Última atualização: 25/05/2019
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Prólogo

Floresta de Heaven, maio de 2017

Heaven estava muito calma.
Uma tarde de sexta qualquer e pessoas viviam como todas as outras. As casas estavam com suas famílias felizes, os bêbados eram ignorados e mendigos, invisíveis. Capitães de algum time comemoravam um jogo e um casal fazia sexo escondido dos pais da menina.
Aparentemente, Heaven estava muito calma.
Mas, se você olhasse de perto, veria que a história era bem diferente.
Sophie tinha dezessete anos e pernas curtas. Coitada da garota, que realmente acreditava na possibilidade de sair viva se corresse o bastante, achava que alguém poderia estar passando por lá e reconhecesse um rosto que estava desaparecido há uma semana. Os cabelos loiros encaracolados estavam sujos de terra, o vestido branco e de mangas também. Seus pés descalços estavam machucados de tanto correr e pisar nas coisas pontiagudas que tinham pela floresta. Ela tinha certeza de que estava ferida em algum lugar e que o tecido que cobria seu corpo já não estava inteiro. A pobre garota não sabia o que fazer além de correr.
Não adianta correr. Você sabe que, no fim das contas, só vai atrasar o inevitável. — A voz cantarolava em sua melodia tenebrosa, um sorriso estampado nos lábios enquanto perseguia a vítima com seu hábil canivete em mãos.
Todavia, Sophie conhecia o ser desprezível que a perseguia. Tinha lido no jornal sobre aquela coisa. Todo mês uma garota que havia acabado de completar dezessete anos desaparecia e, em uma semana, era encontrada morta. O jeito que as garotas estavam estampadas nas manchetes não seria o jeito que Sophie queria terminar a noite.
Cansada de correr para o nada, a garota cessou os passos e deu um longo suspiro, sentindo o peito queimar e o coração bater de forma extremamente acelerada. Seus músculos doíam graças à falta de exercícios. Ela estava tomada por um tipo de adrenalina, adrenalina essa que nunca havia experimentado antes.
Seus olhos procuravam alguma sombra perdida entre as árvores, e seus ouvidos estavam atentos a qualquer barulho suspeito.
Algo como um galho quebrando soou atrás da menina e, antes que ela pudesse virar o corpo para ver o que era, sentiu um pano cobrindo seu rosto e, em seguida, um cheiro tão forte que a fez perder totalmente a consciência.
Quando Sophie acordou novamente, não sabia quanto tempo tinha passado. Ainda sentia uma leve tontura e ânsia. Tentou se mover, mas os pulsos estavam amarrados fortemente com cordas, assim como os pés. Algo brilhante chamou sua atenção e, quando ela prestou realmente atenção na cena, viu que uma grande fogueira iluminava o local. Tentou se mover mais uma vez e percebeu que estava deitada em algo gélido e duro, como uma mesa de mármore.
Sophie começou a se contorcer, tentando se livrar das amarras e gritando, mesmo sabendo que, mais uma vez, ninguém poderia ouvi-la. Uma figura alta e grande apareceu em sua frente, a chama parecia ter deixado seu rosto ainda mais macabro e seus olhos pareciam queimar, como o próprio inferno.
Isso é para seu próprio bem, querida. — Sua voz soava baixa e suave, tão calma que causava arrepios no corpo de Sophie. Ela queria chorar, mas não conseguia. Queria gritar, mas a voz não estava presente naquele momento.
A lâmina prateada brilhou com a luz da fogueira, e os olhos da menina se encheram de desespero. A ponta parecia tão afiada, que ela fechou os olhos e convenceu a si mesma de que não doeria tanto. A figura puxou um pouco o cabelo loiro da garota, expondo seu pescoço, principalmente, suas veias, que pareciam estar azuis diante da pele pálida.
O metal tocou a garganta da menina e perfurou, uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto angelical. A ponta da adaga afundou um pouco mais e ele arrastou o objeto pela carne, ouvindo o barulho da pele sendo rasgada e sorrindo de forma macabra ao ver o vermelho começar a pintar a cena. Os olhos dela se arregalaram em dor, agonizando cada momento. Os gritos, que antes estavam contidos, ecoavam tão alto, que era possível dizer que alguém iria ouvir. O metal entrou só mais alguns centímetros na carne da menina e ele fez todo o percurso novamente, rasgando mais por dentro e fazendo mais sangue escorrer.
Os sons que Sophie emitia, agora, não passavam de pequenas frases desconexas, seus olhos já pareciam estar opacos. A figura puxou a adaga da pele da menina e limpou com um pano branco, tirando o sangue. Colocou o pano de lado e se aproximou da fogueira, estendendo a lâmina para queimar no fogo, fazendo o metal brilhar e puxando quando a ponta estava alaranjada. Aproximou-se do corpo e puxou o vestido até a altura das costelas, escrevendo algumas letras na barriga do cadáver. Quando finalizou seu trabalho, pegou o pano sujo e envolveu a adaga nele, mesmo ainda estando quente. Guardou no bolso, observando a cena da garota angelical e pura sacrificada no altar.
Sorriu ao contemplar seu trabalho e olhou mais uma vez para as letras queimadas na pele de Sophie, sentindo a satisfação dominar cada parte de si.
I.C.T.H.S


01 – Chaos

A teoria do caos trata de sistemas complexos e dinâmicos rigorosamente deterministas, mas que apresentam um fenômeno fundamental de instabilidade chamado sensibilidade às condições iniciais que, modulando uma propriedade suplementar de recorrência, torna-os não previsíveis na prática a longo prazo. Já o efeito borboleta é um termo que se refere à dependência sensível às condições iniciais dentro da teoria do caos. Este efeito foi analisado pela primeira vez em 1963 por Edward Lorenz. Segundo a cultura popular, a teoria apresentada, o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez provocar um tornado do outro lado do mundo.
E talvez, Edward Lorenz, mesmo tendo criado essa teoria quando estava em Cambridge, sabia que Nova Iorque era uma definição final para o princípio ativo de um único todo: chaos. O voo de Sauter e sua equipe estava marcado para aquela manhã de domingo, mas tudo acabou sendo uma verdadeira baderna.
perdeu todos os táxis, uma tempestade desconhecida cancelou o voo dos gêmeos e eles só partiriam em dois dias. Alyssa estava completamente atolada com a vida de dois empregos e Conrad trabalhava numa clínica, além de estar passando por problemas com uma doença em um parente próximo. E, de repente, teorias que são aprendidas na escola e ignoradas por 99% de um colegial se faziam presentes em momentos como aquele.
E, naquela tarde de agosto, pousou sozinho em Amabelle. O pensamento de que teria de pegar ainda mais um táxi para chegar até Heaven era aterrorizante, mas assim o fez. Duas horas depois, ele estava em Heaven.
A cidade era como deveria ser, pacata e extremamente sem graça, ninguém nunca falaria que aquele era o cenário de assassinatos macabros e desaparecimentos esquematizados. O taxista o conhecia mesmo não sabendo exatamente quem era, as pessoas olhavam-no torto e seu mais novo lar o esperava da forma mais ostentadora possível. A casa era meticulosamente americana, as persianas brancas e o jardim delicado e bem cuidado, a cerca pequena e igual a todas da vizinhança. Dois andares, portas polidas e janelas abertas para que o clima ameno da primavera trouxesse luz para o interior. As chaves estavam no lugar que Elsa Bertoni havia informado, e os quartos de todos os outros agentes estavam arrumados de maneira impecável.
Sauter era alemão, morou sua vida inteira em Munique e, aos dezenove anos, quis se mudar para os Estados Unidos porque tudo parecia ser mais interessante na potência mundial. Ah, se o de trinta e dois anos pudesse conversar com o adolescente sonhador de quase vinte… mandaria o pobre rapaz nunca sair de perto dos pais. Fazia tratamento para ansiedade e tinha sido diagnosticado com crises de raiva, situações nas quais ele ficava muito agressivo e perdia a cabeça completamente — inclusive já fora afastado por seis meses para terapia por ter confundido a vítima do agressor e assassinado os dois.
Ao arrumar todas suas roupas no closet do quarto escolhido, tomar um banho e preparar algo para jantar, ouviu o característico toque de seu celular. Morgana West piscava na tela, e ele franziu o cenho, atendendo em seguida.
Numa escala de um a dez, o quão ruim a cidade é?
— Nada tão ruim, você deveria ver antes de falar. — murmurou, colocando a ligação no viva-voz para poder lavar a louça — Eu vou sair já, já. Hoje é a missa de sétimo dia de Suzan Walterpon.
Você vai mesmo começar a investigação no meio de uma missa póstuma? — Maquiavel West se meteu na ligação e seu tom crítico soava bem evidente.
— Eu vou fazer meu papel de cidadão cristão que está prestando homenagem em respeito da defunta.
Primeiro: você é ateu, . Defunta, mesmo? — Morgana ralhou — Você podia pelo menos fingir que se importa com as memórias de Suzan.
— Eu vim para essa cidade me importar com os vivos, Morgana. Os mortos pouco fazem quanto já fizeram. — Soou frio e calculista, como sempre era — Agora, se me der licença, eu preciso ir.
Não esperou nem Morgana falar algo, apenas desligou a ligação e colocou o celular no modo avião. trocou as roupas, procurando no GPS a localização da igreja, e amaldiçoou todos os agentes da FBI por não terem arranjado seu maldito carro logo. Era horrível ter que ficar andando a pé ou dependendo de táxi. Seu chefe deveria reembolsá-lo o mais rápido possível.
O caminho até a igreja havia sido rápido. A cidade era ridiculamente pequena e tudo parecia estar ao redor do centro. As cadeiras estavam completamente preenchidas e, ao lado do altar, com fotos, flores e velas, criado para Suzan, havia uma figura feminina.
Os cabelos loiros caíam como cascatas em suas costas e ela tinha traços extremamente delicados. O corpo estava coberto por um vestido branco e longo, com pequenos detalhes florais. Ela era a responsável pela música que ecoava, um piano muito bem tocado e, além da música dedilhada, sua voz melodiosa entonava Oceans e, durante todos os minutos da música, não houve nenhum único ruído além dela. Quando não havia mais voz, ela dava um show no piano. Os dedos pareciam ser melhores amigos das teclas, e ela passava tanta emoção naquele som que, por poucos segundos, Sauter lembrou que tinha um coração.
Pééé.
Os segundos acabaram.
Uma chuva de aplausos e choros tão falsos começaram a ficar altos demais, e o agente lembrou rapidamente por que esquecia da existência de seus sentimentos boa parte do tempo. Porque as pessoas eram podres. Algum deles havia matado a menina, algum deles havia estrangulado-a e deixado marcas em sua pele. Algum deles acabara com algo e estava ali provavelmente escolhendo a próxima vítima.
Talvez uma garota ruiva que estava na primeira fileira, uma loirinha com cara de sonsa três cadeiras atrás ou a própria pianista, que estava imersa em lágrimas também.
Por dois segundos, os olhares dos dois se encontraram.
Os olhos da pianista eram como os de , azuis e extremamente analíticos, um quê de julgamento e aquele antigo e comunal olhar de eu não conheço você, não sei o que faz aqui e nem gostei de sua cara. No entanto, bem, ele não estava aqui para agradá-la, muito menos para tentar mudar seu olhar de nojo em cima dele.
Sabia quem era Gustaf Bertoni por causa do tamanho, a calvície característica de americanos e o bigode três vezes maior que seu rosto. Ao seu lado, estava Elsa Bertoni, um vestido escuro e a expressão cansada. Como se já não bastasse seu nome saído de desenho, ela estava com uma trança de lado igual a da rainha do gelo, e se sentiu ridículo por associar uma coisa à outra, tossindo para conter a risada.
Mas engoliu o riso por respeito e foi até o prefeito Bertoni, cumprimentando ele e sua esposa.
— Sua viagem foi bem? Não estou vendo os outros agentes, eles preferiram ficar em casa?
— Ah, eles não conseguiram vir hoje, ainda estão em Nova Iorque, mas creio eu que chegam em um dia ou dois. — coçou a barba, olhando pelo canto do olho para a pianista que se aproximava.
— Eu estou a sua disposição a qualquer momento. Quando precisar de qualquer registro, é só me ligar que... — Ao perceber que a garota havia parado ao lado do prefeito, o próprio coçou a garganta — Senhor Sauter, essa é…
Papai, eu sei que ele vai investigar a cidade para descobrir quem matou minhas amigas. Eu sou , espero que consiga resolver isso logo e vá embora.
! — Elsa reprovou sua ação, olhando feio para a filha em seguida.
— Oh, me desculpe. Eu espero que você fique para sempre na cidade e nunca solucione o caso, inclusive morrer soa ótimo para mim. gargalhou falsamente, ficando séria logo em seguida e olhando feio em direção ao agente Sauter.
Bertoni! — Elsa quase gritou no meio da igreja — Não te ensinamos a se portar assim, onde estão seus modos?
— Não tem problemas, senhora Bertoni. Eu tenho sobrinhos que são crianças também e já lidei com casos como esse antes. Eles são sempre mais afetados, pelo psicológico mais fraco, e…
Psicológico fraco? riu da cara de , cruzando os braços e olhando com um ar de desdém para ele — Sauter… Você não é americano, seu sotaque é forte, demais para um inglês e de menos para um russo. Também é alto demais para alguém latino. — não se sentiu intimidada com o olhar curioso do homem, pelo contrário, era um ótimo estímulo — Sauter é alemão. Antigamente as pessoas tinham sobrenomes conforme suas profissões, na Alemanha. Sauter é uma variação latina para "sapateiro", você sabia? — negou com a cabeça, ainda intrigado e extremamente curioso com aquilo — Você falou que eu tenho um psicológico fraco por ser criança, mas é você quem está arrancando pedaços da unha nesse exato momento e tem a cabeça dos dedos mordida. Ansiedade? — A loira estalou a língua, analisando-o dos pés a cabeça — Nunca vi um agente do FBI vir investigar um caso sozinho, onde estão seus outros parceiros de trabalho? — Ela arqueou a sobrancelha com um ar cínico e riu baixo, vendo que estava totalmente sem resposta ou sem fala — Eu convivi com aquelas pessoas durante toda a minha vida, eu não sei se você é frio como as pessoas costumam falar que alemães e europeus são, mas aqui ainda amamos uns aos outros e sentimos falta das pessoas quando elas morrem ou são tiradas de nós com brutalidade… Experimente encontrar dois corpos de garotas que há poucos dias estavam em sua casa fazendo uma festa do pijama. Não tem psicológico que aguente isso. — Bertoni suspirou, sentindo os olhos dos pais queimando em cima de si — É um pouco assustador para quem não gosta de filmes de suspense, sapateiro. Mas eu não espero que você entenda. Como eu disse, espero que resolva isso logo e vá embora daqui.
E, na mesma grosseria que havia chegado, foi embora. Agarrou o braço da garota ruiva que estava sentada na primeira fileira e sumiu igreja afora.
— Ela é…
Sincera. completou o suspiro do pai envergonhado — Mas eu não tenho problemas com sinceridade, muito pelo contrário, eu aprecio quem está apropriado a usá-la — O alemão riu de nervoso — Bem, acho que eu estou atrapalhando um momento que claramente não é recomendado para assuntos frios e sérios. Amanhã de manhã posso me reunir com você em seu escritório?
— Melhor, por que não vem tomar café conosco? — Gustaf convidou, um sorriso tão bacana no rosto que brigou internamente sobre aceitar ou não.
— Não acho que sua filha vá gostar de minha presença em seu café.
— Ela não tem o que gostar. Além do mais, normalmente ela é mais calma e pacífica. Até amanhã ela vai estar melhor.
— Se é assim, será um prazer tomar café com vocês. — apertou a mão dos dois e sorriu cordial — Agora, se me dão licença, eu realmente tenho que ir.

