foi pega desprevenida. O sorriso murchou completamente.
- Quase nunca. - tentou manter o tom mais ameno possível para que ele não fizesse mais perguntas e funcionou.

Passaram grande parte da segunda-feira fazendo enfeites de decoração para a festa de aniversário do senhor Max. Ele estava completando 90 anos e a família dele chegaria na cidade para comemorar com ele lá. Na verdade, fez provavelmente o triplo de Luke, que alegava não ter talento para trabalhos manuais.
No dia seguinte Luke fez o que ela pedira com os balões, achou que ela estaria por lá, mas nem sinal dela. Ela desaparecia bastante, e ele se perguntou se nenhum enfermeiro sentia falta dela. Tomou um banho e trocou de roupa e quando voltou ao salão a família dele já estava lá. Novamente procurou-a com os olhos pelo local e não a viu. Decidiu procurar por ela no quarto dela, mas não só não estava lá como não a encontrou em lugar nenhum.
- Onde você está, ? - Luke perguntou para si mesmo e se lembrou do dia que tentou fugir, era o único lugar que ele não tinha procurado ainda.
Pelo que se lembrava, não havia nada de interessante por lá, mesmo assim foi procurá-la, com o mesmo cuidado de não ser pego como na primeira vez. Abriu a porta com cuidado e logo a viu encostada na parede, com os braços apoiados nas pernas e cabeça apoiada nos braços.
- Finalmente te achei. - ele falou e levantou o rosto assustada, fazendo questão de enxugar os olhos o mais rápido que conseguiu. Mesmo assim Luke percebeu, a luz que entrava pela cortina também não ajudava a esconder a cara de choro dela.
- Precisa de alguma coisa? - ela perguntou com a voz alterada e Luke não soube como agir. aproveitou o momento para enfiar algo que ele não viu dentro de uma gaveta e batê-la com força, fazendo-a trancar.
- Não… - respondeu saindo do transe, ele nunca sabia como agir quando via alguma mulher chorando. - A festa que você organizou já tinha começado e você não estava lá.
- Não estava no clima para festa hoje. - ela respondeu sem emoção e Luke imediatamente se lembrou dos vários momentos em que essas mesmas palavras saíram de sua boca.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou um pouco preocupado. Era a primeira vez que ela não tinha um sorriso esperto ou uma resposta na ponta da língua. - Quer… Quer conversar sobre isso? - ofereceu mesmo sabendo que não devia ser uma pessoa indicada para aquilo. apenas negou com a cabeça e saiu dali junto com ele.
- Vou para o meu quarto. - avisou sem olhá-lo. - Aproveite a festa por mim. - tentou sorrir e ele apenas assentiu, fazendo um caminho diferente do dela.

saiu atrasada do quarto para a terapia de grupo, sem que percebesse um sorriso sutil ocupou seus lábios. Luke estava ali. E dessa vez não era porque ela tinha arrastado-o até lá. Ele ainda não tinha se manifestado em nenhuma das reuniões, mas já era algo positivo.
- Vai se juntar a nós, ? - Shane perguntou atraindo não só a atenção dela, como a de todos ali.
- Claro. - respondeu e se sentou no único lugar vago, que era do outro lado do círculo, mas quase em frente a Luke.
Luke sorriu assim que ela o olhou e ela sorriu de volta. Ele estava feliz por ela ter finalmente saído do quarto e ela parecia bem, era exatamente como se o dia anterior sequer tivesse existido. Sabia que podia ser uma máscara, mas ele tinha uma ideia e mal podia esperar para a terapia acabar.

- Obrigada pelos doces. - agradeceu quando foram juntos para o lado de fora. Fazia um tempo agradável e ela queria ficar um pouco no sol.
- Como sabe que fui eu? - brincou.
- Na verdade, você acabou de confirmar. - e lá estava ela fazendo ele se sentir lerdo mais uma vez. - Em todo caso você foi a única pessoa que me viu ontem.
- Eu não entendo como! - Luke parecia contrariado e ela parou de andar esperando-o terminar de dizer. - Como é possível que ninguém tenha percebido que você não estava em lugar nenhum? Nem tem tantos pacientes assim.
- Eu tenho um dom. - falou com convicção. - Quando não quero ser encontrada, eu geralmente consigo. - Luke pigarreou. - Você foi uma exceção, não precisa se achar.
- Que seja. - deu de ombros. - O importante é que você vai usar seu dom hoje de novo. - fez aspas com as mãos quando usou a palavra dela.
- E por que eu precisaria? O que você vai aprontar, Luke? - se sentou na grama e o puxou para se sentar também.
- Você vai sair daqui comigo hoje. - avisou. - Considere um presente por ter sido legal comigo aqui desde que eu cheguei.
- Vai tentar fugir de novo? - perguntou um pouco alto demais e ele tampou a boca dela.
- Não. - ele riu da reação dela. - Você me convenceu que não valia a pena na primeira tentativa. - balançou a cabeça, retomando o assunto que ele queria. - Meus amigos vêm me buscar hoje para passar um tempo com eles, pensei que você poderia gostar de sair um pouco.
Novamente Luke a deixara sem ação, ela não saia de lá desde o dia em que fora admitida. Os sentimentos mais variados surgiram, provavelmente era um ato simples para Luke, mas era uma atitude enorme para ela. O aperto no peito estava ali novamente, por lembrar de tudo o que a fazia estar ali, mas sentia uma dose de adrenalina e felicidade apenas por se imaginar fora da clínica, mesmo que por pouco tempo. Enxugou os olhos, emocionada por, mesmo sem conhecê-la, Luke estar disposto a fazer aquilo.
- Você está chorando? - ele não conseguiu se segurar.
- Eu te odeio, Luke Hemmings. - o empurrou, e ele acabou deitado na grama. - Por mais honrada que eu fique com o seu convite, eu não tenho permissão para sair. - e a felicidade que ela tinha sentido murchou rapidamente em seu peito.
- Você tem ou não tem um dom, ?
- Meu dom não envolve sair de fato daqui, Luke.
- E daí? A gente dá um jeito. - ela parecia relutante ainda. - Não é possível que você nunca tenha feito nada errado, é só uma fugidinha.
- Tanta coisa pode dar errado. - Luke não fazia ideia do quanto ela falava a verdade.
- E pode dar certo também. Esteja pronta as cinco. - avisou se levantando e deixando-a ali com seus pensamentos.

- Já está pronta? - Luke conferiu as horas num relógio que ele tinha pegado na biblioteca e aparentemente ninguém tinha dado falta. - Mas ainda são 16:30. - ela entrou e fechou a porta.
- Não é como se eu tivesse muita coisa para me arrumar. Jogaram minhas maquiagens fora no dia que cheguei. - fingiu enxugar uma lágrima. Tinha vestido uma calça jeans rasgada, uma camiseta branca mais soltinha, tênis branco e uma jaqueta preta. - Mas eu vim mais cedo para saber qual é o plano.
- Plano? - Luke não se lembrava de plano nenhum.
- É, eu não tenho autorização para sair plena com você pela porta da frente. Como vamos fazer? - sentou-se na cama dele enquanto ele escolhia uma roupa para vestir.
- Existe um outro portão aqui que não seja o da frente? - ele não fazia ideia de como faria, mas sabia que precisaria dos amigos e por isso torcia para que Ashton estivesse no carro. Ash era a pessoa que você podia contar sempre para te tirar de alguma situação, ironicamente ele também era a melhor pessoa para te enfiar em situações embaraçosas.
- Tem outro nos fundos, por onde entregam comida e tal. Mas sempre tem um ou dois seguranças por lá. - avisou. - Você provavelmente daria conta deles, porque olha seu tamanho, mas eu não tenho chances.
- Nós não vamos lutar contra eles, . - Luke riu da ideia maluca. - Vou criar uma distração para você passar pelo portão do fundo. Na volta você entra pela frente normalmente.
- Até que não é tão ruim. - parecia impressionada e Luke acertou a toalha nela. - Já vou achar uma forma de me esconder. - se levantou e saiu do quarto.
Luke tomou um banho rápido, vestiu uma camiseta preta com uma camisa jeans por cima, calça também preta e botas. Saiu pontualmente encontrando Calum e Ashton no carro estacionado em frente. Mostrou a autorização assinada por e foi liberado.
- Vou precisar de um favor. - Luke disse depois de cumprimentar os amigos dentro do carro. - Ash, você vai dar a volta e eu e o Calum vamos descer e aí você chega mais perto do portão dos fundos e finge que o carro estragou.
- Por quê? - Calum fez uma cara sofrida.
- Como vou fingir um estrago? - Ash deu uma gargalhada.
- Não tenho muito tempo para explicar, mas vou levar a com a gente.
- Uuuuuh, . - Cal o zoou, mas Luke continuou como se ele não tivesse falado nada.
- Só que ela não tem autorização para sair.
- Vamos ajudar uma fugitiva, gostei. - Ashton sempre estava preparado para o mal feito.
E assim fizeram. Calum e Luke desceram um pouco atrás e foram caminhando escondidos entre os arbustos para perto do portão. Ash parou o carro do outro lado e abriu o capô, encenando o estrago. Deu partida e tirou a chave várias vezes fazendo dar a impressão de que não queria pegar.
- Se o carro estragar de verdade por causa disso eu vou matar o Ash. - Calum avisou e Luke segurou um riso. Logo avistaram Ashton se aproximando do portão.
- Olá. - fez um aceno com a mão. - Desculpe incomodar o senhor, mas o meu carro não quer pegar, estragou logo ali, será que você não poderia me ajudar? - fez a melhor cara de perdido.
- Essa rota é só para entregas para a clínica e eu não posso me afastar do portão. - o segurança respondeu sem emoção.
- Então, eu estou vindo buscar meu amigo, mas me perdi e o GPS me fez entrar nessa rua. Não vai demorar, só preciso que você tente dar partida enquanto eu olho o motor. - com um pouco de insistência o segurança se rendeu e foi até o carro, não sem antes conferir a tranca do portão.
ouviu o barulho exagerado de alguém pisando no acelerador e entendeu como um sinal de Luke. Este por sua vez estava um tanto desesperado, esperava que o segurança deixasse o portão destrancado e levou um susto quando apareceu em sua frente, colocando um grampo de volta no cabelo. Luke não acreditava que ela conseguia abrir fechaduras com tanta facilidade. Ela fechou o portão, torcendo para que o segurança não percebesse nada e Calum, vendo o segurança voltar, puxou os dois de volta para os arbustos.
- Obrigado! - Ash gritou dando algumas buzinadas e saindo de lá. Pouco tempo depois os três chegaram ao ponto de encontro. - Eu adoro uma emoção. - Ash ainda sorria.
- Caras, essa é a . , esses são Ashton e Calum. - Luke apresentou os amigos e ela os cumprimentou um pouco tímida. - Onde está o Mike?
- Está nos esperando com a , na casa dele. - Calum respondeu aliviado por estarem já distantes da clínica e ligou o rádio em uma estação qualquer.
Logo os três engataram uma conversa sobre a música que tocava, arranjos e composição e se permitiu não pensar em nada. Abriu um pouco o vidro deixando o vento um pouco frio bater no rosto, de olhos fechados e bagunçar os cabelos. Aquilo devia ser o mais próximo da sensação de liberdade que ela sentia em muito tempo. Luke percebeu ao olhá-la de relance e continuou conversando com os amigos deixando-a aproveitar.
Não demoraram muito a chegar na casa de Michael, e assim que Ashton estacionou os quatro desceram.
- Você está bem? - Luke perguntou baixinho e assentiu, mesmo que milhares de pensamentos passassem por sua cabeça. - Michael, essa é a . - a apresentou da mesma forma. - E , essa é a , namorada do Mike. - se cumprimentaram e entraram.
Calum e Ashton já estavam jogados em um dos dois sofás enormes que tinham na sala.
- Fique à vontade. - sorriu. - A casa não é minha, mas quem manda aqui sou eu. - Mike apenas deu de ombros, afinal era a verdade.
- E aí? Vamos de filme ou de música? - Calum perguntou com o controle da tv na mão.
- Música, com certeza! - Luke disse pegando o violão. - Televisão eu posso ver na clínica. - dedilhou alguma coisa aleatória.
- Toquem Jet Black Heart, por favor. - pediu. - Tem um tempão que vocês não tocam.
- É porque essa já está velha. - Ash falou e jogou uma almofada nele.
- Velho está você, Ashton! - ela berrou. - Só porque você não toca nada nessa música não é minha culpa.
- Você só quer ouvir a voz do Michael, pode falar. - Ash adorava implicar com .
- Pior que não, eu realmente gosto muito da música. - falou sincera. - A voz dele eu posso escutar quando eu quiser. - deu uma piscadinha e os meninos gritaram, Ash tinha perdido nos argumentos para ela dessa vez.
percebeu que era uma brincadeira constante entre eles. Embora estivesse se sentindo uma intrusa ali, não era desconfortável. Michael apareceu com outro violão e começou a introdução da música, fazendo um sorriso de orelha a orelha aparecer no rosto da namorada. Eles eram bons, não podia negar. Mesmo sem nenhuma produção as vozes dos quatro eram ótimas e ela nem saberia dizer qual delas ela tinha gostado mais.
- Você não cantou. - Calum acusou apontando o dedo na direção dela.
- Eu não sei a letra. - disse um pouco envergonhada.
- Você disse que sabia quem a gente era. - Luke também a acusou.
- E como sempre você interpretou o que eu falei errado. - ela sorriu como um pedido de desculpas. - Eu já vi vocês na internet e na tv, reconheço as músicas, mas não sei nenhuma letra.
- Essa você deve conhecer. - Mike falou e começou a tocar Don’t Stop, e imediatamente ela reconheceu e até tentou cantar algumas partes com eles.
- Acho que já podemos pedir as pizzas. - Ash falou vendo as horas no celular. - Preciso levar a Cinderela de volta antes de virar abóbora. - zoou Luke.
- As de sempre? - perguntou se levantando.
- Sim! - os quatro responderam como crianças famintas e riu.
- , você me ajuda? - pediu e a outra se levantou e a acompanhou. Sentou-se e indicou a banqueta ao lado para que também se sentasse. - Alguma preferência?
- Como qualquer uma. - não se lembrava da última vez que tinha comido pizza ou qualquer outro fast food.
- Na verdade pedi para você vir comigo porque queria te agradecer, em nome dos meninos principalmente. - falava baixo, sempre olhando para o caso de algum deles aparecer ali. - Mike já tinha comentado comigo como Luke parecia estar mais leve e vendo-o hoje aqui é perceptível como ele está mais solto, mais alegre… Então, obrigada!
- Mas não fui eu, eu não fiz nada. - falou se sentindo sem graça.
- Bom, pelo que Mike me contou ele fala bastante de você quando eles vão visitá-lo. Então alguma ajuda sua ele teve. - riu e, vendo que ela ainda parecia envergonhada, mudou de assunto.

