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Última atualização: 27/07/2020

Prólogo

— Marshala! Desliga a merda desse telefone! – Mas que saco, eu só queria pensar em paz.
A garota loira abriu a porta do escritório depois de algum tempo e veio em minha direção com sua típica cara amarrada que ela usava justamente para essa ocasião. Pela expressão em seu rosto eu já sabia que iria levar a maior bronca. Ela era uma criança ainda, tinha cerca de dezesseis anos. Porém era minha amiga e se ela quisesse brigar comigo por eu estar brigando com ela, e ainda por cima me encontrar bêbado no meu escritório às sete da manhã, eu sinceramente não a culpava. Na verdade, eu nem ligava para as broncas dela. Sempre esquecia o que ela falava assim que saia da minha sala. Vendo sua cara brava, o mínimo que pude fazer foi esboçar meu sorriso mais cínico.
— Primeiro: Não me chama de Marshala.
— Mas May é um nome estranho... – Resmunguei, dando mais um gole. Eu falei isso só para irritá-la, e deu certo. May revidou os olhos.
— ... e era ele de novo. Olha só, algum dia você vai ter que atender. O projeto foi aprovado, sabe disso.
Que estranho, May. Cadê a bronca? Eu já estava mostrando o sorriso da vitória, quando ela voltou.
— A propósito, me dê isso aqui. – Falou, tirando minha garrafa de Whisky da mesa.
Meu cérebro estragado de bebida não pensou com rapidez o suficiente para pegar a garrafa de volta, então eu só pude gritar um “Ei!”. Foi bem idiota mesmo, nada digno para um empresário de vinte e três anos, aparentemente bem sucedido, creio eu. May sorriu para mim.
— Não adianta mais falar com você, chefinho. Sou uma garota de atitude. – E piscando, deu as costas, me deixando sozinho com os meus problemas.
Levantei-me da cadeira e fiquei encarando a parede por um tempo, pensando no quanto eu havia mudado nos últimos tempos. Às vezes queria voltar a ser a pessoa que eu era, assim como as vezes eu não estava nem aí para quem eu sou agora. Queria ser um pai melhor também, mas não tinha muito tempo para isso. Digo, para pensar na minha paternidade.
Bom, era basicamente impossível May me deixar sozinho por mais de cinco minutos, então, cinco minutos depois lá estava ela, me oferecendo uma garrafa de água. E ainda sentou na minha cadeira. Sem pedir.
— Bebe. – Ordenou. E eu obedeci por que em parte eu ainda estava meio mole de bebida e em parte ela era mais madura que eu. E se ela achava que a água resolveria meu problema, assim seria. – Então, seu pai...
Engasguei com a água que estava tomando e isso a interrompeu. Aproveitei a deixa para deixar minha opinião registrada.
— Meu pai... já era. E ele me deixou essa porcaria aqui. – Falei gesticulando ao nosso redor, me referindo ao prédio. – Essa porcaria que eu não pedi. E ele era um babaca.
Era estranho o jeito que meu cérebro bêbado funcionava. Eu amava isso. Mas só podia beber no dia que não ficava com Mackenzye. Às vezes eu bebia quando estava com ela mesmo assim, e era nesse momento que deixava o número de May na discagem rápida para ligar para ela. Eu estava divagando, e percebi quando May fechou a cara para mim, outra vez.
— Parece que você não herdou apenas a empresa, herdou a babaquice dele também. Ah, deve ser a cadeira. – Ironizou, levantando-se do móvel. – , se eu fosse você, reconsiderava a passagem. Eles estão ligando há meses, eu já estou farta de dar uma desculpa atrás da outra. Seu pai te fez um favor. Em outros tempos eu seria capaz de jurar que você daria qualquer coisa para voltar para lá.
— Sim, May. Em outros tempos. Mas já se passaram... – Eu tive que parar para fazer as contas. Aparentemente demorei mais do que uma pessoa normal, porque May me interrompeu, sentando-se na cadeira novamente.
— Cinco anos, . E você ainda está assim. Cada vez mais babaca. Cada vez menos você mesmo.
Olhei para ela, tentando dizer com o olhar que aquela bronca não ia me levar a lugar nenhum, não iria mudar meu jeito de pensar, não iria me tornar menos babaca e que eu nunca mais iria sair da Inglaterra. Eu já tinha sido fofinho? Dócil? Gostava de agradar as pessoas? Em uma época distante eu já tive a oportunidade de me apaixonar perdidamente? Aquele foi meu erro. Me apaixonar. Talvez em outra época eu tenha sido assim, May, mas aquele era eu agora. E eu não ia mudar.
Pensando bem, eu nem queria mudar.
— Ok, ok, vou pensar no assunto. – Disse, mesmo sabendo que não ia pensar em nada. Por favor, May, vai embora... Mas então, ela colocou um envelope grosso e pardo em cima da minha mesa.
— Você diz isso há meses. Tomei uma providência.
Oh, não. May era uma garota incrível, mas de vez em quando era um verdadeiro pé no saco. Olhei para ela com a maior cara de negação. – Você tem coisas mal resolvidas por lá, coisas que vão além da companhia. Precisa voltar, você sabe disso.
Pense em alguma desculpa, , qualquer uma!
— Eu já esqueci essa garota, May. – Ela arqueou as sobrancelhas.
— Sério? Acho que a June é ruiva. Estranho não? – Perguntou, irônica. Ok, não, eu não havia esquecido.
— June não vai deixar eu ir. Mackenzye tem alguma coisa na escola no final de semana e June mandou eu jurar que iria, não rola.
June não me mataria se eu não fosse. Eu sabia que esse negócio de guarda compartilhada era um saco para ela, então não, eu sabia que ela não iria ligar se eu não fosse. Mas Mackenzye eu sei que ficaria bastante chateada, por mais que fosse praticamente um bebê gorducho e chorão de quatro anos. Além do mais eu não queria ser conhecido no futuro como “o pai bêbado que não aparecia nas apresentações de ballet quando eu era mais nova”.
— Nesse final de semana você ainda estará aqui. Fique tranquilo, Mackenzye ainda terá um pai. – Falou May, calmamente, examinando as unhas. Não funcionou, . Tente outra vez. Vamos, alguma coisa, qualquer coisa!
— Mas eu saio com Mackenzye todo fim de semana. – Eu não soei sincero nem para mim mesmo. May parou de olhar as unhas e me encarou, arqueando as sobrancelhas.
— As aulas voltam semana que vem, , Mackenzye estará em Brighton, com June.
— Mas eu não posso passar seis meses sem ver Mack! – Tentei argumentar. Me sentia um pouco culpado por usar minha filha para esse meio, mas a culpa desapareceu tão rápido quanto surgira.
. – Começou, puxando uma mecha de cabelo loiro; algo que fazia sempre que estava zangada. – Você nem liga para a Mack. Você dá mais atenção para uma garrafa de pinga do que para sua própria filha. Para de arrumar desculpas por que eu já pensei em tudo, ok? De nada, você pode me agradecer quando voltar.
E dito isso, finalmente saiu da minha sala. Eu fiquei com receio de analisar o envelope, mas deixando a realidade de lado e fingindo que era só mais um dos papéis que eu tinha que assinar, o abri. E quase engasguei com a água de novo quando a realidade me atingiu. Iria partir daqui exatamente nove dias.
Eu ia voltar para o Brasil.

Tentei não pensar muito no envelope nos cinco dias que se seguiram. Até o joguei dentro da primeira gaveta que encontrei, mas May, com sua inabalável força de vontade, deu um jeito de organizar minhas gavetas para que não coubesse nelas nada além do necessário, o que significou que o envelope não foi considerado importante o suficiente para ser guardado em minha própria gaveta. Então ele permanecia ali, em cima da minha mesa, enquanto eu tentava não contar os últimos quatro dias que passaria em Londres.
Mas acabei abrindo mão de qualquer benefício que essa viagem poderia me oferecer (que era nenhum, já que o projeto iria em frente mesmo sem mim), e por fim decidi desistir dela. May não mandava em mim e meu querido pai morto também não.
Foi em uma tarde chuvosa, faltando três dias para a partida que não aconteceria, que uma visita inesperada me fez mudar de opinião.
? Hm, me desculpe incomodá-lo, mas... hm... há uma pessoa lá fora querendo conversar com o senhor. – May nunca me chamava de senhor. Fosse quem fosse a deixou muito intimidada. Eu não me importava com quem quer que fosse a me esperar do lado de fora, sinceramente. Continuei mexendo nos meus papéis.
— Essa pessoa tem horário marcado? – Perguntei, totalmente indiferente.
— Não, mas...
— Então ambos sabemos que não será possível que eu a receba. Pode sair agora, May, e mande a visita embora. – Interrompi. May, ao contrário de se retirar sem me interrogar como todas as vezes em que eu recusava atender alguém, delicadamente se aproximou de mim e colocou suas pequenas mãos em meus braços.
— Eu te garanto que é importante, . – Exclamou, com doçura. Droga, fosse quem fosse, eu ia ser muito, muito sucinto ao dizer para deixar a empresa imediatamente.
— Porcaria. Mande entrar. – Resmunguei, me dando por vencido.
May saiu de minha sala aparentemente satisfeita, e eu aproveitei a deixa para virar de costas e terminar de organizar os papéis que estavam em minhas mãos. Escutei a porta abrindo, mas não me dei ao trabalho de virar. Estava ocupado e a visita não marcou horário, então que esperasse. Fiquei mais uns dez ou quinze minutos fazendo meu trabalho e admirei em silêncio a paciência da visita. Paciência que durou pouco, porém, pois depois de ter tido tal pensamento, a pessoa resolveu se pronunciar pigarreando.
Gelei em meu lugar. Não, não podia ser. Eu reconheceria esse pigarro em qualquer lugar. Me virei lentamente, vendo a mulher parada em frente a porta com uma expressão serena. Estava do mesmo jeito que eu me lembrava. Os cabelos castanhos, os olhos expressivos, o corpo miúdo e o sorriso torto brincando nos lábios da morena.
— Qual é, , não se lembra de mim? – Perguntou e eu incapaz de fazer qualquer outra coisa, permaneci calado. Ora, se você não vai até o Brasil, então o Brasil vem até você. Não sabia ao certo o que fazer, mas controlando toda minha surpresa, decidi ser o menos idiota que pude.
— Não lembro, não. – Respondi, me virando novamente para revisar a organização de um armário já perfeitamente organizado. É claro que eu me lembrava. Antes de me virar, vi que as feições felizes de Rafa esmaeceram, mas ela não abandonou seu sorriso.
— Triste saber que fui esquecida com tanta rapidez. – Comentou ela. Suspirei. Era impossível não ter memórias dela com a amiga tão perto. Droga, eu só queria que ela fosse embora.
— Pois é, lamento. – Falei sorrindo ao finalmente me virar para ela. Ela se aproximou de minha mesa, seu sorriso feliz se transformando em sarcástico.
— Aposto que não sabe qual a sensação de quando alguém te esquece, né? É horrível, não desejo essa dor a ninguém. – Disse. Ela estava brincando comigo? De todas as pessoas, ela era a quem tinha menos motivos para me lembrar disso.
— O que você quer, Rafa? – Perguntei antes que pudesse ter tempo de me controlar. Seu sorriso cresceu, mas minha raiva era muito grande para compartilhar da felicidade dela.
— Nada, na verdade. – Falou, sentando na cadeira sem nem ter sido convidada.
— Então se não tem mais nada a fazer, a não ser que tenha vindo a Londres apenas para me irritar, sugiro que se retire. Tenho mais o que fazer. – Tentei evitar seu olhar, mas pude ver que ela ficou chateada. Não que eu tenha me arrependido. Só queria que ela fosse embora.
— Não viemos a Londres te irritar. – Negou.
— Viemos? Quem mais veio? – Perguntei, aflito de curiosidade. Se ela estivesse ai fora, eu... eu não saberia o que fazer. Não depois de tantos anos.
— Eu... Thay... – Falou me encarando, medindo minha expressão. Eu nada disse. – E . – Completou, fazendo meu coração falhar. Era só fingir que merda nenhuma importasse. Era só fingir que eu não me importava. Era isso que ela queria, acho. – Estávamos passando por aqui e vimos seu sobrenome na placa do prédio. Elas preferiam não te incomodar, mas eu quis ver como você estava. – Concluiu ela.
— Hmm – Murmurei. – Bom, estou bem. Pode voltar com suas amigas agora e transmita a elas os meus mais gentis votos de felicidades. – Falei de um jeito irônico. Rafa se levantou, o sorriso não mais presente, mas a doçura ainda em sua voz.
— Você é um idiota. – Falou. Coloquei a mão no coração e fiz uma cara fingida de dor.
— Isso era pra ser uma ofensa? – Rafa rolou os olhos. Estava abrindo a porta, para minha felicidade, mas se virou no último minuto.
— Quando voltar, diga a ele que eu mandei um “oi”. – Porque as garotas achavam que essas estúpidas palavras me mudariam? Que porra, eu queria mais é que Rafa sumisse da minha frente. – Ah, e eu queria dizer que ...
A simples menção ao nome dela me fez prestar mais atenção, apesar de não ter demonstrado. Mas Rafa riu e não completou a frase. – Nada, você não se importa mesmo. – Murmurou antes de sair porta afora.
Assim que Rafa saiu, esperei mais quinze minutos antes de sair em disparada até o outro lado do andar, onde tinha uma janela que dava para a rua. Rafa não estava blefando, elas estavam mesmo lá. Reconheci Rafa dando maçã do amor para uma garotinha pequena com cabelos cor de fogo. Tinha no máximo cinco ou seis anos e ria da mulher que lhe entregara o doce. Mas a palhaçada não veio desta e sim de uma outra e ao olhar para o lugar que a garotinha apontara, só tive tempo de ver um vulto de cabelos laranjas tão vivos quanto os da garota sumirem pela multidão.