••••


Os raios de sol invadiam o quarto pela janela, esquentando de forma agradável a pele de . Ela brincava com os fones enquanto que estes ecoavam Fire Meet Gasoline tão alto que ela mal podia ouvir os próprios pensamentos. Já estava de banho tomado e uma roupa fresca para aguentar o colégio naquela manhã. Queria poder fugir para a França ou ter um pai com dinheiro o bastante para sofrer de problemas de gente rica, porém, infelizmente, seus problemas eram reais e, ao contrário de sofrer por estar indo para Londres em vez de Paris, estava sofrendo por enterrar suas amigas.
A voz de Sia parou, e rolou os olhos ao perceber que seu celular tocava. Logo atendeu, espreguiçando-se na cama ao ouvir a voz de Accola Anders, sua melhor amiga.
Sunshine, eu vou te buscar para irmos juntinhas hoje.
— Alguém já disse que deveria ser proibido ter pessoas como você no volante? — gargalhou, balançando os pés — Por favor, compre comida.
Acabou a comida na casa do prefeito?
— Meu pai chamou o agente Sauter para tomar café conosco e provavelmente ele vai me fazer passar vergonha como aconteceu ontem. Sabe o que isso significa? Que eu vou me manter longe para não causar mais problemas.
Agente Sauter, uh? Gostoso ele, fiquei o encarando correr hoje de manhã. Que pernas, meu Deus, que pernas. — Accola mordeu a boca por dentro e estacionou em frente à mansão dos Bertoni — Você sabe que eu tenho uma queda por alemães.
— Não, Acks, você tem uma queda por jogadores de futebol alemães. — foi até a janela, acenando para a amiga, que estava já esperando por ela — Como está a escada da viga?
Enferrujada, cheia de pedaços quebrados e com uma cobra subindo por ela.
— E outra descendo, aí vou eu. — A loira prendeu o telefone no sutiã e jogou a mochila no jardim, apoiando seu pé na escadinha que tinha na viga de sua janela e descendo, degrau por degrau, na maior tranquilidade e agilidade de quem sempre usava aquele pedaço perigoso de ferro — Você não contava com minha astúcia.
— Qual é? Eu estava até feliz achando que sua herança ia para mim.
— Você ia herdar um telefone com a tela saindo e um gato gordo e velho.
— Amo o Smolder e vou protegê-lo. — A ruiva se esticou para beijar a bochecha da mais velha, sorrindo ao dar partida e ir o mais rápido possível em direção à cafeteria, onde elas compraram chocolate e muitos donuts, comendo no carro mesmo para não se atrasarem.
Algumas pessoas olhavam estranho para elas duas, outras passavam reto, sem nem se lembrar da existência de Accola Anders e Bertoni. E elas gostavam mais dessas, das que não se lembravam de suas existências e agiam como se elas fossem só mais alunas normais naquele meio.
Mas, na verdade, elas nunca foram.
? — A loira ouviu uma voz conhecida que fez seu interno esquentar de calmaria. Ao procurar o dono, deparou-se com grandes olhos castanhos, um cabelo bagunçado e o dono do sorriso mais calmo de Heaven. Daniel Stonem, seu melhor amigo para todos. O que ninguém sabia era que, por baixo de todos os panos, era ele quem arrancava gemidos da mais nova dos Bertoni.
Daniel! — A loira saiu correndo em direção ao amigo, pulando em seu colo e abraçando-o com toda a força possível — Meu Deus, como eu senti sua falta!
— A Inglaterra não é tão legal quando se está longe das melhores garotas desse mundo. — Ele passou a mão no pescoço de , beijando sua testa e sorrindo ao sentir seu cheiro. Era reconfortante e acolhedor, o cheiro que ele podia se afundar a qualquer momento e ficar imerso nele para sempre.
— Você fica dizendo que me ama e nem me dá um abraço? Quer me foder, me leva pra jantar antes, Stonem.
— Você quer entrar no meio? Acho que só falta mais uma pessoa mesmo para a gente quebrar a cama da .
— Já quebrei com a Acks, Dan. Perdeu.
— Não acredito que nós duas inventamos o lesbianismo. — Accola rolou olhos, fingindo que ia beijar a melhor amiga e mostrando a língua para Daniel em seguida. Abraçou o amigo como quem sente saudades, e os três começaram rapidamente uma conversa sobre a semana dele visitando os parentes, já que não era nada legal falar de e Acks e sua semana de mortos.
Podia soar que sim, que depois de oito meses seguidos baseados em mortes e semanas como aquelas, as pessoas estariam acostumadas a perder seus entes próximos e ver tudo de sua vida perder totalmente o sentido, voltando para o zero e fazendo a sensação de recomeço infeliz soar mais forte que nunca. Entretanto, como a própria teoria do caos diz, uma pequenina mudança no início de um evento qualquer pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro.
O que esse futuro reservava só o bater de asas de uma borboleta qualquer poderia decidir.
Ou torcer para que isso não se tornasse o próprio tornado.


02 – Begin

“Antes do princípio não havia nada – nem terra, nem paraíso, nem estrelas, nem céu –, existia apenas o mundo feito de névoa, sem forma nem contorno, e o mundo feito de fogo, eternamente em chamas.”

Era a primeira passagem de Mitologia Nórdica, livro de Neil Gaiman que estava tirando o sono de . Não que ela estivesse tendo pesadelos com o livro, muito pelo contrário, ela queria mais tempo para lê-lo e não conseguia. Tarefas da escola ocupavam sua tarde e início da noite, o resto do dia era dedicado a pesquisas e mais pesquisas sobre universidades e profissões que ela poderia escolher. sempre se sentiu excluída, não sabia o que fazer e o que seu futuro reservava. Era triste, para falar a verdade. Bem triste.
Mas isso não era o assunto principal daquela noite, tinha certeza de que tinha lido o primeiro parágrafo do capítulo pelo menos cinco vezes e ainda não tinha compreendido o que estava escrito ali. Sua mente estava bem longe. Nos corredores de sua escola, o lugar que a prendia às oito da manhã até às três da tarde, que tinha as piores aulas de literatura do mundo e as mais chatas de geografia. Seu canto de se esconder das outras pessoas, pessoas más que estavam fazendo coisas más. Ela estava segura lá.
Com esse mesmo pensamento, dormiu e acordou na maior preguiça do mundo. Odiava em especial aquele dia da semana porque sua grade de aulas era um porre. Biologia já era chata, somada com literatura em duas aulas seguidas e mais uma de química avançada? Morte certeira.
Assim que a professora magrela entrou em sala, ela pegou seu caderno para começar a desenhar qualquer coisa que viesse em sua cabeça. era boa com desenhos, mas não entendeu quando sua obra de arte parecia uma chuva de pingos negros.
? — Uma voz um pouco mais longe chamou seu nome. se desculpou e sorriu sem graça, mais uma vez estava perdida em pensamentos no meio da aula. O que iria acontecer com ela quando chegassem as provas?
A menina abaixou os olhos até o cabelo e começou a mexer nos fios claros, brincando com os cachos que se formavam ali e tentando prestar atenção nas palavras sobre anatomia. Nada fazia sentido. Ela puxou a corrente que usava e ficou brincando com o pingente. Não era bem um pingente, era um anel. Recusava-se a usar o anel depois das coisas que tinha feito, não era certo estar com ele no dedo, pois algo ali havia sido quebrado e não usá-lo era questão de honra. Entretanto, ele lembrava as amigas, lembrava a promessa que todas tinham feito e que ela, em especial, tinha quebrado. Usá-lo, não no dedo, mas na corrente, deixando estrategicamente pousado perto do coração, era uma homenagem silenciosa àquelas que já tinham partido e as que ainda continuavam lá.
O sinal tocou, indicando o fim de mais um período e a hora que eles trocariam de sala para algumas horas ouvindo sobre o romantismo ou aqueles períodos estranhos que as pessoas costumavam gostar em literatura. Letras não era bem a área dela, sempre fora mais empolgada com exatas. Números e contas, todos aqueles problemas eram tão interessantes que ela se perguntava como alguém podia odiar todas as matérias relacionadas. Era fascinante.
— Sunshine! — ouviu alguém gritar e gargalhou baixo ao ouvir o tom de voz da menina, que atravessava o corredor em passos rápidos. Era Accola.
Accola sempre foi um porto seguro para , era quem a conhecia por completo, desde os fios de cabelo até as pontas dos dedinhos dos pés. Elas eram como o contraste de uma lagoa calma e uma fogueira grande e majestosa. Accola tinha cabelos vermelhos que pareciam pegar fogo ao entrar em contato com o sol, os olhos verdes e grandes sempre pareciam curiosos demais. Seu detalhe preferido no rosto eram as sardas, que estavam em volta em suas bochechas e em grande quantidade em seu nariz. A garota era mais alta que alguns centímetros. Não que a loira fosse a mestra em tamanho, tinha 1,68, mas Accola parecia uma modelo que tinha acabado de sair de algum desfile de moda. Cheia de curvas e carne demais nas áreas certas.
— Você deveria ser intimada a sair de casa de noite, fica com a cara grudada naquele computador. Mamãe disse que você vai ficar cega logo, logo. Mas aí, eu soube que a Dakota vem nesse fim de semana! O que vai acontecer de tão importante para termos a filha perfeita na cidade? — Perguntou, referindo-se à irmã mais velha de .
Dakota Bertoni era o exemplo irritante da filha perfeita. Tinha tantos prêmios, títulos e certificados com seu nome que era irritante ouvir alguém chamá-lo. sempre ficou na sombra. Ela tirava notas boas e participava do coro da igreja e um ou dois clubes, mas nada tão excepcional quanto a filha, que fazia trinta esportes ao mesmo tempo, tinha pontos extras até o inferno e ainda saía todas as noites para festas. Claro que Accola não a suportava, a garota era um poço de arrogância, e alimentar aquele monstro que era o ego da Bertoni mais velha não era uma alternativa.
— Aniversário da mamãe, você está convocada. Já te avisei da festa antes. — comentou quando pararam em frente aos armários, abrindo o seu e pegando os materiais necessários para a próxima aula. Accola estendeu a mão para pegar algo no armário da amiga e o brilho prateado em seu dedo incomodou . O anel estava lá, mais uma vez, atormentando seus pensamentos. Era um anel grosso e simples, com uma pequena pomba desenhada na prata.
— Podemos roubar bebida? Aposto que seu pai vai comprar aquele uísque da embalagem fosca. Ele era tão bom! — Exclamou, arrancando uma gargalhada da menina. Ao perceber que não estava tão empolgada, ela mordeu os lábios e afagou o cabelo da amiga — Você está como nos primeiros dias...
— Podemos não falar disso? — Ela perguntou, dando um sorriso discreto. Sabia que Accola já foi amiga da maioria das meninas, mas sempre elas acabavam se desentendendo e voltando a se falar por insistência de , até o dia que não quis mais ficar de ponte para obrigá-las a fazer as pazes. Isso não significa que a ruiva quisesse as outras mortas.
— Então, do que falaremos? — Acks estreitou os olhos, tentando fazer graça, enquanto as duas andavam em direção à sala — Do parceiro do alemão gostoso? Aliás, parceiros, eu vi mais dois hoje e, de repente, me senti uma ginasta. Sabe como é, acabamos de sair do verão e eu não posso simplesmente abandonar meu corpinho, então fui correr com eles e descobri que a oitava maravilha do mundo existe e ela se chama Equipe do FBI, uh-lá-lá.
— Ele é um pé no saco, alguém que vai ser amiga dele tem que ser tão chato quanto… — Censurou, tentando fugir dos pensamentos de e aquele temperamento horrível que homens como ele tinham.
— Ele é gostoso. O que mais posso fazer? Tenho vontade de lamber cada pedaço dele e... — Accola parou de imediato e arregalou os olhos ao olhar para frente. Seus olhos encaravam o homem com 1,80 de altura, e ela sentia que a pele de seu rosto estava igual à do seu cabelo.
— Bom dia, Accola, você está quase tão radiante como estava hoje de manhã. , bom te ver. — cumprimentou, sabendo que Accola se referia a ele. Tinha que assumir que por dentro estava gargalhando, porém ele tinha que fingir que não ouvira Accola comentar sobre lamber seu corpo — Vocês estão livres da aula, me sigam. — Sem sorriso simpático dessa vez, ele estava sério e com uma carranca no rosto. Parecia querer colocar medo nas pessoas que estavam ali e assim tinha sucesso. Todos olhavam para ele como se fosse o próprio assassino.
— Para onde você vai nos levar? — arqueou a sobrancelha e estreitou os olhos na direção dele. Não estava gostando nada daquilo.
— Se você me seguisse em vez de falar, provavelmente já saberia. Agora, por favor, me sigam.
— Que bonitinho, na Alemanha eles falam por favor. Achei que você tinha sido criado por um bando de selvagens. — Accola segurou a risada ao ouvir a frase da melhor amiga e empurrou , como se tentasse quebrar o clima. começou a andar na frente das duas e estava se segurando para não rebater a resposta de .
Assim que eles entraram numa sala que deveria estar vazia, estreitou os olhos ao ver a equipe dele, que Accola tinha enchido tanto a boca para falar. Eles até davam para o gasto, pensou. Logo atrás e encolhidas como gatos molhados, Evelyn e Camryn estavam sentadas com olhos arregalados e o medo estampado na testa.
O que está acontecendo? — Camryn perguntou, impaciente. Ela parecia estar tremendo da cabeça aos pés.
— Sentem-se, por favor. — Uma das mulheres pediu. Ela tinha os cabelos castanhos e os olhos da mesma cor. Seus traços eram bonitos e simples, daqueles que despertam inveja em qualquer pessoa. deveria se sentir intimidada, mas não conseguia. Entortou o nariz e fez uma careta para as pessoas ali. Todos poderiam ver de forma clara o desgosto dela de estar naquele lugar e não na sua amada aula de literatura. As duas amigas sentaram em lugares aleatórios e suspirou, checando as mãos de todas elas e estreitando os olhos ao olhar para os dedos vazios de — Eu sou Morgana West e esse é meu irmão, Maquiavel. — Morgana apontou para o homem ao seu lado e, só naquele momento, as meninas prestaram atenção nas semelhanças do rosto — Aqueles são Alyssa Northingarth e Conrad Langdon, vocês provavelmente conhecem o , então vamos para o que interessa. — Morgana sentou numa cadeira e pegou a pasta que estava em cima da mesa do professor, arrastando sua cadeira até estar próxima às meninas — Eu faço parte da equipe de investigação e estava um tanto intrigada com as coisas que estavam acontecendo, então eu pedi fotos das vítimas e de seus familiares ou parentes.
, sua mãe me disse que você fez crisma com Suzan, correto? — A loira assentiu com a cabeça e sentiu uma pontada de nervosismo no estômago — Eu entrei em contato com o padre Joseph e pedi fotos da sua turma de formação da crisma e achei algumas coisas em comum. Um mínimo padrão. — suspirou de forma alta e nervosa e passou as mãos pelo cabelo — Existiam mais de quinze garotas nessa turma, entre alguns garotos também. Eu pretendia convocar todos, mas, com as fotos que West pediu, achamos outra coisa que facilitou tudo. — pegou uma foto, e Accola reconheceu de imediato aquele momento. Foi o aniversário de dez anos da Olivia. Todas as amigas de infância estavam reunidas, sorridentes e com aquela maldição nas mãos — Todas vocês usavam e, como eu posso ver, ainda usam, o mesmo anel. Exceto por .
sentiu um imenso aperto no coração ao olhar a foto. Camilla, Suzan, Sophie, Camryn, Accola, Evelyn, Diane, Margareth, Michelle, Emily, Olivia e ela. Eram tão inseparáveis que foi doloroso ver aquilo.
— O que significa o anel? — Morgana perguntou, desconfiada. Alyssa e Conrad pareciam discutir entre si algumas coisas prováveis e improváveis. O homem achava que as meninas poderiam ser as assassinas e a mulher, que aquilo poderia ser uma brincadeira de infância que acabou dando merda, como em qualquer filme adolescente de terror, aqueles que não faziam sentido algum.
— É um anel bobo. — Camryn explicou, mordendo os lábios — Éramos amigas de infância. Desde sempre fomos muito unidas e, nesse aniversário, a mãe da Liv achou que esse anel combinasse conosco. Comprou doze e distribuiu entre nós, desde então usamos. É uma promessa de ficarmos juntas mesmo estando separadas. — Contou, olhando desconfiada e hesitante para os outros.
— Cam, conte a outra parte. — Evelyn falou, vendo que a menina negava com a cabeça, como se estivesse com medo. Acks e não tinha aberto a boca hora alguma — Sempre fomos religiosas e apegadas ao princípio da igreja, mesmo quebrando outras regras. O anel também foi uma promessa para nos entregarmos para alguém só depois da união de corpo e alma. O casamento. — Concluiu, envergonhada por revelar aquilo — Consequentemente, só podemos perder a virgindade depois do casamento.
Um clima extremamente chato pousou sobre eles. Claro, pensou, claro que eu vou ter que perguntar sobre sexo com meninas de 16 anos. Semana que vem, eu vou pedir para elas sentarem no meu colo e perguntar quem é minha garotinha.
, por que você não usa o seu? — perguntou, olhando desconfiado para a menina. Ele já sabia a resposta, mas queria ouvir da boca de . As amigas olhavam para a loira de forma vacilante.
— Prometemos proteger umas às outras, eu lembro porque eu fiz essa promessa e fiz as meninas prometerem também. Falhei, como já podem ver. — Ela respondeu, olhando para baixo e balançando os pés de forma nervosa.
, a informação não vai sair daqui. — repetiu de forma calma, olhando para a menina com compreensão — Por que você não usa o anel?
levantou os olhos até os outros quatro que estavam ali. Maquiavel e Morgana pareciam ligados por pensamento. O que um pensava, o outro estava completando em palavras baixas para que apenas os dois ouvissem. Pelo jeito que o rosto de ambos era desenhado, era notável que eram irmãos gêmeos. A loira arqueou a sobrancelha, e Morgana percebeu que a garota a encarava.
— Vocês são gêmeos, certo? — Perguntou, e Maquiavel assentiu com a cabeça. Os pensamentos de pareciam trabalhar a mil. Ela olhava para os outros dois e de cara percebeu a admiração presente nos olhos de Alyssa em cima do irmão de Morgana. Estalou a língua e sorriu de forma maliciosa, fazendo todos ali olharem de forma extremamente desconfiada para ela — Quem é historiador, o pai ou a mãe? — Indagou e, mais uma vez, tudo parecia calado demais, quieto demais. Ninguém respondeu à pergunta dela — Com a concordância dos nomes, eu diria que os dois. Morgana é um nome histórico por causa da lenda sobre o rei Arthur. Era a meia irmã que se apaixonou por ele, e alguns livros dizem que ela foi bruxa. As pessoas costumam associar as habilidades de Morgana com Merlin, já que os dois teoricamente são da mesma época. — cruzou os braços e ajeitou sua posição. notou aquela característica em especial da menina com aparência inocente. Ela estava fazendo a mesma coisa que fizera com ele alguns dias atrás na igreja — Já Maquiavel era o sobrenome de Nicolau Maquiavel, um diplomata italiano. Já li um livro dele, O Príncipe. Assumo que por alguns segundos me senti realmente mal por concordar com algumas coisas do livro. A expressão "maquiavélico" é um adjetivo originado do sobrenome de Nicolau, significa ser uma pessoa maldosa, astuta, esperta e outras coisas. — O silêncio do lugar estava agradando da cabeça até os pés. Ela fazia aquilo sem ao menos perceber, queria distrair todos daquela dúvida que estava pairando no ar segundos atrás e, pela forma com que todos a olhavam, era de se dizer que tinha conseguido — Pais normais não colocariam nomes assim nos filhos. Pelo jeito que vocês se comportam e pela postura que usam para se comunicar um com o outro... — Ela estreitou os olhos, tentando capturar mais algum detalhe que tinha deixado passar. correu os olhos pelo corpo dos dois, procurando algo que fosse mais íntimo, até encontrar um pequeno desenho escondido pela manga da blusa de Morgana. O relógio de Maquiavel estava por cima do pulso, impedindo a visão, mas ela não precisaria nem perguntar para saber que tinha o mesmo desenho ali — A mãe. A mãe era professora de história. Fascinada, correto? Vocês não foram criados com ela. Pelo jeito que se comportam e pela união dos dois, posso dizer que sua educação foi dada por um pai solteiro. A tatuagem no pulso de vocês é igual, o símbolo de Ying e Yang, consigo ver daqui. Vocês se completam porque são tudo o que têm, a família é resumida a vocês. Não é à toa que trabalham juntos e devem ter cursado a mesma faculdade. Os dois não são casados pela falta de aliança no dedo e acho que também não namoram, com medo de se afastar um do outro. Quanto tempo faz desde que seu pai se foi? — Ela perguntou diretamente a Morgana, olhando nos olhos dela.
Morgana olhava a menina com os olhos estreitos. Não sabia dizer o que se passava ali. Na verdade, ela não sabia mais de nada. Tudo parecia tão confuso que ela queria sentar e conversar um pouco mais com a menina, talvez até perguntar como ela sabia daquelas coisas. Todos estavam tão estáticos que era impossível até pensar em algo plausível. Alyssa olhou para , entendendo de imediato o que ele tinha comentando rapidamente sobre o jeito peculiar da menina, que despertava curiosidade e vontade de explorar cada pedaço da cabeça dela. Ela tinha algo. Algo que instigava o pensamento de que ela mesma tinha matado todas as amigas. Porém, ao mesmo tempo, as expressões dela diziam que não seria capaz de ferir uma mosca. Com toda certeza, aquela menina seria analisada.
— Ele morreu quando estávamos na faculdade. — Morgana respondeu, ainda sem saber como reagir — Minha mãe era professora de história, brincava com meu pai que nossos nomes seriam de personagens importantes. Como ela morreu no parto, nosso pai resolveu fazer a homenagem com personagens históricos. — Ela arrastou a cadeira para mais próxima de e olhou nos olhos dela — Você tem a tendência a fazer as pessoas prestarem atenção em você para esquecerem de algo que tenha feito ou está fazendo. Isso significa que tem alguém que fez você passar boa parte da vida sendo diminuída diante dela. Você quer atenção, mas ao mesmo tempo não quer. Isso é bom, significa que não gosta de ter olhos em você o tempo inteiro, porém o que você faz quando as pessoas não estão olhando? — Morgana perguntava as coisas, parecia estar se questionando em voz alta — Todavia, você também gosta de deixar os outros sem ter o que falar. Não sei por que analisa as pessoas, provavelmente deve ser um método de defesa para não deixar que te afetem.
Morgana suspirou, recuperando o ar e voltando a sorrir daquele jeito cínico.
— Você, Bertoni, quer descobrir tudo sobre a pessoa para achar um ponto fraco nela e usar aquilo quando for a hora certa. Quando não tiver mais defesa nenhuma, essa será sua carta final. Um tipo de xeque-mate. — A agente apoiou os braços na cadeira e inclinou o corpo para frente, olhando sem o mínimo de pudor — Eu lido com psicopatas, assassinos em série, ladrões de obras valiosas e coisas bem mais importantes que um simples hímen. Então, vou ser direta, porque esse seu jogo sujo não funciona comigo: por que você não usa o anel?
— Não entendo por que, com uma resposta tão óbvia, vocês ainda perguntam mais uma vez. Não gosto de falar da minha vida sexual em público. É privado, ninguém precisa saber que um pênis esteve dentro de minha vagina. — rolou os olhos ao responder de forma ríspida. — Eu uso o anel, okay? — Ela puxou a corrente de dentro da blusa e mostrou o anel como pingente — Só não uso no dedo porque não sou virgem como a promessa. Acabamos por aqui, ou vocês também querem saber se sangrou na minha primeira vez? Posso te dar ótimas dicas de sexo, você parece estar precisando de algumas para aliviar essa sua cara de quem comeu e não gostou.
! — Accola repreendeu a amiga, arregalando os olhos de forma assustada.
— Eu vou para a aula, ainda pretendo terminar o colegial. — levantou, indo em direção à saída da sala e se perdendo nos corredores do colégio. Todos estavam estáticos com a atitude dela. aparentava ser aquele tipo de pessoa, mas era muito mais divertido observá-la explodir e deixar todos seus pontos fracos à mostra.
Me desculpem, acho que ela está um pouco sensível com tudo isso. — Accola se levantou e seguiu a amiga. liberou as outras duas meninas e suspirou de forma pesada, olhando para Morgana e recolhendo as fotos.
— Será que quando acabarmos esse caso, podemos chamar essa menina para trabalhar conosco? — Maquiavel perguntou, arrancando uma gargalhada baixa de e um tapa da irmã — O que foi? A menina descobriu nossa vida inteira só analisando nossas caras e supondo algo pelo nome. , você nunca me decepciona.
— Do que vocês estão falando? — Alyssa perguntou, olhando curiosa para os dois.
— Eu contei para ele sobre o que ela fez na igreja na frente dos pais e disse que ela ia surpreender todos nós ainda. — levantou, segurando a pasta nas mãos e apontando para que todos saíssem da sala — Só não esperava que fosse tão rápido.
Morgana estreitou os olhos, irritada com aquilo. A menina era um poço de arrogância, como eles haviam ficado fascinados com aquele simples gesto? Era só uma menina mimada.
— Ela é manipuladora. Pode facilmente ser a culpada. A assassina. — Morgana disse, fechando a porta.
? — Conrad riu — Você está sendo contraditória, Morg. Ela é apenas uma garotinha com medo do escuro, alguém que se esconde atrás daqueles grandes olhos analistas.
— Não, ela não é só isso. — negou com a cabeça, seguindo os outros para fora do colégio. Eles tinham muito trabalho ainda e aquilo não era nem o começo, era algo parecido com uma degustação. se sentia mais à vontade com todos os amigos de trabalho ali. Passaram anos desvendando crimes e mais crimes, tudo seria mais fácil dali em diante — Eu tenho a intuição de que ela nos ajudará muito, mesmo que não perceba. , no final de tudo, vai ser o nosso xeque-mate.