- A gente podia jogar alguma coisa antes de vocês irem embora. - disse apoiando a cabeça no ombro de Mike.
- Eu topo. - Ash adorava competir contra no quer que fosse.
- Já sei! - Calum falou empolgado e atraiu a atenção de todos. - Vamos aquele de adivinhar o nome que está na testa. Quem precisar de menos perguntas, vence. - explicou rapidamente.
- Eu começo! - se levantou e rapidamente voltou com pedaços de papel, uma caneta e fita adesiva. - Vou escrever para o Ashton. - deu uma gargalhada.
- É pessoal então? - fez-se ofendido. - Vai ter volta, . - e então ela grudou o pedaço de papel na testa dele e Mike, Calum e Luke começaram a rir assim que leram o nome.
- O que você fez? - semicerrou os olhos na direção da amiga e se sentia bastante perdida.
- Não fiz nada. - ela assegurou, séria. - Primeira pergunta.
- Sou homem? - Ash fez a primeira que sempre fazia quando jogava.
- Não. - responderam em coro.
- Sou cantora? - conhecendo a criatividade dos amigos, acreditava que seria alguém do meio musical.
- Sim. - responderam juntos novamente.
- Sou dos Estados Unidos?
- Sim.
- Ótimo, porque não tem quase nenhuma cantora lá. - fez graça. - Sou jovem? - perguntou depois de pensar um pouco.
- Defina jovem, Ashton. - fingiu tédio, apenas para provocá-lo.
- Menos de 30 anos, . - imitou a voz dela.
- Sim. - foi a única a responder. E então a feição de Ash mudou.
- Eu odeio vocês. - ele falou para os meninos, mas já estava rindo também. - Eu sou loira?
- Sim! - os três gritaram de volta para ele.
- Eu sou a Taylor. - negou com a cabeça e já tirou o papel da testa.
- Ela convidou nós três para a festa de aniversário dela e não o convidou. - Calum explicou e entendeu porque todos riram assim que viram o nome.
- Que maldade! - mas ela ria também.
- Acertei com cinco perguntas, quero ver acertarem com menos. - desafiou.
- , escreve alguém para o Luke adivinhar. - entregou um papel para ela, que aceitou sem ter ideia do que escrever.
- Eu tenho que conhecer, hein? - Luke avisou e ela rolou os olhos.
- Como se eu conhecesse alguém que você não conhece. - respondeu ao grudar o papel na testa dele.
- Eu sou homem? - repetiu a primeira pergunta de Ashton.
- Sim. - todos responderam e Calum fez um sinal de mais ou menos.
- Ei! Isso não vale! - brigou com ele. - Ele é homem sim. - afirmou.
- Sou cantor? - fez outra pergunta.
- Sim.
- Eu tenho uma banda? - terceira pergunta.
- Sim. - responderam mais uma vez.
- Sou eu mesmo?
- Que narcisista! - Mike gargalhou.
- Não é. - respondeu segurando um riso.
- É se achar demais… - Ash falou para provocá-lo.
- Era minha única chance de acertar com menos perguntas que você. - rebateu.
- Mas errou. - Ash sorriu vitorioso.
- Próxima pergunta. - Mike tinha a sensação que Luke demoraria séculos para acertar.
- Sou dos Estados Unidos?
- É sério que você vai copiar todas as minhas perguntas? - Ash provocou novamente.
- Sim, você é. - respondeu antes que começassem a discutir.
- Eu conheço pessoalmente?
- Como eu vou saber? - ela riu, considerando ter colocado alguém impossível para ele adivinhar. - Sim, você já viu, mas acho que nunca conversou. - Mike respondeu por . - Como se essa pergunta fosse facilitar a sua vida.
- Cara, isso é difícil! - reclamou tentando pensar em alguma coisa que o ajudasse. - Posso pedir dica ou alguma coisa assim?
- Pode, senão nunca vai chegar minha vez de brincar. - zoou e ele mostrou a língua.
- Algum de vocês tem que dar a dica, porque eu posso falar algo que não vai ajudar em nada. - era fã da banda e sabia bastante, mas não fazia ideia do conhecimento de Luke sobre ele.
- Não, . - Ashton tinha um sorriso maldoso na direção de Luke. - Você dá uma dica e se não ajudar nós damos outra depois. - ela deu de ombros.
- Ele é casado com uma mulher que lembra a Katy Perry. - Luke fingiu que ia chorar e riu mais. - Eu avisei! Era isso ou eu ia falar nome de alguma música.
- Ele fez uma música para a trilha sonora de Garota Infernal. - Calum foi quem deu a dica, tinha visto o filme várias vezes com Luke.
- Ah! É o vocalista do Panic? - assentiu. - Não consigo lembrar o nome dele. - levou a mão na testa puxando o papel.
- Que vergonha, Luke. Acho que precisaremos rever essa amizade. - fez uma cara de decepção. - Como você não lembra o nome do Brendon?
- Precisaremos mesmo, como você conhece mais eles que a gente, sendo da Austrália?
- Depois vocês discutem isso, agora vou escrever um para a . - Calum deu uma risada e ela fez uma careta.
- Quero ver acertar com menos de cinco. - Ash fez questão de lembrar a sua pontuação. E jogo continuou até que todos fossem pelo menos uma vez.

- Estão entregues. - Ash sorriu e se despediu dos dois.
Como Luke previra os dois passaram sem problemas pela porta da frente e estava agradecendo a ele quando deram de cara com apoiada no balcão com uma expressão de bastante raiva e imediatamente soube que aquilo tinha dado muito errado.
- Boa noite, Luke, … Esse é meu batom? - perguntou ultrajada.
- Sim. - sorriu sem graça. - Usei suas maquiagens emprestada. Ia te pedir, mas você não estava aqui. - mentiu.
- Tem alguma coisa a mais para me contar? - cruzou os braços, ainda séria.
- , não briga com ela. A culpa foi minha, a ideia também. Eu que a convenci a sair comigo hoje. - Luke se intrometeu, mas a psicóloga não olhou para ele por mais de dois segundos.
- Luke, isso não é assunto seu. Vá para o seu quarto, por favor. - ele ainda olhou para , numa tentativa de ajudá-la, mas tudo o que ela fez foi negar com a cabeça.
Ficaram um tempo em silêncio, tempo que julgou suficiente para que Luke já não pudesse ouvi-las. Porém ele ficou parado logo que fez a curva no corredor, estava achando exagerada a reação dela e queria ouvir o que ia acontecer com .
- O que você estava pensando? - queria gritar, mas aquele ainda era seu ambiente de trabalho. - Aonde você estava com a cabeça, ?
- Você sabe que essa data é difícil para mim. - ela respondeu firme. - Só queria esquecer, nem que fosse por algumas horas. Porque tudo sempre volta para me assombrar.
- Os seguranças do seu pai estiveram aqui essa noite. - falou um pouco mais calma. - E eu não fazia ideia de onde você estava. Tive que inventar a maior desculpa sobre você estar na enfermaria e não poder receber visitas, nem tenho certeza se acreditaram, mas a enfermeira sustentou minha mentira. Você tem certeza que seu pai não implantou um chip em você?
deu de ombros, visivelmente triste. Ela tinha tido uma noite divertida e despreocupada e agora era como se todo o peso tivesse voltado para os ombros dela.
- Me desculpe. - foi tudo o que ela disse antes de dar as costas para .
Ouvindo os passos de , Luke andou o mais rápido que conseguiu sem fazer barulho para não ser pego no flagra. Ele não tinha entendido quase nada daquela conversa louca, mas sabia que as coisas que tanto olhava na sala de arquivos deveriam ser as respostas. E foi determinado a encontrar algo que Luke dormiu.



Capítulo Quatro

Luke acordou ainda determinado, tomou café assim como em todos os dias anteriores, e quando as pessoas começaram a se encaminhar para a terapia de grupo ele fez o caminho até a sala das caixas. Como sempre o caminho estava livre, e, para a sorte dele, a porta estava destrancada. Fechou-a atrás de si sem fazer barulho e caminhou até as gavetas que se lembrava de ver mexendo.
Tentou abri-la, mas assim que fez força e nada aconteceu ele percebeu uma tranca para todas as gavetas ali. Praguejou baixo e numa tentativa de sorte de principiante, pegou dois clipes de papel em cima da mesa e depois de desdobrá-los começou a tentar abrir.
- Não pode ser tão difícil. - murmurou para si mesmo. - Ela faz isso o tempo todo.
Determinado a não desistir, depois de longos minutos ele ouviu um clique e quase gritou de felicidade por ter conseguido. Abriu a primeira gaveta e percebeu que eram várias pastas, organizadas em ordem alfabética, mas eram todas de três anos atrás. Ela não podia estar ali há três anos, certo?
O nome dela não estava ali, fechou e abriu a segunda gaveta. Quatro pastas com o nome , e por não saber o sobrenome dela, retirou todas e se sentou no chão. Percorreu a ficha com os olhos.
- Tentativas de suicídio… Quarenta e três anos. Não! - colocou a pasta de lado e pegou a próxima.
Era uma pasta bem mais cheias que as outras, e logo que abriu não restou dúvida de que era a dela. Um artigo de jornal com a foto dela era a primeira coisa.
- Fundação Hope for Children suspende os trabalhos. - Luke leu o título em voz alta.

A Fundação Hope for Children, fundada pelo Senador Reynolds, informou hoje que está com as atividades suspensas por tempo indeterminado.
A fundação, idealizada pela filha do Senador, (foto), funcionou por dois anos ativamente, mudando a vida de várias crianças por todo o país. Não só idealizadora, ela também era responsável por toda a atividade, pelas arrecadações e distribuição da renda, no entanto, após o acidente de carro envolvendo toda a sua família, o qual ocasionou a morte da Sra. Reynolds, desenvolveu sérios problemas psicológicos e não tem condições de continuar realizando o trabalho.
Na coletiva de imprensa feita hoje pelo Senador, ele afirmou que ainda não encontrou ninguém que tenha a mesma paixão que sua filha para assumir os trabalhos da fundação. E que para uma melhor e completa recuperação dela, ela foi internada em uma clínica psiquiátrica.

A notícia não parecia acabar ali, mas a página estava rasgada. Pegou a próxima página de jornal, também rasgada e também de três anos atrás.

Acidente de carro provoca a morte da esposa do Senador Reynolds.
Na noite de ontem, voltando da Ópera de Sydney, a família do Senador se envolveu em um acidente que levou a morte de sua esposa Josephine . Segundo informações da polícia local, Keith Reynolds estava na direção do veículo e os motivos que o fizeram perder o controle ainda estão sendo analisados.
O socorro não demorou a chegar, mas a filha do Senador continua internada e não foram fornecidos dados sobre o estado de saúde dela. Já o Senador recebeu alta pela manhã. O velório…

