FFOBS - (THE) Chairwoman, por Larissa F.

Última atualização: 23/07/2018

Chapter One

— Trabalhamos com investimentos, Sr. Qian. O quanto mais, melhor. Se possível, todo o dinheiro que esteja em questão. Para nos tornarmos imbatíveis precisaremos tomar decisões que são consideradas absurdas para os nossos concorrentes. É desta forma que chegamos ao topo da hierarquia. — Diminuí o tom de voz e sorri de canto para o homem, apático, aproximando meu corpo do grosso mármore que nos separava. Aquela barreira, gelada e impetrante, era o quê se colocava entre a minha ambição: tornar a SenseTime um império inalcançável líder da AI global. Para isso, preciso de um investimento em torno de dez bilhões de dólares. Não que seja uma tarefa difícil. Isso é, na verdade, apenas mais um dia típico no escritório. — E é assim que dominaremos o setor mundial. Você só precisa confiar na minha palavra. O senhor, alguma vez, já me viu falhar?
— Se você já sabe a resposta para a sua pergunta, por que a fez de qualquer maneira? — O homem sabia que não estávamos apenas brincando com cifrões. Isso ia ainda mais fundo. O que estava em xeque, neste momento, era o jogo de poder.

Ele sabia a posição que eu assumia. Tanto sabia que era justamente por causa do meu cargo que o homem lutava arduamente e contrariado para concluir o maior benfeito de sua carreira.
Ah, o machismo. O mesclado machismo, tão fútil e desatualizado, esbarrando em meu caminho, diariamente, como se fosse um lembrete do porque eu me empenho em continuar fazendo exatamente o que eu faço da maneira que faço.
Levantei da cadeira que se encontrava centralizada na enorme sala de reuniões. As esguias e blindadas janelas de vidro nos dividia do segundo maior prédio de Hong Kong. O segundo, já que, o primeiro, é exatamente este em que ponho os meus pés.
O prédio mais alto de Hong Kong era o prédio que eu conquistei. O prédio que, se não fosse pelo meu trabalho árduo, jamais teria uma extravagante placa com o nome "SenseTime Private Equity of Artificial Intelligence and Modern Technology" cravado no jardim de entrada. Não seria, nem em um milhão de anos, um patrimônio estimado em cem bilhões de dólares caso não tivesse sido valorizado pela empresa ao qual SenseTime havia se tornado.
A empresa ao qual eu tornei.
Tudo aquilo que Sr. Qian visualiza é consequência de um único nome: .
Este nome se tornou o principal aborrecimento dos líderes das empresas chinesas de AI por causa de uma simplória razão: é um nome feminino e estrangeiro. Essas duas palavras, andando juntamente e pesando na balança com o mesmo impacto, eram o que mais transtornavam, às oito horas da manhã, todos os dias da semana, aqueles homens de paletós luxuosos.
Não é nenhuma verdade incontemplável que ser mulher, na Ásia, exigia a carga máxima de psicológico e determinação. Ser uma mulher de negócios, ocupando a posição de chairwoman*¹ de uma das maiores empresas de inteligência artificial da Ásia era ir praticamente contra toda a hierarquia invisível que se moldava no mercado financeiro daquele continente.
De onde venho isso é chamado de masculinidade afetada.
De onde venho também chamamos isto de desafio. Se me vê sentada nesta cadeira de couro é o que os assustam e lhes aborrecem, que assim seja até o último dígito de patrimônio líquido que ostentamos no nosso balanço patrimonial.
— Porque eu gosto de ouvir aquelas palavras se derramando pelos seus lábios, Sr. Qian. — Não precisei estabelecer um contato visual para que ele deslumbrasse do brilho agressivo que refletia pelos meus olhos. O sorriso esbanjado se moldava no meu rosto, de forma que ele o observava perfeitamente através do reflexo da janela. — Você sabe que eu gosto de lhe deixar claro que sou como um lobo caçando em pele de cordeiro. É por causa disso que hoje você pode chamar de sua aquela mansão que pertencia ao Jack Ma*². Doeria muito para o seu ego admitir certos fatos, Qian? Seria uma lástima, para o seu grupo, saber que a oportunidade de triplicar seus lucros em menos de seis meses foi jogada fora por causa de sua falta de confiança como homem. Você sabe, a SenseTime pode repor sua cadeira com apenas uma ligação de trinta segundos. Agora, se você poderá repor seus investimentos em trinta segundos, isso já não faz parte do meu interesse. — Ele mordiscou a ponta da boca e firmou a palma da mão contra o queixo, refletindo sobre as hipóteses que pareciam óbvias nesse ponto. — O que me diz? — O homem pareceu buscar no fundo do seu íntimo uma resposta que me satisfizesse. Seus olhos vasculharam o local e, como se estivesse prevendo o momento exato em que eu ia voltar a falar, Qian trouxe seus olhos caídos e inexpressivos de encontro aos meus. Seu bigode chinês tremeu minimamente, sua testa se enrugou e ele segurou a caneta posta a sua frente com um empenho determinante.
— Está certa, Mademoiselle . Você sempre está.
Qian atreveu a me oferecer um sorriso polido e retraído. Minhas costas encontraram o estofado da poltrona e meu corpo desabou alguns níveis de stress. Os braços cruzados na altura dos seios era apenas um reflexo automático para que eu apresentasse o menor indício possível de satisfação.
Não que Qian não soubesse que eu estava atingindo um orgasmo mental em vê-lo trazer seus triunfantes bilhões para a minha caderneta.
— É sempre um prazer fazer negócio com você, Cher Monsieur Qian.


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*¹: Presidente do Conselho de Administração (em inglês, simplesmente Chairman) é o mais alto representante de um grupo empresarial ou empresa individual. Pela palavra ser conhecida com menção ao homem, será utilizada nesta estória o uso da palavra chairwoman, enquadrando, justamente, a posição de liderança da mulher.
*²: Jack Ma é um dos fundadores da rede de e-commerce Alibaba.com, império que movimenta mais de R$500 bilhões por ano.



✽✽✽



— Você comemora o Natal, certo?
Desviei o olhar da pilha de documentação e mirei na expressão entusiasmada e em expectativa de Cheng Mei Qi. Ela tinha em mãos uma espécie de globo de neve com um papai Noel chacoalhando as cordas do trenó enquanto voava pelo o que parecia ser São Paulo. Soltei uma gargalhada de descrença, larguei a caneta contornando a mesa e segurando com cuidado o objeto.
— Não acredito, Meiqi! Onde você conseguiu isso?
— No Temple Night!*³ Onde mais seria? — Ela riu baixinho e fechou a porta de minha sala ignorando os olhares que haviam sido lançados pela sua inusitada presença.
— E como "São Paulo" foi parar dentro disso? Pensei que o seu povo ignorava a existência de qualquer país da América do Sul. — Mei rolou os olhos e suspirou ironicamente da mesma forma que fazia quando eu lhe alfinetava com os comentários desnecessários que ouvíamos cidade afora.
— Eu pedi à senhora que vendia os globos se ela poderia escrever o nome de sua cidade dentro de um. — Sorri mais largo com aquele gesto. Mei não se cansava de realçar o quanto amava o fato de conhecer uma brasileira. Ela sempre dizia que desde que viu, certa vez, na internet, imagens da Chapada Diamantina e dos Lençóis Maranhenses, criou um fascínio pela natureza das terras tupiniquins e, a partir daí, se interessou demasiadamente pela cultura brasileira. Foi só descobrir, alguns anos atrás, que a nova acionista da empresa era uma brasileira, que Mei decidiu me tornar sua missão particular: queria ser minha nova melhor amiga. E foi o que realmente aconteceu meses mais tarde. — Preciso ser honesta: ela não sabia o que era São Paulo. Tive que abrir o Google Earth pra provar que, sim, era uma cidade brasileira. Ela achou que todos os brasileiros moravam só no Rio de Janeiro.
— Alguém precisa urgentemente rever as matérias de Geografia do ensino chinês, sério. — Mei deu um soquinho em meu braço e gargalhou. — Muito obrigada, M. Isso significa muito para mim, de verdade. Sinto tanta saudade de casa que eu nem ligo pelo fato de agora ser verão lá no Brasil e nunca ter existido neve em São Paulo. Olha isso! É perfeito! É o globo de neve menos realístico que eu já vi. Eu amei! — Choraminguei.
— Fico feliz que você tenha gostado. Pelo menos o seu dia não vai ser um total fiasco.
— O que você quis dizer com isso, pelo amor de Deus? — Coloquei o globo de neve ao lado do porta-retratos de minha família e encarei Mei. — Me olhar assim só vai me ajudar a surtar antecipadamente, Mei.
— Yuan vai anunciar em breve quem é o seu escolhido para concorrer ao cargo de CEO e, boatos correm, que ninguém irá se opor ao personagem preferido porque é óbvio que irão concordar com a proposta. O único problema, agora, é descobrir quem você irá indicar. — Ela tentou manter a calma no seu tom de voz, pude perceber.
— Eu já conversei com Yuan e lhe avisei que não iria trazer nenhuma proposta, confio nele para esse tipo de decisão e estou tentando me manter o mais neutra possível nesse assunto. Vai ser uma escolha difícil, mas francamente? Não me importo com quem seja, sabe? Só quero que seja alguém que consiga acompanhar o meu ritmo de trabalho. O resto será lucro, literalmente. — Fechei o notebook e massageei as têmporas. Andava precisando urgentemente de uma aspirina. — De qualquer forma, ele disse que já tinha escalado definitivamente alguém e que entraria em contato para que eu desse meu voto antes de anunciar oficialmente quem seria. Acho que ele ligará daqui alguns minutos, inclusive.
— É justamente aí que mora o problema. — Mei soltou um riso nervoso. Arqueei a sobrancelha. — Ou melhor, é aí que mora o diabo.
— Você está sabendo de algo que eu não?
— Sim... — Ela se interrompeu antes mesmo de eu poder dizer algo. Esperei que ela continuasse, mas Mei estava apreensiva demais com minha reação facial para descobrir quanto tempo levaria até eu lançar um olhar enigmático em busca de uma resposta.
— Vai, não me deixe aflita! Desembucha de uma vez. Eu aguento. — Me joguei no sofá e procurei por uma bebida no frigobar enquanto aguardava Mei se ajeitar ao meu lado e soltar a bomba de Hiroshima no meu colo. Ela remexeu o quadril diversas vezes até perceber que não ficaria confortável. — Mei, por favor...
— É o .
Sua voz se sobressaiu a minha e eu levei um segundo para assimilar sua fala. Ela sorriu fraco com uma evidente feição de quem não estava preparada para ouvir dezenas de palavrões — em diversas línguas — que poderiam fazer seus ouvidos sangrarem.
Primeiramente achei que ela estava enlouquecendo. Depois ri de escárnio. Ri como se Mei tivesse contado a piada mais humorada e divertida de todos os tempos. Ri tanto que cheguei a chorar.
No fim, Mei continuava a me encarar com o mesmo semblante nervoso.
— Você só pode estar brincando. É O ? — A piada instantaneamente perdeu a graça quando vi a demora pra Mei contrariar minha insinuação.
— O único considerado "o queridinho da China". Sim, , é o filho do Yuan. Aquele .


✽✽✽



O caminho em direção à sala de Yuan era como a estrada que me levaria até o Inferno. Para ser sincera, até ter um encontro íntimo com o diabo me soava mais interessante do que olhar para a cara de Yuan naquele momento. Só de imaginar seu sorriso polido e amarelo atiçava a minha vontade de firmar um pacto com o inimigo número um do Buda.
Não podia ser verdade. É isso; espalharam um boato ridículo para que Mei me contasse, assim eu me sentiria ameaçada e começaria a levar em consideração os planos de vender minhas ações para qualquer engomadinho chinês que surgisse na minha frente. Não seria a primeira vez que tentariam fazer com que eu recuasse ou me amendrontasse com os burburinhos internos e sagazes que aquelas víboras são capazes de criar.
Li Jun me viu cruzar o lobby principal com feição de quem sabia que não era confiável digerir duas ou três palavras quaisquer a mim. Assentiu em silêncio a minha chegada e sorri minimamente, mas ainda assim senti seu receio brilhar pelos glóbulos castanhos vivos que o homem tinha.
O cartão magnético rolou como um mecanismo robótico entre meus dedos. Meus músculos endureceram quando meu salto começou a repercutir numa melodia no chão de mármore. Eu sabia que a cada pisada mais firme, Yuan seria capaz de distinguir quem estava prestes a atrapalhar o seu momento de paz. Ele tinha ciência que, a cada segundo que meus pés levavam para chegar até sua sala, era o exato tempo que ele ganhava para se preparar.
Ele saberia dizer, só pelo barulho do meu andar que, sim, eu já estava à par de seus planos.
E não estava nem um pouco contente.
— Estava tão ansiosa para sermos novamente colegas de trabalho que não se aguentou e precisou largar suas obrigações de proprietária para vir até o meu escritório dar boas-vindas, ?
Meu corpo empacou no lugar no exato segundo que sua voz emergiu sabe-se lá de onde. Por um momento acreditei estar delirando. Quando nossos olhares se encontraram, eu jurei que delirar seria uma experiência infinitamente melhor do que aquela.
Sua postura rígida e erguida era praticamente um tapa na minha cara. Seus olhos de águia sondando meus movimentos e se deliciando explicitamente com o meu punho fechado era o espetáculo que ele esperou assistir quando esse momento acontecesse.
— Mal chegou e já está achando que tem posição para tomar posse do que é de seu pai, ?
— Não há como tomar posse de algo que sempre foi meu, 45%. — O atrito de meus dedos perfurando a palma da minha mão era a única coisa que me fazia ter certeza de que aquilo realmente estava acontecendo. A audácia daquele ser era absurda, mas real. Real como meu ódio que magicamente ressurgiu entre minhas entranhas num lapso de tempo que até poderia ser humanamente impossível se não estivéssemos falando de e .
Eu não deveria estar surpresa. Não é como se eu não esperasse que ele trouxesse este fato à tona. Não é como se ele não fosse se deliciar em cima da única vantagem que tinha naquela situação.
Eu era apenas dona de 45% das ações da SenseTime. Seu pai, Yuan, era dono de 55%. Apenas 5% me separavam daquela balança desproporcional.
Aqueles 5% seriam comprados por mim após o espetacular e bem sucedido plano de investimento de dez bilhões de Xu Qian.
Os dez bilhões que eu havia trazido para a empresa.
Ao encontrar o tamanho deboche que carregava em seu semblante, eu sabia que aqueles dez bilhões seriam inúteis.
Inúteis porque ele nunca fora homem o suficiente para fazer uma simples escolha.
Sorri extasiada, jogando o rabo de cavalo para o lado e cruzando os braços, encarando com toda a atenção que eu poderia dedicá-lo. Ele fez um gesto de quem estava pronto para se aproximar e me saudar, mas ligeiramente desviei de seu rumo e contornei ao seu lado, deixando um sorriso de canto, revelador demais, acompanhado de uma piscadela que era cretina e suja do jeito que ele sempre esteve acostumado. Antes de deixá-lo para trás com a sua típica feição de deboche desentendido, atravessei um comentário, quase ao pé de seu ouvido, notando a mudança de seriedade em seu rosto.
— Algo que ainda não é legitimamente seu, herdeiro.


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*³: Um dos mercados de bugigangas mais conhecido de Hong Kong.


✽✽✽



Deveria ser três horas da tarde. Ou quatro horas.
Eu não fazia ideia. O tempo congelou em minha mente como acontecia quando eu ficava nervosa demais para raciocinar coerentemente.
A única coisa que me fazia permanecer nesse plano físico era o barulho ensurdecedor da mídia se instalando na entrada principal. A cada carro estacionando e um grito despejando ordens eu só sentia minha cabeça implodir.
Centenas de jornalistas determinados com cada gota de suor a encontrarem qualquer mísera insinuação de erro que eu possa vir a cometer. Em busca de um furo polêmico e gigantesco, eles só se importavam em me talhar como a "empresária estrangeira". Sem meu nome, sem nenhuma característica além da minha origem diversa, sem nada que me fizesse levar um minúsculo crédito.
Na maior parte do tempo aquilo não era o que mais me aborrecia — na verdade era motivo de risadas escandalosas nas sextas-feiras à noite, quando eu e Meiqi resolvíamos tomar um porre e depois deitar no sofá de minha casa, rolando de um lado para o outro, lamentando os infortúnios da vida e a desgraça que é ser a única esperança no meio dos homens daquele ramo. Tirando as vezes que eu chorava e me sentia prestes a ter um colapso mental, aquele assunto não era algo que conseguia destruir todo o alicerce que construí para preservar os meus princípios, meus objetivos e principalmente o meu império.
Odiadores irão odiar, como sempre, da maneira que sempre fizeram. Não era de minha responsabilidade tentar influenciá-los a se tornarem pessoas melhores, mas também não era obrigada a aguentá-los sendo a cascaria da humanidade, bem diante dos meus olhos, como se eles fossem intocáveis e suas palavras não tivesse peso algum — na vida ou na Justiça.
Foi assim que fiquei conhecida como a empresária estrangeira que adorava citar alguns jornalistas, de cá e lá, em processos de difamação, calúnia e injúria — isso quando eu não me sentia inspirada o suficiente para piorar, ainda mais, a situação dos ditos cujos. A partir daí, muitos outros empresários criaram coragem para se estenderem perante a mídia e a defender seus próprios nomes, impedindo que pessoas atrás de computadores criassem uma verdade incontestável sobre suas próprias vidas e não arcassem com os prejuízos que isso consequentemente atribuía em seus dias.
Do mesmo jeito que isso foi ótimo para que eu conseguisse um pouco de paz, o feitiço se virou contra o feiticeiro, de certa maneira. Agora, qualquer passo que dou é milimetricamente calculado para descobrir se há alguma brecha que me faça ficar com o pescoço em suas mãos. Quando você não dá oportunidade para ninguém fazê-la se ferrar, a única coisa que eles querem é te ferrar em dobro. De um jeito ou de outro.
Fechei a cortina do meu escritório e afundei o corpo no sofá do centro, esperando que Li Jun anunciasse um problema qualquer nas filiais das Filipinas para que eu pudesse escapar rumo à Puerto Galera e só me preocupar em acariciar os golfinhos durante os mergulhos.
Mas não. É claro que isso era uma realidade bem distante da minha agora. O anúncio do novo CEO seria feito só daqui algumas horas, mas mesmo com o intervalo de tempo, a mídia não falharia em noticiar uma decisão que poderá abalar o mercado financeiro ou dar um — ainda maior — estopim nas finanças. Analisando daquela perspectiva, não era como se todo o controle estivesse posto nas mãos do CEO, afinal, para que algo feito pelo CEO tenha integral validade, primeiramente seria necessário a aprovação do chairman e da chairwoman da empresa.
No momento em que Yuan anunciar como o novo CEO da SenseTime, todas os cérebros que estiverem antenados nas notícias irão articular seus pensamentos: se o chairman elegeu o seu filho para CEO, não haveria quase nada que não fosse aprovado por ele. Quase, porque ainda existia outro elemento importantíssimo e inegável na linha de combate.
.
Eu sou a única coisa que impede de tomar o controle total da SenseTime. Sou um empecilho para qualquer decisão que ele venha a ter. Qualquer temática de administração que ele adote e eu não concorde, se tornará uma problemática na nossa forma de administrar a empresa.
Não há dúvidas de que, ao concluírem essa hipótese, a mídia fará questão de trazer à tona o porquê essa parceria será, no mínimo, perigosa.
Só de lembrar, vagamente, das notícias de anos atrás, senti uma enorme vontade de vomitar. O excesso de atenção e pressão que se mantinha concentrada em mim era o que geralmente me mantém sã com os pés no chão, mas também era o que me desestabilizava.
Uma versão de que o mundo nunca chegou a conhecer.
Apenas uma pessoa.
E a pessoa em específico tem plena ciência de que, se ele quiser, essa versão de mim não ficaria mais escondida a sete palmos do chão.
Ficaria bem exposta à sete mil câmeras.
— Sra. , o Sr. está na linha! — Lian gritou de algum ponto externo do escritório. Assenti, mesmo que ele não pudesse me ver, e respirei fundo antes de colocar a mão no telefone.
— Oi, Yuan.
— Eu sabia que você estaria aí. , vá relaxar! — A voz descontraída de Yuan retirou de cima de mim o fardo do stress, mas não foi capaz de desacelerar minhas emoções. Sorri, ainda que quisesse socá-lo.
— Alguém precisa fazer o trabalho duro, huh? — Ele gargalhou. — Me ligou por quê? Para me informar de última hora que vendeu nossa empresa para a Nasa ou era só para dar um alô?
— Vejo que você está ressentida. Eu entendo. Juro que entendo, mas é que...
— Não há "mas", Yuan. Você não poderia ter tomado essa decisão sem mim. E aquele papo de que só daria o veredito se eu aprovasse também? Acabei de ficar sabendo que você já programou o anúncio e soltou o rumor na mídia para facilitar! — Grunhi de raiva. — Você me desvalidou completamente ao assumir a dianteira de uma situação que nunca poderia ter sido resolvida sem a minha contribuição. Agora terei que ostentar uma carranca falsa, na frente de todo mundo, só pra fingir que o meu companheiro não resolveu me dar um chute no meio da bunda.
— Venha até a minha casa para termos essa conversa, . Não é bom falarmos por telefone. Quero que você entenda minhas razões. — Bufei sem paciência. Era sempre o mesmo discurso. Homens têm mania de achar que alguns sorrisos despretensiosos e palavras bonitas, acompanhadas de olhares dóceis, serão capazes de afrouxar o coração de uma mulher.
— A sua sorte é que eu estou desesperada para me livrar dessa multidão de jornalistas e já ia sair de qualquer maneira. Às vezes o universo conspira ao seu favor, Yuan, mas não acredite que sempre será assim.
— Venha logo, antes que eu considere a ideia de fechar negócio com a Nasa. — E desligou na minha cara sem cerimônias.
Eu poderia ter ligado para a Nasa e encomendado um foguete especialmente desenvolvido para levar Yuan ao espaço, mas preferi lhe dar o benefício do esclarecimento.
Antes que eu lhe mostrasse a verdadeira importância dos meus 45%.



