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Última atualização: 17/09/2020

Capítulo 1

LUCAS



- Você me ajuda a gravar um vídeo? - Shannon me perguntava se eu podia ajudá-la mais uma vez.
- Ok... Está pensando em quê?
- Não sei... mais um vídeo em espanhol? - Shannon dá uma gargalhada, enquanto está recostada sobre meu tórax - Desta vez você pode participar, o que acha? - Fico pensativo, enquanto faço carinho em sua mão que está entrelaçada à minha.

Shannon e eu namoramos desde o fim do Ensino Médio. Ela é uma boa amiga e parceira desde então.
Desde que me minha carreira de ator decolou, nos vemos menos que gostaríamos. Me mudei para Los Angeles e ela ficou em Chicago. Confesso que pegar um voo de mais de quatro horas não é tão legal quanto pareceu no início, mas vale a pena. Devido a essa distância, quando Shannon vem, ela costuma passar muitos dias aqui. Por incrível que pareça, Shannon vem mais à minha casa do que meus pais.
O filme que estávamos assistindo acaba e os créditos sobem. Shannon olha pra mim e dá um sorriso malicioso. Não penso duas vezes antes de pegá-la em meus braços e correr para o quarto, para aproveitar esse nosso tempo juntos o máximo que podemos.

***

Acordo no susto com meu celular tocando. Procuro rapidamente no criado mudo ao lado da cabeceira e me esforço para alcançá-lo; Shannon faz de meu braço seu travesseiro, o que dificulta minha tarefa. O nome "Nick" pisca na tela, é meu empresário.

- Alô? - ao atender, percebo a breve luz do sol entre a cortina da sacada. Isso me faz pensar que talvez dormimos demais.
- Lucas? Ei, cara! George acabou de ligar, você conseguiu o papel em "Sweet Criature", ele disse que está ansioso para trabalhar com você. - George Sparks é um dos maiores diretores de Hollywood. O cara é uma lenda, com ótimo instinto para dramas adolescentes - Aliás, você foi escalado para uma participação breve no "Good Morning America" amanhã, então descansa. Além disso, Nick quer que você apareça nos testes para o papel de Liz, que vão começar daqui umas duas semanas. A gente conversa sobre isso na sexta-feira.
- Claro. Onde serão as filmagens?
- Ainda não sabemos... mas provavelmente, longe de LA.

Mais uma vez, a incerteza toma conta de mim. Novo papel, mudança temporária de cidade, programas de TV, entrevistas... parece que tomei um shot de tequila rápido demais para processar todas essas informações.
Olhei para o lado, vi Shannon adormecida ainda em meus braços e acabei esquecendo de finalizar a ligação com Nick. Preciso me preparar para ter essa conversar com Shannon... mais uma mudança, sem previsão de volta.




Meu pai prepara os ovos com bacon enquanto eu preparo a mesa para três: - Dan ligou hoje a tarde. - diz ele. Dan é meu agente, e essa é a minha deixa para me preparar para outro teste. O que vai ser desta vez? Propaganda de absorventes? Mais um papel insignificante de coadjuvante? Outro comercial infantil? - Ele disse que você tem um teste pro papel principal em um filme de ampla distribuição. Você gostaria se tornar a próxima rainha adolescente... - suas mãos entram no modo de enquadramento - ? - Franzo a testa.
- Papel principal? E de onde foi que Dan tirou esse papel? Literalmente da cartola? Ele não arruma nada de, realmente, destaque pra mim há anos... e tem a questão do meu sotaque britânico enferrujado... os americanos vão de fato aceitar meu sotaque? Tô pagando pra ver, hein... - Despejei tudo em cima do meu pai e mal percebi que meu coração estava acelerado e que talvez, apenas talvez, eu estivesse ansiosa para o teste - Além do mais, tenho 20 anos, não tenho mais idade para ser a "rainha adolescente" da garotada...
- Quando é que você vai deixar esse pessimismo de lado, ? Comece a aceitar as coisas boas que lhe acontecem.

Meu pai é desanimado por minha reação um tanto quanto broxante. Ele suspira e joga o pacote com o roteiro na mesa da cozinha, e não discutimos mais o assunto. Pego o pacote, levo para meu quarto e começo decorar as falas.

***

Cheguei ao set de filmagens faltando 15 minutos para o horário marcado. Não queria chegar cedo demais e parecer desesperada ou chegar em cima da hora e parecer atrasada. Entrei na recepção e a bela jovem já parecia estar à minha espera. Ao me identificar como , a mesma me encaminhou para o camarim. Ele era equipado com poltronas e luminárias. No canto da sala, uma mesa de buffet estava posta, regada com frutas saudáveis e pães frescos. Antes mesmo de eu me familiarizar com a sala, uma porta se abre e uma moça loira sai às pressas, deixando-a entre aberta.
Me sentei em uma das poltronas e verifiquei o relógio mais uma vez, a ansiedade estava me consumindo por dentro. Apesar de ser atriz há um tempo, todas as vezes que vou fazer um teste me sinto uma garota indefesa de 8 anos; assim como eu estava, quando fiz minha primeira audição. Não sei se é um carma ou algum tipo de déjà-vu, mas com certeza meu coração parecia estar preso na garganta.
Da poltrona em que me sentei, consegui observar, mesmo que sem querer, um pedaço do set de filmagens. Vi George sentado em sua cadeira de diretor, segurando um bloco enorme de folhas o que me parecia ser o roteiro do filme. Em segundos, Lucas Jade Zumann se aproximou dele e parou ao seu lado. Ainda em pé, apontava para o bloco de folhas nas mãos de George e fazia algumas observações. Seu maxilar cerrado e sua testa franzida pareciam fazê-lo ficar ainda mais atraente. O jovem ator, que conquistou o público em seu papel de Gilbert estava ali, prestes a estrelar como protagonista de um filme de ampla distribuição com um diretor de nome. E, olha que coincidência, eu também!
Sacudi levemente a cabeça, na tentativa de tirar esses pensamentos da mente, pois estava ficando ainda mais nervosa. Me levantei e fui observar a mesa do buffet. Pães, frutas, sucos... nada disso ia passar pela minha garganta agora. Alcancei um copo e o enchi com água fresca.

- Essas uvas são de outro planeta! - Quando estava praticamente no último gole do copo, a voz de Lucas surge ao meu lado, enquanto que seu braço se esticava à minha frente, para alcançar duas uvas grandes e verdes - Já experimentou? - Ele segurou a uva perto demais de meu rosto e por um momento agradeci por estar finalizando meu copo d’água, senão ele estaria totalmente no rosto de Lucas agora.
- Não... na verdade, eu estava apenas tomando um pouco de água. - respondi sem graça, colocando o copo no canto da mesa.
- Eu, sinceramente, não sei de onde eles trazem essas uvas, mas com certeza é do paraíso. Eu só não sei onde fica. - Lucas concluiu sua frase com um sorriso fofo e comeu mais uma uva.
Que Lucas era favorecido pela natureza com sua beleza, todo mundo já sabia, mas vê-lo assim, tão de perto, me fez ofegar por um instante. Sua pele branca e seus olhos cor de mel pareciam ter me hipnotizado.
- . - estiquei a mão para cumprimentá-lo - Muito prazer.
- Muito prazer, . Seja bem-vinda ao set. - Lucas retribuiu meu cumprimento e sorriu de novo. Pegou mais uma uva e fez sinal para que eu o acompanhasse.
Lucas entrou primeiro e eu logo atrás. O set era enorme é completamente equipado com câmeras, luzes e muitos funcionários. Lucas seguiu até George e eu continuei o seguindo.
- já está aqui, George.
- Ah, que ótimo. - George sorri para mim e estica sua mão para me cumprimentar - Você é a próxima, . Está preparada?
- Sim... estou sim. - Sorri timidamente e coloquei minha pequena bolsa em cima de uma das cadeiras que ficavam perto da porta de saída. Respirei fundo mais uma vez e fechei os olhos, repassando minhas falas.

