CAPÍTULOS: [Prólogo][1][2][3][4][5][6][7][8][9][10]









Última atualização: 03/08/2017

“And in the years after, with tears or with laughter, we’ll always remember our dear Kappa days.”




Sabe aquelas cenas de filmes em que, de repente, o celular de todo mundo toca, avisando que uma nova mensagem chegou? Geralmente, não é coisa boa, mas, ainda assim, todo mundo corre para ver, porque a curiosidade sempre fala mais alto. Não que eu esteja julgando, afinal, eu era uma das que deixaram de lado as questões que o Sr. Dawton nos passou, para ver quem era a vítima da vez. A última, no ano anterior, havia sido uma garota da minha sala, que saía dizendo por aí que esbanjava dinheiro, e acabaram descobrindo que ela era, na verdade, bem pobre. Clichê? Sim. Cruel? Também, mas o Ensino Médio tem dessas coisas. Eu me lembro de passar horas imaginando como ela havia se sentido. Horrível, com certeza, tendo uma parte da sua vida — uma que ela não apreciava muito — exposta por aí, por alguém que, provavelmente, não tinha muito o que fazer. Mas a realidade é que, mesmo depois de passar tanto tempo pensando nisso, eu estava bem longe de saber como realmente é. Ninguém nunca está preparado para algo assim.
No momento em que eu bati os olhos na foto, já senti os olhares se voltando para mim. Ouvi algumas risadinhas, sussurros, alguns “uhhh”, mas eu não conseguia parar de encarar aquela pequena imagem na tela do meu celular.
Primeiro, eu senti um aperto no peito, uma dor tão forte que era como se alguém realmente estivesse enfiando a mão lá, puxando meu coração para fora e o esmagando. Depois, raiva. Eu queria jogar o celular no chão, como se aquilo fosse fazer com que aquela foto não existisse. E, então, veio a pior delas: a decepção, que trouxe as lágrimas que lutei contra e não deixei cair. No final, foi como se tudo isso me atingisse ao mesmo tempo. Eu queria matá-lo, não queria vê-lo nunca mais, queria ficar sozinha, trancada em meu quarto, e chorar escondida.
Mas eu esperei. Esperei os 12 minutos que faltavam para que o sinal da saída tocasse. 12 minutos de olhares nada discretos, de sussurros que até tentavam, mas que eu ouvia cada palavra. Algumas eram de pena, outras zombarias, ou achando graça da situação toda. Olhei rapidamente para Mark, meu amigo, sentado ao meu lado, e quando ele fez menção de que iria falar alguma coisa, eu balancei a cabeça para os lados, impedindo-o. Naquele momento, eu só queria ouvir a voz de uma pessoa, e não era a dele. Por isso, quando o sinal tocou, meu material já estava guardado, e eu fui a primeira a deixar a sala, indo apressada ao estacionamento, onde sempre nos encontrávamos depois da aula.
Eu nem precisei procurá-lo. Logo que saí do pavilhão onde eu estudava, avistei-o. Ele andava tão rápido quanto eu, a expressão preocupada, postura tensa, olhando para os lados, provavelmente me procurando. Eu parei, e logo ele me viu e aproximou-se hesitante. Fiquei olhando para ele com uma expressão vazia, sem dizer uma palavra. Ele demorou alguns segundos para se pronunciar, mas o fez, com a voz trêmula, quase que num sussurro:
— Eu juro que posso explicar.
Dei o sorriso mais irônico que consegui, naquele momento, sem acreditar no que eu tinha acabado de ouvir. Não dava para ser um pouquinho mais original?
— Não se dê ao trabalho. A foto é autoexplicativa, — disse seca.
— Não é o que parece, !
Soltei uma risada forçada. Era inacreditável!
— Ah, não? Você vai me dizer que a Hailey fez uma montagem de vocês dois se beijando? Que aquilo nunca aconteceu? Nós dois sabemos que ela é burra demais pra fazer algo assim.
— Eu... — ele começou a falar, mas hesitou por um momento, antes de terminar a frase: — Aconteceu, mas...
— Ótimo. — Virei de costas e saí andando, já tendo ouvido tudo o que eu precisava. Mas não dei cinco passos e senti sua mão se fechar ao redor do meu braço, me impedindo de continuar.
, por favor, espera! — pediu, e eu me virei novamente para ele, me segurando para não meter a mão na cara dele.
— Tira a mão de mim! — exclamei, aumentando o tom de voz.
Aos poucos, as pessoas iam parando para ver o que estava acontecendo. Notei nossos amigos juntos em um canto, olhando tudo preocupados, e agradeci por não interromperem. Esta não era exatamente a nossa primeira briga, e eles já sabiam que o bom era não se meterem.
— Eu tiro assim que você parar de fugir e conversar comigo!
Bufei, puxando, eu mesma, o meu braço.
— Tá legal. Desembucha.
Ele olhou ao redor, parecendo, só então, notar os olhares que se voltavam para nós.
— Será que dá pra gente ir conversar em um lugar mais privado? — perguntou.
— Não — respondi simplesmente. Cruzei os braços no peito e olhei no fundo dos seus olhos, tentando mostrar para ele uma força que eu não tinha. Tentando esconder o quanto aquilo estava me machucando.
— Ok. — Respirou fundo, antes de começar a falar: — Você sabe que eu nunca te traí e que eu nunca faria isso.
— Tá falando sério? Caralho, , eu vi a porra da foto! Você acabou de confessar! Para de falar merda!
— EU PEDI PARA ME ESCUTAR, ! — ele gritou, sem conseguir se controlar. Eu não me assustava com aquilo, e ele sabia disso. A verdade era que, depois de mais de dois anos, eu estava mais que acostumada com os surtos dele. — Desculpa, eu... — “Prometi que iria me controlar mais e não tô fazendo isso” encaixava bem.
Ele levou as mãos à cabeça, puxando os fios de cabelo, como fazia desde pequeno quando estava nervoso. Eu sempre odiei aquilo, não queria que ele se machucasse, mas, ali, achei ótimo. Queria que ele sentisse dor também, uma dor tão forte quanto a que eu estava sentindo.
— Você tem cinco minutos. Depois disso, eu vou embora sem a sua explicação idiota.
Seus olhos procuraram os meus e, quando encontraram, eu vi a dor. Eu não vou mentir, naquele momento, foi a visão do paraíso. Não parecia justo que só eu me sentisse uma merda.
— Não é uma montagem, eu realmente fiquei com ela. Mas foi em uma festa, no sábado, você tinha terminado comigo... Eu estava puto com você, acabei bebendo demais e aconteceu. Eu te amo tanto. Nunca ficaria com uma garota estando com você.
Ouvi-o admitir o que tinha feito, com todas as palavras, doeu mais do que eu pensava que iria. Senti, mais uma vez, as lágrimas virem, mas, mais uma vez, não deixei com que acontecesse. Eu não daria esse gostinho a ele. Em vez disso, apertei meus lábios em uma linha reta e balancei a cabeça, continuando a achar tudo aquilo inacreditável. Ele falava uma idiotice atrás de outra.
— Quando foi que eu terminei com você, ? — perguntei.
— Sexta... — respondeu hesitante.
— Você ficou com a garota que mais me irrita no universo, um dia depois de terminar com a pessoa que você diz amar, e você acha que tá tudo bem? — questionei, perdendo um pouquinho do controle também e falando mais alto do que eu pretendia. — É essa a merda de explicação que você tem para me dar?
, me perdoa, por favor. Eu juro que não vai acontecer de novo. — Foi tudo o que ele precisou dizer para me fazer explodir. Eu tinha plena consciência do grande número de pessoas paradas, acompanhando tudo, mas, naquela hora, eu não poderia me importar menos com aquilo.
— Não! Para de falar, pelo amor de Deus, porque cada palavra que sai da sua boca só faz com que a vontade de te dar um soco no meio da cara aumente! Você fica com outra garota, um dia depois da gente terminar, nós voltamos dois dias depois, você esconde isso de mim, espera que eu descubra junto com o resto do colégio, faz com que eu me sinta humilhada na frente de todo mundo e ainda espera que eu te dê uma segunda chance? Vai se foder, ! Eu já aguentei sei lá quantas crises bestas de ciúme sua, sem nunca ter nem pensado em te trair, e você vai lá e se agarra com outra garota porque estava com raivinha de mim? Se eu fosse seguir o seu exemplo, já teria pego a porra do colégio inteiro! Mas, não, a idiota aqui pensou que, apesar de tudo, eu poderia sempre confiar em você... Mas não é bem assim, é? Eu sempre deixei bem claro, traição eu não aceito, então faz um favor a mim: não aparece mais na minha frente, não tente nem me dirigir à palavra, ou eu juro que vou fazer um belo estrago nesse seu rosto bonitinho.
Dito isso, virei de costas e saí andando para fora do estacionamento. Eu não sei dizer exatamente em que parte do caminho para a minha casa comecei a chorar, ou onde eu desisti de andar e me sentei na calçada, e fiquei ali, sem saber o que fazer. Eu não me lembrava da última vez em que eu havia passado mais de uma semana sem tê-lo por perto. A ideia de ele estar completamente fora da minha vida me deixava meio perdida. Mas, desta vez, não tinha volta. Eu não me importava se tinha sido só um beijo ou se eles tinham transado. Traição é traição, e eu, com certeza, não seria uma dessas que deixa alguém me fazer de boba e, depois, volta correndo para os braços dele. Isso não. Eu aprenderia a ficar sem ele, por mais impossível que aquilo parecesse, naquele momento. Ele não era tão essencial assim.



Atualmente


— Eu estou tão animada! Esperei um ano inteiro por este dia! Nós, finalmente, vamos voltar a nos ver todos os dias, almoçar juntas, ir às mesmas festas! Awww! Eu senti tanto a sua falta! — finalizou a fala, me dando o vigésimo abraço do dia.
Esta é a minha melhor amiga . Ela tem esse jeito meio doido; às vezes, assustador, mas eu garanto que ela é um amor. O motivo da animação dela? Eu, finalmente, estou indo para a universidade! A realidade é que eu tô bem mais animada que ela, a diferença é que ela faz questão de mostrar isso a cada dois minutos. Mas, sim, este, com certeza, é um dos melhores dias da minha vida. Eu sempre sonhei em estudar na UCLA (University of California, Los Angeles), só uma das universidades mais concorridas dos Estados Unidos! Sem pressão. Mas eu consegui! Não foi fácil, claro, tive que sacrificar algumas festas aqui e ali, me matar de estudar aqui e acolá, e, mesmo que, na hora, fosse difícil, ter entrado fazia cada minuto a mais estudando valer a pena. E, agora, eu estava no meio do campus, pela primeira vez, como uma universitária e não só mais uma adolescente sonhadora.
Como você, provavelmente, já percebeu, já estuda aqui há um tempo. Um ano, para ser exata. Eu tenho praticamente o mesmo grupo de amigos desde o fundamental: ela, , e , que era o que eu conhecia há mais tempo, desde quando eu tinha quatro anos, mas esse é passado e não merece nem ser mencionado. Ele, e eram um ano mais velhos que eu e . Nós acabamos nos conhecendo, porque e eu éramos inseparáveis, então nossos amigos acabavam se juntando também. É claro que eu tenho outros amigos, porque ter só quatro seria bem deprimente, mas esses são os mais próximos e os que eu mais amo. Menos o , que, como eu já mencionei, é um idiota do passado. Na verdade, todos eles também sempre dividiram comigo o sonho de estudar na UCLA e, depois de muitos anos, aqui estamos nós.
Bem, eu e , no momento, mas você entendeu.
— E eu tô tão animada por vocês duas! — Um braço extra passou ao meu redor, me prendendo ainda mais a .
É, e esta é a minha mãe Claire. Talvez, eu estivesse errada. Talvez, minha mãe fosse a pessoa mais animada com o meu primeiro dia na universidade. Nós já morávamos em Los Angeles. Eu poderia facilmente chegar aqui sozinha, mas ela fez questão de me trazer. Não que eu esteja reclamando, afinal, eu estava carregando duas malas gigantescas e minha casa não é exatamente perto daqui, tanto que eu decidi me mudar para um dormitório na universidade, então a ajuda era super bem-vinda.
— Vamos com calma, tá legal? Eu nem cheguei ao meu dormitório ainda — disse, tentando afastar as duas, que grudaram em mim que nem chiclete.
— Não dá pra ter calma, , nós temos tanta coisa pra fazer! — exclamou, me largando e voltando a andar, e puxando uma das minhas malas. — Você já trouxe várias roupas, né? Por favor, , me diz que você tem roupas maravilhosas dentro desta mala, ou eu te mato!
Arregalei os olhos para o seu tom ameaçador.
— Tem uma coisinha ou outra, mas nada muito extravagante. , é minha primeira semana aqui, eu não posso já sair, indo às festas... Tenho que me adaptar primeiro — repreendi-a, e ela revirou os olhos, não se importando.
— Amanhã, começa a rush week¹, você tem que participar e tem que estar linda! — Sua voz saiu tão aguda que eu fiz uma careta. Por isso e pelas palavras que saíram da boca dela, claro.
, eu falei que não vou entrar em irmandade nenhuma. Você sabe que eu acho isso tudo ridículo.
— Como assim ‘ridículo’? — Ok, eu me esqueci de mencionar que minha mãe já foi uma irmã na Kappa Kappa Gamma. — , você vai tentar entrar em alguma, sim! Eu não vou deixar você jogar uma oportunidade dessas fora, perder a chance de ter uma experiência incrível.
— Mãe, por favor, o que eu vou aprender? Como lavar carros sendo sexy I? Introdução à briga de travesseiros? Fala sério! Não vai rolar. — Balancei a cabeça e continuei andando, até perceber que não era mais seguida por elas. Virei-me para trás, para encontrar duas mulheres possessas de raiva me encarando com tanto ódio no olhar que pareciam querer arrancar minha cabeça fora. — Vocês não vêm? — perguntei inocentemente, sabendo que aquilo iria deixá-las mais putas ainda.
, eu vou te falar isso pela última vez: para de se deixar levar pelo que você vê por aí. Você sabe que grande parte é tudo mentira. Estar em uma irmandade foi a melhor coisa que aconteceu comigo quando eu estava na universidade, e você vai, pelo menos, tentar! — Ela estava praticamente gritando, o que me fez revirar os olhos. Barraco era coisa de família, mesmo.
— Não, valeu.
— Ei, você realmente acha que eu seria parte daquilo que os filmes mostram? Garotas que só pensam em festa, e garotos que tem briguinhas idiotas entre si, são loiras, peitudas e burras? — questionou.
Encolhi os ombros, sem ter certeza de como responder àquilo. Ela não se encaixava em tudo, mas, no geral, uma irmandade me parecia o lugar perfeito para a .
— Eu não disse isso. Só não quero participar e pronto, aceitem logo — insisti, tentando finalizar aquela discussão desnecessária.
, você pode nos deixar a sós por um momento? — minha mãe perguntou, e eu gemi em protesto. Não, eu não queria uma daquelas conversas agora.
— Sim, senhora — disse e se afastou, levando a mala que carregava consigo. Não sem antes me lançar um sorriso de lado, já sabendo que aquela batalha estava vencida.
— Enfim, sós — falei ironicamente, enquanto alunos e seus pais passavam o tempo todo ao nosso redor. Minha mãe não demonstrou reação alguma, só ficou parada lá, me encarando como se eu fosse alguma criminosa ou algo do tipo. Eu começaria, então: — Mãe, você sabe que eu não sou esse tipo de garota. Eu não me encaixo em grupos assim, eu nunca seria aceita. Para que perder tempo tentando algo que não vai dar em nada?
Ela suspirou, antes de se pronunciar:
— Que tipo de garota, ? O tipo de garota dedicada, que vai do céu ao inferno por quem ama, que luta pelo que acha certo? Porque é isso que você vai encontrar lá e é isso que você é. Eu sei que o mundo inteiro pensa que irmandades e fraternidades não são nada, além de jovens cheios de hormônios procurando por uma boa festa, mas eu já te falei mil vezes que não é bem assim. Você vai encontrar esse tipo, com certeza, e vão ter festas, sim! Ótimas, por sinal! Mas, além disso, você vai conhecer garotas, irmãs, que vai levar para a vida inteira. Sua avó, sua madrinha, minhas melhores amigas até hoje, todas foram o que?
— Kappas — respondi desanimada, provavelmente pela centésima vez na minha vida.
— Sim, Kappas. Então, por favor, faz isso por mim. Pelo menos, tenta. Se você não entrar em nenhuma, tá tudo bem, eu não vou te amar menos por isso, mas eu realmente quero que você tente. E, se não gostar, você pode sair a hora que quiser. Só não fica nessa de ficar julgando algo que não conhece. Depois, você pode julgar à vontade, eu vou deixar. — Respirei fundo, dando um sorriso derrotado. Eu faria qualquer coisa pela minha mãe. Ela sabia disso e sabia quando usar essa vantagem. — Estamos combinadas? Promete que vai, pelo menos, tentar?
— Eu prometo. — Ela não me culparia se eu simplesmente não conseguisse entrar, certo? Eu só tinha que ser péssima o suficiente e pronto. Nada de patricinhas me enchendo o saco. A única que eu aguentava era a , e até ela me tirava do sério, de vez em quando.
— Ótimo. Agora, me dá um abraço — pediu com um grande sorriso no rosto, abrindo os braços. Abracei-a apertado, sabendo que eu iria morrer de saudade dela quando ela fosse embora. — Ah, eu quase me esqueço! — Afastou-me rapidamente, me segurando pelos ombros e arruinando o meu momento. — Quando você for à casa das Kappas, não se esquece de mencionar que você é uma , ok? Vai facilitar a sua entrada.
Maravilha.

Depois de uma dramática despedida, com direito às lágrimas e mil abraços — sim, foi bem patético —, mesmo sabendo que eu a veria novamente em duas semanas ou até menos, eu segui para a entrada do prédio em que ficavam os dormitórios, onde me esperava com um sorriso de orelha a orelha.
— E então...? — perguntou, não conseguindo nem conter sua animação.
— Eu vou tentar — respondi, e ela deu um grito, antes de pular em mim e quase me derrubar no chão. Afastei-a assustada, percebendo que, praticamente, todo mundo que passava por perto, no momento, nos encarava. — , pelo amor de Deus, não me faz pagar mico no meu primeiro dia!
— Relaxa. Eles vão ver coisas piores no decorrer do ano. Agora, vamos, nós temos muito o que fazer — falou, me puxando pelo braço, escada a cima. Quase não tive tempo para arrastar minha mala junto comigo, mas consegui pegá-la a tempo. — Tá legal, primeiro: você vai ter que visitar a casa de todas as irmandades amanhã, sem exceção — ela explicou.
— Todas? Até as que eu não tenho interesse nenhum?
— Com certeza! Como você vai saber se você tem ou não interesse por aquela casa, antes de conhecê-la? — perguntou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Dei de ombros.
— Eu já pesquisei um pouco sobre isso, sei o que cada...
— Segundo: vá com a mente aberta. — Interrompeu-me. — O que você pesquisou, provavelmente, está errado. Escuta o que eu tô te falando, já cometi esse erro. Então, não chegue às casas julgando saber tudo o que rola por lá, porque você terá uma baita surpresa.
— Tarde demais — sussurrei para mim, mas ela escutou e me lançou um olhar bravo, antes de continuar.
— Terceiro: você vai conversar com muita gente diferente e a pressão para agradar será gigante, mas não finja ser alguém que não é, porque aquelas são possíveis irmãs com quem você vai ter que morar junto. Elas são as suas futuras melhores amigas, acredite em mim. A não ser que você queira passar os próximos anos fingindo ser alguém que não é. — Eu quase ri da cara dela na parte das “futuras melhores amigas”, mas achei melhor não cutucar mais a fera. Não queria um ataque ali no meio de todo mundo. — Quarto: o seu foco são as...?
— Kappas. — “Professora”.
— Isso. Você é um legado, e isso torna tudo um pou...
— Eu sou um o que? — Interrompi-a confusa. Não que a palavra fosse difícil. Eu só não tinha ideia do que aquilo significava no contexto “irmandade”.
— Um legado. Quer dizer que você é filha e/ou neta de uma Kappa. Isso facilita um pouco na hora de entrar, mas não muito. E ser minha melhor amiga também não vai ajudar tanto. Você já tem a minha aprovação, mas só a minha não é o suficiente. Você tem que conquistar as outras garotas também, entendeu? — Assenti. — Ótimo. Como eu estava dizendo, as Kappas, especialmente a Kappa Kappa Gamma, podem ser um pouco mais exigentes. Eu não posso dizer muito, mas, para ser uma, você tem que se destacar! Então, por favor, quando você chegar lá não seja toda “”, sabe?
— Toda “”? — questionei-a e, desta vez, foi a minha voz que soou toda aguda e esquisita. — Você acabou de falar para eu ser eu mesma.
— Sim, você mesma quando está com seus amigos. De bom humor, de bem com a vida, descomplicada, não essa que você é quando está onde não quer e com quem não quer, e eu sei que você não quer nem um pouco fazer isso. Não faça piadas grosseiras, ofensivas, não feche a cara para as garotas, não critique o estilo delas e coisa do tipo. E, por favor, por favor, por favor, nada de indiretas. Por mais burras que você pense que elas sejam, elas também conseguiram uma vaga aqui na UCLA, então, acredite em mim quando eu digo que elas vão sacar. — Bufei, sem paciência para tudo aquilo. Se ela quer que eu seja eu mesma, o pacote deveria vir completo, certo? Good girl e bad girl . Aquilo não estava fazendo sentido nenhum, para mim. — Quinto e último tópico: arrume-se. Querendo ou não, a aparência ainda é algo muito significativo, nessas horas. Se você chegar lá toda esfarrapada, como se não estivesse nem aí, ninguém vai te escolher. Não precisa ser nada exagerado, só não dá para ser desleixada também. Nos três primeiros dias pode ser algo mais informal, vestidos de verão, shorts e coisa do tipo. No quarto, capriche um pouquinho mais. E, no quinto, você tem que estar maravilhosa!
Respirei fundo, de saco cheio com aquilo. E olha que nem tinha começado ainda.
— Entendi tudo — menti, para encerrar o assunto. — Agora, dá pra me dizer quantos degraus a gente ainda vai ter que subir até chegar ao meu dormitório? Não tem um elevador aqui, não?
— Ei, não é minha culpa você ter pego um bem no quarto andar. E, não, não tem elevador. Mas você tá precisando perder uns quilinhos mesmo, vai ser bom. — Brincou, me olhando de lado e sorrindo.
Empurrei-a levemente, rindo.
— Chata.
Nós subimos mais dois lances e , finalmente, me puxou para o corredor, em vez de para outro lance. Eu nunca fui exatamente a pessoa mais pontual do mundo. Aquela escada, com certeza, ainda iria me ferrar muito.
— Chegamos! — anunciou, parando em frente à sexta porta.
Sorri animada, encarando os dois metros de madeira à minha frente. Do lado do trinco havia um pequeno dispositivo de passar cartão para destrancá-la. Apressada, procurei na minha bolsa o cartão que havia recebido cerca de duas semanas atrás, quase derrubando tudo no processo, mas o alcancei e passei rapidamente onde era indicado. Uma pequena luz vermelha logo ficou verde, e o som de algo destrancando soou. Olhei para a ao meu lado, e ela balançou a cabeça, me incentivando a abrir, então o fiz.
Como eu já esperava, o cômodo era pequeno. Nada sufocante, nem nada do tipo, só pequeno. Pequeno e confortável. Na parede oposta a que eu me encontrava estava uma grande janela e, dos lados, nos dois extremos do quarto, duas camas de solteiro. Cada uma possuía um criado-mudo simples com duas gavetas do lado. Do lado da porta, perto de onde eu estava, se encontrava o closet, maior do que eu imaginava, eu tenho que admitir. Eu poderia facilmente dividi-lo com a minha colega de quarto. Ah, a minha colega de quarto! Essa estava sentada na cama esquerda, me olhando com curiosidade, enquanto eu analisava o lugar. Eu não conseguia ver o rosto dela direito, por causa de seu longo e volumoso cabelo preto, e sua franja, que cobriam quase tudo de um jeito meio estranho. Mas ela usava óculos fofinho.
— Oi! — Dei alguns passos para dentro e sorri para ela. Ela arregalou levemente os olhos e levantou meio desajeitada. Ela não era muito alta. Devia ter, no máximo, 1,60 m, um pouco mais baixa que eu.
— O-Oi — sussurrou.
Eu não acho que sussurrar tenha sido o objetivo dela, mas foi como saiu.
— Meu nome é , mas pode me chamar de . Eu prefiro. A não ser que esteja brava comigo. Na verdade, é como eu sei quando as pessoas estão bravas comigo. — Apresentei-me, me aproximando dela e tentando ser simpática, mas não funcionou muito bem. Ela desceu seu olhar para o chão quando estendi minha mão.
— Ap-pril — gaguejou. Sua voz saiu um pouco mais alta, mas não foi um avanço muito significativo, só o suficiente para eu perceber que ela possuía, provavelmente, a voz mais suave do mundo.
Eu estava quase descendo minha mão novamente quando percebi a dela se movimentar para me cumprimentar. Foi bem estranho. Cada centímetro que ela percorria era de forma hesitante. Eu estava me sentindo como um monstro tentando tirar vantagem da garotinha indefesa. O aperto de mãos foi rápido, realmente como se ela estivesse com medo de mim. Ainda bem que eu não era toda carinhosa que nem a . Se eu tivesse chegado, abraçando e dando beijinhos no rosto, a garota iria desmaiar. Eu tinha que me lembrar de agradecer a ela mais tarde por ficar parada e bem quieta atrás de mim.
— April? Nome legal — disse, sorrindo, e consegui arrancar um sorriso bem pequeno e bem forçado dela. É alguma coisa. Pelo menos, ela se deu ao trabalho de tentar.
— E eu sou a , a melhor amiga da ! — Só porque eu elogiei. É claro que ela fez questão de dizer que era minha melhor amiga. Apesar de ela ter falado em um tom simpático, a ameaça estava bem explícita. Como se a garota já não estivesse assustada o suficiente.
— Sim, e a melhor amiga da já está de saída — falei, me virando para trás e lançando a ela um olhar bem sugestivo.
Ela revirou os olhos, mas não me contradisse.
— É, a melhor amiga da tem muitas coisas para fazer. Ela vai passar aqui mais tarde pra gente ir comer alguma coisa com o resto da galera. Você é bem-vinda, April.
Eu não vi a reação da April, mas também não a ouvi dizer nada, então deveria ter sido tão estranha quanto às outras.
— Não fale de você em terceira pessoa, é estranho. — deu de ombros, não dando a mínima.
— Vejo você mais tarde.
Assenti, e ela foi embora, provavelmente, ajudar nos preparativos para os dias seguintes.
Fechei a porta e voltei a me virar para April, que continuava praticamente na mesma posição de antes, sendo a única diferença a de que, agora, suas mãos estavam entrelaçadas na frente do seu corpo. Dei mais uma olhada ao redor, notando algo pela primeira vez. Escondido em um canto, perto da cama da direita, havia um frigobar preto. Isso eu, com certeza, não esperava.
— É seu? — perguntei, apontando para ele.
— S-Sim, eu ganhe-ei. V-Você pode u-usar também, tem bast-tante espaço.
— Legal. Valeu! — agradeci, me jogando na cama perto dele e imaginando que aquela deveria ser a minha, já que ela estava sentada na outra antes. Era bem confortável, mas eu, com certeza, sentiria falta da minha. — Desculpa perguntar, mas... Hum... Você é gaga?
Não me culpe, eu sei que você tá se fazendo essa pergunta também. Ela seria minha colega de quarto pelos próximos anos, eu tinha que saber... Certo?
Voltei meu olhar para April e encontrei seus olhos quase pulando para fora de tão arregalados que estavam, além do pouco de seu rosto, que eu poderia ver, estar completamente vermelho. Ok, talvez, só talvez, eu não devesse ter perguntado.
— E-Eu... — Ela pigarreou, antes de começar novamente: — Eu não — respondeu em um sussurro.
É, definitivamente, não deveria ter perguntado.
— Sério? — Eu não podia ver minha cara, no momento, mas eu tinha certeza de que estava exatamente como a dela, segundos antes. — F-Foi mal, é que você... Sabe? — Parece que os papéis se inverteram, não é mesmo? Que ótimo, , sempre dizendo a coisa errada.
Mas indo contra todas as minhas expectativas, naquele momento, ela riu. Ela não me xingou, não saiu correndo, não começou a chorar, ela riu. Bom, não foi uma super risada, nem nada. Na verdade, foi uma bem curta, tímida e fofa, mas é alguma coisa.
Fiquei encarando-a com cara de besta, por alguns segundos, sem ter certeza do que dizer, até que ela me tirou do inferno e se pronunciou:
— Você não é a primeira a me perguntar isso — disse com aquela voz invejável de tão suave. — Eu só... Só tenho alguns problemas, hum... Sabe... Na hora de conhecer pessoas novas.
Dei uma risadinha nervosa e tentei controlar o que saía pela minha boca, antes que eu falasse merda de novo.
— Bom, essa pergunta parece ser a sua cura... — Ela sorriu levemente e assentiu, voltando a sentar na cama dela. — Então, você chegou faz muito tempo?
— Ontem — ela respondeu.
Fiquei esperando ela falar mais alguma coisa, mas, gaga ou não, ela era uma garota de poucas palavras. Felizmente, a good girl falava por duas pessoas, sem dificuldade alguma.
— Este lugar é legal, né? Eu tinha uns 9 anos, na primeira vez em que vim aqui, e me apaixonei, e, cada vez que venho aqui de novo, desde aquele dia, tudo só parece mais incrível! — contei, sem conseguir conter minha animação por, finalmente, estar ali. — Você sempre quis estudar aqui também? Ou tinha outros lugares em mente?
— Eu sempre quis. — April respondeu.
Ok, falar com uma pessoa de poucas palavras não é tão divertido. Sorri para ela e desviei o olhar para a janela, pensando no próximo assunto, mas nada me veio em mente. Legal como as coisas fogem bem na hora em que a gente precisa.
— Desculpa, eu... Eu melhoro, tá? — ela falou, de repente. Encarei-a confusa. — Eu sei que eu não sou uma pessoa muito fácil de se comunicar. Eu só... Preciso me acostumar com você, aí eu melhoro. Não muito, mas...
Sorri compreensiva.
— Tudo bem, não tem problema.
E ela tinha razão. Ela realmente melhorava.
Nós passamos o resto da tarde conversando, enquanto eu arrumava minhas coisas. Aos poucos, ela foi se soltando e me contando mais sobre ela, usando bastante palavras. Ainda tinha o jeito todo tímido, isso não foi embora, mas, mesmo assim, ela era bem legal.
Ela era de São Francisco, ali na Califórnia, mesmo, tinha 18 anos, como eu, e um irmão mais velho. Ela falou bastante sobre como iria sentir falta do seu gato, Natal, e sua cachorra, Pipoca, o que acabou fazendo com que eu começasse a lamentar também a falta que o Smurf, meu cachorro, iria fazer. Contei a ela sobre mim também. Como eu era filha única, já morava ali em LA e coisas do tipo.
Quando começou a escurecer, nós decidimos nos arriscar no corredor lá fora, para procurar o banheiro e tomar banho, antes que a chegasse novamente. Apesar da grande movimentação do lado de fora, com alunos indo e vindo, procurando seus dormitórios, pais acompanhando, veteranos tentando ajudar, nós achamos com facilidade. Ficava logo no final do corredor, de um lado, o feminino e, do outro, o masculino. Era bem grande, afinal, tinha que suportar todas os alunos daquele andar, então, mesmo tendo bastante pessoas nele, não estava cheio. Felizmente, a maioria das garotas estavam usando apenas o espelho. Foi fácil para a gente achar chuveiros vazios.
Um sorriso enorme se formou em meu rosto quando vi que tinha água quente. Eu não sabia o que faria se não tivesse. Sou uma daquelas pessoas que toma banho na água quente até no calor, e estava bem calor! Eu deveria estar parecendo algum tipo de ET ali, aproveitando aquela água, pois todas as outras garotas, que também tomavam banho, a usavam fria, mas eu estava feliz demais para me importar. Parecia tão surreal o fato de que eu estava realmente ali, na UCLA, tomando banho em um banheiro compartilhado, no andar do meu dormitório. A ficha só iria cair mesmo quando as aulas começassem, em uma semana. Talvez, nem lá. Enquanto isso, eu ficaria toda hora abobada, me lembrando disso. Na verdade, quando eu me lembrava, nem a ideia de passar os próximos dias fazendo algo em que eu não estava minimamente a fim me desanimava. Eu poderia estar fazendo algo chato, mas eu estava fazendo aquilo na UCLA, então, tudo bem.
A sensação de ter algo que você sempre quis é incrível, mas a sensação de conseguir algo, depois de passar metade da sua vida lutando para que aquilo acontecesse, era melhor ainda. Era indescritível!
De banho tomado, April e eu voltamos ao dormitório. Ela não queria sair comigo e com meus amigos, dizendo que não conhecia ninguém, que iria morrer de vergonha, mas, depois de muita insistência, eu a convenci. Depois de tantos anos convivendo com a minha mãe, eu tinha pego o jeito da coisa. O segredo? Ir para o lado emocional. Falei a ela que, para passar a conhecê-los, ela tinha que ter esse primeiro contanto, como teve comigo, ou nunca faria amigos ali na universidade, e não ter amigos, com certeza, arruinaria a experiência universitária dela. Todo mundo quer ter os melhores anos de sua vida na universidade, até uma garota super tímida, então foi tiro e queda.
Quando bateu na porta, eu estava de frente para o espelho, que eu havia dado um jeito de enfiar em uma das minhas malas, tentando arrumar meu cabelo. Não me entenda mal, eu amo meu cabelo. É um loiro bem bonito e vai até um pouco abaixo dos meus ombros. O problema nele sou eu mesma. Eu insisto em cortar a franja desde que eu tinha uns 12 anos e chega uma hora em que ela tá grande demais para ficar na testa, então tenho que jogar para os lados, para não cobrir meus olhos, e pequena demais para pôr atrás da orelha ou prender no “rabo de cavalo” que eu havia feito. Resultado: ela ficava no lugar em que bem entendia. Se eu arrumava em um lugar, logo ela iria a outro. Quando eu decidia deixar naquele outro lugar, ela decidia ficar indo aos meus olhos. Era uma guerra diária, já vencida, mas que eu continuava insistindo, então pedi a April, que estava apenas sentada, esperando, atender para mim.
— Oi. — Ouvi-a dizer no tom baixo de horas atrás.
— Ah, você vai com a gente! Legal! — Vi , pelo reflexo do espelho, sorrir para ela. Como eu disse antes, ela é um amor. Ela só deixaria de ser se percebesse que a April estava ameaçando o que ela gostava de chamar de seu “posto de melhor amiga”. Aí, sim, ela viraria uma fera. — , não vai ficar melhor que isso. Vamos logo, já tá todo mundo esperando a gente.
Dei uma última olhada no espelho e bufei de decepção quando a franja saiu completamente da posição em que eu havia deixado, mas deixei quieto, peguei minha bolsa e segui as duas, porta a fora, ou eu acabaria passando a noite inteira ali.
— A gente vai ao Mc, né? — perguntei enquanto descíamos as mil escadas, olhando rapidamente para .
Ela revirou os olhos.
— Sim, , ao Mc. Sério. Como você não enjoa?
Sorri alegremente. Só faltava isso para o meu dia ser perfeito.
— Eu sou americana. Você é a errada aqui, não eu. — Olhei para a April. — Você acredita que ela vai ao Mc e pede salada?
Ela deu mais uma daquelas risadinhas tímidas, toda fofa.
— Salada é bom — disse, e eu fiz uma careta de nojo.
— Desculpa, mas salada só é bom no meio do meu hambúrguer. E só um pouco de alface já é o suficiente.
Eu e começamos, então, uma discussão sobre salada, que durou até chegarmos ao Mc, há poucos quarteirões de distância. Ela amava, eu odiava. Ela não aceitava meu ódio, e eu não aceitava o amor dela. Sempre foi assim.
Saí correndo, deixando as duas para trás, no momento em que vi . Eu não o via faz, pelo menos, uns dois meses e, no último ano, nós nos vimos pouco também porque ele teve um primeiro ano bem corrido, já que conseguiu um lugar no time de futebol americano da universidade. Ele abriu os braços, no segundo em que me viu e, depois de eu pular, literalmente, em cima dele, me envolveu em um abraço apertado, me levantando do chão.
— Que saudade! — murmurei, apertando-o com toda a força que eu tinha.
— Também, . Senti sua falta.
Abri um sorriso gigante ao ouvir a voz dele. Eu realmente senti a falta dele. Eu gostava de pensar que a gente tinha uma ligação especial. Ele era como um irmão mais velho, para mim, sempre me protegeu, o que olhava feio para os garotos com que eu ficava, o que tinha que dar aprovação para qualquer relacionamento mais sério meu. Não só porque ele exigia, mas porque a aprovação dele era importante para mim. Na verdade, quando meu ex, um dos melhores amigos dele, me traiu, ele deu um soco nele na frente de todo mundo. Eu não vi, o que é uma pena, mas o colégio inteiro ficou falando sobre aquilo por um tempo. Não dá para não amar uma pessoa dessas.
— Isso mesmo, dona , finge que eu nem tô aqui. — Levantei a cabeça do ombro do para olhar para , ao nosso lado, que nos encarava com um sorriso no rosto.
— Poxa, , eu vi sua cara todo santo dia, ano passado. Enjoa, sabia? — Ele abriu a boca, fingindo estar chocado com as minhas palavras, e eu ri, me afastando do só para dar um abraço nele também. — Na verdade, até que você fez falta neste um dia inteiro sem te ver.
— Eu sei, eu sei — disse, dando tapinhas em minhas costas.
era da minha idade, 18, enquanto os outros já tinham 19. Nós sempre fomos próximos, mas nos aproximamos mais ainda no último ano, sendo os dois que sobraram no Ensino Médio. Nós dormíamos na casa um do outro o tempo todo, fazíamos praticamente tudo juntos. Entre os que estavam ali, incluindo e April, que quase nos alcançavam, ele era o que mais sabia das coisas que tinham acontecido na minha vida nos últimos meses. Não que eu não quisesse contar aos outros, ou não confiasse, eu só não tinha a oportunidade. Ah, e ele é gay. Ele não é daqueles que você olha e já sabe a orientação, sempre foi mais na dele, então ele acabava enganando muitas garotas. Não por querer, claro. Mas você tinha que ver o tanto de garota que já veio falar comigo para arrumar ele para elas. O número não é pequeno. Digamos que eu já estava muito acostumada a dar a notícia da orientação sexual dele, mas eu nunca cansava das reações, eram sempre ótimas.
Voltei para o , que passou um braço ao redor dos meus ombros, quando as garotas chegaram.
, , esta é a April, minha colega de quarto. April, este é o , e este é o , meus amigos. — Apresentei-os, apontando para cada um.
— Muito prazer, April. Pode me chamar de... Eu não tenho um apelido, vai ter que ser . — Ele brincou, lançando a ela um daqueles sorrisos que faziam as garotas morrerem de amores por ele.
— Eu também não tenho apelido, então é . Prazer.
— O-Oi — ela disse, gaguejando, mas a voz dela saiu, desta vez, diferente do “oi” que eu havia ganhado mais cedo.
— Vamos? — perguntei, animada para entrar. Eu estava morrendo de fome e, agora que já tinha visto e abraçado , só conseguia pensar em algo para comer.
— Ainda não, falta uma pessoa. — disse.
— Vocês chamaram alguém?
— Uhum. — murmurou ao meu lado. e ele trocaram uns olhares, e começou a coçar a parte de baixo do seu pescoço, como sempre fazia quando estava nervosa.
— Quem? — questionei, variando meu olhar desconfiado entre eles.
— Nós não deveríamos conversar com ela sobre isso primeiro? — perguntou, me ignorando completamente.
— A gente iria, mas vocês não chegaram aqui com antecedência, como a gente pediu, então... — respondeu.
— Ei, eu tive um dia cheio. — Ela se defendeu.
— Do que vocês estão falando, hein? — Meti-me, não querendo ser ignorada pelo resto da noite.
suspirou.
— Eu converso com ela — disse, já me puxando para um canto longe dos outros.
— Conversar sobre o...
Antes que eu pudesse terminar a frase, uma luz forte me cegou por alguns segundos, e a próxima coisa que eu vi foi uma moto estacionando. Eu sabia bem a quem pertencia essa moto. Observei, indignada, descer dela, tirar o capacete como se estivesse fazendo um show e seguir para onde estávamos antes, com um sorriso no rosto. Ele estava ainda mais bonito, o que era bom, já que me fazia odiá-lo mais ainda. Ele sempre foi forte, pois nadava desde pequeno, e eu sabia que ele havia entrado para o time de natação. Antes, era só um hobby e, agora, a coisa era mais séria, então, ele, provavelmente, estava treinando mais, e esse treinamento estava dando um baita resultado! Se você já viu o corpo de um nadador, você sabe do que eu tô falando. Como se estivesse em câmera lenta, ele cumprimentou cada um dos meus amigos, inclusive a April, depois da os apresentarem. Até a April! Isso tem que ser algum tipo de brincadeira.
, você tá me ouvindo? — Desviei o olhar da cena ridícula para encarar , que me olhava preocupado.
— O que diabos tá acontecendo, ?
Ele fez uma careta e suspirou mais uma vez.
— Calma, tá? É sobre isso que a gente tem que conversar — ele disse no tom mais calmo do universo, o que só me irritou mais.
— Sobre o ? Eu não sei se você se lembra, mas eu não converso sobre o , nem com o . O que ele tá fazendo aqui?
Suspirou pela terceira vez, antes de responder:
, ele é nosso amigo, você sabe disso.
— Mas não meu, e vocês sabem disso.
Ele me segurou levemente pelos ombros e me olhou nos olhos, tentando passar um pouco da sua calma, eu imaginei, mas não funcionou.
— Escuta, era fácil pra gente manter vocês dois separados ano passado, mas, agora, não vai dar. Você tá na universidade, agora, mostra que você é madura o suficiente para deixar o passado no passado e seguir em frente.
Ri ironicamente, balançando a cabeça.
— Eu que não sou a madura da história? Foi ele quem me traiu e tentou me fazer de besta. Eu não vou fingir que nada disso aconteceu, tá legal? E se isso faz de mim alguém infantil... Bom, eu não tô nem aí. — Virei-me, planejando fazer uma saída dramática e ir de volta ao dormitório, mas me segurou pelo braço e me virou de volta para ele.
— Eu não tô pedindo para você agir como se nada tivesse acontecido, só tô pedindo para você aprender a, pelo menos, conviver com ele. Eu sei que ele te magoou, mas, acredite, ele paga por isso até hoje. Ele veio aqui em paz, . Tenta fazer a mesma coisa. Não precisam voltar a ser melhores amigos, nem nada do tipo.
— Mas, ...
, por favor. Faz isso por mim, pela e pelo .
Engraçado como todo mundo parecia ter tirado o dia para me pedir favores.
Olhei rapidamente para onde os outros estavam. Eles conversavam com sorrisos nos rostos. Até a April olhava para tudo, sorrindo. Fui eu quem suspirei, desta vez, quando percebi que eu não queria estragar aquilo.
— Eu vou aguentar ficar nos mesmos ambientes que ele, mas só isso. Eu não tô em paz e não vou conversar com ele.
abriu um sorriso e deu um beijo no topo da minha cabeça.
— Esta é a minha garota.
Ele começou a voltar e foi me puxando pela mão. notou quando nos aproximamos e me olhou, abrindo um sorriso leve, sem mostrar os dentes. Tentei colocar toda a raiva que eu sentia dele no olhar que o lancei e pareceu funcionar, porque logo o sorriso desapareceu e ele franziu o cenho. Foi a última reação dele que eu vi, pois optei por, simplesmente, ignorar a presença dele ali e focar nos meus amigos, os que eu realmente havia sentido falta no último ano.
— Podemos ir — anunciei, fazendo e sorrirem, e April me olhar confusa. Eu explicaria tudo a ela mais tarde.

— Eu tô falando seríssimo. Vocês estão olhando para a futura Kappa Kappa Gamma, .
Revirei os olhos. estava falando sobre o recrutamento² há, pelo menos, meia hora.
— Não exagera, . Depois, eu não passo, e você vai ficar toda triste.
— Amiga, eu tenho fé em você — afirmou, batendo os cílios para mim.
Todos riram, mas ninguém falou mais nada, até se pronunciar:
— Acho melhor a gente ir — ele disse. Olhei no relógio do meu celular. 11h03 e 4 ligações perdidas da minha mãe. Que ótimo. — Eu ainda não sei como chegar ao prédio dos dormitórios, sem pegar, pelo menos, dois caminhos errados antes.
— Acho que eu vou precisar de uns 10 errados, no mínimo — falei, concordando com ele. Peguei um pouco de dinheiro na minha bolsa e estendi para o . — Você paga? — Ele assentiu e pegou o dinheiro. — Vou ligar pra minha mãe, ela deve estar louca.
Fiz uma careta quando saí para fora do Mc e o ar quente do verão californiano me atingiu. Amo calor e amo a Califórnia, mas tudo tem um limite. Quando o calor é forte pelo dia e alivia à noite, eu amo. Quando é só calor o tempo todo não dá.
Encostei-me num carro estacionado ali e, esquecendo momentaneamente que o alarme poderia tocar, liguei para a minha mãe, rezando para que ela já estivesse dormindo. Antes de ir embora, ela pediu para que eu ligasse mais tarde, mas eu esqueci completamente, o que deve ter lhe deixado pirada. Minha mãe era super protetora. Felizmente, para equilibrar, meu pai era mais de boa. Sorri quando a ligação caiu na caixa postal. Vai ver, ele fez alguma coisa para acalmar ela, porque, normalmente, ela não dormiria ou largaria o celular, até conseguir falar comigo. Eu só não queria saber o que.
— Oi, mãe, é a ... — comecei a falar, depois do bip. — Desculpa não ter ligado antes ou atendido suas ligações. Eu saí com o pessoal e acabei me distraindo. Mas, para acalmar os seus nervos, eu vou te dar um resumo do meu dia: cheguei ao meu dormitório bem, o lugar é bem legal, minha colega de quarto é um amor, matei a saudade do , odeio o , comi Mc e tô indo ao dormitório. Eu vou precisar de uma ótima noite de sono, para me preparar para os próximos dias. Amanhã, à tardezinha, eu te ligo, tá bom? Beijo! Te amo.
— Todo esse ódio faz mal ao coração, sabia? — Uma voz falou ao meu lado, perto demais, me assustando e fazendo eu me afastar automaticamente. Olhei para o dono, que me encarava com um sorriso divertido nos lábios, por alguns segundos, antes de voltar a atenção para o meu celular. — Não vai falar comigo? — Não respondi. Comecei a entrar em um aplicativo, depois do outro, procurando alguma coisa que chamasse minha atenção. — Você já foi mais educada. — disse, e eu tive que espremer meus lábios um contra o outro para não abrir a boca e mandá-lo ir tomar no cu. — , isso é ridículo. Fala comigo. — Nada. Algum tempo passou, comigo passando minhas mensagens, sem realmente lê-las, até que ele suspirou. Meus lábios se curvaram levemente em um sorriso, imaginando que ele tinha desistido e iria embora, mas logo ele começou a falar de novo: — Tá legal. Se não quiser falar comigo, não fala. Só queria te dar as boas-vindas à UCLA. Eu sei o quanto você sempre quis isso.
— Eu não preciso das suas boas-vindas. — Merda.
— Olha, ela tem uma voz! — ele falou, sendo sarcástico. Voltei a ficar quieta, me xingando mentalmente por não conseguir manter a boca fechada. — Já vi que não tá de bom humor hoje.
— Não, meu humor tá ótimo, o problema é você, mesmo. — Em minha defesa, algumas frases realmente precisavam ser respondidas.
— Não disse que precisa das minhas boas-vindas, tô dando porque quero — disse, ignorando o que eu falei. — Boa sorte esta semana também. Disso, você vai precisar.
Franzi o cenho, já sentindo a raiva e a vontade de brigar vir. Ele tinha esse dom.
— O que tá querendo dizer com isso?
— Nada demais — ele respondeu simplesmente. Olhei para ele, tendo que levantar um pouco minha cabeça, graças aos seus 1,85 m de altura, e o odiei ainda mais quando vi aqueles olhos azuis. Ele não merecia olhos tão bonitos.
— Você não acha que eu vou conseguir entrar para as Kappas — concluí, cerrando os olhos.
— Eu não disse isso...
— Não precisa, tá escrito na sua testa! — exclamei, desencostando do carro e virando de frente para ele. Assim, eu conseguia encará-lo com mais fúria.
— Ei, eu quis dizer que vai precisar de sorte, porque será uma semana cansativa, não pira — ele disse, na defensiva. — Não que eu ache que você se encaixe nas Kappas, eu não acho. Só não foi o que eu quis dizer.
Abri minha boca, em choque. Ele tinha que estar de brincadeira comigo.
— Ah, e quem você pensa que é pra dizer onde eu me encaixo ou deixo de me encaixar? — questionei, posicionando minhas mãos na cintura.
— Deixe-me ver... Só o cara que te conhece há 14 anos.
— Como se isso significasse alguma coisa — falei, engolindo em seco e tentando não deixar transparecer a mágoa no meu olhar.
Ele suspirou e desviou o olhar do meu rapidamente, antes de voltar a começar a falar:
— Olha, eu sei como são a maioria das Kappas. Eu as vejo o tempo todo, elas não fazem o seu estilo. Pega a e multiplica por três, você terá uma Kappa perfeita — explicou, parecendo estar meio nervoso. Não o nervoso bravo, que eu já havia visto muito nele, só o nervoso desajeitado nas palavras.
Eu não sei o que deu em mim quando disse as próximas palavras, só sei que senti uma necessidade enorme de defendê-las. Não porque eu tinha mudado de opinião sobre, mas porque eu não conseguia aceitar o fato de que ele pensava aquilo sobre algo que eu iria tentar — contra a minha vontade, que fique claro — ser parte. Ele não tinha o direito de achar que eu não conseguiria algo. E eu sabia que, lá dentro da cabeça dele, ele tinha certeza que eu não seria aceita, por ser tão diferente delas.
— Elas não são assim, você não sabe nada! Elas são garotas dedicadas, que lutam pelo certo, que... Que... São ótimas amigas! Elas são irmãs, ! Irmãs! — Minha voz subiu algumas oitavas conforme eu falava, mas não ficou legal. Droga! Por que soou tão bonito quando minha mãe falou mais cedo?
— Fizeram algum tipo de lavagem cerebral em você? — ele perguntou chocado. — Eu me lembro muito bem de você revirando os olhos quando sua mãe começava a elogiá-las.
— Eu aprendi que não se deve julgar algo que não conhece. Eu abri a minha mente e descobri a verdade.
Ele ficou me encarando por alguns segundos, parecendo estar completamente perdido. Eu não o culpava. Eu estava falando uma besteira atrás da outra. “Abri a mente e descobri a verdade”? Qual é o meu problema?
— Tá bom... Eu não sabia que ser uma Kappa tinha se tornado algo tão importante pra você. De qualquer maneira, espero que elas não façam com que você mude. Eu gosto assim — ele falou, começando a se afastar.
— Que bom que você gostar ou não de alguma coisa não faz diferença alguma na minha vida.
Ele não respondeu mais nada, apenas me lançou um último olhar, antes de ir se despedir dos outros, que saíam do Mc.
Encostei-me no carro novamente e tapei meu rosto com as mãos. Que droga de conversa tinha sido aquela? Eu deveria ter ficado com a boca fechada, eu sabia disso, mas não, eu fui idiota o suficiente para querer bater boca com ele. E, agora, eu tinha arranjado a porra de uma missão. Por causa de uma conversa de cinco minutos, eu tinha que entrar em uma droga de irmandade! Não só uma irmandade, as Kappas, a mais imbecil de todas elas! Agora, era uma questão de orgulho. Eu faria tudo, tudo, para entrar. Depois, eu sairia, claro. Só precisava mostrar a ele que eu conseguia. Mostrar não, esfregar na cara dele, assim ele nunca mais pensaria que eu não era capaz de algo.
Ele queria conviver comigo, certo? Não seria em paz.

¹ ² Rush week, também conhecida como recruitment week, ou recrutamento, é o período de tempo em que as fraternidades e irmandades do campus recrutam novos membros para as suas casas. Acontece geralmente uma semana antes das aulas começarem.



Eu nunca gostei de acordar cedo. Eu até tentava, mas uma força maior simplesmente parecia fazer com que todos os pedacinhos do meu corpo não obedecem às ordens do meu cérebro de levantar, e ficassem lá, jogados na cama, me esperando dormir novamente para que eles pudessem descansar mais.
Mas não foi isso que aconteceu naquela terça-feira.
Assim que meu celular despertou, às 8h00, eu abri os olhos com uma energia desconhecida e me sentei imediatamente. O sol entrava pela janela, minha cama era de solteiro, o cômodo era pequeno, e April me olhava assustada da sua cama. Eu estava no meu quarto, no meu dormitório, na UCLA, e era uma universitária. Não tinha sido um sonho, era tudo muito real!
Olhei para April com um grande sorriso no rosto. Ela ainda me encarava, parecendo ter sido pega de surpresa pelo meu despertador e meu levantar repentino. Ela tinha um livro em seu colo. Quem levantava cedo para ler? Quer dizer, ler é ótimo, mas levantar antes das 09h00 para fazer isso é, no mínimo, estranho. Mas algo me dizia que April não era a pessoa mais normal do mundo, então decidi não dar muita atenção a isso. Quem era eu para julgar, certo?
— Bom dia! — exclamei, me espreguiçando.
— Bom di-dia. Que bom que acordou animada.
— É... Hoje, nada vai estragar o meu dia! Nem a , nem o ... — Foi quando minha memória pareceu voltar a funcionar e eu me lembrei do que teria que passar o dia fazendo. É, o meu dia seria uma merda. Bufei, de repente, perdendo todo o meu ânimo, e me joguei novamente de costas na cama.
— Algum problema? — April perguntou.
Fiz uma careta.
— Eu tinha me esquecido da minha programação para esta terça-feira. — Ficar andando para lá e para cá, neste calor, conversando com garotas que eu não estava realmente a fim de conhecer, não era exatamente a minha definição de “dia perfeito”.
— Ah, o recrutamento... — ela concluiu, e eu assenti.
E eu ainda teria que fazer tudo aquilo sozinha, já que a já tinha passado por tudo aquilo e não poderia ficar comigo durante o processo. Dá para ficar pior? É claro que dá. Só tenho que acrescentar que todos os meus amigos pareciam ter se esquecido completamente do filho da puta que meu ex havia sido comigo e, a partir de agora, eu teria que ver a cara do imbecil o tempo todo.
— Que ótima maneira de começar minha vida universitária, não? Brigando com o meu ex, fazendo coisas que eu não quero... Perfeito!
— Não pensa assim. Talvez, você se divirta lá. Sabe, eu já pesquisei bastante e vi muitas garotas falarem como o recrutamento é legal. Eu já vi uma que entrou em uma irmandade e acabou saindo, mas, mesmo assim, disse que, com certeza, faria tudo aquilo de novo. Não pode ser tão ruim.
Quando uma garota doce com uma voz doce tenta te ajudar, acredite, você para, para ouvir. Mas, sendo a que eu era, aquilo, obviamente, não me convenceu.
— Eu aposto que é. Já até imagino as garotas das irmandades nos olhando de cima, como se fossem melhores que todo mundo.
— Isso, com certeza, acontecerá, mas eu sei que você não vai se deixar abalar por isso.
Olhei para ela, agora, com um sorriso no rosto, piscando.
— Não vou mesmo! Querendo ou não, eu tenho que entrar para as Kappas. É minha missão da semana! — disse, me forçando a soar animada.
Seriam cinco dias terríveis, mas o prêmio, no final, o de poder esfregar na cara do de que eu me encaixava em qualquer lugar que eu quisesse, era bom demais para ser jogado fora.
— Além do mais, ser uma Kappa deve ser muito divertido. Quer dizer, elas não são uma das irmandades mais famosas por nada, né? E eu não tô falando dos filmes que só criam estereótipos. Elas têm uma filantropia incrível e vários eventos legais, e... — Ela mesma se interrompeu. — Eu tenho certeza que você vai conseguir.
Optei por ignorar o discurso e... Awwn! Ela não é um amor? Meu sorriso para ela aumentou e, quando eu estava prestes a agradecer, uma ideia se passou pela minha cabeça. E ela parecia ótima.
— Ei, por que você não vem comigo? — perguntei, de repente, e o olhar que ela me lançou foi uma mistura de choque, descrença e um pouquinho de “você é louca”.
— Po-por quê? — questionou.
— Bom... Você fica aí falando como deve ser legal, como você já pesquisou, e isso quer dizer que se interessa pelo assunto, certo? Eu realmente quero uma companhia, então... Todo mundo sai ganhando — expliquei, e ela sorriu timidamente, me fazendo pensar que ela gostava da ideia.
— Não — ela disse, e eu murchei em decepção.
— Por quê? — questionei com minha voz saindo naquele tom ardido que eu tanto odiava, mas não conseguia evitar às vezes.
— É perca de tempo, .
Cerrei os olhos para ela.
— Então, eu posso perder meu tempo com isso, e você não? Bonito.
Ela riu levemente, revirando os olhos.
— Não é disso que eu tô falando. É só que... Você vai lá e, mesmo que não sejam as Kappas, você vai ser escolhida por alguma irmandade. Eu não. — April disse, e eu a encarei por alguns segundos, de cenho franzido.
— E como você sabe disso? Você vê o futuro e se esqueceu de mencionar? — perguntei sarcástica.
Ela encolheu os ombros.
— Você acha que elas vão escolher a garota que nem consegue conversar com elas direito e, quando consegue, gagueja?
Eu realmente odiava quando respondiam minhas perguntas com outra pergunta.
Respirei fundo, refletindo sobre o assunto. Ela tinha razão. Eu não prestei muita atenção às regras da , mas uma coisa que ficou bem claro é que o mais importante para entrar em uma irmandade era mostrar às garotas que você queria estar lá, fazer com que elas quisessem que você fosse uma delas, e April... Bom, ela não iria conseguir fazer isso. Quer dizer, na noite anterior, se ela tivesse aberto a boca dez vezes, seria muito. E todas as vezes foram para responder alguma pergunta que fazíamos, tentando incluí-la, mas ela só dava respostas curtas que a gente mal conseguia ouvir.
Felizmente, eu sempre fui uma pessoa irritantemente insistente.
— Escuta, e se eu te ajudar? — sugeri, e ela me encarou confusa.
— Ajudar como?
— É simples. Você só tem que ficar do meu lado sempre. Eu vou começar conversas, te incluir nelas, te citar bastante, mas você terá que colaborar, sabe... Falar alguma coisa, de vez em quando, ou não adiantará nada — expliquei.
Ela suspirou e abaixou a cabeça por um momento, parecendo pensar na ideia, mas, antes que ela pudesse dar uma resposta, alguém bateu na porta.
Levantei rapidamente, já sabendo que era , e abri, vendo o cabelo ruivo dela perfeitamente arrumado como se ela tivesse acabado de sair do salão. Ela estava assim 90% do tempo. Era meio assustador, no começo, mas eu havia me acostumado há um tempo.
Ela me deu uma olhada de cima a baixo, desde as minhas meias coloridas até a camiseta velha do meu pai, que eu havia roubado para mim, e fez uma careta.
— Já vi que eu vou ter um baita trabalho — disse, me fazendo revirar os olhos.
— Bom dia pra você também, .
Ela logo substituiu a careta por um sorriso.
— Bom dia, amor! — disse, me abraçando rapidamente. A saudade do dia anterior já parecia ter ido embora. — Oi, April!
— Oi. — April respondeu.
Virei-me, e já estava sentada na minha cama.
— E aí, pronta para a sua preparação? — perguntou, me olhando.
— Para a nossa, você quis dizer — respondi. — A April também vai.
— O quê? — April questionou no tom mais alto que eu já tinha ouvido saindo dela. — Não, ! É melhor não!
— Ah, vai, sim, April. — se intrometeu. — Eu tenho certeza que as garotas vão te amar!
Uma das mil diferenças entre eu e era que eu era uma ótima mentirosa. Uma ótima atriz, como eu preferia dizer, e ela... Bem, ela não. Você não precisava ser um crítico de cinema para ver na cara dela que ela não acreditava realmente no que falava. Você só precisava ser um ser humano.
— Tá vendo? Qual é! Quando a diz que algo vai acontecer, é porque vai! — Puxa saco mode on.
— Gente, por favor... — ela começou, mas eu logo a interrompi.
— “Por favor” digo eu, April. Vamos! Você sabe que quer ir! O que você tem a perder? — insisti.
Ela suspirou mais uma vez e balançou a cabeça.
— Tudo bem... — Eu abri um sorriso e estava pronta para começar a comemorar quando ela continuou: — Mas você tem que prometer que não vai chegar lá e me abandonar.
Revirei os olhos.
— É claro que não. Relaxa! Nós vamos entrar para as Kappas e juntas — afirmei com um sorriso.
Ela me olhou preocupada, como se não acreditasse muito naquilo, mas deu de ombros e não falou mais nada.

— Ok. Até que não ficou tão ruim assim — concluí, depois de me olhar no espelho por todos os ângulos possíveis.
— Por favor, eu sou boa no que faço. — disse, me olhando com orgulho.
Eu estava vestindo um short jeans, uma blusa bonitinha branca e sandálias. Até aí, tudo bem, a parte que me assustava mesmo era a maquiagem que fez questão de passar em mim. Eu tinha certeza que iria acabar saindo dali com um delineador preto e batom vermelho, mas tudo o que ela fez foi passar pó, um pouco de rímel, blush, já que, de acordo com ela, eu sou “a única californiana que não é bronzeada neste planeta. Sério. Você parece um defunto”, e um batom cor de boca, que, aliás, não fazia sentido nenhum para mim. Se você quer que a sua boca tenha cor de boca, não passe batom. É simples assim.
Mas até que eu gostei. Nunca admitiria isso a ela, mas eu gostei.
— April, sua vez — anunciei, me levantando da cadeira em frente ao espelho, para que ela pudesse sentar. Ela, timidamente, como sempre, sentou, parecendo tensa. — Posso cuidar do cabelo dela? — perguntei, e assentiu.
— Meu cabelo? O que tem de errado com o meu cabelo? — ela questionou, e eu pude vê-la me encarando e olhos arregalados pelo reflexo do espelho.
— Nada, só se esqueceram de te avisar que lugar de cabelo não é cobrindo seu rosto — respondi com um sorriso simpático.
Ela encolheu os ombros.
— Eu gosto assim — murmurou.
— Confia em mim, tá?
O olhar que ela me lançou dizia com todas as palavras que ela não confiava, mas não falou mais nada, então eu levei aquilo como um incentivo para começar a trabalhar.
Busquei um pente na penteadeira e comecei a pentear seu cabelo para trás. me lançou um olhar agradecido, já que seria impossível passar alguma coisa no rosto dela do jeito que estava antes. April realmente tinha um cabelo lindo, que só precisava de algumas hidratações para ficar perfeito. Eu não era a garota mais feminina do mundo, mas tinha um carinho gigante pelo meu cabelo. Era a única parte de mim que eu fazia questão de cuidar decentemente. Não era um cuidado “estilo ”, mas era bom também.
Continuei penteando, até tirar todos os nós e, quando terminei, puxei todos os fios para cima e os prendi em um “rabo de cavalo”.
— Olha, eu entenderia você andar com o cabelo solto por aí o tempo todo, se você não morasse na Califórnia, mas você é californiana, eu não sei o que acontece — disse, buscando o secador de cabelo. Ela apenas deu de ombros. Esperei terminar de passar o batom, para assumir o lugar na frente de April e escovar um pouco sua franja, jogando ela para o lado depois. — Prontinho — cantarolei.
Hesitante, ela abriu os olhos. Lançou para gente um olhar preocupado, antes de encarar o espelho à sua frente. me olhou rapidamente com um sorriso no rosto, e eu sorri também, orgulhosa do resultado final.
— Como vocês fizeram isso? — April perguntou chocada.
— Nós não fizemos nada, além de ressaltar o que você tem de bonito, ao invés de esconder como você faz. — explicou. — Eu não passei nada na sua pele. Suas sardas são bonitinhas e suas bochechas já estão rosadas o tempo todo.
Como eu, minutos antes, ela começou a se olhar de todos os ângulos possíveis. Eu sorri para aquilo. Bem no fundo, ela me lembrava de alguém.
Assim como comigo, havia maneirado na maquiagem. Na verdade, não tinha quase nada nela. Só rímel e um batom rosa claro. Ela vestia um vestido floral, que a gente conseguiu encontrar no meio de muitas calças e camisetas. Foi uma luta para convencê-la a colocá-lo, com ela dizendo que tinha vergonha das suas pernas, que nunca tinha usado, que sua mãe devia ter enfiado lá por engano e blá blá blá. Nós descobrimos, depois, que a mãe dela havia enfiado muita coisa por engano. Coisas estas que April fez de tudo para esconder: shorts, blusas de alcinha, até um cropped.
— Ah, o seu óculos! — lembrei-me, buscando-o em cima da cama e entregando a ela. Ela o colocou e voltou a olhar no espelho, com uma expressão engraçada, como se a imagem fosse desaparecer dali ou algo do tipo. — Você tá linda, April.
Ela me olhou, mas rapidamente abaixou o olhar para o seu colo, envergonhada.
— Eu nã-ão tenho certeza — disse baixinho.
— Tudo bem, nós temos certeza o suficiente por você! — exclamou, e eu assenti, concordando.
Pelo reflexo do espelho, eu a vi dar um sorriso leve.

Por mais que eu tenha me animado com a preparação da April, sair pela porta não foi nem um pouco fácil. Eu sabia o que me esperava: garotas mesquinhas, ricas, que se achavam o centro do mundo, que fingiam gostar uma da outra quando, na verdade, se odiavam. É, eu não estava nem um pouco animada para entrar nesse mundo. Eu gostava muito do meu, obrigada. Gostava do meu grupo de amigos e eu estava até gostando da ideia de adicionar April a ele.
No meio do campus, logo depois de nos deixar, dizendo que não poderia estar lá para isso, eu vi tantas garotas diferentes. Desde tímidas, como April, até geeks, valentonas, aquelas que nem respiravam direito com medo de quebrar uma unha, até algumas que só faltavam fazer um chapéu de melancia de tanto que tentavam se aparecer. Aquilo me assustou um pouco, isso eu tinha que admitir. Só para eu mesma, mas tinha. Mesmo tendo contado os dias para chegar à universidade, uma parte pequena de mim queria voltar no tempo, onde tudo era seguro. Eu tinha um melhor amigo e namorado que me amava, tinha os melhores amigos do mundo, os melhores pais e sabia que poderia confiar cegamente em cada um deles. Eu era uma daquelas pessoas que adorava uma aventura nova, mas tinha hora que esse espírito aventureiro se escondia um pouco para deixar o receio passar. Eu já havia me sentido assim antes e sabia que não era nada bom, por isso, eu fiz questão de deixar logo aquele sentimento de lado e focar no meu objetivo: entrar para as Kappas, levar April comigo, deixar minha mãe e orgulhosas, e queimar a cara do . Eu funcionava melhor assim.
Veteranas nos dividiram em grupos de cerca de vinte e nos separaram, mas só foi depois de muita falação, basicamente, dizendo a mesma coisa que no dia anterior, que nós começamos a ir às casas. A primeira do dia foi a Sigma Gamma Rho e foi... É, foi estranho. A casa delas era bem daquelas de filme, mesmo, dois andares, gigante, parecia mesmo uma mansão! No segundo andar, exatamente no meio da parte frontal da casa, estava uma sacada mantida por pilares brancos. Aquilo quase me fez rir. Alguém estava se achando a família real.
Quando nós passamos pela porta da frente, eu me senti entrando em um filme de terror. Sério. Uma fila perfeitamente alinhada de garotas com sorrisos enormes no rosto nos recebia. Eu estava esperando que elas se revelassem robôs e começassem a matar todo mundo, mas não foi bem o que aconteceu. Quando eu menos percebi, todas as garotas já conversavam umas com as outras, algumas rodinhas se formavam nos cantos e era falação para todo lado. Algumas engajadas em conversas mais formais, outras intelectuais, algumas até davam uns gritinhos quando descobriam que tinham algo em comum, eu imaginava.
Não querendo ficar para trás, tratei logo de puxar assunto com uma das garotas da irmandade e levei April comigo. Comecei perguntando coisas óbvias, como no que ela queria se formar, do que ela gostava etc, depois fui às perguntas sobre a irmandade. A garota pareceu gostar de mim, pois falava sem parar, nunca tirando o sorriso do rosto e, no geral, foi assim com todas as outras que conversei naquele dia, apesar de ter algumas aqui e ali que, praticamente, me pediram por um soco. Mas, é claro, por amor à minha mãe e à , eu me mantive comportada. April, como eu já previa, não falou muito, mas até que me surpreendeu. Com as primeiras garotas, ela nem sequer abriu a boca, mas, conforme o dia foi passando, ela se soltou um pouco. Ela até chegou a conversar com duas ou três garotas, sozinha, o que aumentou minhas esperanças de que tudo daria, sim, certo. Ela conseguiria entrar para as Kappas, ou, quem sabe, alguma outra irmandade.
Quando as oito casas do dia acabaram e eu pude voltar ao dormitório, eu já mal sentia meus pés. Ainda assim, no dia seguinte, eu estava de pé às 9h30, arrumada, e indo à mais um dia de tortura com April ao meu lado. A notícia boa é: adivinha qual foi a primeira casa do dia?
Isto mesmo: a nossa querida Kappa Kappa Gamma.
A primeira coisa que me surpreendeu foi que a casa não era, pelo menos, por fora, tão extravagante quanto algumas das que tínhamos visitado. Gigante, sim, afinal, umas 50 garotas, eu achava, deviam morar ali. Bonita também, mas de um jeito bem simples. A parte frontal da casa era toda branca, com algumas janelas e escrito, logo acima da porta, “Kappa Kappa Gamma”. Na frente tinha uma escadaria pequena, que dava para a porta, e alguns arbustos, e árvores. Simples.
Nós entramos, todas ordenadamente, na casa, e a segunda coisa que me surpreendeu e que me assustou também foi que, do lado de dentro, nós encontramos diversas garotas vestindo a mesma roupa! Ok, talvez, não a mesma roupa, mas blusa branca e short jeans claro. Todas elas. Sem exceção. Eu quase saí pela porta, neste momento. Mas, quando olhei para April, com a intenção de debochar das garotas com ela, ela encarava o lugar e todo mundo com um sorriso gigante no rosto. Droga.
Bom, de qualquer maneira, era hora do show!
Puxei April pela mão até um grupo de garotas. Duas eram Kappas e uma era gente como a gente. As duas Kappas eram japonesas e bem parecidas, ambas com cabelo preto até a cintura e um liso de dar inveja. Decidi usar aquilo.
— Oi, meninas! — disse. As Kappas me olharam com um sorriso no rosto e responderam o “oi”. A outra garota só nos lançou um olhar bravo. Como se eu me importasse. — Meu nome é , mas podem me chamar de . E esta é a April. — Apresentei-nos.
April abriu um sorriso e acenou, mas não disse nada.
— Eu sou a Lucy — a primeira, que parecia ser mais nova, disse.
— Lauren — a de aparência mais velha, desta vez.
— Nossa! Os cabelos de vocês são incríveis! Eu mataria por um liso assim.
Quase busquei uma faca e enfiei no meu peito, neste momento. Eu não nasci para puxar saco de ninguém.
— Ah, obrigada. — Lucy respondeu timidamente, correndo a mão pelas pontas do cabelo. — O seu também é lindo.
Sorri para ela, em agradecimento, e continuei falando, mostrando uma simpatia que não existia de verdade:
— E aí, vocês cursam o que? — perguntei.
— Eu ainda tô no segundo ano, mas quero fazer Literatura Inglesa. — Lucy respondeu novamente.
— Sério?! — April exclamou, até me assustando um pouco. — Eu também!
Os próximos minutos foram bem estranhos. Lucy e April se engajaram em uma conversa sobre Literatura tão profunda que eu e as outras garotas nos sentimos obrigadas a nos afastar e deixá-las conversarem em paz. Eu conversei um pouco com a Lauren, depois disso, mas ela não era tão receptiva quanto à irmã. Era quase como se eu pudesse ver nos olhos dela que ela não comprava aquela animação e simpatia que eu demonstrava. Gostei bastante dela.
Pelo canto do olho, avistei do outro lado do cômodo, perto de uma mesa com cupcakes, que eu não havia visto ainda, e fui imediatamente até lá. Peguei um cupcake primeiro, claro, antes de ir até ela, que conversava com duas calouras e uma Kappa.
— E aí? — disse quando cheguei, colocando um braço ao redor dos ombros dela.
! Eu já estava indo te procurar. — exclamou, abrindo um sorriso largo. — Mina, esta é a , e , esta é a Mina.
— Prazer. A falou de você o tempo inteiro no ano passado — a tal Mina disse.
— Ela falou bastante de você também — eu disse. Era verdade, Mina era o assunto número 1 quando começava a tagarelar sobre as novas amizades.
— Vem, quero te apresentar a uma pessoa! — falou e, sem nem mesmo me dar tempo para responder, me puxou pela mão. Só consegui acenar rapidamente para a Mina, que ria como se compreendesse a situação. E eu tinha certeza de que ela compreendia.
— Ei, vai com calma! — pedi, puxando meu braço para mim.
Nós demos mais alguns passos, até que parou do lado de uma garota, uma Kappa, loira e alta, daquelas que você pensa que só existem em filmes. Ela, ao contrário de todas as outras Kappas ali, não estava conversando com nenhuma caloura, só digitava incansavelmente no seu celular. Ela parecia mesmo às vilãs de filmes, mascava chiclete e tudo.
— Sai do celular, garota! — disse a ela rudemente, me fazendo arregalar os olhos. Então, neste filme, era a mocinha, e a outra, realmente a vilã? Bom, começou, então, ela pode ser a vilã, mas não, isso não está certo...
— Cuida da sua vida — a garota respondeu, lançando-a um olhar daqueles matadores. Alguns segundos passaram comigo tensa, olhando para as duas, até que, dando um tapinha no meu ombro, a loira começou a rir. Tá legal, quem te deu essa intimidade? — Sua cara tá ótima.
Dei um sorriso forçado, cerrando meus olhos para , que também ria. Para ser sincera, eu estava um pouco decepcionada. Uma briga, com certeza, animaria o meu dia.
— Que decepção! Você pensou que eu começaria uma briga assim. Achei que me conhecesse melhor, — disse, me olhando com um olhar falso de desapontamento, sem nem mesmo tirar o sorriso dos lábios.
— Você sabe, eu adoro uma boa briga — falei, dando de ombros.
Ela revirou os olhos, antes de se voltar para a garota à nossa frente.
— Nikki, esta é a minha amiga que eu te falei. , esta é a Nikki, a Kappa mais velha da casa.
Eu estava pronta para só acenar para ela e dizer um simples “prazer” quando ela me puxou para um abraço apertado, me fazendo arregalar os olhos de novo. Qual é! Você já ouviu falar em limites?
falou tanto sobre você! Eu estava louca pra te conhecer! — exclamou, me soltando.
Eu apenas sorri, porque, se eu falasse que havia ouvido muito sobre ela também, estaria mentindo. As chances de ela ter sido mencionada pela em uma das suas “tagarelações” era gigante, mas a garota falava tanto, sobre tanta coisa, sobre tanta gente, que ficava difícil me lembrar de tudo.
— Eu tô descobrindo que já sou bem conhecida por aqui — comentei, minha voz soando meio nervosa. Quem eu queria enganar? A tal Nikki era importante, provavelmente, crucial para a minha entrada na casa. Não dava para estragar tudo.
— Acredite, você é! — afirmou, arregalando levemente os olhos. — Você não sabe o que a fez na minha festa de aniversário! Olha só o que a me falou! A já pegou ele, e muito, muito mais. — Ri, conseguindo imaginar perfeitamente falando tudo aquilo. — Mas, então, animada para entrar para uma irmandade?
— Bastante! — menti. — Minha mãe foi uma Kappa, então eu cresci ouvindo as histórias dela. Ela quer muito que eu seja uma também.
— Sério? Como é o nome da sua mãe? — ela questionou, pendendo a cabeça para o lado em curiosidade.
— Claire. Claire .
— Você é uma ?! Por que nunca me falou? — perguntou, voltando-se para a , que apenas deu de ombros. — Vem aqui.
E, mais uma vez, eu fui arrastada casa a dentro, sendo puxada pelo braço; desta vez, por uma desconhecida. Lancei um olhar preocupado para , mas ela só sorriu e me deu um tchauzinho com a mão, me deixando ser levada sozinha pela sua amiga.
Nikki me levou para o cômodo ao lado, onde não havia ninguém. Alguns sofás e poltronas estavam espalhados por lá, havia uma TV enorme na parede e uma estante cercada por vidro. Foi para lá que ela me levou. Quando nos aproximamos, percebi que era lá que ficavam os prêmios (não me pergunte do que) e retratos do que pareciam ser as antigas Kappas.
— Aqui! — Nikki exclamou, depois de um tempo analisando todos os retratos. — Elizabeth , sua avó.
Ela apontava para um dos primeiros retratos com um grupo de cinco garotas que sorriam para a câmera. A foto parecia bem antiga, mas... Bem, minha avó havia morrido dois anos atrás. Ela não era exatamente nova, apesar de ter morrido cedo. Observei a imagem com um sorriso no rosto e um leve aperto no peito, de saudade. Ela era linda. Tinha o cabelo loiro, como o meu e o da minha mãe, o rosto quadrado, olhos azuis e o sorriso mais bondoso do mundo.
— Caramba...
— É... Vocês são muito parecidas. — Olhei mais de perto, praticamente grudando minha testa no vidro, e... É, talvez, ela tivesse razão. — E aqui tá a sua mãe. — Nikki disse, apontando para outro retrato algumas prateleiras abaixo.
Eu tive que rir quando vi a foto porque era tão a minha mãe! Aproximadamente, 15 garotas estavam nesta foto e todas vestiam blusas e saias rosas. Diferente do que o retrato com a minha vó mostrava, aquele representava exatamente a visão que eu tinha das Kappas. E eu odiava rosa. Provavelmente, porque minha mãe sempre amou tanto a cor que sentia a necessidade de me fazer amar também. A decoração do meu quarto era rosa, minhas roupas eram rosas, as roupas das minhas bonecas eram rosa; basicamente, qualquer coisa minha que poderia ser rosa, era rosa. Conforme eu fui crescendo, fui me livrando da cor aos poucos, para não chateá-la muito, e, hoje, eu passo longe do rosa. Eu e minha mãe nunca fomos parecidas, mas a gente se dava bem assim.
— Nossa! Isto é legal... — eu disse, sendo sincera, desta vez. — Vocês guardarem uma recordação de todo mundo que passou por aqui é maneiro.
— De uma maneira ou de outra, cada irmã faz a diferença pra gente — ela falou, olhando para os retratos, com um sorriso de canto e um olhar de orgulho no rosto. Observei a cena, curiosa, até que ela alargou o sorriso e virou-se para mim. — Quem sabe, um dia, você aparece em uma dessas fotos...
— Eu espero que sim — afirmei, sem ter certeza se estava sendo sincera ou não.

