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Última atualização: 05/10/2020

Prologue



O ano é 520 da Nova Era (N.E), 520 anos após a formação de Whesta. Nossos estudiosos ainda tentam entender as mudanças que aconteceram no mundo, que nos trouxeram até aqui.
Ao que parece, a população anterior à nossa crescera tanto e provocou tantas mudanças ambientais e climáticas que disputas territoriais, em busca de água e terras férteis, foram inevitáveis. Apesar de termos nossos armamentos, desde pistolas a bombas, sei que o armamento de nossos ancestrais era muito superior. Registros encontrados sob nossas montanhas, detalham ataques bélicos, nucleares e cibernéticos, seja lá o que isso seja.
Pelo que se sabe, a disputa territorial começou com os ataques cibernéticos, com segredos estatais sendo expostos, bem como algumas informações sigilosas, que nossos antepassados chamam de "dados bancários" dos governantes. A revelação desses dados provocou uma onda de descontentamento na população, que iniciou revoltas e protestos por todo o mundo, já que, esses dados, traziam informações referentes também a "propinas" recebidas (ainda estamos considerando se essa é a real tradução) e dados “sonegados”. Com as forças armadas concentradas em controlar as massas, cada país se viu na oportunidade de atacar o país vizinho, ou outro que julgara uma melhor opção para a sobrevivência. Como se a morte pelas disputas territoriais e pelos fenômenos naturais, como terremotos e grandes alagamentos (por eles chamados "tsunamis") já não fosse suficiente, grande parte da população ainda fora morta pela fome, seca e doenças para com as quais nossos ancestrais não estavam preparados.
Alguns registros informam que sinais foram dados, de que um colapso mundial seria iminente, porém, segundo os mesmos registros, tais sinais foram ignorados pela maior parte da população mundial e seus governantes.
Em meio ao caos global, um pequeno grupo conseguiu fugir e se refugiar nas montanhas, nas proximidades de onde os preciosos registros de nossos ancestrais foram encontrados. Segundo nossos estudiosos, eles deviam ser o que restara da humanidade e os antecessores dos primeiros de nossa linhagem.
De acordo com o relato menos desgastado pelo tempo, o que nos leva a crer que seja o mais recente, após alguns anos de sobrevivência nas montanhas, alguns membros do grupo passaram a exibir mutações genéticas, mutações essas que eram, na maioria das vezes, herdadas por seus filhos e, às vezes, aprimoradas. Um registro de 250 da Antiga Era (A.E), pré-formação de Whesta, narra a prisão e morte de um homem acusado de roubo. Segundo o mesmo registro, após arrancar uma árvore pela raiz, depois do dono da mesma se recusar a dar-lhe alguns frutos, o homem correu 100km (um terno que ainda não conseguimos decifrar ao certo o que seja) em menos de 10 minutos. Ao ser preso, o rapaz não sabia explicar como conseguira fazer aquilo e, pelo roubo, fora condenado à morte. Acreditamos que esse seja o primeiro relato da existência de um forçador, já que, ao ter a cabeça decapitada, sangue preto jorrou de seu corpo.
770 anos após, cá estamos, vivendo em um reino onde quase todos possuem poderes (descobertos somente aos 22 anos), sangue preto corre em nossas veias, a coroa é passada do pai para o filho mais velho e um recrutamento aos 23 anos acontece para homens e mulheres sem filhos.


One



Ao caminhar pelo palácio naquela manhã, paro alguns minutos para observar o jardim. É inevitável não pensar que, apesar dos esforços dos botânicos e tempestuosos, se ela estivesse viva o jardim estaria mais bonito. Minha mãe me deixou quando eu tinha apenas 2 anos; fora encontrada morta em seu próprio quarto e o culpado nunca fora encontrado, bem como a razão de sua morte. Desde então, seu quarto, um luxuoso aposento decorado com as cores dourado e cinza, a última devido ao seu poder, nunca mais fora aberto, ficando quase intocado e congelado no tempo, assim como parte do castelo. O nome Nadine nunca mais fora pronunciado nesses corredores, sendo substituído por "A Rainha Morta", pronunciado juntamente com suspiros e olhares tristes. Sim, era isso que ela era, para todos, mas não para mim.
Apesar de meu pai, o Rei Ernesto V, ter se casado de novo com uma das filhas das Grandes Casas, a Rainha Eleonora, e superado grande parte da dor de perder o grande amor de sua vida, eu não consigo fazer o mesmo. Sinto como se parte de mim não acreditasse que minha mãe teria tido coragem de me abandonar tão novo, ela me amava demais para isso. Por isso, me agarro à lembrança que tenho de seu sorriso e me mantenho firme no propósito de entender o que realmente lhe aconteceu.
Quando me sinto perdido em pensamentos, ainda encarando o jardim poucos metros abaixo, encostado ao parapeito, surge ao meu lado. Desvio meu olhar para ele e percebo o quanto está diferente, mais forte, maduro, apesar de só ter 24 anos. Os olhos verdes, sobre a pele clara, contribuem para a imagem de príncipe e se destacam ainda mais hoje, devido ao sol forte que brilhava no céu.
Devido ao trabalho dos tempestuosos, o clima em Whesta era quase sempre o mesmo: céu azul, com poucas nuvens, sol forte e sensação térmica de clima ameno. Porém, nós também tínhamos dias de inverno, com temperaturas um pouco mais baixas que o normal, afim de contribuir para que todo tipo de plantação pudesse ser cultivada no reino.

