Weirdo

Última atualização:24/08/2020

Capítulo 1


"Se quisermos encontrar efeitos estranhos e combinações extraordinárias, devemos procurar na própria vida, que vai sempre muito mais longe do que qualquer esforço da imaginação." (Conan Doyle)

Eu tinha a plena certeza de que minha vida estava desmoronando nesse exato momento e ver a paisagem através do vidro do carro não estava ajudando muito. Por mais que eu amasse dias como o de hoje, sem muito vento, sol rachando e com poucas nuvens, não me sentia bem, definitivamente aquele estado de espírito não era o mais feliz. Meu colegial havia acabado e apesar de já ter cartas de aceitação de ótimas faculdades, ainda não estava feliz. Era assustador o fim do último ano escolar, uma mistura de preocupação com alívio, porque ficar livre de ter que usar aquele uniforme dos infernos era uma gratidão, mas a dúvida do que seria minha vida a partir de agora, tomava todos meus neurônios que restaram pós as provas finais. Percebendo que a minha cabeça estava fritando, minha mãe me obrigou a ir passar verão na nossa casa em Brighton e ainda conseguiu com que a pimposa da minha melhor amiga viesse junto, talvez ela seria a única saída para mim durante esse verão inteiro, que eu estava sendo obrigada a passar com minha família. Mas nada seria igual sem meu irmão Zachary aqui, ele era quem trazia alegria para a casa da praia, fazia meus pais enlouquecerem com as festas que ele arranjava lá em casa e nossa irmã mais velha, Georgina quase o matava por causar tanto transtorno. E ele é o principal motivo da minha tristeza. Meu irmão havia se inscrito para o exército quando fez dezoito anos, apenas com a finalidade de irritar meu pai, pois Zac queria viver da música e Christian, meu pai, já havia dito que isso não daria futuro. Eu, como uma mera seguidora influenciada pelo meu irmão, adorei a ideia porque ele conseguiu bastante irritar o nosso pai, mas a ficha caiu quando dois anos depois meu irmão foi chamado para servir pelo país. Margareth, minha mãe simplesmente entrou em estado de choque e não conseguia dizer uma palavra, meu pai apesar de não ter o filho obediente que queria, ficou perguntando ao Zac mil vezes se era realmente isso o que ele queria, Georgina praticamente riu da cara dele e disse que não aguentaria ficar nem dois meses lá e eu enlouqueci pela falta que meu irmão faria no dia a dia e pelo risco que ele teria lá.
Há três dias quando fomos levar meu irmão ao exército, todos nós quatro deixamos bem claro que estávamos orgulhosos dele e que sentiremos saudades. Para se conformar com todo esse quadro trágico, minha mãe cismou que queria ir para a casa da praia da minha avó, dona Darcy, que a mesma havia passado para minha mãe desde que eu era um bebê, pois vovó argumentava que não tinha mais idade para ficar cuidando e reformando uma casa que iria apenas uma vez ao ano. Apesar da minha avó ter um filho mais velho, ele estava muito bem na Austrália com sua família, então sobrou para Margareth. Inclusive, imploramos para dona Darcy vir dessa vez conosco, mas disse que estava ocupada demais vivendo seus últimos anos de vida como uma jovem e com os “jovens” da idade dela. Chris e minha irmã toparam a ideia da minha mãe, pois apesar de não irmos para Brighton há três anos, eles adoravam aquela cidade, meus pais por poderiam reencontrar casais de amigos e Geo tem boas lembranças, porque foi lá que ela foi pedida em casamento. Sim, Georgina estava noiva (e mais insuportável) há um ano e estava prestes a se casar com Nathan, um belo jovem produtor de música que estava dando o ponta pé na sua carreira.
No rádio do carro tocava uma música em que minha mãe cantarolava enquanto meu pai prestava máxima atenção naquela estrada movimentada. Minha irmã estava dormindo com a almofadinha dela como uma lady, com toda a sutileza que ela pegou do útero da minha mãe e não deixou nenhuma para mim. E babava enquanto dormia. Quando me dei por conta da música que estava tocando na rádio, lembrei automaticamente do meu irmão. Snow Patrol era uma de suas bandas preferidas e apesar de ser dois anos mais nova que ele, possuíamos muitas coisas em comum.

FLASHBACK ON – 12 anos atrás

O lugar era grande, tinha várias salas e dava para escutar variados sons. Na verdade, eram tantos sons que eu ficava confusa, não entendia muito bem porque estava ali. Olhei para o Zac com aquele violão maior do que ele. Estava todo feliz porque ia para mais uma aula de violão. Puxei o braço da minha mãe e cochichei em seu ouvido.
— Por que estou aqui? Por que tenho que tocar alguma coisa? – Maggie, minha mãe riu. Ela ajoelhou-se na minha frente, colocou meu cabelo atrás da orelha e vagarosamente começou a falar.
— Meu amor, já que seu irmão se deu tão bem com um instrumento, seria bom você tentar algo... Ser mais delicada... – olhei para ela. Já estava ficando com raiva. Ela não entendia que eu estava bem sendo desse jeito, meus amigos me achavam um máximo – Fique tranquila , são muitos instrumentos – minha mãe tentou melhorar aquela situação que não estava nem um pouco agradável para mim.
Zac entrou para uma salinha e não saiu mais. Entendi que a sua aula havia começado. Maggie me acompanhou junto de uma moça bem educada para uma outra sala. Chegando lá havia seis instrumentos que conhecia: bateria, violoncelo, violão, guitarra, violino e piano.
— Bom, , irei te mostrar como todos funcionam e você irá me acompanhar, certo? – fiz que sim com a cabeça.
A moça começou pela bateria. Nossa, que barulhada era aquela? Nunca que eu ia ter coordenação motora para fazer aquilo tudo. Pela cara que fiz, ela riu e parou. O próximo foi o violoncelo. Achei muito chato.
— Esse você já deve conhecer, já que o seu irmão toca tanto – ela pegou o violão.
Até que gostei do som. Zac tocava aquilo dia e noite. Ela pediu que eu sentasse em um banquinho e posicionou o violão no meu colo.
— Você tem que apertar bastante as cordas para o som sair bom – a mulher, que pelo crachá dizia-se Zoe pressionou meus dedos nas cordas do violão.
— Ai! Não vou conseguir tocar isso – entreguei o violão a Zoe.
— Tem certeza, minha filha? – Maggie tentou me acalmar – Isso é questão de prática.
— Não quero – já estava cansada daquilo tudo.
E se eu não gostasse de nenhum? Ela não ia me obrigar a tocar algo que eu não gostasse. Queria ir embora.
— Tudo bem. Acho que você vai gostar disso – Zoe sentou-se de frente para o piano. Já estava emburrada e não queria ouvir mais nada. Cruzei os braços para que minha mãe percebesse que não estava gostando nada daquela situação. Minha raiva se desfez quando escutei a melodia da música que Zoe tocava. Tinha certeza que era uma música do Titanic porque minha irmã fazia a gente ver aquele filme diversas vezes só por causa do ator principal. Os dedos de Zoe pareciam flutuar pelas teclas, o som era tão gostoso, tão leve. Fui chegando mais perto, até sentar no banco junto dela.
— Me ensina a fazer isso.
Pude ver o alívio de Zoe ao ver que escolhi algo e minha mãe quase parindo o quarto filho de tanta felicidade ao ver sua filha a alguns passos de tentar se tornar um pouco mais meiga. Eu disse tentar.