, essa é uma ideia muito, muito má”, dizia uma parte.
“Essa é uma ideia excelente!”, dizia a outra.
Porra, o que diabos eu estava fazendo aqui? Pior, por que meus olhos não enxergavam o que eu queria encontrar?
Não. Eu não vou fazer isso. Vou voltar. Sim, eu vou porq...
— O que posso fazer pelo senhor? – Perguntou a recepcionista sorridente.
— Bem, hã.... – Eu já estava ali, não estava? Porque eu não simplesmente não perguntava? – Eu queria saber se... não, nada. Obrigado. – Respondi, mentalmente me dando vários tapas na cara. A mulher pareceu confusa, mas não disse nada, apenas chamou o próximo da fila.
Eu não devia tê-las seguido até o hotel. Mas eu precisava vê-la. Droga, covarde. Eu não podia simplesmente seguir as três por toda Londres, porem o hotel delas era ridiculamente perto da minha casa. Destino? E foi no meio desses pensamentos filosóficos que eu senti minha blusa sendo puxada. Olhei para baixo.
— Me ajuda a achar minha tia? – Perguntou uma garotinha branquinha, de touca e muita blusa. Tinham várias lágrimas em seu rosto e eu me assustei. Mas não foi pela sua aparência. Ela tinha um inglês muito esquisito, então apostava que estava chorando por que ninguém estava conseguindo entender o que ela falava. Abaixei-me para ficar na sua altura.
— Quantos anos você tem?
— Quatro. – Respondeu, e pude ver que tinha um dente faltando. De tudo que eu precisava era de uma cópia da Mack retardando meu trajeto. Ah, que se dane. Eu podia ser um babaca, mas não o tipo de babaca que deixa criancinhas inocentes perdidas, veja bem.
— Vem, vamos procurar. Onde foi que você a viu pela última vez? – Perguntei, gentilmente. A menina voltou a chorar.
— No... no banhe-eiro. – Respondeu, soluçando. Oh, merda. Ela não podia chorar, eu não sei o que fazer quando as crianças choram.
— Pois vamos ao banheiro. – Declarei, dando meia volta para ir ao banheiro. – Qual o nome da sua tia?
Ela sorriu, apesar das lágrimas.
— É a tia Bae. – Tia Bae? Que nome estranho. Eu dei uma risada, e chegamos ao banheiro feminino. Esperei alguma mulher sair, mas só a quarta que eu parei me deu atenção.
— Por favor, você poderia me dizer se tem alguém ai dentro?
— Não, quando sai estava vazio. – Respondeu a mulher, me lançando um olhar de pena e indo embora. A menina voltou a chorar.
— Mel! Melissa Richuivan, eu não acredito que você correu de mim! – Gritou alguém atrás da gente. Um alguém que falava português.
— Tia! – Exclamou Mel, tirando as mãos da minha e correndo para o colo da tia. Era uma cena comovente.
— Sua linda mãe quase me matou via telefone, sua peste! A gente tem que correr agora, se não quiser perder o vôo. – E então ela me viu e veio até mim com a tal Mel no colo. – Muito obrigada! Eu quase morri, então digamos que você salvou a vida de nós duas. – Agradeceu, em inglês.
Eu estava paralisado. Não consegui falar nada. Ela ficou constrangida.
E depois confusa.
— Eu te conheço?
— Não, acho que não. — Não sei por que decidi bancar o demente. Eu estava tão absolutamente chocado que não foi possível pensar com coerência. Ela continuou confusa, mas deu de ombros.
— Bem, obrigada de novo.
— Tchau, tchau. – Murmurou Mel para mim, se escondendo nos cabelos ruivos e ondulados da tia.
E elas se foram.
Era .
E se aquela era , a garotinha que eu ajudei tinha que ser só uma pessoa. A filha de Thay.
Cheguei no prédio desolado. May claramente não percebeu minha falta de felicidade e nem meu mau humor, pois já chegou me bombardeando de informações.
— Ah, aliás, aquela mulher morena que estava aqui deixou isso. – Disse, me estendendo uma carta. – E ela disse que você podia ler se quisesse. Na verdade, meio que você precisa ler, .
Eu nada respondi. May crispou os lábios.
— Bem, vou indo. Boa noite, chefe.

Eu não queria ler aquela carta. Eu a havia ignorado por cinco horas, mas não estava nem conseguindo dormir pensando nela. Pensei na possibilidade de queimar, mas decidi não o fazer. Ao invés disso, acendi a luminária e rasguei o adesivo de ursinho que segurava a ponta do envelope. Percebi duas coisas.
Primeira: era uma carta velha. Segunda: era uma carta de .

São Paulo, 09 de novembro de 2013

Querido ,
Ao contrário de você, sou excelente com palavras e enquanto você briga com Ninha no andar de baixo, estou no meu quarto escrevendo uma carta para expressar o quão incrível você é.
Você é uma boa pessoa. Você é meigo, altruísta, tem um senso de compaixão enorme, está sempre pronto para ajudar quem quer que seja, e me aguenta. Me aguenta com minha TPM, com minhas frescuras, com minhas manias, me aguenta do jeito que eu sou. Isso é algo que eu nunca vou poder retribuir. Parto do pressuposto de que mereço alguém como você depois de tudo que eu passei. Espero que eu esteja certa.
Eu não sei o que estaria fazendo, ou no que estaria pensando agora, se você não tivesse aparecido. Tenho certeza que não estaria escrevendo uma carta de amor. Argh (eu ri agora). Dizem, quando somos crianças, que temos um anjo da guarda, e que ele sempre está presente quando precisamos dele. É um ser que salva a gente, independentemente da situação. Você é meu anjo da guarda, . Você me salvou de mim mesma quando eu mais precisava e é por isso, e muito mais, que eu preciso dizer que eu amo você.
Eu amo você de todas as formas e gestos possíveis e imagináveis. Eu amo você por ser quem é, amo por quem eu sou e amo mais ainda por ter me escolhido. Você me faz bem, me deixa segura, faz eu acreditar que estou no topo do mundo quando eu sei que sou uma ninguém. Isso já é um bom motivo para amar uma pessoa, certo? Errado. Porque quem ama, ama tudo. Você é incrível, , mas sabemos que não é perfeito. Acontece que todas as mínimas imperfeições servem para que eu prove para mim e para você de que esse amor é real, pois não consigo imaginar você sem elas.
Esse amor mudou a gente. Mudou a mim, mudou a você. Eu te apresentei a ironia. Não sei se estou orgulhosa disso, acho que não, mas a ironia combina com você as vezes. Só as vezes. Você me apresentou a paciência. Eu gostei dela. E é paciência que eu te peço agora.
Esse dia vai chegar, você sabe. Eu vou começar a esquecer. Essa doença não é certa, mas é possível. Não quero ser pessimista agora, só quero te preparar para o inevitável. Por isso eu quero que você guarde nossas memórias. Quero que fique com elas.
Quando eu esquecer um aniversário de namoro, não brigue comigo. Quando eu esquecer de algum lugar importante, não se zangue. Quando, sem querer, me esquecer seu nome, não vai ser por mal, eu juro.
E quando chegar o dia que eu me esquecer de quem você é, eu quero que seja forte e seja paciente. Por mim. Por nós.
As memórias podem ir embora, mas o meu amor por você vai sempre estar aqui. De alguma forma, eu sei que ele vai. A mente pode esquecer de tudo que eu passei com você, mas meu corpo, e principalmente meu coração, nunca se esquecerão. Há coisas que nem a mente é capaz de apagar. Meu amor por você é uma dessas coisas. E eu sei, de todo meu coração, que em todas as minhas trezentas milhões de células vão estar guardadas cada parte do meu amor por você.
Não desista de mim, não desista de nós.
E quando chegar o dia que eu me esquecer de mim mesma, apenas me mostre o que fez com que me apaixonasse por você. Eu não estarei morta, minha mente estará. Mas peço que se ela morrer, não morra com ela, .
Apenas lembra minha mente das informações que meu corpo não se esqueceu.
O mínimo que posso fazer por você é continuar te amando até o último segundo possível.
E o mínimo que você pode fazer por mim é me lembrar de quem eu era.
Eu te amo.
:)

A carta foi escrita no mesmo dia do acidente. No mesmo dia que eu pensei ter escutado uma frase que ela nunca me disse.
Passei os últimos cinco anos tendo pesadelos sobre esse dia, essas três palavras e o meu único segundo. E agora estava ali, eternizado naquela caligrafia, mesmo que ela não se lembrasse de nós dois.
Não sei dizer o que desencadeou em mim. Não sei explicar qual era o mecanismo estranho que fez com que eu mudasse de ideia tão repentinamente. Simplesmente não sei por quem e pelo que eu tinha resolvido lutar naquele momento, mas eu iria. Porque bastou ler a carta que eu deveria ter recebido há anos atrás que resolvi mudar de ideia. Eu iria para o Brasil. Se ela estava pedindo e o destino estava ajudando, então sim, eu iria. iria voltar para mim.
E ela iria voltar a si mesma.


Capítulo 1



Nunca pensei muito no que faria quando voltasse. Mas isso foi porque nunca passou pela minha cabeça realmente voltar algum dia.
E aqui estava eu, no aeroporto, dentro da loja de doces onde tudo começou. Uma parte de mim ainda esperava que Anna entrasse pela porta e questionasse a barra de chocolate ruim que eu segurava na mão. Antes de chegar ao caixa porém, joguei o chocolate em qualquer canto e desisti da compra, saindo do estabelecimento.
Fui para o ponto de táxis, não sabendo bem para onde devia ir. Fucei minha mala em busca do endereço do hotel, ainda me perguntando porque eu tinha voltado. A carta, lembrei. Dei de ombros.
Encontrei o endereço que estava procurando e o entreguei ao primeiro taxista que vi na frente. Era um senhor gorducho e rabugento, e fiquei feliz porque isso significaria menos conversa, quem sabe nenhuma.
Interação humana não estava muito nos meus planos.
Como previsto, o taxista seguiu a viagem toda sem dizer nada além do preço que deveria pagar a ele quando chegamos ao meu destino.
Encarei a fachada do hotel, respirando o ar de São Paulo e desejando estar em Londres.
Não havia muito o que fazer. Teoricamente eu tinha negócios, claro. Fui convencido a abrir uma filial da empresa no Brasil, um projeto que me chamavam para participar e que estava em andamento há um pouco mais de um ano, mas a primeira reunião era dali a dias e eu não pretendia ficar trancado no hotel o dia todo.
Deliberadamente, resolvi visitar Thay. Não sabia se ela ainda morava na mesma casa, mas percebi que ela era a pessoa de quem eu mais sentia falta. Ela me enviou alguns e-mails, mas eu não os li. Nos dois primeiros anos eram muito frequentes, mas depois começou a rarear, até que pararam. Talvez em algum deles estivesse as fotos de sua filha, e pela primeira vez me arrependi por não os ter aberto.
Amanhã eu iria vê-la, decidi.
Ao chegar no meu quarto, exausto em razão da longa viagem, minha primeira ação foi mandar uma mensagem para June. Por incrível que pareça, eu estava sinceramente com saudades de Mack.
— Ela está aí? — Perguntei para June depois que ela me atendeu.
— Sim, vou passar para ela. Mack, é o papai! — Ouvi ela gritar. Não demorou muito para ouvir a voz fininha da minha filha saindo pelo telefone.
— Oi, papai!
— Oi, princesa. Só liguei para dizer que... — Eu liguei para que mesmo? — Bom, só queria saber se você está bem.
— Eu estou bem! A tia May me trouxe presente! Um monte, monte e montão de presente!
Dei risada.
— É? E você gostou?
— Sim. Obrigada, papai. Papai?
— Sim?
Ela demorou um pouco para falar.
— Só. Tô com saudade.
— Também estou com saudades de você. Preciso desligar agora, tá bom?
— Tá.
— Um beijo, Mack!
— Tchaaaau!
E ela desligou.
Eu sentia muito por Mack, ela merecia como pai um homem muito melhor que eu. Sabia que tinha pensamentos contraditórios, mas não é exatamente o sonho de todo homem ter um filho aos dezenove anos. June e eu nos conhecemos na faculdade, durante uma festa de final de semestre. Conversa levou a beijos, que levou para a cama. E assim June ficou grávida. Não teve romance, não teve amor, não teve nada. Lembro até que ela estava chateada naquela dia porque havia terminado com o namorado. June me procurou depois de alguns meses para contar a notícia, disse que não se importava em criar Mackenzie sozinha, mas precisava de dinheiro.
Mas que tipo de homem eu seria se fizesse isso?
Lógico que de primeira eu suspeitei que pudesse ser um golpe, o nome não é exatamente ignorado. Mas meu senso de responsabilidade venceu e eu disse a ela que iria assumir a criança, e que a ajudaria sim, financeiramente e da maneira que ela precisasse. Cogitei pedir teste de DNA, mas depois que Mack nasceu e eu vi aqueles pequenos olhinhos, suas mãozinhas e sua boca tão perfeitinha, bastou isso para me convencer. Eu queria ser o pai daquela garotinha.
June morou comigo por um tempo, do final da gravidez até mais ou menos o primeiro ano de vida de Mack. Depois disso ela disse que conseguia se virar, e se mudou, e Mackenzie foi com ela. Admiro muito a mãe da minha filha, mesmo que nunca tenha sentido nada menos que respeito por ela. A gente se dava bem, mas só isso.
Suspirei. Depois de tomar um banho quente, relaxei completamente e fui dormir, pensando em como seria o reencontro com Thay amanhã.