✽✽✽



— Sra. , é verdade que a senhora venderá suas ações para o Google AI China Center*¹?
— A senhora está pensando em investir sua fortuna na ABRIA*² e deixar o mercado asiático?
está de volta?
— Sr. está com câncer e por isso irá se ausentar do país?
Os gritos eram ouvidos ainda a um raio de metros de distância do portão principal da casa de Yuan. Os seguranças me receberam com um sorriso simpático e respeitoso, abrindo espaço para que eu adentrasse com escolto enquanto outros barravam as tentativas de enfiar câmeras através dos portões da mansão. Alinhei o chapéu no topo da cabeça para que pudesse tapar ainda mais o meu rosto, escondendo atrás do óculos de sol as olheiras que começavam a se tornar evidentes nas últimas horas.
Malai, a cozinheira tailandesa de Yuan, me recebeu de braços abertos e sorri genuinamente pela primeira vez no dia.
— Senti saudade de vê-la por aqui. Entre, querida. Estou fazendo o seu lanche da tarde preferido.
— Você não cansa de ser perfeita, não é, Malai? Como é que você sabia que eu viria? — Coloquei a bolsa na bancada da cozinha e segui com os olhos os movimentos de Malai. Ela piscou para mim e puxou um copo do armário, começando a enchê-lo com limonada suíça.
— As surpresas correm rápido pelos corredores desta casa. — Segurei o rosto com a palma da mão e suspirei fundo sentindo o cheiro do que Malai se esforçou para aprender a fazer há cerca de cinco anos. Um sorriso nostálgico e bobo surgiu no meu rosto, do jeito que Malai adora ver, alargando ainda mais o seu. — Te faz sentir mais próxima de casa, não? — O prato com panini foi posto na minha frente como se eu estivesse recebendo um prêmio Nobel.
— O seu pão de queijo fica cada vez melhor! Os parentes mineiros da minha avó ficariam muito orgulhosos dessa receita, Malai. — Ela apoiou os cotovelos na bancada e me observou saborear a receita brasileira que lhe ensinei quando ainda tinha certa dificuldade em me moldar ao paladar chinês. Malai se empenhou em fazer todos os tipos de refeições brasileiras que eu gostava. — É oficial: eu vou te roubar de Yuan. Ele não te merece. — Ela gargalhou e me deu um tapinha no ombro, voltando a fazer outras porções para que pareciam ser à Yuan e mais algum convidado. Eu sorri largo, não deixando nenhum fio de queijo derretido e tomate sobrar no prato.
— Vejo que Malai está usando suas artimanhas injustas para roubar de mim a sua atenção. Pão de queijo, Malai, sério? Não era melhor hastear uma bandeira do Brasil no meio da cozinha? — Yuan surgiu de algum lugar com o seu típico look de academia, mesmo que ele não a frequentasse há anos.
— É um panini, Yuan. Você ainda tem muito que aprender... — Malai suspirou forjando decepção e deu dois tapinhas nas costas de Yuan antes de deixar a cozinha. Yuan riu indignado e sentou-se à minha frente, puxando o prato de Panini que Juli havia deixado para ele, lutando contra minhas tentativas de tirar de sua mão.
— É meu, sai. — Ele deu um peteleco na minha mão e eu me afastei aborrecida. — Você está ouvindo o que andam falando lá fora? Supostamente estou com câncer em fase terminal e já pedi para fazerem um caixão talhado a ouro. — Yuan gargalhou alto feito uma criança.
— Enquanto isso acham que eu vou vender minhas ações para o Google. Por que diabos o mundo acha que sempre vamos largar o osso para os americanos? — Sorri de canto esquecendo momentaneamente a raiva que estava sentindo de Yuan. Eu sabia que era um pouco precipitado julgá-lo, mas só a imagem do seu projeto de sucessão humana surgir na minha mente que todo o meu ânimo e humor se esvaziavam em fração de segundos.
— Falando sério agora... temos assuntos a tratar. — Cruzei os braços e recompus a postura na cadeira, encarando Yuan com atenção. — Eu queria lhe contar pessoalmente, mas pelo visto já chegou em seu ouvido que…
— Que você decidiu colocar nada menos, nada mais, que o queridíssimo como CEO da SenseTime! — Não me contive e satirizei a escolha de Yuan. Ele fechou os olhos e tombou a cabeça, assentindo cansado por uns segundos, provavelmente já relembrando de um discurso parecido com esse, vindo de outra pessoa, na época em que comprei as ações da SenseTime. — Só não entendo o porquê você não me falou no dia em que estávamos conversando sobre as hipóteses, Yuan, ou muito menos me deu uma ligação de um minuto só para se explicar. Você sabe que eu sempre vou querer o melhor para a nossa empresa, mas não há como seguirmos no mesmo rumo se faltar honestidade. Você agiu como se eu fosse ignorar todas as possibilidades de melhorar a empresa só porque eu e não nos damos bem. A China toda já me coloca em sua mira machista achando que vou fraquejar por causa de homens, Yuan. Se até você pensa isso…
— Eu jamais pensaria isso, . Se eu pensasse, nem teria vendido minhas ações para você. Se lhe achasse incompetente no que faz, não estaríamos aqui. — Engoli em seco.
— Então por quê eu fui a última a saber da novidade, Yuan? — Ele esperou que eu retrucasse sua colocação até ver que eu o deixaria de vez falar o que tinha a ser dito. Ajeitou o relógio no pulso e suspirou mais uma vez.
— Estou passando por muita coisa nesse momento, . Para ser franco, também já passou por muito e, como você conhece bem a nossa família, sabe que eu irei sempre priorizá-lo como o assunto mais importante da minha vida. Sim, eu falhei em não ter te contado, todo o caos do passado volta como uma sombra em cima de nós e é por isso que eu tardei em te falar. Não queria magoá-la, mas acabei fazendo isso de qualquer forma. Me desculpe, querida. Não foi por mal, foi porque... Olha, eu não sei o que aconteceu entre você e . Não sei de verdade. Como pai dele tentei aconselhá-lo a resolver essa situação, mas há alguma mágoa que o impede de tentar. — Soltei um riso fraco quase em forma de deboche. — Mas não há como negar que vocês formam uma boa dupla. , você sabe. Sempre soube que profissionalmente vocês funcionam bem. Eu precisarei me ausentar do país por um tempo, isso é verdade. Minha mãe está debilitada, ficarei em Changsha até que possa trazê-la para ser cuidada em Hong Kong.
— Ela está bem? — Ele sorriu fraco e balançou a cabeça.
— Não muito, mas é forte como um touro. Irei cuidar dela com os melhores recursos que existam, nem que precisemos rodar o mundo. — Concordei com a cabeça, pousando minha mão na sua, e tentando dar-lhe um pouco de força nesse momento. — Eu vou pegar um voo essa noite. Desculpe, estava programado para que fizéssemos o anúncio amanhã pela manhã, mas não posso ficar por mais tempo. ... Você não quer mesmo que o assuma o cargo?
Encostei as costas na cadeira e suspirei fundo. Yuan estava certo. Tirando todo o caos que e eu éramos, como pessoas, a verdade é que não tinha como negar: éramos tão bons trabalhando juntos como éramos bons odiando um ao outro.
— Eu só não quero que você não seja cem por cento honesto comigo. Apenas isso. Sobre ... Não se preocupe. Eu consigo tolerá-lo, mas, por favor… Não repita isso nunca mais. Eu sei que você teve os seus motivos e não quero ferir o seu limite pessoal e entrar nos seus assuntos particulares, mas eu preciso que você divida comigo o controle, Yuan. Há dias que não consigo trabalhar por contra própria e preciso saber que você está do meu lado, mesmo que algumas palavras possam se tornar duras para eu ouvir. — Yuan sorriu aliviado e contornou a bancada para me abraçar pelo ombro. Bagunçou meus cabelos e deu um beijinho no topo da minha testa. — Eu preciso ir. Tenho uns assuntos para resolver. — Levantei e lhe abracei. — Boa viagem! Mande um beijo para a sua mãe e diga que estou com saudades. Qualquer coisa, me ligue.
— Obrigado, hime-chan*³. Você é como uma neta para ela. Com certeza ela irá chorar e fazer todo aquele drama típico da família . — Yuan rolou os olhos e gargalhou em seguida. Seu celular começou a tocar e ele fez menção de se afastar para atender. Fui atrás de Malai para me despedir e, ao passar pela área descoberta da casa, onde ficava a piscina, me distraí com os cachorros da família brincando pelo quintal. Pugli, a Shih Tzu corria atrás de Toben, o Akita que tinha o triplo de seu tamanho.
Alguns pingos de água se chocaram com a canela da minha perna e eu recuei, levantando a perna e secando a parte molhada. Olhei pelo chão para ver se não tinha pisado em uma poça de água e como tão rápido as gotas vieram, outras surgiram.
Desta vez eu pude ver perfeitamente a origem delas.
emergiu da piscina como se fosse o monstro do Lago Ness.
Ou como se estivesse no meio de um ensaio fotográfico de cuecas para a Calvin Klein.
As gotas de água escorriam por toda a extensão de sua musculatura, trilhando um caminho perigoso até a parte não totalmente exposta, contracenando com a sua pele pálida, mas brilhante.
A cena era ridícula. Tão ridícula que se tornava cativante. Encará-lo era insuportavelmente cativante.
balançou vagarosamente os cabelos, jorrando ainda mais pingos de água em mim, a medida que subia os degraus da escadaria da piscina e penetrava seus olhos nos meus. Ao contrário do que eu esperava, não havia nenhum teor audacioso ou provocante em seu olhar. Parecia simplesmente o de sempre.
Ou melhor: o de antigamente.
— Resolveu sair da sua caverna? — sorriu mordendo a ponta do lábio inferior e puxou a toalha que estava pendurada na espreguiçadeira. — É por isso que vai chover hoje.
— Passou todo esse tempo fora fazendo curso de meteorologia ou só virou supersticioso demais? — Me afastei cada vez mais que se aproximava. Ele percebeu. É claro que percebeu.
— Eu sei que você está curiosa para saber o que eu fiz durante todo esse tempo. — Ele sentou na borda da espreguiçadeira e abaixou a cabeça na altura dos joelhos para secar os cabelos. Nesse minuto em que ele não podia ver minha expressão, respirei fundo todo o ar que tinha a minha volta. — Sabe, é só perguntar, .
— Engano seu. O que você fez da sua vida é a última coisa no mundo que poderia me importar. — Marchei para dentro da casa e comecei a me arrepender pela tentativa de procurar Malai. Ouvi os passos de virem logo atrás e desejei que pudesse simplesmente me teletransportar daqui até o meu carro sem ter de olhar para a sua cara por mais um segundo.
— Seu mau humor só pode significar uma coisa: você cedeu à proposta do meu pai. — Ele sorriu. Céus, como aquele sorriso era um atentado aos meus bons modos e princípios. A cada vez que eu mais encarava, a vontade de socá-lo gritava no meu cérebro.
Um soco perfeito no ângulo perfeito para entortar os seus malditos dentes perfeitos.
— Seu raciocínio finalmente ficou ágil! Quem diria que isso chegaria a acontecer? — alargou o sorriso cínico e eu retribuí na mesma dosagem torcendo para que minha postura permanecesse impecável e ele não visse meus dedos tremendo de ódio.
— Tive uma boa professora, se é que você me entende. — piscou e meu sorriso travou no rosto. Mais algumas palavras e eu tinha certeza que iria realmente socá-lo.
— Ela também te ensinou a calar a boca na hora certa. — Murmurei sentindo minha voz desabar alguns níveis. deu de ombros e instigou um olhar insinuante no rosto. Encarei sua fisionomia até ela se afrouxar e substituir um ar mais sério; sabia que eu tinha paciência para aguentar suas artimanhas inúteis. Era isso que lhe impedia de me fazer ceder a todo tipo de provocação.
— Até porque minha língua ficava ocupada com outras atividades. — Ele estalou a língua dentro da boca e sorriu bajulador, percorrendo a língua pelos dentes até que levantou a sobrancelha esquerda e soltou uma piscadinha.
Ele sabia bem do que estava falando e, por saber tanto, ele também tinha ideia de que eu iria rebater com a minha sequência de ódio destrinchado.
E não tardei em atender ao seu pedido.
— Você, seu grande pedaço de merda! — Avancei em direção a com os punhos para o alto e prestes a mirá-lo um soco no meio de seu nariz de celebridade mundial. Ele esquivou antes que eu mesma me repreendesse e voltasse aos perfeitos sentidos. Grunhi de ódio, mais por deixar que me tire do controle, do que por não ter socado como planejei. me encarava com os olhos arregalados e a boca aberta, num misto de susto e surpresa. Em alguns segundos ele despejaria outra insinuação e eu teria que lutar contra meu instinto animal e apelar para o nível deplorável. Ajeitei meu chapéu e suspirei fundo. Ele não valia à pena. Ele nunca valeu: é isto. Sem mais, nem menos, não voltaria a me transtornar dessa maneira. Não hoje. — Sua língua ainda irá lhe colocar em maus lençóis, . E eu espero que você se enforque neles. Boa noite. — Bati a porta da sala em sua cara sem nem me importar se o atingiria ou não. Ouvi o afilhado do Diabo socar a porta e acelerei meus passos para que ele não conseguisse me alcançar — se é que ele terias as bolas para fazer isso.
Os seguranças da casa de Yuan me miravam olhares receosos e preocupados, talvez achando que eu teria um surto diante das câmeras da mídia a qualquer segundo. Parei de andar quando avistei as lanternas dos carros estarem direcionados para a entrada da garagem e me apoiei na parede, retomando o ar e as forças nas pernas, antes de encará-los novamente.
Eu estava acostumada a transmitir uma imagem impenetrável, enigmática e resistente diante da mídia. Toda essa essência que eles viam era algo que levei anos para construir e zelar durante os momentos de fragilidade. Quando apertei com força a alça da bolsa em meus dedos, empinei o rosto e marchei concentrada em chegar até o meu carro, eu sabia que era essa imagem que eles continuariam vendo.
Mesmo que eu estivesse caminhando com o fardo de ser quem sou, seus julgamentos explícitos em seus olhos e em suas manchetes eram o que me faziam continuar caminhando.
Eu não tinha momento para fraquejar.
Não quando fraquejar é a única coisa que esperam de mim.


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*¹: Primeiro Centro de Inteligência Artificial Sede do Google na Ásia. Apesar de ser um serviço bloqueado pelo governo chinês (o Google nem o Facebook são plataformas utilizadas na China), a empresa busca apoio à pesquisa e ao desenvolvimento de IA no país.
*²: ABRIA: Associação Brasileira de Inteligência Artificial. Uma entidade representativa que reúne tanto startups quanto empresas já consolidadas no setor de inteligência artificial.
*³: Algo parecido como "princesinha", no diminutivo de "princesa", traduzido para o português. Indica uma relação afetiva e/ou íntima entre as duas pessoas.



✽✽✽



Sentado em sua mesa, sua mandíbula contraia. Seus olhos me fitavam de forma contundente e algo pairava no ar. Os respingos de chuva escorriam pela janela central da sala e todo o barulho das gotas encontrando o sistema de escoamento era o único som que fazia diferença naquela situação. Meus olhos rodavam em círculos preocupados e impacientes, aguardando qualquer que fosse o pronunciamento de seus pensamentos.
O relógio batia seis e quarenta e seis da manhã. O expediente na empresa só começava a partir das oito horas, mas não era nenhuma surpresa que eu estivesse ali desde as seis e meia da manhã. Quando cheguei, a primeira coisa que vi colada na minha porta era um pedaço de papel, rasgado às pressas, com as letras corridas de , com uma frase vaga demais.
“Me encontre na minha sala, urgentemente, por favor.”
Meu plano inicial era ignorar o seu suplício e deixar que ele próprio me procurasse, caso fosse tão importante assim, mas quando busquei meu celular pelo bolso do casaco só para conferir se eu não havia caído da cama e já era quase a hora do almoço — a única hipótese possível para explicar o porquê era a primeira pessoa a estar na empresa —, eu vi nove notificações de ligações perdidas de um mesmo número. .
Então, mesmo estando ciente que meu dia só tenderia a piorar, começando pelo encontro não planejado com , eu segui o caminho até ver a sua porta semiaberta e o pouco de luz solar adentrar pelas janelas de seu escritório. Ele estava com a cabeça pousada em suas palmas da mão e parecia estar debatendo um dos assuntos mais importantes de toda a sua existência. Depois de notar a minha presença, ele indicou a poltrona e eu sentei.
Ele continuou em silêncio até que fosse irritante demais aguardá-lo falar alguma coisa.
Novamente a sua mandíbula cerrou e o seu punho ficou branco pela força que ele aplicava nas juntas. Antes que eu tirasse o último fio de paciência de seu cérebro, abriu a boca.
— Kim Jae Won faleceu.
Sua voz saiu mais baixa que o barulho das gotas de chuva. Endireitei meu corpo em direção a sua mesa e consegui ver a ruga de expressão se impulsar com força bem no meio de sua testa. Seu pomo de adão cutucou com brutalidade a pele de seu pescoço quando ele engoliu em seco o nó que deve ter se formado em sua garganta.
Levei alguns segundos para assimilar suas palavras. Senti um enorme peso se chocar contra as minhas costas e novamente encontrei o almofadado da poltrona, agora quente por ter sido esquentado pelo calor do meu corpo. Quando percebi que não retirava o olhar sério, eu soube que ele tinha certeza daquela informação.
A ideia era insana, na minha cabeça, mesmo que esse fosse o fim de todos nós. É claro que iríamos morrer, é claro que Kim Jae Won iria morrer.
Mas não esperava que fosse tão cedo. No auge de seus quarentas e poucos anos, Jae Won estava se despedindo — da sua família, dos seus amigos, de Sense Time e do mundo.
— Quando aconteceu? — desviou o olhar para a janela e deixou uma longa pausa emergir entre o nosso silêncio mórbido.
— Nesta madrugada. A primeira suspeita é suicídio.
Minha cabeça assentiu a sua informação de forma automática — eu não tinha noção do que estava sentindo. A ideia de perder uma das pessoas que fez parte de minha vida nos últimos anos era triste e dolorosa, mas imaginá-lo partir desta forma era ainda mais aterrorizante.
Murmurei um quase insonoro “oh” e tentei não ceder ao pânico.
— Ele deixou alguma coisa que levantasse essa hipótese? — balançou a cabeça em negativa e deslizou os dedos pelo couro cabeludo. Puxou com rapidez alguns fios e suspirou profundo com os olhos fechados. Apoiou novamente o queixo na palma da mão e mirou os olhos, cansados, em direção ao meu rosto.
— Eu não tenho muita ideia do que aconteceu. Recebi a notícia assim que acordei. A polícia disse que tentou entrar em contato com todos os números de emergência que estavam anotados em um bloco de notas. O número do meu pai e o seu eram um dos primeiros. — Suas palavras entraram pelos meus tímpanos causando um choque elétrico. — Eles não conseguiram te localizar, então ligaram para o meu pai… E ele me procurou na hora.
Olhei novamente para o visor do meu telefone. Entre as ligações perdidas das últimas horas havia outras três de números bloqueados. A ficha, finalmente, caiu.
— Eu estava malhando. — Expliquei. — Meu celular ficou guardado na bolsa de treino.
— Pensei que você treinasse à noite. — Levantei meu olhar até e senti um desconfortável vestígio de antiga familiaridade sobressair em seus olhos.
— Agora eu treino logo depois que acordo. — Pigarreei de propósito. — Precisamos entrar em contato com a família de Jae e assegurar que vamos assumir os custos e as responsabilidades para requerer o traslado do corpo de volta à Coréia.
— Meu pai disse que já pediu para uma equipe tomar conta dessa parte. Por ora precisamos comparecer na delegacia para prestar depoimentos. — levantou da cadeira e, parecendo estar um tanto atordoado, olhou a sua volta em busca de algo. Apalpou seus bolsos e o barulho de suas chaves ecoaram pela sala.
Repeti seus passos e marchei em direção à minha sala. Peguei minha bolsa com rapidez e quando me virei para encontrá-lo no elevador, ainda estava parado na porta da minha sala, encarando cada centímetro de parede do cômodo. Eu não segui o seu olhar, mas sabia que ele estava olhando todos os quadros, fotografias e objetos que constituíam a minha marca registrada na empresa. Um sorriso frouxo se desabrochou de seu rosto e me concentrei em não prestar atenção no seu rosto.
Era uma tortura.
Uma tortura dos infernos.
Tombei minha cabeça para o lado e suspirei fundo enquanto esperávamos a chegada do elevador. Minha cabeça estava pesada de pensamentos e, acima de tudo, uma triste sensação de impotência.
O reflexo de meu rosto se estampou na hora que a porta transparente de vidro indicou que o elevador havia chegado no andar. Por um segundo encarei minha expressão de choque e incredulidade só para ter certeza que aquilo não era um sonho.
estava logo atrás de mim com seus olhos de águia e sua expressão séria endurecida como se tivesse sido congelado.
Em momentos como aquele, ter responsabilidades era a pior coisa que eu poderia ter que lidar.
Não só as minhas responsabilidades como dona da SenseTime, mas também como o escudo e a rocha firme que todos a minha volta se apoiarão para superar esse momento. A responsabilidade de ser quem cuida de milhares de pessoas.
Acima de tudo, a responsabilidade de ter o dever de prestar as últimas honras a alguém que compartilhou tanto como Kim Jae Won fez.
— Você não precisa fazer isso agora se não estiver se sentindo bem. — Por pouco eu não sorri para . Por pouco.
— Eu devo isso ao Jae. — A porta do elevador se fechou, deixando para o lado de fora toda a minha inconsistência e minha fraqueza. Toda a que estava prestes a ceder e deixar a emoção lhe dominar em um momento tão crucial e delicado.
Junto com o sorriso que lutei para não se manifestar em meu rosto, eu neguei o amparo de .
Mais uma barreira havia sido estabelecida.
Eu não precisei olhar para o seu rosto para ter certeza que ele tinha sentido o impacto daquela recusa.
Daquela evolução.
Afinal, nestes últimos anos, descobri que a única pessoa que poderia me amparar e me proteger do mundo seria apenas eu.
E que assim fosse.


