Venezia

Última atualização: 30/05/2019

Capítulo Único


Stuttgart, 27 de agosto de 2017

– Eu quero dormir mais. – soltou em um resmungo quando sentiu lhe beijar o pescoço. – Sai daqui.
– Não. – ela respondeu desaforada. – E eu acho bom você acordar, eu quero sair.
– Vai chover.
– Eu não sou de açúcar. E nem você.
– Talvez eu seja, eu sou um docinho. – falou, debochado, e fez uma careta, tentando se afastar de , e ele deu uma risada, puxando-a para mais perto e lhe deu um selinho.
– Tira essa sua boca nojenta da minha, porco.
– Você acha que vai chover? – perguntou, finalmente mais desperto, e a soltou de seu abraço, sentando-se na cama e se espreguiçando.
– Não sei, mas eu quero sair. Comer fora, passear um pouco...
– Pode ser. – deu de ombros. – Vamos tomar café e podemos sair.
– Fico no aguardo.
– Eu te chamaria para ir ao zoológico, mas você não vai.
– Não mesmo. E nem você.
– E o que acha de irmos ao Maurischer Garden?
– Parece bom. – respondeu, pensativa. – Mas temos que ficar de olho no tempo, pode chover.
– Vamos comer e decidimos. – ele respondeu, ficando de pé, e deu uma secada no corpo seminu de . – Quer um babador?
– A resposta que eu gostaria de te dar não pode ser dita antes das dez da noite.
– Em alguma parte do mundo já são dez horas da noite. – piscou, dando um sorriso cheio de segundas intenções.
– Sim, mas nessa parte do mundo em que nós estamos ainda não é, então vá logo comer e para de enrolar. Eu quero sair!
– Sim, senhora. – ele respondeu, saindo do quarto, e caminhou até a suíte.
pegou o celular, depois de ter uma ideia, enquanto esperava terminar o que é que estivesse fazendo no banheiro.
– Você morreu aí dentro? – ela perguntou alto e poucos segundos depois abriu a porta do banheiro, enrolado à toalha, e fez uma expressão óbvia. – Você tomando banho? Jamais achei que viveria para ver isso.
– Idiota.
– Eu estava pensando...
– Você pensando? Jamais achei que viveria para ver isso. – ele repetiu as palavras de e recebeu um dedo do meio erguido como resposta.
– Enfim, eu estava pensando... Hoje em Veneza vai fazer sol o dia inteiro.
– Tá... e o que isso tem a ver?
– Nós vamos para Veneza.
– Vamos?
– Sim. E você está nos atrasando.
– E como nós vamos para Veneza?
– Por teletransporte. Eu comprei uma máquina muito boa e quero testar. – respondeu debochada, levantando-se da cama num pulo. – Vou tomar um banho e nós vamos sair, tomar café em Veneza e passar o dia lá.
– Que horas nosso voo sai?
– Em uma hora. Vista uma roupa confortável e fresca, lá está quente. – ela respondeu, dando um sorriso arteiro, e se enfiou no banheiro.
Quando saiu, dez minutos depois, estava sentado na cama e usava uma bermuda de sarja cáqui, tênis e uma camisa de mangas curtas com uma estampa xadrez verde-claro e verde-escuro. E óculos de sol em mãos.
, ainda enrolada na toalha, foi em busca da pequena mala de roupas que tinha levado consigo para Stuttgart. Pegou um short jeans, uma blusa de alcinhas rosa-claro, calcinha, sutiã e o par de tênis que tinha usado para ir ao jogo no dia anterior. Deixou a toalha de lado e foi se vestir com a maior rapidez possível.
– Você ainda está bronzeada.
– Ainda bem. Aquela viagem foi um absurdo de cara para eu não ficar bronzeada por, pelo menos, mais uns três meses. – ela respondeu, virando-se para olhá-lo.
– Em Veneza as coisas não podem... sair do controle?
– Duvido muito. – deu de ombros. – Mas eu já avisei ao Bob e ele vai nos encontrar no aeroporto de Veneza.
– Entendi.
– Peguei protetor solar e espero que você esteja com nossos celulares e carregadores bem acessíveis. E com seus documentos.
– Claro. – ele respondeu, ficando de pé. – Podemos?
– Devemos. Veneza é um lugar lindo, você vai adorar. – falou, pegando a bolsa em que tinha colocado as coisas que precisava levar.
– Espero que seja mesmo. Já ouvi que fede.
– Lá não fede. As pessoas acham que sim, mas no verão as algas estão mais acessíveis à luz e calor, porque a maré baixa, e aí cheira, mas não fede. – ela respondeu, começando a andar até a sala, e pegou o boné que tinha deixado sobre o sofá. – E agora você dirige super-rápido até o aeroporto.
– Sem multas.
– Eu não disse que é para tomar multas, eu disse para você dirigir o mais rápido. – deu de ombros. – Anda logo, a gente só tem trinta e sete minutos.
– E meu cachorro?
– Devidamente instalado na cozinha, casinha, caminha, tem ração e água para ele ficar bem por hoje.
– Você devia ter falado ontem, porque eu o deixaria no pet shop.
– Eu não sabia que íamos viajar ontem. – deu de ombros. – Agora cala a boca e dirige.
nem perdeu tempo respondendo, apenas pegou as chaves no aparador e os dois saíram de casa. Depois de dezessete minutos dirigindo, o carro foi deixado no estacionamento e os dois seguiram correndo até a área de embarque. Quase perderam o voo. Foi por bem pouco.
Assim que estavam devidamente instalados em seus lugares e o avião tinha decolado, tratou de passar protetor solar nos braços e pernas, mandando fazer o mesmo. O voo estava vazio, fora eles e a tripulação, outras vinte e duas pessoas ocupavam a aeronave. tinha as pernas espremidas pelo pouco espaço entre os assentos, mas o voo de uma hora e vinte minutos foi tranquilo e suportável. Os dois desceram sem serem notados e logo estavam parados ao lado de Bob.
. . – Bob os cumprimentou, recebendo um sorriso sem graça e um aceno de cabeça por parte de , e o abraçou ternamente.
– Bob, não quero que você fique na nossa cola o tempo todo, então eu vou deixar o GPS do celular ligado e qualquer coisa fora do normal e do esperado que acontecer eu te ligo e a gente se encontra. – falou e Bob torceu a boca, como quem não tinha gostado nada daquilo.
– Não gosto dessa ideia.
– Eu quero namorar, meu querido. – ela falou quase óbvia, mas dando um sorriso para o homem. – Passeio romântico não inclui meu segurança favorito na mesma gôndola que eu e meu namorado.
– Posso ir em outra, sem problemas. – ele falou em tom sério, mas tinha um sorriso nos lábios. – Mas, tudo bem, . Ficarei de olho em vocês, mas um pouco distante.
– Use isso. – ela falou, depois de revirar a bolsa e tirou um cartão. – Você sabe a senha, e se não usar, eu juro por Deus que te demito.
– Não jura e nem demite. – ele falou debochado, fazendo-a rir em concordância. – Mas vou usar mesmo, comer muita massa, tomar bastante vinho, comprar umas roupas e sapatos novos, uns ternos italianos... E ainda comprarei uns presentes bem caros para Jas e para as crianças.
