Contador:
Última atualização: 12/10/2020

Capítulo 1

caminhava de um lado para o outro dentro da enorme cozinha de seu restaurante. Enquanto tentava dar conta de tudo. E era tudo mesmo. Isso inclui temperar saladas, preparar pratos, grelhar carnes, enfim, tudo. Ela sabia que o último chefe tinha pedido demissão por sua culpa e jurou melhorar. Mas, enquanto não conseguiu ninguém bom o suficiente para pôr em seu lugar, ela conseguia se virar muito bem até o final do expediente. Mesmo que isso a deixasse com o corpo totalmente dolorido no final do dia.
- ! - Sua irmã e melhor amiga, Josie, gritou no meio da cozinha. Conseguindo atrair a atenção de , mesmo que essa atenção fosse apenas um olhar raivoso. - Eu já disse que você precisa de um ajudante.
- E eu já te disse que não consegui ninguém bom o suficiente ainda. - Colocou a frigideira de volta no fogão. - Agora saia da minha cozinha, principalmente porque você está sem luvas e com esse cabelo seboso solto. Vá, vá. - Josie não tinha escolha se não se retirar da cozinha. Ela sabia que a irmã estava sobrecarregada e se não fosse tão ruim na cozinha, a ponto de nem saber fritar um ovo, já estaria dentro do restaurante a ajudando. Nesse caso, o máximo que podia fazer era manter as finanças em dia e tratar os melhores preços e produtos com fornecedores da cidade.
revirou os olhos com a teimosia de sua irmã, tinha quase certeza que a garota fazia de propósito. Entretanto, sabia que ela queria ajudar de alguma forma, mas não sabia como. A verdade é que nem sabia como se ajudar. Aparentemente ninguém mais naquela cidade do interior da Inglaterra tinha gosto para a cozinha. Há quase dez anos atrás tinha tomado coragem o suficiente para finalmente realizar o seu maior sonho e abrir seu primeiro restaurante em Nottingham. Não era nem de longe o lugar que ela achou que faria sucesso, mas sabia muito bem sua capacidade e seus limites. Soube usá-los muito bem ao seu favor e no momento certo, agradando o paladar de todos da cidadezinha do interior. Quando o último cliente deixou o estabelecimento satisfeito, era de certa forma um alívio para . O trabalho duro no final do dia valia a pena. Olhou para a cozinha ao seu redor, ainda teria que organizar tudo antes de ir para a casa e ter o descanso merecido; aquilo levaria mais uma hora no mínimo.
- Vamos lá, nisso eu posso te ajudar. - Josie entrou na cozinha, dessa vez com sua irmã mais calma, sabendo que não seria expulsa. De certa forma, Josie era seu braço direito, desde o início tem sido a única pessoa que apoiava em todas as suas decisões. Mas também era aquela que sabia falar um não quando ela precisava ouvir. Isso mesmo, quando precisava e não quando queria.
A última panela já estava lustrada, o último prato guardado e o último copo brilhava no armário. Um suspiro aliviado escapou na boca de ambas. Por mais que estivesse vivendo o sonho, cozinhar e comandar um restaurante sozinha - ainda que pequeno - não era tão fácil assim. Entretanto, ela sabia que as coisas só iriam sair exatamente do seu jeito se ela mesmo colocasse a mão na massa. Isso não era problema para .
- Você me dá uma carona? - fechou a porta de vidro, logo após de ligar o alarme do local, e se virou para Josie.
- Como se eu tivesse escolha, não é mesmo? Você mora tão longe de mim para eu dizer não. - Ela revirou os olhos e riu logo em seguida, mas a única coisa que recebeu foi o dedo do meio como resposta.
As casas da pequena cidade eram bem parecidas, mantendo quase o mesmo ar medieval de séculos passados. Por fora elas até poderiam ter a mesma aparência, mas por dentro quase todas haviam sido reformadas e mostravam-se muito mais espaçosas. Foi exatamente isso que as irmãs fizeram. Após a morte de seus pais, elas resolveram deixar a casa com a cara delas dando um novo charme ao local. O dia sem dúvida tinha sido longo, então tomar um banho relaxante e colocar os pés pra cima era a prioridade delas. Não exitaram em fazê-lo assim que abriram a porta de casa.
Lar doce lar.