A história de “Sweet Creature” é de um jovem casal adolescente que são apaixonados desde a infância e agora estavam finalmente juntos, planejando o futuro. Porém, Liz, a protagonista pela qual estou lutando pelo papel, descobre uma doença que pode levá-la à morte. A cena do teste é quando o médico fala de sua doença e ela precisa contar para seu amado, Joe.
Lucas parecia estar mais confortável com a cena, afinal ele já havia feito a mesma cena com mais de 10 garotas apenas hoje. Agora, era a minha vez de provar meu valor como atriz.
George nos posicionou no set, que tinha como fundo uma recepção de hospital, com uma mesa de centro e um sofá, onde Lucas e eu colocaríamos em prática o roteiro e, enfim, sentaríamos, chorando no sofá com medo do futuro de Liz.
Lucas parecia ter algum tipo de dom em acalmar ou tranquilizar as pessoas, pois assim que começamos a contracenar, meu coração se acalmou e minha mente ficou focada. O olhar confiante de Lucas me fez me conectar com a personagem e com ele mesmo. Em um estalar de dedos, Liz e Joe eram o casal mais apaixonado que eu havia conhecido.


Capítulo 2



Meu pai e Danielle ficam se entreolhando de lado, enquanto estamos sentados à mesa, almoçando.
Danielle é minha madrasta desde meus 8 anos; minha mãe morreu quando eu tinha 6. Um tumor maligno apareceu em sua cabeça poucas semanas depois de meu sexto aniversário, ele foi rápido e cruel. Minha mãe se definhou em 5 meses e faleceu, pelo pouco que me lembro. Me culpo por minha memória de infância parecer se apagar a cada ano e não conseguir lembrar tanto de minha mãe como gostaria, mas algumas dessas lembranças são tão vivas quanto o céu azul lá fora, e me apego a elas com todas minhas forças. As histórias antes de dormir, eu ajudando-a a estender a roupa ao seu lado e como ela fazia batatas fritas mais do que devia para uma garotinha e 5 anos.
Logo depois, meu pai começou a namorar Danielle e em 13 meses eu ganhei uma madrasta. De alguma forma, eu acho que o luto em homens viúvos é diferente das mulheres. E com certeza a próxima da fila, a madrasta, se importa menos ainda. Foi assim minha infância e adolescência, sem minha mãe, menos atenção de meu pai, mais Danielle se intrometendo em minha vida. E é exatamente o que ela continua a fazer até hoje.

- Então... Lucas estava lá? - pergunta Danielle, limpando os lábios com o guardanapo depois de mastigar.
- Aham. - respondi sem vontade.
- E aí, ele é lindo ao vivo? A cena foi com ele, ou ele só estava lá?

Eu olhei para ela por cima dos óculos e confirmei com a cabeça, enquanto mastigava, num pedido desesperado para aquela conversa acabar logo, pois tinha medo de até onde ela nos levaria.
Meu pai perguntou mais alguma coisa e logo terminei meu jantar. Pedi licença e me levantei.

***

Não quero conversar sobre o teste com ninguém além de .
Conheci no jardim de infância e somos amigas desde então. Estudamos na mesma escola até o sexto ano, quando meu pai resolveu contratar um tutor para mim, afim de conciliar minha agenda de trabalho com a escola. Além de melhor amiga, era como se fosse meu refúgio de "vida normal". Enquanto eu era levada por meu pai e a interesseira da Danielle para todos os lados, fazendo comerciais aqui e alguns filmes ali, voltar para casa e ter morando a alguns quarteirões era como se fosse um copo de água num dia de sol. Foi com ela que fiz furos na orelha, espionei garotos bonitos da vizinhança (armada com os binóculos do pai dela), aprendi a andar de skate (mais ou menos) e tive aulas de direção. Com , dormimos uma na casa da outra, vamos à manicure e conversamos sobre tudo. Com a , eu me sinto normal.
Ligo para ela assim que entro no meu quarto e ela atende no primeiro toque.

- E aí, que cena você fez? Foi uma boa? Você se saiu bem? - ela dispara, sem pausa para respirar.
- A cena do hospital.
- Gente... a mais difícil?
- Sim, a mais difícil, mas, por algum motivo... - respirei fundo ao me lembrar da cena mais cedo - Lucas me deixou confortável e acho que me saí bem.
- Confortável? Qual é, ! Que história é essa de "confortável"? O que Lucas Zumann fez com você? - Comecei a rir e me joguei na cama.
- Sei lá... eu estava nervosa com o teste, mas quando o conheci e fomos para o set, me senti super tranquila. Fizemos apenas dois taques e já estava pronto.
- Esse papel já é seu, . Anota aí!

Paro mais um instante para refletir tudo que esse papel significava pra mim. Ser reconhecida, ser chamada para outros papéis importantes, entrevistas em programas de TV... e uma conta bancária gorda o suficiente para comprar meu próprio apartamento e sair desse inferno que eu chamo de casa. Só assim Danielle pararia de usufruir dos meus benefícios financeiros.


LUCAS


Fiquei no set de filmagens até o fim do dia, acompanhando todos os testes e conversando com George. Algumas garotas foram boas, outras péssimas. Mas uma delas se destacou: . Seu jeito tímido, mas confiante, nos deixou de boca aberta; ela parecia perfeita para o papel de Liz. Mas não sou eu quem decido, então deixo esse trabalho de escolha para George e vou embora.
Peguei meu carro no estacionamento e dirigi até em casa. Quando abri a porta do apartamento, senti um cheiro maravilhoso de queijo derretido.

- Hmmm... que cheiro é esse? - Tirei os sapatos perto da porta e joguei as chaves na mesa do corredor. Chegando na cozinha, vi Shannon mastigando alguma coisa e colocando uma travessa de lasanha sobre a bancada.
- Hoje teremos uma noite de massas. Lasanha, macarrão e canelone. - Shannon apontou para os outros dois pratos que já estavam prontos sobre a mesa.
- E seremos só nós dois ou convidou mais umas 10 pessoas? Porque aqui tem comida demais... - Shannon riu e ajeitou o cabelo.
- De jeito nenhum. Só nós dois. Daqui há dois dias eu vou embora e a última coisa que eu quero é dividir sua atenção com mais alguém. - Shannon se aproximou e envolveu meu pescoço com seus braços. A beijei profundamente e em instantes já estávamos no sofá nos esfregando um ao outro.

Não sei quando tempo se passou, mas quando fomos de fato jantar, o queijo já estava frio.




Quando volto para casa depois da academia, meu pai e Danielle estão abrindo uma garrafa de champanhe: - Você conseguiu o papel! - diz ele, enquanto ela solta gritinhos e me oferece uma taça.

Agora era oficial. Eu seria o próximo par romântico de Lucas Zumann, num filme de Hollywood. As filmagens começariam daqui duas semanas em San Francisco.
Ofuscada pela novidade, pelo salário e pela ideia de trabalhar com Lucas Zumann durante três meses inteiros, faço o que qualquer outra garota faria: pego o celular e mando uma mensagem para minha melhor amiga. estava no intervalo da faculdade e me responde no mesmo segundo:

CONSEGUI
AIMEUDEUS!
Eu sei! PQP!
Eu nunca tive inveja de você, MAS LUCAS ZUMANN?!!!!!
Te ligo depois da comemoração com champanhe e da dancinha de felicidade de Danielle. AFF!
Ignora ela. VOCÊ é a estrela!

