Última atualização: 26/04/2019

Avisos:

Para a melhor experiência de leitura e divertimento dos leitores, a fanfic foi escrita em formato roteirizado. O que é isso? Significa que algumas cenas da história estão com indicação de sonoplastia (trilha sonora), para que assim vocês possam sentir, e visualizar as cenas da história com o máximo de interatividade possível.
[Para os leitores que conseguem ler ouvindo música, é uma experiência muito legal. E para aqueles que não conseguem, há duas observações: 1) a primeira é que as cenas possíveis, constam de trilha instrumental; e 2) se você mantiver o volume da canção bem baixinho, como um fundo de série mesmo, isso vai te ajudar na concentração e a experiência será prazerosa.]
São as dicas da autora. Agora, as instruções deste processo:
[Em cada cena, há o nome da música indicando seu início. Vá até o link da playlist no Spotify, ao final desta página e dê o play. (Para sua melhor funcionalidade, as canções já estão em ordem cronológica na playlist). Assim como há a indicação de início da música na cena, há também, a indicação de pausa. Quando você ler: “/Fim da música na cena” pause a reprodução e continue a sua leitura.

Espero que vocês consigam usufruir desta experiência da melhor forma possível, sintam-se livres para seguir ou não a playlist. E não esqueçam de comentar, tá? Eu vou adorar saber o que vocês acharam de tudo! Beijos, com afeto.
– Ray Dias.


Prólogo

Coreia do Sul, casa de Mo-Yeon.

Kang Mo-Yeon e Yoo Shi-Jin finalmente estavam juntos após todas as dificuldades passadas, porém, o novo cargo de major de Shi-Jin manteve a aproximação do casal ainda mais difícil. Assim como ele havia conquistado sua carreira, Mo-Yeon também se tornara a cara do Haesung Hospital.
Seo Dae-Young e Yoon Myeong-Joo já haviam se casado, e eram o exemplo para a Dr. Kang e o major Shi-Jin do quanto suas carreiras continuariam sempre sendo o contraponto. Afinal, Seo Dae e Myeong eram unidos também pelo trabalho que faziam.
— Enquanto nós tivermos que estar em lugares diferentes, não há chance de tornar isso aqui – ela disse apontando para ambos — Uma relação duradoura.
— E o que você sugere? — Você havia dito que se tornar major facilitaria!
— Eu disse que me tornar major, me arriscaria menos. Nunca falei que não teria trabalho.
— Então eu, é quem pergunto Shi-Jin. O que você sugere?
— Se você fosse uma Schetzer, estaríamos juntos mais tempo.
Ela o olhou com olhos arregalados, em sua incrédula irritação. Ele fazia piada naquele momento?
— E não é uma piada. – respondeu como se lesse os pensamentos dela.
— Eu não vou abrir mão do hospital.
— Oh, que mulher materialista!
— Você abriria mão da sua carreira no exército por mim?
— Já cogitei muito tempo atrás, ou se esqueceu?
— Claro que não. Me arrependo todos os dias por ter te apoiado.
— Você nunca quis fazer o esforço, não é dr. Kang?
E a partir dali uma discussão que se tornava hábito surgia.

Brasil – Goiás, 1º Batalhão de Forças Especiais.

— Cumprimentar comandante!
E os três militares presentes bateram continência ao superior à sua frente.
— Capitã , a senhorita será designada a gerenciar os interesses do nosso país no acordo de Seoul. Será preparada durante os próximos três meses, suas tarefas estarão entre representar o seu país e defender os nossos interesses, agir com diplomacia internacional, negociar com governantes e os militares de Seoul o que lhe for designado sobre o “Acordo Antiterrorismo na América Latina”. E para isso, será treinada em idioma, combate, e cultura. Alguma objeção?
— Não senhor comandante.
— Está apta para se encarregar destas e das demais funções que virão?
— Sim senhor comandante.
— Neste caso, serão quatro os seus deveres insolúveis: garantir a proteção dos cidadãos da sua nação, realizar com ordem e lealdade a sua missão, atribuir acordos políticos vantajosos e o principal de todos: não morrer.
— Capitã apresentando-se de acordo com as normas e obrigações do Comando de Operações Especiais das Forças Armadas Brasileira.
— Está dispensada. Seu major irá lhe delegar os próximos procedimentos. Em posição de sentido, a capitã bateu continência e seguiu o seu major porta à fora do gabinete do comandante da operação.


Capítulo 01

Brasil, Goiás – 1º Batalhão de Forças Especiais.
Música da cena:
Jay Park – Run It

— Capitã na minha sala em quinze minutos.
O grupo de militares almoçava no refeitório entre risadas e diálogos contrastantes à sua rotina de trabalho, sempre tão tensa. Aquele era um dos poucos momentos de calmaria entre eles, no batalhão. ria de uma piada feita pelo Primeiro-Tenente Monteiro, quando o Major Barcelos surgiu no andar superior do refeitório emitindo em alta voz, a ordem. Todos encaravam a mesa onde ela se encontrava. Aquele chamado só poderia significar algo relacionado ao assunto que gerava curiosidade entre os subordinados da Capitã.
— Aconteceu alguma coisa? – perguntou Danilo, seu namorado e Primeiro-Tenente.
— Aconteceu. Eu tenho uma reunião com o Major, não ouviu?
Ela saiu, em postura séria e carregando sua bandeja ao recolhimento. era uma militar dedicada à sua carreira, disciplinada e correta em suas ações. Ninguém estranhara a mudança de postura da Capitã ao ser chamada, e muito menos duvidaram que ela fosse dizer ao Danilo qualquer informação alheia. A discrição também era uma excelência da militar. O que não deixava Danilo feliz, pois, sendo uma patente abaixo dela muitas vezes o Primeiro-Tenente acreditava que a militar se aproveitava de sua hierarquia em sua relação. discordava daquilo e nem dava muita atenção quando o homem começava com suas reclamações. A verdade é que, Danilo não aceitava sua mulher sendo superior a ele dentro do quartel, e aquilo já gerava discussões entre eles. Discussões, inclusive que já estava exausta.
Antes de sair do refeitório ela olhou para trás, e a maioria de seus Aspirantes a olhavam com curiosidade.
— Quero o relatório final de todos os Tenentes acerca do treinamento dos Aspirantes, na minha mesa às 16 horas.
Deu a ordem em alto e bom tom e saiu em direção à sala do Major. Passou no banheiro, escovou os dentes, arrumou novamente seu cabelo impecavelmente preso. Caminhou até a sala onde era aguardada e parou na porta antes de bater. Passou as mãos sobre seu uniforme, o ajeitando mais uma vez, arrumou suas insígnias e finalmente bateu à porta. Após ouvir a ordem para entrar, ela bateu continência ao seu superior.
— Descansar, Capitã.
Significava que seu Major permitia uma conversa formal e não hierárquica. Ele indicou a cadeira para que ela sentasse. E estendeu-lhe uma pasta.
— Sua próxima missão.
, pegou-a e leu. Para entender o que a missão compreenderia, é necessário entender a que Batalhão a Capitã servia.
era Capitã, uma oficial intermediária aspirante a oficial superior, no Exército Brasileiro. Servia ao Comando de Operações Especiais Brasileiro, uma das grandes unidades operacionais do Exército, que conta com unidades de apoio e de operações especiais, com elevados níveis de treinamento. Dentro das subunidades do Comando, há a divisão dos batalhões. A Capitã , pertencia ao 1º Batalhão de Forças Especiais. O 1º BFEsp trata-se da principal unidade de elite das Forças Armadas do Exército Brasileiro e é capacitada ao planejamento, condução e execução de operações de guerra irregular, contraterrorismo, fuga e evasão, inteligência de combate, contraguerrilha, guerra de resistência, operações psicológicas, reconhecimento estratégico e busca, localização e ataques a alvos estratégicos. As operações do 1º BFEsp são caracterizadas por requerer alto grau de sigilo, apresentar consideráveis riscos, pois, sua maioria é executada em território hostil.
valorizava muito seu trabalho porque como mulher era uma honra imensurável conseguir chegar àquele posto, e justamente num Comando de Elite. Não pensava duas vezes se tivesse de escolher entre a carreira – seu sonho – e qualquer outra coisa: escolheria a carreira. Ela compreendia a importância de sua função e cargo.
Há alguns anos o governo brasileiro estendia negociações com a Ásia, e tudo começou com comércio da indústria tecnológica, no entanto, interesses ocultos entre os governos já vinham sendo tratados. O Brasil, como forte influência na América Latina vinha perdendo apoio da América do Norte, cada vez mais interessada na exploração de seus recursos e domínio de suas ações. Numa tentativa de driblar o poder norte-americano e se tornar um país forte entre os governos latinos – se não o maior influente –, estudava acordos com a Ásia. Os países asiáticos cresciam em potência mundial cada vez mais, e para um emergente como o Brasil – após tentativas de aliança com Europa e América que não saíram da corrente “colonialista de poder” – seria uma oportunidade ímpar se aliar ao Oriente. Dadas estas descobertas para o Comando Especial, delegou-se também a esta unidade tratar dos assuntos que envolviam riscos ao governo brasileiro, e à nação. Mas quais riscos? Com a difusão crescente dos conflitos entre Coreia do Norte e República da Coreia do Sul, o imperador atual da Coreia do Norte – Kim Jong-Un determinou estar contra qualquer aliança de outros países com a sua nação-irmã. Ameaças terroristas eram difundidas em segredo, internamente para o governo brasileiro.

A pasta que seu superior, Major Barcelos havia lhe entregado constava de uma missão de alta importância. representaria a defesa armada dos interesses do Brasil na Coreia. Os países trabalhariam em conjunto por suas razões comuns, entretanto, a estratégia ousada do país latino-americano não os despreocupava do passo grande que estavam prestes a dar. Tanto o governo asiático quanto o brasileiro desconfiavam-se entre si, então o Batalhão Brasileiro das Forças Especiais entraria em total domínio desta inter-relação. E obviamente, a Coreia agiria da mesma forma.
Capitã seria enviada para o Exército Coreano, se estabeleceria entre eles e com ela iria um destacamento brasileiro, do qual ela seria responsável por treino e integridade.
estava aguardando aquilo, já havia sido informada da possibilidade de receber àquela função. As especulações, ali diante aquela pasta, se tornavam reais. E já imaginava o burburinho entre seus subalternos: quem será convocado ao destacamento? Quais oficiais acompanhariam a Capitã? Quanto tempo eles se estabeleceriam lá? E o mais importante: voltariam?
Após ler todos os documentos na pasta, encarou seu Major que a observava num misto de confiança e preocupação, e deu-lhe uma silenciosa afirmação. O superior sorriu e pegando a pasta de volta, a fez assinar os documentos, e assinou em seguida. Estava feito. Ela iria para a Coreia do Sul e tudo o que envolveria aquela experiência era totalmente incerto.

/Fim da música da cena

Coreia do Sul, Seoul – Gangnam: Casa de Mo-Yeon.

Seo Dae e Myeong-Ju tocaram a campainha no exato momento em que Mo-Yeon andava de um lado ao outro de sua sala tempestiva em acusações para Si-Jin. Ele que apenas encarava a mulher à sua frente, entediado e exausto de sempre escutar as mesmas justificativas, não fez cerimônia alguma ao levantar-se e deixá-la falar sozinha. Abriu a porta, e o casal de amigos já o encaravam com a expressão de “brigando de novo?”. Seo Dae e Myeong entraram cumprimentando Mo-Yeon que se manteve calada e cabisbaixa. Yoo Si-Jin bateu no ombro do amigo, o chamando para a cozinha da casa. Deixou sua namorada – em histeria – na companhia da amiga Myeong-Ju.
— Eu a amo, mas está cada vez mais difícil Wolf.
— O relacionamento de vocês está cada dia mais, por um fio. Você tem que ser forte.
— Estou cansando de ser forte para salvar uma relação onde eu faço o melhor que eu posso. Ela insiste em dizer que o problema é o Exército, sendo que o hospital está em primeiro lugar em tudo para ela. O que ela quer? Que eu peça dispensa e a aguarde chegar dos plantões?
Ya*, Yoo Si-Jin! Vocês dois têm que pensar no que os une. Se vocês se amarem o suficiente, estas discussões estúpidas de vocês deixarão de existir. — Não sei mais o que nos une, Seo Dae. Eu a amo, mas ela me exige sacrifícios demais para alguém que desde o começo quis desistir.

*Expressão coreana de repreensão, equivale ao “Ei!” no Brasil.

Myeong-Ju adentrou à cozinha para pegar um copo de água para amiga que chorava na sala.
— Você precisa fazer alguma coisa! – ela esbravejou ao amigo que não aparentava uma expressão nada feliz.
— Oh! Mais do que eu tenho feito? Quando se estica muito um lado da corda, ela arrebenta.
— E está prestes a arrebentar, é o que você quer Si-Jin?
— Myeong, eu só quero que… A Drª Kang perceba o quanto ela muito tem reclamado e pouco feito.
A esposa de Seo Dae saiu do cômodo suspirando pesadamente. Não cabia a ela, ou ao seu marido resolver aquilo. Cabia aos amigos, mas era sufocante para ela ver que os dois não conseguiam ultrapassar aquela fase de discussões infinitas. Minavam pouco a pouco, dia a dia, tudo o que os tinha feito ficar juntos. E para Myeong que demorou tanto a conseguir viver seu amor, aquela era a situação mais ridícula do mundo: dois turrões brigando para ver quem era o culpado por não saber lidar com os obstáculos que surgiam em sua relação.
— Big Boss, por que você não leva a Drª Kang ao jantar de formatura dos sargentos?
— Se ela tiver tempo.
— Já é uma demonstração de que você está tentando. E nós não poderemos fugir deste evento mesmo… Kim Gi-Beon vai receber sua patente de Primeiro-Sargento e está bastante ansioso e orgulhoso por isso.
Uou… Quem diria que aquele garoto chegaria lá, não é?
— E ele disse que não vai parar até chegar a oficial general.
Os amigos sorriram cúmplices, por se recordar da época em que Gi-Beon pertencia a uma gangue e havia roubado Seo Dae-Young.
— Vou falar com Mo-Yeon. É minha última tentativa, se nada mudar eu não vou insistir em alguém que me obriga a abrir mão de algo que ela nunca estará disposta a abrir mão também.
— Orgulhoso.
— Ela que é materialista demais. Oh, que garota materialista essa em quem fui me apaixonar!

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Música da cena:
Jay Park – You Know

Mo-Yeon andava pelos corredores do Haesung Hospital, relendo atenciosamente o prontuário de um paciente que faria uma grave cirurgia. Esbarrou sem querer em Han Suk-Won, o presidente do hospital. Ele sorriu para ela, de uma maneira interessada. Mo-Yeon já lidava com as investidas de seu presidente há algum tempo, e não o correspondia – o que o fazia insistir cada vez mais, sem que ela soubesse – contudo, Mo-Yeon sorriu de volta para ele naquele dia. E ao se dar conta do que havia feito, de costas para ele pousou sua mão em seus lábios, ela estava surpresa com sua própria atitude. Onde estava com a cabeça, em correspondê-lo daquele jeito? Seu celular tocou indicando uma chamada de Si-Jin, ela teria meia hora para descansar antes da cirurgia. Desligou a chamada e guardou o telefone no bolso saindo concentrada em seu prontuário. Yoo Si-Jin, encarou pensativo, o seu aparelho após ver que sua namorada negou sua chamada. Guardou-o no bolso e retornou para a sede de seu batalhão em Seuol.

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Yoo Si-Jin não estava em seu melhor dia. Estava tenso devido informações que recebera de sua próxima missão, Seo Dae e Myeong não haviam sido convocados para estarem com ele, e portanto, sua cabeça estava a mil. Ele estaria longe de casa mais uma vez, entretanto desta vez, sem os seus melhores companheiros. Torcia para que pelo menos Snoppy, Harry Potter e Piccolo estivessem. Agora como Major, dificilmente ele iria a combate, como os companheiros que ainda não haviam o alcançado, mas a menor ideia de estar novamente em acampamento e sozinho o deixava descontente. Para variar, Mo-Yeon estava atrasada. Avistou Dae-Young e Myeong-Ju entrarem pelo salão devidamente vestidos como oficiais em uniforme de gala. Acenou-lhes e logo estavam os três reunidos.

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— Rápido, rápido Ha Ja-Ae, prepare a primeira sala de cirurgia para mim! Mo-Yeon estancava a ferida no peito de seu paciente, enquanto os enfermeiros empurravam a maca – na qual ela estava em cima, mais uma vez, em uma cena antiga – em direção à emergência do hospital. A enfermeira chefe Ja-Ae seguiu urgentemente aos preparativos da cirurgia de última hora. Antes de entrar à área restrita, Mo-Yeon observou um relógio acima da porta e constatou a quão atrasada estava. Não dava mais. Yoo Si-Jin teria de comparecer à formatura de Kim Gi-Beon desacompanhado, de novo.