– Isso mesmo! Alugue um carro, vá se divertir e aproveitar um dia de trabalho que é, na verdade, uma folga! – ela sorriu sincera. – Agora nós vamos os três tomar café da manhã e nos dispersar.
– Podem ir sozinhos. Eu já tomei café e vou aproveitar o dia para fazer nada e torcer para você não ser encontrada e nem reconhecida.
– Eu farei o mesmo. – sorriu arteira e voltou a abraçar o homem. – A gente se vê mais tarde, Bob.
– Tomem cuidado. – ele falou sério e o casal assentiu.
Os dois se afastaram de Bob, com seu boné e óculos escuros parecia uma turista normal. também não passava a imagem de famoso, e ambos torciam para que isso continuasse assim até o fim do dia.
– Você tem um programa para o dia? – perguntou e ela negou com um aceno.
– A volte devi improvvisare, amore mio.
– Quê? – perguntou confuso.
– Confia em mim, seu dia será meraviglioso!
– Se você conversar comigo no meu idioma, eu agradeço. – resmungou, sendo abraçado pela cintura. – Vamos comer?
– Sim, mas prefiro que a gente coma quando chegar a Veneza.
– E não estamos em Veneza?
– Estamos, mas eu falo na parte em que todo mundo conhece como Veneza, com mais água que ruas e essas coisas. – ela deu de ombros.
– E como chegaremos lá?
– Táxi. – respondeu e assentiu. – Por favor, fique animado. Quero comemorar sua excelente estreia em casa ontem.
– Achei que tivéssemos comemorado isso à noite. – falou, dando um sorriso, e rolou os olhos, mas ele não viu o gesto.
– Mas podemos comemorar com um passeio bem legal também, palhaço.
– Se você está dizendo...
– Táxi! – falou alto, chamando o táxi.
– Buongiorno. – o taxista os cumprimentou. – Parli italiano?
– Sì. respondeu educada. – E buongiorno.
– Para onde devo levá-los, senhorita? – perguntou, olhando-os pelo espelho.
– Ao terminal, perto da Ponte della Costituzione.
– Sì, signorina. – o homem respondeu educado e deu partida no carro.
A conversa em italiano entre e o motorista se desenvolveu um pouco, deixando totalmente alheio e lhe deu a oportunidade de observar a paisagem do lugar. Lembrava-lhe, um pouco, das autoestradas da Alemanha, até mesmo a forma da vegetação e os carros que passavam.
Até chegarem à Via della Libertà. Estavam em uma estrada cercada de água e permaneceram desta forma por alguns bons minutos, até que chegassem ao local que pediu para que desembarcassem.
A corrida foi paga e os dois desceram do carro, após despedirem-se do taxista. Os dois estavam de mãos dadas e olhou ao redor. Era bonito, o sol estava muito quente e as cores pareciam até mais vivas naquele lugar.
– E agora?
– Agora a gente atravessa essa ponte e vamos ao Giardini Papadopoli. apontou e assentiu.
– Aqui é bem quente. E eu queria comer.
– Vem, vamos comer antes então. – ela o puxou na direção oposta da que tinha apontado e os dois caminharam por pouco mais de dois minutos entre alguns turistas que estavam por ali e chegaram a uma espécie de padaria.
O cheiro era delicioso, tanto dos pães quanto das pizzas que eram servidas. Era um lugar bonito e aconchegante. estava quase se sentindo em uma daquelas comédias românticas que a irmã adorava assistir.
Deixou que decidisse pelo que comeriam e ambos acabaram tomando cafés expressos e comendo croissants de chocolate e uma fatia de pizza. Compraram água e saíram do lugar. tinha a impressão de que todos os italianos só sabiam conversar se fosse gritando e gesticulando – nada muito diferente dos alemães – mas seu idioma era menos ríspido e, para quem visse de fora, eles pareciam estar brigando com menos efusividade que os alemães.
– Podemos? – ela perguntou e assentiu, virando-se para olhá-la e riu.
– Do que você está rindo, ?
– Da sua boca. Está sujo. – respondeu, aproximando-se e passou a língua pelo canto da boca de , onde estava sujo de açúcar.
– Você se aproveita da situação.
– Eu? – perguntou, fingindo-se de ofendida. – Estou apenas ajudando meu namorado...
– Tão bonitinha, pena que é mentirosa. – falou, rindo, e lhe mostrou a língua, antes de estender a mão para que pudessem iniciar o passeio. – Você já veio aqui?
– Sim, mas faz muito tempo. Vim com meus pais, há uns sete anos.
– Vamos fazer o mesmo roteiro?
– Não. Até porque nós ficamos três dias aqui, deu para conhecer algumas coisas mais distantes e fazer roteiros com mais coisas, mas tenho certeza que você vai gostar.
– Confio em você. – piscou ao falar, fazendo sorrir.
Os dois caminharam pela curta Ponte Papadopoli e entraram no parque. E tinha que admitir, ela tinha razão. Ele ia gostar. O lugar parecia ter um tom de verde que ele nunca tinha visto em toda sua vida. O sol iluminava as árvores e o verde parecia brilhar ainda mais. Flores e mais flores por todos os cantos e algumas estátuas.
– Você fica muito ridículo quando está impressionado. – gargalhou, encostando a cabeça no ombro de .
– Isso aqui é muito bonito.
– Você não viu nada ainda, . – riu. – Vai, para ali e deixa eu tirar uma foto sua.
– Eu não quero tirar fotos.
– Mas eu quero tirar fotos suas para que você se lembre que viajou para um lugar maravilhoso feito esse, sinta vontade de voltar e volte.
basicamente empurrou para que ele parasse perto de uma estátua com o nome “Pietro Paleocapa” inscrito. A foto foi tirada e os dois caminharam pelo pequeno parque por um tempo, até decidir sair de lá e os dois foram procurar por uma balsa para irem à Plaza San Marco, e ainda explicou a que lá é “o lugar onde, provavelmente, todos os pombos do mundo estão ou vêm passar um tempo”. Ela queria ir à Basílica também e depois andar um pouco mais pelas ruas e becos.
O trajeto de balsa demorou vinte e cinco minutos e logo os dois estavam na famosa praça, cheia de turistas e habitantes locais. Fotos foram tiradas da construção, voltou a tirar mais fotos de , tiraram algumas selfies juntos e ela parecia absolutamente necessitada em falar.
– Parece que você vai ter um colapso se não me der uma aula de História.
– Mais ou menos. – ela franziu o nariz. – Se ficar chato, você me fala para calar a boca.
– E aí você vai continuar falando.
– Isso mesmo. – ela respondeu, rindo. – Então, aqui é basicamente o centro de Veneza e é a única praça desse lugar. E é o único lugar em toda a Europa em que as vozes das pessoas se sobrepõem ao som do tráfego motorizado, até porque não tem nada disso por perto. Enfim, ela foi idealizada para ser apenas uma pequena área à frente da Basílica original, isso no século... nove, se não me falha a memória, mas em 1117, algo assim, ela foi estendida, porque um dos rios que a cercava foi aterrado e eles pensaram que era uma boa ideia ampliar e essas coisas. Tudo de importante em Veneza aconteceu aqui desde... sempre. Ela foi pavimentada no século treze e o Napoleão tornou a pavimentá-la em... 1890, eu acho. E falando em Napoleão, muita gente atribui a ele a frase “le plus élégant salon d’Europe”, mas não foi e provavelmente foi Alfred de Musset.
