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Última atualização: 05/09/2020

Prólogo

O salto alto ecoou no chão de mármore transformando o silêncio daquela imensa residência num eco. A cada passo dado, as paredes enormes e majestosas pareciam entender que alguém fora da normalidade estava ali.
Uma garota tinha retornado ao seu inferno particular.
van der Gouth segurava a mochila Chanel nos ombros. Os óculos escuros mascaravam muito mais do que ela estava disposta a compartilhar com alguém naquela casa, a não ser, um ser que corria em sua direção.
A garota alargou um sorriso quando viu Thor. O animal de estimação da família, ou dela.
Ele vinha abanando o rabinho e se jogou nela no minuto em que a garota abriu os braços e o pegou para si.
Thor era um animal de grande porte, em se tratando de animais domésticos. logo lembrou de quando o ganhou. Tinha quatorze anos e ainda era uma garota feliz. Thor acompanhou-a pelos seus melhores anos. Os dias perfeitos eram sempre com ele, até que tudo tinha chegado ao fim.
Ela beijou o focinho dele algumas vezes e ele lambeu seu rosto, ela não se importou, passou mais alguns segundos abraçada a ele se sentindo bem, como a muito tempo não se sentia.
- Você nunca vai aprender que animais de estimação necessitam ficar a metros de distância? – escutou uma voz firme e onipotente, sentindo o corpo enrijecer – tenha modos, menina. – a voz repetiu e ergueu o corpo do chão frio e escuro.
Assim como tudo naquela casa.
Bem à sua frente, uma senhora de longos cabelos loiros estava parada, segurou a alça da bolsa receosa e encarou seus olhos. Ela tinha os mesmos olhos que os seus, azuis. Um azul cristalino e extremamente expressivo. A senhora usava um terninho Chanel, assim como seu sapato. No pulso direito, pulseiras de pérola e diamantes, na mão esquerda, o anel de noivado e o de casamento. A mulher estava perfeitamente maquiada e seus cabelos loiros estavam alinhados ao seu rosto como se ela fosse a uma festa a qualquer momento. A diferença das duas estava unicamente na cor dos cabelos, tinha a coloração do cabelos do pai, aquela herança ela tinha adquirido diferente, mas em termos de corpo, ou rosto, ela era famosa por ser a cópia perfeita da sua mãe.
- Oi – a garota disse baixinho olhando para o chão um pouco nervosa – Eu... eu fui... convidada a sair do internato.
- Você foi expulsa, , mais uma vez – a mulher suspirou pesadamente – infelizmente, não temos mais escolas para você estudar. Certamente, você ficará aqui. A garota negou com a cabeça freneticamente sentindo os dedos tremerem.
– Não, eu não posso ficar aqui – ela sussurrou caminhando a passos largos até a senhora que recuou dois passos, mantendo distância – Eu não quero ficar aqui.
- Tivesse esse pensamento antes de transar com seu professor de literatura na sala dele – ela afirmou séria e a garota sentiu o rosto corar – Você realmente achou que eu não sabia? – sua voz alterou o timbre e adquiriu um tom mais firme e frio, se ainda fosse possível.
- Mãe, por favor... eu não posso ficar aqui, eu não aguentaria – a menina fechou os olhos pesadamente buscando por argumentos na sua mente – Por favor, eu... eu estudo em casa, eu posso estudar em casa, eu não quero...
- Já chega, ! – ela alterou a voz e gritou, pigarreando, passando as mãos pelo termo a encarando séria – não quero mais nenhuma palavra sobre isso, escutou? Você vai ficar onde eu quero, do jeito que eu quero. Então, troque essa roupa suja e imprópria, tire metade do rímel dos seus olhos e lave o cabelo. Seu quarto está esperando por você, não decepcione seu pai mais uma vez.
sentiu os olhos repletos em lágrimas e assentiu, ela passou pela sua mãe e subiu a escada em mármore que a levaria para os seus aposentos. Ela caminhou para o seu quarto passando pelo quarto ao lado do seu e tocando a maçaneta. Ela tirou a mão incerta diante da ideia de entrar ali, fazia muito tempo.
Para ela, os anos tinham corrido como em uma fórmula 1, rápido demais, era como estar em velozes e furiosos, e ela odiava quanto o filme não retratava perfeitamente e calmamente absolutamente nada além de brigas e perseguições.
Num misto de ansiedade e nervosismo, ela virou a maçaneta e abriu a porta branca, toda trabalhada. A maçaneta de ouro maciço rodou e ela olhou para dentro daquele enorme quarto.
As paredes estavam brancas, o carpete havia sido trocado, os móveis que ela lembrava não existiam mais ali e ela sentiu a respiração falhar. A garota jogou a bolsa no chão e entrou no quarto de uma vez, quase correndo. girou o corpo no meio do ambiente e encarou boquiaberta o que tinha encontrado.
Uma estante de livros que girava todas as paredes do ambiente. Não existiam janelas, não existia nada.
foi até os livros e derrubou enquanto tentava procurar por algum vestígio de vida completamente diferente ali. O ódio tomou conta do seu corpo e ela pensou em gritar, mas logo desistiu por lembrar que ela não podia.
A garota não podia viver além do que seus pais julgavam o correto e ela não sabia mais o que fazer. Seus olhos voltaram a encher de lágrimas quando a exaustão por ter bagunçado toda aquela biblioteca repleta de hipocrisia, sem se importar com os empregados que teriam que arrumar, ela se jogou no chão. Seus olhos foram até o teto e o tom calmo e branco estava ali, algumas poltronas e almofadas estavam espalhadas pela sala de leitura que antes tinha sido muito mais do que aquilo. Em um pulo, ela levantou o corpo do chão e correu pelo longo corretor, descendo as escadas e procurando sua mãe. A encontrou no jardim, sentada numa cadeira, olhando o vasto campo bem à sua frente. parou em sua frente e a olhou séria. Sua mãe tinha um cigarro nos lábios e desviou os olhos da garota fitando o horizonte em silêncio.
- Por que? – a garota perguntou sem obter resposta alguma da mais velha, se incomodando – Por que você fez isso? – ela voltou a questionar com um tom baixo, ainda tentando manter a calma – Por que porra você desfez o quarto? – ela alterou a voz sem obter nenhuma reação possível. Sem pensar muito a garota segurou os ombros da sua mãe e chacoalhou algumas vezes para que ela a enxergasse – Olha pra mim, mãe! A vadia da sua filha! Por que você fez isso? Por que você fez isso com o quarto dele, mãe? Por que? – ela perguntou e Harriet a olhou com os olhos frios e distantes. A mulher soltou o ar do cigarro no rosto de que se limitou em afastar o corpo abanando a mão no ar para não mergulhar no cheiro forte de nicotina – Porque você fez isso com ele, mãe?
- O que eu fiz, ? – ela perguntou dando mais outra tragada – Quem fez algo consigo mesmo foi ele.
- Não mãe! Não foi ele, você não entende? Ele foi levado a fazer aquilo! Não foi ele, mãe! A culpa foi nossa.
- Se você é infantil ao ponto de acreditar que tem culpa no suicídio do seu irmão, , continue assim – ela levantou jogando a butuca do cigarro no chão, pisando em cima logo depois – Mas não coloque nas minhas costas a fragilidade do seu irmão – ela disse negando com a cabeça em desaprovação – Um van der Gouth não comete suicídio, , ele mata cada integrante da sua família fazendo isso. Seja bem-vinda ao inferno, minha filha – ela disse dando três tapinhas nas costas da filha antes de dar as costas para ela e caminhar para dentro da casa – A propósito, hoje tem festa na casa dos Marshall’s às 19 horas, seu vestido está em cima da cama, não se atrase – ela disse deixando a filha ali completamente paralisada.
O verão estava no fim e junto ao início de outono, começavam as festas de mudança de estação. Aquele imenso jardim logo ficaria repleto de pessoas bebendo e conversando, outras transando, algumas planejando o próximo ministro do país. Para ela, um pouco de vodka e cigarro eram o suficiente. pegou um cigarro e acendeu com o isqueiro de ouro que a sua mãe tinha deixado em cima da mesa. H.V.G eram as iniciais que tinham ali. Exatamente como o isqueiro que levava na bolsa para todos os lugares, a diferente era a primeira inicial. .
A garota levou o cigarro aos lábios, tragando, para depois soltar o ar de hortelã que existia no cigarro. A nicotina entrava no seu corpo e ela logo relaxava, mas não o suficiente para esquecer o que significava tudo ali.
Tinha feito tudo por muitos lugares. Transou com o professor num internato na Suíça, chupou o diretor num internato na Alemanha. Foi a garota que participou de uma orgia numa escola em Bruxelas... Mas nada daquilo a fazia sentir algo suficiente para esquecer os dias que tinha passado naquela casa de mais de 5 milhões de euros.
Ela ergueu a manga do moletom Gucci e pegou o cigarro dos lábios, deu uma última tragada e depositou o fogo do cigarro na sua pele, fechando os olhos e sentindo o ardor ali. Aquela sensação era boa o bastante para lembra-la quem ela era e de onde tinha vindo.
Uma garota pura no inferno nunca seria boa o suficiente, ela sempre soube disso. Mas agora seus dias seriam diferentes, a pureza foi levada do seu corpo. A inocência foi rasgada. Agora, a vadia estava de volta.
retirou o cigarro da pele e encarou a vermelhidão da queimadura em cima de todas as cicatrizes que conseguiu enxergar no seu pulso.
Aquele seria um longo ano.


