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Última atualização: 25/12/2020

Capítulo 1

caminhava de um lado para o outro dentro da enorme cozinha de seu restaurante. Enquanto tentava dar conta de tudo. E era tudo mesmo. Isso inclui temperar saladas, preparar pratos, grelhar carnes, enfim, tudo. Ela sabia que o último chefe tinha pedido demissão por sua culpa e jurou melhorar. Mas, enquanto não conseguiu ninguém bom o suficiente para pôr em seu lugar, ela conseguia se virar muito bem até o final do expediente. Mesmo que isso a deixasse com o corpo totalmente dolorido no final do dia.
- ! - Sua irmã e melhor amiga, Josie, gritou no meio da cozinha. Conseguindo atrair a atenção de , mesmo que essa atenção fosse apenas um olhar raivoso. - Eu já disse que você precisa de um ajudante.
- E eu já te disse que não consegui ninguém bom o suficiente ainda. - Colocou a frigideira de volta no fogão. - Agora saia da minha cozinha, principalmente porque você está sem luvas e com esse cabelo seboso solto. Vá, vá. - Josie não tinha escolha se não se retirar da cozinha. Ela sabia que a irmã estava sobrecarregada e se não fosse tão ruim na cozinha, a ponto de nem saber fritar um ovo, já estaria dentro do restaurante a ajudando. Nesse caso, o máximo que podia fazer era manter as finanças em dia e tratar os melhores preços e produtos com fornecedores da cidade.
revirou os olhos com a teimosia de sua irmã, tinha quase certeza que a garota fazia de propósito. Entretanto, sabia que ela queria ajudar de alguma forma, mas não sabia como. A verdade é que nem sabia como se ajudar. Aparentemente ninguém mais naquela cidade do interior da Inglaterra tinha gosto para a cozinha. Há quase dez anos atrás tinha tomado coragem o suficiente para finalmente realizar o seu maior sonho e abrir seu primeiro restaurante em Nottingham. Não era nem de longe o lugar que ela achou que faria sucesso, mas sabia muito bem sua capacidade e seus limites. Soube usá-los muito bem ao seu favor e no momento certo, agradando o paladar de todos da cidadezinha do interior. Quando o último cliente deixou o estabelecimento satisfeito, era de certa forma um alívio para . O trabalho duro no final do dia valia a pena. Olhou para a cozinha ao seu redor, ainda teria que organizar tudo antes de ir para a casa e ter o descanso merecido; aquilo levaria mais uma hora no mínimo.
- Vamos lá, nisso eu posso te ajudar. - Josie entrou na cozinha, dessa vez com sua irmã mais calma, sabendo que não seria expulsa. De certa forma, Josie era seu braço direito, desde o início tem sido a única pessoa que apoiava em todas as suas decisões. Mas também era aquela que sabia falar um não quando ela precisava ouvir. Isso mesmo, quando precisava e não quando queria.
A última panela já estava lustrada, o último prato guardado e o último copo brilhava no armário. Um suspiro aliviado escapou na boca de ambas. Por mais que estivesse vivendo o sonho, cozinhar e comandar um restaurante sozinha - ainda que pequeno - não era tão fácil assim. Entretanto, ela sabia que as coisas só iriam sair exatamente do seu jeito se ela mesmo colocasse a mão na massa. Isso não era problema para .
- Você me dá uma carona? - fechou a porta de vidro, logo após de ligar o alarme do local, e se virou para Josie.
- Como se eu tivesse escolha, não é mesmo? Você mora tão longe de mim para eu dizer não. - Ela revirou os olhos e riu logo em seguida, mas a única coisa que recebeu foi o dedo do meio como resposta.
As casas da pequena cidade eram bem parecidas, mantendo quase o mesmo ar medieval de séculos passados. Por fora elas até poderiam ter a mesma aparência, mas por dentro quase todas haviam sido reformadas e mostravam-se muito mais espaçosas. Foi exatamente isso que as irmãs fizeram. Após a morte de seus pais, elas resolveram deixar a casa com a cara delas dando um novo charme ao local. O dia sem dúvida tinha sido longo, então tomar um banho relaxante e colocar os pés pra cima era a prioridade delas. Não exitaram em fazê-lo assim que abriram a porta de casa.
Lar doce lar.

*


subiu as escadas e abriu a porta de seu novo quarto. Após ser chutado pela namorada, que estava junto ao longo de três anos, precisou encontrar um novo lugar para chamar de casa já que dividia o antigo apartamento com a mulher. Tomou um longo banho quente, colocou uma boxer e se jogou na cama. Não conseguia parar de pensar o que faria de sua vida agora. Estava sem teto e precisava urgentemente de um novo emprego, já que o pub em que trabalhava estava prestes a mandá-lo embora, ele sabia disso. Ouviu seu telefone tocar, despertando-o de todos aqueles pensamentos. O número de sua irmã, Sarah, piscava na tela. Ela não costumava ligar a não ser que fosse importante, então decidiu que deveria atender.
- Oi Sarah, aconteceu algo? - Perguntou sem enrolação.
- , é a mamãe. Ela não tá muito bem. - A voz receosa de Sarah no outro lado da linha só fazia ficar ainda mais preocupado. - Viemos para o hospital. Achei que você precisava saber disso.
- O que ela tem? É grave? - já estava em pé andando de um lado para outro do quarto sem ao menos perceber.
- Não sabemos ainda. Estão levando ela para fazer alguns exames agora. Poderia vir visitá-la? Acho que me deixaria mais calma ter você aqui comigo. - Sua voz estava um pouco abafada, demonstrando que estava prestes a chorar.
- Tudo bem Sarah, eu estou indo agora mesmo. Aliás… - Pensou bem antes de fazer a pergunta. - A mamãe ainda tem meu quarto na casa dela arrumado?
- Acho que sim. Por que a pergunta?
- As coisas não estão fáceis aqui, vou precisar voltar. - Suspirou fundo passando a mão livre nos cabelos.
- Sabe que aqui sempre vai ter um lugar pra você, né? Vem, a gente resolve isso quando você chegar. - Sarah disse com a voz mais calma tentando confortar o irmão.
- Tudo bem, chego aí o mais rápido possível.
- Tá bem, me liga quando chegar.
Dar um passo para trás era uma decisão muito difícil de tomar. não queria aquilo de forma alguma, mas ele não tinha escolhas. Sua família precisava dele e ele dela, agora mais do que nunca. Pegou suas poucas malas, devolveu a chave a recepção do hotel e partiu até a o aeroporto para pegar um avião que o fizesse chegar mais rápido. Porém não havia horários disponíveis para aquele dia, apenas para o próximo.
Então, infelizmente precisou recorrer a viagem de trem que levaria um pouco mais de duas horas pela estrada de ferro. se sentou encostado na janela e observando a estrada passar conforme iam se movendo. Lembrou de quando se mudou para a capital inglesa, ainda era um rapaz cheio de sonhos e metas a cumprir. Uma pena em algum momento ele ter se perdido e não ter realizado todos esses sonhos. Como se não bastasse agora ali estava ele, voltando para a casa de sua mãe a essa altura da vida. O fracasso parecia ser seu único companheiro. Nesse momento, ao menos, tentou não pensar nisso. Estava preocupado demais com a saúde de sua mãe para sentir pena de si mesmo.
acordou quando o trem parou, o burburinho da estação anunciava que ele havia chegado ao seu destino. Já fazia um bom tempo desde que não pisava seus pés em Nottingham. O sol já ameaçava a nascer ao horizonte quando decidiu, por fim, pegar um táxi e seguir direto para a casa de seus pais. A qual ele conhecia muito bem, mas já não visitava a um tempo.
Por fora, a fachada era exatamente como ele lembrava. A varanda sempre arrumada e com um vaso de flor próximo ao sofá confortável, no qual já havia passado várias madrugadas conversando com amigos quando mais jovem. Tudo aquilo parecia tão distante, mas assim que fechasse os olhos as lembranças invadiam sua mente fazendo parecer que havia sido ontem. Pegou a chave reserva que, obviamente, sua mãe mantinha no mesmo lugar desde os seus 10 anos de idade. Mandou apenas uma mensagem para Sarah avisando que tinha chegado. Era cedo demais - ou talvez tarde, já que não havia dormido direito - e preferiu não ligar para não acordá-la aquele horário.
Subiu as escadas com suas malas e encontrou a porta de seu quarto aberta. Estava tudo como havia deixado, porém mais sofisticado do que antes. Agora aquele ele era o quarto de hóspedes da casa, não o quarto de um jovem e rebelde. As emoções de estar de volta eram tantas, mas o cansaço era ainda maior. Assim que se jogou na cama, se permitiu ser tomado por todo o cansaço de uma noite na estrada e pegou no sono.

Capítulo 2

- Você soube quem está de volta à cidade? - Josie serviu uma xícara de café para si mesma, enquanto a xícara com chá de canela já estava servido e pronto para ser tomado por .
- Bom dia pra você também. - A morena se sentou em frente a irmã, tomando um gole da sua bebida. - Respondendo a sua pergunta, não sei. Quem? As vezes eu fico abismada como a fofoca roda rápida nessa cidade. - Abriu o jornal na parte de fofocas, gostava de se alienar um pouco antes de focar totalmente no seu trabalho.

- . - quase cuspiu toda sua bebida na cara da irmã ao ouvir aquele nome sair da boca da mais nova.

- . Àquele ? - perguntou torcendo para que não fosse quem ela pensava ser.
- Sim, esse mesmo que você está pensando. - A cara de felicidade, logo pela manhã que mantinha em seu rosto, foi substituída por uma carranca de mal humor. Ela parecia não acreditar que aquele infeliz estava de volta à cidade. Só os deuses e sabiam o quanto tinha feito da adolescência da garota um verdadeiro inferno. Não é à toa que ela não podia nem ouvir falar naquele nome. Era tão proibido quanto chamar por Lord Voldemort no universo dos bruxos. Nesse caso, era no universo de mesmo e nada a faria mudar de ideia quando o assunto envolvia você-sabe-quem.
- Você conseguiu falar com o novo fornecedor? Uma pena ninguém querer assumir os negócios do senhor Nicholas. - mudou de assunto, ou tentou, já que viu a cara de reprovação da irmã. Voltando sua atenção para o jornal.
- Ele está procurando um emprego novo.
- O último pedido de verduras da fazenda do senhor Nicholas é pra chegar hoje. Tenho que ir mais cedo para o restaurante. - Ela ignorou totalmente o que Josie falou. O aniversário de dez anos do restaurante estava chegando e precisava estar tudo pronto o quanto antes. Seu novo fornecedor era sua maior preocupação no momento.
- Você está me ouvindo ou vou mesmo precisar repetir?
- O que você quer que eu diga? Eu estou cheia de coisa pra resolver no restaurante, minha última preocupação vai ser . Sinceramente, não acho que algum dia ele será. - Jogou o jornal em cima da mesa irritada, se levantando em seguida.
- Tassie passou mal ontem a noite e foi para o hospital. É por isso que voltou. - parou no meio do caminho, estava pronta para pegar sua bolsa e sair de casa.
- Caralho, Josie! Você está fazendo a fofoca errada esse tempo todo. - Jogou as chaves para a irmã. - Você abre o restaurante, estarei lá o mais rápido possível.
nutria um sentimento de carinho muito grande pela senhora , mesmo com todas as diferenças que tivera com o filho mais velho da mulher. Após o acidente de seus pais, que os levaram a óbito, Tassie passou a cuidar de e Josie como se fossem suas filhas. Mesmo sabendo que as duas já estavam grandes o suficiente para cuidarem de si mesmas. As duas famílias se conheciam há muitos anos, o único modo que as fez não perderem o contato. No caminho para o hospital, tentou ligar para Sarah, mas a garota não atendeu a nenhuma de suas chamadas. Os corredores brancos iluminados pelas fortes luzes fluorescentes ainda assustavam , a última vez que estivera ali a notícia que recebera não havia sido nada boa. Ignorou todos os seus medos se dirigindo para o terceiro andar do prédio, após instruções da recepcionista. Se sentiu aliviada ao ver Sarah na sala de espera, aguardando notícias da mãe.
- Sarah! - A loira, antes sentada na poltrona no canto, levantou o rosto ao ouvir seu nome. - Como sua mãe está?
- Bem, mas ainda precisa fazer alguns exames. - Ela disse um pouco apreensiva.
- Eu não vou poder ficar, mas me dê notícias, ok?!
- Sem problemas, . Vou falar pra ela que você esteve aqui, vai ficar feliz em saber. - Tentou sorrir, mesmo não sendo o momento adequado. abraçou Sarah, como uma forma de conforto e de acalmar a mais nova.
- Passe lá no restaurante mais tarde e me mande notícias da sua mãe. Sinto sua falta, pirralha. - Ela quebrou o abraço, se despedindo de Sarah.
Das três mulheres, era a mais velha, com as suas 34 primaveras na conta; depois vinha sua irmã Josie, com os 29 anos; e por último, a amiga Sarah, filha da senhora , com seus 27 anos. Por ter crescido numa cidade pequena, apesar de Nottingham não ser tão pequena assim, a família e a família se conheciam antes mesmo de nascer. Então, as três garotas praticamente cresceram juntas e, claro, também fez parte dessa criação. Até ele completar vinte anos e perceber que não queria seguir carreira na área de administração, o qual tinha se formado apenas por influência do pai. A vida na cidade grande parecia ser mais atrativa para ele. A capital inglesa era muito atrativa, além de ser o sonho de todo o jovem do interior. Entretanto, diferente de , sabia o que queria da vida e sua vida estava naquela cidade. O gosto pela cozinha era de berço. Seus avós tinham um restaurante quando sua mãe ainda era jovem. Então quando ela nasceu e teve idade o suficiente para chegar perto de uma cozinha, a culinária nunca mais saiu de sua vida. Aprendera algumas receitas com os pais, algumas saíram melhor que encomenda e outras não deram muito certo. Nada que com o tempo não tivesse dado certo, afinal começou a estudar cada prato que gostaria de fazer ou aprender melhor. Quando terminou o ensino médio, já sabia que gastronomia seria o curso da sua vida e não foi diferente. Depois da graduação, a única vez que saiu do país foi para estudar em Paris. Aprender mais um pouco nunca era demais para ela.