*


subiu as escadas e abriu a porta de seu novo quarto. Após ser chutado pela namorada, que estava junto ao longo de três anos, precisou encontrar um novo lugar para chamar de casa já que dividia o antigo apartamento com a mulher. Tomou um longo banho quente, colocou uma boxer e se jogou na cama. Não conseguia parar de pensar o que faria de sua vida agora. Estava sem teto e precisava urgentemente de um novo emprego, já que o pub em que trabalhava estava prestes a mandá-lo embora, ele sabia disso. Ouviu seu telefone tocar, despertando-o de todos aqueles pensamentos. O número de sua irmã, Sarah, piscava na tela. Ela não costumava ligar a não ser que fosse importante, então decidiu que deveria atender.
- Oi Sarah, aconteceu algo? - Perguntou sem enrolação.
- , é a mamãe. Ela não tá muito bem. - A voz receosa de Sarah no outro lado da linha só fazia ficar ainda mais preocupado. - Viemos para o hospital. Achei que você precisava saber disso.
- O que ela tem? É grave? - já estava em pé andando de um lado para outro do quarto sem ao menos perceber.
- Não sabemos ainda. Estão levando ela para fazer alguns exames agora. Poderia vir visitá-la? Acho que me deixaria mais calma ter você aqui comigo. - Sua voz estava um pouco abafada, demonstrando que estava prestes a chorar.
- Tudo bem Sarah, eu estou indo agora mesmo. Aliás… - Pensou bem antes de fazer a pergunta. - A mamãe ainda tem meu quarto na casa dela arrumado?
- Acho que sim. Por que a pergunta?
- As coisas não estão fáceis aqui, vou precisar voltar. - Suspirou fundo passando a mão livre nos cabelos.
- Sabe que aqui sempre vai ter um lugar pra você, né? Vem, a gente resolve isso quando você chegar. - Sarah disse com a voz mais calma tentando confortar o irmão.
- Tudo bem, chego aí o mais rápido possível.
- Tá bem, me liga quando chegar.
Dar um passo para trás era uma decisão muito difícil de tomar. não queria aquilo de forma alguma, mas ele não tinha escolhas. Sua família precisava dele e ele dela, agora mais do que nunca. Pegou suas poucas malas, devolveu a chave a recepção do hotel e partiu até a o aeroporto para pegar um avião que o fizesse chegar mais rápido. Porém não havia horários disponíveis para aquele dia, apenas para o próximo.
Então, infelizmente precisou recorrer a viagem de trem que levaria um pouco mais de duas horas pela estrada de ferro. se sentou encostado na janela e observando a estrada passar conforme iam se movendo. Lembrou de quando se mudou para a capital inglesa, ainda era um rapaz cheio de sonhos e metas a cumprir. Uma pena em algum momento ele ter se perdido e não ter realizado todos esses sonhos. Como se não bastasse agora ali estava ele, voltando para a casa de sua mãe a essa altura da vida. O fracasso parecia ser seu único companheiro. Nesse momento, ao menos, tentou não pensar nisso. Estava preocupado demais com a saúde de sua mãe para sentir pena de si mesmo.
acordou quando o trem parou, o burburinho da estação anunciava que ele havia chegado ao seu destino. Já fazia um bom tempo desde que não pisava seus pés em Nottingham. O sol já ameaçava a nascer ao horizonte quando decidiu, por fim, pegar um táxi e seguir direto para a casa de seus pais. A qual ele conhecia muito bem, mas já não visitava a um tempo.
Por fora, a fachada era exatamente como ele lembrava. A varanda sempre arrumada e com um vaso de flor próximo ao sofá confortável, no qual já havia passado várias madrugadas conversando com amigos quando mais jovem. Tudo aquilo parecia tão distante, mas assim que fechasse os olhos as lembranças invadiam sua mente fazendo parecer que havia sido ontem. Pegou a chave reserva que, obviamente, sua mãe mantinha no mesmo lugar desde os seus 10 anos de idade. Mandou apenas uma mensagem para Sarah avisando que tinha chegado. Era cedo demais - ou talvez tarde, já que não havia dormido direito - e preferiu não ligar para não acordá-la aquele horário.
Subiu as escadas com suas malas e encontrou a porta de seu quarto aberta. Estava tudo como havia deixado, porém mais sofisticado do que antes. Agora aquele ele era o quarto de hóspedes da casa, não o quarto de um jovem e rebelde. As emoções de estar de volta eram tantas, mas o cansaço era ainda maior. Assim que se jogou na cama, se permitiu ser tomado por todo o cansaço de uma noite na estrada e pegou no sono.

Capítulo 2

- Você soube quem está de volta à cidade? - Josie serviu uma xícara de café para si mesma, enquanto a xícara com chá de canela já estava servido e pronto para ser tomado por .
- Bom dia pra você também. - A morena se sentou em frente a irmã, tomando um gole da sua bebida. - Respondendo a sua pergunta, não sei. Quem? As vezes eu fico abismada como a fofoca roda rápida nessa cidade. - Abriu o jornal na parte de fofocas, gostava de se alienar um pouco antes de focar totalmente no seu trabalho.

- . - quase cuspiu toda sua bebida na cara da irmã ao ouvir aquele nome sair da boca da mais nova.

- . Àquele ? - perguntou torcendo para que não fosse quem ela pensava ser.
- Sim, esse mesmo que você está pensando. - A cara de felicidade, logo pela manhã que mantinha em seu rosto, foi substituída por uma carranca de mal humor. Ela parecia não acreditar que aquele infeliz estava de volta à cidade. Só os deuses e sabiam o quanto tinha feito da adolescência da garota um verdadeiro inferno. Não é à toa que ela não podia nem ouvir falar naquele nome. Era tão proibido quanto chamar por Lord Voldemort no universo dos bruxos. Nesse caso, era no universo de mesmo e nada a faria mudar de ideia quando o assunto envolvia você-sabe-quem.
- Você conseguiu falar com o novo fornecedor? Uma pena ninguém querer assumir os negócios do senhor Nicholas. - mudou de assunto, ou tentou, já que viu a cara de reprovação da irmã. Voltando sua atenção para o jornal.
- Ele está procurando um emprego novo.
- O último pedido de verduras da fazenda do senhor Nicholas é pra chegar hoje. Tenho que ir mais cedo para o restaurante. - Ela ignorou totalmente o que Josie falou. O aniversário de dez anos do restaurante estava chegando e precisava estar tudo pronto o quanto antes. Seu novo fornecedor era sua maior preocupação no momento.
- Você está me ouvindo ou vou mesmo precisar repetir?
- O que você quer que eu diga? Eu estou cheia de coisa pra resolver no restaurante, minha última preocupação vai ser . Sinceramente, não acho que algum dia ele será. - Jogou o jornal em cima da mesa irritada, se levantando em seguida.
- Tassie passou mal ontem a noite e foi para o hospital. É por isso que voltou. - parou no meio do caminho, estava pronta para pegar sua bolsa e sair de casa.
- Caralho, Josie! Você está fazendo a fofoca errada esse tempo todo. - Jogou as chaves para a irmã. - Você abre o restaurante, estarei lá o mais rápido possível.
nutria um sentimento de carinho muito grande pela senhora , mesmo com todas as diferenças que tivera com o filho mais velho da mulher. Após o acidente de seus pais, que os levaram a óbito, Tassie passou a cuidar de e Josie como se fossem suas filhas. Mesmo sabendo que as duas já estavam grandes o suficiente para cuidarem de si mesmas. As duas famílias se conheciam há muitos anos, o único modo que as fez não perderem o contato. No caminho para o hospital, tentou ligar para Sarah, mas a garota não atendeu a nenhuma de suas chamadas. Os corredores brancos iluminados pelas fortes luzes fluorescentes ainda assustavam , a última vez que estivera ali a notícia que recebera não havia sido nada boa. Ignorou todos os seus medos se dirigindo para o terceiro andar do prédio, após instruções da recepcionista. Se sentiu aliviada ao ver Sarah na sala de espera, aguardando notícias da mãe.
- Sarah! - A loira, antes sentada na poltrona no canto, levantou o rosto ao ouvir seu nome. - Como sua mãe está?
- Bem, mas ainda precisa fazer alguns exames. - Ela disse um pouco apreensiva.
- Eu não vou poder ficar, mas me dê notícias, ok?!
- Sem problemas, . Vou falar pra ela que você esteve aqui, vai ficar feliz em saber. - Tentou sorrir, mesmo não sendo o momento adequado. abraçou Sarah, como uma forma de conforto e de acalmar a mais nova.
- Passe lá no restaurante mais tarde e me mande notícias da sua mãe. Sinto sua falta, pirralha. - Ela quebrou o abraço, se despedindo de Sarah.
Das três mulheres, era a mais velha, com as suas 34 primaveras na conta; depois vinha sua irmã Josie, com os 29 anos; e por último, a amiga Sarah, filha da senhora , com seus 27 anos. Por ter crescido numa cidade pequena, apesar de Nottingham não ser tão pequena assim, a família e a família se conheciam antes mesmo de nascer. Então, as três garotas praticamente cresceram juntas e, claro, também fez parte dessa criação. Até ele completar vinte anos e perceber que não queria seguir carreira na área de administração, o qual tinha se formado apenas por influência do pai. A vida na cidade grande parecia ser mais atrativa para ele. A capital inglesa era muito atrativa, além de ser o sonho de todo o jovem do interior. Entretanto, diferente de , sabia o que queria da vida e sua vida estava naquela cidade. O gosto pela cozinha era de berço. Seus avós tinham um restaurante quando sua mãe ainda era jovem. Então quando ela nasceu e teve idade o suficiente para chegar perto de uma cozinha, a culinária nunca mais saiu de sua vida. Aprendera algumas receitas com os pais, algumas saíram melhor que encomenda e outras não deram muito certo. Nada que com o tempo não tivesse dado certo, afinal começou a estudar cada prato que gostaria de fazer ou aprender melhor. Quando terminou o ensino médio, já sabia que gastronomia seria o curso da sua vida e não foi diferente. Depois da graduação, a única vez que saiu do país foi para estudar em Paris. Aprender mais um pouco nunca era demais para ela.