03 – Arcadia

Há pouco tempo, havia descoberto o que era arcadia. De acordo com a mitologia grega, era um lugar que os artistas criaram para ser seu encontro de paz. Uma região relativamente pequena que era feliz e a pacificidade, mútua.
Se perguntassem para ela meses atrás o que era sua arcadia, responderia que era seu lar. Sua casa, sua família, seus amigos. Heaven. Todavia, por alguma desventura do destino, a mudança de arcadia fora tão rápida quanto um piscar de olhos: nenhum desses lugares transmitia paz o suficiente. No final do dia, ela não tinha mais nenhum retiro de paz.
Isso fazia Cassie acreditar numa pequena teoria vista num filme qualquer: estamos todos presos num eterno purgatório, nosso objetivo final é saber se merecemos ir para um lugar abaixo ou acima disso. E, deuses, com toda certeza ela já havia morrido e estava mais abaixo que qualquer um.
Qualquer um mesmo.
Accola Anders parecia tagarelar sem parar, Cassie desejou poder tirar o áudio da voz da amiga e deixá-la falando num eterno mudo, mas a ruiva soltou um grito logo em seguida. Um grito de dor.
Grito esse que era culpa de Dakota, que tinha aberto a porta de vez, porta que Acks estava encostada.
Jesus Cristo. — Dakota murmurou, arregalando os olhos em seguida.
— Lúcifer, mesmo assim, olá. — Accola respondeu de forma amarga, levantando dali e deitando ao lado da amiga em sua grande cama.
— Eu já disse para você não entrar em meu quarto.
— Eu também vivia dizendo para papai e mamãe não terem outra filha, olhe onde estamos e me responda se alguém ouve alguém nessa casa. — Dakota rolou os olhos, algo que na verdade era bem típico dela.
— Podemos acabar com isso logo e será indolor para todas nós, sim? Sim. Obrigada pela compreensão e prossiga com sua fala. — A ruiva interrompeu as duas, já resmungando internamente porque ela ficaria ali numa vela de briga sanguínea.
— Adolescentes… — Dakota rolou os olhos e suspirou fortemente, entregando um vestido salmão para . Era longo e tinha uma espécie de capa. Parecia que tinha saído de um filme dos anos 60, e isso aterrorizou a caçula dos Bertoni — Mamãe mandou esse vestido para você usar.
— Ah. Era só isso? Você já pode ir embora. — Cassie abanou as mãos, como se dissesse sai daqui logo antes que a irmã pudesse realmente sair e fechar a porta — Not gonna happen. Esse vestido parece que foi usado pela rainha da Inglaterra. Quando ela era criança.
— Você sabe que isso foi tipo, 175 anos atrás, não é? Ela é uma reptiliana. — Accola começou a rir, analisando a roupa — Qual você vai usar?
— Fique aqui esperando. Vou colocar fogo nesse e logo. — Soou empolgada e saiu correndo atrás do adorado vestido.
Menos de cinco minutos depois, quando voltou, a reação da amiga foi exatamente o que ela queria ouvir.
Sunshine, você está tão linda que eu quero te beijar! — A voz de Accola fora ouvida do outro lado do quarto. Ela rodopiava por todo o cômodo, balançando seu vestido florido. Ficava tão bonito no corpo dela que seu real desejo era mantê-lo ali pela eternidade. riu da empolgação da amiga. Elas tinham achado o tal uísque com a embalagem fosca bem antes do que o combinado, essa era a razão para a menina mais tão radiante e empolgada.
A loira estava dando os últimos toques em sua maquiagem, os olhos focados nos movimentos dos dedos e o corpo inclinado para frente do espelho. Ela tinha que assumir que a luz amarelada do olho-de-boi a incomodava muito, mas aquilo era necessário para manter a maquiagem apresentável. era um desastre se maquiando, acreditava que para conseguir fazer um delineado gatinho com as medidas certas, teria que fazer um pentagrama no chão e invocar qualquer demônio, já que ela mal conseguia passar o lápis sem enfiar a ponta no olho. E, por pura contradição, não deixava ninguém chegar perto do seu rosto. Se estivesse feio, pelo menos ela havia feito. Para finalizar, passou um batom fraco e suspirou fortemente, levantando e dando uma volta para que a amiga analisasse sua escolha ousada de roupas. O decote não era muito profundo, mas era largo e dava uma boa visão do volume dos seios dela. A cauda do vestido era um pouco maior que a parte da frente, permitindo uma visão melhor das belas pernas de . O vermelho vivo na roupa parecia o maior destaque em contraste a sua pele branca. Ela estava a verdadeira imagem de toda a pureza e a falta dela, uma perfeita fusão de ambos.
— Acks, você está absolutamente...
Antes que pudesse terminar a fala, duas pessoas entraram no quarto sem avisar, assustando as duas garotas que estavam ali. estreitou os olhos de imediato ao ver os fios louros e longos de Dakota no seu campo de visão mais uma vez.
— Hoje é o dia de entrar no quarto da sem bater na porta? Eu esqueci de checar no calendário.
Antes que pudesse soltar mais alguma ofensa para a irmã, o cabelo castanho da mãe apareceu em seguida. Ambas estavam impecáveis para a festa daquele dia. Elsa não podia sair perdendo. Era seu aniversário, e ela tinha que calar a boca de todas as matriarcas que adoravam achar defeitos nela.
Já Dakota só queria calar a boca de todos. Ela adorava ser o centro das atenções e aquele vestido rosa-bebê, que marcava sua cintura e seguia longo até os pés, a deixando mais alta e com toda a postura de modelo, ajudava em todas situações possíveis. Sua maquiagem estava tão neutra quanto a da irmã. Acks se encolheu assim que viu as duas Bertonis indo em direção à caçula da família.
— O que você pensa que está vestindo? — Dakota perguntou assim que pôs os olhos no vestido da irmã — Eu te disse que mamãe havia separado aquele para você. — Os dedos finos apontaram para o vestido, que ainda estava jogado em cima da cama, deixado totalmente de lado.
— Eu penso que estou vestindo uma roupa, pelo menos hoje. Ontem jurava que eu estava vestindo uma laranja, não acha, Acks? — perguntou para a amiga, sorrindo irônica em direção à sua irmã mais velha.
Bertoni! Modos ao falar com sua irmã, respeite os mais velhos! — Elsa não costumava ser desse jeito, mas festas, principalmente organizadas por ela, costumavam deixá-la um tanto irritada.
perdeu o jeito de falar com as pessoas, mamãe. Olha só, já fala como uma ralé e já se veste como tal. Acha que as pessoas vão pensar o que de você se aparecer na festa desse jeito? Provavelmente que você é uma trabalhadora barata de um prostíbulo e está ali para conseguir um cliente que tenha dinheiro o bastante para sustentar sua semana.
— Olha que fofo, andou lendo o dicionário para me xingar com palavras difíceis? Eu prefiro ser prostituta do que ser chata que nem você, pelo menos as pessoas gostam de mim e não só fingem. — Ela deu de ombros como se não pudesse fazer nada — E outra, talvez eu devesse vestir um capuz preto e pegar uma foice, sairia de morte na festa e ficaria procurando garotas estúpidas para matar. Tenho certeza de que você seria a primeira delas e com toda certeza eu ganharia mais dinheiro do que como prostituta. As pessoas fariam uma festa por eu me livrar de gente como você.
Chega! — Elsa gritou, impaciente com aquela briga boba das filhas — Dakota, vá ver se seu pai precisa de ajuda com a gravata ou qualquer coisa! — A filha mais velha lançou um olhar azedo para a irmã e sua amiga, saindo do quarto em seguida — ! Você sabe que tem que lidar com sua irmã! Vocês cresceram juntas e esses três anos com ela morando longe parece que te desacostumou a lidar com a Dakota! — Elsa suspirou cansada e sentou na cama da filha — Você acha que não consegue, mas eu sei que sim. Acha que desaprendeu sem a prática, mas sabe que lidar com Dakota é como andar de bicicleta!
— Mãe, eu não sei andar de bicicleta.
Accola riu descontrolada ao fundo, arrancando um olhar feio vindo de Elsa Bertoni. A própria mulher queria rir da contradição daquilo. Sua vida era tão ocupada que ela esquecia qual filha fazia o quê. As duas eram tão distantes e odiavam tanto uma a outra que não tinha como esquecer ou não saber distinguir, mas ela ainda assim conseguia tal proeza.
— Poupe-me, você entendeu! Tente ser mais compreensiva com sua irmã e menos...
— Nojenta? — perguntou, sorrindo fechado para a mãe e rindo baixo — Já sei como é isso de bicicleta para lidar com a Dakota. Fácil que nem pilotar uma, só que com a bicicleta pegando fogo, o chão pegando fogo e tudo pegando fogo, porque você está no inferno.
Elsa começou a gargalhar continuamente. Odiava admitir, mas adorava aquela quantidade absurda de sarcasmo em 90% das falas de sua filha mais nova. era a cópia dela na juventude. A mulher levantou e respirou profundamente, olhando sua filha com um sorriso no rosto. Aproximou-se dela e passou os dedos de forma delicada pela face da menina.
— Eu não sei como você nasceu apenas uma vez e conseguiu captar tanto drama! Com certeza é da parte italiana de seu pai. — Ela beijou a bochecha da filha, indo em direção à saída — O vestido está lindo em você. E, só para constar, quem escolheu aquele ali foi a Dakota.