***

- Acho que não vamos poder fazer isso pra sempre, né? - diz , olhando ao redor da praça de alimentação.
- O quê, sair em público? Acho que não vou ser tão conhecida assim.
- Realmente, não sabemos ao certo até que ponto sua fama vai chegar, mas não se esqueça - ela se aproxima e abaixa a voz - que você vai beijar Lucas Jade Zumann, e isso vai te transformar em alvo de ódio e mensagens iradas de metade das pré-adolescentes do mundo.
- Droga.
- Total, exceto a parte de beijar Lucas Jade Zumann - me lança um olhar malicioso, erguendo uma das sobrancelhas.
- , você está parecendo um disco arranhado.

Ficamos ali ainda por um bom tempo, observando as pessoas ao redor, vendo crianças puxarem suas mães pela saia e arrastarem até a fila do McDonald's, casais apaixonados dando as mãos por cima da mesa. Até que percebi que, realmente, não sabia quando seria a próxima vez que faria isso com minha melhor amiga, ou se algum dia faríamos de novo.

- Eu queria poder te levar comigo. - digo a ela com um olhar triste - Você me mantém lúcida.
- E eu com certeza iria, se pudesse. Nem que fosse em sua mala. - Sorrimos uma para a outra e continuamos nossas compras pelo shopping.


Capítulo 3



Estou num voo para San Francisco - na primeira classe - com três membros do elenco de "Sweet Criature". Marianna Black vai ser Lia, a irmã mais velha de Liz, e Jane Watson interpretará Jenna, a melhor amiga. A pessoa mais famosa em nosso voo é Brooke Adams, que será a minha "rival" na disputa do coração de Joe, personagem de Lucas.
Marianna recebeu muitas críticas entusiasmadas, após interpretar a personagem principal de um filme dois anos atrás. Dizem que ela é incrivelmente inteligente e cursa a faculdade, mesmo com essa agenda louca de atriz de Hollywood. Eu tinha a impressão que, desde os 15 anos, a vida de Marianna já era completamente planejada para os próximos 30.

- Você devia fazer faculdade! Você pode querer fazer algo diferente um dia, além de que, se continuar na carreira de atriz, vai querer cultivar seu intelecto para conseguir papéis melhores.

Cultivar meu intelecto?
A lógica dela pode fazer muito sentido, mas não tenho certeza. Após o Ensino Médio, comecei a cursar Jornalismo, mais por entusiasmo do que pelo talento, de fato. Então, minha agenda começou a apertar demais e eu meio que desisti. Talvez, se esse filme der certo e eu tiver finalmente meu nome reconhecido, Artes Cênicas seria uma boa opção de faculdade.
Durante o breve voo de Los Angeles para San Francisco, nos conhecemos melhor e passamos o roteiro rapidamente. De acordo com o cronograma, a filmagem começa amanhã às 8 da manhã.
Ao chegarmos à entrada do hotel, vemos que um grupo grande de garotas se agrupa ao redor da entrada, o que parece esquisito para essa hora num domingo.

- Fantástico! - diz Brooke. - O fã-clube Eu Amo Gilbert Blythe não perdeu tempo na vigilância de perseguição. - Eu dou risada, ao pensar que um dia eu também já fui assim com minha boyband favorita.

Fomos guiadas pelo concierge do hotel até nossos quartos, que eram todos no quarto andar. Ao que parece, seria melhor assim para organização e segurança dos atores.

***

Lucas não vai filmar nenhuma cena no primeiro dia, por isso não está no set. Estou tensa em relação a vê-lo, nervosa pelo que vamos fazer no filme, na frente de todo mundo. O que me intriga é que nunca me preocupei com essas coisas, mas também nunca fui protagonista de nada. No fundo, estou feliz por ter um ou dois dias para conhecer melhor o restante do elenco.
Terminamos o primeiro dia de filmagem por volta das 5 horas da tarde. Alguns dias serão muito mais longos, outros vão exigir filmagens noturnas, por isso é bom apreciar qualquer momento de descanso.

- Vocês estão com fome? Porque eu estou morrendo. - Pergunta Jane.

Meu estômago, ativado ao pensar em comida, me lembra que eu não almocei. O serviço de buffet serviu pizzas e saladas gourmet, mas eu estava nervosa demais com o primeiro dia e não comi nada.
Depois de descobrir que não sou a única desejando comer algo, as meninas e eu saímos para um bar próximo e lanchamos algo entre saladas e hamburgueres. Espero que todos os dias não sejam assim, senão, até o fim das filmagens, com certeza ganharei mais uns quilinhos indesejados.


LUCAS


Hoje seria o primeiro dia das filmagens, porém, eu não estaria nele. Pensei até na possibilidade de ir para observar, mas Shannon vai embora hoje e preciso levá-la ao aeroporto.
Por um lado, é bom não ter Shannon por perto, pois, assim, consigo me concentrar melhor no meu papel; por outro, irei sentir muita falta dela. Mas, durante as filmagens, teremos alguns dias de folga, sendo assim, posso visitá-la quando eu quiser.

- Você viu minha escova de cabelo? Não consigo achá-la em lugar nenhum. - Shannon vasculha meu quarto em busca de sua escova, enquanto eu mastigo um croissant que busquei na padaria mais cedo.
- Deixa isso pra lá, Shannon. Vamos acabar nos atrasando e você ainda nem tomou seu café da manhã.
- Tem razão. Da próxima vez, eu levo. - Shannon fecha sua mala e pega um copo de suco para tomar.

Alguns minutos depois, já estávamos saindo, rumo ao aeroporto de Los Angeles. Só de pensar que mais tarde eu estaria naquele aeroporto novamente, já me dava calafrios.
Estacionei meu carro e ajudei Shannon com as poucas malas que ela havia trazido. Ela já havia feito o check-in, então aproveitamos nossos últimos minutos juntos, sentados num banco bem em frente ao seu portão de embarque.

- Quando será que vamos nos ver de novo?
- Não sei, meu amor, você sabe que o início das gravações é sempre difícil e atarefado. Não sei quando terei minha próxima folga tão cedo.
- Promete que irá para Chicago assim que conseguir? - Shannon me lança um olhar triste que parte meu coração.
- Mas é claro que sim, estarei do seu lado quando você menos esperar. - Selei nossos lábios e a abracei forte.
Ouvimos a companhia aérea chamar seu voo e nos despedimos. Shannon passou pela revista e pude vê-la acenando de longe, enquanto eu sorria triste e começava a sentir a saudade apertar.

Aproveitei o restante do dia para descansar e revisar mais alguns textos. Quando a hora do meu voo se aproximava, chequei minha mala pela última vez e chamei um táxi para me levar ao aeroporto.
O voo era rápido e logo eu já estava pousando em San Francisco. Lá tinha um assistente me esperando com uma plaquinha escrito “Lucas Zumann” e que também me ajudou com as bagagens. Seu nome era Jullius.

- Gostaria de passar em algum lugar primeiro, senhor Lucas? - Jullius me pergunta assim que entramos na SUV.
- Não, direto para o hotel, por favor. – Olhei no relógio e já marcava 23h34min. – E me chame de Lucas. - Jullius acenou pelo retrovisor e deu partida no carro. Peguei meu celular e enviei uma mensagem para Shannon:

Já pousei em SF. Tudo certo, já estou indo para o hotel. Te amo xx

***

Meu celular despertou às 6h30min e logo já pulei da cama; início de gravações me deixavam animado. Tomei um banho e me vesti em tempo recorde. Decidi não descer para o café da manhã, pois havia um grupo de garotas na portaria do hotel com blusas e placas escritas “FC Eu Amo Gilbert Glythe”, e a última coisa que eu queria era aparecer e causar tumulto e gritaria para incomodar os outros hóspedes.
O serviço de quarto chegou em poucos minutos e me pude me deliciar com meus cereais e sucos. Um pequeno cartão de boas-vindas ao hotel estava na bandeja, junto com uma pequena flor recém arrancada do jardim. Será que eles eram calorosos assim com todos os hóspedes ou tinha alguma fã encubada, trabalhando na cozinha do hotel?
Ao descer na recepção, fui informado que meu carro já estava à minha espera. As meninas do fã clube me avistaram e eu dei um tchauzinho de longe. Saímos pela parte dos fundos do estacionamento e dentro de uns 15 minutos já estávamos chegando ao set. Cumprimentei algumas pessoas e fui até George.