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Duas horas de atraso, e nada da namorada aparecer. Si-Jin não conseguia esconder a sua irritação por aquilo, e seus amigos o olhavam tristes por saber o quanto significava para ele, que a Drª Kang estivesse lá. Não era ele a formar, ou algo do tipo, mas ele estava se esforçando. E ela não reconhecia isso. Myeong algumas vezes tentou convencer Kang que por sua própria culpa, Yoo Si-Jin escorria entre os seus dedos, mas a amiga não admitia o seu erro. Para ela, sua profissão estava acima de qualquer deslize: “Eu salvo vidas e não posso ir contra isso, se me for solicitado”, Kang sempre dizia. Para Myeong-Ju, a doutora sempre fora egoísta ao se tratar de abrir mão da profissão, vez ou outra. Ela também era médica e compreendia as implicações da carreira, mas Mo-Yeon não enxergava que a função dos meninos estava acima de qualquer escolha. Ela tinha sim a escolha de adequar sua carreira para acompanhar Yoo Si-Jin – assim como Myeong havia feito por Seo Dae – já Si-Jin, não tinha esta escolha.
Yoo Si-Jin ajeitou seu uniforme antes de ser chamado ao microfone para discursar aos novos formandos. A cerimônia chegava ao final.
Após o jantar, Kim Gi-Beon agradecia com todo seu afeto à presença da médica Myeong e seu esposo Seo Dae – cujo a admiração do agora Primeiro-Sargento Gi-Beon era indiscutível – e, por último ao seu eterno Capitão e Major Yoo Si-Jin. Todos se despediram com sorrisos e “até breves”, além das congratulações aos graduados. Si-Jin pegou suas chaves e antes de ligar o carro conferiu seu celular, na esperança de que Kang teria se esforçado para, ao menos, se explicar. Nada havia registrado. Suspirou pesadamente e deu partida em direção ao seu apartamento.
Na manhã seguinte, Kang saía de seu plantão e estava cansada. Não apenas pelo físico, mas pelo estresse mental gerado também pela culpa. Telefonou ao namorado que não atendia. “Ele nunca vai me perdoar”, ela pensou. Dirigiu lenta, e ao primeiro semáforo insistiu em nova ligação para Si-Jin. Finalmente ele atendeu.
— Big Boss!
— Beauty. – a voz dele soava seca.
— Desculpe mil desculpas, um paciente deu entrada e eu estava de saída. Juro que já estava de saída e…
— Então por que não deixou o paciente para outro médico e simplesmente saiu para cumprir seus outros compromissos, como a maioria dos médicos faz? – ele a interrompeu, grosseiro.
— Yoo Si-Jin... – suspirou cansada e triste, as lágrimas querendo rolar face abaixo — Vamos, conversar pessoalmente?
— Não. Agora, eu tenho as minhas obrigações. Só estarei disponível à noite.
— Eu retorno ao meu plantão, esta noite. – Mo-Yeon estava envergonhada em afirmar aquilo, ela sabia que havia vacilado.
— Eu estarei à porta do hospital, antes de dar o seu horário. Não se preocupe, não será uma conversa longa.
Desligou a chamada sem que ela dissesse qualquer coisa. Entrou na sede militar, e já era aguardado pelo Coronel, que dispunha de todas as ordens e informações sobre sua nova missão militar.

/Fim da música da cena


Capítulo 02

Brasil, Goiás: 1º Batalhão de Forças Especiais.


— Espere, ! Não vai nem me dar um beijo?
estava a caminho de seu treinamento, há meses aquela rotina se estendia. Mal esperava pelo fim do treino, não por cansaço. Talvez um pouco. Mas principalmente por ansiedade e certo desejo de tirar umas férias de Danilo, que desde o início de seu treinamento a perturbava constantemente por ela não desistir da missão. Entretanto, naquela manhã ele não havia reclamado de nada.
Ela abria a porta do carro dele, e o encarava com uma sobrancelha arqueada. Sorriu contente e o deu um selinho, que logo Danilo fez questão de transformar em um grande beijo. — Alguém acordou de bom humor? – ela perguntou.
— Minha namorada está mais perto de partir. Acho que devo aproveitá-la, não?
— Hum… Finalmente aceitou!
— Não há como discutir com você.
— Não mesmo.
— Não mereço um agrado?
— Não. Na verdade, demorou muito para reconhecer.
Dito aquilo ela o beijou novamente e saiu do carro, fechando a porta sorrindo-o e seguindo sem olhar para trás.
Danilo revirou os olhos e entortou a boca. Às vezes, o jeito mandão da namorada o tirava do sério. Acelerou com o carro em direção ao quartel. Precisava encher a cabeça com trabalho.
adentrou à guarita do centro de treinamento, e os aspirantes lhe bateram continência. Ela respondeu-os – como sempre séria – e ao chegar a frente ao Major Barcelos, bateu ela a continência, ajeitando sua mochila nas costas. Vestia seu uniforme de treino e, portanto, o Major chamou um dos aspirantes para carregar a bolsa dela até o banco, e já foi ordenando-a os exercícios principais: polichinelos, corrida, barra e abdominais. Em seguida, seguiu para o exercício de combate: rastejo, escalada, saltos e rolamentos e tiro. E por último, batalhou corpo a corpo com seus subordinados. Ela recusava-se a lutar só com mulheres, uma vez que na guerrilha não teria escolha. Contudo no Batalhão não havia diferenciação, mas por sua posição ela poderia usufruir de alguns benefícios vez ou outra – e também por Barcelos ser seu amigo.
sentou-se ao chão, cansada. E seu Major que já havia a deixado de lado por um tempo, surgiu a perguntando se estava bem.
— É claro. – respondeu ela convencida.
— Preparada então?
— Sem dúvidas, para o previsível. E para o imprevisível… Eu darei conta.
— E o idioma?
"Naneun baegopa", "Naneun mog maleuda", "Syawoga pil-yohae", "Dowajuseyo", "Gomawo".
— E o que significa?
— As minhas frases de sobrevivência, óbvio. Lembra?
— “Tenho fome”, “Tenho sede”, “Preciso de um banho”, “Me ajude”, “Obrigada”.
— Muito bem, Major. Agora você também já as conhece em coreano, se precisar. Nada mal, para alguém que teve apenas três meses para aprender a escrever, ler e falar. Não é?
— Verdade. Mas eles são fluentes em inglês. E apesar de tudo, creio que o exército sul-coreano não será hostil com a chegada de vocês.
— Só confio 100% em mim, você sabe.
Ele lhe entregou uma garrafa de água, e a ajudou a se levantar. Os dois caminhavam para dentro do quartel. Era um caminho mais ou menos longo, do campo até o quartel. E ela precisaria ajeitar suas últimas coisas antes de deixar o Batalhão. Então, caminharam calmamente, em postura de oficial e subordinada e não de amigos.
— O Primeiro-Tenente Danilo, como está reagindo?
— Não me importo com o que ele pensa, mas por incrível que pareça hoje estava bem humorado.
— Não é muito dura nesta relação, Capitã?
— Ele sempre soubera que para mim a carreira vem na frente. E na verdade, só implica porque sou superior a ele, hierarquicamente.
— É notório.
— Entrego daqui alguns minutos o requerimento do destacamento, em sua sala.
— Eles serão informados por você.
— Sim senhor.
Continuaram o percurso em silêncio. Cada um em seus pensamentos, eles cumprimentaram-se militarmente antes de entrarem. Ela seguiu para o banho, e saiu já uniformizada. Danilo a pegou de surpresa na saída do banheiro, e a beijou escondido. Ela o afastou brutalmente, e o encarou com raiva. Ele sabia que aquele tipo de atitude era o que ela mais detestava. E ao afirmar aquilo, o 1º Tenente se exaltara com ela:
— Você não era assim! Se não quer mais nada, seja tão digna comigo quanto é com sua farda!
— Eu nunca permiti este tipo de comportamento. E não faça escândalo. – falou categórica.
— Nunca permitiu comigo, não é?
— Seja mais claro nas suas acusações.
— Eu soube do seu ex-namorado, e de como você não ligava muito para posições.
— Eu sou Capitã, e não mais uma soldada que pode se dar ao gosto de ser punida!
— Depois deste discurso, nunca mais diga que a hierarquia não importa para você, .
Primeiro-Tenente Aguiar! Está suspenso das suas tarefas militares por cinco dias, e sob supervisão em prisão por desrespeito à sua superior.
Ela o encarava friamente. E ele a olhava com ódio. Como ela poderia ter utilizado a hierarquia numa discussão de casal?
— Me acompanhe em silêncio.
Deu as costas a ele, e seguiu até o Tenente Monteiro o indicando da ordem de suspensão. Monteiro encarou aos dois, bastante surpreso. Jamais imaginaria que ela faria algo daquele tipo. E também se sentia mal, por vingar-se daquela forma. Ela não sabia o que o sentimento por Danilo havia se tornado. Agia como uma pessoa mimada, com poder.
Dali, ela seguiu para sua sala, onde encaminhou o relatório ao Major. E após o almoço no quartel, que não fora no refeitório aquele dia, a Capitã seguiu ao microfone de avisos e fez a sua última tarefa do dia:

Sargentos Pereira, Santoro, Albuquerque e Silva direcionem-se ao gabinete da Capitã
em dez minutos!”


A curiosidade já gerava burburinhos ordenados pelo quartel. Ela estava em pé em sua sala, em frente à sua mesa, aguardando os convocados baterem à porta. Pontualmente, todos os quatro estavam em sua sala, em pé, em continência.
— Descansar!
Eles ajeitaram sua postura. — Vocês estão sendo designados para o destacamento da Operação Ásia Latina. Na qual, eu serei a sua Capitã. Me acompanharão em missão à República da Coreia do Sul e tem exatamente três dias para se preparar para viajar. Os demais documentos e necessidades burocráticas já foram preparados pelo Exército. Demais informações da missão apenas quando partirmos, e devem manter sigilo total sobre a ida para a Coreia, bem como a toda e qualquer informação que lhes for passada daqui por diante. Quebras no regulamento gerarão punições descritas no Código de Ética Militar segundo este Regimento. Alguma dúvida?
— Não, Capitã! – os quatro disseram juntos.
— Estão dispensados para o descanso antes da partida. Despeçam de suas famílias conforme o protocolo de sigilo pré-missão. E estejam no quartel dentro de três dias, às quatro e quarenta e cinco da manhã. Não se atrasem!
— Sim senhora! – repetiram ao mesmo tempo, novamente.
— Dispensados.

Música da cena: DOTS – Don’t Forget Me


Eles saíram da sala dela, e ela seguiu ao local onde seu namorado estava “preso”.
— Você veio me punir pelo que, agora?
— Diminuí sua punição para dois dias. Extrapolei os ânimos.
— E comprovou o que eu sempre soube…
— Foi a primeira vez que coloquei a hierarquia dessa forma.
— Não, na minha percepção…
— Danilo… Eu embarco em três dias.
Ele a encarou satisfeito.
— Então, está me tirando da punição porque eu fui convocado?
— Não. Estou te tirando da punição porque eu fui injusta.
— Eu não fui convocado?
— Não entendeu?
— Já entendi. Eu vou te dizer só uma coisa, e espero que você pense nisso enquanto estiver em missão.
Um silêncio constrangedor e doloroso se fez, os dois se olhavam como se soubessem o que viria a seguir. E sabiam. Então, Danilo continuou:
— A carreira militar pode ser a grande conquista que você teve até aqui, mas não será a única, a menos que você continue agindo como se não tivesse outras opções. Outras formas de ser feliz. Pense bem. A sua patente veio com trabalho e esforço, sim, mas outros sacrifícios vieram junto com a fama de militar impecável. Tem certeza que ser sisuda o tempo todo, é o caminho para o respeito?
engoliu a seco. E caminhou calma até ele, o beijou o rosto e saiu dali antes que Danilo falasse qualquer outra coisa.

/Fim da música da cena

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Música da cena:
Gummy – You Are My Everything (Instrumental)

Si-Jin já estava descontente na noite anterior pelo fato de, possivelmente retornar à companhia de Mohuru, em Urk sem sua equipe antiga. Agora, que descobrira o teor de sua missão, ele estava ainda mais irritado. Não pela função em si, mas pelo tamanho da responsabilidade que lhe foi entregue. Embora estivesse acostumado com missões de alto nível de sigilo e riscos, desta vez, Yoo Si-Jin não se encontrava disposto para comandar uma Operação como aquela. Principalmente por saber que não iria a campo. O trabalho de major, era pouco divertido. Ele sabia das funções administrativas que lhe incumbiram a patente, entretanto, sentia falta de sua juventude perigosa. E ainda, mantinha seu pensamento em Mo-Yeon e no quanto desejou que ela lhe desse qualquer outra desculpa pela sua ausência. A última coisa que ele queria escutar era “eu tive um paciente de urgência”. Si-Jin sentia que sempre haveria um paciente entre eles, uma cirurgia depois, ou quaisquer outros assuntos do hospital em prioridade.
E Mo-Yeon ainda se atrevia a reclamar que a posição dele como Major impossibilitava que ficassem juntos?
Quando se conheceram, ele era muito mais ausente do que hoje. E depois de refletir sobre aquilo, Si-Jin felicitou-se pela missão. Seria uma temporada distante, e aí sim, Mo-Yeon teria motivos para reclamar. Embora, em seu coração o Major desejasse acabar de uma vez por todas com aquele sofrimento.
Si-Jin estava à porta do hospital, conforme havia dito à Mo-Yeon e telefonava a ela avisando. A mulher surgiu rapidamente e seus cabelos, que não eram mais curtos como quando se conheceram, sacudiam desprendendo-se do penteado. Indicavam uma corrida desesperada para chegar o quanto antes até ele. O olhar de seu amor era opaco e decepcionado. E o cenho de Mo-Yeon franzia-se a denunciar que o choro estava contido. Ela correu até ele, que não se moveu em nada. As mãos continuavam no bolso, e olhar reto em direção à mulher aflita. Como em câmera lenta, os braços dela passaram pelo pescoço dele, num abraço urgente. Drª Kang afundou sua face nos ombros do rapaz, e as lágrimas não podiam ser controladas. E ele permaneceu imóvel.
Yoo Si-Jin separou Mo-Yeon de seu corpo, a fazendo o olhar. Ela limpou as poucas lágrimas que caíram, sem esforço, e antes que ela abrisse a boca para dizer qualquer coisa, ele a interrompeu:
— Eu vou para Urk.
Mantiveram o silêncio. Ela quebrou-o, após se recuperar do que ouvira.
— Só por que não pude estar no jantar de Gi-Beon?
— Não. É apenas uma missão que veio em boa hora.
— Boa hora? Afastar-nos agora, não é a melhor opção!
— Para mim é.
Ela continuou o encarando surpresa, e ele em silêncio, sério como pouquíssimas vezes conseguira se manter perto dela.
— Há muito tempo não te enviam para uma missão em Urk…
— Não há com o que se preocupar.
— Tem certeza que é o melhor agora?
— Tenho certeza que sim.
— Yoo Si-Jin… Me perdoa? Eu não podia…
— Ir contra quando lhe foi solicitado. É o mesmo em relação ao meu trabalho, e se você não consegue aceitar isso, assim como eu não consigo aceitar…
Foi a primeira vez que ele se moveu: olhou para o chão. Si-Jin era sensível apesar de tudo, e segurar o tremor que sentia por dentro, ao que estava prestes a fazer era difícil. Mo-Yeon era a única batalha a qual ele jamais imaginou que teria de enfrentar, estando do lado oposto. Não desejava terminar com ela, depois de tudo e tanto tempo. Mas utilizar a frase dela, aquela que era sua desculpa para ele o tempo todo, deixou claro o quanto a discussão entre eles não teria um bom final, como de Seo Dae e Myeong.
O vento frio passou por eles, e os longos cabelos de Mo-Yeon esconderam seu rosto para em seguida revelar os olhos vermelhos e espantosos em lágrimas. Entretanto, ela era tão orgulhosa quanto ele. Não poderia desabar quando o próprio Si-Jin se mantinha impassível.
— Estamos terminando. – ela disse.
— Estamos.
Ela acenou afirmativamente, com as mãos em seu jaleco. E os olhos de Si-Jin já não eram tão indecifráveis. Demonstravam uma dor que se tornava cada vez mais insuportável, à medida que ela estava tão perto, e seu perfume tão reconhecível a ele.
— Boa sorte em Urk.
— Se cuide, também.
E os dois sorriram falsamente, e se viraram ao mesmo tempo. Caminharam e a lágrima escorreu profunda, queimando suas faces, porém não antes de os dois, ao mesmo tempo olharem para trás e encararem a partida um do outro. Deram as costas de novo, e caminharam mais apressados. Mo-Yeon não conseguiu se manter firme e correu de volta ao hospital, para cair ao chão logo que saíra do campo de visão dele. Yoo Si-Jin chorava como há muito, muito tempo não fazia, apoiado ao volante de seu carro. Da última vez que os olhos lhe arderam daquela forma, Mo-Yeon o consolava, em Urk enquanto ele queimava a foto de seu antigo companheiro e Capitão, Argus. Que ele admirava e havia se tornado seu inimigo.
Deu partida em direção ao seu apartamento, para recolher suas coisas. Já havia despedido de seus amigos, antes de ir ao hospital.
Ha-Jae encontrou Mo-Yeon agachada na entrada do hospital, aos prantos e correu em sua direção. Os médicos, enfermeiros e pacientes que chegavam no lugar a encaravam de maneira vergonhosa. Não seria ela a deixar, a amiga e médica respeitada passar por aquele constrangimento público.
Ajudou Mo-Yeon a se levantar e a tirou dali, ainda aos prantos e inconsolável.

/Fim da música da cena


Capítulo 03

Brasil, Goiás: Casa de

Após deixar Danilo e sair apressada em direção à sua sala, pegou seus itens pessoais que levaria do quartel para a viagem, e na saída era aguardada por seu Major. Barcelos a informara que, os aspiras*¹ convocados por ela já haviam pego suas dispensas para a missão. E que iriam apenas os cinco inicialmente, contando com ela, até ela ter segurança do território Sul Coreano e que, diante disso se precisasse poderia solicitar mais homens ao destacamento. Era uma medida de segurança enviar poucos homens primeiro para sondar sua recepção antes de enquadrar outros militares. assentiu ao seu superior, e o abraçou. Estavam a sós, e deixaram de lado as formalidades. Eram apenas, e Lucas Barcelos: os amigos.

*¹ Forma como os oficiais superiores se referem aos seus aspirantes subalternos.

