Última atualização: 23/07/2020

Capítulo 1

7 de dezembro, 2017
Eu sabia que iria ser um dia incrível e bagunçado no minuto que meu despertador não fez qualquer barulho para me acordar. Quando meu corpo achou que era a hora para acordar, ou seja, a hora errada, ele acordou. O sol entrava pela janela e já batia na altura da escrivaninha do quarto que eu dividia com Naomi, sendo que ele geralmente teria que que estar um pouco acima dela – quando acordo na hora, ele nunca chega a essa altura. Quando coloco os olhos na claridade e faço as contas do quanto estou atrasada, dou um salto, jogando as cobertas pesadas para o chão.
Me arrependo de não ter colocado meus chinelos de pano no exato segundo que meus pés tocam o piso mais gelado das lajotas cinza do banheiro minúsculo. Tiro rapidamente meu pijama e deixo a água quente do chuveiro cair nos meus ombros, não antes de prender meus cabelos em um coque alto. Eu não tinha tempo de lava-los, na verdade, eu não tinha tempo para tomar banho, mas minha infância com pais brasileiros e sua lavagem cerebral com higiene não me deixa sair da cama sem tomar um banho. Além disso, é realmente nojento.
Fecho o registro e escovo meus dentes correndo, enrolando uma toalha rosa desbotada no meu corpo. Saio correndo para o quarto, sem "esquecer" de tropeçar na parte do carpete que havia descolado semestre passado. Prometo arrumar aquela ponta solta assim como fiz ontem, e antes de ontem, e semana passada, mas ninguém precisa saber. Puxo uma calça preta e uma camisa branca com listras brancas do meu armário e coloco meu computador na mochila salmão que sempre carrego. Só posso rezar para que os documentos que preciso para a entrevista de estágio que eu teria mais tarde estejam muito bem guardados no bolso da frente da mochila.
Saio correndo até o estacionamento do dormitório, com todos os chaveiros da chave do carro balançando na minha mão direita. Por mais que o dormitório fosse da faculdade, ainda tinha algumas quadras de distância separando-os de onde minhas aulas de Escrita Criativa aconteciam. Havia alguns quartos mais perto da faculdade, mas quando fiz minha inscrição, já não tinham mais quartos sobrando. No fim, acabei presa com quem se tornaria minha melhor amiga e esses anos de faculdade não poderiam ter sido melhores.
Olho no relógio do painel assim que fecho a porta do carro preto. 9:30. Ainda posso chegar a tempo para a aula do senhor Riveira, mas sem chance de pegar café na ida. Merda. Certo, eu posso sobreviver sem café. Giro a chave, dando a partida, e alcanço a rua – sem deixar de rezar para que o trânsito de Toronto colabore comigo.

XXX

- Senhorita ! Fico feliz que conseguiu se juntar a nós, no fim das contas. – Senhor Riveira dá um sorriso com o canto da boca, quando entro com dois copos de café esquentando minhas mãos. Eu me avisei que eu não deveria ter parado por um copo quentinho da minha cafeteria favorita, mas, quando eu passei por ela, parecia que a espuma do leite quentinho chamava pelo meu nome.
- Sinto muito, senhor Riveira. Achei que o senhor gostaria de um capuccino com canela extra. – Levanto o copo da mão esquerda. Eu sabia que eu teria problemas por chegar na aula atrasada, mas eu também sabia que meu professor era tão viciado no capuccino daquele lugar quanto eu. – Você sabe, para esquentar se nossas histórias sobre o inverno fiquem geladas demais.
Ele levanta uma sobrancelha e, com uma mão, pede para eu me aproximar:
- Você não pode continuar me subornando assim, . – Ele sussurra e estreita os olhos, quando pega o copo das minhas mãos. Levanta a tampa e sente o cheiro do café misturado com a canela, posso ver seus olhos mudarem de opinião na hora que seu cérebro processa as sensações. – Mas, se você não chegar atrasada das próximas vezes que me trouxer um desses eu vou agradecer muito.
Com um sorriso pequeno, me afasto da sua mesa, procurando pela minha. Me sinto um pouco orgulhosa e um pouco suja ao mesmo tempo. Me pergunto se é assim que Cher, do filme As Patricinhas de Beverly s, se sentia. Assim que sento no meu lugar, o sentimento se esvai.
Olho para frente, enquanto tiro meu computador branco da mochila, encarando o professor baixinho falando sobre a importância de um parágrafo bem construído. O senhor Riveira, ou Mark, quando não estava lecionando, era parcialmente careca, mas os cabelos que ainda se agarravam bravamente à sua cabeça eram grisalhos. Sua pele, ligeiramente enrugada na região da testa, era meio morena por conta de seu legado latino. Desde o dia um na aula de Escrita Criativa, que era o que lecionava, ele foi gentil comigo. Um pai das letras.
- Espero que todos vocês já tenham suas histórias engatilhadas para pararem no meu e-mail. – O professor diz, ao final da aula. – Como a senhorita disse antes, espero que suas histórias sobre ser o inverno realmente me façam querer um capuccino do Dom's para me esquentar. Turma dispensada.
Guardo minhas anotações e meu computador na minha mochila e estou para sair da sala, quando Riveira me pede para voltar:
- ! – Me viro, encarando enquanto ele coloca o copo de café no lixo ao lado da sua mesa. – Podemos conversar? – Faço que sim com a cabeça, depois de checar o horário em meu celular, e me aproximo. – Não gostei do seu atraso hoje.
Por um momento, achei que ele iria elogiar meu último trabalho, então, quando ele menciona meu atraso, meu estômago parece que vai até meu pé.
- Você é uma ótima escritora, a melhor da turma desse ano, mas você precisa levar os horários a sério.
- Eu levo. Foi um erro hoje, meu celular não despertou. Naomi saiu mais cedo que o costume e aconteceu alguma coisa com meu despertador, só isso.
- E deu tempo de passar no Dom's? – Ele levanta uma sobrancelha. – Enfim, o que eu quero dizer é que você tem muito potencial e não pode desperdiçá-lo, nem pelo melhor café do Canadá.
- Certo. Não vou decepcioná-lo, senhor Riveira. – Digo, puxando a alça da mochila. Ele sabe, muito bem, obrigada, quando é hora de puxar a orelha dos seus alunos.
- Agora, você vá conseguir o estágio que eu te arrumei. – Ele diz, tentando não sorrir. Mas eu não tento.