– Não faço ideia do que você disse e nem quem é esse Alfred. – riu.
– “Le plus élégant salon d’Europe” significa “o salão mais belo da Europa”. E Alfred de Musset foi um poeta francês do século dezenove. – deu de ombros. – Enfim, aqui nós temos três edifícios que compõem a maravilhosa Plaza San Marco: a Basílica de São Marcos – apontou para o grande prédio à sua esquerda –, também temos o Palácio Ducal de Veneza – apontou para o edifício à frente –, e pelo Campanário da Basílica. – apontou para a torre.
– Interessante. Caso você se canse de ser famosa, pode se tornar guia turística.
– Engraçadinho. – rolou os olhos. – Agora vem, nós vamos conhecer a Basílica. Quer dizer, você vai conhecer. Eu já conheço.
– Minha mãe ia adorar isso aqui.
– Na próxima podemos trazê-la. – deu de ombros e saiu puxando .
Ainda não tinham sido abordados por fãs, as pessoas estavam muito pouco interessadas em quem estava ou não ali. Os turistas apenas queriam conhecer o local, tirar fotos e postar em suas redes sociais.
Os ingressos foram comprados para que entrassem na Basílica e depois no Palácio Ducal, e, depois de meia hora na fila, passou mais de uma hora ouvindo uma guia falar sobre a Basílica, enquanto adicionava um ou outro detalhe apenas para ele. Ela estava radiante ao falar sobre todos os contextos históricos que conhecia sobre o local e coisas que sabia e queria partilhar.
Os dois tiraram fotos da Basílica e do Palácio Ducal, quando foram até lá, além de fotos deles em alguns lugares, juntos e separados, e andaram mais um pouco, ouvindo a guia contar que o Palácio é a antiga sede da magistratura veneziana e do Doge de Veneza, que era o dirigente máximo da República de Veneza, basicamente um Presidente, ou na tradução, um Duque. Além de falar sobre a criação da Porta della Carta, o monumental portão em estilo gótico. Mais fotos. , por fim, comprou alguns suvenires para a mãe que, com toda certeza, adoraria conhecer o lugar e ele a levaria. Com certeza.
– Eu queria muito te beijar. – falou, um tanto sem jeito, e arqueou uma das sobrancelhas, desviando rapidamente o olhar do caminho.
– Achei que você ia falar que queria almoçar, porque eu quero. – falou, dando uma risadinha. – Mas gosto da ideia.
– Isso é uma permissão? – perguntou e rolou os olhos, encarregando-se de puxá-lo para um beijo.
Não era algo que ela normalmente faria, não sendo ela quem era e não no meio de tanta gente, mas... bom, ninguém estava prestando atenção neles, em todo caso.
– Pronto. – ela deu um sorriso, depois de beijá-lo, fazendo sorrir. – Agora vamos comer e depois quero passar de gôndola pela Ponte dos Suspiros e por mais alguns lugares bem legais que você precisa conhecer.
– Ponte dos Suspiros? Isso é para ser romântico?
– Há quem ache que sim, mas, na verdade, tem esse nome porque a ponte liga o prédio que costumava ser o Tribunal ao prédio que era a prisão, inclusive foi o primeiro prédio do mundo a ser construído com essa finalidade. Enfim, a ponte faz essa ligação e ao passar por ali, os condenados davam seu último suspiro antes de serem presos e ser aquela a última vez que veriam o mundo. – deu de ombros. – Mas acho que as pessoas acharem que se trata de suspiros românticos pela arquitetura ou sei-lá-mais-o-que é mais legal do que imaginar uma coisa tão... trágica assim.
– A Casa da Julieta é aqui?
– Não. É em Verona.
– E isso é longe daqui?
– Duas horas de carro mais ou menos. – deu de ombros. – Mas hoje ficaremos apenas aqui em Veneza. Quem sabe outra hora.
– Sim, senhora. – ele respondeu e a abraçou pelos ombros, sendo abraçado pela cintura, e os dois começaram a caminhar em direção à saída do Palácio Ducal, enquanto adicionava um ou outro comentário sobre a história do local, mas nem estava mesmo prestando atenção.
– Por que não podemos comer nesse restaurante aqui? – apontou para o local que ficava do outro lado da praça.
– Pode ser. – deu de ombros. – Eu tinha pensado em andar um pouco mais, mas podemos comer aqui e andar depois. De barriga cheia.
– E quais são os planos?
– Improvisar. – ela piscou.
– Buon pomeriggio. – o garçom os cumprimentou assim que chegaram à porta do restaurante, que parecia chique demais para as roupas que usavam.
– Buon pomeriggio. respondeu, educada.
– Vocês falam italiano? – ele perguntou em um inglês carregado.
– Eu falo, ele não. – ela respondeu em italiano. – Queremos almoçar, por favor.
– Vocês preferem se sentar do lado de fora ou no interior do restaurante?
– No local mais reservado que você tiver, por favor. – pediu.
– Tenho uma mesa em outro ambiente, lá dentro. Acompanhem-me, por favor. – o garçom pediu e os dois o seguiram.
Acabaram aos fundos do restaurante, perto de um grande armário com vinhos e onde uma mesa para dois lugares estava posta e não podia ter ficado mais agradecida por estarem tão bem escondidos. Estavam indo bem até agora, ninguém os tinha reconhecido na rua e eles estavam andando pela cidade como um casal normal. O local estava relativamente vazio, o que era estranho dado o horário, e os dois logo foram instalados.
– Espero que seja esse tipo de privacidade que vocês querem. – o garçom falou educado e assentiu. – Inclusive, meu nome é Matteo e sou eu quem vai servi-los hoje.
– Obrigada, Matteo. É exatamente assim o local que eu esperava. – agradeceu, educada.
– Já sabem o que vão pedir ou precisam de alguma recomendação?
– Vamos escolher e já chamamos.
– É só erguer a mão e eu venho o mais depressa possível, senhorita. – respondeu, sorrindo.
Ele era realmente bonito, ela tinha que admitir.
– Obrigada. – agradeceu e o homem se afastou.
– Ele estava flertando muito com você. – falou, rindo.
– E como você sabe? Você nem entende o idioma. – falou debochada e piscou, dando um sorrisinho.
– O flerte é uma linguagem universal, . E ele estava flertando muito, isso foi absurdamente visível. Principalmente porque eu não entendi nada do que foi dito.
– Pode ser que eu também estivesse flertando com ele.
– Não. Você foi apenas educada com ele mesmo. – deu um sorrisinho. – E então, o que vamos comer?
– O que exatamente você quer comer?
– Macarrão. – ele falou óbvio.
– Aqui parece ter boas opções. Você sabe o tipo de macarrão?
– Um que encha minha barriga.