*


Os raios de sol batendo em seu rosto, fez acordar mais uma vez naquela manhã. O relógio em cima da cabeceira, ao lado da cama, já marcava nove horas da manhã. Levantou, tomou um banho e desceu para a cozinha, pronto para preparar seu café. Claro, não sem antes acender o primeiro cigarro do dia. Foi até o jardim aos fundos da casa, enquanto a água fervia no fogão. Fumar na cozinha de sua mãe era pedir para ver uma Tessie furiosa. E ninguém queria aquilo, principalmente que mal havia chegado na cidade. Mais de dez anos tinham se passado, mas a casa em que ele estava agora parecia exatamente a mesma que deixou para trás. Sacou seu celular do bolso da calça e mandou uma mensagem para Sarah, avisando que logo estaria no hospital. Não sem antes perguntar qual a situação de sua mãe, mas obteve apenas uma resposta rápida e um “vem logo” da irmã. Terminou de tragar o cigarro, voltando para dentro da casa pronto para servir uma xícara de café. Aquilo era o suficiente pela manhã, já que não estava acostumado a acordar cedo devido ao trabalho a noite no pub. Já podia imaginar o sermão que receberia da senhora ao descobrir a péssima alimentação que o filho estava tendo. Mas ele não se importava no momento, a saúde de sua mãe era prioridade. Após o café, subiu para o quarto para trocar de roupa. Decidiu, então, colocar uma camiseta branca, uma calça jeans escura e uma jaqueta da mesma cor da calça. Ajeitou o cabelo para trás e colocou um boné para disfarçar, não perderia tempo tentando arrumar o que para ele não faria diferença mesmo.
O hospital não ficava longe de casa, então decidiu ir caminhando. O local ficava apenas algumas quadras da casa, o que o fez aproveitar o tempo para pensar em sua vida e o que faria dela a partir de agora. Ele havia se mudado de Nottingham após se formar no colegial. Desistiu do emprego que tinha, deixando seu pai um pouco decepcionado ao ver o filho sem um futuro certo. Juntar as poucas malas e partir para a capital britânica parecia o ideal para ir em busca de seu sonho de ser músico. Mas a vida nem sempre é fácil e lhe prega peças. tocava guitarra em uma banda com os amigos na época de escola e ele realmente gostava disso. Achou que teria mais sorte na cidade grande, mas não foi exatamente o que aconteceu. Nos primeiros anos ele até encontrou alguns caras legais, com o mesmo objetivo. Entretanto, com focos diferentes, já que era o único que tentava fazer aquilo dar certo de verdade. Então, ele precisou procurar um emprego de verdade, o qual pudesse se manter na cidade. Isso o ajudou a descobrir que era bom em preparar drinks. Se acomodou com o emprego no pub, o que o fez entrar em uma zona de conforto e nunca mais sair dela. Agora, de volta a sua cidade natal, morando na casa de sua mãe e com o destino incerto nas mãos de quem quer seja o governante desse universo.
estava próximo ao hospital, pronto para acender mais um cigarro antes de entrar no local. Quando a silhueta que viu mais a frente chamou sua atenção. Ele a conhecia de longe, reconheceria em qualquer lugar. Obviamente ela estava um pouco diferente, mas nada que não o fizesse a reconhecer. Os cabelo longos e encaracolados não o deixaram ter dúvida. Ela estava mais crescida, e muito, muito mais gostosa. Mas com certeza era ela, .
entrou no hospital, pegou a autorização de visitante na recepção e seguiu até o quarto onde sua mãe estava. Bateu na porta, encontrando com Sarah em pé, ao lado da cama, conversando com a mãe após abrir a porta.
- Oi minhas garotas, cheguei. - Sorriu e abriu os braços já esperando um abraço de Sarah que corria em sua direção. Sentia falta das duas.
- Achei que não vinha mais. - Sarah disse soltando o irmão, guiando-o até a cama onde estava a mãe.
- Oh meu amor, o que está fazendo aqui? Eu disse para Sarah não te ligar e te deixar preocupado! - Tassie dizia enquanto o abraçava apertado, demonstrando o contrário de sua fala.
- Ela está certa em ter ligado mãe. Acho que você está precisando de um bom enfermeiro para cuidar de você. E adivinha quem está com tempo livre? Ah isso mesmo, o seu filho preferido. - Ele deu risada sendo seguido pelas duas.
- Veio mesmo pra ficar? - Sarah perguntou fazendo careta, sabia que o irmão gostava de viver em Londres.
- Sim, talvez fosse melhor passar um tempo em um lugar diferente. Mas as coisas estavam desandando em Londres. E eu sinto falta de vocês, foi melhor voltar - deu de ombros, mas ainda estava triste por estar voltando feito um cachorro com o rabo entre as pernas.
- Vai ser ótimo ter você aqui comigo de volta, meu amor. - A mãe deu um beijo em seu rosto.
- E a senhora, dona Tassie? O que aconteceu para estar aqui?
- Então, querido irmão… parece que alguém anda se alimentando mal e tendo uma rotina agitada demais. Acabou tendo uns probleminhas com pressão e colesterol, mas já está tudo mais estável agora. Só precisa começar a se cuidar melhor.
- Não acredito, mãe!- Ele disse incrédulo. - Ficava me ligando pra saber se eu estava me cuidando, mas não estava cuidando de você né?! Tudo bem, agora eu estou aqui e vou cuidar muito bem de você. - abraçou a mãe de lado e beijou sua testa.
- Vou ficar mal acostumada assim com vocês dois me mimando. - ela disse sorrindo para os filhos.
- O médico já disse quando vai ter alta?
- Na verdade ele foi fazer os papéis já, logo ela pode ir embora. - Sarah explicou ao irmão.
- Que bom. - ele sorriu. - er… eu vi uma mulher saindo do hospital, parecia a , era ela mesmo ou estou louco?
- Era ela sim. Veio aqui ver a mamãe, mas estava com pressa porque tinha que resolver algumas coisas no restaurante.
- Ela abriu mesmo o restaurante? Que legal isso. - ele sorriu.
- Ela é incrível. Se tornou uma mulher maravilhosa a irmã também, mesmo ainda sendo meio doidinha. - Tassie disse com todo o carinho que tinha pelas duas. começou a relembrar do passado e das vezes que conviveu com e Josie. Eles foram praticamente criados juntos, mas não gostava muito dele. O que era aceitável, já que tinha sido um belo de um adolescente babaca. Logo o médico chegou para finalizar a alta de sua mãe e finalmente puderam ir para casa.
Assim que chegaram Sarah foi para a cozinha fazer o almoço, já que a mãe estava reclamando da comida do hospital. Isso porque não havia ficado nem um dia completo no local. aproveitou para ficar um pouco com a mãe e conversar com ela, contar o que havia acontecido e o motivo de ter voltado. Logo Sarah anunciou que o almoço estava na mesa e todos foram pra pequena, mas aconchegante cozinha de dona Tassie.
- Meninos, estava aqui pensando… o que acham de chamar as meninas para virem jantar aqui com a gente? Faz tempo que não as vejo e aí aproveitamos pra comemorar a volta do meu anjo aqui. - ela disse passando a mão no cabelo de que sorriu para ela.
- Eu acho uma ótima ideia mãe, meu namorado está em uma viagem de serviço. Então estou sozinha em casa, posso ficar aqui e fazer a comida pra todos nós. - Sarah sempre sendo pró ativa e se propondo a fazer as coisas.
- Por mim tudo bem, porém acho que a não vai ficar feliz com isso. Ela me detesta e vocês sabem.
- Claro né, você não vale nada . Certeza que fez alguma merda.
- Ei vocês dois não comecem! Vocês estão maiores que eu, mas ainda posso muito bem dar uma chinelada em cada um!
- Olha só, mal saiu do hospital e já quer bater na gente Sasi. Tá bem já pelo jeito. - disse fazendo a irmã rir e recebendo um tapa de leve no ombro da mãe.
- Vocês ainda vão me deixar louca. - a mãe disse depositando seu prato na pia. - Eu vou lá ligar para as meninas e vocês dois vão pensando aí no que fazer. Sarah cozinha e vai no mercado comprar o que faltar.
- Sim senhora. - Os dois disseram juntos batendo continência. A gargalhada alta de ambos soou pelo cômodo enchendo a casa de vida. Era um costume que eles tinham desde pequenos fazer aquilo. ficava feliz em ver que pelo menos ali ele podia se sentir em casa. E, melhor que isso, ter a certeza que estava cercado de pessoas que o amavam.

Capítulo 3

gostava de deixar a maioria dos seus ingredientes cortados, embalados corretamente e, se possível, temperados. No caso daqueles que ela usaria o quanto antes. E era exatamente isso que ela estava fazendo, o último pedido de verduras já havia chegado. Guardou tudo que não usaria agora e separou aqueles necessários para a próxima receita. Como era segunda-feira, o restaurante não abriria para o jantar, apenas no período da manhã para o almoço. Assim, conseguia pelo menos descansar do período da tarde em diante. Mas como era teimosa, adiantava todo o serviço no restaurante e no fim das contas a folga não servia para muita coisa. Pois, ela continuava trabalhando até mesmo quando podia descansar.
- O que está fazendo aqui ainda? O restaurante não abre hoje à noite.
- Eu sei, mas eu preciso deixar tudo organizado. - Colocou o pote com a costela suína temperada na geladeira. - Amanhã tem o almoço da empresa do senhor Thompson e são mais de trinta pessoas só da empresa dele.
- Verdade. Não sei como quase esqueci, já que ele ligou hoje pela manhã umas cinco vezes. - Josie disse revirando os olhos, foi até a pia lavar as mãos e colocou as luvas em seguida.
- Você sabe como ele é. Mas não posso reclamar, todo ano ele traz cliente novo para nós. - acompanhou os movimentos da irmã com os olhos, estranhando a ação. Josie nunca ajudava na cozinha e as duas sabiam muito bem o motivo. Cozinha e Josie na mesma frase só podia ser encrenca na certa.
- Será que dá tempo de fazer aquela torta de pêssego que só você sabe fazer? - Jo perguntou receosa. Ainda não havia contado para a irmã sobre o convite.
- De quanto tempo exatamente estamos falando? - guardou os morangos em tigelas, após serem cortados. Ela chegaria mais cedo no outro dia e os usaria para preparar uma geleia para sobremesa.
- Um pouco mais de uma hora, mas não mais que isso. Precisamos ir para casa trocar de roupa.
- Desembucha logo, Josie . - não gostava de enrolação e sabia quando a irmã fazia isso de propósito. Com certeza Josie achava, que assim, a irmã mais velha ficaria menos brava, mas só acabava causando o contrário.
- Vamos jantar na casa da senhora . Já confirmei nossa presença, não adianta dizer que não vai.
- Josie, eu odeio quando você faz isso. Eu juro que só não te mato dessa vez, porque eu já sabia do convite e estava só esperando você falar. - sorriu vitoriosa, mesmo vendo que Josie nem se abalara com o sermão.
- Ok, ok. Faz logo essa torta, por favor. - Ela bateu palminhas animada, feito uma criança quando ganha doce. - Eu termino isso pra você, pelo menos cortar legumes eu sei.
O cheiro da torta de pêssego exalava por toda cozinha, o cheiro estava tão bom que chegava a dar água na boca. Se uma coisa que você nunca poderia falar que não sabia fazer, essa coisa é cozinhar. Seja doce ou salgado, ela sabia muito bem como fazer. E era impossível resistir a qualquer comida que fosse feita pelas mãos de .