XXX

Eu estava pra lá de verde de fome. Já tinha passado da hora, em dias que eu não me atrasei, de comer. E eu não havia comido de manhã, receita para o desastre. Como sempre, eu e Naomi iríamos almoçar juntas, então esperava-a no meu carro em frente ao bloco D, o bloco de ciências exatas. Lugar horrível para se estar, muito além da matéria que ensinavam – qualquer matéria com números me causava arrepios-, o sol ,raro nessa época do ano, batia na carroceria preta do carro e penetrava até onde eu estava, deixando o ambiente exageradamente quente. Certo, a exagerada sou eu.
Eu revisava o último capítulo escrito da fanfic de Jogos Vorazes que escrevia. Minhas pernas, que estavam cruzadas em cima do banco do motorista, serviam de apoio para meu computador, enquanto que o banco do passageiro ao meu lado apoiava minha caderneta preta. Ela já estava surrada e o elástico quase não mais alcançava todas as folhas, mas ainda não era hora de comprar outra, não enquanto eu não terminasse todos os 4 capítulos que faltavam. Afinal, se a caderneta fosse para o arquivamento, ou, como meros mortais chamam, a "caixa plástica de baixo da cama da ", eu nunca mais lembraria aspectos pequenos da personalidade dos meus personagens ou o que aconteceria nos capítulos finais. Comprar outra agora, nem em pensamento.
Eu sabia que Naomi reclamaria se me visse escrevendo no carro, portanto um olho estava vidrado na tela do notebook e outro vigiava a grande porta antiga de madeira do bloco D. A porta que eu fazia questão de desviar quando chegava perto. Quando a cabeça morena da minha amiga apontou na porta, fechei o computador rapidamente, até com um pouco de força, e coloquei na mochila junto com a caderneta. Quando voltei o corpo no banco e coloquei as duas mãos no volante, ela abre a porta:
- Como eu amo/odeio cálculo integral. – Ela coloca o cinto de segurança e eu ouço a porta de trás abrir. – Owen vai almoçar com a gente, já que você estava escrevendo no carro.
- O quê? Eu não estava escrevendo no carro!
- Como se pudesse me enganar. – Naomi aponta para meu cabelo. Droga! Como pude esquecer de soltar o cabelo?
- Elementar, meu caro Watson. – Owen solta, já no banco de trás, afivelando o cinto de segurança. Consigo ver sua cabeça loura pelo retrovisor e reviro os olhos em sua direção.
- Cala a boca, Hayes. – Digo, puxando o elástico do meu cabelo. Passo a mão por entre os fios em uma tentativa falha de domá-los.- Não se esqueça que você, ainda, está no meu carro e eu posso te tirar daqui a qualquer segundo.
- Você pode parar de brigar com meu namorado? – Naomi diz, brincando.
Owen Hayes e Naomi Merrick são o meu couple goals da vida. Eles se conheceram no ensino médio, começaram a namorar no primeiro ano e se separaram logo depois. Naomi nunca me falou porque e quando eu tentei perguntar, pela primeira vez, ela ignorou a pergunta e achou um assunto diferente. Ela não quer falar sobre isso, então eu não pergunto mais. Ao fim do ensino médio, cada um iria para um canto: Naomi viria para a Universidade de Toronto e ele estudaria em alguma universidade dos Estados Unidos. Porém, em um reviravolta do destino e por Hayes ser um tapado e esquecer alguns documentos na hora da matrícula, os dois acabaram na mesma turma de Cálculo. Sinceramente, se os dois não acabarem casando algum dia, algo muito errado tem com essa coisa de amor.
Quando conheci Naomi, no início da universidade, nos odiávamos. Meu santo não se dava bem com o dela e eu cogitava muito pagar um pouco mais por um apartamento que nem ficava perto do campus só para me ver livre daquela coisinha asiática. Porém, e eu descobriria rápido que aconteceria sempre, Owen se intrometeu na vida de Naomi e, por consequência, na minha. Na noite antes de eu assinar o contrato do meu, agora não meu, novo apartamento, ela entrou no nosso quarto em prantos, dizendo que, mesmo me odiando, precisava falar com alguém. E foi assim que eu desisti de pagar por um lugar horrível e criei a melhor amizade que eu já tive: com vinho e shade em macho. As melhores amizades começam assim.
