CAPÍTULOS: [Prólogo][1][2][3][4][5][6][7]









Última atualização: 05/04/2017

“And in the years after, with tears or with laughter, we’ll always remember our dear Kappa days.”




Sabe aquelas cenas de filmes em que, de repente, o celular de todo mundo toca, avisando que uma nova mensagem chegou? Geralmente, não é coisa boa, mas, ainda assim, todo mundo corre para ver, porque a curiosidade sempre fala mais alto. Não que eu esteja julgando, afinal, eu era uma das que deixaram de lado as questões que o Sr. Dawton nos passou, para ver quem era a vítima da vez. A última, no ano anterior, havia sido uma garota da minha sala, que saía dizendo por aí que esbanjava dinheiro, e acabaram descobrindo que ela era, na verdade, bem pobre. Clichê? Sim. Cruel? Também, mas o Ensino Médio tem dessas coisas. Eu me lembro de passar horas imaginando como ela havia se sentido. Horrível, com certeza, tendo uma parte da sua vida — uma que ela não apreciava muito — exposta por aí, por alguém que, provavelmente, não tinha muito o que fazer. Mas a realidade é que, mesmo depois de passar tanto tempo pensando nisso, eu estava bem longe de saber como realmente é. Ninguém nunca está preparado para algo assim.
No momento em que eu bati os olhos na foto, já senti os olhares se voltando para mim. Ouvi algumas risadinhas, sussurros, alguns “uhhh”, mas eu não conseguia parar de encarar aquela pequena imagem na tela do meu celular.
Primeiro, eu senti um aperto no peito, uma dor tão forte que era como se alguém realmente estivesse enfiando a mão lá, puxando meu coração para fora e o esmagando. Depois, raiva. Eu queria jogar o celular no chão, como se aquilo fosse fazer com que aquela foto não existisse. E, então, veio a pior delas: a decepção, que trouxe as lágrimas que lutei contra e não deixei cair. No final, foi como se tudo isso me atingisse ao mesmo tempo. Eu queria matá-lo, não queria vê-lo nunca mais, queria ficar sozinha, trancada em meu quarto, e chorar escondida.
Mas eu esperei. Esperei os 12 minutos que faltavam para que o sinal da saída tocasse. 12 minutos de olhares nada discretos, de sussurros que até tentavam, mas que eu ouvia cada palavra. Algumas eram de pena, outras zombarias, ou achando graça da situação toda. Olhei rapidamente para Mark, meu amigo, sentado ao meu lado, e quando ele fez menção de que iria falar alguma coisa, eu balancei a cabeça para os lados, impedindo-o. Naquele momento, eu só queria ouvir a voz de uma pessoa, e não era a dele. Por isso, quando o sinal tocou, meu material já estava guardado, e eu fui a primeira a deixar a sala, indo apressada ao estacionamento, onde sempre nos encontrávamos depois da aula.
Eu nem precisei procurá-lo. Logo que saí do pavilhão onde eu estudava, avistei-o. Ele andava tão rápido quanto eu, a expressão preocupada, postura tensa, olhando para os lados, provavelmente me procurando. Eu parei, e logo ele me viu e aproximou-se hesitante. Fiquei olhando para ele com uma expressão vazia, sem dizer uma palavra. Ele demorou alguns segundos para se pronunciar, mas o fez, com a voz trêmula, quase que num sussurro:
— Eu juro que posso explicar.
Dei o sorriso mais irônico que consegui, naquele momento, sem acreditar no que eu tinha acabado de ouvir. Não dava para ser um pouquinho mais original?
— Não se dê ao trabalho. A foto é autoexplicativa, — disse seca.
— Não é o que parece, !
Soltei uma risada forçada. Era inacreditável!
— Ah, não? Você vai me dizer que a Hailey fez uma montagem de vocês dois se beijando? Que aquilo nunca aconteceu? Nós dois sabemos que ela é burra demais pra fazer algo assim.
— Eu... — ele começou a falar, mas hesitou por um momento, antes de terminar a frase: — Aconteceu, mas...
— Ótimo. — Virei de costas e saí andando, já tendo ouvido tudo o que eu precisava. Mas não dei cinco passos e senti sua mão se fechar ao redor do meu braço, me impedindo de continuar.
, por favor, espera! — pediu, e eu me virei novamente para ele, me segurando para não meter a mão na cara dele.
— Tira a mão de mim! — exclamei, aumentando o tom de voz.
Aos poucos, as pessoas iam parando para ver o que estava acontecendo. Notei nossos amigos juntos em um canto, olhando tudo preocupados, e agradeci por não interromperem. Esta não era exatamente a nossa primeira briga, e eles já sabiam que o bom era não se meterem.
— Eu tiro assim que você parar de fugir e conversar comigo!
Bufei, puxando, eu mesma, o meu braço.
— Tá legal. Desembucha.
Ele olhou ao redor, parecendo, só então, notar os olhares que se voltavam para nós.
— Será que dá pra gente ir conversar em um lugar mais privado? — perguntou.
— Não — respondi simplesmente. Cruzei os braços no peito e olhei no fundo dos seus olhos, tentando mostrar para ele uma força que eu não tinha. Tentando esconder o quanto aquilo estava me machucando.
— Ok. — Respirou fundo, antes de começar a falar: — Você sabe que eu nunca te traí e que eu nunca faria isso.
— Tá falando sério? Caralho, , eu vi a porra da foto! Você acabou de confessar! Para de falar merda!
— EU PEDI PARA ME ESCUTAR, ! — ele gritou, sem conseguir se controlar. Eu não me assustava com aquilo, e ele sabia disso. A verdade era que, depois de mais de dois anos, eu estava mais que acostumada com os surtos dele. — Desculpa, eu... — “Prometi que iria me controlar mais e não tô fazendo isso” encaixava bem.
Ele levou as mãos à cabeça, puxando os fios de cabelo, como fazia desde pequeno quando estava nervoso. Eu sempre odiei aquilo, não queria que ele se machucasse, mas, ali, achei ótimo. Queria que ele sentisse dor também, uma dor tão forte quanto a que eu estava sentindo.
— Você tem cinco minutos. Depois disso, eu vou embora sem a sua explicação idiota.
Seus olhos procuraram os meus e, quando encontraram, eu vi a dor. Eu não vou mentir, naquele momento, foi a visão do paraíso. Não parecia justo que só eu me sentisse uma merda.
— Não é uma montagem, eu realmente fiquei com ela. Mas foi em uma festa, no sábado, você tinha terminado comigo... Eu estava puto com você, acabei bebendo demais e aconteceu. Eu te amo tanto. Nunca ficaria com uma garota estando com você.
Ouvi-o admitir o que tinha feito, com todas as palavras, doeu mais do que eu pensava que iria. Senti, mais uma vez, as lágrimas virem, mas, mais uma vez, não deixei com que acontecesse. Eu não daria esse gostinho a ele. Em vez disso, apertei meus lábios em uma linha reta e balancei a cabeça, continuando a achar tudo aquilo inacreditável. Ele falava uma idiotice atrás de outra.
— Quando foi que eu terminei com você, ? — perguntei.
— Sexta... — respondeu hesitante.
— Você ficou com a garota que mais me irrita no universo, um dia depois de terminar com a pessoa que você diz amar, e você acha que tá tudo bem? — questionei, perdendo um pouquinho do controle também e falando mais alto do que eu pretendia. — É essa a merda de explicação que você tem para me dar?
, me perdoa, por favor. Eu juro que não vai acontecer de novo. — Foi tudo o que ele precisou dizer para me fazer explodir. Eu tinha plena consciência do grande número de pessoas paradas, acompanhando tudo, mas, naquela hora, eu não poderia me importar menos com aquilo.
— Não! Para de falar, pelo amor de Deus, porque cada palavra que sai da sua boca só faz com que a vontade de te dar um soco no meio da cara aumente! Você fica com outra garota, um dia depois da gente terminar, nós voltamos dois dias depois, você esconde isso de mim, espera que eu descubra junto com o resto do colégio, faz com que eu me sinta humilhada na frente de todo mundo e ainda espera que eu te dê uma segunda chance? Vai se foder, ! Eu já aguentei sei lá quantas crises bestas de ciúme sua, sem nunca ter nem pensado em te trair, e você vai lá e se agarra com outra garota porque estava com raivinha de mim? Se eu fosse seguir o seu exemplo, já teria pego a porra do colégio inteiro! Mas, não, a idiota aqui pensou que, apesar de tudo, eu poderia sempre confiar em você... Mas não é bem assim, é? Eu sempre deixei bem claro, traição eu não aceito, então faz um favor a mim: não aparece mais na minha frente, não tente nem me dirigir à palavra, ou eu juro que vou fazer um belo estrago nesse seu rosto bonitinho.
Dito isso, virei de costas e saí andando para fora do estacionamento. Eu não sei dizer exatamente em que parte do caminho para a minha casa comecei a chorar, ou onde eu desisti de andar e me sentei na calçada, e fiquei ali, sem saber o que fazer. Eu não me lembrava da última vez em que eu havia passado mais de uma semana sem tê-lo por perto. A ideia de ele estar completamente fora da minha vida me deixava meio perdida. Mas, desta vez, não tinha volta. Eu não me importava se tinha sido só um beijo ou se eles tinham transado. Traição é traição, e eu, com certeza, não seria uma dessas que deixa alguém me fazer de boba e, depois, volta correndo para os braços dele. Isso não. Eu aprenderia a ficar sem ele, por mais impossível que aquilo parecesse, naquele momento. Ele não era tão essencial assim.



Atualmente


— Eu estou tão animada! Esperei um ano inteiro por este dia! Nós, finalmente, vamos voltar a nos ver todos os dias, almoçar juntas, ir às mesmas festas! Awww! Eu senti tanto a sua falta! — finalizou a fala, me dando o vigésimo abraço do dia.
Esta é a minha melhor amiga . Ela tem esse jeito meio doido; às vezes, assustador, mas eu garanto que ela é um amor. O motivo da animação dela? Eu, finalmente, estou indo para a universidade! A realidade é que eu tô bem mais animada que ela, a diferença é que ela faz questão de mostrar isso a cada dois minutos. Mas, sim, este, com certeza, é um dos melhores dias da minha vida. Eu sempre sonhei em estudar na UCLA (University of California, Los Angeles), só uma das universidades mais concorridas dos Estados Unidos! Sem pressão. Mas eu consegui! Não foi fácil, claro, tive que sacrificar algumas festas aqui e ali, me matar de estudar aqui e acolá, e, mesmo que, na hora, fosse difícil, ter entrado fazia cada minuto a mais estudando valer a pena. E, agora, eu estava no meio do campus, pela primeira vez, como uma universitária e não só mais uma adolescente sonhadora.
Como você, provavelmente, já percebeu, já estuda aqui há um tempo. Um ano, para ser exata. Eu tenho praticamente o mesmo grupo de amigos desde o fundamental: ela, , e , que era o que eu conhecia há mais tempo, desde quando eu tinha quatro anos, mas esse é passado e não merece nem ser mencionado. Ele, e eram um ano mais velhos que eu e . Nós acabamos nos conhecendo, porque e eu éramos inseparáveis, então nossos amigos acabavam se juntando também. É claro que eu tenho outros amigos, porque ter só quatro seria bem deprimente, mas esses são os mais próximos e os que eu mais amo. Menos o , que, como eu já mencionei, é um idiota do passado. Na verdade, todos eles também sempre dividiram comigo o sonho de estudar na UCLA e, depois de muitos anos, aqui estamos nós.
Bem, eu e , no momento, mas você entendeu.
— E eu tô tão animada por vocês duas! — Um braço extra passou ao meu redor, me prendendo ainda mais a .
É, e esta é a minha mãe Claire. Talvez, eu estivesse errada. Talvez, minha mãe fosse a pessoa mais animada com o meu primeiro dia na universidade. Nós já morávamos em Los Angeles. Eu poderia facilmente chegar aqui sozinha, mas ela fez questão de me trazer. Não que eu esteja reclamando, afinal, eu estava carregando duas malas gigantescas e minha casa não é exatamente perto daqui, tanto que eu decidi me mudar para um dormitório na universidade, então a ajuda era super bem-vinda.
— Vamos com calma, tá legal? Eu nem cheguei ao meu dormitório ainda — disse, tentando afastar as duas, que grudaram em mim que nem chiclete.
— Não dá pra ter calma, , nós temos tanta coisa pra fazer! — exclamou, me largando e voltando a andar, e puxando uma das minhas malas. — Você já trouxe várias roupas, né? Por favor, , me diz que você tem roupas maravilhosas dentro desta mala, ou eu te mato!
Arregalei os olhos para o seu tom ameaçador.
— Tem uma coisinha ou outra, mas nada muito extravagante. , é minha primeira semana aqui, eu não posso já sair, indo às festas... Tenho que me adaptar primeiro — repreendi-a, e ela revirou os olhos, não se importando.
— Amanhã, começa a rush week¹, você tem que participar e tem que estar linda! — Sua voz saiu tão aguda que eu fiz uma careta. Por isso e pelas palavras que saíram da boca dela, claro.
, eu falei que não vou entrar em irmandade nenhuma. Você sabe que eu acho isso tudo ridículo.
— Como assim ‘ridículo’? — Ok, eu me esqueci de mencionar que minha mãe já foi uma irmã na Kappa Kappa Gamma. — , você vai tentar entrar em alguma, sim! Eu não vou deixar você jogar uma oportunidade dessas fora, perder a chance de ter uma experiência incrível.
— Mãe, por favor, o que eu vou aprender? Como lavar carros sendo sexy I? Introdução à briga de travesseiros? Fala sério! Não vai rolar. — Balancei a cabeça e continuei andando, até perceber que não era mais seguida por elas. Virei-me para trás, para encontrar duas mulheres possessas de raiva me encarando com tanto ódio no olhar que pareciam querer arrancar minha cabeça fora. — Vocês não vêm? — perguntei inocentemente, sabendo que aquilo iria deixá-las mais putas ainda.
, eu vou te falar isso pela última vez: para de se deixar levar pelo que você vê por aí. Você sabe que grande parte é tudo mentira. Estar em uma irmandade foi a melhor coisa que aconteceu comigo quando eu estava na universidade, e você vai, pelo menos, tentar! — Ela estava praticamente gritando, o que me fez revirar os olhos. Barraco era coisa de família, mesmo.
— Não, valeu.
— Ei, você realmente acha que eu seria parte daquilo que os filmes mostram? Garotas que só pensam em festa, e garotos que tem briguinhas idiotas entre si, são loiras, peitudas e burras? — questionou.
Encolhi os ombros, sem ter certeza de como responder àquilo. Ela não se encaixava em tudo, mas, no geral, uma irmandade me parecia o lugar perfeito para a .
— Eu não disse isso. Só não quero participar e pronto, aceitem logo — insisti, tentando finalizar aquela discussão desnecessária.
, você pode nos deixar a sós por um momento? — minha mãe perguntou, e eu gemi em protesto. Não, eu não queria uma daquelas conversas agora.
— Sim, senhora — disse e se afastou, levando a mala que carregava consigo. Não sem antes me lançar um sorriso de lado, já sabendo que aquela batalha estava vencida.
— Enfim, sós — falei ironicamente, enquanto alunos e seus pais passavam o tempo todo ao nosso redor. Minha mãe não demonstrou reação alguma, só ficou parada lá, me encarando como se eu fosse alguma criminosa ou algo do tipo. Eu começaria, então: — Mãe, você sabe que eu não sou esse tipo de garota. Eu não me encaixo em grupos assim, eu nunca seria aceita. Para que perder tempo tentando algo que não vai dar em nada?
Ela suspirou, antes de se pronunciar:
— Que tipo de garota, ? O tipo de garota dedicada, que vai do céu ao inferno por quem ama, que luta pelo que acha certo? Porque é isso que você vai encontrar lá e é isso que você é. Eu sei que o mundo inteiro pensa que irmandades e fraternidades não são nada, além de jovens cheios de hormônios procurando por uma boa festa, mas eu já te falei mil vezes que não é bem assim. Você vai encontrar esse tipo, com certeza, e vão ter festas, sim! Ótimas, por sinal! Mas, além disso, você vai conhecer garotas, irmãs, que vai levar para a vida inteira. Sua avó, sua madrinha, minhas melhores amigas até hoje, todas foram o que?
— Kappas — respondi desanimada, provavelmente pela centésima vez na minha vida.
— Sim, Kappas. Então, por favor, faz isso por mim. Pelo menos, tenta. Se você não entrar em nenhuma, tá tudo bem, eu não vou te amar menos por isso, mas eu realmente quero que você tente. E, se não gostar, você pode sair a hora que quiser. Só não fica nessa de ficar julgando algo que não conhece. Depois, você pode julgar à vontade, eu vou deixar. — Respirei fundo, dando um sorriso derrotado. Eu faria qualquer coisa pela minha mãe. Ela sabia disso e sabia quando usar essa vantagem. — Estamos combinadas? Promete que vai, pelo menos, tentar?
— Eu prometo. — Ela não me culparia se eu simplesmente não conseguisse entrar, certo? Eu só tinha que ser péssima o suficiente e pronto. Nada de patricinhas me enchendo o saco. A única que eu aguentava era a , e até ela me tirava do sério, de vez em quando.
— Ótimo. Agora, me dá um abraço — pediu com um grande sorriso no rosto, abrindo os braços. Abracei-a apertado, sabendo que eu iria morrer de saudade dela quando ela fosse embora. — Ah, eu quase me esqueço! — Afastou-me rapidamente, me segurando pelos ombros e arruinando o meu momento. — Quando você for à casa das Kappas, não se esquece de mencionar que você é uma , ok? Vai facilitar a sua entrada.
Maravilha.

Depois de uma dramática despedida, com direito às lágrimas e mil abraços — sim, foi bem patético —, mesmo sabendo que eu a veria novamente em duas semanas ou até menos, eu segui para a entrada do prédio em que ficavam os dormitórios, onde me esperava com um sorriso de orelha a orelha.
— E então...? — perguntou, não conseguindo nem conter sua animação.
— Eu vou tentar — respondi, e ela deu um grito, antes de pular em mim e quase me derrubar no chão. Afastei-a assustada, percebendo que, praticamente, todo mundo que passava por perto, no momento, nos encarava. — , pelo amor de Deus, não me faz pagar mico no meu primeiro dia!
— Relaxa. Eles vão ver coisas piores no decorrer do ano. Agora, vamos, nós temos muito o que fazer — falou, me puxando pelo braço, escada a cima. Quase não tive tempo para arrastar minha mala junto comigo, mas consegui pegá-la a tempo. — Tá legal, primeiro: você vai ter que visitar a casa de todas as irmandades amanhã, sem exceção — ela explicou.
— Todas? Até as que eu não tenho interesse nenhum?
— Com certeza! Como você vai saber se você tem ou não interesse por aquela casa, antes de conhecê-la? — perguntou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Dei de ombros.
— Eu já pesquisei um pouco sobre isso, sei o que cada...
— Segundo: vá com a mente aberta. — Interrompeu-me. — O que você pesquisou, provavelmente, está errado. Escuta o que eu tô te falando, já cometi esse erro. Então, não chegue às casas julgando saber tudo o que rola por lá, porque você terá uma baita surpresa.
— Tarde demais — sussurrei para mim, mas ela escutou e me lançou um olhar bravo, antes de continuar.
— Terceiro: você vai conversar com muita gente diferente e a pressão para agradar será gigante, mas não finja ser alguém que não é, porque aquelas são possíveis irmãs com quem você vai ter que morar junto. Elas são as suas futuras melhores amigas, acredite em mim. A não ser que você queira passar os próximos anos fingindo ser alguém que não é. — Eu quase ri da cara dela na parte das “futuras melhores amigas”, mas achei melhor não cutucar mais a fera. Não queria um ataque ali no meio de todo mundo. — Quarto: o seu foco são as...?
— Kappas. — “Professora”.
— Isso. Você é um legado, e isso torna tudo um pou...
— Eu sou um o que? — Interrompi-a confusa. Não que a palavra fosse difícil. Eu só não tinha ideia do que aquilo significava no contexto “irmandade”.
— Um legado. Quer dizer que você é filha e/ou neta de uma Kappa. Isso facilita um pouco na hora de entrar, mas não muito. E ser minha melhor amiga também não vai ajudar tanto. Você já tem a minha aprovação, mas só a minha não é o suficiente. Você tem que conquistar as outras garotas também, entendeu? — Assenti. — Ótimo. Como eu estava dizendo, as Kappas, especialmente a Kappa Kappa Gamma, podem ser um pouco mais exigentes. Eu não posso dizer muito, mas, para ser uma, você tem que se destacar! Então, por favor, quando você chegar lá não seja toda “”, sabe?
— Toda “”? — questionei-a e, desta vez, foi a minha voz que soou toda aguda e esquisita. — Você acabou de falar para eu ser eu mesma.
— Sim, você mesma quando está com seus amigos. De bom humor, de bem com a vida, descomplicada, não essa que você é quando está onde não quer e com quem não quer, e eu sei que você não quer nem um pouco fazer isso. Não faça piadas grosseiras, ofensivas, não feche a cara para as garotas, não critique o estilo delas e coisa do tipo. E, por favor, por favor, por favor, nada de indiretas. Por mais burras que você pense que elas sejam, elas também conseguiram uma vaga aqui na UCLA, então, acredite em mim quando eu digo que elas vão sacar. — Bufei, sem paciência para tudo aquilo. Se ela quer que eu seja eu mesma, o pacote deveria vir completo, certo? Good girl e bad girl . Aquilo não estava fazendo sentido nenhum, para mim. — Quinto e último tópico: arrume-se. Querendo ou não, a aparência ainda é algo muito significativo, nessas horas. Se você chegar lá toda esfarrapada, como se não estivesse nem aí, ninguém vai te escolher. Não precisa ser nada exagerado, só não dá para ser desleixada também. Nos três primeiros dias pode ser algo mais informal, vestidos de verão, shorts e coisa do tipo. No quarto, capriche um pouquinho mais. E, no quinto, você tem que estar maravilhosa!
Respirei fundo, de saco cheio com aquilo. E olha que nem tinha começado ainda.
— Entendi tudo — menti, para encerrar o assunto. — Agora, dá pra me dizer quantos degraus a gente ainda vai ter que subir até chegar ao meu dormitório? Não tem um elevador aqui, não?
— Ei, não é minha culpa você ter pego um bem no quarto andar. E, não, não tem elevador. Mas você tá precisando perder uns quilinhos mesmo, vai ser bom. — Brincou, me olhando de lado e sorrindo.
Empurrei-a levemente, rindo.
— Chata.
Nós subimos mais dois lances e , finalmente, me puxou para o corredor, em vez de para outro lance. Eu nunca fui exatamente a pessoa mais pontual do mundo. Aquela escada, com certeza, ainda iria me ferrar muito.
— Chegamos! — anunciou, parando em frente à sexta porta.
Sorri animada, encarando os dois metros de madeira à minha frente. Do lado do trinco havia um pequeno dispositivo de passar cartão para destrancá-la. Apressada, procurei na minha bolsa o cartão que havia recebido cerca de duas semanas atrás, quase derrubando tudo no processo, mas o alcancei e passei rapidamente onde era indicado. Uma pequena luz vermelha logo ficou verde, e o som de algo destrancando soou. Olhei para a ao meu lado, e ela balançou a cabeça, me incentivando a abrir, então o fiz.
Como eu já esperava, o cômodo era pequeno. Nada sufocante, nem nada do tipo, só pequeno. Pequeno e confortável. Na parede oposta a que eu me encontrava estava uma grande janela e, dos lados, nos dois extremos do quarto, duas camas de solteiro. Cada uma possuía um criado-mudo simples com duas gavetas do lado. Do lado da porta, perto de onde eu estava, se encontrava o closet, maior do que eu imaginava, eu tenho que admitir. Eu poderia facilmente dividi-lo com a minha colega de quarto. Ah, a minha colega de quarto! Essa estava sentada na cama esquerda, me olhando com curiosidade, enquanto eu analisava o lugar. Eu não conseguia ver o rosto dela direito, por causa de seu longo e volumoso cabelo preto, e sua franja, que cobriam quase tudo de um jeito meio estranho. Mas ela usava óculos fofinho.
— Oi! — Dei alguns passos para dentro e sorri para ela. Ela arregalou levemente os olhos e levantou meio desajeitada. Ela não era muito alta. Devia ter, no máximo, 1,60 m, um pouco mais baixa que eu.
— O-Oi — sussurrou.
Eu não acho que sussurrar tenha sido o objetivo dela, mas foi como saiu.
— Meu nome é , mas pode me chamar de . Eu prefiro. A não ser que esteja brava comigo. Na verdade, é como eu sei quando as pessoas estão bravas comigo. — Apresentei-me, me aproximando dela e tentando ser simpática, mas não funcionou muito bem. Ela desceu seu olhar para o chão quando estendi minha mão.
— Ap-pril — gaguejou. Sua voz saiu um pouco mais alta, mas não foi um avanço muito significativo, só o suficiente para eu perceber que ela possuía, provavelmente, a voz mais suave do mundo.
Eu estava quase descendo minha mão novamente quando percebi a dela se movimentar para me cumprimentar. Foi bem estranho. Cada centímetro que ela percorria era de forma hesitante. Eu estava me sentindo como um monstro tentando tirar vantagem da garotinha indefesa. O aperto de mãos foi rápido, realmente como se ela estivesse com medo de mim. Ainda bem que eu não era toda carinhosa que nem a . Se eu tivesse chegado, abraçando e dando beijinhos no rosto, a garota iria desmaiar. Eu tinha que me lembrar de agradecer a ela mais tarde por ficar parada e bem quieta atrás de mim.
— April? Nome legal — disse, sorrindo, e consegui arrancar um sorriso bem pequeno e bem forçado dela. É alguma coisa. Pelo menos, ela se deu ao trabalho de tentar.
— E eu sou a , a melhor amiga da ! — Só porque eu elogiei. É claro que ela fez questão de dizer que era minha melhor amiga. Apesar de ela ter falado em um tom simpático, a ameaça estava bem explícita. Como se a garota já não estivesse assustada o suficiente.
— Sim, e a melhor amiga da já está de saída — falei, me virando para trás e lançando a ela um olhar bem sugestivo.
Ela revirou os olhos, mas não me contradisse.
— É, a melhor amiga da tem muitas coisas para fazer. Ela vai passar aqui mais tarde pra gente ir comer alguma coisa com o resto da galera. Você é bem-vinda, April.
Eu não vi a reação da April, mas também não a ouvi dizer nada, então deveria ter sido tão estranha quanto às outras.
— Não fale de você em terceira pessoa, é estranho. — deu de ombros, não dando a mínima.
— Vejo você mais tarde.
Assenti, e ela foi embora, provavelmente, ajudar nos preparativos para os dias seguintes.
Fechei a porta e voltei a me virar para April, que continuava praticamente na mesma posição de antes, sendo a única diferença a de que, agora, suas mãos estavam entrelaçadas na frente do seu corpo. Dei mais uma olhada ao redor, notando algo pela primeira vez. Escondido em um canto, perto da cama da direita, havia um frigobar preto. Isso eu, com certeza, não esperava.
— É seu? — perguntei, apontando para ele.
— S-Sim, eu ganhe-ei. V-Você pode u-usar também, tem bast-tante espaço.
— Legal. Valeu! — agradeci, me jogando na cama perto dele e imaginando que aquela deveria ser a minha, já que ela estava sentada na outra antes. Era bem confortável, mas eu, com certeza, sentiria falta da minha. — Desculpa perguntar, mas... Hum... Você é gaga?
Não me culpe, eu sei que você tá se fazendo essa pergunta também. Ela seria minha colega de quarto pelos próximos anos, eu tinha que saber... Certo?
Voltei meu olhar para April e encontrei seus olhos quase pulando para fora de tão arregalados que estavam, além do pouco de seu rosto, que eu poderia ver, estar completamente vermelho. Ok, talvez, só talvez, eu não devesse ter perguntado.
— E-Eu... — Ela pigarreou, antes de começar novamente: — Eu não — respondeu em um sussurro.
É, definitivamente, não deveria ter perguntado.
— Sério? — Eu não podia ver minha cara, no momento, mas eu tinha certeza de que estava exatamente como a dela, segundos antes. — F-Foi mal, é que você... Sabe? — Parece que os papéis se inverteram, não é mesmo? Que ótimo, , sempre dizendo a coisa errada.
Mas indo contra todas as minhas expectativas, naquele momento, ela riu. Ela não me xingou, não saiu correndo, não começou a chorar, ela riu. Bom, não foi uma super risada, nem nada. Na verdade, foi uma bem curta, tímida e fofa, mas é alguma coisa.
Fiquei encarando-a com cara de besta, por alguns segundos, sem ter certeza do que dizer, até que ela me tirou do inferno e se pronunciou:
— Você não é a primeira a me perguntar isso — disse com aquela voz invejável de tão suave. — Eu só... Só tenho alguns problemas, hum... Sabe... Na hora de conhecer pessoas novas.
Dei uma risadinha nervosa e tentei controlar o que saía pela minha boca, antes que eu falasse merda de novo.
— Bom, essa pergunta parece ser a sua cura... — Ela sorriu levemente e assentiu, voltando a sentar na cama dela. — Então, você chegou faz muito tempo?
— Ontem — ela respondeu.
Fiquei esperando ela falar mais alguma coisa, mas, gaga ou não, ela era uma garota de poucas palavras. Felizmente, a good girl falava por duas pessoas, sem dificuldade alguma.
— Este lugar é legal, né? Eu tinha uns 9 anos, na primeira vez em que vim aqui, e me apaixonei, e, cada vez que venho aqui de novo, desde aquele dia, tudo só parece mais incrível! — contei, sem conseguir conter minha animação por, finalmente, estar ali. — Você sempre quis estudar aqui também? Ou tinha outros lugares em mente?
— Eu sempre quis. — April respondeu.
Ok, falar com uma pessoa de poucas palavras não é tão divertido. Sorri para ela e desviei o olhar para a janela, pensando no próximo assunto, mas nada me veio em mente. Legal como as coisas fogem bem na hora em que a gente precisa.
— Desculpa, eu... Eu melhoro, tá? — ela falou, de repente. Encarei-a confusa. — Eu sei que eu não sou uma pessoa muito fácil de se comunicar. Eu só... Preciso me acostumar com você, aí eu melhoro. Não muito, mas...
Sorri compreensiva.
— Tudo bem, não tem problema.
E ela tinha razão. Ela realmente melhorava.
Nós passamos o resto da tarde conversando, enquanto eu arrumava minhas coisas. Aos poucos, ela foi se soltando e me contando mais sobre ela, usando bastante palavras. Ainda tinha o jeito todo tímido, isso não foi embora, mas, mesmo assim, ela era bem legal.
Ela era de São Francisco, ali na Califórnia, mesmo, tinha 18 anos, como eu, e um irmão mais velho. Ela falou bastante sobre como iria sentir falta do seu gato, Natal, e sua cachorra, Pipoca, o que acabou fazendo com que eu começasse a lamentar também a falta que o Smurf, meu cachorro, iria fazer. Contei a ela sobre mim também. Como eu era filha única, já morava ali em LA e coisas do tipo.
Quando começou a escurecer, nós decidimos nos arriscar no corredor lá fora, para procurar o banheiro e tomar banho, antes que a chegasse novamente. Apesar da grande movimentação do lado de fora, com alunos indo e vindo, procurando seus dormitórios, pais acompanhando, veteranos tentando ajudar, nós achamos com facilidade. Ficava logo no final do corredor, de um lado, o feminino e, do outro, o masculino. Era bem grande, afinal, tinha que suportar todas os alunos daquele andar, então, mesmo tendo bastante pessoas nele, não estava cheio. Felizmente, a maioria das garotas estavam usando apenas o espelho. Foi fácil para a gente achar chuveiros vazios.
Um sorriso enorme se formou em meu rosto quando vi que tinha água quente. Eu não sabia o que faria se não tivesse. Sou uma daquelas pessoas que toma banho na água quente até no calor, e estava bem calor! Eu deveria estar parecendo algum tipo de ET ali, aproveitando aquela água, pois todas as outras garotas, que também tomavam banho, a usavam fria, mas eu estava feliz demais para me importar. Parecia tão surreal o fato de que eu estava realmente ali, na UCLA, tomando banho em um banheiro compartilhado, no andar do meu dormitório. A ficha só iria cair mesmo quando as aulas começassem, em uma semana. Talvez, nem lá. Enquanto isso, eu ficaria toda hora abobada, me lembrando disso. Na verdade, quando eu me lembrava, nem a ideia de passar os próximos dias fazendo algo em que eu não estava minimamente a fim me desanimava. Eu poderia estar fazendo algo chato, mas eu estava fazendo aquilo na UCLA, então, tudo bem.
A sensação de ter algo que você sempre quis é incrível, mas a sensação de conseguir algo, depois de passar metade da sua vida lutando para que aquilo acontecesse, era melhor ainda. Era indescritível!
De banho tomado, April e eu voltamos ao dormitório. Ela não queria sair comigo e com meus amigos, dizendo que não conhecia ninguém, que iria morrer de vergonha, mas, depois de muita insistência, eu a convenci. Depois de tantos anos convivendo com a minha mãe, eu tinha pego o jeito da coisa. O segredo? Ir para o lado emocional. Falei a ela que, para passar a conhecê-los, ela tinha que ter esse primeiro contanto, como teve comigo, ou nunca faria amigos ali na universidade, e não ter amigos, com certeza, arruinaria a experiência universitária dela. Todo mundo quer ter os melhores anos de sua vida na universidade, até uma garota super tímida, então foi tiro e queda.
Quando bateu na porta, eu estava de frente para o espelho, que eu havia dado um jeito de enfiar em uma das minhas malas, tentando arrumar meu cabelo. Não me entenda mal, eu amo meu cabelo. É um loiro bem bonito e vai até um pouco abaixo dos meus ombros. O problema nele sou eu mesma. Eu insisto em cortar a franja desde que eu tinha uns 12 anos e chega uma hora em que ela tá grande demais para ficar na testa, então tenho que jogar para os lados, para não cobrir meus olhos, e pequena demais para pôr atrás da orelha ou prender no “rabo de cavalo” que eu havia feito. Resultado: ela ficava no lugar em que bem entendia. Se eu arrumava em um lugar, logo ela iria a outro. Quando eu decidia deixar naquele outro lugar, ela decidia ficar indo aos meus olhos. Era uma guerra diária, já vencida, mas que eu continuava insistindo, então pedi a April, que estava apenas sentada, esperando, atender para mim.
— Oi. — Ouvi-a dizer no tom baixo de horas atrás.
— Ah, você vai com a gente! Legal! — Vi , pelo reflexo do espelho, sorrir para ela. Como eu disse antes, ela é um amor. Ela só deixaria de ser se percebesse que a April estava ameaçando o que ela gostava de chamar de seu “posto de melhor amiga”. Aí, sim, ela viraria uma fera. — , não vai ficar melhor que isso. Vamos logo, já tá todo mundo esperando a gente.
Dei uma última olhada no espelho e bufei de decepção quando a franja saiu completamente da posição em que eu havia deixado, mas deixei quieto, peguei minha bolsa e segui as duas, porta a fora, ou eu acabaria passando a noite inteira ali.
— A gente vai ao Mc, né? — perguntei enquanto descíamos as mil escadas, olhando rapidamente para .
Ela revirou os olhos.
— Sim, , ao Mc. Sério. Como você não enjoa?
Sorri alegremente. Só faltava isso para o meu dia ser perfeito.
— Eu sou americana. Você é a errada aqui, não eu. — Olhei para a April. — Você acredita que ela vai ao Mc e pede salada?
Ela deu mais uma daquelas risadinhas tímidas, toda fofa.
— Salada é bom — disse, e eu fiz uma careta de nojo.
— Desculpa, mas salada só é bom no meio do meu hambúrguer. E só um pouco de alface já é o suficiente.
Eu e começamos, então, uma discussão sobre salada, que durou até chegarmos ao Mc, há poucos quarteirões de distância. Ela amava, eu odiava. Ela não aceitava meu ódio, e eu não aceitava o amor dela. Sempre foi assim.
Saí correndo, deixando as duas para trás, no momento em que vi . Eu não o via faz, pelo menos, uns dois meses e, no último ano, nós nos vimos pouco também porque ele teve um primeiro ano bem corrido, já que conseguiu um lugar no time de futebol americano da universidade. Ele abriu os braços, no segundo em que me viu e, depois de eu pular, literalmente, em cima dele, me envolveu em um abraço apertado, me levantando do chão.
— Que saudade! — murmurei, apertando-o com toda a força que eu tinha.
— Também, . Senti sua falta.
Abri um sorriso gigante ao ouvir a voz dele. Eu realmente senti a falta dele. Eu gostava de pensar que a gente tinha uma ligação especial. Ele era como um irmão mais velho, para mim, sempre me protegeu, o que olhava feio para os garotos com que eu ficava, o que tinha que dar aprovação para qualquer relacionamento mais sério meu. Não só porque ele exigia, mas porque a aprovação dele era importante para mim. Na verdade, quando meu ex, um dos melhores amigos dele, me traiu, ele deu um soco nele na frente de todo mundo. Eu não vi, o que é uma pena, mas o colégio inteiro ficou falando sobre aquilo por um tempo. Não dá para não amar uma pessoa dessas.
— Isso mesmo, dona , finge que eu nem tô aqui. — Levantei a cabeça do ombro do para olhar para , ao nosso lado, que nos encarava com um sorriso no rosto.
— Poxa, , eu vi sua cara todo santo dia, ano passado. Enjoa, sabia? — Ele abriu a boca, fingindo estar chocado com as minhas palavras, e eu ri, me afastando do só para dar um abraço nele também. — Na verdade, até que você fez falta neste um dia inteiro sem te ver.
— Eu sei, eu sei — disse, dando tapinhas em minhas costas.
era da minha idade, 18, enquanto os outros já tinham 19. Nós sempre fomos próximos, mas nos aproximamos mais ainda no último ano, sendo os dois que sobraram no Ensino Médio. Nós dormíamos na casa um do outro o tempo todo, fazíamos praticamente tudo juntos. Entre os que estavam ali, incluindo e April, que quase nos alcançavam, ele era o que mais sabia das coisas que tinham acontecido na minha vida nos últimos meses. Não que eu não quisesse contar aos outros, ou não confiasse, eu só não tinha a oportunidade. Ah, e ele é gay. Ele não é daqueles que você olha e já sabe a orientação, sempre foi mais na dele, então ele acabava enganando muitas garotas. Não por querer, claro. Mas você tinha que ver o tanto de garota que já veio falar comigo para arrumar ele para elas. O número não é pequeno. Digamos que eu já estava muito acostumada a dar a notícia da orientação sexual dele, mas eu nunca cansava das reações, eram sempre ótimas.
Voltei para o , que passou um braço ao redor dos meus ombros, quando as garotas chegaram.
, , esta é a April, minha colega de quarto. April, este é o , e este é o , meus amigos. — Apresentei-os, apontando para cada um.
— Muito prazer, April. Pode me chamar de... Eu não tenho um apelido, vai ter que ser . — Ele brincou, lançando a ela um daqueles sorrisos que faziam as garotas morrerem de amores por ele.
— Eu também não tenho apelido, então é . Prazer.
— O-Oi — ela disse, gaguejando, mas a voz dela saiu, desta vez, diferente do “oi” que eu havia ganhado mais cedo.
— Vamos? — perguntei, animada para entrar. Eu estava morrendo de fome e, agora que já tinha visto e abraçado , só conseguia pensar em algo para comer.
— Ainda não, falta uma pessoa. — disse.
— Vocês chamaram alguém?
— Uhum. — murmurou ao meu lado. e ele trocaram uns olhares, e começou a coçar a parte de baixo do seu pescoço, como sempre fazia quando estava nervosa.
— Quem? — questionei, variando meu olhar desconfiado entre eles.
— Nós não deveríamos conversar com ela sobre isso primeiro? — perguntou, me ignorando completamente.
— A gente iria, mas vocês não chegaram aqui com antecedência, como a gente pediu, então... — respondeu.
— Ei, eu tive um dia cheio. — Ela se defendeu.
— Do que vocês estão falando, hein? — Meti-me, não querendo ser ignorada pelo resto da noite.
suspirou.
— Eu converso com ela — disse, já me puxando para um canto longe dos outros.
— Conversar sobre o...
Antes que eu pudesse terminar a frase, uma luz forte me cegou por alguns segundos, e a próxima coisa que eu vi foi uma moto estacionando. Eu sabia bem a quem pertencia essa moto. Observei, indignada, descer dela, tirar o capacete como se estivesse fazendo um show e seguir para onde estávamos antes, com um sorriso no rosto. Ele estava ainda mais bonito, o que era bom, já que me fazia odiá-lo mais ainda. Ele sempre foi forte, pois nadava desde pequeno, e eu sabia que ele havia entrado para o time de natação. Antes, era só um hobby e, agora, a coisa era mais séria, então, ele, provavelmente, estava treinando mais, e esse treinamento estava dando um baita resultado! Se você já viu o corpo de um nadador, você sabe do que eu tô falando. Como se estivesse em câmera lenta, ele cumprimentou cada um dos meus amigos, inclusive a April, depois da os apresentarem. Até a April! Isso tem que ser algum tipo de brincadeira.
, você tá me ouvindo? — Desviei o olhar da cena ridícula para encarar , que me olhava preocupado.
— O que diabos tá acontecendo, ?
Ele fez uma careta e suspirou mais uma vez.
— Calma, tá? É sobre isso que a gente tem que conversar — ele disse no tom mais calmo do universo, o que só me irritou mais.
— Sobre o ? Eu não sei se você se lembra, mas eu não converso sobre o , nem com o . O que ele tá fazendo aqui?
Suspirou pela terceira vez, antes de responder:
, ele é nosso amigo, você sabe disso.
— Mas não meu, e vocês sabem disso.
Ele me segurou levemente pelos ombros e me olhou nos olhos, tentando passar um pouco da sua calma, eu imaginei, mas não funcionou.
— Escuta, era fácil pra gente manter vocês dois separados ano passado, mas, agora, não vai dar. Você tá na universidade, agora, mostra que você é madura o suficiente para deixar o passado no passado e seguir em frente.
Ri ironicamente, balançando a cabeça.
— Eu que não sou a madura da história? Foi ele quem me traiu e tentou me fazer de besta. Eu não vou fingir que nada disso aconteceu, tá legal? E se isso faz de mim alguém infantil... Bom, eu não tô nem aí. — Virei-me, planejando fazer uma saída dramática e ir de volta ao dormitório, mas me segurou pelo braço e me virou de volta para ele.
— Eu não tô pedindo para você agir como se nada tivesse acontecido, só tô pedindo para você aprender a, pelo menos, conviver com ele. Eu sei que ele te magoou, mas, acredite, ele paga por isso até hoje. Ele veio aqui em paz, . Tenta fazer a mesma coisa. Não precisam voltar a ser melhores amigos, nem nada do tipo.
— Mas, ...
, por favor. Faz isso por mim, pela e pelo .
Engraçado como todo mundo parecia ter tirado o dia para me pedir favores.
Olhei rapidamente para onde os outros estavam. Eles conversavam com sorrisos nos rostos. Até a April olhava para tudo, sorrindo. Fui eu quem suspirei, desta vez, quando percebi que eu não queria estragar aquilo.
— Eu vou aguentar ficar nos mesmos ambientes que ele, mas só isso. Eu não tô em paz e não vou conversar com ele.
abriu um sorriso e deu um beijo no topo da minha cabeça.
— Esta é a minha garota.
Ele começou a voltar e foi me puxando pela mão. notou quando nos aproximamos e me olhou, abrindo um sorriso leve, sem mostrar os dentes. Tentei colocar toda a raiva que eu sentia dele no olhar que o lancei e pareceu funcionar, porque logo o sorriso desapareceu e ele franziu o cenho. Foi a última reação dele que eu vi, pois optei por, simplesmente, ignorar a presença dele ali e focar nos meus amigos, os que eu realmente havia sentido falta no último ano.
— Podemos ir — anunciei, fazendo e sorrirem, e April me olhar confusa. Eu explicaria tudo a ela mais tarde.

— Eu tô falando seríssimo. Vocês estão olhando para a futura Kappa Kappa Gamma, .
Revirei os olhos. estava falando sobre o recrutamento² há, pelo menos, meia hora.
— Não exagera, . Depois, eu não passo, e você vai ficar toda triste.
— Amiga, eu tenho fé em você — afirmou, batendo os cílios para mim.
Todos riram, mas ninguém falou mais nada, até se pronunciar:
— Acho melhor a gente ir — ele disse. Olhei no relógio do meu celular. 11h03 e 4 ligações perdidas da minha mãe. Que ótimo. — Eu ainda não sei como chegar ao prédio dos dormitórios, sem pegar, pelo menos, dois caminhos errados antes.
— Acho que eu vou precisar de uns 10 errados, no mínimo — falei, concordando com ele. Peguei um pouco de dinheiro na minha bolsa e estendi para o . — Você paga? — Ele assentiu e pegou o dinheiro. — Vou ligar pra minha mãe, ela deve estar louca.
Fiz uma careta quando saí para fora do Mc e o ar quente do verão californiano me atingiu. Amo calor e amo a Califórnia, mas tudo tem um limite. Quando o calor é forte pelo dia e alivia à noite, eu amo. Quando é só calor o tempo todo não dá.
Encostei-me num carro estacionado ali e, esquecendo momentaneamente que o alarme poderia tocar, liguei para a minha mãe, rezando para que ela já estivesse dormindo. Antes de ir embora, ela pediu para que eu ligasse mais tarde, mas eu esqueci completamente, o que deve ter lhe deixado pirada. Minha mãe era super protetora. Felizmente, para equilibrar, meu pai era mais de boa. Sorri quando a ligação caiu na caixa postal. Vai ver, ele fez alguma coisa para acalmar ela, porque, normalmente, ela não dormiria ou largaria o celular, até conseguir falar comigo. Eu só não queria saber o que.
— Oi, mãe, é a ... — comecei a falar, depois do bip. — Desculpa não ter ligado antes ou atendido suas ligações. Eu saí com o pessoal e acabei me distraindo. Mas, para acalmar os seus nervos, eu vou te dar um resumo do meu dia: cheguei ao meu dormitório bem, o lugar é bem legal, minha colega de quarto é um amor, matei a saudade do , odeio o , comi Mc e tô indo ao dormitório. Eu vou precisar de uma ótima noite de sono, para me preparar para os próximos dias. Amanhã, à tardezinha, eu te ligo, tá bom? Beijo! Te amo.
— Todo esse ódio faz mal ao coração, sabia? — Uma voz falou ao meu lado, perto demais, me assustando e fazendo eu me afastar automaticamente. Olhei para o dono, que me encarava com um sorriso divertido nos lábios, por alguns segundos, antes de voltar a atenção para o meu celular. — Não vai falar comigo? — Não respondi. Comecei a entrar em um aplicativo, depois do outro, procurando alguma coisa que chamasse minha atenção. — Você já foi mais educada. — disse, e eu tive que espremer meus lábios um contra o outro para não abrir a boca e mandá-lo ir tomar no cu. — , isso é ridículo. Fala comigo. — Nada. Algum tempo passou, comigo passando minhas mensagens, sem realmente lê-las, até que ele suspirou. Meus lábios se curvaram levemente em um sorriso, imaginando que ele tinha desistido e iria embora, mas logo ele começou a falar de novo: — Tá legal. Se não quiser falar comigo, não fala. Só queria te dar as boas-vindas à UCLA. Eu sei o quanto você sempre quis isso.
— Eu não preciso das suas boas-vindas. — Merda.
— Olha, ela tem uma voz! — ele falou, sendo sarcástico. Voltei a ficar quieta, me xingando mentalmente por não conseguir manter a boca fechada. — Já vi que não tá de bom humor hoje.
— Não, meu humor tá ótimo, o problema é você, mesmo. — Em minha defesa, algumas frases realmente precisavam ser respondidas.
— Não disse que precisa das minhas boas-vindas, tô dando porque quero — disse, ignorando o que eu falei. — Boa sorte esta semana também. Disso, você vai precisar.
Franzi o cenho, já sentindo a raiva e a vontade de brigar vir. Ele tinha esse dom.
— O que tá querendo dizer com isso?
— Nada demais — ele respondeu simplesmente. Olhei para ele, tendo que levantar um pouco minha cabeça, graças aos seus 1,85 m de altura, e o odiei ainda mais quando vi aqueles olhos azuis. Ele não merecia olhos tão bonitos.
— Você não acha que eu vou conseguir entrar para as Kappas — concluí, cerrando os olhos.
— Eu não disse isso...
— Não precisa, tá escrito na sua testa! — exclamei, desencostando do carro e virando de frente para ele. Assim, eu conseguia encará-lo com mais fúria.
— Ei, eu quis dizer que vai precisar de sorte, porque será uma semana cansativa, não pira — ele disse, na defensiva. — Não que eu ache que você se encaixe nas Kappas, eu não acho. Só não foi o que eu quis dizer.
Abri minha boca, em choque. Ele tinha que estar de brincadeira comigo.
— Ah, e quem você pensa que é pra dizer onde eu me encaixo ou deixo de me encaixar? — questionei, posicionando minhas mãos na cintura.
— Deixe-me ver... Só o cara que te conhece há 14 anos.
— Como se isso significasse alguma coisa — falei, engolindo em seco e tentando não deixar transparecer a mágoa no meu olhar.
Ele suspirou e desviou o olhar do meu rapidamente, antes de voltar a começar a falar:
— Olha, eu sei como são a maioria das Kappas. Eu as vejo o tempo todo, elas não fazem o seu estilo. Pega a e multiplica por três, você terá uma Kappa perfeita — explicou, parecendo estar meio nervoso. Não o nervoso bravo, que eu já havia visto muito nele, só o nervoso desajeitado nas palavras.
Eu não sei o que deu em mim quando disse as próximas palavras, só sei que senti uma necessidade enorme de defendê-las. Não porque eu tinha mudado de opinião sobre, mas porque eu não conseguia aceitar o fato de que ele pensava aquilo sobre algo que eu iria tentar — contra a minha vontade, que fique claro — ser parte. Ele não tinha o direito de achar que eu não conseguiria algo. E eu sabia que, lá dentro da cabeça dele, ele tinha certeza que eu não seria aceita, por ser tão diferente delas.
— Elas não são assim, você não sabe nada! Elas são garotas dedicadas, que lutam pelo certo, que... Que... São ótimas amigas! Elas são irmãs, ! Irmãs! — Minha voz subiu algumas oitavas conforme eu falava, mas não ficou legal. Droga! Por que soou tão bonito quando minha mãe falou mais cedo?
— Fizeram algum tipo de lavagem cerebral em você? — ele perguntou chocado. — Eu me lembro muito bem de você revirando os olhos quando sua mãe começava a elogiá-las.
— Eu aprendi que não se deve julgar algo que não conhece. Eu abri a minha mente e descobri a verdade.
Ele ficou me encarando por alguns segundos, parecendo estar completamente perdido. Eu não o culpava. Eu estava falando uma besteira atrás da outra. “Abri a mente e descobri a verdade”? Qual é o meu problema?
— Tá bom... Eu não sabia que ser uma Kappa tinha se tornado algo tão importante pra você. De qualquer maneira, espero que elas não façam com que você mude. Eu gosto assim — ele falou, começando a se afastar.
— Que bom que você gostar ou não de alguma coisa não faz diferença alguma na minha vida.
Ele não respondeu mais nada, apenas me lançou um último olhar, antes de ir se despedir dos outros, que saíam do Mc.
Encostei-me no carro novamente e tapei meu rosto com as mãos. Que droga de conversa tinha sido aquela? Eu deveria ter ficado com a boca fechada, eu sabia disso, mas não, eu fui idiota o suficiente para querer bater boca com ele. E, agora, eu tinha arranjado a porra de uma missão. Por causa de uma conversa de cinco minutos, eu tinha que entrar em uma droga de irmandade! Não só uma irmandade, as Kappas, a mais imbecil de todas elas! Agora, era uma questão de orgulho. Eu faria tudo, tudo, para entrar. Depois, eu sairia, claro. Só precisava mostrar a ele que eu conseguia. Mostrar não, esfregar na cara dele, assim ele nunca mais pensaria que eu não era capaz de algo.
Ele queria conviver comigo, certo? Não seria em paz.

