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Última atualização: 28/07/2020

Capítulo 1

“Why do birds suddenly appear;
Everytime you are near?
Just like me, they long to be;
Close to you.”

Close To You – The Carpenters

27 de outubro de 2015 em Hospital Geral Newcastle - Newcastle Upon Tyne, Reino Unido;
's POV:

Estava sentada no balcão de atendimento, tomando um achocolatado de caixinha — havia enfiado em minha bolsa, quando saí correndo de casa hoje à tarde. Era o primeiro dia daquela semana em que o plantão estava particularmente tranquilo, uma coisa estranha nesse hospital constantemente agitado, mas a calmaria era por tempo determinado e os pelos arrepiados do meu corpo podiam provar isto.
No exato momento em que joguei a caixa do achocolatado no lixo, vi o diretor geral do hospital caminhando com rapidez pelo corredor, vindo em minha direção. Fechei os olhos, respirei fundo, entoei um mantra baixinho e esperei pacientemente pelo que vinha a seguir.
— Doutora ! — Ouvi doutor Parckman me chamar e abri meus olhos devagar, dando de cara com o homem de meia idade parado em minha frente.
— Hey, chefe! Mande lá. — Respondi, enquanto pegava minha prancheta de cima do balcão.
— Temos um caso, pelo que entendi não parece ser grave, mas temos uma particularidade incomum para este hospital.
Observei com atenção suas feições e procurei entender a situação com que minha equipe e eu iríamos lidar.
— Um cantor famoso, que pertence a uma boyband, caiu no palco, aparentemente uma fratura exposta no antebraço direito.
Sabia exatamente como lidar com esse tipo de situação, não era algo incomum no hospital, fraturas desse nível, mas lidar com uma celebridade mundialmente famosa estava fora dos meus conhecimentos médicos, até então...
— A ambulância já está a caminho, reúna a sua equipe e informe-os sobre a situação de sigilo, esse hospital se tornará um caos no momento em que descobrirem que ele está vindo para cá. Impressa, fãs desesperadas, congestionamento na entrada do hospital... um verdadeiro pandemônio!
Assenti e, em seguida, andei com rapidez a procura dos internos e da equipe geral do hospital.
! Vicent! Preciso de vocês! — Eles correram até mim e pronunciei as coordenadas: — O paciente que está a caminho é um cantor mundialmente famoso, caiu no palco e sofreu uma fratura exposta no antebraço direito. Peço cautela a vocês com as informações, não falem com imprensa e nem repassem a ninguém qualquer tipo de informação sem a minha autorização!
Ouvimos o barulho da sirene da ambulância e corremos rumo à recepção devidamente paramentados.
Os paramédicos retiravam a maca da ambulância com rapidez, quando observei o paciente em questão: ele estava consciente. Analisei seus olhos profundamente verdes com a minha lanterna clínica, procurava por algum sinal de traumatismo craniano. Ele tinha um pequeno corte em seu supercílio direito, o que fez com que o sangue escorresse por seu rosto. Procurei avaliar a sua verbalização e o chamei.
— Oi! Como está? Você lembra seu nome?
— Oi! — Ele respondeu com a voz rouca. — Estou quebrado... — forçou um leve risinho, que mais parecia com um murmúrio de dor e continuou: — Harry e você?
Perguntei-me como alguém, em um momento como este, iria fazer algum tipo de gracinha com a situação, a maioria dos pacientes chegavam urrando de dor e não falavam muito.
— Me chamo . Você vai para o centro cirúrgico em alguns minutos. Possui algum tipo de alergia? Alguma medicação em uso? — Questionei.
— Não. Não que eu saiba.
e Vicent conduziram Harry para sala de estabilização inicial, onde seriam feitas as coletas de amostras sanguíneas e de imagem, que serviriam de exames complementares para cirurgia. Enquanto isso, eu conduzi o restante da equipe para preparação do centro cirúrgico.
Estava em meio às análises de raio X e exames que e Vicent trouxeram, quando o chefe entrou na sala.
— Doutora ! Você sabe que não costumo me intrometer na escolha de sua equipe para cirurgias, porém, dada a situação, penso que você deveria incluir doutor Boorman para lhe auxiliar. Qualquer conduta errada pode influenciar diretamente na imagem de vocês e do hospital.
— Não faço cirurgias com doutor Boorman na minha equipe. — Falei com o tom de voz aborrecido e permaneci de costas, analisando os exames.
Percebi aproximação de doutor Parckman.
— Creio que não seja hora para picuinhas pessoais. — Disse ele com o tom de voz sério.
— Não são só picuinhas pessoais, não temos as mesmas visões médicas.
Doutor Parckman parecia visivelmente aborrecido, tinha uma veia pulsante em sua testa e ele estava vermelho como se fosse um pimentão. Doutor Boorman era um senhor com a cabeça bem dura e costumava agir pela emoção, quando colocava uma coisa em mente, era bem difícil que alguém conseguisse lhe convencer o contrário.
— Isso não está mais em discussão, doutor Boorman irá conduzir a cirurgia junto com você!
Não houve tempo para contra-argumentos, ele saiu batendo a porta e me deixou sozinha na sala de análises clínicas.
Rumei em direção à sala onde Harry se encontrava e na porta vi um homem de mais ou menos uns dois metros de altura, provavelmente um segurança, acenei e abri a porta, deparando-me com uma figura de Harry mais tranquila, ele estava acompanhado de alguém.
— Doutora ! Estávamos lhe esperando. Me chamo Jude Jhonson, sou assessora do Harry. Qual é o quadro dele? — Ela falou com rapidez.
— Olá, Jude! — Cumprimentei-a com um aperto de mão amigável.
— Bom, Harry... — comecei olhando para ele. — Seu quadro é estável. Você teve uma fratura exposta no antebraço direito, vai precisar de cirurgia, mas não é nada sério. — Falei, tentando parecer o mais natural possível. — Trouxe o material de sutura, preciso dar alguns pontinhos no corte em cima de sua sobrancelha.
Ele assentiu e comecei a preparar os materiais que iria utilizar no procedimento.
— Você já avisou sua família? — Perguntei, olhando para ele.
— Sim. Jude avisou, na verdade. Estão a caminho!
A mulher se retirou da sala e imaginei que talvez não fosse tolerar visualizar o procedimento de sutura. Aproximei-me e pude observar melhor as feições de Harry: o cabelo grande havia caído sobre o ferimento e agora com o sangue já coagulado, estava grudado em sua testa, ele estava um pouco suado e sujo.
— Isso pode doer um pouco. — Falei, enquanto passava o algodão com delicadeza sobre o ferimento. Cortei o pedaço de cabelo que estava grudado sobre o corte. — Bom, desculpe por isso! — Disse, enquanto lhe mostrava a pequena mecha de cabelo, a qual acabara de cortar.
— Tudo bem! — Ele respondeu risonho. — Pretendo mesmo cortá-lo após o término da turnê. Além do mais, se não fosse tão desastrado, isso não teria acontecido. — O cantor respondeu de maneira paciente e aparentemente conformado.
Harry tinha a voz rouca e falava de maneira lenta, parecendo não se preocupar com o tempo que levava para falar uma coisa simples. Imaginei que tal ato pudesse incomodar algumas pessoas, mas eu não sei explicar, só sei que nunca ouvi nada igual. Soava como sussurros angelicais e, de repente, tive um vislumbre imaginário de pássaros entrado pela janela como em filmes de contos de fadas infantis.
— O que aconteceu exatamente? — Perguntei, curiosa, afastando as imagens de pássaros imaginários e me concentrando em finalizar a limpeza do corte. Busquei pela agulha de sutura lacrada em papel de grau cirúrgico.
A conversa parecia distraí-lo, ajudando inibir um pouco a dor que ele já estava sentindo.
— Eu caí. AÍ... — ele soltou um pequeno gemido e seus olhos se fecharam com força.
— Desculpe! Mas é necessário. — Falei, enquanto passava a linha com cuidado sobre a pele de Harry. A sensação de causar dor no rapaz tornara-se extremamente desconfortável e eu comecei a sentir um reboliço em meu estômago.
Ele deu continuidade à história sobre como havia fraturado o braço.
— Tropecei no pedestal, tentei me apoiar com o braço, enquanto caía no chão, e escutei um “creck”... — seus olhos fecharam-se novamente, enquanto enfiava a agulha mais uma vez.
— Nossa! Seria cômico, se não fosse trágico. — Respondi concentrada, enquanto finalizava a sutura no seu supercílio.
Percebi que ele me olhava.
— Você é bem nova para ser médica!
Eu ri.
— Sim, comprei meu diploma no mercado clandestino. — Respondi, tentando parecer séria e falhando miseravelmente, pois um sorriso torto e extremamente encantador se formava em seus lábios.
Ele continuou me encarando, provavelmente tentando deduzir quantos anos eu tinha. Ou talvez... flertando?! Perguntei-me confusa.
— Vinte e seis. Respondi, quase vinte e sete. Universidade de Oxford. Internato, residência em cirurgia traumatológica com ênfase em cirurgia nos braços.
— Sabia que era nova! — Ele falou com um ar vitorioso na voz. — Você deve ter passado muito tempo estudando. — Falou, enquanto eu cortava a linha e olhava para os três pontinhos feitos sobre a pele do garoto.
— Ah... um pouco! Foram alguns anos de esforço, dedicação e sofrimento. Provavelmente você deve ter se divertido mais do que eu, viajando o mundo e cantando com seus amigos. — Falei, distraída, enquanto buscava por uma gaze e cortava em um pequeno pedaço, prendendo-a sobre a sutura com um micropore.
— Bom, a banda foi minha faculdade. — Ele falou com um ar orgulho. — Foi divertido! — Percebi um leve tom de nostalgia em sua voz.
— Qual o nome da sua banda mesmo? — Eu quis saber, afinal de contas, nunca tinha ouvido falar sobre Harry e a banda em que ele fazia parte.
Ele me olhou um pouco aéreo, talvez não fosse comum encontrar por aí pessoas que não o conhecessem. Por fim, respondeu:
— One Direction. Você já ouviu falar? Éramos cinco, mas agora somos quatro. Um vazou no início do ano. — Ele fez uma cara engraçada, enquanto mordiscava seu lábio inferior.
— Provavelmente já ouvi esse nome em algum lugar... — blefei na maior cara dura.
— Ah, tudo bem! — Ele respondeu com rapidez e corando um pouco. Observei que, ao sorrir, covinhas formavam-se em suas bochechas, o que era extremamente fofo, a propósito.
— Imagino que você tenha assuntos com maior relevância para se preocupar... consertar os ossos das pessoas, por exemplo. — Ele falou, enquanto eu recolhia o lixo que se amontoara sobre a bancada e descartava-o no resíduo apropriado.
— Não é isso. É que tenho a personalidade uma senhora de oitenta e cinco anos de idade habitando em mim e acabo utilizando meu tempo livre para dormir.
Ele riu, e novamente as covinhas estavam lá. Minhas pernas vacilaram, devia estar no meu período fértil; nunca tive atrações por caras mais novos, muito menos integrantes de boybands mundialmente famosas.
Talvez fosse a falta de sexo.
— Bem, Harry, é isso! Vou verificar se já está tudo pronto para a cirurgia e peço para virem buscá-lo. — Falei por fim, enquanto saía com rapidez da sala.
Encontrei no meio do caminho com uma prancheta em mãos e um meio sorrisinho nos lábios finos.
— O que foi? Por que você está me olhando essa cara? — Eu perguntei.
— E aí?! — Ela falou, empurrando levemente o meu ombro. — Vocês estavam de conversinha, eu vi. Não quis entrar para não atrapalhar.
— Doutora ! Contenha-se, por favor! — Ralhei, tentando manter minha compostura.
— Aaaah, ! — Ela empurrou meu ombro novamente e se não tivéssemos no hospital, provavelmente eu a teria xingado.
— Vai dizer que você não ficou com as pernas balançando? Ele é um maior gato! Sei lá, ele tem um charme, MAS faz mais o seu estilo. — Ela falou com o sorriso de orelha a orelha.
Eu respondi com um “Ele é simpático.”
— Aham, sei... — ela não ia parar. Por um milagre divino, avistei Vicent.
— Ôh, Vicent! — Falei, ignorando e indo atrás do médico.
