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Última atualização: 21/10/2020

Capítulo 1. Canela



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"Eu prefiro as coisas na sua perspectiva, é mais bonito."


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Londres. 1927.

havia acabado de colocar o ponto final na carta que fazia para seus pais, quando mais um barulho forte de trovão ecoou dos céus, fazendo com que desse um pequeno pulo devido ao susto. Brandon, um de seus colegas de trabalho na cafeteria, riu com a reação dela e recebeu uma língua de fora como resposta.
O movimento no café Wind Flower estava tranquilo e quando isso acontecia, ela gostava de aproveitar esses momentos para escrever mais coisas em seu caderno ou ler algum livro.
Nascida em 1902, filha de mãe brasileira e pai britânico, estava no último ano da faculdade de literatura. Entrou mais tarde do que o planejado, pois após a Primeira Guerra Mundial, a sua família passou por algumas dificuldades financeiras. A melhor opção para ela, era tentar uma bolsa de estudos e levou cerca de três anos até que conseguisse ser aceita. Depois veio a loucura de ter que sair de Nottingham para se aventurar em uma cidade grande e movimentada como Londres.
No auge de seus 25 anos, seus maiores objetivos eram finalizar o curso e lançar o seu livro que estava em produção já havia algum tempo.
Sempre que olhava o imponente móvel gigantesco repleto de livros que ocupava uma parede inteira do café onde trabalhava, se pegava imaginando como seria ter seu livro ali, disponível para que quando alguém fosse tomar algo no café pudesse ler, ou até que fosse pauta das conversas das pessoas que se reuniam nas mesas nos fins de tarde para falar sobre as obras que gostavam.

Sonhar era de graça e seguro, então, ela permitia-se visualizar tudo isso.

como sempre com a cabeça nas suas histórias mirabolantes. — Disse Lizzie, sua colega de trabalho que estava naquele turno junto com ela e Brandon. Ela havia saído da cozinha com um semblante brincalhão no rosto.
— Não tem nada melhor do que se perder nas palavras. Ler e escrever é viajar sem sair do lugar. As aventuras que eu vivo nessas páginas são únicas, dificilmente eu poderia viver algo assim na vida real. — Desencostou-se do balcão, se levantando da cadeira que estava apoiada no móvel e indo rumo a sua bolsa, que ficava escondida em um dos armários por ali, para guardar as coisas que estavam em seu colo.
— Nunca diga nunca. Você não sabe do dia de amanhã. — Comentou Lizzie.

apenas sorriu com o comentário da colega e focou os olhos nos doces e salgados expostos na vitrine. O Sr. Willow, seu chefe, não gostava que a vitrine parecesse vazia, por isso, era crucial que de tempos em tempos eles verificassem. A ideia era que o Wind Flower fosse um ambiente de conforto e simplicidade, onde qualquer um pudesse se sentir em casa.
conheceu o estudioso Brandon Finnigan na universidade, que apesar de ser chamada assim pelos alunos, ainda não tinha o termo cravado em seu nome oficial. A Polytechnic-Regent Street* era bastante respeitada, sendo a primeira instituição politécnica de ensino superior do país fundada em 1838, sob o nome de Royal Polytechnic Institution e já abrangendo diversas competências das áreas de exatas, humanas e biológicas. Como a garota precisava pagar o aluguel da pequena casa em que morava, que basicamente tinha dois cômodos, sendo eles a sala e o banheiro, Brandon sugeriu que procurassem empregos nos cafés que haviam na região e acabaram conseguindo uma oportunidade no Wind Flower, lugar que já estavam trabalhando há quase 4 anos.

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*Polytechnic-Regent Street corresponde hoje a Universidade de Westminster, que passou a ter esse nome somente em 1992. Antes de ser conhecida como University of Westminster, os nomes da instituição foram: Royal Polytechnic Institution (1838), Polytechnic-Regent Street (1891), Polytechnic of Central London (1970), University of Westminster (1992).

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Já a extrovertida Elizabeth Steib, apelidada carinhosamente de Lizzie, foi introduzida para Brandon e quando ambos estavam em seu segundo ano de trabalho. A loira também estudava em Regent Street, mas cursava administração e diferente dos colegas que estavam no último ano dos estudos, ela se encontrava no penúltimo.
tirou o seu foco da vitrine assim que ouviu o som da porta de vidro do café se abrindo. Por um instante se surpreendeu ao notar que o céu já se encontrava escuro e, em seguida, observou curiosa o homem de casaco azul que havia acabado de adentrar no recinto um pouco desajeitado. Em uma de suas mãos ele segurava uma maleta marrom, na outra um guarda-chuva já fechado. Ele verificou o casaco rapidamente, como se estivesse se certificando de que tudo estava no devido lugar antes de se aproximar do balcão.

— Seja bem vindo ao Wind Flower, senhor. Qual seria o seu pedido? — Sorriu docemente, notando os olhos claros do homem que migraram entre ela e o cardápio fixado na enorme lousa atrás dela, bem como os gestos levemente afobados, indicando uma timidez que ela conhecia bem, já que em certas situações se via da mesma forma.
— E-eu gostaria de um chocolate quente e... e... o que você me sugere para comer com a bebida? — Perguntou ele atento, fitando os olhos dela pela primeira vez de uma maneira mais firme, porém, sem conseguir sustentar o contato direto por muito tempo.

o achou adorável.

— Olha, eu acho que o rolinho de canela seria uma ótima opção, quer dizer, isso se você quiser comer algo doce, porque se quiser algo salgado, eu posso... bem... eu posso... — xingou-se mentalmente, ficou tanto tempo notando o jeito do rapaz acanhado, que acabou perdendo a linha de raciocínio.
— Não se preocupe, eu gosto de doces, vou aceitar a sua sugestão de bom grado. O rolinho de canela me parece perfeito. — Sorriu timidamente.
— Vai consumir aqui ou levar para viagem?
— Vou levar para viagem. — Comprimiu os lábios levemente.
— Qual seria o seu nome, por favor? — Perguntou , sempre com o olhar solícito.
— Newt Scamander. Obrigado. — Após agradecer, ele ligeiramente deu espaço para que uma mulher, que havia acabado de entrar, fosse atendida também.

Newt não tinha o hábito de ficar reparando nas pessoas, mas sentiu-se extremamente bem quando a atendente sorriu para si. Era algo genuíno e o fazia lembrar de um Crupe, animal parecido com um cão Terrier e que sempre é leal aos bruxos. Não conseguiria por em palavras, mas algo no olhar dela, lhe passava o mesmo nível de conforto e segurança que um Crupe.

— Eu gostaria de ser atendida por alguém que fosse branco.

O bruxo foi tirado de seus pensamentos, assim que notou o que a mulher ruiva, que estava ao seu lado, solicitou. Sentiu-se mal e encarou a atendente que mudou o semblante por um breve momento antes de forçar um sorriso simpático. Newt observou a jovem abaixar a cabeça e se dirigir para o fundo do café, a procura de alguém que pudesse atender a ruiva.
Inconscientemente, os pés do lufano o guiaram para mais longe da mulher, seu próprio corpo reagia diante de situações como aquela, onde se sentia impotente e ao mesmo tempo indignado.
Alguns segundos depois, a jovem veio acompanhada de uma loira que se prontificou a atender a mulher preconceituosa, enquanto a de cabelos crespos focava sua total atenção no pedido de Newt. E novamente, lá estava o olhar de Crupe em sua face, como se o episódio recente nem tivesse acontecido. Ela se virou de costas rapidamente para pegar um copo, um saco de papel e alguns guardanapos e prontamente voltou a focar no que tinha que fazer.
Para a , a reação da mulher não era nenhuma novidade. Fazia quase quatro anos que passava uma parte considerável de seu tempo atrás do balcão do café. No começo se sentia mal diante de situações como aquela, até chegava a chorar no final do turno, mas com o tempo isso a deixou mais forte e passou a ignorar aquele tipo de comportamento. Já havia lidado com isso em sua cidade natal também, mas por morar em uma região menos povoada, a frequência era bem menor se comparada com Londres.
Mentalmente, rebatia a cada fala racista, mas sabia que não adiantava erguer a voz em um ambiente onde ela era a única diferente. Ninguém falava sobre essas coisas abertamente, era visto como algo normal e por ser normalizado, ela engolia cada ofensa gratuita.

Um dia ela ainda iria se defender.

Ela sabia que esse momento chegaria. Em seu tão sonhado livro - que nada mais era do que histórias do dia a dia, tendo como base tudo o que observava ao seu redor, seja no ambiente de trabalho, na faculdade, ou na rua, como um grande conjunto de histórias que iriam se cruzar em um determinado ponto - ela iria falar sobre essas questões, iria trazer à tona as diferenças gritantes que via na sociedade britânica, enquanto dava uma pitada de romance e aventura, com um toque de esperança para dias melhores. E então, talvez, isso pudesse ser discutido nas rodas de conversa, nos artigos de opinião do jornal e quem sabe no rádio.
Trazer aquela questão sob uma ótica mais próxima do dia a dia, onde todo mundo podia se ver de alguma forma, seria o melhor caminho para iniciar um diálogo. O mundo sempre tentava resolver as coisas com violência e isso só trouxe mais guerras e segregações.
Era tolice ter uma visão romântica de mundo, ela sabia, mas como sempre dizia, sonhar era de graça e ela queria acreditar sempre na melhor versão do ser humano.

— Newt Scamander. — Falou assim que fechou o saco de papel com o pedido do homem de cabelos cor de canela.

Scamander sentiu Pickett se mexer em seu bolso e passou a mão rapidamente por cima, o animal estava resfriado de novo, o que não era surpresa, já que estavam em setembro e o outono frio indicava que o inverno seria ainda mais rigoroso naquele ano do que no anterior.

— Muito obrigado... — Olhou para a atendente mais uma vez e só então notou que havia um pequeno crachá retangular com o nome "" em seu uniforme. — Srta. .
— Pode me chamar de , Sr. Scamander. Espero que goste de seu pedido e volte mais vezes. — Sorriu, sentindo-se leve.

Newt assentiu e devolveu o sorriso de uma maneira mais contida. Se encaminhou para a porta, parando para apoiar a mala no chão. Ele tinha que abrir a porta, abrir o guarda-chuva, segurar o pedido e pensava em uma forma de fazer isso sem que resultasse em um desastre.

— Eu te ajudo.

surgiu ao seu lado, segurando a porta para que ele pudesse passar. Newt abriu o guarda-chuva e apoiou o saco na mesma mão, enquanto na outra segurava a mala.

— Permite uma sugestão, Sr. Scamander? — Perguntou ela, gesticulando para o saco.
— Claro. — Ergueu o olhar e a entregou o pacote.

A jovem sorriu mais vez. Para Newt, aquele deveria ser o centésimo sorriso que ela havia dado durante o tempo em que ele estava ali.
Gentilmente, ela se aproximou da mala do bruxo e enrolou a ponta do saco na alça da mala de maneira que ficasse firme e melhor para ele segurar. Newt sentiu suas bochechas esquentarem por não ter pensado nisso antes.

— Muito obrigado, Srta. .
.
— Certo. . Eu... eu vou me acostumar a te chamar assim. — Riu tímido.
— Isso quer dizer que você vai voltar, Sr. Scamander? — Quando se deu conta, a pergunta escapou de seus lábios sem que ela tivesse controle e logo sentiu-se envergonhada. Estava fazendo papel de boba. Nem sabia porque estava reagindo de maneira ansiosa com um homem que mal conhecia.
— Newt. E sim... eu voltarei, . — Newt sentiu que estava ficando mais vermelho do que já deveria estar e decidiu seguir seu rumo antes que ficasse ainda mais constrangido.

suspirou ao observar o homem se distanciar de si e em seguida deu um tapa na própria testa.

— "Isso quer dizer que você vai voltar, Sr. Scamander?". Tem como eu ser mais patética? — Bufou, irritada consigo mesma e voltando para dentro do café, indo direto para a cozinha lavar a louça.
— Sinto muito pela mulher idiota. — Lizzie lamentou, se aproximando da pia.
— Eu também sinto pela ignorância dela. Um dia isso vai melhorar. — Deu de ombros.
— E quem era aquele? — Lhe lançou um olhar repleto de segundas intenções.
— Aquele quem?
— Não se faça de boba, . O homem de casaco azul. Eu notei como você sempre olhava pra ele discretamente e ele também fez o mesmo. Eu senti uma tensão no ar. — Fitou a amiga com interesse.
— Você sempre fala isso sobre qualquer cara que aparece. — Debochou . — Eu só estava sendo gentil e ele também. Além disso, não é como se eu fosse vê-lo novamente, duvido que volte e se voltar, ele sempre será mais um cliente e eu a atendente.
— Pra quem vive no mundo da fantasia, você é muito dura quando se trata de flertar.
— Eu não sei flertar, eu sou um desastre. Eu gaguejo, não sei puxar assunto e me sinto acanhada. E toda vez que um homem me aborda, é pra dizer que quer me levar pra cama, porque eu tenho uma "beleza exótica". — Fez as aspas com as mãos e revirou os olhos. — Eu não espero que a realidade seja como a fantasia, mas se a fantasia é uma construção de algo da nossa imaginação e muitas obras abordam personagens de uma forma mais otimista, eu quero acreditar que a realidade pode ser assim também. Afinal, sonhar...
— Sonhar é de graça. — Lizzie completou a frase da amiga. — É, eu sei.
— Um dia eu acordo. — Terminou de enxaguar o último prato e se virou para Elizabeth, tirando o avental.
— Jamais faça isso. Tem um bando de gente acordada e olha como está o mundo. Eu prefiro as coisas na sua perspectiva, é mais bonito.

