Última atualização: 26/03/2018

Capítulo 1

Tom estava cansado, morto de cansaço. Sua mente trabalhava mais ou menos como propagandas de lojas de utensílios domésticos: As únicas coisas que passavam por sua cabeça era Casa, Banho, Cama. Saber que naquela noite começaria seus merecidos dois meses de folga o ajudava a se concentrar no transito e na troca constante de marcha que o trânsito londrino implicava.
Talvez ele passasse alguns dias na Índia com sua irmã, ou ficar alguns dias na casa da mãe. Não podia esquecer nem por um segundo que prometeu ir assistir ao jogo com o pai. Mas por enquanto seu plano era dormir até seu corpo ficar dolorido de tanto tempo deitado e ele se forçar a se levantar.
No entanto, todos esses planos tiveram que ser cancelados quando o ator sentiu um baque em seu carro, e tudo que seu cérebro lento conseguiu processar foi a visão de um vulto caindo do lado de fora.
Então a canseira e o sono passou, e fora substituída pela adrenalina.
Ele havia atropelado alguém.
Não se importou de abrir a porta do carro no meio da rua, nem pelas buzinas ao redor, o único pensamento que o dominava era “Esteja vivo!”.
- Oh meu Deus! Oh meu Deus! – uma loira agachada em frente ao carro ficava repetindo, passando as mãos rapidamente pelo corpo deitado na rua sem realmente toca-lo. Era possível ver uma boa quantia de sangue na região da cabeça mas tudo estava uma bagunça tão grande na própria cabeça de Tom, que ele não ouviu o que a loira o dizia, e foi necessário um pouco de concentração para desviar o olhar do chão abaixo de seu para-choque – Você não olha por onde anda?! Qual o seu problema, cara!? – ela perguntava, obviamente tão ou mais alterada que Tom, já que as lágrimas já escorriam livremente por seu rosto.
- Eu... Eu... Mas aqui não tem faixa... Eu... – ele não sabia o que dizer. Sentia que podia vomitar a qualquer instante. O que ele fez? Com lágrimas nos próprios olhos, tentou respirar fundo e ir por partes – Eu vou ligar para a emergência, espere - Avisou, dando alguns passos para trás, na intenção de pelo menos parar de ver todo aquele sangue – Oi, oi, é uma emergência! Preciso de uma ambulância aqui na 61 S End Rd, Hampstead, NW3 2QB. Por favor!
A telefonista deve ter falado alguma coisa, mas obviamente ele não entendeu nada, e após algumas palavras e a confirmação de que a ajuda estava a caminho, a ligação foi encerrada e Tom voltou a olhar para aquela cena que parecia ter saído de um filme de terror.
Algumas coisas começaram a passar em sua cabeça a partir daquele momento: Tinha uma mulher praticamente embaixo de seu carro com a cabeça muito machucada, e uma outra ajoelhada, desesperada repetindo coisas, e só ali ele percebeu que ela falava no telefone. A rua não era a mais movimentada de Londres, mas também não era deserta, qual a probabilidade de a polícia já ter sido alertada? Os carros desviavam do dele parado, buzinando e soltando alguns palavrões, mas ninguém parou para olhar o que estava de fato acontecendo, ou se tivessem visto não se importaram. O que aconteceria se soubessem que ele, Tom Hiddleston, havia atropelado uma pessoa? O que seu assessor diria!? O que sua família diria!? E quanto a família da garota? E quanto a garota!? Deus!
- Hey... – Tom deu um pulinho quando sentiu um toque em seu um braço, e quando virou se deparou com a loira, que ainda tinha os olhos e a ponta do nariz bem vermelhos, mas parecia ter se acalmado minimamente – A ambulância chegou – ela avisou, e ele arregalou minimamente os olhos. Já? – Tem um hospital aqui por perto, eles encaminham a chamada para o local de atendimento mais próximo da emergência – explicou a aparente implícita pergunta em seu rosto – Ela vai ser encaminhada para o Royal Free Hospital, só estou dizendo porque... Não sei, talvez você queira saber, certo? Obrigado por não ter saído correndo como se nada tivesse acontecido. Eu me desesperei e nem lembrei que ambulâncias existem, então... Obrigado.
Tom ficou um pouco perdido, ela havia acabado de dizer que a amiga dela – ele julgava ser amiga, mas tudo é possível – estava daquele jeito por completa e exclusiva culpa dele, e agora estava agradecendo-o?