mal conseguiu colocar o último brinco quando ouviu Josie gritar no andar de baixo pelo seu nome. Soltou um suspiro baixo, tentando criar coragem para enfrentar o que estava pela frente. Já se faziam mais de dez anos e, mesmo assim, ainda queria arrancar a cabeça do maldito e lindo . Antes de sair de casa, pegou a torta de pêssego pronta em cima da mesa e encontrou com Josie já pronta no seu banco de motorista. A irmã mais nova estava tão ansiosa que se dispôs a dirigir aquela noite, coisa que acontecia quase nunca. Seja lá o que fosse, torcia para a irmã não estar aprontando nada. A porta da casa da senhora foi aberta por Sarah, que não conseguia controlar o seu sorriso. A correria do dia-a-dia as vezes impossibilitava os encontros, antes tão comuns, entre elas. Mas estavam felizes por poderem passar algumas horas juntas.
- Trouxe torta. - disse animada, levantando o prato da altura do rosto de Sarah. Josie deu um beijo no rosto de Sarah e entrou na casa, sem nem mesmo pedir licença. É, não podia dar intimidade para ela ou ela levava a sério demais.
- Entra, entra. - Sarah fechou a porta, caminhando ao lado da em direção a cozinha. - Eu sei que você e o meu irmão se odeiam, mas…
- Sarah, estou aqui por você e pela sua mãe. Vamos esquecer isso, ok? - tentou manter todo o seu autocontrole, mas não sabia se realmente conseguiria mantê-lo na primeira piada que soltasse. Esperava que ele tivesse mudado, afinal as pessoas amadurecem, não é mesmo? Era isso que ela veria agora. - Senhora , que susto você nos deu hoje. - abraçou forte a senhora de cabelo loiro, quase branco, sendo correspondida da mesma forma.
- Oh, minha querida, eu estou bem agora. Foi só um sustinho pra me deixar esperta. - ela deu risada - E agora eu tenho dois enfermeiros para cuidar de mim. O está de volta e pra ficar. - Ela sorriu largo.
- Estou aqui sim e vou controlar a senhora pra não ficar mal de novo. - Ele disse terminando de descer as escadas e ajeitando o cabelo ainda molhado. - Quanta mulher bonita em uma sala só. - sorriu e caminhou até Josie. - Meu Deus, como você cresceu, Jo! Está linda. - Ele sorriu e abraçou a mais nova. - Olá, , quanto tempo. - ele a abraçou forte e beijou o seu rosto. Mesmo sabendo que ela não era sua maior fã, não podia negar que a mulher estava muito mais bonita do que ele se lembrava.
- É, quanto tempo. - respondeu ainda desconfiada. Porém, sentir o perfume de tão próximo de si pode ter deixado-a um pouco zonza.
- Vamos jantar logo, estou morrendo de fome. - Sarah quebrou o quase clima tenso prestes a se instalar no cômodo.
- Eu fiz aquela lasanha que eu sei que vocês gostam, Sarah me ajudou. - Tassie disse servindo os pratos.
- Eu tentei fazer ela ficar quieta, mas é quase impossível. Essa mulher é difícil. - disse fazendo-os rir.
- E, então, , o que anda fazendo? - Josie começou a perguntar, mas podia sentir de longe o cheiro de tramóia da irmã.
- Bom, no momento estou tentando reorganizar minha vida já que ela mudou completamente. - Ele riu meio sem graça. - Pra começar preciso de um emprego, se conhecer um pub precisando de barman, por favor, me diga.
- Não conheço pub, mas conheço um restaurante que precisa de alguém. - deu um chute, por baixo da mesa, na perna de Josie. Ela sabia que a irmã não ia conseguir controlar aquela língua.
- Ah, que ótimo. Qual restaurante? - Por alguns instantes ele até pareceu animado. O que fez se sentir péssima, por outro lado.
- O da . - Os ombros de murcharam ao ouvir a resposta. Ele sabia que suas chances de trabalhar com eram mínimas. - O último chefe pediu demissão e ela precisa muito de alguém o quanto antes.
- O não é muito jeitoso na cozinha. Mas aprende rápido e não é um completo desastre. - Tassie disse fazendo todos rirem.
- Valeu, mãe. - deu risada. - Quem sabe eu possa fazer um teste qualquer dia. - Deu de ombros e olhou para .
- Mas não vamos estragar nosso jantar falando de negócios, não é mesmo? - Mais uma vez a voz de Tassie se fez presente. O clima já estava desconfortável demais e ficaria ainda mais, caso recebesse uma resposta negativa de .
- Enfim...O que anda fazendo, Jo? Última vez que te vi ainda estava se formando. - disse terminando seu jantar.
- Eu administro o restaurante da , além de levar várias broncas dela.
- Você fala como se eu fosse uma péssima chefe. Mas garanto que nenhum outro lugar vai te dar tantas regalias.
- É, tem suas vantagens. - Josie disse rindo.
- Já terminaram? Posso tirar os pratos? - Perguntou Sarah ouvindo todos afirmarem, logo em seguida ela se levantou e recolheu os pratos os colocando na lava louças.- Podem ir para a sala, vou fazer um chocolate quente pra gente.
- Eu te ajudo aqui. - Josie foi a primeira a se pronunciar.
- Não mesmo, vocês são visitas, podem ir para a sala de tv enquanto eu faço as coisas aqui.
- Venham meninas, deixe que a Sarah cuida de tudo por aí. - Tessie seguiu para a sala, ligando a TV logo em seguida.
- Eu já vou, mãe. - disse saindo para o quintal, já colocando seu cigarro na boca ainda sem acendê-lo.
se sentou no degrau que separava a varanda e o jardim, acendeu seu cigarro e começou a mexer em seu celular. Uma mensagem de sua ex era sinalizada na tela, o que o fez ficar ainda mais irritado. Na sala, perguntava a Tessie como tinham sido as coisas no hospital e se ela estava bem, e a patriarca explicou tudo para as meninas. Depois de um tempo em silêncio olhando para a tv, Tessie quebrou o silêncio.
- , sei que não é o melhor momento. Na verdade, não sei se teria um momento bom para isso, mas queria lhe perguntar se não poderia dar uma chance para .
A mulher a olhava com um olhar triste, era difícil para dizer não para aquela mulher que cuidara dela e da irmã tão bem; mas seu filho realmente não merecia tal consideração.
- Eu sei, vocês tem suas diferenças. Nunca entendi o motivo, mas eu sei que não se dão muito bem. Sei também que não tem experiência com culinária, o que é difícil pra você, mas ele foi a três pubs diferentes nestes dois dias em que está de volta e ninguém o aceitou. A cidade é pequena e todos estão com o quadro de funcionários completos. Ele anda muito desanimado e sinto que não está bem, até agora não me contou o que aconteceu para que voltasse.
- Senhora , sabe o quanto eu a amo e respeito, mas não sei se poderia confiar ao um cargo no meu restaurante. Lá todos levam seus trabalhos muito a sério, aquilo é a minha vida e a de muitos ali, não é apenas um passatempo para ganhar um dinheiro e dar o fora quando bem entender. - foi sincera, por mais que doesse dizer isso a Tessie.
- Sei disso e pode ter certeza que não te pediria se realmente não fosse necessário. não é mais aquele jovem inconsequente que você conheceu, ele mudou, não vou dizer que é perfeito, por mais que eu ache, sei que não é. Mas eu te prometo que ele vai levar isso a sério e ser responsável.
- A senhora promete o fazer entender que não é apenas uma brincadeira e ele vai precisar suar a camisa para manter a vaga dele?
- Sim, eu prometo que falarei com ele para que leve isso a sério mais do que tudo que já fez na vida. Não vai se arrepender se lhe der essa chance, . Você é uma mulher incrível, acredito que conviver com você vai fazer dele uma pessoa melhor.
- Tudo bem, então temos um acordo. Eu dou uma chance ao e a senhora se assegura de que ele não me tire do sério.
- Obrigada, , não sabe o quanto isso é importante pra mim. - A mulher lhe deu um abraço apertado e sorriu.
- Só estou fazendo isso pela senhora, e por tudo que já me ajudou nesta vida.
Depois de algum tempo, Sarah apareceu com as xícaras e elas continuaram conversando na sala. estava um pouco tensa, então decidiu ir tomar um ar, pediu licença a todas e se direcionou ao jardim.
Assim que chegou na porta viu sentado no degrau digitando uma mensagem rapidamente com o cigarro aceso entre os lábios. Achou melhor dar meia volta e voltar para a sala. Mas ela também precisava de um cigarro.
A movimentação nas suas costas fez girar o tronco, dando de cara com o encarando. Os dois pareciam constrangidos demais - aparentemente sem motivo - para mover um músculo sequer. Se dando por vencido, voltou a sua posição inicial, ignorando a presença da mulher.
acendeu o cigarro e dou uma tragada longa.
- Estou atrapalhando?
- Não. Já estou saindo. - Apagou o resto do cigarro, colocando a bituca no cinzeiro da varanda.
- Não precisa sair correndo, eu não vou te morder nem nada do tipo. - disse se encostando na parede e se levantou ajeitando o cabelo, tirando-o do rosto.
- Não estou com medo de você, se é isso que está pensando. - Parou próximo a , mas foi uma péssima escolha ao encarar seus olhos brilhando.
- Então, por que está saindo correndo?
- Não estou saindo correndo, , apenas terminei o que vim fazer aqui.
- Pelo jeito continua o mesmo insuportável. - Ela o encarou soltando a fumaça. - Você é um ótimo ator, caso ainda não saiba. Quase acreditei na sua ceninha no jantar. - A primeira troca de farpas estava acontecendo, como há muito tempo não acontecia. - Mas o que te trouxe de volta a tão famosa cidade de Robin Hood?
- Levei um pé na bunda, perdi meu apartamento e o emprego. Voltar era só uma questão de tempo, mas, aparentemente, Tassie apressou as coisas. - soltou um risada amarga. Contar em voz alta parecia ser ainda pior do que em pensamento. - Pode rir, eu mereço.
- É, você merece. Mas não sou cretina a esse ponto. - apertou o casaco em volta do corpo quando a brisa gélida bateu em seu rosto. Tragou mais uma vez o cigarro antes de encarar . - Apareça no restaurante amanhã, não te garanto um emprego, mas vou te dar essa chance de me mostrar do que é capaz. - Sem esperar uma resposta, voltou para dentro da casa. Se ele estivesse mesmo disposto a mudar ou a provar que tinha mudado, ela só descobriria no outro dia.
sentou-se na poltrona vaga na sala de estar da senhora , a noite que tinha tudo para dar errado, até que não estava se encerrando da pior forma.

