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Última atualização: 30/09/2020

Prólogo

A estrada escura e a chuva torrencial que caía dificultava ainda mais a visão da mulher atrás do volante. A música baixinha dentro do veículo amenizava o medo de raios e trovões tinha, fazendo com que ela não prestasse atenção neles, continuando atenta a estrada um pouco escura. A música foi interrompida pelo celular que tocava dentro de sua bolsa jogada no banco do carona vazio ao seu lado. Um, dois, três, quatro toques e o celular cairia na caixa postal, quem quer que fosse poderia retornar a ligação mais tarde. Olhou pelo retrovisor interno, Brandon, seu irmão de sete anos, distraído com o tablet enquanto olhava algum desenho de super-herói no aparelho. O celular ao seu lado voltou a tocar de novo, e de novo, e de novo. desviou a atenção para o celular, vendo cinco chamadas perdidas de Charlie, seu marido. Antes que pudesse largar, o aparelho começou a tocar novamente, decidiu por fim atender, colocando o aparelho no viva-voz.
- Ei gatinha. - Charlie estava bêbado, de novo. A mulher soltou um suspiro alto, olhou mais uma vez Brandon, mas o menino estava entretido demais e com fones de ouvidos. Ótimo, pois estava prestes a soltar alguns palavrões.
- Eu to dirigindo Charlie, depois te ligo.
- Não, não desliga. Eu to com saudade. - Charlie soltou uma risada, mas a voz arrastada denunciava que além de bêbado, ele também tinha fumado algum baseado. O que costumava fazer quando estava estressado.
- Você está bêbado e chapado. Tente manter a casa limpa pelo menos, Brandon está indo comigo.
- Eu prometo que vou mudar. - A mulher revirou os olhos, permanecendo em silêncio.
- Se fosse mudar não estaria me ligando essa hora. Não nesse estado. - Ela disse perdendo toda a paciência.
- A culpa é minha se aquele cara babaca ficou dando em cima de você? Eu só estava defendendo o que é meu. - Ele parecia não se importar.
- Não sou sua propriedade. - Charlie tinha ataques de ciúmes, o que acabava resultando em briga. Muitas delas desnecessárias.
- Eu achei que a gente ainda tinha salvação, mas percebi que não temos e nunca vamos ter.
- Quando você tiver as mesmas atitudes sempre que estiver bêbado, não vamos ter. - Alterou a voz, já perdendo o resto de paciência. - Eu preciso des….
Antes que Jena terminasse a sua frase, a luz forte do caminhão entrou no seu campo de visão, fazendo a mulher fechar os olhos com força. O baque dos dois veículos se chocando fez o pequeno carro sair da estrada, indo de encontro ao barranco logo ao lado, quebrando seus vidros. A mulher já estava desesperada ouvindo os gritos do irmão mais novo e gritando junto, sem conseguir protegê-lo. O carro girou mais algumas vezes, finalmente parando ao contrário do que deveria estar. Os barulhos das sirenes podiam ser ouvidos, mas antes que alguém chegasse a visão de foi escurecendo até finalmente apagar por completo.


Os corredores brancos tão conhecidos por se tornaram apenas borrões para os seus olhos quando ela recebeu a pior notícia de sua vida. Parou de tentar entender o que o médico falava assim que aquelas malditas palavras saíram de sua boca, chegando ao seu cérebro e virando sua mente de cabeça pra baixo, virando seu mundo do avesso. Sentiu os braços de sua mãe a segurarem firme, abraçou a mulher o mais forte que pôde, mas nada parecia amenizar a dor.
Seu irmão, seu pequeno irmão estava morto e a culpa era sua. Afinal era ela que estava dirigindo o carro, era ela que estava discutindo no telefone quando não viu o carro sair da pista e se chocar com um caminhão, era ela e apenas ela a culpada por tudo ter acontecido. Seu peito parecia querer explodir a fim de diminuir a dor que sentia, mas a verdade é que ela era capaz de fazer muito mais para que a dor parasse, ela queria que tivesse sido ela e não o seu irmão, tão jovem e cheio de vida pela frente. Se pudesse trocar de lugar com ele, não pensaria duas vezes antes de fazê-lo, mas não podia. Era tarde demais.


Capítulo 1 - I'd never wish for anyone to feel the way I do

O céu nublado denunciava a chuva que estava por vir, mas não se importava de ficar mais alguns segundos, minutos ou horas sentada ali naquele lugar tão conhecido por ela nos últimos meses. Ela sabia que não importava quanto tempo ficasse ali, a dor não sumiria de uma hora para outra, a dor nem sequer diminuíra com o passar do tempo, apenas aumentava e trazia as malditas lembranças à tona. A mulher de cabelos longos, soltos pelo seu rosto já que o vento bagunçava os fios ainda mais, e olheiras fundas, deixou mais uma rosa por cima da lápide, depois de tirar as folhas secas e murchas de cima da mesma e arrumar algumas flores bagunçadas que já estavam em cima da mesma. Respirou fundo mais uma vez e secou as lágrimas que ainda insistiam em cair pelo seu rosto, saindo por fim do cemitério com o aperto no coração maior do que quando entrou naquela manhã.
Preferiu pegar um táxi novamente, a ideia de tocar num volante era assustadora e não saberia dizer se um dia conseguiria voltar a fazer. O motorista do veículo pareceu não se importar por chorar o caminho inteiro e ela agradeceu por não ter de responder nenhuma pergunta, não responderia de qualquer forma. Agradeceu baixinho e entregou algumas notas ao motorista, pagando a corrida feita, assim que o mesmo parou o veículo em frente a sua casa.
A casa grande não tinha mais a mesma alegria de antes, o local tinha um ar pesado e melancólico. Como se qualquer coisa que tivesse que ser feita fosse demandar um enorme esforço, de fato demandava quando as duas pessoas que moravam ali dentro já não estavam dispostas a gastar mais energia para fazer qualquer coisa. Quando colocou seus pés na sala de estar, já subindo as escadas que davam acesso aos quartos, o barulho vindo do jardim pôde ser ouvido, junto de algumas vozes desconhecidas. ficou levemente alarmada, pois sabia que já havia tempo que outras pessoas não pisavam naquela casa, justamente porque ela não dava abertura e nem queria que alguém aparece por estar sentindo pena dela. Odiava qualquer olhar piedoso que recebia, odiava ainda mais quando esse olhar vinha de seus familiares e amigos. Caminhou em passos lentos em direção aos fundos da casa, onde ficava o jardim. Viu quando encontrou Charlie e seus amigos fazendo churrasco, como se a vida fosse bela e o dia estivesse lindo para farrear.