— Foi tão incrível! Nós conversamos sobre tanta coisa, tantos autores, tantas histórias! E aí ela me apresentou uma amiga dela, a Katy, que tá no último ano de Literatura Inglesa, e eu acho que ela é uma das pessoas mais inteligentes que eu já conheci. Ela sabe tanto sobre tanta coisa! Sabe, se eu tiver metade de todo o conhecimento dela, tô feita! E, agora, eu quero tanto, mas tanto, chegar logo no terceiro ano e estudar tudo o que ela estudou! Quer dizer, eu quero cursar Literatura Inglesa, desde que eu me entendo por gente, mas ela só fez com que eu quisesse mais ainda e... E... — April respirou fundo, precisando recuperar o fôlego, depois de falar tanto. Ela estava falando daquele jeito há, pelo menos, dez minutos, repetitiva e incansavelmente.
— Caraca... Você realmente gostou da visita às Kappas. Eu não sabia que você conseguia colocar tantas palavras juntas de uma vez.
— Eu sei, me animo um pouco demais, às vezes — ela disse, rindo.
— Isso é bom — eu afirmei. — Todo mundo deveria se animar um pouco demais, às vezes.
— E pra você, como foi? — ela perguntou.
Nós estávamos voltando ao dormitório, depois de visitar mais oito casas. Dizer que eu estava caindo aos pedaços era pouco, bem pouco. Porque o dia foi bem corrido, nós não conseguimos conversar sobre a “experiência Kappa” antes.
— Foi melhor do que eu pensei que seria — comecei. — me apresentou a algumas garotas. Uma delas meio chegada demais, só pra mencionar. Eu fiz o que a minha mãe falou sobre mencionar que eu era uma e funcionou muito bem. Depois, eu conheci mais algumas garotas, inclusive, duas calouras bem legais e, no resto do tempo, você sabe, fiquei ouvindo você e aquelas garotas tagarelarem sobre Literatura.
— Foi a casa mais divertida, não foi?
— Acho que sim. Não por serem as Kappas, mas porque a estava lá, pelo menos, por um tempinho e, claro, porque o meu bebê deu seus primeiros passos sem ajuda — disse, olhando para April com orgulho.
Ela riu novamente, e eu acabei sendo contagiada e ri junto com ela.
Nós chegamos ao nosso dormitório, mas não ficamos muito tempo, fomos logo tomar banho, porque queríamos conhecer o restaurante universitário. Liguei para a ir com a gente, principalmente, porque nenhuma de nós duas sabíamos direito onde era, mas ela disse que tinha uma reunião da irmandade naquela noite e não poderia faltar, então ela só explicou, mais ou menos, onde era e me mandou um mapa desenhado por ela. April e eu decidimos nos arriscar. O dia havia sido longo. Nós merecíamos comida de verdade.
Não foi tão difícil assim. Não tanto quanto imaginávamos que seria, pelo menos. O restaurante ficava a cerca de 20 minutos do nosso dormitório. Talvez, 10 minutos, porque nós nos perdemos duas ou três vezes, mas, assim que vimos a grande estrutura onde ficava o lugar, não dava mesmo para errar.
Era, aproximadamente, 19h00, então o lugar estava bem cheio. Para entrar, nós tivemos que passar nosso cartão de estudante e, depois, estávamos livres para comer qualquer coisa. Eles tinham tantas opções que eu fiquei meio perdida. Hambúrguer, macarrão, pizza, até churrasco! Foi o que nós duas escolhemos e, depois de pegar nossa comida, nos sentamos nas duas primeiras cadeiras livres que vimos, uma de frente para a outra.
— Eu tô no céu — disse, inclinando levemente minha cabeça para trás e fechando os olhos, depois de provar um pedaço de carne.
— Você disse a mesma coisa quando deu a primeira mordida no seu Mc. — April rebateu.
Dei de ombros.
— Comida me leva para o céu.
! — Ouvi alguém gritar. , para ser mais precisa. Olhei para o lado e vi que ele se aproximava, sorrindo. Abri meus braços quando ele chegou perto, e ele me abraçou, tendo que se abaixar, porque eu estava cansada demais para me levantar. — Não sabia que você viria jantar aqui, se não teria te chamado pra vir comigo.
chegou também e deu “oi”. Só a April respondeu. Não me dei ao trabalho de olhar para ele.
— Ei, não fala assim. Espera o sair pra dizer o quanto a companhia dele é dispensável e que prefere a minha — falei e o ouvi suspirar.
— Espero você lá fora — ele disse e saiu andando.
Observei-o se afastar, com um sorriso no rosto.
— Você é má. — disse, sentando na cadeira vazia ao meu lado. Ele olhou para April, pela primeira vez, e sorriu. — Oi, April. Gostei do cabelo. — Hoje, ela tinha o cabelo solto, mas usava uma tiara que eu a emprestei, que o mantinha longe do rosto. As bochechas dela ficaram vermelhas, na hora, e ela pareceu ficar sem reação por alguns segundos, até que deu uma risadinha nervosa e abaixou a cabeça, focando no seu prato de comida. — E aí, como tá sendo o recrutamento? — Coloquei a língua entre os lábios e soprei, fazendo barulho de peido. — Ruim assim? — questionou, rindo.
— Eu não aguento mais andar de casa em casa e ficar tentando agradar garotas para quem eu não dou a mínima. Quer dizer, eu conheci algumas bem legais, mas, sei lá... Forçar simpatia cansa.
— Não precisa forçar. Seja você mesma. — aconselhou, me fazendo rir.
— Você realmente acha que as Kappas vão me aceitar se eu for eu mesma? Ogra do jeito que eu sou?
Ele parou para pensar, por alguns segundos.
— É... Deixa elas te descobrirem depois — concluiu. — Mas... Não se sente mal fazendo isso?
— Eu deveria? Ninguém é 100% ela ou ele, mesmo quando acaba de conhecer alguém, . Ok, algumas pessoas são... Eu mesma sou, na maioria das vezes, mas são casos raros. A maioria das pessoas mostra, primeiro, seu lado bom, para, só depois, deixar transparecer os defeitos. É como a coisa funciona — expliquei e, depois de ele pensar mais uma vez, ele assentiu, concordando comigo.
— Tem razão — ele disse e fez uma careta. — Até demais.
— Eu sempre tenho — afirmei, estufando o peito.
Ele riu, me dando um empurrão fraco no braço.
— Tenho que ir, o tá esperando — disse, levantando-se. — Vejo você esta semana?
Assenti.
— A gente marca alguma coisa depois.
— Beleza. — Ele se inclinou e me deu um beijo rápido na bochecha. — Tchau, April.
Ela levantou a cabeça, ainda com as bochechas coradas, e acenou com a mão para ele.
— Gostou dele, é? — perguntei quando ele estava longe o suficiente para não nos ouvir mais.
April arregalou os olhos e, se era possível, ficou mais vermelha ainda.
— Nã-ão... Eu não!
— Ei, tá tudo bem! Ele é lindo, vai... — E era mesmo. era negro, alto, forte (já que não saía da academia desde quando completou 16 anos), tinha olhos de um castanho meio amendoado e um dos sorrisos mais lindos do mundo.
— Sim, mas... Eu ajo assim com todo garoto que fala comigo, não é como se isso o fizesse especial, nem nada — ela disse.
— Bom, de qualquer maneira, se quiser torná-lo especial, tem a minha benção — avisei, antes de enfiar um garfo com comida na boca.
!
— O quê? — perguntei de boca cheia mesmo. Soou mais como “uêê”.
— Nada — respondeu, balançando a cabeça para os lados. Por algum tempo, nós comemos em silêncio, até April resmungar alguma coisa que não entendi. Ergui os olhos do meu prato e a encarei, de cenho franzido. Ela encolheu os ombros e voltou a falar: — Qual... Qual é o problema entre você e esse ?
Suspirei. Não é como se eu não imaginasse que ela perguntaria isso mais cedo ou mais tarde.
— Ele é meu ex-melhor amigo e namorado.
Na hora, ela fez aquela cara de compreensão, mas, para minha infelicidade, aquela não era toda a informação que ela queria.
— E vocês se odeiam? Término ruim?
— Eu o odeio, ele não me odeia. Ele nem tem o direito de me odiar. E, sim, péssimo — respondi, e ela inclinou a cabeça, parecendo estar mais curiosa ainda.
— Como terminaram? — questionou.
Fiz uma careta. Eu odiava contar aquela história porque, vamos combinar, ninguém tem orgulho de carregar um chifre por aí.
— Ele me traiu. Nós estávamos dando um tempo, mas dar um tempo era quase que comum na nossa relação, então não valia muita coisa. Nós voltamos um dia depois, ele não me contou nada, mas alguém tinha tirado foto dele ficando com a garota e enviou para todo mundo do colégio. Nós brigamos, eu terminei com ele e, aparentemente, deu um soco nele assim que eu saí. É uma pena que eu tenha perdido essa parte.
— Nossa... Há quanto tempo vocês estavam juntos?
— Pouco mais de 2 anos. E éramos melhores amigos há mais de 10 — continuei respondendo, mas optei por comer enquanto o fazia, ou minha comida esfriaria.
— Deve ter doído... Sabe, ser traída pelo melhor amigo assim.
— Foi chato — respondi simplesmente, dando de ombros.
— Só... Chato?
Assenti.
— Ter a foto de um cara te fazendo de besta espalhada pelo colégio inteiro não foi exatamente bom para o meu orgulho.
— Tá legal... — Olhei rapidamente para ela, que me encarava de cenho franzido, mas logo voltei à minha comida. — Agora, entendi sua reação quando ele chegou naquele dia — ela continuou falando. — E seus amigos voltaram a falar com ele normalmente?
— Aparentemente, sim.
— Eu tô enchendo seu saco, né? — ela perguntou, e eu sorri.
— Tá tudo bem. Se fosse eu no seu lugar, iria querer saber também. — April me lançou o sorriso e voltou a se concentrar na sua comida, parecendo ter terminado seu estoque de perguntas. Infelizmente, minha consciência, que eu odiava ouvir, me fez continuar falando: — Escuta... Você pode ser amiga dele. Quando sair com a gente, não precisa evitar ou ignorá-lo, achando que vou ficar brava. Tá tudo bem se criar uma amizade com ele. Eu realmente não me importo.
Sim, eu me importava. Mas também queria ser justa.
Ela assentiu e nós, finalmente, comemos sem mais nenhuma interrupção.
O terceiro dia da rush week foi tão cansativo quanto os dois primeiros; talvez, mais. Primeiro, todas recebemos um Top 8, contendo as irmandades que nos chamaram de volta. A minha lista e da April continham praticamente as mesmas, principalmente, porque nós ficamos juntas a maior parte do tempo. E, sim, as Kappas eram uma delas! Tá legal, o Top 8 ainda não era grande coisa, mas eu me permiti ficar feliz, mesmo assim.
Depois disso, nós voltamos a visitar aquelas casas, cada uma para as suas oito, e foi praticamente a mesma coisa que os outros dias. Conversa, conversa e conversa. A única diferença é que algumas irmandades escolheram aquele dia para nos apresentar de verdade às casas, seus cômodos, onde dormiríamos, caso fossemos escolhidas, explicaram um pouco como a coisa funcionava lá dentro e... Adivinha? Mais conversa. No final do dia, tudo que eu queria era a minha cama, por isso, April e eu nem saímos para jantar, compramos algumas besteiras no caminho de volta e comemos no dormitório. Era 21h00, e eu já estava dormindo, sem saber se teria coragem para aguentar mais dois dias daquilo.




2 anos antes


— FELIZ ANIVERSÁRIO, MOZÃO! — gritei, me jogando em cima do , que dormia. Bom, não mais. Eu não era adepta à palavra “mozão”, mas achei que ela combinava com a situação. Ao invés de abrir os olhos, ou me xingar, ele gemeu em protesto e virou a cabeça para o outro lado. — Já é quase meio-dia! Cria vergonha na sua cara! — Eram 9 horas. Ele não precisava saber disso. Rolei para o seu lado e comecei a empurrá-lo. — Vai, levanta. Vai, vai, vai. — Eu estava determinada a continuar sendo irritante, até que ele levantasse a bunda daquela cama. Eu havia feito planos para o aniversário dele, e ai de quem estragasse!
— Você fica pior a cada aniversário — ele disse com a voz rouca de sono, sem nem abrir os olhos.
Eu gostava de aniversários. O que tinha de errado nisso?
— Eu sei. — Aproximei-me para sussurrar no ouvido dele e aproveitei para lhe dar um beijo na bochecha.
Lentamente, ele abriu seus olhos incrivelmente lindos e azuis num tom tão claro que dava inveja, e abriu um sorriso. Ele me encarou por uns bons dois segundos, até franzir o cenho do nada e me olhar confuso.
— Como você entrou aqui?
— Com a minha chave — respondi como se fosse óbvio, mas ele só pareceu ficar mais confuso ainda.
— Desde quando você tem a chave da minha casa? — perguntou.
— Desde quando sua mãe me deu na, vamos ver... Semana passada. Não te falei?
Ele balançou a cabeça, negando, e apoiou o queixo em uma mão, me olhando de olhos cerrados.
— E por que eu não tenho a chave da sua casa?
— Ei, pede aos meus pais, a casa é deles. Não é minha culpa seus pais confiarem mais em mim que os meus confiam em você — disse, abrindo um sorriso convencido, que ele devolveu.
— Você sabe que seu pai confia mais em mim que ninguém. Mais do que ele confia em você, até.
Revirei os olhos.
— Meu pai é um traidor. Vai, levanta. — Empurrei-o novamente, mas tudo o que ele fez foi passar um braço ao redor da minha cintura, me puxar para perto dele e, se você tá pensando que rolou beijo, não, ele só fechou os olhos de novo.
— Fica aqui comigo mais um pouco — ele murmurou, encaixando sua cabeça entre meu peito e meu pescoço, lugar em que ele depositou um beijo, antes de parar completamente de se mexer.
— Não fico, não — protestei, empurrando-o. Não me entenda mal, eu adoraria ficar ali, deitada com ele, pelo resto da minha vida, mas, como eu disse anteriormente, eu tinha planos. — Vamos, , nós já estamos atrasados. — Graças a mim, que tinha perdido a hora. Mas ele também não precisava saber disso.
— Atrasados para que, ?
— Você vai saber se levantar, escovar os dentes, porque você tá com um puta bafo, e vir comigo.
Ele abriu levemente os olhos e abriu um sorriso sarcástico.
— Sempre romântica.
Dei de ombros.
— Eu faço o que posso.

Corri ao encontro do resto do pessoal, deixando para trás. Ele me conhecia bem o suficiente para não correr atrás de mim. Não era como se eu tivesse uma super surpresa preparada para ele e tivesse que disfarçar cada movimento meu. Eu chamaria aquilo de uma “surpresinha básica”. Nós faríamos algo legal, com pessoas legais, em um lugar que nós gostamos muito de ir. Tanto que só o fato de estarmos onde estávamos, isto é, na beira da estrada, já deixava óbvio para onde estávamos indo. A surpresa estava nos detalhes. Fui clara o suficiente?
— Tudo pronto? Estão todos lá?
— É claro que sim. Inclusive, já devem estar entediados. Não dava para tentar se atrasar menos, não? — me repreendeu, e eu encolhi os ombros.
— Não foi minha culpa, desta vez, tá legal? Não completamente, pelo menos. — Defendi-me.
— É, eu posso ter enrolado um pouco. — disse quando parou ao meu lado, e , e Luke me esqueceram por um tempo para pular em cima dele, dar parabéns, abraços, uns socos e tudo mais. — Porra, Luke! — ele reclamou, acariciando seu ombro, que havia acabado de ser socado. — Para o que estamos atrasados exatamente?
— Para a comemoração do seu aniversário. Não é óbvio? — respondeu.
— Bem, sim, mas até onde eu sei, a cachoeira não tem um horário de funcionamento.
— Quem disse? — questionei, só para não deixar ninguém falar mais nada mesmo, porque todo mundo sabia que a cachoeira não tinha um horário de funcionamento. Você só tinha que ter a permissão do Sr. McCarthy, um cara legalzinho que morava perto e, aparentemente, era dono do lugar todo. Ele só não gostava de intrusos, por isso era importante ter sua permissão, ou ele apareceria lá, a qualquer minuto, com uma espingarda em mãos. E eu nem estava exagerando. Experiência própria. — Vamos logo! — disse, puxando pela mão para dentro do bosque.
Nós tínhamos que andar uns bons 10 minutos numa trilha em meio às árvores, para chegar à cachoeira. Felizmente, tinha um posto de gasolina ali perto, onde nós deixávamos o carro ou moto. Havíamos descoberto a existência daquela cachoeira há cerca de três anos e, desde então, íamos lá sempre que possível. Era um dos nossos lugares preferidos. Mas, pelo lugar ser tão legal, era conhecido, então era praticamente impossível estar lá sem estar também com vários desconhecidos, que até acabavam por virar amigos no final do dia. E isso era parte da surpresa.
— Que silêncio. — comentou quando nos aproximamos. “Silêncio”, talvez, não fosse a melhor palavra para definir, já que a água caindo fazia um baita barulho, mas a falta de vozes e gritos de crianças, sim, era estranho. Especialmente, em uma manhã de sábado ensolarado como aquela.
Ninguém falou nada, só esperamos ele dar mais alguns passos e, pronto, chegamos. Primeiro, ele olhou ao redor, curioso, vendo o lugar completamente vazio com apenas uma grande mesa, que sabe lá como havia chegado ali, cheia de comida e bebidas. Nenhuma alcoólica, eu notei, feliz por me obedecerem. Cachoeira e álcool não combinavam em nada. deu, então, alguns passos à frente, uma risadinha surpresa, e foi quando todos os seus amigos e amigas saíram de trás das árvores de uma vez, atacando-o. Por um momento, eu me preocupei com a segurança do meu namorado, principalmente, quando eu não consegui mais enxergar sua cabeça, mas, alguns minutos depois, o pessoal foi se espalhando e estava tudo bem.
— E então...? — Eu me aproximei, e ele virou-se para mim com um grande sorriso no rosto, me puxando em um abraço.
— Você finalmente conseguiu a cachoeira só para a gente. — Eu assenti, sorrindo. Eu estava tentando havia algum tempo, mas o Sr. McCarthy realmente não gostava muito de privar o lugar. — Obrigado. Tá... Incrível. Eu te amo.
— Também te amo. Feliz aniversário! — E, então, ele segurou meu queixo e puxou minha cabeça para um beijo leve, que eu não demorei muito para estragar. — Quase esqueci! — exclamei, da melhor maneira possível, entre os lábios dele, o que o fez se afastar, me olhando desconfiado. — Mais tarde, eu tenho uma surpresa para você.
— Mais uma? — ele perguntou, e eu assenti animada.
Havia passado a última semana inteira pensando se faria ou não aquilo, até decidir, no último minuto, que, sim, eu faria. Seria divertido. Eu não iria morrer, nem nada. Eu acho.
— Você já me pediu isso tantas vezes que é quase um presente de aniversário e não uma surpresa. — Ele adquiriu uma expressão pensativa por alguns segundos, até abrir um sorriso, no mínimo, pervertido, para o meu lado. Revirei os olhos, já imaginando exatamente o que se passava pela cabeça dele. — Não é isso. E não vai ser tão cedo. Esquece — disse, e ele bufou frustrado, mas não insistiu, voltou a pensar.
— Espera... — ele começou, depois de alguns segundos, e eu o encarei em expectativa. — Não, não pode ser isso. Você nunca teria coragem.
Ergui uma sobrancelha.
— Como é?
— Você vai tentar pular — afirmou.
— Eu não vou tentar, vou conseguir — disse.
Ele me olhou, então, de um jeito ridiculamente ridículo. Sabe quando o seu amigo que nunca leu um livro na vida diz que quer cursar medicina, e você quer fazê-lo acordar para a vida, mas não de um jeito muito rude para não acabar magoando? Então. Esse olhar aí.
...
Abri a boca, incrédula, e apontei um dedo para ele.
— Você tá duvidando de mim — acusei-o.
— Amor, não é que eu esteja duvidando, é que... Todo mundo sabe que você morre de medo de pular. Eu já perdi a conta de quantas vezes você foi até a ponta, deu uma olhada e voltou atrás, e tá tudo bem. Você não precisa fazer isso.
— Agora, eu preciso! Antes, eu poderia repetir esse meu ritual, hoje mesmo, e tudo ficaria bem. Agora, você duvidou, então eu preciso pular. Tá vendo o que você fez?
Eu tinha plena consciência do “momento Rochelle” que eu estava tendo, mas era como a coisa funcionava.
, pelo amor de Deus...
— Nanananananão. Vamos. Você vai ver.
Ouvi sua risada, mas já havia virado de costas. Contornei a mesa com as comidas e atravessei o lugar, indo até o lugar onde costumavam pular, onde eu sabia ser seguro. vinha atrás de mim. Parei, observando a água cair lá embaixo; aproximadamente, 6 metros abaixo.
— Tá com medo, é? — provocou, ganhando meu olhar fulminante. Ele realmente duvidava.
— Eu só não quero molhar meu vestido. — Que, na verdade, era uma “saída de praia”, mas falar ‘vestido’ era muito mais prático e rápido. Tirei e entreguei a ele, ficando apenas com um biquíni preto e minhas rasteirinhas, que logo me livrei também. — Vamos lá.
Eu não podia pensar. Eu só tinha que pular. E foi o que eu fiz.
, deixa isso pra...
Foi tudo o que eu ouvi, porque, em um segundo, eu estava parada ao lado dele e, no outro, eu estava caindo no ar. Meu coração batia tão rápido e forte que eu poderia estar tendo um ataque de arritmia, naquele segundo mesmo. Felizmente ou não, a parte aérea foi rápida, difícil mesmo foi quando a água chegou. Eu engoli uns bons litros dela, mesmo fazendo todo o esforço do mundo para que isso não acontecesse. Meu nariz ardia, meu corpo estava estranho, eu queria dar o fora dali logo. No momento em que eu toquei os pés no chão, senti um movimento próximo a mim e a água se agitar. Peguei impulso e subi ansiosa por ar, terra e a certeza de um chão confiável e estável sob os meus pés.
Tossi, aproximadamente 500 vezes, quando atingi a superfície, mesmo que minha garganta protestasse. Em pouco tempo, senti um par de braços ao redor do meu corpo, que constatei serem do , agora, sem camisa.
— Tá tudo bem? — ele perguntou, e eu não demorei a jogar meus braços ao redor dos ombros dele, esperando que ele me carregasse para alguma rocha ou algo do tipo.
— Por favor, nunca duvide de mim de novo. Eu nunca mais quero fazer isso na minha vida — eu disse, fazendo-o rir.
— Qual é! Foi divertido.
— Não foi, não! Foi a pior experiência da minha vida! — reclamei, e ele riu mais ainda.
— Exagerada. Vem aqui. — Ele me carregou, então, até uma pedra gigante, e sentou, me colocando em seu colo. Eu sempre achava incrível como ele me carregava com tanta facilidade. Meu corpo não era exatamente como os daquelas modelos de capa de revista, era bem impressionante. Aí eu o via nadar por mais de uma hora seguida (quando eu mal conseguia atravessar a piscina e, quando conseguia, chegava do outro lado morta) e treinar com o Luke, e lembrava por quê. Ainda assim, era impressionante. — Vou tentar nunca mais duvidar de você.
Eu assenti.
— Obrigada. — Deitei minha cabeça em um de seus ombros, ainda incomodada com a ardência na minha garganta e no meu nariz.
— Mas o que você fez foi bem legal, você tem que admitir. Você enfrentou seu medo — ele disse, e eu não pude conter uma risada.
— Que cafona.

Atualmente


— Vocês têm que saber que o mais importante para a nossa irmandade é o nosso programa de filantropia, que é dividido em três partes: primeiro, nós temos a “Fundação Kappa Kappa Gamma”, que prevê financiamento aos museus Kappa, alunos com bolsa de estudos e programas educacionais. Nós também apoiamos a comunidade local, arrecadamos dinheiro para programas de caridade aqui da região. No decorrer do ano, vocês verão que nós sempre fazemos eventos para arrecadar esse dinheiro. Ninguém é obrigado a participar, é claro, apenas quem se voluntariar, mas, quanto mais apoio, melhor. E, por último, nós temos a nossa filantropia nacional: Reading is Fundamental, que incentiva a alfabetização de crianças. Conforme o ano passa e os eventos acontecem, vocês vão aprender mais sobre cada uma dessas três partes e, com certeza, vão perceber o quão importante cada uma delas é. Alguma pergunta?
Respirei fundo, fechei meus olhos e rezei. Rezei para que ninguém perguntasse nada. Rezei para que Nikki finalmente parasse de falar. Rezei para que eu pudesse levantar logo, esperando não ser tarde demais para minha bunda voltar a ser redonda, ao invés de quadrada, como deveria estar depois de tanto tempo sentada. Não me entenda mal, eu sabia que o que ela estava falando era importante, mas as Kappas eram a terceira casa do dia, e todas elas escolheram o quarto dia para falar sobre a vida na irmandade, seus projetos, filantropias etc. Eu estava tão cansada. E nós ainda tínhamos uma para visitar. Eu não sabia se iria aguentar.
Alguns segundos se passaram, e ninguém falou um “a” sequer. Aparentemente, eu não era a única morrendo ali.
— Tudo bem, então. Vocês devem estar morrendo de fome, não é? Nós fizemos alguns sanduíches e sucos para vocês, é só irem à cozinha.
Quase que de uma vez, todo mundo levantou e foi à cozinha, onde algumas Kappas estavam nos esperando. Minha barriga chegou a roncar quando vi o balcão cheio de sanduíches, então fui logo pegar um, até esquecendo April por alguns segundos, mas quando olhei, ela estava ao meu lado, parecendo tão faminta quanto eu.
— Você acha que vai pegar muito mal se a gente esquecer a próxima casa e ir ao nosso dormitório dormir até amanhã? — perguntei baixo, com medo de que alguém ao nosso redor escutasse.
— Provavelmente. Mas eu tô tão cansada que tô considerando sua ideia. — April respondeu também baixo.
Suspirei frustrada e olhei ao redor, desejando que o final do próximo dia chegasse logo. Uma mão acenando me chamou atenção e, quando percebi, era Lucy nos chamando. Cutuquei April, que ainda não tinha visto, e começamos a abrir caminho entre as garotas para chegar até lá.
— Vocês não vão acreditar no que aguarda vocês! — Lucy disse, no momento em que nos aproximamos.
— Quieta, Lucy! É segredo! — Lauren a repreendeu.
— Eu não vou contar nada, relaxa! Só tô dizendo que algo super legal vai acontecer. Nada demais. — Deu de ombros. Olhei para as duas, meio confusa e muito curiosa. Estava pronta para fazer com que ela falasse o que era, mas Lauren, parecendo prever minhas ações, balançou a cabeça para os lados, me repreendendo também. Bufei frustrada. — Ah, esta é a Bree. Ela é a minha vizinha... Bom, ex-vizinha. Vocês entenderam — disse, apontando para uma garota morena e baixinha que eu não tinha notado ainda. Deu para ver que ela também era caloura, pois não usava roupas combinando com as outras. — Bree, estas são e April.
— Prazer. — April a cumprimentou, mas eu optei só por um sorriso e um aceno.
— E aí, como vocês estão indo? — Lauren perguntou.
— Bem, eu acho — respondi.
— Mas estamos cansadas. — April completou.
— A ponto de desmaiar.
— E de desistir.
— É.
April e eu nos olhamos rapidamente, rindo da nossa resposta. Nós estávamos nos dando muito bem, exatamente o contrário do que eu imaginava. Claro, ela tinha o seu jeito todo estranho, de vez em quando, e eu tinha o meu também, mas as coisas pareciam estar dando certo.
— Não se preocupem. Vocês terão um final de semana para descansar, antes das aulas começarem. Aí a tendência é só piorar... — Lucy falou, e eu fiquei em dúvida sobre se ela tinha intenção de nos fazer sentir melhor ou pior.
— Bem-vindas à universidade! — Lauren completou, com um sorriso fino no rosto. Essa não deixava dúvidas, era pior, com certeza!
Eu realmente gostava dela.

— Você acha que a gente vai conseguir? — April me perguntou, parecendo tensa, enquanto íamos à parte do campus, que fomos logo no primeiro dia do recrutamento, onde seria anunciado o resultado final, quem ficou onde, quais seriam as nossas "irmãs" etc.
— Claro que sim! Quer dizer, nós conversamos com tantas garotas! A gente, com certeza, tem a Lucy, a Lauren, a , a Mina e a Nikki a nosso favor — respondi, tentando ser o mais positiva possível.
— Você tem a Mina e a Nikki... Ok, talvez, eu tenha a Mina. A gente conversou bastante, até no terceiro dia, mas a Nikki, eu não sei. Nós só trocamos uma palavra ou outra. Eu estava morrendo de vergonha da chefona da casa.
— Ei, ela te achou super fofa!
— Sério? — ela questionou, parando por um momento e me olhando.
Assenti, sorrindo.
— Você só precisou de mim pra te dar um empurrão, porque todas pareceram gostar de você. Qual é! Você fica com as bochechas coradas sempre, dá seus sorrisinhos tímidos, e todo mundo te acha fofa.
Ela sorriu inicialmente, mas logo a expressão preocupada voltou ao seu rosto.
— Eu não sei, não...
— Confia em mim, tá? A gente vai conseguir! — afirmei, desejando com todas as minhas forças que eu estivesse certa.
Eu sabia que tinha 50% de chances de entrar para a Kappa Kappa Gamma, ou 50% de entrar para a Alpha Delta Pi. Ambas eram o meu top 2, que eu havia recebido na manhã daquela sexta-feira, ou seja, eram duas das irmandades que escolhi como favoritas e que me chamaram de volta. O top 2 da April eram a Kappa Kappa Gamma e a Alpha Gamma Delta, então nós tínhamos chances de entrar para irmandades diferentes, o que eu não queria, mesmo, que acontecesse.
Pela manhã, nós fomos às nossas duas casas novamente e, naquele dia, as garotas escolheram mostrar de verdade as casas a gente. Como eram os cômodos, os quartos em que dormiríamos, as salas de TV, de estudo, e tudo o mais. Não foi tão cansativo. Já que, no dia anterior, nós tivemos apenas quatro casas para ir, conseguimos descansar um pouco pelo resto da tarde.
Era impossível errar o lugar onde aconteceria a “cerimônia”. Um pequeno palco, com escada do lado, havia sido construído no lugar, e várias garotas já estavam lá, ao redor, esperando que desse a hora para o resultado final. Procurei pela , imaginando que ela já sabia se eu havia entrado ou não e esperando poder arrancar o resultado dela, antes da hora, mas não a achei. Ela, provavelmente, estava se escondendo por aí, porque ela me conhecia muito bem e também se conhecia o bastante para saber que ela deixaria escapar.
Nós seguimos para um canto um pouco mais vazio dentre tantas garotas, e logo um grupo de três amigas, que estavam ali por perto, puxaram assunto com a gente. Eu já havia falado com uma delas rapidamente, entre as conversas das casas, mas nem sabia o seu nome. April mal abriu a boca, parecendo estar nervosa demais para sequer acompanhar a conversa. Ela queria tanto aquilo. Muito mais do que eu pensava inicialmente. E eu queria tanto que ela conseguisse. Talvez, até mais do que eu mesma. Aquilo tudo não significava nada, para mim, além da provação de um argumento, mas, para ela, era importante. Eu não sabia o porquê, poderia ser simplesmente um sonho ou ter um motivo por trás disso, mas eu não iria descobrir aquilo naquele momento. Uma hora, claro, mas eu tinha que preparar o terreno primeiro.
Test... Testando. 1, 2, 3, testando. Ah, ótimo! — No mesmo segundo em que a voz da mulher desconhecida e mais velha soou, nenhum “piu” mais foi ouvido. Ela devia ter 40 anos ou mais, era bem baixa, mas usava um salto tão alto que eu me perguntei como ela se mantinha de pé naquela coisa. O som do microfone não era tão alto, então puxei April pela mão para mais perto do palco. — Olá, garotas! Bom dia! — Todo mundo respondeu junto, formando um coral de “bom dias”, e ela sorriu, parecendo animada. — Bom, vocês devem estar se perguntando “quem é essa?”, então deixem que eu me apresente. Meu nome é Alice Harley e eu sou a coordenadora-chefe das fraternidades e irmandades aqui da UCLA. Sim, isso existe. Eu espero que nenhuma de vocês tenham que me ver pelo resto do ano letivo, porque, quando isso acontece, não costuma ser por bons motivos. Eu e minha equipe somos responsáveis por manter a ordem entre vocês, ou seja, quando uma festa sair dos trilhos, quando alguma brincadeira for longe demais, e coisas do tipo, vocês serão punidas, sim! E que fique bem claro também que, se alguma de vocês, em qualquer momento, sentir-se atacada, humilhada, sofrer bullying, a primeira coisa que devem fazer é me procurar, e eu vou tomar as devidas providências, tudo bem? — Todo mundo assentiu.
Essa era nova, para mim. Minha avó, minha mãe, nem mesmo , nunca haviam mencionado que as fraternidades tinham uma babá. Mas fazia sentido. Talvez, este campus não estivesse inteiro, se ela não estivesse lá, de guarda. Eu sabia o quanto algumas fraternidades festejavam. Volta e meia, saía no jornal: “Universitários disputam racha na rodovia e sofrem acidente”, “Veteranos fazem trote de mal gosto, e calouros acabam se machucando”, “Universitários bebem demais e botam fogo em árvore do campus”. É, se coisas assim já aconteciam com eles por perto, eu não queria nem imaginar como seria sem.
Okay, recado dado, então podemos ir à parte que interessa a vocês: o resultado. Mas, antes, é importante lembrar: não fiquem tristes, caso não tenham entrado para a sua irmandade preferida. Todas as nossas irmandades são maravilhosas e, onde quer que tenham entrado, serão muito bem recebidas e logo perceberão que, talvez, sua preferida não fosse tão certa assim para vocês. — Tá bom. Eu que não iria comprar essa. — Vamos lá, então. Eu vou chamar o nome de cada uma de vocês e quero que subam aqui, por favor, pelo seu lado direito, para que eu entregue um envelope. Nesse envelope estará o nome da irmandade que te acolheu. Bom, os nomes serão chamados por ordem alfabética e não pelas irmandades, então não tirem conclusões precipitadas. Vocês podem comemorar à vontade quando descerem do palco, mas eu vou pedir, com gentileza, que não gritem, nem façam escândalos, afinal, ainda tem gente para receber. Depois do resultado, cada caloura deve ir à casa onde foi aceita. Agora, sem mais enrolações, vamos começar. Boa sorte a todas! Abigail Gabor.
Senti um aperto forte na minha mão e, só então, percebi que April e eu ainda estávamos de mãos dadas. Olhei para ela, que estava tão pálida quanto um defunto. Parecia que ela desmaiaria a qualquer momento.
— Você tá bem? — perguntei preocupada.
— Ela vai chamar meu nome — ela sussurrou e, um segundo depois, eu ouvi o “April Spring” da coordenadora. Deixei para outra hora o pensamento de que eu não sabia seu sobrenome, até aquele momento, e que era super estranho, e foquei nela, à minha frente, de olhos arregalados, mãos suadas, e eu posso jurar que ela tremia um pouco.
— Vai dar tudo certo, tá bom? Vai dar tudo certo! — falei.
Ela me olhou rapidamente, antes de me dar as costas, indo em direção ao palco com passos meio incertos.
Por favor, não caia. Por favor, por favor!
Corri para o lado esquerdo do palco, por onde ela sairia, atropelando algumas pessoas no caminho, mas consegui chegar antes dela.
Ela logo chegou também e parou em minha frente, as mãos pequenas segurando firmemente o envelope branco.
— Abre! — pedi. Ou exigi. Que seja.
— Não dá, eu não consigo...
— O quê?! April Spring, esse envelope não vai se abrir sozinho. — Tive que manter minha voz controlada por causa da mulher chamando, mas eu estava nervosa a ponto de quase arrancar o negócio das mãos dela e abrir eu mesma.
— Eu... — ela começou a dizer, mas parou e abriu um sorriso fraco; quase imperceptível, mas eu notei. — Vou te esperar. — E ficava cada vez mais difícil não gritar.
— Mas...
— Não, , sem “mas”! Eu vou te esperar e pronto. — Olhei-a incrédula, por alguns segundos. Ela nem tinha andado muito com a . — Vamos — disse, me empurrando de volta a multidão.
Eu poderia insistir mais, mas optei por me dar por vencida. A ideia nem era tão ruim assim, eu tinha que admitir.
Eu não sabia dizer direito quanto tempo demorou até chamarem meu nome; se foi rápido, se demorou... Porque, no momento em que April pareceu se acalmar um pouco, toda aquela ansiedade devia ter vindo para mim. Eu fiz questão de disfarçar, claro, lançando uns sorrisinhos para ela. Não queria que a garota voltasse a ficar branca. Foi quase música para os meus ouvidos quando a coordenadora chamou “ ”, porque tudo o que eu queria era acabar com aquilo logo.
Subi rapidamente no palco, peguei meu envelope, sorri de volta para a mulher e desci, encontrando April no mesmo lugar de antes. Sem falar nada, puxei-a pela mão para um lugar afastado, sem garotas dando pulinhos ou quase chorando de ansiedade.
Nós paramos na sombra de uma árvore, de frente uma para a outra, nos encaramos e abrimos o envelope. Não olhamos para ele, continuamos olhando uma nos olhos da outra.
— Pronta? — perguntamos ao mesmo tempo, mas nem paramos para rir, só assentimos também juntas e olhamos para o papel em nossas mãos.
Não foi o segundo mais longo da minha vida. Na verdade, foi muito rápido. Em um momento, eu estava lendo “Kappa Kappa Gamma”, no outro, eu ouvi o grito da April e, depois, o meu e, no outro, nós nos abraçamos do jeito mais afobado possível. Ela bateu com um pouco de força demais na minha cintura, e eu tenho certeza que meu punho bateu na cabeça dela. No final, nós estávamos caídas no chão, rindo.
— Isso é real? — ela perguntou, olhando para o céu.
— Realíssimo!
— Eu não acredito. Nós conseguimos, ! Conseguimos mesmo! Eu consegui! — exclamou, sentando no chão e me olhando com a expressão mais animada que eu já havia visto em seu rosto.
— Eu disse, não disse? Você só precisava de um empurrãozinho — disse, me sentando também e, no segundo seguinte, April se jogou para cima de mim, me abraçando apertado. Pega de surpresa, demorei alguns segundos para ter alguma reação e abraçá-la de volta. Eu nunca fui muito boa com atos afetivos.
Obrigada, obrigada, obrigada, obrigada...
— Ei, o mérito é todo seu. — Interrompi-a. — Mas, assim, se você quiser mesmo me agradecer, pode me pagar um lanche bem gorduroso mais tarde. Agora, nós temos um lugar para ir.
— Feito! — ela disse, afastando-se, sem nunca tirar o sorriso gigante do rosto.

Quando chegamos à casa das Kappas, algumas garotas já estavam lá, todas animadas e conversando entre si. April falava animada sobre como foi o dia que veio conhecer a UCLA e estava acontecendo um evento das Kappas. A garota falava para caramba quando queria, só não parecia querer com muita frequência.
Cerca de 10 minutos depois, pararam de chegar mais garotas, um sinal de que a “cerimônia do resultado” tinha acabado. Apesar disso, ainda demorou um tempo para as Kappas aparecerem. Comecei a me perguntar se era ali do lado de fora mesmo que devíamos ficar. Quando chegamos, as garotas já estavam paradas ali, então simplesmente fizemos o mesmo.
Quando os fios que escapavam do meu “rabo de cavalo” já estavam grudando em minha testa, por causa do suor, a porta da casa finalmente se abriu. Uma a uma, todas as Kappas saíram para fora com seus andares confiantes e olhares superiores, muito diferente de algumas horas antes. Nikki se posicionou no topo da escadaria com todas as outras ao seu redor.
— Silêncio! — ela gritou, de repente, fazendo as garotas que sussurravam aqui e ali ficarem quietas na hora. Seu semblante era sério assim como o de , ao seu lado, e de todas as outras. Ela não parecia mais tão simpática. — Meus parabéns às escolhidas. — Seu tom de voz dizia o contrário. — Mas, se vocês pensaram que acabou por aqui, vocês estão muito, muito enganadas. — Ela abriu um pequeno sorriso. Por algum motivo, aquilo só me deixou mais tensa. — Estejam aqui essa noite, às 19h00 em ponto, em seus melhores vestidos.
E, assim, tão de repente quanto chegou, ela se retirou, sendo seguida pelos seus soldadinhos para dentro da casa.
— Legal! — Ouvi uma garota desconhecida dizer ao meu lado e não consegui conter minha expressão de “qual é o seu problema?” na direção dela.
Eu iria matar a . Ela não havia dito nada sobre isso. Para mim, seria a rush week e pronto, tô dentro. Agora, depois de cinco dias infernais, eu ainda teria que fazer mais coisas e, pior, aguentar garotas mandando em mim.
É, eu estava pronta para dar o fora.
, vamos? — April perguntou, e só então percebi que a maioria das garotas já tinham ido embora. Parei de pensar em minhas mãos ao redor do pescoço de e a segui.
— Que negócio é esse do seu nome? April Spring? — perguntei, depois de algum tempo andando em silêncio.
— Eu sabia que você iria reparar — ela disse, dando uma risadinha. Olhei-a rapidamente, e ela já estava corando. Ela fazia muito isso. Eu quase desejei ser tão tímida quanto ela, assim eu teria alguma cor no meu rosto sempre. — Meus pais são estranhos. Eles gostam que nomes signifiquem alguma coisa. Além daqueles significados estranhos que a gente acha na internet, claro. Primavera sempre foi a estação do ano preferida deles, e eu nasci em abril. Eles sempre me incentivaram a usar Spring, ao invés do sobrenome da família, porque acham lindo, e acabei me acostumando.
— Qual é o nome do seu irmão? — questionei, não me aguentando.
— Jude. Ele nasceu em junho, mas, pelo menos, meus pais tiveram o bom senso de não dar um nome feminino, como June, para ele. E eles adoram os Beatles, então... — explicou, me deixando admirada.
Eu estava adorando aquilo.
— Por isso, o nome do seu gato e do seu cachorro são tão estranhos — concluí, e ela assentiu.
— Natal é a comemoração preferida dos meus pais e, quando uma tia minha faleceu, nós adotamos a cachorra dela. Nos primeiros dias, ela estava bem triste e não comia nada. Um dia, eu e meu irmão estávamos comendo pipoca, jogamos um pouco para ela, e ela finalmente comeu. Já que minha tia também era super estranha e só a chamava de “cachorra”, nós começamos a chamá-la de Pipoca.
Não consegui conter minha risada, achando aquilo inacreditável.
— Eu preciso conhecer sua família!
— Logo eles devem...
Ela parou de falar quando um grito, que parecia dizer “”, seguido de outro, que parecia dizer “April”, a interrompeu. Ambas viramos para trás e encontramos , a uma boa distância, correndo toda estabanada em nossa direção. Permiti-me observá-la sofrer um pouco naquele sol quente. Eu estava no direito.
Quando chegou à nossa frente, sem fôlego, ela se curvou, apoiando as mãos nos joelhos, tentando recuperá-lo.
— Sabe, eu até sentiria pena de você pela corrida, se eu não quisesse te cortar em pedacinhos agora — disse, e ela levantou a cabeça, semicerrando os olhos em minha direção.
— Posso saber por quê? — perguntou.
— Você disse que tudo que eu teria que fazer era passar pelo recrutamento. Não disse nada sobre trote.
— Porque não é um trote — informou, arrumando sua postura. — É uma iniciação.
— Ai, caramba... — April murmurou ao nosso lado.
Olhei-a, confusa, para encontrar seu olhar preocupado. Voltei, então, à , que, agora, carregava um sorriso no rosto.
— É pior, não é? — perguntei.
deu de ombros.
— Você vai descobrir mais tarde — respondeu simplesmente.
— Não se eu não for... — eu disse, em um tom bem sugestivo.
— O quê? — Seus olhos se arregalaram, de repente, e eu juro que ela ficou vermelha. Não o bonitinho da April. O “você está morta” da , mesmo. — , se você não for, eu te pego pelo cabelo e te arras... — Ela parou de falar quando eu comecei a rir. — Você não presta! — disse, me apontando o dedo.
— Eu tô curiosa demais pra não ir. Com isso, você não tem que se preocupar. — Ela não pareceu muito calma, depois de eu falar isso, continuou me olhando de cara feia, o que eu optei por ignorar. — O que você queria? — perguntei quando voltamos a andar.
— Diferente de você, eu queria ser uma boa amiga, te dar parabéns e perguntar se precisarão de ajuda para se arrumarem.
Revirei os olhos para a primeira parte e, novamente, optei por ignorar, não a cutucando de volta.
— Diz você. A gente vai precisar de ajuda?
Ela não precisou nos olhar por mais de dois segundos, para chegar a uma conclusão:
— Com certeza.

Nós passamos em uma lanchonete e comemos, já que não tínhamos almoçado ainda e, depois de nos deixar, prometendo que voltaria mais tarde, fomos ao dormitório. Eu tenho que dizer que a melhor sensação do mundo foi chegar lá e saber que, no dia seguinte, eu não teria que sair para visitar mais casas e tentar agradar. Okay, nós ainda tínhamos o que fazer, mas já tínhamos entrado, e isso já tirava um peso e tanto das costas.
Por isso, me sentindo um pouco mais livre, a primeira coisa que fiz quando vi minha cama foi pular nela e não levantar mais. Infelizmente, minha felicidade durou pouco.
E APRIL, ABRAM A PORRA DESTA PORTA, OU EU JURO QUE VOU ATRÁS DE ALGUÉM PARA DERRUBÁ-LA!
Não. Por favor, não. Eu nunca fui a melhor pessoa do mundo, mas nem eu merecia aquilo.
Várias batidas seguiram, depois da sua ameaça, fazendo minha cabeça doer. Eu não sabia de onde ela tinha tirado tanta força para bater na porta daquele jeito.
, EU VOU TE MATAR! VOCÊ TÁ ME OUVINDO? VOCÊ ME PAGA! MUITO CARO!
Talvez, se eu a deixasse batendo tempo o suficiente, algum segurança apareceria e a levaria embora, me deixando dormir por mais algumas horas. É, me parecia uma boa ideia.
, pelo amor de Deus, abre essa porta, antes que prendam sua amiga. — April falou com a voz meio rouca.
Com muito esforço, abri os olhos e vi que ela tentava tapar os ouvidos com o travesseiro. Respirei fundo, odiando a mais que nunca.
!
Esse me fez levantar correndo, porque, se o segurança ainda não tinha chegado, ele, com certeza, estava a caminho.
Quando abri a porta, um furacão me atingiu, quase me derrubando no chão. Acabou que era só a fula da vida.
— Já são 17h30. 17h30, PORRA! Meu Deus! Olha pra você! Você nem tomou banho ainda! — Ela fez uma pausa; talvez, esperando que eu dissesse alguma coisa, mas eu ainda não estava acordada o suficiente para assimilar bem as coisas. Só fiquei encarando-a com cara de besta. — Sai daqui. SAI DAQUI AGORA E VAI AO BANHEIRO! — gritou, apontando para a porta, onde alguns curiosos paravam para espiar. — E, April, eu sei que não te conheço direito para fazer o que estou prestes a fazer, mas LEVANTA A PORRA DA BUNDA DESSA CAMA E VAI TOMAR BANHO! — Em um só movimento, ela puxou o lençol da menina, quase a derrubando da cama, no processo.
Eu poderia ter gritado de volta ou feito um barraco, mas minhas energias só me permitiram ir até uma das minhas malas para pegar uma roupa qualquer. April, parecendo assustada, sem nem saber o que a atingiu, fez o mesmo e, sem dizer uma palavra, logo saímos pela porta em direção ao banheiro, deixando uma bufando para trás.

— Você! — apontou para mim, no exato segundo em que passei pela porta. — Dá um jeito no seu cabelo, enquanto eu cuido da April. E você! — Apontou para a April. — Senta nesta cadeira agora.
April fez o que ela mandou, e eu me aproximei da cama dela, em que dois vestidos curtos estavam postos.
— Eu não me lembro de ter colocado este vestido na mala — comentei, passando a mão no preto com renda e uma saia rodada. Olhei para o que estava ao lado, roxo, também de saia rodada. — Nem este, aliás.
— Você não colocou. — respondeu. — Eu busquei na sua casa.
— Por que eu não tô surpresa? — Tudo o que eu ouvi em resposta foi uma risadinha da April.
Fui, então, secar meu cabelo. Eu odiava fazer aquilo, porque tirava as ondas naturais dele, mas eu já havia irritado demais por um só dia. Fiz duas tranças de cada lado da cabeça e prendi parte do meu cabelo atrás com elas, deixando a franja e o resto do cabelo solto. Olhei o resultado na câmera do meu celular (já que o espelho estava ocupado) e gostei do resultado. É, de cabelo, eu entendia. Depois, me sentei na minha cama e fiquei jogando Farm heroes saga, enquanto e April não terminavam.
— Vuxê xabe que eu nom tenho vextido di fexta, né?
— Engraçado como você escolheu bem a hora de passar batom pra falar. Mas, sim, eu sei. Eu vi com os meus próprios olhos, na verdade. Mas, para a nossa sorte, eu sou uma pessoa prevenida e já garanti o seu também.
Olhei, mais uma vez, para os vestidos. O meu, com certeza, era o preto. Quer dizer, os dois eram meus, mas ela, provavelmente, me faria usar o preto. adorava me enfiar em renda, o que eu nunca entendi muito bem. Era bonito e tudo mais, mas aquele negócio me pinicava. Eu já estava até vendo como eu iria sofrer com aquelas mangas toda de renda. Invejei a April por alguns segundos. Eu adorava aquele roxo. Havia comprado para a festa de aniversário de uma amiga e usado uma vez só. Era todo lindinho, sem nada para pinicar a noite inteira.
, sua vez. — anunciou, e eu me levantei, pronta para me sentar no lugar da April, mas quando ela se virou, eu tive que parar.
— Uou!
havia feito, no cabelo dela, uma trança lateral, meio bagunçada, deixando a franja solta. A maquiagem era forte, bem de noite mesmo, com direito até a batom vermelho. Quem olhasse, nunca veria a garota tímida que ela realmente era. Bom, isso até conversar com ela, mas tá valendo. Ela estava linda.
— Eu sei. Eu sou ótima. — disse.
— Tá maravilhosa, April! — elogiei-a, e ela sorriu animada. — Dá para pegar vários. — E o sorriso foi embora no mesmo segundo, deixando uma expressão assustada no lugar. Sentei na cadeira, rindo.
não perdeu tempo, começou logo suas mágicas, e eu só fiquei lá, aproveitando alguns minutos com os olhos fechados. Eu estava quase que animada para aquela noite. Eu não estava, antes, mas saber que era uma iniciação melhorava as coisas. Iniciações deviam ser divertidas, certo? Eu mal podia esperar.
20 minutos depois, terminou, e eu abri os olhos, pronta para ver o resultado. E, modéstia à parte, eu estava tão maravilhosa quanto April. Nossas maquiagens nem era tão diferentes assim, ambas escuras. A única diferença gritante era o meu batom roxo.
— Já disse que te amo? — perguntei, olhando de baixo para . Ela deu de ombros, fingindo indiferença. — Eu te amo — disse, abrindo um sorriso.
Ela tentou continuar séria, mas não demorou muito para deixar escapar um sorriso também.
— Eu te odeio — falou, me dando um tapa fraco no ombro. — Eu vou me arrumar também. , seu vestido é o preto, e April, o roxo. — Como eu imaginei. Renda... — Vistam-se. Suas opções de sapatos estão ali no canto e cheguem, pelo menos, 10 minutos antes das 19h00. — E saiu porta a fora, sem nem dar um tchau.
Eu nem poderia reclamar, já era 18h30, e a culpa do atraso era toda nossa.
— Hum... ? — April chamou. Olhei para ela, que estava sentada próxima aos saltos. — Eu acho que nós temos um problema.
Suspirei, já imaginando o que seria, mas mantendo um resquício de esperança.
— Por favor, me diz que você sabe andar de salto. — Ela balançou a cabeça para os lados. — Tá legal... — eu disse, me levantando, tentando pensar em uma solução. Mas quem eu queria enganar? Só tínhamos uma e não era das boas. — vai amputar seus pés, se aparecer lá sem salto, então... Você tem 10 minutos andando pra lá e pra cá neste quarto, para aprender.
— Mas...
— Sem “mas”! — repeti o que ela havia me dito mais cedo. — É isso, ou deixar a mais brava com a gente do que ela já está. O que você prefere? — perguntei, e ela encolheu os ombros em rendimento.
De vestidos colocados (depois da April me fazer virar para a parede para ela se trocar) e saltos nos pés, nós saímos 10 minutos depois para a casa Kappa Kappa Gamma. Com certeza, chegaríamos em cima da hora por causa da lentidão da April para andar, mas eu não a culpava. Já havia tido minha primeira vez também. E, para a sorte dela, tínhamos que andar mais, sem poder cortar caminho pela grama.
— Para de doer, depois que eu me acostumar? — ela perguntou no meio do caminho.
— Não — respondi. Olhei para ela, um pouco atrás de mim. — E, se você continuar nessa postura, não é só o seu pé e suas panturrilhas que vão doer, suas costas também.
— Ou eu fico com esta postura, ou eu caio de cara no chão, não tenho muita opção.
Balancei a cabeça, segurando uma risada. Era bom que não estivesse aqui para ver isso.
Quando, finalmente, chegamos à casa, faltavam exatos 2 minutos para as 19h00. Assim como à tarde, todas as garotas estavam paradas de frente para a pequena escadaria. Nós não devíamos chegar, receber capas, sermos guiadas para o porão, onde teriam velas e coisas estranhas? Porque era assim que eu imaginava uma iniciação. Não um bando de garotas extremamente arrumadas na calçada. Felizmente, o sol já começava a baixar. Ainda estava calor, mas dava para aguentar sem suar litros.
Às 19h00 em ponto, Nikki saiu pela porta, mais uma vez seguida por todas as outras Kappas. Todas usavam vestidos brancos e eram do mesmo modelo. Mais uma vez, eu tive que segurar a risada.
Quando todas pararam em suas devidas posições, tudo ficou no mais completo silêncio. Nem carros se atreveram a passar na rua. Até que a deusa maior, Nikki, começou seu discurso:
— Boa noite, calouras! — ela começou, sempre no topo da escadaria, com um sorriso maldoso nos lábios. Por educação, todas começaram a responder, mas ela voltou a falar, antes que terminássemos, interrompendo: — Como eu disse, mais cedo, sua jornada para ser uma verdadeira irmã Kappa Kappa Gamma não acabou com o recrutamento. — Ela fez uma pausa de alguns segundos. Ninguém nem respirava, ansiosas pelo que estava por vir. — Vejam só, nós não somos uma das irmandades mais procuradas desta universidade à toa. Todas querem ser uma de nós. Todas querem ser como nós. Vocês sabem por quê? — Uma garota inocente, na frente, levantou a mão, mas tudo que ganhou foi um olhar rápido da Nikki, que logo voltou a falar, ignorando-a: — Cada uma de nós tem um diferencial. Algo que nos destaca das demais de alguma maneira. Qualidades e, acreditem, às vezes, até defeitos que vêm a calhar. Não importa o porquê, nós nos destacamos. — Suspirei entediada. Era isso a iniciação? Elas se gabando? Eu estava meio decepcionada. Não surpresa, mas decepcionada. — Logo, vocês vão descobrir o que cada uma de nós tem a oferecer a esta irmandade, mas, o que importa, hoje, são vocês. Talvez, não fique tão claro, inicialmente, mas vocês estão aqui por um grande motivo: nós vemos potencial em cada garota que escolhemos. Ninguém, e eu repito, ninguém, está aqui por acaso. Cada nome chamado mais cedo foi pensado e discutido. E é por isso que não esperamos nada menos que o melhor de cada uma de vocês. — Agora, a coisa estava ficando interessante. Bem interessante. — Esta noite, vocês terão a chance de nos mostrar algo. Algo que vem de dentro. Algo que escondem. Algo que nos mostre por que vocês estão aqui. Não queremos saber o que, se é ilegal ou não, se é ético ou não, só queremos que nos mostre a razão pela qual foram escolhidas. E, para isso, vocês têm 12 horas, ou seja, vocês têm até às 7h00 da manhã. Todas entenderam? — É claro que ninguém se atreveu a dizer que não. — Muito bem. — De repente, ela abriu um sorriso caloroso, muito diferente do de antes, parecendo voltar a ser a Nikki do recrutamento. — Agora, como nosso presente de boas-vindas a vocês, queremos mostrar o que é uma festa de verdade. Uma festa universitária. — Vários murmurinhos começaram na hora, deixando o sorriso da Nikki mais largo. — Eu sei, eu sei, vocês já estão animadas, mas, antes, um recado: algumas de vocês, talvez, já saibam, outras não, mas não é permitido álcool nas irmandades, apenas nas fraternidades. — Franzi o cenho. Essa informação também era nova para mim. E incrivelmente injusta. — É algo que nós estamos tentando mudar, mas não estamos exatamente lá ainda. Essa regra cria muita insegurança entre nós, garotas, já que, se quisermos beber, temos que ir às festas na casa de garotos. Eles controlam a bebida, controlam quem entra e conhecem a casa, nos sujeitando a perigos como o estupro. Infelizmente, todas devem saber que estupros em campus de universidades são muito comuns. E porque nós nos recusamos a pedir que vocês não usem roupas curtas, ou não bebam, algumas irmandades e fraternidades decidiram se juntar para tentar evitar situações assim. A nossa fraternidade prima, como gostamos de chamar, é a Lambda Chi Alpha, algumas casas aqui para baixo. Nós conhecemos a casa deles como se fosse nossa e confiamos nos moradores de lá assim como eles confiam na gente, por isso, quando queremos dar uma festa com álcool, ou seja, uma festa de verdade, é com eles que contamos. Não é a situação ideal, nós sabemos, mas é uma solução temporária que está funcionando. Felizmente, logo não vamos mais precisar dela, tudo bem? — Algumas garotas assobiaram, algumas bateram palmas ou gritaram, e eu só conseguia pensar que aquilo era algo em que eu, definitivamente, gostaria de me envolver. — Ótimo. Agora, podemos ir.
Todas começaram a descer a escada para ir à tal fraternidade, e eu estava pronta para fazer o mesmo, quando vi que deixava as garotas passarem, em vez de descer também. Nossos olhares se encontraram, e ela ergueu a mão para mim, pedindo que eu esperasse, então puxei April para um canto comigo. Assim que todas foram em grupo rua a baixo, nos chamou, e entramos dentro da casa.
— O que foi? — perguntei enquanto subíamos a escada para o segundo andar.
— Eu tenho que terminar de me arrumar e, já que a culpa é totalmente de vocês por terem me atrasado, vão me esperar. — Ela parecia perfeitamente arrumada, para mim, mas eu que não iria questionar.
Nós entramos em um corredor e fomos até o final dele, na última porta. Não tínhamos entrado naquele quarto, na tour pela casa, mas era praticamente como os outros. Uma cama de solteiro, duas beliches, algumas mesas de estudo, outras com espelho e maquiagem, e closets. Todos os quartos eram grandes. Não devia ser nenhum esforço morar ali.
— Qual é a sua cama? — April perguntou, e apontou para a de solteiro, onde fomos sentar, enquanto ela se colocava de frente para uma penteadeira e começava a mexer no cabelo.
— Podem sentar em qualquer uma, não tem problema. Eu divido este quarto com a Mina, e ela não se importa. Aliás, eu tô mexendo uns pauzinhos para que vocês fiquem aqui com a gente.
Aproveitei a permissão e tirei meus saltos, já me deitando na cama debaixo de uma das beliches. Tomei cuidado para não estragar meu cabelo, mas quando percebi, o estrago já estava feito. Não que eu tenha me importado muito. No meio da festa, eu já teria o soltado mesmo.
— Gostei desta aqui — disse, me aconchegando ali mesmo.
— Então... Nós vamos falar sobre a iniciação? Eu não tenho ideia do que fazer! — April exclamou, parecendo muito preocupada.
— Ah, é... — Eu gostei tanto da parte de legalizar o álcool nas irmandades que me esqueci desse detalhe. — O que você fez, ?
— Projetei um evento de caridade. Nós o colocamos em prática, no segundo semestre, e arrecadamos quase dez mil dólares — contou com um sorriso orgulhoso.
É, não daria para competir com aquilo.
— Ai, meu Deus... — April suspirou desanimada.
— Relaxa! A gente ainda têm 11 horas e 40 minutos. Você tem ideia do tanto de coisas que podem acontecer em 11 horas e 40 minutos? Vamos pensar em alguma coisa — eu disse, tentando soar o mais positiva possível. Eu não tinha ideia do que faria também, mas era só questão de tempo até eu descobrir.
— E você sempre pode pedir ajuda a uma veterana. A Lucy, quem sabe. Ela, com certeza, te ajudará. — sugeriu. Desta vez, ela respirou fundo e pareceu um pouco mais calma.
— Tudo bem. É, vai dar tudo certo.