✽✽✽



— Você notou algum comportamento hostil ou depressivo por parte do Sr. Kim Jae nos últimos dias?
O investigador lançava dezenas de perguntas parecendo acreditar que eu teria todas as respostas para desvendar o porquê Kim Jae morreu da forma que morreu.
Ele batucava a sua caneta de metal na mesa também de metal e o barulho era irritante de tão desnecessário. A luz branca penetrava no meu campo de visão e era quase uma missão impossível não fechar os olhos para suportar a densidade.
Eu me sentia um peixe fora d’água. Céus, o que eu estava fazendo aqui?
Não havia lógica nem senso de propósito algum me prender nesta sala para responder “Não sei”, “Não me recordo”, “Ele não compartilhava esse tipo de informação pessoal comigo”, a cada pergunta do homem. Suas rugas de expressão me julgavam com um teor de incredulidade como se fosse absurdo demais eu não saber de qual era a rotina do meu funcionário depois de seu horário de expediente, se ele já frequentou algum psicólogo ou psiquiatra, se existiu desavenças com outros funcionários da SenseTime ou se ele estava lidando bem com uma briga familiar que magicamente veio à tona depois que a sua morte foi comunicada aos parentes.
— Tem pelo menos alguma coisa que você sabe, Sra. ? — Sua falsa expressão de lástima deveria ser o primeiro motivo que estava me atentando a cometer específicos crimes tipificados no Código Penal.
— Eu sei que Kim Jae Won morreu. — Ele arqueou uma sobrancelha e estalou a ponta da língua por dentro de sua bochecha. — É isso que eu sei e é apenas isso que eu sei. Se você ainda achar que há alguma pergunta sobre a vida pessoal de Kim Jae para me perguntar e ouvir a mesma resposta, eu estarei toda ouvidos já que, espante-se, Sr. Investigador, o contrato que Kim Jae assinou para ser funcionário de minha empresa não incluía nenhuma cláusula abordando o tópico “compartilhar todas as suas experiências pessoais com a chefe, só para ela ter o que falar caso você misteriosamente morra e ela precise ser interrogada”. Ao contrário, peço por gentileza que aceite minha saída e me deixe tratar de assuntos pertinentes.
Ele descruzou os braços e levantou seu corpo até que ficasse curvado e com as mãos apoiadas na mesa. Esticou o tronco para mais próximo de mim e quando viu que sua expressão nada me afetou, lançou um sorriso que provavelmente deve ter sido treinado incontáveis vezes na frente do espelho. Aparentando estar tentando recriar uma cena de um drama qualquer, ostentando a pinta de policial enigmático e amedrontador, ele falhou miseravelmente no requisito amedrontar e ser enigmático.
— Meu nome é Lee Hyun. Decore, Sra. . Você irá ouvi-lo com frequência. — Retirou as pastas de arquivos sigilosos da mesa e as prendeu por baixo de seu braço. Empinou o peito para que o seu dispositivo dançasse uma valsa ensaiada e continuou na tentativa de causar algum impacto. — ¡Hasta luego!*¹.
Soltei uma gargalhada zombada e levantei num estopim da cadeira.
— Estamos no século vinte e um, ano 2024, num país que é a maior potência mundial da atualidade, e vocês ainda não descobriram que espanhol não é a língua nativa do Brasil? — Dei um tapinha em seu dispositivo. — Seria cômico se não fosse trágico. E depois, nós, latinos, somos o povo com níveis emergentes. — Lee Hyun deixou que eu saísse da sala antes de si, pois estava inapto de esboçar nenhuma outra reação além de embaraço e surpresa.
A primeira coisa que encontrei, no caminho da saída, foi jogado no sofá da recepção com o celular no ouvido e os olhos fechados, acenando repetidas vezes ao o que alguém lhe falava, estufando os lábios e esticando o queixo para mim quando viu que eu me aproximava.
— Você teve um passado sombrio do qual eu não fui informado? — perguntou assim que desligou a ligação. Guardou o telefone no bolso do terno e levantou prontamente. Passou as mãos pelos bolsos da calça e ficou parado, me sondando, na expectativa de uma resposta.
— Depende. De qual parte do meu passado estamos nos referindo?
riu fraco, mais para um riso nervoso do que espontâneo. Ele olhou aos lados e colocou a mão nas minhas costas estimulando que eu começasse a andar. Ficou atrás de mim e senti sua boca roçar nos meus fios de cabelo.
— Um investigador bizarro veio me perguntar onde você estava. O jeito que ele se referiu a você me fez pensar que ou vocês são muito próximos ou ele é obcecado por CEO’s. Ou por você, especificamente.
— E qual foi a sua resposta? — Meus lábios queriam sorrir. Me forcei a permanecer sem humor, desviando o ângulo do meu rosto das portas quando vi a primeira centena de câmeras se direcionarem para nós.
— Que você tinha ido embora. Vai saber o que esse cara iria querer com você? Te indiciar por ser bonita demais para habitar esse país? — respondeu em um tom de obviedade. Quis rolar os olhos para a sua brincadeira inapropriada, mas me limitei a encará-lo com tédio. Ele sorriu descontraído e deu de ombros.
— Você deve estar se referindo ao Wen Jung Yong. Ele não iria querer me algemar ou me jogar no corredor da morte, fica tranquilo. — Quase ri da sua preocupação não sendo capaz de se manter às escuras. Ele tirou a mão das minhas costas e apertou o botão para o elevador descer e irmos para o subsolo. Não esboçou nenhuma emoção e nem contra-argumentou o meu comentário, se calando em um silêncio estranho. — Ele foi o meu amigo mais próximo na faculdade. — olhou rapidamente para mim enquanto alguns policiais passaram correndo atrás de nós. Ele deu um passo na minha direção, tampando minha visão da rua, e rodou seu pescoço quase noventa graus para entender o motivo da afobação dos homens. Depois que percebeu não ter sido nada alarmante, ele olhou novamente nos meus olhos para no fim se afastar e não insinuar mais nada. Um ponto sem nó se formou na minha mente e entender era uma das poucas coisas que eu não fazia mais ideia de qual era o sentido. Ele sempre seria esse conjunto de atitudes imprevisíveis e misteriosas.
O ding-dong do elevador chegando ao andar foi o que fez voltar a se aproximar de mim e repousar sua mão nas minhas costas. Olhei de soslaio para ele e, como se estivesse lendo minha mente, ele desabou a mão e não soube aonde colocá-la, entrando em um desconforto que teria sido considerado fofo pela de dez anos atrás.
Alguém ligou para e ele bufou alto. Atendeu a ligação e segundos depois indicou para o andar de cima, não dizendo muito, mas pedindo para que eu esperasse em seu carro. Arremessou a chave em minhas mãos e seguiu em passos largos até o elevador.
— E veja só quem resolveu dar as caras! Pena que não do jeito que costumávamos nos ver, não é, brasileirinha? — Jung Yong estava apoiado no carro de , alargando um sorriso jovial que eu não via há tanto tempo que poderia dizer, sem pestanejar, que não tinha mudado em nada. Ele esticou os braços para um abraço e ouvi os estalos do couro de sua jaqueta se esticando quando meu corpo se chocou com o seu. Jung ainda cheirava a sabonete de lavanda, pasta de menta e um perfume afrodisíaco que parecia ter sido extraído do Amazonas.
— Você continua debochado e cheirando a lavanda. Ficou congelado no tempo ou tem a ver com a genética de Xiamen? — Jung abanou as mãos no ar e bagunçou o meu cabelo.
— Poderíamos entrar em uma discussão infinita sobre o porquê você continua sendo a pessoa mais sem graça que já cruzou a fronteira, mas infelizmente estou correndo contra o tempo. — O sorriso de Jung diminuiu e sua carranca séria fez presença. — , nós precisamos conversar. É sério e urgente. Você tem dez minutos?
Olhei para o elevador, agora fechado, e olhei para Jung. Ele indicou com o dedo para a sua moto e eu assenti em silêncio. Puxei uma folha da agenda que carregava na bolsa e escrevi à pressa um recado lacônico demais.
Surgiu um contratempo. Até mais tarde.
O papel se prendeu na palheta do para-brisa de e coloquei a chave por dentro da roda dianteira do carro, da forma que ele saberia onde estaria. Subi na moto de Jung e, com o capacete na cabeça, dei uma última olhada para o elevador.
Ele apitava estar se aproximando do subsolo. Quando Jung cruzou a entrada e abriu espaço pela multidão de fotógrafos, a porta se abriu, mas não tive tempo de olhar para trás.


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*¹ ¡Hasta luego! significa “até logo!” em espanhol.


✽✽✽



— As más línguas vão dar nos dentes, . Até que isso aconteça, preciso que você esteja preparada para o que irá repercutir em cima do nome de sua empresa.
Jung dedilhava pelo copo de whisky posto à sua frente. Meus olhos iam de encontro ao mural neon que esboçava a frase get your hands dirty, tirando sarro da coincidência que aquele comentário de Jung teve com a atmosfera do momento.
Estávamos no Flask*², um lugar que descobrimos quando forcei Jung e Xing Ji, nossa amiga que fazia Direito Internacional no mesmo horário que nós, a experimentarem os lanches fantásticos que vendem no The Press*³, um dos meus achados favoritos em Xangai. Com as pernas apoiadas nos suportes debaixo das banquetas e os braços grudados no balcão do bar que contracenava com as luzes de led, na parede, contra o pano de fundo espelhando-se na pedra da bancada, me senti de volta aos anos de faculdade, revivendo uma época que, de longe, foi uma das melhores e me proporcionou a incomparável sensação de ser imbatível e imparável.
Diferente desta sensação, a de estar perdendo controle de algo que eu ainda nem sei o que é.
— E foi por isso que você me trouxe aqui? Para me embebedar e me fazer esquecer momentaneamente de que estou fodida com alguma merda que vai explodir no meu buraco onde não bate o sol?
Jung sorriu de lado e tirou o copo da minha mão.
— Te trouxe aqui porque faz tempo que não nos sentíamos nos velhos tempos. — Ele me empurrou pelo ombro. — Ou você preferiria que eu soltasse a bomba dentro da salinha improvisada da delegacia, aquela que cheira café azedo e açúcar queimado?
Murmurei um “tanto faz” e puxei de volta o copo. Jung me encarou por alguns segundos e tomou de uma vez só o restante de sua bebida. Suspirou baixo, mas não insignificante o suficiente para não me fazer vidrar o olhar em cada um de seus movimentos.
— Kim Jae Won não se matou. A autópsia ainda não saiu, mas não vai demorar pra que concluam isso e a notícia vaze.
Os nossos anos de amizade me faziam acreditar fielmente em qualquer dedução que Kim Jae concluía. Antes de entrar no ramo em que estou, eu e Jae éramos a dupla audaciosa de advogados da área criminal que só precisavam confiar na intuição para investir as cartas nos pontos vazios que encontrávamos nos casos. O último deles, que advogamos juntos, foi o clímax da minha carreira como advogada criminalista. A partir deste caso em específico que consegui todo o dinheiro necessário para investir nas minhas primeiras ações da SenseTime. Quando coloquei as mãos no caso, avisei Jung que aquele seria o meu último naquela área. Apesar de ser apaixonada pelo o que eu fazia, nada me tirava da cabeça a ambição de trabalhar com as leis para criar um império de inteligência artificial — um ramo que ultrapassaria os códigos e as doutrinas. Eu queria alcançar um patamar que ninguém ainda havia se ousado o bastante para criar.
Jung não se desapontou com a minha escolha, pelo contrário, ele me incentivou da mesma forma que fazia quando compartilhávamos nossos desejos na biblioteca da faculdade. Ele sabia que ficaria bem seguindo solo com o escritório, mas, no final, ele se convenceu que o seu lugar não era só com as papeladas do mundo jurídico. Era com a ação e com a exploração do feeling que ele tinha, desde o princípio, para ser um investigador. O melhor de todos.
Era por isso que eu tinha certeza que Jung não tinha falhado em sua dedução. Infelizmente.
— O que você quer dizer com isso, Jung?
Ele piscou algumas vezes. Gesticulou para si mesmo e depois suspirou novamente.
— Encontraram Kim Jae segurando uma arma. Ele morreu por causa de um tiro certeiro no meio de sua testa. — Jung olhou para mim com receio de continuar falando. Dei meu consentimento. — Existem alguns pontos sem nó que me fazem acreditar que ele não se matou, começando pelo tiro. Você se lembra daquele caso que nos fez reviver as aulas de medicina legal?
— Fale por você, amigão. Eu tirei 10 nas provas de balística e era praticamente uma doutrinadora na matéria. — Jung rolou os olhos e riu baixo.
— Blá, blá, blá. Então vamos partir do ponto básico: das orlas e das zonas. Na orla de enxugo, se houver sujeira na bala, fica lá. Se houver orla de contusão, deve ter uma distância menor que 40 centímetros porque, se for acima disso, é um tiro à distância. — Concordei, estimulando que ele continuasse falando, para que eu pudesse entender qual era o seu propósito. — Quando a pessoa atira, expele corpúsculos de pólvora que não foram queimados e são jogados contra o corpo da vítima, formando pontos pretos, a nossa famosa zona de tatuagem verdadeira. Aí também pode ocasionar na zona de queimadura, porque na explosão pode haver um lampejo de fogo que sai do cano e queima a pessoa. Num tiro à queima roupa, a bala é disparada a menos de quarenta centímetros da vítima, mas o cano não está encostado nela. Nesse intervalo entre o cano e a pessoa podemos encontrar as zonas e as orlas, certo?
— Sim. Se não der pra reconhecer o que é zona e o que é orla significa que foi um tiro encostado, porque no efeito mina acontece uma expansão violenta dos gases e as paredes do “buraco da bala” ficarão dilaceradas a ponto de não ser possível identificarmos. — Respondi.
O rosto de Jung se iluminou.
— É exatamente esse o meu ponto! — Ele arquejou. — Se Kim Jae fosse se matar teria encostado o cano em sua testa por uma questão óbvia de firmeza na mão para segurar a arma e conseguir dispará-la. Se tivesse encostado o cano na testa, ele não poderia ter vestígios reconhecíveis de zonas e de orlas. E, querida amiga, adivinha o que é que eu encontrei pelo corpo dele?
Meus batimentos cardíacos explodiram como fogos de artifício.
— Orla de enxugo, orla de contusão, zona de tatuagem verdadeira e zona de queimadura.
Jung concordou eufórico.
As luzes neon começaram a me causar um enjoo.
— Ele foi encontrado com um ferimento de projétil na região frontal da cabeça, além de um ferimento no antebraço direito por causa do projétil que, por mim, foi classificado à distância, por causa das orlas. — Jung me deixou processar as informações por um breve segundo. — Isso só pode significar que a pessoa que atirou em Kim Jae estava a menos de quarenta centímetros de distância. Foi um tiro à queima roupa. Você sabe por quê?
Olhei para o meu amigo e a resposta parecia mais óbvia do que o meu mal-estar.
— Porque alguém queria uma queima de arquivo. — Finalizei o seu pensamento. Jung concordou, consternado, passando rapidamente a mão pelo meu braço.
— Uma queima de arquivo que não deu certo porque Kim Jae escondeu algo muito bem. — Os olhos de Jung cerraram. — Ele deixou um pen-drive com programas criptografados que, pelo o que eu entendi, precisaremos de um daqueles gênios da T.I que trabalham na SenseTime para nos ajudar a desvendar o porquê diabos Kim Jae precisou engolir o pen-drive e cagá-lo na lixeira para esconder de quem quer que ele já sabia que iria o perseguir.


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*²: Flask é um lounge “clandestino” que nasce de dentro da lanchonete The Press*³. Ao entrar na lanchonete, há uma antiga e temática máquina de Coca-Cola em certa localidade que, abrindo sua porta, dá passagem para o bar Flask, através de um túnel que divide os dois ambientes em distintos estabelecimentos, mas conectados em um só.


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Eu estava me preparando para mais uma reunião negocial. Era a quarta só naquela semana. Durante as últimas quarenta e oito horas a mesma pauta estava sendo debatida: o que diabos iria acontecer com o projeto de tecnologia neuromórfica?
Os vinte homens alinhados na mesa, vestindo seus mais perfeitos ternos sob medida, me encaravam com expectativa e um certo nível de desespero.
, do outro lado da sala, tinha seus olhos divagando um estímulo que me deixou quase sonsa. Entre as linhas imaginárias que ele traçava só com aquele olhar, todo o resto das minhas dúvidas e receios se parecem minúsculas importâncias em contrapartida do que ele queria me dizer.
Somos os capitães do nosso próprio navio. No primeiro abatimento que sofrermos, faremos a nossa típica acostagem e, ainda, se preciso, iremos jogar nossas âncoras para sustentar o nosso navio, firme e forte, contra a correnteza do oceano. Não havia pelo o que temer; estamos prontos para qualquer abordagem. Somos o que somos, da forma que somos, prontos para os inimigos ocultos que surgirão pelas águas desconhecidas. Sempre fomos imbatíveis, então continuaremos sempre sendo, certo?
Sou a capitã dessa frota e nenhum desses homens irá me dizer como navegar a droga do meu próprio navio.
— Os contribuintes do projeto de tecnologia neuromórfica*¹ estão pensando em recuar depois que souberam da morte de Kim Jae. Ele era o diretor-chefe encarregado de fazer a gestão do projeto, agora, sem ele, estão imaginando que entraremos em hiatus indeterminado e todo o dinheiro que foi investido será desvalorizado. — Eu comecei repassando as novidades. Os homens soltaram distintos murmúrios de indignação, surpresa e até de convencimento. — Sem dizer que os contribuintes do projeto de manufatura aditiva*² também estão querendo tirar o time de campo por achar que, se um dos nossos projetos principais está com chances de entrar em hiatus, o outro projeto que retém grande parte do capital também entrará, então não vale à pena persistir conosco.
— Vamos perder nossa fonte de patrocínio e os projetos que nos tornariam líderes das empresas de AI mundial? Isso é dizer indiretamente que estamos fracassados. — Chang Ming, o ser humano menos útil naquela sala, manifestou sua falta de esperança na própria companhia pela qual trabalhava. Girei nos meus calcanhares e mirei um olhar que não precisaria de interpretações para que o rapaz compreendesse a minha linha de raciocínio.
— Eles assinaram um contrato. Se ferirem alguma das condições que concordaram vão ter que nos pagar uma indenização milionária. — Apontei o óbvio. O contrato era claro quanto às hipóteses que poderiam vir a acontecer. Por um momento me surpreendi pelo homem ter se esquecido de que eu nunca dou um passo em falso no nosso campo de guerra.
— É aí que está o problema, senhorita . Eles perderão milhões, enquanto nós bilhões. — Hung Chen atreveu me lançar um sorriso que tentou ser uma tentativa de desarmar meus argumentos e me tornar despreparada na frente de todos os demais. Batuquei a ponta do dedo nos lábios algumas vezes até que ele entendesse o teor de deboche que todos os outros notaram instantaneamente.
— E você espera mesmo que estes sanguessugas larguem a única coisa que estão lhe mantendo em pé, senhor Hung? Francamente? Pense um pouco mais fundo. Nós ensinamos os peixes a nadar, mas não a se caçar para sobreviver. — Uma ruga rancorosa vincou em seu nariz e ele fechou por completo o pouco sorriso que ainda existia em sua cara. O homem pareceu perder o foco da conversa por um segundo e, quando voltou a abrir a boca, não tinha mais o tom de voz de quem conhecia todas as verdades incontestáveis.
— Que seja. Eu apenas acho que eles irão ficar putos com essa situação e considerar que nosso projeto está fora da concorrência.
— Não se usarmos o próprio Kim Jae como nossa fonte de pesquisa. — se manifestou pela primeira vez em horas, fazendo-me lembrar de que ele ainda estava ali e não numa realidade paralela. Todos olharam para o herdeiro e alguns não transpareciam estar dando muita credibilidade para o que ele diria. , no entanto, não se abalou, lançando um sorriso polido e andou como se estivesse em um desfile da Boss até chegar no centro da sala e se posicionar ao meu lado. Tombou a cabeça para mim e sorriu, mais audacioso, não se importando nem um pouco com o que os homens poderiam pensar. Olhei de soslaio para a sua carranca despojada e lhe dei uma leve cotovelada para que voltasse a falar. — Se conseguirmos estudar um cérebro com células mortas e encontrar o elemento-chave do projeto, estaremos assinando no atestado de fundadores de um novo nível de inteligência artificial. — Ele esfregou as mãos e sorriu mais largo. — Continuaremos fazendo bilhões e teremos governos aos nossos pés. A progressão da sociedade da China e do mundo estará em nossas mãos.
— O que você está insinuando com “estudar um cérebro com células mortas”? Não podemos simplesmente abrir a cabeça de Kim Jae e usá-lo para divertir os nossos cientistas. — Khaled Youssef, o engenheiro de software sênior, citou o comentário de com o seu sotaque arranhado. Toda vez que o homem, que tinha por volta dos trinta e seis anos, falava, meus olhos seguiam os rastros de sua personalidade impactante e a sua voz que era como um tambor rangendo pelo cômodo. Ele endireitou as pulseiras de ouro que misturavam em seu pulso e quando notou o meu olhar retribuiu com um aceno formal acompanhado de um sorriso que não dizia muito. Assenti ao que ele quis dizer, sem ter ideia do que era, e desviei o olhar, retomando ao assunto principal. O árabe era uma figura atípica naquela empresa e, se eu fosse arriscar, na China inteira.
— Tem razão, Khaled. Não poderíamos se não tivéssemos autorização tácita de Kim Jae, mas é o que temos. — responde. — O advogado encarregado de cuidar do testamento de Kim Jae encontrou um documento em que ele deixou escrito que desejava se tornar um doador de órgãos. Ele até mesmo deixou uma cópia do documento que havia sido entregue à Cruz Vermelha da China e que deveria ser acionado quando viesse a falecer. No documento ele diz claramente que deixará seus órgãos para transplantes, mas que antes deveria haver uma aprovação dos cientistas da SenseTime dizendo quais seriam os órgãos necessários para fazermos os estudos no projeto 101. — Um silêncio fez com que limpasse a garganta e continuasse gesticulando as mãos para não parecer que havia tocado em um assunto que era frágil e perigoso. — Ele nos deu plena autorização de usarmos seus órgãos para darmos continuidade ao projeto. Não precisaríamos pedir autorização para a família, já que o Jae deixou um documento que é incontestável, mas eu fiz isso de qualquer maneira. Sua ex-esposa e filhos deram aprovação e disseram que esse era o trabalho que mais importava para Kim Jae, então que ele continuasse fazendo parte do avanço até mesmo após a vida.
— E como a sociedade vai reagir a isso? Vamos parecer oportunistas tirando vantagem de uma morte fatal. — Alguém perguntou na parte mais distante da sala. As luzes estavam abaixadas e o telão de IMAX estava dificultando que eu pudesse encontrar o questionador. Dei um passo para o lado e deixei que as atenções se direcionassem unicamente à , mas não perdi a oportunidade de responder, também, a pergunta.
— Todos sabem que nós não utilizamos nenhum órgão sem autorização. Toda e qualquer pessoa que participe de nossas pesquisas assina um contrato tendo ciência do que está sendo feito e, caso aconteça algo, tem total noção de que assumiremos as responsabilidades. Se usamos um órgão é porque ele foi cedido por um doador que sabe muito bem como será usado. Ninguém teria argumentos para nos atacar quanto a isso. — Reforcei o que todos naquela sala já sabiam.
— Mas vocês também sabem como o tópico de doação de órgãos é sensível desde o que aconteceu no passado com as doações clandestinas de órgãos dos condenados executados. A China ainda carrega a sombra vergonhosa daqueles atos antiéticos. Será que seria algo digno, por nossa parte, de se fazer? Temos vários doadores na fila que estão disponíveis para os nossos estudos, talvez deveríamos permanecer utilizando os anônimos ao invés de usar alguém que faz parte do próprio projeto.
— Essa era a vontade de Kim Jae. Acho que o que deveríamos estar pensando é em zelar pelos seus desejos finais. Se vocês concordarem que isso é um assunto que diz respeito apenas a nós, poderíamos manter em sigilo e não deixar que isso vaze na mídia. Pedimos que a família assine um termo confidencial por fins de respeito ao próprio Kim Jae e para zelarmos pelo projeto que ele lutou tanto para dar vida. A questão aqui não é o que irão falar da SenseTime, porque sempre haverá bocas para soltarem venenos sobre a nossa ascensão. A questão é excepcionalmente sobre respeitar a vontade de alguém que contribuiu para que chegássemos até aqui. — decretou. Todos pareceram concordar, talvez não tendo certeza se aquela era a melhor decisão a se tomar, mas sabendo que, na situação atual, era a única que nos restava.
deu um último olhar para mim antes de sair. Algo estava se passando em sua cabeça e não era o tipo de coisa que eu poderia facilmente decifrar.
Mas quando ele olhou, no fundo dos meus olhos, com suas jabuticabas brilhantes e carregadas da sua energia majestosa, entendi que ele queria que eu compreendesse da mesma maneira de antes.
Mesmo negando, não tinha como fugir da verdade: eu jamais desaprenderia a conhecer .
Conhecê-lo, com a palma da minha mão, se tornou o meu triunfo — e, no final das contas, o meu carma.