– Idiota. – deu uma risadinha. – Sério, você tem que saber pelo menos o corte da massa.
– Vou te deixar escolher.
– Você não come alguma coisa?
– Não gosto de camarão e nem de ovo.
– Então não pode ser o carbonara... spaghetti alla Veneziana da casa. Carne, frango ou peixe?
– Pode ser carne. – deu de ombros.
– Entrecote ai ferri con patate.
– Quê?
– Vinho rosé ou tinto?
– Tinto. Eu não entendo muito de vinhos, então você pode ficar com essa parte.
– Ótimo. – sorriu e assentiu para o garçom, que não demorou a caminhar até a mesa, dando um sorriso educado ao se aproximar.
– Já se decidiram?
– Já, sim. – ela sorriu educada. – Para ele, um spaghetti alla Veneziana e um entrecote ai ferri con patate. Eu quero um penne alle verdure e um entrecote ai ferri con patate. Para beber nós queremos um Amarone della Valpolicella.
– Sim, senhorita. – ele sorriu, educado. – Sobremesas?
– Pediremos depois que almoçarmos, obrigada. – agradeceu e o homem se retirou.
Ela aproveitou para mandar uma mensagem para Bob, perguntando se ele estava bem e por onde estava, mandou uma foto do restaurante e disse que mandaria outra da comida, para compararem quem estava comendo a melhor comida italiana do dia. O homem respondeu com uma foto de uma pizza enorme e disse que nunca esteve tão bem, que estava pelas redondezas. Ela deveria ter falado para ele levar a esposa e os filhos, teria sido um passeio agradável se todos estivessem juntos.
Mandou algumas fotos para a mãe e disse que deveriam planejar um retorno, porque a cidade estava ainda mais linda e ela adoraria um novo passeio pela Basílica.
– Em que você está pensando? – perguntou, fazendo desviar sua atenção do celular para ele.
– Devia ter falado para o Bob trazer a esposa e os filhos, faríamos um passeio juntos e seria bem legal.
Antes que pudesse falar, o garçom trouxe as taças e o vinho pedido, servindo-os, e avisou que os pratos estavam a caminho. continuou rolando o feed do Instagram, curtiu algumas fotos e respondeu algumas mensagens de conhecidos, parando apenas quando o garçom chegou com os pratos.
A cara que fez ao ver o macarrão preto à sua frente foi impagável e, por sorte, fotografou o momento.
– Por que esse macarrão está... dessa cor? – ele perguntou num misto de surpresa e nojo.
Não parecia bonito.
Não parecia gostoso.
Parecia apenas estranho.
– Melhore essa cara, na Alemanha a gente come umas coisas bem mais feias e bem ruins. Enfim, o macarrão é preto por causa da tinta de lula que faz parte do molho. Se você quiser trocar, sem problemas, só que o meu é vegetariano, bem simples.
– Você confia no gosto que isso aqui vai ter?
– Confio. Bom, eu já comi desses, mas não nesse restaurante aqui. Se você quiser trocar, eu troco.
– Eu vou experimentar e, se for ruim, eu vou mesmo trocar, porque isso está muito... estranho. E essa carne é o quê?
– Contrafilé, mas sem a capa, grelhado e batata frita. Experimenta seu macarrão e me fala o que achou. – respondeu e observou o prato.
O macarrão estava preto! Ele nunca tinha comido aquilo na vida! Ele observou, incerto, enquanto rodava o garfo no prato e sentia o cheiro – delicioso, ele tinha que admitir – da comida. não pensou muito, apenas colocou o garfo na boca, franzindo o nariz, e mastigou. A expressão foi se suavizando aos poucos quando ele viu que estava certa, o sabor era realmente bom. Ele ainda preferia o tradicional, mas era gostoso.
o observava, além de filmá-lo, mastigar de olhos fechados, tentando decidir se tinha gostado ou não do sabor. Quando ele abriu os olhos, com a expressão suavizada, encontrou uma sorrindo divertida de sua expressão.
– E aí?
– Eu vou sobreviver. – soltou um risinho pelo nariz ao falar. – Tem um gosto diferente, exótico, mas é gostoso. Eu normalmente fico na parte tradicional da comida italiana. De qualquer cantina, na verdade.
– Bom saber. Vamos mudar isso. – deixou o celular de lado, depois de encerrar a gravação da cena cômica de experimentando o macarrão, e começou a comer seu macarrão.
– Você pretende me deixar bêbado para morrer afogado nessa cidade? – perguntou, fazendo uma careta ao provar do vinho.
– Exagerado. – rolou os olhos. – Você não tem que tomar a garrafa toda de vinho, , pode tomar só para acompanhar a refeição.
– Seu celular está tocando. – ele apontou para o aparelho, onde o nome de Leonard aparecia e ela rolou os olhos, negando a chamada e enviou um “estou de folga, me deixa em paz!” como resposta.
Os dois continuaram comendo e trocando pouquíssimas palavras entre garfadas e cortes de carnes. perguntou quais eram os planos e deu de ombros, não falando nem meia palavra a respeito.
Pediram a sobremesa – ela pediu um gateau au chocolate, acompanhado de gelato e pediu um tiramisu – e comeram sem pressa, sem conversar e apenas observando o belo ambiente do restaurante, que permanecia relativamente vazio. A conta foi paga e os dois saíram de lá, preparados para o novo rumo do dia. Não sem antes fazer passar protetor solar, ouvindo-o resmungar que aquilo não era necessário. Ele, de má vontade, passou o protetor solar nos braços, encarregando-se ela de passar o protetor no rosto dele e em seu pescoço.
– Para de me olhar assim. – falou sem graça, fazendo dar uma risada e lhe beijar logo em seguida.
– Vem, vamos andar de gôndola. – ela falou, quando separou os lábios dos dele, e riu da animação da mulher.
Parecia que era ela quem nunca tinha pisado ali e precisava conhecer tudo de uma só vez. Os dois saíram se esgueirando pelas estreitas ruas de Veneza, cheias de turistas que não davam a mínima para o casal que fazia o caminho contrário deles. não podia estar mais grata, conseguiria fazer o passeio sem nenhuma interrupção e sem gerar um frisson desnecessário.
De mãos dadas, seguiram pelas vielas até que encontrou a gôndola que parecia perfeita para o passeio, tinha seis lugares, mas ela pediu para que fossem apenas os dois. Sentaram-se e trocou algumas palavras com o gondoleiro, que parecia saído de algum filme, e logo os dois estavam no barco.
– Isso é muito... estranho.
– Aproveita a viagem, . – ela falou, enlaçando seus dedos aos dele e deixando as mãos unidas sobre seu colo. – Vamos passar pela Ponte dos Suspiros, dar um passeio pelo Grande Canal e passar em frente ao Jardim Real, que fica atrás do Palácio e por outros canais menores, que são mais calmos, depois ele nos deixa no mesmo lugar e nós vamos visitar outro lugar.
– E esse passeio vem com aulas de História ou não? – implicou, soltando a mão da de , mas para abraçá-la pelos ombros e lhe deu um beijo no rosto.
– Talvez. – ela deu de ombros. – Temos uma hora, eu dobrei o preço para ele aceitar.
