Última atualização: 07/11/2018

Capítulo 1

Tom estava cansado, morto de cansaço. Sua mente trabalhava mais ou menos como propagandas de lojas de utensílios domésticos: As únicas coisas que passavam por sua cabeça era Casa, Banho, Cama. Saber que naquela noite começaria seus merecidos dois meses de folga o ajudava a se concentrar no transito e na troca constante de marcha que o trânsito londrino implicava.
Talvez ele passasse alguns dias na Índia com sua irmã, ou ficar alguns dias na casa da mãe. Não podia esquecer nem por um segundo que prometeu ir assistir ao jogo com o pai. Mas por enquanto seu plano era dormir até seu corpo ficar dolorido de tanto tempo deitado e ele se forçar a se levantar.
No entanto, todos esses planos tiveram que ser cancelados quando o ator sentiu um baque em seu carro, e tudo que seu cérebro lento conseguiu processar foi a visão de um vulto caindo do lado de fora.
Então a canseira e o sono passou, e fora substituída pela adrenalina.
Ele havia atropelado alguém.
Não se importou de abrir a porta do carro no meio da rua, nem pelas buzinas ao redor, o único pensamento que o dominava era “Esteja vivo!”.
- Oh meu Deus! Oh meu Deus! – uma loira agachada em frente ao carro ficava repetindo, passando as mãos rapidamente pelo corpo deitado na rua sem realmente toca-lo. Era possível ver uma boa quantia de sangue na região da cabeça mas tudo estava uma bagunça tão grande na própria cabeça de Tom, que ele não ouviu o que a loira o dizia, e foi necessário um pouco de concentração para desviar o olhar do chão abaixo de seu para-choque – Você não olha por onde anda?! Qual o seu problema, cara!? – ela perguntava, obviamente tão ou mais alterada que Tom, já que as lágrimas já escorriam livremente por seu rosto.
- Eu... Eu... Mas aqui não tem faixa... Eu... – ele não sabia o que dizer. Sentia que podia vomitar a qualquer instante. O que ele fez? Com lágrimas nos próprios olhos, tentou respirar fundo e ir por partes – Eu vou ligar para a emergência, espere - Avisou, dando alguns passos para trás, na intenção de pelo menos parar de ver todo aquele sangue – Oi, oi, é uma emergência! Preciso de uma ambulância aqui na 61 S End Rd, Hampstead, NW3 2QB. Por favor!
A telefonista deve ter falado alguma coisa, mas obviamente ele não entendeu nada, e após algumas palavras e a confirmação de que a ajuda estava a caminho, a ligação foi encerrada e Tom voltou a olhar para aquela cena que parecia ter saído de um filme de terror.
Algumas coisas começaram a passar em sua cabeça a partir daquele momento: Tinha uma mulher praticamente embaixo de seu carro com a cabeça muito machucada, e uma outra ajoelhada, desesperada repetindo coisas, e só ali ele percebeu que ela falava no telefone. A rua não era a mais movimentada de Londres, mas também não era deserta, qual a probabilidade de a polícia já ter sido alertada? Os carros desviavam do dele parado, buzinando e soltando alguns palavrões, mas ninguém parou para olhar o que estava de fato acontecendo, ou se tivessem visto não se importaram. O que aconteceria se soubessem que ele, Tom Hiddleston, havia atropelado uma pessoa? O que seu assessor diria!? O que sua família diria!? E quanto a família da garota? E quanto a garota!? Deus!
- Hey... – Tom deu um pulinho quando sentiu um toque em seu um braço, e quando virou se deparou com a loira, que ainda tinha os olhos e a ponta do nariz bem vermelhos, mas parecia ter se acalmado minimamente – A ambulância chegou – ela avisou, e ele arregalou minimamente os olhos. Já? – Tem um hospital aqui por perto, eles encaminham a chamada para o local de atendimento mais próximo da emergência – explicou a aparente implícita pergunta em seu rosto – Ela vai ser encaminhada para o Royal Free Hospital, só estou dizendo porque... Não sei, talvez você queira saber, certo? Obrigado por não ter saído correndo como se nada tivesse acontecido. Eu me desesperei e nem lembrei que ambulâncias existem, então... Obrigado.
Tom ficou um pouco perdido, ela havia acabado de dizer que a amiga dela – ele julgava ser amiga, mas tudo é possível – estava daquele jeito por completa e exclusiva culpa dele, e agora estava agradecendo-o?
- Eu... Ãn... – ele simplesmente não sabia o que dizer, mas aparentemente a garota também não tinha mais nada a falar e nem estava afim de ouvir gaguejo, já que simplesmente se virou e se encaminhou para a ambulância, onde os paramédicos terminavam de colocar a maca, e alguns minutos depois, o veículos deu partida com o típico som de sirene tomando conta dos pensamentos do ator. Tempo esse o suficiente para ele decidir que precisava ir atrás daquela ambulância e descobrir os danos que causou na vida de uma pessoa que ele sequer sabia o nome.
O caminho realmente não foi longo, o hospital era muito perto de onde tudo aconteceu, e quando ele chegou lá, entrou no saguão a tempo de ver a maca ser levada para um corredor onde tinha uma plaquinha em cima do hall escrita uma palavra muito usada naquela noite em vermelho: Emergência.
A loira estava no balcão, a testa apoiada na madeira do móvel e batendo um dos pés freneticamente no piso de mármore.
- , normal, sem tirar nem por. Igualzinho do tiozinho daquela série – ela murmurou, e a recepcionista digitou rapidamente no computador – Alguma previsão de quando vou poder saber algo sobre ela? – perguntou levantando minimamente a cabeça, com um tom que beirava entre o otimismo e a desesperança.
- Seu nome está na ficha dela, qualquer coisa que acontecer com a paciente será reportado a você – a senhora respondeu num tom monótono, nem se dando ao trabalho de olhar por mais de um segundo para a mulher a sua frente antes de voltar sua atenção ao computador – Está com o cartão do plano de saúde?
- Eeh... Eu que vou arcar com a conta – Tom disse, finalmente entrando na conversa e recebendo a atenção das duas mulheres.
A expressão surpresa que a recepcionista fez não chegou nem perto da cara que a loira fez ao vê-lo ao lado dela.
- Você não precisa fazer isso – ela disse, estalando os dedos e olhando para o homem como se questionasse o que ele estava fazendo ali.
- Sim, eu preciso – ele discordou, já tirando a carteira do bolso da calça e pegando o cartão do plano de saúde.
- Alguém sabe o que está acontecendo? – ela perguntou, fingindo que a saliva da recepcionista não estava escorrendo para fora da boca da senhora enquanto ela encarava o homem a sua frente.
Ele entendeu perfeitamente o que ela quis dizer, e checou rapidamente a tela de bloqueio do celular e olhou ao redor. Nenhuma ligação ou mensagem, nenhum fotógrafo por perto, e, a não ser a recepcionista, ninguém olhara para ele por mais que meio segundo. Pelo menos nesse patamar, tudo estava em ordem.
- Eu só quero ter certeza que não fiz nenhuma merda – ele disse mais para si mesmo do que para a loira.
- A sala de espera é a primeira porta do corredor à direta, se vocês quiserem conversar com mais liberdade – a recepcionista disse, extremamente prestativa de repente.
A loira não se mexeu por um instante, e quando Tom ofereceu que ela fosse na frente, ela pediu um momento com a mão e se voltou para a recepcionista, pedindo para ela encaminhar os pais da paciente para a sala que eles estavam assim que chegassem, e só então se permitiu andar à frente de Tom.
Quando o ator abriu a porta para a garota entrar, ficou meio surpreso pelo fato dela estar inteiramente vazia já que o hospital estava até que bem movimentado, mas resolveu não se ater a esse fato.
- A família dela já está vindo para cá e trazendo os documentos dela, você realmente não precisa fazer isso – a loira começou a falar assim que ele fechou a porta.
- Eu... Eu atropei ela, é claro que preciso fazer alguma coisa! – ele retrucou, passando as mãos no cabelo, tentando se manter no controle da situação.
- Ela atravessou num lugar impróprio para pedestres, você não tem...
- Eu só quero ajudar... Por favor! – ele pediu em tom baixo, meio desesperado, deixando a mulher um pouco desesperada.
- Olha, sua atitude é louvável, mas vai acabar sobrando para ela de um jeito ou de outro, então por favor...
- Já sobrou para ela – ele a cortou – Ela foi a vítima.
Ela o encarou por alguns segundos antes de murmurar algo como “Você não tem ideia do quanto”, e se virar para começar a andar pela sala.
Ele podia sentir a agonia dela, e entendia o porquê da insistência em tira-lo daquela jogada, mas no fim da equação, o que ele poderia fazer?
- Olha... – ficou a encarando até ela perceber o que ele queria.
- . – a garota se apresentou, trocando um aperto de mãos mais extasiada do que admitiria em qualquer momento no futuro sóbrio.
- Olha, , eu só quero reparar um erro que eu cometi – Tom disse sereno, porém firme – Prometo que só fico por perto até ter certeza de que ela está bem, depois a maior preocupação que você, ela, ou a família dela terão sobre mim, é saber se o Loki está tramando trair o Thor mais uma vez ou não.
até queria teimar sobre aquilo, mas tinha alguma coisa naqueles olhos azuis que, ela tinha certeza, impedia qualquer ser humano de negar qualquer coisa para aquele homem à sua frente.
Soltando um suspiro alto, se sentou pesadamente em uma das cadeiras da sala de espera e enterrou o rosto nas mãos.
- Se a não morrer por aquela pancada na cabeça, ela morre de ataque cardíaco quando te ver aqui – murmurou. Então Tom levou aquilo como uma permissão para ficar e se sentou em uma das cadeiras, meio distante da loira, permitindo-lhes um pouco de espaço para pensar sobre tudo o que aconteceu naquele curto espaço de tempo, mas focando o pensamento em uma pessoa em particular por motivos diferentes e ao mesmo tempo parecidos ou idêntico.
ficaria bem?



Cerca de meia hora depois que os dois adentraram a sala de espera, um casal entrou na sala sem o mínimo de cerimônia, envolvendo em seus braços e fazendo zilhões de perguntas ao mesmo tempo, claramente deixando a moça desnorteada.
- Já teve alguma notícia dela? – a mulher perguntava.
- Como isso foi acontecer? – o homem repetia.
- Faz quanto tempo que levaram ela?
- Senhora , por favor, tente se acalmar – pediu, envolvendo as mãos da mais velha e a levando à uma das cadeiras – ainda não tive nenhuma noticia dela, mas a senhora sabe que não pode se exaltar tanto, tente se acalmar, pelo menos um pouco – ela pediu com uma voz mansa, alisando os cabelos negros da mais velha, que se destacava com a pele clara e os olhos extremamente azuis.
- Quem é... Oh meu Deus! – o homem, provavelmente o Senhor , falou olhando para Tom, que ainda estava sentado em um dos cantos da sala, com os olhos arregalados – O que está acontecendo aqui!?
- Senhor ... – e Tom falaram juntos, mas quando o ator de levantou a loira deu espeço para ele falar. Já que ele quis ficar ali, não seria ela quem impediria o pai de a ligar para a polícia se ele quisesse – Sou Thomas Hiddleston – ele continuou, se aproximando do homem, com o olhar de completa insegurança. Aquilo não seria fácil – Eu... Eu que... Fui eu quem atropelou .
Ele assistiu, quase em câmera lenta, a compreensão e a raiva tomando conta do olhar do outro homem, e de repente, estava atrás do senhor, segurando-o pelos ombros para que ele não avançasse mais nenhum passo para cima do ator.
- Seu filho de uma... – ele rosnava, lutando, obviamente não com toda sua força, para se livrar das mãos da loira – Seu burguesinho ridículo! Acho que só porque é uma atorzinho pode atropelar a minha menininha e sair ileso com essa cara lavada!?
- Senhor ! Matt... Matt, por favor! – praticamente gritou, e Tom começou a se perguntar quanto tempo demoraria para a segurança do hospital ser acionada e expulsar todos eles dali – Ele a atropelou, sim, mas ele não é completamente culpado, a tentou atravessar a rua no meio de uma via movimentada, sem preferência para pedestres, não tinha como ele saber que isso iria acontecer!
Os olhos do homem, de uma cor mais puxadas para o verde água, demoraram para focar nos castanhos de , e quando finalmente tomaram algum foco, sua expressão adquirindo um grande ponto de interrogação.
- ... Você não está dizendo isso só porque ele...?
- Não – cortou a pergunta da Senhora , primeiro porque se a culpa fosse completamente do Hiddleston, ele poderia ser o próprio príncipe que não estaria livre da polícia naquele momento; Segundo porque, querendo ou não, o cara era um puta ator de fama mundial, e como praticamente se jogou na frente do carro dele, envolver a polícia nisso automaticamente significava envolver a mídia, e isso, com toda certeza, era a última coisa que a família precisava naquele momento – Além do mais… ele arcou com as despesas do hospital.
- Eu só quero reparar meu erro. Por favor, me deixem ajudar – Tom pediu, olhando para todos quase ao mesmo tempo, sabendo que se estivesse no lugar de qualquer um deles, provavelmente já teria dado um soco em alguém.
Antes que qualquer um pudesse responde-lo ou falar qualquer outra coisa, um senhor elegante mesmo em seu jaleco branco entrou na sala com os olhos fixos em uma prancheta.
- Srt. – ele leu em algum lugar, e quando respondeu ele levantou os olhos e levou um leve susto com o número de pessoas que se aproximaram dele, seus olhos se esbugalhando um pouco quando se deparou com um determinado par de olhos, mas logo tratou de se recompor – Eu sou o Doutor Ward, responsável pelo quadro da Srt. – todos assentiram em sincronia, mas ele se ateu em duas pessoas em particular, já que eram os mais parecidos fisicamente com sua paciente e provavelmente eram os pais da garota – A Srt. não fraturou nenhum braço ou perna, suas costelas estão em perfeita ordem, e seus órgãos estão em perfeito funcionamento – anunciou, e os suspiros de alivio foi quase geral, a não ser por uma pessoa em particular que mantinha o punho cerrado em frente aos lábios.
- O Senhor está com aquele olhar, isso não é bom. O que houve? – Tom perguntou, tomando para si a atenção de quatro par de olhos.
- Bom... – o médico disse, soltando um suspiro, ajeitando o óculos no rosto antes de se voltar para o casal apreensivo a sua frente – Infelizmente ela bateu a cabeça com muita força e teve um traumatismo craniano – Tom deixou seus ombros caírem, e suas mãos foram imediatamente para seus cabelos, os puxando com força. Deus, o que ele havia feito? Os pais de se abraçaram para dar suporte um ao outro, enquanto paralisou com as mãos sobre ao lábios e as lágrimas transbordando de seus olhos – Eu sinto muito – Doutor Ward tomou a fala novamente – Nesses casos é comum o paciente perder a consciência, temos que esperar vinte e quatro horas para determinar o quadro concreto dela, mas pela quantidade de sangue perdidos pelos ouvidos e nariz, espera-se um coma, de no mínimo quarenta e oito horas.
Tom sentiu o como se alguém tivesse arrancado o chão de seus pés sem nenhum aviso prévio.
Mínimo de quarenta e oito horas. Mínimo. O momento não lhe permitia ser otimista. Se esse era o prazo mínimo, qual seria o máximo?
Uma pessoa estava em coma. E a culpa era dele.