Quando já havia escurecido completamente, finalmente terminou de se arrumar. Seu cabelo, agora, estava preso em um dos coques mais chiques que eu já tinha visto na vida. Era só uma festa universitária, mas também era a , então...
Rapidamente, chegamos à casa da Lambda Chi Alpha — nome que eu só lembrei quando chegamos à frente e vi uma placa com o nome —, viramos uma esquina, onde ficava a casa da irmandade Kappa Delta, andamos por dois minutos, no máximo, e estávamos lá. Dificilmente, alguém erraria aquela casa. Não por causa da música alta que vinha de dentro e, sim, porque ela estava completamente iluminada com luzes, que, hora eram verdes, e hora eram azuis. Verde, a cor da fraternidade deles, e azul, a cor da Kappa Kappa Gamma.
— Metidos. No resto do ano é só verde, estão só tentando impressionar as calouras. — disse, seguindo pela entrada. April e eu trocamos um olhar rápido e impressionado, antes de segui-la. — Ah! — Até ela parar do nada, nos fazendo quase beijar suas costas, claro. — Pensei que você deveria saber. Esta é a fraternidade do . — E saiu praticamente correndo e se enfiando no meio das pessoas porta a dentro.
Eu juro que não estava surpresa. Com a sorte que eu estava, ultimamente, em relação a ele, é claro que aquela fraternidade seria a dele. Se eu acreditasse em destino, diria que isso era ele me dizendo para matar logo meu ex-namorado, assim eu não teria que olhar para a cara de pau dele nunca mais.
— Tá tudo bem? — April perguntou ao meu lado.
Respirei fundo e olhei para ela com o meu melhor sorriso.
— Quer saber? Tá tudo ótimo — respondi, agarrando sua mão e a puxando para dentro comigo.
A música, que já estava alta do lado de fora, era ensurdecedora do lado de dentro. O que, antes, deveria ser uma sala, era, agora, uma pista de dança com casais se agarrando, dançando colados e algumas pessoas se arriscando sozinhas. A primeira coisa que eu fiz foi ir atrás de bebida e achei com um cara bonitinho. Na verdade, vários caras eram bonitinhos ali. Eu poderia conviver com aquilo. Com um sorriso no rosto, ele me entregou um dos clássicos copos vermelhos. Eu experimentei e concluí que não fazia ideia do que era aquilo, mas tinha álcool, então estava valendo. April recusou o dela, primeiramente, mas, depois de eu dizer que aquilo era o mais próximo de um suco que ela iria encontrar por ali, ela aceitou, dando goles minúsculos.
— Eu tenho que procurar a Lucy! — ela gritou no meu ouvido, depois de termos dado algumas voltas pelo lugar.
— O quê? — gritei de volta. — Não, vamos dançar!
— Eu não sei dançar!
— Eu te ensino! É super fácil! — Mas ela balançou a cabeça para os lados.
— Depois, tá bom? Eu quero acabar com isso logo, aí você pode me ensinar quantas danças quiser.
Olhei para ela, decepcionada, mas assenti, e ela se enfiou no meio da multidão, atrás da Lucy.
Decidi que não ficaria ali parada e, sim, ser mais uma se arriscando sozinha na pista de dança, então acabei com a minha bebida de uma vez e fui fazer uma das minhas coisas preferidas no mundo: fechar os olhos e dançar como se eu não tivesse mais nenhuma obrigação no mundo.
Eu já havia perdido a conta de quantas pessoas já havia ouvido dizer que não gostavam de baladas por causa da música alta, da multidão dançando, suados, e nunca entendi bem, porque era exatamente aquilo que me atraía em uma festa. Não a calmaria. Eu não me importava de suar por estar me divertindo, nem um pouco.
Não fiquei sozinha por muito tempo, logo senti alguém se aproximar por trás, tentando se adaptar ao meu ritmo. Olhei pelo ombro e, percebendo ser o cara das bebidas, sorri para ele, que se permitiu, então, aproximar-se mais.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou no meu ouvido.
Sem vontade de começar uma conversa, optei por não responder, só continuei dançando com ele. Felizmente, ele pareceu entender e não falou mais nada. Eu gostava de caras assim. Poderia conhecê-lo bem melhor quando estivesse a fim.
Quando me dei por satisfeita, lancei a ele mais um sorriso e fui abrindo meu caminho entre os casais para fora dali. Cansada, andei até encontrar uma porta que me levasse ao lado de fora da casa. Queria respirar um pouco do ar não-tão-fresco de Los Angeles, antes de ir atrás da April ou pensar no que faria para aquela iniciação.
Encontrei uma persiana e percebi uma porta de vidro atrás dela. Tentei abrir e estava trancada. Ia dar a volta e tentar alguma outra, quando vi, de relance, um pedaço de metal atrás de uma planta em uma mesinha ao lado. Peguei a chave, rindo de qualquer que fosse a pessoa que tentou escondê-la, e abri a porta, dando de cara com a parte de trás da casa, com uma piscina enorme. Saí e tranquei a porta atrás de mim, pensando que uma piscina não era uma má ideia. Mal tinha me virado e ouvi um barulho na água, notando, só então, que eu não estava ali sozinha.
Merda. Eu não estava com sorte mesmo.
Mas, decidida a me refrescar, pelo menos, um pouco, rapidamente, tirei meus saltos e me sentei na beira da piscina, molhando meus pés e parte da minha panturrilha. Foi quando o cara, que estava nadando, emergiu, e eu xinguei mentalmente tudo o que me vinha na cabeça, inclusive ele, de todos os nomes possíveis. Sério. Quais eram as chances?
Ok, considerando que ele era um nadador, elas eram meio altas, mas, ainda assim... Não dava nem para acreditar.
não demorou muito para perceber que tinha companhia, só o tempo de tirar o excesso de água do rosto e... Bem, abrir os olhos. Quando percebeu ser eu, franziu o cenho, confuso.
— Hum... Oi? — Por um momento, eu me esqueci completamente de responder, ocupada demais acompanhando uma gota de água que descia pela sua bochecha, depois, pelo pescoço, até um pouco abaixo do seu peito, juntando-se, então, à água da piscina. Ele podia ser um idiota, mas era um idiota gostoso daqueles.
Eu sempre tive um bom gosto.
— Já soube da novidade? — perguntei com um sorriso maldoso “estilo Nikki”. Se eu já estava ali, por que não aproveitar, não é?
— Antes mesmo de você, na verdade — ele respondeu, também sorrindo, mas o dele, pelo menos, parecia verdadeiro. — ligou para todo mundo assim que soube. Parabéns, .
Senti-me até um pouco mal quando ele falou isso, porque nem havia dado a ela a chance de comemorar. E ela, com certeza, era a mais animada com aquela história toda. Eu a recompensaria mais tarde. Agora, o meu foco era outro.
— Tenta não duvidar de mim, na próxima vez — avisei, ignorando seus parabéns.
— Nunca duvidei de você. Aprendi há um tempo, já que duvidar de você não é uma opção — disse, fazendo uma careta. Eu quase ri, sabendo a lembrança que deveria estar na sua cabeça, mas me segurei. — Só disse que você não faz muito o estilo das Kappas, especialmente a Kappa Kappa Gamma. Na Delta, eu até consigo te imaginar.
— Você não tem que imaginar nada — eu disse rudemente, não me contendo. Ele ergueu uma sobrancelha, parecendo questionar minha reação. Tentei me recompor, respirando fundo. — É... Esquece. Qual é a diferença? Sabe, entre elas. Kappa Kappa Gamma e Kappa Delta. Elas me pareceram muito iguais no recrutamento. — Tentei até soar educada, o que já deveria me render um prêmio.
— É meio complicado de explicar, mas... Bom, a Gamma, agora, sua irmandade, é muito conhecida pela beleza das garotas, pela personalidade forte de algumas e, dizem por aí, que não são tão irmãs assim. Eu não sei. Só convivendo dentro da casa, para ter certeza disso, mas é o que dizem. A Kappa Delta tem uma imagem bem mais... “Pura”, talvez, seja a palavra. Garotas boazinhas, amigáveis e muito, muito, mesmo, unidas — ele explicou, e eu acabei ficando mais confusa ainda.
— Espera... Você consegue me imaginar em uma irmandade de garotas boazinhas e não em uma de garotas com a personalidade forte? Tem alguma coisa errada no seu raciocínio.
— Não é bem assim. — Ele deixou escapar uma risada e encostou na beirada da piscina, de frente para mim, mas lá do outro lado, longe o suficiente. Não preciso dizer a visão do paraíso que seus braços apoiados na beira me davam, né? — Quando eu digo ‘personalidade forte’, quero dizer garotas metidas, que andam por aí como se fossem rainhas. E quando eu digo ‘boazinhas’, quero dizer verdadeiras. Não que elas são santas ou algo do tipo.
Balancei a cabeça, agora, compreendendo.
— As que eu conheci, até agora, não são tão ruins. Bom, eu até trombei com umas chatas, mas não perdi muito tempo com elas — disse, dando de ombros.
— Quem conheceu? — ele perguntou, parecendo interessado.
— Lucy, Lauren, Mina, Nikki, Susan, Marie, Katy... Ah, várias — respondi.
— É, eu conheço bem algumas dessas. Não são exatamente o estereótipo Kappa Kappa Gamma. Mas espera e você vai ver.
Assenti e estava pronta para começar a falar mais, quando eu percebi: eu estava conversando com ele. Conversando. Ele, o ex-namorado, o ex-melhor amigo, o cara que eu queria matar, na maior parte do tempo. Eu era uma traidora mesmo. Das feias.
— Tá. Tchau — disse rapidamente e comecei a me levantar, querendo dar o fora dali.
— O quê? , espera! — ele exclamou, e eu ouvi o barulho que a água fazia com os seus movimentos.
— Que foi? — perguntei em um tom grosso até demais.
— Eu preciso conversar com você — disse, pegando impulso para sair da piscina.
Virei-me e voltei a andar em direção à porta, antes que tivesse a visão que eu estava evitando.
— Nós acabamos de conversar.
, por favor. — Ignorei e continuei andando, quase alcançando a porta. — ! — Mas é claro que ele me alcançou e parou minha mão, no exato momento em que eu iria virar a chave. — Por favor — ele pediu, próximo demais do meu ouvido.
Foi tudo muito rápido. Em um segundo, sua mão cobria a minha, e seu peito, ainda molhado, roçava no meu ombro. No outro, eu tinha me afastado como se tivesse levado um choque. Eu não queria que ele tocasse em mim. Ele não tinha mais esse direito. Merda. Idiota, idiota, idiota. Ele não poderia simplesmente manter distância? Não poderia não fazer com que eu me sentisse a garota mais estúpida do universo? Não, ele não poderia. Por isso, eu o odiava tanto.
Respirei fundo, lançando a ele o olhar mais frio que eu conseguia. Eu poderia me sentir muito estúpida, mas não deixaria de jeito nenhum ele ver. Ao contrário, eu queria fazê-lo se sentir tão estúpido, se não mais, quanto eu. Era como a coisa funcionava comigo.
— Fala logo o que você quer, ! — exigi, me forçando a manter meus olhos no rosto dele e não no tronco nu, ou na boxer, que poderia, ou não, ser preta, nas coxas firmes... Eu não estava fazendo exatamente um bom trabalho.
— Para de me chamar assim, você sabe que eu odeio — ele disse, bufando, e eu revirei os olhos.
— Eu não dou a mínima. Você tem dois minutos.
Ele hesitou um pouco, como se escolhesse quais palavras me fariam ouvi-lo e quais me fariam sair correndo. Eu não fazia ideia do que estava por vir, do que diabos ele tinha para me falar e, por isso, quando ele falou, a minha reação foi a mais genuína possível.
— Eu quero conversar sobre... Conversar sobre nós e... — Foi tudo o que ele disse, antes que eu o interrompesse com uma gargalhada. Ele tinha esse dom de falar babaquices tão grandes nas piores horas.
— Sobre nós? — consegui falar entre risos, balançando a cabeça. — Não existe “nós”, cara. Você não tinha percebido isso ainda?
Ele deu um passo para trás, correndo os dedos pelo cabelo e puxando alguns fios. Ser motivo de chacota incomodava, eu sabia bem.
— Dá pra parar? — ele pediu, e eu fiz um esforço para ficar séria, agora, até animada para ouvir o que ele tinha a dizer: — Já passou mais de um ano, . Será que, agora, não dá pra gente tentar, pelo menos, resolver tudo?
— Já tá tudo resolvido. Nós namorávamos, você me traiu, foi um babaca e nós terminamos. Simples assim — expliquei. Ele suspirou cabisbaixo. Eu dei um passo em direção à porta, querendo sair dali logo, até que ele me fez parar de novo; desta vez, sem nem me tocar.
— Eu sinto sua falta — murmurou baixo.
Olhei para ele, que cravou seus olhos nos meus.
— Ah, nem vem com esses olhos azuis — reclamei, desviando meu olhar para a beirada da piscina, em que algo me chamou atenção. Olhei por alguns segundos, até conseguir identificar como uma pilha de roupas. Eram só as roupas dele, concluí desanimada. Não que eu estivesse esperando algo que pudesse me transportar para longe dali, mas... Sim, eu estava.
— São os meus melhores atributos. Vale a pena tentar.
Voltei meu olhar para ele, mas, antes que pudesse perceber, estava na pilha de roupas novamente.
Ele estava só de cueca. Sentia minha falta. Nós estávamos em uma casa cheia de gente. As roupas dele estavam logo ali do lado. Eu queria tanto uma vingança. E uns dos meus melhores atributos eram as minhas ideias; mirabolantes, loucas, estranhas, mas tendiam a dar certo.

(Dá um play em Unstoppable, quem quiser entrar no clima)

All smiles, I know what it takes to fool this town | Toda sorridente, eu sei como enganar esta cidade
I'll do it 'til the sun goes down and all through the night time | Eu vou fazer isto até o sol se pôr, e através da noite
Oh yeah, oh yeah, I'll tell you what you wanna hear | Oh yeah, eu te direi o que você quer ouvir
Leave my sunglasses on while I shed a tear | Fico com meus óculos escuros enquanto uma lágrima cai
It's never the right time, yeah, yeah | Nunca é a hora certa, yeah


— Quer saber de uma coisa? Eu não concordo com você — disse, de repente, me aproximando dele, até que nossos corpos estivessem a poucos centímetros de distância. Mordi meu lábio, ao mesmo tempo em que descia meu olhar pelo seu corpo da maneira mais descarada possível, parando, por alguns segundos, na boxer preta, antes de levar meus olhos de volta aos dele. — Não concordo mesmo. — Colei completamente meu corpo no dele, levando uma das minhas ao seu pescoço e arranhando levemente seu braço com a outra. Senti a respiração dele ficar irregular e sorri. Eu ainda sabia do que ele gostava. Fiquei, então, na ponta dos pés, aproximando nossos rostos, até que eu sentisse sua respiração quente. Aproveitei a mão que estava no seu pescoço e puxei sua cabeça, deixando nossas bocas quase se tocando.
— O que você tá fazendo? — ele perguntou em um sussurro.
— Beijando você — sussurrei de volta, antes de colar completamente meus lábios nos dele.

I put my armor on, show you how strong how I am | Eu visto minha armadura, te mostro como sou forte
I put my armor on, I'll show you that I am | Eu visto minha armadura, te mostro que eu sou


Primeiramente, foi só um selinho, até que ele pareceu perceber o que estava rolando e me agarrou pela cintura, pressionando nossos corpos, e abriu os lábios. Foi como se eu tivesse voltado no tempo. Por um momento, eu não sentia mágoa alguma, era só uma garota que poderia passar horas só beijando seu namorado, apreciando a maneira como seus lábios se encaixavam nos meus, como sua língua deslizada pela minha, sem pressa, me proporcionando sensações que só ele conseguia. É, seria fácil demais esquecer.
Quando eu menos percebi, meu corpo estava sendo pressionado na parede e o beijo já não era tão suave assim. Nos beijávamos profundamente, buscando cada vez mais um do outro, como se para compensar pelo ano inteiro perdido. A sua boca deixou a minha, por um tempo, apenas para descer pelo meu pescoço, depositando beijos e mordidas leves que me faziam suspirar. Droga. Eu queria mais. Puxei sua cabeça, encaixando nossos lábios novamente, e o beijei da melhor maneira que eu sabia, deslizando minha língua pelos lábios, puxando-os para mim, arranhando seu pescoço, porque aquilo era tudo que eu teria.

I'm unstoppable | Eu sou incontrolável
I'm a Porsche with no brakes | Eu sou um Porsche sem freios
I'm invincible | Eu sou invencível
Yeah, I win every single game | É, eu ganho todos os jogos
I'm so powerful | Eu sou tão poderosa
I don't need batteries to play | Não preciso de baterias para jogar
I'm so confident, yeah, I'm unstoppable today | Eu sou tão confiante, é, eu estou incontrolável hoje


Ele não demorou a descer uma das mãos pela parte de trás da minha coxa descoberta pelo vestido e puxá-la para cima, e eu, tonta e entregue do jeito que estava, não demorei muito para encaixar a outra também em seu quadril, nos deixando, se é que era possível, ainda mais próximos. Eu tinha um histórico de escolhas ruins e aquela foi uma das piores. No momento em que eu fiz isso, senti o volume dentro da sua boxer roçar na minha calcinha, que, agora, estava quase que completamente à mostra, e eu tive que juntar toda a força que tinha para não deixar escapar um gemido.
Com um suspiro, ele afastou-se de mim, me lançando um sorriso de lado, antes de descer seu olhar para baixo, em que ficou por alguns segundos. Logo, senti sua mão deslizar com leveza pela minha coxa; às vezes, apertando um pouco, me arrancando arrepios. Mas nenhum foi tão grande quanto o que me atingiu quando ele voltou seus olhos azuis para os meus, quando eu pude ver todo o desejo estampado em seu rosto.

Break down, only alone I will cry out now | Derrotada, agora eu só choro quando estou sozinha
You'll never see what's hiding out | Você nunca vai ver o que estou escondendo
Hiding out deep down, yeah, yeah | Escondendo lá no fundo
I know, I've heard that to let your feelings show | Eu sei, já ouvi essa história que mostrar seus sentimentos
Is the only way to make friendships grow | É a única maneira de fazer amizades crescerem
But I'm too afraid now, yeah, yeah | Mas eu tenho muito medo agora


— Isso tudo foi planejado, é? — perguntou baixo, nunca parando o carinho em minha coxa. — Porque você sabe como eu te acho gostosa de preto. — Ele se referia à calcinha preta. Eu realmente sabia. Mas não respondi, só sorri e dei de ombros, movendo uma das minhas mãos para a sua nuca, em que começava o cabelo, e passando as unhas levemente ali. Senti todo o seu corpo se arrepiar quando fiz aquilo. Dois poderiam jogar aquele jogo. — Você não presta — ele disse, aproximando novamente os lábios do meu pescoço, que ele sabia ser meu ponto fraco, em que começou novamente sua trilha de mordidas, subindo até a orelha. Ele mordeu levemente o lóbulo, e eu estava pronta para tirá-lo dali de novo, quando ele voltou a falar: — Deixa-me louco — disse com a voz rouca no meu ouvido, ao mesmo tempo em que esfregava sua ereção contra minha intimidade. Eu não aguentei. Deixei escapar o gemido que estava segurando, jogando minha cabeça para trás e dando a ele passe livre para qualquer área do meu pescoço. Senti seu sorriso contra minha pele e quase parei tudo para socá-lo.
Eu tinha que parar aquilo. Tinha que parar aquilo logo.
Mas era tão difícil raciocinar com ele contra mim daquele jeito. Tudo o que eu precisava fazer era tirar aqueles pedaços de pano do caminho. Era tudo o que eu precisava fazer para tê-lo me dando aquelas sensações que só ele conseguia. Que só ele sabia como. E que eu sentia tanta falta.
Mas aquela outra parte de mim, ela me dizia para parar. Ela me dizia para ter minha vingança, para humilhá-lo do pior jeito possível, da mesma maneira que ele havia feito comigo. Não importava o quão bom éramos juntos, ou o quão bem ele me fazia sentir. Não importou antes, por que importaria agora?
Essa era a parte que sempre ganhava. Era a parte que não me faria sentir um lixo depois, eu sabia disso. Por isso, quando senti suas mãos correrem pelas minhas costas, procurando pelo zíper do vestido, eu o afastei, colocando minhas pernas no chão de novo.
Ele me olhou confuso.
— Você primeiro — eu disse, mordendo meus lábios.
Ele me olhou mais confuso ainda, mas não demorou muito a ceder.

I put my armor on, show you how strong how I am | Eu visto minha armadura, te mostro como sou forte
I put my armor on, I'll show you that I am | Eu visto minha armadura, te mostro que eu sou


e seus jogos — murmurou, levando suas mãos para a boxer, a fim de abaixá-la, mas eu a segurei antes, balançando a cabeça para os lados. Ele ergueu uma das sobrancelhas, mas não questionou, apenas deixou as mãos caírem ao lado do corpo.
Posicionei uma das minhas em seu peito e troquei de lugar com ele, empurrando seu corpo contra a parede. Aproximei-me, deslizando aquela mão para baixo, até chegar à barra da boxer, em que brinquei um pouco com o elástico enquanto tomava seu pescoço. Sua barba por fazer arranhava minha bochecha, mas aquilo não atrapalhou em nada a minha missão de dar um chupão lá que ficasse marcado por dias. Ouvindo seus suspiros, fui descendo minha boca pelo seu peito definido, dando mordidas não tão fracas. A minha mão na barra da sua boxer desceu um pouco, e eu acariciei sua ereção por cima do tecido, arrancando dele um gemido. Minha última mordida; desta vez, mais leve e mais demorada, foi no mesmo local. Ele grunhiu, e eu pude ouvir o barulho da sua cabeça batendo contra a parede. Eu odiava gostar tanto daquilo.
Sem mais cerimônia, comecei a descer a boxer pelas suas pernas, e ele me ajudou, erguendo os pés, para que eu pudesse jogá-la longe. Com um suspiro, admirei a visão à minha frente. Eu havia sentido falta dela, não dava para negar. Fechei uma mão ao redor dele, acariciando com leveza e lentidão, só para provocar.
... — ele gemeu, me fazendo engolir em seco.
Eu iria precisar de um banho gelado daqueles mais tarde. Ou um vibrador; mas, já que eu não tinha um ainda, o banho teria que servir.

I'm unstoppable | Eu sou incontrolável
I'm a Porsche with no brakes | Eu sou um Porsche sem freios
I'm invincible | Eu sou invencível
Yeah, I win every single game | É, eu ganho todos os jogos
I'm so powerful | Eu sou tão poderosa
I don't need batteries to play | Não preciso de baterias para jogar
I'm so confident, yeah, I'm unstoppable today | Eu sou tão confiante, é, eu estou incontrolável hoje


— Fecha os olhos e não abre até eu mandar, ou vai ter que se aliviar sozinho — mandei. Ele já estava com os olhos fechados, mas eu precisava garantir que ele não iria abri-los de jeito nenhum. Eu me afastei, mais como um teste, pois sabia que ele abriria no momento em que eu o fizesse, e foi o que ele fez. — Eu mandei não abrir. Eu sei o que tô fazendo, não confia em mim? — questionei, fazendo minha melhor cara de inocência. Ele hesitou um pouco, mas logo o lado “homem que faz de tudo por uma boca no seu pau” ganhou, e ele voltou a fechar os olhos. — Quer saber de uma coisa? Eu sonhei com você — comecei a falar ao mesmo tempo em que ia até onde tinha jogado a boxer e a pegava. — Não uma, nem duas, várias vezes. — Peguei o resto das roupas, também próximas à piscina. — Você me tocava, bem daquele jeito que só você sabe. — Parei para observá-lo, por alguns segundos, enquanto pegava meu salto perto dele. Ele ofegava. Aproximei-me só o suficiente para ele sentir minha respiração. — Mas aí eu acordava. Sozinha. Você não estava lá. E eu só tinha meus dedos para terminar o que você começou. — Ele não precisava ouvir, neste momento, que, na verdade, eu tinha outros caras, não só para terminar quanto para começar também. — O bom é que eu aprendi a usá-los muito bem, mas, agora... — Dei uma pausa, suspirando e abrindo com cuidado a porta pela qual havia saído ali. — Agora, você terá que compensar por todo esse tempo perdido — finalizei, antes de entrar, fechando a porta atrás de mim, com todas as peças de roupas dele em meus braços.
O incômodo no meio das minhas pernas não era nada comparado àquela sensação de vitória. Mas eu sabia que a melhor parte ainda estava por vir.
Assim que eu entrei na casa, o barulho da música triplicou, fazendo minha cabeça latejar. Eu havia me acostumado com o som mais baixo do lado de fora. Fui até a sala, onde o movimento era maior. Ganhei uns olhares de “o que essa louca tá fazendo?”, no caminho, por estar carregando roupas por aí, mas quem se importa?
Sem nenhum sinal de Lucy ou April, fui atrás da , mas parecia impossível achar alguém no meio de tanta gente. Era como se o número de pessoas tivesse dobrado, depois de eu ter saído, o que, provavelmente, devia mesmo ter acontecido, já que a maioria das pessoas só vão às festas depois das 23h00, quando a coisa fica interessante. Eu era uma dessas, mas fui obrigada a aparecer mais cedo hoje. De qualquer maneira, aquilo só tornaria tudo ainda melhor.
Não demorou muito para acontecer. E não foi difícil notar a presença dele também.

I put my armor on, show you how strong how I am | Eu visto minha armadura, te mostro como sou forte
I put my armor on, I'll show you that I am | Eu visto minha armadura, te mostro que eu sou


Cerca de 5 minutos depois, as conversas pararam completamente, deixando apenas o som da música preencher o ambiente. Aos poucos, eu comecei a ouvir risadas contidas, alguns gritinhos, alguns xingamentos surpresos, e assim ia... Um corredor se abria por onde ele passava, e não tinha uma só pessoa naquela festa que não olhava para o cara nu desfilando pela casa. Quando ele apareceu em meu campo de visão, eu tive que segurar a risada para manter a pose de “garota vingativa”, encarando-o com nada mais que um sorriso pequeno no rosto. Uma das mãos dele cobria a parte da frente, tornando a visão uma das mais hilárias que eu já tinha visto. Eu deveria receber um prêmio por criar uma cena de filme desses na vida real.
parou na minha frente, sem expressão, apenas olhando nos meus olhos. Estendi as roupas para ele, que, sem pressa alguma, considerando que dezenas, provavelmente mais, de pessoas o assistiam nu, pegou com o braço que não estava ocupado. Surpreendendo-me, ele não se moveu imediatamente, continuou me encarando por uns bons segundos, e eu mantive minha pose, sem nem vacilar com o sorriso maldoso. Seus olhos costumavam me dizer muito; se estava com raiva, com medo, assustado, feliz, mas, desta vez, eles não entregavam nada.
Sem dizer uma palavra também, ele procurou pela boxer, deixando as outras peças de roupa caírem, tirou a mão que protegia o seu amiguinho, a vestiu e se retirou, subindo a escada para o segundo andar.

I'm unstoppable | Eu sou incontrolável
I'm a Porsche with no brakes | Eu sou um Porsche sem freios
I'm invincible | Eu sou invencível
Yeah, I win every single game | É, eu ganho todos os jogos
I'm so powerful | Eu sou tão poderosa
I don't need batteries to play | Não preciso de baterias para jogar
I'm so confident, yeah, I'm unstoppable today | Eu sou tão confiante, é, eu estou incontrolável hoje




1, 2, 3 segundos depois, e começou...

— Meu. Deus.
— Você viu aquilo?
— Quem é essa?
— Passo alguns dias longe e é isso que acontece?
— Eu não acredito que você fez isso.
— Se tivesse um prêmio de iniciação do ano, com certeza, seria seu!
Ôpa.
Virei para trás, encontrando , e Mina, que tinha falado a última frase. Ela sorria orgulhosa(?) para mim.
— Iniciação? — questionei, encarando-a. De novo eu havia me esquecido completamente daquilo.
— Sim... Não foi por isso que deixou um cara completamente nu no meio da festa?
Eu estava pronta para dizer que não, que aquilo não tinha nada a ver com iniciação nenhuma, mas meu olhar se encontrou com o de Nikki um pouco mais ao fundo. Ela me olhava com um sorriso muito parecido com o de Mila. Aquilo era um bom sinal, certo? Eu achava que sim. E a ideia de não ter mais que pensar no que fazer me agradava demais para deixar aquilo passar.
— É, foi. Por causa da iniciação — confirmei, e seu sorriso se alargou.
Ela aproximou-se, colocando um dos braços ao redor dos meus ombros.
— Bom trabalho — disse, antes de sair, enfiando-se no meio das pessoas, que já não encaravam tanto.
Sorrindo também, com uma baita sensação de vitória, voltei a olhar para e à minha frente. Ela parecia surpresa demais para dizer qualquer coisa, e ele tinha o cenho franzido. Não soube dizer se ele tinha gostado ou não do show, mas não me importei. Nada tiraria minha felicidade tão cedo.
— Senti sua falta, sabia? — eu disse, abraçando-o.
Ele demorou um pouco a reagir, mas logo me abraçou de volta.
— Eu também — falou de um jeito meio monótono. — É que eu também tinha um recrutamen... — Seu tom de voz foi diminuindo, até que ele parou completamente. — , o que foi aquilo? — perguntou com a expressão preocupada.
— Eu me vingando do . Nada demais — respondi. — Na verdade, super demais. Não foi? — acrescentei.
Ele balançou a cabeça. Parecia tão perdido quanto a .
— Você... , como...
— Você não podia ter feito isso! — gritou, do nada. Considerando a música alta, nem foi um grito tão intimidador assim. A única parte intimidadora foi o olhar possesso que ela me lançou, antes de sair e subir a escada, provavelmente, indo atrás do .
Revirei os olhos.
Se não fosse patético, seria até engraçado o jeito como ele virou a vítima da história, o amigo para todas as horas. Pouco mais de um ano atrás, todos estavam ao meu lado, dizendo o quanto ele tinha sido imbecil, como ele não prestava. Agora era como se aquilo nem tivesse acontecido. Eles que fizessem o que queriam também, eu não me importava.
Bom, eu me importava, mas não faria muita diferença, então era melhor fingir que não.
— Quer dançar? — perguntei ao , sorrindo.
— Eu ainda tô tentando entender o que aconteceu — ele disse, me fazendo bufar. — , você não pode sair expondo todo mundo que odeia assim.
— Não é todo mundo, só ele. Ele me expôs também.
— Não foi a mesma coisa, e você sabe. , isso não...
— Ah, para, . — Interrompi-o. — Se quer defender o , sobe lá com a . Você, mais que ninguém, deveria entender por que eu fiz isso. — Suspirei, olhando ao redor e procurando por alguém que fosse manter minha felicidade, não acabar com ela. Não demorei muito para encontrar Mina e Nikki conversando. — Tchau.
Parte de mim tinha certeza de que ele também subiu a escada, depois que me afastei, mas não me permiti olhar para trás para confirmar. Não sabia como iria me sentir se o fizesse e confirmasse minha teoria. Preferia a dúvida. Mil vezes a dúvida.
— E então? — Cheguei ao lado delas e fui recebida com dois sorrisos enormes. Era assim que tinha que ser.
— Uma das iniciações mais ousadas que eu já vi. — Nikki disse. — Adorei!
— E uma das melhores visões que eu já tive. — Mina completou, me fazendo rir. — Você e a Nikki são iguais, só pegam os melhores.
Não me surpreendi por ela saber sobre eu e o . A falava tanto dela a mim que era de se esperar que ela também soubesse cada detalhe da minha vida.
— O que eu posso fazer? Eu sou exigente. — Sorri, dando de ombros.
— E você pode ser exigente — ela disse, piscando para mim e me fazendo rir mais uma vez.
Eu também já havia sido informada sobre a bissexualidade da Mina, então não fui pega de surpresa.
É, ela era, definitivamente, a pessoa certa para ficar por perto em uma hora dessas, não a toda certinha . Não me entenda mal, nunca deixaria de ser a minha melhor amiga, mas nós éramos tão diferentes que ficava difícil manter a paz o tempo todo. Principalmente quando ela escolhia defender o .
— Bom, vocês arrumem um quarto, se quiserem, porque eu tenho mais garotas para ficar de olho. Vejo vocês mais tarde. — Nikki se despediu, enfiando-se no meio da multidão.
Tá aí algo que eu gostaria de fazer: ficar de olho no que as garotas iriam aprontar.
— Falando em outras garotas, você viu a April? — perguntei a Mina, me lembrando, de repente, da minha colega de quarto, desesperada para passar logo por essa iniciação. Eu poderia ajudá-la agora.
— Eu a vi e vi a Lucy indo à nossa casa faz um bom tempo já. A Lucy voltou, e ela, não — ela respondeu.
Franzi o cenho.
— Ué... Será que ela já mostrou o que fez para a iniciação?
— Eu tenho quase certeza que não. Fiquei com a Nikki, na maior parte do tempo, e nada.
Ok. Agora, eu estava preocupada. Pelo que eu conhecia da April, ela poderia muito bem estar, naquele exato momento, em algum canto, entrando em pânico, porque não consegue pensar em algo. Ou ela poderia já ter pensado. Eu que não ficaria na dúvida.
— Acho melhor eu ir atrás dela, ver se está tudo bem — eu disse, e Mina assentiu.
— É melhor mesmo. Aqui. Pega a minha chave — falou, começando a procurar a chave no seu sutiã.
Percebi dois caras pararem o que fosse que estavam fazendo para olhar a cena.
— Você sabe que tá no meio de uma festa, né? — questionei, olhando para os dois, que nem disfarçavam seus olhares.
Mina ergueu a cabeça e seguiu meu olhar, sorrindo quando os viu.
— Ah, eu sei bem — disse, me entregando a chave, sem nem me olhar de novo, interessada demais neles.
Eu não a culpava. Eram bem bonitos.
Com medo da cena que viria a seguir, saí andando, procurando pela porta da frente. Felizmente, as luzes lá fora ainda estavam acesas, então foi fácil.
A sensação de trocar o ar abafado de dentro da casa para o fresquinho de início de madrugada do lado de fora foi tão maravilhosa que eu fiquei, durante um tempo, parada, de olhos fechados, respirando. Isso até eu perceber o quanto aquela imagem devia estar estranha, claro, então tratei logo de subir a rua, em direção à casa das Kappas. No caminho, fui soltando as tranças do meu cabelo, que já estavam completamente bagunçadas, e deixei-o solto.
Parte do cabelo lisa e parte enrolada. Eu devia estar maravilhosa.
Quando cheguei a casa, a primeira coisa que notei foi uma única luz acesa no segundo andar. Pelos meus cálculos, aquele era o quarto da , então fui direto para lá.
— April? — chamei quando entrei no corredor.
Imediatamente, a porta se abriu e uma cabeça apareceu nela.
! Vem aqui! — ela disse, e eu a segui.
Encontrei-a já sentada novamente em uma das escrivaninhas.
— O que você tá fazendo? — perguntei, me sentando na cama em que eu havia ficado mais cedo e a observando escrever freneticamente em um caderno.
— Um conto — ela respondeu, parando, por um mísero segundo, para me lançar um sorriso, antes de voltar ao que estava fazendo.
Um conto? Por que diabos você tá fazendo um conto?
— Para a iniciação, oras! — disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Não era. Não na minha cabeça, pelo menos.
— Você me deixou confusa — murmurei enquanto tirava meus sapatos para me deitar.
— Bom, como a disse, eu fui pedir ajuda a Lucy... Ver se ela me dava alguma luz... E ela deu! Acontece que a iniciação não é tão assustadora quanto elas fazem parecer. Você não tem que fazer algo que te leve à cadeia ou algo do tipo. E ela me contou que, na iniciação dela, ela fez um poema, coisa que ela sempre gostou. Então eu decidi fazer um conto.
Pensei, por um momento, percebendo que eu não tinha visto nenhuma árvore pegando fogo, nenhuma garota fazendo pole dance, só um cara completamente pelado, mas a minha intenção era diferente. Pensando por esse lado, a iniciação não parecia mesmo nada assustadora.
— Entendi... Sobre o que é o seu conto?
Kappas, irmandades, estereótipos, irmãs...
Deixei escapar uma risada fraca. Estereótipos pareciam estar me seguindo, ultimamente.
— Posso ler? — perguntei, encarando a parte de baixo da cama de cima.
— É claro que não — ela respondeu, e eu fiz uma careta. Não é como se eu já não esperasse aquela resposta. — Só as pessoas necessárias vão ler.
— Obrigada pela parte que me toca — disse ironicamente. Pelo canto do olho, a vi virar novamente para mim e sorrir.
— E você? Já pensou no que vai fazer? — perguntou, e eu abri um sorriso gigante.
— Melhor. Já fiz — respondi, virando minha cabeça para ela, só para ver sua reação chocada. — E foi legendário! Estilo Barney Stinson.
— O que você fez? — perguntou, largando seu conto e virando-se para mim.
— Deixei o nu na frente da festa inteira — respondi orgulhosa.
Os olhos dela se arregalaram na hora.
— Meu Deus! Como você fez isso?
— Ah, a gente se pegou um pouco e fugi com as roupas dele — eu disse, voltando minha cabeça para cima e fechando os olhos. Eu me sentia até mais leve.
— Hum... Desculpa, mas eu tô tendo uma baita dificuldade, tentando entender o que aconteceu — ela comentou, me fazendo rir.
— Tudo que você tem que saber é que eu finalmente me vinguei dele. Agora, ele sabe como é ser o centro das atenções por causa de algo ruim. E, com certeza, vai saber como é ser alvo de comentários maldosos também. — Eu realmente não conseguia tirar o sorriso do meu rosto. Havia sonhado tanto com o dia em que iria fazê-lo se sentir tão mal quanto eu me senti que parecia só mais um deles. Eu estava quase me beliscando para confirmar.
— Nossa! Ele deve estar querendo te matar! — April falou, e eu dei de ombros.
— Problema dele. Sabe, inicialmente, era tudo só uma vingança pessoal. Eu nem estava pensando na iniciação, mas não dava para desperdiçar a oportunidade.
— Você tá certa — ela disse, me fazendo sentar rapidamente e me virar para ela.
Não preciso comentar que quase meti a cabeça na madeira da cama de cima, né? Que bom.
— Pelo menos, você fica do meu lado. saiu correndo atrás do , e ficou todo doído por causa dele. Você acha justo? — questionei, sentindo uma vontade gigante de falar mal deles.
Poxa! Eles deveriam estar do meu lado. Eles não podiam esquecer o quão mal eu fiquei quando tudo aconteceu. Beleza. Eu era durona demais para sair chorando por aí, mas eles são meus melhores amigos, não precisavam ver lágrimas para saber que ele havia me machucado. E machucado feio!
— Não, mas, em defesa deles, para mim, é fácil ficar do seu lado, porque é você quem eu conheço. Mal conversei com ele. Seus amigos não. Vocês todos estão juntos desde pequenos. Você pode culpá-los por não quererem que ele fique de fora?
Ergui uma sobrancelha.
— É claro que posso! — exclamei.
Ela riu, balançando a cabeça.
— Vamos fazer assim... — Começou, me olhando como se eu fosse uma aluna, e ela, a professora. — Imagina que o e a eram namorados... — ela disse, e eu fiz uma careta.
— Isso seria impossível. Eles são praticamente irmãos — falei, fazendo-a revirar os olhos.
— E você e o não eram?
— Não! e eu éramos como... — Fiz uma pausa para pensar, porque eu não sabia bem a definição. Éramos mais que melhores amigos e, depois, viramos também namorados, sempre com aquela ligação especial que nos fazia conhecer mais ao outro que a nós mesmos. — Melhores amigos e um pouquinho mais, eu acho. Eu nunca o vi como um irmão, nem mesmo quando éramos pequenos.
April suspirou, entortando a cabeça.
— Tudo bem, . Só imagina que eles eram namorados. Você só tem que imaginar. Não é a realidade, tudo bem? — Mesmo contra minha vontade, assenti. Imaginei meus dois amigos de mãos dadas e trocando beijos. Eca. — Agora, imagina que o pisou na bola com a .
— Tá bom.
— Você conseguiria ficar brava com ele por tanto tempo? Ele errou, ele se arrepende, mas nada apaga o que ele fez, principalmente, pra . Você conseguiria acabar com sua amizade de uma vida inteira com ele por causa disso?
Ah, não, ela estava tentando fazer um daqueles jogos emocionais comigo. Eu não gostava dele. Até porque é tudo questão de ponto de vista. Na história dela, a estaria tão frustrada e brava quanto eu e, por mais que eu tentasse entender o ponto de vista da real da história, ainda era eu quem havia sido magoada. Ele tentou me enganar, me fazer de besta. Então, não, não funcionaria comigo.
O problema seria tentar explicar aquele meu ponto de vista a ela, então simplesmente optei pela resposta que a faria desistir daquele papo:
— Sim, eu conseguiria.
E como eu previra, ela suspirou e deu de ombros.
— Tudo bem. De qualquer maneira, você me tem no seu lado — disse, me lançando um sorriso reconfortante.
— Muito obrigada. — Sorri de volta. — Agora, volte ao seu conto. Eu não quero ficar me sentindo culpada se não conseguir terminar a tempo.
Ela assentiu, acomodando-se de novo na escrivaninha, e eu relaxei na cama, me sentindo cansada. Eu planejava voltar à festa, mas aquele colchão era tão confortável. Decidi, então, me dar 10 minutos de calmaria nele antes. A última coisa que me passou pela cabeça, antes da inconsciência, foi como eu queria saber a reação do a tudo aquilo.

's POV

30 minutos antes...

Não, ela não tinha feito aquilo. Ela não me seduziu, não me deixou completamente nu na frente de sabe-se-lá quantas pessoas, tudo por causa de uma vingança idiota! Ela não podia me odiar tanto assim.
Agarrei um travesseiro, apertando-o com toda a força que eu tinha e esperando que aquilo fizesse a vontade de socar a parede ou a porta passar. Eu queria voltar lá embaixo, queria esquecer aquela porra de autocontrole só por alguns instantes para obrigá-la a me responder. Por que ela fazia tudo tão difícil? Por que ela era daquele jeito?
Ela não podia simplesmente me ignorar e ignorar minha existência. É claro que não. Ela tinha que fazer com que eu me sentisse um merda, bosta, idiota, ou não seria o suficiente. Ela tinha que se sentir bem. E daí que eu me arrependi? E daí que eu quase perdi meus amigos? E daí que perdi a minha melhor amiga e, possivelmente, a mulher da minha vida? Quem liga para o cara que tentou se desculpar milhões de vezes? Que tentou se redimir de todas as maneiras possíveis? Ela não se importava! Nunca se importou! Sempre viu o lado que queria ver e pronto! Que se dane o resto!
Não me entenda mal, eu sabia bem que não era a vítima da história, mas... Caramba! Eu também não era a porra do vilão! Não o que ela parecia fazer de mim, pelo menos.
— Tommy? — A voz da soou, me desviando dos meus pensamentos. Virei-me para a porta e encontrei a , que parecia hesitar para entrar. — Tá tudo bem?
Suspirei. A última coisa que eu precisava era a defendendo a .
— Se veio para me pedir que entenda por que a fez o que fez, nem se dê ao trabalho — falei, voltando à minha caminhada em círculos pelo quarto. Era aquilo ou ir tirar satisfações lá embaixo, o que só pioraria as coisas.
Não era justo descontar minha frustração na , eu sabia bem disso, mas, desde quando eu e a terminamos, toda vez que a garota me atacava, ofendia, xingava era eu quem tinha que entender. “Você ferrou tudo, não tem nem o direito de reclamar”, ela dizia. Eu não tinha mesmo, mas, agora... Agora, a coisa toda tinha ido a um novo nível.
— Não, eu vim ver se você tá bem, de verdade! — ela disse, aproximando-se. — Tá tentando abrir um buraco no chão para se esconder de vergonha?
— Por que diabos ela fez aquilo, hein? — questionei, ignorando a pergunta dela e parando novamente. Andar daquele jeito podia parecer útil, mas só parecia.
— Queria saber te dizer. A é complicada.
— Complicada?! Ela é mimada, arrogante, egocêntrica, mal educada, mas não complicada, ! — exclamei.
me encarou com um olhar triste, de pena, e aproximou-se. Definitivamente, não fazia com que eu me sentisse melhor.
— Fica calmo, tá? — pediu, colocando as mãos no meu braço. Eu não queria me acalmar. Eu sabia que, no momento em que isso acontecesse, não era raiva que iria sentir, e eu adiaria aquilo o máximo possível. — Se te faz sentir melhor, eu vou dar uma baita bronca nela mais tarde — disse, abrindo um sorriso leve.
— Não faz.
Ela suspirou, e o sorriso logo desapareceu.
— Ela conseguiu exatamente o que queria, sabia? Desestabilizar você. Você tá entregando a vitória a ela!
— Tenta desfilar nua por causa de uma vingança besta e não ficar desestabilizada, ! — rebati, me afastando do toque dela.
— Eu sei que é difícil, mas você precisa...
— Não, ! — Interrompi-a, ganhando um olhar magoado dela. — Eu só preciso ficar sozinho, tá bom? Por favor. Eu te amo. Eu sei que suas intenções são boas, mas preciso pirar um pouco, antes de pensar racionalmente. Sozinho.
Ela me encarou por mais alguns segundos, em silêncio, e eu quase podia ouvir o barulho do seu cérebro trabalhando para decidir se faria o que eu pedi ou não. Por sorte — pelo menos, um pouco, naquele dia —, ela assentiu.
— Tudo bem — disse, aproximando-se mais uma vez para me dar um beijo no rosto. — Só não faz besteira — pediu.
— Não sou a — afirmei, sorrindo um pouco.
Ela assentiu mais uma vez e virou, saindo pela porta no exato momento em que apareceu. Rapidamente, ela agarrou o braço dele e o virou, arrastando-o pelo corredor.
— Já estamos indo? Tá legal. — Ouvi-o dizer, antes de fechar a porta.
Encostei ali, sem ter certeza do que fazer agora. Eu não queria pirar de verdade. Havia passado tempo demais aprendendo a me controlar para desperdiçar tudo por causa dela. Por isso, me contentei em jogar o travesseiro, que ainda estava sendo judiado pela minha mão, na parede.
Eu devia estar preparado para aquilo. Eu conhecia a garota melhor que qualquer um. Sabia que, uma hora, ela iria se vingar e que seria feio. Por um momento de estupidez, de inocência, eu realmente acreditei que nós finalmente faríamos as pazes, e do melhor jeito possível. As coisas nunca eram simples assim com a . Como sempre, tinha razão... Ela era, sim, complicada. Eu costumava ser muito bom em desvendá-la, mas, agora, eu já não tinha tanta certeza assim. também estava certa sobre a querer me desestabilizar. Era do que ela gostava: o caos.
Respirei fundo, sorrindo. Felizmente, esse problema eu sabia bem como resolver.
era praticamente um monstro que se alimentava de confusão. E era exatamente isso que eu não daria a ela.

's POV

Fui arrancada da inconsciência, de repente, por um barulho ensurdecedor que fez meu coração disparar na hora e meus olhos se abrirem arregalados. Eu não acho que tenha sensação pior que acordar no susto.
— EU VOU TE MATAR!
Mas é claro. Porque era pedir demais acordar naturalmente, sem gritando.
— Sai daqui, ! — resmunguei com a voz rouca de sono, me enrolando no edredom, que eu não fazia ideia de como havia chegado ali, e me virando para a parede.
— Como você pôde fazer aquilo com o Tommy, hein? Qual é o seu problema? — Fechei os olhos, ignorando-a completamente. Ela podia surtar à vontade. Eu ia dormir, enquanto isso. — Isso não se faz, ! Ele é um ser humano, sabia? Eu tenho certeza que tem alguma lei por aí que te proíbe de fazer coisas assim. Você pode fazer o favor de se virar para mim?
— ...
, vira agora!
— ...
— Tá bom. Foi você quem pediu.
No segundo seguinte, eu senti o edredom ao meu redor ser puxado com força. Porque eu estava toda enroscada nele, meu corpo foi junto, e a próxima coisa que eu vi foi o chão aproximando-se. Pega de surpresa demais para conseguir amortecer a queda com os meus braços, meu corpo inteiro se chocou contra o chão gelado. Tudo o que eu consegui foi gemer de dor, porque minha boca estava ocupada demais beijando o chão.
Precisei de um tempo, antes de me sentar. Conferi meus dentes primeiro, só para ter certeza de que estavam todos no lugar. Todo o lado direito do meu corpo, o que havia recebido mais o impacto, doía.
— Que merda foi essa, ?! — exclamei, voltando meu olhar a ela, que tinha as mãos na frente da boca e os olhos esbugalhados como se tivesse acabado de ver alguma assombração.
— E-e-eu só queria... É... Puxar o edredom, não... V-você... — gaguejou, e eu bufei.
Apoiei meus braços no chão, para me levantar, tentando ignorar a pontada de dor no meu quadril. Agora, sim, eu iria dormir mesmo, e ela que ousasse reclamar!
— Eu estou inteira, obrigada por perguntar — falei ironicamente a estátua, que ainda não havia movido um músculo sequer para me ajudar.
Demorou alguns segundos, mas ela finalmente se tocou da minha luta e veio me ajudar a sentar, e, depois, a deitar na cama. Em pouco tempo, eu tinha até o edredom em cima de mim.
— Desculpa. Machucar você não estava nos meus planos — ela disse, sentando ao meu lado, na beirada da cama.
— Daqui a pouco passa. — Fechei os olhos. — Agora, pode voltar a consolar seu amiguinho .
— Eu voltaria, mas ele não quer ser consolado. Tá puto da vida com você.
E meus olhos estavam abertos novamente.
— Ele tá, é? — perguntei interessada, mas ganhei um tapa no braço em troca. — Ai!
— Será que dá para você, pelo menos, fingir que presta?
Dei de ombros.
— Eu gosto de ser sincera — respondi, e ela balançou a cabeça como se não acreditasse no que eu dizia. — Bom, se você não tem mais nenhuma informação para me dar, eu vou dormir — falei, fechando novamente os olhos e, com um pouco de esforço, virando de lado.
— Você sabe que não devia dormir aqui ainda, né? — questionou.
Mais uma vez, eu só dei de ombros, não me importando com aquele detalhe e, sim, com o resto da minha noite de sono.

Era seguro dizer que eu nunca havia visto tantas malas juntas na minha vida; de todas as cores, tamanhos e tipos. Sendo carregadas para lá e para cá por garotas de ressaca e alguns caras que eu nunca tinha visto. A casa estava uma bagunça. Nem parecia ser a mesma que visitamos um dia antes. Por isso, assim que as minhas coisas e as da April estavam seguras dentro do nosso novo quarto, eu fechei a porta, isolando-nos do resto do mundo.
— Obrigada pela ajuda — agradeci ao .
Ele havia nos ajudado com o deslocamento do frigobar da April e algumas malas.
— Eu já volto. — April avisou, saindo pela porta, com várias folhas de papel na mão.
Sobre o conto, de acordo com ela, havia levado para a Nikki (mais ou menos, na hora em que a invadiu o quarto e me agrediu), e ela gostou tanto que pediu uma cópia para ela. A versão que ela tinha era escrita a mão, por falta de uma impressora e lugares abertos para imprimir na madrugada, então ela ficou de entregar depois, que era agora. Você entendeu.
— Legal. Temos um frigobar! — Mina disse, examinando a mini geladeira. — Eu vou fazer inveja a todas as garotas.
— E eu vou encher de coca. — me olhou, rindo, e eu dei um soco fraco no braço dele.
Ninguém deixava o meu vício em paz.
— Coca? , por favor. Eu vou te apresentar duas das melhores bebidas do mundo: whisky e vodka — zombou, me olhando como se eu fosse um E.T.
Eu iria dizer tudo que me fazia escolher coca antes de qualquer outra bebida, mas meu celular tocou, então tive que me contentar com um revirar de olhos, antes de buscá-lo em cima da minha nova cama. Era número desconhecido, mas atendi mesmo assim.
— Alô?!
? — uma mulher de voz levemente familiar perguntou.
— Sou eu — respondi, sentando na cama e me virando de costas para e Mina, que ficaram em silêncio.
, quem fala é Alice Harley, coordenadora chefe das irmandades. Já nos conhecemos ontem, na cerimônia de encerramento do recrutamento.
Isso não podia ser bom.
— Hum... Oi. Em que posso ajudar?
Eu preciso que você compareça ao meu escritório segunda-feira, depois do almoço.
— Tá bom... Importa-se de eu perguntar qual é o problema?
Sim, adivinha só, eu, , consigo ser educada, de vez em quando.
Nós recebemos algumas denúncias sobre seu comportamento em uma festa na noite passada. Nós temos muito que conversar. Posso te esperar?
— Sim, claro.
Até lá! — disse, já desligando e nem me dando tempo para responder. Curta e grossa.
Mas era só o que me faltava! Eu não estava aqui há nem uma semana completa e já iria receber uma baita bronca da tal coordenadora.
E, mais uma vez, me traz problemas.
Qual é?! Ele realmente tinha que me denunciar? A coisa era entre nós e eu tinha certeza de que, lá no fundo, ele sabia ter merecido o que eu fiz. Sabe, atitudes assim não me faziam exatamente odiá-lo menos. Mas ele que se dane! Eu não iria abaixar minha cabeça de jeito nenhum.
— Era a coordenadora? — Mina perguntou. Virei-me novamente para eles e assenti. não prestava atenção em mim, estava lendo alguma coisa que não me interessou muito naquele momento. — Não se preocupe. Todo mundo recebe uma ligação dela uma hora ou outra. Tá, não costuma ser tão cedo. Você, provavelmente, bateu um recorde, mas não é grande coisa.
— Eu espero. Não quero que ela fique no meu pé.
— Ela já está no seu pé, . No seu e no de todo mundo neste campus. A mulher é tipo uma águia, vê tudo e todos — disse, fazendo garras com as mãos.
Eu ri e balancei a cabeça.
— Então algo me diz que eu ainda vou vê-la muito. — Assim que terminei de falar, April entrou pela porta, seguida de , que não perdeu tempo, já fez cara de desgosto, olhando as malas pelo chão.
— Por favor, me diz que pretendem esvaziar e guardar essas malas ainda hoje.
— Ah, eu não sei. Sabe... — comecei a falar, sendo bem sínica. — Eu acordei meio dolorida hoje. Quem sabe, amanhã.
Amanhã é o primeiro dia de aula, — disse, me olhando, nervosa.
— Vamos ver... Aula pela manhã, reunião à tarde... Acho que eu tenho a noite livre — falei, sorrindo e fazendo-a abrir a boca de tanta descrença. não gostava de bagunça, e eu não era a pessoa mais organizada do mundo. Viver no mesmo quarto que ela seria, no mínimo, interessante. — Tô brincando! Relaxa! — Ela não relaxou, só me lançou um olhar desconfiado e foi sentar na cama dela.
— April, isto aqui está hilário! O jeito que você retratou as Kappas é... Genial. — A expressão da April, que, até aquele momento, carregava um sorriso, observando eu e a , mudou drasticamente para terror quando falou aquilo. Em poucos segundos, ela atravessou o quarto e arrancou o pequeno caderno das mãos dele.
— Você leu? — ela perguntou, olhando-o assustada.
Ouvi o “uuuuh” da Mina e fiquei observando a cena, interessada.
— Não tudo. Posso? — ele pediu, o que foi bem idiota, considerando que ele já tinha lido um bom tanto. Mas era , ele não podia evitar tentar ser educado.
— Não! E-eu... Você não po-po-dia... — ela gaguejou. Ela parecia tão assustada que, por um momento, eu fiquei preocupada.
— Desculpa. Eu vi o caderno ali em cima e comecei a ler. Não sabia que você ficaria assim — ele se explicou, levantando e aproximando-se dela, que afastou-se rapidamente. — Você está bem?
Primeiramente, ela não respondeu. Andou até uma de suas malas e enfiou o caderno lá. me olhou rapidamente, de cenho franzido, como se perguntasse o que estava acontecendo, mas tudo o que fiz foi dar de ombros, também confusa. Era um problema tão grande assim ele ter lido? Agora, eu estava realmente curiosa para ler aquele conto também.
— Eu tô bem — ela respondeu, de repente, baixinho. — Só não mexe mais nas minhas coisas sem a minha permissão, tá legal?
Ele assentiu.
— Quem tá com fome? — eu perguntei, tentando quebrar o clima tenso. Ganhei vários “eu” e vários olhares agradecidos.

Primeiro dia de aula. Primeiro dia de aula na UCLA. ERA O MEU PRIMEIRO DIA DE AULA NA UCLA! Quando acordei, tive que me beliscar para ter certeza de que era tudo realidade. Belisquei-me de novo, depois do banho, só para garantir. Eu sabia que a probabilidade era de que eu perdesse essa animação, mais ou menos, na segunda aula do dia, então decidi aproveitar o máximo enquanto podia.
— Bom dia, amiguinhos! — exclamei quando chegamos à mesa do refeitório, em que e já estavam sentados. Havíamos combinado de tomar café juntos. Eu gostava de pensar que o grupo já estava completo: eu, , , e a novata April. Mas sabia que, uma hora ou outra, chegaria para estragar tudo.
— Alguém está animada para o primeiro dia de aula. — disse, abrindo um grande sorriso.
— Espera até a aula de História da América. O professor parece um deus de tão lindo. Vai ficar mais animada ainda. — falou, e eu bati palmas, quase pulando da cadeira. Eu mal podia esperar. Não só para a aula do “professor-deus”, claro, para todas. Que não fossem da área de exatas.
— Oba!
— Qual é a sua primeira aula, ? — perguntou.
— Literatura — respondi rapidamente. Eu havia decorado a minha grade no mesmo dia em que a recebi.
— A minha também. — April disse, sorrindo um pouco. Ela parecia meio desconfortável. Por causa do , talvez.
Eu perguntaria mais tarde.
— A minha também! — repetiu bem mais animado.
— Legal! O dia está começando muito bem.
— Bom dia, família! — Ouvi dizer, de algum lugar atrás de mim.
— Eu e minha boca — resmunguei, bufando.
Quase todo mundo respondeu; menos eu, que optei por focar em meus ovos mexidos. Aí você se pergunta: poxa, , não dá para você ser, pelo menos, um pouco legal com ele?
Veja só, a mesa tinha oito lugares. Nós éramos cinco já sentados. Três cadeiras estavam livres; uma ao lado do , uma na ponta da mesa, ambas longe de mim, e uma do meu lado. Qual você acha que ele escolheu para sentar?
PI PI PI PI PI. Resposta correta! E perdão pela péssima onomatopeia.
Sim, ao meu lado. No único lugar em que eu não o queria. Arrependi-me profundamente de não ter previsto aquilo e colocado minha bolsa lá, mas, agora, já era. Não adiantava chorar pelo leite derramado.
— Olha, ele tá usando roupas! — zombei, apoiando meu queixo na minha mão e o olhando. Uma bela camiseta de mangas vermelhas que marcavam muito bem seus músculos, eu não pude deixar de notar.
Ele mexia no celular, e eu jurava que iria simplesmente me ignorar, mas, me surpreendendo, ele ergueu a cabeça, me olhou e abriu um sorriso.
— Sim, você gostou? Posso dizer onde comprei — ele disse no tom mais natural do mundo, como se tivéssemos tendo uma conversa numa tarde ensolarada, depois de nos encontrarmos acidentalmente na rua.
Ouvi rir, mas fiquei um tempo encarando-o confusa. Quando ele percebeu que eu não diria mais nada, voltou sua atenção ao celular.
— Hum... Eu perdi alguma coisa? — perguntou, revezando seu olhar entre eu, e . Eu tinha me esquecido completamente desse detalhe. não fora à festa e, aparentemente, ninguém tinha contado ainda as novidades.
— Sério que você ainda não ficou sabendo da notícia do final de semana? — parecia chocado, e eu também estava. Quer dizer, eu pensava que ou iriam correndo contar a ele.
Eu estava mesmo estranhando não ter recebido nenhuma bronca dele no dia anterior.
, o ugly naked guy¹ da UCLA — eu disse, levantando minhas mãos e abrindo um espaço entre elas, como se citasse a matéria de um jornal ou algo do tipo.
— Humm... Eu não acho que você está certa, . — disse, erguendo o celular e colocando em frente ao meu rosto. — Pelo menos, essas garotas não parecem concordar com você.
O whatsapp estava aberto e dava para ver que ele falava com várias garotas ao mesmo tempo. Rapidamente, eu peguei o aparelho da mão dele, para ver mais de perto. Fui descendo a página, e ele estava falando com, pelo menos, umas quinze garotas diferentes! Abri uma das conversas, só para confirmar o que eu temia:

Oi. Aqui é a Rebecca.
Peguei seu número com uma amiga. Espero que não se importe!
Estava na festa sábado e, olha, adorei o que vi.
Talvez a gente possa se conhecer melhor. ;)

— Eu não acredito! — exclamei, erguendo meu olhar novamente para ele, chocada. — Você realmente tá se aproveitando da situação desse jeito?
— Aproveitando? O celular está na sua mão. Pode ver, foram elas que vieram falar comigo. E eu não sou idiota a ponto de recusar garotas lindas que estão interessadas em mim — ele se defendeu, dando de ombros.
Balancei a cabeça. Ele era inacreditável.
— Eu vou ter que discordar. Você é, sim, um idiota!
Ele revirou os olhos e pegou o celular da minha mão, antes de se virar para frente.
— Tá bom, — disse simplesmente.
Bufei, irritada com a ideia de ele estar tirando algo bom do que havia acontecido.
— Imbecil! — xinguei-o, mas não recebi nada de volta. Ele nem olhou para mim!
— Alguém, por favor, pode me explicar o que está acontecendo? — pediu novamente, quase que desesperado.
Foi quem contou tudo com detalhes e deixando bem claro a ele o quanto ela reprovava a minha atitude. Surpreendentemente, ele nem tentou me dar um sermão, ao contrário dos outros, só riu e balançou a cabeça, como se não estivesse nem um pouco surpreso. era inteligente e me conhecia muito bem. Ele sabia que, uma hora ou outra, eu faria algo do tipo. Não que os outros não soubessem, mas ainda tinham esperanças de que eu tomasse jeito. Não iria acontecer tão cedo. Ainda mais agora que eu sabia que ele tinha virado o amorzinho das garotas. Não dava nem para acreditar. Eu já falei o quanto eu odeio o mundo? Bem, eu odiava. E odiava ainda mais as pessoas nele, que zombavam da garota e veneravam o garoto.
Decidi que não iria, de jeito nenhum, deixar aquilo estragar o meu primeiro dia de aula. No momento em que eu saí de perto dele, acompanhada de April e , em direção à sala de aula, respirei fundo e deixei minha raiva na mesa com ele.
Junto com o horário, havíamos recebido um mapa indicando onde eram as nossas salas de aula, mas, ainda assim, nós tivemos um pouco de dificuldade para encontrar a de Literatura. Eram corredores de um lado, escadas de outro, portas e mais portas... Foi difícil. Felizmente, nós tínhamos tempo de sobra, então conseguimos encontrar a bendita sala alguns minutos antes da professora. Puxei April e para se sentarem ao meu lado na terceira fileira. Longe o suficiente, para não ser um alvo de cuspe (eu era prevenida), e perto o suficiente para eu me sentir mal por mexer no celular na cara do(a) professor(a), me obrigando a prestar atenção unicamente na aula.
Quando a professora pisou o pé para dentro da sala e parou ali, tirando um tempo para passar seus olhos pela sua nova turma, todo o burburinho parou. E eu tinha certeza que todo mundo sequer respirava. Qual é?! Ela era uma professora universitária! Não queria desmerecer meus antigos professores, que foram maravilhosos, mas ela era uma professora que dava aula em uma universidade! E não qualquer universidade! A UCLA, uma das melhores dos Estados Unidos! Eu, com certeza, tinha motivos para ficar maravilhada e até com um pouco de medo, afinal, passei todo o Ensino Médio ouvindo como seria diferente na universidade, como os professores não relevariam nada e fariam das nossas vidas miseráveis. Era assustador!
— Bom dia! — ela disse, voltando a andar em direção à sua mesa na frente da sala, e recebeu imediatamente um coro em resposta. Ela era ruiva e tinha o cabelo curto, na altura do queixo. Vestia um terninho preto que caía super bem nela. Não devia ter mais que 45 anos; talvez, menos. — Meu nome é Emma McKean e serei professora de Literatura de vocês neste semestre.
Ela passou a próxima 1 hora e 40 minutos falando sobre sua carreira, dando ênfase ao mestrado em Harvard, e dando um geral sobre o que veríamos nos próximos meses: Jane Austen, Franz Kafka, Shakespeare e vários outros clássicos, muitos que eu nunca tinha sequer lido (e eu já tinha lido muita coisa!). É, eu estava ferrada. Tentei anotar o nome de alguns que ainda não tinha lido para já ir atrás. Felizmente, eu tinha April, que, provavelmente, já tinha lido cada um daqueles livros duas ou três vezes. Na pior das hipóteses, poderia pedir uma resenha ou algo do tipo a ela.
No intervalo, tive que me separar dos meus amigos. Agora, eu tinha Física; provavelmente, a pior matéria do universo. Química, ok. Matemática até vai. Mas Física... Não tinha nada neste mundo que me fizesse gostar de uma aula de Física. Bom, talvez, uma aula prática com algo bem legal, mas, no geral, eu ainda odiava. Mal podia esperar para aqueles primeiros dois anos acabarem e a coisa ficar realmente interessante. Tá, eu ainda não tinha decidido o que fazer e o que queria da minha vida, mas eu tinha cada vez mais certeza que o lado da comunicação era mais para mim. De qualquer maneira, eu ainda teria dois anos de matérias que eu odiava pela frente para decidir.
Com uma surpreendente facilidade, eu encontrei a sala de aula. A professora, não tão legal quanto a outra, não perdeu tempo nas já conhecidas apresentações do primeiro dia de aula, já começou com o conteúdo e, sem drama, eu quis me matar. Minha previsão estava mais que certa: a animação pelo começo das minhas aulas em uma universidade foi embora assim que eu comecei ver números, letras e sinais juntos.
Não era exagero dizer que, diferente da aula de Literatura, aquela aula pareceu ter durado umas três horas. Foram os 110 minutos mais longos da minha vida. Sim, 110, não 100, porque a professora decidiu que dava tempo de explicar um último exercício, faltando dois minutos para o fim da aula. Ela, com certeza, já havia ganhado o meu ódio.
Você pode estar surpreso, pois achava que eu era “a cdf”, mas não era bem assim. Eu até gostaria de ser, de sentir prazer, passando horas estudando e coisas do tipo. Nunca rolou, claro. Mas eu sempre fui focada. Desde criança, quis estudar na UCLA e fiz daquele o meu objetivo. Então, mesmo não curtindo estudar, eu me obriguei a fazê-lo, porque sempre soube o quão importante era. A notícia boa era que eu havia entrado na universidade. A ruim é que eu ainda teria que sair. Mais horas estudando, mais textos para ler e mais contas para odiar pelos próximos quatro ou cinco anos. Mas eu me daria bem.
Quando a aula acabou, eu saí praticamente correndo da sala, sem nem olhar para trás. Já estava atrasada para o almoço, ia ter que correr para não me atrasar também para a tal conversa com a tal coordenadora. Detalhe: eu não fazia ideia de onde ficava a sala dela. Por isso, almocei no refeitório com a April e o , já que os outros pareciam sumir bem quando eu precisava. Qual era a vantagem de ter amigos veteranos, se eles não serão seus guias 24 horas por dia? Exatamente: nenhuma.
Tive que engolir a comida, sem nem sentir o gosto direito, para ir atrás da sala da mulher com antecedência, pedindo informação por aí. Imagina a minha surpresa quando eu percebi que eu não era a única que não sabia onde era a sala dela, mas todos os outros alunos pareciam também não saber. Meu primeiro dia de aula estava sendo tão não o que eu esperava. Qual é?! Tinha alguém lá em cima com muita raiva de mim, não era possível. Quando eu finalmente dei de cara com a Mina, que, com certeza, saberia me dizer onde era, a agarrei como se minha vida dependesse daquilo.
— A sala da Alice sei-lá-das-quantas, pelo amor de Deus, onde é?
— Naquele prédio — disse, apontando para um pequeno prédio a cerca de 300 metros de onde estávamos e me olhando engraçado. — Terceiro andar, primeira porta à direita.
— Valeu! — agradeci. Ela abriu a boca para falar alguma coisa, mas eu já estava correndo, tentando ganhar alguns minutos. Eu já estava atrasada, o que não ajudaria nada no meu caso, mas, quanto menos atrasada, melhor, certo? Certíssimo.
Depois de uma corridinha básica e algumas escadas acima (porque eu não tinha tempo para procurar um elevador), cheguei à sala da mulher. Havia várias portas no corredor e pessoas andando para lá e para cá, mas não foi difícil encontrar a dela, já que a vi no momento em que saí da escadaria e olhei para o lado.
Antes de entrar, puxei meu cabelo para cima em um “rabo de cavalo”, tentei tirar o suor do meu rosto e respirei fundo algumas vezes. Eu queria melhorar, pelo menos, um pouco a minha aparência, mas não deu tão certo assim, então desisti logo e bati três vezes na porta, antes de abri-la.
Do lado de dentro estava Alice, a mulher baixinha do outro dia, sentada atrás da sua mesa, com um pequeno sorriso no rosto. Daqueles bem forçados, sabe? Enfim. Reconheci, sem dificuldade alguma, de costas, sentado em uma das cadeiras à frente da mesa. Ele não se deu ao trabalho de olhar para trás, só ficou de cabeça baixa. Eu também teria vergonha de ter reclamado para a babá do campus sobre uma piadinha inocente. Ele já havia sido mais divertido.
— Oi... Desculpa pelo atraso — disse, fechando a porta atrás de mim e abrindo um sorriso tão forçado quanto o da Alice.
— Tudo bem, querida. — Recebi seu olhar por alguns segundos, até que ela levantou de repente. — Eu vou pegar uma água para você.
É, eu devia estar péssima.
— Obrigada — agradeci.
Relaxei um pouco na cadeira, resistindo a vontade de fechar os olhos. Aquele ar-condicionado era tão bom. Mas com eles abertos, pude notar virar a cabeça em minha direção. Fiz o mesmo, encarando-o. Ele passou os olhos por mim, assim como a mulher, mas, ao contrário dela, quando terminou, abriu um sorriso debochado e voltou a olhar para suas mãos em seu colo, balançando levemente a cabeça para os lados. Semicerrei os olhos na direção dele, mas é claro que ele não viu. Imbecil. Eu já sabia que estava horrível, não precisava reforçar.
— Aqui. — Alice voltou, deixando um pequeno copo com água na minha frente. Era pequeno mesmo, provavelmente, nem mataria minha sede direito, mas tive que me contentar com aquilo e lançar um sorriso agradecido a ela. — Bom... — ela começou, voltando a sentar na sua cadeira preta, que parecia super confortável. — Imagino que saibam o porquê estão aqui.
Eu assenti hesitante. pigarreou ao meu lado.
— Eu imagino por que estamos aqui, mas... Não sei realmente por que estou aqui — ele disse. Tive que resistir a vontade de me virar para ele de boca aberta e incrédula. O bonitinho reclama de mim para a babá e quer ficar deitado na cama, enquanto eu me ferro? Bom saber que ele tinha coisas melhores para fazer que ir ali.
— Eu entendo sua dúvida, Sr. . — Franzi o cenho. Ela entende? Ela não tinha que entender! — E eu vou explicar. Como eu já falei à sua colega aqui, recebi algumas denúncias sobre o comportamento dela contra você em uma festa no sábado.
— Olha, eu posso explicar. — Meti-me, pronta para me fazer de vítima. Não me julgue. Eu só não queria uma advertência logo na primeira semana de aula.
— Se não se importa, Srta. , prefiro que ele me explique o que aconteceu. — Eu me importava, sim! — Tudo bem? — ela perguntou a ele, que assentiu.
Que merda.
— A pegou minhas roupas e me deixou completamente nu na piscina, sabendo que, de qualquer maneira, eu teria que passar pelo meio da festa para chegar ao meu quarto. Foi isso — ele explicou, poupando-a dos detalhes. Alice assentiu, nem um pouco surpresa. Talvez, ele tivesse poupado os detalhes, porque já havia contado todos anteriormente. De um jeito ou de outro, eu estava ferrada.
— Posso saber por que você tomou essa atitude, ? — ela perguntou. Eu preferia Srta. . Fazia-me sentir mais importante. “’’ só me fazia pensar que ela estava brava comigo. Mau sinal.
— Nós somos inimigos de longa data, digamos assim — respondi, ganhando uma risadinha do .
— Eu não sou seu inimigo, — ele disse, virando-se para mim.
— Eu estou aqui por sua culpa. Acredite, você é! — Eu quase me arrependi por atacá-lo em frente à coordenadora, mas, pior que estava, não dava para ficar.
— Minha culpa?! — ele exclamou incrédulo. — Foi você quem decidiu me fazer desfilar nu por aí, não eu.
— Foi você quem decidiu me dedurar, não eu.
— Dedurar você? O quê? — questionou, agora, parecendo mais que incrédulo, confuso.
Bufei e virei para frente novamente, sem saco para aquilo. Como se ele não soubesse.
Alice nos encarava quieta, apenas observando. Depois de alguns segundos de silêncio, ela voltou a falar:
— Posso? — perguntou. Eu assenti e acredito que também, já que ela voltou com o seu sorriso simpaticamente falso. — Deixe-me esclarecer uma coisa a você, , eu recebi três denúncias: nenhuma delas foram do rapaz ao seu lado.
Quase que, com naturalidade, minha boca se abriu, e eu fiquei alguns segundos encarando Alice, de cenho franzido. Eu devia estar parecendo mais idiota ainda.
— Como é?
Ouvi gargalhar ao meu lado, me fazendo ainda mais idiota. Se é que era possível.
— Espera... Você estava pensando que eu tinha te denunciado? — ele perguntou, ainda dando risadinhas.
Dei de ombros e engoli em seco, tentando me recompor.
Tudo bem, eu estava errada, mas a ideia não era nem um pouco absurda. Ele, com certeza, se vingaria, e aquela era a oportunidade mais que perfeita.
— É por isso que chamei vocês aqui. Para perguntar se ele quer fazer uma denúncia formal contra o seu comportamento, sendo ele o lesado da história. — Alice explicou. — Então, Sr. , você quer? Que fique claro que, se quiser, ela vai receber uma advertência. Se não, só um puxão de orelha. A escolha é sua.
Se eu não fosse a pessoa mais orgulhosa do mundo, eu olharia para ele com um daqueles olhares de cachorro pidão, na esperança de que aquilo o fizesse me livrar dessa. Mas eu sou. Então, tudo o que fiz foi abaixar a cabeça e esperar o veredicto, já sabendo qual seria. Ele não era burro. Com certeza, me ferraria. E eu aceitaria de braços abertos, se isso significasse não ter que implorar a ele por nada.
Ele não demorou muito a responder; provavelmente, já sabia a resposta desde o segundo em que a coordenadora perguntou. Só não era bem a resposta que eu esperava.
— Não, coordenadora. Como a explicou, nós somos amigos de longa data, temos um longo histórico. Foi só uma brincadeira sem graça que não vai se repetir. Não acho justo que ela ganhe uma advertência por isso.
Filho da mãe.
Ele tinha tirado o dia para me deixar com cara de tacho, não dava para acreditar.
Eu e Alice viramos para ele, ambas com a mesma expressão confusa. Ele tinha um sorriso orgulhoso no rosto.
— Você tem certeza? — ela perguntou, sem conseguir disfarçar a incredulidade em sua voz. Não a culpava.
— Absoluta. — afirmou.
Respirei fundo, percebendo que não respirava há alguns segundos e sentindo certo alívio. Eu não ganharia uma advertência. Não hoje, pelo menos.
— Bom... Tudo bem. Então você pode ir. Eu vou conversar com sua amiga aqui mais um pouco.
Ele assentiu e levantou-se.
Nossos olhares se encontraram por um mísero segundo, mas eu consegui desviar numa velocidade récorde.
Quando a porta se fechou, foi como se a tensão da pequena sala aumentasse em 100%. Alice me encarava com seu olhar julgador, sem nunca tirar aquele sorriso irritante do rosto. Qual é?! A mulher estava começando a assustar. Ela devia fazer de propósito, não era possível. Engoli em seco, nem um pouco pronta para o puxão de orelha, mas, quando ela decidiu que seria uma boa ideia ficar em silêncio, eu comecei a rezar para que ela andasse logo com aquilo.
— Então... O puxão de orelha? — questionei, depois de tempo suficiente encarando o rosto gorduxo dela.
— Ah, é claro — ela disse, como se tivesse acabado de voltar a si, o que, provavelmente, havia acontecido. — Eu não vou gastar muito mais do seu tempo, . — Seu sorriso desapareceu e ela assumiu uma postura séria. — Algo me diz que esta não é a última vez que irei te ver aqui. Desta vez, você teve sorte. O seu amigo, ou inimigo, tanto faz, é um bom rapaz, nunca tive problemas com ele, e acredito que ele tenha cometido um erro, mas isso não cabe a mim decidir. Eu realmente espero que você ande na linha. Já tenho problemas demais com outros alunos. Não seja mais uma, tudo bem? Você acabou de chegar. Eu dei uma olhada no seu histórico e vi que é uma aluna dedicada, ou seja, tem tudo para se dar bem aqui. Mas eu também vi algumas advertências aqui e ali, então, de qualquer maneira, vou ficar de olho em você. Não me decepcione. Da próxima vez, pode não ter tanta sorte assim. Estamos entendidas?
— Sim, senhora — respondi, assentindo devagar. O olhar que ela me lançava não deixava brecha para outra resposta, além dessa.
— Ótimo — disse, voltando a sorrir. — Você pode ir. Aposto que tem muito que fazer ainda no seu primeiro dia de aula.
Não, eu não tinha.
— É, muito — confirmei, sorrindo levemente e me levantando. — Tchau!
Ela me deu um tchauzinho com a mão e, no segundo seguinte, eu já estava do outro lado da porta, pronta para dar o fora. Mulher estranha.
— E então? — apareceu, de repente, na minha frente, me fazendo recuar e arfar de susto.
— Ficou louco, garoto? — perguntei, colocando a mão sobre meu coração disparado.
De onde ele tinha saído?
— Você se assusta fácil demais. — Revirei os olhos e dei as costas a ele, começando a andar pelo corredor, atrás de um elevador. — Ei! Não vai me responder, não?
— Responder o que? — Bufei quando percebi que ele me seguia.
— Como foi o puxão de orelha? — ele perguntou novamente.
— Não te interessa — respondi quando avistei o elevador. Apressei o passo, mas ele fez o mesmo.
— Poxa, ! Já foi mais educada.
Optei por ignorar. O que ele estava fazendo ali, de qualquer maneira? Já deveria ter se mandado, assim eu não teria que olhar para o rosto irritantemente bonito dele.
Apertei o botão para descer quando cheguei ao elevador e, por sorte, as portas já se abriram. Entrei, me virando, antes que tivesse a chance de colocar seu corpo inteiro para dentro, e coloquei a mão em seu peito, parando-o.
— O que você pensa que tá fazendo? — questionei, erguendo uma sobrancelha para ele.
— Indo embora...?
— Não! — exclamei. — Você vai me deixar ir embora, esperar o elevador voltar, e aí, sim, ir embora — ordenei, e ele riu.
— Não vou, não — negou, balançando a cabeça.
Olhei para ele com o olhar mais sério que eu tinha.
— Vai, sim!
A porta do elevador começou a fechar, mas ele a empurrou de volta.
— Você sabe que eu poderia simplesmente entrar, mesmo com a sua mão aqui, só não o fiz porque sou legal, né? — Revirei os olhos. Metido. — , ou você me deixa entrar, ou nós vamos ficar aqui por um bom tempo.
Bufando pela milésima vez no dia, eu me dei por vencida e tirei a mão do seu peito, deixando-o entrar.
— Idiota — xinguei quando a porta fechou e o elevador começou a descer.
— Sabe, você tá sendo rude demais com o cara que acabou de salvar sua pele.
Por fora, eu dei uma risada debochada, mas, por dentro, eu o xinguei de todos os nomes possíveis por trazer aquele assunto à tona. Eu esperava que nós pudéssemos esquecer aquele episódio para sempre. Mas é claro que ele lembraria.
— Foi por isso que não me denunciou, não é? — Cruzei os braços, me virando para ele, que tinha o cenho franzido.
— Dá para explicar melhor? — perguntou em tom confuso.
— Você não me livrou da advertência porque é um cara legal. Livrou porque quer que eu te deva algo.
Na verdade, eu não sabia como tinha deixado isso passar minutos mais cedo. Por que me ferrar quando ele poderia simplesmente me poupar, fazendo com que eu fique grata e esqueça o imbecil que ele é? Afinal, não é isso que ele queria? Ganhar minha amizade de volta? Me ganhar de volta?
— Ah, por favor, ... — disse, revirando os olhos.
— Saiba você que não vai funcionar. Você me livrou da advertência porque quis, o problema é todo seu! — afirmei, cruzando os braços e me virando de frente para a porta.
— Eu te livrei daquela advertência porque, apesar do que você pensa, não sou uma pessoa ruim e não desejo seu mal, mesmo depois de sábado. Quer dar piti? Tudo bem. Quer me odiar? Tudo bem. Só não espere que eu compre esse seu joguinho, porque não vou — ele falou e, como uma piada do destino, a porta do elevador se abriu no exato momento, dando a ele uma saída dramática completamente injusta.
Como tudo em relação a ele, aquilo me irritou. Sim, eu queria dar piti, queria odiá-lo, xingá-lo, brigar com ele, até ele se sentir mal. E eu nunca fui de desistir facilmente.