- O que vamos comer? – Owen pergunta do banco de trás.
- Sei lá. A madame não escolheu ainda. – Digo, me referindo a Naomi, quem sempre escolhia o lugar do almoço.
- Eu não consigo escolher uma música com vocês buzinando no meu ouvido. – Ela diz, com meu celular na mão, que previamente estava no console do carro, escolhendo uma música.
- Naomi, eu estou com fome. – Digo, apertando a buzina. - Foda-se a música. Eu quero comer, Naomi.
- Naomi, onde nós vamos comer? – Owen se junta a mim na chateação. – Naomi, Naomi...
Ela joga meu celular de volta no console, depois de colocar Shape of You do Ed Sheeran para tocar. Bufando, ela gesticula pra frente:
- Você sabe onde a gente vai comer, . Não sei por que fica me enchendo o saco.
- Alguém está de mal humor hoje. – Digo, dando a partida no carro e saindo do estacionamento da universidade.
- Disse a pessoa que não tem uma foto no Instagram. – Ela retruca, relembrando a nossa discussão de ontem a noite.
- O que tem a ver o Instagram com almoço mesmo? – Diz Owen, sentando mais na ponta do banco com a cabeça no vão entre os bancos da frente.
- Fica quietinho, bebê, os adultos estão conversando. – Naomi responde, passando a mão na cabeça do namorado. Ela vira os olhos pra mim logo depois. – , você vai ser uma puta de uma escritora. Você precisa de um puta Instagram pra combinar.
- Eu não vejo nenhuma justificativa plausível pra que isso esteja certo. – Digo, parando na esquina. – Eu já fiz a conta que você queria, me divirto com os stories, não preciso ficar colocando minha cara pra todo mundo ver.
- Você é ridícula. Só não coloca nada porque tem medo de rejeição. Se tem tanto medo assim, nunca vai deixar que publiquem alguma coisa sua, vai ter medo das pessoas não gostarem do que escreve. – Ela diz, com o tronco virado pra mim. Eu tento prestar atenção na rua, mas dou uma olhada para minha amiga de vez em quando.
Infelizmente ela está certa.
- Certo. – Mordo meu lábio, sugando o ar por entre os frestinhos do meu dente. – Eu odeio quando você está certa.
- Então você me odeia sempre. – Ela diz, dando uma risadinha e colocando um pé, sem a bota que usava (obrigada por não sujar meu carro), em cima do banco.
- Eu posto uma foto hoje.
- Eu acho bom. – Ela diz e aumenta o volume do rádio, estragando a música do Ed ao cantar junto.
Continuo nos guiando até o nosso restaurante favorito de menos de 15 dolares embalada pela playlist de Naomi. O nervosismo pela entrevista ficara guardado num potinho no fundo da minha mente, até, claro, Owen perguntar se era realmente hoje:
- Tá nervosa? – Ele ergue as sobrancelhas, gesto que posso ver pelo retrovisor.
- Não. Eu nem dependo disso pra largar o Uber. – Respondo, sarcástica.
- Eu não acredito que vou perder minhas corridas de graça. – Ele diz e posso ouvir o beicinho que faz.
- Pois pode começar a arranjar dinheiro. – Naomi se intrometer, virando a cabeça quase como em um filme de terror, para olhar para Hayes. – Minha amiga é maravilhosa e vai conseguir o estágio. Dois beijos da tia Naomi.
- Vocês são maravilhosos, mas acho que não vai rolar. – Digo, finalmente, estacionando o carro na frente do restaurante. Paro de falar até o carro estar bem alinhado com a calçada. E continuo logo depois, como se nada aconteceu. – Quer dizer, é com a Netflix e é... Sei lá, é uma coisa grande, sabe?
- E vai dar tudo certo. – Diz Hayes, apertando meu ombro. Posso ver, pelo canto do olho, o brilho do orgulho em Naomi. Meu cérebro grita couple goals.
- Podemos comer? – Digo, depois de um sorriso. – Vocês demoraram demais nos cálculos.
- Você deveria agradecer aos números pelo seu celular. – Diz Owen, saindo do carro. Nossa briga de "humanas e exatas" começa e só termina quando os pratos chegam e a boca fica ocupada demais para palavras.