Capítulo 2

Tom não se lembrava de se sentir daquela forma. Já havia passado por algumas tragédias em sua vida, mas saber que uma pessoa estava em coma por culpa dele, não tinha comparação. Pelo menos ele não conseguia comparar com nada.
O que mais doía era ver os pais da garota. Eles não mereciam aquilo. Ninguém deveria passar por uma situação daquelas.
Deus, o que ele havia feito?
Depois de algumas horas sentados naquelas cadeiras desconfortáveis da sala de espera, uma vez que o Doutor Ward disse que só permitiria que alguém entrasse no quarto da Srt. quando o dia amanhecesse, convenceu a Sra. a irem pelo menos tomar uma água, desde que isso significasse tirar a mulher um pouco de dentro daquele espaço de tijolos e cimento. Nesse meio tempo em que elas estiveram fora, tudo que Tom queria era se aproximar do Sr. , tentar conversar com ele pelo menos para que ele entendesse o quão Tom também estava angustiado com a situação, mas algo o impedia de fazer isso, e muito provavelmente era seu instinto de sobrevivência o alarmando que sem ninguém por perto, as possibilidades do homem o estrangula-lo era muito grande.
Quando as mulheres voltaram, a mãe de se sentou ao lado do marido e logo eles começaram uma conversa extremamente baixa, mas Tom não teve tempo para pensar sobre isso já que se sentou ao lado dele o oferecendo um copo de café, que ele, mesmo meio em dúvida, aceitou e agradeceu com um pequeno aceno de cabeça.
- Sabe, – a loira começou depois de mais alguns minutos de silêncio, o único som sendo dos murmúrios dos – como eu disse para a Joan agora pouco, se eu não tivesse certeza que você não é completamente culpado por isso, esse café com certeza estaria batizado – Tom parou o copo de café a meio caminho da boca e encarou a loira com um pouco de medo. Primeiro ela xinga e depois o agradece, depois protege e agora ameaça, quais as probabilidades dela ser bipolar? – Mas como eu disse, eu tenho certeza – ela disse com um sorriso mínimo nos lábios finos, que não chegou aos olhos, já que estes ainda continuavam meio marejados e bem vermelhos.
- Eu sinto muito – ele murmurou – De verdade.
respirou fundo e cruzou as pernas, endireitou a coluna e virou o rosto para Tom com a mesma expressão. Pelo menos de todos ali ela era a única tentando passar uma imagem de segurança, quer dizer, ela ao menos estava tentando, certo?
- Eu sei que você sabe pronunciar outras palavras que não seja desculpa, sinto muito e por favor. Sério, a e eu adoramos seus filmes e na grande maioria você fala bastante – ela brincou, ou pelo menos tentou, ele não saberia dizer. Só queria que o Doutor Ward aparecesse naquela porta dizendo que confundiu a paciente e que na verdade estava bem e receberia alta pela manhã.
- Vocês são amigas? – perguntou olhando para a tampa do copo, como se ali ele fosse encontrar alguma forma de amenizar tanto a culpa que sentia quanto a dor daquelas pessoas naquela sala.
- Desde de criança– ela confirmou, nunca desviando o olhar do perfil do ator – Agora praticamente trabalhamos juntas.
Ótimo, será que agora, por culpa dele, elas se separariam?
Pela visão periférica, ele pode vê-la virar o rosto enquanto uma lágrima escorria por sua maçã do rosto.
- Eu não sei o que dizer, me desculpe – Tom voltou a murmurar, ficando de frente para a mulher, e isso a fez respirar fundo e tentar sorrir novamente.
- Desculpa de novo – ela negou com a cabeça como se estivesse decepcionada – Você é melhor que isso, Hiddleston.
Ele soltou uma espécie de bufada acompanhada de um micro sorriso e tomou mais um gole de café.
- Juro que melhoro isso quando acordar e tudo isso acabar – ele disse voltando a focar seu olhar na parede do outro lado da sala, á sua frente, não vendo, pela primeira vez na noite, o ainda pequeno, mas completamente verdadeiro, sorriso se formar nos lábios de .
- Obrigado – ela quem falou murmurado dessa vez, fazendo-o voltar a olha-la – Qualquer outro no seu lugar teria saído correndo, ou dado um piti de celebridade, mas por mais que o Matt esteja te lançando um olhar mortal a cada meio segundo, Joan está certa, você está sendo um verdadeiro anjo para nós, então, obrigado.
Tom ficou a encarando por alguns segundos sem saber o que dizer. Ele não se sentia nenhum pouco como um anjo, estava bem para o contrário considerando o que eles estavam vivendo ali. Mesmo que no dia seguinte acordasse, ele seria o responsável por ela ter passado por aquilo, mesmo falando constantemente que ele não era completamente culpado, fora o carro dele que fez ela bater a cabeça, certo?
Mais uma vez, não parecia disposta a ficar esperando o cérebro de Tom processar as palavras e produzir uma resposta, já que logo em seguida ela se levantou e voltou para perto dos pais da amiga.
Poucos minutos depois, quem estava se sentando ao seu lado era Joan.
A mulher, mesmo aparentando idade, era muito bonita, com seus grandes cabelos negros e a pele branca como um floco de neve. Os olhos, Tom podia ver claramente, contavam com marcas de expressão, do tipo que só uma pessoa muito sorridente tem, no entanto, naquele momento, a cor azulada estava tão sem brilho que ele se perguntou se é possível alguém ter olhos brancos.
- Filho, eu sei que a já deve ter dito isso, mas eu também gostaria de agradecer por você estar aqui – começou a falar com uma voz mansa – Matt e eu estávamos tão… – seus lábios tremeram e ela teve que parar de falar por alguns segundos – Mas não sei se é o certo deixar que você arque com todas as despesa, então Matt e eu conversamos e amanhã vamos ajeitar isso e você...
- Não, Sra. , não, olha – Tom a interrompeu, e se sentiu culpado por isso, mas não estava entendendo aquelas pessoas. Ele havia atropelado uma mulher, a amiga, a filha, e eles estavam dizendo que ele não era culpado por aquilo, e que estava fazendo de mais por se responsabilizar pelos custos hospitalares? – Eu realmente só quero me certificar de que ela vá receber toda a atenção que precisar, para que melhore o mais rápido possível – explicou colocando as mãos em frente a boca, como se implorasse para que deixassem ele tentar se redimir.
Ele pode ver exatamente quando o olhar da senhora foi tomada por uma sombra acanhada.
-É por isso que achamos melhor você sair dessa história aqui – Joan disse de forma menos rude possível, mas não impediu Tom de franzir o cenho e a encarar com uma enorne incógnita na cara – Veja bem, me contou o que aconteceu, e se a imprensa se meter nisso, vai ser um inferno ainda maior para minha família. Nós só queremos que nossa acorde e esteja bem. Só queremos ir para casa, sem ter fotógrafo e paparazzi e…
- Eu serei discreto – Tom a interrompeu novamente – Não vou contar nada. Não teve envolvimento com a polícia e a única testemunha do acidente é a – falar aquilo o fez se sentir sujo, mas a ideia de não poder saber como aquela garota ficaria o deixava doente – Eu posso dizer que estou fazendo algum tipo de trabalho comunitário aqui no hospital se alguém me ver, só preciso me certificar que ficará bem. Por favor, Sra. , a última coisa que quero é prejudicar mais um de vocês – falou tudo em um só fôlego, deixando Joan um pouco surpresa ao reconhecer aquele brilho nos olhos do rapaz. Ele estava realmente preocupado, não estava fazendo aquilo por aparência, ele realmente se sentia culpado.
- Eu não sei se isso é uma boa ideia, filho. Nós não queremos complicações, agora só queremos que acorde e tudo se estabilize.
O desespero no olhar da mulher ao falar aquilo o fez sufocar um pouco mais, mas o que ele poderia fazer além do que estava oferecendo e eles negando? A solução parecia clara.
-Tudo bem, eu entendo completamente o lado de vocês, principalmente em momentos como esse, privacidade é tudo – ele praticamente sussurrou, passando a mão na coxa como forma de extravasar um pouco da ansiedade – Só peço que não recusem minha ajuda, esse é o máximo que eu posso fazer depois de tudo, e vou me sentir um pouco melhor sabendo que estou ajudando de alguma forma.
Joan o lançou um minúsculo sorriso aquecedor, o que o deu vontade de abraça-la e tentar reconforta-la, mas sua surpresa maior foi quando a senhora pousou uma mão sobre a bochecha dele e deixou uma lágrima escorrer com liberdade pelo rosto.
-Obrigado por entender.
Tudo depois foi meio confuso. Tom se lembrava de responder uma mensagem da irmã, e pensado que pelo menos seu assessor deveria saber do que estava acontecendo caso seu plano de ser discreto não desse certo, então ele se levantou, se despediu de e Joan – simplesmente acenando com a cabeça para Matt, já que ele estava falando ao telefone –, depois foi para casa e só acordou na manhã seguinte, suando na cama, no exato momento em que, em seu pesadelo, um grande leopardo negro abocanhava a jugular de uma indefesa gatinha branca.
Ele poderia rir da capacidade cômica de seu cérebro se a situação não fosse trágica.
Precisou tomar banho antes de cogitar fazer qualquer outra coisa, porque seu sonho ”Zootopia” não parecia em nada com uma animação da Disney, e o mal estar estava impregnado em seu ser graças as imagens do pesadelo misturadas com imagens reais. Como havia conseguido pegar no sono era a questão de um milhão de dólares.
Pegar o celular e ligar para seu assessor pareceu mais difícil do que deveria ser de fato, relatar os fatos enquanto ouvia a respiração do outro lado da linha ficar cada vez mais pesada o fazia se arrepender dessa situação. Mas ele precisaria de algum apoio caso tudo se tornasse público, certo? Tom esperava que sim.
Após um lindo sermão que ele nunca precisou levar em toda sua vida, Tom recebeu uma resposta afirmativa sobre seu pedido, e antes que desse por si, já estava dirigindo a caminho do hospital.
Ao se aproximar do balcão da recepção, tirou os óculos e o boné que tinha certeza que não estava fazendo diferença nenhuma em sua falha tentativa de disfarce, mas que era obrigatório em uma situação como essa, suspirando um pouco frustrado ao reconhecer o olhar assustado da atendente. Certamente não era a mesma da noite passada, mas a moça a sua frente não estava medindo esforços para não disfarçar o menos possível que parecia estar sonhando.
-Bom dia – cumprimentou-a, tirando a pobre moça de seu transe e assumir uma pose quase profissional – Eu…
- Você é muito lindo – ela murmurou meio embasbacada, fazendo Tom afundar as mãos nos bolsos e sorrir sem mostrar os dentes, levando a coitada a ter talvez o começo de um ataque cardíaco.
- Obrigado – respondeu o mais cordial possível. Ele queria muito saber se seu pedido ja havia sido posto em prática, e também gostaria muito de saber como estava, mas isso não era motivo para não tratar bem aquela atendente tão simpática – Eu…
- Ah, sim! – ela novamente o cortou, dessa vez parecendo mais desperta, mais ativa. Talvez até um pouco elétrica de mais, mas ela não parecia perceber isso – O Dr. Hope está a sua espera, me acompanhe.
Se levantou, chamando de um jeito nem tão discreto, uma outra enfermeira que estava ali por perto para ficar atrás do balcão enquanto ela guiava o ator pelos corredores do hospital. Após alguns minutos ela bateu em uma porta e de lá saiu o médico da noite anterior, que analisou Tom de cima a baixo antes de voltar seu olhar para a enfermeira.
-Obrigado, minha jovem, eu assumo daqui – disse num tom sério, não se importando com a expressão desapontada no rosto da mulher ao olhar para Tom uma última vez antes de voltar por onde veio – Vamos conversar com o diretor do hospital, por favor, venha comigo – declarou, não dando outra escolha a Hiddleston se não segui-lo.
- A Srta.
- Infelizmente não – Dr. Ward o cortou, ja sabendo que ele perguntaria aquilo e não se dando ao trabalho de ouvir a questão toda – Porém o prazo de quarenta e oito horas não esgotaram, então temos alguma esperança por hora.
- Os pais dela e a amiga? Ainda estão por aqui?
- Algumas horas atrás deixei que entrassem para vê-la. A amiga foi embora logo depois, os pais, se não me engano, ainda estão por aqui – relatou entrando no elevador do fim do corredor assim que as portas de aço se abriram.
Saíram do elevador no último andar sem trocarem mais nenhuma palavra.
-Sr. Hiddleston – um senhor de cerca de sessenta anos se prontificou-se a cumprimenta-lo assim que o ator entrou na sala que o Dr. Ward havia lhe indicado – Sou Dr. Hope, diretor do Royal Free Hospital.
- Pelo jeito meu acessor já entrou em contato com o senhor – Tom comentou, se sentando na cadeira que o mais velho havia indicado para ele – Espero que ele não tenha sido rude – disse quase em um tom de sugestão, por já ter ideia de como estava o humor do assunto naquela manhã.
- Bom, se o senhor acha que ameaça de processo não é ser rude, então com toda certeza ele foi o mais carismático possível ao telefone.
Okay, aquilo já era esperado. Era mais que esperado.
-Peço desculpa, fui eu quem pediu pelo máximo de privacidade possível, pretendo ficar por perto até que a Srta. se recupere completamente, e se sair um boato de que estou nesse hospital, pode chegar à imprensa e…
- Já estamos cientes disso Sr. Hiddleston – Dr. Hope disse calmo e suave – Também entendemos que isso foi um pedido da família da jovem. Falamos com eles e com toda a equipe. Estão todos cientes de sua presença aqui o quanto for necessário e da doação que o senhor fará para o hospital no fim de tudo isso.
Daquilo Tom não estava ciente, mas aparentemente fora ideia de seu acessor já que era uma das cláusulas do contrato que chegou no fax do diretor pela manhã. Todos os funcionários da equipe do Dr. Ward já haviam assinado, e ainda tinha espaço para todos os outros funcionários do hospital, mais a de Tom, que foi assinada no canto direito da segunda folha.
Aquilo tudo era um exagero, mas era um exagero necessário para o conforto dos .
-Dr. Ward – Hiddleston fez uma curta corrida ao sair a sala do diretor do hospital para alcançar o médico, pois ele havia saído minutos antes do ator finalizar sua conversa com o mais velho – Posso conversar com o senhor por um instante?
O médico checou seu relógio de pulso e assentiu. Ainda teria alguns minutos antes de ir fazer sua ronda diária para verificar seus pacientes.
-Claro, vou arrumar um café, pode tirar suas dúvidas no caminho.
- O senhor acha que a Srta. está em um quadro complicado?
Ward estava com o diretor quando a mãe da jovem relatou o acidente. Ele a ouviu dizer com todas as palavras que o ator não era culpado pelo acidente e não precisava fazer nada do que estava fazendo, e que por mais que já tivesse falado aquilo para ele, Tom se negou a sair daquela história. Não era o tipo de coisa que se vê todo dia. O médico simpatizava com o ator por isso.
-Compreendo seu nervosismo, Sr. Hiddleston, mas infelizmente não posso dar nenhuma certeza por enquanto – Tom mordeu o lábio inferior assentindo, o semblante completamente desanimado – Se quiser vê-la, posso pedir para uma enfermeira leva-lo até lá.
O homem nem esperou o outro terminar de falar para assentir, então logo depois uma senhora de expressão amável apareceu vestindo o uniforme padrão de enfermeira do Royal Free e o guiou até um corredor com quatro portas, e parou na segunda da direita.
- Obrigado – assentiu para a enfermeira e respirou fundo antes de forçar a maçaneta para baixo e abrir a porta.
A mulher deitada na cama tinha uma expressão lívida, parecia estar dormindo e não em coma, o que tirava essa impressão era o tubo de soro ligado a sua veia no braço esquerdo e os fios que saiam de dentro da gola da camisola e se conectavam com uma pequena máquina branca que Tom não fazia ideia do que era. Acima dessa, estava a mundialmente conhecida tela onde mostrava os batimentos cardíacos dela, informação que era passada por um pequeno aparelho no dedo indicador esquerdo, ligado à mesma máquina dos outros fios.
Um pequeno, mas obviamente profundo, corte na testa, bem próximo dos cabelos extremamente negros, era a única escoriação na pele branca da moça.
Mesmo sem perceber o que fazia, Tom reparou que ela tinha lábios delicados, assim como todos os outros traços de seu rosto. Parecia muito com a mãe, mas o rosto mais fino mostrava que as características do pai não foram deixadas completamente de lado. Era linda.
- O que faz aqui? – uma voz esbravejou da entrada do quarto, fazendo Tom virar-se rapidamente, dando de cara com Matt, o pai de , que de raivoso passou para surpreso ao reconhecer o ator – Achei que o diretor do hospital tinha dito que você só havia dito para ninguém falar sobre o acidente e não que você viria invadir o quarto da minha filha quando bem quisesse.
Tom gostaria, realmente, de entender aquelas pessoas. De um momento para outro ele iam de ódio mortal para aceitação. Se o homem só percebeu depois que era ele ali, quem ele achou que seria?
- Eu só queria ver como ele estava. Dr. Ward disse que não tinha problema e o quarto estava vazio, eu... Eu só queria ver como ela estava... – começou rápido, meio afobado, mas deixou a agonia se apossar de sua voz no final – Eu sinto muito por isso, Sr. .
Matt tomou fôlego. Ainda da porta olhou para sua filha, retorcendo o rosto em uma careta, como se estivesse sentindo a dor da ferida recém limpa na testa da jovem, então se aproximou e sentou-se na poltrona ao lado direito da cama, voltando o olhar para o mais novo.
- Ontem eu queria te matar – disse em um tom baixo, fazendo Tom engolir em seco, mas não desviou o olhar – Saber que minha filha... Minha princesinha sofreu um acidente e ver o cara que estava dirigindo o carro logo a minha frente... Olha – passou a mão pelo rosto e recostou-se na poltrona – foi um exercício de auto controle e tanto. Mas então falou comigo... Ela é quase uma filha, sabe? Não lembro de um momento desde que me tornei pai, em que não tive que lidar com as duas juntas – comentou com um fantasma de sorriso nos lábios, o olhar distante, como se estivesse revendo as duas pequenas a sua frente – Ela é mais teimosa que a , mas sempre foi uma boa garota. Então a Joan veio depois e reforçou a história de , e eu percebi que eu posso ter raiva de você, mas você não é completamente culpado por isso e está fazendo tudo que pode para recompensar seu erro – falou com sinceridade, focando os olhos claros nos azuis de Tom, deixando o ator mais confuso ainda – Obrigado por não deixar minhas meninas completamente sem chão noite passada.
Mesmo sem entender o porquê daquelas atitudes vinda da família, ou a reação de Matt ao vê-lo ali e pensar que era outra pessoa, Tom assentiu, voltando seu olhar para .
Ele não sabia do que todos estavam falando ao afirmar que ele não era culpado pelo acidente, ele só sabia que pareciam anos que estava desacordada, e ele não viveria em paz sabendo que havia pelo menos a mínima probabilidade de ela ficar daquele jeito por muito tempo.
- Eu sinto muito – sussurrou, tocando os dedos frios da mão esquerda da mulher, sentindo o choque térmico devido a diferença de temperatura entre as duas peles.