- Ei, , vem aqui tomar uma cerveja com a gente. - Scott, o mais inconveniente, gritou pela mulher, chamando a atenção de todos. O olhar de ficou preso no do marido. Charlie tinha um certo receio ao encarar os olhos tristes da esposa, murchou os ombros e virou de costas, voltando a prestar atenção no que estava fazendo na churrasqueira. A mulher apenas ignorou o chamado de Scott e subiu o mais rápido possível para o seu quarto, trancando a porta assim que adentrou o cômodo. Trocou de roupa, vestindo seu pijama confortável após tomar um banho quente, e se acomodou debaixo das cobertas. Sua cabeça pesada demais com o turbilhão de pensamentos a fez pegar no sono em seguida.
acordou no susto, com o corpo repleto de suor e a respiração ofegante. Toda a noite o mesmo sonho com o acidente dominava sua mente. Já se passaram cinco meses desde o fatídico dia, mas em nenhuma daquelas noites aquele sonho a abandonara. O quarto escuro mostrava que já havia anoitecido dessa vez a casa já se encontrava silenciosa novamente. Sentiu algo por cima de seu corpo ao tentar se levantar da cama, o braço de Charlie estava por cima de sua barriga. O homem cochilava tranquilamente ao seu lado, nem lembrava mais quando tinha dividido uma cama com o marido. Antes mesmo do acidente, eles já tinham decidido dormir em quartos separados e encontrá-lo ao seu lado a pegou totalmente de surpresa.
- O que está fazendo? - Perguntou baixinho, ela sabia que ele escutaria. Tinha o sono leve.
- Achei que podia passar essa noite com você. - Ele respondeu no mesmo tom de voz. analisou o homem, os cabelos levemente molhados indicavam que ele não estava deitado ali há muito tempo. - Precisamos salvar nosso casamento.
- Não sei se consigo. - Se sentiu culpada ao não estar confortável ainda na presença do homem. Homem este que já dividira aquela cama muitas e muitas vezes, mas que no momento parecia um total desconhecido.
- Eu não sei mais o que fazer, . Eu juro que estou tentando.
- Desculpa, eu só não consigo. - O peito de se apertava cada vez mais, mas ela ainda não estava pronta e estava sendo o mais sincera possível.
- Sabe o quanto é difícil estar disposto a te ajudar e você não me dar espaço? , eu estou há cinco anos tentando te ajudar. Cinco anos tentando te decifrar e fica cada vez mais difícil.
Nesses momentos de fragilidade, se esquecia totalmente da mulher que havia se tornado após o acidente, podia-se dizer que muitas vezes parecia um fantasma dentro da própria casa. Saía do quarto quando tinha certeza que Charlie estava no dele, para não ter que encarar o marido ou manter qualquer diálogo com o mesmo. Estava tentando sobreviver, se alimentando apenas o suficiente para não ter que parar num hospital. Não havia mais nenhum brilho em seu olhar, nem mesmo se lembrava de como esboçar um sorriso em seu rosto, não havia motivos para isso. Olhar para Charlie ali ao lado, tão perto e sentir seu perfume novamente era como voltar no tempo. Voltar num tempo que não havia preocupação. Lembrou de como se conheceram, se apaixonaram, decidiram morar juntos e se casaram, exatamente nessa ordem. Mas também lembrou de todos os problemas que tiveram após o casamento, de todas as crises de ciúmes de Charlie, de como ficou extremamente esgotada com as recaídas do marido com a bebida. Contudo, todas as lembranças acabavam caindo ao acidente e, consequentemente, a situação atual de ambos.
- Sabe, por todo esse tempo eu me culpei, te culpei também, por tudo que dado errado. Mas viver dentro dessa casa ‘tá fazendo muito mal pra nós dois. Estamos nos machucando cada vez mais. E nós sabemos que não há nada pra mudar isso, porque nós não queremos mudar. Só queremos que tudo fique bem logo, mesmo sabendo que não vai ficar. Não vai ficar hoje, nem amanhã e nem depois, porque essa dor nunca vai ir embora. Ela pode diminuir com o tempo, mas não vai deixar de existir.
Eu espero que você entenda, algum dia, e espero que você seja feliz também. Eu já desisti da minha felicidade, mas não posso ser mais egoísta a ponta de proibir que você seja. Sei que algum dia vai encontrar alguém que te faça feliz, feliz do mesmo dia que algum dia já fomos, porém, hoje não somos mais.
- ...
- Só deixe eu terminar, por favor. - estava sendo o mais sincera possível. - Sei que temos muitas coisas pra dizer ainda, talvez ainda nos machuquemos mais. Mas o melhor a ser feito por ora é acabar. Acabar enquanto ainda temos chances de reconstruir nossas vidas, correr atrás do quisermos, livre de mágoas. Eu ainda tenho muita raiva guardada dentro de mim e nada disso vai me ajudar a salvar nosso casamento, porque ele não existe mais, ele não tem salvação, Charlie. Eu quero o divórcio.
- Nosso advogado vai mandar os papéis. - O olhar de dor estava estampando no rosto de Charlie. Porém, ele sabia que tudo o que a esposa acabara de dizer era verdade. Era até injusto dizer que ela estava mentindo ou sendo egoísta, como muitas vezes costumava achar que ela estava sendo. A porta do quarto foi fechada, deixando a mulher sozinha no cômodo novamente. deixou que o choro dominasse o ambiente, era a única forma de deixar um pouco da dor se desprender do seu corpo e aliviar o sofrimento dentro do peito. Algumas horas mais tarde, a porta de entrada da casa foi batida também, naquele momento estava ciente que tudo tinha acabado. Um ciclo estava se encerrando, levando consigo todas as alegrias e mágoas que aquilo trouxe a eles. Não havia volta, ambos sabiam disso. Ambos queriam que aquilo não tivesse volta, ainda que tivesse se encerrado da pior forma possível, era o que precisavam. Ficar perto estava fazendo mal, desgastando cada vez a saúde mental de cada um e se machucando com palavras duras.