— Tudo pronto para a cirurgia? — Perguntei.
— A sala está pronta! Porém, doutor Boorman está preso no trânsito, um caos se instaurou por aqui, fãs estão lotando a frente do hospital, algumas fingindo algum tipo de anormalidade para entrarem e verem o ídolo.
— Meu Deus! — Eu respondi, assustada. — Eu realmente não fazia ideia da dimensão da fama de Harry.
— O chefe pediu que um helicóptero fosse buscá-lo para facilitar sua chegada ao hospital, mas vamos ter que iniciar a cirurgia sem ele. — Respondeu.
Assenti e pedi que e Vincent fossem buscar o cantor, enquanto eu ia para a sala de cirurgia.
Enquanto lavava minhas mãos, a médica anestesista veio até mim, disse que Harry queria falar comigo antes dela anestesiá-lo. Ele já se encontrava deitado na mesa cirúrgica, estava aparentemente nervoso, bem diferente da figura brincalhona e flertante que conversava comigo minutos atrás.
— Oi, Harry! Tudo bem? — Perguntei, analisando suas feições.
— Doutora , eu confio plenamente na sua capacidade de realização desta cirurgia, mas você poderia me dizer se há alguma chance de perda dos movimentos dos braços? Não ter como tocar algum instrumento, por exemplo? — Ele gesticulava e uma ruga se formou em sua glabela, enquanto ele franzia a testa, não diminuindo em nada a sua beleza.
— Toda cirurgia tem um risco, mas vou fazer o possível para manter a sua mobilidade, não se preocupe quanto a isso. Fisioterapia poderá ajudar muito neste processo também! Vai ficar tudo bem, logo você estará tocando e cantando novamente. Sendo um rockstar. — Eu falei, sorrindo, procurando tranquilizá-lo. — Só se aquieta com o microfone, por favor! — Falei rindo e ele riu também, um pouco sem graça. E respondeu, por fim, um obrigado.
Toquei seus ombros e fiz menção à anestesiologista, indicando que ela poderia dar seguimento. Observei enquanto ela colocava a máscara de oxigênio e pediu para que Harry fizesse a contagem regressiva, ficando completamente adormecido logo em seguida.
Devidamente paramentada, iniciei a cirurgia.
Tudo estava ocorrendo dentro das normalidades, até que Boorman adentrou a sala de cirurgia e causou alvoroço, como já era esperado.
— Então é por essa figura que essas adolescentes estridentes estão aí fora?! — Ele falou do jeito mais arrogantemente possível.
Revirei os olhos e tentei me concentrar no que estava fazendo, ao invés de dar ouvidos às baboseiras dele. Boorman se posicionou ao meu lado e questionou sobre a minha conduta, expliquei a ele o que estava ocorrendo e a dificuldade com alguns tendões do Harry, que já estavam um pouco desgastados devido a uma tendinite. Trocamos algumas informações e ele resolveu ser desagradável novamente.
— Enfermeira Thompson! A senhora sabe quanto esse cara ganha por dia?
— Não. — Ela respondeu.
— Cinquenta mil Euros, no mínimo. — Ele falou pausadamente. — E você quanto ganha por plantão? — Voltou a questioná-la.
Thompson ficou visivelmente constrangida e preferiu não responder. Foi quando vi que deveria tomar as rédeas da situação. Sem nenhum resquício de paciência, falei incisiva:
— Se você mencionar esse assunto novamente, vou pedir que você se retire da sala de cirurgia.
— Você é maluca, ? — Ele me olhou com deboche. — Está mesmo defendendo esse moleque?
Perfeitamente normal um homem machista como ele taxar uma mulher de maluca. Só estava me impondo...
— Quanto tempo você demorou para pagar seu financiamento estudantil, hein? Ah, deixa eu ver! — Ele fez uma cara de quem estava pensativo. — Você ainda não terminou. — E riu.
Meu sangue ferveu e aquele momento foi a gota d'água para mim.
— Chega! Você não vê o quanto é desnecessário? Não me importa quem ele é, o quanto ganha, o que faz e o que deixa de fazer. Quando chega nesse hospital, é só mais um paciente como outro qualquer. Você é um ser cheio de soberba e arrogância, quero você fora da minha sala de cirurgia, AGORA! — Gritei, sentindo todos os meus músculos das pernas tremerem.
— Você não pode estar fazendo isso, ! — Ele deu um risinho, ainda mais debochado.
— Não só posso, como estou exigindo. Se você não sair agora, eu vou ser obrigada a chamar os seguranças, então, por favor, utilize o resto de decência que você tem e saia dessa sala de cirurgia. Por favor! — Implorei.
Boorman se retirou a contragosto, xingando até a minha sétima geração. Respirei fundo mais uma vez e me concentrei em conduzir a cirurgia da melhor forma possível.
A cirurgia durou mais algumas horas, mas, graças a Deus, sem nenhuma outra intercorrência. Harry havia sido levado para um quarto de estabilização, onde permanecia dormindo sob efeito da anestesia. Eu me encontrava exausta após a cirurgia e todo estresse que tive nela, Boorman era um idiota e sabia que essa história ainda não tinha acabado, ele ia querer a minha caveira.
Lavava minhas mãos, enquanto percebia se aproximando.
, você está bem?
Assenti e dei um meio sorriso não convincente.
— Ele é um idiota, ! A cirurgia foi um sucesso, não deixe que Boorman possa te afetar.
— Estou bem, ! É sério. — Respondi, fechando a torneira e em seguida secando minhas mãos.
— Tudo bem! — Ela falou, mesmo sabendo que eu ainda não estava bem. me conhecia o suficiente para saber que não queria falar sobre esse assunto agora.
— A família dele está te esperando, o restante da banda também está aí, parecem bem preocupados. — Ela falou, por fim.
Saí do centro cirúrgico e me direcionei à sala de espera, avistei de longe uma senhora com uma expressão chorosa, junto com ela uma moça que aparentava ter mais ou menos a minha idade, a cabeça estava apoiada no ombro da mais velha. Pela fisionomia, imaginei que pudessem ser mãe e irmã de Harry, eles eram bem parecidos, pois pude reconhecer alguns traços do cantor em seus semblantes.
Os integrantes da boyband estavam sentados na poltrona mais à frente, eles tinham expressões cansadas nos rostos, pareciam como médicos após um plantão exaustivo.
Empurrei a porta de vidro e as duas mulheres se levantaram com rapidez, enquanto os outros meninos observavam atentamente a cena.
— Olá! Imagino que sejam familiares de Harry. — Falei, enquanto todos os presentes me fitavam.
— Bom, correu tudo bem na cirurgia, algumas complicações devido a uma tendinite já preexistente, mas conseguimos corrigir. — Falei, satisfeita.
— Muito obrigada! — A mais velha me abraçou com força e soltou alguns soluços. — Serei eternamente grata a você! — Ela tinha um cheiro doce, lembrava-me alguma memória da infância e despertava a sensação de nostalgia. Afastou-se com delicadeza e eu sorri de maneira fraterna em menção ao seu agradecimento. — Doutora ... — ela falou, olhando para o nome no meu jaleco. — Não nos apresentamos, me desculpe! Me chamo Anne, sou mãe do Harry. — Ela falou, secando as lágrimas com as pontas dos dedos. — Esta é minha filha, Gemma. — Apontou para moça bonita e elegante ao seu lado.
— Doutora, quando poderemos vê-lo? — Gemma perguntou.
— Assim que ele acordar, ainda está sob efeito da anestesia. Vou pedir que chamem vocês assim que isso acontecer! — Olhei para o fundo da sala e vi os integrantes da banda com os olhares atentos. Resolvi tirar uma onda com a cara deles. — Então! Vocês são os responsáveis por esse alvoroço neste hospital? — Falei seriamente. Eles franziram o cenho e eu me permiti rir. — Tudo bem, mas tomem cuidado com microfones. — Eu falei, risonha.
— Só o Harry é desastrado o suficiente para tropeçar em um microfone e quase morrer. — Um garoto loirinho respondeu. — Ai! — Reclamou em seguida, enquanto levava um beliscão de um outro integrante da banda.
Saí da sala de espera e subi em direção à sala do chefe, sabia que precisava conversar com ele sobre o ocorrido na sala de cirurgia. No caminho, enviei uma mensagem para , pedindo para que assim que Harry acordasse, avisasse a família dele para que pudessem vê-lo.
Dei duas batidinhas na porta e escutei a voz de doutor Parckman pedindo para que eu entrasse.
— Doutora ! Sente-se. — Ele apontou para a cadeira em sua frente. — Como foi a cirurgia? — Ele perguntou, enquanto tirava os óculos de leitura e os apoiava sobre a mesa.
— Tudo como o esperado! Tenho 98% de certeza que ele não terá nenhum problema de mobilidade ou alguma intercorrência do tipo. — Falei, satisfeita. Contudo, continuei pausadamente. — Você já deve estar sabendo de meu desentendimento com doutor Boorman na sala de cirurgia, não é mesmo?
— Sim. — Ele respondeu. — Eu escutei o lado dele, agora preciso ouvir o seu.
Umedeci os lábios antes de dar continuidade e expliquei o que havia ocorrido na sala de cirurgia, o quanto acreditava que Boorman havia agido de forma errada, desrespeitando o juramento médico e sendo totalmente antiético. Doutor Parckman esperou que eu terminasse meus argumentos e continuou.
— Doutora , diante dos fatos apresentados, sei que seu posicionamento foi o correto, porém, você sabe o quanto doutor Boorman é influente junto ao conselho médico. Ele não vai parar até que você seja demitida ou sua licença cassada.
Sabia bem com quem estava lidando, mas era um fato maluco ter minha licença cassada por ter agido da forma correta. Ser mulher, médica e cirurgiã, onde somente homens recebiam o maior destaque, já imaginava que teria que lidar com esse tipo de situação. Naquele momento, procurei buscar por alguma força interna e lembrei da citação de um livro de poemas que li um tempo atrás: “Ser mulher é estar pronta para guerra, sabendo que todas as probabilidades estão contra você e nunca desistir, apesar disso”.
Doutor Parckman aconselhou-me a procurar por testemunhas, caso precisasse responder sobre o ocorrido. Pediu ainda que preparasse para responder o boletim médico que seria liberado à imprensa, informando o quadro de saúde médica do cantor. Por fim, despedimo-nos e agradeci, retirando-me de sua sala.
Caminhei pelos corredores frios do hospital até o quarto de Harry. Ele já havia despertado e estava com sua família e os amigos no quarto.
Dei batidinhas na porta, informando a minha chegada, e vi as covinhas de Harry se formarem junto a um sorriso terno.
Doutora! — Ele falou, alegre.
Rockstar! — Respondi em seguida.
Aproximei-me da cama, ficando ao seu lado para que pudesse analisá-lo e verificar se estava tudo bem após a cirurgia.
— Como você está? Dor em algum lugar? — Perguntei, acendendo minha lanterna clínica e colocando sobre suas pupilas para ver se encontrava algum sinal de anormalidade.
— Estou bem. Você ajeitou meus ossos. Obrigado!
Sorri diante da brincadeira de Harry e todos os presentes também deram risinhos, ouvi ao fundo um dos meninos dizendo que eu havia esquecido de ajustar os parafusos soltos da cabeça de Harry.
— Você já conheceu minha galera? — Ele perguntou.
— Sim! — Respondi, enquanto pegava meu estetoscópio e colocava sobre o peito do rapaz.
— Sua mãe e sua irmã são uns amores, já esses meninos... — falei, apontando para os garotos, que me olhavam assustados do canto do quarto. — Eles causaram um alvoroço neste hospital. Estão proibidos de entrarem aqui novamente! — Falei em tom de brincadeira e eles riram.
Na ausculta respiratória, percebi alguns sibilos, característicos de asma. E questionei:
— Você tem asma?
— Sim, mas faz tempo que não tenho nenhuma crise.
Anne me olhou preocupada.
— Acho que uma se aproxima... — respondi. — Vou prescrever uma medicação. Por enquanto, você está em observação pós-cirurgia.
Harry me interrompeu, dizendo:
— Temos um show no dia trinta e um, sábado, é o último antes da pausa.
Eu o olhei atenta, enquanto refletia “Que pausa? Eles estão se separando?”
— Bom, primeiro você se recupera, depois o show. — Falei, afastando-me sob os murmúrios e arfadas preocupadas dos familiares e amigos.