*


Os raios de sol batendo em seu rosto, fez acordar mais uma vez naquela manhã. O relógio em cima da cabeceira, ao lado da cama, já marcava nove horas da manhã. Levantou, tomou um banho e desceu para a cozinha, pronto para preparar seu café. Claro, não sem antes acender o primeiro cigarro do dia. Foi até o jardim aos fundos da casa, enquanto a água fervia no fogão. Fumar na cozinha de sua mãe era pedir para ver uma Tessie furiosa. E ninguém queria aquilo, principalmente que mal havia chegado na cidade. Mais de dez anos tinham se passado, mas a casa em que ele estava agora parecia exatamente a mesma que deixou para trás. Sacou seu celular do bolso da calça e mandou uma mensagem para Sarah, avisando que logo estaria no hospital. Não sem antes perguntar qual a situação de sua mãe, mas obteve apenas uma resposta rápida e um “vem logo” da irmã. Terminou de tragar o cigarro, voltando para dentro da casa pronto para servir uma xícara de café. Aquilo era o suficiente pela manhã, já que não estava acostumado a acordar cedo devido ao trabalho a noite no pub. Já podia imaginar o sermão que receberia da senhora ao descobrir a péssima alimentação que o filho estava tendo. Mas ele não se importava no momento, a saúde de sua mãe era prioridade. Após o café, subiu para o quarto para trocar de roupa. Decidiu, então, colocar uma camiseta branca, uma calça jeans escura e uma jaqueta da mesma cor da calça. Ajeitou o cabelo para trás e colocou um boné para disfarçar, não perderia tempo tentando arrumar o que para ele não faria diferença mesmo.
O hospital não ficava longe de casa, então decidiu ir caminhando. O local ficava apenas algumas quadras da casa, o que o fez aproveitar o tempo para pensar em sua vida e o que faria dela a partir de agora. Ele havia se mudado de Nottingham após se formar no colegial. Desistiu do emprego que tinha, deixando seu pai um pouco decepcionado ao ver o filho sem um futuro certo. Juntar as poucas malas e partir para a capital britânica parecia o ideal para ir em busca de seu sonho de ser músico. Mas a vida nem sempre é fácil e lhe prega peças. tocava guitarra em uma banda com os amigos na época de escola e ele realmente gostava disso. Achou que teria mais sorte na cidade grande, mas não foi exatamente o que aconteceu. Nos primeiros anos ele até encontrou alguns caras legais, com o mesmo objetivo. Entretanto, com focos diferentes, já que era o único que tentava fazer aquilo dar certo de verdade. Então, ele precisou procurar um emprego de verdade, o qual pudesse se manter na cidade. Isso o ajudou a descobrir que era bom em preparar drinks. Se acomodou com o emprego no pub, o que o fez entrar em uma zona de conforto e nunca mais sair dela. Agora, de volta a sua cidade natal, morando na casa de sua mãe e com o destino incerto nas mãos de quem quer seja o governante desse universo.
estava próximo ao hospital, pronto para acender mais um cigarro antes de entrar no local. Quando a silhueta que viu mais a frente chamou sua atenção. Ele a conhecia de longe, reconheceria em qualquer lugar. Obviamente ela estava um pouco diferente, mas nada que não o fizesse a reconhecer. Os cabelo longos e encaracolados não o deixaram ter dúvida. Ela estava mais crescida, e muito, muito mais gostosa. Mas com certeza era ela, .
entrou no hospital, pegou a autorização de visitante na recepção e seguiu até o quarto onde sua mãe estava. Bateu na porta, encontrando com Sarah em pé, ao lado da cama, conversando com a mãe após abrir a porta.
- Oi minhas garotas, cheguei. - Sorriu e abriu os braços já esperando um abraço de Sarah que corria em sua direção. Sentia falta das duas.
- Achei que não vinha mais. - Sarah disse soltando o irmão, guiando-o até a cama onde estava a mãe.
- Oh meu amor, o que está fazendo aqui? Eu disse para Sarah não te ligar e te deixar preocupado! - Tassie dizia enquanto o abraçava apertado, demonstrando o contrário de sua fala.
- Ela está certa em ter ligado mãe. Acho que você está precisando de um bom enfermeiro para cuidar de você. E adivinha quem está com tempo livre? Ah isso mesmo, o seu filho preferido. - Ele deu risada sendo seguido pelas duas.
- Veio mesmo pra ficar? - Sarah perguntou fazendo careta, sabia que o irmão gostava de viver em Londres.
- Sim, talvez fosse melhor passar um tempo em um lugar diferente. Mas as coisas estavam desandando em Londres. E eu sinto falta de vocês, foi melhor voltar - deu de ombros, mas ainda estava triste por estar voltando feito um cachorro com o rabo entre as pernas.
- Vai ser ótimo ter você aqui comigo de volta, meu amor. - A mãe deu um beijo em seu rosto.
- E a senhora, dona Tassie? O que aconteceu para estar aqui?
- Então, querido irmão… parece que alguém anda se alimentando mal e tendo uma rotina agitada demais. Acabou tendo uns probleminhas com pressão e colesterol, mas já está tudo mais estável agora. Só precisa começar a se cuidar melhor.
- Não acredito, mãe!- Ele disse incrédulo. - Ficava me ligando pra saber se eu estava me cuidando, mas não estava cuidando de você né?! Tudo bem, agora eu estou aqui e vou cuidar muito bem de você. - abraçou a mãe de lado e beijou sua testa.
- Vou ficar mal acostumada assim com vocês dois me mimando. - ela disse sorrindo para os filhos.
- O médico já disse quando vai ter alta?
- Na verdade ele foi fazer os papéis já, logo ela pode ir embora. - Sarah explicou ao irmão.
- Que bom. - ele sorriu. - er… eu vi uma mulher saindo do hospital, parecia a , era ela mesmo ou estou louco?