Capítulo 3

- Bom dia, – Tom sentou-se na poltrona ao lado da cama, deixando o copo de café em um apoio ao lado e virando a capa do livro – Hoje vamos começar O Retorno Do Rei – encarou a contracapa por alguns segundos, então focou o olhar no rosto adormecido da mulher – É só eu ou você também acha que estamos indo rápido de mais?
- Realmente, rápido de mais, comecei os filmes no mesmo dia que você começou a ler, os livros estão acabando e eu troquei o DVD de O Hobbit só hoje para o... Aquele primeiro dos filmes mais longos ainda – comentou da porta do quarto, assustando um pouco Hiddleston, bebericando seu chá para não mostrar o sorrisinho que aquilo lhe causou - Chegou mais cedo hoje, o que houve, pesadelos?
- Vou visitar minha mãe, demora um pouco para chegar lá, queria ler pelo menos dois capítulos antes de ir – disse fechando o livro, se levantando e deixando-o em cima da cama para procurar o controle do ar condicionado, estava frio dentro daquele quarto – Aliás, bom dia, .
- Bom dia, Tom – a loira respondeu risonha, mas seu sorriso morreu aos poucos quando voltou a olhar para a amiga – Alguma novidade?
Hiddleston encarou , soltando um suspiro alto, e voltou a se sentar.
Aquele virou o código de “não” para os questionamentos sobre a melhora de . Uma melhora inexistente.
Mais fios e tubos e aparelhos foram conectados à garota. Seus órgãos continuavam em pleno funcionamento e seus sinais vitais não tiveram nem uma mínima alteração, era quase como se ela estivesse querendo ficar ali daquela forma.
Tom disse ao Dr. Ward que ele poderia chamar quem fosse preciso, usar o método que fosse necessário, desde que isso significasse alguma evolução no quadro da paciente, mas nada era capaz de explicar o porquê de ainda estar desacordada. Então eles continuavam lá por ela. passava no hospital todo dia antes e depois do trabalho, Joan e Matt também se revezavam entre os horários de visita da manhã e da tarde e Tom ganhou duas horas diárias depois que Dr. Ward percebeu que ele realmente iria ao hospital visita-la, e deixa-lo circular pelo hospital em horário de visita não era uma boa ideia considerando o valor da multa do contrato que foi assinado, então ninguém era permitido entrar no quarto de no período de visita da manhã, a não ser por Joan, Matt e , porque Tom estaria lá.
- Acha que ela acorda? – sussurrou, passando os dedos levemente pela testa da amiga para tirar os fios de cabelo que haviam caído sobre o corte já quase seco.
- Se você pedir para ela, talvez – o homem respondeu no mesmo tom, sorrindo minimamente quando a loira revirou os olhos. Ele sempre respondia aquilo.
- Acorda, preguiçosa, isso não vai te ajudar a recuperar o sono perdido da época da faculdade – murmurou, depositando um beijo no topo da cabeça da amiga – Eu tenho que ir, cuida dela por mim? – perguntou para o homem, recebendo um aceno de cabeça como resposta, então se virou e saiu do quarto.
- Sabe, acho que já me acostumei com os comentários fora de hora da sua amiga, ela sempre foi assim? – falou, se levantando para pegar o livro e voltou para a poltrona – Okay, vamos começar.
Aquilo de ler para começou três dias depois do acidente. Tom estava no hospital de tarde, os horários ainda não tinham se estabelecido, num monólogo sobre os tons de branco existente naquele quarto, quando entrou.
- Meu Deus! – exclamou com a mão sobre o peito – Será que eu vou me acostumar a ter ver sem ter um ataque cardíaco, ou todas as vezes serão assim? – perguntou séria, mas acabou rindo da expressão de susto no rosto do homem – Entrei de supetão né, desculpa. Como ela está?
- Na mesma... Esperava que hoje...
- É, você não é o único – ela murmurou, também encarando a moça na cama.
Já faziam três dias que ela não ouvia a risada de , nem via a careta que sempre fazia quando ela falava alguma coisa fora de hora, ou aqueles olhos que sempre viam o que ninguém mais conseguia enxergar a olho nu, o que resultavam em fotos perfeitas.
Ela estava com saudade da irmã dela.
- Sabe, se ela estivesse acordada, já estaria toda vermelha pelo tempo que a estamos encarando – comentou com um sorriso na voz, mas a tristeza ainda se mostrava mais presente – Com certeza iria querer uma foto com você, mas ficaria sem jeito de pedir, então eu teria que falar com você, convence-la a tirar a foto mas depois ela sairia mostrando a foto até para vendedoras de loja de sapato, porque ela fez isso com a foto que tirou com o Leonardo DiCaprio – disse sorrindo ao se lembrar da cena – Mas provavelmente ela só fez isso porque eu havia a convencido que beber duas garrafas de tequila após conseguirmos emprego na mesma revista era uma coisa super aceitável e natural.
- Eu bem estava criando a teoria sobre você ser o anjo mal dessa dupla – Tom falou, sorrindo para a mulher quando ela levantou a cabeça, desviando o olhar de , e riu da fala dele.
- Ela sempre quer me matar no dia seguinte, mas no fundo, ela ama as furadas que eu enfio a gente. Olha aqui! – pegou o celular no bolso o desbloqueando e se colocando ao lado do ator – Eu tinha terminado o namoro e disse que ao invés de sorvete e Netflix, eu queria ir para o México, como não tínhamos dinheiro para isso, fomos a um restaurante mexicano e acabamos entrando em uma competição de quem comia mais tacos, ficamos em segundo lugar e passamos mal por dias – na tela do celular aparecia uma foto das duas sentadas, lado a lado com enormes sombreros nas cabeças, impossibilitando de ver metade de seus rostos, sorrindo para a câmera com o rosto sujo de algum tipo de molho e medalhas penduradas no pescoço – Nessa, – disse colocando em outra – eu que fiquei responsável por escolher o filme do domingo a noite e acabamos assistindo a coleção completa de filmes da Barbie, são fotos sequência, olha a reação dela ao descobrir isso – na primeira foto, estava sentada indiazinha no sofá, olhando para baixo, onde tinha uma pilha de DVD’s com capas da Barbie. Seus cabelos negros estavam presos em um coque alto e bagunçado, vestia uma blusinha branca meia estação e uma calça de moletom cinza. Pouco de seu rosto era visível, a não ser as bochechas e um pouco da testa, um tom vivo brincando sobre a pele branca que Tom gostaria de ver na garota que estava deitada na cama. Na segunda foto olhava diretamente para a câmera, fazendo Tom pensar que nunca viu coisa parecida antes. Os olhos estavam em um meio entre abertos e semicerrados, mas ainda era visível o tom escuro do azul das íris. Os lábios comprimidos, como se segurando uma risada, eram de um vermelho cereja, e formava covinhas nos cantos. Cada detalhe do rosto dela recebia um toque especial com toda aquela cor. Com aquele brilho nos olhos. A última foto era tudo o que a anterior mostrava que ela estava segurando, dessa vez solto. Ele nunca ouvira o som da voz dela, mas tinha certeza de que podia ouvir sua gargalhada só de olhar para aquela foto. Olhos apertados, mão direita sobre o estômago... Aquilo parecia tão familiar e ao mesmo tempo tão distante – Nós cantamos todas as músicas de todos os filmes e ainda fizemos a sessão karaokê de alguns – continuou contando, despertando Tom de seus devaneios – Olha isso – disse dando zoom na última foto, em um dos cantos, mostrando uma parede colorida, que só depois de alguns instantes, Hiddleston foi perceber que toda aquela confusão de cor não era tinta, mas sim livros, muitos livros – Tem três paredes inteiras na casa dela assim, se brincar, daqui alguns anos vira a própria biblioteca do Fera da Bela e a Fera.
Então ela gostava de ler?
Foi ai que Tom teve a ideia.
- Qual o gênero favorito dela? – perguntou interessado, fingindo ainda olhar a prede de livros, enquanto na verdade voltava a olhar para a imagem feliz e sorridente de .
- Ela gosta de qualquer coisa que tenha algum tipo de história. Sério, ela lê de tudo. Imagine o livro mais careta, imaginou? Ela já leu. Agora o mais juvenil. Ela também já leu.
- E se eu ler para ela? – propôs, dando um susto em .
- Ler para ela? Pra que?
- Li em algum lugar que conversar e ler para pessoas em coma, pode ajuda-las a recobrar a consciência.
- Não sei se vai ser útil, mas se acha que vai ajudar – deu de ombros, voltando a olhar para amiga na cama – Os favoritos dela são Senhor dos Anéis e Sherlock Holmes. Já perdi as contas de quantas vezes vi esses livros na mão dela.
E assim, no dia seguinte, Tom apareceu com O Hobbit por lá, depois A Sociedade Secreta Do Anel, A Batalha Das Duas Torres, achava meio estranho, a voz do ator dava a história que ela sempre achou enjoativa e excessivamente detalhista um charme especial, mas ainda era estranho vê-lo mudar de tom, cantarolar e fazer sons engraçados enquanto lia. costumava fazer isso quando era pequena e lia para os gatos de . Talvez por isso Joan tenha adorado a ideia, e Matt não tenha soltado nenhum comentário sobre aquilo. Na verdade o pai da garota parecia estar até gostando da forma como Tom chegava todos os dias de manhã e contava para o que estava acontecendo no mundo. Ele sabia que era férias do ator, e achava bonito o fato dele se preocupar tanto com a recuperação de uma pessoa que ele sequer conhecia. Dr. Ward aprovou a ideia, concordando com o que Hiddleston havia dito sobre conversar e ler para pessoas em coma, alegando que muito provavelmente, ela acordaria em dois dias.
Já faziam três semanas desde o primeiro livro.

- ... E é todo feito primeiro na massinha, e depois de tudo gravado, passam o cgi...
- Com licença – Meredith, umas das enfermeiras da equipe do Dr. Ward, entrou no quarto com uma bandeja contendo três pacotes diferentes de soro – Como está minha Branca de Neve hoje? – perguntou, retirando os pacotes vazios do apoio e da conexão e os substituindo.
- Estávamos conversando sobre um desenho que eu participei da dublagem – Tom contou, ajudando a senhora, retirando algumas fitas que, provavelmente a enfermeira da noite, havia colocado na pele de junto ás agulhas, por razão desconhecida já que não se mexia e as agulhas não sairiam de sua pele com os suportes que já tinham ali – Hoje a pele dela não está tão gelada – comentou envolvendo a mão da garota, sorrindo ao sentir um calor fraquinho emanar de sua pele, fazendo a mais velha sorrir junto ao constatar aquilo – E por favor, me diga que não estou vendo coisas, os lábios dela, estão corados, não estão? – perguntou empolgado, aquilo havia sido a primeira coisa que ele havia reparado quando entrou no quarto aquela manhã.
Meredith levantou o olhar para o rosto pálido da garota, percebendo que, de fato, os lábios dela estavam com um tom mais vivo do que costumava ser desde que ela havia chegado ali.
- Parece que alguém aqui está melhorando – falou, passando os dedos levemente sobre o sinal onde ficava o corte na testa da mulher – Está cicatrizando muito bem e não está mais com febre. Acho que podemos nos permitir uma boa dose de esperança hoje, meu filho – disse olhando por sobre o ombro, diretamente para Tom, fazendo-o desviar o olhar para a moça adormecida. Um olhar de ansiedade e esperança. E tinha uma coisa a mais ali, o que fez Meredith sorrir por saber exatamente o que era aquele brilho misturado nos olhos claros do rapaz, e saber que ele não fazia ideia de que ela sabia daquilo, porque naquele momento, nem ele sabia estar sentindo aquilo – Talvez se você conversar mais um pouco com ela, ela posso te ouvir – propôs, deixando um afago carinhoso no rosto da moça e saindo do quarto.
- Seus pais vão ficar loucos quando chegarem aqui e ouvirem essa notícia! – Hiddleston disse, arrastando a poltrona para mais perto da cama, se sentando em cima do livro As Aventuras De Sherlock Holmes, porque de repente ficou tão elétrico, que nem lembrava que havia levado aquele livro para começar naquela manhã – E a vai querer me matar por ser eu a ouvir isso primeiro, e não ela – pensou consigo mesmo, rindo ao imaginar a expressão que a loira faria ao saber daquilo – Sabia que ela está assim agora? Me ameaçando pelas coisas, me agredindo! Sua amiga é louca, isso é um fato. Quando você acordar, vou te usar de escudo, seu pai me disse que ela nunca tocou um dedo em você, embora o jeito que ela se refere a você, as vezes me faz pensar que é você quem bate nela quando ela sai da linha – falou encarando o perfil da garota, deixando o sorriso morrer aos poucos ao imaginar que, assim que ela acordasse, não teria mais por quê ele ficar ali. Talvez ela nem fosse querer olhar na cara dele quando descobrisse que por sua causa ficara quase um mês em coma. Ele entenderia, obviamente. Se fosse o contrário, ele também agiria daquela forma. Era a reação esperada, certo? Então por que ele não queria que ela o afastasse depois que acordasse? Isso não era tudo o que queria, ela acordada e ele livre daquele peso na consciência? Talvez, nas primeiras quarenta e oito horas. Um mês era tempo suficiente para se acostumar com a presença de alguém, e mesmo silenciosa, ele estava acostumado com a presença de . Joan havia falado um pouco sobre os gostos e manias da filha, eles teriam tantos assuntos para conversar – Está preparada para as piadas que a vem acumulando para você nas últimas semanas? – perguntou um tom mais baixo que antes, deixando se levar pela ideia de que provavelmente aquele seria o último dia que a veria. Ao mesmo tempo que queria aquilo, tinha vontade de pedir mais algum tempo, e esse egoísmo o estava tirando do sério – Acho que depois que acordar, não vai querer mais que eu leia para você, certo? Você pode ao menos me dizer se isso te ajudou de alguma forma? Vai ser bem reconfortante jogar na cara da que eu não estava só procurando um passa...
O barulho da porta se abrindo de maneira brusca e se fechando num baque, fez Tom se virar rapidamente, encontrando um homem alto de cabelos num tom escuro de castanho e olhos da mesma cor o encarando com uma expressão de espanto, enquanto seu peito subia e descia em uma respiração acelerada e descompassada.
- Espera, você é o... – começou apontando, mas seus olhos escorregaram para a figura deitada na cama, e sua mão e seus ombros caíram, assim como sua expressão – Oh meu Deus, ! – sussurrou, cambaleando para perto da cama, ao mesmo tempo que seus olhos se enchiam de lágrimas – Não era para isso acontecer, não era – começou a murmurar, passando as mãos pelos cabelos da mulher.
Tom olhou assustado do homem sem a identificação hospitalar para a porta, incomodado com a forma como ele tocava e chorava copiosamente sendo que já faziam dias que ela se encontrava naquela situação, naquele mesmo hospital e lhe parecia ser a primeira vez que o rapaz via a mulher daquele jeito.
- Me desculpe se não for da minha conta, mas quem é você? – o ator perguntou, desconfortável com a presença do homem.
- Edward, meu nome é Edward Grange, sou o namorado da – o cara respondeu numa voz fria e virando o rosto lentamente para Tom, fazendo o loiro franzir o cenho e dar um passo para trás. O namorado? – E você, o que faz aqui?
- Programação de caridade, visitas hospitalares, um hospital por semana durante um mês – respondeu a primeira coisa que lhe passou pela cabeça, mas pareceu convencer o outro, o que lhe deu brecha para ir mais ao fundo – Eu recebo uma ficha das pessoas que visito, e pelo que me lembro somente os pais dela e uma amiga próxima a visitaram nas últimas quatro semanas. Não estava ciente do estado de sua namorada?
Edward pareceu um pouco conturbado com aquela informação.
- Estava em uma viajem a trabalho – respondeu estranho, encarando como se quisesse tira-la de lá e leva-la consigo, então olhou na direção da janela, depois para Tom, e por último o teto, como se estivesse fazendo uma oração, então voltou a olhar para , se inclinando como se para se aproximar, mas alguma coisa dentro de Tom o dizia para não deixar aquele cara perto de novamente, então ele deu um passo para o lado, de forma que ficava praticamente entre o homem e a cama. Edward o encarou por alguns instantes, então voltou a encarar a porta – Eu... Eu tenho que ir... Hummm... Deus te abençoe por essa ação – olhou mais uma vez para , e assim como entrou, saiu do quarto, de forma repentina e barulhenta.
Hiddleston ficou encarando a porta por alguns instantes, então se voltou para com as mãos na cintura.
- Namorado? Desde quando você tem namorado? – pelo jeito que ele a encarava, parecia que realmente esperava por uma resposta, e aquele pensamento o fez soltar uma risada nervosa e voltar a se sentar – Ele... Ele estava sem identificação e parecia estar participando de uma maratona. Você... Você por acaso namora um fugitivo, ? Porque aquele sujeito ali é bem estranho – ralhou, recostando na poltrona e analisando cada detalhe do rosto dela. Suas bochechas e pálpebras pareciam ter ganho uma tonalidade também. Ela estava quase parecendo a das fotos que mostrava para ele – É claro que você não é solteira, olha para você – apoiou os cotovelos nos joelhos e se inclinou – Tão linda.
- Mais parecida com a Branca de Neve que nunca – Meredith disse ao lado de Tom, fazendo-o levantar num pulo.
O que estava acontecendo aquela manhã? Aquela porta era desnecessária?
- Calma, filho, parece que viu um fantasma – a enfermeira falou divertida – Só vim buscar a bandeja que acabei esquecendo aqui – apontou, e só então ele reparou no objeto e os pacotes vazios de soro ali – Acredita que só fui lembrar disso no outro lado do hospital? O Free Royal já não tem o mesmo tamanho de quando comecei aqui... – saiu reclamando, deixando Tom embasbacado para trás.
Desde quando aquela senhora ficou tão silenciosa?
- Ainda não são oito da manhã, e esse é oficialmente o dia mais estranho da minha vida – ele resmungou, dando a volta na cama para pegar a blusa que havia deixado ali – Deve existir uma regra onde a partir do primeiro mês, os hospitais se revelam verdadeiros hospícios – brincou vestindo a blusa e voltando para perto da poltrona para pegar o livro – Você deve estar louca para sair daqui, não é? – se virou para dar um beijo na testa dela para se despedir, como fazia todo dia, mas quando olhou para ela, confusos olhos azul escuro o encarava de volta.
Ela estava acordada.