••••


Morgana reclamava algo com o irmão enquanto Alyssa parecia imersa demais para conversar com qualquer um deles. Conrad estava conversando com a namorada pelo FaceTime. Beatriz morava no Brasil e fazia falta o bastante para a saudade tentar ser contida pela internet.
estava numa luta interna para conseguir deixar a gravata arrumada de forma coerente, era desastroso! Sua amiga já havia oferecido ajuda, mas ele era orgulhoso demais para admitir que não conseguia ajeitar uma simples gravata. Ele odiava aquele tipo de evento. Na verdade, ele nem sabia o motivo deles estarem indo para aquela festa.
Estavam na cidade por causa de uma série de assassinatos, perder tempo com festa era algo totalmente irresponsável e antiprofissional.
— Mack, por que estamos indo para isso? — perguntou, soltando as mãos da gravata e desistindo de tentar arrumar — Viemos achar um assassino!
— Você foi para uma missa de sétimo dia procurar um assassino, por que quer enfiar esse nariz grande na minha festa de sábado à noite? Não quer ir, fique em casa comendo pipoca ou não comendo porque Alyssa zerou a dispensa de comida. — Uma gargalhada debochada ecoou da garganta de Maquiavel quando a loira estapeou seu braço.
— Ou você pode ir conosco e deixar de ser tão chato. E leva um casaco, a noite está fria, meu caro! — Conrad falou, forçando uma voz grave e olhando de forma sonsa em direção ao amigo.
— Vamos lá, , vai ser divertido! Aposto que você vai dar uma risada ou outra, tirar um pouco dessa cara feia que carrega sempre. — Alyssa caçoou do amigo e ajeitou o smoking dele, pegando a chave do carro e balançando entre os dedos — E eu estou indo, alguém quer carona? — Todos levantaram a mão, exceto por Sauter — Vamos lá, alemão, até a Morgana, que passou a noite inteira reclamando, disse que ia. Não vai matar se você se divertir uma única noite! Seu assassino pode estar te esperando, imagina só se você o prende hoje? — Sua voz calma amaciou a fera dentro do homem. Ela piscou para ele de forma cordial.
não estava nadinha naquele clima de festa. Na verdade, ele sempre se considerou um homem muito caseiro. Saía para beber com as mesmas pessoas, os mesmos amigos que estavam tentando tirá-lo de casa naquele exato momento. Talvez até fosse seu estímulo para sair da cama todos os dias.
— Ei! Eu tenho algo melhor para você. — Aly comentou num tom debochado, entregou a chave para Maquiavel e andou até a estante de livros na sala de entrada. Todos os livros que ela mais gostava haviam sido trazidos para que ela se distraísse. Sua mão alcançou rapidamente um livro verde e surrado. Ela procurou algo no sumário até sorrir de forma maliciosa — Aqui, seu dever de casa. Quando eu chegar, quero vê-lo pronto e muito bem feito. — Com o lápis que estava dentro do livro, Alyssa circulou algo e entregou para .
Os olhos verdes do homem passaram bons minutos analisando a tarefa que a doutora havia designado a ele. Ela estava de brincadeira, não estava?
— Ei! — gritou, correndo atrás dos amigos, que praticamente já estavam no carro — O que diabos é um pentakismy... — No meio da frase, ele perdeu a concentração, olhando de forma confusa para a palavra circulada — Eu nem sei falar isso!
Pentakismyriohexakisquilioletracosiohexacontapengagonalis. — Alyssa murmurou pausadamente, arrancando uma gargalhada alta de Morgana, quem já havia entendido tudo — É um polígono com mais ou menos uns 56 mil lados.
revezou o olhar entre o livro e a amiga, pensando seriamente em fazê-la comer aquilo no jantar só para engolir aquele pedaço miserável de papel.
Inferno. — Resmungou, fechando o livro de vez — Me dê cinco minutos que eu vou para o carro e alguém vai ter que arrumar essa gravata infernal!
Como podia-se imaginar, a viagem foi uma maravilha. Ao chegarem na festa, perceberam o que era o impacto da alta sociedade em cidades pequenas.
Ninguém poderia reclamar de nada da festa, ainda mais uma festa dos Bertoni. Tudo estava extremamente impecável. A casa era uma antiga herança da família, estava nela há tantas gerações que se podia dizer que fazia parte da fundação da cidade. A música que tocava soava de um jeito agradável. Todos podiam conversar e ainda desfrutar de um bom som. O prefeito Bertoni conversava com alguém no momento em que Sauter passou pela porta de sua casa. Pediu licença e seguiu até o homem, cumprimentando tanto a ele quanto aos outros presentes.
varreu os olhos, observando como as pessoas se comportavam na presença dele. Todos pareciam observá-lo e analisá-lo. Aquela atitude incomodava o homem, ser o centro das atenções de todos ali. Eles nem ao menos sabiam disfarçar. Olhavam para ele e cochichavam entre si, colocando a mão em frente a boca, como se aquilo fosse diminuir ou disfarçar algo.
O loiro tombou a cabeça ao ver um cabelo extremamente claro juntamente a uma pele pálida. . A garota que parecia ser um mistério para todos, inclusive para si mesma.
Bertoni.
Quem era aquela garota?
Todo aquele ar irritante que a rodeavam, as ações infantis — como rolar os olhos ao ouvir alguém falar algo importante ou só que ela não queira ouvir —, o jeito maduro e afrontoso de falar, a mania irritante de analisar tudo ao seu redor. Ela era curiosa de natureza, parecia querer saber tudo e, ao mesmo tempo, não saber de nada. Tinha algo genuinamente estranho em Bertoni — algo que chamava a atenção de Sauter.
Os olhos azuis eram penetrantes e tão rebeldes que conseguiam enganar qualquer um, algo no modo que ela mordia a boca era digno de uma análise de forma psicológica. queria uma análise completa de até o fim do mês.
Entretanto, tinha algo errado. O jeito que ela se movia entre as pessoas parecia formal demais. Correto demais. era mais adolescente rebelde que aquilo. Aquela garota andava como se quisesse chamar atenção ao seu redor, como se desejasse aquilo intensamente.
Terra para ? — Uma voz masculina soou ao seu lado, e se assustou ao se deparar com dois dedos estalando na frente dos seus olhos. Maquiavel. — Eu estou falando com você há uma hora, qual o seu problema?
— Eu estava pensando na noite passada, você gritou muito. — Ele parou e olhou para o amigo, esboçando um sorriso sarcástico — Só me distraí um pouco, panaca. O que falou?
— Você notou como Alyssa está bonita? — Mack perguntou, apontando para a loira com o queixo. Suas bochechas pareciam um tanto rosadas e seu jeito de falar estava sem graça. Por mais que quisesse rir, ele não o faria. Às vezes sentia como se todos fossem os mesmos adolescentes que se conheceram na universidade e não tinham jeito algum com mulheres.
— Ela sempre é bonita. — comentou. Maquiavel sorriu para o amigo e pegou um copo de uísque do primeiro garçom que passou, internamente agradecido por não servirem apenas champanhe naquela festa. Antes que Mack pudesse responder algo, avistou e a mãe mais próximas que antes. Estavam com um casal e pareciam estar falando algo.
Os mandatos da boa educação o mandaram internamente ir até as mulheres, e assim ele o fez.
Sra. Bertoni? — Assim que chamou, Elsa virou em sua direção. Era uma mulher elegante, com os traços jovens ainda marcados em seu rosto, por mais que a pose de mulher mais velha e, provavelmente, uma pose digna de matriarca de uma família americana fosse um tanto mais marcante.
, meu querido, já insisti que me chamasse apenas de Elsa, não sou tão mais velha que você. — Elsa respondeu, o sorriso sereno no rosto. Assim que o nome do homem fora dito, o corpo ao lado da mulher travou e a dona dele virou, analisando de uma forma que o incomodou. Não eram os olhos irritados de , por mais parecidos que fossem. A garota que o encarava era Dakota, sua irmã mais velha. Ele não podia negar a beleza desta, os traços eram extremamente parecidos com os de , mas a mais nova conseguiu sair mais bonita. — Ah, mil perdões. Vocês não se conhecem! Dakota, esse é o homem o qual eu te falei, Sauter. Está aqui para investigar o assassinato das meninas. , essa é minha filha mais velha, Dakota.
— Sua mãe tem me falado muito bem de você. — Ele mentiu, estendendo a mão para cumprimentar a garota. Algo nele já não gostava dela. Tinha uma pose arrogante ao extremo, como se analisasse cada uma das pessoas presentes ali e dissesse que todas não eram dignas de sua presença, que era melhor que cada uma em particular. — A festa está maravilhosa, Gustaf não deixou de comentar comigo que você foi quem organizou tudo da festa. Bom trabalho.
— Não foi nada, você deveria ter visto a festa de dezesseis anos da . Depois posso te mostrar algumas fotos, foi maravilhosa! Cada detalhe ficou extremamente bonito e bem feito, modéstia a parte.
— Eu imagino que tenha sido. Se tiver chegado perto dessa, confio em suas palavras. E você, Dakota? Como foi a sua? — perguntou, olhando para a Bertoni mais velha, fingindo estar realmente interessado.
— Eu não gosto de festas de aniversário, usei o dinheiro para fazer um curso de equitação. — A vontade de era de rolar os olhos. Dakota era tão previsível que dava nos nervos. Com toda certeza até a adolescente irritante era mais interessante que ela.
Hm. — Respondeu, sorrindo para Elsa. soltou um pigarro — Por falar na , onde ela está? Não a vi desde que cheguei.
— Da última vez que a vi, disse que ia tomar um ar com Accola. Elas devem estar na varanda ou perto do jardim. — Elsa respondeu, olhando para um imenso relógio de parede que ficava no centro do salão de festas — Na verdade, ela disse que ia fazer isso tem mais de meia hora. Dak, querida, pode procurar a para mim? Ela não vai querer perder a dança.
Antes que Dakota pudesse falar algo, a interrompeu:
— Eu posso procurá-la, aposto que Dakota quer aproveitar um pouco mais da festa. Eu esqueci meu celular no carro e vou atrás de . — Elsa concordou, sorrindo de forma satisfeita. Dakota apenas o encarava com os olhos semicerrados, desconfiada de sua atitude.
se despediu das duas e partiu na procura das garotas.
Na verdade, seu celular estava no seu bolso traseiro — ele sabia bem o ar que adolescentes naquela idade tomavam.
Do jeito que Dakota se mostrava ser, daria uma lição de moral na menina e provavelmente faria chantagem ou entregaria tudo para os pais. perguntou para um dos garçons onde ficava o jardim e este indicara o local. Os jovens são tão previsíveis que ele se perguntava se fora assim, um dia. A risada de ecoava baixa e discreta, não havia sinal de Accola. Parou de andar e se concentrou no barulho, nada. Nenhum sinal da ruiva.
Mas a loira estava bem na sua frente.
Talvez aquela cena de foi a mais engraçada que o agente pudera presenciar em toda sua vida.
Aquele jeito arrogante e irritante? Totalmente dissipado. Ela estava alegre, alegre demais. O rosto quase sem maquiagem alguma, nu e cru, bonito por natureza. Os cabelos loiros esvoaçavam com os rodopios, as gargalhadas pareciam tão verdadeiras que eram contagiantes, o vestido curto mostrava tudo que não deveria mostrar.
pigarreou, tentando chamar atenção da menina, mas sua ação fora em vão. Ela nem lembrava que outras pessoas existiam naquele planeta.
— Você parece estar se divertindo... — Comentou, finalmente vendo que a garota percebeu sua presença. Cassie colocou a mão na boca e arregalou os olhos, rindo como quem era pega no flagra. E ela havia sido.
! Que droga, você veio! — Falou, surpresa, dando pulinhos até chegar ao homem. Estranhamente, ela não cheirava a nenhuma substância alcoólica — O que está achando da festa? — Perguntou, de forma serena e simples, não dando a mínima para tudo ao seu redor.
— Nenhuma morte até agora, tudo está bem. — Ele respondeu, analisando os olhos dela de perto. As pupilas estavam extremamente dilatadas — O que você usou?
— Eu não sei! — gargalhou alto — Acks disse que tinha algo para deixar a noite mais interessante. Só que ela arranjou com quem deixar a noite mais interessante. — Rolou os olhos, uma pitada de ciúmes na voz dela — Como é o nome disso que usamos, Acks? — Gritou para alguém que parecia nem estar ali perto.
Foi aí que ele ouviu, gemidos. Bem fracos. Se conversasse com alguém ou falasse algo, não iria ouvir nunca.
Demorou alguns minutos até que a resposta chegasse.
— Depois eu falo! — A voz estava bem fraca.
— Depois ela fala. Você quer esperar? Tem um banco, mas eu estou nele, então você pode sentar no chão.
sentou no banquinho, ocupando todo o espaço. Não se sabe quantos minutos passaram ao certo, mas Accola e Daniel surgiram em meio aos arbustos, ambos suados e vermelhos.
— Eu estou bem! — Gritou, arregalando os olhos ao ver o agente ali — Você veio me prender?
— Accola! Eu não acredito que você estava dando para o Daniel agora e já está dando em cima do .
— Eu não estou dando em cima dele! — Fez uma cara de nojo — Eu sei que você quer fazer isso, tô de olho no gêmeo legal.
Daniel começou a rir das barbaridades que as duas estavam falando, sentou numa das pernas de e encostou a cabeça no ombro dela. Se não estivesse ali, seria ela quem estaria indo com ele naquele exato momento para o meio do mato. Ele estava suado e cheirava a sexo. O cabelo completamente bagunçado e a boca, vermelha. Além de, claro, a barba, que estava por fazer.
Ele não ligou para ali. Os lábios passeavam pelo pescoço da garota, e ela estremecia em suas mãos, os olhos fechados, quase como se estivesse prestes a encontrar a inércia.
— Bem, já que vocês não querem conversar comigo, talvez digam para Elsa o que usaram.
Ah, é mesmo. Ele ainda estava ali.
Accola analisou seu jeito de olhar os dois, pensando no quão atraente ele ficava com aquela roupa social. Deveria ficar ainda mais sem todo aquele pano.