- Pensando nela outra vez? - diz, com o tom de voz baixo, e, por um minuto, quase me questiono se ele leu minha mente.

Apesar da aparência doce, meu irmão é detentor de um dos poderes mais fortes e assustadores do reino, o de manipular lembranças. Ainda que não possa ler mentes, ele pode criar, alterar e remover lembranças da mente das pessoas com uma facilidade assustadora. Lembro-me quando ele completou 22 anos e seu poder surgiu: estávamos os dois em meu quarto, quando ele disse ter sentido algo tipo um formigamento nas mãos e ao sacudi-las, uma lembrança minha, de quando éramos mais novos, surgiu em minha mente. Enquanto me olhava nos olhos e movimentava as mãos, a lembrança ia sendo distorcida. Ao que ele percebeu que aquele era seu poder, ele voltou a lembrança à recordação original.
Depois daquele dia, não falamos muito mais sobre. Apesar de todos os efeitos de outros poderes sobre uma pessoa, se cessarem aos seus 22 anos, quando ela, supostamente, descobre seu poder, qualquer manipulação por poderes após essa idade, tornam-se permanentes. A partir daquele dia, também, passei a questionar a veracidade do que me disseram sobre a morte de minha mãe.
Quando a família real descobriu o poder de , um pequeno escândalo surgiu, uma vez que tanto meu pai quanto eu somos forçadores e a rainha Eleonora não possui poder, fora estranho o príncipe mais novo ter desenvolvido tal habilidade. Porém, após algumas investigações em nossa linhagem, nossos pesquisadores descobriram que um de nossos antepassados, nosso bisavô, tivera uma habilidade semelhante à de , tornando a habilidade dele uma espécie de evolução.

- Não há como olhar para um jardim e não lembrar, ainda mais este, onde ela adorava passar o tempo. - Respondo, finalmente, recebendo um olhar solidário de .
- Vou à Biblioteca do Reino mais tarde, deveria ir e enfiar um pouco de conhecimento nesse seu cérebro de passarinho. - Meu irmão mais novo brinca, me fazendo rir levemente. - Ah! E peça para um de seus criados raspar essa sua barba, você está a cara de nosso pai. - diz, saindo do meu lado e voltando a caminhar, rindo de leve. Suas vestes brancas, com detalhes em prata e algumas pedras, refletem a luz do Sol à medida que ele caminha, refletindo um pouco mais da imagem de príncipe dele do que acho que gostaria.

Passo a mão pela barba, percebendo que ela está um pouco grande mesmo, e dou uma risada leve. Depois de um breve suspiro em direção ao jardim e ao céu azul, volto a caminhar pelos corredores beges do castelo.
A residência da família real tem 104 cômodos, 2 andares, 3 jardins, sendo um o principal, bem ao meio do castelo, com uma fonte ao centro (era o preferido de minha mãe e a fonte fora lá colocada a pedido dela). Além da sala do trono e dos 4 salões de festa, o prédio, de paredes beges, com decorações douradas e colunas gregas por toda parte, possui uma infinidade de quartos, tanto para a família real quanto para os principais membros das Grandes Casas, quando estes veem participar de algum evento e acabam ficando por mais alguns dias, bajulando o rei.
É quase cansativo andar por um lugar tão grande, se não fosse pelas decorações. Estátuas, pinturas e retratos estão por todo lugar, trazendo o luxo que um palácio merece e que Eleonora adora ostentar. Uma vez que é a segunda esposa de meu pai, a rainha não mede esforços em tentar apagar qualquer vestígio da presença de minha mãe aqui, e meu pai está ocupado demais sendo rei para impedi-la.
Assim que chego à porta de meu quarto, os dois guardas da porta empurram a pesada madeira para que eu possa entrar. Assim que adentro o cômodo azul marinho e dourado, ouço o barulho da porta se fechando atrás de mim.

●●●

Já está escuro quando desço uma das várias escadas do palácio. O número de pessoas circulando por aqui reduziu muito, o que me faz ter que ser cuidadoso com qualquer barulho que eu possa vir a fazer.
Como de costume, passei pela porta do quarto de e dei duas batidas, aproveitando que nenhum dos guardas dos nossos aposentos continua à porta depois que entramos.
Irei até o vilarejo atrás de respostas. Soube que uma das antigas criadas de minha mãe, Amy, mora lá e penso que, talvez, ela possa me ajudar a confrontar alguns fatos.
Ao passar pela pequena porta de entrada dos criados, com o coração batendo rápido, certifico-me de que não estou sendo seguido e nem observado, para então começar a correr. Como forçador, minha força física é maior do que de qualquer outra pessoa com poder diferente do meu ou sem poder, então logo estou passando como um raio pelos portões sempre abertos do palácio, deixando uma pequena brisa para trás.
Quando finalmente diminuo o passo para tomar fôlego, estou fora das imediações do palácio, de risco, e uns quilômetros mais perto do meu destino, na estrada para o oeste. A quantidade de árvores ladeando a estrada aumentou, o que faz com que a luz, unicamente vinda do céu estrelado, seja quase mínima, mas não me intimido. Após uma curva meio escura, consigo ver meu destino, parcialmente iluminado pela luz projetada sobre ele pelas árvores.
Retiro do bolso um papel com as orientações que me passaram, enquanto me aproximo da acomodação e me certifico de estar no lugar certo. A casa, de janelas de madeira um pouco estragadas, formando buracos, possui uma fachada que parece ter sido alaranjada algum dia, mas que hoje está quase sem cor, devido à tinta desbotada e descascando, e uma porta também de madeira, mas dessa vez aberta, revelando uma casa com interior vazio e escuro.

