Contador:
Última atualização: 21/01/2021

Capítulo 1

January 21st, 1982
(Three months since the Dark Lord defeat.)
Os meus passos desaceleraram ao alcançar um dos intervalos no parapeito da Ponte de Westminster, cordas grossas de aço e titânio substituindo o peitoril de pedra e meus dedos ficando dormentes quando encaro as ondas que se chocam contra a rocha e erguem o cheiro salgado de maresia em gotículas finas. Agora o governo adicionou bancos de cimento próximo à passagem principal e mais movimentada, para que seja possível sentar-se e olhar para a água verde cinzenta batendo na ponte, para a o Big Ben e o London Eye ao longe. A cidade está ironicamente viva com o barulho — ruídos do trânsito: buzinas, ônibus de dois andares; dezenas de crianças correndo; conversas de pedestres; ruídos fracos de música vazando de lojas e violinistas de rua. Londres se manteve uma cidade mundial por séculos, pulsando com arquitetura medieval e cultura embebida no magnifico Palácio de Buckingham.
Optei por me sentar no banco de cimento gelado, puxando as pernas para baixo dele e a botas tremendo. A atmosfera está surpreendentemente limpa e clara — a fumaça e a poluição que parecem aumentar a cada dia decidiram dar uma trégua após a chuva matinal. Ônibus tão vermelhos quanto balinhas de coração correm pela ponte levantando folhas mortas que voavam sobre o meio-fio e pedregulhos. Olho para o relógio em meu pulso. Cinco para as seis da noite. Cheguei um pouco mais cedo do que o combinado, mas eu sempre chego cedo quando se trata de Londres. Estar aqui me dá uma chance de discorrer — pensar e lembrar, e não havia lugar melhor para isso do que aqui em Westminster próximo a feirinha de antiguidades, o primeiro local onde sei que tive os melhores dias de minha vida fora de casa.
Se apertar bastante meus olhos e controlar a respiração, posso ver seis adolescentes perambulando de loja em loja, com chapéus na cabeça, cachecóis ao redor do pescoço e gritaria. Risadas, em sua maioria. Consigo me recordar de dois rapazes fazendo piruetas para provocar policiais e os amigos, alguns escorregões em poças de água e copos mornos de chocolate quente. Porém, ao abrir os olhos quando alguém passa por mim com sacolas da H&M, aceito que foi tudo uma ilusão e não há ninguém conhecido na outra margem do rio. Eu repuxo meus lábios inferior entre os dentes, suspirando e sentindo minha espinha de contrair e minha postura se desfazer.
Por um segundo, permito-me imaginar que foi uma má escolha voltar, mas o pensamento se dissipa quando ponho minha mão fria sobre a pulseira de couro em meu pulso, confortável com o relógio tão usado e que faz tique-taque em meu ouvido todas as noites. Lembrar-me da vida e morte de meus amigos nunca deixava de doer, mas aos poucos se tornava mais fácil e uma angústia menos severa que me permitia respirar. Respirar e viver bem mesmo com uma lasca de gelo enterrada em meu coração que não tem previsão de derreter.
Era 31 de Outubro, 1981 e eu enviei um patrono para Lilian. “Me desculpe, Lils. Houve um ataque a uma família meio-sangue e Moody levou o Pad. E Dumbledore não quer me deixar ir para casa ainda. Acho que não poderemos levar o Harry para pedir doces como planejado. Lhe dê um beijinho por mim.” Então foi James que me respondeu com o seu majestoso patrono, enquanto dizia que não havia para que ele ir. Que não seria diversão alguma se os tios de Harry não estivessem presentes. No Halloween anterior, Lily e eu havíamos perdido a cabeça sobre Sirius e James cismarem em levar Harry para pedir doces quando ainda era tão pequeno e os dois estavam animados e fazer isto naquele ano. Duas horas depois fui liberada e bastou uma olhadela em meu relógio para decidir que ainda daria tempo de ir passar Halloween com minha família.
Era 31 de Outubro, 1981 e quando meus pés pousaram em Godric Hollows, percebi que havia algo de errado. Uma onda súbita de medo dominou todos meus sentidos, pois tinha certeza de que dois dias atrás a casa estava intacta. E naquele instante, parte do telhado havia sido arrancada e a cena petrificou o meu ser. Então entrei no formoso lar e gritei ao ver meu melhor amigo – quase um irmão – caído no chão próximo a escadaria, os olhos abertos, foscos e expressão fixa em um olhar atormentado e apologista. Segurei sua cabeça em meu colo por minutos infinitos, berrando, exigindo, e então implorando para que James acordasse, voltasse a viver e falasse comigo enquanto seu corpo se tornava flácido e frio em meus dedos conforme o feitiço que o matou ia se desgastando. Um ganido de dor me escapou quando encarei seus óculos a distância, o vidro rachado e lágrimas ainda manchando a lente. Assentei o cabelo em sua cabeça como fazia há mais de seis anos, soluçando ao beijar sua bochecha e fechei seus olhos, secando minha lágrima que havia caído em sua face.
Era 31 de Outubro, 1981 e eu tinha me posto de pé e secado minha face para procurar por minha irmã e afilhado em tudo menos sangue derramado. Coração, sangue e ossos rogando em desespero. Por favor, tenham escapado, por favor, por favor, por favor. Com um soluço estridente e feio, meus dentes se chocaram quando vi Lily Potter – minha Lily Potter – no chão ao lado do berço de seu filho. Os olhos alarmados e que imploravam por misericórdia, as lágrimas ainda molhando suas bochechas. Minhas mãos tremiam enquanto acariciei seu cabelo ruivo trançado, beijei sua testa por longos segundos e fechei os olhos verdes que se assemelhavam a esmeraldas, o brilho há muito perdido substituído pelo vazio da morte. Em um surto, rasguei a manta no berço intacto, o mundo se desfazendo abaixo de mim quando Harry não podia ser encontrado em lugar nenhum e os corpos de seus pais me imploravam por uma resposta. Tudo o que pude fazer por longos minutos foi aninhar o corpo sem vida de Lilian em meu colo em uma tentativa de niná-la a um descanso eterno, sem forças para lutar contra o destino impiedoso que fora traçado para meus amigos.
Era 31 de Outubro, 1981 e Voldemort havia ceifado a vida de minha família.
A noite gelada de halloween dominou cada madrugada e manhã minha até hoje, recapitulando cada segundo e episódio que poderia ser evitado, mas não consigo recordar-me de muito quando estou acordada. Se forçar minha memória suspensa e turva das cenas, consigo formar em minha cabeça o momento em que entrei no Castelo de Hogwarts pela segunda vez no dia, com meu coração despedaçado e rosto contorcido em dor, gritando em plenos pulmões que Lord Voldemort havia assassinado James, Lilian e Harry Potter pois me impediram de ficar de guarda. Me lembro com clareza de precisar ser imobilizada por Remus Lupin para não avançar em Alvo Dumbledore, o chamando de um velho senil e traidor. Culpando um homem inocente pela morte inevitável de meus melhores amigos nas mãos de um monstro.
Então me lembro de chorar como uma criança e prantear por compaixão e demandar que fizessem algo impossível para os trazer de volta, agarrando as vestes de Minerva McGonagall e enterrando minha face em seu ombro ao prantear. Recordo-me de suas lágrimas quentes em meu rosto e do subsequente tapa deferido em minha face que me implorava para retornar à realidade, mesmo que ela ainda parecesse não acreditar em mim. Depois de horas ela conseguiu me garantir que não havia nada que poderíamos fazer e que eu não poderia me deixar escapar e descender a loucura e histeria tão cedo. E foi o suficiente para me manter sã e resguardada por severos minutos até que meus olhos vermelhos e inchados pousaram no homem que jamais seria o mesmo entrando no escritório do diretor, joelhos falhando ao atingir o chão e um pequeno bebê órfão pressionado em seu peito. Vivo, acima de tudo. Harry estava vivo, acima de qualquer outra coisa.
- ?
Meu coração começou a bater tão forte que pensei que iria romper minhas costelas e pular de meu peito, a reação comum dormente há tanto tempo que quase não reconheci o martelar de meu sangue no ouvido quando não era advindo de um pesadelo. Ergui meu rosto em um movimento robótico e mecânico em um esforço para não correr, deparando-me com o rapaz na minha frente e seu olhar aparentemente aliviado por me ver, as mãos enterradas em um casaco grosseiro de inverno e fios esvoaçando no vento, um pequeno sorriso surgindo em seu rosto que o meu não demorou a acompanhar.
Não consegui desgrudar o olhar dele por alguns segundos, encantada e em adoração muda. Sempre o achei lindo. E não era menos bonito agora. Houve um tempo em que teve cabelos negros de fios selvagens, indomáveis sorrisos e olhos como as trevas. Este homem – que se ajoelha no asfalto molhado para me olhar – apresenta fios escuros e grossos, aparados a perfeição e que se ondulam singelamente no ar úmido, e olhos cinza-escuros com faíscas prateadas nas írises. Houve um tempo em que teve a pele corada; agora ela é apenas pálida e com marcas cinzentas abaixo dos olhos e uma barba escura que lhe garante a aparência de ter alguns anos a mais de vida. Não faz muito tempo desde que o vi pela última vez, mas as diferenças em sua aparência são significativas. Um ou dois meses que se tornaram séculos de batalha com o luto e a depressão que o seguia na espreita. Amarguras que sei que jamais serão superaras.
Somos todos tão jovens. Eles eram tão jovens.
- Sirius. – Seu nome se repetiu em minha mente outra vez. Um mantra eterno.
Eu arfo quando estou em seus braços em um tranco que o lança no chão, meus joelhos nus se escoriando no asfalto denso, mas eu não encontro tempo para me preocupar com isso quando seus membros superiores estão espalmados ao meu redor. O nosso abraço soa abafado com o som de nossos corpos tendo se chocado sem piedade, rostos esbarrando e respiração pesada de ambos nos ouvidos alheios. O bruxo mais alto enterra os dedos em minhas omoplatas, respirando fundo e eu me agarro ao tecido de suas roupas, ficando lentamente sem ar pela força que colocamos na demonstração de afeto, mas afundo meu rosto em seu ombro, decidindo que morrer em seus braços será mais fácil que cair no sono. Então as lágrimas começam as cascatear por meus olhos e eu desvio meu rosto para poder respirar, o ar fresco nada comparado a finalmente poder tocá-lo.
- , , ... – Meu nome escapa de sua boca em suspiros espaçados e em sufrágios éteres, cravados em sua língua com tantas emoções e sentidos que não consigo pensar mais. Estar pressionada contra ele provoca uma sensação confusa e nebulosa, o suficiente para me elevar a outro patamar de existência. Uma risada feia e molhada, misturada com uma pitada de choro, me escapa e eu o aperto com mais força ainda, mordendo meus lábios e fechando os olhos. Sirius Black xinga quando beija o meu cabelo, o assentando em minha cabeça como fariam com uma boneca desgrenhada. Estamos esparramados em um monumento movimentado, mas não encontro em mim vergonha ou embaraçamento por isso ao me por de pé, pernas tremendo como folhas de papel. – Você não sabe o quanto eu senti sua falta, .
- É, eu sei, Black. – Um vento frio corta nossos rostos no topo da ponte como navalhas e me separo do rapaz um bem mais alto que eu, imediatamente segurando suas mãos estendidas em minha direção com um sorriso melancólico em meu rosto que queima com o sangue espalmado em minhas bochechas. Ainda segurando-as, eu seco meu rosto com a costa de minhas mãos, respirando fundo e tentando controlar o choro. Abro meus lábios para lhe dizer algo, mas não consigo. Me engasgo com um soluço, abaixando minha cabeça em seguida e tentando parar de chorar em vão. Com um tranco que me faz tropeçar para trás, o bruxo me abraça novamente, beijando minha cabeça com os lábios trêmulos e me balançando de um lado para o outro como quem nina um bebê. Eu deito minha cabeça em seu ombro em um pedido mudo para ser cuidada, respirando seu perfume amadeirado e fechando meus olhos cheios de lágrimas que não se cansam de cair. – Me perdoe, Sirius.
*

- Foram tempos difíceis. O resto do Mundo da Magia está em festa enquanto estamos de luto e parece errado demais para mim. – Sirius comenta baixo, o bruxo assumindo as divergências morais que eu já havia notado enquanto descíamos alguns degraus molhados e escorregadios da Praça do Parlamento. Como sempre, sua mão está pousada em meu cotovelo, pronto para me segurar caso os resquícios de chuva me façam escorregar como faziam anos atrás. – Olivaras voltou, até. O Beco Diagonal ainda tem toque de recolher, mas acreditam que vai ser extinguido rápido, agora que metade deles foram presos. – Londres está fria e com o aproximar da hora do rush na cidade, é quase impossível trafegar nas ruas principais, incluído o centro onde estamos. – Não sei. Ainda parece que estamos em um universo alternativo e em um pesadelo que nunca acaba. Sem James, Lilian, Remus e você.
Contento-me em encarar o chão de pedras cinzentas com reflexos amarelos dos postes, afinal, compreendo que uma mínima parte desses tempos difíceis em sua vida são minha responsabilidade. Fui eu quem pegou as malas e aparatou para o meio do nada durante a noite uma semana e meia após a morte de nossos amigos, após acordar em um suor frio e decidir que não poderia me arrastar para sua cama outra vez e pedir por conforto de alguém tão quebrado quanto eu. Era algo que já estávamos acostumados desde a formação da Ordem da Fênix: quando a noite se tornava assustadora demais para suportar, todos iriamos nos enfiar debaixo de cobertas em um só quarto. Esparramados em camas ou no chão. A aflição poderia ser dividida assim, tornando-se mais fácil de suportar.
Porém, mesmo que me cause inquietação e fúria ao assumir, não fui a primeira a tomar esta decisão e fugir quando tudo se tornou mais intenso. Então uma enxurrada de memórias banha minha mente e eu aperto meus olhos, ainda tentando olhar por onde ando e apagar as cenas que tanto me causam martírio na parte de traz das minhas pálpebras. É uma tentativa falha e eu fecho minhas mãos em punho dentro dos bolsos, suspirando.
- É inevitável. – Começo, engolindo em seco e chutando uma pedrinha diante de mim antes de dirigir o meu olhar ao mais alto, que abaixa o rosto em seguida, a mão deslizando de volta para a lateral de seu corpo. – O monstro foi derrotado e o vilarejo pode viver em paz. – Volto a olhar para frente, ignorando a pressão em meu peito. – Contudo, acabam se esquecendo do sacrifício maior. Bem, alguns se esquecem um pouco. – Observo as tulipas amarelas ao nosso redor, o jardim se estendendo diante de nós como um tapete verde e fresco. É revigorante. – Eu senti sua falta todos os dias, Sirius. Todos os 62 dias, mas não consegui voltar antes. – Engulo em seco. – Todos temos de lidar com isso em algum momento, só sinto que minha reação tenha sido a fuga. Pensei em você a todo instante. Mas o Remus... Não sei se consigo pensar nele ainda, Sirius.
Da mesma forma que minha mente se voltou contra mim e os vultos de adolescentes sorridentes surgiram na outra margem do rio, o assalto acontece de novo. Minhas memórias se mesclam com o Sol que se põe e em um instante eu estou na última Sede da Ordem da Fênix outra vez, esta sendo uma cabana ao sul de Cardiff onde moramos por sete semanas. Mesmo sabendo que minhas palmas estão vazias e é tudo fruto de minha imaginação sagaz, posso sentir o peso de um candelabro nelas e a vibração quando ele atinge uma parede e lança cera de velas para todos os cantos do casebre onde vivíamos reclusos após o último ataque. Candelabro, copo de metal e jarro. Então braços gentis de Sirius ao meu redor tentando me domar enquanto caçava minha varinha para matar o bastardo.
- Acredita que eu ainda tenho decorada todas as luas cheias deste ano?
Sirius olhou paras as nuvens do crepúsculo acima de nós, mas eu preferi não tentar entender a expressão em seu rosto, sabendo de antemão que também é de uma pessoa que foi magoada e traída mais de duas vezes por quem mais confiava. Desta maneira, eu me lembro de suas palavras depois do episódio alguns meses atrás. “Nós estamos melhor assim, . Vamos ficar bem. Eu e você, vamos nos ajudar. Remus fez a escolha dele em fugir, e nós fizemos a nossa em ficar e dividir a dor. Sinto muito, , muito mesmo.” Ainda assim, eu o ouvi soluçar rouco enquanto tomava banho depois de me acalmar e decidir que era a sua hora de reagir. Vi os cortes selvagens em seus dedos advindos socos que deferiu na parede, vi o sangue seco na porcelana fria e os seus olhos tão vermelhos e inchados. Em menos de duas semanas, Black havia perdido os quatro melhores amigos e afilhado. Então a mim.
Eu pisco para afastar as memórias, evitando olhá-lo, pois Sirius, como sempre, me passa um sentimento de lar e proteção como o resto dos marotos e Lilian, de maneira que sei que posso desabar com eles. Ou podia, quando minha traqueia não parecia ser comprimida por vergonha e culpa de ter lhe abandonado quando mais precisava de mim. Repuxo meu lábio entre os dentes, parando de caminhar quando o bruxo segura em meu pulso com delicadeza e retira minha mão de meu bolso, entrelaçando nossos dedos com certeza. Eu busco os olhos de Sirius uma outra vez, assustada, pois o típico negro está em um tom cinza turvo. Não é preciso muito para encostar minha bochecha em seu braço, respirando o seu cheiro ainda que esteja envergonhada por ele me querer por perto depois de tudo.
- Também não sei se posso perdoá-lo. – Assumiu com cautela, voltando a caminhar para próximo da fonte onde grupos pequenos de pombos ciscam cascas de pão provenientes de um senhorzinho trouxa. Eu aperto seus dedos, não tendo percebido antes o quanto senti falta deles, mesmo que estejam frios. – Remus era meu último amigo. James morreu. Peter nos traiu. Lily morreu. Deveria ser nós três contra o mundo. – Sirius entreabriu os lábios avermelhados de tanto estarem retidos entre seus dentes ansiosos e eu vi sombras de um passado feliz e logo angustiado nas expressões que cruzavam seu semblante. Toco em seu ombro com minha mão livre. – Talvez, esse negócio de família; não seja para mim. É obvio que não é.
Enquanto meu amigo repara nas ondulações da água esverdeada e suja depois que uma mulher joga uma moeda, eu balanço minha cabeça, sem acreditar que palavras tão solitárias e tristes havia saído do menino que passara os últimos sete anos sendo o corpo e a alma das festas de Hogwarts, o maroto mais engraçado e o amigo mais animado do mundo.
- Jamais fale isso de novo, Sirius. Por favor. – Ordeno, sem segurar meu pavor por suas palavras, me pondo na sua frente e atraindo seu olhar para mim. – Esse “negócio de família” é para todos nós, seu imbecil! – Rosno ao empurrar o seu peito, agarrando então as suas roupas e lidando com o desejo de sacudi-lo. – É para nós dois, até. – Eu pressiono meus dedos em seu ombro, em um aperto firme afim de trazê-lo de volta a realidade. Evito mostrar o quão me surpreendo quando meus dedos se afundam em sua pele, de tão evidentes que seus ossos estão. Onde está todo o antigo vigor de Sirius? Onde está o bruxo que me carregou em suas costas por 20 minutos quando Lucius Malfoy havia me atingido com um Crucio e meu corpo não mais respondia e mente estava rebaixada?
Sirius aperta minha mão com pouca força, tentando parecer gentil, mas sei que esconde ali a fragilidade de sua energia que aos poucos se esvai e me preocupa. Eu encosto minha cabeça em seu peito e nós nos mantemos em silêncio enquanto ouvimos os típicos sons do organismo vibrante de Londres ao nosso redor e consequentemente tentamos nos esconder dentre a música das buzinas e pessoas agitadas. Uma mão descansa em minha nuca, os dedos ossudos pressionando-me em sua direção.
Por cerca de três anos Sirius morou com os Potter e eu me alojei com eles por outros dois, o casal de idosos que, sem sequer cogitar o inverso, nos abrigaram e amaram com o mesmo carinho e proteção que direcionavam ao filho. Esses que, durante um passeio para a Escócia e um conhecido questionou quem Sirius era, não hesitaram em lhe apresentar como um de seus garotos e ao chegar a minha vez, decidiram me apresentar como uma afilhada muito querida. Muito diferente da linha que sua família biológica seguiu – os Black – virando as costas para o filho no exato minuto que sua casa de Hogwarts foi declarada Grifinória, em soma das outras razões que provavam vez e outra que ele não se encaixava na linhagem na qual nasceu. Em pequenos detalhes e piadas, logo nos primeiros anos de escola, pudemos perceber como sua vida de volta à Residência Black deveria ser infernal e dolorosa.
Como naquela vez quando pediu para a Professora McGonagall um abraço nos dia das mães na brincadeira e a professora, sempre irritadiça com suas brincadeiras e que sempre foi bem seria com todos, colocou os óculos acima da cabeça grisalha e abraçou o menino com tanta força que os lábios Sirius tremularam enquanto sorria. Ou quando partiu uma pena no meio quando sua prima soltou uma piadinha sobre as suas amigas sangue-ruim e foi necessário que ambos James e Remus o impedissem de pular no pescoço dela para defender a honra de Lily e a minha. As cicatrizes que adornam suas costas, os cortes profundos em seus calcanhares e a ansiedade também provavam a insanidade de seu lar antigo. Sinais alarmantes do quanto ele precisava de uma família que lhe protegesse e amasse. E infelizmente, a sorte não esteve a seu favor outra vez.
- Eu sou a sua família. Sempre fui e sempre vou ser. – Garanto com segurança, minhas mãos acomodando o seu rosto entre elas. Há meses atrás, se lhe perguntasse, nesta posição, o que ele era, Sirius não hesitaria em responder “Um sanduiche de idiota”. Mas, outra vez, não somos as mesmas pessoas de antes. Acaricio a barba por fazer abaixo de suas maçãs do rosto. – Da mesma forma que James, Fleamont, Eufêmia, Lilian, Harry e até mesmo Remus. – Minhas mãos se cruzam em seu pescoço quando Sirius me abraça, uma lufada de ar quente deixando meus lábios graças ao frio invernal. Enquanto dou alguns passos para trás a fim de me equilibrar, o bruxo ergue a cabeça e a sua barba esbarra em minha bochecha, logo seus lábios se pressionam ali e Sirius a beija. Suspiro, acariciando os fios que escapam de seu penteado malfeito. – Nem mesmo a morte pode apagar algo assim.
*