- Eu... Ãn... – ele simplesmente não sabia o que dizer, mas aparentemente a garota também não tinha mais nada a falar e nem estava afim de ouvir gaguejo, já que simplesmente se virou e se encaminhou para a ambulância, onde os paramédicos terminavam de colocar a maca, e alguns minutos depois, o veículos deu partida com o típico som de sirene tomando conta dos pensamentos do ator. Tempo esse o suficiente para ele decidir que precisava ir atrás daquela ambulância e descobrir os danos que causou na vida de uma pessoa que ele sequer sabia o nome.
O caminho realmente não foi longo, o hospital era muito perto de onde tudo aconteceu, e quando ele chegou lá, entrou no saguão a tempo de ver a maca ser levada para um corredor onde tinha uma plaquinha em cima do hall escrita uma palavra muito usada naquela noite em vermelho: Emergência.
A loira estava no balcão, a testa apoiada na madeira do móvel e batendo um dos pés freneticamente no piso de mármore.
- , normal, sem tirar nem por. Igualzinho do tiozinho daquela série – ela murmurou, e a recepcionista digitou rapidamente no computador – Alguma previsão de quando vou poder saber algo sobre ela? – perguntou levantando minimamente a cabeça, com um tom que beirava entre o otimismo e a desesperança.
- Seu nome está na ficha dela, qualquer coisa que acontecer com a paciente será reportado a você – a senhora respondeu num tom monótono, nem se dando ao trabalho de olhar por mais de um segundo para a mulher a sua frente antes de voltar sua atenção ao computador – Está com o cartão do plano de saúde?
- Eeh... Eu que vou arcar com a conta – Tom disse, finalmente entrando na conversa e recebendo a atenção das duas mulheres.
A expressão surpresa que a recepcionista fez não chegou nem perto da cara que a loira fez ao vê-lo ao lado dela.
- Você não precisa fazer isso – ela disse, estalando os dedos e olhando para o homem como se questionasse o que ele estava fazendo ali.
- Sim, eu preciso – ele discordou, já tirando a carteira do bolso da calça e pegando o cartão do plano de saúde.
- Alguém sabe o que está acontecendo? – ela perguntou, fingindo que a saliva da recepcionista não estava escorrendo para fora da boca da senhora enquanto ela encarava o homem a sua frente.
Ele entendeu perfeitamente o que ela quis dizer, e checou rapidamente a tela de bloqueio do celular e olhou ao redor. Nenhuma ligação ou mensagem, nenhum fotógrafo por perto, e, a não ser a recepcionista, ninguém olhara para ele por mais que meio segundo. Pelo menos nesse patamar, tudo estava em ordem.
- Eu só quero ter certeza que não fiz nenhuma merda – ele disse mais para si mesmo do que para a loira.
- A sala de espera é a primeira porta do corredor à direta, se vocês quiserem conversar com mais liberdade – a recepcionista disse, extremamente prestativa de repente.
A loira não se mexeu por um instante, e quando Tom ofereceu que ela fosse na frente, ela pediu um momento com a mão e se voltou para a recepcionista, pedindo para ela encaminhar os pais da paciente para a sala que eles estavam assim que chegassem, e só então se permitiu andar à frente de Tom.
Quando o ator abriu a porta para a garota entrar, ficou meio surpreso pelo fato dela estar inteiramente vazia já que o hospital estava até que bem movimentado, mas resolveu não se ater a esse fato.
- A família dela já está vindo para cá e trazendo os documentos dela, você realmente não precisa fazer isso – a loira começou a falar assim que ele fechou a porta.
- Eu... Eu atropei ela, é claro que preciso fazer alguma coisa! – ele retrucou, passando as mãos no cabelo, tentando se manter no controle da situação.
- Ela atravessou num lugar impróprio para pedestres, você não tem...
- Eu só quero ajudar... Por favor! – ele pediu em tom baixo, meio desesperado, deixando a mulher um pouco desesperada.
- Olha, sua atitude é louvável, mas vai acabar sobrando para ela de um jeito ou de outro, então por favor...
- Já sobrou para ela – ele a cortou – Ela foi a vítima.
Ela o encarou por alguns segundos antes de murmurar algo como “Você não tem ideia do quanto”, e se virar para começar a andar pela sala.
Ele podia sentir a agonia dela, e entendia o porquê da insistência em tira-lo daquela jogada, mas no fim da equação, o que ele poderia fazer?
- Olha... – ficou a encarando até ela perceber o que ele queria.
- . – a garota se apresentou, trocando um aperto de mãos mais extasiada do que admitiria em qualquer momento no futuro sóbrio.