Capítulo 4

chegou em seu restaurante no mesmo horário que estava acostumada. Se surpreendeu ao ver encostado na parede próximo a porta terminando seu cigarro. Abriu a porta ainda sob o olhar observador de , mas sem questioná-la a seguiu.
- Lave as mãos, vista o avental e as luvas e espere aí. - O tom autoritário fez enxergar outra naquele momento.
- Sim, chef. - fez um pequeno coque com os cabelo um pouco longos, em seguida fez o que havia lhe mandado. A mulher voltou com três garrafas em mãos, colocando-as na bancada de metal. Taças, copos e alguns medidores também foram depositados ali, seguidos de algumas frutas.
- Você disse que era barman, certo? Então me mostre que tipos de bebidas você sabe preparar. - Sentou-se no outro lado da bancada, o observando.
- Quantos drinks você quer que eu faça?
- Quantos quiser. - Deu de ombros. decidiu por preparar quatro bebidas, por fim. As três mais pedidas no pub em que trabalhava e uma extra que ele considerava muito boa. Esperava que fosse o suficiente para impressionar .
Começou pelo mais pedido e comum de todos, mas também o mais famoso, Dry Martini. Colocou Gin e Vermute seco dentro de uma coqueteleira com gelo, esperou a bebida ficar gelada para despejar dentro da taça e decorou com espiral de tangerina. Entregando para saborear em seguida.
- Meus drinks costumam ser bons, mas tenta pegar leve já que você é a única chefe por aqui. - disse entregando a bebida para que rolou os olhos com o comentário bebendo um pouco em seguida. A segunda bebida, foi a popular Cosmopolitan. Adicionou vodca, licor triple sec, suco de limão siciliano, suco de cranberry que ajuda na cor rosada na bebida. Por fim, decorou o copo com uma casca de limão siciliano.
- Você é rápido preparando os drinks. Trabalhou com isso por muito tempo? - perguntou observando o trabalho de .
- Sim, acho que uns seis anos. Quando se trabalha em um bar tem que ser rápido, os pedidos não param e as pessoas sempre estão com pressa para ficarem bêbados.
A terceira bebida já estava sendo preparada quando terminou de provar a segunda. adicionou com o medidor uma dose de tequila, leite de coco e suco de abacaxi no liquidificador até que ficasse numa consistência homogênea. Encheu o copo com cubos de gelo, colocando a mistura e enfeitou com um pedaço de abacaxi.
- Essa não era uma das mais pedidas, porém eu gosto e acho que você também vai gostar. - entregou o copo para e encostou na pia para observar sua reação.
- Eu prefiro dizer o que achei no final, ok? - Ele concordou e voltou a preparar a última bebida.
Por último, decidiu fazer a famosa caipirinha brasileira que havia aprendido com o seu colega de apartamento, logo quando se mudou para Londres. Não era uma bebida tão pedida assim nos pubs ingleses, mas era muito boa e valia a pena ser feita. Cortou o limão em quatro despejando os pedaços no fundo do copo, adicionou açúcar e amassou com um socador.
- Você tem cachaça, aí?
- Claro. - levantou indo até o dispensa, voltando com a garrafa em mãos. despejou um pouco do líquido junto com cubos de gelo, misturou bem e entregou o copo em seguida para . A reação dela não foi imediata, por mais que estivesse ansioso, esperando uma resposta da mulher a sua frente.
- Essa é uma especiaria brasileira que aprendi com um amigo meu. Conquistava muito os clientes do pub, principalmente as mulheres. - lavou as mãos e esperou para que dissesse algo.
- Eu sei, já bebi uma vez por uma amiga brasileira. - Ela olhou mais uma vez para as bebidas, pensando como responderia. - Bom, o meu restaurante não tem o foco principal em bebidas. Mas eu preciso admitir que todas elas são muito boas. De verdade, muito boas mesmo. O que mais sabe fazer?
- Vou ser honesto, não sei muito além de bebida, porque era isso que eu fazia em Londres. Mas corto legumes e verduras, consideravelmente, rápido e sei preparar alguns molhos de acompanhamento também.
- O restaurante tem bastante movimento e eu realmente preciso de alguém urgente, apesar de ter uma equipe muito boa. Aparentemente, você não é a melhor escolha para o que eu preciso no restaurante no momento. Mas quem me pediu foi sua mãe, e ela é muito importante pra mim, isso me obriga a ajudá-la quando me pede, o que foi o caso. Então tente se esforçar e fazer o máximo que conseguir e eu lhe permitir. Se estiver interessado, posso te ensinar algumas coisas futuramente.
- Eu sei, vou dar o meu melhor aqui pra você não se arrepender. - não sabia exatamente o que esperar do trabalho e nem como seria sua dinâmica com , mas um emprego era melhor que nada. - Obrigada, de verdade. - começou a guardar os alimentos que sobraram e as bebidas, depois limpou a louça utilizada e a bancada. Com certeza, alguém estava se esforçando mesmo para conseguir um emprego. Organização e limpeza eram essenciais dentro de uma cozinha, admirava isso.
- ? Posso ficar aqui hoje para poder conhecer o dia a dia do restaurante, você sabe… Pra não deixar pra aprender tudo logo no dia de bastante movimento em que você vai estar ocupada. - não podia negar que estava surpresa com a atitude de . O rapaz que ela conhecia não pensaria duas vezes antes de ir embora e deixar que ela se virasse com a cozinha. Ele parecia mesmo a fim de tentar.
- Começa hoje. A louça é toda sua. - A mulher saiu da cozinha, deixando-o fazendo o que ela disse. Foi até a dispensa e pegou alguns alimentos, tentando manter sua concentração nos preparativos para o almoço e no . Ia ser mais difícil do que ela imaginava.
- Oi, irmãzinha querida! - Josie entrou já gritando pela irmã como de costume, mas parou na porta ao ver concentrado. Parou ao lado da irmã e cochichou em seu ouvido para que só ela ouvisse.
- Ele tá aqui a muito tempo?
- Por incrível que pareça, chegou antes de mim e ainda pediu para ficar e aprender hoje. - disse para a irmã ainda surpresa. Josie parecia sem palavras, olhava para como se fosse um estranho.
- Oi, , bem-vindo ao clube. - Ela sorriu o tirando do momento de concentração.
- Ah, valeu, Josie. - Ele sorriu de volta e voltou sua atenção a suas tarefas. Josie fez uma cara de surpresa pra irmã que apenas riu.
Cada um assumiu suas devidas tarefas, logo o restante da equipe chegou e foi apresentado e bem recebido. Todos eram bem focados, principalmente que não parava um único segundo. Mesmo com a falta de experiência, se deu bem. Ficou um pouco perdido e confuso no início, mas o restante da equipe o ajudou com algumas dicas. O horário do almoço foi a mesma correria de sempre. Pedidos sendo gritados para todos os lados e correndo para lá e pra cá dando os toques finais nos pratos.
Como não tinha prática, assumiu a parte de lavar a louça, uma arte que ele dominava já que sua irmã sempre o obrigava a fazer isso. Assim que o horário de almoço foi encerrado eles poderiam finalmente ter um tempo de descanso. comeu qualquer coisa e seguiu para o lado de fora para poder, finalmente, fumar um cigarro. Era seu primeiro dia, não queria parar para fazer isso o tempo todo.
Saiu pelas portas dos fundo que dava para um beco sem saída, o que era ótimo, ninguém o veria ali. encostou na parede e acendeu seu cigarro dando uma longa tragada relaxando o corpo na parede. Checou o celular, mas havia apenas uma mensagem de boa sorte de Sarah. Ouviu a porta se abrir e estava pronto para esconder o cigarro quando viu Josie saindo do restaurante.
- Aí está você!
- O que foi? Já está na hora de voltar?
- Ainda não, vim só chegar como você estava. O que tá achando?
- Bom, é bem intenso, mas pelo menos não preciso cuidar de bêbados. - ele riu dando outra tragada. - Ainda estou surpreso pela ter me aceitado aqui.
- Ela estava precisando de ajuda, e acredite, pode não parecer, mas por baixo daquela máscara de mulher durona existe um bom coração. - ela sorriu expressando o carinho que tinha pela irmã.
- Ei! Vocês são pagos para trabalhar e não para ficar aqui de conversinha. Vamos, de volta ao trabalho! - disse apenas com a cabeça para fora da porta.
- Ok. Ela insiste em provar que eu estou errada, mas não estou. - Josie disse fazendo rir. Terminou seu cigarro e voltou para a cozinha seguido de Josie.
Já começam os preparativos do jantar, seguiu as mesmas funções anteriores. O caos se instalou novamente mostrando que já havia começado o horário de jantar.
Logo o expediente foi encerrado e todos começaram a ir embora um a um. ainda estava terminando de limpar as coisas, após lavar toda a louça. programava o cardápio do dia seguinte.
- Bom, terminei tudo por aqui, . Precisa de mais alguma coisa? - disse se aproximando, tirando a touca deixando alguns fios do cabelo cair pelo seu rosto.
- Não, . Está tudo certo, pode ir. Como foi seu primeiro dia? - Ela parou por um momento o que estava fazendo voltando sua atenção para o rapaz.
- Foi bem diferente do que estou acostumado, mas gostei. Vou dar conta. - Ele sorriu, estava mesmo feliz com o novo emprego.
- Ótimo, espero que dê mesmo. Agora vai descansar, te vejo amanhã.
- Até amanhã, .
- Até amanhã, .
escutou quando a porta do restaurante foi fechada, deixando o ambiente ainda mais silencioso. Voltou, então, sua atenção para o cardápio a sua frente antes de Josie entrar na cozinha e tirar toda a sua concentração.
- Até amanhã, - Josie forçou uma voz masculina, uma tentativa falha de imitar a voz de .
- O que você quer? - ignorou o comentário da irmã, ainda fazendo algumas anotações.
- Saber como foi seu dia, como foi a dinâmica com o . Ele está se esforçando bastante, não pode negar.
- Não, não posso negar. Mas não posso dar mole só porque ele fez o mínimo para um primeiro dia. Eu trabalhei muito mais no meu primeiro dia e ninguém veio me parabenizar por isso.
- Mas era o que você queria para sua vida toda. Não é o que o quer. - O tom de voz acusatório de Josie fez levantar os olhos para irmã, a olhando com interrogação e até mesmo um pouco de mágoa.
- Se não é o que ele quer, porque insistiu tanto para eu ajudá-lo? Não há nada que eu possa fazer se ele é um adulto sem rumo na própria vida. - Largou o papel em cima da bancada com uma força maior do que desejado.
- Porque, por um momento, achei que você fosse adulta o suficiente para esquecer as birras da adolescência e ajudá-lo como uma pessoa normal.
- O que você sabe sobre ser adulta, se nunca saiu daqui? - Mais rápido que um piscar de olhos, as palavras já tinham escapado da boca de . O brilho, que antes ocupavam os olhos de Josie, rapidamente foi substituído por um olhar de mágoa. - Josie…
- Tá tudo bem, . Você tem razão. - Deu de ombros balançando a cabeça. - Eu já fiquei tempo demais debaixo da sua asa. - O olhar magoado foi o último em que viu, antes da mais nova sair do local às pressas sem esperar qualquer tipo de desculpa vindo da irmã.
- Droga. - resmungou após perceber que estava sozinha no local.
Fechou as portas do restaurante, encaminhando-se para sua casa. A rua estava escura e o relógio já marcava mais de onze horas da noite. A sorte que sua casa não ficava mais do que três quadras dali, então deus passos mais rápidos do que estava acostumada e logo pôde avistar a fachada branca da casa de madeira. O cômodo escuro indicava que Josie não tinha passado por ali, visto que ela sempre deixava a luz da sala acesa, quando chegava mais cedo.
Após tomar um banho quente, decidiu por tomar uma xícara de chá e assistir um pouco de televisão. Com certeza estaria rindo de algum besteirol essa hora junto de Josie, como estavam acostumadas a fazer antes de dormir, apenas para relaxar. Mas se conteve com mais um filme do DiCaprio, ator favorito da irmã. Droga, o universo estava odiando essa noite. Decidiu por desligar a televisão e ir para o quarto, assim evitava de ficar pensando na discussão de mais cedo. Só de cogitar em lembrar, as palavras duras voltavam a sua mente a torturando. Sabia que havia sido dura demais com Josie, mesmo não sendo essa a intenção. Mas agora já era tarde, restando apenas o descanso merecido depois de um logo dia de trabalho. Uma hora ela sabia que teria uma conversa séria com a irmã mais nova, mas por ora deixaria a poeira baixar e depois pensaria no que fazer exatamente.