¹ ² Rush week, também conhecida como recruitment week, ou recrutamento, é o período de tempo em que as fraternidades e irmandades do campus recrutam novos membros para as suas casas. Acontece geralmente uma semana antes das aulas começarem.



Eu nunca gostei de acordar cedo. Eu até tentava, mas uma força maior simplesmente parecia fazer com que todos os pedacinhos do meu corpo não obedecem às ordens do meu cérebro de levantar, e ficassem lá, jogados na cama, me esperando dormir novamente para que eles pudessem descansar mais.
Mas não foi isso que aconteceu naquela terça-feira.
Assim que meu celular despertou, às 8h00, eu abri os olhos com uma energia desconhecida e me sentei imediatamente. O sol entrava pela janela, minha cama era de solteiro, o cômodo era pequeno, e April me olhava assustada da sua cama. Eu estava no meu quarto, no meu dormitório, na UCLA, e era uma universitária. Não tinha sido um sonho, era tudo muito real!
Olhei para April com um grande sorriso no rosto. Ela ainda me encarava, parecendo ter sido pega de surpresa pelo meu despertador e meu levantar repentino. Ela tinha um livro em seu colo. Quem levantava cedo para ler? Quer dizer, ler é ótimo, mas levantar antes das 09h00 para fazer isso é, no mínimo, estranho. Mas algo me dizia que April não era a pessoa mais normal do mundo, então decidi não dar muita atenção a isso. Quem era eu para julgar, certo?
— Bom dia! — exclamei, me espreguiçando.
— Bom di-dia. Que bom que acordou animada.
— É... Hoje, nada vai estragar o meu dia! Nem a , nem o ... — Foi quando minha memória pareceu voltar a funcionar e eu me lembrei do que teria que passar o dia fazendo. É, o meu dia seria uma merda. Bufei, de repente, perdendo todo o meu ânimo, e me joguei novamente de costas na cama.
— Algum problema? — April perguntou.
Fiz uma careta.
— Eu tinha me esquecido da minha programação para esta terça-feira. — Ficar andando para lá e para cá, neste calor, conversando com garotas que eu não estava realmente a fim de conhecer, não era exatamente a minha definição de “dia perfeito”.
— Ah, o recrutamento... — ela concluiu, e eu assenti.
E eu ainda teria que fazer tudo aquilo sozinha, já que a já tinha passado por tudo aquilo e não poderia ficar comigo durante o processo. Dá para ficar pior? É claro que dá. Só tenho que acrescentar que todos os meus amigos pareciam ter se esquecido completamente do filho da puta que meu ex havia sido comigo e, a partir de agora, eu teria que ver a cara do imbecil o tempo todo.
— Que ótima maneira de começar minha vida universitária, não? Brigando com o meu ex, fazendo coisas que eu não quero... Perfeito!
— Não pensa assim. Talvez, você se divirta lá. Sabe, eu já pesquisei bastante e vi muitas garotas falarem como o recrutamento é legal. Eu já vi uma que entrou em uma irmandade e acabou saindo, mas, mesmo assim, disse que, com certeza, faria tudo aquilo de novo. Não pode ser tão ruim.
Quando uma garota doce com uma voz doce tenta te ajudar, acredite, você para, para ouvir. Mas, sendo a que eu era, aquilo, obviamente, não me convenceu.
— Eu aposto que é. Já até imagino as garotas das irmandades nos olhando de cima, como se fossem melhores que todo mundo.
— Isso, com certeza, acontecerá, mas eu sei que você não vai se deixar abalar por isso.
Olhei para ela, agora, com um sorriso no rosto, piscando.
— Não vou mesmo! Querendo ou não, eu tenho que entrar para as Kappas. É minha missão da semana! — disse, me forçando a soar animada.
Seriam cinco dias terríveis, mas o prêmio, no final, o de poder esfregar na cara do de que eu me encaixava em qualquer lugar que eu quisesse, era bom demais para ser jogado fora.
— Além do mais, ser uma Kappa deve ser muito divertido. Quer dizer, elas não são uma das irmandades mais famosas por nada, né? E eu não tô falando dos filmes que só criam estereótipos. Elas têm uma filantropia incrível e vários eventos legais, e... — Ela mesma se interrompeu. — Eu tenho certeza que você vai conseguir.
Optei por ignorar o discurso e... Awwn! Ela não é um amor? Meu sorriso para ela aumentou e, quando eu estava prestes a agradecer, uma ideia se passou pela minha cabeça. E ela parecia ótima.
— Ei, por que você não vem comigo? — perguntei, de repente, e o olhar que ela me lançou foi uma mistura de choque, descrença e um pouquinho de “você é louca”.
— Po-por quê? — questionou.
— Bom... Você fica aí falando como deve ser legal, como você já pesquisou, e isso quer dizer que se interessa pelo assunto, certo? Eu realmente quero uma companhia, então... Todo mundo sai ganhando — expliquei, e ela sorriu timidamente, me fazendo pensar que ela gostava da ideia.
— Não — ela disse, e eu murchei em decepção.
— Por quê? — questionei com minha voz saindo naquele tom ardido que eu tanto odiava, mas não conseguia evitar às vezes.
— É perca de tempo, .
Cerrei os olhos para ela.
— Então, eu posso perder meu tempo com isso, e você não? Bonito.
Ela riu levemente, revirando os olhos.
— Não é disso que eu tô falando. É só que... Você vai lá e, mesmo que não sejam as Kappas, você vai ser escolhida por alguma irmandade. Eu não. — April disse, e eu a encarei por alguns segundos, de cenho franzido.
— E como você sabe disso? Você vê o futuro e se esqueceu de mencionar? — perguntei sarcástica.
Ela encolheu os ombros.
— Você acha que elas vão escolher a garota que nem consegue conversar com elas direito e, quando consegue, gagueja?
Eu realmente odiava quando respondiam minhas perguntas com outra pergunta.
Respirei fundo, refletindo sobre o assunto. Ela tinha razão. Eu não prestei muita atenção às regras da , mas uma coisa que ficou bem claro é que o mais importante para entrar em uma irmandade era mostrar às garotas que você queria estar lá, fazer com que elas quisessem que você fosse uma delas, e April... Bom, ela não iria conseguir fazer isso. Quer dizer, na noite anterior, se ela tivesse aberto a boca dez vezes, seria muito. E todas as vezes foram para responder alguma pergunta que fazíamos, tentando incluí-la, mas ela só dava respostas curtas que a gente mal conseguia ouvir.
Felizmente, eu sempre fui uma pessoa irritantemente insistente.
— Escuta, e se eu te ajudar? — sugeri, e ela me encarou confusa.
— Ajudar como?
— É simples. Você só tem que ficar do meu lado sempre. Eu vou começar conversas, te incluir nelas, te citar bastante, mas você terá que colaborar, sabe... Falar alguma coisa, de vez em quando, ou não adiantará nada — expliquei.
Ela suspirou e abaixou a cabeça por um momento, parecendo pensar na ideia, mas, antes que ela pudesse dar uma resposta, alguém bateu na porta.
Levantei rapidamente, já sabendo que era , e abri, vendo o cabelo ruivo dela perfeitamente arrumado como se ela tivesse acabado de sair do salão. Ela estava assim 90% do tempo. Era meio assustador, no começo, mas eu havia me acostumado há um tempo.
Ela me deu uma olhada de cima a baixo, desde as minhas meias coloridas até a camiseta velha do meu pai, que eu havia roubado para mim, e fez uma careta.
— Já vi que eu vou ter um baita trabalho — disse, me fazendo revirar os olhos.
— Bom dia pra você também, .
Ela logo substituiu a careta por um sorriso.
— Bom dia, amor! — disse, me abraçando rapidamente. A saudade do dia anterior já parecia ter ido embora. — Oi, April!
— Oi. — April respondeu.
Virei-me, e já estava sentada na minha cama.
— E aí, pronta para a sua preparação? — perguntou, me olhando.
— Para a nossa, você quis dizer — respondi. — A April também vai.
— O quê? — April questionou no tom mais alto que eu já tinha ouvido saindo dela. — Não, ! É melhor não!
— Ah, vai, sim, April. — se intrometeu. — Eu tenho certeza que as garotas vão te amar!
Uma das mil diferenças entre eu e era que eu era uma ótima mentirosa. Uma ótima atriz, como eu preferia dizer, e ela... Bem, ela não. Você não precisava ser um crítico de cinema para ver na cara dela que ela não acreditava realmente no que falava. Você só precisava ser um ser humano.
— Tá vendo? Qual é! Quando a diz que algo vai acontecer, é porque vai! — Puxa saco mode on.
— Gente, por favor... — ela começou, mas eu logo a interrompi.
— “Por favor” digo eu, April. Vamos! Você sabe que quer ir! O que você tem a perder? — insisti.
Ela suspirou mais uma vez e balançou a cabeça.
— Tudo bem... — Eu abri um sorriso e estava pronta para começar a comemorar quando ela continuou: — Mas você tem que prometer que não vai chegar lá e me abandonar.
Revirei os olhos.
— É claro que não. Relaxa! Nós vamos entrar para as Kappas e juntas — afirmei com um sorriso.
Ela me olhou preocupada, como se não acreditasse muito naquilo, mas deu de ombros e não falou mais nada.

— Ok. Até que não ficou tão ruim assim — concluí, depois de me olhar no espelho por todos os ângulos possíveis.
— Por favor, eu sou boa no que faço. — disse, me olhando com orgulho.
Eu estava vestindo um short jeans, uma blusa bonitinha branca e sandálias. Até aí, tudo bem, a parte que me assustava mesmo era a maquiagem que fez questão de passar em mim. Eu tinha certeza que iria acabar saindo dali com um delineador preto e batom vermelho, mas tudo o que ela fez foi passar pó, um pouco de rímel, blush, já que, de acordo com ela, eu sou “a única californiana que não é bronzeada neste planeta. Sério. Você parece um defunto”, e um batom cor de boca, que, aliás, não fazia sentido nenhum para mim. Se você quer que a sua boca tenha cor de boca, não passe batom. É simples assim.
Mas até que eu gostei. Nunca admitiria isso a ela, mas eu gostei.
— April, sua vez — anunciei, me levantando da cadeira em frente ao espelho, para que ela pudesse sentar. Ela, timidamente, como sempre, sentou, parecendo tensa. — Posso cuidar do cabelo dela? — perguntei, e assentiu.
— Meu cabelo? O que tem de errado com o meu cabelo? — ela questionou, e eu pude vê-la me encarando e olhos arregalados pelo reflexo do espelho.
— Nada, só se esqueceram de te avisar que lugar de cabelo não é cobrindo seu rosto — respondi com um sorriso simpático.
Ela encolheu os ombros.
— Eu gosto assim — murmurou.
— Confia em mim, tá?
O olhar que ela me lançou dizia com todas as palavras que ela não confiava, mas não falou mais nada, então eu levei aquilo como um incentivo para começar a trabalhar.
Busquei um pente na penteadeira e comecei a pentear seu cabelo para trás. me lançou um olhar agradecido, já que seria impossível passar alguma coisa no rosto dela do jeito que estava antes. April realmente tinha um cabelo lindo, que só precisava de algumas hidratações para ficar perfeito. Eu não era a garota mais feminina do mundo, mas tinha um carinho gigante pelo meu cabelo. Era a única parte de mim que eu fazia questão de cuidar decentemente. Não era um cuidado “estilo ”, mas era bom também.
Continuei penteando, até tirar todos os nós e, quando terminei, puxei todos os fios para cima e os prendi em um “rabo de cavalo”.
— Olha, eu entenderia você andar com o cabelo solto por aí o tempo todo, se você não morasse na Califórnia, mas você é californiana, eu não sei o que acontece — disse, buscando o secador de cabelo. Ela apenas deu de ombros. Esperei terminar de passar o batom, para assumir o lugar na frente de April e escovar um pouco sua franja, jogando ela para o lado depois. — Prontinho — cantarolei.
Hesitante, ela abriu os olhos. Lançou para gente um olhar preocupado, antes de encarar o espelho à sua frente. me olhou rapidamente com um sorriso no rosto, e eu sorri também, orgulhosa do resultado final.
— Como vocês fizeram isso? — April perguntou chocada.
— Nós não fizemos nada, além de ressaltar o que você tem de bonito, ao invés de esconder como você faz. — explicou. — Eu não passei nada na sua pele. Suas sardas são bonitinhas e suas bochechas já estão rosadas o tempo todo.
Como eu, minutos antes, ela começou a se olhar de todos os ângulos possíveis. Eu sorri para aquilo. Bem no fundo, ela me lembrava de alguém.
Assim como comigo, havia maneirado na maquiagem. Na verdade, não tinha quase nada nela. Só rímel e um batom rosa claro. Ela vestia um vestido floral, que a gente conseguiu encontrar no meio de muitas calças e camisetas. Foi uma luta para convencê-la a colocá-lo, com ela dizendo que tinha vergonha das suas pernas, que nunca tinha usado, que sua mãe devia ter enfiado lá por engano e blá blá blá. Nós descobrimos, depois, que a mãe dela havia enfiado muita coisa por engano. Coisas estas que April fez de tudo para esconder: shorts, blusas de alcinha, até um cropped.
— Ah, o seu óculos! — lembrei-me, buscando-o em cima da cama e entregando a ela. Ela o colocou e voltou a olhar no espelho, com uma expressão engraçada, como se a imagem fosse desaparecer dali ou algo do tipo. — Você tá linda, April.
Ela me olhou, mas rapidamente abaixou o olhar para o seu colo, envergonhada.
— Eu nã-ão tenho certeza — disse baixinho.
— Tudo bem, nós temos certeza o suficiente por você! — exclamou, e eu assenti, concordando.
Pelo reflexo do espelho, eu a vi dar um sorriso leve.

Por mais que eu tenha me animado com a preparação da April, sair pela porta não foi nem um pouco fácil. Eu sabia o que me esperava: garotas mesquinhas, ricas, que se achavam o centro do mundo, que fingiam gostar uma da outra quando, na verdade, se odiavam. É, eu não estava nem um pouco animada para entrar nesse mundo. Eu gostava muito do meu, obrigada. Gostava do meu grupo de amigos e eu estava até gostando da ideia de adicionar April a ele.
No meio do campus, logo depois de nos deixar, dizendo que não poderia estar lá para isso, eu vi tantas garotas diferentes. Desde tímidas, como April, até geeks, valentonas, aquelas que nem respiravam direito com medo de quebrar uma unha, até algumas que só faltavam fazer um chapéu de melancia de tanto que tentavam se aparecer. Aquilo me assustou um pouco, isso eu tinha que admitir. Só para eu mesma, mas tinha. Mesmo tendo contado os dias para chegar à universidade, uma parte pequena de mim queria voltar no tempo, onde tudo era seguro. Eu tinha um melhor amigo e namorado que me amava, tinha os melhores amigos do mundo, os melhores pais e sabia que poderia confiar cegamente em cada um deles. Eu era uma daquelas pessoas que adorava uma aventura nova, mas tinha hora que esse espírito aventureiro se escondia um pouco para deixar o receio passar. Eu já havia me sentido assim antes e sabia que não era nada bom, por isso, eu fiz questão de deixar logo aquele sentimento de lado e focar no meu objetivo: entrar para as Kappas, levar April comigo, deixar minha mãe e orgulhosas, e queimar a cara do . Eu funcionava melhor assim.
Veteranas nos dividiram em grupos de cerca de vinte e nos separaram, mas só foi depois de muita falação, basicamente, dizendo a mesma coisa que no dia anterior, que nós começamos a ir às casas. A primeira do dia foi a Sigma Gamma Rho e foi... É, foi estranho. A casa delas era bem daquelas de filme, mesmo, dois andares, gigante, parecia mesmo uma mansão! No segundo andar, exatamente no meio da parte frontal da casa, estava uma sacada mantida por pilares brancos. Aquilo quase me fez rir. Alguém estava se achando a família real.
Quando nós passamos pela porta da frente, eu me senti entrando em um filme de terror. Sério. Uma fila perfeitamente alinhada de garotas com sorrisos enormes no rosto nos recebia. Eu estava esperando que elas se revelassem robôs e começassem a matar todo mundo, mas não foi bem o que aconteceu. Quando eu menos percebi, todas as garotas já conversavam umas com as outras, algumas rodinhas se formavam nos cantos e era falação para todo lado. Algumas engajadas em conversas mais formais, outras intelectuais, algumas até davam uns gritinhos quando descobriam que tinham algo em comum, eu imaginava.
Não querendo ficar para trás, tratei logo de puxar assunto com uma das garotas da irmandade e levei April comigo. Comecei perguntando coisas óbvias, como no que ela queria se formar, do que ela gostava etc, depois fui às perguntas sobre a irmandade. A garota pareceu gostar de mim, pois falava sem parar, nunca tirando o sorriso do rosto e, no geral, foi assim com todas as outras que conversei naquele dia, apesar de ter algumas aqui e ali que, praticamente, me pediram por um soco. Mas, é claro, por amor à minha mãe e à , eu me mantive comportada. April, como eu já previa, não falou muito, mas até que me surpreendeu. Com as primeiras garotas, ela nem sequer abriu a boca, mas, conforme o dia foi passando, ela se soltou um pouco. Ela até chegou a conversar com duas ou três garotas, sozinha, o que aumentou minhas esperanças de que tudo daria, sim, certo. Ela conseguiria entrar para as Kappas, ou, quem sabe, alguma outra irmandade.
Quando as oito casas do dia acabaram e eu pude voltar ao dormitório, eu já mal sentia meus pés. Ainda assim, no dia seguinte, eu estava de pé às 9h30, arrumada, e indo à mais um dia de tortura com April ao meu lado. A notícia boa é: adivinha qual foi a primeira casa do dia?
Isto mesmo: a nossa querida Kappa Kappa Gamma.
A primeira coisa que me surpreendeu foi que a casa não era, pelo menos, por fora, tão extravagante quanto algumas das que tínhamos visitado. Gigante, sim, afinal, umas 50 garotas, eu achava, deviam morar ali. Bonita também, mas de um jeito bem simples. A parte frontal da casa era toda branca, com algumas janelas e escrito, logo acima da porta, “Kappa Kappa Gamma”. Na frente tinha uma escadaria pequena, que dava para a porta, e alguns arbustos, e árvores. Simples.
Nós entramos, todas ordenadamente, na casa, e a segunda coisa que me surpreendeu e que me assustou também foi que, do lado de dentro, nós encontramos diversas garotas vestindo a mesma roupa! Ok, talvez, não a mesma roupa, mas blusa branca e short jeans claro. Todas elas. Sem exceção. Eu quase saí pela porta, neste momento. Mas, quando olhei para April, com a intenção de debochar das garotas com ela, ela encarava o lugar e todo mundo com um sorriso gigante no rosto. Droga.
Bom, de qualquer maneira, era hora do show!
Puxei April pela mão até um grupo de garotas. Duas eram Kappas e uma era gente como a gente. As duas Kappas eram japonesas e bem parecidas, ambas com cabelo preto até a cintura e um liso de dar inveja. Decidi usar aquilo.
— Oi, meninas! — disse. As Kappas me olharam com um sorriso no rosto e responderam o “oi”. A outra garota só nos lançou um olhar bravo. Como se eu me importasse. — Meu nome é , mas podem me chamar de . E esta é a April. — Apresentei-nos.
April abriu um sorriso e acenou, mas não disse nada.
— Eu sou a Lucy — a primeira, que parecia ser mais nova, disse.
— Lauren — a de aparência mais velha, desta vez.
— Nossa! Os cabelos de vocês são incríveis! Eu mataria por um liso assim.
Quase busquei uma faca e enfiei no meu peito, neste momento. Eu não nasci para puxar saco de ninguém.
— Ah, obrigada. — Lucy respondeu timidamente, correndo a mão pelas pontas do cabelo. — O seu também é lindo.
Sorri para ela, em agradecimento, e continuei falando, mostrando uma simpatia que não existia de verdade:
— E aí, vocês cursam o que? — perguntei.
— Eu ainda tô no segundo ano, mas quero fazer Literatura Inglesa. — Lucy respondeu novamente.
— Sério?! — April exclamou, até me assustando um pouco. — Eu também!
Os próximos minutos foram bem estranhos. Lucy e April se engajaram em uma conversa sobre Literatura tão profunda que eu e as outras garotas nos sentimos obrigadas a nos afastar e deixá-las conversarem em paz. Eu conversei um pouco com a Lauren, depois disso, mas ela não era tão receptiva quanto à irmã. Era quase como se eu pudesse ver nos olhos dela que ela não comprava aquela animação e simpatia que eu demonstrava. Gostei bastante dela.
Pelo canto do olho, avistei do outro lado do cômodo, perto de uma mesa com cupcakes, que eu não havia visto ainda, e fui imediatamente até lá. Peguei um cupcake primeiro, claro, antes de ir até ela, que conversava com duas calouras e uma Kappa.
— E aí? — disse quando cheguei, colocando um braço ao redor dos ombros dela.
! Eu já estava indo te procurar. — exclamou, abrindo um sorriso largo. — Mina, esta é a , e , esta é a Mina.
— Prazer. A falou de você o tempo inteiro no ano passado — a tal Mina disse.
— Ela falou bastante de você também — eu disse. Era verdade, Mina era o assunto número 1 quando começava a tagarelar sobre as novas amizades.
— Vem, quero te apresentar a uma pessoa! — falou e, sem nem mesmo me dar tempo para responder, me puxou pela mão. Só consegui acenar rapidamente para a Mina, que ria como se compreendesse a situação. E eu tinha certeza de que ela compreendia.
— Ei, vai com calma! — pedi, puxando meu braço para mim.
Nós demos mais alguns passos, até que parou do lado de uma garota, uma Kappa, loira e alta, daquelas que você pensa que só existem em filmes. Ela, ao contrário de todas as outras Kappas ali, não estava conversando com nenhuma caloura, só digitava incansavelmente no seu celular. Ela parecia mesmo às vilãs de filmes, mascava chiclete e tudo.
— Sai do celular, garota! — disse a ela rudemente, me fazendo arregalar os olhos. Então, neste filme, era a mocinha, e a outra, realmente a vilã? Bom, começou, então, ela pode ser a vilã, mas não, isso não está certo...
— Cuida da sua vida — a garota respondeu, lançando-a um olhar daqueles matadores. Alguns segundos passaram comigo tensa, olhando para as duas, até que, dando um tapinha no meu ombro, a loira começou a rir. Tá legal, quem te deu essa intimidade? — Sua cara tá ótima.
Dei um sorriso forçado, cerrando meus olhos para , que também ria. Para ser sincera, eu estava um pouco decepcionada. Uma briga, com certeza, animaria o meu dia.
— Que decepção! Você pensou que eu começaria uma briga assim. Achei que me conhecesse melhor, — disse, me olhando com um olhar falso de desapontamento, sem nem mesmo tirar o sorriso dos lábios.
— Você sabe, eu adoro uma boa briga — falei, dando de ombros.
Ela revirou os olhos, antes de se voltar para a garota à nossa frente.
— Nikki, esta é a minha amiga que eu te falei. , esta é a Nikki, a Kappa mais velha da casa.
Eu estava pronta para só acenar para ela e dizer um simples “prazer” quando ela me puxou para um abraço apertado, me fazendo arregalar os olhos de novo. Qual é! Você já ouviu falar em limites?
falou tanto sobre você! Eu estava louca pra te conhecer! — exclamou, me soltando.
Eu apenas sorri, porque, se eu falasse que havia ouvido muito sobre ela também, estaria mentindo. As chances de ela ter sido mencionada pela em uma das suas “tagarelações” era gigante, mas a garota falava tanto, sobre tanta coisa, sobre tanta gente, que ficava difícil me lembrar de tudo.
— Eu tô descobrindo que já sou bem conhecida por aqui — comentei, minha voz soando meio nervosa. Quem eu queria enganar? A tal Nikki era importante, provavelmente, crucial para a minha entrada na casa. Não dava para estragar tudo.
— Acredite, você é! — afirmou, arregalando levemente os olhos. — Você não sabe o que a fez na minha festa de aniversário! Olha só o que a me falou! A já pegou ele, e muito, muito mais. — Ri, conseguindo imaginar perfeitamente falando tudo aquilo. — Mas, então, animada para entrar para uma irmandade?
— Bastante! — menti. — Minha mãe foi uma Kappa, então eu cresci ouvindo as histórias dela. Ela quer muito que eu seja uma também.
— Sério? Como é o nome da sua mãe? — ela questionou, pendendo a cabeça para o lado em curiosidade.
— Claire. Claire .
— Você é uma ?! Por que nunca me falou? — perguntou, voltando-se para a , que apenas deu de ombros. — Vem aqui.
E, mais uma vez, eu fui arrastada casa a dentro, sendo puxada pelo braço; desta vez, por uma desconhecida. Lancei um olhar preocupado para , mas ela só sorriu e me deu um tchauzinho com a mão, me deixando ser levada sozinha pela sua amiga.
Nikki me levou para o cômodo ao lado, onde não havia ninguém. Alguns sofás e poltronas estavam espalhados por lá, havia uma TV enorme na parede e uma estante cercada por vidro. Foi para lá que ela me levou. Quando nos aproximamos, percebi que era lá que ficavam os prêmios (não me pergunte do que) e retratos do que pareciam ser as antigas Kappas.
— Aqui! — Nikki exclamou, depois de um tempo analisando todos os retratos. — Elizabeth , sua avó.
Ela apontava para um dos primeiros retratos com um grupo de cinco garotas que sorriam para a câmera. A foto parecia bem antiga, mas... Bem, minha avó havia morrido dois anos atrás. Ela não era exatamente nova, apesar de ter morrido cedo. Observei a imagem com um sorriso no rosto e um leve aperto no peito, de saudade. Ela era linda. Tinha o cabelo loiro, como o meu e o da minha mãe, o rosto quadrado, olhos azuis e o sorriso mais bondoso do mundo.
— Caramba...
— É... Vocês são muito parecidas. — Olhei mais de perto, praticamente grudando minha testa no vidro, e... É, talvez, ela tivesse razão. — E aqui tá a sua mãe. — Nikki disse, apontando para outro retrato algumas prateleiras abaixo.
Eu tive que rir quando vi a foto porque era tão a minha mãe! Aproximadamente, 15 garotas estavam nesta foto e todas vestiam blusas e saias rosas. Diferente do que o retrato com a minha vó mostrava, aquele representava exatamente a visão que eu tinha das Kappas. E eu odiava rosa. Provavelmente, porque minha mãe sempre amou tanto a cor que sentia a necessidade de me fazer amar também. A decoração do meu quarto era rosa, minhas roupas eram rosas, as roupas das minhas bonecas eram rosa; basicamente, qualquer coisa minha que poderia ser rosa, era rosa. Conforme eu fui crescendo, fui me livrando da cor aos poucos, para não chateá-la muito, e, hoje, eu passo longe do rosa. Eu e minha mãe nunca fomos parecidas, mas a gente se dava bem assim.
— Nossa! Isto é legal... — eu disse, sendo sincera, desta vez. — Vocês guardarem uma recordação de todo mundo que passou por aqui é maneiro.
— De uma maneira ou de outra, cada irmã faz a diferença pra gente — ela falou, olhando para os retratos, com um sorriso de canto e um olhar de orgulho no rosto. Observei a cena, curiosa, até que ela alargou o sorriso e virou-se para mim. — Quem sabe, um dia, você aparece em uma dessas fotos...
— Eu espero que sim — afirmei, sem ter certeza se estava sendo sincera ou não.

— Foi tão incrível! Nós conversamos sobre tanta coisa, tantos autores, tantas histórias! E aí ela me apresentou uma amiga dela, a Katy, que tá no último ano de Literatura Inglesa, e eu acho que ela é uma das pessoas mais inteligentes que eu já conheci. Ela sabe tanto sobre tanta coisa! Sabe, se eu tiver metade de todo o conhecimento dela, tô feita! E, agora, eu quero tanto, mas tanto, chegar logo no terceiro ano e estudar tudo o que ela estudou! Quer dizer, eu quero cursar Literatura Inglesa, desde que eu me entendo por gente, mas ela só fez com que eu quisesse mais ainda e... E... — April respirou fundo, precisando recuperar o fôlego, depois de falar tanto. Ela estava falando daquele jeito há, pelo menos, dez minutos, repetitiva e incansavelmente.
— Caraca... Você realmente gostou da visita às Kappas. Eu não sabia que você conseguia colocar tantas palavras juntas de uma vez.
— Eu sei, me animo um pouco demais, às vezes — ela disse, rindo.
— Isso é bom — eu afirmei. — Todo mundo deveria se animar um pouco demais, às vezes.
— E pra você, como foi? — ela perguntou.
Nós estávamos voltando ao dormitório, depois de visitar mais oito casas. Dizer que eu estava caindo aos pedaços era pouco, bem pouco. Porque o dia foi bem corrido, nós não conseguimos conversar sobre a “experiência Kappa” antes.
— Foi melhor do que eu pensei que seria — comecei. — me apresentou a algumas garotas. Uma delas meio chegada demais, só pra mencionar. Eu fiz o que a minha mãe falou sobre mencionar que eu era uma e funcionou muito bem. Depois, eu conheci mais algumas garotas, inclusive, duas calouras bem legais e, no resto do tempo, você sabe, fiquei ouvindo você e aquelas garotas tagarelarem sobre Literatura.
— Foi a casa mais divertida, não foi?
— Acho que sim. Não por serem as Kappas, mas porque a estava lá, pelo menos, por um tempinho e, claro, porque o meu bebê deu seus primeiros passos sem ajuda — disse, olhando para April com orgulho.
Ela riu novamente, e eu acabei sendo contagiada e ri junto com ela.
Nós chegamos ao nosso dormitório, mas não ficamos muito tempo, fomos logo tomar banho, porque queríamos conhecer o restaurante universitário. Liguei para a ir com a gente, principalmente, porque nenhuma de nós duas sabíamos direito onde era, mas ela disse que tinha uma reunião da irmandade naquela noite e não poderia faltar, então ela só explicou, mais ou menos, onde era e me mandou um mapa desenhado por ela. April e eu decidimos nos arriscar. O dia havia sido longo. Nós merecíamos comida de verdade.
Não foi tão difícil assim. Não tanto quanto imaginávamos que seria, pelo menos. O restaurante ficava a cerca de 20 minutos do nosso dormitório. Talvez, 10 minutos, porque nós nos perdemos duas ou três vezes, mas, assim que vimos a grande estrutura onde ficava o lugar, não dava mesmo para errar.
Era, aproximadamente, 19h00, então o lugar estava bem cheio. Para entrar, nós tivemos que passar nosso cartão de estudante e, depois, estávamos livres para comer qualquer coisa. Eles tinham tantas opções que eu fiquei meio perdida. Hambúrguer, macarrão, pizza, até churrasco! Foi o que nós duas escolhemos e, depois de pegar nossa comida, nos sentamos nas duas primeiras cadeiras livres que vimos, uma de frente para a outra.
— Eu tô no céu — disse, inclinando levemente minha cabeça para trás e fechando os olhos, depois de provar um pedaço de carne.
— Você disse a mesma coisa quando deu a primeira mordida no seu Mc. — April rebateu.
Dei de ombros.
— Comida me leva para o céu.
! — Ouvi alguém gritar. , para ser mais precisa. Olhei para o lado e vi que ele se aproximava, sorrindo. Abri meus braços quando ele chegou perto, e ele me abraçou, tendo que se abaixar, porque eu estava cansada demais para me levantar. — Não sabia que você viria jantar aqui, se não teria te chamado pra vir comigo.
chegou também e deu “oi”. Só a April respondeu. Não me dei ao trabalho de olhar para ele.
— Ei, não fala assim. Espera o sair pra dizer o quanto a companhia dele é dispensável e que prefere a minha — falei e o ouvi suspirar.
— Espero você lá fora — ele disse e saiu andando.
Observei-o se afastar, com um sorriso no rosto.
— Você é má. — disse, sentando na cadeira vazia ao meu lado. Ele olhou para April, pela primeira vez, e sorriu. — Oi, April. Gostei do cabelo. — Hoje, ela tinha o cabelo solto, mas usava uma tiara que eu a emprestei, que o mantinha longe do rosto. As bochechas dela ficaram vermelhas, na hora, e ela pareceu ficar sem reação por alguns segundos, até que deu uma risadinha nervosa e abaixou a cabeça, focando no seu prato de comida. — E aí, como tá sendo o recrutamento? — Coloquei a língua entre os lábios e soprei, fazendo barulho de peido. — Ruim assim? — questionou, rindo.
— Eu não aguento mais andar de casa em casa e ficar tentando agradar garotas para quem eu não dou a mínima. Quer dizer, eu conheci algumas bem legais, mas, sei lá... Forçar simpatia cansa.
— Não precisa forçar. Seja você mesma. — aconselhou, me fazendo rir.
— Você realmente acha que as Kappas vão me aceitar se eu for eu mesma? Ogra do jeito que eu sou?
Ele parou para pensar, por alguns segundos.
— É... Deixa elas te descobrirem depois — concluiu. — Mas... Não se sente mal fazendo isso?
— Eu deveria? Ninguém é 100% ela ou ele, mesmo quando acaba de conhecer alguém, . Ok, algumas pessoas são... Eu mesma sou, na maioria das vezes, mas são casos raros. A maioria das pessoas mostra, primeiro, seu lado bom, para, só depois, deixar transparecer os defeitos. É como a coisa funciona — expliquei e, depois de ele pensar mais uma vez, ele assentiu, concordando comigo.
— Tem razão — ele disse e fez uma careta. — Até demais.
— Eu sempre tenho — afirmei, estufando o peito.
Ele riu, me dando um empurrão fraco no braço.
— Tenho que ir, o tá esperando — disse, levantando-se. — Vejo você esta semana?
Assenti.
— A gente marca alguma coisa depois.
— Beleza. — Ele se inclinou e me deu um beijo rápido na bochecha. — Tchau, April.
Ela levantou a cabeça, ainda com as bochechas coradas, e acenou com a mão para ele.
— Gostou dele, é? — perguntei quando ele estava longe o suficiente para não nos ouvir mais.
April arregalou os olhos e, se era possível, ficou mais vermelha ainda.
— Nã-ão... Eu não!
— Ei, tá tudo bem! Ele é lindo, vai... — E era mesmo. era negro, alto, forte (já que não saía da academia desde quando completou 16 anos), tinha olhos de um castanho meio amendoado e um dos sorrisos mais lindos do mundo.
— Sim, mas... Eu ajo assim com todo garoto que fala comigo, não é como se isso o fizesse especial, nem nada — ela disse.
— Bom, de qualquer maneira, se quiser torná-lo especial, tem a minha benção — avisei, antes de enfiar um garfo com comida na boca.
!
— O quê? — perguntei de boca cheia mesmo. Soou mais como “uêê”.
— Nada — respondeu, balançando a cabeça para os lados. Por algum tempo, nós comemos em silêncio, até April resmungar alguma coisa que não entendi. Ergui os olhos do meu prato e a encarei, de cenho franzido. Ela encolheu os ombros e voltou a falar: — Qual... Qual é o problema entre você e esse ?
Suspirei. Não é como se eu não imaginasse que ela perguntaria isso mais cedo ou mais tarde.
— Ele é meu ex-melhor amigo e namorado.
Na hora, ela fez aquela cara de compreensão, mas, para minha infelicidade, aquela não era toda a informação que ela queria.
— E vocês se odeiam? Término ruim?
— Eu o odeio, ele não me odeia. Ele nem tem o direito de me odiar. E, sim, péssimo — respondi, e ela inclinou a cabeça, parecendo estar mais curiosa ainda.
— Como terminaram? — questionou.
Fiz uma careta. Eu odiava contar aquela história porque, vamos combinar, ninguém tem orgulho de carregar um chifre por aí.
— Ele me traiu. Nós estávamos dando um tempo, mas dar um tempo era quase que comum na nossa relação, então não valia muita coisa. Nós voltamos um dia depois, ele não me contou nada, mas alguém tinha tirado foto dele ficando com a garota e enviou para todo mundo do colégio. Nós brigamos, eu terminei com ele e, aparentemente, deu um soco nele assim que eu saí. É uma pena que eu tenha perdido essa parte.
— Nossa... Há quanto tempo vocês estavam juntos?
— Pouco mais de 2 anos. E éramos melhores amigos há mais de 10 — continuei respondendo, mas optei por comer enquanto o fazia, ou minha comida esfriaria.
— Deve ter doído... Sabe, ser traída pelo melhor amigo assim.
— Foi chato — respondi simplesmente, dando de ombros.
— Só... Chato?
Assenti.
— Ter a foto de um cara te fazendo de besta espalhada pelo colégio inteiro não foi exatamente bom para o meu orgulho.
— Tá legal... — Olhei rapidamente para ela, que me encarava de cenho franzido, mas logo voltei à minha comida. — Agora, entendi sua reação quando ele chegou naquele dia — ela continuou falando. — E seus amigos voltaram a falar com ele normalmente?
— Aparentemente, sim.
— Eu tô enchendo seu saco, né? — ela perguntou, e eu sorri.
— Tá tudo bem. Se fosse eu no seu lugar, iria querer saber também. — April me lançou o sorriso e voltou a se concentrar na sua comida, parecendo ter terminado seu estoque de perguntas. Infelizmente, minha consciência, que eu odiava ouvir, me fez continuar falando: — Escuta... Você pode ser amiga dele. Quando sair com a gente, não precisa evitar ou ignorá-lo, achando que vou ficar brava. Tá tudo bem se criar uma amizade com ele. Eu realmente não me importo.
Sim, eu me importava. Mas também queria ser justa.
Ela assentiu e nós, finalmente, comemos sem mais nenhuma interrupção.
O terceiro dia da rush week foi tão cansativo quanto os dois primeiros; talvez, mais. Primeiro, todas recebemos um Top 8, contendo as irmandades que nos chamaram de volta. A minha lista e da April continham praticamente as mesmas, principalmente, porque nós ficamos juntas a maior parte do tempo. E, sim, as Kappas eram uma delas! Tá legal, o Top 8 ainda não era grande coisa, mas eu me permiti ficar feliz, mesmo assim.
Depois disso, nós voltamos a visitar aquelas casas, cada uma para as suas oito, e foi praticamente a mesma coisa que os outros dias. Conversa, conversa e conversa. A única diferença é que algumas irmandades escolheram aquele dia para nos apresentar de verdade às casas, seus cômodos, onde dormiríamos, caso fossemos escolhidas, explicaram um pouco como a coisa funcionava lá dentro e... Adivinha? Mais conversa. No final do dia, tudo que eu queria era a minha cama, por isso, April e eu nem saímos para jantar, compramos algumas besteiras no caminho de volta e comemos no dormitório. Era 21h00, e eu já estava dormindo, sem saber se teria coragem para aguentar mais dois dias daquilo.




2 anos antes


— FELIZ ANIVERSÁRIO, MOZÃO! — gritei, me jogando em cima do , que dormia. Bom, não mais. Eu não era adepta à palavra “mozão”, mas achei que ela combinava com a situação. Ao invés de abrir os olhos, ou me xingar, ele gemeu em protesto e virou a cabeça para o outro lado. — Já é quase meio-dia! Cria vergonha na sua cara! — Eram 9 horas. Ele não precisava saber disso. Rolei para o seu lado e comecei a empurrá-lo. — Vai, levanta. Vai, vai, vai. — Eu estava determinada a continuar sendo irritante, até que ele levantasse a bunda daquela cama. Eu havia feito planos para o aniversário dele, e ai de quem estragasse!
— Você fica pior a cada aniversário — ele disse com a voz rouca de sono, sem nem abrir os olhos.
Eu gostava de aniversários. O que tinha de errado nisso?
— Eu sei. — Aproximei-me para sussurrar no ouvido dele e aproveitei para lhe dar um beijo na bochecha.
Lentamente, ele abriu seus olhos incrivelmente lindos e azuis num tom tão claro que dava inveja, e abriu um sorriso. Ele me encarou por uns bons dois segundos, até franzir o cenho do nada e me olhar confuso.
— Como você entrou aqui?
— Com a minha chave — respondi como se fosse óbvio, mas ele só pareceu ficar mais confuso ainda.
— Desde quando você tem a chave da minha casa? — perguntou.
— Desde quando sua mãe me deu na, vamos ver... Semana passada. Não te falei?
Ele balançou a cabeça, negando, e apoiou o queixo em uma mão, me olhando de olhos cerrados.
— E por que eu não tenho a chave da sua casa?
— Ei, pede aos meus pais, a casa é deles. Não é minha culpa seus pais confiarem mais em mim que os meus confiam em você — disse, abrindo um sorriso convencido, que ele devolveu.
— Você sabe que seu pai confia mais em mim que ninguém. Mais do que ele confia em você, até.
Revirei os olhos.
— Meu pai é um traidor. Vai, levanta. — Empurrei-o novamente, mas tudo o que ele fez foi passar um braço ao redor da minha cintura, me puxar para perto dele e, se você tá pensando que rolou beijo, não, ele só fechou os olhos de novo.
— Fica aqui comigo mais um pouco — ele murmurou, encaixando sua cabeça entre meu peito e meu pescoço, lugar em que ele depositou um beijo, antes de parar completamente de se mexer.
— Não fico, não — protestei, empurrando-o. Não me entenda mal, eu adoraria ficar ali, deitada com ele, pelo resto da minha vida, mas, como eu disse anteriormente, eu tinha planos. — Vamos, , nós já estamos atrasados. — Graças a mim, que tinha perdido a hora. Mas ele também não precisava saber disso.
— Atrasados para que, ?
— Você vai saber se levantar, escovar os dentes, porque você tá com um puta bafo, e vir comigo.
Ele abriu levemente os olhos e abriu um sorriso sarcástico.
— Sempre romântica.
Dei de ombros.
— Eu faço o que posso.

Corri ao encontro do resto do pessoal, deixando para trás. Ele me conhecia bem o suficiente para não correr atrás de mim. Não era como se eu tivesse uma super surpresa preparada para ele e tivesse que disfarçar cada movimento meu. Eu chamaria aquilo de uma “surpresinha básica”. Nós faríamos algo legal, com pessoas legais, em um lugar que nós gostamos muito de ir. Tanto que só o fato de estarmos onde estávamos, isto é, na beira da estrada, já deixava óbvio para onde estávamos indo. A surpresa estava nos detalhes. Fui clara o suficiente?
— Tudo pronto? Estão todos lá?
— É claro que sim. Inclusive, já devem estar entediados. Não dava para tentar se atrasar menos, não? — me repreendeu, e eu encolhi os ombros.
— Não foi minha culpa, desta vez, tá legal? Não completamente, pelo menos. — Defendi-me.
— É, eu posso ter enrolado um pouco. — disse quando parou ao meu lado, e , e Luke me esqueceram por um tempo para pular em cima dele, dar parabéns, abraços, uns socos e tudo mais. — Porra, Luke! — ele reclamou, acariciando seu ombro, que havia acabado de ser socado. — Para o que estamos atrasados exatamente?
— Para a comemoração do seu aniversário. Não é óbvio? — respondeu.
— Bem, sim, mas até onde eu sei, a cachoeira não tem um horário de funcionamento.
— Quem disse? — questionei, só para não deixar ninguém falar mais nada mesmo, porque todo mundo sabia que a cachoeira não tinha um horário de funcionamento. Você só tinha que ter a permissão do Sr. McCarthy, um cara legalzinho que morava perto e, aparentemente, era dono do lugar todo. Ele só não gostava de intrusos, por isso era importante ter sua permissão, ou ele apareceria lá, a qualquer minuto, com uma espingarda em mãos. E eu nem estava exagerando. Experiência própria. — Vamos logo! — disse, puxando pela mão para dentro do bosque.
Nós tínhamos que andar uns bons 10 minutos numa trilha em meio às árvores, para chegar à cachoeira. Felizmente, tinha um posto de gasolina ali perto, onde nós deixávamos o carro ou moto. Havíamos descoberto a existência daquela cachoeira há cerca de três anos e, desde então, íamos lá sempre que possível. Era um dos nossos lugares preferidos. Mas, pelo lugar ser tão legal, era conhecido, então era praticamente impossível estar lá sem estar também com vários desconhecidos, que até acabavam por virar amigos no final do dia. E isso era parte da surpresa.
— Que silêncio. — comentou quando nos aproximamos. “Silêncio”, talvez, não fosse a melhor palavra para definir, já que a água caindo fazia um baita barulho, mas a falta de vozes e gritos de crianças, sim, era estranho. Especialmente, em uma manhã de sábado ensolarado como aquela.
Ninguém falou nada, só esperamos ele dar mais alguns passos e, pronto, chegamos. Primeiro, ele olhou ao redor, curioso, vendo o lugar completamente vazio com apenas uma grande mesa, que sabe lá como havia chegado ali, cheia de comida e bebidas. Nenhuma alcoólica, eu notei, feliz por me obedecerem. Cachoeira e álcool não combinavam em nada. deu, então, alguns passos à frente, uma risadinha surpresa, e foi quando todos os seus amigos e amigas saíram de trás das árvores de uma vez, atacando-o. Por um momento, eu me preocupei com a segurança do meu namorado, principalmente, quando eu não consegui mais enxergar sua cabeça, mas, alguns minutos depois, o pessoal foi se espalhando e estava tudo bem.
— E então...? — Eu me aproximei, e ele virou-se para mim com um grande sorriso no rosto, me puxando em um abraço.
— Você finalmente conseguiu a cachoeira só para a gente. — Eu assenti, sorrindo. Eu estava tentando havia algum tempo, mas o Sr. McCarthy realmente não gostava muito de privar o lugar. — Obrigado. Tá... Incrível. Eu te amo.
— Também te amo. Feliz aniversário! — E, então, ele segurou meu queixo e puxou minha cabeça para um beijo leve, que eu não demorei muito para estragar. — Quase esqueci! — exclamei, da melhor maneira possível, entre os lábios dele, o que o fez se afastar, me olhando desconfiado. — Mais tarde, eu tenho uma surpresa para você.
— Mais uma? — ele perguntou, e eu assenti animada.
Havia passado a última semana inteira pensando se faria ou não aquilo, até decidir, no último minuto, que, sim, eu faria. Seria divertido. Eu não iria morrer, nem nada. Eu acho.
— Você já me pediu isso tantas vezes que é quase um presente de aniversário e não uma surpresa. — Ele adquiriu uma expressão pensativa por alguns segundos, até abrir um sorriso, no mínimo, pervertido, para o meu lado. Revirei os olhos, já imaginando exatamente o que se passava pela cabeça dele. — Não é isso. E não vai ser tão cedo. Esquece — disse, e ele bufou frustrado, mas não insistiu, voltou a pensar.
— Espera... — ele começou, depois de alguns segundos, e eu o encarei em expectativa. — Não, não pode ser isso. Você nunca teria coragem.
Ergui uma sobrancelha.
— Como é?
— Você vai tentar pular — afirmou.
— Eu não vou tentar, vou conseguir — disse.
Ele me olhou, então, de um jeito ridiculamente ridículo. Sabe quando o seu amigo que nunca leu um livro na vida diz que quer cursar medicina, e você quer fazê-lo acordar para a vida, mas não de um jeito muito rude para não acabar magoando? Então. Esse olhar aí.
...
Abri a boca, incrédula, e apontei um dedo para ele.
— Você tá duvidando de mim — acusei-o.
— Amor, não é que eu esteja duvidando, é que... Todo mundo sabe que você morre de medo de pular. Eu já perdi a conta de quantas vezes você foi até a ponta, deu uma olhada e voltou atrás, e tá tudo bem. Você não precisa fazer isso.
— Agora, eu preciso! Antes, eu poderia repetir esse meu ritual, hoje mesmo, e tudo ficaria bem. Agora, você duvidou, então eu preciso pular. Tá vendo o que você fez?
Eu tinha plena consciência do “momento Rochelle” que eu estava tendo, mas era como a coisa funcionava.
, pelo amor de Deus...
— Nanananananão. Vamos. Você vai ver.
Ouvi sua risada, mas já havia virado de costas. Contornei a mesa com as comidas e atravessei o lugar, indo até o lugar onde costumavam pular, onde eu sabia ser seguro. vinha atrás de mim. Parei, observando a água cair lá embaixo; aproximadamente, 6 metros abaixo.
— Tá com medo, é? — provocou, ganhando meu olhar fulminante. Ele realmente duvidava.
— Eu só não quero molhar meu vestido. — Que, na verdade, era uma “saída de praia”, mas falar ‘vestido’ era muito mais prático e rápido. Tirei e entreguei a ele, ficando apenas com um biquíni preto e minhas rasteirinhas, que logo me livrei também. — Vamos lá.
Eu não podia pensar. Eu só tinha que pular. E foi o que eu fiz.
, deixa isso pra...
Foi tudo o que eu ouvi, porque, em um segundo, eu estava parada ao lado dele e, no outro, eu estava caindo no ar. Meu coração batia tão rápido e forte que eu poderia estar tendo um ataque de arritmia, naquele segundo mesmo. Felizmente ou não, a parte aérea foi rápida, difícil mesmo foi quando a água chegou. Eu engoli uns bons litros dela, mesmo fazendo todo o esforço do mundo para que isso não acontecesse. Meu nariz ardia, meu corpo estava estranho, eu queria dar o fora dali logo. No momento em que eu toquei os pés no chão, senti um movimento próximo a mim e a água se agitar. Peguei impulso e subi ansiosa por ar, terra e a certeza de um chão confiável e estável sob os meus pés.
Tossi, aproximadamente 500 vezes, quando atingi a superfície, mesmo que minha garganta protestasse. Em pouco tempo, senti um par de braços ao redor do meu corpo, que constatei serem do , agora, sem camisa.
— Tá tudo bem? — ele perguntou, e eu não demorei a jogar meus braços ao redor dos ombros dele, esperando que ele me carregasse para alguma rocha ou algo do tipo.
— Por favor, nunca duvide de mim de novo. Eu nunca mais quero fazer isso na minha vida — eu disse, fazendo-o rir.
— Qual é! Foi divertido.
— Não foi, não! Foi a pior experiência da minha vida! — reclamei, e ele riu mais ainda.
— Exagerada. Vem aqui. — Ele me carregou, então, até uma pedra gigante, e sentou, me colocando em seu colo. Eu sempre achava incrível como ele me carregava com tanta facilidade. Meu corpo não era exatamente como os daquelas modelos de capa de revista, era bem impressionante. Aí eu o via nadar por mais de uma hora seguida (quando eu mal conseguia atravessar a piscina e, quando conseguia, chegava do outro lado morta) e treinar com o Luke, e lembrava por quê. Ainda assim, era impressionante. — Vou tentar nunca mais duvidar de você.
Eu assenti.
— Obrigada. — Deitei minha cabeça em um de seus ombros, ainda incomodada com a ardência na minha garganta e no meu nariz.
— Mas o que você fez foi bem legal, você tem que admitir. Você enfrentou seu medo — ele disse, e eu não pude conter uma risada.
— Que cafona.