A casa era a mesma. Até o pé de amora na frente da casa era o mesmo. Queria procurar as iniciais que e eu fizemos um dia, mas me contive. Elas não estariam mais lá, assim como muita coisa não estava. Contei até três e toquei a campainha. A porta abriu, mas inicialmente não vi ninguém.
— Oi.
Olhei para baixo, onde uma garotinha me olhava desconfiada. Ela me olhou por mais três segundos até arregalar os olhos para mim.
— O moço do hotel! Papai, o moço do hotel tá aqui! — Gritou, para alguém dentro de casa. Ela continuou pulando, esquecendo completamente da minha presença, até que minha ficha caiu.
Se ela era filha de Thay, quem ela estava chamando de “papai”? Thay não teria voltado com aquele inseto, tinha?
Divaguei por mais um momento, esperando o pai da criança aparecer, até que ouvi aquela voz familiar.
— Que hotel, Mel? — Perguntou, e ela riu.
— O que me ajudou a achar a tia Bae.
— Oh, precisamos conhecer esse homem, não é mesmo?
Ainda achava a voz familiar, mas quando o dono da voz apareceu na entrada da casa, não houve suspense.
Era Gus.
Melissa estava chamando Gus de pai.
O que mais tinha mudado enquanto eu estive fora?
Ele ficou parado mais alguns segundos me encarando abobado, até que sorriu.
!
— Papai? Conhece o moço do hotel? — Perguntou Mel, pendurada no ombro dele.
— Claro que sim! — Falou, colocando a garota no chão.
Ela parecia muito simpática, ao contrário de Mack, que era extremamente tímida. Me agachei conforme ela chegava, para ficar na mesma altura dela.
Mel me encarou. Gus riu.
, essa é Melissa, minha menina. E Melissa, esse é o moço do hotel. — Gus fez uma pausa. –Você o conhece como “tio ”.
A mini Thay deu um pulo.
— Você é o tio ? Papai o tio que me salvou no hotel! Ele me salvou, salvou, saaaaaalvou!
E saiu correndo, subindo escada acima. Me levantei, com um semi-sorriso no rosto. Foi uma questão de tempo até ver a aliança na mão de Gus.
Casado.
Ele e Thay haviam se casado.
— Paizão, hein. — Comentei. Gus sorriu.
— O melhor do mundo, na opinião dela. Com licença, querido. — Comentou, de um jeito afetado que me fez rir.
— E vocês se casaram? Uau, quem diria.
Ele parou de sorrir de repente.
— Cara, sobre isso... Thay ficou bem mal quando não viu você. A julgar pela sua expressão, você não ignorou o convite de propósito como ela achou, mas mesmo assim... Espero que ela nã...
? Meu Deus, ! — Gritou Thay, pulando em cima de mim.
— Surte. — Completou Gus, divertido.
— Aí meu Deus, conta tudo! Como você está? Eu também fui pra Inglaterra, mas acabou que deu problemas e tive que voltar mais cedo. Rafa disse que vocês trombaram por lá! Queria tanto ter visto você! — Tagarelou Thay, depois que me soltou.
Por um motivo estanho, Thay foi a única pessoa que não me irritou hoje e a única pessoa que eu não me importaria de continuar ouvindo falar.
— Hm, estou bem. Bastante ocupado, mas bem.
Ela deu um sorrisinho esperto.
— Sei, o jovem mais rico do século XXI e tudo mais.
Arqueei as sobrancelhas.
— O quê? Eu leio jornal. — Comentou, indo para a cozinha.
— Só as matérias que te envolve. — Disse Gus baixinho, dando uma piscadinha.
— Eu ouvi isso, Gustavo! — Gritou Thay da cozinha.
Gus e eu seguimos ela até a cozinha, e mini Thay nos seguiu, com uma Barbie e um outro boneco na mão.
— Ela é a sua cara, Thay. — E era verdade. As duas eram tão parecidas que eu achava impossível não olhar.
— Gostou da minha boneca, tio ?
— Eu amei a sua boneca.
Ela me encarou com um ar maduro.
— O nome dela é e o nome dele — falou, apontando para o boneco masculino. — É .
A reação dos pais foi rápida. Thay me olhou arregalando os olhos e Gus cuspiu a água que tomava.
— Hm, Mel, vai lá brincar na sala.
A garota fez uma careta triste.
— Mas eu não quero brincar sozinha.
— Você não estará sozinha, tem seus bonecos para te fazer companhia. — Falou Gus.
— A e o não sã...
— Querida, conversa de adulto. Vai para a sala. — Falou Thay, de uma maneira surpreendentemente autoritária. Um jeito materno. Mel aparentemente conhecia muito bem esse tom, já que só abaixou a cabeça e foi para sala, deixando os bonecos na bancada.
— Hã....
— Quer mais café, ? — Perguntou Thay, sutilmente mudando de assunto.
— O quer. — Falou Melissa de novo, sentando o boneco na mesa. Eu juro que vi essa garota indo para a sala. Thay fechou os olhos, suspirando.
— Melissa. Amorzinho. Você poderia ir lá buscar o Teddy para mostrar para o tio . Que tal!?
Os olhos da pequena brilharam e ela saiu correndo. Gus riu.
— Crianças. Tão adoráveis.
Dei um meio sorriso.
— Elas são. — Pensei em Mack a vários quilômetros de distância de mim e imaginei como seria nossa relação se eu fosse um homem como o Gus. — E eu ainda não acredito que casaram. Meu Deus.
Eles olharam um para cara do outro e sorriram, cúmplices. Gus apertou a mão dela e isso fez eu me sentir solitário.
— É, nem eu. Quer dizer, depois de ela me pedir em casamento cinco vezes eu finalmente disse que sim. Ela até chorou.
Thay revirou os olhos.
— Só que não, né, Gustavo. — Ela se virou para mim, com aquela típica expressão de deboche. –Começamos a namorar uns seis meses depois que a Mel nasceu. estava estranha comigo, e eu não tinha ninguém para me ajudar além do melhor amigo da minha irmã que vivia na minha casa. –Eles riram, provavelmente se lembrando de como tudo aconteceu. –A primeira vez que ele pediu pra casar comigo foi depois de um ano de namoro. Tipo, hello Gus, eu tenho dezessete anos e não terminei o ensino médio? Quer dizer, ninguém se casa com dezessete anos. E eu tinha uma filha! Você queria ser pai aos dezenove?
Gus revirou os olhos.
— É que eu estava louco por você, Thay. — Ela deu uma risadinha e ficou vermelha. — Mas dois anos depois ela aceitou.
Thay sorriu carinhosamente.
— E ele realmente chorou quando eu disse sim.
só faltou... — Gus se interrompeu, olhando para mim. Eu parecia explodir a cada vez que pensava no nome dela, mas até então ninguém além da mini Thay havia falado sobre ela. Thay e Gus estavam escondendo alguma coisa, simplesmente pelo fato de ignorarem falar sobre . Eu não era burro. — Só faltou soltar fogos.
Terminou, sem me olhar.
Eu bem ia jogar tudo isso na cara deles, mas nesse momento Mel entrou junto com um cachorro que era maior que ela. Droga. Salvos pelo gongo.
Thay deve ter pensado a mesma coisa, porque se aquela não era uma expressão de alívio, eu não sabia o que era.
— Esse é o... –Melissa fez uma pausa, espirrando. — Teddy.
— Meu Deus, porque você tem esse São Bernardo dentro de casa? — Perguntei. Ela deu risada.
— Eu tenho um quintal enorme que comporta dois São Bernardo confortavelmente.
— Dois!?
— Teddy e Lola. — Falou Gus.
— Mas a Lola foi embora. — Completou Mel. — Mamãe disse que ela ficou com saudade da mãe dela e pediu pra ir embora. Aí eu chorei e a mamãe falou assim “Mel, se alguém te levasse para outra casa e você quisesse sua mãe, o que você faria?”. Daí eu disse que fugiria na calada da noite. E ela disse que foi o que a Lola fez, então parei de chorar porque ela estava com a mamãe dela e eu com a minha.
Pelas caras de Thay e Gus, ou a cadela havia morrido ou havia fugido. Mas diria que a segunda opção fazia mais sentido.
— Tem certeza que ela só tem cinco anos? –Perguntei, rindo.
— Sabemos que é muito espertinha para a idade dela. – Disse Thay de um jeito amoroso, observando Mel acariciar o grande canino. – Ela adora o Teddy.
Como que para comprovar o que Thay havia acabado de falar, Teddy deu um latido, e em seguida colocou a língua para fora. Encarei os olhos inteligentes do cachorro e percebi que Mel e ele tinham aquela conexão bonita de animal-dono.
— O Teddy parece uma pessoa, às vezes. Ah, olha essa! Faz Gus, ele te obedece melhor.
Olhei para eles, esperando.
— Teddy, apaga a luz.
E então o grande cachorro saiu do lado de Mel, foi até o interruptor, apoiou as duas patas dianteiras na parede e com o focinho apagou a luz.
— Uau. — Deixei escapar.
— Muito bom, né? — Comentou Thay, ligando a luz novamente. — Não faço ideia de como a gente descobriu que ele faz isso.
Dei risada, acariciando o pelo macio do grande canino.
— Ele parece ser mesmo muito esperto. — Falei, coçando as orelhas dele. O cachorro fechou os olhos, feliz pelo recém recebido carinho.
Tem uma outra coisa na qual nunca pensei: o que faria quando visse na minha frente.
O que era assustador, porque eu escutei a voz dela a menos de metros de distância.
— Rafa, me dê isso aqui!
, olha ela! — Retorquiu a voz de Rafa.
Eles pareciam estar longe, mas pelo que me lembro vinham da piscina. Não achava estranho o fato de não ter ouvido eles da piscina, porque a piscina da casa de Thay ficava em outro lote e, portanto, do outro lado da casa. Era meio que longe demais para ouvir qualquer barulho da piscina na cozinha.
— Pelo amor de Deus.... .
— Amor, você viu meus óculos? — Disse uma desconhecida voz masculina.
, deixa, depois ela te devolve! — Gritou o que parecia ser .
Isso tudo aconteceu em segundos e nesses poucos segundos eu vi Thay e Gus se entreolharem e me olharem com preocupação. Acho que pela primeira vez Thay decidiu ser direta comigo.
— Desculpa, , esqueci completamente que eles estavam aqui! — Ela olhou para Gus e depois para mim de novo. — Se não estiver pronto para esse reencontro, eu te ajudo a sair pelos fundos.
Encarei Thay, sem entender.
— Por que não estaria pronto?
Thay suspirou.
— Você não leu meus e-mails mesmo, né? , a teve uma complicação feia depois que você foi. A sequela piorou muito e... Ela não faz ideia de quem você é. — Ela esperou eu absorver o choque. — Ela sabe que um certo esteve por aqui algum tempo, mas ela não sabe de nada sobre você. Ela chegou a esquecer coisas mais importantes como o fato de eu ser irmã dela de sangue, And ser o pai biológico dela, aquela história louca dos nossos pais... Você não foi o único atingido, mas foi o mais porque pelo menos ela não se esqueceu de nenhum de nós.
Bem, isso explicava muita coisa.
— Hm, está tudo bem, Thay. Sério. Eu estou pronto.
Gus balançou a cabeça. Mini Thay estava ocupada demais se escondendo em algum lugar para dar atenção ao nosso pequeno drama. Teddy olhava Mel com uma cara típica de babá entediada.
E eu estava cada vez mais confuso.
— Não está tudo bem. — Falou Gus.
Thay concordou com a cabeça.
— Ah, e eu acho que devia saber disso.
— Disso o quê?
Eu vi a mão de abrindo a porta de vidro da cozinha ao mesmo tempo que Thay dizia ao fundo:
— A está noiva, .
Oh, é. Talvez eu não estivesse tão pronto assim.