Capítulo 2

“There's something in the way she moves;
Or looks my way;
Or calls my name;
That seems to leave this troubled world behind.”

Something in the Way She Moves – James Taylor

Harry's POV:

saiu da sala e o clima ficou quieto demais. Eu estava pensativo sobre o que tinha acontecido, fui idiota o suficiente de tropeçar em um microfone e estragar tudo.
Gemma veio até mim e me abraçou.
— Tá tudo bem, irmãozinho! O importante é que você está bem. É só uma crise asmática. Repouso correto e vai ficar bem, você ouviu a .
— É, Harry. — Louis falou e os outros dois concordaram com a cabeça. — Estamos juntos. Somos o melhor time que o mundo já viu! — Ele fez um trocadilho com a música History do último álbum, o que me fez soltar um risinho abafado.
Quando o horário de visitas encerrou, os meninos foram embora e eu aproveitei esse tempo para descansar e dormir um pouco, os remédios e anestesia haviam me deixado um pouco grogue e sonolento.
Ao acordar, encontrei um recado da minha mãe e Gemma, avisando que elas tinham ido pegar algumas roupas no hotel, afinal de contas, não sabíamos quanto tempo ainda ficaríamos no hospital até eu receber alta.
Estava com vontade de fazer xixi, o que havia acabado de se tornar uma tarefa um pouco complicada, pois só podia movimentar um braço. Desci da cama e avistei através do vidro, entrando no quarto.
Rockstar! Você não está pensando em fugir, né? — Ela falou com um tom engraçado.
Aaaah, não! Você me pegou! — Respondi, colocando uma das mãos na cabeça e entrando na brincadeira. — Só estou tentando ir ao banheiro!
— Número um ou dois? Quer ajuda? — perguntou.
Droga, cadê a Anne? Isso estava se tornando um pouco constrangedor.
— É xixi e acho que eu consigo sozinho. Obrigado! — Respondi, envergonhado.
— Tudo bem! — Ela falou, ajudando-me a descer da cama.
— Se precisar, é só chamar, eu aguardo aqui. — Ela abriu a porta do banheiro e ficou esperando até que eu passasse por ela, trajando meu modelito clássico de hospital.
Não sei, de fato, qual seria o problema em aceitar a ajuda de , era a profissão dela e provavelmente já estava acostumada a lidar com esse tipo de situação, mas não era todo dia que eu saía por aí com uma roupa de hospital, pelado e com a bunda de fora.
Consegui fazer xixi sozinho, utilizando somente a mão esquerda. Não foi tão difícil quanto eu pensei, pois eu tinha algumas habilidades ambidestras.
Voltei ao quarto e estava sentada na poltrona de visitas, fazendo algumas anotações na prancheta. Ela se levantou e ajudou-me a sentar na cama novamente.
— Como você está sentindo? Seu braço dói? — Ela perguntou, curiosa.
— Um pouco, de vez em quando dá umas fisgadas. — Respondi.
— Dor é um sintoma normal no pós-operatório, vou prescrever algumas medicações anti-inflamatórias... Você já fez cocô? — Ela perguntou.
— Não! Só xixi.
Por que diabos estava tão preocupada com meus dejetos, será que isso faz parte de algum protocolo para alta?
— Ok.
Observei-a enquanto ela fazia anotações em sua prancheta. tinha uma expressão cansada no rosto e algumas bolsinhas de olheiras que começam a se formar embaixo de seus olhos, imaginei que ela já estive há algumas horas sem dormir. O cabelo estava preso em um rabo de cavalo mal feito e ela mordia levemente os seus lábios, enquanto se concentrava em escrever suas anotações. Ela era bonita, bem diferente das pessoas com as quais eu costumava me relacionar, mas algum aspecto nela me chamava atenção.
— Então... — ela começou, despertando-me dos meus pensamentos. — Vou pedir para trazerem seu jantar, algumas fibras serão inclusas na sua alimentação para ajudar na evacuação. É normal que após a anestesia surja uma constipação intestinal. — Ela pegou um pequeno tablet do seu bolso e deu alguns cliques. — Ah, espero que você goste de gelatina de ameixa! — Ela falou, risonha. Gostava do seu ar engraçado e da forma como ela tentava deixar as coisas mais leves.
— Não é a sobremesa que eu escolheria para comer, mas é o que temos para hoje. — Respondi.
Ela assentiu.
— Você não vai para casa? — Eu perguntei.
— Sua equipe fez uma solicitação ao hospital para que eu ficasse em dedicação exclusiva a você. Estou aguardando sua família voltar e quando eles chegarem, eu irei. Volto amanhã, para liberar sua alta... Se você estiver melhor, é claro!
Assenti.
— Vão trazer o seu jantar daqui a pouco, já solicitei. — Ela sentou novamente na cadeira de acompanhante e prostrei a observá-la, curioso.
— Você sempre quis ser médica? — Perguntei despropositadamente.
Ela levantou a cabeça e me olhou surpresa, soltando um risinho pelo nariz. Imaginei que essa não era uma pergunta muito feita por seus pacientes, geralmente preocupados em saber seus estados de saúde.
— Essa não é uma história muito feliz, como as pessoas podem imaginar. — Ela falou de forma espontânea e pensei que talvez não deveria ter tocado nesse assunto. — Minha mãe morreu em um acidente de carro quando eu tinha seis anos de idade. Decidi ser médica para ajudar a salvar vidas, nem sempre eu consigo, mas eu sempre tento! — Ela gesticulava de forma leve e calma, transparecendo toda a leveza que nela existia.
Senti-me profundamente envergonhado por tê-la feito tocar nesse assunto.
— Me desculpa, de verdade! — Eu falei, envergonhado.
— Tudo bem. — Ela disse, serena. — Não dói tanto como antigamente e você não sabia. Fica tranquilo! — Respondeu.
Seu celular tocou e ela atendeu rapidamente, dizendo que ainda estava hospital, mas que voltaria para casa assim que pudesse. Quem seria? Imaginei que talvez alguém estivesse esperando por ela, sentindo sua falta e a desejando em casa, enquanto ela estava cuidando de mim.
Senti-me grato e um pouco aflito por ela ainda estar aqui, visivelmente cansada.
Ela desligou e guardou o telefone no bolso do jaleco.
— Era minha tia, . Queria saber se eu já voltei para casa, sempre muito preocupada... — ela falou, risonha.
Então era a tia, não o marido ou namorado...
Confesso que senti um pequeno alívio com essa informação.
— Obrigado, ! De verdade!
Ela ficou me olhando com a expressão confusa e completei:
— Por estar cuidando de mim e por ter ajeitado meus ossos.
Ela riu.
— Eu sou boa em ajeitar ossos, mas só fiz o que faria por qualquer paciente meu, não se sinta tão privilegiado assim. De qualquer forma, aceito seu agradecimento!
Eu sorri, sincero.
— Você mora com a sua tia? — Indaguei, procurando saber um pouco mais sobre a médica sentada em minha frente.
— Não, ela mora a umas duas quadras do meu apartamento e invade ele sempre para saber se estou bem. — Respondeu, umedecendo os lábios antes de dar continuidade ao assunto e falar. — Não é minha tia de sangue, mas ela assumiu a minha guarda depois que minha mãe morreu. Elas eram muito amigas, tinham um grupo musical nos anos setenta. — Ela sorriu, enquanto se ajeitava confortavelmente na poltrona.
Observei atento a forma como ela falava sobre sua vida, era raro eu ter a oportunidade de conhecer pessoas como , já que estava constantemente cercado de pessoas do meio artístico.
— Toda família da minha mãe morava no Brasil, mas ela sempre disse que se algo acontecesse com ela, gostaria que a cuidasse de mim e assim foi. — Ela suspirou, finalizando. — Ah! E meu pai? Bom, eu nunca soube nada dele. — Ela falou com naturalidade. — E essa é minha história! — E você, Rockstar? — Ela perguntou.
Havia gostado do apelido que tinha me dado. Era engraçado ela me chamar de astro do rock, enquanto as nossas músicas se enquadravam em um estilo pop.
— O que fazia antes de estar em uma banda e fazer adolescentes gritarem? — Ela falou com um sorrisinho bobo nos lábios.
— Eu trabalhava em uma padaria, em Holmes Chapel. Me inscrevi em um programa chamado X-Factor, de repente estava com mais quatro caras que eu não conhecia cantando pelo mundo. Foi divertido! — Eu falei, lembrando-me que estávamos chegando ao fim, mesmo que tentássemos enganar a nós mesmos.
Foi? — Ela perguntou. — Você mencionou algo sobre último show. — Ela franziu o cenho.
— Sim, vamos dar uma pausa. Dezoito meses, até então. — Respondi com sinceridade.
— Bom, essa pausa é tipo férias ou é tipo aqueles casais que não se suportam mais, decidem dar um tempo e nunca mais se veem na vida?
— Ainda não sabemos. — Mordi meus lábios, enquanto pensava. — Ficamos cinco anos ininterruptos viajando pelo mundo e cantando, estamos um pouco cansados. — Respondi, suspirando.
Enquanto conversávamos, uma senhora entrou no quarto empurrando um carrinho com bandejas. Ela nos cumprimentou e ajudou a ajustar a cama, serviu o jantar, que era macarrão e frango cortado em cubinhos. A sobremesa, como já havia mencionado: gelatina de ameixa.
— Espero que goste! — A senhora disse, sorridente, e se despediu, deixando uma bandejinha de salada para .
O fato de ser ambidestro mais uma vez me auxiliou, consegui comer somente com a mão esquerda, a gelatina de ameixa era muito melhor do que eu conseguia imaginar.
— Essa gelatina é uma das melhores sobremesas que eu já comi. — Eu falei, raspando o potinho e lambendo a colher, saboreando a sobremesa.
— Realmente é incrível! Mas... — ela deu uma pausa de suspense. — Não se compara aos doces da . Você precisa experimentar! — Ela falou, divertida.
— Sério? Adoraria conhecê-la. — Falei, sorrindo e obeservando a cara surpresa de . — Você falou com tanto carinho dela, agradeceria pessoalmente por ela ter criado alguém que conserta ossos tão habilidosamente.
Ela riu.
— Você vai falar para sempre isso? — Perguntou, parecendo levemente ruborizada.
— Sim, todos precisam saber da sua precisão cirúrgica.
tinha uma risada engraçada, era alta e parecia uma sirene de ambulância, era aquele tipo de pessoa que sorria com os olhos, que automaticamente fechavam-se enquanto ela soltava uma gargalhada. Era um tanto quanto encantador adorá-la.
Aah... você pode ir até a floricultura dela, ela adora receber visitas. — Ela disse, simplesmente. — Ela vai mimar você, analisar a sua áurea e te preparar um chá.
— Nossa! Isso de fato acaba se tornar deveras interessante. Sempre quis ter uma floricultura! — Falei surpreso.
— Você? Uma floricultura? Sério, Rockstar? — Ela parecia surpresa também.
— Sim, qual o problema? — Perguntei risonho e fazendo cara de ofendido.
— Tá na cara que você nasceu para fazer o que faz. Eu nunca te ouvi cantar ou tocar, mas seu desespero no bloco cirúrgico perguntando-me se a fratura impediria você de tocar, me fez ver que você está onde deveria estar. Você pode ir para Holmes Chapel depois do seu último show com a banda, mas seu amor pela música vai fazer com que você volte com ou sem seus amigos.
tinha razão.
— Ok, mas ainda assim, gostaria de conhecê-la. — Falei e ela soltou um risinho abafado.
Vi a silhueta de Anne se formando na porta de vidro e ela entrou estabanada, carregando algumas sacolas.
— Doutora ! Me desculpe. Enfrentamos um engarrafamento horrível. — Ela disse, enquanto depositava as sacolas em cima do pequeno sofá azul que se encontrava no quarto. — Ainda tem algumas fãs pela entrada do hospital, Paul lançou uma nota pedindo que elas se retirem para facilitar a chegada dos médicos e pacientes. — Explicou meio apreensiva.
— Sem problemas! Conversamos bastante, foi divertido! — Ela disse com um sorriso meigo no rosto.
Anne agradeceu e se despediu, deixando-nos a sós.
— Você está bem, querido? — Anne perguntou pela terceira vez desde que chegou, eu já estava meio sonolento.
— Sim! — Respondi, limpando um filete de baba que escorria pela minha boca.
— Doutora é um anjo! — Ela disse, puxando assunto.
— Sim, ela é. — Respondi.
— Serei eternamente grata a tudo que ela fez por você, querido! — Anne me olhou e pude ver seus olhos lacrimejando novamente. — Quando saiu na mídia que você tinha se machucado, falaram tanta coisa, alguns sites noticiaram sua morte. Eu quase morri, Harry. — Ela fungou e continuou. — Só consegui me acalmar quando falei com Jude e ela me disse seu real estado de saúde.
— Mãe... — toquei suas mãos com suavidade. — Você sabe que esses sites não são fontes confiáveis, eu só quebrei o braço. — Respondi.
— Eu sei, meu amor, mas fazia tanto tempo que não te via. — Ela pegou em meu rosto e ficamos nos olhando. — Fiquei com tanto medo de perder você! — Ela me abraçou ainda chorosa e ficamos um tempo sentindo um ao outro, até que eu peguei no sono.



Capítulo 3

“All that I know;
Is you caught me at the right time;
Keep me in your glow;
'Cause I'm having such a good time;
With you.”

Golden Hour – Kacey Musgraves

's POV:

Acordei com o despertador tocando insistentemente e senti um cheiro de incenso misturado com café, imaginei que novamente tivesse invadido meu apartamento com a desculpa de que eu não me alimentava direito e ela precisa vir até aqui cozinhar algo decente para mim.
Espreguicei-me e me xinguei internamente por ter ficado acordada ou invés de ter ido dormir assim que cheguei em casa na noite anterior, mas a ideia de procurar pelo nome de “Harry Styles” no Google e pesquisar um pouco mais sobre quem ele era, pareceu-me mais atrativa.
Respirei fundo e levantei, precisava tomar um banho quente para me ajudar a acordar.
Montei um look básico com jeans, t-shirt e uma botinha de cano curto, logo ia trocar pelo uniforme do hospital, então não faria muita diferença. Organizei minha bolsa e fui para cozinha, encontrando com a mesa posta, servindo-se de uma xícara de chá.
— Bom dia, dona ! Você decidiu invadir meu apartamento novamente. — Falei para ela, enquanto fazia carinho em Federico, que vinha se esfregando entre as minhas pernas e ronronando alto.
— Você some! Não se alimenta direito, eu faço o que posso. — Ela disse, fingindo estar brava.
— Obrigada! — Eu a abracei. — Não sei o que seria de mim sem você, mas, de verdade, não precisava se preocupar tanto! — Falei, enquanto tomava um gole de café.
— Você costumava ser menos mal-agradecida. — Ela respondeu, emburrada.
Revirei olhos e soltei um risinho pela sessão de drama que ela estava fazendo.
— Me desculpe, continue invadindo a minha casa e preparando comidas maravilhosas para mim. — Falei, enquanto mordia um pedaço panqueca.
— Então, como você está? Vi o hospital no noticiário, o rapaz daquela boyband famosa foi para lá, né?!
Fiquei surpresa de que conhecia a banda de Harry, pelo amor da Deusa, em que mundo eu vivia que não o conhecia?
Engoli e respondi:
— Sim, eu operei ele.
Aah! Correu tudo bem? — Ela perguntou com curiosidade.
— Sim, ele sofreu uma fratura exposta no antebraço direito. — Respondi, enquanto passava meu dedo indicador sobre o meu pulso, indicando exatamente onde tinha sido o local da fratura.
Ela me olhava atenta e transparência serenidade em suas feições, ela era uma senhorinha fofa com as bochechas rosadas, meio bruxa e mística, que costumava encontrar a cura para qualquer coisa em suas plantinhas e ervas. Possuía uma intuição impecável, o que chegava a dar um pouco de medo de vez em quando.
— Ele é um bom rapaz, tem um coração puro. — Ela falou e uma brisa leve entrou pela sacada, deixando um cheirinho doce no ar e tive um leve formigamento na barriga.
bebericava seu chá e tinha um leve sorrisinho nos lábios.
— Eu sei o que você está pensando. — Falei, ela depositou a xícara levemente sobre o pires e me olhou.
— Não sou eu. — Ela disse.
— Seus mentores espirituais, você... Sei lá. Ele é um bebê, ! E é meu paciente ainda por cima. — Falei tentando parecer indignada.
— Você já vai dar alta a ele, não é mesmo? — Ela quis saber.
— Se estiver tudo bem, sim. — Respondi, séria.
— Então, diga a ele que estou no aguardo da visita dele. — Ela falou risonha.
Não lembro de ter mencionado a o desejo de Harry em conhecê-la, mas pelo visto nem precisava. Não me surpreendia mais com a sensitividade dela, era algo comum desde sempre, mas era bem ruim ter que esconder alguma coisa dela e não poder. Quando era mais nova, questionava o porquê de ela não ter tido nenhum pressentimento de que o acidente com minha mãe aconteceria, mas ela dizia que sua intuição era um dom e não um poder, por isso, não se podia invocá-la ou controlá-la.
Levantei-me e fui até o sofá onde tinha deixado o meu casaco. Agradeci a ela mais uma vez pelo café da manhã, despedimo-nos e retornei ao hospital.
O caminho até o hospital foi tranquilo, a aglomeração das fãs na entrada do hospital havia diminuído expressivamente. Pelo visto, a nota publicada pela equipe de Harry havia surtido efeito.
Ao entrar no elevador, avistei Jude e um outro homem vindo em minha direção. Segurei o elevador para que eles entrassem e sorri amarelo.
— Olá, doutora ! Como está? — Jude falou, forçando um sorriso. — Este é Joseph... — ela apontou para o homem ao seu lado. — Nós fazemos parte da gestão da banda.
Observei os dois e a energia que eles emanavam era horrível, causava uma sensação pesada ao ambiente, desejei profundamente que o elevador chegasse rapidamente ao andar superior.
— Estou bem e vocês? — Perguntei.
— Viemos falar sobre o Harry. — Ela falou, enquanto finalmente chegamos ao andar onde iria ficar.
Desci e me virei para os dois, esperando que eles continuassem.
— Qual o quadro dele? Terá alta hoje? — Perguntou Jude.
— Então, eu acabei de chegar. Preciso vê-lo, checar o quadro clínico. Até ontem à noite estava bem, com início de uma crise de asma, mas bem.
— Asma? — Ela me interrompeu, direcionando suas duas mãos à cabeça. — Temos um show no sábado, é o último antes do hiato.
Senti raiva e vontade de mandar aqueles dois para longe dali.
— Suponho que a saúde do meu paciente seja mais importante do que um show.
O cara ao lado de Jude riu, o que me fez ter mais raiva ainda dessa situação.
— Contratos foram assinados e tem muita coisa em jogo, além de fãs desesperadas. — Jude falou com a voz um pouco alterada.
— Bom, como já falei, preciso checá-lo antes de liberar a alta. É o meu nome que está em jogo. Se vocês não se importam, eu preciso ir. — Virei-me e andei em direção ao vestiário.
estava no vestiário conversando com algumas internas sobre o assunto do momento naquele hospital. Algumas fãs haviam fingindo passarem mal para ver se encontravam com Harry pelos corredores. Ouvi quando as internas começaram a discutir sobre quem era o mais bonito da banda e coisas relacionadas a isso.
Passei por elas e disse “oi”, troquei minha roupa pelo meu uniforme de trabalho e percebi vindo até mim.
— Que cara é essa? Algum problema?!
Eu arfei e respondi.
— Dois idiotas, ratos inescrupulosos da gestão do Harry, vieram saber como ele tá, pressionando a liberação da alta. — Senti meu sangue subindo novamente. — Adivinha só? Ele tem um show no sábado. O último show antes do hiato da banda.
fez uma cara triste e falou:
— Eu não queria estar no lugar desses meninos. Coitados!
Eu assenti.
— O que você vai fazer hoje à noite? — Perguntei, mudando de assunto, enquanto tentava me acalmar.
— Nada, sentar em frente à TV com um vinho e uma pizza gigante. — Ela respondeu.
— Quer companhia? — Eu perguntei, sorridente.
— Sim, vai ser ótimo!