- Olha, , eu só quero reparar um erro que eu cometi – Tom disse sereno, porém firme – Prometo que só fico por perto até ter certeza de que ela está bem, depois a maior preocupação que você, ela, ou a família dela terão sobre mim, é saber se o Loki está tramando trair o Thor mais uma vez ou não.
até queria teimar sobre aquilo, mas tinha alguma coisa naqueles olhos azuis que, ela tinha certeza, impedia qualquer ser humano de negar qualquer coisa para aquele homem à sua frente.
Soltando um suspiro alto, se sentou pesadamente em uma das cadeiras da sala de espera e enterrou o rosto nas mãos.
- Se a não morrer por aquela pancada na cabeça, ela morre de ataque cardíaco quando te ver aqui – murmurou. Então Tom levou aquilo como uma permissão para ficar e se sentou em uma das cadeiras, meio distante da loira, permitindo-lhes um pouco de espaço para pensar sobre tudo o que aconteceu naquele curto espaço de tempo, mas focando o pensamento em uma pessoa em particular por motivos diferentes e ao mesmo tempo parecidos ou idêntico.
ficaria bem?



Cerca de meia hora depois que os dois adentraram a sala de espera, um casal entrou na sala sem o mínimo de cerimônia, envolvendo em seus braços e fazendo zilhões de perguntas ao mesmo tempo, claramente deixando a moça desnorteada.
- Já teve alguma notícia dela? – a mulher perguntava.
- Como isso foi acontecer? – o homem repetia.
- Faz quanto tempo que levaram ela?
- Senhora , por favor, tente se acalmar – pediu, envolvendo as mãos da mais velha e a levando à uma das cadeiras – ainda não tive nenhuma noticia dela, mas a senhora sabe que não pode se exaltar tanto, tente se acalmar, pelo menos um pouco – ela pediu com uma voz mansa, alisando os cabelos negros da mais velha, que se destacava com a pele clara e os olhos extremamente azuis.
- Quem é... Oh meu Deus! – o homem, provavelmente o Senhor , falou olhando para Tom, que ainda estava sentado em um dos cantos da sala, com os olhos arregalados – O que está acontecendo aqui!?
- Senhor ... – e Tom falaram juntos, mas quando o ator de levantou a loira deu espeço para ele falar. Já que ele quis ficar ali, não seria ela quem impediria o pai de a ligar para a polícia se ele quisesse – Sou Thomas Hiddleston – ele continuou, se aproximando do homem, com o olhar de completa insegurança. Aquilo não seria fácil – Eu... Eu que... Fui eu quem atropelou .
Ele assistiu, quase em câmera lenta, a compreensão e a raiva tomando conta do olhar do outro homem, e de repente, estava atrás do senhor, segurando-o pelos ombros para que ele não avançasse mais nenhum passo para cima do ator.
- Seu filho de uma... – ele rosnava, lutando, obviamente não com toda sua força, para se livrar das mãos da loira – Seu burguesinho ridículo! Acho que só porque é uma atorzinho pode atropelar a minha menininha e sair ileso com essa cara lavada!?
- Senhor ! Matt... Matt, por favor! – praticamente gritou, e Tom começou a se perguntar quanto tempo demoraria para a segurança do hospital ser acionada e expulsar todos eles dali – Ele a atropelou, sim, mas ele não é completamente culpado, a tentou atravessar a rua no meio de uma via movimentada, sem preferência para pedestres, não tinha como ele saber que isso iria acontecer!
Os olhos do homem, de uma cor mais puxadas para o verde água, demoraram para focar nos castanhos de , e quando finalmente tomaram algum foco, sua expressão adquirindo um grande ponto de interrogação.
- ... Você não está dizendo isso só porque ele...?
- Não – cortou a pergunta da Senhora , primeiro porque se a culpa fosse completamente do Hiddleston, ele poderia ser o próprio príncipe que não estaria livre da polícia naquele momento; Segundo porque, querendo ou não, o cara era um puta ator de fama mundial, e como praticamente se jogou na frente do carro dele, envolver a polícia nisso automaticamente significava envolver a mídia, e isso, com toda certeza, era a última coisa que a família precisava naquele momento – Além do mais… ele arcou com as despesas do hospital.
- Eu só quero reparar meu erro. Por favor, me deixem ajudar – Tom pediu, olhando para todos quase ao mesmo tempo, sabendo que se estivesse no lugar de qualquer um deles, provavelmente já teria dado um soco em alguém.
Antes que qualquer um pudesse responde-lo ou falar qualquer outra coisa, um senhor elegante mesmo em seu jaleco branco entrou na sala com os olhos fixos em uma prancheta.