Capítulo 2 - Something New

Três anos depois

terminava de ajeitar a camisa lisa de cor branca em seu corpo quando ouviu o despertador da filha, no quarto ao lado, tocar pela quinta vez naquela manhã. A adolescente de treze anos, acordava quase em cima do horário. Ainda que ouvisse as reclamações de seu pai todos os dias, ela costumava ignorar tudo e sempre se arrumar correndo, quase não dando tempo de tomar café. Mas, aos finais de semana, logo pela manhã ela já estava em pé, como se seu corpo funcionasse totalmente ao contrário do que deveria durante a semana. Isso fazia repensar as decisões de sua vida que o fizeram ter filho, apenas por alguns breves segundos, já que não saberia viver sem sua princesa. Mesmo que ela estivesse se tornando uma adolescente um pouco rebelde.
- Dez minutos, Claire! - gritou para a filha, assim que a porta do banheiro que ficava no corredor foi fechada, anunciando que a garota acabara de entrar no banho. O homem logo voltou para o seu quarto e terminou de se vestir, colocando o blazer e o sapato preto, as peças que faltavam para ficar pronto. Desceu as escadas da casa, indo para a cozinha preparar o café da manhã.
- Ansioso para o primeiro dia? - Claire apareceu na cozinha logo após se vestir. Os cabelos ruivos num tom de cobre pingavam por suas costas. O que fez largar a chaleira no fogão e pegar uma toalha no banheiro, os secando em seguida. Claire estava crescendo, mas ainda parecia uma criança que não conseguia fazer certas coisas sem a ajuda do pai. Sentou-se na cadeira alta da bancada e esperou que o pai enxugasse seus cabelos, sabia que deveria ter secado antes de sair do banheiro, mas gostava quando o pai o fazia.
- Um pouco. Só espero conseguir o emprego. - Passou o pente pelos cabelos e os deixou soltos como ela gostava.
- Pai, você é o melhor. Vai conseguir. - Enfiou um pedaço de pão na boca e tomou um gole do café preto.
- E você comece a secar o cabelo. Já está grande o suficiente para fazer isso e pode esquecer essa história de namorado.
- Sai logo daí, Yoda! - Claire gritou para o gato que insistia em passear pela frente da televisão, atrapalhando a visão da garota. Todo dia era a mesma coisa, parecia até que o animal fazia de propósito.
- Psiu, Psiu. Vem aqui, seu danado. - balançou a tigela de ração do gato, chamando a atenção dele. O gato amarelo logo saiu da estante em que desfilava na frente da televisão, correndo para o seu pote já cheio com a ração e o seu sachê favorito. Fez um carinho de leve no bichano, mas logo voltou a sua tarefa na cozinha antes que o animal se esfregasse e assim enchesse sua roupa de pelos. Quando estava pondo seu sanduíche na mesa, seu celular vibrou, indicando uma nova mensagem. A mãe de tinha acabado de retornar das pequenas férias que passou em Paris e já dizia estar morrendo de saudade da neta. Sendo assim, não perdeu a oportunidade de pedir para passar a tarde com a mesma. Ele sabia que Claire não recusaria o convite da avó, então não precisou perguntar se a menina aceitaria ou não. Não demorou mais de vinte minutos para que os dois estivessem devidamente alimentados com a sua primeira refeição do dia e prontos para deixar a casa.
Assim que a porta da casa foi fechada por , a adolescente foi em direção ao carro do pai estacionado na garagem, escutou quando o homem desativou o alarme e abriu a porta ao lado do carona, se acomodando já com os fones de ouvido no volume máximo.
- Sua avó vai te buscar na escola. Se comporte e nada de pedir dinheiro emprestado para ela. - A garota revirou os olhos mais uma vez. sabia que era coisa de adolescente, então ignorava os gestos rebeldes da filha. Ele também era assim quando novo, na verdade, tinha sorte da filha ser bem mais calma do que ele era quando tinha a idade dela. Não demorou para que o mesmo estacionasse o carro em frente à escola da filha, se despediu com um beijo no rosto e deixou que a garota seguisse para o seu grupo de amigos. Todos com a mochila desajeitada nas costas e com feições mal humoradas logo pela manhã, riu ao ver a cena e balançou a cabeça em sinal de negação. seguiu em direção ao famoso prédio, com arquitetura impecável, entrando pela enorme porta de vidro e que seria bastante frequentado pelo homem de agora em diante. Hope saiu de trás da mesa redonda assim que passou pela porta, era a terceira vez que via o homem na empresa, tentando disfarçar o sorriso largo demais em direção ao colega de trabalho. Como combinado, levou o senhor até a sala do chefe executivo, Chris Decatur, responsável por montar as equipes quando haviam projetos grandes a serem realizados.
- Bom dia, senhor . - Hope disse enquanto caminhava ao seu lado.
- Bom dia, senhorita Preston. - observava o prédio conforme caminhavam por toda sua extensão. Já no terceiro andar, pôde observar, mesmo que por breves segundos, a parede toda de vidro. Permitindo que o máximo de luz entrasse no prédio e fosse possível admirar a bela vista da cidade. Hope deu duas batidas na porta, com o letreiro dourado indicando o nome do chefe executivo, e colocou a cabeça para dentro, avisando que o já estava no local, abrindo espaço entre a porta para o mesmo adentrar o cômodo.
- Chame a senhorita também, Hope. - A morena logo saiu da sala, fechando a porta e deixando os dois homens sozinhos. - Sente-se, , vamos aguardar a senhorita e podemos começar nossa reunião. - não questionou o pedido de Decatur, logo o atendendo. Não mais do que alguns minutos depois, foi possível ouvir duas batidas na porta e a mesma sendo aberta.
- Mandou me chamar, senhor Decatur? - entrou no escritório ficando de frente para o homem mais velho.
A voz firme e suave da mulher chegou aos ouvidos de , virou-se para olhá-la. estava parada, em pé, ao lado de sua cadeira e a figura que encontrara era totalmente diferente da que tinha imaginado quando escutou seu sobrenome. Primeiro, o que chamou atenção foi o jeito totalmente despojado que ela estava vestida, diferente de . A mulher usava uma camiseta preta básica, sem nenhuma estampa, junto de uma saia jeans escura de cintura alta com alguns botões na frente e um all star branco nos pés. Seus cabelos castanhos estavam presos num rabo de cavalo alto, deixando apenas sua franja solta no rosto, dando um toque mais jovial e destacando seus olhos verdes.
- , essa é . Nossa designer de interior, uma das melhores que temos aqui. , esse é . O novo arquiteto e vocês irão trabalhar juntos no próximo cliente que vocês irão visitar hoje. - Chris fez uma pausa olhando para o relógio em seu pulso. - Na verdade, encontrarão daqui uma hora. Seja bem-vindo, . vai te explicar tudo o que você precisa saber e qualquer dúvida pode falar com a Hope também. - Ele apertou a mão de o acompanhando até a porta. estava logo atrás observando os dois. Não importava quanto tempo passasse, Chris não conseguia ser tão receptivo quanto achava que era, muitas vezes assustando os novos empregados. Mas era só sair de sua sala que as pessoas conseguiam compreender a dinâmica do local.
- . - Ela estendeu a mão para o homem, já no corredor do prédio.
- . - retribuiu o gesto.
- Chris não é tão simpático. Mas é uma boa pessoa, não liga para o seu jeito meio doido. - não costumava falar muito, mas ainda mantinha um semblante confuso, como se estivesse se questionando se estava no lugar certo. Se ela se mantivesse em silêncio, com certeza, confirmaria todos os questionamentos que ele estava se fazendo. - Nós vamos dividir a mesma sala, enquanto Holy está de licença maternidade.
- Ok. - Foram as únicas palavras que saíram da boca de , o que fez entender que não adiantaria mais puxar qualquer conversa com o homem ao seu lado. O elevador se abriu e os dois seguiram para o quinto andar. A sala de era grande, com espaço para duas mesas e estantes para cada um usar suas coisas como bem entendesse. Era aconchegante também, não que fizesse muita diferença para ela, mas qualquer pessoa que entrasse ali gostaria de trabalhar naquele lugar.