FLASHBACK OFF

Lembrar do meu irmão além de tudo, era lembrar de música, porque eu e ele éramos os responsáveis por fazer barulho em casa. Fiz apenas três anos de aula de piano, porque enjoei de ter que ficar indo naquelas aulinhas e foi justamente quando minha avó me deu de presente um piano que permanece na sala da minha casa até hoje. Às vezes, quando quero um tempo só para mim ou quando amo muito uma música, sento nele e viajo naquelas teclas. Foi uma das melhores coisas que Maggie me obrigou a fazer nessa vida, apesar da tentativa dela de me fazer mais delicada falhar miseravelmente. Olhei para a janela e percebi que já estávamos em Brighton, aquela orla cheia de pessoas andando, o píer lotado de gente, a quantidade de carro indo e vindo nas ruas, descrevia o típico cenário de verão naquela cidade. Meu pai abaixou o vidro para que pudéssemos sentir o ar daquele lugar e quando senti a maresia me veio inúmeras lembranças dos meus verões aqui de quando era mais nova. O céu estava tão azul que se fundia com o oceano, o visual dessa cidade jamais me decepcionaria.
— Nem acredito que meu primeiro verão com dezoito anos vai ser aqui – só faltava pular de alegria. Minha amiga estava extremamente feliz que minha mãe havia a convidado para a nossa casa e ela não ia esconder isso mesmo – Imagina o tanto de gente maneira que deve ter nessa praia – bateu palminha e eu olhei para ela com tédio.
— Tem uma galera bem interessante aqui mesmo, muitos universitários... Se é que você me entende – minha irmã deu uma piscadinha para que pegou muito bem aquela dica que Geo jogou no ar.
— Georgina! Você está noiva agora, presta atenção no que fala – minha mãe repreendeu minha irmã, o que não era muito de se ouvir, já que as duas eram praticamente best friends forever.
— Mãe, eu estou noiva e não morta – Geo respondeu e riu – Tenho um belo par de olhos que funcionam muito bem, obrigada – minha irmã tinha mesmo não só os olhos como ela por inteira era linda... Ela me irritava, mas eu tinha que admitir isso – E você, irmãzinha do meu coração – Geo olhou pra mim que estava praticamente afundada no banco do carro esperando que abrisse um buraco ali e eu pudesse voltar para Londres –, não está animada em conhecer seus veteranos? Vai me dizer que ainda baba por esses meninos do colegial que estudaram com você? – arranquei a almofada que estava apoiada em seu pescoço e bati no rosto dela – Ai! Agressiva.
— Nunca babei por esses meninos da escola e não vai ser agora que isso acontecerá, idiota – voltei a olhar para a janela – Quero mesmo é conhecer gente nova.
— Oi, eu tô aqui, hein – meu pai disse e fui obrigada a rir pelo seu tom de voz de brincadeira – Já que Zac não vai estar aqui para ser meus olhos em você, vou ter que ter um terceiro olho para dar conta de ninguém arrastar as asas para minha filhinha mais nova – eu tinha vontade de vomitar quando eles insistiam em dizer para os quatro ventos que eu era a filha mais nova, a protegida, a sem noção que precisava de ajuda dos dois mais velhos.
— Pai, seu cristalzinho sou eu – começou minha irmã – A está mais para uma rocha incrustada no fundo do mar junto das algas marinhas – obrigada pela parte que me toca Georgina. Dei língua para ela e ela deu de volta, como se os 23 anos que ela tem, fossem na verdade 9 e os meus 18 fossem 4.
— Todas vocês são flores do meu jardim – as vezes não entendo como meu pai conquistou minha mãe com essas falas toscas – Inclusive você, – minha amiga sorriu em forma de agradecimento.
frequentava minha casa desde quando tínhamos onze anos e apesar de sermos praticamente opostas, minha amiga me enchia por inteiro e me completava.
— Chegamos!
Olhei para aquela casa azul em perfeito estado, com um cercado branco. Em frente ao cercado, tinha um banquinho de madeira onde eu tinha dado meu primeiro beijo, que lembrança tosca. Me indignava aquele banco velho ainda estar lá, mas minha mãe não arrancava ele de jeito algum, parecia que tinha valor sentimental para ela. Passando o portãozinho branco, um caminho cimentado que levava até a entrada da casa e ao redor do caminho havia areia. Ao lado da porta da frente, tinha uma rede amarela que antigamente era rosa, mas lembro perfeitamente quando Zac e seus amigos decidiram sentar todos juntos e acabaram rasgando a rede. Os muros baixos na lateral não nos davam muita privacidade, mas em praia era assim, se os vizinhos brigassem ou dessem uma festa, com certeza íamos ficar sabendo. Perto dos muros havia uns canteirinhos que possuíam umas plantinhas floridas e pés de algumas frutas que pelo o que me lembro bem, minha avó adorava cuidar e tentou passar tudo para minha mãe, mas ela pouco se importava com as plantas, então todas acabariam morrendo se não tivesse a ajuda de um jardineiro para aquela parte.
Maggie desceu para abrir o portão para que meu pai colocasse o carro na garagem. Assim que ele estacionou, descemos e pude finalmente esticar as pernas e ter paz, apesar da viagem não ser longa, ficar muito tempo no carro com Georgina e minha mãe falando sobre planos de casamento me irritavam.
Entrei na casa e ela possuía uma mistura de móveis antiquados com novos, por motivo da reforma que aconteceu recente. Havia bastante quadros, aquela velhinha louca good vibes, mais conhecida como minha avó, era apaixonada por arte e jamais deixaria que minha mãe retirasse algum quadro da parede. A casa era enorme, cozinha, sala de estar e de jantar, cinco quartos, dois na parte de baixo e três em cima e um jardim gigantesco, que estava lindo por sinal. A grama chegava a brilhar, a piscina estava limpa, a rede de vôlei que meu pai pediu para colocar há alguns anos para que meu irmão jogasse vôlei de praia com os amigos ainda estava ali, fincada na areia. E o mais importante, o fusca azul da minha avó estacionado, ou melhor, atolado, nos fundos da casa também estava ali. Ri com aquela cena, porque aquele carro virou uma exposição daquela casa, já que não andava havia uns quarenta anos e toda vez que dona Darcy vinha pra cá e encontrava meu pai, perguntava quando que ele ia consertar aquela carroça para ela poder iniciar a sua jornada pela Europa dirigindo um fusca. Minha mãe quase tinha um infarto. Minha avó fazia minha mãe quase morrer de tanta loucura que aquela velhota aprontava. E eu sou fã da minha vovózinha.
— Filha, fica no quarto que tem varanda pro jardim – minha mãe disse terminando de colocar a última mala para dentro de casa – É melhor e vai comportar bem você e a .
— Mãe, você tá deixando a sua filha mais inconsequente com o melhor quarto da casa? – Georgina não superava que eu era a favorita – Achei que a gente já tinha decido...
— Geo, você ia ficar nesse quarto se o Nate tivesse vindo – Maggie colocou a mão na cabeça enquanto falava – Mas como ele não veio, acho justo a ficar nele.
Minha mãe havia tocado no ponto fraco da Georgina, ela num instante se calou. Era praticamente impossível o Nathan ter uma agenda acessível para curtir o verão inteiro com ela, já que música era algo imprevisível. E minha irmã não é a pessoa mais compreensível do mundo, mas ela entende que é o trabalho do seu noivo, então aceita.
— Irmã do meu coração, aceita que eu fui a última e a coisa mais preciosa que saiu da nossa mãe e sempre serei a favorecida – dei um sorriso debochado pra Geo, que revirou os olhos e saiu.
Eu e pegamos nossas malas e subimos para o quarto mais iluminado da casa. Por um segundo detestei ficar naquele quarto, pelo fato de que será o primeiro a receber a luz do sol e não poderei dormir em paz com os feixes de luz escapando por debaixo da cortina queimando meus olhos logo cedo. Apesar da casa ser enorme, os quartos do segundo andar não tinham muito espaço, havia uma varanda, um banheiro, uma cama de casal e um guarda roupa. Logo as minhas coisas e a da iam transformar aquele quarto em um campo minado. Depois de arrumar, ou praticamente jogar, nossas malas em um canto, decidimos nos trocar e colocar roupas com uma cara mais de praia.
— Você esqueceu cem por cento o colegial e está pronta para entrar na faculdade sem nenhum resquício? – olhei pra minha melhor amiga e senti vontade de rir com aquela pergunta mirabolante.
, levanta a mão pro céu que agora a gente não tem vínculo nenhum com aquela escola maldita e aquela diretora que fumava mais que os meninos do fundo da nossa sala – disse procurando algum shorts para colocar.
— Aí, , não finja que você não viveu seus melhores momentos lá – ela começou a me encarar – Teve a colação, a nossa festa em que você ficou trilouca e tirou foto até com o garçom...
— Wow, wow, wow, garota, essas festas não precisam ser mencionadas e nem meu sentimento pelo garçom – era óbvio que a coisa mais inteligente de se fazer era criar amizade com o garçom que serve sua bebida na festa. Se eu não era um gênio, não sei mais o que era – Mas sim, tive momentos bons naquele inferno coletivo, mas eu imploro para todas as criaturas místicas que existem nesse planeta que não tenham sido os melhores momentos da minha vida, porque esses momentos – olhei pra ela – Eu ainda quero viver.
Mas era claro! Dizer que o melhor momento da vida foi no colegial, era menosprezar muito o resto da sua vida.
— Eu passei foi muita raiva naquela escola, isso sim – disse para finalizar aquele assunto – Era tudo muito clichê.
— Você não tá se referindo a... – e a conversa foi salva pelo celular da tocando – Minha mãe tá ligando, espera – ela pegou o celular para atender e foi para a varanda – Alô? Mãe? , o sinal tá horrível – ela berrou para dentro do quarto.
— Sim, aqui é ruim mesmo, vamos descer, talvez lá você consiga falar melhor– terminei de colocar minha roupa e desci com a minha amiga.
Chegamos na sala e não durou um segundo ali naquela casa, disse que precisava sair para achar sinal pra falar com a mãe. Tentei dar todas as coordenadas para que ela não se perdesse e falei como referência que a nossa rua era a rua da sorveteria que tinha paredes de cor roxa, ícone de todos meus verões aqui. Até iria com ela, mas minha mãe havia pedido para eu acompanha-la nas compras e como é cabeça de vento, não ia querer me esperar. Enquanto olhava minha amiga caminhando até o final da rua, percebi uma movimentação na casa ao lado. Fui dar uma espiada e era apenas meu vizinho lavando o carro com uma música alta e sem camisa. Cheguei de mansinho, mas ele percebeu minha presença.
— Que surpresa boa – ele veio para um abraço – Brighton não seria a mesma sem você, !
— Eca, , você tá suado – disse retribuindo o abraço e ele riu. era meu vizinho não apenas em Brighton, mas também em Londres. É uma história antiga, que começa lá com a dona Darcy, a senhorinha mais histórica de todas, aquela mulher tem mais coisa para contar que um dinossauro. A minha avó é amiga da avó do por serem vizinhas da casa da praia e com isso nossas mães se tornaram amigas também. Quando casaram procuraram casas no mesmo bairro e as que mais gostaram era uma ao lado da outra e assim nos traz até aqui. Além de tudo, estudamos juntos.
— Acha que pode se formar e sumir assim? – ele disse esfregando a parte da frente do carro.
— Acho – eu disse e ele me olhou incrédulo, me fazendo rir – Nem é pra tanto , nos formamos tem uma semana... Temos fotos de beca e tudo.
Fechei os olhos e coloquei a mão na testa lembrando da minha mãe fazendo a gente tirar milhões de fotos naquele dia.
— É difícil desacostumar quando você via as mesmas pessoas todos os dias, sabia? – esqueci que além de tudo, o meu vizinho era totalmente sentimental. Mais um pra conta que está com nostálgico com o colegial, será que sou a única que está agradecendo? – Mas e aquele puto do seu irmão, como que está?
— Zac foi para o exército... – disse ainda um pouco triste com essa situação.
— Você tá brincando? – ele parou o que estava fazendo e me encarou. Fiz que não – Como assim o meu parceiro preferido de meter o louco não está aqui em pleno verão?
— Nem fala, já estou morrendo de saudades e de preocupação – não queria continuar naquele assunto que fazia meu emocional dar uma cambalhota seguida de sete mortais – A veio comigo!
— Sério? – agora ele lavava os pneus – Aí sim, agora a dupla de mariquinhas estarão juntas em Brighton – ele disse e mandei o dedo para ele enquanto ria.
— Como está a banda? – meu vizinho tinha uma banda com mais três amigos que era impossível de não nota-los, já que eles ensaiavam na garagem do e eu tinha vontade de ir lá e mata-los quando começavam o ensaio bem na hora que eu ia dormir... Meu sono era sagrado.
— Está muito bem – ele disse todo bobo.
Os quatro meninos do McFly eram os queridinhos da escola, as meninas amavam e eram histéricas por guitarristas, baixistas e bateristas. A popularidade deles era bem diferente da minha, já que eles eram populares por serem caras legais e bonitos enquanto eu era popular por ser estranha. O mais interessante é que essas características não vinham de mim, mas sim da minha melhor amiga que escutava tudo que rodava nos corredores da escola. E eu amava ser estranha mesmo, não tinha interesse nessas coisas medíocres de colegial. Mas de qualquer forma, eu ficava feliz pelo , porque era maneiro ver algo que ele sempre quis indo para frente.
— Mas então, , para matar a saudade, que tal você me ajudar a lavar esse possante? – ele encostou no carro bem ao meu lado.
— Há um total de zero chances, , e... Eu não tô com saudade de você – sorri para ele, era impossível ser rude com esse cara. Observei pegar o balde e vir cada vez mais pra perto de mim – Você não faria isso – disse já dando vários passos para trás.
— É verão, ! – ele disse e então eu percebi que a única saída era eu começar a correr... Foi o que fiz.
Corri pelo quintal e achei uma mangueira que abri e comecei a jogar água nele, enquanto ele pegava a água do balde e ameaçava jogar em mim, fazendo com que a água caísse aos poucos. Ele tentava correr de mim, mas era quase impossível com aquela mangueira que tinha a pressão da água tão alta. Por um leve descuido, deixei a mangueira cair no chão e ele foi rápido o suficiente para pega-la e começar a me molhar, até que escorreguei e caí.
, você tá bem? – ele vinha para mais perto de mim.
— Aí, minhas costas – eu falava baixo, reclamando de dor.
— Peraí, deixa eu ver isso – ele agachou ao meu lado.
Puxei o seu braço para baixo, pegando impulso para levantar e fazendo com que ele caísse. Eu gargalhava e quase não conseguia correr.
— Você está espertinha demais – ele fez força para levantar e continuou correndo atrás de mim.
Eu já estava metade molhada quando ouvi a voz da minha mãe me chamando para eu sair com ela. Me despedi do e prometi que nos veríamos durante aquele verão, afinal, faria de tudo para me tirar de casa. Entrei e fui direto para meu quarto para me trocar o mais rápido possível, antes que minha mãe voltasse a ficar aos berros dizendo que eu não cumpro as coisas que ela me pede para fazer.
Entramos no carro e fiquei com ódio por ela não pedir a Georgina ou até mesmo meu pai para acompanha-la até o supermercado. Olhei para o céu e já estava no final da tarde, na hora em que ele misturava as cores em algo tão incrível que simbolizava totalmente o verão. Eu podia até não ter curtido a ideia de vir para Brighton, mas adorava o verão... Era lindo como havia uma atmosfera reservada só para essa estação, naqueles míseros meses e as pessoas ficavam felizes apenas por estarem na praia.
A tarefa de seguir minha mãe no supermercado não estava nada fácil, principalmente quando ela pedia para eu pegar tal coisa que não fazia ideia de onde estava. Acho que esse era o motivo dela ter me obrigado a ir com ela, Maggie deve ter medo da sua filha ir fazer faculdade em outro lugar e ser uma completa alienígena no meio de tanta gente não sabendo nem fazer compras. Mas a culpa não era minha se minha mãe queria umas coisas tão específicas. Pra mim qualquer marca estava suficiente. Eu empurrava o carrinho para ela enquanto a bonita ia olhando as prateleiras e riscando o que já havia pego. E foi assim por umas duas horas, até que enfim entrei com o carrinho na fila do caixa.
! – ouvi minha mãe berrar de longe – Você está no caixa de prioridades, você por acaso está grávida e eu não sei? – fiquei roxa de vergonha ouvindo aquelas palavras, minha mãe era completamente desnecessária na maioria das vezes.
Pedi desculpa aos idosos que estavam atrás de mim e sai da fila, entrando em outro caixa. Tive a certeza de que o supermercado inteiro ouviu. Deu vontade de fingir um ataque epilético para sair daquela situação constrangedora.
— Minha filha, você tem que ser mais atenta e responsável – Maggie veio atrás me acompanhando – Por isso seria ideal você fazer faculdade em Londres, assim teria mais tempo para amadurecer – ela não tinha desistido dessa história de me convencer? Eu ia para bem onde entender, não sou tão idiota assim a ponto de não enxergar um palmo a minha frente... Foi apenas um deslize.
— Mãe, não começa... Você sabe que a minha vontade de morar fora é grande – disse colocando os itens na esteira.
— Depois conversaremos mais sobre isso – e lá se vai toda a minha paciência que restava com a senhora Margareth. Ela não entendia que meu futuro cabia somente a mim.
Terminamos de fazer as compras e colocamos tudo no carro. Eu não podia estar mais full pistola com minha mãe que além de me fazer passar vergonha na frente do supermercado inteiro, começou com esse assunto que por mim estava mais do que finalizado. Seguimos o caminho de casa e já estava escurecendo, as luzes dos postes acendendo, as estrelas e a lua fazendo seu papel de iluminar o mundo. Tudo estaria na medida do possível se não fosse pela minha mãe conseguindo me tirar do sério. Ela dirigia e o silêncio no carro estava instalado, até que Maggie ligou o rádio e tocava Rock and Roll Lullaby do B.J Thomas. Minha mãe deu gritinhos de felicidade com essa música, cantava e dirigia como se estivesse flutuando em pluma.
And she sing sha na na na na na na na – seria engraçado de assistir essa cena da minha mãe cantando, se eu não estivesse com raiva – It will be all right sha na na na na na
Cliquei no rádio para mudar de estação e ela deu um pulo.
— Por que você fez isso? – ela alternava a visão da rua em que dirigia com o rádio tentando botar onde estava – Eu adoro aquela música , volta pra lá.
— Mãe, essa está bem melhor – nem conhecia a música que tocava, mas faria de qualquer forma para deixa-la irritada. Balançava minha cabeça e estalava os dedos como se eu realmente soubesse a música. — , volta na outra estação de rádio agora – eu continuava ignorando ela até que ela meteu a mão na rádio para mudar e eu fui disputar com ela para deixar onde eu queria – Para de ser estraga prazeres – minha mãe falava já com a voz alterada.
— Mãe, eu quero essa música!
— Não interessa eu estou dirigindo e eu escolho! – ela sempre jogava esse argumento.
— Para de querer me tirar do sério!
— Quem está fazendo isso é você e sem necessidade alguma – começamos a discutir enquanto disputávamos quem conseguiria colocar a estação da rádio.
— Sem necessidade? – comecei a me alterar também – Você tem noção da cena que fez no supermercado?
, volta na música – ela berrou por fim.
— Mãe, olha pra frente! – gritei.
E foi assim que minha mãe jogou um ciclista para o alto. Fiquei extremamente assustada, não sabia se foi com o nosso grito ou com o fato de ter um menino caído no chão e uma bicicleta toda torta. Saímos imediatamente do carro e minha mãe já tinha colocado a cabeça do menino em seu colo, perguntando se ele estava escutando e se estava bem. Quando vi quem era, não acreditei que minha mãe tinha atropelado o garoto mais estereotipado de todo o meu colegial. Ele estava consciente, um pouco atordoado, com os cotovelos e joelhos arranhados, a testa e a perna sangrando. Sua bicicleta estava sem o guidão, já que ele se encontrava longe e os pedais estavam entortados, não tinha mais como andar naquilo. A única sorte era que já estávamos na nossa rua e ela não era movimentada, mas mesmo assim minha mãe conseguiu atropelar alguém e sendo que ela estava sã. Ou meio sã. Essa era a situação mais bela para explicar que se eu era maluca, era totalmente por culpa de Maggie. Quem que quase mata um ciclista por causa de música?
— Me desculpa, me desculpa – minha mãe dava vários tapinhas fracos no rosto do menino – Você tá bem? Me responde, menino!
Nunca vi Maggie tão desesperada como ela estava naquele momento. O menino começou a abrir os olhos e tentar se levantar.
— Eu... tô... – ele colocou a mão na cabeça.
— Qual seu nome? – minha mãe perguntou segurando a cabeça dele.
... .
Ótimo. O dia não podia melhorar.