- Se veio procurar Amy, perdeu a viagem. - Uma voz feminina diz à minha esquerda, me fazendo virar em direção à mesma.

Do alto de uma árvore alta e meio seca, uma garota morena salta. Não deve ter mais que 22 anos, a julgar por sua aparência. Ela veste uma calça preta meio sem cor, com alguns rasgos nas coxas e joelho, assim como uma camiseta vermelha meio desbotada, que parece não ser dela, já que fica maior do que deveria ser, e o par de botas gasto. O contraste é impressionante já que eu visto uma camisa uma camisa azul marinho com a cor quase intacta e limpa e sapatos de couro macios. O cabelo castanho e liso está com as pontas meio acinzentadas, provavelmente pelos dias trabalhando ao sol, mas é o seu rosto que prende minha atenção. O rosto arredondado, de olhos castanhos, curiosos, e boca fina são idênticos ao de minha mãe e, por alguns segundos, sinto que estou alucinando.

- Agora, além da viagem, perdeu a língua. - Ela brinca, saindo da pouca escuridão que se encontrava, devido às sombras das árvores que cercam a casa, com a cabeça inclinada. Ela me encara, analisando cada detalhe, do rosto até às roupas levemente gastas, que consegui no palácio, mas que ainda sim me destoam de qualquer pessoa que não seja da nobreza. Sinto que deveria ficar, ao menos um pouco, constrangido, mas eu a encarei de cima a baixo antes, nada mais justo que ela o fazê-lo agora. Depois de um longo momento, seu rosto parece se iluminar e logo entendo o porquê: - Ora, ora, se não é a Vossa Alteza Real, O príncipe herdeiro. - A morena diz, irônica, ao me reconhecer, fingindo uma reverência.
- Me chame de , por favor. - Peço, finalmente conseguindo superar meu espanto e falar algo.
- Certo, . O que o traz ao nosso humilde vilarejo? – Ela pergunta, se aproximando um pouco mais, porém, ainda mantendo certa distância. Percebo que seu olhar se alterna entre mim e o ambiente à minha volta, enquanto ela pisca rapidamente. Eu a deixo nervosa.
- Agora, nada mais. - Digo, desviando meu olhar dela para a casa abandonada.
- Achei que príncipes não se importassem com a criadagem... de todo modo, Amy se mudou tem muito tempo, não tenho mais notícias dela.
- Tudo bem. - Digo baixo, voltando a encará-la, suspirando de leve. - Se me permite, senhorita, qual seu nome? - Pergunto, querendo agora focar em meu mais questionamento: como ela poderia ser tão parecida com minha mãe?
- , . – Ela responde, dando de ombros e revirando os olhos.
- Você é sempre tão simpática? – Provoco, tentando disfarçar que a estou analisando completamente. Ela não se abala, ao menos não deixa transparecer, então continuo: - E, você, , teria algum parentesco com a falecida rainha Nadine? - Coloco minha mão no queixo, passando a analisar a morena à minha frente ainda mais.
- E Vossa Alteza acha que eu estaria ainda aqui, nesse vilarejo, se tivesse? - diz, erguendo as sobrancelhas, e me sinto burro. Claro que não.
- A quão disposta estaria a me deixar estudá-la?
- Não sei se Vossa Alteza sabe, mas eu tenho outras prioridades no momento, como, por exemplo, arrumar algum jeito de fugir do recrutamento. - A morena diz, revirando os olhos novamente e chutando um pouco de terra com o pé direito.
Estreito os olhos e os lábios, tentando não deixar que as palavras soem estranhas: - Quando tempo você tem até ser recrutada?
- Parei de contar no dia seguinte ao meu 22º aniversário, mas sei que cada dia menos. – A dor em sua voz ao dizer aquilo é quase palpável.
- E arrumar um filho apenas para fugir do recrutamento não é uma boa opção... – digo, mais para mim do que para ela.
- Não preciso colocar mais uma pessoa no mundo para sofrer como já sofro... – ela murmura baixo, quase como um sussurro, mas consigo escutar.
- Não há como fugir do recrutamento. – Digo, depois de um longo momento de silêncio de ambas as partes. parece lutar com as palavras, talvez com medo de se abrir comigo. - Se vier comigo, prometo ajudá-la a conseguir uma dispensa. - Ofereço, depois de alguns minutos de reflexão, confiante.

Ela me encara intensamente na mesma hora. Algo sobre a luz do luar faz seus olhos castanhos ficarem mais claros e brilhantes, vejo sua íris trêmula ao passo que ela observa atentamente a minha, firme. Enquanto ela parece hesitar, eu tento parecer o mais decidido possível, é fácil demais para mim emitir uma dispensa.