— Você é realmente chato, Sauter. — Mordeu a boca e passou a mão pelos braços dele — Lysergsäurediethylamid! — Accola sorriu de forma travessa e mordeu os lábios, gargalhando de forma abusada.
— Essa palavra é engraçada, não é? — se meteu na conversa, rindo mais ainda. Ela não fazia ideia do que eles estavam falando, nem sabia por que o homem parecia tão preocupado com o que elas haviam usado. Se sentia leve, extremamente feliz, querendo gargalhar pelo simples farfalhar do vento nas árvores e pelo jeito que seu cabelo se movia quando ela rodopiava — Dan, o que é isso?
— Dietilamida do ácido lisérgico, mas LSD também é mais fácil de falar. — Respondeu, sorrindo ao perceber o jeito que ela encarava sua boca de forma atenta — É algo que deixa as pessoas mais felizes.
— Você parece triste, . Quer um?
teve que rir. Aquela chapada era realmente algo a ser apreciado. A loira sorriu para ele, passando a língua pelos lábios.
Ela era… bonita. Linda, na verdade. Tantas coisas passavam pela cabeça dele. Será que tanta beleza poderia esconder tanta podridão?
— Não, , acho que estou bem assim. — Ele piscou para ela e se encostou numa árvore qualquer, observando as baboseiras que eles falavam e as coisas que faziam. Accola parecia mais extrovertida do que já era, mais engraçada ainda. Daniel estava entorpecido demais para ouvir algo, e parecia achar o céu fascinante.
, sabe aquele seu amigo, o Maquiavel? — Accola perguntou, parando ao lado do homem.
— Sim, o que tem ele?
— Meu Deus, ele é o maior gato. Tipo você, só que mais. Ele é gostosão, eu fiquei babando a bunda dele hoje mais cedo quando ele corria. Fiz isso com você no começo da semana, por que vocês dois têm que ser tão gostosos? — A ruiva estalou a língua e apoiou a cabeça no queixo — Enfim, vocês são gatos demais. Era só isso mesmo.
Ela nem deu tempo para falar algo, só virou e saiu, se aproximando de para falar algo, que fez a loira rir ainda mais e ficar vermelha em seguida. Daniel deixou um beijo nos lábios dela e deixou a ruiva guiar seu caminho em uma das novas aventuras.
Aquilo atiçou a curiosidade dele. Será que se perguntasse para , ela responderia? A ruiva falou algo só mais uma vez apenas para ouvir e, logo em seguida, se afastou, adentrando novamente a casa dos Bertoni e deixando a amiga sozinha com o homem.
— A Accola disse que te deseja. — Ela falou, se aproximando do agente e gargalhando baixo — Que o maior sonho de consumo dela é seu corpo. — Colocou as mãos na cabeça e franziu o cenho — Isso é canibalismo, certo? Eu acho que ela passa muito tempo assistindo Hannibal. Ele faz tudo parecer tão gostoso que até eu quero virar canibal às vezes. Mas aí, você deseja o corpo dela também? Vai que todo mundo cultua o canibalismo também.
, você está chapada. Para com isso. alertou. Uma parte dele estava irritada por estar bancando a babá de uma adolescente, já a outra estava gargalhando intensamente das palhaçadas que a menina fazia sem ao menos perceber.
— Você não está? — Perguntou, estreitando os olhos e rindo em seguida — Olha só, , como o céu é lindo! Ele é maravilhoso, não acha? — rodopiou, a pele fazendo contraste na noite escura. O tecido vermelho parecia vivo, cintilava e consumia a menina. Como uma chama. — Olhe todas essas estrelas. — Ela abriu os braços e gargalhou alto — Você consegue vê-las? — Ao ver que concordava com a cabeça, ela puxou sua mão e correu entre as flores do jardim — Não consegue ver que elas estão correndo conosco? Elas estão fugindo, assim como todos nós.
parou de correr e suspirou fortemente ao perceber que a garota também havia parado. Sua testa estava franzida num vinco de dúvida, e ela se aproximou dele, tombando a cabeça de lado e analisando seus traços. Agora que ela estava mais próxima dele, podia notar os detalhes do seu rosto. Claro que ela já havia notado antes, a beleza dele era demais para não ser apreciada com bom gosto. tinha traços firmes e não negava as origens europeias, sua barba rala e clara deixava seu repuxar de lábios ainda mais bonito do que já era. Os olhos eram como um espelho, pareciam refletir tudo ao seu redor. podia jurar ter visto o próprio reflexo ali, mas não sabia se isso era sua imaginação aflorada ou o efeito daquele adesivo.
— Por que você parou de correr? — Perguntou, cada vez mais próxima ao agente.
— Porque eu não estou fugindo de nada, . — respondeu, passando os dedos pelo braço gelado dela — Você está fugindo, não está? — assentiu com a cabeça e mordeu os lábios, numa luta interna — Do que você está fugindo, Bertoni?
De mim. — Ela falou baixo, apenas para que ele ouvisse. Ao falar aquilo, ela sentia um eco enorme dentro de si, fazendo aquelas palavras se repetirem tantas vezes que a deixavam irritada — Eu estou fugindo de mim.
— Por que você está fugindo de si mesma? — Ele perguntou, um tanto interessado. Os olhos dele percorriam pelos detalhes do rosto dela, cada pedaço era extremamente indecifrável. Ele não podia negar, era um interesse pessoal. Ele queria descobrir tudo sobre ela, fazê-la contar todos seus segredos e mostrar sua alma para o mundo.
— Não é óbvio? — Tinha algo hipnótico no olhar dela. Parecia outra pessoa, alguém novo e que só apareceria quando não era conveniente para a comunal — Eu me perdi e não quero me achar.
Por dois segundos, pareceu estar alucinando como fazia minutos atrás. Sua voz não tinha alguma firmeza. achou que ela estivesse voltando a soar sóbria.
Antes que algum dos dois pudesse falar algo a mais, um barulho vindo de dentro da casa chamou atenção deles. Todos pareciam comemorar algo, e se deu conta de que estava perdendo toda a festa. Era um rito de passagem dos Bertoni. Quando o relógio soasse meia-noite, eles celebravam da maneira mais simples e adorada por todos na família: dançavam. xingou algo baixo e mordeu a língua, parecendo emburrada com algo, e aquilo chamou atenção de .
— O que foi, garota perdida? — Um sorriso pequeno surgiu no rosto da loira e ela deu de ombros, olhando para o chão.
— Daniel ou Accola sempre dançam comigo quando chega à meia-noite. — Havia um quê de chateação presente na voz dela.
— Esse romance deles é novo?
— Não é um romance. Nos conhecemos desde crianças e, como não existem pessoas aptas para nós nessa cidade, matar as vontades um com os outros é muito mais fácil. Só que sempre foi Daniel e eu. Decidi jogar Accola para ele e agora deu nisso. — Mordeu os lábios mais uma vez, brincando com o tecido do vestido — Eu achei que eles dariam mais atenção a mim, fui uma tola. E é por isso que eu vou fugir, com as estrelas e com mais uma cartela daquele adesivo legal. sorriu sapeca e estreitou os olhos. Estes continham um brilho travesso e revoltado. Ao ouvir os primeiros toques da música alta que todos dançavam, ela rolou os olhos e fez um bico ainda emburrado — Droga, eu amo essa música.
Pela infeliz coincidência do destino, aquele cover de All Through The Night era um dos favoritos de . Antes que pudesse falar mais alguma baboseira, ele estendeu a mão para a loira e sorriu de modo galanteador.
Bertoni, você me concede uma dança?
estreitou os olhos com seu gesto e aceitou o convite do homem, rindo quando seu corpo foi puxado em direção ao dele. Ele passou uma das mãos pela cintura dela, ambos movendo os pés de forma sincronizada. sorria, totalmente encantada com aquele gesto do homem. Ninguém sabia como aquela garota amava dançar, como amava dançar com outras pessoas ou sozinha. Ela não podia negar, preferia que Daniel estivesse ali, dançando aquela música com ela, mas Sauter — por mais arrogante que fosse — não era o tipo de pessoa que você recusava para uma dança.
— Quer falar sobre o desentendimento com o seu namorado? Perdão. Com seu amigo colorido? perguntou, olhando de forma irônica para a garota e percebendo o quão próximos os dois estavam.
— Accola estava louca para perder a virgindade e não tinha ninguém de confiança, achei que seria legal com o Daniel porque ele é nosso amigo! Ele tirou a minha e eu tirei a dele, seria algo que ficaria entre a gente. E eu não estou com raiva de nenhum dos dois, só que acho que eu me iludi achando que seria algo mais Sense8 e não Ele Não Está Tão a Fim de Você. — Respondeu, olhando para os olhos dele. percebera que sua voz soava mais serena, coerente. Talvez ela estivesse voltando a ser a menos alegre e mais irônica — Acho que é a primeira festa, em anos, que eu estou sem algum deles.
— Você não parece estar tão ruim, sorria até alguns minutos atrás. — Ele se afastou um pouco, só para rodopiar o corpo dela e arrancar um grande sorriso da menina. Na mesma rapidez que fora, ela voltou, parecendo estar fora do lugar entre as grandes mãos de .
— Quem disse que eu estou ruim? — Ela arqueou a sobrancelha e gargalhou, voltando a parecer alegre demais.
Touché. sorriu de volta e viu que, no pescoço da menina, um pingente brilhava. Era pequeno e cintilante, estranho e algo que despertava a curiosidade. Era lindo e, para piorar com tudo, combinava exatamente com ela. — É lindo. Mais algum significado interessante? — Perguntou, arqueando a sobrancelha.
— O quê? Quer saber se dessa vez o pingente significa que só posso fazer sexo anal depois do casamento? — Rebateu e quem gargalhou alto daquela vez foi . Essa é a irritante, ele pensou — Não, é só um pingente bonito que combina com a ocasião.
— Uma pena, eu esperava ouvir a história sobre o sexo anal. Quem sabe o que você falaria para desviar do assunto. — comentou, um tanto irônico. Os rostos estavam tão próximos que um podia sentir a respiração do outro bater contra si. Os centímetros a mais que os saltos concediam estavam deixando a situação ainda mais estranha para ambos.
Antes que um dos dois pudesse falar algo, tudo ao redor deles apagou, tanto fora quanto dentro da casa. As mãos de apertaram com força, segurando a menina ao redor de si como forma de proteção. Os ruídos das pessoas dentro da casa estavam um pouco mais altos que antes, pareciam inquietas com algo, ou até incomodadas. As típicas reações de quando a energia se vai, deixando todos no escuro.
Tudo estava extremamente calmo. Com o passar de alguns minutos, podia enxergar novamente, os traços de que se formavam aos poucos. A lua não estava muito clara, mas ajudava bastante. pensou em falar algo para quebrar aquele clima estranho, porém, antes que sua voz soasse, ouviu-se um grito agudo e totalmente horripilante vindo de dentro da casa.
arregalou os olhos e colocou a mão no quadril, sentindo falta de imediato de sua arma ali. Não pensou duas vezes. Puxou para dentro da casa e continuou andando com ela grudada a si. Não a soltava um segundo sequer.
Depois do primeiro grito, outro viera em seguida e assim, sucessivamente, gritos da mesma pessoa eram ouvidos dentro de algum cômodo daquela casa.
Pareciam uma mistura de pedidos desesperados com uma dor incessável.
parou de andar, apertando ainda mais a mão de . Tinha parado para analisar aquele grito e ela parecia conhecer o tom de voz. O pavor ficou presente em seus olhos por alguns segundos e pensou em perguntar o que estava acontecendo, até ela soltar a mão dele e começar a correr em direção ao barulho.
Ele conhecia aquela entonação, mas de onde tinha a ouvido?
Deu um tapa na própria testa ao perceber de quem era e começou a correr junto com , alcançando a porta que prendia a pessoa que estava lá dentro. O barulho parecia ainda mais assustador, batidas incessáveis na porta junto com alguns gritos de socorro.
, vá atrás de seus pais, agora! Ligue para a ambulância o mais rápido possível. — Ele ordenou, e a menina não pensou duas vezes antes de desobedecê-lo. Correu na direção oposta, até o salão onde a festa estava acontecendo minutos atrás — Eu vou contar até três e você se afasta da porta, certo? — Anunciou, ouvindo apenas uma rápida concordância como resposta. fez a contagem em alto e bom som e, no terceiro número, se atirou contra a porta, colocando toda força possível naquele ato. O trinco cedeu com bastante facilidade, e a pessoa que estava presa dentro daquele cômodo se atirou em direção ao homem. não perguntou nada, segurou a mulher contra si e preferiu não notar que seu vestido rosa estava com uma enorme mancha vermelha, aumentando com o passar dos segundos.
Ele olhou para os olhos de Dakota e percebeu que, naquele momento, eles só pareciam apavorados.
— Alguém... rápido demais... — Ela atropelava as palavras, faltando ar e sentindo as lágrimas caindo continuamente do seu rosto.
— Shhhh. — Foi a única coisa que ele disse e, no momento seguinte, Elsa e Gustaf apareceram de forma desesperada. podia ver o mesmo desespero dos olhos de , presente nos dois.
Gustaf tomou a filha nos braços, e o sangue nas mãos de pareceu incomodá-lo mais que tudo. Antes que a mais velha dos Bertoni pudesse falar, começou a tossir fortemente, fazendo mais sangue sair, dessa vez de sua boca. Os olhos pareciam cada vez mais opacos, antes de se fecharem e Dakota desmaiar.
Tudo nos momentos seguintes foram como borrões. Dakota sendo levada pelos paramédicos, Elsa e Gustaf Bertoni desesperados, as pessoas na festa comentando tudo totalmente assustadas, Maquiavel dizendo que eles deviam ter prestado mais atenção em tudo e chorando copiosamente.
tentou acalmar a menina, afagando seus cabelos e limpando suas lágrimas. Não tinha simpatia por ela, mas acabara de descobrir que vê-la chapada era deveras melhor do que naquele estado.
Vai ficar tudo bem.
Ele tinha acabado de descobrir que odiava mentir numa situação daquelas. Não sabia a gravidade da situação de Dakota, porém ele precisava acalmá-la, mesmo que tivesse que mentir para isso.
Ele sabia que seria assim de agora em diante.
E não sabia quanto tempo isso duraria.