e eu fomos juntas conversando até a porta do quarto de Harry, ela foi checar seus pacientes do dia, enquanto eu precisava cuidar apenas de um, por enquanto. Dei duas batinhas da porta e a voz suave de Anne pediu para eu entrasse. Ela usava um lindo vestido floral e a presença deles dois contagiava o ambiente. As sensações energéticas percebidas ali eram totalmente diferentes das vivenciadas minutos atrás.
— Olá! Voltei. Como estão? — Falei feliz, sendo contagiada pela energia do ambiente.
— Bem, querida doutora! E você? Conseguiu descansar? — Anne perguntou amorosa.
— Sim! Obrigada! — Falei, enquanto me direcionava a Harry.
Ele sorria também, suas feições ainda estavam um pouco cansadas e imaginei que não tivesse dormido tão bem. O cabelo grande estava um emaranhado de fios bagunçados, que lembravam ao meu quando eu acordava.
— Você dormiu bem? — Perguntei., posicionando-me ao seu lado.
— Não muito! Dormi e acordei no meio da noite, não consegui mais pregar o olho depois.
— Ansiedade? — Questionei.
— Talvez. — Ele respondeu, pensativo.
— Você costuma tomar alguma medicação para dormir? — Perguntei analisando suas feições.
Vi Harry abaixar a cabeça e Anne olhar de soslaio, trocando suas feições harmoniosas por feições preocupadas.
— Às vezes sim, é uma rotina de shows muito intensa, nem sempre que saio do palco estou com sono, mas preciso dormir e acordar cedo no outro dia.
Eu entendia bem o que era aquilo, não tinha uma rotina fácil no hospital, no início da carreira também usei alguns medicamentos para dormir, mas com o tempo comecei a trocá-los por meditações e florais.
Puxei um frasquinho do bolso e entreguei a ele.
— É um floral de lavanda, uma gotinha num copo com água, tome antes de deitar e inspira o cheirinho do óleo, você vai dormir a noite toda.
Ele ficou olhando o frasquinho com curiosidade e provavelmente pensando que não faria efeito.
— Não sabia que além de ajeitar ossos, você era médica naturalista.
— Harry, você não leva a sério as coisas. — Anne falou, brava.
Eu soltei um risinho abafado.
— Não tenho especialização em naturopatia, ainda, mas aprendi muitas coisas com a e por experiência própria sei que os florais funcionam.
Ele assentiu.
Peguei meu estetoscópio e pedi para Harry inspirar e expirar, ainda foi possível observar alguns sibilos, mas a medicação havia ajudado a diminuí-los.
— Você sentiu dor? — Falei, enquanto retirava o estetoscópio do ouvido.
— Não desde que tomei o remédio.
— Hoje é a sua primeira troca de curativo, eu vou verificar como está a cicatrização e ensinar como deve ser feito. — Falei, olhando para Anne também. — Vou verificar os seus exames, se tudo tiver “ok”, libero a sua alta até o horário do almoço. Sua gestão está em cima de mim, o show precisa continuar. Pelo visto... — vi Anne de soslaio revirar os olhos.
— Doutora , se meu filho não estiver bem, por favor, não o libere para show nenhum! — Ela falou, brava.
— Não, é claro que não! É o meu nome, se acontecer alguma coisa com o Harry, é em mim que vai respingar. Se estiver bem, liberarei com restrições e minhas exigências.
Ela respirou aliviada e me olhou satisfeita.
— Estou bem, doutora! Preciso fazer isso por mim e pelas fãs também. — Harry falou.
Assenti e respondi:
— Bom, é uma decisão que cabe a mim e alta só mediante a análise dos exames. Eu vou, mas volto. — Falei, retirando-me.
Fiz o percurso do quarto de Harry até o laboratório do hospital, peguei os resultados dos exames e pude analisar que todos estavam dentro das normalidades, comecei a preencher o boletim de alta hospitalar, checando item por item e marcando-os com um “x”. Solicitei à enfermeira Thompson a ajuda na troca de curativo de Harry, precisávamos ensiná-los como o mesmo deveria ser feito e quais os cuidados deveriam ser tomados.
Harry e Anne estavam nos esperando quando chegamos no quarto. A enfermeira Thompson entrou empurrando o carrinho com os materiais que iríamos utilizar no curativo, enquanto eu terminava as anotações em minha prancheta e me preparava para iniciar o procedimento.
— Bom... — direcionei meu olhar à Anne e ela se aproximou. — Não sei se vocês vão contratar alguém para fazer a troca de curativos, mas vou mostrar como podem fazer, ok?
Ela assentiu.
Direcionei-me a Harry, retirei a tipoia de seu braço e, com delicadeza, comecei a desatar as ataduras que estavam fixas no braço do cantor. Ele observava cada um dos meus movimentos com seus olhos verdes. Desencaixei o gesso que estava alocado para dar sustentação e apoio no braço de Harry, umedeci com soro fisiológico as gazes que cobriam a sutura do braço do cantor e fui tirando uma a uma com cuidado, revelando-se, por fim, os pontos deixados pelo trauma.
— Você teve sorte por dois motivos. — Falei, realizando a assepsia do ferimento e observando-o franzir o cenho. — Número um: — enumerei, levantando o dedo indicador. — Sua fratura foi no braço em que você tem menos tatuagens. Dois: — fiz um leve suspense, enquanto via pelo rabo do olho seu sorriso torto se formando. — Você teve uma fratura do terço distal, que é quando o osso quebra na área do punho. Então, “Things I Can Do” ficou intacta. — Falei, referindo-me à frase tatuada no seu antebraço, finalizando a assepsia e borrifando a medicação na região lesionada.
— Eu posso listar um terceiro motivo! — Ouvi sua voz rouca verbalizar.
Eu o olhei, curiosa, tentando imaginar o que poderia ser.
— Foi você ter consertado os meus ossos. Que sorte eu tive que exatamente neste dia você estava de plantão aqui. — Ele falou, sorrindo, deixando-me levemente ruborizada.
Revirei os olhos, tentando disfarçar o meu rubor, e sussurrei um “obrigada”, enquanto encaixava novamente o gesso e recobria com atadura o braço de Harry. A enfermeira Thompson encaixou a tipoia e ajustou no braço do cantor para que ele se sentisse mais confortável. Ajudei a recolher os resíduos, descartá-los e, em seguida, ela se retirou.
— Bem, seus exames estão todos normais e não vejo motivos para ainda mantê-lo no hospital, já que você se encontra estável. Prescrevi os medicamentos que você deve continuar fazendo uso. — Peguei a folha do receituário e entreguei à Anne, explicando quais eram os medicamentos, para que serviam e quais os horários.
— Qual será o processo daqui para frente, doutora? — Ela quis saber.
— Medicações, curativos que precisam ser trocados diariamente, os pontos do supercílio devem ser retirados com sete dias, posteriormente um médico especialista para fazer um novo raio X e fisioterapia. — Falei, enquanto eles me observavam atentos. — Entenderam? — Eles assentiram e eu sorri. — Bom, então você está livre, Rockstar! Pode ir para o seu último show de turnê, por favor, se comporte no palco! — Falei, risonha.
Harry me lançou um olhar envergonhado por meu comentário e disse:
— Preciso fazer um convite. Como forma de agradecimento, gostaria de convidá-la para assistir ao show no sábado, não sei como está a sua escala de plantão, mas se você puder... Quero que você conheça a One Direction, nem que seja no nosso último show.
Confesso que fui pega de surpresa com o convite, não imaginava que ainda fosse encontrar com Harry depois daquele dia e a ideia de ir até o show de encerramento da turnê não parecia tão ruim.
— Creio que possa trocar minha escala de plantão, caso esteja agendada para o sábado. Posso levar a ? — Lembrei que minha amiga não perdoaria caso não a levasse junto.
— Claro. — Ele respondeu.
— Vai ser um prazer recebê-las. — Anne completou, sorrindo ternamente.
— Ah! Mãe, onde está meu celular? — Harry olhava em volta do quarto, procurando pelo aparelho e Anne entregou-lhe rapidamente. — Você pode me dar o seu número, assim posso lhe passar o restante das informações? — Ele falou, enquanto tentava desbloquear o celular, atrapalhando-se com o braço engessado. — Acho que preciso de ajuda!
Eu ri e me aproximei, enquanto ele entregava o celular à mãe, que anotou o meu número em seguida. Despedi-me e caminhei em direção à recepção para entregar o boletim de alta a Giorgina, auxiliar administrativa do hospital.
— Doutora , o chefe pediu para eu lhe avisar que aguarda você na sala dele. — A mulher de cabelos longos falou, enquanto eu finalizava minha assinatura no prontuário e lhe entregava. — Ok, obrigada! — Respondi educadamente.
Imaginei que o que doutor Parckman quisesse falar comigo estava relacionado ao ocorrido na sala de cirurgia. Ao entrar na sala, ele tinha uma expressão triste e dali para a frente soube que se tratava de um assunto delicado.
— Doutora ! Sente-se, por favor. — Ele apontou para cadeira que estava em sua frente e procurou por um papel que se encontrava em sua gaveta. — Tentei fazer o que podia... — ele começou a verbalizar com um tom de voz abafado. Ele tirou os óculos e massageou as têmporas. — Infelizmente, certas decisões não são tomadas por mim. — Ele falou, entregando-me um papel que constava a minha dispensa do hospital.
Eu analisei o documento e parei para ouvi-lo.
— Doutor Boormam tem uma influência gigantesca no conselho do hospital.
É claro que tinha, o infeliz estava de caso com a presidente, pensei.
— Sinto muito, doutora ! Sei que tomei a decisão errada em obrigá-la a incluí-lo em sua equipe. Posso escrever uma carta de recomendação a você para um outro hospital, contudo, também encerro minhas atividades neste hospital, sei a hora de me retirar.
Olhei-o com seriedade e agradeci pela conduta em saber admitir o seu erro. Não tendo mais nenhum assunto a ser tratado, retirei-me da sala e fui em direção ao vestiário, precisava entregar meu uniforme, crachá e recolher os meus pertences.
Passei uma mensagem para , informando-a que me encontrasse no vestiário. Não demorou para que chegasse e pelo visto a notícia já havia se espalhado pelo hospital, pois a mulher chorava ainda sem acreditar.
, não pode ser verdade! — Ela disse entre soluços.
, está tudo bem! Eu vou conseguir outro emprego. — Falei tentando acalmar minha amiga.
— Boormam é um idiota. Se eu o encontrar por aí, ele me paga! Aquele desgraçado... — ela falou, chorosa.
— Amiga, eu sei que fiz a coisa certa. — Falei olhando em seus olhos. — Eu estou saindo de cabeça erguida. Vai ficar tudo bem, eu prometo! — Falei, enquanto esticava meu dedo mindinho na direção dela e esperava que ela retornasse o gesto. — Eu preciso ir! — Dizia, enquanto fechava a porta do armário. — Aaah! Preciso te contar uma coisa! — Falei, saltitante. — Lembrei que ainda não havia comentado com sobre o convite de Harry para o show.
— O quê? — Ela fungou e percebi que ela havia arregalado seus grandes olhos castanhos e enxugava suas lágrimas com as costas das mãos.
— Harry me convidou para o show da One Direction no sábado.
ficou com a boca aberta e logo em seguida fez um pequeno bico em seus lábios.
— Eu consegui ingresso para você também.
abriu um sorriso gigantesco e disse:
— Achei que você ia me deixar fora desse grande evento.