Capítulo 2



Foi um pouco estranho, para dizer o mínimo. Minhas mãos pararam na maçaneta, alheia aos olhares de horror a minha volta. Dizer horror talvez seja exagero, principalmente se considerar que uma fileira de sorrisos receptivos e muita surpresa se seguiram a isso.
Eu sabia quem ele era, é claro, apenas não me lembrava. O que é extremamente irônico, vindo da própria pessoa que aleijou o meu cérebro. Pelo que eu sabia, das fotos que Thay me mostrara, ele não estava muito diferente, pelo menos não fisicamente. Os cabelos, os olhos, a postura, parecia tudo exatamente no lugar. No entanto, parecia que já não era a mesma pessoa. No lugar do olhar doce e ingênuo das fotografias apresentadas eu vi um homem ferido. Um olhar duro, ressentido. Principalmente quando olhou na minha direção pela primeira vez, em Londres. Eu não tinha reconhecido na hora, mas depois que repensei e revi as fotos, não houve dúvidas. Mesmo tendo me salvado de ser vítima de um possível homicídio ao encontrar Melissa no hotel, não parecia ser simpático como nas fotos e, apesar de nunca ter tido a ânsia de conhecê-lo, senti que gostaria que ele ainda fosse ao menos um pouco parecido com quem eu ouvi falar.
suspirou e ele não precisou dizer nenhuma palavra para que eu entendesse duas coisas. Primeira, ele tinha voltado ao Brasil por mim. Tinha tido uma oportunidade e viera, mas parecia estar arrependido amargamente. Provavelmente pela coisa número dois: eu estava noiva.
Noiva.
Senti a aliança pesar na mão direita, de repente tão ávida e tão inquieta para arrancar seu olhar do meu dedo anelar — e era um sentimento estranho, já que eu normalmente não parava de admirá-la e gostava que todos a vissem.
Tirando isso, estavam todos boquiabertos com olhares de espanto, aparentemente porque achamos que ele realmente jamais voltaria para cá.
Foi Rafa quem quebrou o silêncio.
. Então você decidiu vir.
Ele colocou as mãos nos bolsos, evitando olhar para nós. Achei que estava apenas tímido, quando me lembrei que na verdade estávamos todas de biquíni bem no meio da cozinha, o que era constrangedor. Senti ficar tenso ao meu lado, mas assim que passou por mim e apertou as mãos do nosso intruso, relaxou.
— Seja bem-vindo de volta, . — Falou, baixo e muito formal. curvou a cabeça. Percebi que havia corado, e parecia estar se sentindo culpado por algum motivo. Só depois passou pela minha cabeça que eu era o motivo.
— Meu Deus, gente, é só o . — Resmungou Thay, chocada com a nossa falta de tato. Gus riu e isso foi o aval para que todos fossem até ele cumprimentando e matando as saudades. Tinha gostado mais de antes, quando estavam todos estranhos com a presença dele, por que, qual é, ele me fez perder a memória! Meus amigos deveriam supostamente estar do meu lado, certo?
— Você não conhece o Pierre, . – Disse Gus, apontando para o moreno curioso que o olhava. – Pierre é um mero agregado.
Pierre estava um pouco distante, e não o culpo. Parecia desconfiado, mas ele foi super simpático, ainda assim.
— E aí, . – Saudou, erguendo a mão. Fizeram um high five no ar.
— Pierre? É francês? – Acho que ele tinha a intenção de fazer piada, mas ninguém riu. Somente o próprio deu uma risadinha, muito provavelmente curtindo uma piada interna.
— Bem que eu queria. – Disse Pierre, sorrindo amarelo.
— É seu nome de verdade?
— Não, o nome dele é Gustavo, Pierre é o sobrenome. – Informou Rafa. – Mas chamamos ele de Pierre para não ter muito Gustavo na nossa vida.
— E Pierre é bem mais chique que Gustavo! – Comentou , e Thay concordou com a cabeça. Gus mandou um “Ei” indignado.
— O tio que me salvou no hotel, tia Bae! Você se lembra? — Perguntou Mel, cutucando minha perna com a sua mãozinha. Até aquele momento eu não tinha interagido muito.
— Uhum – Murmurei. Mesmo ao mínimo som do meu murmúrio franziu a face como se minha presença lhe causasse dor. — Oi, . — Consegui falar.
E de repente todos se calaram, imaginando provavelmente que eu recuperaria minha memória em um passe de mágica e fosse viver com feliz para sempre no nosso castelo de glitter cercado de lindos cavalos alados com crinas de arco-íris.
Não foi o que aconteceu.
— Oi. Quanto tempo. — Sussurrou, hesitante. Achei que era um jeito meio tímido de dizer que sentia minha falta. — Você está diferente.
— Deve ser o cabelo. Ou engordei. Ou... ou sei lá. — Respondi, tímida. Estava mil vezes mais envergonhada por aquela conversa sem pé nem cabeça ser presenciada por todos, incluindo meu noivo.
— Acho que é o cabelo – Concordou.
E então eu decidi que para mim já bastava daquela situação, principalmente se considerar que eu estava seminua. percebeu.
— Você precisa se vestir.
achou que não, mas eu percebi que olhou torto para aquela afirmação, e eu não pude fazer muita coisa a não ser concordar e subir as escadas, em direção ao meu antigo quarto, que agora era o quarto de hóspedes. Eu gostava de chamar de quarto de hóspedes porque me negava a aceitar que passava mais tempo nele do que no quarto da minha própria casa.
Vesti um shorts e uma camiseta qualquer por cima do biquíni úmido, e fui ao banheiro para pentear os cabelos, quando escutei passos no quarto. Não me virei, quem quer que fosse viria até mim de qualquer forma.
— Então, ele voltou. — Informou , me observando passar o creme de pentear ao longo dos fios.
Sim, querido, eu meio que já vi isso, queria dizer a ele. Mas quando me virei para olhá-lo, percebi que estava com o olhar meio tímido, com as mãos nos bolsos, encarando a aliança em minha mão direita. Quase como se estivesse com medo de algo. Então percebi que tinha medo do que todos estavam pensando que aconteceria a qualquer momento: ele tinha medo de que eu me lembrasse.
Ainda que seja cientificamente impossível me lembrar, mesmo que eu me lembrasse não teria coragem de deixar . Ele é o melhor homem que eu conheço: gentil, paciente, carinhoso. Me ajudava a superar meus pontos fracos, me dava o maior apoio para conquistar minhas metas, por mais doidas que fossem. Eu sabia que ele não gostava, mas fazia o esforço para me acompanhar em exposições e teatros mudos e ainda dizia que se divertiu muito, mesmo que eu soubesse que ele claramente odiava. sempre estava pronto para o que quer que fosse, com um sorriso no rosto e uma expressão incrível de determinação. Foi ele que ajudou a terminar a reforma da piscina, construiu a churrasqueira por perto junto com Gus, instalou o ar-condicionado no quarto de Melissa e, sabendo da minha alergia a tinta, pintou sozinho as paredes do nosso futuro apartamento em menos de uma semana. Sem contar que era ele que estava fazendo a maior parte da reforma por lá, apesar de a arquiteta ser eu.
Parece assustador quando eu chego a descrever uma pessoa basicamente perfeita, mas ele era assim. Não vou mentir e dizer que não tinha defeitos; podia ser muito teimoso quando queria, além de raramente aceitar que estava errado. Mas como é típico dele, me pedia desculpas mesmo assim, não gostava de ir dormir sabendo que não estávamos bem, mesmo que estivesse certo.
Não havia tempo ruim para esse homem, e essa era de longe a característica que eu mais admirava nele: seu otimismo. Durante todo o primeiro ano que foi embora, eu estava aflita com essa parte de mim que eu sabia que estava faltando. Com por perto era mais fácil suportar o vazio, principalmente porque não ficamos exatamente amigos. Eu tinha esquecido, mas meu corpo e minha mente queriam desesperadamente essa parte da minha vida de volta, queriam esse pedaço que estava faltando. estava do meu lado, me dizendo que tudo ficaria bem, que eu iria me lembrar em algum momento, pelo menos fragmentos. Foi quando eu percebi que já não queria mais me lembrar, tudo que eu precisava estava bem ali, nos braços dele. não entendia que eu o amava mais que tudo nesse mundo, não entendia que eu seria capaz de levar um tiro por ele, morrer por ele. A aliança de noivado não era o bastante para demonstrar isso, e nada nunca seria o bastante.
Avancei até onde ele estava e o abracei, com a maior sinceridade e afeto que meu corpo conseguiu reunir.
— Isso não muda nada, . Ele voltou e ele pode ir embora novamente, não muda absolutamente nada. — Falei, com a voz abafada no seu peito.
— Eu sei que não, mas, mesmo assim, eu...
— Shhh – Silenciei, colocando o indicador em seus lábios. — Você acha que eu uso isso à toa? — Perguntei, mostrando a aliança. riu.
— Sim, convenhamos, ela é muito linda. Tenho um excelente gosto. — Gabou-se. Na verdade, eu praticamente havia escolhido minha própria aliança entre várias e várias indiretas, mas nenhum dos dois comentou sobre isso.
— Exato, e eu só uso por isso mesmo. — Brinquei, mas depois fiquei séria. — Nós vamos nos casar daqui a exatamente quatrocentos e quinze dias, e eu estou a um passo de pirar a cada vez que me lembro, estou bem ansiosa. aqui ou na Inglaterra, ainda vamos nos casar em quatrocentos e quinze dias.
— Ainda está pirando?
— Como não pirar? Noventa por cento dos fornecedores não dão mais sinal de vida! E ainda tem as lembrancinhas, o fotógrafo, e você sabe que ainda temos que fazer aquele ensaio pré-wedding com ele, e também os convites, e...
— Ei, calma aí, . Quem ouve você falando assim acha que está sozinha nessa. Tem sua mãe, Thay, Rafa... – Contou, enumerando nos dedos das mãos. Dei um tapa no ombro dele.
— E quem te ouve falando assim acha que eu sou uma noiva mandona.
— Mas você é uma noiva mandona.
— Ah, cale a boca! – Reclamei, dessa vez dando um tapa em minha própria testa e pegando a escova de cabelo.
Ele riu de um jeito moleque, passando as mãos nos cabelos molhados de suor. O clima era realmente quente, até mesmo a piscina não tinha refrescado tanto assim. pegou a escova da minha mão e passou a pentear meu cabelo por mim. Estava curto – cortei pelo menos um palmo quando voltei de Londres – e batia nos meus ombros. Ele penteou meu cabelo para o lado contrário que eu geralmente penteava, e gostei. Acho que vou manter assim por um tempo.
Nós dois descemos a escada juntos e as meninas já estavam vestidas com as saídas de banho quando chegamos até a cozinha.
— Estou sentindo falta de alguém... — comentou, pensativo. Rafa e Thay se entreolharam.
— Alex. — Disse Anna. — Está fazendo intercâmbio na Austrália.
— É. Há dois anos. — Acrescentou Rafa, com azedume.
E de repente todos ficamos tensos.
Ninguém gostava muito de tocar no assunto Alex. Agora estava até tranquilo, mas na época o término dele e Rafa foi extremamente cansativo. Tudo bem fazer intercâmbio e terminar com a namorada, mas ele garantiu que seriam seis meses e logo voltaria para ela. Os seis meses se transformaram em um ano, que, por fim, se transformou em dois. Ele já não tinha mais data para voltar e também não falava mais com a gente. Vez outra comentava nossas postagens no Facebook e curtíamos suas fotos do Instagram, mas nada muito profundo. Digamos que perdemos o contato quase completamente.
— Mas não é só ele. – Continuou, olhando em volta. Suspirei.
— Bem, não é sempre que um grupo de ensino médio se torna amigos para o resto da vida, e isso certamente não aconteceu conosco. – Informei, pensando com carinho nos amigos que o tempo tirou da minha vida.
Acho que percebeu a tensão da sala e, graças a Deus, não perguntou mais nada sobre Alex.
— Amor, vamos? — Perguntou Pierre a Rafa, apontando para a porta da sala, indicando a saída.
balançou a cabeça.
— Todo mundo aqui namora entre si? – Perguntou, rindo, provavelmente percebendo somente naquele momento que Rafa e Pierre eram um casal.
— Estamos todos entre casais. É lindo. — Suspirou Gus, fazendo algumas pessoas rirem com ele.
— Certo, temos e , eu e Thay, Rafa e Pierre, e, claro, Mel e Teddy.
Mel deu risada com a declaração, dando um beijinho babado na cabeça de Teddy, e isso nos fez ficar entre a devoção eterna e o riso. Nem mesmo Gus aceitou essa demonstração de fofura suprema, pegando Mel no colo e fazendo muitas cócegas.
— Tia Bae, me salva! – Gritou para mim, em meio a risadas. — Para, papai, é sério, é sério!!!
Resolvi intervir a favor da minha bebê, arrancando-a dos braços do pai.
Melissa era muito parecida comigo, tanto física quanto emocionalmente. De muitas formas, ela lembrava a mim mesma. Suas atitudes, as teimosias e os gracejos, pareciam algo que eu mesma faria se tivesse a idade dela.
Quando Mel nasceu, eu ainda estava estranha com Thay. Não me lembrava de minha irmã grávida e muito menos que havíamos feito as pazes. Gus a ajudou enquanto eu estava muito ocupada sendo estranha para dar auxílio a uma menina de dezesseis anos que tinha acabado de ter um bebê.
Mas é claro que quando a voz da menininha que eu vi crescer surgiu me chamando de titia eu não resisti e essa parte do meu coração acabou amolecendo, cedendo aos encantos e fazendo tudo que ela queria. Também foi complicado aceitar que Thay e Gus eram um casal, até mesmo porque há poucos meses antes ele era totalmente maluco pela Rafa, mas no fim decidi que os dois eram perfeitos um para o outro. No começo foi uma guerra de conflitos, eu queria Gus para mim, mas, ao mesmo tempo que ele queria passar um tempo comigo, ele precisava ajudar Thay e pela primeira vez em anos tivemos uma briga feia, na qual ele me disse aos berros que estava apaixonado por ela.
Gus passou de um adolescente para um homem em poucos meses por conta de uma criança que nem era responsabilidade dele e quando eles vieram com esse papo de casamento alguns anos depois, ninguém (repetindo, ninguém mesmo) foi contra o matrimônio colocando a culpa na pouca idade deles, de tão bons um para o outro que eles eram. E seria compreensível se fizessem isso já que Thay tinha apenas 19 anos quando se casou. Foi a festa mais linda que eu já vi, nem sequer And ousou segurar as lágrimas.
Thay aprendeu muito com o erro dos nossos pais, e por isso Melissa sabia que tinha um outro pai. Na verdade ela era muito jovem para entender, mas acreditava que tinha dois papais, e chamava os dois de pai. Quando estavam juntos era “papai Jonata e papai Guis”. Thay jamais perdoou Jonathas pela gravidez negligente e nenhum de nós gostavámos dele, mas depois de muita insistência vimos que seu interesse em Melissa era genuíno. Não era seu programa preferido, mas Mel convivia com Joe de bom grado quando ele aparecia para uma visita.
Há uns dois anos, quando eles, por fim, se casaram, minha mãe decidiu que já estávamos grandinhas o suficiente para nos virarmos sozinhas. Ela se mudou para Florianópolis com And, e eu e Thay ficamos com a casa. No começo eu morava com ela e com Gus, mas depois decidi que seria melhor se eles tivessem um cantinho só para eles, por isso me mudei, depois de alguns meses, para um prédio há poucos minutos daqui. e eu ainda não morávamos juntos, e isso foi uma exigência dele mesmo. Mas estava tudo bem, na maior parte do tempo eu gostava de morar sozinha.
Com Mel sã e salva dos ataques de Gus no meu colo, sorrimos, cúmplices. Gus fez uma cara engraçada murmurando algo como “não vou mais dar aquela boneca que você queria”, o que só fez Melissa rir mais ainda. Nem mesmo ela levava essas ameaças a sério, Gus também fazia tudo que ela queria. Thay meio que desaprovava fingindo repulsa a essa mimação toda, mas, no fundo, eu sabia que estava tudo bem para ela.
Rafa anunciou que também estava de saída e junto com Pierre, se despediram de todos e sairam porta afora.
Suspirei, cansada, me jogando no pufe da sala, ainda com Mel no colo. Ela começou a mexer nos meus cabelos e sentou-se ao meu lado, reivindicando Mel para os braços dele.
— Tio , você disse que eu ia experimentar meu vestido de noiva amanhã, mas o amanhã já passou na segunda feira. — Demos risada da noção de tempo da garota. E é claro que não era um vestido de noiva, mas foi isso que Rafa disse a ela.
— Mas eu estava falando de um outro amanhã.
Ela olhou para desconfiada.
— Então quando é? — Perguntou, cruzando os bracinhos. olhou para mim em busca de socorro.
— Semana que vem! Que tal, pode ser? — Propus.
Melissa pareceu examinar minha oferta.
— Ok. — Disse, saindo do colo de e gritando “semana que vem é amanhã” pela casa.
— Ótimo, , agora ela vai me perguntar todo dia se falta muito para semana que vem. — Resmungou Thay, sentando no sofá, avistando a filha ir até o quintal. Dei de ombros com um sorriso.
— Antes você do que eu. — Thay me encarou com indignação e depois olhou para a filha que retornava com um Teddy brincalhão atrás dela.
— Filha, quer passar a semana com a Tia Bae? — Perguntou Thay, fazendo Gus e gargalharem da minha cara de espanto. Merda.
Melissa olhou de mim para e depois seu olhar parou em .
— Quero ficar com o Tio . — Murmurou, se enroscando na perna dele. Ninguém esperava por isso, mas pude ver que Thay lançou um sorriso terno quando viu a cena.
— Salva pelo . — Sussurrou Thay para mim.
— Está tudo muito... igual. — Comentou , fazendo todos olharem para ele. Até então ele não tinha falado muito, então estranhamos.
— Como assim, ? — Perguntou Gus, que estava de braços cruzados no braço do sofá. coçou a cabeça.
— Os casais estão diferentes, mas vocês não mudaram nada. Isso é bom. — Thay sorriu para ele, o puxando para um abraço.
— Todos sentimos sua falta, .
Fale por você, queridíssima irmã. Ranço é algo que não passa nem se ele salvar um cachorrinho de um prédio em chamas. Ouvi muito sobre ele, e ainda não acreditava que ele tinha ido embora do país impune. Quer dizer, uma pessoa que faz isso infringe algumas muitas legislações de trânsito. Ele não pagou um centavo de multa, acho que porque ninguém prestou queixa, mas mesmo assim. Nem minha conta do hospital. Nada. Ele simplesmente passou por cima de mim e “ah, ela não lembra de mim mesmo, vou voltar para a Inglaterra”. Não que eu fizesse muita questão de ele ter ficado no Brasil, mas era assim que eu me sentia. Com raiva. Sim, com raiva. Eu tive que passar por tudo que eu já tinha superado tudo de novo, e agora tinha inclusive um ex namorado que eu não lembrava de ter amado um dia.
— Bom, vamos indo, amor? — Perguntei para , que estava ocupadíssimo fazendo cafuné em Teddy.
— Claro. — Disse ele, já ficando em pé. Passou por mim indo em direção a cozinha pegar a chave do carro. Deu um beijo no rosto de Thay e apertou a bochecha de Mel no caminho, gritando um “Tchau, Gus!” a distância.
— Tchau, Thay. — Falei, dando um abraço em minha irmã, que o retribuiu afetuosamente.
Mel aproveitou o momento para abraçar minha cintura, me largando para sair pelo quintal com Teddy em seu encalço. Gus deu um beijo em minha cabeça e eu não sabia muito bem como me despedir de . Preferi não dizer nada, dei apenas um sorriso amarelo, mas antes que eu chegasse a soleira da porta, senti que segurou meu cotovelo. Aquele toque... eu não me lembrava daquele toque, mas sabia que era dele porque era tão familiar.
— Eu... espero que saiba que eu vim com boas intenções... Não vim destruir seu noivado nem nada do tipo. Quer dizer, eu nem sabia que estava noiva até Thay me contar. — Justificou, rapidamente. Eu só pude olhar com cara de tonta. Tipo “E o que eu tenho a ver com isso?”. Não que eu tenha dito, mas deu vontade.
— Tudo bem. Tchau, . — Sussurrei, me virando para sair dali. Ele suspirou uma vez mais e desde que nos encontramos era a primeira vez que eu via um vestígio do das fotos que todos me mostravam.
— Mesmo que não se lembre de mim ou do que tivemos, é bom te ver de novo. Eu realmente senti sua falta, .
Foi o que disse antes de me soltar e voltar para sala. Fui andando lentamente para os braços de .
Basta dizer que eu não estava gostando nem um pouco da estadia de aqui.