-Lucas! – ele acenou assim que me viu. – Animado para seu primeiro dia?
- Mas é claro!
- Vou fazer uns taques aleatórios e já te chamo. Fica à vontade no camarim. - Concordei com a cabeça e fui até lá.

Eles haviam montados algumas tendas e algumas partes de compensado. Os banheiros eram mais afastados, nos dando assim um pouco de privacidade. Tudo parecia luxuoso, mesmo sendo algo improvisado e, assim que entrei nas tendas, observei e Jena conversando.

- Que cara é essa, ?
- Estou à procura de um café decente para tomar, porque esse aqui está sem condições.
- Por que você não pede para um dos assistentes do set ir até a cafeteria mais próxima e trazer um para você?
- Posso fazer isso? Quer dizer, isso não é babaquice?
- Não, sua doida. É só pedir, não tem mal algum nisso. - Não pude evitar, ri baixinho do diálogo entre as duas. Talvez ainda não estava acostumada com a fama e suas “vantagens”.
- Tá rindo do que, Lucas? - Sem perceber que elas haviam notado minha presença, disfarcei pegando um bolo de chocolate na mesa do buffet.
- De nada... na verdade, só queria pegar um pedaço de bolo. - Jena revirou os olhos e saiu. parecia um pouco corada, continuando a procurar algo na mesa para comer.
- Quer dizer, então, que vamos precisar achar alguma cafeteria por aqui... – comecei a puxar assunto.
- É... parece que sim. – respondeu tímida.
- Como foi a gravação ontem? - me sento ao seu lado no sofá.
- Ah... foi bom. Gravamos até às 17h.
- Legal. Já conheceu todo mundo?
- A maioria. Só falta gravar o nome de todo mundo, tenho uma péssima memória. – Ela responde, bebericando um suco de parecia ser de laranja.
- Péssima memória? Não é algo bom para uma atriz. – Sorrio de lado e ela se vira para mim.
- Na verdade, eu só preciso de um pouco mais de esforço.

Os minutos se passaram e nem percebemos. Logo George já estava nos gritando para gravar.

O dia foi bom, rendeu umas boas cenas e fomos liberados mais cedo do que esperávamos. No final das gravações, os principais atores estavam aglomerados próximo ao camarim, então resolvi me aproximar. Mas não percebi que a alguns metros dali, havia um grupo considerável de garotas adolescentes perto da demarcação entre o set e a rua mais próxima. Mesmo de longe, elas me viram e começaram a gritar desesperadamente.
De primeira levei um susto, depois acenei simpático. O segurança tentou acalmá-las e, por incrível que pareça, elas obedeceram. Dessa forma, decido me aproximar. Antes, olho mais uma vez para o grupo de atores e vejo me olhando e sorrindo timidamente. Tenho uma ideia: vou até ela e discretamente pego em sua mão. Ela fica um pouco surpresa, mas sorri quando eu pisco para ela, então arrasto até as meninas eufóricas.

- Vem! Elas querem conhecer Liz Watson. - Senti se contrair, mas acaricio sua mão com meus dedos, na tentativa e acalmá-la. - Olá. – Cumprimento as meninas que respondem um “olá” em forma de coral – Querem conhecer Liz Watson? - sorri e acena timidamente para as meninas.
- Vocês são lindos juntos. Posso tirar uma foto? - Uma fã pergunta e nos entreolhamos.

Concordamos e nos abraçamos para foto. era pequena e magra pelo que me lembrava da cena de nosso teste; de algum modo, ela parecia frágil demais para uma garota de 20 anos. Senti sua mão me apertar, por trás de meu moletom, e percebi o quanto ela estava desconfortável com essa situação. Sendo assim, resolvi não demorar muito ali.
Nos afastamos e senti soltar sua respiração devagar, como se tivesse prendido todo aquele tempo.
- Você está bem?
- Sim. Eu só... eu só não estou acostumada com... isso. – Ela apontou para a direção de onde viemos.
- Está tudo bem. Uma hora você se acostuma. - Fiquei ali olhando para por alguns segundos, vendo-a tentar se acalmar um pouco, quando Marianna grita de longe.
- ! Vamos para o hotel? Tem um carro indo para lá agora. - olhou para mim e sorriu, mais uma vez, em forma de despedida, indo ao encontro de Marianna e Brooke e então foram embora.


Capítulo 4

LUCAS


Apesar das filmagens já terem começado há alguns dias, a direção resolveu dar uma festa para o elenco e produção de Sweet Criature como boas-vindas e, para o evento, era autorizado trazer acompanhantes ou familiares. Shannon adiantou sua visita do fim do mês para este evento, o que me deixou feliz por ver minha namorada novamente.
Seu voo chegaria por volta das 18h e eu mesmo iria buscá-la no aeroporto. Quando necessário, eu alugava um carro por alguns dias para não precisar ter que solicitar um motorista da equipe todas as vezes que eu fosse sair. Com um carro alugado eu tinha certa liberdade de ir aonde eu quisesse.
Esperei, ansioso no saguão, Shannon aparecer e poder abraçá-la, cheio de saudade. Suas poucas malas me fizeram agradecer mentalmente e corrermos para o carro, para finalmente nos prepararmos para a festa de daqui a pouco.
Deixamos o carro no estacionamento privado do hotel, o que nos ajuda a desviar do fã clube que permanecia fincado em frente à recepção. Fizemos o check-in de Shannon, pegamos o elevador e entramos no meu quarto.

- Caramba! Seu quarto é ótimo, amor!

Shannon jogou sua bolsa e seu casaco no divã aos pés de minha cama e foi em direção à sacada. As luzes azuis iluminavam a piscina e as verdes os jardins, muito bem cuidados pela manutenção do hotel. Fui até Shannon e a abracei por trás, beijando seu pescoço. Shannon se virou e correspondeu meus beijos com carinho e tesão. Sem perder tempo, fechamos a porta, as cortinas e nos jogamos na cama.




Festas como essa me deixavam nervosa. Apesar de já trabalhar na área há anos e tentar alcançar meu sucesso, a fama e suas regalias não eram coisas que eu almejava. Lidar com pessoas ricas, exibindo a si mesmas e sua fama com certeza não me deixavam nada confortável. Mas, ao mesmo tempo, eu não poderia deixar de ir e ser a atriz esquisita que não queria ser amiga de ninguém. Sendo assim, não me restava nada além de me jogar no chuveiro e me animar para esta noite.
Sequei meus cabelos e exagerei na maquiagem, com olhos pretos e batom vermelho. Meu vestido tomara que caia preto me deixava sedutora demais para alguém como eu. Mesmo assim, por incrível que pareça, resolvi acatar o conselho de Danielle e colocá-lo em minha mala, pois em algum momento eu precisaria dele. Finalizei o look com minha sandália e salto fino também preta e equipei minha mini bolsa com celular, balas de hortelã e o batom para retoques que mais tarde seriam necessários.
A festa seria um lugar um pouco afastado do centro de San Francisco. O local era enorme e parecia como um sítio ou casa luxuosa, com um grande lago recepcionando os convidados. O lindo jardim era bem iluminado e decorado com balões prata e dourado. Os carros deixavam o elenco na porta do salão, um por um, onde havia uma pequena aglomeração de atores e convidados, conversando e se apresentando entre si. Eu esperava sinceramente que este evento não fosse noticiado e que Danielle descobrisse que ela poderia ter vindo a festa, mas eu não a convidei. Só de imaginar Danielle se exibindo para meus colegas de elenco já me dava enjoo.