Luke sentia um peso por estar descobrindo aquilo daquela forma, sabia que era errado da parte dele invadir a privacidade de alguém. Mas nenhuma daquelas notícias explicava o surto de com na noite anterior. era mentalmente normal na opinião dele. E então achou a folha de admissão dela na clínica. Ela realmente estava internada há três anos, e olhando a data ele entendeu porque ela estava chorando no dia da festa.
- Isso não pode ser real… - murmurou completamente em choque com o que estava vendo.
No campo para ser preenchido com a avaliação psicológica dizia que ela não tinha nenhum problema, no campo de tratamento dizia que não era necessário, não tinha nenhum medicamento, nada. Aquilo era muito estranho e muito suspeito também. Ele estava ligando os pontos na sua cabeça, mas não queria acreditar. E então viu vários comprovantes de depósitos em valores altíssimos em nome do Senador para a Clínica. Tinha um depósito para todos os meses, o próprio pai pagava para ela estar ali e não poder sair. Que tipo de pai era esse?
No final da folha viu algo que chamou a atenção, psicóloga para acompanhamento: . Nem mesmo terminou de ler, enfiou as outras pastas de qualquer jeito na gaveta e saiu correndo com a pasta dela direto para a área dos consultórios. Tentou abrir a porta do consultório dela, e, notando que estava trancada, começou a bater incessantemente. se assustou e abriu rapidamente a porta.
- Luke? - esperava aquilo de vários pacientes, mas não dele. - O que aconteceu? Sua sessão é só mais tarde, eu estou em atendimento agora.
Luke não escutou uma palavra que ela disse.
- Você sabia disso? - perguntou quase gritando e segurando o papel com força na altura do rosto dela. - Você sabia desde sempre? - ele sentia uma revolta que nem era capaz de explicar.
- Para de gritar, Luke! - falou séria e o puxou para ao consultório ao lado que estava vazio. - Onde você arrumou isso?
- Não interessa! - continuou com o tom explosivo. - Isso tudo é um complô? Que tipo de profissional é você? - agora o tom era de indignação.
- Abaixa esse tom, você não sabe um terço da história para ficar tirando conclusões sobre o tipo de profissional que eu sou. - a expressão dela era tão séria que Luke finalmente pareceu se acalmar.
- Então me explique. Porque minha vontade nesse momento é sair daqui agora e espalhar para o mundo. - cruzou os braços, desafiador. Mas não se intimidou.
- E você acha que não foi a primeira coisa que eu quis fazer quando descobri, Luke? - riu irônica. - Que fique bem claro que é totalmente antiético eu falar de outro paciente com você.
- Indiferente nessa altura do campeonato. - Luke sentia que não poderia continuar confiando nela a menos que soubesse da verdade.
- O que você sabe?
- Que ela não tem motivo nenhum para estar aqui e mesmo assim está presa há anos.
- Eu não sabia de nada disso quando fui designada para ser a psicóloga dela. - começou a explicar. - E logo nas primeiras sessões já não consegui ver nada além de uma pessoa de luto e então fiz um relatório dando alta a ela. Fui chamada na sala do dono da clínica e ele rasgou o papel na minha frente. Disse que ela não podia receber alta e eu não entendi.
- A sabe disso? - Luke a interrompeu.
- Claro que sabe, Luke. Não tenho segredos com a sobre informações sobre ela e é por isso que eu fiquei tão preocupada ontem. Imagino que você tenha ouvido nossa conversa. - ele não confessou. - O pai dela é poderoso, ele tem controle de tanta gente que a própria sabia que ele estava dando dinheiro para manter ela aqui em vão e também foi ela quem me convenceu a não pedir demissão e contar isso para o mundo, ou o pai dela teria controle sobre mim também. Ele podia ter acabado com a minha carreira ou com a minha vida. Então eu decidi por ficar aqui, embora não concorde com essa atitude do instituto, de alguma forma eu posso ser uma amiga para ela e ajudá-la a lidar com tudo isso.
- Isso é tão absurdo! - Luke negava, ainda incrédulo.
- Mais tarde a gente conversa sobre. - falou se preparando a voltar para a paciente que a esperava no próprio consultório.
- Não me espere para a sessão de hoje. - falou assim que saiu da sala, pisando duro e visivelmente com raiva.
, que fazia o caminho contrário, estranhou a forma como Luke passou por ela, sem nem mesmo a olhá-la. Logo percebeu que algo não estava certo.
- Mas o quê? - perguntou para , que abanou com a mão e ia entrar na sua sala quando falou mais alto. - O que isso está fazendo aqui? - ela reconheceria a sua pasta de longe, tinha mexido nela tempo demais para saber exatamente como ela era.
- , não. - a alertou, mas ela ignorou ligando os pontos em sua mente. - Eu lido com vocês depois. - respirou fundo antes de voltar a atender, esperando internamente que eles não se matassem.

correu de volta, tentando ver para onde Luke tinha ido. Conseguiu vê-lo saindo pelas portas do fundo, e correu, alcançando-o já no gramado externo.
- O que acabou de acontecer? - segurou-o pelo braço, fazendo com que ele se virasse de frente para ela e que pudesse encará-lo.
- Nada. - negou com a cabeça. Ele nem mesmo conseguia entender porque tinha se afetado tanto ou o que estava sentindo naquele momento.
- Eu sei que tinha a ver comigo, então eu acho que tenho o direito de saber. - falou firme, mas soltou o braço dele.
- Não tem nenhuma versão em que eu não seja julgado, melhor perguntar para a . - desviou o olhar do dela.
- Eu estou perguntando para você, Luke. - falou em um tom calmo que ele não esperava, e o puxou para se sentarem. - E achei que você já tinha percebido que te julgar não é algo que eu faça.
- Eu sei que estou errado. - confessou se sentindo uma criança acuada prestes a confessar aos pais algo terrível. - Não deveria ter mexido nas suas coisas para saber da sua vida e não deveria ter confrontado a .
- Foi você? - ela sabia que deveria estar com mais raiva, que ele realmente estava errado, mas tudo que ela conseguia era se sentir vulnerável. Ele era o único paciente que agora sabia o que tinha por trás da máscara que ela colocava todos os dias e ela não sabia ainda no que isso implicaria.
- Sim. Não que justifique, mas eu não entendi o surto da com você quando a gente chegou e eu queria entender. - explicou. - Aonde você vai? - perguntou quando ela se levantou.
- Eu preciso de um tempo sozinha. - a voz dela ainda era calma, mas Luke tinha a sensação que tinha acabado de perder aquela amizade.

Não sabia quanto tempo tinha dormido até que abriu a porta de uma vez e ele acordou assustado.
- Meu consultório, cinco minutos. - avisou.
- Eu disse que não vou. - respondeu sem vontade.
- Deixe de ser uma criança mimada, Luke. - respirou fundo antes de voltar a falar. - Não é fugindo que se resolve nada na vida. Cinco minutos. - repetiu antes de sair.
Sentindo que não tinha muita escolha, fez o que ela havia mandado. O que ele não esperava era que também estivesse na sala dela.
- Nós precisamos conversar, por mais que vocês não queiram. - falou se sentando em frente a eles, que estavam lado a lado no sofá, mas mal se olhavam. - Luke agora faz parte disso, querendo ou não.
- Eu não vou falar nada para ninguém! - Luke afirmou. - Eu não faria nada para prejudicar a .
- Você precisa ter cuidado com o que fala, meu pai tem olhos e ouvidos por todos os lugares. - finalmente falou, mas sem olhá-lo.
- Foi exatamente por isso eu fiquei preocupada ontem. - voltou a falar. - nunca quis sair, se eu soubesse eu podia ter ido junto, dado alguma justificativa, mas fui pega de surpresa por dois brutamontes dispostos a destruir a clínica para achá-la e eu não fazia ideia de onde ela estava.
- Parem de falar de mim como se eu não estivesse sentada bem aqui. - reclamou. - Já pedi desculpas por ter saído ontem. E eu te perdoo por ter mexido na minha pasta, Luke. Só não te falei nada porque não queria você nessa. - ela se sentia mal de uma forma que os dois não podiam imaginar. Se o seu pai era capaz disso com ela, não gostava de imaginar o que poderia acontecer com eles.
- Eu entendo, e devia ter respeitado. - deu um meio sorriso para e ela retribuiu. - Só não consigo entender porque ele faz isso. O que ele ganha te deixando aqui?
mordeu o lábio, insegura sobre contar ou não, assim que ele soubesse de toda a verdade seria um caminho sem volta. Ela confiava nele tanto assim?
- Vou deixar vocês conversarem. - disse e sentiu que era sua forma de dizer que ele merecia sim saber de tudo.
- Será que você consegue aguentar a história toda? - fez uma careta.
- Alguém me disse que seria bom prestar atenção no que acontece à minha volta.
- Talvez esse alguém tenha se arrependido disso. - ele riu fraco, mas continuava a prestar atenção nela. - Você deve ter visto as notícias na pasta. - Luke concordou com a cabeça. - Eu era a responsável pela fundação, como já tinha te contado antes. E comecei a perceber que algumas contas não estavam batendo. Algumas eu nunca tinha autorizado, outras não tinha nem conhecimento e alguns valores eram simplesmente fora do normal. Comecei a investigar sem contar para ninguém, não queria correr o risco de confiar justamente na pessoa que estava mexendo no dinheiro.
- Faz sentido. - ponderou.
- E como quem procura, acha, descobri que era o meu próprio pai que estava desviando dinheiro para sabe-se lá o quê. - as imagens provando o que ela não queria acreditar ainda eram vivas na mente dela.
- Eu sei que ele é seu pai, mas que ser humano desprezível. - Luke estava com asco de alguém que ele só tinha ouvido falar.
- Você não viu nada. - engoliu em seco antes de continuar. - Fomos então à Ópera naquele dia, era um programa em família que minha mãe não abria mão e quando voltávamos para casa eu não estava aguentando mais o peso de saber do esquema dele, e o confrontei. Ele ficou com tanto ódio que tentou me acertar no banco de trás e com isso perdeu o controle do carro. Não lembro bem o que aconteceu, acordei no hospital e me contaram que minha mãe tinha morrido no acidente.
- Nossa… - Luke nunca iria imaginar que essa era a verdade por trás daquela matéria no jornal.
- E é claro que o grande Keith Reynolds jogou a culpa em sua filha. - Luke podia ver as lágrimas se acumulando nos olhos dela. - Disse que nunca mais conseguiria olhar para mim sabendo que eu tinha matado a esposa dele. Quando recebi alta do hospital vim parar aqui sem entender nada e depois fiquei sabendo que dado a meus “problemas psicológicos” - fez aspas com as mãos -, ele era oficialmente meu curador, que eu não tinha mais acesso a nada em meu nome. Ele oficialmente me controla.
- Mas ele forjou exames, laudos, tudo? - Luke soou mais incrédulo do que de fato estava.
- Não duvido de mais nada. Acho que ele suborna o mundo para ser do jeito que ele quer.
- Caramba, . Eu nunca ia imaginar isso. - sentiu uma vontade inexplicável de abraçá-la, mas não o fez. - E você já o viu depois disso?
- Não… Mas talvez seja melhor assim. - Luke teve a certeza que toda a tristeza e solidão que ele sentira até então nem se comparava com o que ela deveria sentir.
- Acho que depois dessa posso te contar por que me colocaram aqui. - ele tentou amenizar o clima e fazê-la pensar em outra coisa.
- Achei que ia ter que mexer na sua pasta também. - ela alfinetou e ele riu.
- É, eu mereço essa. - ela concordou. - Basicamente Michael colocou na cabeça dele que eu estava com depressão e convenceu Calum e Ashton disso.
- E você não estava? - algo na expressão dela dizia que ela concordava com eles.
- Talvez. - se deu por vencido. - Sempre que ouvia falar disso e de como artistas desenvolviam depressão, nunca achava que ia acontecer comigo, eu nunca tive vontade de me matar, nem nada do tipo.
- Depressão não é sinônimo de suicídio. - ela rolou os olhos pela fala ignorante dele.
- Eu me sentia triste e sozinho, mas achava que era uma fase normal. Talvez pela vida que levo, talvez a responsabilidade de uma vida adulta. Não achava que precisava de ajuda para isso. Mas só percebi aqui quantas coisas eu tinha acumulado dentro de mim por sei lá quanto tempo.
- Fico feliz que esteja melhor, de verdade. Seus amigos te fazem bem. - ela falou e Luke teve uma ideia. Não sabia se funcionaria, mas ele precisava tentar.
- Obrigado, fazem sim. - olhou para baixo um pouco sem graça. - O que nunca contei para eles é que tudo começou quando a Kiara terminou comigo. Patético, eu sei.
- Não acho. - disse sincera. - Não é o tipo de coisa que dá para comparar de uma pessoa para outra.
- Eu tive problemas em admitir para mim mesmo e, quando vi, tudo já era uma imensa bola de neve.
A conversa deles durou mais tempo do que uma sessão com duraria, ironicamente fez tanto efeito quanto.

- A não vem? - Luke perguntou depois de cumprimentar os três.
Ele tinha convencido a recepcionista a deixá-lo fazer uma ligação antes de domingo, o dia de receberem visitas, e pediu que Michael levasse a namorada.
- Ela deve chegar daqui a pouco. Mas o que aconteceu? - Luke não tinha tido tempo nem forma de explicar por telefone, apenas fez Mike prometer que a levaria.
- Não dá para falar aqui nem agora. Se eu conseguir conversar com ela, ela te conta depois.
- Você está com problemas, Luke? - perguntou preocupado, mas o amigo apenas negou e fez um sinal para não falar mais disso assim que apareceu e os cumprimentou.
- Ótimo, agora que estamos todos aqui, precisamos conversar. - Calum falou sério e atraiu todos os olhares para ele. - A festa do Halloween é semana que vem. Não quero ninguém com fantasia igual à minha. - avisou.
- Sua visão de assunto sério me comove. - Ash fingiu enxugar uma lágrima, causando risos.
- E você vai de quê? - Luke perguntou.
- Não sei ainda, me digam do que vocês vão que eu vou achar algo diferente. - sorriu, estava extremamente empolgado.
- Você vai de quê, ? - foi Mike quem perguntou e ela nem achou que estivesse incluída no assunto.
- Eu não posso sair. - deu de ombros como se não fosse grande coisa. - Sair aquele dia me deu a maior dor de cabeça depois. - fez um biquinho.
- Ah, você vai sim! - Calum falou determinado. - Nem que a gente tenha que te levar escondida de novo.
- Adrenalina, eu topo. - Ash se manifestou.
- Bom, acho que já está bem claro que você vai. Só falta contar qual vai ser a sua fantasia. - Calum repetiu o que ele queria saber.
- Eu já volto. - Luke falou e saiu assim que viu , mas ninguém prestou atenção.
- Eu não faço ideia, acho que nunca fui a uma festa de halloween. - os três olharam para ela com expressão de choque. - Mas de qualquer forma, as fantasias de mulher são diferentes, então você pode ficar tranquilo.
- A quer ir de alguma coisa de casal comigo. - Mike comentou. - Ela comentou algo sobre chapeuzinho ensanguentada e lobisomem antes de ontem.
- Eu estou pensando em palhaço assassino ou algum personagem de filme de terror. - Ash falou e a conversa sobre fantasias continuou por um tempo.

- Oi, . - Luke a cumprimentou e a puxou para o lado de fora antes que ela fosse vista. Queria conversar em segredo com ela.
- Qual crime você cometeu? - foi direta e ele abriu a boca em espanto fazendo ela gargalhar em seguida. - A sua cara foi ótima, seu senso de humor é zero.
- Se eu te contar uma coisa o Mike vai ficar sabendo? - falou baixo e ela percebeu que era sério.
- Se você não quiser, não, e se estiver conversando comigo como advogada é claro que não. - afirmou.
- É sobre a . - assentiu e então de uma forma resumida e apenas com detalhes do que era importante ele contou a história dela.
- Caramba! - estava em choque. - Sinto que a gente vai arrumar um problema, então vou tentar ser o mais discreta possível para conseguir cópia desses documentos e saber de fato o que podemos fazer para anular ou devolver a vida dela para ela.
- Certo.
- Agora se for exatamente isso que você me contou, vai ser mais complicado. - o cérebro dela funcionava a toda velocidade, buscando saídas para as hipóteses que ela poderia encontrar.
- Você vai conseguir. - Luke deu uma piscadinha.
- Pagando bem… - ela sorriu e foram encontrar os outros antes que o tempo da visita acabasse.