- Petúnia? Aquela trouxa anti-bruxos está com o nosso afilhado, Sirius?
Sirius Black estampou uma expressão de terror na face cansada quando eu quase gritei em horror no meio da calçada de um restaurante trouxa, erguendo as mãos em um ímpeto de me frear e pedindo para que fale mais baixo com uma sequência de shi’s aperreados, logo me empurrando para dentro de um beco úmido e com cheiro distinto de lixo. A raiva ferve em meu corpo e o pavor pelo bem estar de Harry também, a aversão de imaginar como nosso menino está sendo tratado por Petúnia e seu odioso marido trazendo um sabor amargo de vômito para minha boca. Eu empurro a mão de Sirius com exaltação e sem me preocupar de estar sendo grosseira, tendo de respirar fundo para me acalmar enquanto adentro ainda mais o beco, pisando firme em poças cheias de uma água marrom e fedorenta.
- , você sabe que a decisão momentânea não nos cabia! – Sirius (o sempre temperamental Sirius) é quem tenta me fazer raciocinar, apelando para meu lado racional e entendedor das leis do Ministério, o básico que estudei por anos. Eu engulo em seco, apertando meus olhos para a imagem de nosso sobrinho sendo retirado de nossos braços em Hogwarts quase três meses trás, oficiais preparados para atacar-nos no caso de alguma investida contrária as ordens de manterem Harry sobre sua vigília. – Eu estou fazendo o que posso, Dumbledore está ao nosso lado incondicionalmente, mas eles não querem ceder.
Claro que não querem ceder. Nunca estiveram a nosso favor.
- Que queimem, então! Nós os faremos ceder!
Eu me viro para meu amigo, em uma outra tentativa de me acalmar ou amenizar a ira e o medo. Ódio cego do Ministério que não quer nos ajudar por raiva do que já fizemos e da exposição que a Ordem da Fênix protagonizou na morte de Voldemort, roubando o holofote deles. E medo pois, que Merlin nos livre, algo de mau ou alguém mal se aproxime de nosso pequeno e indefeso afilhado. Quero destruir tudo a meu alcance, finalmente entendendo o acesso de ódio que consumiu Sirius na noite da morte de nossos amigos e que só conseguiram ser domados após ouvir o choro desesperado de Harry e o apoio imediato de Rúbeo Hagrid que o encontrou prestes a fugir e caçar Peter. Não sei se teria a mesma força que ele se tivesse a chance de me vingar, mas as mãos grandes de Sirius logo estão em meus ombros por trás e eu sinto como se fosse despencar pela fraqueza que a ansiedade me proporciona.
- Ele está bem, , eu posso garantir isso a você. – Os dedos se flexionam em minha carne. – A Professora McGonagall e a Velha Figg estão de olho neles o tempo inteiro, e aquele marido gordão e baixinho da Petúnia não teria coragem de mover um dedo na direção do Harry. Segundo ela, ele acha que o bebê vai explodir e matar eles a qualquer segundo. – Ouço a pitada forçada de humor em sua voz, mas isso apenas auxilia na inquietação debilitante que adorna minha mente. Como podem ter achado que manter Harry com pessoas tão estúpidas e preconceituosas assim pode ser melhor do que conosco? Não consigo evitar me indagar se estão ao menos trocando suas fraldas e lhe alimentando. O imaginar ferido e faminto faz meu estômago revirar. – Precisamos apenas de um tempo antes dele voltar e vai tudo se encaixar. Harry será amado, eu juro, Tess.
Apoio minha destra na parede úmida e fria, usando minha outra mão para tocar a de Sirius acima de meu ombro. Ele a aperta. Respiro bem fundo, juntando todas as minhas forças para ter algumas esperanças na irmã de minha melhor amiga. Ela não pode ser tão má. E mesmo que esta houvesse lhe dado as costas quando descobriu seus poderes e logo que mais precisou de sua família ao seu lado – em meio a guerra e em seu casamento tão apressado -, Lilian sempre defendeu a “humanidade” de sua irmã mais velha. Essa era a maior qualidade de Lily, ela sempre viu o melhor em todos, aceitou as falhas e foi justa acima de tudo. Infelizmente, nunca suportei a presença de Petúnia ou a simples referência a ela, em especial depois de encontrar Lily chorando diante da lareira da sala comunal com uma carta que lhe chamava de aberração e que dizia que não precisa voltar para casa, vinda da trouxa.
Me lembro de a ninar para dormir em meu colo, a carta já perdida nas chamas.
- A quinta audiência é em dois dias. Você gostaria de vir?
- Quinta audiência?
Minha voz é um sussurro envergonhado e miúdo. Sinto minhas bochechas queimarem com acanhamento em sua forma mais pura. Em dois meses houveram quatro audiências públicas no Caso Potter, pelo o que consigo entender com a breve informação. Quatro audiências dolorosas e exaustivas que Sirius teve de enfrentar sozinho pois eu decidi que minha dor era o suficiente para abandoná-lo. Como pude?
Eu me viro em sua direção, sentindo meu coração se despedaçar.
Sirius Orion Black é lindo e com uma presença poderosa, o que é um traço digno de um bruxo excelente e ideal para combate e duelos, sua simples existência ocupando espaço e sendo intensa. Mas ainda se mantém humano e frágil, como todos ao seu redor. Sua aparência ligeiramente ferida e desfeita expõe isso. A barba malfeita que jamais cresceria em outra circunstância, o cabelo negro desgrenhado acima do sobretudo e os lábios rosados rachados e secos comprovam isso. Ver seu estado tão diferente do que me acostumei nos últimos oito anos é surpreendente e desolador. De repente eu me odeio por isso, mesmo sabendo que a causa principal não é minha culpa. Sirius apertou os lábios e retirou a mão de meu corpo, a enfiando com a outra dentro dos bolsos, como quem diz um “não tem de quê” inocentemente.
Quero implorar por seu perdão outra vez.
- Sei que não vai dar em nada, as outras quatro não deram, mas também sei que ter você por perto iria ajudar na tomada de decisões de júri. – Black ri, o humor não alcançando seus olhos, os cílios longos descansando contra sua bochecha. – É esperado que alguém com o meu sobrenome não saiba cuidar de uma criança. E inesperado, para eles, que eu não esteja definhando em Azkaban com o resto dos Black. – Percebo enquanto gira o anel em seu dedo. A joia sendo um acessório familiar para mim, a presença dele em seu dedo se tornando angustiante. – Mas eu quero o Harry, . Tudo pelo Harry.
Harry.
Meu nariz arde e eu sei que irei chorar apenas por ouvir o nome de nosso afilhado saindo de sua boca. Harry James Potter. O único herdeiro de meus amigos e última prova de que por um segundo nós achávamos que haveria esperança em um mundo governado pelas artes das trevas. Nós cogitamos que haveria vida e paz completa quando Lily anunciou a gravidez. Um filho, neto e sobrinho. Uma chama de esperança que quase se apagou em um piscar de olhos. Quando Harry nasceu, fui eu quem segurava a mão de sua mãe. Lilian gritava e chorava como eu jamais havia visto, pois queria acima de tudo seus pais ali. Sua mãe e seu pai que haviam viajado o mais longe possível não poderiam estar presentes, afinal, era muito perigoso e estávamos escondidos. Semanas antes combinamos de montar uma vigília durante o parto, tendo em mente que seria um alvo fácil para Voldemort graças a fragilidade do momento.
Toda a Ordem da Fênix havia se unido horas antes para o parto de Alice Longbottom há quilômetros de distância, incluindo o próprio James, então estávamos todos muito exaustos e drenados física e psicologicamente, mas por sorte alguns outros membros haviam se juntado a nós em Grodric Hollows no dia 31. Entre eles Hestia Jones e Arabela Figg, que auxiliaram em ambos os partos pois uma parteira não poderia ser exposta a tanto perigo e duvidamos que qualquer uma cogitaria aceitar. Mas foi uma noite gratificante, no mínimo. Acima de tudo, ambos bebês nasceram saudáveis e as mães não tiveram complicações. Harry nasceu chorando em plenos pulmões e nos deu esperança por diversos meses de que iríamos vencer e iríamos conseguir derrotar Voldemort. E pensar nisso hoje me irrita devido a inocência.
- Eu sei que pode ser doloroso para você. Entrar no Mistério da Magia de novo, que era um sonho de vocês, mas... – Assinto de maneira dura pois fala a verdade. Era um sonho de meninas que não entendiam como o destino podia mudar tudo tão rápido e as prioridades iriam se divergir. Eu aceitei a oferta de Alastor Moody no último verão, treinando durante a guerra para me tornar uma Auror, mas nunca completei os exames finais necessários quando a Guerra se estendeu e demandou muito de todos nós. Já Lily não teve chances de tentar, a gravidez a impedindo de prosseguir assim como enraizou a ela e James em seu lar até os último minuto de sua vida. Contudo, jamais sequer ousou me dizer para não prosseguir, apoiando-me mesmo quando me via realizar o sonho que dividíamos e o tomei para mim. – Mas, talvez você dê a eles a confiança que eu não posso dar.
Mesmo sendo um bruxo genial e um dos jovens mais talentosos de Hogwarts junto a nós, os outros Marotos – em parte dominada por mim, Lilian e Remus – eram excepcionalmente brilhantes e esforçados, a transfiguração para animagos ainda quando eramos adolescentes sendo a prova disso, o processo extenso e árduo sendo performado com perfeição e depois ensinado a mim. Contudo, Sirius nunca foi o mais confiável quando era necessária responsabilidade na adolescência, mas conforme fomos amadurecendo durante a Guerra Bruxa, o vi virar um homem responsável e moderador quando necessário. Não mais era o meu amigo de sempre que eu via nele. Mas espero que, com a possível guarda de Harry, ele possa retornar a exalar luz e felicidade por onde passar.
- Você sabe que eu tenho um histórico bem ruim com esses velhos com ovo enrugado. – Começo a rir e dou um passo para trás, secando minhas lágrimas com as costas das mãos.
Esse é o meu Sirius.
- E com mulheres. Lembro de ter se escondido debaixo de uma mesa de bar para fugir de três, uma vez.
- Se nós formos continuar com esta lista precisaremos de vinho morno e algo para beliscar... – Provocou e eu sorri um pouco, concordando com a cabeça. Seu sorriso irradia por minha alma, pulsando algo distante no passado.
- Eu irei com você. – Minha voz é firme e me surpreende. – James e Lilian não esperariam que recuássemos.
*

- Onde está morando? – Questiono enquanto esfrego as minhas mãos uma na outra, respirando bem fundo ao caminharmos na direção do centro da cidade por algumas ruelas estreitas e mal iluminadas. Antes de tudo, Sirius não tinha moradia fixa, como grande parte da Ordem. E eu me recuso a pensar que ainda estaria na cabana em Cardiff, a possibilidade de estar sozinho e isolado todo este tempo me enjoando. – A Mui Antiga e Nobre Casa dos Black? – Provoco sem vergonha de o irritar ou de mencionar o lugar, o vinho que tínhamos tomado ainda pulsando em minha garganta e o gosto do queijo com especiarias grudado em minha língua.
Tenho total conhecimento de que Sirius iria para cima de qualquer um outro que lhe questionasse o mesmo ou mencionasse a casa em que cresceu, mas ele apenas me olha entediado e eu lhe empurro um pouco com meu ombro, o fazendo fingir se equilibrar em apenas uma bota e se desfazer em um sorriso tenro cru e sem esforço, um dos que preciso assumir ser o meu favorito vindo dele. Eu toco em seu braço ao deslizarmos pela rua cor de areia e escorregadia da garoa, uma nuvem de embriaguez solene e melancólica pairando sobre nós para nos proteger dos sentimentos e emoções que o reencontro nos proporcionou. Jantamos em um restaurante de propriedade bruxa, sentamo-nos em uma mesa distante e reservada para aqueles que conhecem a magia, de onde podíamos ver elfos se moverem na cozinha e eu lancei um olhar reprovador para Sirius de minha cadeira.
Pedimos por vinho, queijo, pasta de azeitonas e pão fresco e depois por massa. Meus olhos não deixando a figura de meu amigo por segundo algum enquanto comia, observando como se esforçava a cada mordida e empurrava tudo com o vinho doce. Se James estivesse aqui iria rir da nossa escolha, comentaria sobre como dizemos gostar de vinho se nem mesmo aguentamos um mais amargo, ainda que Sirius tenha o pedido só para me agradar quando consegue finalizar sozinho uma garrafa de Whisky de Fogo. Mas com sua ausência em nosso círculo, a escolha fraca passa em branco e eu percebo a apreensão de Sirius ao fazer o pedido. Notei o olhar reverente direcionado a mim enquanto espalhava a pasta de azeitona e alho em uma fatia de pão, dando uma mordida nele ao estender minha mão e agarrar os dedos de meu amigo, analisando meu cardápio para disfarçar. Garantindo-lhe logo depois, com o coração pesado, que estou aqui. Para sempre, desta vez.
- Comprei uma casa com o dinheiro de Alphard. – Explica-se, com um genuíno orgulho que me convence. Sirius nunca foi fã de dependência financeira, por este motivo, ter algo só seu lhe faz feliz. O afasta de sua família pelo menos um pouco, ainda que o dinheiro seja de um tio muito querido e que foi expulso da família. Eu abaixo meus olhos para sua mão direita, que se agita conforme caminhamos e reluz com o pesado Anel dos Black, forjado a ouro. É um peso que ele decidiu carregar, ainda que me deixe nervosa por estar tocando. – Mas guardei o resto, afinal tenho alguns planos que envolvem um bebê que usa mais fraldas que Walburga usa laquê. – Eu deixo um sorriso escapar e dou um outro empurrãozinho em seu ombro, levando outro bem leve de volta ao segurar em meu cotovelo para garantir que não vá para muito longe dele. – É um lugar grande e longe do centro, Tess. O Harry vai poder correr e praticar com a vassoura dele. – Seu tom sonhador e seguro me faz apertar os lábios.
- Lilian iria querer que ele conhecesse o Mundo dos Trouxas, também, Black. – Interrompo e meu amigo concorda veemente com a cabeça, ciente de que estou certa. Me desmonto em sorrisos ao lembrar das palavras de minha amiga enquanto estava grávida e fez os rapazes montarem o berço de Harry sem magia alguma, como prova que a vida como trouxas não era tão mal como julgavam. A noite terminou com um grande discurso de Lilian sobre a importância de trabalho manual enquanto eu tirava farpas das mãos dos manhosos Marotos. – Imagine só: Nós três visitando um circo itinerante, Padfoot! Com palhaços e contorcionistas? E em um zoológico? Soltando balões no aniversário dele? Igual como fizemos no último? – Enumero, o vinho ajudando a soltar minha língua e amolecer o coração. – Posso ensinar ele a jogar baseball! E a pintar! Imagine só.
- Ele vai ser feliz, eu sei disso, porque terá os melhores padrinhos do mundo do lado dele. – Sirius está certo e eu sei que é verdade, afinal, não há dúvidas que nosso afilhado merece tudo o que possamos proporcionar. Meu melhor amigo toca minhas costas, me apoiando enquanto desvio de uma poça e quase perco o equilíbrio. Caminhamos assim, com sua mão em minha coluna e com a lateral de nossos corpos se tocando. E é quase como se estivéssemos enfiados em casacos gigantesco a caminho do Três Vassouras e nos esforçando para não cair na neve pois Peter Pettigrew tinha ganhado uma câmera e iria tirar uma foto do primeiro a cair. Empurro essa memória manchada de sangue para longe. – E você, ? Onde está morando?
- Desde que fugi? Estive em Dublin este tempo todo.
- Não!
Eu estou sorrindo e gargalhando como uma criança pelo efeito do álcool quando Black briga comigo pela decisão que tomei logo que saí de seu campo de visão. Posso sentir algumas gotas de chuva sobre meu casaco e a coroa de minha cabeça, mas não quero fugir dela e o maior também não parece incomodado, rindo com o pescoço jogado para trás e abrindo os braços para se molhar o máximo com a chuva. Consigo ver, por baixo de tudo isso, o adolescente que causou uma tempestade durante uma aula onde não havia preparado um trabalho e quase enlouqueceu a pobre McGonagall, para, em seguida, arrancar uma risada esganiçada e juvenil de Alvo Dumbledore ao lhe explicar as motivações. James, Peter, Remus e eu também acabamos na detenção. Afinal, fomos nós quem lançamos os outros trabalhos já entregues no redemoinho que James havia encantado para triturar somente papel.
Sirius parece ter 17 anos novamente quando sorri.
- Eu não posso tirar os olhos de você que você foge para a Irlanda, mulher? – Sua voz reverbera pelas paredes de tijolos acima do som da chuva que se estende diante de nós, o tom risonho e alto como sempre me lembrei. Cheio de vida e um vigor que há tempos parecia ter se desfeito. Sei agora o que eu sempre soube: nem mesmo quando pensei que tudo estava acabado, eu não estive sozinha por minuto nenhum, nem quando dei as costas para minha mãe e irmão e os fiz me esquecer, quando perdi meus amigos e noivo. Jamais estive sozinha pois Sirius esteve na mesma tempestade que eu.
E agora da mesma chuva impiedosa.
- Você sabe que eu sempre quis visitar a Irlanda, não é? Foi o primeiro lugar que pensei. – Minha voz está elevada por causa do som da chuva que se forma ao nosso redor e eu sorrio. A muito tempo não elevo meu tom assim, com um sorriso se formando no meio das palavras e tanta alegria me dominando. – Mas eu vou voltar. O melhor amigo e o meu afilhado precisam de mim. – Sirius correu em minha direção, para debaixo do toldo de um bar o cabelo pingando em nós e pomo de adão subindo e descendo enquanto respira fundo.
- E você precisa de um guarda-chuva, !