- Srt. – ele leu em algum lugar, e quando respondeu ele levantou os olhos e levou um leve susto com o número de pessoas que se aproximaram dele, seus olhos se esbugalhando um pouco quando se deparou com um determinado par de olhos, mas logo tratou de se recompor – Eu sou o Doutor Ward, responsável pelo quadro da Srt. – todos assentiram em sincronia, mas ele se ateu em duas pessoas em particular, já que eram os mais parecidos fisicamente com sua paciente e provavelmente eram os pais da garota – A Srt. não fraturou nenhum braço ou perna, suas costelas estão em perfeita ordem, e seus órgãos estão em perfeito funcionamento – anunciou, e os suspiros de alivio foi quase geral, a não ser por uma pessoa em particular que mantinha o punho cerrado em frente aos lábios.
- O Senhor está com aquele olhar, isso não é bom. O que houve? – Tom perguntou, tomando para si a atenção de quatro par de olhos.
- Bom... – o médico disse, soltando um suspiro, ajeitando o óculos no rosto antes de se voltar para o casal apreensivo a sua frente – Infelizmente ela bateu a cabeça com muita força e teve um traumatismo craniano – Tom deixou seus ombros caírem, e suas mãos foram imediatamente para seus cabelos, os puxando com força. Deus, o que ele havia feito? Os pais de se abraçaram para dar suporte um ao outro, enquanto paralisou com as mãos sobre ao lábios e as lágrimas transbordando de seus olhos – Eu sinto muito – Doutor Ward tomou a fala novamente – Nesses casos é comum o paciente perder a consciência, temos que esperar vinte e quatro horas para determinar o quadro concreto dela, mas pela quantidade de sangue perdidos pelos ouvidos e nariz, espera-se um coma, de no mínimo quarenta e oito horas.
Tom sentiu o como se alguém tivesse arrancado o chão de seus pés sem nenhum aviso prévio.
Mínimo de quarenta e oito horas. Mínimo. O momento não lhe permitia ser otimista. Se esse era o prazo mínimo, qual seria o máximo?
Uma pessoa estava em coma. E a culpa era dele.


Capítulo 2

Tom não se lembrava de se sentir daquela forma. Já havia passado por algumas tragédias em sua vida, mas saber que uma pessoa estava em coma por culpa dele, não tinha comparação. Pelo menos ele não conseguia comparar com nada.
O que mais doía era ver os pais da garota. Eles não mereciam aquilo. Ninguém deveria passar por uma situação daquelas.
Deus, o que ele havia feito?
Depois de algumas horas sentados naquelas cadeiras desconfortáveis da sala de espera, uma vez que o Doutor Ward disse que só permitiria que alguém entrasse no quarto da Srt. quando o dia amanhecesse, convenceu a Sra. a irem pelo menos tomar uma água, desde que isso significasse tirar a mulher um pouco de dentro daquele espaço de tijolos e cimento. Nesse meio tempo em que elas estiveram fora, tudo que Tom queria era se aproximar do Sr. , tentar conversar com ele pelo menos para que ele entendesse o quão Tom também estava angustiado com a situação, mas algo o impedia de fazer isso, e muito provavelmente era seu instinto de sobrevivência o alarmando que sem ninguém por perto, as possibilidades do homem o estrangula-lo era muito grande.
Quando as mulheres voltaram, a mãe de se sentou ao lado do marido e logo eles começaram uma conversa extremamente baixa, mas Tom não teve tempo para pensar sobre isso já que se sentou ao lado dele o oferecendo um copo de café, que ele, mesmo meio em dúvida, aceitou e agradeceu com um pequeno aceno de cabeça.
- Sabe, – a loira começou depois de mais alguns minutos de silêncio, o único som sendo dos murmúrios dos – como eu disse para a Joan agora pouco, se eu não tivesse certeza que você não é completamente culpado por isso, esse café com certeza estaria batizado – Tom parou o copo de café a meio caminho da boca e encarou a loira com um pouco de medo. Primeiro ela xinga e depois o agradece, depois protege e agora ameaça, quais as probabilidades dela ser bipolar? – Mas como eu disse, eu tenho certeza – ela disse com um sorriso mínimo nos lábios finos, que não chegou aos olhos, já que estes ainda continuavam meio marejados e bem vermelhos.
- Eu sinto muito – ele murmurou – De verdade.
respirou fundo e cruzou as pernas, endireitou a coluna e virou o rosto para Tom com a mesma expressão. Pelo menos de todos ali ela era a única tentando passar uma imagem de segurança, quer dizer, ela ao menos estava tentando, certo?