Atualmente


— Vocês têm que saber que o mais importante para a nossa irmandade é o nosso programa de filantropia, que é dividido em três partes: primeiro, nós temos a “Fundação Kappa Kappa Gamma”, que prevê financiamento aos museus Kappa, alunos com bolsa de estudos e programas educacionais. Nós também apoiamos a comunidade local, arrecadamos dinheiro para programas de caridade aqui da região. No decorrer do ano, vocês verão que nós sempre fazemos eventos para arrecadar esse dinheiro. Ninguém é obrigado a participar, é claro, apenas quem se voluntariar, mas, quanto mais apoio, melhor. E, por último, nós temos a nossa filantropia nacional: Reading is Fundamental, que incentiva a alfabetização de crianças. Conforme o ano passa e os eventos acontecem, vocês vão aprender mais sobre cada uma dessas três partes e, com certeza, vão perceber o quão importante cada uma delas é. Alguma pergunta?
Respirei fundo, fechei meus olhos e rezei. Rezei para que ninguém perguntasse nada. Rezei para que Nikki finalmente parasse de falar. Rezei para que eu pudesse levantar logo, esperando não ser tarde demais para minha bunda voltar a ser redonda, ao invés de quadrada, como deveria estar depois de tanto tempo sentada. Não me entenda mal, eu sabia que o que ela estava falando era importante, mas as Kappas eram a terceira casa do dia, e todas elas escolheram o quarto dia para falar sobre a vida na irmandade, seus projetos, filantropias etc. Eu estava tão cansada. E nós ainda tínhamos uma para visitar. Eu não sabia se iria aguentar.
Alguns segundos se passaram, e ninguém falou um “a” sequer. Aparentemente, eu não era a única morrendo ali.
— Tudo bem, então. Vocês devem estar morrendo de fome, não é? Nós fizemos alguns sanduíches e sucos para vocês, é só irem à cozinha.
Quase que de uma vez, todo mundo levantou e foi à cozinha, onde algumas Kappas estavam nos esperando. Minha barriga chegou a roncar quando vi o balcão cheio de sanduíches, então fui logo pegar um, até esquecendo April por alguns segundos, mas quando olhei, ela estava ao meu lado, parecendo tão faminta quanto eu.
— Você acha que vai pegar muito mal se a gente esquecer a próxima casa e ir ao nosso dormitório dormir até amanhã? — perguntei baixo, com medo de que alguém ao nosso redor escutasse.
— Provavelmente. Mas eu tô tão cansada que tô considerando sua ideia. — April respondeu também baixo.
Suspirei frustrada e olhei ao redor, desejando que o final do próximo dia chegasse logo. Uma mão acenando me chamou atenção e, quando percebi, era Lucy nos chamando. Cutuquei April, que ainda não tinha visto, e começamos a abrir caminho entre as garotas para chegar até lá.
— Vocês não vão acreditar no que aguarda vocês! — Lucy disse, no momento em que nos aproximamos.
— Quieta, Lucy! É segredo! — Lauren a repreendeu.
— Eu não vou contar nada, relaxa! Só tô dizendo que algo super legal vai acontecer. Nada demais. — Deu de ombros. Olhei para as duas, meio confusa e muito curiosa. Estava pronta para fazer com que ela falasse o que era, mas Lauren, parecendo prever minhas ações, balançou a cabeça para os lados, me repreendendo também. Bufei frustrada. — Ah, esta é a Bree. Ela é a minha vizinha... Bom, ex-vizinha. Vocês entenderam — disse, apontando para uma garota morena e baixinha que eu não tinha notado ainda. Deu para ver que ela também era caloura, pois não usava roupas combinando com as outras. — Bree, estas são e April.
— Prazer. — April a cumprimentou, mas eu optei só por um sorriso e um aceno.
— E aí, como vocês estão indo? — Lauren perguntou.
— Bem, eu acho — respondi.
— Mas estamos cansadas. — April completou.
— A ponto de desmaiar.
— E de desistir.
— É.
April e eu nos olhamos rapidamente, rindo da nossa resposta. Nós estávamos nos dando muito bem, exatamente o contrário do que eu imaginava. Claro, ela tinha o seu jeito todo estranho, de vez em quando, e eu tinha o meu também, mas as coisas pareciam estar dando certo.
— Não se preocupem. Vocês terão um final de semana para descansar, antes das aulas começarem. Aí a tendência é só piorar... — Lucy falou, e eu fiquei em dúvida sobre se ela tinha intenção de nos fazer sentir melhor ou pior.
— Bem-vindas à universidade! — Lauren completou, com um sorriso fino no rosto. Essa não deixava dúvidas, era pior, com certeza!
Eu realmente gostava dela.

— Você acha que a gente vai conseguir? — April me perguntou, parecendo tensa, enquanto íamos à parte do campus, que fomos logo no primeiro dia do recrutamento, onde seria anunciado o resultado final, quem ficou onde, quais seriam as nossas "irmãs" etc.
— Claro que sim! Quer dizer, nós conversamos com tantas garotas! A gente, com certeza, tem a Lucy, a Lauren, a , a Mina e a Nikki a nosso favor — respondi, tentando ser o mais positiva possível.
— Você tem a Mina e a Nikki... Ok, talvez, eu tenha a Mina. A gente conversou bastante, até no terceiro dia, mas a Nikki, eu não sei. Nós só trocamos uma palavra ou outra. Eu estava morrendo de vergonha da chefona da casa.
— Ei, ela te achou super fofa!
— Sério? — ela questionou, parando por um momento e me olhando.
Assenti, sorrindo.
— Você só precisou de mim pra te dar um empurrão, porque todas pareceram gostar de você. Qual é! Você fica com as bochechas coradas sempre, dá seus sorrisinhos tímidos, e todo mundo te acha fofa.
Ela sorriu inicialmente, mas logo a expressão preocupada voltou ao seu rosto.
— Eu não sei, não...
— Confia em mim, tá? A gente vai conseguir! — afirmei, desejando com todas as minhas forças que eu estivesse certa.
Eu sabia que tinha 50% de chances de entrar para a Kappa Kappa Gamma, ou 50% de entrar para a Alpha Delta Pi. Ambas eram o meu top 2, que eu havia recebido na manhã daquela sexta-feira, ou seja, eram duas das irmandades que escolhi como favoritas e que me chamaram de volta. O top 2 da April eram a Kappa Kappa Gamma e a Alpha Gamma Delta, então nós tínhamos chances de entrar para irmandades diferentes, o que eu não queria, mesmo, que acontecesse.
Pela manhã, nós fomos às nossas duas casas novamente e, naquele dia, as garotas escolheram mostrar de verdade as casas a gente. Como eram os cômodos, os quartos em que dormiríamos, as salas de TV, de estudo, e tudo o mais. Não foi tão cansativo. Já que, no dia anterior, nós tivemos apenas quatro casas para ir, conseguimos descansar um pouco pelo resto da tarde.
Era impossível errar o lugar onde aconteceria a “cerimônia”. Um pequeno palco, com escada do lado, havia sido construído no lugar, e várias garotas já estavam lá, ao redor, esperando que desse a hora para o resultado final. Procurei pela , imaginando que ela já sabia se eu havia entrado ou não e esperando poder arrancar o resultado dela, antes da hora, mas não a achei. Ela, provavelmente, estava se escondendo por aí, porque ela me conhecia muito bem e também se conhecia o bastante para saber que ela deixaria escapar.
Nós seguimos para um canto um pouco mais vazio dentre tantas garotas, e logo um grupo de três amigas, que estavam ali por perto, puxaram assunto com a gente. Eu já havia falado com uma delas rapidamente, entre as conversas das casas, mas nem sabia o seu nome. April mal abriu a boca, parecendo estar nervosa demais para sequer acompanhar a conversa. Ela queria tanto aquilo. Muito mais do que eu pensava inicialmente. E eu queria tanto que ela conseguisse. Talvez, até mais do que eu mesma. Aquilo tudo não significava nada, para mim, além da provação de um argumento, mas, para ela, era importante. Eu não sabia o porquê, poderia ser simplesmente um sonho ou ter um motivo por trás disso, mas eu não iria descobrir aquilo naquele momento. Uma hora, claro, mas eu tinha que preparar o terreno primeiro.
Test... Testando. 1, 2, 3, testando. Ah, ótimo! — No mesmo segundo em que a voz da mulher desconhecida e mais velha soou, nenhum “piu” mais foi ouvido. Ela devia ter 40 anos ou mais, era bem baixa, mas usava um salto tão alto que eu me perguntei como ela se mantinha de pé naquela coisa. O som do microfone não era tão alto, então puxei April pela mão para mais perto do palco. — Olá, garotas! Bom dia! — Todo mundo respondeu junto, formando um coral de “bom dias”, e ela sorriu, parecendo animada. — Bom, vocês devem estar se perguntando “quem é essa?”, então deixem que eu me apresente. Meu nome é Alice Harley e eu sou a coordenadora-chefe das fraternidades e irmandades aqui da UCLA. Sim, isso existe. Eu espero que nenhuma de vocês tenham que me ver pelo resto do ano letivo, porque, quando isso acontece, não costuma ser por bons motivos. Eu e minha equipe somos responsáveis por manter a ordem entre vocês, ou seja, quando uma festa sair dos trilhos, quando alguma brincadeira for longe demais, e coisas do tipo, vocês serão punidas, sim! E que fique bem claro também que, se alguma de vocês, em qualquer momento, sentir-se atacada, humilhada, sofrer bullying, a primeira coisa que devem fazer é me procurar, e eu vou tomar as devidas providências, tudo bem? — Todo mundo assentiu.
Essa era nova, para mim. Minha avó, minha mãe, nem mesmo , nunca haviam mencionado que as fraternidades tinham uma babá. Mas fazia sentido. Talvez, este campus não estivesse inteiro, se ela não estivesse lá, de guarda. Eu sabia o quanto algumas fraternidades festejavam. Volta e meia, saía no jornal: “Universitários disputam racha na rodovia e sofrem acidente”, “Veteranos fazem trote de mal gosto, e calouros acabam se machucando”, “Universitários bebem demais e botam fogo em árvore do campus”. É, se coisas assim já aconteciam com eles por perto, eu não queria nem imaginar como seria sem.
Okay, recado dado, então podemos ir à parte que interessa a vocês: o resultado. Mas, antes, é importante lembrar: não fiquem tristes, caso não tenham entrado para a sua irmandade preferida. Todas as nossas irmandades são maravilhosas e, onde quer que tenham entrado, serão muito bem recebidas e logo perceberão que, talvez, sua preferida não fosse tão certa assim para vocês. — Tá bom. Eu que não iria comprar essa. — Vamos lá, então. Eu vou chamar o nome de cada uma de vocês e quero que subam aqui, por favor, pelo seu lado direito, para que eu entregue um envelope. Nesse envelope estará o nome da irmandade que te acolheu. Bom, os nomes serão chamados por ordem alfabética e não pelas irmandades, então não tirem conclusões precipitadas. Vocês podem comemorar à vontade quando descerem do palco, mas eu vou pedir, com gentileza, que não gritem, nem façam escândalos, afinal, ainda tem gente para receber. Depois do resultado, cada caloura deve ir à casa onde foi aceita. Agora, sem mais enrolações, vamos começar. Boa sorte a todas! Abigail Gabor.
Senti um aperto forte na minha mão e, só então, percebi que April e eu ainda estávamos de mãos dadas. Olhei para ela, que estava tão pálida quanto um defunto. Parecia que ela desmaiaria a qualquer momento.
— Você tá bem? — perguntei preocupada.
— Ela vai chamar meu nome — ela sussurrou e, um segundo depois, eu ouvi o “April Spring” da coordenadora. Deixei para outra hora o pensamento de que eu não sabia seu sobrenome, até aquele momento, e que era super estranho, e foquei nela, à minha frente, de olhos arregalados, mãos suadas, e eu posso jurar que ela tremia um pouco.
— Vai dar tudo certo, tá bom? Vai dar tudo certo! — falei.
Ela me olhou rapidamente, antes de me dar as costas, indo em direção ao palco com passos meio incertos.
Por favor, não caia. Por favor, por favor!
Corri para o lado esquerdo do palco, por onde ela sairia, atropelando algumas pessoas no caminho, mas consegui chegar antes dela.
Ela logo chegou também e parou em minha frente, as mãos pequenas segurando firmemente o envelope branco.
— Abre! — pedi. Ou exigi. Que seja.
— Não dá, eu não consigo...
— O quê?! April Spring, esse envelope não vai se abrir sozinho. — Tive que manter minha voz controlada por causa da mulher chamando, mas eu estava nervosa a ponto de quase arrancar o negócio das mãos dela e abrir eu mesma.
— Eu... — ela começou a dizer, mas parou e abriu um sorriso fraco; quase imperceptível, mas eu notei. — Vou te esperar. — E ficava cada vez mais difícil não gritar.
— Mas...
— Não, , sem “mas”! Eu vou te esperar e pronto. — Olhei-a incrédula, por alguns segundos. Ela nem tinha andado muito com a . — Vamos — disse, me empurrando de volta a multidão.
Eu poderia insistir mais, mas optei por me dar por vencida. A ideia nem era tão ruim assim, eu tinha que admitir.
Eu não sabia dizer direito quanto tempo demorou até chamarem meu nome; se foi rápido, se demorou... Porque, no momento em que April pareceu se acalmar um pouco, toda aquela ansiedade devia ter vindo para mim. Eu fiz questão de disfarçar, claro, lançando uns sorrisinhos para ela. Não queria que a garota voltasse a ficar branca. Foi quase música para os meus ouvidos quando a coordenadora chamou “ ”, porque tudo o que eu queria era acabar com aquilo logo.
Subi rapidamente no palco, peguei meu envelope, sorri de volta para a mulher e desci, encontrando April no mesmo lugar de antes. Sem falar nada, puxei-a pela mão para um lugar afastado, sem garotas dando pulinhos ou quase chorando de ansiedade.
Nós paramos na sombra de uma árvore, de frente uma para a outra, nos encaramos e abrimos o envelope. Não olhamos para ele, continuamos olhando uma nos olhos da outra.
— Pronta? — perguntamos ao mesmo tempo, mas nem paramos para rir, só assentimos também juntas e olhamos para o papel em nossas mãos.
Não foi o segundo mais longo da minha vida. Na verdade, foi muito rápido. Em um momento, eu estava lendo “Kappa Kappa Gamma”, no outro, eu ouvi o grito da April e, depois, o meu e, no outro, nós nos abraçamos do jeito mais afobado possível. Ela bateu com um pouco de força demais na minha cintura, e eu tenho certeza que meu punho bateu na cabeça dela. No final, nós estávamos caídas no chão, rindo.
— Isso é real? — ela perguntou, olhando para o céu.
— Realíssimo!
— Eu não acredito. Nós conseguimos, ! Conseguimos mesmo! Eu consegui! — exclamou, sentando no chão e me olhando com a expressão mais animada que eu já havia visto em seu rosto.
— Eu disse, não disse? Você só precisava de um empurrãozinho — disse, me sentando também e, no segundo seguinte, April se jogou para cima de mim, me abraçando apertado. Pega de surpresa, demorei alguns segundos para ter alguma reação e abraçá-la de volta. Eu nunca fui muito boa com atos afetivos.
Obrigada, obrigada, obrigada, obrigada...
— Ei, o mérito é todo seu. — Interrompi-a. — Mas, assim, se você quiser mesmo me agradecer, pode me pagar um lanche bem gorduroso mais tarde. Agora, nós temos um lugar para ir.
— Feito! — ela disse, afastando-se, sem nunca tirar o sorriso gigante do rosto.

Quando chegamos à casa das Kappas, algumas garotas já estavam lá, todas animadas e conversando entre si. April falava animada sobre como foi o dia que veio conhecer a UCLA e estava acontecendo um evento das Kappas. A garota falava para caramba quando queria, só não parecia querer com muita frequência.
Cerca de 10 minutos depois, pararam de chegar mais garotas, um sinal de que a “cerimônia do resultado” tinha acabado. Apesar disso, ainda demorou um tempo para as Kappas aparecerem. Comecei a me perguntar se era ali do lado de fora mesmo que devíamos ficar. Quando chegamos, as garotas já estavam paradas ali, então simplesmente fizemos o mesmo.
Quando os fios que escapavam do meu “rabo de cavalo” já estavam grudando em minha testa, por causa do suor, a porta da casa finalmente se abriu. Uma a uma, todas as Kappas saíram para fora com seus andares confiantes e olhares superiores, muito diferente de algumas horas antes. Nikki se posicionou no topo da escadaria com todas as outras ao seu redor.
— Silêncio! — ela gritou, de repente, fazendo as garotas que sussurravam aqui e ali ficarem quietas na hora. Seu semblante era sério assim como o de , ao seu lado, e de todas as outras. Ela não parecia mais tão simpática. — Meus parabéns às escolhidas. — Seu tom de voz dizia o contrário. — Mas, se vocês pensaram que acabou por aqui, vocês estão muito, muito enganadas. — Ela abriu um pequeno sorriso. Por algum motivo, aquilo só me deixou mais tensa. — Estejam aqui essa noite, às 19h00 em ponto, em seus melhores vestidos.
E, assim, tão de repente quanto chegou, ela se retirou, sendo seguida pelos seus soldadinhos para dentro da casa.
— Legal! — Ouvi uma garota desconhecida dizer ao meu lado e não consegui conter minha expressão de “qual é o seu problema?” na direção dela.
Eu iria matar a . Ela não havia dito nada sobre isso. Para mim, seria a rush week e pronto, tô dentro. Agora, depois de cinco dias infernais, eu ainda teria que fazer mais coisas e, pior, aguentar garotas mandando em mim.
É, eu estava pronta para dar o fora.
, vamos? — April perguntou, e só então percebi que a maioria das garotas já tinham ido embora. Parei de pensar em minhas mãos ao redor do pescoço de e a segui.
— Que negócio é esse do seu nome? April Spring? — perguntei, depois de algum tempo andando em silêncio.
— Eu sabia que você iria reparar — ela disse, dando uma risadinha. Olhei-a rapidamente, e ela já estava corando. Ela fazia muito isso. Eu quase desejei ser tão tímida quanto ela, assim eu teria alguma cor no meu rosto sempre. — Meus pais são estranhos. Eles gostam que nomes signifiquem alguma coisa. Além daqueles significados estranhos que a gente acha na internet, claro. Primavera sempre foi a estação do ano preferida deles, e eu nasci em abril. Eles sempre me incentivaram a usar Spring, ao invés do sobrenome da família, porque acham lindo, e acabei me acostumando.
— Qual é o nome do seu irmão? — questionei, não me aguentando.
— Jude. Ele nasceu em junho, mas, pelo menos, meus pais tiveram o bom senso de não dar um nome feminino, como June, para ele. E eles adoram os Beatles, então... — explicou, me deixando admirada.
Eu estava adorando aquilo.
— Por isso, o nome do seu gato e do seu cachorro são tão estranhos — concluí, e ela assentiu.
— Natal é a comemoração preferida dos meus pais e, quando uma tia minha faleceu, nós adotamos a cachorra dela. Nos primeiros dias, ela estava bem triste e não comia nada. Um dia, eu e meu irmão estávamos comendo pipoca, jogamos um pouco para ela, e ela finalmente comeu. Já que minha tia também era super estranha e só a chamava de “cachorra”, nós começamos a chamá-la de Pipoca.
Não consegui conter minha risada, achando aquilo inacreditável.
— Eu preciso conhecer sua família!
— Logo eles devem...
Ela parou de falar quando um grito, que parecia dizer “”, seguido de outro, que parecia dizer “April”, a interrompeu. Ambas viramos para trás e encontramos , a uma boa distância, correndo toda estabanada em nossa direção. Permiti-me observá-la sofrer um pouco naquele sol quente. Eu estava no direito.
Quando chegou à nossa frente, sem fôlego, ela se curvou, apoiando as mãos nos joelhos, tentando recuperá-lo.
— Sabe, eu até sentiria pena de você pela corrida, se eu não quisesse te cortar em pedacinhos agora — disse, e ela levantou a cabeça, semicerrando os olhos em minha direção.
— Posso saber por quê? — perguntou.
— Você disse que tudo que eu teria que fazer era passar pelo recrutamento. Não disse nada sobre trote.
— Porque não é um trote — informou, arrumando sua postura. — É uma iniciação.
— Ai, caramba... — April murmurou ao nosso lado.
Olhei-a, confusa, para encontrar seu olhar preocupado. Voltei, então, à , que, agora, carregava um sorriso no rosto.
— É pior, não é? — perguntei.
deu de ombros.
— Você vai descobrir mais tarde — respondeu simplesmente.
— Não se eu não for... — eu disse, em um tom bem sugestivo.
— O quê? — Seus olhos se arregalaram, de repente, e eu juro que ela ficou vermelha. Não o bonitinho da April. O “você está morta” da , mesmo. — , se você não for, eu te pego pelo cabelo e te arras... — Ela parou de falar quando eu comecei a rir. — Você não presta! — disse, me apontando o dedo.
— Eu tô curiosa demais pra não ir. Com isso, você não tem que se preocupar. — Ela não pareceu muito calma, depois de eu falar isso, continuou me olhando de cara feia, o que eu optei por ignorar. — O que você queria? — perguntei quando voltamos a andar.
— Diferente de você, eu queria ser uma boa amiga, te dar parabéns e perguntar se precisarão de ajuda para se arrumarem.
Revirei os olhos para a primeira parte e, novamente, optei por ignorar, não a cutucando de volta.
— Diz você. A gente vai precisar de ajuda?
Ela não precisou nos olhar por mais de dois segundos, para chegar a uma conclusão:
— Com certeza.

Nós passamos em uma lanchonete e comemos, já que não tínhamos almoçado ainda e, depois de nos deixar, prometendo que voltaria mais tarde, fomos ao dormitório. Eu tenho que dizer que a melhor sensação do mundo foi chegar lá e saber que, no dia seguinte, eu não teria que sair para visitar mais casas e tentar agradar. Okay, nós ainda tínhamos o que fazer, mas já tínhamos entrado, e isso já tirava um peso e tanto das costas.
Por isso, me sentindo um pouco mais livre, a primeira coisa que fiz quando vi minha cama foi pular nela e não levantar mais. Infelizmente, minha felicidade durou pouco.
E APRIL, ABRAM A PORRA DESTA PORTA, OU EU JURO QUE VOU ATRÁS DE ALGUÉM PARA DERRUBÁ-LA!
Não. Por favor, não. Eu nunca fui a melhor pessoa do mundo, mas nem eu merecia aquilo.
Várias batidas seguiram, depois da sua ameaça, fazendo minha cabeça doer. Eu não sabia de onde ela tinha tirado tanta força para bater na porta daquele jeito.
, EU VOU TE MATAR! VOCÊ TÁ ME OUVINDO? VOCÊ ME PAGA! MUITO CARO!
Talvez, se eu a deixasse batendo tempo o suficiente, algum segurança apareceria e a levaria embora, me deixando dormir por mais algumas horas. É, me parecia uma boa ideia.
, pelo amor de Deus, abre essa porta, antes que prendam sua amiga. — April falou com a voz meio rouca.
Com muito esforço, abri os olhos e vi que ela tentava tapar os ouvidos com o travesseiro. Respirei fundo, odiando a mais que nunca.
!
Esse me fez levantar correndo, porque, se o segurança ainda não tinha chegado, ele, com certeza, estava a caminho.
Quando abri a porta, um furacão me atingiu, quase me derrubando no chão. Acabou que era só a fula da vida.
— Já são 17h30. 17h30, PORRA! Meu Deus! Olha pra você! Você nem tomou banho ainda! — Ela fez uma pausa; talvez, esperando que eu dissesse alguma coisa, mas eu ainda não estava acordada o suficiente para assimilar bem as coisas. Só fiquei encarando-a com cara de besta. — Sai daqui. SAI DAQUI AGORA E VAI AO BANHEIRO! — gritou, apontando para a porta, onde alguns curiosos paravam para espiar. — E, April, eu sei que não te conheço direito para fazer o que estou prestes a fazer, mas LEVANTA A PORRA DA BUNDA DESSA CAMA E VAI TOMAR BANHO! — Em um só movimento, ela puxou o lençol da menina, quase a derrubando da cama, no processo.
Eu poderia ter gritado de volta ou feito um barraco, mas minhas energias só me permitiram ir até uma das minhas malas para pegar uma roupa qualquer. April, parecendo assustada, sem nem saber o que a atingiu, fez o mesmo e, sem dizer uma palavra, logo saímos pela porta em direção ao banheiro, deixando uma bufando para trás.

— Você! — apontou para mim, no exato segundo em que passei pela porta. — Dá um jeito no seu cabelo, enquanto eu cuido da April. E você! — Apontou para a April. — Senta nesta cadeira agora.
April fez o que ela mandou, e eu me aproximei da cama dela, em que dois vestidos curtos estavam postos.
— Eu não me lembro de ter colocado este vestido na mala — comentei, passando a mão no preto com renda e uma saia rodada. Olhei para o que estava ao lado, roxo, também de saia rodada. — Nem este, aliás.
— Você não colocou. — respondeu. — Eu busquei na sua casa.
— Por que eu não tô surpresa? — Tudo o que eu ouvi em resposta foi uma risadinha da April.
Fui, então, secar meu cabelo. Eu odiava fazer aquilo, porque tirava as ondas naturais dele, mas eu já havia irritado demais por um só dia. Fiz duas tranças de cada lado da cabeça e prendi parte do meu cabelo atrás com elas, deixando a franja e o resto do cabelo solto. Olhei o resultado na câmera do meu celular (já que o espelho estava ocupado) e gostei do resultado. É, de cabelo, eu entendia. Depois, me sentei na minha cama e fiquei jogando Farm heroes saga, enquanto e April não terminavam.
— Vuxê xabe que eu nom tenho vextido di fexta, né?
— Engraçado como você escolheu bem a hora de passar batom pra falar. Mas, sim, eu sei. Eu vi com os meus próprios olhos, na verdade. Mas, para a nossa sorte, eu sou uma pessoa prevenida e já garanti o seu também.
Olhei, mais uma vez, para os vestidos. O meu, com certeza, era o preto. Quer dizer, os dois eram meus, mas ela, provavelmente, me faria usar o preto. adorava me enfiar em renda, o que eu nunca entendi muito bem. Era bonito e tudo mais, mas aquele negócio me pinicava. Eu já estava até vendo como eu iria sofrer com aquelas mangas toda de renda. Invejei a April por alguns segundos. Eu adorava aquele roxo. Havia comprado para a festa de aniversário de uma amiga e usado uma vez só. Era todo lindinho, sem nada para pinicar a noite inteira.
, sua vez. — anunciou, e eu me levantei, pronta para me sentar no lugar da April, mas quando ela se virou, eu tive que parar.
— Uou!
havia feito, no cabelo dela, uma trança lateral, meio bagunçada, deixando a franja solta. A maquiagem era forte, bem de noite mesmo, com direito até a batom vermelho. Quem olhasse, nunca veria a garota tímida que ela realmente era. Bom, isso até conversar com ela, mas tá valendo. Ela estava linda.
— Eu sei. Eu sou ótima. — disse.
— Tá maravilhosa, April! — elogiei-a, e ela sorriu animada. — Dá para pegar vários. — E o sorriso foi embora no mesmo segundo, deixando uma expressão assustada no lugar. Sentei na cadeira, rindo.
não perdeu tempo, começou logo suas mágicas, e eu só fiquei lá, aproveitando alguns minutos com os olhos fechados. Eu estava quase que animada para aquela noite. Eu não estava, antes, mas saber que era uma iniciação melhorava as coisas. Iniciações deviam ser divertidas, certo? Eu mal podia esperar.
20 minutos depois, terminou, e eu abri os olhos, pronta para ver o resultado. E, modéstia à parte, eu estava tão maravilhosa quanto April. Nossas maquiagens nem era tão diferentes assim, ambas escuras. A única diferença gritante era o meu batom roxo.
— Já disse que te amo? — perguntei, olhando de baixo para . Ela deu de ombros, fingindo indiferença. — Eu te amo — disse, abrindo um sorriso.
Ela tentou continuar séria, mas não demorou muito para deixar escapar um sorriso também.
— Eu te odeio — falou, me dando um tapa fraco no ombro. — Eu vou me arrumar também. , seu vestido é o preto, e April, o roxo. — Como eu imaginei. Renda... — Vistam-se. Suas opções de sapatos estão ali no canto e cheguem, pelo menos, 10 minutos antes das 19h00. — E saiu porta a fora, sem nem dar um tchau.
Eu nem poderia reclamar, já era 18h30, e a culpa do atraso era toda nossa.
— Hum... ? — April chamou. Olhei para ela, que estava sentada próxima aos saltos. — Eu acho que nós temos um problema.
Suspirei, já imaginando o que seria, mas mantendo um resquício de esperança.
— Por favor, me diz que você sabe andar de salto. — Ela balançou a cabeça para os lados. — Tá legal... — eu disse, me levantando, tentando pensar em uma solução. Mas quem eu queria enganar? Só tínhamos uma e não era das boas. — vai amputar seus pés, se aparecer lá sem salto, então... Você tem 10 minutos andando pra lá e pra cá neste quarto, para aprender.
— Mas...
— Sem “mas”! — repeti o que ela havia me dito mais cedo. — É isso, ou deixar a mais brava com a gente do que ela já está. O que você prefere? — perguntei, e ela encolheu os ombros em rendimento.
De vestidos colocados (depois da April me fazer virar para a parede para ela se trocar) e saltos nos pés, nós saímos 10 minutos depois para a casa Kappa Kappa Gamma. Com certeza, chegaríamos em cima da hora por causa da lentidão da April para andar, mas eu não a culpava. Já havia tido minha primeira vez também. E, para a sorte dela, tínhamos que andar mais, sem poder cortar caminho pela grama.
— Para de doer, depois que eu me acostumar? — ela perguntou no meio do caminho.
— Não — respondi. Olhei para ela, um pouco atrás de mim. — E, se você continuar nessa postura, não é só o seu pé e suas panturrilhas que vão doer, suas costas também.
— Ou eu fico com esta postura, ou eu caio de cara no chão, não tenho muita opção.
Balancei a cabeça, segurando uma risada. Era bom que não estivesse aqui para ver isso.
Quando, finalmente, chegamos à casa, faltavam exatos 2 minutos para as 19h00. Assim como à tarde, todas as garotas estavam paradas de frente para a pequena escadaria. Nós não devíamos chegar, receber capas, sermos guiadas para o porão, onde teriam velas e coisas estranhas? Porque era assim que eu imaginava uma iniciação. Não um bando de garotas extremamente arrumadas na calçada. Felizmente, o sol já começava a baixar. Ainda estava calor, mas dava para aguentar sem suar litros.
Às 19h00 em ponto, Nikki saiu pela porta, mais uma vez seguida por todas as outras Kappas. Todas usavam vestidos brancos e eram do mesmo modelo. Mais uma vez, eu tive que segurar a risada.
Quando todas pararam em suas devidas posições, tudo ficou no mais completo silêncio. Nem carros se atreveram a passar na rua. Até que a deusa maior, Nikki, começou seu discurso:
— Boa noite, calouras! — ela começou, sempre no topo da escadaria, com um sorriso maldoso nos lábios. Por educação, todas começaram a responder, mas ela voltou a falar, antes que terminássemos, interrompendo: — Como eu disse, mais cedo, sua jornada para ser uma verdadeira irmã Kappa Kappa Gamma não acabou com o recrutamento. — Ela fez uma pausa de alguns segundos. Ninguém nem respirava, ansiosas pelo que estava por vir. — Vejam só, nós não somos uma das irmandades mais procuradas desta universidade à toa. Todas querem ser uma de nós. Todas querem ser como nós. Vocês sabem por quê? — Uma garota inocente, na frente, levantou a mão, mas tudo que ganhou foi um olhar rápido da Nikki, que logo voltou a falar, ignorando-a: — Cada uma de nós tem um diferencial. Algo que nos destaca das demais de alguma maneira. Qualidades e, acreditem, às vezes, até defeitos que vêm a calhar. Não importa o porquê, nós nos destacamos. — Suspirei entediada. Era isso a iniciação? Elas se gabando? Eu estava meio decepcionada. Não surpresa, mas decepcionada. — Logo, vocês vão descobrir o que cada uma de nós tem a oferecer a esta irmandade, mas, o que importa, hoje, são vocês. Talvez, não fique tão claro, inicialmente, mas vocês estão aqui por um grande motivo: nós vemos potencial em cada garota que escolhemos. Ninguém, e eu repito, ninguém, está aqui por acaso. Cada nome chamado mais cedo foi pensado e discutido. E é por isso que não esperamos nada menos que o melhor de cada uma de vocês. — Agora, a coisa estava ficando interessante. Bem interessante. — Esta noite, vocês terão a chance de nos mostrar algo. Algo que vem de dentro. Algo que escondem. Algo que nos mostre por que vocês estão aqui. Não queremos saber o que, se é ilegal ou não, se é ético ou não, só queremos que nos mostre a razão pela qual foram escolhidas. E, para isso, vocês têm 12 horas, ou seja, vocês têm até às 7h00 da manhã. Todas entenderam? — É claro que ninguém se atreveu a dizer que não. — Muito bem. — De repente, ela abriu um sorriso caloroso, muito diferente do de antes, parecendo voltar a ser a Nikki do recrutamento. — Agora, como nosso presente de boas-vindas a vocês, queremos mostrar o que é uma festa de verdade. Uma festa universitária. — Vários murmurinhos começaram na hora, deixando o sorriso da Nikki mais largo. — Eu sei, eu sei, vocês já estão animadas, mas, antes, um recado: algumas de vocês, talvez, já saibam, outras não, mas não é permitido álcool nas irmandades, apenas nas fraternidades. — Franzi o cenho. Essa informação também era nova para mim. E incrivelmente injusta. — É algo que nós estamos tentando mudar, mas não estamos exatamente lá ainda. Essa regra cria muita insegurança entre nós, garotas, já que, se quisermos beber, temos que ir às festas na casa de garotos. Eles controlam a bebida, controlam quem entra e conhecem a casa, nos sujeitando a perigos como o estupro. Infelizmente, todas devem saber que estupros em campus de universidades são muito comuns. E porque nós nos recusamos a pedir que vocês não usem roupas curtas, ou não bebam, algumas irmandades e fraternidades decidiram se juntar para tentar evitar situações assim. A nossa fraternidade prima, como gostamos de chamar, é a Lambda Chi Alpha, algumas casas aqui para baixo. Nós conhecemos a casa deles como se fosse nossa e confiamos nos moradores de lá assim como eles confiam na gente, por isso, quando queremos dar uma festa com álcool, ou seja, uma festa de verdade, é com eles que contamos. Não é a situação ideal, nós sabemos, mas é uma solução temporária que está funcionando. Felizmente, logo não vamos mais precisar dela, tudo bem? — Algumas garotas assobiaram, algumas bateram palmas ou gritaram, e eu só conseguia pensar que aquilo era algo em que eu, definitivamente, gostaria de me envolver. — Ótimo. Agora, podemos ir.
Todas começaram a descer a escada para ir à tal fraternidade, e eu estava pronta para fazer o mesmo, quando vi que deixava as garotas passarem, em vez de descer também. Nossos olhares se encontraram, e ela ergueu a mão para mim, pedindo que eu esperasse, então puxei April para um canto comigo. Assim que todas foram em grupo rua a baixo, nos chamou, e entramos dentro da casa.
— O que foi? — perguntei enquanto subíamos a escada para o segundo andar.
— Eu tenho que terminar de me arrumar e, já que a culpa é totalmente de vocês por terem me atrasado, vão me esperar. — Ela parecia perfeitamente arrumada, para mim, mas eu que não iria questionar.
Nós entramos em um corredor e fomos até o final dele, na última porta. Não tínhamos entrado naquele quarto, na tour pela casa, mas era praticamente como os outros. Uma cama de solteiro, duas beliches, algumas mesas de estudo, outras com espelho e maquiagem, e closets. Todos os quartos eram grandes. Não devia ser nenhum esforço morar ali.
— Qual é a sua cama? — April perguntou, e apontou para a de solteiro, onde fomos sentar, enquanto ela se colocava de frente para uma penteadeira e começava a mexer no cabelo.
— Podem sentar em qualquer uma, não tem problema. Eu divido este quarto com a Mina, e ela não se importa. Aliás, eu tô mexendo uns pauzinhos para que vocês fiquem aqui com a gente.
Aproveitei a permissão e tirei meus saltos, já me deitando na cama debaixo de uma das beliches. Tomei cuidado para não estragar meu cabelo, mas quando percebi, o estrago já estava feito. Não que eu tenha me importado muito. No meio da festa, eu já teria o soltado mesmo.
— Gostei desta aqui — disse, me aconchegando ali mesmo.
— Então... Nós vamos falar sobre a iniciação? Eu não tenho ideia do que fazer! — April exclamou, parecendo muito preocupada.
— Ah, é... — Eu gostei tanto da parte de legalizar o álcool nas irmandades que me esqueci desse detalhe. — O que você fez, ?
— Projetei um evento de caridade. Nós o colocamos em prática, no segundo semestre, e arrecadamos quase dez mil dólares — contou com um sorriso orgulhoso.
É, não daria para competir com aquilo.
— Ai, meu Deus... — April suspirou desanimada.
— Relaxa! A gente ainda têm 11 horas e 40 minutos. Você tem ideia do tanto de coisas que podem acontecer em 11 horas e 40 minutos? Vamos pensar em alguma coisa — eu disse, tentando soar o mais positiva possível. Eu não tinha ideia do que faria também, mas era só questão de tempo até eu descobrir.
— E você sempre pode pedir ajuda a uma veterana. A Lucy, quem sabe. Ela, com certeza, te ajudará. — sugeriu. Desta vez, ela respirou fundo e pareceu um pouco mais calma.
— Tudo bem. É, vai dar tudo certo.

Quando já havia escurecido completamente, finalmente terminou de se arrumar. Seu cabelo, agora, estava preso em um dos coques mais chiques que eu já tinha visto na vida. Era só uma festa universitária, mas também era a , então...
Rapidamente, chegamos à casa da Lambda Chi Alpha — nome que eu só lembrei quando chegamos à frente e vi uma placa com o nome —, viramos uma esquina, onde ficava a casa da irmandade Kappa Delta, andamos por dois minutos, no máximo, e estávamos lá. Dificilmente, alguém erraria aquela casa. Não por causa da música alta que vinha de dentro e, sim, porque ela estava completamente iluminada com luzes, que, hora eram verdes, e hora eram azuis. Verde, a cor da fraternidade deles, e azul, a cor da Kappa Kappa Gamma.
— Metidos. No resto do ano é só verde, estão só tentando impressionar as calouras. — disse, seguindo pela entrada. April e eu trocamos um olhar rápido e impressionado, antes de segui-la. — Ah! — Até ela parar do nada, nos fazendo quase beijar suas costas, claro. — Pensei que você deveria saber. Esta é a fraternidade do . — E saiu praticamente correndo e se enfiando no meio das pessoas porta a dentro.
Eu juro que não estava surpresa. Com a sorte que eu estava, ultimamente, em relação a ele, é claro que aquela fraternidade seria a dele. Se eu acreditasse em destino, diria que isso era ele me dizendo para matar logo meu ex-namorado, assim eu não teria que olhar para a cara de pau dele nunca mais.
— Tá tudo bem? — April perguntou ao meu lado.
Respirei fundo e olhei para ela com o meu melhor sorriso.
— Quer saber? Tá tudo ótimo — respondi, agarrando sua mão e a puxando para dentro comigo.
A música, que já estava alta do lado de fora, era ensurdecedora do lado de dentro. O que, antes, deveria ser uma sala, era, agora, uma pista de dança com casais se agarrando, dançando colados e algumas pessoas se arriscando sozinhas. A primeira coisa que eu fiz foi ir atrás de bebida e achei com um cara bonitinho. Na verdade, vários caras eram bonitinhos ali. Eu poderia conviver com aquilo. Com um sorriso no rosto, ele me entregou um dos clássicos copos vermelhos. Eu experimentei e concluí que não fazia ideia do que era aquilo, mas tinha álcool, então estava valendo. April recusou o dela, primeiramente, mas, depois de eu dizer que aquilo era o mais próximo de um suco que ela iria encontrar por ali, ela aceitou, dando goles minúsculos.
— Eu tenho que procurar a Lucy! — ela gritou no meu ouvido, depois de termos dado algumas voltas pelo lugar.
— O quê? — gritei de volta. — Não, vamos dançar!
— Eu não sei dançar!
— Eu te ensino! É super fácil! — Mas ela balançou a cabeça para os lados.
— Depois, tá bom? Eu quero acabar com isso logo, aí você pode me ensinar quantas danças quiser.
Olhei para ela, decepcionada, mas assenti, e ela se enfiou no meio da multidão, atrás da Lucy.
Decidi que não ficaria ali parada e, sim, ser mais uma se arriscando sozinha na pista de dança, então acabei com a minha bebida de uma vez e fui fazer uma das minhas coisas preferidas no mundo: fechar os olhos e dançar como se eu não tivesse mais nenhuma obrigação no mundo.
Eu já havia perdido a conta de quantas pessoas já havia ouvido dizer que não gostavam de baladas por causa da música alta, da multidão dançando, suados, e nunca entendi bem, porque era exatamente aquilo que me atraía em uma festa. Não a calmaria. Eu não me importava de suar por estar me divertindo, nem um pouco.
Não fiquei sozinha por muito tempo, logo senti alguém se aproximar por trás, tentando se adaptar ao meu ritmo. Olhei pelo ombro e, percebendo ser o cara das bebidas, sorri para ele, que se permitiu, então, aproximar-se mais.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou no meu ouvido.
Sem vontade de começar uma conversa, optei por não responder, só continuei dançando com ele. Felizmente, ele pareceu entender e não falou mais nada. Eu gostava de caras assim. Poderia conhecê-lo bem melhor quando estivesse a fim.
Quando me dei por satisfeita, lancei a ele mais um sorriso e fui abrindo meu caminho entre os casais para fora dali. Cansada, andei até encontrar uma porta que me levasse ao lado de fora da casa. Queria respirar um pouco do ar não-tão-fresco de Los Angeles, antes de ir atrás da April ou pensar no que faria para aquela iniciação.
Encontrei uma persiana e percebi uma porta de vidro atrás dela. Tentei abrir e estava trancada. Ia dar a volta e tentar alguma outra, quando vi, de relance, um pedaço de metal atrás de uma planta em uma mesinha ao lado. Peguei a chave, rindo de qualquer que fosse a pessoa que tentou escondê-la, e abri a porta, dando de cara com a parte de trás da casa, com uma piscina enorme. Saí e tranquei a porta atrás de mim, pensando que uma piscina não era uma má ideia. Mal tinha me virado e ouvi um barulho na água, notando, só então, que eu não estava ali sozinha.
Merda. Eu não estava com sorte mesmo.
Mas, decidida a me refrescar, pelo menos, um pouco, rapidamente, tirei meus saltos e me sentei na beira da piscina, molhando meus pés e parte da minha panturrilha. Foi quando o cara, que estava nadando, emergiu, e eu xinguei mentalmente tudo o que me vinha na cabeça, inclusive ele, de todos os nomes possíveis. Sério. Quais eram as chances?
Ok, considerando que ele era um nadador, elas eram meio altas, mas, ainda assim... Não dava nem para acreditar.
não demorou muito para perceber que tinha companhia, só o tempo de tirar o excesso de água do rosto e... Bem, abrir os olhos. Quando percebeu ser eu, franziu o cenho, confuso.
— Hum... Oi? — Por um momento, eu me esqueci completamente de responder, ocupada demais acompanhando uma gota de água que descia pela sua bochecha, depois, pelo pescoço, até um pouco abaixo do seu peito, juntando-se, então, à água da piscina. Ele podia ser um idiota, mas era um idiota gostoso daqueles.
Eu sempre tive um bom gosto.
— Já soube da novidade? — perguntei com um sorriso maldoso “estilo Nikki”. Se eu já estava ali, por que não aproveitar, não é?
— Antes mesmo de você, na verdade — ele respondeu, também sorrindo, mas o dele, pelo menos, parecia verdadeiro. — ligou para todo mundo assim que soube. Parabéns, .
Senti-me até um pouco mal quando ele falou isso, porque nem havia dado a ela a chance de comemorar. E ela, com certeza, era a mais animada com aquela história toda. Eu a recompensaria mais tarde. Agora, o meu foco era outro.
— Tenta não duvidar de mim, na próxima vez — avisei, ignorando seus parabéns.
— Nunca duvidei de você. Aprendi há um tempo, já que duvidar de você não é uma opção — disse, fazendo uma careta. Eu quase ri, sabendo a lembrança que deveria estar na sua cabeça, mas me segurei. — Só disse que você não faz muito o estilo das Kappas, especialmente a Kappa Kappa Gamma. Na Delta, eu até consigo te imaginar.
— Você não tem que imaginar nada — eu disse rudemente, não me contendo. Ele ergueu uma sobrancelha, parecendo questionar minha reação. Tentei me recompor, respirando fundo. — É... Esquece. Qual é a diferença? Sabe, entre elas. Kappa Kappa Gamma e Kappa Delta. Elas me pareceram muito iguais no recrutamento. — Tentei até soar educada, o que já deveria me render um prêmio.
— É meio complicado de explicar, mas... Bom, a Gamma, agora, sua irmandade, é muito conhecida pela beleza das garotas, pela personalidade forte de algumas e, dizem por aí, que não são tão irmãs assim. Eu não sei. Só convivendo dentro da casa, para ter certeza disso, mas é o que dizem. A Kappa Delta tem uma imagem bem mais... “Pura”, talvez, seja a palavra. Garotas boazinhas, amigáveis e muito, muito, mesmo, unidas — ele explicou, e eu acabei ficando mais confusa ainda.
— Espera... Você consegue me imaginar em uma irmandade de garotas boazinhas e não em uma de garotas com a personalidade forte? Tem alguma coisa errada no seu raciocínio.
— Não é bem assim. — Ele deixou escapar uma risada e encostou na beirada da piscina, de frente para mim, mas lá do outro lado, longe o suficiente. Não preciso dizer a visão do paraíso que seus braços apoiados na beira me davam, né? — Quando eu digo ‘personalidade forte’, quero dizer garotas metidas, que andam por aí como se fossem rainhas. E quando eu digo ‘boazinhas’, quero dizer verdadeiras. Não que elas são santas ou algo do tipo.
Balancei a cabeça, agora, compreendendo.
— As que eu conheci, até agora, não são tão ruins. Bom, eu até trombei com umas chatas, mas não perdi muito tempo com elas — disse, dando de ombros.
— Quem conheceu? — ele perguntou, parecendo interessado.
— Lucy, Lauren, Mina, Nikki, Susan, Marie, Katy... Ah, várias — respondi.
— É, eu conheço bem algumas dessas. Não são exatamente o estereótipo Kappa Kappa Gamma. Mas espera e você vai ver.
Assenti e estava pronta para começar a falar mais, quando eu percebi: eu estava conversando com ele. Conversando. Ele, o ex-namorado, o ex-melhor amigo, o cara que eu queria matar, na maior parte do tempo. Eu era uma traidora mesmo. Das feias.
— Tá. Tchau — disse rapidamente e comecei a me levantar, querendo dar o fora dali.
— O quê? , espera! — ele exclamou, e eu ouvi o barulho que a água fazia com os seus movimentos.
— Que foi? — perguntei em um tom grosso até demais.
— Eu preciso conversar com você — disse, pegando impulso para sair da piscina.
Virei-me e voltei a andar em direção à porta, antes que tivesse a visão que eu estava evitando.
— Nós acabamos de conversar.
, por favor. — Ignorei e continuei andando, quase alcançando a porta. — ! — Mas é claro que ele me alcançou e parou minha mão, no exato momento em que eu iria virar a chave. — Por favor — ele pediu, próximo demais do meu ouvido.
Foi tudo muito rápido. Em um segundo, sua mão cobria a minha, e seu peito, ainda molhado, roçava no meu ombro. No outro, eu tinha me afastado como se tivesse levado um choque. Eu não queria que ele tocasse em mim. Ele não tinha mais esse direito. Merda. Idiota, idiota, idiota. Ele não poderia simplesmente manter distância? Não poderia não fazer com que eu me sentisse a garota mais estúpida do universo? Não, ele não poderia. Por isso, eu o odiava tanto.
Respirei fundo, lançando a ele o olhar mais frio que eu conseguia. Eu poderia me sentir muito estúpida, mas não deixaria de jeito nenhum ele ver. Ao contrário, eu queria fazê-lo se sentir tão estúpido, se não mais, quanto eu. Era como a coisa funcionava comigo.
— Fala logo o que você quer, ! — exigi, me forçando a manter meus olhos no rosto dele e não no tronco nu, ou na boxer, que poderia, ou não, ser preta, nas coxas firmes... Eu não estava fazendo exatamente um bom trabalho.
— Para de me chamar assim, você sabe que eu odeio — ele disse, bufando, e eu revirei os olhos.
— Eu não dou a mínima. Você tem dois minutos.
Ele hesitou um pouco, como se escolhesse quais palavras me fariam ouvi-lo e quais me fariam sair correndo. Eu não fazia ideia do que estava por vir, do que diabos ele tinha para me falar e, por isso, quando ele falou, a minha reação foi a mais genuína possível.
— Eu quero conversar sobre... Conversar sobre nós e... — Foi tudo o que ele disse, antes que eu o interrompesse com uma gargalhada. Ele tinha esse dom de falar babaquices tão grandes nas piores horas.
— Sobre nós? — consegui falar entre risos, balançando a cabeça. — Não existe “nós”, cara. Você não tinha percebido isso ainda?
Ele deu um passo para trás, correndo os dedos pelo cabelo e puxando alguns fios. Ser motivo de chacota incomodava, eu sabia bem.
— Dá pra parar? — ele pediu, e eu fiz um esforço para ficar séria, agora, até animada para ouvir o que ele tinha a dizer: — Já passou mais de um ano, . Será que, agora, não dá pra gente tentar, pelo menos, resolver tudo?
— Já tá tudo resolvido. Nós namorávamos, você me traiu, foi um babaca e nós terminamos. Simples assim — expliquei. Ele suspirou cabisbaixo. Eu dei um passo em direção à porta, querendo sair dali logo, até que ele me fez parar de novo; desta vez, sem nem me tocar.
— Eu sinto sua falta — murmurou baixo.
Olhei para ele, que cravou seus olhos nos meus.
— Ah, nem vem com esses olhos azuis — reclamei, desviando meu olhar para a beirada da piscina, em que algo me chamou atenção. Olhei por alguns segundos, até conseguir identificar como uma pilha de roupas. Eram só as roupas dele, concluí desanimada. Não que eu estivesse esperando algo que pudesse me transportar para longe dali, mas... Sim, eu estava.
— São os meus melhores atributos. Vale a pena tentar.
Voltei meu olhar para ele, mas, antes que pudesse perceber, estava na pilha de roupas novamente.
Ele estava só de cueca. Sentia minha falta. Nós estávamos em uma casa cheia de gente. As roupas dele estavam logo ali do lado. Eu queria tanto uma vingança. E uns dos meus melhores atributos eram as minhas ideias; mirabolantes, loucas, estranhas, mas tendiam a dar certo.

(Dá um play em Unstoppable, quem quiser entrar no clima)

All smiles, I know what it takes to fool this town | Toda sorridente, eu sei como enganar esta cidade
I'll do it 'til the sun goes down and all through the night time | Eu vou fazer isto até o sol se pôr, e através da noite
Oh yeah, oh yeah, I'll tell you what you wanna hear | Oh yeah, eu te direi o que você quer ouvir
Leave my sunglasses on while I shed a tear | Fico com meus óculos escuros enquanto uma lágrima cai
It's never the right time, yeah, yeah | Nunca é a hora certa, yeah


— Quer saber de uma coisa? Eu não concordo com você — disse, de repente, me aproximando dele, até que nossos corpos estivessem a poucos centímetros de distância. Mordi meu lábio, ao mesmo tempo em que descia meu olhar pelo seu corpo da maneira mais descarada possível, parando, por alguns segundos, na boxer preta, antes de levar meus olhos de volta aos dele. — Não concordo mesmo. — Colei completamente meu corpo no dele, levando uma das minhas ao seu pescoço e arranhando levemente seu braço com a outra. Senti a respiração dele ficar irregular e sorri. Eu ainda sabia do que ele gostava. Fiquei, então, na ponta dos pés, aproximando nossos rostos, até que eu sentisse sua respiração quente. Aproveitei a mão que estava no seu pescoço e puxei sua cabeça, deixando nossas bocas quase se tocando.
— O que você tá fazendo? — ele perguntou em um sussurro.
— Beijando você — sussurrei de volta, antes de colar completamente meus lábios nos dele.