January 23rd, 1982
(Three months since the Dark Lord defeat.)
- Lilian e James... – Sirius pausou em meio a sua fala, tomando uma lufada de ar e umedecendo os lábios secos com um sufrágio. – Amavam-nos. – Declara em um tom exausto, corretamente cansado pois já estenderam o seu depoimento por mais duas horas e o Sol já se pôs do lado de fora do Ministério da Magia, a exaustão se apossando de nós como uma serpente enroscada em nossas gargantas. – E sabiam que nós amávamos o Harry mais que tudo neste mundo e que cada sacrifício valeria a pena por ele. – Seu corpo está virado para longe de mim, de forma que, de jeito algum, nossos olhares possam se encontrar e eu possa lhe oferecer algum conforto. É uma arma muito usada em depoimentos e juízos para o Ministério: os “acusados” ficam separados para que não tenham chances de arquitetar planos. E é imundo que usem isto em nós como usaram nos julgamentos de famílias de Comensais da Morte. – Sempre esteve implícito para todos que éramos os padrinhos dele, e a segunda opção.
Sinto os olhares gelados e asquerosos em mim.
- foi a primeira pessoa ao pegá-lo nos braços, eu estava com seu pai no segundo que ele chorou pela primeira vez. Harry sempre foi tudo para nós. – Observo quando Sirius lança a cabeça para trás, afastando o cabelo de seu rosto e tenho total certeza que ele encara Milicent Bagnold, a Ministra da Magia que declarou ser um direito inalienável à celebração, duas horas após a morte de James e Lilian. Mesmo após alguns pedidos meus, ele não se contém e solta: – Mas não é como se eu já não houvesse lhe dito isso outras quatro vezes, certo? Alguém tem um aparelho de audição? Talvez eu deva comprar um para Vossa Excelência.
Meu coração pareceu ser comprimido por mãos de aço quando uma lágrima solitária escorreu pelo canto do olho de Sirius ao ser virado em minha direção com brutalidade após um acenar de mãos da ministra, o martelo atingindo a madeira várias vezes. Seus olhos se fecharam e lábios se partiram em um suspiro silencioso antes de poder me olhar, sua cabeça se inclinando para trás contra o encosto da cadeira no meio da masmorra, dedos escorregando para as correntes ameaçadoras paradas ao seu lado. Ao se sentar ali – depois de minha audição com o mesmo teor assombroso e desgastante – no início da tarde, muitos dos vultos escuros que adornavam as arquibancadas se curvaram para frente, grotescamente interessados para o “julgamento” de mais outro Black.
Eu enterro minha face nas palmas de minhas mãos quando abre os olhos para me olhar, tentando inutilmente normalizar minha respiração quando Bagnold lança um olhar corrompido para nós e eu apenas posso definir que esta é uma causa perdida, principalmente quando ela mesma anunciou em plenos pulmões em uma entrevista que todos aliados da Ordem passariam por processos de vistoria, incluindo o próprio Dumbledore. Foi infantil imaginar que isto seria mais fácil. Já não tenho forças para permanecer por mais um segundo algum neste local. O vestido que uso se gruda a minha pele que insiste em suar frio com nervosismo, assim como sei que Sirius também sua. A camisa social está aberta em alguns botões no topo, o suor reluzindo em seu peito enquanto os lábios estavam vermelhos de tanto estarem aprisionados entre os dentes.
- Então, como já deve saber pelas últimas quatro vezes, Sr. Black, não há documentações legais quanto a guarda de Harry James Potter nos registros do Ministério da Magia que antagonizem a atual moradia e guarda da criança. Portanto, não há prova da legalidade do apadrinhamento dos senhores Sirius Orion Black e Jessamine Fairchild. – A bruxa de monóculo interrompeu-o com uma voz trovejante. Eu me curvo, agitando minha cabeça entre as mãos, consumida com medo e raiva. – Já a trouxa Petúnia Margô Dursley, tia legitima de Harry Potter, tem direitos totais a guarda da criança. Não há necessidade de documentação alguma.
- Testemunhas de defesa de Sirius Orion Black III e Jessamine Lightwood no Caso Potter. – Ergui meu rosto no segundo que a entrada de testemunhas a nosso favor foi anunciada por meio de autofalantes acimas de minha cabeça. Um suspiro baixo escapou de meus lábios na arquibancada e eu pude ver em primeira mão a entrada das testemunhas surpresas na corte. Meus joelhos não falharam e eu me pus de pé no mesmo instante, resistindo a aproximação de dois Aurores em treinamento que deveriam me impedir de reagir, mesmo que mantivessem minha varinha guardada consigo e pensassem que só isso fosse me tornar indefesa. – Alvo Percival Wulfrico Brian Dumbledore e Minerva Caithness McGonagall.
Dumbledore e McGonagall entraram de maneira serena na sala, com educação e sem pressa, suas presenças tão reconfortantes e seguras que eu quero chorar novamente em replay da macabra recapitulação da última noite de Halloween que tive de oferecer aos presentes, expondo mais da morte de meus amigos do que jamais deveria ter exposto. Ainda me sinto imunda por fazê-lo e precisei de um recesso de 20 minutos para conseguir sair e vomitar, Sirius segurando meu cabelo e me arranjando uma xícara de chá logo depois. Em poucos segundos, Dumbledore e suas vestes longas e esverdeadas alcançam a cadeira de Sirius, de onde meu melhor amigo observa incrédulo a presença do Diretor de Hogwarts e encolhe os ombros quando a mão amiga se posta em seu braço, garantindo outra vez total apoio. Os membros da Suprema Corte dos Bruxos murmuraram. Todos os olhares se concentraram agora em Dumbledore e Black.
Alguns pareciam aborrecidos pelo fim do show, outros ligeiramente receosos.
- Oh, Fairchaild.
A Professora McGonagall ergue a barra das vestes cinzas de veludo ao se aproximar da arquibancada com uma pressa desconhecida, a sua entonação semelhante à usada comigo em nosso último encontro durante o enterro de meus amigos e seus queridos ex-alunos, quando me abraçou e ofereceu um pote de biscoitinhos de açúcar e gengibre. Os fios grisalhos no topo de sua cabeça brilham com a luz amarelada da sala e mãos enrugadas estendidas em minha direção apanham as minhas de imediato. Eu desço as escadas, trêmula, surpresa e agradecida de formas que não consigo descrever e encontro conforto em seus braços esguios. Suas mãos tocam em meu cabelo e os olhos claros analisam meu rosto vermelho e inchado, logo dando tapinhas em meus ombros, como sempre fizera. Costumava adicionar um “Muito bem, querida.”, mas agora as palavras se perdem em sua boca.
Não a culpo.
- Sinto muito que tenhamos nos atrasado, companheiros. Mas tínhamos um dever a cumprir com os Potter, sei que irão entender.
Eu me afasto da professora ao ouvir a afirmação de Dumbledore, não entendendo, assim como resto da corte o que exatamente queria dizer, mas torcendo para o melhor. McGonagall aperta minha mão, ternamente como quem me pede para esperar e assim eu o faço, em pé e impotente diante da Suprema Corte dos Bruxos, por mais que meu instinto seja de correr na direção de Sirius e abraçá-lo com todas as minhas forças. Engulo em seco minhas lágrimas, a presença de ambos os professores parecendo me fortalecer e diminuindo meu ímpeto para chorar, tentando não os envergonhar com meus sentimentos.
- Ah, - Exclamou Milicent, que parece completamente desconcertada e envergonhada com a aparição surpresa. Sua mudança de postura me deixa irritada, mas meus professores estando aqui me impedem de pular em seu pescoço. – Dumbledore e McGonagall, como não pude prever isto mais cedo? Sempre em defesa dos tão queridos alunos! É uma honra os tê-los em meu tribunal. – É certo que McGonagall revirou os olhos por uma fração de segundo, entretanto não menciono isso em momento algum, anestesiada com veneno que escorre dos lábios da ministra. – Bom, gostaria de ouvi-los, se não se importam. Já invadiram a audiência que a Srta. Fairchild implorou para ser particular, então não vejo por que não tornar tudo isto um circo completo.
Dumbledore agita sua varinha com breve aceno enquanto McGonagall se direciona a Sirius, apertando a mão do rapaz sem se importar com os olhares acusatórios que a rodeiam ou com a reverência que o momento lhe cobra, preocupada demais com o bem de seu ex-pupilo e em irritar Bagnold. Nenhum dos dois se importa com isso, principalmente depois que um envelope pálido surge sobre a mesa de Milicent e seu nariz brotulhento se enruga enquanto escava os inúmeros documentos em sua mesa até achar os óculos. Ela retirou a carta da pilha à sua frente, inspirou longamente e leu em voz alta.
- Me chamo Lilian Jane Potter, nascida no dia 30 de janeiro de 1960.
Cobri meus lábios quando o nome de minha melhor amiga ressoa na corte muda, lágrimas inundando meus olhos e se amontoando prestes a escaparem, e eu percebo que estou para perder o equilíbrio quando braços me apanham e eu sou levada a uma cadeira por um dos estagiários de Moody, quem se desculpou diversas vezes por não poder estar aqui conosco hoje. Minerva e Dumbledore não dizem palavra alguma, mas toda a Suprema Corte está em choque, portanto o silencio é mais que completo.
- Escrevo este documento com auxílio de meu marido, James Fleamont Potter, nascido no dia 27 de março de 1960. Nós entendemos a imparcialidade da vida, entendemos que nenhum de nós, sem exceções, pode ter certeza de um futuro. Estamos certos de que não teremos muitos anos de vida ou lucidez diante de nós, mas esta é uma condição que estamos certos de aceitar pela segurança de nosso filho, Harry James Potter. Desta maneira, vos escrevo, Suprema Corte dos Bruxos, Ministério da Magia, Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, a fim de transferir de minha irmã Petúnia Margô Dursley, para meus amigos Jessamine Fairchild e Sirius Orion Black III, a guarda de nosso filho, Harry.
Concedo a estes a responsabilidade legal e completa de nosso filho, sem restrição alguma que possa impedi-los de mantê-lo sobre sua guarda até os 18 anos no caso de uma não-adoção. Confio-lhes, também, o uso de 40% da fortuna contida no Banco de Gringots para os anos mais jovens de nosso filho. Se, na ausência dos posteriormente citados, manteremos a nossa documentação antiga de Guarda Ocasional de Harry, com Petúnia Dursley sem todos os privilégios concedidos. Espero que jamais tenhamos de fazer uso deste apontamento, mas se o momento chegar e a morte ou invalidez cruzar nossos caminhos, espero que nossos pedidos sejam concedidos por aqueles a quem forem requisitados.
Lilian Jane Potter e James Fleamont Potter.
23 de outubro de 1981.
- Lilian Potter enviou esta carta para a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts uma semana antes do ataque a sua casa e sua eventual morte. Eu a mantive comigo por meses, sem coragem de abri-la, pois ainda quis acreditar que a jovem que eu havia treinado ainda estava viva em algum lugar mesmo que fosse em uma folha de papel. – A voz abalada de McGonagall soa diante do júri, emocionalmente instável. – E eu entendo que errei, mas também busco mostrar-lhes o erro que cometeriam em não ouvir o pedido de uma mãe. O erro que será entregar a segurança de um bruxo que futuramente será extremamente poderoso para um casal de trouxas. O erro que será se Harry Potter não for criado por aqueles que o amavam tanto como seus pais.
Minhas lágrimas ameaçaram escapar por meus olhos fechados antes de finalmente cascatearem quentes em contato com meu rosto gelado, assim como as palmas suadas de minhas mãos. Seguro um soluço ao me curvar sobre o corpo de Sirius, que havia se ajoelhado diante de mim em segundos e cujo rosto estava pressionado contra meu colo, soluçando contra minha roupa. Ele aperta minhas mãos com força, me puxando para um abraço duro e apertado, sua respiração pesada se engasgando com múrmuros que não entendo e o som de bruxos grunhindo em surpresa. Eu abraço meu amigo com toda a força que tenho, chorando em meio a um sorriso de alívio, a mistura delirante de emoções não cabendo em meu peito.
Lilian pensou em nós. Lilian e James nos escolheram.
- Fairchild dividiu o dormitório com Lilian Potter por sete anos, foi madrinha em seu casamento dois anos atrás quando o mundo parecia que iria cair sobre nossas cabeças e chorou sobre o corpo de sua amiga em Godric’s Hollows até que a levaram de volta para Hogwarts. Mais que Petúnia Dursley, era irmã de Lilian Potter. – Solucei nos braços de Sirius, meus dedos se enterrando nos fios negros de seu cabelo enquanto o bruxo acaricia minhas costas, tentando acalmar a sua respiração quente em minha coxas. – Os Potter acolheram Sirius Black e Fairchild em seu lar como filhos, em especial quando a vida se tornou impossível na Casa dos Black. Sirius usou toda a força que tinha dentro de si para manter de pé o maior campo de proteção que eu vi em toda minha vida durante o parto de Harry e tirou o pobre bebê dos destroços do que um dia fora um lar.
- Este casal é a família Potter, Ministra. Não há nada que vá mudar isso.
*

- Me desculpe. - Sirius sussurrou após alguns minutos em silêncio.
Meus dedos então firmemente seguros ao redor da xícara de chá de hortelã que ele havia preparado assim que chegamos em sua casa, a porcelana vermelha quente enviando ondas de calor por meu corpo. Minha atenção permanece fixa na pasta entre nós. É de um tom frio de azul marinho, com uma grande gravura dourada do Ministério da Magia Britânico na frente. Posso ouvir o craquelar da lareira na sala de estar larga e mobiliada com qualquer coisa que Sirius pôs os olhos sem se preocupar. Me foco somente o estalar confortante da lenha e o som do fogo consumindo-as devagar e em marcha constante. Na cozinha, é tudo mais silencioso. A chama do fogão se apagou, chaleira deixou de apitar e as colheres que misturavam açúcar nos chás sozinhas se dispensaram.
- Sirius, não faça isso. – Retruco mais severa do que gostaria soar, levando a bebida quente até meus lábios, seu vapor se misturando com a brisa do ventilador acima de nossas cabeças que abana meu cabelo recentemente desfeito e cujos fios cacheados provocam cócegas em minha costa nua. – Por favor, não faça isso.
Sirius está curvado sobre a mesa, seu próprio chá esquecido e com mais colheres de açúcar que ele gosta, o cabelo negro escorregando por trás de sua orelha e dedos entrelaçados diante de mim, as juntas destes pálidas pela força que aplica no que deveria ser apenas uma ocupação para mãos nervosas. O anel da Mui Nobre e Antiga Família Black descansa ao lado da pasta, entre nós e é como um pilar que nos separa. Black suspira alto, mãos no rosto e mangas da camisa social arguidas até os cotovelos, o relógio de pulso que lhe devolvi na cerimônia tiquetaqueado sem parar, pois, mesmo que quiséssemos, o mundo não parou naquele instante. O bruxo esfrega os olhos antes de me olhar, uma mão apoiada no queixo e a outra finalmente envolvendo o cabo de sua xícara.
- O nome é o que me incomoda mais. – Sirius murmura de volta, como se quisesse manter um segredo enorme de suas paredes e até mesmo de mim, ignorando em totalidade meu pedido anterior. Eu o olho, por baixo de meus cílios apenas para perceber o rubor furioso em sua face e o brilho da bebida em seus lábios. Sirius não tem interesse em me olhar, parece focado demais no seu chá e nas folhas que flutuam sobre a superfície. – O nome deles me incomoda e enoja.
Minha mão rapidamente toca o seu braço, tirando a sua mão de seu rosto e segurando a mesma carinhosamente. Seus dedos estão frios e ele não tem vontade de buscar o calor de minha pele, mesmo assim eu entrelaço nossos dedos, apertando a sua mão com certa intensidade. Encaro as unhas roídas e cutículas feridas, a sua estética a muito esquecida no turbilhão que temos passado, algo que jamais aconteceria quando nos conhecemos e sua aparência polida era seu orgulho nos momentos de humor. Quando nossos olhos se encontram, em meio a sua tentativa de fuga de meu campo de visão, sei o que exatamente queria dizer para mim ao se desculpar.
Suas irises, com entretom de carvão e uma noite estrelada, estão embaçadas e irritadiças, refletindo suas emoções com plenitude. Sua mandíbula permanece flexionada e apertada, como se tentasse se controlar. Meus dedos atingem o granito em um movimento rápido, assim que o moreno solta minha mão com um movimento exasperado que me surpreende pela a falta de cuidado, logo que som de sua cadeira indo para trás range contra o piso de madeira e eu automaticamente me ponho de pé, surpresa com a reação irritada, mesmo sabendo que isso aconteceria uma hora ou outra.
- . O que nós fizemos? O que eu fiz com você?
Sirius Black sussurra, costas apoiadas contra a pia ainda úmida, provavelmente molhando sua calça e camisa social com o outro litro de chá que fez e as mãos trêmulas deixaram cair no mármore escuro. Seu tom exprime horror, medo e rejeição. Meu peito parece que irá se romper de dor, afinal, a decisão que tomamos foi rápida e intensa demais, porém não esperava a sua reação desta forma. Não quando está tudo encaminhado, quando temos os documentos em nossas mãos e uma possibilidade real pairando no ar. Não quando não há mais volta e pelos próximos 17 anos teremos de sustentar esta escolha em nossos ombros.
Com as solas nuas de meus pés doloridos, eu caminho pelo piso gelado na sua direção com cuidado e sem pressa para não o assustar, sentindo a barra de meu vestido tocar meu calcanhar conforme ando e me mantenho consciente dos cacos de porcelana chinesa que Padfoot deixou se espatifar minutos atrás. Sou eu quem o envolve em um abraço, apertando meus braços ao redor de sua cintura e não me importando quando o botão de gardênia no chão é pisado por mim. Não preciso esperar muito mais para que o abraço seja retribuído, mas a inicial incerteza ainda me machuca. Sirius está com os lábios pressionados em meu cabelo e eu posso senti-los tremularem, assim como os seus braços me apertarem com muito mais força. Eu finco minhas unhas em suas costas, balançando a cabeça em negação contra o seu peito quente que sobe e desce intensamente enquanto fala.
- Nós devíamos ter dado outro jeito, esta não podia ser a única opção. – Sirius beija minha testa, respirando ali antes de voltar a falar, as suas ações e versos batendo de frente, mas o cuidado que tem na escolha de palavras para não me magoar e os carinhos que afagam a sua preocupação me mantém calma. – Eu não quero isso para você, você é boa demais para estar diretamente ligada à minha família, .
- Sirius, ouça o que fala, por favor! – Imploro sem perceber que chorava por sua agonia e pânico em relação a este detalhe que parecia tão mínimo para mim horas atrás, não suportando o ver sofrer de forma alguma em razão de pessoas tão odiosas.
- Eles apoiaram Voldemort, assassinaram, torturaram e escravizaram pessoas como você, como a Lily e o Rem! – Eu me afasto ferida quando Black lentamente desfaz o contato, secando algumas lagrimas com a costa da mão e fungando contra ela, sua face vermelha e respiração irregular revelando o pânico que tentou domar este tempo todo. Sirius parece ter finalmente acordado de um pesadelo apenas para ser enfiado em outro. E, infelizmente, o apelido do último bruxo que menciona não é ignorado por mim. – Você não pode ter o nome deles, . Não pode! Não é justo que seja comparada, jamais será justo que alguém como você seja comparada a minha família. – Mais lágrimas de aborrecimento escorrem por suas bochechas delicadas e ele esfrega a mão contra elas, com raiva que não parece ser contida por estar chorando. – O que eu fiz? O que eu fiz a você?
Não o respondo, afinal, faz horas que tento convencer-lhe estou confiante da decisão que tomamos juntos. Mas simplesmente sei que ainda precisarei lhe dar um tempo para absorver tudo, para entender que sempre estive ciente do juízo e que não irei dar para trás minuto algum contanto que seja ele e Harry. Contanto que possa segurar Harry em meus braços e garantir que está seguro. É tudo o que mais quero em minha vida, além de o fazer entender que nada mudou. Então me aproximo do bruxo, sentindo lágrimas se formarem em meus olhos desta vez, respirando bem fundo e o puxando pela mão na direção de sua cadeira onde se sentava anteriormente. Tomo meu lugar na mesa, diante do mesmo e precisando de muita força para poder falar quando ele enterra seu rosto em meu colo, lágrimas molhando meu vestido branco e delicado.
- Não é o nome deles, Sirius. – Mordo meus lábios com força, meus dedos em seu cabelo, um carinho que sempre soube ser o seu favorito nos momentos mais difíceis, preferencialmente oferecidos em sua forma Animago, mas duvido que seja capaz de recusá-lo agora. Meus lábios tocam seu cabelo com cheiro mentolado do xampu que o forcei a comprar quando visitamos um supermercado trouxa, sem suportar o cheiro doce do que usava no colegial e que acabou vendo em uma prateleira. No instante que seus braços se apertam ao redor de minha figura, abraçando-me com força, em busca de conforto, eu me permito curvar e mantê-lo descansando contra mim, meu corpo servindo de escudo. – É o seu sobrenome. O seu nome vale mais para mim que o resto dos Black.
...
– Você vale mais para mim do que todo o histórico de crimes e ódio daquela linhagem, Sirius. – Eu beijo sua cabeça novamente. – O nome do meu marido e melhor amigo vale mais que qualquer coisa para mim.