Capítulo 5

acabara de sair do banho, colocou uma calça de moletom e uma camisa velha e larga. Desceu para procurar algo para comer, como tinha chegado tarde pediu para a mãe não se preocupar com ele. Fez um sanduíche e se sentou na sala para ver um pouco de tv, tinha sido um dia bem cansativo. Não muito tempo depois ouviu algumas batidas na porta, achou estranho alguém lá naquele horário, ao olhar pelo olho mágico viu que era Josie e logo abriu a porta.
- Josie? Aconteceu alguma coisa?
- Posso ficar aqui? Eu briguei com a , não quero ter que lidar com isso hoje. - Ela disse com uma voz mais baixa, seus olhos denunciavam o choro que já havia cessado.
- Claro que pode, entra. - ele lhe deu espaço para passar. - Quer falar sobre isso?
- Acho que agora não. Só quero ficar quieta e tentar não pensar nisso. - ela deu de ombros tentando parecer não se importar.
- Tudo bem, senta ali no sofá. Eu vou fazer um chá pra nós dois, tudo bem? - Jo concordou com a cabeça indo para a sala em seguida. caminhou até a cozinha e preparou duas xícaras de chá. Entregou uma xícara para Jo e se sentou ao lado dela, que encostou a cabeça no ombro de .
- Tá um pouco melhor?
- Acho que sim, só fiquei magoada com o que ela falou. Sei que uma hora vamos nos resolver, mas não estou com cabeça para isso agora. - Jô disse ainda com a cabeça no ombro de , bebeu um pouco do chá em seguida.
- Vocês têm uma relação incrível, eu vi isso a minha vida toda. Eu sei que palavras machucam e que a pode ser bem cruel as vezes, mas eu tenho certeza que não foi a intenção dela te magoar. Ela te ama, Jo. - passou o braço pelo ombro da garota.
- Eu sei disso. Mas, às vezes, ela pega pesado e talvez ela nem estivesse tão errada. - suspirou cansada. - Eu só estou um pouco confusa, por isso vim pra cá.
- E pode ficar o quanto quiser, sabe disso.
- Eu sei, zinho, muito obrigada. - ela sorriu e deu um beijo no rosto de .
- Muito bem. - deu um beijo no topo da cabeça de Jo e se levantou. - Vou lá arrumar o quarto de hóspedes pra você, tá? Daqui a pouco eu venho te chamar.
subiu as escadas rápido e foi até o quarto de visitas. Não tinha muito o que arrumar já que sua mãe o mantinha sempre muito bem organizado e limpo, mesmo não recebendo muitas visitas. Deixou alguns travesseiros e cobertas na beira da cama e desceu para chamar Jô, logo ela estava no quarto.
- Pode ficar a vontade. Se precisar de algo só me chamar, eu estou no quarto aqui do lado, está bem?
- Tudo bem, . Obrigada, de verdade. - ela sorriu, sincera, estava mesmo grata por ter uma segunda família a quem recorrer.
- Não precisa agradecer, te vejo amanhã. - acenou e seguiu para seu quarto.
Ficou pensando no que havia acontecido entre as duas. Queria saber se estava bem, mas sabia que ela provavelmente ignoraria sua mensagem. Então apenas torceu para que ela estivesse bem.
O chá realmente fez o efeito necessário, principalmente, com a ajuda do dia cansativo que tivera, fazendo adormecer logo em seguida que deitara em sua cama. Na manhã seguinte tinha combinado com a mãe que a acompanharia em uma visita médica. Definitivamente ele estava cumprindo com o combinado e cuidando da mãe conforme havia dito quando chegara de viagem.
- Como foi a consulta com a mamãe? - Escutou Sarah falar no outro lado da linha.
- Tranquilo. Ela está se cuidando direitinho, mais um pouquinho e tudo volta ao normal. O problema é falar pra ela continuar de repouso, você sabe como ela é.
- Teimosa!
- Exato. Bom, irmãzinha, eu preciso desligar. Se cuida, te amo.
- Juízo nessa sua cabeça oca, maninho. Te amo. - Logo encerraram a ligação e se preparou para mais uma noite no restaurante. Ele sabia que não era o dia que tinha combinado de ir, mas como Josie não estava aparecendo no local, achou que seria uma boa ideia. poderia estar precisando de ajuda. Mas ela nunca admitiria em voz alta.
O restaurante estava vazio quando entrou no local. Apesar de que era possível que se ouvisse alguns passos da cozinha. terminava de decorar uma torta quando a avistou. A mulher estava concentrada demais na sua tarefa para notar a presença de , porém sentiu que estava sendo observada.
- O que está fazendo aqui essa hora?
- Já levei minha mãe no médico e ela já está em casa. - Se sentia uma criança tendo que dar satisfações.
- Mas é cedo ainda.
- Não vou embora. Eu sei que a Josie não apareceu hoje. - começou a lavar a louça, mesmo sem pedir.
- Ela está na sua casa, não está? - a voz dela se fez presente no ambiente silencioso.
- Sim. Vai ficar por um tempo, pelo o que eu entendi. - ficou em silêncio, sem saber o que responder, o que foi o suficiente para entender que o assunto tinha se encerrado e ele poderia ficar para ajudar.
Assim que começava a escurecer, a cozinha já estava cheia novamente, do mesmo jeito que o restaurante começava a ficar. O aroma da comida, o barulho de carne fritando na frigideira e as várias panelas, pratos e copos saindo e entrando no cômodo estava começando a agradar no meio de toda aquela loucura. Não, ele não tinha nem sequer chegado perto do fogão ainda, mais por instruções e olhares negativos vindo da . Ela não arriscaria colocá-lo para cozinhar logo no período da noite, quando o movimento era ainda maior.
- Seu dia de sorte. - entregou dois copos para . - Dois Dry martini, depois entregue para o Jeff que ele leva até a mesa. - Ela apontou para o rapaz que colocava um prato na bandeja pronto para se retirar da cozinha. Não demorou para preparar as duas bebidas e logo entregou para Jeff, conforme tinha pedido.
O que surpreendeu foi a forma como os pedidos pelas bebidas aumentaram naquela noite. Logo, ele teve que abandonar a pia com a louça e focar em somente preparar os drinks. Os mesmos que havia feito para no dia do teste. Isso, de certa forma, o deixou confortável. Afinal, preparar drink era sua especialidade. Ele fazia isso com tanta maestria e familiaridade que, por um momento, ficou aliviada em não precisar fiscalizar o trabalho dele na cozinha. Não essa parte pelo menos.
- Obrigada por hoje, pessoal. Bom descanso e até amanhã. - disse assim que a cozinha já estava devidamente limpa, com tudo no lugar, do mesmo jeito em que o salão principal se encontrava. Os funcionários começaram a se despedir de e a deixar o local, não demorando muito por ali visto que já passava das onze horas da noite.
- , quer carona? - começava a esticar uma massa de empada na bancada quando ouviu a voz de no cômodo.
- Não, ainda vou ficar mais um pouco aqui. Obrigada.
- O que está fazendo?
- Torta de pêssego. A preferida da Josie. - Deu um sorriso triste, ainda não havia conversado com a irmã.
- Posso ficar e, bem, aprender. - Deu de ombros, como se não fosse nada de importante. parou o que estava fazendo e encarou nos olhos. O que diabos ele queria, afinal de contas?
- Por que está fazendo isso? - Perguntou sem rodeios.
- Eu só quero ajudar.
- Desculpa, eu juro que não quero ser grossa, mas você não é o tipo de pessoa que quer ajudar sem receber nada em troca. - Foi franca.
- Eu não sou mais aquele que te infernizou a adolescência inteira. Eu sei que você me odeia por isso ainda.
- Eu não odeio. Só não gosto. - Pela primeira vez no dia começava a ficar irritado, revirou os olhos ao ouvir a resposta.
- Eu mudei, ok? Eu sei que não vou conseguir tua confiança tão fácil assim. Mas estou tentando ser alguém melhor, por isso estou aqui.
- Coloque as luvas e senta aqui na minha frente. - Deu-se por vencida, se ele quisesse mesmo mudar teria que provar isso a ela.
terminou de esticar a massa de empada, colocou na forma e o recheio por dentro, fechando a empada com outra parte da massa, depois pincelou com ovo e colocou no forno para assar. Fez de uma forma tão automática enquanto apenas observava, como já estava acostumada a fazer tantas e tantas outras vezes. Esticou a tigela redonda para , o pacote de farinha, açúcar, ovos e o fermento.
- Peneire três xícaras de farinha primeiro. - entendeu o que ela queria e apenas obedeceu, afinal ele mesmo tinha pedido para aprender. - Uma xícara de açúcar. - foi até a geladeira e pegou um tablete de manteiga, o suficiente para aquela receita. - Dois ovos, a manteiga e por último o fermento.
- Posso mexer agora?
- Eu deixaria você usar a batedeira pra ser mais rápido, mas nada melhor do que aprender a fazer você mesmo. - Ela disse parecendo satisfeita com a pressa de em colocar a mão na massa, literalmente. - Misture bem até parar de grudar na mão, pode adicionar mais farinha se precisar. - Sem questionar, fez exatamente o que foi mandado ainda sob o olhar observador de . Com certeza, não era a coisa mais divertida que já fez na vida. Contudo, estava gostando de estar aprendendo algo novo. O sorriso que começava a brotar no rosto de foi o suficiente para entender que estava fazendo da maneira certa.
- Eu sempre vejo nas receitas que a massa tem que ficar homogênea, acho que ficou.
- Nada mal para uma primeira vez. Vamos deixar ela descansar, amanhã quando você chegar a gente abre ela e coloca recheio. - colocou o papel filme envolta de tigela e deixou em cima do balcão. O cheiro da primeira torta exalava por toda cozinha, o que acabou fazendo a barriga de roncar.
- Desculpe. - Ao invés de ficar constrangido, deu de ombros.
- Me diz que comeu alguma coisa, pelo amor de deus.
- Comi um sanduíche.
- Só? - Ela o olhou incrédula.
- Sim, mas eu já to indo pra casa. - Terminou de limpar a bagunça que havia feito e tirou os luvas.
- Espera, leva essa torta pra vocês. Jo não está em casa mesmo e eu não vou comer isso tudo sozinha.
- Você está bem?
- Sim. - A resposta automática saiu mais rápido do que imaginou. Mas não seria para que ela falaria de seus problemas.
- Ok. Aceito a torta se aceitar minha carona e se deixar eu vir todos os dias.
- Ok, vamos fazer um acordo então. Você vem todos os dias à noite, com exceção de segunda que eu não abro, e eu juro que se aparecer aqui antes disso eu te proibido de entrar na minha cozinha. Porém, caso a senhora precise de você à noite, em qualquer dia da semana, não exite em ficar com ela. Eu vou saber se estiver mentindo ou escondendo algo de mim.
- Então, temos um acordo, senhorita . - Ele esticou a mão a fim de selar o acordo, sendo respondido por rapidamente.
- Eu tenho acordo demais com a sua família, espero que esse seja o último. Vamos, eu tô cansada. E, sim, aceito a carona agora.
- Hum, acho que você fez tudo isso de propósito só pra não ir pra casa a pé. - tentou conter uma risada, mas não conseguiu.
- Pode ser que sim, pode ser que não. Você nunca saberá. - Ela balançava a cabeça de um lado para o outro, com logo atrás.
- sabe jogar, bom saber.

Capítulo 6

A campainha da casa dos soou logo pela manhã bem cedo. não gostava de aparecer justo naquele horário, mas precisava muito resolver a sua situação com Josie de uma vez por todas. A porta foi aberta pela irmã mais nova de , o que foi um alívio na verdade.
- A gente pode conversar? - Foi direta ao ponto.
- Sim, mas não agora. Eu apareço no restaurante à tarde.
- Vai ficar brava comigo até quando?
- Não estou brava com você, mas gosto de te irritar. - revirou os olhos com a resposta.
- Vai voltar pra casa ou prefere dividir o quarto com o ?
- Está com ciúmes? E não, não estou dividindo o quarto com ele. Além de que, a senhora está adorando minha estadia aqui.
- Josie , volta para casa, por favor. - implorou e Josie se divertiu com isso.
- Se vocês duas não saírem dessa porta agora, eu vou aí pegar vocês pelas orelhas. - Tessie colocou a cabeça pra fora da cozinha gritando do cômodo, o que fez e Josie rirem.
- Bom dia, senhora . Desculpa aparecer essa hora. - apareceu na cozinha, sendo recebida por Tessie com uma xícara de café quente e um abraço apertado. Não importava o horário e nem a ocasião, a senhora de cabelos claros sempre receberia as irmãs da melhor forma possível. Como se elas fossem suas filhas também. não pensou duas vezes antes de retribuir o carinho da mulher e aceitar o café.
- Você é de casa. Não precisa se desculpar, . - Tessie sentou-se ao lado da morena, enquanto Sarah e Josie serviam-se o café da manhã. - Não está com fome?
- Não, eu tomei café em casa. Mas, como eu te conheço, aceitei a xícara de café antes pra não receber um olhar de reprovação da senhora. - riu baixinho.
- Eu e a Josie já estamos saindo. Vamos fazer algumas coisas pela cidade e não voltamos tão cedo.
- Nós não íamos conversar à tarde? - perguntou olhando para Josie.
- Se der tempo eu passo lá, . - Josie não esperou receber uma resposta da irmã, saindo da casa acompanhada de Sarah logo em seguida.
- Ela está chateada e fazendo um pouco de birra, mas logo vai voltar pra casa. Ninguém aguenta o roncando por muito tempo. - Tessie fez um carinho leve na mão de , vendo que a mulher precisava conversar e, também, de um pouco de conforto.
raramente se deixava abalar por qualquer coisa, mas a discussão entre as duas não era algo tão simples de resolver. Sabia que tinha errado nas escolhas das palavras e jogado toda a sua raiva em cima da irmã, sabia que tinha errado. Mas estava disposta a se desculpar, mudar suas atitudes e precisava ter uma conversa com a Jo o quanto antes. Entretanto, entendia que a mais nova também precisava de espaço e ver que Josie estava se dando tão bem sozinha era ótimo. Porém, o seu ar protetor falava mais alto nesses momentos e ficava, de certa forma, com ciúmes de ver sua irmã ser tão independente.
- Você não pode proteger sempre a sua irmã, . Ela precisa aprender a voar sozinha. Quando foi para Londres, eu fiquei com medo. Muito medo. Principalmente sabendo do jeito orgulhoso que ele é, mas eu também sabia que ele voltaria caso eu pedisse. Contudo, ele sempre soube se virar muito bem lá e voltou quando achou necessário. Não se preocupe tanto com a Jo, ela sabe o que está fazendo e jamais vai te esquecer. É capaz de te defender, de quem quer que seja, com unhas e dentes, da mesma forma que você faria por ela. É por isso que ela ficou tão chateada com o que ouviu. - As palavras de Tessie atingiram em cheio , quase como se estivesse ali para passar um sermão e depois deixava o conforto chegar de mansinho. murchou os ombros, se rendendo as palavras de Tessie, se mostrando vulnerável àquela conversa.
- Eu sei. - Havia tanta coisa, guardada em seu peito, para ser dita, mas que não foi capaz de dizer mais do que essas duas palavras naquele momento. Ao contrário do que esperava, deixou que as lágrimas teimosas caíssem pelo seu rosto. Somente Tessie tinha o ar maternal capaz de deixar, até mesmo, vulnerável. Abraçou a mulher de cabelos grisalhos, encontrando em seus braços o conforto e carinho que precisava. - Eu preciso ir para o restaurante, não vou ocupar mais seu tempo. - limpou o rosto, tirando qualquer vestígio de seu choro.
- Não se preocupe com isso. Estou sempre aqui para vocês.
- Como que a gente não vai ficar mimada desse jeito? - Tentou rir, mas a voz embargada denunciava a vontade de voltar a chorar. - Obrigada por tudo. - Abraçou Tessie mais uma vez, antes de deixar a casa e se dirigir para o restaurante. O seu lar, o lugar que ela se sentia bem e a fazia se sentir segura novamente.