¹O “peladão feio” da UCLA. Referência ao personagem da sitcom Friends.



Voltar à casa das Kappas, depois daquele terrível primeiro dia de aula, não foi tão divertido. Depois de ter aula naquela sala enorme, cheia de gente desconhecida, professores que eu nunca havia visto na vida e da conversinha com a coordenadora e com o , eu me sentia diferente. Eu sei, devia me sentir diferente, afinal, era uma universitária agora, mas sempre pensei que aquela seria uma mudança boa. Eu comemorei quando fui aceita na UCLA, contei os dias para me mudar para o campus e experimentar um pouquinho dessa liberdade, e não poderia estar mais ansiosa pelo dia de hoje, mas... Ninguém me disse como seria assustador me dar conta de que, agora, eu estava por conta própria. Não tinha mais meus pais por perto o tempo todo, estudava em salas cheias de desconhecidos. Primeiro dia de aula e um total de 0 novas amizades. Tudo bem, não era como se eu tivesse tentado me comunicar com alguém, mas era preocupante. E se April e logo conhecessem outras pessoas e começassem a sair com elas? Eu sabia que os outros já tinham novas turmas e odiava aquilo. Egoísta, sim. Prazer, . É que estava tudo tão bem antes, quando éramos os melhores amigos do Ensino Médio e, agora, tudo parecia distorcido e confuso. Patético, eu sei.
Não me pergunte como eu entrei nesta melancolia, também não sei. Só estava andando, parei para pensar e, pã, ela chegou! É por essa e outras que eu prefiro não pensar tanto sobre certas coisas, porque, às vezes, pensar, questionar o que deu ou daria certo, ou errado, era um baita de um atraso. Talvez todos passassem por aquele questionamento, ao começar a faculdade, ou, talvez, não, e eu sabia que logo passaria, mas, poxa, enquanto estava ali, acontecendo, era quase sufocante. Quase me fazia querer chorar, correr para a casa dos meus pais e ficar lá para sempre. Mas é claro que eu não faria isso, principalmente, porque, se eu dissesse à minha mãe que tudo não estava exatamente perfeito, ela levaria aquele “para sempre” totalmente a sério e nunca mais me deixaria ir. E, também, eu conseguiria lidar com aquilo sozinha.
Cheguei a casa (uma hora, eu teria que me acostumar a chamar aquele lugar de minha casa. Iria ficar por um tempo; só o suficiente para ter certeza de que não queria mesmo ficar ali) e encontrei April conversando com Lucy na sala. Dei oi às duas e subi rapidamente a escada, pronta para me jogar na cama.
— Ei! Onde você se meteu? — April perguntou, vindo atrás de mim.
— Na sala daquela tal coordenadora Alice. Não te falei?
— Não... O que você foi fazer lá?
Joguei minha bolsa ao lado da cama e me deitei, enquanto April sentou-se na beirada.
— Ela me ligou, ontem, dizendo que queria ter uma conversa comigo sobre o meu comportamento no sábado — expliquei, surpreendendo-a.
— Não acredito! O te dedurou?
— Tá vendo? Não é uma conclusão absurda a se chegar! — exclamei, bufando. — Mas, não, não foi ele. Provavelmente, algum X9 de plantão. Ele estava tão surpreso quanto eu por estar lá. Bom... Eu não estava tão surpresa assim, mas, enfim, não deu em nada. Ela só poderia fazer alguma coisa se, ele, o “prejudicado”, a “vítima”, quisesse me denunciar, e ele não quis.
— Legal da parte dele, né? Não te denunciar. Quer dizer, ele deve ter ficado muito bravo com você! — ela disse, e eu dei de ombros.
— Nada, além da obrigação dele. Mas é bom saber que ele mantém o espírito esportivo. Da próxima vez, só preciso me preocupar com os fofoqueiros e não com ele.
— Próxima vez? ! — repreendeu-me. — Eu não acredito que você vai aprontar para cima dele de novo!
— Ih! April, relaxa! — disse, rindo e empurrando-a levemente com o braço. — Não tenho nada planejado. Por enquanto, não. Só disse que é bom saber. — Dei a ela o meu sorriso mais culpado, só para provocar.
— Tá, sei... — falou desconfiada.
— Que bom que sabe. Mas, agora, se não se importa, eu vou tirar um cochilo. — Virei-me de costas para ela e fechei os olhos, antes mesmo que ela respondesse.
— Você não pode. Nós temos uma reunião em meia hora, lembra?
Não, eu não lembrava. Não até aquele momento, pelo menos.
Merda.
— Vai pegar muito mal se eu não for? — perguntei, ainda que já soubesse a resposta.
— É a primeira reunião desde que entramos. Com certeza, vai.
Suspirei. Eu não dava sorte mesmo.
— Tá legal — disse, me sentando, sem me esquecer de tomar cuidado com a cama de cima. — O que são algumas horas de mais chatice dentro de um dia completamente ruim, não é? Pelo menos, não vai estragar um bom.
E o prêmio de maior positividade em um dia de merda vai para .
— Hum... Antes de irmos, eu... Eu posso conversar com você? — ela perguntou, abaixando a cabeça.
Achei que já tivéssemos passado dessa fase de ela ter vergonha de mim, mas lá vamos nós!
— Claro. Sobre...?
— Sobre ontem, sabe? Quando eu fui meio grossa com o , seu amigo...
— Meio? — Deixei escapar uma risada, e ela ergueu seu olhar para mim, triste. — Quer dizer, meio não, super pouco... Quase não deu para notar. — Sorri, numa tentativa falha de fazê-la acreditar em mim; falha porque ficou bem óbvio que não a convenci.
— Eu sei que exagerei, . É só que... Algumas coisas são muito importantes e privadas para mim. Quando eu o vi lendo, eu... Eu nem sei o que aconteceu, sabe? Eu só queria que ele tirasse a mão do meu conto — ela explicou e suspirou cabisbaixa.
— Escuta, eu te entendo — eu disse, pegando uma das mãos dela e sorrindo. — Todo mundo pira, de vez em quando, eu quem o diga. Mas... Em defesa do , ele não saiu procurando pelo conto para ler, só achou em cima da penteadeira.
— Eu sei. É o que está fazendo me sentir pior ainda.
— Por que você não conversa com ele? — sugeri, ganhando um olhar meio assustado dela.
— O que eu vou falar a ele? — perguntou.
— Eu não sei. Aí já é com você. Tenta explicar sua situação, pedir desculpa, se achar necessário...
— Mas... — ela começou a falar, mas se interrompeu, apertando os lábios um contra o outro.
— Mas...?
Pensou por mais alguns segundos, antes de suspirar e botar para fora:
— Eu não sei se consigo falar com ele.
— E por que não? — questionei.
April abaixou a cabeça, mas respondeu:
— Você se lembra de quando nos conhecemos, como eu gaguejava e minha voz quase não saía. Eu troquei poucas palavras com o , além daquelas de ontem, somando com a vergonha, não sei... Eu vou é acabar virando de costas e sair andando.
— Não vai, não. Você é educada demais para deixar alguém falando sozinho assim. No máximo, você mudaria de assunto. — Ela encolheu os ombros, envergonhada, e eu suspirei. — Escuta, o é um cara legal. Você não precisa ter medo de falar com ele.
— É fácil falar, já que você o conhece há anos.
Revirei os olhos.
— E é por isso que eu te garanto que é fácil fazer também. Você vai ver, só tem que tentar. Logo essa situação estará mais que resolvida.
Ela ficou em silêncio por um tempo, provavelmente, considerando tudo o que podia dar errado. Eu poderia dar mais mil e uma razões para ela ir falar com ele, mas não queria forçá-la a nada. Essa era uma escolha dela e não minha, e ela tinha que fazer sozinha.
— Eu vou... — ela começou, fazendo uma pausa, e eu a encarei em expectativa. — Vou pensar mais um pouco. Nós temos que ir a reunião... Algumas garotas já estão lá embaixo.
E, mais uma vez, eu poderia ter insistido com as minhas mil e uma razões para ela ir falar com ele, o que era o que eu realmente queria fazer. Mas não fiz isso. A escolha era dela. Totalmente dela. 100% dela. Eu tive que repetir isso para mim mesma, algumas vezes, no caminho para a sala de estar no andar de baixo.
Umas das poucas coisas que eu gostava nesta casa eram os cômodos enormes. Por tantas garotas viverem ali, nós precisávamos de espaço. A sala de estar, por exemplo, tinha vários sofás e poltronas, e espaço suficiente para caber todo mundo. Claro, algumas sentadas no chão, mas fazia parte. Eu fui uma delas. Sentei-me no chão, ao lado do sofá em que a April escolheu. Lauren estava ao meu lado, no chão também, e Lucy no sofá. As duas pareciam passar o tempo todo juntas, era incrível.
— Animadas para a primeira reunião? — Lucy perguntou.
— Muito! — April respondeu, com certeza, mais animada que há 10 minutos.
Eu dei de ombros. Só a palavra ‘reunião’ já me desanimava.
— Legal ver que você não está mais tentando agradar. — Lauren disse baixinho ao meu lado.
Olhei para ela, desconfiada, mas ela nem olhava para mim.
— Eu nunca tentei agradar — menti, mesmo sabendo ser inútil.
Ela riu, balançando a cabeça.
— Por favor, é claro que tentou. — Virou-se para mim, falando, ainda, em tom baixo: — Você não precisava, sabe? É uma figura e tanto! Acabaria entrando de qualquer jeito.
Desta vez, fui eu quem riu.
— Claro que iria — disse ironicamente. — De qualquer maneira, foi um saco. Vou guardar meu charme para... Sei lá! Futuras entrevistas de emprego.
Poucos segundos antes de eu terminar de falar, a porta da sala se abriu e uma elétrica entrou. Ela passou rapidamente os olhos pelas garotas que estavam ali, até nos achar e vir correndo em nossa direção.
— Vocês não têm ideia do que eu tenho preparado! — ela anunciou, sentando-se no último lugar vago do sofá e chamando a atenção de algumas outras garotas também.
— O que é? Dá um spoiler, vai! — Lucy pediu, mas negou, balançando a cabeça.
— De jeito nenhum! A Nikki já está vindo, e logo vão saber — disse, piscando para ela, exatamente quando Nikki entrou também.
Eu não fazia ideia do que se tratava aquela reunião. Assim como não fazia ideia de que teríamos reuniões semanais, o que não me animava de jeito nenhum. Quando você vai pesquisar sobre irmandades, “reuniões infinitas” não era exatamente o que destacavam.
— Boa tarde, meninas! — Nikki disse, escolhendo uma poltrona para ela. — Estão todas aqui? Eu acho que sim. Bom, já vamos começar, de qualquer maneira.
Mina entrou correndo pela porta, suada, ofegante e tão vermelha quanto um tomate. Ela entregou uma pilha de papéis a e veio se sentar ao meu lado.
— Foi mal. Já cheguei. — Ouvi algumas risadas forçadas de garotas do outro lado da sala, que eu não lembrava realmente o nome, pois não tinha tido muito contato com elas, mas eu me lembrava bem de duas que optei por manter distância no recrutamento. Mina revirou os olhos e sorriu quando notou que eu a encarava. — E aí?! Achou a sala da coordenadora?
— Mina, silêncio, por favor, nós já vamos começar.
E, mais uma vez, as risadas.
— Tem algum palhaço aqui, por acaso? Além de vocês, claro — ela falou às garotas, me fazendo arregalar os olhos e, confesso, sorrir um pouco.
— Mina, por favor! — Nikki a repreendeu. — E vocês também! Parem com isso! — continuou, voltando-se para as garotas.
Esta reunião tinha começado muito bem.
— Desculpa... Nikki. Vocês não. Vocês merecem.
Nikki suspirou.
— Toda vez — disse a si, antes de voltar a focar na reunião. — Tá legal, vamos começar logo. Primeiro, eu quero dizer, mais uma vez, bem-vindas, calouras. Espero que estejam gostando de tudo. Algumas de vocês já sabem, outras não, mas nós temos, pelo menos, uma reunião por semana, às vezes, duas. É muito importante que vocês compareçam porque é aqui que nós discutimos, juntas, os futuros planos para a nossa irmandade, e é aqui também que vocês podem fazer queixas, tirar dúvidas e coisas do tipo. — Ela fez uma pausa, passando os olhos pela sala e, quando ninguém disse nada, continuou: — Bom, eu já expliquei um pouquinho como funciona o nosso programa de filantropia e, hoje, nós temos uma ideia para propor a vocês. Entrará na parte 2 do programa o apoio à comunidade local. A ideia é da , que, caso não saibam, sempre tem as melhores, então vou deixá-la explicar melhor a vocês.
Prontamente, levantou-se com os papéis entregues pela Mina na mão e um sorriso enorme no rosto.
— Boa tarde, pessoal! Eu sou a , para as que ainda não sabem, apesar de eu esperar que todas saibam. — Balancei a cabeça, segurando uma risada. Tão . — Eu vou entregar estes panfletos a vocês e explicar melhor. , pode me ajudar? — ela pediu, me estendendo metade dos panfletos, e eu assenti, mesmo desanimada. Entreguei minha parte à metade das garotas; inclusive, as risonhas de minutos antes. Eu poderia ter entregado tudo bonitinho como fiz com todas as outras? Sim. Eu fiz isso? Claro que não. Elas eram cinco, as últimas, então simplesmente larguei os panfletos em cima de uma delas, e eles podem ter se espalhado um pouco. Só um pouco. Voltando ao meu lugar, Mina ergueu a mão discretamente (o mais discretamente possível), e eu bati nela. Não escapei do olhar bravo da , mas faz parte. — Como vocês estão vendo, é uma feira de adoção. Mas não só uma feira de adoção, é claro. Nós vamos pedir ajuda da comunidade e resgatar animais abandonados nas ruas. Daremos banho neles, podaremos, enfeitaremos, os deixaremos lindos e colocaremos para adoção. Os dados estão todos aí. Vocês podem ver e pesquisar também. O ponto é que, infelizmente, o abandono de animais, apesar de tantas campanhas, vem crescendo. O objetivo é ajudar os bichinhos, ajudar as pessoas e tentar alertar sobre esse mal. Nós temos várias ONGs aqui em LA e vamos tentar ajudá-las também. Como? Na feira de adoção, nós vamos pedir doações. Não exigir, porque não vamos vender esses animais e, sim, doar, só pedir. É um tiro no escuro, sim, porque não sabemos nem se uma pessoa vai doar, imagine várias, mas... Eu acho que vale a pena tentar. Com o dinheiro arrecadado, compraremos sacos de ração e distribuiremos entre as ONGs da cidade, pois a maioria delas funcionam apenas com doações, ou seja, vivem constantemente em alerta vermelho. Mas, para tudo isso acontecer, nós precisamos de, pelo menos, 20 voluntárias. Nós entendemos completamente quem não quiser participar, seja por, simplesmente, não querer ou até ter problemas de saúde, alergias e coisas do tipo, mas peço do fundo do meu coração que vocês tirem um final de semana para ajudar. É muito importante.
Quando ela terminou, várias garotas começaram a conversar entre si, considerando a ideia, perguntando se a amiga iria e tal. Eu me ocupei em sorrir orgulhosamente para a minha amiga, que realmente tinha as melhores ideias do mundo junto com as minhas.
— Alguém tem alguma pergunta? — Nikki gritou por causa do barulho.
Algumas se calaram e levantaram as mãos.
Nikki apontou para uma que eu não lembrava o nome, mas era bem legal. Eu havia conversado com ela no terceiro dia.
— Vocês têm alguma ideia de quando seria? O dia e tudo mais, para a gente se programar.
— Se tudo der certo, em três semanas — foi quem respondeu. — Eu coloquei aí no panfleto, tá na parte de trás. Daremos tempo para vocês decidirem se querem participar ou não, até domingo. Semana que vem, vamos entregar panfletos em alguns bairros da cidade, explicando tudo aos moradores. Na outra, buscaremos animais abandonados que as pessoas nos ligaram e alguns por conta própria. Na sexta e no sábado, cuidaremos deles e, domingo, é o dia da feira de adoção. Mais alguma coisa?
— Não, entendi.
— Mais alguém? — Nikki perguntou novamente e, desta vez, só uma garota ergueu a mão. Era caloura também, mas nunca tinha falado com ela. — Sim?
— Eu tenho alergia, mas quero muito ajudar. Tem alguma coisa que eu possa fazer?
— Claro. — Nikki respondeu. — Só coloca ‘alergia’ na frente do seu nome na lista que vamos passar e nós arrumaremos alguma coisa que não envolva tanto contato com os animais. Mas seria bom se você tomasse algum remédio antes, sabe? Só para garantir. Mais alguém? — Ninguém mais levantou a mão. — Ótimo. Nós vamos passar uma lista para as que já decidiram, assinarem. Não se sintam obrigadas a decidir agora. Vocês têm até domingo. É só procurar a , até lá.
pegou, dentro da sua bolsa, uma prancheta com uma folha e uma caneta e entregou a Lauren, que estava logo abaixo dela. Ela, Lucy, eu, April e Mina assinamos, antes de passarmos adiante.
Todo mundo ao meu redor conversava, mas eu tinha uma coisa na minha cabeça. E aquela parecia ser uma ótima oportunidade para resolver a minha dúvida, mas esperei a prancheta passar por todas e chegar a novamente, antes.
— Já vi que nós já conseguimos 18 voluntárias. Muito obrigada, meninas! Eu nem vou tomar mais do seu tempo. Acho que já podemos...
Ergui a mão, e Nikki se interrompeu na hora:
— Sim, ? Alguma dúvida?
— Eu tenho uma, mas não é sobre a feira de adoções — expliquei, e ela assentiu, o que eu tomei como um sinal para continuar: — No outro dia, você explicou que as irmandades não têm permissão para dar festas com bebida alcoólica, certo? — Ela assentiu novamente. — Você também disse que logo não iríamos precisar mais de uma “fraternidade prima”. Isso quer dizer que estão bolando uma situação para resolver isso logo, não é?
Nikki suspirou, antes de me responder:
— Infelizmente, não é tão simples assim, . Veja bem, um dos nossos maiores obstáculos é a idade. A maior parte das irmãs ainda não têm 21 anos, então não podem beber legalmente.
— Até onde eu sei, os garotos costumam entrar na universidade na mesma idade que as garotas. Eu não vejo por que isso é um problema — eu disse.
— Pois é. Não é um sistema muito justo, é? — Nikki concordou. — Mas, respondendo sua pergunta, nós já perdemos a conta de quantos abaixo assinados fizemos e até alguns protestos. Sempre nos fazem promessas, mas os resultados nunca chegam. Se você tiver uma ideia, por favor, sinta-se livre para nos falar. — Eu assenti, ganhando um sorriso dela. — Mais alguma coisa? — Eu balancei a cabeça, e ninguém mais falou nada. — Tudo bem, então. Vocês estão liberadas. Obrigada por comparecerem!
Eu não tinha ideia alguma. Nós faríamos o que? As fraternidades pararem de fazer festas com bebida alcoólica como protesto? Isso só deixaria quem quer que fosse o infeliz que mantinha essa proibição feliz.
Que merda.
Eu odiava aquela mania que o mundo parecia ter de dar privilégios aos homens enquanto os tiram das mulheres. Veja bem, eu nunca fui o tipo de garota que a sociedade considera ideal. Eu nunca dei muita importância à maquiagem, unhas e coisas do tipo. Só aprendi a lidar com meu cabelo com 12 anos, uma fase particularmente complicada para mim. Nunca fiz o tipo comportada. E eu não quero dizer que quem faz isso tá errada, não, muito pelo contrário. Felizmente, aprendi que cada garota deve fazer o que quer. E muitas faziam coisas que eu considerava besteira ou uma absoluta perda de tempo. A , por exemplo. Mas são coisas que ela gosta, e eu não tenho nada a ver com isso, apesar de sempre acabarmos provocando uma a outra.
O problema era que passar a minha infância inteira preferindo brincar, correndo por aí, suando e me sujando, ao invés de brincar de casinha, já me fez ouvir poucas e boas. Se não fosse triste, seria engraçado como as pessoas consideram uma aberração uma garota que não é tão delicada assim. “Isso não é coisa de mocinha”, “Olha só, parece um moleque!”, e outras. E foi a soma de tantos anos ouvindo coisas assim que me fizeram chegar a conclusão de que, quando eu tinha 12 anos, eu era errada. Eu tinha algum defeito. Eu não deveria ser daquele jeito. Eu me sentia feia e estranha, coisa que ninguém nunca deveria se sentir. Minha autoestima, que eu nem sabia o que era, na época, estava abaixo de zero, a um ponto em que eu até evitava me olhar no espelho. Por isso, de uma semana para outra, decidi mudar completamente. Forcei-me a me importar com coisas que eu não dava a mínima, comecei a pintar minhas unhas, a ajeitar meu cabelo, a estar 24 horas por dia maquiada. Claro, tudo isso de um jeito terrível, porque eu não sabia fazer aquelas coisas direito. Parei de brincar do que eu gostava. Na verdade, eu simplesmente parei de brincar. Porque, até onde eu sabia, já estava velha demais para ficar brincando que nem criança.
Foram meses assim. Eu não estava feliz, apesar de sempre afirmar que estava. Mas eu sempre tive os melhores amigos do mundo. Por mais que eu odiasse admitir aquilo, foi quem mais me ajudou, o que, provavelmente, começou com a minha quedinha por ele um tempo depois. Ele, sempre me conhecendo melhor que qualquer um, foi o primeiro a notar que tinha alguma coisa errada. Que aquelas mudanças não vinham realmente de mim e que eu odiava aquilo. Ele notou, antes mesmo que eu notasse. E foi com ele, com os meus amigos e com os meus pais, que eu abandonei aquela fase. Abandonei e saí dela tão melhor! Aos poucos, eu ganhei confiança, autoestima. E saí, ainda sabendo umas coisinhas novas como passar esmalte e maquiagem, ainda do meu jeito simples e desajeitado, mas já era alguma coisa. E o meu cabelo, claro, a única coisa que, hoje em dia, eu realmente faço esforço para cuidar.
Eu sempre imaginei quantas garotas haviam passado pelo mesmo e se recuperado, como eu, e quantas não haviam se recuperado por causa dessa pressão, dessa ideia de que mulher tem que ser e estar sempre perfeita, mas não é assim que a coisa funciona. Então, acredite em mim quando eu digo que vou, sim, pensar em alguma coisa e vou, sim, fazer de tudo para tentar acabar com essa regra idiota. Porque, se tem uma coisa que eu amo fazer, é lutar pelo que acho certo.

A semana passou correndo. E, com ela, toda aquela insegurança sobre estar na universidade também. Não sei o que foi exatamente que fez isso acontecer. Talvez as aulas e professores super legais que eu conheci (apesar de nem todos estarem nesse grupo), e as pessoas novas que conheci também. Depois de ter várias aulas com, praticamente, o mesmo grupo de pessoas, uns começaram a se apresentar ali e aqui; eu, inclusive, determinada a acabar com as minhas neuras. Eu me aproximei também de algumas garotas da casa, umas mais, outras menos, outras nem troquei a palavra, mas, aos poucos, as coisas pareciam estar indo bem.
Quer dizer, eu diria 90% bem, porque ainda estava por perto, tomando café com a gente, às vezes, almoçando, nos horários vagos e, cada vez mais, me caía a ficha de que era ali onde ele iria ficar. Aliás, era ali que ele já estava faz tempo! A “novata” era eu. Eu e o , mas, surpresa, ter o ali não o incomodava nem um pouco.
Você tá comendo bem?
— Sim, mãe.
Tá dormindo, pelo menos, 8 horas por dia?
— Até mais, às vezes.
, você tem certeza? Tá tudo bem? Nós podemos ir te buscar e você vem passar o final de semana com a gente.
— Eu estou ótima, já disse. Não precisa se preocupar.
Duas semanas fora e você já não conhece mais sua mãe. Acha mesmo que ela consegue não se preocupar?
— Ah, pai, esperança é a última que morre.
Fiquem quietos, vocês dois. Eu me preocupo porque te amo.
— Eu também te amo, mãe. Amo muito vocês dois. Tô com saudade.
Sorri, olhando o rosto dos dois disputando espaço na tela do meu notebook. Eu sentia tanta falta deles!
Então vem para casa esse final de semana, meu amor. Eu faço sua torta de frango preferida, que tal?
A torta de frango... Eu queria torta. Mas não podia.
— Que tal no próximo final de semana? Esse final de semana tem jogo e, vocês sabem, o tá no time. Eu quero vê-lo jogar.
Nós podemos ir aí te visitar, então!
“Claire, por favor! A precisa se adaptar à vida nova, e você não tá ajudando.”
— Tá tudo bem, pai. Até que eu estou me adaptando bem aqui.
E como está a vida em irmandade? Ah, querida, eu já disse como estou orgulhosa por você ser uma Kappa como eu e sua avó?
— Algumas dezenas de vezes.
Por um momento, tudo o que eu vi foi a cara do meu pai. Ele, provavelmente, havia puxado o tablet para si.
Se você não tiver gostando, pode sair a qualquer hora, não se esqueça. Não é por que a sua mãe gostou, que você tem que gostar também.
E, então, o rosto da minha mãe voltou.
Não seja bobo, Jonathan. Ela sabe disso. Mas tenho certeza que ela está amando. Não é, ?
— Hum... Ainda é cedo para dizer. Eu gosto da casa. É, com certeza, melhor que morar em um dormitório, mas não sei ainda. Faz só uma semana... Eu ainda estou conhecendo tudo.
Isso, filha. Vai com calma.
Depois da fala do meu pai, eles finalmente ficaram quietos por alguns segundos. Segundos o suficiente para eu desconfiar de que queriam saber alguma coisa e de que eu não iria gostar nada do que quer que fosse. Foi minha mãe quem perguntou, depois de trocar um olhar com meu pai:
A esteve aqui semana passada. Veio buscar alguns vestidos e ela mencionou o , assim... Por acaso.
Eu sabia. Olhei para a , deitada na cama de solteiro no meio do quarto, fingindo ler um livro.
— E o que ela disse?
Desta vez, quem falou foi meu pai:
Ela disse que estava preocupada com vocês dois. Explicou que, agora, vocês vão ter que se ver às vezes e que você não tem sido muito tolerante com a presença dele.
Suspirei, balançando a cabeça. Eu não gostava dos meus pais envolvidos naquela história. Eles sabiam de tudo o que tinha acontecido, mas eu gostaria que não soubessem mais nada. E isso já foi “para o ralo”.
— Não se preocupem com isso, tá bom? Eu só fui pega de surpresa, semana passada, e acabei me desentendendo com ele, mas já tá tudo bem.
São amigos de novo? — meu pai perguntou, e eu consegui ver a esperança nos olhos dele. Ele adorava o . Só precisou de um tempo para assimilar tudo quando começamos a namorar, mas, depois, já estava até fazendo planos para um futuro casamento. Ele costumava apoiar meu ódio, depois de ficar sabendo o que o fez, mas, aparentemente, ele também já tinha esquecido aquilo.
— Amigos, não. Só colegas.
Ah, bom. Logo vocês vão se entender, e tudo voltará a ser como antes.
— É, vai. Escuta, eu tenho que ir. Vou sair com o pessoal daqui a pouco. Eu falo mais com vocês outra hora, tá?
Tá bom, querida. Vai se divertir. Nós te amamos.
— Eu também amo vocês.
Cuide-se, filha.
— Vocês também! Tchau!
Agora, você se pergunta: “Com pais amorosos assim, como eu saí desse jeito?”. A resposta é: eu também não sei. É uma daquelas perguntas sem respostas.
— Não se sente mal por mentir para os seus pais? — perguntou.
Olhei para ela, erguendo as sobrancelhas.
— Não se sente mal por fofocar para os meus pais? — retruquei, e ela sorriu.
— Nem um pouco.
Depois de enrolar um pouco, eu finalmente fui tomar banho, porque nós realmente iríamos a um bar ali perto. Vesti uma calça jeans, um cropped e uma sandália baixa, apesar dos protestos da . Meu cabelo foi solto e natural, e a maquiagem era simples também; pó, delineador, rímel e batom.
— O que eu visto? — April perguntou, olhando confusa para o closet. Ela já tinha a maquiagem pronta; desta vez, feita por mim, para a não exagerar. Ela só dispensou o delineador, que, na minha opinião, teria ficado lindo, mas...
— O que quiser — respondi.
— Eu nunca fui a um bar. Não sei o que vestir.
— É só um bar perto de uma universidade... Só vai ter estudantes. Não é grande coisa.
Eu estava sentada ao lado da Mina, distraída no celular, na cama dela, enquanto se embelezava de frente para o espelho.
— Eu posso te ajudar, se quiser. — ofereceu, me fazendo revirar os olhos.
Eu sabia que ela não resistiria.
, a April não é sua boneca. A gente só vai a um bar, aqui, ao lado. Deixe-a escolher, hoje! — repreendi-a, olhando para seu reflexo no espelho.
Tudo o que ela fez foi me mostrar a língua.
— Na verdade... Eu gostaria da ajuda dela. — April disse, virando-se para a gente, e eu a encarei chocada.
— Oi?
Até Mina desviou a atenção do seu celular por um tempo para rir da situação.
— Eu quero ajuda, se não for muito incômodo — ela repetiu, encolhendo os ombros e abaixando o olhar.
— Não é incômodo nenhum! — exclamou, levantando-se do seu templo, mais conhecido como penteadeira. — Na sua cara! — disse quando passou por mim. Quando ela chegou perto do closet, April deu lugar a ela para ela espiar lá dentro e escolher, mas, depois de uns segundos olhando, ela afastou-se pensativa. — Eu tenho uma ideia melhor. Por que você não escolhe e eu digo o que acho?
— Oi?! — eu e Mina exclamamos ao mesmo tempo. Trocamos um olhar surpreso, antes de voltarmos a April, que parecia meio perdida.
— Eu? Mas eu estou pedindo sua ajuda porque... Porque não faço ideia do que vestir.
— Eu sei, mas, por mais que eu adore essa ideia, a está um pouco certa. Você não é minha boneca. Você gosta das roupas que eu escolho, não é?
April assentiu.
— Mas eu gosto das minhas também — acrescentou.
— Então nós podemos achar um meio termo. Você escolhe, eu digo a minha opinião, dou sugestões, e você decide o que fazer. Tudo bem assim?
— Sim, eu acho...
Nós ficamos observando-a voltar a olhar desesperada para o closet. Demorou um pouco, mas ela escolheu um vestido simples azul escuro que tinha lá e saiu do quarto para ir se trocar no banheiro. Ela tinha vergonha de se trocar na frente de outras pessoas.
— Ela foi com uma opção segura. Mas, logo, logo, ela vai começar a ousar um pouquinho mais, vocês vão ver. — disse, voltando à sua penteadeira. — Ela me lembra de você quando era mais nova — continuou, me olhando pelo reflexo do espelho.
Franzi o cenho.
— Eu nunca gostei de você opinando nas minhas roupas.
— Não, mas você lembra quando eu te ensinei a passar maquiagem?
Ah, me lembrava. Foi um pouco depois da minha fase ruim dos 12 anos, vamos chamar assim. Eu não aceitava a ajuda dela de jeito nenhum, certa de que estava fazendo um bom trabalho, mas, quando decidi aceitar, percebi que foi a melhor escolha. Ela me ensinou as coisas básicas, porque era tudo o que ela sabia na época, e é o que eu sei até hoje. Única coisa que eu desenvolvi desde aquela época foi o delineador, mas levou um bom tempo.
— Eu me lembro — respondi.
— Você gostava, não gostava? — perguntou.
Eu podia ver a expectativa em seus olhos, mesmo no reflexo do espelho.
— É, eu... Eu me sentia bonita.
E imaginei que fosse assim que a April se sentisse também. Coisas novas são assustadoras, mas se sentir bem com elas é uma das melhores sensações do mundo.
começou a adquirir uma expressão orgulhosa, me avisando que era hora de desviar o olhar, acabar com o assunto e focar no meu celular, até a April voltar, o que não demorou muito.
Logo ela apareceu com o vestido e linda.
— Ficou lindo, April! — elogiou, fazendo-a corar. Ela era tão fofa. — E foi você quem escolheu.
— É, eu gostei. — Ela dava umas viradas de frente para o espelho, olhando cada detalhe com atenção.
— Olha, eu pegaria. — Mina disse, e April virou um pimentão de vez.
— Droga, Mina, o que eu posso falar que seja melhor que isso? — Brinquei, empurrando-a levemente.
— Obrigada, gente! — agradeceu, apesar de não conseguir nem olhar na nossa cara de vergonha. — Mas... E o sapato?
— Você escolhe. — afirmou.
— Que tal um tênis? — ela sugeriu esperançosa.
— Sim! Eu amo vestido com tênis! — exclamei, quase me levantando de animação.
April sorriu, buscou no closet um all star preto de cano alto e sentou-se para calçá-lo na cama da , que, por sinal, olhava a cena com dor nos olhos. Ela não gostava nada de vestido com tênis. Eu já disse, nós éramos tão opostas que a amizade parecia até impossível.
— Parece um bom meio termo, não é? — April perguntou, pronta, mostrando o resultado.
— Sim, tá perfeito!
— Eu também achei. — Mina disse.
— Não é o que eu escolheria, mas a decisão final é sua, e você tá linda. — completou, e April abriu um sorriso largo, deixando-a mais linda ainda.
— Podemos ir, então.

Nós encontramos o resto do pessoal (, e, eca, ) na frente do bar, onde eles já nos esperavam quando chegamos.
— Sabe, esse negócio da gente chegar antes de vocês tá ficando velho já. — disse quando nos aproximamos.
Abracei-o, aproveitando para dar um tapa fraco no seu ombro por causa do comentário e, depois, o , dando espaço para as outras. Simplesmente, ignorei o , sem nenhuma provocação, porque havia passado o caminho inteiro implorando para que eu me comportasse, e eu decidi que só queria aproveitar hoje, sem me preocupar com ele.
Depois de todos devidamente cumprimentados, nós decidimos entrar.
? — A voz baixinha e suave da April chamou. Se fosse qualquer outra pessoa chamando o , ninguém olharia duas vezes, mas era a April, o que fez com que todos virassem na direção dela.
Ela deu um passo para trás, meio assustada.
— Sim? — ele respondeu.
Ela não disse o que queria prontamente; hesitou por alguns segundos, me fazendo questionar se ela o faria mesmo, apesar da minha torcida para que ela o fizesse.
— E-eu posso conversar com você? — ela perguntou. Ela perguntou!
— Claro.
— Vamos entrar. Vai, vamos, vamos, vamos! — disse, praticamente empurrando o resto deles, aqueles que não tinham que conversar com ela, para dentro, não sem antes lançar um sorriso orgulhoso para April, que parecia achar graça do que eu fazia.
O lugar era bem legal, fechado, iluminação mediana. O bar tinha um balcão gigante, que ocupava quase a extremidade direita do salão inteira. No meio e, ao fundo, ficavam as mesas e, no lado esquerdo, um palco pequeno, onde alguma banda local tocava. Eu, e escolhemos duas mesas, que já estavam juntas, perto da parede, e Mina e desapareceram, sem falar nada.
— O que a April quer com o ? — perguntou assim que nos sentamos, inclinando-se em minha direção.
— Ela quer pedir desculpa pelo jeito como reagiu aquele dia com ele — respondi.
— O que ela fez? — perguntou.
Ele não estava lá no dia, tinha até me esquecido.
— Ela deu uma pirada básica quando o viu lendo um conto dela e acabou sugerindo que ele mexeu nas coisas dela, o que ele não fez. Ele só achou por ali, então ela tá se sentindo mal — expliquei, e ele balançou a cabeça em compreensão. — Eu tô surpresa. Na verdade, não pensei que ela fosse mesmo falar com ele.
— É, ela é bem tímida, né? Até hoje, eu quase não falei com ela.
— Sim, mas ela é um amor. Só levará um tempo para ela se acostumar com vocês.
— Eu acredito em você. Minha garota não perde tempo com quem não vale a pena — disse, piscando para mim, e eu assenti, sorrindo.
— Está certíssimo! — exclamei.
Na mesma hora, e Mina voltaram com uma bandeja cheia de bebidas. Ele as distribuiu, e ela se encarregou de levar a bandeja de volta.
— Aqui está, sem limão — ele disse, colocando dois copos de Cuba Libre na minha frente, um com e outro sem limão. — Peguei para a April o mesmo que para você, tudo bem?
Eu assenti.
— Valeu! — agradeci, mas não me dei ao trabalho de olhar para ele.
Não era grande coisa ele ainda saber o que eu bebia, um ano depois. Eu não curtia beber, aquilo era a única coisa que eu conseguia gostar, então era o meu pedido desde sempre. Seria ofensivo se ele tivesse esquecido.
— E aí?! Sobre o que estão falando? — Mina perguntou quando voltou, escolhendo o lugar ao meu lado para se sentar e já dando o gole na bebida dela, que era alguma coisa de limão e parecia muito forte.
— April e . — respondeu.
— Ah, é, eles estão lá já faz um tempo, né? Será que estão se pegando?
— Não! — eu respondi rapidamente. Mas espera... Por que não? — Quer dizer, será?
— A April e o ? Não sei, não. Com aquela timidez dela, fica difícil, vamos combinar. — comentou.
— Isso não seria um problema. O é dedicado quando gosta de uma garota e ele, geralmente, consegue, pelo menos, ficar com ela. O cara é bom. — disse.
— Mas o não gosta da April... Gosta? — perguntou.
— Eu acho que não. Mas ele me contou o que aconteceu no quarto de vocês e ficou meio bolado por achar que ela estava brava com ele. Bom, é o . Ele não gosta que ninguém esteja bravo com ele, mas, quem sabe... — respondeu.
— Ah, eu acho que não — eu disse, achando aquele papo todo muito estranho. — Eu não consigo vê-los juntos. Na verdade, não consigo ver a April com cara nenhum. Não, por enquanto.
Eu tinha, sim, brincado com ela sobre ele, mas era só provocação. Ela havia dito que era tímida daquele jeito com todo garoto, e não era algo que eu fosse duvidar. Eles ainda tinham minha benção, claro, mas April e ... Tá aí um casal que me parecia improvável.
— A gente não tem nada para fazer, mesmo. Eles conversam por cinco minutos e já concluímos que estão apaixonados. — disse, e nós rimos, concordando. Por isso, nós deixamos o assunto para lá. Bom... Por isso e porque e April chegaram.
— Finalmente, os pombinhos chegaram! — Mina disse com um sorrisão no rosto assim que eles se sentaram.
— Pombinhos, Mina? Por favor. — falou, enquanto April estava ocupada, corando. — E aí?! Qual é o assunto?
— Vocês — eu respondi. — Eu estava atualizando o .
— E nós também estávamos no perguntando se vocês estavam se pegando lá fora, porque nenhum pedido de desculpa dura mais que um minuto.
É claro que Mina tinha que contar essa parte. Olha, ela era pior que eu. Não sei por que reclamavam tanto de mim, se sentiram tanto minha falta que adicionaram ao grupo alguém semelhante.
— Não! É claro que não, gente... — April respondeu prontamente, parecendo até assustada com a ideia.
Aquilo não devia fazer maravilhas exatamente com o orgulho do , mas foi ele quem a acalmou:
— Não liga para eles, April. Eles sabem que não, só querem encher o saco.
— Na verdade, a gente não sabe, não. Criamos até algumas teorias. — disse.
— Eu não quero nem ouvir. — murmurou, antes de perguntar alguma coisa, que eu não prestei atenção, ao .
— April, este aqui é seu — eu disse, empurrando um copo com Cuba Libre para ela.
— Ah, coca!
— Espe... — eu tentei avisar, mas já era tarde demais. Ela tomou vários goles, provavelmente, estava com sede, antes de arregalar os olhos, percebendo que não era simplesmente coca. — Tem rum... — eu avisei, entre os tossidos dela.
— Rum? Na coca? — Eu assenti. — Rum?!
— É gostoso, vai...
— Não, se você toma quase tudo de uma vez — ela disse, fazendo careta.
, um dia, você ainda mata essa garota. — disse, e eu o encarei de cenho franzido.
— Ei, eu vou ter que lembrar quem foi que me apresentou essa bebida? Começa com “m” e termina com “k”. Lembra a você alguém?
Com a cara mais sínica do mundo, ele apoiou a cabeça nas mãos, pensou por alguns segundos e respondeu:
— Não, ninguém.
Cerrei os olhos para ele, não estando realmente brava. Logo me distraí com uma história que a contava.
A noite foi passando assim: entre brincadeiras e histórias. Muitas histórias.
— Aquele dia foi legal, mas nem se compara com a festa da Delta.
— Tá brincando, ? A gente entrou escondido no ginásio!
— A gente? Se não fosse o , nunca teríamos entrado lá, Sr. Amarelão-.
— Ei, ele já estava bêbado o suficiente, eu não.
— Ainda assim, , você salvou o dia. Quer dizer, a noite.
— Eu não teria feito nada se você não tivesse dado a ideia, Mina. Metade do crédito é seu.
Revirei os olhos, tomando mais um gole do negócio amargo de limão, o mesmo que Mina havia pedido anteriormente e que eu havia esquecido o nome, que pedi. Era... Sei lá, o terceiro? Talvez, quarto, eu não tinha certeza. Era tanto para cá e para lá... Eu precisava daquilo para aguentar.
Olha, rimou!
Uma música mais animada começou a tocar, e eu me levantei, chamando a atenção de todos na mesa.
— Eu quero dançar — disse.
— Dançar? Aqui? — questionou, e eu assenti. — , isto é um bar, não uma boate.
Ah, é. Bem, eu queria dançar, de qualquer maneira.
, dança comigo? — perguntei, e ele olhou para os lados, preocupado.
— Eu? — Assenti novamente. — É que... Ninguém tá dançando.
— E qual é o poblema? — Êpa. — Problema! — corrigi-me. — Não tem regra nenhuma que nos proíbe de dançar em um bar.
Ele pensou mais um pouquinho, até que deu de ombros e levantou-se.
Eu estava meio zonza. Mas eu queria dançar. E queria sair dali, daquela terra que o parecia ter conquistado, porque era tudo o que falavam: , , ... Eu não queria mais ouvir aquele apelido idiota.
Abri um sorriso grande e estendi a mão, que segurou, e o puxei em direção ao palco. No meio do caminho, lembrei-me da minha bebida.
— Espera.
Voltei à mesa, sendo observada por algumas pessoas, peguei o copo e tomei de uma vez tudo o que tinha dentro dele, sentindo minha garganta arder por causa do líquido gelado. Não me parecia uma boa ideia levá-lo comigo para dançar, eu podia derrubar. Então larguei o copo vazio em cima da mesa e voltei ao encontro de , que me olhava com uma cara engraçada. Joguei-me nos braços dele, rindo, porque havia usado aquilo para disfarçar uma quase queda.
— Tem certeza que quer dançar? — ele perguntou, e eu assenti animada, me recompondo de pé e o puxando para perto do palco, onde a banda ainda tocava a música animada e desconhecida.
Comecei a balançar minha cabeça, primeiro, depois os ombros, os quadris e, em pouco tempo, eu estava dançando, sem coreografia, sem sedução e um pouco sem ritmo, confesso. ria, me olhando, mas só se juntou a mim quando a próxima música começou, tão animada quanto a outra. Eu pulava, balançava a cabeça, jogando meu cabelo para todos os lados, arriscava cantar alguns pedacinhos da nova música, sem nem ligar para quem estivesse vendo.
Alguns minutos depois, Mina se juntou a nós dois, nos animando mais ainda. Aquelas, com certeza, eram as únicas pessoas que fariam aquilo comigo. e não gostavam de dançar. April, aparentemente, não sabia. E ... Ela nunca se colocaria naquela posição. Mas três eram o suficiente.
Então nós nos mexemos e remexemos, e dançamos sem parar, com plena consciência do número de pessoas que nos encarava. Na verdade, eu esperava que se juntassem a nós, como nos filmes. Mas é claro que isso não aconteceu. Ninguém se juntou. Em vez disso, depois de tanto movimento, as coisas ao meu redor começaram a girar mais rápido do que deveriam. Eu parei, esperando que parassem comigo, mas tudo continuou girando e girando. Minha cabeça doía.
?
A voz parecia distante. Eu não conseguia definir de quem era, nem focar em nada. Até que, pelo que me pareceu poucos segundos, tudo ficou preto.

's POV

Não havia um par de olhos sequer naquele bar que não olhava para , Mina e em frente ao palco. Até a banda parecia tocar com ainda mais ânimo. Por isso, quando desabou de repente, não levou mais que 10 segundos para atravessarmos o salão, até onde eles estavam, e o salão ficar em um completo silêncio. Felizmente, conseguiu segurá-la, antes que ela batesse a cabeça no chão.
Não demorou nada, também, para curiosos levantarem e chegarem perto para ver o que estava acontecendo.
— Pessoal, afastem-se, por favor! — eu pedia, mantendo também minha distância, enquanto e a olhavam mais de perto.
— O que aconteceu? — perguntou.
— E eu lá sei? Ela estava dançando, parou de repente e caiu. — respondeu. Seu tom de voz preocupado.
— Gente, vamos levá-la lá pra fora, tá abafado aqui dentro. — Mina sugeriu e, imediatamente, pegou nos braços.
me ajudou a abrir caminho entre os curiosos e nós saímos para o lado de fora do bar, onde estava mais fresco. Do lado de fora, sentou-se no chão, mantendo-a em seu colo.
— Hum... E agora? — April perguntou, depois de alguns segundos de silêncio, encarando desmaiada.
— Respiração boca a boca? — sugeriu.
— Que tal uns tapas?
— Mina! — a repreendeu.
— Água na cara? — Mina tentou novamente e ganhou um olhar bravo o suficiente da para fazê-la manter a boca fechada pelos próximos segundos.
— Primeiro, , ela está respirando. E, segundo, não e não! Ela já vai acordar, a pressão dela deve ter caído.
— Desde quando encher a cara faz a pressão cair, ? — perguntou.
— Bom, ela dançou pra caramba... — comentei.
— Ela dançou pra caramba, depois de beber de um jeito que ela nunca tinha bebido na vida, e eu acho que depois de não comer nada. Alguém se lembra de vê-la comendo alguma coisa? — perguntou, olhando para April e Mina, que balançaram a cabeça para os lados.
— Ela nem almoçou! Disse que tinha que ir logo pra casa, resolver umas questões, mas ela disse que compraria um iogurte no caminho. — April disse.
— Mesmo se ela tivesse comprado o iogurte e tomado, ela ainda, assim, ficou até agora sem comer mais nada. A não ser...
... — interrompi-a. — Ela desmaiou e pronto. Ninguém aqui é o Dr. House para investigar cada passo dela, até este momento — eu falei com humor, e ela deu de ombros, deixando escapar um sorrisinho.
— Deixe-me sonhar.
— Gente! — chamou nossa atenção. Ele examinava o rosto da de perto. — Ela tá muito pálida, olha isso.
— Eu sou pálida. — falou, de repente, e abriu os olhos devagar. — E você tá perto demais.
— Caralho, ! Que susto! — exclamou, afastando-se.
— Finalmente, garota! — Mina voltou a falar.
— Que ideia foi essa de beber que nem uma condenada, depois de passar o dia sem comer, e ainda dançar até se acabar, hein? — atacou, fazendo eu, e April rir. E agradecer por não ser a .
— Ih! Relaxa aí, pessoal! — ela disse, abrindo um sorriso maroto e encostando a cabeça no peito de . — Ajude-me a levantar? — Com cuidado, ele levantou-se, levando-a junto. — Uh! Péssima ideia! — disse, fechando os olhos novamente.
— Tá tudo bem? — perguntou preocupada, esquecendo-se completamente da bronca de segundos antes.
— Eu vou vomitar. — anunciou e, na hora, todo mundo deu um passo para trás, afastando-se; inclusive, , que manteve apenas os braços, segurando-a pela cintura. Quando ela abriu os olhos, começou a rir como se tivesse acabado de ouvir uma piada. — Mentira. — Riu mais um pouco, antes de ficar séria de repente e cruzar os braços ao redor da barriga. — Eu acho.
Balancei a cabeça, rindo, antes de dar um passo à frente.
— Escuta, vocês podem voltar lá para dentro. Eu a levo para casa e cuido dela.
fez uma careta.
— Tem certeza?
Eu assenti.
— Tenho treino amanhã de manhã. Já passou mesmo da minha hora.
— Hum... E-eu posso levá-la, se quiser. Eu não me importo. — April disse, também dando um passo à frente.
— Não, April, você fica. — Mina disse. — É a sua primeira vez em um bar. Você estava se divertindo, então fica. Além do mais, o tá de moto, e a vai adorar. — Ela lançou um sorriso malvado a , que fez uma cara estranha.
— E a opina? — perguntou.
— Não! A não está em condições de opinar em nada. Toda sua, . — disse. — Vou pegar seu capacete.
Eu me aproximei, e ela se apoiou em mim, mas não sem antes tentar bufar, o que não deu muito certo, já que, em vez de usar apenas o nariz, ela usou também a boca. Eu segurei a risada, só para não irritá-la mais, que, com certeza, estava odiando aquilo. Eu, o vilão , o ex que ela mais odiava, a ajudando? Não podia ser.
Quando ela passou um dos braços por trás do meu corpo, eu senti uma picada nas minhas costas. Ou melhor, duas unhas cumpridas puxando minha camisa e minha pele.
— Ei! Isso doeu! — protestei, e ela me olhou com a expressão mais inocente do mundo.
— Desculpa, foi sem querer. — Para ficar mais falsa, só faltava bater os cílios.
Mas, na minha missão de não entrar no jogo dela, eu sorri.
— Tudo bem — disse.
— Aqui. — apareceu novamente com o capacete único. Eu nem planejava vir de moto, era perto, mas decidi de última hora por estar atrasado. Imagina, então, carregar uma bêbada. Um só teria que servir.
— Tchau, galera!
— Cuida bem dela!
— Tá legal. — Comecei a me afastar, praticamente, carregando a , que só se dava ao trabalho de colocar um pé na frente do outro.
— Vai devagar. — continuou falando.
Fiz um sinal de beleza para ela e continuei andando.
Depois de alguns passos, começou a fazer mais esforço, até que eu virei só um apoio e ela andasse praticamente sozinha. Ela olhou para trás rapidamente e, quando voltou a olhar à frente, me empurrou.
— Solte-me. — Pego de surpresa, eu não resisti. Mas, em vez do meu corpo se afastar, foi o dela que o fez. — Ah, merda! — ela conseguiu dizer, antes de começar a cair novamente.
Eu poderia ter deixado. Mais do que isso, eu queria ter deixado, pois seria um belo de um castigo, mas iria contra meu plano, então, antes que o corpo dela atingisse o chão, eu a peguei.
— Movimentos bruscos não são a melhor ideia no momento, sabe? — eu comentei, e ela me lançou um olhar daqueles matadores, e não em um bom sentido.
— Eu devia vomitar em você! — ela disse, me fazendo rir.
Quando nós nos aproximamos da moto, ela me empurrou novamente; desta vez, com mais cautela, e eu a soltei. Com cuidado, ela sentou-se na calçada e ficou me encarando de cara feia.
Eu já esperava algo do tipo.
— Eu não vou subir nessa moto — disse, cruzando os braços.
— Ah, vai... — eu afirmei, me abaixando para colocar o capacete nela.
— Não vou. Pelo que eu sei, você pode ter as piores intenções, pode acabar me levando a casa errada, até à cama errada.
— Não se preocupe, eu tenho uma preferência por garotas que conseguem se aguentar de pé na minha cama.
Avancei para frente com o capacete, mas ela desviou, quase caindo no processo. Então eu tentei mais uma vez, ela se confundiu com os lados, e consegui enfiá-lo na cabeça dela. Ela bufou pela sua derrota, enquanto eu o prendia embaixo para que ela não conseguisse tirar. Ou, pelo menos, tivesse certa dificuldade.
— Boa sorte me colocando na moto. — disse, antes de soltar completamente seu corpo no chão.
Abriu, então, um sorriso que, se a situação não fosse tão irritante, seria fofo, porque o capacete apertava suas bochechas.
— Você fica linda sorrindo assim, sabia?
Na hora, ela fechou a cara novamente.
Aproveitei que ela estava quieta e a peguei no colo. Ergui seu tronco para que ela ficasse praticamente sentada e, com cuidado, a ajeitei em cima da moto, mas sem deixar de segurá-la.
— Tenta deitar, agora, para ver o que acontece — disse, sem nem tentar conter um sorriso vitorioso.
Felizmente, ainda tinha um pouco de senso de autopreservação, então não se jogou no chão, nem nada do tipo. Só bufou mais umas cinco vezes, o que já estava soando tão comum quanto a respiração dela. Com um pouco de esforço, eu me sentei na frente dela, sem causar nenhum acidente, e dei partida na moto.
— Segura em mim — pedi, torcendo para que ela o fizesse por conta própria, mas é claro que isso não aconteceu. Sem paciência para insistir, eu mesmo puxei as mãos dela e as coloquei ao redor da minha cintura.
Parecendo cansada demais para lutar, ela simplesmente encostou a cabeça nas minhas costas da melhor maneira que o capacete permitia.
Uma pessoa normal, àquele ponto, deixaria a teimosia de lado para se deixar ser ajudada, mas aquela era a e... Bem, eu era a pessoa ajudando. Por isso, poucos minutos depois, quando chegamos à casa dela, ela fez a coisa mais estúpida que uma pessoa fraca e bêbada poderia fazer: ela tentou descer da moto sozinha. E conseguiu. Só não do jeito que ela esperava.
, não... — Eu tentei impedi-la, mas já era tarde demais, um pé já estava no chão.
Quando ela foi puxar o outro, perdeu o equilíbrio e, pronto, lá estava no chão mais uma vez.
— Ouch! — reclamou, fazendo uma careta.
Balancei a cabeça e até tentei não rir, mas eu ainda era humano, e uma cena daquelas não tinha preço.
Desci da moto e, primeiro, tirei o capacete dela, para, depois, ajudá-la a se levantar. Ajuda esta que ela aceitou de bom grado, dada às suas condições. Mas é claro que não por muito tempo. Assim que nos aproximamos da pequena escadaria, ela me afastou e se agarrou ao corrimão como se sua vida dependesse daquilo. Fiquei esperando na porta, enquanto ela subia a escada com todo o cuidado do mundo. Quando se aproximou, ela pegou uma chave no bolso. Eu estendi a mão, esperando que ela me desse para que eu pudesse abrir, mas tudo que ela fez foi cerrar os olhos para mim e tentar abrir ela mesma, o que é claro que não conseguiu. Ela enfiava a chave em todo lugar, menos no buraco da fechadura.
— Para de ser teimosa, eu faço isso.
— Não! — negou, me olhando brava. — Tá escuro. — E voltou a trabalhar na abertura da porta.
— Uhum, esse é o problema.
Ela me ignorou.
Depois de mais algumas tentativas, finalmente, conseguiu destrancar a porta, lugar que ela se apoiou para entrar. Então se virou para mim com um sorriso forçado.
— Tchau.
Mas, antes que ela fechasse a porta na minha cara, eu a impedi, colocando meu pé na frente.
— Eu prometi a que iria te deixar segura. Isto é, na sua cama.
Ela revirou os olhos.
— Eu posso muito bem chegar ao meu quarto sozinha, tá legal? Não preciso de você.
— Eu sei o quanto você adora repetir isso e, geralmente, até concordo, mas, agora, nas suas condições, você precisa, sim. Além do mais, já deu uma olhada naquela escada? — perguntei, apontando para a grande escadaria mais ao fundo.
nem precisou olhar para bufar e se dar por vencida.
— Idiota.
Eu entrei e, mais uma vez, virei o apoio dela. E, mais uma vez, aproveitando-se da situação, eu praticamente a carregava.
— Se eu já estou te carregando, poderia te pegar no colo para facilitar.
— Não se atreva! — ela disse num tom que seria ameaçador, se não fosse eu quem estivesse mantendo-a de pé. — Ei, ei, ei! Aonde você pensa que está indo? — indagou quando, em vez de ir em direção à escada, eu virei à direita.
— Cozinha — respondi.
— Pegar uma faca para me matar?
Ri, imaginando que, talvez, ela realmente considerasse aquela ideia.
— Você precisa colocar alguma coisa no estômago.
— Eu preciso dormir! — ela rebateu, mas ignorei.
Ajudei-a se sentar num banco no balcão e, então, fui até a geladeira, atrás de alguma coisa. Encontrei um suco que parecia ser de laranja e teria que servir. Coloquei em um copo na frente dela, junto com um pacote de bolacha que encontrei também. deu pequenos goles no suco, mas empurrou a bolacha de volta para mim.
Nós ficamos um tempo em silêncio. Ela, concentrada no seu copo de suco, e eu, concentrado nela. Era até engraçado que, mesmo em um estado consideravelmente ruim, ela ainda me parecia a garota mais bonita do mundo. Engraçado e triste. Meus olhos a avaliaram, passando pelos fios de cabelo loiro bagunçado, pelo olhar baixo, nariz empinado, sua boca, que parecia ter sido detalhadamente desenhada, até pousarem em suas mãos finas, segurando firmemente o copo. Era a mesma , a minha garota de um ano atrás. A única diferença era que aquela nunca beberia até não se aguentar em pé.
— Você nunca bebeu desse jeito — comecei a falar, chamando sua atenção. Ela ergueu seu olhar indiferente para mim. — O que aconteceu?
— Como sabe? Não é como se nós tivéssemos passado o último ano inteiro juntos — respondeu rudemente.
Não fui pego de surpresa. Eu sabia que ela não perderia uma oportunidade de me atacar.
— A falou quando você estava desmaiada.
Ela se desconsertou um pouco com a minha resposta, mas não por mais que dois segundos:
— De qualquer maneira, não te interessa.
— Considerando que fui eu quem te trouxe aqui em segurança, me interessa, sim! — eu insisti.
— Trouxe porque quis.
Respirei fundo. Eu merecia um prêmio por ter tanta paciência. Ou um sermão por insistir demais.
— Você não pode passar mais que alguns minutos sem me atacar, pode? — questionei.
— Posso. Não quero — ela respondeu com o mesmo tom seco de antes.
— E por quanto tempo pretende continuar fazendo isso? Porque eu não vou a lugar algum. Uma hora, isso vai ter que parar.
— É aí que você se engana: eu não vou parar.
Sorri, não acreditando nada nas palavras dela.
— Nem você tem tanta energia para passar os próximos anos me insultando, .
Mas, desta vez, foi ela quem sorriu, um sorriso forçado e irônico, o que, eu tenho que admitir, me preocupou um pouco.
— Vamos ver.
Observei-a, tentando descobrir se ela falava sério, mas não cheguei a lugar nenhum. Mas não era de mentir para assustar. Muito pelo contrário, ela era sincera demais, e isso, sim, assustava.
— Nós precisamos resolver isso — eu disse, mesmo sabendo que aquela não era a melhor hora do mundo para algo assim. Eu só queria muito acabar com aquilo logo.
— Eu não quero resolver nada, .
— Por que não? Isso tem que parar.
— Pois eu vou ter que discordar — murmurou, abrindo mais um daqueles seus sorrisos sínicos.
— Por favor! — pedi, esperando que o desânimo na minha voz tivesse algum resultado positivo. — Eu tô cansado.
— Cansado de que? De bancar o bonzinho? Porque nós dois sabemos que esse não é você.
É, não funcionou. Ela provocou e pegou bem na ferida.
Eu já tinha feito coisas e agido de maneiras das quais não tinha orgulho, mas também estava fazendo um puta de um esforço, tentando melhorar. Ela nunca reconheceria aquilo, é claro. Se eu fosse um pouco mais esperto, não teria dito o que disse a seguir. Mas me deixei levar pela sua provocação e, quando percebi, já tinha saído:
— Cansado de ficar ouvindo você me atacar e fingir que não tô nem aí porque você não consegue superar e deixar o passado no passado.
“Não cutuque a fera com pau curto”, minha mãe dizia o tempo todo. Referindo-se a mesmo. Ainda assim, era como se eu não tivesse aprendido nada.
— Então para, tá legal? — explodiu, batendo no balcão. — Para de imaginar que eu tô fazendo algum tipo de jogo, porque eu não tô! Você pode ter reconquistado todo mundo, mas eu não quero estar perto de você, não quero suportar o cara que me fez de idiota, então, adivinha só: eu não vou parar de te insultar, de te atacar sempre que possível, enquanto me fizerem estar perto de você. Você quer fingir que não se importa? Eu não tô nem aí. Na verdade, é até patético. Eu piso em você, insulto, tento fazer da sua vida um inferno, mas você está aqui, me ajudando, que nem um idiota. É, a palavra é esta mesmo: patético. Você é patético! — enquanto falava, quase gritando, ela inclinava seu corpo para frente, agora, furiosa.
Eu concordava com ela. Eu realmente era patético. Mas uma coisa era eu pensar isso de mim e outra era ela jogar aquilo na minha cara daquela maneira.
... — tentei interrompê-la porque eu não estava nem um pouco a fim de ouvir o resto. Eu lembrava bem como esses ataques dela acabavam: eu lá embaixo, e ela no topo.
— Não, agora, eu vou falar! Sou eu quem não consigo deixar o passado no passado? Deixe-me te dizer que eu estava fazendo um bom trabalho, até você aparecer, todo presunçoso, o melhor amigo de todos, para ferrar com tudo. E, se eu não me engano, não fui eu quem, uma semana atrás, estava querendo voltar com você, o que é ridículo. Você realmente pensou, por um segundo sequer, que tinha alguma chance de eu querer voltar com você depois do filho da puta que você foi? Eu te odeio. E, se não ficou claro, repito: eu te odeio. Eu quero distância de você e de qualquer coisa que você tem a oferecer, e, inclusive, ajuda. Sabe, se eu fosse uma pessoa sensata, eu te trataria exatamente do jeito que você merece: como um nada. Mas te ignorar é muito fácil. Já fazer da sua vida um inferno, como você fez da minha, me parece muito mais divertido, então vai se acostumando, ou dá o fora da minha vida!
Eu te odeio. Eu. Te. Odeio.
Não importava o fato de eu já saber aquilo, ouvir aquelas três palavras saindo da boca dela, ao mesmo tempo em que ela me lançava um dos olhares mais furiosos do mundo, doía. Mais do que deveria até, considerando que já havia se passado mais de um ano desde que havíamos terminado. Bom... Desde que ela me deu um pé na bunda.
Quando isso aconteceu? Quando eu deixei de ser a única pessoa com quem ela realmente conseguia se abrir, a pessoa que ela mais confiava, o companheiro para todas as horas, e me tornei o cara que ela não queria nem por perto? Ah, é, quando eu decidi que seria uma boa ideia encher a cara, com raiva dela, e corresponder ao beijo da única garota que afirmava ter 0% de chance de ser considerada para um futuro ménage. Porque, sim, nós tínhamos planos até para isso. Ou, talvez, quando eu fui covarde demais para contar a ela o que havia acontecido. Provavelmente, o conjunto.
— O que tá acontecendo aqui? — alguém perguntou e, só então, eu notei que segundos haviam passado e nós ainda nos olhávamos nos olhos. Ela, com a respiração irregular e ainda de olhar furioso, e eu não sabia bem minha cara naquele momento. A garota aproximou-se e, quando desviei o olhar para ver quem era, percebi ser a Nikki. — ? Tá fazendo o que aqui? E ... Uau! Você não parece nada bem.
— Eu só... Hum... Ela passou mal, e eu vim trazê-la — respondi baixo. Não queria mais ninguém acordado para ver aquela cena.
— O que aconteceu, ?
— Nada, eu só... — sua voz falou, e ela pigarreou, antes de voltar a falar: — Eu só preciso dormir. Eu tô cansada. — Ela desceu da cadeira, mas acabou perdendo o equilíbrio mais uma vez.
Por impulso, eu me movi para segurá-la, mas Nikki estava mais perto e chegou antes, mantendo-a de pé.
— Vem, eu te ajudo. — Nikki disse, e prontamente se apoiou nos ombros dela.
— Eu vou indo, então. Boa noite! — disse, já indo em direção à sala.
— Espera, . — Nikki pediu, e eu me virei para elas. — Tá tudo bem? — perguntou.
Forcei um sorriso e assenti. Nikki era a última pessoa no mundo que eu gostaria de incomodar com esse tipo de coisa.
— Sim, eu só tô cansado. — Saí andando, antes que ela fizesse mais perguntas.
— É muito cansaço para duas pessoas só. — Ouvi Nikki comentar, antes de fechar a porta atrás de mim.
que lidasse com aquilo!
Sentei-me nas escadas por um momento e cobri meu rosto com as mãos, suspirando. Era quase como se eu pudesse sentir a raiva chegando. Mas raiva de quem? De mim, da , dessa situação? Eu não sabia dizer. Raiva não era exatamente um sentimento racional. Mas eu ficaria ali, sentado, até que passasse. Sair chutando ou socando o que eu visse pela frente não era uma opção. Mas que eu estava tentado, eu estava.
Não era para a noite acabar deste jeito. Deveria ser divertido, sem discussões, e até começou bem, mas o final acabou com tudo. Pelo menos, os outros deviam estar se divertindo.
O que eu faria dali para frente? Eu poderia simplesmente evitá-la e, quando não tivesse jeito, ignorar. Mas eu não queria fazer isso. Eu queria vê-la, conversar com ela, ouvir sua risada, ver seu sorriso. Eu era patético. Só queria tê-la por perto.

's POV

— É muito cansaço para duas pessoas só. — Tudo o que eu consegui foi dar uma risada obviamente forçada. — Vocês brigaram? — Nikki perguntou, e eu assenti. — Eu acabei ouvindo um pedaço. Foi feio, não foi?
— Nós sempre brigamos... Não é grande coisa — menti.
Havia sido, sim, grande coisa. Uma dorzinha irritante no fundo do meu peito me dizia isso. Para falar a verdade, “nós brigamos” nem definia bem o que aconteceu. Eu briguei com ele. Ele só ouviu. E, depois, ficou me olhando com um olhar machucado, um olhar que eu não vira há um bom tempo. Eu briguei com ele, depois dele me ajudar. Eu briguei com ele e falei todas aquelas coisas porque eu queria machucá-lo. Não que elas não fossem verdade, pois eram, mas você não explode e fala tudo aquilo na cara de alguém, especialmente alguém que acabou de fazer algo bom por você. E, agora, eu estava me sentindo uma merda por isso.
— Prontinho. — Nikki disse quando chegamos ao meu quarto. Ela me guiou até a minha cama, onde eu me deitei, já puxando o edredom para cima de mim. Antes que eu pudesse agradecer e dizer boa noite, ela sentou-se ao meu lado. — Você não parece bem. Quer conversar?
Tive que disfarçar minha expressão surpresa. Não, eu não queria conversar sobre aquilo. De jeito nenhum. Nem com ela, nem com ninguém. Por isso, desta vez, abri um sorriso convincente o suficiente para fugir daquela situação.
— Eu tô bem, de verdade. Só bebi mais do que devia. Tá tarde. Vai dormir. Eu também vou. Mal tô aguentando com os olhos abertos.
Ela me olhou por poucos segundos, parecia não saber se acreditava em mim ou não, mas, felizmente, ela foi convencida e levantou-se, assentindo:
— Tudo bem, então. Boa noite.
— Boa noite.
Então ela saiu, fechando a porta atrás dela. Neste momento, eu suspirei aliviada. Eu realmente queria ficar sozinha, fechar os olhos, dormir e esquecer. Mas, o tempo todo, as minhas próprias palavras se voltavam contra mim e, depois, o olhar dele aparecia, e eu não conseguia. Eu me sentia mal, um monstro. Eu queria voltar no tempo e apagar tudo o que falei. Eu queria não chorar, mas estava ficando impossível.
Joguei o edredom longe e me arrastei da melhor maneira possível até a janela para abri-la. Eu sabia que só estava com calor porque fiquei me virando para todo lado, mas, ainda assim, fui. Péssima escolha, como sempre.
Antes que eu tivesse a chance de abri-la, eu o vi. Sentado na escada, as mãos no rosto, e foi tudo por água a baixo, literalmente. Antes que eu sequer tivesse a chance de tentar contê-las, as lágrimas desceram e, agora, não tinha mais o que fazer. Eu estava chorando. Por causa dele de novo. Era isso que eu queria evitar. Porque tê-lo por perto só fazia eu me lembrar do quanto ele havia me machucado. Eu daria qualquer coisa para seguir em frente sem ele... Eu até atormentaria a vida dele para que ele desistisse e se mandasse. Porque, assim, isso não aconteceria.
Voltei à minha cama, esperando que não tê-lo mais em minha visão melhorasse, mas o dano já estava feito. Enrolei-me, então, no edredom e parei de tentar segurar as lágrimas; só deixei que elas viessem, porque, talvez, aquela fosse uma maneira de colocar tudo para fora. Não tinha ninguém por perto. Estava tudo bem. Mas, quanto mais eu chorava, mais imagens vinham à minha cabeça, mais palavras, e eu só queria chorar mais. Eu queria tirar aquilo de mim, aqueles sentimentos ruins. Eles não me faziam bem, eu sabia disso. Mas eles eram tudo o que eu tinha.



’s POV
11 anos antes...