Capítulo 4

encarava de volta aqueles olhos azuis, ficando ainda mais confusa quando ligou aqueles traços a um nome.
- Você acordou! – ele sussurrou, um sorriso indomável preenchendo aquele rosto de traços marcantes – Deus, cadê a Meredith para entrar aqui agora como um fantasma? – disse, olhando para algum ponto ao lado da cabeceira da cama, mas estava muito focada nele para desviar o olhar e procurar saber com que ele estava se estressando. Tinha a sensação de estar ouvindo aquela voz a dias.
- Bom dia, homem das cavernas, trouxe me... Ingresso, hoje... – entrou dando dois toques na porta conforme a abria, terminando a fala no automático quando percebeu o que estava acontecendo no quarto – ? – pronunciou com a voz embargada, provocando uma tensão nos músculos de Tom quando ele percebeu o que aconteceria a seguir.
- Não grita, – pediu, se virando para a loira, um pouco relutante em se afastar de , mas não vendo outra escolha – Ela, literalmente, acabou de acordar, calma – disse segurando-a pelos ombros, a obrigando a focar o olhar nele – Respira, .
- Ela acordou – a loira soltou num sussurro, os olhos vermelhos e cheios de lágrimas, envolvendo Hiddleston num abraço apertado acompanhado por uma risada histérica – Ela está acordada! Oh meu Deus!
- Eu vou procurar o Dr. Ward, liga para os pais dela – pediu, quando o largou, lançando um último olhar para , que ainda o encarava confusa, e saiu do quarto.
- Oi, meu desastre ambulante, como está se sentindo? – se aproximou da cama, passando a mão suavemente pelos cabelos negros da amiga. Um sorriso que não lhe cabia no rosto era molhado pelas lágrimas de emoção que saiam de seus olhos, mas não conseguia encontrar sua voz para responde-la.
Há quanto tempo não falava?
Por que sua cabeça estava tão pesada?
Por que tinha tantos fios e tubos conectados a ela? Por que ela estava em um quarto de hospital?
Por que Tom Hiddleston estava ali?
Assim que esse pensamento passou por sua cabeça, o dito entrou no quarto novamente, seguido de um médico e duas enfermeiras. Uma delas seguiu diretamente para , e a outra se colocou ao seu lado, em frente a um monitor e começou a anotar informações que via ali em uma prancheta. O médico, um senhor muito elegante, que provavelmente mostrava uma idade bem menor do que realmente tinha, se colocou alguns passos atrás da enfermeira, virado para com um sorriso amigável no rosto. Mas ela não conseguiu focar nele por muito tempo.
O ator parou ao lado do médico. Mãos apoiadas no colchão, próximas às mãos de , e olhos fixos nos dela. Aquilo geralmente a acanhava, fazia olhar para as mãos e corar a ponto de sentir a pele queimar loucamente, mas ele a estava deixando intrigada. Por que ele estava ali? Isso a impossibilitava de desviar o olhar e prestar atenção no que o médico dizia.
O que resultou em uma luz muito forte diretamente em seu olho esquerdo, e depois no direto, fazendo ela recuar a cabeça e sentir uma leve tontura.
- Hey, calma, calma – o senhor disse num tom manso, ganhando a atenção da moça – Você consegue me dizer o que está sentindo?
Piscando varias vezes, tentou encontrar a própria voz no meio tempo em que a enfermeira terminou seu relatório e entregava a prancheta para o médico. Um pouco mais atrás, com um copo de água em mãos, falava ao telefone e sorriu quando percebeu quem a encarava. Então seu olhar voltou a encontrar o de Hiddleston. Ela tinha a sensação que ele podia ver por dentro dela com aquele olhar.
- Minha cabeça dói – se ouviu dizer, com uma voz que não era sua. Ou pelo menos parecia muito mais rouca e fraca do que parecia soar antes.
Aquela simples frase fez todos paralisarem, em seguida respirarem fundo e sorrirem.
- É normal, você bateu a cabeça com muita força, mas eu vou te passar um analgésico e logo isso melhora. Seus sinais vitais estão ótimos, como sempre, e nenhum órgão seu apresentou problemas, o que é um ótimo sinal. Suas pupilas dilataram quando fiz o teste da luz e você parece me ouvir com clareza. Pode me dizer o nome dessa simpática moça? – o médico despejou tudo de uma vez enquanto escrevia com fervor na prancheta, por último apontou para , que agora estava ao seu lado, do outro lado da cama, segurando sua mão como se ela fosse desaparecer a qualquer instante. franziu o cenho e tentou processar tudo o que o homem havia dito, mas quando estava chegando na pergunta, ele voltou a escrever.
- Capacidade lenta de raciocínio – Tom leu, olhando para com uma sobrancelha levemente erguida.
- Ora, é claro que ela está com capacidade lenta de raciocínio, nem eu consegui te acompanhar! – falou meio brava, fazendo o doutor suspirar como se aquilo não fosse novidade.
- Faz parte do teste, Srta. , eu preciso fazer isso para ver qual o quadro da Srta. e o que posso fazer por ela.
- Claro – bufou, e se estivesse um pouco mais situada no espaço, daria um sermão na amiga por aquele comportamento.
- – Hiddleston disse exatamente no tom que gostaria de falar – não começa.
- Fui eu que comecei? – perguntou revoltada, fitando Dr. Ward com as sobrancelhas arqueadas.
- Hoje estou sem tempo para sua brincadeiras, Srta. , amanhã você implica comigo, pode ser? – o doutor falou num tom calmo enquanto mexia nos pacotes para verificar os miligramas de cada remédio que estava indo para o corpo de – Eu vou analisar esse dados, – disse levantando a prancheta minimamente – e esperar um pouco para ver como ela vai reagir a primeira meia hora, Meredith ficará aqui caso ocorra alguma emergência, não a sobrecarreguem. Isso é para você, – apontou, saindo do quarto e perdendo a careta que a loira fez para ele.
- O que eu fiz para ele hoje, Meredith? – perguntou colocando as mãos na cintura, provocando uma risada na enfermeira – Sério, ele não gosta de mim, eu não sei por que...
- Realmente, impossível saber – Tom murmurou, tentando, tentando e falhando miseravelmente na missão de parar de olhar para , porque vê-la acordada era uma coisa simplesmente incrível e... Ele não sabia dizer o que mais, mas ela parecia ser um imã, e ele feito de ferro.
- Eu não gosto do jeito que ele trata os pacientes, os métodos dele me lembra daqueles médicos loucos que matava os pacientes de dor.
- Reparou no que disse? – o homem perguntou em um misto de indignação e graça, finalmente a encarando.
- , você está saindo com o Tom Hiddleston? – e sua voz anormal de tão rouca se fez presente. Ela queria continuar a frase com “Ou eu bati a cabeça tão forte assim?”, mas seu corpo não parecia acompanhar seu cérebro. Era uma sensação estranha.
Tom escondeu as mãos nos bolsos e comprimiu os lábios, como se quisesse segurar a risada – ou uma careta – por ouvir aquele comentário. Já não tentou ser menos ela e a gargalhada provavelmente foi ouvida do corredor.
- ... – Meredith a repreendeu.
- Desculpa – a loira sussurrou com uma expressão sem graça completamente fingida, e se voltou para – Quem me dera estar saindo com ele, mas tenho quase certeza que a única coisa que ele as vezes pensa em fazer comigo é passar com o carro por cima de mim – disse risonha, nem reparando no quanto o ator ficou desconfortável com aquele comentário, só rindo do olhar confuso da amiga para o homem – , você está parecendo o Castiel olhando para o Tom desse jeito, foi só uma brincadeira – disse, sorrindo um pouco menos ao reparar que os batimentos cardíacos da amiga aceleraram consideravelmente – ... - O que... O que aconteceu? – sussurrou, desviando o olhar de Hiddleston para a amiga, um desespero cada vez maior ao se lembrar das cenas que antecediam suas ultimas lembranças que se resumiam a uma forte luz e uma dor excruciante na cabeça – ... Cadê... Quanto... Quanto tempo eu estou aqui? – sua vontade era gritar, levantar da cama e ir atrás do médico, ele poderia responder suas perguntas? Talvez não todas, mas ela tinha a sensação de que estava parada a muito tempo, precisa se levantar, queria se mover. Mãos firmes seguraram seus ombros contra a cama, e só ali percebeu que seu corpo estava tentando obedecer seus pensamentos, de um jeito lento e pesado, mas rápido o suficiente para lhe causar tontura. - Por favor, minha querida, se você não se acalmar eu vou ter que te sedar – a voz calma da enfermeira ressoou, assustando , e só então ela relacionou as mãos em seus ombros com a voz próxima e entendeu que ela quem a segurava – Eu vou aumentar um pouco a quantidade em que os remédios entram em seu sistema, isso vai ajudar um pouco com esse mal estar, tudo bem?
- ... Me fala – pediu novamente, voltando a encarar a amiga que parecia ter levado um soco no estômago pela expressão – O que e...
- Acho melhor deixarmos ela descansar – Tom disse numa voz fraca, odiando ver a garota naquele estado – Não é bom sobrecarrega-la.
- Eu quero saber, por favor... – pediu, dessa vez para o ator, o dando a certeza de que ele nunca tiraria o peso daquela noite de sua consciência.
Ela merecia saber.
- Eu te atropelei – soltou em um quase sussurro, olhando-a diretamente nos olhos, pelo simples fato de que não conseguiria falar aquilo para ela sem ser completamente verdadeiro, tanto em palavras quanto em sentimentos, e esperava que ela entendesse pelos olhos dele que ele sentia muito por aquilo – Você está aqui há quatro semanas.
Ele poderia dizer exatamente em que momento a verdade recaiu sobre ela. As lágrimas que caíram sem nenhum refreio pela pele branca do rosto da garota, enquanto seu nariz tomava um tom avermelhado, que Tom consideraria fofo se não fosse pelo momento. Ele esperava que ela esperneasse, e começasse a gritar, ou pelo menos desviasse o olhar e o culpasse por tê-la feito perder um mês de sua vida, mas o máximo que ela fez foi respirar fundo umas três vezes após alguns segundos completamente paralisada o encarando, como se tomasse fôlego após um longo mergulho, então assentindo muito levemente, voltou a olhar para a amiga, apertando a mão da loira como se precisasse daquele suporte para sobreviver.
- Fala comigo – sussurrou para , tendo vontade de levantar e abraçar a amiga, dizer que já tinha acabado, ela estava bem, que não tinha mais pelo quê chorar, mas esperando que o simples gesto de cruzar seus dedos fosse o suficiente para que ela entendesse aquilo tudo.
- Juro que se algo desse tipo acontecer novamente, eu não me responsabilizo pelos corpos na manhã seguinte – murmurou fria, mas seu corriqueiro sorriso brincalhão esculpido em seu rosto como se nunca mais fosse sair de lá.
Tom assistiu arrastar a poltrona para mais perto da cama, se sentar ali e apoiar um cotovelo no colchão enquanto com a outra não alisava os cabelos negros de . Nenhuma das duas dizia nada, e a morena chegou a fechar os olhos após o carinho da amiga começar, e Hiddleston começou a se sentir um intruso ali. Então pegou o livro que estava aos pés de , e muito silenciosamente deu um passo para trás.
- Onde vai, nerd? – perguntou assim que o homem, ainda as encarando, concluiu o terceiro passo.
Ele parou e sem perceber deixou seus olhos escorregarem para novamente, que também o encarava, mas acabou baixando o olhar assim que ele, num gesto involuntário, segurou os livro com as duas mãos na altura do estômago.