Capítulo 2

January 31st, 1982

Cinco dias se passam até que as coisas pareçam estar encaminhadas.
Estamos caminhando pelo Beco Diagonal lado a lado, algumas sacolas de papel pardo prostradas nos braços de Sirius e umas de tecido bem seguras em minha mão. Nossos dedos estão entrelaçados, certo calor fazendo a minha palma suar mesmo com duas camadas de luvas nos separando, afinal o outono é penoso em Londres. Faz duas horas que deixamos o Ministério da Magia, rostos incrédulos nos encarando a todo o momento enquanto assinávamos um montante de documentos pois passaríamos por um mês de testes até garantir que nosso lar era seguro para Harry. Nosso lar. Meu e de Sirius. O que imaginam que dividamos agora que somos casados.
- Oh, são os Black! – Ignoro o terceiro arfar nos últimos sete minutos.
Sem hesitações, Padfoot ofereceu toda documentação da casa que havia comprado com o dinheiro de seu falecido tio, esta onde decidimos morar pois fora especialmente adquirida por ele para que oferecesse uma infância decente para Harry. Com cinco quartos, escritório e um jardim extenso, não sei como poderiam imaginar um lar melhor para se criar uma criança. O maroto me prometeu laboratório de alquimia, aros de quadribol em um campo de 150 metros rodeado por um bosque e uma biblioteca com materiais de astronomia; e assim, bem, não há local melhor para se criar um bruxo magnífico como Harry há de ser.
- Eu vou matar alguém... – Sirius cantarola, apertando meus dedos e olhando para trás, buscando quem diabos tinha nos mencionado. Repuxo sua mão, repreendendo sua atitude. – Azkaban, aqui vou eu... – Murmura.
- Padfoot! – Reprovo com um sorriso. “Tire uma foto, Martha! O Profeta pagará horrores por eles!” – Mas, se isso se arrastar, iremos dividir a cela. – Resmungo com insatisfação. Ele aperta ainda mais a minha mão.
Então chegou o momento de minha mudança para a formosa casa, tudo ocorrendo de forma rápida e secreta durante uma noite no início da semana, enquanto rogávamos para Merlin (Sirius) e os céus (eu e minha inclinação religiosa trouxa) que não fossem investigar que estaria aparatando às quatro da manhã de maneira pendular no continente. Não haviam muitas coisas, poucas roupas e livros sendo transportados pela Rede de Flu conosco em malas. Sirius ainda estava distante e aéreo com tudo, mas era claro o esforço que fazia para estar o mais presente que conseguia ao analisar minha antiga casa.
Criamos barreiras do chalé contra trouxas e o protegemos de bruxos com encantamentos de proteção e armadilhas para aqueles que se atreverem aproximarem-se. Na noite seguinte, acertamos limites durante um jantar regado a vinho e piadas, papel e caneta em mãos. Concordamos, ademais, que para todos os efeitos éramos um casal extremamente feliz e por fim aceitamos que era verdade. Não somos efetivamente casados como Lilian e James eram, mas podemos fazer isso funcionar. Somos melhores amigos que vivem juntos e as pessoas devem acreditar que nos amamos, o que já é uma verdade.
- Tess. – O olho ao apanhar um pão dentro de uma padaria graciosa chamada Assados Macabros da Sra. Hemmings, percebendo como um sorriso delicado e doce se espalha em seus lábios. Então quando não alcança os seus olhos, eu noto que algo de errado está acontecendo. Suavizo minha expressão também, inclinada a apanhar minha varinha e disparar um feitiço em qualquer sinal de perigo antes que Sirius se incline sobre mim e a minha respiração trave, a aproximação súbita me surpreendendo. – Dana Tinbrow está nos olhando através da janela, querida. – Evito erguer minhas sobrancelhas em surpresa quando pressiona um selar em minha bochecha, disfarçando o sussurrar em meu ouvido.
Uma Auror está nos vigiando? Já? Bagnold não perde um segundo sequer.
- Qual você prefere? Para acompanhar o jantar e para o café, digo. Ou levamos os dois? – Indago com a minha melhor atuação, já há muito acostumada a precisar mentir para me safar de problemas, considerado que era amiga dos Marotos na escola. Minha naturalidade parece lhe pegar de surpresa, mas Sirius a entende bem rápido. Aponto para os dois tipos de pão diante de nós. – Se bem que este pão de nozes está um absurdo. Ciabatta ou nozes? – Estou olhando agora pelo reflexo de um porta-guardanapos, facilmente identificando o cabelo louro de Tinbrow pela vitrine da padaria. Ela não me notou ainda.
- Nozes. – Sirius chuta, sem dúvida. Ele não entende nada de pães, mas entende de dinheiro.
- Ótima escolha! – Minto com um azedo em minha boca e seguro-me para não revirar os olhos para meu amigo, pegando a baguette de pão e enfiando em uma sacola de papel ao que nos dirigirmos para o caixa. – Acho que vou fazer massa para o jantar. – Outra mentira. Decidimos 20 minutos atrás que comemoraríamos com pizza e cerveja amanteigada. É deprimente pensar que terei de cozinhar.
Tento não ter uma reação exagerada quando a mão de Sirius pousa em minha cintura, indeciso quanto ao que fazer.
- Não podemos pedir pizza? Ou comer vento? – Ouvir o maior implorar com nossa reputação em risco é hilário, mesmo assim preciso me adaptar a meu papel. Balanço a cabeça, segurando o pãozinho quente em meu colo. – Você não é a melhor cozinheira do mundo. – Engulo o embaraço e dou um chute em sua perna.
- Sirius Black, pelo bem do nosso relacionamento, eu vou fingir que não ouvi isso. – Como o homem que não sabe ao menos fritar um ovo consegue dizer que a minha comida é ruim? Se minha mãe pudesse o ouvir agora não acreditaria nisso. Ou acreditaria mais do que se eu lhe contasse que estou legalmente casada com meu melhor amigo. – Ah! Nós podemos ir ao Floreios e Borrões antes de ir embora? – Estou inclinada a estapeá-lo quando paga o pão e mais algumas coisas que compramos, mas decido lhe saldar em casa. – Quero comprar um livro sobre bebês e tudo mais.
- Pensei que tinha guardado os da Lils. – Sua mão está na minha enquanto navegamos para fora da loja, me guiando pelos caminhos menos movimentados. – Eu nem sei mais trocar fraldas a este ponto. – Sirius lamenta risonho, nem tendo de mentir, ainda que saiba que Tinbrow está nos seguindo. – Precisamos comprar comida para o Harry, não é? Eu lembro que o Prongs fazia aquelas sopas ruins de legumes. Você sabe fazer? – Confirmo com a cabeça, reparando no curvar discreto de sua sobrancelha quando desfaz a careta ao lembrar da comida de nosso amigo. O anel de sua família afunda entre meus dedos. Sirius viu algo, e disto estou certa. – Certo. – Assobia, seu olhar endurecendo em uma fração de segundos. – Por que você não vai buscar o livro que quer enquanto eu te espero aqui fora?
Estamos de frente para a livraria e eu sinto meus ossos doerem pela pressão.
- Eu posso comprar outro dia. – Afirmo com certeza, erguendo a cabeça para lhe olhar melhor, desacostumada com a forma que meu estômago se revira. O que está acontecendo? – Padfoot? – Chamo e ele me olha, dando um pequeno sorriso que revela mais desconforto que eu esperava, acelerando meu coração. – Vamos para casa, por favor. – Mantenho meu tom equilibrado, forçando um pouco de manha em minha voz. Dana Timbrow, espero que esteja gostando do show. – Foi um dia longo, não? Ainda tenho de preparar o jantar. Podemos voltar outro dia.
Sirius pôs a mão em meu quadril de novo e olhou além de mim, ignorando-me.
- Moody, como está? – Cumprimenta e eu me viro para trás de imediato, tanta rapidez que meu pescoço dói e a mão de Sirius faz um giro de 180º em mim. O bruxo está a algumas passadas de nós, como se estivesse vindo em nossa direção antes mesmo de eu tomar noção de sua presença. Reconheço o som de sua perna metálica acima do barulho das pessoas e a figura larga também não é tão comum, sua aparência intimidadora afastando aqueles na rua e formando um corredor humano para o auror. O enorme olho azul de vidro muito menos comum encara aqueles, afastando os espectadores sem sutileza. Era por isso que Sirius queria se livrar de mim? Moody? – Meu bem, se lembra do Moody?
- Como poderia me esquecer? – Estou sorrindo, incrédula por vê-lo após tanto tempo. – Oficial Moody, é um prazer.
Olho-Tonto estende a mão livre para mim e eu a aperto, Sirius me imitando depois.
Remus Lupin costumava comentar sobre o quão idênticos os dois seriam em uma questão de décadas, as enormes cicatrizes de Olho-Tonto Moody o lembrando das que atravessavam a sua face. Me lembro ainda mais de ter certo medo do Auror em meus anos iniciais na Ordem e da época que seguia ávida à cada palavra de Dumbledore, sua aparência de revirar o estômago sendo uma pílula difícil de engolir, mas superada conforme os anos avançavam. Com o passar dos anos e após presenciar coisas que eram realmente horrendas, o rosto cheio de cicatrizes, marcas e queimaduras de Moody não parece afetar meu imaginário mais. Desta forma me indago se deveria estar um pouco preocupada comigo.
- Decidiu voltar do retiro espiritual, Fairchild? – Meu sobrenome de solteira é pronunciado devagar como se Moody tentasse se lembrar dele enquanto falava. Os dedos de Sirius se curvam em meu osso, mantendo-se em alerta e protetor. Acabo por concordar com a cabeça sem pensar, sentindo minha feição endurecer. – Black, é bom vê-lo também. – Sinto quando Sirius apenas acena com a cabeça, não retribuindo o cumprimento, mas provavelmente apertando os lábios. Ponho a minha mão sobre a sua. Moody não perde o ritmo, coçando o queixo displicente, apoiando a bengala no cotovelo. – Esperava vê-los no Ministério hoje mais cedo e conversar contigo, Fairchild. Na verdade, até mesmo os vi, mas imagino estarem deveras apressados na saída, não? Black parecia ter avistado um Bicho Papão. – Não consigo garantir se é um sorriso no seu rosto.
- Não víamos a hora de ir para casa e celebrar. Imagino que possa entender. – Sirius intervém soando o mais cínico possível, aparentemente querendo me puxar para fugirmos e o seu tom amargo revelando o rancor que ainda sente do Auror-Chefe. Decido mencionar isso depois, a sós e onde possa o trazer para a realidade. – Amor? E aquele livro, hum? – Sua destra sobe para meu ombro, dedos flexionando-se no músculo tenso. – E tenho certeza de que poderá encontrar o nosso endereço e mandar uma coruja, Alastor.
- É um assunto que podemos tratar aqui, Moody? – Questiono com minhas bochechas quentes pela resposta de Sirius, o nome e o olhar desconfiado de Olho-Tonto, já conhecedor de nossa antiga condição de relacionamento. Dana Tinbrow surge em minha mente e a possibilidade deste encontro arruinar tudo me deixa nervosa, mas o retalho de homem contorna a possibilidade. Engulo em seco e movo o meu pé o suficiente para pisar no de Black. Ele não reage. – Perdoe-nos pela correria, estamos nervosos e cansados demais. – Busco uma forma de contornar a resposta de Sirius. – Foram semanas exaustivas desde o casamento e agora com o Ministério... Estamos exaustos.
- Estava na expectativa de conversarmos, contudo parecem ainda mais apressados, certo? – Moody encara Sirius com desagrado, o olho de vidro revirando. Era por isso que Sirius quis sair correndo com Ministério da Magia hoje cedo? Viu que Moody queria conversar conosco e decidiu sozinho que seria o adequado? – Tenho algo para você e espero que dê atenção. – O tom que usou antes se desfaz e eu observo com cautela quando enfia a mão no casaco e arranca de um bolso um envelope semelhante com o que já temos em casa. Com sorte não é outra certidão de casamento. Seguro o envelope com o cuidado necessário para uma bomba. Com uma última olhada e seu olho de vidro rodopiando para dentro de sua cabeça, Olho-Tonto adiciona sério para Sirius: – O convite também se estende, Black. – Acenando com a cabeça, o Auror se despede nos dando as costas. – Felicitações. – Balança a mão sobre o ombro.
Moody some em um beco escuro, me deixando com o maldito envelope.
*

- Jessamine Black, nascida Fairchild. – Ergo a minha cabeça das fraldas novíssimas de pano que dobrava, observando o corredor por alguns segundos até que Sirius surja, o envelope de Olho-Tonto Moody seguro em suas mãos. Sua expressão não é nada boa, diferente da minha quando o abri. – 14 de Outubro, 1959. – Volto a dobrar o tecido macio, atenta a tudo o que fala. – A aluna performou “Ótimo” em quatro NIEM’s prestados e “Excede Expectativas” em outros dois. Matérias que incluíram Transfiguração, Defesa Contra Arte das Trevas, Poções, Feitiços, Estudo de Runas Antigas e Herbologia. – Sirius me olha agora com algo que não posso identificar, face sem expressão como se eu fosse uma estranha sentada em seu sofá e preparando-me para a chegada de seu afilhado em alguns dias. – Eu adoro essa coisa super fofa que você faz quando não me conta o que está acontecendo.
- Sirius Orion Black III. – Inicio com a mesma voz monótona que usou, me pondo de pé e com as fraldas brancas em meus braços, seguindo para o segundo andar da casa, ouvindo enquanto me segue pelas escadas, o papel se agitando em sua mão. – Três de Novembro, 1959. – Tento segurar um sorriso quando adentro o quarto ao lado do que deveria ser o nosso, mas é o seu. Sirius usou magia para pintar o cômodo, um tom azul claro e um número exagerado de nuvens em uma parede, esta responsiva ao clima e ao céu verdadeiro. Na outra parede, tem pequenas árvores e uma floresta típica do Outono, também interativa as estações do ano. – Meu melhor amigo que não fez nenhum sentido nos últimos minutos.
Abro uma das gavetas da enorme cômoda com trocador, o móvel pálido do gigantesco quarto que foi especialmente projetado para Harry. Enfiando as fraldas no espaço designado, me apoio contra a cômoda, braços cruzados sobre meu peito em uma posição de defesa para seja o que for que Sirius planeja com essa informação. O bruxo está escorado na porta do quarto, a madeira avermelhada o emoldurando como uma obra de arte perfeita, os ombros largos erguidos em defesa e lábios rosados apertados. Padfoot não usa as mesmas roupas de nossa época em Hogwarts, as camisas de banda abandonadas no fundo de seu guarda-roupa e substituídas sem piedade por suéteres como o que usa agora. Cinza e que abraça sua forma com requinte e ainda o mantém jovem.
- Você leu isso, ? – Assinto, minha camisa de botões esticando quando puxo as mangas para cobrir minhas mãos. O desapontamento está claro em sua voz e rosto. – Leu a carta de recomendação da Professora McGonagall? Leu a parte que ela menciona você sendo uma das alunas mais brilhantes que ela teve a estima de ensinar? Que o Ministério da Magia deveria se sentir honrado em ter uma Auror tão talentosa? – Encolho meus ombros, sua voz não sendo tão encorajadora e gentil como deveria ser. – Ah, tem mais! O Doido Olho-Tonto adicionou algo aqui embaixo: A Sra. Black é uma bruxa esplendida, que lutou em união a Ordem da Fênix durante a Guerra, provando ser uma líder excelente e capacitada. Programa de Admissão de Aurores está disposto a te aceitar de volta.
- Li tudo isso, Sirius. – Garanto-lhe, apertando ainda mais meus braços. Mesmo o conhecendo melhor do que qualquer um, é doloroso ver o quão está na defensiva quanto a isso. Me machuca a ideia de que Sirius não se demonstra orgulhoso ou feliz por mim pelo simples fato do próprio Alastor Moody tendo se oferecido e preparado toda a minha papelada para as reinscrições no programa. É um incômodo perceber que algo que me deixou tão feliz o deixa tão revoltado. – Li mais vezes do que o necessário, acredite. – A minha irritação vem à tona e em passos duros eu me aproximo e tento arrancar o envelope de sua mão, a tarefa se dificultando quando ele aperta ainda mais ele e tenta me impedir. – Sirius!
- Você não vai se juntar a eles, . – A risada que me escapa é alta, fria e dura. O que pensa estar fazendo? Puxo o envelope outra vez, mas Sirius não ousa o soltar, sustentando o meu olhar irritado e buscando algum sinal de desistência em minha expressão. Suas bochechas assumem um tom furioso de vermelho, este que se mescla com as olheiras abaixo de seus olhos também irritados e desafiadores. – , você está me ouvindo? – Balanço a cabeça por fim, surpresa pela ordem e por sua reação desmedida quanto a uma oferta de emprego. – Eu não posso deixar que faça isso! – Solto o papel, o empurrando contra o seu peito em uma onda de raiva e indignação. É insanidade sua pensar que este dia não iria chegar. – E-Eu não permito que faça isso, .
Bato palmas para ele, incrédula demais para reagir de outra forma a sua cena.
- Certo! – Concordo diversas vezes, mãos em meu quadril. – Ficarei presa dentro dessas paredes, lavarei as suas roupas e serei uma dona de casa perfeita pois é você quem manda, não é? Você, além de meu marido agora é o meu dono e decide o que eu farei da minha vida daqui em diante. – Black pende a cabeça para trás, percebendo o seu erro e que não deixarei isso passar. – Quando devo servir o jantar? Oh! Quer uma massagem? Quer que prepare um banho? – Sirius revira os olhos, correndo a mão pelo cabelo e eu lanço um ursinho de pelúcia em sua direção com toda a força que tenho, o embasbacando e lhe fazendo dar um passo para trás.
- ! – Ele me repreende, mas já estou me adiantando para um patinho.
- Seu safado! – Rosno, a pelúcia amarela batendo em seu peito. – Babaca! – Agora é um dinossauro verde que abana o seu cabelo para trás. – Misógino! – Sirius está marchando em minha direção, sendo atacado por mais ursos, elefantes e coelhinhos de pelúcia. – Como ousa dizer o que eu vou fazer ou deixar de fazer? Com quem pensa que está falando, Sirius? – Minha voz está um oitavo mais aguda, e eu começo a bater em seu peito com mãos em punhos quando está perto o suficiente, imaginando já estar espumando de raiva por seu showzinho inesperado. Lhe empurro para fora do cômodo, sua expressão dura e olhos fechados quando atinge uma parede. – Lembre-se de quem é e não ouse esquecer quem eu sou!
Um ganido me escapa quando em um movimento suave eu sou lançada sobre o seu ombro como uma boneca de pano, assemelhando-se a memórias risonhas de minha adolescência.
- Me ponha no chão agora, Black! – Berro com sangue borbulhando no meu rosto. – Eu não tenho 15 anos! Chega!
Ele me acomoda na poltrona próxima ao berço e senta-se sobre minhas pernas antes que eu possa avançar em sua garganta de novo. Vocifero o seu nome quando tento me pôr de pé, mas ele me prende, agora agarrando as minhas mãos, jogando suas pernas por cima do encosto de braço e me mantendo presa abaixo dele. A cena seria cômica se não fosse revoltante e eu tento lhe bater de novo, mas preciso admitir que é ainda mais forte do que eu imaginava, mesmo estando abaixo de seu peso ideal. Sirius puxa meu braço, sem usar de sua força superior, mas ainda assim conseguindo que eu o estique na sua direção. Estou estapeando a sua costa e lhe xingando quando puxa a manga de minha blusa, expondo a longa cicatriz em meu antebraço.
- Bellatrix fez isso com você. – É tudo o que diz, não se importando com meus golpes e a relutância que faz a minha pele brilhar com suor. Então entendo toda a sua repulsa, notando o quanto sua voz está dura. – Você lançou a varinha dela longe e a vadia sacou uma adaga e cortou o seu braço, . Você perdeu tanto sangue que a Lily começou a chorar em pânico. – Minha mão que o atingia com tanta ferocidade paira no ar, meus olhos descendendo para a longa cicatriz rosada em meu braço esquerdo. Estávamos fugindo de um ataque na Escócia quando Remus Lupin teve de costurar a minha pele sem anestesia, acônito sendo despejado sobre minha carne viva em meio a uma cabana escura e eu gritava para que me deixasse sangrar. – Isso aqui foi o Dolohov. Ele te lançou contra uma parede. – Fecho os meus olhos quando a sua digital pousa sobre a exata cicatriz em minha cabeça, por baixo de ondas de cabelo. Controlo minha respiração, boca apertada em uma raiva que não desaparece mesmo com as lembranças que arrepiam cada centímetro de meu corpo. – Essa foi o Karkaroff. Ele lançou um Crucio em você. – Seu indicador é gentil ao pressionar um ponto em meu ombro. – Lembra que caiu em uma mesa de vidro? Que não podia mais mexer o braço?
- Quantas vezes eu não escapei? – Retruco em um reflexo, tendo de engolir sofregamente o nó em minha garganta. Mesmo que seus motivos sejam puros, não posso permitir-me pender a seus desejos tão dispares dos meus. Não recuo e opto por sustentar o seu olhar escuro e afiado. - Quantos duelos vencia? Lembra a vez que eu lutei contra três Comensais da Morte de uma vez? Como os três viraram pó? – Detesto o embargo em minha voz, mas engulo uma pedra de gelo em minha garganta quando seus dedos deslizam de mim e se pousam em seu colo. Minha mão também cai e eu a apoio no encosto da cadeira, minha cabeça pressionada no tecido macio. – Quantos deles eu não matei? Quantos não entreguei nas mãos do Moody? Mesmo que por pouco tempo, fui uma auror, Sirius. Lutei por nossa família e o faria de novo mesmo sabendo de todos os riscos e cicatrizes que viriam!
Sirius está com a cabeça abaixada.
- Além de meu melhor amigo, você se tornou meu marido e eu o aceito como tal. – Faço questão de negociar os títulos com cuidado, provando-lhe as restrições dos termos. – Mas estas designações não me tornam uma propriedade ou tornam-no meu dono e mestre. Enquanto estamos aqui, eu lhe ofereço o que for meu para entregar, mas você não pode me comandar e ditar cada passo meu. – Estou insistindo outra vez nos termos de nosso acordo. – Não é assim que isto irá funcionar.
- Eu só tenho você, . – É como um soco na boca do estômago. – E o Harry, pra quem fiz esse quarto e nem sei se vai ficar realmente com a gente. – Continua devagar, como se lutasse contra o desejo de sucumbir as lágrimas, mesmo negando-se a elas por tanto tempo. – Então, como você espera que aceite vê-la entrando de cabeça nisso quando acabei de recuperá-la? – Minhas mãos pairam em sua direção, mas não tenho coragem de tocá-lo. – Quer que eu celebre sempre que servir de escudo humano para salvar alguém? Ou melhor, espera que eu dê uma festa para comemorar todas as vezes que voltar para casa com as duas pernas?
Sua risada sai seca e irritada, tão distante que imagino por um instante se ele está tão ferido como eu.
- Eu poderia chamar os nossos amigos para comemorar com a gente, não é? Mas eles estão mortos. E os que não estão mortos poderiam muito bem estar. – Sirius dá de ombros, balançando a cabeça pois a minha insistência em permanecer com a mesma profissão ainda parece ser insanidade. – , nós dois perdemos tudo para aquela gente. – Sirius respira fundo. – E eu não posso perder você, . Não dá. – Ele está sorrindo agora, a sua única forma de lidar com o estresse desde que o conheço, este mesmo reflexo o tendo herdado severa punições na Casa dos Black. – Esse trabalho é outro mecanismo de cooperação, não é? Como a adaga embaixo do seu travesseiro.
Abro a boca, surpresa.
- Como sabe dela?
O bruxo me dá as costas, ficando de pé e aliviando meus joelhos. O sigo com os olhos.
- Você sempre dormiu espalhada na cama e depois da guerra, no Chalé das Conchas, dormia com a mão debaixo do travesseiro. – Explica-se sem dar importância alguma, acenando com a mão ao me relembrar de meus antigos hábitos. Uma vergonha urgente domina meus sentidos, acentuando o martelar de meu coração. – Eu a encontrei ontem quando me pediu para buscar seu cordão. – Está exasperado ao indicar sem atenção a direção geral de meu quarto, a mão livre segura em seu quadril esguio e o cinto de couro sendo arranhado com nervosismo pela ponta de suas unhas.
É um hábito seu desenvolvido na Guerra, igual a minha preocupação com minha segurança e integridade física enquanto durmo, não confiando-me a sorte em um momento de tanta vulnerabilidade. As motivações que me forçam a preocupar-me são racionais e não achismos como as suas, baseando-se simplesmente em uma tentativa de me frear no avanço que mereço após tanta dor. Me levanto também, suspirando para manter a calma ao lhe contradizer.
- Eu fui treinada a lutar com ela, Sirius. Tenho experiência em combate. - Ele gargalha alto, histérico com minha resposta e eu ameaço pegar outra pelúcia.
- Também tenho experiência em combate, mas não durmo com uma faca debaixo da minha cabeça, ! – Reprova com intensidade ao me olhar, o cabelo desfeito pelo movimento desgostoso ao bagunçá-lo. – Porra! Não está vendo? Como eu devo deixar que faça isso? Que vá à caça de comensais enquanto não se confia para dormir sem uma arma na mão?
- Terá de confiar em mim! – Esbafori, mexida com sua reação de desconfiança. Sou eu quem lhe implora por entendimento.
- Eu confio, mas também confio que não posso perdê-la! – Sirius troveja sobre mim, as pupilas cintilantes e dilatadas.
Mordo meus lábios, tentando controlar o acesso de raiva que ferve em minhas veias.
O silêncio que atravessa o cômodo é doloroso.
- No sexto ano, os Comensais da Morte atacaram Lille. Eles queimaram uma aldeia de trouxas e meio-sangues, tudo por diversão. Fogo Bendito, e tudo o que não era mágico queimava. Desde papel de carta até as pessoas que estavam jantando com a família. – Não me permito chorar, engolindo cada vez que sinto ser demais. A memória não me dói agora, mas tenho noção de que irei sentir tudo de novo durante a noite. - Havia mais de meia dúzia de casas. E os familiares não-bruxos faleceram no incêndio. Todos. Sem exceção. E Bellatrix disse que foi a coisa mais prazerosa do mundo, lembra? – Instigo com pesar, deslizando em sua direção, buscando não mais aceitação e sim conforto em seus olhos. – Lembra que meus pais e irmão moravam lá? – Observo como nossas mãos são diferentes assim que ele inicia o contato. Seus dedos longos conseguem envolver os meus sem dificuldade. – Lembra quando a professora McGonagall me chamou no meio da aula de Herbologia? Como ela se pôs de prontidão e me ajudou com o enterro? – Encosto minha testa contra o seu braço, respirando fundo. – Lily e James Potter. Fleamont e Eufêmia Potter. Regulus. Os Mackinon. Os Longbottom. E Ethan, Daphne e Benji Fairchild. – Ele me abraça quando menos espero e o nome de meu irmão queima em minha boca. – Eles mataram minha família também, Sirius. E eu não posso deixar que mais ninguém passe por isso. Me perdoe. Mas não posso.
Lamento enquanto empurro a imagem dos caixões para o fundo de minha mente. Caixões que os Potter se ofereceram para pagar. Com flores da floricultura dos Evans. E biscoitinhos feitos por Hope Lupin.
- Eu preciso disso, Padfoot. Entenda, por favor.
A perda é dolorosa. Vazia. Inexpressiva. E assustadora. Como se minha breve existência houvesse desaparecido em um sopro. Cada detalhe que conhecia sobre mim havia partido ao lado de meus familiares. As três pessoas que conheciam a verdadeira – minha origem, minha trajetória e que me viram crescer – se foram. Claro que eu tinha Remus, Sirius, James, Lily e Peter, mas nenhum dividia o laço especial que apenas um pai e um filho pode ter. A dor da perda, com tão pouca idade, foi tão intensa que palavras são incapazes de descrevê-la. A fenda em meu coração tão profunda que sempre haverá este espaço vazio, nada podendo substituir a voz de minha mãe, os braços de meu pai e os sorrisos de Benjamin. Hoje, nós ficamos assim por longos minutos, o som do coração de Sirius ecoando debaixo de meu ouvido e contra minha bochecha, meu corpo moldado a fornalha que meu amigo é. Sua forma Animago é poderosa como todos nós, algumas características se alongando para a superfície de sua existência. Dentre elas o calor típico e os batimentos sempre controlados. É depois de um tempo que Sirius se afasta sem mais nenhuma palavra, deixado o envelope jogado no berço e começando a ajuntar a meia dúzia de pelúcias que estão caídas no chão. Desvio meus olhos, respirando fundo. Decidida a não dar para trás de minha decisão e não chorar.
- Padfoot, onde você está indo? – Sussurro sem vontade de brigar novamente.
O homem está cruzando o vão da porta para pegar um ursinho quando me responde:
- Mandar uma coruja para a Minnie, pedir por cartas de recomendação e aqueles biscoitinhos de gengibre. – Ele para e me olha por cima do ombro, o rubor sumindo de seu rosto e mão apoiada na moldura. Ficamos em um silêncio breve, mas que parece ser tempo o suficiente para Sirius Black se recompor, soltando um suspiro sonhador por fim, pressionando o ursinho de pelúcia no peito. – Ô, biscoitinho gostoso que a aquela mulher faz! – Seguro a vontade de dar risada, pois minha boca está amarga com enjoo. Sirius apanha o dinossauro, me olhando por baixo dos cílios negros. – Se você vai fazer isso, eu vou também. Que se dane. – Dá de ombro e eu abro meus lábios quando meu coração salta, a possibilidade de que ele se ponha em perigo finalmente fazendo sentido. Ele me dá um meio sorriso, os dentes brilhando. – Eu não era uma Fairchild ou uma Lily Evans, mas minhas notas não foram nada mal, Tess.
- Se você está fazendo isso para tentar me convencer do contrário e me fazer desistir, Sirius, está entrando em um jogo que não vai vencer. Eu não sou uma peça de xadrez que você pode controlar. – Comento ao correr os dedos pela insígnia do Ministério da Magia ao recuperar o envelope. Sirius desloca o peso de uma perna para a outra, coçando a nuca, mas não parecendo nem um pouco preocupado com a minha ameaça. Harry surge em minha mente. – Harry já perdeu os pais e dois pares de avós. – Não me importo quando Sirius dá de ombros outra vez, aproximando-se para enfileirar os brinquedos de novo na prateleira acima do berço. – Somos só nós dois agora. E dois responsáveis legais sendo Aurores, bem, não é exatamente uma profissão segura, como você já disse.
Black pressiona um beijo em minha testa.
- Então acho bom aprendermos a cuidar um do outro de novo.