- ! - Brooke grita ao me ver entrando no salão, e se apressa em me cumprimentar. Sorrio e a abraço.
- Este é meu irmão, Mike. - O rapaz, bonito demais para ser observado rapidamente, estica a mão e murmura um “muito prazer” enquanto eu correspondo o gesto. Eles estavam recostados em uma mesa alta, estilo bistrô, onde apoiavam seus drinks enquanto conversavam. Resolvi ficar por ali mesmo onde me sentia mais confortável e invisível.

O elenco chegava em peso e suas famílias lotavam a pista de dança. Resolvi voltar ao bar e pegar mais um drink, quando me virei para a porta e vi Lucas entrando, acompanhado de uma garota. Ela era alta e tinha cabelos longos, estava bem arrumada e usa salto altos. Fiquei parada tempo demais os observando e pensando se ela era sua namorada. Essa era uma informação que eu deveria saber.
Lucas passa os olhos de forma geral e encontra os meus, o encarando. Me viro novamente para o bartender e dou um gole no meu drink de bebida destilada, na tentativa de disfarçar esse desconforto de ter sido flagrada.

- ! - Ouço a voz de Lucas me chamar, mais perto de mim do que eu gostaria. Como se nada tivesse acontecido, me viro e finjo surpresa, como se tivesse o visto apenas naquele momento.
- Lucas! – Ele se aproxima e me dá um beijo rápido na bochecha em cumprimento.
- Essa é Shannom. Minha namorada. - Eu me gelo por inteira ao confirmar que a garota era sua namorada e tento não arregalar os olhos. Sorrio mais uma vez, sem graça, e a abraço brevemente.
- Então é você que beija meu namorado quando não estou perto? - A piadinha de Shannon me pegou desprevenida e agradeci mentalmente por não estar bebendo naquele momento ou aconteceria um acidente com sua roupa ao ser cuspida por mim. Ao perceber meu desconforto, Lucas dá uma risadinha do comentário ridículo de sua namorada.
- Mais ou menos isso... pelo menos eu faço quando você não está olhando. - Sem perceber que eu tinha uma resposta na ponta da língua, disse antes que eu pudesse controlar. Nessa hora, Lucas dá uma gargalhada, aparentemente achando mais graça da minha piada do que de Shannon. Talvez meus drinks já estivessem fazendo efeito. Como se Lucas adivinhasse meus pensamentos, ele puxa Shannon pela cintura e a leva para o lado oposto do salão. Termino meu drink e pego outro antes de voltar para a nossa mesa.
- Que cara é essa, ?
- Eu acabei de ter um momento bem desconfortável com Lucas e sua namorada.
- Aquela garota está aqui? – Brooke pergunta indignada – Ela é um nojo!
- Você a conhece?
- Você não? Ela é uma aproveitadora! Tem um canal no YouTube e fica usando a fama de Lucas para promover seus vídeos.
- Ela é Youtuber?
- Em que planeta você vive, ?
- Brooke, até cinco minutos atrás, eu não sabia nem que Lucas namorava!
- Meu Deus, ! Você não pesquisou nada da vida de Lucas antes de contracenar com ele? - Por um momento, não achei a ideia de Brooke tão ridícula assim. Se eu tivesse feito isso, talvez teria sido evitado momentos como o que eu acabei de passar.
- Que droga! Eu nem queria ter vindo nessa festa... – murmurei, bebendo mais um gole do meu copo.
- Qual é, ! Não vai deixar essa garota escrota estragar sua noite! Você está super gostosa nesse vestido e vai seduzir todos os caras dessa festa. Bora para a pista de dança! - Sem poder me defender, Brooke me puxou pelo braço e me arrastou até a pista de dança. Coldplay tocava em modo remix, enquanto começávamos a nos soltar e dançar como duas melhores amigas. Por um momento, queria que estivesse ali comigo.

As horas foram passando e a festa ficava cada vez mais animada. Mesmo sem gostar de me expor muito, permaneci na pista de dança a maior parte da festa. Bebi além do que estava acostumada e fiquei à vontade até demais. Com o cansaço nas pernas começando a me incomodar, me lembro que devo voltar com minha rotina de atividade física. Murmuro para Brooke que vou para o hotel.

- Mas você não pode desistir agora, é cedo!
- É uma da manhã! – Dou risada – Isso é cedo?
- Estamos só começando!
- Tenho que acordar cedo amanhã para correr. - Brooke parece horrorizada.
- O quê, antes da filmagem?
- É, ao meio-dia o sol está quente demais. Vejo você amanhã!

O manobrista chama um dos carros enquanto eu espero, observando várias pessoas ao redor espalhadas pelo jardim e entrada do salão. Nunca contei a ninguém além de , mas eu sei que devo minha capacidade de atuar à observação compulsiva de pessoas. Eu nunca conseguiria expressar as emoções de tantas pessoas diferentes, algumas das quais eu não suporto nem quando são fictícias, se não observasse constantemente a interação entre elas.
Enquanto desembrulho uma bala de hortelã, Lucas sai do salão e me vê parada na calçada esperando o carro.

- Vai voltar para o hotel? – pergunta se aproximando.
- Sim.
- É cedo...
- Preciso voltar minha rotina de caminhada amanhã. Não posso dormir muito tarde. - Lucas pareceu ponderar minha resposta e observou o carro estacionar no meio-fio. Seu celular apita e ele olha para a tela, digitando rapidamente uma resposta e logo devolvendo o aparelho ao bolso.
- Então... até amanhã?
- Até. - Sorrio triste e entro no carro.

O despertador do celular toca às seis da manhã. Fico momentaneamente desorientada, depois me arrependo de ter feito um pacto comigo mesma para correr. Enquanto coloco o short e escovo o cabelo para fazer um rabo de cavalo, evito olhar para a cama desarrumada, com lençóis macios e travesseiros fofos. Analisando o mapa de trilhas de corrida ao redor do hotel, amarro os tênis, determinada a escapar do quarto antes que a cama me convença a abandonar a corrida e voltar a dormir.
Quando atravesso o saguão, ouço meu nome. Viro e sou surpreendida ao ver Lucas de camisa, short e tênis.

- Oi! Você vai correr? – pergunta ele, depois para, percebendo minha expressão confusa. – Escuta, não quero atrapalhar, se você prefere correr sozinha...
- Ah... não, eu só ia procurar uma das trilhas neste mapa.
- Então vem. – diz ele, enquanto saímos do hotel – Tenho a vasta experiência de um dia para encontrar trilhas, então eu meio que sei para onde ir. No mínimo, posso prometer que não vamos parar em Dallas. Nem no México. - Agradeço por ser 6 e pouca da manhã e ainda não ter nenhuma sócia do fã clube “Eu Amo Gilbert Blythe” na portaria da recepção.
- Você corre todo dia? - Ele encolhe os ombros.
- Eu faço todo tipo de exercício: corrida, escalada, bicicleta, musculação, ioga. Senão vira um tédio.
- Hum. – digo – Eu praticamente só corro. Tenho dificuldade até para lembrar de fazer abdominais de vez em quando. Não posso fazer aeróbica, porque danço muito mal e me recuso a fazer spinning. Se eu quiser que alguém grite comigo durante os exercícios, peço pro meu agente dirigir do meu lado e ficar gritando obscenidades enquanto eu corro.
- Não acredito que você dance mal, já que eu sei por experiência própria... bom, não experiência exatamente, mas por observação própria. – Ele está analisando o mapa e as placas de rua, e me pergunto se ele quis dizer que me observou dançando ontem à noite.
- Dançar numa aula é diferente, principalmente quando tem equipamentos, tipo steps ou aqueles elásticos gigantes. É um desastre. - Ele ri. - Sério, quem inventou esses elásticos?