- O Sr. e a Sra. vão chegar daqui a pouco, acho melhor eu... Ir e... – não era fácil falar e manter contato visual com aqueles intensos olhos azul escuro o fitando de maneira confusa, como se perguntasse o que ele ainda estava fazendo ali – O Dr. Ward não gosta de muita gente no quarto, também tem que desca...
- Se o Doutor não souber que tinha muita gente no quarto, ele nunca se incomodará com isso – Meredith disse num tom casual, terminando de arrumar seja lá o que estivesse arrumando nos aparelhos ao lado da cama, e foi se sentar em um pequeno sofá do outro lado do quarto, fazendo um high five a distância com .
- Deus salve a Meredith – a loira comentou brincalhona – Além do mais, Joan e Matt nunca se importaram de ver você aqui no quarto, não vai ser hoje que eles vão começar com isso – deu de ombros, e só então reparou no olhar confuso da amiga por aquele comentário, sorrindo resolveu explicar – Naquela noite eu fiquei muito assustada, não sabia o que fazer. Foi Tom quem ligou para a emergência, depois seguiu a ambulância e ficou aqui até termos notícias suas – o ator poderia dizer exatamente em que momento a confusão se transformou em surpresa. Mas é claro que não pararia ali – E não se contentando com tudo isso, ele ainda está arcando com as despesas.
voltou a encarar Hiddleston, dividida entre agradecer por suas ações e ficar revoltada pelo fato de tê-la atropelado e ainda querer bancar o bom moço, mas desistiu do último lado por saber que ele não tinha culpa daquilo. Tom era tão vítima da circunstância quanto ela. Porém seu cérebro lento e físico travado não acompanhou toda aquela linha de raciocínio, e tudo o que ela falou após quase meio minuto mantando uma constante troca de olhares foi:
- Eu adoro esse livro.
Tom manteve o olhar sobre , a observando por alguns segundos como se ela fosse uma peça exposta em um museu de arte moderna, então encarou a capa do livro, e quando voltou a olha-la, já abrindo a boca para falar alguma coisa, foi interrompido pela porta se abrindo e o casal entrando, acompanhados do Dr. Ward.
- Hey! Você disse meia hora! – apontou, fazendo o doutor revirar os olhos e ignora-la.
- Como se sente, ? – perguntou para a paciente, indicando aos pais dela que eles podiam se aproximar sem problema algum.
- Lenta – ela murmurou, agarrando a mão da mãe e sorrindo ao vê-la sorrir.
- Bom, você me respondeu em menos de dez segundos, isso é muito bom. Ainda está sentindo alguma dor? – ela negou levemente com a cabeça – Tudo bem, então eu vou te deixar acordada, não acho que seja bom te induzir ao sono agora. Mas não se esforce, se se sentir cansada expulse todos daqui e descanse, se não me engano a Srta. precisa ir trabalhar agora – terminou em um tom brincalhão.
- Estou gripada – forjou uma tosse – preciso ficar no hospital o dia todo. Também vou precisar de um atestado.
- Meredith – Dr. Ward chamou, e com um simples aceno de cabeça, médico e enfermeira saíram do quarto.
- Olá, minha princesa – Matt disse baixinho quando se inclinou e depositou um leve beijo na testa da filha, o que a relaxou em proporções que nem ela sabia ser possível.
- Oi, pai – murmurou, sorrindo para o homem que sorriu de volta – Oi, mãe.
- Oi, minha querida – Joan conseguiu falar em meio a voz embargada, então foi a vez dela de beijar a filha.
cedeu a poltrona para a mais velha a foi se sentar no sofá, arrastando Tom junto.
- Ele bem que podia me dar um atestado – ela resmungou enquanto eles assistiam Joan, Matt e conversarem sobre os últimos dias.
- E então você acordaria – Tom disse distraído com o nariz avermelhado pelo choro e os lábios sorridentes de .
- Não custa tentar – ela deu de ombros, também focada na cena que se desenrolava sua frente – Vai que bate o espírito da solidariedade.
- Vocês parecem um casal de velhinhos.
- Ele tem idade para ser meu pai! – disse com um tom enojado na voz, não pela idade do homem ou pela aparência dele, só a ideia que não encaixava – As vezes age como – refletiu, fazendo Tom bufar uma risada, que aos poucos foi sumindo, juntamente com a de , quando os olhos deles se encontraram novamente.
Tom tinha a sensação estranha de já conhecer aquele olhar sobre si, e o mesmo acontecia com , e não tinha como fingir que não percebia aquilo, porque eles não conseguiam parar.
De repente veio a mente de Tom, imagens do sonho que teve na noite que procedeu o acidente, da gatinha branca e do leopardo negro, e por mais estranho que possa parecer, o olhar da gatinha era o de .
- Já avisaram ao Edward? – Hiddleston se ouviu perguntar, e na verdade ele também não sabia por que fez aquela pergunta, mas alguma coisa de seus lembranças sobre o sonho o fez lembrar da forma como Edward olhou para aquela manhã.
Mal percebeu que aquela pergunta causou um incômodo geral, e todos passaram a encara-lo como se uma segunda cabeça estivesse surgindo de seu pescoço.
- Edward? – Matt perguntou em um tom receoso.
- Edward Grange – ele confirmou, com a intenção de continuar a falar “Namorado da ”, mas a maneira como agarrou-lhe o braço o fez olha-la meio assustado pelo olhar dela.
- Como você conhece ele? – perguntou num misto de surpresa e raiva. Ele tinha uma leve impressão de que aquela raiva não era direcionada a ele.
- Ele esteve aqui mais cedo...
- Oh meu Deus! – o ofego de Joan interrompeu sua breve explicação sobre a aparição repentina daquele homem, só então Hiddleston percebeu a troca de olhares entre Matt e – Ele não podia entrar aqui, falamos com o chefe da equipe de segurança – a mulher falou de forma sussurrada, como se estivesse pensando alto, ajudando a montar o quebra cabeça de Tom.
- Por isso ele não estava com o crachá de visitante! – o ator disse olhando para , como se ela pudesse confirmar o que ele dizia, a deixando meio confusa e ainda mais apreensiva – E parecia cansado, como se tivesse corrido. Ele deve ter passado pelos seguranças e vindo até aqui correndo e... Espera, por que ele está barrado? E como ele sabia exatamente o quarto?
- Porque ele é louco – disse revoltada, mas a atenção de Tom estava completamente em .
Ela tomou uma golfada de ar e desviou o olhar, passando alguns instantes assim, encarando algum ponto da parede, até que, enfim, voltou a fixar o olhar em alguém, e esse alguém era sua mãe.
- Vocês sabem o que aconteceu? – perguntou no tom mais claro possível, o que resultou em uma espécie de sussurro rouco.
- nos contou – Matt disse para ela.
- Para todos vocês? – perguntou novamente, deixando Hiddleston realmente curioso e os outros três de cenhos franzidos – Então por que ele está aqui e vocês pareceram ver o diabo pessoalmente quando o ouviram perguntar do Grange?
- Desculpe? – o ator se levantou lentamente e se aproximou da cama, ficando ao lado oposto em que os pais dela se encontravam. Na verdade ele queria saber se ouviu corretamente o que ela havia dito, só para não ter arrependimentos depois que ele saísse por aquela porta e nunca mais visse nenhuma daquelas pessoas ali presente.
- Ele disse que era meu namorado, certo? – Tom assentiu sem entender aquela conversa – Ele veio aqui quantas vezes?
- Hoje foi a primeira.
- Como ele soube em que quarto você esta? – Joan repetiu a questão anterior de Tom.
- Ele deve ter convencido alguma enfermeira a abrir a boca, ele sempre consegue o que quer – sugeriu e nenhum deles pareceram discordar daquela teoria. Tom estava se sentindo um peixe fora da água.
- Quem ele realmente é? – perguntou meio incerto para , pelo simples fato de ainda estar mantendo o olhar fixo com ela, então não tinha porque desviar o olhar e fazer aquela pergunta a outra pessoa – Ele é perigoso?
A reação da maquina que monitorava os batimentos cardíacos da mulher lhe disse que seu instinto estava certo: Não era seguro deixar aquele cara chegar perto de .
- Ele... Foi ele quem me empurrou na frente do seu carro – a garota finalmente disse após alguns segundos lutando internamente para desviar a atenção dos olhos claros do ator, mas aquilo simplesmente a estava hipnotizando.
O fato deles terem se arregalado ao ouvir aquilo não a ajudou muito.
- ... Que?
Tom não tinha certeza se havia ouvido aquilo corretamente. Um cara empurrou para o meio da rua naquela noite. Um cara jogou aquela mulher em uma via movimentada, na frente de um carro, e a deixou com sua amiga desesperada enquanto a morte se aproximava do local. Um cara empurrou contra o carro do Tom, foi embora e voltou um mês depois como se não soubesse do que havia acontecido. E em um mês, sentindo todo o peso da culpa de quase ser responsável pela morte de uma pessoa inocente, ninguém se preocupou em chegar nele e falar “Cara, o culpado é aquele ali, calma, vou te contar o que houve”. Não, o máximo foi “A culpa não é sua, por favor, vá embora”.
- Tom... – tentou falar, mas Hiddleston estava focado de mais em para ouvi-la.
- Por que uma pessoa faria isso com outra? – o ator se ouviu perguntando, enquanto uma voz persistente continuava dizendo em sua cabeça que ele tinha o direito de saber o que havia acontecido. Aquele mês teria se passado de maneira completamente diferente. Certo?
- Porque eu decidi terminar com ele – respondeu, completamente alheia ao debate interno do ator. No entanto, aquela explicação não serviu para explicar nada.
- Ela terminou com ele a quase um ano, mas ele não aceita essa separação, sempre acha um jeito de aparecer, acabar com o bom humor de todos do jeito mais Voldemort possível – interveio por quando percebeu que a amiga não conseguiria falar tudo sem demorar um pouco mais que o necessário.
- Polícia... ?
- Ele tem uma ordem de restrição, mas aparentemente não tem medo da lei – Matt disse num tom de repulsa.
- Fui na delegacia na manhã seguinte ao acidente, mas ele tinha saído da cidade e como tinha seu nome no meio, divulgar o caso na imprensa estava completamente fora de cogitação, e isso não ajuda muito considerando a facilidade em atravessar fronteiras nessa parte do continente – continuou a loira.
- Por que nenhum de vocês me falaram sobre isso? Eu poderia ter ajudado! – Tom falou, ouvindo a revolta em sua própria voz.
- Não queríamos falar sobre isso e você não tinha a obrigação de nos ajudar como nos ajudou e continua ajudando. Esse rapaz é doente, nossa esperança é que ele esqueça de ou as autoridades o prendam de uma vez – Joan explicou em sua rotineira voz pacífica, o que ajudou Hiddleston a pensar com mais clareza e entender que eles tinham o direito de não querer falar sobre aquilo, assim como ele tinha o direito de querer saber o que havia acontecido. Aquilo o lembrou das palavras de Matt na manhã seguinte ao acidente, e só ali ele pode as entende-las.
- Eu sei que eles já devem ter te dito isso, mas você realmente não é culpado - disse em sua voz rouca, trazendo Tom para o presente – Você não tem responsabilidade nenhuma sobre isso, por mais que os fatos não te ajudem a ver isso.
Ouvi-la falar aquilo depois de um mês vindo àquele hospital toda manhã, ouvindo coisas sobre ela, lendo para ela, conversando com ela mesmo sem receber nada como resposta, vendo-a todo os dias... Talvez um mês fosse tempo de mais para se assumir irresponsável por aquilo tudo.