XXXX

O sol estava se pondo quando eu atravessei o estacionamento do estúdio de gravação. Muito além do frio ou a mochila que carregava, o que pesava meus ombros era a sensação de fracasso. A entrevista com o roteirista da nova série da Netflix tinha ido nada bem. Meus planos de largar a vida de Uber tinham ido por água abaixo na última hora. Adeus, estágio remunerado, foi uma honra ser indicada.
Como meus pais não eram as pessoas mais ricas do mundo e a melhor faculdade de literatura e escrita era do outro lado do país, e absolutamente nada barata, eu ajudava com as despesas de me manter morando em Toronto carregando pessoas para lá e para cá da cidade. Eu perdi as contas de quanta gente estranha eu carreguei no meu carro, mas valia a pena. Eu conseguia comer e pagar o aluguel, mesmo que irrisório, do dormitório da faculdade, enquanto meus pais pagavam a mensalidade, nada irrisória.
Depois de jogar minha mochila e bater com força a porta do porta malas, sento no banco do motorista e minha cabeça gira com um turbilhão de pensamentos. O que o senhor Riveira vai falar? Depois de todo aquele discurso de "você tem potencial", estou certa que vou ter que aguentar outro. Ele fora tão incrível ao conseguir a entrevista para mim, mas só de estar na presença de um dos meus roteiristas favoritos, ou seja, Roberto Aguirre-Sacasa, escritor de Riverdale, foi o suficiente para me fazer travar. Nem quando ele me perguntou sobre a história que eu mais tinha orgulho, com gênio da lâmpada e romancezinho adolescente, eu consegui dar uma resposta satisfatória. Qual era o meu problema, afinal?
Conecto o meu celular no carregador do carro, depois de mandar uma mensagem para Naomi ("Entrevista ruim, sem chances ☹"), e abro o aplicativo do Uber, pronta para fazer algumas corridas para dirigir a entrevista para fora da minha cabeça. Assim que me coloco disponível, um pedido pula na tela do aplicativo e eu suspiro. Não precisava ser tão rápido. Eu podia curtir a minha fossa só mais alguns minutos.
Ligo o carro, logo depois de colocar o cinto, e saio da vaga que estacionei há algumas horas. Dou a volta no estacionamento do estúdio esperando que o GPS me guie para fora de lá, mas, para a minha surpresa, ele me manda parar e esperar o passageiro na frente do prédio que eu acabara de sair. Olho para o outro lado, tentado segurar o choro assim como fazia com a respiração.
A porta de trás bate com força e eu dou me encolho, ligeiramente. A voz do meu pai faz eco em minha cabeça, quando se cresce ouvindo "não tem geladeira em casa pra bater a porta assim?" qualquer força que coloquem na hora de fechar a porta já parece que fará um estrago.
- Boa tarde. – Digo, automaticamente, ao ouvir o barulho do cinto de segurança.
- Boa tarde. – Ele responde e eu olho pelo retrovisor por puro reflexo. Deus. O que é esse cabelinho penteado para trás? Isso, se concentra nas partes ruins para não se apaixonar pelo cara. Eu conseguia ver duas sobrancelhas cheias acima dos olhos castanhos de onde eu estava. Ele usava uma jaqueta jeans por cima de um moletom cinza e não chegou a olhar para longe do celular quando me respondeu.
- Você é o Gavin? – Pergunto, como sempre faço quando alguém entra no meu carro para uma corrida. Ele concorda, ainda sem olhar para cima, então eu desisto de começar a puxar assunto.
Não estou reclamando, pelo contrário, prefiro os passageiros que não me perguntam como vai minha família ou se acho que está muito frio ou quente. Porém, confesso que conversar com o senhor Gavin Leatherwood, como dizia o aplicativo, não me faria nada mal.
Começo a dirigir, tentando manter meus olhos nos montinhos de neve da rua, para me manter longe deles, ao invés do retrovisor e um certo passageiro. Meu celular começa a apitar com algumas mensagens de Naomi. Tento ignorar. O aparelho, quando estou trabalhando com o carro, fica em um suporte no para-brisa para que eu possa acompanhar o trajeto no GPS, o que facilita muito. Mas, não ajuda se você tem uma amiga igual a minha.
Quando olho para o celular, para deixar no silencioso, vejo o enorme risco vermelho na pista virtual do aplicativo indicando congestionamento. Era só o que faltava pra deixar meu dia melhor. Coloco o celular no silencioso e dou uma olhada no banco de trás, claro que pelo espelho. Ele continua no celular.
- Desculpa por incomodar, - Digo, limpando a garganta. - mas você trabalha no estúdio?
Ele não me ouve, então olho pelo meu ombro para trás, discretamente. Está muito concentrado no aparelho e pude ver os fones de ouvido em sua orelha. Claro, , ele não iria te ignorar só pelo prazer de te ignorar. Ou iria?
Só preciso de alguns minutos para alcançar o engarrafamento do GPS. Aproveitando a parada forçada, dou uma checada nas mensagens de Naomi.
Nay
Para de ser boba! 7:26 pm
O que aconteceu? 7:26 pm
Você tá vindo direto pra casa? 7:29 pm
Quer que eu compre um vinho pra desestressar? 7:30 pm
Tô te esperando com vinho e A Proposta ♥️ 7:53 pm
Eu
E isso é tudo que eu preciso agora 7:55 pm
Tô chegando 7:55 pm
Só tenho um passageiro 7:56 pm
Trânsito 💩7:56 pm
- Não! – Escuto, vindo do banco traseiro. Ele dá um sorriso amarelo, aparentemente não era para ter saído tão alto. – A bateria acabou. Desculpe, estava decorando um texto.
- Imagina. – Digo, indo com o carro um pouco para frente. "Agora é sua chance, penso, pergunta alguma coisa". – Então... Você trabalha naquele estúdio?
- Aham. – Ele responde, se ajeitando no banco. – Eu sou ator.
- É da nova série da Netflix? – Pergunto, achando que seria coincidência demais.
- Como você sabe que está sendo produzida ali? – Ele pergunta, tirando a jaqueta jeans e colocando ao seu lado no banco.
- Eu tive uma entrevista de estágio lá hoje para trabalhar na série. – Digo, batucando de leve o volante, enquanto mando o carro alguns centímetros mais para frente.
- Vamos ser colegas de trabalho. – Ele diz, dando um sorriso perfeito. Eu já vi sorrisos bonitos, mas o dele ganhava de longe. Seu sorriso chegava aos olhos e seus dentes eram tão brancos quanto os do Ross naquele episódio de Friends, mas eu tenho certeza que os de Gavin não brilham no escuro.
- É... Acho que não. Fiquei um pouco nervosa demais em ter Roberto Aguirre na minha frente. – Digo, virando a cabeça para trás novamente.
Gavin Leatherwood era um cara simpático. Logo a primeira impressão de ser do tipo que entra e não fala nada se esvaiu e eu pude ver que ele era do tipo que quando começa a falar nunca mais para. Ele me contou que não era do Canadá, mas que morava lá para poder filmar a série (que ele disse não ter nada a ver com Sabrina, a bruxinha. Para um ator, ele é um péssimo mentiroso). Contou-me, também, o quanto estava animado no trabalho. Ao final da corrida, depois de um congestionamento de 45 minutos, eu já sabia mais coisas dele do que eu sabia de Owen.
- Então é isso, senhor Leatherwood. – Digo, puxando o freio de mão, sem desligar o carro.
Como a corrida fora paga com cartão de crédito, não virei para trás para dar tchau para ele, só respondi um boa noite. Erro tolo. Se eu tivesse me virado, teria visto seu rosto pela última vez e teria percebido que ele deixou a jaqueta jeans no banco. Mas como não fiz, continuei meu caminho. Iria para casa. Chega de trabalho. Eu só queria tomar um vinho e ver comédia romântica com a minha amiga. Quando parei no sinal vermelho, olhei para o retrovisor e vi a jaqueta. Suspiro. Levaria amanhã para o estúdio que ele trabalha. Isso, bom plano.