Corremos alguns quarteirões até a trilha, enquanto o sol aparece totalmente atrás de nós, e o céu se transforma em um tom cada vez mais claro de azul, sem nuvens à vista.

- Obrigado por me convidar para vir junto. – Lucas diz e quando olho para ele com a mesma expressão confusa do saguão, ele sorri. Não consigo evitar de sorrir de volta enquanto ele acerta o passo com o meu.

Estamos longe o suficiente do hotel agora, de modo que, quando olho para trás, não consigo vê-lo. Shannon! Ao tentar enxergar o hotel, me lembro de Shannon e que provavelmente ela estaria lá. Gostaria de perguntar, mas não queria parecer intrometida demais. Mas quando se tem uma namorada e acorda às 6h da manhã para correr com outra garota, surge essa “pequena” dúvida.

- Sua namorada... já foi embora? – parabéns, . Bem discreta.
- Não, ela vai daqui a três dias.
- Ela não vai ficar chateada de acordar e não te ver na cama com ela.
- Não, ela sabe que saio cedo para correr. Às vezes ela vem comigo, bem às vezes. - Rimos juntos.
- Você viu aquelas garotas que ficam na frente do hotel?
- Está perguntado dos membros do fã clube “Eu amo Gilbert Blythe”?
- Que loucura, né.
- Às vezes acho que Gilbert Blythe vai me assombrar para o resto da vida.
- Não fala assim...
- Digo... eu amei fazer Anne with an E, mas parece que nunca vão se esquecer disso.
- Qual é, Lucas. Você fez o papel recentemente, então é claro que vão falar dele. E agora em Sweet Creature você tem a chance de consagrar seu nome como ator.
- Você está saindo uma ótima conselheira, . – Ele sorri, me olhando. – Você também foi contratada como psicóloga do elenco?
- Só estou dizendo a verdade.
- Sobre os fãs, acho melhor você também ir se acostumando para ter seus os seus próprios, viu. Eu já te disse isso.
- Pfff. – Eu o dispenso com um aceno, não convencida de que estou prestes a ficar famosa, apesar de ele estar apenas ecoando o que disse pouco antes de eu sair de casa.
- Quando você faz um papel com a quantidade de fãs que já temos, tudo o que o elenco é investigado. - Franzi a testa o encarando.
- Quer dizer que nossa caminhada matinal já vai estar em capa de revistas de fofocas amanhã? - Ele ri a sacode levemente a cabeça.
- Por exemplo, se tiver química na tela, as pessoas vão supor que também tem fora da tela.
- Hum. - foi só o que consegui responder. - Fiquei pensando por um instante se ele estava insinuando que de fato temos química fora das telas, ou apenas queria ser fotografado comigo caminhando por aí como estratégica de marketing para si próprio e o filme.
- Talvez a gente não seja tão convincente na tela.
- Acho que eles não teriam te escolhido se não tivesse química. – Lucas para de frente para mim, me forçando a parar a caminhada. Por um momento, pensei que ele fosse me beijar. Ele sorriu levemente e tirou um cabelo que estava caindo em meus olhos.
- Eu não tinha pensado por este lado. – Digo quando ele volta para meu lado.
- Bom, você não tem motivo para entrar em pânico. Ainda.


Capítulo 5

LUCAS

Chegamos ao hotel eram pouco mais de 7h da manhã. e eu fomos para cada um de nossos respectivos quartos, para tomar banho e nos arrumarmos para a gravação que começaria em breve.
Coloquei o cartão na porta do quarto e entrei. Vi uma Shannon um tanto quanto chateada parada na porta de vidro da sacada fechada, observando o jardim abaixo.
- Bom dia, amor. – Disse tirando a camisa para entrar no banho, mas ela não me respondeu. – Shannon?
E então ela se virou para mim com os braços cruzados um olhar furioso.
- Como foi sua caminhada?
- Foi ótima. O dia está lindo lá fora.
- Você foi sozinho?
Algo no tom de voz dela me dizia que ela já sabia a resposta a sua pergunta. Ponderei se sua chateação seria pelo motivo de eu ter saído com ou se seria por outro motivo desconhecido. Se esse fosse o caso, mentir estava fora de cogitação. E, afinal, eu não estava escondendo nada de ninguém, muito menos fazendo alguma coisa errada.
- Não, eu fui com a .
- Quer dizer então que vocês agora são melhores amigos fitness?
Dei risada com a nomeação que Shannon deu a mim e a , mas logo me calei ao ver que ela permanecia com o olhar chateado.
- Ei... tem alguém com ciúme? – Me aproximei de Shannon para abraçá-la pela cintura e tentar beijá-la, mas fui afastado por ela.
- Não estou achando graça nenhuma, Lucas.
Shannon se afastou para o lado oposto do quarto, sua respiração era ofegante e estressada. Nunca havia visto Shannon daquele jeito, e nunca a vi dando surtos de ciúme.
- Shannon... eu só fui me exercitar, ok? Não fiz nada demais. Agora se você quiser ficar aí emburrada sem motivo, fique à vontade, porque eu tenho muito trabalho para hoje.
Sai tirando minha roupa e fui até o banheiro. Fechei a porta atrás de mim, finquei meus dedos na bancada da pia e me encarei no espelho. Meu rosto estava vermelho, ou por causa dos exercícios que havia feito ou pela raiva que estava sentindo naquele momento. Qual é, não tenho tempo para ataques de ciúmes de uma namorada grudenta.
Liguei o chuveiro e tomei uma ducha gelada, na tentativa de acalmar a raiva e literalmente esfriar a cabeça. Me vesti com minha calça jeans e uma camiseta branca, sacudi o cabelo com os dedos para tirar o excesso de água e enfiei o celular e o cartão do quarto no bolso. Estava prestes a sair pela porta, quando ouvi Shannon perguntar:
- Você não vai tomar café da manhã?
- Vou comer no set.