Capítulo 2


"Escolha o dia. Aprecie-o ao máximo. O dia, como ele vem. As pessoas, como elas vêm. O passado, eu acho, me ajudou a apreciar o presente e eu não quero estragar nada disso por idealizar um futuro". (Audrey Hepburn)

Já era estranho o suficiente minha mãe atropelar alguém, porque isso nunca aconteceu. Apesar de Maggie já ter batido o carro do meu pai diversas vezes e ele surtar com a minha mãe todas essas vezes, atropelar, acidentar ou quase matar um humano, isso ainda não estava na lista de loucuras da minha mãe. Até agora. E provavelmente esse era o motivo dela estar tão surtada com jogado no asfalto um tanto quanto ensanguentado. Aquele projeto de Ken versão bad boy da Mattel infernizou todo o meu ensino médio pelo seu simples andar de fodão na escola e seus olhares sugestivos para as meninas. A superioridade do era ridícula e parecia que quanto mais eu rezava, mais assombração aparecia, só faltava sair do mar a diretora nos obrigando a sermos respeitosos uns com os outros e vir com seu discursinho de paz e amor.
— VOCÊ É MALUCA? – em questão de instantes, se afastou da minha mãe e se levantou – Você não viu a faixa de ciclistas? – ele estava com os olhos esbugalhados e aparentava estar bem nervoso.
— Eu sei, eu sei – Maggie tentava chegar perto para o ajudar, mas ele ia para mais longe dela. Seria engraçado se não fosse trágico – Me desculpa, eu me distraí por causa da minha filha – e foi aí que percebeu minha presença e me olhou por muitos segundos, parecendo me reconhecer – Entra no carro, me deixa te levar a um hospital – minha mãe ainda tentava se aproximar do menino.
— Não... Não preciso ir ao hospital, foram apenas alguns arranhões – olhou seu corpo provavelmente para ver se tinha quebrado algum osso e colocou a mão na testa vendo que estava com um belo corte.
A sorte dele, era que Maggie não estava em uma velocidade alta.
— Eu insisto, você precisa ver essa perna – minha mãe não ia parar até conseguir algo que ela queria, mas continuava fazendo não com a cabeça – Então me deixa pelo menos te levar em casa.
— Você acha que eu vou entrar no carro com você dirigindo? – esqueci de pontuar que ele era totalmente arrogante.
— Seu idiota, você tá falando como se não tivesse visto o carro vindo na sua frente – falei, já irritada com aquela situação. Ele me olhou novamente, como se estivesse olhando para o bicho papão.
— Filha, não fala assim – minha mãe disse, não sabendo nem da metade do otário que estava na sua frente.
— Você vai dizer que a culpa é minha? – ele, ainda transtornado, me olhava.
— Se estivesse com atenção total na pista isso não teria acontecido – falei e me virei para ir até o carro, peguei um cartão e entreguei na mão dele, que hesitou em pegar, mas acabou pegando – Toma, esse é o número de um taxista, pede para ele te levar a um lugar, que seja hospital ou sua casa.
— O que deu em você? – Maggie arregalou os olhos com minha atitude e se virou para mim – Você não tá entendendo que eu acabei de atropelar esse rapaz? E você quer mandá-lo ir de táxi pra casa? Minha filha perdeu o pingo de noção que tinha! – ela massageava as têmporas tentando aliviar a tensão.
— Não... sua filha tem razão, eu estava meio avoado e não vi o carro – aparentemente ficou comovido pelo estado desesperador da minha mãe, mas esse drama eu não comprava.
— Então... , né? – ele fez um joinha, enquanto passava a outra mão no rosto, provavelmente não acreditando que aquela situação estava ocorrendo com ele, pois bem , nem eu acreditava – Me deixe te dar uma carona... E uma bicicleta nova – Maggie olhou para aquela bicicleta um tanto quanto estraçalhada.
— Tá, tudo bem – ele bufou – Eu aceito a carona – parecia impaciente eu não conseguia crer que ela ia mesmo leva-lo em casa.
Entrei no carro não gostando muito daquela ideia. Minha mãe ligou para meu pai, pedindo que ele pegasse o que restou da bicicleta e levasse para casa, provavelmente veria se teria algum conserto, ou sabe-se lá o que iria querer fazer com ela.
foi indicando para minha mãe onde ela teria que entrar para chegar até a sua casa e não era muito longe, chegamos bem rápido.
— É essa casa aqui – ele apontou para a casa que tinha muro de pedra – Agradeço pela carona.
— Você mora com seus pais aqui? – ele já ia saindo do carro, quando minha mãe perguntou. Margareth era muito curiosa mesmo, que vergonha.
— Não – ele respondeu sem muita cerimônia – Vim apenas passar o verão com uns amigos – parou em frente a caixa de correio da casa e colocou as mãos no bolso.
Minha mãe abaixou o vidro para terminar de conversar com ele, me dando uma visão daquele galã de filme americano. Patético.
— Tem certeza que não quer ir ao hospital? – Maggie perguntou por fim, ela ainda parecia bem preocupada com ele e eu só queria ir embora o mais rápido possível. fez que sim – Mais uma vez peço desculpas, prometo me redimir.
— Não precisa se preocupar – ele estava todo sujo, uma mistura de sangue com as pedrinhas do asfalto grudadas em sua pele, terra e graxa.
Sua blusa de branca estava quase preta e mesmo parecendo um mendigo aquele menino conseguia ficar bonito, não negarei isso, mas de fato não era necessária toda histeria daquelas meninas da escola quando ele passava no corredor. E se a sua arrogância não fosse maior que ele por inteiro, talvez ele seria até legal, mas pena que passou na fila do ego dez vezes. Ele chegou mais perto e se abaixou até ficar na altura da janela do carro.
— Tchau, .
E foi aí que eu quis morrer de vez. Como aquele projeto de ator de Hollywood sabia meu nome? Eu não era conhecida naquela escola, porque não jogava esporte nenhum, não era a melhor da sala e muito menos líder de torcida. Subiu um fogo que não sabia se era por minha mãe ter atropelado logo ele ou o fato dele ter dito meu nome. Nesse mesmo momento tenho certeza que fiquei vermelha, porque senti meu rosto esquentando e não consegui olhar pra ele para dizer algo, só queria que Maggie apertasse o pé no acelerador o mais forte que ela conseguisse e que eu nunca mais precisasse ver ele. Minha mãe ligou o carro e finalmente fomos embora.
— Ele te conhece! – ela disse olhando fixamente para frente, para dessa vez para não ocorrer mais atropelamentos – Como vocês se conhecem? – ela não escondia a animação e eu revirei os olhos.
— A gente estudou junto, mãe.
— E você não pensou em me dizer isso, sei lá, a meia hora atrás quando a gente tinha atropelado o pobre coitado? – ela parou em um sinal e me olhava, ainda sorrindo – , um anjo caiu do céu bem no nosso carro e te conhece!
Era um delírio, certeza. Margareth havia esquecido de tomar seus remedinhos e estava delirando. Fui obrigada a rir com esse comentário, não sabia se era pior ela chamar ele de “pobre coitado” ou “anjo”, nenhum dos dois cabia em .
— Mãe, eu vou fingir que você não disse isso e seguiremos felizes até em casa, beleza?
Já era ruim o suficiente o cenário inteiro e esperava que não pudesse piorar. Maggie continuou fazendo piadas sobre o acontecido até chegarmos em casa e eu ria, me rendendo as suas palhaçadas.

— VOCÊ ATROPELOU ALGUÉM? – como já era de se esperar, meu pai estava pirando – Margareth, você tem certeza que passou na autoescola? – rimos.
O que seria de mim e dos meus irmãos sem o senso de humor dos meus pais?
— Eu aprendi com o melhor, querido – minha mãe deu uma piscadinha para Chris. Ele conta até hoje que ensinar a minha mãe a dirigir foi uma tarefa complicada e engraçada.
Contei a sobre todo o ocorrido e ela simplesmente não conseguia acreditar que toda aquela história havia acontecido, mas minha amiga não abominava tanto quanto eu, já que era bem mais sociável, pois conversava com várias pessoas naquela escola e de acordo com ela, diziam as más línguas que ele não era o bad guy que aparentava ser. Parei para pensar que, talvez, esse seja um fato pertinente, até porque faz parte do McFly com o e quem sabe a música tenha tocado em seu coração de gelo. Ou talvez isso seja mais uma bosta inventada no rolo da fofoca que corria pela escola inteira. De qualquer forma, continuaria com minha visão de abominável homem da neve, era mais fácil seguir assim, principalmente depois da minha mãe ter o atropelado, eu não iria sentir pena, não mesmo.