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*¹: A manufatura aditiva — também conhecida como impressão 3D — parte do zero e aplica camadas do material até atingir a forma final, usando um modelo digital como guia. Produtos fabricados assim podem ser altamente personalizados para cada usuário. Além disso, usando células humanas como material básico, esta técnica permite criar tecidos orgânicos que podem ser usados no teste de segurança de medicamentos, além de transplantes. No contexto desta FIC, o planejamento do projeto se dá na tentativa de “desenvolver” órgãos humanos com a sua exata projeção através da tecnologia artificial.
*²: Esta tecnologia, chamada de tecnologia neuromórfica, funciona de forma linear, transferindo informação entre chips e um processador central por meio de uma rede, imitando um cérebro humano, entretanto, ainda em processo de desenvolvimento, levando em conta que o cérebro funciona de forma totalmente interconectada, com uma densidade de conexões que superam em muito a de um computador. Este projeto abordado na FIC trabalha na criação de chips neuromórficos, que simulam a arquitetura cerebral e aumentam exponencialmente a capacidade de um computador processar informações e reagir.



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estava ocupado fazendo as tratativas finais sobre a doação de órgãos de Kim Jae enquanto eu e Jung estávamos empenhados em manter o mais escondido possível o pen-drive que foi encontrado. Se fôssemos levar ao pé da letra, o que fazíamos era completamente ilegal, ocultando provas que foram encontradas no local do crime, mas se isso caísse nas mãos erradas, estaríamos em queda livre diretamente para o poço da nossa falência.
Faltavam poucas horas para a verdade sobre a morte de Kim Jae vir à tona. Em breve todos saberiam que ele foi assassinado e as buscas incessantes começariam partindo de dentro da SenseTime para fora. Isso era uma coisa que eu precisava evitar ou, no mínimo, apaziguar.
— Pontual como uma britânica, bem vestida como uma francesa, luxuosa como uma árabe e irradiando uma beleza ímpar como uma brasileira. — Jung me saudou quando abriu o portão de sua garagem e deu passagem para que eu estacionasse na vaga vazia. — Céus, mulher, você têm tudo para ser o amor da minha vida, mas infelizmente não é uma Bugatti Chiron. — Jung se aproximou do carro, desconcertado, e segurou a minha mão para me ajudar a sair. Rolei os olhos com a sua tentativa falha de ser cavalheiro e coloquei as chaves em suas mãos.
— Pode ser sua se você for um bom garotinho e se comportar.
— Eu serei o que você quiser, mamãe. — Ele se agachou até ter a postura de uma criança e bateu as mãos insinuando estar feliz demais com a minha proposta de mentirinha.
— Não seja mal educado e dê boas-vindas como te ensinei, Benjamin Button. — Jung tentou alisar com força o meu cabelo como se fosse uma crina de cavalo e eu desviei a tempo. — Não viu que você tem uma visita?
Entrei rapidamente dando passagem para um dos garotos que trabalha conosco. Estava trovejando e a temperatura despencou, fazendo-me chegar empacotada em quilos de roupa na casa de Jung. Ele cutucou meu nariz, que estava tampado pelo cachecol, e eu lhe dei um beliscão no braço.
— Quem é o salvador da pátria do dia que você trouxe hoje? — Jung cantarolou e foi à frente, agindo como anfitrião de uma festa de adolescentes, tirando, sabe-se lá de onde, uma garrafa de vinho e simulando um brinde que não tinha necessidade alguma no momento.
— Você me pediu um gênio da T.I, certo? Aqui está ele. Huang Xhing. — O garoto cumprimentou formalmente Jung, ficou com o rosto abaixado e as mãos presas a bolsa que carregava um dos seus brinquedinhos favoritos. Pousei minha mão em seu ombro, o guiei até a sala de Jung e indiquei que ele sentasse à mesa, estimulando com um sorriso despreocupado que se sentisse confortável no ambiente. Jung se sentou de frente para nós e apoiou o rosto na palma da mão direita esperando que Huang falasse algo.
— Você sabe que isso é um trabalho perigoso, não é, garoto? Tem certeza que quer fazer isso?
Huang concordou prontamente sem pestanejar. Revezou seu olhar entre mim e Jung e quando viu que deixaríamos que ele falasse o que quisesse, ele deu um sorriso de canto e agradeceu, ainda formalmente, com o rosto mais curvado do que antes.
— Graças a Kim Jae eu estou tendo a oportunidade de ter uma formação acadêmica, senhor. Se ele não tivesse contado a Sra. de que minha família não tinha condições para bancar a minha faculdade, eu jamais estaria sentando naquelas cadeiras todos os dias. A Sra. se comprometeu em pagar sem cobrar um centavo de mim, então eu devo muito a Kim Jae e a Sra. , mesmo que ela tenha tentado me enganar para me proteger. — Xhing brincou e Jung arqueou a sobrancelha, surpreso, para mim.
— Eu tentei tirar algumas informações de Xhing sem que ele soubesse do que nós precisávamos. Não quero colocá-lo no meio de tudo isso, mas você sabe como funciona a mente de gênios. — Debochei. — Eles sacam tudo de primeira.
— Aprendiz de Mestre faz assim, Sra. . — Ele riu acanhado.
— Eu já amei esse garoto, . — Jung respondeu. — Formamos o trio perfeito de criminosos. — Dei um tapa na cabeça de Jung e ele gargalhou. — Ok, vamos lá, Huang Xhing, divirta-se com essa amostra de parque de diversão que veio diretamente do ânus de Kim Jae. Não se preocupe, eu limpei.


✽✽✽



— O que você encontrou aí? — Jung estava pendurada em Xhing desde que ele tinha ligado o seu notebook. Eu aproveitei que nenhum dos dois estava interessado em prestar atenção na minha existência e me joguei no sofá da sala, esparramando almofadas pelo tapete felpudo e deixei que Aragon, o pastor alemão de Jung, deitasse metade de seu corpo em cima da minha barriga. Ele apoiou a cabeça nos meus seios e tentava lamber meu rosto enquanto eu lhe mostrava a língua.
— Um jogo de criptografias… Kim Jae não criptografou da forma mais convencional possível, que é inserir o pen-drive no computador, usar o sistema Windows e adicionar uma senha no BitLocker. Isso aqui é como uma batalha de criptografias que, a cada vez que eu consigo derrubar um sistema, surgem mais dez no lugar. Ele usou a tecnologia mais incrementada para assegurar essas informações. — Huang olhou para cima. — Mas até mesmo elas conseguem ser falhas em certos pontos, eu só… preciso achar uma relação e desarmar a criptografia, mas o problema é… — Ele direcionou a atenção para mim. — Esse é um pen-drive teste?
— O que seria um pen-drive teste? — Jung olhou para nós e colocou as mãos na cintura, começando a ficar estressado com as merdas que continuam a seguir e atrapalhar a sua investigação.
— É uma de nossas criações. Existe um pen-drive que armazena todas as informações desejadas, mas, para impedir que ele seja corrompido ou facilmente descriptografado, usamos mais de um pen-drive teste para resistir e proteger o pen-drive “mor”. — Huang respondeu orgulhoso. — Criamos vários pen-drives testes para proteger o pen-drive que contém as reais informações. Caso um dos testes caia nas mãos de alguém e a pessoa consiga quebrar o sistema de proteção, uma mensagem automática é enviada para a central online que administra o sistema do pen-drive e esse sistema de proteção se torna ainda mais resistente e aprimorado, multiplicando suas barreiras. O que tem no pen-drive teste é deletado no momento em que a pessoa conclui o “último passo”. Ele não vai ter acesso algum, será inutilizado.
— Então vocês basicamente fazem o intruso ficar brincando de sobreviver no campo minado para no final ser bombardeado? — Huang sorriu pentelho.
— É exatamente isso. Agora, se esse for um pen-drive teste, vai dificultar ainda mais para desarmamos o sistema do original. É por isso que deveríamos saber, porque, se for, seria mais fácil procurarmos o pen-drive original e tentarmos trabalhar a partir dele.
— Somos uma empresa de inteligência artificial, o que você esperava, Jung? — Entrei na conversa. — Que ficássemos brincando de inventar redes sociais? — Ele ignorou meu comentário e colocou a cara no monitor de Xhing. Percorreu os olhos pelas artes do mais novo e coçou a barba por fazer.
— Mas você não é um dos criadores do sistema? Não sabe como funciona?
— Sim, mas é que, pela própria segurança dos clientes, cada conjunto de pen-drives é vendido com um sistema particular e único, só tendo acesso real as informações quem tiver as senhas. Se eu não tenho a senha, precisarei agir como um intruso.
— E se a pessoa esquece a senha? Como faz para recuperar?
— Todas as informações de acesso dos pen-drives, que estão na nossa rede, são deletadas quando eles vão para as mãos do proprietário. Não trabalhamos com cookies ou coisas do tipo. Se ele por algum motivo faz uma cagada, nós precisaremos recuperar o sistema de forma mecânica. É a forma mais segura para zelar pela intimidade dos clientes e, na verdade, quase nunca precisamos fazer isso. Eles sabem que se isso acontecer, quem acessar ao sistema terá conhecimento de suas informações e, sejamos francos… Se alguém investe seu dinheiro em uma tecnologia de ponta deste nível é porque não está interessado em compartilhar seus segredinhos.
— Então… Se você acessar a este pen-drive, corremos o risco de piorar nossa situação de encontrar os podres que Kim Jae escondia… Se não corrermos esse risco, nunca saberemos nem de onde partir. — Jung pesou os pós e contras. — E como diabos eu encontraria o pen-drive “mor”? Se o Kim Jae engoliu essa porra pra depois cagar e despistar quem fosse procurar, imagina o que esse cara fez com o mais importante de todos?
— Tem um jeito de descobrir… — Xhing olhou receoso. — Mas não sei se Jae seria capaz de fazer isso.
— Acredite, Xhing. — Jung lhe interrompeu. — Depois de tudo que estamos descobrindo sobre ele, com certeza Kim Jae seria capaz de fazer qualquer coisa que você duvide.
Xhing engoliu em seco. Olhou para a tela do computador e viu o campo em branco esperando para um comando. Seus olhos se embaçaram com a ideia de estar embarcando em um passeio sem volta.
— Eu soube que o Kim Jae será doador de órgãos, não é? — Jung concordou. — Então vocês precisarão correr para impedir que a pele dele caia nas mãos erradas. — O mais velho franziu a testa e, em poucos segundos, entendeu completamente o que o mais novo insinuava.
— Um protótipo de chip. Um maldito SIT*¹! — Jung pressionou o telefone na orelha e marchou em direção à porta, retirando sua jaqueta de couro do closet na sala e buscando pela sua chave do carro. — 136*². Repito, 136. Não deixem o corpo de Kim Jae sair do prédio. Fui claro? Não deixem ninguém se aproximar do corpo de Kim Jae.
Xhing procurou amparo e o pouco que pude oferecer foi um sorriso nervoso e um aceno para que ele me seguisse até a garagem.
— O que faremos agora, chefa?
— Faremos o que fazemos de melhor, gênio. — Mergulhei para dentro do carro e lancei-lhe um olhar enquanto o motor alcançava sua força. — Nós iremos destruir o inimigo.


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*¹SIT é a sigla para o nome “Security Intelligence Tracker”, nome designado (criado meramente para ter importância na FIC) para o microchip inserido na pele da pessoa que será responsável por armazenar informações.
*²Código de polícia (criado meramente para ter importância na FIC) que anuncia “alerta para segurança máxima”.


Chapter Two

Jung precisou entrar na sala, pela quinta vez, para se recompor e entender que nem sempre tudo irá se desgovernar como ele imagina.
Há duas horas estávamos no IML do hospital de Hong Kong tentando descobrir se alguém havia entrado na sala e mexido no corpo de Kim Jae. O ambiente mórbido, frio e sem vida não era o meu preferido em todo o mundo, mas, na presente situação, eu não tinha mais nada para fazer a não ser acalmar o meu amigo e dizê-lo que, sim, nós ainda estávamos à frente do inimigo, embora por tempo indeterminado e limitado.
— Jung, já vasculharam o prédio cerca de quatro vezes e não encontraram nenhuma anormalidade no território. Dá para você parar quieto e aceitar que está tudo bem? — Pousei minha mão em seu ombro e Jung deu um passo vacilante, chacoalhando a cabeça de soslaio e retribuindo o olhar receoso que eu lhe oferecia. Ele deslizou os dedos pelas madeixas e apoiou a mão livre na parede de ladrilhos, afundando a cabeça para baixo e respirando profundamente.
Afastei-me apenas para que ele tivesse seu espaço e me escorei também na mesma parede. Nossos olhos exploravam as elevações daquele ambiente, nada diferente do que estávamos habituados nos nossos anos de atuação na área criminal, mas também um tanto inusitado para o momento.
O aroma de formol pinicava nas minhas narinas e por um momento eu custei acreditar que não me sentia estranha em reviver aquelas emoções. Era sempre um tanto conturbado e relutante, para mim, conseguir separar os sentimentos incógnitos quando estava diante da morte, ainda mais pelo recinto ostentar uma aura tão precisa e indiferente. Soava triste, a meu ver, saber que, no final dos nossos dias, todos nós passaríamos por esta porta, esta sala e esta gaveta. Não importando quem fomos, o que fizemos, o que deixamos de fazer e o que poderíamos ter feito — a única certeza que teríamos durante todo o nosso percurso existencial seria de que o último suspiro nos levaria diretamente para esta estaca.
Jung estava angustiado com os seus tormentos pessoais, algo que sempre acreditei ser em consequência de seu perfeccionismo milimetricamente desenvolvido para fazê-lo perder a noção em várias ocasiões, por isso tratei em fingir demência quanto ao seu estado de humor e lhe deixei tomar alguns minutos recapitular a sua concentração.
Meus olhos desceram de encontro a um arranjo de tulipas que estava posto na mesa do legista e aquelas pétalas pareciam frescas como flores de outono, recém cultivadas e armazenadas no vaso pesado pela densidade da água. Havia um bilhete bem centralizado à frente do arranjo e uma letra corrida simbolizava um pouco de sutileza naquele ambiente, de certa forma. O acessório, por mais simplório e acanhado, nas dadas proporções do recinto, parecia trazer certa leveza e serenidade aos meus olhos.
Suspirei fundo, tendo tempo de apreciar o aroma que emergia pelas correntes velozes de ar gelado que provinha do ar-condicionado, e pousei o olhar na feição endurecida de Jung. Apesar da muralha da China se formando diante dos nuances de seus glóbulos avelãs, Jung nunca deixava de ser Jung. Os seus lábios semicerrados e sua linha de expressão cutucando o centro de sua testa vinham a me indicar o que lá e cá era típico nos nossos dias: Jung se concentrava para separar o aroma da morte e o aroma da vida e focalizar o que fazia parte do nosso ato real e do ato sugestivo.
— Não estou mais acostumado com a normalidade. — Jung finalmente se pronunciou. — Eu costumava ser mais eclético e racional quando a carreira não consumiu cada por cento da minha vida.
— Entendo a sensação. — Eu titubeei um sorriso consolador. — Passamos todo esse tempo dedicando nossas energias na ideia de alcançarmos o sucesso e quando finalmente o alcançamos não tivemos tempo de aprender a diminuir o ritmo. — Jung sorriu terno. — Somos a consequência do atual estado de existência humana, mas não precisamos acabar como todo o restante. Está tudo bem diminuir a velocidade, sabe, Jung?
Ele virou-se para mim e cruzou os braços abaixo de seu peitoral, apoiando o rosto na parede e mordendo as laterais de seus lábios. Eu relaxei a musculatura no contato sólido da parede e suspirei alto, libertando de mim aquele conselho dado ao meu amigo e tentando, no fundo do meu ser, compreendê-lo como um guia para a minha própria vida.
— No fundo você está tentando se convencer de que o seu sexto sentido pode estar falhando pela primeira vez na vida, só porque quer que esteja errada e não se sinta pressionada. — Ele levantou uma sobrancelha e sorriu espirituoso. — Você sabe, , é um presente ter um cérebro que trabalha a milhão lhe indicando todos os buracos injustificáveis de um caso que tem tudo para ser caótico e lendário.
— Você está achando que isso é uma daquelas competições que fazíamos na época do escritório, Jung? Por favor, pense com os miolos corretos, isso aqui é algo sério. — Eu lhe adverti. — Isso inclui SenseTime e a vida de todas as pessoas que poderão ser afetadas pelo o que a morte do Kim Jae irá ser considerada.
— Você pode sair da área criminal, mas a área criminal não sai de você. — Suspendeu os seus ombros até eles despencarem e balançarem em um ritmo descontraído. — Não precisamos discutir sobre o porquê tudo isso está nitidamente errado, mas só espero que você tenha em mente que a sua vocação não irá te sabotar. Está tudo bem aceitar que está tudo errado.
Bufei frustrada pelo rumo da conversa e marchei em direção à porta de saída, querendo deixar Jung e seus pensamentos mirabolantes para trás. É claro que havia alguns pontos sem nó, ainda mais quando eu me sentia estúpida por ter me deixado ser enganada pelo homem que era quase um dos meus amigos mais próximos.
Eu poderia ter previsto isso antes, como não? O que diabos fez com que Kim Jae se tornasse tão determinado e profissional para acobertar toda a sujeira que estava prestes a vir à tona?
Por que o meu sexto sentido não me avisou de que Kim Jae era suspeito?
— Preciso ir, tenho coisas a resolver antes da minha viagem para Doha. Espero que você não resolva cometer alguns crimes e não abra aquele cadáver antes do aval do legista. — Apontei o dedo para o seu rosto e esperei que ele captasse o recado. Jung negou com a cabeça como quem não sabia do que eu estava falando e saiu à frente, empurrando a porta que nos separava da ala restrita do andar e dando continuidade ao seu personagem.
— Juro, pela minha honra, que envidarei todos os meus esforços no cumprimento dos meus deveres de investigador, exercendo minha função com probidade e denodo e, se necessário, com o sacrifício de minha vida. — Jung levou a mão ao peito. — Isso significa que, sim, se eu precisar violar leis para honrar o meu bendito dever, eu irei violá-las.
— Você só tem uma missão, Jung. — Eu respondi derrotada. — E não é agir desta forma.
— Te proteger se inclui na minha missão. — Jung rebateu pontual. Ele deixou suas mãos confortáveis por dentro dos bolsos da calça jeans e olhou por cima do ombro para mim, divagando uma intriga provocante. — Você está em território desconhecido, , e por mais que eu saiba que não precisa de nenhum homem para defendê-la dos monstros do mundo real, a minha promessa de cuidar de você foi feita com o intuito de durar para sempre. Não estou pedindo o seu consentimento. Estou apenas lhe avisando que é mais fácil aceitar de vez.
Um suspiro carregado de cansaço rasgou a minha garganta, mas talvez eu estivesse só muito propícia a desabar as barreiras emocionais e aceitar que Jung nunca deixara de ser o irmão que a vida generosamente me deu. Se eu olhasse para trás, ainda o veria atravessando as ruas com o meu peso sob as suas costas, com um sorriso pinicando seu rosto delineado, gritando o meu nome e anunciando que éramos melhores amigos até que o Sol torrasse o universo. Quando Jung me prometeu que estaria ao meu lado, me ajudando a vencer as batalhas maldosas do nosso destino, aquelas palavras foram os meus faróis-guia durante as turbulências que enfrentei nas viagens por este mar desconhecido. Só bastava olhar para o meu lado e lá estava ele, compenetrado em me apoiar onde quer que eu precisasse chegar, fazendo questão de me transpor a segurança e proteção que qualquer ser humano precisa. Ao ter atravessado o mundo e vindo parar na China, minhas únicas expectativas era conseguir sobreviver um dia após o outro. Em momento algum eu acreditei que esbarraria pelos caminhos tortos da cidade com alguém como ele e, talvez, fosse esse o motivo de eu ter me colocado em primeiro lugar neste ponto de partida.
Um sorriso carregado de saudade e nostalgia escapuliu pelos meus lábios.
— Aceitar que você é um pé no saco, cabeça dura, chato e egocêntrico?
Jung sorriu travesso, dando-me passagem e distribuindo um peteleco em meu braço.
— Que eu sou o seu melhor amigo e não tem como você me impedir de agir como o melhor amigo que sou, já que o Sol ainda não torrou nossa mísera existência, lembra?