- Eu sei que você sabe pronunciar outras palavras que não seja desculpa, sinto muito e por favor. Sério, a e eu adoramos seus filmes e na grande maioria você fala bastante – ela brincou, ou pelo menos tentou, ele não saberia dizer. Só queria que o Doutor Ward aparecesse naquela porta dizendo que confundiu a paciente e que na verdade estava bem e receberia alta pela manhã.
- Vocês são amigas? – perguntou olhando para a tampa do copo, como se ali ele fosse encontrar alguma forma de amenizar tanto a culpa que sentia quanto a dor daquelas pessoas naquela sala.
- Desde de criança– ela confirmou, nunca desviando o olhar do perfil do ator – Agora praticamente trabalhamos juntas.
Ótimo, será que agora, por culpa dele, elas se separariam?
Pela visão periférica, ele pode vê-la virar o rosto enquanto uma lágrima escorria por sua maçã do rosto.
- Eu não sei o que dizer, me desculpe – Tom voltou a murmurar, ficando de frente para a mulher, e isso a fez respirar fundo e tentar sorrir novamente.
- Desculpa de novo – ela negou com a cabeça como se estivesse decepcionada – Você é melhor que isso, Hiddleston.
Ele soltou uma espécie de bufada acompanhada de um micro sorriso e tomou mais um gole de café.
- Juro que melhoro isso quando acordar e tudo isso acabar – ele disse voltando a focar seu olhar na parede do outro lado da sala, á sua frente, não vendo, pela primeira vez na noite, o ainda pequeno, mas completamente verdadeiro, sorriso se formar nos lábios de .
- Obrigado – ela quem falou murmurado dessa vez, fazendo-o voltar a olha-la – Qualquer outro no seu lugar teria saído correndo, ou dado um piti de celebridade, mas por mais que o Matt esteja te lançando um olhar mortal a cada meio segundo, Joan está certa, você está sendo um verdadeiro anjo para nós, então, obrigado.
Tom ficou a encarando por alguns segundos sem saber o que dizer. Ele não se sentia nenhum pouco como um anjo, estava bem para o contrário considerando o que eles estavam vivendo ali. Mesmo que no dia seguinte acordasse, ele seria o responsável por ela ter passado por aquilo, mesmo falando constantemente que ele não era completamente culpado, fora o carro dele que fez ela bater a cabeça, certo?
Mais uma vez, não parecia disposta a ficar esperando o cérebro de Tom processar as palavras e produzir uma resposta, já que logo em seguida ela se levantou e voltou para perto dos pais da amiga.
Poucos minutos depois, quem estava se sentando ao seu lado era Joan.
A mulher, mesmo aparentando idade, era muito bonita, com seus grandes cabelos negros e a pele branca como um floco de neve. Os olhos, Tom podia ver claramente, contavam com marcas de expressão, do tipo que só uma pessoa muito sorridente tem, no entanto, naquele momento, a cor azulada estava tão sem brilho que ele se perguntou se é possível alguém ter olhos brancos.
- Filho, eu sei que a já deve ter dito isso, mas eu também gostaria de agradecer por você estar aqui – começou a falar com uma voz mansa – Matt e eu estávamos tão… – seus lábios tremeram e ela teve que parar de falar por alguns segundos – Mas não sei se é o certo deixar que você arque com todas as despesa, então Matt e eu conversamos e amanhã vamos ajeitar isso e você...
- Não, Sra. , não, olha – Tom a interrompeu, e se sentiu culpado por isso, mas não estava entendendo aquelas pessoas. Ele havia atropelado uma mulher, a amiga, a filha, e eles estavam dizendo que ele não era culpado por aquilo, e que estava fazendo de mais por se responsabilizar pelos custos hospitalares? – Eu realmente só quero me certificar de que ela vá receber toda a atenção que precisar, para que melhore o mais rápido possível – explicou colocando as mãos em frente a boca, como se implorasse para que deixassem ele tentar se redimir.
Ele pode ver exatamente quando o olhar da senhora foi tomada por uma sombra acanhada.
-É por isso que achamos melhor você sair dessa história aqui – Joan disse de forma menos rude possível, mas não impediu Tom de franzir o cenho e a encarar com uma enorne incógnita na cara – Veja bem, me contou o que aconteceu, e se a imprensa se meter nisso, vai ser um inferno ainda maior para minha família. Nós só queremos que nossa acorde e esteja bem. Só queremos ir para casa, sem ter fotógrafo e paparazzi e…
- Eu serei discreto – Tom a interrompeu novamente – Não vou contar nada. Não teve envolvimento com a polícia e a única testemunha do acidente é a – falar aquilo o fez se sentir sujo, mas a ideia de não poder saber como aquela garota ficaria o deixava doente – Eu posso dizer que estou fazendo algum tipo de trabalho comunitário aqui no hospital se alguém me ver, só preciso me certificar que ficará bem. Por favor, Sra. , a última coisa que quero é prejudicar mais um de vocês – falou tudo em um só fôlego, deixando Joan um pouco surpresa ao reconhecer aquele brilho nos olhos do rapaz. Ele estava realmente preocupado, não estava fazendo aquilo por aparência, ele realmente se sentia culpado.