Saí do hospital e andei em direção ao carro, que estava estacionado em frente ao local. Permiti-me dar uma última olhada na fachada daquele lugar, antes de dar partida no carro e ir embora. Respirei fundo e agradeci mentalmente pela oportunidade de ter trabalhado ali.
Decidi que iria até a casa de , precisava do seu abraço e café docinho. Estava me sentindo mais injustiçada do que triste, mas tudo bem, era só uma questão de tempo até encontrar um novo emprego.
Pensei nas coisas que poderia fazer no meu tempo livre, ajudar em algum projeto social, talvez terminar a minha tese de doutorado, quem sabe?!
Enquanto dirigia até a casa de , ouvia música em alguma estação de rádio qualquer, quando reconheci um sotaque britânico familiar entre as vozes cantantes na melodia. Era Harry e não pude deixar de esboçar um pequeno sorriso.

And if you like having secret little rendez-vous;
If you like to do the things you know that we shouldn’t do;
Baby, I'm perfect;
Baby, I'm perfect for you!

Apesar da música ser um estilo no qual eu não costumava escutar, não era uma música ruim e pude imaginar o porquê de eles fazerem tanto sucesso.
Estacionei em frente à floricultura de e desci do carro, indo em direção ao lugar. A floricultura de era o lugar mais aconchegante que existia na Inglaterra todinha. As paredes da fachada da loja eram feitas de tijolinhos rústicos e flores trepadeiras cresciam sobre eles. No painel de vidro, era possível a visualização interna do local, nele estava escrito a seguinte frase: “Flores não resolvem todos os problemas do mundo, mas elas são um grande começo”.
Entrei na loja e o sininho que indicava a chegada de clientes tocou, cumprimentei Loren, funcionária da The Garden, enquanto observava os lindos arranjos que ocupavam o centro da loja; a sensação olfativa ali naquele local era incrível e eu sempre me surpreendia, mesmo que já tivesse entrado diversas vezes ali. Vi saindo da pequena estufa no final da loja e vindo em minha direção apressada, ela carregava uma cesta de morangos vermelhinhos, imaginei que ela havia acabado de colhê-los.
— Enfim você chegou! — Ela falou, sorrindo, não parecendo nenhum pouco surpresa com minha presença ali no meio do dia. — Esses morangos estão bem docinhos, acabei de colher. Você quer? — Ela continuou falando faceiramente, enquanto me entregava um morango e eu mordia, sentindo a explosão de sabores em minha boca. Era um sabor inigualável!
— Fui demitida! — Falei, enquanto terminava de engolir o morango.
fez um barulho como “oh, sinto muito” e deu um sorriso de canto logo depois.
— Você sabe que não foi sua culpa, né?
Assenti, chupando o morango e me impressionando novamente em como eles conseguiam ser tão doces.
— És uma excelente profissional e vai fazer a diferença onde quer que você esteja! — Ela completou, colocando seu sorriso largo e confiante no rosto.
— Obrigada! — Sussurrei, abraçando-a com força.
Não costumava ser uma pessoa muito afetuosa, tive meus medos e traumas desde o acidente envolvendo minha mãe, podia lembrar com nitidez de tudo o que tinha acontecido naquele fatídico dia três de outubro de noventa e quatro; o cheiro de chuva, os trovões fortes e a voz de minha mãe dizendo “Fica tranquila, Ladybug! Já estamos perto da casa de ”. Ver seus olhos castanhos pela última vez através do retrovisor do carro, seguidos de um flash de luz alto e um barulho de buzina de caminhão — eu apaguei, acordei três dias depois no hospital e fui acolhida por , que me criou como uma filha desde então.
Alguns traumas ainda perpetuavam mesmo depois de tanto, como o barulho de trovão em chuva intensa, continuava me fazendo arrepiar todos os pelos do corpo e me fazia ter a sensação de estar novamente no banco de trás daquele carro. Durante muito tempo foi difícil não ter medo, medo de perder as pessoas que eu amava novamente. Continuava fazendo terapia, mas ainda era uma tarefa difícil me envolver amorosamente com alguém.
Felizmente, eu tinha , e, claro, o Federico bigodudo!
Suspirei, enquanto dava uma garfada na quiche de frango.
— Isso aqui está divino! — Falei de boca cheia.
— Você não tem modos, menina! Falando de boca cheia, não foi isso que ensinei para você. — A mais velha reclamou.
— Não tem ninguém estranho aqui! Está só a gente. — Falei, enquanto pegava meu celular piscando em cima da mesa e visualizava a mensagem de um número aparentemente desconhecido.

“Olá, doutora Estranha! Esse é meu número, pode salvar. Preciso dos seus dados e da para colocar na lista! - Harry Xx”


»
Oi, Rockstar! Ouvi você na rádio agora a pouco, fiquei ansiosa para o show. Salvei seu número. Segue em anexo os meus dados e da . Você já aprendeu a usar o celular com o braço engessado? Obrigada! Xx

» Harry
É minha nova habilidade ahahhaha
Ah! Liga mais tarde no canal 77, vou estar em uma entrevista, vou falar de você.

»
De mim? O que eu fiz?

O revirar no estômago que havia sumido desde que vi Harry no hospital tinha acabado de voltar. O que ele iria falar sobre mim?

» Harry
Vou ter que falar sobre o incidente, não tem como falar disso sem falar de você!

Fiquei pensando o que responder, quando percebeu a minha agitação no telefone e perguntou:
— Harry?
Sacudi a cabeça afirmativamente, enquanto respondia a mensagem.

»
Hahaha vou fazer uma pipoca e sentar em frente à TV, essa realmente não posso perder. Cuidado com o microfone! haha

— Eu vou ao show deles no sábado. Ele convidou a e eu. — Falei para , que olhava atenta.
Ela tinha seu sorriso característico nos lábios.
— Você resolveu dar uma chance a ele? — Ela disse, brincalhona.
Revirei os olhos, de fato não acreditava no interesse que achava que Harry tinha por mim, não que eu tivesse algum problema de autoestima ou coisa do tipo. Eu aprendi a ser bem segura de mim, com relação ao meu corpo e a ser quem eu realmente era, só que Harry e eu éramos extremos opostos, mundos diferentes e etc.
— Ainda isso? — Olhei para ela com sorrisinho no rosto. — Não vejo o tipo de relacionamento que tenha futuro.
— É, pode até ser, mas também estou falando de sexo, orgasmo e diversão. Quanto tempo você não faz isso?
Eu gargalhei alto. Não podia acreditar no que eu estava ouvindo.
— Olha, eu não preciso de um homem para me dar prazer! Você me disse isso, lembra, fada feminista?
— Sim, é verdade! Mas se você quer e ele quer, que mal tem? — Ela falou gesticulando, enquanto eu recolhia as louças e as limpava antes de colocá-las na lavadora.
— Olha, eu não sei, tá? A gente nem se viu longe daquele ambiente de hospital e aconteceu tanta coisa. Talvez... mas e você, hein? E o Sr. George?
— Eu não sei daquele velho rabugento. Ele vem todo dia aqui comprar adubo para a roseira da falecida dona Ceci.
— Nossa! Ele deve ter um estoque enorme de adubo na casa dele, porque o único motivo que ele vem aqui é você. — Falei, rindo. — Você deveria dar uma chance para ele também.
— Eu vou voltar para minha floricultura, tenho mais o que fazer do que ficar ouvindo você falando asneiras. — Ela saiu da cozinha, resmungando e retornando à loja.
Peguei meu celular novamente e ao abrir o aplicativo de mensagens, vi uma foto que Harry tinha enviado: ele olhava para um microfone fixado em um pedestal e fazia uma careta engraçada. Diverti-me com a imagem enviada, aconselhei-o novamente a tomar o devido cuidado com o microfone e a não ficar mexendo muito o braço engessado.



Capítulo 4

“Welcome to the final show;
Hope you’re wearing your best clothes.”

Sign of the Times - Harry Styles

31 de outubro de 2015 no último show da turnê mundial “On The Road Again”;
's POV:

O resto da semana até o dia trinta e um de outubro passou de maneira lenta, não estava mais acostumada com a rotina de ficar em casa e os dias pareciam extremamente longos e tediosos. Como uma forma de me manter ocupada, resolvi ajudar com algumas demandas da floricultura e me diverti bastante ajudando-a com decoração do local para o Halloween.
Naquele sábado, acordei com o celular ecoando aos meus ouvidos às seis e meia da manhã. Meu gato dormia encolhido ao meu lado e me esforcei em não fazer movimentos bruscos e acordá-lo, na difícil tarefa de alcançar o celular do outro lado da cama. A ligação era de um número desconhecido e eu pensei seriamente se atendia ou voltava a dormir, mas por algum motivo atendi e para minha surpresa era Anne, mãe de Harry.
— Oi?! — Falei com uma voz que soava rouca e um pouco abafada.
— Doutora , querida! Sou eu, Anne. Eu acordei você? Me desculpe, de verdade, eu só liguei porque preciso da sua ajuda. — A mulher falava parecendo pouco envergonhada.
— Tudo bem, Anne! Aconteceu alguma coisa com Harry? — Perguntei, procurando entender a razão do telefonema.
— Não exatamente, mas a enfermeira que estava fazendo o curativo em Harry adoeceu. Eu tentei trocar o curativo ontem, mas ficou horripilante e você sabe, hoje tem o show. Além de que, Harry parece um pouco pior da garganta, não tem se alimentado direito, pois sente dor ao engolir... Você não está no hospital hoje? Pensei que, se não fosse incômodo, você pudesse vir até aqui examiná-lo. Posso pagar pelo valor de seu dia no hospital. O que você me diz?
— Eu estou em casa. Posso ir até vocês, sem problemas. Onde é o local? — Perguntei.
— Não se preocupe, você repassou seu endereço ao Harry. Vou pedir para o motorista pegar você em casa. E muito obrigada novamente! — A mulher respondeu, agradecida.
Direcionei-me com rapidez até o banheiro, precisava de um banho para espantar todo o sono que existia em meu ser. Vesti um scrub de atendimento domiciliar e peguei uma maleta com materiais que poderia precisar, em minutos estava no hall de entrada do meu prédio.
Recebi através de uma mensagem de Anne as informações sobre o motorista. Identifiquei o carro e reconheci o motorista, que era o mesmo que estava na porta do quarto de Harry no hospital. Era um senhor alto e forte, quase uns dois metros de altura e no hospital os internos o chamavam de “Big Guy”.
Eu sorri para ele, que abriu gentilmente a porta para mim e ajudou-me com a maleta. Descobri que seu nome era Derek, mas ele tinha adorado o apelido que os internos haviam colocado nele, então optei por chamá-lo assim também.
No meio do caminho, lembrei de mandar uma mensagem para .

“Oi, ! Tive que vir até Sheffield realizar um atendimento, Harry não estava bem. Vem logo para cá! Me avise quando chegar. Xx.”

Levamos cerca de duas horas para chegarmos até a arena Motorpoint na cidade de Sheffield, onde seria o último show da banda. O local já estava um verdadeiro tumulto, mesmo que ainda faltasse horas para o início do show.
Anne me esperava sorridente no estacionamento da arena, fui recebida com um abraço caloroso e agradecimentos por ter vindo. A mulher vestia um vestido longo de tecido leve, que fazia com que ela parecesse que flutuava ao invés de andar. Ela me conduzia apressadamente pelos corredores estreitos do local, mas não deixava de cumprimentar com gentileza todas as pessoas que passavam por nós no decorrer do caminho. Era nítido perceber de onde o cantor tinha herdado toda a energia boa que ele emanava.
Ela parou diante de uma porta que continha o nome “Harry Styles” em uma plaquinha e me olhou dizendo:
— Harry espera por você no camarim, ele está em descanso vocal até a hora da passagem de som.
Assenti e ela deu batidinhas na porta, anunciando nossa chegada.