— O jantar tá na mesa. , , desçam agora! — minha mãe gritou pela terceira vez.
Na quarta, ela, provavelmente, viria até o quarto, então me levantei para descer.
— Promete mesmo que não vai contar a ninguém? — perguntou, ficando de joelhos na cama. Seu cabelo bagunçado estava preso em um “rabo de cavalo”.
— Prometo. Eu já disse que prometo. Por que eu contaria a alguém?
— Ele é seu amigo. Imagina se, um dia, você deixa escapar que eu gosto dele, nunca mais vou conseguir olhar na cara dele! — exclamou, arregalando os olhos para mim.
— Relaxa! — disse, rindo da cara dela. — Você é minha amiga também. Eu prometo que não vou contar e, muito menos, deixar escapar, tá bom?
Ela me olhou desconfiada por alguns segundos, até acreditar na minha palavra, e sorriu.
— Tá bom. Agora, me ajuda! — falou, estendendo os braços para mim.
Aproveitando a chance, toquei suas mãos e a puxei com mais força que o necessário. Ela deu um daqueles gritinhos de menina, que me fez rir e, enquanto ela se equilibrava em pé, saí correndo para chegar à sala de jantar primeiro. Antes de chegar à escada, eu já ouvia o barulho dela correndo atrás de mim. Sentei-me no corrimão e desci, deslizando, como naquelas cenas de filmes que eu treinei muito para fazer igual. Quando cheguei no andar de baixo, pulei no chão novamente e corri até o cômodo seguinte, onde meus pais estavam sentados à mesa. Menos de 5 segundos depois, chegou também, arfando e vermelha de raiva.
Corri para a ponta, oposta a ela, da mesa.
— Isso não vale! Você não pode usar o corrimão! — gritou, vindo em minha direção.
— Você só fala isso porque não sabe fazer! — disse, sem conseguir parar de rir.
Ela estava tão brava!
— É claro que é porque eu não sei fazer, bobão! — Ela vinha, aproximando-se pelo lado direito, e eu me afastava pelo esquerdo.
— Você corre bem mais que eu, e não reclamo de apostar corrida com você!
— Você sabe correr! É diferente!
— É a mesma coisa. Admite logo que você não aguenta perder!
— Ei, vocês dois! Dá pra parar? — meu pai interrompeu-nos. — É hora do jantar! Pelo amor de Deus!
Continuei de pé, pronto para correr, até que suspirou e sentou-se ao lado da minha mãe. Fiz o mesmo, ao lado do meu pai, de frente para ela.
— Muito bem! — meu pai falou novamente. — Liz fez o frango assado e o creme de milho que vocês tanto amam.
— Obrigada, tia! — agradeceu , dando um beijo na bochecha da minha mãe.
— Valeu, mãe! — agradeci também.
Ela sorriu para a gente, sempre achando engraçadas nossas brigas.
Peguei um garfo e uma faca, e me levantei para alcançar o frango. Minha mãe sempre cortava para mim, mas eu pedi a ela para me ensinar porque eu queria colocar minha comida sozinho. Cortei um pedaço de cima, todo coberto de pele. Eu sabia que adorava este pedaço e era eu quem sempre cortava para ela. Olhei-a, e ela estava ocupada, colocando arroz em seu prato. Estava brava comigo. Eu não devia servir a ela, certo? Não tinha certeza. Então, sendo certo ou não, coloquei o pedaço de frango em seu prato quando ela o abaixou. Ela me olhou surpresa, antes de abrir um sorriso e servir um pouco de creme de milho para mim, e, depois, para si. Ela sempre servia o creme para mim também. Não por eu não conseguir (como ela não conseguia cortar o frango sem fazer uma bagunça), ela dizia que era uma maneira de dizer obrigada por ter cortado o frango para ela.
Sorri para ela, terminei de me servir e me sentei novamente. Estava começando a comer quando ouvi um riso baixo ao meu lado. Olhei para o meu pai, que trocava olhares com minha mãe.
— Ei! O que foi? — perguntei, cutucando-o, e isso chamou a atenção da , que parou de comer para nos olhar.
— Nada, — ele respondeu.
— Eu vi você e a mamãe rindo um para o outro! Conta! — insisti.
Minha mãe riu mais uma vez, antes de começar a falar:
— Nós só estávamos nos lembrando de uma conversa que tivemos alguns dias atrás... Nada demais. Sua comida esfriará.
— Que conversa? — desta vez, foi quem perguntou, sem conseguir segurar sua curiosidade.
— Bom... — Meu pai respirou fundo e continuou: — Alguns dias atrás, Liz e eu estávamos conversando sobre como vocês estão sempre brigando e fazendo as pazes desde que se conheceram.
Olhei para e a encontrei olhando para mim também, tão confusa quanto eu.
— Nós brigamos quando nos conhecemos? — perguntamos juntos.
— Bem... Sim. Vocês não se lembram? — perguntou minha mãe.
— Não! — respondemos juntos mais uma vez.
— Eu não acredito! — falou, arregalando os olhos do mesmo jeito que havia feito mais cedo e nos olhando.
— Eles eram muito pequenos, Liz. É claro que não se lembram... — ele disse, sorrindo para ela.
— Mas...
— Conta pra gente, tia! — pediu animada.
— É claro que vou contar! — exclamou. — Foi há 3 anos, quando você, , tinha só 5 anos de idade, e a , 4. Nós morávamos aqui há algum tempo já e tínhamos nos mudado pouco antes do nascer. Um casal se mudou para a casa ao lado e, como de costume, fomos dar as boas vindas a eles.
— Ela quis dizer que eu fui dar as boas vindas, enquanto ela ficava em casa, cuidando de você, — meu pai interrompeu.
— O que eu poderia fazer? Ele estava doente.
— Não me obrigar a ir lá sozinho seria uma ótima ideia — respondeu ele, fazendo minha mãe revirar os olhos.
— Você não morreu, indo lá, e nós conhecemos ótimas pessoas. Todo mundo saiu ganhando.
— Ok, mas você não estava lá, e é isso que importa, então sou eu quem contarei essa parte da história. — Ela revirou os olhos, mas o deixou contar: — Eu conversei com seus pais durante um tempo, enquanto a senhorita ficava escondida atrás das pernas da sua mãe. — sorriu envergonhada. — Contei a eles que, aos domingos, o bairro costumava se reunir na praça para as crianças brincarem e falei para eles te levarem, . Então, no domingo...
— Obrigada, querido. Eu assumo daqui! — minha mãe interrompeu. — No domingo, nós te levamos ao parque, apresentamos vocês dois, e você, todo cavalheiro, foi apresentá-la às outras crianças, enquanto nós ficávamos na “área dos pais”, conversando... — contou, fazendo um sinal estranho com as mãos. — 40 minutos depois, vocês voltaram correndo. pedindo para seus pais comprarem um picolé para ela, e você com os olhos cheios de lágrimas. Você se lembra do porquê disso? — ela perguntou, me olhando. Fiz que não com a cabeça. — Porque você também queria um picolé, mas sabia que não ganharia um, pois ainda não tinha se recuperado totalmente da gripe. Seus pais tentaram te convencer a comprar um algodão doce, assim não ficaria com vontade, , mas você não quis. Você esperneou e insistiu, até conseguir seu picolé. E, bem, a primeira coisa que o fez quando você voltou, segurando-o, foi pegá-lo da sua mão, jogar no chão e pisar em cima.
Comecei a rir, enquanto abria a boca em um formato de “O”. Eu conseguia até me imaginar fazendo isso.
— Foram semanas, até que voltasse a falar com você, mas, depois disso, nunca mais se separaram — meu pai disse.
— Vocês deveriam ter filmado! — exclamei, ainda rindo; isso até eu reparar na maneira que me encarava.
Ela parecia estar tentando me partir ao meio só com o olhar e seu rosto estava vermelho igual a um pimentão. Só faltava sair fumaça pelos seus ouvidos.
— POR QUE VOCÊ FEZ ISSO COM MEU PICOLÉ?
Um mês depois, no meu aniversário de 9 anos, ela enfiou minha cara no meu bolo de aniversário na frente de todos os convidados, como vingança.

Atualmente


Eu amava estar na água.
Desde pequeno, com pouco mais de três anos, quando comecei a fazer natação, aquele era um dos meus lugares preferidos no mundo. Tinha alguma coisa em se concentrar apenas na minha respiração, nos meus braços, pernas, meu corpo em geral, garantindo que cada parte fizesse seu trabalho da melhor maneira possível. Durante o tempo em que eu estava embaixo da água, aquilo era tudo que existia para mim. Eu não precisava me preocupar com mais nada, pensar em nada, só naquilo. Era bom. Não que um garoto de três anos tenha muitas preocupações na vida, além do tapa que levou na mão, mais cedo, por mexer onde não deveria, mas eu adorava de qualquer maneira. Passei uns bons anos da minha vida querendo ser o Aquaman. Mas é claro que isso já passou. Poseidon é muito mais maneiro.
O apito do técnico soou, e todo mundo parou na hora.
— Tá bom por hoje. Estão liberados. Vejo vocês na segunda! — o técnico, Roger Simons, um dos melhores nadadores que eu já havia visto na minha vida, anunciou.
Saí, então, da piscina e segui para o vestiário, sendo acompanhado pelo resto dos caras, que já conversavam e brincavam entre si; geralmente, eu participava, mas, hoje, estava ocupado. Chateado pela noite anterior? Um pouco. Só que, nesta manhã, eu tinha outra coisa na minha cabeça: coisa essa que, na madrugada anterior, parecia apenas um impulso besta, mas quanto mais eu pensava naquilo, mais parecia um plano daqueles...
— Você tá quieto demais, hoje, . Tá planejando o que? — Joe perguntou quando eu me abaixei para amarrar meu tênis.
Joe havia se tornado um grande amigo, ano passado. Conheci-o quando entrei para a Lambda Chi Alpha e, desde então, acabamos não nos separando; principalmente, pelo fato de que foi ele quem me indicou para o técnico Simons, depois de me ver nadar na casa. Graças a ele, eu consegui um teste, e passei, o que foi uma coisa e tanto naquele ano, porque, além de eu ser calouro, só haviam duas vagas, e elas foram bem concorridas. Morando na mesma casa e nadando juntos, não nos separaríamos nem se quiséssemos.
— Não só estou planejando algo, como vou precisar de você — eu disse, olhando para cima e abrindo um sorriso quase que malvado na direção dele.
Ele arregalou os olhos e, praticamente, se jogou ao meu lado, sentando-se no banco em que eu estava.
— O quê? Cara, foi uma pergunta daquelas que, geralmente, não estão certas.
— “Geralmente” não é sempre, é? — disse, e ele me olhou por alguns segundos, antes de sorrir também, animado.
— Legal! O que é? Não, não, não, não! Espera! Eu já sei! — Então, ele deu uma pausa para fazer suspense, mas, no momento em que abriu um sorriso, digamos assim... Estranho para o meu lado, comecei a rir.
— Eu não vou a um clube de strip com você! — eu disse, arrancando, na hora, o sorriso da cara dele.
— Qual é, ?! Por que não?
— Eu já cometi esse erro uma vez, Joe. Não vai acontecer de novo. Você só me fez passar vergonha.
Ele bufou.
Tudo o que você precisa saber sobre o que aconteceu é que, no final da noite, nós fomos expulsos do lugar com caras gigantes nos carregando e tudo; considerando que nós dois não éramos exatamente pequenos, acredite, eles eram assustadores. Foi horrível!
— Meu aniversário tá quase aí, cara. Não precisa nem me dar presente! — ele sugeriu, ainda na expectativa.
— Não — disse simplesmente, e ele abaixou os ombros, parecendo desistir; por enquanto, pelo menos.
— Tá, tá. O que foi?
— Você acha que sua irmã ainda tem as coisas que ela usou para aquele teatro no ano passado? — perguntei, e ele me encarou confuso.
— Talvez... Por quê?
Sorri.
— Tô pensando em dar um susto na — respondi, e ele riu.
— Tá brincando, né? — perguntou incrédulo. Neguei com a cabeça. — O que aconteceu com o plano de não lutar de volta e deixá-la louca?
Suspirei, balançando os ombros.
— Não funcionou tão bem quanto pensei que funcionaria. Vou tentar outra estratégia.
Ele riu de novo, me dando um tapa no ombro.
— O vai ajudar também?
— É claro que não. Ele nunca me ajudaria a pregar uma peça na . Ele só vai saber disso depois de ter acontecido, então segura a língua! — mandei, sabendo que o Joe podia falar muito às vezes.
Ele deu um sorriso tranquilo.
— Pode deixar comigo. Mal posso esperar!

’s POV

Era seguro dizer que eu nunca havia tido uma dor de cabeça tão forte na minha vida. Por isso, fiquei deitada, de olhos bem fechados, sem mexer um músculo sequer por uns bons 20 minutos, depois de acordar, e repassando a noite passada, que, infelizmente, eu me lembrava de cada detalhe: a minha trégua momentânea; o momento em que eu pensei que seria uma boa ideia beber mais que o dobro do que estava acostumada por causa de um ciúme idiota e... Ah! Aquele momento em que eu decidi descontar toda a minha raiva e frustação no cara que havia me ajudado a chegar à minha casa sã e salva. Eu disse as piores coisas a ele exatamente quando eu deveria simplesmente calar a boca. Porque é isso que as pessoas fazem: elas não ofendem e humilham quem acabou de ajudá-las. Não importa quanto ódio há ali, o quanto pensem que o outro mereça aquelas palavras pelo que fez, não é só falta de educação, é crueldade.
Eu não presto.
Não que isso seja novidade para alguém, mas, enfim.
Eu ouvia aquele barulhinho irritante das teclas de celular, e só isso já me dizia que estava no quarto. Ela era a única pessoa que eu conhecia que não tirava aqueles sons do inferno.
Estava virada para a parede, então abri os olhos e troquei de lado, encontrando-a sentada na ponta da sua cama com os olhos vidrados em algo que ela digitava. Ela abriu um sorriso caloroso, sem nem mesmo me olhar.
— Bom dia, Bela Adormecida! — disse, parando de digitar, mas ainda olhando para a tela do celular. — Pensei que dormiria o dia inteiro.
— Bom dia! — disse com a voz rouca; bem mais rouca que o normal, na verdade. — Que horas são? — perguntei.
— Meio-dia e... — ela estava falando quando tirou os olhos do celular e os colocou em mim, e simplesmente parou. — O que aconteceu? — perguntou, largando imediatamente o celular. Em um segundo, estava ajoelhada no chão, ao lado da minha cama.
— Nada... — eu respondi meio assustada com a preocupação repentina.
... — ela disse, me olhando com... Pena? Dó? Era um olhar bem parecido com os que eu recebi constantemente depois de descobrir a traição do .
— O quê? — questionei.
Ela não podia simplesmente ter adivinhado que algo ruim tinha acontecido, só olhando para o meu rosto. Nem era tão boa assim.
— Você tá com a cara de quem foi dormir chorando — disse suavemente, estendendo a mão para tocar a parte de baixo dos meus olhos. Parecia que ela podia, sim, adivinhar. Suspirei meio frustrada. Não era para ninguém saber daquele momento de fraqueza. Ninguém. Nem mesmo a . — O que aconteceu? — perguntou novamente.
— Eu... — comecei a falar, mas não sabia bem o que falar. Nem queria. — Hum... É que... Quer dizer... Não... Não foi nada! — disse, por fim.
— Não parece que não foi nada.
— Mas não foi — repeti. — Sério.
Ganhei dela um olhar decepcionado que me fez sentir mais mal do que eu já me sentia, mas falar a ela o que tinha acontecido seria dizer que eu chorei de novo por causa do , mesmo que, desta vez, a culpa fosse minha, e eu não podia admitir aquilo. É claro que ela perguntaria a ele, de qualquer maneira, mas eu esperava que ele tivesse um pouquinho de orgulho e não contasse. Eu sabia que escolher não contar a ela a magoava, mas não dava para agir o tempo todo como se um ano não tivesse passado. Um ano nos vendo uma, talvez, duas vezes por mês. Um ano em que muita coisa mudou na nossa vida. Eu ainda a amava mais que tudo e sempre amaria, mas tinha uma distância ali que não desapareceria do nada, por mais que a gente gostasse de fingir que sim.
— Tudo bem — ela disse, depois de suspirar levemente e, então, forçou um sorriso. — Levanta, dá um jeito nesse rosto, se quiser evitar um interrogatório lá embaixo, e desce, porque nós vamos almoçar todas juntas, hoje, tá bom? Vou segurar as garotas lá na sala para elas não subirem.
Assenti.
— Obrigada. — Sorri, agradecida, e ela se retirou.
Suspirei. Você pensa que, depois de magoar tantas pessoas em uma só vida, eu saberia lidar melhor com o sentimento ruim que vem logo após, mas não funciona bem assim. De qualquer maneira, é mais fácil.
Enrolei por mais alguns minutos, antes de jogar o edredom para o lado de vez e me levantar. Escovei os dentes, penteei meu cabelo, que estava um caos, fiz aquela coisinha, também conhecida como xixi, que as pessoas geralmente não contam, mas por que não, não é? E, então, chegou a pior parte: minha cara. A parte de baixo do meu olho estava completamente inchada, e a de cima também, mas só um pouco; sem mencionar as olheiras gigantes, só me fazendo parecer mais pálida do que eu já era.
Abusei mais do corretivo e da base que em toda a minha vida, o que, considerando ser um sábado de manhã (quase tarde), era ruim. O blush também foi levemente abusado e, no final, eu continuava um desastre. Mas um desastre que havia bebido até não se aguentar na noite anterior e não um que havia chorado até dormir. Vamos combinar que a primeira opção é muito mais digna.
Na escada, eu já ouvia o barulho lá embaixo; parecia que a casa inteira estava reunida e até parecia divertido. Uma parte das garotas estava na sala, e a outra, na cozinha, todas rindo e conversando em um clima amigável. Dei bom dia às meninas na sala, antes de seguir para a cozinha, onde avistei , April, Mina, Lauren, Lucy e mais várias. Não dava para listar todo mundo.
— Bom dia, flor do dia! — April disse, sorrindo para mim.
— Ih! Essa flor tá morrendo, hein? Tá a cara da ressaca. — Mina comentou, me fazendo rir.
— Muito obrigada, Mina.
— Vocês estavam na festa dos caras da Zeta ontem? Não vi vocês. — Lauren disse, e Mina negou.
— A gente foi ao Nando’s, mas, olha, teve muita bebida, dança e desmaio, tudo o que uma boa festa tem. — Mina respondeu.
— Pelas condições em que eu encontrei a , aqui, ontem, diria que foi ela quem desmaiou. — A voz da Nikki soou de repente e, só então, percebi que ela estava ali também, de costas, cortando alguma coisa na pia, e era uma das responsáveis pelo almoço, junto com a Natasha e a Suzy.
— Encontrou-a aqui? Eu vou matar o ! Ele simplesmente te largou aqui embaixo? — se manifestou, parecendo bem brava.
— Ah, não, ele estava aqui também, . Mas, pelo que ouvi, me pareceu uma boa ideia dispensá-lo e ajudar a . — Nikki tagarelou, fazendo me lançar na hora um olhar desconfiado.
Dei um sorriso nervoso a ela.
— O que você ouviu? — ela perguntou.
Engraçado como, naquele momento, nenhuma piadinha saiu pela boca da Mina, e as garotas decidiram ficar quietinhas para ouvir.
— Ah, eu só peguei umas frases aleatórias, mas vocês estavam brigando, não é? — Nikki perguntou, virando-se para mim.
Bati minha mão contra meu rosto, frustrada. Quem precisava do para me dedurar se eu tinha a Nikki?
— Não foi nada. Eu te disse, ontem, que a gente briga o tempo todo... — tentei justificar, mas o estrago já estava feito.
A dó que ela estava sentindo de mim por ter chorado já parecia ter passado, e ela me olhava com uma mistura de raiva e curiosidade.
— Eu não acredito, . Você prometeu que daria uma trégua ontem. — disse, e eu encolhi os ombros.
— O que eu posso fazer? Ele me irrita. — E eu tentava irritá-lo também. Só não parecia estar funcionando tão bem quanto eu gostaria, mas sou persistente.
— Ele estava te ajudando! — ela exclamou.
Uma bronca na frente de todo mundo... Que ótimo. Porque aquilo era tudo o que eu precisava naquele momento.
— E eu estava bêbada! Dá um desconto, vai! — Ela não respondeu, só me lançou um último olhar bravo, antes de balançar a cabeça e deixar o assunto. — E, então, o que a gente vai comer? — perguntei a Nikki.
Minha barriga doía de fome.
Strogonoff. Você gosta?
— Não muito... Só é uma das minhas comidas preferidas — respondi, e ela riu.
— Experimenta o meu e vai passar a ser A preferida.
Sorri, animada.
Eu amava comer. Sério! Não pense que tenho algum problema alimentar só porque quase não comi no dia anterior. Eu simplesmente esqueci. Não acontece com muita frequência, mas quando você tem duas páginas inteiras de exercícios de Geometria e está louca para resolvê-los logo, com medo de se esquecer de repente do que aprendeu na aula daquele dia, acredite, você esquece.
Logo Mina voltou a falar sobre o jogo que teria mais tarde; aparentemente, o assunto antes que eu chegasse, e fui pegar alguma coisa para beliscar quando vi que a comida não sairia tão cedo, e água, muita água. Em um momento, simplesmente fiquei com a garrafa, o que foi engraçado porque sempre achei estranho ver meus amigos se matarem de beber água quando estão de ressaca.
...Agora, a gente tá chegando à cozinha e eu tenho um pessoal aqui para apresentar a vocês.
É sempre estranho quando uma pessoa entra no cômodo, falando com uma câmera. Quando ela vira essa câmera para você, e você está no pior estado da sua vida, é assustador. Mas quando você percebe que a pessoa é alguém que você não vai muito com a cara é apavorante.
Era a tal garota que havia sido uma vaca com a Mina no dia da reunião, e eu não sabia o nome, mas, durante a semana, descobri ser Ashley, a famosinha da casa, estrela do YouTube. Aparentemente, as duas não se bicavam há um bom tempo.
Virei a cara o mais rápido possível quando ela virou a câmera, não querendo nem um pouco ver meu estado deplorável na internet para o mundo inteiro.
— Não vira! — Ashley reclamou. — O que vão pensar quando verem alguém virando a cara desse jeito?
— Que alguém não quer estar no seu vídeo? — respondi, apesar de ter soado como uma pergunta. Na boa, em qualquer outra hora, eu não daria a mínima, ela poderia me filmar quando bem entendesse, mas não hoje, com essa cara. Até eu tinha um limite.
— Para de frescura porque eu ainda tenho que entrevistar você.
— Que? — Virei-me para ela, rindo.
Ela parou por um momento, me encarando.
— Hum... Na verdade, deixa pra lá. Não acho legal uma garota se matar de beber, resultando nessa sua cara aí, então prefiro não passar isso para os meus viewers — ela disse, apontando o dedo dela para mim enquanto falava.
Eu poderia quebrar aquele dedo em dois segundos.
— Como é que é? — exclamei, me levantando, puta da vida.
, fica quietinha aí! — Nikki me repreendeu. — E, Ash, por favor, não venha arrumar briga hoje! Ela não quer aparecer e pronto, não precisa ofendê-la por causa disso.
— Ela não me ofende — eu disse, voltando a me sentar e lançando um sorriso sínico para ela. — Já ouviu falar naquele ditado “o que vem de baixo não me atinge”? Então...
Ela fez uma careta para mim.
— Tanto faz — disse. — April, posso te entrevistar?
Engraçado que, para a April, ela pedia permissão. Talvez porque a April não tenha jogado panfletos para todo lado em cima dela, mas, ainda assim, uma baita falta de profissionalismo.
— E-eu?! — April perguntou surpresa.
— Sim, eu tô entrevistando todas as calouras. É coisa rápida, garanto.
— Ah, eu não sei, não...
— Vai, April! É divertido! Você se sente toda famosa! — a incentivou.
Ela pensou por mais uns minutos, mas, no final, respirou fundo e foi, seguindo a Ashley em direção à sala.
— Por que eu odeio essa garota? — perguntei, não esperando nenhuma resposta, mas Mina se pronunciou na hora.
— Porque ela se acha só por ter um canal com mais de 200 mil inscritos.
— Porque ela acha que o fato de ter um canal com mais de 200 mil inscritos deve dar vantagens aqui ou em qualquer outro lugar que ela vá. — Lauren respondeu também.
— Porque ela acha que o fato de ter um canal com mais de 200 mil inscritos dá a ela o direito de julgar quem ela quiser, quando ela quiser, já que ela é a rainha da razão. — Lucy disse também.
— Que tal “porque você viu uma briguinha besta entre ela e a Mina, e já concluiu que ela é a pior pessoa do mundo”? — se intrometeu.
Fingi pensar por uns segundos.
— Não, não é isso, são os outros motivos, mesmo.
Ela revirou os olhos.
— Ela não é tão ruim... Você só tem que aprender a lidar com ela. — Nikki disse.
— Exatamente. O que me lembra de alguém... — voltou a falar, claramente se referindo a mim, já que ela erguia uma sobrancelha, olhando na minha cara.
— Ei! Eu posso ser difícil de lidar, mas não me acho melhor que ninguém! — defendi-me, mas riu perto de mim.
, por favor. Não vou nem perder meu tempo dizendo quando, mas você pode ser igualzinha a ela em vários momentos. Você só prefere não ver.
— Okay. Eu vou ter que concordar com a . — Lauren disse, me olhando com um olhar que parecia até pedir desculpa.
— O que...?
— Tá legal, eu vou falar. — me interrompeu. — Você não perde uma oportunidade para atacar o , assim como a Ashley não perde uma oportunidade para atacar a Mina. Você julga o que não conhece, o que todo mundo faz, então... O que mais? Ah, você gosta das coisas feitas exatamente do seu jeito, como eu gosto das coisas do meu jeito também. Tá vendo? Ela não é um monstro.
Suspirei e encolhi os ombros, me dando por vencida, porque eu estava com preguiça demais para me defender neste momento.
— Tá, mãe. Agora, deixe-me.
Mas eu ainda não gostava dela, que fique bem claro! Eu sei, eu sei, a briga era entre ela e a Mina, e eu não deveria comprar a briga dos outros, mas o fato de que a Mina estava quieta, com “cara fechada”, me dizia que, talvez, não fosse uma briga qualquer. E eu, no lugar dela, não gostaria nada de ouvir minhas amigas defenderem minha inimiga. O dia de ontem que o diga! Além do mais, eu já havia comprado aquela briga há uma semana... Vou fazer o que? Existem coisas que não podem ser desfeitas.
— Pois eu acho uma ofensa vocês compararem a com a Ashley. Elas podem ter coisas em comum, mas isso não muda o fato de que, no final, a é legal, e a Ashley é chata, metida e só pensa em si. — Mina voltou a falar, e eu a olhei, surpresa, porque nunca havia ouvido sua voz em um tom tão rude.
Na verdade, eu nunca havia ouvido a voz dela nem em um tom levemente rude. Ela estava sempre feliz.
— Tá legal. Para quem não gosta da Ashley, vocês estão perdendo muito tempo falando sobre ela, não acham? — Suzy se pronunciou pela primeira vez, e todo mundo acabou concordando. — A comida está pronta. Vamos! Deixem isso pra lá!
Com prazer, eu não só deixei aquilo para lá como tive a honra de ser a primeira a pegar comida.

Depois de comer e conversar mais um pouco com as garotas, a única coisa em que eu conseguia pensar era na minha cama. E foi para ela que eu fui. Acabei dormindo quase a tarde inteira e teria dormido mais se não fosse pela me acordando para ir ao jogo. Felizmente, quando acordei, meu rosto já não estava mais inchado, eu só tinha cara de sono, mesmo, que foi embora com um banho quente.
Você pensaria que o local do jogo seria pertinho; ali, ao redor da universidade, mesmo, mas se engana. Decidiram que seria uma boa ideia construir o estádio da UCLA a mais de meia hora de distância da UCLA. Maravilha. Felizmente, uma de nós tinha carro: a . Carro esse que quase nunca era usado, mas era importante em horas como esta.
— Eu senti falta disso — eu disse quando nos sentamos na arquibancada, sentindo o vento jogar meu cabelo para todo lado.
— Você parou de ir aos jogos? — perguntou, me olhando de lado.
— Eu ia, no começo, mas não era tão divertido sem o jogando, então parei — respondi.
A realidade é que o único motivo de eu ir aos jogos era para torcer pelo ; consequentemente, eu acabava torcendo para o time da escola, mas só quando ele deixou o time foi que percebi que não estava nem aí para o time sem ele. No geral, eu não estava nem aí para nenhum time. Eu odiava futebol, o americano ou qualquer outro. No máximo, numa Copa, ou algo assim, eu assistia a uns pedaços dos jogos da seleção, mas quase nunca. Eu gostava de torcer para o meu amigo e vê-lo jogar bem, apenas.
Algumas das garotas que estavam na cozinha, hoje, mais cedo, estavam ali, também, para ver o jogo. Eu tinha April e ao meu lado, e estava rezando secretamente para que não aparecesse, ou, se aparecesse, sentasse longe o suficiente, isto é, nas arquibancadas do outro lado do campo.
— Que horas começa? — April perguntou, olhando ao redor com curiosidade.
Ela também nunca havia ido a um jogo de futebol. De acordo com ela, “tinha gente demais para o meu gosto!”.
Olhei a hora no meu celular. Era 4h38 p.m.
— Daqui a uns 20 minutos — eu respondi. — Não tem jeito de eu ver o , antes de começar, né? — perguntei a , e ela balançou a cabeça, negando.
— Por quê?
— Queria desejar boa sorte. Não deu pra fazer isso ontem — respondi, ganhando um sorriso dela.
— Por que você não diz coisas fofas assim com mais frequência, hein? — ela perguntou, me dando um leve empurrão pelo ombro.
— Bom, eu diria, se você não fizesse uma cerimônia toda vez... — disse, e ela revirou os olhos.
Eu fiquei ocupada, mexendo no meu celular, enquanto o jogo não começava. Algumas das garotas seguiam meu exemplo, como a e a Lucy. As outras conversavam entre si, menos a April, que estava quieta, só observando cada detalhe do lugar. Conforme enchia, eu a sentia ficar mais tensa ao meu lado.
Faltando alguns minutos para o começo do jogo, senti duas mãos em meus ombros. Olhei para trás e encontrei com e mais dois caras que eu não conhecia. Eles se sentaram atrás de nós.
— Achei que não vinha mais — eu disse, dando um beijo na bochecha dele.
Ele cumprimentou a , a April e deu um “oi” rápido às outras garotas, antes de me responder:
— Não perderia por nada. Tá melhor?
não olhou na minha cara; nem uma olhada rápida, assim, para ver se era eu, nada. Não que eu me importasse. Era bom ele não ter olhado, porque, desta forma, eu não teria a obrigação de pensar em alguma expressão para olhar para ele também. Eu não queria que ele usasse palavras rudes ou algo assim só para que eu me sentisse melhor por ter explodido com ele na noite anterior.
De jeito nenhum.
— Pronta pra outra?
Então eu olhei para os dois caras, junto com eles, com aquela cara de interrogação, até que se tocou.
— Ah! Este aqui é o James, e este é o Joe! — disse, apresentando, primeiro, um loiro ao seu lado e, depois, outro moreno ao lado do .
— Oi! — eu disse, lançando um sorriso rápido para eles.
Eu odiava apresentações, pois eram sempre estranhas, mas é melhor passar por este momento estranho que ficar horas ao lado de quem você nem sabe o nome.
— Prazer, James. — disse. — Você, eu já conheço. Você é chato! — falou, então, ao tal Joe, que abriu um sorriso gigante e a abraçou de costas.
— Também te amo, ursinha.
Isso fazia do James um calouro da Lambda, como o . Mas, espera... Ursinha? Olhei para os dois, que se abraçavam, sem saber se ficava chocada ou se ria. Ursinha? Sério?
— É... Ursinha? — repeti, desta vez, em voz alta.
Joe se virou para mim, ainda com um sorriso.
— É claro. Olha essas bochechas e esse rostinho! — ele explicou, pegando o rosto da e virando para mim. — Não é fofo? Como um ursinho.
Ri, olhando para a cara de tédio dela, que revirou os olhos e deu um tapa na mão dele.
— Feche-se, Joe.
Ele responderia, mas a entrada das líderes de torcida chamou sua atenção. Elas apareceram, junto com o mascote do time, um urso, correndo em seus uniformes azuis, e pararam de frente para a arquibancada. Reconheci cerca de seis delas como Kappas; inclusive, a Nikki, que não só era a Barbie em pessoa, mas também era líder de torcida. A agenda daquela garota era inacreditável.
Elas começaram sua rotina, balançando os pompons para cá, gritando para lá, subindo uma na outra, fazendo pirâmide e aquele negócio todo de líderes de torcida, e eu fiquei distraída, olhando. havia sido uma no colégio por um tempo, mas logo saiu. Eu nunca havia nem tentado, porque, sejamos sinceros, eu até tinha um rebolado maneiro, mas não dê-me uma coreografia porque, eventualmente, vou arruinar o negócio todo.
O sinal de que o jogo estava para começar foi a entrada da banda da UCLA. Eles se arrumaram perfeitamente no campo com seus instrumentos, como pequenos soldadinhos, e era até engraçado. Um vídeo começou no telão, com cenas do time em seus melhores momentos e algumas cenas computadorizadas de um urso feroz, que, como eu já disse, era o mascote da universidade. Começou, então, a passar no telão a imagem de uma porta onde estava escrito “UCLA football”, e logo ela foi aberta e os jogadores apareceram. Todo o caminho feito por eles, até o campo, foi transmitido por lá. Quando apareceram lá embaixo, o público inteiro já estava de pé, animado. Eles pararam por um momento na entrada e foi só uma questão de segundos até os líderes de torcida se juntarem a eles para, então, começarem a correr pelo campo, e a banda finalmente começar a tocar. Os líderes de torcida carregavam bandeiras com letras que formavam “UCLA”, as líderes de torcida pulavam, animando o público, havia jogadores de azul e amarelo para todo o lado, e foi uma baita correria até todos estarem de volta ao seu lugar. A arquibancada, em êxtase, gritava, cantava e até comemorava, como se o jogo já estivesse ganho.
Foi, mais ou menos, nesta hora que senti April segurar meu braço, então olhei para ela, que, agora, sim, parecia assustada. Eram muitas pessoas, muito barulho e muito movimento, e a pobrezinha parecia apavorada. Peguei a mão dela e apertei, tentando passar segurança, porque não tinha muito mais o que fazer, naquele momento, e ela me lançou um sorriso nervoso.
Quando voltei minha atenção ao campo, procurei , mas era quase impossível reconhecê-lo no meio daquele tanto de brutamontes com capacetes. Só consegui vê-lo com a ajuda da , que o reconheceu pelo número do uniforme.
Não demorou muito mais para o jogo começar. O outro time entrou, e a empolgação das pessoas foi mínima, mas fazia parte de não estar jogando em casa. O público era quase que totalmente de torcedores do UCLA Bruins.
E aí, começou este negócio: caras correndo para lá e para cá; bola sendo arremessada; caras se trombando, pulando em cima do amiguinho, derrubando, você sabe. Eu sei que já viu nos filmes, pois é clássico. Eu gostaria de falar, aqui, exatamente tudo que acontecia, mas meus conhecimentos futebolísticos eram bem básicos; tão básicos que, basicamente, tudo o que eu fazia era assistir os caras jogando a bola, um para o outro, e comemorar quando havia um touchdown ou alguém fazia um gol. Ah, e eu também adorava gritar xingamentos quando alguém derrubava um jogador do meu time. Era divertido.
jogou tão bem quanto eu me lembrava. Não só bem, maravilhosamente bem, já que ele fez dois touchdowns e, nesses momentos, talvez, eu tenha assustado a April mais um pouquinho. O importante é que, quase 4 horas depois, nós estávamos saindo do estádio com uma vitória e alguns com menos voz que quando entraram.
— Eu, definitivamente, senti falta disso — eu disse novamente.
colocou um braço ao meu redor.
— E eu senti falta dos seus gritos — disse, me fazendo rir.
Eu era uma das que saíam com menos voz.
— E eu acho que perdi um pouco da minha audição. — April falou, cutucando o ouvido, e nós rimos novamente.
Eu não sabia dizer se ela gostaria de repetir aquela experiência.
— A gente tem que parar com essa mania de combinar com a fala da outra. — Lucy reclamou.
Nós realmente fazíamos aquilo bastante. Mas eu gostava.
— Gosto dela. Não sei se consigo. — Ouvi Joe falar, parecendo lamentar ou algo do tipo, e, por reflexo, eu e viramos para trás, bem a tempo de ver dando uma cotovelada nada fraca no amigo.
— Tá tudo bem aí? — perguntou, e abriu um sorriso para ela.
— Tá, é só o Joe falando besteira de novo... Você conhece a figura.
pareceu bem convencida com a resposta e virou para frente novamente. Eu o encarei por uns segundos extras, o que acabou me rendendo um sorriso da parte dele, e aí, sim, decidi que era melhor me virar para frente. Eu, hein!
Quando chegamos ao carro, o destrancou e, em questão de segundos, eu já estava sentada no banco da frente com as pernas para fora. Eu estava cansada. Definitivamente, nunca mais beberia daquele jeito na minha vida. Não valia a pena. Lauren seguiu meu exemplo, enquanto os outros ficaram de pé, incluindo , e os dois amigos. Eu estava fazendo um ótimo trabalho, ignorando o , inclusive. E era difícil, considerando o tanto de besteira que eu havia o escutado comentar durante o jogo, então eu merecia uns parabéns, ou, talvez, não, pois sabia que aquilo não duraria muito. Eu não aguentava. Sem falar que parar de provocá-lo significaria ir contra minhas palavras da noite anterior, então não rolaria mesmo. Eu só precisava de um tempinho para respirar. Provavelmente, ele estava pensando que, agora, tudo ficaria bem, mas ele que se enganasse.
— Vieram no carro do Joe? — perguntou, e ambos, e Joe, assentiram.
encostou-se à porta aberta do carro, parecendo entediado. Futebol não era a praia dele. Digamos que ele não ficou nem um pouco triste quando eu disse que não iria mais aos jogos. Ele só ia pela companhia, como eu só ia pelo . A diferença é que eu ainda conseguia aproveitar um jogo. Ele não dava a mínima.
— Será que o vai demorar? — perguntou.
— Uns 20 minutos, pelo menos. Devem estar comemorando a vitória. — respondeu, mais uma vez, porque, aparentemente, ele não conseguia ficar com a boca fechada.
E ainda tinham coragem de reclamar de mim.
Todo mundo gemeu em desânimo.
Eu poderia ir embora com as garotas, já que a carona dele eram os caras, mas eu realmente queria dar parabéns pelo jogo. E, tá, poderia facilmente fazer isso depois, mas não teria tanta magia. E magia era importante.
Por isso, nós esperamos. Eventualmente, a galera se envolveu em algum assunto, mas eu não sabia dizer qual porque minha cabeça estava muito bem encostada ao banco e meus olhos muito bem fechados. Eu me lembrava de estar pensando nas melhores jogadas do jogo e, então, ouvir alguém dizer “olha lá ele!”, que foi o que me fez abrir os olhos novamente. Eu realmente havia cochilado, depois de dormir a tarde inteira.
Repito mais uma vez: nunca mais vou beber na minha vida.
Eu o vi aproximando-se, enquanto o pessoal já gritava umas coisas para ele. Quando ele chegou mais perto, eu me levantei em um pulo e corri, pulando em cima dele.
— Parabéns! Você arrasou! — eu disse, apertando-o com toda a força que tinha, o que devia ser algo próximo a nada em comparação a dele.
— Obrigado, ! — ele disse, me abraçando de volta, com um sorrisão no rosto.
Aproveitei e segurei seu queixo, puxando seu rosto para mim e dando um beijo na sua bochecha.
Foi estranho. Não o beijo na bochecha dele. Quando eu estava me afastando, meu olhar automaticamente desviou para o lado em que todo mundo estava, passando pelo , e, naquele milésimo de segundo, vi uma coisa nos olhos dele: mágoa, talvez. Inveja? Ciúme? Eu não saberia dizer, pois foi rápido, mas estava lá, por menos de um segundo. E aquilo me desconsertou por um momento. Felizmente, neste momento, todos estavam distraídos, tendo sua vez de comemoração com o . E, então, eu obriguei aquele momento a acabar porque eu me recusava a aceitar o fato de que, por causa de algo pequeno assim, meu coração tenha disparado.
Sai, sai, sai, sai, sai, sai, sai!
Até porque estava claro, para mim, que o único motivo para o meu coração estar disparado era a alegria de ver o . Não um olhar idiota. E ele nem tinha o direito de me lançar um olhar daqueles. Era ridículo.
Bom... Pensando por outro lado, era até legal. Eu estava esfregando na cara dele o que ele tinha perdido. E eu nunca tinha pensado em fazer aquilo antes. Ainda era ridículo ele ficar com ciúme de uma ceninha com o , porque, dã, era o . Mas eu sempre podia relevar e olhar o lado bom da coisa:
Perdeu, otário!
Tá legal. Agora, o momento acabou de verdade, juro.
— E aí? Onde a gente vai comemorar? — perguntou quando toda a euforia passou.
fez uma careta.
— Hoje não dá, pessoal. Eu tô acabado. Sair ontem com vocês não foi a melhor ideia do mundo.
— E, ainda assim, fez dois touchdowns. Alguém estava on fire hoje... — eu disse, nem um pouco decepcionada com a notícia.
Eu não estava no melhor dos meus dias. A melhor coisa que eu poderia fazer era ir para casa e tentar estudar um pouco; assim, para acabar com o dia de vez.
— E, agora, alguém precisa de uma boa noite de sono porque... Adivinha? Amanhã tem treino. Em pleno domingo! — reclamou desanimado.
aproximou-se dele com um sorriso no rosto.
— Eu estou tão feliz por não ser você, neste momento.
Ele riu, puxando-a num abraço de lado.
— Chata.
— Então vamos lá! Vamos, vamos! e eu temos muito o que fazer, hoje, ainda. — Joe falou, quase pulando no mesmo lugar.
Algo me dizia que ele era levemente hiperativo.
— Ah, é? — perguntou. — Nem chamam.
soltou uma risada que me pareceu bem forçada e balançou a cabeça.
— O que nós temos para fazer é treino. Não acho que vocês gostariam muito... — ele justificou.
— Vocês já não tiveram treino, hoje, pela manhã? — questionou, e eu juro que pude ver engolir em seco.
— Bem... Sim, mas, você sabe, nós acabamos de voltar das férias... O treinador quer compensar pelo tempo perdido.
Ele estava mentindo. Estava bem claro, para mim, mas, aparentemente, não para os outros, que aceitaram, na hora, que ele tinha um treino em pleno sábado às 21h00 da noite. Eu poderia desmascará-lo, mas, aí, iria contra minhas regras de deixá-lo em paz, pelo menos, naquele dia, então deixei quieto. Se ele tinha que mentir sobre o que fazia era porque não era bom, então eu não estava nem um pouco a fim de saber.
— Tá legal. Vamos lá, então. — disse, por fim.
Depois de uma rodada de despedidas, eu e as garotas entramos no carro, e eles foram ao deles, e, então, eu estava indo para casa, onde estava minha cama e uma porrada de textos para ler me esperavam.

Um barulho desconhecido me fez abrir os olhos. Eu estava dormindo? Bom, aparentemente, sim, já que os textos que eu me lembrava de estar lendo estavam, agora, jogados sobre mim. Eu sabia que ler deitada não era a melhor das ideias.
Olhei ao redor, mas não consegui ver nada porque o quarto estava um verdadeiro breu, não vinha nada de luz de lugar algum, o que era estranho. Eu só morava ali há uma semana, mas tinha certeza que, mesmo com a janela fechada, um pouquinho de luz entrava. Juntei os papéis em cima de mim e os coloquei na cabeceira ao lado da cama. Voltei a fechar os olhos, com sono demais para pensar na falta de luz.
Foi quando eu ouvi outro barulho.
Desta vez, meu coração disparou porque não era um barulho qualquer, era o barulho de um passo, e estava perto demais. Mais uma vez, tentei enxergar alguma coisa. Sem sucesso. Eu já mencionei que era medrosa? Pois bem, eu era.
?! — chamei paralisada na mesma posição.
Ela não respondeu.
Respirei fundo e contei até cinco. Estava tudo bem. Eu só tinha que parar de ser paranoica. Provavelmente, havia sido um barulho lá fora. Era sábado, nós vivíamos em um bairro que consistia, basicamente, em casas de irmandades e fraternidades, barulhos estranhos eram mais que comuns. E, também, a probabilidade de que tenha sido só alguma coisa da minha cabeça era bem grande.
, agora, você puxará o lençol, cobrirá sua cabeça, fechará os olhos e dormirá.
É isso. E foi o que fiz. No movimento mais rápido da minha vida, puxei o lençol e cobri minha cabeça. Estava tudo bem. “Assombração era coisa de filme”, minha mãe dizia. Eu já tinha 18 anos, já havia passado da hora de parar de acreditar nisso.
E eu estava quase acreditando, quando outro barulho fez cada pelinho que eu possuía no corpo se arrepiar. Era uma risada. Eu sei. Você deve estar achando que sou louca e, talvez, eu estivesse mesmo. Meu coração batia tão rápido que eu poderia muito bem estar alucinando. Até porque não era só uma risada comum. Era uma daquelas finas e exageradas que você ouve muito quando é criança porque seus pais insistem que palhaços são divertidos e a melhor opção para a sua festa de aniversário. Mas eles nunca são.
— O que foi isso? — Ouvi Mina perguntar na cama de cima da minha.
Eu não sei dizer se fiquei feliz ou triste. Feliz porque eu não estava louca ou triste porque era real. Eu não tinha sido a única a ouvir.
— Você ouviu? — sussurrei para ela. Minha voz saiu trêmula porque... Bem, eu estava me cagando de medo.
É de se esperar.
— Eu ouvi alguma coisa... Foi você?
Eu não precisei responder, porque, não mais que um segundo depois da pergunta dela, alguém riu de novo; desta vez, a risada foi mais fina e mais longa.
— Ai, meu Deus! — Ok, eu estava entrando em pânico. Cada músculo do meu corpo estava contraído e tinha uma grande chance de que eu fosse começar a chorar a qualquer momento agora. Chorar duas noites seguidas era “uó”, vamos combinar.
, o que foi isso? — Mina perguntou, mas sua voz quase não saía mais.
— Eu não sei — respondi, me encolhendo do melhor jeito que eu conseguia.
— April? ? Se forem vocês, isso não tem a mínima graça!
Mais uma vez, ninguém respondeu. Mas foi nesta hora que eu me toquei. É claro que a não responderia. Era ela quem estava causando aquilo tudo. Ela era a única, naquele quarto, que sabia que eu não gostava nada de palhaços. Estava tirando uma com a minha cara. Mas deixe-a.
— Ah, , você me paga! — eu disse, jogando o lençol longe.
— O que foi? — Mina questionou, mas eu nem me dei ao trabalho de responder, pois eu desmascararia a rapidinho.
Levantei-me da cama, pronta para ir até o interruptor de luz, mas só consegui dar dois passos. Meu corpo bateu de frente com outro e, no momento em que percebi que aquele não era um corpo feminino, minha garganta começou a trabalhar. No mesmo segundo, algo se acendeu na minha frente, só o suficiente para eu ver a cara da coisa que me dava pesadelos quando criança. Eu não sei nem descrever o terror. Eu sentia meu coração na garganta, tinha lágrima nos olhos e nem conseguia mais gritar. Minha garganta não funcionava. Em compensação, a da Mina estava a todo vapor. Joguei meu corpo para trás, só para ter a visão de outro monstro daqueles mais atrás. Eles tinham os sorrisos mais assustadores que eu havia visto na vida. E eu já havia visto um bom tanto.
Quando eu caí de volta na minha cama, em uma tentativa idiota de me proteger, me joguei contra a parede, peguei meu travesseiro e atirei na coisa, que havia, então, começado a rir; daquele jeitinho que me dava calafrios. E eu continuei me espremendo contra a parede, conforme ele se aproximava. Eu tinha certeza que estava chorando. Aquilo não estava acontecendo. Não, não, não, tinha que ser algum sonho, e logo eu acordaria com a me balançando preocupada. Logo, logo. De preferência, antes que aquele negócio me tocasse, porque ele estava muito perto; perto o suficiente para eu acertá-lo com socos e chutes, mas não conseguia mexer um músculo sequer. Era como se estivessem congelados.
E, então, a luz do quarto se acendeu. A risada assustadora virou uma gargalhada que eu conhecia muito bem e o desgraçado se jogou para o lado, caindo de costas, ao meu lado, na cama.
— Que merda é essa? — alguém perguntou. , provavelmente, porque reconheci a voz, mas não me virei para ter certeza. Eu ainda não conseguia mexer nada, só encarar com cara de idiota o ser fantasiado ao meu lado. — Mina? — Agora, a voz dela estava preocupada, o que me fez descongelar um pouco.
Virei a cabeça e a vi correndo em direção à minha cama, mas a de cima, onde Mina dormia. Foi quando percebi também um outro corpo também fantasiado na ponta, aproximando-se.
— Não! Sai, sai, sai! — Ouvi Mina dizer. Ela, definitivamente, estava chorando e não parecia ser pouco.
O imbecil ao meu lado, finalmente, parou de rir.
— Ei, Mina! Calma! Sou eu, o Joe! Calma!
E, então, eu voltei a mim.
Filho da puta.
Não, eu gostava demais da mãe dele.
Desgraçado.
Com toda a força que eu tinha, naquele momento, que não era muita, já que eu ainda estava meio trêmula, dei um soco no primeiro lugar que vi: o estômago do . Ele não teve tempo de se proteger, pois estava olhando para cima, curioso.
— VOCÊ FICOU LOUCO?! — gritei. — PERDEU A CABEÇA?!
Ele não me respondeu. Era difícil falar, depois de levar uma no estômago.
Limpei meu rosto, que descobri nem estar tão molhado assim, e me levantei correndo, indo acudir, também, a Mina. April havia se juntado a , e as duas estavam em cima da cama dela, tentando acalmá-la.
— Mina, tá tudo bem, é só o e o Joe. — April disse num tom suave. Todo tom dela era suave, mas esse batia recorde.
Eu gostaria daquela voz me acalmando a qualquer hora.
Mesmo assim, não parecia ter muito efeito na Mina. Ela abraçava seus próprios joelhos, e seu corpo inteiro tremia.
— Mina? — chamou, depois de se levantar e parar ao meu lado.
Ela ergueu levemente a cabeça, mas quando o viu, gemeu e se encolheu ainda mais.
— Tá vendo o que você fez? — disse, dando um tapa no braço dele.
— Ai! — reclamou. — Como que eu saberia que ela também tem medo de palhaço?
— Ela não tem medo, seu idiota! Ela tem fobia! — praticamente rugiu para o garoto.
Eu nunca havia a visto olhar para ele brava daquele jeito. Nem quando ele me traiu. Até eu fiquei com medo do olhar dela.
— O quê? Ela nunca me falou.
— Até porque isso é algo que se diz o tempo todo, né? “Oi! Meu nome é Mina. Tenta não invadir meu quarto, no meio da noite, fantasiado de palhaço, porque eu tenho fobia de palhaços” — zombei.
Ele fez uma careta para mim, o que me fez mostrar a língua para ele, o que o fez revirar os olhos e continuaria se o Joe não interrompesse:
— Hum... Agora seria uma boa hora para tirar essa roupa, né? — disse, já arrancando a peruca.
assentiu, e logo tudo o que restava neles era a maquiagem e a roupa que usavam por baixo, claro.
— Vão ao banheiro, agora, e só voltem com a cara limpa. Vocês não querem saber o que vai acontecer se tiverem qualquer resquício de palhaço em vocês. — mandou, e até eu fiquei tentada a obedecer de tão séria que ela estava.
Eles estavam prestes a abrir a porta quando ela se arreganhou e a Nikki apareceu acompanhada de, praticamente, metade da casa.
— O que...? — ela questionou quando viu e Joe com as caras pintadas.
— Temos que ir. — disse, na hora, parecendo apavorado com a visão da Nikki. Ele empurrou o Joe e os dois abriram caminho entre as garotas, porta a fora.
— O que aconteceu aqui? Eu ouvi gritos. — Nikki perguntou, aproximando-se. Ela viu, então, Mina encolhida na cama e ficou mais preocupada ainda. — Sério, meninas! O que aconteceu?
Enquanto e April faziam seu trabalho, acalmando a Mina, já que, agora, os seres que ela tinha medo não estavam mais presentes, expliquei o que aconteceu:
— Então foi isso. Eu não sei nem como eles conseguiram entrar... — terminei. Quando disse a última frase, ela ficou meio vermelha e cobriu os olhos com uma mão, balançando a cabeça para os lados.
— Eu vou matar esses dois.
— Ah, me desculpa, mas dá pra culpá-los? — Ashley se meteu.
— Como é que é? — perguntei incrédula.
— Você o deixou pelado na frente de todo mundo, sábado passado. Ele se vingou e de uma maneira bem menos cruel. Se parar pra pensar, a culpa da Mina estar assim é sua.
Eu posso dizer que minha boca ficou aberta por um bom tempo, em choque. Ela não podia estar falando sério.
— Isso é ridículo — uma voz nova falou. Era Tina o nome da garota, se eu não estava enganada. — A pode até ter provocado, mas quem assustou as duas foram o e o Joe, então a culpa é deles e pronto.
Sorri para ela, já simpatizando.
— Mas, se a não tivesse provocado, nada disso teria acontecido — outra, que eu não sabia o nome, falou.
Suspirei para me acalmar. A adrenalina ainda estava grande e a vontade de pular em alguém não era pouca.
— Que discussão besta. — Mina falou com sua voz visivelmente mais controlada. Em compensação, seu rosto estava inchado, e os olhos, completamente vermelhos. — Por que esse monte de gente aqui, hein? O show acabou. Cada uma pode voltar ao seu quarto. — Alguém não estava de bom humor. Mesmo assim, ninguém se mexeu, ficaram encarando-a. — Qual é, galera?! Mandem-se! Eu tô bem! Dois palhaços não me derrubam, não. Eu, hein.
Aí, sim, começaram, uma por uma, a sair. No final, ficaram só as habitantes do quarto e a Nikki, que ainda não parecia acreditar na história toda. Não entendi o porquê. era um idiota, que tentou se vingar de mim do jeito mais besta do mundo e acabou atingindo quem nem tinha nada a ver com a coisa. Fácil, fácil.
— Tem certeza de que está bem? — eu perguntei de pé na escada para subir na cama dela.
— Sim, absoluta. Cadê eles?
— No banheiro, tirando a maquiagem. — respondeu.
— E que maquiagem, hein?! Vocês viram como estava certinha? A gente tem que dar uns pontos por isso — ela disse, e eu tive certeza que ela estava bem agora. — Mas você ainda ganha mais pontos, .
Franzi o cenho, confusa.
— Pontos?
— É. Deixar um cara pelado em uma festa dá pontuação máxima, o 10. Invadir o quarto da garota, fantasiado de palhaço e, de bônus, assustar a amiga que tem fobia dá 7, eu acho.
Todas nós ficamos olhando para ela por um tempo, em silêncio. Perguntei-me se ela estava delirando, mas parecia bem lúcida.
— Você tem sérios problemas. — disse, afastando-se um pouco.
Considerando que elas estavam abraçadas, esse “pouco” só as desgrudava um pouquinho, quase nada.
Eu dei de ombros, enquanto a April ria.
— Se eu tô ganhando, tô feliz.
De repente, os garotos entraram pela porta e seguiram imediatamente para a cama da Mina. Os dois começaram a pedir desculpa e a se justificar ao mesmo tempo. Eu não entendia nada, e ela, provavelmente, também não.
— Vocês são muito cara de paus, mesmo. Fazem o que fizeram e ainda acham que ela vai desculpar rápido assim. — reclamou, bufando de raiva.
— Tá tudo bem. Estão desculpados.
Como é?
Eu não fui a única surpresa porque, mais uma vez, todas nós a encarávamos confusas. Enquanto isso, ela sorria para eles, que comemoravam, subindo na cama e dando beijos no rosto dela.
Como é que é?
Eu estava decepcionada. Na land, a gente guarda rancor e a gente se vinga. Talvez eu tenha me precipitado, achando que havia acabado de arrumar uma parceira no crime e uma parceira no time. tinha arrumado o Joe, então mais que justo que eu arrumasse alguém também. E a Mina parecia ser o alguém perfeito.
— Fácil assim?! — eu perguntei, e minha voz até saiu aguda de tão indignada que eu estava.
— Sim. Foi uma boa vingança, eu tenho que admitir.
— Tá legal... Isso é estranho. — Nikki disse. — De qualquer maneira, vocês dois, pra fora! Eu vou ter uma conversinha com vocês lá embaixo.
Eles a bajularam mais um pouquinho e saíram; até tentaram se despedir de mim e da , mas os ignoramos. A April era boazinha demais para ignorar alguém, então eu relevei.
— Você tá falando sério?! — eu protestei assim que eles saíram com a Nikki pela porta.
Eu lutaria pela minha parceira.
— É claro que não, tá louca? — ela respondeu, tirando o sorrisinho do rosto. E lá estava eu, de novo, confusa, olhando para a cara dela. — Eu só fingi para eles pra aumentar a surpresa. Eles esperarão uma vingança sua, mas não minha.
Eu não acho que exista um sorriso maior que o meu, naquele momento.
— Eu sabia que você não me decepcionaria desse jeito — falei, subindo na cama dela e jogando meus braços ao seu redor.
e April já haviam sido obrigadas a se afastar minutos antes com o ataque dos garotos.
— Ah, não... — começou. — Vocês não podem estar realmente considerando continuar com isso.
— Estamos, sim — eu disse.
— Por quê? Você aprontou, ele aprontou, tá tudo igual. Deixa isso quieto.
— De jeito nenhum. — Mina disse.
— E nós estamos recrutando, aliás. April? — Virei-me para ela com um sorriso bem sugestivo no rosto.
Ela balançou a cabeça.
— Não, obrigada. Eu tô com a nessa. Não gosto de brigas.
— Tá tudo bem. Só nós duas juntas já fazemos um baita estrago. — Mina falou, e eu assenti, concordando 100%.
que me aguardasse!
E, falando nele, percebi que ainda não podia dar boa noite a ele. Por isso, eu disse um “já volto!” rápido às meninas e saí atrás deles.
— A gente conversa melhor amanhã. — Ouvi Nikki dizer quando cheguei ao topo da escadaria.
Desci a escada correndo, enquanto ela fechava a porta. Quando ela se virou para trás, eu estava passando por ela, deixando um sorriso de presente. Você pensa que eu estaria brava, neste momento, mas eu mal podia conter minha felicidade. Saí para fora, mesmo sabendo que eu não estava com o pijama mais indicado para uma volta. Joe e olharam para trás e pararam quando me viram, ambos com o olhar curioso.
— Então... É guerra? — perguntei, apoiando minhas costas à porta.
Tentei ficar séria e não sorrir, mas um sorriso fraco de lado acabou escapando.
aproximou-se um pouco com um sorriso bem parecido com o meu.
— Não era o que você queria? — perguntou de volta, e eu dei de ombros.
— O que eu quero é passar por cima de você, então... Sim. Porque nós dois sabemos quem vai ganhar essa.
Ele riu e balançou a cabeça.
— Ah, é? E o que te faz ter tanta certeza? — questionou, as sobrancelhas erguidas. Enquanto falava, aproximou-se um pouquinho mais.
— Eu te deixei nu na frente de umas 200 pessoas. Você se vestiu de palhaço para me dar um susto. Eu acho que isso responde sua pergunta.
— Com isso, você quis dizer: você jogou baixo, eu não — ele falou, aproximando-se mais um pouquinho, até que nossos corpos quase se tocavam, mas só quase.
Dei de ombros mais uma vez.
— Eu nunca disse que tinha regras. — E eu estava adorando aquela conversa.
— Eu posso te surpreender, sabe... — disse, me olhando nos olhos.
Eu sempre achei irritante como eu tinha que olhar para cima, para olhá-lo nos olhos, mas fazia parte.
— Eu tenho certeza que não — afirmei, e ele balançou a cabeça.
— Tá bom, então.
— Tá bom.
Mas os olhos dele não deixavam os meus. Não tinha mais sorrisos, nem caretas, só olhares. E a noção de que ele estava bem mais perto que devia. E um pouquinho de calor, eu admito. A Califórnia tem dessas coisas.
Acredite em mim, tão próxima de um cara como ele, qualquer uma fica com um pouquinho de calor. Eu não tinha problemas em admitir que ele tinha um puta de um corpo, um puta de um rosto e, de bônus, um olho azul que me fazia até perder o rumo às vezes. Não era à toa que havíamos namorado por mais de dois anos. Eu sempre tive um ótimo gosto. E eu sabia que tinha efeitos parecidos, se não, maiores, nele, o que deixava aquilo tudo mil vezes mais divertido.
Por um momento, meus olhos acabaram descendo para seus lábios, que estavam bem atraentes, e, então, me lembrei de como foi bom quando nos beijamos há exatamente uma semana. Não foi nem um pouco ruim.
— Hum... Desculpa interromper, mas vocês vão brigar ou se beijar? Porque eu preciso saber se fico ou não. — Joe se pronunciou, me lembrando de que ele também estava lá, mas decidi que, agora, sim, eu estava pronta para dar boa noite.
— Hoje não — respondi, abrindo um sorriso. — Boa noite.
Eu sabia que, se o beijasse, estragaria tudo. Ele viajaria na maionese, pensando que nós tínhamos alguma chance de acontecer novamente, e adeus guerra que eu queria demais vencer.
Não iria rolar.
Abri a porta para entrar e, quando a fechei, ainda estava paradinho na mesma posição em que eu o deixei.
Bom saber.



— Olá! Boa tarde! Boa tarde! Olá! Oi! Boa tarde! Boa tarde! Olá! Boa tarde! Com licença! A senhora pode...? Obrigada. Boa tarde!
Níveis de simpatia extremamente baixos e diminuindo.
Eu gostaria de ter uma armadura igual a do Homem de Ferro, só para ter noção do que estava acontecendo no meu corpo o tempo todo e para sair voando por aí também, obviamente. Na verdade, eu gostaria de ser Tony Stark. O cara é podre de rico, é um gênio e tem várias armaduras. Ah! Ele é um vingador, o que significa que passa o tempo com o Capitão América. Eu, provavelmente, seria gay. E com a Viúva Negra também, então bi.
— Terra chamando ! Alô?! Acorda, garota! — Falando em bi, Mina passava a mão na frente do meu rosto, e tenho a certeza de que ela estava pronta para me dar um peteleco quando foquei nela. — Tá dormindo?
Parecia que sim, já que eu estava parada no mesmo lugar, ainda com um monte de folhetos na mão, enquanto as pessoas passavam ao meu redor; pessoas estas a quem eu deveria estar entregando os panfletos.
— Acho que esse sol tá começando a queimar meu cérebro.
Eu não estava mentindo. Você poderia fritar um ovo rapidinho no topo da minha cabeça. Eu adoraria um ovo frito também, ou uma coca bem gelada; melhor, os dois.
— Vem! Vamos nos sentar um pouco! — Mina disse, me puxando para a árvore mais próxima.
Sentamo-nos na grama, mesmo, de frente para a fonte de água, que parecia estar me chamando para cair nela.
Veja bem, esta era a semana em que nós divulgávamos nosso projeto; aquele da , o de dar um trato nos animais de rua, para que sejam adotados, você sabe. Então , a chefona, nos separou em duplas e designou a cada dupla um lugar para entregar panfletos. Eu e Mina fomos premiadas, pelo menos, era o que pensávamos, com o campus principal. Aquele lugar lindo e aberto que usavam para promover a universidade. Sério! Joga “UCLA” no tio Google, vá às imagens e babe.
Enfim, nós ficamos felizes, pois o lugar era perto, e tudo mais. Isso até chegarmos lá e nos lembrarmos de um detalhe: não havia árvores naquele inferno! Ok. Até havia algumas aqui e ali, mas, basicamente, 70% era sol. E não um sol qualquer, mas o sol das 15h00 da tarde! E se você está pensando “por que não escolhem uma sombra e ficam lá?”, eu te respondo: as sombras são tão poucas que são os lugares em que o pessoal para pra conversar, sentar, ler, ouvir música, ou seja, o movimento só acontecia no sol. E eu estava há, pelo menos, uma hora sob aquele bendito sol. Agradeci a todos os deuses do mundo por eu ter colocado um vestido naquele dia, afinal, poderia ter colocado uma calça, como a Mina, e aí haveria uma chance de que, neste momento, eu não só estivesse jogada dentro daquela fonte, como também só com calcinha.
— Você acha que a ficará muito brava se eu guardar o resto destes panfletos para amanhã? — perguntei, encarando a pequena pilha de papéis que eu ainda tinha em mãos.
— Provavelmente. Ela tem mais 150 prontos para amanhã. — Mina respondeu, e eu encostei a cabeça à árvore atrás de mim e suspirei.
Não é como se eu já não esperasse aquilo, mas doía ouvir.
— É por uma boa causa. É por uma boa causa. É por uma boa causa... — repeti.
Eu faria daquilo o meu mantra, naquela semana.
— Escuta... Você já pensou em alguma coisa?
Eu sabia que ela estava se referindo à nossa vingança, porque tudo o que fizemos, nos últimos dois dias, foi pensar em ideias para aquilo. Até aquele momento, nenhuma parecia boa o suficiente.
— Eu tive uma ideia na aula de Química, hoje, mas, sei lá, não tenho certeza se é boa... — respondi, lembrando-me do momento exato em que estávamos no laboratório e a dupla ao lado conseguiu confundir dois potes de cores totalmente diferentes, fazendo com que fôssemos dispensados mais cedo, pois o cheiro no laboratório era insuportável.
— E qual é? — ela perguntou, parecendo animada.
Era uma ideia, afinal.
— Sabe daqueles sprays que dizem ser muito, muito, muito fedidos? — perguntei, e ela logo assentiu. Eu já tinha visto alguns desses em programas de TV, pegadinhas e tal, mas nunca havia realmente cheirado um. — Então, pensei que a gente poderia infestar as coisas do e do Joe com aquilo... Cama, roupas, sapatos, tudo o que estiver disponível no quarto deles.
Eu pensei que ela faria uma careta e falaria algo do tipo: “Isso é ridículo! Cadê a garota que o deixou pelado na frente de todo mundo?”, e olha que pensei naquilo em menos de um minuto, só olhando para uma pilha de roupas largadas em um canto. Felizmente, eu estava falando com a Mina, ou seja, sempre tinha uma surpresinha por ali.
Devagar, ela abriu a boca e arregalou os olhos, como se tivesse assimilando a informação, então cobriu a boca com as mãos e, quando retirou as mãos da frente, havia um sorriso enorme no lugar.
— Amei! Adorei! Vamos fazer isso logo! — exclamou, e eu ri.
Seria spray fedido, então. Não era como se tivéssemos várias opções de ideias para escolher, de qualquer maneira.
— Calma, pois o plano ainda tem falhas. A gente não pode entrar na casa deles pela madrugada, porque eles estarão lá, e esse seria o horário ideal para não sermos vistas — eu disse, e ela parou por um momento, parecendo pensar.
— É, será um problema. Que tal pela manhã? — sugeriu. — Eles e a maioria dos caras que moram lá têm aula pela manhã.
— Talvez, mas, se alguém pegar a gente...
— Saberão que foi a gente, de qualquer maneira. Qual é o problema de nos verem? A gente desconversa, fala que alguém nos convidou, só pra fazer o trabalho em paz e pra gente se mandar depois. — Ela deu de ombros como se aquele fosse o plano perfeito.
— Na última vez em que deixei claro que fui eu quem aprontou para o lado do , acabei no escritório daquela Alice sei-lá-das-quantas. Não quero voltar tão cedo, obrigada! — eu disse, e ela fez uma careta, apoiando o rosto na mão.
— O que será, então?
Suspirei. Eu não tinha um plano melhor.
— Pela manhã é o melhor horário que nós temos. Nós entramos, fazemos de tudo para não sermos descobertas, fazemos o serviço e nos mandamos. Joe e saberão bem que fomos nós, mas não terão provas; isto é, se nós formos realmente discretas. — Eu esperei que ela concordasse e o assunto fosse encerrado, mas ela continuava com uma expressão confusa no rosto. — Que foi?
— Simples assim? — ela perguntou e, então, fiquei confusa.
— Eu imagino que não será tão simples, na hora, mas a gente se vira — respondi, encolhendo os ombros.
— É que me passou pela cabeça... Como nós entraremos? Porque não é como se as portas ficassem abertas para quem quiser entrar o tempo todo.
Tá legal. Isso estava me saindo mais trabalhoso do que eu gostaria. Era só uma pegadinha. O quão difícil poderia ser?
— Nós descobriremos um jeito de entrar — eu afirmei, mesmo não fazendo ideia de como, no momento. — No meio da madrugada, eles conseguiram entrar na nossa casa. Por que nós não conseguiríamos?
— É claro que eles conseguiram... Abriram a porta para eles... — ela falou, rindo.
Encarei-a confusa, mais uma vez.
— Oi?
— A Nikki... Ela os deixou entrar... — disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, mas, não, não era.
Por que a Nikki os deixariam entrar para nos assustar? Além do mais, ela pareceu tão surpresa quanto a gente quando apareceu no quarto.
— Por que a Nikki os deixariam entrar pela madrugada na nossa casa?
— Ah, você não sabe... — continuou, tirando o sorriso do rosto e adquirindo uma expressão meio... Assustada?
— Não sei o que? — questionei, e ela fez uma careta, abaixando os ombros.
— Ah, merda! — xingou, com a expressão mais desanimada do mundo, o que só me deixava ainda mais curiosa. Poxa! Eu gostava de saber das coisas. — Eu tenho que aprender a fechar minha boca. Sério! Agora, tenho que te dar a notícia e não quero fazer isso. Você ficará brava, vai querer descontar sua raiva em mim, por não ter descoberto antes, e não levo desaforo pra casa, você sabe. Nós brigaremos, e a me matará por brigar com você e por te contar tão cedo... Ah, merda...
— Terminou? — perguntei quando tive certeza de que ela havia fechado a boca para valer. Ela assentiu com cara de quem havia comido comida estragada. — Então, vai, desembucha logo, porque você fez um péssimo trabalho, tentando não me deixar interessada.
Ela suspirou, assentiu, revirou os olhos, coçou as pernas, alongou o pescoço e, finalmente, abriu a boca para falar:
— Tá legal! — começou. — Eu serei direta, beleza? Jogarei aqui, no ar, e pronto. — Assenti. — Então... A Nikki e... A Nikki e o ... Elestêmumcaso — disse de uma vez.
— Um caso?
— É, um caso. Sabe, eles se pegam de vez em quando. Na verdade, no ano passado, eles chegaram bem perto de namorar, mas o ainda estava todo encalhado na sua, e aí, quando ele estava pronto, ela não quis mais... É uma baita confusão! — ela explicou.
Eu assenti lentamente, imaginando os dois juntos.
Era isso?! Sério? Todo esse drama para me falar que eles têm um caso? Grande coisa! Será que estavam pensando que eu vivia neste mundo paralelo, pensando que o havia passado o último ano chorando pelos cantos por causa de mim e sem se relacionar com ninguém? Porque parecia ser o caso. E eles pensarem isso me deixava brava. Não o fato de ele estar pegando alguém. Para ser sincera, ele merecia era uns parabéns, porque até eu gostaria de pegar a Nikki de vez em quando.
— Ok. Por que eu deveria estar brava? — perguntei, encarando-a com uma expressão entediada, eu diria.
— Seu ex ficando com uma irmã? Não só uma irmã, mas a Nikki, a rainha da casa?
O que me levava a questionar como ele conseguiu. De acordo com as minhas contas, Nikki era três anos mais velha que ele e, como mencionado, a rainha da Kappa Kappa Gamma. Não era pouca coisa. Ele não havia perdido o toque, eu tinha que admitir, e isso também me incomodava um pouco, mas não os dois ficarem, pelo amor do carinha lá de cima!
Eu levantei os ombros, não dando a mínima àquilo.
— Eu realmente não me incomodo — disse, e a boca dela se abriu um pouco em choque.
— Então não está brava com a Nikki?
Desta vez, eu fiquei em choque. Brava com a Nikki?!
— Não! Que tipo de pessoa vocês acham que eu sou, hein?
— Ah, foi mal! É que, de tanto ouvir que não era para te contar por enquanto, porque você daria à louca, acabei acreditando. A Nikki, inclusive, não queria que você soubesse de jeito nenhum. Ela queria que você a conhecesse primeiro para não odiá-la, o que pode ser o que aconteceu aqui, não é? — questionou com as sobrancelhas levantadas, e eu deixei escapar uma risada rápida.
— Não, não é o que aconteceu. Na verdade, vocês pensarem que eu a odiaria só pelo fato de ela estar com o é ofensivo. Eu o odeio e o atormento pelo que ele fez comigo, simples assim, não porque sou uma ex-namorada louca que não quer vê-lo com mais ninguém! — expliquei-me, e Mina pareceu me entender pelo olhar compreensivo que me lançou.
Mas eu pegaria a pessoa que deu aquela ideia de mim a elas e picaria em pedacinhos.
que me aguarde!
QUAL É?! Eu não era uma namorada louca, nunca fui. Ele era o louco ciumento da relação! Quando foi que o título passou para mim? Eu tinha meus defeitos, mas deixaremos registrado que ciúme não era um deles.
— Não é muito sua cara, mesmo. Agora que parei pra pensar, me sinto besta por realmente acreditar que você piraria e pularia no cabelo da Nikki.
— Eu nunca pularia no cabelo da Nikki. No de ninguém, na verdade. Prefiro socos e chutes, pois são muito mais efetivos — eu disse, fazendo-a rir. E, olha só, não brigamos. — Mas, escuta, isso não explica bem o porquê ela os deixou entrarem para nos assustar.
Afinal, a não ser que ela também tivesse um caso com o Joey, fossem fazer um negócio à três e ela tivesse um fetiche por palhaços, a história me parecia mal contada.
— Bom, tecnicamente, ela só deixou o entrar, o Joe foi de brinde, e ela não sabia que eles assustariam a gente.
Franzi o cenho, encarando-a.
— Você vai me contar a história, detalhe por detalhe, ou ainda tá me poupando? — perguntei, e ela deu um sorrisinho sem graça.
Eu sabia! Ela estava me poupando... Ainda!
— Tá, tá... O que eu sei é que o perguntou a ela, antes do jogo, se poderia ir lá mais tarde, provavelmente, pra... Você sabe.
— Não sei, não — disse, só para irritá-la. — Para que?
Ela bufou e ergueu uma sobrancelha para o meu lado, me lançando um olhar desafiador.
— Para transar, . Fazer sexo, foder, get lucky, afogar o ganso, comê-la. Entendeu? — Assenti, segurando o riso. — Muito bem. Bom, isso era o que ela pensava, então concordou, só que, como ele só iria bem mais tarde, ela emprestou a chave a ele, e o resto você já sabe.
— Espera. A gente tem permissão para emprestar nossas chaves por aí?
— É essa a parte da história que te incomodou? — Assenti novamente, e ela revirou os olhos. — Não, nós não temos. Só para pessoas de confiança. Se sumir alguma coisa de alguém, no mesmo período de tempo em que uma garota tiver feito isso, ferrou.
— Entendi — disse. — Você não tem algum peguete na Lambda, para te emprestar a chave, tem? — Ela balançou a cabeça para os lados, negando. — Terei que arrumar a do , então...
— Você acha que ele te emprestaria? — ela perguntou, e eu dei de ombros.
— Por que não? Não custa tentar. Além do mais, eu posso confiar nele. Ele pode até não aprovar o que farei, mas nunca contaria a ninguém.
— Temos um plano, então?
— Temos um plano e tanto! — afirmei, sorrindo para ela.
— E sabe o que nós temos também? — Esperei pela resposta. — Panfletos para entregar. Vai, levante-se! — disse, me dando um empurrão fraco com a mão.
Eu gemi em protesto, mas acabei me levantando.
Era por uma boa causa. Era por uma boa causa. Era por uma boa causa.