No outro dia, acordei como já esperado, com a luz do sol fritando meus belos olhinhos. Olhei para o lado e não encontrei ninguém na cama, e esse dom de despertar antes do sol nascer. Desci vendo todos felizes tomando café da manhã naquela mesa cheia de pães, sucos e frutas.
— Bom dia, Lindsey Lohan depois do abate, como se sente sabendo que vai acabar com a alegria da primeira garotinha que ver na rua com essa sua cara de derrotada? – Georgina como sempre, sendo a melhor irmã que eu poderia ter – Vai ser a verdadeira mean girl.
Me olhei no espelho que havia ali perto e realmente, não estava em um dos meus melhores dias. Tinha dormido igual uma pedra. Essa última semana foi bem exaustiva para mim, eu acabava com as provas ou elas acabavam comigo. Ainda mais isso de ter que arrumar mala para vir para a praia, que é quase uma mudança, tendo em vista o tempo que passaríamos aqui.
— Você tem é inveja do meu rosto angelical, se prepara que a sua fase do botox tá chegando – soltei um beijinho no ar para ela e me sentei na mesa.
— Mas, então, mãe – Georgina voltou-se para a minha mãe que lia o jornal – Eu acho de verdade que temos bastante a oferecer... Colocar umas luzes, algo novo, atual, descolado, atualizado...
— Ok, filha, já entendi que você quer fazer uma festa de última geração, com fogos de artifício e tudo mais – minha mãe respondeu tirando os óculos e colocando na mesa.
Senti o café queimando a garganta quando me dei por conta o que era aquele papo, me arrependendo mais uma vez de estar presente nessa loucura toda que é essa viagem a Brighton e desejando que algumas coisas mudem, como essa festa de verão que minha mãe insistia em fazer. Quando eu falo que já deu, que não tem mais necessidade de ficar promovendo festinhas para seus amigos e amigas, ela alega que o verão é exatamente isso, festejar o tempo inteiro, reencontrar pessoas queridas, colocar o pé na areia, sentir o vento no seu rosto... Enquanto eu achava que tudo aquilo era um resquício hippie da minha avó que minha mãe tinha, mas Maggie insistia que ela era movida pela celebração da vida e não pela sua mãe.
— Se vocês precisarem de ajuda eu estou totalmente à disposição – traíra respirava as artimanhas que minha mãe planejava.
— Obrigada, querida, sua ajuda será muito bem vinda – Maggie me fitou como se na verdade aquela responsabilidade fosse minha.
— Gostaria de deixar bem claro que eu estou totalmente nem aí para essa festinha de vocês – isso mesmo, coloquei as cartas na mesa antes que alguém me pedisse para participar do jogo.
— Oh céus, que desperdício uma filha tão inteligente e bonita sendo mal educada vinte e quatro horas por dia – Maggie dava um gole no seu chá – Eu só desejo e exijo que você esteja ao menos presente naquela festa.
— Pode deixar – sorri e olhei para ela – Serei a atração principal – e foi o suficiente para minha mãe engasgar com seu chá.
Com toda certeza desse mundo ela morria de medo da sua filha a fazer passar maior vergonha em público, assim como ela faz comigo desde que me entendo por gente.
— Essa é minha garotinha! – meu pai vibrou e quase viu uma maçã voando em sua reta, porque eu odiava esses apelidos de ursinha carinhosa.
Após o café eu e fomos para a praia e aquele era definitivamente o primeiro dia de verão, férias finalmente! Eu usava um bucket hat amarelo que peguei da e achei até que combinou com o dia. Andava pelas ruas e a movimentação de pessoas carregando cadeiras e bolsas de praia era grande, alguns carros de som passavam por ali, gaivotas voavam quando a gente passava, tinham bandeirinhas coloridas penduradas em algumas ruas, era definitivamente o momento mais alegre dessa cidade. As casas tinham cores diferentes e nenhuma delas era igual a outra, cada uma tinha sua especificidade e cor vibrante. Decidimos dar uma passada pelo píer e estava tão cheio que as pessoas chegavam a se chocar. Parei finalmente, quando cheguei em um dos melhores locais daqui o quiosque do Rhys. Foi lá em que meu irmão me viu dando um shot de vodka pela primeira vez e reclamou que eu não tinha o chamado para participar, lá em que meu pai tinha ir que muitas das vezes arrastar Zac para casa, pois o mesmo não se aguentava de tão alcoolizado, lá em que vi minha mãe pagar mico cantando bêbada no karaokê e gritando “gratidão Chris por ter me engravidado e me dado uma linda família”, ou seja, só história que da cirrose. Mesmo sendo um quase destruidor de vidas, Rhys Evans era um cara sensacional que acompanhava nossa trajetória aqui em Brighton desde o início. Não demorou muito para que ele me notasse sentada no balcão do seu quiosque.
— Veja só se não é a miss Brighton! – ele retirou o avental e levantou uma parte do balcão para sair – Que saudade de você e da sua família! – Rhys veio para um abraço – E quem é essa outra moça bonita?
— Essa é , minha melhor amiga, novata nessa cidade – retribui o abraço – Rhys, que saudade que eu estava de você e desse quiosque histórico! Como vão as coisas por aqui?
— Nada mudou, . A movimentação cresce na época do verão e quando acaba, vez ou outra arranjo alguma doideira de evento para fazer aqui e até que enche. Mas como estão todos da sua casa?
— Tudo indo nos conformes, meu pai está louco para vir aqui tomar uma cerveja com você – rimos.
— E eu para ver aquele velho metido a garotão – Rhys voltou para dentro do seu quiosque, quando viu que chegaram umas meninas pedindo algo – Mas a festa da sua mãe está a todo vapor que eu sei – ele disse e eu olhei para ele com uma cara de quem não acreditava que aquele assunto havia surgido duas vezes no mesmo dia – Ela já me mandou a listagem de bebidas que vai querer.
— Na verdade essa festa virou da Georgina, ainda mais agora que ela está formada em arquitetura... Ela quer arrumar a festa como se estivesse decorando um apartamento – Rhys riu.
— Bom, quero saber qual bebida você vai pedir hoje – olhei para o relógio que marcava dez e meia da manhã e fiquei pensando na imagem que deixei para Rhys, visto que ele querer me dar álcool antes do almoço.
— Por enquanto, duas águas, por favor – ele se virou para pegar as águas e logo voltou para me entregar.
— Você já foi melhor, – esse homem era a pedrinha que te levava ao mal caminho e eu amava – Estamos com um novo cardápio de drinks, depois da uma passada aqui para checar.
Pegava minhas coisas e já estava um pouco longe, provavelmente impaciente com aquela conversa que estava atrasando a sua praia.
— Drinks são para os fracos, Rhys! – disse um pouco mais alto para que ele pudesse me ouvir.
— Você nem provou eles ainda, garanto que de fraco não tem nada – ele gritou e me perguntei como que essa cara nunca foi preso por servir bebidas para menores, simplesmente louco.
Voltamos a passear pelo píer, dessa vez indo em direção à praia antes que a minha amiga me carregasse a força até lá. Estava totalmente distraída pelas cores das bandeirinhas que estavam presas nos postes, que tomei um susto quando meu chapéu voou para a areia. Coloquei a mão na cabeça para ter a certeza de que era o meu que realmente havia voado, mas tive a confirmação pelo berro da minha amiga.
! O chapéu! – gritou e correu para pegar, tendo a mesma reação que eu, porque se eu perdesse esse acessório dela, apesar dos milhares que ela tem, não me deixaria esquecer desse episódio tão cedo.
Corremos atrás do maldito que insistia em escapar quando chegávamos perto e parecíamos completas retardadas correndo atrás de um chapéu que parecia ter vida própria. Quando chegamos finalmente na parte da areia olhávamos para todos os cantos para ver se achávamos o chapéu, porém escutamos alguém falar conosco e nos viramos.
— Estão procurando por isso? – um menino moreno, com um físico mais do que ok, com o cabelo molhado provavelmente pela água do mar, usando apenas um shorts preto, com os joelhos e mãos sujas de areia, apareceu – É seu? – só então percebi que ele falava comigo.
— Si-sim – peguei o chapéu da sua mão, parecendo uma garotinha de dez anos vendo o menino perfeito do cavalo branco, só que dessa vez seria do cavalo marinho azul, porque ele definitivamente saiu do mar ao meu encontro.
, você não vai agradecer a ele por ter pegado o fugitivo do chapéu? – me dava olhadas sugestivas que eu já sabia o que significava e fui sentindo meu rosto queimar.
? ? – ele parecia surpreso e eu mais ainda – Sou eu, James – James? Parece nome de príncipe, não confio.
Depois de uns segundos me recordei... Definitivamente havia passado bastante tempo que eu não vinha a Brighton.
— James Evans? Filho do Rhys? Herdeiro da maior adega de Brighton? – ele veio para um abraço.
Da última vez que chequei, James não era tão gato como está hoje, a faculdade pode realmente mudar as pessoas.
— Foi mal, te enchi de areia – ele passava a mão no meu ombro para tirar a areia que tinha ali enquanto eu só observava seu movimento parecendo uma pateta – É que estamos preparando o físico aqui na praia mesmo para o campeonato de surf que vai acontecer em Newquay – ele precisava mesmo se esforçar tanto?
— Você ainda surfa, legal – eu acompanhava com meus olhos suas mãos limpando meu ombro, até a me dar uma cutucada – É... Newquay né... – já estava constrangedor o suficiente, mas ele não parecia ligar.
— Sim, tenho ficado bastante por lá para treinar, as vezes venho aqui matar a saudade e dar uma ajuda ao meu velho – ele ouviu alguém o chamando e foi indo cada vez mais para longe, mas ainda virado pra mim, me olhando de cima a baixo, meu rosto não poderia arder mais – Bom te ver ! A gente se esbarra por aí.
E assim ele voltou a fazer flexões, polichinelos e levantar seu corpo na barra horizontal junto dos outros meninos bronzeados e sarados.
— Foi lindo ver sua postura de garota má se desfazer por completo quando viu ele – gargalhava e eu daria um soco nela, se não fosse minha amiga – Desde quando você fica sem graça perto de garotos?
— Sei lá – dei um soquinho em seu braço, a empurrando – Ele está totalmente diferente desde a última vez que o vi... Mais... Malhado...
— Nunca pensei que seu tipo era atleta, mas sim caras com jaqueta de couro preta que desdenham de qualquer gosto musical que não seja o deles – eu e andávamos em direção oposta ao grupo de pessoas se exercitando na praia, para evitar mais constrangimentos – Tipo seu irmão.
— Sua idiota – rimos – Eu não tenho tipo – Zac na verdade tinha uma pinta de bad boy por tocar violão e guitarra e gostar de bandas específicas, mas quando se tratava do campeonato Europeu de futebol, num instante ele virava um garoto inglês normal.
— Depois dessa cena eu realmente acho que não tenha – andávamos na areia segurando nossos chinelos – Obrigada céus por ter uma amiga tão gata que chama atenção dos gatos universitários – ela falava olhando pra cima. insistia em aumentar minha autoestima, mesmo que eu não entendesse o motivo de tantos elogios, eu era só eu mesma – Só deixa uns pra mim, sua tarada – ela me empurrou enquanto ríamos.
! – ouvi de longe alguém me chamar, semicerrei os olhos para tentar enxergar quem era.
, acho que está te gritando e – parou de andar e olhei pra ela que estava um tanto quanto assustada – Todos os meninos estão com ele... Vamos voltar – ri daquela cena da minha amiga desesperadamente pegando no meu braço e querendo voltar, enquanto eu tentava parar ela.
, o que foi? – finalmente consegui parar em sua frente e podia ver que chegava cada vez mais perto – Quem tem todos os motivos para não querer encontrar o e sua gangue sou eu!
— Tá com amnésia? – ela falava mais baixo, como se tivessem bastante pessoas prestando atenção na nossa conversa – ta com ele – a situação ficou mais engraçada quando consegui entendê-la – Eu fiquei com ele na nossa festa de formatura, para de rir sua otária – ela me deu um tapinha.
— Você tá com vergonha do ! – eu gargalhava e ela tentava disfarçar vendo que estava a um passo de nós – Nunca pensei que seu tipo fossem caras que tocam em bandas – repeti o que ela tinha dito para mim.
— Hey, fugitivas – um afobado apareceu na nossa frente – To um pouco fora de forma – ele colocou a mão no peito – Pra onde iam?
— A gente tava indo pegar uma praia – respondeu rápido – Daquele lado de lá – ela apontou para o lado oposto de onde estavam os meninos e eu não conseguia esconder a risada.
— Ah, fala sério – disse , já recuperado – Vocês terão bastante tempo para pegar praia.
— E o que você tem pra oferecer, ? – disse com os braços cruzados.
— Estamos indo numa trilha agora, topam?
imediatamente me puxou para um pouco distante do . A gente saía do colegial, mas o colegial não saía de nós.
— Acho que consigo disfarçar a vergonha que tenho do por um tempo, vamos? – nesse exato momento parei de rir – Ele tem razão, a gente pode pegar praia outro dia.
— Cadê aquela minha amiga que quer conhecer gente nova? E esquecer esses idiotas do colegial – cochichava com ela em um tom mais alto – Eu não quero ter que lidar com o acidentado!
— O que tem demais? Ele já até sabe quem você é...
— Alô, ladies balançava o corpo já inquieto com a nossa conversinha – É pegar ou largar.
— A gente vai – disse por fim e eu queria matá-la.
— Opa, então ótimo, acho que cabe todo mundo no bugre do se virou e começou a andar – Que comece a jornada!
Percebi que tinha presenciado um dos surtos da minha amiga, que passou de envergonhada-pimentão-vermelho para feliz-nuvem-cor-de-rosa. Já estava por dentro de que ela queria curtir totalmente o verão, mas achava que eu bastava e não precisava dos coleguinhas de escola, que inferno ! Eu poderia dizer que não iria e que voltaria para casa, mas certeza que ficaria sem graça de fazer atividades em que eu não estivesse junto, pelo fato de estar na minha casa, o que eu não acho nada a ver, mas minha amiga é cheia das nóias. Então lá fomos nós três, em direção a um grupo de gente que estava com vários coolers, caixa de som e bugres parados. Se fosse em câmera lenta, seria nessa sequência: a fadinha do pó pirlim pim pim, o amigo descolado retardado e a da cara fechada que pisava fundo na areia quase criando buracos. Garotas só de biquíni dançavam enquanto seguravam suas bebidas e não era nem meio dia. Meninos com uma sunga apertada sensualizavam em cima de seus bugres em plena luz do dia.
, me diz que eu não estou prestes a ir para um Spring Break junto de Selena Gomez, Ashley Benson e Vanessa Hudgens – falava enquanto olhava todas aquelas pessoas felizes e alcoolizadas – E me dê uma boa razão para ir.
— Antes fosse – ele lamentou – A razão é tchau escola e oi vida adulta – ele gesticulava como se suas palavras estivessem em um letreiro.
Coloquei a mão na testa não acreditando naquilo. Quando me dei por conta, minha amiga já estava também só de biquíni e com um copo de bebida na mão.
— Veja só se não é o pintinho amarelinho – aquela voz já conhecida por mim, me fez revirar os olhos. Respeita meu bucket hat! – Espero que você não esteja dirigindo um desses bugres, porque a sua descendência não traz muitos bons históricos de direção...
Por um simples motivo de atropelamento, achou que a gente deveria falar tudo que não falamos na época da escola, só pode ser isso.
— O que foi, Superman? – me virei para ficar de frente com ele – Se nem com a porrada de um carro você consegue virar pedacinhos, acho que vai precisar de outra – estava ainda com os resquícios de ontem. Sua testa estava vermelha ao redor do corte e alguns arranhões na bochecha, enquanto sua perna estava com uma pequena parte enfaixada por uma gaze com alguns curativos. Well done, mãe. Mas nada disso parecia interromper a curtição dele, pois estava com uma long neck na mão, vestia uma regata branca e shorts rosa, não estava nem aí para esconder seu corte na perna e fiquei pensando no que ele responde quando as pessoas perguntam como ele arranjou aquilo, “fui atropelado por uma doida e sua filha aloprada”.
— Sabe, eu poderia prestar queixa na polícia – não acreditava que ele estava falando isso – Dizer que quase morri por falta de atenção de uma motorista... Talvez sua mãe estava alcoolizada e eu não sabia – ele era tão cínico que me dava nos nervos, fazia questão de jogar na minha cara que poderia prejudicar a minha mãe quando ele quisesse – Tinha minha bicicleta como prova...
— Se você quiser eu dou motivos agora mesmo pra você ir na polícia prestar queixa – fechei minha mão em um punho e cheguei meu braço para trás, me preparando para um soco naquele rosto perfeitinho quando chegou.
— O que tá acontecendo aqui? – alternava seu olhar entre eu e – Vamos, está na hora.
ria, porque sabia que tinha conseguido me tirar do sério. Fomos andando em direção ao bugre preto e minha amiga já se encontrava lá, bem animada, sentada na parte de trás, dando tchauzinho para mim. — Amei você nervosinha – disse no meu ouvido e senti um arrepio. Meu primeiro reflexo foi dar um soco e dessa vez eu acertei sua barriga, ele se inclinou de dor – Aí! Violenta!
Sorri, enquanto colocava meus óculos escuros, estava feliz pelo fato de ter conseguido acertar alguma parte do seu corpo.
O dirigia, com do seu lado e atrás, espremidos estava eu, o , e . Minha amiga perdeu completamente a vergonha quando se tocou que estava nem aí. Já havia feito alguns trabalhos escolares com e , eles eram engraçados e bem legais.
Meu cabelo voava tanto, que tinha certeza de que quando chegássemos no local onde faríamos a trilha, eu estaria igual a um leão de tão embolado que os fios estariam. Parei para pensar naquele momento em que eu estaria indo para um passeio nada a ver com pessoas que nunca imaginei que estaria e que implorei para nunca mais ver depois da formatura.
Me segurava o máximo na barra do bugre, para não cair, já que estava em uma velocidade bem alta tentando acompanhar os outros bugres. Chegamos no início da trilha e descemos do veículo, já havia bastante gente por ali.
Comecei a andar naquele lugar cheio de árvores e mosquitos, não sabendo nem aonde ia parar, se o não tivesse me dito que no final teria um lago, eu com certeza pararia agora e voltaria para casa com ou sem . Cada passo era um tapa no braço ou na perna, tentando matar qualquer besouro ou aranha que aparecesse por ali, a única certeza que eu tinha era que ia chegar em casa cheia de mordida, só esperava não ser picada por nenhuma cobra. Não sabia como os meninos tinham tanta força de vontade de beber para carregar aqueles coolers pesados por tanto tempo, a animação não acabava nunca e todos pareciam estar bem felizes ao som de Hey Ya! do Outkast.
— Os mosquitos estão aproveitando – chegou com cuidado, certeza que tava com medo de levar outro soco.
— Fazer o que né – disse matando outro bicho que subia na minha perna – Melzinho que até eles querem provar – ajeitei meu chapéu para não voar outra vez e segui em frente.
— Posso saber o motivo da minha vizinha preferida estar sem nenhuma bebida? – parou do meu lado. O pessoal tinha decido dar um pause na caminhada.
, nesse momento eu tô trocando qualquer bebida por um repelente – falei me abraçando na intenção de nenhum inseto chegar em mim, mas falhei miseravelmente.
— Pra sua sorte – olhei pra ele esperançosa – Acho que tem alguém mais chato que você e que trouxe um repelente, o nome dele é Caleb, deve estar pra lá – dei língua para ele e saí na direção de onde ele tinha apontado para procurar o tal do Caleb.
tinha me dado as características suficientes para tentar reconhecer o menino, mas como conhecia há bastante tempo, tinha grandes chances dele ter se enrolado na hora de dizer corretamente os detalhes. Eu andava perguntando a todos ali se eles tinham visto o Caleb, sem ao menos saber quem era Caleb. Estava me desesperando e querendo matar o puto do . As pessoas me olhavam como se eu fosse uma estranha quando perguntava alguma coisa a eles e a cada segundo a mais eu estava odiando aquela caminhada. Só comecei a detestar mais quando vi encostado no tronco de uma árvore fumando.
— Me diz que você conhece algum Caleb – fiquei de frente pra ele.
— O que eu ganho em troca? – se ele fosse ficar de gracinha eu pegava aquele cigarro dele, apagava e ainda jogava o maço inteiro fora. Na verdade isso seria desperdício demais, talvez eu só roubaria.
— Ganha porra nenhuma , me responde logo – respirei fundo para não pirar, mas na verdade já era tarde demais.
— Não faz sentido pra mim responder algo que não vou ganhar nada em troca – mas é claro, eu esqueci que estava conversando com a pessoa mais egoísta de todo esse mundo. Dei um pisão no pé dele, que gritou feito uma menina – SUA LOUCA! Você vai ter que pagar pelo meu plano de saúde com all inclusive! Se depender de você e da sua família eu estarei morto em três dias! – ele estava histérico e eu me segurava para não rir.
— Me responde por bem ou por mal – coloquei minhas mãos em seu ombro, já perdendo a paciência e senti ele estremecer com meu toque – Onde tá o Caleb?
— Eu não conheço Caleb nenhum sua inconsequente – ele deu um trago – E fica longe de mim – ele fez um movimento para que minhas mãos saíssem do seu ombro – Antes que você quebre meu braço.
saiu andando para um canto e eu olhei ao redor vendo que não conhecia ninguém e nenhuma dessas pessoas tinha saído do local de partida comigo. Comecei a ficar desesperada porque não sabia como chegar até esse lago e nem voltar, já que passei a maioria do caminho lutando contra os monstros dos insetos que queriam me comer viva. Ao meu redor só tinham árvores, arbustos, grilos e mosquitos. Senti que me arrependeria muito daquilo, mas não tinha outra saída.
! – ele não parou de andar – Me espera! – fui atrás dele tendo certeza de que não estava fazendo a coisa errada – ! – tirei a intimidade de onde não tinha e o chamei pelo apelido, ele pareceu me ouvir e parou.
— Acha que depois de tentar me acidentar três vezes e ter conseguido uma, já pode me chamar assim? – ele virou-se e ficou de frente para mim.
— Fica tranquilo que quando a gente sair daqui eu vou fazer questão de não olhar mais na sua cara – falei e ele não pareceu se importar – Muito menos te chamar de – enfim cheguei perto – Agora só vamos sair daqui pra eu não ter que falar mais com você.
Ele começou a andar e eu esperava de verdade que ele soubesse para onde estava indo. Olhei para o céu achando que alguma coisa poderia me dar uma coordenada de onde ir, mas isso era o mesmo que acreditar em gnomos, só acontecia em desenhos. Talvez abraçar uma árvore e esperar alguém me encontrar seria uma ideia melhor do que ter ido atrás do . Eu estava sem relógio, mas poderia jurar que já havia se passado mais de vinte e cinco minutos, sem trocar uma palavra com ele e nada de chegar nesse maldito lago, já estava ficando cansada de andar e com bastante sede. Lembrei que tínhamos comprado água no Rhys e abri minha mochila para pega-la. Acho que até os insetos desistiram de mim depois de estar toda suada e nojenta. Sentei em uma pedra para beber a água e prendi o meu cabelo em um coque.
— O que você tá fazendo? – ele virou para trás, pela primeira vez.
— O que parece que eu estou fazendo? – além de idiota ele é cego?
— Não da pra descansar, levanta logo – ele parou, impaciente comigo.
— Você nem faz ideia pra onde está indo, fala a verdade, – além de beber, joguei um pouco de água no corpo para tentar me refrescar.
— Se você acha isso porque está me seguindo ainda? – ele botou um pé em um tronco caído e colocou o braço na coxa, apoiando o rosto em suas mãos... Nossa que gato e gostoso... Certeza que algum mosquito tinha saliva com propriedades alucinógena e eu estava delirando no meio de tanta fauna e flora.