- Nossa cliente enviou um e-mail com algumas informações básicas que precisamos saber. Ela e o noivo compraram a casa recentemente, mas ainda não se mudaram para lá, o que é ótimo para nós. Mas estão morando com os pais dela, ela está grávida e eles querem reformar todos os cômodos da casa.
- Querem uma obra grande e têm pressa pelo jeito. - balançou a cabeça concordando. - Pelas fotos é possível ver que vamos ter bastante trabalho, mas nada que seja impossível de fazer.
- Sim. O mais preocupante vai ser a fiação interna, se não tem nenhum vazamento, cupim ou amianto também. - pegou o ipad quando lhe entregou o aparelho, o colocando dentro da bolsa e, em seguida, colocou a alça da mesma em seu ombro. - Vamos. Nosso encontro está marcado num café aqui perto.
- Eu estou de carro.
- Não precisa, é na próxima quadra. - não entraria num carro com desconhecido. Ok, não era um desconhecido, mas um colega de trabalho. Colega esse que ela acabara de conhecer, ou seja, desconhecido.
Saíram do prédio um pouco depois das dez da manhã, o Grand Café Restaurant 1e klas não ficava longe dali, exatamente uma quadra depois do prédio em que trabalhavam como havia dito. O início do verão em Amsterdam deixava a cidade ainda mais bonita, as pessoas ficavam mais animadas, além de ter um aumento considerado de turistas nessa época do ano. O que para muitos significava férias, para significava trabalho. Ela gostava de trabalhar nessa época do ano, acordava mais disposta, fazendo seu dia render muito mais do que no inverno. Quando as pessoas mal conseguiam sair de casa devido às baixas temperaturas. A cafeteria não estava tão cheia àquela hora da manhã, sendo fácil para encontrar com Susan Flowers. A mulher de cabelos curtos e uma barriga já visivelmente grande estava sentada próxima da janela de vidro olhando a paisagem, enquanto tomava sua bebida. e se aproximaram, chamando a atenção dela.
- Bom dia, Susan. - foi a primeira a cumprimentá-la, sendo surpreendida por Susan com um beijo na bochecha seguido de um abraço.
- Bom dia, .
- Esse é o , vamos trabalhar juntos na reforma da sua casa. - Susan fez o mesmo com , mesmo que a sua barriga não deixasse ficarem muitos próximos.
- Estou ansiosa pelas mudanças e temos alguém aqui que não sabemos se vai poder esperar muito. - Apontou para sua barriga, alisando-a em seguida. A mulher sorria, mesmo com os pés inchados e a aparência um pouco cansada, ela conseguia se manter feliz com uma obra que não seria nada fácil.
- Então, Susan, o que precisamos saber? Coisas que não podem faltar e o que você espera também, é muito importante que nos fale mais sobre a casa para que possamos deixar do jeito que você quer. - começou a perguntar, indo direto ao ponto.
- Bom, como agora vai ter uma criança eu preciso de uma casa funcional, sabe. No qual todos os cômodos sejam de fácil acesso, principalmente cozinha e sala de jantar. Meus pais não moram aqui, então um quarto de hóspedes vai ser ótimo também. A casa é bem grande, mas quando visitamos já sabíamos que ela ia precisar de uma reforma.
- Você já sabe o sexo do bebê? Tem alguma preferência no quarto? - Foi a vez de , afinal os detalhes finais ficariam por conta dela.
- Não. Decidimos por não saber o sexo agora, então eu espero que você resolva isso. - Ela riu de forma simpática. De todos os clientes Susan era muito tranquila, óbvio que a maioria também era, até a reforma começar e os problemas também. - Como eu já falei no e-mail, estou morando com os meus pais e não tem muito espaço para nós na casa deles. Meu noivo está viajando, então não vai acompanhar a reforma. Quanto tempo vocês acham que a casa fica pronta? - e se olharam, pensando nas possibilidades de fazer tudo o mais rápido possível, mas também que fosse feito da maneira correta.
- Quatro semanas. É uma reforma grande, mas temos uma equipe qualificada.
- Mas é importante sempre deixar o cliente a par de todos os possíveis problemas e imprevistos que podem aparecer. Isso pode acabar atrasando a reforma muitas vezes.
- Mesmo contra vontade, precisava deixar Susan ciente de todos os riscos. O encontro não demorou muito mais do que uma hora para se encerrar, isso porque muitas vezes teve que intervir nas ideias e propostas, principalmente, quantos aos prazos de . Eram coisas quase impossíveis de serem feitas com o tempo e o orçamento fornecido. Não sabia quanto tempo de profissão ele tinha e nem sua real experiência, mas seria muita arrogância de sua parte querer fazer tudo sozinho sem ao menos consultá-la antes. Eles eram uma equipe, não eram só as ideias deles naquele projeto.
- O que pensa que está fazendo? - foi direto ao ponto assim que fecharam a porta da sala, que agora ela dividia com .
- O meu trabalho. - Despreocupado, se acomodou atrás da mesa. Sem nem ao menos olhá-la, começou a arrumar suas coisas.
- , você deu um prazo de quatro semanas para uma reforma de no mínimo dois meses. Você tem ideia do tamanho daquela casa?
- Eu trabalho desse jeito, .
- Mas não trabalha sozinho, .
- Eu percebi isso quando vetou todas minhas ideias na frente da cliente.
- Não sei como você trabalhava antes e, sinceramente, isso não me interessa agora. Espero que consiga manter o seu prazo de quatro semanas, Superman. - Saiu da sala batendo a porta. tentou ignorar o mau humor repentino da colega de trabalho, voltando a sua atenção para seu computador e os planos para o projeto que estava em suas mãos. Como era designer, a maior parte da reforma ficaria por sua responsabilidade. O que o deixava animado, já que não trabalhava alguns anos, devido a mudanças repentinas da sua vida, mas todos os trabalhos já feitos tiverem resultados extremamente satisfatórios. Ele sabia muito bem desenvolver o seu trabalho, por isso tinha tanta confiança em conversar com clientes e cumprir com tudo que prometia. Se não fosse ter vetado a maior parte de suas ideias, ele já estaria com o projeto pronto.
- Péssimo começo, . - Disse a si mesmo, respirando fundo mais uma vez naquela manhã.
Antes de ir para o intervalo, o qual tinha combinado de almoçar com sua mãe, deixou em cima da mesa de o desenho completo dos dois projetos e o novo design feito por ele mesmo, para a nova casa de Susan. Isso incluía os gastos, já com os possíveis imprevistos, e em ambos o orçamento fornecido era mais do que necessário. Tinha sido trabalhoso idealizar tudo de novo? Sim, mas ele faria de tudo para mostrar que era bom e sabia o que estava fazendo. O orgulho falando mais alto naquele momento fez ele odiar ter que trabalhar com , poderiam ter colocado ele com qualquer outra pessoa, mas foi cair logo com ela que já se mostrara tão irritante e mesquinha. Não poderia ter começado de um jeito pior. Isso o irritava mais, quando as coisas não saíam do jeito esperado e quando não podia fazer do seu jeito. Ela nem ao menos se deu ao trabalho de conversar e discutir os planos dele antes de qualquer coisa. Seu tom autoritário parecia com o de um comandante do exército, o fazendo sentir ainda mais repulsa. Entretanto, era a sua carreira em jogo, sua vida dependia disso e, principalmente, o que mais gostava de fazer. Não seria que estragaria logo o seu primeiro dia na MVRDV.
Naquela mesma tarde, logo após o almoço retornou para sua sala. Encontrando dessa vez uma mais sorridente, nem parecia a mesma mulher que havia saído dali irada com ele.
- Seu projeto foi aprovado pelo Decatur. - disse fingindo prestar atenção em algo no seu computador.
- Qual deles?
- O que você quiser executar. - Disse mesmo contra sua vontade.
- Pelo jeito eu não sou o único louco aqui. Deveria confiar mais no potencial dos seus colegas de trabalho, .
- Não o conheço para ter confiança, até porque você não me mostrou ainda do que é capaz.
- Então, quer que eu te mostre algo?
- Esteja amanhã às oito em ponto no endereço que te mandei por e-mail, . Quando terminarmos essa reforma eu digo se confio ou não no teu potencial.
- Eu adoro um desafio.
- Eu também.
O sorriso ladino ainda estampava o rosto de , mesmo que ele tentasse se controlar. Sabia que eram apenas provocações e não cairia no joguinho de , ela estava apenas o testando. Talvez, até, com ciúmes por ter visto que ele estava ali para trabalhar de verdade.