I put my armor on, show you how strong how I am | Eu visto minha armadura, te mostro como sou forte
I put my armor on, I'll show you that I am | Eu visto minha armadura, te mostro que eu sou


Primeiramente, foi só um selinho, até que ele pareceu perceber o que estava rolando e me agarrou pela cintura, pressionando nossos corpos, e abriu os lábios. Foi como se eu tivesse voltado no tempo. Por um momento, eu não sentia mágoa alguma, era só uma garota que poderia passar horas só beijando seu namorado, apreciando a maneira como seus lábios se encaixavam nos meus, como sua língua deslizada pela minha, sem pressa, me proporcionando sensações que só ele conseguia. É, seria fácil demais esquecer.
Quando eu menos percebi, meu corpo estava sendo pressionado na parede e o beijo já não era tão suave assim. Nos beijávamos profundamente, buscando cada vez mais um do outro, como se para compensar pelo ano inteiro perdido. A sua boca deixou a minha, por um tempo, apenas para descer pelo meu pescoço, depositando beijos e mordidas leves que me faziam suspirar. Droga. Eu queria mais. Puxei sua cabeça, encaixando nossos lábios novamente, e o beijei da melhor maneira que eu sabia, deslizando minha língua pelos lábios, puxando-os para mim, arranhando seu pescoço, porque aquilo era tudo que eu teria.

I'm unstoppable | Eu sou incontrolável
I'm a Porsche with no brakes | Eu sou um Porsche sem freios
I'm invincible | Eu sou invencível
Yeah, I win every single game | É, eu ganho todos os jogos
I'm so powerful | Eu sou tão poderosa
I don't need batteries to play | Não preciso de baterias para jogar
I'm so confident, yeah, I'm unstoppable today | Eu sou tão confiante, é, eu estou incontrolável hoje


Ele não demorou a descer uma das mãos pela parte de trás da minha coxa descoberta pelo vestido e puxá-la para cima, e eu, tonta e entregue do jeito que estava, não demorei muito para encaixar a outra também em seu quadril, nos deixando, se é que era possível, ainda mais próximos. Eu tinha um histórico de escolhas ruins e aquela foi uma das piores. No momento em que eu fiz isso, senti o volume dentro da sua boxer roçar na minha calcinha, que, agora, estava quase que completamente à mostra, e eu tive que juntar toda a força que tinha para não deixar escapar um gemido.
Com um suspiro, ele afastou-se de mim, me lançando um sorriso de lado, antes de descer seu olhar para baixo, em que ficou por alguns segundos. Logo, senti sua mão deslizar com leveza pela minha coxa; às vezes, apertando um pouco, me arrancando arrepios. Mas nenhum foi tão grande quanto o que me atingiu quando ele voltou seus olhos azuis para os meus, quando eu pude ver todo o desejo estampado em seu rosto.

Break down, only alone I will cry out now | Derrotada, agora eu só choro quando estou sozinha
You'll never see what's hiding out | Você nunca vai ver o que estou escondendo
Hiding out deep down, yeah, yeah | Escondendo lá no fundo
I know, I've heard that to let your feelings show | Eu sei, já ouvi essa história que mostrar seus sentimentos
Is the only way to make friendships grow | É a única maneira de fazer amizades crescerem
But I'm too afraid now, yeah, yeah | Mas eu tenho muito medo agora


— Isso tudo foi planejado, é? — perguntou baixo, nunca parando o carinho em minha coxa. — Porque você sabe como eu te acho gostosa de preto. — Ele se referia à calcinha preta. Eu realmente sabia. Mas não respondi, só sorri e dei de ombros, movendo uma das minhas mãos para a sua nuca, em que começava o cabelo, e passando as unhas levemente ali. Senti todo o seu corpo se arrepiar quando fiz aquilo. Dois poderiam jogar aquele jogo. — Você não presta — ele disse, aproximando novamente os lábios do meu pescoço, que ele sabia ser meu ponto fraco, em que começou novamente sua trilha de mordidas, subindo até a orelha. Ele mordeu levemente o lóbulo, e eu estava pronta para tirá-lo dali de novo, quando ele voltou a falar: — Deixa-me louco — disse com a voz rouca no meu ouvido, ao mesmo tempo em que esfregava sua ereção contra minha intimidade. Eu não aguentei. Deixei escapar o gemido que estava segurando, jogando minha cabeça para trás e dando a ele passe livre para qualquer área do meu pescoço. Senti seu sorriso contra minha pele e quase parei tudo para socá-lo.
Eu tinha que parar aquilo. Tinha que parar aquilo logo.
Mas era tão difícil raciocinar com ele contra mim daquele jeito. Tudo o que eu precisava fazer era tirar aqueles pedaços de pano do caminho. Era tudo o que eu precisava fazer para tê-lo me dando aquelas sensações que só ele conseguia. Que só ele sabia como. E que eu sentia tanta falta.
Mas aquela outra parte de mim, ela me dizia para parar. Ela me dizia para ter minha vingança, para humilhá-lo do pior jeito possível, da mesma maneira que ele havia feito comigo. Não importava o quão bom éramos juntos, ou o quão bem ele me fazia sentir. Não importou antes, por que importaria agora?
Essa era a parte que sempre ganhava. Era a parte que não me faria sentir um lixo depois, eu sabia disso. Por isso, quando senti suas mãos correrem pelas minhas costas, procurando pelo zíper do vestido, eu o afastei, colocando minhas pernas no chão de novo.
Ele me olhou confuso.
— Você primeiro — eu disse, mordendo meus lábios.
Ele me olhou mais confuso ainda, mas não demorou muito a ceder.

I put my armor on, show you how strong how I am | Eu visto minha armadura, te mostro como sou forte
I put my armor on, I'll show you that I am | Eu visto minha armadura, te mostro que eu sou


e seus jogos — murmurou, levando suas mãos para a boxer, a fim de abaixá-la, mas eu a segurei antes, balançando a cabeça para os lados. Ele ergueu uma das sobrancelhas, mas não questionou, apenas deixou as mãos caírem ao lado do corpo.
Posicionei uma das minhas em seu peito e troquei de lugar com ele, empurrando seu corpo contra a parede. Aproximei-me, deslizando aquela mão para baixo, até chegar à barra da boxer, em que brinquei um pouco com o elástico enquanto tomava seu pescoço. Sua barba por fazer arranhava minha bochecha, mas aquilo não atrapalhou em nada a minha missão de dar um chupão lá que ficasse marcado por dias. Ouvindo seus suspiros, fui descendo minha boca pelo seu peito definido, dando mordidas não tão fracas. A minha mão na barra da sua boxer desceu um pouco, e eu acariciei sua ereção por cima do tecido, arrancando dele um gemido. Minha última mordida; desta vez, mais leve e mais demorada, foi no mesmo local. Ele grunhiu, e eu pude ouvir o barulho da sua cabeça batendo contra a parede. Eu odiava gostar tanto daquilo.
Sem mais cerimônia, comecei a descer a boxer pelas suas pernas, e ele me ajudou, erguendo os pés, para que eu pudesse jogá-la longe. Com um suspiro, admirei a visão à minha frente. Eu havia sentido falta dela, não dava para negar. Fechei uma mão ao redor dele, acariciando com leveza e lentidão, só para provocar.
... — ele gemeu, me fazendo engolir em seco.
Eu iria precisar de um banho gelado daqueles mais tarde. Ou um vibrador; mas, já que eu não tinha um ainda, o banho teria que servir.

I'm unstoppable | Eu sou incontrolável
I'm a Porsche with no brakes | Eu sou um Porsche sem freios
I'm invincible | Eu sou invencível
Yeah, I win every single game | É, eu ganho todos os jogos
I'm so powerful | Eu sou tão poderosa
I don't need batteries to play | Não preciso de baterias para jogar
I'm so confident, yeah, I'm unstoppable today | Eu sou tão confiante, é, eu estou incontrolável hoje


— Fecha os olhos e não abre até eu mandar, ou vai ter que se aliviar sozinho — mandei. Ele já estava com os olhos fechados, mas eu precisava garantir que ele não iria abri-los de jeito nenhum. Eu me afastei, mais como um teste, pois sabia que ele abriria no momento em que eu o fizesse, e foi o que ele fez. — Eu mandei não abrir. Eu sei o que tô fazendo, não confia em mim? — questionei, fazendo minha melhor cara de inocência. Ele hesitou um pouco, mas logo o lado “homem que faz de tudo por uma boca no seu pau” ganhou, e ele voltou a fechar os olhos. — Quer saber de uma coisa? Eu sonhei com você — comecei a falar ao mesmo tempo em que ia até onde tinha jogado a boxer e a pegava. — Não uma, nem duas, várias vezes. — Peguei o resto das roupas, também próximas à piscina. — Você me tocava, bem daquele jeito que só você sabe. — Parei para observá-lo, por alguns segundos, enquanto pegava meu salto perto dele. Ele ofegava. Aproximei-me só o suficiente para ele sentir minha respiração. — Mas aí eu acordava. Sozinha. Você não estava lá. E eu só tinha meus dedos para terminar o que você começou. — Ele não precisava ouvir, neste momento, que, na verdade, eu tinha outros caras, não só para terminar quanto para começar também. — O bom é que eu aprendi a usá-los muito bem, mas, agora... — Dei uma pausa, suspirando e abrindo com cuidado a porta pela qual havia saído ali. — Agora, você terá que compensar por todo esse tempo perdido — finalizei, antes de entrar, fechando a porta atrás de mim, com todas as peças de roupas dele em meus braços.
O incômodo no meio das minhas pernas não era nada comparado àquela sensação de vitória. Mas eu sabia que a melhor parte ainda estava por vir.
Assim que eu entrei na casa, o barulho da música triplicou, fazendo minha cabeça latejar. Eu havia me acostumado com o som mais baixo do lado de fora. Fui até a sala, onde o movimento era maior. Ganhei uns olhares de “o que essa louca tá fazendo?”, no caminho, por estar carregando roupas por aí, mas quem se importa?
Sem nenhum sinal de Lucy ou April, fui atrás da , mas parecia impossível achar alguém no meio de tanta gente. Era como se o número de pessoas tivesse dobrado, depois de eu ter saído, o que, provavelmente, devia mesmo ter acontecido, já que a maioria das pessoas só vão às festas depois das 23h00, quando a coisa fica interessante. Eu era uma dessas, mas fui obrigada a aparecer mais cedo hoje. De qualquer maneira, aquilo só tornaria tudo ainda melhor.
Não demorou muito para acontecer. E não foi difícil notar a presença dele também.

I put my armor on, show you how strong how I am | Eu visto minha armadura, te mostro como sou forte
I put my armor on, I'll show you that I am | Eu visto minha armadura, te mostro que eu sou


Cerca de 5 minutos depois, as conversas pararam completamente, deixando apenas o som da música preencher o ambiente. Aos poucos, eu comecei a ouvir risadas contidas, alguns gritinhos, alguns xingamentos surpresos, e assim ia... Um corredor se abria por onde ele passava, e não tinha uma só pessoa naquela festa que não olhava para o cara nu desfilando pela casa. Quando ele apareceu em meu campo de visão, eu tive que segurar a risada para manter a pose de “garota vingativa”, encarando-o com nada mais que um sorriso pequeno no rosto. Uma das mãos dele cobria a parte da frente, tornando a visão uma das mais hilárias que eu já tinha visto. Eu deveria receber um prêmio por criar uma cena de filme desses na vida real.
parou na minha frente, sem expressão, apenas olhando nos meus olhos. Estendi as roupas para ele, que, sem pressa alguma, considerando que dezenas, provavelmente mais, de pessoas o assistiam nu, pegou com o braço que não estava ocupado. Surpreendendo-me, ele não se moveu imediatamente, continuou me encarando por uns bons segundos, e eu mantive minha pose, sem nem vacilar com o sorriso maldoso. Seus olhos costumavam me dizer muito; se estava com raiva, com medo, assustado, feliz, mas, desta vez, eles não entregavam nada.
Sem dizer uma palavra também, ele procurou pela boxer, deixando as outras peças de roupa caírem, tirou a mão que protegia o seu amiguinho, a vestiu e se retirou, subindo a escada para o segundo andar.

I'm unstoppable | Eu sou incontrolável
I'm a Porsche with no brakes | Eu sou um Porsche sem freios
I'm invincible | Eu sou invencível
Yeah, I win every single game | É, eu ganho todos os jogos
I'm so powerful | Eu sou tão poderosa
I don't need batteries to play | Não preciso de baterias para jogar
I'm so confident, yeah, I'm unstoppable today | Eu sou tão confiante, é, eu estou incontrolável hoje




1, 2, 3 segundos depois, e começou...

— Meu. Deus.
— Você viu aquilo?
— Quem é essa?
— Passo alguns dias longe e é isso que acontece?
— Eu não acredito que você fez isso.
— Se tivesse um prêmio de iniciação do ano, com certeza, seria seu!
Ôpa.
Virei para trás, encontrando , e Mina, que tinha falado a última frase. Ela sorria orgulhosa(?) para mim.
— Iniciação? — questionei, encarando-a. De novo eu havia me esquecido completamente daquilo.
— Sim... Não foi por isso que deixou um cara completamente nu no meio da festa?
Eu estava pronta para dizer que não, que aquilo não tinha nada a ver com iniciação nenhuma, mas meu olhar se encontrou com o de Nikki um pouco mais ao fundo. Ela me olhava com um sorriso muito parecido com o de Mila. Aquilo era um bom sinal, certo? Eu achava que sim. E a ideia de não ter mais que pensar no que fazer me agradava demais para deixar aquilo passar.
— É, foi. Por causa da iniciação — confirmei, e seu sorriso se alargou.
Ela aproximou-se, colocando um dos braços ao redor dos meus ombros.
— Bom trabalho — disse, antes de sair, enfiando-se no meio das pessoas, que já não encaravam tanto.
Sorrindo também, com uma baita sensação de vitória, voltei a olhar para e à minha frente. Ela parecia surpresa demais para dizer qualquer coisa, e ele tinha o cenho franzido. Não soube dizer se ele tinha gostado ou não do show, mas não me importei. Nada tiraria minha felicidade tão cedo.
— Senti sua falta, sabia? — eu disse, abraçando-o.
Ele demorou um pouco a reagir, mas logo me abraçou de volta.
— Eu também — falou de um jeito meio monótono. — É que eu também tinha um recrutamen... — Seu tom de voz foi diminuindo, até que ele parou completamente. — , o que foi aquilo? — perguntou com a expressão preocupada.
— Eu me vingando do . Nada demais — respondi. — Na verdade, super demais. Não foi? — acrescentei.
Ele balançou a cabeça. Parecia tão perdido quanto a .
— Você... , como...
— Você não podia ter feito isso! — gritou, do nada. Considerando a música alta, nem foi um grito tão intimidador assim. A única parte intimidadora foi o olhar possesso que ela me lançou, antes de sair e subir a escada, provavelmente, indo atrás do .
Revirei os olhos.
Se não fosse patético, seria até engraçado o jeito como ele virou a vítima da história, o amigo para todas as horas. Pouco mais de um ano atrás, todos estavam ao meu lado, dizendo o quanto ele tinha sido imbecil, como ele não prestava. Agora era como se aquilo nem tivesse acontecido. Eles que fizessem o que queriam também, eu não me importava.
Bom, eu me importava, mas não faria muita diferença, então era melhor fingir que não.
— Quer dançar? — perguntei ao , sorrindo.
— Eu ainda tô tentando entender o que aconteceu — ele disse, me fazendo bufar. — , você não pode sair expondo todo mundo que odeia assim.
— Não é todo mundo, só ele. Ele me expôs também.
— Não foi a mesma coisa, e você sabe. , isso não...
— Ah, para, . — Interrompi-o. — Se quer defender o , sobe lá com a . Você, mais que ninguém, deveria entender por que eu fiz isso. — Suspirei, olhando ao redor e procurando por alguém que fosse manter minha felicidade, não acabar com ela. Não demorei muito para encontrar Mina e Nikki conversando. — Tchau.
Parte de mim tinha certeza de que ele também subiu a escada, depois que me afastei, mas não me permiti olhar para trás para confirmar. Não sabia como iria me sentir se o fizesse e confirmasse minha teoria. Preferia a dúvida. Mil vezes a dúvida.
— E então? — Cheguei ao lado delas e fui recebida com dois sorrisos enormes. Era assim que tinha que ser.
— Uma das iniciações mais ousadas que eu já vi. — Nikki disse. — Adorei!
— E uma das melhores visões que eu já tive. — Mina completou, me fazendo rir. — Você e a Nikki são iguais, só pegam os melhores.
Não me surpreendi por ela saber sobre eu e o . A falava tanto dela a mim que era de se esperar que ela também soubesse cada detalhe da minha vida.
— O que eu posso fazer? Eu sou exigente. — Sorri, dando de ombros.
— E você pode ser exigente — ela disse, piscando para mim e me fazendo rir mais uma vez.
Eu também já havia sido informada sobre a bissexualidade da Mina, então não fui pega de surpresa.
É, ela era, definitivamente, a pessoa certa para ficar por perto em uma hora dessas, não a toda certinha . Não me entenda mal, nunca deixaria de ser a minha melhor amiga, mas nós éramos tão diferentes que ficava difícil manter a paz o tempo todo. Principalmente quando ela escolhia defender o .
— Bom, vocês arrumem um quarto, se quiserem, porque eu tenho mais garotas para ficar de olho. Vejo vocês mais tarde. — Nikki se despediu, enfiando-se no meio da multidão.
Tá aí algo que eu gostaria de fazer: ficar de olho no que as garotas iriam aprontar.
— Falando em outras garotas, você viu a April? — perguntei a Mina, me lembrando, de repente, da minha colega de quarto, desesperada para passar logo por essa iniciação. Eu poderia ajudá-la agora.
— Eu a vi e vi a Lucy indo à nossa casa faz um bom tempo já. A Lucy voltou, e ela, não — ela respondeu.
Franzi o cenho.
— Ué... Será que ela já mostrou o que fez para a iniciação?
— Eu tenho quase certeza que não. Fiquei com a Nikki, na maior parte do tempo, e nada.
Ok. Agora, eu estava preocupada. Pelo que eu conhecia da April, ela poderia muito bem estar, naquele exato momento, em algum canto, entrando em pânico, porque não consegue pensar em algo. Ou ela poderia já ter pensado. Eu que não ficaria na dúvida.
— Acho melhor eu ir atrás dela, ver se está tudo bem — eu disse, e Mina assentiu.
— É melhor mesmo. Aqui. Pega a minha chave — falou, começando a procurar a chave no seu sutiã.
Percebi dois caras pararem o que fosse que estavam fazendo para olhar a cena.
— Você sabe que tá no meio de uma festa, né? — questionei, olhando para os dois, que nem disfarçavam seus olhares.
Mina ergueu a cabeça e seguiu meu olhar, sorrindo quando os viu.
— Ah, eu sei bem — disse, me entregando a chave, sem nem me olhar de novo, interessada demais neles.
Eu não a culpava. Eram bem bonitos.
Com medo da cena que viria a seguir, saí andando, procurando pela porta da frente. Felizmente, as luzes lá fora ainda estavam acesas, então foi fácil.
A sensação de trocar o ar abafado de dentro da casa para o fresquinho de início de madrugada do lado de fora foi tão maravilhosa que eu fiquei, durante um tempo, parada, de olhos fechados, respirando. Isso até eu perceber o quanto aquela imagem devia estar estranha, claro, então tratei logo de subir a rua, em direção à casa das Kappas. No caminho, fui soltando as tranças do meu cabelo, que já estavam completamente bagunçadas, e deixei-o solto.
Parte do cabelo lisa e parte enrolada. Eu devia estar maravilhosa.
Quando cheguei a casa, a primeira coisa que notei foi uma única luz acesa no segundo andar. Pelos meus cálculos, aquele era o quarto da , então fui direto para lá.
— April? — chamei quando entrei no corredor.
Imediatamente, a porta se abriu e uma cabeça apareceu nela.
! Vem aqui! — ela disse, e eu a segui.
Encontrei-a já sentada novamente em uma das escrivaninhas.
— O que você tá fazendo? — perguntei, me sentando na cama em que eu havia ficado mais cedo e a observando escrever freneticamente em um caderno.
— Um conto — ela respondeu, parando, por um mísero segundo, para me lançar um sorriso, antes de voltar ao que estava fazendo.
Um conto? Por que diabos você tá fazendo um conto?
— Para a iniciação, oras! — disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Não era. Não na minha cabeça, pelo menos.
— Você me deixou confusa — murmurei enquanto tirava meus sapatos para me deitar.
— Bom, como a disse, eu fui pedir ajuda a Lucy... Ver se ela me dava alguma luz... E ela deu! Acontece que a iniciação não é tão assustadora quanto elas fazem parecer. Você não tem que fazer algo que te leve à cadeia ou algo do tipo. E ela me contou que, na iniciação dela, ela fez um poema, coisa que ela sempre gostou. Então eu decidi fazer um conto.
Pensei, por um momento, percebendo que eu não tinha visto nenhuma árvore pegando fogo, nenhuma garota fazendo pole dance, só um cara completamente pelado, mas a minha intenção era diferente. Pensando por esse lado, a iniciação não parecia mesmo nada assustadora.
— Entendi... Sobre o que é o seu conto?
Kappas, irmandades, estereótipos, irmãs...
Deixei escapar uma risada fraca. Estereótipos pareciam estar me seguindo, ultimamente.
— Posso ler? — perguntei, encarando a parte de baixo da cama de cima.
— É claro que não — ela respondeu, e eu fiz uma careta. Não é como se eu já não esperasse aquela resposta. — Só as pessoas necessárias vão ler.
— Obrigada pela parte que me toca — disse ironicamente. Pelo canto do olho, a vi virar novamente para mim e sorrir.
— E você? Já pensou no que vai fazer? — perguntou, e eu abri um sorriso gigante.
— Melhor. Já fiz — respondi, virando minha cabeça para ela, só para ver sua reação chocada. — E foi legendário! Estilo Barney Stinson.
— O que você fez? — perguntou, largando seu conto e virando-se para mim.
— Deixei o nu na frente da festa inteira — respondi orgulhosa.
Os olhos dela se arregalaram na hora.
— Meu Deus! Como você fez isso?
— Ah, a gente se pegou um pouco e fugi com as roupas dele — eu disse, voltando minha cabeça para cima e fechando os olhos. Eu me sentia até mais leve.
— Hum... Desculpa, mas eu tô tendo uma baita dificuldade, tentando entender o que aconteceu — ela comentou, me fazendo rir.
— Tudo que você tem que saber é que eu finalmente me vinguei dele. Agora, ele sabe como é ser o centro das atenções por causa de algo ruim. E, com certeza, vai saber como é ser alvo de comentários maldosos também. — Eu realmente não conseguia tirar o sorriso do meu rosto. Havia sonhado tanto com o dia em que iria fazê-lo se sentir tão mal quanto eu me senti que parecia só mais um deles. Eu estava quase me beliscando para confirmar.
— Nossa! Ele deve estar querendo te matar! — April falou, e eu dei de ombros.
— Problema dele. Sabe, inicialmente, era tudo só uma vingança pessoal. Eu nem estava pensando na iniciação, mas não dava para desperdiçar a oportunidade.
— Você tá certa — ela disse, me fazendo sentar rapidamente e me virar para ela.
Não preciso comentar que quase meti a cabeça na madeira da cama de cima, né? Que bom.
— Pelo menos, você fica do meu lado. saiu correndo atrás do , e ficou todo doído por causa dele. Você acha justo? — questionei, sentindo uma vontade gigante de falar mal deles.
Poxa! Eles deveriam estar do meu lado. Eles não podiam esquecer o quão mal eu fiquei quando tudo aconteceu. Beleza. Eu era durona demais para sair chorando por aí, mas eles são meus melhores amigos, não precisavam ver lágrimas para saber que ele havia me machucado. E machucado feio!
— Não, mas, em defesa deles, para mim, é fácil ficar do seu lado, porque é você quem eu conheço. Mal conversei com ele. Seus amigos não. Vocês todos estão juntos desde pequenos. Você pode culpá-los por não quererem que ele fique de fora?
Ergui uma sobrancelha.
— É claro que posso! — exclamei.
Ela riu, balançando a cabeça.
— Vamos fazer assim... — Começou, me olhando como se eu fosse uma aluna, e ela, a professora. — Imagina que o e a eram namorados... — ela disse, e eu fiz uma careta.
— Isso seria impossível. Eles são praticamente irmãos — falei, fazendo-a revirar os olhos.
— E você e o não eram?
— Não! e eu éramos como... — Fiz uma pausa para pensar, porque eu não sabia bem a definição. Éramos mais que melhores amigos e, depois, viramos também namorados, sempre com aquela ligação especial que nos fazia conhecer mais ao outro que a nós mesmos. — Melhores amigos e um pouquinho mais, eu acho. Eu nunca o vi como um irmão, nem mesmo quando éramos pequenos.
April suspirou, entortando a cabeça.
— Tudo bem, . Só imagina que eles eram namorados. Você só tem que imaginar. Não é a realidade, tudo bem? — Mesmo contra minha vontade, assenti. Imaginei meus dois amigos de mãos dadas e trocando beijos. Eca. — Agora, imagina que o pisou na bola com a .
— Tá bom.
— Você conseguiria ficar brava com ele por tanto tempo? Ele errou, ele se arrepende, mas nada apaga o que ele fez, principalmente, pra . Você conseguiria acabar com sua amizade de uma vida inteira com ele por causa disso?
Ah, não, ela estava tentando fazer um daqueles jogos emocionais comigo. Eu não gostava dele. Até porque é tudo questão de ponto de vista. Na história dela, a estaria tão frustrada e brava quanto eu e, por mais que eu tentasse entender o ponto de vista da real da história, ainda era eu quem havia sido magoada. Ele tentou me enganar, me fazer de besta. Então, não, não funcionaria comigo.
O problema seria tentar explicar aquele meu ponto de vista a ela, então simplesmente optei pela resposta que a faria desistir daquele papo:
— Sim, eu conseguiria.
E como eu previra, ela suspirou e deu de ombros.
— Tudo bem. De qualquer maneira, você me tem no seu lado — disse, me lançando um sorriso reconfortante.
— Muito obrigada. — Sorri de volta. — Agora, volte ao seu conto. Eu não quero ficar me sentindo culpada se não conseguir terminar a tempo.
Ela assentiu, acomodando-se de novo na escrivaninha, e eu relaxei na cama, me sentindo cansada. Eu planejava voltar à festa, mas aquele colchão era tão confortável. Decidi, então, me dar 10 minutos de calmaria nele antes. A última coisa que me passou pela cabeça, antes da inconsciência, foi como eu queria saber a reação do a tudo aquilo.

's POV

30 minutos antes...

Não, ela não tinha feito aquilo. Ela não me seduziu, não me deixou completamente nu na frente de sabe-se-lá quantas pessoas, tudo por causa de uma vingança idiota! Ela não podia me odiar tanto assim.
Agarrei um travesseiro, apertando-o com toda a força que eu tinha e esperando que aquilo fizesse a vontade de socar a parede ou a porta passar. Eu queria voltar lá embaixo, queria esquecer aquela porra de autocontrole só por alguns instantes para obrigá-la a me responder. Por que ela fazia tudo tão difícil? Por que ela era daquele jeito?
Ela não podia simplesmente me ignorar e ignorar minha existência. É claro que não. Ela tinha que fazer com que eu me sentisse um merda, bosta, idiota, ou não seria o suficiente. Ela tinha que se sentir bem. E daí que eu me arrependi? E daí que eu quase perdi meus amigos? E daí que perdi a minha melhor amiga e, possivelmente, a mulher da minha vida? Quem liga para o cara que tentou se desculpar milhões de vezes? Que tentou se redimir de todas as maneiras possíveis? Ela não se importava! Nunca se importou! Sempre viu o lado que queria ver e pronto! Que se dane o resto!
Não me entenda mal, eu sabia bem que não era a vítima da história, mas... Caramba! Eu também não era a porra do vilão! Não o que ela parecia fazer de mim, pelo menos.
— Tommy? — A voz da soou, me desviando dos meus pensamentos. Virei-me para a porta e encontrei a , que parecia hesitar para entrar. — Tá tudo bem?
Suspirei. A última coisa que eu precisava era a defendendo a .
— Se veio para me pedir que entenda por que a fez o que fez, nem se dê ao trabalho — falei, voltando à minha caminhada em círculos pelo quarto. Era aquilo ou ir tirar satisfações lá embaixo, o que só pioraria as coisas.
Não era justo descontar minha frustração na , eu sabia bem disso, mas, desde quando eu e a terminamos, toda vez que a garota me atacava, ofendia, xingava era eu quem tinha que entender. “Você ferrou tudo, não tem nem o direito de reclamar”, ela dizia. Eu não tinha mesmo, mas, agora... Agora, a coisa toda tinha ido a um novo nível.
— Não, eu vim ver se você tá bem, de verdade! — ela disse, aproximando-se. — Tá tentando abrir um buraco no chão para se esconder de vergonha?
— Por que diabos ela fez aquilo, hein? — questionei, ignorando a pergunta dela e parando novamente. Andar daquele jeito podia parecer útil, mas só parecia.
— Queria saber te dizer. A é complicada.
— Complicada?! Ela é mimada, arrogante, egocêntrica, mal educada, mas não complicada, ! — exclamei.
me encarou com um olhar triste, de pena, e aproximou-se. Definitivamente, não fazia com que eu me sentisse melhor.
— Fica calmo, tá? — pediu, colocando as mãos no meu braço. Eu não queria me acalmar. Eu sabia que, no momento em que isso acontecesse, não era raiva que iria sentir, e eu adiaria aquilo o máximo possível. — Se te faz sentir melhor, eu vou dar uma baita bronca nela mais tarde — disse, abrindo um sorriso leve.
— Não faz.
Ela suspirou, e o sorriso logo desapareceu.
— Ela conseguiu exatamente o que queria, sabia? Desestabilizar você. Você tá entregando a vitória a ela!
— Tenta desfilar nua por causa de uma vingança besta e não ficar desestabilizada, ! — rebati, me afastando do toque dela.
— Eu sei que é difícil, mas você precisa...
— Não, ! — Interrompi-a, ganhando um olhar magoado dela. — Eu só preciso ficar sozinho, tá bom? Por favor. Eu te amo. Eu sei que suas intenções são boas, mas preciso pirar um pouco, antes de pensar racionalmente. Sozinho.
Ela me encarou por mais alguns segundos, em silêncio, e eu quase podia ouvir o barulho do seu cérebro trabalhando para decidir se faria o que eu pedi ou não. Por sorte — pelo menos, um pouco, naquele dia —, ela assentiu.
— Tudo bem — disse, aproximando-se mais uma vez para me dar um beijo no rosto. — Só não faz besteira — pediu.
— Não sou a — afirmei, sorrindo um pouco.
Ela assentiu mais uma vez e virou, saindo pela porta no exato momento em que apareceu. Rapidamente, ela agarrou o braço dele e o virou, arrastando-o pelo corredor.
— Já estamos indo? Tá legal. — Ouvi-o dizer, antes de fechar a porta.
Encostei ali, sem ter certeza do que fazer agora. Eu não queria pirar de verdade. Havia passado tempo demais aprendendo a me controlar para desperdiçar tudo por causa dela. Por isso, me contentei em jogar o travesseiro, que ainda estava sendo judiado pela minha mão, na parede.
Eu devia estar preparado para aquilo. Eu conhecia a garota melhor que qualquer um. Sabia que, uma hora, ela iria se vingar e que seria feio. Por um momento de estupidez, de inocência, eu realmente acreditei que nós finalmente faríamos as pazes, e do melhor jeito possível. As coisas nunca eram simples assim com a . Como sempre, tinha razão... Ela era, sim, complicada. Eu costumava ser muito bom em desvendá-la, mas, agora, eu já não tinha tanta certeza assim. também estava certa sobre a querer me desestabilizar. Era do que ela gostava: o caos.
Respirei fundo, sorrindo. Felizmente, esse problema eu sabia bem como resolver.
era praticamente um monstro que se alimentava de confusão. E era exatamente isso que eu não daria a ela.

's POV

Fui arrancada da inconsciência, de repente, por um barulho ensurdecedor que fez meu coração disparar na hora e meus olhos se abrirem arregalados. Eu não acho que tenha sensação pior que acordar no susto.
— EU VOU TE MATAR!
Mas é claro. Porque era pedir demais acordar naturalmente, sem gritando.
— Sai daqui, ! — resmunguei com a voz rouca de sono, me enrolando no edredom, que eu não fazia ideia de como havia chegado ali, e me virando para a parede.
— Como você pôde fazer aquilo com o Tommy, hein? Qual é o seu problema? — Fechei os olhos, ignorando-a completamente. Ela podia surtar à vontade. Eu ia dormir, enquanto isso. — Isso não se faz, ! Ele é um ser humano, sabia? Eu tenho certeza que tem alguma lei por aí que te proíbe de fazer coisas assim. Você pode fazer o favor de se virar para mim?
— ...
, vira agora!
— ...
— Tá bom. Foi você quem pediu.
No segundo seguinte, eu senti o edredom ao meu redor ser puxado com força. Porque eu estava toda enroscada nele, meu corpo foi junto, e a próxima coisa que eu vi foi o chão aproximando-se. Pega de surpresa demais para conseguir amortecer a queda com os meus braços, meu corpo inteiro se chocou contra o chão gelado. Tudo o que eu consegui foi gemer de dor, porque minha boca estava ocupada demais beijando o chão.
Precisei de um tempo, antes de me sentar. Conferi meus dentes primeiro, só para ter certeza de que estavam todos no lugar. Todo o lado direito do meu corpo, o que havia recebido mais o impacto, doía.
— Que merda foi essa, ?! — exclamei, voltando meu olhar a ela, que tinha as mãos na frente da boca e os olhos esbugalhados como se tivesse acabado de ver alguma assombração.
— E-e-eu só queria... É... Puxar o edredom, não... V-você... — gaguejou, e eu bufei.
Apoiei meus braços no chão, para me levantar, tentando ignorar a pontada de dor no meu quadril. Agora, sim, eu iria dormir mesmo, e ela que ousasse reclamar!
— Eu estou inteira, obrigada por perguntar — falei ironicamente a estátua, que ainda não havia movido um músculo sequer para me ajudar.
Demorou alguns segundos, mas ela finalmente se tocou da minha luta e veio me ajudar a sentar, e, depois, a deitar na cama. Em pouco tempo, eu tinha até o edredom em cima de mim.
— Desculpa. Machucar você não estava nos meus planos — ela disse, sentando ao meu lado, na beirada da cama.
— Daqui a pouco passa. — Fechei os olhos. — Agora, pode voltar a consolar seu amiguinho .
— Eu voltaria, mas ele não quer ser consolado. Tá puto da vida com você.
E meus olhos estavam abertos novamente.
— Ele tá, é? — perguntei interessada, mas ganhei um tapa no braço em troca. — Ai!
— Será que dá para você, pelo menos, fingir que presta?
Dei de ombros.
— Eu gosto de ser sincera — respondi, e ela balançou a cabeça como se não acreditasse no que eu dizia. — Bom, se você não tem mais nenhuma informação para me dar, eu vou dormir — falei, fechando novamente os olhos e, com um pouco de esforço, virando de lado.
— Você sabe que não devia dormir aqui ainda, né? — questionou.
Mais uma vez, eu só dei de ombros, não me importando com aquele detalhe e, sim, com o resto da minha noite de sono.

Era seguro dizer que eu nunca havia visto tantas malas juntas na minha vida; de todas as cores, tamanhos e tipos. Sendo carregadas para lá e para cá por garotas de ressaca e alguns caras que eu nunca tinha visto. A casa estava uma bagunça. Nem parecia ser a mesma que visitamos um dia antes. Por isso, assim que as minhas coisas e as da April estavam seguras dentro do nosso novo quarto, eu fechei a porta, isolando-nos do resto do mundo.
— Obrigada pela ajuda — agradeci ao .
Ele havia nos ajudado com o deslocamento do frigobar da April e algumas malas.
— Eu já volto. — April avisou, saindo pela porta, com várias folhas de papel na mão.
Sobre o conto, de acordo com ela, havia levado para a Nikki (mais ou menos, na hora em que a invadiu o quarto e me agrediu), e ela gostou tanto que pediu uma cópia para ela. A versão que ela tinha era escrita a mão, por falta de uma impressora e lugares abertos para imprimir na madrugada, então ela ficou de entregar depois, que era agora. Você entendeu.
— Legal. Temos um frigobar! — Mina disse, examinando a mini geladeira. — Eu vou fazer inveja a todas as garotas.
— E eu vou encher de coca. — me olhou, rindo, e eu dei um soco fraco no braço dele.
Ninguém deixava o meu vício em paz.
— Coca? , por favor. Eu vou te apresentar duas das melhores bebidas do mundo: whisky e vodka — zombou, me olhando como se eu fosse um E.T.
Eu iria dizer tudo que me fazia escolher coca antes de qualquer outra bebida, mas meu celular tocou, então tive que me contentar com um revirar de olhos, antes de buscá-lo em cima da minha nova cama. Era número desconhecido, mas atendi mesmo assim.
— Alô?!
? — uma mulher de voz levemente familiar perguntou.
— Sou eu — respondi, sentando na cama e me virando de costas para e Mina, que ficaram em silêncio.
, quem fala é Alice Harley, coordenadora chefe das irmandades. Já nos conhecemos ontem, na cerimônia de encerramento do recrutamento.
Isso não podia ser bom.
— Hum... Oi. Em que posso ajudar?
Eu preciso que você compareça ao meu escritório segunda-feira, depois do almoço.
— Tá bom... Importa-se de eu perguntar qual é o problema?
Sim, adivinha só, eu, , consigo ser educada, de vez em quando.
Nós recebemos algumas denúncias sobre seu comportamento em uma festa na noite passada. Nós temos muito que conversar. Posso te esperar?
— Sim, claro.
Até lá! — disse, já desligando e nem me dando tempo para responder. Curta e grossa.
Mas era só o que me faltava! Eu não estava aqui há nem uma semana completa e já iria receber uma baita bronca da tal coordenadora.
E, mais uma vez, me traz problemas.
Qual é?! Ele realmente tinha que me denunciar? A coisa era entre nós e eu tinha certeza de que, lá no fundo, ele sabia ter merecido o que eu fiz. Sabe, atitudes assim não me faziam exatamente odiá-lo menos. Mas ele que se dane! Eu não iria abaixar minha cabeça de jeito nenhum.
— Era a coordenadora? — Mina perguntou. Virei-me novamente para eles e assenti. não prestava atenção em mim, estava lendo alguma coisa que não me interessou muito naquele momento. — Não se preocupe. Todo mundo recebe uma ligação dela uma hora ou outra. Tá, não costuma ser tão cedo. Você, provavelmente, bateu um recorde, mas não é grande coisa.
— Eu espero. Não quero que ela fique no meu pé.
— Ela já está no seu pé, . No seu e no de todo mundo neste campus. A mulher é tipo uma águia, vê tudo e todos — disse, fazendo garras com as mãos.
Eu ri e balancei a cabeça.
— Então algo me diz que eu ainda vou vê-la muito. — Assim que terminei de falar, April entrou pela porta, seguida de , que não perdeu tempo, já fez cara de desgosto, olhando as malas pelo chão.
— Por favor, me diz que pretendem esvaziar e guardar essas malas ainda hoje.
— Ah, eu não sei. Sabe... — comecei a falar, sendo bem sínica. — Eu acordei meio dolorida hoje. Quem sabe, amanhã.
Amanhã é o primeiro dia de aula, — disse, me olhando, nervosa.
— Vamos ver... Aula pela manhã, reunião à tarde... Acho que eu tenho a noite livre — falei, sorrindo e fazendo-a abrir a boca de tanta descrença. não gostava de bagunça, e eu não era a pessoa mais organizada do mundo. Viver no mesmo quarto que ela seria, no mínimo, interessante. — Tô brincando! Relaxa! — Ela não relaxou, só me lançou um olhar desconfiado e foi sentar na cama dela.
— April, isto aqui está hilário! O jeito que você retratou as Kappas é... Genial. — A expressão da April, que, até aquele momento, carregava um sorriso, observando eu e a , mudou drasticamente para terror quando falou aquilo. Em poucos segundos, ela atravessou o quarto e arrancou o pequeno caderno das mãos dele.
— Você leu? — ela perguntou, olhando-o assustada.
Ouvi o “uuuuh” da Mina e fiquei observando a cena, interessada.
— Não tudo. Posso? — ele pediu, o que foi bem idiota, considerando que ele já tinha lido um bom tanto. Mas era , ele não podia evitar tentar ser educado.
— Não! E-eu... Você não po-po-dia... — ela gaguejou. Ela parecia tão assustada que, por um momento, eu fiquei preocupada.
— Desculpa. Eu vi o caderno ali em cima e comecei a ler. Não sabia que você ficaria assim — ele se explicou, levantando e aproximando-se dela, que afastou-se rapidamente. — Você está bem?
Primeiramente, ela não respondeu. Andou até uma de suas malas e enfiou o caderno lá. me olhou rapidamente, de cenho franzido, como se perguntasse o que estava acontecendo, mas tudo o que fiz foi dar de ombros, também confusa. Era um problema tão grande assim ele ter lido? Agora, eu estava realmente curiosa para ler aquele conto também.
— Eu tô bem — ela respondeu, de repente, baixinho. — Só não mexe mais nas minhas coisas sem a minha permissão, tá legal?
Ele assentiu.
— Quem tá com fome? — eu perguntei, tentando quebrar o clima tenso. Ganhei vários “eu” e vários olhares agradecidos.

Primeiro dia de aula. Primeiro dia de aula na UCLA. ERA O MEU PRIMEIRO DIA DE AULA NA UCLA! Quando acordei, tive que me beliscar para ter certeza de que era tudo realidade. Belisquei-me de novo, depois do banho, só para garantir. Eu sabia que a probabilidade era de que eu perdesse essa animação, mais ou menos, na segunda aula do dia, então decidi aproveitar o máximo enquanto podia.
— Bom dia, amiguinhos! — exclamei quando chegamos à mesa do refeitório, em que e já estavam sentados. Havíamos combinado de tomar café juntos. Eu gostava de pensar que o grupo já estava completo: eu, , , e a novata April. Mas sabia que, uma hora ou outra, chegaria para estragar tudo.
— Alguém está animada para o primeiro dia de aula. — disse, abrindo um grande sorriso.
— Espera até a aula de História da América. O professor parece um deus de tão lindo. Vai ficar mais animada ainda. — falou, e eu bati palmas, quase pulando da cadeira. Eu mal podia esperar. Não só para a aula do “professor-deus”, claro, para todas. Que não fossem da área de exatas.
— Oba!
— Qual é a sua primeira aula, ? — perguntou.
— Literatura — respondi rapidamente. Eu havia decorado a minha grade no mesmo dia em que a recebi.
— A minha também. — April disse, sorrindo um pouco. Ela parecia meio desconfortável. Por causa do , talvez.
Eu perguntaria mais tarde.
— A minha também! — repetiu bem mais animado.
— Legal! O dia está começando muito bem.
— Bom dia, família! — Ouvi dizer, de algum lugar atrás de mim.
— Eu e minha boca — resmunguei, bufando.
Quase todo mundo respondeu; menos eu, que optei por focar em meus ovos mexidos. Aí você se pergunta: poxa, , não dá para você ser, pelo menos, um pouco legal com ele?
Veja só, a mesa tinha oito lugares. Nós éramos cinco já sentados. Três cadeiras estavam livres; uma ao lado do , uma na ponta da mesa, ambas longe de mim, e uma do meu lado. Qual você acha que ele escolheu para sentar?
PI PI PI PI PI. Resposta correta! E perdão pela péssima onomatopeia.
Sim, ao meu lado. No único lugar em que eu não o queria. Arrependi-me profundamente de não ter previsto aquilo e colocado minha bolsa lá, mas, agora, já era. Não adiantava chorar pelo leite derramado.
— Olha, ele tá usando roupas! — zombei, apoiando meu queixo na minha mão e o olhando. Uma bela camiseta de mangas vermelhas que marcavam muito bem seus músculos, eu não pude deixar de notar.
Ele mexia no celular, e eu jurava que iria simplesmente me ignorar, mas, me surpreendendo, ele ergueu a cabeça, me olhou e abriu um sorriso.
— Sim, você gostou? Posso dizer onde comprei — ele disse no tom mais natural do mundo, como se tivéssemos tendo uma conversa numa tarde ensolarada, depois de nos encontrarmos acidentalmente na rua.
Ouvi rir, mas fiquei um tempo encarando-o confusa. Quando ele percebeu que eu não diria mais nada, voltou sua atenção ao celular.
— Hum... Eu perdi alguma coisa? — perguntou, revezando seu olhar entre eu, e . Eu tinha me esquecido completamente desse detalhe. não fora à festa e, aparentemente, ninguém tinha contado ainda as novidades.
— Sério que você ainda não ficou sabendo da notícia do final de semana? — parecia chocado, e eu também estava. Quer dizer, eu pensava que ou iriam correndo contar a ele.
Eu estava mesmo estranhando não ter recebido nenhuma bronca dele no dia anterior.
, o ugly naked guy¹ da UCLA — eu disse, levantando minhas mãos e abrindo um espaço entre elas, como se citasse a matéria de um jornal ou algo do tipo.
— Humm... Eu não acho que você está certa, . — disse, erguendo o celular e colocando em frente ao meu rosto. — Pelo menos, essas garotas não parecem concordar com você.
O whatsapp estava aberto e dava para ver que ele falava com várias garotas ao mesmo tempo. Rapidamente, eu peguei o aparelho da mão dele, para ver mais de perto. Fui descendo a página, e ele estava falando com, pelo menos, umas quinze garotas diferentes! Abri uma das conversas, só para confirmar o que eu temia:

Oi. Aqui é a Rebecca.
Peguei seu número com uma amiga. Espero que não se importe!
Estava na festa sábado e, olha, adorei o que vi.
Talvez a gente possa se conhecer melhor. ;)