- Tenho sua palavra? - perguntou, desconfiada, me encarando com os olhos estreitos.
- Tem. - Respondi firme. - Eu apenas quero entender o porquê da semelhança, depois disso eu te consigo uma dispensa, e enquanto isso você fica no palácio.
- Não sou muito boa com relacionamentos com a nobreza, como pôde ver, mas faço tudo para me livrar daquele matadouro para o qual o recrutamento nos leva, até ser sua cobaia. - falou e deu um passo à frente, se aproximando ainda mais de mim e me estendeu a mão direita. Entendendo o gesto, estendi a minha mão também a apertei firme a dela, consolidando nosso acordo. - Ok. O que fazemos agora?
- Você tem algum problema em ser carregada? - Perguntei e ela me olhou receosa.

●●●

Carreguei em minhas costas durante todo o caminho de volta ao palácio. Ao chegarmos em frente à porta de entrada dos criados, ela desceu e eu fui à frente, a guiando pelos corredores até a porta do quarto de , tomando todo o cuidado de não sermos vistos. Como imaginei, ela era esperta e logo entendeu o porquê de não estarmos andando normalmente, ficando o tempo todo calada. Algumas vezes que a olhava por cima dos ombros, conseguia observá-la alternando seu olhar entre o caminho que eu fazia e tudo à sua volta.
Assim que chegamos à porta de , bati três vezes, fazendo com que ele entendesse que era eu e logo abrisse. Ele já estava de pijama, uma túnica branca, lisa, de mangas longas, e o olhar baixo e cansado indicava que estava quase dormindo.

- Quem é essa? E porque eu tenho a sensação de estar olhando para um fantasma? - perguntou, assim que abriu a porta do quarto e viu a garota morena ao meu lado.
- Esta é e ela vai passar um tempo aqui conosco.


Two



Sou empurrada de leve e rapidamente para dentro da porta assim que ela é aberta.
- Você só pode ter enlouquecido! – É o que o jovem a minha frente, o príncipe mais novo, quase berrou assim que entramos no cômodo. Ainda que o conheça por fotografias, afinal a família real tem fotos espalhadas por todo o reino, não consigo evitar encará-lo. Ao contrário do irmão, este é mais pálido e magro, o que só se acentua, devido à túnica, não muito larga, inteiramente branca que usava. Os olhos verdes, juntamente com o cabelo castanho, quase loiro, são as únicas coisas que não me fazem imaginar estar diante de uma folha de papel sulfite. Ainda que tenha uma aparência nobre e séria, não parece ter mais que 24 anos. Seu rosto é fino e anguloso e tenho a sensação de conseguir ver, brevemente, suas veias pulsando preto enquanto ele se enfurecia com o irmão. – Minha mãe jamais vai suportar essa ofensa a ela e você sabe.
- Mas me diga que você também não está no mínimo curioso com a semelhança. – disse, ao meu lado, tentando trazer o irmão para o seu lado.
- E onde irá acomodá-la, a essa hora da noite? No seu quarto? – O príncipe falou, massageando as têmporas, encarando o irmão fixamente. Por um momento, cheguei a pensar que aquela tensão entre os dois sempre existiu, mas rapidamente afastei tal pensamento.

Em algum momento da pequena discussão, o olhar de recaiu sobre mim, me analisando rapidamente, como se já o tivesse feito antes e quisesse apenas se certificar de que nada mudara. aproveitou a oportunidade para dar a discussão como encerrada, suspirando e levando a mão às têmporas.
- Vamos, . – falou, pegando levemente meu braço, o que me surpreendeu, visto que ele é um forçador. É a vez de suspirar, dando as costas para nós, enquanto nos retiramos do quarto.

Caminhei pelos corredores do palácio atrás de , enquanto ele tentava nos esconder, de quem quer que possa nos ver e ir correndo contar ao rei que o príncipe não estava em seu quarto, até pararmos diante de duas largas portas marrom envernizadas, que me pareceram um tanto quanto pesadas. O príncipe mais velho rapidamente as abriu, entrando primeiro e acendendo um abajur em algum lugar, para logo voltar à porta, me puxando para dentro do quarto logo em seguida.
É estranho estar ali. O quarto é inteiramente decorado em tons de azul marinho com dourado, ao contrário do de que é branco. Uma grande cama inteiramente dourada, com uma cabeceira com estofamento azul marinho, se encontrava à minha esquerda, ladeada por duas mesas de cabeceira do mesmo tom, que servem de base para dois abajures. À minha frente, posso observar duas janelas altas e largas, com pesadas cortinas azul marinho impedindo que a luz do luar adentrasse o quarto. Próximo às janelas, havia uma escrivaninha repleta de livros e pergaminhos enrolados. À direita desta, havia alguns bustos que, arrisco dizer, possuem as mesmas medidas do príncipe herdeiro. Nestes, havia trajes, em sua maioria cerimoniais, bem como armaduras. À minha direita, havia um pequeno móvel, que imaginei que faça jus a um guarda roupa e, ao seu lado, uma poltrona, sobre a qual uma túnica azul marinho, igual a de estava esticada.