Capítulo 3 - She Moves In Her Own Way

- Joe, eu já disse tudo que você queria saber. Não sei mais o tipo de detalhe que você quer. - tentava ao máximo não pegar no telefone, enquanto pedalava em sua bicicleta.
- Quero saber detalhes como qual a cor dos olhos, se é casado, número de telefone. Essas coisas, , não se faça de boba. - Foi impossível controlar a gargalhada. Algumas pessoas olhavam para ela na rua com certa estranheza, mas não era algo que lhe preocupava.
- É por isso que eu atendo as suas ligações às oito da manhã.
- Eu sou demais, eu sei.
- É modesto também. - Ouviu um resmungo do amigo no outro lado da linha, ignorando-o totalmente. - Eu preciso desligar, espero que tenha sobrado algo para demolir nessa casa. Vinho lá em casa hoje à noite?
- O jeito que você gosta de quebrar coisas é diferente, . E sim, com certeza vinho, hoje à noite. Ah, quero fotos desse deus grego e não se atreva a me negar isso.
- Tchauzinho, Joe. - Desligou o celular e tirou os fones de ouvido quando chegou no endereço informado. Largou sua bicicleta no jardim de forma que não fosse atrapalhar a passagem de ninguém por ali. O barulho das ferramentas, de madeira se partindo ao meio e muita, mas muita poeira, eram as únicas coisas que podia ver e ouvir pelo lado de fora da casa.
A equipe já estava trabalhando desde cedo no local, visto que a cozinha toda já estava aberta. Sem os antigos armários nos seus lugares e uma parede parecia já ter sido destruída, fazendo entrar mais luz naquela parte da casa. ficou satisfeita com o resultado que encontrou logo no início da tarde, sinal de que a equipe tinha mesmo colocado a mão na massa.
- A janela da cozinha vai sair e vamos colocar uma porta que dá acesso ao jardim. A lareira da sala precisa ser refeita também, pode cuidar disso para mim? - Antes que pudesse adentrar um dos cômodos, escutou a voz firme de soar em seus ouvidos. Ele estava no quarto do casal, enquanto tirava o carpete do chão. A sombra de provavelmente o chamou a atenção, já que o mesmo se virou ao se sentir sendo observado. Não era para menos, a imagem que a mulher encontrou era tudo que ela não podia imaginar. de regata, mostrando seu braço e a panturrilha tatuados, bermuda de moletom e tênis. Aquilo era uma visão e tanto. Quase como se fosse outra pessoa da que tinha visto no dia anterior, vestido com terno e gravata.
- Só não deixe a baba escorrer. - A voz rouca e próxima demais do seu rosto, fez despertar dos seus pensamentos, nada adequados para o horário. Mas também, a visão que encontrara era tentadora demais.
- Há,há, que engraçadinho. - revirou os olhos, mas permaneceu parado ainda em sua frente. O que a fez levantar a sobrancelha como forma de questioná-lo, mas nada saiu da boca do homem. - Por que está me olhando assim? - Ela olhou para si mesma. Algo podia estar “fora” do lugar, não é mesmo? Talvez estivesse suja e não tinha se dado conta ainda.
- Nada. Achei que chegaria cedo também, mas já que está aqui fique à vontade para ajudar. Tem bastante coisa para fazer. - Ele voltou a puxar o carpete do quarto, o jogando no corredor sem dar atenção se ajudaria ou não com o serviço pesado.
resolveu colocar o óculos de proteção e foi para o quarto ao lado, onde seria o do bebê. Como esperado, o cômodo não tinha móvel algum, mas também haviam coisas que precisavam sair dali. As paredes, com certeza, seriam pintadas, o banheiro reformado facilitaria a vida do casal e a janela precisava ser trocada por uma nova. O novo assoalho seria lixado e pintado, aproveitando aquela parte pelo menos. Poderia pintar o quarto de amarelo ou, talvez, um verde, já que o casal não sabia o sexo do bebê. Quartos de crianças era de longe a reforma que menos gostava de fazer, mas ainda assim fazia. Por incrível que pareça, era a parte mais fácil da casa de resolver e já tinha tudo planejado em sua mente. Era o seu trabalho, a prioridade ali era a satisfação do cliente no final de tudo.
- O que está fazendo? - entrou no quarto em que estava. Ela já começava a tirar o azulejo velho do banheiro quando teve seu trabalho interrompido.
- Você disse “fique à vontade para ajudar” e estou fazendo isso. Na verdade, estou quebrando o azulejo para ser mais exata. Não acho que um azulejo branco e preto quadriculado combine com um quarto de bebê. - respondeu num tom óbvio, ainda sem encarar .
- Não, não combina. - Respondeu rápido, de forma automática pode-se dizer. - Isso eu sei. Mas a sua parte só começa quando a casa já estiver “pronta”. - Fez aspas com as mão, referindo-se ao trabalho pesado.
- Na verdade não. Eu não sou só designer, apesar de ser minha principal função. Então minha parte começa com tudo mundo, desde a demolição até a decoração.
- Mas...
- E demolir é o que eu mais gosto de fazer. - Respondeu com o cinzel e o martelo em mãos.
- Eu quero ficar com esse quarto. Com os dois, na verdade. - disse firme na sua escolha.
- Ótimo. - largou o cinzel e o martelo dentro da pia. - Eu fico com a cozinha, a sala de jantar e de estar. Não abro mão disso. - respondeu da mesma forma.
- Combinado.
- Boa sorte.
- Não vou precisar.
- Que bom. - Saiu do quarto, descendo as escadas já indo para a cozinha. – Ei, Sandy, quanto tempo. - O engenheiro, que estava de costas para mulher, virou-se para cumprimentar com um sorriso no rosto.
- Hello, . Bom te ver. - Abraçou-a por alguns segundos, sendo retribuído. - Arquiteto novo, é? - Ele levantou a sobrancelha, questionando.
- Estou bem também, obrigada por perguntar.
- Você está ótima. Amo como o fim do inverno faz muito bem para você. - A puxou pelos ombros caminhando junto para fora da casa. - Mas quem é o novo arquiteto?
- Deus, vocês parecem urubus em cima de carne podre. Nesse caso, a carne não tá podre, mas enfim. - Revirou os olhos vendo que Sandy esperava uma resposta dela. - , é o nome dele. Mas, se quer saber, conheço uma pessoa que você vai gostar.
- Não me diga que é aquele seu amigo Joe? Ele saiu com todas as pessoas que eu conheço.
- Você quer dizer que ele saiu com todos os homens que você conhece, né? E me diz uma coisa, desde quando isso é problema para você, Sandy? Quem não te conhece que te compre.
- É verdade, não é problema para mim. E pensando bem, ele até que é bem bonito.
- Sábado, no bar de sempre. Não aceito não como resposta. - Soltou-se do braço de Sandy, fazendo o mesmo caminho de volta para dentro da casa. - Vamos, essa cozinha precisa de muito trabalho.
Pelo menos naquela tarde conseguiu fazer tudo que precisava na cozinha. Sendo interrompida apenas quando precisava autorizar, junto de , alguma mudança ou reparo que precisaria ser feito em outra parte da casa.
gostava da parte de demolição, adorava observar o antes, durante e depois da reforma. Principalmente, quando começavam a quebrar as paredes, deixar os ambientes abertos. Trocar portas e janelas era ótimo, deixava o ambiente mais iluminado, quase irreconhecível com o antes. E era exatamente isso que ela estava fazendo com aquela área. Os armários velhos foram jogados fora, a parede que dividia o cômodo logo foi retirada e uma espécie de dispensa - que não fazia sentido nenhum, além de ocupar espaço - também acabou indo para o lixo. Agora, o que havia ficado ali era apenas o “esqueleto” da cozinha. A parte que ninguém gostava de ver, porque sempre duvidavam do jeito real que ela ficaria depois. Entretanto, para um primeiro dia aquilo estava ótimo.
- Não tenho boas notícias. - Sandy apareceu acompanhado de , o horário de ir embora estava quase chegando.
- Diga.
- Vocês odeiam essa palavra, mas vou ter que usá-la.
- Amianto ou cupim?
- Amianto.
- Ok. Quanto tempo vamos ter que ficar fora?
- Já falei com a equipe especializada, eles vêm amanhã cedo. Mas, para ter certeza que não vai restar nada aqui, vamos precisar de três dias.
- É muito tempo, não temos esse tempo de sobra. - disse, irritada. - Olha, eu sei que não temos o que fazer. Mas, por favor, assim que a casa for liberada já tente ver o quanto antes senão vamos ter problema de infiltração ou de cupim também. Qualquer um desses dois pode atrasar a nossa reforma.
- Já falei com a Susan, ela disse que qualquer imprevisto pode ser feito. O orçamento não é problema para ela. - disse com o celular em mãos.
- Pelo menos uma boa notícia. - respirou, aliviada. - Vamos embora então, nem era para gente estar aqui ainda. Sandy, espero notícias suas o mais rápido possível. Notícias boas. - soltou os cabelos, antes presos num rabo de cavalo firme, e pegou sua bicicleta no jardim. - Tchau, bom descanso a todos.
Se despediu de quem estava ali e, mesmo sem esperar resposta, saiu em direção a sua casa. Todos já conheciam o jeito da mulher, ela não estava sendo mal educada como poderiam pensar. Só não fazia sentido ficar ali quando, na verdade, todos estavam loucos para irem para suas casas.
- Ela é sempre assim? - se virou para Sandy, o moreno deu de ombros antes de responder.
- É um pouco maluca e mandona. Mas é uma ótima pessoa, vá se acostumando, . - Sandy logo pegou o caminho de sua casa, deixando apenas parado no jardim. Porém, quando o mesmo olhou o relógio se deu conta que já deveria estar a caminho de buscar Claire. Com sorte, ficaria no máximo para a janta e poderia ir para casa descansar. Seus pensamentos foram interrompidos quando escutou o toque de um celular tocando, não era o seu. Definitivamente, Beatles não era a sua banda favorita para se ter como toque de celular, encontrou o aparelho na grama do jardim. O nome “amorzinho” brilhava na tela, antes que se arrependesse acabou atendendo, ainda incerto sobre o que dizer.
- , meu amor, separa o vinho que eu estou chegando. - Uma voz séria soou do outro lado da linha.
- Er… ela não está com o telefone no momento. - achou engraçado a forma como a pessoa do outro lado da linha atendeu, mas tentou parecer sério enquanto falava.
- Como assim não está com o telefone? EI, QUEM É VOCÊ E POR QUE ESTÁ COM O TELEFONE DELA? - O grito que Joe deu foi tão alto que precisou afastar o telefone da orelha.
- Calma, ela deixou o telefone cair na frente da casa que começamos a reformar.
- Cadê ela? O que você fez com a ?
- Nada! - Disse exasperado. - Nós terminamos a demolição hoje, ela foi embora e deixou o celular cair. Só isso.
- Ok, mas se ela aparecer com algum arranhão eu juro que vou até o inferno atrás de você.
- Eu acredito, seja lá quem você seja.
- Me diz onde você está e eu vou buscar o celular. - Joe, com certeza, já estava mais calmo.
- Olha, eu tenho um compromisso agora e já estou atrasado. Mas amanhã o celular vai estar com ela assim que a chegar na empresa.
- Não sei se acredito em você.
- Você não tem escolha.
- É, não tenho mesmo. Ok, amanhã eu ligo para ela para saber se você realmente devolveu o celular.
- Ok, boa noite. - decidiu encerrar a ligação mais esquisita da sua vida, guardou o celular no bolso da bermuda e caminhou até seu carro. Sua mãe com certeza ia matá-lo por se atrasar tanto.