- Era ela sim. Veio aqui ver a mamãe, mas estava com pressa porque tinha que resolver algumas coisas no restaurante.
- Ela abriu mesmo o restaurante? Que legal isso. - ele sorriu.
- Ela é incrível. Se tornou uma mulher maravilhosa a irmã também, mesmo ainda sendo meio doidinha. - Tassie disse com todo o carinho que tinha pelas duas. começou a relembrar do passado e das vezes que conviveu com e Josie. Eles foram praticamente criados juntos, mas não gostava muito dele. O que era aceitável, já que tinha sido um belo de um adolescente babaca. Logo o médico chegou para finalizar a alta de sua mãe e finalmente puderam ir para casa.
Assim que chegaram Sarah foi para a cozinha fazer o almoço, já que a mãe estava reclamando da comida do hospital. Isso porque não havia ficado nem um dia completo no local. aproveitou para ficar um pouco com a mãe e conversar com ela, contar o que havia acontecido e o motivo de ter voltado. Logo Sarah anunciou que o almoço estava na mesa e todos foram pra pequena, mas aconchegante cozinha de dona Tassie.
- Meninos, estava aqui pensando… o que acham de chamar as meninas para virem jantar aqui com a gente? Faz tempo que não as vejo e aí aproveitamos pra comemorar a volta do meu anjo aqui. - ela disse passando a mão no cabelo de que sorriu para ela.
- Eu acho uma ótima ideia mãe, meu namorado está em uma viagem de serviço. Então estou sozinha em casa, posso ficar aqui e fazer a comida pra todos nós. - Sarah sempre sendo pró ativa e se propondo a fazer as coisas.
- Por mim tudo bem, porém acho que a não vai ficar feliz com isso. Ela me detesta e vocês sabem.
- Claro né, você não vale nada . Certeza que fez alguma merda.
- Ei vocês dois não comecem! Vocês estão maiores que eu, mas ainda posso muito bem dar uma chinelada em cada um!
- Olha só, mal saiu do hospital e já quer bater na gente Sasi. Tá bem já pelo jeito. - disse fazendo a irmã rir e recebendo um tapa de leve no ombro da mãe.
- Vocês ainda vão me deixar louca. - a mãe disse depositando seu prato na pia. - Eu vou lá ligar para as meninas e vocês dois vão pensando aí no que fazer. Sarah cozinha e vai no mercado comprar o que faltar.
- Sim senhora. - Os dois disseram juntos batendo continência. A gargalhada alta de ambos soou pelo cômodo enchendo a casa de vida. Era um costume que eles tinham desde pequenos fazer aquilo. ficava feliz em ver que pelo menos ali ele podia se sentir em casa. E, melhor que isso, ter a certeza que estava cercado de pessoas que o amavam.

Capítulo 3

gostava de deixar a maioria dos seus ingredientes cortados, embalados corretamente e, se possível, temperados. No caso daqueles que ela usaria o quanto antes. E era exatamente isso que ela estava fazendo, o último pedido de verduras já havia chegado. Guardou tudo que não usaria agora e separou aqueles necessários para a próxima receita. Como era segunda-feira, o restaurante não abriria para o jantar, apenas no período da manhã para o almoço. Assim, conseguia pelo menos descansar do período da tarde em diante. Mas como era teimosa, adiantava todo o serviço no restaurante e no fim das contas a folga não servia para muita coisa. Pois, ela continuava trabalhando até mesmo quando podia descansar.
- O que está fazendo aqui ainda? O restaurante não abre hoje à noite.
- Eu sei, mas eu preciso deixar tudo organizado. - Colocou o pote com a costela suína temperada na geladeira. - Amanhã tem o almoço da empresa do senhor Thompson e são mais de trinta pessoas só da empresa dele.
- Verdade. Não sei como quase esqueci, já que ele ligou hoje pela manhã umas cinco vezes. - Josie disse revirando os olhos, foi até a pia lavar as mãos e colocou as luvas em seguida.
- Você sabe como ele é. Mas não posso reclamar, todo ano ele traz cliente novo para nós. - acompanhou os movimentos da irmã com os olhos, estranhando a ação. Josie nunca ajudava na cozinha e as duas sabiam muito bem o motivo. Cozinha e Josie na mesma frase só podia ser encrenca na certa.
- Será que dá tempo de fazer aquela torta de pêssego que só você sabe fazer? - Jo perguntou receosa. Ainda não havia contado para a irmã sobre o convite.
- De quanto tempo exatamente estamos falando? - guardou os morangos em tigelas, após serem cortados. Ela chegaria mais cedo no outro dia e os usaria para preparar uma geleia para sobremesa.
- Um pouco mais de uma hora, mas não mais que isso. Precisamos ir para casa trocar de roupa.
- Desembucha logo, Josie . - não gostava de enrolação e sabia quando a irmã fazia isso de propósito. Com certeza Josie achava, que assim, a irmã mais velha ficaria menos brava, mas só acabava causando o contrário.
- Vamos jantar na casa da senhora . Já confirmei nossa presença, não adianta dizer que não vai.
- Josie, eu odeio quando você faz isso. Eu juro que só não te mato dessa vez, porque eu já sabia do convite e estava só esperando você falar. - sorriu vitoriosa, mesmo vendo que Josie nem se abalara com o sermão.
- Ok, ok. Faz logo essa torta, por favor. - Ela bateu palminhas animada, feito uma criança quando ganha doce. - Eu termino isso pra você, pelo menos cortar legumes eu sei.
O cheiro da torta de pêssego exalava por toda cozinha, o cheiro estava tão bom que chegava a dar água na boca. Se uma coisa que você nunca poderia falar que não sabia fazer, essa coisa é cozinhar. Seja doce ou salgado, ela sabia muito bem como fazer. E era impossível resistir a qualquer comida que fosse feita pelas mãos de .

