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Última atualização: 26/07/2020

Chapter One

O vento soprou fazendo um zumbido agudo ecoar na margem da praia. Eroda nunca foi tão cinzenta e fria como naquele dia. Não havia sequer um mísero barco de pesca ou um pescador na redondeza. Harry encarou aquilo como mais um motivo para continuar com o que estava fazendo. Sua mente se ocupava com inúmeros assuntos e seus olhos apenas viam, mas não enxergavam. Seu limite chegou quando rezou esperando um padre aparecer para poder assim retornar para casa sem peso algum na consciência. Mas, ele não apareceu.
Harry suspirou fundo ajeitando a gola de seu casaco azul escuro da mesma cor que as águas da ilha. Seus pés já sentiam a fria temperatura da imensidão a sua frente. Mais alguns passos até a água beirar seus calcanhares. Harry agachou-se pegando algumas pedrinhas que a correnteza trouxera. Percebendo que as pedras eram pequenas demais ele decidiu afastar-se para procurar outras maiores e voltou minutos depois com os bolsos do casaco cheios. Respirou fundo novamente e dessa vez deu passos maiores. Quando sua cintura congelou ele grunhiu contraindo o abdômen. Ficou parado por mais alguns segundos até continuar andando novamente. Estava indo ao encontro da morte da maneira mais calma que alguém já havia visto. Seu peito estava coberto pela espuma trazida da onda. Seus cabelos já estavam molhados e grudando em sua testa. Seus olhos fechavam-se sozinhos pelo sal que havia entrado. Mas, o que fez Harry parar foi a doce voz que veio detrás da enorme rocha a sua esquerda.
— O que pensa que está fazendo? – Soou preocupada, mas com um pouco de frustração bem no fundo.
— Desculpe, o que disse? – Harry assustou-se e virou rapidamente. Não havia ninguém atrás de si, nem um podre padre. Tornou a olhar para frente buscando a dona da voz, mas não achou nada além de água. Harry pensou ser sua consciência batalhando consigo mesmo e continuou andando.
— Perguntei o que está fazendo. – A voz tornou a dizer depois de alguns minutos de silêncio. Novamente Harry assustou-se, mas desta vez estava longe demais para alcançar seus pés no chão. Seu corpo imergiu na escuridão do oceano sendo tragado pelas enormes ondas da costa de Eroda.