Capítulo Cinco

tinha preenchido toda a papelada necessária para tirar e Luke aquela noite e levado os dois para se arrumarem no apartamento dela. Como um pedido de desculpas, Luke a tinha convidado e aproveitando que era o dia de folga do instituto ela não viu por que não aproveitar uma festa que com certeza seria chique e teria pessoas interessantes.
Luke ficou assistindo televisão, pois a fantasia dele era mais simples e o ajudaria quando estivesse pronta. tinha decidido ir de esqueleto, tinha pegado emprestado com uma amiga um macacão coladinho com o desenho dos ossos e faltava fazer a caveira no rosto. Ela tinha visto alguns vídeos na internet e só precisou da ajuda para fazer os detalhes finais, tinha ficado muito bom.
não tinha tido tanta criatividade, e aceitou os itens da fantasia de Cleópatra que tinha oferecido. Ela vestiu uma blusa branca de alcinha e uma saia, também branca e um pouco plissada que ia até o meio das coxas. Os acessórios eram uma peruca preta, lisa e curta, uma espécie de cinturão, braceletes, tiara, um colar e uma espécie de véu azul claro. tinha arrumado até um par de lentes coloridas para ela e ela fez uma maquiagem que caracterizasse um pouco os egípcios.
Quando estavam prontas Luke apareceu já vestido com terno preto de camurça e uma camisa branca por baixo, e o cabelo preso para trás. Ele ia com o óbvio vampiro e não demorou muito para fazer a maquiagem no rosto dele, deixou-o mais branco que o normal, fez olheiras bastante escuras e as marcas de sangue escorrendo pelas laterais da boca. Por fim colocou presas falsas e estavam prontos para ir.
Luke foi dirigindo o carro de , pois ele não pretendia beber e como sabia o endereço não demoraram a chegar. O lugar já estava bem cheio, mas não foi difícil encontrar Mike e , já que eles sempre se fantasiavam de combinando e eram os únicos vestidos de anime. não fazia ideia de quem eles eram, mas tinha gostado. E Ashton era o mais fácil de se identificar já que a fantasia dele não escondia o rosto. Parecia alguém da máfia que tinha acabado de tomar uma surra. Ele vestia uma camisa social branca de mangas compridas, calça social preta, suspensórios e uma gravata afrouxada da mesma cor. Estava sujo de sangue e segurava um charuto.
- E o Calum? Decidiu a fantasia afinal? - Luke perguntou não o notando por perto.
- Não quis vir com a gente, disse que seria uma surpresa. - Mike riu se lembrando da insistência para se encontrarem só na festa.
- Vou dançar. - avisou, caminhando até uma parte mais no meio do salão lotada de outras pessoas dançando.
não se sentiu muito a vontade de ficar ali, não queria empatar a noite de ninguém, então seguiu para a pista de dança, no entanto os quatro fizeram o mesmo e logo estavam numa rodinha. Ela não conhecia as músicas e nem mesmo os passos de dança que pareciam estar na moda, por isso se mexia sem sair do lugar, torcendo para que ninguém a observasse.
Ash foi o primeiro a deixar o grupo, voltando com uma bebida em mãos em pouco tempo. avistou uns amigos e Michael a acompanhou até o outro grupo que dançava. Pouco tempo depois avisou que ia pegar uma bebida no bar e apenas assentiu, continuando ali com Luke e Ashton.
- Impressão minha ou você é mais solta quando está na clínica? - Luke perguntou se aproximando do ouvido de por causa da altura do som.
- Estou muito fora do meu habitat. - confessou e sorriu para ele. - Mesmo antes a maioria das festas eram eventos sociais com meus pais. - deu de ombros e voltou a se mexer, vendo que Ashton tinha desviado o olhar dos dois enquanto conversavam.

- A ideia era minha fantasia ser exclusiva, mas você está fazendo jus a ser meu par hoje. - ouviu alguém falar em seu ouvido e se virou, dando de cara com um homem fantasiado de esqueleto assim como ela.
- Talvez seja o destino. - ela sorriu de lado e deu um gole na bebida em sua mão. Ela não acreditava em destino para coisas banais como escolha de fantasia, mas adorava cantadas bregas.
Ele pegou sua bebida no balcão e estendeu a mão para ela em um convite mudo para irem dançar, e ela prontamente aceitou. Enquanto dançavam ela notou que ele era consideravelmente mais alto que ela, algo que ela gostava em um homem. Seus cabelos eram escuros, assim como os olhos, ela pode perceber mesmo com toda a maquiagem. Definitivamente era uma pessoa de olhos sinceros, assim como o sorriso, que ela estava admirando há algum tempo.
Deixou a taça vazia quando um homem passou com uma bandeja, sendo copiada pelo rapaz. No entanto, foi surpreendida quando ele a puxou pela cintura, colando o corpo dos dois, sem pararem de dançar.
- Seus movimentos mexeram com minha imaginação. - falou próximo ao ouvido dela, que disfarçou um sorriso.
- E o que você imaginou? - ela devolveu e se afastou um pouco, sem parar de se mover da forma sensual que vinha fazendo.
- Prefiro fazer do que falar.
- Temos isso em comum então. – aquela frase tinha sido a permissão que ele esperava para entrar em ação.
Assim que voltou a se aproximar, ele passou um dos braços pela cintura dela, não a deixando se afastar novamente. Ela, por sua vez, levou as duas mãos até a nuca do rapaz, que fez o mesmo com a mão livre na nuca dela. Fechou os olhos quando sentiu a respiração dele batendo em seu rosto, devido à proximidade das bocas e no instante seguinte sentiu os lábios dele nos dela. O beijo era intenso e ela correspondeu à altura.
não podia negar que ele sabia muito bem o que estava fazendo, rapidamente percebendo as reações imediatas que causou no corpo dela quando desceu os beijos pela lateral do pescoço. Instintivamente arranhou a nuca dele e puxou alguns fios de cabelo, o que ele interpretou como um sinal para continuarem. Deu alguns passos para trás, afastando-os da pista de dança e girando-a para que ela ficasse entre ele e a parede. E sentindo os corpos ainda mais colados, voltou a beijá-lo.

- Aqui está muito quente. - Ashton se abanou com a mão. - Acho que vou lá para fora um pouco pegar um ar.
- Vamos também? - Luke perguntou e concordou com a cabeça.
- Só vou pegar uma água e encontro vocês lá. - avisou e foi até o bar enquanto Luke e Ash caminhavam para o lado externo, que não estava tão vazio quanto pensavam.
- Você está afim dela? - Ashton perguntou direto fechando os olhos, aproveitando o vento que batia em seu rosto, e passou a mão pelos cabelos.
- O quê? - Luke devolveu totalmente surpreso com as palavras do amigo. - Claro que não! De onde você tirou isso?
- Do seu comportamento. - Ash riu leve do desespero de Luke. - É diferente, nunca te vi assim. - deu de ombros, vendo que caminhava em direção a eles.
- O que foi? - ela perguntou vendo os dois pegando os celulares exatamente ao mesmo tempo.
- Mensagem do Mike. - Ashton respondeu ainda olhando a tela do aparelho.
- Ele quer que a gente vá para perto do palco do DJ. - Luke encarou Ash, confuso, mas a expressão de Ash revelava que ele também não fazia ideia do que estava acontecendo.
Fizeram então o caminho de volta para dentro do salão, logo avistando Mike com um microfone nas mãos. estava ali na frente com o Calum e pareciam tão confusos quanto Luke e Ashton.
- Finalmente te achei! - segurou o braço de , fazendo-a parar um pouco mais atrás.
- A festa de alguém foi boa. - sorriu e arregalou os olhos.
- A maquiagem tá muito borrada? - falou alarmada, tentando limpar o que pudesse estar sujo.
- Não tem nada borrado, mas você acabou de confessar. - riu da cara da psicóloga que se limitou a rolar os olhos, mudando o foco para o palco onde uma luz iluminava Michael e música tinha diminuído.
- … - ele começou e já olhou alarmada para os lados. - Você é a minha melhor amiga, a pessoa que divide os melhores momentos comigo e também os piores, deixando tudo melhor.
O coração de batia muito rápido, da mesma forma que sua respiração estava. Ela não conseguia acreditar que Mike estava fazendo aquilo. Só podia ser uma pegadinha de Halloween, e uma de muito mau gosto. E então, para agravar todo o desespero que ela já sentia, ele se ajoelhou em um joelho e tirou uma caixinha do bolso. O olhar de pânico no rosto de era real, e todos os meninos pareciam tão surpresos quanto ela.
- , você... - Mike nem terminou a pergunta e ela saiu correndo na direção oposta, deixando todos boquiabertos. - Acho que isso é um não. - concluiu com um riso e Ash fez um sinal para o DJ aumentar a música novamente.
- Eu vou atrás dela. - Luke avisou e passando pelas pessoas, o mais rápido que conseguia, tentava adivinhar onde ela estaria.
- Cara, o que foi isso? - Ash perguntou um tanto surpreso.
- Era real? - Calum tinha a mesma expressão surpresa no rosto, mesmo que com a maquiagem não desse pra perceber.
- Era só uma pegadinha de Halloween, relaxem. - Mike deu tapinhas nas costas dos amigos. - Achei que ela ia entrar na pegadinha e não surtar. - aquilo tinha sido estranho, principalmente porque eles constantemente pregavam pegadinhas um com o outro.
- Não pode ser… - exclamou baixo, mas ouviu.
- O que foi? - tentou ver alguma coisa olhando na mesma direção.
- , você viu algum homem com a mesma fantasia que eu estou? - começou a procurar em volta, ela não tinha beijado Calum a festa toda, tinha?
- Na verdade não. - se lembrava de ver vários zumbis, alguns vampiros e demônios, mas nenhum esqueleto. - Acho que só o Calum mesmo. - ela falou o que estava com receio. - Mas só o vi agora que está lá com os meninos.
- Merda, merda, merda. - saiu andando entre as pessoas e , sem entender o que estava acontecendo, a seguiu em silêncio.
Elas tinham dado praticamente uma volta completa pelo salão, e não viu mais ninguém com a fantasia, era oficial e completamente antiético, ela tinha beijado muito um dos melhores amigos do seu paciente.
- Acha o Luke. - pediu a . - Vou esperar no carro.

voltou com Luke pouco tempo depois e Luke estava preocupado de alguém ter reconhecido a amiga, mas assegurou que era só um mal-estar.

- Quanto tempo! - Mike fez a piadinha sem graça assim que se cumprimentaram na visita de domingo.
- Está tudo bem entre você e a ? - Luke perguntou baixinho e o amigo apenas deu de ombros.
- Ela ainda não quis falar sobre. - e vendo que ela entrava ao lado de Ashton, mudaram o assunto.
- ! - Calum a cumprimentou sorridente quando ela passou pelo corredor, decidindo ir até eles.
- Aproveitem a companhia da enquanto eu converso com ele. - falou e saiu puxando Luke para o mesmo lugar que tinham conversado na semana anterior.
- E aí, ? Gostou da festa? - Mike perguntou ignorando o clima estranho.
- Bastante! - ela sorriu. - Mas estou totalmente fora de forma. Meus pés estão doendo até agora.
- Vocês foram embora muito cedo. - Ashton tinha a sensação de que Luke estava escondendo algo sobre ela e decidiu tentar conhecê-la melhor.
- A não estava se sentindo bem, e nós dependíamos, quer dizer, eu dependia dela para ficar fora daqui. - explicou e Calum pareceu bem mais interessado.
- Ah, é a psicóloga do Luke, né? - perguntou e concordou com a cabeça. - Não sabia que era ela que estava com vocês. - mentiu, sabia quem era desde que entraram no local da festa.
- Era sim. - respondeu sem dar importância. - Era melhor do que deixar o Ashton estragar outro carro para me tirarem daqui.
- Ela está aqui hoje? - Calum perguntou tentando soar despretensioso, mas Mike e Ash trocaram um olhar, que não passou despercebido por . Foi o suficiente para que ligasse os pontos em sua cabeça.
Calum estava fantasiado como , quis ir embora no momento em que ela tinha falado isso, além disso o mal-estar que alegou não tinha convencido . E, pelo interesse de Calum, algo entre eles tinha acontecido nessa festa.