Música da cena: Mad Clown, Kim Na Young – Once Again (Instrumental versão coreana)

Ela dirigiu até sua casa, e o relógio já indicava 8:35 pm. dobrava seus uniformes e os colocava na mala quando a campainha tocou. Fechou a mala e se direcionou à porta. Conferiu o olho mágico e suspirou pesadamente.
— Boa noite, . – ela encarou o visitante e com expressivo cansaço em vê-lo, perguntou-lhe:
— O que aconteceu Danilo?
— Nós discutimos.
— O que está fazendo aqui?
— Ué… Você me liberou da detenção, não foi? Só estou suspenso das minhas tarefas por dois dias. Não é?
— Eu quero saber por que você veio até aqui.
— Me desculpar e conversar… Posso entrar?
deu espaço para que seu namorado passasse e enquanto ela pegava duas xícaras de chá, o habitual chá noturno que Danilo já conhecia, ele sentou-se no sofá sendo acompanhado por ela em seguida.
— E então? Como ficamos? – ela perguntou.
, tudo aquilo que eu disse mais cedo, era verdade. Espero que você pense em tudo. Mas, eu não quero que você vá sem uma razão para voltar.
— Certamente eu tenho razões para voltar ao meu país.
— Eu sei… – ele se emudeceu por um breve segundo — Estou dizendo, uma razão a mais
— Você.
— Não. Nós. Você não vê o quanto se torna distante, a cada dia? Já não é mais carinhosa como antes, e parece que estamos o tempo inteiro numa competição!
encarou as próprias mãos pensando em como diria aquilo a ele.
— Danilo… – o encarou — Quero ser sincera. Nem mesmo sei, o motivo pelo qual me distanciei tanto, só sei que, já não me sinto… Como antes.
— Não me ama mais, é isso?
— Talvez seja.
Os dois ficaram em silêncio, olhando a face um do outro, constrangidos. Danilo então, puxou para um abraço. E ao se separarem, ele disse:
— Não vamos concluir nada. Você ainda não tem certeza do que sente, e eu não quero mesmo me afastar. Já basta a distância pela missão. Vamos continuar juntos, ok? E aproveitar a viagem para pensar sobre tudo, sobre nós.
— Tudo bem, não é como se eu estivesse em uma viagem de férias. Distrações que possam nos afastar mais do que já estamos, num cenário hostil não é possível.
— Este afastamento será muito bom para nós dois.
Danilo sorriu e a abraçou novamente. correspondeu o carinho dele, e logo estavam selando o momento com um beijo. Ele levantou animado em ajudá-la com as malas, e ela surpreendeu-se com aquilo.
Talvez Danilo estivesse disposto a resgatar o namoro, verdadeiramente. Até aquela semana seu mau humor e oposição a tudo o que dizia respeito à missão, só havia atormentado o ânimo dos dois. E ali, inexplicavelmente ele mudara. Estava ao lado de , como o parceiro que ela procurava. A mulher entendia que dificultava as coisas muitas vezes, mas Danilo era muito inconveniente ao se tratar da relação dos dois dentro do quartel. E sentia, como se para ele namorar a Capitã fosse um troféu que ele devesse exibir. Ela detestava aquela atitude. Então constantemente era pega precisando colocá-lo em seu lugar.
Porém, as palavras dele no quartel antes dela o deixar, martelavam em sua cabeça. E realmente pensava sobre tudo o que ele dissera.
Nos dias que se passaram antes da partida, aproveitou os últimos momentos em seu país ao lado de sua família, amigos e fazendo as coisas que mais gostava. Numa tarde com as amigas e com Danilo, o grupo enumerava as coisas que ela mais sentiria falta no Brasil. As novelas, a caipirinha, a culinária e os passeios de fim de semana na natureza. Foram as respostas já saudosas da Capitã, que era sempre tão séria. Danilo ao observá-la, daquela maneira buscava compreender o motivo pelo qual a missão a deixava tão leve, no sentido de ser uma pessoa mais contente com aquilo do que ultimamente vinha sendo. Se pegou pensando se o motivo para a falta, frequente, da “meninice” de seria ele. Ela havia dito que não sabia mais o que sentia em relação aos dois, e Danilo imaginava se, despercebidamente estaria sugando a espontaneidade dela apenas por estar ao seu lado. Ele não conseguia pensar nesta hipótese e aceitá-la.
Ao responder a pergunta das amigas: “do que mais sentirá falta?”, ela não citara o nome do namorado. Estabeleceu-se um constrangimento por parte dele, e as amigas entreolharam-se na direção dos dois. E só então percebeu. Tentou consertar com um: “meu namorado não conta, não é? É óbvio que sentirei falta dele”, e depois ela o encarou como se pedisse desculpas por envergonhá-lo. Tanto ela, quanto Danilo sabiam que não era verdade o que ela acabara de dizer.
Os dois – naqueles três dias anteriores a sua partida – viviam um momento de “tanto faz” na relação. Não adiantaria desgastar o que já estava por um fio. Então, Danilo deixou de pensar tanto no que sentia, naquele sentimento de inferioridade e desprezo da parte dela. E ela, tentava se esforçar para fingir que buscaria o melhor, mas no fundo de seu coração, não desejava que a relação continuasse. Entretanto, faltavam alguns dias para que ela se concentrasse em algo maior e por isso aproveitaria o momento com Danilo, viveria a despedida do namoro em seu coração secretamente.
Dormiram juntos ao anoitecer daquele dia que haviam passado com as amigas dela, e após transarem, ambos notaram que algo estava mesmo em ruínas. Danilo não aceitaria perder aquela que foi a única capaz de fazê-lo se sentir pequeno e grande ao mesmo tempo. E , só queria se livrar daquele compromisso, aos seus olhos, culposo e sujo por enganar os sentimentos de alguém.

/Fim da música da cena

No último dia à viagem, passara a maior parte do tempo concentrando-se no que viria e conferindo se havia preparado tudo na bagagem. Não que ela fosse levar muita coisa, mas o essencial não poderia esquecer. Recebeu um telefonema de Lucas, seu Major a perguntando se estava tudo bem com ela para a viagem e após afirmar e conversarem um pouco sobre aleatoriedades, telefonou aos rapazes que a acompanhariam. Convidou os seus companheiros de missão para uma saída casual à noite. E eles foram a um barzinho que tocava modas sertanejas.

Música da cena: Jorge & Mateus – Medida Certa

— Sem dúvidas, eu vou sentir falta das músicas do país! Não preparado para aquele tal de k-pop! – disse Gabriel Pereira, um dos sargentos que iriam em missão.
— Se liga, Pereira. Não teremos tempo para ouvir músicas! – ela falou séria fazendo os companheiros à mesa que antes riam, abaixarem suas cabeças e ficarem sérios.
Ela sempre se divertia com os amigos militares, dentro da base ou fora, mas quando não estavam de serviço. Contudo, andara tensa nos últimos tempos por causa da missão e os colegas pareciam esquecerem-se que, além da excelente militar ela também era uma amiga divertida. Naquele momento, pregara uma peça neles e todos caíram.
— Oras, vocês estão muito tensos! – ela gargalhava.
— Desculpe , mas tem sido difícil identificar quando é que, você não está sendo a nossa superior… – disse Jonas Santoro respirando aliviado por ser brincadeira — Sempre tão… Sisuda.
Imediatamente as palavras de Danilo vieram à sua mente. Ele utilizara a mesma palavra para defini-la, mas com rancor. Como algo tão defeituoso que a fizesse desumana. Afastou os pensamentos bebericando um gole de sua caipirinha.
— Vocês também acham que eu deixo de ser quem deveria? Quero dizer… Que eu deixo a patente ir na frente de tudo o que eu faço, penso ou sou? Respondam com sinceridade.
Os homens se olharam cautelosos. Não queriam responder, ou tinham receio. Iniciaram um balbuciar e gaguejar de sílabas, mas, a resposta direta e clara viera de Felipe Albuquerque, o mais sincero e direto entre eles.
— Não foi sempre assim, mas à medida que suas responsabilidades foram aumentando você se tornara um robô a maior parte do tempo, sim.
Ele disse e comeu um dos petiscos à mesa, deixando todos sem graça, menos a . Ela o olhava como se o analisasse, mas na verdade, analisava a resposta dele.
, quem te disse isso para que nos perguntasse?
Marcelo Silva, o mais calado, surpreendeu-os perguntando. Ele era de longe o menos interessado em fofocas no quartel, e fora o primeiro a perguntar o que todos estavam curiosos para saber: se fora ou não Danilo que dissera aquelas coisas para ela quando fora mandado para a sela.
— Danilo. Quando eu o detive.
— Vocês terminaram?
— Não Jonas. Eu até preferia, mas Danilo pediu que eu levasse em consideração a nossa história.
— Às vésperas da nossa partida? Ele realmente acha que é insubstituível.
— O que quer dizer com isso, Felipe?
— Você pode ser Capitã e passar a maior parte do seu tempo rodeada de homens, mas, ainda assim, existe diferença entre o mundo dos homens e o das mulheres. E certas coisas que ocorrem no quartel, você não pode saber.
— Não leve a mal, , é só que … Você é mulher. – disse sem graça Gabriel.
— Eu sei que entre vocês existem fofoquinhas que eu não saberei, por ser mulher. Um machismo resistente da carreira militar. Só quero deixar claro que, nunca, em nenhum alojamento feminino, eu vi militares mais fofoqueiros do que os homens.
— Ah deixa disso! – Jonas ria zombando.
— Mas, também há os nossos segredos femininos no quartel. Não pensem que não. Vocês só não sabem porquê… Não é todo dia que uma mulher ocupa minha posição e quando alcançamos, acabamos por nos anular entre os homens para ter o mínimo de respeito e sermos tratadas como eles.
Os quatro silenciaram-se diante àquela fala tão real, e que ao mesmo tempo é tão ignorada. Até Felipe falar. E o que ele disse foi tão engraçado quanto sério:
— Não se anulam tanto, fique tranquila, um dos assuntos mais falados é o quanto a nossa Capitã é sexy. E o quanto Danilo é um babaca que se acha porque é namorado dela. Mal sabe a mulher que tem nas mãos.
Sargento Albuquerque, eu levarei como um elogio e não como uma cantada.
Ela respondeu e todos riram.
— Capitã , acredite: foram as duas coisas.
— Ele não perde uma… – Marcelo sussurrou entre os outros dois amigos que riam baixo.

/Fim da música da cena

— Mas, ... – Felipe tomara um tom mais sério — Sabemos o quanto é difícil se manter na sua posição com o devido respeito, e acho que posso falar pelos meus companheiros quando digo que, no que depender de nós terá o nosso apoio, e se necessário, proteção nesta missão. A cultura deles é muito diferente, mas tão machista quanto a nossa se não for pior e… Estaremos a postos, dentro e fora dos uniformes.
sorriu para Felipe e o encarou com orgulho, e em seguida encarou a todos os outros com o mesmo orgulho. Aproximou-se mais da mesa, cruzando os braços sobre ela, e os disse:
— Escutem com atenção: eu quero que saibam que foram escolhidos não apenas por suas competências, mas também, pelo vínculo que já temos em batalha. E quero que além de qualquer imagem minha dentro daquele QG, seja como a superior de vocês ou como a amiga de muito tempo atrás… Quero que saibam que estaremos lado a lado para tudo. Não será fácil o que vamos enfrentar. Abandonando mais uma vez, nossos lares, amigos, família, país, por um propósito maior. Então, a partir de amanhã nós cinco seremos uma família. Eu conto com a lealdade e fidelidade de cada um de vocês para qualquer coisa que eu precise, pois, também foram escolhidos por isso. Mas, não serei a Capitã o tempo inteiro, eu serei também a conterrânea, a militar longe de casa e quero que contem comigo para tudo. Se antes tínhamos uma amizade mais forte do que a que temos agora, a partir de amanhã teremos uma fraternidade acima de tudo o que já vivemos juntos em missão, ou em almoços no quartel. Eu os respeitarei e cuidarei como membros da minha família, como irmãos. E eu agradecerei se puder contar com vocês para o mesmo.
Nenhum deles falou nada. Marcelo sorriu e segurou a mão dela, sendo seguido por Jonas, Gabriel e por fim, Felipe. Eles sabiam que no futuro, provavelmente, outros homens seriam enviados àquela missão, mas a chegada era deles. O início de tudo estava na mão deles. Eles seriam o colete à prova de balas da nação, os quais, suportariam os primeiros tiros, e evitariam que quaisquer projéteis adentrassem o corpo de seu país. Eles sorriram para a amiga e Capitã, e brindaram um último drinque. Já estava na hora de irem para casa se preparar para o dia seguinte.

Música da cena: DOTS – Lonely Road (Instrumental)

levantara-se cedo e ansiosa. À sua frente, estavam todos os militares daquele quartel, enfileirados e devidamente uniformizados para um evento daquele tipo, assim como seus superiores. Também estavam presentes, secretamente, alguns membros do governo federal e entre eles o presidente do Brasil.
Seus companheiros fardados devidamente, ao seu lado, e ela no meio. À frente dos cinco, o General de Exército, o General de Brigada, o Coronel, e o Major do 1º Batalhão de Forças Especiais do Exército Brasileiro; o presidente do país e alguns ministros. Todos se preparando para cantar o hino nacional. E assim o fizeram, e após cantarem seu patriotismo, os membros superiores à frente da Capitã despediram-se dela e dos seus companheiros com a honraria de um aperto de mãos e desejo de sucesso.
Barcelos, ao bater continência a ela e pegar-lhe a mão, olhou-a nos olhos como muito mais do que seu Major, mas como seu irmão mais velho a quem tanto devotava admiração. Ele estava preocupado e orgulhoso de sua Capitã.
Após todos cumprimentarem os enviados, uma salva de tiros fora dada ao chão. E todos os militares bateram continência aos militares que seguiram no corredor feito pelos próprios companheiros do quartel, até a entrada do avião do exército que os levaria. Ao lado da escada do avião estava Danilo, uniformizado e sério com a mão à cabeça, em continência. o olhara de soslaio, e sorrira discreta subindo para a aeronave.
Dentro da aeronave, o copiloto do voo os dera as instruções de partida e desejou a eles boa viagem.
— Escutem rapazes, – pediu — não esqueçam do que eu lhes falei ontem. A partir de agora somos mais do que um destacamento brasileiro em missão.
— Certo, Capitã. – disseram todos.
— As instruções que não lhe foram dadas serão passadas agora. Primeiramente, nós cinco seremos os primeiros por cautela, não podíamos arriscar enviar mais homens a um território arriscado. Protocolo já conhecido por vocês. Isso significa, que conforme necessitar solicitarei mais homens. Por enquanto, eu serei a única patente mais alta do Batalhão de Forças Especiais Brasileiro nesta missão. Ou seja, eu não só serei a Capitã de vocês, mas representarei o Major e quando conveniente, também o Coronel comandante. Haverá um General no consulado brasileiro de Seoul, daqui há alguns meses para tratar das instâncias mais complexas que estiverem fora do meu controle. Entretanto esta informação só é revelada a nós cinco, por motivos de segurança. Serei apresentada inicialmente como a patente maior que a República da Coreia já solicitou, mas, nada disso quer dizer que não será enviado um militar superior a mim. Tudo acontecerá conforme as necessidades. Inclusive, se eu morrer em missão – o que eu não pretendo que aconteça – vocês deverão continuá-la e para isso, até a chegada de alguém para o meu lugar vocês serão os responsáveis pelo que estiver em nosso domínio de informação. O Major Barcelos denominará entre vocês um substituto provisório em minha falta, de acordo com os relatórios que enviaremos. Entendam que, cada um de vocês deverá ser presente nos assuntos da nossa missão, e dentro daquilo que for de total sigilo, eu informarei ao comandante por relatórios. Nem todas as informações vocês poderão saber, por questões de segurança, mas, o trivial estará sobre o conhecimento de cada um. Então, assim como eu, vocês se tornam alvos importantes nesta missão. Nada que não saibam, correto?
— Certo, Capitã. – disseram os quatro.
— Vocês não têm mais chance de voltar atrás em suas decisões, o que me remete a avisá-los que: qualquer problema, informação, novidade, suspeita, enfim… Qualquer coisa que ocorra com vocês deverá ser de meu total conhecimento. Não escondam nada, ou podem estar comprometendo a missão e nossas vidas. Eu sei que os quatro já sabem de tudo isso, mas, não se perde nada por reforçar. Alguma dúvida?
— Não. – mais uma vez concordaram os quatro.
— Ótimo. Vou explicar à missão em si…

/Fim da música da cena

Coreia do Sul, Seoul – Gangnam: Haesung Hospital.

Kang Mo-Yeon estava, mais uma vez, encolhida sobre uma maca na sala de descanso dos médicos. A enfermeira Ha-Jae entrara na sala, e antes que observasse quem estaria ali ou não, proclamou um longo resmungo de dor e estalara as costas. Mo-Yeon a olhou envergonhada, e limpou as lágrimas em seu rosto voltando a sentar-se. Foi então, que Ha-Jae notou a presença da amiga. Lançou a ela um olhar de reprovação, e ao mesmo tempo de irritação – na verdade, a enfermeira não queria consolar a médica de novo pelo mesmo motivo aquela semana –, ela caminhou até a Drª Kang e sentou-se ao seu lado. Puxou um pacote de balas de seu jaleco e o abriu, ofereceu à médica que negou silenciosa, com a cabeça sobre os braços, curvados sobre os joelhos.
Aigo*², Mo-Yeon! Eu não aguento mais ter que consolar você.
— Então não console, Ha-Jae.
— Ele já está na base de Mohuru?
— Segundo Myeong-Ju não. Mas, está se preparando para ir.
— Vê? Ele está ocupando a cabeça dele com trabalho, e você deveria fazer o mesmo!
— Eu estou fazendo isso!
— Não, não está! Fica choramingando vergonhosamente pelos cantos do hospital, como alguém que traiu e foi culpada por um abandono, e ainda por cima está sondando os amigos dele para saber o que ele faz ou deixa de fazer! Por acaso, a senhora Myeong-Ju disse que Yoo Si-Jin perguntou sobre você em algum momento?
— Ha-Jae… Eu sei de tudo isso, mas eu não posso continuar ainda… Preciso me livrar de toda a dor. Do meu jeito.
— Poderia ao menos se livrar da dor, acompanhada. O presidente perguntou sobre o seu estado emocional para algumas enfermeiras, eu estava perto e ouvi quando elas disseram a ele que você estava a ponto de se matar.
— Ha-Jae, obrigada, mas eu não quero saber de nada disso.
Aigo! Não venha falar que não avisei.