Lizzie passou as mãos pelos ombros da amiga e caminhou com ela rumo ao balcão. sorriu com o comentário e assim que voltou para seu posto habitual, se prontificou em pegar um de seus cadernos que estavam dentro de sua bolsa localizada no armário.
Antes de se sentar em uma das cadeiras disponíveis, notou que Brandon finalizava o atendimento a um cliente e assim que seus olhares se cruzaram, ela sorriu, lhe desejando força, porque já estava quase na hora de fechar e sabia que esse momento era o mais cansativo, uma vez que a ansiedade para ir embora aumentava devido a proximidade do horário de fechamento.
Com a caneta tinteiro posicionada ao seu lado, fechou os olhos por um instante e sua mente a fez lembrar do desajeitado Newt Scamander, que conhecera naquela noite. Internamente, desejou que pudesse vê-lo de novo. Algo nele a intrigava e ela não conseguia entender o porque desse súbito interesse, já que isso nunca havia acontecido antes. Abriu os olhos e fitou a página com um trecho que estava inacabado, respirou fundo e deu continuidade ao enredo que há tanto tempo vinha se dedicando.
Tinha somente mais 20 minutos para se perder em seu mundo, antes de se aventurar pelas ruas chuvosas de Londres em direção a sua casa, em direção a realidade.
Mas, naquele instante, deixou-se envolver pelo cheiro dos rolinhos de canela que predominava no ambiente enquanto pensava em Newt.

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Capítulo 2. Obliviate



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“Parecia que se conheciam há anos, como se fossem amigos de infância.”


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Nada podia ser mais tedioso para Newt do que ficar carimbando papéis e separando documentos, mas era tudo o que ele tinha para fazer no Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas. Após o episódio de Nova York com o obscurial Credence e Grindelwald, ele foi banido de fazer viagens internacionais por tempo indeterminado e para que não fosse afastado completamente do ministério, seu irmão, Theseus Scamander, entrou em cena para salvar o dia - como sempre - e conseguiu mantê-lo no DRCCM, sob a condição de que cuidasse de coisas burocráticas, o que era uma verdadeira tortura para o lufano.

— Pickett está na hora de sair do meu bolso. O que acha de irmos visitar os outros tronquilhos? Acredito que ainda dá tempo para eu dar uma passadinha na minha mala antes de irmos para a reunião. O que acha? — Perguntou atencioso, enquanto o tronquilho negava veementemente a ideia de ir com os outros de sua espécie.

Newt riu.

— Em algum momento você vai ter que desapegar de mim, sabe disso.

O bruxo se levantou de sua cadeira e Pickett lhe respondeu mostrando a língua.

— Não seja malcriado. Estou apenas zelando por você, seu teimoso.

Newt contornou a mesa, indo até uma caixa de madeira que ali estava para deixar mais uma pilha de papéis que deveriam ser levados para a sala do arquivo. Quando se virou para retornar a sua cadeira, seus olhos encontraram o saco marrom com o logo do café Wind Flower.
Foi a primeira vez que Newt entrou no lugar, apesar de já ter passado algumas vezes na frente e até mesmo ter ouvido comentários de alguns colegas do ministério que gostavam de tomar café por lá por ser bom, discreto e aconchegante. A única razão pela qual Newt cruzou a porta no dia anterior, era por causa da chuva e a vontade de beber algo doce e quente.
Sorriu ao pensar na jovem atendente de cabelos cacheados com olhar de Crupe. Uma sensação boa o invadiu somente com a lembrança. Ela havia sido extremamente gentil e Newt percebeu como ela depositava completa atenção ao cliente quando o mesmo estava falando. Era como se ela sempre estivesse preparada para ajudar independente do que acontecesse.

— Srta. , ou melhor, . — Newt falou alto e Pickett, que se encontrava em sua mesa, ergueu seus caules para cima. — Você se lembra dela?

O tronquilho pulou animado. Newt riu com a agitação do pequeno e o colocou no bolso, checando o horário. Ainda tinha tempo. Seus olhos, então, foram para o jornal que estava ao lado de sua mala e que continha uma foto com alguns aurores da MACUSA. Tina estava ali.
Os dois tinham tido uma conexão durante o período em que ele esteve em Nova York. Ela era inteligente, destemida e divertida. Fazia muito tempo que o Scamander não se permitia ter atitude para alguma coisa, por isso, ficou surpreso consigo mesmo quando teve coragem para perguntar se ele poderia dar uma cópia de seu livro para ela pessoalmente, o que acabou não acontecendo, porque ele foi proibido de viajar e Tina voltou para a equipe de investigadores.
No fim, ele enviou por correio o livro, bem como eles passaram a conversar por cartas e foram através delas que se conheceram melhor. Com o tempo, as mesmas foram ficando cada vez menos frequentes, porque Tina estava muito atarefada com as missões dadas pela MACUSA.
Newt mentiria se dissesse que não gostava dela, ele tinha interesse, mas tudo estava muito nublado e não sabia definir se era amor. Tina estava trabalhando lado a lado com Graves, alguém que o lufano sabia que ela admirava muito.
Era difícil para Newt ter qualquer opinião sobre Percival Graves, já que ele tinha uma visão deturpada do bruxo americano por tê-lo conhecido somente enquanto estava sob o domínio de Grindelwald.
Tudo era uma grande incógnita.

— Newt? — A voz inconfundível da Lestrange invadiu a sala, mesmo com ela estando do outro lado da porta. Ela fazia parte do outro grande ponto de interrogação que havia na mente dele.
— Oi, Leta. — Falou assim que abriu a porta, já com sua inseparável maleta na mão.
— Pronto para mais uma reunião com a diretoria? — Questionou, ajeitando levemente o cabelo e o vestido de cetim rosa.
— Estou sempre pronto. — Tentou ser firme e confiante como seu irmão mais velho, mas o desânimo era mais do que evidente.

Leta sorriu. Ela já estava acostumada com esse jeito do Scamander mais novo, ele sempre se esforçava para fazer o seu melhor, embora, ela soubesse que o único lugar em que ele poderia ser de fato compreendido era com suas criaturas.

— Você irá ao jantar na próxima semana? — Perguntou a Lestrange, incerta se deveria tocar no assunto naquele momento.

Ela sabia que ainda mexia com Newt e se sentia mal por isso. Não era amor, mas ele nunca conseguiu deixá-la ir completamente. Ele foi expulso de Hogwarts para protegê-la, assumindo a culpa pelos erros dela. Ninguém nunca soube. Por sorte, Dumbledore interveio a seu favor e como o Scamander estava no sexto ano, lhe foi permitido concluir os estudos em casa, tendo que comparecer em Hogwarts somente para fazer as avaliações práticas e exames finais.
Newt a protegeu e Leta quebrou o seu coração, pois ela não o defendeu, não se colocou ao seu lado, apenas assistiu tudo por puro medo e por ter saído na vantagem. O lufano ficou lá, a esperando voltar, esperando que ela pudesse ir visitá-lo, mas ela nunca o fez. Então, era como se uma parte de Newt ainda estivesse aguardando que ela aparecesse.
E sim, ela apareceu, mas não como o jovem Newt ansiava.
Anos depois, em um dos almoços da família Scamander, Newt a viu atravessar a porta de mãos dadas com Theseus, seu irmão mais velho, o exemplo da família, diferente dele que era o esquisitão que tratava de animais mágicos. Ele sabia que seus pais não faziam essas comparações, mas as outras pessoas faziam.
Com seu coração maior que o mundo, Newt engoliu seu orgulho e seus sentimentos confusos em relação a sonserina e a acolheu da melhor maneira que conseguiu.
Mas, dentro de si, o jovem Newt estava parado no tempo, preso numa realidade paralela onde ficava debruçado na janela de seu quarto na casa de seus pais, enquanto acariciava um bebê pelúcio, tomava um chá e esperava pela Lestrange que nunca aparecia.

— Claro que eu vou. É o jantar de comemoração do noivado do meu irmão. Não perderia. — Levou alguns segundos para responder a Lestrange, estava organizando seus pensamentos.
— Tudo bem. Se quiser levar uma companhia, fique à vontade. — Falou no instante em que pararam na frente da sala onde ocorreria a reunião. — Boa sorte.

Leta bateu na porta e saiu caminhando pelo corredor, Newt a observou por alguns segundos antes de ouvir um “pode entrar” proferido por seu irmão. Ele ajeitou o casaco e a gravata e passou pela porta, preparando-se psicologicamente para toda conversa burocrática que teria que acompanhar por horas.

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Alguns dias depois


Exaustão era tudo o que sentia naquele momento. A gigantesca biblioteca havia sido a sua companhia por horas e horas ao longo do dia e sua cabeça já estava doendo.
Às vezes, batia um enorme arrependimento de ter escolhido o livro “Os Miseráveis” de Victor Hugo como objeto de estudo de seu trabalho final. A história era muito extensa e complexa, com inúmeros personagens e todo o enredo que mostrava a precária situação de Paris na época.
No momento em que se encontrava, estava analisando cada personagem, fazendo um traço de suas personalidades de acordo com todas as informações detectadas no texto, ao mesmo tempo que fazia uma análise da estrutura gramatical e de como Victor Hugo mesclava estilos literários para narrar aquela história.
suspirou profundamente e ergueu os braços. Estava na hora de juntar as suas coisas e sair dali.
Enjolras, personagem que estava analisando naquele momento, já havia aparecido tantas vezes em seu campo de visão, que agora cada palavra que lia se transformava no nome do jovem revolucionário do Les Amis de l'ABC.
Assim que deixou o prédio da biblioteca, sentiu a brisa gelada bater contra seus cabelos soltos. Estava bastante frio e sentia uma enorme necessidade de tomar um chá de erva doce bem quentinho para aliviar a tensão. Ficou seis horas enfiada na biblioteca e estava de folga, sentia que merecia um momento para relaxar e que deveria explorar algum lugar novo.
Depois de procurar por algumas ruas, decidiu entrar em uma pequena doceria bem discreta, que parecia sumir ao lado das lojas maiores e se sentou em uma mesa próxima da janela. Assim que recebeu seu pedido, passou a admirar a rua e sua mente vagou para diversas lembranças, que iam de seus pais até seus livros favoritos. Sorriu. Estava com saudades.
Bebericou mais um gole de seu chá e sua mente a transportou para alguns dias atrás, quando o tal Newt Scamander cruzou a porta do café. Havia algo diferente nele. Talvez, fosse o jeito atrapalhado que lhe fazia o achar adorável, mas não sabia dizer.
Lembrou também de alguns dos clientes diários do Wind Flower, que sempre a tratava com muito carinho. Ela gostava deles. Gostava de sentir-se útil, de ajudar as pessoas, aprender coisas novas e escrever sobre isso. Ela gostava de apreciar os detalhes simples.
Saiu da pequena doceria minutos depois, fazendo uma anotação mental de que deveria retornar mais vezes. Passou por algumas ruas calmamente, estava retornando para casa e não precisava correr.
Foi quando estava passando pelo parque, que usava para cortar o caminho, que algo lhe chamou a atenção.
Ela podia jurar que havia visto um bichinho de pelo escuro e bico alaranjado se enfiar na moita. Ela nunca tinha se deparado com nada igual e passou tão rápido que ela convenceu a si mesma de que era fruto de sua imaginação.
iria deixar tudo para lá e seguir seu curso, até ver a última pessoa que esperava encontrar ao acaso: Newt Scamander.
Ele estava com um casaco marrom dessa vez e se abaixou atrás da moita procurando o bicho com um semblante preocupado, até que seu rosto não pode mais ser visto e tudo o que conseguia enxergar de onde estava era o seu cabelo cor de canela.
Decidiu se aproximar.

— Precisa de ajuda? — Ofereceu, fazendo Newt pular ao perceber que não estava sozinho.
— Você! — Newt falou surpreso e em seguida sorriu nervoso. — Como v-você está?
— Eu estou bem. Na verdade eu achei que estava vendo coisas, mas aí você apareceu e começou a procurar esse animal exótico.
— Animal exótico? — Coçou a cabeça tentando disfarçar.
— Sim? — o encarou confusa. — Um animal peludo e com bico que entrou aqui. Eu posso jurar que eu vi algo.

mexeu na moita e não conseguiu ver nada além de folhas verdes.

— Eu não vi nad...
— ALI! — virou o corpo na direção onde o animal rapidamente se escondeu.

Dessa vez ela estava certa de que não era imaginação, porque o animal estava parado atrás de uma árvore enfiando dentro de sua barriga um colar de prata e algumas moedas que havia encontrado sabe-se lá onde.
Newt se aproximou preocupado. Estava ferrado. Já havia exposto Jacob a magia enquanto estava nos Estados Unidos e o ministério não estava muito feliz com ele, apesar de seu livro ter sido um absoluto sucesso. Se ele se metesse em mais encrencas poderia demorar ainda mais para voltar a viajar internacionalmente.
, que notou que o animal parecia se encantar com coisas que brilhavam, retirou de sua bolsa uma correntinha prateada e colocou diante dos olhos do animal, que pareceu ficar hipnotizado. Ela sorriu para ele e o olhou de maneira curiosa. Cada movimento sendo milimetricamente feito para não assustar o bichinho.

— Você gosta disso? — Balançou a corrente lentamente e a colocou diante de seus olhos. — Pode pegar. Eu não vou machucar você.

O animal agarrou com as patinhas o colar e Newt aproveitou a brecha para pegá-lo. Sabia que demoraria para ter uma outra oportunidade como aquela.