Capítulo 1

O carro foi estacionado ao lado de enormes pinheiros. Aquele lugar sempre a impressionaria e acabaria com a sanidade da sua mãe. A casa dos Marshall não era somente uma enorme casa arquitetônica como a sua, eles tinham ido além. No sul da França, haviam comprado um castelo. Cada pedaço daquele lugar fora projetado para entreter o convidado e enaltecer ainda mais aqueles que queriam demonstrar a superioridade. Em Brightford, uma cidade com uma população de menos de oito mil pessoas, caso fosse necessária uma coroação, certamente seria daquela família. Harriet Van der Gouth não concordaria com tal ato.
Para os Van der Gouth, ter que se submeter a uma submissão tendo que agir de acordo com as preferências do outro era algo que eles não cogitavam. Uma família tradicional e em demasiado respeitada não tinha que se curvar e reverenciar ninguém que não fosse seus interesses próprios. Isso se aplicaria em outras localidades, em Londres eles tinham seu certo poder, mas não ali.
Ali eles faziam apenas parte de uma corte. Uma corte moderna, cheia de novas regras, mas ainda sim, eles tinham alguém para bajular.
- Mãe, porque você não casou com o Harrold? – ela sussurrou escutando sua mãe tossir freneticamente ao sair do carro. A mulher mais velha ajeitou as vestes e negou com a cabeça freneticamente – Vocês namoraram? – ela voltou a questionar e ela negou com a cabeça – Nunca? Eu sempre pensei que vocês... – ela comentou olhando para sua mãe que apressou os passos afim de alcançar seu pai.
sorriu sozinha enquanto caminhava pelos cascalhos até entrar na triunfante porta de madeira da época da revolução. Quando criança, corria com vestido rodado e do século passado por ali como se fosse uma princesa. Reverenciava as pessoas ao caminhar e adorava aquela sensação de que o mundo era da princesa . Seus longos cabelos castanhos com cachos nas pontas eram o que a diferenciava da família Marshall. De quase toda a família ao menos.
Uma certa vez, Harrold cantarolou sobre uma história de um rei, esse rei havia escolhido a princesa perfeita que seus pais queriam, eles precisavam manter o sangue real correndo pelas suas veias e por isso, ele teve que casar com o seu reinado, não com o amor da sua vida. Desde essa história, costumava cantarolar para sua mãe que nunca afirmou de quem se tratava aquela princesa e muito menos quem ela era. Joseph Van der Gouth era um homem influente, mas não tinha crescido em Brightford. Ele era filho de um industrial inglês, viveu sua vida inteira em Londres e um certo dia, veio a uma festa do seu melhor amigo Harrold e se apaixonou pela única garota que estava sentada sozinha num canto. A história arrancava suspiros da garota e mesmo depois de todos aqueles anos, não havia perdido a majestade.
Eram príncipes e princesas que quando mais nova, não conseguia enxergar que tudo vai sempre muito além de lindas histórias sobre um principado em meados dos anos oitenta. Um principado que só existia na sua mente.
- – Harriet afirmou virando o rosto para encara-lá – Vamos, você entra conosco. Não quero você desistindo de nos acompanhar.
Harriet tinha um vestido longo e florido. O tema da festa era o término da época quente do ano e por isso, o traje a rigor eram em tons claros. Sua mãe havia comentado que os vestidos Dolce e Gabanna seriam os must have da noite e assim como sua mãe, ela também vestia um. Um vestido rodado, uma pequena coroa de brilhantes nos cabelos e um Loubotin branco nos pés. Aos ombros, ela tinha uma bolsa Chanel toda cravejada. Vestia muito mais do que 10 mil libras e não se importava.
Uma roupa sempre seria um pedaço de pano, não importando quanto que aquilo valia. 19 mil euros para ela não significavam absolutamente nada, não por não se importar com objetos de valor, mas pela quantia ser baixa e não ter um grande significado para ela, ou nenhum daqueles que viviam por ali.
- Eu não queria vir – ela repetiu mais uma vez. Durante o trajeto até aquele castelo, resmungou o bastante para que seu pai, sempre apático, resolvesse gritar e perder um pouco a compostura.
- Você já repetiu isso algumas vezes, - Joseph afirmou com uma mão entrelaçada ao braço da esposa – Infelizmente, você não tem escolha.
- Quando que eu tenho escolha? – a mais nova sussurrou observando os criados que caminhavam de um lado para o outro – Onde vamos ficar?
- Lá na frente – sua mãe comentou sorridente. Diante os acontecimentos, estar numa das primeiras fileiras de mesa era um alívio para a socialite Harriet Van der Gouth – Stephanie foi tomar chá comigo essa semana e afirmou que a nossa família seria uma das contempladas essa noite, acredito que aos poucos estamos voltando ao que éramos antes.
- Só mantermos nossa filha sob limite – seu pai afirmou e ela sentiu um aperto no peito – Não é ? Comporte-se – ele disse por entre os dentes e a garota forçou um sorriso.
Seus olhos estavam cristalinos e ela teria chorado, caso ainda fosse a de alguns anos atrás. Por muitos anos a garota tentou pensar com onerai volar aquele lugar depois de tudo o que tinha acontecido. Seus medos ainda assombravam seus sonhos – Eu vou me comportar, papai – ela disse afim de acalma-lós – Não vou fazer escândalos – olhou ao redor do enorme salão com colunas em lugares estratégicos. Quase nada da sua arquitetura original foi modificado, alguns pontos de modernidade haviam sido impostos no local, como as enormes janelas de vidro que haviam sido postas nos locais das pequenas janelas que ali residiam anteriormente. O pequeno deck que já havia sido palco para coroações estava da mesma maneira, a diferença eram as cadeiras que ali estavam.
Os Marshall eram tratados como realeza. Eles eram a própria realeza do local e não se importavam nem um pouco com o título.
- Precisamos reverencia-los? Agora que fazemos parte da plebe? – cochichou no ouvido da sua mãe, ao entrelaçar seu braço ao dela. Harriet teve vontade de soltar uma gargalhada, mas limitou-se em negar com a cabeça enquanto observava o movimento do ambiente.
Havia crescido ali.
Cada parede ou fachada do lugar faziam parte da sua memória e seus melhores amigos hoje eram o que costumava reverenciar quando criança. Os reis do ambiente. Para Harriet estar ali, de volta, depois de um tempo afastados era como uma conquista. Um reinado menor que havia conquistado uma batalha e retorna a da plebe para a aristocracia de brightford.
Aquele pequeno povoado era o reflexo da mistura daquilo que eles haviam construído durante os anos.
Tinha o ar de um country club onde somente os mais requisitados tinham o poder de fazer parte. Eram um grupo seleto, um grupo repleto de mistérios, mentiras e hipocrisia.
- Vamos sentar, sim? – Joseph afirmou olhando a esposa e a filha – Nos sentamos e depois cumprimentados os Marshall’s, eles estão ocupados – ele afirmou vendo o pequeno fruto de pessoas ao redor dos anfitriões da noite.
olhou ao redor procurando uma certa princesa de longos cabelos loiros e olhos verdes, a encontrando sentada numa mesa mais afastada. A mesa deles. Charlotte Marshall e Alexander estavam sentados com mais algumas pessoas. conhecia cada um deles muito mais do que gostaria de lembrar. Sua memória era bastante incomoda em se tratando daquele passado que queria a todo custo esconder e fingir que não tinha existido.
No momento em que Charlotte cruzou o olhar com a garota, ela rapidamente ficou pálida, não teve reação exposta. Estava esperando por aquilo desde que sua mãe tinha dito que teria que ir na casa deles. Seu verdadeiro problema estava bastante distante daquele lugar, então enquanto ele estivesse longe, ela estava satisfeita.
- Olha quem vem ali – Charlotte afirmou sentindo o coração disparar. A garota segurou o braço do namorado e entrelaçou os dedos nos dele rapidamente. Alexander olhou de lado para a garota que caminhava séria pelo grande salão daquela casa e pigarreou, voltando o olhar para sua namorada – Não olha para ela – ela exclamou incomodada. Charlotte revirou os olhos pegando uma taça de champanhe, levando aos lábios, engolindo todo o conteúdo – Não entendo a fascinação que vocês possuem por... – ela deixou que as palavras morressem voltando o olhar para a grande porta de entrada.
Num terno cinza e Armani um homem alto caminhava a passos largos até o anfitrião da festa. Harrold Marshall ergueu os olhos e se afastou do grupo que conversava anteriormente. Seus braços se abriram e ele sorriu como a muito tempo não sorria.
- Não sabia que ele está de volta também? Essa festa está ficando sensacional – Alexander soltou a mão da namorada e viu quando o velho amigo caminhava em direção ao pai.
De longe, Van der Gouth sentava ao lado da sua mãe. Os assentos eram minimamente organizados de acordo com a posição social e faixa etária. Conseguia se recordar de um tempo em que ela sentava ao lado da fila do dono da casa, junto ao seu irmão e seus amigos. Ela se sentia uma pessoa completamente diferente daquela. A garota pegou uma taça de champanhe, agradecendo educadamente ao garçom, seus olhos observaram o grande salão e ela sentiu um tremor invasor o em
seu corpo. Voltar ali depois de tanto tempo era como mergulhar novamente naquela água turva. A sensação de que poderia se afogar a qualquer momento não havia abandonado a garota. Respirando fundo, ela repousou o olhar na Charlotte que tinha os olhos presos em outra pessoa além dela.
direcionou seus olhos até a cena que a Charlotte observava tão fascinada e quase engasgou com a própria saliva. Lucius Marshall estava abraçado ao pai. Sua estatura alta, seu porte atlético e o sorriso arrebatador tornava-o o centro das atenções, algo que ela sempre soube que ele sabia e gostava. Ele saiu do abraço do seu pai e foi cumprimentando as pessoas que se curvavam numa fila para um aperto de mão – hipócritas – ela sussurrou para si mesma observando a sua mãe que estava com os olhos fixos no rosto dela – O que foi? – perguntou levando um copo de vinho aos lábios engolindo tudo o que podia de uma só vez – Ele adora ser o centro das atenções, idiota – a garota resmungou e sua mãe negou com a cabeça desaprovando sua reação.
- Caso você não tivesse ideias fora do contexto, , você estaria sendo recepcionada dessa mesma maneira, mas você nunca facilitou – ela afirmou bebericando o champanhe acompanhando a filha – Você esquece das aparências e...
- Surto? – ela desviou os olhos do homem e voltou os olhos para a sua mãe – Eu sou verdadeira, mãe.
- Não, meu amor. Você não é – Harriet negou com a cabeça desviando os olhos do rosto da filha, voltando seus olhos para eles.
Desfilando pelo salão, Charlotte caminhou a passos majestosos até o irmão que ainda se encontrava ao lado do pai. Todos os presentes tinham a impressão de que aquela família não poderia se encontrar mais perfeita e unida. A garota pulou para um abraço e Lucius ergueu o corpo dela, entrelaçando a sua cintura enquanto sorria animadamente.
- Eles atuam demais – afirmou recolhendo suas mãos e as depositando em cima das suas pernas – Até parece que a vida deles continua perfeita como sempre foi.
- E não continua? – sua mãe questionou e ambas ficaram em silêncio. mordeu o lábio fortemente tentando controlar a súbita ânsia que sentia. A garota começou a percorrer a unha pelo seu pulso ainda machucado pela batuca de cigarro, enfiando um pouco com mais força para sentir um pouco de ardor. Seus olhos encheram-se de lágrimas e aos poucos, o som daquele grande e imponente salão foi desaparecendo.
Sua mente a transportou para uma realidade onde somente ela estava sentada numa mesa, se mutilando, enquanto Lucius Marshall estava recebendo as felicitações pelo doutorado que tinha acabado de concluir. Ela sabia. Sempre soube cada passo que ele costumava dar, as garotas que ele namorava, as mulheres adúlteras que ele transava sem pensar nas consequências. Enquanto penetrava sua unha com mais força no pulso, ela observou os cumprimentos falsos e completamente fora de uma realidade que os cercava. Como na sua mente, só existia ela e as pessoas que acreditavam que ele merecia felicitações, não enxergou muito bem os hipócritas que o cercavam.
Seus olhos estavam fixos nos dele e quando o Lucius encarou o rosto dela, sentiu aquele velho e tão conhecido incomodo habitual. Harrold despistou uma taça de champanhe nas mãos do filho e ele a ergueu, brindando a ela. prendeu a respiração por um segundo. Lucius tinha finalizado o sorriso e seu semblante era sério. Seus olhos continuavam fixos no dele e retirando a unha da sua pele, a garota segurou a taça, a erguendo por sob a mesa, sem desviar os olhos dos dele.
A distância da mesa dela até o corpo do homem era o suficiente para contabilizar numa média de dez passos. A definição da aproximação da mesa principal variava de acordo com a intimidade dos convidados junto aos anfitriões.
Algo que não estava nem um pouco ameno para a sua família.
levou a taça aos lábios e bebeu todo o conteúdo. Em algum momento alguém tinha enchido sua taça e ela não tinha percebido. Tanto fazia, então. Seus olhos foram fechados enquanto ela finalizava o último gole e logo depois, ela voltou a observar o homem que agora deixava um sorriso sorrateiro espaçar dos seus lábios.
A provocação estava presente.
- Você não acha que ele voltou ainda mais bonito? – escutou Harriet questionar e negando com a cabeça, despertando do seu contato visual com o Marshall, ela olhou para sua mãe assentindo. não sabia o que responder. Poderia levar horas analisando o corpo do Lucius sem camisa, não teria problema algum com aquilo, mas ele não era bem algo no qual pudesse se deliciar.
- Igual a tantos outro – ela deu de ombros, deixando sua mãe pigarrear em desaprovação – Que, mãe? Lucius não é o cara mais bonito do planeta.
- Incrível você afirmar isso, – a garota escutou uma voz próxima a sua nuca, arrepiando o seu corpo – Lembro muito bem da quantidade de vezes em que você suspirou apaixonada pelo meu irmão – a voz da Charlotte se fez presente apenas para ela. A garota forçou um sorriso cumprimentando os pais da garota – Posso roubar a um pouco? – ela questionou e sua mãe sorriu lindamente.
Para , ficar naquele ambiente com seus pais era como enfiar uma agulha na pele diversas vezes. A cada palavra de desaprovação da sua mãe, uma agulha era direcionada a sua pele e ela não pensava em acupuntura ao definir aquele tipo de dor. George Van der Gouth era alheio. Não costumava se interessar por nenhum assunto relacionado a sua filha, muito menos a sua esposa. George se tornou a sombra de um homem que ele foi anos atrás, antes de tudo desabar nas costas dele.
era um estorvo que ele tinha que carregar e a sua esposa era uma atriz que fingia estar bem quando nada dentro dela tinha algum tipo de vida. Ainda que ela fosse o reflexo de uma realidade que detestava, ainda era pior a ideia de caminhar com Charlotte Marshall.
- Claro que pode, Charlotte! – sra Van der Gouth afirmou sorridente – Vá, filha – a mais velha beijou a bochecha da filha vendo a Charlotte puxa-lá pelo braço.
olhou exasperada para a mãe recebendo um olhar reprovador. As duas caminharam por entre as pessoas enquanto sentia o corpo tremer, nada de bom poderia vir daquela aproximação repentina.
- O que você quer? – num sussurro, ela mexeu os lábios entre sorrisos para as pessoas que as olhavam surpresos.
Charlotte nada disse, saindo pela porta lateral da casa e chegando até o jardim. O jardim dos Marshall era três vezes maior do que o seu. Tinha esculturas por todos os lados e um grande tabuleiro de xadrez que trouxe lembranças que ela preferia guardar numa parte da mente que ficasse completamente escondida e fora do alcance.
- Quero você longe da minha casa – Charlotte soltou o braço da a empurrando para longe. A garota cambaleou e quase caiu, voltando ao equilibro do seu corpo, encarando a outra – Quero você longe das minhas pessoas.
- Do seu reinado, princesinha? – questionou-se vendo a outra garota bufar – Eu não quero brigar, Charlotte, eu só quero terminar o último ano e voltar para Suíça.
- Para transar com tudo o que se mexe? Você não transou com o príncipe, não transou? Ele é velho para você, mas... calma, faz o seu tipo também – ela se colocou a observar as unhas desinteressada na outra enquanto a criticava – Fiquei sabendo de coisas absurdas sobre você, você está pior do que uma prostituta.
- Inveja? – questionou calmamente encostando na parede do lugar encarando a outra – Nunca achei que você gostasse de transar com todo mundo, Charlotte.
- E quem disse que eu gosto? Não que você tenha alguma coisa haver com a minha vida – ela exclamou contrariada – Por mim eu não veria você nunca mais na minha vida, quando eu percebi que você estava voltando, eu tentei conversar com o papai para que ele proibisse você aqui, mas aparentemente ele ainda não pode proibir você de ir e vir.
- Claro que ele não pode – A morena gargalhou negando com a cabeça – Você realmente acredita que você vive numa monarquia, Charlotte?! – ela exclamou caçoando da outra – Eles estão alienando você mais do que eu lembro.
- Pensei que esse lugar era um calvário para você – ela disse seria.
- Óbvio que é, o que você faria se ninguém acreditasse no que você fala? Você realmente acha que esse lugar é bom?
- E por que você voltou? Por que você não volta para sua Suíça? Por que você não volta para os seus professores que você costumam chupar? – ela perguntou venenosa. Charlotte não era uma pessoa que conseguia medir as palavras ou suas atitudes. Desde criança viveu com a armadura do que o seu sobrenome representava e por isso, limite nunca tinha sido o seu forte.
- Você acha que eu queria estar aqui? – ela questionou com a voz autoritária – Você realmente acredita? Nessa sua cabeça de ameba, que eu gostaria de vir a casa do meu estuprador? – ela perguntou venenosa e a outra deu dois passos afim de partir para briga, recuando amedrontada – Vem Charlotte, vem bater em mim! Quero ver suas luvas da Burberry sendo rasgadas por mim.
- Por uma vadia! Ninguém aqui te estuprou! – ela exclamou nervosa – Você não sabe como foram maravilhosos os anos que você passou longe, você não faz a menor ideia!
- Você que não faz ideia da vida que eu tive longe de todos vocês, dos hipócritas – ela exclamou incomodada. negou com a cabeça, retirando a tiara dos cabelos – Eu não sou você, eu não quero isso! Eu não me enquadro nisso, você entende? Você faz ideia do quanto que eu não queria estar aqui? Merda! Você sabe o que significou aqueles dias para mim?
- Eu sei, – ela disse fria – Você deixou claro para todo mundo, você levou todo mundo com você para o bueiro – ela passou uma mão pelo vestido Dolce e Gabanna rodado – Você destruiu tudo, .
- Não me chama assim.
- Só o Lucius pode te chamar assim? – Charlotte questionou caminhando até a garota – Para ele você ainda é a ?
negou com a cabeça, seu olhar se perdeu no jogo humano de xadrez e ela sorriu triste – A não existe mais, Charlotte – ela afirmou melancólica – Você lembra quando o Brian, o Lucius e o Alexander ficavam jogando e nós queríamos jogar com eles e eles não deixavam? – ela sorriu sincera esquecendo da sua realidade – Você lembra que nós entrávamos chorando porque éramos crianças e eles não deixavam?
- Eu lembro que o Lucius sempre te defendia – ela comentou sincera – E eu ficava reclamando que mesmo sem ter peitos, eu também queria que o Alexander me defendesse, da época em que você não traía ninguém.
- Charlotte... – fechou os olhos pesadamente – Para com isso, Charlotte, eu não...
- Não? Você não? – ela gargalhou – Aquela não existe mais mesmo.
- Não, ela morreu no dia em que roubaram dela algo que ela não tinha... – fechou os olhos e levou a unha até o seu pulso machucado, a garota afundou a unha mais uma vez sem esperar que a Charlotte entendesse ou prestasse atenção no que ela fazia. A dor física sempre deveria ultrapassar a dor emocional.
- Faça-me o favor, ! Você transou com quem transou porque você quis! Porque você foi uma vadia, algo que você... – ela parou de falar escutando passos atrás do seu corpo e virando o rosto.
Lucius caminhava com as mãos nos bolsos olhando fixamente para um ponto inexistente além das duas. Ele parou ao lado da irmã virando o rosto para ela, antes de encarar os olhos da sério, sem proferir uma única palavra.
- Reunião familiar? – perguntou venenosa sem desviar os olhos do Lucius enquanto ele se limitava em negar com a cabeça.
- Então, você não é uma miragem – ele afirmou a olhando. A garota não disse nada, vendo a Charlotte sorrir em deboche – Como você vai, ?
.
ficou paralisada encarando aqueles olhos expressivos. Não conseguiu contabilizar o tempo em que ficou encarando aquele rosto, mas sua memória foi para inúmeros episódios em que a voz dele ecoava como um repeat de uma música capaz de fazer o sangue da garota ferver. Na sua frente estava Lucius Marshall, o defensor da pequena e grande paixonite adolescente da mesma.
Durante longos anos da sua vida, ela se deixou fantasiar em como seria perder sua virgindade com ele, se apaixonar por ele e tê-lo como namorado, além de amigo e confidente.
- Meu nome é – ela falou nervosa com os dentes trincados. Qualquer pensamento em falso ela poderia desabar. Depois de tanto tempo se ver frente a frente com ele representava muito mais do que estivesse disposta a absorver ou deixar transparecer – Van der Gouth para você – afirmou.
- Ok – Marshall sorriu de lado vendo a irmã dar de ombros olhando de um para o outro – Você está gostosa, . É assim que você gosta de ser tratada?
Charlotte bateu palmas em excitação e cruzou os braços
– Ora, ora, quer dizer que eu estou assistindo de camarote o reencontro da vadia e do impecável Lucius.
- Você não cansa? Quer dizer... seu namorado não cansa de você? Você é tão bege, Charlotte – afirmou e a garota olhou para a morena vermelha de raiva – Pelo que eu me lembro... Alexander é insaciável... – ela cantarolou sorridente vendo o olhar de desaprovação do Lucius enquanto a Charlotte dava passos em direção do corpo da .
Lucius puxou o corpo da irmã.
- Calma, não se misture – ele disse beijando a testa dela – Seu namorado estava perguntando por você – ele comentou vendo a irmã negar com a cabeça, voltando a encarar a
- Espero que a sua estadia aqui seja um inferno – ela afirmou depositando um beijo na bochecha do Lucius antes de virar as costas para ela e caminhar para dentro da casa.
ficou em silêncio, queria falar algumas coisas, mas não soube por onde começar. Lucius estava parado olhando para o seu rosto, assim como ela estava encarando o homem a sua frente. Em anos anteriores, ela certamente abraçaria o corpo dele e se aconchegaria se sentindo em casa. Lucius representava um passado no qual ela não possuía mais.
- Não sabia que você tinha voltado – afirmou sem se controlar e ele sorriu expondo seu mais belo sorriso para a garota.
- Demorou 12 segundos até que você soltasse a primeira frase, apostei comigo mesmo e perdi. Pensei que você perguntaria sobre as minhas namoradas – ele disse forçando um semblante triste – Como foram as quatro expulsões, ? O sexo valeu a pena?
- Não é da sua conta – a garota afirmou com a língua afiada – Você não tem nada haver com a minha vida, então, não espere por uma resposta.
- E porque você perguntou sobre a minha vida? Esse tabuleiro tem dois participantes, quando um joga, o outro contra-ataca.
- Sempre preferi jogar poker – ela disse pensativa desviando os olhos dos dele – Não sou boa no xadrez.
- Você é boa no strip poker, – ele respondeu e ela voltou o olhar para ele. cruzou os braços o encarando. Ela ergueu uma sobrancelha inquisitória.
- Desde quando? Quem disse a você?
- As notícias correm soltas, – ele deu de ombros retirando um paço de cigarros do bolso – Você quer? – ele ofereceu vendo-a negar com a cabeça – Você mudou tanto assim?
- Não, Marshall, eu ainda fumo, mas não quero o seu cigarro. Preciso manter a pose de garota perfeita para a mamãe ficar satisfeita e não me dopar com antidepressivos – ela afirmou voltando a colocar a tiara na cabeça suspirando – A minha vida aqui já é um inferno, sua irmã não precisa nem me lembrar.
Ele sorriu suspirando.
– Brightford sendo tudo aquilo que todos odeiam, mas não conseguem simplesmente irem embora – ele observou dando uma tragada no cigarro deixando a fumaça sair pelos seus lábios e nariz – Eu não queria voltar, eu estava muito bem em Londres.
- Percebi – ela afirmou mordendo a língua rapidamente, vendo-o sorrir ao encara-lá, a garota negou com a cabeça se incomodando pela sua afirmação tola. Parecia uma garota que não tinha superado o ex-namorado e ficava vendo freneticamente o que ele fazia nas redes sociais – Digo, acho que a mamãe falou algo do tipo, seus pais disseram.
Lucius gargalhou sonoramente, engasgando com a própria saliva, teve vontade de estapear o homem, mas não o fez. Ele certamente estava caçoando dela e odiava risos e dedos apontados para o seu rosto enquanto ela fazia ou falava algo. Aquilo não era saudável – Meus pais não sabiam que eu voltaria até o momento em que eu coloquei meus pés naquele salão, . Não precisa mentir, eu sei que você passa algumas horas do seu dia me stalkeando – ele riu dando outra tragada – Preciso voltar lá ou o velho me mata.
- Você costumava ser mais rebelde – ela afirmou o encarando, vendo-o movimentar o corpo de um lado ao outro
- Eu costumava ser muitas coisas – Lucius afirmou negando com a cabeça – Mas infelizmente, eu não tenho mais dezoito anos. Agora sou o sucessor.
- Do trono? – ela perguntou debochada e ele revirou os olhos – Como eu acho insuportável vocês com essa ideia de que são monarquia.
- A parte mais insuportável é ter que sorrir para os caras evitando o olhar das esposas que eu já comi – ele deixou que o seu melhor sorriso se fizesse presente – Constrangedor.
- Alguém já te chupou hoje? – ela perguntou e ele ergueu uma sobrancelha – Eu que não queria te chupar, você é nojento.
- Que mentirosa! – ele deu um passo à frente vendo-a recuar seria – Medo do meu toque, ?
- Van der Gouth para você – a garota afirmou por entre os dentes vendo-o sorrir divertido.
- Tenho que ir... o dever me chama – Lucius ergueu a mão e ajeitou a pequena tiara que estava nos cabelos dela – Cuidado para não tropeçar na coroa, princesinha. Vou entrar – ele disse sorrindo fraco.
- Sinta-se em casa – afirmou sarcástica e ele negou com a cabeça. Lucius jogou o restante do cigarro no chão e pisou em cima, seus olhos se perderem um pouco em contato com os olhos dela, até que ele deu as costas para ela, a deixando sozinha ali.
A garota passou as mãos pelos seus ombros cobertos pelo vestido dolce e gabanna e ergueu o pulso na altura do seu rosto, afastou o tecido da manga e tocou no machucado que estava muito mais inflamado do que mais cedo.
Aprendera diante de uma das maiores dores emocionais que havia sentido na vida que tudo o que o seu corpo sofresse, seria apenas punição diante das suas atitudes. Garotas como ela mereciam ser tudo o que ninguém queria que fosse. Então vivendo uma farsa, numa vida que não era mais sua, demonstrava em cada parte do seu corpo o que realmente sentia.
Aquela queimadura era uma pequena amostra do que ainda tinha por vir naquele ambiente completamente hostil.
A casa que parecia um castelo dos Marshall era pior do que estar na sua própria casa. Voltando o seu olhar para as janelas, ela pode observar os quartos, sendo invadida por cada lembrança. Algumas magníficas da sua infância e outras desastrosas.
havia crescido e se tornado alguém que a antiga garota nunca pensou em se deparar um dia.
A garota que não media esforços para se satisfazer.
- Você está ainda mais gostosa, – escutou uma voz. A garota voltou o olhar para o cara a sua frente e ela nada disse, muito menos esboçou um sorriso – Não vai me cumprimentar?
- Não – ela respondeu apática desviando os olhos dos dele e encarando o nada.
- Você gosta de muitas coisas atrás daquelas árvores ali, – ele afirmou zombeteiro e ela estendeu o dedo do meio para a ele – Vamos , qual a necessidade de protestar? Você adora uma rapidinha.
- Não com você, Alexander – ela afirmou negando com a cabeça – Você não tem amor próprio? – ela perguntou com nojo – Por Deus, cara... a Charlotte não te merece.
- Qual é, ... – ele disse abrindo os botões da calça – Olha o que você está perdendo... - ele disse colocando o membro para fora enquanto ela olhava antes de negar com a cabeça e virar as costas para ele, voltando para o salão principal.
– Você é um canalha! – olhou ao redor procurando seus pais, mordendo a bochecha. A mesa que eles estavam não tinha ninguém e ela sentiu um tremor invadir o corpo, o pânico de se encontrar sozinha naquele ambiente completamente diferente e que ela não se enquadrava mais, a deixava incomodada o bastante para não encontrar seus pais.
Ela foi até a mesa que eles estavam anteriormente e pegou sua bolsa, ela endireitou nos ombros e olhou ao redor. Seus pais estavam conversando animadamente com o senhor e a senhora Marshall, um arrepiou percorreu o seu corpo e ela negou com a cabeça. começou a caminhar para fora da enorme casa, sentando num pequeno degrau e tirando os sapatos.
Seus pés estavam doendo. Loubotin eram lindos, porém, eram sapatos completamente desconfortáveis. Espremiam seus dedos ao ponto dela precisar beber para tirar um pouco a dor, e não, aquele tipo de dor não estava enquadrada no seu Hall de punições.
- Você é a famosa Van der Gouth? – a garota ergueu o olhar e fitou os olhos verdes de um cara extremamente bonito que estava parado bem a sua frente
- E você... é? – ela questionou vendo-o sentar ao seu lado, ele tinha traços de um modelo masculino da g magazine – Algum tipo de garçom? Está prestando serviço aos Marshall’s? – ela questionou vendo-o sorrir e a garota imediatamente se interessou pela risada sexy dele.
- Sou filho de um dos sócios do Marshall, me mudei de Paris a dois meses – ele afirmou e ela sorriu de lado – Pierre Lewis – ele estendeu a mão para ela que de imediato apertou a mão do rapaz, alargando o sorriso – Encantado.
- O que você escutou sobre mim? – ela questionou e ele sorriu de lado levantando – Você já vai?
- Nós já vamos – ele deu uma piscadela puxando o corpo dela para que ficasse em pé – Meu carro está mais adiante, se você quiser uma carona... não acho que os seus pais estejam indo embora por agora.
- Não, eles vão ficar bajulando a família perfeita – ela revirou os olhos encarando o cara que caminhava a sua frente, indo com ela em direção ao carro.
Ele negou com a cabeça.
– E quem não bajula? – Pierre perguntou abrindo o Lamborghini, reverenciando a garota para que ela entrasse – Você quer ir direto para casa? – ele questionou vendo-a negar com a cabeça . O homem abriu o porta-luvas do carro e pegou um baseado e mais outros tipos de drogas.
– Você é algum tipo de traficante? – ela riu vendo-o estender para ela, que pegou um baseado sorrindo de lado – Gostei de você, Pierre.
- Liberté, egalité e fraternité – ele disse gargalhando enquanto acendia o baseado para ela que tragou fechando os olhos.
- E viva a revolução francesa! – ela exclamou passando a mão sob a perna dele que dirigia sorrindo de lado – Viva os franceses – afirmou inclinando o rosto e beijando a boca dele intensamente.
Talvez aquela temporada não fosse tão ruim assim.