Capítulo 3



— Até que não foi tão ruim — murmurou Thay atrás de mim.
Dei um suspiro longo, bagunçando meus cabelos de tanta frustração.
— Fale por você, Thay. — Murmurei, rabugento.
— Tio , olha o que eu sei fazer!
E Mel se dispôs a nos fazer uma apresentação de balé, envolvendo várias piruetas, na esperança de arrancar suspiros e aplausos. Deu certo, me fez sorrir. Ela me fez me lembrar de Mack de novo.
Fiquei sentado no sofá com Mel, até que Thay veio chamá-la para tomar banho e ir para o quarto dormir. Aquela garotinha era mesmo a personificação de todas as animações que Thay havia assistido durante a gestação. Achei graça disso.
Por mais que a visita não tenha corrido tudo da maneira que eu esperava, fiquei sinceramente feliz em ter vindo. Tinha sido bom conhecer Mel e ver , mesmo que eu não pudesse tê-la. Ela estava mais bonita, mais madura, e era perceptível pelo seu rosto que estava feliz com a vida que levava e que, principalmente, era feliz com .
Eu sentia que estava no lugar certo do mundo de novo, mesmo que isso significasse não poder ajudar a se lembrar, como ela me pediu.
E se ela não quisesse mais lembrar? Aparentemente, não queria mesmo.
Eu sabia que estava frustrado por ter tomado uma decisão estúpida tão somente baseado na carta que uma garota de dezessete anos escreveu há alguns anos. Eu me sentia o maior dos idiotas por isso. Uma carta que ela nem sabia que tinha escrito.
O “eu te amo” que ela nunca me disse.
? — Percebi que não era a primeira vez que Gus me chamava.
— Desculpa, disse alguma coisa? — Ele riu.
— Perguntei o que te fez voltar. Sinceramente. — Thay arqueou as sobrancelhas para ele, mas percebi que ela também estava curiosa. Eu não tinha o que esconder.
— Uma carta.
Deu para perceber que eles sabiam do que eu estava falando pelo modo como olharam um para a cara do outro.
— Você só pode estar brincando.
— Ele está falando da carta que a Rafa achou no quarto dela? — Questionou Thay. Era uma pergunta apenas para autoconfirmação. Ela sabia que era a isso que eu me referia.
— Eu não sei... Fiquei com saudades, acho. Eu estava querendo vir há um tempo, mas precisava de uma desculpa. — Confessei, envergonhado.
— Mas o que você veio fazer aqui? — Insistiu Gus. — Não que eu não esteja feliz em vê-lo, porque eu estou. Só queria saber, de verdade, o que pretende fazer.
Percebi que ele não dizia isso porque se preocupava comigo. Não. Ele queria saber minhas intenções pelos mesmos motivos que todos os outros: ele queria proteger . Queria que eu ficasse na minha e não causasse problemas. Apesar de terem sido gentis comigo até agora, eles não queriam que eu perturbasse a paz.
— Eu não vim destruir o noivado dela. — Me defendi. — Eu vim para ter de volta. Mas eu não fazia ideia de que ela estava noiva até você me contar, Thay.
Eu não queria me abrir assim tão rápido, mas estando ali, naquela casa e com aquelas pessoas, as emoções tomaram conta de mim.
, olha... Eu não posso simplesmente pedir para que lute por ela. Ela está feliz e é minha irmã. O que mais importa no mundo é a felicidade dela. Vocês tinham uma história linda, envolveram todos nela e, por isso, a separação doeu em todo mundo. Mas aquela que foi sua... Ela não existe mais, . Ela nunca vai lembrar.
— Eu sei que é brutal, mas é a realidade. And pagou os melhores neurologistas que pôde, e o resultado sempre apontava para uma sequela permanente. Eu sinto muito. — Gus parecia sinceramente chateado. Não que isso diminuísse minha dor.
— Não queremos que tenha esperanças, só isso. — Completou Thay.
— Mas e se eu puder fazê-la se apaixonar por mim de novo?
Thay olhou para baixo, mordendo a boca. Parecia que ela ia dar um sermão, mas foi Gus quem falou por ela.
— Eu acho que isso não é justo. É a maneira certa de fazer as coisas, mas não é justo. e passaram por muita coisa.
Suspirei. Era bem verdade.
— Não podemos escolher entre você e . A decisão é de , e sempre estaremos do lado dela.
— E ela já está confusa o bastante com o seu retorno, . Dê um tempo a ela — Orientou Gus, por fim.
Mesmo quando namorava comigo e mesmo que ele visivelmente ainda a amasse, nunca tentou roubá-la de mim. Nunca mandou mensagens de texto estranhas para ela, nunca disse nada que comprometesse nosso namoro. a amava e, mesmo assim, deixou as coisas como estavam. Era amigo dela e meu amigo e nunca foi mais que isso. Cuidava dela no limite correto e sempre foi sincero comigo em relação a ela. Ele nunca tentou reconquistá-la, nem fez o menor gesto que sugerisse isso.
Acho que, no fundo, esperava que eu fizesse o mesmo por ele agora. O único problema naquela história era complicado. Eu não era .
— E não se esqueça de um detalhe importante.
— O que foi, Thay? — Perguntei.
— Você se lembra do que pediu para a gente contar para ela, não lembra? Do acidente?
Não lembrava. Eu lembrava que, naquele momento, quando a vi pela primeira vez acordada no hospital perguntando quem eu era, eu nunca mais ia voltar. Lembrava de ter me sentido chateado e vazio, mesmo para um adolescente. Lembrava de ter sentido a dor da perda mais uma vez. Ela não tinha morrido, mas eu sentia que sim. Lembrava de esquecer completamente de ter perdoado a verdadeira infratora. As sequelas foram tão péssimas que não havia perdão.
Foi quando me lembrei do que Thay estava dizendo.
— Ela ainda acha que fui eu quem a atropelei. — Afirmei. — Por isso que ela me odeia.
Eu pedi para eles contarem isso porque não fazia ideia de que um dia aquilo seria um empecilho para mim.
— Sim. Ela acha. — Disse Gus, triste. — Podemos contar a verdade para ela. Se você quiser. Eu falei sobre justiça antes, e isso com certeza não é justo para você.
— Não. Não conte nada a ela. Deixe como está. — Thay me olhou, desconfiada. — Por favor, não contem.
Eu acreditava que não iria me ajudar muito, mesmo se ela soubesse que não tinha sido eu. Ela ficaria brava com a melhor amiga, comigo e com todo mundo que tinha mentido para ela. O motivo pelo qual fizera isso foi justamente para dar uma nova chance para a amizade delas, e voltar atrás anularia completamente a nobreza daquela ação. Pensar em Anna me deu náuseas, mas precisava saber o que tinha acontecido.
— E quanto à Anna? — Thay suspirou.
— Ainda falamos com ela. Se mudou para Washington há quase um ano, mas já tem planos de voltar. Na verdade, ela é uma das madrinhas.
Então, estava decidido: não iria contar a verdade para . Se Anna e ela conseguiram resgatar aquele laço, estava de bom tamanho para mim.
— Eu preciso voltar para o hotel. Tenho que me preparar para uma reunião na Paulista daqui a três dias.
Thay concordou com a cabeça, pondo a mão na cintura.
— Por favor, volte mais vezes! Foi muito bom mesmo ver você, .
Concordei.
— Claro, eu virei. Diga à mini Thay que eu amei conhecê-la. — Gus sorriu. Ele estava sempre sorrindo.
Dei um abraço em Thay e Gus e fui em direção à porta da frente, saindo da casa que também tinha sido meu lar por um tempo.

Eu já conhecia Thay e Gus antes, mas ver os dois como um casal era muito diferente. Eles se completavam de muitas maneiras e, mesmo que não tivessem em momento nenhum trocado gestos de afeto na minha frente, só a maneira como se olhavam já me fez me sentir solitário.
Cheguei no quarto do hotel e pensei em ligar para Mack, mas estava com a bateria baixa. Coloquei o celular para carregar e resolvi desfazer as malas, afinal, iria ficar seis meses. Após organizar todo meu armário, fui tomar banho e colocar uma roupa mais fresca, já que o valor do dia não se dissipara.
Não conseguia parar de pensar em . O que ela estava fazendo? Onde morava? O que aquela nova gostava de fazer? Será que ela ainda gostava de azul? Será que ela ainda amava vitamina de banana? Essas perguntas estavam me deixando louco. A chance de — da minha — realmente não existir mais me deixou deprimido. E se eu tivesse cometido um grande erro? Deveria ter permanecido na Inglaterra e tentado ser um pai melhor para Mack. Como Gus.
Pensar em Mack me lembrou de ligar para ela. A bateria apontava que apenas 47% estava carregada, mas liguei pelo FaceTime mesmo assim.
June demorou um pouco para atender, e, quando o fez, notei que estava muito arrumada e bonita e que tinham várias outras vozes ao fundo. Pelo sorriso, ela tinha bebido alguns shots, mas ainda não estava bêbada.
— Oi, June!
! É uma da manhã aqui! Você vive esquecendo do fuso! — Pude vê-la rindo e jogando a cabeça para trás. — A Mackenzie está com uma amiga minha.
— Eu sempre esqueço do fuso mesmo! — Ri de nervoso. Porque era verdade.
— Eu poderia passar o contato, mas acho que a essa hora ela já dormiu. Quer ligar de manhã? Irei buscá-la às dez.
Ouvi alguém chamando June. Parecia que ela estava se divertindo, e eu não queria estragar isso para ela.
— Claro, eu ligo amanhã. Divirta-se, June!
Ela me mandou um beijo, e a última coisa que eu vi antes dela desligar foi um braço masculino do lado dela.
June era uma boa mãe, mas, no começo, ela era tão dedicada a Mack que quase não
tinha tempo para si mesma. Acho que ela tentava provar para mim que era capaz de lidar com isso. Eu era um imbecil — acho que ainda era —, ela não precisava provar nada para ninguém. June era uma mulher nova, tinha apenas vinte e um anos, e estava mais do que certa em querer viver a vida.
Liguei o ar-condicionado do quarto e apaguei as luzes. O trabalho iria começar em três dias, e eu esperava que meu sotaque não estivesse mais tão esquisito quanto antes. Coloquei meu celular de volta na tomada e deitei a cabeça no travesseiro, adormecendo quase instantaneamente e tendo uma noite tranquila e sem sonhos.