04 – Pandora

Algumas vezes nosso cérebro bloqueia as memórias que não queremos ter por perto. Já outras, ele multiplica acontecimentos e os tornam traumáticos, normalmente associados a problemas de infância e coisas que não podemos controlar. Esse vício e uma memória real, somados com algo que sua mente criou para te conturbar, eram as piores coisas que podiam realmente existir para uma pessoa que não tinha conhecimento do ato de fugir para a própria mente.
Dakota Bertoni merecia se foder, mas a segunda opção era demais até mesmo para ela.
Nosso cérebro possui substâncias de diversas formas que pulam de uma célula cerebral para outra, causando correntes elétricas que permitem que você faça movimentos, sinta coisas e tenha aquele seu jeito de se diferir das demais pessoas. Alguns cientistas dizem que quando algo te traumatiza muito, essa coisa pode simplesmente sumir ou ser alterado. Dakota Bertoni era uma pessoa forte, física e mentalmente. Por mais que sua estrutura fosse de uma garota supostamente fraca, os longos anos de vida esportiva provavam o contrário. Para não pensar nos pontos onde havia recebido as facadas, ela lembrava dos assuntos que estava perdendo em sua amada faculdade de história. Eles tinham chegado a introdução do Império Árabe e, como uma aluna exemplar, Dakota já sabia o assunto de trás para frente. Quando estava no hospital, pegava uma apostila ou outra para estudar e esquecer de todas aquelas coisas que havia passado durante a semana. A única vez que Dakota não conseguira dormir fora o dia do depoimento. Tivera que forçar a mente e lembrar que tudo o que queria esquecer.
O depoimento dela foi mais que rápido: tinha ido à cozinha avisar algo aos garçons quando cobriram o rosto dela com algo e a levaram para o mesmo cômodo que estivera presa. Duas vozes masculinas, não conhecia nenhuma delas. Deixaram a garota amarrada a uma cadeira e acertaram a faca duas vezes em sua barriga. Soltaram as amarras e saíram pela porta da frente, trancando-a por fora. Quando ela percebeu que estava sozinha, ignorou a dor e foi atrás de socorro, gritando como se fosse a última coisa que iria fazer em sua vida.
No entanto, a única coisa que chamou atenção dos agentes foram as palavras ditas pelos sequestradores antes de fugirem: "Deixe-a aí. Pegamos a filha errada."
Robert e Elsa estavam eufóricos. Contrataram quatro seguranças para ir com ela a todos os lugares possíveis — inclusive, quando ela dormia, um ficava na porta do quarto e outro, embaixo da janela. As primeiras doze horas do dia eram com dois, e as doze horas restantes com os outros dois. não suportava mais observar as criaturas gigantescas e entupidas de músculos atrás de si. Não que eles fossem sempre chatos, também não eram o estereótipo de segurança sem cérebro e babaca, mas ela só queria um pouco de privacidade.
Naquela tarde, estava especialmente irritada. Não pudera passar cinco minutos sozinha com Daniel e Accola sem aqueles quatro olhos em cima dela. Seus hormônios estavam aflorados, e ela sentia a raiva consumir cada poro do seu corpo. Ao chegar em casa, atravessou a sala de entrada e avistou Maquiavel West conversando com sua mãe.
A garota não cumprimentou nenhum dos dois. Seu dedo ardia como o inferno, graças ao corte recém-adquirido — culpa de um envelope que não queria abrir. O sangue parecia infinito demais para algo tão pequeno, e Elsa logo fez uma cara preocupada e foi atrás da garota, que agora se encontrava no banheiro.
Está sangrando! — Maquiavel afirmou, atrás de Elsa.
— Não me diga! — respondeu, malcriada, lavando o corte com água.
— Você se cortou? — Elsa perguntou, preocupada com a filha.
— Não, mamãe, é uma técnica chinesa de menstruação pelo dedo.
! — A mulher repreendeu a filha, ficando vermelha de imediato pelo jeito que a garota estava se dirigindo a ela.
— O que foi? — O que era para ser uma frase, saiu praticamente num grito que ecoou pelo andar daquela casa. estava com os olhos pegando fogo de raiva, pareciam brilhar de um jeito extremamente macabro. — Mãe, não. Hoje não. Eu passei a semana toda tendo que aguentar uma Dakota inútil que só sabe reclamar que eu fui a culpada pelas porcarias das facadas que ela levou, tem quatro homens em minha cola que não me deixam em paz, eu recebo olhares estranhos no colégio cada mísero segundo e minha vida está indo cada vez mais fodida de tão cabeça para baixo que está, tudo isso porque eu não consigo ser uma pessoa normal! E, caso você não lembre, tem um assassino em série matando minhas amigas e provavelmente vai me matar antes que eu possa completar dezoito anos, então não me cobre boas maneiras. — soltou, de forma curta e grossa, fechando a torneira de imediato e passando pelas duas pessoas, que encaravam o banheiro um tanto boquiabertos.
Elsa procurava as palavras certas para o momento, mas nenhuma parecia boa o bastante. Ela sabia que não agia daquele jeito, a menina nunca a tinha respondido antes, em todos seus quase dezessete anos. Talvez ela e Robert tivessem exagerado com os seguranças, mas eles estavam tão preocupados, que não era capaz de expressar em simples palavras. Uma filha tinha sido atacada na própria casa e a outra estava ameaçada a passar pela mesma coisa.
— Eu vou conversar com ela. — Maquiavel avisou e, antes que Elsa pudesse interferir ou falar algo, o homem sumiu de sua vista, andando na mesma direção que sua filha havia ido segundos atrás. Assim que ele subiu os lances de escada, achou o quarto de pelo simples fato que havia dois homens gigantescos parados na porta. — Eu quero falar com a , vocês podem me deixar entrar?
Um dos homens bateu na porta e, quando uma resposta vinda de dentro foi ouvida, foi algo como um resmungo enfurecido. Ela ainda está com raiva.
? Isso é um interrogatório oficial. Eu sou o agente legal. — Maquiavel falou, vendo o momento que ela abriu a porta e olhou para ele de forma confusa. tinha trocado vinte palavras, no máximo, com ele. Durante o desastroso encontro no colégio e entre alguns esbarrões quando eles se batiam no hospital — Posso entrar? — Ela assentiu com a cabeça, ainda parecendo que ia dar o bote nele em qualquer minuto. Antes que Maquiavel pudesse entrar, um dos seguranças atravessou o portal e adentrou o cômodo também.
franziu o nariz em nojo e rolou os olhos, mordendo os lábios e sentando em sua cama. Mack foi até a garota e sentou ao seu lado, segurando uma das mãos dela, na tentativa de acalmar a fera que estava dentro de si — e segurá-la, caso tentasse estapear seu rosto.
— De uma escala até doze, quanto está sua raiva? — Ele perguntou, acariciando a palma da mão de com os dedos.
— Dezesseis. — Ela respondeu, rolando os olhos e mordendo o canto dos lábios. Sua vontade era de morder os dedos, como sempre fazia, mas suas unhas já estavam roídas até o toco. Se fosse tentar fazer algo, provavelmente arrancaria um pedaço da pele — Eu tenho que passar o dia inteiro fingindo que estou fazendo algo no banheiro para que eles não me atrapalhem. Acredita que eu saí para beber água ontem e aquele troglodita me seguiu até a cozinha? O que diabos eu ia fazer? Fugir pela sacada com um letreiro na cabeça pedindo para me matarem? Aí agora você quer falar comigo e aquele idiota fica ali, observando tudo! — sussurrou a última parte, falando somente para que o homem ouvisse.
Maquiavel suspirou baixo e mordeu os lábios. Aquela era uma situação delicada. Por mais que ele concordasse com Elsa e Robert nos métodos para proteger a filha, ele odiava ser observado. Só o fato de pensar em pessoas ouvindo o que ele falava ou vendo o que ele fazia cada mísero segundo fazia seu corpo estremecer.
— Eu sei que é difícil lidar com isso. No seu lugar, eu estaria prestes a enlouquecer, mas você tem que ser forte. Pense nisso como algo realmente bom, tente ignorar as pessoas que estão com você o tempo inteiro, converse com seus amigos e exponha os problemas, veja o que está levando a sua ruína e comece a procurar maneiras de não gerar uma merda tão grande. Ignore os olhares no colégio. A cidade é pequena, as pessoas falam demais de coisas que elas não entendem. Estão assustadas porque pode acontecer com qualquer uma, já que possivelmente o padrão de dezessete anos foi quebrado. — Mack pausou, mordendo a boca por dentro — Quer dizer, estamos todos extremamente frustrados, sabe? Finalmente tínhamos ligado um padrão: vocês. A proteção para vocês estava sendo redobrada. Ficávamos na porta do colégio esperando cada uma ir embora e, quando chegavam em casa, seus pais ou responsáveis avisavam que vocês estavam bem. Accola, Evelyn, Camryn e você. Eram as pessoas que possivelmente seriam as próximas, então fizemos todo um plano de estudo para manter vocês vivas, e aí atacam sua irmã. Possivelmente não é virgem, tem mais de vinte anos e não usa o anel. Então, por quê?
— Você… — Ela ponderou. Ele devia saber, claro que sabia, era da equipe de investigação! — Sabe que era para eles terem me pegado, não sabe?
— Sim, mas a população de Heaven não. — Maquiavel sorriu de forma maliciosa, e entendeu de imediato, retribuindo o ato da mesma maneira — Fizemos um acordo para que não divulguem essa informação, assim todos ficam alertas.
— Genial. — riu baixinho, levantando os olhos até o segurança do outro lado do quarto — Céus, ele tem mesmo que ficar aqui? — Assim que terminou de falar, ela se jogou na cama e fez uma careta de desistência.
Maquiavel, apesar de toda a pose séria de um dos melhores agentes do FBI, todo o histórico de investigações realizadas com perfeição e mais outras milhares de coisas, ainda carregava o espírito jovem consigo. Não tinha completado trinta e três ainda, faltavam alguns meses. Sempre fora o mais brincalhão, descontraído e o dono das piores piadas. Morgana era a irmã séria e responsável, levava o trabalho a sério, e vê-la sorrindo era como ver um vampiro andando a luz do dia — exceto pelo fato de que vampiros não andavam a luz do dia, nem ao menos existiam. Mack West fora conhecido na universidade como o rei das pegadinhas e quase fora expulso no último ano quando colocara laxante em pó em todos os pratos do refeitório da universidade. Nojento e genial, mas ele ainda se gabava de peças melhores.
Naquele momento, o mesmo Maquiavel West de anos atrás estava voltando à ativa. Ele sabia que não devia fazer aquilo, mas seria muito mais que engraçado, seria uma de suas melhores peças.
— Você confia em mim? — Ele perguntou a , a fitando com seus olhos castanhos. Eram tão pequenos que, quando ele sorria, praticamente sumiam entre as sobrancelhas e as bochechas. Havia um quê malicioso em seu olhar que fez com que relaxasse de imediato, pois ela só via aquele olhar em uma pessoa no mundo: Accola Anders, sua melhor amiga.
Naquele momento, Bertoni soube que podia confiar em Maquiavel West.
— Ei, você pode nos dar licença? — Ele perguntou para o segurança, e estreitou os olhos. Aquele não era o plano dele, era?
— Desculpe, não posso tirar os olhos dela quando estiver com outras pessoas.
— É... — Mack coçou a cabeça, fingindo desconforto — Nós precisamos de privacidade, sabe? Juro que não vamos demorar muito — Segurando a risada internamente, negou com a cabeça, mordiscando os lábios por dentro — Mas desculpa, eu estou sendo bem sem noção, não é? Você só está cumprindo seu trabalho! Espero que não se importe de ouvir.
Maquiavel deu de ombros e tirou a jaqueta por cima da blusa, indo em direção à cama e sentando ao lado de .
— Então, ele era tão grande que eu achei que ia ficar todo arrombado — Sua voz tinha adquirido uma tonalidade mais aguda e o agente estava gesticulando demais, como se forçasse ao seu máximo um estereótipo afeminado.
Cassandra segurou a risada, sentindo que as gargalhadas iriam explodir a qualquer momento de sua garganta para fora.
— E aí, garota, ele só meteu aquele pintão em mim de vez. Eu só gritei "AH, METE COM FORÇA, SEU GOSTOSO!".
Os olhos de estavam tão cheios de água que sua visão estava precária. Sua garganta doía da risada que saía sem som algum.
— Ainda bem que você fez isso. Se ele pensasse que nós estávamos nos beijando, eu não ia me perdoar, porque tenho...
— Uma queda pelo alemão, eu sei. — Maquiavel interrompeu , se espreguiçando na cama da menina.
— Namorado! Eu tenho namorado! — Falou um pouco alto, rindo em seguida e mostrando o dedo do meio para ele — Tudo bem, não é só meu namorado, mas é quase isso, então conta como tal.
— Sim, o que estava ocupado demais comendo Accola e obrigou a dançar com você. Accola me puxou e mostrou tudinho. Você até dança bem para uma menina de... quantos anos tem mesmo? Doze?
— Ok, vá embora. — brincou, rindo mais ainda de suas reações. Maquiavel não parecia ser um agente do FBI. Na verdade, ele parecia ser mais alguém de sua idade com uma mente um tanto perturbada. Talvez fosse isso que fizesse gostar dele tão rapidamente. Já não podia dizer o mesmo da irmã do garoto. Morgana tinha algo azedo, estragado. A menina simplesmente não tinha ido com a cara dela.
— Isso é estranho. — Falou baixo, apontando para a pequena varanda próxima a eles. Lá os dois poderiam conversar em paz. Maquiavel assentiu com a cabeça e seguiu a garota, sentando no chão ao lado dela e suspirando de forma pesada. O céu estava um tanto nublado. Se você prestasse muita atenção, conseguia ver um raio de sol ou outro atravessar uma nuvem, que não estava tão escura.
Os dois pareciam observar tudo o que acontecia ao seu redor. Os pequenos detalhes das árvores que eram espalhadas pela cidade, a estátua de um anjo que ficava no meio da fonte de entrada da casa — por mais que eles só pudessem ver a ponta deste —, o gato gigante e laranja de , Moke, que brincava de se esfregar na grama do jardim.
— Você não sente medo? — Maquiavel perguntou, quebrando o silêncio entre eles.
Medo?
— Sim, . Medo. Suas amigas, elas morreram. Mal completaram dezessete anos e já estavam mortas. Você completa dezessete ainda esse ano, você tem o anel, você é uma das doze. Esfaquearam sua irmã, e era para ser você. Não estou tentando te assustar ainda mais, mas não acha que é sensato ter medo?
— Eu nunca fui o tipo de pessoa sensata. — Ela estalou a língua e dobrou as pernas — As meninas têm que ser virgens. Elas precisam ser puras e... — parou de falar, mordendo os lábios por dentro, como se tivesse falado algo que não devia.
— E...? — Maquiavel incentivou, olhando para a garota com os olhos espremidos — Bertoni, você está escondendo algo?
— Eu posso ter roubado alguns arquivos da prefeitura para acabar com minha curiosidade e... posso ter descoberto uma coisa ou outra. — mordeu os lábios por dentro e ajeitou sua posição, virando em direção ao homem e respirando fundo — Alguns anos atrás, aconteceu a mesma coisa. Doze garotas foram assassinadas e ninguém descobriu quem era o assassino ou os assassinos. Segundo os legistas que examinaram os corpos, todas possuíam dezessete anos recém-completos e ainda eram virgens. Não tinham uma família específica ou um padrão de cor de cabelo, só que uma semana depois do aniversário, elas sumiam e apareciam mortas dias seguintes.
— Exatamente como está acontecendo agora. — Maquiavel uniu as sobrancelhas e tombou a cabeça, pensando em milhões de coisas — Quantos anos atrás, exatamente?
— Não sei, foi no começo do ano 1900. Acho que entre 1916 e... Meu Deus, foi em 1917! Como eu nunca notei isso? 100 anos atrás.
— De 100 em 100 anos, não é? Tenho que ver os relatos de 1817 também. Deve ter algo. Temos que procurar as seitas que podem ter acontecido, ver se as meninas seguem o mesmo padrão de assassinato que as desse ano, onde encontraram os corpos delas e se elas tinham as letras queimadas no corpo...
— O que você quer dizer? — Dessa vez fora quem uniu as sobrancelhas e olhara para ele com a confusão expressa no olhar.
— Que não são simples assassinatos, . São sacrifícios, podem estar sendo ligados a uma seita ou podem ser maníacos que estudaram muito como você e estão fazendo uma cópia do que aconteceu um século atrás, entende? O jeito que elas são mortas, o pescoço tem um corte que começa exatamente na jugular, o vestido branco, as letras no corpo e todas são encontradas no mesmo lugar. Num altar no meio da floresta. O que isso parece para você? — Maquiavel coçou a cabeça e soltou o ar lentamente — Já tinha pensado nisso antes, mas parecia somente, não sei... Há tempos não vejo um caso de seitas malucas, parecia improvável demais, sabe?
assentiu com a cabeça, suspirando de forma baixa e brincando com a barra de sua blusa. Ela não gostava de pensar naquelas coisas. Para começar, era muito assustador. Só de pensar nas coisas que podiam fazer com as meninas e no jeito que elas morreram, um arrepio bizarro cruzava sua espinha.
— Vocês têm alguma ideia do que são as letras? — Perguntou, um tanto muxoxa pelo assunto que ainda estavam discutindo.
— Não. — Maquiavel respondeu, brincando com os nós dos próprios dedos — Não temos ideia, na verdade. Pode ser uma assinatura pessoal, pode ser algo ligado a suposta seita, podem ser nomes... Eu não faço ideia, . Queria muito saber, mas não sei. — Ele soltou a respiração de forma pesada e ajeitou seu corpo — Eu… ao menos sei o que esperar disso. Eles não estão de brincadeira e, quem quer que esteja fazendo isso, quer realmente ver você morta. O que implica com a situação do esfaqueamento da sua irmã… Eles iam te matar, nosso serial killer precisaria de você viva. Duas pessoas estão tentando te matar, .
engoliu em seco, parando para pensar por aquele lado. Ele estava totalmente sério. Mas… tinha que ter algo ali. Algo tinha que fazer sentido.
— Eu acho que… pode ser a mesma pessoa, sabe? Você coloca a atenção em algo para tirar por cima de outra coisa. E se for o mesmo serial killer, só que isso é uma tentativa de tirar a atenção em cima dos assassinatos das meninas para que eles consigam agir de alguma forma em outro quesito que não estejamos olhando.
Maquiavel olhou para ela de forma preocupada. A garota tinha toda razão. Ele precisava falar sobre isso com os outros, precisava deixar todo mundo alerta o mais rápido possível para que ninguém saísse ainda mais machucado.
Depois de alguns minutos, o silêncio tomou o lugar.
Quem estava falando de morte? Eles que não eram.
— Eu dancei com seu amigo na festa, não dancei com você. Acho que me deve uma dança — sussurrou, pulando de cima do colchão e correndo até o celular, parecendo uma criança empolgada com algo. Pegou o aparelho e fechou a aba do vídeo, abrindo o aplicativo do YouTube. Depois de pensar por alguns segundos em que música colocar, escolheu Dog Days Are Over.
Quando Maquiavel ouviu as primeiras notas da canção, quis começar a rir. Aquela era uma das, se não a música favorita de sua irmã. Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, ela pulou da cama e começou a dançar loucamente, cantando a música em tom mudo e vibrando por dentro. Maquiavel apenas ria, encantado com a cena em sua frente. Naquele momento, parecia apenas uma pessoa feliz — ou bêbada —, sem preocupações e sem problemas ao seu redor. Como realmente deveria ser.
— Você chama isso de dançar? Vamos lá, me mostre como se dança! — gritou com o homem, chamando sua atenção e gargalhando alto, não se importando com o que os homens lá fora pensariam. Maquiavel não pensou duas vezes, segurou a mão da menina e começou a fazer os mesmos passos malucos que ela fazia segundos atrás. Eles pulavam, rodavam e pareciam brigar com o vento. Mack ainda ousou pegar uma escova de cabelo e tentar cantar alguns trechos da música, totalmente sem sucesso. Passando alguns segundos depois que esta acabou, ele suspirou fortemente, aspirando todo ar possível e rindo — Você está velho, credo. Não aguenta nem uma musiquinha!
— Daqui há menos de dez anos, eu faço quarenta. Vou ficar ainda mais gostoso, e você vai babar muito. — Ele piscou para a menina, rindo em seguida.
— Quantos anos você tem? — Ela perguntou, sorrindo e ajeitando os fios de cabelo colados à sua testa.
— Quase trinta e três. E, antes que você pergunte, tem a mesma idade. Conrad tem trinta e cinco, e Aly tem trinta.
— Eu não ia perguntar a idade deles! — falou, rindo — Eu faço dezessete em novembro. — Ela se jogou na cama — Você vai olhar os arquivos sobre os assassinatos de 1917? — Maquiavel assentiu com a cabeça — Eu posso ir com você?
— Com aqueles capangas atrás de você? — Ela riu com a comparação e mordeu os lábios por dentro — Faz assim, eles acham que sabem o que estão fazendo. Eu vou sair e falar alguma merda, você fica aqui no quarto ou aparece lá fora para falar algo e aí, quando fechar a porta, você fica aqui dentro por alguns minutos, que eu peço para sua mãe chamá-los para reclamar ou sei lá. Invento alguma desculpa. Você desce pela sala que eu sei que fica depois do quarto de seus pais. Ela tem uma escada de incêndio, não é? — estreitou os olhos, assentindo com a cabeça — Não me olhe assim, eu tinha que ver por onde os sequestradores de sua irmã entraram e saíram. Só não consigo decorar quem são os donos das portas, tirando as de seus pais, que é bem estranha.
— Escolha da minha mãe, ignore. — piscou para ele, apontou para a porta e sorriu — Você me espera no carro? Eu preciso apenas tomar um banho super rápido. — Assim que a menina terminou de falar, ele assentiu com a cabeça e pegou a jaqueta, que estava na cama, calçando os sapatos rapidamente.
Maquiavel abriu a porta do quarto de , saindo de lá e piscando para o segurança, que ainda parecia incomodado com o que acontecia dentro do cômodo segundos atrás. A porta foi aberta atrás dele e uma vermelha e suada saiu de lá, também descabelada. Ela alcançou Maquiavel, deu um beijo na sua bochecha e sussurrou algo no ouvido do homem, que apenas sorriu malicioso e assentiu com a cabeça. Quando ele descia as escadas e deixava uma sorridente atrás de si, a garota não deixou de gritar:
— Ei! Não esqueça de falar para o vir daqui a meia hora. Quero que ele me conte daquele outro que vocês pegaram!
E entrou no quarto novamente, deixando ambos seguranças com a cara no chão.
Aquela era Bertoni, cheia de segredos.