✽✽✽


O dia amanheceu quente, por um triz de escaldante, e eu me apressei para diminuir os graus do ar-condicionado até que a minha casa se tornasse um perfeito iglu. Calcei um par de botas de lã e subi em modo lento as escadas em direção ao meu quarto, observando o Sr. Wu distribuir os jornais pela mesa central da sala e acenar radiante para mim. Retribuí o cumprimento e estendi a xícara de chá.
— Está cada dia mais delicioso, Wu. O que seria de mim sem o seu talento para me fazer o melhor chá matte de toda a China?
Ele sorriu de canto e agradeceu formalmente, pondo as mãos na altura do quadril e soltando um suspiro forjado de alívio.
— As suas origens brasileiras sempre foram um desafio para mim, querida , mas acho que no final me saí bem, não é?
— Um verdadeiro brasileiro, eu deveria dizer. — Ele riu baixo e alargou o sorriso. — Qualquer dia irei lhe apresentar a Malai, a preciosidade de Yuan. Imagina vocês dois cozinhando juntos?
Ele gargalhou e falou sobre como estava ansioso para esse encontro. Eu o deixei terminar o que fazia e entrei no quarto, não crente na cena que eu presenciava.
É claro que seria justamente hoje, numa segunda-feira, que Meiqi iria resolver provocar o pouquíssimo resto de paciência que sobrara em minha mente depois do fim de semana que tive.
Meiqi segurava o pote de óleo de coco extra-virgem como se aquilo fosse o ingrediente capaz de instalar a paz mundial ou reverter o aquecimento global.
Estiquei a mão para ela, rebatendo os dedos rapidamente, esperando que ela me entregasse. Meiqi murchou os lábios e bateu os pés em um claro sinal de birra. Cruzei os braços impaciente.
— Meiqi, esse é o meu último pote até que a minha encomenda chegue do Brasil. Você quer que eu vá para a conferência internacional com os cabelos duros e ressecados? O que você acha que vão dizer nas matérias da Vogue? — Provoquei a minha melhor amiga e vi que ela estava resistente em ceder e me entregar o seu achado preferido. Ela sentou-se na minha cama e ficou encarando o pote, sussurrando palavras de amor e o abraçando contra o seu peito.
— Seu cabelo é perfeito naturalmente, chega a ser uma injustiça você estar querendo tirar o meu segredo sujo para ser linda só porque você tem uma mega hiper ultra viagem a negócios. — Bufei descrente e passei a usar a força da violência contra aquele ser humano audacioso. Meiqi se jogou no chão e tentou se arrastar até a porta do quarto, mas fui mais rápida e a puxei pelo pé, empurrando-a de volta a cama e tentando tirar o pote de sua mão. Meiqi o arremessou por cima da cama e jogou o peso do seu corpo sobre a embalagem, tentando mantê-lo em um território que ela achou que eu não me ousaria em tocar.
— Você está jogando sujo, Meiqi, mas eu estou cagando para a sua sacanagem! Me dá essa merda! — Eu tentei puxar o pote e Meiqi deu um tapa em minha mão. Quando fui esticar os seus fios de cabelo, ela me deu um pontapé — digamos que rancoroso — pela traseira e despenquei no colchão. — Filha da mãe! Você poderia ter me machucado!
— Eu calculei bem o ângulo para não acontecer isso, sua cavala! — Meiqi correu para a porta e contornou o meu corredor até que eu começasse a me cansar e reclamar da força que ela depositou no chute. Rolei pelo corredor como quem estivesse quase morrendo e Meiqi parou no pé da escada, ofegante, pensando se deveria acreditar em mim ou correr para o lado de fora da casa. Escondi o rosto entre os cabelos, com receio de soltar um riso que estragasse todo o meu teatro, e choraminguei baixo.
— Você tem um segundo para levantar desse chão e parar com a choradeira ridícula, . — Meiqi quis soar repreensiva e brava, mas o seu tom trêmulo indicou que ela estava caindo feito idiota na minha provocação.
— Vá embora daqui, mas antes chame uma ambulância porque você acaba de quebrar o meu cóccix! — Meiqi abriu o berreiro e contornou o corredor em passos largos, tropeçando nos tapetes e caindo ao meu lado. Ela tentou me abraçar depois de colocar o pote próximo de nós e tentou enxergar a zona de estrago que ela quase criou. Quando ela estava muito distraída para mostrar resistência, eu agarrei o pote e levantei de supetão, empurrando-a pro lado, e correndo para o meu quarto. Tive tempo de jogar o pote na bolsa e fechá-la com o cadeado para que Meiqi não pudesse recuperá-lo.
— Você é uma pessoa horrível. — Ela rosnou apoiada no batente da porta. Arfou em ódio e tentou me socar pelas costas. — É agora mesmo que você vai precisar desse óleo porque eu vou fazer questão de quebrar na porrada todos os seus fios de cabelo!
— Em dois dias vai chegar um estoque novinho de óleos para você, pare de ser tão egoísta! — Eu rebati tentando driblar os seus braços. Entrei no closet e peguei uma mala menor para separar os sapatos.
— Eu deveria pedir demissão. — Meiqi sentou-se de pernas cruzadas na minha cama e apoiou as mãos na altura do joelho. — Aposto que o grupo do Qian iria me receber de braços abertos.
— O telefone dele está logo naquela agenda. Sinta-se à vontade. — Ironizei. Meiqi fechou a cara e empinou o rosto para longe do meu olhar.
— Estou tentando ficar brava com você, por favor, não me jogue esses olhares ridículos de engraçados que me fazem ter vontade de rir feito uma hiena. — Meiqi fechou os olhos e deitou de costas. — Eu já estava frustrada por ter de lidar com todos aqueles homens selvagens se lastimando pelos cantos por causa de Kim Jae, agora estou ainda mais frustrada por ter que fazer tudo isso sem a sua ajuda. — Ela bufou. — Você precisa mesmo ir para Qatar?
— Depende. Se você quer que SenseTime seja bem representada, sim. Se você quer que todos só adorem pela sua carinha bonita e não faça mais nada de útil por nós, não. — Meiqi revirou os olhos e bufou mais alto.
não é inútil como você diz. Aposto que estaríamos em boas mãos se só ele fosse para a conferência. — Gargalhei debochada.
— Eu tenho que estar lá, Mei. Se pelo menos Yuan pudesse ir, aí eu poderia questionar em ficar. — Fechei a bolsa e encarei Meiqi. — E, aliás, faz muito tempo que ando desejando ardentemente o Umm Ali que é servido no Four Seasons Hotel Doha. Me sinto com gula de uma grávida quando penso naquela massa crocante e o gostinho das nozes derretendo nos meus lábios. — Gemi em aprovação ao me recordar daquele prato delicioso que era tradicional nas mesas de café da manhã do meu hotel preferido de Qatar. — Sem dizer que o maior Nobu*¹ do mundo fica lá e você sabe que eu sou fã de carteirinha do chefe Nobuyuki Matsuhisa. Imagina só comer um fattoush*² e depois aproveitar uma noite no Spa?
— Pare de falar antes que eu me arrependa de ter confirmado presença nos eventos dessa semana e queira fugir com você para aquele país divino. — Meiqi levantou da cama e partiu para a sala de estar. Segui os seus passos, empurrando as malas para deixá-las perto da porta de saída, e me espreguicei quando vi pela janela que o sol acabava de nascer. — Não esqueça de me trazer uma lembrancinha. Descobri que a Van Cleef & Arpels*³ lançou uma coleção em homenagem ao aniversário do shopping Villaggio de Qatar. Você já sabe, não é? A minha cor preferida para brincos é verde turquesa. — Empurrei Meiqi para fora e ela gargalhou.
— Vá, volte para o seu mundinho encantado de Fairytopia porque preciso terminar de arrumar as minhas coisas. Nos vemos mais tarde!
— Você vai passar na SenseTime para fazer o quê, especificamente? Pelo amor de Deus, desapega daquele lugar e respire ar fresco! Olha o dia nascendo, que lindo! Pra quê desperdiçá-lo olhando para aquelas caras melancólicas de seus empregados? — Meiqi ignorou a minha tentativa de chutá-la para fora de casa. Rebolou os quadris em lentidão e atravessou o quarto com um molejo muito, mas muito debochado.
— Você tem um jeito bem bizarro de lidar com o luto e isso é um tanto preocupante. — Ela deu de ombros e seguiu para o hall de saída.
— Eu só acho que ele não era tudo isso o que as pessoas pensavam. Uma vez o vi jogando vodka em um mendigo na saída de uma das nossas saídas depois do fim do expediente. Espero que alguém lá em cima o penalize por isso. — Prendi a reação que se evidenciaria após o seu comentário e engoli o nó que se formou. Meiqi não fazia ideia do que eu, Jung e Xhing havíamos descoberto. Em algum momento eu lhe contaria, mas agora eu precisava descobrir em qual maldito lugar nós nos metemos contratando aquele homem para depois colocá-la na rotina da desgraça. Meiqi é a minha grandíssima confidelizadora, porém eu não poderia pensar em arriscar a sua segurança, caso a situação se torne realmente tão perigosa quanto parece.
— Com certeza, Meiqi. Ele irá pagar pelos seus pecados. — Acabei soltando. Ela arqueou a sobrancelha para mim e eu sorri categórica, abanando as mãos para que ela entrasse no elevador. — Somos todos pecadores e se você me der licença, estarei me preparando para o meu próximo da lista. — Pisquei para ela e enviei um beijo no ar, vendo-a fingir pegá-lo e guardar no coração. Ela acenou em despedida e a porta do elevador fechou-se juntamente com a porta do “não há segredos entre nós” que eu deixava aberta desde o momento em que nos conhecemos. Não havia segredos entre eu e Meiqi, muito menos a sensação de estar criando uma barreira contra o que estava acontecendo na minha vida. Aquilo que eu estava fazendo era pelo seu próprio bem, mas mesmo assim me sentia traindo a sua amizade.
Suspirei pesado e sentei no divã ao lado da porta, tentando estabelecer o meu ânimo inicial e reconectar os pensamentos. Aquela semana seria longa e cansativa, assim como tudo o que ainda estava para explodir em minhas costas, mas eu sabia que tinha Meiqi e Jung ao meu lado para me ajudar a fugir dessa bagunça. Isso era a única coisa que estava me ajudando a fugir de Hong Kong por alguns dias.
A conferência em Doha seria turbulenta começando pelo fato de que o nosso projeto de manufatura aditiva e tecnologia mórfica estavam momentaneamente suspensos, por isso eu precisaria manter as aparências em ordem para que ninguém levantasse impressões que nos colocassem em mais uma polêmica. Depois, eu tinha o enorme peso da escolha de optar por colocar alguns títulos de contribuições à venda ou simplesmente fechar por ora a presença de novos contribuintes no nosso mercado. SenseTime estava passando por um dos meus momentos mais gloriosos de sua história, mas se tudo seguisse como Jung estava prevendo, um empecilho iria surgir no nosso caminho e eu precisava traçar todos os rumos possíveis que viriam a destrinchar em nossas mãos e trabalhá-los para fugir de um possível escorregão no nosso capital.
O celular tocou e eu acordei dos meus devaneios a tempo de ouvir também o tocar do meu telefone residencial. Primeiro atendi o celular, por estar mais perto, e segurei o telefone de casa na outra mão.
— Sra. , estamos com um problema. — A voz de Ji soou aflita do outro lado da linha e suspirei cansada. — Não é um problemão, mas é um problema mediano. Daqueles que pode dar merda, com todo o respeito da palavra, se nós não arrumarmos uma solução para ele.
— Não é nem oito horas da manhã e você já está me dando um motivo para a dor de cabeça do dia, Ji? — Ele riu nervoso. — Estou chegando ao escritório em vinte minutos. Vá para a minha sala e não abra o bico para ninguém, nem mesmo para . Preciso ver o quão problemática é essa merda só para depois deixá-lo bufando de raiva.
— Tarde demais. Ele já está aqui porque, bem… — Ouvi uma movimentação onde Ji estava. — Foi ele quem descobriu.
— Ótimo. — Empurrei as malas de rodinhas para a saída do quarto e peguei a minha bolsa em cima da mesa. — Segure esse animal aí e não o deixe quebrar nada do meu escritório.
— Eu ouvi isso, ! — gritou um pouco longe. — Você esqueceu que a tecnologia antiga foi ótima para nos proporcionar o uso espetacular do viva voz?
— Cala a boca, , você só tem vinte minutos para reprimir suas besteiras na sua corda vocal e me poupar da vontade de socá-lo. — Entrei no carro.
— Ela está amarga hoje. — sussurrou. — Fiquei sabendo que vai ter de viajar com aquele Deus grego do . Deve ser por isso, seus ânimos estão excitadíssimos.
— A única excitação que você desperta em mim é a de descobrir qual seria a sensação de te ver com a marca dos meus dedos registrada bem no meio da sua fuça. — Eu retruquei desligando a ligação.
Apressei-me até o meu quarto e despluguei o carregador do meu notebook, para poder terminar de responder a lista de e-mails no escritório, mas um apito estranho e alto passou a eclodir de sua caixa de som. Arranquei o cabo que lhe conectava do aparelho e esperei para ver se algo mais viria a acontecer, mesmo que a tela tenha de repente se apagado e apenas a frase “CT10 = RC” estivesse aparecendo no lado extremo do campo.
— Mas que merda é essa… — Antes de eu poder buscar meu celular pela bolsa e ligar para Xhing, a tela voltou a apresentar o logo da Apple, reprocessando para a área de acesso e solicitando pela minha senha de entrada. Encarei o monitor por mais alguns segundos até ouvir o toque do celular, despertando-me do momento e me lembrando de que eu precisava correr para impedir que fizesse algo impensável. Fechei o notebook, jogando-o para dentro de sua bolsa de proteção, e atravessei o quarto rumo à garagem. — Maldita segunda-feira!

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Nobu é um dos restaurantes mais famosos do mundo, criado pelo chef japonês Nobuyuki “Nobu” Matsuhisa, conhecido e renomado em todos os quatros cantos do mundo por fazer uma fusão da culinária japonesa com a peruana.
Fattoush é um prato árabe famoso, especialmente na Síria e Líbano, feito como uma salada picante contendo alface, pepino, tomate misturado com batatas fritas e sumagre.
Van Cleef & Arpels é uma marca francesa luxuosa conhecida pelas suas joias e relógios.

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— Pelo o que bem me recordo seus pais te deram educação para dizer “bom dia” quando encontra as pessoas. Vai ressecar os seus lábios de princesa se você distribuir um pouco de simpatia para nós, meros mortais?
Fuzilei no exato momento em que pus meus olhos em sua figura e o ouvi me provocar logo pela segunda vez no dia. Apoiei a bolsa na minha mesa e amarrei os cabelos, começando a odiar, também, o calor típico do verão chinês. Não estávamos nem na primeira semana da estação e eu já havia transpirado quase dez baldes de um litro só com aquela mudança de tempo.
— Entende agora porque eu não queria que soubesse de cara sobre o que quer que seja essa besteira nova, Ji? — Sorri debochada. — Ele age como uma criança na maior parte do tempo.
— A arte de ser jovem é uma coisa que você nunca vai entender, já que têm alma de uma idosa do século passado.
— Eu sei que vocês são “grandes amigos” e a intimidade entre vocês é uma coisa linda, mas eu gostaria de ser poupado de participar da brincadeira e surtar de uma vez! — Ji se pronunciou e finalmente eu deixei de lado as brincadeiras de para dedicar minha atenção ao homem. Ele empurrou a maleta de metal em minha direção e cruzou os braços com um visível nervosismo. — É aí que começa todo o nosso problema, Sra. .
— No péssimo mau gosto do para escolher maletas? — Alfinetei uma última vez. rolou os olhos e esticou as pernas até quase derrubar a minha mesa de centro. — Não me provoque.
— Começa com o que está aí dentro. — apontou para a maleta com o queixo e puxou para cima o tecido da calça do terno, inclinando o tronco para frente e penetrando o seu olhar nos movimentos dos meus dedos em torno do cadeado eletrônico da maleta. — É do Kim Jae.
Um suspiro se desprendeu de minha boca antes mesmo que eu estivesse determinada a fingir que aquela informação não teria valor nenhum. assentiu pesadamente com a minha reação e voltou a encostar as costas no sofá, cruzando os braços e mantendo o olhar baixo no material da maleta.
Ji estava apoiado na minha mesa esperando que eu fizesse algo. A vontade de já ter embarcado no avião para Doha e estar em outro nível de estado de humor era gritante, mas eu teria que assegurar que as rédeas seriam seguradas até que as revelações sobre Kim Jae fossem espalhadas mundo afora.
— Precisamos da senha. — Eu empurrei a maleta para frente, gostando da sensação de mantê-la o mais longe possível do meu contato físico. Estava sendo difícil manter-me neutra quanto às aparências, ainda mais quando muitas descobertas sobre Kim Jae estavam sendo reveladas nos últimos dias. No entanto, a minha expressão de rainha do perfeito autocontrole endureceu os sentidos dos homens a minha frente e ambos acreditaram, só pela forma que suas pupilas se retraíram e os seus ombros desabaram, de que tudo realmente estava “bem” por enquanto. — E não me parece que Kim Jae seria o tipo de homem que fosse guardar o código em um post-it só para situações como essa. — A confusão aparente se evidenciou na feição de logo após o término do meu comentário e não dediquei um momento para fazê-lo relaxar a musculatura e não me encarar como se eu estivesse me tornando uma pessoa que ele não conhecia. deveria estar se questionando o porquê de eu estar usando aquele tom para me referir à Kim Jae, mas ele preferiu se poupar de me alfinetar ou pedir esclarecimentos quando viu que eu estava visivelmente desligada daquela atmosfera.
— Você acha que ele pode ter deixado uma carta de suicídio nesta maleta? — Ji levantou a hipótese e eu neguei com a cabeça automaticamente.
— Se ele fosse deixar uma carta de suicídio para alguém não seria desta forma. Não tem sentido ele complicar algo desse tipo, ainda mais por ele ter sido Kim Jae, o homem que deixava tudo às claras. — Eu respondi. — Na maior parte do tempo. — Sussurrei para mim mesma lembrando-me de tudo que estava descobrindo no passar dos últimos dias. A voz de Jung voltou a cutucar um infinito de dúvidas na minha mente, bem quando ele havia dito para Xhing que Kim Jae poderia ter sido capaz de tudo.
— Então… — Ji coçou a barba por fazer e suspirou melancólico. — Nós vamos fazer o quê com isso?
— Eu vou levar pra ser investigado. — Segurei na alça da maleta e respirei fundo. e Ji lançaram diversos olhares para mim, cada um carregando distintas emoções. permanecia quieto, recluso em sua mente, balançando levemente suas pernas enquanto eu passava o blazer por cima do braço e tampava brevemente a maleta. — Se houver algo para descobrirmos, eu aviso. Enquanto isso controle os burburinhos pelo escritório, Li. Você sabe que estamos em um momento delicado, qualquer estopim não será a ajudinha ideal para abaixarmos a poeira.
— Você pretende abrir essa maleta como? — perguntou ignorando o desvio do assunto. Seu timbre vocal despencou e o barulho foi quase similar a um tambor eclodindo insinuações. Ele estava sério, praticamente apático, me encarando como quem entendia bem o meu objetivo. tinha essa incrível capacidade de mesclar a sua expressão de acordo com os momentos; apesar de ser uma pessoa extremamente extrovertida e passível de se realocar em todo ambiente que estivesse, sabia bem ser proporcional e profissional. Quando fosse o momento, ele iria me alfinetar e me deixar aborrecida, mas se eu precisasse que ele simplesmente agisse como um perfeito companheiro de escritório, ele agiria. — Não acha que há coisas que não são de sua competência ou responsabilidade, ? Você não precisa fazer tudo.
— Isso aqui é o meu mundo, . — Apontei ao nosso redor. — Cuidar de tudo que seja sobre a SenseTime é a minha competência e responsabilidade. — Ele fechou a boca e suspirou contrariado. — Fique tranquilo, estarei dentro daquele avião em três horas. Até lá eu ainda tenho assuntos pendentes para resolver.
Marchei para a saída do escritório e não me preocupei em me despedir deles. A maleta pesava entre os meus dedos e o atrito do blazer na minha pele estava causando um calor desnecessário. Eu estava prestes a cruzar a porta quando a voz de viajou pelos ares como um relâmpago:
— O seu mundo deveria ser mais do que isso. Muito mais, .