’s POV

Bom, nada na minha vida acontecia sem um preço e eu estava pagando por ter falado com pela primeira vez. Mas confesso que está me saindo bem caro, porque já fui atropelado pela sua mãe, ela já me deu um puta soco no abdômen e pisou com toda força que ela tinha no meu pé direito, aquela garota estava me destruindo. era uma das meninas mais gatas de todo tempo em que vivi dentro de uma escola, apesar de ser uma pessoa que nunca tentei nada por motivos que não vem ao caso, eu a achava linda e com um corpo especial que fazia qualquer cara sonhar com ela. Nem minha ex namorada que fazia parte das líderes de torcida da escola conseguia ser mais perfeita que ela. Mas foi abrir a boca que eu vi o motivo de ela ser tão difícil de lidar. Ela tem uma personalidade forte que me tira do sério e quer mostrar a todos que estão no mesmo local que ela que ela está ali, tão ignorante na maioria das vezes, respondona mesmo, fala na lata e não ta nem aí pros seus sentimentos. Pareço um bosta falando de sentimentos, mas tenho estado um pouco emotivo depois do fim do colegial. Mas uma coisa que ela não faria seria me fazer de otário, achar que pode me tratar como trata qualquer retardado que tentava algo com ela na escola. Se ela fosse me odiar de graça, eu iria a odiar duas vezes mais, apesar de ser muito difícil quando ela fica na minha frente só com a parte de cima do biquíni e de shorts, jogando água no seu colo e deixando sua nuca a mostra. Eu tentava firmar a pose de quem sabia pra onde estava indo, mas tinha tanto tempo que não fazíamos essa trilha, que eu estava um pouco perdido. Não via a hora de chegar no lago, beber muitas cervejas com os caras e observar as belas meninas de biquínis, já que a que eu mais queria ver de biquíni era marrenta demais e me fez desistir sem nem tentar. Quando a ouvi me chamando pelo meu apelido, senti um arrepio na espinha que queria bater na minha própria cara para deixar de ser trouxa. Porém, se ninguém fez de trouxa, não seria agora que fariam, então , pode vir que eu tô pronto para revidar.
Vi pegar impulso e levantar rápido demais. Ela andou para a direita e quando percebeu que eu não a acompanhei, parou e se virou para mim.
— Vai vir ou não?
Notei que além do som dos pássaros, tocava uma música bem alta e foi esse barulho que ela seguiu até achar o tão esperado lago. Descemos por um caminho que tinha na lateral, até chegarmos ao lago e poder curtir a festa com a galera.
! – ouvi alguém a chamar assim que ela chegou e olhei pra ver quem era – Me falaram que estava procurando por mim – era o Caleb.
— Ah! Sim – ela olhava para todas pessoas que estavam ali, procurando alguém – Caleb, né? – ele fez que sim e a entregou o repelente – Muito obrigada, salvou meu bem-estar nesse lugar – eles riram.
— Hey, , tem um cigarro? – Caleb Champman, o cara mais amável de toda essa cidade, havia acabado de me entregar e como já esperado, me olhou chocada.
— VOCÊ CONHECE ELE? – ela berrou.
Era óbvio que eu sabia quem era Caleb, ele era o ícone de Brighton, mas não ia desperdiçar uns momentinhos a sós com ela. Já estava preparado para mais uma porrada vindo dela, mas fui salvo pela Jessie, minha ex. Bufei já imaginando o que estava por vir.

’s POV OFF

Enquanto estava sentada naquela pedra, pensando em como os primitivos descobriram o fogo, fazendo nada na floresta, escutei uma música, que na verdade tinha que fazer bastante esforço para ouvir. Mas aí, junto do som, escutei os gritos da farra e não deu outra, era sim o lago onde estavam festejando sem ao menos me esperarem. A minha vontade, ao chegar lá, era comer o como se fosse um bife, cortar e fritar na fogueira, só por ter me feito entrar nessa furada. Saí andando tão depressa para poder sair daquela situação, que esqueci do .
— Vai vir ou não? – olhei para trás, vendo um totalmente viajante.
Chegando na festa, eu só queria achar a minha amiga, já que não conhecia muitas pessoas, mas olhava ao redor e não a via. Tinha pessoas pulando no lago através de um cipó, outras faziam churrasco, dançavam, mas ao menos não tinha ninguém fazendo top less. Enquanto observava aquela gente um tanto quanto animada, ouvi alguém me chamar.
! – ele tinha o cabelo preto e cacheado, era bem magro, tinha uma barba um pouco falhada e uma pinta de gay, amei – Me falaram que estava procurando por mim – então ele era o famoso Caleb? Ele não faz ideia do tanto que o procurei.
Caleb confirmou que era ele e me entregou o repelente, passei pela minha pele na qual já estava toda melada, mas de qualquer forma não ia esperar para ver mais um mosquito gigante me picando, afinal, eu já estava com uma coleção de picadas mais do que suficiente.
— Hey, , tem um cigarro? – e foi nesse momento em que eu olhei pro , que ainda estava atrás de mim. Não era possível que ele havia feito isso.
— VOCÊ CONHECE ELE? – aquele filho da puta poderia ter me dado qualquer informação, se viu ou não o menino do repelente, como ele era para que eu pudesse o achar, mas ao invés disso mentiu bonito na minha cara, sem sombra de dúvidas que foi para me irritar.
Porém estava decidida de que tiveram estresses suficientes nessa trilha e que não iria ficar puta com mais nada. Mas vi a pessoa mais chata do colegial se aproximar e não pude acreditar que a tropa toda do ensino médio estava naquele lugar, era por isso que eu não achava a , ela certamente estava com algum conhecido da escola. Jessie MacGyver tinha cabelos loiros que tocavam seu ombro e era enjoada até no inferno, ela insistia em jogar piadas para mim durante todo o tempo em que estudamos juntas e eu como não conseguia ficar quieta, também retribuía com todo o amor. Para ficar completo, e Jessie eram o casal da morte, perfeitos um para o outro.
— O que essa estranha tá fazendo aqui? Em pleno verão, ? – ela retirava o esmalte das suas unhas.
— Não consegue me aturar no mesmo lugar que você né – eu realmente não fazia ideia que essa galera toda passava verão aqui – Pode dar a volta e ir embora quando quiser, também não quero te aturar – me virei para sair e pude perceber que estava atento em nossa conversa, certamente pronto para defender sua amada.
— Fica ligada, você é deplorável, – MacGyver gritou e eu já estava bem longe, isso evitou de que eu arrancasse aquele nariz de boneca dela.
O único projeto de namoro que tive, foi aos meus quatorze anos e descobri naquela época mesmo que a Jessie era apaixonada no menino, desde então eu fui odiada por ela pelo meu simples respirar, mas não gostar dela não é uma tarefa muito difícil, visto que ela faz de tudo para ser um pé no saco.
— Que foi, a MacGyver não suporta sua boa reputação nem aqui em Brighton? – havia finalmente aparecido, um pouco alcoolizada, mas nada demais, ufa – É, , já te disse que você atrai a atenção de todos e ela vai te infernizar até o inferno por isso.
Pois então avise a essa menina tosca que ela pode ficar com o ela quiser, contando que me deixe em paz, nunca quis criar uma guerra fria com ela mesmo. E mais uma vez a missão de “conhecer gente nova” estaria indo por água abaixo.
— Eu não tô dando a mínima pra ela – disse dando de ombros.
— O que você fazia com o ? Eu e o ficamos te procurando um tempão sabia? – obrigada pelo empenho, .
— Me lembra de chegar em casa e te matar, só isso – falei e ela riu, pegando no meu braço e indo até o cooler pegar uma bebida.
Provavelmente já era a tardinha quando a festa começou de verdade. Bebemos bastante cerveja, fizemos vários joguinhos com vodka e cachaça barata, o que não teria um bom resultado mais tarde. Entramos no lago e a água estava em uma temperatura ótima. Pude conhecer mais o e o , inclusive já achava incrível minha amiga ter ficado com ele. Me entusiasmava com os meninos quando eles falavam da banda e até convidou a gente para assistir um ensaio. pareceu entender e ficar quilômetros de distância de mim e aquilo fez meu dia fluir muito bem. Caleb, o repelente guy, era a pessoa mais porra louca que existia naquele local e se isso fosse uma escola, eu pediria para poder participar do seu grupinho de lunáticos, sem dúvidas. Minha cabeça estava pesada e minha língua dormente, mas mesmo assim me pendurei naquele cipó como se fosse o Tarzan e cai igual uma jaca podre no lago, espero que ninguém tenha filmado, caso isso tenha acontecido, eu mudo meu nome e problema resolvido.
Ficamos por ali até um pouco antes do anoitecer, porque passar por essas plantas no escuro, bêbados e largados seria uma tarefa bem complicada. Voltamos felizes, cantarolando alguma música e focando para não esbarrar em uma árvore inocente ou até mesmo em alguma planta venenosa... O medo maior era o querer provar uma delas. Na volta no bugre, fui na frente, já que não estava mais com a gente.
— Sã e salvos – disse parando o bugre na areia. Olhei pra ele com uma cara de “sério?” porque de sã nós não tínhamos nada – Chegamos ao menos – riu.
— Festinha na vizinhança, vamos nessa, piu-piu? – me abraçou, com a fala já arrastada e não consegui não rir.
Apesar de estar a noite, não tirei meu bucket hat, por puro estilo.
— Se você entrar no mar agora eu vou – disse pro que não levou cinco segundos pra ir correndo para a água – Me espera filho da puta – foi atrás dele e pulou em cima do , que o fez cair. Ficamos sentados na areia rindo daquela cena, uma festa agora não faria mal, né.

Capítulo 3

“A maior parte da nossa vida é uma série de imagens. Elas passam pela gente como cidades numa estrada, mas algumas vezes, um momento se congela, e algo acontece. E nós sabemos que esse instante é mais do que uma imagem. Sabemos que esse momento, e todas as partes dele irão viver para sempre.” (One Tree Hill)

’s POV

Se eu soubesse que aquela caminhada toda até o lago não me renderia uma tarde boa, nem teria ido. Jessie parece não entender o significado de relacionamento acabado, porque ela ficou o tempo inteiro pulando no meu pescoço como se eu fosse um prêmio de consolo, mesmo sendo o cara que terminou com ela. Por causa desse inesperado acontecimento, não consegui ficar perto dos caras e muito menos observar tudo que tinha pra ver com total atenção naquele lago. MacGayver ficava me arrastando para perto de suas amigas e antigos jogadores do time da escola, me senti no colegial novamente, só queria fugir naquele momento. Quando finalmente consegui sair de perto daquelas árvores e voltar para a civilização, já estava noite, o sinal do meu celular havia voltado e com isso recebi inúmeras mensagens, dentre elas, tinha uma do já bastante transtornado, pois escreveu bastante coisa errada, mas no geral deu para entender que era para eu ir à casa do , porque eles estavam fazendo uma festinha lá e pediu para levar cerveja. Belos parceiros, beberam a cerveja toda que tinha no cooler e ainda sou obrigado a levar mais, realmente eu estava bem arranjado de amigos.
Passei no quiosque do Rhys, peguei algumas bebidas e fui para a casa do . No momento em que entrei na rua do meu amigo, relembrei todo o acontecido com a e a sua mãe... Ri sozinho, não era possível que dentre todas as pessoas que habitavam Brighton no momento, tinha que ser eu o atropelado e escorraçado por elas. De forma alguma eu faria questão da bicicleta, até porque era da casa que eu e os caras tínhamos alugado, sem falar que já estava acabada e o freio não funcionava, mas o que for servir de argumento para implicar com a , eu faria e faria repetidamente, ela conseguia ficar mais linda ainda brava.
Entrei na casa do e tomei um puta susto com a quantidade de gente, as luzes estavam apagadas e um globo com várias cores iluminava a sala, não fazia ideia de onde essa merda surgiu. Onde estavam o Sr. e Sra. ? Eu tinha que estar muito sóbrio para estar pensando nisso, que merda. Fui caminhando vagarosamente para ter certeza de que não encontraria Jessie e sua tropa, já que essa menina grudou em mim igual a chiclete, ela obviamente descobriria onde eu estava. Assim que percebi que o caminho estava limpo para avançar, fui até a cozinha para gelar as bebidas e encontrei um casal se pegando fervorosamente. Parei e fiquei perplexo quando vi que era... A ? Mas que merda era aquela? Eu estava totalmente sem graça de ver aquela cena desagradável, nem eu entendia o que estava acontecendo. Como algum filho da puta consegue dar um amasso nessa otária sem fazer com que ela esmurre ele? Não era possível que existia alguém capaz conseguir isso... E de quebra eu assisti tudo.