Respirei fundo, sentindo aquele cheiro gostoso de café e pães fresquinhos. Eu gostava muito mais quando podia sentir esse cheiro, acordando depois das 09h00, mas, depois das 07h00, não era nada mal.
Eu, a e a April havíamos acabado de chegar ao refeitório, um pouco mais cedo que de costume, então éramos as primeiras lá. Entramos rapidamente na fila e peguei um copo com café e leite, um pão com manteiga na chapa e um iogurte. Sentamo-nos à primeira mesa vazia que encontramos e acabamos ficando em silêncio por um tempo, cada uma concentrada no que comia.
Fui eu quem interrompeu o silêncio com um pigarro, enquanto tomava meu iogurte, e recebi olhares curiosos das duas, mas foi na que foquei.
— Eu conversei bastante com a Mina ontem.
Posso assegurar que, no mesmo segundo, seu olhar mudou. Eu tenho certeza que já mencionei como a é uma péssima atriz; por isso, não foi difícil decifrar o temor nos olhos dela.
— Ah, é? Sobre o que? — perguntou, pronunciando cada palavra com uma lentidão exagerada.
— Bom, eu descobri uma coisa que escondiam de mim... — falei, mexendo no meu iogurte. Desta vez, vi terror em seus olhos.
Ela assumiu uma postura tensa, encolhendo os ombros, e engoliu em seco.
— U-Uma? E o que é?
— Aparentemente, alguém transformou a minha imagem na de uma ex louca, obcecada e ciumenta, que não aceita ver o ex com uma garota nova. — Apoiei um cotovelo na mesa e minha cabeça na mão, encarando-a. — Confere?
De repente, ela soltou todo o ar que estava prendendo, parecendo até aliviada.
— Ah, isso... — disse, balançando a cabeça e me lançando um sorriso sem graça. — Isso foi só... Precaução, eu diria. E a ideia não foi só minha, tá legal? A Nikki também tem culpa no cartório, não queria te contar sobre eles de jeito nenhum.
— A Nikki não me conhece há mais de 10 anos, a Nikki não tem a obrigação de me defender de comentários do tipo, a Nikki nem me conhecia três semanas atrás...
— É, tem isso — ela disse, mastigando devagar uma colherada da sua salada de frutas.
Suspirei.
— Vê se tenta não piorar minha imagem por aí. Eu posso até ser um pouco louca e um pouquinho obcecada, mas ciumenta jamais!
Estava muito claro o meu ódio por ciúme? Porque era bom estar. Traumas de um relacionamento falho.
— Tá bom, tá bom. Desculpa. Eu não deveria ter escondido nada de você.
Assenti.
— Obrigada.
— Então a Nikki e o estão juntos? — April perguntou surpresa.
? Até você? — eu questionei de volta, e ela encolheu os ombros, fazendo uma careta.
— Você me deu sua bênção para ser amiga dele, lembra? Além do mais, todo mundo o chama assim, e esse apelido gruda na cabeça da gente — explicou-se, e riu.
Eu só dei de ombros. Faria o que? Eu realmente tinha dado a minha bênção.
— Eles não estão exatamente juntos, April, mas têm um negócio. Não é nada sério. — explicou.
— Até porque, se fosse, eu teria que ter uma conversinha com ela, porque, uma semana atrás, ele estava todo para cima de mim.
— Quem? — alguém perguntou, do nada, dando-me um susto básico, até eu perceber que era e o resto da cambada: e .
— eu respondi, enquanto eles se sentavam.
— Eu o quê? — ele questionou.
— Estava todo assanhado para o meu lado na semana passada — afirmei e, do nada, o garoto começou a tossir.
, que estava ao lado dele, o ajudou com uns tapas nas costas.
Eu, hein!
Quando ele se recuperou do ataque, apoiou um braço na mesa, me olhando com um sorriso irritante no rosto e ignorando completamente as risadas ao redor.
— Você não consegue passar mais de cinco minutos sem mencionar meu nome, consegue?
Sorri de volta.
— Consigo, sim, só que prefiro não perder uma oportunidade de te fazer passar vergonha — disse, e ele deu uma risadinha.
— Vergonha, mesmo. Eu devo ter bebido um pouquinho demais para pensar, por um segundo sequer, que queria voltar com você, depois de te aguentar por dois anos inteiros e alguns meses. Só com muito álcool no organismo isso seria possível.
— É que você tem essa mania, né? De fazer besteira quando bebe... Sai por aí, fazendo declarações de amor para ex, beija garotas que não deve e tenta esconder...
— Sério? Eu acordei não faz nem 30 minutos e já tenho que ouvir vocês dois se provocarem? — nos interrompeu, bufando.
Revirei os olhos para o , e ele fez o mesmo, deixando minha provocação sem resposta.
Grosso!
— Não se preocupe. Eu já estou indo! — disse, levantando-se e pegando minha bolsa, que estava pendurada na cadeira. — Quero tirar um cochilo, antes da aula.
Todos me deram tchau, menos o , que fingia prestar atenção na sua comida. Saí atrás do meu bloco para a não tão aguardada aula de Álgebra. Eu já disse que odiava tudo que envolvia números? Provavelmente, sim. Eu realmente não sou uma pessoa de exatas.
Quando cheguei à minha sala, joguei minha bolsa sobre a mesa e sentei-me no meu lugar, depois de cumprimentar um pessoal, que conversava mais à frente. Terceira fileira, quarta carteira da direita para a esquerda, ou da esquerda para a direita; depende do seu ponto de vista.
A sala ainda estava praticamente vazia, já que eu cheguei muito mais cedo que o necessário, na minha tentativa de me afastar do refeitório e do . Não que eu esteja reclamando! É muito mais divertido quando ele responde minhas provocações ao invés de ignorá-las. Então, aproveitando a falta de alunos, escorreguei na cadeira, encostei a cabeça ao suporte atrás de mim e fechei os olhos, pronta para cochilar, pelo menos, uns 10 minutinhos. Eu estava morrendo de sono, porque, ao invés de dormir cedo, fiquei, até tarde da noite, terminando exercícios para essa bendita aula. Eu poderia tê-los feito mais cedo? Sim. Eu fiz? Obviamente, não, então o jeito, agora, era odiar a matéria e, lá no fundo, culpar o professor por me tirar duas horas preciosas de sono.
Eu diria que cochilei por não mais que 2 minutos, quando senti uma movimentação próxima a mim. Curiosa, acabei abrindo os olhos e virando a cabeça para olhar, e encontrei um cara bonitinho me olhando com curiosidade.
Ele percebeu que foi pego me observando e deu um sorriso sem graça.
— Oi — disse.
— Oi... — respondi, observando-o. Ele tinha cabelo e olhos castanhos, era alto, fortinho, nada muito exagerado. Espremi os olhos, tentando me lembrar de onde eu conhecia aquele garoto. — Hã... Eu conheço você, não conheço? — perguntei, e ele abriu um sorriso maior.
— Mais ou menos. — Fiz uma expressão confusa. — A gente dançou na festa das Kappas e da Lambda. Você não quis me dizer o seu nome.
Assenti, lembrando-me.
O cara bonitinho da festa. Era ele, mesmo.
— Ah, é verdade. Meu nome é . Bom, . ! — apresentei-me.
— É, eu já sei. O meu é Nicholas. Pode me chamar de Nick, se quiser. Prazer, . — Ele seguiu, estendendo sua mão direita a mim.
Era sempre estranho cumprimentar alguém com a mão, mas, me surpreendendo, com ele não foi, por causa da expressão brincalhona que ele tinha no rosto.
— Já sabe? — perguntei, depois de soltar a mão dele.
Ele assentiu.
— Não é todo dia que alguém faz o que você fez com o por aqui. Acredite, muita gente sabe seu nome, agora.
Dei um sorrisinho orgulhoso. Aquilo não me parecia nada mal.
— Legal — disse. — Então, Nick... Tá fazendo o que aqui? — questionei, o que acabou soando levemente rude, então tentei consertar: — Sabe, porque já estamos na segunda semana de aula. Eu me lembraria de você.
— Ah, tive que resolver algumas coisas, na semana passada, então acabei perdendo algumas aulas. Só espero não ter perdido muita coisa... — ele me respondeu, assumindo uma expressão um pouco preocupada.
— Só umas cinco páginas de exercício — eu disse, e ele balançou os ombros, como se não fosse tanta coisa. — Mas você não é calouro, é?
Porque ele não se parecia, nem agia como um calouro. Tinha autoconfiança demais.
— Não, não — falou, dando uma risada fraca. — Eu só preferi adiar Álgebra ao máximo possível, então aqui estou.
— Já eu quero acabar com isso logo! — disse, fazendo uma careta e virando rapidamente minha cabeça para frente, vendo o pessoal começar a entrar na sala.
Nick ficou em silêncio por um tempo, me encarando, pelo que eu conseguia ver pela minha visão periférica. Eu demorei um pouco meu olhar nas pessoas que passavam para lá e para cá, atrás dos seus lugares, acenando para alguns, para evitar uma troca de olhares constrangedora, já que eu não tinha muito mais o que falar.
— É, escuta... — ele começou, depois de um tempo, e, só então, voltei a encará-lo. Ele parecia levemente constrangido. — Eu quero fazer uma coisa, mas não sei se devo.
Franzi o cenho, confusa.
— Não é me beijar, é? Porque tudo o que você conseguiria me beijando, no meio da sala de aula, é um bom soco! — eu disse, e ele abriu um sorriso fraco.
— Não é isso, é que... Bom, eu sei que você e o têm um rolo e...
— Eu e não temos um rolo — interrompi-o. — Nós somos meramente ex-namorados que se odeiam.
Parecia que tinha razão, afinal. Eu não conseguia passar muito tempo sem falar dele. Mas qual é?! As pessoas insistiam em enfiar o cara pela minha goela! Era aqui, ali, lá... Ficava difícil não falar sobre ele.
— Mas vocês têm uma história, não? — perguntou, e eu dei de ombros, assentindo. — Não sei se seria certo da minha parte te chamar para sair, sendo amigo dele, e eu, provavelmente, deveria perguntar isso a ele e não a você, mas você já está aqui e... — Deixou no ar, finalmente parando de falar.
Ele tinha uma voz bonitinha e tal, mas falava besteira demais.
— Olha... — eu comecei com um sorriso contido. — Eu não quero ser grossa, nem nada, mas a única pessoa de quem você precisa permissão para sair comigo sou eu. Ele já seguiu em frente! Por que motivo você precisaria pedir a ele alguma coisa? — questionei, lembrando-me do caso com a Nikki.
Eu estava, desde a tarde anterior, repassando cenas que envolviam os dois, tentando encontrar sinais que eu havia perdido, sem sucesso.
— Bom, ele é meu amigo. Não somos tão próximos assim, mas somos amigos, e ele pode se incomodar.
— O ponto é: ele não pode, não. E, se ele se incomodar, é só falar comigo, que eu resolvo — eu disse.
Com isso, acabei, praticamente, escrevendo na minha testa “me chama para sair”. Que ótimo.
Balançando a cabeça, ele riu levemente e abriu um sorriso, como se o que eu disse fosse, de alguma forma, surpreendente.
— Tudo bem. Então... Você quer sair comigo um dia desses? — perguntou, e eu assenti.
— Claro. — Dei de ombros. — Por que não?
— Esse final de semana?
— Ah, eu não posso — falei, fazendo uma careta. — Visitarei meus pais esse final de semana — expliquei, e ele balançou a cabeça em compreensão. — Mas tem sempre a semana que vem, não é?
— Claro! — concordou, piscando para mim, no exato momento em que o professor entrou na sala, me obrigando a virar para frente e prestar atenção na aula.

— Eu buscarei o . Quero você e as suas coisas lá embaixo, me esperando, em 10 minutos! — disse a cabeça da , na porta, antes de desaparecer.
— Tem certeza de que ficará tudo bem? — perguntei a April, que estava sentada em sua cama, com um livro no colo, me observando terminar de arrumar minha mochila.
— Absoluta! Não precisa se preocupar! — ela afirmou pela centésima vez.
Poxa! Eu me sentia como uma mãe se separando da filha pela primeira vez.
— Há dois lugares sobrando no carro. Você pode ir com a gente... Ainda dá tempo! — eu disse e, também, pela centésima vez, ela riu e balançou a cabeça.
— Eu vou ficar, mas obrigada pelo convite. Sobrevivi 18 anos sem você, sabia?
Suspirei.
— Eu sei, eu sei, mas me preocupo. Aliás, cuidado com a Mina! Ela vai se aproveitar da sua inocência, e Deus sabe o que vocês podem acabar fazendo.
— Eu acho que a Mina estará ocupada, se preparando para o que vocês aprontarão, não em me levar para o mau caminho — ela disse, rindo.
— É, você tem razão — concordei.
Mina aproveitaria o sábado livre para ir atrás do tal spray que nós não fazíamos ideia de onde comprar. E segunda-feira seria O DIA.
— Você pode ir. Eu vou ficar sã e salva aqui.
— Tudo bem. Eu trarei um pedaço de torta.
Depois de passar os últimos dois dias elogiando a torta da minha mãe, seria mais que cruel não trazer.
— Sim, por favor!
— Vou descer. Vejo você na segunda! — disse, me inclinando na cama dela para dar um beijo em sua bochecha.
— Até! Cuidado! Não deixa a se desconcentrar no trânsito! — ela pediu, provavelmente, se lembrando da ida e volta do estádio uma semana atrás.
De vez em quando, dirigindo podia ser assustador.
— Pode deixar! — eu disse, rindo.
Peguei minha mochila com meu caderno, livro, alguns textos e outras coisinhas básicas. Era tudo o que eu levava, já que ainda tinha um bom tanto de roupas na casa dos meus pais. Desci, dando tchau às meninas que encontrei no caminho, e sentei-me na escada da frente de casa para esperar, o que, felizmente, não demorou muito. Logo, ela estacionou na minha frente, mas, infelizmente, não era a única pessoa que ela foi buscar.
Revirei os olhos quando vi no banco da frente, me encarando com um sorrisinho desgraçado no rosto.
— Vamos, vamos, vamos! — desceu do carro, falando.
— Você tá brincando comigo, né? — eu questionei, encarando , que parou de frente para mim.
— Por que estaria? Já são quase 15h00 da tarde e estou com pressa! — respondeu, dando-se de desentendida, enquanto pegava minha mochila para pôr no porta-malas.
— Ha ha ha, engraçadinha. — Levantei-me, limpando a parte de trás do meu short jeans com as mãos, e segui .
— Não começa, , por favor.
— Começo, sim. Ele tem uma moto! Por que precisa ir com a gente? — questionei.
Ela fechou o porta-malas com um pouco mais de força que deveria e me encarou, apoiando-se nele.
— A moto dele tá na oficina, tá legal? E ele é meu amigo, assim como você e o são meus amigos, e dou carona aos meus amigos. Capisce?
Bufei e andei até o lado direito do carro.
— E eu posso saber por que ele vai na frente? — perguntei, vendo o braço dele todo confortável apoiado na janela aberta do banco da frente. Logo, vi também sua cabeça, que ele colocou para fora, ainda com aquele sorriso idiota.
— Porque eu cheguei primeiro — respondeu, mas ignorei, olhando para , em busca da minha resposta.
— Ele chegou primeiro — ela repetiu, e eu bufei novamente, entrando no carro.
estava atrás também, do lado esquerdo, com dois fones de ouvido e uma música tão alta, que eu entendia cada palavra. Sua cabeça estava encostada ao encosto do banco, e os olhos, fechados. Eu puxei um dos fones, chamando sua atenção, e ele imediatamente abriu a boca para reclamar, mas desistiu quando encostei minha cabeça em seu ombro e coloquei o fone no meu ouvido. Logo, ele passou o braço ao redor dos meus ombros, me fazendo optar por ficar deitada ali que atacar o .
Isto é, pelos próximos 30 minutos.
Depois de tentar, de todas as maneiras, esticar minhas pernas, que não aguentavam mais ficar dobradas, a única opção que me restou foi passá-las pelo espaço entre os bancos da frente e apoiá-las na coxa esquerda do , que não pareceu gostar muito, já que se virou, na hora, para mim com uma sobrancelha arqueada. Eu arqueei uma sobrancelha de volta para ele, que balançou a cabeça.
— Sério? — ele disse, quebrando o silêncio do carro.
— Incomodo? — perguntei com um sorriso.
— Muito! — ele respondeu, me fazendo revirar os olhos.
— São somente dois pés. Você nunca se incomodou com os meus pés antes. Era louquinho por eles, lembra? — enquanto falava, levantei um deles e fiquei mexendo os dedos na frente do rosto dele.
— Louco, com certeza, é a palavra ideal para a situação — disse, suspirando e abaixando o meu pé com a mão.
, não provoca, e , não responde. — interferiu. — O que aconteceu com o negócio de ignorar as provocações da ? Eu gostava muito mais daquele plano.
— A deixou bem claro, para mim, que não importa o quão legal eu tente ser, ela não me deixará em paz. E, entre ser legal e ser tratado mal, e responder à altura, fico com a segunda opção. — explicou.
começou a rir ao meu lado e a balançar a cabeça.
— Continuem assim e vocês dois se destruirão.
virou a cabeça para trás rapidamente, passando seus olhos pelo , para, depois, parar em mim, que correspondi ao seu olhar. Eu podia ver claramente o desafio e a confiança nele. Pobrezinho! Mal sabia o que o espera!
Finalmente, 10 minutos depois, estacionou no espaço entre a minha casa e a dele.
— Meus pais pensam que a gente se resolveu, então segura o bico. — Inclinei-me para avisar ao , antes de abrir a porta para descer.
Minha mãe e meu pai me esperavam lado a lado na calçada, junto com os pais dele, o que não me deixou exatamente feliz. Não que eu não gostasse mais dos pais deles! Eles sempre foram e ainda eram minha segunda família, mas, depois que e eu terminamos, nós paramos de frequentar a casa um do outro, o que resultou na gente se afastando um pouco. Eu ainda conversava com eles quando os encontrava, ali, na frente, ou pelo bairro, mas o fato de não morar mais ali dificultava um pouco as coisas. Concluindo, eu não gostava da ideia de conversar com os pais do com ele por perto e fingindo ser melhores amigos novamente.
— Finalmente, chegaram! Eu estava ficando preocupada! — minha mãe disse e, antes de ela terminar a última palavra, eu já estava jogada em cima dela.
O quê? Eu também sentia saudade.
— Alguém sentiu sua falta — meu pai disse com humor.
— Sua também! — eu falei, soltando minha mãe e me jogando nele, desta vez.
Ele deu um beijo no topo da minha cabeça, me abraçando de volta. Quando eu me afastei dele também, a próxima coisa que vi foi o rosto bochechudo da Liz, mãe do , à minha frente.
— Ah, olha só para você! Está tão crescida! — disse, me segurando pelos ombros.
Eu ri, abraçando-a.
— Você me viu três semanas atrás, lembra?
— Três semanas atrás, você ainda não era uma universitária. Olha para você! Agora, parece até mais inteligente!
Fiz uma careta que ela não viu.
— Eu vou levar isso como um elogio — eu disse e ouvi a risada do pai do , o Harry.
— Você tinha que vê-la na primeira vez em que o voltou para casa, depois de se mudar, — ele comentou, e aproveitei para abraçá-lo também.
— Eu imagino.
Em algum momento, depois de todos os comprimentos, e eu paramos lado a lado, em silêncio. Isso nos rendeu quatro olhares extremamente felizes e dois suspiros.
Um deles veio do meu pai.
— É tão bom vê-los juntos de novo! — minha mãe falou, nos observando como se observasse um quadro em um museu.
Bom, nós éramos bem bonitinhos, mesmo.
— É, eu nem acredito! — meu pai concordou.
Eu dei um sorriso nervoso.
— Pois acredite! — eu disse, dando dois tapas fortemente fracos no braço do , que soltou uma risada nervosa.
— Incrível, né?
— Eu não sabia que vocês tinham feito as pazes de vez. Caramba... Isso traz memórias, não traz? — o pai dele falou, e eu já tinha certeza do que estava por vir: um comentário sobre as nossas constantes brigas e reconciliações.
Quer ver?
— É o e a . Eles nunca ficam brigados por muito tempo, apesar de terem me assustado desta vez. — Viu? Eu deveria ter avisado que viria da mãe dele também. Balancei a cabeça, concordando, e forcei um sorriso. — Sabe o que eu acho? Que isso merece uma comemoração.
Arregalei os olhos.
— Como é? Quer dizer... Hã... Comemoração?
— Sim, um jantar, na nossa casa. Que tal?
O mais disfarçadamente possível, cutuquei com o meu cotovelo, implorando, na minha cabeça, que ele fizesse alguma coisa.
— Ah, mãe, tem certeza? Os pais da trabalharam a semana inteira e devem estar cansados — ele interviu, e eu esperei, em expectativa, a resposta dela.
— Imagina! — minha mãe exclamou. — Eu achei a ideia ótima! Se quiser, posso ajudar na cozinha.
Valeu, mãe.
— Então está marcado. — Liz concluiu.
Ouvi a risada escandalosa da , no carro atrás da gente, chamando a atenção de todos para ela. O meu rosto, em especial, lançava um olhar estilo “eu te odeio”.
— Ah... Nossa, , que piada boa! — Disfarçou da pior maneira possível.
— É, eu... Eu também gostei. — continuou, parecendo mais perdido que qualquer coisa.
— É claro que gostou, , afinal, você me contou.
Meu Deus.
— Não tá na hora de vocês irem, não? — eu perguntei, e qualquer um que me conhecesse um pouco perceberia o “vão embora agora!” nas entrelinhas.
— Sim! É, nós já vamos. — concordou, e eu assenti, indo até o porta-malas, pegar minha mochila.
fez o mesmo.
— Mandem um abraço para os pais de vocês e, , dirija com cuidado! — minha mãe disse.
A casa deles era a uns dois quarteirões dali.
— Pode deixar, tia! Tchau!
— Tchau! Cuidem desses dois! — gritou, no último minuto, quando o carro já estava em movimento.
Eu revirei os olhos.
— Muito bem. Vamos entrar! — Liz começou, segurando o braço do . — Vejo vocês às 19h00?
— Com certeza! — meu pai respondeu e, então, finalmente, cada família foi para o seu lado.
Poderia ter sido pior, certo?
Não, eu acho que não.

19h35.
É, não dava para enrolar mais.
Eu havia inventado uma desculpa universitária qualquer para os meus pais, porque, assim, poderia me atrasar.
“Nossa! Que falta de educação! O jantar é especialmente para você!”.
Tá, mas eu sabia bem exatamente o que acontecia em um jantar desses; principalmente, porque eles aconteciam semanalmente quando e eu namorávamos. Nós chegávamos lá às 19h00 (ou eles à nossa casa, dependia da semana), minha mãe ajudava na preparação da comida, meu pai e o pai do ficavam conversando sobre sabe-se-lá o que, e eu e o ficávamos no quarto dele, até anunciarem que estava tudo pronto. Isso costumava levar de 40 a 50 minutos, então eu não estava perdendo o jantar, só a preparação.
Isso não fazia de mim uma pessoa muito melhor, mas dá um desconto, vai.
— É, Smurf, tá na hora! — disse, passando a mão em meu cachorro, que não desgrudava de mim há mais de três horas. — Deseje-me boa sorte?
Ele ergueu a cabeça, antes, encostada em minha perna, e me lançou um olhar de “do que é que você tá falando, sua louca?”. Ele me amava.
Guardei o texto de Literatura que eu estava lendo e levantei-me, já pronta para ir. Pronta, não animada. Tanto é, que tive que parar e respirar fundo umas três vezes, antes de tocar a campainha da casa deles, e foi o pai do quem me atendeu.
, que bom que chegou! Entra! — falou com um grande sorriso no rosto.
— Desculpa o atraso.
Meu pai estava sentado numa poltrona mais ao canto. Como eu disse: conversando sobre sabe-se-lá o que.
— Sem problema. Nós sabemos que não é fácil estar na universidade.
— É.
— A chegou? — A cabeça falante da Liz apareceu pelo vão da porta. Ela abriu um sorriso largo quando me viu. — Ah, querida, que bom que tá aí! O jantar está quase pronto. Que tal você chamar o lá em cima?
— Pode deixar! — eu disse, assentindo.
Subi a escada, em direção ao quarto dele, na maior lentidão do mundo. Eu estava bem animada por ter que buscar o príncipe no quarto dele... Deu para notar?
Bati na porta e não demorei a ouvir um “entra” abafado. Empurrei a porta e encostei ali mesmo.
— Eu não quero entrar — falei.
Alguns milésimos de segundos depois, meus olhos não resistiram e escanearam o cômodo. Uma cama de casal, uma mesa de estudos/computador, uma poltrona desaparecida debaixo de peças de roupa, duas portas, uma que dava para o closet, e outra, para um banheiro. Sempre o invejei por ter uma suíte. Meus pais tinham uma, então eu era, praticamente, a única que usava o banheiro social de casa, mas não era a mesma coisa. Dar cinco passos e chegar ao seu banheiro; isso, sim, era maneiro.
Nas paredes também haviam alguns pôsters de bandas e de uma galera que eu sempre esquecia quem eram; provavelmente, nadadores ou algo do tipo.
Tudo estava igual. Exatamente igual estava na última vez em que entrei lá, mais de um ano atrás, o que me deu certa nostalgia. Jantar na sexta-feira, eu subindo para o quarto do ... Lembranças que fiz questão de enterrar. E que eu me recusava a começar remoer naquele momento.
— Então por que veio aqui? — ele perguntou.
Estava jogado na cama, lendo um livro, que, agora, ele fechava.
— Sua mãe falou para eu vir te chamar para jantar. — Dei de ombros.
Ele riu e balançou a cabeça.
— Percebeu o que ela fez, né? — questionou, me encarando com as sobrancelhas erguidas.
Dei de ombros.
— É por isso que eu não vou nem entrar.
Porque eu sabia que, mais que fazer um jantar de comemoração, ela queria recriar os jantares do passado. Isso quer dizer que ela, provavelmente, esperava que eu e o ficássemos nos pegando lá ou algo do tipo. Era o que nós costumávamos fazer, pelo menos.
— Não resistiria, é? — provocou-me, sentando-se na beirada da cama e me fazendo revirar os olhos.
— Sonha. Vamos! Eu quero acabar com isso logo.
— Claro! Vamos lá! — disse com um sorrisinho irritante.
— O que é que foi, hein? — perguntei, impedindo a passagem dele pela porta.
— Nada. Eu só sei o quanto isso será doloroso pra você, então vou adorar cada segundo.
Bufei.
— Vá se catar.
Virei-me, indo em direção à escada novamente, e ele me seguiu em silêncio; pelo menos, isso.
— Estudando também? — meu pai perguntou ao quando aparecemos na sala.
— É, terminando um livro para um trabalho — ele respondeu, sentando-se no sofá. Eu segui em frente, em direção à cozinha. — E o senhor, como está? — Ouvi, antes de sair do cômodo.
Ele tinha que ser todo simpático, não tinha?
— Onde está o ? — minha mãe perguntou.
— Ficou na sala — respondi, encostando-me à parede.
— Não ficaram lá em cima? — Liz questionou, na maior falsa inocência deste mundo, me fazendo sorrir discretamente.
— Não, eu queria passar um tempo com vocês — falei, aproximando-me delas e passando meus braços ao redor dos ombros de cada uma.
— Fofa. — Liz disse, dando-me um beijo na bochecha.
Enquanto isso, minha mãe me olhou, desconfiada.
— Morar fora te deixa mais carinhosa? Ou você quer alguma coisa? — questionou, e eu fiz uma careta.
Ouch. — Afastei-me, e ela me lançou um beijo no ar.
— RAPAZES, QUANDO EU CHEGAR À SALA DE JANTAR, É MELHOR A MESA ESTAR PERFEITAMENTE ARRUMADA OU ALGUÉM PERDERÁ UMA MÃO! — Liz gritou, de repente, dando-me um susto.
Minha mãe riu da minha cara. Sempre querida, ela.
Na mesma hora, eu comecei a ouvir uma movimentação apressada vindo do cômodo ao lado, me levando a concluir que as probabilidades de alguém perder uma mão, hoje, eram grandes. Se me perguntassem, eu sugeriria o para ser a vítima da noite.
— Que cheiro bom! — eu comentei.
— Você sabe o que é, não sabe? — Liz perguntou, me olhando rapidamente, enquanto mexia numa panela com creme de milho.
Também havia um frango no forno. É, eu sabia.
— A melhor combinação do mundo.
— Não exagera! — minha mãe disse. — É uma combinação legal, mas existem muitas melhores.
, frango assado com creme de milho não é a melhor combinação do mundo? — perguntei em um tom alto para que ele me ouvisse.
— É! — ele respondeu, e eu lancei um sorriso vitorioso à minha mãe, que revirou os olhos.
— Veremos... — Liz falou a si, abaixando-se e abrindo a porta do forno. Ela deu uma olhada, umas cutucadas, até sorrir e balançar a cabeça. — Perfeito!
— Quer ajuda para tirar? — perguntei.
— Sim, claro.
Eu a ajudei e ajudei minha mãe a finalizar as coisas, e levar à sala de jantar. A mesa não estava perfeitamente arrumada, aliás, mas ninguém perdeu a mão desta vez.
Uma pena.
Nós nos sentamos, Liz e Harry nas pontas, eu e o de frente para o outro, assim como os meus pais.
— Aqui, a salada. — Liz disse, me entregando uma tigela cheia de folhas nada apetitosas.
Comer primeiro a salada também era uma tradição dos já tradicionais jantares. Você pode nos chamar de família Gilmore, se quiser.
Servi-me e passei adiante. Aquela seria a minha dose de salada da semana. Talvez, do mês.
— Seus pais nos falaram que entrou para uma irmandade, ... — o pai do começou. — Tá gostando?
— Sim, bastante, até mais do que pensei que iria — eu respondi, me surpreendendo com a sinceridade daquelas palavras.
— O também estava relutante sobre entrar ou não em uma fraternidade, mas, agora, ama, não é, querido? — Liz falou, pegando no braço do filho e sorrindo.
Ele assentiu, devolvendo o sorriso dela, mas não disse nada.
— É, bem... Ele me incentivou bastante a entrar para as Kappas — eu disse. Não era mentira. — Na verdade, se não fosse por ele, eu nem teria tentado entrar direito.
Todos olharam para ele com certo orgulho no olhar, o que quase me fez vomitar, e ele sorriu para mim, sacando a piadinha interna.
— Obrigado, , mas o mérito é todo seu.
— E eu pensando que você tinha tentado por minha causa... — minha mãe comentou.
Eu dei de ombros.
— Sua também, mãe.
— Ah, isso fez falta, não é? — Liz perguntou, olhando ao redor. Forcei um sorriso, assentindo. Não me culpe. Eu costumava gostar muito dos jantares e adorava os pais do , a presença dele, ali, é que estragava tudo. — Espero que a gente consiga repetir mais vezes, agora que vocês são amigos de novo.
— Ah, seria ótimo! — minha mãe concordou.
Se ela não pensasse que eu estava me dando super bem com o também, levaria um puxão de orelha mais tarde.
— A gente pode comer? Eu tô morrendo de fome! — eu disse, querendo acabar com aquele assunto e querendo comer, é claro.
! — minha mãe me repreendeu, mas o resto do pessoal riu, então não me importei muito.
— Você nunca muda, . — Liz disse, rindo. — É claro que pode, querida.
Sorri, agradecida, e levantei-me para pegar as coisas espalhadas pela mesa. Foi só quando fui em direção ao frango que notei , também, de pé, espetando minha parte. A minha parte!
Pigarreei, chamando a atenção dele.
— O que você tá fazendo? — perguntei com a voz mais doce possível, a fim de manter o disfarce.
— Cortando o frango... — ele respondeu lentamente, como se a resposta fosse óbvia demais.
— Hum... É que esse é o meu pedaço, você sabe.
O peito coberto de pele era meu. Era tipo um senso comum.
Ele abriu um sorriso e balançou a cabeça, parecendo entender, agora, o negócio todo.
— Não se preocupe, é seu. Eu só vou cortar para você. É tradição, lembra?
— Fofo. — Ouvi a voz da minha mãe dizer.
Tive que respirar fundo, para manter a imagem de “paz” que eu havia inventado, mas a vontade era de arrancar o garfo da mão dele e espetar outra coisa, se é que me entende.
— Não precisa se dar ao trabalho. Eu posso cortar o meu próprio pedaço! — disse, enfiando o meu garfo no meu pedaço e esperando que ele retirasse o dele.
Não rolou.
— Não é trabalho nenhum, , sério.
Eu via com clareza a advertência em seu olhar, me mandando aceitar a tradição e ficar quieta, mas nunca fui muito de obedecer. Ele que me deixasse colocar a minha própria comida, isso sim.
— Não, não, eu faço questão de cortar, .
— Para de frescura e deixe-me fazer isso, ok? — ele disse num tom calmo, que deveria pertencer a um elogio, não às suas palavras.
— Para de querer fazer tudo por mim! — eu rebati, não controlando minha voz tão bem quanto ele.
Levei para o lado pessoal? Um pouquinho, confesso.
— Eu pensei que já tivesse deixado mais que claro que não vou mais fazer nada por você — ele continuou, começando a perder a pose.
Qual era o problema em me deixar cortar o negócio? O meu era orgulho, e o dele? Ego?
— Não é o que parece! Deixe-me cortar a por... — Interrompi-me, não querendo jogar “porra”, ali, naquele momento. — ...O frango. Deixe-me cortar o meu pedaço!
— Não! , por favor!
— Por favor digo eu, !
— Para com isso!
— Para com isso você!
— Você pode me servir o purê!
— Eu não quero te servir o purê!
— É a tradição!
— Ah, vai se fo...
!
!
Nossos nomes soaram, ao mesmo tempo, em vozes nada doces. Foi mais ou menos quando eu percebi que nós tínhamos feito um belo estrago no peito de frango, que, agora, se encontrava todo “rasgado” pelos nossos garfos e... Bem, com certeza, mais morto que antes.
— Eu vou cortar o frango para todo mundo — minha mãe disse com autoridade. — Alguém se opõe?
Ninguém se opôs.

— É bem fácil fazer. Você só precisa de algumas madeiras e pregos. Eu mesmo fiz os meus e posso te ajudar, se quiser.
— Ah, eu adoraria, Claire! Na próxima semana, mesmo, arrumarei as coisas. Você só me diz um dia em que está livre e podemos fazer.
— No sábado tá ótimo, para mim.
— Perfeito!
E, então, o assunto acabou, e tudo que podíamos ouvir eram os talheres aqui e ali. Como todo milésimo de silêncio, depois do meu pequeno desentendimento com o , o clima logo ficou estranho.
, já contou aos seus pais como foi sua iniciação? — perguntou, de repente. — Foi bem... Como eu posso dizer? Exibicionista, não é?
Eu poderia arrancar aquele sorrisinho irritante do rosto dele com a faca que estava em minha mão.
— Ah, filha, é verdade! Essa tradição continua? Por que não me falou nada?
— Eu esqueci. Não foi nada de mais. Sério! Pouca coisa. Mas sabe a April sobre quem eu falei? Ela fez um conto que, aparentemente, é incrível, mas não deixa ninguém ler. Ela escreve super bem, a April. Tem um baita talento!
Minha mãe assentiu, sorrindo e parecendo ser levada pela minha distração, mas eu sempre poderia contar com o para ser a pessoa mais imbecil do planeta.
— Não seja modesta, ! Fale um pouco a eles sobre o que você fez.
— Assim, eu fico curiosa. — Liz falou, e eu dei um sorriso nervoso, mas respirei fundo e coloquei minha cabeça para funcionar.
— Bom, eu fiz uma... Exposição, como ele disse. Artística, sabe? É... E o foi o meu modelo. Modelo surpresa, eu diria, porque... Bem, ele não soube que seria o modelo, até o último minuto, não é? Mas deu tudo certo no final. Ele... Ele até descolocou uns números de telefone, não foi?
Ele riu rapidamente e apoiou os cotovelos à mesa, e a cabeça, nas mãos, me olhando com o que eu chamaria de expressão cínica mais irritante do universo.
— Não é como se eu tivesse tido muita escolha — disse, levantando as sobrancelhas, e eu dei de ombros.
— Nossa! Parece importante! — o pai dele falou, e todo mundo pareceu concordar, menos o filho.
Como eu nunca deixaria algo assim passar, olhei para a Liz, sorrindo.
— Tia, você tem fobia de barata, né? — perguntei. Ela assentiu, e tenho quase certeza que a vi se arrepiar. — Eu descobri, recentemente, que a minha colega de quarto tem fobia de palhaços.
— Jura? Ah, coitada! Festas de aniversário não devem ser muito divertidas, para ela.
— É... — E, então, comecei a rir, balançando a cabeça. — E você não faz ideia de como fiquei sabendo. — Ri mais ainda, ganhando vários olhares curiosos e um particularmente preocupado. — Conte a ela, .
Ele engoliu em seco, dando um sorriso nervoso. Eu podia ver o arrependimento por ter começado aquele negócio todo, em seu olhar.
— Não acho que estejam tão interessados em saber, .
Eu não precisei falar nada, pois Liz não demorou muito para me fazer um favorzinho:
— Fala, filho. Vocês começaram um assunto, agora, por favor, terminem — disse, e eu sorri.
— É, , por favor! — falei, ganhando um olhar nervoso dele, que respirou fundo, provavelmente, admitindo a si que não tinha mais jeito.
— Eu e o Joe decidimos fazer uma brincadeira com as meninas. Com a , na verdade, porque eu sabia que ela tinha medo de palhaços, e... E, então, nós nos fantasiamos e a assustamos, mas, nisso, nós acabamos assustando a Mina também, o que não estava nos planos. Não tínhamos ideia dessa fobia. Foi isso.
Meus pais forçaram uns sorrisos, enquanto os dele o encaravam de forma séria. Eu só tentava segurar o riso. Ele estava fodido, e não era pouco.
— Que tipo de ideia foi essa, ? — o pai dele questionou, controlando sua voz.
— Tá tudo bem, agora, ok? Nós pedimos desculpas, a Mina aceitou, tá tudo certo! — ele se defendeu, encolhendo os ombros.
— Isso é o que você pensa. — Liz concluiu o assunto, antes de chamar a atenção da minha mãe para alguma outra coisa, que me parecia extremamente chata, relacionada às plantas.

— Isso foi divertido, não é? Temos que fazer isso mais vezes. — Liz disse com um sorriso carinhoso no rosto.
Ela estava mentindo.
Depois das ceninhas que e eu fizemos, nós nos calamos de vez e decidimos cada um focar em seu prato de comida. Nossos pais continuaram conversando, afinal, alguém precisava preencher o silêncio, e eu só me atrevi a abrir a boca de novo quando era mencionada, com uns sorrisos aqui e ali. Não foi exatamente o jantar mais divertido da minha vida, apesar de ter gostado bastante da parte em que eu virei o jogo e dei ao uma baita dor de cabeça.
E a comida estava bem gostosa.
— Ah, sim, claro! — minha mãe respondeu tão calorosa quanto.
— Foi ótimo ver vocês, Liz, Harry... — eu me atrevi a dizer, sorrindo para eles.
— Para a gente também, . Sentimos sua falta, de verdade! — ele me disse.
— Ah, meu amor, vem aqui! — Liz falou, abrindo os braços, e eu a abracei, feliz por ela não estar bolada comigo pela situação com o filho dela. Afinal, agora, era óbvio que nós não estávamos nos dando tão bem assim.
Depois de mais algumas despedidas (exageradas, considerando que só estávamos indo à casa ao lado), eu e meus pais seguimos para o meu antigo lar, doce lar, em silêncio. Eu sabia o que estava por vir, sabia bem. Meus pais adoravam tanto aquelas conversas bobas, que acabavam com um grande abraço em família, que era quase como se nós fôssemos a família Tanner da vida real.
Já dentro de casa, com uma recepção super animada do meu cachorro, eu fui à cozinha, sendo seguida por um pai e uma mãe que tentavam agir naturalmente. Peguei um copo com água e, enquanto isso, eles pararam, cada um no seu cantinho, me lançando uns sorrisos que também tentavam ser naturais. Então eu decidi continuar com a brincadeira e subi para o meu quarto, antes que eles pudessem começar a falar. Eles ficaram meio enrolados, dando-me tempo o suficiente para me aconchegar na minha cama com o Smurf aos meus pés.
Não foram mais que 10 segundos, até que eu ouvisse três batidas na porta já aberta.
— Podemos entrar? — meu pai perguntou.
— Desde quando vocês batem?
— É uma universitária, agora, . As coisas mudaram! — minha mãe explicou, e eu deixei escapar uma risada rápida.
— Engraçado... Quando eu e o queríamos privacidade, ninguém batia.
— Não vamos entrar nesse assunto de novo, né?
Suspirei, balançando a cabeça. Se havia uma coisa que eu costumava odiar era ter que discutir com meus pais para ver se conseguia convencê-los de que não era legal entrar no quarto da filha única, pegá-la se agarrando com o namorado... Coisas do tipo. Eu estava muito bem sem isso, obrigada.
— Sabe por que estamos aqui? — a dona Claire perguntou, sentando-se ao meu lado.
— Sei, sim — respondi, apenas.
— E então? — ela continuou. — Não acha que nos deve algum tipo de explicação?
Fingi pensar por alguns segundos.
— Hum... Não, mas obrigada pelo espaço.
! — meu pai disse com um pouquinho menos de paciência que minutos antes.
— Ah, que foi, hein? Eu menti pra vocês, grande coisa. Sabe, filhos mentem para os pais. Pelo que ouvi falar, é muito comum por aí.
— Você não. E me corrija, se eu estiver errada, mas começar a fazer isso, agora, é, no mínimo, estranho.
Suspirei novamente e cruzei os braços sobre o meu peito. Eu não estava velha demais para receber sermão, não?
— Filha, você tem que entender que a gente se preocupa com isso. Eu mal consigo me lembrar da última vez em que você mentiu para a gente. Deixa-me preocupado que você tenha sentido a necessidade de fazer isso — meu pai disse, aproximando-se.
— Foi só uma mentirinha inocente... Qual é?!
— Uma mentirinha inocente que nos levou àquele jantar desastroso. Se tivesse contado que você e o não estavam tão bem assim, nunca teríamos topado um jantar com a família dele, o que teria evitado aquele baita climão. Você sentiu o climão, não sentiu?
Assenti, e ela me olhou com uma cara de “viu só?”.
— Nós nunca obrigaríamos você a jantar com o contra sua vontade. Só precisava ter contado a verdade.
Balancei a cabeça, perdendo a minha paciência.
— Tá... Como? — Dei uma risada forçada, enquanto eles me encaravam confusos. — Como esperam que eu conte a verdade? Porque todo mundo, o mundo inteiro, parece querer forçá-lo para o meu lado. Vocês, a , o , o , a família dele e até ele, pelo menos, por um tempo. É , , , para todo lado. Eu só queria um pouquinho de paz, sem vocês questionando o porquê eu não dava uma chance e blá blá blá. Foi um baita tiro na culatra, mas a intenção era das melhores.
Um silêncio se instalou no cômodo quando parei de falar. Meus pais se encararam rapidamente com uma cara de “não acredito”, e eu esperei. Não que eu quisesse fazê-los se sentirem culpados pelo jantar desastroso, mas... Bem, eu queria, sim. Afinal, menti por um motivo.
— Ah, ... — minha mãe começou. — Eu não sei nem o que dizer.
Realmente, tinha uma primeira vez para tudo. Minha mãe sem palavras? Eu vivi para ver aquilo.
— Nós sentimos muito, querida. Não tínhamos ideia que insistir, para que fizesse as pazes com o , te chateasse tanto.
Encolhi os ombros, fazendo a minha melhor cara de “dããã”.
— É... Pararemos, eu prometo. Agora, você pode odiar o o quanto quiser, tudo bem?
— Claire!
— O quê?
— Não a incentive a odiar alguém. Isso é tão errado!
— Ah, Johnatan, por favor! Ou nós enchemos o saco dela, para fazer as pazes, ou a apoiamos no ódio. Vou fazer o que?
— A vida não é feita de extremos, sabia? Você quer a vida da sua filha cheia de ódio?
— Não seja estúpido. É claro que não! Que mania de fazer tempestade em copo d’água!
— Ah, eu? Pois quem foi que quase derrubou a casa, na semana passada, porque me esqueci de tirar o lixo? Não foi eu, Claire.
— Eu pedi pra você tirar o lixo não uma, não duas, não três, mas quatro vezes. Foram quatro!
— Eu já disse! Eu estava muito ocupado!
— Claro que estava, afinal, o formato da sua bunda no sofá não se forma de uma hora pra outra, não é?
Meu pai olhou para ela, chocado, com os olhos e boca arregalados, e eu aproveitei a deixa para falar:
— Vocês podem levar isso lá pra baixo? Sabe, eu tenho que estudar.
Eles me olharam rapidamente, mas não perderam muito tempo, ali, comigo. Andaram em direção à porta na mesma hora.
— Isso foi tão baixo, Claire! Não acredito que disse isso! — Ouvi meu pai dizer, no caminho para fora, antes de correr e fechar a porta atrás deles.
E eu não tive que mexer nem um dedinho.



Algo estava tocando. Lá no fundo, eu conseguia ouvir um barulho irritante que atrapalhava o meu sono, apesar de eu ainda estar sonolenta demais para identificar de onde vinha. Mas estava tocando, há tempo demais, eu diria.
Virei minha cabeça para o outro lado, na esperança de que desaparecesse, mas não rolou. Ainda estava lá. Qual é, será que alguém poderia fazer aquilo parar?
E então parou.
Eu sorri e relaxei na cama, pronta para voltar a dormir, quando o som voltou. Dessa vez, parecia ainda mais estridente, o que me fez abrir os olhos, irritada. Era uma manhã de sábado, alô!
Procurei ao meu redor e encontrei meu celular com a luz acesa na mesinha ao lado. Peguei-o, sem nem mesmo olhar quem ligava porque minha visão ainda estava parcialmente embaçada, e atendi.

— Que é?
— Porra, finalmente! – Disse uma voz que eu chutei ser da Mina. Logo ela? Eu esperava ser acordada pela , mas pela Mina... Era decepcionante. – Eu já te liguei 5 vezes, caralho, tem celular pra quê?
— A falta de resposta deveria ser um sinal claro para parar de ligar. – Resmunguei, jogando novamente minha cabeça no travesseiro.
— São quase 11h00 da manhã, se liga. – Franzi o cenho, surpresa. – Além do mais, eu preciso da sua ajuda.
— Pra que?
— Você sabia que eles tem milhões de tipos de sprays diferentes? Vômito, lixo, número 2... Tem até um chamado cadáver aqui que tá me deixando meio preocupada.
— Ah, sei lá, cara, eu to com sono demais pra pensar nisso. – Disse, já de olhos fechados, mais do que pronta pra desligar.
— Acorda, mulher! Eu não sei qual escolher. O cara aqui que vende falou que o de vômito é bem ruim, já o de número 2 é o mais vendido, o que você me diz? – Ela perguntou e eu suspirei.
— Eu digo: compre os dois.
— Os dois?
— Isso, você entendeu certinho, te vejo amanhã.

Desliguei.
Eu não tinha o melhor dos humores quando acordava.

— Bom dia, família! – Eu disse ao encontrar meus pais na cozinha.
— Já era hora, pensei que não fosse acordar hoje. – Meu pai brincou e eu balancei os ombros. Eu realmente tinha dormido pra caralho. Saudade da minha cama, talvez.
— Mas acordou bem a tempo de ajudar no almoço. – Minha mãe anunciou com um sorrisinho esperto para o meu lado. Fiz uma careta.
— Sério? Vocês sabem o quanto eu odeio cozinhar. Querem mesmo toda essa energia negativa na comida de vocês?
— Queremos sim, amor.

Bufei, já sabendo que não tinha como fugir dali.
Só tive tempo de comer duas bolachas antes da senhorita Claire me entregar um bom tanto de batatas cozidas para picar. Então eu comecei a trabalhar. Assim que eu terminava alguma coisa, eles já me entregavam outra e foi assim que eu passei a hora seguinte.
Eu estava prestes a enfiar uma garfada de comida na boca quando ouvi o suspiro da minha mãe. Ergui o olhar e só então percebi que ela me encarava. Ela sorriu.

— Eu senti tanto a sua falta, sabia? – Disse num tom doce. Meu pai resmungou.
— Claire, agora não, por favor.
— Agora sim, fica quieto.

Ele então apoiou o cotovelo na mesa e tapou os olhos com uma das mãos, balançando a cabeça. Aquilo me deixou bem curiosa para saber o que estava por vir.

— O que foi? – Perguntei.
— Vamos conversar, tudo bem? – Minha mãe falou e eu assenti. – Bom, nós... Principalmente eu, na verdade, estava pensando... Você realmente tem que morar longe da gente, ? – Ah, não. Não, não, não, não, não. – Eu sei que você não precisava necessariamente morar na casa pra ser uma Kappa Kappa Gamma, então... Por que não fica aqui? Eu posso te levar todas as manhãs, não me importo, e seu pai te busca quando quiser. Não é tão longe assim, querida.

Fiquei encarando ela por um tempo, sem a menor ideia do que dizer. Bem... Eu até tinha uma ideia, mas eu não acho que um “Tá louca?” seria bem recebido naquele momento. Engoli em seco. Eu não estava preparada para aquilo. A expectativa não deixava o olhar dela e meu pai parecia curioso. Que momento maravilhoso para ele decidir não interromper.

— Ahn... – eu tentei, mas as palavras não se formaram. – E-e-eu...

Não saía. Eu não queria ter que olhar nos olhos da minha mãe e dizer que não, eu não queria voltar a morar com eles. Eu gostava da liberdade. Tá, às vezes, eu queria, sim, voltar correndo para casa e me esconder lá, mas... Eu não podia. Seria fácil, mas a verdade é que eu queria ter que lavar as minhas próprias roupas, cozinhar se eu quisesse comer, lavar o banheiro que eu usava... Não porque eu gostava de fazer isso, só porque fazia com que eu me sentisse independente. Eu ia ter que ser completamente independente algum dia, certo? Por que não começar aprendendo agora?

— Você não precisa tomar essa decisão agora, querida. Pode pensar na ideia. – Minha mãe voltou a falar e então eu tive que forçar as palavras. Iria doer nela, sim, mas ainda mais em mim.
— Eu não preciso pensar, mãe... Eu não quero voltar a morar aqui. – Eu disse, tentando soar doce, se é que isso era possível, se tratando de mim.

Eu sabia que ela sentia minha falta. Ele também, apesar de não deixar tão claro. Me ligavam todos os dias, sem exceção, às vezes mais de uma vez, queriam estar sempre à par de tudo o que estava acontecendo, insistiam que eu viesse para casa todo final de semana, e eu os amava tanto por isso, mas eu não poderia dar um passo desses, um passo para trás. Só haviam passado três semanas desde que eu tinha ido, eles iam se acostumar uma hora e eu também. Ia ficar tudo bem, por mais que os olhos decepcionados da minha mãe não transparecessem aquilo naquele momento.

— Tem certeza? – Ela perguntou, ainda com um fio de esperança, enquanto meu pai passava os braços ao redor dos seus ombros, a confortando.
— Sim. Não fica triste, por favor. – Alcancei sua mão na mesa e a segurei. – Eu sinto sua falta também, mãe, demais! Mas eu tenho que aprender a me virar sozinha, entende? Você sabe como isso é importante pra mim.
— Nós entendemos, filha. – Meu pai entrou na conversa e minha mãe assentiu, apesar de eu saber que, naquele momento, ela não fazia questão de entender, e eu não a culpava por isso.
— Mas vocês sabem que podem ligar e visitar quando quiser. Eu prometo que vou tentar vir mais aqui, nem que seja para passar algumas tardes, tudo bem? Eu ainda estou me adaptando a essa vida de universitária, Kappas, trabalhos, tá tudo uma bagunça, mas aos poucos eu vou me ajeitando e a gente vai fazer isso funcionar, eu prometo.

Ela assentiu e forçou um sorriso fraco, apesar de um brilho característico de choro estar em seus olhos.
, te magoa em menos de dez minutos! Não perca essa oportunidade, 0800 777 8000, ligue agora!

— Tá tudo bem? – perguntou, provavelmente porque notou o meu bico do tamanho do mundo assim que entrei no carro.
— Só mal por deixar eles aqui. – Respondi, olhando rapidamente para os meus pais, ainda parados na varanda, me observando.

Eu fiz questão de passar cada segundo daquele final de semana com eles, mas dois dias passavam rápido e, quando eu vi, já era quase noite de domingo e estava estacionando na frente de casa para me buscar.

— Vai ficar mais fácil.

Então entrou no carro, dessa vez no banco de trás, junto com , já que eu já ocupava o da frente. deu partida e eu acenei para os rostos tristes que eu deixava para trás até perdê-los de vista.

— E então, como foi o final de semana de vocês? – perguntou, ignorando seus fones de ouvidos por um tempo.
— Legal. – Eu disse.
— Divertido. – respondeu.
— Um saco. – respondeu por último, parecendo de mal humor.
— Caramba, posso saber por quê? – perguntou novamente.
— Pergunta pra tua amiga sobre o showzinho que ela fez no jantar.

Revirei os olhos.

Drama Queen. – Comentei baixinho, mas ele ouviu e forçou uma risada.
— Claro que sou, não foi você que teve que aguentar seus pais lamentando pelo sofrimento da vizinha o final de semana inteiro. “Você viu o que você fez, ? A culpa é toda sua.” – Falou, fazendo uma voz fina para imitar a mãe dele, o que me fez rir e, aparentemente, só deixou ele mais bravo, pois ouvi ele bufar de raiva atrás de mim.
— Bom... A culpa é toda sua. – Afirmei.
— Você que teve a ideia maravilhosa de mentir para eles e depois não conseguiu se manter no papel. Como é que a culpa é minha, ?

Uuuuuh, , ele realmente estava bravo.

— Para responder essa pergunta, nós teríamos que voltar um ano e alguns meses no tempo. Quer mesmo lavar roupa suja agora?

E, mais uma vez, ele bufou.
Quem precisa de um touro quando se tem um ? Apesar de ser eu quem carrega os chifres.

— Primeiro, calem a boca, e segundo, contem pra gente sobre o showzinho que a fez porque ela faz umas tours maravilhosas. – falou e eu me pus a contar sobre o fatídico jantar de sexta-feira, sendo constantemente interrompida pelo .

Quando eu terminei de contar e mais uma briga começou a nascer, fez um ultimato.
“Eu vou decretar uma regra aqui e agora. Melhor, uma lei! Vocês estão proibidos de brigar no meu carro. Eu não preciso de energia negativa enquanto dirijo, então calem a boca ou eu vou deixar vocês por aqui mesmo”, ela disse. Nós obedecemos, só porque sabíamos que ela falava sério quando dizia que nos deixaria ali.
pôs seus fones de ouvidos, começou a cantarolar uma música qualquer, fazia sabe-se lá o que, e eu fiquei observando a cidade passar pela janela. Não demorou muito para que eu começasse a pensar e todos nós sabemos o que acontece quando eu começo a refletir, geralmente não vem coisa boa.
Com o pedido dos meus pais ainda rondando minha mente e aquele incômodo de ter que falar não para eles, eu notei que, na verdade, estava ansiosa para chegar em casa. Na minha nova casa, lugar que eu tanto relutei em estar. Apenas 48 horas se passaram desde que eu tinha ido, mas eu já sentia falta de estar naquele ambiente cheio de garotas tão diferentes entre si, o que às vezes resultava em intrigas, mas que, no final, todas convivíamos bem. Talvez minha mãe estivesse certa, afinal de contas. Estar em uma irmandade era uma experiência e tanto. E pela primeira vez, eu fiquei realmente feliz por ter dado uma chance àquilo. Tão feliz que eu sussurrei um obrigada para o por ter duvidado de mim, mas só na minha cabeça, é claro. Não precisava, e não iria, dar a ele o gostinho de ganhar um obrigada meu.
Quando começaram a surgir casas gigantescas e jovens para todo lado, eu soube que estávamos chegando. Paramos na Lambda primeiro para deixar os meninos e, enquanto eles pegavam suas coisas no porta-malas, eu fiquei olhando o movimento.
A janela estava completamente aberta e, onde ela deveria estar, eu apoiava os meus braços e minha cabeça em cima. Foi mais ou menos quando eu vi o cara da festa se aproximando correndo. Ele usava uma regata de academia, deixando seus braços nada fracos a mostra, e uma bermuda larga. Não pensei que fosse me ver, já que ele parecia bem concentrado na sua corrida, mas quando eu tive certeza que ele entraria na sua casa direto, a movimentação do e do pareceu chamar sua atenção.
Nick abriu um sorriso lindo assim que me viu e se aproximou.

— Ei! – Ele disse, parando bem na minha frente.
— Oi! – Falei, sorrindo também.
— Nick, você por aqui. – disse, se esticando para cima de mim a fim de enxergá-lo do outro lado.
— Oi, . – Ele aproveitou também para cumprimentar com a cabeça e , que pareciam discutir alguma coisa entre si com o porta-malas ainda aberto. – E aí, se divertiu na casa dos seus pais? – Ele perguntou e, apesar da pergunta se encaixar para nós duas, ele olhava diretamente pra mim, o que pareceu notar, pois não falou nada.
— Bastante. Como foi por aqui?
— Ah... – fez uma careta. – Fiz uns exercícios maneiros de álgebra. Foi um final de semana bem animado. – Disse irônico, e eu ri.
— Se te faz sentir melhor, na casa dos meus pais ou não, eu também tive que fazer eles. – Disse, erguendo os ombros. Um baque chamou nossa atenção. Quando olhamos, os garotos tinham acabado de fechar o porta-malas. Eu não sei explicar bem o que eu fiz depois. Eu sabia que o se aproximava e sabia que ele podia ouvir, então, sem nem pensar, eu simplesmente falei: – Escuta, você tá livre hoje?

Pelo retrovisor, eu vi que ele parou na hora e olhou em nossa direção, curioso.

— Hoje? Sim. – Nick respondeu e eu sorri, apoiando meu queixo em uma mão e o encarando.
— Eu também, que tal aquela saída?

Só por um segundo, eu desviei o olhar para o retrovisor novamente, não foi nem por vontade própria, e sim, automático. A curiosidade tinha abandonado seu rosto e agora ele simplesmente olhava a cena com uma expressão neutra. Nem eu conseguia imaginar o que se passava naquela cabeça. Talvez estivesse me xingando de todos os nomes possíveis, talvez estivesse chateado, mas uma coisa eu sabia que não se passava ali: indiferença. Eu o conhecia bem demais para saber que eu chamando um cara para sair bem na cara dele iria causar algo.

— Ahn... Por mim, tá ótimo. – Nick concordou, parecendo surpreso com o meu convite. – Eu posso te buscar às 20h00. – Sugeriu.
— Perfeito. Te vejo às 20h00. – Disse, pois já dava partida no carro.
— Tchau, meus amores! – praticamente gritou e saiu com o carro, nem dando ao rapaz a chance de responder. – Eu acabei de ver isso mesmo? – Perguntou um segundo depois.
— Com os seus próprios olhos.

Ela balançou a cabeça positivamente, fazendo uma cara engraçada que parecia ser de orgulho.

— Essa é a minha garota.

Quando chegamos na nossa casa, eu corri para dentro enquanto guardava o carro, pois já havia passado das 18h30 e eu precisava urgentemente de um banho. No quarto, encontrei April lendo um livro e Mina secando o cabelo com a toalha.

— Cheguei, princesas.
— Como foi o final de semana? – April perguntou, parecendo feliz pela minha presença, então eu ignorei a frustração que me bateu por ter que responder aquela pergunta pela terceira vez em menos de uma hora.
— Foi legal. – E então eu olhei para Mina, só para perceber que ela me lançava um olhar bravo enquanto corria a toalha pelos seus cabelos. Aparentemente, April era a única que me queria aí. – Mina, tá tudo bem? – Perguntei, deixando escapar uma risada pela cara que ela fazia. April também riu, me fazendo imaginar que a explicação fosse boa.
— Nós nos conhecemos há um tempo já, não é? Eu te vi cair de bêbada, cair de calor, tomamos um susto juntas... Então, sim, eu acho que já posso te falar com todas as palavras sem remorso: eu te odeio. – Arregalei os olhos com as últimas palavras, mesmo ainda achando graça da situação.
— Eu posso saber por quê?
— Eu tô fedendo, . Eu tô fedendo! E a culpa é toda sua! Quem teve a ideia de comprar esses sprays? Quem decidiu que eu deveria ir comprar? Foi você, , e agora eu nunca mais vou cheirar bem na minha vida!

Nesse ponto, April já gargalhava na sua cama e eu fiquei tentada a fazer o mesmo, mas segurei. Ao invés disso, me aproximei dela para cheirá-la (sim, foi uma cena estranha) e tudo que senti foi o cheiro do seu shampoo.

— Bom... Se você não gosta desse cheiro, provavelmente deveria comprar outro shampoo, não acha? – Sugeri e o seu olhar que antes era bravo, agora estava mais pra assassino.
— Você acha que eu não sei que ninguém mais sente esse cheiro? Todo mundo nessa casa já me cheirou, , todo mundo! Mas tá aqui ó... – Apontou para o seu nariz, com um olhar maníaco no rosto. – E não sai! Eu não sei mais o que fazer, já tomei sete banhos desde ontem. Você tem o cabelo maravilhoso que nem o meu, você sabe que eles não ficam assim sendo lavados demais! – No final, tudo o que eu peguei foi...
— Sete vezes? É banho pra caralho de um dia para o outro. – Disse, chocada.
— Eu sei!
— Eu falei pra ela que eles eram desnecessários, mas olha aí. – April falou, já contida. Balancei a cabeça, desacreditada.
— Mas por que você usou o spray, Mina? Sabia que eram fedidos.
— Não fui eu! – Ela praticamente gritou, fazendo mais difícil ainda para mim não começar a rir. – Aquele vendedor estúpido, foi ele! Ele que achou que seria uma boa ideia espirrar aquele negócio no ar, e então bateu um vento e quando eu vi, eu estava cheirando vômito.
— Bom... Então, tecnicamente, a culpa não é minha, é? É do vendedor estúpido, você não devia me odiar.

Ela parou para pensar por uns segundos, me olhando desconfiada. Eu esperei, até que balançou a cabeça, parecendo concordar.
— Tudo bem. – Disse, parecendo mais calma.
— Fácil assim? – Perguntei e ela assentiu. Eu que não ia questionar mais. Me afastei, indo até o closet rindo da situação toda, quando uma almofada me acertou as costas. – Ei! A April estava rindo também. – Reclamei.
— Até a risada da April é fofa, a sua não, então para.

Me sentindo injustiçada, eu continuei meu caminho e depois fui tomar banho. Eu tinha um encontro hoje, precisava estar pelo menos apresentável em cerca de uma hora.
Quando voltei para o quarto, Mina e April continuavam exatamente como eu as deixei, mas agora as acompanhava.

— Por que não contou que tinha um encontro hoje? – Mina perguntou no mesmo segundo. Dei de ombros.
— Você não perguntou. – Respondi enquanto ia até o closet escolher uma roupa.
— Vai vestir o que? – Dessa vez foi .
— Eu não sei... – disse, olhando minhas roupas. Passei os olhos por um vestido curto vermelho de alcinhas e puxei ele pra os meus braços. – Vocês acham que esse aqui diz “quero transar”?

Elas o avaliaram por alguns segundos e chegaram todas a mesma conclusão.

— Sim.
— Definitivamente.
— Com certeza.

Dei uma outra analisada nele e sorri, decidida.

— Perfeito. – Disse, tirando a toalha que me cobria e vestindo-o por cima da calcinha. Optei por deixar o sutiã em casa naquele dia.
— Eu sabia que tinha um motivo pra você chamar ele pra sair assim do nada, você quer dar! – me acusou.
— Ei, pra sua informação, ele já tinha me chamado pra sair esse final de semana. E qual o problema? Com toda essa bagunça de entrar pra faculdade e me mudar, eu não tenho um encontro há um tempo, sabe.

Ela não precisava saber que o principal motivo para o meu convite de última hora foi o ali observando a cena, mas eu já estava ali, por que não aproveitar?

— Eu não disse que tinha um problema. Na verdade, eu acho é ótimo. Você precisa relaxar, tirar sua cabeça dessas briguinhas com o ...
— Transar. Você precisa transar, ela quis dizer. – Mina interrompeu, ganhando uma almofada na cara da .
— É. Além de tudo, eu mereço. – Notei que April olhava a cena com curiosidade, mas sem falar nada. – E você, April? Precisa transar? – Perguntei, fazendo suas bochechas ficarem vermelhas.
— Não, eu... Eu tô bem assim.
— Ah, qual é, April, nem um pouquinho? – Mina perguntou e ela balançou a cabeça, negando. – Você é virgem, né? – Ela assentiu, encolhida de vergonha. – E nunca se masturbou?

Se fosse possível um rosto explodir de tamanha vermelhidão, teriam pedacinhos da April por toda parte naquele quarto. Eu sentei na frente da penteadeira para me arrumar, apenas observando a cena.

— Não! – Respondeu, parecendo chocada.
— Por que não? É divertido.
— Mina, deixa a April, você sabe que ela tem vergonha. – a repreendeu. — Eu já pesquisei tudo o que queria saber.

Mina e eu trocamos um olhar chocado pelo espelho antes dela voltar sua atenção à pessoinha já encolhida novamente em sua cama.

— Então você tem curiosidade! – April não respondeu.
— Tá tudo bem, April, todo mundo fica curioso com essas coisas. – Eu disse, apesar do som do secador de cabelo me obrigar a quase gritar.
— Podemos trocar de assunto? Por favor? – Ela pediu e Mina decidiu deixar pra lá dessa vez.
— Bom, pelo menos uma de nós vai ter alguma ação hoje. – Disse, voltando a se jogar na sua cama. bufou e revirou os olhos. – Eu preciso de uma namorada.
— Você? Em um relacionamento sério? Nem eu consigo imaginar isso. E eu tenho uma imaginação bem fértil. – Zombei.
— Ei! Eu dou uma baita de uma namorada, não é, ?

Voltei meu olhar para que pareceu ficar tensa com a pergunta. Estranhei, pois nunca pensei na como alguém que ficava desconfortável com esse tipo de assunto. Mas ela logo se recompôs e riu.

— Você é tão boa namorada quanto a . – Disse, fazendo com que eu e Mina trocássemos um olhar curioso.
— Você era uma boa namorada? – Perguntou.
— Sim! – Respondi prontamente, mas segundos depois me veio à dúvida. – Eu era, não era? – Perguntei para a , que deu de ombros.
— Vou deixar essa no ar.

Eu ia ficar com o sim, de qualquer maneira.
Terminei de secar meu cabelo, deixando ele um pouco úmido em uma tentativa de manter algumas ondas, e então comecei a trabalhar na maquiagem. me ofereceu ajuda, mas eu recusei dessa vez. Só queria algo básico, afinal, não era grande coisa assim, só um encontro. Tudo bem, eu não ia a um encontro há cerca de cinco meses, mas eu ainda lembrava bem como a coisa funcionava. Ou pelo menos eu achava que sim.

— Tá nervosa? – April perguntou enquanto eu calçava minhas sandálias. Balancei a cabeça para os lados.
— Não. Ele é gente boa, vai dar tudo certo. O pior que pode acontecer é não ter assunto, mas quem precisa conversar quando existe um negócio chamado beijo?
— Você não é boba nem nada, né, garota? – Só lancei um sorriso para Mina em resposta e ele dizia com todas as letras, ou melhor, com todos os dentes: não, eu não sou.
— Eu tenho uma sandália que ficaria linda com esse vestido, sabia? – começou, olhando para os meus pés com uma sandália baixa como se eu tivesse cometido um crime.
— Ah, é? E ela tem salto? – Perguntei, já sabendo a resposta.
— Um saltinho de nada. Você nem vai sentir.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela correu para o closet atrás das sandálias. Esperei e quando ela voltou, eu não vou mentir, me apaixonei. A sandália era rosa bem clarinho e meio transparente, com um salto fino de 7 ou 8 centímetros. Hoje, a venceu. Mas só hoje.
Semicerrei os olhos em sua direção e peguei a sandália, ganhando uma comemoração com direito a pulinhos e tudo.
Me sentei na cama novamente para tirar a que estava e colocar aquela quando ouvi a campainha lá embaixo. Segundos depois, ouvi a voz da Suzy.

, é pra você! – Ela gritou do andar de baixo.
— JÁ VOU! – Gritei em resposta, assustando as meninas.

Corri para terminar de calçar as sandálias e quando o fiz, dei uma última olhada no espelho. Modéstia parte, eu estava bem gostosa.

— Boa sorte! – e April disseram quando eu estava prestes a sair.
— Boa transa! – Ouvi Mina dizer antes de fechar a porta atrás de mim, rindo. Que os desejos dela se realizem.

Desci as escadas com o maior cuidado do mundo, tentando ao máximo não desabar.

— Uhhh, alguém tem um encontro. – Katy, que estava sentada em um dos sofás, falou.
— E ela não brinca em serviço. Mulher, você tá maravilhosa! – Suzy continuou, me fazendo rir.
— Ora, muito obrigada.

Quando eu toquei na fechadura da porta, ouvi um psiu. Olhei para o lado e era da Amy.

— Eu ouvi dizer que o oral do Nick é maravilhoso. – Ela disse, em alto e bom tom. Arregalei os olhos.
— Ah, meu Deus...

E saí antes que alguém me desse mais um spoiler.
Do lado de fora, lá estava ele, parado com as mãos a frente do corpo, em uma calça jeans de lavagem escura, uma camiseta cinza e até um blazer preto. Agradeci ao carinha lá de cima por ter vestido algo decente porque a coisa parecia séria.

— Uau! – Sorri feliz por arrancar dele exatamente a reação que eu esperava. – Você tá linda.
— Você também não tá nada mal.

Ele sorriu e colocou a mão nas minhas costas, me guiando até o que eu imaginei que fosse seu carro. Se eu não estivesse de tão bom humor, reclamaria do quão irritante era aquela mão, mas, naquele dia, eu simplesmente optei por ignorar.
Nick deu a volta no carro, entrou e deu partida, nos deixando em um silêncio meio chato.

— Então... – ele começou a dizer depois de alguns segundos. – Ouviu falar do meu oral? – Me virei para ele de olhos arregalados, já imaginando que ele era louco ou algo do tipo e eu devia dar o fora dali, mas, quando meu olhar encontrou seu rosto, vi que ele segurava a risada. – Eu ouvi a sua amiga. – ele afirmou e eu ri também, nervosa e bastante aliviada.
— Que susto, cara, já estava pronta pra abrir a porta e me jogar pra longe de você. – Disse, arrancando uma gargalhada dele. No final, aquilo deixou o clima mil vezes mais leve. – E então, aonde vamos?
— Gosta de comida mexicana? – Ele perguntou, já me fazendo sorrir de animação.
— Amo!
— Já foi no El Carmen?
— Não, mas já ouvi falar muito bem. – Eu disse, me lembrando da quantidade de vezes em que planejei ir naquele restaurante e na quantidade de vezes em que acabou não dando certo até eu deixar pra lá.
— É um dos melhores de Los Angeles, você vai ver.

Nós fomos o resto do caminho conversando sobre comida mexicana. É isso mesmo que você leu. Comida era um dos meus assunto preferidos e a mexicana era uma das minhas preferidas, então... Simplesmente deu certo.
Quando chegamos, notamos que o lugar não estava tão cheio, o que era bom. A decoração era bem... Moderna, eu diria, cheia de luzes de cores fortes como vermelho e laranja, mas que não deixavam o lugar muito claro, só o suficiente. Era aconchegante. Me pareceu um bom lugar para levar alguém para um encontro. Ponto para o Nicholas.
Nos sentamos mais ao fundo, em uma das últimas mesas, onde estava mais vazio e logo uma garçonete apareceu para anotar os nossos pedidos. Ele pediu camarão na tequila e eu uma sopa de tortilla, resistindo ao impulso de pedir tacos. Era um encontro, eu tinha que me lembrar. Coisas fáceis de comer eram importantes.

— Então... – ele começou a dizer e eu levantei as sobrancelhas, esperando a já comum, mas não menos chata, pergunta. – Me fala sobre você. – certo, afirmação. Dava na mesma, não tinha importância.
— O que quer saber? – perguntei.
— Tudo. – Respondeu, com um sorrisinho esperto.
— Vai ter que ser mais específico. – Ele respirou fundo, parando pra pensar.
— Tudo bem... Banda preferida?
— Não tenho. Eu não poderia escolher uma só.
— Animal de estimação.
— Smurf, meu cachorro. Eu já tive um peixe, mas ele não durou muito tempo. E, se eu pudesse, gostaria de ter um gato.
— Meus pais têm dois. – Ele disse, fazendo uma careta. – Não são os meus animais preferidos no mundo.
— Por quê?
— Experimenta encontrar um rato morto em cima da sua cama como “oferenda” e você vai entender. – Explicou, me fazendo rir. E ficar um pouco preocupada.
— Você sabe que a intenção deles são as melhores.
— É, mas... Enfim... Onde estudou?
Sensille High, conhece?
— Claro, meu primo estudou lá.
— Nome?
— Jamie Morris.
— Não! – Exclamei, estendendo o “ã” por alguns segundos. — Seu primo é o Jamie? O minha-segunda-casa-é-a-diretoria Jamie? O mesmo Jamie que tocou o alarme de incêndio porque não tinha estudado pra prova e me deu um dia a mais para estudar?
— Acho que ele tem uma reputação e tanto.
— Caramba, eu amo aquele cara! Ele se mudou para Miami, né?
— Sim... Se você acha que ele já fazia uma bagunça aqui, imagina o cara em Miami!