- Eu não sei se isso é uma boa ideia, filho. Nós não queremos complicações, agora só queremos que acorde e tudo se estabilize.
O desespero no olhar da mulher ao falar aquilo o fez sufocar um pouco mais, mas o que ele poderia fazer além do que estava oferecendo e eles negando? A solução parecia clara.
-Tudo bem, eu entendo completamente o lado de vocês, principalmente em momentos como esse, privacidade é tudo – ele praticamente sussurrou, passando a mão na coxa como forma de extravasar um pouco da ansiedade – Só peço que não recusem minha ajuda, esse é o máximo que eu posso fazer depois de tudo, e vou me sentir um pouco melhor sabendo que estou ajudando de alguma forma.
Joan o lançou um minúsculo sorriso aquecedor, o que o deu vontade de abraça-la e tentar reconforta-la, mas sua surpresa maior foi quando a senhora pousou uma mão sobre a bochecha dele e deixou uma lágrima escorrer com liberdade pelo rosto.
-Obrigado por entender.
Tudo depois foi meio confuso. Tom se lembrava de responder uma mensagem da irmã, e pensado que pelo menos seu assessor deveria saber do que estava acontecendo caso seu plano de ser discreto não desse certo, então ele se levantou, se despediu de e Joan – simplesmente acenando com a cabeça para Matt, já que ele estava falando ao telefone –, depois foi para casa e só acordou na manhã seguinte, suando na cama, no exato momento em que, em seu pesadelo, um grande leopardo negro abocanhava a jugular de uma indefesa gatinha branca.
Ele poderia rir da capacidade cômica de seu cérebro se a situação não fosse trágica.
Precisou tomar banho antes de cogitar fazer qualquer outra coisa, porque seu sonho ”Zootopia” não parecia em nada com uma animação da Disney, e o mal estar estava impregnado em seu ser graças as imagens do pesadelo misturadas com imagens reais. Como havia conseguido pegar no sono era a questão de um milhão de dólares.
Pegar o celular e ligar para seu assessor pareceu mais difícil do que deveria ser de fato, relatar os fatos enquanto ouvia a respiração do outro lado da linha ficar cada vez mais pesada o fazia se arrepender dessa situação. Mas ele precisaria de algum apoio caso tudo se tornasse público, certo? Tom esperava que sim.
Após um lindo sermão que ele nunca precisou levar em toda sua vida, Tom recebeu uma resposta afirmativa sobre seu pedido, e antes que desse por si, já estava dirigindo a caminho do hospital.
Ao se aproximar do balcão da recepção, tirou os óculos e o boné que tinha certeza que não estava fazendo diferença nenhuma em sua falha tentativa de disfarce, mas que era obrigatório em uma situação como essa, suspirando um pouco frustrado ao reconhecer o olhar assustado da atendente. Certamente não era a mesma da noite passada, mas a moça a sua frente não estava medindo esforços para não disfarçar o menos possível que parecia estar sonhando.
-Bom dia – cumprimentou-a, tirando a pobre moça de seu transe e assumir uma pose quase profissional – Eu…
- Você é muito lindo – ela murmurou meio embasbacada, fazendo Tom afundar as mãos nos bolsos e sorrir sem mostrar os dentes, levando a coitada a ter talvez o começo de um ataque cardíaco.
- Obrigado – respondeu o mais cordial possível. Ele queria muito saber se seu pedido ja havia sido posto em prática, e também gostaria muito de saber como estava, mas isso não era motivo para não tratar bem aquela atendente tão simpática – Eu…
- Ah, sim! – ela novamente o cortou, dessa vez parecendo mais desperta, mais ativa. Talvez até um pouco elétrica de mais, mas ela não parecia perceber isso – O Dr. Hope está a sua espera, me acompanhe.
Se levantou, chamando de um jeito nem tão discreto, uma outra enfermeira que estava ali por perto para ficar atrás do balcão enquanto ela guiava o ator pelos corredores do hospital. Após alguns minutos ela bateu em uma porta e de lá saiu o médico da noite anterior, que analisou Tom de cima a baixo antes de voltar seu olhar para a enfermeira.