***


estava terminando de organizar as coisas no restaurante, como de costume, estava lhe ajudando mesmo que não tivesse pedido.
- Você sabe que não precisa ficar depois do horário, né? - perguntou ainda olhando em direção as listas de materiais que precisava fazer pedido no dia seguinte.
- Sim. Mas eu quero ficar, gosto de ajudar. - Mesmo não podendo ver, esboçou um leve sorriso. O rapaz estava mesmo se esforçando para ter um bom desempenho no restaurante.
Já estava tudo em seu devido lugar, louças lavadas e guardadas, quando saiu primeiro esperando fechar o local. Estava prestes a caminhar até seu carro, mas deu meia volta indo em direção a novamente.
- Er… tá afim de comer alguma coisa? Uma pizza? - encarou por um tempo, ainda processando o convite repentino.
- É… pode ser. - Deu de ombros e ajeitou o casaco em seus ombros.
- Legal, vamos. - sorriu e seguiu até o carro a esperando.
Decidiram por passar em uma pizzaria e levar a pizza para comer em outro lugar, o qual não fazia ideia, já que não quisera lhe contar durante todo o trajeto. Depois de rodar por um tempo, parou no lugar onde costumava ser o antigo cine drive-in da cidade. Era como um grande estacionamento aberto, onde podia ver uma parte da cidade e o céu estrelado.
Estacionou o carro e saiu, se sentando em cima do capô, pareceu meio excitante, mas fez sinal para que ela subisse e sentasse ao seu lado. não fez questão de seguir os bons modos que recebera desde pequena, então abriu a caixa de pizza e ambos pegaram um pedaço. Ainda em silêncio, ambos admiravam a vista.
- Por que viemos aqui? - decidiu quebrar o silêncio.
- Não sei. Gosto da vista, gosto da calmaria que tem aqui. - deu de ombros e pegou outro pedaço.
- É muito bonito, dá pra ver as estrelas do céu mais do que na cidade.
- Sim, é uma das partes que mais gosto daqui.
O silêncio se instalou de novo e, ao terminarem de comer, colocou a caixa ao seu lado. deitou as costas no vidro do carro e acendeu um cigarro, mas preferiu apenas deixar o corpo descansar ao seu lado, recusando o cigarro dessa vez.
- , posso fazer uma pergunta? - perguntou meio apreensiva, ainda olhando o céu.
- Claro. - ele respondeu soltando a fumaça para cima.
- Por que decidiu voltar assim do nada?
- Eu já te disse, não foi do nada. Eu perdi tudo o que tinha em Londres e minha irmã me ligou avisando que nossa mãe estava no hospital. Eu só juntei o útil ao agradável. - ele deu de ombro e deu uma longa tragada no cigarro.
- O que fez em Londres todos esses anos? - ela se virou para encará-lo.
- Bom, eu fui com o sonho de ser músico. Participei de várias bandas, toquei sozinho em alguns barzinhos, mas nada que desse pra eu me sustentar lá. Foi aí que eu vi um anúncio num pub que precisavam de barman, decidi usar minha boa e velha cara de pau e tentar a sorte. - ele riu baixo e jogou fora a bituca de cigarro.
- E foi aí que descobriu seu talento. - Ela riu chamando a atenção dele para olhar para ela, porém voltou o olhar para o céu logo em seguida.
- Tecnicamente sim, sabe, eu não era tão ruim assim. Mas tive que aprender muita coisa, e com anos de experiência fui ficando bom como sou hoje.
- E aí perdeu seu emprego, por isso veio embora? - estava mesmo curiosa, nunca falava sobre o passado.
- Não. Nesses anos trabalhando no pub, um dia eu conheci uma garota, o nome dela era Jenny. Ela levou o bolo de um cara que ela tinha conhecido na internet e passou a noite conversando comigo, ela voltou no outro dia, mas dessa vez pediu meu número. Depois de alguns beijos e, noites conversando, eu a pedi em namoro. Um ano depois fomos morar juntos. A gente combinava, ela era perfeita, parecia uma versão feminina minha. Mas, aparentemente, ela não achava o mesmo. - a voz de agora tinha um tom triste.
- Tudo bem se não quiser falar sobre.
- Relaxa, eu tô bem. - ele sorriu fraco para . - Um dia cheguei do serviço com o dia quase amanhecendo e ela estava me esperando acordada. Ela nunca me esperava acordada. Foi aí que ela me contou que tinha conhecido um cara no serviço, e que ela já não achava que estava funcionando entre a gente. Disse que eu me dedicava demais ao meu serviço e menos a ela. Mas a verdade era que ela já não me amava mais a um tempo, eu só estava cego demais pra perceber. Então, foi assim que eu levei um pé na bunda. Não satisfeito, o destino ainda me pregou outra peça, já que no mesmo dia eu descobri que o pub onde trabalhava estava prestes a falir e fui "morar" em um quarto de hotel. Até receber a ligação de Sarah.
ficou um tempo sem saber o que dizer, o que ela conhecia e se lembrava era mesmo bem diferente daquele na sua frente. Antigamente era o tipo de garoto que não se apegava a ninguém, preferia contar quantas meninas tinha ficado em uma noite do que de quantas sabia o nome.
- É muita merda junta, um desastre, eu sei. - riu meio sem humor.
- Realmente, você parece mesmo ter amadurecido . É bom ver que você evoluiu nesse tempo.
- Isso é o mais próximo de um elogio a meu respeito que já ouvi saindo de sua boca, . - a olhou surpresa rindo.
- Antigamente você não fazia por merecer para receber algum elogio meu. E, mesmo merecendo agora, já me arrependo. Ainda continua o mesmo convencido chato, pelo jeito velhos hábitos nunca mudam. -Ela deu um tapa leve em seu braço e pulou do capô do carro. - Vamos, preciso dormir que amanhã trabalho cedo.
- Sim, senhora capitã.
Os dois entraram no carro e levou até sua casa. Eles conseguiram passar uma noite sem se alfinetar, o que já era um grande avanço. Talvez ele estivesse finalmente conquistando a confiança de .
tentou fazer o mínimo de barulho possível ao entrar em casa, mas o barulho de chaves na porta não passou despercebido pela senhora . A matriarca da família estava sentada na sala, terminando sua xícara de chá enquanto assistia ao noticiário da noite. Ou fingia assistir enquanto esperava o filho chegar.
- Boa noite, mãe. - beijou o topo da cabeça da mulher, sentando-se ao seu lado no sofá.
- Boa noite, meu filho. Como foi o serviço? Chegou mais tarde hoje. - Quem visse de fora entenderia que era apenas um comentário de uma mãe preocupada, mas sabia muito bem o que aquela simples pergunta queria dizer. Tessie queria detalhes e se escondesse algo dela, ela saberia.
- Foi bom, mãe. Eu e fomos comer uma pizza depois de fechar o restaurante, só isso. - Não tinha motivos para esconder algo de sua mãe, mas era esquisito ter que dar explicações a ela. Se sentiu um adolescente na puberdade novamente.
- Você gosta da ? - Tassie foi direto ao ponto.
- Mãe, ela é minha chefe! - exclamou quase no automático. Ele gostava de , ela tinha se mostrado uma amiga, vizinha e uma ótima chefe. Muito mais do que ele merecia e, não podia negar, era grato a ela por toda compreensão e empatia.
- , eu não perguntei isso.
- Não mãe, não gosto dessa forma que você está me perguntando.
- Você não vai admitir mesmo. Mas vou te dar um conselho: Não a machuque. precisa e merece alguém que seja seu companheiro, que vai estar ao seu lado, principalmente, nos momentos ruins. Então, se resolver entrar nessa, esteja ciente de todas as consequências e não há Londres que possa te salvar dessa vez.
A voz calma de Tessie sumiu no ambiente, mas continuou rondando na mente de o resto da noite. Após ir para o seu quarto, resolveu tomar um banho quente, deitar em sua cama e deixar o cansaço do dia dominar seu corpo.

Capítulo 7

Um mês depois

Um mês. Um mês já havia se passado desde que começou a trabalhar no restaurante. Um mês que Josie tinha saído de casa e ainda não tinha voltado. Um mês que tinha descoberto que há uma nova dentro de si mesma, por mais que ela tentasse esconder o mais fundo que conseguisse. Talvez, mas só por um mínimo talvez, não estivesse no seu melhor momento. Porém, o cansaço da rotina não a deixava pensar muito nessa última parte.
A parte mais engraçada disso tudo, é que o mesmo acontecia com . , que até alguns - bons - anos atrás, nunca tinha se imaginado trabalhando justamente para . Depois que se mudou para Londres, o máximo de notícias que recebeu dela foi porque Sarah ainda insistia em comentar. Não imaginava o quão burro e orgulhoso estava sendo quando tentava ignorar tudo que envolvia . A verdade, é que sabia que lá no fundo ainda nutria sentimentos pela mulher, por mais que tenha sido estúpido o suficiente para ignorar tudo e a todos. Agora, de volta a cidade, estava disposto a não cometer os mesmos erros, deixar alguns no passado e tentar correr atrás do tempo perdido. Tentando, ao menos, estabilizar sua vida em Nottingham novamente.

- ? - A voz estava longe demais para sequer abrir os olhos, ou tentar pelo menos. - , acorda. Você vai se atrasar.
- Só mais um pouquinho. - A voz arrastada de denunciava que, com certeza, ela não dormiria somente mais um pouquinho.
- Não, acorda. Agora! - Então, por um milésimo de segundo, se deu conta do tom autoritário tão conhecido por ela. Josie estava ali. Deu um pulo da cama tão rápido que até mesmo Josie se assustou, mas logo ficou aliviada por ver que a irmã tinha acordado. Antes que pudesse falar mais alguma coisa, sentiu ser abraçada por . Um abraço apertado e cheio de saudade.
- Senti sua falta, praga. Quando for embora, pelo menos me avisa. - O habitual drama não podia faltar.
- Que bafo, . Eca. - Josie fez uma careta, mas logo abraçou a irmã. - Eu não vou embora, sua doida.
- Já to indo, já to indo. Ei, e se fizermos uma noite das garotas hoje? Chama a Sarah. - disse já se dirigindo para o banheiro de seu quarto.
- A Sarah ou o irmão dela?
- Ah, eu não vou nem te responder. - Josie gargalhou ao ouvir a resposta, antes da irmã fechar a porta do cômodo e a deixar sozinha no meio do quarto.
Josie podia ter todos os defeitos do mundo, principalmente ser incrivelmente irritante, de uma forma que só ela conseguia. Mas acima de tudo, ela era fiel à quem ela gostava. Nesse caso, ela amava sua irmã, mais do que conseguia explicar. Não iria negar que tinha ficado chateada com a discussão e que as palavras de haviam machucado-a, pois seria hipocrisia da sua parte. Por isso, ter ido parar na casa dos era a melhor escolha para o momento. Mas Tessie estava certa, mesmo dormindo no quarto ao lado, roncava demais e não tinha mais condições de dormir lá, por mais que gostasse muito do lugar.
saiu do banheiro, alguns minutos depois, já vestida com uma calça jeans e uma blusa básica. O relógio marcava oito horas mostrando-a que estava mais do que atrasada para ir ao restaurante. Costumava chegar no local às sete, no mais tardar às sete e meia. Mas a semana havia sido tão movimentada, lidar com fornecedor, cliente, fazer lista de produtos que estavam em falta e ainda realizar o pagamento de funcionários, além de fazer tudo dentro do restaurante funcionar não era nada fácil.
- Eu conheci uma...pessoa. - Josie disse incerta, quebrou o silêncio no quarto e atraindo a atenção de .
- E quando eu vou conhecer essa...pessoa? - disse com um sorriso no rosto, realmente animada pela irmã. Afinal, alguém tinha que ser feliz, não é mesmo?
- Em breve. - Mordeu o lábio, ainda incerta sobre a resposta.
- Você está feliz? - perguntou de repente, o que fez Jo parar de digitar algo em seu celular.
- Sim. - Jo não conseguiu controlar o sorriso que surgiu em seu rosto.
- Então estou feliz por você. - Foi o suficiente para Josie ter certeza que tudo estava voltando ao normal. não conseguia esconder quando a irmã realmente estava insatisfeita ou não estava sendo sincera sobre algo. Uma onda de alívio percorreu seu corpo.
- Vou trocar de roupa e vamos para o restaurante, ok?
- Não precisa ir. Sei que ficava lá por minha causa, mas você tem aproveitado mais seus dias fora do restaurante, não tem? Então, eu posso procurar outra pessoa pra cuidar do que tu fazia e…
- Ah, para com isso, . Confesso que aproveitei muito meus dias, mas não vou te deixar na mão pra curtir uns diazinhos fora de lá. Eu gosto de toda aquela bagunça, gritaria e o cheiro é ótimo. - Ela riu. parecia um pouco surpresa com a resposta, esperava que Jo fosse mesmo querer deixar o restaurante.
- Vamos fazer um acordo? Você passa menos tempo lá, escolhe o horário que quer ir e aproveita mais a sua vida. Eu sei que ele consome muito tempo, não quero que você fique presa ao meu sonho. Você precisa ir atrás dos seus, Jo.
- Combinado. Vamos logo agora, porque eu já disse que ia te levar. Aliás, Sarah vai passar aqui mais tarde e nós vamos poder tomar aquela margarita que só você sabe fazer.
- Eu preciso mesmo de uma noite com vocês. - saiu do quarto acompanhada da irmã mais nova.
O caminho até o restaurante foi rápido e tranquilo, nada de novas provocações vindo de Jo. Apesar da mais nova gostar de provocar a mais velha com seus comentários cheios de malícia quando o assunto vinha à tona.
- Ele está se esforçando pra caramba. Acredite, eu estou surpresa.
- Eu sei. Dona Tessie deu um sermão nele sobre responsabilidade. - As duas cochichavam dentro do carro, quase como se estivesse contando um segredo. Mas só estavam as duas mulheres no veículo.
- Por que estamos sussurrando se só tem a gente dentro desse carro?
- Não sei, mas parece o certo a se fazer. - As duas ficaram em silêncio, se encarando por alguns instantes, mas logo foi possível ouvir a gargalhada das duas. abriu a porta do restaurante, alguns funcionários aguardavam no lado de fora, provavelmente estranhando o horário em que ela estava chegando no local.