***

Harry levantou-se em pulo da cama assim que seus olhos abriram. Desta vez ele estava enxergando. Então, morrer é se sentir desse jeito? Eu me sinto vivo. Harry pensou no momento em que seus pés tocaram o chão. Sua cabeça doía um pouco e seu ouvido zumbia, mas ele não ligou para isso. Ligou apenas para seu nariz que parecia entupido e dolorido.
Barulhos no andar debaixo chamaram sua atenção e ele vestiu suas meias listradas e desceu as escadas marchando para a cozinha. Styles viu a silhueta de sua mãe encostada no balcão. Ela preparava algo quente devido a fumaça cheirosa que pairava no ar. Harry chegou mais perto e debruçou-se na bancada de mármore antes de juntar toda sua coragem para dizer algo.
— Ah, oi, mãe. – Foi tudo que conseguiu dizer. Se sentia um estúpido quando viu o olhar cansado de sua mãe.
— Harry? – Disse em forma de alívio. – Graças a Deus, onde estava com a cabeça? – Seu tom mudou drasticamente em questão de segundos e Harry percebeu isso.
— Me desculpe. – Respondeu baixo. Não sabia ao certo o que dizer. Não sabia se estava sendo guiado pela emoção ou se estava apenas fazendo o que achava certo.
— Tudo bem. – Anne disse respirando fundo. Harry tinha problemas demais e mais um só pioraria as coisas. – Fiz chá pra você. – Surgiu em seus lábios o doce sorriso que Harry mais amava em sua vida. O dele também não ficava para trás, Anne amava ver o filho sorrindo e feliz mesmo que fosse por alguns segundos.
— Obrigado. – Styles sentiu que o assunto morreria. Mas, o garoto se lembrava de estar morrendo antes de acordar em seu quarto. Precisava perguntar. – Mãe? – Era nítido a ansiedade em seu tom de voz.
— Sim? – Anne virou-se novamente encontrando Harry perdido em seus pensamentos. Ele mordia os lábios como se pensasse em o que dizer. – O que foi, Harry?
— Como eu… você sabe, fui para em meu quarto? – A frase saiu atrapalhada, mas ele sabia que Anne havia entendido. No rosto de sua mãe uma expressão confusa começou a dar indícios antes mesmo dela falar.
— Pode parecer estranho, mas uma mulher de cabelos brancos te trouxe aqui nos braços. – A boca de Harry formou um “O" completo enquanto ele ouvia atentamente. – Ela disse que estava se afogando na costa do lado Sul. – Um longo suspiro escapou dos lábios do garoto. Ele abaixou o olhar até seu pijama listrado de azul e branco ficando em silêncio logo depois. – O engraçado – Sua mãe continuou. -, era que ela parecia ter a sua idade. Entretanto, era diferente, tinha algumas tatuagens tribais engraçadas. – Ela sorriu ao se lembrar da garota misteriosa. – E ela te trouxe nos braços como se você pensasse o mesmo que uma pena. – A mente de Styles trabalhava tentando assimilar tudo aquilo. Como uma garota da sua idade conseguiria carregá-lo da Costa até sua casa como se não fosse nada?
— Ela não é de Eroda, não é? – Harry perguntou minutos depois, ele ainda estava pensando. Sua mãe reconheceria se fosse da redondeza.
— Bom, não da nossa região. Mas pode ser do Norte. – Respondeu servindo o chá. A fumaça quentinha de alguma forma fez Harry se sentir melhor por estar em casa e não morto e boiando em algum lugar do oceano.
— Gostaria de encontrá-la para agradecer. – A frase pareceu ter escapado sem que ele quisesse já que depois disso fez uma careta engraçada. – Seria bom, não? – Tentou concertar sem parecer tímido.
— Seria ótimo, querido. – Anne sorriu meiga. – Mas primeiro precisa melhorar, ainda pode pegar um resfriado. – Harry assentiu e imediatamente tomou seu chá com a cabeça na garota dos cabelos brancos mais forte do que Jonas, um pescador da outra rua.


Chapter Two

Harry sentia seus pés latejando e daria tudo para poder tirar os sapatos. Estava há horas andando por todo Sul de Eroda à procura de sua heroína misteriosa. Havia procurado nos pubs, mas estavam cheios demais para olhar todos os cabelos. Entrou em todos os salões de beleza à procura dos fios brancos, e nada. Foi ao centro da cidade, nos mercados, nos museus, é até no açougue do Jonas. Nada. Nenhuma mulher super forte, nenhuma mulher jovem de cabelos brancos. Absolutamente nada.
Existia apenas um lugar onde Harry não havia procurado e ele sabia muito bem onde era. Ignorando as dores nos pés ele seguiu determinado até a Costa. Diferente da última vez que esteve ali, naquele dia, muitos barcos boiavam acima do calmo mar. Pequenas ondas morriam ao chegar na beira do mar e o ar em volta da Costa parecia mais leve. Harry sentiu seu coração apertar ao se lembrar de quase ter morrido exatamente naquele lugar. A sua direita uma grande rocha no meio da água e a sua esquerda, Elisa, uma pescadora da região. Styles gostaria de ir até lá e perguntar sobre a garota de cabelos brancos. Mas, depois de cogitar a ideia tantas vezes, ele achou melhor não incomodar Elisa com seus problemas. Continuou andando até ouvir a areia atrás de si fazendo barulho.