— Papai, estou com saudades! — Murmurou Mack bicuda do outro lado do telefone. Dei um sorriso para ela.
— Quando você menos esperar, eu já vou estar de volta!
— Sua viagem a negócio é muito chata. — Respondeu, rabugenta. Sei que não deveria, mas achei engraçado.
— Ei, não fale assim com o papai, Mack! — Ouvi June dizer ao fundo. Mack desfez a cara feia, mas pude ver que ainda estava brava comigo.
— E como estão as aulas, Mack? Tem muitos amiguinhos? — Perguntei inocentemente. Ela me deu um sorriso muito sapeca.
— Amiguinhos não, mas eu tenho um namorado!
Dei risada.
— Não pode ter namorado aos quatro anos de idade, mocinha.
— Mas eu tenho, e ele chama Peter! Eu amo o Peter!
— Temos que sair, fala tchau para o papai.
— Tchau, papai! Da próxima, eu chamo o Peter para você conversar com ele também!
Dei risada de novo, mas só acenei um tchau com as mãos. June apareceu na tela.
— Não pergunta, não faço ideia de quem seja Peter.
— Você deveria saber, se dá aulas lá. — Brinquei.
— Temos que ir, . Um beijo! — Disse, abaixando o celular para que Mack aparecesse na tela também. As duas ficaram acenando e mandando beijos.
— Tchau, meninas. — Respondi, acenando de volta.
Mack me dizendo que tinha um namorado foi demais até para mim. Ela tinha crescido tão rápido e era tão independente. Mack era bem tímida com quem não conhecia, mas nunca havia o tão amado silêncio quando estava conosco. Ficávamos tentando desesperadamente clicar no botão do desliga.
May me ajudava muito. Desde que tinha começado a beber, ela prometeu não contar a June se eu cuidasse da Mack direito. Eu não era o melhor dos pais e me culpava muito por isso às vezes. Mack merecia um tratamento melhor do que aquele que eu estava dando até aquele momento.
Percebi que me tornara tudo que eu mais temia. Meu pai. Compensava sua ausência com presentes caros e mimos. Precisei de muita força de vontade para jogar fora a garrafa que estava tomando naquele momento. Mas joguei tudo privada abaixo.
Não me senti bem por fazer isso, mas sentia que era um começo.
Eu seria um pai melhor para Mack.
E seria digno de reconquistar .
Depois de tomar um banho e me arrumar, saí do quarto, rumo ao restaurante do hotel para almoçar. O cardápio de hoje era moqueca de peixe. Não era bem o que eu considerava meu prato favorito, mas o cheiro estava bem gostoso. Sentei em uma mesa próxima à janela, mas me arrependi, porque o sol estava batendo muito forte daquele lado. Como todas as outras mesas estavam ocupadas ou reservadas, resolvi apenas me sentar do outro lado da minha mesa, em que o sol bateria menos na minha cara e mais na mesa mesmo. Quando me sentei novamente, escutei um sonoro “ah não” em uma voz que era tão familiar quanto todo o resto.
? — Quais eram as chances de ela estar exatamente no mesmo hotel que eu, sinceramente?! Ela me deu um sorriso amarelo, e pude ver que ela não tinha curtido muito ter me encontrado.
— Ah, oi, . — A mulher sorridente ao lado dela arrumou os cabelos curtos e me olhou interessada. — Essa é Marcela, minha assessora.
— Estávamos pensando em fazer a recepção da festa do casamento no buffet do hotel. Você recomendaria?
— Eu gosto. — Respondi sem graça. colocou os cabelos bem mais curtos atrás da orelha e mordeu o lábio inferior.
— Bom, já vamos indo.
— Mas a gente nem fez a degustação.
— Não gostei desse hotel. — Respondeu com um sorriso super forçado para Marcela. Em seguida, virou-se para mim — A gente se vê.
Ainda pude ouvir Marcela dizer “mas você disse que era perfeito!” enquanto ambas andavam até a saída. Vi as duas na calçada e não sei por que ou para que eu me levantei e fui atrás delas. Abri as portas do restaurante e corri muito para alcançá-la. Avistei e Marcela se despedindo, mas já estava dentro do carro, e eu ainda estava um pouco longe. Mesmo assim, corri, e ela poderia ter ido embora, mas me viu correr e abaixou os vidros.
— Sim?
Eu não sabia até agora por que tinha corrido um quarteirão inteiro atrás dela. Só sabia que queria ficar mais tempo com ela.
— Hm, que...
Ela fez uma careta de impaciência.
— Quer me dizer algo, ?
— Ouvi Marcela dizendo que você achou o hotel perfeito. — Falei a primeira coisa que veio na minha cabeça.
— Parecia ser — Murmurou, com a voz enojada. — E daí?
— Você não fez a degustação.
, se não tem nada a me dizer, me desculpe a grosseira, mas preciso ir. — Ela estava louca para sair de perto de mim, mas eu não podia desistir assim. Essa era uma que eu conhecia, a impaciente e apressada.
— Você não fez a degustação por minha causa, e eu gostaria que almoçasse comigo. — Ela me olhou em choque. — Para fazer a degustação! Só para fazer sua degustação.
, olha, não é uma boa ideia. Eu nem te conheço. — Aquilo doeu muito, mas tentei não demonstrar.
— Sem segundas intenções. Eu juro. — estava em conflito. Não queria minha companhia, mas parecia sinceramente interessada no hotel. Deu de ombros, tirando os cintos de segurança.
— Bom, que seja.
Trancou o carro e me pegou a encarando.
— O que foi?
— Nada.
Andamos em silêncio até o restaurante novamente, e, assim que me viu, o garçom perguntou se eu manteria meu pedido. Olhei para ela, que deu de ombros. Pedi, então, para fazer uma degustação, não sabia como funcionava, mas achei que iria saber. Não nos falamos mais, ela sequer olhava para mim. Examinava o relógio, o celular, a aliança, a rua, mas nunca olhava para mim.
— Para de olhar para mim. — Pediu, incomodada. — Está ficando constrangedor. Foi uma péssima ideia. — suspirou.
— Olha, o garçom está vindo.
Chegaram até nós diversos pratos, que experimentou com gosto. Respondeu que sim, tinha interesse em casar-se ali, e o garçom chamou o especialista em eventos, que era o responsável por aquele tipo de festa. e ele conversaram sobre tudo que queriam para o casamento enquanto eu apenas a observava falar. O modo como sorria encantada, as pulseiras balançando em seu pulso, a blusa de alcinha que estava caindo e ela se interrompia toda hora para colocar de volta no lugar.
Eu sentia tanta falta dela.
— Mas esse noivo é bem quietinho, né? — Comentou o especialista. Percebi que ele se referia a mim.
— Não, não sou o noivo!
— Não, ele não é! Ele é... um conhecido da minha irmã.
Passar de namorado para conhecido da irmã doeu mais ainda. Eu deveria ir embora. Deveria voltar para o meu país. nunca se lembraria. Thay me avisou que ela nunca iria se lembrar.
Sanadas todas as dúvidas, paguei a conta e a acompanhei de volta ao carro. No caminho, passou a andar na minha frente, como se estivesse fingindo que estava sozinha. Ao chegar no carro, porém, ela se lembrou de mim e se virou para me encarar.
— Obrigada por fazer isso, . — Agradeceu formalmente.
Ela colocou os cintos e saiu da minha frente tão rapidamente que nem me deu tempo de dizer a ela “por nada”.
Aquele almoço me provava tudo que meu coração já suspeitava. me culpava pela condição dela e me odiava por isso. Eu poderia sair daquela situação, mas aí ela ficaria brava com todo mundo e continuaria me odiando.
Voltei para o restaurante, pensando que tudo que eu podia fazer para tê-la de volta era torcer para um dia me perdoasse por um erro que nunca foi meu.

Capítulo betado por: Caroline Cahill.


Capítulo 4



Alguns dias se passaram desde que havia visto pela última vez, e agora eu estava bem. Senti-me culpada por almoçar com ele sem ter falando nada para , mas, mesmo assim, preferi não dizer nada a ele. Disse apenas que tinha gostado da degustação e que marquei uma visita para ele poder ir também.
Estávamos conversando com Paula, uma das fotógrafas com quem mantínhamos contato, para verificarmos qual pacote de fotografia era o mais indicado. Já tínhamos fechado o fotógrafo para o pré-wedding, mas, por melhor que fosse o André, ele era apenas iniciante e não iria conseguir cobrir o evento todo. Por isso, optamos por contratar uma segunda equipe de fotografia.
— Então vamos nos falando. A gente vai ver com calma e trazemos respostas para você pelo WhatsApp. — Disse para a fotógrafa. Eu não tinha gostado muito nem da proposta e nem dos valores, mas concordei com , dando um sorriso a ela.
— Obrigada pelo tempo de vocês, e tomara que possamos trabalhar juntos.
Por mais que tenha dito isso, suspeitei que ela soubesse que não nos encontraríamos novamente.
e eu observamos Paula se afastar e, quando já estava longe o suficiente para ser ouvida, começou com um:
— Não vai rolar!
Ao mesmo tempo que eu disse:
— Não gostei dela…
— Precisamos pegar referências se quisermos um fotógrafo bacana. — comentou, desanimando. — Tem certeza de que a Cireto não está disponível nessa data?
Cireto era Bárbara Cireto, que tinha feito as fotografias do casamento de Thay e Gus. Ela era maravilhosa e fez tudo exatamente da forma que eles pediram. A Cireto era, na verdade, a única referência que a gente tinha.
— Tenho. Confirmei com ela pelo menos quarenta vezes.
— E se a gente mudasse a data do casamento? Não enviamos convites para ninguém, nem mesmo comentamos a data.
Não queria ter mais aquele estresse de escolher outra data. A nossa data já estava decidida e já tínhamos fechado vários fornecedores para aquela data.
— A gente vai achar um fotógrafo. — Disse, decidida. entendeu o recado, por isso não insistiu.
— O que vai fazer agora? — Perguntou, brincando com a chave do carro.
Suspirei.
— TCC. Alguém aqui precisa se formar.
— Coitada... Com sorte, isso vai acabar antes que você imagine.
— Está se achando porque seu curso teve só quatro anos e o meu são cinco. — Acusei, cruzando os braços.
Ele riu.
— Talvez.
Dei um tapa leve no ombro dele, e nos levantamos para ir embora do shopping, onde estávamos conversando com Paula há pouco.
desistiu da carreira de ator no final do ensino médio, resolvendo se dedicar à fisioterapia. Não entendi muito bem o que tinha a ver uma coisa com a outra, mas, até onde eu sabia, ele amava a profissão que escolheu.
Quanto a mim, permaneci com meu desejo pela arquitetura. Ainda faltava um semestre e meio para eu me formar, e eu não aguentava mais. Amava o curso que fazia, mas, francamente, já estava de saco cheio. Depois que fiquei mais velha, parece que perdi minha capacidade natural em fazer amigos.
— Então, a Marcela comentou que não fizeram a degustação no Hyatt.
Ah não…
— Eu não fiz a degustação com ela. — Frisei.
, você não precisa esconder nada de mim. Sabe disso, né?
Ele respirou fundo enquanto olhava para os dois lados da rua antes de virar um cruzamento.
— Eu sei que está hospedado no Hyatt. Você almoçou com ele, não foi? — Deduziu, quando eu não respondi.
Decidi que não tinha sido nada de mais. Porque não tinha sido mesmo. Nós sequer havíamos trocado mais de dez palavras. E eu fiquei incomodada o tempo todo e não via a hora de sair dali.
— Sim. Não foi nada de mais. Eu fiquei incomodada quando me encontrei com ele. Aí ele se sentiu culpado e disse que pagava pela degustação. Foi só isso, a gente nem conversou. — Relatei, sem expressão.
O pior de tudo mesmo era que eu realmente tinha gostado demais do Hyatt. Caro para um caramba, passaria o resto da minha vida pagando, mas era perfeito, em todos os sentidos. Consegui me ver casando ali, e olha que eu nem tinha conhecido todo o espaço pessoalmente, só vi por fotos! A tour mesmo seria somente após aprovação do cardápio.
Só que teria que pagar um pequeno preço: estaria ali o tempo todo.
Eu não era o tipo de pessoa fútil, mas, caramba, ele podia ter alugado uma casa. Ia sair bem mais barato do que se hospedar em um hotel cinco estrelas. CEO Arrogante de Londres .
De qualquer forma, fiquei sabendo que ele passaria apenas seis meses aqui, o que indica que não estaria mais no Brasil no dia do casamento.
Agora o Hyatt estava completamente dentro da minha realidade, o que achei o máximo.
— Eu costumava gostar dele, mas ainda tenho aquela estranha sensação que ele vai roubar você de mim de novo. — Comentou, infantilmente.