*² Interjeição de reclamação, equivalente às expressões brasileiras, por exemplo: “droga”, “argh”, “aff”. É comum aos coreanos expressarem seus sentimentos, através de interlocuções fonéticas.

Mo-Yeon se levantou apalpando o rosto a fim de disfarçar as lágrimas e saiu dali deixando a enfermeira só. Ao passar pelo corredor, alguns médicos e enfermeiros a encararam. A médica sentiu-se ridícula e envergonhada. Ha-Jae estava certa, ela não podia mais destruir sua imagem sofrendo publicamente por Yoo Si-Jin. Não se deixaria ser humilhada por seus companheiros de trabalho, como uma médica que não sabe separar a vida pessoal da profissional.
Ergueu a cabeça e foi cumprir seu plantão, sem se importar com o que diriam a respeito de seu estado emocional, mas principalmente sem se importar com o fato de Si-Jin não ter demonstrado em momento algum que se arrependera do que fizera.

Coreia do Sul, Seoul: Quartel Base do Exército.

Yoo Si-Jin estava no quartel de Seoul, em sua sala, quando o General de Exército, surgiu para a reunião marcada. Ao lado dele Seo Dae, seu genro, e Myeong-Ju, sua filha, surgiram sem que Si-Jin soubesse. Ele se surpreendera e cumprimentara a todos, com a continência do exército.
O comandante o avisara que deveria receber o destacamento brasileiro que já estava a caminho, na base de pouso da aeronáutica sul-coreana. Entretanto, Yoo Si-Jin deveria urgentemente se encaminhar à base de Urk para supervisionar os preparativos. As notícias da vinda dos militares brasileiros foram tão imediatas que, o exército coreano não pode ter tempo para supervisionar a base. Segundo o comandante a vinda dos militares fora antecipada três dias atrás, por caráter de emergência e solicitado pelo governo Sul-coreano, para que o mais rápido possível o governo trocasse as informações necessárias com o militar encarregado do Brasil. E por causa daquela urgência, Seo Dae receberia os militares no quartel em nome de Yoo Si-Jin. Eles permaneceriam alguns dias no quartel de Seoul, e depois seriam enviados à base.
Myeong-Ju fizera um levantamento, por ordem do comandante, em relação à equipe médica que seria encarregada de selecionar para acompanharem-na à Urk. Ao escutar aquilo, Si-Jin a encarara com temor, mais pelo costume de imaginar a amizade dela com Kang prevalecendo naquela decisão, do que realmente acreditando na falta de profissionalismo em confundir as coisas. E como se houvesse escutado os pensamentos dele, ofendida, ela advertiu o Major:
— Eu mesma me encarreguei como médica-chefe, e a minha equipe habitual já foi preparada para a partida, Major Si-Jin.
O Major assentiu afirmativo, em silêncio. O comandante ordenou então, que ele se preparasse para partir imediatamente. Suas coisas já haviam sido separadas e estavam no quartel. Então, acompanhado de seus amigos, e de seu superior ele seguiu para a área de decolagem do helicóptero do exército. Com Si-Jin já dentro do helicóptero, Myeong-Ju afirmou que em breve estaria em Urk para auxiliá-lo no que fosse necessário, e Seo Dae também o dissera que chegaria com o destacamento brasileiro dentro de alguns dias. Os três amigos trocaram olhares cúmplices, e o comandante despediu-se dando últimas instruções para qualquer emergência.
O helicóptero partiu e logo, Seo Dae e Myeong-Ju estavam a sós na pista de decolagem, preparando-se para voltar à sede do quartel.
— Seo Dae.
Myeong chamou baixinho pelo marido, e ele a olhou preocupado. Ele sabia que ela queria falar com o marido, e não com o militar, por isso pegou em sua mão e a fez parar ao seu lado.
— O que foi, Angel*³? – ele sempre era carinhoso e principalmente quando não estava em serviço.
— Acha que esta ida de Si-Jin para Urk fará bem à relação dele com Mo-Yeon?
— Myeong, não há relação há algum tempo entre eles. Este afastamento será bom para preservar a amizade. As boas memórias.
— Eu não queria que ficasse assim, Dae-Young.
— Nem eu. Si-Jin não mostra, mas, está sofrendo muito por tudo isto. Mas, embora sofra, ele sente-se melhor agora que não está tudo nas costas dele.

*³ Codinome “Angel” dado por Seo Dae-Young à Myeong-Ju, em referência à primeira vez que se falaram, a caminho do casamento da ex-namorada de Seo Dae.

Myeong-Ju ficou olhando seu marido nos olhos. Ela encarava-o com uma expressão de dor pelos amigos, e recebia o brilho plácido de Seo Dae. Então sorriu, notara o quão feliz era por tê-lo ao seu lado. Ele era apaixonado por ela, e fazia questão de mostrar-se como porto seguro dela todos os dias.
Myeong abraçou Dae-Young apertadamente, e beijou-lhe. Ele retribuiu o carinho, sorriram um para o outro e abraçados caminharam até chegarem um pouco antes da entrada do quartel.
Dentro do helicóptero que sobrevoava a capital de Seoul, Yoo Si-Jin encarava seu celular, com a foto de Mo-Yeon. Não havia a procurado mais, pois, não conseguiria ouvir sua voz ou encarar seu sorriso novamente, sem que cedesse ao que sentia por ela. Apagou a tela do aparelho e observou a cidade abaixo de si. O dia era ameno, como nos dias em que saíam juntos para andar no parque assistindo à entrada da primavera. Fechou os olhos a fim de se concentrar em Urk e na sua missão. Mas, até ao recordar da base militar, ele lembrava-se da doutora. Do dia que ela chegara e ele a surpreendendo, entregara-lhe seu lenço. Do dia que a salvou nas minas após o terremoto movê-las. Do dia em que pegou-a observando o exército nos exercícios matinais. Do dia que a levou à ilha do naufrágio. Do dia em que beberam juntos na cozinha e ele a beijou. Do dia em que a declaração de amor dela tocou por toda a base, para todos ouvirem e ela fugiu. Do dia em que trabalharam lado a lado salvando os operários… Tudo, exatamente tudo, o fazia recordar-se dela.
Yoo Si-Jin irritou-se por seus próprios pensamentos:
Aigo! Que garota complicada! – ele resmungou nervoso, e graças ao barulho das hélices, não podia se fazer ouvir.
Ao final da tarde, ele estava chegando à base de Urk e sendo recebido pelos: antigo Segundo-Sargento Choi Woo Geun, e agora Segundo-Tenente, conhecido por Snoppy na equipe alpha e Gong Cheol Ho, conhecido por Harry Potter na antiga equipe alpha, e atualmente Subtenente, liderando os subordinados soldados da base, em uma recepção à altura de Yoo Si-Jin. Ele abraçou forte, seus ex-companheiros de equipe e agradeceu aos soldados pela recepção. Mal chegara e foi obrigado a recordar-se de que Mohuru era um refúgio divertido repleto de Soldados, e Cabos inexperientes.

Música da cena: DOTS – Attention O.R.I.

Kim Gi-Beon se aproximou dele batendo continência, e Yoo Si-Jin animou-se em vê-lo. Eles se abraçaram e enquanto Gi-Beon tentava parecer sério e responsável dizendo que estaria às ordens de seu Major, uma explosão se fez ouvir. Todos abaixaram assustados, e Kim olhou em direção a um monte onde três Cabos faziam a manutenção das minas.
— Ei! Vocês três! Querem explodir a base? Seus estúpidos molengas, eu vou aí e é bom que tenham começado a pagar flexões!
Gi-Beon gritara para os soldados que assustados iniciaram rapidamente uma série de flexões, largando seus apetrechos. Choi, Cheol-Ho, e Si-Jin sorriam da cena, segurando-se para não gargalharem.
— Ele é um bom Primeiro-Sargento. Muito empenhado. – disse Cheol-Ho.
— Ele é um discípulo de Dae-Young. – falara Choi — Como ele está, Major?
— Muito bem. E muito feliz ao lado da doutora Myeong-Ju.
— E o senhor e a doutora Kang? Quando se casarão?
Cheol-Ho sempre fora mais indiscreto, e Choi Woo o encarava com repreensão.
— Não estamos mais juntos. – Yoo Si-Jin dissera sério e sorriu para os amigos dizendo: — Vou preparar o meu alojamento.
— Seu quarto já está pronto, Major. Na verdade, nós preparamos tudo, inclusive o alojamento dos brasileiros. Mas, gostaríamos que o senhor o conferisse, quando possível.
Aigo! Por que o comandante me fez correr para cá, então?
— Desculpe senhor, mas nós não sabemos. – disse o Segundo-Tenente Choi.
— Fomos surpreendidos com a notícia de sua chegada hoje pela manhã. – Cheol-Ho completara.
— Entendo… bem, em todo caso eu vou guardar as minhas coisas e supervisionar tudo. Até mais.

/Fim da música da cena

Bateram continência ao ex-Capitão e atual Major e Yoo Si-Jin seguira para dentro dos alojamentos. Tudo estava como ele se lembrava. Andou calmamente, a cada cômodo e novamente as lembranças da Drª Kang vieram à sua mente. Subiu as escadas para seu quarto, e só quando ouviu uma voz conhecida que o rosto de sua amada desaparecera de sua cabeça. Piccolo, seu outro ex-companheiro, ao pé da escada o chamou prestando continência. Ele o abraçou e dispensou a postura de Major, assim como fizera com Harry Potter e Snoppy minutos antes.
— Vocês cuidaram bem destes garotos. – afirmou para o amigo, que sorriu orgulhoso.
Eles trocaram aquelas poucas palavras e seguiram seus caminhos. Yoo Si-Jin abrira a porta de seu antigo quarto, e onde antes havia a cama de Seo Dae-Young, pois, dividia o quarto com ele, agora estava vazio. Havia uma cama um pouco maior que uma cama de solteiro, para o Major e, o restante dos móveis habituais. A única mudança, era a cama de seu ex-companheiro que saíra e a dele que fora trocada. Largou as coisas em cima da cama, e trocara seu uniforme vestindo a habitual camiseta branca e calças bege do exército.

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Na base do quartel em Seoul, Yoon Myeong-Ju preparava os documentos e requerimentos para a equipe e para os suprimentos necessários à viagem de Urk. Dae-Young, estava no campo de treino com os aspirantes, quando fora chamado pelo Major suplente do quartel. Ao chegar na sala dele, recebera instruções referentes aos estrangeiros:
Capitão Seo Dae-Young, os militares brasileiros chegarão esta noite em Seoul. Peço que o senhor os busque na base aérea do exército e os acompanhe aos alojamentos do quartel. O comandante pediu que os deixasse sob seus cuidados.
— Entendido, Major. Me parece que o Capitão deles terá uma reunião com o ministro das relações exteriores amanhã pela manhã, e não me foram passados ainda os horários.
— O relatório da rotina deles já fora encaminhado para sua sala, Capitão.
— Obrigado senhor.
Dae-Young bateu a continência e seguiu para sua sala, onde encontrou o relatório acima de sua mesa, em envelope lacrado. Pegara o documento, nomeado a ele, e abriu-o. Leu o nome do Capitão responsável: “Capitan . E preparou-se para recebê-los.
Ao anoitecer, Dae-Young despediu-se de sua esposa na saída do quartel e explicara-lhe que passaria a noite ali devido suas responsabilidades. Ela seguiu para casa, e ele para a pista de pouso da base aérea.

Coreia do Sul, Seoul – Gangnam: Dal.komm Coffee

Myeong-Ju havia combinado de jantar com Mo-Yeon, antes de ir para casa. E as duas encontraram-se no kombini de sempre, onde antes iam com seus namorados.
Ao entrar na lanchonete, avistou Mo-Yeon remexendo sua bebida com uma colher de chá, numa mesa afastada e com uma expressão tristonha. Teve pena da amiga, e quis chorar com ela, mas ao invés disso colocou um sorriso no rosto. Após a partida recente de Si-Jin não deixaria Mo-Yeon pensar nem um minuto sequer no Major.
— Hey unnie**!
— Myeong-Ju!
Elas se abraçaram, e o sorriso de Kang surgira tímido em seu rosto.

** Toda mulher considerada mais velha com algum nível de intimidade (ex: sogra) , ou irmã, ou amiga mais velha, de uma mulher mais jovem é chamada “unnie”. É uma demonstração de respeito, e afinidade.

— Aigo! Já pediu a comida e nem me esperou! – Myeong fingiu-se brava e em seguida sorriu.
— Desculpe. Estou vindo de um plantão de 32 horas, precisava comer logo.
— Oras Mo-Yeon, claro que eu não ligo! – Myeong chamara a garçonete e fez seu pedido, e assim que a moça saíra, ela pegara a mão da amiga: — E como está se sentindo?
— Hoje, Ha-Jae me convenceu a não deixar a saudade dele atrapalhar minha vida, e eu consegui fingir que estava bem, mas… – algumas lágrimas caíram de seus olhos — Tudo me lembra Si-Jin, Myeong-Ju!
— Ya, ya, ya! Ficar assim não vai fazer passar, Mo-Yeon. Sei do que estou falando. O que você deve fazer é concentrar-se no trabalho e em outras coisas da sua vida. Eu sei que parece difícil, e é, mas você precisa superar.
Mo-Yeon a olhou com gratidão e apertou a mão da amiga, de volta.
— Obrigada pelo apoio, o que mais dói é que… A culpa foi minha de perdê-lo.
A amiga não falou nada, abaixou o olhar para as mãos e quando encarou Kang novamente, ela lhe perguntou:
— Ele já partiu?
— Sim, esta manhã.
— E, em algum momento ele perguntou…? Você sabe.
— Mo-Yeon! Esqueça Si-Jin! Ele não falou nada sobre você e sinceramente ele está fazendo o melhor para ele: não deixando a tristeza consumir a vida dele.
— Será que ele está triste mesmo, Myeong!?
— Dae-Young disse que sim, mas, que ele está aliviado. Embora esteja sofrendo, ele sofria muito mais com as brigas de vocês e agora… Ele está se concentrando em outras coisas.
Kang Mo-Yeon sorriu para a amiga, e limpando os olhos decidiu que mudaria de assunto e se, Yoo Si-Jin havia conseguido ir embora sem procurá-la, ou ao menos ter notícias dela, ela que não ficaria choramingando pelos cantos.

Coreia do Sul, Seoul: Base Aérea do Exército.

Seo Dae-Young estava parado ao lado de outros oficiais, em frente ao avião do exército brasileiro. Desceram pelas escadas quatro homens e uma mulher, ela viera por último. Ele estava surpreso, mas imaginara que teriam enviado a própria médica-chefe, embora soubessem ser desnecessário.
Pouco a pouco os oficiais caminharam uns aos encontros dos outros, e os brasileiros fizeram uma fileira lado a lado, a mulher no meio.
Cada oficial de ambos exércitos, bateram continência uns para os outros, ao mesmo tempo. manteve-se calada. Era prudente que o anfitrião se pronunciasse, mas embora calada, ela e seus companheiros estavam atentos.
— Sejam bem-vindos à República da Coreia, eu sou o Capitão Seo Dae-Young e os acompanharei em sua estadia no quartel-general de Seoul, até o envio de vocês à base Taebaek, de Mohuru, em Urk.
Seo Dae os cumprimentara em inglês, e todos eles assentiram positivo, e agradeceram tocando sua mão um por um.
preparava-se para apresentar-se, mas Seo Dae a interrompera sem perceber:
— Em nome do exército sul-coreano, eu agradeço a vinda de vocês e desejo-lhes sucesso como parceiros da Coreia.
Os parceiros de a olharam, como se soubessem que ele esperava que um dos homens se apresentasse, então, ela dera um passo à frente e falara em inglês:
— Obrigada pela recepção Capitão Seo, – ela achou melhor chamá-lo como descrito em sua farda, por seu sobrenome — eu sou a Capitã , responsável por este destacamento e por todos os assuntos que envolvam o Brasil nesta missão. Em nome do exército brasileiro agradecemos a estadia, o apoio e tudo o que puderam fazer para nos receber da melhor forma. Peço que desculpe também, a mim e meus militares pelo pouco conhecimento na sua língua nativa. Fomos preparados, mas aos poucos aprimoraremos o idioma.
Seo Dae-Young estava surpreso, mas jamais seria indelicado de demonstrar aquilo. Capitan , era uma mulher, e ele sabia que se o Brasil a enviara era porque ela teria competência suficiente para estar ali. Então não seria ele a desconfiar dela.
— Não se preocupem, são hemisférios muito diferentes e assim como esperamos poder partilhar da vossa cultura, também faremos o possível para integrá-los à nossa.
— Agradeço, em nome de meu destacamento. Estes são os meus Sargentos: Gabriel Pereira, Felipe Albuquerque, Jonas Santoro e Marcelo Silva.
Ela apresentou os Sargentos diretamente ao Capitão, e em seguida todos seguiram os oficiais sul-coreanos para o alojamento do quartel de Seoul. Aquela noite não fizeram mais do que se acomodarem, alimentarem e trocarem poucos diálogos com os militares coreanos que os recebiam.