— Então, o animal é seu, Sr. Scamander? Eu nunca vi algo assim antes. — observava enquanto o bicho parecia se aninhar nos braços de Newt.
— Ele não é, quer dizer, ele é. Eu acho. — Newt estava nervoso.
— Você acha? — Ergueu a sobrancelha, desconfiada.
— É complicado de explicar. — Se aproximou dela. — Eu agradeço pela ajuda, se não fosse por você eu ainda estaria atrás dele, mas você viu coisas demais e...
— O que tem demais em ver esse bichinho? Ele é inofensivo. Só gosta de coisas que brilham. Não estava cometendo nenhum crime, quer dizer, ele provavelmente pegou aquele colar e as moedas de algum lugar, mas ele não tem noção disso. Eu só fiquei curiosa em como as coisas somem na barriga dele e... — passou a teorizar sobre o animal e tagarelava tentando chegar a alguma conclusão.

Newt apenas a observou por um instante, confuso em um primeiro momento, mas depois sentiu-se envolvido pela maneira em como parecia realmente determinada a entender o que era aquela criaturinha que Newt segurava nos braços. Ele sorriu ao notar como ela tentava encontrar meios de explicar para ele da maneira mais racional possível.
Ela não estava chocada ou com medo. Ela estava curiosa.

— Isso é um Pelúcio. — Newt proferiu e em seguida arregalou os olhos. Não era para ele ter dito nada. Escapou de seus lábios sem que ele tivesse controle.
— Então, você sabe o que isso é. — confirmou ao notar o semblante preocupado do outro.
— Sim, eu sei. Mas não era para eu te contar isso. Eu não deveria contar para ninguém, escapou, foi um acidente. — Newt estava muito encrencado.
— Fica tranquilo. Eu prometo que não vou contar para ninguém. Eu não queria causar um problema, eu só quis ajudar. — Sentiu-se desconcertada.
— Não. A culpa não é sua. Você foi ótima, eu é quem sou descuidado e...
— O que é isso? — aprontou para o bolso do casaco de Newt.
— Oh. Pickett, agora não! — Resmungou, tentando colocar a criatura no bolso novamente, sem sucesso, ainda mais porque o Pelúcio estava em seu colo e dificultava a tarefa. — Um instante por favor.

Newt sabia que por mais que ambos estivessem escondidos devido aos arbustos ao redor, não demoraria muito até que alguém passasse por onde estavam, por isso, agachou-se e abriu sua mala para guardar o Pelúcio, deixando extremamente confusa sobre como o animal caberia ali dentro.
Teimoso, o Pelúcio relutou para entrar dentro da mala e Scamander começou a discutir com o bicho que tentava escapar das mãos dele. Concentrado demais no animal, Newt não notou um homem que havia acabado de passar por ele com seu cachorro e, por sorte, o homem também não percebeu que o Scamander estava lá.
Tudo parecia bem até notar os olhos do Pelúcio petrificados no cachorro e foi então que ela viu a coleira de prata reluzente. Após isso, tudo aconteceu rápido demais. Newt, que nada havia percebido, perdeu o domínio sobre o Pelúcio, que saiu de seus braços, porém, colidiu com o peito de que se jogou na frente da mala e já entreteu o animal com a pequena pulseira de prata que tirou de seu pulso antes de intervir para acalmá-lo.
Primeiro, Newt suspirou aliviado e permaneceu apoiado em seus joelhos por um instante, respirando pesadamente. Em seguida, ergueu a cabeça e seu mundo parou com a visão do Pelúcio brincando com a corrente de prata que ainda segurava em uma das pontas, enquanto com a outra mão acariciava a cabeça do animal que parecia estar em puro deleite.
olhava o bicho com fascínio e sorria de forma quase maternal, o mantendo firme em seu peito, tentando mantê-lo aquecido.

— Quem é o Pelúcio mais arteiro da cidade? É você! — Riu ao ver a reação do animal após ela coçar rapidamente a barriga dele. — Quer dizer que você sente cócegas, huh? Não é tão invencível quanto tenta parecer que é.

Newt riu junto com ela e seus olhares se cruzaram. Era uma sensação contagiante e acolhedora. Parecia que se conheciam há anos, como se fossem amigos de infância.
Delicadamente, passou o animal para os braços de Newt, que após acariciar o Pelúcio e lhe dar uma moeda, recuperou a pulseira dela.

— Sei que tem uma corrente que você deu a ele também, mas se eu pegar aqui fora é capaz que ele escape novamente. — Explicou olhando para o chão.
— Não se preocupe, não era importante. O Pelúcio pode ficar, é meu presente para ele. — sorriu, passando a mão na cabeça do animal antes de Newt abrir a mala e o colocar lá dentro.

A garota chacoalhou a cabeça diante da cena que acabara de ver e o Scamander pode notar a expressão em seu rosto. Ela não estava entendendo nada. Como que o bicho ficaria ali dentro?

— Bem... — Newt olhou para os cabelos da mulher e fitou o chão em seguida, tentando encontrar as palavras certas para explicar o que iria fazer.
— Essa é a parte em que você diz de novo que eu vi coisas demais, não é? — o encarou com um ar de preocupação. — Olha, eu sei que a gente não se conhece direito, mas eu jamais faria mal a um animal. Se você protege animais como ele e está com medo de que alguém saiba de algo, eu não irei contar nada a ninguém. Nunca. Pelo o que eu posso ver, você é diferente. E... isso é bom.

Newt sentiu seu coração acelerar. Ela era uma das criaturas mais doces que ele já havia conhecido. Seu olhar estava carregado de carinho e preocupação, havia também um pouco de culpa. Ela não queria ter cruzado a linha, não queria ter invadido o espaço dele, mas como o Scamander poderia culpá-la quando na verdade foi ele quem causou confusão mais uma vez?
Mas ele tinha que aplicar o Obliviate nela. Era o certo a se fazer.

— Obrigado pela ajuda e p-por... p-por m-me entender. Porém, eu tenho regras a seguir.
— Eu vou morrer? — Seus olhos se arregalaram por um instante.
— Não! Não! — Newt se apressou a dizer. — Eu vou apagar qualquer lembrança sua desse incidente com o Pelúcio e comigo.
— Você vai ser só o cara que me lembra os rolinhos de canela da cafeteria? — olhou para os próprios dedos, que ela entrelaçava e desentrelaçava, indicando seu nervosismo.

O lufano ficou sem reação. Ele tinha mesmo que apagar a memória dela? Ele sabia que sim, mas não queria.

— Sim. — Respondeu, quebrando o contato visual e curvando levemente a cabeça para se esconder atrás de seus cabelos.

sentiu uma súbita vontade de chorar e seus olhos se inundaram, mas ela segurou firme.

— Tudo bem. Faça o que tem que fazer.

abaixou a cabeça e fechou os olhos com força, assim como as mãos. Newt sentiu uma pontada forte em seu peito ao observar a cena. Ele estava se sentindo a pior pessoa do mundo ao vê-la acuada daquela forma, como um animal indefeso e assustado. E ele era o causador de tudo aquilo.
Com os olhos vermelhos, Newt tirou a varinha do bolso lentamente, olhando ao redor para se certificar de que ninguém veria o que estava prestes a fazer.

Obliviate.

Isso era tudo o que ele tinha que falar.
Era simples, fácil e indolor.

Obliviate.

Ergueu a varinha e suas mãos, trêmulas, mal conseguiam sustentar o objeto de madeira.

Obliviate.

Era o que estava prestes a proferir quando viu o pequeno tronquilho saltar de seu bolso e correr a pequena distância que havia entre o bruxo e a garota de cabelos crespos, que permanecia na mesma posição.
Pickett subiu na perna de , atraindo a atenção da mesma que abriu os olhos - avermelhados devido as lágrimas que conteve - e sorriu abertamente. O mesmo sorriso que o bruxo havia visto após a mulher ruiva dizer que não queria ser atendida por ela, um sorriso acolhedor, como se toda a situação desagradável não tivesse ocorrido anteriormente.
Um sorriso puro e genuíno.
Um sorriso com o olhar, com o coração.
Newt abaixou a varinha, sem condições de prosseguir com aquilo e a devolveu para o bolso. Ele sabia que devia apagar a memória dela, ainda mais agora que o mundo bruxo estava um caos. Dias atrás, na reunião com Theseus e outras figuras do ministério, descobriu que Grindelwald havia fugido de Nova York e poderia estar em qualquer lugar da Europa.
Não era hora de deixar outro trouxa ser parte de sua vida. Ele era um homem adulto e sabia que o assunto era sério. Ele tinha regras a seguir. Ponderou por um instante e fitou a , que havia enfiado Pickett dentro da gola de seu casaco e o acariciava com ternura.

Obliviate.

Foi o que Newt disse mentalmente para si mesmo, declarando que deveria esquecer de apagar a memória dela. Ficou de pé e aproximou-se de , lhe estendendo a mão e a ajudando a se levantar também.

— Eu preciso ir. — Disse o Scamander.
— Não vai apagar a minha memória? — O encarou.
— Não. Eu vou confiar em você. — Sorriu, pegando Pickett e o colocando de volta em seu bolso.
— Certo. Mas quem é você, afinal? Uma espécie de veterinário ilusionista, que... sei lá... usa a hipnose para confundir as pessoas? — Questionou ela, o observando ajeitar o casaco e em seguida agarrar na alça de sua mala.
— Não. Eu sou um bruxo.

Newt sorriu antes de aparatar, sumindo diante dos olhos da escritora e a deixando completamente perplexa com o desaparecimento repentino. Ela olhou de um lado para o outro, tentando localizar o homem sem sucesso. Não havia lógica para aquilo.
Sua mente entrou em pane.
Enquanto isso, Scamander aparatou no outro lado da cidade, diante da cabine telefônica que dava acesso ao Ministério da Magia Britânico.
Riu ao se lembrar da expressão de e olhou o céu que começava a escurecer. Já podia ouvir a voz de Dumbledore em sua mente, o advertindo sobre o que havia feito ao mesmo tempo em que deixava transparecer um sentimento de orgulho por sua impulsividade. Reação típica de um grifinório.
Mas não iria voltar atrás.
Que se danem as regras. Afinal, Newt nunca foi muito bom em segui-las.


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Capítulo 3. Estranhos



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“Não se tratava de paixão à primeira vista. Se tratava de uma sensação de plenitude.”


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— Terra chamando . Você tá me ouvindo? — Brandon passou a mão na frente dos olhos da amiga, que tinha o olhar distante.
— Oi. Me desculpa, eu to um pouco avoada hoje. — Balançou a cabeça tentando se concentrar no amigo, que estava sentado ao seu lado no banco de madeira em um dos jardins do campus.
— Ok. O que está acontecendo? Você só fica assim quando tem alguma coisa séria rolando. Seus pais estão bem? — A fitou preocupado.
— Sim. — Respondeu prontamente. — Eles estão bem. É que... eu to preocupada com meu trabalho final da faculdade. Muita coisa pra analisar, pouco tempo para dormir. Mas isso é tudo.
— Você sabe que é uma péssima mentirosa, né? — Riu da amiga e levou um soquinho no ombro como uma forma de repreensão.
— É sério, não precisa se preocupar. São só paranoias que fazem parte do pacote de ser adulto. — Comentou enquanto alisava a capa de um dos livros que estava consigo. Não podia abrir a boca sobre o que tinha acontecido na noite anterior.

Quando acordou naquela manhã para ir até Regent Street, a primeira coisa que fez após terminar de coar o seu café, foi se sentar por longos minutos na sua pequena escrivaninha de estudos e questionar a si mesma sobre a veracidade da noite anterior.
Uma coisa que ela tinha certeza era sobre Scamander. Definitivamente, aquele homem não era fruto da sua imaginação. Ele tinha ido no café, Lizzie tinha o visto, então, não poderia ser considerada louca. A segunda coisa que ela tinha certeza, era que o tal do pelúcio era real, porque a corrente que estava em sua bolsa não se encontrava mais lá. Só havia dois motivos para o sumiço: ou ela simplesmente perdeu no dia anterior após retornar para casa, ou tudo aquilo era real.
Aquilo era real. Certo?

Suspirou.

— Tudo bem, , recomponha-se. Isso definitivamente não foi um delírio, ontem realmente aconteceu e agora você precisa ir para a faculdade e agir como um ser humano normal, porque se você abrir a boca sobre isso vão te chamar de louca. — A garota se colocou de pé e deu um último gole na bebida amarga antes de pegar o seu casaco cinza, que estava apoiando na cadeira de sua mesa de estudos.

Antes de sair pela porta, olhou para o cômodo brevemente.

Ao lado da porta de entrada, havia uma pequena pia com um armarinho marrom embaixo. A janela ficava em cima de onde a pia se localizava, possibilitando a ela uma visão da rua quando a cortina estava aberta. Ao lado da pia, ficava um fogão de quatro bocas com um botijão ao lado. Na parede lateral, tinha um armário e uma geladeira para guardar os mantimentos. Na parede do fundo havia uma porta para o banheiro, ao sair, bastava caminhar alguns poucos passos que você estaria na cama, cuja cabeceira chegava a encostar na parede. Depois da cama, tinha um espacinho que às vezes ficava ocupado com algum sapato, guarda-chuva ou pertences que ela trazia da faculdade. Na outra parede lateral, ficava a sua escrivaninha, com uma máquina de escrever e diversos cadernos e livros, além de canetas tinteiro. Ao lado da mesa de estudos, ficava seu armário de roupas, com duas portas e um espaço embaixo para deixar seus sapatos. Ao lado do armário, um cabideiro onde costumava deixar algumas bolsas e pendurar o casaco quando chegava da rua - o que nem sempre acontecia, já que havia adquirido o hábito de deixar na cadeira da escrivaninha. Por fim, tinha uma mesa quadrada de madeira com quatro cadeiras, que ela deixava do lado da geladeira com as cadeiras empilhadas. Costumava posicioná-la quase que no centro do cômodo, alinhada entre a pia e o fogão, quando recebia os amigos em casa.
A maioria de seus móveis eram de madeira e os tons de marrom variavam entre si, já que grande parte do que comprou ela adquiriu aos poucos em brechós e vendas de garagem. Somente a geladeira e o fogão que vieram direto de Nottingham, como um presente dos amigos da família.