— Eu sei, eu sei... Não sou mais um adolescente. — Reconheceu, pegando minha mão esquerda enquanto dirigia. — Mas eu não quero te perder, .
— Você não vai. ‘Tá bom? — Apertei a mão que ele segurava, e sorriu.
— Vai para sua casa ou para sua irmã?
— Preciso ir na Thay, minhas coisas estão lá. Mas fica tranquilo, eu pego um Uber depois para ir pra casa.
passou o resto do caminho soltando minha mão só quando necessário e fazendo carinho nela o tempo todo. Ele era assim, reconfortante, mesmo quando ele mesmo precisava ser confortado. Eu não tinha como dizer em palavras o quanto eu amava meu noivo.
— Obrigada pela carona, amor.
— Disponha, linda. — Disse, me dando um beijo na testa e me abraçando. — A gente se vê depois. Bons estudos!
Agradeci e passei pela porta da frente, sem me dar o trabalho de tocar a campainha, e subi direto para o quarto de hóspedes, onde minhas coisas estavam.
Thay e Gus estavam no trabalho e Mel estava na escola, o que deixava a casa vazia para mim.
Meu estágio havia se encerrado há dois meses, e eu preferi me dedicar ao TCC em vez de procurar um trabalho fixo. O mercado para minha área estava muito ruim, e eu estava preocupada em não conseguir um emprego bom depois da formatura. Mas, mesmo assim, decidi que, se eu me focasse no TCC, teria um melhor rendimento do que se tivesse que conciliar com trabalho.
Antes de subir, fui até os fundos verificar Teddy e trocar a água dele. Ele me deu uma grande lambida como um cumprimento e se pôs a beber a água limpa. Fiz um carinho nele e o deixei no térreo, subindo em direção ao quarto de hóspedes.
Suspirei, me espreguiçando e sentando na cadeira em frente à escrivaninha. Tinha um projeto industrial para renderizar e não gostava muito de fazer esse tipo de atividade longe da faculdade, devido à lentidão do notebook daqui, mas não tinha outra escolha se quisesse adiantar o trabalho. Liguei o notebook e peguei meus materiais, pronta para fazer meu melhor.
Devia ter ficado a tarde toda fazendo o projeto, pois só parei quando a cabeleira vermelha de Mel surgiu na minha frente.
— Oi, tia Bae! — exclamou, animada, jogando a mochila na cama e pulando em mim. Sorri, afastando a cadeira da escrivaninha para que ela pudesse se sentar em meu colo.
— Oi, meu amor. Como foi a escola hoje? — Ela me encarou com seriedade.
— O João grudou cola no meu cabelo. — Confidenciou, mostrando um chumaço grudento no cabelo cor de cobre. Levantei-me, alarmada.
— Você não mostrou para professora?
— Não, foi sem querer!
— Ai, Melissa, você me coloca em cada uma — Murmurei, levando minha sobrinha em meu colo até o quarto dela.
Deixei-a em cima da cama e separei uma leva de roupas limpas para ela. Lembrei-me da avó, que deveria ter trazido Melissa, e pensei que talvez ela merecesse uma folga de babá.
— Mel, fique quietinha aqui em cima. Vou falar com a vovó e já volto.
Desci as escadas e encontrei Suzana na cozinha, lavando os utensílios que estavam na lancheira de Melissa.
— Oi, Su! Não precisava se preocupar, eu mesma poderia ter feito isso!
Su sorriu e secou as mãos molhadas em um pano de próximo à pia antes de me dar um abraço.
— Não foi nada! Ela não bebeu o toddynho, guardei na geladeira. O resto já lavei.
— Obrigada mesmo.
Ela fez um gesto com as mãos, dizendo que não foi nada.
— Não sabia que estaria aqui hoje, mas já que está...
— Pode deixar. Eu teria que ficar aqui até Gus chegar mesmo.
Su respirou aliviada, mas de um jeito amoroso.
— Ufa, não aguentava mais as perguntas espertinhas. Diga à Mel que mandei um beijo e que volto para o jantar. Tchau, !
Suzana era maravilhosa. Conhecia-a há anos, graças à minha amizade com Gus. Ela também era uma avó sensacional para Mel e adorava Thay. A rotina era basicamente essa. Thay e Gus levavam Mel para a escola e iam para o trabalho. Em seguida, Thay ia direto para faculdade, e Suzana buscava Mel e ficava com ela até Gus chegar. Ela era realmente ótima com a nossa família.
Su me deu outro abraço e, pegando a blusa de frio que colocou por cima da cadeira, saiu porta afora. Subi as escadas, encontrando Melissa totalmente despida e debaixo do chuveiro, tentando sozinha tirar a meleca de cola do cabelo.
— O que eu disse sobre ficar quietinha? — Perguntei, entrando no banheiro do quarto dela, que outrora pertencia a Thay.
— A vovó foi embora?
— Foi, mas ela te mandou um beijo e disse que volta mais tarde — Mel ficou aparentemente satisfeita. — Me deixa ver o que você aprontou.
Melissa riu com a independência recém-descoberta, mas me mostrou onde estava a cola em seu cabelo. Passei shampoo o bastante para soltar a meleca pelo menos umas duas vezes, logo em seguida apliquei o condicionador, em uma quantidade maior que o normal, já que passar shampoo tantas vezes deixou o cabelo um pouco seco. Com Mel já enrolada na toalha, apliquei um creme de pentear que era meu, mas, nesse caso, iria funcionar para ela. Penteei delicadamente o cabelo dela, caso houvesse vestígios de cola, o que não aconteceu. Mel insistiu em se vestir sozinha, então a deixei no quarto e desci para a cozinha novamente para preparar um lanche para ela, já que o jantar de hoje seria mais tarde por conta das visitas.
— Tia Bae? — Gritou de lá de cima.
— Estou na cozinha, Mel!
Fiz o lanchinho para ela e aproveitei para comer também, já que minha última refeição tinha sido o café com a fotógrafa mais cedo. Assistimos uns dois filmes até que Gus chegou junto com Thay, que aparentemente não tinha tido aula hoje.
— Mamãe! — Gritou Mel, indo para o colo dela. Melissa era muito intensa. Era uma das coisas que eu mais amava naquele pequeno ser humano. Eu a amava tanto!
— Oi, ! Deu certo com a Paula? — Perguntou Gus, se referindo à fotografa.
Dei um muxoxo.
— Não. Mas tudo bem, ainda temos uns quatrocentos dias para organizar esse casamento.
Thay sorriu, colocando Mel no chão novamente.
— Continuem tentando. Vão achar alguém bacana.
Concordei. Não me demorei muito tempo ali, estava super cansada e precisava da minha cama. Pedi um Uber para ir embora e me despedi da minha família ao mesmo tempo que o carro que eu pedi estacionava na frente da casa. Segui sem problemas até o prédio onde morava, tomei um banho e me joguei na cama. Decidi mandar uma mensagem para e avisar que estava sã e salva dentro do meu apartamento. Sem querer, meu celular entrou no Google. Fiquei o dia todo sem pensar em , mas lá estava em letras garrafais o nome dele em destaque nas notícias. Ninguém ligava que ele era o cara com menos de vinte e cinco anos mais rico de Londres, nem tinha sido mérito dele! Era herança, todo mundo sabia disso. Minhas bochechas ruborizaram de vergonha de mim mesma quando tive tal pensamento. Lembrei do que Rafa disse no dia que se encontraram. Ele não queria nada disso e sentia muitas saudades da mãe. Quem era eu para julgar, não é mesmo? Aposto que viver de herança aconteceria comigo e com Thay, caso algo acontecesse com nossos pais assim tão cedo.
A vinda dele para o Brasil salpicava lembranças tristes em minha mente. Mesmo que não me lembrasse dele, fazia com que eu me recordasse do nosso antigo grupo de amigos, das coisas que a gente aprontava antes de cada um seguir seu rumo. De todos os meus amigos do ensino médio, só me restava mesmo Rafa e Gus, e, se fôssemos contar, . E, no final das contas, estava tudo bem. Anna havia se mudado para Washington com seus pais, e, por mais que eu a amasse e soubesse que sempre seríamos amigas, não éramos mais tão próximas uma da outra, não tanto como eu era com Rafa. Alex, como já dito, estava em seu intercâmbio infinito. Julia e Leo foram os contemplados com uma nota do Enem abençoada e faziam faculdades federais em outros estados. Em determinados casos, a falta de proximidade podia sim diminuir a intimidade e o conforto que alguém costumava trazer. Senti-me triste por me lembrar deles e culpei por me trazer tal lembrança.
Respirei fundo, forçando a sair da minha cabeça.
Conversei um pouco com , depois me despedi e apaguei a luz. Tive uma noite de sono tranquila e sem sonhos, que era exatamente tudo o que eu estava precisando.

Três dias depois, no sábado de manhã, acordei com o interfone do prédio anunciando a entrada de . Nove horas da manhã. O que ele tinha para falar comigo às nove horas da manhã?
Abri a porta do apartamento para ele.
— Oi, amor. — Disse, esfregando os olhos e me esticando para dar um beijo nele.
estava com os olhos brilhando, o que me deixou ansiosa, mesmo sem saber o que era.
— Consegui a Cireto.
Acho que eu gritei.
— O quê? Como? — Ele deu uma coçadinha no queixo misturado com um sorriso bem travesso.
— Não fica tão feliz ainda. Tem um porém.
— Quem quer saber de porém? Eu aceito qualquer coisa! — Estava tão afobada que quase derrubei o vaso que estava na prateleira ao meu lado. Quase.
— Desse porém você vai querer saber. Bem, é melhor se sentar. — Fiz o que ele pediu, ainda que meu sorriso permanecesse intacto no rosto. O sorriso dele era muito aconchegante e gentil, o que não me fez sentir medo da notícia que viria.
— ‘Tá, e aí? — Insisti, quando ele não falou nada.
— A verdade é que a Cireto não tinha agenda para o dia seis de junho de 2019. Então, meu plano é: vamos mudar a data.
Meu sorriso vacilou um pouco.
— Mas....
— Espera, me deixa terminar. Eu te amo, . Eu queria fazer isso de um jeito romântico, mas fiquei conversando com a Cireto até achar uma data legal e, assim que acordei, quis vir contar para você. Ou assim pensei que fosse. A verdade é que quatrocentos dias é muito tempo. Não estamos mudando a data por causa de uma fotógrafa, estamos mudando a data porque te quero logo. Quero ver essa sua carinha amassada todos os dias, quero te surpreender com café na cama vez ou outra, ser a primeira pessoa a te dar parabéns no seu aniversário quando o relógio virar meia-noite. Quero muito isso, , e quero isso logo. Por favor, entenda que eu morro de saudades suas todas as vezes que saio dessa casa.
Então, ele se ajoelhou.
Lopez, aceita ser minha esposa daqui a cento e sessenta e três dias?
Fiquei mais chocada do que quando ele me pediu em casamento.
— Você quer antecipar o casamento em mais de duzentos e trinta dias?
— Sim. E você?
Sorri, comovida por suas palavras. A verdade era que, sim, eu queria viver tudo que ele estava oferecendo e muito mais. Estava encantada com a ideia de que o casamento que iria ocorrer no próximo ano tinha sido antecipado para daqui a cinco meses. Em apenas cinco meses, eu seria , esposa de , meu namorado da escola. Eu tinha tudo que eu precisava! Uma família amorosa, amigos presentes, carreira estável e um noivo maravilhoso. Tinham fornecedores que já tinha contrato assinado. Isso daria um trabalhão para Marcela consertar, mas não iria deixar a burocracia estragar o momento.
— Sim. — Disse por fim. — Quero muito!
me levou para o quarto, onde nos abraçamos e nos amamos por horas, rindo e dizendo como era maravilhoso que estivéssemos na vida um do outro.
Em dado momento, tudo ficou calmo, pacífico e sereno. e eu nos aconchegamos em um silêncio confortável, em que eu estava deitada por cima de seu peito, ouvindo as ritmadas batidas de seu coração. Tentei fazer meu coração bater no mesmo ritmo, sincronizando minha respiração com a sua. Era algo que eu fazia às vezes. Ele fazia cafuné em meus cabelos, me trazendo para mais perto de si uns minutos depois. Estava me sentindo tão relaxada e segura em seus braços que eu fechei os olhos. Foi então que algo estranho aconteceu.

— Para, , é sério — Disse, rindo, para o garoto, que fazia cócegas em mim na cama. sorriu, cruel, preparando as mãos para mais um ataque.
— Então fala!
— Falar o quê?
— Você sabe o quê! — Frisou, fazendo cócegas na minha cintura de novo.
— Ok, ok. Eu falo! Para! — Ele parou, mas com as mãos em riste, caso eu tentasse me desvencilhar novamente. — é mais lindo que qualquer membro dos Vingadores. — Recitei, risonha. Ele me ajudou a levantar.
— Bom mesmo! — E roubou um selinho, em seguida distribuindo vários beijinhos pelo meu rosto.
— Eu só falei para escapar das cócegas — Disse, indo rapidamente até a porta do quarto. — Você ainda não chega aos pés do Thor!
riu, vindo atrás de mim.
— Você está brincando com o perigo, ! — Gritou, correndo escada abaixo. Estava na sala, onde encontrei Thay sentada no sofá, com o pote de gelatina apoiado na barriga.
— Pelo amor de Deus, vocês parecem duas crianças! — Reclamou, brava. O terceiro trimestre da gestação tinha acabado de começar, e ela ficava mal humorada várias vezes por semana.
O fato era que, ao me preocupar com o bem-estar da minha irmã, tinha conseguido me alcançar, derrubando-me no chão.
— Jamais irei ceder! Principalmente sob tortura! — Disse alto enquanto as mãos dele se aproveitavam da minha fraqueza para um novo ataque.
— Chega disso, vocês dois! — Gritou Thay por cima da minha risada. resolveu obedecer porque, no fundo, tinha medo dela, e olhamos um para o outro, cúmplices. Thay voltou a assistir o que quer que fosse, e me ajudou a levantar do tapete.
— Posso não chegar aos pés do Thor, mas você é perfeita. — murmurou, carinhoso, beijando meu rosto em seguida.


, você está bem? — Pisquei rapidamente, olhando para um preocupado na minha frente. Sem notar, descobri apenas depois que ele tinha me chamado. Estava sentada de um modo rígido na cama, e toda calmaria e segurança que havia sentido antes daquele momento foram esvaídas naquele ambiente.
— Desculpe, sim, estou bem.
me aconchegou em seu braço de novo, no qual me encostei, dessa vez, alarmada. Os últimos raios de sol estavam escapando pela janela, prendendo meu olhar. E foi encarando a janela semi-iluminada que descobri o que tinha acabado de acontecer, mesmo que eu tivesse certeza de que jamais aconteceria. Eu não estava nada bem, principalmente depois que percebi o que tinha ocorrido comigo. Algo que todos os neurologistas disseram ser impossível. Ter um ex-namorado de quem eu não me lembrava já era complicado, imagina começar a ter lembranças meses antes de me casar com meu primeiro amor? Porque, sim, o que todos temiam tinha acontecido.
Eu havia tido uma lembrança com .

Capítulo betado por: Caroline Cahill.


Capítulo 5



As semanas se passaram depressa, mais rápido até do que tinha imaginado. Implantar uma filial em um outro país dava muito trabalho, de modo que, pela primeira vez desde que tinha voltado, agradeci a May em silêncio por ter me feito vir. Aquele projeto seria um desastre sem minha intervenção. Por mais que odiasse ser o herdeiro, ninguém sabia mais sobre a empresa do que eu.
Passei pelas portas de vidro do prédio da Attala, empresa onde estavam acontecendo as reuniões de implantação, e a garota da recepção me deu um sorriso amistoso, liberando a minha entrada na catraca. Dirigi-me até o último andar do edifício, onde metade dos investidores e um punhado de acionistas já estavam em seus lugares. Lucas, o assistente que tinham me entregado, era um bom rapaz, mas não era tão competente como May, mesmo que ele fosse muito mais experiente e estivesse prestes a se formar. Mesmo assim, o jovem rapaz, que não era tão mais jovem que eu, entregou-me uma pasta com as pautas para a reunião. Os primeiros itens soariam sem problema, mas era o orçamento que me preocupava.
— Bom dia. — Disse de maneira rude, entrando na sala, onde o silêncio se instaurou após minha entrada. Eu não era tão idiota. Se eu não fosse firme, ninguém levaria a sério um cara de vinte e três anos como CEO de uma empresa, uma empresa gigante, diga-se de passagem. — Lucas me entregou as pautas para a reunião. Lucas, ligue para Scott Turner, por favor.
Sr. Turner era o acionista mais importante da companhia, pois detinha a maior parte das ações depois de mim, mas não pôde deixar suas obrigações e vir para o Brasil durante tanto tempo. E ele também precisava saber sobre as nossas decisões, além de opinar também. Lucas discou para a conta de Skype de Sr. Turner, que atendeu dois segundos depois.
Good morning. — Disse Sr. Turner, mal-humorado.
— Bom dia. — Traduziu Lucas para os poucos participantes brasileiros da reunião. Ouvimos uns murmúrios respondendo à saudação.
E o resto da reunião foi assim, com minhas pautas, as traduções de Lucas e a carranca adorável de Sr. Turner, que precisou acordar muito mais cedo, graças ao fuso horário.
— Bom, agora sobre o orçamento, qual é a proposta? — Questionei, por fim.
— Seria de dois milhões de libras, Sr. . — Informou o contador à minha direita.
— Dois milhões de libras convertido para reais seria?
— Cerca de dez milhões de reais, Sr.
Não sabia ao certo quanto daquele dinheiro realmente seria investido na compra do imóvel e reforma, mas parecia pouco para mim. Sr. Turner tinha outra opinião: queria reduzir o orçamento. O relógio se aproximava da uma da tarde, e eu já estava saturado. Por isso, pedi a Lucas que incluísse a discussão de orçamento para a próxima reunião e dispensei todos. Pedi ao meu assistente que separasse um estudo imobiliário daquela região da cidade e comparasse os preços, para que pudesse eu mesmo averiguar a necessidade de aumentar ou reduzir o orçamento.
Saí do prédio faminto e peguei um táxi para retornar ao hotel. Sabia que estava com uma aparência exausta e suado por conta do calor, mas sentia tanta fome que apenas tirei meu paletó e, carregando-o nos braços, passei pelo saguão para seguir em direção ao restaurante. E, depois de tantos dias sem notícias suas, lá estavam e no saguão do Hyatt. Eu ia bem passar reto. Eles não eram tão simpáticos a mim, de qualquer forma. Mas me chamou.
— Oi! — Respondi, indo em direção a eles. tinha um sorriso mínimo, seja lá o que fosse.
— Vejo que andou trabalhando. — Disse , apontando para minha roupa social pela metade.
— É, pois é. Sempre muito trabalho por aqui.
— Não consigo acreditar que é dono de uma empresa. Quer dizer, você tem a nossa idade. — Comentou .
Fiquei um pouco sem graça.
— Sabe como é, herança. — Comentei, dando de ombros. — Veio conhecer o restaurante? A gente super recomenda. — Perguntei a . Foi idiota jogar na cara dele que tinha almoçado com naquele dia, eu sabia. Mas não consegui me segurar. deu risada, e fez uma careta estranha.
— Não, não... Estamos esperando Marcela, temos muito o que fazer agora que o casamento foi adiantado.
Nessa parte, concordamos que precisamos saber o momento de ser um tremendo cuzão. E era claro que tinha ganhado a partida. Pude ver isso estampado no sorriso dele. Aparentemente, não tinha percebido que estávamos nos provocando, então continuou a conversa como se eu fosse querer saber.
— Sim, vai acontecer em agosto. Estamos muito felizes! — Completou, sorrindo para .
Agosto? O agosto daqui a quatro meses? Ok, nesse caso, eu me retiraria.
— Bom, foi ótimo rever vocês, estava indo almoçar! Boa tarde! — Desejei, indo para o restaurante antes que aquele filho da puta resolvesse sugerir um almoço em grupo.
Talvez realmente não me visse mais como um amigo agora que eu tinha grande potencial para roubar a noiva dele.
Só que era mentira, porque, duas horas depois daquele encontro, quando eu estava saindo do banho e vestindo uma roupa limpa, recebi uma mensagem de um número desconhecido no meu celular.