’s POV OFF

Não havia dúvidas de que nós cinco havíamos perdido o controle da situação.
Chegando na casa do só conseguíamos rir e tudo piorou quando tomamos vários shots de cachaça velha com gosto de guardada do Sr. , porque o cooler que zeramos ainda na praia não era suficiente, nosso fígado reclamava, mas nossa mente pedia por mais. A coisa ficou maluca de vez quando mandou mensagem para todos do colegial e a casa foi lotando aos poucos, com pessoas de todos os cantos, porque um ia comunicando o outro que virou algo fora do normal, mas estava bêbado demais para ligar e se importar com vizinhos. Foi quando me dei por conta de que a vizinha do era eu e quem estava escutando essa porra toda eram meus pais.
— Você não acha que pode dar merda? – perguntei pro falando alto para que ele me escutasse – A vizinhança pode reclamar – ele deu de ombros, pegou uma garrafa de vodka e saiu.
Daí foi ladeira a baixo total. Eu e tomamos severas doses de tequila e chupamos limão, que provavelmente outra pessoa já tinha chupado, mas nada disso importava, era o que tinha e fim. Delicioso. Sentia meu corpo mole, minhas pernas dormentes e tudo era graça. Fazia tempo que essa sensação de bêbada para dez bebuns não me acontecia. Olhei para a porta e semicerrei os olhos para ver se era quem eu achava que era. James, bingo! Mordi o lábio quando percebi que ele vinha em minha direção e não sabia bem o que fazer nem falar.
— Oi – ele deu um sorriso gigantesco e me abraçou pela cintura, o choque corpo a corpo foi tão forte que deixei meus dedos perderem a força e soltei o copo, fazendo ele cair no chão, mas James pareceu não ligar pro o líquido que espirrou em sua perna – Você tá bem? – fiz que sim e cheguei mais perto, sentindo seu perfume... Ok, cheiroso... Talvez demais.
— Como foi o treino hoje? – eu tentava me concentrar nas palavras que saiam da minha boca, mas aquele homem era de perder o fôlego.
— Bem proveitoso – Evans deu alguns passos para trás – Tenho que estar em forma para o campeonato.
— Não acho que isso será um problema... – não consegui esconder o sorriso e percebi que ele ficou um pouco sem graça – A última lembrança que tenho de você é da noite das misturas loucas do seu pai naquele quiosque!
— O dia em que estava eu, você e seu irmão? – ele riu – E você passou mal pra caramba, ! – coloquei a mão na testa, decepcionada comigo mesma por ter ficado naquele estado – Meu pai ficou bem preocupado com você nessa noite.
— Até parece que com toda aquela bebida que Rhys proporcionava para gente ele esperava que eu não botasse tudo pra fora – rimos – Ah qual é, ele misturou rum com refrigerante de uva! – fiz uma careta lembrando daquela bebida horrorosa.
— A saudade tá grande, mas tenho que fazer essa entrega e voltar para o quiosque – só então que percebi que James carregava uma sacola lotada de bebidas e vestia uma blusa que dizia “disk bebidas do Rhys Evans” – Onde fica a cozinha?
— Por aqui.
Fui caminhando com o James até a cozinha, o observei calmamente colocando todas as bebidas no congelador e deixando a sacola vazia. Eu estava pegando fogo e parecia que estava rolando uma festa de hormônios dentro de mim, que estavam me deixando descontrolada. Não sabia se era porque eu estava de frente para um universitário com pinta de surfista super gato ou porque eu estava atraída pelo James Evans por completo. E mais uma vez eu havia perdido o controle da situação, porque eu não sabia como me mover ou o que fazer nesse momento, já que em toda a minha vida nunca passei por tal cenário de decisão. Talvez eu me arrependeria do que estava prestes a fazer, mas a minha família já me chamava de inconsequente mesmo, então não faria diferença.
Depois de fechar a porta do congelador, James se virou para mim e coloquei minhas mãos em sua nuca, chegando cada vez mais perto, indiciando o que estava prestes a fazer. Ele pareceu não recuar e me fitava sem entender bem o que estava acontecendo. Quando meu nariz finalmente tocou com o dele, ele colocou suas mãos em minha cintura, me puxou para perto e me beijou.
Nossos corpos estavam ficando quentes quando escutei um pigarro vindo da porta da cozinha e pulei de susto, saindo de perto do Evans.
? – há quanto tempo ele estava ali?
entrou para a cozinha e foi guardar as bebidas, ignorando minha presença e a do James.
Senti meu rosto queimar de vergonha e toda sobriedade que eu não tinha surgiu em três segundos. Evans saiu bem depressa da cozinha, não deixando nem que eu falasse algo e esbarrando com o na porta.
— O que foi? – olhava para mim e pro – O cara não esperou nem que eu pagasse as bebidas!
já fez isso por você – era mesmo um filho da puta – E ainda garantiu um cupom pra pegar outras bebidas lá – ele sorriu e eu dei o dedo do meio para ele.
Sai correndo para ver se ainda alcançava o James.
Quando cheguei no portão vi a caminhonete, que também tinha a logo do Rhys, partindo. Respirei fundo não acreditando naquela situação toda e ciente de que foi extremamente desnecessário, mais uma vez, até porque ele não perdia a oportunidade de me infernizar. Custava ver a cena e ficar quieto ou sair e voltar depois? Idiota.
— Que noite, hein, irmãzinha – levei um susto quando ouvi Georgina falando comigo. Ela estava sentada no banco de madeira que havia em frente a nossa casa – Não é novidade que você ta metida nessa festa, que inclusive – ela olhou no seu relógio – Deve estar prestes a acabar porque muita gente já reclamou.
— Não enche, Georgina – aquele dia já estava de bom tamanho, não queria mais voltar para a festa. Abri o portão de casa, entrei e fui direto para meu quarto.
Tudo que eu queria era que a minha cama me engolisse, não me deixando sair dela nunca mais. Fechei as cortinas para ter certeza de que amanhã aquele quarto ficaria bem escuro, mesmo com as frechas de raios de sol que insistiam em entrar. Queria ser uma morcega em pleno verão e não sair da minha toca jamais. Mandei uma mensagem para a minha amiga avisando que já estava em casa e lembrando a ela que eu morava ao lado do , vai que ela esqueceu né. A última coisa que queria agora era indo parar em outra casa.