Sua casa era bem pequena, mas o aluguel era barato o bastante para que sobrasse uma parte de seu salário no Wind Flower. Além disso, a sua “caverninha”, como apelidou carinhosamente, era o seu pequeno espacinho na cidade grande, terra que enchia os olhos de qualquer um que morasse mais longe, afinal, era ali que tudo acontecia. Os grandes concertos, as melhores faculdades e escolas, as belíssimas ferrovias e estações imponentes, além dos veículos dos mais diferentes modelos que cruzavam as ruas.

Alguns minutos depois, já estava na Regent Street com suas anotações em mãos, pronta para as aulas que teria. Sua grade horária diminuiu consideravelmente já que estava no último ano e tinha que fazer o trabalho de conclusão de curso. Após as aulas, iria se encontrar com o seu professor orientador em uma das salas de estudo, onde ficariam uma hora e meia conversando sobre o seu projeto.

A manhã foi produtiva. Ocupar a cabeça com os estudos por algumas horas a fez esquecer do dia anterior.

Newt Scamander. Pelúcio. Mala. Bruxo.

sabia que assim que fosse esperar Brandon no banco que se encontravam sempre, sua cabeça entraria numa espiral novamente. Foi o que aconteceu.

— ...Por isso, seria ótimo se pudesse trocar de turno comigo. Não tava me ouvindo de novo, ? — O moreno a fitou incrédulo. — Eu não acredito!
— Me perdoa! — Se apressou em dizer, juntando as mãos como se pedisse piedade por sua vida.
— A sua sorte é que eu gosto muito de você.
— Você é o melhor. — o abraçou agradecida e se levantou do banco, erguendo a mão na direção de Brandon. — Vamos! Preciso te compensar por ser um amigo incrível pagando o seu sorvete favorito.
— Se você pensa que pode comprar a minha amizade com um sorvete, você só me prova o quão minha amiga você é, porque jamais recusaria uma oferta dessas.
Ambos riram e ele aceitou a mão da amiga de prontidão. Logo, estavam caminhando lado a lado em direção a sorveteria que era figurinha carimbada nos passeios que davam juntos.

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— Você fez o quê? — Theseus subiu uma oitava em seu tom de voz e Newt abaixou a cabeça em uma tentativa de se esconder atrás dos cachos de sua franja.
— Eu só não consegui. — Falou baixo.
Eu só não consegui. Por Merlin, Newt! — Bufou. — Agora se toda vez que você se simpatizar com um trouxa você revelar o nosso segredo, logo, o mundo inteiro vai ser exposto ao mundo mágico. Você não mede as consequências de suas ações? Até quando vai agir como um irresponsável?

Newt sentiu seu sangue ferver. Aceitava qualquer coisa, menos que o chamassem de irresponsável. Ele não era assim, inclusive, sempre pensava nos outros antes de fazer qualquer ação, até se sacrificava em certos pontos se preciso. Ouvir aquilo de seu irmão o machucava, ele não se via dessa forma.

— Eu não sou irresponsável! — Vociferou, apertando os punhos que estavam abaixados na lateral de seu corpo.
— Ah, não? O que me diz de Nova York? Pelo o que eu me recordo, foi você quem foi para um outro país e levou criaturas mágicas para uma cidade que não as aceita. Para piorar, algumas delas escaparam.
— Pois é, mas se não fosse pelas minhas criaturas mágicas, eu não teria entrado no radar da MACUSA e, consequentemente, revelado que Grindelwald estava debaixo do nariz deles por todo esse tempo. Além disso, Frank, meu pássaro-trovão, conseguiu obliviar a cidade e a MACUSA alterou as leis em relação às criaturas mágicas. — Justificou o lufano mais novo e Theseus revirou os olhos, se levantando da mesa.
— Isso não apaga o fato de que você causou uma enorme confusão, expôs o mundo mágico e por conta disso você quase foi expulso do Ministério da Magia Britânico se não fosse a minha interferência. — Theseus estava próximo do irmão e o fitava seriamente. Newt sempre causava dor de cabeça.
— Eu já agradeci por sua ajuda. O que mais você quer de mim? — Detestava quando o irmão se colocava na posição de salvador da pátria. Ele nunca havia pedido que o mais velho se metesse em seus problemas pra começo de conversa.
— Que você pare de fazer merda!
— Eu não pedi que me ajudasse, você o fez porque quis, você ama se meter na minha vida! — Empurrou o peito de Theseus com seu dedo indicador.
— Se eu não me metesse na sua vida, você nem teria se formado. Você conseguiu a proeza de ter sido expulso de Hogwarts. Se não fosse Dumbledore intervindo por você e eu o sugerindo que solicitasse o ensino a distância como opção, você nem teria se graduado na escola. Nossos pais ficaram decepcionados com você. — Theseus segurou nos ombros de Newt enquanto falava e manteve o seu olhar fixo no mais novo.

Newt se desvencilhou dos braços do irmão com certa brutalidade. Não era comum esse tipo de reação da parte dele, mas toda vez que alguém mencionava o que aconteceu em Hogwarts, ele ficava assim.

— Eu sei dos problemas que eu causei, mas nenhum de vocês sabe o que aconteceu comigo em Hogwarts e o real motivo pelo qual eu fui expulso. — Se virou de costas, em direção a sua mala que estava na estante da sala de Theseus.
— Lá vem você com esse papo. Sempre diz isso, mas nunca conta a sua versão dos fatos. — Suspirou. Theseus estava cansado de toda aquela discussão. Sentou-se em sua cadeira de couro, apoiando os cotovelos na mesa e passando as mãos no rosto antes de fitar o irmão mais uma vez.
— Confesso que ainda há algo que me bloqueia de colocar isso para fora, mas, sinceramente, mesmo que um dia eu consiga falar, não acho que será para você ou para os nossos pais que eu vou dizer. Vocês já têm as suas opiniões sobre mim muito bem enraizadas. — Newt agarrou a alça de sua mala pronto para sair da sala.
— Você sabe que não é bem assim. Você é a minha família, Newt. Eu me importo com você. Eu só não quero que se meta em confusão, que faça coisas das quais se arrependa depois. — A voz em tom suave emitia a sua preocupação genuína. Eles discutiam bastante, mas Theseus zelava por seu irmão e sentia-se na obrigação de ser um bom exemplo para ele, mesmo que fossem adultos.
— Eu sei, Theseus. — Newt respondeu sem olhar para trás, se rendendo e colocando um fim em toda aquela tensão. — Eu sei.
Assim que a porta se fechou atrás de si, Newt apertou o passo nos corredores do Ministério. Sua mente estava cheia. Ele apenas queria sair de lá e respirar. Somente quando se viu fora do imponente prédio, que inspirou profundamente enquanto fitava o céu cinzento da cidade.

Newt caminhou, caminhou e caminhou pelas ruas, despejando seus sentimentos em cada passo. No começo sentia vontade de chorar, um nó estava preso na garganta e parecia apertar cada vez mais. Depois uma súbita vontade de abraçar alguém se apossou de si, mas não era qualquer abraço, tinha que ser o de sua mãe, um daqueles que ela lhe dava quando criança após um dia todo a acompanhando enquanto ela cuidava dos hipogrifos que criava. Ele sempre prestava atenção em cada coisa que ela contava sobre as criaturas e nada o deixava mais animado do que alimentá-los e observar o seu comportamento.
Em um certo momento, seu foco voltou aos paralelepípedos que formavam a rua e passavam por baixo de seus pés, que agora tocavam o solo com mais gentileza. A respiração não estava mais pesada e ofegante, as mãos não tremiam mais e a sensação de que a cabeça poderia explodir a qualquer momento havia passado.

Sentiu sua mala se agitar e sabia, pelo modo em como balançou, que era Dougal querendo um pouco de atenção. Parado na esquina, o bruxo ia dar meia volta para retornar para casa, quando viu um pouco mais adiante a pequena placa do Wind Flower.

Sorriu.

— Espere um instante Dougal. Eu vou passar na cafeteria. — Deu dois tapinhas na mala e checou as próprias roupas antes de rumar até o local.

Antes de entrar parou na vitrine e observou o movimento. Estava mais cheio do que quando visitou pela primeira vez e as pessoas se reuniam em grupos nas mesas. Todos pareciam estar envolvidos em conversas interessantes, alguns até tinham livros em punho e gesticulavam com vigor, enquanto outros anotavam em seus cadernos as informações que eram debatidas.
Newt surpreendeu-se com o barulho assim que abriu a porta. Não porque era ensurdecedor ou coisa do tipo, mas sim, porque o clima do ambiente era calmo, com se todos falassem no mesmo tom de voz. Era como música.

O cheiro do café reinava no local e seus olhos ansiosos percorreram o balcão ao fundo. Um rapaz de cabelos pretos estava dando o troco a um cliente e não havia nenhum sinal da Srta. .

— Newt? Que surpresa vê-lo por aqui!

Ele reconheceu o tom de voz animado e olhou para o lado, dando de cara com um ruivo sorridente que tinha um jornal nas mãos e uma xícara fumegante de café em cima da mesa.

— Septimus Weasley. Não sabia que frequentava o Wind Flower. Como está a Cedrella? — Sorriu.
Segurou a alça da mala com as duas mãos na linha da cintura e a manteve à frente de seu corpo. Ter o apoio das pernas deixava tudo mais confortável.
Às vezes, o Weasley se empolgava e podia tagarelar por horas a fio, o que não o incomodava de maneira alguma, Newt gostava das histórias do grifinório, mas seu objetivo era outro naquele momento.
— Cedrella vai muito bem. Alguns problemas com a família que não aceita o nosso relacionamento, mas nós nos amamos e vamos ficar juntos. — Falou decidido, dando um pequeno soco na mesa e tomando um gole de café.
— Eu entendo. Os Black são... complicados. — Respondeu dando uma breve olhada para o balcão. Nada havia mudado.
— Por que não se senta comigo? — Ofereceu simpático.
— Eu agradeço, Septimus, mas vim ver uma pessoa.
— Por essa eu não esperava. Finalmente encontrou a metade da laranja, Scamander? Quem é ela? — Lhe lançou um olhar repleto de malícia.
— Não é nada disso Weasley, ela é só uma amiga! — Agiu de maneira extremamente defensiva e se sentiu um idiota. Septimus estava apenas lhe fazendo uma pergunta.
— Não está mais aqui quem falou. — Riu sem graça.
— Me desculpe. Eu estou com a cabeça cheia, tive uma discussão com Theseus antes de vir para cá.

Resolveu usar o ocorrido com o irmão para apaziguar o que havia acontecido. Newt detestava quando seus impulsos tomavam conta de suas ações, ele se sentia culpado no mesmo instante em que dava uma resposta atravessada, não era a sua intenção, mas às vezes fugia de seu controle.

Uma vez, em uma consulta com uma psicóloga, entendeu que era uma espécie de mecanismo de defesa, já que situações como aquela o fazia revisitar momentos desconfortáveis e sua mente agia antes que ele pudesse pensar a respeito. Era um exercício diário lidar com as emoções diversas que se chocavam ao mesmo tempo.

Às vezes, conseguia controlar isso muito bem, entretanto, havia momentos em que sentia-se no salão comunal da Lufa-Lufa, no seu quinto ano, com alguns colegas caçoando de si. Ele estava andando muito com Leta Lestrange e já havia alguns burburinhos sobre os dois sendo um casal. Ambos se aproximaram na metade do quarto ano e assim que o novo ano letivo começou ficaram ainda mais próximos. Ele estava apaixonado e isso estava começando a ficar claro cada vez mais, porém, tinha vergonha de assumir o que sentia por Leta, além de que era comum na escola que tudo sobre ele se tornasse uma piada. Alguém gostar de Newt Scamander era uma piada. E mesmo que Leta Lestrange também fosse alvo dos colegas, ela era da sonserina, o que fazia com que as pessoas pensassem duas vezes antes de dizer qualquer coisa, pois ela não tinha medo de azarar os colegas.

Depois que saiu de Hogwarts e conforme foi ficando mais velho, Newt nunca apresentou nenhuma pretendente para a família. Então, qualquer mínimo contato com alguém do sexo feminino já era motivo para as pessoas tentarem empurrá-lo para um relacionamento inexistente. No começo, somente Theseus e seu pai lhe lançavam esses comentários, mas não demorou para que outras pessoas - majoritariamente amigos de seu irmão - passassem a fazer a mesma coisa, sempre com sussurros e risadinhas, o que deixava o lufano ainda mais constrangido com a situação.

— Sr. Weasley, agradeço a sua paciência e peço desculpa pela demora. Aqui está a torta de frango que acabou de sair do forno e o chocolate quente grande que pediu.