- Você conversou com o Mike? - Luke perguntou quando já estavam afastados dos outros.
- Ainda não. - respondeu e sua expressão deixava claro que ela não tinha interesse em continuar o assunto, mas Luke não ligou.
- Para quem proferiu aquela quantidade de xingamentos e estava tremendo feito um pinscher, acho que devia ter conversado.
- Eu sei, mas vou falar o quê? - ela demonstrou certo nervosismo. - Ele insiste que foi só uma pegadinha, mas...
- Mas… - ele insistiu que ela terminasse o pensamento.
- Deixa quieto, me resolvo depois. Nosso assunto é outro. - não adiantaria insistir, não mudava de ideia facilmente.
- O que você descobriu? - cruzou os braços.
- Que tudo o que ela te contou é verdade. - o sorriso dele murchou. - O pai dela realmente tem a guarda dela e de todos os bens, tem todos os documentos que comprovam distúrbio mental, e provavelmente tem metade do país no bolso dele. - sorriu amarelo.
- Por quê? Alguém percebeu o que você estava fazendo? - perguntou preocupado, a última coisa que ele queria era prejudicar .
- Não, mas não é difícil perceber. Ele tem ligação com muita gente importante, muitos apoios que com certeza são em troca de algo, só que ninguém vai investigar um senador como ele. - rolou os olhos.
- Mas não tem nada que a gente possa fazer para tirar a , daqui? - respirou fundo antes de responder.
- Até tem, mas antes preciso te perguntar uma coisa. - Luke a encarou, esperando. - Por que você quer tanto mexer nisso? Eu percebi que ela é uma pessoa legal e que é sua companhia aqui, mas você tem certeza que ela quer isso?
- Quem quer ficar preso num lugar? - Luke fez uma pergunta retórica. - Quero mexer nisso porque isso é uma injustiça e tem uma voz que fica repetindo na minha cabeça que eu posso ajudá-la.
- Você está escutando vozes?
- Escolha errada de palavras. - Luke rolou os olhos. - Me diz o que pode ser feito, por favor.
- Eu pensei bastante. - confessou. - E a única forma de tentar, não tenho nem como garantir que daria certo, seria ela se casar.
- Se casar? Como assim? - ele tinha pensado em várias possibilidades, mas nada do tipo.
- Em teoria, ela precisa de um curador por causa do psicológico, mas essa pessoa não precisa ser necessariamente o pai dela. Poderia ser, por exemplo, um marido, que autorizaria os novos exames que provariam que ela não tem nenhuma necessidade de nada disso.
- Pela sua cara, não é tão simples como você está falando. - ele constatou e ela confirmou.
- Em tese, esse casamento só é possível com uma autorização do pai dela. - Luke soltou o ar visivelmente frustrado. - O que nos leva a parte arriscada, que se eu falasse para o Ash ou para o Mike, com certeza topariam, mas você é meio certinho demais para isso.
- Fala logo! - riu fraco, tendo novamente um fio de esperança.
- A gente meio que sequestra ela daqui, vocês já vão logo para um cartório e de lá direto para o aeroporto. - Luke tinha os olhos arregalados, tinha muita cara de coisa ilegal, mas realmente era algo que ele via os amigos concordando sem problemas. - Não dá para correr o risco de tentar ficar por aqui, até no cartório o pai dela pode ter um informante. - deu de ombros, mostrando todas as possibilidades que ela tinha explorado. - Lá em Los Angeles ela poderia fazer todos os exames e então pedir uma anulação de tudo, voltando a ser dona da vida dela. Mas isso tudo se dermos sorte de não questionarem nada no aeroporto, por exemplo.
- O aeroporto é o mais tranquilo, estando com a gente. - Luke ponderou, tentando digerir aquela solução maluca e riu fraco. - Qual a chance de ela aceitar se casar? - negou com a cabeça.
- Por isso eu perguntei se você sabia se ela queria isso. Não tem nenhuma garantia de dar certo. - percebeu que aquilo passava longe do que Luke esperava receber de notícias, mas não dependia dela. - Talvez você deva conversar com ela.
- Vou pensar melhor, não quero dar falsas esperanças também. - ele ponderou e concordou. - Você comentou com alguém?
- Não. Achei que quanto menos gente estivesse envolvida menor seria a chance de dar errado.

Luke pensou nisso o restante do dia, depois que seus amigos foram embora, e já estava a noite quando ele notou que estava certa. Ele poderia ter mil planos e ideias, mas de nada adiantariam se não fosse algo que quisesse ou concordasse. E, sem se importar com a hora, foi até o dormitório dela.
- Posso entrar? - Luke pediu depois de duas batidas na porta que estava aberta.
- Claro. - ela sorriu e fechou um caderno que tinha nas mãos, colocando-o debaixo do travesseiro.
- Eu queria falar uma coisa com você. - sorriu fraco, estava com a sensação de estar invadindo a privacidade dela novamente.
- Pode falar. - deu espaço e ele se sentou na ponta da cama. - Ah, antes me conta o que está rolando entre a e o Calum. - pediu empolgada.
- Está rolando algo entre os dois? - a expressão de Luke foi suficiente para mostrar que ele sabia menos do que ela, já que ele era péssimo em mentir.
- Deixa para lá. - ela riu fraco. Questionaria depois.
- Não! Me conta isso direito.
- Eu tinha esperança de que você soubesse, por isso eu perguntei. - Luke negou com a cabeça. - O que você queria dizer? - perguntou, trazendo-o de volta dos seus pensamentos.
- Hum… - Luke tentou encontrar as melhores palavras para abordar o assunto. - Você tem vontade de sair daqui? Digo, para sempre? - ela estranhou um pouco a pergunta, já que eles não tinham conversado sobre isso desde que ela contara a história sobre estar ali.
- Vontade sim, claro! - ela riu. - Mas já te falei que não tem jeito.
- E se tivesse um jeito? - Luke falava sério, o que fez com que também ficasse. - E se a gente conseguisse tirar você daqui?
- Quem é “a gente”? - perguntou um tanto alarmada, lembrando que o pai dela tinha ouvidos por todos os lados.
- Por enquanto só eu, mas precisarei de ajuda. Isso se você topar. - e depois de tanto tempo foi como se uma centelha de esperança aquecesse um pontinho dentro dela.
- Eu adoraria sair daqui e levar uma vida normal, Luke. Mas mesmo que você me ajudasse, eu não sou uma pessoa livre, eu não tenho para onde ir, eu não tenho dinheiro que eu possa usar, não tenho emprego, não tenho nada. - o sorriso ainda estava ali, mas Luke percebeu certa tristeza. - Mas agradeço de verdade que você tenha vontade de me ajudar.
- E se tudo isso fosse resolvido? - ele insistiu e ela riu, deixando-o confuso.
- Estou em dúvida se você arrumou uma fada madrinha ou se pretende matar meu pai. - as duas ideias eram tão absurdas que ela não conseguia parar de rir.
- Eu estou falando sério, . - fez uma cara emburrada e ela tentou controlar o riso. - Se você tivesse onde morar e tivesse emprego.
- Nesse caso eu não teria com o que me preocupar… - concluiu um tanto incerta sobre o que se passava na cabeça dele.
- E aceitaria sair daqui, certo? - quis confirmar e ela concordou com um aceno. - Ótimo! - deixou o quarto com um sorriso e um ponto de interrogação na cabeça de .



Capítulo Seis

- , pode entrar. - convidou e ela se levantou, deixando de observar as próprias unhas.
- Acho que nós precisamos conversar. - disse assim que passou pela psicóloga e sorriu de canto.
- Pode se sentar então. - indicou o sofá que era o preferido dela e ela se sentou.
- Melhorou do seu mal-estar? - perguntou de forma despretensiosa.
- Um pouco… fazia tempo que não bebia como naquela festa. - falou sem olhá-la.
- Aham… - a vontade de era rir por saber que estava se fazendo de sonsa, mas segurou o riso. - Eu acho que sei o que você teve. - a olhou, mas não falou nada. - Ele inclusive perguntou por você ontem. - o riso de canto voltou para o rosto de .
- Oi?! - reagiu automaticamente, ajeitando os óculos em sinal de desconforto com o rumo da conversa. - Como assim? Do que você está falando?
- Calum Hood. - respondeu direta.
- Do que você está falando? - repetiu como se estivesse delirando.
- Estou falando que aconteceu alguma coisa entre vocês na festa e você não quer me contar. Achei que éramos amigas. - apelou para chantagem emocional.
- Nós somos amigas! - afirmou antes que a chantagem continuasse. - E eu não sabia que era ele com aquela fantasia. - soltou de uma vez. - E também não era como se eu fosse chegar em você e dizer “Sabe o Calum? Um dos melhores amigos do Luke? Então, fiquei com ele na festa.” Isso é totalmente antiético…
- E por que não? - interrompeu. - Não tem nada a ver, você trata o Luke e não ele. - negou com a cabeça achando um absurdo aquele tanto de desculpa. - De qualquer forma, acho que ele não ligou para isso.
- Do mesmo modo… Não sei. Não acho que o Luke vai gostar disso. - deu de ombros e fez uma careta. - Enfim, isso não importa. - tentou cortar o assunto.
- O Luke nem percebeu nada! - insistiu que essa desculpa era inútil.
- Claro que ele não percebeu! Nem eu percebi! - ela riu sem humor. - Espera aí. - pareceu só então raciocinar sobre uma das falas de . - Como assim ele não ligou para isso? Quem não ligou para isso?
- O Calum não ligou para o fato de você tratar o amigo dele, eu falei sério que ele procurou por você ontem durante a visita. Não me pareceu estar vendo nada de errado em vocês terem ficado.
- Claro que ele não ligou. Acharia estranho era se ele ligasse. - rolou os olhos mostrando que não importava. - Posso saber como foi que eu virei o assunto de vocês? - lançou um olhar acusador para .
- Você realmente não prestou atenção no que eu falei, né? - chamou a atenção dela. - O assunto não foi você hora nenhuma, foi o Calum que perguntou se você estava aqui, e aí o Ashton e o Michael trocaram um olhar e seguraram risos e eu só liguei os pontos na minha cabeça. - explicou.
- Ah. Enfim, foi isso. Mas estamos aqui por você e não por mim. - isso era definitivamente um ponto final da parte dela.
- Sabia que você ia falar isso. - riu. - Por acaso você não saberia nada sobre um plano maluco do Luke para me tirar daqui, saberia?
- Plano maluco? Não. – negou com a cabeça. - Mas eu juro que se vocês me aprontarem outra fuga sem meu conhecimento, os dois podem se considerar mortos. - deu um sorriso sem mostrar os dentes.
- Ele veio falar comigo ontem a noite sobre me tirar daqui permanentemente. - falou com um sorriso triste. - Basicamente com soluções para todos os possíveis empecilhos.
- Ainda não sei o que pensar sobre isso.
- Nem eu. - falou baixinho e suspirou em seguida.
- E o que você achou disso? - perguntou, sabendo que era algo delicado.
- Seria maravilhoso. - respondeu sonhadora. - Mas quais as chances de eu realmente ter uma vida e viver em paz? - fez uma careta.
- O que ele pensou? Ele chegou a falar sobre? - sabia quantas tentativas diferentes tinha imaginado para deixar a clínica, não queria incentivá-la a acreditar em uma saída que poderia não acontecer.
- Não sei, ele não falou nada com detalhes, só insistiu em saber se eu queria sair daqui.