Harry's POV:

Havia chegado no local do show tinha exatos trinta minutos, aguardava por Anne, que foi ao encontro de no estacionamento da arena. Minha crise de asma havia piorado um pouco desde que recebi alta do hospital, provavelmente em decorrência de ter continuado a cumprir a agenda de compromissos da banda. Tivemos duas entrevistas: uma na televisão e outra em uma rádio local.
Ao chegar hoje pela manhã, recebi a recomendação de nosso instrutor de canto que deveria permanecer em descanso vocal até o horário da passagem de som.
Analisei minha aparência no espelho e não consegui segurar o riso em virtude do curativo horrendo que minha mãe havia feito no meu braço. Usava uma calça jeans preta e uma camisa de botão, com dois deles abertos. Anne havia me ajudado prender o meu cabelo em um coque, que mais parecia com um ninho de passarinho.
Ouvi vozes no corredor e supus que elas tivessem retornado, aconcheguei-me confortavelmente no sofá preto, enquanto via Anne enfiar a cabeça para dentro do cômodo, averiguando se a médica podia entrar.
Anne adentrou ao camarim sendo seguida por , que usava aqueles uniformes médicos. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo alto e ela sorria gentilmente enquanto se aproximava. Sorri de volta meio embasbacado, perguntando-me qual seria a melhor forma de cumprimentá-la.
“Talvez um semi-abraço?!”, não, íntimo demais... “Talvez um simples aperto de mãos?”, não, formal demais!
Decidi, por fim, um soquinho de mão, menos formal que um aperto de mão e não tão íntimo quanto um abraço.
Ela soltou um risinho pelo nariz, deixando-me levemente envergonhado. Que bosta eu fiz?
Rockstar! falou e sua voz animada ecoou pelo ambiente. — Anne me disse que você estava chorando e implorando para ela me ligar, estou aqui!
Soltei um riso contido e ela continuou a me analisar, enquanto arrumava-se para iniciar o atendimento.
— Descanso vocal? — Ela perguntou, procurando por alguma coisa dentro da sua maleta.
Assenti e observei a delicadeza com que ela fazia cada um de seus movimentos.
— O que ele tem sentido, Anne? — perguntou, franzindo o cenho e direcionando seu olhar a minha mãe.
— Ele teve febre ontem à noite, tosse seca, creio que seja só. — Anne me olhou e eu afirmei com a cabeça, confirmando os sintomas.
se aproximou com um termômetro em mãos e colocou sobre a minha testa, ficamos nos olhando por um tempo e pude olhar com clareza em seus olhos castanho-esverdeados. Pude sentir aquela atmosfera em que o silêncio se torna constrangedor, sendo interrompido pelos bips do aparelho.
— 99,5 graus Fahrenheit, febre baixa.
Olhei de soslaio uma figura preocupada de Anne andar de um lado para o outro pelo camarim. colocou o estetoscópio em seus ouvidos e aproximou-se novamente.
— Com licença. — Ela falou delicadamente, afastando a gola de minha camisa.
Pude sentir seus dedos gélidos e o leve formigamento que causou em minha pele quente.
A mulher posicionou seu aparelho sobre o meu peito.
— Você já sabe o que fazer: puxa o ar pelo nariz e solta levemente pela boca.
Atendi aos seus comandos e fiquei observando as linhas de sua face que transpareciam concentração, enquanto analisava minha respiração.
— Sibilos. —Ela falou, retirando o esteto e o colocando em cima do sofá. — Você tem usado a sua bombinha? — Perguntou e eu assenti.
retirou do bolso de seu jaleco um abaixador de língua e pediu para que eu abrisse a boca.
— Sem sinais de inflamação na garganta, menos mal! — Constatou. — Vou alterar as doses de sua medicação. — A médica apanhou um bloco de receituário e sentou no sofá em minha frente. Começou a escrever e mordiscava levemente seu lábio inferior. Tal ato parecia ser algum tipo de mania, mas, pra mim, enquanto observador, era mais uma espécie de tortura, visto o quão sexy era aquela visão.
Eu quis sorrir bobamente com a cena.
Ela levantou a cabeça e falou:
— É Harry Edward Styles, né? — Ela perguntou e eu assenti, enquanto apertava meus lábios com força entre os meus dedos. — Escrevi mil vezes o seu nome no prontuário do hospital, não tinha como não lembrar. — Ela lançou um sorriso e voltou a escrever. — Bom... — começou. — Sua garganta não está inflamada, o que é bom, mas você tem sibilos, que são esses chiados que você escuta ao respirar, eles já estavam aí antes de você receber alta, mas parece que você não descansou como deveria...
Eu olhava atentamente e minha mãe se aproximava para ouvir também.
— Vou ministrar uma medicação injetável, mas preciso que alguém vá até a farmácia comprar a medicação oral. A injetável, eu trouxe. — Ela falou, entregando a receita à Anne e virando para procurar algo em sua maleta novamente.
— Você tem problemas com agulhas?
Fiz que “não” com a cabeça.
— Essa medicação é para diminuir a inflamação, desobstrui as vias respiratórias e consequentemente você respira melhor.
Concordei.
— É no glúteo. Então, preciso que você levante e se apoie em alguma superfície. — Ela olhava em volta do camarim, procurando por algum móvel adequado. — Ali na bancada do espelho. — Apontou.
Caminhei em direção ao móvel e novamente tendo que lidar com a situação constrangedora de vendo a minha bunda branca por algum motivo médico. Vi e Anne se aproximarem de mim através do espelho, soltei a fivela do meu cinto e abaixei levemente a minha calça junto com a cueca que vestia.
abaixou-se levemente e pude sentir o algodão molhado com alguma substância a qual eu desconhecia passando sobre a minha pele, ela pinçou levemente o meu glúteo, apertei os olhos com força quando senti o incômodo causado pela dor da agulha perfurando o meu músculo, não doeu tanto quanto imaginei e supus que a minha vergonha estava muito maior do que qualquer dor que pudesse vir a sentir.
— Pronto! Nem doeu, viu? Pode se vestir. — Ela falou, levantando-se e me olhando através do espelho. — Você precisa descansar agora, tente dormir. — Disse, recolhendo seus materiais. — Faço uma nova avaliação antes de você ir para a passagem de som.
Assenti e virou para Anne, passando outras orientações. Ela deu “tchau” e saiu em companhia de minha mãe porta afora.
Joguei-me no sofá, enquanto buscava pelo meu celular e procurava pelo número da médica.

» Harry
Oi, deveria estar descansando, eu sei, mas queria te agradecer por ter vindo até aqui e ser obrigada a ver minha bunda branca às dez horas da manhã.

Fiquei olhando a tela do celular por alguns minutos e imaginei que Anne deveria estar conversando com , por isso a demora para me responder. Fechei os olhos por alguns minutos e senti o celular vibrando sobre o meu peito.

»
HAHAHHA tudo bem, rockstar! Fui demitida do hospital, estava com o tempo livre, não foi um sacrifício tão, tão, tão grande assim... ;)

Pera aí, o que ela quis dizer com o “não ser um sacrifício tão, tão, tão grande assim?”. Talvez ver a minha bunda não era um sacrifício ou a minha bunda era pequena demais e se tornava um sacrifício pequeno? Patético, eu me tornava patético quando me sentia levemente atraído por alguém!
Demitida? Ué, como assim?

» Harry
Como assim? O que aconteceu?

»
É uma longa história, te conto depois, mas tá tudo bem. Vou conseguir outro emprego, enquanto isso vou aproveitar pra terminar a minha tese do doutorado. Agora vai dormiiiiiiiiiir, please!!

» Harry
Que idiotas! Você é a melhor médica daquele hospital. Já tô indo descansar, mas queria te agradecer por seus cuidados antes.

»
Obrigada, rockstar! :) Ansiosa para ver seu show à noite! Xx

Travei a tela do celular e fiquei olhando para o teto, pensando nas coisas que tinham acabado de acontecer.
O que teria acontecido para a ser demitida?
Fiquei pensando em uma forma de ajudar e uma ideia mirabolante acabou passando pela minha cabeça, precisava falar com Anne e Gemma primeiro!
Senti meus olhos ficarem pesados, talvez fosse o efeito do remédio, e caí no sono.

🞄🞄🞄

Acordei com o barulho de cochichos no camarim, meus olhos pareciam grudados e tive uma dificuldade enorme de conseguir abri-los, vi a figura embaçada de Gemma tirando uma foto minha.
— Já tenho a imagem perfeita para os nossos cartões de natal, mãe! — Ouvi a voz brincalhona de minha irmã.
— Você não fez isso… — falei com a voz arrastada e limpando um filete de baba que se encontrava caindo do canto da minha boca. Dei-me conta de que não sabia exatamente que horas eram e nem se já podia ter quebrado o descanso vocal.
— Claro que sim. O que você achou? — Ela falou, mostrando-me a foto na tela do celular.
— Você me paga, Gems! — Respondi em tom de ameaça.
— Relaxa, nenê! Vou mandar só para , ela vai amar!
— Não, Gems... — falei, enquanto direcionava-me até o banheiro e jogava um pouco de água no meu rosto a fim de ficar mais esperto.
— AAAH, então você se importa, né? Quer parecer atraente para sua doutora, né?
— Não… só acho que você vai estar incomodando-a com esse tipo de conteúdo. — Respondi sério, enquanto enxugava meu rosto com a toalha e averiguava minha aparência em frente ao espelho.
— Aham... — ela falou, debochada.
Voltando ao cômodo percebi que Anne estava lá também e quis saber onde se encontrava , já que ela não estava na presença delas.
— Onde ela está? — Perguntei, curioso.
— Foi buscar a outra médica que veio para o show. — Anne respondeu, enquanto respondia alguma mensagem em seu celular. — Como é mesmo o nome dela? — Ela franzia o cenho, pensativa.
. — Respondi.
— Isso.
e eram bem próximas pelo que pude perceber no hospital, apesar da médica não ter feito nenhum comentário sobre ela, notei que estavam sempre juntas. ainda pediu para que também viesse ao show... E um questionamento surgia em minha mente: e eram um casal?
— Vocês acham que a e a ... — comecei meio envergonhado, ouvindo a gargalhada alta de Gemma.
— Você não presta, pirralho! Eu sabia, sabia! — Gems gargalhou e deu pulinhos de satisfação.
E eu revirei os olhos em advertência.
— Bom, não sei, mas posso tentar descobrir para você. — Falou, olhando-me risonha, encostando seu dedo indicador em meu peito.
— Você está melhor, querido? — Minha mãe perguntou, interrompendo a sessão de implicância entre Gemma e eu.
— Sim, me sinto mais disposto. Estou com fome. Que horas são? — Falei, enquanto sacava o meu celular do bolso e verificava as horas.
Três e meia, ainda tinha trinta minutos até o início da passagem de som.
— Deixei seu almoço no frigobar, vou pegar. Desfiei o frango para facilitar.
Bebê da mamãe... — Gems sussurrou baixinho e eu mostrei a língua para ela, entregando toda a minha maturidade.
— Vocês ficaram sabendo que a foi demitida do hospital?
— O quê? Sério? — Anne falou, surpresa. — Não sabia... O que aconteceu?
— Não sei... ela disse que me contaria depois. — Falei pausadamente, enquanto mastigava a comida. — E eu andei pensando, queria falar com vocês... Você disse que eu deveria contratar alguém para os curativos e eu vou precisar de indicações médicas para voltar a movimentar os braços normalmente, pensei que talvez pudesse ser ela. O que vocês acham?
é incrível, tenho certeza que você estará em ótimas mãos, mas você acha que ela iria conosco para Holmes Chapel? Ela pode conseguir um novo emprego por aqui mesmo. — Expressou Anne.
— Ela falou sobre precisar de tempo para escrever a tese do doutorado, poderia cobrir seu piso salarial e eu acredito que seria bem vantajoso financeiramente para ela.
— Você pode propor. — Anne falou por fim, enquanto Gemma me olhava com um sorrisinho travesso no rosto, sabia o bem o que ela estava tentando insinuar.
Escutamos algumas batidinhas na porta e imaginei que fosse voltando. Gems abriu a porta e elas pareciam que já se conheciam há muito tempo, supus que ficaram conversando enquanto eu dormia. Admirava a facilidade com que minha irmã conseguia fazer amizades, ela era bem menos tímida que eu e bem mais faladeira também.
Cumprimentamo-nos e ela começou sua análise médica.
— Você já pode falar? — Ela indagou.
— Sim, sentiu falta da minha voz? — Retruquei, dando um meio sorrisinho em seguida.
— Um pouquinho. — Ela respondeu, brincalhona. — Preciso medir sua temperatura. — Ela segurou o termômetro sobre a minha testa e aguardou pelo resultado. — A febre passou. Você se sente melhor? — Perguntou, analisando todas os traços em meu rosto, provavelmente em busca de algum sinal de que algo não estivesse bem.
— Sim, suas mãos são mágicas e tem poderes curativos.
deu uma risada alta e gostosa, de repente tudo nela brilhava e eu não sabia por que, mas sentia que poderia ser preenchido com essa energia para sempre.
— Vou ficar no cantinho do palco segurando o inalador dosimetrado caso você precise. — Ouvi sua voz falando, despertando-me do transe em que me encontrava e implorei internamente para que ela não tivesse notado minha cara de bocó.
Apenas assenti com um sorriso e escutamos batidas na porta, seguidas da voz de Jude Jhonson convocando-me para a passagem de som.



Capítulo 5

“Let's have another toast to the girl almighty;
Let's pray we stay young, stay made of lightning.”