-Obrigado, minha jovem, eu assumo daqui – disse num tom sério, não se importando com a expressão desapontada no rosto da mulher ao olhar para Tom uma última vez antes de voltar por onde veio – Vamos conversar com o diretor do hospital, por favor, venha comigo – declarou, não dando outra escolha a Hiddleston se não segui-lo.
- A Srta.
- Infelizmente não – Dr. Ward o cortou, ja sabendo que ele perguntaria aquilo e não se dando ao trabalho de ouvir a questão toda – Porém o prazo de quarenta e oito horas não esgotaram, então temos alguma esperança por hora.
- Os pais dela e a amiga? Ainda estão por aqui?
- Algumas horas atrás deixei que entrassem para vê-la. A amiga foi embora logo depois, os pais, se não me engano, ainda estão por aqui – relatou entrando no elevador do fim do corredor assim que as portas de aço se abriram.
Saíram do elevador no último andar sem trocarem mais nenhuma palavra.
-Sr. Hiddleston – um senhor de cerca de sessenta anos se prontificou-se a cumprimenta-lo assim que o ator entrou na sala que o Dr. Ward havia lhe indicado – Sou Dr. Hope, diretor do Royal Free Hospital.
- Pelo jeito meu acessor já entrou em contato com o senhor – Tom comentou, se sentando na cadeira que o mais velho havia indicado para ele – Espero que ele não tenha sido rude – disse quase em um tom de sugestão, por já ter ideia de como estava o humor do assunto naquela manhã.
- Bom, se o senhor acha que ameaça de processo não é ser rude, então com toda certeza ele foi o mais carismático possível ao telefone.
Okay, aquilo já era esperado. Era mais que esperado.
-Peço desculpa, fui eu quem pediu pelo máximo de privacidade possível, pretendo ficar por perto até que a Srta. se recupere completamente, e se sair um boato de que estou nesse hospital, pode chegar à imprensa e…
- Já estamos cientes disso Sr. Hiddleston – Dr. Hope disse calmo e suave – Também entendemos que isso foi um pedido da família da jovem. Falamos com eles e com toda a equipe. Estão todos cientes de sua presença aqui o quanto for necessário e da doação que o senhor fará para o hospital no fim de tudo isso.
Daquilo Tom não estava ciente, mas aparentemente fora ideia de seu acessor já que era uma das cláusulas do contrato que chegou no fax do diretor pela manhã. Todos os funcionários da equipe do Dr. Ward já haviam assinado, e ainda tinha espaço para todos os outros funcionários do hospital, mais a de Tom, que foi assinada no canto direito da segunda folha.
Aquilo tudo era um exagero, mas era um exagero necessário para o conforto dos .
-Dr. Ward – Hiddleston fez uma curta corrida ao sair a sala do diretor do hospital para alcançar o médico, pois ele havia saído minutos antes do ator finalizar sua conversa com o mais velho – Posso conversar com o senhor por um instante?
O médico checou seu relógio de pulso e assentiu. Ainda teria alguns minutos antes de ir fazer sua ronda diária para verificar seus pacientes.
-Claro, vou arrumar um café, pode tirar suas dúvidas no caminho.
- O senhor acha que a Srta. está em um quadro complicado?
Ward estava com o diretor quando a mãe da jovem relatou o acidente. Ele a ouviu dizer com todas as palavras que o ator não era culpado pelo acidente e não precisava fazer nada do que estava fazendo, e que por mais que já tivesse falado aquilo para ele, Tom se negou a sair daquela história. Não era o tipo de coisa que se vê todo dia. O médico simpatizava com o ator por isso.
-Compreendo seu nervosismo, Sr. Hiddleston, mas infelizmente não posso dar nenhuma certeza por enquanto – Tom mordeu o lábio inferior assentindo, o semblante completamente desanimado – Se quiser vê-la, posso pedir para uma enfermeira leva-lo até lá.
O homem nem esperou o outro terminar de falar para assentir, então logo depois uma senhora de expressão amável apareceu vestindo o uniforme padrão de enfermeira do Royal Free e o guiou até um corredor com quatro portas, e parou na segunda da direita.
- Obrigado – assentiu para a enfermeira e respirou fundo antes de forçar a maçaneta para baixo e abrir a porta.
A mulher deitada na cama tinha uma expressão lívida, parecia estar dormindo e não em coma, o que tirava essa impressão era o tubo de soro ligado a sua veia no braço esquerdo e os fios que saiam de dentro da gola da camisola e se conectavam com uma pequena máquina branca que Tom não fazia ideia do que era. Acima dessa, estava a mundialmente conhecida tela onde mostrava os batimentos cardíacos dela, informação que era passada por um pequeno aparelho no dedo indicador esquerdo, ligado à mesma máquina dos outros fios.