Jamie Morris salvou o dia mais uma vez, pois, depois disso, a conversa foi fluindo naturalmente, sem muitos esforços de nenhum dos lados. Eu acabei descobrindo que a UCLA não era a primeira opção dele, que queria se mudar para a costa leste, mas ele acabou ficando porque é uma universidade e tanto, não se recusa uma vaga nela. Também descobri que ele não é de Los Angeles, e sim, de Washington DC, a terra do presidente, por isso ele não ia visitar seus pais com tanta frequência quanto gostaria, já que a viagem era um pouco longa.
Nick parecia bem interessado em mim porque praticamente me interrogou a noite inteira. No final do jantar, ele já sabia até do que eu tinha medo quando criança. Ele era simpático e lindo, então, ainda que eu soubesse que dormir com um cara que eu ia ver toda semana nas aulas de álgebra não era a melhor das ideias, eu me encontrei sentada em seu colo no banco do motorista, com as pernas postas ao lado das suas, me agarrando com ele duas horas depois. E naquela hora, eu não estava nem um pouco aí, principalmente porque ele beijava bem demais para eu me importar e... Bom, fazia um tempo.
Por isso, também, quando ele me chamou para a casa da Lambda pouco tempo depois, dizendo que seu colega de quarto só chegaria da casa dos pais no dia seguinte, eu nem hesitei em aceitar o convite.

Abri os olhos, ainda sonolenta, como se aquilo fosse me livrar do calor que eu sentia. Demorei alguns segundos para me lembrar onde estava. Na casa da Lambda Chi Alpha, no quarto no Nicholas, em sua cama. E ele estava perto demais, me fazendo sentir mais calor do que eu podia aguentar. Não o culpava, afinal, estávamos em uma cama de solteiro. Não é como se ele tivesse outro lugar para ir.
Procurei meu celular no criado mudo, mas antes que pudesse encontrá-lo, as letras vermelhas do despertador chamaram a minha atenção. 05h27. 05h27! Eu tinha que levantar em exatamente uma hora e três minutos para ir para a aula e, ao invés de já estar na minha cama, como eu deveria, eu estava em outra casa. Puta que pariu, eu devia ter me ouvido. Sabia que não seria uma boa ideia fechar os olhos enquanto recebia cafunés (bem gostosos, por sinal).
Nick parecia em um sono tão profundo que eu poderia pular em cima dele e ele ainda assim não acordaria, mas optei por não abusar da sorte, tentando fazer o máximo de silêncio possível. Levantei com cuidado, tendo que ir até o outro lado do quarto buscar minha calcinha e meu vestido jogados na outra cama. Nós meio que começamos lá. Depois de devidamente vestida, eu voltei para pegar meu celular no criado mudo, mas, quando o puxei, acabei puxando junto um chaveiro que caiu no chão, fazendo um barulho gigante no meio daquele silêncio todo. Fiquei completamente paralisada por alguns segundos, sem tirar os olhos de Nick. Quando finalmente percebi ser seguro, soltei o ar que segurava e me abaixei para recolher as chaves.
Foi quando eu me lembrei.

“Você não tem algum peguete na Lambda para te emprestar a chave, tem? Vou ter que arrumar a do , então...”

A primeira notícia ruim é que eu tinha me esquecido completamente daquilo.
A segunda notícia ruim é que o plano deveria ser posto em ação hoje mesmo, logo depois do intervalo.
A notícia boa é que eu tinha as chaves para entrar na casa nas minhas mãos.
Sem pensar duas vezes, eu fechei a mão com elas dentro e me levantei, quase pronta para dar o fora dali. Só faltava pegar as sandálias que eu tinha chutado para todo lado, mas assim que o fiz, eu me mandei com elas na mão a fim de não fazer nenhum barulho com aqueles saltos finos.
Desci as escadas com o maior cuidado e agradecendo ao carinha lá de cima a cada segundo pelo novo segundo passado sem ninguém aparecer. Por sorte, havia uma chave do lado de dentro. Não tranquei ao sair, pois não queria entregar que havia pegado as chaves do garoto. Eu era mais esperta que isso. E então eu segui até a minha casa, fazendo a famosa caminhada da vergonha. Felizmente, era cedo demais em uma segunda-feira para alguém assistir.
Quando cheguei em casa, agradeci a todos os deuses desse mundo pela não ter esquecido de deixar a porta dos fundos aberta. Dei uma olhada na piscina, me lembrando de que ela existia e estava ali o tempo inteiro, coisa que eu costumava esquecer, e fiz uma nota mental de usar ela com mais frequência. Piscina em casa é o sonho, não é, não?
Subi para o meu quarto, agradecendo de novo e de novo por ninguém estar acordado, e me joguei na minha cama assim que a vi. De vestido, pés sujos e tudo. O importante era aproveitar os 60 minutos de sono que me restavam.


Qualquer pessoa que me olhasse por não mais que dois segundos poderia ver o pânico nos meus olhos quando eu o vi. O meu impulso foi virar no primeiro corredor que me aparecesse, mas ele sorriu ao me ver e eu percebi que era tarde demais, o estrago já havia sido feito.

— Bom dia, desaparecida. – Nick falou, se inclinando para me dar um selinho. Eu não neguei. Já era estranho demais encontrar o cara com quem eu havia transado algumas horas atrás e ido embora sem nem dar um tchauzinho, recusar o selinho dele deixaria tudo pior do que eu poderia suportar.
— Oi! – Fingi animação, apesar de querer dar o fora logo dali.
— Por que foi embora? Fiquei preocupado.
— Ah, eu acordei quase na hora de levantar para vir pra aula, queria tomar um banho e não quis te acordar. – Expliquei e ele assentiu, parecendo compreender.
— Bom, na próxima vez, pode me acordar, ok? – Abriu um sorriso simpático e eu engoli em seco.

Na próxima vez? Não, cara.

— C-claro. Ahn... Escuta, eu preciso ir, ou vou me atrasar pra próxima aula.

Sem nem esperar ele responder, eu me virei, mas antes que pudesse dar um passo, uma mão agarrou um dos meus ombros.

, espera! – Ele disse e eu me virei devagar. Mina ia me matar. – Você pegou as minhas chaves? – Na hora que ele fez a pergunta, meu coração disparou. Ele sabia. Sabia que eu tinha pegado as chaves, que eu ia aprontar uma, ele sabia! Mas não deixei o meu medo transparecer. Eu não cairia sem lutar.
— Não... Por quê? – Disse com a maior inocência do mundo.
— Não consegui achar elas hoje cedo e eu tinha certeza que as deixei ontem em cima do criado mudo.

Bom, muito boa resposta. Considerando que eu estava esperando um “Eu sei que você pegou, me devolve, agora”, é claro.

— Você olhou de baixo do criado mudo? Ela pode ter caído. – Sugeri. Ele pensou por um tempo antes de me responder.
— É, eu olhei de baixo da cama, mas acho que me esqueci de olhar de baixo do criado. Mais tarde eu vejo isso, agora vai lá, não quero que se atrase para a sua aula.

Com um sorriso nervoso, eu voltei a me virar e imediatamente saí andando em direção à saída do prédio. Aquilo correu bem, certo? Poderia ter sido pior.
Encontrei Mina encostada em uma árvore alguns metros à frente, parecendo entediada. Quando me viu, ela bateu o dedo indicador no pulso, indicando meu atraso.

— Foi mal, tive alguns contra tempos.
— Vamos logo. – Ela disse, já me puxando pelas mãos. – Tá com as chaves?

Eu me esqueci de mencionar que estava a caminho da casa dos garotos para fazer algo que poderia me custar uma advertência. Se tivessem provas contra a gente, é claro. Eu realmente estava rezando para que não houvessem câmeras naquela casa.

— Claro. Trouxe os sprays?
— Sim... Você me viu pegando eles de manhã.
— Só perguntei pelo impacto.

Nós andamos em passos largos em direção a casa deles, o que levou cerca de dez minutos. Perto da universidade, havia muitas pessoas andando para lá e para cá, mas ao chegar no bairro em que morávamos, as ruas estavam mais vazias, o que já era algo a nosso favor.
Ao chegar, paramos em frente a porta de madeira e trocamos um olhar preocupado.

— Quais são as chances da gente abrir a porta e já dar de cara com alguém? – Mina perguntou e eu fiz uma careta, tremendo só com a possibilidade.
— Bom... Na pior das hipóteses, eu digo que esqueci algo aqui noite passada e todo mundo fica sabendo que eu dormi com o Nicholas.

Mais uma vez, eu tremi.
Quanto mais tempo ficávamos ali fora, maiores eram as chances de sermos pegas, então dessa vez fui eu quem puxei a Mina, que parecia ter perdido 50% da sua coragem naquele momento. Peguei as chaves no bolso da minha calça e destranquei a porta. Estava feito. Esperei um pouco antes de abrir para ter certeza de que não ouvia ninguém vindo, coloquei um dedo na frente dos lábios, fazendo um sinal de silêncio para Mina, que assentiu, e abri. Pensei que a porta não ser barulhenta também era outro ponto ao nosso favor. Positividade é tudo.
Eu estava pronta para entrar quando Mina me interrompeu.

— Espera! Eu quase esqueci. – Disse, tirando a mochila das costas para fuçar dentro. Logo ela puxou para fora duas máscaras de proteção respiratória. E não era daquelas simples que médicos usavam não, era toda trabalhada em um material que eu com certeza não sabia dizer o que era, mas parecia proteger bem. – Nós vamos precisar disso.

Com medo de ficar paranoica com o cheiro assim como ela, eu não protestei, apenas peguei a minha e coloquei no pescoço.
O primeiro passo do lado de dentro foi o mais difícil, e depois... Não ficou exatamente mais fácil, não. Por um momento, eu considerei a ideia de ter errado a casa que parecia completamente diferente sem música alta, uma multidão dançando e casais se agarrando.
Tomando todo o cuidado do mundo para sermos silenciosas, nós seguimos para a sala, onde não havia ninguém. Na verdade, depois de dar uma volta pelo andar de baixo e não ouvir nem um ‘piu’ se quer, nós acabamos relaxando um pouco. Talvez um pouco até demais, já que em um momento, nós decidimos que seria uma boa ideia subir nos sofás e fazer poses engraçadas.

— Chega, vamos lá. – Eu disse baixinho, não querendo abusar da sorte.

Foi mais ou menos quando eu ouvi os passos.

— Ah, merda! – Ouvi uma voz masculina resmungar e, na reação mais rápida da minha vida, em dois segundos eu já tinha me deslocado, puxando Mina comigo, para trás de uma parede na cozinha.

Enquanto isso, nós ouvimos os mesmos passos descerem as escadas apressados e saírem porta afora.
Trocamos um olhar aliviado, não nos atrevendo a falar uma palavra sequer. Quem garantia que um outro atrasado não viria logo depois daquele? Por isso esperamos alguns minutos em silêncio. O resto da casa pareceu colaborar, pois logo estávamos no nosso caminho escada acima. Mina ia a frente dessa vez porque eu não fazia ideia de qual era o quarto do .
O andar de cima era consideravelmente mais pequeno que o da nossa casa. Enquanto a nossa possuía vários pequenos corredores, aquela tinha um rente às escadas e outro maior perpendicular àquele, que foi para onde Mina me arrastou. Nós paramos na frente da última porta, onde, para a minha surpresa, ela bateu na porta.
A encarei com uma expressão que eu esperava que transparecesse um ponto de interrogação gigante e ela simplesmente deu de ombros.
Sem resposta, nós entramos. Era uma bagunça. Malas estavam jogadas no chão com roupas vazando delas, haviam sapatos e meias provavelmente sujas jogadas para todo lado. No final, o spray só ia completar o desastre que já era aquele cômodo.
Depois de entrarmos e fechar a porta, Mina apareceu na minha frente exibindo os dois sprays.

— E então, qual você prefere?
— Eu vou ficar com o que sai por cima. – Escolhi, pegando o de vômito. – Qual é a cama dele?
— Aquela ali do canto. – Respondeu, apontando para uma de solteiro próxima a janela. Mais ao lado, havia uma beliche e outra de solteiro igual à dele. – Você fica com a cama e eu com o closet?
— Eu fico com a cama e você com o closet. – Confirmei, já indo em direção ao meu alvo.

Em poucos segundos, eu já estava com a minha máscara no rosto e apertando aquele spray como se a minha vida dependesse daquilo. Depois de fazer questão de que não tinha um centímetro sequer daquela cama seco, eu fui até o closet acompanhar a Mina que também espirrava aquele negócio para todo lado, sem cuidado algum. Nós ficamos lá por um tempo, trabalhando em cada par de sapatos e peça de roupa, e, quando terminamos, trocamos um olhar orgulhoso e respiramos fundo.
Não foi a melhor ideia do mundo, eu vou ter que dizer.
Apesar da máscara ser reforçada, nem ela aguentou depois de tanto spray e o cheiro, apesar de ainda fraco, já estava chegando nas minhas narinas. Não era bom.

— Vamos logo. – Mina disse, fazendo uma careta. — Nós temos o quarto do Joe ainda.

A segui, percebendo naquele momento que eu estava tão focada em tornar o quarto do inabitável que esqueci completamente que o Joe também tinha entrado na brincadeira.

— Espera! – Disse ao passar pela porta. Ela parou, me lançando um olhar curioso. Apertei o spray de cima a baixo na porta, como se aquilo como a cereja do bolo. – Pronto.

Várias portas depois, já quase no outro corredor, Mina entrou em um quarto e eu a segui. Naquele haviam duas beliches e duas camas de solteiro, por isso o quarto era um pouco maior.

— Você fica com o closet dessa vez? – Ela perguntou.
— Claro.

Abri a porta que dava pro closet e comecei, mais uma vez, a trabalhar. Até me senti um pouco mal, pois Joe me parecia um cara legal e estava na cara que ele tinha uma quedinha pela . Uma pena ele decidir seguir os passos do . No final, a culpa daquilo estar acontecendo era todinha dele.
Surpresa por terminar antes, voltei para o quarto e dei de cara com a Mina apertando spray no quarto inteiro. E quando eu digo no quarto inteiro, eu quero dizer em todas as camas, nas paredes, nos criados e qualquer coisa que estivesse em seu caminho. Ela só parou quando deu de cara comigo.

— Ei! Quase que você leva spray na cara, cuidado. – Disse, como se não estivesse fazendo nada demais.
— O que você tá fazendo? Ele dorme em todas as camas, por acaso?
— Ah, bom... Eu não sabia qual cama era a dele, então...

Balancei a cabeça, um pouco chocada. Mas logo dei de ombros, deixando aquilo para lá. É como dizia aquele ditado: se já está no inferno, por que não abraçar o diabo? Era algo assim.
Nós saímos do quarto e eu estava mais do que pronta para sair dali logo quando Mina me puxou pelo braço.

— O que?
— Eu tive uma ideia. – Disse, com um sorriso maldoso no rosto.
— Manda. – Respondi interessada em qualquer coisa que fizesse o sofrer.
— Aqui, me ajuda a abrir. – Falou me dando o spray para que eu o segurasse. O fiz e ela começou a puxar a parte de cima com força.
— Cuidado, não quero tomar banho disso.

Ela só me lançou um olhar que parecia dizer “Relaxa” e continuou a puxar. Na terceira tentativa, a tampa saiu e, felizmente, nenhum líquido foi derramado. Mina então pegou o pote de volta para si e começou a derramar aos poucos todo aquele líquido ao longo do corrimão. Observei a cena de olhos arregalados. Ela estava fora de controle!
Quando voltou para o meu lado, ela tinha um sorriso gigante no rosto.

— E então?

Precisei de alguns segundos de preparo para fazer com que as palavras realmente saíssem pela minha boca e quando eu finalmente consegui...

— Arrasou! – Exclamei, animada. — É como uma estrada, um caminho, preparando eles para o que está por vir.
— Sim! Vai, vamos abrir o seu, faltam uns pedaços.

Eu que entreguei o spray para ela segurar dessa vez e me pus a tentar puxar a tampa. Admirei a Mina, pois aquilo parecia não querer sair de jeito nenhum. Na minha última tentativa antes de passar a missão para ela, eu consegui. Puxei a tampa com toda a força que eu tinha e... Como eu digo isso de uma maneira não tão apavorante?
Bom, Mina não foi forte o suficiente dessa vez. Eu puxei e, quando vi, o pote estava voando, derrubando tudo o que tinha dentro escada abaixo.

— Merda, Mina! Olha o que você fez! – Disse, já descendo as escadas para pegar o spray voador e chorando pelo meu tênis que pisava naquele líquido nojento. Foi quando ouvimos o baque da porta da frente sendo fechada.

Eu não tive tempo. Mina não teve tempo. Nós só corremos e nos enfiamos na primeira porta que vimos, rezando para que aquele quarto não fosse da pessoa que entrava, ou nós poderíamos dar adeus a UCLA. Ou talvez não, talvez Alice, a coordenadora, não seria tão cruel. Seria?

— Droga! – Mina resmungou baixo.
— Shhh!

Me sentei atrás da porta ainda aberta junto com ela, e ambas ficamos em silêncio, tentando ouvir o que acontecia lá fora. Ouvimos passos, que pareciam ser de uma pessoa só, e alguns resmungos, mas nada muito claro. Depois de um tempo, o ser humano do lado de fora começou a subir as escadas. Meu coração subiu na garganta e voltou, com medo de olhar pra cima e ver ele nos pegando no flagra. Troquei um olhar preocupado com Mina quando tudo ficou em silêncio. Ele poderia estar do lado de fora daquela porta naquele mesmo momento e não tínhamos ideia.
Segundos, que mais pareceram séculos, se passaram e nada. Nem um passo, nem uma palavra, nem uma respiração podia ser ouvida. Cada vez mais, eu queria sair dali e ver o que estava rolando do lado de fora, mas não me atrevi porque, a não ser que o cara fosse o Superman, ele não desapareceria assim do nada.

— Oi, onde você tá? – Ouvimos ele falar de repente, nos pegando desprevenidas. Se não estivéssemos tão tensas, alguém teria gritado de susto. – Ah, desculpa, é que eu acabei de chegar da casa dos meus pais e queria saber o que aconteceu aqui. – ... – Na casa, ué, onde mais? – Ele soltou uma risada forçada – Então eu acho melhor você vir pra cá agora. – ... – Não tô brincando, não, você vai ver. Ou melhor, você vai sentir assim que virar a esquina se tiver um bom olfato. – ... – Tá, vou te esperar lá fora porque aqui dentro tá impossível.

Quase suspirei de alívio com a última frase. Nem tudo estava perdido, afinal.
Ouvimos passos descendo apressados as escadas e logo a porta da frente batendo e só nessa hora eu tomei a liberdade de me mexer. Mina fez o mesmo, rindo baixo.

— Essa foi por pouco. – Assenti.
— Vamos embora logo. – Eu disse já me levantando.

Mina me seguiu enquanto eu ia direto para o quarto do Nicholas. Ela me puxou quando percebeu que as escadas não eram o meu objetivo naquele momento.

— O que tá fazendo?!
— As chaves do Nicholas. – Respondi, tirando elas do bolso e mostrando para ela. – Quer que eu entregue pra ele pessoalmente mais tarde?

Ela suspirou e balançou a cabeça, mas pareceu compreender.

— Tá, tá, vai logo.

Tentando fazer o máximo de silêncio possível, eu fui até o quarto dele e coloquei as chaves com cuidado embaixo do criado mudo. A cama do colega de quarto dele continuava vazia, então imaginei que o intrometido fosse ele. Não dava pra chegar um pouquinho mais tarde, amigo?
Voltei para onde a Mina estava, deixando tudo lá exatamente do jeitinho que estava antes e, com cuidado, descemos as escadas. Procurei rapidamente pela embalagem do spray, mas não encontrei, o que significava que eles tinham parte da arma do crime. Que ótimo. Mas, sem tempo para pensar muito naquilo, eu puxei Mina para uma porta que eu conhecia muito bem, a que dava para a piscina nos fundos da casa. Dessa vez, a chave estava no trinco, pronta para ser usada pelas duas fugitivas, e foi o que fizemos. Saímos por lá mesmo e, sem perder tempo, corremos, pois teríamos que dar a volta no quarteirão para não arriscar dar de cara com ninguém que morasse naquela residência. Paramos alguns metros depois para tirar a máscara porque duas garotas correndo por aí com aquilo no rosto não era exatamente discreto.

— Ah, eca! – Eu exclamei assim que senti o cheiro. Aquilo era um veneno, era horrível, Mina tinha razão, e era mais ainda saber que vinha de mim.
— Não te disse? Agora aguenta.

Resistindo à vontade de abaixar em algum canto para vomitar, eu voltei a correr, com esperanças de que o vento batendo no meu rosto tornasse aquilo um pouco mais suportável.
Quando chegamos na nossa casa, não paramos de correr, cada uma querendo chegar no banheiro mais próximo o mais rápido possível. Cada uma se enfiou em um com a certeza de que nós nunca mais mexeríamos com algo sequer parecido com aquilo.


— Sua vez. – ouvi Lucy dizer, então tive que tirar meus olhos do relógio acima da lareira e voltar a prestar atenção no tabuleiro de xadrez a minha frente. Mexi uma peça qualquer e voltei para o relógio. Faltavam exatos 9 minutos para o próximo banho. Depois do quinto do dia, eu decidi dar pelo menos um intervalo de duas horas entre os próximos ou minha pele ia começar a derreter. – Você não é muito boa nisso, é? Cheque mate.
— Acho que não. – Respondi simplesmente, com preguiça de explicar que normalmente eu não era tão ruim assim, só um pouco.
— Quer jogar mais uma? – Ela perguntou em sua inocência, sem nem notar que tudo que eu fazia era mexer qualquer peça que me desse na telha para um lado que eu achasse que ia ficar mais bonito.
— Outra hora, quem sabe.
— Tudo bem. Eu vou tomar banho. – Disse, se levantando.
— Vai lá.

Observei ela sair com inveja. 8 minutos.
Me joguei no sofá mais próximo, olhando ao redor. Estava anoitecendo e, como em todo fim de dia, algumas garotas estavam na cozinha comendo, outras em seus quartos, tomando banho, estudando jogadas pela casa e eu não tinha nada pra fazer. Pelo menos, nada que fosse tirar a minha mente dos 6 minutos que faltavam para que eu estivesse livre para tomar banho.
Quando a campainha tocou, eu pulei na hora. Qualquer coisa que fizesse o tempo passar mais rápido, qualquer coisa!

— Eu atendo! – Gritei, como era de costume quando tocavam a campainha, assim ninguém perdia tempo vindo fazer algo que já estava sendo feito por outra pessoa.

Abri a porta esperando qualquer coisa boa o suficiente para me manter ocupada pelos próximos 5 minutos, até uma criança coletando doces dois meses antes do Halloween, então... Imaginem a minha surpresa quando eu dei de cara com a Lambda Chi Alpha inteira parada em frente a nossa porta.



’ POV

2 anos antes...

— Só mais um pouquinho pra direita... Não, não, não, foi muito, volta, isso. Agora solta devagar, com muito, muito cuidado...
, isso é um balde, não uma bola gigante de ferro. – Eu disse, virando para a minha namorada aka engenheira civil.
— Uma garota pode sonhar. – respondeu, dando de ombros. – Além do mais, o que tá aí é tão perigoso quanto. – Revirei os olhos, rindo.
— Não exagera.

Nós éramos os responsáveis pela última pegadinha do ano. Bom, dessa maneira soava como se outras pessoas soubessem e tivessem nos colocado naquela posição, mas não... Nós só éramos livres assim. Era o último dia de aula, faltavam cinco minutos para o sinal do fim do intervalo tocar, que mal teria? O pior que poderia acontecer era a surtar, mas nós já sabíamos mais ou menos como lidar com ela. Na verdade, eu teria que lidar com ela sozinho, já que só estava ali de intrometida que adorava pregar peças nos outros, aquela nem mesmo era a sala da próxima aula dela, mas, conhecendo mais do que ninguém, eu chutava que ela não ter que lidar com a era a melhor escolha.

— Você acha que vai pegar gente o suficiente? – Ela perguntou de braços cruzados, analisando a armadilha em cima da porta.
— A próxima aula é do Julian. – Respondi simplesmente, mas foi o bastante.
— Ah... Com certeza. – Afirmou, com um sorriso maldoso nos lábios.

Para os leigos, Julian era nosso professor de artes. Depois de muitos anos tendo sua matéria completamente ignorada pelos alunos, ele tomou a decisão de colocar uma pena sobre todos os atrasos, descontando diretamente nas notas dos trabalhos. Agora, no exato momento em que o sinal toca, todo mundo corre para a sala de aula porque chegar depois dele não é uma opção.
Desviei meus olhos do balde acima da porta para , que parecia realmente entretida estudando a artimanha que fizemos, ainda com um pouco do sorriso nos lábios rosados, o que me fez sorrir também. Seu cabelo estava preso no topo da cabeça, levemente bagunçado, e ela tinha algumas fracas olheiras, resquícios das últimas semanas mal dormidas por causa das provas.
Puxei-a pela cintura e ela imediatamente aconchegou seu corpo ao meu, erguendo a cabeça para me olhar nos olhos.

— Já te falei como você tá linda hoje? – Ela ergueu os ombros.
— Eu não me importaria de ouvir de novo. – Disse, com os lábios esticados em um sorriso.
— Você está extraordinariamente linda hoje.
— Ah, você sabe como pregar peças nas pessoas levanta o meu espírito.
— Os olhos chegam a brilhar. – Afirmei, pois seus olhos castanhos realmente tinham um brilho especial naquele dia.
— Eles sempre brilham quando eu olho pra você, não notou, não? – Brincou.
— Bem... Sim, eu só estava tentando ser modesto. – Respondi, arrancando dela uma gargalhada. Eu riria também, mas optei por ficar admirando-a com cara de idiota. Eu já havia dito aquilo milhares de vezes, mas, Deus, como ela era linda rindo espontaneamente daquela maneira! E de todas as outras maneiras também, para ser sincero.
Quase que entorpecido, eu aproximei meu rosto do dela, a fim de beijá-la, e não demorou nada para perceber minhas intenções, pois logo seus braços estavam postos ao redor do meu pescoço e sua boca na minha. Nós já namorávamos há um ano e meio e eu não achava que iria me cansar daquilo tão cedo, da maciez de seus lábios sob os meus, das sensações que nossas línguas deslizando uma sob a outra me causavam, de puxar seu lábio inferior para mim, de sentir seus dedos agarrarem meu cabelo pela nuca e do calor de tê-la tão próxima a mim, tão entregue um ao outro.
Com calma para não causar um acidente, eu a guiei até a parede mais próxima, onde ela se encostou e me puxou para mais perto de si. Deslizei minha mão pela sua cintura, sentindo-a se arrepiar com o toque e sorrir entre o beijo. O fato de estarmos numa sala de aula e de que logo cerca de trinta alunos entrariam por aquela porta já se encontrava lá no fundo da minha mente, se afastando mais e mais, pois ela ocupava todo o espaço. Aquele beijo calmo foi crescendo cada vez mais urgente, os toques foram ficando cada vez mais íntimos até que meu impulso foi colocar as mãos atrás de suas coxas e puxá-la para cima para um contato ainda maior, se é que me entende. E eu estava pronto para fazer isso quando o barulho da porta se abrindo fez com que eu me jogasse para trás como se estivesse em chamas. O que, cá entre nós, não era completamente mentira.
Quando olhei para a cena, eu já tinha perdido a parte mais divertida. A mistura de ovos, mel, um toque de leite e algumas coisas um pouco mais nojentas já cobriam umas oito pessoas, que gritavam e praguejavam entre si. e eu trocamos um olhar que era uma mistura de susto e diversão antes que eu explodisse em risadas, chamando a atenção das vítimas. Não foi muito esperto da minha parte, eu tinha que admitir. Em passos rápidos, eles começaram a vir em minha direção. Andei para trás, mas o tamanho da sala me impedia de ir muito longe, então recorri a minha namorada com um olhar que implorava por ajuda. Ela ria e ao me vê desesperado, ergueu os ombros conformada, como se dissesse “vou fazer o quê?”, e, não sem antes mandar um beijo em minha direção, saiu correndo da sala. A última coisa que eu vi foi várias pessoas sujas e grudentas pulando em cima de mim.

Atualmente

Às vezes eu odiava o calor da Califórnia. Geralmente às segundas-feiras, na volta para casa ao meio-dia, com o sol em seu pico, depois de duas aulas de Álgebra e duas de Química, além da fome de um leão. A única coisa que me animava era saber que logo eu estaria em casa, onde eu poderia fazer algo mais ou menos para comer (eu era realista e cozinhar nunca foi meu forte), descansaria por algum tempo e depois iria para o treino de natação passar o resto da minha tarde dentro da água, onde o calor não existia.
Talvez existisse depois de uma hora e meia, mas era facilmente ignorado.
Comecei a notar algo estranho cerca de 500 metros antes de chegar na casa. Virando à esquina, eu pude ver à distância que várias pessoas estavam paradas na calçada e eu não me lembrava de nada específico marcado para aquele dia, muito menos para a hora do almoço, lugar em que todo mundo está no restaurante universitário ou lutando para conseguir um espaço na cozinha. Conforme fui andando e chegando mais perto, comecei a sentir um cheiro incômodo. Olhei ao redor, procurando por um gambá escondido em algum lugar ou aos meus pés, não encontrando nada. Quando o cheiro começou a aumentar gradativamente, eu pedi para qualquer ser divino que não viesse da nossa casa, que o fato de terem onze pessoas, que agora eu estava perto o suficiente para contar, paradas lá na frente não era nada além de uma baita coincidência. Eu não estava tendo muita sorte nas últimas semanas, mas tentei mesmo assim. As minhas esperanças desapareceram completamente quando Ryan, o líder da Lambda, veio em passos largos em minha direção e ele não parecia nem um pouco feliz.

— Você sabe o que aconteceu aqui? – Perguntou antes mesmo de chegar até mim.
— O que aconteceu?

Ele suspirou, parecendo decepcionado e extremamente irritado com a minha resposta.

— Tá sentindo esse cheiro?
— Sim, e rezando para que não venha da nossa casa. – Respondi e o olhar que ele me lançou disse tudo.
— Espera só até você entrar lá dentro. É insuportável.
— Caralho...

Paramos na frente da casa e eu a encarei por um tempo. Não poderia ser tão ruim assim, quer dizer... O quão insuportável pode ser um cheiro? Eu iria descobrir, logo, logo.

— Boa sorte, irmão. – Travis, um dos que estavam parados do lado de fora, disse, batendo nas minhas costas.
— Eu duvido que você aguenta dois minutos lá dentro. – Mike falou. Olhei para ele com uma sobrancelha erguida.
— Desafio aceito. – Disse e comecei a subir as escadas.

Eu estava bem tranquilo, na verdade. O cheiro já era consideravelmente ruim ali fora, mas fedor não mata ninguém. Se eu havia conseguido trocar a fralda de um priminho alguns meses antes, eu conseguia fazer aquilo.
Foi o que eu continuei repetindo para mim mesmo até abrir a porta que dava para o hall de entrada. Como o bom competidor que eu era, eu entrei e fechei a porta antes de qualquer coisa, inclusive respirar. Andei até a sala, perto da escadaria, e olhei ao redor. Tudo parecia visivelmente normal, e isso me deu a coragem que eu precisava para finalmente inspirar. Me arrependi no mesmo segundo.
O que devia ser um ar puro e limpo, parecia ter sido substituído por... Eu não queria nem dizer ou pensar. Um cheiro extremamente azedo entrou pelas minhas narinas, fazendo meus olhos lacrimejarem. Se alguém tivesse morrido ali dentro, não estaria tão fedido quanto aquilo. Comecei a subir as escadas, respirando e inspirando o mínimo de vezes possíveis, e o cheiro parecia ficar mais forte, se é que aquilo era possível. Talvez eu já estivesse ali há tempo demais e estivesse infectado ou algo do tipo. Fui direto para o meu quarto, só por instinto natural, e, como uma piada do destino, ele estava completamente infestado com aquele cheiro que parecia ter saído direto do inferno.
A porta do quarto estava aberta, algo incomum. Entrei, olhando direto para a minha cama e vendo que ela estava completamente molhada. Eu já sabia, lá no fundo eu sabia, mas ainda assim eu me aproximei para pegar os lençóis com as minhas próprias mãos e cheirá-los. Também me arrependi, os soltando no chão no segundo seguinte, não querendo que aquele cheiro grudasse em mim ou algo do tipo. No closet, o estrago parecia ser ainda maior. Todas as minhas roupas e sapatos estavam úmidas e as dos meus colegas também, apesar de não terem sido nem 50% tão afetadas quanto as minhas, graças às divisões que tínhamos.
Busquei minha sunga que havia sido salva por estar praticamente invisível no fundo, mas não fazia tanta diferença, ela havia passado tempo o suficiente presa com as outras coisas no mesmo cubículo. Saí logo dali, tendo certeza de que mais de dois minutos haviam passado. Eu precisava respirar e me recusava a fazer isso enquanto continuava dentro daquela casa.
O ar entrando em meus pulmões do lado de fora, ainda que um pouco fedido, foi tão satisfatório quanto respirar depois de vários minutos nadando sem pegar ar. Me afastei da porta com pressa, querendo ficar o mais longe daquela casa possível.

— O que diabos aconteceu aqui? – Perguntei me aproximando dos outros caras ainda parados lá fora.
— Quando eu cheguei da casa dos meus pais hoje cedo, já estava assim. Só encontrei isso daqui jogado no chão. – Mike disse me estendendo uma embalagem aberta e vazia. Peguei-a, olhando rapidamente ao seu redor, e parecia se tratar de um daqueles sprays insuportáveis que vendiam nessas lojas de bugigangas.
— Nós vamos esperar todo mundo chegar aqui porque eu quero saber quem é que foi que aprontou essa. Não teve graça. – Ryan comentou, de braços cruzados. Ele nunca fora o cara mais alegre do mundo, mas, naquela hora, ele realmente parecia capaz de matar alguém só com a força do pensamento.
— Puta que pariu! – Ouvi Joe praticamente gritar, saindo de dentro da casa. – É bom a gente descobrir logo quem foi o infeliz que fez isso. Jogaram essa merda na porra do meu quarto inteiro, caralho!
— Sério? – Alguém perguntou atrás de mim. – Pelo menos dessa eu me livrei.
— Eu também.
— Eu também.

Me virei para os que responderam, curioso.

— O quarto de vocês não foram pegos? – Perguntei e eles negaram com a cabeça.
— O seu foi? – Travis questionou.
— Sim... E imaginei que todos os quartos tivessem sido.

Olhei desconfiado para o Joe, ainda puto do meu lado. Pensando melhor, só a minha cama parecia úmida de spray e a minha parte do closet fora a única completamente afetada. Nesse momento, só um rosto vinha na minha cabeça e ele carregava um sorriso inconfundível. .

— Ei! – Joe exclamou quando eu o puxei brutalmente pelo braço.
— Nós temos treino, voltamos em algumas horas. – Anunciei para os outros. – Vamos logo. – Sussurrei para o Joe, que se debatia, tentando se livrar da minha mão.
— Qual é, cara, eu sei andar sozinho. – Mas eu continuei puxando-o, querendo me afastar daquela casa o mais rápido possível. – O treino só começa daqui uma hora e meia, tá louco? – reclamou, puxando seu braço para si.

Eu não respondi imediatamente, só continuei andando enquanto ele me seguia, ainda que confuso. Abri a boca apenas quando achei que estávamos a uma boa distância do pessoal.

— Você não acha coincidência demais os nossos quartos terem sido afetados e o dos outros não? – Sugeri, esperando que ele chegasse a uma conclusão, sozinho.

Joe me olhou, parecendo pensar sobre o assunto enquanto continuávamos andando em um ritmo acelerado sem ideia de para onde íamos. Alguns segundos de silêncio depois, eu comecei a achar que precisaria explicar tudo, mas bem a tempo ele começou a falar:

— Você não tá sugerindo que a fez isso, está? – Lancei um olhar sugestivo, que o fez balançar a cabeça, desacreditado. – Não, eu tenho certeza que foi alguma pegadinha de alguém da casa da casa. Não viaja, . Até porque a minha cama não foi a única que tomou um banho, todas estavam prontas para ir para o lixo. A única coisa que eu acho é que você tá ficando obcecado com a garota.
— Eu!? Como é que eu sou o obcecado dessa história? Me diz, Joe.
— Ah, vai dizer que não ficou todo doído ontem porque ela saiu com o Nick? Você estava insuportável, cara! Nem eu te aguentei.

— Em minha defesa, eu não estava “doído” porque a saiu com o Nick. Eu só não gostei de ver um amigo saindo com a minha ex-namorada e isso me parecia completamente compreensível. Ela que saísse com quem quisesse, eu não dava a mínima. Quem se importa? Ela era só a garota que eu havia namorado por mais de dois anos e ele era só um cara que eu achei que fosse meu amigo. E o mundo inteiro sabe que um amigo, não pega a ex do outro. É uma quebra de regra severa do Bro Code, Barney Stinson diria. Ela deveria saber isso, assistimos a série juntos.
— Você é muito ingênuo mesmo. A te quebraria ao meio com um dedo só. – Disse frustrado.
— Menos, meu amigo, bem menos. – Falou, me dando alguns tapas nas costas e me fazendo revirar os olhos.
— Espera só pra ver.

Ele não me respondeu e eu não insisti. Estava com fome o suficiente para deixar aquele assunto de lado e ir logo para o restaurante, pois aparecer no treino sem estar devidamente alimentado era um crime, de acordo com o meu treinador. Eu concordava com ele. E eu não estava (e nunca estive para ser sincero) com paciência para teimar com o Joe.


Nós não tocamos no assunto durante o almoço nem no caminho até o ginásio, mas eu fui obrigado a ouvir ele tentar adivinhar que colega nosso tinha feito aquilo o tempo inteiro. Em algum ponto, mais viajado ainda que o normal, ele sugeriu ter sido o Ryan, com o teatrinho de “quem foi o filho da puta que fez isso aqui?” e tudo que uma boa armação tinha direito. Felizmente, ele não ficou naquela por muito tempo.
Quando chegamos, seguimos para o vestiário, passando pelo pequeno escritório do treinador Simons no caminho. Ele ergueu o olhar de algumas pilhas de papeis ao nos ver parados ali.

— O que estão fazendo aqui? – Questionou de aparente mal humor. Nada com que já não estivéssemos acostumados.
— Nós já almoçamos, então viemos direto. – Expliquei e ele balançou a cabeça, voltando a olhar para os documentos e parecendo estar nem um pouco aí para nós dois.
— Ótimo. Vão para a academia e se aqueçam, quero vocês na água em vinte minutos. – Ordenou, sem se incomodar em nos olhar.
— Ah, qual é, treinador! Falta mais de meia-hora, eu queria tirar uma soneca. – Joe protestou.
— Vocês me ouviram.

E não tinha argumento nenhum no mundo capaz de combater aquelas três palavras. Não um que me mantivesse no time, pelo menos.
Ainda assim, Joe pretendia continuar tentando, mas eu o puxei há tempo, ato que estava virando rotina. Ele acabou desistindo, sem muitas opções, mas não tirou o bico da boca enquanto nos trocávamos e depois também. Em algum lugar naquela cabeça, ele pensava que parecer frustrado ou triste faria com que o treinador se sentisse mal. Era como se ele não tivesse convivido com o homem quase que diariamente no último ano.
Quinze minutos mais tarde, esse mesmo homem apareceu na academia com cara de poucos amigos e nos mandou para a piscina. Chegando lá, a primeira coisa que eu notei foi a corda que pendia do teto logo acima da piscina. Ela acabava meio metro antes da água começar, com espaço suficiente apenas para que a alcançássemos. Joe e eu fomos parados pelo Roger assim que demos indícios de que iríamos tirar a camisa e bermuda, ficando apenas de sunga.

— Com as roupas.
— Elas vão ficar pesadas com a água...
— Jura, Monroe? Agora me conte uma novidade. Vamos, não tenho o dia inteiro.

Sem reclamar, eu pulei na água imediatamente. As competições estaduais estavam chegando e o treinador ainda não havia escolhido os competidores, o que significava que estávamos nas semanas mais “puxa saco” de nossas vidas. Acho que Joey me seguiu, mas já me agarrava à corda, concentrando meus pensamentos naquela atividade ao máximo possível.
Começou fácil. Estávamos descansados e escalar a corda era quase como fazer uma leve caminhada, rápido, até entediante. Mas o tempo foi passando e o comando do treinador de parar não vinha. Vários minutos depois, além do esforço de impulsionar meu corpo para cima apenas com o uso dos braços, as roupas antes apenas incômodas, agora pareciam pesar cem quilos me puxando para baixo, mas me mantive firme. O mais firme possível naquela situação, pelo menos.
Quando todo mundo começou a chegar para o treino, eu pensei que o objetivo do treinador era matar eu e o Joe. Na verdade, apenas eu, porque foi mais ou menos nessa hora que o Joe chegou ao seu limite e foi para algum canto, tossindo. Eu também não estava muito longe de fazer o mesmo. Todos que chegavam, paravam para assistir a tortura ao vivo. Tentei não deixar aquilo me abalar, mas meus braços já tremiam pelo esforço e era uma vez as minhas mãos. Ainda que meu corpo inteiro implorasse para que eu parasse, tudo o que eu conseguia fazer era mentalizar pensamentos me encorajando. Eu precisava mostrar para ele que eu estava pronto, que eu era a melhor escolha para as estaduais e para as nacionais, lugar que eu chegaria de qualquer maneira.

— Estão olhando o quê? Vão se trocar logo. – Ouvi o treinador dizer poucos minutos ou talvez horas depois. Ele realmente não estava tendo um bom dia. – Chega, .

Assim que ouvi as duas palavras mágicas, eu soltei meu corpo na piscina sem cuidado algum, o que me fez engolir um pouco de água, mas aquilo era o menor dos meus problemas. Com um último esforço, eu subi para a beirada e decidi ficar por lá mesmo.

— Muito bem, os dois. – Mesmo em meu quasedesmaio, eu sorri para aquilo. Não era fácil arrancar elogios do Rogers, nós sabíamos bem. – Descansem. Quero vocês de volta aqui em trinta minutos.

Como o bom e apressado treinador que era, pouco mais de vinte minutos depois ele já estava gritando para que voltássemos para a piscina, dessa vez só com as sungas de sempre. Nosso desempenho no treino foi, de longe, o pior. Joe e eu demos o nosso máximo, como sempre, mas estávamos esgotados. É claro que isso não impediu que o treinador nos cobrasse tanto quanto os outros, talvez até mais. Depois de quase duas horas ouvindo seus gritos, eu não poderia estar mais aliviado de ouvir o apito indicando que podíamos ir embora.

— Aê, cara!
— Parabéns, bro!
— Se deu bem!

Os caras iam dizendo quando chegamos no vestiário, longe dos olhares mal humorados do Rogers. Eu sabia pelo que eles me parabenizavam, mas optei por bancar o desavisado. Eu não precisava de expectativas agora, ainda mais quando tinha tempo o suficiente para que elas fossem destruídas de uma hora para outra.

— Do que quê vocês estão falando?
— Não se faz de besta, . Você sabe que é um dos escolhidos. – Josh falou, empurrando meus ombros. Eu dei de ombros.

Era verdade, sim, que o treinador tinha essa mania de fazer um inferno da vida daqueles que levaria para o campeonato, mas tudo ainda estava vago demais, não me permitia concluir nada naquele momento.

— E o Joe não fica para trás, não. – Alguém atrás de mim falou e eu encarei Joe, que parecia pensar o mesmo que eu.
— Arrumem o que fazer. – Ele disse, indo para o banho. Fiz o mesmo, com a leve impressão de que seria difícil tomar um banho na nossa casa.

— Ei, Mike! Espera aí. – Gritei para o meu colega de fraternidade que andava apressado alguns metros a minha frente e de Joe.

O cabelo dele ainda pingava, mas ele não parecia se importar muito com aquilo. Ele esperou que nos aproximássemos para começar a andar em seus passos rápidos novamente.

— Descobriram quem fez aquilo? – Joe perguntou antes de mim.
— Não enquanto eu ainda estava lá. O Ryan tá louco sem saber o que fazer, considerando até sair jogando água na casa inteira.
— Nós poderíamos chamar algumas diaristas. – Sugeri.
— É, ele disse que ia pensar nisso, só queria que todo mundo chegasse em casa antes, especialmente o culpado da coisa toda.

O meu primeiro impulso foi debochar daquilo e dizer que isso seria impossível, pois a culpada não morava naquela casa, mas optei por ficar quieto por enquanto. E graças a Deus eu fiz essa escolha.

— Nós vamos para a casa das garotas. – Ryan disse assim que chegamos em frente a Lambda. Todo mundo parecia estar ali, alguns sentados pelo chão, outros até deitados.
— Como é que é? – Questionei.
— O cheiro é insuportável lá dentro, não dá para passar a noite. Quem não quiser ir, que fique à vontade para dormir aqui. Eu não fico.
— Mas e as diaristas?
— Você não faz ideia de como é difícil arrumar uma diarista já no meio da tarde de uma segunda-feira. Apenas uma aceitou vir, mas só depois das 19hrs. Ela levaria a noite inteira limpando essa casa sozinha, então optei por já deixar três agendadas para amanhã cedo. – Ele explicou e eu suspirei, preocupado. E talvez um pouco animado, ansioso para dar uma boa olhada na cara da quando chegarmos lá.
— E nada de descobrirem quem fez isso? – Joe perguntou.
— Não, ninguém se manifestou. Mas eu vou pedir as filmagens das câmeras dos vizinhos assim que essa casa estiver limpa novamente e quero ver eu não descobrir quem foi que fez isso. – Disse, se retirando.

Joe me lançou um olhar desconfiado, como se começasse a considerar a como culpada, mas não falou nada. Ele veria, mais cedo ou mais tarde, graças à obsessão do Ryan de não deixar algo do tipo passar.
Falando em Ryan, ele gritou que todos que iriam entrássemos para pegar as coisas que precisaríamos até amanhã. Sequer considerei a ideia de ficar, a não ser que eu estivesse disposto a dormir em um mar de nojeira, aka, meu colchão, então me aventurei novamente dentro de casa. A maioria do pessoal pegou seus sacos de dormir, coisa que eu não pude fazer, já que não havia trazido o meu da casa dos meus pais depois das férias. Não me preocupei muito com aquilo porque eu sabia que poderia contar com a Nikki para me arrumar algo confortável para dormir. A cama dela, por exemplo.
Poucos decidiram ficar, uns sete caras, no máximo, e eu saí de lá imaginando que eles se arrependeriam daquela decisão eventualmente.
Já era 18hrs quando finalmente todo mundo se juntou novamente na frente de casa, prontos para ir. E então começou a caminhada. Era no mínimo estranho andar no meio daquela multidão que carregava sacos de dormir, edredons, travesseiros, até pacotes de comida. Eu só carregava uma mochila com algumas coisas e um edredom que peguei emprestado de um colega, já que tudo que eu tinha estava inutilizável. Eu andava de cabeça baixa, sem coragem para enfrentar os olhares das pessoas que passavam nos olhando com curiosidade. Por isso, acabei batendo meus ombros em alguém por acidente. Quando levantei a cabeça, vi ser o Nicholas. Que maravilha.
Ele me olhou um pouco confuso, não me dirigia a palavra desde o dia anterior. Não que eu sentisse falta ou algo do tipo, nós nunca nos falamos com frequência, mas agora ele era o cara que estava saindo com a minha ex-namorada e eu não gostava daquilo. Nem um pouco.

— Foi mal. – eu disse e ele assentiu.

Voltei a olhar para frente, apressando meus passos para me afastar dele.
Suspirei aliviado quando finalmente chegamos na casa das garotas. Mais alguns minutos e seria encerrado o verdadeiro desfile da vergonha. Depois da festa do começo das aulas, eu já estava um pouco acostumado, mas preferia evitar.
Ryan tocou a campainha e nós esperamos atrás dele. Logo nós ouvimos a gritando algo e no segundo seguinte, a porta foi aberta pela mesma. Em um primeiro momento ela pareceu surpresa e um tanto quanto assustada. No lugar dela, eu também ficaria, considerando o que havia feito. Depois ela só nos encarou confusa, passando seu olhar por cada um.
— NIKKI! – ela berrou, me fazendo pular de susto. – Só um momento... – disse antes de fechar a porta novamente.

Ryan bufou, virando para trás, parecendo não ter um resquício sequer de paciência mais. Ainda assim, não falou nada, simplesmente esperou. Nós não tínhamos realmente outra opção, então era com o que teríamos que nos contentar.
Menos de um minuto depois, a porta foi reaberta, dessa vez com a Nikki na frente e algumas garotas espiando atrás. Ela parecia tão surpresa quanto a com as visitas inesperadas, mas logo assumiu sua característica postura de líder da casa.

— O que aconteceu? – questionou.
— Nós temos um acordo, não temos? – Ryan começou. – Vocês usam a nossa casa, nós garantimos ao máximo sua segurança e podemos contar com vocês quando precisarmos também, certo? – Nikki assentiu, hesitante. – Bom... Nós precisamos agora.

Ele se pôs, então, a explicar o probleminha que tínhamos naquele momento. Notei o exato momento em que a relaxou em seu canto ao ouvir que não fazíamos ideia de quem é que tinha pregado aquela pegadinha idiota, apenas algumas sugestões e nenhuma delas era uma Kappa Kappa Gamma. Optei por não contar para ninguém que eu sabia ter sido ela ou nós teríamos sérios problemas. O Ryan com certeza não seria tão compreensível e não pensaria duas vezes antes de ir correndo falar com a coordenadora das fraternidades e eu não gostaria de ter autoridades envolvidas naquilo.
Quando ele terminou de contar, dizendo que na manhã do dia seguinte o problema já estaria resolvido, a Nikki suspirou, encostando no vão da porta. Ela passou os olhos pelo grupo de caras parados em frente à sua porta, parando apenas em mim. Eu conhecia aquele olhar. Ela não sabia se acreditava ou não naquela história maluca e buscou em mim a resposta. Assenti, encolhendo os ombros.

— Eu já volto.

Mais uma vez, a porta se fechou. Cinco minutos depois, nenhum sinal. Dez e nós já estávamos cada um sentado em seu canto e nada ainda. Quinze minutos depois, Ryan parecia poder explodir a qualquer momento de tanta impaciência.

— Porra. – Ele resmungou, chamando a nossa atenção. E foi dada a largada para um bando de brutamontes reclamando de toda aquela demora.

Eu fechei os olhos e encostei minha cabeça no corrimão atrás de mim, sem saco nenhum para aquilo. Poderia tentar acalmar todo mundo, como Joe e Mark faziam, mas eu não estava com cabeça para defender nada que envolvesse a , não tão pouco tempo depois da nova que ela aprontou. Por um momento, comecei a pensar no dinheiro que gastaria mandando todo o meu guarda-roupa para uma boa lavanderia, se é que aquilo seria o suficiente para tirar aquele cheiro. Ela parecia ter algum tipo de obsessão com as minhas roupas.
Poucos minutos depois, a porta finalmente foi aberta e Nikki nos deu o ar de sua graça novamente.

— Escutem bem: vocês podem passar a noite aqui... – todo mundo começou a comemorar, aliviados, a interrompendo por alguns segundos. – Mas vocês ficam no andar de baixo. Se alguém chegar perto do segundo andar sem autorização, vocês vão todos embora na hora. Respeitem o espaço das garotas, isso aqui não é uma festa, tudo bem?

Todos assentiram rapidamente, até porque ninguém ali tinha coragem de contrariar a Nikki, e então ela deu espaço para que entrássemos. Do lado de dentro, todos os móveis foram afastados para os cantos, dando espaço para os sacos de dormir de todo mundo. Eu sempre me esquecia do quanto aquela casa era enorme, ainda que parecesse consideravelmente pequena vista de fora. Tinha espaço para todo mundo naquele primeiro lugar e ainda sobrava.
Algumas garotas pareciam felizes em nos receber e outras não davam a mínima para a nossa presença ali. A única que parecia infeliz com a festa do pijama me encarava de olhos semicerrados, talvez numa tentativa de me deixar em chamas apenas com o poder de sua mente, mas alguns segundos passaram e eu continuei muito bem. Logo ela desistiu e saiu marchando escadas acima.

, ajuda aqui. – Mark me chamou, me fazendo tirar os olhos do movimento que os quadris dela faziam. Fui até ele, que se preparava para encher um colchão de ar de solteiro.
— Caramba... Você não dorme mal, em? – Eu disse e ele deu de ombros.

Mark e eram os prevenidos da turma. ainda assim ganhava dele mil vezes, mas não o culpávamos, era difícil acompanhar ela.

— E você não dorme. Cadê o seu saco de dormir?
— Na casa dos meus pais. Vou ver com a Nikki se ela me arruma um cantinho.
— Sei bem que cantinho você quer. – Ele disse com um sorriso de canto nos lábios. Não neguei.
— Achei vocês! – apareceu, jogando seus braços ao redor de nós dois em um abraço desconfortável. – Já liguei para o , ele deve chegar aqui a qualquer momento. – Disse quando se afastou.
— Você chamou o ? – perguntei, rindo.
— Claro, não seria uma noite do pijama clássica sem ele.

Mark e eu trocamos um olhar divertido e demos de ombros. De qualquer maneira, seria ótimo passar um tempo com todo mundo, já que não fazíamos aquilo há uns dois bons anos. Isto é, se a colaborasse.

— Oi, April. – ouvi Mark dizer e só então notei que ela estava parada de pé atrás da .
— Oi. – ela respondeu baixinho. Eu acenei e ela respondeu com um sorriso.

A garota era estranhamente quieta, mas parecia estar cada vez mais próxima das meninas. Mesmo semanas depois do começo das aulas, eu só havia trocado algumas poucas palavras com ela e esperava mudar aquilo eventualmente. Principalmente porque aquilo mataria a de raiva.
O tempo foi passando e, aos poucos, todo mundo foi ajeitando suas coisas em um canto. Aparentemente, um cara de pé, fazendo exatamente nada e olhando os outros trabalhar chamava atenção, pois o meu nome era o primeiro a ser chamado por qualquer um que cansasse de pressionar a bomba para encher seu colchão (porque não, Mark não era o único a levar praticamente uma cama inteira para lá). No final, eu estava mais cansado do que qualquer um naquela casa e, adivinha só, ainda sem uma cama para dormir naquela noite, já que a Nikki continuava a me ignorar por causa da presença da .
Falando nela: ela desceu novamente, dessa vez com os cabelos úmidos pelo banho recém tomado, e não me encarou por um segundo sequer. Não que eu tenha olhado para ela o tempo todo. Não que eu tenha notado o Nicholas acompanhando cada passo dela, tentando tomar coragem para ir falar com ela. Não que eu tenha torcido para que ele não conseguisse, é claro.

— Ei! – alguém chamou minha atenção. Me virei e encontrei a Nikki ao meu lado.
— Oi! – disse a abraçando, pois não a via desde a semana passada. – Deixou a para lá?

Ela tinha uma neura louca de não querer que a saiba que temos algo, eu nunca entendi direito. No início, eu não me importava muito por quê... Bom, é difícil admitir, mas eu queria tentar me resolver com ela. Não que eu não queira mais, só que agora o negócio é um pouco mais complexo. Depois a coisa acabou ficando irritante.
Nikki me olhou confusa.

— Por que... Ah, tá. Não, a já sabe sobre nós. – disse com um sorriso.
— Sério? – questionei surpreso.
— Sim, nós conversamos e tudo. Ela não se importa.

Ela deu a facada assim, sem rodeios.

— Não?
— Nem um pouco. – E ainda girou para que doesse mais. – Não precisamos mais ficar nos escondendo. Não que a gente vá ficar se agarrando na frente dela, mas... Você entendeu.
— Ah... Que bom. Por que você parece estar me evitando, então? – Perguntei, achando melhor trocar o assunto antes que ela soltasse um “A shippa a gente”.
— Não pense que eu esqueci a peça que você pagou nas meninas, tá? Você invadiu a casa!
— Ei, eu tinha a chave! Isso não é invasão e você sabe muito bem porque aquela chave estava comigo. – me defendi. Ela semicerrou os olhos e me deu um tapa no braço na mesma hora.
— Eu pensava que sabia, né, amor? Mas, aparentemente, você tem suas prioridades. – Disse, erguendo os ombros e se virando em retirada, mas eu a abracei e a puxei de volta antes que ela pudesse dar mais que um passo.
— Você sabe que não é assim. – Refutei, beijando seu pescoço. A senti sorrir. – Eu sei que já falei isso mil vezes, mas... Me desculpa.
— Tudo bem. – suspirou. – Já me acostumei com a sua falta de noção quando se trata da .
— Você me conhece bem, não é? – ela assentiu.
— Infelizmente. – comentou.

Ignorei seu comentário e continuei.

— Então você talvez já imagine que eu não tenho um lugar sequer para dormir... E poderia contar com um pouco da sua caridade. – Sugeri e ela riu, balançando a cabeça.
— Você não ama as voltas que o mundo dá? – falou, me olhando espirituosamente. – Sabe, as fantasias de palhaço ainda estão jogadas lá no porão, você poderia usar elas de colchão e eu aposto que aqueles sapatos dariam ótimos travesseiros!
Há há há, como você é engraçada.

Ela deu de ombros.

— Eu vou pensar no seu caso com carinho, . – Disse me dando dois tapas fracos na bochecha. – Prometo pensar com todo o carinho de quem ficou plantada te esperando pouco tempo atrás.

E assim eu soube que poderia passar aquela noite no chão.
Antes que eu pudesse implorar pelo menos por algumas cobertas para forrar no piso gelado, ela já tinha se desvencilhado dos meus braços e ido em direção ao lugar em que Ryan estava. Pouco tempo depois, eles saíram recolhendo sabores de pizza para pedir, checando se haviam alergias e coisas do tipo. Era realmente um serviço de primeira.
não demorou muito para chegar, o que deixou a na lua de felicidade pela reunião do grupo. Isto é, com exceção da , que entrou na cozinha e nunca mais saiu. Enquanto o nosso jantar não chegava, nós nos sentamos ao redor e no colchão do Mark e ficamos conversando. April não falava muito, como sempre, preferindo observar tudo ao seu redor a abrir a boca.

— Eu realmente não acredito que isso aconteceu na casa de vocês. – disse pela centésima vez, rindo da situação.
— Não sei por que, você conhece muito bem a amiga que tem. – Soltei, fazendo o olhar de todos naquela roda cair sobre mim.
— Como? – questionou e eu suspirei.
— Qual é, , não pense que eu não sei que foi a quem aprontou essa. É óbvio demais, só uma semana depois de eu pregar uma pegadinha nela, é claro que ela não resistiria.
— Tá, mas fala baixo! – Ordenou ironicamente em um tom alto. – Alguém mais sabe?
— Não... E eu não vou contar, mas eventualmente eles vão descobrir.
— Não sendo hoje... Isso aqui viraria uma bagunça. – April falou em sua já comum calma.
— Ela não é fofa? Poupou o meu quarto. Tenho que agradecer mais tarde. – Mark comentou, fazendo voltar a rir, parecendo orgulhoso da amiga que tem.

Por algum motivo, a virou uma mini-heroína e a única que parecia compartilhar da minha descrença era a . Encostei à parede atrás de mim, sem vontade de acompanhar aquela adoração toda e a primeira pessoa que meu olhar captou ao passar os olhos pela sala foi o Nicholas encostado em uma parede mais ao fundo conversando com alguém que não reconheci imediatamente por estar de costas. Quem é que fosse a pessoa, não estava conseguindo mantê-lo interessado na conversa, pois ele olhava repetidamente para a cozinha e eu sabia bem o que ele procurava lá. Ou melhor, quem.
Ri comigo mesmo, imaginando a bagunça que a cabeça dele deveria estar naquele momento. A tinha esse efeito nas pessoas. Era extremamente difícil saber o que ela realmente queria ou entender quais eram os sinais que ela dava. Eu mesmo demorei anos para aprender e, por isso, poderia dizer com todas as palavras que era praticamente impossível. Meus conhecimentos sobre ela não estavam tão atualizados quanto costumavam ser, mas eu chutava que ele era apenas um caso de uma noite, coisa que ele parecia ainda não ter percebido.
Eu não deveria ficar encarando alguém assim, mas o fiz de qualquer maneira. Assim pude notar quando ele falou algo que fez o cara com quem conversava se afastar e começou a ir em direção à cozinha. Eu poderia só estar sendo paranoico, pois ele estava longe o suficiente para estar indo para qualquer outro lugar naquela casa e não a cozinha, mas, naquele momento, eu não pensei muito naquilo. Eu só me levantei rapidamente e fiz meu caminho para aquele cômodo, sabendo que eu estava consideravelmente mais perto e não tinha chance alguma dele entrar lá logo depois de mim.
Essa é a parte ruim de fazer algo sem pensar: você só percebe a burrada quando já está nela e é impossível sair. notou minha presença no segundo em que eu entrei lá e, agora, sair andando sem dizer nada já não era uma opção.
Ela estava sentada no balcão com um copo de coca em uma mão e o celular na outra. Vestia o que parecia ser a parte de baixo de um pijama e uma regata que já não a servia mais, mas que eu sabia ser especial para ela, pois ganhara de sua avó em seu aniversário de 14 anos. Era difícil odiá-la em horas como aquela. Não que eu a odiasse, nunca conseguiria. Não por mais que duas horas, pelo menos. Mas em horas como essas, em que eu me lembrava de todos os aspectos que ela se recusa a mostrar para qualquer um, até fingir se tornava complicado.
Seus olhos se ergueram em minha direção no momento em que passei pela porta e logo sua cara fechou.

— Que foi, em? Tô quieta, não tô? – Reclamou, me encarando com um olhar nada feliz.
— Só vim pegar um copo de água, relaxa. – Me explique, terminando de entrar no cômodo. revirou os olhos e balançou a cabeça, mas continuou quieta. Busquei um copo no armário e me sentei no banco de frente para ela, sentindo uma estranha sensação de déjà vu. Ela não parou de me encarar por um segundo sequer enquanto eu pegava a garrafa de Coca-Cola a frente dela e me servia. – Você realmente devia parar de beber isso como se fosse água.
— Isso realmente não é da sua conta.

Ergui os ombros.

— Só estou tentando ajudar... – disse. Ela revirou os olhos e voltou a encarar a tela de seu celular. – Escuta... Eu não deveria ser o bravo da história? – Perguntei, chamando novamente sua atenção para mim. – Você tem noção do quão cara vai ficar a minha conta na lavanderia? – Suas sobrancelhas se curvaram em confusão.
— E o que eu tenho haver com isso?
— Não se faça de boba, . Nós dois sabemos que o único motivo de eu estar aqui, agora, na sua casa, é você.

Ela ficou quieta por alguns segundos, me avaliando, talvez tentando descobrir se eu estava blefando ou não. Aos poucos seus lábios foram se abrindo em um sorriso e ela apoiou o rosto nas mãos, com uma expressão divertida no rosto.

— Você tem provas? , eu acho que você tá começando a ficar meio paranoico. O meu mundo não gira ao seu redor, sabe... – disse e eu ri, desacreditado.
— Sério? É assim que vai jogar? – Ela deu de ombros. – Você tá parecendo uma criança, sabia?
— Ah, me desculpa! Quem foi que invadiu meu quarto vestido de palhaço? Acho que você perdeu esse episódio. – Ironizou e eu assenti, concordando.
— Tudo bem, nós dois estamos agindo como crianças de doze anos, mas eu só tento te pagar na mesma moeda, e você que começou essa “guerra”, fica onde?
— No inferno onde você é o capeta e não para de me encher o saco, aparentemente. – Respondeu, me fazendo rir de novo. Me inclinei sobre o balcão rapidamente para dizer as próximas palavras.
— E eu não poderia estar mais feliz com isso. – Disse, me levantando. – Eu gostava mais quando você era corajosa e assumia os seus ataques. – Finalizei.

Um... Do...

— Ei! Olhe lá como você fala, rapaz. Eu sou muito corajosa!
— Ah, é? – Apoiei meus braços no balcão novamente. – Então por que não diz olhando nos meus olhos que você fez aquela bagunça toda lá em casa?
— Porque ela estaria mentindo, dã. – Mina chegou de repente, parando ao lado da . – Eu quero receber meus créditos pela lambança toda, viu?

Eu imaginava que minha boca estivesse entreaberta por causa da pequena surpresa que eu tive naquele momento. A Mina? Eu não podia acreditar, exceto que eu podia, sim. Aquilo gritava “MINA” em letras garrafais em led que piscavam e eu não conseguia acreditar é que não tinha percebido o envolvimento dela antes.

— Você?! Tá brincando, né? – Exclamei inconformado. – Nós somos parceiros, não somos?
— Nós éramos, sim, mas é aquele negócio... Eu odeio que mexam com os meus medos.
— Eu pedi desculpas milhares de vezes, Mina, achei que tivesse tudo certo entre a gente.
— E eu achei que vocês aguentassem um cheirinho meio ruim o suficiente para dormir em suas próprias camas, mas... É a vida. – falou com uma calma que eu nem sabia que ela possuía.
— Eu amo essa garota. – disse.

Enquanto olhava as duas trocarem um olhar cúmplice, me lembrei do pensamento que tive logo na primeira semana de aula, quando as vi conversando pela primeira vez. Eu tinha medo do que aquelas duas poderiam fazer juntas. A conseguiria controlar uma, mas eu temia que, como um par, elas estivessem muito além do seu alcance. Na verdade, achava até que elas haviam começado com algo leve. Algo leve que nos fez ter que abandonar a nossa casa por uma noite, então eu tinha medo do que poderia vir a seguir. E curiosidade, muita curiosidade.
As encarei trocar sussurros entre si por mais algum tempo antes de simplesmente me retirar. A minha missão de parar qualquer avanço do Nicholas já havia sido cumprida, de qualquer maneira, e agora eu poderia contar com a para falar incansavelmente e encher minha cabeça de coisas que me mantivessem afastado de qualquer pensamento que envolvesse o que essas garotas planejavam. Eu tinha que pensar em qual seria meu próximo passo e, dessa vez, eu me recusava a fazer algo digno de alguém da sétima série. Mas não agora. A maior preocupação que eu queria para aquele momento era se a Nikki deixaria ou não que eu dormisse com ela, nada mais complexo que aquilo.
, Mark, e April continuavam do mesmo jeito que os deixei minutos antes, rindo de algo que Joe, que se juntou a eles nesse meio tempo, contava. Voltei a me sentar próximo a eles e tentei ao máximo prestar atenção no que diziam, mas sem sucesso algum, pois antes que eu percebesse, minha mente estava viajando de volta para a cozinha, onde o próximo plano para ferrar com a minha vida poderia estar sendo planejado naquele mesmo momento.
Às vezes eu me arrependia de ter aderido àquela brincadeira, principalmente porque eu não sabia como iria acabar. A ideia inicial era não dar à o caos que ela tanto queria, deixando-a louca o suficiente para eventualmente cansar. Depois, dar exatamente o que ela queria para subir um pouco do meu ego, aquela que ela derrubou no chão, e, quem sabe, na menor das hipóteses, fazê-la enjoar daquele jogo. Para ser sincero, eu nem mesmo pensava que precisaria ir além da pegadinha dos palhaços. Mas os dias estavam passando e as chamas em seus olhos ainda queimavam tanto quanto semanas atrás, quando a vi de perto pela primeira vez em praticamente um ano. Eu via as coisas indo para um caminho obscuro, mas não sabia o que fazer para sair dele.
Eu sentia raiva dela, não podia negar. Por causa dessa confusão que ela fazia na minha cabeça sem esforço algum, por me fazer sentir obrigado a fazer essas coisas quando eu só queria que tudo voltasse ao normal, por sua teimosia crônica e todo aquele ódio que ela parecia nutrir por mim. Eu nem sabia que ele existia até pouco tempo atrás, era estranho tentar me acostumar com ele. Mas, agora, eu sabia que tinha algo ali, na sua maneira de lidar com aqueles sentimentos e, por Deus, eu faria qualquer coisa para descobrir o que era, mesmo apanhando em todos os sentidos no caminho.

— ALÔ! – gritou, balançando os braços a minha frente. – Acorda para a vida, tá viajando, é?
— Foi mal. O que foi? – perguntei.
— As pizzas chegaram, vamos subir. – Mark me respondeu, me empurrando enquanto se levantava. Franzi o cenho em confusão.
— Subir para onde?
— Nossa, você não estava nesse planeta mesmo, né? Vem, só segue a gente que é sucesso. – disse já de pé.

Mesmo confuso, eu segui todo mundo até a cozinha, agora sem a presença da e da Mina, onde se encontravam o maior número de caixas de pizza que eu já havia visto na minha vida. pegou duas delas e nós subimos em direção ao seu quarto, comigo ainda tentando entender por que é que estávamos indo para lá.
Quando entramos, e Mina pararam de rir de algo, ganhando da um olhar extremamente desconfiado.

— Ah, não! – exclamou quando colocou os olhos em mim.
— Eu trouxe pizza. – Foi tudo que a precisou dizer para fazê-la ficar quieta, pensando, por um tempo.
— Tá.

Joe, por ordem da , saiu distribuindo pratos descartáveis enquanto ela ditava as regras do quarto sobre comida. Elas consistiam basicamente em comer com calma para que nada – e quando digo nada, quero dizer nem uma migalha qualquer – fosse derrubada no chão. Por precaução, ketchup era proibido naquele cômodo.
Pouco tempo depois, estávamos sentados em um círculo no chão, na ordem: eu, Mina, April, , , , Mark e Joe. escolheu a maior distância possível entre nós, eu não poderia imaginar por que, e tinha a cabeça deitada nos ombros do , seu substituto para o meu lugar vago de melhor amigo. Sem ressentimentos, é claro.

— Bom, April, Joe e Mina, vocês nunca estiveram em uma noite do pijama nossa, então saibam que ela consiste em jogos. Mas não jogos quaisquer e sim aqueles que nos permite nos abrir e sermos sinceros uns com os outros, entenderam? – explicou, fazendo Mina rir. Na prática, era bem menos hippie do que ela fazia parecer.
— Com isso, ela quer dizer que são jogos que terminam quando alguém perde a paciência e começa a briga. – colocou com suas palavras e eu odiava admitir que ela estava certa.
— Não é assim, não. Nós já tiramos muitas coisas boas dessas noites do pijama.

Todos acabamos assentindo, pois era realmente verdade. Muitos problemas internos já haviam sido resolvidos com essas sessões de sinceridade e eu achava que essa era só mais uma tentativa da de fazer com que eu e a fossemos “consertados”. No fundo, eu queria que funcionasse, mas no mundo real, sabia que aquilo não daria certo de jeito nenhum.

— Ok... E o quão sincero podemos ser? – Mina perguntou. Era uma alfinetada daquelas.
— Vamos usar o bom senso, tá bom? – respondeu, sorrindo, pronta para dar início ao desastre que poderia acabar com a minha cabeça sendo cortada fora, eu tinha certeza. – Certo, eu já escrevi os nomes de todos os jogos possíveis aqui, quem quer tirar? – Perguntou, tirando de trás dela um pequeno pote com alguns papeis dobrados dentro. Joe estendeu a mão rapidamente para escolher um e depois entregou de volta para , que o abriu. Ela abriu um sorriso extralargo ao ler o sorteado que me fez ficar preocupado com o que estava por vir. – Jogo da memória. – Anunciou e tudo ouvido nos segundos seguintes foram as minhas lamentações e da .
— Não, , por favor!
— Que tal “Eu nunca”? Todo mundo conhece e é muito mais divertido. – Sugeri, mas ela balançou a cabeça.
— O sorteado foi esse e esse vai ser, se aquietem!

Por mais mandona que ela quisesse parecer no momento, o sorriso que não deixava seus lábios um segundo sequer anunciava suas reais intenções. e eu trocamos um olhar rápido acidentalmente, ambos cientes da situação que ela queria nos enfiar.

— Tá, quer saber? Vamos começar isso logo.
— Primeiro nós vamos precisar de alguma bebida e de uma garrafa.

— Opa, essa parte é comigo.

Mina levantou na mesma hora e correu para o frigobar, tirando de lá uma garrafa cheia de algo azul, desconhecido para mim. Na mesma velocidade, ela foi até o closet e saiu de lá com um copo descartável e uma garrafa de cerveja vazia. Em menos de um minuto, ela estava de volta em seu lugar na roda, sendo encarada por todos perplexos.

— Sempre desconfiei que você tivesse alguma gaveta escondida para essas coisas nesse closet. Não deixa isso chegar na Alice e nós vamos ficar bem. – disse e a amiga deu de ombros. – Ok, agora eu posso explicar para os novatos. – Disse, pegando a garrafa vazia com a Mina. – O jogo funciona assim: um por um, nós vamos girar essa garrafa. – E então ela girou para mostrar. April foi a sorteada. – Como eu girei a garrafa, eu pergunto. Agora eu vou escolher uma memória, algo que aconteceu enquanto nós estávamos juntas e a resumir em, no máximo, três palavras. A April tem que adivinhar e, se não conseguir, eu sirvo uma dose desse negócio aí para ela virar. Detalhe: quem gira escolhe a quantidade de bebida. Entenderam? – Concluiu, olhando ao seu redor. Joe, Mina e April tinham olhares meio confusos, a última também assustada, mas pareceram ter uma ideia boa do que se tratava.
— Ótimo, posso começar? – Joe pediu e a assentiu, entregando a garrafa à ele.