– Vocês parecem bem apaixonados. – o gondoleiro falou e deu um sorrisinho, corando em seguida. Não, não eram apaixonados, mas ninguém de fora precisava saber daquilo.
– O que ele falou? – perguntou baixo.
– É, estamos. – ela respondeu, sorrindo. – Ele é uma pessoa fantástica.
– E de que lugar vocês são?
– Alemanha.
– Você fala italiano muito bem.
– Obrigada. – ela agradeceu, sorrindo. – Ele não entende nada do que falamos.
– Nem em inglês? – o homem perguntou e ela negou com um aceno de cabeça e franziu o nariz numa careta. – Essa é a Ponte dos Suspiros, muitos falam que algo romântico... não. A verdade é que os prisioneiros, que saíam do Tribunal, passavam por essa ponte antes de serem encarcerados e nunca mais verem a luz do sol. Suspiravam de tristeza por isso.
O passeio se seguiu, com muitas palavras em italiano que não entendia, mas traduzia tudo, frisando detalhes que o gondoleiro os mostrava, ela recontava as histórias do homem e assentia, prestando atenção. Tiraram fotos dos lugares e algumas selfies, prestaram atenção em tudo durante aquela hora. Até mesmo ouviram o gondoleiro cantar, aplaudiram e logo ele estava parando no mesmo local em que embarcaram.
– A minha neta é sua fã. – o homem falou baixo, dando um sorriso para . – Eu também gosto muito da sua voz.
– Obrigada.
– Eu não quero incomodar, mas você pode autografar alguma coisa para ela?
– Claro. – ela sorriu. – O senhor tem algum papel?
– Tenho, sim. – ele sorriu, tirando uma folha amassada do bolso da calça e uma caneta.
– Qual o nome dela?
– Luna.
– A iluminada. – sorriu ao falar o significado do nome e escreveu uma pequena dedicatória, assinando a folha ao final e entregou ao homem.
– Deixem que eu tire uma foto de vocês. – o homem pediu e lhe entregou o próprio celular, dando um sorriso para a foto ao ser abraçada por pelos ombros. Essa foto foi tirada e o homem olhou para os dois. – Agora uma se beijando.
– Claro. – ela sorriu e virou-se para . – Beijo.
– Oi? – perguntou, mas não teve uma resposta verbal, apenas juntando os lábios aos dele e a foto foi tirada.
Quando saíram da gôndola, falou mais alguma coisa com o gondoleiro e lhe deu mais dinheiro, recebendo um agradecimento e felicitações e logo ela e estavam caminhando até o local em que pegariam uma balsa. não perguntou o motivo de precisarem de uma balsa, não falou nada e ele apenas aceitou que seria, novamente, surpreendido.
Não que pudesse reclamar, longe disso, até então todas as surpresas e improvisos de tinham sido positivos. Ela tinha lhe feito viajar sem planejamento, comer algo que, se dependesse apenas dele, jamais comeria, proporcionou-lhe um passeio com conhecimento histórico e cheio de paisagens bonitas... um dia que começou muito cedo, mas que estava sendo fantástico.
Cerca de trinta e sete minutos depois eles desembarcaram em um local, cuja placa dizia “Murano”. não fazia ideia de como pronunciar aquilo, mas a animação e o sorriso de davam a entender que o lugar seria tão fantástico quanto os outros.
– O que faremos agora? – perguntou, envolvendo a mão de e ela sorriu quase de forma infantil.
– Eu quero um gelato. – falou e soltou uma risada.
– E onde te conseguiremos um desses?
– Por ali. – ela apontou. – Temos que ir ao Museu de Vidro! Sabia que Murano é a capital do vidro? Tem fábricas e umas sessões de demonstrações... Hoje não deve ter demonstrações, é domingo e tudo deve estar fechado. E eu sei, vidro demora uma eternidade para se decompor na natureza, mas decompõe, diferente de plástico e... é lindo. Bom, eu me lembro que era bem legal quando eu vim, mas já tem um tempinho... enfim, você vai adorar! É bem legal e...
– Respira. – a interrompeu. – Vamos, porque o sol está muito quente e ainda temos que voltar para a Alemanha hoje ainda.
– Ai, nem me lembre. – resmungou e os dois se puseram a caminhar. – Você treina pela manhã?
– Não. Amanhã só à tarde.
– Quer viajar de manhã?
– Só se não tiver voos hoje. Prefiro que a gente não corra riscos. – respondeu e o abraçou pela cintura.
– Chissà se tu mi penserai, se con i tuoi non parli mai, se ti nascondi come me. Sfuggi gli sguardi e te ne stai rinchiuso in camera e non vuoi mangiare, stringi forte a te il cuscino piangi e non lo sai quanto altro male ti farà la solitudine... cantou baixo, fazendo dar uma risada. – Que foi?
– Hoje você demorou a começar a cantar. – implicou. – Que música é essa?
– La Solitudine, da Laura Pausini. E eu sei, você nunca ouviu falar.
– Você me conhece tão bem... – falou, rindo.
– Gelato! – comemorou quase feito criança, puxando pela mão.
– Buon pomeriggio, signorina. – o rapaz que estava atrás da vitrine com os sorvetes falou e arregalou os olhos quando viu quem era. Ele fez menção de falar mais alto, totalmente surpreso com a presença dela ali, mas colocou o indicador sobre os próprios lábios e ele assentiu, ainda chocado.
– Buon pomeriggio. Eu quero dois gelatos, de... chocolate com nozes e limão. Uma bola de cada, por favor.
– Cl-claro. – o rapaz respondeu, tratando de fazer o pedido.
Além do rapaz, havia um casal que deveria ter a idade dos pais de por lá. Os gelatos foram feitos e logo tirou o cartão do bolso para fazer o pagamento.
– Agora que eles foram embora... – ela falou baixo, olhando para ver se ninguém mais tinha aparecido. – Você quer uma foto?
– Sì! – ele falou empolgado. – Sou seu fã há muito tempo. Você é fantástica! E vocês são um casal muito bonito, torço pela felicidade de vocês.
– Obrigada. – ela sorriu agradecida e a foto foi tirada pelo próprio rapaz, em uma selfie, e ele sorriu satisfeito. – Se não for pedir muito, você pode postar essa foto apenas amanhã? Quero ter mais alguns momentos sem tumulto para aproveitar o dia.
– Sem problemas. – o rapaz respondeu. – Posso ajudá-los em mais alguma coisa?
– No momento não, mas talvez depois de um passeio a gente volte aqui e compre mais antes de ir embora.
– Ah, claro! – ele sorriu animado. – Tenham uma boa tarde e um bom passeio.
– Obrigada. – ela agradeceu e estendeu a mão livre para , para que seguissem até o tal Museu de Vidro.
– Isso... delicioso! – falou embasbacado. Aquele lugar tinha algum problema com comidas e tudo, absolutamente tudo, tinha que ser delicioso?
– Sim! Eu amo muito sorvete!
– E qual é a desse museu?