Acordei sendo esmurrada e não conseguia abrir os olhos. Tinha um travesseiro batendo em mim repetidamente, estava louca, certamente.
— SUA IDIOTA – sentei na cama protegendo meu rosto – QUAL SEU PROBLEMA?
— SUA VACA – linda troca de amores logo cedo – Você beijou o barman gato surfista e fugiu da festa? – berrava e não parava de me bater com o travesseiro. Ela estava com uma toalha cobrindo seu corpo e outra na cabeça, certamente tinha acabado de sair do banho.
Eu sentia as porradas dentro da minha cabeça parecendo que o Big Ben inteiro estava ali. Obrigada tequila, por me proporcionar essa ressaca fodida.
— Que... Que horas são? – olhei em volta do quarto como se aquilo fosse me dizer alguma coisa, mas eu estava confusa demais com toda aquela gritaria logo cedo.
— Não interessa, cinderela! – ela abriu as cortinas.
Peguei o travesseiro que estava usando para me bater e coloquei sobre meu rosto, voltando a deitar e quase me sufocando. Ela estava fazendo o favor da boa amiga de me lembrar tudo que havia acontecido na noite passada e não parava de tagarelar um segundo.
— ... E ouvi o dizendo que você tinha dado bebida grátis para todos, aí que fui entender o drama que o tava contando antes.
é um fodido! – gritei e o som da minha voz saiu abafado por causa do travesseiro.
, você beijou o James – ela arrancou o travesseiro de mim, vaca – Você já deu um super start no verão!
— Beijei e o menino saiu correndo como se tivesse beijado a boca mais fedida e cheia de bafo da vida dele – levantei para fechar as cortinas – Parecia que ele tinha beijado a bruxa da branca de neve.
— Conto de fadas errado – ela riu – Quer dizer então que na verdade a cinderela foi ele?
começou a rir desesperadamente e eu não consegui me controlar para não rir. Aquela história tinha que ser no mínimo patética e óbvio que meu nome estava no meio. Pior ainda, era mais que claro que eu tinha iniciado toda essa aventura, porque ela terminava em tragédia.
— E o sapatinho foram as garrafas de vodka deixadas para trás – era o único jeito de lidar com aquela história, fazendo piada – Mas você não podia esperar eu acordar devidamente para me perguntar isso?
— Sua mãe que me pediu para te acordar... Eu só aproveitei a ocasião – joguei o travesseiro nela – Aí! O motivo, não se se você já sabe, mas é que você tá atrasada pra se arrumar para a grande festa!
Eu podia ver a alegria da ao falar da festa. Eu tinha totalmente esquecido que a festa da Georgina... Quer dizer, da minha mãe, era hoje. Afundei minha cabeça no travesseiro não acreditando que teria que vestir algo decente, cumprimentar pessoas e beber drinks como se meu estado de espírito estivesse ok, mas ele não está nada ok e eu só queria ficar dentro desse quarto até o fim do verão. Olhei no meu celular e já havia passado do meio dia, provavelmente eu estava mais para bela adormecida. Não demorou muito para Maggie abrir a porta, cheia de rolinhos no cabelo, vestindo um roupão branco, já com um drink na mão. Parecia um casamento e era só uma festa na praia. Mas na verdade eu sabia lá no fundo que as festas de Margareth nunca eram SÓ uma festa. Aí minha irmã decidiu se juntar e certamente isso virou um baile de gala. Espetacular. Não sei porque, mas sentia que eu ia virar uma milady em questão de minutos, precisava manter minha dignidade de algum jeito, não podia deixar minha mãe me transformar numa boneca.
— Pronta pro circo? – perguntei e ela me olhou com desgosto. Eu e rimos.
— A única palhaça é você de ainda estar assim – ela me olhou e dei um sorriso debochado pra ela – Vai se arrumar, minha filha, a festa é daqui algumas horas – Maggie foi até a janela, abriu as cortinas e a porta que dava para a sacada – Olha como o dia está lindo!
Não tinha dúvidas de que minha mãe viu o gnomo com o pote de ouro no final do arco-íris.
— Francis está lá embaixo aguardando para arrumar você e a – ela olhava para o jardim – Agilizem, nossa festa é sunset! – Maggie abriu um sorriso de orelha a orelha, ela era apaixonada por festas, cruzes!
— Cadê sua filha favorita, Georgina? – vai que ela decide encher o saco da minha irmã e não o meu.
— Como você ousa dizer que ela é minha favorita? – ela parecia indignada e vê-la assim me fazia rir, ela era uma peça de comédia all the time – Eu amo vocês três igualmente – Maggie deu um gole na sua bebida – Ela já está no local dando os últimos retoques.
Georgina sempre muito perfeccionista, claro que já estava lá deixando tudo do jeito que ela queria.
— Mãe, eu não preciso de alguém pra me pintar, nem pra pentear meu cabelo, que é algo que sei fazer com minhas próprias mãos – disse já prevendo o esporro, mas pelo contrário, Margareth riu.
— Nem sob meu cadáver você aparece na nossa festa com essa olheira da festinha de ontem – já tava ruim lembrar de ontem e agora minha mãe também sabia que eu estava lá? – Inclusive, Holland me disse que queria matar o quando entrou dentro de casa e viu o estado em que estava – a Sra. deve ter chorado com o que restou da sua casa, coitada – Se você me apronta uma dessas eu nem sei, acho que te mando pra Austrália pra morar com seu tio.
— Você não ficaria sem mais um filho por perto – brinquei, mas percebi que foi pesado demais quando ela fechou a cara. Falar do Zac é sempre um assunto difícil.
, querida, já que você tomou banho, desce e adianta com o Francis – minha mãe se virou e foi em direção a porta – E, , não me desaponte.
Pude sentir na minha mãe, no momento em que fiz o comentário importuno, a dor de não ter seu filho com ela ali e acabei pensando no Zac e como ele devia estar se virando. Veio saudade misturada do medo de nunca mais ver meu irmão. Pela primeira vez em algum tempo, tive vontade de obedecer minha mãe e fazer suas vontades, porque apesar da rebeldia de Zachary, ele sempre apoiava minha mãe em todos seus projetos, afinal, meu irmão batia carteirinha em todas as festas, não ia ser nas comemorações da minha mãe que ele não iria aproveitar.
colocou uma roupa e desceu, ainda com os cabelos molhados e eu fui pro banho. Não demorei muito para ir de encontro ao Francis.
— Francis Bacon – abracei o melhor maquiador de Brighton, palavras de Georgina , deixando claro – Que saudade!
Darling! Quando eu for alguém tão importante quanto Francis Bacon, deixo você me chamar assim – ele me sentou na cadeira e deitou minha cabeça para que pudesse começar a paparicação – Vamos rápido antes que dona Maggie arranque minhas perfeitas sobrancelhas.
Francis não demorou muito para fazer uma make leve em mim e ondular as pontas do meu cabelo. Podia até ser pintada como a minha mãe queria, mas o mínimo que eu podia fazer era ter o direito de escolher não passar muita coisa no rosto. Já não ouvia mais barulho na casa e entendi que todos já estavam na festa. Fui no meu quarto rapidamente e coloquei meu vestido. Estava fechando o zíper quando ouvi uma buzina. Desci as escadas sem conseguir imaginar quem minha mãe tinha pedido para vir me buscar e encontrei a belíssima da minha amiga na sala.
, você está radiante! – disse, mas ela nem prestou atenção, pegou na minha mão e me puxou, parando na porta.
— Toma, coloca isso – me entregou um lenço de seda, que por incrível que pareça combinava com meu vestido.
— Mas pra quê? – não conseguia entender a necessidade de um lenço, até que ela abriu a porta e vi o bugre preto do com o no volante, buzinando.
— Sua mãe te mata se você chegar lá com os cabelos pra cima – ela amarrou o lenço na minha cabeça e deu um sorriso – Você tá tão linda!
Sentei ao lado do , enquanto foi com o atrás. Faltavam algumas horas para o pôr do sol e o dia estava realmente lindo. Quem me olhava agora nem imaginava que eu estava igual a uma morcega a horas atrás e sem querer levantar da cama.
! Que bom que você está vivo! – olhei para ele e ri.
— Sua otária – ele riu – Eu vou ter que trabalhar por anos para poder pagar aos meus pais tudo que destruí. E hoje eu vou ficar só na água, prometo – um homem ressaquiado prometia coisas que ele não poderia cumprir, isso é fato. Não dou duas horas pra ver o com uma bebida na mão.
Coloquei meus óculos escuros e deu a partida no carro. Depois de alguns segundos a ficha de que o estava ali, pronto para a festa, caiu. Pesquisei em todas as minhas memórias de como o conhecia minha família e nada me veio... Eu não queria mesmo era pensar no óbvio, que além do e , os outros dois estariam lá. E tudo bem o e o irem, mas eu pedia para todos os santos pra que o não fosse também. Isso tem dedo do , certeza.
Quando cheguei na beira mar e encontrei várias tendas brancas na areia, luzinhas amarelas de um canto a outro, várias mesas redondas espalhadas, um bar bem decorado e um palco considerável no meio da festa com o DJ tocando, tive a certeza de que o trabalho que a Geo e a minha mãe tiveram com essa festa antes mesmo de chegarmos a Brighton, tinha valido a pena, porque ela estava linda. Descemos do bugre, tirei o lenço, os óculos, demos nossos nomes e passamos pela segurança que havia na entrada. Minha mãe logo me sequestrou para poder cumprimentar vários amigos dela e do meu pai, mas antes consegui pegar uma taça do champanhe que estava passando na hora.
— Lindo vestido, filha – Maggie elogiou, me olhando por completo – Você e esse seu bom gosto de stylist.
Eu podia ser irresponsável e não sentir muita vontade de me divertir as vezes, mas quando se tratava de sair de casa e escolher algo para vestir, eu não falhava jamais, amava meu gosto para roupas e não era a única, pois sempre recebia elogios. Até mesmo no colegial eu dava um jeito de personalizar o uniforme, mas não igual daquelas patricinhas que tacavam pérolas e lacinhos em todas as partes. Minha personalidade de certa forma era forte e única. Meu pai dizia “jeitinho de ” e era mais ou menos isso.
Dei o último gole do champanhe e fiz bico, vendo que tinha acabado. Na mesma hora passou um garçom servindo martini e corri para pegar um. De relance, no fundo da festa, vi e quis me matar por ter o olhado na mesma hora que ele me olhou e termos trocado olhares. Quando percebi que ele vinha em minha direção, me virei rapidamente, mas não deu muito certo.
— Se eu disser que você está muito bonita, você me bate? – tive a certeza que meu rosto pegou fogo pela ardência que sentia, de tanta vergonha.
Fiquei bem chocada com aquele comentário vindo dele, mas não deixaria transparecer. Me virei para vê-lo, já recomposta e vi como o babacão do estava gato, ainda mais com os óculos escuros aviador preto.
— Não aceito elogios de idiotas – dei um gole do meu martini – O que você tá fazendo aqui, ?
— Sabe... Depois de nos vermos esses dias seguidos, da sua mãe ter me atropelado e ontem ver aquela sua cena íntima – ele deu uma risadinha, estúpido – Acho que você já pode me chamar de – ele bebeu um pouco do whisky que tinha em seu copo – O colocou a gente aqui, ele não vive sem nós, você sabe.
Revirei os olhos confirmando o que eu já esperava.
— E como sua irmã é muito gente boa, bem mais que você, inclusive – agora ele conhecia a Georgina também? Ele estava passando dos limites – Ela não ligou de adicionar mais uns caras bonitos na lista de convidados.
— Não espere nem nos seus melhores sonhos eu te chamando de – disse ríspida e saí.
Senti ele me segurando pelo braço e chegando perto do meu ouvido.
— Meus sonhos com você são outros – ele soltou uma risada. Me virei e cuspi em seu copo, mas o panaca continuou rindo – Se ficar bravinha eu curto mais! – ele gritou, pois já estava longe.
achava mesmo que podia me fazer ficar com cara de pamonha a hora que ele quisesse, mas ele só me fazia sentir ódio daquela cara de príncipe da Disney. Um momento para me tirar do sério não era um momento qualquer, era a chance que ele tinha de achar que eu era tonta por ele igual as menininhas da escola. Mas não era possível que ninguém enxergava que atrás daquela carcaça que ele tinha, havia um ignorante, rude e atrevido. Não sentia o menor prazer de tê-lo por perto, será que era só eu?
Fui em direção ao bar para pegar uma gin tônica e pude ver alguns caras descarregando bebidas pelos fundos. Cheguei mais perto e vi o James pegando a última caixa de engradados e avisando ao motorista que já podia ir. Ele carregando aquele peso, que provavelmente não era nada para quem fazia exercícios contínuos na areia, e os músculos do braço contraídos pela força que realizava, era um físico e tanto! Quando percebi que estava o observando descaradamente, sem ele ao menos perceber, quis me enfiar em um buraco lembrando da noite passada e por estar me sentindo enfeitiçada por esse menino, que como a minha própria amiga disse, nem eu sabia que fazia meu estilo. Cheguei mais perto, mas ele nem me deu bola, continuou tirando as garrafas cheias do depósito e depois colocando as vazias no lugar.
— Hey, fugitivo – o medo dele me ignorar era grande e eu nem imaginava o motivo.
! – ele limpou as mãos com um paninho que tinha ali perto e se levantou – Não vou te abraçar, estou bem sujo – ele deu um sorriso envergonhado.
— E por que você não está na festa se divertindo com a gente? – perguntei me virando pra trás para ver a movimentação e não havia muitas pessoas em nossa volta.
— Foi mal... Meu pai precisava de uma ajuda extra, já que muitos funcionários tiveram que vir pra cá trabalhar hoje – sentia que ele estava desconfortável com aquela conversa – Sobre ontem... – o interrompi.
— Não! – levantei a mão fazendo sinal para que ele parasse – Eu tenho que te pedir desculpas, agi de forma irracional, não devia ter pulado em você daquela forma – e mais uma vez eu sentia meu rosto aquecendo aos poucos, que vergonha de ser !
— Quer dizer então que não foi bom? – Evans sorriu e eu não consegui esboçar algo, pois não esperava essa reação dele – Porque eu gostei bastante do nosso beijo – o que estava acontecendo com os homens daquela festa? Não tinha dúvidas que de vermelha fui para roxa.
— Por que você saiu correndo então, seu infeliz? – ele riu – Parecia que tinha ficado traumatizado com a doida, que no caso sou eu!
James chegou mais perto e colocou sua mão em meu queixo. Eu me segurava para não ficar desestabilizada.
— Só não era o local apropriado... Nem com pessoas apropriadas à nossa volta – ele foi falando lentamente enquanto fazia carinho no meu queixo e me olhava – Mas não me pede desculpas por algo que nós dois curtimos – James me deu um selinho e foi em direção ao bar – O verão é enorme, !
Eu estava toda desconsertada com aquele toque, mas tinha certeza que eu era mais do que essa emoção, então não podia deixar ele me abalar assim, não é só porque ele é surfista e extremamente legal que posso ficar boba com um selinho, parecendo que tenho treze anos. Fiquei parada no mesmo local por alguns segundos, tentando entender minha trajetória de ontem para hoje, mas estava sendo uma missão complicada e cheguei a conclusão de que era melhor nem pensar.
— Minha irmãzinha está derretida igual manteiga pelo entregador de bebidas? – dei um pulo quando Georgina chegou. Olhei para minha irmã que estava incrivelmente linda, fina e elegante – Você sabe, né, se o Zac tivesse aqui ele colocava o pequeno James para correr em dois segundos.
— Georgina, eu tenho cara de catálogo de decoração pra você ficar atrás de mim? – fui andando, mas ela veio atrás, insuportável – Você e o Zac não tem nada a ver com o que eu faço ou deixo de fazer!
— Quando se tem uma irmã mais nova inconsequente igual a você, cada passo seu pode ser um tiro no pé de todo mundo – ela não me dava um descanso nem na própria festa.
— Você não tem um noivo pra cuidar ou algo assim? – senti que fui no ponto certo quando a ouvi suspirar – E outra, como você ousa adicionar os amigos do na lista sem nem ao menos me consultar sabendo que estudei com todos eles e poderia ter uma opinião sobre? – Georgina riu.
— Se eu dependesse de você para fazer alguma coisa relacionada a esse evento estaria ferrada – ela colocou as mãos na cintura – Por que? Vai me dizer que tem briguinha com um deles ou melhor – Geo fez uma cara de quem tinha descoberto algo muito interessante – Está apaixonada por um deles! – nesse momento eu desisti de conversar com minha irmã.
— Ai, Georgina, vai ver se tem algum convidado querendo puxar seu saco e me esquece!
Saí de perto dela de vez indo para um lugar mais reservado da festa, onde tinham pouquíssimas pessoas. Talvez a ideia de ficar no meu quarto o dia inteiro parecesse a mais ideal agora.
De longe vi o Caleb, o menino do repelente e era oficial, Geo tinha convidado todo mundo, estava esperando a hora de encontrar a rainha e toda sua realeza.
— Caleb Chapman! Que honra tê-lo nessa festa – ele estava fumando algo que tinha um cheiro único – Isso é maconha?
Com toda sua personalidade, era óbvio que ele estava fumando maconha, como eu era tola. Ele me olhava como se não houvesse nada novo sob o sol.
— Se minha irmã te pega com isso, ela te coloca pra fora na hora! – ele continuava não ligando para minhas intervenções.
— Quer? Você tá parecendo estar muito tensa, nervosa, xô coisa ruim! – ele me ofereceu e hesitei por alguns segundos. Na minha cabeça o cigarro era ok, mas maconha?
Ele insistiu e eu peguei. Olhei para o lado para ter a certeza que Margareth não me visse fazendo isso, ou ela me mandava para a Austrália de vez, e dei um trago. E mais um. Depois outro. Ficamos ali por bastante tempo fazendo aquilo, até eu perceber que o sol ia se por. Fui sozinha, já descalça, para mais perto do mar, mas não sem antes pegar uma cerveja long neck no bar. O céu estava lindo, não sabia onde tinha deixado minhas sandálias, mas não estava nem aí, o sol estava se pondo. Era um momento só meu e foda-se todo o resto. Eu estava sentada na areia sem pensar se poderia ou não sujar meu vestido. Sentia que meu corpo flutuava enquanto olhava para aquele oceano infinito. Como eu queria estar com Zachary agora e desejava que em qualquer lugar em que ele estivesse, que estivesse bem e feliz, pensando na gente assim como eu pensava nele todos os dias. Tudo podia parar naquele exato momento e fazer uma pintura da minha vista, tinha certeza que o pintor não se arrependeria, estava lindo. De longe escutava a música da festa que estava abafada pelo som das ondas batendo. Pela primeira vez desde que cheguei aqui, me sentia agradecida e feliz. Ali eu era só a , a menina que não estava preparada para passar o verão sem o irmão, mas que acabou vindo e agora percebeu que tem que aproveitar a última chance de não ser uma completa adulta com responsabilidades, porque lembrei que após as férias, meu mundo seria outro e eu não estava preparada para aquilo. Meu pensamento estava longe quando alguém sentou ao meu lado.
— Vim em paz – olhei pro sentado na areia e comecei a rir – O que foi? – ele sorria.
— Não é possível, – eu gargalhava – Você de novo, cara? O que eu vou ter que fazer pra você sumir? – parecia menos engraçado do que eu estava achando, mas ainda sim eu ria.
— Eu não vou me distanciar porque você quer, sua doida, eu fico onde quero e agora eu quero tá aqui – ele me encarava enquanto eu observava o mar.
— Olha a extensão desse mar e dessa areia – fiz um gesto apontando a praia de ponta a ponta – E você vem sentar bem do meu lado! Sai! – o empurrei, fazendo ele cair na areia, o que me fez rir mais ainda.
— Você não perde a chance de me apunhalar – ele também ria – , você tá chapada? Não acredito – percebeu que não era tão engraçado assim e que a minha felicidade vinha de outro lugar – Você tá chapadíssima!
esqueceu que eu tinha o empurrado e o sujado todo de areia e ria incontrolavelmente comigo. De repente até a gaivota era engraçada.
— Faz um pedido – peguei uma concha que achei na areia e coloquei na palma da minha mão. me olhou sem entender – Vai logo, imbecil!
— Que o McFly faça muito sucesso – uau, um desejo profissional, bem colocado – Agora você – ele virou a concha que estava na palma da minha mão. O olhei pra ter certeza que queria mesmo saber o que eu almejava. Vi o pedacinho do sol que estava prestes a ir embora e fechei os olhos.
— Que você suma agora e não apareça mais – rimos e ele me olhou com uma cara de “fala sério” – Tá bom, agora um segundo desejo – abri um olho para vê-lo e ele estava sorrindo – Que esse verão seja inesquecível – riu.
— Que clichê – ele fechou meus dedos, deixando a concha nas minhas mãos.
— Cala a boca – sorri – Você que é o clichê em pessoa e pra sua informação eu sou contra todos os clichês da vida, até porque não tem como esse verão ser inesquecível sem uma das pessoas mais importantes pra mim aqui – suspirei – Eu só não tinha nada em mente.
Levantei e dei umas batidas de leve no meu vestido para tirar o excesso de areia. Bebi o resto da cerveja que tinha e me agachei para falar com o .
— Ninguém precisa saber disso aqui viu, – dei duas batidinhas em seu ombro, o entreguei a concha que estava na minha mão e sai.
— Até que você sabe conversar quando quer, ! – ele gritou e eu me virei, colocando a mão na testa para tapar meus olhos do sol e tentar vê-lo. Sorri e saí.
Cheguei na festa com toda afobada.
— Onde você estava? Sua mãe está te chamando lá – ela apontou para o palco onde estava meu pai, Maggie e Georgina.
Olhei para o palco e minha mãe acenava para mim sem parar e meu pai fazia sinal para que eu fosse até lá. Apesar de achar totalmente desnecessária a minha presença naquele palco, fui até onde eles estavam, tentando esconder minha vergonha. Margareth já fazia seu discurso de anfitriã enquanto eu me posicionava ao lado da Geo.
— Essa festa é um símbolo para a minha família, é o que nos representa, pois devemos sempre celebrar a vida, comemorar o verão e a felicidade de estarmos todos juntos aqui. Olho para vocês e vejo pessoas importantes para nós e é isso o que nos mantém unidos – ela olhou pro meu pai e sorriu – Nunca saberemos o dia de amanhã, e se podemos festejar enquanto somos meros terrestres nesse planeta terra maluco, por que não né? – as pessoas riram – É um prazer recebe-los e estar na companhia de cada um de vocês, viva a vida! – Margareth já ia saindo, mas voltou rapidamente para o microfone, toda desengonçada, certamente eu era filha daquela mulher – Ah! E não é porque o sol se pôs que a festa acabou! Pelo contrário, solta o som DJ!
Descemos do palco e vi Maggie vindo em minha direção.
— Obrigada por estar aqui, minha filha – ela me abraçou – Sei que você não gosta dessas invenções que a sua mãe tem, mas eu te amo do mesmo jeito – ela estava bêbada? – Meu coração está quebrado e sentindo muito a falta do seu irmão aqui, porque vocês três são meus tesouros!
— Mãe – desvencilhei do abraço para que ela me olhasse – Eu também te amo, apesar de você achar que não às vezes – sorri e escorreu uma lágrima dela – E tenho certeza que o Zac está com muitas saudades da gente e quando você menos esperar, ele já está aqui de volta.
— Vem, querida, nossa música – Christian chamou minha mãe e ela me deu um beijo na bochecha e saiu.
Fui para a pista de dança e vi os dois dançando Coming Around Again da Carly Simon e me veio lembranças de quando era criança. Eles sempre dançavam essa música, diz eles que quando eu era um bebê e tinham duas crianças pequenas para cuidar, tudo parecia que não ia dar certo, que muitas vezes tiveram medo, mas nunca desistiram e hoje têm orgulho de tudo que conquistaram, da educação que nos deram e o que nos tornamos. Após dançarem, percebi que a festa virou completamente deles quando em seguida começou a tocar Bonnie Tyler e minha mãe deu gritinhos de felicidades rodopiando na pista com meu pai. Ri daquela cena e como era bom vê-los felizes com amigos em volta. Peguei mais um drink e fui para perto dos meninos, onde também estava a .
— Essa a gente tem que dançar! – disse colocando a cerveja na mesa mais próxima quando começou a tocar outra música.

Para bailar la bamba para bailar la bamba se necessita una poca de gracia


veio em minha direção, com a cerveja na mão – sabia que ele não ia aguentar – cantando e dançando, esticando a mão para me chamar pra dançar com ele. Eu ria e fazia com que não, mas era tarde demais, todos já estavam perdidos ao som de Ritchie Valens. pegava na minha mão, me fazia girar e eu não tinha noção que precisava me divertir com essa música até me fazer divertir com ela.
— Adorei seu espanhol, vizinho! – disse pra ele, que riu.
— As garotas gostam mais da lábia espanhola – o comentário do não fez o menor sentido, mas mesmo assim ri.