O set estava lotado. Grande parte do elenco principal estaria filmando hoje e eu contracenaria com a maioria deles. Com Lucas, minhas cenas seriam apenas na parte da tarde, mas na hora do almoço todos ficaríamos juntos.
O observei de longe e algo nele parecia diferente do Lucas que eu havia encontrado hoje pela manhã, seu semblante era sério e seu maxilar não relaxava. Não que eu estivesse reclamando, afinal aquilo era um charme, mas o motivo me preocupava. Ele estava sério e concentrado. Lucas era um ótimo ator, mas algo no meu subconsciente me dizia que seu olhar fechado não tinha nada a ver com concentração. Quando fomos almoçar, ele ainda parecia chateado. Ao se sentar a mesa para almoçar, tomei a liberdade de sentar à sua frente.
- Ei.
- Oi, .
- Tudo bem? – Olhei sinceramente e busquei no seu olhar a resposta a minha pergunta.
- Tudo... é... sim, está tudo bem.
Ele respondeu, mas de modo algum me convenceu. Pensei em dizer algo para tentar tirar a resposta dele, mas me sentiria intrometida se o fizesse. Talvez ele não quisesse falar sobre o assunto. Talvez ele não quisesse falar sobre o assunto comigo. O olhei por mais um instante e fingi acreditar. Comecei comendo minha salada e ficamos em silêncio por mais uns minutos.
- Teremos algumas folgas essa semana, né. – Lucas tentou puxar assunto.
- Uhum. – Respondi mastigando discretamente.
- Vai visitar a família ou alguma coisa do tipo?
- Não, acho que vou ficar por aqui mesmo. – Respondi bebericando um pouco de meu suco. – Na verdade, nem pensei nisso. E você?
- Só sei que eu não vou para Chicago.
- Sua família mora lá?
- Sim.
- Seus pais devem estar com saudade de você. – Dei uma risadinha.
- Talvez... mas eles vão ter que esperar um pouco.
Ponderei mais uma vez sobre sua resposta. Algo me dizia que aquele semblante fechado tinha a ver com Chicago. Teria acontecido algo com sua família? Ele estava sem vontade de viajar? Teria algo a ver com Shannon? Lucas mastigava e permanecia com o olhar para a comida. Jane e as outras meninas gargalhavam na outra ponta da mesa. Os outros meninos as rodeavam, era o pessoal da produção e figurantes. Eles pareciam bem entrosados. Sorri ao ver que o clima no set era de parceria, sempre achei isso legal. Já vi e ouvi tantas histórias de filmes e séries que os atores e a produção não se davam bem, ou que os protagonistas tinham “ataques de estrelismo” que sempre tive medo de presenciar ou passar por algo parecido. Mas não era o que acontecia em Sweet Creature. A parceria era visível com a maioria do pessoal e eu estava adorando isso.
Ao viajar em pensamentos, percebi que Lucas me olhava fixamente. Fiquei sem graça e me perguntei se tinha um pedaço de alface nos meus dentes. Limpei os lábios com o guardanapo e Lucas continuou comendo seu almoço, rindo brevemente. Ele tem covinhas? Como nunca havia reparado nisso?
- O que foi, Lucas Zumann? Qual é a graça desta vez?
- Nada. – Ele responde ainda sorrindo.
- Espero que não se engasgue rindo de mim, porque se isso acontecer, quem vai rir, sou eu!
Nós dois rimos e ficamos sem graça ao mesmo tempo. Percebo que há algo a mais no olhar de Lucas, ele parece mais calmo e ter se esquecido do que o chateava mais cedo. De qualquer forma, é sempre bom ver Lucas sorrindo, definitivamente, ele ficava mais bonito assim.
A visão que eu tinha de Lucas era de um jovem ator que tentava alcançar o sucesso desde bem cedo, talvez isso o fizesse parecido comigo. Porém, sem sombra de dúvidas, ele era ‘mais sucedido’ do que eu neste quesito. Mas ao mesmo tempo, eu via um Lucas que queria ter uma vida normal e tranquila. Posso estar errada, mas talvez o sucesso que fez no papel de Gilbert o subiu à cabeça. Claro que foi bom para sua carreira um personagem de sucesso, mas parecia que Lucas já estava cheio dele. As incansáveis fãs imploravam para que a Netflix renovasse a série, mas acho que Joe era o que Lucas precisava neste momento: um novo personagem, uma nova história para contar. E era exatamente isso que eu queria proporcionar a ele.

Quando já se aproximava das 16h, meu corpo já pedia descanso. Mesmo assim, eu ainda tinha mais 4 horas de gravação pela frente, e seriam todas com Lucas.
Antes de seguirmos para os próximos takes, senti minha cabeça girar e minhas pernas enfraquecerem. Aproveitei os breves minutos de intervalo e corri para o camarim para tomar uma água e tentar me refrescar um pouco. O dia em San Francisco estava ensolarado e mais calor que os dias anteriores.
- ? Você está bem?
Marianna estava no camarim e perguntou ao me ver chegar, cambaleando para os lados. Me sentei na primeira cadeira e vi e senti meu corpo em calafrios. Marianna segurou minha mão e me ajudou a sentar.
- , você está branca feita uma cera! Consegue me ouvir?
Minha vista estava embaçada e minha cabeça girava rapidamente. Eu ouvia Marianna, mas não conseguia pronunciar a resposta.
- Vou chamar a enfermeira!
Marianna saiu em disparada, mas eu queria mesmo era pedir para ela ficar. Eu tinha pavor de passar mal sozinha. Se ela estivesse ali, ainda segurando minha mão, em alguns minutos eu estaria melhor e poderia voltar às gravações. Mas eu simplesmente não consegui. O camarim ao redor começou a escurecer e eu tentei me levantar. Antes que encontrasse o chão, ouvi Lucas me gritando e correndo ao meu encontro.
- ! - No outro segundo eu estava nos braços de Lucas. O senti me pegar com seu braço esquerdo em minhas contas e seu braço direito por baixo de meus joelhos. Lucas me levantou no mesmo segundo que eu caí. – Preciso da ambulância!
E foi a última coisa que eu ouvi antes de apagar.


Meus olhos se abriram devagar e a claridade incomodou minha visão. Ao tentar colocar as mãos nos olhos, vi que tinha algo agarrado em minha mão. Era um cateter venoso. Olhei em volta e aparentemente eu estava em um hospital. Uma bolsa de soro estava pendurada ao meu lado e os aparelhos me monitoravam.
- Olá, . Seja bem vinda de volta.
A enfermeira simpática me deu as boas vindas e logo já veio checar minha pressão manualmente. Seus cabelos eram loiros cintilantes e seus olhos azuis como o mar. Sua bondade me deu conforto, ao perceber que tinha tido mais um desmaio rotineiro. Sentir fraqueza e resultar num desmaio era roteiro na medíocre vida de Evans, sinceramente viu? Aquilo me matava. Puxei na memória os últimos momentos e me lembrei que estava no set quando comecei a sentir a fraqueza.
- Você parece estar bem, . Não se preocupe. Vou chamar o médico para ver você, está bem?
- Obrigada... qual seu nome?
- Karen...
Sorri em agradecimento enquanto Karen se encaminhava para a porta do quarto.
- Ah! Você quer que eu peça para o jovem rapaz entrar?
Karen me deu um risinho daqueles intimidadores e pensei de quem ela estava falando. LUCAS! Ah, meu Deus! Lucas estava ali! Meu coração acelerou em desespero só de pensar que Lucas me veria com essa cara ridícula de quem desmaia à toa. Tentei me ajeitar na maca e passar os dedos nos cabelos, na tentativa frustrada de penteá-los. Poucos segundos depois, Lucas entra no quarto e fecha a porta atrás de si. Com pressa, ele caminha rapidamente até a mim e se joga num abraço apertado.
- Graças a Deus você está bem!
Me assustei com seu desespero e me perguntei se meu desmaio foi tão feio assim.
- O que você está fazendo aqui?
- Como assim, ‘O que eu estou fazendo aqui?’? Você desmaiou, ! No set!
Lucas tinha os olhos arregalados e a testa franzida. Seu semblante estava tenso novamente. Tentei enxergar o Sol lá fora pela janela, mas percebi que já havia anoitecido. A quantas horas eu estava ali? O que de fato havia acontecido comigo? Lucas tinha ficado ali comigo todo esse tempo?
- Você me deu um baita susto! Estava quase na hora da nossa primeira cena do dia e eu não encontrava você, aí resolvi te procurar no camarim, foi quando te encontrei tentando parar em pé. Você ia se estabacar no chão. Você apagou, !
Lucas ia contando e aos poucos eu ia me lembrando dos últimos eventos antes do desmaio. Fiquei envergonhada por ter passado isso na frente de Lucas. Me perguntei em qual hospital eu estava e quem iria pagar a conta; nem sabia se meu plano de saúde cobriria esse tipo de coisa aqui em San Francisco. Me perguntei se alguém ligou para meu pai ou se tinha mais alguém, além de Lucas, ali no hospital.
- Eu nem sei o que dizer... obrigada?
Lucas sorriu triste e me abraçou de novo. Seu perfume adentrou minhas narinas e fui entorpecida. Fechei meus olhos e me permiti ser hipnotizada por seu cheiro fresco. Tentei retribuir ao abraço, mesmo estanho presa por cateteres e monitores. Ficamos ali por breves segundos, mesmo parecendo ter durado uma eternidade. O abraço de Lucas era aconchegante e revitalizador.
- Estou atrapalhando?
Uma voz masculina nos interrompeu e Lucas se afastou rapidamente.
- Não, doutor.
O médico simpático veio me verificar mais uma vez, passou algumas instruções e disse que me daria alta em breve. Carinhosamente me orientou para que isso não acontecesse novamente. Sorri em agradecimento e verifiquei a lista de remédios e vitaminas que ele havia passado.
- Prontinho, Lucas. Agora você vai poder levar sua garota pra casa.
Queria corrigi-lo e dizer que eu não era ‘a garota de Lucas’, mas Lucas não o fez. Apenas pegou um envelope com meus exames realizados e agradeceu ao médico mais uma vez. Me senti como se alguém realmente se importasse comigo. Passar grande parte da minha vida sem minha mãe foi bem difícil. Sempre odiei hospitais e quando era necessário visitá-lo, de vez em quando, sempre me sentia sozinha. Meu pai não leva jeito para essas coisas e quando Danielle estava junto, sempre estava mais preocupada em perder sua fonte de renda, no caso eu, do que qualquer outra coisa. Ao ver Lucas ali, cuidando de mim, fez meu coração se aquecer.
- Vamos pra casa?