✽✽✽


A maleta estava ocupando a maior parte da mesa centralizada no meio da sala. Como se houvesse setas reluzentes em volta dela, minha atenção só se destinou para aquele objeto.
O couro da alça desgastada me fez pensar se eu já havia visto Kim Jae a carregando pela empresa, ou se era apenas velha e de má qualidade. O homem era montado de enigmas que certamente eu não viria a descobrir com tamanha facilidade.
Ouvi a campainha soar e inspirei, esperando ver Jung e Xhing cruzarem o andar e me encontrarem no escritório. Os passos de Xhing eram inconfundíveis, assim como o barulho do dispositivo de Jung balançando e se atritando contra o seu colar de metal que era tão familiar, ainda mais por ter sido eu quem havia lhe dado nos nossos primeiros anos de faculdade.
A sombra de Xhing me fez levantar do sofá, mas meus passos se interromperam quando ele caminhou rapidamente na minha direção e me rondou com um abraço tímido e amoroso. Meus braços acolheram o projeto de filhote que se enfiou entre eles e baguncei o seu cabelo delicadamente, dando um beijo no topo de sua testa.
— Estava com saudade da sua big sister, Xhing? — Brinquei provocando um sorriso infantil dele.
— Quem vê acha que vocês são tipo mãe e filho. — Jung se meteu na conversa. — Cadê você trocando a fralda dele, passando talquinho e dando mingau na boquinha?
— Com todo o respeito, Sr. Jung, mas devo dizer que esse campo é minado e se eu fosse você não ousaria ultrapassá-lo. — Xhing arfou o peito e fingiu deboche, mesmo que não combinasse nada com a sua cara adorável e o seu jeito educado de ser. — Sem dizer que Sr. é só seis anos mais velha que eu e seria no mínimo estranho chamá-la de mãe, embora ela me trate como um filho mais do que a minha própria mãe. — Eu gargalhei alto e Jung fechou a cara, empurrando com graça Xhing pelo ombro e indo atrás de uma bebida no frigobar. — Sem dizer que eu já tenho 21 anos, então não venha com o papo de que sou uma criança catarrenta.
— É que você não deve conhecer o fetiche dela pelos novinhos, então, Xhing. — Jung quis deixar o minigênio desconfortável. — Nunca ouviu falar naquele lance de sugar mommy?
— Já, mas não faz o meu tipo. — Xhing deu de ombros e se jogou no sofá. — Gosto mais das rebeldes justiceiras.
Jung arregalou os olhos e começou a gargalhar alto, assustando até Wu, que estava de passagem, e apontou para Xhing como se a sua vida dependesse daquele gesto.
— As aparências enganam! — Jung limpou as lágrimas que escorreram pelo seu rosto e soltou um último riso frouxo. — Você acaba de descrever a , infortunadamente, mas vamos fingir que isso não está ficando estranho e que tal focarmos no assunto principal?
— Oh, você sabia que tínhamos um assunto principal, seu ridículo? — Jung se arreganhou e desceu o energético garganta abaixo, fazendo um movimento para que eu falasse o que precisava. Rolei os olhos e empurrei os cabelos para trás, esfregando o dorso da mão pela testa e ignorando as pontadas nas têmporas, arquitetando o que eu precisava anunciar.
— Bom, não temos mais tempo para desperdiçar. Sejamos diretos. — Sentei na poltrona de frente a eles e arqueei a sobrancelha. — Preparados para o segundo capítulo da nossa saga? — Eles me encararam com distintas findas nas suas respectivas testas. — encontrou esta maleta nas coisas de Kim Jae. Não consegui abri-la porque precisa de um código eletrônico e, como podem entender, não sou eu quem manja das surpresinhas virtuais. — Xhing se inclinou para avaliar a maleta e tocou na parte do minimonitor quadrado que servia como uma espécie de cadeado para bloquear a trava da maleta. Ele apertou alguns botões e soltou um suspiro fraco.
— Filho da mãe. — Xhing resmungou. — Então era para isso que ele quis o projeto.
— Do que você está falando? — Revezei os olhos entre ele e Jung.
— Kim Jae apareceu na minha sala alguns meses atrás pedindo se eu poderia desenvolver um projeto que servisse como uma espécie de “cadeado” eletrônico. — Xhing me olhou envergonhado. — Ele me disse que você tinha pedido para repassar a ordem e que estava interessada em criar uma segurança mais reforçada dos armários de empregados. Eu acreditei nele porque, bem, Jae sempre me pareceu uma figura confiável…
— Não se culpe. — Jung colocou a mão em seu ombro. — A culpa de se aproveitar da sua boa vontade é unicamente dele. No resto você se saiu excelentemente bem. — Concordei com a colocação de Jung.
— Acontece, Xhingie. Ninguém tinha ideia sobre quem ele era. — Segurei a maleta e a entreguei. — Mas agora temos a chance de sermos mais espertos que ele e descobrir o que diabos ele guardou aqui dentro.
— Vou precisar de acesso aos meus computadores da SenseTime. Usei um recurso sueco nesse dispositivo e não me aprimorei muito na técnica, por isso acho que posso ter esquecido alguns comandos. — Ele coçou a nuca e levantou do sofá, puxando a maleta para si e testando o seu peso. — Depois que apresentei o projeto para Jae ele me disse que você resolveu adotar uma nova medida. Joguei a ideia na gaveta e deixei lá.
— Tudo bem, não se preocupe. Leve o tempo que precisar e não deixe que ninguém perceba. Se vier a ser necessário, ocupe o restante da equipe para que você faça do jeito que for melhor. Da curiosidade de eu consigo cuidar. — Jung respondeu com uma careta amargurada após o nome de ter entrado na conversa e Xhing só concordou partindo para fora da sala.
— Vou tentar fazer isso agora que o pessoal ainda não chegou. Você está de saída para Qatar, não é? — Concordei. Ele sorriu largo. — Mostre quem é a melhor do mundo, chefa.
— Deixa comigo, gênio. — Pisquei para ele e nos despedimos. Jung ficou para trás, parecendo refutar suas ideias, me observando terminar de organizar a papelada que estava deixando na mesa.
— Como você pretende esconder tudo isso do ? — A pergunta estava programada para ser feita, era só uma questão de tempo para que Jung encontrasse o momento ideal para fazê-la. Virei-me de frente a ele e apoiei o peso do corpo na mesa, estruturando meus pensamentos e vendo seu rosto sofrer um rito de emoções que esboçavam a sua preocupação.
— Darei alguns assuntos mais importantes para que ele se distraia e esqueça dessa maleta. — Jung não pareceu acreditar que o meu plano daria certo. Dei de ombros e balancei a cabeça em estado apático. — Eu conheço há anos, sei como manter as coisas calmas quando preciso, Jung.
— A questão é que ele também te conhece e sabe reconhecer quando algo está pegando. — Jung remexeu nos enfeites da mesa e não olhou para mim. — E o que ainda sente por você é perigoso.
— Em qual sentido? — Franzi a testa e tentei entrar no campo de visão de Jung. Quando o fiz, ele levou alguns segundos para firmar o olhar no meu rosto.
— Ele já causou um caos no seu coração quando estava sendo simplesmente o que você conhece, . Não acho que, nessa altura do campeonato, você tenha que continuar se preocupando em tapeá-lo quando ele claramente não está pronto para lidar com tudo isso.
— E você espera que eu possa fazer o quê? Renuncie o meu cargo ou retire à força de algo que o pertence por direito? — Jung negou com a cabeça, fechando os olhos e suspirando, sabendo bem onde aquele assunto iria parar. — Eu entendo a sua aversão por ele, não há como eu defendê-lo quando você foi uma das pessoas que esteve por dentro de todo o meu relacionamento enigmático com , mas espero que você confie em mim, Jung. Eu não estou mais com o coração machucado e nem despreparada para lidar com ele.
Ele ficou em silêncio até que eu me sentisse desconfortável pela sua falta de atitude. No momento em que acreditei estar prestes a dá-lo um tapa para despertar os seus sentidos, Jung sorriu sem humor e balançou a cabeça.
— Eu confio em você, . É por isso que ainda não arrebentei aquele cara. — Jung apoiou a mão nas minhas costas e me guiou pela escada. — Vamos, eu te dou uma carona. Qual é o aeroporto?
— O HKG. Eu, e a equipe iremos com o avião particular da SenseTime. Yuan comprou um novo modelo logo antes de ir cuidar de sua mãe e já me mandou uma mensagem bravíssimo por eu estar o estreando em seu lugar. — Jung riu comigo e apoiei a cabeça na janela do carro, relembrando de como Yuan fazia falta naqueles momentos. Ele era o mais próximo do meu pai que eu poderia chegar, já que a minha família não tinha se adaptado muito bem ao ritmo de vida chinesa e preferiu retornar a Miami quando estabeleci residência fixa por aqui. Meus pais voavam para a China com frequência, cerca de cinco vezes por trimestre, mas ainda era muito pouco para que eu matasse a saudade deles. Meu pai dizia que, mesmo tendo se envolvido com a cultura chinesa e estando apoiando os meus planos, ele achava que não haveria lugar que o faria mais sereno e realizado do que Key West. Para mim, não havia nada de mais importante do que dar à minha família a oportunidade de viver em um lugar que os completassem. O sonho deles, desde que eu era apenas uma criança, se remontava em poder correr pelo mundo e encontrar um cantinho que fosse compatível com suas essências. A distância, no final, era apenas um aglomerado de números.
— Ah, os bilionários e os seus benefícios. Como é que você ainda não se deu o luxo de comprar o aeroporto só para você?
Empurrei a sua cabeça para a janela e ele grunhiu insatisfeito, dando um baque com a mão no meu braço e tentando mordê-lo enquanto mantinha o controle do carro.
— Porque aí você não teria a graça de me ver com frequência, já que eu gastaria mais tempo nos ares do que em solo chinês. É isso que você quer? Que eu te deixe miserável e morrendo de saudade? — Esfreguei os dedos pelo meu braço e gemi de desgosto por ter deixado Jung ser mais ágil que eu.
— Eu adorava quando você simplesmente me respondia sem toneladas de ironia e só retribuía me chamando de “cupcake” ou “docinho de coco”.
Soltei uma risada que mais parecia uma mesclagem de grito e gargalhada, não acreditando que ele havia, realmente, falado aquilo. Jung esticou o seu bico e agiu como se a minha reação não tivesse lhe atacado.
— E já existiu essa época? — Eu rebati. Jung sorriu galanteador e abaixou os óculos de sol, tampando os raios solares de sua vista, mas tendo tempo de me lançar uma piscadela sacana.
— No meu mundo imaginário, sim. Você diz até coisas melhores, se quiser que eu seja sincero, anjinho.
Jung estacionou o carro a tempo de eu ver se levantando do stand e indo em direção aos comissários. Ele não havia me visto, por isso o desapontamento ainda estava talhado no seu semblante.
Eu ajudava Jung a retirar as malas do porta-malas até que um dos funcionários notou a minha chegada e veio correndo me saudar e receber. Eu sorri em gratidão e esperei que Jung terminasse para poder nos despedir.
— Te vejo em breve, cabeça de vento. — Puxei-o para um abraço e Jung me suspendeu rapidamente, desequilibrando meu corpo quando pousei no chão.
— Se cuida, aberração. — Jung me ofereceu um cumprimento formal de propósito. — Eu continuarei aqui salvando o país da revolução enquanto você traz mais alguns vários bilhões para o nosso PIB.
Eu caminhei pelo caminho que me levaria até onde estava e cumprimentei cada um da equipe para deixá-lo por último. permaneceu de braços cruzados, sem ostentar qualquer humor, esperando que eu me aproximasse. Quando o fiz, ele selou um beijo em minha bochecha e endireitou as costas, ainda mantendo a expressão de quem não iria criar um diálogo.
O problema é que nunca foi bom em esconder a sua inquietude.
— Você está atrasada.
Olhei para ele, após colocar todas as malas no maleiro, e suspirei ofegante pelo cansaço.
— Atrasei oito minutos, . O que importa se estamos em um voo particular, então não temos como perdê-lo, e o trânsito de Hong Kong pode ser um saco na maior parte do tempo?
Ao ouvirmos a voz do comandante dando anuência para o embarque, sustentou o nosso contato visual e deixou que a atmosfera ficasse mais propícia de interpretações do que eu quis. Suas pernas começaram a se movimentar e, por estar numa distância um pouco mais considerável, eu achei que ele havia desistido de criar uma sintonia pesada entre nós.
Apenas precisei acompanhá-lo para ouvir a sua voz ressurgir e finalizar de realçar o seu descontentamento.
— Na próxima pelo menos mande uma mensagem avisando que arrumou uma carona melhor e evite que eu fique no escritório uma hora inteira te esperando não aparecer.
— Oh, eu esqueci completamente! — Bati a mão na testa. — Me desculpa, não irá se repetir. Sinto muito por ter te feito gastar tanto tempo, não foi a minha intenção.
abanou as mãos e pareceu não estar interessado em me ouvir.
— Beleza, , esqueça.
— É sério, , não foi de propósito e…
— Eu sei. — Ele sorriu falsamente. — O encontro com o seu amigo deveria estar mais interessante, não é? Acontece.
Aplaudi e sorri de canto a canto, rindo aos ventos.
— Isso tudo é por ciúme? — Ele riu sem humor e tampou o rosto, desconfortável e irritado com a minha provocação. — Ah, , você fica tão fofo quando está putinho.
girou o seu pescoço em noventa graus apenas para contemplar o ar de deboche e prazer que escorreria pelos meus lábios. Seus olhos se esbugalharam pelas órbitas e ele parecia estar prestes a profetizar uma maldição eterna contra a minha provocação desmedida, mas os punhos levantados para o alto, provindos de dentro da nave, desviaram nossos olhos e por um breve momento chegou a soar verdadeiramente aborrecido pela interrupção.
— Sinto muito desapontá-los, mas a SenseTime ainda não criou a tecnologia da teletransportação! Se não for incomodar muito, dá para vocês trazerem esses esqueletos para dentro da maldita nave? Time is money, people! — O assistente de mídia de berrou a todos os pulmões, quase projetando o seu corpo no ar e fingindo que estava pronto para voar. Seus braços balançavam como um boneco de posto e tinha a feição de quem não conseguia conter o teor julgador escondido. Eu gargalhei alto, dando um tapinha nas bochechas de , e tomei partida, indo em direção ao avião e deixando a celebridade encabulada para trás.
— Não ache que estou batendo em retirada, . — De alguma forma, havia chegado até mim. Seus lábios ralaram pela cartilagem dos meus ouvidos e o riso frouxo preencheu o meu tímpano. — Não é aqui onde precisaremos terminar esse assunto.
Dito isso, afastou-se de mim numa distância considerável, desabando a atmosfera de Rei do planeta Terra e caminhando lentamente até que o seu assistente praticamente lhe agarrasse pelos ombros e o direcionasse para a cabine privativa. Antes de entrar no avião, mirei um último olhar no sol contracenando com as nuvens espessas. O carro de Jung, nessa altura do momento, já se encontrava atravessando o ponto mais extremo da avenida, bem ao fundo do cenário. Como se eu estivesse presa em um looping ridículo de irônico, a voz do meu melhor amigo habitou os cantos da minha mente.
E o que ainda sente por você é perigoso.
O que ainda sente por você.
É perigoso.

Ainda sente.

✽✽✽


O apurado zumbido do alto-falante sendo preparado para ecoar a mensagem da aeromoça me despertou do cochilo que era para ter sido rápido, mas perdurou durante todo o voo, e eu endireitei o corpo na poltrona, inclinando-me para frente e coçando os olhos até eles voltarem a se acostumar com a entrada de luz natural pelas janelas de vidro. Perto de mim havia um cheiro de frappuccino, pretzels e algo que parecia ser geleia de morango, causando-me uma súbita fome.
Depois que me espreguicei, meus olhos vagaram em direção ao lado oposto do que eu estava e, sem surpresa alguma, encontrei me fitando.
Não parecia que estávamos no melhor momento para estabelecermos um diálogo, por isso me levantei da poltrona ignorando a sua atenção redobrada dirigida a mim e marchei para a cozinha da nave, encontrando Hye Kyo, uma de minhas melhores amigas, apoiada no balcão de bebidas, aguardando para que Dongyul, o comissário de bordo, lhe entregasse uma bebida que não tive tempo de reconhecer porque, ao Hye Kyo notar a minha presença, logo largou o corpo no apoio e abriu os braços, extasiada, cruzando a pequena distância em pulinhos e gritos sonoros.
— E não é que a Bela Adormecida acordou do seu sono de princesa?! Venha cá, seu projeto de afilhada da Malévola! Não acredito que estamos finalmente juntas no mesmo metro quadrado! — Ela berrou a todos os pulmões, cercando-me pelos seus braços apertados e esfregando seus lábios por toda a extensão do meu rosto, achando que aquela era a melhor forma de “distribuir beijinhos calorosos” como gostava. Eu gargalhei retribuindo o abraço e afastando o rosto do seu, esperando que ela me desse espaço para respirar direito.
— Hye Kyo, o que você está fazendo aqui?! — Ela sorriu prestes a explodir suas bochechas. — Faz o quê, quatro meses que não nos vemos?
— Cinco meses e meio, especificamente, mas quem está contando? — Hye Kyo deu de ombros forjando despreocupação e jogou os braços mais uma vez pelo meu pescoço, apertando-me um pouco mais. — Eu recebi uma chamada de Yuan me convocando, friso, realmente me convocando — Hye Kyo debochou. — Para lhe fazer uma surpresinha! — Ela abriu os braços, parecendo achar que aquele ponto era o ápice da “surpresa”, e gargalhou em seguida. — É claro que ele quis que eu viesse para tirar a sua cabeça dos negócios e te distrair um pouco, ainda mais porque Meiqi não pôde vir, mas você sabe bem que comigo não há esse papinho, não é? — Hye Kyo passou o braço pelo meu pescoço e me arrastou para contemplarmos a paisagem que se formava do lado de fora da janela. — Estamos em Qatar, minha queridíssima amiga, e Yuan não faz ideia do tipo de distração que eu irei te dar!
Meus olhos tocaram a Lua com o rolar que orquestrou um riso humorado em Hye Kyo e eu amoleci os ombros, cedendo à surpresa da minha amiga. Hye Kyo era, de longe, uma das mulheres que mais me admirava na existência da humanidade — vinda de uma família de empreiteiros bem conhecidos pelos seus projetos, ela tinha todos os recursos — e influência — para seguir pelo mesmo caminho que de seus pais e irmãos, mas ela optou por ir além: Hye Kyo seguiu o seu coração e se entregou para a profissão menos provável no mundo asiático, a que lhe fazia viver enfurnada em aviões durante quase todos os dias de sua semana.
— Espere um pouco… — Eu levantei o dedo, interrompendo a fala de Hye Kyo, e arqueei a sobrancelha. — Pensei que você não gostasse de viajar em um avião quando não fosse você quem o está pilotando. — Hye Kyo abriu um sorriso sugestivo terminando de beber o seu drink e estralou a língua por dentro da bochecha, amaciando o rubor em suas maçãs, para depois apoiar o rosto na palma de mão, finalizando o ato encenado com um suspiro pouco simbólico.
— Estou de férias, , me deixe curtir esta sensação. — Hye Kyo deu de ombros, espreguiçando as pernas no alto e apoiando a cabeça no estofado da poltrona. — Sem dizer que o seu piloto particular é uma gracinha. Onde foi que vocês arranjaram tamanho pedaço de mau caminho?! — Ela cerrou os olhos atribuindo malícia ao comentário.
— Hye Kyo! — Bati a mão em seu ombro e gargalhei alto. Ela seguiu a minha reação, rindo desengonçada, e batendo as mãos na barriga em seguida. — Não me faça ver os meus próprios empregados desta forma!
— Oh, até parece que você nunca olhou com mais atenção para os rostinhos meigos que circulam pela SenseTime! — Hye Kyo, que possuía cabelos cumpridos e fartos, afastou-os minimamente para que eu pudesse encarar o seu rolar de olhos, acompanhado de uma batida frenética dos cílios carregados de rímel que, sem dúvidas, seria de alguma marca francesa. Hye Kyo levantou os olhos pra atrás de mim, onde alguém entrava no mesmo local, e sorriu ainda mais sobrecarregada de graça, voltando os olhos para o meu rosto e piscando rapidamente. — Se bem que, pensando melhor, acabei esquecendo-me do por que você não tem olhos para outros potenciais “crushes”. — Ela abaixou o tom de voz e se inclinou para próximo de mim. — E ele parece estar na mesma foca que a sua. — Sem entender o que diabos Hye Kyo quis insinuar com a sua colocação, levei o meu olhar para onde ela anteriormente mirava.
É claro que o responsável pela provocação de Hye Kyo seria nada menos, nada mais, que .
Ele já nos olhava antes de minha atenção repousar sob ele e, após seus olhos expressivos encontrarem os meus, não deu a entender o que pensava. Ele apenas divagou uma espécie de magnitude suspeita em direção a mim, esperando que eu fosse dizer algo, mas a sua súbita presença, após o comentário digno de um tabefe no meio da fuça de Hye Kyo, tirou a minha vontade de responder ao seu aceno intragável.
— Céus, vocês são tão óbvios. — Hye Kyo resmungou aos ares, deliciando com o drink que, magicamente, ressurgiu em suas mãos. Ela concentrou o olhar na janela, a tempo de ver os primeiros edifícios rechear a nossa visão, e bateu as mãos, uma contra a outra, voltando a me encarar. — Quando eu soube que se tornou o CEO da SenseTime, a única coisa que veio na minha mente foi a sua reação. Pelo o que me parece você está levando numa boa. O que andou acontecendo no solo enquanto eu estava nas nuvens? — Eu sorri retraída, não sabendo nem ao menos como começar a pontuar os eventos infortúnios que vieram a ocupar o meu tempo.
— A verdade é que até agora eu não tive muito tempo para pensar sobre se tornando o CEO da SenseTime. — Ela acenou em concordância. — Foi bem no momento em que Kim Jae faleceu e vejamos só onde estamos. — Abri os braços indicando a nave. — Ainda parece que estou presa em um plano paralelo e não assimilei as novidades. — Olhei de soslaio para o meu lado, vendo trocando conversa com o seu assessor, e suspirei fundo. — Acho que vou conseguir suportar a presença dele na maior parte do tempo. — Hye Kyo voltou a distribuir seus olhares reveladores.
— Eu sempre te disse o que penso sobre essa situação, não é? — Eu acenei desmotivada. — Pois bem, não creio que preciso colocar minhas opiniões em xeque, mas confesso que, nessa viagem, eu não serei Team ! — Ela diminuiu o tom de voz para ocultar a sua revelação. — Querida, enquanto estivermos em Qatar, não existirá e , só existirá e o seu destino livre, leve e solto! — Ela cantarolou batendo palminhas em contentamento.
— O que não deixa de ser exatamente o que está acontecendo no momento. — Eu provoquei-a. — Porque não existe e há muito, muito tempo.
— Bom, nos assuntos românticos alheios eu não devo me intrometer, não é? Já basta os meus. — Ela ignorou a proximidade de . — Só há uma coisa que quero dizer: Qatar nos prometerá boas memórias, meu anjo.
Eu estava pronta para rebater o comentário repleto de convicção que Hye Kyo sibilou segundos atrás, deixando claro que, no atual momento de minha vida, depois de todos os apesares que percorreram nos últimos anos, não existia, de fato, nenhuma situação romântica entre eu e , mas ele se aproximou corriqueiramente de onde estávamos e ofereceu um olhar gentil, dando menção a abraçá-la, tendo Hye Kyo prontamente lhe retribuindo.
Hye Kyo era minha amiga de adolescência, digamos assim, desde que cheguei à China e comecei a frequentar as aulas no último ano do ensino médio. Ela, na verdade, fora a minha primeira amizade verdadeira no país, logo antes de eu ter encontrado Jung no primeiro ano da universidade. Dividimos o mesmo período de Artes e, depois do professor nos colocar de detenção por termos acidentalmente causado um reboliço na aula, durante a apresentação de um grupo sobre a arte contemporânea, nós nos aproximamos nos dias subsequentes do castigo e viramos grandes amigas. Depois que entramos na faculdade e seguimos caminhos diferentes, a nossa amizade congelou no tempo, por um intervalo repentino, mas não foi o suficiente para nos afastar completamente — Hye Kyo sempre fizera questão de estar comigo em todos os momentos e era por causa disso que ela conhecia da forma que conhecia.
Como o meu namorado que, anos mais tarde, virou o meu ex-namorado.
Na cabeça de Hye Kyo, sempre seria o seu “cunhado”. Para ela, mesmo que eu e estivéssemos em outros relacionamentos, sempre seríamos namorados.
Foi por causa disso que ela virou para ele, sorridente e animada, proferindo a desgracenta frase:
— Cunhadinho, por que é que você sumiu por tanto tempo? — Ela cruzou os braços, brava, e encarou com um teor julgador. — Fica cada dia mais difícil encontrar esse casal, meu Deus!
, ao contrário de mim, respondia às provocações e à espontaneidade de Hye Kyo de forma totalmente oposta. Ele elevou um sorriso cativante e amoroso para ela, acenando em discordância e bagunçando os seus fios milimetricamente arrumados.
— Estava ocupado com alguns afazeres, mas não pense que me esqueci de você! — Ela sorriu engraçada e deu um tapinha no braço de . — Se a sua amiga não fosse tão cabeça dura, nós teríamos nos reunido há um tempão. — Ele olhou para mim, ignorando minha carranca contrariada, e sorriu novamente para Hye Kyo. — Fiquei sabendo que meu pai foi o responsável por essa reunião, aquele velho manda bem às vezes, hein? — brincou vendo Hye Kyo rir em seguida.
— Ele teve um timing perfeito, precisamos confessar. — Ela sentou novamente e me fitou por segundos, talvez esperando o momento que eu resolvesse me intrometer na conversa, mas o meu celular apitou o recebimento de uma mensagem e eu vasculhei com o olhar pela tela, ignorando momentaneamente a presença dos dois. — Mas olha só, parece que alguém aqui não tem!
“E aí, fellas? Fiz esse grupo para avisar vocês dois que consegui de primeira mão uma novidade na autópsia do vocês-sabem-quem. Quem disse mesmo que eu não sabia ser moderno com as tecnologias, @ ?”
10:45
Mensagem de Jungie em @ CSI VERSION CHINA