Capítulo 04

Coreia do Sul, Seoul – Gangnam: Casa de Mo-Yeon.

Depois da noite de jantar e conversas que teve com sua amiga, Myeong-Ju, a doutora Kang estava decidida a esquecer Yoo Si-Jin. E para isso, o primeiro passo seria focar no seu trabalho. Mesmo que a cada vez que pensasse no trabalho, Mo-Yeon tivesse vontade de abandonar aquilo tudo – por culpa de saber que fora o mesmo trabalho que a separou do homem que amava –, ela também sabia que ali estava o seu bálsamo. Passara sua vida dedicando-se à medicina, amava o hospital e sempre sonhou com sua própria clínica. Até ali, não havia conquistado o seu sonho, mas, subia degrau a degrau como uma respeitada médica do Haesung.
Estava em sua casa, assistindo à televisão. O relógio marcando nove horas da manhã e a médica entediada. Percebera, após assistir um comercial de supermercado, que já não fazia compras para a casa, há algum tempo. Levantou-se a fim de verificar o armário da cozinha – estava quase vazio – e olhando novamente, dali para a televisão que estava na sala, atentou-se às promoções.
Arrumou-se e saiu rumo às compras. Fizera uma lista, antes de pegar as chaves e telefonou para Myeong-Ju.
— Bom dia, Myeong-Ju!
— Kang Mo-Yeon!
Notou que sua amiga ficara surpresa com a ligação. E estranhou aquilo.
— Está tudo bem?
— Ahn… Sim, sim! E com você?
— Eu estou atrapalhando algo? – ela perguntou preocupada em ter telefonado em má hora.
— Não, eu estou um pouco ocupada, mas o que houve?
— Nada, só queria saber se quer me acompanhar ao supermercado. Fazer compras! Weeee!!
Mo-Yeon falou animada, e escutou o riso abafado da amiga. Myeong-Ju parecia estar nervosa com algo.
— Desculpe unnie, eu não posso. Aconteceram alguns imprevistos aqui que eu preciso resolver.
— Está no quartel? Oh céus, me desculpe, me desculpe Myeong!
— Tudo bem, nos falamos depois. Até mais.
— Até.
Mo-Yeon queria perguntar se os problemas tinham algo a ver com a base de Mowuru, por mais que tentasse o esquecer, ela não deixaria de se preocupar com ele.
O primeiro supermercado que foi, era o da promoção da televisão. Ela tinha um bom emprego, ótimo salário, mas como Si-Jin dizia: “Que garota materialista!”. Mo-Yeon não era de gastar desenfreada, sempre poupava seu dinheiro. E depois dali, ela fora a outros dois estabelecimentos. Uma loja de perfumaria. E o último, um restaurante.

Música da cena: DOTS – K.Will (Instrumental versão coreana)
Estacionou o carro, entrou e pegou a fila dos pedidos. Estava em dúvida sobre qual almoço escolher na máquina, e quando se decidiu o computador não funcionava.
Aigo! Logo agora?!
Olhou para a fila atrás de si que começava a se mobilizar as filas de outros aparelhos. Em seu pensamento praguejava a falta de sorte. Contudo, depois de um longo suspiro e de choramingar surgiu ao seu lado um funcionário do local.
— Senhora, desculpe o transtorno. Nós vamos arrumar a máquina. Por favor, pegue este ticket e se encaminhe ao balcão de entrega.
Aigo! Vocês precisam observar melhor os seus aparelhos! Eu já estava indo embora e com fome!
— Sim, sim senhora. Novamente, peço desculpas.
— Certo. É só fazer o pedido com o ticket?
— Isso, isso, e depois pagar.
— Obrigada.
Ainda emburrada, ela caminhou até o balcão dos pedidos com o ticket em mãos. Algumas pessoas reclamavam por achar que ela estava furando fila.
— Não sejam mal educados! A máquina quebrou!
Ela falava impaciente para os outros clientes esgueirando-se entre um e outro até o balcão. No caixa, alguém ria da cara dela, distante do tumulto e terminando de pagar seu almoço.
Kang fez o pedido e pegou o cartão para pagar, se encaminhou ao caixa sem perceber quem estava ali. Ela pagou o almoço, e quando foi ao próximo balcão pegar seu pedido embalado, Song Hyun falou com ela.
— Doutora Kang, será que em todo lugar que a senhorita está, causa tumulto?
Ela olhou para o estranho que sabia seu nome de maneira irritada, mas ficou surpresa:
— Doutor Song Hyun! Como está?
— Estou bem. E você?
Aigo… A máquina de comprar o meu almoço quebrou, e todos começaram a causar tumulto, e eu ainda tenho que voltar para casa, guardar as compras antes de comer. Estou realmente um pouco irritada pela fome.
— Mo-Yeon, então coma primeiro antes de guardar as compras. Nem sempre o dever tem que vir à frente das necessidades.
Hyun sorriu para ela pegando sua embalagem e agradeceu ao atendente. Mo-Yeon havia ficado estática com a frase dita por ele, e pensativa.

/Fim da música da cena

— Mo-Yeon? – o amigo médico a chamou percebendo o transe da mulher.
— Ah! Me desculpe! – ela agradeceu o atendente e pegou seu almoço.
— Eu disse algo errado? – Song Hyun a acompanhava até a saída do lugar.
— Isso que disse sobre o dever não precisar ser a primeira coisa sempre…
— Hm…
— Song Hyun! Acha que Si-Jin estava certo?
Ôôh…*¹ Então é isso. Sabe Mo-Yeon, você é focada em sua carreira e suas obrigações e é admirada por isso. Foi o que a fez chegar tão longe.
— Sim, mas você também é um excelente cirurgião. E tem uma carreira brilhante. Agora acompanha os residentes ensinando coisas importantes para eles também, mas sempre se diverte e diverte a equipe que trabalha ao seu lado. Por que olhando para você parece tão fácil?
Song Hyun riu discreto, e parou à frente do carro da doutora.
— É porque não parece fácil, simplesmente é. Lembra-se de muito tempo atrás, quando você perdeu a posição de acadêmica no hospital?
— Lembro. Mas, o que tem isso a ver?
— Mo-Yeon, naquela ocasião eu dissera a Ha Ja-Ae que você não deveria ter passado tanto tempo na sala de cirurgia, quando todos sabiam que a família de Kim Eun-Ji era uma grande acionista do Haesung. E por isso, todos imaginavam que ela levaria vantagens no hospital. Mas você, apenas se concentrou, concentrou, e no final se decepcionou. Eu também havia dito-lhe um tempo depois, que após a sua perda, você floresceu muito mais do que antes. E você se lembra dos sentimentos que aquela situação toda lhe trouxe? Recorda-se, do que você havia me respondido?
— Sim… Eu disse que… Estava surpresa comigo. E percebi o quanto eu consegui dar valor às coisas que antes eu não dava.
— Muito bem. Pense de novo, Mo-Yeon: não é saudável focar só em trabalho, trabalho, trabalho… É preciso rir um pouco. Distrair. Principalmente quando se trabalha com tensões e decisões sérias o tempo todo. O Major Si-Jin, por exemplo! Sempre estava fazendo você se sentir mais leve, apesar das muitas obrigações que ele tinha.
Mo-Yeon recordou-se de Si-Jin e entristeceu-se. Olhou para os próprios pés e quando Hyun percebeu aquilo, ele suspirou e desculpou-se.
— E doutora Kang? É importante atribuir compromissos importantes, consigo e com as pessoas que ama, além de coisas do trabalho. Mas, nada adianta assumir compromissos e não cumpri-los. É como se tudo viesse em segundo plano, até mesmo, o próprio bem-estar.
Aô*² Song Hyun! Ha-Jae sempre diz que você tem sabedoria escondida na sua idiotice. E acho que ela tem razão.
— OH! O quê? Oras! Vocês…!
— Acalme-se Hyun, não é uma ofensa. É a maneira de Ha-Jae dizer que você é um homem sábio e divertido.
— Ah, é?
— Você gosta mesmo dela, não é?
— Sim.
Eles olharam-se cúmplices e sorriram.

*¹ Interjeição que representa que, o locutor lembrou-se de algo ou; o locutor teve uma idéia ou; o locutor descobriu algo. Semelhante ao que seriam as interjeições “Hum”, “Hmmm”, “Oh-ou”, pronunciadas ou escritas em português. Difere-se de “OH!”, que representa susto.
*² Enquanto “Aigo” é uma interjeição que representa irritabilidade ou um resmungo; “Aô” representa surpresa, ou na maioria das vezes uma exclamação divertida.


— E o que está fazendo neste seu dia de folga?
— Oh, eu estava fazendo exercícios de manhã, mas antes de voltar para casa recebi um telefonema do hospital então, eu vim comprar um almoço rápido.
— Do hospital? Uma emergência? E você está aqui conversando tranquilamente comigo? Oras Song Hyun, corra! Ande, ande!
Mo-Yeon desesperou-se e começou a correr empurrando o doutor Song para frente, embora ela não tivesse ideia de onde estaria o carro dele.
— Mo-Yeon! Acalme-se!
— Alguém está precisando do senhor!
— Não é uma emergência!
— O que?
— A direção do hospital me telefonou porque… Ôôh… Eu não posso te dizer.
Hãn? Que ultraje! Por que está escondendo algo de mim?
Enquanto Song a olhava atrapalhado, por não saber se poderia falar a ela o que acontecia, Kang já estava irritada analisando-o.
— É que… – ele aproximou-se mais da doutora, sussurrando: — Tem que jurar manter segredo de Estado!
— Segredo de Estado?
— Shiiiiii!
Aigo, que coisa mais esquisita Song Hyun!
— Eu fui convocado de novo, doutora Kang.
— O quê?
— A senhora Myeong-Ju.
Ele olhava esperançoso para Mo-Yeon a fim de que ela entendesse a mensagem, e ela o olhava confusa até que compreendeu.
— Aôô! Você vai voltar à base de Uruk?
— Isso! – ele exclamou feliz, e depois triste: — Embora certas recordações me fazem querer recusar, infelizmente eu não posso.
— Todos foram chamados de novo?
— Eu não sei se há outros, mas a própria senhora Myeong-Ju solicitou-me ao hospital. Agora, eu preciso ir doutora Kang. Espero que cuide dos meus pacientes para mim. Ok?
— Sim, sim.
— Até a volta. Fique bem Mo-Yeon!
— Espera! Quando você parte?
— Eu ainda não sei. Até mais!
Song Hyun saiu correndo até seu carro, e Mo-Yeon depois de alguns minutos estática, pegou o telefone e discou para Myeong-Ju, mas um carro que queria sair do estacionamento buzinou alto a assustando.
— Não basta causar tumultos lá dentro? Quer impedir de sairmos do estacionamento também, mulher maluca? – um motorista grosseiro e estressado gritou para ela.
Mo-Yeon saiu da frente assustada e resmungou xingamentos baixos àquele homem. Entrou em seu carro e seguiu de volta para casa. Assim que chegou deixou uma mensagem para sua amiga Myeong pedindo para que ela lhe telefonasse assim que possível. Olhou as sacolas de compras para guardar e seu embrulho com o almoço. Colocou a comida para aquecer no micro-ondas e começou a guardar suas compras:
— Quem foi que disse que dever e necessidades não podem ser resolvidos ao mesmo tempo?
Resmungou e aguardou o almoço aquecer. Depois comeu, terminou de guardar as compras, e quando não tinha mais nada a ser feito deitou-se no sofá com a TV ligada. Mas, na verdade ela apenas encarava o celular, ansiosa por uma resposta.


Capítulo 05

Coreia do Sul, Seoul: Quartel Base do Exército.

Às sete horas da manhã, ainda com sono e cansados pela mudança de fuso horário, os cinco militares brasileiros aguardavam o Capitão Seo Dae no pátio de saída ao refeitório. Os outros militares passaram o café da manhã inteiro os encarando. Na verdade, encaravam muito mais . A Capitã sabia ser discreta e não se importar com aquilo, mas Jonas, Gabriel, Marcelo e Felipe entre si comentavam suas preocupações com a aceitação daquele povo a ela. Combinaram que estariam atentos ao que ocorresse à , pois, ainda que fossem aliados ali não estavam totalmente seguros.
Seo Dae-Young surgiu cumprimentando-os e sendo gentil com eles. Perguntou se estavam bem acomodados, e descansados. Eles responderam que sim, e em seguida Seo Dae os informou que tinha uma reunião marcada com o ministro das relações exteriores, Lee Han-So. Tanto ela quanto os oficiais já sabiam daquilo e estavam prontos para a partida.
Entraram no carro do exército e viajaram a caminho da sede do governo onde eram aguardados. Durante o percurso Dae-Young lhes mostrava os pontos da cidade, e os explicava um pouco sobre a cultura local. Cortês como um guia turístico. não falava muito, apenas observava, concordava e sorria. Os rapazes estavam muito mais interessados do que ela. Não que estivesse preocupada com o encontro que teria, pois já sabia o que dizer. Mas aquele momento em terra estrangeira, observando o lugar, as pessoas, e refletindo sobre o que a levara até ali, tinha em sua mente uma porção de pensamentos sobre si. Ela refletia as próprias atitudes até ali. Danilo, suas brigas, o caminho que aquele relacionamento percorreu e por fim as palavras dele, e de Felipe. Será que ela estava errada em sobrepor seus deveres aos próprios prazeres?
Os soldados perguntavam a Seo Dae-Young como eram as mulheres coreanas, no exato momento em que dispersara os pensamentos e concentrara-se na conversa deles:
— O quê? Capitão Seo, me desculpe pela inconveniência e indisciplina de meus sargentos.
Ela desculpou-se com Seo Dae e olhou para os rapazes de maneira reprovadora, não era do estilo da Capitã chamar a atenção de seus subordinados diante a presença de outros que não fossem do próprio Batalhão.
Aquilo poderia ser visto como um pulso fraco, diante os coreanos que eram tão disciplinadores, mas não mudaria seu jeito de ordenar. Principalmente por estar ciente de que, para os militares seria considerado vergonhoso serem repreendidos por uma mulher.
— Não se preocupe Capitã , a curiosidade deles é comum entre soldados enviados a territórios estrangeiros. Não me ofenderam.
— Agradeço a sua compreensão. Embora eu entenda a curiosidade deles, não é como se fossem ter tempo para conhecerem as mulheres coreanas. Até porque pelo que notei, não há muitas mulheres no seu exército, não é?
— A cultura de nosso país não permite que mulheres sejam alistadas.
— Em nenhuma função?
— Apenas como médicas e enfermeiras. Não é habitual encontrá-las nos quartéis, embora minha esposa seja médica-chefe do nosso exército, em posto de Primeiro-Tenente. E também, filha do General do nosso exército.
— Compreendo.
— Inclusive Capitã, eu aproveito para me desculpar caso sua chegada tenha sido repreendida por nossos soldados. Todos aguardavam os militares brasileiros.
— Não me ofendeu, Capitão. Estou acostumada a surpreender por onde passo. Certamente foi um susto para seus homens uma “médica-chefe” entre os militares estrangeiros, e uma surpresa ainda maior descobrirem que na verdade, a mulher era a Capitã. Mas, tenha certeza que meu posto foi conquistado por mérito, através de muito trabalho e que meu país jamais submeteria aos anfitriões este tipo de constrangimento se não tivessem certeza da minha competência para a missão.
— Tenho certeza. E admiro isto.
Um silêncio educado se fez entre o Capitão Seo Dae, e a Capitã . Os militares brasileiros entreolhavam-se discretos.
— Bem! Mas, se não for também uma ofensa à Capitã, podemos todos conhecer os costumes noturnos de Seoul. Eu terei grande prazer em guiá-los num passeio. — Por mim, não há problema algum. E para vocês rapazes? Poderiam matar suas curiosidades sobre a cultura local?
Ela falou mais descontraída, e os quatro sorriram assentido-a. Seo Dae-Young riu também, e apenas se desculpou por “não poder acompanhá-los em missões ocultas”, uma vez que era casado, mas que se manteria discreto sobre o que acontecesse.
fez uma piada acerca de: “vocês encontraram um cúmplice entre os coreanos”, se referindo a alguém que acobertaria os rapazes naquilo que ela não poderia.
Todos eles riam mais íntimos e descontraídos.

Coreia do Sul, Seoul: Sede do Consulado Latino Americano.