— Por que não disse nada? – Elisa perguntou assim que Harry se virou. Ele estava surpreso. Foster limpava suas mãos sujas de escamas enquanto encarava Styles a espera de sua resposta.
— Não queria incomodar. – Ele sorriu sendo acompanhado pela garota. Harry acomodou suas mãos nos bolsos buscando o que dizer. – Posso te fazer uma pergunta estranha? – Fez careta enquanto pronunciava estranha.
— Claro que pode, Hazz. – Elisa respondeu de forma carinhosa. Foster conhecia Harry desde criança. Ela nasceu em uma família de pescadores e desde pequena tinha em mente que gostaria de continuar com a tradição. Os Fosters não tinham um lugar certo para morar, às vezes estavam no enorme barco, às vezes em uma casa no fim da rua de Harry e outras vezes sumiam por meses. Mas Elisa era uma boa amiga para Harry, então sumir de vez em quando não o incomodava.
— Será que você não viu, por esses dias, uma garota diferente e com cabelos brancos? – Harry disse tão rápido que logo depois perguntou a si mesmo se Elisa havia entendido.
— Uma garota de cabelos brancos? – Elisa sorriu. Não um sorriso debochado ou coisa do tipo, mas um sorriso curioso. – No que se meteu dessa vez, senhor Styles? – Perguntou divertida.
— Em nada demais. – Harry sorriu sem graça. Péssima ideia; pensou. — Só estou procurando.
— Ah. – Foster ergueu as sobrancelhas. – Bom, eu não vi ninguém. Mas posso te avisar se eu ver.
— Seria ótimo. – Harry disse animado. Toda ajuda era bem vinda. Mesmo que fosse apenas uma. — Obrigado, Lisa, te vejo por aí. – Despediu-se da amiga enquanto um sorriso bobo aparecia. Ser tímido era como uma segunda pele na vida de Styles. Ele continuou andando pela Costa até se sentar em um banquinho de madeira. Estava enfim descansando seus pobres e cansados pés.
O vento gelado o fez fechar os olhos por alguns minutos e apenas ouvir o barulho das ondas se quebrando nas enormes rochas. Acomodou suas mãos dentro de seus bolsos do macacão vermelho que vestida. Harry respirou fundo desfrutando do silêncio que só Eroda poderia proporcionar. Sua mente automaticamente viajou para sua heroína desaparecida. Styles pensou que nunca iria encontrá-la já que ir até o Sul estava fora de cogitação. Ainda de olhos fechados ele sentiu um ar diferente em volta de si, como se alguém estivesse em sua frente. O banquinho de madeira fez barulho anunciando que haviam mais pessoas sentadas ali. Harry pensou ser Elisa o seguindo e como o silêncio continuou, ele decidiu mantê-lo já que estava confortável.