Newt ergueu a cabeça no instante em que ouviu a voz de . Ela parecia não ter notado a sua presença, pois seu olhar estava fixo na bandeja que tinha em mãos para não derrubar o que trazia. Foi no instante em que ela olhou para cima, que a surpresa invadiu o seu semblante e ela parecia chocada demais em vê-lo na sua frente.

Newt lhe lançou um sorriso de lado, sem mostrar os dentes e ela suavizou a expressão, lhe devolvendo o mesmo sorriso e encarando os próprios sapatos.

Não foi sonho.

Septimus agradeceu e disse para que ela não se preocupasse com a demora. sentiu-se grata pela gentileza e lhe desejou uma boa refeição, antes de voltar a fitar o rapaz de cabelos cor de canela.

— Oi, Newt.
— Oi, . Você tem um tempo? — Sentiu seus ombros se encolherem, mas logo arrumou a postura.
— Eu acho que não tem problema se eu sair por alguns minutos. Eu vou apenas guardar o meu avental e avisar os outros. — Mordeu os lábios, sentido-se ansiosa.
— Tudo bem. Te espero aqui na frente. — Avisou, a observando se afastar. Voltou a sua atenção para o Weasley que estava se deliciando com a comida. — Eu vou indo, Septimus. Nos vemos por aí.
— Claro, Newt. Foi bom te ver. — Acenou simpático.

Minutos depois, quando já estava na porta do Wind Flower, Newt ponderou se realmente devia fazer o que estava querendo, ou se estava agindo de maneira irresponsável. Ainda havia uma chance de aplicar o obliviate nela se quisesse voltar atrás.
Mas ele não queria.

— Estou aqui. — Anunciou ela após se juntar a ele.
— Vem comigo. — Newt a puxou pela mão com cuidado, se encaminhando para a área em que se localizava as lixeiras dos comércios.

Em um movimento rápido, o bruxo tirou a sua varinha do bolso e aparatou com . Em um segundo estavam no terraço do prédio de um dos bancos da cidade, que a aquela altura já se encontrava fechado e nele era possível ter uma boa visão das ruas.

— Como você fez isso? — Questionou, sentindo-se um pouco tonta, mas encarando tudo ao seu redor com fascínio.
— Mágica? — Pressionou os lábios para conter o riso.
— Ok. Me dá só um segundo? — Suspirou. Nada fazia sentido, mas ao mesmo tempo fazia.

Como explicar uma situação tão confusa que você não consegue colocar em palavras, mas que de alguma forma, mesmo sendo repleta de lacunas, parece certa?

Havia algo magnético em Newt e isso era perigoso. Além disso, ela mesma tinha se permitido ser vulnerável em um momento que deveria ter simplesmente corrido. No dia anterior, quando estavam no parque e ele começou com a história de que ela tinha visto coisas demais, qualquer pessoa teria virado as costas, mas seu corpo travou. Nenhum músculo respondia. Ele poderia ter feito qualquer coisa com ela e só esse pensamento fazia todo o seu corpo arrepiar.

podia ser inocente em muitas coisas, mas não era boba. Apesar de gentil, apesar de sorrir, apesar de todas os gestos que indicavam uma fragilidade quase quebrável, ela sabia que era dura na queda.
Ela já tinha ouvido muita coisa desagradável, passado por muitas situações difíceis, chorado mais do que se podia lembrar. Mas ela não queria ser aquilo que projetavam nela, porque se o fizesse, se tornaria a visão dos outros e não a visão de si mesma. Por isso, quando a adolescência acabou, passou a se tratar com palavras gentis e as reforçava sempre que as lembranças amargas gritavam. Descobriu que um sorriso e uma resposta educada, desarma a arrogância bem mais do que gritos e xingamentos.
Seus pais foram seus pilares, os que a tornaram forte juntamente com os livros que lia. Cada personagem a impactou de uma maneira única, sempre com uma lição de vida que somava algo em sua personalidade e modo de pensar, entretanto, parecia tão mais fácil ser valente nos livros.

— No que tanto pensa? — Newt se apoiou na grade que havia no terraço. Sua mala estava um pouco longe de si, próxima da porta que dava acesso ao local.
— Eu não entendo. Você tinha um animal peculiar no parque, sumiu na minha frente. Aí me aparece hoje e de alguma forma conseguiu me teletransportar para o banco.
— O termo correto seria aparatar. — A encarou.
— O que?
— Isso de ir de um lugar para outro, nós bruxos chamamos de aparatar. — Newt apertou a barra de ferro e depois deslizou os dedos levemente, como se fosse uma brincadeira.
— Certo, aparatar. — chacoalhou a cabeça, tentando organizar os pensamentos e virou seu corpo bruscamente na direção de Newt. — O que eu quero dizer com tudo isso, Scamander, é que aconteceu um monte de coisa bizarra, mas o que mais fica se repetindo na minha cabeça é o fato de eu não ter corrido de você quando eu tive a chance. Eu não consegui fazer nada.
— Eu também não consegui fazer nada, se tivesse conseguido não estaria no terraço de um prédio conversando com você agora.
O olhar do bruxo se perdeu no rosto da garçonete por um instante para, então, voltar a encarar as ruas e os comércios ao redor. Suspirou. Olhou para o céu como se alguma resposta pudesse aparecer.
— Sabe, eu tive uma pequena discussão com o meu irmão hoje sobre como eu sou irresponsável e, talvez, eu seja. No mundo mágico existem regras, não é como se bruxos e trouxas não pudessem se relacionar, mas cada país age de um jeito e...
— Trouxas? O que quer dizer? — imitou o movimento de Newt e passou a olhar paisagem. Uma sensação de calmaria os rondava naquele instante.
— É um termo bruxo para falar sobre uma pessoa que não mágica. — Deixou um sorriso escapar, era como revisitar as situações que passou com Jacob. — Aqui na Inglaterra não tem problema que bruxos apresentem o mundo da magia para os trouxas, desde que sejam pessoas da mesma família, ou situações onde trouxas tenham algum filho bruxo.
— Isso é possível?
— Sim, porque uma vez que um trouxa e um bruxo se relacionam, a magia fica presente geneticamente pelo resto das gerações, mas nem sempre ela se manifesta. Então, por exemplo, se um casal de trouxas tem um filho e o tataravô de algum deles já foi bruxo, por mais que eles não tenham magia, seu filho pode acabar tendo poderes mágicos. A explicação é um pouco mais complexa e tem mais variáveis, mas acho que deu pra entender. — Scamander observou a reação de por um tempo, não sabia se tinha lhe deixado mais confusa.
— É, eu acho que deu pra entender. Mas onde entra a parte de você não ter apagado a minha mente? — Ela estava curiosa. Já havia se convencido de que não estava delirando. Ele existia, aquilo que ele afirmava ser não tinha como não ser real. Estava vivendo um enredo digno dos livros de fantasia mais fantásticos que já lera na vida.
— É aí que tá o cerne da questão. Não existe você na regra. você é um caso à parte. Só é permitido dentro das situações que eu falei, incluindo casos de namoro com um trouxa. Tirando isso, não é recomendável. — Newt girou o corpo, ficando de frente para a porta onde estava a sua mala e apoiou as costas na barra de ferro. imitou o seu gesto.
— Veja pelo lado positivo, não ser recomendável não é a mesma coisa do que ser proibido. — Riu levando uma das mãos aos lábios como se estivesse contendo o riso, o que não era o caso, mas o lufano a acompanhou.
— Sim, mas digamos que eu tenha causado uma pequena confusão em Nova York, que resultou em um trouxa exposto ao mundo da magia, as minhas criaturas correndo pela cidade e agora o Ministério da Magia não está muito feliz comigo. — Enfiou os dedos no cabelo, sentindo-se um pouco envergonhado, embora o riso ainda escapasse entre os seus lábios.
— Ministério da Magia? — Mordeu o lábio e o encarou ainda tentando processar todas as informações. — Olha, eu sei que você é real e eu realmente acredito no que está me dizendo, é só... como... É que não faz sentido. Como ninguém nunca soube?
— Claro que já souberam. Antigamente, os bruxos viviam entre os não bruxos de uma maneira mais aberta, mas isso gerou muitos problemas e colocou todos em situações perigosas. Muitos bruxos se achavam muito melhores do que os não bruxos e faziam atrocidades. Assim como devido às questões políticas e religiosas, as pessoas não mágicas passaram a ver bruxos como sinônimo de tudo o que é ruim, ou tudo que não pode ser compreendido. Você já teve ter ouvido falar de histórias onde bruxas eram queimadas.
— Sim. — Seus olhos se arregalaram em surpresa. — Caramba! Quer dizer que o que eu vi nos livros de história na escola não era mentira? Costumamos aprender que se alguém pensava diferente dos demais, ou defendia uma causa que a maioria não acreditava, era acusado de bruxaria. Isso quer dizer que grandes figuras de nossa história eram bruxos?
— Também. Muitos que morreram em fogueiras eram bruxos, mas até quem não era acabou tendo esse mesmo fim. Bastava não acreditar na mesma coisa que os demais, que você já era acusado de bruxaria. Então, nos isolar e criar nossas próprias leis, foi uma forma de nos proteger e também proteger as pessoas trouxas.

Os dois permaneceram em silêncio por um tempo, absorvendo toda a conversa e os acontecimentos dos últimos dias. De alguma maneira seus caminhos se cruzaram, pode ter sido ao acaso, pode ter sido o destino. Não tinha como explicar, como definir, como encontrar respostas para tantas perguntas que nem pareciam tão importantes quando estavam juntos. Era confortável, era seguro, era uma sensação de pertencimento.

Newt e eram dois estranhos que se conheciam.

— Oh céus! — deu um pulo, assustando Newt, que sacou a varinha como reflexo. — Desculpa, mas eu perdi a noção do tempo, eu preciso voltar.
— Claro. — Respondeu guardando a varinha no bolso. — Eu vou aparatar você de volta.

Newt pegou a maleta e se aproximou de . A proximidade deixava ambos nervosos, mas não havia outro jeito de aparatar. Ela sentiu os dedos dele se entrelaçarem com os dela e sorriu. Bastou um piscar de olhos para que estivessem próximos das lixeiras novamente. A sensação de tontura que sentiu da primeira vez, retornou, mas, aos poucos, tudo voltou aos eixos.

fitou os olhos claros de Newt. Suas mãos ainda estavam juntas e ambos pareciam muito cientes disso, mesmo assim, nenhum dos dois tomou a atitude de desfazer o contato. Scamander sentiu um breve formigamento nos pés, o estômago embrulhou e ele se sentiu ansioso, pois estava com medo de virar as costas e ele não conseguir fazer o convite que queria. Assim que sentiu os dedos dela se mexerem, apertou com mais firmeza para que ela não fosse embora.

— Eu gostaria de saber, se for de seu interesse... — Travou por um instante. Seu olhar oscilou por um momento entre a rua e , até que ele respirou fundo e voltou a focar nela. — Eu gostaria de te apresentar as minhas criaturas, se quiser ver, é claro.
— Tipo o Pelúcio e o Pickett? — Perguntou ela. Newt sorriu abertamente ao notar como a expressão de se iluminou ainda mais. Seu olhar era vívido e repleto de curiosidade.

Duas folhinhas saíram do bolso de Newt e não pode deixar de sorrir ao perceber que o tronquilho ficou animado com a menção do próprio nome. Ao perceber para onde ela olhava, o Scamander encarou a pequena criatura que estava prestes a sair por completo de seu bolso.

— Seu exibido. — Brincou Newt, passando os dedos delicadamente pelos caules do tronquilho. — Sei que ficou feliz, mas não pode sair daí agora.
Pickett revirou os olhos e se enfiou dentro do bolso novamente.
— Parece que alguém foi contrariado. — riu sendo acompanhada pelo bruxo.

Quando notou que as mãos de ambos que ainda estavam juntas, voltou a realidade e desfez o contato. Ela precisava voltar para o trabalho.
Bastou um olhar para que Scamander entendesse o recado. Ela se despediu e foi em direção ao Wind Flower, mas parou no meio do caminho e deu meia volta.

— Ei, Scamander! — Chamou, se aproximando do bruxo em passos rápidos. — Eu não sei como funciona seus horários no Ministério, mas eu estarei livre amanhã no final da tarde.
— O que acha de eu te buscar às seis?
— É perfeito. Eu estarei aqui. — Sorriu.
— Eu também. — Newt retribuiu o sorriso, mas logo se escondeu atrás dos cabelos que nada escondiam.

Trocaram alguns olhares desajustados. mexeu na manga do próprio casaco e Newt coçou a nuca. deu alguns passos para trás, ainda mantendo o Scamander em seu campo de visão. Ele a olhou, encarou o chão, os pés e a fitou de novo. Ela mordeu os lábios, virou o rosto em direção a rua e voltou a olhá-lo. Seus olhares se encontraram. Sorriram nervosos um para o outro. cada vez mais longe, Newt ainda parado. Acenaram uma despedida, mas ninguém de fato ia embora.
Somente quando um cliente abriu a porta de vidro, fazendo quase perder o equilíbrio e se dar conta de que já se encontrava na entrada do café, que a situação embaraçosa dos dois foi quebrada. O cliente se desculpou, se desculpou, mas quando seu olhar fitou a rua, Newt não estava mais lá.