Capítulo 2

abriu os olhos se espreguiçando, observando ao redor. As paredes em vidro eram um contraste absurdo com a maioria das casas daquele lugar, o que a deixaram um tanto curiosa diante do que via ali. Sem conseguir lembrar de muita coisa referente a arquitetura da casa, um dos pontos principais que haviam chamado a sua atenção era a modernidade que destoava completamente ao tradicionalismo do bairro. Aquilo geraria um descontentamento em famílias como a sua, por exemplo.
Brightford era um lugar provinciano. Repleto de pseudos-castelos e qualquer arquitetura que ia contra ao que era determinado passava por algum tempo de repúdio até que a sua elite enfim se acostumasse. Para , tudo aquilo não passava de uma grande bobagem, mas pessoas como os seus pais levavam tudo a sério demais. A uns anos atrás, fora proibido qualquer tipo de construção que destoava a arquitetura predominante da região, mas isso dificultou bastante a vida de alguns moradores com o prefeito da cidade, alguém que não tinha o menor poder ali dentro daquele condomínio privado, porém, ainda sim os requerimentos feitos pela família Marshall haviam sido negados. Cada um usava como bem entendesse o seu longo e extenso número elevado de hectares.
Erguendo o corpo junto aos travesseiros, ela pegou um cigarro e colocou nos lábios, acendendo. A garota tragou e deixou que o ar poluído penetrasse os seus pulmões, quanto mais fumava, mais rápida seria a sua morte e não existia nenhum motivo aparente para deixá-la viva naquele lugar. Ao seu lado, o homem estava deitado de bruços. As costas nuas e repletas de arranhões deixavam claro para quem quer que fosse como tinha sido a noite anterior.

E que noite.

puxou um pouco o cobertor para cobrir seus seios desnudos e voltou a tragar o cigarro em silêncio para não acordar aquele que ainda dormia completamente destruído. O quarto estava uma perfeita bagunça. Em cima de uma mesa no canto direito do quarto, fileiras de cocaína estavam completamente bagunçadas, ela negou com a cabeça sorrindo com o cigarro nos lábios. As garrafas vazias de tequila e vodka estavam jogadas pelos lugares, as roupas não seguiam em lugares específicos, o que levou a garota erguer um pouco mais o corpo afim de procurar seus sapatos, achando um par num canto e o outro na outra extremidade do quarto.

Era como oxigênio.

Aquele tipo de noite era excitante o suficiente para deixá-la leve e ela teve medo de que não conseguisse mais passar por dias como aqueles. Sorte sua que ainda existia esperança até que resolvesse repetir o que o seu irmão mais velho fez. negou com a cabeça tragando mais uma vez o cigarro. Ter que lembrar do Brian era como tirar um pedaço do seu corpo toda vez e aquilo costumava se repetir sempre que se via perdida.
Durante os anos de internato, aprendeu que seus alunos eram assim como ela, infernais. Uma vez por mês os pais dos alunos costumavam ir até aquele lugar para visitas ou os alunos passavam um final de semana em casa. Nos quatro lugares em que se deixou ficar, nunca houve nenhum tipo de aproximação com os seus pais.
No primeiro ano, ela esperou.
Na semana de natal, quando todos os seus amigos ganharam presentes e cartões, ela teve que se contentar com uma pulseira de mais de 100 mil libras da Cartier. Algo que não significava nada além de um pedaço de metal, quiçá diamante. Depois daquele ano, ela resolveu que não mais se deixaria sofrer por eles e assim dizendo, a cada visitinha que não existia ou a cada ligação que seus pais não se deixaram fazer, ela punia a única pessoa que tinha culpa naquilo tudo.

Si mesma.

segurou o cigarro na mão e ergueu o pulso que ainda tinha o machucado completamente visível. A garota fechou os olhos e rapidamente esqueceu da noite anterior, voltando para o buraco em que se encontrava. Marshall era pior do que qualquer tipo de droga que tinha encontrado durante toda a sua vida, apesar da pouca idade, a garota se achava experiente o suficiente para afirmar que poucas coisas tinham o poder de transformar sua dor em física como aquele lugar, aquelas pessoas. Sem muito pensar nos problemas, inclinou as brasas do cigarro na pele e deixou ali, seus olhos encheram-se de lágrimas e ela não falou ou gemeu pela dor que conhecia tão bem.

Eu só preciso sentir alguma coisa.