— Eroda é tão silenciosa, não? – Harry poderia reconhecer aquela doce voz a quilômetros ou mesmo depois de mil anos. Seus olhos se abriram tão rápido quanto poderiam piscar e sua cabeça se virou bruscamente. Em seu rosto, uma careta horrorizada havia se formado. Era ela, ele sabia. — Viu algum fantasma, Harry? – Perguntou ainda. Styles sentiu o ar escorrer de seus pulmões assim que seu nome foi pronunciado.
— Você? – Foi tudo que conseguiu dizer. Estava tão surpreso por tê-la procurado o dia todo e no fim das contas ela mesma ter o achado. Seus olhos se prenderam nos fios brancos, tão reais que pareciam estar ali desde seu nascimento. Harry notou sua pele em um tom azulado, completamente diferente de tudo que já havia visto. As descrições de sua mãe sobre as tatuagens jamais chegariam aos pés das verdadeiras, eram tão vivas e delicadas. Era a mulher mais perfeita que pisou sobre Eroda e Harry tinha convicção de que a garota não era de lá.
— Eu. – Ela respondeu. Era tão calma e paciente. Continuou em silêncio enquanto observava a maré. Mesmo com os olhos ocupados ela teve uma visão sobre Harry. Usando seu macacão vermelho, com seu cabelo bem penteado e que agora estava bagunçado, seus olhos verdes espertos e curiosos; Era meigo e tímido. Ela podia ouvir seu coração bater a quilômetros. — Meu nome é Dione. – Comentou quando o silêncio caiu novamente. — Achei justo saber o meu já que sei o seu.
— Obrigado, Dione, por me salvar. – Harry respondeu ainda fascinado. Tinha tantas perguntas pra fazer, mas decidiu ficar calado, não queria assustá-la.
— A pergunta a ser feita, Harry, é se realmente gostaria de ter sido salvo. – Dione bombardeou sem rodeios. Harry pareceu voltar a Eroda. Piscou algumas vezes pensando no que responder, mas absolutamente nada saiu de sua boca, a não ser um longo suspiro. — Tudo bem, já tenho minha resposta. – Dione tocou o ombro de Styles e mesmo por baixo do macacão vermelho ele sentiu o quão gelada ela era.
— Desculpe, eu não sabia ao certo o que estava fazendo ontem. – Sua resposta foi sincera. Ele levou seus olhos até os sapatos que já não machucavam mais seus pés.
— Foi pura sorte se quer saber. – Dione começou. — Eu estava andando e te vi. – Ela disse calmamente com olhos ainda pregados no horizonte. Não queria encará-lo e ter que lidar com isso depois. Harry a olhou sem medo tentando buscar alguma mentira em sua fala. Nada.
— Eu não vi ninguém na margem e nem nos morros. – O tom de Harry era curioso. Ele realmente não havia visto ninguém pelas redondezas.
— Você só não olhou direito. – Ela deu de ombros como se não importasse. Mas, na verdade, ela se importava até demais.
— Foi você quem falou comigo? – Ele perguntou quando ela se calou. Dione assentiu enquanto avistava o horizonte. – Então foi você quem me distraiu? — Ele brincou. Dione rapidamente o encarou. Seus grandes olhos azuis se fecharam formando uma falsa expressão de raiva.
— Deveria me agradecer. – Ela sorriu satisfeita ainda o encarando. Gostaria de guardar cada detalhe sobre Harry Styles. Seja a forma como ele sorria e suas covinhas apareciam, ou seja a maneira como seus olhos se fechavam durante o ato. Dione guardaria tudo.
— Obrigado, de novo. – Ele ressaltou sorrindo tímido. Estaria tudo perfeito se não tivesse lembrando de um porém crucial. — Dione, posso te perguntar uma coisa? – Ela assentiu virando-se completamente. — Como foi que me salvou e me levou até minha casa? – Dione respirou fundo e a expressão de mentira que Harry tanto procurava, finalmente deu indícios de que iria aparecer.
— Ah, bom, eu pedi ajuda, sabe, lá no mercado. – Depois de alguns segundos ela respondeu hesitante. Harry poderia notar de longe a mentira em sua fala, mas decidiu que ainda não era tempo de forçar nada.
— Tudo bem. – Apenas lançou um sorriso compreendedor. — Você tem algo pra fazer agora? – Dione pensou ter ouvido o coração de Harry batendo mesmo estando consideravelmente longe.
— Não, por quê? – Ela não pôde deixar de sorrir. Ele estava mesmo a convidando para sair?
— Gostaria de tomar chá lá em casa? Minha mãe vai gostar de te conhecer melhor. – Harry estava feliz e não deixaria de mostrar isso a Dione. Mas, por outro lado, Dione aos poucos desfez o sorriso de seu rosto, formando uma expressão de preocupação. – Está tudo bem? Eu disse algo?
— Não, Harry. – Ela respirou fundo se levantando. — Me desculpe, eu não posso. – Dione ajeitou seu vestido azul assim como seus olhos e voltou seus olhos até Styles novamente. — Eu nem deveria estar aqui, mas vi você sozinho e pensei que seria legal te conhecer, só isso. – Suas palavras soavam dolorosas ao serem pronunciadas. Harry sentiu seu coração despedaçar pela garota que havia acabado de conhecer. Ora, era sua heroína, não deveria ser perfeito?
— Eu… eu entendo, Dione, de verdade. – Ele se pôs de pé ajeitando os cabelos. Dione o encarou por mais alguns segundos até dar as costas e sumir entres as pedras. Harry ficou mais um tempo parado enquanto sua mente vagava para longe. Suas pernas o obrigaram a voltar para casa. A noite caía em Eroda e Harry cruzava as esquinas sem preocupação. Seu corpo estava ali, mas sua mente não. E com a figura de Dione tatuada em sua cabeça, ele cruzou a última esquina.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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