- Amanhã cedo eu mando providenciarem para você um quarto, mas, por hoje, vai ter que dormir comigo. – disse, naturalmente, depois indo em direção a uma das mesas de cabeceira para acender o abajur que nela se encontrava.
- Tão rápido me conheceu e tão rápido quer me levar para a cama? – Comentei, irônica, erguendo uma de minhas sobrancelhas. Na mesma hora o príncipe parou e se virou em minha direção. Ainda que não conseguisse ver seus olhos, eu tinha certeza de que ele me encarava com um olhar malicioso.
- Sou um homem nobre. – Ele disse, fingindo estar ofendido. – Se vamos realizar tal ato, deve ser consensual. – se virou, acendeu o abajur, para depois se virar em minha direção e sorrir sacana. Ainda que eu já tivesse o encarado de alto a baixo mais cedo, foi inevitável não repeti-lo. Cabelos castanhos sedosos, que apenas membros da nobreza conseguiam ter, e pele levemente pálida. O físico semelhante ao de um lenhador, com ombros largos e braços e pernas forte. A barba, extremamente bem feita, juntamente com os olhos azuis, apenas reforçavam que ele era mais velho, algo em torno de 27 anos, e experiente do que eu.

Uma pequena parte de mim queria espancá-lo, outra queria ver o que aconteceria se eu cedesse aos encantos dele, mas eu tentei ser racional e apenas caminhei em direção à cama e me sentei sobre ela, tirando minhas botas velhas e gastas e as depositando ao lado da mesa de cabeceira, para então poder me deitar.


Não sei ao certo que horas eram quando acordo, é estranho dormir em uma cama tão confortável, ainda mais quando passei quase 22 anos dormindo em um fino colchonete sobre uma grossa tora de madeira ao chão. Meus olhos se abriram rapidamente e voltaram a varrer o quarto luxuoso em que me encontrava. Agora, com um pouco de claridade emanando pela fina fresta da cortina, consigo ver o quão luxuoso o cômodo é, mais do que imaginei quando cheguei aqui ontem à noite. Um mísero pedaço do pano dessa cortina seria capaz de alimentar uma família por dias, pensei, parando de olhar ao redor e focando no espaço na cama ao meu lado vazio.
Foi estranho dormir na mesma cama que , ainda que a cama fosse grande o suficiente para acomodar mais umas duas pessoas, confortavelmente. Não era como se eu nunca tivesse ido para a cama com alguém, mas nessas ocasiões dormir era meu último pensamento e nenhuma das pessoas foi um príncipe, quem dirá um futuro rei.
Antes que eu possa continuar refletindo sobre a noite passada, suaves batidas à porta chamaram minha atenção e me levantei em um pulo, enquanto uma jovem de pele clara, com manchas avermelhadas na pele, devido ao sol forte e trabalho árduo, cabelo preto e olhos acinzentados, entrou no quarto, com uma pequena pilha de roupas em mãos.

- Não se preocupe, os guardas juraram lealdade ao príncipe. – A miúda garota falou, com um sorriso doce no rosto, se referindo aos guardas que estão à porta, assim que rapidamente me coloquei em alerta ao ver seus braços empurrando a madeira pesada, com medo de adentrarem o quarto. – Sou , também do vilarejo de Watherfloor, e, se me permite dizer, Lady , a semelhança é realmente impressionante. – comentou um pouco sem graça, assim que deixou as roupas sobre uma das mesas de cabeceira, e se aproximou de mim.
- Por favor, nada de Lady, apenas , essa coisa de Lady não vai rolar. – Comentei, com uma leve expressão de repulsa, e concordou com a cabeça. – E você a conheceu, quer dizer, chegou a ver a Rainha Morta pessoalmente? – Assim que negou com a cabeça, percebi o quão idiota fora minha pergunta. A morena devia ter praticamente a mesma idade minha.
- Não, mila... – Não dou tempo de ela terminar o pronome de tratamento, cruzando meus braços sobre o peito e erguendo uma de minhas sobrancelhas em sua direção. – Não, . Porém, vi alguns retratos. Apesar da ordem da Rainha ter sido de queimá-los todos, ainda há alguns em ambientes de acesso exclusivos da criadagem.
- É claro...
- A alteza real, Príncipe , pediu que eu viesse ajudá-la em seu processo de adaptação à corte. – retornou a dizer, ao ver que eu não pretendia falar mais nada. - Imagino que a senhorita saiba que dificilmente conseguirá ficar muito tempo nesse castelo sendo igual a uma pessoa cujo rosto e nome é proibido de ser mencionado em toda a corte. – falava rápido e eu apenas concordava com a cabeça, ainda refletindo se ter vindo para cá foi uma boa ideia. – Imaginei que podíamos começar por um banho, hun? Posso preparar o vosso banho?
- Preparar o meu banho? Mais por quê?
- Sei que não é costume em nosso vilarejo, mas aqui, na corte, é costume que os criados preparem o banho.
- Essa corte e os costumes dela... será que está cedo demais para desistir de tudo e voltar para casa? – Comentei, rolando os olhos, e, por um momento, achei que ri, de leve. De certa forma é bom saber que divertia alguém.
- Você se acostuma, e é para isso que eu estou aqui, para ajudá-la. – É tudo o que ela disse, antes de se dirigir ao banheiro do quarto de , me deixando novamente sozinha próximo à cama.