Ela suspirou e riu de si mesma. Estava se sentindo feliz, confusa e ansiosa. Jamais poderia escrever algo tão complexo e fascinante quanto o que estava vivendo e o que estava sentindo. Era como se todas as peças se encaixassem.
E não. Ela não estava falando no sentido de um romance shakespeariano onde os olhares se cruzam e eles se apaixonam. Não se tratava de paixão à primeira vista. Se tratava de uma sensação de plenitude. Eles mal se conheciam, mas estar com Newt, era como quando ela escrevia uma história nova, quando ela observava as flores nos jardins da Regent Street, quando ela tomava um chá observando a chuva, quando ela se prendia por horas na leitura de um livro. Estar com Newt, era como estar em casa.

Newt e eram dois estranhos que se conheciam.

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Capítulo 4. Parte do seu mundo



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“Eu sempre enxerguei cada ser vivo como parte importante do sistema, quer dizer, se estamos aqui é por uma razão, certo?”


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Com os olhos repletos de expectativa, ela ergueu a folha de papel esperando uma reação da mulher mais velha, que mantinha o rosto no catálogo de vestidos de grife. Tocou seu braço com o maior cuidado, como se tivesse medo que ao toque mais bruto pudesse despertar uma ira que conhecia bem.
A mulher não moveu um músculo em sua direção.
A garotinha abaixou a folha lentamente, um semblante de profunda tristeza tomou conta de sua face e quando os olhos vermelhos indicaram um choro e a fungada veio, a mulher mais velha pareceu sair do transe. Encarou a mais nova rapidamente e bufou.

— Ora! Se você quer um doce basta pedir, não precisa fazer uma cena. — A mulher falou de maneira fria e se levantou em direção ao balcão, pedindo um pirulito vermelho que estava na vitrine e voltando em direção a criança. — Aqui está. Agora fique em silêncio, porque eu preciso decidir qual destes vestidos irei encomendar. Além disso, daqui a pouco vamos ver o seu pai. Anime-se.

A menininha manteve a cabeça baixa e girou a haste do pirulito, o largando em cima de um prato que estava na mesa. O desenho que havia feito antes foi amassado. A representação de uma família feliz, onde ela estava de mãos dadas com os pais, foi deixada para trás.
Em uma folha em branco fez um novo desenho e nele não havia cores, eram apenas contornos pretos, onde era possível notar que havia um homem atrás de uma mesa com sua mulher ao lado, ambos cercados por pessoas que usavam roupas parecidas com as deles. Todos desenhados em destaque.
Mas no canto da folha, bem pequenina, havia uma criança sentada no chão com uma boneca entre as pernas, no lugar de sua boca havia um “X” e ela desenhava, inclusive, este desenho era o único de toda a folha que tinha cores.
Cores que retratavam a família feliz que existia apenas na sua imaginação.


? — A voz de Lizzie invadiu a sua história, como um chamado para a escritora encerrar as atividades criativas do dia.
— Sim. Chegou algum cliente? — Perguntou já se colocando de prontidão e parando ao lado da mesa da cozinha.
— Não. Tudo está tranquilo, mas eu me lembrei que alguém aqui tem um encontro e faltam apenas cinco minutos para as seis horas. Achei que ia querer se livrar desse avental e organizar as suas coisas antes que o Sr. Scamander chegue aqui.
— Oh, sim! Obrigada pelo aviso. Você é a melhor! — Agradeceu desamarrando o avental. — E só pra deixar claro, não é um encontro.
— Claro que não é. — Falou sarcástica.
— Mas não é. — rebateu ajeitando o cabelo.
— Aham. — Lizzie riu já na porta da cozinha.
— Lizzie! — bateu o pé, falando firme.
— O que foi?
— Não é um encontro. Newt é um... um amigo! — Cruzou os braços.
— Isso é um avanço. Dias atrás ele era só um estranho que você jurava que nunca mais ia ver de novo e que, caso o visse, vocês seriam só atendente e cliente, mas em questão de poucos dias já estão amigos. Isso é bom. Realmente bom. — Lizzie sorriu. — E agora ele te chamou para um encontro. As crianças crescem tão rápido!
— Elizabeth! — jogou um pano de prato na direção da amiga, que desviou ao sair da porta da cozinha enquanto gargalhava.

As suas bochechas estavam quentes, o ponteiro da cozinha indicava que faltava apenas um minuto para que o bruxo aparecesse na porta do Wind Flower. rumou para o espelho do banheiro dando uma última olhada em si mesma.
Usava uma saia preta com uma meia calça de mesma cor, blusa branca com alguns detalhes em renda e sapatos pretos fechados com um salto bem pequeno. Em mãos, segurava um longo casaco preto que seria útil no momento em que saísse do café. Também tinha a sua bolsa tiracolo de tamanho médio e nela carregava seus cadernos, um com as anotações da faculdade e outro que continha tudo o que escrevia referente ao seu livro para que pudesse digitar na máquina de escrever quando estivesse em casa.
Seis horas.
Rumou para o balcão, acenando uma despedida para Lizzie, enquanto via Brandon entrar, voltando de sua pausa. Os horários nem sempre eram fixos e naquele dia em questão, não tinha muitas aulas na faculdade, por isso, entrava mais cedo no trabalho.

— Divirta-se! — Falou Brandon ao passar por ela.
— Eu irei. — Sorriu e se despediu do amigo.

Havia contado para Lizzie e Brandon, que Newt e ela haviam se encontrado por acaso na rua e ele a convidou para jantar. Por isso, Lizzie estava a provocando tanto em relação a ser um encontro, o que ela sabia que não era.
Ir até a casa de Newt para conhecer suas criaturas não era um encontro, ela estava indo adquirir conhecimento sobre o mundo bruxo, o que claramente não seria possível de dizer para os amigos, então, que ficasse parecendo um encontro, embora, não fosse.

— Oi, . — Newt surgiu da esquina e caminhou até ela. Era claro que ele tinha aparatado ali por perto, provavelmente, na área das lixeiras.
— Oi, Newt. Como você está? — O saudou calorosamente.
— Eu estou bem. Está pronta para ir?
— Com certeza.

Newt olhou nos olhos dela por alguns breves segundos e ofereceu seu braço para ela segurar. Os dois foram para longe do foco dos outros transeuntes e questão de segundos, a garota se viu na frente de uma casa em uma rua residencial.

— Você mora aqui? — Disse ela surpresa.
— Sim. O que esperava? Uma casa no meio da floresta? — Brincou, já abrindo a porta.
— Talvez? — Falou meio sem jeito e o seguindo.
— Temos que nos misturar para não chamar atenção, então, muitos de nós vivem em bairros encantados onde só tem bruxos, mas outros como eu se misturam em bairros onde há trouxas também. — Newt parou no meio da sala. — Fique à vontade. Aceita um chá? Água? Café?
— Estou bem por enquanto. Podemos tomar algo depois de ver as criaturas. O que acha?
— Por mim tudo bem. Minha mala está aqui na cozinha, mas eu tenho algumas criaturas no porão também. Porém, vou mostrar primeiro o que tem na mala, quando entrar, só peço que não faça movimentos bruscos. Estou com algumas criaturas novas que estão se adaptando. — Explicou ele.

A cozinha de Newt era simples, porém, aconchegante. A mesa redonda de seis cadeiras ficava bem centralizada, havia uma pequena planta na mesa, assim como alguns vasos pequenos em cima do balcão. Tudo estava organizado, apesar de ele ter um monte de caixinhas de papelão e vidros com nomes esquisitos em uma prateleira acima da pia. Na parede, havia alguns papéis fixados com o que parecia ser um cronograma de tarefas da semana, tudo aparentemente relacionado com suas criaturas.
O bruxo abriu a mala no meio da cozinha e pode ver uma página de jornal preso na tampa com uma mulher na capa, a manchete dizia: “Auror soluciona mistério com dementadores em Washington”. A foto se mexia por poucos segundos e mostrava a mulher em uma pose séria e imponente.

Newt adentrou a mala e não pareceu notar o que observava. Ele fez um gesto com a mão e ela o seguiu, descendo uma escada de madeira. A garota estava em um estado de profunda surpresa, porque assim que terminou de descer, se deparou com uma sala repleta de plantas, vidros, líquidos e ferramentas diversas, além de alguns latões de alumínio embaixo de uma das bancadas, tinham alguns caixotes no chão e próximo de uma porta havia algumas luvas penduradas em pregos, bem como correntes, esponjas e outros objetos amarrados em uma linha, que ele deveria usar com as criaturas.
Mas o que realmente a fez ficar em completo estado de choque, foi perceber o que havia depois da porta. Ela seguiu o lufano e se deparou com um mundo diverso, onde em cada espaço havia um bioma completamente diferente e com criaturas diferentes.

— Uau! Minha nossa! Newt... isso... isso é incrível! — olhava para todos os lados em completo fascínio. Newt sorriu com a reação dela. A curiosidade transbordava em seu olhar.
— Vem comigo. Quero te apresentar a alguém. — Newt a convidou, liderando o caminho até uma área com algumas árvores, onde podia ser visto uma espécie de ninho redondo que estava pendurado em um dos galhos. Mais tarde, a aprendeu que era a casa do animal.
— Dougal. Eu sei que você é um pouco tímido, mas temos uma visita especial. — Falou o bruxo de maneira terna.

se posicionou ao lado de Newt, que estava com a coluna levemente curvada e um dos braços estendidos para frente, a palma da mão acompanhava o sentido do braço e os dedos abertos apontavam para cima. Segundos depois, uma criatura de pelos cinzas surgiu no chão terroso.

— Bom garoto. — Newt agachou na frente da criatura e manteve-se na posição até que o animal retribuísse o gesto e encostasse em sua mão. — Dougal esta é a , este é o Dougal. Ele é um seminviso. O encontrei em uma das minhas viagens pelo oriente e ele estava sozinho, provavelmente foi deixado para trás por seu bando. Então, o peguei para cuidar dele e ele acabou ficando comigo.

se abaixou lentamente, copiando o gesto de Newt. Ela apenas seguia os próprios instintos, o bruxo claramente sabia o que estava fazendo, então, julgava ser seguro fazer os mesmos movimentos que ele.

— Ele é lindo. — olhou para a criatura, que fixou seus olhos nela por alguns segundos, ponderando se deveria se aproximar. — É um prazer te conhecer, Dougal.

A criatura soltou um leve chiado balançando a cabeça, indicando a sua animação e Newt ficou contente ao perceber que ele estava a aceitando tão bem. Dougal tocou na mão dela, um sinal claro de que ela estava autorizada a se aproximar dele. Newt e comemoraram a reação do animal, que abraçou Newt antes de desaparecer diante dos olhos deles.

— Os seminvisos podem ficar invisíveis. Eles costumam ser dóceis, mas são um pouco tímidos e passam despercebidos pela maioria das pessoas. Geralmente, quem consegue capturá-los são bruxos que são treinados para isso e muitos usam o seu pelo para fazer capas de invisibilidade, o que causou uma queda brusca da espécie, então, agora essas confecções são feitas de maneira mais supervisionada e há áreas de preservação. — Explicou, enquanto já caminhava com em seu encalço. Havia tanto para mostrar a ela.

Seguiram caminhando lado a lado até chegarem em um campo vasto, com muita grama e altas árvores ao redor, tudo estava calmo, até que ao longe apareceu a figura de um animal grande batendo as asas e pousando próximo de onde estavam. se surpreendendo com a ação da criatura, deu um pulo e se escondeu instintivamente atrás de Newt.

— Ei, garoto! Calma! — O lufano ergueu as mãos para que o animal pudesse fixar o seu olhar nele e fez uma reverência.

A criatura grande com cabeça de águia e corpo de cavalo, devolveu a reverência e em seguida esfregou a cabeça no rosto de Newt, lhe pedindo carinho, o que logo foi atendido pelo Scamander.

, este é o Bob. Ele é um hipogrifo e é da minha mãe, porém, ele adoeceu recentemente e veio passar um tempo comigo para que eu pudesse tratá-lo. Como pode ver, ele já está bem melhor e logo, logo, irá retornar para casa. — Acariciou as penas de sua cabeça. — Você pode tentar se aproximar dele se quiser, mas antes precisa fazer uma reverência, se ele retribuir é porque você pode encostar nele.
— Tem certeza que eu posso fazer isso? — Ela olhou para a grande criatura, querendo muito tocar em suas longas penas, mas com receio de uma reação negativa.
— Claro. Basta fazer contato visual e se movimentar de maneira lenta. — Falou ele, observando as ações de que seguiu todas as orientações de Newt com a maior cautela.

A mulher aguardou alguns segundos olhando firme para os olhos de Bob antes de fazer a reverência. O animal observou seu movimento com atenção. Newt encarou o momento com certa expectativa, nada o deixava mais feliz do que as pessoas se conectando com suas criaturas e esperava que Bob não a rejeitasse.
O hipogrifo olhou rapidamente para Newt, que tinha as mãos juntas na direção do peito e voltou a sua atenção para , se abaixando para reverenciá-la também.

— Muito obrigada por sua cortesia, cavalheiro. Parece até membro da realeza. — brincou, se aproximando do animal que aceitou o carinho de bom grado. — Alguém aqui gosta de ser mimado.
— Você não faz ideia. Nos últimos dias, eu mal pisava aqui e ele vinha todo carente. Culpa da minha mãe que trata esse hipogrifo como se ele fosse um cachorro. Você tem que ver. Se deixar, ela passa horas jogando gravetos para ele ir buscar. — Newt riu ao lembrar da cena de sua mãe juntando um monte de gravetos para poder brincar com Bob.

As visitações prosseguiram e a cada nova criatura encontrada, era uma nova surpresa. Óbvio que nem tudo foi mil maravilhas, como quando Newt foi tentar lhe mostrar um de seus Ocamis mais de perto, mas como fazia pouco tempo que a fêmea teve as crias, ela estava um pouco arisca e não permitiu uma aproximação. Também tentou pegar um dos pássaros da espécie Dedo-Duro para que pudesse vê-lo melhor, mas ele estava muito concentrado caçando formigas e o bruxo percebeu que não seria o momento ideal.