Capítulo 4 - Just a feeling

- Desculpa o atraso. - A porta se abriu com um Claire sorridente sendo acompanhada da sua avó logo atrás. - Boa noite para as duas mulheres da minha vida.
- Pai, você tá fedorento! - O grito de Claire foi motivo para abraçá-la ainda mais forte. - Vó, diz pro papai ir tomar banho. Ele só escuta a senhora.
- Ah, é assim, então? Se vendeu para o lado da sua avó. - soltou a menina, que logo saiu correndo de volta para a sala, e foi abraçar a sua mãe.
- , eu te amo. Mas vai tomar um banho, você está realmente precisando de um.
- Percebi que fizeram um complô contra mim. Já ‘tô indo. - Deu um beijo no rosto da mãe, a cumprimentando.
A casa da senhora era relativamente grande, mas o suficiente para viver com tudo que gostava já que ela morava sozinha. Após o falecimento de seu marido, a mulher não quis se mudar e, consequentemente, enfrentar toda a bagunça e cansaço de uma mudança, reforma e todas essas coisas que geralmente dão muito trabalho. Por isso, decidiu apenas mudar algumas coisas na casa e permanecer na mesma. e Claire sempre a visitavam, por morarem perto, e porque tinha uma relação muito boa com a mãe e queria que Claire tivesse a mesma relação com a mulher. Sobretudo, para Claire ter uma referência feminina que fosse próxima dela.
O quarto de hóspedes estava devidamente arrumado, como ele imaginava que estaria. Pegou uma roupa confortável e se dirigiu para o banheiro do mesmo, sem demorar muito no banho. Conhecia a mãe que tinha como a palma da sua mão e sabia que ela era capaz de entrar naquele quarto e puxá-lo pela orelha caso demorasse mais um minuto, depois de todo o atraso que já teve para chegar até a casa. Quando chegou até a sala de jantar, Claire já estava sentada, com o celular em mãos, e a avó na sua frente apenas esperando-o para começarem a comer.
- Então, mãe, como foi de viagem? - sentou-se ao lado de Claire. - Sem celular na mesa, Claire.
- Ótima. Mas confesso que já estava louca para voltar mesmo. Tenho mais uma semana de férias, então preferi voltar antes e passar esse tempo com vocês.
- Começamos uma reforma hoje, então vai ser bem complicado passar essa semana com a senhora, sinto muito. Aposto que a Claire vai adorar.
- Sim, eu amo passar o tempo com a senhora, vovó.
- Eu sei, meu amor. Mas se me chamarem de senhora de novo, eu coloco os dois para dormirem com os cachorros. - A mulher tentava parecer séria, mas a cara de espanto e os olhos arregalados da mais nova foi tão engraçado que ela começou a rir.
- Agora eu sei de onde vem o lado ogro do meu pai. - A língua afiada de Claire tinha sempre uma resposta pronta.
- Olha o respeito com a sua avó, vamos ser expulsos daqui a pouco. Eu, definitivamente, não quero dormir com os cachorros hoje.
O jantar não durou muito mais do que uma hora, ainda que a mãe de insistisse para que eles dormissem na casa dela, mas todos estavam cansados depois de um dia longo.
- Escove os dentes e coloque o pijama. Sem computador essa hora, já está tarde. - disse a Claire, assim que entraram em casa. A garota tinha momentos de muita independência e gostava disso. Contudo, tinha muitos momentos em que o pai precisava puxar a orelha, dar um sermão aqui e outro ali. Embora, ela também fosse totalmente determinada quando queria, isso lembrava muito a personalidade da mãe; porém, tentava ignorar essa última parte.
Claire era uma jovem adolescente, e às vezes rebelde, de treze anos. Com uma personalidade forte e uma língua afiada que combinava perfeitamente com os leves cabelos ruivos e as sardas espalhadas pelo rosto junto de seus olhos amendoados; iguais ao da mãe. tinha orgulho da filha e da incrível pessoa que ela estava se tornando, isso tudo graças a ele. Criar Claire sozinho não foi fácil, mas também não se arrependia de ter feito; mesmo que sua mãe tenha o ajudado, ele era orgulhoso demais para pedir ajuda a qualquer pessoa que fosse. Nisso a filha havia puxado muito bem dele, não podia negar. Embora ele achasse que não, a garota nutria o mesmo sentimento de orgulho pelo pai e escancarava aos quatro cantos sempre que podia.
- Pai... - Claire o chamou na porta do quarto. Logo saiu do banheiro vestido com o seu costumeiro pijama, composto por uma bermuda velha e uma camiseta qualquer que achou dentro do roupeiro.
- Deixa eu adivinhar, a cortina do seu quarto caiu de novo e você está com preguiça de colocar. Então aparece aqui, faz uma cara de gato do Shrek, eu fico com pena e vou arrumar para você e quando volto você está espalhada no meio da minha cama dormindo. Acertei? - Fez uma pose fingindo estar pensando. - Sinto muito, não vai funcionar hoje. Mas eu prometo arrumar a cortina amanhã. - A garota riu e balançou a cabeça de um lado para o outro. Sim, ela fazia isso mesmo.
- Não, a cortina não caiu. Ainda. - Abriu um sorriso, mas desmanchou o mesmo quando o olhar do pai caiu para as suas mãos. O álbum de fotos que ganhara da avó mais cedo naquele dia.
- O que é isso? - Ela se aproximou do pai, sentando-se na ponta da cama ao seu lado.
- A vovó me deu isso. Mas acho que deve ficar com você, até que possamos olhar juntos e você me contar mais sobre a minha mãe. - As palavras cuidadosas, escolhidas para aquele momento, pareceram assustar . Ele não gostava daquele assunto, dizia para si mesmo que já havia contado para Claire tudo que ela precisava saber.
- Eu já contei tudo o que você precisa saber, Claire. - Alice era assunto proibido naquela casa e na vida de . Não para a senhora , que sempre tentava trazer o assunto à tona de uma forma ou de outra.
- Eu sei que um dia você vai querer me contar mais sobre a minha mãe, vou esperar ansiosamente por esse dia. - Claire deixou o álbum de fotos na cama, deu um beijo no rosto do pai e voltou para o seu quarto.
continuou imóvel por mais alguns minutos, não esperava que Claire fosse usar aquelas palavras. Tentou imaginar o quanto estava sendo difícil para ela ter que lidar, mais uma vez, com a mesma desculpa de sempre. Mas naquele momento era a única coisa que ele podia fazer, usar a mesma desculpa de novo. Entretanto, quando teve coragem o suficiente para pegar o álbum em mãos, a coragem se esvaiu de seu corpo quando a sua mente cogitou a possibilidade de abri-lo. Por fim, guardou o álbum dentro de uma caixa com outras coisas sobre Alice, as quais ele não tivera coragem de se desfazer.
Mesmo após deitar na cama para descansar, a sua mente parecia querer lhe trair e as lembranças de alguns - bons - anos atrás começaram a voltar. Elas se misturavam, não sabendo se começavam a aparecer por ordem cronológica ou pela qual demandava maior carga emocional. No fim, a que conseguiu conquistar seu espaço foi a lembrança sobre a gravidez de Alice; não poderia estar mais feliz naquele dia.

- , por favor, entra na água logo! - Alice gritou quando a água bateu um pouco abaixo dos seus seios. O sol iluminava seu rosto, enquanto o vento fazia muito bem o trabalho de bagunçar seus cabelos ruivos.
Alice mantinha um sorriso largo no rosto, fazendo seus olhos automaticamente fecharem conforme se alargava cada vez mais. fazia o mesmo, já dentro d'água caminhando em direção a mulher.
- Eu já disse que você é a mulher mais linda do mundo? - abraçou-a quando chegou perto o suficiente, fazendo Alice soltar um gritinho de susto.
- Já, mas não me importo de ouvir de novo. - Entrelaçou o pescoço de com os seus braços, ainda sorrindo.
- Tenho que parar de alimentar seu ego, anda muito exibida.
- Nisso eu tenho que discordar. Gosto quando você me bajula.
- Não consegui resistir aos seus encantos antes e não consigo resistir agora. - Beijou-a docemente nos lábios, quem estivesse olhando a cena digna de filme de romance não teria dúvidas que eram dois apaixonados. Completamente apaixonados um pelo outro.
- Eu te amo.
- Eu também te amo. - Agora também sorria. A felicidade estampada no rosto de ambos.

O jantar oficializando o noivado de Alice e aconteceria dali uma hora, mas a jovem parecia nervosa demais para alguém que tinha apenas que se arrumar para ficar apresentável na frente de seus convidados. Olhou mais uma vez o vestido em seu corpo, ele a denunciava com toda certeza do mundo. Sentia suas mãos trêmulas e seus olhos marejados, prestes a deixar as lágrimas escorrer por suas bochechas e borrar toda a maquiagem feita nas últimas horas. Fungou mais uma vez, mas se arrependeu no minuto seguinte quando escutou bater na porta do banheiro.
- Aly, está tudo bem? - A voz preocupada de só aumentou o nervosismo de Alice.
Ela tinha acabado de se formar em direito, uma carreira brilhante pela frente e claro, tinha 22 anos. Sabia que e ela eram muitos jovens para se casarem, já estava acostumada com esse comentário. Mas filhos não estavam nos seus planos, afinal nem haviam conversado sobre isso ainda.
- Amor, o que aconteceu?
Depois de longos minutos sem resposta, abriu a porta do banheiro e encontrou Alice totalmente paralisada em frente ao espelho. A jovem ao perceber que o noivo estava no mesmo cômodo que ela, acabou levando um susto e deu um pulo seguido de um passo para atrás. Alice abriu a boca várias vezes, mas não conseguia emitir som algum ou, sequer, formular uma frase.
- Amor, você está me assustando. O que aconteceu? - Com medo do que pudesse falar, apenas entregou o teste de gravidez. Os segundos seguintes pareceram se arrastar, quase como uma cena em câmera lenta. olhou o teste por mais algum tempo, tentando acreditar se era verdade.
- Amor, vem cá. - Puxou com delicadeza Alice para fora do quarto e sentou-se na beirada da cama junto da mulher.
- , eu não sei o que fazer. - Ela falou rápido demais.
- Respira primeiro. Vamos lá, inspira e expira. - Fez o movimento junto de . Agora ela parecia mais calma, por mais que os olhos marejados continuassem ali. - O que você quer fazer?
Alice ainda estava assustada com a informação, sobretudo com a reação do restante de sua família ao saber da notícia. Mas, de repente, começou a imaginar como seria criar um ser tão pequeno e tão seu, e a ideia começou a lhe agradar. A verdade é que já agradava há muito tempo, só não tinha tido a oportunidade de falar antes. Infelizmente as coisas começaram a acontecer rápido demais que isso deixou de ser uma pauta importante na vida atual que levava.
- Eu quero ter. Quero ter essa criança. - Os olhos de brilharam de uma forma que jamais Alice tinha visto antes. tinha um sorriso que mal cabia em seu rosto.
- Então vamos fazer isso juntos. - O alívio percorreu todo o corpo de Alice ao ouvir aquelas palavras. - Eu sou o homem mais feliz do mundo ao seu lado, Alice.
- Eu achei que você ia querer terminar comigo. - Ela riu nervosa, mas quando soltou uma gargalhada alta teve certeza que deixou o seu medo falar mais alto.
- Nunca. Eu te amo ainda mais agora, amo vocês. - Passou a mão pela barriga da mulher, mesmo que a mesma mal pudesse parecer uma barriga de grávida.
Alice não imaginava que aquela noite pudesse se tornar ainda mais especial, se esquecendo que ao lado de tudo se tornava melhor como num passe de mágica. Eles ainda ficaram mais um pouco no quarto, sob os pedidos de para que pudesse conversar com aquela sementinha que crescia no ventre da noiva. Ambos sabiam que tinham feito a escolha certa quando decidiram ter uma vida juntas e, agora, poderiam criar um novo ser feito por eles do jeito que imaginavam e queriam.