Música da cena: DOTS – Hidden Genius

Às nove horas da manhã o carro do exército adentrou ao estacionamento do prédio, e os seis militares direcionaram-se ao andar da embaixada brasileira. Lá estavam o General de Exército da Coreia do Sul, como responsável pelos militares recém-chegados, e o ministro das relações exteriores aguardando os seis militares. Eles chegaram à sala onde se reuniriam e foram entrando, sendo Seo Dae o primeiro e a segunda. Todos bateram continência ao general ali presente. E ele, o general, olhava para sem entender.
Ela cumprimentou o ministro das relações, Han-So, com um aperto de mãos: ato esperado de um Capitão. Então o general se deu conta de que ela era a Capitã.
— Uma mulher?! – ele indagou pasmado.
olhou para o general, séria, mas contida. Os outros militares presentes encaravam a cena preocupados, Seo Dae-Young muito mais preocupado do que os demais, por conhecer o lado tradicionalista de seu sogro.
— É comum em outras culturas que mulheres ocupem cargos de poder dentro das forças militares, general. – o ministro explicou calmo.
— Claro... Claro.
O general não se desculpou à capitã, apenas porque ela era algumas patentes abaixo dele. Entretanto, para o ministro das relações, aquilo surtiu como uma ofensa pela maneira como ele agiu e pediu educadamente que ele se desculpasse.
— Não vai desculpar-se à representante da pátria que recebemos General?
— Claro, me desculpe senhorita.
— Não me ofendeu, General.
— Bem, então, peço que os militares nos dêem licença para que eu e a Capitã possamos conversar.
Seo Dae-Young cumprimentou o ministro e saiu, assim como Jonas, Gabriel, Marcelo e Felipe. O General foi o único que permaneceu na sala junto aos dois.
— Capitã , como ministro das relações exteriores da República da Coreia, eu solicitei ao representante do seu consulado que enviasse um General do seu exército para cá. E a medida proposta foi de que aguardássemos a chegada do destacamento, para que após algum tempo o envio do general pudesse ser concretizado. Como sabe, a vinda de vocês é secreta. E esta missão não apenas envolve o nosso pelotão de forças especiais, como também grande parte do exército sul-coreano. Por isso, as medidas de envio de apoio para cá, serão muito discretas e apenas se necessário em última instância. O General aqui presente – apontou para o militar ao lado dela — Será responsável por suas necessidades, e pelo protocolo da missão vocês cinco serão tratados e incorporados ao nosso próprio exército. Claro que, terão preservados os seus direitos humanos segundo as leis que regem a chegada de estrangeiros ao país. Esperamos então, que a senhorita possa lidar com tudo o que se referir à missão, possibilitando que não chamemos a atenção da Coreia do Norte, e de outras nações com a imigração de tropas brasileiras.
— Ao que me compete fique tranquilo de que as responsabilidades serão cumpridas, e espero o apoio do seu país para que o meu trabalho seja executado da melhor forma. Eu tenho comigo um documento sigiloso a ser entregue nas mãos do ministro.
estendeu a ele um envelope preto lacrado. Aguardou que ele o lesse brevemente, e quando o ministro a encarou de volta, ela continuou:
— Os interesses da minha nação em unir-se à sua estão além das negociações comerciais que já ocorrem há anos. E estão distantes, neste primeiro momento, de aliança para confronto internacional. O que me faz solicitar que seja mantido o tratado de paz dentro do seu território. E para isso, esperamos ser informados de ameaças e ataques que vierem a sofrer. O Brasil, como sabem, é um país de muitas relações e orgulhosamente poucos confrontos internacionais. Já a República da Coreia vive sob a ameaça da Coreia do Norte, e já recebemos também uma ameaça antes da nossa chegada, do imperador Kim Jong-Un. Por causa da última visita do nosso presidente, especulações acerca do encontro vêm sendo observadas. Os Estados Unidos e a Rússia demonstraram interesse em conhecer os assuntos que nos ligam, graças ao Brasil ser visto por essas nações como um país que não apresenta ameaças e riscos a eles, a desculpa dada por nosso governo foi convincente. Entretanto, a Coreia do Norte não agiu com diplomacia em nos consultar – como fizeram os outros países – e nem mesmo em informarem-se com o seu governo. Eles imediatamente emitiram a ameaça, o que causou preocupação dos civis nativos e dos civis imigrados aqui.
— Ao que nos competir, a República da Coreia protegerá os cidadãos brasileiros neste país, e também à sua nação. Os assuntos que nos unem já estão sendo enluvados sob as demandas de comércio exterior.
— O que nos preocupa, Senhor Ministro, é que esta aliança chegará ao ponto de despertar as suspeitas mundiais e a desculpa de “relações de comércio” não será mais convincente. Precisamos integrar novas razões. Neste documento está todo um projeto, com o planejamento que o governo brasileiro minuciosamente fez. Neste projeto constará a integração entre as nações, livres de suspeitas. E o passo a passo de como executá-las. O senhor deve ler e analisar, qualquer alteração ou discordância deverá ser tratada com o nosso Primeiro-Ministro.
— Me parece um projeto grande. Há tempo para que seja cumprido ainda neste mandato?
— Assim como nossa nação tem o interesse de cumprir tudo dentro do tempo de mandato atual, prezamos para que vocês também.
— Temos um ano a menos de mandato, em relação ao Brasil.
— Mas temos três anos para concluir o projeto final. O tempo do vosso mandato recém assumido.
— E qual o tempo de estadia do seu destacamento?
— O objetivo do nosso destacamento diverge-se do objetivo do projeto. Estamos aqui a fim de garantir o bem-estar dos cidadãos latino-americanos, conforme o recente “Acordo Antiterrorismo na América Latina”. Bem como nossos cidadãos nativos, todos eles, que estão lá ou aqui. As atribuições de parceria entre as nossas forças armadas só poderão ser incorporadas depois do terceiro estágio do projeto concluído. Qualquer desconfiança da nossa estadia aqui poderá trazer risco para as duas nações. O senhor mesmo demonstrou estar ciente disto. Primordialmente, nós viemos como uma equipe de testes. Devemos ser treinados e integrados às suas técnicas de treino e assim voltar ao nosso país, preparados para repassar o que apreendemos.
— É muito conveniente que vocês sejam inseridos às nossas táticas de batalha, e inteligência, mas e nós quanto as suas?
— Já sabíamos que esta dúvida seria pertinente, dentro deste documento há um acordo – que assim como aquele que foi feito para nossa vinda – regerá o envio de tropas especiais sul-coreanas, para o mesmo “intercâmbio” se assim podemos dizer. Compõem o acordo deveres e direitos para o caso da Coreia do Sul decidir enviar uma tropa limitada, como a nossa.
— Entendido. Então, ao que exatamente nós devemos informar a Capitã, além de preparar-lhe como uma tropa de elite, excepcional?
— Tudo. Eu represento mais que a Capitã do meu destacamento, eu represento o Major, o Coronel e até a vinda do General ao Consulado, – que vocês previamente solicitaram – representarei também, o General de Brigada do meu Batalhão de Forças Especiais. Tudo conforme as ocasiões que necessitarem do dever de tais postos. E independente de ser mulher ou de como vocês vêem a minha patente, eu devo ser tratada e estar a par das informações como tais.
O ministro assentiu seriamente, e o General o encarou surpreso com a fala de . Ela seria a General, enviada? Ela não teria um superior a quem obedecer? Como o país dela, pôde nomeá-la para tanto numa missão como aquela?
— Ademais, respondendo a pergunta do Senhor Ministro nosso tempo aqui não foi esclarecido. Através dos relatórios de missão, o governo brasileiro em concordância com o governo coreano decidirá a nossa partida.
— Certo. Bem, então eu analisarei os documentos bem como aos procedimentos que nele constam, e entrarei em contato com o Primeiro-Ministro do Brasil. Qualquer informação que compita à senhorita, eu mesmo farei questão de emiti-la. Obrigada, Capitã.
— O agradecimento é meu, Senhor Ministro.

/Fim da música da cena

Eles levantaram-se e cumprimentaram-se em aperto de mãos.
— General, obrigado por sua prontidão. – o ministro o cumprimentou e o general respondeu-o — Peço que encaminhe a Capitã, ou melhor, neste caso, a General Interino para os procedimentos de integração.
— Como quiser, Senhor Ministro. Com licença.
O General se dirigiu à porta abrindo-a para que passasse. E depois de um breve aceno de cabeça, ela retirou-se da sala do ministro.
Os militares que aguardavam àquela sessão privada na sala externa bateram continência assim que o General e a Capitã surgiram.
O General chamou Seo Dae-Young num canto separado aos outros militares e lhe falava, e repetia o gesto com seus homens.
— Capitã, tudo ocorreu bem? – Jonas perguntou-a.
— Estão surpresos com o envio tão limitado de encarregados. E ainda mais surpresos, por eu ser a militar interina nos postos tão superiores ao meu no que se tratar de diplomacia. Não sei se o General aceitou bem a minha colocação à altura dele. E quanto ao ministro, um pouco desconfiado, mas demonstrou-se receptivo e confiante a nós. Só mesmo depois da emissão oficial do ministro brasileiro que saberemos se estamos seguros ou não. Agora vamos, não quero que pensem que estamos de segredos.
Ela encaminhou-se à saída do local, junto com seus homens, e não demorou para que Seo Dae-Young e seu General surgissem logo atrás deles. O general despediu-se dela e dos demais, segundo a educação e ética militar. E deixou-os sob os cuidados de Seo Dae.
— Bem, nós retornaremos ao quartel agora. Almoçaremos e após o almoço vocês receberão as instruções necessárias.
— Obrigada Capitão Seo.
Eles prosseguiram de volta ao quartel, e dentro do carro, continuaram a conversar gentis entre eles. Como se nada houvesse acontecido de secreto na missão. havia simpatizado bastante com Seo Dae-Young, pela impecável postura militar, mas também, por sua confortável recepção nativa.


Capítulo 06

Uruk, Mowuru: Base Taebaek de Treinamento Militar.

Yoo Si-Jin estava verificando os documentos enviados à base, que estavam sob os cuidados de Choi e tratavam da chegada dos visitantes. Ele queria saber o que os soldados e oficiais dali sabiam sobre aquilo, quando ouviu uma explosão forte dentro do alojamento.

Música da cena: DOTS – Attention O.R.I


Ele saiu correndo de sua sala e foi ao alojamento. Outros soldados e oficiais atentavam-se ao que acontecia, e ele adentrou o local acompanhado de Gi-Beon. Eles entreolharam-se curiosos, e quando chegaram ao saguão do alojamento, lá estava um dos soldados: jogado ao chão coberto com ramém quente. A porta do forno estava aberta e havia fumaça por todo local.
Os dois seguiram até ele e o ajudaram a se levantar.
— O que você está fazendo, seu molenga? – Kim Gi perguntou a ele. — Perdão senhor! Eu fui levar à travessa ao forno e não sei por que ele estourou.
Aigo! Baká!*¹! Cozinhar é uma arte que exige concentração! Não faça coisas elaboradas se não sabe!
Kim Gi brigava com o soldado e Si-Jin quis rir, mas se conteve.
— Sargento Gi-Beon, leve-o à enfermaria para tratar as queimaduras.
— Sim, senhor Major! Eu mandarei soldados para limpeza.

*¹ “Idiota” em japonês.

/Fim da música da cena

Si-Jin concordou em silêncio e outros militares surgiram ali, entre eles Piccolo e Harry Potter. Os dois resmungavam de uma maneira divertida, algo sobre Kim Gi-Beon achar-se o todo poderoso agora que não era mais o cozinheiro. E comentaram como ele cozinhava bem. Yoo Si-Jin começou a rir sem alarde, havia se esquecido como a base de treinamento era divertida. Começou a limpar a bagunça do local. E verificou se ainda havia gás aberto. Os outros surgiram próximos a ele, ajudando a limpar tudo.
Piccolo e HP pediram para que ele não se ocupasse com aquela tarefa, mas Si-Jin não se importava de fazer aquilo por ser Major.
O Segundo-Tenente Choi Woo-Geun surgiu perguntando se tudo estava bem, e quando ele contou-lhe o ocorrido este solicitou educadamente a presença do Major.
— Mantenham tudo em ordem, e limpo!
Ele encarregou aos presentes a limpeza do local e foi até onde Snoppy estava.
— O que houve?
— A antiga cabine da equipe médica, o medicube que foi doado para a ONU passou por reformas e retornou para nossa base e como a nova equipe médica precisará das acomodações, ordenei que os aspirantes armassem as tendas acopladas à cabine.
— Ótimo. Vamos lá ver.
Si-Jin foi ao lado de Choi até a cabine médica e assim que avistou o portão recordou-se novamente de Mo-Yeon pendurada ali todas as manhãs, assistindo ao treino dos militares. Sorriu com a lembrança, mas como se passasse por cima de um holograma de Mo-Yeon toda a cena se transformara em fumaça. Ele entrou e verificou que o lugar estava bem organizado, pintado e os novos dormitórios dos médicos e enfermeiras haviam ficado melhor que os dormitórios dos anteriores.
— Tudo certo Snoppy, fizeram um bom trabalho.
— O senhor sabe quantos médicos virão?
— Hm… Não. Ainda não recebi o documento oficial por Myeong-Ju.
— Certo Major.
— E quanto ao quarto dos militares?
— Vamos dar uma olhada? Ele ficou pronto também.

Música da cena: DOTS – Attention O.R.I.

Eles seguiram de volta para o alojamento e a cozinha ainda estava bagunçada com um pouco de fumaça. Mas, todos organizavam o local. Snoppy ao ver aquela bagunça procurou por Gi-Beon e não o encontrando, chamou um dos soldados ali:
— Você!
Cabo Chyun Tae-Ho, senhor Tenente!
— Sabe cozinhar?
— O básico Tenente Choi.
— Consegue fazer menos sujeira?
— Sim senhor!
— Então prepare o almoço.
— Certo senhor! Dan Kyeo*²!

*² Saudação militar.

Ele concordou, mas ao virar-se, Gi-Beon surgiu gritando para o Cabo que recebeu as ordens recentes:
— Ei, ei! Eu vou supervisionar isto! O que pretende fazer para o Major e o Tenente comerem? Sabe a responsabilidade que tem nas mãos? Por que está aí parado me olhando? Não ouviu a ordem do Segundo-Tenente Choi? Vá preparar o almoço!
Snoppy revirou os olhos e sorriu para Si-Jin, os dois saíram dali e deixaram Kim Gi-Beon vestindo o avental e acompanhando o soldado que prepararia a comida.
Eles seguiram até o último quarto, que era depois dos aposentos do Major.
— Decidi colocá-los aqui no alojamento interno, no mesmo corredor que o senhor, eu e alguns sargentos. Assim podemos ficar mais alertas.
— Deixou os cabos e soldados, nos alojamentos externos sem supervisão? Desde que eu cheguei, eles já foram capazes de duas explosões. Explodirão os dormitórios também?
— Não estão sem supervisão, senhor.
— Kim Gi-Beon está com eles?
Yoo Si-Jin perguntou, e eles entreolharam-se. Snoppy o encarava pensativo e Si-Jin o encarava com seu ar de superior e óbvio.
— Remanejarei Piccolo para lá, também. – Snoppy concluiu.
— Ah bom. – Yoo Si-Jin respondeu sério, mas divertido.

/Fim da música da cena

Ele abriu a porta e viu que o alojamento estava bem limpo e arrumado. Notou a cama de Seo Dae, que antes ficava no mesmo quarto do dele, num canto arrumada e separada dos beliches. Ao observar aquilo, franziu o cenho em dúvida:
— Por que estamos sem espaço e com materiais escassos?
— O último confronto com a Coreia do Norte fez com que gastos fossem contidos. Então a reforma dos alojamentos da base, e a compra de novos materiais foram suspensas. Mas, o número de homens aumentou. Por isso, no Medicube e no quarto dos militares o número de leitos é exatamente proporcional à quantidade que virão.
— Mas, Myeong-Ju não enviou a listagem da equipe ainda.
— Fui informado da quantidade exata de pessoas do destacamento, que virão. Cinco homens. Quanto à equipe médica preparamos o mesmo número de leitos que anteriormente, e pessoalmente emiti à senhora Myeong-Ju o limite de leitos disponíveis. No entanto, ela não enviou resposta até o momento.
— Entendo. Em todo caso, até podermos mudar isto, os médicos e estrangeiros serão bem acomodados.
— Sim senhor.
— Obrigado Tenente Choi. E como estão os arsenais?
— Foram repostos assim que solicitei, após o último confronto.
— Hum… Tem feito um bom trabalho como Segundo-Tenente desta unidade, Snoppy.
— Obrigado, Major.
— Em breve nomearei um Capitão Interino para a Base Taebaek para substituir o nosso colega perdido. Eu gostaria que Seo Dae-Young aceitasse, mas não sei se será possível. Em todo caso, vamos aguardar a vinda dos brasileiros, talvez o Capitão deles possa ser nomeado interino enquanto estiver como um dos nossos.
— Enquanto não for possível termos um Capitão, como Tenente eu farei o meu melhor, senhor.
— Sei disso, Choi… Confesso não tomar esta decisão em primeira instância. Caso Seo Dae não fique em Taebaek, até eu ter certeza se devo realmente delegar a função ao Capitão brasileiro, você responderá como Capitão Interino desta unidade, Snoppy.
— Agradeço a confiança, senhor.
— Bem, e os colares?
— Colares?
Aigo! Não se pode elogiar! A cerimônia de boas-vindas!
— Ah, sim! O Subtenente Gong Cheol-Ho está responsável pela organização disso.
— Certo. Temos que receber a equipe médica com alegria, e os novatos também.
Yoo Si-Jin saiu em direção à sua cabine e leu novamente os documentos. Recebeu um fax de Myeong-Ju tempo depois. Pegou a lista com nome dos médicos e equipe e entregou ao Snoppy, em seguida foi almoçar. Enquanto caminhava para fora de sua cabine, outro fax chegara. Era a nova listagem de Myeong-Ju, que anulava a outra. Mas, o papel caiu ao chão e o soldado que entrou para limpeza do local pegou a lixeira para esvaziá-la, e o papel que estava no chão ele colocara abaixo do aparelho de fax na mesa.

Coreia do Sul, Seoul – Gangnam: Casa de Mo-Yeon.