Capítulo 5

- “Quanto mais eu pensava no caso, mais extraordinária me parecia a hipótese de meu companheiro, de que o homem fora envenenado... – ouvia de longe uma voz grossa, porém suave, ao mesmo tempo que era rouca e firme, recitando o conhecido trecho do monólogo de John Watson, a fazendo se perguntar momentaneamente o que estava acontecendo e onde estava.
Então o dia anterior voltou em peso em suas lembranças e por um breve segundo o desespero parecia ter ganho espaço novamente, mas ela conseguiu conter aquilo, não tinha por quê se desesperar. Apesar dos pesares ela estava bem, sua família estava bem e tudo logo voltaria aos eixos. Edward não seria louco de aparecer ali de novo, não depois de tudo, certo?
Seu pai disse que a segurança seria redobrada para que ele não tivesse mais nenhuma oportunidade como aquela. Tom afirmou que conversaria pessoalmente com o chefe da segurança sobre aquilo.
Tom.
Aquela voz.
Tom estava ali?
Com uma dificuldade um pouco maior que a maioria das manhãs preguiçosas e sonolentas apresentavam, abriu os olhos, os cerrando minimamente pela claridade que a luz em contraste com as paredes brancas causava, virando a cabeça para a direita e encontrou a figura do homem sentado em uma poltrona, também branca, lendo um livro muito conhecido por ela. Ele usava um óculos de grau de armação preta, que combinava com sua camiseta meia estação na mesma cor. Os cabelos loiro escuro, maiores do que se lembrava de ver nas fotos que saia do homem nas redes sociais, penteados para trás. A barba, quase ruiva, era algo a se chamar atenção também.
O que ele estava fazendo ali? Depois da conversa da manhã anterior, achou que ele não voltaria mais, mas ali estava ele
– ‘Foi magnifico!’ – a voz dele pareceu alterar ao ler isso, a fazendo franzir o cenho e deixar um pequeno sorriso escapar pelo canto dos lábios. Ele estava fazendo uma voz para Sherlock Holmes – ‘Lembra-se do que Darwin diz sobre a música? Segundo ele, a capacidade de produzi-la e aprecia-la já existia entre a raça humana muito antes de existir a faculdade de linguagem. Talvez seja por isso que nos sentimos tão sutilmente influenciados por ela...”
- “Certamente, nossas almas guardam lembranças vagas daqueles séculos envoltos em brumas, quando o mundo ainda estava na infância.”
Tom levantou o rosto um pouco mais rápido do que o considerado humanamente possível ao ouvir aquela voz.
Ele sonhou com aquela voz.
Quando acordou, ficou consideráveis dez minutos dando voltas pela casa, tentando decidir se deveria ou não ir ao hospital aquela manhã. Ele queria ir, mas deveria? Ele não sabia dizer se ela se sentiria confortável, mas por que se sentiria daquele jeito? Na manhã anterior ela disse que ele não precisava mais fazer aquilo, então porque ele não concordava com aquilo? Além do mais, ele não precisava concordar com ela. Por que deveria?
Essa linha de pensamento, só depois de algum tempo percebida a falta de lógica, o levou até o Free Royal naquela manhã, e ali, a vendo de olhos abertos, com a expressão suave, bem diferente do oceano de confusão do dia anterior, o fez se agradecer por não ter ficado na cama.
- Bom dia – disse, um pouco mais baixo do que quando estava lendo. Falar com ela enquanto ela dormia era normal para ele, mas com ela desperta, a história era outra. Segundo ele, aquela não era uma linha estranha de raciocínio – Como se sente?
manteve o olhar, meio incomodada com a mudança na postura do homem. Desconsiderando o maior fator da equação, era ele quem a tinha atropelado, certo? Então se alguém deveria – poderia, no caso – ficar desconfortável com alguma presença, ela teria esse direito, não ele, não é?
Ela não sabia. Se ele se sentia desconfortável perto dela, então ele não estaria ali, mas ele estava, então aquilo tudo poderia muito bem ser só seu cérebro ainda meio lento processando as coisas de maneira errônea.
- Um pouco melhor que ontem – resolveu enfim responder, nem percebendo que o deixou quase meio minuto esperando pela resposta.
Na verdade, ele também não havia se dado conta desse fato. A pupila dela estava dilatada, deixando seus olhos, já escuros, ainda mais escuros, e seus lábios estavam quase da cor de cerejas. As maçãs do rosto coradas contrastava com e pele clara e os cabelos negros. O apelido que Meredith dera, Branca De Neve, nunca se encaixou tão bem quanto naquele momento.
- Dormiu bem? – questionou no mesmo tom baixo. Tinha a sensação de que se não a induzisse a uma conversa, ela voltaria a ficar inconsciente. Ele precisava ouvi-la falar, mas ao mesmo tempo tinha medo de força-la de mais, então falava baixo para se manter em um meio termo de suas ideias.
- Foi o que eu mais fiz desde que acordei – comentou fazendo uma careta que o fez ter vontade de rir. Ela franziu os lábios e semicerrou os olhos, o que fez seu nariz ficar momentaneamente avermelhado. Aquilo era fofo – Acabei dormindo cerca de uma hora depois que você saiu ontem e acordei só de tarde, só para voltar a dormir e acordar só agora. Acho que meu corpo não se lembra mais como se movimenta – declarou, movimentando os dedos da mão direita lentamente para demonstrar seu drama.
- Os remédios são fortes, Dr. Ward disse que demorará cerca de dois dias para que saia de seu sistema, por enquanto você irá se sentir meio pesada mesmo – Tom disse, quase levando sua mão de encontro a dela, acostumado com aquele gesto, mas se lembrou que ela não estava acostumada com aquilo, então se conteve a lançar o sorriso mais compreensivo e esperar que ela se sentisse melhor logo.
- Ouvi ele dizer algo assim com a ontem antes de pegar no sono – se lembrou, lembrando-se também de ter ralhado com a amiga antes de cair nos braços de Morfeu – Ela não o deixa em paz, implica com quase tudo que ele diz – disse meio risonha, e ele acompanhou não só por ter estado presente na maioria das cenas entre o médico e a colunista, como também pelo fato de estar sorrindo. Ela deixava aquilo meio contagioso – Desde quando ela vem infernizando a vida do pobre homem?
- Desde que percebeu que teria o mínimo possível de convívio diário com ele – explicou, sorrindo mais abertamente quando a careta dela se intensificou e ela soltou uma risadinha que provavelmente seria mais intensa se não fosse a quantidade de medicamentos em seu sistema.
- Me diga, Thomas, como você ainda está aqui, e não em uma ilha distante depois de ter saído correndo e gritando que é uma maníaca? – Tom, por outro lado, gargalhou abertamente depois dessa pergunta.
- Sabe, essa ideia foi cogitada algumas vezes nas primeiras horas de convívio – comentou casualmente, ainda sorrindo, fazendo rir e fazer uma careta por isso. Rir causava dor – Dr. Ward fez algum exame ontem? Você ficou com alguma sequela...? – perguntou genuinamente preocupado ao reparar na expressão que tomou conta da face da mulher.
- Ontem ele só conversou comigo sobre uma possível perda de memória, coisa que foi descartada enquanto você ainda estava aqui, mas ele queria ter certeza, então fez uma série de perguntas sobre momentos antes do acidente e coisas corriqueiras do dia a dia – arqueou as costas enquanto falava. Ela não aguentava mais ficar deitada naquela posição, mas não tinha forças para se mexer e no dia anterior o doutor não havia permitido que mexessem na cama para ela, ‘Amanhã’, ele disse. Esperava que aquela enfermeira simpática aparecesse logo por ali.
- Você quer ajuda? – Hiddleston questionou já se colocando em pé e se aproximando mais da cama.
- Eu posso me sentar ou coisa do tipo? – perguntou incerta.
Tom passou a língua pelos lábios, tão incerto quanto ela.
- Bom dia, súditos! – entrou no quarto sem cerimônia alguma, fazendo com que e Hiddleston desviassem o contato visual para passar a encarar a loira.
Ainda não era contra as leis alguém ser tão disposto às sete e meia da manhã?
- Bom dia? – o ator e a fotógrafa responderam em uníssono, o ponto de interrogação esculpido em seus rostos ao ver o sorriso no rosto da colunista. Sorriso que foi diminuindo aos poucos até espelhar a expressão dos outros dois.
- Por que vocês estão com cara de quem estavam prestes a fazer algo ilegal? – perguntou desconfiada, apontando de um para o outro.
- Eu quero me sentar, mas não sabemos se posso fazer isso – explicou, exatamente no mesmo tom da amiga porque tinha uma pergunta a fazer – Por que você está tão feliz se você odeia manhãs?
- Você, finalmente, estar acordada não é um bom motivo?
- Seria um ótimo motivo se eu te conhecesse a um mês.
Tom a conhecia a um mês e estava dividido entre acreditar na desconfiança de ou na alegria genuína de . Mas pensando bem, o que em era genuíno?
- Por que vocês estão conversando como se estivessem sabendo de armas escondidas nas roupas uma da outra? – Hiddleston, sem perceber, perguntou no mesmo tom que elas, fazendo ter que morder o inferior da bochecha para não rir e quebrar o contato visual determinado que compartilhava com .
- Porque a está guardando uma bomba e eu só paro de olha-la assim quando ela me contar o que está acontecendo.
Foi ai que Tom viu o sorriso voltar a cortar o rosto de , e, num instante ela estava a alguns passos da porta, e no outro ela estava deitada ao lado de , abraçando a morena como se a própria vida dependesse daquilo.
- Eu estava com tanta saudade de você bancando a vidente pra cima de mim!
- Eu conheço? – perguntou, envolvendo a cintura da amiga em um aperto frouxo.
- É o Dr. Ward? – Tom se intrometeu, levando um tapa no quadril, área que a mão de alcançava já que ela estava deitada.
- Hiddles, eu não estou pegando o médico da ! Aceita!
- As vezes parece ter uma tensão sexual – ele deu de ombros.
- Tensão sexual é o que rola nos corredores desse hospital quando as enfermeiras estão cientes de que você está aqui. Tenho até um pouco de dó delas – disse risonha, fazendo o homem revirar os olhos.
- a repreendeu. A conversa estava perdendo o foco.
- Não, sério, ! Acho que a maioria delas tem inveja de você – se ajeitou na cama exatamente como queria ficar, causando um pouco de inveja nela.
Tom reparou naquilo.
- Claro, por que não ter inveja de mim, certo – deu de ombros, blasé, como se concordasse com aquela ideia, mas revirando os olhos, demostrando o quanto aquilo era idiota.
- Ele vem aqui todo dia pra ver você – apontou, e por mais que tenha corado quando viu Tom sorrir de lado e concodar com aquilo, ela fingiu não ver nada e revirou os olhos novamente – Você o encantou com sua baba e palidez fantasmagórica enquanto dormia – a loira continuou, gargalhando quando o ator descansou a testa sobre a mão enquanto negava de olhos fechados.
- Você não tem que ir trabalhar? – perguntou para a amiga, no exato momento em que a porta foi aberta e Dr. Ward e a enfermeira simpática entraram no quarto. O médico olhando de uma mulher para outra com um olhar entre a diversão pela frase ouvida e a repreensão pela loira estar em cima da cama de sua paciente.
- Nem a srta. quer mais a sua companhia, srta. – ele disse, decidindo por azucrinar a garota de uma forma que poderia se lembrar mais tarde e rir com aquilo.
- Ela está se sentindo sufocada pelo meu esplendor – disse casualmente, jogando os cabelos que estavam sobre o ombro para trás.
- E pelo seu ego – retrucou, causando risos no restante dos ocupantes do ambiente.
- Me parece que alguém aqui está muito melhor – Dr. Ward falou olhando para , ainda sorrindo – Como se sente?
- Sinto que corri cinco maratonas e meu corpo desistiu de mim.
Nesse meio tempo Tom e foram se sentar no sofá, em um pequeno embate sobre as possibilidades da colunista ter ganhado os olhos do médico. Tudo aos sussurros, é claro.
- ... Tirando isso, creio que seja um bom momento para deixa-la se acomodar mais confortavelmente. Mandarei um fisioterapeuta aqui nesta tarde, você ficou imóvel por muito tempo, é melhor começarmos aos poucos.
Hiddleston sentiu o próprio corpo relaxar quando Meredith regulou a cama de maneira que ficasse no meio termo entre sentada e deitada.
- Precisa de mais alguma coisa, querida? - a senhora perguntou, nem precisando de uma resposta verbalizada já que tudo que a garota conseguia fazer era encarar a jarra de água ao seu lado.
No dia anterior tudo o que ela fez, além de dormir, foi beber água, mas como aquilo era o máximo que seu corpo suportava no momento, ela já estava completamente satisfeita.
- Quando começarão ser feito os exames? – perguntou.
- Amanhã farei um check up para ver como seu corpo está reagindo com você desperta e ver se encontro a causa do coma, embora já tenha uma teoria, vendo como você está agora que a ferida está quase completamente cicatrizada – o doutor respondeu a questão diretamente para , como se a pergunta tivesse saído de sua boca, e Tom teve que cutucar o ombro de quando ela abriu a boca para retrucar – Por hora, terei uma conversa com os nutricionistas e com seus fieis escudeiros sobre o que você pode ou não e deve ou não fazer.
- Então hoje eu só fico aqui nessa cama esperando que o tempo passe – a intenção era que fosse uma pergunta, mas ela já havia aceitado aquele fato no momento em que Hiddleston disse que demoraria dois dias para que os medicamentos saíssem de seu sistema.
- Leia, ouça uma música... Entre no facebook – Dr. Ward sugeriu – O que podemos fazer agora é esperar.
Tom assistiu assentir, então o médico lhes disse um até logo, lhes desejou um bom dia e saiu, enquanto Meredith continuava seu trabalho diário com os inúmeros fios conectados a – quantidade essa que diminuiu drasticamente de uma manhã para outra, mas aparentemente alguns deles ainda eram necessários.
Ele sabia que o médico já tinha uma opinião formada do estado de , só não sabia dizer se aquilo era algo bom ou ruim. Sem perceber, seus olhos foram da senhora fazendo seu trabalho para , que ainda encarava a porta, como se esperasse que Dr. Ward voltasse dizendo que só estava fazendo um teste e que na verdade ela já estava livre daquele lugar. Como isso não aconteceu, a garota voltou seu olhar para , que também a olhava com um pequeno sorriso nos lábios, como se dissesse que não tinha problema ela se sentir um pouco impaciente, o importante era que ela estava de volta.
- Meus pais ficam por aqui o dia todo? – finalmente perguntou, quebrando o pequeno silêncio que caiu sobre o ambiente.
- Quando estou indo trabalhar eles já estão aqui – disse, checando as horas no celular – Provavelmente já estão no estacionamento.
não queria, de verdade, deixar seu semblante entregar seus sentimentos, mas seu corpo ainda não a obedecia corretamente, então até sua voz soou desesperadamente decepcionada com aquela informação, até para ela.
- Você já precisa ir?
manteve seu sorriso, mesmo que agora fadado, e se levantou, se aproximando da amiga.
- Eu já enrolei o pessoal lá ontem, se eu não for hoje acho que eles não me dão mais cartão amarelo – disse enquanto deslizava os dedos pelos cabelos da amiga.
- Okay, eu sei, desculpe.
- Não, eu sei, essa situação é horrível, mas você está aqui, – segurou a mão esquerda da morena com suas duas, a apertando levemente – acordada... Viva. E você acreditando ou não – continuou com um sorriso mais sacana brincando nos lábios – aquele sorriso de mais cedo era por sua causa – dito isso, depositou um beijo na testa da amiga e se dirigiu à porta, parando quando ouviu a chamar – Pois não?
- Eu dormi por muito tempo ou é o Colin?
O sorriso arteiro se espalhou pelos lábios da loira, fazendo a outra sorrir e negar sutilmente.
- De tarde te passo os detalhes – disse risonha, então se foi.
Hiddleston ficou refletindo sobre as belezas do universo por mais alguns minutos, o tempo de Meredith terminar seu trabalho e também sair do quarto. Os pais da garota com certeza já haviam chego ao hospital, mas ele não queria deixa-la sozinha, então ficou por ali até as duas figuras, já completamente familiares para ele, passaram pela porta. Então ele se levantou com o livro e sua blusa em mãos e foi se despedir da família.
- Thomas? – ouviu-a chama-lo quando estava prestes a dar meia volta e seguir para a porta parar ir embora – Você pretende terminar esse livro?
Por um momento ele pensou que ela gostaria que ele deixasse o livro ali, mas reparou que Joan estava com uma espécie de sacola com vários livros dentro e só então ele entendeu o que ela quis dizer com aquela pergunta.
Com um sorriso genuinamente feliz, Tom olhou no fundo dos olhos de e assentiu.
- Certamente – disse, recebendo um reflexo de sua expressão como resposta.