A lembrança pegou de surpresa, o baque das memórias em sua cabeça foi tanto que ele nem se deu conta do momento em que deixou as lágrimas escorrerem silenciosamente pelo seu rosto. Caminhou rapidamente para o banheiro, lavou o rosto e a nuca com a água gelada a fim de afastar todos os pensamentos; afinal nem era para eles estarem ali, ainda tão vivos. Um arrepio passou pelo seu corpo ao ter contato com a água, mas o coração acelerado de tornava tudo ainda mais real, as memórias estavam mais vivas do que nunca. Mas, logo, daria um jeito de deixá-las guardadas no lugar que nunca deveriam ter saído.



Capítulo 5 - You used to call me on my cell phone

O pequeno e aconchegante apartamento de estava mais alegre aquela noite, tudo graças às gargalhadas altas de Joe. Conforme havia combinado mais cedo, ele agora se encontrava sentado no confortável puff velho e horroroso - como gostava de chamar aquela espécie de objeto decorativo, o qual não havia tido coragem para jogá-lo fora - com uma taça de vinho bem cheia em mãos.
- , se eu não estivesse no meu carro na hora que ele atendeu, eu com certeza ia parecer um adolescente com as pernas bambas. Eu poderia, facilmente, ter um orgasmo com aquela voz no meu ouvido. - Joe quase berrava enquanto bebia mais um pouco do vinho tinto.
- Bom, você perdeu a oportunidade então. - Ela deu de ombros, ainda sem se preocupar com o amigo. - Você trocou mais palavras com o hoje, do que eu já troquei nesses dias que estamos trabalhando juntos. Sinta-se privilegiado.
- Que pena, adoraria conversar mais com ele. De preferência, com a boca dele bem próxima da minha.
- Você não presta, Joe! - Deu um tapa no braço do amigo, sentando-se no sofá que ficava ao lado do puff.
- Sabe o que eu ‘tô pensando agora?
- Não? E tenho medo de saber.
- Eu fiquei esperando a foto o dia todo.
- Ainda bem que eu não tirei, né? Imagina só ele vendo foto dele no meu celular agora. Doido do jeito que é, capaz de aparecer com um processo na porta da minha casa.
- Se isso acontecesse comigo…- Joe parou para pensar, o encarou com medo de escutar a resposta do amigo. - Eu acharia exótico, em primeiro lugar; depois eu pensaria num motivo plausível para alguém tirar foto de mim; e por último, mas não menos importante, eu chamaria a pessoa para sair. A gente nunca sabe por onde anda o amor da nossa vida. - A gargalhada de ecoou pelo pequeno apartamento, o que fez Joe imitá-la.
- Sério, as vezes eu acho que você não existe. - Ela balançou a cabeça de um lado para o outro, ainda sem acreditar no que tinha acabado de ouvir. - Mudando de assunto rapidinho, hoje você dorme aqui. Preciso de um despertador e você faz isso muito bem.
- O que quer dizer com isso?
- Que faz barulho o suficiente para acordar a rua, se duvidar, o bairro todo pela manhã.
- Estou ofendido.
- Sei que não está. - A campainha tocou, anunciando que a pizza havia chegado. Joe adorava atender todos os entregadores de pizzas possíveis. Provavelmente, todos já o conheciam também. Mas não se importava, apenas interrompia quando percebia que a pessoa do outro lado da porta ficava constrangida demais com as investidas do amigo.
- O que você tem hoje? - Direto e reto, esse é o Joe.
- Nada. - Engoliu mais um pedaço de pizza, fingindo prestar atenção em mais um episódio de Dexter. - Cansada, só isso. Tivemos problemas na demolição hoje e a casa vai passar por uma inspeção, você sabe que eu odeio quando isso acontece.
- Sei mesmo. - A garrafa de vinho já estava quase no final quando Joe serviu, mais uma vez, a sua taça e a de . - Não dá para mudar de canal? Já vejo uma quantidade suficiente de sangue no meu trabalho, mais do que um ser humano normal pode suportar.
- Esse episódio nem tem tanto sangue, mas vou fazer esse favor. - colocou em outro canal, viu que era apenas uma comédia romântica, baixou o volume e voltou sua atenção para o amigo. - Tem plantão esse final de semana?
A pergunta de parecia ser inocente, quase como quem não quer nada, mas Joe sabia que ela estava pronta para dar o bote.
- Depende do que você tem em mente.
- Vamos no pub, no mesmo de sempre. O meu engenheiro vai estar lá e ele gostou da ideia de saber que você também vai.
- Opa, gosto da ideia também. Acho que consigo trocar com a Carmen, ela tá me devendo uns favores.
- É disso que eu gosto.
- Gosto quando você fala "o meu engenheiro", será que algum dia ouvirei "o meu arquiteto" também?
- Como você é ridículo. Eu deveria dizer ao Sandy que você é mais falso que nota de três, mas acredito que ele vá gostar ainda mais.
- Você sabe o que as más línguas falam, talvez seu amigo só esteja curioso para descobrir o que eu sei fazer em quatro paredes.
- Ah, por favor. Eu vou dormir, porque não sou obrigada a ouvir você se gabar. Boa noite, amorzinho.
se despediu com um beijo no rosto do amigo, ouvindo-o gargalhar, e foi para o seu quarto. A cama de casal no meio do quarto nunca foi tão tentadora quanto naquele momento.