Roger, o motorista do elenco, estava na recepção a nossa espera. Perguntei se mais alguém estava ali, Lucas disse que Marianna também tinha vindo, mas que agora éramos só nós três. Roger foi ao estacionamento buscar o carro e me ajudou a entrar no banco de trás. Lucas me acompanhou e não soltava minha mão por nada. A todo tempo verificava minha temperatura com a mão na minha testa e perguntava se eu estava sentindo alguma coisa. Chegamos ao hotel em minutos. Ao passarmos pela recepção, vi que o relógio já marcava 22h34min.
Confesso que pegar o elevador me deu um pouco de vertigem, mas subir quatro andares de escada seria bem pior. Lucas tinha minha bolsa pendurada em seu ombro e a sacudiu procurando o cartão-chave do meu quarto.
- No bolso de fora.
Apontei para facilitar que ele encontrasse. Com habilidade, ele equilibrava a bolsa, me segurava pela cintura e tentava abrir a porta ao mesmo tempo. Carinhosamente, ele me ajudou a caminhar até a cama, jogou minha bolsa na poltrona, correu para fechar as cortinas e ligou o ar condicionado e colocou em 20°.
- Você está com fome?
- Na verdade, acho que preciso de um banho.
- Você precisa de ajuda? Posso chamar uma das meninas.
- Lucas... não se preocupe, tá bom? Acho que já sei tomar banho sozinha...
Eu ria de sua preocupação em excesso enquanto ele procurava em meu guarda roupa uma roupa mais confortável. Pedi que ele pegasse meu baby doll amarelo, pois era fresco e confortável. Peguei uma toalha de banho nova e fui para o banheiro.
Deixei a água morna cair em meus ombros e tentei relaxar. Um banho de chuveiro demorado é bem apropriado para quem quer meditar e pensar em coisas aleatórias. Meus dias haviam sido puxados e corridos. Confesso que minha alimentação não está tão saudável quanto deveria e tenho dormido relativamente pouco, e isso era um prato cheio para minha pressão baixa.
Pensei na época que Danielle me obrigou a ir numa nutricionista, que me ajudou muito na época e, se eu tivesse um pouco mais de capricho, poderia estar me ajudando até hoje. sempre puxava minha orelha quando eu comia fast food demais... me lembrar disso fez com que a saudade apertasse um pouco mais. Permiti que algumas lágrimas de cansaço caíssem e se misturassem com as gotas do chuveiro.
Pensar que Lucas estava ali fora me esperando me fez querer ficar no chuveiro pra sempre. Eu havia passado uma vergonha que dificilmente seria esquecida. Mas, ao mesmo tempo, pensei um pouco mais em que como Lucas está sendo um anjo em minha vida. Graças a ele tive um socorro rápido e eficiente. Sua preocupação o fez ficar horas no hospital a minha espera e ainda estava ali ao meu lado para segurar a minha mão (literalmente).
Como um soco no estômago, Shannon veio a minha mente. Era inegável que eu e Lucas estávamos nos aproximando cada vez mais e talvez isso estivesse confundindo minha mente. Sua atenção estava de fato me fazendo sentir especial. Mas ele tinha uma namorada. Ele tinha um amor! Pelo que eu sei, eles já namoram há um bom tempo, e a última coisa que eu queria era atrapalhar isso. Mas de novo a confusão estava em minha mente. O que tudo isso significava? Eu estava me apaixonando por Lucas?
- ?
Ouvi Lucas chamar meu nome pela porta e me fez despertar. Desliguei rapidamente o chuveiro e puxei a toalha do suporte.
- Já estou saindo.
- Está tudo bem?
Não respondi, pois estava ocupada demais me equilibrando tentando enfiar as pernas dentro do short. Ao abrir a porta, trombei com um Lucas escorado como se tivesse com o ouvido colado nela.
- Desculpa... eu só estava preocupado.
- Lucas, eu estou bem, ok? Eu agradeço a preocupação, mas não precisa tanto.
Caminhei até a cama e me joguei debaixo do edredom. Lucas deu uma risadinha, não levando fé no que acabara de dizer e me deu aquele olhar que me fazia derreter por inteira, aquele que forma uma covinha em sua bochecha e que faz seus olhos fecharem.
- Tudo bem então, senhora ‘Eu não preciso de ninguém’, dá próxima vez que eu ver você caída em algum lugar, eu te deixo por lá mesmo.
Lucas disse fingindo estar bravo, mas ambos sabíamos que isso não era verdade. Ele se juntou a mim em minha cama, puxando a outra ponta do edredom, cruzando suas pernas e me olhando fixamente.
- Então, o que vamos fazer hoje?
- Como assim?
- Você ficou apagada por algumas horas, não vai dormir tão cedo. O que vamos fazer para te distrair?
- Lucas, eu estou bem. Você pode ir para o seu quarto descansar, amanhã temos um dia inteiro de gravações.
- Você acha mesmo que vamos trabalhar amanhã? Não sei se você sabe, mas você foi para o hospital hoje, ou seja, amanhã você está de atestado. O que acaba me envolvendo também, porque todas minhas cenas seriam com você. Sem , sem Lucas. O elenco que lute.
Ri da sua tese idiota de um atestado duplo e de sua insistência de não sair de perto de mim nem por um decreto! Confesso que eu estava sem sono e também que não estava nem um pouco incomodada com sua companhia. Sendo assim, eu faria o que Lucas dissera.
- Já sei por onde começar.
Lucas se esticou para alcançar o telefone na cabeceira e solicitou serviço de quarto. Em poucos minutos, o peixe com batatas estava chegando em meu quarto. Ele correu para pegar a bandeja e voltou para a cama. Separou o arroz e salada e me deixou servir o restante. Me obrigou a beber meio litro de suco natural e ficava vigiando se eu estava me alimentando mesmo. O jantar estava uma delícia e a nossa conversa fez a hora passar mais rápido. Algum tempo depois, percebi que os olhos de Lucas estavam vermelhos, suplicando por uma noite de sono. O relógio já marcava quase uma da manhã e lá estávamos nós comendo e conversando madrugada a fora.
- Lucas, é melhor a gente dormir.
- Tudo bem.
Lucas levantou e tirou a bandeja com as louças. Fui ao banheiro fazer minha higiene e quando voltei para o quarto, ele estava esticado na poltrona pronto para dormir.
- O que você está fazendo?
- Vou esperar você dormir.
- Você é muito possessivo, Lucas Zumann.
Me joguei na cama e fiquei espiando por entre o edredom Lucas pegar no sono.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Outras Fanfics:
» All Makes Sense To Me [Especial A Whole Lot Of History, Em Andamento]

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