+55 11 98564-2269
Oi, cara! Sinto muito pelo que aconteceu no hotel, eu fico nervoso perto dela. Não queria agir como um babaca. Quer sair mais tarde? Eu acho que precisamos conversar.

E era . Não poderia ser assim tão ruim, poderia? Estamos falando de ! O cara que me ajudou a me enturmar na escola! O cara que me ajudou a conquistar , para começo de conversa. Ele sempre foi o tipo de amigo parceiro, altruísta, generoso. Estamos falando do cara metido a bad boy que tinha o maior coração que eu conhecia. Sentia que tudo que ele tinha feito por mim nos cinco meses que namorei com antes de ela perder a memória seria cobrado agora, de alguma maneira. Será que eu poderia fazer por o que ele tinha feito por mim? Eu sabia que não era um bom homem como ele, mas eu tinha que tentar. No fundo, eu sabia que ele merecia isso. Por isso, resolvi aceitar o convite.
Combinamos de nos encontrar em um restaurante às nove da noite. Achei um pouco tarde, mas aceitei.
Passei o resto da tarde no quarto de hotel analisando os imóveis que Lucas me mandava. Os preços de imóveis aqui eram um absurdo, muito dinheiro para um lugar tão pequeno, e passei boa parte do tempo montando argumentos que dobrasse Sr. Turner, já que a decisão precisava ser unânime.
Em um determinado momento, me peguei pensando em e em tudo que havíamos passado juntos antes do acidente. Minha mãe sempre me alertou para os tipos de garota que eu poderia atrair, então, mesmo inconscientemente, eu sempre estive alerta. Estive alerta para garotas interesseiras, garotas maldosas. Minha vida inteira tinha sido sempre rolo atrás de rolo, justamente porque nunca mantive um relacionamento de verdade com alguém sem levantar suspeitas de que a pessoa só queria meu dinheiro. E aí era questão de tempo até dispensar a garota, em prol da minha integridade.
Mas, com , nunca tinha sido assim. Eu estaria mentindo se dissesse que foi amor à primeira vista, porque não foi. Meus olhos sempre foram vidrados pela melhor amiga dela, Anna. Quando vi pela primeira vez, visualizei apenas uma garota comum. Não tinha nada de especial nela que eu gostaria de saber. Notei conforme os dias que se passavam o modo como ela me julgava, caçoava do meu sotaque e me empurrava para os braços de Anna que aquela era uma garota que não valia a pena conhecer. Nessa época, já estava tentando reconquistar , e foi então que caiu minha ficha. Eu estava apaixonado por ela, de verdade. Sem desconfianças. Mesmo sem querer, eu realmente a conheci, de uma maneira tão íntima que acreditava que nem seus amigos mais próximos conheciam.
A minha mal-humorada , que não tinha medo do que as pessoas iriam pensar sobre ela, que era tão boa em matemática, que, depois de tanto tempo, havia entendido que não precisava fazer esses regimes bobos, que não tinha medo de filmes de terror e ajudava pessoas que menos mereciam.
Eu sentia tanta, tanta falta dela.
Era uma situação horrível amar alguém que estava vivo, na sua frente, e não se lembrava de nada do que vocês tinham vivido ou, pelo menos, haviam começado a viver. Eu era tão novo, mas já sentia tanto.
Meus devaneios foram interrompidos por uma mensagem no meu celular. Olhei o que era e vi uma mensagem de June na tela. Já abri sorrindo, pensando que poderia ser um áudio de Mack, já que June nunca me mandavam áudio.
Desbloqueei a tela e dei play no áudio.
Vai, Mack, um, dois, três... Vai, Mack, fala! Mamãe, o que era para falar mesmo? — um cochicho inaudível — Ah, ‘tá bom. Ei, papai, volta para casaaaa, estou com saudades! Tem mais, mamãe? É só isso. Volta papai, te amo! Tchau!
Ouvi o áudio dando uma gargalhada. Ela disse “tchau” em português, uma das únicas palavras que eu havia ensinado a ela. Ah, Mackenzie, se eu soubesse que sentiria sua falta assim, eu jamais teria partido. Como pode? Envergonhado demais para admitir, mas, mesmo assim, sabia que não ligava muito para ela. Cumpria o mínimo das minhas obrigações, porque era o esperado, e não sabia como ela me faria falta se eu simplesmente parasse de vê-la. Eu me sentia um péssimo pai.
Oi, Mack! Se comporta direitinho que, quando menos esperar, eu já vou estar de volta! Tchau! — Respondi, com outro áudio.
Voltei para as anotações de imóveis e, depois de manter o coitado do Lucas trabalhando até depois do expediente para me ajudar a montar alguns argumentos, o dispensei. Tomei banho, troquei de roupa e tirei meu celular da tomada, na qual ele estava carregando, e saí do quarto, indo em direção à entrada do hotel esperar um táxi.
O Hyatt ficava bem na área nobre de São Paulo, então não foi demorado chegar até o restaurante que recomendou, diferente dele, que morava no Alphaville e provavelmente teve que sair de casa bem mais cedo. Apesar disso, depois que desci do táxi, não vi sinal do homem, e resolvi mandar uma mensagem e avisar que já havia chegado. Dirigi-me até a fachada, aguardando . A placa da entrada nos indicava que o restaurante se chamava Athenas e era especializado em comida grega. Achei a escolha um tanto interessante.
apareceu dez minutos depois, e, assim que nos cumprimentamos, percebi que talvez me encontrar com ele tenha sido minha pior ideia.
— Vamos entrar, . — Disse, me guiando para uma parte do restaurante que era mais iluminada.
O garçom nos entregou o cardápio imediatamente. Depois de um desconfortável silêncio escolhendo o que iríamos jantar, fizemos nossos pedidos, e o garçom se retirou.
— Bom, tinha algo a me dizer? — Perguntei, evitando olhar diretamente nos olhos.
— Na verdade, tem. Eu sei que você...
— Pode falar, , não vai cair sua língua me fazer admitir para mim mesmo que nunca superei . — Talvez tenha sido um pouco rude, mas queria acabar logo aquela conversa.
— Hm, é. É isso. Que bom que sabe.
— Engraçado, foi exatamente isso que você me disse aquele dia no aeroporto, quando fui embora. Que eu iria superá-la porque estava indo para o outro lado do globo. Deveria saber que vocês iriam acabar ficando juntos depois de tudo.
balançou a cabeça, abaixando o tom de voz.
— Nós estávamos juntos desde antes de vocês se conhecerem, . Tínhamos terminado, é verdade, mas ela nunca deixou de gostar de mim, e nem eu dela. Olha, se ela não tivesse perdido a memória, talvez vocês ainda estariam juntos agora. Mas ela perdeu. É o meu jeito gentil de dizer que fomos feitos um para o outro.
Suspirei, tentando não demonstrar minha chateação.
— Eu sei o que fez por mim quando comecei a namorar com . Eu me lembro do que fez por mim quando decidi que estava interessado nela. Eu só voltei para implantar minha empresa aqui. Quando tudo a acabar, eu vou embora. Simples assim.
Notei que percebeu que não prometi nada, mas não me retifiquei. Não queria correr o risco de prometer coisas que jamais poderia cumprir.
— De qualquer forma, teria que partir, . Não posso deixar Mack sozinha na Inglaterra. — Não prometi nada, mas pensei que falar sobre minha filha seria uma garantia melhor. Percebi que, em quase dois meses, era a primeira vez que falava sobre ela para qualquer um deles.
— Mack? Sua namorada?
Sorri, educado.
— O nome dela é Mackenzie. É minha filha. — Não era a melhor hora para dar uma de pai bobão que eu não era, mas não resisti. Peguei uma foto dela na minha galeria para mostrar para . — Olha.
Ele ficou claramente chocado.
— Mas ela... Quantos anos ela tem?
— Vai fazer quatro. É, eu sei. Fui um pai jovem.
— Caramba, , uma filha. — O choque em seu rosto me deixou um pouco chateado. Mas, depois, ele deu um sorriso contido. — É engraçado te ver assim. Dono de uma empresa, filha. Parece que estou conversando com um homem bem mais velho.
Sabia que ele não tinha a intenção de me ofender, então sorri também.
— As muitas responsabilidades que uma herança e uma criança podem fazer por você. — Então, fiquei sério. — Não sou um bom pai. Não sou presente. Queria poder mudar isso por ela, mas...
Me interrompi, olhando diretamente para o suco de laranja que tinha pedido em vez da cerveja. entendeu.
— Problemas com bebida?
— Pode-se dizer que sim. Mas estou bem melhor aqui no Brasil. Aquela empresa me estressa.
Ele me olhou com preocupação, e eu vi, em um flash, o garoto que ele foi há cinco anos em seu lugar. Era o mesmo cara. Exatamente o mesmo. Eu podia contar com ele, não podia?
— Desculpa jogar essas coisas para cima de você. Faz tempo que não converso com alguém.
pigarreou, com uma expressão simpática.
— Não vou mentir e dizer que está tudo bem, porque nunca vai estar. é minha noiva e você a ama, a situação fala por si só. Mas já fiz isso uma vez e posso fazer de novo. Eu posso tentar me dar bem com você, , como antes. Só que estamos diferentes agora e, honestamente, são essas mudanças que me preocupam.
Sabia que não tinha sido exatamente um convite de amizade. E sabia que ele tinha razão, provavelmente me sentiria do mesmo modo se fosse o contrário. Não fiquei surpreso, porque também sabia que agiria assim. Fiquei satisfeito que conseguimos resolver a situação sem brigar nem nada. No fundo, eu ainda via como um amigo, apesar de tudo.
— Talvez seja idiota e insensível te falar uma coisa dessas, mas está convidado, se quiser ir. Ao casamento.
Foi mesmo muito insensível, mas acho que ele não a intenção de me deixar chateado. Presumi que aquela fosse a forma que ele havia encontrado para tentar se dar bem comigo. Ainda que estivesse parcialmente satisfeito em resolver as coisas com ele, jamais conseguiria assistir se casando com ninguém. Aquele tipo de empatia simplesmente não funcionava comigo.
— Eu sei que vai ser o melhor dia da sua vida, e, por isso, talvez seja melhor se eu não estiver lá.
não insistiu, porém entendeu.
— Sem problemas.
Passamos o resto da noite conversando sobre o rumo que tomamos em nossa vida nos últimos cinco anos. Tantas coisas mudaram, mas, ao mesmo tempo, estavam tão iguais. Ele falava sobre as conquistas de sua vida, como começou seu namoro com , que tinha se formado e estava montando a própria clínica. Falou sobre uma prova que faria para ganhar uma bolsa de estudos. Falou sobre como os pais deixaram de ajudar depois que ele se formou e as dificuldades financeiras que passou durante um tempo. Falou como foi lidar com a perda de memória de , que afetou a todos, ao bebê recém-nascido de Thay e ao relacionamento dela com Gus.
Fiquei com pena dele, principalmente porque nunca tive que lidar com nada daquilo. Mas percebi que me enganei, porque, mesmo assim, sentado naquele banquinho gelado e bebendo um suco que já não mais me apetecia, me peguei pensando que o que sentia mesmo por era apenas... inveja.

Capítulo betado por: Caroline Cahill.


Continua...



Nota da autora: Olá, meninas! Quero antes de tudo agradecer quem chegou até aqui para me dar essa chance, seja por interesse no site, seja por já conhecer a história. E também quero abrir meu coração. Minha última atualização por aqui foi há muito tempo atrás, então consigo entender porque não houve acompanhamento da história. É ruim acompanhar uma história em andamento cujas atualizações são completamente imprevisíveis, certo? Concordo. É por isso que resolvi continuar, porque dessa vez eu quero saber o final dessa história e eu quero me comprometer a fazer isso. Dependo do prazo da beta e da atualização do site, mas um mês e meio entre as atualizações eu posso prometer!
Comentem bastante o que acharam da história e o que esperam para os próximos capítulos! Eu vou adorar descobrir o futuro de The Only Girl com vocês!
Até a próxima!



Outras fanfics:
Just a Girl (Bandas/One Direction/Finalizada)

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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