●●●

fez um belo trabalho em mim. Ela cortou parte do meu cabelo, para tirar as pontas ressecadas pelo sol e me deixar com uma franja estranha; mexeu em minhas sobrancelhas, que estavam grossas e sem forma, de acordo com ela; escureceu um pouco a minha pele com um produto grosso e resistente. Toda parte de pele exposta era coberta pelo produto, o que me deixou com a sensação de ser outra pessoa, realmente, assim que me olhei no espelho. Ao final de tudo, parecia outra pessoa, tanto em aparência, quanto em minhas roupas.

- A pedido do Príncipe Herdeiro, lhe providenciei um quarto fora da área real e próximo à área de dormitórios dos criados das Grandes Casas, o que lhe ajudará a manter o disfarce. A partir de agora, para todos, você será Emily Scott, do vilarejo Breitton, criada da Casa Niron. Eles são elétricons, cor azul celeste. Claro que você não precisará servi-los, mas deverá se manter próximo a eles em alguns eventos e ocasiões, apenas como forma de manter o disfarce. Quando o dia de Hodr chegar e formos cruzar o reino, em direção ao Palácio de Inverno, coloco você junto com os criados reais, para que consiga ir. O importante é manter o disfarce até que o príncipe consiga bolar algum plano melhor, conforme ele mesmo disse. Lembre-se: nunca olhe a nobreza nos olhos, mantenha a cabeça abaixada e não responda. Ao contrário deles, nós, criados, estamos sempre correndo para cumprir nossas tarefas, então, caso se sinta em uma situação complicada, apenas faça uma reverência e se afaste rapidamente, caso não estejam falando diretamente com você. – Era tanta informação que meu cérebro parecia que não ia conseguir se recordar de tudo.

Emily Scott. Vilarejo Breitton. Criada da Casa Niron, de elétricons. Emily Scott.

Respirei fundo quando percebi que não poderei mais ser a que sempre fui, não. Agora somente três pessoas saberão minha identidade e eu deverei interpretar para centenas outras o papel de uma criada submissa e amedrontada. Ao menos para isso a pele escura serve, para camuflar tudo em mim, inclusive as bochechas facilmente ruborizadas quando sob necessidade de controlar minha língua afiada.

Quando será que isso vai acabar. É loucura pensar que vai cumprir sua palavra em troca de alguns simples dias me analisando, seja lá como pretendia fazer isso. Então de que tudo isso valerá?

Quando terminou de me arrumar, me senti como dentro de uma casca. Grossa, mas, ao mesmo tempo, frágil. Estou usando uma roupa simples, calça, uma blusa comum com uma faixa fina azul celeste costurada próximo às abotoaduras das mangas. O tecido é leve, mas meio gasto, como a roupa de uma criada deve ser. Em meus pés, sapatos extremamente desconfortáveis pretos substituem minhas botas velhas e gastas.

Emily Scott. Vilarejo Breitton. Não encarar. Cabeça abaixada. Não responder. Emily Scott.

Após a aprovação de , nós nos retiramos do quarto de ; com ela saindo primeiro, para se certificar de que posso sair em segurança. Estamos tentando me fazer decorar o caminho para o meu quarto, que, ao que parece, é praticamente do outro lado do castelo. Ótimo, vários corredores e curvas para decorar! pensei comigo mesma, enquanto caminhamos lado a lado pelo palácio. O bom é que, segundo , estamos fazendo o caminho que a nobreza quase nunca percorria, então me permiti respirar um pouco mais tranquila, por entre os corredores.

- Aqui é a nossa cozinha. Cada categoria de criado tem um horário específico para as refeições, mas coloquei no seu quarto um papel com o horário das minhas, caso não queira comer sozinha. Nas quintas temos Pudim de Chocolate de sobremesa, e é o melhor do reino. – disse, alternando seu olhar entre mim e nosso caminho, com um sorriso no rosto e eu quase me deixei ser contagiada por sua doçura. – O príncipe está em treinamento agora, mas disse que passará em seu... – a fala de é interrompida bruscamente, o que me fez estranhar e parar de encará-la, para encarar o caminho à minha frente na mesma hora.

Assim que a vejo, meu coração pareceu parar por alguns segundos, o ar fugiu de meu pulmão e minhas mãos tremiam instantaneamente. O retrato da figura loira à minha frente estava espalhado por todo o reino, então eu nem precisei me preocupar em não reconhecê-la. Alta, magra, de pele pálida como o filho e olhos azuis como o mar, na faixa dos 35 anos, a Rainha Eleonora é o perfeito exemplo de mulher que amedronta apenas com o olhar. Era de conhecimento do reino que a mesma não possuía poderes, se igualando a uma minúscula parcela de nossa população. Porém, isso não quer dizer que a mesma deixasse de aparentar ser uma rainha cruel e impiedosa, com sua expressão séria e olhar duro; o que contrastava com a imagem doce, gentil e educada de Adelaine, a rainha morta, que todos tinham e o que me fazia entender o poder do dever para com o seu povo sobre um rei . Nunca havia sequer visto a rainha sorrir, exceto no dia de seu casamento, então, encontrá-la ali, e agora, me fazia quase que desmaiar.