— Que pássaro quieto! Nunca vi uma ave tão silenciosa. — Disse ela, deixando sua observação sair em voz alta.
— É da espécie dele. O Dedo-Duro não emite som algum, apenas quando ele está prestes a morrer que ele solta um grito formado por todos os sons que ele ouviu ao longo da vida e o faz de trás para frente. — Explicou Newt.

Os dois mantinham os olhos na criatura, fascinados com o tom de azul de suas penas e a maneira em como encurralava as formigas para se alimentar. Algumas perguntas sobre a criatura foram surgindo e o bruxo respondia tudo de prontidão. Isso era a coisa que ele mais amava fazer e podia passar horas e horas falando apenas sobre as suas criaturas.
gargalhou quando caiu a ficha do porquê que o pássaro tinha aquele nome. Suas penas eram usadas para a produção de Soros da Verdade bem como Poções da Memória.

— Vocês bruxos são muito criativos! — Comentou enquanto ambos riam, já retornando para mais perto de onde Scamander guardava suas ferramentas e plantas.

Os dois se sentaram em um banco que ficava próximo da área dos tronquilhos. Scamander suspirou ao notar que Pickett continuava se mantendo isolado, ficando longe de onde os outros de sua espécie estavam, mas lhe chamou atenção quando notou a aproximação de um outro tronquilho, que se posicionou ao lado dele e encostou um de seus caules em Pickett de uma maneira bem delicada. Newt percebeu que se tratava de uma fêmea.
O tronquilho com problemas de apego olhou para a outra de sua espécie e com certo receio ergueu seu caule para tocar nela, que permitiu o contato. Logo, ela estava lhe tocando na área que correspondia ao que seria os braços e ele também. Os olhos de Scamander pareceram dobrar de tamanho diante daquilo. Ele estava explodindo de felicidade.

— Finalmente! — Sussurrou para que só o ouvisse.
— O que aconteceu? — Ela perguntou no mesmo tom, também encarando a cena.
— Ele sempre foi rejeitado pelos outros tronquilhos, mas agora um deles está aceitando o Pickett. Esse gesto que eles estão fazendo é uma forma de comunicação. — Disse sentindo-se agitado. Ele estava em êxtase. — Eu estou tão feliz! Faz cerca de 1 ano que estou tentando fazer ele desapegar um pouco de mim, os outros ficavam com ciúmes do Pickett, porque eu sempre o acolhi e acho que foi por isso que ele foi bastante rejeitado. Ver ele sendo aceito dessa maneira me deixa muito contente.

Tudo ali parecia se iluminar e olhando para o homem que estava ao seu lado, percebeu o quão precioso era aquele momento. Ficou mais do que claro que aquilo era a sua vida. Newt era apaixonado por fazer o que fazia, exalava orgulho de suas criaturas e nada o deixava mais alegre do que estar com elas e falar sobre elas. Ele tinha um propósito muito claro e isso era fascinante, além de dominar completamente o assunto sobre as criaturas mágicas.
perguntava a si mesma se iria se sentir da mesma forma quando seus livros ocupassem as prateleiras de Londres.

— Seu trabalho é impressionante. O amor que você tem por essas criaturas pode ser notado por qualquer um, sem contar o seu vasto conhecimento sobre cada uma delas. — O elogiou, deixando Newt com as bochechas em um leve tom de carmesim.
— A comunidade bruxa sempre foi um pouco ignorante em relação às criaturas, mas eu sempre enxerguei cada ser vivo como parte importante do sistema, quer dizer, se estamos aqui é por uma razão, certo? — Ele estava de pé, apoiado em uma bancada que havia por ali. — Nunca achei correto o extermínio por extermínio que acontecia aos montes, então, desde criança eu sabia que quando crescesse eu ia proteger os animais. Quando fiquei adulto, decidi educar as pessoas e me foi solicitado um livro sobre as criaturas mágicas. Passei anos pesquisando e viajando pelo mundo catalogando as mais diferentes espécies e os seus níveis de perigo. Criei um método para classificar em cinco níveis, o que foi aprovado pelo Ministério da Magia.
— Você tem um livro? — se levantou, empolgada. — Isso é incrível! Publicar um livro é um dos meus maiores sonhos. Inclusive, estou quase finalizando o meu primeiro projeto literário, mas como estou na reta final da faculdade, os avanços estão sendo em passo de tartaruga.
— Isso é maravilhoso, ! Algo me diz que você é boa em contar histórias. — Comentou Newt, notando a aproximação de Pickett e oferecendo o dedo para ele subir, o tronquilho aceitou e o lufano o colocou em seu ombro.
— Como chegou a essa conclusão? — Ela se moveu na direção dele sem nem se dar conta. Era como se precisasse ficar mais próxima de Newt.
— Seus olhos. — Newt falou e logo se sentiu envergonhado. — Não é algo lógico, mas você sempre presta atenção nas pessoas, nos gestos delas, em suas expressões, até mesmo quando você não está diretamente olhando para elas, você as nota. É tipo eu com as minhas criaturas. Você analisa as interações, a maneira em como cada um se comunica. Você lê as pessoas, como eu leio as minhas criaturas.

Scamander, que mal conseguiu sustentar o olhar com , se virou de costas para esconder o rubor, sempre que falava demais sobre alguém em específico sentia seu corpo esquentar. Ele precisava encarar outra coisa por alguns segundos. Ajeitou a gravata borboleta e se voltou para a garota, que parecia estar ainda mais perto. Ela fez um gesto pedindo permissão para pegar Pickett e a criatura logo correu para seu ombro, ficando perto de seu pescoço, o que lhe causou um pouco de cócegas.

— Sei que o mundo trouxa não é tão fascinante, mas você leria meu livro se eu te mostrasse? Não é nada demais, são só histórias do dia a dia, sabe? Coisas que eu vejo por aí e transformo em palavras. — mordeu os lábios levemente, sentindo a tensão se espalhar sobre o seu corpo.

Ele tinha um livro sobre criaturas mágicas, fez um vasto estudo sobre o assunto e ela estava apenas escrevendo histórias fictícias inspiradas em tramas cotidianas. Não parecia grande coisa.

— Antes de tudo, nunca diga que o que escreve não é nada demais, porque se é importante para você tem seu valor. Você acha que as pessoas me apoiaram quando fui fazer o meu livro? O que mais recebi foram julgamentos. Só você sabe o valor do que você faz e eu leria com certeza. Como eu disse, Srta. , você me parece uma ótima contadora de histórias, eu ia amar ler o que você tem em mente. — Newt sentiu-se orgulhoso por ter conseguido falar tanto, apesar de estar sentindo seu corpo em um estado quase febril. Respirou fundo tentando desacelerar seus batimentos cardíacos, o que se tornou mais fácil quando se afastou dele e passou a observar a diversidade do local.
— Deve ter sido incrível viajar o mundo. — Comentou olhando para um céu estrelado na área onde ficavam os bezerros-apaixonados. — Seria fascinante poder ver com os meus próprios olhos tantos lugares incríveis que só visitei nos livros.
— De fato foi incrível, apesar de eu passar a maior parte do tempo no meio de florestas, montanhas e pântanos. O que é ótimo, porque as paisagens são de tirar o fôlego, mas ao mesmo tempo costuma ser bem arriscado. — Newt parou ao lado dela, cruzando os braços no peito para apreciar o céu encantado. — Você ainda vai viver uma grande aventura por aí, , eu não tenho dúvidas.
— Obrigada, Newt. — O encarou de maneira doce, prendendo a atenção do bruxo naquele olhar. — Obrigada por confiar em mim e me deixar ser parte disso aqui de alguma forma. Sei que ainda tenho que aprender muita coisa, mas, obrigada.
— Não. Eu é quem agradeço por se demonstrar tão aberta a aprender, a conhecer algo novo. Você acolheu as minhas criaturas sem nem ao menos saber o que eram quando as viu pela primeira vez. Suas ações deixaram muito claro o tipo de pessoa que você é, o que tornou praticamente impossível a minha missão de apagar a sua memória.
— Ah, é? — Sorriu. — E que tipo de pessoa eu sou, Sr. Scamander?
— O tipo de pessoa que vale a pena ter por perto. — Falou baixo, quase em um sussurro, mas o silêncio que reinava no ambiente tornou possível escutá-lo em bom som.

Os dois ficaram envergonhados e cada um encarou um canto diferente. não sabia o que dizer e Newt não sabia onde enfiar a cara. O bruxo mexeu na gravata borboleta e deu um leve tapinha em suas calças para limpar qualquer resquício de terra antes de soltar um leve pigarro.

— O que acha da gente ir comer alguma coisa? Assim, você pode ir me falando mais sobre você.
— Seria ótimo. — Respondeu, agradecendo mentalmente por ele não ter deixado a situação ficar muito constrangedora.

Quando retornaram para a cozinha, ficou sentada a mesa, enquanto observava o bruxo andar de um lado para o outro agitando a sua varinha. Logo, pratos, copos e outros utensílios flutuavam acima de suas cabeças, cada um deles se posicionando de forma organizada na mesa para abrigar pães, biscoitos e um bolo de chocolate simples. No fogão, a chaleira começou a apitar e a água do café a ferver.
Newt sem utilizar magia, colocou a chaleira próximo de onde estava. Ali também havia uma caixinha verde de madeira com desenhos muito bonitos, dentro dela tinha sachês de chás dos mais diversos sabores, ele não sabia do que ela gostava e como não queria limitar as opções, naquela manhã foi em uma loja especializada e comprou a caixa que continha a maior variedade.

— Minha nossa, Newt. Acho que tem chás aqui que eu nunca nem provei. — Comentou lendo os rótulos.
— Sinta-se à vontade para experimentar o que quiser. — Falou cortês, já se aproximando com o café.

Com tudo devidamente no lugar, o lufano se juntou a ela na mesa e ambos passaram a se servir enquanto trocavam algumas palavras sobre o cheiro dos pães, a textura do bolo de chocolate e como queriam comer um pouco de tudo.

— Obrigada por me receber tão bem. Eu fico lisonjeada. — Disse ela, bebericando um gole do chá de frutas silvestres.
— Eu é quem agradeço por aceitar o meu convite. — Respondeu a encarando e comprimindo os lábios para conter o nervosismo.
— O que quer saber sobre mim? — Perguntou ao bruxo.
— Qualquer coisa que queira compartilhar comigo. — Sorriu, pegando sua caneca de chá. — Pode me falar sobre você, sua família, amigos, sonhos. O que você quiser e se sentir confortável para falar.
— Bom, eu acho que devo te contar primeiro sobre o Brandon e a Elizabeth, são aqueles que estão sempre comigo no Wind Flower. Todos nós estudamos na Regent Street, mas Lizzie faz administração, enquanto que eu e Brandon cursamos letras. Eles tem sido a minha família aqui em Londres, já que meus pais estão em Nottingham. — Contou enquanto colocava alguns biscoitos em seu prato.
— Você deve sentir muita falta deles. Londres, às vezes, pode ser um pouco... um pouco...
— Solitário? Complicado? Sufocante? — Complementou ela lhe lançando um meio sorriso.
— Sim. — Newt respondeu soltando de uma vez o ar que nem sabia que estava prendendo. Eles riram de leve.
— A cidade é incrível, é linda, tudo acontece. Mas tem certas situações que eu gostaria que meus pais estivessem comigo. Como quando eu fui ver a orquestra sinfônica se apresentar no Royal Albert Hall*. Eu só consegui ir, porque muitos membros do curso de música da Regent Street são da orquestra e por isso quem estuda lá tem ingressos antecipados disponíveis. — De repente, a toalha de mesa de Newt parecia a coisa mais interessante do mundo e sua mente foi para longe. conseguia visualizar toda a sua casa em Nottingham. — Eu não tinha dinheiro o suficiente para comprar entradas para os meus pais e ainda trazê-los para Londres, mas queria tanto! A última vez que eles estiveram em contato com algo dessa magnitude faz muitos anos. As coisas não andavam muito bem antes da Primeira Guerra, mas depois ficou mais difícil ainda.


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*Royal Albert Hall é um salão de espetáculos localizado em Londres, com capacidade para quase 6.000 pessoas. Foi inaugurado em 29 de março de 1871 pela rainha Vitória.

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— Seu pai lutou na Primeira Guerra? — A encarou com os olhos atentos em cada expressão dela.
— Sim.
— Eu e meu irmão também. Meu irmão desde o começo, eu já fui mais no final, mas... eu vi algumas coisas que eu nunca vou esquecer.
— Vocês lutam as nossas guerras? — Questionou surpresa.
— Sim. Claro que com uma série de restrições, porque uma guerra trouxa não é como uma guerra bruxa, mas, lutamos. Afinal, compartilhamos o mesmo planeta.
— Seu irmão ficou bem? — perguntou preocupada.
— Sim. E o seu pai? — Newt perguntou e no mesmo instante notou pela primeira vez um semblante triste no rosto de .

Ela ficou em silêncio por alguns segundos, um filme inteiro se passava em sua mente. A carta que chegou às pressas em sua casa e a reação chorosa de sua mãe. Quando viu seu pai deitado no leito de hospital e as inúmeras semanas que passaram lá ao seu lado. Então, veio a conta hospitalar, veio o custo alto dos remédios para o seu tratamento, além de ele ter desenvolvido problemas respiratórios, o que fez com que ele precisasse de cuidados mais frequentes.