Girl Almighty - One Direction

's POV:

Saí do camarim de Harry e caminhei em direção ao palco principal onde aconteceria a passagem de som, era possível ouvir os gritos das fãs do lado de fora da arena, elas cantavam a plenos pulmões as músicas da banda.
Avistei sentada na primeira fileira, ela olhava para o palco, onde os meninos corriam de um lado para o outro fazendo palhaçadas entre eles, uma pessoa da equipe ralhava para que eles se posicionassem nas marcações do palco. Harry estava sentado em uma caixa de som, ele gargalhava das traquinagens dos amigos e pensei que ele pudesse estar se corroendo por não poder fazer o mesmo.
— Quanta energia, não é? — Falei para , que não conseguia desviar os olhos da cena em sua frente.
— Se fosse eu ali, naquela função, já estaria presa por ter matado esses meninos. — Ela respondeu chacoalhando a cabeça negativamente e me olhando enquanto eu sentava ao seu lado.
Vi Jude Jhonson surgir no palco com um megafone e sua voz estridente ecoou pelo local, causando em mim um leve desconforto, ela pedia ordem e disse que não havia mais tempo para brincadeiras sem graça.
Então os meninos, meio a contragosto, tomaram as suas respectivas posições e ela deixou o palco com a feição aborrecida. Harry lançou um olhar em minha direção, antes de tomar a sua posição ao lado um de seus companheiros de banda.
O som de acordes de uma das músicas da banda começou a tocar, seguido pela voz afinada de Harry iniciando a canção. Era incrível como a voz deles combinavam, eles tinham presença de palco e faziam aquilo de uma forma leve e harmônica, causavam uma euforia que surgia sem explicação e me sentia contagiada por aquela energia. Sorria de orelha a orelha, mesmo sem nunca ter escutado aquela música.
Estava tão vidrada na passagem de som, que não percebi quando Gemma se aproximou e perguntou se podia sentar ali conosco, sendo respondida por , que recuou as pernas para que a mulher pudesse passar e sentar ao meu lado.
— E aí?! Vocês estão gostando? — Gemma perguntou, direcionando-me o olhar com um sorriso no rosto.
— Eles são incríveis! — Eu falei, desviando o olhar do palco e respondendo à sua pergunta.
— Eu falei pra você que eram, ! É surreal a sensação de euforia.
Fiz que sim com a cabeça, concordando com .
— Ah! A noite com os gritos e todas as luzes ligadas, vai ser bem melhor a sensação. — Gemma falou, enquanto víamos alguém da equipe subir ao palco para fazer alguns ajustes em uns equipamentos.
A passagem de som durou em média uns trinta minutos e após isso, os meninos retiraram-se para seus respectivos camarins. Gemma, e eu ainda ficamos na arquibancada conversando, até sermos expulsas por um rapaz da equipe, que nos avisou que a entrada ia ser liberada em minutos e precisávamos sair dali.
Depois de muita insistência de Gemma para que nos arrumássemos junto com ela no camarim do irmão, decidimos acompanhá-la.
Ao entramos, vi que os meninos da banda estavam todos juntos no mesmo camarim e se preparavam para o show. Uma moça dava um trato no cabelo de Harry com um difusor, ela me fitou com um olhar quase mortal no momento em que entrei.
— AAAAH! FOI VOCÊ, NÉ?! — Ela gritou e eu fiquei paralisada, tentando entender o que estava acontecendo, e suspendeu um chumaço do cabelo do cantor, o mesmo que eu havia cortado, fazendo-me entender o motivo de seu aborrecimento.
— Desculpe. — Falei, fazendo um bico com uma carinha triste. — Não tinha muito o que fazer…
— Lou, eu vou cortar esse cabelo. Já falei!
— Não alivie a barra dela, ok, Harry? E fica quieto aqui que eu tô quase acabando, só falta você! — A mulher ralhou com o cantor, que estava inquieto na cadeira. — Sou Lou, a propósito. — Ela falou, enquanto equilibrava o difusor e o apertava contra o cabelo de Harry, deixando o mesmo com um aspecto ondulado.
. — Respondi. — Ou “doutora Estranha”, como algum certo integrante de boyband anda me chamando.
— AAAA! Quem foi que contou? — Niall falou, levantando-se e batendo a mão na perna, indignado.
— Você ainda pergunta? Foi o Harry, claro! Quem mais poderia ser? — Liam respondeu, enquanto Harry escorregava levemente na poltrona, cobrindo o rosto com vergonha e levando um beliscão de Lou no braço em seguida.
— Então, eu achava que era só ele que estava me chamando assim, mas bom saber que é o bonde todo! — Respondi, fingindo surpresa.
— Como podem ver, o fofoqueiro do grupo continua sendo o Niall. — Louis disse, enquanto Harry e Liam concordavam e Niall resmungou, emburrado.
— Vem, ! Não dá confiança pra esses meninos... — Gemma me puxou novamente pelo braço, levando-me para uma espécie de quarto reservado do camarim, onde poderíamos mudar de roupa.

🞄🞄🞄

Eu andava apressada pelo backstage, tentando não tropeçar em nada, faltavam exatos cinco minutos para o início do show e eu tive que voltar correndo até o camarim de Harry para buscar a bombinha que ele havia esquecido. Eu escutava os gritos da multidão de fãs, enquanto a intro do show ainda passava no telão. Posicionei-me em um cantinho ao lado palco, junto com algumas pessoas da equipe, eu usava um abafador de ouvidos, pois o som ali era bem alto.
Quando a banda finalmente subiu ao palco, era possível sentir a energia que aquele show carregava, não só para as fãs, mas para toda uma equipe que trabalhou durante anos juntos. Niall começou a tocar os acordes de guitarra da introdução da música e, em seguida, Harry envolveu o microfone com a mão direita e começou a cantar, andando em direção ao público que vibrava.

I know you said;
That you don't like it complicated;
That we should try keep it simple;
But love is never ever simple;
No!

Someday;
You're gonna see the things that I see;
You're gonna want air that I breathe;
You're gonna wish you never left me.

Louis deu início ao segundo verso da canção e a multidão parecia que estava prestes a enlouquecer, no momento em que Liam pediu para que o público fizesse mais barulho e os garotos chegaram juntos no refrão da música.

Here we go again;
Another go round for all of my friends;
Another non stop, will it ever end?

Here we go again;
Another go round for all of my friends;
Another non stop, will it ever end?

Eles andavam e pulavam de um lado para o outro do palco em uma sincronia quase que perfeita, agitavam a multidão deixando-a cada vez mais eufórica. Harry fazia alguns movimentos contidos, por motivos óbvios. Seu longo cabelo esvoaçava de um lado para o outro e eu só conseguia me perguntar como ele conseguia ser tão bonito sem fazer nenhum tipo de esforço.
Nossos olhares se cruzaram e, por um minuto, pensei que ele estivesse precisando da sua bombinha, mas ele só parecia estar se certificando de onde eu estava. Sussurrei um “toma cuidado” e ele assentiu, respondendo-me com um sorriso sapeca.
A música chegou ao fim e eles deram seguimento a outra logo após.
Apenas no final da terceira música, quando um dos meninos começou a fazer um discurso para o público, foi que Harry veio correndo até mim precisando da bombinha.
— Hey, como você está? — Falei, enquanto ele se sentava na cadeira e eu lhe entregava o aparelho.
— Suando... — ele respondeu, colocando o objeto na boca e iniciando a inalação.
Revirei os olhos e soltei um risinho.
— Obrigado, preciso voltar! — E na mesma rapidez com que veio, voltou ao palco iniciando a próxima música.

Quase final do show, os garotos continuaram algumas interações com o público, fizeram alguns discursos de agradecimento por toda a dedicação dos fãs durante os cinco anos em que eles estavam juntos, falaram o quanto os elas eram importantes e o quanto seriam sempre gratos a cada uma delas. Os meninos pareciam estar bem emocionados e deram um abraço em grupo, levando o público ao delírio outra vez.
Harry disse que precisava falar mais uma coisa antes de iniciarem a próxima música e olhou de relance em minha direção, fazendo minhas pernas tremerem e um arrepio percorrer o meu corpo.
O que ele estava planejando?
— Como vocês sabem, no último show tivemos um pequeno incidente comigo, fui desastrado o suficiente para tropeçar no pedestal de um microfone e quebrar o braço. Eu agradeço a vocês e aos fãs do mundo inteiro, que se preocuparam e enviaram mensagens e votos de uma boa recuperação. Estou bem e prometo tomar mais cuidado daqui pra frente! — Harry falava e seu tom era calmo, fazendo um contraste perfeito com rouquidão tão característica de sua voz. — Gostaria de agradecer também a alguém que não mediu esforços para que eu estivesse bem e aqui, hoje: à doutora , o meu muito obrigado, você conserta ossos como ninguém! E essa música é pra você e pra todas as garotas que assim como você, são verdadeiras GIRL ALMIGHTY!!!

Hey, hey, oh, no, no, no;
Her laugh is as loud as many ambulances;
As it takes to save a saviour, oh;
Woah, woah, woah.

Eu não conseguia acreditar que ele tinha feito aquilo, era um misto de felicidade com um pouco de vergonha e uma euforia louca por ter alguém dedicando uma música a mim. Eu tinha um sorriso bobo nos lábios e pelo visto, Harry havia percebido que seu plano de me deixar desconcertada havia dado certo, já que ele lançava pequenos olhares para mim e tinha um ar divertido em sua face.

No, she floats through the room on a big balloon;
Some say she's such a fake;
That her love is made up, no;
No, no, no.

Os meninos batiam as palmas das mãos no refrão da música e eu decidi entrar na brincadeira e fazer o mesmo movimento, a música era extremamente envolvente e não tinha como não curtir aquele momento.

Let's have another toast to the girl almighty;
Tan, tan, tan;
Let's pray we stay young, stay made of lightning.

Am I the only, only believer?
There's something happening here;
There's something happening here.

No momento em que letra da canção dizia que “havia algo acontecendo ali”, tive a impressão de que Harry me olhava novamente, como se procurasse por uma resposta à afirmação que a música continha.

The only, only believer?
There's something happening here;
I hope you feel what I'm feeling too.

A forma como ele me olhava fazia todos os meus pelos do corpo arrepiar, ele se movia lentamente pelo palco e fazia um movimento para cima e para baixo com o braço esquerdo, enquanto segurava o microfone e esperava pela sua vez de cantar novamente. Eu me movia no mesmo ritmo da música e tentava afastar a ideia de que ele estava me olhando.

I'd get down, I'd get down;
I'd get down on my knees for you;
I'd get down, I'd get down;
I'd get down on my knees;
I'd get down on my knees for you!