O barulho do trovão fez sobressaltar sobre o assoalho de madeira do seu apartamento. O lugar ainda estava escuro quando , literalmente, pulou da cama com o barulho da chuva e quando os raios dos relâmpagos brilharam em sua janela. Acendeu todas as luzes da casa e fechou as janelas, barulho de chuva era última coisa que precisava. Uma xícara de chá quente também seria bom, assim podia tentar se acalmar, pois dormir seria uma tarefa mais difícil. O relógio marcava cinco e meia, ótimo. Uma hora e meia de sono perdida, era um jeito maravilhoso de começar o dia.
A xícara de chá quente não estava fazendo o efeito esperado, então decidiu tomar um banho e ir trabalhar para se distrair dos pensamentos nebulosos. Gostava de caminhar pela cidade quando ela ainda não tinha sido tomada pela enxurrada de carros, ônibus e todos os automóveis que eram permitidos circular na cidade e faziam um barulho terrível. Mas não podia continuar esperando que Amsterdam fizesse um dia de sol, nem o início da primavera escapava das chuvas, ou ela ficaria trancafiada em seu apartamento por um bom tempo.
agradeceu por, naquele dia, não ter nenhuma reunião marcada, mas ainda assim colocou uma calça jeans, uma blusa amarela com mangas até o cotovelos e a jaqueta jeans por cima combinando com o par de botas pretas que calçava. O guarda-chuva transparente foi o último acessório, depois da sua bolsa em cima do sofá, que pegou para sair do apartamento. Sentiu falta do celular, já que costumava escutar música enquanto ia para o trabalho, mas pelo menos a ajudou a chegar mais cedo no prédio. Não era longe, então conseguia fazer o trajeto da sua casa até a empresa a pé. Levava mais do que quinze minutos, mas não era exatamente um problema para .
- Bom dia, Hope. - A mulher acabava de sentar-se no seu lugar, atrás do enorme balcão da recepção, quando entrou no prédio.
- Bom dia, senhorita . - girou seus calcanhares e se apoiou no balcão, ficando de frente para Hope.
- Vamos combinar uma coisa, Hope? - A morena tomou um gole do seu café, enquanto esperava atentamente com os seus olhos castanhos voltar a falar. - Você me chama de e eu dou um jeitinho pro inconveniente do Josh te deixar em paz, ok?
- Ok, senh.. . - Se corrigiu, sorrindo ao ver fazer o mesmo. - Ah, o senhor Decatur falou algo sobre você fazer um desenho a mão para um cliente. Deixei o recado na sua mesa e encaminhei o e-mail que ele pediu.
- Ok, obrigada. - Entrou no elevador quando o mesmo parou no térreo. - Esse velho vai me enlouquecer. - Falou a última frase baixo o suficiente para que ninguém escutasse. Não demorou para que a morena estivesse dentro de sua sala que agora já nem era mais tão sua.
O silêncio aconchegante daquela sala era perfeito para começar o seu trabalho. Viu o e-mail do senhor Decatur e os recados deixados por Hope, respondendo-os rapidamente, então pegou as duas folhas e os lápis e lapiseiras necessárias para começar seu desenho. Ia tentar desenhar pelo menos o esboço até o horário do almoço, isso ia depender do seu grau de concentração quando todo o movimento do escritório começasse. Deixou a mesa livre, colocando alguns utensílios dentro do armário mesmo; só torcia para ninguém o abrir ou as coisas poderiam cair. Ok, ela iria arrumar mais tarde.
A porta rangeu anunciando a chegada de , mas parecia concentrada demais para prestar atenção. A mulher se encontrava sentada em cima da mesa - sim, estava literalmente em cima da mesa - com as pernas uma de cada lado enquanto cantarolava baixinho uma música do Springsteen. Não era a cena que esperava encontrar, com certeza não era. Na verdade, ele também havia chegado mais cedo então não esperava encontrar ninguém àquela hora.
- Bom dia. - Sentou-se em sua mesa, respondendo a enxurradas de e-mails e um recado específico de Josh. Quase como se fosse uma ordem e achou esquisito, já que o único chefe com quem conversava era o senhor Decatur e não ouvira falar em nenhum outro.
- Bom dia. - Ela respondeu sem tirar os olhos do papel.
Por estar ali, achou que já estava no horário do escritório começar a funcionar, mas se enganou quando o ambiente permaneceu em silêncio. O que para ela foi ótimo, facilitando ainda mais a sua concentração no desenho a sua frente. Uma pena o seu silêncio e sua concentração ir parar no lixo quando I need you dos Beatles começou a tocar, ecoando por toda sala. O aparelho parou de tocar por apenas alguns segundos, mas voltou a fazer o mesmo barulho no minuto seguinte.
- Você não vai atender ou desligar? - Levantou uma sobrancelha em direção ao aparelho, tentando controlar sua irritação com o som.
- Não. - Foi a única resposta que recebeu. “Respira fundo, ”, ela pensava enquanto fazia o movimento da respiração para se acalmar. Mas foi impossível se controlar quando a porcaria do aparelho voltou a vibrar e tocar ao mesmo tempo em cima da mesa. - , pode, por favor, colocar no silencioso?
- Não é meu o celular.
- Engraçado que esse aparelho só começou a fazer barulho quando você chegou, logo você é responsável por ele.
- É o seu celular.
- Não, não é. Eu nem gosto de Beatles e essa música é insuportável. - Desceu da mesa, desistindo de continuar o desenho àquela hora. - Falando nisso, Joe me disse que você achou meu celular. Poderia me devolvê-lo? - Na mesma hora o aparelho voltou a tocar, revirou os olhos ao escutar aquele som estridente e a batida melosa soar novamente.
- Acho um pouco masoquista da sua parte colocar, justo como toque, uma música que nem gosta. Mas o seu amorzinho realmente deve estar querendo falar com você. - caminhou até a mesa de , entregando-a o aparelho que ainda tocava. Não sem antes lhe lançar um sorriso satisfatório, indicando que ele estava certo sobre o celular ser dela. Enquanto, o rosto de podia pegar fogo a qualquer momento.
Joe, seu filho da puta!
- Joe Conklin, eu poderia facilmente arrancar suas bolas com as minhas próprias mãos e fazer você engolir tudinho agorinha mesmo. - O silêncio no outro lado da linha era sinal de que Joe estava muito, muito ferrado. - O você quer? Fala logo.
A copa daquele andar era o lugar mais afastado de sua sala, ainda silencioso, então preparar um café não seria uma má ideia.
- Viver com as minhas bolas, se possível. - Soltou um suspiro longo. - Fiquei preocupado, porque você saiu cedo e não deixou nenhum bilhete e nem avisou. Está tudo bem?
- Sim, estou trabalhando. Ainda bem que cheguei cedo, ‘tô tendo que resolver umas encrencas do Decatur. Ele não pode saber que estou em paz que acha um jeito de me atormentar. - Despejou o pó de café na cafeteira e deixou que a mesma fizesse o seu trabalho sozinha.
- Eu juro que se qualquer dia ele aparecer aqui no hospital eu dou um jeitinho nele.
- Credo, não é para tanto. Mas era só isso que você queria falar comigo?
- Sim. Ah, estou livre no final de semana.
- Que ótimo. - Lembrou-se que tinha marcado um encontro entre Joe e Sandy. - Vê se coloca uma coleira naquele homem.
- Minha filha, se alguém tem que usar coleira esse alguém sou eu. - Era impossível ficar de mal humor quando se tinha Joe para conversar.
- Você tem razão, mas eu te conheço. Não vai gostar muito desse acessório. - Ele riu do outro lado da linha, mas seu tom de voz voltou a ficar sério.
- Está tudo bem mesmo?
- Está, mas as coisas podem ficar feias para o seu lado se trocar o toque do meu celular de novo e colocar essa banda horrível.
- Eu te amo e faço isso para o seu bem.
- Você faz para me torturar. - A cafeteira chiou, anunciando que o café já estava pronto. nem gostava de café, mas sabia que precisava de um pouco de cafeína no sangue para se manter acordada. - Eu quase matei o tudo por culpa sua e o desgraçado ainda estava certo.
- Eu adoraria ouvir você falar sobre esse homem, porque depois de ontem eu tenho certeza que ele é um deus grego, mas o dever me chama.
- Bom trabalho, nos falamos no fim de semana.
- Tchau, te amo.
- Também te amo. - desligou o celular, voltando sua atenção para a xícara cheia do líquido quente. Estava de costas para a parede que separava o cômodo do restante do escritório e permaneceu assim durante toda a ligação, então quando se virou deu de cara com parado a observando.
- Então eu estava certo, é? Que engraçado.
- Escutando a conversa dos outros? Que feio, achei que já estivesse grandinho para fazer isso.
- Achei que você estivesse grandinha para ter uma babá, mas pelo visto nós dois nos enganamos.
- Quem?
- O Joe.
- Ah, ele não é minha babá. É só ele ver um rabo de calças e me larga rapidinho.
- Ele não é seu…
- Namorado? Não. Joe e eu gostamos da mesma fruta, se é que me entende.
falava rápido e demais. Isso era muito para a cabeça do , por mais que estivesse acostumado com as centenas de palavras que Claire conseguia falar em pouco tempo; muitas vezes o deixando confuso. Mas a voz da era incrivelmente sedutora e tudo nela saía de forma natural, como se nem se esforçasse, ela apenas falava. Mas, desde quando ele se importava com isso? É, não se importava com .
- Ok. - Então eles voltaram à estaca zero. entendeu que não conseguiria manter mais nenhum diálogo com . Se retirou do cômodo quando um silêncio desagradável tentou se instalar no meio dos dois. Porém, o prazo para entregar o desenho martelou em sua cabeça a tempo de voltar a sua sala rapidamente.



Continua...



Nota da autora: Então, mais um pouquinho do Joe e espero que vocês gostem, ele vai ser peça fundamental nessa história. Não esqueçam de deixar aquele comentário maroto. Bjs, até a próxima.



Outras Fanfics:
» Last Mistake
» I'm Still In Love With You
» We’ll All Be


Nota da beta: Socorro, Joe eu te amo, entenda, você é o melhor personagem da fic hahahaha, eu rio tanto dos diálogos dele e da pp, é muito natural. Fiquei feliz que ele será a peça principal da fic. Ansiosa pelo próximo capítulo! <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa linda fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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