Capítulo 2

8 de dezembro, 2017
Era de manhã e minha cabeça doía. Não sei se sou autorizada a falar "maldito vinho", já que a culpada sou eu por esvaziar uma garrafa praticamente sozinha. Depois de eu contar toda a entrevista, e com detalhes, para Naomi, assistimos uma das minhas comédias românticas favoritas: A Proposta. Até porque não há problema que a Margareth, protagonista do filme, não possa resolver.
O sono depois do filme foi tão grande que dormi do jeito que estava vestida- shorts do pijama e a camisa que usei na entrevista-, o que não foi nada bom. Acordei me sentindo amarrada por cordas, mas, na verdade, era a camisa branca segurando meus braços. Puxo-a para cima da cabeça em vão, já que ela teima em ficar no mesmo lugar. Bufo.
- Como se o sábado pudesse ficar melhor. – Murmuro para mim mesma.
Levanto, desabotoando a camisa branca e vou direto para o banheiro. Escovo meus dentes, olhando para o espelho, tendo certeza que um passarinho fez um ninho enquanto eu dormia. Dou uma olhada no meu relógio de pulso. Já são mais de 7:30 da manhã, o que significa que eu perdi o pouco tempo que eu teria para escrever alguns parágrafos. Se não sair em cinco minutos terei perdido o horário que todos saem para trabalhar. Ótimo.
Jogo um moletom por cima da camisa, prendo meu cabelo estilo ninho em um rabo de cavalo e não me incomodo em trocar o shorts. A maioria das pessoas sentam no banco de trás e não conseguem ver minhas pernas. Creio eu. Vou voltar para o alojamento logo depois da hora do rush terminar. Passo correndo pela cozinha do prédio e pego minha garrafa de água da geladeira e um cookie que eu torcia para não estar cheio de maconha. Incidentes assim já aconteceram no alojamento. Vivendo perigosamente com um cookie aleatório no refeitório de faculdade.
Assim que alcanço o estacionamento, minhas pernas congelando (obviamente), ligo o aquecedor. Coloco minha garrafa de água no banco do passageiro e me deparo com uma jaqueta de couro. Ótimo. Adivinhe quem esqueceu que precisa devolver uma jaqueta do outro lado da cidade?
Suspiro e dou a partida no carro. Vai ser um longo dia.