A teoria foi por água abaixo, quando ao final da música ele piscou em minha direção e eu soltei um riso fraco, tentando controlar minha hiperventilação.
O show acabou e os meninos se direcionaram ao backstage, todos os membros da equipe abraçavam-se e estavam visivelmente emocionados. Fiquei observando a cena e procurando por no meio de várias pessoas aglomeradas, quando senti um toque em meu braço e novamente um arrepio percorreu meu corpo.
Virei-me e encontrei Harry me olhando sorrindo, ele tinha uma toalha nos ombros e os botões de sua camisa estavam completamente abertos, sendo possível observar o seu corpo coberto por tatuagens e o cabelo encharcado de suor caindo sobre a testa.
— Perdida, doutora? — Ele trocou sorriso largo por um de canto e o xinguei internamente.
Perguntava-me como era possível eu, uma mulher adulta, sentindo todos os pelos do seu corpo arrepiados a cada toque, olhares e verbalização diferente que esse FDP me lançava.
— Não, só não sabia pra onde ir… — falei, tentando manter minha voz firme.
— E esse não é o conceito de estar perdido? — Questionou Harry, franzindo o cenho.
— É? Sei lá… Cadê a , você viu? — Falei, enquanto olhava por cima das cabeças das pessoas que estavam ali, tentando tirar o cantor de meu campo de visão.
— Ela está com Anne e Gemma, pediu para eu vir te convencer a ir ao pós-show que vai ter no hotel em que estamos hospedados. E aí, topa? — Ele lançou novamente o seu sorriso, com covinhas fofas formando-se em seguida, e eu tive a certeza de que Harry sabia o que aquele sorriso podia despertar.
— Bom, eu… — estava procurando alguma desculpa para não ir, quando surgiu altamente feliz e saltitante.
, vamooooos! Por favorzinho, não seja chata uma única vez na vida! — Ela vinha junto com Gemma em seu encalço, juntando as mãos, implorando pelo meu “sim”.
— É, ... Vamos! — Disse Harry com cara de pidão, aproveitando-se da situação.
— Tá bom, tá bom, ok. — Falei, rendida.
— AAAAAW, AMO VOCÊ! — gritou e pulou em meu pescoço como uma criança agradecendo à mãe por comprar seu brinquedo favorito.
— Bem, vamos em dois carros, não dá todo mundo em um só. Preciso encontrar um motorista pra dirigir o outro carro, já que não posso com esse braço. — Harry disse, fazendo menção ao seu braço engessado.
— A pode dirigir. — falou rapidamente e eu quis morrer por dentro, ela não estava fazendo aquilo mesmo. Estava?
— Bom, se não tiver problema pra você… — Harry disse, direcionando seu olhar para o meu, que não tive outra saída a não ser dizer “sim”.
— Então... fica eu, , Anne, que vai para o hotel dormir, e o motorista nos leva. e Harry no outro carro. O que dizem? — Gemma falou, acordando o monstro adormecido em meu estômago.
— Fechou. — respondeu e eu quis matá-la novamente por aquilo.
— Vamos então, pois todos já estão indo… — Gemma nos chamou, enquanto andava em direção à saída.
A arena ainda estava um tanto aglomerada, mas fomos direcionados a sair pelos fundos do local para não causar tanto alvoroço. Harry e eu nos despedimos de , Gemma e Anne, e ele me conduziu até alguns passos de distância, onde estava estacionado o seu carro.
Ao chegarmos o local, deparei-me com o carro luxuoso de Harry. Prendi um pouco a respiração.
— Então, hoje você é a motorista da rodada. — Harry falou, enquanto me entregava a chave do carro.
— Você é sempre tão corajoso assim, Rockstar? Tipo, eu sei que você está querendo parecer legal, mas eu sou uma estranha, saca? Só porque remendei seu braço, não quer dizer que você possa sair por aí me entregando a chave do seu carro. — Disse, usando toda a minha sinceridade.
Harry continuava com as chaves do carro em minha direção e torcia os lábios, segurando-se para não rir.
— Você dirige tão mal assim? — Ele falou com seu sotaque impecável e a voz rouca exatamente na medida certa.
Que inferno de homem!
— Bem, já que você confia tanto assim em mim, vou deixar você descobrir sozinho! — Falei, dando um risinho sapeca, ao mesmo tempo em que pegava a chave de suas mãos e destravava o carro, entrando nele em seguida.
Harry adentrou o carro e um dos seguranças que nos acompanhava até lá se aproximou, informando que estava tudo tranquilo e que poderíamos sair. Coloquei o cinto de segurança e apertei o botão, dando partida no carro.
— A propósito, obrigada pela música! — Disse, enquanto olhava o cantor de relance e me focava em prestar atenção na via à frente, seguindo as instruções do GPS para chegar ao local.
Observei o quanto a noite estava bonita e convidativa, e se não fosse pelo céu sempre nublado do Reino Unido, tinha certeza que as estrelas poderiam ser vistas.
Ele soltou um risinho abafado, seguido de um:
— Pensei que você não fosse falar nada sobre isso…
— Então você estava esperando eu mencionar algo sobre o assunto? Você é um convencido, sabe disso, né? — Eu tentava confrontá-lo, usando um tom meio sarcástico.
Na verdade, estava tentando criar barreiras para afastá-lo, era sempre isso que eu fazia. Mas, pelo visto, o cantor não se sentia intimidado e ele riu, dando de ombros.
— Conte-me uma coisa, doutora! — Ele começou umedecendo os lábios, antes de continuar. — Que gênero musical você curte? — Ele me olhava com o aparelho celular em mãos.
Eu o olhei confusa e fiquei perguntando-me o quão aleatório Harry conseguia ser.
— Rock antigo, um pouco de indie. Um pop, vez ou outra... — respondi, fazendo pouco caso e me concentrando em dirigir.
— Bem, vejamos então... — o cantor parecia procurar por algo em seu celular e de repente, os primeiros acordes de baixo de Rhiannon, do Fleetwood Mac, ecoava em meus ouvidos.
Eu soltei um riso abafado, não acreditando na música que ele havia escolhido e comecei a acreditar que as sensações de sobre Harry estavam realmente certas.
— Você conhece a história dessa música, não conhece?
— Sim, é a uma das músicas minhas músicas favoritas, da também.
— Quando vi você no hospital naquela noite, essa música me veio na cabeça quase que automaticamente. — Ele falou com um ar pensativo, como se estivesse relembrando a cena em sua mente.
O garoto cantarolava o refrão de Rhiannon e eu que sempre gostei tanto do silêncio, não me incomodava em ouvi-lo. Por um momento, cogitei a possibilidade de dirigir devagar, assim, demoraríamos mais tempo para chegar ao local, ficando na presença um do outro por mais tempo.
Percebia as olhadelas que vez ou outra ele me lançava e o sorriso sem graça que ele dava ao saber que eu o via.
Estávamos a duas quadras do hotel, quando olhei através do retrovisor: um carro prateado em uma movimentação suspeita. Não conseguia entender se ele estava tentando disputar um racha com o carro ao lado ou se estava nos perseguindo.
— Harry, o segurança estava vindo aí atrás?
— Não, por quê? — Ele me olhou com a feição preocupada.
— Acho que estamos sendo seguidos.
— Droga! — Harry xingou, enquanto olhava para trás e percebia a movimentação dos dois carros em nosso alcance.
Não demorou até sermos fechados pelo carro, que se chocou contra o nosso, e meia dúzia de paparazzi sedentos desceram do carro, disparando flashes e mais flashes em nossa direção. Eu buzinava para que eles saíssem da frente, mas eles não arredaram o pé.
As luzes estavam nos cegando e eles pareciam abutres ao encontrarem um pedaço de carne fresca. Forcei abrir os olhos e vi Harry de relance, encolhido no banco de carona. De repente, ouvi a respiração do cantor mais ofegante que o normal e me preocupei em saber o que estava acontecendo. Chamei-o, mas sem resposta, ele falava algumas frases desconexas que eu não conseguia entender bem, estava hiperventilando.
Droga, é uma crise de pânico!, pensei.
Talvez tacar o “foda-se” e acelerar fosse um saída, mas eu pensei na consequência que aquilo teria e achei por bem não fazer.
Perguntei-me o que faria naquela situação, ela era uma pessoa sensata e provavelmente saberia o que fazer, mas eu não era a e nem um pouco sensata, então, tomada pela raiva, abri a porta com toda “delicadeza” que existia em mim e gritei:
— SAIAM DA FRENTE, SEUS IMBECIS!!!! EU NÃO CONSIGO ENXERGAR. POR FAVOR, SAIAAAM! ELE NÃO É UM PEDAÇO DE CARNE, É SÓ UMA PESSOA NORMAL, VOCÊS NÃO ENTENDEM?
Eu gritava o mais alto que conseguia e mais alguns flashes foram disparados em nossa direção, por um minuto eu pensei que eles realmente não fossem parar, mas escutei o barulho um carro de polícia e os paparazzi finalmente liberaram a frente do carro.
Precisávamos sair dali, o hotel estava duas quadras de distância, mas parecia não chegar. Foi quando me dei conta que eu não sabia onde estava e havia passado do hotel sem perceber. Precisava levar Harry até um ambiente seguro, onde ele pudesse se acalmar.
Avistei um hotel com aparência bem inferior ao que os garotos estavam hospedados, mas não tinha mais tempo para retornar.
Olhei de relance para figura do cantor ao meu lado, ele estava suando, olhos fechados e tremendo. Eu sabia exatamente o que ele estava sentindo, clinicamente falando.
— Vai ficar tudo bem, Harry! — Falei, enquanto estacionava apressada na vaga e olhava em volta, verificando se era seguro descer.
— Nós precisamos sair. — Ele sacudiu a cabeça, concordando. E eu soltei o cinto de segurança.
— A gente tá parado bem em frente ao hotel, eu vou até aí, abro a porta e saímos correndo pra dentro, ok?
Ele sacudiu a cabeça novamente.
— Ok!
Tentei ser mais rápida que pude, puxando Harry de dentro do carro e levando-o dentro do hotel, pedi um quarto com urgência e subimos para ele sem prestar muitos esclarecimentos sobre o ocorrido.
Ajudei o rapaz a sentar-se na cama e ele tinha a respiração ainda muito ofegante e tremia um pouco. Xinguei a do passado por ter cabulado algumas aulas da clínica psiquiátrica para estudar casos clínicos traumatológicos e ter passado com frequência mínima para aprovação nesta disciplina. Era triste ver Harry naquele estado, longe de toda aquele glamour do meio artístico. Ele era o Harry, só Harry.
— Hey, eu posso chegar um pouco mais perto? — Perguntei, certificando-me que ele não sentia o seu espaço invadido.
Aproximei-me com cuidado e ajoelhei para que pudesse olhar em seus olhos. Estiquei a minha mão e ele me puxou mais pra perto, entendi que ele precisava de um abraço.
— Lembra da manobra de inspirar e expirar? Isso pode ajudar agora. — Falei calmamente para o cantor, que ainda tentava se acalmar. — Você está seguro, Harry! Tudo vai ficar bem. — Falei afagando seus cabelos e ele encostava a cabeça em meu ombro.
Lembrei das vezes em que acordava no meio da noite chorando sem parar e me acalentava cantado uma canção. Aquilo sempre funcionava e eu voltava a dormir logo em seguida, era uma ideia tosca, mas eu não sabia mais o que fazer. Quando percebi, já estava sussurrando os primeiros versos de Halo de forma calma e paciente, como se fosse uma canção de ninar.

Remember those walls I built?
Well, baby, they're tumbling down;
And they didn't even put up a fight;
They didn't even make up a sound.

I found a way to let you in;
But I never really had a doubt;
Standing in the light of your halo;
I got my angel now.

Senti quando a respiração de Harry se tornou menos ofegante e pude entender que ele se concentrou em escutar a minha voz.

Everywhere I'm looking now;
I'm surrounded by your embrace;
Baby, I can see your halo;
You know you're my saving grace.

Ele se afastou aos poucos para olhar em meus olhos.
— Você soa como um anjo, ! — Falou com a voz ainda trêmula.
Eu sorri bobamente, sentindo minhas bochechas quentes e o meu corpo inteiro formigar.
O ambiente estava pouco iluminado e eu só conseguia observar o rosto de Harry por conta da iluminação de um poste de luz, que ficava próximo à janela. Seus olhos verde-claros faziam um contraste perfeito com sua pupila escura e eu não tinha a mínima vontade de olhar em outra direção. Foi quando ele sorriu e aí meus olhos ficaram vidrados em seu sorriso.
Ele tocou meu rosto devagar, era a sensação mais gostosa que já tinha sentido nos últimos meses, seu toque era quente, Harry era como o sol.
Ficamos nos olhando por um tempo e não conseguia pensar em mais nada a não ser sentir seus lábios juntos aos meus. Ele se aproximou devagar, como se estivesse se certificando que eu permitiria tal ato, fechei os olhos como resposta, a respiração de Harry se confundiu com a minha e a minha com a dele e então pressionou os lábios contra os meus.
Ainda sentia a adrenalina de minutos atrás percorrendo o meu corpo, contudo, o beijo era calmo e doce. Puxei levemente seus cabelos próximos a nuca e ele me segurou pela cintura, diminuindo ainda mais a distância entre nós.
Perdi a noção do tempo e espaço à medida que o beijo se intensificava, sentia-me ofegante.
Harry calmamente passou todo meu cabelo para o lado esquerdo de meu corpo, distribuindo seus beijos para o meu pescoço. Era tudo tão bom e novamente senti que poderia ficar ali para sempre, perder-me em desejos, quebrar as regras, correr os riscos, sentir o coração quente, leve e pulsante.
Voltei a minha realidade no momento em que o celular começou a tocar insistentemente e nos demos conta do quão imprudente seria não atender.
Desvencilhamo-nos calmamente e Harry atendeu ao telefone.
— Estamos bem. Mãe, se acalma, por favor! — Ele falava no telefone, preocupado, enquanto andava pelo quarto. — Eu não sei onde é, fala com a . — E me entregou o telefone.
Passei a localização de onde estávamos e interfonei para recepção do hotel, informando que liberassem a entrada dos familiares de Harry e repassei os respectivos nomes para liberação.
Vergonha era o que eu sentia no momento. Eu que sempre fui tão controlada, havia me deixado ser levada pelo momento.
Ao desligar o telefone, percebi que Harry havia voltado a se sentar na cama, ele me olhava, como se tentasse decifrar o que eu estava sentindo. Sentei ao seu lado e não soube exatamente o que falar, e, pelo visto, ele também não, já que o silêncio havia tomado conta do lugar.
Então, Harry tossiu para clarear a garganta.
— Quando você ia me contar que cantava tão bem? — Ele me direcionou o olhar, mordendo o lábio inferior.
Soltei um riso abafado.
— Não acho que seja um assunto tão relevante assim, além de que, você acha isso? — Falei, enquanto forçava uma cara de dúvida.
— Sim, é incrível! Isso e…
— Você tá melhor? — Eu o cortei antes que ele tocasse no assunto que eu achava que iria tocar.
— Sim. Obrigado!
— Não foi a primeira, né? — Questionei.
Ele fez que não com a cabeça e desviou o seu olhar para a janela.
— Você tem uma rotina muito intensa, precisa descansar, ter uma boa noite de sono, essas coisas. E não ser omisso em procurar ajuda, caso necessite.
— Sim, eu sei. É só um turbilhão de coisas. Quero ir pra casa, mas ainda temos alguns compromissos.
— Sei como é estar exausta, mas você tem um longo período de “férias”, aproveite!
— Você ainda não me disse. — Ele falou e eu o olhei confusa. — Porque foi demitida.
— Aah, isso… — comecei. — Bom, é uma longa história, mas resumindo: eu usei da minha autoridade, enquanto chefe de cirurgia, para expulsar um médico metido e arrogante da sala. E ele usou da influência dele para fazer a minha caveira. Sim, a vida é injusta!
— Que idiota, mas ele estava fazendo algo? — Harry me olhou confuso, provavelmente imaginando que não seria do meu perfil expulsar alguém da sala de cirurgia sem mais e nem menos.
— Seria realmente um problema se eu falasse sobre isso, se ainda fosse funcionária do hospital, mas já que não sou, então… — respirei fundo antes de continuar. — Ele zombou de você, foi antiético, chamou suas fãs de idiotas e coisas do tipo. Eu só te defendi, como defenderia qualquer um dos meus pacientes. Foi isso!
Harry parecia chocado, ele tinha o olhar confuso e a boca levemente aberta.
— Isso é patético, ele estava errado! Isso é injusto, !
— Ah, eu sei… mas, ok, pelo menos não vou ter mais o desprazer de encontrá-lo por aí. — Falei, enquanto esboçava um sorriso sem mostrar os dentes.
Harry ainda meneou a cabeça com um suspiro de desaprovação.
— Isso faz com que você tenha sido demitida por minha culpa? — Perguntou.
— Não exatamente, Harry! Eu já disse, faria isso por qualquer paciente. E tá tudo bem, ok? Eu vou arranjar outro emprego, é só uma questão de tempo.
— Eu andei pensando… — Harry começou e, de repente, o som de batidas se fez presente. Andei até a porta para abri-la para Anne e os demais.

🞄🞄🞄

Depois de explicarmos o que havia acontecido e acalmarmos a todos, o assessor pessoal de Harry e seus familiares acharam melhor que ele permanecesse no hotel em que nos encontrávamos. Decidi ficar, assim, poderia ajudar caso ele voltasse a ter uma crise.
Anne e Gemma retornaram ao hotel para arrumarem seus pertences e se prepararem para viagem no dia seguinte.
Eu olhava da poltrona do quarto o cantor dormindo tranquilamente na cama, ele não insistiu em tocar no assunto sobre o beijo novamente, mas me fez a proposta mais maluca que eu já havia recebido na vida: ele me daria um emprego, como médica da família; ajudaria com os curativos de seu braço, com as medicações e início do processo de fisioterapia...
Isso envolveria eu me mudar para Holmes Chapel daqui uma semana, quando ele definitivamente ficaria livre dos compromissos da banda. Teria flexibilidade de horário e tempo suficiente para terminar minha tese de doutorado, ele cobriria o meu salário do hospital... Isso era loucura! Harry tinha cara de quem bagunçaria a minha vida, mas era aquela história, né? Declaro que li e concordo?!



Continua...



Nota da autora: Oi, gente! Como estão?
Me digam, o que acharam desse capítulo? Primeiro beijo do nosso CASAL !!!! Aaaw, eu amei demais e queria guardá-lo num potinho.

Vou continuar agradecendo as pessoas que têm comentado e a minha beta que não tenho explicações do quão perfeita ela é. Vocês são umas fofas!

Sobre a música que o Harry escolheu no carro para a PP, Rhiannon da banda Fleetwood Mac, é uma música inspirada numa lenda sobre uma bruxa/Deusa Celta, que é livre de todas as amarras da vida, é exatamente como a tia da nossa PP é e mais como a nossa personagem principal deve ser.

Beijinhos e até a próxima!



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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