Era a frase que repetia dentro da sua mente toda vez em que se mutilava e na maioria do tempo até que dava certo, mas em se tratando de Brightford, ela só não queria sentir absolutamente nada.
Seria pior.
- O que você está fazendo? – Pierre ergueu o corpo pegando o cigarro da mão dela e o jogando longe. Ele segurou o pulso da garota que estava com um ponto completamente queimado e a olhou com os olhos arregalados – O que merda você está fazendo, ? – voltou a questionar vendo a garota negar com a cabeça, puxando o braço com força afim de enxugar as lágrimas que ousavam em cair dos seus olhos – O que... por que você... – ele voltou a puxar com mais força o braço dela e tocou ao redor do seu machucado, ela gemeu baixinho em dor e ele negou com a cabeça incrédulo – Por que você fez isso? Garota... não faça isso consigo mesma.
- Como se você se importasse – sussurrou puxando o braço para si com violência, erguendo o corpo da cama, se levantando, uma das suas mãos segurava o lençol que mais mostrava do que cobria enquanto a outra mão segurava o cigarro enquanto ela tragava esporadicamente. A garota sentou na cadeira em frente à mesa e começou a alinhar a cocaína numa linha fina sem se deixar olhar para o cara que está próximo a ela – Não procure por vestígio de uma garota que você não conhece, Pierre – seu tom despertava frieza e ele ergueu o corpo da cama, procurando sua boxer para colocá-la logo depois, caminhando até ela – Uu sou um bom sexo para você.
Pierre foi até a garota, puxou uma cadeira pelo chão de mármore, sentando ao lado dela, trazendo o seu corpo para o dele. o olhou sem entender o que ele estava fazendo, mas não se importou quando ele a sentou no seu colo com uma perna de cada lado, o seu corpo de frente para o dele. Suas mãos foram até o lençol e ele jogou longe, puxando o corpo dela mais para o dele sem desviar os olhos dos dela – Eu não sou seu pai, – seu tom estava rouco e ela fechou os olhos quando ele mordeu a sua nuca – Mas não quero que ninguém se mate no meu apartamento, meus pais acabariam com a vida boa que eu tenho – ele deu de ombros percorrendo as mãos pela cintura dela, apertando – Eu não sou seu herói, Thompson. Eu sou a sua diversão.
sorriu com a afirmação dele e deu mais uma tragada no cigarro soltando o ar nos lábios dele que sorriu antes de chocar os lábios contra os dela a beijando intensamente. A garota ergueu o corpo e levou uma mão até o seu membro o endireitando para que ele a penetrasse. Ela começou a rebolar sentada em cima dele enquanto puxava o seu cabelo, fechando os olhos.
– Prometo me comportar da próxima vez – ela sussurrou no ouvido dele, voltando a beijar a sua boca ansiando por mais. Pierre desceu as mãos que repousavam na cintura dela, apertando suas nádegas, dando um tapa, vendo-a gemer em resposta.
Completamente submersos naquilo que faziam com total atenção, não perceberam quando a porta foi aberta e uma senhora de cabelos grisalhos entrou. Os saltos dela ecoavam pelo chão de mármore e abriu os olhos encarando a mulher que agora os arrostava próxima o bastante para perceber o que estava acontecendo – Senhor – ela disse baixando a cabeça, o reverenciando e sorriu erguendo uma sobrancelha.
- Você está numa monarquia também? – ela riu pegando no chão o lençol, erguendo o corpo do membro dele sem desviar os olhos do dele, escutando um gemido fraco dos seus lábios, sorriu de lado querendo cavalgar um pouco mais, negando com a cabeça. Ela inclinou o braço pegando o lençol, enrolando no corpo para ir até a cabeceira da cama, pegando outro cigarro, voltando até a mesa e encarando a mulher que não a olhava – ela está envergonhada porque eu estou nua? Você não traz muitas mulheres ao seu quarto? – perguntou colocando o resto do cigarro no cinzeiro enquanto assistia o Pierre coçar a cabeça parecendo confuso diante da resposta que daria.
- Eu estou aqui a pouco tempo, não existem garotas gostosas o bastante para... bom... a Charlotte tem namorado.
- Pode pegar ela, o namorado dela é um babaca, ele merece levar chifres – comentou pegando o isqueiro, acendendo o cigarro mais uma vez – mas me explica uma coisa... você é realeza também?
- Não... meu pai é sócio do Marshall, o que você achou que rolaria na minha casa? Pensou que os criados seriam bros? – ele riu pegando o cigarro dos lábios dela e tragando ele sem olhar para a senhora que ainda se encontrava parada – as coisas não funcionam assim aqui – ele a puxou pelo cabelo e a beijou. se deixou levar pelo beijo dele, caindo novamente no seu colo, dessa vez de lado – por que você levantou? – a voz dele voltou a se encontrar rouca e ela sorriu negando com a cabeça.
- Quando vi sua empregada, lembrei que preciso voltar para a minha casa, meus pais não sabem que eu dormi fora, ou talvez... eles estejam a ponto de me matar ou deserdar, o que é pior – ela sorriu levantando enquanto procurava a calcinha, vestindo rapidamente, buscando o vestido, encarando a senhora por um instante e a achando graciosa. segurou o vestido e o colocou no corpo, indo até a senhora – a senhora pode me ajudar, um pouco? – perguntou simpática e a mulher voltou o olhar para o Pierre que encarava a com um certo interesse – por favor... – mordeu o lábio tentando subir o zíper sem sucesso – ontem eu coube nesse vestido, hoje não tem a menor condição, mas não vou chegar em casa sem roupa – ela reclamou consigo mesma enquanto a senhora a ajudava a subir o zíper.
suspirou sentindo o estômago sendo esmagado a deixando com um pouco de falta de ar – tudo bem, aí Smantha? – Pierre questionou guardando o membro na boxer enquanto segurava o cigarro que tinha roubado da garota na outra mão. Ele foi até a senhora e parou na sua frente – aconteceu algo? – seu semblante era sério e a senhora assentiu com a cabeça.
- Bom dia, sir. Seu pai pediu para que assim que o senhor acordasse, o senhor comparecesse ao escritório para que vocês tenham uma conversa importante – ela afirmou com as mãos já posicionadas por trás do corpo e o olhar baixo. Pierre assentiu sem falar uma única palavra, voltando o olhar para o chão, pegando o roupão e adicionando ao corpo enquanto olhava para a que naquele instante se limitava em calçar os saltos – quer ajuda, princesinha? – o tom dele era sarcástico e ela indicou o dedo do meio para que ele rompesse numa gargalhada escandalosa – você precisa de um motorista?
negou com a cabeça colocando a bolsa por sob o ombro, ela posicionou o vestido se olhando no espelho e rapidamente passou os dedos pelos olhos afim de mascarar um pouco aa maquiagem que estava completamente distorcida – eu vou levar o seu carro – a garota afirmou passando pela escrivaninha dele e pegando a chave. Pierre negou com a cabeça e foi até ela estendendo a mão.
- Não, não não, meu carro não. Você pode pegar qualquer outro carro, temos vários estacionados ali na frente, mas o meu carro não! – ele exclamou um pouco alterado a vendo negar com a cabeça dando de ombros – vamos . Devolve a chave, você vai bater com o carro e eu te mato.
- Me matar é um alívio, aceito a aposta. Se eu bater com o carro você me mata mesmo? – ela sorriu divertida e ele a encarou sério. Por um instante ela tinha pegado o garoto em baixa guarda diante aquela afirmação – nossa, eu posso morrer sem problemas – ela afirmou analisando o chão enquanto via a pequena tiara de diamantes que estava jogada. agachou para pegá-la com dificuldade em respirar. Voltando ao espelho, ela colocou a tiara, posicionado os fios perfeitamente no cabelo – vossa majestade – a garota reverenciou o Pierre enquanto entregava a chave em sua mão, roubando o cigarro dos seus lábios – eu quero um motorista, não tenho a menor condição de dirigir.
- E você já dirigiu em algum momento da sua vida? – mais aliviado ele cruzou os braços, segurando por entre seus dedos a chave do carro com força, ninguém tocaria na sua preciosidade.
- Óbvio – respondeu tirando a tiara e voltando a colocar no cabelo incomodada. A garota se deixou pensar na última pessoa que arrumou aquele objeto nos seus cabelos e rapidamente ela voltou o olhar para o Pierre deixando a tiara de qualquer jeito – no internato, sempre tinha gente que andava de lá para cá de carro e eu era a pirralha que adorava aprender a dirigir.
- Como você convencia os caras? – ele questionou a encarando. A garota sorriu de lado caminhando até o corpo dele o puxando para o corpo dela pelo roupão – você acha que eu convenci como? – um sussurro se fez presente próximo ao ouvido dele que se arrepiou – do mesmo jeito que se eu realmente quisesse andar na sua Lamborghini, eu teria conseguido – negou com a cabeça – a questão é que eu não quero muito.
- Ninguém toca no meu carro, .
- Você nunca repetiria isso caso eu começasse a induzir você a fazer o que eu quero – ela deu de ombros suspirando pesadamente – a senhora pode pedir para que o motorista prepare um carro para mim, por favor? – ela sorriu simpática para a senhora que ainda continuava parada na mesma posição. A senhora encarou o Pierre esperando a sua aprovação e ele se limitou em assentir, indicando com a mão para que ela saísse do quarto dele – você é mal educado, novo rico?
- Por quê? – Pierre encarou os olhos dela com seriedade e negou com a cabeça dando de ombros – por que eu seria novo rico?
- Somente novos ricos tratam criados com tamanha má educação – ela mordeu o lábio – são pessoas, Pierre. Só não possuem a sorte de ter uma vida repleta de futilidades como a nossa.
- Como se você se importasse com eles... – ele cantarolou – não banque a boa samaritana comigo, . A garota esnobe e fria não se importaria com uma mera qualquer que precisa trabalhar como capacho de alguém para ganhar menos do que um par dos meus sapatos valem – ele revirou os olhos dando outra tragada no cigarro negando com a cabeça – isso em nada tem haver com o meu berço de ouro e a propósito, se você procurar saber sobre a minha família, verá que eu não sou nenhum novo rico, eu somente não sou hipócrita como você que finge ser. Insensível, mas se mutila para sentir alguma coisa.
Samanta piscou algumas vezes antes de abrir a boca para retrucar, se limitando em ficar calada. Ela não teria coragem de falar absolutamente nada. Então, sem se despedir daquele cara com quem havia se divertido, ela caminhou a passos firmes até a porta do seu quarto. Escutou seu nome ser proferido algumas vezes e voltando o seu olhar para a senhora que estava parada ao lado da porta, ela assentiu caminhando ao lado dela. A garota desceu as escadas sem ver absolutamente ninguém além de criados e foi em direção ao carro. Sua visão estava turva, talvez pelas lágrimas que ousavam em cair dos seus olhos.
Entrando na limusine, ela se limitou em abrir os vidros enquanto pegava um cigarro e seu isqueiro. acendeu o cigarro e tragou profundamente. As lágrimas rapidamente cessariam e ela poderia voltar a máscara que costumava erguer próxima a qualquer pessoa que fosse. Nunca se definiu como fraca ao cumprimentar os menos afortunados, quando mais nova, Marshall costumava afirmar que ela era uma pessoa que tinha o trono muito mais do que qualquer membro da sua família e nos sonhos mais tolos da garota, ela sempre se imaginava sentava naquelas cadeiras banhadas a ouro e pedras preciosas ao lado dele.
Imatura.
Encostando a cabeça próximo a janela, ela observou as residências envoltas a florestas e bosques espetaculares. Brightford tinha seus aplausos diante a sua maestria e com aquele pensamento, ela percebeu que fora muito mais preconceituosa do que Pierre consigo. Talvez ela fosse muito mais ligada àquela monarquia do que admitia para si mesma, mas a ideia de que existia uma casa de uma arquitetura moderna, totalmente feita em vidro, a incomodava. Gostava dos castelinhos, sentia prazer em entrar naquela lugares espetaculares e pensar que nada na sua vida não passava de um conto de fadas onde no final, tudo daria certo.
Mesmo sabendo que aquilo não duraria cinco minutos. Ela se deixou fixar o olhar no ferimento no seu pulso. Aquilo existia para lembrá-la do que realmente significava aquele lugar externamente perfeito, mas intimamente destrutivo. As lágrimas que antes intercalaram com momentos de ódio e de prazer seriam corriqueiras nos dias em que tivesse que conviver com a pior espécie de pessoas que pudesse imaginar,
Não existia paz e a cada segundo ali ela teria que ser lembrada que assim como o seu irmão, ela sempre estaria tentada a repetir o seu destino.
Muitas vezes a dor tomava o lugar de alívio e ela tinha a necessidade de contabilizar isso ao contrário.
O alívio primeiro, a dor ficando em último plano.
O carro foi estacionado próximo a porta dos fundos da sua residência e ela sorriu simpática para o motorista que se limitou em assentir com a cabeça, desejou continuar a discussão com o mimado do Pierre ao ter que entrar naquele lugar e se deparar com seus pais. Talvez, somente a sua mãe.
Não que isso fosse acolhedor em se tratando da sua família.
morava numa mansão, como Harriet gostava de afirmar. Castelo para ela, se resumia em Torres e um portão grande o suficiente adicionando ao convidados aquela visão de uma fortaleza e isso não era definido na sua casa.
Construído no século XVII, este era um dos mais palacianos de todas as mansões de Brightford. Os impressionantes pátios, os 13 quartos principais que foram recentemente renovados para adicionar amenidades sofisticadas, as duas modernas casas e dependências fazem deste um verdadeiro tesouro. Outra ajuda, é que existem 1,4 hectares de vinhedos presentes no local.
Houve histórias de que no momento da compra, Harriet ficou completamente decepcionada por não ter o castelo maior daquele lugar e desde então, ela começou a defini-lo somente como uma mansão. A majestade não seria sua, então para ela tanto fazia a nomenclatura oficial do que aquilo representava.
entrou pela porta dos fundos cumprimentando as criadas, simpática, não se deixou perguntar pela sua mãe, ela somente passou por um espelho no corredor e ajeitou a tiara mais uma vez no cabelo. Os sapatos começaram a apertar os seus pés enquanto ela caminhava pelo lugar a fim de subir as escadas até o seu quarto sem precisar ter que explicar onde havia passado a noite.
- Já começou a humilhar sua família, ? – a garota escutou aquela voz e fechou os olhos paralisando o corpo onde estava, próxima a escada. Ela repensou correr pelas escadas fingindo que nada estava acontecendo, mas não conseguiria com a ressaca que sentia naquele instante.
Onde estavam os seus cigarros? Ela pensou.
A garota virou o corpo, abrindo os olhos e encarando sua mãe. A mais velha estava sentada com um copo de whisky na mão, enquanto encarava a filha com desaprovação – oi, mãe – revirou os olhos – dormiu bem?
- Perfeitamente bem – ela afirmou erguendo o corpo e rodando o copo em mãos enquanto dava goles entre um olhar reprovador e outro – diferentemente da minha filha que deve ter transado com algum delinquente qualquer.
- Mãe...
- Eu não quero nenhum, mãe! – ela exclamou jogando o copo de whisky na parede – você não percebe a dificuldade em que nós estamos tendo em voltar ao topo, ? Por que você tem que novamente estragar tudo? – Harriet questionou caminhando até a filha e segurando o seu braço com força, cravando suas unhas na pele da garota – eu quero que você tenha limites do que você faz, estamos entendidas? Você não quer medir forças comigo, garota.
- Mãe... – sussurrou sentindo a dor das unhas na sua pele – mãe, por favor... desculpa, eu... eu precisava espairecer.
- Cheirando cocaína? – ela questionou soltando o braço da filha enquanto a desaprovava de todas as maneiras – se drogando? Olha para os seus olhos! Você quer voltar ao lixo?
- Que lixo, mãe? Não exagera – negou com a cabeça encostando o corpo no vão da escada enquanto tirava os sapatos entre uma careta e outra – você é muito exagerada! Até parece que eles deixaram de ficar com vocês para todos os lados, me poupe – afirmou coçando um olho – eu estou com sono, vou subir para dormir.
Harriet observou a filha subir as escadas. Em pontos específicos, Van der Gouth tinha o mesmo temperamento da mãe. Na sua adolescência houve episódios em que ela, assim como sua filha, foi rebelde e desejou muito mais do que a sua família foi capaz de proporcionar e Harriet também nunca pensava em bens materiais. Com o passar dos anos, Harriet enfim entendeu que nem sempre os filhos serão apaixonados pelos pais e que em muitos momentos eles serão seus inimigos.
Apenas quando se tornarem pais, saberão que muitas decisões foram baseadas em melhorias gradativas para a vida adulta e que aquilo nada seria capaz de comprar. era muito mais monarca do que sempre se deixou ser. Uma garota forte o bastante para passar por tudo o que tinha passado e se manter ali, voltando aquele lugar que Harriet sabia que era seu inferno. Algo que não acontecia consigo mesma, não tinha para onde ir, apenas a bebida e o cigarro eram capazes de esconder de si mesma todos os problemas que havia enfrentado naqueles anos – a Charlotte ligou, ela perguntou se você quer convidá-la para tomar chá.
paralisou e voltou o olhar para mãe no meio da escada. A garota ergueu uma sobrancelha aguardando a resposta da mãe que se limitou em dar de ombros – mãe! Ela não quer ser minha amiguinha aqui, alguma ela quer saber! Você não pode me jogar na cova dos leões! – a garota bateu o pé no chão cruzando os braços completamente incomodada com aquela nova informação.
- A roupa está em cima da cama, por gentileza use a tiara e daqui a vinte minutos desça perfeita para encontrar a filha do monarca – Harriet afirmou sem proferir nenhuma palavra, se limitando em caminhar até o jardim da casa, deixando a completamente irritada enquanto corria a passos firmes e imponentes até o seu quarto. A garota gritou emburrada, sentando-se em frente à penteadeira e encarando suas feições.
A princesa Charlotte queria se aproximar por intermédio dos seus pais, provavelmente. Pelo que a garota havia entendido, sua família tinha voltado a ser o step do rei e assim dizendo, a aproximação de todos os membros seria inevitável.
Coisa que ela não queria de maneira alguma, primeiramente por todo o passado que tinham e segundo, ela não queria ter que lidar com o sorriso do Lucius.
O herdeiro ao trono.
entrou no banheiro e retirou suas roupas, penetrando no chuveiro sem paciência alguma para o que a aguardava. A garota olhou pela janela o imenso vinhedo e suspirou. O problema daquele lugar era fingir que tudo estava bem quando nada estava. Sentia falta de cada lugar que foi. longe dali. Por mais infernais que poderiam ser colégios internos, ainda conseguia ser ela mesma por um tempo e a garota que adorava correr por aquelas plantações de uva que hoje funcionava apenas para entreter convidados não era nem de longe o que lembrava de si mesma. Ela deixou que o ferimento no pulso ficasse um pouco em frente ao chuveiro e sentiu seus olhos lacrimejarem diante da dor. Rapidamente retirou o pulso e passou loção no corpo e sabonete líquido, antes de sair enrolada numa toalha. A garota deixou uma toalha prender os cabelos e foi até o quarto, cessando em frente ao vestido que estava em cima da cama.
O Vestido midi com estampa floral Mary Katrantzou era bonito, pensou. O grande problema era que não tinha mais de 38 anos para usar aquele tipo de vestimenta. O colarinho tinha detalhe em laço na frente, mangas longas, cintura marcada, saia rodada, padronagem floral e longa. Os tons alegres definiam uma realidade que ela não encontrava em si mesma, e não decepcionaria sua mãe, mas também não usaria aquele tipo de roupa para um chá na sua própria casa.
foi até o closet e começou a procurar um vestido mais adequado a sua idade e se deparou com um vestido curto. Ela lembrou daquela viagem a Italia com o internato para estudar as civilizações antigas e a história da igreja católica. Para ela e suas amigas inconsequentes, a viagem se limitou a compras e foi num dia ensolarado em Roma que encontrou uma loja com um determinado vestido na sua vitrine. Ela não pensou duas vezes até comprá-lo e usar mais de uma vez. Hora com um cinto na cintura, às vezes solto e com um Stan Smith nos pés e um rayban no rosto.
Para ela, a liberdade era o que mais sentia falta. A garota pegou o vestido em mãos e deixou que a toalha caísse aos seus pés. O Vestido tinha recorte em tela preto em algodão, seu decote era arredondado e as mangas curtas, colando ao corpo, ela foi até o espelho dentro do closet observando a si mesma, sua mãe certamente teria sérios problemas com aquela roupa. pegou uma lingerie e colocou por dentro do vestido e caminhou até a sessão de cintos. Como toda garota bem nascida, ela pegou um cinto fino e delicado de pedrinhas, assim como a tiara que deixou nos cabelos ainda molhados. Nós pés, ela colocou uma bota não muito alta, mas o suficiente para que ela não se sentisse do tamanho das pernas da Charlotte.
negou com a cabeça e foi até a penteadeira começando a se maquiar enquanto acendia um cigarro, voltou a tragar o fumo se sentindo incomodada com aquela roupa. Não queria ter que se vestir para encontrar com mais uma pessoa daquele lugar que tanto repudiava, poderia ficar presa no quarto para todo o sempre sem problema algum.
Já devidamente maquiada, ela voltou ao closet, tirando toda a roupa que anteriormente tinha vestido. Não queria ter que perceber os olhares contrariados das pessoas por todo o seu protesto, então, sem pensar muito, pegou um Moschino. A Estampa corrida floral, mangas curtas bufantes, gola v. colocou no corpo dando pulinhos para que ele fechasse na sua cintura enquanto ela tentava não bagunçar a tiara que estava sob seus cabelos. A garota não trocou a bota e voltou o seu olhar ao espelho já pronta. Não importaria se sua mãe reclamaria daquela roupa.
Simplesmente não vestiria o que ela queria, e sem ter algum momento para pensar na decisão que havia tomado, a porta do seu quarto foi aberta e ela voltou o olhar para trás vendo sua ama parada sorridente.
- Você está linda, – ela afirmou e voltou seu olhar para a senhora de idade indo até ela, a abraçando apertado – sua mãe pode ver, menina! – a ama a recriminou por entre brincadeiras enquanto abraçava a mais nova apertado.
- Nanny! – ela exclamou deixando beijos molhados pelo rosto da mais velha sorridente – quando você voltou? Pensei que ainda estava na casa do tio Dicky! Que saudade de você, ah Nanny... você é a única parte boa dessa casa – ela sorriu emocianada enquanto a mais velha afastava o corpo de ambas, tocando o rosto da mais nova. olhou para ela e percebeu que seus trajes não estavam condizentes ao restante dos criados e o sorriso que ainda habitava o rosto da garota foi automaticamente excluído – você não voltou? – a menina perguntou e a Nanny negou com a cabeça com um sorriso triste – ah, eu... – ela se afastou bruscamente dela, voltando para próximo da cama – eu pensei que...
- Estou aqui pra auxiliar a garota de companhia que ficará com você, – ela afirmou e se sentou na beirada da cama, cruzando os braços – não faça esse semblante, sua mãe está se esforçando.
- Com certeza, marcando chá da tarde com a Charlotte? Ela está mesmo se esforçando... para que eu tenha o mesmo destino do meu irmão, isso sim.
- Não dramatize a situação – Nanny afirmou ríspida com ela – eu queria ficar aqui, mas recebi uma boa quantia a dois anos atrás dos seus pais e agora posso desfrutar da minha aposentadoria numa casinha maravilhosa na Itália com um vinhedo de alguns pés de uva – ela brincou e não sorriu – você precisa amadurecer, crescer, . Tudo aquilo já passou, as pessoas estão tentando se reerguer.
- Mas e o que eu sofri com tudo isso? Os meus traumas? Eles não importam, está tudo em mim, eu não consegui tirar nada de dentro de mim e eu tenho que fingir que vou ser a garota perfeita para... não sei o que eles querem com tudo isso.
- Eles querem que a senhorita arranje um marido e que faça um bom casamento – Nanny afirmou e ergueu o corpo, negando com a cabeça, buscando os cigarros que sequer lembrava onde havia deixado, pegando um novo e acendendo – sua mãe insiste que você... que você corteje o Lucius.
- Eu? Eu tenho que o que? – alterou a voz percebendo o que tinha feito, pigarreando enquanto ainda negava com a cabeça andando de um lado para o outro – porque eu tenho que cortejar o Lucius? Não é ao contrário? Digo... caso eu tivesse interesse nele, não seria ele a me cortejar?
- Não aqui – Nanny afirmou entrando no quarto da garota e fechando a porta atrás de si, a mais velha sentou-se na beirada da cama e deu batidinhas para que ela fosse ao seu lado e se sentasse. A contra gosto, sentou-se ao lado dela e a encarou curiosa pelo que ela tinha a dizer – a cinco anos atrás um decreto foi feito e enviado à todas as famílias de Brightford. Eu não sei muito do seu conteúdo, apenas o que escutei sua tia comentar com a sua prima, mas em resumo, o herdeiro ao trono...
- Trono imaginário, vale salientar – afirmou contrariada, recebendo um olhar de reprovação da Nanny – desculpe, pode continuar – ela assentiu a observando com atenção.
- Como eu tinha assegurado anteriormente, o herdeiro do trono tem o poder absoluto diante de cada uma das famílias e isso faz do Lucius alguém que pode e deve ser cortejado pelas famílias afim de firmar compromisso com o herdeiro – ela afirmou e segurou-se na cama com mais precisão, tendo um certo receio de cair – depois você pode perguntar a sua mãe, ela sabe de... ela sabe sobre isso, e eu sei porque... sua prima Elisabeth vai começar o cortejo.
ergueu o corpo da cama e voltou o seu olhar para a Nanny. Seus olhos não enxergavam nada além de um vulto que estava afirmando palavras desconexas em que ela sequer conseguia assimilar, a garota cambaleou para trás e se sentou na penteadeira ainda sem desviar os olhos dos dela. – Ele... ele... eles vão namorar? Ele... ele vai... a Elisabeth é uma idiota, por que ela não volta para NY? – A garota ficou vermelha tragando fortemente o cigarro, antes de soltar o ar, encostando o cotovelo na mesa – ele não pode casar com ela... ela nem... ela nem... ela nunca se interessou por ele! Ela é mais velha do que ele, porque...
Nanny consultou o relógio no pulso e ergueu o corpo da cama – ele está finalmente com cara de homem, segundo a própria – a mais velha foi até a e beijou a sua testa – se cuida minha menina, qualquer coisa, só mandar um postal – ela afirmou e viu a garota fazer uma careta. Nanny voltou o seu olhar até o pulso da e tocou por cima, vendo-a afastar sentindo uma dor aguda – não se maltrate, você não merece isso – ela afirmou depositando outro beijo na sua testa – e controle suas feições perante os outros, você não consegue disfarçar muito bem quando o assunto é o Lucius – a mais velha sorriu antes de sair pela porta do quarto e não mais voltar.
sentia sua cabeça girar e só existia um ponto em que ela conseguia esquecer as oscilações da sua mente em prol de problemas em que ela não tinha o poder de controlar. Sem pensar muito, ela levou o dedo indicador ao pulso e apertou a ferida. Seus olhos foram fechados fortemente e ela teve flashes das questões que a Nanny colocou em sua frente, mas ela não pararia de apertar até que somente a dor fosse o combustível que a acelerasse para aqueles episódios em que ela sequer estava preparada para assumir.
Três batidas se fizeram presente no silêncio do seu quarto e ela não se movimentou - senhorita Van der gouth? – a garota não abriu os olhos, tampouco retirou o dedo de cima do amarfanhado, se limitando apenas em escutar o que o criado tivesse que falar – vossa mãe pediu para que a senhorita saísse dos seus aposentos, a convidada está a caminho – abriu os olhos, vendo seu reflexo no espelho e se odiando, não pela tiara nos seus cabelos, mas pela as informações que agora faziam parte do Hall de problemas que precisava esquecer.
A imagem da sua prima casando-se com o Lucius era infinitamente mais assustadora do que ter que cortejar o homem. Aquilo ela não teria problema em fazer e mesmo indo contra todos os seus princípios de garota bem resolvida e revoltada.

Era o Lucius.

ergueu o corpo da cadeira e pegou um limp balm, colocando nos lábios antes de caminhar para fora do quarto. Ao seu lado um criado devidamente trajado a acompanhava e ela sentia o coração disparar. A garota chegou ao topo da escada observando sua mãe desviar os olhos da bebida e encarar a filha. Por um instante teve receio do olhar de desaprovação, mas não foi isso o que encontrou. Sua mãe a encarou encantada, deixando que um sorriso brotasse dos seus lábios, assim como a , que sorriu perfeitamente para a mulher mais velha que a olhava fascinada – aprovada, mãe? – ela perguntou ao descer os degraus, vendo a mais velha assentir satisfeita – me esforcei para parecer uma garotinha que não transa.
Harriet revirou os olhos e ignorou o que a mais nova havia falado, se limitando em observar a porta que era aberta pelos criados enquanto uma garota entrava. Charlotte era a definição de monarquia. Educada, coerente, perfeitamente moldada a tudo aquilo que aprendeu desde que tinha nascido naquele lugar. Não teve nenhum momento de revolta, muito menos se envolveu com alguém que pudesse prejudicar a sua vida. Uma garota que se tornaria o reflexo da sua mãe, alguém perfeitamente monárquico.
Charlotte estava trajada com um vestido MIDI florido, bastante parecido com o que Harriet havia escolhido para sua filha, um scarpin amarelo e uma tiara nos cabelos. Ela parecia uma princesa moderna, vinda diretamente de algum catálogo da família real britânica. A garota sorriu para Harriet indo até a mais velha e a cumprimentando com um beijo na bochecha.
- Linda como sempre – Charlotte afirmou voltando o corpo para a ao seu lado e admirando o vestido da garota. Elas tinham vestido semelhantes e ao mesmo tempo completamente distintos. Ambas estavam vestidas por estilistas estrangeiros e em tons florais. A festa de boas-vindas ao verão exemplificava muito os trajes adquiridos pelas damas daquele lugar. Elas se baseavam nas cores de acordo com as estações do ano e aquilo era o que as definia como excepcionais perante a corte – olá, – Charlotte a cumprimentou sem movimentar o corpo afim de abraçar a outra garota e se limitou em deixar a mostra o seu melhor sorriso.
Harriet percebeu o clima difícil entre as duas e sorriu passando uma mão pelo cabelo, dando outro gole na bebida – por aqui, meninas – ela indicou o caminho, orquestrando a direção na frente ao lado de um criado enquanto as duas andavam lado a lado. O clima era incômodo para quem quer que estivesse por aqueles cômodos. Os homens estavam devidamente vestidos e paralisados, em silêncio, assim como as duas garotas que estavam naquele momento.
percebeu que aquele encontro não havia partido da Charlotte quando observou a sua companheira naquele chá, ela estava tão incomodada e chateada em estar na sua presença quanto o inverso. Ambas olharam para a pequena sala de reuniões informais, caminhando até a mesa de chá que havia sido colocada no meio da sala. Harriet deu um beijo na testa da filha e assentiu sorrindo para a Charlotte, saindo do lugar as deixando apenas com os criados.
Charlotte se sentou na cadeira e pegou o guardanapo, o deixando nas pernas, encarando a . Ela não tinha absolutamente nada para falar, mas como herdeira, a boa vizinhança era solicitada quando seus pais eram os mandantes de ações como aquelas – seremos família, então? – a menina perguntou e ergueu o olhar da xícara que estava depositada a sua frente. Seu olhar foi até o mordomo, enquanto o mesmo assentia e começava a servir chá para a garota, assim como outro homem servia a Charlotte – você sabe que o meu irmão vai casar com a sua prima, não sabe?
olhou para a Charlotte um pouco pálida, seus olhos percorreram aquela mesa com toda a louça do século XVIII, pintadas a mão. Ela procurava pelo seu maço de cigarros e talvez o seu isqueiro, sem sucesso. Sem muitas opções, ela levou as mãos para baixo da mesa e estava pronta para apertar a unha no seu machucado, quando sentiu o pulso latejar somente pelo toque ao redor. Aquilo doeria mais do que o aceitável. Talvez fosse o momento de parar.
A garota levou a mão até sua perna torneada e afundou a unha ali, suas feições não mudaram e a Charlotte esperava qualquer tipo de reação que fosse diferente nas quais estava prestes a deixar visível – fico feliz – a menina disse observando a outra garota com desdém – a parte ruim é que a minha doce prima vai ser a rainha com o maior número de chifres de Brightford – deu de ombros vendo Charlotte sorrir ao negar a cabeça – James – ela chamou o homem que estava parado próximo a mesa delas – traz vodka por favor, você quer Charlotte? – questionou e Charlotte negou com a cabeça e os olhos arregalados.
James saiu foi se aproximando a porta para buscar o que a pediu, mas não sem antes de escutar a voz da convidada – eu quero... uma mimosa com... bastante vodka, se... possível – Charlotte afirmou torcendo os dedos um pouco tímida e a voltou o olhar para a outra sorridente.
- Quatro mimosas, e cancela a vodka, mas você sabe... eu quero daquele jeitinho – afirmou piscando o olho para o homem que assentiu com um sorriso fraco nos lábios – então... você veio aqui somente para sondar se eu ficaria incomodada por saber que o idiota do Marshall vai casar com a imbecil da minha prima? – perguntou e Charlotte levou um tempo observando a garota a sua frente.
A mulher, a sua frente. não era mais aquela garotinha tímida e completamente apaixonada pelo seu irmão, talvez os traumas do passado tivessem motivado o desaparecimento daquela garota que existia anteriormente, mas ela parecia muito mais mulher do que a sua mãe, por exemplo. Para a Charlotte a submissão era a sua grande qualidade. Desde muito nova fora ensinada a ser a sombra do seu futuro marido e talvez a herdeira e acionista do império da sua família, mas sempre a sombra de alguém. Por ora do seu pai, futuramente do seu marido e do seu irmão.
Então para ela, a garota que estava a olhando com olhos azuis intensos era completamente diferente de si mesma e por alguns instantes, ela sentiu inveja por quem a tinha se tornado – a mamãe quer sondar o quanto vocês estão interessados em entrar na disputa.
- Só tem a minha família querendo um pedacinho da coroa? – fez careta negando com a cabeça, pegando um biscoitinho e levando aos lábios – isso não faz o menor sentido para mim.
- Aparentemente, somente os Van der Gouth são bons o suficiente para o trono – Charlotte afirmou e sorriu surpresa – você está surpresa? Eu também estou, meu irmão fez um escândalo quando o papai afirmou que você estava cotada como uma das esposas dele.
- Ele... – pigarreou – ele fez? – ela apertou mais um pouco a pele da coxa com a unha – ele... não sabia que eu era um ser tão...
- – Charlotte disse mais calma – você sabe que o Lucius possui muita mágoa sua daquilo que aconteceu – ela admitiu – assim que você foi embora de Brightford, ele foi para Londres e mal voltava. Não foi fácil para ele também.
- Alguém perguntou se foi fácil para mim? – questionou observando a porta sendo aberta e o James chegar com as bebidas das meninas, ela abriu um sorriso em agradecimento e ergueu a taça vendo a Charlotte ser servida assim como ela – um brinde, eu realmente acredito que se beber sem brindar, são muitos anos sem sexo, Deus me livre.
sorriu negando com a cabeça dando um longo gole na bebida, observando a Charlotte bebericar delicadamente – A questão não é a facilidade em que você lidou com tudo o que aconteceu, foi o que você...
- O que eu fiz depois, eu sei, minha mãe me culpa por isso todos os dias – afirmou tomando todo o conteúdo do copo, pegando outro – não me olha assim, eu não sou a garota perfeita para o seu irmão, pode falar a ele que desse medo ele pode ficar longe – afirmou erguendo o corpo da cadeira antes que o criado afastasse para ela – não precisa, James – ela disse caminhando até a janela e ficando ali parada olhando para o jardim – alguém tão fora dos padrões nunca seria a garota perfeita pra Lucius Marshall
Ela pensou alto demais, levou uma das suas mãos até a boca e lembrou de todas as vezes em que ele subiu as escadas que iam até o seu quarto. Quando mais nova, gostava de fantasiar ser uma princesa em apuros que precisava ser salva. Rapunzell sempre havia sido sua história favorita de conto de fadas e por isso, levou o Lucius a ter que subir por ali toda vez em que quisesse falar com ela. Depois de algum tempo, aquilo se tornou muito mais do que uma simples brincadeira entre os dois. começou a ansiar todos os dias para que ele fosse até ali e a olhasse sob o luar.
Longe dos holofotes de todos, ele era o príncipe que ela sempre acreditou existir.