XXX

- Por favor! Eu só preciso entregar essa jaqueta para o senhor Leatherwood. Chama ele aqui e eu entrego. – Digo, tirando uma mecha de cabelo, que se soltou do rabo de cavalo, do meu rosto.
O vento gelado do inverno canadense batia nas minhas pernas, arrepiando-as. Eu estava parada na guarita do estúdio de gravação e o segurança estava me deixando sem paciência. Qual o problema em chamar o cara aqui e ele pegar a jaqueta? Eu não vou entrar no estúdio. Eu não vou ver o que eles estão filmando. Eu já dei uma espiada ontem.
- Quer saber? Não precisa nem chamar ele aqui. Eu deixo pra você e entrega para ele.
O desespero era real. O que eu tinha na cabeça de não ter colocado trocado os meus shorts naquele frio? Um cérebro inteligente que não era. Além do frio, a intensa vergonha de estar usando meu pijama na frente de um desconhecido. Eu não confio em você, de ressaca. O segurança da guarita dos estúdios insistia que eu era uma fã louca, coisa que eu devia parecer, usando uma roupa dessas. Eu havia dito que estava no mesmo estúdio ontem, mas ele disse não se recordar de mim.
A paciência estava acabando e, com ela, a habilidade de passar frio e não morrer. Estava quase virando as costas e decidindo ficar com a jaqueta para mim, quando eu vi o passageiro de ontem saindo de um dos galpões do estúdio. Acenei com os braços e gritei seu sobrenome. O segurança, eu tinha certeza, queria me enforcar. Pedia para que eu ficasse quieta, mas eu o ignorei.
Gavin notou a gritaria e se aproximou da guarita, andando rápido. Quando chega mais perto, arregala os olhos, talvez lembrando da jaqueta.
- Ei! Joe! – Diz, dando um tapinha no ombro esquerdo do segurança, que logo levantou as sobrancelhas, indignado. – Pode deixar que eu cuido disso.
- O senhor deveria estar lá dentro. – Diz Joe, com sua voz grossa. Será que para ser segurança um dos pré-requisitos era ter uma voz grossa e ser musculoso?
- Na verdade, eu terminei as filmagens por hoje. Estava indo para o trailer tirar as roupas. – Ele sorri. Olho, finalmente, para as roupas que usa. Uma calça preta justa, uma blusa de lã de gola da mesma cor e um sobretudo. Ele ficava muito bem usando preto. Gavin me pega observando e eu viro o rosto. – Pode deixar, Joe.
O segurança, mal humorado, se vira, sem deixar de me dar um último olhar assustador, e sai, voltando para a guarita. Eu olho para o homem a minha frente e dou um sorriso, agradecida.
- Acho que eu congelaria se ficasse mais um pouco por aqui. – Digo, entregando a jaqueta que carregava nos braços. Leatherwood sorri, pegando a peça de minhas mãos.
- Joe é grande, mas inofensivo. Tenho certeza que ele te pediria para entrar se eu não tivesse aparecido. – Eu rio, soltando o ar pelo nariz, descrente que aquilo realmente aconteceria.
- Entregue, então. – Eu respondo, depois de um tempo. – Sempre é bom dar uma olhada no carro para ver se não esqueceu nada, sabe? Nem todo mundo é tão legal quanto eu.
- Eu posso ter deixado a jaqueta propositalmente... – Ele diz, balançando a cabeça.
- Não... Você não deixou. – Eu digo, fazendo careta. – Você pareceu surpreso quando me viu com ela. Eu sou uma escritora, lembra? – Pergunto, retoricamente. – Eu preciso saber como as pessoas reagem a certas coisas.
- E eu sou ator, lembra? – Ele imita as minhas palavras. – Eu preciso saber replicar essas reações quando eu quero.
- Touchè. – Eu rio, novamente, e, dessa vez, ele me acompanha. O que tinha acabado de acontecer? Isso foi um flerte? Parece que ele estava flertando, não parece? – Eu vou indo, então.
- Você podia me levar? – Ele diz, apontando para as chaves do meu carro, que eu tirara do bolso alguns segundos atrás. – Quer dizer, eu pago o mesmo de ontem, até o dobro. Você veio até aqui só para entregar minha jaqueta.
- Entendi. – Eu digo. Claro que não era um flerte. Ele estava sendo simpático para eu levar ele para a casa dele. – Você disse que ia se trocar. Eu vou pro carro. Te pego aqui na frente.
- Perfeito. – Ele gesticula com a mão, se virando logo em seguida e passa pelos portões.
Eu dou meia volta, andando um pouco rápido para chegar no ar quente do carro. Será que ele deixou mesmo a jaqueta no carro propositalmente? Parecia muita burrice. Não tinha como ele saber que eu viria devolver a jaqueta. Chacoalho a cabeça e pego minha garrafa de água do banco do lado. Depois de tomar metada da água, dou a partida e encontro Gavin na frente dos portões do estúdio, usando calça jeans e a jaqueta de couro que eu havia acabado de entregar.
Contrariando minhas expectativas, ele toma o assento da minha direita ao invés de usar os bancos de trás. Ah, não. Meu pijama. Eu havia esquecido completamente dele enquanto estávamos do lado de fora, mas agora eu lembrava bem. Muito bem. Se ele percebeu, entretanto, não comentou nada.
- Você já recebeu alguma novidade do estúdio? – Ele me pergunta, depois de me passar o endereço de sua casa – que eu já havia esquecido -, olhando para frente. Conversas com o motorista são, muitas vezes, constrangedoras. Para onde se deve olhar? Para a pessoa, que não pode te olhar de volta, ou para qualquer outro ponto do carro?
- Como você tem tanta certeza que eu serei contratada? – Pergunto, franzindo a testa. Paro no sinal vermelho, ligo o pisca e viro o corpo para a direita, para olhar meu passageiro melhor. – Não tem como você saber se eu escrevo bem ou se eu sirvo para o estágio.