Yo no soy marinero yo no soy marinero soy capitán


Vi minha amiga dançando com o e tive certeza que ela não tinha mais vergonha alguma.
Arriba ,! – gritei pra ela que rodopiava com o .
e competiam quem fazia o pior passo, nos fazendo parar de dançar para rir daquela competição tosca. Depois de algum tempo o Caleb chegou para trocar ideia com a gente e ficou por ali, bebendo e dançando conosco. Já estava a noite e o céu nos presenteava com muitas estrelas lindas e uma lua crescente impressionante. O pique não parecia acabar e apesar de alguns convidados já terem ido embora, meus pais continuavam dançando. Georgina ainda sorria, falava com algumas pessoas e nós sete ainda estávamos com a meta de acabar com toda a bebida da festa.
— Não se esqueçam da minha festa no barco – Caleb disse e eu o olhei assustada, mais uma festa? – O que foi? Eu já te disse isso, , ficou esquecida de tanto fumar? – fiz sinal para que ele parasse de falar, mas ele não entendeu.
— Fumar o que, ? – era exatamente o sermão da que eu estava tentando evitar.
— O Caleb que tá com os neurônios destruídos de tanto fumar, ignora ele – disse pegando a garrafa de champanhe que tinha ali na mesa e bebendo no gargalo. não engoliu a história, mas fingiu que tinha engolido.
— Chapman, meu fígado não aguenta mais – colocou a mão na barriga e jogou a cabeça para trás, fazendo um belo drama.
, ninguém te obriga a beber, lindinho – Caleb disse pegando mais um cigarro, colocando na boca e acendendo.
— Não liga pra ele – sentou perto da gente – Ele fala isso, mas é o primeiro a aparecer.
Ficamos mais um tempo ali, jogando conversa fora, bebendo e escutando as músicas de final de festa que sempre tocavam, quando minha mãe apareceu junto do meu pai.
— Filha! Que legal, seus amigos estão aqui – ela me abraçou e pelo seu bafo percebi que estava tonta de álcool – Meu Deus, , é o menino da bicicleta! – Maggie olhou pro , que estava gostando de ser reconhecido e eu queria tirar minha mãe dali agora – Você estudou com ela... – ela tentava lembrar o nome dele – , né?
— Sim, Sra. , estudei com a sua filha – ele me fitou e eu queria não estar presenciando aquele momento.
— Por favor, me chame de Maggie e esse é o meu marido Chris – cumprimentou meu pai, que também não estava sóbrio.
, por favor, amanhã vá a nossa casa para pegar a sua nova bicicleta – meu pai disse pro e fiquei de cara que eles tinham mesmo comprado outra bicicleta pra ele.
— Não precisavam se incomodar... – estava mesmo adorando aquilo tudo.
— Eu insisto que você aceite, só as minhas desculpas não foram suficientes – Maggie estava mesmo babando o ovo daquele otário?
— Isso... E nos desculpe mais uma vez – Chris disse.
— Tudo bem... E parabéns pela festa linda de vocês – meus pais sorriram, agradeceram e voltaram a dançar... Mas dessa vez com meus amigos. Dançaram com todos eles e eu queria sair correndo com aquela cena, mas no final eles conseguiram me convencer a ir dançar também.
, querida – Holland e Max, pais do apareceram, também bem alegres – Como você cresceu, está linda! – abracei eles e cumprimentei.
— Nem parece que somos vizinhos, faz tempo que não te vejo – Sr. passou a mão em meu cabelo, o bagunçando todo, obrigada Max.
— Pode deixar que irei aparecer mais – sorri – Inclusive aqui em Brighton, quando quiserem matar a saudade é só gritar pelo muro que apareço lá – eles riram e foram dançar com os amigos do , aqueles meninos deviam ser como filhos para eles, já que viviam em sua garagem tocando desde sempre.
Dançamos, bebemos e comemos mais do que podíamos e percebi que a festa tinha definitivamente acabado quando estavam desmontando a área toda e carregando as coisas para o lado de fora. Eu e fomos caminhando para a entrada da festa e eu tentava me aquecer me abraçando, já que ventava muito. Naquele momento me senti uma idiota de não ter pegado carona com o para casa, sendo que meus pais já tinham ido embora há tempo, pois a cota deles tinha acabado. Olhei para minha melhor amiga pensando em como chegaríamos em casa, já que andando não era uma opção, porque estávamos cansadas demais para aquilo. também parecia estar com frio e acabada.
Vi um carro com o farol alto se aproximando e fechei um pouco os olhos por causa da claridade.
— Precisando de carona? – era a Georgina, com o carro do nosso pai. Era pra isso que irmã servia, afinal – , você viu a dando selinho no James Evans? – já dentro do carro, observei Georgina rindo.
Bati minha cabeça no encosto do banco, não acreditando que ela estava voltando naquele assunto. que parecia estar morta, num pulo acordou.
— É SÉRIO ISSO? DE NOVO? – colocou a cabeça entre o banco do motorista e do carona para poder me olhar.
— De novo? Quer dizer então que já teve uma primeira vez com o barman? Ah, agora tudo faz sentido! Por isso ele saiu da casa do vizinho correndo e você foi atrás dele! , você assustou o menino!
Georgina acabava de conseguir o que ela queria, a história toda.
— Não acredito que perdi mais uma vez – minha amiga parecia decepcionada e era engraçado o jeito como ela falava.
— Vocês estão fazendo algazarra por um selinho? – disse quase resmungando, com os olhos fechados.
— Ele é bem gato, irmãzinha, parabéns – Geo disse me fazendo rir.
e Georgina eram impossíveis quando o assunto era garotos. As duas continuaram fofocando e falando da anatomia humana do James, de quais seriam seus pontos fortes e fracos e que eu realmente levei o assunto de ficar com universitários ao pé da letra. Enquanto isso, eu só ria dos comentários. Chegamos enfim em casa, com o sentimento de que o dia foi bom.

Acordei mais animada, porque hoje era dia do festival no deck que tinha no final da praia. Já tinha almoçado e estava me arrumando. A casa parecia estar vazia, mas era só o cansaço dos meus pais e da Georgina que não deixava eles saírem do quarto. já tinha ido na frente com o , porque uma de suas bandas preferidas ia tocar e ela queria ficar num lugar bom... E como eu havia dormido demais, ela não quis me esperar. O dia não estava ensolarado como o de ontem, mas pelo menos não chovia.
Estava ouvindo a primeira movimentação naquela casa e tinha uma voz desconhecida. Abri a porta da sacada para ver quem era e vi a cena dos meus pais entregando a bicicleta azul pro . Eles pareciam felizes, conversando sobre assuntos aleatórios e eu pensava em como conseguiria sair de casa sem que ninguém me visse. Me olhei no espelho pela última vez e aquela roupa estava legal para um festival em um dia não tão quente assim em Brighton. Fui descendo as escadas cuidadosamente e quando estava no último degrau ouvi minha mãe me chamar. Merda. Fui até o jardim e meu pai explicava com toda paciência do mundo para o por que ele escolheu aquela marca de bike. levantou a cabeça para me ver e ficou me encarando por uns segundos.
— Vai para o festival? – ele perguntou e eu fiz que sim – Vamos juntos então.
— Acho que não – me virei e saí rapidamente de casa, não precisava da companhia dele.
Fui andando pela calçada e me odiando por não ter pegado um casaco, pois o vento estava forte.
— Tem certeza que não quer uma carona? – apareceu ao meu lado, pedalando na sua nova bicicleta. Só podia ser piada.
— Tem lugar pra quantos nesse possante? – não fiz questão nem de olhar para ele.
— Só pra mais um mesmo – ele pedalava devagar para me acompanhar – É sério, , o deck é no final da praia, você sabe que é longe pra ir andando.
— Não seja por isso – parei no final da minha rua e comecei a fazer sinal para algum táxi. parou ao meu lado e começou a rir. Fiquei alguns minutos ali, até perder a paciência – Não é possível que não tenha táxi nessa cidade.
, a intenção em Brighton nessa época é diminuir a circulação de carros – eu ia abrir a boca para falar, mas ele me cortou – E não adianta pensar em ônibus, porque nenhum vai pro deck.
Olhei as horas no meu celular e o festival já estava ocorrendo há bastante tempo, eu não podia perder mais nada. Mas não era possível que o era minha única saída, não queria crer nisso. Fiquei mais um tempo pensando e o imbecil não saiu do meu lado um segundo sequer. Olhei pra ele, já me odiando por fazer aquilo.
— Você que vai pedalar até lá, não me venha no meio do caminho com ideia de revezar – olhei séria pra ele – E sem gracinhas viu, ? Ou eu corto seu pinto fora! – ele levantou as mãos em forma de rendimento.
Ele sentou no selim da bicicleta e eu na sua frente. Já estava me arrependendo pelo desconforto que estava sentindo. Porque meu pai não comprou uma bicicleta com garupa? colocou suas mãos na extremidade do guidão de forma que seus braços ficassem colados com meus e minhas mãos estavam agarradas na parte do meio do guidão. Sua cabeça ficava perto do meu ombro direito e eu podia ouvir sua respiração forte pelo esforço duplo que estava fazendo pedalando aquela bicicleta. Precisava me concentrar em chegar ao festival e não pensar que estava extremamente perto de mim tanto quanto James esteve quando nos beijamos. Ouvir sua respiração me dava pontadas na espinha, estava nervosa demais com aquela aproximação... Droga de bicicleta!
Quanto mais perto chegávamos do festival, mais ele ia cansando e encostando sua cabeça em meu ombro para tentar descansar. Nossos rostos estavam bem colados e eu conseguia sentir seu delicioso perfume. Que raiva, ele não conseguia errar nem no perfume! As mãos dele foram escorregando e encostando na minha, era contato demais pra mim, estava totalmente arrependida... Era melhor ter ficado em casa.

’s POV

Não tinha noção do que seria andar com aquela menina de bicicleta até o final da praia, porque se tivesse, com certeza eu não faria. Todo aquele contato com estava me deixando desnorteado e precisava estar disposto a chegar no deck. Sentir o cabelo dela em meu rosto e o cheiro todo dela, estava me deixando abalado, eu estava com a menina mais inalcançável da escola e pior, estava gostando da companhia dela. Não tirava os olhos do caminho com a intenção de chegar mais rápido ao destino e enfim poder sair de perto dela, porque ela estava tirando tudo de sã que tinha em mim. Quando vi as luzes do festival, dei um gás final e pedalei mais forte para chegar até lá. Estava morto, apesar dela ser leve, o caminho foi longo. Parei no lugar que tinha para guardar as bicicletas e desceu num pulo.
— Até que fim – ela ajeitou seu cabelo, roupa e saiu andando. Não era possível que ela era tão mal agradecida assim.
— “Até que fim”? – gritei e ela se virou – Nem um “obrigada”? – ela ignorou o que eu disse e voltou a andar – Você é uma maluca ingrata!
— Vai se foder, ! – ela gritou de volta.
Notei que o show do Plain White T’s já tinha começado, ri comigo mesmo, por ser idiota de ser legal com ela e percebi como que essa música se encaixava com aquela merda de menina.

I don't know what this girl is after she's a natural natural disaster
(Eu não sei do que essa garota está atrás ela é um natural um desastre natural)


Ela não tinha um pingo de consideração pelo esforço que eu havia acabado de fazer pra ajudar a ela. Parei para pensar que não tinha noção de onde veio tanto ódio dela sobre mim, sendo que quem foi atropelado fui eu e ainda pela mãe dela! Não sabia mais como agir com ... Se eu era grosso, ela me xingava, se eu era legal, ela era escrota comigo... Não sei se valia a pena perguntar a ela o motivo do ódio gratuito, eu só gostava de vê-la irritada, era engraçado... Mas nada comparado a ser feito de idiota.

She's so sexy I had to have her she's a natural natural disaster
(Ela é tão sexy e eu tinha que tê-la ela é um natural um desastre natural)


Fui caminhando entre a multidão de pessoas sem nem ter noção pra onde ir, não fazia ideia onde os caras estavam e ninguém me atendia, nem respondia. Escutei a banda tocar mais umas três músicas e nada de achar eles, até que vi a e a dançando loucamente bem perto do palco enquanto os caras bebiam cerveja... Como eles ainda aguentavam?
O Plain White T’s anunciou que iam tocar a última música e eu já estava ansioso pelas outras bandas. Fiquei ali parado olhando pros meus amigos, sem muita vontade de chegar perto. Quando a banda deu os acordes iniciais de Our Time Now foi à loucura e achei engraçado como a ria da amiga e curtia o show, mesmo não parecendo gostar tanto quanto a .

This is the dance for all the lovers takin' a chance for one another finally it's our time now
(Esta é a dança para todos os apaixonados dando uma chance um para o outro finalmente é nossa hora agora)
These are the times that we'll remember breaking the city sight together finally it's our time now
(Esta é a hora que nós vamos lembrar quebrando a vista da cidade juntos finalmente é nossa hora agora)


Senti a fervura que estava aquele palco, a alegria que eles transmitiam para o público e pensei em como era aquilo que eu queria com o McFly, poder fazer turnê da nossa banda cantando nossas próprias músicas e contagiando todo nosso público com felicidade e energia lá no alto. Os caras me viram e acenaram para mim, pedindo para ir até lá.

This is more than just romance it's an endless summer I can feel the butterflies, leading me through it
(Este é mais do que só um romance, é um verão sem fim eu posso sentir as borboletas, liderando-me através disso)


Ficamos por ali comentando as bandas que passavam naquele palco e almejando que um dia fosse o McFly. Se dependesse do nosso empenho, sem sombras de dúvidas a gente ia longe, só precisávamos de um empurrãozinho. Curtimos o festival no estilo de quando saíamos nas noites londrinas, com muitas garotas ao nosso redor, conversando daquele jeito caloroso e pensando no pós. Só não podia oferecer carona... Naquela bicicleta a partir de hoje só anda eu e ninguém mais. Com a glória de todos meus anjos, consegui tirar da minha mente aquela menina infeliz e pensar nas que estavam perto de mim e realmente me queriam.

’s POV OFF

Eu amava passar tempo com minha amiga, era uma das minhas atividades preferidas e faria de tudo pra vê-la curtir como ela estava curtindo esse festival. Passaram muitas bandas por ali e eu gostava algumas, tinha muita gente talentosa de verdade. Estava escurecendo e o local não parava de encher com muitos carrinhos de comidas, alguns fogos de artifício e crianças com algodão doce por ali. Um pouco longe da gente, eu via os meninos com várias garotas por perto e observava o sendo descarado, ele principalmente estava adorando a situação.
Eu e demos uma volta, compramos uma pipoca, sentamos no banco que tinha de frente para o mar e ficamos conversando sobre alguns assuntos.
— Olha quem t´á vindo aí – minha amiga disse e me virei para ver quem era.
James vinha em nossa direção e estava mais lindo ainda com aquele cabelo molhado de quem havia acabado de sair do banho. Olhei pra e ela entendeu.
— Vou dar uma voltinha, já sei – ela se levantou – Mas não vou muito longe, viu? Dessa vez eu quero ver se essa pegada é mesmo tudo o que falam.
Fiquei imaginando quem estaria comentando da pegada do Evans por aí. Mas não deu pra pensar muito, pois ele logo chegou e sentou no lugar da minha amiga.
— Agora sim devidamente um homem arrumado – ele disse e eu ri – Antes de qualquer coisa, eu queria dizer que acho você um máximo, sempre achei na verdade, desde quando éramos mais novos.
— Vai terminar comigo ou algo do tipo, Evans? – rimos – Porque se for me avisa, nem sabia que tínhamos algo – brinquei e ele ficou sem graça, fofo.
— Só queria dizer que quando você me beijou eu não esperava e...
— E por isso saiu correndo como se tivesse atrasado pra uma entrega? – ele sorriu e abaixou a cabeça – Qual é, James, você é um universitário surfista!
— Que você nunca deu bola quando era só o cara que te fazia os drinks...
— Não é verdade... – ele me olhou e colocou sua mão em cima do meu braço que estava no encosto do banco e começou a fazer carinho nele – Sempre te achei um cara muito legal.
— Sabia o que seria legal? – ele foi chegando mais perto – Eu te ensinar a surfar! – ele deu uma piscadinha e eu ri.
— Eu sou completamente desengonçada, isso não tem chance de dar certo.
— Te garanto que consigo – ele acabou com todo o espaço que tinha entre nós – Sou um dos melhores – James me beijou e dessa vez foi com mais romance, calma e cuidado.
Ficamos um tempo ali e logo a se juntou da gente. Demos mais uma última volta no festival e depois James nos deixou em casa.
Evans era tudo o que os meninos do colegial nunca foram e talvez seja porque ele tem um pouco mais de maturidade. Apesar dele não ser o tipo de cara que eu curtisse, James era educado, respeitoso, além de ser muito gato. Mas como o próprio disse, o verão é enorme, então vou pagar pra ver no que isso vai dar, afinal, eu estava curtindo e nada mais importava.



Continua...



Nota da autora: Oiii, será que tem alguém aí? Se tiver, me diga se você está gostando hahahaha
Esse capítulo particularmente, eu amei escrever e ler! Adoro esse ar de verão, festas e amigos... O que esperar do próximo??? Ah! E se tiver alguma dúvida ou comentário, é só me procurar no meu twitter



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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