- Trouxe uma surpresa para vocês! - gritou assim que entraram na casa de Mike e atraiu os olhares de Calum, Ashton e do próprio namorado, que pausou o videogame.
- Ah, é só o Luke. - Mike zoou fazendo menção de voltar a jogar.
- Também estava com saudades. - falou irônico e se sentou no sofá vazio depois de cumprimentar os três, sendo seguido por .
- Você está muito sério. - Calum constatou preocupado. - Aconteceu alguma coisa? - Luke negou.
- Só queria conversar umas coisas com vocês. - Calum não se convenceu.
- Sobre a banda? - insistiu e Mike, vendo que não ia conseguir terminar a partida, desligou o jogo.
- Também, mas não somente. - Luke estava sendo extremamente vago e Ashton não estava com um bom pressentimento. A banda era a melhor coisa na vida dele e a simples ideia de que esse sonho poderia acabar de uma hora para outra era angustiante.
- Se a está aqui quer dizer que finalmente vão nos contar o que tanto vocês têm conversado em particular? - Mike entendia e respeitava totalmente o trabalho da namorada, mas o fato de envolver Luke tinha o deixado curioso.
- Sim. - Luke concordou e a expressão de era completamente neutra.
- Então fala logo, meu coração é fraco para surpresas. - Ash tentou soar descontraído apesar da apreensão.
- Eu ando tendo muito tempo para pensar estando lá na clínica. - começou e os amigos concordaram. - E eu estive pensando que poderíamos fazer uma fundação. Nós ajudamos em algumas doações, mas o que acham de nós mesmos fundarmos uma em nosso nome? - Ash sorriu aliviado.
- Eu acho ótimo. - Ashton se empolgou. - Inclusive já tinha falado sobre isso com vocês uma vez. Acho que a gente tem muita sorte de poder fazer o que a gente ama e acho realmente ótima a ideia de ajudarmos as pessoas de alguma forma, além de parte da renda dos nossos produtos.
- O que vocês acham? - Luke olhou de Mike para Calum.
- Não faço ideia de como funciona, mas estou com o grupo. - Calum apoiou.
- Eu também. - Mike concordou com Calum.
- Eu lembro que fiz umas pesquisas na época e talvez a gente precise de ajuda de alguém da área, envolve uma certa burocracia. - Ash se sentia mais empolgado do que o próprio Luke.
- Então… - falou lentamente e olhou para como uma forma de apoio, aquilo poderia caminhar para dois sentidos completamente opostos. - Estava pensando em deixar a tomar conta disso para gente. - e por meio minuto ninguém falou absolutamente nada.
- Olha, se ninguém vai ter coragem de falar eu falo, qual é a dessa obsessão sua com essa garota? - Mike foi direto e nem as respirações eram ouvidas. - Não me leve a mal, ela parece uma boa pessoa e é divertida, tenho certeza que te ajudou bastante lá dentro, mas, sei lá. - deu de ombros procurando as palavras certas. - Trazer ela para trabalhar com a gente. A gente nem sabe se pode realmente confiar nela.
Calum alternava o olhar entre Mike e Luke, esperando que alguém falasse algo. Ash entendia perfeitamente o receio de Mike com a situação, ele também tinha pensado essas mesmas coisas na festa, quando Luke não a deixou sozinha nem por um instante.
- Eu não estou obcecado por ela. - se defendeu. - Na verdade é a primeira vez que sinto que presto atenção verdadeiramente em outra pessoa e não em mim. - falou e tomou a palavra.
- O que vocês vão escutar agora não pode sair daqui em nenhuma circunstância. - alertou. - Se algum de vocês abrir o bico pode ter certeza que eu ferro com a vida de vocês. - ameaçou.
- A está presa lá. - ele começou e os três não viram nada de estranho na fala. - Literalmente presa. - Luke reforçou. - Ela não tem nenhum problema psicológico, nunca teve.
- Imagino que essa seja a fala de qualquer paciente lá, inclusive você falou várias vezes. - Mike estava achando aquilo perda de tempo, mas o olhar sério da namorada o fez ficar calado.
- Não foi ela quem falou, foi a , nossa psicóloga. - Ash abriu a boca, mas Luke não o deixou falar. - Ela só falou porque eu fiz umas coisas que depois eu conto. O fato é, ela é filha do Senador Reynolds.
- Aquele do acidente saindo do Opera? - Calum se lembrava de ver as notícias. - Foi bem perto do lançamento de Sounds Good Feels Good.
- Exatamente. - ele confirmou. - Ele é corrupto e descobriu a sujeira dele, essa foi a real causa do acidente. Ele a culpou pela morte da mãe dela e por isso ele mandou que ela fosse internada e paga todo mês para que não seja liberada. Eu mesmo vi os comprovantes de pagamento.
- E eu achava que meu pai era ruim. - Ash riu fraco.
- Ele provavelmente pagou por exames e laudos falsos, e ele tem controle de tudo que era da . Foi isso que eu pedi para a verificar.
- E é tudo verdade. - ela se prontificou a dizer. - Não dá nem para confiar em alguém, porque aparentemente ele tem muita gente nas mãos e com certeza tem gente de olho nela.
- E como você pretende que ela nos ajude com a fundação? - Mike não via sentido nem ligação na história de com a ideia de Luke.
- Tirando ela de lá. - respondeu simplesmente.
- É sério que você está considerando comprar briga com um senador com a influência dele? - Ash perguntou um tanto descrente, caindo na gargalhada em seguida. - Estou dentro, qual é o plano? - Mike e Cal se entreolharam em dúvida se Ash falava a verdade.
- Eu vou me casar com ela.
- Ok, oficialmente essa clínica não está fazendo bem para o Luke. - Calum passou as mãos no rosto e se levantou. - Vai se casar com uma desconhecida? Você está louco?
- É a única chance. - foi quem respondeu e Michael arregalou os olhos, não estava acreditando que sua namorada estava de acordo com aquela loucura.
- É sério isso? Você está aconselhando-o a se casar e fugiu daquele jeito do seu namorado no Halloween? - cruzou os braços.
- São situações completamente diferentes, Michael. A gente conversa depois. - o cortou, deixando-o com mais raiva.
- Acho bom, porque você está evitando conversar sobre desde a festa. - rebateu.
- Casal, vocês resolvem isso depois. - Ashton falou sério e Mike se soltou no sofá.
- A única forma de não depender do pai dela é ela ter um outro curador, na forma de marido, que passa confiança o suficiente para que ela possa conseguir laudos reais sobre o estado de saúde dela e retomar a vida dela. - explicou.
- Só que ela não concordou. - Luke voltou a falar.
- Alguém tem bom senso. - Mike resmungou e Ashton deu uma cotovelada nele.
- Ela não quer sair de lá e depender para tudo, por isso pensei em oferecer esse trabalho para ela, assim ela teria o dinheiro dela e não se sentiria mal.
- E sobre se casar com você? - Calum voltou a questionar.
- Não falei sobre essa parte ainda. - Luke sorriu amarelo. - Tenho a impressão que é a parte mais difícil do plano todo.
- Olha, eu não tenho nada contra ela trabalhar com a gente. - Mike deixou claro. - Mas isso tudo que vocês estão bolando é muito arriscado, não sei se concordo.
- Eu confesso que nem sei o que falar. - Calum respirou fundo. - Não sei mesmo.
- Eu concordo que é arriscado, mas se for o que você realmente quiser fazer, você tem meu apoio. - Ash falou com sinceridade. - Você sempre esteve lá para mim em todos os momentos que precisei, por mais bizarros que fossem. O mínimo da minha parte é te apoiar também.
- Agora você fez ficar ruim para o nosso lado. - Calum reclamou.
- Não é algo que vai acontecer da noite para o dia. - voltou a falar. - Tudo tem que ser muito bem planejado, passo a passo. Luke só não queria agir pelas costas de vocês.
- Mudando de assunto, eu devo receber alta em breve pelo que o médico disse, acho que podemos lançar as novas datas dos shows começando depois do Ano Novo.
- Isso sim são boas notícias. - Calum comemorou. - Vou mandar mensagem para o Roger amanhã.
- Falei que você ia sair antes do meu aniversário. - Mike sorriu. - Posso retomar os planos da festa em Los Angeles.

- Como você está, Luke? Como foi ir a essa festa para você? - perguntou ajeitando a pasta dele no colo.
- Estou bem. - sorriu sincero. - Honestamente, eu não esperava me sentir bem como me senti na festa. Foi a primeira desde que… você sabe. - preferiu não dizer.
- E como foi ter seus amigos com você? - ela estava satisfeita vendo o progresso rápido dele.
- Ahm, foi normal. - respondeu meio confuso e riu. - Eu só sei que não preocupei em momento algum com o que eles ou outros conhecidos poderiam estar pensando sobre mim. E incrivelmente é a segunda semana que não penso em Kiara e nem no término. Pelo menos não de uma forma que me incomode.
- Fico feliz que não tenha se preocupado. - sorriu de volta. - Às vezes a opinião do outro é apenas a opinião do outro. - Luke concordou e não falou mais nada. - Me contaram que você tem um plano para tirar a daqui. - ele a encarou, mas não falou nada. - Você quer me falar sobre ou irei ficar no escuro como da primeira vez?
- Você é parte desse plano, não poderia ficar no escuro. Vou precisar da sua ajuda. - Luke então contou a ideia que tinha tido juntamente com , mais ou menos como tinha contado para os amigos no dia anterior.
- Isso é uma completa loucura. - nunca imaginava que teria alguma forma de ela sair. - Mas não acho que seja justo a ficar aqui sem ter nenhum problema. - concordou com o que ele sempre dizia. - Eu entendo sobre essa parte de casar e ter alguém que a ajude para fazer um novo laudo, mas não acho que seja uma boa ideia você estar no meio disso. Não como o marido. - o sorriso no rosto dele murchou. - É arriscado demais, principalmente por você já ter estado aqui dentro. Isso pode complicar ambos… Além do que, acho que o mais saudável para você agora seria deixar um relacionamento acontecer de forma natural.
- A ponderou sobre isso também, mas não tem mais ninguém. - Luke não poderia colocar outra pessoa nisso. - Enfim, acho que você já pode ir planejando umas férias, porque ela vai precisar de uma amiga até se adaptar a uma vida completamente nova.
- Sempre tem uma segunda opção, Luke. Nesse caso a segunda é mais válida. Ou talvez devesse pensar sobre outras possibilidades. - ele concordou com a cabeça, afinal confiava no que ela dizia. - Logo eu? Tirar umas férias? Com toda certeza, principalmente desse lugar. - sorriu. - Quer dizer, dessa situação. Não me entenda mal, eu amo meu trabalho, entrei aqui assim que me formei, porém odeio não ser ética e essa situação com a me lembra disso constantemente.
- Eu acho que também seria interessante te ter por perto durante a turnê, seria como os jogadores de futebol que sempre tem os médicos do time, você poderia cuidar do nosso emocional. - riu fraco com a ideia que apareceu do nada. - Mudando de assunto, acho que a sessão está acabando e antes que eu me esqueça o Calum está lá fora, ele quer falar com você.
- Isso é sério? Você realmente está me oferecendo um emprego? - foi pega de surpresa, mas era uma proposta tentadora.
- Na verdade acabei de pensar nisso. Nunca pensamos em nada do tipo para a banda. Minha ideia era mais para apoiar a mesmo. - ela concordou. - Mas é uma possibilidade.
Ética piscava em letras garrafais e neon na mente dela.
- E como assim o Calum quer falar comigo? - sua expressão era de extrema confusão.
- Sim, ele disse que queria conversar com você, mas me chamou de intrometido quando eu quis saber sobre o que era. - rolou os olhos.
- Estranho. Mas tudo bem, depois da nossa sessão eu posso falar com ele. - e mesmo que ela não quisesse admitir, tinha ficado receosa com aquilo.
- Ah, eu tive uma consulta essa semana, o Dr. Smith disse que devo receber alta na semana que vem.
- Isso é ótimo, Luke. Mas você tem que estar seguro disso, podemos falar sobre isso na próxima sessão. – checou o relógio.
- Tudo bem. Te vejo por aí. - Luke se despediu e deixou o consultório.

guardou as pastas que estavam sobre a sua mesa e respirou fundo antes de sair e ver se realmente Calum estava por ali como Luke dissera.
- Você queria falar comigo? - abordou Calum que aguardava na recepção. - Vamos para o meu consultório. - ele a seguiu em silêncio. - Fique à vontade. - indicou os assentos como sempre fazia.
- Não precisa, vai ser rápido. - Calum sorriu e continuou em pé esperando o que ele tinha a dizer. - Queria te convidar para uma bebida hoje à noite, mas aí percebi que eu não tinha o seu número, então eu vim pessoalmente.
- Oi?! É sério isso? - estava um tanto desconcertada e Calum afirmou com a cabeça. - Você não vê problema nenhum nessa situação?
- Problema em quê? - Calum não entendeu a reação dela, tinham se dado super bem na festa. - Você é solteira, não é? - questionou incerto.
- Sou. - deixou claro. - Mas essa não é a questão, Calum. Eu atendo o seu melhor amigo, isso é, no mínimo, estranho, não acha?
- A meu ver isso é apenas um fato que possibilitou que eu te conhecesse. - notou a calma com que ele falava, era o oposto do que ela se sentia por dentro. - Não é como se eu quisesse falar sobre ele a noite toda ou fosse influenciar no seu trabalho com ele. E também não estou te pedindo em casamento, é só uma bebida. - deu um sorriso que fez com que um arrepio percorresse o corpo dela, pela simples lembrança do beijo dele.
- Até porque falar sobre ele a noite toda seria o ápice do antiético! - sabia que queria aceitar o convite desde o primeiro momento, também sabia o quão errado aquilo era, mas decidiu ignorar. - Ok, uma bebida. - o sorriso de Calum se alargou ainda mais e ela teve que se segurar para não sorrir também. - Eu saio daqui a uma hora.

- ! - Luke sussurrou na porta da biblioteca, mas ela não ouviu. - !
- O que foi? - ela perguntou também baixo, deixando o livro de lado.
- Vem aqui. - chamou com a mão. - Rápido!
o seguiu e só não se preocupou porque ele tinha um sorriso no rosto. Assim que se aproximaram da entrada do instituto ele fez sinal para que ela se abaixasse e os dois se esconderam.
- Por que a gente está aqui? - continuou falando baixo e teve que segurar um riso, pareciam crianças brincando de pique-esconde.
- Aguarde. - foi a resposta dele e ela rolou os olhos. No entanto não demorou para ela ver deixando o local. Luke fez um sinal com as mãos indicando que era o que queria que visse.
- Tá, a está indo embora. - ela não viu nada de diferente nisso.
- Você não está prestando atenção, . - Luke reclamou e ela voltou a olhar e viu a psicóloga entrando num carro que não era o dela, e no lugar do passageiro.
- Ok… Ela está de carona? - questionou incerta e Luke sorriu.
- E adivinha com quem? - mexeu as sobrancelhas em divertimento. - Calum. - respondeu vendo que ela não tinha resposta.
- O quê? - acabou saindo mais alto do que ela pretendia e Luke tapou a boca dela com uma mão. - Desculpa!
E vendo que o carro estava saindo de lá, os dois fizeram o caminho inverso.
- Você estava certa. Tem algo rolando entre eles.
- Muito bom para quem só soube falar que era antiético. - rolou os olhos.
- Ué, você sabia? - ela confirmou.
- Eu meio que obriguei ela a me contar, mas ela repetiu tanto que era antiético que eu não esperava vê-la entrando no carro dele. - confessou.
- Antiético por minha causa? - Luke estranhou, não via nenhum problema nisso.
- Sim, ela está tratando você e está ficando com um dos seus melhores amigos. Até entendo a confusão na cabeça dela.
- Mas eu estou prestes a receber alta, isso não precisa ser um problema para eles.
- Você já vai ser liberado? - Luke conseguiu perceber certa tristeza na fala dela e decidiu que independente dos conselhos ele contaria tudo para ela.
- Vem, vamos lá fora que podemos conversar melhor.
A temperatura tinha baixado drasticamente e por isso não tinha ninguém no gramado.
- Se eu congelar a culpa é sua. - reclamou assim que se sentaram.
- Te respondendo, sim, o médico disse que eu devo sair em uma ou duas semanas. E venho tirar você logo depois. - informou.
- Ainda está insistindo nisso, Luke? - ela o olhou tentando achar respostas para as perguntas que sua mente vinha fazendo nos últimos dias.
- Claro, inclusive estava esperando o momento certo para te contar que você oficialmente vai trabalhar com a gente.
- O quê? Como assim? - o coração dela batia rápido em expectativa, por mais que ela não quisesse cultivar esperança de sair de fato dali, algo dentro dela falava mais forte para ela confiar.
- Eu conversei com os meninos, e nós achamos que seria bom darmos início a uma fundação nossa ao invés de apenas ajudar as que ajudamos esporadicamente. - percebeu que os olhos dela brilharam com o simples fato de mencionar a fundação. - Mas claramente nenhum de nós está apto e bem, você era visivelmente muito boa nisso. - um sorriso enorme tomou conta do rosto dela.
- Você está falando sério?
- Sim. Agora você já tem um emprego e vai ter seu dinheiro, e até que tudo se ajeite você vai ficar morando comigo. Eram suas preocupações, não eram? Resolvidas.
- Mas vocês não moram nos Estados Unidos? - Luke concordou com a cabeça. - Eu não consigo viajar sem autorização do meu pai, lembra? - fez uma careta.
- Essa é a parte que tenho receio de te contar. - ele desviou o olhar do dela. - Por favor, não surte! - pediu e ela o olhou desconfiada. - Eu contei tudo para a , ela é advogada e queria que ela realmente avaliasse o que a gente poderia fazer. E ela achou uma solução.
- Fala logo, Luke! - sentia a pulsação na garganta.
- Você vai se casar.
- Como é que é? - ela gritou em total espanto. - Eu não vou me casar.
- É a única forma de você ter um outro curador, . Você se casa e nós já vamos direto para o aeroporto. Quando o seu pai descobrir, nós já estaremos longe daqui. Você refaz seus exames, prova que não tem nada de errado e retoma a sua vida. - sorriu como se tivesse acabado de encontrar a solução para a paz mundial.
- Com quem você está pretendendo me casar? - sentiu seu estomago revirar.
- Na verdade seria comigo, mas e não concordaram.
- A sabe disso? - o interrompeu. - Vocês falam sobre mim nas minhas costas?
- Tirar você daqui é um interesse em comum, . Até falei com ela sobre ela ir com a gente também, assim você tem uma amiga por perto. - a cabeça de estava a mil e ela nem mesmo sabia o que sentia. - Enfim, acha que isso vai contra o meu tratamento aqui e as duas pensam que o fato de estarmos aqui juntos pode colocar tudo a perder. Então eu ainda não sei sobre essa parte.
- Eu não posso ser esse peso na vida de alguém até conseguir arrumar minha vida, Luke. Não é justo com quem quer que seja.
- Relaxa, . Se não tiver um plano b, eu mesmo me caso com você. Não é como se eu estivesse com vontade de me relacionar de novo de qualquer forma. - ela ficou em silêncio por um tempo e Luke esperou ela digerir toda a informação.
- Eu preciso perguntar. - ele a olhou, atento. - Por que essa obstinação em me tirar daqui? Você tem sua vida em um mundo completamente diferente. Eu entendo a gente ter se aproximado, tinha séculos que ninguém mais novo aparecia por aqui, mas saindo desses portões você tem uma vida te esperando. - não sabia se tinha sido clara, os pensamentos se atropelavam na cabeça dela, com a velocidade que iam e vinham.
- Porque toda essa situação me fez notar uma realidade que eu ignorava, existe injustiça em todo lugar, e mesmo que eu não tenha o poder de resolver tudo, tem sido importante para mim pensar que posso tornar a vida de alguém melhor, sem ser através da música, com algo concreto. - ela nada disse. - Por mais engraçado que tenha sido, foi realmente você que falou sobre prestar atenção nas pessoas à nossa volta.
- Eu não me referia a mim, você sabe.
- Sim, mas se eu posso te ajudar, por que não? Confesso que não sei se teria paz saindo daqui e te deixando presa, sabendo que poderia ter feito algo e eu não fiz.
- Se der errado, você promete deixar isso para lá? - perguntou segurando na mão dele, ela também não se sentiria em paz se atrapalhasse a vida dele.
- Se te fizer sentir melhor, eu prometo.