mal conseguiu colocar o último brinco quando ouviu Josie gritar no andar de baixo pelo seu nome. Soltou um suspiro baixo, tentando criar coragem para enfrentar o que estava pela frente. Já se faziam mais de dez anos e, mesmo assim, ainda queria arrancar a cabeça do maldito e lindo . Antes de sair de casa, pegou a torta de pêssego pronta em cima da mesa e encontrou com Josie já pronta no seu banco de motorista. A irmã mais nova estava tão ansiosa que se dispôs a dirigir aquela noite, coisa que acontecia quase nunca. Seja lá o que fosse, torcia para a irmã não estar aprontando nada. A porta da casa da senhora foi aberta por Sarah, que não conseguia controlar o seu sorriso. A correria do dia-a-dia as vezes impossibilitava os encontros, antes tão comuns, entre elas. Mas estavam felizes por poderem passar algumas horas juntas.
- Trouxe torta. - disse animada, levantando o prato da altura do rosto de Sarah. Josie deu um beijo no rosto de Sarah e entrou na casa, sem nem mesmo pedir licença. É, não podia dar intimidade para ela ou ela levava a sério demais.
- Entra, entra. - Sarah fechou a porta, caminhando ao lado da em direção a cozinha. - Eu sei que você e o meu irmão se odeiam, mas…
- Sarah, estou aqui por você e pela sua mãe. Vamos esquecer isso, ok? - tentou manter todo o seu autocontrole, mas não sabia se realmente conseguiria mantê-lo na primeira piada que soltasse. Esperava que ele tivesse mudado, afinal as pessoas amadurecem, não é mesmo? Era isso que ela veria agora. - Senhora , que susto você nos deu hoje. - abraçou forte a senhora de cabelo loiro, quase branco, sendo correspondida da mesma forma.
- Oh, minha querida, eu estou bem agora. Foi só um sustinho pra me deixar esperta. - ela deu risada - E agora eu tenho dois enfermeiros para cuidar de mim. O está de volta e pra ficar. - Ela sorriu largo.
- Estou aqui sim e vou controlar a senhora pra não ficar mal de novo. - Ele disse terminando de descer as escadas e ajeitando o cabelo ainda molhado. - Quanta mulher bonita em uma sala só. - sorriu e caminhou até Josie. - Meu Deus, como você cresceu, Jo! Está linda. - Ele sorriu e abraçou a mais nova. - Olá, , quanto tempo. - ele a abraçou forte e beijou o seu rosto. Mesmo sabendo que ela não era sua maior fã, não podia negar que a mulher estava muito mais bonita do que ele se lembrava.
- É, quanto tempo. - respondeu ainda desconfiada. Porém, sentir o perfume de tão próximo de si pode ter deixado-a um pouco zonza.
- Vamos jantar logo, estou morrendo de fome. - Sarah quebrou o quase clima tenso prestes a se instalar no cômodo.
- Eu fiz aquela lasanha que eu sei que vocês gostam, Sarah me ajudou. - Tassie disse servindo os pratos.
- Eu tentei fazer ela ficar quieta, mas é quase impossível. Essa mulher é difícil. - disse fazendo-os rir.
- E, então, , o que anda fazendo? - Josie começou a perguntar, mas podia sentir de longe o cheiro de tramóia da irmã.
- Bom, no momento estou tentando reorganizar minha vida já que ela mudou completamente. - Ele riu meio sem graça. - Pra começar preciso de um emprego, se conhecer um pub precisando de barman, por favor, me diga.
- Não conheço pub, mas conheço um restaurante que precisa de alguém. - deu um chute, por baixo da mesa, na perna de Josie. Ela sabia que a irmã não ia conseguir controlar aquela língua.
- Ah, que ótimo. Qual restaurante? - Por alguns instantes ele até pareceu animado. O que fez se sentir péssima, por outro lado.
- O da . - Os ombros de murcharam ao ouvir a resposta. Ele sabia que suas chances de trabalhar com eram mínimas. - O último chefe pediu demissão e ela precisa muito de alguém o quanto antes.
- O não é muito jeitoso na cozinha. Mas aprende rápido e não é um completo desastre. - Tassie disse fazendo todos rirem.
- Valeu, mãe. - deu risada. - Quem sabe eu possa fazer um teste qualquer dia. - Deu de ombros e olhou para .
- Mas não vamos estragar nosso jantar falando de negócios, não é mesmo? - Mais uma vez a voz de Tassie se fez presente. O clima já estava desconfortável demais e ficaria ainda mais, caso recebesse uma resposta negativa de .
- Enfim...O que anda fazendo, Jo? Última vez que te vi ainda estava se formando. - disse terminando seu jantar.
- Eu administro o restaurante da , além de levar várias broncas dela.
- Você fala como se eu fosse uma péssima chefe. Mas garanto que nenhum outro lugar vai te dar tantas regalias.
- É, tem suas vantagens. - Josie disse rindo.
- Já terminaram? Posso tirar os pratos? - Perguntou Sarah ouvindo todos afirmarem, logo em seguida ela se levantou e recolheu os pratos os colocando na lava louças.- Podem ir para a sala, vou fazer um chocolate quente pra gente.
- Eu te ajudo aqui. - Josie foi a primeira a se pronunciar.
- Não mesmo, vocês são visitas, podem ir para a sala de tv enquanto eu faço as coisas aqui.
- Venham meninas, deixe que a Sarah cuida de tudo por aí. - Tessie seguiu para a sala, ligando a TV logo em seguida.