Capítulo 3

February 2nd, 1982
Posso sentir os olhares queimando em minha pele quando me aproximo do Departamento dos Aurores. Sirius se manteve próximo de mim a todo instante, a mão pousada na curvatura de minha coluna sobre o casaco, o calor de sua pele sumindo e meu corpo lutando contra a vontade de senti-lo. Atravessamos as gigantescas portas de carvalho negro, o cheiro de café, menta e papel misturado com sangue invadindo o meu nariz no mesmo momento. Um sorriso nostálgico surge em meu rosto, afinal mesmo após tudo, ainda sinto falta deste lugar onde passei inúmeras noites fazendo pesquisas com Frank Longbottom e relatórios com Alice. Engulo em seco ao me recordar do casal, ainda em dúvida se retornar é a decisão correta em razão das memórias intensas que o Ministério da Magia invoca. Contudo expulso esse pensamento para um canto escuro em minha mente.
Ergo a cabeça para meu cubículo onde o Sol brilha intensamente mesmo que estejamos severos níveis debaixo da terra, a imagem sendo cortada por dezenas de aviõezinhos de papel que circulam pelo espaço. Seguro o desejo de avançar e revistar se alguém mexeu em minhas coisas ou pior, tocou na pequena caixa de veludo em uma gaveta. Mas o jarro com os restos secos e mortos de acônito me provam que tudo deve estar intocado. Mantenho os envelopes seguros em minha mão quando a livre se côncava contra a de Sirius, a aliança quente em seu dedo parecendo dura demais contra a pedra pálida e delicada na minha. Seu toque em meu corpo some, como havíamos combinado.
— Fairchild! Black!
Percebo a agressividade na qual minha cabeça virou, mas não posso impedir. A voz de Emmeline Vance me surpreende assim como a forma que corre em minha direção, e eu não estou preparada quando me envolve em um abraço esmagador e muito diferente do que eu esperava. Minhas mãos descansam em sua nuca, onde fios longos e cacheados costumavam ficar e o seu cachecol da Corvinal também. Ela mudou o penteado no início da Ordem da Fênix como um ritual de passagem que decidiu ser o certo assim como Alice, ambas em um acordo silencioso sobre os motivos. Então após uma onda de ataques ferozes e um que quase tirou sua vida, ela surgiu com a cabeça raspada, uma enorme cicatriz cortando desde sua nuca para o topo da cabeça. Sirius e eu soubemos exatamente quem havia lhe ferido quando revelou ser uma faca e ter perdido a consciência.
Nunca mencionamos o quão sortuda foi por Lestrange não atingir seu cérebro.
— Você voltou! — Sua afirmação é um grito, como se não esperasse de maneira alguma que eu voltasse. Ou que ainda estivesse viva, se for mais adiante. Ela dá um sorriso para mim antes de também cumprimentar Sirius com um abraço mais rápido. Abaixo meus olhos para as botas em meus pés quando percebo alguns aurores nos encarando. — Black, como vai? — Ainda sorridente, ela lança um cacho curto para longe do rosto e se adianta para mim, agora falando mais baixo. — Pensei que tinham decido se isolar. Metade dos nossos fizeram isso. — Seu tom se torna desanimado. Imagino que ela se refira a Ordem da Fênix. Ou os restos da Ordem. — Veio pegar as suas coisas?
— Na verdade, vim implorar ao Moody pelo meu emprego de volta. — Explico em um tom amigável, mesmo que não saiba ter sucesso. — Sirius veio para a inscrição no programa. — Forço a informação para fora de mim, não tendo certeza de quanto tempo irei aguentar manter esse segredo para nós. — Onde Olho-Tonto está? Ele disse para o encontramos aqui.
— Reunião com o Ministério de Runas e Símbolos. — Ela me informa e acena para que a sigamos. Engulo em seco quando percebo o gingado distinto em seu caminhar, imaginando que a algum ponto tenha se ferido. Evito o olhar de “Eu Não Te Disse?” de Sirius quando cruzamos o QG dos Aurores, os cubículos se sobrepondo lado-a-lado e inúmeras faces móveis de Comensais da Morte penduradas em paredes ao lado de mapas enfeitiçados. — Ele me colocou no Centro de Admissões.
Em seu cubículo, ela aponta para cadeiras.
— Então imagino que a minha entrevista vai ser bem desnecessária, certo? — É Sirius quem provoca, sentando-se de maneira relaxada enquanto Vance ri baixo, servindo dois copos de papel cheios de café para nós. — Como tem passado, Emme? Ainda se lembra de mim? O bonitão da aula de Poções?
— Eu me lembro do adolescente sem camisa, bêbado e que dançava em cima de uma mesa. — Sua resposta é bem humorada e eu relaxo de imediato. Estava preocupada em ter de ser entrevistada por um estranho, mas um membro da Ordem me conforta. Agradeço o café e tomo um gole ardente, um sentimento quentinho em meu peito ao lembrar das inúmeras festas celebratórias que foram efetuadas na Sala Comunal da Grifinória. — 1976, Grifinória contra Sonserina e você, Fairchild, tinha pegado o Pomo de Ouro. — Ela se senta com um som estalado vindo da cadeira, as sobrancelhas expressivas se curvando em rápida preocupação que logo some.
A memória me faz sorrir.
— E você — Emmeline aponta para Sirius de forma acusatória enquanto agita a varinha para um armário com imãs do Harpias de Holyhead. — e o Potter organizaram uma festa. — O nome de James Potter parece se amargar em sua boca, o seu semblante risonho falhando e eu tento passar o máximo de conforto que posso, rindo baixinho da lembrança. Com um suspiro, ela apanha ambas as pastas vazias e estica as mãos para nós.
— Não foi um dos meus momentos mais brilhantes, mas precisa admitir que eu sabia animar uma festa, Vance. — Dou um empurrão no ombro de meu melhor-amigo quando a auror joga a cabeça para trás após uma piscadela dele. — Vocês dão festas aqui, certo? Deve ser uma farra com os dementadores. — Os flertes e brincadeiras fora do controle me deixam nervosa e preocupam, mas foi outra coisa que combinamos. Sirius não deixaria de ser Sirius Black só porque tem uma mulher. — E festas são bem-vindas, não é? Principalmente quando a melhor apanhadora de Hogwarts nos ofereceu a vitória sem esforço. — O meio sorriso que dirige a mim é antigo e um que sempre surgia em seu rosto quando comentávamos sobre Quadribol. Quando se gabava para todos que quisessem ouvir (ou não) que o Time da Grifinória era o melhor. Que o artilheiro e capitão era incrível e bonitão. E a apanhadora era a mais rápida da escola.
— Devo admitir que sim. — Ela revisa as avaliações e formulários na pasta de Sirius, assumindo uma postura profissional e séria. Observo com atenção como seus olhos revolvem em uma questão em especial, uma leve ruga surgindo entre suas sobrancelhas negras. Mesmo que seja tudo uma mentira, é hilário presenciar a reação dela quanto ao status de relacionamento de Sirius. — Quando você se casou, Black? — Um riso nervoso lhe escapa e eu olho incerta para a aliança reluzente em meu dedo. — Quem foi a pobre coitada, hum?
A dúvida é ignorada e Emmeline pega meus documentos. Ela prende a respiração.
— Oh, Black... — Desta vez está olhando diretamente para mim.
*