Mo-Yeon não aguentava mais aguardar o retorno de Myeong-Ju e quando ela pensou em telefonar para a amiga pegou o seu telefone, mas Myeong já estava lhe telefonando.
Unnie! O que houve?
— Myeong-Ju! Por que Song Hyun fora convocado à Uruk?
— Ele te contou?
— Não! – ela gritou e acalmou-se em seguida para não gerar desconfianças: — Eu estava perto dele quando a direção do hospital o informou.
— Certo, não é como se eu achasse que você não saberia cedo ou tarde.
— Então é verdade?
— Sim, Mo-Yeon.
— E por que você não pediu para eu ir, ao invés dele?
— Mo-Yeon, não é óbvio?
— Mas eu quero ir!
— Em todo caso, não foi uma escolha aleatória. Ele é um excelente médico, que teve boa participação em Uruk e além do mais, é o médico responsável pelos residentes do hospital, e embora eu seja a médica-chefe, não pude convocar a equipe que sempre me acompanha. Então o exército solicitou nova equipe e foi minha responsabilidade convocar os profissionais.
— Do Haesung Hospital?
— Sim, não que eu quisesse. Mas como tive que lidar com isso, achei prudente que um médico cirurgião que já tivesse passado pela experiência de trabalhar no exército acompanhasse os enfermeiros novos e alguns residentes.
— Quem são?
— Mo-Yeon, não posso lhe ceder informações confidenciais. E antes que você peça para participar, eu digo que já tenho o quadro médico completo e já repassei a listagem à Uruk.
— Myeong-Ju não lhe perdoo! Por que Song Hyun e não eu?
— Por que ele era o mais qualificado da equipe antiga.
— Oh! Baká! Que ofensa!
— Mo-Yeon, concentre-se em seu trabalho e esqueça Uruk. Esqueça Si-Jin, para seu próprio bem unnie!
Kang Mo-Yeon sentiu-se tão ofendida que desligou a ligação “na cara” de Myeong, que por sua vez, sentiu-se também muito ofendida e decidiu dar um gelo na amiga.

Capítulo 07

Coreia do Sul, Seoul – Quartel Base do Exército.

Música da cena:
BTS – Go, Go

Seo Dae-Young e os demais militares haviam chegado e foram diretamente ao refeitório. Estava lotado, e por isso os olhares se voltaram todos a eles. O celular de Dae-Young tocou discretamente, era Myeong-Ju. Ele atendeu e explicou que estava com os estrangeiros a caminho do almoço, e por isso quando eles chegaram Myeong já estava aguardando-os numa mesa reservada perto das janelas de vidro do refeitório. A vista do campo do quartel era bonita, apesar de ser apenas um campo. Ela gostava de sentar-se ali. E quando ela notou o burburinho geral, olhou em direção à porta.
Assim como todos ficaram surpresos ao ver a Capitã pela primeira vez, Myeong também sentiu-se surpresa, e até enciumada pela beleza diferente da mulher que caminhava ao lado de seu esposo. Os homens atrás deles também eram bastante bonitos, e Myeong corou.
— No Brasil, eles aceitam a sua posição?
Seo Dae perguntou à enquanto caminhavam na fila servindo-se. Jonas e Gabriel riram discretos.
— Ainda não conheço uma sociedade que respeite integralmente as mulheres. Os meninos sabem de coisas que eu não sei, e que meus subalternos comentam. Eles podem te dizer melhor.
Jonas, Marcelo e Gabriel ficaram sem graça em ter de contar para Seo Dae o quanto tinham de lidar com as atitudes machistas de seus companheiros contra ela, pelas costas. Mas Felipe, não tinha pudores com nada, então foi o único a falar:
— Nosso país é bem machista, mas as mulheres são fortes e lutam por seu espaço. Quando nos deparamos com mulheres corajosas assim, não há como não respeitá-las. A Capitã inspira muitas mulheres, e muitos homens também porque é dedicada, forte e muito corajosa. Não é de se esconder atrás de seu gênero. E embora tenha tudo isto e muito mais para ser respeitada, ainda há aqueles que não entendem que nada define o que uma pessoa pode ou não fazer, a não ser a vontade própria de cada um.
Seo Dae transferiu seu olhar de Felipe para a Capitã. Ela sorriu para seu subordinado, discretamente, e Dae-Young com as sobrancelhas franzidas os encaminhou à mesa onde estava Myeong-Ju os aguardando. Felipe ao notar que ele havia ficado constrangido fez um comentário divertido, antes que chegassem à mesa.
— Capitão Seo?
— Sim.
— Tem outra coisa. É muito inspirador para a equipe e todo o regimento ter uma Capitã tão bonita e sexy no comando.
Seus amigos engoliram seco querendo rir, Seo Dae ficou sem jeito e revirou os olhos e o repreendeu: — Albuquerque, mal chegou e já quer uma advertência? Mantenha sua postura e disciplina ou eu deixarei o Capitão Seo Dae fazer as honras coreanas em puni-lo. — Sim, Capitã. Desculpe-me. – Felipe dissera muito mais pela aparência de respeito do que por arrependimento.

/Fim da música da cena

Ele sabia que não ficara ofendida. E também sabia que deveria se controlar nos comentários e piadas, porque ela ainda era a sua superior. E como haviam comentado antes entre eles: se ela foi capaz de prender Danilo por uma discussão, o que não faria com os outros?
Quando chegaram a frente da mesa onde estava, a boquiaberta Myeong-Ju, ela levantou-se e bateu continência a todos. Eles corresponderam e colocaram suas bandejas à mesa e sentaram-se. Seo Dae-Young antes de sentar-se ao lado de Myeong-Ju, afastou a cadeira na quina da mesa para que sentasse. Ela lhe agradeceu. E Myeong, por mais que soubesse do cavalheirismo do marido, sentiu-se enciumada. Principalmente por que era uma linda mulher.
Tenente Myeong-Ju, estes são os Sargentos brasileiros: Santoro, Albuquerque, Silva, Pereira.
Os rapazes cumprimentaram-na sorrindo e acenando com a cabeça.
— E esta é a Capitã .
seguiu o mesmo gesto dos sargentos.
— E esta é a médica-chefe e Primeiro-Tenente Myeong-Ju, minha esposa.
— Sejam bem-vindos ao nosso país. – Myeong respondeu sorridente, em inglês: — Eu não sabia que enviariam uma médica-chefe. Acabei incluindo um médico a mais na listagem de Uruk.
Ela falou inocente e Seo Dae-Young arregalou os olhos sem graça, os rapazes olharam para sua Capitã, e apenas sorria levemente.
— Ela não é médica, Myeong. Eu disse que ela é a Capitã do destacamento. – Seo Dae falou à mulher.
Aôôô… Um Regimento inteiro? – Myeong perguntou.
— Com cerca de mil e duzentos militares no quartel que ela comanda.
Felipe respondeu levemente ácido sem faltar com o respeito. Ele parecia orgulhoso de sua Capitã. novamente o olhou cortante.
— É um prazer conhecê-la, Tenente. Obrigada pelo apoio médico à minha equipe.
, é só o nosso trabalho. Desculpe-me se a ofendi. – Myeong-Ju abaixou a cabeça na direção de .
Ela havia estudado que os coreanos se abaixavam daquele jeito constrangedor para pedir desculpas.
— Tudo bem, não me ofendeu. A sua reação é comum. Agora… Capitão Seo, Tenente Myeong, podem nos explicar o cardápio de hoje?
mudou o assunto, e logo Myeong-Ju se recompôs na presença de todos. Seo Dae sorriu para e os militares. E os explicou o cardápio local. Não era a refeição mais estranha que haviam comido. Havia um bolinho de arroz, bastante apetitoso, uma salada fria de raízes numa espécie de creme verde e filés de alguma carne, mergulhados num molho cheiroso.
Depois de almoçarem, os militares foram levados por Dae-Young para uma sala onde aprenderiam um pouco mais da língua nativa, e assim se esforçariam para falar em coreano. Pelo menos o básico. Não eram obrigados a se comunicar entre os militares em língua nativa, mas eram obrigados a falarem o idioma deles em combate, e quando outras tropas ou estrangeiros os abordassem já que teriam de se passar por nativos.
Marcelo ficou curioso em como eles seriam considerados coreanos, com segundo ele: “essa minha beleza tropical” e os outros riam enquanto concordavam, mas a Capitã explicou que eles seriam considerados descendentes nacionalizados, como descreveria a documentação falsa deles.
Quando andassem à paisana, seriam tratados como turistas. Mas caso, algum exército inimigo pegasse um deles, seriam apresentados como ela lhes dissera.
Depois da aula de idioma, cultura geral e guerrilha, eles foram treinar com os aspirantes. O treino, também sob a supervisão de Dae-Young.
Ficaram três ali desde a sua chegada. As outras coisas necessárias a aprimorar e estudar seriam feitas na base de Uruk. Mas, não era como se não estivessem aptos a passar por tudo aquilo muito bem. No último dia no quartel, o quarto dia, Seo Dae cumpriu a promessa de levá-los a um passeio noturno. E Myeong-Ju iria também. Quando Mo-Yeon ligou para desculpar-se com ela, e chamá-la para sair, Myeong contara que não poderia ir porque a equipe viajaria no dia seguinte e ela sairia com Seo Dae.
estava hospedada em um quarto separado no quartel, mas não se importava em ficar com os rapazes no mesmo quarto. Entretanto, os costumes locais a impediam de ficar com eles.
— Galera!
surgiu à porta do quarto deles chamando a atenção dos quatro.
— Uau, Capitã! Aonde vai assim? – Felipe perguntou.
— Para o mesmo lugar que vocês vão com todo este perfume.
— Estamos bonitos, ? – Jonas perguntou.
— Vocês são bonitos, e já chamarão atenção suficiente por suas “belezas tropicais”, não é Marcelo?
— Exatamente! – ele concordou e todos riam.
— Alguém gravou a nossa Capitã dizendo que somos bonitos? – Gabriel brincou.
— Ei! Deixem de bobeiras! Vamos aproveitar o passeio e a noite divertida, porque se sabe lá Deus para onde nos enviarão. Eu só passei aqui para uma recomendação rápida.
— Pode falar Capitã.
— É o seguinte: nada de telefones, e de promessas de encontros futuros, ok?
— O quê? Por quê? Você mesma falou para nos divertirmos! – protestou Jonas.
— Porque vocês serão turistas que não vão ligar no dia seguinte, e deixar alguém muito magoada. Ou não. Enfim! Precaução gente. Divirtam-se, mas não se revelem e nem enganem as moças, ? Vocês não conhecem a cultura deles direito, o que me remete a: não façam nada que possam se arrepender depois.
afirmou apontando o dedo para cada um deles, e Felipe que surgiu de repente à sua frente, olhando-a de cima a baixo aproximou-se devagar dela e disse baixo:
— Nós já sabemos disso tudo . Não somos soldadinhos inexperientes. Não corta a nossa diversão, e não cortamos a sua.
— Você está muito abusado. – ela falou séria para ele.
— Não o suficiente. – aproximou-se ainda mais dela e os meninos no quarto sacudiam a cabeça em negação para ele.
Ela empurrou educadamente, o homem para trás e dando as costas saiu. Assim que ela saiu, os outros começaram a repreendê-lo, exigindo dele uma postura mais séria.
— Eu não vou entregar a missão, caras! – Felipe falou tranquilo.
— Ela ainda é a Capitã, Felipe. Não importa em que país nós estejamos.
— Eu sei disso, Gabriel. Mas, o que posso fazer se sou louco por ela?
— Controlar a sua testosterona, é o que pode fazer. – Jonas falou e saiu do quarto sendo seguido pelos outros.

Gangnam, Seoul – Coreia do Sul. Casa de SangHyun.

Música da cena:
Lyn – WithYou (Instrumental)

Song Hyun terminava de preparar sua mala de mão. Como bem se lembrava quando chegasse à base aérea, não poderia levar mais do que uma mochila militar. Então deixaria os itens de menos importância na mala maior. Ele pensava se estava faltando algo, quando ouviu a campainha de sua casa.
Desceu as escadas até a sala, e ao olhar pelo visor da câmera de segurança, encontrou Mo-Yeon observando a rua. Ele abriu a porta, surpreso.
— Doutora Kang?
— Oh! Doutor Song, me desculpe por vir a esta hora.
— Aconteceu algo?
— Sim, eu soube que partirá amanhã.
— Oh… Quer que eu leve algo para Si-Jin, não é?
— Sim, por favor, Hyun, eu preciso que entregue para ele este envelope. – ela esticou a mão com um envelope de carta.
— Bem, não acho que teria problema entregá-lo isto. Tem certeza que não tem uma bomba aqui dentro? – ele chacoalhou o envelope risonho brincando com ela.
Ela apenas sorriu e agradeceu. E depois o cumprimentou desejando sorte e boa viagem. Ele novamente pediu que ela cuidasse dos pacientes dele. Pois, ela ficara encarregada do trabalho dele, pelo menos de uma parte, segundo pedido do próprio médico no hospital.
Na verdade, Ha-Jae o dissera que queria ter uma maneira de não fazer a doutora pensar em Uruk, e assim, de não pensar que ele estava lá. Ela sabia que a médica queria estar no lugar dele, mas também, desejava – em segredo – uma forma de não pensar no seu amado Song Hyun em Uruk, enquanto ela também tinha ficado ao lado da doutora Kang no hospital.
Após se despedir dela, ele retornou ao quarto e colocou ali dentro o envelope da médica. E então se recordou do que faltava: cabos de carregamento, baterias e um celular extra. Ele lembrava-se que às vezes ficava precária a comunicação. Dessa vez, ele também tentaria levar um aparelho melhor.
Kang Mo-Yeon entrou em seu carro, e dirigiu de volta à sua casa com a face encharcada em lágrimas. Se pudesse voltar atrás, jamais teria deixado Si-Jin partir sem ouvi-la uma última vez.

/Fim da música da cena



Capítulo 08

Coreia do Sul, Seoul - Quartel Base do Exército.

Música da cena:
Sik-K – Iffy

, Jonas, Gabriel, Felipe e Marcelo aguardavam Seo Dae-Young na portaria do quartel. O Capitão era pontual, e não demorou a chegar à guarita para liberar a saída dos oficiais. Eles se cumprimentaram, e Seo Dae elogiou gentilmente a Capitã . Ela usava um vestido justo com comprimento até os joelhos, e com mangas compridas, vermelho. E um scarpin nude, meia pata.
Deixou seus longos cabelos ondulados soltos, a maquiagem marcando bem o olhar expressivo da mulher e a boca no mesmo tom do vestido. sempre fora discreta no trabalho, mas de tanto andar fardada quando se arrumava, ela realmente caprichava. Suas jóias também eram discretas: um colar fino – de cordão quase imperceptível – com um pingente de pedra água-marinha. Os brincos não eram grandes, faziam conjunto com o colar e com os anéis delicados que ela também usava. Para aquela viagem ela levara apenas três vestidos de ocasião: um longo e dois iguais ao que usava, em tonalidades diferentes. O par de sapatos nude que usava, e um modelo parecido preto. Duas bolsas de mão, estilo carteira: uma preta e outra, marrom-claro. E de jóia também levara apenas dois conjuntos discretos: o que usava, e outro com brincos um pouco maiores. E aquilo, embora pouco, como julgou necessário, já seria muito caso acontecesse algum tipo de reunião formal.
— Capitã , respeitosamente, a senhorita está deslumbrante.
— Obrigada, Capitão Seo. Mas quando não estiver de farda, pode chamar-me pelo nome: .
— Certo, eu digo o mesmo.
Ela sorriu e procurou a plaqueta com o nome dele em sua roupa, mas ao olhar o blazer lembrou-se que não era ocasião do nome estar escrito ali. Seo Dae percebeu o caminho que os olhos dela fizeram, até onde estaria seu nome fardado. E sorriu divertido para ela.
— Bem, para vocês não deve ser fácil gravar meu nome, não é?
— Pedimos desculpas por nossa falta de atenção. – Gabriel falou.
— Não precisam se desculpar, eu também não gravei seus nomes.
Quando Seo Dae terminou de falar, um carro aproximou-se e estacionou na frente deles. Era sua esposa, pois, como havia demorado a ficar pronta e acreditando não ter espaço para todos no próprio carro, ele pediu que Myeong fosse com o motorista em seu carro buscar os convidados. Ela desceu do banco do carona e veio na direção deles, e estava muito bonita também. Os cabelos presos de lado, um vestido longo e branco com mangas curtas e gola alta.
Ao bater os olhos em , Myeong sentiu-se invisível. Ela aproximou-se de Dae-Young e entrelaçou o braço ao dele, cumprimentando a todos.
— Boa noite. Como estão?
— Ansiosos para saber como Seoul se diverte. – disse Jonas fazendo todos rirem.
— Estão todos muito arrumados. Em especial, a Capitã. – ela disse.
— Obrigada Tenente, a senhora também está muito elegante. Mas, como eu dizia ao Capitão Seo, pode me chamar por quando eu estiver sem farda.
— Claro! Eu digo o mesmo a todos vocês. Podem me chamar Myeong.
Todos assentiram. Repetiam mentalmente o nome dela para que gravassem, até que ela divertida os olhou curiosa e perguntou:
— Sabem pronunciar? Que surpresa! Achei que repetiriam em voz alta.
— Não quisemos ser indelicados, Myeong. – Marcelo respondera e ela comemorou contida, o parabenizando.
— Então vamos nos apresentar todos para partirmos: me chame de Dae-Young, ou de Seo Dae se for mais fácil.
Em seguida, os brasileiros repetiram seus primeiros nomes e seguiram o casal. Myeong pediu para que a acompanhasse e Seo Dae já estava preocupado com aquilo. Eles haviam conversado em casa, antes de saírem e ele entendia as intenções dela. Foram com Seo Dae-Young os outros quatro rapazes.

/ Fim da música da cena

Coreia do Sul, Seoul – Gangnam: Casa de Myeong-Ju e Seo Dae-Young, horas antes.