Custei um inteiro minuto para conseguir parar de rir do nome que Jung colocou no grupo do WhatsApp, fazendo com que Hye Kyo quisesse tentar ler a mensagem e eu precisasse levantar da poltrona para me afastar dela.
— Só um minuto, é sério! — Eu continuei gargalhando enquanto tentava pedir um tempo para Hye Kyo. Ela cruzou os braços impaciente e olhou para , pedindo suporte mortal, mas ele manteve seu olhar preso em mim, sondando a minha reação. — Quanto tempo temos até aterrizarmos?
— Vinte minutos. — Ele respondeu. Eu agradeci, apressando os passos até a cabine onde meu notebook estava, e sorri antes de sair do cômodo.
— Preciso resolver um assunto, não demoro a voltar! — Apontei o dedo para Hye Kyo e lhe enviei um beijo no ar. A contragosto ela fingiu tê-lo pego e sorriu em resposta, deixando-me livre para correr até a cabine e fechá-la para não ser interrompida.
“Tenho vinte minutos até pousar em Qatar! Quem topa um Skype agora?”
10:48
“Já estou pronto, chefinha!”
Mensagem por Xhing
“Não que eu não tenha o mundo para salvar, mas até que posso fazer uma pausa no meu papel de super-herói para gastar saliva com vocês. Em qual janela eu entro?”
Mensagem por Jungie

Depois de aceitar o convite de Xhing, a tela iluminou-se com a imagem dele, sorrindo de bochecha a bochecha, com um fone enorme pendurado em suas orelhas e bebendo um copo de café. Ele fez um joinha para mim esperando que a conexão se estabelecesse e eu sorri em resposta, ajeitando-me na poltrona, esperando que Jung notasse que a chamada já havia iniciado.
— É uma vídeo-chamada, Jung, eu posso te ver arrumando o cabelo. Não adianta, você é feio de qualquer maneira. — Xhing gargalhou. — Inclusive, não era você o homem das cavernas que estava modernizado o bastante? Como assim você não sabe como o Skype funciona?
Jung entortou o nariz e mostrou a língua, tampando a câmera do notebook por um momento e depois travando uma briga verbal com Xhing por ele não ter lhe passado as instruções corretamente.
— Seu pivete, você não me disse que era uma chamada por áudio? Olha o estado em que eu estou! — Jung apontou para a sua própria cara amassada. — Acabei de acordar da minha milagrosa soneca, que eu não tinha tempo para tirar há setenta e duas horas, e você me vem com papo de vídeo-chamada?
— Nós estamos conversando por áudio, o que faz com que eu não tenha mentido para você. — Xhing retrucou.
— Você é mesmo ousado, garoto. Por Deus, eu preciso arrumar companheiros de investigações que já tenham saído das fraldas!
— Crianças, por favor, não gastem o meu precioso tempo! — Eu prendi o riso e bati as palmas, chamando a atenção de ambos para mim, vendo Jung resmungar por último algo insignificante.
— Foi mal, chefinha. — Xhing respondeu. Ele arrumou a tela do computador e enfiou o rosto no meu campo de visão, deixando que eu tivesse uma parcial vista da paisagem que o prédio da SenseTime nos proporcionava.
— O que a autópsia revelou? — Olhei para Jung e ele retribuiu, passando a processar as informações. Ele bagunçou o cabelo mais uma vez e bufou cansado.
— A bala usada para atingir Kim Jae foi uma simulação de urânio exaurido. É raríssimo de encontrar, só utilizada pelas forças militares em situações de guerra… O registro de quem foi pego tendo o porte está escondido na papelada suja do sistema. — Ele gastou alguns segundos para retomar a fala. — Mas eu conheço quem usa.
— Isso não seria tipo... Ilegal? — Xhing interrompeu a minha sequência de pensamentos e perguntou, receoso, quando Jung não prosseguiu com a informação compartilhada. Eu olhei para Jung e ele não fez o mesmo, apesar de ter sido óbvia a sua expressão.
— Eu saber o que está escondido nas papeladas do sistema ou o uso das balas de urânio exaurido?
Xhing olhou para baixo, assimilando a pergunta do mais velho, e mordeu a ponta da unha do dedão, começando a ficar visivelmente incomodado.
— Os dois.
— Sim e sim. — Jung respondeu simplesmente, não se importando muito com a forma que aquela revelação poderia ser interpretada. Eu dei de ombros, acostumada com esse tipo de circunstância em que Jung se envolvida, porque hora ou outra seria inevitável não fugir dos trâmites proibidos da polícia. Ele sabia disso, eu sabia disso e grande parte do Departamento também sabia. É por isso que Jung estava correndo contra o relógio; caso alguém, ou melhor, alguém envolvido, também chegasse a essa conclusão, teríamos nosso ponto de partida exclusivo perdido. — , é o único jeito. — Eu concordo com a sua frase, mas não acredito muito sobre o que iremos conseguir através daquela informação.
— As balas não são rastreáveis, podem ter sido roubadas de uma descarga militar e alguém simplesmente a usou para atrasar a investigação ou para nos conduzir a enganos. — Eu pontuei. Jung abaixou a cabeça, encarando o vazio, e mordeu as pontas dos lábios, parecendo refutar a hipótese. — E se isso não foi armado para incriminar alguém em específico? Digo… Kim Jae não me parecia o tipo de homem que teria envolvimento com forças armadas ou militares.
— Não, você tem razão. — Jung retomou a conversa. — Há alguns meses eu soube que materiais exclusivos do Governo haviam sido extraídos em uma carga que vinha do interior da China. A única coisa que sei é que o caso foi arquivado por falta de provas, mas eles chegaram a listaram alguns suspeitos. É melhor do que nada, já nos ajuda algo. É um ponto de partida, ao menos.
— Esses documentos estão nos compartimentos digitais da polícia? — Xhing perguntou inocentemente. Jung sorriu de lado, agora ostentando sua expressão amadurecida pelas realidades da vida, e diminuiu o tom autoritário.
— Certas coisas não são armazenadas em computadores por questões de segurança, Xhing. — Ele respondeu. — Justamente para não cair nas mãos de um genioso hacker como você. — Xhing se sentiu envergonhado, pude notar, mas riu após, balançando a cabeça em divertimento. — A papelada fica escondida em um dos porões do Governo. Eu sei em qual desses o caso está guardado.
A primeira coisa que passou pela minha cabeça é que Jung poderia correr altos riscos se resolvesse se aventurar nesse plano. Não que a minha opinião importasse, ainda mais por Jung ser tão teimoso, mas não havia nenhum argumento que faria ele desistir da ideia. Sua expressão era séria e determinada, sustentando a clara sugestão de que ele faria aquilo, eu querendo ou não.
— E você desconfia de alguém? — Jung ouviu a pergunta, mas não esboçou grandes alterações no humor.
— Sempre. — Jung respondeu, sem olhar para a tela, afundado nos prós e contras de sua intuição. Xhing pesou seu olhar sob mim por breves minutos e, entendendo que não conseguiríamos coletar maiores informações, ele entortou os lábios, arrancando um sorriso amarelo e fingindo ter não se importado pelo ar cético que se instalou.
— Antes de ir, Jung… Leve um dispositivo de infratransferência. Xhing, você ainda carrega um com você? — Eu tentei conduzir o rumo da conversa para algo que não criasse um ambiente assustador, mas Xhing estava prestes a ter um ataque do coração quando percebeu o que Jung faria. Olhei para Xhing até que ele compreendesse que não havia outra solução e o seu pomo de Adão criou evidência, travando uma luta com o nó que se formou em sua garganta.
— Sempre. — Ele respondeu provocando Jung.
— Pra quê isso serve? — Jung atacou a pergunta, abanando as mãos, para que nós prestássemos atenção em sua presença.
— Você o aciona e um recado é transferido para o meu computador. — Xhing disse.
— E como isso vai ser útil para mim, especificamente? É uma espécie de ligação para o 190? Você vai transferir para os meus chapas na delegacia e eu serei salvo pelo gongo? — Jung rebateu caçoando. Xhing suspirou dramático, coçando os dedos pelo bigode inexistente, e sorriu antes de respondê-lo.
— É quase isso, a única diferença está no fato de que, enquanto seus chapas correm com os motores dos carros, eu corro com um jatinho que bombardeia explosivos insonoros. Em quem você irá confiar a sua vida?
Jung estava com a boca bem aberta, pronto para agregar um novo comentário irônico para a conversa, mas ao ouvir a insinuação de Xhing ele não tardou em se poupar de fazê-lo. O silêncio instalou na chamada de vídeo, se não fosse pelas falhas da internet atrapalhando que eu conseguisse receber em uma transferência simultânea, mas por um breve momento até mesmo eu perdi a fala. A nossa investigação paralela estava seguindo para um rumo ainda mais perigoso e traiçoeiro, o que seria suficiente para me fazer recuar e deixar na competência de pessoas capacitadas e autorizadas para isso se eu não fosse tão eu.
A frustração me atingiu em cheio quando percebi que eu ainda me movimentava com o sentido do meu antigo enfoque profissional. Não teria como negar: eu estava tão envolvida e absorta nos costumes passados que o meu envolvimento com a causa estava irritantemente programada para se desenrolar automaticamente.
Quem eu iria enganar? Aquela investigação era tão minha quanto de Jung.
Remexi-me no assento resmungando coisas para mim mesma e vi Jung me lançar um breve olhar, quase como se ele compreendesse o que eu estava pensando.
— Estou ótimo com esse negócio, muito obrigado. — Ele suspirou. — Um botão. É isso que eu ganho.
— Esperava o quê, uma caneta que explode? Não estamos no Kingsman. — Xhing voltou a se saborear com as provocações desmedidas e conseguiu arrancar um sorriso de meu rosto.
— Estamos na droga do seu mundo encantado! Céus, será que seria difícil demais ser normal? Como é que essa gente consegue criar esse tipo de coisa e ainda pensar que eu não cogito a existência de alienígenas? — A indignação de Jung era cômica e Xhing gargalhou a plenos pulmões, parecendo estar tendo o momento de sua vida naquele dia. Chacoalhei a cabeça, incrédula com a facilidade que Jung tinha de tornar o clima menos assíduo e sobrecarregado, e limpei a garganta, chamando a sua atenção.
— Então está tudo certo, não é? — Eu perguntei. — Vocês combinam de se encontrar para Jung pegar o dispositivo de infratransferência, ele fica encarregado de tramar a sua descoberta, enquanto que Xhing descobre como desativar o cadeado eletrônico do vocês-sabem-quem… — Pesei a fala na menção secreta que Jung deu ao Kim Jae e ele respondeu com um joinha. — E eu sigo plena, bela e realizada aqui em Qatar.
— O Natal está chegando, ! — Jung bateu os cílios como uma criança adorável e apoiou o rosto nas palmas da mão, inchando os lábios e sorrindo pimpolho para a câmera. — Não que isso seja uma indireta, mas se você quiser considerar como uma…
— Já te falaram que você é ridiculamente interesseiro?! — Eu esbravejei em resposta. Jung gargalhou.
— Talvez uma ou duas vezes.
— Nós precisamos de provas, Jung! — Xhing disse. — E pedir presentes para a não vai ajudar em nada! — Ele rebateu os pés por baixo da mesa. — Não é só você quem quer ganhar o Playstation de última geração que vai ser lançado essa semana em Qatar. — As sobrancelhas de Jung estavam unidas na testa, como se tentassem descobrir o porquê Xhing acharia que ele teria interesse em um Playstation, mas segundos depois entendeu a finalidade da frase do mais novo e sorriu estupetado. Xhing piscou em retorno, prendendo o riso e olhando em expectativa para mim.
— Droga, esse pirralho é muito bom.

✽✽✽


O avião pousou a tempo de eu conseguir terminar a vídeo-chamada com Jung e Xhing. Hye Kyo apareceu na porta da cabine abanando as mãos em resposta ao comando do comissário, pedindo para que nós nos preparássemos para descer, e me segurou pelo braço, guiando-me em direção à saída. Ela começou a contar sobre os seus planos, que envolviam festas e noites viradas no álcool, e eu neguei com a cabeça para cada hipótese que ela oferecia. Assim que descemos do avião, o céu aberto e azulado de Qatar nos recebeu com uma passagem de vento gelado, o oposto do clima que andava se alternando na China.
— Oh, que pena que o clima por aqui não anda quente igual o Inferno! — Hye Kyo sibilou ao passar pelos portões de entrada. — E pena que isso não afeta em nada a minha combustão física. — Ela piscou para mim, distribuindo piscadelas em seguida para os seguranças enfileirados para a nossa recepção. vinha logo atrás, arrastando o seu esqueleto com preguiça, não querendo prestar muita atenção nas falácias sugestivas da amiga.
— Sra. , posso ter uma palavrinha com você? — O assessor de surgiu do meu lado, sussurrando o pedido como se estivesse precisando esconder a suplicia. Eu olhei de soslaio para ele e apesar de achar que havia caroço naquele angu, como diria Meiqi, eu acenei em resposta. — Seria melhor em particular.
Os meus sinais de intuição apitaram em disparada quando Yasunaka apontou com a cabeça para um ponto mais distante de onde estávamos. Hye Kyo já tinha se afastado, indo conversar com alguém que eu não parei para prestar atenção, e estava para trás trocando mensagens no celular.
Yasunaka me fitava incisivo, até parecendo estar perdendo a paciência com a minha relutância. Sem dizer nada eu segui o rumo para a cafeteria do local, deixando a entender que ele deveria me acompanhar de escaldo e proferir as suas besteiras previsíveis. Ele respondeu de imediato com os calcanhares desferindo pesadas insonoras e praticamente ligeiras, passando pela fileira de seguranças e cumprimentando minimamente os demais que cruzavam pelo nosso caminho.
Assim que me apoiei no balcão da cafeteria e a garçonete me ofereceu o cardápio, Yasunaka parou ao meu lado, encostando os cotovelos no mármore, e lançando um olhar divagado pelas paredes do local, fugindo ao máximo do contato visual que poderíamos estabelecer se ele não estivesse tão compenetrado em ignorar a minha figura.
— Bom, estamos “em particular”. — Eu indiquei, levantando o cardápio e passando o olhar pelas sugestões. — O que você precisa dizer?
Yasunaka limpou a garganta e não prolongou o seu olhar pelas paredes, agora substituindo a aura impenetrante por um semblante sério e objetivo. O que quer que fosse sair de sua boca seria prontamente acusatório.
De forma calculada eu coloquei a mão no rosto e lhe olhei sem cerimônia, aguardando pelo momento em que ele viesse a causar discórdias.
— Eu queria lhe pedir para ajudar . — O homem expôs o seu pedido de forma certeira. O seu timbre vocal não soava como alguém que estava contente com o que falava, mas Yasunaka possuía uma característica que eu admirava, apesar de nunca tê-lo dito: ele era fiel. Não importava o quê, Yasunaka iria sempre estar ao lado de , mesmo que isso custasse o seu orgulho.
— Com o quê? — Não indaguei alguma suposição ou desferi imediatamente uma recusa. Para Yasunaka ter vindo recorrer a mim, a última instância do seu universo, a situação poderia estar mais descontrolada do que ele queria acreditar. O incômodo emergiu em meu ventre, montando-me de volta ao momento em que Yuan me disse que havia passado por muitas coisas nos últimos tempos. A verdade é que, obviamente, eu não sabia exatamente o que estava se passando na vida de , embora tudo indicasse que não seria das melhores coisas.
— Você sabe, com o trabalho e coisas do tipo. — Yasunaka remexeu-se dentro do terno e laceou a gravata no pescoço, abrindo espaço para que os botões de sua camisa se mostrassem semiabertos na parte de seu peitoral.
— E por que ele precisaria de minha ajuda para fazer o trabalho dele? — Ele estava mais relutante no começo, mas com os minutos eu sabia que arrancaria alguma coisa de seus miolos geniais. Yasunaka rosnou um resmungo e virou o rosto em minha direção.
, eu sei que você entendeu o que eu quis dizer. — Yasunaka rebateu na mesma medida. — Estou falando para você ajudá-lo a focar no trabalho. É só isso. Deixe-o ocupado e distraído, faça algo que seja típico no universo encantado da SenseTime e estarei agradecido. — Ele terminou, com a voz ácida, movimentando os fios de cabelo, o topete que me dava nos nervos.
— Não fale comigo desta forma, Yasunaka. — Eu não tardei em vociferar. Os olhos claros e estarrecidos do homem se alargaram em resposta. — é o seu chefe, mas não significa que você só deva responder a ele e poderá faltar com respeito com os demais. — Yasunaka a observava estático, tentando registrar a firmeza e a precisão na constância das palavras. — Quem você pensa que é para agir assim?
Ele murchou a expressão de rei do mundo e suspirou por entre os lábios.
— Certo, me desculpe. — Yasunaka disse. — Não quis soar desse jeito, foi instantâneo e…
— E você acha que pode me tratar da forma que bem entende porque tem alguma espécie de antipatia pela minha pessoa. — Eu o interrompi. A garçonete colocou o copo de água em minha frente, revezando o olhar entre eu e o homem, até aparentando estar esperando para que eu lhe falasse algo que fizesse com que ela o expulsasse dali. Eu sorri em agradecimento, pela água e pela atitude, deixando-a perceber que estava tudo sobcontrole. — As histórias sempre têm dois lados, Yasunaka. Se você quer se apegar a apenas um, eu pouco me importo. Agora, se for para agir como um mesquinho sabichão, por favor, tenha decência e me dê o mínimo de respeito que eu sei que você sabe dar.
— Você está me entendendo mal, . — Ele riu incrédulo. — Você acha que eu não gosto de você?
— Não acho nada, Yasunaka, as suas atitudes demonstram isso. — Eu sequei as bordas dos lábios e segurei na bolsa, empurrando a cadeira para frente e me preparando para partir. Yasunaka olhou para a geladeira, negando com a cabeça, e rindo baixo.
Yasunaka cravou seus olhos pequenos em mim, sem mostrar o mínimo de surpresa pelo rumo da conversa, aceitando que eu não estava mais a fim de continuar conversando. Ele assentiu em silêncio, dedilhando o copo de gelo em sua mão, e sorriu por fim.
— Seria muito mais fácil se eu simplesmente não gostasse de você, . — Yasunaka disse. — Acredite, eu ganharia o dinheiro mais fácil do mundo se eu só precisasse não ir com a sua cara. — Ele riu mais uma vez. — Você não sabe de muita coisa e talvez seja por isso que eu tenho uma pequena empatia por você.
— E se eu soubesse de tudo, o quê mudaria para você?
Yasunaka bebeu o último gole de água. Empurrou a cadeira e marchou para a saída do estabelecimento, mais rápido e apressado do que antes, apenas se virando para verbalizar a sua resposta:
— O que mudaria seria qual atitude você teria se soubesse de tudo. Eu tenho as minhas apostas, só espero que você não me decepcione.
Encarei o homem se dispersar entre a multidão do aeroporto e pousei os olhos no copo vazio que ele deixara no balcão.
Assim como Yasunaka, eu também era muito fiel aos meus instintos.
Se era desta forma que ele queria que eu me sentisse tentada a descobrir o que diabos andava acontecendo, seria assim que eu prontamente atenderia ao seu pedido.