- Eu já vou, mãe. - disse saindo para o quintal, já colocando seu cigarro na boca ainda sem acendê-lo.
se sentou no degrau que separava a varanda e o jardim, acendeu seu cigarro e começou a mexer em seu celular. Uma mensagem de sua ex era sinalizada na tela, o que o fez ficar ainda mais irritado. Na sala, perguntava a Tessie como tinham sido as coisas no hospital e se ela estava bem, e a patriarca explicou tudo para as meninas. Depois de um tempo em silêncio olhando para a tv, Tessie quebrou o silêncio.
- , sei que não é o melhor momento. Na verdade, não sei se teria um momento bom para isso, mas queria lhe perguntar se não poderia dar uma chance para .
A mulher a olhava com um olhar triste, era difícil para dizer não para aquela mulher que cuidara dela e da irmã tão bem; mas seu filho realmente não merecia tal consideração.
- Eu sei, vocês tem suas diferenças. Nunca entendi o motivo, mas eu sei que não se dão muito bem. Sei também que não tem experiência com culinária, o que é difícil pra você, mas ele foi a três pubs diferentes nestes dois dias em que está de volta e ninguém o aceitou. A cidade é pequena e todos estão com o quadro de funcionários completos. Ele anda muito desanimado e sinto que não está bem, até agora não me contou o que aconteceu para que voltasse.
- Senhora , sabe o quanto eu a amo e respeito, mas não sei se poderia confiar ao um cargo no meu restaurante. Lá todos levam seus trabalhos muito a sério, aquilo é a minha vida e a de muitos ali, não é apenas um passatempo para ganhar um dinheiro e dar o fora quando bem entender. - foi sincera, por mais que doesse dizer isso a Tessie.
- Sei disso e pode ter certeza que não te pediria se realmente não fosse necessário. não é mais aquele jovem inconsequente que você conheceu, ele mudou, não vou dizer que é perfeito, por mais que eu ache, sei que não é. Mas eu te prometo que ele vai levar isso a sério e ser responsável.
- A senhora promete o fazer entender que não é apenas uma brincadeira e ele vai precisar suar a camisa para manter a vaga dele?
- Sim, eu prometo que falarei com ele para que leve isso a sério mais do que tudo que já fez na vida. Não vai se arrepender se lhe der essa chance, . Você é uma mulher incrível, acredito que conviver com você vai fazer dele uma pessoa melhor.
- Tudo bem, então temos um acordo. Eu dou uma chance ao e a senhora se assegura de que ele não me tire do sério.
- Obrigada, , não sabe o quanto isso é importante pra mim. - A mulher lhe deu um abraço apertado e sorriu.
- Só estou fazendo isso pela senhora, e por tudo que já me ajudou nesta vida.
Depois de algum tempo, Sarah apareceu com as xícaras e elas continuaram conversando na sala. estava um pouco tensa, então decidiu ir tomar um ar, pediu licença a todas e se direcionou ao jardim.
Assim que chegou na porta viu sentado no degrau digitando uma mensagem rapidamente com o cigarro aceso entre os lábios. Achou melhor dar meia volta e voltar para a sala. Mas ela também precisava de um cigarro.
A movimentação nas suas costas fez girar o tronco, dando de cara com o encarando. Os dois pareciam constrangidos demais - aparentemente sem motivo - para mover um músculo sequer. Se dando por vencido, voltou a sua posição inicial, ignorando a presença da mulher.
acendeu o cigarro e dou uma tragada longa.
- Estou atrapalhando?
- Não. Já estou saindo. - Apagou o resto do cigarro, colocando a bituca no cinzeiro da varanda.
- Não precisa sair correndo, eu não vou te morder nem nada do tipo. - disse se encostando na parede e se levantou ajeitando o cabelo, tirando-o do rosto.
- Não estou com medo de você, se é isso que está pensando. - Parou próximo a , mas foi uma péssima escolha ao encarar seus olhos brilhando.
- Então, por que está saindo correndo?
- Não estou saindo correndo, , apenas terminei o que vim fazer aqui.
- Pelo jeito continua o mesmo insuportável. - Ela o encarou soltando a fumaça. - Você é um ótimo ator, caso ainda não saiba. Quase acreditei na sua ceninha no jantar. - A primeira troca de farpas estava acontecendo, como há muito tempo não acontecia. - Mas o que te trouxe de volta a tão famosa cidade de Robin Hood?
- Levei um pé na bunda, perdi meu apartamento e o emprego. Voltar era só uma questão de tempo, mas, aparentemente, Tassie apressou as coisas. - soltou um risada amarga. Contar em voz alta parecia ser ainda pior do que em pensamento. - Pode rir, eu mereço.
- É, você merece. Mas não sou cretina a esse ponto. - apertou o casaco em volta do corpo quando a brisa gélida bateu em seu rosto. Tragou mais uma vez o cigarro antes de encarar . - Apareça no restaurante amanhã, não te garanto um emprego, mas vou te dar essa chance de me mostrar do que é capaz. - Sem esperar uma resposta, voltou para dentro da casa. Se ele estivesse mesmo disposto a mudar ou a provar que tinha mudado, ela só descobriria no outro dia.
sentou-se na poltrona vaga na sala de estar da senhora , a noite que tinha tudo para dar errado, até que não estava se encerrando da pior forma.