— Eu não acredito! — exclamei, erguendo meu olhar novamente para ele, chocada. — Você realmente tá se aproveitando da situação desse jeito?
— Aproveitando? O celular está na sua mão. Pode ver, foram elas que vieram falar comigo. E eu não sou idiota a ponto de recusar garotas lindas que estão interessadas em mim — ele se defendeu, dando de ombros.
Balancei a cabeça. Ele era inacreditável.
— Eu vou ter que discordar. Você é, sim, um idiota!
Ele revirou os olhos e pegou o celular da minha mão, antes de se virar para frente.
— Tá bom, — disse simplesmente.
Bufei, irritada com a ideia de ele estar tirando algo bom do que havia acontecido.
— Imbecil! — xinguei-o, mas não recebi nada de volta. Ele nem olhou para mim!
— Alguém, por favor, pode me explicar o que está acontecendo? — pediu novamente, quase que desesperado.
Foi quem contou tudo com detalhes e deixando bem claro a ele o quanto ela reprovava a minha atitude. Surpreendentemente, ele nem tentou me dar um sermão, ao contrário dos outros, só riu e balançou a cabeça, como se não estivesse nem um pouco surpreso. era inteligente e me conhecia muito bem. Ele sabia que, uma hora ou outra, eu faria algo do tipo. Não que os outros não soubessem, mas ainda tinham esperanças de que eu tomasse jeito. Não iria acontecer tão cedo. Ainda mais agora que eu sabia que ele tinha virado o amorzinho das garotas. Não dava nem para acreditar. Eu já falei o quanto eu odeio o mundo? Bem, eu odiava. E odiava ainda mais as pessoas nele, que zombavam da garota e veneravam o garoto.
Decidi que não iria, de jeito nenhum, deixar aquilo estragar o meu primeiro dia de aula. No momento em que eu saí de perto dele, acompanhada de April e , em direção à sala de aula, respirei fundo e deixei minha raiva na mesa com ele.
Junto com o horário, havíamos recebido um mapa indicando onde eram as nossas salas de aula, mas, ainda assim, nós tivemos um pouco de dificuldade para encontrar a de Literatura. Eram corredores de um lado, escadas de outro, portas e mais portas... Foi difícil. Felizmente, nós tínhamos tempo de sobra, então conseguimos encontrar a bendita sala alguns minutos antes da professora. Puxei April e para se sentarem ao meu lado na terceira fileira. Longe o suficiente, para não ser um alvo de cuspe (eu era prevenida), e perto o suficiente para eu me sentir mal por mexer no celular na cara do(a) professor(a), me obrigando a prestar atenção unicamente na aula.
Quando a professora pisou o pé para dentro da sala e parou ali, tirando um tempo para passar seus olhos pela sua nova turma, todo o burburinho parou. E eu tinha certeza que todo mundo sequer respirava. Qual é?! Ela era uma professora universitária! Não queria desmerecer meus antigos professores, que foram maravilhosos, mas ela era uma professora que dava aula em uma universidade! E não qualquer universidade! A UCLA, uma das melhores dos Estados Unidos! Eu, com certeza, tinha motivos para ficar maravilhada e até com um pouco de medo, afinal, passei todo o Ensino Médio ouvindo como seria diferente na universidade, como os professores não relevariam nada e fariam das nossas vidas miseráveis. Era assustador!
— Bom dia! — ela disse, voltando a andar em direção à sua mesa na frente da sala, e recebeu imediatamente um coro em resposta. Ela era ruiva e tinha o cabelo curto, na altura do queixo. Vestia um terninho preto que caía super bem nela. Não devia ter mais que 45 anos; talvez, menos. — Meu nome é Emma McKean e serei professora de Literatura de vocês neste semestre.
Ela passou a próxima 1 hora e 40 minutos falando sobre sua carreira, dando ênfase ao mestrado em Harvard, e dando um geral sobre o que veríamos nos próximos meses: Jane Austen, Franz Kafka, Shakespeare e vários outros clássicos, muitos que eu nunca tinha sequer lido (e eu já tinha lido muita coisa!). É, eu estava ferrada. Tentei anotar o nome de alguns que ainda não tinha lido para já ir atrás. Felizmente, eu tinha April, que, provavelmente, já tinha lido cada um daqueles livros duas ou três vezes. Na pior das hipóteses, poderia pedir uma resenha ou algo do tipo a ela.
No intervalo, tive que me separar dos meus amigos. Agora, eu tinha Física; provavelmente, a pior matéria do universo. Química, ok. Matemática até vai. Mas Física... Não tinha nada neste mundo que me fizesse gostar de uma aula de Física. Bom, talvez, uma aula prática com algo bem legal, mas, no geral, eu ainda odiava. Mal podia esperar para aqueles primeiros dois anos acabarem e a coisa ficar realmente interessante. Tá, eu ainda não tinha decidido o que fazer e o que queria da minha vida, mas eu tinha cada vez mais certeza que o lado da comunicação era mais para mim. De qualquer maneira, eu ainda teria dois anos de matérias que eu odiava pela frente para decidir.
Com uma surpreendente facilidade, eu encontrei a sala de aula. A professora, não tão legal quanto a outra, não perdeu tempo nas já conhecidas apresentações do primeiro dia de aula, já começou com o conteúdo e, sem drama, eu quis me matar. Minha previsão estava mais que certa: a animação pelo começo das minhas aulas em uma universidade foi embora assim que eu comecei ver números, letras e sinais juntos.
Não era exagero dizer que, diferente da aula de Literatura, aquela aula pareceu ter durado umas três horas. Foram os 110 minutos mais longos da minha vida. Sim, 110, não 100, porque a professora decidiu que dava tempo de explicar um último exercício, faltando dois minutos para o fim da aula. Ela, com certeza, já havia ganhado o meu ódio.
Você pode estar surpreso, pois achava que eu era “a cdf”, mas não era bem assim. Eu até gostaria de ser, de sentir prazer, passando horas estudando e coisas do tipo. Nunca rolou, claro. Mas eu sempre fui focada. Desde criança, quis estudar na UCLA e fiz daquele o meu objetivo. Então, mesmo não curtindo estudar, eu me obriguei a fazê-lo, porque sempre soube o quão importante era. A notícia boa era que eu havia entrado na universidade. A ruim é que eu ainda teria que sair. Mais horas estudando, mais textos para ler e mais contas para odiar pelos próximos quatro ou cinco anos. Mas eu me daria bem.
Quando a aula acabou, eu saí praticamente correndo da sala, sem nem olhar para trás. Já estava atrasada para o almoço, ia ter que correr para não me atrasar também para a tal conversa com a tal coordenadora. Detalhe: eu não fazia ideia de onde ficava a sala dela. Por isso, almocei no refeitório com a April e o , já que os outros pareciam sumir bem quando eu precisava. Qual era a vantagem de ter amigos veteranos, se eles não serão seus guias 24 horas por dia? Exatamente: nenhuma.
Tive que engolir a comida, sem nem sentir o gosto direito, para ir atrás da sala da mulher com antecedência, pedindo informação por aí. Imagina a minha surpresa quando eu percebi que eu não era a única que não sabia onde era a sala dela, mas todos os outros alunos pareciam também não saber. Meu primeiro dia de aula estava sendo tão não o que eu esperava. Qual é?! Tinha alguém lá em cima com muita raiva de mim, não era possível. Quando eu finalmente dei de cara com a Mina, que, com certeza, saberia me dizer onde era, a agarrei como se minha vida dependesse daquilo.
— A sala da Alice sei-lá-das-quantas, pelo amor de Deus, onde é?
— Naquele prédio — disse, apontando para um pequeno prédio a cerca de 300 metros de onde estávamos e me olhando engraçado. — Terceiro andar, primeira porta à direita.
— Valeu! — agradeci. Ela abriu a boca para falar alguma coisa, mas eu já estava correndo, tentando ganhar alguns minutos. Eu já estava atrasada, o que não ajudaria nada no meu caso, mas, quanto menos atrasada, melhor, certo? Certíssimo.
Depois de uma corridinha básica e algumas escadas acima (porque eu não tinha tempo para procurar um elevador), cheguei à sala da mulher. Havia várias portas no corredor e pessoas andando para lá e para cá, mas não foi difícil encontrar a dela, já que a vi no momento em que saí da escadaria e olhei para o lado.
Antes de entrar, puxei meu cabelo para cima em um “rabo de cavalo”, tentei tirar o suor do meu rosto e respirei fundo algumas vezes. Eu queria melhorar, pelo menos, um pouco a minha aparência, mas não deu tão certo assim, então desisti logo e bati três vezes na porta, antes de abri-la.
Do lado de dentro estava Alice, a mulher baixinha do outro dia, sentada atrás da sua mesa, com um pequeno sorriso no rosto. Daqueles bem forçados, sabe? Enfim. Reconheci, sem dificuldade alguma, de costas, sentado em uma das cadeiras à frente da mesa. Ele não se deu ao trabalho de olhar para trás, só ficou de cabeça baixa. Eu também teria vergonha de ter reclamado para a babá do campus sobre uma piadinha inocente. Ele já havia sido mais divertido.
— Oi... Desculpa pelo atraso — disse, fechando a porta atrás de mim e abrindo um sorriso tão forçado quanto o da Alice.
— Tudo bem, querida. — Recebi seu olhar por alguns segundos, até que ela levantou de repente. — Eu vou pegar uma água para você.
É, eu devia estar péssima.
— Obrigada — agradeci.
Relaxei um pouco na cadeira, resistindo a vontade de fechar os olhos. Aquele ar-condicionado era tão bom. Mas com eles abertos, pude notar virar a cabeça em minha direção. Fiz o mesmo, encarando-o. Ele passou os olhos por mim, assim como a mulher, mas, ao contrário dela, quando terminou, abriu um sorriso debochado e voltou a olhar para suas mãos em seu colo, balançando levemente a cabeça para os lados. Semicerrei os olhos na direção dele, mas é claro que ele não viu. Imbecil. Eu já sabia que estava horrível, não precisava reforçar.
— Aqui. — Alice voltou, deixando um pequeno copo com água na minha frente. Era pequeno mesmo, provavelmente, nem mataria minha sede direito, mas tive que me contentar com aquilo e lançar um sorriso agradecido a ela. — Bom... — ela começou, voltando a sentar na sua cadeira preta, que parecia super confortável. — Imagino que saibam o porquê estão aqui.
Eu assenti hesitante. pigarreou ao meu lado.
— Eu imagino por que estamos aqui, mas... Não sei realmente por que estou aqui — ele disse. Tive que resistir a vontade de me virar para ele de boca aberta e incrédula. O bonitinho reclama de mim para a babá e quer ficar deitado na cama, enquanto eu me ferro? Bom saber que ele tinha coisas melhores para fazer que ir ali.
— Eu entendo sua dúvida, Sr. . — Franzi o cenho. Ela entende? Ela não tinha que entender! — E eu vou explicar. Como eu já falei à sua colega aqui, recebi algumas denúncias sobre o comportamento dela contra você em uma festa no sábado.
— Olha, eu posso explicar. — Meti-me, pronta para me fazer de vítima. Não me julgue. Eu só não queria uma advertência logo na primeira semana de aula.
— Se não se importa, Srta. , prefiro que ele me explique o que aconteceu. — Eu me importava, sim! — Tudo bem? — ela perguntou a ele, que assentiu.
Que merda.
— A pegou minhas roupas e me deixou completamente nu na piscina, sabendo que, de qualquer maneira, eu teria que passar pelo meio da festa para chegar ao meu quarto. Foi isso — ele explicou, poupando-a dos detalhes. Alice assentiu, nem um pouco surpresa. Talvez, ele tivesse poupado os detalhes, porque já havia contado todos anteriormente. De um jeito ou de outro, eu estava ferrada.
— Posso saber por que você tomou essa atitude, ? — ela perguntou. Eu preferia Srta. . Fazia-me sentir mais importante. “’’ só me fazia pensar que ela estava brava comigo. Mau sinal.
— Nós somos inimigos de longa data, digamos assim — respondi, ganhando uma risadinha do .
— Eu não sou seu inimigo, — ele disse, virando-se para mim.
— Eu estou aqui por sua culpa. Acredite, você é! — Eu quase me arrependi por atacá-lo em frente à coordenadora, mas, pior que estava, não dava para ficar.
— Minha culpa?! — ele exclamou incrédulo. — Foi você quem decidiu me fazer desfilar nu por aí, não eu.
— Foi você quem decidiu me dedurar, não eu.
— Dedurar você? O quê? — questionou, agora, parecendo mais que incrédulo, confuso.
Bufei e virei para frente novamente, sem saco para aquilo. Como se ele não soubesse.
Alice nos encarava quieta, apenas observando. Depois de alguns segundos de silêncio, ela voltou a falar:
— Posso? — perguntou. Eu assenti e acredito que também, já que ela voltou com o seu sorriso simpaticamente falso. — Deixe-me esclarecer uma coisa a você, , eu recebi três denúncias: nenhuma delas foram do rapaz ao seu lado.
Quase que, com naturalidade, minha boca se abriu, e eu fiquei alguns segundos encarando Alice, de cenho franzido. Eu devia estar parecendo mais idiota ainda.
— Como é?
Ouvi gargalhar ao meu lado, me fazendo ainda mais idiota. Se é que era possível.
— Espera... Você estava pensando que eu tinha te denunciado? — ele perguntou, ainda dando risadinhas.
Dei de ombros e engoli em seco, tentando me recompor.
Tudo bem, eu estava errada, mas a ideia não era nem um pouco absurda. Ele, com certeza, se vingaria, e aquela era a oportunidade mais que perfeita.
— É por isso que chamei vocês aqui. Para perguntar se ele quer fazer uma denúncia formal contra o seu comportamento, sendo ele o lesado da história. — Alice explicou. — Então, Sr. , você quer? Que fique claro que, se quiser, ela vai receber uma advertência. Se não, só um puxão de orelha. A escolha é sua.
Se eu não fosse a pessoa mais orgulhosa do mundo, eu olharia para ele com um daqueles olhares de cachorro pidão, na esperança de que aquilo o fizesse me livrar dessa. Mas eu sou. Então, tudo o que fiz foi abaixar a cabeça e esperar o veredicto, já sabendo qual seria. Ele não era burro. Com certeza, me ferraria. E eu aceitaria de braços abertos, se isso significasse não ter que implorar a ele por nada.
Ele não demorou muito a responder; provavelmente, já sabia a resposta desde o segundo em que a coordenadora perguntou. Só não era bem a resposta que eu esperava.
— Não, coordenadora. Como a explicou, nós somos amigos de longa data, temos um longo histórico. Foi só uma brincadeira sem graça que não vai se repetir. Não acho justo que ela ganhe uma advertência por isso.
Filho da mãe.
Ele tinha tirado o dia para me deixar com cara de tacho, não dava para acreditar.
Eu e Alice viramos para ele, ambas com a mesma expressão confusa. Ele tinha um sorriso orgulhoso no rosto.
— Você tem certeza? — ela perguntou, sem conseguir disfarçar a incredulidade em sua voz. Não a culpava.
— Absoluta. — afirmou.
Respirei fundo, percebendo que não respirava há alguns segundos e sentindo certo alívio. Eu não ganharia uma advertência. Não hoje, pelo menos.
— Bom... Tudo bem. Então você pode ir. Eu vou conversar com sua amiga aqui mais um pouco.
Ele assentiu e levantou-se.
Nossos olhares se encontraram por um mísero segundo, mas eu consegui desviar numa velocidade récorde.
Quando a porta se fechou, foi como se a tensão da pequena sala aumentasse em 100%. Alice me encarava com seu olhar julgador, sem nunca tirar aquele sorriso irritante do rosto. Qual é?! A mulher estava começando a assustar. Ela devia fazer de propósito, não era possível. Engoli em seco, nem um pouco pronta para o puxão de orelha, mas, quando ela decidiu que seria uma boa ideia ficar em silêncio, eu comecei a rezar para que ela andasse logo com aquilo.
— Então... O puxão de orelha? — questionei, depois de tempo suficiente encarando o rosto gorduxo dela.
— Ah, é claro — ela disse, como se tivesse acabado de voltar a si, o que, provavelmente, havia acontecido. — Eu não vou gastar muito mais do seu tempo, . — Seu sorriso desapareceu e ela assumiu uma postura séria. — Algo me diz que esta não é a última vez que irei te ver aqui. Desta vez, você teve sorte. O seu amigo, ou inimigo, tanto faz, é um bom rapaz, nunca tive problemas com ele, e acredito que ele tenha cometido um erro, mas isso não cabe a mim decidir. Eu realmente espero que você ande na linha. Já tenho problemas demais com outros alunos. Não seja mais uma, tudo bem? Você acabou de chegar. Eu dei uma olhada no seu histórico e vi que é uma aluna dedicada, ou seja, tem tudo para se dar bem aqui. Mas eu também vi algumas advertências aqui e ali, então, de qualquer maneira, vou ficar de olho em você. Não me decepcione. Da próxima vez, pode não ter tanta sorte assim. Estamos entendidas?
— Sim, senhora — respondi, assentindo devagar. O olhar que ela me lançava não deixava brecha para outra resposta, além dessa.
— Ótimo — disse, voltando a sorrir. — Você pode ir. Aposto que tem muito que fazer ainda no seu primeiro dia de aula.
Não, eu não tinha.
— É, muito — confirmei, sorrindo levemente e me levantando. — Tchau!
Ela me deu um tchauzinho com a mão e, no segundo seguinte, eu já estava do outro lado da porta, pronta para dar o fora. Mulher estranha.
— E então? — apareceu, de repente, na minha frente, me fazendo recuar e arfar de susto.
— Ficou louco, garoto? — perguntei, colocando a mão sobre meu coração disparado.
De onde ele tinha saído?
— Você se assusta fácil demais. — Revirei os olhos e dei as costas a ele, começando a andar pelo corredor, atrás de um elevador. — Ei! Não vai me responder, não?
— Responder o que? — Bufei quando percebi que ele me seguia.
— Como foi o puxão de orelha? — ele perguntou novamente.
— Não te interessa — respondi quando avistei o elevador. Apressei o passo, mas ele fez o mesmo.
— Poxa, ! Já foi mais educada.
Optei por ignorar. O que ele estava fazendo ali, de qualquer maneira? Já deveria ter se mandado, assim eu não teria que olhar para o rosto irritantemente bonito dele.
Apertei o botão para descer quando cheguei ao elevador e, por sorte, as portas já se abriram. Entrei, me virando, antes que tivesse a chance de colocar seu corpo inteiro para dentro, e coloquei a mão em seu peito, parando-o.
— O que você pensa que tá fazendo? — questionei, erguendo uma sobrancelha para ele.
— Indo embora...?
— Não! — exclamei. — Você vai me deixar ir embora, esperar o elevador voltar, e aí, sim, ir embora — ordenei, e ele riu.
— Não vou, não — negou, balançando a cabeça.
Olhei para ele com o olhar mais sério que eu tinha.
— Vai, sim!
A porta do elevador começou a fechar, mas ele a empurrou de volta.
— Você sabe que eu poderia simplesmente entrar, mesmo com a sua mão aqui, só não o fiz porque sou legal, né? — Revirei os olhos. Metido. — , ou você me deixa entrar, ou nós vamos ficar aqui por um bom tempo.
Bufando pela milésima vez no dia, eu me dei por vencida e tirei a mão do seu peito, deixando-o entrar.
— Idiota — xinguei quando a porta fechou e o elevador começou a descer.
— Sabe, você tá sendo rude demais com o cara que acabou de salvar sua pele.
Por fora, eu dei uma risada debochada, mas, por dentro, eu o xinguei de todos os nomes possíveis por trazer aquele assunto à tona. Eu esperava que nós pudéssemos esquecer aquele episódio para sempre. Mas é claro que ele lembraria.
— Foi por isso que não me denunciou, não é? — Cruzei os braços, me virando para ele, que tinha o cenho franzido.
— Dá para explicar melhor? — perguntou em tom confuso.
— Você não me livrou da advertência porque é um cara legal. Livrou porque quer que eu te deva algo.
Na verdade, eu não sabia como tinha deixado isso passar minutos mais cedo. Por que me ferrar quando ele poderia simplesmente me poupar, fazendo com que eu fique grata e esqueça o imbecil que ele é? Afinal, não é isso que ele queria? Ganhar minha amizade de volta? Me ganhar de volta?
— Ah, por favor, ... — disse, revirando os olhos.
— Saiba você que não vai funcionar. Você me livrou da advertência porque quis, o problema é todo seu! — afirmei, cruzando os braços e me virando de frente para a porta.
— Eu te livrei daquela advertência porque, apesar do que você pensa, não sou uma pessoa ruim e não desejo seu mal, mesmo depois de sábado. Quer dar piti? Tudo bem. Quer me odiar? Tudo bem. Só não espere que eu compre esse seu joguinho, porque não vou — ele falou e, como uma piada do destino, a porta do elevador se abriu no exato momento, dando a ele uma saída dramática completamente injusta.
Como tudo em relação a ele, aquilo me irritou. Sim, eu queria dar piti, queria odiá-lo, xingá-lo, brigar com ele, até ele se sentir mal. E eu nunca fui de desistir facilmente.

¹O “peladão feio” da UCLA. Referência ao personagem da sitcom Friends.



Voltar à casa das Kappas, depois daquele terrível primeiro dia de aula, não foi tão divertido. Depois de ter aula naquela sala enorme, cheia de gente desconhecida, professores que eu nunca havia visto na vida e da conversinha com a coordenadora e com o , eu me sentia diferente. Eu sei, devia me sentir diferente, afinal, era uma universitária agora, mas sempre pensei que aquela seria uma mudança boa. Eu comemorei quando fui aceita na UCLA, contei os dias para me mudar para o campus e experimentar um pouquinho dessa liberdade, e não poderia estar mais ansiosa pelo dia de hoje, mas... Ninguém me disse como seria assustador me dar conta de que, agora, eu estava por conta própria. Não tinha mais meus pais por perto o tempo todo, estudava em salas cheias de desconhecidos. Primeiro dia de aula e um total de 0 novas amizades. Tudo bem, não era como se eu tivesse tentado me comunicar com alguém, mas era preocupante. E se April e logo conhecessem outras pessoas e começassem a sair com elas? Eu sabia que os outros já tinham novas turmas e odiava aquilo. Egoísta, sim. Prazer, . É que estava tudo tão bem antes, quando éramos os melhores amigos do Ensino Médio e, agora, tudo parecia distorcido e confuso. Patético, eu sei.
Não me pergunte como eu entrei nesta melancolia, também não sei. Só estava andando, parei para pensar e, pã, ela chegou! É por essa e outras que eu prefiro não pensar tanto sobre certas coisas, porque, às vezes, pensar, questionar o que deu ou daria certo, ou errado, era um baita de um atraso. Talvez todos passassem por aquele questionamento, ao começar a faculdade, ou, talvez, não, e eu sabia que logo passaria, mas, poxa, enquanto estava ali, acontecendo, era quase sufocante. Quase me fazia querer chorar, correr para a casa dos meus pais e ficar lá para sempre. Mas é claro que eu não faria isso, principalmente, porque, se eu dissesse à minha mãe que tudo não estava exatamente perfeito, ela levaria aquele “para sempre” totalmente a sério e nunca mais me deixaria ir. E, também, eu conseguiria lidar com aquilo sozinha.
Cheguei a casa (uma hora, eu teria que me acostumar a chamar aquele lugar de minha casa. Iria ficar por um tempo; só o suficiente para ter certeza de que não queria mesmo ficar ali) e encontrei April conversando com Lucy na sala. Dei oi às duas e subi rapidamente a escada, pronta para me jogar na cama.
— Ei! Onde você se meteu? — April perguntou, vindo atrás de mim.
— Na sala daquela tal coordenadora Alice. Não te falei?
— Não... O que você foi fazer lá?
Joguei minha bolsa ao lado da cama e me deitei, enquanto April sentou-se na beirada.
— Ela me ligou, ontem, dizendo que queria ter uma conversa comigo sobre o meu comportamento no sábado — expliquei, surpreendendo-a.
— Não acredito! O te dedurou?
— Tá vendo? Não é uma conclusão absurda a se chegar! — exclamei, bufando. — Mas, não, não foi ele. Provavelmente, algum X9 de plantão. Ele estava tão surpreso quanto eu por estar lá. Bom... Eu não estava tão surpresa assim, mas, enfim, não deu em nada. Ela só poderia fazer alguma coisa se, ele, o “prejudicado”, a “vítima”, quisesse me denunciar, e ele não quis.
— Legal da parte dele, né? Não te denunciar. Quer dizer, ele deve ter ficado muito bravo com você! — ela disse, e eu dei de ombros.
— Nada, além da obrigação dele. Mas é bom saber que ele mantém o espírito esportivo. Da próxima vez, só preciso me preocupar com os fofoqueiros e não com ele.
— Próxima vez? ! — repreendeu-me. — Eu não acredito que você vai aprontar para cima dele de novo!
— Ih! April, relaxa! — disse, rindo e empurrando-a levemente com o braço. — Não tenho nada planejado. Por enquanto, não. Só disse que é bom saber. — Dei a ela o meu sorriso mais culpado, só para provocar.
— Tá, sei... — falou desconfiada.
— Que bom que sabe. Mas, agora, se não se importa, eu vou tirar um cochilo. — Virei-me de costas para ela e fechei os olhos, antes mesmo que ela respondesse.
— Você não pode. Nós temos uma reunião em meia hora, lembra?
Não, eu não lembrava. Não até aquele momento, pelo menos.
Merda.
— Vai pegar muito mal se eu não for? — perguntei, ainda que já soubesse a resposta.
— É a primeira reunião desde que entramos. Com certeza, vai.
Suspirei. Eu não dava sorte mesmo.
— Tá legal — disse, me sentando, sem me esquecer de tomar cuidado com a cama de cima. — O que são algumas horas de mais chatice dentro de um dia completamente ruim, não é? Pelo menos, não vai estragar um bom.
E o prêmio de maior positividade em um dia de merda vai para .
— Hum... Antes de irmos, eu... Eu posso conversar com você? — ela perguntou, abaixando a cabeça.
Achei que já tivéssemos passado dessa fase de ela ter vergonha de mim, mas lá vamos nós!
— Claro. Sobre...?
— Sobre ontem, sabe? Quando eu fui meio grossa com o , seu amigo...
— Meio? — Deixei escapar uma risada, e ela ergueu seu olhar para mim, triste. — Quer dizer, meio não, super pouco... Quase não deu para notar. — Sorri, numa tentativa falha de fazê-la acreditar em mim; falha porque ficou bem óbvio que não a convenci.
— Eu sei que exagerei, . É só que... Algumas coisas são muito importantes e privadas para mim. Quando eu o vi lendo, eu... Eu nem sei o que aconteceu, sabe? Eu só queria que ele tirasse a mão do meu conto — ela explicou e suspirou cabisbaixa.
— Escuta, eu te entendo — eu disse, pegando uma das mãos dela e sorrindo. — Todo mundo pira, de vez em quando, eu quem o diga. Mas... Em defesa do , ele não saiu procurando pelo conto para ler, só achou em cima da penteadeira.
— Eu sei. É o que está fazendo me sentir pior ainda.
— Por que você não conversa com ele? — sugeri, ganhando um olhar meio assustado dela.
— O que eu vou falar a ele? — perguntou.
— Eu não sei. Aí já é com você. Tenta explicar sua situação, pedir desculpa, se achar necessário...
— Mas... — ela começou a falar, mas se interrompeu, apertando os lábios um contra o outro.
— Mas...?
Pensou por mais alguns segundos, antes de suspirar e botar para fora:
— Eu não sei se consigo falar com ele.
— E por que não? — questionei.
April abaixou a cabeça, mas respondeu:
— Você se lembra de quando nos conhecemos, como eu gaguejava e minha voz quase não saía. Eu troquei poucas palavras com o , além daquelas de ontem, somando com a vergonha, não sei... Eu vou é acabar virando de costas e sair andando.
— Não vai, não. Você é educada demais para deixar alguém falando sozinho assim. No máximo, você mudaria de assunto. — Ela encolheu os ombros, envergonhada, e eu suspirei. — Escuta, o é um cara legal. Você não precisa ter medo de falar com ele.
— É fácil falar, já que você o conhece há anos.
Revirei os olhos.
— E é por isso que eu te garanto que é fácil fazer também. Você vai ver, só tem que tentar. Logo essa situação estará mais que resolvida.
Ela ficou em silêncio por um tempo, provavelmente, considerando tudo o que podia dar errado. Eu poderia dar mais mil e uma razões para ela ir falar com ele, mas não queria forçá-la a nada. Essa era uma escolha dela e não minha, e ela tinha que fazer sozinha.
— Eu vou... — ela começou, fazendo uma pausa, e eu a encarei em expectativa. — Vou pensar mais um pouco. Nós temos que ir a reunião... Algumas garotas já estão lá embaixo.
E, mais uma vez, eu poderia ter insistido com as minhas mil e uma razões para ela ir falar com ele, o que era o que eu realmente queria fazer. Mas não fiz isso. A escolha era dela. Totalmente dela. 100% dela. Eu tive que repetir isso para mim mesma, algumas vezes, no caminho para a sala de estar no andar de baixo.
Umas das poucas coisas que eu gostava nesta casa eram os cômodos enormes. Por tantas garotas viverem ali, nós precisávamos de espaço. A sala de estar, por exemplo, tinha vários sofás e poltronas, e espaço suficiente para caber todo mundo. Claro, algumas sentadas no chão, mas fazia parte. Eu fui uma delas. Sentei-me no chão, ao lado do sofá em que a April escolheu. Lauren estava ao meu lado, no chão também, e Lucy no sofá. As duas pareciam passar o tempo todo juntas, era incrível.
— Animadas para a primeira reunião? — Lucy perguntou.
— Muito! — April respondeu, com certeza, mais animada que há 10 minutos.
Eu dei de ombros. Só a palavra ‘reunião’ já me desanimava.
— Legal ver que você não está mais tentando agradar. — Lauren disse baixinho ao meu lado.
Olhei para ela, desconfiada, mas ela nem olhava para mim.
— Eu nunca tentei agradar — menti, mesmo sabendo ser inútil.
Ela riu, balançando a cabeça.
— Por favor, é claro que tentou. — Virou-se para mim, falando, ainda, em tom baixo: — Você não precisava, sabe? É uma figura e tanto! Acabaria entrando de qualquer jeito.
Desta vez, fui eu quem riu.
— Claro que iria — disse ironicamente. — De qualquer maneira, foi um saco. Vou guardar meu charme para... Sei lá! Futuras entrevistas de emprego.
Poucos segundos antes de eu terminar de falar, a porta da sala se abriu e uma elétrica entrou. Ela passou rapidamente os olhos pelas garotas que estavam ali, até nos achar e vir correndo em nossa direção.
— Vocês não têm ideia do que eu tenho preparado! — ela anunciou, sentando-se no último lugar vago do sofá e chamando a atenção de algumas outras garotas também.
— O que é? Dá um spoiler, vai! — Lucy pediu, mas negou, balançando a cabeça.
— De jeito nenhum! A Nikki já está vindo, e logo vão saber — disse, piscando para ela, exatamente quando Nikki entrou também.
Eu não fazia ideia do que se tratava aquela reunião. Assim como não fazia ideia de que teríamos reuniões semanais, o que não me animava de jeito nenhum. Quando você vai pesquisar sobre irmandades, “reuniões infinitas” não era exatamente o que destacavam.
— Boa tarde, meninas! — Nikki disse, escolhendo uma poltrona para ela. — Estão todas aqui? Eu acho que sim. Bom, já vamos começar, de qualquer maneira.
Mina entrou correndo pela porta, suada, ofegante e tão vermelha quanto um tomate. Ela entregou uma pilha de papéis a e veio se sentar ao meu lado.
— Foi mal. Já cheguei. — Ouvi algumas risadas forçadas de garotas do outro lado da sala, que eu não lembrava realmente o nome, pois não tinha tido muito contato com elas, mas eu me lembrava bem de duas que optei por manter distância no recrutamento. Mina revirou os olhos e sorriu quando notou que eu a encarava. — E aí?! Achou a sala da coordenadora?
— Mina, silêncio, por favor, nós já vamos começar.
E, mais uma vez, as risadas.
— Tem algum palhaço aqui, por acaso? Além de vocês, claro — ela falou às garotas, me fazendo arregalar os olhos e, confesso, sorrir um pouco.
— Mina, por favor! — Nikki a repreendeu. — E vocês também! Parem com isso! — continuou, voltando-se para as garotas.
Esta reunião tinha começado muito bem.
— Desculpa... Nikki. Vocês não. Vocês merecem.
Nikki suspirou.
— Toda vez — disse a si, antes de voltar a focar na reunião. — Tá legal, vamos começar logo. Primeiro, eu quero dizer, mais uma vez, bem-vindas, calouras. Espero que estejam gostando de tudo. Algumas de vocês já sabem, outras não, mas nós temos, pelo menos, uma reunião por semana, às vezes, duas. É muito importante que vocês compareçam porque é aqui que nós discutimos, juntas, os futuros planos para a nossa irmandade, e é aqui também que vocês podem fazer queixas, tirar dúvidas e coisas do tipo. — Ela fez uma pausa, passando os olhos pela sala e, quando ninguém disse nada, continuou: — Bom, eu já expliquei um pouquinho como funciona o nosso programa de filantropia e, hoje, nós temos uma ideia para propor a vocês. Entrará na parte 2 do programa o apoio à comunidade local. A ideia é da , que, caso não saibam, sempre tem as melhores, então vou deixá-la explicar melhor a vocês.
Prontamente, levantou-se com os papéis entregues pela Mina na mão e um sorriso enorme no rosto.
— Boa tarde, pessoal! Eu sou a , para as que ainda não sabem, apesar de eu esperar que todas saibam. — Balancei a cabeça, segurando uma risada. Tão . — Eu vou entregar estes panfletos a vocês e explicar melhor. , pode me ajudar? — ela pediu, me estendendo metade dos panfletos, e eu assenti, mesmo desanimada. Entreguei minha parte à metade das garotas; inclusive, as risonhas de minutos antes. Eu poderia ter entregado tudo bonitinho como fiz com todas as outras? Sim. Eu fiz isso? Claro que não. Elas eram cinco, as últimas, então simplesmente larguei os panfletos em cima de uma delas, e eles podem ter se espalhado um pouco. Só um pouco. Voltando ao meu lugar, Mina ergueu a mão discretamente (o mais discretamente possível), e eu bati nela. Não escapei do olhar bravo da , mas faz parte. — Como vocês estão vendo, é uma feira de adoção. Mas não só uma feira de adoção, é claro. Nós vamos pedir ajuda da comunidade e resgatar animais abandonados nas ruas. Daremos banho neles, podaremos, enfeitaremos, os deixaremos lindos e colocaremos para adoção. Os dados estão todos aí. Vocês podem ver e pesquisar também. O ponto é que, infelizmente, o abandono de animais, apesar de tantas campanhas, vem crescendo. O objetivo é ajudar os bichinhos, ajudar as pessoas e tentar alertar sobre esse mal. Nós temos várias ONGs aqui em LA e vamos tentar ajudá-las também. Como? Na feira de adoção, nós vamos pedir doações. Não exigir, porque não vamos vender esses animais e, sim, doar, só pedir. É um tiro no escuro, sim, porque não sabemos nem se uma pessoa vai doar, imagine várias, mas... Eu acho que vale a pena tentar. Com o dinheiro arrecadado, compraremos sacos de ração e distribuiremos entre as ONGs da cidade, pois a maioria delas funcionam apenas com doações, ou seja, vivem constantemente em alerta vermelho. Mas, para tudo isso acontecer, nós precisamos de, pelo menos, 20 voluntárias. Nós entendemos completamente quem não quiser participar, seja por, simplesmente, não querer ou até ter problemas de saúde, alergias e coisas do tipo, mas peço do fundo do meu coração que vocês tirem um final de semana para ajudar. É muito importante.
Quando ela terminou, várias garotas começaram a conversar entre si, considerando a ideia, perguntando se a amiga iria e tal. Eu me ocupei em sorrir orgulhosamente para a minha amiga, que realmente tinha as melhores ideias do mundo junto com as minhas.
— Alguém tem alguma pergunta? — Nikki gritou por causa do barulho.
Algumas se calaram e levantaram as mãos.
Nikki apontou para uma que eu não lembrava o nome, mas era bem legal. Eu havia conversado com ela no terceiro dia.
— Vocês têm alguma ideia de quando seria? O dia e tudo mais, para a gente se programar.
— Se tudo der certo, em três semanas — foi quem respondeu. — Eu coloquei aí no panfleto, tá na parte de trás. Daremos tempo para vocês decidirem se querem participar ou não, até domingo. Semana que vem, vamos entregar panfletos em alguns bairros da cidade, explicando tudo aos moradores. Na outra, buscaremos animais abandonados que as pessoas nos ligaram e alguns por conta própria. Na sexta e no sábado, cuidaremos deles e, domingo, é o dia da feira de adoção. Mais alguma coisa?
— Não, entendi.
— Mais alguém? — Nikki perguntou novamente e, desta vez, só uma garota ergueu a mão. Era caloura também, mas nunca tinha falado com ela. — Sim?
— Eu tenho alergia, mas quero muito ajudar. Tem alguma coisa que eu possa fazer?
— Claro. — Nikki respondeu. — Só coloca ‘alergia’ na frente do seu nome na lista que vamos passar e nós arrumaremos alguma coisa que não envolva tanto contato com os animais. Mas seria bom se você tomasse algum remédio antes, sabe? Só para garantir. Mais alguém? — Ninguém mais levantou a mão. — Ótimo. Nós vamos passar uma lista para as que já decidiram, assinarem. Não se sintam obrigadas a decidir agora. Vocês têm até domingo. É só procurar a , até lá.
pegou, dentro da sua bolsa, uma prancheta com uma folha e uma caneta e entregou a Lauren, que estava logo abaixo dela. Ela, Lucy, eu, April e Mina assinamos, antes de passarmos adiante.
Todo mundo ao meu redor conversava, mas eu tinha uma coisa na minha cabeça. E aquela parecia ser uma ótima oportunidade para resolver a minha dúvida, mas esperei a prancheta passar por todas e chegar a novamente, antes.
— Já vi que nós já conseguimos 18 voluntárias. Muito obrigada, meninas! Eu nem vou tomar mais do seu tempo. Acho que já podemos...
Ergui a mão, e Nikki se interrompeu na hora:
— Sim, ? Alguma dúvida?
— Eu tenho uma, mas não é sobre a feira de adoções — expliquei, e ela assentiu, o que eu tomei como um sinal para continuar: — No outro dia, você explicou que as irmandades não têm permissão para dar festas com bebida alcoólica, certo? — Ela assentiu novamente. — Você também disse que logo não iríamos precisar mais de uma “fraternidade prima”. Isso quer dizer que estão bolando uma situação para resolver isso logo, não é?
Nikki suspirou, antes de me responder:
— Infelizmente, não é tão simples assim, . Veja bem, um dos nossos maiores obstáculos é a idade. A maior parte das irmãs ainda não têm 21 anos, então não podem beber legalmente.
— Até onde eu sei, os garotos costumam entrar na universidade na mesma idade que as garotas. Eu não vejo por que isso é um problema — eu disse.
— Pois é. Não é um sistema muito justo, é? — Nikki concordou. — Mas, respondendo sua pergunta, nós já perdemos a conta de quantos abaixo assinados fizemos e até alguns protestos. Sempre nos fazem promessas, mas os resultados nunca chegam. Se você tiver uma ideia, por favor, sinta-se livre para nos falar. — Eu assenti, ganhando um sorriso dela. — Mais alguma coisa? — Eu balancei a cabeça, e ninguém mais falou nada. — Tudo bem, então. Vocês estão liberadas. Obrigada por comparecerem!
Eu não tinha ideia alguma. Nós faríamos o que? As fraternidades pararem de fazer festas com bebida alcoólica como protesto? Isso só deixaria quem quer que fosse o infeliz que mantinha essa proibição feliz.
Que merda.
Eu odiava aquela mania que o mundo parecia ter de dar privilégios aos homens enquanto os tiram das mulheres. Veja bem, eu nunca fui o tipo de garota que a sociedade considera ideal. Eu nunca dei muita importância à maquiagem, unhas e coisas do tipo. Só aprendi a lidar com meu cabelo com 12 anos, uma fase particularmente complicada para mim. Nunca fiz o tipo comportada. E eu não quero dizer que quem faz isso tá errada, não, muito pelo contrário. Felizmente, aprendi que cada garota deve fazer o que quer. E muitas faziam coisas que eu considerava besteira ou uma absoluta perda de tempo. A , por exemplo. Mas são coisas que ela gosta, e eu não tenho nada a ver com isso, apesar de sempre acabarmos provocando uma a outra.
O problema era que passar a minha infância inteira preferindo brincar, correndo por aí, suando e me sujando, ao invés de brincar de casinha, já me fez ouvir poucas e boas. Se não fosse triste, seria engraçado como as pessoas consideram uma aberração uma garota que não é tão delicada assim. “Isso não é coisa de mocinha”, “Olha só, parece um moleque!”, e outras. E foi a soma de tantos anos ouvindo coisas assim que me fizeram chegar a conclusão de que, quando eu tinha 12 anos, eu era errada. Eu tinha algum defeito. Eu não deveria ser daquele jeito. Eu me sentia feia e estranha, coisa que ninguém nunca deveria se sentir. Minha autoestima, que eu nem sabia o que era, na época, estava abaixo de zero, a um ponto em que eu até evitava me olhar no espelho. Por isso, de uma semana para outra, decidi mudar completamente. Forcei-me a me importar com coisas que eu não dava a mínima, comecei a pintar minhas unhas, a ajeitar meu cabelo, a estar 24 horas por dia maquiada. Claro, tudo isso de um jeito terrível, porque eu não sabia fazer aquelas coisas direito. Parei de brincar do que eu gostava. Na verdade, eu simplesmente parei de brincar. Porque, até onde eu sabia, já estava velha demais para ficar brincando que nem criança.
Foram meses assim. Eu não estava feliz, apesar de sempre afirmar que estava. Mas eu sempre tive os melhores amigos do mundo. Por mais que eu odiasse admitir aquilo, foi quem mais me ajudou, o que, provavelmente, começou com a minha quedinha por ele um tempo depois. Ele, sempre me conhecendo melhor que qualquer um, foi o primeiro a notar que tinha alguma coisa errada. Que aquelas mudanças não vinham realmente de mim e que eu odiava aquilo. Ele notou, antes mesmo que eu notasse. E foi com ele, com os meus amigos e com os meus pais, que eu abandonei aquela fase. Abandonei e saí dela tão melhor! Aos poucos, eu ganhei confiança, autoestima. E saí, ainda sabendo umas coisinhas novas como passar esmalte e maquiagem, ainda do meu jeito simples e desajeitado, mas já era alguma coisa. E o meu cabelo, claro, a única coisa que, hoje em dia, eu realmente faço esforço para cuidar.
Eu sempre imaginei quantas garotas haviam passado pelo mesmo e se recuperado, como eu, e quantas não haviam se recuperado por causa dessa pressão, dessa ideia de que mulher tem que ser e estar sempre perfeita, mas não é assim que a coisa funciona. Então, acredite em mim quando eu digo que vou, sim, pensar em alguma coisa e vou, sim, fazer de tudo para tentar acabar com essa regra idiota. Porque, se tem uma coisa que eu amo fazer, é lutar pelo que acho certo.

A semana passou correndo. E, com ela, toda aquela insegurança sobre estar na universidade também. Não sei o que foi exatamente que fez isso acontecer. Talvez as aulas e professores super legais que eu conheci (apesar de nem todos estarem nesse grupo), e as pessoas novas que conheci também. Depois de ter várias aulas com, praticamente, o mesmo grupo de pessoas, uns começaram a se apresentar ali e aqui; eu, inclusive, determinada a acabar com as minhas neuras. Eu me aproximei também de algumas garotas da casa, umas mais, outras menos, outras nem troquei a palavra, mas, aos poucos, as coisas pareciam estar indo bem.
Quer dizer, eu diria 90% bem, porque ainda estava por perto, tomando café com a gente, às vezes, almoçando, nos horários vagos e, cada vez mais, me caía a ficha de que era ali onde ele iria ficar. Aliás, era ali que ele já estava faz tempo! A “novata” era eu. Eu e o , mas, surpresa, ter o ali não o incomodava nem um pouco.
Você tá comendo bem?
— Sim, mãe.
Tá dormindo, pelo menos, 8 horas por dia?
— Até mais, às vezes.
, você tem certeza? Tá tudo bem? Nós podemos ir te buscar e você vem passar o final de semana com a gente.
— Eu estou ótima, já disse. Não precisa se preocupar.
Duas semanas fora e você já não conhece mais sua mãe. Acha mesmo que ela consegue não se preocupar?
— Ah, pai, esperança é a última que morre.
Fiquem quietos, vocês dois. Eu me preocupo porque te amo.
— Eu também te amo, mãe. Amo muito vocês dois. Tô com saudade.
Sorri, olhando o rosto dos dois disputando espaço na tela do meu notebook. Eu sentia tanta falta deles!
Então vem para casa esse final de semana, meu amor. Eu faço sua torta de frango preferida, que tal?
A torta de frango... Eu queria torta. Mas não podia.
— Que tal no próximo final de semana? Esse final de semana tem jogo e, vocês sabem, o tá no time. Eu quero vê-lo jogar.
Nós podemos ir aí te visitar, então!
“Claire, por favor! A precisa se adaptar à vida nova, e você não tá ajudando.”
— Tá tudo bem, pai. Até que eu estou me adaptando bem aqui.
E como está a vida em irmandade? Ah, querida, eu já disse como estou orgulhosa por você ser uma Kappa como eu e sua avó?
— Algumas dezenas de vezes.
Por um momento, tudo o que eu vi foi a cara do meu pai. Ele, provavelmente, havia puxado o tablet para si.
Se você não tiver gostando, pode sair a qualquer hora, não se esqueça. Não é por que a sua mãe gostou, que você tem que gostar também.
E, então, o rosto da minha mãe voltou.
Não seja bobo, Jonathan. Ela sabe disso. Mas tenho certeza que ela está amando. Não é, ?
— Hum... Ainda é cedo para dizer. Eu gosto da casa. É, com certeza, melhor que morar em um dormitório, mas não sei ainda. Faz só uma semana... Eu ainda estou conhecendo tudo.
Isso, filha. Vai com calma.
Depois da fala do meu pai, eles finalmente ficaram quietos por alguns segundos. Segundos o suficiente para eu desconfiar de que queriam saber alguma coisa e de que eu não iria gostar nada do que quer que fosse. Foi minha mãe quem perguntou, depois de trocar um olhar com meu pai:
A esteve aqui semana passada. Veio buscar alguns vestidos e ela mencionou o , assim... Por acaso.
Eu sabia. Olhei para a , deitada na cama de solteiro no meio do quarto, fingindo ler um livro.
— E o que ela disse?
Desta vez, quem falou foi meu pai:
Ela disse que estava preocupada com vocês dois. Explicou que, agora, vocês vão ter que se ver às vezes e que você não tem sido muito tolerante com a presença dele.
Suspirei, balançando a cabeça. Eu não gostava dos meus pais envolvidos naquela história. Eles sabiam de tudo o que tinha acontecido, mas eu gostaria que não soubessem mais nada. E isso já foi “para o ralo”.
— Não se preocupem com isso, tá bom? Eu só fui pega de surpresa, semana passada, e acabei me desentendendo com ele, mas já tá tudo bem.
São amigos de novo? — meu pai perguntou, e eu consegui ver a esperança nos olhos dele. Ele adorava o . Só precisou de um tempo para assimilar tudo quando começamos a namorar, mas, depois, já estava até fazendo planos para um futuro casamento. Ele costumava apoiar meu ódio, depois de ficar sabendo o que o fez, mas, aparentemente, ele também já tinha esquecido aquilo.
— Amigos, não. Só colegas.
Ah, bom. Logo vocês vão se entender, e tudo voltará a ser como antes.
— É, vai. Escuta, eu tenho que ir. Vou sair com o pessoal daqui a pouco. Eu falo mais com vocês outra hora, tá?
Tá bom, querida. Vai se divertir. Nós te amamos.
— Eu também amo vocês.
Cuide-se, filha.
— Vocês também! Tchau!
Agora, você se pergunta: “Com pais amorosos assim, como eu saí desse jeito?”. A resposta é: eu também não sei. É uma daquelas perguntas sem respostas.
— Não se sente mal por mentir para os seus pais? — perguntou.
Olhei para ela, erguendo as sobrancelhas.
— Não se sente mal por fofocar para os meus pais? — retruquei, e ela sorriu.
— Nem um pouco.
Depois de enrolar um pouco, eu finalmente fui tomar banho, porque nós realmente iríamos a um bar ali perto. Vesti uma calça jeans, um cropped e uma sandália baixa, apesar dos protestos da . Meu cabelo foi solto e natural, e a maquiagem era simples também; pó, delineador, rímel e batom.
— O que eu visto? — April perguntou, olhando confusa para o closet. Ela já tinha a maquiagem pronta; desta vez, feita por mim, para a não exagerar. Ela só dispensou o delineador, que, na minha opinião, teria ficado lindo, mas...
— O que quiser — respondi.
— Eu nunca fui a um bar. Não sei o que vestir.
— É só um bar perto de uma universidade... Só vai ter estudantes. Não é grande coisa.
Eu estava sentada ao lado da Mina, distraída no celular, na cama dela, enquanto se embelezava de frente para o espelho.
— Eu posso te ajudar, se quiser. — ofereceu, me fazendo revirar os olhos.
Eu sabia que ela não resistiria.
, a April não é sua boneca. A gente só vai a um bar, aqui, ao lado. Deixe-a escolher, hoje! — repreendi-a, olhando para seu reflexo no espelho.
Tudo o que ela fez foi me mostrar a língua.
— Na verdade... Eu gostaria da ajuda dela. — April disse, virando-se para a gente, e eu a encarei chocada.
— Oi?
Até Mina desviou a atenção do seu celular por um tempo para rir da situação.
— Eu quero ajuda, se não for muito incômodo — ela repetiu, encolhendo os ombros e abaixando o olhar.
— Não é incômodo nenhum! — exclamou, levantando-se do seu templo, mais conhecido como penteadeira. — Na sua cara! — disse quando passou por mim. Quando ela chegou perto do closet, April deu lugar a ela para ela espiar lá dentro e escolher, mas, depois de uns segundos olhando, ela afastou-se pensativa. — Eu tenho uma ideia melhor. Por que você não escolhe e eu digo o que acho?
— Oi?! — eu e Mina exclamamos ao mesmo tempo. Trocamos um olhar surpreso, antes de voltarmos a April, que parecia meio perdida.
— Eu? Mas eu estou pedindo sua ajuda porque... Porque não faço ideia do que vestir.
— Eu sei, mas, por mais que eu adore essa ideia, a está um pouco certa. Você não é minha boneca. Você gosta das roupas que eu escolho, não é?
April assentiu.
— Mas eu gosto das minhas também — acrescentou.
— Então nós podemos achar um meio termo. Você escolhe, eu digo a minha opinião, dou sugestões, e você decide o que fazer. Tudo bem assim?
— Sim, eu acho...
Nós ficamos observando-a voltar a olhar desesperada para o closet. Demorou um pouco, mas ela escolheu um vestido simples azul escuro que tinha lá e saiu do quarto para ir se trocar no banheiro. Ela tinha vergonha de se trocar na frente de outras pessoas.
— Ela foi com uma opção segura. Mas, logo, logo, ela vai começar a ousar um pouquinho mais, vocês vão ver. — disse, voltando à sua penteadeira. — Ela me lembra de você quando era mais nova — continuou, me olhando pelo reflexo do espelho.
Franzi o cenho.
— Eu nunca gostei de você opinando nas minhas roupas.
— Não, mas você lembra quando eu te ensinei a passar maquiagem?
Ah, me lembrava. Foi um pouco depois da minha fase ruim dos 12 anos, vamos chamar assim. Eu não aceitava a ajuda dela de jeito nenhum, certa de que estava fazendo um bom trabalho, mas, quando decidi aceitar, percebi que foi a melhor escolha. Ela me ensinou as coisas básicas, porque era tudo o que ela sabia na época, e é o que eu sei até hoje. Única coisa que eu desenvolvi desde aquela época foi o delineador, mas levou um bom tempo.
— Eu me lembro — respondi.
— Você gostava, não gostava? — perguntou.
Eu podia ver a expectativa em seus olhos, mesmo no reflexo do espelho.
— É, eu... Eu me sentia bonita.
E imaginei que fosse assim que a April se sentisse também. Coisas novas são assustadoras, mas se sentir bem com elas é uma das melhores sensações do mundo.
começou a adquirir uma expressão orgulhosa, me avisando que era hora de desviar o olhar, acabar com o assunto e focar no meu celular, até a April voltar, o que não demorou muito.
Logo ela apareceu com o vestido e linda.
— Ficou lindo, April! — elogiou, fazendo-a corar. Ela era tão fofa. — E foi você quem escolheu.
— É, eu gostei. — Ela dava umas viradas de frente para o espelho, olhando cada detalhe com atenção.
— Olha, eu pegaria. — Mina disse, e April virou um pimentão de vez.
— Droga, Mina, o que eu posso falar que seja melhor que isso? — Brinquei, empurrando-a levemente.
— Obrigada, gente! — agradeceu, apesar de não conseguir nem olhar na nossa cara de vergonha. — Mas... E o sapato?
— Você escolhe. — afirmou.
— Que tal um tênis? — ela sugeriu esperançosa.
— Sim! Eu amo vestido com tênis! — exclamei, quase me levantando de animação.
April sorriu, buscou no closet um all star preto de cano alto e sentou-se para calçá-lo na cama da , que, por sinal, olhava a cena com dor nos olhos. Ela não gostava nada de vestido com tênis. Eu já disse, nós éramos tão opostas que a amizade parecia até impossível.
— Parece um bom meio termo, não é? — April perguntou, pronta, mostrando o resultado.
— Sim, tá perfeito!
— Eu também achei. — Mina disse.
— Não é o que eu escolheria, mas a decisão final é sua, e você tá linda. — completou, e April abriu um sorriso largo, deixando-a mais linda ainda.
— Podemos ir, então.