- Sei lá. – Ele dá de ombros. – Você me passa essa vibe escritora.
- Vibe? – Levanto uma sobrancelha, engatando a primeira e colocando o carro para andar de novo.
- É. – Ele volta a encarar o trânsito na nossa frente. Seu tom parecia desinteressado, quase monótono – Escritores são meio loucos. Alguns até saem de pijama no inverno do Canadá.
- Isso não foi exatamente uma escolha consciente. – Eu murmuro, revirando os olhos. Gavin ri. – Eu sabia que não devia dar carona para você.
Gavin solta o ar, rindo baixo. Depois disso, o ar fica um pouco mais denso. Todos os assuntos que tínhamos em comum, considerando que somos dois estranhos um para o outro, já foram gastos na corrida de ontem. O silêncio deixava o ambiente um pouco desconfortável, um zumbido estranho nos meus ouvidos garantia isso. Então, peguei meu celular do suporte no parabrisa e desbloqueei. Jogo o aparelho no colo de Leatherwood.
- Escolhe uma playlist. – Digo, gesticulando.
Ele passa o polegar pela tela do aparelho. Abre algumas das minhas inúmeras seleções de música e dá uma olhada. Parecia que analisava minha alma. Talvez fosse. Minha mãe sempre dizia que a gente pode conhecer muito de uma pessoa pelas músicas que escuta. E, segundo um ditado brasileiro, pelas pessoas que anda.
- Você é brasileira? – Ele me pergunta, quase como estivesse lendo meus pensamentos.
- Eu nasci no Canadá. – Respondo, dando uma olhada no meu celular para ter certeza que a pequena teoria que eu havia criado estava certa. E estava. Gavin encontrara a minha playlist intitulada "Brazilian Girl" – garota brasileira. – Meus pais são brasileiros.
- Então você fala portugês? – Ele indaga, sem tirar os olhos da minha playlist.
- E francês. – Ele me olha, assustado. Consigo ver sua reação com o canto do olho, mas não tiro os olhos da rua. Sorrio. – Eu nasci e cresci em uma província francesa do Canadá. Quebec.
- Ora, pra. Sabe é poliglota. Eu estou me sentindo muito burro. – Ele diz, finalmente decidindo colocar minha playlist de músicas brasileiras no aleatório. Skank começa a tocar nos autofalantes. Gavin balança a cabeça no ritmo de Saideira. Eu murmuro a letra junto com a música. – E o que te trouxe para cá?
- Universidade. – Eu respondo, rápido, virando a esquina.
- Ah! Claro. – Ele bate a mão levemente em sua perna. – Você falou algo assim ontem.
- Falei. – Sorrio, dando uma espiada no cara moreno ao meu lado. Eu pagaria para passar a mão em seu cabelo, mas ninguém ficará sabendo disso. Balanço a cabeça, voltando minha atenção para não bater o carro. – Você é daqui?
- Oregon, na verdade. Vim para cá pela série. – No segundo que ele responde, percebo que dei uma pequena bola fora. Tenho quase certeza que ele falou sobre isso ontem. Ele volta a olhar a tela do meu celular. Gavin franze a testa. – Naomi está te mandando várias mensagens.
- Ignore. – Batuco com os dedos no volante.
- Não acho que eu possa. Ela está ligando. – Ele diz e, logo depois de fechar a boca, a música é interrompida, sendo substituída pelo toque padrão do celular. Eu suspiro, apertando o botão no volante.
- Nai, você sabe muito bem que não pode me ligar quando eu tô trabalhando.
- Eu sei! – A voz da minha amiga reverbera pelo carro. – Você saiu tão rápido, considerando o tanto que a gente bebeu ontem e...
- Naomi. – Eu a interrompo, o rosto queimando. Eu não precisava que minha amiga me humilhasse na frente daquele cara bonito mais do que eu já estava fazendo com um short de pijama. – Eu não estou sozinha. Gavin, diga olá para minha amiga completamente exagerada.
- Hum... Oi. – Gavin diz, depois de uma gargalhada.
- Quais são suas intenções com a minha amiga? – Naomi não se dá o trabalho de cumprimentar de volta. – Aliás, ela não pode namorar agora. Ela está na metade de um livro, não pode ter distrações. Além de um estágio virando a esquina.
- Nai, o que você quer? – Eu digo, ríspida. Se minha amiga continuasse falando, talvez eu precisasse fazer um buraco no meu próprio carro para enfiar minha cabeça dentro.
- Eu queria te perguntar se eu posso emprestar aquela blusinha que você usou no seu aniversário. – Ela responde. Tenho certeza que ela já estava usando minha blusa.
- Pode, Naomi. Da próxima vez, só me ligue enquanto eu estiver trabalhando se nosso dormitório estiver em chamas.
- Obrigada, baby. – Minha amiga responde, ignorando minhas últimas palavras. – Cuide bem da minha amiga, Gavin. Beijinhos.
Naomi desliga. Eu solto o ar de uma vez. Essa garota ainda me pagava.
- Desculpa. – Eu digo, virando o volante, chegando na rua do apartamento de Leatherwood.
- Tá tudo bem. – Ele respondeu. – Sua amiga parece divertida.
- Naomi é louca, isso sim. – Eu digo, dando risada e paro o carro em seguida. – Aqui estamos.
- É... Aqui estamos. – Ele responde. Coloca a mão na maçaneta da porta e quase sai, até que se vira e pergunta: - Qual o seu telefone?
Eu franzo a testa por um segundo. Na minha cabeça, a voz da minha mãe soa, "não dê seu número para estranhos". Porém, ao mesmo tempo, a voz de Naomi a sobrepõe, "você precisa se jogar mais, aproveite a vida solteira por mim". Então, antes que eu pudesse dizer algo estúpido, ele completou:
- Se eu precisar de alguma corrida qualquer dia desses.
- Claro. – Digo, balançando a cabeça.