Um pequeno, mas obviamente profundo, corte na testa, bem próximo dos cabelos extremamente negros, era a única escoriação na pele branca da moça.
Mesmo sem perceber o que fazia, Tom reparou que ela tinha lábios delicados, assim como todos os outros traços de seu rosto. Parecia muito com a mãe, mas o rosto mais fino mostrava que as características do pai não foram deixadas completamente de lado. Era linda.
- O que faz aqui? – uma voz esbravejou da entrada do quarto, fazendo Tom virar-se rapidamente, dando de cara com Matt, o pai de , que de raivoso passou para surpreso ao reconhecer o ator – Achei que o diretor do hospital tinha dito que você só havia dito para ninguém falar sobre o acidente e não que você viria invadir o quarto da minha filha quando bem quisesse.
Tom gostaria, realmente, de entender aquelas pessoas. De um momento para outro ele iam de ódio mortal para aceitação. Se o homem só percebeu depois que era ele ali, quem ele achou que seria?
- Eu só queria ver como ele estava. Dr. Ward disse que não tinha problema e o quarto estava vazio, eu... Eu só queria ver como ela estava... – começou rápido, meio afobado, mas deixou a agonia se apossar de sua voz no final – Eu sinto muito por isso, Sr. .
Matt tomou fôlego. Ainda da porta olhou para sua filha, retorcendo o rosto em uma careta, como se estivesse sentindo a dor da ferida recém limpa na testa da jovem, então se aproximou e sentou-se na poltrona ao lado direito da cama, voltando o olhar para o mais novo.
- Ontem eu queria te matar – disse em um tom baixo, fazendo Tom engolir em seco, mas não desviou o olhar – Saber que minha filha... Minha princesinha sofreu um acidente e ver o cara que estava dirigindo o carro logo a minha frente... Olha – passou a mão pelo rosto e recostou-se na poltrona – foi um exercício de auto controle e tanto. Mas então falou comigo... Ela é quase uma filha, sabe? Não lembro de um momento desde que me tornei pai, em que não tive que lidar com as duas juntas – comentou com um fantasma de sorriso nos lábios, o olhar distante, como se estivesse revendo as duas pequenas a sua frente – Ela é mais teimosa que a , mas sempre foi uma boa garota. Então a Joan veio depois e reforçou a história de , e eu percebi que eu posso ter raiva de você, mas você não é completamente culpado por isso e está fazendo tudo que pode para recompensar seu erro – falou com sinceridade, focando os olhos claros nos azuis de Tom, deixando o ator mais confuso ainda – Obrigado por não deixar minhas meninas completamente sem chão noite passada.
Mesmo sem entender o porquê daquelas atitudes vinda da família, ou a reação de Matt ao vê-lo ali e pensar que era outra pessoa, Tom assentiu, voltando seu olhar para .
Ele não sabia do que todos estavam falando ao afirmar que ele não era culpado pelo acidente, ele só sabia que pareciam anos que estava desacordada, e ele não viveria em paz sabendo que havia pelo menos a mínima probabilidade de ela ficar daquele jeito por muito tempo.
- Eu sinto muito – sussurrou, tocando os dedos frios da mão esquerda da mulher, sentindo o choque térmico devido a diferença de temperatura entre as duas peles.




Continua...



Nota da autora: (26.03.2018)
Gente, se organizar direitinho nóis tudo abraça o Tom pra ele se sentir melhor, e ninguém fica de fora.
EU SEI! O QUE QUI ACONTECEU? POR QUE TA TODO MUNDO FALANDO QUE A CULPA NÃO É DO TOM? QUE QUI ACONTECEU NA NOITE DO ACIDENTE!?! E o mais importante: ISSO VAI FICAR CHATO ASSIM POR QUANTO TEMPO!?!?!?
Respostas? Bom... Pergunta pra pp; Essa da pra perguntar pra melhor amiga... ; OLHA, ESSA da pra perguntar pra pp E pra melhor amiga! ; Essa eu posso responder: Prometo que daqui pra frente começa a ficar legal, okay? Precisava desses dois capítulos pra estória fluir, prometo que daqui pra frente vai!
É isso! Obrigado pelos comentários quem comentou, obrigado pelos favoritos quem favoritou (essa palavra existe?), obrigado por ler quem só leu, CÊIS TÃO TUDO NO MEU CORAÇÃO!




Outras Fanfics:
Six Years - Atores: Sebastian Stan/Andamento.

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