Nós encontramos o resto do pessoal (, e, eca, ) na frente do bar, onde eles já nos esperavam quando chegamos.
— Sabe, esse negócio da gente chegar antes de vocês tá ficando velho já. — disse quando nos aproximamos.
Abracei-o, aproveitando para dar um tapa fraco no seu ombro por causa do comentário e, depois, o , dando espaço para as outras. Simplesmente, ignorei o , sem nenhuma provocação, porque havia passado o caminho inteiro implorando para que eu me comportasse, e eu decidi que só queria aproveitar hoje, sem me preocupar com ele.
Depois de todos devidamente cumprimentados, nós decidimos entrar.
? — A voz baixinha e suave da April chamou. Se fosse qualquer outra pessoa chamando o , ninguém olharia duas vezes, mas era a April, o que fez com que todos virassem na direção dela.
Ela deu um passo para trás, meio assustada.
— Sim? — ele respondeu.
Ela não disse o que queria prontamente; hesitou por alguns segundos, me fazendo questionar se ela o faria mesmo, apesar da minha torcida para que ela o fizesse.
— E-eu posso conversar com você? — ela perguntou. Ela perguntou!
— Claro.
— Vamos entrar. Vai, vamos, vamos, vamos! — disse, praticamente empurrando o resto deles, aqueles que não tinham que conversar com ela, para dentro, não sem antes lançar um sorriso orgulhoso para April, que parecia achar graça do que eu fazia.
O lugar era bem legal, fechado, iluminação mediana. O bar tinha um balcão gigante, que ocupava quase a extremidade direita do salão inteira. No meio e, ao fundo, ficavam as mesas e, no lado esquerdo, um palco pequeno, onde alguma banda local tocava. Eu, e escolhemos duas mesas, que já estavam juntas, perto da parede, e Mina e desapareceram, sem falar nada.
— O que a April quer com o ? — perguntou assim que nos sentamos, inclinando-se em minha direção.
— Ela quer pedir desculpa pelo jeito como reagiu aquele dia com ele — respondi.
— O que ela fez? — perguntou.
Ele não estava lá no dia, tinha até me esquecido.
— Ela deu uma pirada básica quando o viu lendo um conto dela e acabou sugerindo que ele mexeu nas coisas dela, o que ele não fez. Ele só achou por ali, então ela tá se sentindo mal — expliquei, e ele balançou a cabeça em compreensão. — Eu tô surpresa. Na verdade, não pensei que ela fosse mesmo falar com ele.
— É, ela é bem tímida, né? Até hoje, eu quase não falei com ela.
— Sim, mas ela é um amor. Só levará um tempo para ela se acostumar com vocês.
— Eu acredito em você. Minha garota não perde tempo com quem não vale a pena — disse, piscando para mim, e eu assenti, sorrindo.
— Está certíssimo! — exclamei.
Na mesma hora, e Mina voltaram com uma bandeja cheia de bebidas. Ele as distribuiu, e ela se encarregou de levar a bandeja de volta.
— Aqui está, sem limão — ele disse, colocando dois copos de Cuba Libre na minha frente, um com e outro sem limão. — Peguei para a April o mesmo que para você, tudo bem?
Eu assenti.
— Valeu! — agradeci, mas não me dei ao trabalho de olhar para ele.
Não era grande coisa ele ainda saber o que eu bebia, um ano depois. Eu não curtia beber, aquilo era a única coisa que eu conseguia gostar, então era o meu pedido desde sempre. Seria ofensivo se ele tivesse esquecido.
— E aí?! Sobre o que estão falando? — Mina perguntou quando voltou, escolhendo o lugar ao meu lado para se sentar e já dando o gole na bebida dela, que era alguma coisa de limão e parecia muito forte.
— April e . — respondeu.
— Ah, é, eles estão lá já faz um tempo, né? Será que estão se pegando?
— Não! — eu respondi rapidamente. Mas espera... Por que não? — Quer dizer, será?
— A April e o ? Não sei, não. Com aquela timidez dela, fica difícil, vamos combinar. — comentou.
— Isso não seria um problema. O é dedicado quando gosta de uma garota e ele, geralmente, consegue, pelo menos, ficar com ela. O cara é bom. — disse.
— Mas o não gosta da April... Gosta? — perguntou.
— Eu acho que não. Mas ele me contou o que aconteceu no quarto de vocês e ficou meio bolado por achar que ela estava brava com ele. Bom, é o . Ele não gosta que ninguém esteja bravo com ele, mas, quem sabe... — respondeu.
— Ah, eu acho que não — eu disse, achando aquele papo todo muito estranho. — Eu não consigo vê-los juntos. Na verdade, não consigo ver a April com cara nenhum. Não, por enquanto.
Eu tinha, sim, brincado com ela sobre ele, mas era só provocação. Ela havia dito que era tímida daquele jeito com todo garoto, e não era algo que eu fosse duvidar. Eles ainda tinham minha benção, claro, mas April e ... Tá aí um casal que me parecia improvável.
— A gente não tem nada para fazer, mesmo. Eles conversam por cinco minutos e já concluímos que estão apaixonados. — disse, e nós rimos, concordando. Por isso, nós deixamos o assunto para lá. Bom... Por isso e porque e April chegaram.
— Finalmente, os pombinhos chegaram! — Mina disse com um sorrisão no rosto assim que eles se sentaram.
— Pombinhos, Mina? Por favor. — falou, enquanto April estava ocupada, corando. — E aí?! Qual é o assunto?
— Vocês — eu respondi. — Eu estava atualizando o .
— E nós também estávamos no perguntando se vocês estavam se pegando lá fora, porque nenhum pedido de desculpa dura mais que um minuto.
É claro que Mina tinha que contar essa parte. Olha, ela era pior que eu. Não sei por que reclamavam tanto de mim, se sentiram tanto minha falta que adicionaram ao grupo alguém semelhante.
— Não! É claro que não, gente... — April respondeu prontamente, parecendo até assustada com a ideia.
Aquilo não devia fazer maravilhas exatamente com o orgulho do , mas foi ele quem a acalmou:
— Não liga para eles, April. Eles sabem que não, só querem encher o saco.
— Na verdade, a gente não sabe, não. Criamos até algumas teorias. — disse.
— Eu não quero nem ouvir. — murmurou, antes de perguntar alguma coisa, que eu não prestei atenção, ao .
— April, este aqui é seu — eu disse, empurrando um copo com Cuba Libre para ela.
— Ah, coca!
— Espe... — eu tentei avisar, mas já era tarde demais. Ela tomou vários goles, provavelmente, estava com sede, antes de arregalar os olhos, percebendo que não era simplesmente coca. — Tem rum... — eu avisei, entre os tossidos dela.
— Rum? Na coca? — Eu assenti. — Rum?!
— É gostoso, vai...
— Não, se você toma quase tudo de uma vez — ela disse, fazendo careta.
, um dia, você ainda mata essa garota. — disse, e eu o encarei de cenho franzido.
— Ei, eu vou ter que lembrar quem foi que me apresentou essa bebida? Começa com “m” e termina com “k”. Lembra a você alguém?
Com a cara mais sínica do mundo, ele apoiou a cabeça nas mãos, pensou por alguns segundos e respondeu:
— Não, ninguém.
Cerrei os olhos para ele, não estando realmente brava. Logo me distraí com uma história que a contava.
A noite foi passando assim: entre brincadeiras e histórias. Muitas histórias.
— Aquele dia foi legal, mas nem se compara com a festa da Delta.
— Tá brincando, ? A gente entrou escondido no ginásio!
— A gente? Se não fosse o , nunca teríamos entrado lá, Sr. Amarelão-.
— Ei, ele já estava bêbado o suficiente, eu não.
— Ainda assim, , você salvou o dia. Quer dizer, a noite.
— Eu não teria feito nada se você não tivesse dado a ideia, Mina. Metade do crédito é seu.
Revirei os olhos, tomando mais um gole do negócio amargo de limão, o mesmo que Mina havia pedido anteriormente e que eu havia esquecido o nome, que pedi. Era... Sei lá, o terceiro? Talvez, quarto, eu não tinha certeza. Era tanto para cá e para lá... Eu precisava daquilo para aguentar.
Olha, rimou!
Uma música mais animada começou a tocar, e eu me levantei, chamando a atenção de todos na mesa.
— Eu quero dançar — disse.
— Dançar? Aqui? — questionou, e eu assenti. — , isto é um bar, não uma boate.
Ah, é. Bem, eu queria dançar, de qualquer maneira.
, dança comigo? — perguntei, e ele olhou para os lados, preocupado.
— Eu? — Assenti novamente. — É que... Ninguém tá dançando.
— E qual é o poblema? — Êpa. — Problema! — corrigi-me. — Não tem regra nenhuma que nos proíbe de dançar em um bar.
Ele pensou mais um pouquinho, até que deu de ombros e levantou-se.
Eu estava meio zonza. Mas eu queria dançar. E queria sair dali, daquela terra que o parecia ter conquistado, porque era tudo o que falavam: , , ... Eu não queria mais ouvir aquele apelido idiota.
Abri um sorriso grande e estendi a mão, que segurou, e o puxei em direção ao palco. No meio do caminho, lembrei-me da minha bebida.
— Espera.
Voltei à mesa, sendo observada por algumas pessoas, peguei o copo e tomei de uma vez tudo o que tinha dentro dele, sentindo minha garganta arder por causa do líquido gelado. Não me parecia uma boa ideia levá-lo comigo para dançar, eu podia derrubar. Então larguei o copo vazio em cima da mesa e voltei ao encontro de , que me olhava com uma cara engraçada. Joguei-me nos braços dele, rindo, porque havia usado aquilo para disfarçar uma quase queda.
— Tem certeza que quer dançar? — ele perguntou, e eu assenti animada, me recompondo de pé e o puxando para perto do palco, onde a banda ainda tocava a música animada e desconhecida.
Comecei a balançar minha cabeça, primeiro, depois os ombros, os quadris e, em pouco tempo, eu estava dançando, sem coreografia, sem sedução e um pouco sem ritmo, confesso. ria, me olhando, mas só se juntou a mim quando a próxima música começou, tão animada quanto a outra. Eu pulava, balançava a cabeça, jogando meu cabelo para todos os lados, arriscava cantar alguns pedacinhos da nova música, sem nem ligar para quem estivesse vendo.
Alguns minutos depois, Mina se juntou a nós dois, nos animando mais ainda. Aquelas, com certeza, eram as únicas pessoas que fariam aquilo comigo. e não gostavam de dançar. April, aparentemente, não sabia. E ... Ela nunca se colocaria naquela posição. Mas três eram o suficiente.
Então nós nos mexemos e remexemos, e dançamos sem parar, com plena consciência do número de pessoas que nos encarava. Na verdade, eu esperava que se juntassem a nós, como nos filmes. Mas é claro que isso não aconteceu. Ninguém se juntou. Em vez disso, depois de tanto movimento, as coisas ao meu redor começaram a girar mais rápido do que deveriam. Eu parei, esperando que parassem comigo, mas tudo continuou girando e girando. Minha cabeça doía.
?
A voz parecia distante. Eu não conseguia definir de quem era, nem focar em nada. Até que, pelo que me pareceu poucos segundos, tudo ficou preto.

's POV

Não havia um par de olhos sequer naquele bar que não olhava para , Mina e em frente ao palco. Até a banda parecia tocar com ainda mais ânimo. Por isso, quando desabou de repente, não levou mais que 10 segundos para atravessarmos o salão, até onde eles estavam, e o salão ficar em um completo silêncio. Felizmente, conseguiu segurá-la, antes que ela batesse a cabeça no chão.
Não demorou nada, também, para curiosos levantarem e chegarem perto para ver o que estava acontecendo.
— Pessoal, afastem-se, por favor! — eu pedia, mantendo também minha distância, enquanto e a olhavam mais de perto.
— O que aconteceu? — perguntou.
— E eu lá sei? Ela estava dançando, parou de repente e caiu. — respondeu. Seu tom de voz preocupado.
— Gente, vamos levá-la lá pra fora, tá abafado aqui dentro. — Mina sugeriu e, imediatamente, pegou nos braços.
me ajudou a abrir caminho entre os curiosos e nós saímos para o lado de fora do bar, onde estava mais fresco. Do lado de fora, sentou-se no chão, mantendo-a em seu colo.
— Hum... E agora? — April perguntou, depois de alguns segundos de silêncio, encarando desmaiada.
— Respiração boca a boca? — sugeriu.
— Que tal uns tapas?
— Mina! — a repreendeu.
— Água na cara? — Mina tentou novamente e ganhou um olhar bravo o suficiente da para fazê-la manter a boca fechada pelos próximos segundos.
— Primeiro, , ela está respirando. E, segundo, não e não! Ela já vai acordar, a pressão dela deve ter caído.
— Desde quando encher a cara faz a pressão cair, ? — perguntou.
— Bom, ela dançou pra caramba... — comentei.
— Ela dançou pra caramba, depois de beber de um jeito que ela nunca tinha bebido na vida, e eu acho que depois de não comer nada. Alguém se lembra de vê-la comendo alguma coisa? — perguntou, olhando para April e Mina, que balançaram a cabeça para os lados.
— Ela nem almoçou! Disse que tinha que ir logo pra casa, resolver umas questões, mas ela disse que compraria um iogurte no caminho. — April disse.
— Mesmo se ela tivesse comprado o iogurte e tomado, ela ainda, assim, ficou até agora sem comer mais nada. A não ser...
... — interrompi-a. — Ela desmaiou e pronto. Ninguém aqui é o Dr. House para investigar cada passo dela, até este momento — eu falei com humor, e ela deu de ombros, deixando escapar um sorrisinho.
— Deixe-me sonhar.
— Gente! — chamou nossa atenção. Ele examinava o rosto da de perto. — Ela tá muito pálida, olha isso.
— Eu sou pálida. — falou, de repente, e abriu os olhos devagar. — E você tá perto demais.
— Caralho, ! Que susto! — exclamou, afastando-se.
— Finalmente, garota! — Mina voltou a falar.
— Que ideia foi essa de beber que nem uma condenada, depois de passar o dia sem comer, e ainda dançar até se acabar, hein? — atacou, fazendo eu, e April rir. E agradecer por não ser a .
— Ih! Relaxa aí, pessoal! — ela disse, abrindo um sorriso maroto e encostando a cabeça no peito de . — Ajude-me a levantar? — Com cuidado, ele levantou-se, levando-a junto. — Uh! Péssima ideia! — disse, fechando os olhos novamente.
— Tá tudo bem? — perguntou preocupada, esquecendo-se completamente da bronca de segundos antes.
— Eu vou vomitar. — anunciou e, na hora, todo mundo deu um passo para trás, afastando-se; inclusive, , que manteve apenas os braços, segurando-a pela cintura. Quando ela abriu os olhos, começou a rir como se tivesse acabado de ouvir uma piada. — Mentira. — Riu mais um pouco, antes de ficar séria de repente e cruzar os braços ao redor da barriga. — Eu acho.
Balancei a cabeça, rindo, antes de dar um passo à frente.
— Escuta, vocês podem voltar lá para dentro. Eu a levo para casa e cuido dela.
fez uma careta.
— Tem certeza?
Eu assenti.
— Tenho treino amanhã de manhã. Já passou mesmo da minha hora.
— Hum... E-eu posso levá-la, se quiser. Eu não me importo. — April disse, também dando um passo à frente.
— Não, April, você fica. — Mina disse. — É a sua primeira vez em um bar. Você estava se divertindo, então fica. Além do mais, o tá de moto, e a vai adorar. — Ela lançou um sorriso malvado a , que fez uma cara estranha.
— E a opina? — perguntou.
— Não! A não está em condições de opinar em nada. Toda sua, . — disse. — Vou pegar seu capacete.
Eu me aproximei, e ela se apoiou em mim, mas não sem antes tentar bufar, o que não deu muito certo, já que, em vez de usar apenas o nariz, ela usou também a boca. Eu segurei a risada, só para não irritá-la mais, que, com certeza, estava odiando aquilo. Eu, o vilão , o ex que ela mais odiava, a ajudando? Não podia ser.
Quando ela passou um dos braços por trás do meu corpo, eu senti uma picada nas minhas costas. Ou melhor, duas unhas cumpridas puxando minha camisa e minha pele.
— Ei! Isso doeu! — protestei, e ela me olhou com a expressão mais inocente do mundo.
— Desculpa, foi sem querer. — Para ficar mais falsa, só faltava bater os cílios.
Mas, na minha missão de não entrar no jogo dela, eu sorri.
— Tudo bem — disse.
— Aqui. — apareceu novamente com o capacete único. Eu nem planejava vir de moto, era perto, mas decidi de última hora por estar atrasado. Imagina, então, carregar uma bêbada. Um só teria que servir.
— Tchau, galera!
— Cuida bem dela!
— Tá legal. — Comecei a me afastar, praticamente, carregando a , que só se dava ao trabalho de colocar um pé na frente do outro.
— Vai devagar. — continuou falando.
Fiz um sinal de beleza para ela e continuei andando.
Depois de alguns passos, começou a fazer mais esforço, até que eu virei só um apoio e ela andasse praticamente sozinha. Ela olhou para trás rapidamente e, quando voltou a olhar à frente, me empurrou.
— Solte-me. — Pego de surpresa, eu não resisti. Mas, em vez do meu corpo se afastar, foi o dela que o fez. — Ah, merda! — ela conseguiu dizer, antes de começar a cair novamente.
Eu poderia ter deixado. Mais do que isso, eu queria ter deixado, pois seria um belo de um castigo, mas iria contra meu plano, então, antes que o corpo dela atingisse o chão, eu a peguei.
— Movimentos bruscos não são a melhor ideia no momento, sabe? — eu comentei, e ela me lançou um olhar daqueles matadores, e não em um bom sentido.
— Eu devia vomitar em você! — ela disse, me fazendo rir.
Quando nós nos aproximamos da moto, ela me empurrou novamente; desta vez, com mais cautela, e eu a soltei. Com cuidado, ela sentou-se na calçada e ficou me encarando de cara feia.
Eu já esperava algo do tipo.
— Eu não vou subir nessa moto — disse, cruzando os braços.
— Ah, vai... — eu afirmei, me abaixando para colocar o capacete nela.
— Não vou. Pelo que eu sei, você pode ter as piores intenções, pode acabar me levando a casa errada, até à cama errada.
— Não se preocupe, eu tenho uma preferência por garotas que conseguem se aguentar de pé na minha cama.
Avancei para frente com o capacete, mas ela desviou, quase caindo no processo. Então eu tentei mais uma vez, ela se confundiu com os lados, e consegui enfiá-lo na cabeça dela. Ela bufou pela sua derrota, enquanto eu o prendia embaixo para que ela não conseguisse tirar. Ou, pelo menos, tivesse certa dificuldade.
— Boa sorte me colocando na moto. — disse, antes de soltar completamente seu corpo no chão.
Abriu, então, um sorriso que, se a situação não fosse tão irritante, seria fofo, porque o capacete apertava suas bochechas.
— Você fica linda sorrindo assim, sabia?
Na hora, ela fechou a cara novamente.
Aproveitei que ela estava quieta e a peguei no colo. Ergui seu tronco para que ela ficasse praticamente sentada e, com cuidado, a ajeitei em cima da moto, mas sem deixar de segurá-la.
— Tenta deitar, agora, para ver o que acontece — disse, sem nem tentar conter um sorriso vitorioso.
Felizmente, ainda tinha um pouco de senso de autopreservação, então não se jogou no chão, nem nada do tipo. Só bufou mais umas cinco vezes, o que já estava soando tão comum quanto a respiração dela. Com um pouco de esforço, eu me sentei na frente dela, sem causar nenhum acidente, e dei partida na moto.
— Segura em mim — pedi, torcendo para que ela o fizesse por conta própria, mas é claro que isso não aconteceu. Sem paciência para insistir, eu mesmo puxei as mãos dela e as coloquei ao redor da minha cintura.
Parecendo cansada demais para lutar, ela simplesmente encostou a cabeça nas minhas costas da melhor maneira que o capacete permitia.
Uma pessoa normal, àquele ponto, deixaria a teimosia de lado para se deixar ser ajudada, mas aquela era a e... Bem, eu era a pessoa ajudando. Por isso, poucos minutos depois, quando chegamos à casa dela, ela fez a coisa mais estúpida que uma pessoa fraca e bêbada poderia fazer: ela tentou descer da moto sozinha. E conseguiu. Só não do jeito que ela esperava.
, não... — Eu tentei impedi-la, mas já era tarde demais, um pé já estava no chão.
Quando ela foi puxar o outro, perdeu o equilíbrio e, pronto, lá estava no chão mais uma vez.
— Ouch! — reclamou, fazendo uma careta.
Balancei a cabeça e até tentei não rir, mas eu ainda era humano, e uma cena daquelas não tinha preço.
Desci da moto e, primeiro, tirei o capacete dela, para, depois, ajudá-la a se levantar. Ajuda esta que ela aceitou de bom grado, dada às suas condições. Mas é claro que não por muito tempo. Assim que nos aproximamos da pequena escadaria, ela me afastou e se agarrou ao corrimão como se sua vida dependesse daquilo. Fiquei esperando na porta, enquanto ela subia a escada com todo o cuidado do mundo. Quando se aproximou, ela pegou uma chave no bolso. Eu estendi a mão, esperando que ela me desse para que eu pudesse abrir, mas tudo que ela fez foi cerrar os olhos para mim e tentar abrir ela mesma, o que é claro que não conseguiu. Ela enfiava a chave em todo lugar, menos no buraco da fechadura.
— Para de ser teimosa, eu faço isso.
— Não! — negou, me olhando brava. — Tá escuro. — E voltou a trabalhar na abertura da porta.
— Uhum, esse é o problema.
Ela me ignorou.
Depois de mais algumas tentativas, finalmente, conseguiu destrancar a porta, lugar que ela se apoiou para entrar. Então se virou para mim com um sorriso forçado.
— Tchau.
Mas, antes que ela fechasse a porta na minha cara, eu a impedi, colocando meu pé na frente.
— Eu prometi a que iria te deixar segura. Isto é, na sua cama.
Ela revirou os olhos.
— Eu posso muito bem chegar ao meu quarto sozinha, tá legal? Não preciso de você.
— Eu sei o quanto você adora repetir isso e, geralmente, até concordo, mas, agora, nas suas condições, você precisa, sim. Além do mais, já deu uma olhada naquela escada? — perguntei, apontando para a grande escadaria mais ao fundo.
nem precisou olhar para bufar e se dar por vencida.
— Idiota.
Eu entrei e, mais uma vez, virei o apoio dela. E, mais uma vez, aproveitando-se da situação, eu praticamente a carregava.
— Se eu já estou te carregando, poderia te pegar no colo para facilitar.
— Não se atreva! — ela disse num tom que seria ameaçador, se não fosse eu quem estivesse mantendo-a de pé. — Ei, ei, ei! Aonde você pensa que está indo? — indagou quando, em vez de ir em direção à escada, eu virei à direita.
— Cozinha — respondi.
— Pegar uma faca para me matar?
Ri, imaginando que, talvez, ela realmente considerasse aquela ideia.
— Você precisa colocar alguma coisa no estômago.
— Eu preciso dormir! — ela rebateu, mas ignorei.
Ajudei-a se sentar num banco no balcão e, então, fui até a geladeira, atrás de alguma coisa. Encontrei um suco que parecia ser de laranja e teria que servir. Coloquei em um copo na frente dela, junto com um pacote de bolacha que encontrei também. deu pequenos goles no suco, mas empurrou a bolacha de volta para mim.
Nós ficamos um tempo em silêncio. Ela, concentrada no seu copo de suco, e eu, concentrado nela. Era até engraçado que, mesmo em um estado consideravelmente ruim, ela ainda me parecia a garota mais bonita do mundo. Engraçado e triste. Meus olhos a avaliaram, passando pelos fios de cabelo loiro bagunçado, pelo olhar baixo, nariz empinado, sua boca, que parecia ter sido detalhadamente desenhada, até pousarem em suas mãos finas, segurando firmemente o copo. Era a mesma , a minha garota de um ano atrás. A única diferença era que aquela nunca beberia até não se aguentar em pé.
— Você nunca bebeu desse jeito — comecei a falar, chamando sua atenção. Ela ergueu seu olhar indiferente para mim. — O que aconteceu?
— Como sabe? Não é como se nós tivéssemos passado o último ano inteiro juntos — respondeu rudemente.
Não fui pego de surpresa. Eu sabia que ela não perderia uma oportunidade de me atacar.
— A falou quando você estava desmaiada.
Ela se desconsertou um pouco com a minha resposta, mas não por mais que dois segundos:
— De qualquer maneira, não te interessa.
— Considerando que fui eu quem te trouxe aqui em segurança, me interessa, sim! — eu insisti.
— Trouxe porque quis.
Respirei fundo. Eu merecia um prêmio por ter tanta paciência. Ou um sermão por insistir demais.
— Você não pode passar mais que alguns minutos sem me atacar, pode? — questionei.
— Posso. Não quero — ela respondeu com o mesmo tom seco de antes.
— E por quanto tempo pretende continuar fazendo isso? Porque eu não vou a lugar algum. Uma hora, isso vai ter que parar.
— É aí que você se engana: eu não vou parar.
Sorri, não acreditando nada nas palavras dela.
— Nem você tem tanta energia para passar os próximos anos me insultando, .
Mas, desta vez, foi ela quem sorriu, um sorriso forçado e irônico, o que, eu tenho que admitir, me preocupou um pouco.
— Vamos ver.
Observei-a, tentando descobrir se ela falava sério, mas não cheguei a lugar nenhum. Mas não era de mentir para assustar. Muito pelo contrário, ela era sincera demais, e isso, sim, assustava.
— Nós precisamos resolver isso — eu disse, mesmo sabendo que aquela não era a melhor hora do mundo para algo assim. Eu só queria muito acabar com aquilo logo.
— Eu não quero resolver nada, .
— Por que não? Isso tem que parar.
— Pois eu vou ter que discordar — murmurou, abrindo mais um daqueles seus sorrisos sínicos.
— Por favor! — pedi, esperando que o desânimo na minha voz tivesse algum resultado positivo. — Eu tô cansado.
— Cansado de que? De bancar o bonzinho? Porque nós dois sabemos que esse não é você.
É, não funcionou. Ela provocou e pegou bem na ferida.
Eu já tinha feito coisas e agido de maneiras das quais não tinha orgulho, mas também estava fazendo um puta de um esforço, tentando melhorar. Ela nunca reconheceria aquilo, é claro. Se eu fosse um pouco mais esperto, não teria dito o que disse a seguir. Mas me deixei levar pela sua provocação e, quando percebi, já tinha saído:
— Cansado de ficar ouvindo você me atacar e fingir que não tô nem aí porque você não consegue superar e deixar o passado no passado.
“Não cutuque a fera com pau curto”, minha mãe dizia o tempo todo. Referindo-se a mesmo. Ainda assim, era como se eu não tivesse aprendido nada.
— Então para, tá legal? — explodiu, batendo no balcão. — Para de imaginar que eu tô fazendo algum tipo de jogo, porque eu não tô! Você pode ter reconquistado todo mundo, mas eu não quero estar perto de você, não quero suportar o cara que me fez de idiota, então, adivinha só: eu não vou parar de te insultar, de te atacar sempre que possível, enquanto me fizerem estar perto de você. Você quer fingir que não se importa? Eu não tô nem aí. Na verdade, é até patético. Eu piso em você, insulto, tento fazer da sua vida um inferno, mas você está aqui, me ajudando, que nem um idiota. É, a palavra é esta mesmo: patético. Você é patético! — enquanto falava, quase gritando, ela inclinava seu corpo para frente, agora, furiosa.
Eu concordava com ela. Eu realmente era patético. Mas uma coisa era eu pensar isso de mim e outra era ela jogar aquilo na minha cara daquela maneira.
... — tentei interrompê-la porque eu não estava nem um pouco a fim de ouvir o resto. Eu lembrava bem como esses ataques dela acabavam: eu lá embaixo, e ela no topo.
— Não, agora, eu vou falar! Sou eu quem não consigo deixar o passado no passado? Deixe-me te dizer que eu estava fazendo um bom trabalho, até você aparecer, todo presunçoso, o melhor amigo de todos, para ferrar com tudo. E, se eu não me engano, não fui eu quem, uma semana atrás, estava querendo voltar com você, o que é ridículo. Você realmente pensou, por um segundo sequer, que tinha alguma chance de eu querer voltar com você depois do filho da puta que você foi? Eu te odeio. E, se não ficou claro, repito: eu te odeio. Eu quero distância de você e de qualquer coisa que você tem a oferecer, e, inclusive, ajuda. Sabe, se eu fosse uma pessoa sensata, eu te trataria exatamente do jeito que você merece: como um nada. Mas te ignorar é muito fácil. Já fazer da sua vida um inferno, como você fez da minha, me parece muito mais divertido, então vai se acostumando, ou dá o fora da minha vida!
Eu te odeio. Eu. Te. Odeio.
Não importava o fato de eu já saber aquilo, ouvir aquelas três palavras saindo da boca dela, ao mesmo tempo em que ela me lançava um dos olhares mais furiosos do mundo, doía. Mais do que deveria até, considerando que já havia se passado mais de um ano desde que havíamos terminado. Bom... Desde que ela me deu um pé na bunda.
Quando isso aconteceu? Quando eu deixei de ser a única pessoa com quem ela realmente conseguia se abrir, a pessoa que ela mais confiava, o companheiro para todas as horas, e me tornei o cara que ela não queria nem por perto? Ah, é, quando eu decidi que seria uma boa ideia encher a cara, com raiva dela, e corresponder ao beijo da única garota que afirmava ter 0% de chance de ser considerada para um futuro ménage. Porque, sim, nós tínhamos planos até para isso. Ou, talvez, quando eu fui covarde demais para contar a ela o que havia acontecido. Provavelmente, o conjunto.
— O que tá acontecendo aqui? — alguém perguntou e, só então, eu notei que segundos haviam passado e nós ainda nos olhávamos nos olhos. Ela, com a respiração irregular e ainda de olhar furioso, e eu não sabia bem minha cara naquele momento. A garota aproximou-se e, quando desviei o olhar para ver quem era, percebi ser a Nikki. — ? Tá fazendo o que aqui? E ... Uau! Você não parece nada bem.
— Eu só... Hum... Ela passou mal, e eu vim trazê-la — respondi baixo. Não queria mais ninguém acordado para ver aquela cena.
— O que aconteceu, ?
— Nada, eu só... — sua voz falou, e ela pigarreou, antes de voltar a falar: — Eu só preciso dormir. Eu tô cansada. — Ela desceu da cadeira, mas acabou perdendo o equilíbrio mais uma vez.
Por impulso, eu me movi para segurá-la, mas Nikki estava mais perto e chegou antes, mantendo-a de pé.
— Vem, eu te ajudo. — Nikki disse, e prontamente se apoiou nos ombros dela.
— Eu vou indo, então. Boa noite! — disse, já indo em direção à sala.
— Espera, . — Nikki pediu, e eu me virei para elas. — Tá tudo bem? — perguntou.
Forcei um sorriso e assenti. Nikki era a última pessoa no mundo que eu gostaria de incomodar com esse tipo de coisa.
— Sim, eu só tô cansado. — Saí andando, antes que ela fizesse mais perguntas.
— É muito cansaço para duas pessoas só. — Ouvi Nikki comentar, antes de fechar a porta atrás de mim.
que lidasse com aquilo!
Sentei-me nas escadas por um momento e cobri meu rosto com as mãos, suspirando. Era quase como se eu pudesse sentir a raiva chegando. Mas raiva de quem? De mim, da , dessa situação? Eu não sabia dizer. Raiva não era exatamente um sentimento racional. Mas eu ficaria ali, sentado, até que passasse. Sair chutando ou socando o que eu visse pela frente não era uma opção. Mas que eu estava tentado, eu estava.
Não era para a noite acabar deste jeito. Deveria ser divertido, sem discussões, e até começou bem, mas o final acabou com tudo. Pelo menos, os outros deviam estar se divertindo.
O que eu faria dali para frente? Eu poderia simplesmente evitá-la e, quando não tivesse jeito, ignorar. Mas eu não queria fazer isso. Eu queria vê-la, conversar com ela, ouvir sua risada, ver seu sorriso. Eu era patético. Só queria tê-la por perto.

's POV

— É muito cansaço para duas pessoas só. — Tudo o que eu consegui foi dar uma risada obviamente forçada. — Vocês brigaram? — Nikki perguntou, e eu assenti. — Eu acabei ouvindo um pedaço. Foi feio, não foi?
— Nós sempre brigamos... Não é grande coisa — menti.
Havia sido, sim, grande coisa. Uma dorzinha irritante no fundo do meu peito me dizia isso. Para falar a verdade, “nós brigamos” nem definia bem o que aconteceu. Eu briguei com ele. Ele só ouviu. E, depois, ficou me olhando com um olhar machucado, um olhar que eu não vira há um bom tempo. Eu briguei com ele, depois dele me ajudar. Eu briguei com ele e falei todas aquelas coisas porque eu queria machucá-lo. Não que elas não fossem verdade, pois eram, mas você não explode e fala tudo aquilo na cara de alguém, especialmente alguém que acabou de fazer algo bom por você. E, agora, eu estava me sentindo uma merda por isso.
— Prontinho. — Nikki disse quando chegamos ao meu quarto. Ela me guiou até a minha cama, onde eu me deitei, já puxando o edredom para cima de mim. Antes que eu pudesse agradecer e dizer boa noite, ela sentou-se ao meu lado. — Você não parece bem. Quer conversar?
Tive que disfarçar minha expressão surpresa. Não, eu não queria conversar sobre aquilo. De jeito nenhum. Nem com ela, nem com ninguém. Por isso, desta vez, abri um sorriso convincente o suficiente para fugir daquela situação.
— Eu tô bem, de verdade. Só bebi mais do que devia. Tá tarde. Vai dormir. Eu também vou. Mal tô aguentando com os olhos abertos.
Ela me olhou por poucos segundos, parecia não saber se acreditava em mim ou não, mas, felizmente, ela foi convencida e levantou-se, assentindo:
— Tudo bem, então. Boa noite.
— Boa noite.
Então ela saiu, fechando a porta atrás dela. Neste momento, eu suspirei aliviada. Eu realmente queria ficar sozinha, fechar os olhos, dormir e esquecer. Mas, o tempo todo, as minhas próprias palavras se voltavam contra mim e, depois, o olhar dele aparecia, e eu não conseguia. Eu me sentia mal, um monstro. Eu queria voltar no tempo e apagar tudo o que falei. Eu queria não chorar, mas estava ficando impossível.
Joguei o edredom longe e me arrastei da melhor maneira possível até a janela para abri-la. Eu sabia que só estava com calor porque fiquei me virando para todo lado, mas, ainda assim, fui. Péssima escolha, como sempre.
Antes que eu tivesse a chance de abri-la, eu o vi. Sentado na escada, as mãos no rosto, e foi tudo por água a baixo, literalmente. Antes que eu sequer tivesse a chance de tentar contê-las, as lágrimas desceram e, agora, não tinha mais o que fazer. Eu estava chorando. Por causa dele de novo. Era isso que eu queria evitar. Porque tê-lo por perto só fazia eu me lembrar do quanto ele havia me machucado. Eu daria qualquer coisa para seguir em frente sem ele... Eu até atormentaria a vida dele para que ele desistisse e se mandasse. Porque, assim, isso não aconteceria.
Voltei à minha cama, esperando que não tê-lo mais em minha visão melhorasse, mas o dano já estava feito. Enrolei-me, então, no edredom e parei de tentar segurar as lágrimas; só deixei que elas viessem, porque, talvez, aquela fosse uma maneira de colocar tudo para fora. Não tinha ninguém por perto. Estava tudo bem. Mas, quanto mais eu chorava, mais imagens vinham à minha cabeça, mais palavras, e eu só queria chorar mais. Eu queria tirar aquilo de mim, aqueles sentimentos ruins. Eles não me faziam bem, eu sabia disso. Mas eles eram tudo o que eu tinha.



’s POV
11 anos antes...


— O jantar tá na mesa. , , desçam agora! — minha mãe gritou pela terceira vez.
Na quarta, ela, provavelmente, viria até o quarto, então me levantei para descer.
— Promete mesmo que não vai contar a ninguém? — perguntou, ficando de joelhos na cama. Seu cabelo bagunçado estava preso em um “rabo de cavalo”.
— Prometo. Eu já disse que prometo. Por que eu contaria a alguém?
— Ele é seu amigo. Imagina se, um dia, você deixa escapar que eu gosto dele, nunca mais vou conseguir olhar na cara dele! — exclamou, arregalando os olhos para mim.
— Relaxa! — disse, rindo da cara dela. — Você é minha amiga também. Eu prometo que não vou contar e, muito menos, deixar escapar, tá bom?
Ela me olhou desconfiada por alguns segundos, até acreditar na minha palavra, e sorriu.
— Tá bom. Agora, me ajuda! — falou, estendendo os braços para mim.
Aproveitando a chance, toquei suas mãos e a puxei com mais força que o necessário. Ela deu um daqueles gritinhos de menina, que me fez rir e, enquanto ela se equilibrava em pé, saí correndo para chegar à sala de jantar primeiro. Antes de chegar à escada, eu já ouvia o barulho dela correndo atrás de mim. Sentei-me no corrimão e desci, deslizando, como naquelas cenas de filmes que eu treinei muito para fazer igual. Quando cheguei no andar de baixo, pulei no chão novamente e corri até o cômodo seguinte, onde meus pais estavam sentados à mesa. Menos de 5 segundos depois, chegou também, arfando e vermelha de raiva.
Corri para a ponta, oposta a ela, da mesa.
— Isso não vale! Você não pode usar o corrimão! — gritou, vindo em minha direção.
— Você só fala isso porque não sabe fazer! — disse, sem conseguir parar de rir.
Ela estava tão brava!
— É claro que é porque eu não sei fazer, bobão! — Ela vinha, aproximando-se pelo lado direito, e eu me afastava pelo esquerdo.
— Você corre bem mais que eu, e não reclamo de apostar corrida com você!
— Você sabe correr! É diferente!
— É a mesma coisa. Admite logo que você não aguenta perder!
— Ei, vocês dois! Dá pra parar? — meu pai interrompeu-nos. — É hora do jantar! Pelo amor de Deus!
Continuei de pé, pronto para correr, até que suspirou e sentou-se ao lado da minha mãe. Fiz o mesmo, ao lado do meu pai, de frente para ela.
— Muito bem! — meu pai falou novamente. — Liz fez o frango assado e o creme de milho que vocês tanto amam.
— Obrigada, tia! — agradeceu , dando um beijo na bochecha da minha mãe.
— Valeu, mãe! — agradeci também.
Ela sorriu para a gente, sempre achando engraçadas nossas brigas.
Peguei um garfo e uma faca, e me levantei para alcançar o frango. Minha mãe sempre cortava para mim, mas eu pedi a ela para me ensinar porque eu queria colocar minha comida sozinho. Cortei um pedaço de cima, todo coberto de pele. Eu sabia que adorava este pedaço e era eu quem sempre cortava para ela. Olhei-a, e ela estava ocupada, colocando arroz em seu prato. Estava brava comigo. Eu não devia servir a ela, certo? Não tinha certeza. Então, sendo certo ou não, coloquei o pedaço de frango em seu prato quando ela o abaixou. Ela me olhou surpresa, antes de abrir um sorriso e servir um pouco de creme de milho para mim, e, depois, para si. Ela sempre servia o creme para mim também. Não por eu não conseguir (como ela não conseguia cortar o frango sem fazer uma bagunça), ela dizia que era uma maneira de dizer obrigada por ter cortado o frango para ela.
Sorri para ela, terminei de me servir e me sentei novamente. Estava começando a comer quando ouvi um riso baixo ao meu lado. Olhei para o meu pai, que trocava olhares com minha mãe.
— Ei! O que foi? — perguntei, cutucando-o, e isso chamou a atenção da , que parou de comer para nos olhar.
— Nada, — ele respondeu.
— Eu vi você e a mamãe rindo um para o outro! Conta! — insisti.
Minha mãe riu mais uma vez, antes de começar a falar:
— Nós só estávamos nos lembrando de uma conversa que tivemos alguns dias atrás... Nada demais. Sua comida esfriará.
— Que conversa? — desta vez, foi quem perguntou, sem conseguir segurar sua curiosidade.
— Bom... — Meu pai respirou fundo e continuou: — Alguns dias atrás, Liz e eu estávamos conversando sobre como vocês estão sempre brigando e fazendo as pazes desde que se conheceram.
Olhei para e a encontrei olhando para mim também, tão confusa quanto eu.
— Nós brigamos quando nos conhecemos? — perguntamos juntos.
— Bem... Sim. Vocês não se lembram? — perguntou minha mãe.
— Não! — respondemos juntos mais uma vez.
— Eu não acredito! — falou, arregalando os olhos do mesmo jeito que havia feito mais cedo e nos olhando.
— Eles eram muito pequenos, Liz. É claro que não se lembram... — ele disse, sorrindo para ela.
— Mas...
— Conta pra gente, tia! — pediu animada.
— É claro que vou contar! — exclamou. — Foi há 3 anos, quando você, , tinha só 5 anos de idade, e a , 4. Nós morávamos aqui há algum tempo já e tínhamos nos mudado pouco antes do nascer. Um casal se mudou para a casa ao lado e, como de costume, fomos dar as boas vindas a eles.
— Ela quis dizer que eu fui dar as boas vindas, enquanto ela ficava em casa, cuidando de você, — meu pai interrompeu.
— O que eu poderia fazer? Ele estava doente.
— Não me obrigar a ir lá sozinho seria uma ótima ideia — respondeu ele, fazendo minha mãe revirar os olhos.
— Você não morreu, indo lá, e nós conhecemos ótimas pessoas. Todo mundo saiu ganhando.
— Ok, mas você não estava lá, e é isso que importa, então sou eu quem contarei essa parte da história. — Ela revirou os olhos, mas o deixou contar: — Eu conversei com seus pais durante um tempo, enquanto a senhorita ficava escondida atrás das pernas da sua mãe. — sorriu envergonhada. — Contei a eles que, aos domingos, o bairro costumava se reunir na praça para as crianças brincarem e falei para eles te levarem, . Então, no domingo...
— Obrigada, querido. Eu assumo daqui! — minha mãe interrompeu. — No domingo, nós te levamos ao parque, apresentamos vocês dois, e você, todo cavalheiro, foi apresentá-la às outras crianças, enquanto nós ficávamos na “área dos pais”, conversando... — contou, fazendo um sinal estranho com as mãos. — 40 minutos depois, vocês voltaram correndo. pedindo para seus pais comprarem um picolé para ela, e você com os olhos cheios de lágrimas. Você se lembra do porquê disso? — ela perguntou, me olhando. Fiz que não com a cabeça. — Porque você também queria um picolé, mas sabia que não ganharia um, pois ainda não tinha se recuperado totalmente da gripe. Seus pais tentaram te convencer a comprar um algodão doce, assim não ficaria com vontade, , mas você não quis. Você esperneou e insistiu, até conseguir seu picolé. E, bem, a primeira coisa que o fez quando você voltou, segurando-o, foi pegá-lo da sua mão, jogar no chão e pisar em cima.
Comecei a rir, enquanto abria a boca em um formato de “O”. Eu conseguia até me imaginar fazendo isso.
— Foram semanas, até que voltasse a falar com você, mas, depois disso, nunca mais se separaram — meu pai disse.
— Vocês deveriam ter filmado! — exclamei, ainda rindo; isso até eu reparar na maneira que me encarava.
Ela parecia estar tentando me partir ao meio só com o olhar e seu rosto estava vermelho igual a um pimentão. Só faltava sair fumaça pelos seus ouvidos.
— POR QUE VOCÊ FEZ ISSO COM MEU PICOLÉ?
Um mês depois, no meu aniversário de 9 anos, ela enfiou minha cara no meu bolo de aniversário na frente de todos os convidados, como vingança.

Atualmente


Eu amava estar na água.
Desde pequeno, com pouco mais de três anos, quando comecei a fazer natação, aquele era um dos meus lugares preferidos no mundo. Tinha alguma coisa em se concentrar apenas na minha respiração, nos meus braços, pernas, meu corpo em geral, garantindo que cada parte fizesse seu trabalho da melhor maneira possível. Durante o tempo em que eu estava embaixo da água, aquilo era tudo que existia para mim. Eu não precisava me preocupar com mais nada, pensar em nada, só naquilo. Era bom. Não que um garoto de três anos tenha muitas preocupações na vida, além do tapa que levou na mão, mais cedo, por mexer onde não deveria, mas eu adorava de qualquer maneira. Passei uns bons anos da minha vida querendo ser o Aquaman. Mas é claro que isso já passou. Poseidon é muito mais maneiro.
O apito do técnico soou, e todo mundo parou na hora.
— Tá bom por hoje. Estão liberados. Vejo vocês na segunda! — o técnico, Roger Simons, um dos melhores nadadores que eu já havia visto na minha vida, anunciou.
Saí, então, da piscina e segui para o vestiário, sendo acompanhado pelo resto dos caras, que já conversavam e brincavam entre si; geralmente, eu participava, mas, hoje, estava ocupado. Chateado pela noite anterior? Um pouco. Só que, nesta manhã, eu tinha outra coisa na minha cabeça: coisa essa que, na madrugada anterior, parecia apenas um impulso besta, mas quanto mais eu pensava naquilo, mais parecia um plano daqueles...
— Você tá quieto demais, hoje, . Tá planejando o que? — Joe perguntou quando eu me abaixei para amarrar meu tênis.
Joe havia se tornado um grande amigo, ano passado. Conheci-o quando entrei para a Lambda Chi Alpha e, desde então, acabamos não nos separando; principalmente, pelo fato de que foi ele quem me indicou para o técnico Simons, depois de me ver nadar na casa. Graças a ele, eu consegui um teste, e passei, o que foi uma coisa e tanto naquele ano, porque, além de eu ser calouro, só haviam duas vagas, e elas foram bem concorridas. Morando na mesma casa e nadando juntos, não nos separaríamos nem se quiséssemos.
— Não só estou planejando algo, como vou precisar de você — eu disse, olhando para cima e abrindo um sorriso quase que malvado na direção dele.
Ele arregalou os olhos e, praticamente, se jogou ao meu lado, sentando-se no banco em que eu estava.
— O quê? Cara, foi uma pergunta daquelas que, geralmente, não estão certas.
— “Geralmente” não é sempre, é? — disse, e ele me olhou por alguns segundos, antes de sorrir também, animado.
— Legal! O que é? Não, não, não, não! Espera! Eu já sei! — Então, ele deu uma pausa para fazer suspense, mas, no momento em que abriu um sorriso, digamos assim... Estranho para o meu lado, comecei a rir.
— Eu não vou a um clube de strip com você! — eu disse, arrancando, na hora, o sorriso da cara dele.
— Qual é, ?! Por que não?
— Eu já cometi esse erro uma vez, Joe. Não vai acontecer de novo. Você só me fez passar vergonha.
Ele bufou.
Tudo o que você precisa saber sobre o que aconteceu é que, no final da noite, nós fomos expulsos do lugar com caras gigantes nos carregando e tudo; considerando que nós dois não éramos exatamente pequenos, acredite, eles eram assustadores. Foi horrível!
— Meu aniversário tá quase aí, cara. Não precisa nem me dar presente! — ele sugeriu, ainda na expectativa.
— Não — disse simplesmente, e ele abaixou os ombros, parecendo desistir; por enquanto, pelo menos.
— Tá, tá. O que foi?
— Você acha que sua irmã ainda tem as coisas que ela usou para aquele teatro no ano passado? — perguntei, e ele me encarou confuso.
— Talvez... Por quê?
Sorri.
— Tô pensando em dar um susto na — respondi, e ele riu.
— Tá brincando, né? — perguntou incrédulo. Neguei com a cabeça. — O que aconteceu com o plano de não lutar de volta e deixá-la louca?
Suspirei, balançando os ombros.
— Não funcionou tão bem quanto pensei que funcionaria. Vou tentar outra estratégia.
Ele riu de novo, me dando um tapa no ombro.
— O vai ajudar também?
— É claro que não. Ele nunca me ajudaria a pregar uma peça na . Ele só vai saber disso depois de ter acontecido, então segura a língua! — mandei, sabendo que o Joe podia falar muito às vezes.
Ele deu um sorriso tranquilo.
— Pode deixar comigo. Mal posso esperar!