- Majestade... – disse quase que em um suspiro, enquanto se curvava em uma reverência perfeita a partir de um dos cantos do corredor, em direção à mulher; gesto que eu demorei alguns segundos para processar que deveria tentar imitar.

Eu torcia para que Eleonora não pudesse escutar meu coração batendo acelerado, nem visse minhas mãos tremendo descontroladamente e continuasse seu caminho. Porém, algo em mim deve tê-la chamado atenção, pois ela parou abruptamente seu andar, se virou para mim e falou:

- Você! Olhe para mim! – Sua voz saiu imperativa, enquanto a senti me encarando, ainda de cabeça baixa. - Quem é você? - Ouvi um baixíssimo pigarrear e me dei conta de uma regra que não me disse: nunca desobedeça a realeza. Então levantei lentamente minha cabeça, torcendo para que todo o esforço de não ter sido em vão. Era a hora da verdade: eu seria descoberta pela rainha e provavelmente executada, por lembrar sua antecessora tão amada por todos, ou conseguira passar ilesa?


Three



Quando sinto a mão de sobre meu pulso e escuto sua suave voz dizer “Sou , criada do palácio”, entendo o que aconteceu e me sinto idiota por não ter perguntado o poder de antes de ter passado por toda essa situação desesperadora.
Do mesmo jeito que chegou, a rainha vai embora, caminhando elegantemente pelos corredores, com seu olhar duro e postura implacável. Sinto como se toneladas tivessem sido retiradas de minhas costas, enquanto volto a tentar respirar normalmente e escuto soltar o ar com força.
- Essa foi por pouco. – diz atrás de mim e concordo com a cabeça, instintivamente.
- Quando iria me dizer que era uma manipuladora de espaços? – Pergunto rapidamente, quando me lembro da cena de poucos segundos antes.
- Não sei... – diz, sem graça, coçando a nuca. – Não é como se eu usasse esse poder com tanta frequência para poder me lembrar de anunciar a todos que conheço. Na verdade, eu usei tão poucas vezes esse poder que fiquei até com medo de não conseguir te camuflar. – Ela admite, olhando para os próprios pés.
- Mas você conseguiu. – Comento sorrindo, colocando uma mão sobre seu ombro, fazendo com que ela me encare.
- Só espero não ser morta por isso. – Ela comenta, com um sorriso de canto. – Não se pode enganar a realeza, especialmente com nossos poderes.
- O que os olhos não veem, o coração não sente. – Respondo brincando e ela ri de leve.

●●●

Depois de passar o dia todo com , finalmente ganho meu momento de descanso. Em meu banho, posso ser eu mesma, posso esquecer Emily, meu disfarce, as regras da corte e tudo mais que tive que aprender hoje; em meio a água, sou eu mesma, a garota de Watherfloor, sou apenas a velha .
Enquanto passo o sabonete sobre minha pele, me recordo dos últimos acontecimentos e me questiono se minha vida ainda seria essa, caso eu não tivesse encontrado o príncipe herdeiro outra noite, em frente à casa abandonada de Amy. Provavelmente não. A vida que levo agora, nunca, se quer, esteve em meus mais remotos sonhos.
Quando me lembro de , meu coração dá um pulo e uma luz se ascende em minha mente. Preciso agradecê-lo por , por ter pensado em mim e perguntar sobre os estudos que me envolvem. Minha estadia na corte está apenas relacionada a essa pesquisa, então eu preciso me manter atualizada sempre.
Termino meu banho, me sentido bem melhor sem todo o disfarce, e me visto, para logo me encaminhar ao quarto de . Sei que não é educado aparecer na porta de alguém no meio da noite, mas, convenhamos, eu não preciso me preocupar com isso em relação a ele; para quem já dividiu uma cama, aparecer no meio da noite no quarto do outro não é nada demais.