– É um museu que conta a história do vidro. Inclusive o daqui de Murano, claro. Parece chato, mas é bem legal. Mostra toda a evolução técnica, das formas como o vidro era feito antes e como é agora, além de ter as peças! É superinteressante. Contam toda a história, desde a época em que os fenícios iniciaram a produção, depois conta sobre a produção massiva de Roma, no século um antes de Cristo...
– Você gosta mesmo de História.
– Muito. – respondeu, voltando sua atenção ao seu sorvete que começava a dar indícios de que derreteria muito rápido e faria uma bagunça.
Logo ela deu fim ao próprio sorvete, observando fazer o mesmo com o dele. Deixando o canto da boca sujo, mas não pareceu proposital, o que fez rir e se aproximar, voltando a abraçá-lo pelo pescoço e passou a língua pelo canto de sua boca.
, ...
– O que foi, ? – ela perguntou, levantando o olhar até o dele e arqueou uma das sobrancelhas.
– Você devia ter um pouco mais de consideração por mim.
– Mas eu tenho, por isso estou limpando sua boca. – ela falou, dando-lhe um selinho, e o soltou. – Agora anda. Vamos ao Museu de Vidro, depois uma passada no Campo de San Donato e na Igreja, compramos alguns presentes e procuraremos um bom lugar para ver o pôr-do-sol antes de pegarmos a balsa e retornarmos à Veneza, procuramos um táxi e voltamos.
– Já temos passagens para casa?
– Ainda não, mas compro quando voltarmos. Se não tiver nada pra Stuttgart, a gente compra para Munique e eu te deixo em Stuttgart.
– Tudo bem, mas não vamos pensar nisso agora. Foco no vidro. – brincou e os dois seguiram até o Museu.
Para aquilo não fazia muito sentido, porque... um museu cheio de vidro? Mas descobriu que estava errado, claro. Toda a história era contada, desde os primórdios até a atualidade, as formas de produção e as peças, além de falarem bastante sobre a produção em Murano. Ele estava absolutamente interessado por tudo que via e pelo que contava.
Ao saírem de lá, começaram a caminhar pelas ruas da cidade, ignorando a ideia anterior de passear pela Igreja de Santa Maria e Donato. Tiraram algumas fotos juntos em alguns monumentos da cidade e, também, das paisagens, conversando sobre um ou outro detalhe enquanto caminhavam.
– Parece uma cidade de brinquedo. – falou e assentiu.
– São fofas as casinhas coloridas e pequenas, parece bem... aconchegante.
– É muito quente, mas concordo.
– Ah, só é quente assim nessa época do ano. – deu de ombros. – Mas é bonito. Muito bonito.
– Voltamos para Veneza?
– Queria comer alguma coisa primeiro, mas vamos descobrir o horário da balsa para retornarmos, se der tempo a gente come aqui.
– Tudo bem. – respondeu e o celular de voltou a tocar em alerta de mensagem, dessa vez era Bob.
– Bob quer saber se está tudo bem, disse que sumi e ele ficou preocupado. – sorriu enquanto digitava.
– Vocês parecem ter uma boa relação.
– Bob é vizinho dos meus pais desde antes de Davi nascer, sempre foi amigo do meu pai e é uma das melhores pessoas que eu conheço.
– Ele parece mesmo.
respondeu a mensagem, enviando uma foto de Murano para o segurança, informando que estava tudo bem e que voltariam ao centro de Veneza dali alguns instantes, veriam o pôr-do-sol e depois seguiriam para o aeroporto.
Os dois seguiram até a área de embarque e desembarque das balsas e não tiveram tempo de comer, comprou as passagens e em menos de dez minutos os dois estavam voltando para o centro de Veneza.
– Vou trazer minha mãe aqui. – falou, observando a ilha se afastar. – Um fim de semana inteiro, para conhecer bastante coisa.
– Faça isso. Ela vai amar. – sorriu. – Vou tentar arrumar um buraco na minha agenda que coincida com alguma de suas folgas e nós vamos a Verona.
– Você já foi lá?
– Não, mas deve ser muito bonito. E tem a casa da Julieta.
– Eu não acho muita graça na história de Romeu e Julieta, sabe? Eles são muito intensos e meio burros.
– Romances da Idade Média pedem pela intensidade daquela época. E, de qualquer forma, a expectativa de vida deles nem era tão alta, então... – brincou, dando de ombros e fez rir. – Eu até acho legal, mas sei lá, não é algo que eu leia e releia.
– Eu acho que o próximo passeio quem tem que escolher o destino sou eu. – falou, mudando de assunto, e abraçou pelos ombros.
– Tudo bem, mas quero visita guiada com muitos fatos interessantes e históricos.
– Vou pensar no seu caso. – respondeu implicante e ela o beliscou de leve. – Ai! Estamos dando mais voltas nessa balsa...
– Essa vai nos deixar na Ponte dell’Accademia. Dá tempo de comer alguma coisa antes de assistirmos ao segundo pôr-do-sol mais bonito do mundo.
– E qual é o primeiro?
– Na Place du Trocadero, em Paris. O pôr-do-sol lá é estonteante! O sol deslizando maravilhosamente pelo céu, atrás da Torre Eiffel e o céu mudando de cor... Nossa, é fantástico.
– Achei que você ia falar “lá do meu apartamento”. – deu uma risadinha.
– Nah, esse deve ser o quinto ou o sexto. – ela deu de ombros. – E estamos chegando.
– Comer antes, durante ou depois? – ele perguntou, mas não respondeu na hora. Os dois desembarcaram e ela pegou o celular, digitando alguma coisa e estalou os lábios.
– Comemos agora. Nosso voo sai às nove e o pôr-do-sol fica para outro dia.
– Por quê?
– Porque ainda é verão e o pôr-do-sol é mais tarde, começa às oito e nós temos que chegar no aeroporto rápido.
– Depois a gente volta e vê então, não faz mal. O dia foi ótimo.
– Eu sei, mas você ia gostar do pôr-do-sol. – ela resmungou frustrada e lhe deu um selinho.
– Imagino que sim, mas podemos fazer isso depois, quando você tiver tempo. Agora eu preciso ir ao banheiro. – resmungou a última parte e apontou para o banheiro público que ficava próximo de onde estavam.
Ela tratou de ficar próximo do local, pois se fosse identificada, não teria problemas e poderia se refugiar no banheiro, ligaria para Bob e pronto. Não que isso fosse acontecer, tinham passado o dia todo sem serem reconhecidos por ninguém além de uma única pessoa, então estava tudo bem.
Bom, era o que ela achava.
Algumas fotos suas foram tiradas por turistas, mas ninguém se aproximou dos dois. Ah, ainda estavam remoendo a entrevista de , e algumas pessoas tinham certo receio de como ela reagiria a aproximação de fãs quando estava curtindo um dia com o namorado.
não se demorou e logo os dois estavam caminhando para um restaurante próximo do local. Escolheram uma mesa afastada e pediram pizza. Os dois não conversaram muito, estavam cansados de todas as andanças e ainda dariam mais um breve passeio antes de rumarem para o aeroporto e embarcarem no avião que os levariam de volta para a realidade.
– Por que você está pagando tudo? – perguntou quase ofendido enquanto saíam do restaurante e iam à Ponte dell’Accademia. – O homem aqui sou eu.