’s POV

Era seguro dizer que eu nunca havia tido uma dor de cabeça tão forte na minha vida. Por isso, fiquei deitada, de olhos bem fechados, sem mexer um músculo sequer por uns bons 20 minutos, depois de acordar, e repassando a noite passada, que, infelizmente, eu me lembrava de cada detalhe: a minha trégua momentânea; o momento em que eu pensei que seria uma boa ideia beber mais que o dobro do que estava acostumada por causa de um ciúme idiota e... Ah! Aquele momento em que eu decidi descontar toda a minha raiva e frustação no cara que havia me ajudado a chegar à minha casa sã e salva. Eu disse as piores coisas a ele exatamente quando eu deveria simplesmente calar a boca. Porque é isso que as pessoas fazem: elas não ofendem e humilham quem acabou de ajudá-las. Não importa quanto ódio há ali, o quanto pensem que o outro mereça aquelas palavras pelo que fez, não é só falta de educação, é crueldade.
Eu não presto.
Não que isso seja novidade para alguém, mas, enfim.
Eu ouvia aquele barulhinho irritante das teclas de celular, e só isso já me dizia que estava no quarto. Ela era a única pessoa que eu conhecia que não tirava aqueles sons do inferno.
Estava virada para a parede, então abri os olhos e troquei de lado, encontrando-a sentada na ponta da sua cama com os olhos vidrados em algo que ela digitava. Ela abriu um sorriso caloroso, sem nem mesmo me olhar.
— Bom dia, Bela Adormecida! — disse, parando de digitar, mas ainda olhando para a tela do celular. — Pensei que dormiria o dia inteiro.
— Bom dia! — disse com a voz rouca; bem mais rouca que o normal, na verdade. — Que horas são? — perguntei.
— Meio-dia e... — ela estava falando quando tirou os olhos do celular e os colocou em mim, e simplesmente parou. — O que aconteceu? — perguntou, largando imediatamente o celular. Em um segundo, estava ajoelhada no chão, ao lado da minha cama.
— Nada... — eu respondi meio assustada com a preocupação repentina.
... — ela disse, me olhando com... Pena? Dó? Era um olhar bem parecido com os que eu recebi constantemente depois de descobrir a traição do .
— O quê? — questionei.
Ela não podia simplesmente ter adivinhado que algo ruim tinha acontecido, só olhando para o meu rosto. Nem era tão boa assim.
— Você tá com a cara de quem foi dormir chorando — disse suavemente, estendendo a mão para tocar a parte de baixo dos meus olhos. Parecia que ela podia, sim, adivinhar. Suspirei meio frustrada. Não era para ninguém saber daquele momento de fraqueza. Ninguém. Nem mesmo a . — O que aconteceu? — perguntou novamente.
— Eu... — comecei a falar, mas não sabia bem o que falar. Nem queria. — Hum... É que... Quer dizer... Não... Não foi nada! — disse, por fim.
— Não parece que não foi nada.
— Mas não foi — repeti. — Sério.
Ganhei dela um olhar decepcionado que me fez sentir mais mal do que eu já me sentia, mas falar a ela o que tinha acontecido seria dizer que eu chorei de novo por causa do , mesmo que, desta vez, a culpa fosse minha, e eu não podia admitir aquilo. É claro que ela perguntaria a ele, de qualquer maneira, mas eu esperava que ele tivesse um pouquinho de orgulho e não contasse. Eu sabia que escolher não contar a ela a magoava, mas não dava para agir o tempo todo como se um ano não tivesse passado. Um ano nos vendo uma, talvez, duas vezes por mês. Um ano em que muita coisa mudou na nossa vida. Eu ainda a amava mais que tudo e sempre amaria, mas tinha uma distância ali que não desapareceria do nada, por mais que a gente gostasse de fingir que sim.
— Tudo bem — ela disse, depois de suspirar levemente e, então, forçou um sorriso. — Levanta, dá um jeito nesse rosto, se quiser evitar um interrogatório lá embaixo, e desce, porque nós vamos almoçar todas juntas, hoje, tá bom? Vou segurar as garotas lá na sala para elas não subirem.
Assenti.
— Obrigada. — Sorri, agradecida, e ela se retirou.
Suspirei. Você pensa que, depois de magoar tantas pessoas em uma só vida, eu saberia lidar melhor com o sentimento ruim que vem logo após, mas não funciona bem assim. De qualquer maneira, é mais fácil.
Enrolei por mais alguns minutos, antes de jogar o edredom para o lado de vez e me levantar. Escovei os dentes, penteei meu cabelo, que estava um caos, fiz aquela coisinha, também conhecida como xixi, que as pessoas geralmente não contam, mas por que não, não é? E, então, chegou a pior parte: minha cara. A parte de baixo do meu olho estava completamente inchada, e a de cima também, mas só um pouco; sem mencionar as olheiras gigantes, só me fazendo parecer mais pálida do que eu já era.
Abusei mais do corretivo e da base que em toda a minha vida, o que, considerando ser um sábado de manhã (quase tarde), era ruim. O blush também foi levemente abusado e, no final, eu continuava um desastre. Mas um desastre que havia bebido até não se aguentar na noite anterior e não um que havia chorado até dormir. Vamos combinar que a primeira opção é muito mais digna.
Na escada, eu já ouvia o barulho lá embaixo; parecia que a casa inteira estava reunida e até parecia divertido. Uma parte das garotas estava na sala, e a outra, na cozinha, todas rindo e conversando em um clima amigável. Dei bom dia às meninas na sala, antes de seguir para a cozinha, onde avistei , April, Mina, Lauren, Lucy e mais várias. Não dava para listar todo mundo.
— Bom dia, flor do dia! — April disse, sorrindo para mim.
— Ih! Essa flor tá morrendo, hein? Tá a cara da ressaca. — Mina comentou, me fazendo rir.
— Muito obrigada, Mina.
— Vocês estavam na festa dos caras da Zeta ontem? Não vi vocês. — Lauren disse, e Mina negou.
— A gente foi ao Nando’s, mas, olha, teve muita bebida, dança e desmaio, tudo o que uma boa festa tem. — Mina respondeu.
— Pelas condições em que eu encontrei a , aqui, ontem, diria que foi ela quem desmaiou. — A voz da Nikki soou de repente e, só então, percebi que ela estava ali também, de costas, cortando alguma coisa na pia, e era uma das responsáveis pelo almoço, junto com a Natasha e a Suzy.
— Encontrou-a aqui? Eu vou matar o ! Ele simplesmente te largou aqui embaixo? — se manifestou, parecendo bem brava.
— Ah, não, ele estava aqui também, . Mas, pelo que ouvi, me pareceu uma boa ideia dispensá-lo e ajudar a . — Nikki tagarelou, fazendo me lançar na hora um olhar desconfiado.
Dei um sorriso nervoso a ela.
— O que você ouviu? — ela perguntou.
Engraçado como, naquele momento, nenhuma piadinha saiu pela boca da Mina, e as garotas decidiram ficar quietinhas para ouvir.
— Ah, eu só peguei umas frases aleatórias, mas vocês estavam brigando, não é? — Nikki perguntou, virando-se para mim.
Bati minha mão contra meu rosto, frustrada. Quem precisava do para me dedurar se eu tinha a Nikki?
— Não foi nada. Eu te disse, ontem, que a gente briga o tempo todo... — tentei justificar, mas o estrago já estava feito.
A dó que ela estava sentindo de mim por ter chorado já parecia ter passado, e ela me olhava com uma mistura de raiva e curiosidade.
— Eu não acredito, . Você prometeu que daria uma trégua ontem. — disse, e eu encolhi os ombros.
— O que eu posso fazer? Ele me irrita. — E eu tentava irritá-lo também. Só não parecia estar funcionando tão bem quanto eu gostaria, mas sou persistente.
— Ele estava te ajudando! — ela exclamou.
Uma bronca na frente de todo mundo... Que ótimo. Porque aquilo era tudo o que eu precisava naquele momento.
— E eu estava bêbada! Dá um desconto, vai! — Ela não respondeu, só me lançou um último olhar bravo, antes de balançar a cabeça e deixar o assunto. — E, então, o que a gente vai comer? — perguntei a Nikki.
Minha barriga doía de fome.
Strogonoff. Você gosta?
— Não muito... Só é uma das minhas comidas preferidas — respondi, e ela riu.
— Experimenta o meu e vai passar a ser A preferida.
Sorri, animada.
Eu amava comer. Sério! Não pense que tenho algum problema alimentar só porque quase não comi no dia anterior. Eu simplesmente esqueci. Não acontece com muita frequência, mas quando você tem duas páginas inteiras de exercícios de Geometria e está louca para resolvê-los logo, com medo de se esquecer de repente do que aprendeu na aula daquele dia, acredite, você esquece.
Logo Mina voltou a falar sobre o jogo que teria mais tarde; aparentemente, o assunto antes que eu chegasse, e fui pegar alguma coisa para beliscar quando vi que a comida não sairia tão cedo, e água, muita água. Em um momento, simplesmente fiquei com a garrafa, o que foi engraçado porque sempre achei estranho ver meus amigos se matarem de beber água quando estão de ressaca.
...Agora, a gente tá chegando à cozinha e eu tenho um pessoal aqui para apresentar a vocês.
É sempre estranho quando uma pessoa entra no cômodo, falando com uma câmera. Quando ela vira essa câmera para você, e você está no pior estado da sua vida, é assustador. Mas quando você percebe que a pessoa é alguém que você não vai muito com a cara é apavorante.
Era a tal garota que havia sido uma vaca com a Mina no dia da reunião, e eu não sabia o nome, mas, durante a semana, descobri ser Ashley, a famosinha da casa, estrela do YouTube. Aparentemente, as duas não se bicavam há um bom tempo.
Virei a cara o mais rápido possível quando ela virou a câmera, não querendo nem um pouco ver meu estado deplorável na internet para o mundo inteiro.
— Não vira! — Ashley reclamou. — O que vão pensar quando verem alguém virando a cara desse jeito?
— Que alguém não quer estar no seu vídeo? — respondi, apesar de ter soado como uma pergunta. Na boa, em qualquer outra hora, eu não daria a mínima, ela poderia me filmar quando bem entendesse, mas não hoje, com essa cara. Até eu tinha um limite.
— Para de frescura porque eu ainda tenho que entrevistar você.
— Que? — Virei-me para ela, rindo.
Ela parou por um momento, me encarando.
— Hum... Na verdade, deixa pra lá. Não acho legal uma garota se matar de beber, resultando nessa sua cara aí, então prefiro não passar isso para os meus viewers — ela disse, apontando o dedo dela para mim enquanto falava.
Eu poderia quebrar aquele dedo em dois segundos.
— Como é que é? — exclamei, me levantando, puta da vida.
, fica quietinha aí! — Nikki me repreendeu. — E, Ash, por favor, não venha arrumar briga hoje! Ela não quer aparecer e pronto, não precisa ofendê-la por causa disso.
— Ela não me ofende — eu disse, voltando a me sentar e lançando um sorriso sínico para ela. — Já ouviu falar naquele ditado “o que vem de baixo não me atinge”? Então...
Ela fez uma careta para mim.
— Tanto faz — disse. — April, posso te entrevistar?
Engraçado que, para a April, ela pedia permissão. Talvez porque a April não tenha jogado panfletos para todo lado em cima dela, mas, ainda assim, uma baita falta de profissionalismo.
— E-eu?! — April perguntou surpresa.
— Sim, eu tô entrevistando todas as calouras. É coisa rápida, garanto.
— Ah, eu não sei, não...
— Vai, April! É divertido! Você se sente toda famosa! — a incentivou.
Ela pensou por mais uns minutos, mas, no final, respirou fundo e foi, seguindo a Ashley em direção à sala.
— Por que eu odeio essa garota? — perguntei, não esperando nenhuma resposta, mas Mina se pronunciou na hora.
— Porque ela se acha só por ter um canal com mais de 200 mil inscritos.
— Porque ela acha que o fato de ter um canal com mais de 200 mil inscritos deve dar vantagens aqui ou em qualquer outro lugar que ela vá. — Lauren respondeu também.
— Porque ela acha que o fato de ter um canal com mais de 200 mil inscritos dá a ela o direito de julgar quem ela quiser, quando ela quiser, já que ela é a rainha da razão. — Lucy disse também.
— Que tal “porque você viu uma briguinha besta entre ela e a Mina, e já concluiu que ela é a pior pessoa do mundo”? — se intrometeu.
Fingi pensar por uns segundos.
— Não, não é isso, são os outros motivos, mesmo.
Ela revirou os olhos.
— Ela não é tão ruim... Você só tem que aprender a lidar com ela. — Nikki disse.
— Exatamente. O que me lembra de alguém... — voltou a falar, claramente se referindo a mim, já que ela erguia uma sobrancelha, olhando na minha cara.
— Ei! Eu posso ser difícil de lidar, mas não me acho melhor que ninguém! — defendi-me, mas riu perto de mim.
, por favor. Não vou nem perder meu tempo dizendo quando, mas você pode ser igualzinha a ela em vários momentos. Você só prefere não ver.
— Okay. Eu vou ter que concordar com a . — Lauren disse, me olhando com um olhar que parecia até pedir desculpa.
— O que...?
— Tá legal, eu vou falar. — me interrompeu. — Você não perde uma oportunidade para atacar o , assim como a Ashley não perde uma oportunidade para atacar a Mina. Você julga o que não conhece, o que todo mundo faz, então... O que mais? Ah, você gosta das coisas feitas exatamente do seu jeito, como eu gosto das coisas do meu jeito também. Tá vendo? Ela não é um monstro.
Suspirei e encolhi os ombros, me dando por vencida, porque eu estava com preguiça demais para me defender neste momento.
— Tá, mãe. Agora, deixe-me.
Mas eu ainda não gostava dela, que fique bem claro! Eu sei, eu sei, a briga era entre ela e a Mina, e eu não deveria comprar a briga dos outros, mas o fato de que a Mina estava quieta, com “cara fechada”, me dizia que, talvez, não fosse uma briga qualquer. E eu, no lugar dela, não gostaria nada de ouvir minhas amigas defenderem minha inimiga. O dia de ontem que o diga! Além do mais, eu já havia comprado aquela briga há uma semana... Vou fazer o que? Existem coisas que não podem ser desfeitas.
— Pois eu acho uma ofensa vocês compararem a com a Ashley. Elas podem ter coisas em comum, mas isso não muda o fato de que, no final, a é legal, e a Ashley é chata, metida e só pensa em si. — Mina voltou a falar, e eu a olhei, surpresa, porque nunca havia ouvido sua voz em um tom tão rude.
Na verdade, eu nunca havia ouvido a voz dela nem em um tom levemente rude. Ela estava sempre feliz.
— Tá legal. Para quem não gosta da Ashley, vocês estão perdendo muito tempo falando sobre ela, não acham? — Suzy se pronunciou pela primeira vez, e todo mundo acabou concordando. — A comida está pronta. Vamos! Deixem isso pra lá!
Com prazer, eu não só deixei aquilo para lá como tive a honra de ser a primeira a pegar comida.

Depois de comer e conversar mais um pouco com as garotas, a única coisa em que eu conseguia pensar era na minha cama. E foi para ela que eu fui. Acabei dormindo quase a tarde inteira e teria dormido mais se não fosse pela me acordando para ir ao jogo. Felizmente, quando acordei, meu rosto já não estava mais inchado, eu só tinha cara de sono, mesmo, que foi embora com um banho quente.
Você pensaria que o local do jogo seria pertinho; ali, ao redor da universidade, mesmo, mas se engana. Decidiram que seria uma boa ideia construir o estádio da UCLA a mais de meia hora de distância da UCLA. Maravilha. Felizmente, uma de nós tinha carro: a . Carro esse que quase nunca era usado, mas era importante em horas como esta.
— Eu senti falta disso — eu disse quando nos sentamos na arquibancada, sentindo o vento jogar meu cabelo para todo lado.
— Você parou de ir aos jogos? — perguntou, me olhando de lado.
— Eu ia, no começo, mas não era tão divertido sem o jogando, então parei — respondi.
A realidade é que o único motivo de eu ir aos jogos era para torcer pelo ; consequentemente, eu acabava torcendo para o time da escola, mas só quando ele deixou o time foi que percebi que não estava nem aí para o time sem ele. No geral, eu não estava nem aí para nenhum time. Eu odiava futebol, o americano ou qualquer outro. No máximo, numa Copa, ou algo assim, eu assistia a uns pedaços dos jogos da seleção, mas quase nunca. Eu gostava de torcer para o meu amigo e vê-lo jogar bem, apenas.
Algumas das garotas que estavam na cozinha, hoje, mais cedo, estavam ali, também, para ver o jogo. Eu tinha April e ao meu lado, e estava rezando secretamente para que não aparecesse, ou, se aparecesse, sentasse longe o suficiente, isto é, nas arquibancadas do outro lado do campo.
— Que horas começa? — April perguntou, olhando ao redor com curiosidade.
Ela também nunca havia ido a um jogo de futebol. De acordo com ela, “tinha gente demais para o meu gosto!”.
Olhei a hora no meu celular. Era 4h38 p.m.
— Daqui a uns 20 minutos — eu respondi. — Não tem jeito de eu ver o , antes de começar, né? — perguntei a , e ela balançou a cabeça, negando.
— Por quê?
— Queria desejar boa sorte. Não deu pra fazer isso ontem — respondi, ganhando um sorriso dela.
— Por que você não diz coisas fofas assim com mais frequência, hein? — ela perguntou, me dando um leve empurrão pelo ombro.
— Bom, eu diria, se você não fizesse uma cerimônia toda vez... — disse, e ela revirou os olhos.
Eu fiquei ocupada, mexendo no meu celular, enquanto o jogo não começava. Algumas das garotas seguiam meu exemplo, como a e a Lucy. As outras conversavam entre si, menos a April, que estava quieta, só observando cada detalhe do lugar. Conforme enchia, eu a sentia ficar mais tensa ao meu lado.
Faltando alguns minutos para o começo do jogo, senti duas mãos em meus ombros. Olhei para trás e encontrei com e mais dois caras que eu não conhecia. Eles se sentaram atrás de nós.
— Achei que não vinha mais — eu disse, dando um beijo na bochecha dele.
Ele cumprimentou a , a April e deu um “oi” rápido às outras garotas, antes de me responder:
— Não perderia por nada. Tá melhor?
não olhou na minha cara; nem uma olhada rápida, assim, para ver se era eu, nada. Não que eu me importasse. Era bom ele não ter olhado, porque, desta forma, eu não teria a obrigação de pensar em alguma expressão para olhar para ele também. Eu não queria que ele usasse palavras rudes ou algo assim só para que eu me sentisse melhor por ter explodido com ele na noite anterior.
De jeito nenhum.
— Pronta pra outra?
Então eu olhei para os dois caras, junto com eles, com aquela cara de interrogação, até que se tocou.
— Ah! Este aqui é o James, e este é o Joe! — disse, apresentando, primeiro, um loiro ao seu lado e, depois, outro moreno ao lado do .
— Oi! — eu disse, lançando um sorriso rápido para eles.
Eu odiava apresentações, pois eram sempre estranhas, mas é melhor passar por este momento estranho que ficar horas ao lado de quem você nem sabe o nome.
— Prazer, James. — disse. — Você, eu já conheço. Você é chato! — falou, então, ao tal Joe, que abriu um sorriso gigante e a abraçou de costas.
— Também te amo, ursinha.
Isso fazia do James um calouro da Lambda, como o . Mas, espera... Ursinha? Olhei para os dois, que se abraçavam, sem saber se ficava chocada ou se ria. Ursinha? Sério?
— É... Ursinha? — repeti, desta vez, em voz alta.
Joe se virou para mim, ainda com um sorriso.
— É claro. Olha essas bochechas e esse rostinho! — ele explicou, pegando o rosto da e virando para mim. — Não é fofo? Como um ursinho.
Ri, olhando para a cara de tédio dela, que revirou os olhos e deu um tapa na mão dele.
— Feche-se, Joe.
Ele responderia, mas a entrada das líderes de torcida chamou sua atenção. Elas apareceram, junto com o mascote do time, um urso, correndo em seus uniformes azuis, e pararam de frente para a arquibancada. Reconheci cerca de seis delas como Kappas; inclusive, a Nikki, que não só era a Barbie em pessoa, mas também era líder de torcida. A agenda daquela garota era inacreditável.
Elas começaram sua rotina, balançando os pompons para cá, gritando para lá, subindo uma na outra, fazendo pirâmide e aquele negócio todo de líderes de torcida, e eu fiquei distraída, olhando. havia sido uma no colégio por um tempo, mas logo saiu. Eu nunca havia nem tentado, porque, sejamos sinceros, eu até tinha um rebolado maneiro, mas não dê-me uma coreografia porque, eventualmente, vou arruinar o negócio todo.
O sinal de que o jogo estava para começar foi a entrada da banda da UCLA. Eles se arrumaram perfeitamente no campo com seus instrumentos, como pequenos soldadinhos, e era até engraçado. Um vídeo começou no telão, com cenas do time em seus melhores momentos e algumas cenas computadorizadas de um urso feroz, que, como eu já disse, era o mascote da universidade. Começou, então, a passar no telão a imagem de uma porta onde estava escrito “UCLA football”, e logo ela foi aberta e os jogadores apareceram. Todo o caminho feito por eles, até o campo, foi transmitido por lá. Quando apareceram lá embaixo, o público inteiro já estava de pé, animado. Eles pararam por um momento na entrada e foi só uma questão de segundos até os líderes de torcida se juntarem a eles para, então, começarem a correr pelo campo, e a banda finalmente começar a tocar. Os líderes de torcida carregavam bandeiras com letras que formavam “UCLA”, as líderes de torcida pulavam, animando o público, havia jogadores de azul e amarelo para todo o lado, e foi uma baita correria até todos estarem de volta ao seu lugar. A arquibancada, em êxtase, gritava, cantava e até comemorava, como se o jogo já estivesse ganho.
Foi, mais ou menos, nesta hora que senti April segurar meu braço, então olhei para ela, que, agora, sim, parecia assustada. Eram muitas pessoas, muito barulho e muito movimento, e a pobrezinha parecia apavorada. Peguei a mão dela e apertei, tentando passar segurança, porque não tinha muito mais o que fazer, naquele momento, e ela me lançou um sorriso nervoso.
Quando voltei minha atenção ao campo, procurei , mas era quase impossível reconhecê-lo no meio daquele tanto de brutamontes com capacetes. Só consegui vê-lo com a ajuda da , que o reconheceu pelo número do uniforme.
Não demorou muito mais para o jogo começar. O outro time entrou, e a empolgação das pessoas foi mínima, mas fazia parte de não estar jogando em casa. O público era quase que totalmente de torcedores do UCLA Bruins.
E aí, começou este negócio: caras correndo para lá e para cá; bola sendo arremessada; caras se trombando, pulando em cima do amiguinho, derrubando, você sabe. Eu sei que já viu nos filmes, pois é clássico. Eu gostaria de falar, aqui, exatamente tudo que acontecia, mas meus conhecimentos futebolísticos eram bem básicos; tão básicos que, basicamente, tudo o que eu fazia era assistir os caras jogando a bola, um para o outro, e comemorar quando havia um touchdown ou alguém fazia um gol. Ah, e eu também adorava gritar xingamentos quando alguém derrubava um jogador do meu time. Era divertido.
jogou tão bem quanto eu me lembrava. Não só bem, maravilhosamente bem, já que ele fez dois touchdowns e, nesses momentos, talvez, eu tenha assustado a April mais um pouquinho. O importante é que, quase 4 horas depois, nós estávamos saindo do estádio com uma vitória e alguns com menos voz que quando entraram.
— Eu, definitivamente, senti falta disso — eu disse novamente.
colocou um braço ao meu redor.
— E eu senti falta dos seus gritos — disse, me fazendo rir.
Eu era uma das que saíam com menos voz.
— E eu acho que perdi um pouco da minha audição. — April falou, cutucando o ouvido, e nós rimos novamente.
Eu não sabia dizer se ela gostaria de repetir aquela experiência.
— A gente tem que parar com essa mania de combinar com a fala da outra. — Lucy reclamou.
Nós realmente fazíamos aquilo bastante. Mas eu gostava.
— Gosto dela. Não sei se consigo. — Ouvi Joe falar, parecendo lamentar ou algo do tipo, e, por reflexo, eu e viramos para trás, bem a tempo de ver dando uma cotovelada nada fraca no amigo.
— Tá tudo bem aí? — perguntou, e abriu um sorriso para ela.
— Tá, é só o Joe falando besteira de novo... Você conhece a figura.
pareceu bem convencida com a resposta e virou para frente novamente. Eu o encarei por uns segundos extras, o que acabou me rendendo um sorriso da parte dele, e aí, sim, decidi que era melhor me virar para frente. Eu, hein!
Quando chegamos ao carro, o destrancou e, em questão de segundos, eu já estava sentada no banco da frente com as pernas para fora. Eu estava cansada. Definitivamente, nunca mais beberia daquele jeito na minha vida. Não valia a pena. Lauren seguiu meu exemplo, enquanto os outros ficaram de pé, incluindo , e os dois amigos. Eu estava fazendo um ótimo trabalho, ignorando o , inclusive. E era difícil, considerando o tanto de besteira que eu havia o escutado comentar durante o jogo, então eu merecia uns parabéns, ou, talvez, não, pois sabia que aquilo não duraria muito. Eu não aguentava. Sem falar que parar de provocá-lo significaria ir contra minhas palavras da noite anterior, então não rolaria mesmo. Eu só precisava de um tempinho para respirar. Provavelmente, ele estava pensando que, agora, tudo ficaria bem, mas ele que se enganasse.
— Vieram no carro do Joe? — perguntou, e ambos, e Joe, assentiram.
encostou-se à porta aberta do carro, parecendo entediado. Futebol não era a praia dele. Digamos que ele não ficou nem um pouco triste quando eu disse que não iria mais aos jogos. Ele só ia pela companhia, como eu só ia pelo . A diferença é que eu ainda conseguia aproveitar um jogo. Ele não dava a mínima.
— Será que o vai demorar? — perguntou.
— Uns 20 minutos, pelo menos. Devem estar comemorando a vitória. — respondeu, mais uma vez, porque, aparentemente, ele não conseguia ficar com a boca fechada.
E ainda tinham coragem de reclamar de mim.
Todo mundo gemeu em desânimo.
Eu poderia ir embora com as garotas, já que a carona dele eram os caras, mas eu realmente queria dar parabéns pelo jogo. E, tá, poderia facilmente fazer isso depois, mas não teria tanta magia. E magia era importante.
Por isso, nós esperamos. Eventualmente, a galera se envolveu em algum assunto, mas eu não sabia dizer qual porque minha cabeça estava muito bem encostada ao banco e meus olhos muito bem fechados. Eu me lembrava de estar pensando nas melhores jogadas do jogo e, então, ouvir alguém dizer “olha lá ele!”, que foi o que me fez abrir os olhos novamente. Eu realmente havia cochilado, depois de dormir a tarde inteira.
Repito mais uma vez: nunca mais vou beber na minha vida.
Eu o vi aproximando-se, enquanto o pessoal já gritava umas coisas para ele. Quando ele chegou mais perto, eu me levantei em um pulo e corri, pulando em cima dele.
— Parabéns! Você arrasou! — eu disse, apertando-o com toda a força que tinha, o que devia ser algo próximo a nada em comparação a dele.
— Obrigado, ! — ele disse, me abraçando de volta, com um sorrisão no rosto.
Aproveitei e segurei seu queixo, puxando seu rosto para mim e dando um beijo na sua bochecha.
Foi estranho. Não o beijo na bochecha dele. Quando eu estava me afastando, meu olhar automaticamente desviou para o lado em que todo mundo estava, passando pelo , e, naquele milésimo de segundo, vi uma coisa nos olhos dele: mágoa, talvez. Inveja? Ciúme? Eu não saberia dizer, pois foi rápido, mas estava lá, por menos de um segundo. E aquilo me desconsertou por um momento. Felizmente, neste momento, todos estavam distraídos, tendo sua vez de comemoração com o . E, então, eu obriguei aquele momento a acabar porque eu me recusava a aceitar o fato de que, por causa de algo pequeno assim, meu coração tenha disparado.
Sai, sai, sai, sai, sai, sai, sai!
Até porque estava claro, para mim, que o único motivo para o meu coração estar disparado era a alegria de ver o . Não um olhar idiota. E ele nem tinha o direito de me lançar um olhar daqueles. Era ridículo.
Bom... Pensando por outro lado, era até legal. Eu estava esfregando na cara dele o que ele tinha perdido. E eu nunca tinha pensado em fazer aquilo antes. Ainda era ridículo ele ficar com ciúme de uma ceninha com o , porque, dã, era o . Mas eu sempre podia relevar e olhar o lado bom da coisa:
Perdeu, otário!
Tá legal. Agora, o momento acabou de verdade, juro.
— E aí? Onde a gente vai comemorar? — perguntou quando toda a euforia passou.
fez uma careta.
— Hoje não dá, pessoal. Eu tô acabado. Sair ontem com vocês não foi a melhor ideia do mundo.
— E, ainda assim, fez dois touchdowns. Alguém estava on fire hoje... — eu disse, nem um pouco decepcionada com a notícia.
Eu não estava no melhor dos meus dias. A melhor coisa que eu poderia fazer era ir para casa e tentar estudar um pouco; assim, para acabar com o dia de vez.
— E, agora, alguém precisa de uma boa noite de sono porque... Adivinha? Amanhã tem treino. Em pleno domingo! — reclamou desanimado.
aproximou-se dele com um sorriso no rosto.
— Eu estou tão feliz por não ser você, neste momento.
Ele riu, puxando-a num abraço de lado.
— Chata.
— Então vamos lá! Vamos, vamos! e eu temos muito o que fazer, hoje, ainda. — Joe falou, quase pulando no mesmo lugar.
Algo me dizia que ele era levemente hiperativo.
— Ah, é? — perguntou. — Nem chamam.
soltou uma risada que me pareceu bem forçada e balançou a cabeça.
— O que nós temos para fazer é treino. Não acho que vocês gostariam muito... — ele justificou.
— Vocês já não tiveram treino, hoje, pela manhã? — questionou, e eu juro que pude ver engolir em seco.
— Bem... Sim, mas, você sabe, nós acabamos de voltar das férias... O treinador quer compensar pelo tempo perdido.
Ele estava mentindo. Estava bem claro, para mim, mas, aparentemente, não para os outros, que aceitaram, na hora, que ele tinha um treino em pleno sábado às 21h00 da noite. Eu poderia desmascará-lo, mas, aí, iria contra minhas regras de deixá-lo em paz, pelo menos, naquele dia, então deixei quieto. Se ele tinha que mentir sobre o que fazia era porque não era bom, então eu não estava nem um pouco a fim de saber.
— Tá legal. Vamos lá, então. — disse, por fim.
Depois de uma rodada de despedidas, eu e as garotas entramos no carro, e eles foram ao deles, e, então, eu estava indo para casa, onde estava minha cama e uma porrada de textos para ler me esperavam.

Um barulho desconhecido me fez abrir os olhos. Eu estava dormindo? Bom, aparentemente, sim, já que os textos que eu me lembrava de estar lendo estavam, agora, jogados sobre mim. Eu sabia que ler deitada não era a melhor das ideias.
Olhei ao redor, mas não consegui ver nada porque o quarto estava um verdadeiro breu, não vinha nada de luz de lugar algum, o que era estranho. Eu só morava ali há uma semana, mas tinha certeza que, mesmo com a janela fechada, um pouquinho de luz entrava. Juntei os papéis em cima de mim e os coloquei na cabeceira ao lado da cama. Voltei a fechar os olhos, com sono demais para pensar na falta de luz.
Foi quando eu ouvi outro barulho.
Desta vez, meu coração disparou porque não era um barulho qualquer, era o barulho de um passo, e estava perto demais. Mais uma vez, tentei enxergar alguma coisa. Sem sucesso. Eu já mencionei que era medrosa? Pois bem, eu era.
?! — chamei paralisada na mesma posição.
Ela não respondeu.
Respirei fundo e contei até cinco. Estava tudo bem. Eu só tinha que parar de ser paranoica. Provavelmente, havia sido um barulho lá fora. Era sábado, nós vivíamos em um bairro que consistia, basicamente, em casas de irmandades e fraternidades, barulhos estranhos eram mais que comuns. E, também, a probabilidade de que tenha sido só alguma coisa da minha cabeça era bem grande.
, agora, você puxará o lençol, cobrirá sua cabeça, fechará os olhos e dormirá.
É isso. E foi o que fiz. No movimento mais rápido da minha vida, puxei o lençol e cobri minha cabeça. Estava tudo bem. “Assombração era coisa de filme”, minha mãe dizia. Eu já tinha 18 anos, já havia passado da hora de parar de acreditar nisso.
E eu estava quase acreditando, quando outro barulho fez cada pelinho que eu possuía no corpo se arrepiar. Era uma risada. Eu sei. Você deve estar achando que sou louca e, talvez, eu estivesse mesmo. Meu coração batia tão rápido que eu poderia muito bem estar alucinando. Até porque não era só uma risada comum. Era uma daquelas finas e exageradas que você ouve muito quando é criança porque seus pais insistem que palhaços são divertidos e a melhor opção para a sua festa de aniversário. Mas eles nunca são.
— O que foi isso? — Ouvi Mina perguntar na cama de cima da minha.
Eu não sei dizer se fiquei feliz ou triste. Feliz porque eu não estava louca ou triste porque era real. Eu não tinha sido a única a ouvir.
— Você ouviu? — sussurrei para ela. Minha voz saiu trêmula porque... Bem, eu estava me cagando de medo.
É de se esperar.
— Eu ouvi alguma coisa... Foi você?
Eu não precisei responder, porque, não mais que um segundo depois da pergunta dela, alguém riu de novo; desta vez, a risada foi mais fina e mais longa.
— Ai, meu Deus! — Ok, eu estava entrando em pânico. Cada músculo do meu corpo estava contraído e tinha uma grande chance de que eu fosse começar a chorar a qualquer momento agora. Chorar duas noites seguidas era “uó”, vamos combinar.
, o que foi isso? — Mina perguntou, mas sua voz quase não saía mais.
— Eu não sei — respondi, me encolhendo do melhor jeito que eu conseguia.
— April? ? Se forem vocês, isso não tem a mínima graça!
Mais uma vez, ninguém respondeu. Mas foi nesta hora que eu me toquei. É claro que a não responderia. Era ela quem estava causando aquilo tudo. Ela era a única, naquele quarto, que sabia que eu não gostava nada de palhaços. Estava tirando uma com a minha cara. Mas deixe-a.
— Ah, , você me paga! — eu disse, jogando o lençol longe.
— O que foi? — Mina questionou, mas eu nem me dei ao trabalho de responder, pois eu desmascararia a rapidinho.
Levantei-me da cama, pronta para ir até o interruptor de luz, mas só consegui dar dois passos. Meu corpo bateu de frente com outro e, no momento em que percebi que aquele não era um corpo feminino, minha garganta começou a trabalhar. No mesmo segundo, algo se acendeu na minha frente, só o suficiente para eu ver a cara da coisa que me dava pesadelos quando criança. Eu não sei nem descrever o terror. Eu sentia meu coração na garganta, tinha lágrima nos olhos e nem conseguia mais gritar. Minha garganta não funcionava. Em compensação, a da Mina estava a todo vapor. Joguei meu corpo para trás, só para ter a visão de outro monstro daqueles mais atrás. Eles tinham os sorrisos mais assustadores que eu havia visto na vida. E eu já havia visto um bom tanto.
Quando eu caí de volta na minha cama, em uma tentativa idiota de me proteger, me joguei contra a parede, peguei meu travesseiro e atirei na coisa, que havia, então, começado a rir; daquele jeitinho que me dava calafrios. E eu continuei me espremendo contra a parede, conforme ele se aproximava. Eu tinha certeza que estava chorando. Aquilo não estava acontecendo. Não, não, não, tinha que ser algum sonho, e logo eu acordaria com a me balançando preocupada. Logo, logo. De preferência, antes que aquele negócio me tocasse, porque ele estava muito perto; perto o suficiente para eu acertá-lo com socos e chutes, mas não conseguia mexer um músculo sequer. Era como se estivessem congelados.
E, então, a luz do quarto se acendeu. A risada assustadora virou uma gargalhada que eu conhecia muito bem e o desgraçado se jogou para o lado, caindo de costas, ao meu lado, na cama.
— Que merda é essa? — alguém perguntou. , provavelmente, porque reconheci a voz, mas não me virei para ter certeza. Eu ainda não conseguia mexer nada, só encarar com cara de idiota o ser fantasiado ao meu lado. — Mina? — Agora, a voz dela estava preocupada, o que me fez descongelar um pouco.
Virei a cabeça e a vi correndo em direção à minha cama, mas a de cima, onde Mina dormia. Foi quando percebi também um outro corpo também fantasiado na ponta, aproximando-se.
— Não! Sai, sai, sai! — Ouvi Mina dizer. Ela, definitivamente, estava chorando e não parecia ser pouco.
O imbecil ao meu lado, finalmente, parou de rir.
— Ei, Mina! Calma! Sou eu, o Joe! Calma!
E, então, eu voltei a mim.
Filho da puta.
Não, eu gostava demais da mãe dele.
Desgraçado.
Com toda a força que eu tinha, naquele momento, que não era muita, já que eu ainda estava meio trêmula, dei um soco no primeiro lugar que vi: o estômago do . Ele não teve tempo de se proteger, pois estava olhando para cima, curioso.
— VOCÊ FICOU LOUCO?! — gritei. — PERDEU A CABEÇA?!
Ele não me respondeu. Era difícil falar, depois de levar uma no estômago.
Limpei meu rosto, que descobri nem estar tão molhado assim, e me levantei correndo, indo acudir, também, a Mina. April havia se juntado a , e as duas estavam em cima da cama dela, tentando acalmá-la.
— Mina, tá tudo bem, é só o e o Joe. — April disse num tom suave. Todo tom dela era suave, mas esse batia recorde.
Eu gostaria daquela voz me acalmando a qualquer hora.
Mesmo assim, não parecia ter muito efeito na Mina. Ela abraçava seus próprios joelhos, e seu corpo inteiro tremia.
— Mina? — chamou, depois de se levantar e parar ao meu lado.
Ela ergueu levemente a cabeça, mas quando o viu, gemeu e se encolheu ainda mais.
— Tá vendo o que você fez? — disse, dando um tapa no braço dele.
— Ai! — reclamou. — Como que eu saberia que ela também tem medo de palhaço?
— Ela não tem medo, seu idiota! Ela tem fobia! — praticamente rugiu para o garoto.
Eu nunca havia a visto olhar para ele brava daquele jeito. Nem quando ele me traiu. Até eu fiquei com medo do olhar dela.
— O quê? Ela nunca me falou.
— Até porque isso é algo que se diz o tempo todo, né? “Oi! Meu nome é Mina. Tenta não invadir meu quarto, no meio da noite, fantasiado de palhaço, porque eu tenho fobia de palhaços” — zombei.
Ele fez uma careta para mim, o que me fez mostrar a língua para ele, o que o fez revirar os olhos e continuaria se o Joe não interrompesse:
— Hum... Agora seria uma boa hora para tirar essa roupa, né? — disse, já arrancando a peruca.
assentiu, e logo tudo o que restava neles era a maquiagem e a roupa que usavam por baixo, claro.
— Vão ao banheiro, agora, e só voltem com a cara limpa. Vocês não querem saber o que vai acontecer se tiverem qualquer resquício de palhaço em vocês. — mandou, e até eu fiquei tentada a obedecer de tão séria que ela estava.
Eles estavam prestes a abrir a porta quando ela se arreganhou e a Nikki apareceu acompanhada de, praticamente, metade da casa.
— O que...? — ela questionou quando viu e Joe com as caras pintadas.
— Temos que ir. — disse, na hora, parecendo apavorado com a visão da Nikki. Ele empurrou o Joe e os dois abriram caminho entre as garotas, porta a fora.
— O que aconteceu aqui? Eu ouvi gritos. — Nikki perguntou, aproximando-se. Ela viu, então, Mina encolhida na cama e ficou mais preocupada ainda. — Sério, meninas! O que aconteceu?
Enquanto e April faziam seu trabalho, acalmando a Mina, já que, agora, os seres que ela tinha medo não estavam mais presentes, expliquei o que aconteceu:
— Então foi isso. Eu não sei nem como eles conseguiram entrar... — terminei. Quando disse a última frase, ela ficou meio vermelha e cobriu os olhos com uma mão, balançando a cabeça para os lados.
— Eu vou matar esses dois.
— Ah, me desculpa, mas dá pra culpá-los? — Ashley se meteu.
— Como é que é? — perguntei incrédula.
— Você o deixou pelado na frente de todo mundo, sábado passado. Ele se vingou e de uma maneira bem menos cruel. Se parar pra pensar, a culpa da Mina estar assim é sua.
Eu posso dizer que minha boca ficou aberta por um bom tempo, em choque. Ela não podia estar falando sério.
— Isso é ridículo — uma voz nova falou. Era Tina o nome da garota, se eu não estava enganada. — A pode até ter provocado, mas quem assustou as duas foram o e o Joe, então a culpa é deles e pronto.
Sorri para ela, já simpatizando.
— Mas, se a não tivesse provocado, nada disso teria acontecido — outra, que eu não sabia o nome, falou.
Suspirei para me acalmar. A adrenalina ainda estava grande e a vontade de pular em alguém não era pouca.
— Que discussão besta. — Mina falou com sua voz visivelmente mais controlada. Em compensação, seu rosto estava inchado, e os olhos, completamente vermelhos. — Por que esse monte de gente aqui, hein? O show acabou. Cada uma pode voltar ao seu quarto. — Alguém não estava de bom humor. Mesmo assim, ninguém se mexeu, ficaram encarando-a. — Qual é, galera?! Mandem-se! Eu tô bem! Dois palhaços não me derrubam, não. Eu, hein.
Aí, sim, começaram, uma por uma, a sair. No final, ficaram só as habitantes do quarto e a Nikki, que ainda não parecia acreditar na história toda. Não entendi o porquê. era um idiota, que tentou se vingar de mim do jeito mais besta do mundo e acabou atingindo quem nem tinha nada a ver com a coisa. Fácil, fácil.
— Tem certeza de que está bem? — eu perguntei de pé na escada para subir na cama dela.
— Sim, absoluta. Cadê eles?
— No banheiro, tirando a maquiagem. — respondeu.
— E que maquiagem, hein?! Vocês viram como estava certinha? A gente tem que dar uns pontos por isso — ela disse, e eu tive certeza que ela estava bem agora. — Mas você ainda ganha mais pontos, .
Franzi o cenho, confusa.
— Pontos?
— É. Deixar um cara pelado em uma festa dá pontuação máxima, o 10. Invadir o quarto da garota, fantasiado de palhaço e, de bônus, assustar a amiga que tem fobia dá 7, eu acho.
Todas nós ficamos olhando para ela por um tempo, em silêncio. Perguntei-me se ela estava delirando, mas parecia bem lúcida.
— Você tem sérios problemas. — disse, afastando-se um pouco.
Considerando que elas estavam abraçadas, esse “pouco” só as desgrudava um pouquinho, quase nada.
Eu dei de ombros, enquanto a April ria.
— Se eu tô ganhando, tô feliz.
De repente, os garotos entraram pela porta e seguiram imediatamente para a cama da Mina. Os dois começaram a pedir desculpa e a se justificar ao mesmo tempo. Eu não entendia nada, e ela, provavelmente, também não.
— Vocês são muito cara de paus, mesmo. Fazem o que fizeram e ainda acham que ela vai desculpar rápido assim. — reclamou, bufando de raiva.
— Tá tudo bem. Estão desculpados.
Como é?
Eu não fui a única surpresa porque, mais uma vez, todas nós a encarávamos confusas. Enquanto isso, ela sorria para eles, que comemoravam, subindo na cama e dando beijos no rosto dela.
Como é que é?
Eu estava decepcionada. Na land, a gente guarda rancor e a gente se vinga. Talvez eu tenha me precipitado, achando que havia acabado de arrumar uma parceira no crime e uma parceira no time. tinha arrumado o Joe, então mais que justo que eu arrumasse alguém também. E a Mina parecia ser o alguém perfeito.
— Fácil assim?! — eu perguntei, e minha voz até saiu aguda de tão indignada que eu estava.
— Sim. Foi uma boa vingança, eu tenho que admitir.
— Tá legal... Isso é estranho. — Nikki disse. — De qualquer maneira, vocês dois, pra fora! Eu vou ter uma conversinha com vocês lá embaixo.
Eles a bajularam mais um pouquinho e saíram; até tentaram se despedir de mim e da , mas os ignoramos. A April era boazinha demais para ignorar alguém, então eu relevei.
— Você tá falando sério?! — eu protestei assim que eles saíram com a Nikki pela porta.
Eu lutaria pela minha parceira.
— É claro que não, tá louca? — ela respondeu, tirando o sorrisinho do rosto. E lá estava eu, de novo, confusa, olhando para a cara dela. — Eu só fingi para eles pra aumentar a surpresa. Eles esperarão uma vingança sua, mas não minha.
Eu não acho que exista um sorriso maior que o meu, naquele momento.
— Eu sabia que você não me decepcionaria desse jeito — falei, subindo na cama dela e jogando meus braços ao seu redor.
e April já haviam sido obrigadas a se afastar minutos antes com o ataque dos garotos.
— Ah, não... — começou. — Vocês não podem estar realmente considerando continuar com isso.
— Estamos, sim — eu disse.
— Por quê? Você aprontou, ele aprontou, tá tudo igual. Deixa isso quieto.
— De jeito nenhum. — Mina disse.
— E nós estamos recrutando, aliás. April? — Virei-me para ela com um sorriso bem sugestivo no rosto.
Ela balançou a cabeça.
— Não, obrigada. Eu tô com a nessa. Não gosto de brigas.
— Tá tudo bem. Só nós duas juntas já fazemos um baita estrago. — Mina falou, e eu assenti, concordando 100%.
que me aguardasse!
E, falando nele, percebi que ainda não podia dar boa noite a ele. Por isso, eu disse um “já volto!” rápido às meninas e saí atrás deles.
— A gente conversa melhor amanhã. — Ouvi Nikki dizer quando cheguei ao topo da escadaria.
Desci a escada correndo, enquanto ela fechava a porta. Quando ela se virou para trás, eu estava passando por ela, deixando um sorriso de presente. Você pensa que eu estaria brava, neste momento, mas eu mal podia conter minha felicidade. Saí para fora, mesmo sabendo que eu não estava com o pijama mais indicado para uma volta. Joe e olharam para trás e pararam quando me viram, ambos com o olhar curioso.
— Então... É guerra? — perguntei, apoiando minhas costas à porta.
Tentei ficar séria e não sorrir, mas um sorriso fraco de lado acabou escapando.
aproximou-se um pouco com um sorriso bem parecido com o meu.
— Não era o que você queria? — perguntou de volta, e eu dei de ombros.
— O que eu quero é passar por cima de você, então... Sim. Porque nós dois sabemos quem vai ganhar essa.
Ele riu e balançou a cabeça.
— Ah, é? E o que te faz ter tanta certeza? — questionou, as sobrancelhas erguidas. Enquanto falava, aproximou-se um pouquinho mais.
— Eu te deixei nu na frente de umas 200 pessoas. Você se vestiu de palhaço para me dar um susto. Eu acho que isso responde sua pergunta.
— Com isso, você quis dizer: você jogou baixo, eu não — ele falou, aproximando-se mais um pouquinho, até que nossos corpos quase se tocavam, mas só quase.
Dei de ombros mais uma vez.
— Eu nunca disse que tinha regras. — E eu estava adorando aquela conversa.
— Eu posso te surpreender, sabe... — disse, me olhando nos olhos.
Eu sempre achei irritante como eu tinha que olhar para cima, para olhá-lo nos olhos, mas fazia parte.
— Eu tenho certeza que não — afirmei, e ele balançou a cabeça.
— Tá bom, então.
— Tá bom.
Mas os olhos dele não deixavam os meus. Não tinha mais sorrisos, nem caretas, só olhares. E a noção de que ele estava bem mais perto que devia. E um pouquinho de calor, eu admito. A Califórnia tem dessas coisas.
Acredite em mim, tão próxima de um cara como ele, qualquer uma fica com um pouquinho de calor. Eu não tinha problemas em admitir que ele tinha um puta de um corpo, um puta de um rosto e, de bônus, um olho azul que me fazia até perder o rumo às vezes. Não era à toa que havíamos namorado por mais de dois anos. Eu sempre tive um ótimo gosto. E eu sabia que tinha efeitos parecidos, se não, maiores, nele, o que deixava aquilo tudo mil vezes mais divertido.
Por um momento, meus olhos acabaram descendo para seus lábios, que estavam bem atraentes, e, então, me lembrei de como foi bom quando nos beijamos há exatamente uma semana. Não foi nem um pouco ruim.
— Hum... Desculpa interromper, mas vocês vão brigar ou se beijar? Porque eu preciso saber se fico ou não. — Joe se pronunciou, me lembrando de que ele também estava lá, mas decidi que, agora, sim, eu estava pronta para dar boa noite.
— Hoje não — respondi, abrindo um sorriso. — Boa noite.
Eu sabia que, se o beijasse, estragaria tudo. Ele viajaria na maionese, pensando que nós tínhamos alguma chance de acontecer novamente, e adeus guerra que eu queria demais vencer.
Não iria rolar.
Abri a porta para entrar e, quando a fechei, ainda estava paradinho na mesma posição em que eu o deixei.
Bom saber.



— Olá! Boa tarde! Boa tarde! Olá! Oi! Boa tarde! Boa tarde! Olá! Boa tarde! Com licença! A senhora pode...? Obrigada. Boa tarde!
Níveis de simpatia extremamente baixos e diminuindo.
Eu gostaria de ter uma armadura igual a do Homem de Ferro, só para ter noção do que estava acontecendo no meu corpo o tempo todo e para sair voando por aí também, obviamente. Na verdade, eu gostaria de ser Tony Stark. O cara é podre de rico, é um gênio e tem várias armaduras. Ah! Ele é um vingador, o que significa que passa o tempo com o Capitão América. Eu, provavelmente, seria gay. E com a Viúva Negra também, então bi.
— Terra chamando ! Alô?! Acorda, garota! — Falando em bi, Mina passava a mão na frente do meu rosto, e tenho a certeza de que ela estava pronta para me dar um peteleco quando foquei nela. — Tá dormindo?
Parecia que sim, já que eu estava parada no mesmo lugar, ainda com um monte de folhetos na mão, enquanto as pessoas passavam ao meu redor; pessoas estas a quem eu deveria estar entregando os panfletos.
— Acho que esse sol tá começando a queimar meu cérebro.
Eu não estava mentindo. Você poderia fritar um ovo rapidinho no topo da minha cabeça. Eu adoraria um ovo frito também, ou uma coca bem gelada; melhor, os dois.
— Vem! Vamos nos sentar um pouco! — Mina disse, me puxando para a árvore mais próxima.
Sentamo-nos na grama, mesmo, de frente para a fonte de água, que parecia estar me chamando para cair nela.
Veja bem, esta era a semana em que nós divulgávamos nosso projeto; aquele da , o de dar um trato nos animais de rua, para que sejam adotados, você sabe. Então , a chefona, nos separou em duplas e designou a cada dupla um lugar para entregar panfletos. Eu e Mina fomos premiadas, pelo menos, era o que pensávamos, com o campus principal. Aquele lugar lindo e aberto que usavam para promover a universidade. Sério! Joga “UCLA” no tio Google, vá às imagens e babe.
Enfim, nós ficamos felizes, pois o lugar era perto, e tudo mais. Isso até chegarmos lá e nos lembrarmos de um detalhe: não havia árvores naquele inferno! Ok. Até havia algumas aqui e ali, mas, basicamente, 70% era sol. E não um sol qualquer, mas o sol das 15h00 da tarde! E se você está pensando “por que não escolhem uma sombra e ficam lá?”, eu te respondo: as sombras são tão poucas que são os lugares em que o pessoal para pra conversar, sentar, ler, ouvir música, ou seja, o movimento só acontecia no sol. E eu estava há, pelo menos, uma hora sob aquele bendito sol. Agradeci a todos os deuses do mundo por eu ter colocado um vestido naquele dia, afinal, poderia ter colocado uma calça, como a Mina, e aí haveria uma chance de que, neste momento, eu não só estivesse jogada dentro daquela fonte, como também só com calcinha.
— Você acha que a ficará muito brava se eu guardar o resto destes panfletos para amanhã? — perguntei, encarando a pequena pilha de papéis que eu ainda tinha em mãos.
— Provavelmente. Ela tem mais 150 prontos para amanhã. — Mina respondeu, e eu encostei a cabeça à árvore atrás de mim e suspirei.
Não é como se eu já não esperasse aquilo, mas doía ouvir.
— É por uma boa causa. É por uma boa causa. É por uma boa causa... — repeti.
Eu faria daquilo o meu mantra, naquela semana.
— Escuta... Você já pensou em alguma coisa?
Eu sabia que ela estava se referindo à nossa vingança, porque tudo o que fizemos, nos últimos dois dias, foi pensar em ideias para aquilo. Até aquele momento, nenhuma parecia boa o suficiente.
— Eu tive uma ideia na aula de Química, hoje, mas, sei lá, não tenho certeza se é boa... — respondi, lembrando-me do momento exato em que estávamos no laboratório e a dupla ao lado conseguiu confundir dois potes de cores totalmente diferentes, fazendo com que fôssemos dispensados mais cedo, pois o cheiro no laboratório era insuportável.
— E qual é? — ela perguntou, parecendo animada.
Era uma ideia, afinal.
— Sabe daqueles sprays que dizem ser muito, muito, muito fedidos? — perguntei, e ela logo assentiu. Eu já tinha visto alguns desses em programas de TV, pegadinhas e tal, mas nunca havia realmente cheirado um. — Então, pensei que a gente poderia infestar as coisas do e do Joe com aquilo... Cama, roupas, sapatos, tudo o que estiver disponível no quarto deles.
Eu pensei que ela faria uma careta e falaria algo do tipo: “Isso é ridículo! Cadê a garota que o deixou pelado na frente de todo mundo?”, e olha que pensei naquilo em menos de um minuto, só olhando para uma pilha de roupas largadas em um canto. Felizmente, eu estava falando com a Mina, ou seja, sempre tinha uma surpresinha por ali.
Devagar, ela abriu a boca e arregalou os olhos, como se tivesse assimilando a informação, então cobriu a boca com as mãos e, quando retirou as mãos da frente, havia um sorriso enorme no lugar.
— Amei! Adorei! Vamos fazer isso logo! — exclamou, e eu ri.
Seria spray fedido, então. Não era como se tivéssemos várias opções de ideias para escolher, de qualquer maneira.
— Calma, pois o plano ainda tem falhas. A gente não pode entrar na casa deles pela madrugada, porque eles estarão lá, e esse seria o horário ideal para não sermos vistas — eu disse, e ela parou por um momento, parecendo pensar.
— É, será um problema. Que tal pela manhã? — sugeriu. — Eles e a maioria dos caras que moram lá têm aula pela manhã.
— Talvez, mas, se alguém pegar a gente...
— Saberão que foi a gente, de qualquer maneira. Qual é o problema de nos verem? A gente desconversa, fala que alguém nos convidou, só pra fazer o trabalho em paz e pra gente se mandar depois. — Ela deu de ombros como se aquele fosse o plano perfeito.
— Na última vez em que deixei claro que fui eu quem aprontou para o lado do , acabei no escritório daquela Alice sei-lá-das-quantas. Não quero voltar tão cedo, obrigada! — eu disse, e ela fez uma careta, apoiando o rosto na mão.
— O que será, então?
Suspirei. Eu não tinha um plano melhor.
— Pela manhã é o melhor horário que nós temos. Nós entramos, fazemos de tudo para não sermos descobertas, fazemos o serviço e nos mandamos. Joe e saberão bem que fomos nós, mas não terão provas; isto é, se nós formos realmente discretas. — Eu esperei que ela concordasse e o assunto fosse encerrado, mas ela continuava com uma expressão confusa no rosto. — Que foi?
— Simples assim? — ela perguntou e, então, fiquei confusa.
— Eu imagino que não será tão simples, na hora, mas a gente se vira — respondi, encolhendo os ombros.
— É que me passou pela cabeça... Como nós entraremos? Porque não é como se as portas ficassem abertas para quem quiser entrar o tempo todo.
Tá legal. Isso estava me saindo mais trabalhoso do que eu gostaria. Era só uma pegadinha. O quão difícil poderia ser?
— Nós descobriremos um jeito de entrar — eu afirmei, mesmo não fazendo ideia de como, no momento. — No meio da madrugada, eles conseguiram entrar na nossa casa. Por que nós não conseguiríamos?
— É claro que eles conseguiram... Abriram a porta para eles... — ela falou, rindo.
Encarei-a confusa, mais uma vez.
— Oi?
— A Nikki... Ela os deixou entrar... — disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, mas, não, não era.
Por que a Nikki os deixariam entrar para nos assustar? Além do mais, ela pareceu tão surpresa quanto a gente quando apareceu no quarto.
— Por que a Nikki os deixariam entrar pela madrugada na nossa casa?
— Ah, você não sabe... — continuou, tirando o sorriso do rosto e adquirindo uma expressão meio... Assustada?
— Não sei o que? — questionei, e ela fez uma careta, abaixando os ombros.
— Ah, merda! — xingou, com a expressão mais desanimada do mundo, o que só me deixava ainda mais curiosa. Poxa! Eu gostava de saber das coisas. — Eu tenho que aprender a fechar minha boca. Sério! Agora, tenho que te dar a notícia e não quero fazer isso. Você ficará brava, vai querer descontar sua raiva em mim, por não ter descoberto antes, e não levo desaforo pra casa, você sabe. Nós brigaremos, e a me matará por brigar com você e por te contar tão cedo... Ah, merda...
— Terminou? — perguntei quando tive certeza de que ela havia fechado a boca para valer. Ela assentiu com cara de quem havia comido comida estragada. — Então, vai, desembucha logo, porque você fez um péssimo trabalho, tentando não me deixar interessada.
Ela suspirou, assentiu, revirou os olhos, coçou as pernas, alongou o pescoço e, finalmente, abriu a boca para falar:
— Tá legal! — começou. — Eu serei direta, beleza? Jogarei aqui, no ar, e pronto. — Assenti. — Então... A Nikki e... A Nikki e o ... Elestêmumcaso — disse de uma vez.
— Um caso?
— É, um caso. Sabe, eles se pegam de vez em quando. Na verdade, no ano passado, eles chegaram bem perto de namorar, mas o ainda estava todo encalhado na sua, e aí, quando ele estava pronto, ela não quis mais... É uma baita confusão! — ela explicou.
Eu assenti lentamente, imaginando os dois juntos.
Era isso?! Sério? Todo esse drama para me falar que eles têm um caso? Grande coisa! Será que estavam pensando que eu vivia neste mundo paralelo, pensando que o havia passado o último ano chorando pelos cantos por causa de mim e sem se relacionar com ninguém? Porque parecia ser o caso. E eles pensarem isso me deixava brava. Não o fato de ele estar pegando alguém. Para ser sincera, ele merecia era uns parabéns, porque até eu gostaria de pegar a Nikki de vez em quando.
— Ok. Por que eu deveria estar brava? — perguntei, encarando-a com uma expressão entediada, eu diria.
— Seu ex ficando com uma irmã? Não só uma irmã, mas a Nikki, a rainha da casa?
O que me levava a questionar como ele conseguiu. De acordo com as minhas contas, Nikki era três anos mais velha que ele e, como mencionado, a rainha da Kappa Kappa Gamma. Não era pouca coisa. Ele não havia perdido o toque, eu tinha que admitir, e isso também me incomodava um pouco, mas não os dois ficarem, pelo amor do carinha lá de cima!
Eu levantei os ombros, não dando a mínima àquilo.
— Eu realmente não me incomodo — disse, e a boca dela se abriu um pouco em choque.
— Então não está brava com a Nikki?
Desta vez, eu fiquei em choque. Brava com a Nikki?!
— Não! Que tipo de pessoa vocês acham que eu sou, hein?
— Ah, foi mal! É que, de tanto ouvir que não era para te contar por enquanto, porque você daria à louca, acabei acreditando. A Nikki, inclusive, não queria que você soubesse de jeito nenhum. Ela queria que você a conhecesse primeiro para não odiá-la, o que pode ser o que aconteceu aqui, não é? — questionou com as sobrancelhas levantadas, e eu deixei escapar uma risada rápida.
— Não, não é o que aconteceu. Na verdade, vocês pensarem que eu a odiaria só pelo fato de ela estar com o é ofensivo. Eu o odeio e o atormento pelo que ele fez comigo, simples assim, não porque sou uma ex-namorada louca que não quer vê-lo com mais ninguém! — expliquei-me, e Mina pareceu me entender pelo olhar compreensivo que me lançou.
Mas eu pegaria a pessoa que deu aquela ideia de mim a elas e picaria em pedacinhos.
que me aguarde!
QUAL É?! Eu não era uma namorada louca, nunca fui. Ele era o louco ciumento da relação! Quando foi que o título passou para mim? Eu tinha meus defeitos, mas deixaremos registrado que ciúme não era um deles.
— Não é muito sua cara, mesmo. Agora que parei pra pensar, me sinto besta por realmente acreditar que você piraria e pularia no cabelo da Nikki.
— Eu nunca pularia no cabelo da Nikki. No de ninguém, na verdade. Prefiro socos e chutes, pois são muito mais efetivos — eu disse, fazendo-a rir. E, olha só, não brigamos. — Mas, escuta, isso não explica bem o porquê ela os deixou entrarem para nos assustar.
Afinal, a não ser que ela também tivesse um caso com o Joey, fossem fazer um negócio à três e ela tivesse um fetiche por palhaços, a história me parecia mal contada.
— Bom, tecnicamente, ela só deixou o entrar, o Joe foi de brinde, e ela não sabia que eles assustariam a gente.
Franzi o cenho, encarando-a.
— Você vai me contar a história, detalhe por detalhe, ou ainda tá me poupando? — perguntei, e ela deu um sorrisinho sem graça.
Eu sabia! Ela estava me poupando... Ainda!
— Tá, tá... O que eu sei é que o perguntou a ela, antes do jogo, se poderia ir lá mais tarde, provavelmente, pra... Você sabe.
— Não sei, não — disse, só para irritá-la. — Para que?
Ela bufou e ergueu uma sobrancelha para o meu lado, me lançando um olhar desafiador.
— Para transar, . Fazer sexo, foder, get lucky, afogar o ganso, comê-la. Entendeu? — Assenti, segurando o riso. — Muito bem. Bom, isso era o que ela pensava, então concordou, só que, como ele só iria bem mais tarde, ela emprestou a chave a ele, e o resto você já sabe.
— Espera. A gente tem permissão para emprestar nossas chaves por aí?
— É essa a parte da história que te incomodou? — Assenti novamente, e ela revirou os olhos. — Não, nós não temos. Só para pessoas de confiança. Se sumir alguma coisa de alguém, no mesmo período de tempo em que uma garota tiver feito isso, ferrou.
— Entendi — disse. — Você não tem algum peguete na Lambda, para te emprestar a chave, tem? — Ela balançou a cabeça para os lados, negando. — Terei que arrumar a do , então...
— Você acha que ele te emprestaria? — ela perguntou, e eu dei de ombros.
— Por que não? Não custa tentar. Além do mais, eu posso confiar nele. Ele pode até não aprovar o que farei, mas nunca contaria a ninguém.
— Temos um plano, então?
— Temos um plano e tanto! — afirmei, sorrindo para ela.
— E sabe o que nós temos também? — Esperei pela resposta. — Panfletos para entregar. Vai, levante-se! — disse, me dando um empurrão fraco com a mão.
Eu gemi em protesto, mas acabei me levantando.
Era por uma boa causa. Era por uma boa causa. Era por uma boa causa.