Desperto com um sobressalto assustado na cama, minhas mãos se fechando sobre a varinha no criado-mudo e a adaga debaixo de meu travesseiro, o metal gelado moldando-se em minha palma. Acordo pela segunda vez na noite com o som alto e agudo do choro de Harry vibrando pelas paredes da casa, o som apenas reassegurando-me que ele está aqui. Apanho a minha varinha e solto a arma branca, acendendo as luzes de meu quarto enquanto ainda me levanto da cama que ainda não me acostumei, alta demais para meus pés tocarem o chão. Nos livros, quando as pessoas acordam num local estranho, sempre passam por aquele momento de desorientação, sem saber onde se encontram, tateiam tudo ao redor e entram em pânico. Bom, eu não faço mais isso há alguns dias.
Ouço ao longe o som de uma porta se abrir no corredor enquanto visto o roupão de seda que havia comprado junto com o novo uniforme dos Aurores. Sirius manteve seu nariz torcido a todo momento, mas sorria vez ou outra quando Harry acariciava o tecido com a destra gordinha e eu dei duas voltinhas com a roupa na loja. Ainda amarrando o laço em minha cintura, caminho descalça pelo corredor frio por alguns segundos antes de dar duas batidinhas desnecessárias na porta entreaberta de onde o chororô ecoava. O quarto é um pouco menor que o meu, com algumas luzes amareladas em pontos específicos e uma grande janela de vidro com cortinas brancas semelhantes as nuvens perto do berço. Aperto a boca ao ver a estante cheia de brinquedos de pelúcia que joguei em Sirius um tempo atrás e me abaixo perto do berço adornado por um móbile personalizado. Puxo a pequena estrelinha, iniciando a música baixa.
— Cheguei, Harry! — Eu estico meus braços para dentro do berço com um pequeno sorriso no rosto até que a criaturinha esteja em meus braços e eu o aperto com cuidado contra o meu peito, o som de suas lamúrias se amenizando, mas ainda reverberando por mim. Assento os fios de seu cabelo, meu nariz pressionando em sua testa enquanto acaricio sua costa com todo o cuidado do mundo, ainda que ele já esteja tão grande e esteja ficando difícil o carregar. — Oi, meu amor. — Os enormes olhos verdes do bebê estão irritados de tanto chorar e os lábios estão reduzidos a um beicinho pidão e choroso, me fazendo tatear o berçário em busca de sua fralda até que uma mão quente toque em meu ombro e outra, enluvada no tecido branco, sequei o rosto do bebê com gentileza.
Sirius Black desliza até estar ao meu lado e eu seguro Harry de forma mais confortável quando aproxima-se do rosto do bebê e dá um beijo em sua bochecha, os fios negros de seu cabelo recobrindo a face de nosso afilhado que estaria rindo disso em outro momento se algo o não lhe deixasse tão manhoso. Não demorou muito para descobrirmos que o cabelo de Sirius ainda continua sendo a coisa favorita de Harry, além do pequeno elefante de pelúcia que está de bunda para cima no berço, este sendo um presente meu e que sobreviveu a Voldemort e minha ira.
— Vamos fazer a checklist?
Começo a me mover pelo quarto devagar, ninando o bebê e bocejando, tentando acalmar mais o menininho que não parece muito interessado em dormir e já enfiou um dedo na boca para o horror de sua falecida mãe. James tinha um sorriso enorme e ela nem mesmo conseguia imaginar se Harry tivesse dentes tortos e o mesmo sorriso. Me aproximo da janela, observando o bosque enorme atrás da casa enquanto Sirius toma seu lugar.
— Ele já bebeu água? — Questiono ao acariciar a bochecha rechonchuda do bebê com o dedão, a pele macia sempre me surpreendendo quando eu lhe pedia por um beijinho e ele esfregava a face na minha para finalizar, emitindo os sons mais gostosos do mundo. Sirius acena com a cabeça, alguns de seus fios longos ainda soltos enquanto a maioria permanece presa no topo de sua cabeça com um elástico. — Você deu algo para ele comer depois do jantar? Lembra do desastre com os pepinos? — O mais alto prepara a bancada, decidido a me ignorar ao lembrar-lhe dos lençóis que teve de trocar outro dia. — O que ele jantou? — Dou tapinhas leves na costa de Harry, tentando fazê-lo arrotar, imaginando que este seja o motivo do desconforto. O bebê se aninha mais contra mim, os bracinhos se fechando em meu pescoço.
Sorrio com o ato, acomodando seu bumbum em minhas mãos.
— É! Foi isso! Ele comeu e muito! — Adiciono rápido, atraindo a atenção de Sirius quando percebe o nojinho em minha voz, ainda segurando a bundinha quente de Harry pelo o que imagino ser cocô. Sirius ri, os olhos apertados e dentes brancos em minha direção, pois agora seguro a criança o mais longe possível de mim, um de seus dedões na boca e a mão livre tentando me agarrar. Os seus olhos verdes esmeralda estão brilhando com as lágrimas que mantém seguras agora que lhe dou um sorriso para disfarçar minha aversão. — O que você deu de comer para esse menino, Paddie? — Amacio a barriguinha do bebê, fazendo cócegas para o ver se encolher e abrir um sorriso para mim, as lágrimas escapando pelo apertar dos olhos. — O que seu tio malvado te deu, Harry?
Havia lido que conversar com a criança incita a fala e construção de frases completas, então não consigo mais evitar.
— Duas porções de frango desfiado com o seu purê de abóboras, eu acho. — Padfoot arrisca balançando a cabeça quando percebe que o alimentou demais, um sorrisinho de desculpas ao tomar o bebê em seus braços. Sirius é natural neste negócio de bebês, mesmo que nós primeiros meses de Harry estivesse apavorado de ficar sozinho em um cômodo com o afilhado ou o carregar. O ouvi mencionar para James algumas vezes que tinha medo de o quebrar se segurasse da forma errada. E é belíssimo ver como parece ter encontrado confiança após Harry crescer mais um pouco, mesmo que seja melhor nisso que eu, que me recuso a trocar fraldas se há outra pessoa disponível. No caso, esta pessoa sendo Sirius. — Mas você estava morrendo de fome, não é, Bambi?
— Temos sorte que desta vez ele não vomitou... — Relembro-lhe com as mãos no quadril. — Da última vez...
Ele ergue o garotinho para selar sua face.
— Viu como a sua tia ainda é chata? — Me provoca, encarando-me por trás dos fios de Harry. — Ela não mudou nada. — Pisca.
Eu me sento na poltrona no outro canto do quarto para os observar. A melodia calma do móbile do berço me deixa sonolenta e parece funcionar com Harry quando ele nem mesmo chia ao deixar os braços do padrinho. A cena é adorável, ainda que nova e algo ali aperte meu peito, pois entendo que não deveria ser assim. Deveríamos sim, trocar as fraldas de Harry durante a noite e o alimentar, mas não todos os dias, pois isso era dever de seus pais e sua ausência nos levou a este momento. Contudo, imaginar que em um momento de preocupação com o futuro, eles pensaram que seriámos os cuidadores ideais de Harry... Me consola.
— Eu sou um deus, ! O deus das fraldas e da pomada de assaduras.
Mordo meu lábio, sorrindo como uma tola e apoiando meu rosto na mão ao dar uma bela olhada nos dois, tomando enfim uma posição mais confortável na cadeira vermelha e apanhando a manta amarela, a dobrando e descartando para afastar o calor, agora que estou longe de minha janela entreaberta e o outono tem se provado ameno aqui ao chegar no fim. Sirius se move com graciosidade, banhado pelo cintilar amarelado da luz noturna que compramos para Harry, iluminando a extensão dos músculos de seus ombros e mãos habilidosas. Sirius, como eu já vira milhares de vezes tarde da noite na Sala Comunal de nossa casa em Hogwarts, sempre dormiu com regatas e calças de moletom. Na verdade, sempre que não dormia nu, com a majestosa bunda para cima e aterrorizava os melhores amigos.
Me sinto uma idiota em pensar que seu pijama se alteraria agora que moramos juntos. Se bem me lembro, durante nossos anos na Ordem, Sirius dormia com qualquer roupa que usasse no momento contanto que estivesse apoiado em algo ou alguém. Mas agora ele não é um menino magrelo que vivia com uma jaqueta de couro – mesmo contra as ordens de McGonagall – para cobrir sua silhueta. Com novos ombros largos e músculos modelados, cintura aparente e quadris esguios... Céus, eu estou perdendo a noção do ridículo. O que diabos eu estou pensando? O meu melhor amigo que se vestiu de mulher por dois anos seguidos no colegial para o Halloween (e azarar Severo Snape) e está trocando uma fralda!
— Hum... O que vamos fazer amanhã? Ou melhor, mais tarde? — Massageio minhas têmporas para afastar os pensamentos sórdidos de minha mente, ouvindo Harry balbuciar algo quando o padrinho ergue suas pernas gordinhas e ameaça morder os pezinhos dele. — É o nosso primeiro fim de semana oficial com o Harry, Padfoot. Seria legal fazer algo para comemorar, sabe? — O homem concorda com a cabeça e eu sei pela silhueta de seu rosto que ele está fazendo uma careta para o afilhado enquanto fecha as abas de sua fralda com as fitinhas que passou dias tentando aprender a usar assim que nosso menino nasceu.
— Meu garoto! — Sirius bate as palmas e pega Harry no colo, caminhando com ele na minha direção e eu estou quase para levantar quando o bruxo se senta no meu colo sem nem se importar, me fazendo irromper em uma risada inesperada pelo quão ridículo pode ser, ainda que passe um braço por meu ombro para manter o equilíbrio enquanto abraço a sua cintura para que não escorregue. Eu cubro meu rosto, dando um soquinho em suas costas pela brincadeira enquanto deveríamos estar botando o menininho para dormir. — Oh, Harry! Você está vendo a sua tia? Ela não aceita que o marido lindo dela se sente em seu colo! Está vendo isso, Bambi?
Eu reclamo baixinho, passando a mão por meu cabelo desgrenhado pós-sono antes segurar na mão de Harry e ele abre um sorrisinho relaxado com os olhos quase se fechando. Sirius está cansado assim como eu, mas sei que se esforça pela felicidade de todos e, acima de qualquer coisa, eu sou muito agradecida por isso. Encosto minha face em seu ombro, sentindo sua perna tremer devagar, percebendo que usa a vibração para pôr Harry para dormir, apoiando-o com uma mão enquanto a outra faz movimentos circulares na barriga dele, assim como lembro de Lily fazer para o acalmar, o toque auxiliando a pôr o garotinho de volta na terra dos sonhos.
— Ainda não acredito que ele é nosso. — Sirius sussurra tão baixinho que é quase possível imaginar que não queria que eu lhe ouvisse, parecendo maravilhado com a vida que descansa em seus braços sem muita encrenca. Sim, é loucura que tenhamos conseguido sua guarda e mais loucura ainda que ele seja nosso. Coço a garganta, logo expulsando o raciocínio mal posicionado para longe, pois Harry é irrevogavelmente de James e Lilian. Ignoro o nó em minha garganta, lutando contra o sentimento de culpa que se segue. — Isso não deveria ser assim.
— Não. — Concordo devagar, agora que falamos tão baixo que se assemelha a uma confissão vergonhosa. Uma súplica para que Lilian e James surjam e nos guiem. Para que possamos voltar no tempo e defender nossos amigos que foram roubados de nós em um piscar de olhos. — Mas é assim que será de agora em diante, não é? — É com uma pontada de nervosismo e ansiedade que eu tento apaziguar seus pensamentos que devem estar atirando em todas as direções. Sirius respira fundo e traz Harry para o seu peito, aos poucos se preparando para se colocar de pé e ir colocar nosso sobrinho no berço.
— Não acha injusto? — Questiona de pé, o elástico da calça caindo um pouco, mas sendo ignorado por ele, sua total atenção em Harry. — Errado que tenhamos passado mais tempo com os pais dele do que ele? — Engulo em seco, a questão jamais tendo passado por minha mente antes e provocando ainda mais a culpabilidade que tenho sustentado. Massageio meus dedos enquanto ele coloca Harry para dormir, desviando um pouco do ínfimo raio de sol que banha o meu rosto. Já está amanhecendo. — Ou que vamos passar mais tempo com ele que os pais passaram? — Observo atenta enquanto deita o afilhado no berço, curvando-se para apanhar a pelúcia e a colocar perto dele.
Me levanto de supetão, as verdades que escapam dele me deixando desconfortável demais, mesmo que não seja de maneira proposital ou para atiçar algo. Infelizmente sim, temos mais memórias de Lily e Jem do que Harry jamais vai ter. E outra vez, sim; teremos mais dias com Harry que os seus pais tiveram. E não há nada que possamos fazer quanto a segunda ideia. Não há como voltar no tempo e sermos nós quem vigiávamos Harry naquela sórdida noite. Não há maneira de morrermos para trazer Lilian de volta para fazer uma sopinha decente para o filho ou James para trocar suas fraldas. Pensar nisso me amargura ainda mais.
— Vou passar um café, Pad.
Deixo o quarto da maneira mais silenciosa que posso, não querendo arriscar que nosso sobrinho acorde ou Padfoot perceba a reação que suas palavras têm em mim. A casa nova, a vida nova e o nome novo são inquietações o suficiente para mim. Não quero ainda ter de sustentar, pelo menos não por enquanto, o dever que é manter a memória de meus melhores amigos vivos para um bebê que ainda não entende a morte.
Na cozinha, fico na ponta dos pés para pegar a chaleira e depois os filtros de café, pondo a água para ferver enquanto busco os grãos que não lembro a localização. Ainda que seja uma casa enorme, me neguei de imediato quando Sirius mencionou que tivéssemos um elfo, até mesmo me irritando com a ideia de literalmente escravizar um ser vivo, preferindo mil vezes caçar tudo o que preciso do que ter alguém para fazê-lo. Ele se manteve inquieto na nova vida por um tempo, mas também decidiu a fazer algumas coisas sem magia no lar.
Estou abrindo todos os potes que acho quando ouço a voz de Sirius.
— Você não sabe passar café. — Fecho o pote de açúcar quando ele abre um armário negro perto de mim, puxando para fora um frasco vazio de vidro antes de se direcionar a dispensa, prendendo o cabelo enquanto volta com um saquinho de pó de café. Guardo o açúcar no lugar, ignorando o que diz para dar atenção ao chiar da chaleira. — Ele fica aguado e sem gosto de nada. — Fecho os meus olhos com um suspiro, me segurando para não sorrir ou dar um tapa nele. — E eu ainda sismo em lembrar de você como a garota que bota muita água nas plantas na aula de Herbologia porque não sabe parar de oferecer coisas aos outros e acaba matando-as. Mas não sabe passar café, nem fazer suco, e a sua limonada tem gosto de detergente, sabia? Nem me deixe lembrar da gin tônica que você...
— Eu não sei passar café! — Concluo, olhando-o de onde estou apoiada na pia.
— Você não sabe passar café. — Padfoot repete com calma, sorrindo para mim. Há um pedido de perdão ali. — Mas eu sei. — Ergo as mãos em rendição, logo fechando meu robe ao ir para a bancada, tomando meu lugar em um banquinho alto. Ele ainda está me olhando quando respira baixo, um meio sorriso dando lugar a uma expressão de aflição. — Me desculpa, , mas eu não conseguia tirar aquilo da cabeça.
— Tudo bem, Sirius. — Tento lhe confortar, enfileirando as duas xícaras que peguei para nós. Não são azuis como sempre sonhei que minhas louças seriam, mas vermelhas escuras. — Eu só não quero pensar nisso agora, sabe? Nós temos o Harry aqui conosco, seguro e saudável. Eu não tenho interesse algum em pensar no quanto roubamos do Jem e da Lil. — Jem e Lil. O apelido mais íntimo e antigo que tinha para os dois rola por minha língua e se perde no ar tenso. Corro a língua por meus lábios, respirando fundo, pois mencionar “Lil” e o seu marido não correr para gritar “beauty” é novo demais. Lil’beauty e Jem. — Meu maior medo é que ele se esqueça dos pais. Ou melhor, é só um dos meus medos. Estou preocupada com a responsabilidade e tudo que vem ligado a isso. Eu não li os livros da Lily, eu não entendo sobre como crianças funcionam e estou em pânico útil sempre que você não está por perto.
O braço de meu melhor amigo esbarra no meu enquanto enche as xícaras.
— Vocês dois falava sério mesmo, não é? — Não reconheço o seu tom de voz, mas relevo esta questão, não entendendo ao que se refere. Black coça a barba, deixando o chá para lá, parecendo querer ignorar-me mesmo tendo questionado algo. — Você e o Remus. Estavam falando sério quando disseram não querer ter filhos. — Remus. Eu olho para Sirius, o meu marido que menciona de maneira confortável o nome de meu ex-namorado e noivo antes de tudo acontecer. Acima de tudo, seu amigo de tantos anos. Abro meus lábios para tentar forçar uma coisa para fora de mim, mas não consigo, sendo interrompida quando coloca um blurp de mel em minha bebida e continua. — O Prongs disse que era um absurdo e que vocês estavam falando por falar. A Lily se irritou e perguntou como vocês podiam ser tão egoístas de privar o mundo de algo tão puro. E eu jurei que era brincadeira.
— Onde quer chegar com isso, Sirius? — Uma onda de calor e raiva latente cruza minha pele, concentradas em minhas bochechas que queimam por vergonha e mágoa de ter sequer mencionado Remus Lupin. Ele ignora a pergunta e eu quero explodir quando a realização me atinge. Sirius acha que eu não quero Harry tanto quanto ele. — Se você está... — Estou incrédula demais com a sua coragem de dizer algo assim. — Você não realmente acha que... — Quando a ruga entre suas sobrancelhas só se agrava, eu sou estapeada pela realidade. Ou o que ele acredita ser um fato. A raiva borbulha em meu peito, meu corpo já adepto a ela e as modificações em meu emocional. Estou enfurecida. — O que diabos você quer dizer com isso, Sirius?
— Você não queria filhos. — Comenta ao dar de ombros, olhos se alargando enquanto toma uma golada do líquido quente. Ainda estou maravilha com a sua coragem. — E o Harry foi uma exceção. — Ele me olha, o semblante claramente demonstrando a sua surpresa por minha reação a suas palavras tão mentirosas. Quando nota que o elástico entre nós se rompeu e irá ricochetear contra sua pele, Sirius bufa, deixando a xícara quando uma fresta clara incide pela janela, a luz do dia alimentando o meu descontentamento mudo. — , pense bem: se você não queria filhos com o seu noivo, o homem com quem iria realmente se casar, por que diabos aceitou cuidar do Harry e casar comigo? — Seu tom distante é desconhecido, a vibração jamais havendo sido especialmente direcionada a mim e sempre a terceiros.
Dou um passo para trás, decidida a removê-lo de meu campo de visão, certa da possibilidade de lançar a xícara de chá quente em suas roupas pelo ataque gratuito.
— Talvez eu tenha me casado com você porque o meu noivo fugiu? — Minha voz está controlada e calmíssima, sem interesse algum de soar tão estridente e zangada como realmente estou, já tendo certa ideia de como a calmaria em uma tempestade e em uma repreensão o deixam nervoso. Me sinto suja por usar os truques nojentos de Walburga Black, mas não consigo fazer o contrário. Sirius não esconde seu desconforto pelo meu estado passivo-agressivo. — Porque o Remus fugiu e me deixou no meio da noite uma semana após nossos amigos morrerem, Sirius. Com um anel de noivado no meu dedo e sem um noivo. Então, obviamente, não tive a chance de convencer ele a tentar pensar na ideia de ter filhos. Adoção em especial. Ou até mesmo biológicos.
Movo a colher, misturando o mel que havia adicionado na minha bebida. Minha voz está esporadicamente se tencionando. Mordo meu lábio antes de continuar, ouvindo quando exala devagar por perceber sua falha. Mas minha garganta já está apertada e ele não é mais meu problema. Estou decidida a não chorar mais por bobagens. Remus e as memorias que seu nome carregam sendo uma das besteiras.
— E como eu deveria dizer a ele, o mesmo Lupin que não acreditava que eu o amava com a licantropia e tudo, que queria filhos e aceitaria os riscos? Que eu ia continuar o amando de qualquer forma mesmo que isso me matasse? Sirius, como eu diria isso? Você o conhecia. Eu o amo tanto que... Consegui ignorar meus desejos.
, me desculpa. — Sua voz está apertada, como se odiasse o tema. Tema que ele mesmo trouxe à tona. Eu me levanto, segurando o robe e a xícara para me direcionar a onde o pão horrível que compramos está. Nem mesmo Sirius tirou uma fatia da coisa. — Eu também estou cansado e...
— Sim. Eu também estou. — Concordo com a cabeça, lhe permitindo respirar com alívio mesmo minha resposta sendo curta e grosseira. Uso uma faca para tirar um pedaço do pão de nozes, mordendo minha bochecha. — Eu amo o Harry. Ele é tudo o que me sobrou da Lily. A última coisa que me conecta a ela e a vida que eu pensei que teríamos. É o futuro que tenho sorte de poder viver. E você é o que me conecta ao meu passado que eu não quero abandonar. Já o Remus, ele é o passado que eu preciso esquecer. Entenda isso. — Estou parada, encarando o pote de geleia enquanto falo. — Eu não tinha certeza de muitas coisas, você sabe. Ninguém tem certeza de nada quando perde tantas pessoas daquela forma. Mas eu tinha... Eu tinha o Remus e você. Eu tinha a possibilidade distante de uma família e um lar. Mas ele se foi e... — Estou prestes a mencionar algo quando um som me desperta.
“Pafoo... Pafoo, Littens...”
Mittens.
Sirius corrige baixinho, suspirando o meu apelido que foi escolhido por ele quase seis anos atrás. O chamado de Harry, mesmo sonolento e distante, me faz sorrir. O sentimento de nostalgia é morno, esquentando cada milímetro de minha pele e me elevando muito mais além da gravidade que me mantém presa a terra e a este lugar. Outra vez, o passado parece convidativo, mas estou sendo aterrada quando minha mente processa que, após meses, é a primeira vez que Sirius menciona meu apelido da adolescência enquanto falo o seu diariamente. Não evito o desejo de lhe olhar, me apoiando no armário de madeira ao largar o que fazia e buscar o seu rosto, o contornar amargo de seus lábios que se esforça para formar um sorriso. Black me olha por alguns segundos, embebida em toda a imperfeição e bagunça de uma manhã preguiçosa de sábado, distante demais da adolescente sorridente e risonha de quinze anos que conhecia.
O tempo foi gentil, mas nem tanto.
— Lembra quando ele falou isso pela primeira vez?
Compartilho o amargor de seu sorriso, mas não é devido ao café em minha boca.
— Foi perto da Páscoa, certo? O James tinha feito essa caça aos ovos...
As memórias flutuam de volta para mim em um caleidoscópio. Borradas nas beiradas, o ruivo acinzentado e o sabor de chocolate saponificado em minhas lembranças. Corro a língua pelos lábios, satisfeita pelo mornar que se apossa de meu peito. Sirius concorda com a cabeça, sorrindo torto ao lembrar-se.
— Nunca tínhamos gritado tanto. Nós dois. Você brigou com o Jem: “Prongs, o teu filho está quebrado e precisa reavaliar as prioridades dele”. — Sorrir o deixa mais jovem e saudável. Eu respiro fundo ao lhe olhar, afagando meu braço por cima da seda, suas orbes escuras atentivas e exaurindo a sua compaixão, usando as memórias açucaradas para se desculpar. — É isso o que eu quero: o Harry acordando e chamando “Pafoo e Littens” porque se lembra de nós. Não quero pensar no Remus, Padfoot. Não mais. Não me faça pensar nele. Por favor, só me ajude a esquecer e seguir em frente.
— Foi tudo no mesmo dia. Eu acho que você não lembra.
Ele está distante, mas me dá uma chance de o alcançar, mordendo o interior da bochecha e curvando-se na ilha. Não consigo recuperar as memórias, infelizmente.
— Na tarde de Páscoa, enquanto a Lily estava contando ao Harry sobre Jesus ou Deus, não sei, foi nessa tarde que vocês falaram sobre filhos. Você estava confiante e eu só... Não havia percebido que estava sacrificando tanto só para que o Remus não a deixasse. — É perigoso assumir que nem eu via o quanto estava disposta a pôr em risco. Suspiro, observando como move os ombros ao respirar. — Não que ele fosse fazer isso, mas, eu não havia notado o quanto você queria... Mais. — Assinto com a cabeça, encolhendo-me para que deixe de atentar-se a mim. Não quero que perceba o quanto mais isto me fere. Sirius molha os lábios, balançando a cabeça em desconcerto. — Só... Gosto daquele dia. Gosto de lembrar da torta de limão que a Sra. Potter mandou. Do chocolate. De tudo. Ainda lembro de como éramos naquela noite e isso nunca saiu da minha cabeça. — Ele abaixa a cabeça, mão em punho ao empunhar o anel do Black. Minha boca se contorce ao observar a joia.
— Somos só nós agora, certo? — Convoco-lhe esforçada para sorrir o máximo possível sem que minha expressão pareça ser fabricada. Sirius não está me olhando, mas pela curva gentil de sua sobrancelha, tenho certeza de que pode ouvir aflição disfarçada em minha voz. Dou de ombros ao deixar minha xícara. — Você, Harry, eu e Jem e Lil olhando por nós.
“Pafoo!” Me encolhi com o som estridente, dando uma última olhada para meu marido, este fingindo estar ocupado demais com o seu café e o lustre acima de nós. “Ah, ah, Pafoo!” Ergui a sobrancelha, parada no vão da porta enquanto Sirius se ocupa com esvaziar uma xícara fumegante de energia líquida em uma tentativa de me fazer ir. A este ponto, Harry deve estar sentado sobre os calcanhares e pulando, assim como abanando as mãos por atenção. “Pafoo?” Estendo minha mão para segurar a sua xicara quando desiste e corre até nosso afilhado, se engasgando com a bebida escada acima.
*

— Queremos comida, tia .
Removo meu dedo da boca, esfregando a língua nos lábios para recuperar o sabor maravilhoso de limão siciliano. Meus olhos estão cerrados enquanto Sirius acena com dois envelopes azuis em suas mãos na porta que liga a cozinha ao enorme jardim onde brincava com Harry. Estavam deitados sobre uma toalha de piquenique, quadradinhos de queijo e frutas picadas em pratos separados enquanto o garotinho mordiscava uma ou outra, concentrado demais em riscar um bloco de desenho com giz de cera, mesmo sem sinais de coordenação motora. Agora o menino está agarrado no cabelo longo de Sirius, a outra palma esmagando um figo com vigor. Equilibrado no quadril do padrinho, Harry agarrou o rosto dele e esfregou o nariz na bochecha do tio, meu coração derretendo com a cena. Os dois se amam tanto...
— Eu me sinto usada. Mas coincidentemente mais doméstica do que já fui na vida? — Dou de ombros sem me importar, jogando a tigela na pia para outro momento, sorrindo ao flagrar as bochechas rosadas dos dois devido ao Sol da tarde. — Fiz torta de limão. — Ergo a fôrma de fundo removível, cuidadosa para que não escorregue, decidindo a deixar sobre a ilha, pois as duas cartas me interessam muito mais que uma simples sobremesa. Sirius se curva depositando Harry no chão sobre as pernas fartas e coradas, a meia azul combinando com a jardineira que vestiu logo após o banho de banheira mais ensaboado do mundo. — Foi a Charcoal que eu ouvi “gritar”? — Indago ao secar minhas mãos no avental improvisado que consistia em uma camiseta velha da banda As Esquisitonas bem destruída. A menção da coruja do bruxo maior lhe faz assentir ao limpar a mão de Harry, mas mesmo assim, a ideia de lhe provocar mais é tentadora. — Ou você se assustou com os irrigadores de novo? Sirius, não estamos no Mágico de Oz, água não nos mata, amor.
Harry veio engatinhando até mim – ainda “economizando” seus passos, sem se importar com as roupas limpas, germes ou sujeira no chão, os olhos brilhantes como safiras erguidos para mim e um sorrisão banguela formado porque, no fim do dia, sorrir é a coisa favorita do pequeno Potter. Sirius me imita com ironia, a voz afinada e emitindo um “mimimi” antes de revirar os olhos no momento que Harry agarra-se na perna de minha calça para se levantar e demanda participação quando também faço caretas para o imbecil diante de mim. Devagar e sorrateira, me abaixo na altura do garotinho que solta um grito de estourar os tímpanos quando o agarro e chacoalho com cuidado, o balançar forçando risadas abertas e um abanar de braços rechonchudos. Pressiono um beijo molhado na bochecha protuberante do bebê, o trazendo para meu peito e recebendo um dedo na orelha.
— Auch!
Harry gargalha, corpo pendendo para trás de animação. Ele se tornou a criança mais risonha do mundo.
— A carta, criatura nefasta, é do Ministério. — Não havia percebido o tamanho de meu sorriso até que ele se resumisse em um afastar de lábios miúdo, meus braços instintivamente se fechando ao redor da criaturinha sorridente e babona que faz carinho na minha bochecha com seu nariz rosado. Ainda assim, não aparato com o bebê para o meio do nada, percebendo o selo dourado da Divisão de Aurores na costa do envelope lançado sobre a mesa. Sirius afasta o cabelo do rosto, sobrancelhas escuras apertadas ao dar uma boa olhada no remetente. — Quer abrir? — Estende uma para mim. Engulo em seco, concentrada no calor do corpo de Harry e não no conteúdo da mensagem ao me negar, balançando a cabeça. Sirius me olha por baixo de uns fios rebeldes, carinhoso e compreensivo. — Você já estava dentro antes, . Quem deve ter falhado fui eu.
— Você acha que não foi bem em qual parte? — Questiono ao balançar Harry, este já respirando devagar e com certeza exausto de todos os desenhos. Meu melhor amigo dá de ombros, chutando um giz de cera amarelo para debaixo da cadeirinha alta de bebê. O farei ajuntá-lo em breve.
— Aquele teste sobre venenos e antídotos foi cachorro. E necromancia é coisa sua, Tess. Eu me horrorizei com você, mulher. — A camisa de linho se expande conforme o ar enche seus pulmões. Aperto meus dentes, incrédula que depois de tudo o que fizemos, algo como venenos e antídotos serão as falhas que tirarão de Sirius a chance de se tornar um Auror. Ainda mais, duvido que Alastor Moody permita que algo assim o impeça de entrar, em especial por já conhecer a importância de Sirius em uma batalha. — Foi insuportável, mas sei que passei, . O problema é outro. — Ignoro quando aperta a mão direita em punho, não me arriscando olhar para o bendito selo em sua destra. — E os envelopes não são do mesmo tamanho... — Sirius está embaraçado, lábios apertados, pois é novidade para ele se sentir dessa forma, em especial comigo.
— Se você me vier com o negócio do sobrenome, eu vou ser obrigada a jogar uma criança babada em você, Sirius Black. — Ameaço, não me preocupando mais ao cruzar a cozinha e me aproximar dele. Harry, despreocupado com tudo ao seu redor exceto a hora de seu lanche, agarra o cabelo do padrinho, arrancando um sorrisinho cansado de Sirius. — Vamos... — Empurro seu ombro ao me sentar em um banquinho, Harry muito bem comportado em meu colo ao bater as mãos sobre a mesa. — E como já disse antes: eu já estava dentro. Pode ser que o seu esteja com alguns formulários que eu preenchi antes. — Uso a mão livre para massagear os ombros tensos do mais alto, pressionando meus dedos com força o suficiente para lhe forçar a se mover devido ao beliscão que dou. — Aurores Sirius e Black. — A brincadeira me faz sorrir e meu afilhado vira a cabeça assustado, desconhecendo a voz que forcei. Sirius solta uma risadinha muda pelo nariz, dedos pairando sobre as cartas. — Os melhores do Reino Unido. E mais bonitos, claro.
— Não seja tão convencida. Esse traço de personalidade é meu, então encontre a sua própria característica falha, . — Ele rasga o primeiro envelope, sucumbindo a curiosidade. — Esqueça o que eu disse: somos dois convencidos! — Sirius gargalha, jogando o envelope no chão. Eu pisco ansiosa e confusa quanto rouba Harry de meu colo, adiantando-se para a sala ao comentar algo sobre como ficará gostoso na capa do Profeta Diário pela manhã. — Auror Sirius Black, Harry! Adivinha quem vai ter um ataque de pelancas? Sim! A demente da Walburga!