Um príncipe que se casaria com a sua prima e não queria dividir nada com ela, muito menos um casamento.

Por amor ou não.


Capítulo 3

Uma certa vez, um piloto francês acreditou que poderia voar muito mais alto do que qualquer pessoa, e sob os céus, ele imaginou um planeta. Nesse planeta, residiam pequenos seres que representavam a nossa vida terrena. Algumas pessoas, riram do piloto que já havia participado de guerras e ataques aéreos, uma vida repleta de aventuras reais, não somente aquelas cuja imaginação percorria por trilhos absurdos. Qual o motivo dele se dar ao trabalho de escrever algo num papel? Qual seria a necessidade de um homem como ele escrever sobre qualquer tipo de assunto que não fosse sua experiência pelos ares? Tais imagens pairavam a sua mente o bastante para que ele as depositasse em folhas em branco e transformasse num livro? Ou ilustrasse?
Sonhos sempre representaram muito mais do que o explicável. É uma soma de desejos nos quais muitas vezes sequer conseguimos calcular ou transformar em realidade.
Certamente, o piloto em questão não teve o reconhecimento assim que resolvera escrever e publicar sua obra, essa obra em especial, o livro fora publicado apenas nos Estados Unidos, somente ao final da segunda guerra mundial, sua obra fora publicada na França, seu país de origem, mas lá em 1945 talvez nunca se imaginou que aquele pequeno príncipe e suas questões seriam algum dia, o terceiro maior livro traduzido da história da literatura mundial.
Os franceses possuem histórias espetaculares. Desde a vida unilateral ao amor soberano, a percepção construída perante a dualidade em que eles conseguem estudar pequenos movimentos cotidianos, sempre fora espetacular.

Antonie de Saint-Exupéry fora um homem curioso. Uma definição peculiar, mas bastante comum no hall de pessoas que resolvem expor em palavras pontos da sua imaginação. Através de um livro determinado infantil, ele abordou temas complexos sobre a mente humana e a autodestruição.
Com o passar dos anos, as crianças vão se tornando cada vez mais adultas e esquecendo boa parte do essencial. Van der Gouth era uma daquelas crianças que fora educada desde muito nova para ser adulta.
Durante a infância, os poucos amigos que eram permitidos a correr junto a ela pelos caminhos internos do castelo e o labirinto que representava o vinhedo eram premeditadamente calculados para acontecer. Os filhos dos criados em que teve contato, eram rapidamente afastados e seus pais por muitas vezes designados a outras propriedades da família Van der Gouth. A busca por amigos a tornava assim como o personagem principal de um dos livros favoritos da garota.
Alguém capaz de questionar a solidão e buscar incansavelmente por outras pessoas para caminhar ao seu lado.
Deitada sob a cama, ela tinha em mãos uma edição especial. A segunda edição do Pequeno Príncipe.
não conseguia passar da primeira página do livro e seus dedos tremulavam sempre que ela dedilhava a folha, sentindo a precisão da caneta em que fora escrito a dedicatória especialmente a ela.

‘’O essencial é invisível aos olhos.
Amo você, . ‘’

Ela havia esquecido. Durante os anos que sucederam o seu afastamento de tudo o que remetia aquelas lembranças, deixou de lado também as melhores obras da sua vida. A tentativa, mesmo que inútil de esquecer do seu irmão a levara a fingir que toda aquela parte da sua vida não existia mais e ter que reviver cada pequeno detalhe do que aconteceu entre eles dois era como agulhas no seu corpo, sem ao menos senti-las perfura-la.
A história do pequeno Príncipe refletia os cabelos que estavam jogados naquela cama desde cedo. Entre lágrimas e todo o tipo de lamuria presente ao seu corpo, ela se deixou conhecer mais uma vez a falta que ele fazia. Todo dia 14 era um mês a mais.
Mais um mês desde o dia em que perdera a única pessoa que tinha total conhecimento sobre cada passo dado por ela, ou o campeão de todos os jogos de vídeo game. O pedaço dela em outro alguém.
tinha o corpo esparramado na cama, seus longos cabelos estavam despejados de qualquer maneira, assim como si mesma. Nas mãos aquele pequeno presente do seu décimo sexto aniversario.
Ela carregava consigo as lembranças daquele momento, o baile em que pôde ser apresentada oficialmente como uma debutante e a corrida pelas videiras até a pequena cabana que já não existia mais. Os sapatos apertavam-lhe o pé, mas ela não se importou. Segurando uma garrafa de vinho rosé, percorreu aqueles caminhos de mãos dadas com seu irmão. Logo mais atrás, Charlotte reclamava que não queria percorrer aquela distância e que carros existiam para uma finalidade especifica ao seu questionamento a obrigação de vestidos de época nos tempos modernos.
nunca havia se importado o bastante com aquilo. Os vestidos se moldavam ao seu corpo e ela era fascinada pela ideia de pertencer a uma corte com príncipes e princesas. A garota vivia com a imagem de perfeição de uma corte repleta de modernidade, algo positivo ao seu ver. Gostava bastante dos seus hidratantes e do chuveiro elétrico para ter que viver num mundo em que aquilo não existia, mas em se tratando dos costumes, ela contava os dias para noites como aquela.
Lucius vinha logo atrás, carregava consigo duas garrafas de vodka e toda vez em que voltava seu olhar para trás, ele sorria, levando uma garrafa aos lábios.
Para ela, ele sempre pareceu um duque. Assim como nas histórias de época, ele tinha aquele ar de homem misterioso e cruel. Suas respostas eram ácidas e ele não costumava tratar com delicadeza e simpatia aqueles que não pertenciam ao pequeno e restrito círculo. Naquela noite, recebeu um dos melhores presentes de toda a sua vida, além do livro do seu irmão.
Lembranças que sempre a atingiriam com uma fúria absurda.
Ela ergueu o corpo da cama num ímpeto de aniquilar aqueles pensamentos e foi até a penteadeira pegando em mãos o celular – Porque você não me atende, Pierre? Eu preciso transar – observou a tela do aparelho sem nenhuma nova notificação, jogando-o em cima da cama. A garota passou as mãos pelos cabelos a fim de afastar as lembranças e negou com a cabeça, caminhando a passos firmes, abrindo a porta do quarto – Meu deus, não precisam reverenciar o tempo todo, que irritante – Ela reclamou mal-humorada observando os criados a reverenciarem enquanto ela percorria o grande corredor do primeiro andar, paralisando no topo da escada, se deixando ficar ali, apenas vendo o movimento dos criados junto a sua mãe.
sentiu a raiva triplicar quando observou sua Harriet cumprimentar na porta principal as pessoas que começavam a chegar na sua casa. Sorrisos e cumprimentos calorosos diante de uma atitude completamente hipócrita e fria. Ela nunca entenderia como as relações funcionavam naquele lugar, tampouco, conviveria com uma mulher que conseguia esquecer quantos meses exatos no qual seu primogênito havia cometido suicídio.
A palavra soava como uma punição. Durante muitos anos, ela tentara esquecer completamente tudo o que remetia aquela vida que possuía antigamente, mas que acabara, o que não vinha sendo facilitado por ninguém. Seus pais sorriam um para o outro. Talvez no meio de tudo aquilo, a única atitude verdadeira e sincera. Eles sempre haviam se idolatrado, suas lembranças em família eram sempre repletas por demonstrações de carinho de ambos. tinha aquela percepção e mesmo não convivendo com eles na atualidade, aquilo não parecia ter sido modificado.
Brian era o seu pertencer àquela família. Alguém que estava ao seu lado em cada momento da sua vida. Seus olhos ficaram repletos em lágrimas quando ela encostou o corpo no corrimão da escada no instante em que sua mão foi em direção aos seus lábios.

Sentindo o olhar sob o seu corpo, Harriet voltou a cabeça para o topo da escada, observando sua filha cambalear para trás. O sorriso estampado nos lábios da mais velha se esvaiu e ela sentiu a mão do seu marido sob o seu ombro. Eles não trocaram nenhuma palavra, apenas um olhar que exemplificou absolutamente tudo o que fosse necessário. Voltando aos afazeres de anfitriã, Harriet movimentou o pescoço e ergueu o olhar de volta ao topo da escada não vendo mais ninguém. Um pequeno aperto se formou no seu peito por já ter vivido cenas como aquelas, mas que não poderiam ser modificadas.
- Meu amor? – Seu marido voltou a massagear suas costas enquanto a governanta afirmava que os convidados cessaram. Harriet assentiu e estampou o melhor sorriso que conseguiu aos lábios.
Eles caminharam em perfeita sincronia sorrindo para os convidados que foram se aproximando aos lugares na mesa extensa e bem posicionada. Ao lado esquerdo de cada jogo de louças, um nome definia o grau de inteiração junto aos convidados especiais. Ela sentou-se na cadeira, sendo servida por uma taça de cristal, o líquido num tom amarelado borbulhava junto a borda do copo, dando um longo gole na bebida alcoólica sem sentir o sabor que instalou pelo seu corpo com bastante exatidão, ela voltara seus pensamentos a única filha que havia restado.

A sala de jantar dos Van der Gouth estava repleta com velas e as suas luzes acesas. A grande mesa que tinha lugares disponíveis para 16 pessoas estava com sua ocupação completa, casais conversavam enquanto bebericavam algum conteúdo alcoólico. Os lugares haviam sido calculadamente escolhidos para o bem da anfitriã da noite, que se encontrava ao meio, junto ao seu marido. Eles sorriam enquanto demonstravam ser um casal envolvido, trocavam olhares e explanavam piadas juntos. Ao lado da Harriet, uma mulher loira, de cabelos curtos num tom castanho bebericava sua taça de champanhe, diferentemente da Van der Gouth, ela não tinha opinião própria e somente escutava o que o seu marido comentava ao seu lado. A mulher usava uma coroa de diamantes e tinha as unhas pintadas num tom claro, sua maquiagem não era muito pesada e hora ou outra ela tentava conversar com a Harriet sobre amenidades. Clima, moda ou arquitetura.

Infinitamente impecável, Rebecca Marshall sorria automaticamente para aquelas pessoas insuportáveis a sua frente. Seus olhos se perdiam na imensidão dos arranjos de flores que quase tampavam a sua visão até o outro lado da mesa, algo que ela só tinha a agradecer. Uma parte da mulher só desejava tirar aqueles saltos que apertavam os seus pés, sentar-se na penteadeira e receber uma massagem da sua ama. Essa seria a Rebecca que ninguém conhecia, nem mesmo seu marido ou seus filhos, a outra parte de si mesma, era a mulher que tinha uma coroa de um milhão de euros no topo da cabeça e que sorria com destreza.
Quando criança, aprendera cedo demais que precisava ser aquilo que todos esperavam dela. Seus pais eram um dos fundadores daquele lugar, tão diferente da mulher que conversava animadamente ao seu lado, Rebecca preferia um bom livro a ir a um jantar como aquele. Pessoas que assim como ela tinham a necessidade da perfeição diante dos seus oponentes. Seu pai afirmou uma vez que grandes batalhas eram vencidas em pequenos eventos. Nunca numa ação única e devastadora. Arquitetar estratégias construía a personalidade de um rei e assim como ela, uma rainha.
Rebecca Marshal usava um Dolce & Gabanna exclusivo. O vestido midi com mangas amplas e um cinto marcando sua cintura, junto a estampa floral que se casavam com a tiara e os saltos pretos YSL. A maquiagem era leve. Na sua mão esquerda, um solitário dançava no seu anelar cumprido e magro, junto a um aparador que se situava entre o anel de noivado e aliança. A mulher não gostava de muitos colares ou joias, se limitava sempre com a tiara sob seus cabelos, apesar da insistência do seu marido para adicionar ainda mais brilho ao seu corpo, aquela era a única coisa que ela realmente se limitava diante a toda a vida que possuía.
Ao seu lado, ela observou Harriet com seu vestido Paco Rabanne num tom escuro. Ao entrar naquela casa, fora recebida pelos criados impecavelmente, seu marido possuía muito apreço pela família Van der Gouth e diferentemente dela que não se importava tanto para aquele tipo de laço, Harriet ainda fazia parte daquilo que eles definiam como os soberanos.
Mesmo tendo feito absolutamente tudo contra os costumes.
Marshall costumava forçá-la. Rebecca se sentia menor junto a Harriet, principalmente quando em jantares como aqueles, ela costumava ser o centro das atenções. Quando mais nova, a loira de olhos azuis era comparada a Jackeline Kennedy. Aquilo nunca fora algo que ela pudesse esquecer, talvez, seu marido pudesse parar de chama-la de Jackie sempre que ela dissertava em jantares e festas, trazendo todas as atenções para si mesma. Harriet cursou universidade e se apaixonou. Um homem bonito, ela teria que admitir para si mesma, mas completamente diferente daquilo que eles definiam como realeza. Um jovem rico, mas sem muito o que oferecer além de si mesmo e sua ambição. Expectativas e sonhos que se transformaram em fortuna e além de sorte no amor, Rebecca teve que assistir aquela mulher que ousava em demonstrar personalidade num ambiente que ninguém se arriscava, se tornar tudo aquilo que o seu marido sonhou em termos de aliança.
Rebecca se viu numa simpatia forçada para com aquela mulher, necessitavam se tornar melhores amigas e assim fizeram. Não se suportavam, mas tinham que conviver em perfeita harmonia.

Os fins justificam os meios seria a frase que repetiria para si mesma todas as vezes em que desejara uma casinha no sul da Dinamarca. Viver do comércio local e ler sobre o que gostava, romances apaixonantes.
Uma vida onde ela não precisava ser a sua metade submissa e condizente com tudo aquilo que era imposto a ela.
Provas de vestidos, chás da tarde, conversas íntimas, irmandade. Para Rebecca, não existia um termo correto para amizade, durante toda a sua vida, aprendera que tudo se tratava de interesses e aquilo nunca saiu de dento dela, principalmente quando tinha que lidar com o fato da paixão da adolescência do seu marido ser sua rival e melhor amiga.
Ela escutou um barulho de algo sendo quebrado e seus olhos voltaram-se para cima. Harriet teve a mesma reação e quando Rebecca ergueu uma sobrancelha, voltando o olhar para a mulher, ela teve que vê-la ruborizar.
Harriet Van der Gouth sorriu fraco ao erguer o corpo da cadeira – Preciso me ausentar um instante, continuem sem mim, já volto – a mulher afirmou trocando um olhar sério com o marido enquanto caminhava junto a um empregado. As portas eram abertas e fechadas por empregados na medida em que a mulher caminhava, seus passos que agora ecoavam num outro cômodo, eram o único som audível naquela noite agradável.
Algum som que diferisse das conversas monótonas e irritantes dos bajuladores a sua frente. Numa última porta, Rebecca observara os olhos da Harriet voltarem-se até a sala principal, antes de negar com a cabeça e enfim desaparecer por entre as portas.
Uma sensação completamente fora da normalidade daqueles jantares onde nada, nem ninguém pudesse atrapalhar. Os filhos e herdeiros se mantinham em ambientes distantes dos jantares formais. A informalidade daqueles jantares se resumia somente as risadas e assuntos amenos, mesmo que todos os presentes soubessem de que tudo se tratava apenas de jogada política.