O assunto então ficou mais leve, começaram a pensar no que precisariam providenciar como o passaporte dela e outros documentos, além de alguns itens pessoais. Ao que tudo indicava, fariam uma visita à casa dela. Era um risco enorme e ele sabia que Ash era a pessoa certa para ajudá-los nisso.



Capítulo Sete

Como previsto, Luke deixou a clínica logo no começo da semana. Mike havia finalmente devolvido o celular dele, com a condição de que ele não procurasse por notícias a seu respeito durante aquele período em que estivera internado. Roger já estava fechando as novas datas para a continuação da turnê e também iria agendar com algum programa para que fizessem o anúncio oficial. Luke preferiu não o informar sobre a presença de com eles, quanto menos pessoas soubessem, melhor. Lidaria com os chiliques de Roger depois.
- Ash… - Luke chamou e Ashton desviou o olhar do computador para ele. - Eu preciso te pedir um favor.
- Você quer dizer além de te ajudar a tirar a escondida do Bronkers de novo e entrar escondido na casa dela? - respondeu com um sorriso divertido.
- Preciso que você se case com ela. - disse de uma vez, como se tirasse um band-aid.
- O quê? - negou com a cabeça. - Não! - continuou negando. - Você sabe que eu te apoio em praticamente tudo, mas isso não dá, Luke.
- Cara, você é a única opção.
- Por que você não se casa com ela? Vocês que são amigos! - Luke achou a reação de Ash exagerada, mas preferiu não fazer nenhum comentário sobre isso.
- Porque segundo e é como dar um tiro no meu pé. E Mike namora a e Calum está enrolado com a .
- Então é com ela que ele saiu no sábado? - Ash sorriu como se essa fosse uma informação valiosa.
- E na quinta também. - Luke entregou sem pensar muito.
- Entendi, sobra para mim porque não estou com ninguém. - riu fraco.
- Mas você nem precisa fazer nada, Ash. É só no papel. Assim que tudo for resolvido vocês assinam o divórcio e ninguém precisa nem ficar sabendo que isso um dia aconteceu. - tentou persuadi-lo.
- Sinto muito, Luke. Me peça qualquer outra coisa. - Luke suspirou. Estava frustrado, mas entendia o lado do amigo.
- Vou dormir, amanhã o dia promete. - e dizendo isso se levantou do sofá e foi para o quarto de hóspedes do apartamento de Ashton.
- Boa noite. - desejou e voltou a olhar para a tela do computador, mas sua mente já estava distante analisando os prós e contras do pedido que Luke tinha acabado de pedir.

tinha usado de seus contatos e influência para descobrir a agenda do senador por alto naquele dia, ele teria dois compromissos naquela tarde e esse tempo teria que ser suficiente para entrarem na casa que costumava ser de e pegar tudo o que fosse essencial para que ela se mudasse com eles.
Como Luke dissera a , ela era parte fundamental da fuga e ela seria uma distração para o segurança, ajudando a sair da clínica com ele e Ashton, e depois ficaria na sala dela como se estivesse lá com ela em uma sessão. Ela estava tomando conta de tudo, não chegara a comentar com , mas tinha levado um esporro por ter acompanhado a paciente fora da clínica, visto que as ordens sobre ela jamais sair eram expressas.
tinha feito uma lista mental do que precisava para serem rápidos e não correrem riscos, mesmo assim uma sensação incômoda a acompanhava desde que levantara de manhã. Ashton e Luke pareciam se divertir com a situação, se sentindo como espiões em alguma missão, tornaram o caminho até a mansão consideravelmente mais leve.
Estacionaram o carro duas ruas abaixo, evitando que qualquer suspeita fosse levantada e caminharam em silêncio até o portão de entrada e então travou, sonhara com o dia que voltaria para o lugar que sempre considerou seu lar, onde viveu tantos momentos felizes, mas olhando a construção não sentiu nenhum sentimento bom. Os meninos respeitaram o momento dela, claramente não era uma situação simples, mas também não podiam correr o risco de ficarem ali por tempo demais.
Saindo do transe, ela colocou a digital na fechadura inteligente e o portão se abriu. Acreditou que aquele era um bom sinal, caso o pai tivesse bloqueado a biometria dela, não conseguiria invadir. Com mais alguns passos ela pode ver que a casa estava toda fechada e nenhum dos carros estava na garagem, andaram depressa até a porta principal e novamente com a digital ela desabilitou o alarme e destravou a porta.
Luke e Ash já estavam impressionados com o tamanho da construção do lado de fora, mas ficaram boquiabertos quando entraram. Mesmo com o dinheiro que a fama trouxe para eles, nenhum deles tinha estado em uma casa tão elegante e luxuosa como aquela. Imediatamente Luke pensou que talvez a adaptação dela na vida que eles levavam não seria tão complicada quanto ele havia imaginado.
- Vamos. - ela disse começando a subir as escadas e os dois pararam de analisar a casa e a seguiram.
A escada terminava em um corredor bastante longo e com muitas portas, abriu a terceira porta à esquerda e lá estava o seu quarto, exatamente como o deixara pela última vez. Era um suíte enorme, com uma cama igualmente grande no meio do quarto. A diferença em relação aos outros cômodos da casa era a falta de dourado e marrom, o quarto era em tons de lavanda.
- Fiquem aqui, vou ativar o alarme de novo. - eles apenas assentiram enquanto ela foi e voltou. - Fiquem à vontade, por favor. - ela disse estranhando o fato de eles estarem parados e em pé exatamente no mesmo lugar.
- Não quer ajuda? - Luke ofereceu e ela riu.
- Claro, com a sua altura nem preciso subir em nada para alcançar minha mala. - ele rolou os olhos e ela abriu uma das portas do closet, indicando a mala que queria que ele pegasse.
- Obrigada. - agradeceu a colocando na beirada da cama.
Luke se sentou ao lado da mala e Ashton se sentou numa poltrona que considerou ser de leitura, pela enorme luminária que ficava ao lado. sumiu pelo closet novamente e os dois permaneceram em silêncio. Ela tirou o fundo falso do armário, revelando seu cofre, digitou a senha e abriu a pequena porta, um sorriso de alívio brotou em seu rosto e junto com seu passaporte ela tirou alguns maços de dinheiro que estavam ali. Veio equilibrando nas mãos e soltou dentro da mala de qualquer jeito.
- Achei que você tinha dito que não tinha dinheiro, . - Luke fez uma cara falsamente brava.
- Me sinto assaltando um banco. - Ash riu fraco.
- Isso não é o suficiente para eu viver o resto da minha vida, Luke. Foi isso que eu quis dizer. - ela explicou. - Além do mais, eu não tinha ideia se isso ainda estaria aqui. - voltou para o closet, escolhendo algumas roupas e colocando na mala em seguida. - Ash, você coloca esse notebook na mala, por favor. - falou já dentro do closet novamente.
Ele pegou o eletrônico com o carregador e entregou para Luke, que estava mais perto. Notando uma movimentação assim que passou pela sacada. Puxou a cortina de leve olhando para fora e um arrepio percorreu seu corpo, não do tipo bom. Conseguiu ver um cara muito musculoso e com cara de vilão de filme de ação.
- Hum, . - ela colocou a cabeça para fora. - Acho que temos companhia. - viu os olhos dela se arregalarem.
- Não pode ser! - reclamou e olhando por onde ele olhava, reconheceu um dos caras que aparecia na clínica regularmente. - Droga! - murmurou buscando o resto das coisas no closet.
- Aonde você vai? - Luke perguntou em pânico, percebendo Ash com a mão na maçaneta do quarto.
- Proteger a gente. - rolou os olhos como se fosse bem claro.
- Ash, não! - Luke sussurrou, mas o amigo já tinha aberto a porta e colocado parte da cabeça para fora.
colocou o restante das coisas na mala, incluindo algumas coisas do banheiro que ele não prestou atenção. Ajudou a fechar a mala, mas eles estavam presos ali e Luke estava sentindo seu coração a mil e uma péssima sensação. logo reconheceu o começo de uma crise e parou em frente a ele. Colocou uma mão próximo ao coração dele e começou a respirar calma e lentamente, com um gesto indicando que ele deveria acompanhá-la na respiração.
Ash nem mesmo percebeu o que estava acontecendo dentro do quarto, usava toda a sua concentração e habilidade tentando entender o que as vozes diziam. Ele conseguia distinguir pelo menos duas vozes diferentes e tinha a impressão de ter escutado o nome de .
- Como assim, acham que ela não está na clínica? - uma das vozes falou.
- Segundo o cronograma ela está em terapia, mas o Alef viu o mesmo carro da outra noite por perto. - uma voz mais grossa e fria respondeu.
- Pois mande-o esperar o tempo disso e verificar em seguida e se ela não estiver lá, tratem de encontrá-la o mais rápido possível. Viva ou morta, eu não ligo. - Ashton engoliu em seco e percebeu um barulho que se assemelhava a alguém subindo as escadas, fechou a porta com cuidado.
- Desculpa atrapalhar, mas é bom que você tenha um lugar para nos escondermos. - sussurrou rapidamente.
apagou a luz do quarto, esperando que ninguém percebesse pela sacada ou pelo espaço entre a porta e o piso. Fez um sinal para que os dois a seguissem e em silêncio abriu a penúltima porta do closet, levantou a tampa de uma caixinha de música e apertou um botão, que nenhum dos dois viu que existia e então ouviram um clique.
Ela empurrou as gavetas falsas para o fundo, liberando a entrada para o seu quarto do pânico e os dois continuavam olhando em choque.
- Andem logo! - pediu com medo.
Ash se encolheu para passar pelo espaço e Luke foi quase rastejando. Entregou a mala para eles e por fim entrou, empurrando as falsas gavetas para o lugar e acionando a trava com sua senha.
- Esse é, provavelmente, o dia mais surreal da minha vida. - Ashton comentou analisando o lugar e riu fraco.
- Essa é a hora que vocês se arrependem de estar me ajudando? - perguntou ainda preocupada com o estado de Luke.
- Claro que não. - Luke pareceu voltar a realidade. - Só estou pensando como saberemos que é seguro sair daqui.
- Talvez seja uma boa hora para eu contar que ouvi que vão esperar o tempo de uma sessão de terapia e vão revirar a clínica atrás de você. - Luke passou as mãos no rosto, em claro sinal de desespero. - Acho que não foi uma boa hora. - concluiu. - Eu nem achei que esses lugares existiam realmente. - Ash comentou ainda interessado no local que estavam.
- Existem. - ela confirmou. - Foi uma exigência do meu pai quando nos mudamos, porque ele já tinha sofrido ameaças no endereço antigo. Só que quando completei dezoito anos alterei todas as minhas senhas e códigos, assim ninguém pode entrar. - deu de ombros lembrando das vezes em que simplesmente não queria ser encontrada.
O local era iluminado por luzes de emergência, e diferente dos cômodos da mansão, não era espaçoso e nem mesmo alto, estavam todos sentados no chão, que era como um colchão que ocupava todo o local com algumas almofadas, e um pequeno armário no canto.
- Conseguiu pegar tudo o que precisava? - Luke perguntou atraindo a atenção dos outros dois.
- Sim, só não faço ideia do que ele fez com meu celular. - deu de ombros. - Talvez seja melhor um novo de qualquer forma. - Luke concordou.
- Agora, por favor, vamos pensar num plano para sairmos daqui. - Luke sorriu sem mostrar os dentes.
- Posso mandar uma mensagem para ? - estendeu a mão esperando que Luke entregasse o aparelho dele para ela e aproveitando que ela estava concentrada, Ash chegou mais perto de Luke.
- Tenta se controlar, cara. Você está deixando a preocupada e se ela mudar de ideia todo esse risco aqui vai ser para nada. - Ash sabia que crises eram involuntárias, mas não queria ver tudo indo por água abaixo na altura do campeonato em que estavam.
- E se a gente não sair daqui? - ele devolveu visivelmente nervoso.
- Nós vamos sair daqui, relaxa. E a propósito eu acho que vou atender ao seu pedido da noite passada. - continuou ainda baixo. - Mas falamos sobre isso depois.
estava ouvindo os cochichos, apesar de não entender nenhuma palavra, mas não ligou. Ela mesma tinha os próprios medos sobre estarem ali e o pai dela também. tinha sugerido que chamassem a polícia, mas isso atrairia mais gente para a casa, o exato oposto que eles queriam. E então teve uma ideia, não muito segura.
A contragosto, pediu para que a recepcionista do instituto ligasse para o pai de , pedindo para que ele comparecesse o mais rápido possível, pois tinha acontecido um problema com a filha. Quando ele chegasse lá, os avisaria e então eles teriam que fazer a mágica de deixar lá o mais rápido possível.