— Meu pai se feriu na guerra. Ele estava se movendo com alguns companheiros quando pisou em uma mina terrestre. Por sorte, não era tão potente, porque se fosse teria o matado. Mas ele perdeu a perna esquerda praticamente por completo, assim como metade do braço esquerdo. — Os olhos de se encheram de lágrimas.
— Eu sinto muito, eu não devia ter perguntado. — Lamentou ele.
— Não me incomoda falar sobre isso, só é um pouco doloroso, mas é necessário que se fale. A gente precisa externar essas coisas de alguma forma e o mais importante é que ele sobreviveu. Não foi fácil, eu admito, os primeiros anos foram bem complicados para a minha mãe, principalmente. As contas apertaram, meu pai se sentia culpado, mas nós permanecemos unidos, demos forças um para o outro e passamos por isso juntos. Foi algo que nos deixou mais fortes. — se serviu de um pouco de café e Newt se viu imerso em seus pensamentos por alguns instantes. — Eu só não quero outra guerra, Newt. Me dá calafrios só de pensar em algo assim acontecendo de novo. Pessoas lutando contra pessoas, as ruas repletas de sangue e enquanto isso os poderosos dão os comandos sentados em seus quartéis generais, palácios e casas presidenciais. Eu não quero um mundo assim.

Sua voz falhou enquanto falava e algumas lágrimas sorrateiras deslizaram por sua bochecha. Scamander estava com os olhos vermelhos ao vê-la daquela forma quebrada. Ele a entendia. Estava com medo de uma possível guerra bruxa. Grindelwald estava por aí recrutando pessoas, fazendo aliados, se preparando para um grande ataque que poderia ser ainda mais devastador para todos do que a Primeira Guerra.
Ele queria compartilhar seus receios com diante da nova situação, mas sabia que não era o momento. Ela já havia passado por muita coisa complicada envolvendo esse tópico e Newt não queria deixá-la passando os dias em completa agonia, esperando o sinal de um estrondo que indicaria o começo do caos. Ela tinha muitos sonhos e tinha que se concentrar em seus objetivos.

— Eu também não quero um mundo assim. — Falou ele, remexendo em sua caneca vazia.

iria saber quando fosse necessário, por enquanto, ainda podia mantê-la longe do perigo.

— Newt, eu acho que tem um bebê pelúcio no seu balcão. — Disse ela, o tirando de seu breve devaneio e lhe indicando a direção exata de onde a criatura estava.
— Ai, esses pestinhas! Vivem arrumando um jeito de fugir do porão. — Falou já se colocando de pé e abrindo um dos armários da cozinha, retirando de lá uma corrente brilhante. notou que havia um pote com várias delas.

A criaturinha pequena era ligeira, mas o magizoologista sabia bem como lidar com ela e quando o filhote tentou passar atrás do cesto de frutas, Newt colocou a corrente em seu caminho, fazendo o bicho ficar completamente hipnotizado pelo objeto brilhante.

— Ele é um filhote do seu pelúcio grande que conheci no parque? — Perguntou ela se aproximando de Newt, mas com os olhos completamente presos no filhotinho.
— Sim. A parceira do Pelúcio deu a luz faz duas semanas. — Contou ele, fazendo um gesto para que ela o acompanhasse até o porão.
— Espera. O seu pelúcio chama Pelúcio? — riu ao ver o Scamander assentir com a cabeça. — Retiro o que eu disse mais cedo sobre bruxos serem criativos.

Os dois adentraram o porão e ele era bem grande, bem maior do que ela poderia imaginar. Lá havia algumas divisões e parecia ser um hospital de criaturas, já que tinha um berçário de pelúcios e alguns espaços para criaturas que estavam machucadas. Também tinha uma área completamente encantada, onde ela podia ver um enorme lago e colinas mais adiante.

— Em minha defesa, eu não ia ficar com o Pelúcio. — Newt girou o corpo na direção dela, após acomodar o filhote no berçário. — Ele estava machucado, eu cuidei dele e quando fui devolvê-lo para a natureza, ele não quis ir. A essa altura já tinha passado muito tempo e eu já tinha me acostumado a chamá-lo somente de Pelúcio, então, ficou assim.
— Ai, Newt. Você é uma graça. — Falou ainda rindo. Ela apoiou um de seus ombros em uma das pilastras que ficavam viradas para o enorme lago. — O que você esconde aí? Um submarino? Uma cidade de sereias?
— Não, não é um submarino e para a sua informação, sereias existem, mas os sereianos não curtem se misturar com a gente, gostam de ficar na deles. — Cruzou os braços, se apoiando na pilastra ao lado de onde estava.
— Então, essa coisa da Pequena Sereia querer ser uma humana e se apaixonar por um príncipe é uma completa balela e na vida real ela nunca faria isso?
— Quem é a Pequena Sereia? — Perguntou Newt confuso.
— Você não conhece a história? — Ela o olhou como se ele tivesse cometido um crime. — É uma das coisas mais tristes que eu já li. Você precisa conhecer!

A voz dela saiu empolgada e o bruxo riu. Como ela poderia dizer que era uma das coisas mais tristes que já lera e falar sobre com tanta animação?

— Você tem um humor bem peculiar, não é mesmo, Srta. ?
— Ninguém mandou dar confiança pra mim, Sr. Scamander. — Sorriu. — Vamos fazer uma troca. Te ensino coisas do mundo trouxa e você me ensina sobre o mundo mágico. O que acha?
— Acho que temos um acordo. — Newt apertou a mão dela que estava estendida em sua direção.
— Amanhã passa na cafeteria que eu vou te emprestar um exemplar de “A Pequena Sereia”. É um absurdo que você não conheça um dos contos infantis mais tristes da história da humanidade. Hans Christian Andersen, não teve piedade alguma com os jovens corações espalhados pelo mundo.

Newt observou a maneira em como ela sempre ficava eufórica ao falar sobre livros. Essa era a sua paixão e não tinha como não se sentir envolvido pela energia que ela emanava em cada canto. Ele podia entender aquele brilho no olhar, pois sabia que era assim que ficava falando de suas criaturas. era apaixonada pelas palavras, por histórias que a transportavam de um lugar para o outro, o prazer que aquilo lhe proporcionava era imensurável. Literatura era a sua vida.

— Minha nossa! Depois eu PRECISO te apresentar a Jane Austen, não sei se já leu algo dela. — prosseguia imersa em seu mundo.
— Não. — Newt comentou brevemente.
— Então, será a próxima que você irá conhecer. Ela é incrível! Uma das minhas maiores inspirações e referências se tratando de literatura, porque apesar de termos mulheres autoras, elas são em um número bem menor se comparado com os homens. É difícil conquistar um espaço sendo mulher, mas eu não vou desistir! Quero ser como a Jane e inspirar gerações futuras.
— Você irá. — A voz de Newt a puxou de volta para a realidade.

O bruxo estava em uma distância considerável, já que ela foi andando pelo recinto enquanto falava e ele foi para perto da área do berçário, onde ficou encostado em uma enorme bancada de madeira, enquanto observava a escritora.
Quando desceu seu olhar para a mãos de Scamander, notou um livro com uma capa vermelha, que ele segurava contra o peito. Ele caminhou calmamente até onde ela estava e lhe estendeu o livro.
Na capa era possível ler Animais Fantásticos e Onde Habitam - Newt Scamander.

— Esse é meu livro. Um presente meu para você. — A olhou com expectativa. — Espero que goste.
— Eu não posso aceitar assim, Newt. É a sua obra, não acho justo não pagar por ele.
— Claro que pode aceitar. Considere este livro como uma ferramenta de trabalho. Você é uma aprendiz de magizoologia agora, precisa dessas informações. — Newt ergueu a sobrancelha e riu com a expressão de , que estava de boca aberta.
— Você vai me ensinar a cuidar de criaturas mágicas?
— Se você tiver interesse em aprender, eu não vejo a razão de não fazê-lo. — Era impossível conter o sorriso que parecia ter tomado conta de seu rosto.
— É claro que eu quero! Obrigada, Newt! — em puro estado de euforia, abraçou o bruxo, mas praticamente no mesmo instante se deu conta de sua ação e se afastou em um pulo, ficando com o rosto completamente vermelho. — Oh, minha nossa! Eu sinto muito! Eu agi sem pensar.
— Tudo bem. Não se preocupe. — Falou Newt, que se encontrava no mesmo estado que ela.
— Eu... — Pigarreou. — Acho que é melhor eu ir agora, amanhã cedo eu tenho aula na faculdade e preciso fazer algumas tarefas ainda.
— É claro. Me diz aonde você mora, que eu vou te aparatar em casa. — Ofereceu, já subindo as escadas para retornar para a área da sala com a lhe acompanhando.

ainda sentia-se quente e quase desistiu de vestir o seu casaco preto que estava pendurado próximo da entrada de Newt, apesar de saber que o frio no lado de fora deveria estar cortante.
Ela lhe disse onde morava e o lufano conhecia, então, após darem as mãos, o bruxo aparatou na calçada oposta a casa dela e ambos apenas atravessaram até a porta.

— Aqui estamos.
— Agora você já sabe onde eu moro. — Disse ela com uma das mãos no bolso do casaco, enquanto a outra segurava o livro do lufano.
— Sim. — Newt falou desviando o olhar.
— Obrigada por hoje. Foi maravilhoso cada segundo. E obrigada pelo livro, eu vou ler e dar o meu melhor para aprender.
— Eu sei que sim. Ah! — Newt deu um leve tapa na própria testa. — Antes que eu me esqueça, esse livro está encantado, quem ver você com ele vai achar que é uma enciclopédia de dinossauros. Só você consegue ver o conteúdo real. Ninguém pode saber sobre nada disso.
— Tudo bem. Eu vou tomar cuidado. — Assegurou-o.

Newt comprimiu os lábios e levou uma das mãos a nuca, havia algo que ele queria dizer, mas não sabia como. Ele não queria gaguejar, então, repassava a pergunta um milhão de vezes na cabeça, mas a voz simplesmente não saía. pareceu notar a sua inquietude e lhe tocou o braço gentilmente, o fazendo olhar para ela.

.
— Pode falar, Newt. O que foi? — Ela sustentou o olhar, lhe passando confiança.
— Eu sei que pode parecer precipitado, mas... é q-q-que... — Gaguejou e inspirou fundo tentando manter a calma. — Nesse fim de semana, para ser mais exato, no sábado, será o jantar de comemoração do noivado do meu irmão e eu queria sa-s-s-s-saber se você go-gostaria de s-s-ser... se você...
— Você quer que eu vá com você? — Lhe lançou um olhar compreensivo, ainda com um dos dedos levemente encostados no pulso do bruxo.
— Sim. — Respondeu em um sussurro e fazendo o seu gesto habitual de tentar se esconder atrás dos cabelos.
— Eu adoraria. — o olhou de maneira doce e o Scamander soltou um suspiro de alívio.

Os dois se encararam e começaram a rir. Não havia uma explicação para aquela reação, mas estavam tomados por uma onda de excitação e felicidade nunca antes sentida por ambos. Mesmo que um ar de constrangimento ainda se fizesse presente, havia algo magnético que os envolvia em uma bolha de sentimentos misturados.
Quando o riso cessou, Newt enfiou as mãos no bolso e a olhou por mais um breve instante, antes de se aproximar e depositar um rápido beijo em sua testa, se afastando tão rápido quanto se aproximou.

— Boa noite, . — Desejou envergonhado.
— Boa noite, Newt. Bom descanso.
— Para você também.

O bruxo parou na calçada e acenou uma despedida, que ele retribuiu. Observou ela abrir a porta e só quando ela estava dentro de casa, que ele se afastou para poder aparatar de volta para as suas criaturas.

Naquela noite, deixou suas tarefas de lado e após cozinhar um rápido jantar, mergulhou em Animais Fantásticos e Onde Habitam, inaugurando um novo caderno onde anotava as principais informações dadas sobre as criaturas que havia visto na casa de Newt, para só depois prosseguir para as outras que ainda eram uma completa novidade. Haviam algumas ilustrações que auxiliavam para uma melhor compreensão de como eram as criaturas, embora, houvesse uma descrição detalhada das mesmas em cada página.
Ficou tão imersa na leitura, que perdeu a noção da hora e foi dormir bem mais tarde do que o habitual, mas valeu a pena cada segundo de sono perdido. Newt Scamander era absurdamente inteligente e fascinante, ela mal podia esperar para aprender coisas novas, assim como mal podia esperar para vê-lo.
O sorriso acanhado, o cabelo cor de canela e os olhos verdes acinzentados de Newt se fizeram presentes durante toda a noite, enquanto ela se perdia no mundo dos sonhos. Inconscientemente, sentia-se aliviada, porque o sonho que a embalava durante o sono se tornaria realidade assim que abrisse os olhos.

─ • ◈ • ─



Continua...



Nota da autora:
Agradeço de coração a quem leu até aqui e espero que estejam gostando e também agradeço a minha scripter Lilian por toda ajuda e apoio.

Quando pensei na história, não pensei nela interativa e visualizei minha personagem principal como alguém que tivesse cabelos crespos como o meu já que é algo que raramente encontro nas histórias, porém, apesar de eu ter ela todinha na minha cabeça, eu lembrei que não havia fanfics do Newt Scamander (ou com o Eddie Redmayne) aqui no FFOBS e decidi transformar a minha pp em interativa para atender a demanda de algumas pessoas (como eu) que sempre procuraram algo relacionado, mas não encontravam.

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