O dia com cara de chuva, apesar do clima quente, podia significar alguma coisa. Caso acreditasse nessas coisas de destinos, e sinais do tempo ou qualquer outro nome que as pessoas davam para esse tipo de circunstâncias. Mas algo estava muito errado quando o relógio marcou oito horas e ainda não estava no restaurante. Decidiu por acender um cigarro e mandar uma mensagem para Josie. Naquela manhã a garota havia voltado para casa, então se certificar se estava tudo bem era a primeira opção, e logo perguntou se abriria o restaurante. Era quinta-feira, ela abriria, certo? Certo. Só estava um pouquinho atrasada, segundo as palavras de Josie.
Alguns minutos e dois cigarros depois o carro de Josie parou em frente ao restaurante, as duas saíram rindo de algo que estavam conversando.
- Finalmente! Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem? - foi em direção a elas.
- Wow! Calma aí, , a gente só atrasou dez minutos. - Josie disse rindo.
- Isso pra é bem fora do normal, já que ela praticamente amanhece aqui. - ele deu de ombros e lançou um olhar para que tinha um semblante mais leve do que nos dias anteriores. Ela estava mesmo sentindo falta de Josie em sua casa.
- Relaxa, , tá tudo bem. Demorei, mas cheguei. Agora vamos trabalhar que já enrolamos demais.
Logo todos entraram no restaurante e assumiram suas posições. O dia passou rápido, o período do almoço tinha sido mais agitado que o normal, o que era bom. No pequeno intervalo entre o período do almoço e o jantar, saiu para fumar. Não sabia o por quê, mas estava se sentindo mais agitado que o normal.
Encostou na parede dos fundos do restaurante e acendeu um cigarro dando uma longa tragada e soltando do lado, pegou o celular para checar algumas mensagens e notificações. Logo ouviu a porta se abrindo e viu vindo em sua direção.
- Desculpa, eu já estou voltando, precisava disso. - levantou a mão com o cigarro.
- Relaxa, não vou te dar bronca, não ainda. - riu baixo. - Decidi que está na hora de você começar a aprender algumas coisas simples na cozinha, sabe, pra ajudar quando estiver muito movimentado.
- Sério? - agora tinha um sorriso enorme no rosto. Desde que entrou estava de olho nos cozinheiros pensando quando finalmente poderia fazer algo daquilo.
- Não vai ser nada demais. Vou te ensinar alguns molhos, é simples. Mas vai ajudar bastante.
- Tudo bem. - terminou o cigarro. - Podemos ir.
- Ótimo. - voltou para a cozinha sendo seguida por que colocava seu avental de volta. - , pegue alguns tomates na geladeira.
ia pegando uma panela enquanto lavava os tomates. Logo ela estava o ensinando como tirar a pele do tomate sem estragá-lo e a melhor forma de picá-lo. O que surpreendeu era que tinha certa habilidade com o corte. Aparentemente a dona Tessie estava colocando alguém para trabalhar em casa também.
- Os temperos são a gosto, mas como estamos em um restaurante, é preciso manter o padrão para ficar sempre igual. - ela pegou um pouco do molho na colher, segurou a mão de e colocou um pouco na palma. - Experimenta.
- Nossa, isso tá muito bom! Acha que eu consigo fazer igual? - disse realmente interessado e tentando guardar na mente cada passo.
- Como eu disse, é uma receita nossa. Se fizer desse jeito que eu te ensinei não tem segredo, vai dar certo. O importante é sempre continuar mexendo para não queimar. Agora sua vez, dá conta de fazer sozinho? - encarava .
- Acho que sim, eu prestei bastante atenção. Já vi você fazendo isso algumas vezes.
- Ótimo. Boa sorte e me chame quando terminar. - Ela saiu de perto indo cuidar dos doces.
estava meio apreensivo, com medo de estragar tudo, mas isso não o impediria de tentar. Fez todo o passo a passo que havia o ensinado e que havia observado ela fazer várias vezes nestes dias em que estava trabalhando no restaurante. Assim que terminou, chamou para experimentar o molho.
- Olha só, nada mal, , você até que é um bom aluno. - sorriu.
- Eu disse que aprendia rápido. - Ele deu de ombros sorrindo. Por fora parecia confiante, mas no fundo estava com medo de fracassar na sua primeira tarefa com as panelas.
A noite passou tão rápido quanto o dia. Tinha sido um dia bom para o restaurante e para o movimento. A participação de na cozinha tinha sido bem mais significativa do que nos outros dias em que apenas lavava as louças e fazia alguns poucos drinks.
Como de costume, todos já tinham ido embora e restava apenas e no restaurante. Tudo já estava em seu devido lugar e ambos prontos para sair dali.
- Ah, eu trouxe uma coisa. - foi até o freezer e tirou um pote de sorvete de morango. - Sarah me disse que hoje é noite das meninas. Sei que vocês três gostam de sorvete de morango, então resolvi trazer um pra vocês. - Ele sorriu ficando um pouco vermelho de vergonha por se intrometer, além do medo de levar uma patada de .
- Que fofo, , me fez até esquecer o quão detestável você era. - Ela riu o fazendo rir também.
- Eu já disse, eu mudei. Estou tentando provar isso desde que cheguei, mas você não tem sido fácil de impressionar sabe.
- Hmm… então quer dizer que está tentando me impressionar, ? - cruzou os braços, estava gostando de ver corado. Provavelmente com vergonha, o que não era tão comum.
- Talvez eu esteja, , e espero que um dia eu consiga.
- Quem sabe. - deu de ombros. - Mas agora vai logo pra sua casa descansar, que eu tenho uma noite de fofocas pra aproveitar. - ela disse o empurrando para fora.
- Tá bem, tá bem, já estou indo. Precisa de carona?
- Não, Jo já está vindo. Obrigada.
- Ok, até amanhã, . - sorriu acenando.
- Até amanhã, . - sorriu e acenou de volta.



- Meu deus, eu senti falta disso aqui. - Sarah apontou para a taça com a bebida. Sentindo o gosto ácido da margarita preparada por .
- Eu já disse pra que a gente devia fazer isso mais vezes, ela trabalha demais. Precisa ficar com as pessoas descoladas que nós somos, é claro. - Josie disse bebendo um pouco do drink.
- Concordo com a Josie. - Sarah disse esvaziando a taça.
- Vamos tentar fazer mais vezes. Seu irmão está tendo um bom desempenho no restaurante. Aliás, o sorvete de morango foi ele que mandou.
- É bom saber disso, mas não vamos falar do . Eu amo meu irmão, mas o vejo todo dia.
- Que ótimo, porque eu também não quero falar de trabalho hoje. Mas acho que alguém tem novidades pra me contar, não é mesmo? - disse olhando para a irmã.
- Que história é essa aí, Josie? - Sarah debruçou na mesa em direção de Josie mostrando interesse. O álcool com certeza já estava fazendo efeito nela.
- Eu posso dizer que conheci alguém, mas estamos indo com calma. Na hora certa todos vão conhecer.
- Ah, não vem com essa não, Jo. Quero foto, nome completo e profissão. Anda desembucha! - Sarah disse, virando o resto da bebida de vez.
- Não! Não vão ter mais nenhuma informação. Agora, quem precisa conhecer alguém é você. A Sarah já tem namorado. - Josie apontou para , vendo a mulher quase se engasgar com a bebida após ouvir a acusação.
- Vocês são péssimas com isso. O último nem apareceu no encontro quando descobriu quem eu era. E detalhe: eu nem sou famosa e a criatura já saiu correndo.
- Nisso eu tenho que concordar mesmo.
- Mas precisa de alguém, você anda tão...tensa. - Jo disse, pensativa.
- Meu irmão anda falando muito em você... Talvez possa tentar alguma coisa, um casinho só pra aliviar a tensão quem sabe. - Sarah deu de ombros segurando a risada
- AH MEU DEUS!! - Josie gritou dando uma gargalhada. - Deveria mesmo, além de tudo ele é bem gostoso, .
- Sarah, eu sei que é o álcool falando por você. E devo lembrar que estamos falando do que eu menos gosto e o sentimento é totalmente recíproco.
- , eu não tô falando de casarem e serem felizes para sempre. Tô falando de transar, porque você tá precisando. Meu irmão é um cara melhor desde o ensino médio.
- Eu não consigo ver ele de outra forma. Ainda é a mesma pessoa que me infernizava.
- Mas...
- Eu sei, já se passaram muitos anos e reconheço que ele tá melhor agora. E bem mais bonito, tenho que admitir.
- EU SABIAAAA!! - Josie gritou novamente fazendo todas rirem, o álcool com certeza já estava fazendo seu efeito.
- Vou pegar sorvete pra ver se a Jo para de gritar.
- Ei, o que vocês acham de um churrasco? Podemos beber, tomar banho de piscina e aproveitar para fofocar mais ainda. - Sarah deu a sugestão que logo foi aceita por todas.
- Eu acho uma ótima ideia, aquela piscina da casa de vocês é maravilhosa! Fora que o vai poder trabalhar pra gente fazendo drinks. - Jo disse se ajeitando no sofá.
- Será que eu perdi alguma coisa na nossa conversa? Achei que não íamos falar do e volta e meia vocês voltam no nome dele. - colocou o pote de sorvete na mesa de centro e se sentou no tapete.
- Precisa ficar com ciúmes não, eu só quero as bebidas dele, dizem que são ótimas.
- São mesmo, pelo menos nisso ele é bom. - Sarah disse dando risada.
revirou os olhos, mas decidiu não responder. Era uma batalha perdida discutir com Josie e Sarah, principalmente quando essas duas estão sob efeito de álcool. É, elas não levavam jeito para bebida. Decidiram, então, colocar alguma comédia romântica clichê para assistir enquanto comiam sorvete e faziam comentários bobos durante o filme.