– Será que é mesmo? – perguntou debochada e a puxou para mais perto, olhando de forma quase tão ofendida quanto tinha sido seu tom anteriormente.
...
– Tão bonitinho, pena que tem a masculinidade frágil... – debochou, passando os braços pelo pescoço de . – E, respondendo a sua pergunta, estou pagando porque essa é uma viagem de presente para comemorar sua excelente estreia no time. E essa história de homens pagarem tudo é uma cultura machista idiota.
– Então me deixa te pagar um sorvete, pelo menos. Em agradecimento por você ser uma pessoa maravilhosa e uma fã tão dedicada. – falou sincero e lhe deu um beijo demorado. – Isso é um sim?
– Isso é um “com toda certeza do mundo”. – respondeu, sorrindo, e soltou-se dos braços de .
– E aonde vamos?
– Com licença – ela parou um homem que devia ter idade para ser seu pai. – O senhor sabe me informar onde posso encontrar uma gelateria?
– Perto da Ponte Longo. A Gelati Nico. – o homem respondeu educado, apontando a direção a ser seguida.
– Obrigada. – agradeceu e saiu puxando pela mão até a tal gelateria.
Havia uma fila, cerca de dez pessoas estavam à frente dos dois e soltou um resmungo baixo, seguido de um abaixar de cabeça. Demoraram um pouco até serem atendidos e falou sem erguer os olhos, apontando para os sabores que queriam e logo os dois estavam refazendo o caminho enquanto tomavam seus sorvetes.
– Jay vai me matar na academia se souber da quantidade de coisas cheias de sódio e gordura hidrogenada que comemos hoje.
– Se você não contar, eu também não conto. – falou, quando chegaram à Ponte, cinco minutos depois de saírem da gelateria.
encostou-se nas madeiras que faziam o arco da ponte e terminou seu sorvete, observando o deslizar quase preguiçoso das balsas e gôndolas abaixo da ponte. tirou uma foto dela e guardou para si. Estava linda à luz do sol, tomando sorvete e totalmente distraída.
– Você sabia que essa ponte, originalmente foi feita em ferro, sua sequência era para ser em pedras, mas a obra não foi realizada e por isso ela é de madeira?
– Não, eu não sabia. – deu uma risada.
– E é uma das quatro pontes sobre o Grande Canal. E tem esse nome, porque nos leva à Accademia, que é do rumo em que viemos, lá é um museu agora, mas originalmente era uma escola de pintura, escultura e arquitetura. Ainda temos um tempo até precisarmos ir embora, acho que poderíamos fazer uma visita, tem umas coisas legais. Pelo menos tinham quando eu vim com meus pais.
– Você que manda.
– Ou podemos sair andando e nos enfiando nessas vielas sem um destino certo.
– Me surpreenda. – falou, piscando para , que abriu um sorriso ao ouvir aquilo.
– Vamos à Accademia, porque ficar perdida pelas vielas de Veneza com você, ainda que seja tentador, me parece um pouco imprudente, já que não temos tempo suficiente pra isso.
– Tudo bem, tudo bem. Sua boca está suja. – ele deu um sorriso e limpou o canto da boca de com o polegar.
– Você perde oportunidades.
– Depende do ponto de vista. – ele deu de ombros e aproximou-se para dar um beijo estalado nos lábios dela. – Quanto tempo temos?
– Duas horas antes de precisarmos mesmo ir.
– Museu mesmo?
– Um novo passeio de gôndola e depois aeroporto?
– Me surpreenda. – ele repetiu e assentiu, dando-lhe a mão para que segurasse e os dois saíram da ponte.
Um novo passeio de gôndola.
Novamente sozinhos com outro gondoleiro, que cantava ao som de uma música tradicional e cantarolava baixo junto com o homem e, de canto de olho, olhava para , que estava totalmente distraído com a paisagem pela qual passavam.
Quarenta minutos depois, estavam desembarcando próximo ao terminal Casinò di Venezia e começaram a caminhar pelas vielas, tirando algumas fotos e cumprimentando algumas pessoas desconhecidas. Compraram duas porções de anéis de cebolas fritos e alguns cookies e frutas secas e comeram enquanto andavam.
– Precisamos de um táxi. – falou, consultando o relógio. Estavam perto da Igreja de São Jeremias e estava concentrado em tirar fotos do lugar.
– Já? – perguntou, surpreso, e ela assentiu. O céu começava a adquirir um tom rosado, indicando que logo o pôr-do-sol aconteceria. – E onde encontraremos um táxi?
– Lá onde desembarcamos quando chegamos aqui. – ela deu de ombros. – Uns dez minutos andando.
– Então vamos. E Bob?
– Ele vai nos esperar no aeroporto, voltamos todos juntos pra Stuttgart.
– Você vai embora hoje? – perguntou enquanto andavam e negou.
– De lá ele vai pra Munique, eu volto com você e viajo amanhã de volta para a realidade e para ouvir Leonard enchendo o saco, porque eu o ignorei o dia inteiro na minha folga.
– Vocês andaram brigando de novo?
– Não, mas ele é insuportável. – falou, entediada. – Vamos focar em andar e não de falar em Leonard e em sua chatice, nosso dia foi bem legal para estragá-lo assim.
– Você é quem manda. – respondeu e os dois terminaram o caminho até a Ponte della Constituzione.
A procura por táxi não foi demorada e logo estavam refazendo o caminho de mais cedo, indo para o aeroporto. Encontraram Bob quase no mesmo lugar e os três seguiram para a aeronave quando chegou o momento do embarque. O espaço entre as poltronas continuava pequeno, mas quase não teve tempo para reclamar. estava deitada em seu ombro e parecia prestes a dormir.
Bob estava no assento traseiro e, por sorte, sozinho. Suas pernas estavam esticadas e ele quase não se sentiu desconfortável pela uma hora e vinte de voo. Logo estavam desembarcando em Stuttgart e se espreguiçando enquanto faziam o caminho para a saída do local.
– E como você vai embora, Bob? – perguntou quando chegavam perto da saída do aeroporto.
– Quer pegar meu carro? – perguntou e Bob negou.
– Jas vem me buscar.
– Eu devia ter falado para você levá-la junto com as crianças. Teria sido ótimo passar o dia juntos assim. – resmungou e Bob deu um sorriso.
– A mãe dela estava lá em casa, ela não iria, de qualquer forma.
– Espero que seu dia tenha sido bom. De verdade.
– E foi, . – o homem sorriu e o abraçou.
– Avise quando chegar em casa.
– Digo o mesmo.
– Avise Jas que na próxima nós vamos todos juntos.
– Pode deixar. – Bob falou, soltando-se do abraço. – Agora vocês dois parem de brincar com a sorte e vão logo, porque já deram muita sorte de passar o dia sozinhos e sem serem incomodados, então melhor ir antes que isso aqui se encha de fotógrafos e vocês tenham problemas para ir embora.
– Nos vemos amanhã, Bob. – se despediu, mandando um beijo para o homem.
acenou em despedida e os dois foram para o estacionamento buscar o próprio carro para voltarem para a casa de .