Capítulo 4

October 23th, 1984
(Two years since the Dark Lord’s defeat)

O nome de Bartolomeu Crouch Júnior pode ser riscado das listas.
- Imaginem o prazer e regozijo quando M'Lord retornar e eu puder arrancar suas línguas fora, sangues-ruins! – O bruxo esperneia, rosnando e chiando com a saliva espumante entre seus dentes ensanguentado e escorrendo para suas vestes imundas. Caminho ao seu lado, a ponta de minha varinha ameaçando perfurar sua garganta banhada de suor e sujeira. - O Lord das Trevas e seu seguidor mais amado, seu filho tão querido! – Esbaforia com um berro que rasga de seu peito à garganta. É o suficiente para que cobrir o som de inúmera travas se fechando conforme Emmeline Vance trancafia e azara as lareiras para desconectá-las, a precaução necessária, mas que também gerará um número absurdo de papelada com os trabalhadores que chegarem no amanhecer. – Filho do Lord das Trevas, porcos!
- Chega!
É Quim Shacklebolt que reverbera, tomando um punhado do cabelo de Bartô e impulsionando o bruxo para baixo, o choque de sua boca no chão ecoando pelo saguão suntuoso, face esmagada no piso de madeira negra. Não pisco, ainda que Vance erga os ombros em um salto assustado. Minha única preocupação é que o sangue e dentes de Crouch sujem o chão ou que esteja morto, então finjo não perceber que está sendo punido nas mãos de meu colega. Um arrepio gelado escorre por minha espinha quando o Comensal chia engasgando-se, o som horripilante e agonizando como vidro friccionando em isopor, tudo para gargalhar alto contra o chão aspirando sangue e bolhas se estourando em um ruído molhado. Bartô gargalha enquanto é preso, revelando o coeficiente de sua insanidade.
- Você sabe o que podemos fazer, Bartô? – Quim ruge, lábios apertando-se logo depois em uma tentativa de conter-se. Engulo em seco. – Podemos matar você, seu filho da puta imundo. Podemos amaldiçoá-lo a bater com a cabeça neste chão até morrer e seus miolos respingarem.
A risada se pausa com um "Oh!" seguido de: “Shacklebolt, seu auror safadinho...” Resisto ao ímpeto que mantive trancafiado em mim quando o criminoso se ergue alto o suficiente para agarrar-se a minha perna, unhas longas e quebradas se agarrando em minhas canelas, sua risada erguendo a bile para minha boca. O chuto para longe, o homem guinchando em plenos pulmões pelo choque de minha bota contra sua costela.
- Obclaudo. – Encanto-lhe com calma, evitando perder a cabeça como Quim faz, porém, entendedora de suas razões. Para mim, fazem dois anos. Para ele, quase dois anos completos. Os membros inferiores e superiores de Crouch se esticam, o paralisando quando os músculos reagem ao feitiço da cegueira. Esse é um dos quais aprendemos no período de formação de aurores, seu teor de dificuldade sendo superior ao concebível a escolas. Engulo em seco enquanto o bruxo continua a rosnar para nós, entredentes e espumando por não conseguir se mover. Não mais um homem e sim um animal feroz – Mutus. – O som desaparece. Estou olhando com pesar para Shacklebolt quando finalizo a imobilização do Comensal da Morte. – Levicorpus.
O sangue de Bartô Jr se coagula no ar ao seu redor. Seu corpo magrelo está levitando, temente a cada movimento de minha varinha.
- Quim? – É Emmeline quem sussurra, sua voz mínima abaixo das grades encantadas nas lareiras se fechando, ecoando no corredor vazio. – Sabe que não pode agredi-lo! É contra as regras e podemos ser punidos por isso. – Sirius mencionou algumas vezes que Vance assemelha-se a um ratinho devido a voz fina e forma miúda, mesmo quando em ação em combates. Felizmente, sua estrutura frágil parece acalmar o outro auror. Shacklebolt e seus quase dois metros de altura respiram fundo, mas não posso me atentar, concentrada demais em manter o prisioneiro sob meu controle. – A Black podia reagir, pois ele avançou primeiro. Isso sim, é permitido. – Foi difícil lhe apreender e estou ciente de como minha carreira mudará após isso, nem imaginando soltá-lo, ou deixar morrer antes de seu julgamento. – Você não pode ferir um deles. Sinto muito, mas não podemos.
- O servirá bem por ferir um dos nossos, Vance. – Ele retruca. – Dois dos nossos.
- Vamos em frente. – Comando, voltando a caminhar e trazendo o corpo paralisado junto a mim. – Teremos tempo para vê-lo ser julgado depois.
Eles me escutam, atentos. Estou adiantando-me para o elevador quando sinto a vibração dos feitiços dos outros aurores se unirem ao meu, imobilizando ainda mais Crouch, não confiantes que só uma varinha irá lhe manter quieto. Descemos no nível dois, Seção de Controle do Uso Indevido da Magia, o Quartel-General dos Aurores e os Serviços Administrativos da Suprema Corte dos Bruxos. E, não imagino o que esperava, mas não era a multidão de bruxos e aurores que se mantém do lado de fora das portas douradas do elevador, formando um corredor humano para que transportemos Crouch.
Reconheço rosto de amigos, testemunhas das audiências, membros da Suprema Corte dos Bruxos e um homem. Um pai que observa o seu único filho ser preso por motivos concisos. Abaixo meus olhos quando ouço sussurrarem nossos nomes. Black, Vance e Shacklebolt. E mencionam Crouch. Lamentam pelos Longbotton. Alice e Frank que estão no St’Mungos há anos e não irão se recuperar. Comentam sobre Lestrange, sobre o trabalho de lhe capturar e como Bellatrix foi a única que não chegou. É o próprio Bartô Crouch que empurra as portas para o Quartel General, saindo de nosso caminho em seguida, horrorizado com a aparência de seu filho.
- Eu quero uma cela com feitiços anti-desaparatação e anti-azaração o mais rápido possível. - Peço assim que as portas se fecham atrás de mim, todo o salão tendo sido reaproveitado para a caçada de hoje. Não há mais cubículos ou salas especiais ou mesas com café. Apenas portas de salas minúsculas guardadas com dois ou mais aurores, lareiras com Redes de Flu ligadas direto ao Hospital St’Mungos e ao Tribunal da Suprema Corte para julgamentos. – Mais dois guardas adicionais na porta do Sr. Crouch Jr. Se houver tentativa de fuga, lembrem-se dos princípios do Juiz: "Ataquem antes e questionem depois".
- Dawlish, faça uma investigação completa da varinha apreendida com o Sr. Crouch. - Emmeline Vance ordena, apontando para o outro auror de enormes olhos azuis que está parado no aguardo de mais ordens. - Quero uma lista de todos aqueles que a possuíram e os feitiços que foram realizados. Envie-a para o escritório do Ministro Fudge e cópias para toda a Corte. Mantenha a varinha sob a sua custódia.
- Níveis Um e Dois, secção três, aguardem os relatórios do Auror Dawlish e entrem em contato com os antigos donos da varinha. - Quim se pronuncia pela primeira vez, direcionando-se a seus pupilos. - Se mortos, procurem suas famílias e os convoquem para prestarem depoimentos. O Julgamento será em no máximo seis horas, então os tragam aqui de imediato.
São dois aurores que tomam a guarda de Bartô Crouch Jr, permitindo-me a observar enquanto é levitado para uma das salas, cinco outros oficiais próximos no caso de alguma comoção. Meus ombros relaxam no instante que não preciso me preocupar com a presença do Comensal da Morte, músculos doloridos e distendidos pela caçada que durou horas em busca do Quadra Kill, quarteto composto pelos Lestrange (Bellatrix, Rodolphus, Rabastan) e o próprio Bartô. Abaixo meus olhos para minha mão com algumas bolhas e hematomas, deformada pelo não uso de luvas.
- A ideia das vassouras para os atingir de cima foi genial, digna de você. - Vance murmura do meu lado, a mão em meu cotovelo. Assinto com a cabeça, a tempo de perceber os olhares que são lançados a mim dos outros aurores, mesmo que ocupados e que se mantiveram reverentes para nós durante todo o tempo. Não é uma reação nova. - Vem. - Chama com um puxão, acenando com a cabeça para um canto recluso próximo a janela que revela o amanhecer falso escolhida no início da semana. Acredito que tenha alguma bebida por ali, apenas álcool bruxo sendo o que pode me manter sã em um momento como esse. - O que estão olhando? - Ela berra quando me afasto, lançando olhares irritados para estes ao nosso redor. - Agradeçam-nos pelo bom trabalho ao em vez de olharem-nos com essa cara de cu!
Estou enchendo um copo de uísque de fogo quando Quim se aproxima.
- Temos sorte de a Vance ser tão louca e tão calma ao mesmo tempo. - Comenta e eu finjo não perceber como sua mão tremula quando coloco um pouco da bebida em seu copo.
- A loucura momentânea dela é reconfortante. – Pisco e ele sorri um pouco. – Me sinto normal.
Engulo o líquido amargo, apertando os meus olhos ao sentir quando se assenta em meu estômago vazio. Ideia horrenda. Assopro, tentando não colocar minha língua para fora ao repensar quantas vezes mais tenho de passar mal até aceitar que não sou como os outros aurores, estes traumatizados e quebrados demais que colocam uísque no chá às sete da manhã. Deixo o copo sobre a bandeja, curvando minha coluna ao perceber o quão exausta estou de toda a perseguição, mas também agradecida por conseguir colocar as minhas mãos em Bartô. Shacklebolt suspira ao meu lado, agitando a bebida amarela em seu copo, ainda que não pareça tentado a tomá-la como eu.
- É absurdo. – Balança a cabeça, claramente desejando afastar pensamentos doloroso e falhando. Eu aperto meus lábios, fiando-me no som profundo de sua voz. – Voldemort está morto. – O nome do bruxo é sussurrado, não por medo ou respeito, mas por ética no local de trabalho. – Bartô e Rabastan estão aqui. O Sirius, o Walsh e o Collins estão caçando os outros, e mesmo assim, Alice e Frank foram perdidos. – Eu decido o olhar, cansada de dividir minha atenção em seu copo que me provoca. Enfio minha varinha no coldre de couro de dragão, ciente que não posso mais escapar dessa realidade grotesca.
- Frank e Alice estão vivos e mortos ao mesmo tempo, é macabro. – Comento com pesar, percebendo a aproximação de alguns outros aurores perto de Emmeline, a instigando a contar sobre como conseguimos encontrar Crouch. É doloroso, como na morte de Lilian e James. É triste que a derrota dos vilões seja mais lembrada que a memória daqueles que pereceram. – Deixaram a casca deles andando e falando, mas roubaram tudo o que os faziam serem eles e agora são dois corpos ocos em um hospital. – Essa é a verdade difícil de engolir. A que ponto vale a pena sobreviver? – Esqueceram daqueles que amavam e de si mesmos.
- Não tive coragem de os visitar. – Quim assume sem remorso pois tem noção de seus limites. Dividiu o dormitório com Frank, alguns anos antes de minha era em Hogwarts se iniciar. Lutaram lado a lado na Ordem da Fênix e foi ele quem encontrou os amigos em um estado pútrido em seu lar. Rodeados de dejetos e com o pequeno Neville Longbottom escondido em um quarto do pânico, protegido contra azarações pois já sabiam que seriam procurados ora ou outra. Tomaram, como todos tomariam, a decisão de proteger o filho, este o qual nem se lembram existir mais. – Nenhum dos dois. – Para minha surpresa, ele vira o copo, o vidro tocando seus dentes brancos sem se importar com o choque. – Não imagino como a Sra. Longbottom está se sentindo, sendo assombrada com o fantasma do filho.
Erguemos nossos olhos para observar com atenção quando as portas do Quartel General se escancaram.
- Não celebrem na minha mesa. – Quim curva-se para poder falar em meu ouvido.
Luto contra o rubor escandalizado em minha face enquanto ele se afasta, adiantando-se para o Oficial Dawlish e apanhando o relatório de sua mão, agora que Vance está ocupada demais contando para os aurores do Nível Um como formamos um anel de chamas de fogo azul, três vezes mais quente e perigoso que o fogo vermelho e cercamos Rabastan. Me impulsiono para frente, braços cruzados sobre meu peito quando os aurores adentram o salão. Neste exato momento, me arrependo de permitir que Vance tenha gritado com aqueles que nos observavam, só assim podendo entender o motivo de tantos olhares em nós quando chegamos. Do lado de fora, são dezenas de câmeras que disparam igual ocorreu conosco, tanto repórteres quanto funcionários do Ministério da Magia tentando tirar uma casquinha de mais uma vitória contra as Artes das Trevas. Uma vitória mínima, mas ainda assim, merecedora de glorificação.
Thomas Collins é o primeiro a entrar junto com um dos homens que reconheço do corredor, este lhe ajudando com um malão. Minha mente vaga de imediato para o que ou quem pode estar lá dentro. O objeto novo para as investigações parece chamar atenção dos outros membros da unidade, burburinhos escalando para conversações. Collins acena para mim com a cabeça quando deposita o baú no chão, mesmo a sua pele suja de lama não conseguindo camuflar o sangue em sua testa. Recíproco o cumprimento, segundos antes de respirar fundo. Culpada.
Os dois bruxos altos são os penúltimos a entrar, um homem sendo segurado entre os dois, as varinhas dos aurores apontadas para sua garganta, responsivas para qualquer movimento que indique uma tentativa de escapada. Olho para Rodolphus Lestrange, tentando encontrar algum sinal de arrependimento ou raiva. Mas não. Nada. Apenas um sorriso sádico e doente, os olhos erguidos em desafio enquanto caminha para o seu destino, sem demonstrar sinal algum de medo ou apreensão. Ele sabia que seria pego e está tirando todo o proveito da atenção. Nem mesmo tenta esconder o quão tolos acredita sermos.
Rodolphus e Bellatrix Lestrange são perfeitos um para o outro.
- Por favor, preparem uma salinha VIP para o Sr. Lestrange. E, obrigado, Senhor Collins, por oferecer dar um banho bem ensaboado nele. – Reconheço de imediato a voz do último auror a entrar, a melodiosa e elegante voz colocando a maior dose possível de sarcasmo na frase. – Ele tem um encontro com a mulher mais tarde, não é, primo? – Minha boca entorta quando finge dar um soquinho no queixo do mais velho, um sorriso traiçoeiro brincando em seus lábios.
Sirius surge em meu campo de visão como um anjo, sua aparência distinta daquela óbvia no outros aurores que o auxiliaram na caçada pelo marido da prima, o longo traje de couro encantado para maior resistência impecável e passando longe da lama que banha Walsh e Collins; imaculado. O cabelo negro não está tão emaranhado, mas preso de forma desajeitada no topo de sua cabeça, fios caindo nos seus olhos e grudados na garganta pelo suor. O olhando bem, consigo nos considerar sortudos por nossa aparência não ter mudado tanto desde que ingressamos no grupo de elite. Estou balançando a cabeça por suas brincadeirinha quando Sirius Black me alcança, o sorriso de humor forçado mesclando-se para um natural quando agarra meus ombros antes de seus lábios tocarem minha testa.
- Está bem? – Questiono com um vibrar em meu ouvido, como as asas de um beija-flor, meu rosto quente pela demonstração de carinho em público. Descanso minha palma na curva de sua cintura, sobre o casaco escuro. Ele confirma com disciplina, acenando para Shacklebolt atrás de nós antes de indicar uma porta na lateral esquerda.
É como uma peça teatral, e nós conhecemos nosso roteiro.
Dentro da sala há uma mesa de metal, algemas encantadas e duas cadeiras. Sirius tranca a porta atrás de nós, muito provavelmente impedindo que algum som escape daqui para aqueles dos lado de fora. Eu me encosto na mesa, cuidadosa para que o ferimento atrás de minha coxa não toque em nada. Não preciso que Sirius entre no modo assassino e ataque Bartô.
- Estaria melhor ser o Maldito Moody aparecesse aqui com a cabeça da Bellatrix. – Sou obrigada a confirmar, agora que ele torna a me olhar e não é mais obrigado a sustentar o olhar de triunfo por uma captura, inquietação transparente em sua voz. – Tem certeza de que está bem? – O rosto de Sirius descende para mim, não para um beijo ou algo do tipo, mas para analisar minha aparência e discernir se estou bem como ele. Engulo em seco, evitando mover minha perna. – Pegou o Bartô?
Não consigo lhe responder de imediato, apenas tendo condições de esticar meus braços em sua direção antes de ser envolta pelos seus, engolida pelo calor reconfortante de seu corpo contra o meu. Sirius respira contra mim, uma mão apoiando minha cabeça em seu peito e a outra me mantendo segura e de pé. Abraço-o com toda força que consigo, ainda incrédula que o pesadelo está cada vez mais perto de encontrar um fim e mesmo assim, seguindo o raciocínio de Quim Shacklebolt, nada vai mudar e aqueles afetados pela Guerra jamais irão retornar para nós por completo.
Posso sentir a sua pulsação através da pele.
- Está acabando... – Segreda em meu cachos, o som abafado pelo meu cabelo. Eu não percebo que estou tremendo até que ouço o som de minhas unhas quase arranhando seu casaco. A voz de Sirius está calma e suave ao falar comigo, tão vulnerável como a minha pois estamos tão perto disto tudo acabar que é quase impossível acreditar. Só mais uma. Só mais uma das cartas principais do baralho macabro de Voldemort. Sirius puxou-me contra o próprio corpo, curvando-se sobre mim ao encostar-nos na mesa, minha perna gritando de dor. Por um instante ele me abraça forte, realista e vivo em seus braços. Seu cabelo fazendo ruídos em meu ouvido.
Eu me afasto para respirar, deixando que nosso toque se esvaia rápido demais.
- Hum... O Bartô está na sala ao lado espumando e gritando que vai arrancar a minha língua fora. – Lhe ofereço um sorriso amargurado, inconscientemente movendo minha língua para tocar todos os meus dentes logo depois. Sirius suspira, se adiantando para sentar-se do meu lado na mesa, mão próxima a minha. Agarro a sua palma, mesmo enojada com a sujeira debaixo de minhas unhas. Black cheira a lama fresca de chuva, cinzas e pó de flu. – Ele estava no porão da casa de alguns trouxas e nós deixamos o Kroff para apagar as memórias deles e indicar como lidarem com a polícia trouxa. – Comento sem muita atenção, conseguindo finalmente respirar aliviada por saber que Sirius está aqui e seguro em minha companhia. – Rodolphus?
- Derrubamos ele de um declive, por isso a lama. – Explica-se, seu dedão acariciando minha mão, arrastando-se na pele suja de poeira cinzenta sem se importar. – Mas o Thomas está bem, querida, não se preocupe. – Dou uma risada nasalada, cabeça rolando para trás até encontrar apoio em seu ombro, mesmo com alguns botões de seu uniforme machucando meu ouvido. – Tomei todo o cuidado do mundo para não machucar aquele rostinho bonitinho dele que você gosta de ficar olhando. E protegi ele da cintura para baixo, também. Sei que é a sua parte favorita. – Enfio minha unha em sua costela. – Ei! – Interrompe sua provocação com um sobressalto devido a dor.
Mantemo-nos assim por um tempo, como costumamos fazer após cada missão. Juntos em silêncio em mais uma tentativa de garantir que sobrevivemos outro dia. É exaustivo, mas funciona mesmo em dias que são coisas pequenas e sem importância. Foi bem devagar que as coisas entraram em uma rotina e se encaixaram em nossos planos, desde as mentiras sobre o casamento até a profissão que escolhemos. Acertamos detalhes mínimos sobre a falsa cerimônia privada, a lua-de-mel interrompida pela possível guarda de Harry e os planos para o futuro. Cada informação repensada várias vezes até fazerem sentido completo e não haver nada que possa ser enfiado no meio de nossas desculpas. Dentre estas mentiras, a menção de Quim Shacklebolt para “comemorarmos” em qualquer outro lugar menos sua mesa, a informação implícita de sermos um jovem casal com desejos carnais ardentes circulando por nosso círculo de amigos para auxiliar a vender nossa farsa.
E Harry auxiliou em todo o processo, também.
Mesmo com sua aversão pública a Moody, foi devido a um pedido de Sirius que algumas comodidades foram concedidas a nós e logo aos outros membros do Ministério da Magia. Em especial em uma noite um ano e meio atrás em que Sirius chegou no Quartel General com Harry Potter preso em sua costa e ordenou que todos calassem a boca pois o sobrinho estava dormindo e ele iria azarar o bastardo que o acordasse, logo antes de marchar para o escritório de Alastor Moody, questionando se vigiaria o pequeno enquanto trabalhávamos. Agora, caminhamos pelos corredores nas primeiras horas do dia, podemos ver dezenas de crianças bruxas agarradas as vestes dos pais a caminho da Creche Para Jovens Bruxos.
- Bellatrix está perto de ser capturada? – Corto o silêncio no momento que meu dedo encosta em seu anel.
- Ela fugiu e o Moody foi atrás com os outros. – Sirius explica, a tempo de eu conseguir cortá-lo com um suspiro alto, minhas pálpebras baixas pois este era o ponto alto das missões. A general de Voldemort não foi capturada. – É incrível como Moody caiu nos truques dela quando eu mesmo vi que estava fazendo de propósito. – Rosnou, como se não percebesse a ironia das própria palavras. – Desculpa, Tess. – O bruxo lamenta por fim e eu sinto quando, outra vez, Padfoot sela minha pele, desta vez sendo a coroa de minha cabeça. – Ela deixou o Rodolphus para trás e conseguiu nos atrasar.
Quando a selecionou para ser a segunda no comando do exército de Comensais da Morte, Voldemort tomou uma decisão excelente. Bellatrix acredita veemente nas ideologias de Voldemort, e faria o possível para certificar que sua visão fosse conduzida de maneira poderosa até que tomasse o controle. A quantidade que coisas horrendas feitas por ela não podem, e jamais devem, serem creditadas como oriundas de doenças mentais. Doenças essas defendidas por Cygnus e Druella Black no Tribunal da Verdade meses atrás quando as primeiras provas do envolvimento da filha foram expostas pelo Profeta Diário em um de seus especiais mensais sobre o andamento de investigações. Mas, de volta a Bellatrix, todos sabemos que sua participação nestes atos foi voluntária e que ela não pensaria duas vezes se tivesse a chance de repeti-los. Bellatrix Lestrange não precisou de uma desculpa, medo ou obrigatoriedade; ela seguiria Voldemort até o fim por livre e espontânea vontade.
- Bem... – Molho meus lábios com a língua, afastando-me para me pôr de pé, ajeitando meus trajes e pisando com firmeza, mesmo com minha perna dolorida. – Um exemplo de esposa, certo?
Jamais me imaginei como uma heroína. Como a pessoa que estaria na capa de jornais segurando um monstro com orgulho. Não me imaginei sendo esta pessoa até que viessem pela pescoço de minha família e amigos. Então um objetivo tornou-se guerra. Minha mente sempre navegando para o momento em que cruzaram a linha e eu jamais esquecerei a dor e o ódio. O ódio queimando em meu coração ao ponto de integrar-se ao músculo, a cicatriz lembrando-me do que ainda podia ser feito. Aqueles que poderiam pagar com a vida em Azkaban pela morte de quem fui e a família que tanto amei.
Sirius balança a cabeça quando socos são deferidos na porta.
- Só é. – Ele destrava as trancas e eu observo com triunfo inimaginável quando Moody adentra a sala de interrogação.
A mão de meu melhor amigo está sobre meu quadril, controlando-me quando avanço para meu coldre em um reflexo.
Bellatrix Lestrange sorri para nós, todos os dentes a mostra.
- Awn! – A voz de bebê é hedionda. – Quem está cuidando do bebezinho Harry hoje, hein?
- Compostura, Fairchild! – Alastor Moody rosna para mim, entredentes ensanguentados e um rasgo ofensivo e fundo em sua bochecha esquerda, destruindo retalhos anteriores como uma tesourada em malha. Porém não há compostura em mim que me mantenha parada quando avanço na direção da mulher risonha há menos de dois metros de mim, essa tendo passado a língua pelos lábios ao insinuar uma ofensiva em meu afilhado. Com um passo, posso enterrar minhas unhas em seus olhos e matá-la à moda dos trouxas. – Black, controle-a! – Avanço um metro, em uma passada única e estou me forçando para frente quando Sirius me traz para perto em um solavanco dolorido, incitando uma gargalhada altíssima vinda da Comensal nos braços de Quim Shacklebolt e um desconhecido.
- Seu monstro! – Gritei o mais alto que pude, minha voz avançando e meu corpo paralisado pelas mãos de meu marido. Quim espalma a mão em meu peito, nos forçando para trás. A risada não para. Sirius pressiona a boca em meu ouvido para que eu o ouça.
- , não pode matá-la! Chega!
- Igual fiz com o irmãozinho dela, primo? Por que não pode?Bellatrix provoca em uma péssima imitação com voz de bebê. Estou tremendo quando tento me livrar de Sirius, este me segurando com tanta força que imagino a que ponto minhas costelas irão aguentar. Bato em Quim para alcançá-la, gritando a plenos pulmões quando imagino que esta voz foi a última coisa que Benjamin ouviu antes de morrer. – E a mamãe do bebezinho Potter... Tantos queridos, sangue-ruim! Que azar! – As Artes das Trevas e a fuga descarnaram como uma lixa o rosto de Bellatrix Black, tornando-o feio e escaveirado, mas estava vivo com um fulgor fanático e febril. Mas, diferente do marido, havia raiva. Raiva e insanidade brilhando nos olhos verdes profundos e cristalinos como vidro. Bellatrix é uma das bruxas mais lindas que vi em toda a minha existência, mas tão pútrida e imunda como Azkaban em minha última visita.
- Obclaudo!
Quero a ela. Quero Bellatrix. Quero matá-la. Minha mente está esperneando, implorando que eu ponha minhas mãos sobre o monstro assassino diante de mim, mas não posso pois é Moody quem me impede, roubando minha visão. A fraqueza provocada pelo feitiço é maior que o ódio e meus desejos primitivos de destruí-la como me destruiu. No entanto, meus braços e pernas parecem mangueiras de borracha no verão escaldante, e depois não parecem com nada, evaporando como ar e sumindo. Eu não consigo sentir meu próprio corpo. Eu não consigo me sentir. Foi uma cegueira firme e rápida. A perda de sentidos é dura e delirante. A escuridão cobre não apenas os meus olhos, mas a mim por inteiro, um peso esmagador de um cobertor gelado, como serpentes asquerosas dançando por minha pele.
- Sirius! – Imploro, o ar faltando em meus pulmões. – Sirius, por favor, me solte!
- Tirem-na daqui! Tirem-na antes que a mate sem um julgamento. Agora, Black!
É cansativo lutar contra este encantamento. Eu reconheço que seria fácil me render, mas não consigo e estou em um espiral de dor e raiva brilhante. Impeço a escuridão me esmagar, me levar pra um lugar onde não haveria dor, cansaço, preocupações ou medo.
- ! – Reconheço a voz de Sirius, grunhindo em meu ouvido enquanto me força ainda mais para trás. – Mittens, não aqui. Chega.
- Oh, primo! Não parece que está falando com o Reg? Mandando alguém te obedecer? Que engraçadinho!
O corpo de Sirius se enrijece atrás de mim.
- Sirius, não ouse dar para trás! – Quim ordena, ciente da dor das memórias. Está tão escuro que eu não posso vê-lo. Permaneço me empurrando pela escuridão e gritando profanidades enquanto me movem, pernas não responsivas sendo arrastadas como sacos de batata, embora em um reflexo, eu não estivesse tentando levantá-las. O ar some de meus pulmões devagar e torna-se mais fácil desistir.
Os meus sonhos são tão dolorosos como não poder me vingar de Bellatrix.
“Subi as escadas para o dormitório masculino bem devagar apesar da barulheira atrás de mim, a celebração tão alta que duvidei que os feitiços mais poderosos pudessem impedir que nos escutassem do Salgueiro Lutador. Me apoiei no batente, observando com atenção quando Lilian e Marlene estouravam uma garrafa de champanhe trouxa, a espuma ascendo para o teto e atiçando mais uma onda de gritaria dos alunos. Sirius estava de pé sobre o sofá, um frasco de uísque de fogo em sua mão e a camisa há muito esquecida. Peter Pettigrew sorria para os amigos, sentado sobre o sofá e levando espanadas de camisetas banhadas de suor em seu rosto. James deu início aos gritos daqueles que estavam na torcida mais cedo, erguendo o meu pomo de ouro e piscando na direção da namorada. Respiro fundo, desviando meus olhos quando Lily o puxou pela gravata para um beijo.
Desviei dos meninos bêbados do Sétimo Ano que passavam por mim pelo corredor circular e dos mais jovens, estes alterados pelo açúcar dos cupcakes. Tracei o meu caminho assim, me escondendo no vão de algumas portas até chegar na que James havia me indicado, ainda mais agradecida pelo empréstimo de sua capa da invisibilidade. Com o meu sapato, dei algumas batidinhas na porta antes de me equilibrar com o pote de sopa e abri-la. O dormitório se assemelhava ao feminino, com quatro camas de solteiro relativamente grandes, algumas janelas foscas pela chuva e uma porta para o banheiro. Os baús em frente às camas possuíam diferentes graus de organização e eu parei no último, que é grudado a uma janela e me direcionei a este, pois podia ver o garoto deitado sobre a cama. Coloquei a sopa no criado mudo onde haviam alguns livros empilhados e um relógio de pulso.
- Quem é? – Remus murmurou sonolento ao esticar os braços sobre a coberta, ainda com os olhos fechados. – James, apague a luz, por favor.
Dei um passo para trás, as mãos sobre a boca afim de não fazer nenhum som. Lupin se ergueu de maneira demorada e com os membros superiores visivelmente trêmulos, sentando-se sobre a cama com um olhar confuso e seu cabelo bagunçado apontando para as mais diversas direções. A visão tão nova e distante de sua imagem polida me fez sorrir, mesmo preocupada com seu estado de saúde. Com claro desconforto, o rapaz se virou na direção da mesa e encarou a refeição ali, enquanto eu mantinha uma paz constante ao me afastar.
- ? – Parei de me mover, o salto atingindo o chão de madeira um pouco alto quando chama meu nome. – , eu sei que é você. O quarto inteiro está com cheiro de verbena.
Com falso desânimo por ser flagrada sem tanta dificuldade, abaixei o capuz do manto encantado de James Potter, revelando meu rosto para o grifinório que deu um sorriso fraco ao me ver em pé em seu dormitório, suas bochechas brilhando e lábios infinitamente rubros. Infelizmente, o brilho é puro suor, o mesmo que molhava sua camisa. Suas pupilas estavam enormes, o verde dos olhos focados em mim. Ele estava arfando, com a camisa aberta no pescoço e lábios afastados.
- Remus... Você está melhor? – Minha voz era cautelosa enquanto jogava a capa no chão. O seu peito subia e descia tão rápido que não consegui evitar ficar alarmada; coloquei a mão na sua testa e quase me engasguei pelo choque. Suas pupilas que me encaravam eram enormes, e havia suor acumulado na sua clavícula. - Você está ardendo em febre, Moony. Devia estar na Enfermaria... - Remus se esquivou de mim com rispidez, e eu abaixei a mão, magoada. - Rem, o que foi? Não quer que eu o toque?
- Não, Mittens. – Remus negou, parecia chateado. – Não assim. – Disse irritado, e então ficou ainda mais ruborizado.
- Moony? – Pisquei sem entender, verdadeiramente espantada; esse é um comportamento que poderia esperar de Sirius, mas não dele: essa vergonha de ser tocado com carinho e essa cólera.
- Como se eu fosse uma criancinha, . – Sua voz era firme demais e o maroto jogou as pernas para fora da cama e ficou de pé, a calça quadriculada de pijama arrastando-se pelo chão. – Vamos, desça e vá celebrar a sua vitória. – Dei um passo para trás quando me expulsou sem nenhum cuidado, quase perdendo o equilíbrio quando se ergueu sobre mim como uma montanha. – Não perca o seu tempo aqui, Birdie. Você devia estar... – Ele respirou asperamente. Suas palavras travaram, ou porque falou demais ou porque perdeu o fôlego. – Celebrando.
- Não diga isso, Remus, eu sou sua amiga. – Estava em choque por falar sobre sua condição. Balancei a cabeça, agarrando o seu braço. – Vamos para a enfermaria, que tal? – Propus da mesma maneira que minha mãe costumava fazer com Benji quando não queria ir para o hospital. Afaguei o seu braço ao caminharmos, meu coração acelerado por estar ficando cada vez mais sensível às transformações. – Eu prometo que volto para a festa quando estiver com alguém cuidando de você. – Remus se arrastou por alguns centímetros.
- Quem deixou você subir, hum? – Indagou com a voz baixa e vulnerável. – Só para você me ver doente...
- Não... – Relutei, o puxando seu pulso suado. Ele ficou tenso. – Remus, eu juro que não foi nada disso que eu quis dizer... – Em seguida ele se virou, sentando-se outra vez na cama pois o cansaço o tinha consumido. Um aperto doloroso em meu peito me fez respirar trêmula. – Rem, você quer ficar aqui? – A sua cabeça pendeu para frente e ele agarrou minha mão ao concordar. – Oh, Moony, me desculpe por não vir antes. – Sussurrei ciente de sua audição estar sensível pela eminente transformação. – Está tudo bem. Eu vou ficar aqui com você.
Esqueci-me de ter prometido tirar algumas fotos com Sirius em uma das câmeras de Lily. E de James e Peter. De todos, menos Remus. Lupin segurava-se em mim como se meu corpo fosse uma boia salva-vidas em uma tempestade. Eu apoiei minha mão em seu cabelo úmido, me acomodando no espaço entre suas pernas separadas enquanto tentava me abraçar. Ele respirou em meu estômago antes de falar trêmulo e com suas lágrimas molhando minha blusa.
- Não aguento mais.
Estava sorrindo quando o ouvi, triste, porém orgulhosa, tocando seu rosto como se fosse uma porcelana delicada ao contrário de uma bomba-relógio.
- Eu sei, Moony. Mas você vai conseguir. Remus você é tão forte, a pessoa mais forte que eu conheço.”
*
November 7th, 1984