- Onde ela está? - o senador perguntou direto a recepcionista, enviou a mensagem previamente escrita em seu celular e caminhou fingindo tranquilidade até a recepção.
- Boa tarde, senhor Reynolds. - o cumprimentou e ele manteve a mesma postura.
- Na realidade era eu que precisava conversar com você sobre ela. Se nós pudermos ir até a minha sala… - indicou a ala dos consultórios, mas o homem continuava parado.
- Não vou a lugar nenhum. Onde ela está? - repetiu a pergunta.
- Ela tem reclamado de alguns sintomas, e gostaríamos que assinasse essa autorização, para que ela possa ir a um hospital para consultar. - tinha um formulário nas mãos, não fazia ideia de qual era, mas também não acreditava que ele leria.
- Ela está na enfermaria então? Como da última vez? - lançou um olhar extremamente desconfiado a .
- Sim. - ela respondeu, e entrou na frente dele, quando ele fez menção de ir até a enfermaria. - Mas precisamos fazer outros exames, exames que não tem como serem feitos aqui, acredito que uma tomografia é o mais indicado. - mas o homem não estava de fato ouvindo.
- Se eu vir que ela realmente não está bem, eu penso em autorizar isso. Com licença. - e não era páreo ao tamanho dele. Restou apenas caminhar em seu encalço até a enfermaria, torcendo por um milagre ou uma ideia. Estavam prestes a entrar quando ouviram a voz de .
- Pai? - ela fingiu extrema surpresa e reprimiu um suspiro de alívio. - O que você está fazendo aqui?
- Eu pedi para ele vir e assinar os documentos para fazer aquele exame na sua cabeça, . - assumiu o tom de voz profissional e levemente tedioso, como se explicasse sobre o exame pela milésima vez. - Mas ele queria te ver antes.
- Ah, eles me liberaram da enfermaria agora a pouco, a dor de cabeça passou. - informou.
- Então não preciso assinar nada. Não me faça perder meu tempo voltando aqui. - apontou o dedo para e deixou as duas para trás.
- Você ainda vai me matar do coração! - reclamou baixinho, soltando o ar que estava preso. - Deu tudo certo? - assentiu com um sorriso.
- Obrigada.

Ash não tinha lembranças de ter dirigido tão rápido, talvez ganhasse algumas multas por excesso de velocidade, e devido ao movimento na frente, conseguiu entrar pelos fundos tranquilamente. A mala dela ia ficar com Luke, então logo saíram dali com o carro, afinal tinha ouvido que estavam desconfiando daquele carro ter a ver com os sumiços de .
- Melhora essa cara aí, Luke. Já passou o susto vai. - Ash o empurrou de leve com o ombro.
- Acho que eu não fazia a menor noção de onde estava me metendo. - comentou e riu fraco.
- Quer desistir? - encarou o amigo enquanto estavam parados no sinal vermelho.
- Não. – balançou a cabeça. - Nem teria coragem, não depois de ter dado tanta esperança a ela.
- Entendo. - mudando completamente os planos, virou na rua oposta ao apartamento de Luke e estacionou em frente a uma sorveteria. - Me deu vontade. - deu de ombros respondendo à pergunta muda de Luke, que desceu do carro ao ver que ele estava falando sério.
Fizeram seus pedidos e sentaram em uma das mesas mais ao fundo, na intenção de serem discretos, o que não adiantou muito. Logo uma fã os reconheceu e se aproximou pedindo para tirar uma selfie com eles, que atenderam ao pedido, mas assim que essa se despediu, outras quatro apareceram e quando terminaram de atendê-las, a garçonete chegou com as duas taças de sorvete, pedindo também um autógrafo e uma foto.
- O que você quis dizer sobre atender meu pedido, quando estávamos com a ? - Luke perguntou colocando uma colher do sorvete de chocolate com chantilly na boca.
- Eu topo me casar com ela para ajudar você com seu plano maluco. - respondeu colocando mais sorvete na boca.
- E o que te fez mudar de ideia? - Luke estreitou os olhos para o amigo. - Não está interessado nela, está? - Ash gargalhou com a pergunta e negou.
- Claro que não, Luke. Eu nem a conheço! - rolou os olhos como se aquilo fosse uma ideia absurda.
- Então o que te fez mudar de ideia? Ontem à noite você foi bem certeiro em dizer não. - relembrou.
- Ontem à noite eu não tinha escutado o pai dela dizendo que era para a encontrarem viva ou morta. - sorriu sem mostrar os dentes e comeu mais uma colherada do doce.
- Ele falou isso? - Luke engoliu em seco.
- Sim, e além disso, você e seu psicológico claramente não estão cem por cento ainda. Não quero você voltando para lá, então eu assumo o seu papel nessa história e me caso com ela. Assim você não surta e ela não morre. - concluiu e Luke piscou sem saber o que dizer. - Ah, pelo amor de Deus! Melhore essa cara de funeral! - Ash reclamou, terminando a sobremesa em seguida. - Está tudo certo, eu vou com a no cartório quando precisar e assino o papel. Pode ficar tranquilo quanto a isso.
- E se isso de fato fizer o pai dela querer matá-la?
- Não acho que ele vá atravessar o oceano para cometer um crime em outro país. Talvez ele nem faça nada, vai estar livre dela como ele quer. - Luke continuou em silêncio e Ash desistiu do diálogo.

No domingo apenas Luke foi visitá-la, e todas as informações foram repassadas a durante a terapia de segunda-feira. Apesar de que a própria já sabia de alguns detalhes. sairia na quarta-feira seguinte, acobertada novamente pela psicóloga, e iriam diretamente para um cartório pequeno e afastado, onde levantaria o mínimo de suspeita possível, visto que aceitaram o pedido de casamento para a data necessária, ignorando o prazo mínimo necessário. Foi particularmente difícil convencê-la a aceitar que se casaria com Ashton, ela só parou de argumentar contra quando Luke deixou claro que Ash estava fazendo isso para ele, já que tinha aconselhado que o próprio não deveria fazer.
Numa espécie de casamento lua-de-mel relâmpago, todos iriam direto para o aeroporto e pegariam um voo sem escalas até Los Angeles, ficaria na casa de Luke, contrariando a ideia dela de ficar em um hotel qualquer. Luke partia do ponto que não daria para garantir a segurança dela, caso ela estivesse longe dele. e ficariam em Sydney mais alguns dias, pois cada uma delas ia ver como a saída de repercutiria e, se possível, descobririam também os passos que o pai dela pensava em tomar. Chegariam em Los Angeles a tempo do aniversário de Mike.

Terça foi um dia com sentimentos diversos para . Estava bastante inquieta com tudo o que estava para acontecer, ansiosa por finalmente estar livre e ter uma vida novamente, mas também ansiosa por todos os riscos que correria e também que colocaria todos os envolvidos. Sentia-se também um pouco triste, de certa forma sentiria falta dos pacientes mais antigos, dos filmes clássicos, das terapias em grupo com Shane e de outros funcionários. Ela nem mesmo poderia se despedir e era como deixar novamente uma espécie de família para trás.
Tentou ignorar todas essas sensações conflitantes e focar apenas no que estava por vir. Ela tinha desejado tantas vezes e por tanto tempo uma forma de sair dali, que não fazia sentido não acreditar que alguém tinha atendido às suas preces. Por isso se imaginou morando em L.A. e recomeçando como uma nova pessoa.

Dessa vez a imaginação dos meninos tinha ido longe demais. Eles tinham alugado um pequeno caminhão para simular alguma entrega para . Confirmando que realmente tinha feito a encomenda, liberaram o portão para que o caminhão estacionasse mais perto da construção. Com a ajuda de Calum, fingiram descer uma caixa super pesada, a apoiaram em um carrinho de carga, que Michael empurrou enquanto Calum carregava a prancheta.
- É por aqui. - indicou segurando um riso, até um bigode falso Calum tinha arrumado, além de camisetas e bonés idênticos. Fechou a porta assim que entraram.
- Eu não acredito! - disse com as mãos na boca. - Vocês assaltaram uma empresa de verdade?
- Os detalhes não vêm ao caso. Entre na caixa, senhorita. - Mike fez uma reverência e arregalou os olhos.
- É sério isso? Vocês pretendem me levar embora daqui numa caixa? - ela estava incrédula.
- Sim, tem até uns buraquinhos para você respirar, olha. - Calum apontou e ela acabou rindo junto com ele.
- Vocês são péssimos. - ainda estava rindo e Calum a encarou por mais tempo do que seria normal, deixando-a desconcertada.
- Nós temos tudo planejado, . Luke e Ash vão te ajudar a sair da caixa, eles estão escondidos no fundo do caminhão. - Mike explicou.
- É sempre uma aventura assim a vida de vocês? - perguntou divertida.
- Você comprovará em breve. Agora entre na caixa antes que descubram a gente. - Mike insistiu e então ela se despediu de sentindo um aperto no coração.
- Obrigada por tudo. - a abraçou e sentiu as lágrimas se formando.
- Não chore! - pediu segurando o próprio choro. - Nos veremos em poucos dias. - assegurou com um sorriso e concordou.
- Se cuide, por favor. - pediu lembrando do que o pai dela era capaz.
- Pode deixar. - e com mais um abraço se virou para os dois.
- Podem me colocar na caixa, rapazes. - os dois a ajudaram a entrar.
A posição era longe do ideal, não dava para sentar, mas em pé a caixa não fechava, então ela estava com os joelhos parcialmente dobrados. Para completar, apoiaram a caixa com os pertences dela em cima da caixa que ela estava, sentindo certo peso diretamente em sua cabeça. Ouviu o barulho da porta se abrindo e sentiu seu corpo em movimento, parando logo em seguida.
- Sinto muito, não posso receber, essas não são as prateleiras que eu pedi. - falava um pouco mais alto que o necessário.
- Tudo bem, vamos procurar saber o que aconteceu. - reconheceu a voz de Mike.
- Obrigada. - ouviu agradecendo, mas continuaram parados.
- Só um minuto. - Calum tinha falado baixinho, mas ela escutou mesmo assim.
rolou os olhos, não estava fácil permanecer imóvel naquela posição. Ela não fazia ideia da cena que acabara de perder. Calum entrara no consultório novamente e roubara um beijo de que literalmente congelou no lugar, ficou sem reação a princípio e depois sem graça por ver que Michael tinha presenciado a cena. Desviou o olhar e os dois saíram.
Não foi fácil colocar a caixa no fundo e quase deixaram cair por duas vezes. Assim que ouviu a tranca na porta, sentiu alguém abrindo a caixa e ela pode ficar em pé.
- Se essa ideia foi sua, ela foi péssima. - declarou a Luke, que a ajudava a sair e os três começaram a rir.
- A sua aventura tinha que começar com estilo. - foi Ashton quem disse e já se sentia em dívida com ele.
- Obrigada! - agradeceu aos dois, mas olhava fixamente para Ash e ele entendeu o que ela queria dizer.

Não demoraram muito a chegar no tal cartório e depois de guardar a caixa de no carro, coisas que ela colocaria na mala a caminho do aeroporto, entraram, seguindo pelo caminho. O juiz de paz já estava esperando, era um senhor de uns sessenta anos ou mais, e foi tudo bem rápido. Antes que percebessem já estavam dizendo “aceito” um para o outro e era surreal para os dois.
- De acordo com a vontade que ambos acabais de afirmar perante mim, de vos receberdes por marido e mulher, eu, em nome da lei, vos declaro casados. - o senhor falou e ficou olhando para os dois, aguardando qualquer tipo de afeto.
Extremamente sem graça os dois deram um selinho e Ash deixou o braço em volta dela. O juiz assinou e passou para eles, assinou primeiro, sendo seguida por Ashton, e depois Luke e como testemunhas, sendo finalizado pelo oficial de registros. Era isso, estava feito, ela só esperava que valesse a pena.





Continua...



Nota da autora: Não sei para vocês, mas para mim esse capítulo traz várias emoções diferentes!
Mas deu tudo certo (por enquanto) e agora vamos para uma nova parte da história, que eu espero que vocês gostem ainda mais! <3
Obrigada a todas que estão acompanhando!

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Nota da beta: Ah, eu passei muito mal com esse capítulo, por um momento achei que não fosse dar certo, mas ufa deu sim, e agora os dois estão casadinho e rolou até selinho, gente hahahah! Esse pai dela, meu Deus, que homem horroroso, frio e extremamente grosso. Estou ansiosa para saber como vai ser as coisas a partir de agora!

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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