05 – Tempest

Maquiavel estacionou em frente à casa de e saiu do carro com em seu encalço. A menina segurava uma enorme pasta com diversos arquivos dentro. A casa do alemão não era o local que ele estava ficando. Tinha alugado uma casa no fim da rua para ele e a irmã, enquanto que os outros dois dormiam na residência de Sauter. Mack se perguntava como era fácil ser a menina. Todos a conheciam e gostavam dela. Precisou apenas de um sorriso para que eles entrassem na sala dos arquivos da cidade e pegassem tudo. Ela nem ao menos tinha roubado como da última vez.
— Você tem café, não tem? — Ela perguntou assim que eles atravessaram a porta. Toda aquela papelada parecia dar um tremendo sono.
— Eu não sei, deve ter. Aqui não é minha casa, normalmente quem... Ah, oi, ! — Mack interrompeu as próprias palavras, deixando algumas coisas em cima do balcão da cozinha e indo até a geladeira beber água. Assim que ouviu o nome do agente, seu corpo congelou, e ela virou lentamente na direção do homem.
Teve que segurar a vontade de tomar na cabeça e olhar aquela bunda redonda e totalmente apertável. Ele estava de costas, fazendo algo virado para a pia, e ela observava claramente os músculos de suas costas se contraírem e ficarem relaxados em seguida graças ao movimento que fazia. Mas, por algum acaso do destino, no momento seguinte, Conrad apareceu exatamente do mesmo jeito que estava. Com uma calça de correr, sem camisa e suado.
— Vocês foram correr bem tarde hoje. Por que não me esperaram? — Maquiavel perguntou, olhando para os dois amigos ofegantes, nem se importando se tinha uma garota ali entre eles.
— Não sabíamos se você ia também. Disse que ia fazer algo e demorou demais, concluímos que só ia aparecer mais tarde — Conrad respondeu, finalmente notando uma entre eles, totalmente estática e observadora — Oi, . Tudo bem?
Ela não respondeu, não seria capaz de responder nada plausível. Se abrisse a boca, provavelmente sairiam murmúrios desconexos e palavras sem o mínimo sentido. Os olhos dela deslizavam pelo peitoral de Conrad, observando cada músculo deliciosamente esculpido por algum ser divino — e que ainda tinha feito aquilo com muito gosto. Aquele homem tinha uma beleza excepcional. Os olhos extremamente azuis e aquela voz rouca. O sotaque dele não era pesado ou forçado demais. Aquele bronzeado que não era forte nem fraco, que o deixava ainda mais gostoso.
? — Uma voz mais grave chamou seu nome, e a menina virou, ainda imersa em pensamentos. Quando virou, olhou para um que a encarava. Seu olhar caiu no homem, e ela sentiu um imenso arrepio percorrer o corpo inteiro. As madeixas claras dele estavam grudadas na testa devido ao suor e sua boca ainda estava entreaberta na procura de um pouco de ar. Os olhos não eram tão claros quanto os de Conrad, mas havia uma intensidade presente neles que fez cada pedaço do corpo da menina estremecer.
— Oi — Ela respondeu, tentando formular uma frase com mais de uma sílaba, mas nada saía.
— Você está bem? — Assentiu com a cabeça, não identificando qual dos três tinha perguntado.
— Eu preciso de ar. Vamos olhar os arquivos logo? — Falou rápido demais, olhando para Maquiavel.
— Arquivos? — Conrad perguntou, curioso.
— Chegamos a uma conclusão e pegamos alguns arquivos na prefeitura. Vão tomar um banho e desçam para examinarmos isso.
Os dois assentiram com a cabeça e sumiram entre as paredes daquela casa. não pôde deixar de suspirar aliviada, sentando numa cadeira qualquer e apoiando o rosto entre as mãos. Maquiavel olhou de lado para a garota e gargalhou do jeito que ela estava, parecendo ainda estática pela cena de segundos atrás.
— Qual o seu problema com dois homens sem camisa? — Ele tombou a cabeça para o lado, observando a careta que ela fazia ao ouvir sua pergunta.
— Testosterona demais para uma tarde sem café. Por favor, eu preciso de café, forte. Vai logo fazer que eu separo as coisas aqui — pediu numa súplica engraçada, tirando as coisas que estavam em cima da mesa e separando os arquivos por ano.
Minutos mais tarde, os dois estavam inclinados em cima dos arquivos, os olhos correndo por cada palavra com tamanha atenção. já estava no seu segundo copo de café e, agora, e Conrad estavam entre eles. Tudo o que acharam já era o esperado.
Heaven foi fundada em 1716, uma vila construída ao redor da igreja. Algumas famílias de refugiados vindos da Espanha, por conta de uma guerra que estava acontecendo no país. As anotações feitas por eles relatavam que a primeira família chegou em meados de 1715, mas a cidade só começou a crescer no começo do ano seguinte. Heaven, do inglês, significa paraíso. Era uma forma deles esconderem sua verdadeira identidade, já que todas as famílias fundadoras queriam colocar um nome na sua lingua nativa, mas, ainda assim, o nome atual fora escolhido em vez de Paraíso.
O primeiro relato de assassinato na cidade aconteceu no dia 21 de janeiro de 1717. Uma garota chamada Dulce foi encontrada morta na floresta, oito dias depois do seu décimo sétimo aniversário. A camisola branca era mais comum naquela época, mas só de ler sobre aquele simples fato, as coisas começavam a fazer um pouco mais sentido. Exatamente como estava acontecendo naquele momento, o tecido branco estava sujo da quantidade absurda de sangue que saía do corte no pescoço. As letras estavam lá, mas ninguém sabia o que elas significavam.
— Será que é algo em espanhol? — perguntou, observando os milhões de rabiscos que havia feito nas páginas do seu antigo caderno.
— Alyssa sabe falar espanhol, ela já está vindo — Conrad falou, soltando o celular e pegando mais uma papelada para examinar — 10 de fevereiro de 1717, Maitê, dezessete anos. Sumiu no dia seguinte ao aniversário e, no oitavo dia, apareceu morta num altar na floresta.
— Eles deixaram a cidade no terceiro assassinato, mas as mortes continuaram até completarem as doze. As pessoas voltaram no fim do ano seguinte, começaram a povoar a cidade novamente — murmurou, analisando os papéis — Olha só o que temos aqui. — Ele sorriu de forma calorosa — Giovanni Bertoni arregalou os olhos e puxou o arquivo de sua mão, sorrindo feito boba ao ler as menções da importância da chegada de seus ancestrais na cidade.
Depois de algum tempo, Alyssa e Morgana chegaram à casa de e se juntaram na busca de informações. De imediato, Morgana não gostou de ver ali, mas segurou sua vontade de puxar a menina pelos cabelos e mandá-la voltar para o berço de ouro que vivia normalmente.
— Não conheço nenhuma frase ligada a isso vindo do espanhol — Alyssa murmurou, amarrando os cabelos claros num coque e observando os papéis. Ajeitou os óculos de grau no rosto, e Maquiavel prestou atenção nos seus traços, observando como aquele objeto a deixava ainda mais sexy.
deu um risinho malicioso ao observar aquele fato, mas fingiu que não viu nada. Morgana estava no chão, observando as fotos das meninas que morreram nesse ano e procurando algo que não tinha visto antes. sentou ao lado de para ler com ela as coisas sobre sua família, mas algo nas anotações da menina chamou sua atenção.
— Posso ver? — Ele perguntou, e a menina assentiu com a cabeça, dando o caderno para ele. franziu o cenho ao ver uma lista com os nomes das doze meninas, todas com uma data ao lado e depois dois números que ele não entendeu. Leu mais uma vez e percebeu que tinha anotado o aniversário das amigas juntamente com as datas que sumiram e apareceram mortas. Uma dúvida apareceu em sua mente quando ele leu quatro nomes que não deveriam estar lá. Camryn, Accola, e Evelyn. Elas não estavam mortas, mas por que tinham datas? Seu cérebro trabalhou um pouco e, em poucos segundos, ele tinha a resposta em suas mãos: tinha somado os números de acordo com todos fatos que tinha lido. Um número a mais pelo aniversário e sete pelo dia que seriam encontradas.
— Pessoal... — Morgana chamou, e todos viraram em sua direção. Algo parecia extremamente estranho no jeito que ela olhava as fotos — Alguém me passa os registros de 1817 agora! — Assim que ela pediu com seu jeito doce nada mandão, Mack deu os arquivos para sua irmã, que analisou tudo rapidamente, olhando para as fotos e vacilando o olhar entre os dois — Aqui são citados doze altares. Por que agora é apenas um?
Alyssa, que já não procurava mais nada em espanhol sobre siglas, separava alguns papéis sobre como a cidade estava depois dos assassinatos de 1917.
— Eram doze. Depois que as doze meninas morreram em 1917, a população se revoltou e quebrou a maioria dos altares. Eles destruíram quase todos com pedras e pás. — Informou, andando pela casa enquanto lia os parágrafos — Onde as meninas foram encontradas de forma exata?
— Sete foram encontradas numa parte aleatória em meio a ruínas da floresta e uma foi encontrada no altar — respondeu, olhando para Alyssa.
— Mas sabemos que todas elas morreram no altar. Ele continha o DNA do sangue de todas — Conrad falou, e, no momento seguinte, levantou e pegou a chave do carro de Maquiavel, jogando o objeto para o homem — Aonde você pensa que vai?
— Eu? Não, nós. Vamos na floresta, eu sei onde elas foram encontradas — respondeu, recolhendo alguns arquivos.
— Garota, isso não é brincadeira de criança. Somos o FBI, isso não é…
— Olha, eu sei que você não gosta de mim — interrompeu Morgana, olhando para a agente com toda a arrogância que ela tinha e não usava — E, sinceramente, eu estou pouco me fodendo para isso, porém, caso você não saiba, foram minhas informações que trouxeram todos vocês até aqui nesse exato momento. Eu sei que não é brincadeira de criança, mas são minhas amigas, minha família. São pessoas que estiveram comigo a vida inteira que estão sendo ameaçadas de morte, inclusive minha própria vida está em jogo! Para vocês, pode ser um caso qualquer, mas eles entraram em minha casa e quase mataram minha irmã, sendo que eram para me pegar. Então, se você não se importa, o caso é um pouco pessoal — Seu tom de voz mostrava a pouca paciência que estava presente nela. Maquiavel sorriu de lado ao ver a determinação da menina e levantou-se, balançando a chave em mãos.
Antes que Morgana pudesse responder ou revidar, Alyssa balançou a cabeça e puxou a amiga, pegando a chave do próprio carro para que todos pudessem ir. Aly sabia que não valia a pena continuar com aquela discussão, sendo que eles tinham coisas bem mais importantes para fazer. Morgana assentiu com a cabeça um tanto emburrada, sem acreditar que eles estavam seguindo a sugestão de uma adolescente mimada e com crise de super-herói.
Eles foram em carros separados, fazendo questão de colocar em um e Morgana em outro, caso a segunda tentasse jogar a primeira no meio da pista. Não precisou de muito tempo para que eles estivessem nos arredores da floresta e estacionaram os carros no limite das árvores, já que, depois dali, ninguém passaria usando os veículos.
guiou todos até onde ela sabia que ficavam os altares, sentindo um calafrio no estômago por estar onde muitas garotas como ela haviam sido assassinadas. Morgana analisava algumas fotos e estava com as outras, procurando semelhança entre as árvores. Quando eles viram uma faixa amarela presa entre galhos de árvores, reconheceram o local.
Realmente tudo estava um tanto acabado. O altar tinha marcas de sangue seco e, há alguns metros dele, algo preto e queimado se destacava no monte de verde. Como uma fogueira antiga.
— Aqui está o altar. — parou em frente ao local, observando os detalhes e procurando algo que chamasse sua atenção. Infelizmente, só havia um M escrito em meio a ele. Estava velho e antigo, como o próprio local.
estava bem longe da menina, assim como os outros quatro. Todos estavam distantes um do outro com as fotos que Morgana havia espalhado entre eles. Conrad se agachou, observando as ruínas de um dos altares. Ele devia estar há mais de vinte metros de distância de .
— Tem algo aí? — Ele gritou para a menina, observando a letra que se podia ver no meio aos escombros.
— Uma letra M. E aí?
— Letra A — Respondeu, puxando a foto e olhando mais uma vez. Suzan tinha sido encontrada naquele local — M e A. , dá para enxergar alguma coisa aí ou está tudo destruído?
— Tudo destruído — Respondeu, passando os olhos mais uma vez, procurando por algo — Morg?
— Tem uma pedra em meio a tudo que me parece ter a letra D. Aly?
— Letra F — Alyssa mordeu os lábios e tombou com a cabeça, finalmente percebendo o que estava acontecendo ali — Como somos burros! — Ela deu alguns passos e parou perto da antiga fogueira, vendo tudo ficar claro diante de seus olhos — Quando Suzan foi morta?
— Em agosto — respondeu, olhando curiosa para Alyssa.
— Letra A — Apontou para onde Conrad estava — A de agosto. M de maio. São os meses das meninas, cada uma tem um mês para isso. Quem foi morta em maio?
— Sophie.
— E onde ela foi encontrada? — Alyssa perguntou com um sorriso no rosto.
— Aqui nesse altar.
— Exatamente! Aquele ali, deve ser janeiro. Margareth foi encontrada ali, Diane ali, Emily ali, Olivia, Camilla, Sophie, Michelle e Suzan! Não eram locais aleatórios, eram onde os altares estavam! Como ninguém viu isso antes? — Alyssa bufou e tombou a cabeça, olhando quatro locais onde ninguém tinha sido encontrado e sentindo um arrepio percorrer seu corpo — E aqueles ali são para…
— Camryn, Accola, Evelyn e eu — respondeu, fechando os olhos e tentando não deixar o medo tomar conta do seu corpo por completo — Eu acho melhor…
— Sim. Vamos — Mack respondeu e, no segundo seguinte, estava ao lado da menina, passando os braços ao redor de seus ombros e a guiando para longe dali. Ele sabia que ela tinha se esforçado muito para não desabar ali mesmo e sabia mais ainda que estar onde as garotas que passaram a vida inteira com ela foram brutalmente mortas não seria uma experiência esquecida facilmente por .
Maquiavel, acima de todos, sabia que não estava ajudando para evitar a própria morte como havia dito, mas sim para impedir que as que restaram morressem como as outras. Ela tinha medo, claro que tinha. Não tinha nem chegado aos vinte anos e estava ameaçada de morrer como um porco no abate, mas colocava a vida dos outros por cima da dela. Seu maior medo não era morrer, mas, sim, perder aqueles ao seu redor.
Porque não era sensato sentir medo da morte. Não para ela.