XXX

Foi um dia longo. Parei apenas ao meio dia para comer qualquer coisa. Chego em meu quarto do dormitório, sem deixar de passar na cozinha e desejar boa noite para as meninas que estavam lá. Assim que abro a porta do quarto, ouço Naomi chiar e posso ver movimento em cima da cama dela.
- Ai, meu Deus, Naomi! – Eu digo, apagando, rapidamente, as luzes que eu havia acendido. – Coloca um aviso na porta da próxima vez! Primeiro que ele nem deveria estar aqui.
Eu me jogo na minha cama, fazendo de conta que eu não estou atrapalhando nada. Eu não ligava, a esse ponto. Eu estava cansada demais para dar privacidade para Owen e Nai. Owen se levanta da cama de minha amiga e veste a camiseta.
- Como foi hoje? – Pergunta Naomi, assim que se aconchega no colo do namorado.
- Cansativo. – Respondo, virando o corpo para vê-los.
- E aquele carinha? – Ela diz, levantando uma sobrancelha.
- Que carinha?
- O que você quase me matou por ter te ligado. – Ela responde, quase como se fosse óbvio.
- Eu não sei. – Respondo. – Owen. Eu preciso da sua opinião de cromossomo Y.
- Manda. – Owen balança a cabeça, colocando o braço por volta de Naomi.
Eu conto o que aconteceu. Sobre Gavin ter falado que esqueceu a jaqueta propositalmente e a história do meu telefone. A todo momento, eu podia ver Naiomi levantar seus olhos para o namorado e levantar as duas sobrancelhas. No fim da minha história, um pouco detalhada demais, pergunto se meu passageiro estava, realmente, flertando comigo ou se era coisa da minha cabeça.
- Hum, dã! – Diz Naomi.
- Eu não pedi sua opnião, Merrick. – Digo, fingindo estar brava.
- , sinceramente. – Diz Owen, fazendo um bico. Ele gostava de fingir que estávamos em Ru Paul's Drag Race quando eu falava sobre garotos perto dele. Não acontecia muito, principalmente, por causa disso. – Me surpreende que ele ainda não tenha te mandado mensagem.
- Mas ele disse que era para trabalho novo. – Eu digo, confusa.
- Você é muito boa em descrever o sentimento dos outros e deixá-los sutis, mas na vida real... Amiga... – Diz Naomi. – O cara quer o seu corpo nu, . Aceita isso.
- Vocês são péssimos. – Eu digo, virando para o outro lado. – Owen, já que eu já estraguei a noite de vocês, apague a luz quando sair. Boa noite.
Posso escutar as risadinhas do outro lado do quarto, mas as ignoro. Estava tão casada que poderia dormir naquele momento, mas o que Owen disse impediu. Puxei meu celular da mesa ao lado, cuidadosamente para que nenhum dos dois percebessem o que eu estava fazendo, e fitei a página de mensagem. O que seria dos meus nervos nessas próximas semanas?


Continua...


Nota da autora: Oi, pessoal! Espero que estejam gostando até agora! A pp tem um Instagram, se vocês quiserem acompanhar mais um pouquinho. É só clicar na logo 🙂! Beijoss.





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