Harriet escutou o som dos seus passos enquanto estralava dedo por dedo. Dois criados caminhavam ao seu lado, mas ela não afirmou uma palavra que fosse, as taças que havia ingerido naquele intervalo de tempo não tinha sido o bastante para deixá-la ao menos alegre, o que era uma lamúria.
Sua pulsação acelerou ao imaginar o que sua filha havia feito.
Sem afirmar uma única palavra enquanto caminhava por entre os criados, ela se limitou em subir as escadas quase que correndo, perdendo um pouco do fôlego ao final. Harriet segurou o corrimão e voltou seu corpo para o ambiente que conseguia observar do topo daquele lugar.
As flores estavam perfeitamente bem posicionadas, velas e candelabros enfeitavam cada cômodo que seria passagem dos convidados até chegar no destino, uma parte de si mesma se sentia orgulhosa diante ao que vinha construindo com o marido. O império uma hora poderia pertencer a eles.
O império que não passava de uma simples nomenclatura e soberania diante de um grupo de pessoas pequeno, mas ainda assim, completamente influente.
Negando com a cabeça diante seu devaneio, Harriet virou o corpo e se colocou a caminhar até o quarto da filha. Ela abriu a porta observando tudo num completo silêncio, seus olhos foram até o criado que estava parado junto a porta e ele ficou na sua frente – onde está a minha filha? – A mulher questionou vendo-o assentir antes de responde-la.
- No antigo... – O jovem garoto de cabelos ruivos e sardas por toda a extensão do rosto respondera, pigarreando desconcertado com a resposta que daria a senhora– Ela está na nova biblioteca – Sua voz baixa se tornou audível e Harriet fechou os olhos por um segundo, antes de massagear sua nuca.
- Obrigada, Rick – Ela respondera tentando forçar simpatia enquanto seus passos apressados se dirigiam àquela porta que significava tanto para elas. Harriet fixou seus pés em frente ao lugar e depositando a mão na maçaneta em ouro da porta, ela tentou girar. A mulher empurrou a porta percebendo que estava fechada, se afastando para procurar por alguém que poderia ajudá-la. Harriet lembrou que estava com convidados na casa e em jantares como aquele, a simples ausência de um dos anfitriões era o bastante para levar pessoas curiosas aos cômodos a fim de descobrir o que estava acontecendo.

Ela já havia vivido algo semelhante.

Harriet corria pelas escadas da sua casa enquanto seu irmão ia atrás dela, os criados caminhavam para todos os lados enquanto eles somente ficavam perdidos naquele mundo que apenas pertencia a eles. As escadas levavam-nos para a torre mais alta que existia naquele lugar e o esconderijo das crianças em dias como aqueles.
As festas da corte eram sempre repletas de muita bebida e comida, mas a garota de longos cabelos loiros, odiava ter que ficar cumprimentando os demais e para que aquelas noites não se tornassem um dos seus piores pesadelos, os irmãos criaram um código.
Lamen era um pequeno Maltês. O cachorro que o Jonan tinha pedido de Natal e que depois de muito problema, havia se tornado dele. Em meio a resquícios de traições que ainda não havian sido completamente esquecidas, as famílias de Brightford ainda caminhavam a passos leves e desconfiados perante inimigos que tinham destruído o que eles definiam como união.
O jantar tinha sido uma comemoração. A compra da última e mais bela casa daquele condomínio tinha sido efetuada por um casal de senhores. Pelo pouco que a garota havia escutado, eles eram alemães e vinham de uma família de grande posição junto ao governo nazista. Sua mãe afirmou com um certo receio para que a filha cuidasse um pouco do seu irmão, Jonan não era loiro como ela e sequer possuía olhos azuis. Harriet ficou atenta, a cada cumprimento dos alemães junto ao seu irmão, ela se limitava em puxá-lo para junto de si. O receio de que aquelas pessoas fossem infiltradas junto aquela população restrita a incomodava assim como a sua mãe.
Ela não possuía nenhuma lembrança da guerra, sequer tinha sido nascida, mas sua mãe contabilizava histórias assustadoras junto aos amigos judeus. As frases continham sempre muito pesar e até mesmo outras pessoas que lutaram contra os nazistas tinham ido para o céu, Harriet pensava.
No meio daquela estreita torre envolta por uma escada, um quadro se fez presente. Jonan parou o corpo em frente a ele e bateu continência, assim como ela. As crianças encararam o homem robusto de olhos azuis e cabelos loiros. Ele tinha o uniforme inglês e possuía algumas medalhas de honra ao mérito – Quando eu crescer quero ser como ele, sabia? O papai me falou que eu vou aprender a lutar como um homem honrado, assim como ele – Jonan ajeitou o terno junto ao corpo e sorriu satisfeito consigo mesmo – Você sabia que garotas não podem lutar?
Harriet encarou o irmão e torceu o nariz diante daquela afirmação – quem disse? Se eu quiser aprender a lutar eu posso, eu conheço guerreiras que lutaram contra alguma coisa – ela reclamou sem lembrar de nenhum nome aparente – você tem que ser assim? Que coisa chata! Você é muto chato! – Ela cruzou os braços dando língua para ele que somente sorriu para a irmã, esnobe.
- Caso você fosse o primogênito e fosse homem, talvez você conseguisse passar por isso – ele riu subindo as escadas divertido - A Harriet é menininha e não pode lutar, a Harriet é menininha e não pode lutar – ele cantarolou e a garota escutou passos atrás dos deles. O garoto cessou a cantoria e encarou a irmã, sério.
Joan entrelaçou sua mão a dela e eles apressaram os passos, correndo pela escada completamente ofegantes. Eles chegaram na porta do esconderijo e entraram sem bater. Harriet deixou que um grito ecoasse pela sua boca no momento em que seus olhos se depararam com aquela cena e ela abraçou o irmão, encolhendo o próprio corpo, fechando os olhos. Ao lado dela Joan estava paralisado, seu coração estava descompassado e seus olhos estavam repletos por lagrimas.
Por que ele estava com aquilo no pescoço?

- Senhora? Senhora? – Harriet voltou o olhar um tanto pálida para o homem ao seu lado e piscando algumas vezes, sua mão tentou novamente abrir a porta trancada. Seu corpo estava tenso e ela temia pelo que poderia encontrar ao adentrar aquele quarto.
Ela sabia o que significava aquela data, Harriet nunca conseguia esquecer do que realmente se tratava aquele jantar organizado num dia em que seu corpo só queria se jogar por uma janela que já existiu naquele quarto. A mulher voltara o olhar até o corpo do homem que gesticulava e afirmava algo que ela demorou alguns segundos para entender. Seus devaneios jogavam-na contra a parede e a chicoteavam muito mais forte e ágil do que verdadeiras chicotadas. A dor era emocional.
- Eu posso abrir – Ele disse percebendo que a mulher estava perdida em pensamentos. Harriet afastou o corpo para dar passagem à ele, que caminhou um tanto envergonhado, a princípio. A mulher inclinou a cabeça para o lado afim de ver o que estava acontecendo. Rick pegou o maço de chaves que estavam junto ao seu bolso e procurou pela chave 40. Eles escutaram a chave girar por três vezes, foram três sons semelhantes no qual Harriet sentia o coração responder, sua garganta ficou seca e com as mãos tremulas, ela observou a porta ser aberta e em câmera lenta, o Rick adentrou correndo, partindo para o auxilio do pequeno corpo que estava jogando ao chão, no centro daquele quarto.

Em mais um dia quatorze.

possuía um corpo pequeno. Não era magra e alta como a maioria das garotas daquele lugar e mesmo odiando a sua altura, para Harriet aquilo fazia parte do seu diferencial. Dessa vez ela não gritou, depois de três segundos que tiveram a duração de trinta minutos, a mulher se limitou em correr até o corpo da filha e dar tapinhas no seu rosto, ela estava desacordada. Harriet olhou ao redor e percebeu a quantidade de comprimidos estavam jogados pelo chão, a maquiagem dela estava infinitamente borrada e o rosto pálido estava sem vida alguma. A Mulher ajoelhou-se em frente aquele corpo e deitou sua cabeça próximo ao peitoral dela. O desejo materno de encontrar batimentos normais, por um instante, levaram-na a acreditar que estava fantasiando, levando em consideração que àquela altura, as batidas estariam se misturando com o seu coração acelerado. Ainda tentando manter a compostura diante o desespero que se fez presente no seu corpo, Harriet olhou para o homem parado junto ao seu corpo e sorriu nervosa – Precisamos de... eu preciso de ajuda.
- Senhora, não é melhor ir atrás do vosso senhor? – Rick questionou medroso e ela negou com a cabeça freneticamente, o homem agachou para segurar corpo desacordado da . Erguendo-a com praticidade e uma certa leveza. Harriet mordeu o lábio com força e percebeu o pulso da garota. Três machucados estavam em carne viva. Seus olhos se fecharam por um momento e ela pensou em se culpar por aquela atitude, mas deixou para outrora. Ela entrelaçou as duas mãos a mão da garota enquanto eles caminhavam por aquele corredor, observando o térreo sob o topo, ela pôde enxergar a soberana Marshall encará-la em silencio. Harriet não teve tempo para parar e cumprimentá-la, sequer cogitou a possibilidade de tentar manter uma conversa com a mulher. Ela apenas entrou no quarto da filha e viu quando o seu corpo fora deixado na cama.
Harriet negou com a cabeça, antes de ter uma visão geral do quarto da filha, antes de correr o mais rápido que pôde até o seu quarto, a mulher abriu o seu cofre pessoal e pegou uma caixinha repleta de seringas. Cada seringa possuía uma dosagem de um medicamento transparente no qual ela tinha experiência o suficiente para lidar. A mulher paralisou o corpo quando saiu do próprio quarto, caminhando as pressas para o quarto da filha, observando Rebecca Marshaal parada ao topo da escada. Por um momento Harriet paralisou, seu corpo começou a tremular e ela sentiu a caixa quase cair no chão diante o seu nervosismo.
As duas mulheres se entreolhavam e Harriet prendeu a respiração, antes de continuar seus passos entrando no quarto da filha, fechando a porta assim que passara. A chave foi girada e quando o criado a encarou sem entender, ela se limitou em dar de ombros sem responder – Estica o braço dela, o máximo que você puder – A mulher afirmou suspirando por um momento enquanto ficava paralisada em frente ao corpo dela. Harriet ajoelhou na altura da cama e deu tapinhas na seringa, sem falar qualquer tipo de palavra, ela delimitou a agulha na veia do braço da , deixando que todo o conteúdo fosse injetado na sua pele. Harriet retirou o objeto e ficou encarando a filha completamente nervosa – Ela... Ela... esse remédio é Cloridrato de Naloxona. É um antagonista de opioide indicado para o tratamento de emergência de superdose ou intoxicação aguda por opioide que se manifesta por depressão respiratória ou depressão do sistema nervoso central. Ela... Não sei se foi a intenção dela se... acabar com... – Harriet sussurrou fechando os olhos – eu... Você pode ir, Rick, esta tudo bem... eu... obrigada e eu gostaria que você...
- Senhora – O jovem rapaz afirmou convicto – Eu serei discreto, não se preocupe. Nós gostamos muito da senhorita , não queremos que ela faça algo mais brusco como...
- Como o Brian? – A mulher questionou dando-se conta de que aquela era a primeira vez em que falava o nome do filho em voz alta com algum criado – Eu sei – Harriet sibilou nervosa – Eu agradeço a sua discrição, pessoas que são condizentes com o seu trabalho, são muito mais do que simples empregados.
- Fazemos parte da vossa fortaleza, senhora – Ele afirmou com a cabeça baixa – O que precisarem de nós, estamos a postos pelos senhores – O ruivo afirmou antes de reverenciá-la e sair do quarto.
Harriet virou o corpo um tanto trêmula para o corpo da filha, segurando sua mão e a beijando – O que você anda fazendo consigo mesma, minha filha? – A mulher disse baixinho escutando a porta ser aberta, sem precisar erguer o rosto para saber de quem se tratava.

Rebecca Marshall entrou no quarto da pela primeira vez e tão diferente do que sempre imaginou, ela não era envolvida por uma áurea repleta por ídolos do rock e uma arquitetura completamente dark. O quarto era simples e moderno, a cama era grande e repleta de travesseiros, uma penteadeira idêntica a sua estava ao lado da enorme porta que estava entreaberta e denunciava o closet com detalhes em veludo e espelhos por muitos lugares. Um lustre estava ao meio do quarto e o dorsal da cama era muito mais delicado do que a lembrança que tinha do quarto da sua princesa, a Charlotte.
- Ela está bem? – Rebecca questionou e Harriet se limitou em negar com a cabeça – Filhos, melhor não tê-los, mas se não tê-los, como sabe-los? – Ela dissertou e Harriet ergueu os olhos azuis do corpo da filha até os olhos da mulher a sua frente – Drogas? - Harriet negou com a cabeça ainda em silencio. As duas mulheres se entreolhavam como se estivessem prestes a falar um turbilhão de palavras, mas não o fizeram. A calmaria que pairava naquele quarto era mortífero a ponto delas terem que conviver com a certeza de que aquilo seria o máximo que teriam – Meu marido pediu para que eu viesse ampara-la, ele achou que você tinha saído da mesa rapidamente por alguma lembrança de um passado. O que é incrível... – Rebecca afirmou seca - Ele se importa muito mais com você do que com a própria esposa.
Harriet abriu a boca para discordar dela, mas estava cansada demais para ter que lutar aquela briga. Rebecca era sua única amiga e inimiga, então ela não se indispuser ia com a mulher a sua frente – Você sabe que ele...
- Vossa excelência, Harriet – Rebecca afirmou por entre os dentes e a mulher assentiu baixando a cabeça – Não esqueça do seu lugar.
- Como esquecer? – Harriet perguntou baixinho voltando seu olhar para o corpo da filha que parecia continuar num sono profundo, ela consultou o relógio do quarto e ainda faltavam mais 20 minutos para que o seu corpo tivesse algum tipo de efeito completo diante da droga, afim de tirar qualquer resquício de ópios do seu sistema sanguíneo – Vossa excelência gostaria de uma foto? – Ela questionou sarcástica e Rebeca ergueu uma sobrancelha – Van der Gouth acabou de passar por uma tentativa de suicídio, mais outra, não é? Ela costuma pregar esse tipo de peça.
- Não acredito que ela realmente esteja pensando em se matar – Rebecca afirmou caminhando, dando voltas no quarto observando cada detalhe, um pequeno porta retrato chamara a sua atenção. estava sorrindo, abraçada ao seu filho que sorria satisfeito para a foto, ao lado deles, Charlotte soltava um beijo para a foto e o Brian estava agachado, sorrindo junto aos três. Uma foto típica de melhores amigos – Quem quer acabar com a própria vida não tem falhas tentativas, Harriet. , pelas suas contas, possui algumas. Uma vez o reitor do colégio interno da Alemanha ligou para o meu marido com o interesse de conversar sobre algumas queixas da garota e ela...
- Você não tem esse direito – Harriet sussurrou tentando controlar a respiração para não perder completamente a elegância e começar a gritar com a soberana de Brightford.
- Direito de que? E não é você, Harriet – Rebecca debochou parando ao lado da mulher encarando a garota a sua frente – ela parece morta. Você não acha que é quase como uma herança familiar? – Ela sorriu venenosa – Aos poucos, cada um de vocês...
- Cada um de nós nada, Rebecca! Vai embora daqui, vai atrás do idiota do seu marido, aquele... – Ela fechou os olhos voltando a controlar a respiração – Vossa... Eu... Peço perdão, eu... Estou nervosa... minha filha está passando mal e eu...
- Sua filha esta mais uma vez tentando acabar com a própria vida, chega a ser engraçado pensar que essa garota é o que o meu marido quer como futura rainha – Ela afirmou por entre os dentes e Harriet sentiu a cabeça girar em 360 graus – Seu marido, aparentemente conseguiu uma fortuna maior do que a do seu irmão – Rebecca deu de ombros – Eu prefiro a sua sobrinha, mais educada, inteligente e certamente não tem esses pensamentos... – Negando com a cabeça, seus passos largos se tornaram presentes no quarto, Rebecca fora até o porta retrato, manuseando-o em mãos, até que deixou novamente no lugar, negando com a cabeça – Esteja amanhã no meu palácio as 15 horas da tarde para um chá, mereço um pedido de desculpas e certamente você precisa se redimir por deixar os convidados de honra da noite sozinhos num jantar sem o menor estimulo para somente amparar mais uma tentativa de chamar atenção da sua garotinha assustada - Harriet encarou os olhos da mulher fazendo careta contrariada diante do que ela havia dito – Você não conhece mesmo a sua filha, Harriet, talvez seja por isso que seus filhos costumem chegar a esse nível, você não os enxerga de maneira alguma – Rebecca afirmou antes de abrir a porta, voltando o olhar para a mulher – Aprenda a ser mulher Harriet, você não precisa ficar sendo a sombra de alguém que você não é mais por toda a vida não, seja mãe.
Harriet encostou a cabeça na barriga da filha. Por um instante, as lembranças do passado em que elas costumavam sorrir juntas voltaram a tona e a mulher se deixou sorrir por alguns instantes. Ainda com as mãos envoltas a mão da filha, ela sentiu uma certa movimentação. Assustada, a mulher posicionou a mão da filha próximo ao seu rosto para estudar algum tipo de movimento que não fosse apenas um reflexo. Num susto, ela arregalou os olhos e o coração disparou, sem falar uma única palavra, a garota voltou a movimentar os dedos como se estivesse voltando a si.
A mulher sentiu o corpo responder num alívio sem tamanho. Aquele dia não seria fácil para ela, muito menos para sua filha, mas seria ainda pior, caso tivesse mais outra lembrança em forma de pesadelo. Acariciando o pulso da filha, Harriet se viu desejando mudar suas atitudes para com a única herdeira do seu sangue. O único fruto que restara do seu amor para com o seu marido e o reflexo da sua personalidade tão presente em alguém.
Harriet, beijou o cabeço da filha escutando um gemido. A princípio o som parecia ser inaudível, mas isso não se demorou muito e sem que ela conseguisse entender com muita certeza, os lábios da sua filha começaram a se movimentar e as palavras saíram como um tiro no meio do seu peito.
- Não, por favor... não faz isso – Ela sussurrou entre gemidos – Eu sou virgem, por favor... não.



Capítulo 4

olhou para a tela do notebook em sua frente e suspirou. Alguma série monárquica estava tendo seu destino decidido e seus olhos estavam pesados. Ela não conseguia mantê-los abertos por muito tempo e aquilo se dava ao grande número de drogas que continuavam sendo injetadas no seu organismo.

Benzodiazepina corria junto ao seu sangue. sempre tinha sido uma aluna relapsa às aulas de química, mas com a experiência do seu estado completamente perturbador e inconstante, aquelas aulas se tornaram o seu refúgio, levando-a a começar a entender perfeitamente cada substância de cadeia química que era injetada dentro de si mesma de acordo com seu momento peculiar.

Drogas Psicoativas são substâncias químicas que agem, na maioria dos casos, no sistema nervoso, alterando a função cerebral, mudando temporariamente a percepção diante alguns acontecimentos. Em determinados episódios, as psicoativas possuem o poder de concentração mais aflorado, um sentimento de alegria, já diante de doses mais elevadas junto ao estado de espírito do paciente, a dormência conseguia ser responsável pela sonolência e demência.