Respirei fundo, sentindo aquele cheiro gostoso de café e pães fresquinhos. Eu gostava muito mais quando podia sentir esse cheiro, acordando depois das 09h00, mas, depois das 07h00, não era nada mal.
Eu, a e a April havíamos acabado de chegar ao refeitório, um pouco mais cedo que de costume, então éramos as primeiras lá. Entramos rapidamente na fila e peguei um copo com café e leite, um pão com manteiga na chapa e um iogurte. Sentamo-nos à primeira mesa vazia que encontramos e acabamos ficando em silêncio por um tempo, cada uma concentrada no que comia.
Fui eu quem interrompeu o silêncio com um pigarro, enquanto tomava meu iogurte, e recebi olhares curiosos das duas, mas foi na que foquei.
— Eu conversei bastante com a Mina ontem.
Posso assegurar que, no mesmo segundo, seu olhar mudou. Eu tenho certeza que já mencionei como a é uma péssima atriz; por isso, não foi difícil decifrar o temor nos olhos dela.
— Ah, é? Sobre o que? — perguntou, pronunciando cada palavra com uma lentidão exagerada.
— Bom, eu descobri uma coisa que escondiam de mim... — falei, mexendo no meu iogurte. Desta vez, vi terror em seus olhos.
Ela assumiu uma postura tensa, encolhendo os ombros, e engoliu em seco.
— U-Uma? E o que é?
— Aparentemente, alguém transformou a minha imagem na de uma ex louca, obcecada e ciumenta, que não aceita ver o ex com uma garota nova. — Apoiei um cotovelo na mesa e minha cabeça na mão, encarando-a. — Confere?
De repente, ela soltou todo o ar que estava prendendo, parecendo até aliviada.
— Ah, isso... — disse, balançando a cabeça e me lançando um sorriso sem graça. — Isso foi só... Precaução, eu diria. E a ideia não foi só minha, tá legal? A Nikki também tem culpa no cartório, não queria te contar sobre eles de jeito nenhum.
— A Nikki não me conhece há mais de 10 anos, a Nikki não tem a obrigação de me defender de comentários do tipo, a Nikki nem me conhecia três semanas atrás...
— É, tem isso — ela disse, mastigando devagar uma colherada da sua salada de frutas.
Suspirei.
— Vê se tenta não piorar minha imagem por aí. Eu posso até ser um pouco louca e um pouquinho obcecada, mas ciumenta jamais!
Estava muito claro o meu ódio por ciúme? Porque era bom estar. Traumas de um relacionamento falho.
— Tá bom, tá bom. Desculpa. Eu não deveria ter escondido nada de você.
Assenti.
— Obrigada.
— Então a Nikki e o estão juntos? — April perguntou surpresa.
? Até você? — eu questionei de volta, e ela encolheu os ombros, fazendo uma careta.
— Você me deu sua bênção para ser amiga dele, lembra? Além do mais, todo mundo o chama assim, e esse apelido gruda na cabeça da gente — explicou-se, e riu.
Eu só dei de ombros. Faria o que? Eu realmente tinha dado a minha bênção.
— Eles não estão exatamente juntos, April, mas têm um negócio. Não é nada sério. — explicou.
— Até porque, se fosse, eu teria que ter uma conversinha com ela, porque, uma semana atrás, ele estava todo para cima de mim.
— Quem? — alguém perguntou, do nada, dando-me um susto básico, até eu perceber que era e o resto da cambada: e .
— eu respondi, enquanto eles se sentavam.
— Eu o quê? — ele questionou.
— Estava todo assanhado para o meu lado na semana passada — afirmei e, do nada, o garoto começou a tossir.
, que estava ao lado dele, o ajudou com uns tapas nas costas.
Eu, hein!
Quando ele se recuperou do ataque, apoiou um braço na mesa, me olhando com um sorriso irritante no rosto e ignorando completamente as risadas ao redor.
— Você não consegue passar mais de cinco minutos sem mencionar meu nome, consegue?
Sorri de volta.
— Consigo, sim, só que prefiro não perder uma oportunidade de te fazer passar vergonha — disse, e ele deu uma risadinha.
— Vergonha, mesmo. Eu devo ter bebido um pouquinho demais para pensar, por um segundo sequer, que queria voltar com você, depois de te aguentar por dois anos inteiros e alguns meses. Só com muito álcool no organismo isso seria possível.
— É que você tem essa mania, né? De fazer besteira quando bebe... Sai por aí, fazendo declarações de amor para ex, beija garotas que não deve e tenta esconder...
— Sério? Eu acordei não faz nem 30 minutos e já tenho que ouvir vocês dois se provocarem? — nos interrompeu, bufando.
Revirei os olhos para o , e ele fez o mesmo, deixando minha provocação sem resposta.
Grosso!
— Não se preocupe. Eu já estou indo! — disse, levantando-se e pegando minha bolsa, que estava pendurada na cadeira. — Quero tirar um cochilo, antes da aula.
Todos me deram tchau, menos o , que fingia prestar atenção na sua comida. Saí atrás do meu bloco para a não tão aguardada aula de Álgebra. Eu já disse que odiava tudo que envolvia números? Provavelmente, sim. Eu realmente não sou uma pessoa de exatas.
Quando cheguei à minha sala, joguei minha bolsa sobre a mesa e sentei-me no meu lugar, depois de cumprimentar um pessoal, que conversava mais à frente. Terceira fileira, quarta carteira da direita para a esquerda, ou da esquerda para a direita; depende do seu ponto de vista.
A sala ainda estava praticamente vazia, já que eu cheguei muito mais cedo que o necessário, na minha tentativa de me afastar do refeitório e do . Não que eu esteja reclamando! É muito mais divertido quando ele responde minhas provocações ao invés de ignorá-las. Então, aproveitando a falta de alunos, escorreguei na cadeira, encostei a cabeça ao suporte atrás de mim e fechei os olhos, pronta para cochilar, pelo menos, uns 10 minutinhos. Eu estava morrendo de sono, porque, ao invés de dormir cedo, fiquei, até tarde da noite, terminando exercícios para essa bendita aula. Eu poderia tê-los feito mais cedo? Sim. Eu fiz? Obviamente, não, então o jeito, agora, era odiar a matéria e, lá no fundo, culpar o professor por me tirar duas horas preciosas de sono.
Eu diria que cochilei por não mais que 2 minutos, quando senti uma movimentação próxima a mim. Curiosa, acabei abrindo os olhos e virando a cabeça para olhar, e encontrei um cara bonitinho me olhando com curiosidade.
Ele percebeu que foi pego me observando e deu um sorriso sem graça.
— Oi — disse.
— Oi... — respondi, observando-o. Ele tinha cabelo e olhos castanhos, era alto, fortinho, nada muito exagerado. Espremi os olhos, tentando me lembrar de onde eu conhecia aquele garoto. — Hã... Eu conheço você, não conheço? — perguntei, e ele abriu um sorriso maior.
— Mais ou menos. — Fiz uma expressão confusa. — A gente dançou na festa das Kappas e da Lambda. Você não quis me dizer o seu nome.
Assenti, lembrando-me.
O cara bonitinho da festa. Era ele, mesmo.
— Ah, é verdade. Meu nome é . Bom, . ! — apresentei-me.
— É, eu já sei. O meu é Nicholas. Pode me chamar de Nick, se quiser. Prazer, . — Ele seguiu, estendendo sua mão direita a mim.
Era sempre estranho cumprimentar alguém com a mão, mas, me surpreendendo, com ele não foi, por causa da expressão brincalhona que ele tinha no rosto.
— Já sabe? — perguntei, depois de soltar a mão dele.
Ele assentiu.
— Não é todo dia que alguém faz o que você fez com o por aqui. Acredite, muita gente sabe seu nome, agora.
Dei um sorrisinho orgulhoso. Aquilo não me parecia nada mal.
— Legal — disse. — Então, Nick... Tá fazendo o que aqui? — questionei, o que acabou soando levemente rude, então tentei consertar: — Sabe, porque já estamos na segunda semana de aula. Eu me lembraria de você.
— Ah, tive que resolver algumas coisas, na semana passada, então acabei perdendo algumas aulas. Só espero não ter perdido muita coisa... — ele me respondeu, assumindo uma expressão um pouco preocupada.
— Só umas cinco páginas de exercício — eu disse, e ele balançou os ombros, como se não fosse tanta coisa. — Mas você não é calouro, é?
Porque ele não se parecia, nem agia como um calouro. Tinha autoconfiança demais.
— Não, não — falou, dando uma risada fraca. — Eu só preferi adiar Álgebra ao máximo possível, então aqui estou.
— Já eu quero acabar com isso logo! — disse, fazendo uma careta e virando rapidamente minha cabeça para frente, vendo o pessoal começar a entrar na sala.
Nick ficou em silêncio por um tempo, me encarando, pelo que eu conseguia ver pela minha visão periférica. Eu demorei um pouco meu olhar nas pessoas que passavam para lá e para cá, atrás dos seus lugares, acenando para alguns, para evitar uma troca de olhares constrangedora, já que eu não tinha muito mais o que falar.
— É, escuta... — ele começou, depois de um tempo, e, só então, voltei a encará-lo. Ele parecia levemente constrangido. — Eu quero fazer uma coisa, mas não sei se devo.
Franzi o cenho, confusa.
— Não é me beijar, é? Porque tudo o que você conseguiria me beijando, no meio da sala de aula, é um bom soco! — eu disse, e ele abriu um sorriso fraco.
— Não é isso, é que... Bom, eu sei que você e o têm um rolo e...
— Eu e não temos um rolo — interrompi-o. — Nós somos meramente ex-namorados que se odeiam.
Parecia que tinha razão, afinal. Eu não conseguia passar muito tempo sem falar dele. Mas qual é?! As pessoas insistiam em enfiar o cara pela minha goela! Era aqui, ali, lá... Ficava difícil não falar sobre ele.
— Mas vocês têm uma história, não? — perguntou, e eu dei de ombros, assentindo. — Não sei se seria certo da minha parte te chamar para sair, sendo amigo dele, e eu, provavelmente, deveria perguntar isso a ele e não a você, mas você já está aqui e... — Deixou no ar, finalmente parando de falar.
Ele tinha uma voz bonitinha e tal, mas falava besteira demais.
— Olha... — eu comecei com um sorriso contido. — Eu não quero ser grossa, nem nada, mas a única pessoa de quem você precisa permissão para sair comigo sou eu. Ele já seguiu em frente! Por que motivo você precisaria pedir a ele alguma coisa? — questionei, lembrando-me do caso com a Nikki.
Eu estava, desde a tarde anterior, repassando cenas que envolviam os dois, tentando encontrar sinais que eu havia perdido, sem sucesso.
— Bom, ele é meu amigo. Não somos tão próximos assim, mas somos amigos, e ele pode se incomodar.
— O ponto é: ele não pode, não. E, se ele se incomodar, é só falar comigo, que eu resolvo — eu disse.
Com isso, acabei, praticamente, escrevendo na minha testa “me chama para sair”. Que ótimo.
Balançando a cabeça, ele riu levemente e abriu um sorriso, como se o que eu disse fosse, de alguma forma, surpreendente.
— Tudo bem. Então... Você quer sair comigo um dia desses? — perguntou, e eu assenti.
— Claro. — Dei de ombros. — Por que não?
— Esse final de semana?
— Ah, eu não posso — falei, fazendo uma careta. — Visitarei meus pais esse final de semana — expliquei, e ele balançou a cabeça em compreensão. — Mas tem sempre a semana que vem, não é?
— Claro! — concordou, piscando para mim, no exato momento em que o professor entrou na sala, me obrigando a virar para frente e prestar atenção na aula.

— Eu buscarei o . Quero você e as suas coisas lá embaixo, me esperando, em 10 minutos! — disse a cabeça da , na porta, antes de desaparecer.
— Tem certeza de que ficará tudo bem? — perguntei a April, que estava sentada em sua cama, com um livro no colo, me observando terminar de arrumar minha mochila.
— Absoluta! Não precisa se preocupar! — ela afirmou pela centésima vez.
Poxa! Eu me sentia como uma mãe se separando da filha pela primeira vez.
— Há dois lugares sobrando no carro. Você pode ir com a gente... Ainda dá tempo! — eu disse e, também, pela centésima vez, ela riu e balançou a cabeça.
— Eu vou ficar, mas obrigada pelo convite. Sobrevivi 18 anos sem você, sabia?
Suspirei.
— Eu sei, eu sei, mas me preocupo. Aliás, cuidado com a Mina! Ela vai se aproveitar da sua inocência, e Deus sabe o que vocês podem acabar fazendo.
— Eu acho que a Mina estará ocupada, se preparando para o que vocês aprontarão, não em me levar para o mau caminho — ela disse, rindo.
— É, você tem razão — concordei.
Mina aproveitaria o sábado livre para ir atrás do tal spray que nós não fazíamos ideia de onde comprar. E segunda-feira seria O DIA.
— Você pode ir. Eu vou ficar sã e salva aqui.
— Tudo bem. Eu trarei um pedaço de torta.
Depois de passar os últimos dois dias elogiando a torta da minha mãe, seria mais que cruel não trazer.
— Sim, por favor!
— Vou descer. Vejo você na segunda! — disse, me inclinando na cama dela para dar um beijo em sua bochecha.
— Até! Cuidado! Não deixa a se desconcentrar no trânsito! — ela pediu, provavelmente, se lembrando da ida e volta do estádio uma semana atrás.
De vez em quando, dirigindo podia ser assustador.
— Pode deixar! — eu disse, rindo.
Peguei minha mochila com meu caderno, livro, alguns textos e outras coisinhas básicas. Era tudo o que eu levava, já que ainda tinha um bom tanto de roupas na casa dos meus pais. Desci, dando tchau às meninas que encontrei no caminho, e sentei-me na escada da frente de casa para esperar, o que, felizmente, não demorou muito. Logo, ela estacionou na minha frente, mas, infelizmente, não era a única pessoa que ela foi buscar.
Revirei os olhos quando vi no banco da frente, me encarando com um sorrisinho desgraçado no rosto.
— Vamos, vamos, vamos! — desceu do carro, falando.
— Você tá brincando comigo, né? — eu questionei, encarando , que parou de frente para mim.
— Por que estaria? Já são quase 15h00 da tarde e estou com pressa! — respondeu, dando-se de desentendida, enquanto pegava minha mochila para pôr no porta-malas.
— Ha ha ha, engraçadinha. — Levantei-me, limpando a parte de trás do meu short jeans com as mãos, e segui .
— Não começa, , por favor.
— Começo, sim. Ele tem uma moto! Por que precisa ir com a gente? — questionei.
Ela fechou o porta-malas com um pouco mais de força que deveria e me encarou, apoiando-se nele.
— A moto dele tá na oficina, tá legal? E ele é meu amigo, assim como você e o são meus amigos, e dou carona aos meus amigos. Capisce?
Bufei e andei até o lado direito do carro.
— E eu posso saber por que ele vai na frente? — perguntei, vendo o braço dele todo confortável apoiado na janela aberta do banco da frente. Logo, vi também sua cabeça, que ele colocou para fora, ainda com aquele sorriso idiota.
— Porque eu cheguei primeiro — respondeu, mas ignorei, olhando para , em busca da minha resposta.
— Ele chegou primeiro — ela repetiu, e eu bufei novamente, entrando no carro.
estava atrás também, do lado esquerdo, com dois fones de ouvido e uma música tão alta, que eu entendia cada palavra. Sua cabeça estava encostada ao encosto do banco, e os olhos, fechados. Eu puxei um dos fones, chamando sua atenção, e ele imediatamente abriu a boca para reclamar, mas desistiu quando encostei minha cabeça em seu ombro e coloquei o fone no meu ouvido. Logo, ele passou o braço ao redor dos meus ombros, me fazendo optar por ficar deitada ali que atacar o .
Isto é, pelos próximos 30 minutos.
Depois de tentar, de todas as maneiras, esticar minhas pernas, que não aguentavam mais ficar dobradas, a única opção que me restou foi passá-las pelo espaço entre os bancos da frente e apoiá-las na coxa esquerda do , que não pareceu gostar muito, já que se virou, na hora, para mim com uma sobrancelha arqueada. Eu arqueei uma sobrancelha de volta para ele, que balançou a cabeça.
— Sério? — ele disse, quebrando o silêncio do carro.
— Incomodo? — perguntei com um sorriso.
— Muito! — ele respondeu, me fazendo revirar os olhos.
— São somente dois pés. Você nunca se incomodou com os meus pés antes. Era louquinho por eles, lembra? — enquanto falava, levantei um deles e fiquei mexendo os dedos na frente do rosto dele.
— Louco, com certeza, é a palavra ideal para a situação — disse, suspirando e abaixando o meu pé com a mão.
, não provoca, e , não responde. — interferiu. — O que aconteceu com o negócio de ignorar as provocações da ? Eu gostava muito mais daquele plano.
— A deixou bem claro, para mim, que não importa o quão legal eu tente ser, ela não me deixará em paz. E, entre ser legal e ser tratado mal, e responder à altura, fico com a segunda opção. — explicou.
começou a rir ao meu lado e a balançar a cabeça.
— Continuem assim e vocês dois se destruirão.
virou a cabeça para trás rapidamente, passando seus olhos pelo , para, depois, parar em mim, que correspondi ao seu olhar. Eu podia ver claramente o desafio e a confiança nele. Pobrezinho! Mal sabia o que o espera!
Finalmente, 10 minutos depois, estacionou no espaço entre a minha casa e a dele.
— Meus pais pensam que a gente se resolveu, então segura o bico. — Inclinei-me para avisar ao , antes de abrir a porta para descer.
Minha mãe e meu pai me esperavam lado a lado na calçada, junto com os pais dele, o que não me deixou exatamente feliz. Não que eu não gostasse mais dos pais deles! Eles sempre foram e ainda eram minha segunda família, mas, depois que e eu terminamos, nós paramos de frequentar a casa um do outro, o que resultou na gente se afastando um pouco. Eu ainda conversava com eles quando os encontrava, ali, na frente, ou pelo bairro, mas o fato de não morar mais ali dificultava um pouco as coisas. Concluindo, eu não gostava da ideia de conversar com os pais do com ele por perto e fingindo ser melhores amigos novamente.
— Finalmente, chegaram! Eu estava ficando preocupada! — minha mãe disse e, antes de ela terminar a última palavra, eu já estava jogada em cima dela.
O quê? Eu também sentia saudade.
— Alguém sentiu sua falta — meu pai disse com humor.
— Sua também! — eu falei, soltando minha mãe e me jogando nele, desta vez.
Ele deu um beijo no topo da minha cabeça, me abraçando de volta. Quando eu me afastei dele também, a próxima coisa que vi foi o rosto bochechudo da Liz, mãe do , à minha frente.
— Ah, olha só para você! Está tão crescida! — disse, me segurando pelos ombros.
Eu ri, abraçando-a.
— Você me viu três semanas atrás, lembra?
— Três semanas atrás, você ainda não era uma universitária. Olha para você! Agora, parece até mais inteligente!
Fiz uma careta que ela não viu.
— Eu vou levar isso como um elogio — eu disse e ouvi a risada do pai do , o Harry.
— Você tinha que vê-la na primeira vez em que o voltou para casa, depois de se mudar, — ele comentou, e aproveitei para abraçá-lo também.
— Eu imagino.
Em algum momento, depois de todos os comprimentos, e eu paramos lado a lado, em silêncio. Isso nos rendeu quatro olhares extremamente felizes e dois suspiros.
Um deles veio do meu pai.
— É tão bom vê-los juntos de novo! — minha mãe falou, nos observando como se observasse um quadro em um museu.
Bom, nós éramos bem bonitinhos, mesmo.
— É, eu nem acredito! — meu pai concordou.
Eu dei um sorriso nervoso.
— Pois acredite! — eu disse, dando dois tapas fortemente fracos no braço do , que soltou uma risada nervosa.
— Incrível, né?
— Eu não sabia que vocês tinham feito as pazes de vez. Caramba... Isso traz memórias, não traz? — o pai dele falou, e eu já tinha certeza do que estava por vir: um comentário sobre as nossas constantes brigas e reconciliações.
Quer ver?
— É o e a . Eles nunca ficam brigados por muito tempo, apesar de terem me assustado desta vez. — Viu? Eu deveria ter avisado que viria da mãe dele também. Balancei a cabeça, concordando, e forcei um sorriso. — Sabe o que eu acho? Que isso merece uma comemoração.
Arregalei os olhos.
— Como é? Quer dizer... Hã... Comemoração?
— Sim, um jantar, na nossa casa. Que tal?
O mais disfarçadamente possível, cutuquei com o meu cotovelo, implorando, na minha cabeça, que ele fizesse alguma coisa.
— Ah, mãe, tem certeza? Os pais da trabalharam a semana inteira e devem estar cansados — ele interviu, e eu esperei, em expectativa, a resposta dela.
— Imagina! — minha mãe exclamou. — Eu achei a ideia ótima! Se quiser, posso ajudar na cozinha.
Valeu, mãe.
— Então está marcado. — Liz concluiu.
Ouvi a risada escandalosa da , no carro atrás da gente, chamando a atenção de todos para ela. O meu rosto, em especial, lançava um olhar estilo “eu te odeio”.
— Ah... Nossa, , que piada boa! — Disfarçou da pior maneira possível.
— É, eu... Eu também gostei. — continuou, parecendo mais perdido que qualquer coisa.
— É claro que gostou, , afinal, você me contou.
Meu Deus.
— Não tá na hora de vocês irem, não? — eu perguntei, e qualquer um que me conhecesse um pouco perceberia o “vão embora agora!” nas entrelinhas.
— Sim! É, nós já vamos. — concordou, e eu assenti, indo até o porta-malas, pegar minha mochila.
fez o mesmo.
— Mandem um abraço para os pais de vocês e, , dirija com cuidado! — minha mãe disse.
A casa deles era a uns dois quarteirões dali.
— Pode deixar, tia! Tchau!
— Tchau! Cuidem desses dois! — gritou, no último minuto, quando o carro já estava em movimento.
Eu revirei os olhos.
— Muito bem. Vamos entrar! — Liz começou, segurando o braço do . — Vejo vocês às 19h00?
— Com certeza! — meu pai respondeu e, então, finalmente, cada família foi para o seu lado.
Poderia ter sido pior, certo?
Não, eu acho que não.

19h35.
É, não dava para enrolar mais.
Eu havia inventado uma desculpa universitária qualquer para os meus pais, porque, assim, poderia me atrasar.
“Nossa! Que falta de educação! O jantar é especialmente para você!”.
Tá, mas eu sabia bem exatamente o que acontecia em um jantar desses; principalmente, porque eles aconteciam semanalmente quando e eu namorávamos. Nós chegávamos lá às 19h00 (ou eles à nossa casa, dependia da semana), minha mãe ajudava na preparação da comida, meu pai e o pai do ficavam conversando sobre sabe-se-lá o que, e eu e o ficávamos no quarto dele, até anunciarem que estava tudo pronto. Isso costumava levar de 40 a 50 minutos, então eu não estava perdendo o jantar, só a preparação.
Isso não fazia de mim uma pessoa muito melhor, mas dá um desconto, vai.
— É, Smurf, tá na hora! — disse, passando a mão em meu cachorro, que não desgrudava de mim há mais de três horas. — Deseje-me boa sorte?
Ele ergueu a cabeça, antes, encostada em minha perna, e me lançou um olhar de “do que é que você tá falando, sua louca?”. Ele me amava.
Guardei o texto de Literatura que eu estava lendo e levantei-me, já pronta para ir. Pronta, não animada. Tanto é, que tive que parar e respirar fundo umas três vezes, antes de tocar a campainha da casa deles, e foi o pai do quem me atendeu.
, que bom que chegou! Entra! — falou com um grande sorriso no rosto.
— Desculpa o atraso.
Meu pai estava sentado numa poltrona mais ao canto. Como eu disse: conversando sobre sabe-se-lá o que.
— Sem problema. Nós sabemos que não é fácil estar na universidade.
— É.
— A chegou? — A cabeça falante da Liz apareceu pelo vão da porta. Ela abriu um sorriso largo quando me viu. — Ah, querida, que bom que tá aí! O jantar está quase pronto. Que tal você chamar o lá em cima?
— Pode deixar! — eu disse, assentindo.
Subi a escada, em direção ao quarto dele, na maior lentidão do mundo. Eu estava bem animada por ter que buscar o príncipe no quarto dele... Deu para notar?
Bati na porta e não demorei a ouvir um “entra” abafado. Empurrei a porta e encostei ali mesmo.
— Eu não quero entrar — falei.
Alguns milésimos de segundos depois, meus olhos não resistiram e escanearam o cômodo. Uma cama de casal, uma mesa de estudos/computador, uma poltrona desaparecida debaixo de peças de roupa, duas portas, uma que dava para o closet, e outra, para um banheiro. Sempre o invejei por ter uma suíte. Meus pais tinham uma, então eu era, praticamente, a única que usava o banheiro social de casa, mas não era a mesma coisa. Dar cinco passos e chegar ao seu banheiro; isso, sim, era maneiro.
Nas paredes também haviam alguns pôsters de bandas e de uma galera que eu sempre esquecia quem eram; provavelmente, nadadores ou algo do tipo.
Tudo estava igual. Exatamente igual estava na última vez em que entrei lá, mais de um ano atrás, o que me deu certa nostalgia. Jantar na sexta-feira, eu subindo para o quarto do ... Lembranças que fiz questão de enterrar. E que eu me recusava a começar remoer naquele momento.
— Então por que veio aqui? — ele perguntou.
Estava jogado na cama, lendo um livro, que, agora, ele fechava.
— Sua mãe falou para eu vir te chamar para jantar. — Dei de ombros.
Ele riu e balançou a cabeça.
— Percebeu o que ela fez, né? — questionou, me encarando com as sobrancelhas erguidas.
Dei de ombros.
— É por isso que eu não vou nem entrar.
Porque eu sabia que, mais que fazer um jantar de comemoração, ela queria recriar os jantares do passado. Isso quer dizer que ela, provavelmente, esperava que eu e o ficássemos nos pegando lá ou algo do tipo. Era o que nós costumávamos fazer, pelo menos.
— Não resistiria, é? — provocou-me, sentando-se na beirada da cama e me fazendo revirar os olhos.
— Sonha. Vamos! Eu quero acabar com isso logo.
— Claro! Vamos lá! — disse com um sorrisinho irritante.
— O que é que foi, hein? — perguntei, impedindo a passagem dele pela porta.
— Nada. Eu só sei o quanto isso será doloroso pra você, então vou adorar cada segundo.
Bufei.
— Vá se catar.
Virei-me, indo em direção à escada novamente, e ele me seguiu em silêncio; pelo menos, isso.
— Estudando também? — meu pai perguntou ao quando aparecemos na sala.
— É, terminando um livro para um trabalho — ele respondeu, sentando-se no sofá. Eu segui em frente, em direção à cozinha. — E o senhor, como está? — Ouvi, antes de sair do cômodo.
Ele tinha que ser todo simpático, não tinha?
— Onde está o ? — minha mãe perguntou.
— Ficou na sala — respondi, encostando-me à parede.
— Não ficaram lá em cima? — Liz questionou, na maior falsa inocência deste mundo, me fazendo sorrir discretamente.
— Não, eu queria passar um tempo com vocês — falei, aproximando-me delas e passando meus braços ao redor dos ombros de cada uma.
— Fofa. — Liz disse, dando-me um beijo na bochecha.
Enquanto isso, minha mãe me olhou, desconfiada.
— Morar fora te deixa mais carinhosa? Ou você quer alguma coisa? — questionou, e eu fiz uma careta.
Ouch. — Afastei-me, e ela me lançou um beijo no ar.
— RAPAZES, QUANDO EU CHEGAR À SALA DE JANTAR, É MELHOR A MESA ESTAR PERFEITAMENTE ARRUMADA OU ALGUÉM PERDERÁ UMA MÃO! — Liz gritou, de repente, dando-me um susto.
Minha mãe riu da minha cara. Sempre querida, ela.
Na mesma hora, eu comecei a ouvir uma movimentação apressada vindo do cômodo ao lado, me levando a concluir que as probabilidades de alguém perder uma mão, hoje, eram grandes. Se me perguntassem, eu sugeriria o para ser a vítima da noite.
— Que cheiro bom! — eu comentei.
— Você sabe o que é, não sabe? — Liz perguntou, me olhando rapidamente, enquanto mexia numa panela com creme de milho.
Também havia um frango no forno. É, eu sabia.
— A melhor combinação do mundo.
— Não exagera! — minha mãe disse. — É uma combinação legal, mas existem muitas melhores.
, frango assado com creme de milho não é a melhor combinação do mundo? — perguntei em um tom alto para que ele me ouvisse.
— É! — ele respondeu, e eu lancei um sorriso vitorioso à minha mãe, que revirou os olhos.
— Veremos... — Liz falou a si, abaixando-se e abrindo a porta do forno. Ela deu uma olhada, umas cutucadas, até sorrir e balançar a cabeça. — Perfeito!
— Quer ajuda para tirar? — perguntei.
— Sim, claro.
Eu a ajudei e ajudei minha mãe a finalizar as coisas, e levar à sala de jantar. A mesa não estava perfeitamente arrumada, aliás, mas ninguém perdeu a mão desta vez.
Uma pena.
Nós nos sentamos, Liz e Harry nas pontas, eu e o de frente para o outro, assim como os meus pais.
— Aqui, a salada. — Liz disse, me entregando uma tigela cheia de folhas nada apetitosas.
Comer primeiro a salada também era uma tradição dos já tradicionais jantares. Você pode nos chamar de família Gilmore, se quiser.
Servi-me e passei adiante. Aquela seria a minha dose de salada da semana. Talvez, do mês.
— Seus pais nos falaram que entrou para uma irmandade, ... — o pai do começou. — Tá gostando?
— Sim, bastante, até mais do que pensei que iria — eu respondi, me surpreendendo com a sinceridade daquelas palavras.
— O também estava relutante sobre entrar ou não em uma fraternidade, mas, agora, ama, não é, querido? — Liz falou, pegando no braço do filho e sorrindo.
Ele assentiu, devolvendo o sorriso dela, mas não disse nada.
— É, bem... Ele me incentivou bastante a entrar para as Kappas — eu disse. Não era mentira. — Na verdade, se não fosse por ele, eu nem teria tentado entrar direito.
Todos olharam para ele com certo orgulho no olhar, o que quase me fez vomitar, e ele sorriu para mim, sacando a piadinha interna.
— Obrigado, , mas o mérito é todo seu.
— E eu pensando que você tinha tentado por minha causa... — minha mãe comentou.
Eu dei de ombros.
— Sua também, mãe.
— Ah, isso fez falta, não é? — Liz perguntou, olhando ao redor. Forcei um sorriso, assentindo. Não me culpe. Eu costumava gostar muito dos jantares e adorava os pais do , a presença dele, ali, é que estragava tudo. — Espero que a gente consiga repetir mais vezes, agora que vocês são amigos de novo.
— Ah, seria ótimo! — minha mãe concordou.
Se ela não pensasse que eu estava me dando super bem com o também, levaria um puxão de orelha mais tarde.
— A gente pode comer? Eu tô morrendo de fome! — eu disse, querendo acabar com aquele assunto e querendo comer, é claro.
! — minha mãe me repreendeu, mas o resto do pessoal riu, então não me importei muito.
— Você nunca muda, . — Liz disse, rindo. — É claro que pode, querida.
Sorri, agradecida, e levantei-me para pegar as coisas espalhadas pela mesa. Foi só quando fui em direção ao frango que notei , também, de pé, espetando minha parte. A minha parte!
Pigarreei, chamando a atenção dele.
— O que você tá fazendo? — perguntei com a voz mais doce possível, a fim de manter o disfarce.
— Cortando o frango... — ele respondeu lentamente, como se a resposta fosse óbvia demais.
— Hum... É que esse é o meu pedaço, você sabe.
O peito coberto de pele era meu. Era tipo um senso comum.
Ele abriu um sorriso e balançou a cabeça, parecendo entender, agora, o negócio todo.
— Não se preocupe, é seu. Eu só vou cortar para você. É tradição, lembra?
— Fofo. — Ouvi a voz da minha mãe dizer.
Tive que respirar fundo, para manter a imagem de “paz” que eu havia inventado, mas a vontade era de arrancar o garfo da mão dele e espetar outra coisa, se é que me entende.
— Não precisa se dar ao trabalho. Eu posso cortar o meu próprio pedaço! — disse, enfiando o meu garfo no meu pedaço e esperando que ele retirasse o dele.
Não rolou.
— Não é trabalho nenhum, , sério.
Eu via com clareza a advertência em seu olhar, me mandando aceitar a tradição e ficar quieta, mas nunca fui muito de obedecer. Ele que me deixasse colocar a minha própria comida, isso sim.
— Não, não, eu faço questão de cortar, .
— Para de frescura e deixe-me fazer isso, ok? — ele disse num tom calmo, que deveria pertencer a um elogio, não às suas palavras.
— Para de querer fazer tudo por mim! — eu rebati, não controlando minha voz tão bem quanto ele.
Levei para o lado pessoal? Um pouquinho, confesso.
— Eu pensei que já tivesse deixado mais que claro que não vou mais fazer nada por você — ele continuou, começando a perder a pose.
Qual era o problema em me deixar cortar o negócio? O meu era orgulho, e o dele? Ego?
— Não é o que parece! Deixe-me cortar a por... — Interrompi-me, não querendo jogar “porra”, ali, naquele momento. — ...O frango. Deixe-me cortar o meu pedaço!
— Não! , por favor!
— Por favor digo eu, !
— Para com isso!
— Para com isso você!
— Você pode me servir o purê!
— Eu não quero te servir o purê!
— É a tradição!
— Ah, vai se fo...
!
!
Nossos nomes soaram, ao mesmo tempo, em vozes nada doces. Foi mais ou menos quando eu percebi que nós tínhamos feito um belo estrago no peito de frango, que, agora, se encontrava todo “rasgado” pelos nossos garfos e... Bem, com certeza, mais morto que antes.
— Eu vou cortar o frango para todo mundo — minha mãe disse com autoridade. — Alguém se opõe?
Ninguém se opôs.

— É bem fácil fazer. Você só precisa de algumas madeiras e pregos. Eu mesmo fiz os meus e posso te ajudar, se quiser.
— Ah, eu adoraria, Claire! Na próxima semana, mesmo, arrumarei as coisas. Você só me diz um dia em que está livre e podemos fazer.
— No sábado tá ótimo, para mim.
— Perfeito!
E, então, o assunto acabou, e tudo que podíamos ouvir eram os talheres aqui e ali. Como todo milésimo de silêncio, depois do meu pequeno desentendimento com o , o clima logo ficou estranho.
, já contou aos seus pais como foi sua iniciação? — perguntou, de repente. — Foi bem... Como eu posso dizer? Exibicionista, não é?
Eu poderia arrancar aquele sorrisinho irritante do rosto dele com a faca que estava em minha mão.
— Ah, filha, é verdade! Essa tradição continua? Por que não me falou nada?
— Eu esqueci. Não foi nada de mais. Sério! Pouca coisa. Mas sabe a April sobre quem eu falei? Ela fez um conto que, aparentemente, é incrível, mas não deixa ninguém ler. Ela escreve super bem, a April. Tem um baita talento!
Minha mãe assentiu, sorrindo e parecendo ser levada pela minha distração, mas eu sempre poderia contar com o para ser a pessoa mais imbecil do planeta.
— Não seja modesta, ! Fale um pouco a eles sobre o que você fez.
— Assim, eu fico curiosa. — Liz falou, e eu dei um sorriso nervoso, mas respirei fundo e coloquei minha cabeça para funcionar.
— Bom, eu fiz uma... Exposição, como ele disse. Artística, sabe? É... E o foi o meu modelo. Modelo surpresa, eu diria, porque... Bem, ele não soube que seria o modelo, até o último minuto, não é? Mas deu tudo certo no final. Ele... Ele até descolocou uns números de telefone, não foi?
Ele riu rapidamente e apoiou os cotovelos à mesa, e a cabeça, nas mãos, me olhando com o que eu chamaria de expressão cínica mais irritante do universo.
— Não é como se eu tivesse tido muita escolha — disse, levantando as sobrancelhas, e eu dei de ombros.
— Nossa! Parece importante! — o pai dele falou, e todo mundo pareceu concordar, menos o filho.
Como eu nunca deixaria algo assim passar, olhei para a Liz, sorrindo.
— Tia, você tem fobia de barata, né? — perguntei. Ela assentiu, e tenho quase certeza que a vi se arrepiar. — Eu descobri, recentemente, que a minha colega de quarto tem fobia de palhaços.
— Jura? Ah, coitada! Festas de aniversário não devem ser muito divertidas, para ela.
— É... — E, então, comecei a rir, balançando a cabeça. — E você não faz ideia de como fiquei sabendo. — Ri mais ainda, ganhando vários olhares curiosos e um particularmente preocupado. — Conte a ela, .
Ele engoliu em seco, dando um sorriso nervoso. Eu podia ver o arrependimento por ter começado aquele negócio todo, em seu olhar.
— Não acho que estejam tão interessados em saber, .
Eu não precisei falar nada, pois Liz não demorou muito para me fazer um favorzinho:
— Fala, filho. Vocês começaram um assunto, agora, por favor, terminem — disse, e eu sorri.
— É, , por favor! — falei, ganhando um olhar nervoso dele, que respirou fundo, provavelmente, admitindo a si que não tinha mais jeito.
— Eu e o Joe decidimos fazer uma brincadeira com as meninas. Com a , na verdade, porque eu sabia que ela tinha medo de palhaços, e... E, então, nós nos fantasiamos e a assustamos, mas, nisso, nós acabamos assustando a Mina também, o que não estava nos planos. Não tínhamos ideia dessa fobia. Foi isso.
Meus pais forçaram uns sorrisos, enquanto os dele o encaravam de forma séria. Eu só tentava segurar o riso. Ele estava fodido, e não era pouco.
— Que tipo de ideia foi essa, ? — o pai dele questionou, controlando sua voz.
— Tá tudo bem, agora, ok? Nós pedimos desculpas, a Mina aceitou, tá tudo certo! — ele se defendeu, encolhendo os ombros.
— Isso é o que você pensa. — Liz concluiu o assunto, antes de chamar a atenção da minha mãe para alguma outra coisa, que me parecia extremamente chata, relacionada às plantas.

— Isso foi divertido, não é? Temos que fazer isso mais vezes. — Liz disse com um sorriso carinhoso no rosto.
Ela estava mentindo.
Depois das ceninhas que e eu fizemos, nós nos calamos de vez e decidimos cada um focar em seu prato de comida. Nossos pais continuaram conversando, afinal, alguém precisava preencher o silêncio, e eu só me atrevi a abrir a boca de novo quando era mencionada, com uns sorrisos aqui e ali. Não foi exatamente o jantar mais divertido da minha vida, apesar de ter gostado bastante da parte em que eu virei o jogo e dei ao uma baita dor de cabeça.
E a comida estava bem gostosa.
— Ah, sim, claro! — minha mãe respondeu tão calorosa quanto.
— Foi ótimo ver vocês, Liz, Harry... — eu me atrevi a dizer, sorrindo para eles.
— Para a gente também, . Sentimos sua falta, de verdade! — ele me disse.
— Ah, meu amor, vem aqui! — Liz falou, abrindo os braços, e eu a abracei, feliz por ela não estar bolada comigo pela situação com o filho dela. Afinal, agora, era óbvio que nós não estávamos nos dando tão bem assim.
Depois de mais algumas despedidas (exageradas, considerando que só estávamos indo à casa ao lado), eu e meus pais seguimos para o meu antigo lar, doce lar, em silêncio. Eu sabia o que estava por vir, sabia bem. Meus pais adoravam tanto aquelas conversas bobas, que acabavam com um grande abraço em família, que era quase como se nós fôssemos a família Tanner da vida real.
Já dentro de casa, com uma recepção super animada do meu cachorro, eu fui à cozinha, sendo seguida por um pai e uma mãe que tentavam agir naturalmente. Peguei um copo com água e, enquanto isso, eles pararam, cada um no seu cantinho, me lançando uns sorrisos que também tentavam ser naturais. Então eu decidi continuar com a brincadeira e subi para o meu quarto, antes que eles pudessem começar a falar. Eles ficaram meio enrolados, dando-me tempo o suficiente para me aconchegar na minha cama com o Smurf aos meus pés.
Não foram mais que 10 segundos, até que eu ouvisse três batidas na porta já aberta.
— Podemos entrar? — meu pai perguntou.
— Desde quando vocês batem?
— É uma universitária, agora, . As coisas mudaram! — minha mãe explicou, e eu deixei escapar uma risada rápida.
— Engraçado... Quando eu e o queríamos privacidade, ninguém batia.
— Não vamos entrar nesse assunto de novo, né?
Suspirei, balançando a cabeça. Se havia uma coisa que eu costumava odiar era ter que discutir com meus pais para ver se conseguia convencê-los de que não era legal entrar no quarto da filha única, pegá-la se agarrando com o namorado... Coisas do tipo. Eu estava muito bem sem isso, obrigada.
— Sabe por que estamos aqui? — a dona Claire perguntou, sentando-se ao meu lado.
— Sei, sim — respondi, apenas.
— E então? — ela continuou. — Não acha que nos deve algum tipo de explicação?
Fingi pensar por alguns segundos.
— Hum... Não, mas obrigada pelo espaço.
! — meu pai disse com um pouquinho menos de paciência que minutos antes.
— Ah, que foi, hein? Eu menti pra vocês, grande coisa. Sabe, filhos mentem para os pais. Pelo que ouvi falar, é muito comum por aí.
— Você não. E me corrija, se eu estiver errada, mas começar a fazer isso, agora, é, no mínimo, estranho.
Suspirei novamente e cruzei os braços sobre o meu peito. Eu não estava velha demais para receber sermão, não?
— Filha, você tem que entender que a gente se preocupa com isso. Eu mal consigo me lembrar da última vez em que você mentiu para a gente. Deixa-me preocupado que você tenha sentido a necessidade de fazer isso — meu pai disse, aproximando-se.
— Foi só uma mentirinha inocente... Qual é?!
— Uma mentirinha inocente que nos levou àquele jantar desastroso. Se tivesse contado que você e o não estavam tão bem assim, nunca teríamos topado um jantar com a família dele, o que teria evitado aquele baita climão. Você sentiu o climão, não sentiu?
Assenti, e ela me olhou com uma cara de “viu só?”.
— Nós nunca obrigaríamos você a jantar com o contra sua vontade. Só precisava ter contado a verdade.
Balancei a cabeça, perdendo a minha paciência.
— Tá... Como? — Dei uma risada forçada, enquanto eles me encaravam confusos. — Como esperam que eu conte a verdade? Porque todo mundo, o mundo inteiro, parece querer forçá-lo para o meu lado. Vocês, a , o , o , a família dele e até ele, pelo menos, por um tempo. É , , , para todo lado. Eu só queria um pouquinho de paz, sem vocês questionando o porquê eu não dava uma chance e blá blá blá. Foi um baita tiro na culatra, mas a intenção era das melhores.
Um silêncio se instalou no cômodo quando parei de falar. Meus pais se encararam rapidamente com uma cara de “não acredito”, e eu esperei. Não que eu quisesse fazê-los se sentirem culpados pelo jantar desastroso, mas... Bem, eu queria, sim. Afinal, menti por um motivo.
— Ah, ... — minha mãe começou. — Eu não sei nem o que dizer.
Realmente, tinha uma primeira vez para tudo. Minha mãe sem palavras? Eu vivi para ver aquilo.
— Nós sentimos muito, querida. Não tínhamos ideia que insistir, para que fizesse as pazes com o , te chateasse tanto.
Encolhi os ombros, fazendo a minha melhor cara de “dããã”.
— É... Pararemos, eu prometo. Agora, você pode odiar o o quanto quiser, tudo bem?
— Claire!
— O quê?
— Não a incentive a odiar alguém. Isso é tão errado!
— Ah, Johnatan, por favor! Ou nós enchemos o saco dela, para fazer as pazes, ou a apoiamos no ódio. Vou fazer o que?
— A vida não é feita de extremos, sabia? Você quer a vida da sua filha cheia de ódio?
— Não seja estúpido. É claro que não! Que mania de fazer tempestade em copo d’água!
— Ah, eu? Pois quem foi que quase derrubou a casa, na semana passada, porque me esqueci de tirar o lixo? Não foi eu, Claire.
— Eu pedi pra você tirar o lixo não uma, não duas, não três, mas quatro vezes. Foram quatro!
— Eu já disse! Eu estava muito ocupado!
— Claro que estava, afinal, o formato da sua bunda no sofá não se forma de uma hora pra outra, não é?
Meu pai olhou para ela, chocado, com os olhos e boca arregalados, e eu aproveitei a deixa para falar:
— Vocês podem levar isso lá pra baixo? Sabe, eu tenho que estudar.
Eles me olharam rapidamente, mas não perderam muito tempo, ali, comigo. Andaram em direção à porta na mesma hora.
— Isso foi tão baixo, Claire! Não acredito que disse isso! — Ouvi meu pai dizer, no caminho para fora, antes de correr e fechar a porta atrás deles.
E eu não tive que mexer nem um dedinho.

Continua...



Nota da autora: (05/04/2017) E aí, o que acharam do capítulo? Me digam nos comentários ou em qualquer rede social que eu vou colocar o link ali embaixo, não tenham vergonha <3 Pessoal, eu espero que a cena em que a melhor amiga da pp dá um duro nela por não gostar da Ash não tenha passado despercebida por vocês. Eu não quero, de jeito nenhum, em hipótese alguma, tratar o ódio entre mulheres como algo normal. Essa cena foi só o começo de um grande desenvolvimento que está por vir, então eu quero ter certeza que vocês notem e não pensem que foi só mais uma, ok? Boooom, é isso. Se tudo der certo, o capítulo 7 não vai demorar. Eu vou postando conforme vou escrevendo, deixando sempre um capítulo sobrando pra eu não ficar nervosa, sem nada pra postar (sou dessas JKASHJKASHSAJKHS). Então mil beijos e rezem pela minha inspiração ;**

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