Encontraram um Petros altamente entediado, deitado sobre o sofá e que nem mesmo fez questão de se mover para recebê-los. foi a primeira a ir tomar banho, demorando-se mais do que o habitual para sair do chuveiro, com os cabelos enrolados na toalha, vestida com seu pijama e pegou a camisa de jogo que ele tinha trazido para casa no dia anterior e chegou até a sala.
– Autografe com uma dedicatória bem linda para mim. – falou e desviou os olhos da televisão e a olhou sem entender.
– Por quê?
– Seu primeiro gol aqui, seu primeiro jogo em casa... é um bom presente.
– E se eu quiser ficar com ela ou, sei lá, dar para minha mãe?
– Você não quer e eu só aceito ela não ser minha se você for mesmo dar de presente para sua mãe.
– Posso mandar lavar primeiro?
– Não. Vou emoldurar assim.
– Tudo bem.
– Vai tomar um banho. – ordenou e ele rolou os olhos, mas se levantou, pegando a camisa das mãos de , e foi tomar banho. Estava mesmo querendo se livrar de todo suor e sujeira que o dia de andança em outro país.
Enquanto isso, deitou-se no sofá, já sem a presença do cachorro, que estava deitado na cozinha, colocou as pernas para cima e começou a rolar o feed do Instagram, curtiu algumas fotos e foi conferir as que tinha sido marcada. Muitas fotos em Veneza. Muitas mesmo. Ao lado de , os dois riam e conversavam, fotos dos beijos e de um dos momentos em que tinha lhe lambido a boca, fotos deles andando de mãos dadas e renderam cliques bem bonitinhos. Curtiu algumas das fotos e só podia se sentir agradecida por ter sido um passeio bem agradável, sem problemas com tumultos de fotógrafos para estragar tudo.
No Twitter, ela e tinham sido trending topics, as pessoas postavam fotos e mais fotos deles, as mesmas do Instagram, elogiavam... claro, havia os comentários maldosos sobre todo o ocorrido anteriormente e da entrevista, mas, em sua maioria, falavam apenas bem dos dois.
Um site de fofocas tinha publicado uma matéria e clicou para ler. Não pareciam ser ofensivos, então ela queria saber o que diziam.

“O amor está mesmo no ar! e foram vistos hoje, 27/08, num passeio mega romântico e fofo em Veneza.
Isso mesmo!
Eles estão ótimos, obrigado por perguntar, e foram vistos juntinhos em Veneza hoje.
Os pombinhos passaram o dia em uma das cidades mais românticas do mundo, passearam pelas ruas de mãos dadas, conversaram, comeram, trocaram carinhos e se beijaram muiiiitooo, para a alegria dos fãs do casal que agora têm várias fotos dos dois juntos, demonstrando afeto público, coisa que raramente são vistos fazendo.
Aparentemente, os dois conseguiram curtir o dia sozinhos, sem intervenção de paparazzi e fãs, além de estarem sem seguranças, apenas os dois curtindo um dia de casal, no meio da agenda sempre lotada de e do cronograma de jogos de . , inclusive, fez o gol da vitória de seu time ontem e os dois foram vistos abraçadinhos no estacionamento após o jogo. Fofos!
Parece que nada do que aconteceu antes abalou o namoro dos dois, que parecem cada vez mais apaixonados e felizes.
Desejamos toda a felicidade do mundo ao casal e que as pessoas que desejam o mal e o fim desse namoro, fiquem com essas fotos para ver como eles são fofos e tem muita química!”


Ela saiu da matéria, depois de dar RT em algumas coisas e tweetou sobre o dia, dizendo que tinha sido realmente fantástico e que passar um tempo com o namorado, apenas os dois, tinha sido ótimo. Agradeceu aos fãs por terem respeitado o momento e disse que logo estaria de volta à Itália para fazer os shows da turnê.
Respondeu às mensagens da mãe, disse que iria passar por lá no dia seguinte e almoçariam juntos antes que ela tivesse que se encontrar com a equipe. Samantha perguntou se podiam se encontrar naquela semana, não só na academia, e disse que confirmaria no dia seguinte, mas que havia uma enorme chance de que, sim, pudessem se encontrar. Ignorou a mensagem de Leonard, nem mesmo se prestou a ler, e voltou sua atenção para o Instagram novamente. Postou o vídeo de experimentando o macarrão no almoço nos stories com uma legenda provocativa e o marcou, saindo do aplicativo logo que ele entrou na sala, apenas de bermuda e se sentou na beirada do sofá.
– Quer comer alguma coisa? – perguntou e pareceu pensar.
– Acho que não... você quer?
– Não. Quero é dormir mesmo.
– Então vamos, eu estou exausta. – falou e se pôs de pé, caminhando com para o quarto. A cama foi ajeitada e deixar a toalha que enrolava seus cabelos no banheiro, penteou-os de qualquer jeito, e voltou para o quarto, apagou as luzes e deitou-se ao lado de .
– Eu vi o vídeo, . – ele falou quase ofendido, puxando-a para mais perto e se aconchegou ali. – Você me paga.
– Você gostou do dia?
– Muito. – ele sorriu agradecido e só viu o gesto por causa do pequeno facho de luz que entrava pela cortina. – Você me fez ter um dia que, sozinho, eu jamais teria. Obrigado, de verdade.
– É um recomeço, sabe? – falou, fazendo um carinho em seu rosto. – Você vai recomeçar as boas atuações em campo aqui, no Stuttgart, e pode recomeçar a viver também. E, se depender de mim, você vai.
– Como eu falo “obrigado pelo dia de hoje, pela viagem, pelo guia turístico personalizado, pelas aulas de História, por sua empolgação e por improvisar uma viagem simplesmente sensacional. Obrigado por tirar o fim de semana pra passar comigo, por vir me dar um apoio mesmo depois do que aconteceu, por sempre acreditar em mim e por nunca deixar de torcer pelo meu sucesso” em italiano?
– Traduzi na minha cabeça, ficou um agradecimento muito bom. Acho que se você falar, vai ficar bem ruim, então vou fingir que falou e você finge que essas palavras em italiano que estão na minha cabeça são suas. – respondeu, divertida, e deu uma risadinha sonolenta.
– Dorme bem, . E obrigado por fazer parte do recomeço que eu precisava. – falou baixo, dando um beijo em seu rosto.
E, com aquelas palavras, também não demorou a cair no sono.


Continua...



Nota da autora: Eu me tornei a pessoa que vê um especial e um ficstape e se enfia de cabeça, sem pensar duas vezes!
Esse daqui foi bem fofinho pra ter um momentinho casal bonitinho, coisa que raramente acontece né? Já que os dois ficam se fazendo de difíceis... Esse spin-off acontece entre os capítulos 15 e 16 e quando forem postados, vocês entenderão o que aconteceu pra gerar furor midiático e qual é a dessa da falta de paciência da com o empresário...
Caso você não conheça esse casal, dá uma passadinha em Trato Feito, eles são dois anjos, eu juro!
Entra no grupo no Facebook, lá tem tudo que eu já escrevi e escrevo, às vezes tem uns spoilers por lá também.
Espero que vocês tenham gostado desse spin-off e me deixem saber sobre 😉

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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