— Uma mulher!
— Sim Myeong, em algumas culturas as mulheres alcançam postos que seriam masculinos.
— Isto é sensacional! Eu adoraria chegar a general um dia! Se não fosse pela minha justa razão em permanecer Tenente...
— Não precisava ser assim.
— Mas é o que eu quero.
— Sabe... depois de ver a capitã , eu realmente fiquei imaginando você num posto de comando. Você é tão competente como militar, com o treinamento específico poderia ocupar cargos de comando facilmente. Principalmente se levarmos em consideração seu autoritarismo natural. Eu te apoio se decidir voltar atrás.
— Autoritarismo natural? Eu deveria punir você!
— Por falar a verdade? – ele encarou-a de lado, com um sorriso travesso no rosto, e sua esposa fechou o semblante novamente.
— Não Capitão Seo Dae-Young, por prestar atenção em outras mulheres!
— Aigo! Quando é que eu fiz isso?
— Não minta! Eu vi a sua expressão quando falou na Capitã!
— Aigo, Myeong-Ju! Você está mudando de assunto! Eu só tenho olhos para você.
— Não minta de novo! Vai dizer que ela não é muito bonita?
Seo Dae fugiu o olhar de Myeong-Ju, e engoliu seco.
— Diga! – ela gritou.
— Quanto é seguro falar a verdade? – ele encarou sério ao chão, mas logo riu.
— Eu sei que ela é muito bonita, Seo Dae. Eu fiquei encantada com a beleza deles.
— Deles?
Ele encarou sério à mulher que olhava para o teto de sua casa, com os pensamentos distantes.
— Sim, todos eles. Os homens e também ela. Tão diferentes e tão bonitos.
— É. Ela é realmente linda, fora dos padrões que estamos acostumados. – ele afirmou em provocação, e ao ver que Myeong percebera, ele saiu em direção ao banheiro para pegar seu perfume.
— Chega! Não quero você olhando para a Capitã !
— E nem você olhando para os sargentos! Acho que eu vou permanecer na base de Mowuru ao invés de voltar para Seoul... – Dae-Young dissera de dentro do banheiro.
Myeong-Ju terminou de calçar seu sapato e sentou-se em frente ao espelho para arrumar o cabelo e a maquiagem. Seo Dae-Young saiu do banheiro risonho e parou atrás dela, de frente ao espelho para arrumar seu cabelo também.
— Dae-Young, nós devemos levá-la no mesmo carro em que formos para que possamos saber mais sobre ela!
— Myeong-Ju! Não faremos isto! Ela vai com você para se sentir confortável e eu levarei os outros rapazes.
Aigo! Ôôh..!
— O que foi?
— Ela é realmente linda, Dae-Young!!!
— E onde está o problema?
— Ela está indo para Uruk!!!
— Eu ainda não entendi onde está o problema.
— Temos que avisar Si-Jin!
— Eu já o avisei. Enviei um fax à base, antes de sair do quartel contando que amanhã pela manhã estaremos a caminho.
— Não é isso Dae-Young! Temos que avisar ao Si-Jin que o Capitão é uma mulher! E muito bonita!
— O quê? – Seo Dae olhou para Myeong desconcertado.
… Se é que você já não o avisou! – Myeong-Ju dissera divertida com um sorriso travesso e olhar desconfiado para seu esposo.
Ele continuou olhando desconcertado para ela, porque de fato ele havia enviado uma mensagem particular, e codificada – num código próprio entre eles – ao Major.
— É claro que eu não fiz isso, Myeong! Aigo!
— Eu tenho que avisar Mo-Yeon!
— O quê? Você está louca? Tudo o que a Kang não precisa agora é saber que uma mulher estará em Uruk com Yoo Si-Jin! E depois: não se esqueça que a missão é secreta. Ela não pode saber nada sobre isso!
Aigo! Tem razão!
— Termine de se arrumar, e vamos logo.
— Dae-Young?
— Fale menos e penteie-se mais, Myeong-Ju!
— Eu só queria saber se… Você acha que Yoo Si-Jin pode se interessar pela Capitã?
— Eu só sei que temos que ir. Vou à frente, você termine de se arrumar e vá com o motorista.
Seo Dae-Young beijou a esposa e saiu rapidamente do quarto. Ao passar pelo corredor, ele respirava calmo por ter fugido daquelas respostas. É claro que ele sabia o efeito que a Capitã teria sobre Yoo Si-Jin. Ele sempre fora um conquistador por onde iam, mas principalmente agora, ele buscava esquecer a doutora Kang de qualquer forma. E depois de um tempo, ele se atentaria aos atributos da Capitã. Os mais perceptíveis, mas também, aqueles que Seo Dae-Young percebera em pouco tempo de conversa: a seriedade com o trabalho, a competência, o gênio forte, o lindo sorriso, o olhar sedutor, a facilidade de interagir e segundo os companheiros dela lhe contaram, era também uma mulher muito divertida. Seo Dae sacudiu a cabeça enquanto dirigia. Se Myeong o pegasse enumerando as qualidades da brasileira daquela forma, ele estaria em graves apuros.
Quando Seo Dae saiu do quarto, Myeong-Ju sacudiu a cabeça e sussurrou para si:
— É claro que Si-Jin poderia se interessar por ela. Quem não poderia?
Ela maquiava-se quando a amiga telefonou-lhe pedindo desculpa pela grosseria de alguns atrás e a convidando para sair, mas Myeong explicou-lhe não poder. Lamentou que elas não pudessem se ver antes que ela fosse à Uruk. E aí contou para Mo-Yeon que a viagem seria na manhã seguinte. Mo-Yeon sentiu-se sozinha e triste por não poder se despedir da amiga, mas principalmente, pela distância que se impunha entre ela e as pessoas que amava. Então, ela tomou uma decisão rápida e inteligente.

Coreia do Sul, centro de Seoul. Horas seguintes.

No carro de Myeong a caminho do local, as duas estavam sentadas no banco de trás e o motorista ia seguindo. mantinha-se calada, mas atenta ao seu redor. Inclusive na maneira como Myeong a olhava furtivamente, e fazia algumas caras e bocas como se pensasse o que dizer. Ela sabia que a coreana estava curiosa para lhe fazer perguntas e analisava qual o modo de abordá-la. Até que olhando para os pés, Myeong sorriu fraco, e já sabia que ela havia se decidido. Ela sorriu abertamente, em falsa simpatia – a Capitã sabia em qualquer lugar do mundo, quando uma mulher estava sendo falsa – e perguntou à :
— O que está achando do nosso exército?
sorriu, não acreditava que aquela seria a primeira pergunta. Certamente, Myeong estava enciumada por Seo Dae.
— Eu não tenho nada a declarar ainda, não tive contato com tudo, mas confirmei a dúvida que eu já tinha sobre os militares coreanos.
Myeong ainda sorrindo, apertou os olhos, confusa, e sorriu mais curiosa perguntando-lhe:
— Que dúvida?
— São muito disciplinados e sérios.
— Não é assim no seu país?
— Sim, mas, por exemplo, no refeitório enquanto comemos não ficamos calados. Nós aproveitamos os poucos momentos de alívio do trabalho para manter um humor sadio.
— Ah… E como é ser uma mulher que comanda?
— A senhora não comanda a sua equipe?
— Sim, a equipe médica.
— É a mesma coisa, só que com parceiros mais rudes e em alguns casos, mal educados.
— Não deve ser fácil conquistar o respeito sendo mulher.
— Não. Alguns sacrifícios devem ser feitos.
Elas voltaram a silenciar e foi a pensamentos até Danilo. Pensou no que ele estaria a fazer naquele momento, e pensou novamente no quanto ela contribuiu para o desgaste da relação.
— Eu viajarei com vocês amanhã! Eu e minha equipe médica! – Myeong voltou a falar.
— Oh, isso é muito bom. Não seremos totais desconhecidos.
— Não se preocupem com isso, os soldados receberão vocês muito bem, talvez um pouco surpresos por sua autoridade, mas particularmente Uruk é como um refúgio para nós. Um campo de treinamento para o corpo, a mente, e às vezes para o coração. É um lugar tranquilo apesar do propósito. Tem uma linda paisagem! Os aspirantes são gentis, e disciplinados e deixam a base mais divertida também. E o Major…
Ela parou de falar, e pensou se deveria dizer algo sobre o amigo para aquela que depois poderia roubá-lo de sua amiga.
— O Major é muito sério e rígido, mas também sabe lidar com as ocasiões mais difíceis.
assentiu educadamente e Myeong-Ju sorriu.
— Chegamos senhorita Myeong-Ju. – o motorista falou e ela agradeceu.

Música da cena: Jay Park – All I Wanna Do

Desceram do carro e os rapazes estavam na porta, ao lado de Seo Dae as aguardando. Todos entraram no estabelecimento. Uma espécie de balada com música alta, luzes, bebidas, muito jovens e adultos. Havia karaokês, e um espaço mais tranquilo onde foram conduzidos pelo casal. caminhava sendo seguida por seus amigos, e pela maioria dos olhares masculinos do lugar.
Sentaram-se a uma mesa grande, onde couberam todos. No centro daquele lugar, havia um grande bar, cercado por um balcão com bancos altos, onde os clientes solitários podiam sentar e beber.
— O que vamos beber? Vocês já provaram soju? – Myeong perguntou aos “turistas”.
— Não, eles não saíram do quartel nenhum dia para se divertir. Mas, acredito que vocês gostarão de soju, é uma bebida forte. Podemos experimentar, e caso não gostem pedimos outras bebidas.
— Vocês são nossos guias, nós topamos o que vocês disserem.
afirmou e o casal sorriu para ela, fazendo os pedidos. Os amigos à sua volta olharam para ela, pasmados.
— O que foi? – ela os perguntou e o casal observava-os.
— O que aconteceu com a e quem é você? – Jonas perguntou.
— Não são vocês que me chamam de robô de farda? – todos olharam para o Felipe que ria — Farei desta viagem uma grande oportunidade de refletir e mudar.
— Não é a melhor viagem para você fazer a Julia Roberts em “Comer, Rezar e Amar”. – Gabriel concluiu fazendo os outros rirem.
Seo Dae-Young e Myeong-Ju não entendiam, apenas sorriam os observando. E quando Marcelo notou a indelicadeza deles, fez questão de explicar o contexto:
— A nossa… – percebeu não ser o momento para as patentes — é muito focada no trabalho e isso fez com que ela conquistasse muito respeito, mas também abrisse mão de algumas coisas.
Myeong a encarou recordando-se da conversa prévia que tiveram no carro.
— E ela recebeu a fama de ser muito séria e não se divertir, embora nós quatro a conheçamos muito antes dela se tornar nossa… Vocês sabem.
Marcelo concluiu e Felipe, que estava calado há mais tempo que o habitual continuou:
— E aí ela mudou. Parou de sair para se divertir com a gente, e de quebra arrumou um namorado insuportável e tivemos que aturá-lo falando o quão ele era “o cara”, por namorar a toda poderosa.
Seo Dae-Young e Myeong-Ju entreolharam-se lembrando de quantas vezes a hierarquia atrapalhou o romance deles, e o quanto as pessoas maldiziam e espalhavam fofocas cruéis sobre os interesses de Dae-Young com a filha do general. No caso de era diferente, não eram as pessoas em parte, mas sim, o próprio namorado que se gabava da posição dela.
— Mas para nosso prazer, sempre tivemos a oportunidade de trabalhar com ela e conhecer muito mais do que o namorado dela conheceu, da humanidade de .
Felipe concluiu fazendo todos o encararem surpresos. Entre eles, , que mais uma vez se surpreendia com a maneira singular de Felipe a elogiar. Myeong sorriu para ele e para ela em seguida. não sabia o que ela estava insinuando, mas fez um sinal de positivo para Felipe, como forma de agradecimento.
— Qual o nome do seu namorado, ? – Myeong perguntou-a.
— Danilo.
— E vocês ainda estão juntos? – Seo Dae-Young perguntou.
— Sim.
— Um relacionamento entre pessoas do mesmo trabalho é muito mais tranquilo, em casos como o nosso não é? – ele perguntou de novo.
— Não.

/ Fim da música da cena

O casal ficou confuso, e surpreso novamente. E os meninos entraram na conversa:
— Não quando seu namorado é um idiota que se aproveita da sua posição para se achar melhor que os outros. – Gabriel concluiu.
— O que os meninos querem dizer é que, meu namorado nunca aceitou que eu fosse superior a ele.
Aigo! E por que não termina com ele? – Myeong estava com raiva do namorado de sem nem conhecê-lo.
— Eu tentei.
— Ela o deteve, no quartel! – Felipe sussurrou para o casal, e todos riam menos ela. — Não foi assim. Ele me desrespeitou como oficial e depois eu quis terminar, mas ele pediu para aproveitarmos a viagem e pensar melhor. Não é como se fizesse diferença para mim, a viagem é na verdade, uma excelente oportunidade de esquecê-lo.
Myeong e Seo Dae se entreolharam cúmplices por conhecerem aquela situação. Eles também sabiam que os propósitos de eram os mesmos que os de Si-Jin. E que as razões para o fim, era a mesma do casal de amigos deles. E aprenderam também, que nem sempre a situação deles era o exemplo de relacionamento perfeito. A prova disso era o namoro de .
Passados alguns minutos ali, eles bebiam e conversavam animados, quando o garçom aproximou-se dela na mesa e perguntou:
— Senhorita, o senhor da outra mesa pergunta se gostaria de uma bebida? – ele apontou o homem.
Ela nada entendeu, mas Seo Dae traduziu a pergunta. E ela pediu a ele que gentilmente, dispensasse e desse alguma desculpa.
— Olha ela! Atraindo o interesse dos homens coreanos! – Jonas brincou e todos na mesa riram.
— É compreensível. é muito bonita! – Myeong falou gentilmente.
Naquele momento, Dae-Young achou que a mulher tivesse bebido muito. Como ela mudara tão rapidamente de opinião? Talvez tivesse tido a mesma impressão que ele tivera: era uma mulher adorável.
— Oras, Myeong vocês não ficam atrás. As mulheres são muito belas aqui. Não é, rapazes?
falou cutucando Jonas que estava ao seu lado esquerdo observando uma moça que sorria para ele.
— Realmente. E eu, vou interagir com a cultura local.
Ele respondeu e os amigos o zoavam felizes. o advertiu novamente, de não ser indelicado. Seo Dae, defendeu-o dizendo que ela deixasse o rapaz se divertir.
— O que você disse ao pretendente interessado? – Gabriel perguntou ao Seo Dae.
— Eu disse que ela era uma turista, agradecia a gentileza, mas estava acompanhada.
— Certamente ela está rodeada de homens! – Felipe brincou.
— Eu não sei vocês, mas há outras moças reparando na beleza diferente de vocês, rapazes! – Myeong falou para eles, ao notar que no balcão que rodeava o barzinho ao lado deles, duas moças sorriam e cochichavam os encarando.
— São duas e vocês três. Tirem no par ou ímpar. – Seo Dae brincou.
— Não é preciso. Gabriel e Marcelo podem ir. A deve estar acompanhada para não ser incomodada, eu fico.
— Nossa, Felipe, como você é cavalheiro! – ela zombou revirando os olhos.

Música da cena: BTS – Save Me

Todos ali, inclusive Seo Dae e Myeong já haviam notado as brincadeiras com segundas intenções dele para a Capitã. Os dois amigos saíram, e deixaram os dois casais à mesa. Myeong defendeu Felipe dizendo que era muito atencioso da parte dele não deixá-la sozinha na mesa. Mas, que conhecia bem a peça não se convenceu pela cena. Myeong-Ju de repente se levantou virando seu soju e chamou todos para dançar. Dae-Young olhou para os convidados de forma cautelosa, e e Felipe assentiram ao perceber que Myeong-Ju começava a embriagar-se com aquilo.
Por recomendação prévia da Capitã, nenhum dos rapazes beberia além da conta. E estariam atentos ao que acontecesse, até porque acordariam cedo para viajar na manhã seguinte.
Então, o casal de coreanos saiu na frente e Felipe e atrás. Voltaram para aquele lugar cheio de luzes e música que haviam passado primeiro, e todos ali dançavam. Eles se dispersaram e ficaram ali. Felipe encarava com um sorriso travesso, e dançava com ela.
— Pare de jogar charme para o meu lado, eu não pretendo me envolver nesta viagem.
— Não me importa quando vai se envolver comigo, desde que se envolva.
— Eu tenho namorado ainda, Felipe.
— Esquece o Danilo. É isso que você quer. E eu sempre fui a fim de você, muito antes dele! Mas, aí, você teve o dedo podre.
Ela gargalhou e o encarou silenciosa. O olhar de Felipe parecia verdadeiro.
— Você de todos é o que sempre me diz as coisas na cara, sem medo. E eu admiro isso, de verdade. Mas, se continuar abusando da minha paciência em momentos inoportunos eu não vou facilitar.
— Eu sou profissional e você sabe disso, não se preocupe. Só quero saber se quando voltarmos ao Brasil, você me dará uma chance.
— Por que quando voltarmos?
— Porque isso aqui é uma viagem de trabalho mulher! Não misture as coisas! – ele disse brincalhão arrancando risadas dela.
— Ainda há muito para acontecer aqui, quando voltarmos nós conversaremos. Vai que você se apaixona aqui?
— É, pode acontecer. Vai que lá na tal base de Uruk, tenha uma mulher sedutora?
Ele encarou os olhos dela, de uma maneira tão predadora que achou que seria beijada.
— E você também, pode se apaixonar, não faltarão homens diferentes à sua volta!
— Eu? Me apaixonar em missão? Você não sabe com quem está falando?

/ Fim da música da cena


Continua...



Nota da autora: Esse Albuquerque não facilita, não é mesmo? Como será que nossa capitã lidará com seu subordinado sedutor? E como será a recepção da militar na base de Uruk?

A fanfic tem trilha sonora no Spotify e o link também está abaixo.



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Essa fanfic é de total responsabilidade da autora. Eu não a escrevo e não a corrijo, apenas faço o script. Qualquer erro nessa fanfic, somente no e-mail.


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