✽✽✽


Doha é uma cidade simbolicamente dominada por carros que foi projetada para o trânsito abundante de automóveis de diversos portes, porém mais especificamente nos casos dos jipes que os qatarianos usam para escalar as dunas do deserto. Ao olhar para o lado esquerdo, o logo da Mercedes-Benz preenchia o meu campo visual e, no lado direito, havia mais um pouco de carros da Jeep recheando o cenário extravagante. A cidade era literalmente um desfile de fortunas.
O motorista adentrou na Avenida da Corniche e meu coração se acelerou por relembrar da paisagem tão detalhadamente — de um lado encontravam-se as poderosas construções de tijolo e cimento, enquanto que do outro havia o mar e o seu infinito horizonte. Apoiei o queixo na janela do carro e observei o carro contornar a baía, pontilhada de tamareiras, banhada pelo Golfo do Pérsico.
Na ponta leste da Corniche, pouco além do porto de Dhows*¹, se localiza a maior joia de Doha — o museu da Arte Islâmica.
O maciço prédio de linhas retas, cercado de águas verdes e reminiscente de mesquitas era de acelerar qualquer coração apaixonado por arquitetura e urbanismo, mesmo que esta seja a terceira vez que coloco meus olhos nele.
O átrio monumental tem passarelas metálicas entre os dois andares superiores e uma escadaria dupla, em curva, de tirar o fôlego.
— Oh, eu conheço esse! — Hye Kyo arremessou o peso por cima do meu corpo e enfiou o rosto na janela, encarando abobalhada o museu adentrar na paisagem. — Esse museu foi projetado pelo mesmo arquiteto que construiu as pirâmides de Louvre! — Ela bateu as mãos em êxtase. — Eu poderia casar com esse homem, francamente. Olha esse trabalho!
Eu gargalhei pelo seu comentário e em um relâmpago me lembrei da estadia de Hye Kyo na França. Parecia que havia sido ontem quando ela resolveu largar o seu intercâmbio em Hong Kong para se inscrever na academia de École de l'Air, uma das melhores universidades do mundo que treinam pilotos. Ela sempre me dizia, enquanto folheava os livretos da faculdade, que se tornaria uma versão modernizada de Caroline Aigle*². Vendo aonde ela chegou, até agora, a única coisa que consigo pensar é que Hye Kyo está se prestigiando com o seu próprio nome.
Nós precisamos de milhares de Caroline Aigle e milhares de Hye Kyo.
Precisamos de todas as mulheres que são destemidas e determinadas a romperem obstáculos, impedimentos e pré-conceitos.
— Como está sendo viver em Paris? — Eu lhe questionei porque fazia tempos que não conversávamos sobre futilidades do nosso dia a dia. Hye Kyo deitou a cabeça no meu ombro e suspirou pesado.
— Surpreendente. — Ela respondeu com convicção. — Definitivamente surpreendente. Há momentos que, pour l'amour de Dieu, eu só quero voltar para Seul e falar em coreano por uma hora interminável, mas na grande maioria do tempo me sinto confortável enroscando o francês, comendo croassaint e buscando o meu lugar no mundo. — Hye deu de ombros com um sorriso cativante. — Não é todas as pessoas que têm a honra de morar no mesmo bairro que Monet, Picasso, Van Gogh e Renoir moraram. Eu sou grata por isso.
— E grata pelos croassaints de cada café da manhã. — Eu brinquei, empurrando-a pelos ombros, e enroscando o meu braço no seu.
— Ah, amiga, especialmente pelos croassaints!

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: Dhows são os típicos veleiros das Arábias, ancorados na baía do Golfo do Pérsico.
: Caroline Aigle foi a primeira mulher militar francesa piloto de caça do Exército do Ar Francês a ser escalada para um esquadrão de combate. ♥


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Eu estava determinada a fazer algo que não me deixasse arrependida de ter vindo para essa viagem. Estar cuidando dos assuntos internacionais envolvendo a SenseTime era, de longe, uma das coisas que mais me satisfazia em níveis imensuráveis, mesmo que eu precisasse dedicar todo o meu tempo para performar os diálogos, estudar as pautas da convenção e aperfeiçoar a minha pronúncia da língua árabe. Era algo que eu não poderia — e conseguiria — me cansar.
O que me deixava inquieta era ter de lidar com ele.
Ele que, por sinal, não parava de me fitar com seus enigmáticos olhos castanhos.
Não era necessário um debate aprofundado para descobrir que era a única pessoa no mundo inteiro que conseguia retirar cada grão de paciência que eu plantava calmamente no meu íntimo.
Meu humor, que já não andava agradável nas últimas horas, simplesmente resolveu dar uma voltinha por Qatar e me deixar agindo como uma perfeita ridícula. Quando concluí que a culpa não era de ninguém, além de uma única pessoa, resolvi me isolar no quarto e tentar recompor meus pensamentos. E, importunamente, percebi que precisei desse choque de realidade para cair nos eixos.
É como dizem, algumas vezes precisamos sentir a água batendo nas nádegas para criar vergonha na cara. No meu caso eu precisei de um tsunami.
Eu precisava, afinal, de uma dose de verdade. Estava na hora de enfrentar o meu maior desafio: o inferno dos meus sentimentos.
estava escorado no sofá do loft do hotel, espreguiçando o tronco do corpo e sorrindo amplamente para um aglomerado de pessoas que vinham em sua direção pedir por uma foto, um autógrafo ou só para conversar.
O histórico no hall da fama de vinha desde que ele era um garoto, quando ainda dedicava sua vida às competições de nado, por ser um nadador profissional. participou de todo tipo de torneio mundial, levando para casa dezenas de medalhas e prêmios, mas foi com a chegada dos vinte e três anos que ele desistiu de dar sequência à carreira nas águas.
Ele estava disperso com as dezenas de fãs ao seu redor e levou mais um novo breve momento para o seu olhar recair sob mim. desceu os olhos pela minha figura, da forma que fazia quando estava se saboreando com meu ultraje e sorriu de canto sem dar a entender o que poderia estar se passando em sua cabeça. O tanto de dúvidas e incertezas que rondavam em minha mente com aquela reação foi semelhante ao que eu pensava, desde que ele havia chegado à China, por estar tendo que lidar com sua presença novamente.
As memórias correram pelo meu subconsciente e eu precisei me segurar no corrimão do elevador para não me sentir sonsa. A sensação de emergir no passado era semelhante ao olhar penetrante e revelador de , um absurdo de tentações que me desviavam dos meus intuitos e almejos. No passo em que eu me convencia que estava só avassalada demais pela sua chegada, também tentava encarar a sentença menos inconclusiva de minha vida: continuava sendo, infortunadamente, o causador do meu depravamento emocional.
Preferi engatar os ânimos, adentrar no elevador, fugindo de suas piscadelas significantes, e apertar pelo andar do meu quarto, o lugar que eu pretendia ficar escondida até o pôr do sol. Hye Kyo me perdeu de sua vista durante a sua visita pelo hotel e aquilo foi indiretamente um presentinho de Deus para que eu pudesse me livrar de sua presença animada com o “vasto catálogo de aventuras” que ela poderia ter naquele lugar.
Arremessei a bolsa na cama pouco me importando se iria acertar no lugar certo, e afundei os braços na pia do banheiro. Um peso brusco despencou em meus ombros e eu choraminguei, de frustração e impaciência, por estar me conduzindo por aquele caminho. Por onde minha cabeça andava?! Eu havia feito uma promessa! Não seria desta vez que eu falharia.
No dia em que partiu, eu prometi que iria deixá-lo, também, partir da minha vida. Parecia a missão mais fácil naquele momento, mas aqui estou eu, dois anos após, ainda sentindo o seu toque de despedida pelar em minha pele e deixar a marca do que eu custo um infinito de sentimentos para superar.
O toque do meu celular me acordou do transe e me joguei por cima da cama, buscando o aparelho, e rolando em seguida para me espreguiçar.
O nome de Hye Kyo era como um letreiro neon ofuscando as demais notificações e logo sorri, me preparando para ouvi-la choramingar por causa de alguma nova paixão à primeira vista.
— Já se perdeu por Qatar? — Eu provoquei-a, ouvindo o seu riso alto.
— Quem me dera, amiga! — Ela rebateu. — Adivinha o que acabo de encontrar nas esquinas tortas desse Paraíso terrestre?
— Hum, deixe-me pensar... — Titubeei um sorriso sacana, recordando do homem que trombamos no aeroporto e foi considerado como o homem “mais maravilhoso, sexy e ridiculamente delicioso de toda Qatar”. — Aquela obra de arte contemporânea em forma de ser humano que trombamos no aeroporto e usava um maravilhoso Louis Moinet Meteoris no pulso? — Eu gemi em desgosto. — Por céus, aquele relógio é simplesmente o meu sonho de consumo capitalista!
— Nope, não ele em específico, mas baby steps, honey! O destino se encarregará de fazer esse encontro acontecer. — Hye Kyo suspirou apaixonada do outro lado da linha. — Na verdade achei algo que me fará distrair a mente daquele Deus exuberante da beleza cósmica. — Mordisquei os lábios e fitei o teto, aguardando que Hye Kyo trouxesse a notícia da noite para me animar. — Que tal curtirmos a noite em Qatar? Conheço um lugar perfeito para isso.
A ideia não era toda ruim, pensei. Fazia tanto tempo que eu não me enfiava em um vestido de balada que senti meu próprio corpo se remexer em aprovação pela sugestão. Desci os olhos pelas minhas pernas, despidas, e rocei a pele no lençol de algodão, cogitando a oferta de Hye Kyo. A convenção só começaria na noite do dia seguinte, que mal teria sair para tomar alguns drinks e dançar?
— Não sei se é uma boa ideia. — O meu lado mais racional falou por conta própria e levaria pouco tempo para Hye Kyo bufar em desaprovação e me alfinetar.
— Claro que é! — Hye Kyo arrastou a fala. — A minha missão é te proporcionar um pouco de entretenimento, não é? Pois bem, meu amor, fiquei sabendo pelos arredores que a vida noturna neste hotel é de deixar até os franceses de pernas pro ar! — Nós gargalhamos. — Você sabe como os franceses são, não é? Pois eu sei muito bem, ma chère amie! — Hye Kyo parou para responder à pergunta de alguém e, segundos depois, retomou para a ligação. — Vamos combinar o seguinte: você vai para o SPA, dá uma relaxada e, depois, me responde se topa os meus planos.
— Combinado. — Eu cedi. — Mais tarde eu te ligo, tudo bem? Quem sabe o meu destino não é esbarrar com um filho de Afrodite pelos corredores desse hotel? Não estamos na Terra Abençoada à toa, bebê!
— Só não demore muito! — Hye Kyo elevou a voz. — Because I don’t wanna waste my time tonight! — Hye Kyo cantarolou berrante antes de desligar a ligação e, mesmo eu querendo continuar a cantoria com ela, a coreana desligou o telefone sem me dar oportunidade de completar a música. Gargalhei mais um pouco, empurrando os pés para fora da cama e indo em direção às malas para caçar um hobby ou qualquer coisa que servisse para usar no SPA.
Uma batida na porta ecoou pelo quarto e eu apressei para abri-la, esperando encontrar o Maître do hotel com o restante das bagagens, mas, pelo contrário, a figura humana parada na minha porta era outra.
— Sra. ? — Um rapaz que deveria ter em torno dos vinte e cinco anos estava me sondando com o olhar categórico e robotizado, mas suas pupilas dilataram quando eu repousei o olhar pela sua musculatura enrijecida e penei alguns segundos para prestar atenção em seu sorriso polido.
— Sim? — A resposta soou leviana, de acordo com o meu estado de petrificação diante do monumento que estava erguido na porta do meu quarto.
Ele arriscou arreganhar ainda mais o seu sorriso e finalmente pude notar que seus dentes pareciam pérolas brancas e cristalinas. O seu pescoço se esticou para que ele se livrasse da fenda em sua camisa social branca e, antes que ele pensasse em fechar minimamente a parcial imagem da sua pele despida, meus olhos vasculharam pela extensão do seu peitoral.
Oh, querida Afrodite, quando esperei encontrar com uma de suas crias por corredores deste hotel, eu não imaginei que você me enviaria justamente a reencarnação de Eros, o seu queridíssimo filho, Deus do erotismo! O monumento em forma de homem que balançava as minhas estruturas era nada menos do que ridiculamente apelativo — o seu olhar, sustentando um alarmante caos irreversível içou minhas piscadelas pesadas de rímel. Um suspiro absorto viajou entre as brechas dos meus lábios e, abençoado seja o Cupido, eu mal não consegui me derreter.
— Desculpe interrompê-la. — Ele começou no nível mais alto da educação. — Pediram para que isto lhe fosse entregue. — Sua mão, incrivelmente grande, longa e bonita se esticou na minha direção, esboçando que ele tinha um propósito por estar ali. Balancei a cabeça, atônita pela presença do homem, e sorri sem graça, lembrando-me de que, claramente, um homem bonito não surgiria na minha porta sem nenhuma razão plausível. Eu levantei os olhos para o seu rosto, como pretexto de poder sondar algum vestígio de plaquinha indicando o seu nome, mas ele parecia ter saído de um vestiário com os cabelos recém umedecidos e a roupa ainda amarrotada e bagunçada. — Estou na minha troca de turno. — Ele pareceu entender o que meu semblante denunciava e tentava se justificar antes que eu estranhasse ou pensasse em reclamar na administração pelo estado de sua presença. — Não lhe ofendi usando estes trajes, não?
Sorri ainda mais desdenhosa achando adorável a forma que a sua pronúncia em inglês soava um pouco arranhada e amadora. Ele retribuiu o sorriso, afrouxando os ombros e afastou-se minimamente quando notou que eu estava prestes a sair.
O bilhete em minhas mãos indicava um horário marcado para uma sessão de cromoterapia, o que desvendei como obra de Hye Kyo, com certeza. O papel passeou pelos meus dedos e o chaveiro da chave balançou pelo meu dedão, enquanto que o rapaz descia o olhar para as minhas mãos e voltava a recuperar a postura.
— Não se preocupe. — A porta do elevador se abriu e eu adentrei na cabine, deixando o rapaz para o lado de fora, firme em seus calcanhares. — Esse será o nosso segredo. — Uma piscadela fugiu do meu olho e ele sorriu largo, repassando os dentes superiores por cima dos lábios inferiores e pressionou-os para que não arrancasse um riso.
A porta do elevador estava prestes a fechar, mas antes o rapaz lançou um último comentário carregado de charme:
— Guardar segredos é a minha especiaria, senhorita . — Ele respondeu. — E foi um prazer finalmente conhecê-la.
Dando-me por vencida, após me deparar com as peças atraentes que rondavam por Qatar, cheguei a decretar mentalmente que uma simplória noite com Hye Kyo não era a pior das ocasiões. Ela havia cruzado o país para me acompanhar nesta viagem e meu cérebro quis me manipular para pensar de que a mínima retribuição que eu poderia oferecê-la era deixá-la me guiar pelas aventuras misteriosas do país do futuro.
E, pensando nisso, levei minhas mãos até o bolso do hobby, em busca do meu celular, pronta para retornar a ligação de Hye Kyo. O aparelho pesou na minha mão e meus olhos passearam pela vidraçaria do painel do elevador. Encostei o corpo no extremo da parede de metal, ouvindo o tinido indicando que o elevador já estava próximo de chegar ao destino final e, absorta nas mensagens que recebia, não notei a tempo a mudança nos dados do painel.
A primeira coisa que senti foi o tranco. Depois da sensação de estar despencando um andar, meus olhos saltaram da órbita ao olhar o painel e ver que não havia mais nenhum número indicando onde raios eu estava. A falha mecânica brecou o motor do elevador e, com os segundos, ele parava de se locomover no ar.
Meus dedos correram pelos botões do painel, em busca do botão de ajuda, mas o elevador chegou a, finalmente, estacionar. O segundo tranco foi ainda pior que o outro e a caixa de metal balançou nas cordas de sustentação, empurrando o meu corpo para a lateral e quase me despencando sobre as próprias pernas. Firmei as mãos no suporte e olhei extasiada para a câmera, esperando que alguém pudesse me enxergar ali.
Não adiantaria — eu estava escondida no breu do escuro, acanhada e invisível.
— Mas que droga... — Eu esbravejei ao tocar freneticamente a tela. O teclado do painel era de touch, o que foi a pior invenção do criador daquele elevador justamente por me deixar sem opção alguma. A energia acabou, o único botão de emergência não funcionava e o meu pavor de ficar presa em uma lata de sardinha duplicou ao primeiro sinal das engrenagens travadas no topo do elevador. Fechei os olhos, mentalizando o mundo de Fairytopia, belo e encantado, maravilhosamente perfeito, ao contrário do cenário ao qual eu me encontrava, e tentei me convencer de que em poucos minutos estaria de volta com os pés firmes no solo. — Merda! — Soquei a parede do elevador e berrei de frustração.
O celular escorregou da minha mão, mas por sorte não quebrou ou trincou a tela. Suspirei aliviada, correndo os dedos pelo monitor e procurando o contato de Hye Kyo até que a barra de serviço sumisse e indicasse que não havia sinal.
— E agora o que mais falta acontecer?! — Extravasei. — Maldição, é justo hoje o dia que o azar quis me contemplar com a sua humilde graça?
— Primeira Lei de Newton. — Uma voz feminina projetou-se para fora de alguma caixa de som no topo do elevador. Um resquício de luz vermelha indicava que o aparelho estava conectado, sabe-se lá ao o quê, e era possível ouvir a portadora da voz. — Se alguma coisa pode dar errado, ela dará. — Seu timbre despreocupado e descontraído quase causou um reboliço de ódio no fundo do meu ventre. Como é que alguém poderia estar me vendo naquele estado e não fazendo nada? — E mais, dará errado da pior maneira e no pior momento. — Seu riso tomou conta do abafamento do elevador. — , se eu fosse você, não me ousaria a pisar o pé para fora deste elevador quando ele voltar a funcionar.
Felizmente, por uma dádiva divina, a energia voltou e a luz penetrou o meu campo de visão. O painel continuava a indicar que o elevador estava suspenso no ar, sem algum comando o indicando para onde ir. Senti um arrepio rondar pela minha espinha, o perfeito aviso de que algo não parecia estar certo.
— E quem diabos é você e que merda está fazendo?
Senti-me estúpida, no primeiro momento, falando sozinha no meio de um elevador emperrado. Meu rosto estava suspendido no ar, em direção à câmera, a caixa de som, a qualquer coisa, sendo clara, e meu corpo se remexia impacientemente sobre os pés.
— Talvez a pergunta correta seria: quem é a heroica deusa que irá salvar a minha vida nos próximos cinco minutos? — Ela riu novamente. — Não sou ninguém em especial, para ser honesta, mas agora sou apenas a hacker que irá te impedir de ter um fim igual ao de seu amigo Kim Jae. — O nome do homem soou grotesco e perverso na fala da mulher e, se poderia ser possível, a forma que ela se referiu ao dito falecido serviu para duplicar as minhas dúvidas referentes à sua integridade. — Por ora conheça-me como Elektra.

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: Louis Moinet Meteoris é um relógio, no valor de US$4,6 milhões, com o fragmento do raríssimo meteorito Lunar Dhofar 459. Faz parte de uma edição limitada que conta com apenas quatro exemplares, cada um com um pedacinho exclusivo de rocha espacial. (Amantes do espaço piram! ♥)




Continua...



Nota da autora: Pois é, soft babies, a aventura dessa dupla (ou trio, quem sabe até mesmo quarteto?!) por Qatar acaba de iniciar e, hmmm, será que eles estão preparados para enfrentar o passeio? Keep calm and bora acompanhar essa saga (que me deixa de cabelos em pé!)
Estou ansiosa por essa viagem e espero que vocês também! Aguenta o coração que é só o começo. ♥





Outras Fanfics:
08. Hurt
Unbreakable Destiny

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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