06 – Queens

Accola Anders não era a típica pessoa que se contenta com o mínimo, tampouco era a garota tímida e que dava orgulho para os pais. Silvya Anders não parava em casa para conseguir ter orgulho da filha e passava boa parte da semana gastando o dinheiro do marido em viagens e compras extravagantes. Walter Anders aparecia em casa nos fins de semana ou feriados, trabalhava demais para sustentar sua família e não dava a mínima para ela. Desde que sua filha nascera, ele não sabia o que era ficar em casa para conversar sobre os estudos ou a vida amorosa da menina. Ela se criara sozinha, com ajuda de empregadas e amigas. Era uma garota independente e solitária, gostava de estar com as amigas, mas amava passar um tempo em casa divagando sobre o tempo ou pensando na coloração do jardim naquele dia.
Sua maior companhia era Rainbow, seu poodle, que todo mês adquiria uma cor diferente de pelo. Adorava tingir o cachorro com cores estranhas para poder se distrair, mesmo sabendo que isso era quase errado – usar o bicho como objeto. O amor pelo cabelo ruivo não a deixava mudar a cor das próprias madeixas.
Naquele fim de tarde, ela estava mofando na king size, aproveitando a textura e maciez de seu colchão e pensando em que maratona de séries ela faria mais tarde. Os olhos grandes e verdes pararam na guia de séries do Netflix. Qual era melhor? Ver Hannibal mais uma vez ou finalmente tomar coragem para terminar Friends? Talvez ela devesse ver a quarta temporada de The Originals mais uma vez para matar a saudade dos vampiros, já que a última temporada nunca chegava. O famoso mês nunca chegava para ela poder reclamar que TO já não era bom como antes ou surtar a cada episódio da série, consequência do sotaque dos irmãos Mikaelson.
— O que aconteceu com suas lentes? — Uma voz familiar foi ouvida vinda da porta do quarto, e Accola olhou para a amiga, ajeitando a armação em seu rosto.
— Esqueci onde coloquei, mais uma vez. — Ela respondeu, balançando os pés — Vai dormir aqui? — negou com a cabeça e se jogou na cama, pegando o controle da mão da ruiva e mexendo na lista de episódios — Ei! Eu ia ver uma série!
— E eu quero ver uma série. Vamos, meus pais vão chegar tarde porque estão no médico com Dakota e eu não tenho o que fazer em casa. Você escolhe: ou vemos American Horror Story, ou vamos sair para qualquer lugar.
— Eu tenho medo desse negócio, vamos ver The Originals. Quero babar o Klaus.
— Não! De novo não! Abril vai chegar logo, deixa de fogo. Vamos ver Game Of Thrones! Você não saiu da primeira temporada.
— Na verdade, eu não saí do primeiro episódio. — Accola retrucou, levantando-se da cama e indo em direção ao guarda-roupa, se enfiando entre as peças e analisando os modelos — Vamos beber? Eu preciso fazer algo além de ficar olhando o tanquinho de homens que nunca vão ser meus. — Ela balançou o nariz, tombando a cabeça e puxando uma saia de couro preta, colada e pequena, dando uma bela visão as belas pernas que tinha — Ah, por falar de homens que nunca vão ser meus, fui correr hoje para poder olhar a bunda do West. Nunca vou superar a beleza daquele homem. — Murmurou ao pegar uma blusa social branca e jogar as duas em cima da cama, escolhendo uma das caixas de sapato aleatoriamente e dando de ombros.
— Ele é legal, mas eu não consigo vê-lo assim. Ele é o maior gato, mas é o Maquiavel. Tem uma cortina nele que impede de sentir algo além de respeito e admiração. E ver um velho. Ele é só alguns anos mais novo que meus pais.
— E só mais alguns mais velho que você. Sugar daddy, honey.
— Pela misericórdia de Jesus, não murmurou, puxando a calça jeans para baixo e ajeitando o vestido rosa que estava por dentro. Puxou a blusa e guardou ambos num canto escondido do quarto da amiga. O vestido que usava era um tanto apertado e curto, aberto no vão da barriga e nas costas, dando a impressão que não usava nada além de uma saia. Para compensar, as mangas eram longas e o tecido, pesado, um pouco brilhante e acentuando as curvas da menina, fazendo seus seios parecerem ainda maiores e sua bunda ficar mais empinada e redonda — Onde está aquela sua bota de cano curto? — Perguntou para a amiga, passando os olhos nas caixas e puxando-a assim que encontrou. tinha uma mania de querer usar bota com tudo. Os saltos altos a deixavam mais elegante, mas aquela situação não precisava de elegância.
— Você pretende ir para que bar? — Accola perguntou, aparecendo em frente à amiga com duas cores de batom para que ela escolhesse uma. apontou para o batom mais escuro e olhou para o espelho, bagunçando os cabelos de uma forma que a deixasse mais sexy.
— Vamos para aquele pub que o Tobias trabalha, assim ele nos deixa entrar e pegar bebida. Aposto que você precisa dar apenas uma piscadela que ele cai de amores pelo resto do dia e faz o que quisermos. — Tobias era um garoto que fazia Literatura Inglesa com e Accola, apaixonado do começo até o fim pela ruiva. Mesmo ela sendo super simpática com ele para esclarecer que eles não passavam de bons amigos, o menino não conseguia se livrar do abismo que sentia. Não era o típico CDF com óculos e aparelho. Tobias jogava basquete na liga do colégio e tinha várias garotas aos seus pés, mas, por algum acaso do destino, tinha olhos para aquela que esquecia de sua existência na maior parte do tempo.
Accola nem ao menos perguntou se a amiga queria maquiagem emprestada, já sabia a resposta para aquilo. Minutos mais tarde, as duas já estavam prontas para a noite. Sair de casa foi a parte fácil. A cidade não era grande. Algum tempo depois, já avistava o pub que desejava estar.
— Já sabe, não é? Olha o Tobias ali, fala com ele. — empurrou Accola até um dos seguranças, o mais novo entre eles, e acenou para o menino. Acks rolou os olhos e abriu um sorriso falso, analisando a estatura do menino da cabeça aos pés. uniu as sobrancelhas ao observar a cena, querendo ser uma mosca para estar perto dos dois e ouvir o que Accola falava no ouvido dele. Seja lá o que fosse, ele parecia gostar demais. O menino entregou algo na mão da ruiva e Accola virou para a amiga, erguendo a sobrancelha e a chamando com o dedo. — O que você disse a ele?
— Eu teria que te matar se contasse. — Accola sussurrou, passando uma pulseira ao redor do pulso de — Você pode pegar bebidas com essa pulseira. De nada.
não questionou. Estava feliz demais para contestar qualquer decisão da amiga. As duas mal entraram no local e já estavam no bar, pedindo bebidas aleatórias e conversando com pessoas desconhecidas. Accola segurava o terceiro copo de uma bebida colorida que havia gostado muito, dançava entre as pessoas e conversava com um garoto muito bonito que ela pretendia descobrir o nome antes da meia-noite. estava sentada numa das cadeiras do balcão, rindo dos passos que a amiga fazia e bebendo algo que ela não sabia o nome, mas ela estava gostando muito.
Ela varreu os olhos pelo local e arqueou a sobrancelha no exato momento que algumas pessoas conhecidas adentraram, atraindo a atenção da menina. Maquiavel conversava animadamente com Alyssa e Morgana estava com o braço encaixado no de , fazendo a menina se questionar se, durante todo esse tempo, os dois tinham um caso e ela nem sequer havia percebido.
Voltou sua atenção para a amiga, que fazia um show em meio a todas aquelas pessoas. Accola dominava qualquer lugar que chegasse, era o centro das atenções e simplesmente adorava isso. Chamou com o dedo, rebolando de forma sensual para a amiga e arrancando uma gargalhada dela. bebeu todo o resto que estava em seu copo e deu um pulo, dançando enquanto andava em direção à amiga. Enlaçou a cintura da menina com um dos braços e as duas começaram a dançar juntas, rebolando e movendo o corpo com sincronia, arrancando olhares maldosos e chamando atenção de metade das pessoas que estavam presentes no recinto. Ao fim da música, riu, indo até o bar pegar mais uma bebida e mordendo os lábios ao olhar o outro lado do bar, onde a olhava de maneira nada amigável. Maldição, pensou. Alemães e seus olhares de gelo.
Bebericou um pouco antes de ir até o homem, que estava — agradeceu mentalmente por isso — somente com Maquiavel.
— O que agentes tão importantes fazem num lugar como esse? — Ela estreitou os olhos e parou em frente aos dois, rindo consigo mesma ao perceber a careta que Maquiavel havia feito.
— O que você faz num lugar como esse? — perguntou, controlando o olhar no rosto da menina.
— Eu estou me divertindo. Pretendo fazer isso várias e várias vezes antes de morrer. — respondeu num tom sarcástico, arrancando uma risadinha de Mack.
— Onde está seu amigo? — perguntou mais uma vez, olhando de lado para a menina e torcendo a boca, tentando não passear os olhos pelas curvas expostas. Sentiu nojo de si mesmo só por pensar nisso.
— Eu não sei, você está o vendo por aqui? — cantarolou, passando a língua pelos lábios e virando em direção a Maquiavel, depois voltando a olhar — E, por acaso, eu acabei de lembrar que, na verdade, não tenho namorado. Acks está certa, vocês dois têm ótimas bundas. Eu posso apertar?
— Não. — Ele estalou a língua — Você está bebendo? — Ela concordou com a cabeça — Seus pais sabem? — E aí negou, rindo de forma discreta e bebericando um pouco mais, sentindo o líquido queimar sua garganta de forma fraca — Você está aqui com quem?
— Meu Deus, . Isso virou um interrogatório? — Arregalou os olhos, comprimindo os lábios de forma engraçada.
— Não sei, . Você é uma suspeita?
— Depende, você vai me algemar e mandar em mim? — Ela arqueou a sobrancelha, e o homem estreitou os olhos ao ouvir aquilo. Tinha um péssimo histórico de encontrar a menina fora de si. empurrou os dois homens e piscou para Maquiavel, que olhava a menina querendo gargalhar bem alto. Pegou impulso com as mãos e sentou-se no balcão, balançando os pés ao virar todo o líquido do copo de vez — Uh, papai não vai gostar de me ver assim.
— Por que não? — Maquiavel perguntou, tentando não ser óbvio. Pai nenhum queria ver sua caçula bêbada em um local cheio de marmanjos, ainda mais vestida daquele jeito.
— Porque ele quer que eu seja a Dakota. — Ela apoiou as mãos no balcão e jogou a cabeça para trás — Mas, como podem ver, minha barriga ainda está inteira. Não tenho nenhuma facada ou pontos que vão ficar pela eternidade me atormentando. Não é fantástico? — Ela mordeu a boca ao segurar uma risada agridoce — Eu queria me sentir mal por isso, mas não consigo.
Maquiavel riu e mordeu os lábios. Seria cômico, se não fosse trágico. Tudo o que ele sempre quis foi ter uma família completa, com um pai e uma mãe que estivessem o tempo inteiro presentes, como via nos filmes ou na casa dos amigos. Porém, depois de alguns anos, ele percebeu que família não era aquilo que a sociedade julgava ser: um pai, uma mãe e seus filhos. Família ia muito além de um simples padrão criado por um bando de babacas. Sua irmã era sua família, assim como o alemão à sua frente, assim como a garota que ele era apaixonado, mas não tinha coragem de assumir, assim como o amigo que só falava de pão de queijo e brigadeiro graças à namorada de outro país. Seu pai um dia fora sua família, sendo tanto pai quanto mãe. E ele estava feliz com isso.
— Por que você faz isso? Pensei que seus pais fossem mais conservadores. — murmurou para , arrancando Maquiavel de sua linha de pensamentos.
— Como é? — Ela estreitou os olhos e tombou a cabeça, analisando o homem mais uma vez.
— Você é estranha, . Quer dizer... — O alemão se perdeu em palavras, coçando a barba e olhando a menina — Não estranha. É intrigante. Sabe?
— Não. — respondeu, fitando o azul intenso presente nos olhos dele e percebendo que o gêmeo West se levantou, deixando os dois sozinhos.
— Você é transparente, mas, ao mesmo tempo, não é. Em um momento você parece ser a pessoa mais correta do mundo e, no outro, a mais imprópria. Seus olhos refletem exatamente quem você é. Eles são inocentes, puros e límpidos, mas se você olhar com mais atenção, vai perceber um toque de perversidade, curiosidade e mais um baú inteiro de segredos que, suponho eu, são tão profundos que nem mesmo você consegue desvendá-los. E isso me intriga, sabe? — Havia algo na voz de , uma frustração própria sobre não conseguir enxergar além de . Não conseguir passar da maldita barreira que ele sequer sabia se existia ou não.
— Eu cresci vendo o poço de falsidade que Dakota é. Simplesmente percebi que aquela não era a pessoa que eu seria. Mesmo agradando ou não a todos ao meu redor, eu preciso me agradar antes de começar a me importar com a opinião alheia. Por isso as pessoas da cidade acham que Dakota é melhor que eu, porque ela é falsa. Ela é o que todos esperam que seja, eu, não. Eu não quero casar tão cedo e ter lindos filhos que brincam alegremente no quintal ou na varanda, não quero fazer um curso na faculdade porque meus pais querem que eu o faça, não quero vestir uma roupa porque ela passou pelo selo de qualidade que a sociedade julga certo. Eu não quero, além de tudo, ser alguém que não sou. Esse é meu problema, sapateiro. Eu não sou o que as pessoas querem, sou o que eu quero. Por isso a transparência e a falta dela. Às vezes eu quero me mostrar para o mundo, porém às vezes eu quero ficar em meu quarto tocando piano e fazendo um monte de nada.
Um brilho que não soube desvendar destacava os olhos de Bertoni naquele momento. O jeito que ela falava de si mesma era tão real e cheio de si, tão arrogante e, ao mesmo tempo singelo, que a única reação plausível do homem foi sorrir, abrir um imenso sorriso no rosto esculpido pelos deuses e levantar sua, até então, esquecida garrafa de cerveja, num brinde mudo.
— Mas e você? — olhou para ele, sorrindo de lado.
— O que tem eu?
— Quem você é? — A menina arregalou os olhos de forma genuína e riu baixo, amarrando o cabelo de qualquer jeito.
Sauter, trinta e dois anos, nascido na Alemanha, agente do FBI há muito tempo e atual investigador-chefe do caso Virgens de Heaven.
— Que nome péssimo para um caso. — estalou a língua e dobrou as pernas, não se importando com o que o vestido mostrava ou deixava de mostrar — Me diga um defeito seu, o maior de todos eles.
— Um defeito meu? — Ele levantou a sobrancelha e analisou mais uma vez os olhos da loira, vendo que, agora, o brilho curioso dominava o azul por completo — Eu desejo de forma insana aquilo que eu não posso ter. Ou o que não é meu. Aliás, esqueça, tenho um melhor: eu falo muito antes de pensar, e as pessoas costumam me odiar por isso.
— Engraçado, eu te odeio porque você é um babaca mesmo, mas acho que isso acrescenta alguns pontos. — deu de ombros e sorriu de volta para ele, que a encarava como se tivesse acabado de falar que a Terra era plana.
Antes que um dos dois pudesse abrir a boca e falar algo, Accola apareceu em frente à amiga, descabelada e suada. Um sorriso travesso dominava seu rosto, e ela ria baixo, vacilando os olhos nos dois antes de finalmente parar em .
— Eu preciso que minha melhor amiga venha dançar comigo. — Ela fez um biquinho manhoso e piscou os olhos de forma angelical, fazendo rir e assentir com a cabeça. Acks quase pulou de alegria. Sem ao menos pestanejar, foi arrancada do balcão e arrastada de volta para a pista.
A música que antes tocava tinha acabado de finalizar, fazendo algumas pessoas reclamarem e rir da careta que a ruiva ao seu lado fez. No momento seguinte, tudo parou. O toque de uma música altamente conhecida fez arregalar os olhos e gritar juntamente a Accola. As duas trocaram olhares aliados antes de se afastarem e ficarem alinhadas na pista de dança. Alguém iluminado pediu para colocarem a música do começo mais uma vez e, quando Crazy In Love, na versão original, começou pela segunda vez naquela noite, todos prestaram atenção em Bertoni e Accola Anders. As duas caminharam lentamente em direção à outra, rebolando de forma sensual e quase natural, se ambas não tivessem dançado aquela coreografia em seus quartos milhares de vezes. A voz de Beyoncé ecoava pelo pub, fazendo as duas amigas rebolarem cada vez mais, não ligando se estavam chamando atenção ou não. Para as duas, estavam em mais uma noite do pijama. Elas gritavam, dançavam de forma bonita ou não, faziam passos ensaiados e davam pulinhos no meio da música, mostrando sua real empolgação.
olhou para , exibindo um sorriso entupido de malícia, passou as mãos pelo corpo de forma lenta e fechou os olhos, cantando a música num tom mudo e se divertindo tanto com aquilo que ela não poderia colocar em palavras. A noite estava perfeita, na verdade, seria uma das mais divertidas noites da vida de se, naquele momento, perto do fim da música, ela não ouvisse um tom de voz extremamente irritado e totalmente enfezado.
Do outro lado do pub, com uma loira magrela atrás de si, esta que sorria com uma expressão de vitória, e um homem baixinho e bigodudo ao seu lado, olhando para a menina com a mesma fúria que a mulher de cabelos castanhos à sua frente carregava. Seria tudo perfeito se aquela mulher não fosse Elsa Bertoni, sua mãe.
Antes que pudesse abrir a boca, avistou os lábios da irmã se moverem em forma muda, mostrando o porquê daquele sorriso nojento estampado nos lábios dela. Não só entendeu o que ela dissera e o que estava acontecendo. , Maquiavel e Accola também, todos desejando não estar na pele da menina.
E o que Dakota murmurou naquela noite nunca foi esquecido de verdade por sua irmã mais nova.
Você não devia falar seus planos para a noite com as criadas. As paredes têm ouvidos.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.





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