Capítulo 4

chegou em seu restaurante no mesmo horário que estava acostumada. Se surpreendeu ao ver encostado na parede próximo a porta terminando seu cigarro. Abriu a porta ainda sob o olhar observador de , mas sem questioná-la a seguiu.
- Lave as mãos, vista o avental e as luvas e espere aí. - O tom autoritário fez enxergar outra naquele momento.
- Sim, chef. - fez um pequeno coque com os cabelo um pouco longos, em seguida fez o que havia lhe mandado. A mulher voltou com três garrafas em mãos, colocando-as na bancada de metal. Taças, copos e alguns medidores também foram depositados ali, seguidos de algumas frutas.
- Você disse que era barman, certo? Então me mostre que tipos de bebidas você sabe preparar. - Sentou-se no outro lado da bancada, o observando.
- Quantos drinks você quer que eu faça?
- Quantos quiser. - Deu de ombros. decidiu por preparar quatro bebidas, por fim. As três mais pedidas no pub em que trabalhava e uma extra que ele considerava muito boa. Esperava que fosse o suficiente para impressionar .
Começou pelo mais pedido e comum de todos, mas também o mais famoso, Dry Martini. Colocou Gin e Vermute seco dentro de uma coqueteleira com gelo, esperou a bebida ficar gelada para despejar dentro da taça e decorou com espiral de tangerina. Entregando para saborear em seguida.
- Meus drinks costumam ser bons, mas tenta pegar leve já que você é a única chefe por aqui. - disse entregando a bebida para que rolou os olhos com o comentário bebendo um pouco em seguida. A segunda bebida, foi a popular Cosmopolitan. Adicionou vodca, licor triple sec, suco de limão siciliano, suco de cranberry que ajuda na cor rosada na bebida. Por fim, decorou o copo com uma casca de limão siciliano.
- Você é rápido preparando os drinks. Trabalhou com isso por muito tempo? - perguntou observando o trabalho de .
- Sim, acho que uns seis anos. Quando se trabalha em um bar tem que ser rápido, os pedidos não param e as pessoas sempre estão com pressa para ficarem bêbados.
A terceira bebida já estava sendo preparada quando terminou de provar a segunda. adicionou com o medidor uma dose de tequila, leite de coco e suco de abacaxi no liquidificador até que ficasse numa consistência homogênea. Encheu o copo com cubos de gelo, colocando a mistura e enfeitou com um pedaço de abacaxi.
- Essa não era uma das mais pedidas, porém eu gosto e acho que você também vai gostar. - entregou o copo para e encostou na pia para observar sua reação.
- Eu prefiro dizer o que achei no final, ok? - Ele concordou e voltou a preparar a última bebida.
Por último, decidiu fazer a famosa caipirinha brasileira que havia aprendido com o seu colega de apartamento, logo quando se mudou para Londres. Não era uma bebida tão pedida assim nos pubs ingleses, mas era muito boa e valia a pena ser feita. Cortou o limão em quatro despejando os pedaços no fundo do copo, adicionou açúcar e amassou com um socador.
- Você tem cachaça, aí?
- Claro. - levantou indo até o dispensa, voltando com a garrafa em mãos. despejou um pouco do líquido junto com cubos de gelo, misturou bem e entregou o copo em seguida para . A reação dela não foi imediata, por mais que estivesse ansioso, esperando uma resposta da mulher a sua frente.
- Essa é uma especiaria brasileira que aprendi com um amigo meu. Conquistava muito os clientes do pub, principalmente as mulheres. - lavou as mãos e esperou para que dissesse algo.
- Eu sei, já bebi uma vez por uma amiga brasileira. - Ela olhou mais uma vez para as bebidas, pensando como responderia. - Bom, o meu restaurante não tem o foco principal em bebidas. Mas eu preciso admitir que todas elas são muito boas. De verdade, muito boas mesmo. O que mais sabe fazer?
- Vou ser honesto, não sei muito além de bebida, porque era isso que eu fazia em Londres. Mas corto legumes e verduras, consideravelmente, rápido e sei preparar alguns molhos de acompanhamento também.
- O restaurante tem bastante movimento e eu realmente preciso de alguém urgente, apesar de ter uma equipe muito boa. Aparentemente, você não é a melhor escolha para o que eu preciso no restaurante no momento. Mas quem me pediu foi sua mãe, e ela é muito importante pra mim, isso me obriga a ajudá-la quando me pede, o que foi o caso. Então tente se esforçar e fazer o máximo que conseguir e eu lhe permitir. Se estiver interessado, posso te ensinar algumas coisas futuramente.
- Eu sei, vou dar o meu melhor aqui pra você não se arrepender. - não sabia exatamente o que esperar do trabalho e nem como seria sua dinâmica com , mas um emprego era melhor que nada. - Obrigada, de verdade. - começou a guardar os alimentos que sobraram e as bebidas, depois limpou a louça utilizada e a bancada. Com certeza, alguém estava se esforçando mesmo para conseguir um emprego. Organização e limpeza eram essenciais dentro de uma cozinha, admirava isso.
- ? Posso ficar aqui hoje para poder conhecer o dia a dia do restaurante, você sabe… Pra não deixar pra aprender tudo logo no dia de bastante movimento em que você vai estar ocupada. - não podia negar que estava surpresa com a atitude de . O rapaz que ela conhecia não pensaria duas vezes antes de ir embora e deixar que ela se virasse com a cozinha. Ele parecia mesmo a fim de tentar.
- Começa hoje. A louça é toda sua. - A mulher saiu da cozinha, deixando-o fazendo o que ela disse. Foi até a dispensa e pegou alguns alimentos, tentando manter sua concentração nos preparativos para o almoço e no . Ia ser mais difícil do que ela imaginava.
- Oi, irmãzinha querida! - Josie entrou já gritando pela irmã como de costume, mas parou na porta ao ver concentrado. Parou ao lado da irmã e cochichou em seu ouvido para que só ela ouvisse.
- Ele tá aqui a muito tempo?
- Por incrível que pareça, chegou antes de mim e ainda pediu para ficar e aprender hoje. - disse para a irmã ainda surpresa. Josie parecia sem palavras, olhava para como se fosse um estranho.
- Oi, , bem-vindo ao clube. - Ela sorriu o tirando do momento de concentração.
- Ah, valeu, Josie. - Ele sorriu de volta e voltou sua atenção a suas tarefas. Josie fez uma cara de surpresa pra irmã que apenas riu.