.

— Putz... – ele reclamou enquanto Joe pensava.
— Fogo. – disse depois de algum tempo e o encarou em pânico.
— O quê? Você tem duas palavras de sobra, use elas! – Mas Joe negou com um sorriso no rosto. bufou antes de apoiar a cabeça nas mãos, o encarando como se tentasse ler sua mente. – Deixa eu ver... Eu tenho duas. Fogueira ou ar da montanha, fogueira ou ar da montanha... – Ele sussurrava mais para si mesmo, talvez na expectativa que Joe tivesse alguma reação e lhe desse a resposta, mas não rolou. – Ar da montanha, vai...

Tudo que Joe fez foi balançar a cabeça para os lados e resmungou de raiva.

— Você é muito burro mesmo! Tomar uma garrafa inteira é massa, mas a gente transformou uma reunião de ex-alunos numa festa de fogueira na praia, cara!

nem teve tempo de se lamentar, pois Mina já entregava para o Joe a garrafa e o copo. Eu diria que ele foi legal até, colocou no copo pouco menos que a metade, o que daria mais ou menos uma dose comum. virou na hora, sem tirar os olhos – agora realmente com fogo – do meu amigo.

— Até que é bom. – disse, tomando algumas últimas gotas do copo.
— Espera você ter que virar pela terceira vez. – Mina comentou.

Ele deu uma olhada rápida para ela antes de girar a garrafa novamente.

.

Ela ergueu o queixo em confiança na hora e eu senti pena dele. Infelizmente, ele não teria o prazer de fazê-la virar. Ele ou qualquer um de nós.

— Você não tá com sorte hoje, amigo. – Ela disse, sorrindo. Ele não respondeu, só parou para pensar por algum tempo.
— Roupa. – disse e quem se pôs a pensar, então, foi a .

Obviamente ela não precisou de muito tempo. Nem um minuto se passou e ela ergueu o peito, já convencida de que estava no caminho certo.

— Bom... Na quinta série, eu pensei que seria uma boa ideia customizar alguns dos uniformes do . – Começou a contar. – Eu cortei e costurei de volta e joguei glitter, pedras, fitas, todo o material que eu tinha. Vamos dizer apenas que eu arruinei aquelas camisas. Quando os pais dele descobriram, contaram para os meus e, como castigo, eles me fizeram vestir elas para a escola por uma semana.
— Nossa, nem eu lembrava disso. – Disse enquanto os outros riam.
— Sabe que eu ainda tenho uma dessas desde aquela vez que eu me fantasiei de ? – falou pensativa.
— Ei, eu ainda não te perdoei por isso. – a advertiu e mandou um beijo para ela.

Porque acertou, ninguém bebeu e ela não demorou muito para girar a garrafa novamente. Talvez por maldade do destino, foi a sorteada da vez. Ela ficou tensa em seu lugar, sabendo que usaria todas as cartas que tinha na manga para tornar aquele jogo um inferno para ela e, a conhecendo, eu com certeza seria arrastado junto.

— Olha só, , o mundo dá voltas, não é mesmo? – E sem nem mesmo nos dar um tempo, ela jogou a bomba. – 14 de outubro.

Não tinha nada no mundo que me fizesse tirar os olhos da naquele momento, encolhida em seu lugar e dividida entre dar a resposta ou virar a bebida de propósito. Eu sabia disso, pois seus olhos iam constantemente da à garrafa o tempo todo.
Eu não conseguia compreender a necessidade dela fazer todo aquele suspense quando todos naquele círculo sabíamos que ela acabaria respondendo, simplesmente porque beber significava perder e isso era demais para o barril de orgulho que ela guardava dentro de si. Ainda assim, ela enrolou por mais alguns segundos, ponderando qual seria sua escolha.

— Tá legal. – Se rendeu. – No dia 14 de outubro, eu e o ficamos pela primeira vez. Feliz?
— Muito, amiga. – respondeu com um sorriso gigante no rosto.

Eu contive a vontade de dar risada da situação, mas, de alguma maneira, captou o que eu queria fazer e me lançou um olhar bravo. E mesmo quando eu não tinha mexido um dedo sequer, ela arrumava alguma maneira de sentir raiva de mim.
Felizmente, sua vontade de seguir em frente falou mais alto do que a de me derreter com o poder de seus olhos, então ela foi girar a garrafa. A cada volta eu rezava com todas as minhas forças que não caísse em mim. Eu aceitaria jogar com qualquer outra pessoa, mas não ela, pois eu sabia bem que aquela seria só mais uma oportunidade para me atacar e eu continuava nem um pouco a fim de só ouvir.
Pude suspirar aliviado quando a garrafa parou apontando para Mark e ambos trocaram um sorriso animado, prontos para jogar.

— Uuuh, eu espero que você não me odeie depois disso. – ela disse com um sorriso malicioso. – Kiwi.
— Kiwi? Do que você tá falando, mulher? – perguntou indignado e ela apenas deu de ombros.
— Eu escolhi uma super fácil, vou ficar até ofendida se você não acertar.

Ele semicerrou os olhos em sua direção antes de abaixar a cabeça para pensar. Eu sabia que a era alérgica a kiwi, mas não me lembrava de nada muito marcante relacionado à isso. Imaginei que ela não levaria na boa se eu desse essa dica para ele, então mantive minha boca fechada.

— Ah, eu desisto! – Mark resmungou depois de minutos de pressão de todo mundo para que ele deixasse aquilo para lá de uma vez. — Kiwi? O que isso quer dizer?

ria, já servindo a bebida para ele, e não sendo tão boazinha quanto o Joe, diga-se de passassem, enquanto contava a história.

— Há uns sete meses atrás, eu estava posando na casa do Mark e, por acidente, comi um doce que tinha kiwi. Para aqueles que não sabem, eu sou alérgica a kiwi. Nós tivemos que correr para o hospital e, depois de toda a algazarra, quando eu já estava bem, nós conhecemos dois caras. Pela maior coincidência que eu já vi na vida, um era gay e o outro era hetero. O resto é história.

Quando ela terminou, ele já se contorcia frustrado, me fazendo temer que ele pudesse se socar a qualquer momento.

— Porra, eu não lembrava que a gente foi para lá por causa do kiwi! Me dá isso aqui, eu mereço. – Falou, já pegando da mão da o copo com uma quantidade bem generosa de bebida. Ele hesitou rapidamente antes de virar, mas não perdeu muito tempo dessa vez e tomou tudo de uma vez. – Isso aqui é um caminho andado para um PT. Poderia tomar a garrafa inteira.

O jogo seguiu por um tempo sem muitas surpresas. Aos poucos, todos tiveram sua vez e as pessoas sorteadas começaram a repetir. No total, Mina virou três vezes, eu, Mark e Joe, duas, e , uma, e April e , um total de zero. April tinha sorte, pois nos conhecia há pouco tempo, as memórias eram óbvias demais. Eu acabei descobrindo e relembrando algumas histórias bem engraçadas, como a do dia em que a Mina e a ficaram presas por algumas horas em um dos banheiros do campus. Tudo estava divertido, nós ríamos sem parar, eu e nos ignorávamos, era bom demais para ser verdade. Eu devia saber que aquilo mudaria logo. Infelizmente, eu só me toquei quando a garrafa recentemente girada pela parou, apontando para as minhas pernas.
E pensar que eu achei que ela fecharia a cara na mesma hora, mas não... O sorriso que ela carregava continuou ali, só mudou de forma, passando de divertido para “, você tá ferrado”.

— Ora, ora... E não é que eu tenho a memória perfeita guardada para você?
— Imaginei. Você passa bastante tempo pensando em mim. – Respondi, não deixando com que ela abalasse a minha confiança. Em compensação, a dela também continuava intacta.
— Eu vou fazer a minha caridade do dia e praticamente te entregar essa, tá bom? – Ela disse e eu esperei. – Cóccix.

Porra... Eu devia imaginar que ela me faria desmentir uma história perfeitamente montada para me fazer passar vergonha. Eu esperava algo do tipo “o dia que o quase se afogou no mar porque não teve força contra a das ondas”, mas era leve demais, eu devia saber.
Eu poderia simplesmente beber, mas não daria aquele gostinho a ela, então simplesmente comecei a falar.

— Bom... Vocês se lembram de quando eu machuquei o meu cóccix na piscina e tive que usar aquela almofada de ar por semanas para sentar? – Os que me conheciam na época assentiram enquanto só me observaram. – Essa não é a história toda.

Antes que eu dissesse outra palavra, começou a rir, balançando a cabeça.

— Eu sempre imaginei que essa história não estivesse completa.
— É... – concordei, fazendo uma careta. – Na verdade, nem tem piscina na história. e eu estávamos tentando algo... Ahn... Diferente, sexualmente falando. – E ela me encarava com uma expressão divertida e interessada, como se tivesse assistindo seu filme preferido. – Ela estava em cima de mim e... – nesse ponto eu já ouvia a risada de Joe ao meu lado. – Eu acabei perdendo o equilíbrio e caindo no chão direto com o... Vocês já sabem.

Assim que eu pronunciei a última palavra, eles começaram a rir da minha cara, com exceção da , que já conhecia bem a história e tinha apenas um sorriso enorme de vencedora no rosto.

— Eu não acredito que você me privou dessa história. – Mark murmurou entre gargalhadas.

Recebi tapas nas costas do Joe e eventualmente Mina se apoiou em mim para rir. Foi quando eu decidi que estava na hora de parar aquilo.

— Eu vou girar isso daqui, então me façam o favor de calarem a boca. – Falei, o fazendo na mesma hora. Aos poucos, eles se acalmaram e a velocidade da garrafa começou a diminuir.

Eu não sei se havia adquirido poderes especiais nas últimas horas ou se o destino decidiu dar uma ao meu favor, mas eu tive que me conter para não pular de felicidade quando ela parou apontando para a única pessoa que me interessava naquele momento: . Ela tentou disfarçar seu descontento com aquilo, mas não foi boa o suficiente para conter sua preocupação com aquele resultado.

— Interessante. – Ouvi Mina dizer ao meu lado.

Eu já sabia bem o que eu ia usar, por isso não pensei por muito tempo. Só o suficiente para concluir que o de oito anos de idade me mataria por aquilo e eu não me importava nem um pouco.

— Amor de infância. – Eu disse e foi o suficiente para ela arregalar os olhos e a boca na mesma hora, chocada com o que eu joguei ali, literalmente na roda, e já denunciando para todos que ela sabia do que se tratava.

— Não! – Protestou com raiva nos olhos. – Nós tínhamos um acordo!
— Nós tínhamos muita coisa mais de dez anos atrás, mas elas não contam agora, contam?
— É, pessoal, você não pode fazer algo assim. , cadê as regras!?
— Depois da história da Mina, eu não acho que tenha regra alguma contra coisas pessoais. – Disse, encolhendo os ombros.
— Nós não temos a noite inteira, . Conta ou bebe, anda. – Falei, sem nem conter um sorriso maldoso, enquanto ela ainda me encarava furiosa. Por isso eu fiquei surpreso quando ela me entregou a garrafa e o copo para servi-la. – Sério? Você tirou o dia para me mostrar a sua covardia?
— Enche o copo e não a minha paciência, . – disse, me fazendo rir.

Eu sabia que ela não gostava de ter sido completamente apaixonada pelo do momento que o conheceu até seus dez anos, mas não àquele ponto. Para ser sincero, esse nem era o problema, e sim o fato dela nunca ter tido coragem de dizer aquilo para ele. sempre foi popular, mesmo entre uma cambada de crianças, e isso a intimidava quando pequena. Agora, ela odiava o fato de ter deixado algo assim entrar em seu caminho e, como sempre, seu orgulho era gigantesco demais para admitir em voz alta. Os únicos que conheciam a história toda eram eu e , talvez Mark, já que eles se aproximaram muito no último ano.
De qualquer maneira, eu fiz questão de a obedecer naquela hora. Não economizei bebida e coloquei uma quantidade generosa para ela, o que não fez exatamente que ela me amasse. Mas ela queria jogar, não é? Que aguentasse as consequências então. E como uma pessoa que sempre tentava tirar o melhor do pior, ela bebeu tudo em segundos, não tirando seus olhos de mim em momento algum. Isto é, até ela terminar e se encolher, fazendo uma careta.

— Caramba, por que isso é tão doce?
— Era isso ou whisky, então... – Mina respondeu, dando de ombros.

Ela me lançou um último olhar bravo – como se eu já não estivesse acostumado com eles – e girou novamente a garrafa. Me distraí puxando alguns fios da minha bermuda e voltei a erguer a cabeça quando ouvi uma risada um tanto quanto estranha vindo da , só então notando que, mais uma vez, a boca da garrafa apontava exatamente para mim.
Ficou claro que o universo não ficou do meu lado por muito tempo.

— Só por que você merece, tá? – provocou. – São Francisco.
— Minha cidade? – April perguntou e assentiu.

Engraçado. Nós fazemos besteira o tempo inteiro, mas algumas parecem nos acertar com um soco de direita bem dado toda vez que voltam. Era o caso daquela. Eu senti uma sensação incômoda que ia do meu peito até a garganta. Engoli em seco, pensando se teria coragem de contar aquela história. Não precisei de muito tempo para concluir que não, eu nunca contaria aquilo a ninguém que não precisasse realmente saber. Era ruim o suficiente que eu tenha chegado ao ponto de fazer algo do tipo e era pior ainda que eu tenha feito passar por aquela situação, eu não precisava atormentar mais ninguém com essa história. Na verdade, se eu pudesse, gostaria de apertar um botão e fazer qualquer resquício de lembrança daquele dia desaparecer.
Então eu dei à ela a bebida para que servisse, com um sorriso de derrota no rosto. Mas só dessa vez. Sem dizer uma palavra, ela me entregou o copo com a bebida, sendo tão generosa quanto eu na quantidade, e eu virei. Tive a mesma reação que ela ao dar o último gole. O que antes era um doce agradável, agora me parecia açúcar puro com um pequeno toque de álcool lá no fundo.

— Sabe, a ideia do jogo é beber só quando perde, não quando não quer falar... – Mina disse. – E agora eu tô curiosa, pô!
— Tem alguma coisa a ver com aquele acampamento? – Mark perguntou e eu balancei a cabeça, negando.
— Por que a minha vocês querem saber e a da não?
— Nós queremos também. É que agora somou a sua com a dele e nós ficamos curiosos o suficiente para reclamar. – explicou. Revirei os olhos.
— Não é nada demais, esqueçam.

Como esperado, eles não me ouviram e se viraram todos para a atrás da informação que eu neguei. Nós trocamos um olhar silencioso enquanto ela parecia ponderar se falava logo ou não.

— Se queriam saber mesmo, deviam ter perguntado antes da gente beber. Agora já era. – Disse depois de alguns segundos, me permitindo relaxar aliviado.

Mesmo já me sentindo um pouco tonto, eu voltei a girar a bendita garrafa, pedindo secretamente que caísse na novamente. Eu sabia que as chances eram muito pequenas, mas estava contando com qualquer milagre possível. Aparentemente, o universo deu uma outra volta brusca de 360° e se colocou do meu lado porque a garrafa parou exatamente centímetros antes do corpo da acabar e o da começar.

— Okay, esse negócio tá viciado. – Ela afirmou.
— Até eu tô viciado em vocês. – murmurou, distraído, ganhando um tapa da no braço. – Eu falei isso alto? – Perguntou quando percebeu todos os olhares sobre ele.
— Quer saber? Eu cansei desse jogo. – Disse, pegando impulso para se levantar.
— Opa, pode ir sentando. – Mark ordenou. – Você não pode desistir agora não, minha linda, só depois do completar a vez dele que já começou. Nós temos regras, sabia?

Ela olhou para ele aborrecida, ainda agachada.

— Lembra quando você era meu amigo? Saudades.
— Tá tudo bem, Mark, a tá no modo covarde hoje. Não me importo de poupar ela. – Disse, já sabendo exatamente quais efeitos aquelas palavras teriam nela.
— Me poupar? – Dito e feito. – Ah, me erra, ! Vai, manda. – Mandou, se sentando novamente.
— Tem certeza que você aguenta? – Provoquei, ganhando apenas o seu dedo do meio quase enfiado na minha cara. – Tudo bem, então... Já que nós estamos trabalhando com lugares: Buena Park.

Ela não se lembrou de primeira, mas eu sabia que logo, logo a lembrança viria. Principalmente porque aquela região era pouco conhecida e explorada por nós dois, então não havia muitas opções de escolha.

— Oh. – seus olhos se arregalaram levemente quando ela lembrou. – Você realmente tinha que desenterrar isso? – Dei de ombros. – Tá... Um dia o estava tomando banho e eu esperando no quarto quando o celular dele tocou. Eu atendi e era uma mulher dizendo que ele havia sido selecionado para uma vaga de emprego meio período no escritório dela, lá em Buena Park. – Ela parou por um tempo e eu continuei fitando ela, a desafiando a continuar, até que ela suspirou e seguiu em frente com a memória. – E aí eu disse que ele não estava mais interessado.
— Por que você faria isso? – April perguntou surpresa.
— Era por que era uma mulher? – Joe questionou e o olhou brava.
— Não, não era por causa disso. – Respondeu-o. – E eu tinha a melhor das intenções. – disse, olhando para a April dessa vez.
— Eu ainda tenho muita dificuldade tentando entender como pode haver boas intenções em dispensar um emprego que eu precisava.
— Buena Park fica a quase uma hora de distância da nossa casa e com um bom trânsito. Olha o tempo que você ia perder! – Se defendeu.
— E? Era um emprego, , e dos bons! – Exclamei ainda inconformado.
— Pelo amor de Deus, você estava no último ano, precisava estudar, não trabalhar, ! Ou você acha que entrou na UCLA com a sua boa vontade?
— Isso não era da sua conta!
— Como sua namorada, era sim! Além do mais, já me desculpei milhares de vezes por causa disso, não sei nem por que você tá remoendo essa história ainda.
— Argh, essa briga de novo não... – resmungou, tapando o rosto com as mãos.
— Quem quer descer lá embaixo para assistir um filme? – Mina perguntou em um tom alto, impedindo que eu pudesse responder a . Todos, menos nós dois, concordaram na mesma hora, ansiosos para dar o fora dali, então acabamos deixando aquilo para lá.
— Eu venci, de qualquer maneira. – disse.

Não respondi. Esse era o nosso problema. Mesmo quando vencíamos, acabávamos perdendo.
Eu ia seguir os outros para fora, mas fui obrigado a parar porque a empacou na porta e se virou para trás. Segui seu olhar e só então notei April e discutindo algo baixinho, ainda sentados no chão.

— Vocês não vêm? – perguntou, chamando a atenção deles.
— Nós já vamos. Eu tenho que conversar com a April sobre uma coisa.
— Que coisa? – Questionei curioso. ergueu uma sobrancelha para o meu lado, desaprovando minha pergunta.
— Nada que interesse vocês dois. Vão logo, nós não vamos demorar.
— Hm... Olhe lá o que vão fazer no meu quarto.
! – April a repreendeu, com seu rosto ficando rapidamente vermelho.

Eu vi a cara do de “caiam fora daqui agora” e achei que fosse uma boa hora para ir, então empurrei disfarçadamente a pelas costas. Ela agiu como se tivesse acabado de levar um choque, se afastando rapidamente de mim e de qualquer toque que eu poderia fornecer, saindo andando com rapidez a minha frente.
A observei sair do meu campo de visão em segundos, tamanha sua pressa para se afastar de mim, e suspirei, frustrado. Como é possível sentir tanta raiva de alguém em um segundo e tão mal por causa dela em outro? Talvez eu não sentisse raiva dela e sim de suas atitudes. Foi a forma que ela encontrou de botar para fora todo ódio que acumulou desde que terminamos e, para ser honesto, era até melhor. Melhor que a indiferença que ela parecia sentir na época. Eu me lembrava bem de vê-la sorrindo, se divertindo, flertando, poucos dias depois do nosso término e sentia arrepios, dos ruins, por mais egoísta que aquilo fosse. Eu preferia as coisas assim, com ela colocando tudo para fora para mim, ainda que doesse às vezes, do que simplesmente não colocando.
Eu quase me arrependi desse pensamento quando cheguei no andar de baixo e dei de cara com um casal se agarrando. Não levou um segundo para que eu reconhecesse a e, é claro, o Nicholas. Observei a cena por algum tempo, assistindo a maneira como ela parecia querer compensar um toque rápido meu com uma agarração quase que explícita no meio da sala. Bom, eles estavam em um canto, mas ainda assim...

— Ei! Que filme você quer ver? – perguntou, aparecendo de repente a minha frente e tampando a minha visão dos dois.
— Tanto faz. – Respondi, mas ela me puxou do mesmo jeito, me virando para que eu ficasse de costa para os dois.
— Mas eu quero sua ajuda para escolher, poxa.
, relaxa, tá tudo bem. – falei, sorrindo para ela.
— Eu não sei do que você está falando. Que filme? – insistiu, me fazendo rir.
— Eu tenho certeza que alguém já te falou que sua atuação é terrível e que você é uma péssima mentirosa. Tá. Tudo. Bem. Ok? – eu disse e ela se rendeu abaixando os ombros.

Não estava, não. Vê-la beijando outro cara, especialmente alguém que eu era obrigado a ver quase todos os dias, me irritava, me fazia questionar cada decisão que eu já tomei na minha vida, coisa que eu já fazia vezes o suficiente. Uma coisa era saber que ela havia saído com o Nicholas, outra era ser obrigado a vê-la correr seus dedos pelo cabelo dele e vê-lo tocá-la daquela maneira. Eu costumava ser aquele cara e não conseguia lidar com o fato dele poder senti-la agora e eu não, especialmente depois da quantidade considerável de bebida que eu virei. Ele não a merecia, ele não era, de longe, bom o suficiente para ela. Mas, para ser honesto, quem era? Certamente não eu depois do que fiz com ela. Nós somos seres humanos, cometemos erros, mas eu já havia perdido a conta de quantas vezes o havia feito, incluindo, especialmente, a história de São Francisco, aquela que eu prefiro fingir que nunca aconteceu.
Mas, de qualquer maneira, não queria deixar a mais dividida entre nós dois do que ela já se encontrava. Até porque eu sabia que, no final, a sempre viria primeiro.

— Tá legal. Eu não sei por que ela tá fazendo isso, quer dizer... Eu ainda não te vi se agarrando com a Nikki pelos cantos, vi? Não!
— É... Cadê a Nikki? – perguntei e ele me olhou desconfiada.
— Você não tá pensando em...?
— Claro que não, só quero falar com ela.

Ela não acreditou primeiramente em mim, se pôs a avaliar minha expressão e procurar qualquer sinal de que eu não tinha a melhor das intenções, mas não pareceu chegar à conclusão alguma.

— Ela tá vindo aí. – Disse se retirando ao mesmo tempo em que eu sentia uma mão no meu ombro. Me virei para trás, dando de cara com ela e seus cabelos louros pendendo sob os ombros.
— Procurando por mim?
— Por você, por um lugar para dormir... – respondi. – E aí, pensou?
— Pensei, sim. Eu vou fazer o sacrifício de dividir minha cama com você, mas só porque eu sou querida demais para te deixar dormindo no chão. – Sorri, a puxando para um abraço apertado que a pegou de surpresa. Beijei sua bochecha enquanto ela ria.

Eu não tinha palavras para dizer o quanto eu adorava aquela garota. Ela era linda, inteligente, divertida, responsável... Tudo que me faltava de vez em quando. Com a Nikki as coisas eram fáceis. E não fáceis no sentido de que ela aceitava tudo ou algo do tipo, muito ao contrário, eram fáceis porque eram simples. Nós tínhamos esse rolo há quase um ano e havia alguns desentendimentos aqui ou ali, mas depois que nos acertamos e cada um definiu bem o que queria, tudo ficou incrível. Não havia cobranças, ciúmes, controle nem nada do tipo, mas também não havia amor. Pelo menos, não aquele amor que te faz pensar “eu quero passar a minha vida inteira com ela” e sim um amor de amizade. Quando nós percebemos isso, a coisa começou a realmente andar. Bom, talvez andar não seja exatamente a palavra, porque momentos eram tudo que nós tínhamos e estávamos muito bem assim.

— Você é incrível, sabia?
— Pode ter certeza que eu sabia. – disse. – Na verdade, nós temos uma cama sobrando aqui, mas adivinha em que quarto ela fica?
— No da . – Afirmei, pois tinha notado a cama extra mais cedo.
— É, e eu imaginei que ela não fosse aceitar isso muito bem. – Assenti, fazendo uma careta. Eu podia imaginar até o escândalo. – Como ela está hoje?
— Querendo arrancar minha cabeça fora, o de sempre... – dei de ombros.
— Não haja como se você não provocasse de vez em quando, .
— Eu só revido, quem sempre começa a baderna é ela. – Me defendi, mas Nikki revirou os olhos, conhecendo bem a história toda.
— Vocês vão se entender uma hora. – Disse sempre positiva, o que me fez lançar um olhar rápido em direção ao casal de pombinhos atrás dela.
— Talvez... – voltei a olhá-la. Eu tinha uma garota incrível demais na minha frente para passar tanto tempo pensando em outra. – Vem deitar comigo?
— Ainda é cedo, não quer assistir um filme?
— Não, eu tô meio cansado, mas tudo bem se quiser assistir. – Disse e ela me olhou por uns segundos antes de se aproximar, apoiando uma das mãos em meu peito.
— O quão cansado você está? – Perguntou próximo ao meu ouvido, me fazendo sorrir.
— Só um pouco. – Respondi. Foi o suficiente para ela me puxar pela mão escadas acima em direção ao seu quarto.

Como eu disse: simples.



’s POV

“Qual é o meu problema?”, eu pensei pela quadragésima primeira vez nos últimos vinte minutos. Eu tentava ao máximo prestar atenção no filme que a TV exibia, mas o meu cérebro insistia em me desobedecer. E o fato de terem escolhido um drama francês para tentar agradar todo mundo também não ajudava.
Nick estava sentado do meu lado, com um braço ao redor dos meus ombros, e aquele pequeno gesto estava me matando de angústia por dentro. Quer saber a melhor parte? Eu não me sentia nem no direito de reclamar, pois havia tomado a decisão estúpida de beijar ele pouco tempo atrás, só para aborrecer o . Eu precisava, urgentemente, começar a pensar nas consequências das coisas que eu fazia, mas esse tipo de preocupação parecia simplesmente voar janela afora em horas como aquelas.
Se você acha que não pode ficar pior, senta aí e escuta: não funcionou. Era de que estávamos falando, o mocinho sentimental, do coração fraco, que, aparentemente, ainda guardava um espaço em seu coração para mim, então espera-se que ele fique ao menos mexido de ver a ex-namorada beijando o colega de fraternidade, mas não. Muito ao contrário, já que agora ele está lá em cima, fazendo nós-sabemos-o-que com a Nikki, no quarto da Nikki, onde ela dorme completamente sozinha e em uma das poucas camas de casal da casa. Por que ele não poderia ter seus rolos com uma Kappa normal, tinha que ser a líder de todas, não é?
E já que estamos tendo essa conversa, eu vou te avisar que sei, sim, exatamente o que se passa pela sua cabeça. Não é ciúme. Eu sei que é difícil acreditar nas minhas palavras, mas eu te garanto, não é. É simples e pura frustração por ter tomado uma decisão estúpida buscando um fim que não se concretizou e sofrer as consequências disso à toa.
É assim que se faz, !
Eu me sentia até mal pelo garoto sentado ao meu lado. Eu abominava a presença dele ali e ele nem mesmo tinha culpa de nada, estava só fazendo o que ele deveria imaginar que toda garota gostaria que ele fizesse. Nick era o cara certo em uma hora muito, mega, extremamente errada.
Suspirei, cansada de ficar ali, chamando a atenção dele, que me olhou curioso. Desencostei do sofá atrás de mim, me virando para ele com o melhor sorriso que eu consegui formar naquele momento.

— Escuta, eu vou subir, tá? Tô com sono. – avisei.
— Tudo bem. Quer que eu vá com você?
— Não, não precisa. As garotas não iam gostar muito também. – disse e ele assentiu.
— Boa noite, então. – falou, se aproximando para me beijar.

Eu encarei aqueles lábios por vários segundos em pânico. Ele não beijava mal nem nada do tipo, mas eu pensei que aquela seria uma boa hora para dar início a minha missão “Deixe o Nicholas ir”, então desviei, com o maior carinho possível em um momento como aquele, lhe dando um beijo demorado na bochecha.

— Boa noite. – disse já me levantando numa rapidez exagerada, com medo de ouvir algum tipo de questionamento.

Eu posso ter balançado e quase caído de bunda no chão graças as doses de vodka mais cedo, mas ninguém precisava focar nisso.
Subi as escadas com a mesma pressa com que as desci, indo diretamente para o meu quarto. Ao abrir a porta, encarei o casal que continuava ali, agora me olhando tão surpresos quanto eu com a cena. April segurava algumas folhas de papel que aparentavam terem sido dobradas diversas vezes e uma caneta, mostrando algo nelas para o . Eu passo 48 horas fora e esses dois adquirem vários segredinhos? Ah, não. Não no meu turno.

— O-oi. – April falou, quebrando o silêncio.
— Posso saber o que tá acontecendo aqui? – perguntei, os encarando desconfiada.
— Nós estamos conversando. – respondeu e ela concordou, balançando a cabeça.
— Eu posso saber sobre o que?
— Não é nada. – respondeu novamente, sorrindo.
— Nós estamos guardando segredos um dos outros agora, é isso mesmo? – questionei, fingindo choque.
— Não tem segredo, , estamos apenas conversando. – April disse calmamente.
— O que é isso aí na sua mão, então?

Ambos olharam para baixo na mesma hora, só então notando as folhas de papel que continuavam expostas para quem quisesse ver.

— Isso? – as pegou para si. – São só algumas receitas que eu peguei com a minha mãe... Porque a April pediu. Você sabia que ela gosta de cozinhar?
— Não... Você gosta? – perguntei um pouco surpresa. Eu a via cozinhando umas coisas aqui e ali, fazendo seu almoço e janta – às vezes, os meus também –, mas nada fora do comum.

Ela assentiu.

— Um pouco.
— Viu? Nada demais. Eu vou ir para o meu dormitório agora, já é meio tarde. – disse, se levantando e enfiando as folhas já dobradas novamente no bolso.
— Por que vai levar as receitas com você? Elas não eram para a April?

Ele pareceu perdido por alguns segundos com a minha pergunta, mas logo se encontrou.

— Ah, isso. É que eu sou meio lerdo, sabe... – explicou, com um riso forçado e nervoso. – Eu acabei pegando só os ingredientes e me esquecendo do modo de preparo. Você ficaria surpresa de saber o quanto um modo de preparo é importante em uma receita.
— Entendi... Não quer dormir aqui?
— Não, valeu. Quem sabe outra hora. Até amanhã. – disse me dando um beijo na bochecha antes de ir apressado em direção a saída. – Tchau, April.
— Tchau. – ela respondeu e ele foi.

Eu só fechei a porta atrás dele, fingindo que acreditava naquela história toda. Eu gostava da ideia deles serem amigos, então ia segurar minha curiosidade por um tempo. Mas não para sempre, que fique bem claro, pois eu não sou de ferro. Eventualmente, eu descobriria o que é que é que estava acontecendo ali.
Enquanto isso, eu simplesmente me joguei na minha cama sob o olhar curioso de April.

— Então... Você tá bem? – ela perguntou.
— Sim, por quê?
— Ah, não sei... É que foi uma história e tanto aquela que você contou. – ela disse, mais devagar que o normal, como se temesse a reação que eu teria a sua fala.
— Você acha que a minha é ruim só porque não ouviu a dele. Acredite em mim, é milhares de vezes pior. – disse me lembrando da bomba que joguei no colo dele pouco tempo antes. Eu não estava exatamente orgulhosa daquilo, pois sabia o quanto ele abominava aquele dia, mas esse é o tipo de coisa que temos que trazer à tona em uma guerra como a nossa.
— E qual é a história? – questionou, abraçando as próprias pernas e apoiando sua cabeça em um dos joelhos. Uma bacia de pipoca e ela estaria pronta para assistir o filme do ano.
— Até uma guerra possui regras, April. – falei, observando a decepção em seu rosto. – Pense em mim e no como um livro... Enorme, aparentemente lindo e com muita história para contar. Mas, em uma grande parte desse livro, há manchas de tinta que te fazem querer arrancar aquelas páginas fora de uma vez só, te deixam aflita, te causam angústia, e, de repente, todo o resto deixa de ser tão bonito.

Ela parou por um tempo, refletindo sobre as minhas palavras. Nem eu acreditava que aquilo tinha saído da minha boca em alto e bom som.

— Mas eu acho que todo relacionamento tem suas manchas. Nada é perfeito, certo?
— Não, nada é perfeito, mas alguns tipos de manchas não deveriam realmente estar lá. Eu só levei tempo demais para perceber isso. – disse e ela assentiu, parecendo compreender um pouco. – Dito isso, eu vou dormir antes que eu comesse a filosofar mais do que o necessário aqui. Qual é a agenda de amanhã?
— Aula, reunião para dividir os bairros de cada trio e... Só, eu acho. – informou, me fazendo suspirar. Essa era a semana do recolhimento dos animais de rua. Eu esperava que aquela parte fosse mais divertida que a dos panfletos.
— Tudo bem. Acho que eu posso lidar com isso. Boa noite.
— Boa noite. – respondeu, buscando um livro para ler em seu criado mudo. Acostumada, eu nem me importava mais com a luz de seu abajur acesa.
— Sonhe com o . – disse, rindo e me virando de costas para ela, mas ainda assim senti algo fofo bater contra as minhas costas.

— E não se preocupem porque eu conversei com o reitor e ele ficou mais do que feliz em nos disponibilizar aquele galpão quase na saída do campus. Ele vai entrar em reforma logo, então ninguém está usando. – Nikki finalizou, correndo os olhos pelas 26 garotas espalhadas pela sala. Não era a casa inteira ali, pois a reunião era específica para quem participaria da feira de adoção. – Alguma dúvida?

Ninguém se manifestou, até porque a coisa toda era bem simples. , eu e Katy ficamos no mesmo trio e fomos designadas para a região em que costumávamos morar, por conhecermos bem o lugar. Nikki e tentaram ao máximo fazer esse esquema de mandar as garotas que eram de LA para lugares já familiares, pois o trabalho ficava mais simples e, consequentemente, mais rápido. Nós teríamos três dias, começando a partir de amanhã, para fazer isso, então não podíamos contar com muito tempo.
Todas fomos dispensadas depois disso, mas April, Mina e eu continuamos sentadas no mesmo lugar enquanto discutia algumas coisas com a Nikki. Eu não sabia dizer se a era o seu braço direito ou se ela era o braço direito da , sinceramente, mas podia ver com clareza quem seria a próxima líder da casa quando Nikki se formasse no final do ano.

— Então, o que temos para hoje? – perguntei, virando para as garotas sentadas no sofá atrás de mim.

Eu estava estranhamente animada naquele dia. Pelo menos, animada o suficiente para ignorar o fato de ser terça-feira, ter aula no dia seguinte e ainda assim sair para me divertir. Se fosse possível, eu diria que a bebida da noite passada só estava fazendo efeito agora, mas eu sabia bem que a culpa era do copo gigante de café que tomei depois do almoço. Eu os evitava exatamente por motivos como esse.
Mina e April não pareciam compartilhar da minha animação, pois me encararam como se eu fosse uma aberração.

— Nada, eu acho.
— Qual é! Nenhuma festa de fraternidade? Nenhum evento legal numa balada? Tem que ter algo.
, é terça-feira. – Mina afirmou e se ela era a me olhar daquela maneira, era porque eu realmente estava saindo um pouco fora demais da casinha, mas não desisti.
— Exatamente, é terça-feira e não segunda. Vamos em um barzinho, sei lá, qualquer coisa. Eu preciso sair!
— Sair para onde? – perguntou ao se sentar do meu lado com a Nikki.
— Para um barzinho, vamos? Só nós, as garotas. Nikki? – convidei as lançando o meu melhor sorriso para tentar convencê-las da ótima ideia que era.
— Em plena terça-feira? – Nikki questionou e eu assenti rapidamente. Elas pareciam gostar de insistir no dia da semana em que estávamos.
— Parece legal, uma noite de garotas. – disse e eu arregalei os olhos, em choque.
— Vocês viram isso? – disse, apontando para ela. – Essa é a concordando comigo e agora vocês tem que fazer o mesmo.
— Bom, eu sempre estou disposta a sair com vocês, então... – Mina concordou, dando de ombros.
— Posso chamar a Lucy? – April perguntou.
— Claro. Chama a Lauren também, adoro ela. – respondi e então todas nos viramos em direção a Nikki, a última de pé.
— Se a topou ir, como eu posso dizer não? – disse por fim, me fazendo levantar na hora em comemoração.
— Isso vai ser ótimo! – comemorei. – Nós saímos que horas? 20:00? Acho que sim, já que não podemos voltar muito tarde. Vou tomar banho, me arrumar e encontro vocês aqui embaixo, tá bom? – falei, já indo em direção às escadas. Fui parada pela gritando meu nome em alto e bom tom.
— Você está ciente de que ainda são 5hrs da tarde?

Não, eu não estava. Na verdade, eu havia esquecido completamente que a luz vinda do lado de fora era um sinal de que estava cedo demais para sair para um bar. Mas só para ter certeza, eu olhei as horas no meu celular, o que me desanimou um pouco ao ver os números marcarem 16h56.
Suspirei. Estava bom demais para ser verdade, eu deveria ter desconfiado.

— Ah... Tudo bem, eu tenho uma resenha para fazer, de qualquer maneira. – concluí cabisbaixa, subindo as escadas e ouvindo algumas risadas das que ficaram lá.

Eu pensaria naquilo como um sinal dos deuses para adiantar aquele trabalho antes que eu acabasse deixando para fazer tudo na última hora. Hora essa que eu provavelmente estaria dormindo. Eu só precisaria de um banho depois para trazer todo o meu ânimo de volta, e, depois do dia anterior, banhos nunca eram demais.
Eu pude entrar no meu depois de duas longas horas, mas de uma resenha muito bem feita. Quando saí, todas já estavam prontas, menos a . Nada novo sob o sol.
April continuava com a sua ideia de mesclar estilos, buscando algumas inspirações no guarda-roupa da e as adaptando ao seu. Até agora, estava dando tudo certo. Hoje ela vestiria uma camiseta do que eu imaginei que fosse alguma série, um short surpreendentemente curto e seus usuais tênis. O meu bebê estava crescendo e eu não sabia bem como lidar com aquilo.

— Olha como ela tá linda! – disse, chegando por trás dela, que se olhava no espelho, e apoiando a cabeça em um de seus ombros.
— Obrigada. – sorriu, sem graça.
— É uma pena que o não tenha sido convidado hoje.

Digamos que, desde a noite anterior, eu estava usando cada oportunidade que eu tinha para trazer à tona. E eu tinha três bons motivos. Primeiro: só para encher o saco. Segundo: para lembrá-la constantemente de que eu queria saber sobre o que é que eles estavam conversando. Terceiro: eu adorava a reação envergonhada dela.
Depois de um tapa pego de raspão graças ao meu reflexo rápido, eu fui me arrumar, já que, por ironia do destino, agora eu era a única que não estava pronta ou quase pronta, e a Mina começava a me lançar uns olhares entediados, que eu aprendi ser um sinal que ela estava ficando frustrada. Ela gostava das coisas rápidas e eu não podia culpá-la nem um pouco por isso.
15 minutos depois, um tempo de se orgulhar, eu estava pronta e nós saímos, encontrando Nikki, Lucy e Lauren no andar de baixo. Como de costume, nós andamos. Morávamos em uma região universitária, então tínhamos opções de bares, restaurantes, clubes, lavanderias e tudo que um estudante poderia precisar de sobra. Nikki escolheu o estabelecimento da noite, um bem diferente do último em que eu fui (eu preferia manter distância daquele lugar por pelo menos alguns meses, se é que me entendem), um pouco menor e mais aberto, o que era bom por causa do calor que fazia naquela cidade.
Ainda era consideravelmente cedo, então poucas mesas estavam ocupadas. Isso nos permitiu escolher bem onde sentaríamos, lugar que acabou sendo bem no meio do lugar. Boa visão, perto o suficiente dos banheiros e da saída (detalhe adicionado pela no caso de acontecer qualquer coisa que nos obrigasse a sair correndo dali). Um garçom apareceu logo para pegar nossos pedidos e, pouco tempo depois, o mesmo as trouxe. Com a minha fiel e segura cuba libre a minha frente, eu decidi finalmente anunciar para todas um dos motivos que me fez querer tanto sair com elas hoje.

— Todas estão prestando atenção? – conferi, só para me certificar de que não teria que repetir tudo novamente depois.
— Sim, fala logo! – disse. Seu corpo se inclinava para frente tamanha sua curiosidade.
— Você não tá grávida do Nick, tá? – Mina soltou de repente, me fazendo a olhar confusa com a aleatoriedade de sua pergunta.
— Não! Não fazem nem 48 horas...
— Então não pode dizer que não. Como você poderia saber? – insistiu e dessa vez eu ri do olhar acusador em seu rosto.
— Ei, eu sou muito consciente com o que eu faço... E paranoica. Eu não fico grávida a não ser que eu queira! – me defendi.
— Ah, como nós ficamos feliz de ver vocês discutindo gravidez quando estamos curiosas para saber o que a quer falar. – Lauren disse irônica.
— Viu, Mina? Silêncio. – falei e ela deu de ombros. – Bom... É o seguinte: ontem eu presenciei uma cena engraçada. – assim que as palavras saíram da minha boca, April pareceu mais atenta. – me disse que a April gosta de cozinhar e eu não sabia disso! Então eu fui dormir e comecei a pensar: “eu não conheço realmente essas garotas”. Com exceção da , é claro. E isso me assustou muito porque eu vivo com vocês. É esperado que uma pessoa conheça as outras com quem vive, certo? – perguntei, esperando respostas que não vieram. Tudo que recebi foi confusão por parte delas.
— O que você quer dizer, ? – Nikki perguntou, sendo a voz das outras cinco.
— Melhor, o que eu quero propor. Vamos nos conhecer, contar um pouquinho mais sobre nós mesmas, que tal?

Um silêncio seguiu minha proposta. Elas trocaram olhares entre si, parecendo ponderar se aquela ideia era mesmo tão genial quanto eu a fazia soar.

— Parece divertido. – April concluiu algum tempo depois. – Nós não vamos envolver bebida alguma nisso, vamos?

Neguei, balançando a cabeça e ela relaxou em sua cadeira.

— Certo. Vamos tentar então. – disse e eu quase pulei na minha cadeira, animada.

Fiquem longe de café, crianças.

— Quem começa? – perguntei.
— Eu posso começar. – Lucy disse, já erguendo os ombros e se preparando para falar. – Eu tenho TOC. Vocês sabem, transtorno obsessivo compulsivo. O motivo por eu começar meus trabalhos com tanta antecedência é que eu tenho todo um processo para fazer antes de entregar eles. Eu já cheguei a não entregar na data certa e receber apenas metade da nota por não conseguir fazer todos os passos a tempo. Às vezes eu fico sem dormir por causa disso, sem comer e tudo mais.

A reação de todas àquela “nova” informação foi no mínimo engraçada. Nós assentimos, como se compreendêssemos a situação toda e a até tentou parecer surpresa, mas vocês já sabem que atuar não é seu forte.

— Meu amor, eu acho que elas já notaram isso. – Lauren disse, passando um braço ao redor dos ombros da irmã.
— É?
— Lucy, você levanta de madrugada e revira a casa para ter certeza de que todas as luzes estão apagadas. – Nikki afirmou.
— E você confere se as bocas do fogão foram realmente desligadas quatro vezes depois de todo almoço e janta. – completei.
— Ah, que fofo, vocês prestam atenção em mim. – ela disse, sorrindo.

Achei que aquela não seria a melhor hora para dizer que qualquer um prestaria atenção em manias estranhas quanto aquelas, então fiquei com a boca fechada e um sorriso no rosto, me virando para a Lauren como um sinal para que ela começasse a desabafar.

— Minha vez? – ela perguntou e eu assenti. – Tudo bem, deixa eu ver... – disse, parando para pensar por um tempo. – Eu acho que vocês não sabem disso, então... Eu fazia parte de uma banda.

Eu a encarei, surpresa. Lauren ficava mais legal cada vez que eu falava com ela, como isso era possível?

— Fazia? Não faz mais? – Mina perguntou.
— Não. Eu tive que sair no final do ano passado. Estava estudando que nem louca para o S-A-T³, então não tinha muito tempo de sobra para me dedicar à música.
— Uau! E você era o que? Vocalista? – perguntou dessa vez. Lauren negou.
— Baterista. É uma banda só de garotas. Na verdade, elas me convidaram para me juntar a elas de novo recentemente, mas eu não sei se é uma boa ideia.
— Eu já disse para ela que é uma ótima ideia milhares de vezes, mas ela continua pensando e pensando e pensando e não sai do mesmo lugar nunca. – Lucy provocou, nos fazendo rir.
— Eu concordo com a Lucy. – Nikki disse. – Além do mais, imaginem o quão legal seria para as nossas filantropias ter uma Kappa que tem uma banda!
— Ah meu Deus, sim! – exclamou, se levantando tamanha sua animação. – As coisas que eu poderia fazer com isso... – disse, olhando para o nada, já sonhando com os eventos.
, calma. Não queremos assustar as garotas. – falei a puxando de volta, em todos os sentidos possíveis, para a mesa. Ela encostou a cabeça em meu ombro, ainda sonhando com a possibilidade.
— Ok... Eu acho que podemos seguir em frente para a Mina. – Lauren falou, com um olhar desconfiado em direção à minha amiga. Já Mina não pareceu muito feliz por ter chegado a sua vez.
— Eu não tenho nada para falar. Vocês sabem que eu sou um livro aberto. – disse, tentando fugir.
— Ah, tem sim! – insisti. – Nem que você tenha que me falar uma situação vergonhosa que já passou quando criança, nós queremos saber.

Ela tinha seis olhares em cima dela e isso a deixou tensa. Poucas situações deixavam a Mina com aquela cara de “eu quero correr daqui” e isso me preocupou um pouco. Até porque a ideia daquela brincadeira em especial não era deixar ninguém desconfortável.
levantou sua cabeça e elas trocaram um olhar rápido, que terminou com a a dando o que me pareceu um sorriso de incentivo. Nesse momento, Mina suspirou e relaxou, parecendo se render.

— Tá legal. A e a Nikki já sabem disso, mas... Só guardem para vocês, ok? Eu não tenho muito orgulho disso. – todas assentimos na mesma hora, curiosas. – Eu e a... Eu e a Ashley... Nós éramos namoradas. Durante um ano e seis meses, para ser mais exata.

Meu queixo caiu. Tanto que eu me senti na obrigação de cobrir minha boca com a mão para tentar disfarçar o tamanho do meu choque. Me senti melhor quando a reação das outras garotas foram mais ou menos parecidas porque caramba! Eu não esperava aquilo. Eu não esperava nada nem remotamente próximo àquilo.
Mina observava nossas reações e eu sabia que devia falar algo, mas palavra nenhuma parecia boa o suficiente para expressar o tamanho do impacto que aquele notícia teve em mim. Qual é, nós estávamos falando da Mina, a garota mais incrível do mundo, e da Ashley, a garota cuja risada apenas me irritava! E todo meu ódio por ela vinha por causa da Mina, da maneira como ela a tratava, das brigas constantes, que agora eu não sabia mais se faziam sentido. Elas namoravam! Aquele devia ter sido um término e tanto para as coisas terem chegado ao ponto em que estão agora. No fundo, eu esperava que o motivo não tivesse sido o mesmo do meu término com o , ou eu não sabia a que nível chegaria o meu ódio pela sua presença.
Como se lesse meus pensamentos, April fez a tão esperada pergunta.

— É por isso que vocês brigam tanto?
— Sim. Nós não tivemos um término pacífico. – ela respondeu.
— O que aconteceu? – Lucy correu para perguntar, levando um tapa fraco de sua irmã. Mina riu da cena. Talvez eu teria feito o mesmo se não tivesse congelada no meu lugar, ainda besta com a novidade.
— Vocês veem como a Ashley é, não veem? Ela não costumava ser assim. Na verdade, antes do seu canal do youtube começar a ter um bom número de acessos, ela era praticamente outra pessoa. Mas com os views vieram o egocentrismo, a síndrome do “eu sou famosa” e tudo aquilo que vocês veem diariamente. Aquela não era a mesma pessoa com quem eu aceitei namorar, então eu acabei acumulando essa frustração até que um dia, em uma briga, eu disse muitas coisas, ela me disse muitas coisas e nós terminamos. O problema é que nós duas viemos de uma linhagem de Kappas, então... Vocês sabem o resto.
— As coisas fazem bem mais sentido agora. – April afirmou para si mesma.
, você tá bem? – Mina perguntou, passando a mão na frente dos meus olhos. Eu os obriguei a focar nela por alguns instantes. – Eu sei que você tá surpresa, mas não é para tanto.

Eu tentei abrir a boca e forçar palavras para fora, mas tudo que saiu foi um som estranho, já que eu ainda não tinha as palavras para me expressar naquele momento. O termo “sem palavras” nunca se encaixou tão bem em uma situação.

— Aqui, toma isso. – me ofereceu o meu copo de Cuba e eu aceitei de muito bom grado. – Uma hora você vai se acostumar. É muito mais interessante observar essas brigas quando você sabe o que tem por trás delas, confia em mim. — assenti, respirando fundo. – Podemos continuar. April, vai.
— Ok. Bom, eu não conto isso para muita gente porque gosto de guardar só para mim, mas eu também gosto muito de vocês, então quero que saibam. – sorri com a pequena declaração, querendo abraçá-la por toda aquela fofura. – Eu escrevo. Não só o que vocês veem, muito mais. Eu posto os meus trabalhos em algumas plataformas online e as pessoas leem, me dizem o que acharam e tal, eu também leio as coisas delas e assim vai. E bem divertido.
— Ei, eu tenho uma prima que posta histórias em uns sites malucos, talvez sejam os mesmos. – Lucy disse.
— Provavelmente. – April concordou.
— Sabe, agora eu me sinto traída. O mundo inteiro pode acessar um site e ler suas coisas, mas eu não posso nem tocar naquele conto de iniciação. Isso é injusto. – reclamei e ela riu.
— É que tem uma diferença gigantesca entre alguém que eu nunca vi pessoalmente ler minhas histórias de alguém com quem eu convivo, vejo, converso o tempo inteiro. Mas eu vou te deixar ler um dia, prometo. – se explicou. A olhei desconfiada, não acreditando muito naquilo, mas deixei para lá.
— Isso é muito legal, April. – Nikki disse, ganhando um sorriso. Ela só percebeu que havia chegado a sua vez quando todos os olhares da mesa se voltaram para ela. – Ah, beleza. Eu não sei bem o que contar, quer dizer... O que vocês querem saber?
— Sua vida é incrível, eu tenho certeza que tem muitas opções de coisas para contar. – Mina comentou, a fazendo rir.
— Na verdade, tem algo que eu realmente gostaria de saber. – falei, chamando sua atenção. Ela me esperou perguntar, curiosa. – Eu sei que nós falamos sobre isso recentemente, mas foi meio rápido, sem muitos detalhes e eu gosto bastante de detalhes, sabe... Principalmente quando eu posso usar eles ao meu favor. Você e o ... Como isso aconteceu? – perguntei finalmente.
— Como aconteceu? – repetiu, parecendo estar meio perdida com a pergunta.
— Sim. Até onde eu sei, você tá no último ano, é líder de uma das irmandades mais famosas do campus e do país, é líder de torcida, vai se formar como uma das primeiras da turma, é linda, esperta, e o ... Bem, ele com certeza não é tudo isso. Principalmente porque ele está só no segundo ano.
— Poxa, , o também é lindo. – o defendeu.
— Sim, eu sei. Eu até namorei com ele e tudo mais, só que a conta não fecha para mim.

Nikki pegou algum tempo para pensar, avaliando bem a minha dúvida. Eu esperei paciente, pronta para ouvir algum podre.

— Eu nunca me importei com essa coisa de idade, para ser sincera. Para mim, é só um detalhe e o não é como a maioria dos caras, ele é bem mais maduro. Na verdade, ele é muito diferente de qualquer um. Nós nos conhecemos logo que ele entrou na faculdade por causa do acordo entre a Lambda e a Kappa e acabamos virando amigos, então eu vi de perto todo aquele processo de pós-termino. Um dos grandes motivos por eu querer tanto conhecer você, , foi ele. Isto é, além da . Ele falava de você com tanta paixão e carinho. Nunca me contou uma história ruim sobre o seu relacionamento, para ele, você nunca foi a ex louca, e sim, a garota incrível que ele perdeu por besteira, e isso acabou me encantando. Nós só nos envolvemos meses depois, no começo do segundo semestre da faculdade, e aí a história é longa...

Eu senti como se um tijolo quisesse passar pela minha garganta, mas me forcei a engolir e ignorar qualquer sentimento minimamente parecido com angústia ou dó que eu sentisse. Os sorrisos irritantes na cara da , April e Nikki não fizeram isso exatamente fácil, mas segui firme na minha missão.

— E você gosta dele?

As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse contê-las. Nikki soltou um riso fraco antes de me responder.

— Eu gosto muito dele, . Eu realmente amo o , mas não de uma maneira romântica. Ele é um dos meus melhores amigos, eu adoro estar com ele e rola aquela atração física, o que não é nem um pouco ruim, mas não passa disso. Até porque nós duas sabemos que eu estaria ferrada se fosse apaixonada por ele. Isso responde a sua pergunta?
— É, responde. Ótima resposta, inclusive.
— Eu imagino que você não vá conseguir usar ela para cutucar ele, vai? – Nikki perguntou.
— Você ficaria surpresa. – respondi confiante. Meus momentos de maior inspiração eram aqueles em que a presença dele me tirava do sério. – ?
— Não podemos me pular? Você já sabe tudo sobre mim. – ela reclamou e eu balancei a cabeça, negando.
— Eu sei, mas e as outras garotas? Elas não te conhecem tão bem quanto eu. Vamos, desembucha. – mandei. Ela suspirou, parecendo não estar muito feliz com a ideia, mas começou a falar.
— Tá, tá! Eu passei um longo tempo da minha vida sendo obcecada com o sonho de ser atriz. Por já viver em LA, eu sempre achei que tivesse meio caminho andado, então passei uma parte gigantesca da minha infância e pré-adolescência em aulas de teatro, postura, moda, automaquiagem, tudo que eu achava que fosse necessário. Eu acho que é meio óbvio para todas aqui que nem anos de aula de teatro tiveram efeito já que eu mal consigo mentir olhando nos olhos de alguém. Surpreendentemente, eu fiz um comercial regional quando tinha doze anos. É claro que eu não tinha falas. – fez uma pausa para rir. – Eu desencanei disso logo depois, felizmente, e, hoje, eu evito até entrar em teatros.
— Eu amava aquele comercial! – exclamei, rindo só da vaga lembrança que tinha dele.
— Você acha que é possível encontrar ele na internet? – Mina perguntou. – Só por curiosidade.
— Acha que eu nunca procurei? – respondi decepcionada. Havia desistido três anos antes.
— Parece divertido. – April comentou. – Como é gravar um comercial?
— Não é tão legal quanto parece. Eu lembro que eles definiam até a maneira como eu respirava e eu tive que gravar a mesma cena milhares de vezes, mesmo que as anteriores tivessem ficado boas, porque nunca parecia ser o suficiente. No geral, foi um verdadeiro inferno. – concluiu. Eu me lembrava como se fosse ontem do quanto ela ficou chateada e decepcionada com a profissão que tanto sonhava. – Mas passou e agora eu tenho mais certeza ainda de que Relações Públicas é o lugar certo para mim. , é a sua vez, amor.
— Eu sei! – disse animada. Nada mais natural que a pessoa que propôs a brincadeira estivesse disposta a jogar também. – Eu vou falar sobre a coisa mais importante do mundo para mim: a minha família. – ouvi alguns “awns” que me obrigaram a fazer uma pausa para uma careta. Eu não poderia ser fofa uma vez na vida sem receber esse tipo de reação? – Bom... Eu não falo muito deles com vocês, mas é porque eu sinto tanto a falta deles que às vezes prefiro não ficar lembrando. Eu sou muito próxima dos meus pais, muito mesmo, não é à toa que eles me ligam todo dia, e eu colocaria minha mão no fogo quantas vezes fossem necessárias por eles. – desabafei, literalmente. Então passei meus olhos pelas garotas um pouco envergonhada e todas tinham sorrisos doces em seus lábios até que eu cheguei na , que me olhava como se tivesse assistindo a um filme de terror. – O que foi?
— Ah, desculpa, é que eu não vejo isso com muita frequência. – ela explicou e eu ri, a puxando para um abraço de lado.
— Mas eu tenho minha segunda família aqui, então tá tudo bem. – disse, sentindo-a beijar minha bochecha.

Interessante o que um bom humor poderia fazer com uma .
A brincadeira continuou por mais algum tempo, mas aleatoriamente, cada uma contava o que queria e quando queria. Fiquei feliz por ter tido aquela ideia porque fui dormir naquela noite com a certeza de que eu conhecia aquelas garotas muito melhor e as admirava mais por isso. É claro que ainda faltava muita coisa, mas eu tinha meses e até anos para aprender o resto.

— Eu te perdoo. – disse já enrolada no meu lençol, para a Mina que subia para a cama de cima. e April já dormiam há alguns minutos.
— O que?
— Eu te perdoo por ter namorado a Ashley. Todas nós temos nosso passado obscuro. – expliquei e ela riu, balançando a cabeça desacreditada.
— Que bom, porque nem eu mesma ainda aceitei todo aquele tempo que perdi.

Mordi minha maçã e, quando meus dentes encontraram só o miolo, eu percebi que estava prestando atenção demais no livro em meu colo. Enrolei os restos em um guardanapo para jogar fora mais tarde, um pouco triste por já ter comido tudo, e dei uma olhada ao meu redor, me lembrando de que eu estava sentada em um dos gramados da universidade, encostada em uma árvore, há, pelo menos, uma hora e meia. Minha professora de Economia tivera que fazer uma viagem de última hora, o que me deixou com os dois últimos horários vagos. Eu poderia ir para casa e dormir mais um pouco, mas optei por ficar ali aproveitando o dia bonito e um pouco mais daquela onda de ânimo que me acompanhava desde o dia anterior.
Eu quase não xinguei o mundo inteiro quando o meu despertador tocou naquela manhã e isso era um avanço e tanto.
Eu esperava que aquilo durasse por um bom tempo, apesar de eu ter 99,9% de certeza que ela desapareceria em duas ou três horas, quando eu teria que ir atrás dos animais de rua. Graças aos panfletos que distribuímos, recebemos um número realmente assustador de ligações denunciando animais que estavam vivendo nas ruas. Tudo bem, era um ato super legal que iríamos fazer, mas essa preparação para ele, nem tanto. Os gatos e cachorros não poderiam simplesmente vir por vontade própria para o nosso galpão, onde iríamos cuidar deles e depois doar? Seria ótimo. De qualquer maneira, eu tentaria me lembrar de que a parte divertida ainda estava por vir e que tudo que me afastava dela eram aquelas três tardes.
Decidi que estava na hora de voltar para casa e almoçar, já que ordenou que eu estivesse pronta para ir às 13h30, no máximo, então guardei minhas coisas na mochila. Eu estava me contorcendo a fim de ver se meu short estava muito sujo atrás (sem sucesso) quando o vi se aproximando. Me virei rapidamente, na esperança de que ele não visse que aquela era eu e passasse reto. Era estúpido, pois quando o vi, ele olhava diretamente para mim, mas não custava tentar. Tudo para evitar que o meu bom humor fosse embora mais rápido que o necessário. Bom... Isso e o fato de eu me sentir um pouco mal pelo que a Nikki havia me contado. Mas eu não operava milagres ainda e é aquele ditado: quem procura, acha.

! – o ouvi gritar e comecei a andar, como se meu nome fosse qualquer um, menos aquele.

Pelo barulho de sua mochila batendo contra suas costas e seus passos pesados, eu notei que ele corria. Foi aí que eu desisti. Não parei nem nada, só continuei andando em passos rápidos, sem esperanças de que alguma garota ao meu redor também se chamasse e que eu estivesse sendo apenas egocêntrica ao achar que era comigo.

— Não. – disse assim que ele me alcançou e começou a caminhar no mesmo ritmo que eu, o que era muito mais simples para ele e suas longas pernas.
— O que? Eu não disse nada.
— E eu não espero que diga, . Não tô com vontade de conversar com você. – falei e ele forçou uma risada logo depois.
— Não é como se eu tivesse muito ansioso para bater um papo com você também. É importante. – disse. Isso não me parou nem me fez virar um centímetro sequer do meu rosto em sua direção e, surpreendentemente, eu não fiquei nem um pouco curiosa.
— Engraçado. Todo mundo vive me enchendo o saco para te deixar em paz, e logo no dia que eu não quero ver sua cara, é você que decide me atormentar. Sai fora, .
— Você acha que eu quero estar aqui? Menos, . Eu só realmente e infelizmente preciso falar com você. – falou, me fazendo revirar os olhos.
— E como eu já deixei bem claro: eu realmente e felizmente não me importo. – disse só agora o lançando um olhar e sorriso sarcástico antes de acelerar ainda mais meus passos.
, eles descobriram! Eles sabem que foram você e a Mina que infestaram a nossa casa!
— Você acha que eu não notei? O seu amigo, aquele loiro, Ryan, tentou me matar com um olhar quando passei por ele no corredor mais cedo. Eu tenho cara de quem liga?

Na verdade, eu ligava, sim. Não teria tido todo o trabalho de tentar não ser pega por ninguém se não ligasse. Eu devia imaginar que teria alguma câmera naquele lugar, mas agora já era tarde demais para desperdiçar tempo e pensamentos me preocupando com isso. Eu me preocuparia se aquilo chegasse na coordenadora das irmandades e fraternidades, mas não acreditava que eles levariam isso a ela, afinal, dois de seus membros invadiram o meu quarto no meio da madrugada. Eu não acho que ela veria isso com bons olhos.

— Você pode parar por dois segundos e me escutar?! – exclamou. Eu parei, sim. Parei e me virei irritada para ele, mas com certeza não foi para escutar.
— Quer saber? Eu estava tendo um dia perfeitamente bom até você aparecer e arruinar ele com a sua presença. O que quer que você tenha para me dizer, eu não me importo. Na verdade, por mim, pode levar para o inferno com você!

Os estudantes passavam ao nosso redor olhando a cena com curiosidade. Eu não estava exatamente gritando, mas só nossas posturas já indicavam que algo interessante estava acontecendo ali.
me encarou por alguns longos segundos, suas mãos apertadas em punho pela frustração, até que assentiu, erguendo as sobrancelhas.

— Tudo bem. Que se dane então. Se você não está nem aí, eu que não vou me importar no seu lugar. Depois não diga que eu não avisei. Ou melhor, que eu não tentei te avisar. Tenha um bom dia. – disse antes de sair andando na direção oposta a minha. — Muito obrigada! – eu fiz questão de gritar.

Idiota.
Provavelmente ele só queria me dizer algo para se redimir pela história que me obrigou a contar no outro dia. Não, eu não tinha esquecido. E não ia tão cedo, pois jogar um ponto fraco seu para todos os seus amigos não é algo que me escaparia da memória, coisa que ele não teve coragem o suficiente para fazer. E ainda tinha a cara de pau de dizer que eu era a covarde.
Eu ainda não tinha pensado no meu próximo passo, mas seria maior e pior, disso eu fazia questão. Ele que me aguarde. Eu irei fazer com que ele tenha um motivo decente para mais uma dessas suas saídas dramáticas.

— Cara, meus braços estão queimando! – reclamei olhando para as duas partes de mim agora inúteis de tão cansadas.
— Te entendo.

Katy encostou ao carro, sua respiração pesada, assim como eu. nos observava com um sorriso e nem um pouco abalada. Alguém que não a conhecesse bem pensaria que ela tinha um bom preparo físico para aguentar passar a tarde capturando animais de rua, mas ela só estava animada demais com o evento para se deixar abater.

— Vão se acostumando, hoje foi só o primeiro dia. – disse Susan, uma das funcionárias de uma das maiores sociedades protetoras de animais da cidade.

Você não pensou que nós sairíamos buscando animais por aí sem supervisão adulta, pensou?

— E foi um bom dia, não foi? – perguntou.
— Eu diria que sim. – Susan respondeu, olhando os três cachorros e um gato mais uma vez antes de fechar as portas de sua van.

Um dos cachorros foi consideravelmente fácil de pegar. Apesar de machucado, ele era dócil e praticamente implorava por carinho. Os outros foram um pouco mais complicados. Um em especial havia feito de um terreno sujo e abandonado sua casa e ele não ficou feliz em receber visitas. Mas o mais difícil foi, de longe, o gato. Ah, aquele gato! Nós levamos mais de uma hora só tentando amansá-lo para, assim, capturar o pequeno diabo que ainda miava incansavelmente em seu compartimento. Ele estava machucado pela vida na rua e ainda assim não se aquietava.

— Minha mãe chamou a gente para tomar um café lá em casa, vamos? É caminho para a universidade. – perguntei para ninguém em especial, segundos depois de ler sua mensagem de texto.

As garotas se voltaram para Susan, esperando sua confirmação, já que ela era a profissional ali e, consequentemente, estava no comando. Já passavam das 18h00, mas ela pareceu animada.

— Claro. Um café vai cair muito bem depois de um dia desses.

Cinco minutos e poucos quarteirões depois, nós chegamos à minha casa, onde minha mãe esperava na varanda com um grande e animado sorriso. Depois de apresentá-la para Susan e Katy, ela insistiu que fossemos até a sala de estar, lugar em que um verdadeiro banquete nos esperava.
Tudo bem, eu estava exagerando, mas quando se mora longe dos pais, café e mais que duas opções de acompanhamento vira uma coisa de outro mundo.

— Não precisava disso tudo, Claire. – Susan disse enquanto se sentava.
— Ah, não tive trabalho algum, quase tudo é de uma padaria aqui perto. Passei lá na volta do trabalho.

Minha mãe era advogada e trabalhava em um pequeno escritório próximo à Hollywood. Sem glamour, ela não era muito fã desse mundo a parte que tínhamos em Los Angeles. Além do mais, ela não gostava de se sobrecarregar. Fazia questão de ter sempre tempo o suficiente para dedicar à família.

— Uh, você comprou aquele pãozinho? – perguntei, passando os olhos pela mesa.
— É claro que sim. – respondeu me entregando um pequeno pote com os meus queridos pãozinhos doces que eu não comia há tanto tempo. Eu até havia tentado comprar em algumas padarias próximas a UCLA, mas nenhum era tão bom quanto aquele. – Come com calma. Não quero ninguém passando mal longe de mim.

Ah, se ela soubesse...

— Como estão às coisas por aqui, tia? – perguntou, se servindo.
— Um pouco parado demais para o meu gosto. Ainda não me acostumei com vocês todos longe, mas eu vou eventualmente.

Encolhi os ombros, focando toda a minha atenção no que eu comia. Eu até acreditava nas palavras dela, mas sabia que o motivo por estar falando aquilo agora era para ver se tocava na minha consciência. Eu havia aprendido com a melhor.

— O meu pai também estranhou muito no começo, mas vai chegar um dia que você nem vai notar a falta da .
— Espero que sim, .

Conversa vai, conversa vem, minha mãe – e eu – descobriu que Katy era adotada, filha única de duas mulheres, e que nem mesmo se lembrava de seus pais biológicos. Susan trabalhava na sociedade protetora dos animais desde adolescente, quando entrou como voluntária. Hoje, ela tinha 26 anos e uma filha de três, que estava com a babá naquele exato momento.

— Falando nisso, nós temos que ir. – ela disse logo depois da informação da babá. – Já escureceu e nós temos que deixar os animais com as nossas veterinárias para fazer um check-up neles.
— Não querem ficar para o jantar? Logo o Johnatan chega e vocês podem conhecer ele também.

Minha mãe tinha nos olhos uma esperança de que ficássemos que me partia o coração, mas, naquele dia, não havia nada que eu pudesse fazer. Ou em nenhum dos outros.

— Mãe, não podemos deixar os cachorros presos naquela van por mais tempo. Eu vou tentar passar aqui amanhã ou depois.
— É claro que vai! Espero vocês para o café todos os dias que vierem para o bairro. – disse com um sorriso nos lábios, mas uma ordem no tom.
— Pode deixar, Claire. Amanhã voltamos. – Susan confirmou.

Dei um abraço bem apertado de despedida nela, sabendo que mais tarde ela me ligaria de qualquer maneira e me afastei enquanto as outras se despediam também. Minha mãe não saiu da frente de casa até nos perder de vista e, mais uma vez, eu me senti mal por deixá-la. Mas não me deixaria vencer. Tínhamos que crescer... Nós duas.

Eu sentia a brisa levar meus cabelos para trás enquanto a água fazia seu repetitivo caminho sob a areia, chegando finalmente aos meus pés. Era bom estar naquele lugar, sentir o calor do sol em minha pele sem me importar com mais nada além do agora e do homem cujos braços se encontravam ao redor de minha cintura, me segurando próxima a ele.
Me virei para ele, encontrando seus olhos tão azuis quanto o mar que nos cercava, e sorri. Era difícil acreditar que alguém poderia ser tão bonito mesmo com toda aquela luz, mas ali estava ele como prova.
Chris Evans era o homem mais bonito do mundo e eu tinha ele só para mim. Eu poderia tocá-lo quando quisesse, abraçá-lo quando quisesse e até beijá-lo, que era o que eu planejava fazer naquele momento. Isto é, se ele não tivesse começado a me sacudir pelos ombros.

, eu preciso de você. – ele disse com angústia no olhar.
— Eu estou aqui. – respondi, tentando pegar suas mãos para confortá-lo, mas ele continuava me balançando com tanta força que eu já me sentia tonta.

O que antes era um perfeito sonho se tornou um pesadelo quando eu abri os olhos e só consegui ver cabelos ruivos sobre mim graças a minha visão completamente embaçada por estar sendo acordada no meio da madrugada.

, por favor!
— Ahn? ?

Então o mundo finalmente parou de tremer e eu pude tentar (com um pouco de dificuldade) focar nas coisas ao meu redor.

— Eu preciso que você levante agora. – ela ordenou, apesar do tom baixo de sua voz.
— O que? Que horas são?

Eu acrescentaria um “O que está acontecendo?” se minha voz me obedecesse, mas nem ela estava pronta para enfrentar aquele dia.
No segundo seguinte, eu estava sendo abruptamente puxada por uma mão trêmula para fora da minha cama. Eu resisti, me agarrando ao colchão, na esperança de que ela desistisse daquela maluquice e me deixasse ali para dormir, mas foi inútil.

! – ela exclamou um pouco mais alto dessa vez. O choro na sua voz me fez finalmente levantar e me deixar ser levada por ela.
, eu estou de pijama! – reclamei quando saímos do quarto e eu não precisava mais me importar com April e Mina dormindo.
— Isso não pode esperar, vem logo!

Pouco tempo depois, eu fui praticamente jogada para dentro de seu carro. Ela deu a volta correndo e entrou no lado do motorista. O motor já estava ligado, então tudo que ela fez foi sair derrapando, coisa que não era nada a cara da . Ainda estava escuro, mas eu conseguia ver seu rosto pelas luzes do poste e o semblante que ela carregava me preocupou. Era uma mistura de pânico e angústia, seus olhos brilhavam pelas lágrimas que tentava conter e ver aquilo partiu meu coração.

, me diz o que tá acontecendo, por favor. – implorei, preocupada.
— Você vai ver em um minuto.

Bem menos de um minuto depois, ela parou o carro abruptamente na frente do galpão onde estávamos mantendo os animais e onde iríamos cuidar deles mais tarde. Ela desceu logo em seguida e eu a segui, apressada. Sem fazer suspense, ela arreganhou as portas, me dando a visão do interior do lugar. Eu parei na mesma hora, surpresa demais com o que os meus olhos viam para fazer um movimento sequer.

³ O S-A-T é um teste americano obrigatório para a ingressão em um curso superior.

Continua...



Nota da autora: (03/08/2017) Olarrrr. Espero que tenham notado que teve bastante April nesse capítulo para compensar a falta dela nos últimos. Não consigo deixar o meu amorzinho de lado por muito tempo. E tentem não me matar por esse final. Vocês sabem como eu gosto de um final dramático. Me digam o que vocês acham que a Jess viu dentro do galpão porque eu tô ansiosíssima pra ver o que vocês pensam que é. O capítulo com a resposta não deve demorar para chegar, tenham só um pouco de paciência que logo tá aqui pra vocês. Ah, e eu sempre posto spoiler do que está por vir no grupo do facebook, então, quem quiser participar, eu vou deixar o link aqui embaixo. Beijosss, e até o capítulo 11!

Leia também: 14. Freak

Grupo no Facebook | Twitter | Ask




comments powered by Disqus




Qualquer erro nesta atualização são apenas meus. Para avisos e/ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa linda fic vai atualizar, acompanhe aqui.



TODOS OS DIREITOS RESERVADOS AO SITE FANFIC OBSESSION.