Dentro do hall dos fármacos psicotrópicos, a classe Benzodiazepina trabalhava na sedação do paciente. São classificadas como de curta ou média duração e são preferências de pessoas como a mãe da garota, que preferiria sempre deixá-la em cima de uma cama ao ter que se deparar com a imagem da mocinha tentando se dopar com remédios mais uma vez.

não teve a intenção de desmoronar, como aconteceu. Depois de dias repletos de acontecimentos junto a um lugar completamente frio e sem vida, ela sentia-se mais uma vez como alguém que não fazia parte de lugar algum.
A filha perfeita da sua mãe nunca havia sido ela. Quando criança, seu pai costumava ter uma relação mais amorosa com a garota, ao contrário da Harriet, que tinha como amor de vida, seu filho mais velho.
Pensamentos soltos que interrompiam momentos de certa tranquilidade somente para deixá-la debilitada.

fechou os olhos pesadamente e esquecendo das suas condições, levou a mão até o rosto, o que não fora algo que a ajudou naquele instante.
Junto ao seu corpo, uma bolsa transparente contendo soro estava posicionada, com o movimento delicado, porém brusco, diante da perspectiva da imobilidade em que o braço deveria se encontrar, a agulha que estava posicionada na veia levou sangue até o saco. Ela deixou que uma careta se fizesse presente quando se deu conta do que tinha feito e rapidamente, voltou sua mão até a almofada perfeitamente posicionada na cama.

— Quanta tolice, — A menina afirmou e passos largos foram dados até a beirada do móvel, ela voltou seus olhos para o homem perfeitamente uniformizado que estava paralisado ao seu lado a olhando, buscando por algum tipo de interação, negou com a cabeça, voltando o seu olhar para ele — Eu não estou chamando por você, eu não posso ficar sozinha? A porta já está aberta — Seu tom de voz fora alterado e ela negou com a cabeça, ajeitando a pequena camisola junto ao corpo, puxando uma coberta desajeitadamente, voltando seus olhos ao homem, chateada — Eu não estou me matando, estou? — A garota esperou por uma resposta dele, que tinha o queixo erguido e os olhos perdidos num ponto fixo e alto a sua frente.

Antes que ela pudesse afirmar qualquer outra palavra, uma mulher loira, com um uniforme branco, adentrou ao quarto chamando a sua atenção, ela tinha junto ao corpo uma bata e, ainda ofegante, parou ao lado do homem a encarando.
Por um instante, acreditou que estava tendo algum tipo de alucinação. A dosagem parecia ter sido mais forte do que havia imaginado, e aquilo talvez definisse todas aquelas pessoas presentes no seu quarto que tinham as cumpridas e majestosas portas abertas.

Ela ajeitou o corpo mais uma vez, fechando o notebook e voltando o seu olhar para a mulher que a encarava, assentindo.

— Boa tarde, senhorita.

— Você... quem é você? — coçou o olho e pigarreou, endireitando o tronco a fim de parecer menos infantil — Enfermeira? — Questionou apenas observando a mulher assentir sem proferir uma única palavra — O que a minha mãe acha? Que eu vou tentar... — Suspirando, ela fechou os olhos pesadamente, antes de voltar a abri-los — Vocês estão... Eu geralmente sou mais ativa do que agora, eu poderia...

sentiu-se um pouco tonta, abriu e fechou os olhos repetidas vezes a fim de tentar obter o poder novamente sob o seu corpo, sua visão se tornou turva e ela deitou a cabeça no travesseiro, ao seu lado escutou passos ágeis que chegavam próximos e um aparelho foi adicionado ao seu pulso, sua mente ainda trabalhava perfeitamente, então, ela soube que sua pressão estava sendo aferida.

— Vossa senhoria consegue me escutar? — A voz da mulher se fez presente, e com muita dificuldade, a garota entreabriu os olhos. A visão turva estava presente e ela se limitou em assentit com a cabeça, suas palavras pareciam confundir-lhe a mente — Estou aferindo vossa pressão e acredito que... — começou a sentir uma certa dificuldade em verdadeiramente escutar o que ela falava, ela segurou a manga do jaleco da mulher, negando com a cabeça — Eu não sairei daqui — A enfermeira a sua frente tocou-lhe a mão tentando encorajá-la, e deixou que a sua respiração acompanhasse o seu corpo, lenta e completamente confusa.


Stephanie sentia-se nervosa. Recém-chegada naquela casa, por intermédio do seu antigo professor de anatomia, aquele era o primeiro dia de movimentação real. Desde o momento em que pisou naquele castelo, a mulher acreditou viver um conto de fadas. Um mundo completamente fantasioso, famílias monárquicas vivendo numa sociedade atual e tecnológica. Repletos por conjecturas e falsas leis implantadas por homens comuns que se consideravam seres de sangue azul.

Seus primeiros dias foram repletos por ordens. Vossa senhoria Harriet mostrou seu pequeno cômodo, explicou os horários de funcionamento do lugar e o seu trabalho.
Algo relacionado com o fato de o senhor do lugar ser hipertenso e muitas vezes ter a pressão arterial um pouco elevada. Para ela, uma eterna estudante de enfermagem, aquele trabalho não era muito do que sempre desejou, mas diante dos problemas vividos pela sua família, qualquer auxílio financeiro seria bem-vindo.
Uma dúzia de garotas foram selecionadas para os testes físicos e orais. Seria imprescindível o domínio das línguas inglesas e francesas. Algo que levou Stephanie a quase desistir. Quando criança teve aulas de francês com sua mãe e durante adolescência não deixou de estudar.
Nem francês, tampouco qualquer assunto relacionado a biologia e suas vertentes.

Na universidade, aprendera que um paciente requer toda atenção, e ao mínimo resquício de enfermidade, seria necessário tratamento, seja ele qual fosse.

Aquela garota que parecia ter no máximo dezessete anos, possuía um ar amedrontado. Seus olhos azuis eram transparentes e quando ela se incomodou com a presença de tantos empregados no local, Stephanie percebeu de que aquela garota se tratava do grande problema dos Van der Gouth.

As fofocas corriam a solto por aqueles longos e desertos corredores. Hora ou outra os criados comentavam sobre a pequena e suas peculiares vontades. Diferentemente do que ela aparentava, a garota já havia passado da maioridade, e naquele instante, quase chegava na casa dos vinte e um. Não tinha conseguido concluir o colegial e seus pais tentavam a todo custo finalizar aquele episódio em sua vida.

Stephanie conseguia identificar com clareza quando alguém necessitada de ajuda, talvez, somente alguém para conversar. não demonstrava ser uma garota repleta de afeto, mas também não era aquele recinto de crueldade que a sua senhora havia afirmado anteriormente.

—¨Manda ele embora — Stephanie escutou a voz da garota soar como um sussurro, e sem ao certo saber se poderia dar ordens a um subordinado, ela se limitou em acenar com a cabeça para que ele se retirasse daquele imenso quarto — Fecha a porta. — pareceu reunir forças o suficiente para elevar a voz, tornando o homem a paralisar, voltar o corpo para ela, a reverenciando, antes de sair pela porte, a fechando.

A mais velha observou a garota que repousava um pouco mais calma, sua pressão estava agora voltando ao normal, e sorrindo, Stephanie se sentou ao lado da .

— Você tentou acabar com a própria vida? — Ela questionou. Seu coração disparou, e piscando algumas vezes, Stephanie observou quando fez um esforço sobre-humano até que seus olhos abrissem e assim, ela se deixasse encarar os olhos da mulher a sua frente — Não quis soar rude, mas gostaria de saber das suas reais intenções — Stephanie passou uma mecha pelos dedos, seus cabelos loiros estavam caindo pelo rosto e ela teve que arrumá-los.

Tinha sido chamada pelo garoto que fazia seu coração disparar, e com as bochechas ainda vermelhas, não pensou em absolutamente nada além de segui-lo pelos corredores, subindo a escada, até chegar ali, no lugar que tinha ficado parada ao lado da porta muito mais do que os seus pés aguentariam, ao lado dele.
Até que o seu turno acabasse, mas não o dela.

piscou algumas vezes antes de balbuciar alguns sons desconexos. A ideia de que realmente tinha tentado se matar a amedrontava muito mais do que a qualquer outra pessoa. A resposta para a pergunta da mulher a sua frente era uma sentença de morte, não por ser relacionada a qualquer outro, mas por deixar claro um ponto da sua vida em que ela sequer conseguia lidar.

— Eu acho que não — Ela respondeu afastando um pouco o corpo para o lado para que a mulher se sentisse mais à vontade — Quando eu comecei a tomar aqueles opioides, não imaginei que estava com o corpo tão frágil. Durante o internato, eu... Eu costumava brincar com aquele tipo de composto químico — A garota deixou que um sorriso brotasse aos seus lábios enquanto ela suspirava ao finalizar aquela frase — Nunca foi interesse meu em... Morrer ali, sabe? Não daquele jeito.

— Entendo — Stephanie assentiu passando a mão pelos cabelos novamente — Eu não sou médica, nem psicóloga, só... Perguntei por que você não parece ser uma pessoa que acabaria com a própria vida.

ergueu uma sobrancelha, negando com a cabeça.

— Você não conhece meus familiares o bastante para afirmar que eu não acabaria com a minha vida, meu irmão se matou no quarto que eu fui encontrada, nem sempre aquilo ali foi uma biblioteca — A garota afirmou sem entender ao certo o porquê de conseguir se abrir com uma mulher que nunca tinha visto em toda a sua vida — Estamos condenados aqui... Melhor você correr — Ela tentou brincar e Stephanie assentiu, ficando subitamente pálida e um tanto séria ao encarar a garota a sua frente.

— Eu não costumo ser medrosa — Stephanie afirmou vendo apontar para o soro que ainda estava preso as suas veias e sem proferir uma única palavra, apenas assentindo com a cabeça, Stephanie retirou a agulha, depositando um pequeno band-aid que havia tirado do seu bolso para momentos de precisão como aqueles — Quer dar uma volta? Podemos caminhar — A mais velha tentou encorajar a garota, e assentiu com a cabeça, erguendo o corpo com um pouco de dificuldade. Ela passou as mãos pelos cabelos ao caminhar a passos lentos até a porta, vendo-a ser aberta — Você não sente sua privacidade sendo violada? — O questionamento se desenhou muito mais rápido do que a mulher pudesse prever, a curiosidade aflorando, e sorriu, dando de ombros.

— Quando somos criados num mundo como esse desde sempre, por muitas vezes não concordamos com a vida que nossos pais levam e vivemos completamente diferente longe deles, mas voltando para casa... Nada... Bom, digamos que eu me acostumei. Eu sempre deixo os criados fora do meu quarto, a mamãe já sabe que isso está completamente fora de cogitação, eu não suporto nada disso. Acho que por isso que você...

— Sim — Stephanie respondeu — Eu fui contratada para estar presente vinte e quatro horas no auxílio do seu pai, não que até hoje eu tenha trabalhado, mas como a senhorita está...

— Drogada e com pensamentos suicidas — tentou brincar sentindo um arrepio percorrer o seu corpo ao se deixar abalar pelo que aquelas palavras representavam. As duas caminhavam pelo corredor avistando a escada monumental logo a frente — Vossa senhoria Harriet Van der gouth é em demasiado dramática — A garota gesticulou com uma certa encenação sorrindo, observando um criado parado junto a um sofá, inclinando a cabeça para o lado, ela paralisou no instante em que se deparou com o que via com seus olhos.


Lucius Marshall

estava ao topo da escada quando o viu. Ele estava sentado no sofá, um terno Armani. Seus olhos estavam fixos no celular enquanto sorria. Uma parte de si teve vontade de pegar aquele aparelho e jogar na parede, certamente Lucius estava conversando com alguma mulher, e aquilo era muito para ter que digerir naquele instante. A garota deu alguns passos, encostando o corpo no corrimão ainda o encarando. Ele parecia completamente submerso. Uma pontada de insegurança se fez presente em seu corpo e ela rapidamente desistiu de descer as escadas. passou as mãos pelos cabelos, percebendo que ele não via uma escova há algum tempo, ao seu lado Stephanie tentava encorajá-la com olhares e um sorriso incentivador, algo que não surtiria efeito.

A garota deixou que um sorriso brotasse nos seus lábios ao se deparar com alguém singelo ao seu lado. Stephanie poderia ser uma novata no seu mundo, mas certamente seria alguém que a lembraria a Nanna. Não pela idade, mas por ser alguém que ela poderia confiar.

— Ele é bonitão — Stephanie observou e ergueu uma sobrancelha, voltando a realidade em que as cercavam, antes de negar com a cabeça sem afirmar uma palavra que fosse — alto, bem vestido — a loira começou a enumerar as qualidades dele — todas as mulheres daqui devem ser loucas por ele, não? — Ela provocou e endureceu as feições sem conseguir controlar o incômodo que se instalou dentro de si — Você tem ciúme dele? — a mulher sorriu e deu de ombros.

— Uma vez, li sobre Shakespeare onde ele afirmava que o ciúme era um monstro — afirmou afastando um pouco o corpo da escada, dando passos para atrás para que ele não escutasse o que ela proferia — Acho que eu tinha treze ou quatorze anos, naquela época, desenhei meu nome ao lado do nome do Lucius, repletos por corações. Naquela época, eu somente era a irmã mais nova do Brian, ele tinha todas as garotas que queria no colegial, e mesmo me defendendo de qualquer um que chegasse ao meu lado, ele não me olhava com desejo — Ela deixou que um sorriso fraco brotasse dos seus lábios — Naquele dia, sua irmã ficou brincando com isso, afirmando que eu estava colocando nossos nomes com corações no meu caderninho. Acredito que foi o pior momento da minha vida em se tratando de garotos e eu... ele riu. Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, Lucius me apresentou sua nova namorada, loira, alta, bonita.... Alguma garota capaz de deixar um cara como ele apaixonado — Dando de ombros, ela passou a mão pela nuca ao voltar com aquelas lembranças que tentava esquecer — Aquela foi a primeira de muitas crises de ciúme em que eu bati nele. Gritei, chorei e afirmei que ele se afastaria de mim por causa dela.

— Ele se afastou? — Stephanie questionara interessada na história fascinante em que afirmava.

— Ele não se afastou... Só continuou sendo o Lucius, e eu só percebi o quanto ele não se importava comigo realmente quando, aos 16 anos, um garoto da nossa escola me cortejou, suas atitudes eram diferentes das dele e eu... eu desencanei.

— E ele veio atrás — A outra completou o pensamento da fazendo-a erguer uma sobrancelha surpresa pela afirmação — Garotos são sempre assim... Sempre que percebem que não queremos mais, quando não os colocamos num pedestal, eles simplesmente voltam e depende de nós analisar se realmente vale a pena o idiota — Elas sorriram ao final daquela afirmação e negou com a cabeça se sentindo bem pela primeira vez em algum tempo.

— Ele começou a tentar chamar a minha atenção, perguntava por mim para as pessoas, vinha aqui para me ver, nos tornamos aquilo que eu... — ela passou a mão pelo cabelo endireitando o corpo antes de finalizar a frase. Algo que não conseguiu. entreabriu os lábios para terminar a explicação do que realmente tinha acontecido com eles, mas as palavras não saíram e ela cambaleou lentamente até a parede, se afastando o máximo que pode do topo da escada e possivelmente, dele.

se viu envolta aos próximos passos daquele passado. Lugares que continham a sua memória e a paralização sempre que chegava até ali; nos motivos para as aproximações e no término deles.

Quando criança, tendo uma aula sobre minério no colegial, seu professor afirmou que pedras preciosas a serem lapidas poderiam resultar em algo positivo para algumas pessoas, mas quando depositadas em saqueadores e indivíduos com péssimas intenções, aquelas pedras se tornavam somente algo que tinha tudo para ser majestoso, mas não foi. Ela e a Lucius tinham aquela realidade.

Duas almas ligadas por uma série de pontos em comum na própria personalidade, mas afastados por destinos que não caminhariam na mesma direção.

— Acho que ainda não estou pronta para falar sobre isso — afirmou analisando as reações da Stephanie que sem pestanejar se limitou em assentir com a cabeça – São pontos da minha vida em que eu não costumo... Falar para ninguém, não sei por que... Conversei tanto com você.

— Talvez porque eu não te olhe com o olhar do restante das pessoas que estão ao teu redor — Stephanie observou e ergueu uma sobrancelha, tentando entender o que significava aquela frase — As pessoas aqui não enxergam o outro verdadeiramente, o estereótipo da monarquia segue perfeitamente implantado nessa sociedade e é fácil analisar que ninguém se conhece, verdadeiramente. Poucas são as reais relações. Não é?

É muito mais difícil ter tudo do que não ter nada, The Tudors citou a série analisando o tom de deboche em que a Stephanie sorriu – eu gosto de assistir séries monárquicas da antiguidade, gosto de pensar que o Henry é o Lucius, completamente insano e que só pensa em sexo — Ela brincou pensativa, esquecendo por um segundo que a Stephanie estava ao seu lado — A nossa vida é materialmente perfeita, superficialmente sem nenhum tipo de problema, óbvio que possuímos várias desavenças, mas tudo é resolvido em alto e bom som, numa cavalgada, num jantar. Ninguém briga, ninguém altera a voz, nenhuma pessoa discute publicamente. Fazemos parte de um ambiente completamente sem defeitos e isso me lembra realmente a monarquia. O decoro da realeza é tudo o que eu mais detesto nessa vida — Sussurrando mais para si mesma do que para ela, continuou — uma bolha irreal e fantasiosa, eu sou intensa e viva demais para me deixar acostumar-se a isso aqui — A garota negou com a cabeça voltando o seu olhar para o homem ainda sentado ali embaixo que agora tinha um copo de whisky em mãos, negou com a cabeça e voltou seu olhar para a acompanhante — Vou falar a mamãe que eu quero você como minha dama, você aceitaria? — Sentindo as bochechas corarem, ela viu Stephanie assentir sem realmente saber o que significavam aquelas palavras — É sempre bom ter alguém para conversar — Ela disse virando as costas para a Stephanie enquanto caminhava para o seu quarto — Dispensada — Ordenou negando com a cabeça parando em frente à sua porta, tendo-a aberta pro um criado.

Caminhando a passos lentos e um pouco confusos até o quarto, observou aquele ambiente e foi até a janela pensativa. Sua mão foi até a nuca e ela tentou não cogitar possibilidades em se tratando do homem que ainda estava lá embaixo, certamente esperando pelo seu pai.

Citar o seu passado era como reviver uma ferida.

Seus olhos foram em direção ao seu pulso e ela se deixou ficar analisando o band-aid que estava ali. negou com a cabeça absorvendo os últimos acontecimentos da sua curta estadia naquele lugar. Muitos motivos a levariam até acabar com a sua própria vida, mas não foi a uma ideia sã terminar com tudo assim como o seu irmão.

Por muitas vezes, tinha cogitado aquela possibilidade, seus pulsos eram repletos de marcas que indicavam possíveis tentativas ao suicídio, mas nem sempre ela tinha aquele intuito, algo que sua mãe nunca entenderia.

O gramado, ao lado do vinhedo que conseguia observar por aquela enorme janela começava a florescer. Alguns criados estavam podando aquele espaço e ao longe, uma silhueta de uma mulher caminhava solitária. Não fora necessário um binoculo para analisar com precisão de quem se tratava, aquele terninho Chanel seria inconfundível em qualquer situação.

Harriet caminhava por entre as plantações de uva. não conseguia distinguir as expressões daquela mulher, mas soube imediatamente quando a viu, que ela estava precisando pensar. Quando criança, sua mãe costumava percorrer por aquele plantio perfeitamente moldado, ela corria escondendo-se enquanto o Brian sempre era o primeiro filho a encontrá-la.

Ela sucessivamente observou aquela situação de longe. Seu sorriso sempre havia sido sincero, mas a aproximação com aquela mulher nunca tinha sido algo real. Não passava de um singelo e bobo sonho de uma garota que sonhava em encontrar nos braços da mãe muito mais do que simples palavras em frente a estranhos, mas aquilo nunca fora seu.