Cada um assumiu suas devidas tarefas, logo o restante da equipe chegou e foi apresentado e bem recebido. Todos eram bem focados, principalmente que não parava um único segundo. Mesmo com a falta de experiência, se deu bem. Ficou um pouco perdido e confuso no início, mas o restante da equipe o ajudou com algumas dicas. O horário do almoço foi a mesma correria de sempre. Pedidos sendo gritados para todos os lados e correndo para lá e pra cá dando os toques finais nos pratos.
Como não tinha prática, assumiu a parte de lavar a louça, uma arte que ele dominava já que sua irmã sempre o obrigava a fazer isso. Assim que o horário de almoço foi encerrado eles poderiam finalmente ter um tempo de descanso. comeu qualquer coisa e seguiu para o lado de fora para poder, finalmente, fumar um cigarro. Era seu primeiro dia, não queria parar para fazer isso o tempo todo.
Saiu pelas portas dos fundo que dava para um beco sem saída, o que era ótimo, ninguém o veria ali. encostou na parede e acendeu seu cigarro dando uma longa tragada relaxando o corpo na parede. Checou o celular, mas havia apenas uma mensagem de boa sorte de Sarah. Ouviu a porta se abrir e estava pronto para esconder o cigarro quando viu Josie saindo do restaurante.
- Aí está você!
- O que foi? Já está na hora de voltar?
- Ainda não, vim só chegar como você estava. O que tá achando?
- Bom, é bem intenso, mas pelo menos não preciso cuidar de bêbados. - ele riu dando outra tragada. - Ainda estou surpreso pela ter me aceitado aqui.
- Ela estava precisando de ajuda, e acredite, pode não parecer, mas por baixo daquela máscara de mulher durona existe um bom coração. - ela sorriu expressando o carinho que tinha pela irmã.
- Ei! Vocês são pagos para trabalhar e não para ficar aqui de conversinha. Vamos, de volta ao trabalho! - disse apenas com a cabeça para fora da porta.
- Ok. Ela insiste em provar que eu estou errada, mas não estou. - Josie disse fazendo rir. Terminou seu cigarro e voltou para a cozinha seguido de Josie.
Já começam os preparativos do jantar, seguiu as mesmas funções anteriores. O caos se instalou novamente mostrando que já havia começado o horário de jantar.
Logo o expediente foi encerrado e todos começaram a ir embora um a um. ainda estava terminando de limpar as coisas, após lavar toda a louça. programava o cardápio do dia seguinte.
- Bom, terminei tudo por aqui, . Precisa de mais alguma coisa? - disse se aproximando, tirando a touca deixando alguns fios do cabelo cair pelo seu rosto.
- Não, . Está tudo certo, pode ir. Como foi seu primeiro dia? - Ela parou por um momento o que estava fazendo voltando sua atenção para o rapaz.
- Foi bem diferente do que estou acostumado, mas gostei. Vou dar conta. - Ele sorriu, estava mesmo feliz com o novo emprego.
- Ótimo, espero que dê mesmo. Agora vai descansar, te vejo amanhã.
- Até amanhã, .
- Até amanhã, .
escutou quando a porta do restaurante foi fechada, deixando o ambiente ainda mais silencioso. Voltou, então, sua atenção para o cardápio a sua frente antes de Josie entrar na cozinha e tirar toda a sua concentração.
- Até amanhã, - Josie forçou uma voz masculina, uma tentativa falha de imitar a voz de .
- O que você quer? - ignorou o comentário da irmã, ainda fazendo algumas anotações.
- Saber como foi seu dia, como foi a dinâmica com o . Ele está se esforçando bastante, não pode negar.
- Não, não posso negar. Mas não posso dar mole só porque ele fez o mínimo para um primeiro dia. Eu trabalhei muito mais no meu primeiro dia e ninguém veio me parabenizar por isso.
- Mas era o que você queria para sua vida toda. Não é o que o quer. - O tom de voz acusatório de Josie fez levantar os olhos para irmã, a olhando com interrogação e até mesmo um pouco de mágoa.
- Se não é o que ele quer, porque insistiu tanto para eu ajudá-lo? Não há nada que eu possa fazer se ele é um adulto sem rumo na própria vida. - Largou o papel em cima da bancada com uma força maior do que desejado.
- Porque, por um momento, achei que você fosse adulta o suficiente para esquecer as birras da adolescência e ajudá-lo como uma pessoa normal.
- O que você sabe sobre ser adulta, se nunca saiu daqui? - Mais rápido que um piscar de olhos, as palavras já tinham escapado da boca de . O brilho, que antes ocupavam os olhos de Josie, rapidamente foi substituído por um olhar de mágoa. - Josie…
- Tá tudo bem, . Você tem razão. - Deu de ombros balançando a cabeça. - Eu já fiquei tempo demais debaixo da sua asa. - O olhar magoado foi o último em que viu, antes da mais nova sair do local às pressas sem esperar qualquer tipo de desculpa vindo da irmã.
- Droga. - resmungou após perceber que estava sozinha no local.
Fechou as portas do restaurante, encaminhando-se para sua casa. A rua estava escura e o relógio já marcava mais de onze horas da noite. A sorte que sua casa não ficava mais do que três quadras dali, então deus passos mais rápidos do que estava acostumada e logo pôde avistar a fachada branca da casa de madeira. O cômodo escuro indicava que Josie não tinha passado por ali, visto que ela sempre deixava a luz da sala acesa, quando chegava mais cedo.
Após tomar um banho quente, decidiu por tomar uma xícara de chá e assistir um pouco de televisão. Com certeza estaria rindo de algum besteirol essa hora junto de Josie, como estavam acostumadas a fazer antes de dormir, apenas para relaxar. Mas se conteve com mais um filme do DiCaprio, ator favorito da irmã. Droga, o universo estava odiando essa noite. Decidiu por desligar a televisão e ir para o quarto, assim evitava de ficar pensando na discussão de mais cedo. Só de cogitar em lembrar, as palavras duras voltavam a sua mente a torturando. Sabia que havia sido dura demais com Josie, mesmo não sendo essa a intenção. Mas agora já era tarde, restando apenas o descanso merecido depois de um logo dia de trabalho. Uma hora ela sabia que teria uma conversa séria com a irmã mais nova, mas por ora deixaria a poeira baixar e depois pensaria no que fazer exatamente.


Continua...



Nota das autoras: Não esqueça de deixar seu comentário aqui na caixinha ou chama a gente lá no twitter @iwantjunes e @poynterofviewx !

OUTRAS FICS:

Especial Temáticas – entre tapas e beijos
Close [Esportes - Fórmula 1]

Originais – Restritas
Instant Crush


comments powered by Disqus