Capítulo 6

Tom deu três toques na porta antes de abri-la e colocar a cabeça para dentro antes de entrar no quarto de corpo inteiro, parando por um momento ao se deparar com a cama vazia.
- ? – soltou confuso, se perguntando onde a mulher estaria. As coisas dela estavam ali ainda; o celular, um livro que ele não conhecia, um ursinho de pelúcia que o pai dela havia levado. Ela não precisava mais fazer mais nenhum exame, só estava em observação, para onde poderia ter ido? – ?
Um leve estalo de uma tranca se abrindo foi ouvido e saiu do banheiro com os cabelos molhados e um conjunto de pijama leve e confortável em um tom claro de cinza, o que incrivelmente destacava o vermelho dos lábios e o tom de pele sob os espessos cabelos negros dela, fazendo Tom se perder por um instante em pensamentos. Deveria uma pessoa de pijama deixa-lo paralisado?
, por sua vez, também travou, se permitindo estudar o trabalho bem feito que eram a calça jeans preta e a camisa azul sobre o corpo de Tom. Aquilo deveria ser considerado uma arte. Somado aos óculos e a barba? Aquilo deveria ser considerado obsceno.
Piscando varias vezes para afastar aqueles pensamentos, apertou a nécessaire entre as mãos e forçou um sorriso simpático.
Era estranho, porque perto de Hiddleston, sentia-se na quinta série tendo que apresentar um trabalho pra classe toda, a mesma classe que estudava com ela desde o terceiro ano. Não fazia sentido, porque eles se viam todo dia desde o dia em que ela acordou, então teoricamente ela já deveria estar acostumada com a presença do homem. Quer dizer, uma grande parte de si estava, mas existia aquela parte que a fazia ter esses pensamentos que a deixava nervosa o suficiente para achar que não.
- Olá – ouviu sua voz dizer, só agora, depois de duas semanas, reconhecendo aquele som como realmente seu.
- Bom dia, . Me desculpe ter entrado assim é só que... – o homem desencadeou a falar, colocando a mão sobre a boca e pigarreando minimamente para disfarçar a garganta seca – Desculpe.
Ela mordeu o interior da bochecha para disfarçar o sorriso que insistia em lhe escapar toda vez que ele começava a se desculpar por tudo. Era fofo e engraçado, mas sua mãe ficaria furiosa se soubesse que tantos anos a educando não geraram resultados.
Tom baixou minimamente o rosto e ajeitou os óculos para conseguir disfarçar o sorriso que tomou conta de seu rosto ao vê-la corar daquela forma.
- Eu disse que só vim de tarde nos últimos dias porque minha irmã me pediu para ficar com meus sobrinhos, mas que hoje voltaria ao normal.
- Acho que ainda estou me distraindo com facilidade.
- Estou começando a achar que isso sempre foi assim.
Ela abriu e fechou a boca algumas vezes, como se tentasse falar algo mas as palavras não saíssem, então decidiu por pressionar os lábios um contra o outro e lançar o melhor olhar acusador possível.
- Por que me odeia? – perguntou cruzando os braços, na intenção de soar acusadora, mas o calor na ponta do nariz, orelhas e pescoço, a indicavam que no máximo ela estava parecendo uma chaleira.
- Longe disso – soltou com o sorriso brincando na boca, colocando uma mecha negra do cabelo dela atrás da orelha avermelhada, focando o olhar nos olhos azul escuro dela, se contendo para não rir do brilho de irritação misturado com algum outro que ele não sabia identificar – Desculpe, você me parece exausta, venha se sentar.
se deixou ser guiada para a cama e se sentou da maneira mais confortável possível, recostando-se sobre o número consideravelmente exagerado, mas completamente bem vindos, de travesseiros que sua mãe havia trazido de casa e soltou um longo suspiro. Ficar em pé por muito tempo ainda lhe causava tontura e isso não era nada divertido.
- Graças a Deus, Meredith disse que provavelmente hoje recebo alta, acho que entraria em curto se tivesse que ficar nesse quarto por mais algum dia.
Um sorriso enorme tomou conta do rosto do ator enquanto ele se sentava em sua rotineira poltrona ao lado da cama da mulher.
-Isso é novidade! Quando ela disse? – perguntou entusiasmado.
virou o rosto para poder olha-lo nos olhos, colocando um grande sorriso no rosto e ânimo em suas palavras.
-Ontem à noite. Ela explicou tudo aquilo sobre o coma ter sido uma forma do meu corpo me proteger para que não houvessem danos ou sequelas por causa da ferida profunda, toda aquela explicação que o Dr. Ward já havia nos dado. Então me disse que como em meus exames não saiu nada, eu poderia ir para casa! É só esperar o Dr. Ward aparecer por aqui e ouvir as palavras saírem da boca dele!
O sorriso de Tom foi morrendo aos poucos e seu semblante começou a se tornar sério e questionador.
-Por que tenho a sensação de que você não está tão empolgada quanto está tentando fazer parecer?
era uma espécie de livro aberto, o que tornava sua leitura muito fácil, e aqueles últimos dias convivendo com ela de maneira tão próxima mostrou para ambos que talvez Tom fosse um leitor bom até de mais.
Desde que acordou, descobriu ter muito em comum com Tom, e o fato dele estar ali todo dia ajudou muito na formação de laços. Era estranho, porque, duas semanas geralmente é um curto período de tempo que se passa e nada de extraordinário acontece, mas ela havia ficado fora do ar por um mês, e nesse tempo Hiddleston havia se aproximado de sua família e antes que ela pudesse entender o que estava acontecendo, o homem estava em todos os assuntos, sempre presente e sendo extremamente gentil. Então após o período de compreensão e aceitação, não começava bem o dia se não tivesse Tom ali por perto, ou pelo menos a ciência de que em algum momento do dia ele apareceria por ali. Se acostumar com a presença dele foi tão fácil e natural que era como se ele estivesse ao seu lado desde sempre.
Para ele não era diferente. Tom poderia passar horas a fio conversando com que em nenhum momento o assunto acabaria. Eles tinham uma linha de raciocínio bem parecida em alguns aspectos e quando discordavam de algo acabavam em mais uma longa conversa que sempre acabava com segurando as mãos dele para que ele parasse de ajeitar os óculos, ou com Tom soltando algum comentário capaz de fazer perder momentaneamente o fio da meada.
Esse comportamento entre os dois fez Tom perceber coisas pequenas em que faziam toda a diferença no humor dela. Como naquele momento, em que Hiddleston sabia que ela estava forçando o sorriso e que tinha alguma coisa errada no tom de voz da mulher.
Ela baixou o olhar e franziu minimamente o cenho, como se estivesse julgando a si mesma, mas isso durou pouquíssimos segundos, e se Tom não a estivesse observando com total atenção não teria percebido isso. Mas ele estava, então quando ela voltou a sorrir e abriu a boca para falar, ele lançou seu melhor olhar instigador, a fazendo recuar em sua provável mentira.
-Não quero sair como a menininha chorona e assustada dessa história – murmurou, fazendo Tom recuar dessa vez.
- A última coisa que você me parece é uma menininha chorona e assustada, – Tom afirmou, voltando a apoiar os cotovelos nos joelhos e se inclinando para ficar mais próximo da mulher.
- Eu agradeço, mas sei que você sabe que estou com medo.
Ela começou a brincar com a beira da coberta que estava sobre a cama mas completamente ignorada, considerando a temperatura que o aquecedor fazia aquele quarto ficar.
Tom sabia o que era se sentir constantemente perseguido, embora em níveis diferentes da palavra, mas ainda assim, conseguia entender o que passava, e não mentia quando dizia que não a achava fraca.
-Eu tento não pensar nisso, mas é mais forte que eu – falou de forma sussurrada, prestando atenção em suas próprias mãos por vergonha de olhar para Tom – Eu troquei de telefone umas cinco vezes desde que terminei com ele. Mudei todas as fechaduras de casa e pego um caminho diferente para o trabalho a cada semana. Devo ter umas doze queixas contra ele, e sei que nada disso vai me proteger caso ele resolva aparecer novamente. Não me protegeu.
Hiddleston ouvia aquilo tudo com um peso estranho no estômago e um gosto amargo na boca. Vê-la angustiada daquela forma por causa daquele desgraçado era como vê-la desacordada novamente e não saber o que fazer para ajuda-la.
Nada daquilo era culpa dela. Ninguém merecia se sentir em constante estado de medo. O mais triste de tudo, era saber que o caso de não era um isolado, milhares de pessoas passavam por aquilo diariamente e as autoridades nada faziam até que o pior acontecesse.
-, posso te fazer uma pergunta? – Tom questionou incerto, recebendo um leve aceno de confirmação como resposta, sem poder olha-la nos olhos ainda já que ela ainda encarava as próprias mãos – Você o amava?
Aquela pergunta a fez voltar a fita-lo, mas o estranho da situação era o enorme sorriso de escárnio tomando conta de seus lábios enquanto lágrimas preenchiam seus olhos.
-Eu me sinto mais idiota ainda quando penso nisso, sabe o por quê? Sabe como nos conhecemos? Em um pub. Eu nem queria ter saído aquela noite, mas a insistiu tanto que acabei sedendo, então ela sumiu em determinado momento e ele apareceu do meu lado e começamos a conversar e quando dei por mim já estava bêbada e mandando mensagem pra avisando que já estava indo embora. No outro dia ele me ligou, e eu nem lembrava de ter passado meu número para ele. Ele me chamou pra sair e eu não ia aceitar, mas a me disse que fazia muito tempo que eu não saia com alguém e que eu deveria aproveitar mais a vida… Nunca havia dado ouvidos a essa conversa e quando dei, foi justo quando ele apareceu – ela parou e ficou encarando a parede por cima do ombro de Tom por um momento, o cenho franzido como se estivesse se concentrando para não chorar – No começo não tinha nada de errado, ele era engraçado e tinha uma boa conversa, então eu pensei, “Por que não?”. Eu estava solteira, nada me impedia e ele não era nada mal. Mas… - sua voz falhou e ela parou novamente, pigarreando e respirando fundo, as lágrimas agora lutando com mais força para escaparem, e tudo que Tom queria era abraça-la e dizer que tudo ficaria bem, mesmo que ele não soubesse se aquilo era verdade – Mas um dia ele deu um ataque de ciúmes no meio da rua, porque, supostamente, tinha outro homem olhando para mim. Eu fiquei revoltada, estávamos passando vergonha, um monte de gente começou a olhar, então eu falei que ou ele parava ou eu me viraria e ele nunca mais me veria, só não esperava que ele me desse um tapa e me chamasse de vadia na frente de todas aquelas pessoas – ele não sabia o que esperava de um homem que foi capaz de tentar matar alguém, mas ouvir aquilo o espantou como se tivesse presenciado a cena. Tudo o que fez foi dar de ombros e chacoalhar levemente a cabeça, como se estivesse tentando mandar aquelas lembranças embora – Naquele momento eu mandei ele para o inferno e fui embora… Mal sabia que a minha vida se tornaria um inferno dali pra frente.
- Eu sinto muito.
parecia minúscula em cima da cama, com os olhos marejados e as mãos trêmulas, tão indefesa que Tom não pode controlar seus instintos, e quando deu por si, estava sentado na cama, ao lado dela e a envolvendo em um forte abraço. Ela não retribui, mas afundou o rosto o máximo possível contra o peito dele, se aconchegando contra o corpo do homem como se precisasse daquilo para conseguir respirar.
-Nós ficamos juntos por dois meses e olha onde eu vim parar. Eu queria ter sentido algo por ele no período que estávamos juntos, só para conseguir sentir alguma coisas além de medo quando penso nele. Eu queria sentir ódio, rancor… Qualquer coisa, mas é só medo...
- , sentir medo de alguém como ele não te torna uma pessoa fraca, e sim racional. Nada disso é culpa sua. Ele é um criminoso. Ninguém culpa o assaltado por ter seus pertences levados. Você não é uma idiota, você é uma vítima, e não vai passar por tudo isso sozinha – Tom murmurou as palavras enquanto passava uma mão pelas costas dela e a outra se perdia em meio aos fios negros – Sua família estará sempre ao seu lado e… E agora você pode contar comigo também – disse a última frase meio hesitante, sem saber se deveria dizer aquilo em voz alta e como ela reagiria a aquilo.
se afastou de Tom e focou o olhar em seus olhos claros, se perguntando se era certo se permitir se sentir tão segura perto de alguém que ela sequer conhecia direito, considerando tudo o que haviam conversado a pouco. Mas a única coisa que seu cérebro processava naquele momento era a maneira como ele a olhava, mesmo ela não sabendo dizer porquê aquilo a fazia se sentir melhor, mas fazia, e isso era muito bom.
-Obrigado, Thomas – ela soltou num suspiro, deixando um pequeno, mas verdadeiro sorriso lhe escapar pelos lábios, tendo sua imagem espelhada no semblante de Tom, que descansou uma das mãos entre o maxilar e o pescoço dela e se aproximou ainda mais, deixando um beijo na testa da morena.
Quando se afastou, abriu a boca para falar algo que nunca foi dito, uma vez que uma sequência de toques na porta antes de ser aberta revelou o Dr. Ward, Sr. e Sra. e entrando no quarto.
-Ora, bom dia Srta. , Sr. Hiddleston – Dr. Ward os cumprimentou com um aceno de cabeça, se posicionando próximo a cama de , fingindo não ver Tom ali em cima também, o que fez cruzar os braços e arquear uma das sobrancelhas para o doutor, que obviamente a ignorou.
Tom desceu da cama e cumprimentou todos antes de se colocar ao lado de Matt e encarar como se perguntasse o motivo do atraso dela naquele dia.
-Perdi meu celular – murmurou ao perceber o olhar do homem sobre si, o que não o ajudou a entender muita coisa.
-Como assim? Onde? – questionou.
- Ora, se eu soubesse iria lá buscar, não acha? – perguntou irônica, recebendo um revirar de olhos como resposta, o que a fez revirar os olhos também - Enfim, quando desisti de procurar e finalmente vim pra cá, Meredith me parou no corredor e me levou até a sala do Dr. Ward, onde ele já estava explicando algumas coisas para os sobre os exames da .
- De novo?
- Ele vai libera-la esta tarde, achou melhor nos esclarecer algumas coisas antes de deixarmos o hospital – Sr. entrou na conversa, confirmando o que havia dito mais cedo: Ela estava de alta.
Tom voltou a olhar para a garota na cama, sentindo um peso estranho no estômago, não gostando nenhum pouco de sua linha de raciocínio, mas não deixando de se perguntar a probabilidade de se encontrar com novamente.
-Tudo bem, então – o médico disse mais alto assim que terminou sua breve conversa com sua paciente – Seus pais e a Srta. já estão cientes de seus limites, assim como você, e ficarão de olho. Logo logo sua vida voltará ao normal e as únicas coisas que você terá para se lembrar desse episódio serão essa leve cicatriz e o remédio de labirintite – comentou com um leve sorriso, feliz por saber que aquela jovem finalmente voltaria para casa – Eu vou organizar a sua papelada e por volta das duas da tarde eu você já estará liberada.
sorriu para o doutor e o agradeceu, então ele se despediu de todos e disse que o diretor do hospital gostaria de conversar com Tom, então saiu.
-AAAAAAAAAAAAAAH! Eu nem acredito que você finalmente vai sair daqui! Estou tão animada! gritou batendo palmas, então se jogou contra a amiga e, abraçada a ela, começou a quicar na cama, fazendo todos rir - Você vai gostar tanto do apartamento que seu pai alugou para você! Ele fica mais perto da minha casa e…
- Era pra ser uma surpresa, ! – Matt ralhou, sorrindo amarelo ao perceber os olhos arregalados da filha.
- Pai, não…
- Você nos disse que não se sentia segura em sua própria casa, filha – Joan interveio pelo marido – E depois que ele entrou aqui, mesmo com toda a equipe de segurança esperando por ele, achamos melhor você não voltar para aquela casa.
não sabia como se sentir com aquela informação. Ela realmente gostava de sua casa, havia economizado por dois anos e meio e recebido uma grande ajuda de seus pais para compra-la. A decoração era exatamente do gosto dela e não havia um cômodo em que ela não tivesse colado uma frase de Shakespeare na parede. Mas Edward já tinha entrado lá em uma tentativa falha de conversar com e mostrar que se ela desse uma chance ele poderia ser melhor. Só de lembrar aquilo, sentia um frio na espinha.
-Não se preocupe com sua casa – Matt falou – Nós a alugamos por uma imobiliária e o dinheiro do aluguel vai direto para sua conta, você poderá arcar com o aluguel do apartamento sem problema algum e ainda sobrará um pouco.
- Se não gostar do apartamento, você pode ficar mais algum tempo lá em casa e procuramos algo mais do seu gosto juntas – Joan propôs, imediatamente recebendo uma negação da filha.
- Não, sério, eu confio no gosto de vocês, tenho certeza que é incrível – ela disse sorrindo para os pais – Obrigado, eu amo vocês.
- Nós também te amamos, minha princesa – falaram juntos, se aproximando e beijando a filha.
- Bom, eu tenho que ir me encontrar com o diretor então… Mando uma mensagem? Mais tarde? Para saber como você está? – Tom nunca se julgou tanto pelo uso das palavras, mas a verdade é que ele estava completamente inseguro do que aconteceria dali para frente, e aparentemente via muita graça nisso.
- Mais alguma dúvida, Hiddles? – a loira perguntou com um sorriso irônico nos lábios.
Tom a encarou com sua melhor expressão vazia, só para não responder o que gostaria já que tinha muito respeito pelos .
-Na verdade, Tom – Joan interferiu a troca de olhares que variavam de deboche para homicida, e focou somente no homem – Vou fazer um jantar lá em casa, nada de mais, na verdade seremos só nós três já que a não vai poder ir, então gostaria de saber se você não nos daria a honra de aparecer por lá, para celebrarmos a volta da .
Hiddleston se sentiu tocado por estar recebendo aquele convite. Ficou muito feliz em saber que não era somente ele que gostaria de adiar o máximo possível a despedida. Seu olhar recaiu sobre e ele poderia jurar estar vendo um brilho de expectativa na tempestade de suas íris.
-O prazer será todo meu – respondeu voltando a olhar para Joan, recebendo um grande sorriso de volta. Quando seu olhar voltou para , foi impossível disfarçar o sorriso ao perceber a ponta do nariz dela levemente avermelhado.
- Tudo bem, nos vemos às sete, a te manda uma mensagem passando o endereço – a mais velha voltou a falar, sem recuperar a atenção visual do rapaz, que somente assentiu.
- Então… Nos vemos mais tarde? – ele perguntou ainda mantendo o olhar de , recebendo uma leve assentida de confirmação, então ele assentiu de volta e com isso se virou e deixou o quarto, deixando a garota sozinha em meio a três olhares curiosos e dois sorrisos nada discretos. Matt era o único tentando processar a ideia e não tinha certeza do que pensar sobre aquilo, então só encarava a filha como se esperasse que ela respondesse o quê era aquilo.
- Céus! Ele está tão na sua! – disse com uma mão sobre o peito, causando gargalhadas em Joan e um choque em .
- Céus, digo eu! Não fale idiotices! – ralhou com a amiga, puxando o travesseiro no qual a loira estava com o cotovelo apoiado, o que a fez parar com a pequena encenação mexicana.
- Por que idiotice, minha filha? – Joan questionou, recebendo um olhar exasperado da filha.
- Mãe, estamos falando do Tom Hiddleston tentou clarear os pensamentos de sua progenitora, mas o nome do homem que havia acabado de sair do quarto não pareceu fazer surtir efeito algum nela.
- Um bom homem – Joan pontuou.
- Muito gostoso – apontou.
- Muito gentil – Joan continuou.
- Lindo de mais – adicionou.
- Decente.
- Talentoso.
- Te trata bem.
- Faz um ano que você não sai com ninguém.
Ah, pronto.
-Vocês tem noção de que se estou aqui é porque resolvi dar ouvidos a essa conversa, certo?
- Você acha que o Tom é um lunático? – perguntou com um riso preso no fundo da garganta.
- Olha, eu adoro o Thomas, mas não coloco minha mão no fogo por ninguém – afirmou, fazendo careta para quando terminou a palavra “adoro” e a colunista se empertigou toda – Por favor, não estraguem o que nós dois temos com esse tipo de conversa.
- E o quê vocês dois tem? – Matt perguntou, fazendo e Joan olhar dele para a filha repetidas vezes.
- Amizade, oras – respondeu, sentindo o calor tomar conta de seu rosto pateticamente. Esperava que Tom também a considerasse uma amiga.
- Hãn…
- Se me permitem a palavra, vocês formariam um casal lindo – Meredith falou do nada, fazendo todos se virarem na direção da enfermeira encostada na poltrona – A senhorita vai querer geltina ou salada de frutas para o café da manhã? – perguntou apontando para a bandeja de prata ao seu lado, sobre a mesa onde deixava seu celular.