Capítulo 8

Na manhã da véspera de natal as pessoas ficavam ainda mais eufóricas, a cidade ficava ainda mais movimentada com aqueles que deixavam para comprar os presentes de última hora e tudo podia se tornar uma verdadeira confusão rapidamente. Como esperado, deu folga para todos os funcionários, era uma data especial e não teria motivo para abrir o restaurante naquela noite. Porém, ela gostava de ir até lá e cozinhar sozinha, enquanto o restante tentava não cair na neve indo às compras. terminava de decorar um biscoito de natal, colocando-o na forma junto com os outros que já estavam prontos, quando escutou a porta da cozinha bater.
- Jo, to aqui na cozinha. - Ela gritou, pensando ser a irmã mais nova.
- Ei, não é a Jo, ela pediu pra trazer essas caixas pra cá. - entrou na cozinha, assustando um pouco a mulher.
- Ah, sim. Coloca na dispensa pra mim, por favor? - pediu, voltando a atenção para os biscoitos.
- Precisa de ajuda? - se prontificou assim que voltou para a cozinha.
- Não, já estou terminando aqui. - terminou de colocar os biscoitos dentro da caixa, cuidando para que eles não quebrassem. - Vai pra casa da sua mãe agora?
- Não, vou pra minha casa. - estava indo pegar outra caixa, as que continham os chocotones, mas parou no meio do caminho, virando-se em seguida.
- Não está mais morando com a sua mãe? - Ela perguntou, rápido demais pra alguém que não queria ter tanto interesse na vida pessoal de . - Ah, esquece, isso não é da minha conta. - Ela balançou a mão, voltando a fazer suas tarefas.
- Tudo bem. E, não, não estou mais morando com a minha mãe. Consegui alugar um apartamento, está na hora de ter meu canto, já que não tenho previsão de sair daqui.
balançou a cabeça concordando, cruzou os braços e mordeu o lábio inferior ainda pensando na informação que acabara de receber.
- Isso é bom, digo, ter seu próprio canto. Fico feliz por você, de verdade. - Ela sorriu, mas ser simpática não era o forte de .
- É bom mesmo. - Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos se encarando.
- Não vai sair pra comprar os presentes? - perguntou, tentando puxar assunto com . Por mais que negasse, ele gostava da companhia dela, descobrindo um pouquinho mais do seu mundo a cada nova conversa.
- Não. - Ela riu com a pergunta, balançando a cabeça. - Já comprei meus presentes.
- Para todo mundo? - estava jogando verde, já que e Josie passariam o natal com a família dele. - Digo, até pra mim?
estreitou os olhos e ficou em silêncio por poucos segundos, pensando na melhor maneira de responder aquela pergunta.
- Você acha que foi um bom garoto pro Papai Noel lhe trazer alguma coisa à meia noite? - Ela perguntou, tentando não rir.
- Depende, se ele levar ao pé da letra tudo que eu fiz esse ano, então acho que não ganharei nada. - pegou um dos biscoitos de natal, quebrando-o ao meio e entregando outro pedaço para , que o aceitou de bom grado. - Mas, se ele considerar algumas coisinhas, e que eu venho tentando mudar, acho que uma lembrancinha ele é capaz de deixar.
- Então, só te resta esperar para ter alguma surpresa… ou não. - Ela riu, terminando de mastigar seu biscoito. – Mas, falando sério agora, se pudesse escolher um presente, o que escolheria?
– Depende, é você que vai me dar o presente? – Ele perguntou, curioso.
– Hipoteticamente, sim. Anda, desembucha. – apoiou o cotovelo na mesa e apoiou o rosto na mão. pensou por alguns segundos.
– Honestidade, acho que escolheria isso.
– Você acha que eu não sou honesta o suficiente? – perguntou, confusa.
– Você é, mas só sobre trabalho. – Ela entendeu o que quis dizer. Ficou pensativa ainda e, até, apreensiva se deveria contar o que estava na sua cabeça ou não.
– Alguns anos atrás eu fui fazer um curso em Londres, mas em uma das noites acabei indo ao bar que você trabalhava. Eu não sabia, é claro. – Ela levantou os braços na altura dos ombros, como se falasse que não tinha culpa. – Fiquei com medo e vergonha a noite toda que não tive coragem de chegar perto do bar, então minha colega era quem buscava as bebidas.
– Por que ?
– Eu não posso falar agora, mas um dia eu conto, eu prometo. – concordou, voltando a ficar em silêncio. – Quando sua mãe me pediu pra te dar uma chance aqui no restaurante, isso já era uma possibilidade antes dela pedir.
– Você acredita em milagre de natal, ? – Os olhos verdes de brilhavam com a perguntar, mas algo dentro de dizia que era melhor ela parar por ali.
– Não, , milagres de natal machucam. – Ela foi sincera.
– Vamos, eu te dou uma carona. – pegou a caixa com os biscoitos, enquanto pegou a dos chocotones. Logo, ela fechou o restaurante e o caminho até a casa da mãe de não demorou mais de dez minutos. Era um percurso curto, então o silêncio não foi incômodo como costumava ser alguns meses atrás.
– Obrigada pela carona. – Ela disse equilibrando as duas caixas após sair do carro. Mas pegou a maior, entrando na casa tão conhecida por ele.
– Mãe! – Ele gritou assim que pisaram na sala.
– Na cozinha, Josie está aqui. – Ouviram a mulher falar.
– É por isso que você terceirizou o trabalho, é? Que vida boa essa de ficar sentadinha tomando café da tarde. – deu um tapa no braço da irmã, ao passar por ela.
já ia lá de qualquer forma, ele só fez um favor. – Josie falou de boca cheia.
– Você ia? – perguntou, olhando-o com a testa franzida, ele apenas deu de ombros e subiu para o segundo andar da casa.
– O que tá rolando? – Jo perguntou.
– Nada. – balançou a cabeça, aceitando a xícara de café que Tesse lhe entregou. – é uma caixinha de surpresas, às vezes. – disse olhando para Tesse, a mulher concordou rindo.

***


A noite de natal era sempre uma grande festa na casa dos , a senhora Tessie gostava de quando todos se reuniam, podendo aproveitar para conversar sem ter que sair correndo para o trabalho ou, até mesmo, para se desligar um pouco do mundo lá fora. Além das comidas gostosas feitas por todos, eles podiam compartilhar lembranças e aproveitar a presença um do outro. Contudo, não conseguia prender sua total atenção no assunto que estava rolando na mesa, apesar de ter dado alguns comentários rápidos, ela logo se desligava e sua atenção voltava para a figura de cabelos claros sentado à sua frente.
- Então, Jo, quando vai nos apresentar esse certo alguém? - Tessie serviu a sobremesa e perguntou pra Josie, também curiosa sobre o namorado.
- Em breve, só achei que é muito cedo para trazê-lo. - Ela disse com um sorriso no rosto.
- Então só resta você, . - Sarah comentou.
- Eu o que? - perguntou, se fazendo de desentendida.
- Você encontrar alguém.
- Não, obrigada. - Ela riu, sem graça. - Já disse que ninguém quer competir com um restaurante.
- Não seja boba, . Você é uma mulher incrível, só não encontrou o homem certo ainda. - Sarah disse sorrindo para a amiga.
- Mas ela não é a única solteira, não é, ? - Tessie disse olhando para o filho que pareceu se assustar ao ouvir seu nome.
- Não é fácil quando se é um fracassado aos 30 sem uma profissão definida, mãe, você sabe disso. - ajeitou o cabelo para trás tirando-o dos olhos.
- Ai credo, vocês são dois pessimistas, deve ser por isso que estão sozinhos. - Josie disse fazendo careta.
- Vocês bem que podiam ser pessimistas juntos, dariam um belo casal. - Sarah disse dando de ombros. e se olharam, enquanto ela fez uma careta ao ouvir o comentário, tentava prender o riso.
- Parem de falar besteira. E seu namorado Sarah, por que ele não veio? - desviou a atenção deles e agradeceu mentalmente.
- Combinamos de cada um passar o natal com a nossa família e o ano novo juntos.
- Nossa, tem essa coisa de ano novo ainda. Vocês já sabem o que vão fazer? - perguntou, curioso.
- Eu vou passar na casa da tia de vocês, já combinei com ela e as amigas faz tempo.
- O que? Você vai me abandonar, mãe? Isso é um absurdo! - disse fingindo estar muito afetado com a notícia, o que fez todas rirem.
- A menos que você queira passar com um monte de velhas, sim, eu vou te abandonar, bebê.
- Ah, vai ter uma festa de ano novo, eu e meu namorado vamos. Querem ir? - Sarah perguntou.
- Eu topo! - Josie nem esperou Sarah terminar de falar e já parecia super animada.
- É, pode ser. Você vai, Aly? - a encarou.
- Sei lá, talvez eu vá. - Ela deu de ombros. Teria que ir, ficar sozinha no ano novo não era uma opção.
- Ótimo, posso ficar tranquila agora que todos meus filhotes tem um lugar pra passar. - Tessie disse sorrindo.
O jantar seguiu tranquilo sem mais cutucadas indesejadas a e . Assim que terminaram todos foram para a sala com suas respectivas xícaras de chá. O clássico Esqueceram de Mim 2 passava na televisão, e claro que era a mais animada com o filme, era o seu favorito afinal de contas. Tessie, Sarah e Jô dividiam o sofá grande, estava na poltrona grande, mas teve que dar espaço para sentar.
- Essa é a melhor parte. - disse baixo o suficiente para apenas escutar. O acordo de paz estava funcionando tão bem, que ela havia até esquecido que estava sentado ao seu lado.
- Vai ter só o tempo de contar até três pra você levar logo sua carcaça traidora, mentirosa, baixa e vil pra longe daqui! Um, dois…- Ela imitou a fala do personagem, também sabia que aquela era a melhor cena. O barulho de tiro começou a soar pela televisão da clássica cena do hotel, onde os funcionários eram enganados pelas falas de um filme e a travessura do pestinha Kevin McCallister. - Feliz Natal, animal imundo.
- E um feliz ano novo. - completou a fala. Ele também sabia de cor, já tinha assistido algumas dezenas de vezes.
Após a cena clássica, eles voltaram a ficar em silêncio, rindo e fazendo comentários bestas sobre o filme apenas quando necessário. Mas a diversão durou apenas um pouco mais de uma hora e meia, quando o filme acabou recolheu as xícaras de chá de todos da sala e levou até a cozinha. Colocou tudo no lava louças e, ao virar para voltar até a sala, se assustou ao se deparar com parado atrás de si com um sorriso ladino, típico de quando ele estava armando alguma coisa.
- Que susto, ! O que você quer?
- Hmm, olha só, um visco. - Ele tirou uma das mãos de trás de suas costas segurando um galhinho de visco. - Sabe o que diz a tradição, não sabe? - Ele sorriu para .
- Ah, me poupe, , deixa de ser bobo. - Ela deu risada e o empurrou tentando passar.
- Sabe que dá má sorte não beijar quem tiver embaixo do visco, né? - Ele continuava segurando o galhinho e impedindo sua passagem.
- Você é ridículo, sabia?
- Aham, eu sei. Agora vai, me dá um beijo. - Ele fechou os olhos fazendo bico. viu que não teria escapatória. Ficou na ponta dos pés e lhe deu um selinho.
- Tá vendo só, não custa nada. - Ele deu risada fazendo-a corar.
- Você é insuportável! Da isso aqui. - Ela pegou o ramo da mão de pronta para voltar para a sala.
- , espera. - Ele segurou sua mão fazendo ela se virar.
- Que foi? Vai querer mais um beijo, ? Tá afim de mim? - Foi a vez de abrir um sorriso provocativo para . O rapaz deu risada e balançou a cabeça negativamente.
- Não, é sério, vem cá, tenho uma coisa pra você. - a segurou pela mão e a levou até o jardim que agora estava todo iluminado pelas luzes de natal.
- Não é mais uma piadinha, né? Se você tiver se embrulhado com um laço, eu vou te matar !
- Shhh, fica quietinha um pouco, me deixa falar. - Ele se sentou no degrau da varanda e ela fez o mesmo, sentando ao seu lado.
respirou fundo e tirou uma caixinha quadrada do bolso.
- Eu achei isso ajudando minha mãe a arrumar umas coisas no meu antigo quarto, não sei o porquê isso estava lá, mas fiquei feliz de ter achado. Eu mandei reformar pra você. - Ele entregou a caixa para a moça que agora o olhava com uma cara de dúvida. não esperava ganhar um presente de nem em sonho.
Ao abrir a caixa levou a mão até a boca e os olhos automaticamente se encheram de lágrimas, ela olhava da caixinha para incrédula procurando por palavras.
- Isso… isso era da minha mãe! Ela estava com ele no dia…
- Isso mesmo. Minha mãe ficou responsável por algumas coisas naquele dia e, bom, ela ficou com isso. Mas acho que com o tempo acabou esquecendo de dar a vocês ou ficou com medo de ficarem tristes. - Ele deu de ombros, ainda com medo da reação ser negativa.
- Meu Deus, eu nunca imaginei que veria isso de novo. - Ela tirou o colar de sua mãe da caixinha o segurando nas mãos, as lágrimas agora rolavam pelo seu rosto.
- Desculpa, eu não queria te deixar triste, eu posso…
- Não, eu não tô triste, eu só…. acho que estou surpresa. Mas eu estou muito feliz. - Ela sorriu largo ainda com os olhos marejados e se jogou nos braços de , dando um abraço forte. - Obrigada por isso, , de verdade. Não sabe o quanto significa pra mim. - ela o deu um beijo no rosto em agradecimento e voltou a olhar o colar.
- Não precisa agradecer, ele devia estar com você há muito tempo já. - sorriu olhando a garota admirando o colar. - Quer que eu coloque em você?
- Quero sim. - Ela o entregou o colar e se virou levantando os cabelos soltos.
colocou com cuidado a peça delicada de ouro em , dando um beijo leve em seu ombro após fechar o colar.
- Obrigada, , de verdade. - Ela sorria com a mão em cima do colar. - Você é mesmo uma caixinha de surpresas, .
- Talvez eu seja… talvez você apenas não me conheça o bastante ainda, mas eu sei que vou mudar isso. - piscou para que deu risada. - Vem, vamos pra dentro, está frio. - Ele se levantou e virou em direção a porta.
- Espera. - o segurou pela manga da camisa xadrez de flanela.
se virou para , que deu um passo à frente em sua direção, sem hesitar segurou a nuca de e selou os lábios dos dois em um beijo calmo. sorriu entre o beijo e a abraçou pela cintura, se curvando um pouco para que não precisasse ficar na ponta dos pés.
a puxou para mais perto e aprofundou o beijo, fazendo carinho em sua cintura com o polegar. Diferente de outros, esse beijo não tinha pressa, nem outras necessidades. Era apenas um presságio de um belo sentimento nascendo. O qual só o tempo poderia dizer. Mas ambos gostavam do que estavam vivendo.
- Feliz natal, . - Ela disse sorrindo, com o rosto ainda perto de e os braços envolta de seu pescoço.
- Feliz natal, . - Ele disse e deu um selinho demorado na garota.


Continua...



Nota das autoras: Hum, o que acharam desse capítulo, hein? Um pouquinho do passado do e um sermão da mãe ainda hahaha. Estamos curiosas pra saber o que vocês esperam dos próximos capítulos, conta aí pra nós. Até a próxima <3

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