Pouco tempo depois de me vestir, estou parada à porta do quarto de , batendo suave porém continuamente à porta do luxuoso quarto. Assim que ele a abre, desapareço quarto a dentro, tentando ao máximo não ser vista por ninguém que possa vir a me expor.
está parado à porta ainda, com uma calça de montaria azul marinho, botas marrons extremamente polidas e uma camiseta branca de botões, com os primeiros 4 botões abertos, mostrando um pouco do peitoral dele – que parece ser bem definido. Por alguns instantes, esqueço o motivo de estar ali, quando pensamentos impuros tomam conta de minha mente, assim que o encaro.
parece reparar e, até, se divertir, pois nada faz, além de ficar parado à minha frente. Quando imagino que já estou secando-o há muito tempo, ele limpa suavemente a garganta, me fazendo piscar rapidamente e balançar a cabeça, tentando voltar à realidade.
- O que a traz aqui, ? – pergunta, com um sorriso cafajeste e eu me critico mentalmente.
- Vim perguntar sobre o que já descobriu sobre sua pesquisa.
- Achei que tivesse descoberto sobre minha incrível capacidade de ouvir, por horas, Taylor Swift. – brinca e eu apenas rolo os olhos.
- Infelizmente não nos conhecemos antes de seu aniversário de 22 anos, então, para que eu pudesse pedir que tocassem “22” em vez de parabéns. – Brinco de volta e ri.
- Também sou ótimo ouvinte quando o assunto é problemas em relacionamentos amorosos. – Ele disse e piscou para mim.
Eu estava pronta para respondê-lo, sobre o quanto aquilo era um péssimo marketing pessoal, quando reparei em algumas folhas soltas sobre sua escrivaninha, do outro lado do quarto. A disposição dos papeis, ao lado de um caderno de notas e uma caneta, me chamaram a atenção então eu apenas ignorei , enquanto caminhava até a mesa, com ele logo atrás.
Em meio às folhas, uma me chamou a atenção. Nela eu pude ler meu nome, data e local de nascimento, nome dos meus pais... além de uma séria de outras informações. estava com a minha ficha de nascimento. Mas por quê?
- Estava tentando achar alguma informação relevante. - Ele diz, pegando outra ficha de nascimento na gaveta do móvel e me entregando.
Assim que tenho a ficha de nascimento da falecida rainha Nadine em minha mão, me sinto instantaneamente tomada por um sentimento de perda. E também compreendo o que está tentando fazer, porque a comparação entre as duas fichas é inevitável até para mim. Porém, assim como imagino que aconteceu com ele, não consigo achar semelhança alguma.
- Eu não entendo... – Começo a dizer, mas não finalizo.
- Muito menos eu... porém, achei alguém que talvez sim. Um dos estudiosos do reino está na cidade, para visitar a família, e concordou em me atender. Talvez ele possa nos dizer algo sobre essa semelhança.
- Vou ter que subir nas suas costas e ser carregada de novo? – Perguntou brincalhona, quando entendo o olhar que me lança como um pedido para que possamos ir logo.
- A não ser que prefira andar... – Ele brinca de volta e logo já estou colocando as fichas sobre a mesa novamente e me sentindo ansiosa por nossa escapada do castelo.

Durante o caminho até a casa de Lorde Richcoff, é meio difícil conversar com , devido à correria e o incômodo em meus ouvidos, provocado pela passagem rápida do ar pelos mesmos. E a dificuldade de conversa aumenta ainda mais quando chegamos à casa do Lorde, pois ele e o príncipe herdeiro começam a conversar animadamente sobre uma série de assuntos com os quais eu não estou habituada.
O que consigo captar de tudo é que os dois são grandes amigos, tendo o Lorde, inclusive, dado aulas ao príncipe, e que compartilham do mesmo amor pela ciência. Infelizmente, nem mesmo Lorde Richcoff consegue explicar porque me pareço tanto com uma mulher morta, mas se comprometeu a nos ajudar nessa pesquisa.
Quando nos despedimos e cruzamos a porta de saída da casa, posso perceber o olhar cabisbaixo de . Não sei quantas esperanças ele tinha para essa nossa pequena viagem, mas que ele se deixou afetar pela falta de respostas é nítido.
- Sinto muito, . – É tudo o que eu falo, tentado confortá-lo ao menos um pouco.
- Tudo bem. Nós vamos descobrir as respostas para nossas perguntas ainda. – Ele responde, parecendo tentando confortar mais a si mesmo do que a mim.
- Vamos sim. - Digo com um sorriso leve no rosto, tento animá-lo.
- Você deve achar tudo isso a coisa mais louca.
- Na verdade acho admirável. Não são todos que conseguiriam se manter firme a um propósito como o seu.
- Eu preciso me manter, devo isso a ela. Preciso entender o que aconteceu, como e por que ninguém mais parece se importar; no meio do caminho, ainda preciso entender o porquê vocês são tão semelhantes. Sinto como se o que sei dela fosse uma história qualquer, ainda mais agora, depois que se revelou um manipulador de memórias; é inevitável me questionar se minhas memórias da morte dela são realmente reais, porque, honestamente falando, não faz sentido.
- Eu não entendo como você não fica abalado comigo ao seu lado nessas horas, nas horas em que estamos atrás de alguma pista ou informação.
- Na verdade, eu fico abalado, sim, e muito. Mas só não sei se é pelo fato da semelhança ou por alguma outra razão; a semelhança ajuda, claro, a fortalecer aquela ideia de que ela está sempre comigo, mas também me deixa em dúvida sobre algumas coisas. Infelizmente, porém, não posso me dar ao luxo de tentar descobrir mais isso, se o que você provoca em mim é apenas pela semelhança. Eu tenho um dever para com a coroa.
Quando ele termina de falar, minha garganta está seca. Tento dizer algo, mas minha voz some e eu só consigo querer descobrir que tipo de sensações eu provoco no príncipe herdeiro.
- Você, , mexe mais comigo do que pode imaginar. – Ele diz, assim que percebe a minha total incapacidade de falar algo e eu engulo seco.


Continua...



Nota da autora: Eu sumi, mas eu voltei! haha
Espero que ainda estejam por aqui, o reino de Westha é bem grande e se alegra muito com a presença de vocês.
Ainda acho uma loucura essa ideia da protagonista ajudar o príncipe herdeiro em sua busca por respostas. E vocês? Será que ela sai ilesa a esse encontro com a rainha?
Só reforçando: logo abaixo tem o redirecionamento para o meu grupo no Facebook e para as minhas redes sociais. Acho que não preciso dizer que podem me chamar a hora e onde preferirem, neh? haha
Beijão! Até a próxima att ❤️



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