Capítulo 7

se sentia outra pessoa após um longo banho na banheira em seu banheiro no antigo quarto da casa de seus pais.
Ela gostaria de ir ver o novo apartamento e passar em sua casa para ver como estavam suas coisas e começar a encaixota-las, mas seus pais insistiram que haviam ido até lá naquela manhã e que ela não morreria se esperasse um dia.
Matt e Joan haviam arrumado todo o antigo quarto da filha e estavam tão animados com a ideia de tê-la sob o mesmo teto após tantos anos que ela havia saído de casa, que não sabia dizer se eles estavam agindo daquela forma por conta do acidente ou só pelo bom e velho costume. Ela não via a hora de voltar a ter seu próprio canto e voltar a sua velha rotina, mas assumia que ter o mimo e a companhia dos pais era a melhor coisa do mundo.
- Vocês sabem que eu continuo a ter pernas e braços que funcionam normalmente, certo? – perguntou risonha quando seu pai a sentou em uma das banquetas ao redor da ilha para que ela não tentasse chegar perto do fogão novamente.
- Qual a parte de visitas não fazem nada você ainda não entendeu? – Matt questionou tentando manter a expressão séria.
- Eu cresci nessa casa, desde quando isso é ser visita?
- Visita é três dias, depois disso você ganha até o direito de lavar roupas, mas por enquanto deixe seu pai continuar acreditando que é um bom assistente de cozinha, sim? – Joan entrou na conversa, fazendo a filha gargalhar e o marido a lançar um olhar ultrajado.
- Posso ao menos colocar a mesa?
- Não me lembro de você querer ser prestativa assim na sua adolescência, querida – Matt comentou, recebendo a língua da filha como resposta, o que o fez apontar a colher como forma de repreensão, mas antes que um dos dois pudessem falar algo o som da campainha ecoou por toda a casa – Você pode atender a campainha e parar atrapalhar sua mãe e eu .
- Ela não está me atrapalhando em nada – ouviu a mãe dizer enquanto ela saia da cozinha e atravessava a sala para atender a porta.
- Pois nã... – abriu a porta ainda rindo das gracinhas dos pais, que a fizeram momentaneamente se esquecer que Hiddleston apareceria ali naquela noite, mas ali estava ele e isso a fez lembrar que por algum motivo ela estava nervosa com isso – Olá, Thomas! Entre! – falou tentando manter o mesmo tom de voz de quando abriu a porta para não parecer mal educada ou desapontada por vê-lo ali, já que desapontamento era a última coisa que lhe passava pela cabeça com ele por perto.
- Com licença – ele disse entrando na casa, nem tentando conter o sorriso ao vê-la com aquele sorriso fácil nos lábios – Iria perguntar como você está se sentindo, mas pelo que vejo, sair do ambiente hospitalar lhe fez muito bem.
- É bom poder me sentir eu mesma – brincou apontando para os tênis, a calça jeans e o suéter claro de lã que ela vestia, se referindo às camisolas e aos pijamas que fora obrigada a usar em seu período no hospital. Havia brincado com que todas as chances de um enfermeiro bonitão se apaixonar por ela haviam ido para o ralo por causa daquelas roupas.
- Fico feliz em saber disso – Tom comentou, realmente feliz em saber que ela se sentia melhor e que as preocupações daquela manhã não a assolavam naquele momento.
Eles ainda não conseguiam perceber quando passavam mais segundos do que o considerado socialmente confortável se encarando, sem pensar em nada a não ser o fato de que era bom estar por perto.
- Tom! Que bom que chegou, o jantar está pronto! – Joan entrou na sala com um pano de prato em mãos, apontando para Tom tirar a jaqueta – Venham, o Matt está arrumando a mesa.
- Ah – Hiddleston murmurou, lembrando-se do que tinha em mãos enquanto tirava a blusa – Normalmente eu traria um vinho, mas provavelmente não seria uma boa ideia considerando a atual situação, então decidi por um simples cheesecake – disse entregando uma sacola de papel toda enfeitada para a dona da casa, que o olhou agradecida.
- Não precisava, querido, mas obrigado! – Joan agradeceu, os deixando perto da mesa de jantar e voltando para a cozinha para guardar o cheesecake para a sobremesa.
- Boa noite, Sr. – o ator cumprimentou o homem terminando de arrumar a mesa que ficava num canto do grande espaço aberto que era o andar de baixo da casa dos , onde a única separação que existia era o corredor por onde Joan desapareceu que Tom presumiu se tratar da cozinha, mesmo lugar de onde ela apareceu, já sem o avental que vestia, deixando a mostra vestes muito parecidas com as da filha, reclamando sobre já ter dito sobre chama-los pelos nomes.
- Deixe o rapaz, Ann – o homem interveio, indicando que todos já podiam se sentar, e e Tom se sentaram lado a lado – Ninguém me chama pelo primeiro nome há anos, mesmo.
- O papai tenta se sair como O Poderoso Chefão, mas por trás todo mundo o chama de Matt mesmo – implicou com o pai, falando isso num sussurro alto, como se estivesse contando somente para Tom, mas todos ouviram – Até a faz isso.
- Falando nela, por que ela não pode vir? - Hiddleston perguntou para a mulher ao seu lado, virando o rosto e só então percebendo alguns detalhes como: O azul dos olhos dela pareciam levemente mais claros naquela noite, os cabelos negros pareciam ter leves mechas azuladas onde a luz batia, e sua pele branca como a neve espessa de dezembro contava com pontos levemente ruborizados nas maçãs do rosto, como se ela estivesse ao redor de uma fogueira e sendo aquecida por um calor natural.
Ele sabia que ela não estava usando nenhum vestígio de maquiagem pelo pequeno risco rosado em sua testa, onde há algumas semanas ficava o corte que parou a vida da fotógrafa por quase dois meses contando até ali. Sorte dele ser bom ator e não se prender tanto quanto queria em todos esses pequenos detalhes e focar na resposta da mulher.
- Ela tem que entregar uma história até sexta por causa da falta no dia que acordei, para repor – contou – Então ela conseguiu o contato dessa incrível modelo que aparentemente já teve um caso até com o príncipe Harry, e a agenda dela só estaria livre depois das oito – Tom imaginou que se colocasse mais uma pitada de insinuação naquela frase, falar tudo de maneira literal ficaria menos explícito.
- É claro – ele deixou escapar, tendo que desviar o olhar quando a garota mordeu o lábio para não rir, tanto para não acabar rindo também quanto para não perder a linha de raciocínio.
- Quero ver vocês falarem assim dela quando ela estiver por perto – Matt muxoxou, recebendo risadas contidas como resposta.
- Ela provavelmente ajudaria a colocar lenha na fogueira – Joan falou dando de ombros – Quando ela não aproveita a chance de ser o centro das atenções?
- Mãe, se você falar assim o Thomas vai achar que não tratamos a bem – brincou enquanto se servia.
- Ora, , o Tom já está acostumado com isso – a mais velha disse num tom que Hiddleston não tinha muita certeza se ela já havia usado antes, mas aquilo fez a ponta do nariz de ganhar cor e tudo que ele conseguiu fazer foi se controlar para não sorrir e bater o dedo na ponta do nariz dela como estava acostumado a fazer, obviamente longe dos pais dela.
- Está acostumado com isso quando a está por perto, porque ela é nossa desculpa, sem ela aqui, ele vai descobrir tudo – a mais nova disse num tom de falso segredo, atraindo o olhar fixo do ator.
- Descobrir o que? – ele perguntou.
- Que a afeta – Joan explicou sem realmente explicar nada, mas Tom já estava começando a se acostumar com aquele costume familiar e sabia que uma pessoa em particular não o tinha, então não demoraria para ele entender a conversa.
Enquanto seus pensamentos divagavam e ele se servia, os olhos de Tom se prenderam em um canto específico do amplo espaço.
-Você está namorando o piano, não é? – falou depois de alguns minutos gastos em uma conversa sobre comida, só então fazendo Tom perceber que volta e meia ele voltava a olhar o instrumento musical.
- É um belo piano – disse sorrindo sem graça por ter sido pego no flagra.
- É da – Matt anunciou, um sorriso de orgulho crescendo no rosto, ao contrário de que de repente se interessou até demais na comida quando o homem ao seu lado a lançou um olhar questionador.
- Você não me disse que sabe tocar.
- Ela não fala para ninguém – Matt contou – A única vez que tocou em público foi na escola.
- E ganhou o prêmio de melhor apresentação – Joan pontuou, sorrindo meigamente quando a filha soltou um suspiro e sorriu de maneira nasalada – Você não usa ao seu favor, eu uso – deu de ombros, voltando a atenção para Tom – Eu tenho uma filha muito talentosa, você precisa ouvi-la cantando.
- E eu aqui pensando que você é uma mera fotógrafa – ele fingiu um tom decepcionado, adorando a expressão extremamente fofa no rosto de .
- Oh meu Deus, mãe! – soltou meio exasperada, se afundando na cadeira, o rosto todo corado.
- O que? Só comentei…
- Nem é assim tão bom – falou firme, evitando virar o rosto na direção de Tom já que sentia o olhar dele sobre si.
- Você está brincando, certo? – Matt disse sério. Ele sempre se orgulhou dos talentos da filha e odiava quando ela se menosprezava daquela forma.
- A é bem melhor – tentou afirmar seu ponto, mas os olhares dos contavam outra coisa para Hiddleston.
- Eu amo ouvir a cantando, mas até ela assume que você é melhor – Joan afirmou, revirando os olhos quando a filha fez o mesmo, o que fez a mais nova rir.
Depois disso, Tom puxou assunto elogiando a comida, o que fez a conversa se desviar de e ela lançou um olhar de agradecimento por isso, mas algo nos olhos claros dele a informavam que ele não a deixaria em paz enquanto ela não mostrasse pelo menos um pouco do tal talento.
Após o jantar, Matt e Joan proibiram os dois de sequer tirar os próprios pratos da mesa, e antes que desse por si, estava guiando Tom para perto do piano enquanto ele falava algo sobre comida de mãe.
-Toca pra mim? – ele pediu de repente, juntando a pergunta a um comentário sobre batatas assadas, e isso fez o encarar de olhos arregalados e ele teve que sorrir, porque ele simplesmente não entendia como uma mulher formada, autossuficiente e independente poderia ao mesmo tempo parecer uma menina inocente e doce.
- Eu… Eu não… Hã…
- Você não tem vergonha de mim, tem? – perguntou num tom brincalhão, sabendo a resposta, mas adorava ver a coloração tomando conta da pele dela, e esperava que aquilo não fizesse dele uma pessoa horrível.
- Quer a resposta sincera ou a amigável? – ela questionou, sentindo o rosto esquentar, mas tentando ignorar esse fato e focar no brilho de diversão nas orbes claras do homem a sua frente. Deveria ser pecado ser tão lindo assim.
- Vou considerar isso como uma resposta e ir para casa me sentindo desconfortável comigo mesmo por te fazer se sentir desconfortável perto de mim.
- Thomas!
- Então toca pra mim?
- … Acho melhor nã… - ela disse meio hesitante.
- Por favor?
Oh Deus! Poderia alguém no Planeta Terra dizer não para aquele homem quando ele fazia aquela cara?
, certamente não.
o fitou com os olhos semicerrados e mordendo o lábio inferior, como se estivesse pensando no assunto, e quando Tom estava prestes a desistir, ela indicou para que ele se sentasse no banco em frente ao instrumento, e logo ela fez o mesmo.
- Eu vou tocar, por que estou com vontade – inutilmente esclareceu, atiçando a diversão do homem – Mas você tem que parar com isso – tentou resmungar séria, mas o sorriso insistiu em aparecer no canto de seus lábios, e isso fez Tom perceber que talvez ele estivesse um pouco obcecado por aquela parte em particular do rosto dela.
- Parar com que? – ele murmurou, recebendo um olhar atravessado pelo comentário, então levantou as sobrancelhas em sinal de inocência, o que não combinava nada com o sorriso em seus lábios.
- Com essa expressão, como se estivesse se esforçando para não gargalhar.
- Não estou não.
- Sim, você está.
Ele a encarou por mais dois segundos antes de resolver falar o que estava em sua mente, só para ver o que a garota faria.
-Okay, desculpe – aquele pedido era uma farsa, já que ela ainda via a diversão brincando em cada traço do rosto dele – É que você é extremamente fofa corando desse jeito, eu não consigo me controlar.
E com isso ela corou ainda mais, negou com a cabeça e arrumou a postura, resolvendo por ignorar aquele comentário momentaneamente para não se envergonhar ainda mais. Então esticou o braço para folhear seu caderno de notas que sempre ficava ali, e sentiu o corpo todo derreter um pouco mais quando sentiu os dedos de Hiddleston deslizando suavemente por sua bochecha para capturar uma mecha teimosa de cabelo e colocá-la atrás da orelha dela.
- Então, qual foi a música que te rendeu um prêmio? – ele perguntou casualmente, exigindo um pigarro da fotógrafa para assumir o mesmo tom.
- Imagine – respondeu concentrada no caderno. Ficar sozinha com Tom no hospital nunca fora a experiência mais normal de sua vida, mas alguma coisa ali, com os dois sentados em frente ao seu piano que ela só tocava para si mesma, trazia a situação a um novo patamar. Um quase errado. E isso a assustava o suficiente para esquecer que na verdade ela gostava muito da presença do homem. Talvez até de mais – Eu era uma grande humanista na minha adolescência. Achava que poderia mudar o mundo.
- Bem, todos podem – o ator disse fitando o perfil da mulher ao seu lado, pensando em um jeito de deixá-la menos tensa, já que podia perceber até mesmo o maxilar dela meio travado – Pequenas ações fazem as grandes diferenças, não é?
sorriu ao ouvir aquela frase tão clichê saindo da boca do homem ao seu lado, se perguntando se poderia ser correto se sentir confortável daquela maneira ao lado dele e não encontrando nenhuma resposta fácil para isso. Decidindo por deixar a insegurança momentaneamente de lado, começou a deslizar os dedos pelas teclas, dedilhando aquelas notas tão conhecidas, já decoradas há muito, então fechou os olhos e se imaginou sozinha, no mundo que John Lennon descrevia na canção.
Um mundo onde a vida dela não estaria de pernas pro ar, um mundo onde ela não precisaria ter medo de voltar para a própria casa tanto quanto não precisaria ter medo de andar pelas ruas da cidade em que nasceu. Seria pedir muito? Um mundo onde ela não precisasse ficar alerta até mesmo enquanto dormia? Era egoísmo não pensar em paz mundial e só querer um pouco de paz em sua particularidade? Talvez ela não merecesse isso. Talvez ela tivesse lido livros de mais e idealizado que um dia um cara legal apareceria e tornaria sua vida mais interessante, de uma maneira boa, tornaria seu dia-a-dia em aventuras. Talvez fosse de mais até mesmo pedir para ter sua vida de volta, aquela monótona, onde seu maior ponto de adrenalina era ouvir as loucuras de . E pensar em tudo isso fazia se odiar um pouco, porque a última coisa que ela queria era se transformar em uma chorona autodepreciativa, ter dó de si mesmo é o mais fundo que um poço pode te levar. Ela não era assim, e não podia se deixar ficar assim.
Alheio a confusão nos pensamentos da mulher, Tom observava, de boca aberta, tocando e cantando com perfeição uma das músicas que ele cresceu ouvindo, mas aquela voz fazia parecer que cada uma das palavras traziam um novo sentimento, um novo significado, e ele não entendeu como não havia percebido antes a capacidade vocal dela. Uma voz suave, mas firme, intensa, profunda, brincava com as notas como se tivesse completo controle sobre tudo ao seu redor, levando quem a ouvia cantar, sentir o que ela sentia, e Tom não sabia se aquela pontada de desespero que começou a crescer em seu peito era por causa da letra da música ou pelo desejo intenso que ele sentia de beijar e não saber se aquilo poderia ser certo.
Ela só voltou a abrir os olhos na última nota, e quando se virou para Hiddleston, sentiu instantaneamente o rosto esquentar.
Ele não a encarava de maneira cômica como costumava fazer toda vez que elas iam brincar de karaokê ou algo do gênero. Não, ele a olhava como se estivesse tentando ler o que tinha por trás do que ela já havia mostrado, como se quisesse descobrir o próximo passo dela, quase como se ela fosse a coisa mais interessante que ele viu em toda sua vida.
A tempestade nos olhos dela se encontraram com a calmaria nos dele, e por um segundo, por um milésimo de segundo, Jo se permitiu pensar que talvez todos os “talvez” dela fossem só o medo falando mais alto e John Lennon não estivesse falando do mundo como Planeta Terra, e sim do mundo de cada um, o mundo vida.
-Eu… Queria muito falar alguma coisa, mas ainda não encontrei a palavra ideal – Hiddleston disse, fazendo ela sorrir e abaixar a cabeça para desviar o olhar, o que ele rapidamente mudou, passando a mão pelo maxilar dela, levantando o rosto dela e recuperando o contato visual – , isso foi… Perfeito – ela chegou abrir a boca para falar que aquilo era exagero, mas a convicção na voz dele a impediu de proferir as palavras. Tentando fugir da intensidade que os olhos dele poderiam exalar, só assentiu em agradecimento e pegou os óculos dele. Eles estavam próximos o suficiente para ela ver marcas na lente e usar aquilo como distração para fugir da atenção do homem – Seus pais estão certos, você é muito talentosa – continuou a falar, esperando que ela dissesse alguma coisa, mas por quase meio minuto seguinte, toda a concentração dela estava nos óculos em suas mãos. Quando ela se deu por convencida de que as lentes estavam limpas o suficiente, colocou o óculos em si mesma e se virou para Tom com uma sobrancelha arqueada. Ela realmente não sabia o que estava fazendo, e aquilo fazia um nó na cabeça do ator – Ficam bons em você – ele decidiu por dizer após engolir em seco, resolvendo tirar o objeto da posse dela ao vê-la revirar os olhos.
- Você precisa mais deles do que eu – ela comentou em um tom brincalhão, voltando sua atenção para o piano, tocando a primeira coisa que lhe veio a mente, o que por algum motivo foi Mozart.
Tom continuou a encara-la, completamente fascinado por aquele ser. Ele achou que o período no hospital fora tudo que ele pudesse ter ao lado dela, descobrindo tudo o que tinha para descobrir sobre ela, mas ali, naquela noite, ele se descobriu ainda mais preso à necessidade de saber tudo o que podia sobre .
No impulso para não estragar aquele momento, ele colocou as mãos sobre as teclas e começou a tocar junto com ela, recebendo um olhar surpreso grande como resposta, que logo foi substituído por um sorriso desafiador.
Antes que ele pudesse entender o que estava acontecendo, ela mudou drasticamente as notas, e ele se esforçou para acompanhar a nova canção, que ele reconheceu como uma das mais famosas da banda U2. Gostando da brincadeira, ele resolveu desafia-la também, e sem aviso saiu do ritmo de U2 e foi para o tema de uma conhecida peça da Broadway, She Loves Me. Sorrindo abertamente ao ver que ela o acompanhou sem dificuldades, foi pego de surpresa ao perceber que era vez dela de escolher uma música, gargalhando ao reconhecer os acordes da música tema de seu filme favorito da Disney.
- O necessário, somente o necessário, o extraordinário é de mais – ela começou a cantar, nada parecido como quando cantou John Lennon, na verdade parecia que ela estava tentando imitar a voz do Balu, o que o fez gargalhar e fazê-la gargalhar também.
- Eu uso o necessário, somente o necessário, por isso essa vida eu vivo em paz – ele continuou, também tentando imitar a voz do urso, tendo mais sucesso que ela nesse quesito, o que a fez desistir de tocar e só se concentrar em rir.
Era absurda a facilidade que ela tinha de se sentir livre ao lado dele, embora uma vozinha em sua cabeça ficasse insistindo que aquilo não era certo, repetindo que ela não deveria se sentir bem perto dele, perto de nenhum homem.
Essa vozinha ganhou proporção quando as risadas deles foram se acalmando e os dois acabaram se encarando, como sempre, mas como dessa vez não desviou o olhar ao começar a sentir o rosto esquentar, assistiu em primeira mão os olhos claros do homem deslizarem para seus lábios, e instantaneamente os alarmes em sua mente soaram. Tudo ficou vermelho, ela quase podia ouvir seus neurônios gritando ordens de evacuação, e antes que ela pudesse entender o que estava fazendo, se viu de pé, há uns bons dez passos de onde antes estava sentada ao lado de Hiddleston, a respiração completamente descompassada e as mãos tremendo.
Céus, o que foi isso?
-… – Tom começou a dizer, mas negou com a cabeça e começou a dar pequenos passos para trás.
- Desculpa – sussurrou, fazendo o homem franzir o cenho e se levantar. Quem tinha que pedir desculpa, por seja lá o que tinha acontecido, era ele, já que ele tinha certeza que ela não havia feito nada de errado.
- , espera…
- Desculpa – e com isso, se virou e correu para as escadas, subindo os degraus como se estivesse fugindo da cena de um crime.
No mesmo instante os pais da garota apareceram no espaço aberto, com olhares perdidos, olhando da escada para Tom e vice versa, e só mais tarde Hiddleston iria perceber que eles estavam o tempo todo assistindo a interação dos dois, felizes com o sorriso fácil da filha. No entanto, naquele momento, a única coisa que ele conseguia fazer era se perguntar o que teria acontecido com e repensando todos seus atos para resultar naquilo.




Continua...



Nota da autora: Eeu vollltei, agora pra ficar! Pooorque aqui ééé o meu lugar! EU VOOLLTEEII🎵🎵
Prometo que essa é a primeira e última vez que canto aqui, okay?
Alguém da um abraço na pp por mim? No Tom não se preocupem, eu mesma dou.
Obrigado pela paciência, juro tentar parar com isso.
Xxx




Outras Fanfics:
Six Years - Atores: Sebastian Stan/Andamento.

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