Sempre pertenceu ao seu irmão.

Brian nunca fora um garoto problema, pelo contrário. Braço direito e melhor amigo do herdeiro do lugar, era a chance perfeita de equilibrar a disputa pelo trono, casando-se com a alguém cujo rancor sempre fora maior do que o de qualquer outra pessoa.

Ainda observando sua mãe, ela a viu parar próxima a uma videira, erguendo sua mão para apanhar uma uva. deixou que um sorriso brotasse dos seus lábios ao ver aquela mulher fina e sofisticada levando uma uva sem tratamento aos lábios, algo que ela costumava fazer desde a sua infância.

negou com a cabeça, voltando o seu olhar para a cama e repensando se voltaria a ler um livro. Ainda se encontrava em choque por tudo o que havia acontecido a si mesma, e ao desejar ardentemente a nicotina de volta ao seu corpo, ela sabia que talvez pudesse ser um grande problema. Seu corpo ainda se encontrava fraco e um pouco apático, mas não parecia influenciar em muita coisa.

O tempo a levara a se acostumar.

Os americanos costumavam ser pontos peculiares para conservadores britânicos, pessoas liberais e completamente fora do parâmetro mundial em termos de saúde e acessibilidade junto ao seu próprio povo, detestava todo e qualquer povo vindo da nova Inglaterra, mas poderia confessar a si mesma que eles tinham universidades boas o suficiente para disputar com as britânicas, e talvez, até se equiparar. Um estudo americano comprovava que fumantes tinham pré-disposição ao fumo.

Harriet fez questão de aparecer em sua cama, assim que acordou, com diversos estudos em que afirmavam que ela precisava cuidar da própria saúde, obviamente pelo susto em que teve por perder outro filho por suicídio.

— Que escândalo, Senhora Van der Gouth — afirmou para si mesma adentrando no closet. Já um pouco mais disposta, ela bebericou um pouco de chá que havia sido perfeitamente depositado numa mesinha com todos os seus objetos de prata. Ela revirou os olhos desejando um copo de papel reciclável de qualquer cafeteria. Muitas vezes, a ostentação não era sinônimo de tudo o que sempre desejara durante toda sua vida.

Quase nunca. Caso ela resolvesse ser sincera consigo mesma.

deixou a pequena xícara e pegou um vestido preto, jogando na poltrona no meio do closet, ela rapidamente retirou a camisola que vestia e jogou o vestido sob o corpo, que se moldou perfeitamente. Suas mãos foram até a pequena penteadeira e ela enrolou duas partes do cabelo, levando-as a se fundir atrás da sua cabeça, fazendo-a colocar o laço cravejado de brilhantes ali. Ela se deixou analisar, passando um pouco de corretivo nos olhos, junto a um pouco de blush e gloss labial nos lábios.

Seu semblante seria de garota angelical, caso não estivesse com um vestido justo com uma base de peplum que começava um pouco abaixo do seu quadril. pegou uma jaqueta e amarrou na cintura, voltando a procurar pelo seu coturno de salto, a fim de parecer um pouco mais alta, como sempre.

Já pronta, ela sorriu, observando o que restara de si mesma no espelho. Não sabia em que momento havia resolvido que desceria para cumprimentar o Lucius, mas aparentemente aquele pensamento se tornou real a ponto dela se transformar naquela garota que estava adormecida desde os novos acontecimentos, talvez tenha sido a conversa com a garota nova.

Raramente ela se via envolta de pessoas que não faziam parte do seu status social prestes a interferir tanto na criação. Nos internatos que frequentou se sentia em casa, mas somente porque as pessoas em que convivia eram tão mentalmente quebradas quanto si mesma, suas frases eram repletas de sarcasmo e certamente em algum momento, aqueles jovens tinham incomodado seus pais ou tutores, algo que definitivamente não deveria ter acontecido com a Stephanie, que parecia ter surgido junto a uma propaganda de psicologia em que a o Merchant girava em torno da felicidade plena e absoluta. Aquela áurea de simplicidade e felicidade que conhecia de longe e que nunca teve a oportunidade de viver.

Seus passos ecoaram pelo silêncio daquelas paredes, e ela escutou a porta do seu quarto sendo aberto. Sem proferir uma única palavra, negou com a cabeça e caminhou por entre os corredores sozinha, chegando ao topo da escada, sentindo o corpo responder ao estímulo dele.

Precisava de um pouco de nicotina correndo pelas suas veias, mas não se daria ao trabalho de ter que desobedecer a Harriet, aquele momento não tinha sido favorável a nenhuma das duas. No internato, lembrou que conheceu o Vapes. Numa tarde gelada, a garota só precisava colocar um cigarro na boca e seus novos colegas informaram que era terminantemente proibido fumar nas dependências, mas que isso não se aplicava aos Vapes, ou mais conhecido como cigarro eletrônico. Aquela época se consagrou como o espaço de tempo em que a garota ficou sem fumar qualquer tipo de coisa. Dois meses e vinte e cinco dias até que a sua então melhor amiga conseguisse um contrabando com seus primos que possuíam um barco e trouxeram um pouco de nicotina até o lago da escola.

Seus passos estavam determinantes, e ela sentiu o coração acelerar um pouco. A luz do sol que ainda pairava pelo céu direcionada ao corpo do Lucius o deixava ainda mais bonito, algo que nunca passaria despercebido a ela, que segurou fortemente o corrimão gélido do topo da escada.

Ela esperou que ele erguesse os olhos do celular ao escutar seus passos. Todos os criados daquele cômodo já estavam com os olhos presos ao corpo da garota que pé ante pé descia as escadas segurando no corrimão. Ela sentia suas mãos suarem frio a simples ideia de que ele iria olhá-la, e o gesto não se demorou por muto tempo até acontecer.

Numa rapidez significativa, Lucius ergueu o olhar até o topo da escada e aos poucos, foi acompanhando a garota que descia os degraus sem desviar os olhos do dele. tinha o coração em disparada desde o segundo em que percebera que aqueles olhos negros e intensos estavam perdidos nos seus. Ao chegar a base da escada, um criado a reverenciou, e não desviou os olhos do Lucius, que aos poucos, foi erguendo o corpo do sofá, voltando a abotoar o terno, passando as mãos pela veste, guardando o celular no bolso.

— Ops, acho que alguma garotinha vai levar um vácuo — Sua voz soou muito mais trêmula do que ela tinha planejado, e ele ergueu uma sobrancelha observando-a parar a sua frente.

o reverenciou com um sorriso zombeteiro nos lábios, o tom de deboche nos seus olhos não passou despercebido ao Lucius, que sorriu de lado, deixando a mostra um dos sorrisos favoritos dela.

— Cadê o ‘vossa alteza’? — O homem questionou cruzando os braços — Me sinto ofendido.

— Não sou suas concubinas.

— Ah é, você é prima da futura rainha — Lucius afirmou e deixou que sua mão fosse até sua perna, penetrando sua unha a fim de ter uma reação fria e completamente descontextualiza.

A garota deu de ombros, sentando no sofá, desviando os olhos dos dele, para que já estando devidamente acomodada com as pernas em conjunto e suas mãos repousando ali, seus olhos voltassem aos dele, que sentou de qualquer maneira, voltando a soltar o terno, fechando os olhos.

— Você não quer casar com ela? — Ela questionou sentindo o coração disparar.

— Eu não queria me casar, . Nunca quis, você sabe bem disso — Lucius reclamou olhando para o lado, pegando o copo que anteriormente ele tomou whisky. Um criado caminhou a passos largos até ele, que ergueu a mão — Não precisam servir minha bebida, eu sei fazer isso — O homem resmungou e deixou que um sorriso brotasse dos seus lábios — O que foi? Eu detesto não ter uma merda de privacidade, todo lugar tem alguém.

— Pelo que eu lembre... Você ainda tem um andar só seu — A garota comentou e ele bufou acomodando o corpo ao sofá dando de ombros — Foi privado disso? Sério?

— Eu não posso comer ninguém que eu realmente quero ali. O nosso rei afirmou que eu só posso transar na casa de campo e isso requer muito esforço da minha parte, viajar 40 minutos somente para transar com alguém — Lucius debochou fechando os olhos e observou seu rosto por um longo tempo.

A garota estendeu o braço, a fim de tocar o pescoço dele. A adrenalina que brotou do seu corpo a fez pulsar e enquanto ele tinha os olhos fechados pesadamente, talvez carregando um mundo inteiro sob as suas costas. observou sua própria mão tremular pelos segundos que antecediam aquele toque.
,br> — Você pode comer quem você quiser, onde você quiser — A voz dela tinha um timbre rouco, e quando Lucius entreabriu os olhos, se deparando com a garota muito mais próxima do que ele cogitou naquele instante, tentou recuar o braço, mas antes que pudesse se movimentar, Lucius tocou delicadamente seu pulso, passando os dedos pelo band-aid dela, retirando-o enquanto encarava os olhos da garota, que não conseguia desviar o olhar do seu.

— Quando você vai parar de se culpar por algo que não foi sua culpa? — Lucius questionou trazendo o braço dela para perto do seu rosto, passando os lábios pelos machucados, fechando os olhos — Você não tem culpa pelo que aconteceu a ele — Ele sussurrou com a voz rouca e ela teve o corpo em êxtase. O deleite sentido naquele instante.

entreabriu os lábios, seus olhos se movimentavam, num misto de excitação e contemplação que a deixavam submersa ao toque dele. A vontade que percorria o seu corpo era de uma força imensurável e seus olhos estavam fixos em cada movimento feito pelo homem. Lucius percorreu os lábios úmidos ainda com vestígios de whisky pela pele da garota, e ela aproximou o corpo mais um pouco. Sua mão percorreu a nuca dele, satisfazendo-o assim como ele estava despertando sensações incalculáveis ao corpo dela.

— A culpa é consequência de atos errôneos, a verdade que habita em mim é a certeza de que em algum momento eu falhei — Seus lábios proferiram aquelas palavras e ela observou quando Lucius entreabriu os olhos e a encarou, sério.

não desviou daquele olhar e aos poucos, ele foi distanciando seus lábios do braço dela. Ela ainda tinha o pulso acelerado enquanto seus lábios ansiavam pela pele dele junto a si, mas Lucius endireitou o corpo e fixou seus olhos num ponto a sua frente. Ela ficou ainda estática, assimilando a veracidade daquele momento em que o Lucius se mostrou tão vulnerável a ela. E vice e versa.

— Pena que você não teve consequência nenhuma por ter aberto as pernas para o meu pai, não é ? — O homem ergueu o corpo no instante em que finalizou a sua frase, ela nada disse. Se limitara a encarar os olhos dele sem desviar enquanto observava o Lucius caminhar a passos largos até a porta principal da sua residência – Avisa ao seu pai que eu não tive tempo para esperar, o futuro rei tem muito o que fazer.

Ao ter a porta aberta, observou-o desaparecer por entre o estacionamento. Se houvesse escolhas errôneas, certamente, era a rainha delas. Ainda não havia entendido a ânsia que despertou no seu corpo para que se deixasse caminhar até ali, tendo que se deparar com alguém que em algum momento da sua vida fora muito importante, nas não passava de um homem qualquer.

Lucius Marshall conseguia levá-la ao espaço junto a sua flutuação e gravidade zero, ao mesmo tempo em que ele a puxava para o mais quente e assustador inferno. Não demorava muito tempo até momentos como aqueles e ela sabia, nunca poderia voltar a tê-lo como teve em algum momento da sua vida.

ergueu o corpo e caminhou até uma pequena mesinha ao lado de uma grande porta lateral em vidro, dentro de uma caixinha banhada em prata, ela tirou o maço de cigarros da sua mãe, junto a um isqueiro barato, mas que conseguia determinar o fogo do mesmo jeito que qualquer outro.

Harriet acreditava ser alguém completamente inteligente por esconder ali algo tão corriqueiro, mas sabia desde sempre. Quando começou a desenvolver o vício junto a sua mãe, aquela tinha sido a porta de entrada.

O início do seu fim. acendeu um cigarro e negou com a cabeça de olhos fechados. O passado assombrava sua vida e seus momentos repletos por felicidade instantânea eram destruídos por ódio e rancor. Tragando o cigarro, ela deixou que a fumaça fosse embora sem se importar com os medicamentos que estavam no seu organismo. Nicotina nunca faria tão mal assim, ao menos, não daquele jeito.

Ela percorreu seu olhar ao redor do ambiente antes de levar as brasas do cigarro naquele lugar que tanto conhecia. Sentindo aquele ardor tão único, tentou aniquilar da sua mente tudo aquilo que Lucius Marshall representava e todas as teias de mentiras em que ele acreditava cegamente.

Nenhum tipo de monarca acreditava nas suas próprias palavras, mas o que realmente importava para a sua plebe era a veracidade delas. Sua verdade nunca seria absoluta diante de todas aquelas pessoas e de algum jeito, a punição partira somente dela. Para com ela.

apertou um pouco o cigarro na sua pele, sentindo a dor percorrer seus músculos e nervos, irradiando todo o seu corpo em prol da sua sanidade. Enquanto houvesse a dor física, ela nunca precisaria se importar com tudo o que tinha acontecido consigo mesma e a doce mentira em que as pessoas prefeririam viver.

— Você é um babaca, Lucius Marshall, por não acreditar em mim — sussurrou com um fio de voz ao penetrar ainda mais a sua pele aquelas faíscas — Você é um babaca egoísta e cego. Você só enxerga aquilo que as pessoas te permitem e isso não significa a veracidade, somente te diminui como ser humano, te iguala a todos eles.

Ao longe, observou sua mãe caminhar pelo vinhedo, seus olhos estavam presos no rosto da garota a sua frente, e soube que não poderia mais ficar ali, seu momento tinha acabado.

Pior do que ter que lidar com Lucius Marshall e suas escolhas erradas seria lidar com a frieza da mulher que lhe concebeu.

Jogando o cigarro ao chão, pisando em cima propositalmente antes de fugir dali. Ela se apressou, correndo até a escada lateral, deixando de lado cada um dos criados que estavam por ali, subindo as estadas ignorando alguns degraus, pulando-os de dois em dois. Seu coração estava em disparada e sua respiração completamente descompassada. Atingindo o topo da escada, seus passos foram mais uma vez atingindo uma velocidade alta a fim de que ela chegasse ao seu quarto, deixando de lado os criados que haviam ficado pelo caminho.

A garota tocou a maçaneta girando-a, entrando ao quarto, indo direto até o closet. Seus olhos foram em busca de uma roupa rápida para que pudesse fugir daquela realidade o quanto antes.
Seus olhos se perderem por um longo instante e ela fixou seus olhos num vestido branco, repleto por flores bordadas. Ela visualizou as mãos do Lucius sobre a barra quando ele havia visto a garota com aquelas vestes. Naquela ocasião, seu corpo tinha ido ao delírio e sua mente queria ter focalizado o sorriso dele ao comentar a infantilidade daquele vestido.
Um ponto infantil que nunca havia sido aplicado no seu próprio corpo. A inocência que habitava no corpo dela era meramente ilustrativa, fazia parte de uma imagem onde sua mãe gostava de determinar, mas que nunca foi facilmente adicionada a realidade em que a cercava.

sentiu um tremor percorrer sua nuca, levando-a a afastar-se dos pensamentos que costumavam trabalhar como uma ponte quebradiça repleta por caminhos perigosos, remetendo-a a exatidões realísticas que a transformavam em alguém completamente amedrontado e nostálgico.
Pontos dos quais ela só queria manter-se distante.

A porta do seu quarto fora aberta e ela aproveitou o ensejo para trocar-se rapidamente. Ela dedilhou alguns vestidos demonstrando impaciência ao desviar os olhos das roupas, sabendo que existia um par de olhos presos ao seu corpo.

— Vai ficar me encarando por quanto tempo? — sentiu o coração disparar, percebendo a pessoa que estava encostada nas portas abertas do closet.

O sorriso que estava ensaiando uma aparição nos seus lábios foi destruído com a imagem de perfeita imponência da sua mãe. Harriet segurava o cigarro por entre os seus dedos, ela tragava a nicotina como se a sua vida dependesse daquilo, e a garota somente fechou os olhos.

— Você não vai lugar algum, caso seja essa a ideia, .

— Mãe.

— Não quero nenhum tipo de comentário depreciativo ou auto destrutivo, você vai ficar em casa e ponto final — Harriet percorreu a distância que afastava as duas, sentando-se no sofá repleto por roupas espalhadas de qualquer jeito — O Marshall falou o quê?
— Não entendi — A garota levou as mãos aos olhos, coçando-os um pouco contrariada — Eu quero dar uma volta, não precisa me deixar em casa como uma prisioneira. Você sabe que eu odeio esse tipo de coisa.

— Não me lembro de ter questionado o que você prefere, — A mais velha cruzou as pernas e encostou o tronco confortavelmente nas costas do sofá, retirando os sapatos com os dedos, sentindo-se à vontade — O que ele fez? — A pergunta soou um tanto quanto autoritária, e , que até aquele momento tentava lidar com o acontecimento como algo corriqueiro, sentou-se ao lado da mãe, encarando-a logo após um longo suspiro.

— É o Marshall, mãe, ele não precisa fazer muita coisa para me deixar raivosa ou impaciente, não — A garota encostou os cotovelos sobre as pernas e encostou o queixo rente as mãos, fechando os olhos — Ele queria conversar com o papai, e eu fui até lá como a de anos atrás.

Harriet sorriu, os longos e escuros cílios da filha estavam fechando seus olhos. Ela parecia completamente submersa em seus próprios pensamentos, e aquilo fora o suficiente para que a mais velha tivesse vontade de talvez aconchegar seu corpo ao da filha, mas não o fez. Analisando o corpo pequeno dela, percebeu que a garota possuía marcas de uma sabotagem que se arrastava por anos a fio.

A culpa possuía o poder de destruir um ser humano. As dores que perpetuavam junto aos dias e não eram eliminadas por absolutamente nada tornavam determinados instantes num completo ponto de desequilíbrio, e era o próprio reflexo daquele acontecimento. Os olhos determinados não conseguiam esconder por muito tempo o que verdadeiramente acontecia por trás daquele semblante fixo e frio. Ela enxergava a filha como uma boneca de porcelana.

Forte e indestrutível aos olhos dos demais.

Frágil e solitária ao deparar-se com o próprio reflexo rente ao espelho.

Assim como ela ou como todos os outros integrantes daquela família.

Belos para o público, perfeitos para a coroa e frágeis diante dos seus próprios monstros cotidianos.

— A que sempre vai existir dentro de você — Harriet afirmou percebendo os olhos da filha se abrirem, encarando-a séria — Não importa o quanto você tente. Você nunca vai percorrer um caminho muito longe do que palpita aqui dentro — A mulher levou a mão ao coração da garota, tentando expandir um sorriso nos lábios que nunca existiu — Não lute tanto, .

A garota piscou deliberadamente antes de erguer o corpo, puxando o cigarro da mão da sua mãe, encarando-a intensamente ao segurar o cigarro por entre os dedos, levando-o aos lábios para uma tragada leve, baforando por um instante. Ela deixou um sorriso nos lábios, erguendo o braço esquerdo para empurrar a faísca no cigarro rente ao pulso.
Ela fechou os olhos, sentindo o corpo tremular em dor. A mulher a sua frente a encarava com a desaprovação estampada aos olhos, e sem proferir uma única palavra, ela viu a filha apertar ainda a batuca, queimando sua pele pálida ainda mais.

— Isso é o que acontece quando eu não luto, mamãe.




Continua...


Nota da autora: Sem nota.



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