- Eu irei sair dessa casa em cinco minutos, com ou sem os bonitinhos! – Declaro em alto e bom som do primeiro degrau da escada, minhas mãos assentando o busto de meu vestido. Meu cabelo foi respeitosamente preso atrás de minha cabeça, um enfeite de folhas de ouro o mantendo seguro. Desço as escadas com extremo cuidado, erguendo a barra do tecido e sorrindo um pouco para os saltos belíssimos debaixo deste. – Não quero me atrasar de novo e precisar ouvir a Vance brigando novamente! Harry James Potter e Sirius Orion Black III, vocês têm exatos quatro minutos e meio para estarem aqui em baixo!
Os dias que seguiram o da captura de Bellatrix foram quietos, os aurores responsáveis sendo premiados com um tempo de descanso. Tempo em que Sirius manteve o rosto enterrado em pilhas de relatórios em sua mesa do escritório e evitou-me durante o dia, para finalmente desabar em meus braços durante a noite após Harry dormir. A menção de Regulus Black vinda de Bellatrix acentuou a dor de Sirius em níveis astronômicos, sua culpa por não ter salvado o irmão o consumindo da mesma maneira que a morte de Benjamin fomentou minha perda de controle.
Foi uma escolha em conjunto aceitar comparecer à celebração. A ideia de levar Harry para um lugar público, céus, foi complicada. Mas o ver tão animado com as vestes novas para o evento... Bem, tornou tudo mais fácil. E devo relembrar que Emmeline Vance implorou-me que levasse Harry e finalmente comparecesse à alguma festa do Ministério, não aguentando mais ter de ficar junto de Quim em outro evento em que ele tinha centenas de amigos.
- Tia, eu já estou pronto!
Ergo minha cabeça já no fim da escada, surpresa com as irises esmeraldas cravadas em meu rosto. Meus lábios se curvam em um sorriso orgulhoso, a pequena bolinha de energia que me olha com tanta admiração no rosto expressivo sendo o responsável por minha confirmação à festa. Os fios rebeldes e nunca alinhados do garotinho de quatro anos estão penteados para o lado, partido em sua lateral e... Brilhantes. Sebosos de gel. E eu preciso me controlar para não relacionar a aparência pegajosa a certo ex-aluno de Hogwarts.
Seu rosto rechonchudo está limpo, nem sinais da lama que o cobria mais cedo quando escorregou de sua vassoura e caiu com a face enfiada nos lírios do jardim, tendo de correr para dentro em busca de pirulitos e beijinhos que afastariam a dor. Contudo, decido ignorar o montante de cabelo em sua testa – para cobrir a única coisa que o difere de toda criança de sua idade – para concentrar-me no terno de quatro peças azul marinho que usa, o cetim brilhando debaixo da luz de nossa sala. E a gravata vermelha reluzindo em seda caríssima.
Harry Potter é uma criança linda. O suficiente para que trouxas nos parassem nas ruas para comentar sobre a fofura e os inúmeros sorrisos que ele atirava a todos que passem por seu caminho, possivelmente a criança mais alegre do mundo. Suas bochechas brilham, o óculos redondo apoiado no nariz e as sardas salpicadas em seu rosto parecem ser traços que se estendem de seus pais para ele, a perfeita combinação dos dois e uma memória fresca da aparência de meus amigos. Harry parece um boneco de porcelana, tão perfeito e delicado que hoje entendo o medo que Sirius tinha de o carregar assim que nasceu. Mas, agora, o menininho está maravilhado. Os lábios abertos mesmo com um pirulito a caminho da boca e a outra mão na gravata.
- Você está parecendo uma princesa, tia! – Sussurra como se fosse um segredo, olhos esbugalhados e um sorriso maroto. Por meio segundo, é Lily Potter quem está sorrindo para mim, arteira e com um certo grau de maravilhamento por minha aparência. Seguro a imagem em minha cabeça o máximo de tempo que consigo antes de me agachar até estar na sua altura, ouvindo o som de outros passos delicados na escada de madeira.
- Uma princesa? - Ponho minha mão sobre o coração, fingindo horror à possibilidade. Harry abre o maior sorriso do mundo para mim, tão adorável que me indago a possibilidade de o guardar para mim até o fim dos tempos. - Claramente há algo errado! – Ele solta sua gargalhada gostosa e infantil. - Harry! O que vamos fazer? Temos de correr e achar um príncipe, então! Meu Deus, onde eu vou achar um príncipe? Harry, e se eu virar uma abóbora, menino?
Hazz ameaça cair para trás de tanto rir, o pirulito pendurado em sua boca pois minha encenação foi o suficiente para ele e alguém atrás de mim também. Harry arfa, sendo a sua vez de se encolher para perto de mim e passar o braço por meu pescoço, a mãozinha em concha antes de sussurrar em meu ouvido:
- Ou um dragão!
Bato palma, sorrindo quando se afasta.
- Um dragão, Hazz? Vamos procurar um, então! – Ele concorda com a cabeça diversas vezes, entortando-a por fim como um filhotinho curioso. Apoio minhas mãos na cintura, fingindo estar pensativa e desconcertada com a repentina busca por um dragão, a criatura sendo uma das favoritas de Harry desde que o imitamos ao encenarmos A Princesa e O Dragão, a história também relativamente nova para seu tio. – Mas, onde vamos achar um dragão? – Batuco meu queixo, lábios apertados em desafio.
- Aqui! – Sirius Black ruge diretamente atrás de mim e eu me encolho com um grito, mesmo já acostumada com a brincadeira dos dois. Harry infla o peito antes de correr para mim, rindo e com os braços adiantados para me proteger.
O bruxo maior, reduzido a uma sombra escura, avança contra meu afilhado, rosnando que vai comer suas pernas gorduchas e roubar sua tia, além de sua vassoura. Aparento estar magoada quando a menção da vassoura faz o pequeno fingir atacar o “poderoso dragão” quando a possibilidade de roubarem sua tia não lhe afeta o suficiente. Mas, em meio aos gritos, rosnados e risadas, minhas preocupações evaporam, em especial agora que meu marido segura o garotinho pelo calcanhar e o maldito cabelo dele não se move de maneira alguma. Mordo meus lábios quando os olhos de Sirius recaem sobre mim, a dramática suavização de seu olhar “feroz” incitando um calor a se espalhar em meu rosto e peito.
- Padfoot, o menino vai passar mal. – Reprovo, tentando disfarçar minha timidez. Harry salta para o chão, um bico enorme ao agarrar-se a perna do padrinho agora que seu doce rodopia pelo chão de madeira, coletando poeira. Lhe ofereço um olhar severo, apontando um dedo para lhe impedir de ir atrás da bolinha vermelha. Harry bufa, amplificando os olhos pidões. – Regra dos cinco segundos, Hazz.
Então olho para Sirius, absorvendo sua aparência polida e tão formal. Os olhos do auror são da mesma cor que o céu manchado de fumaça durante a noite; lindos e inebriantes. Observo com atenção o novo contorno de sua face, a barba de rápida formação cobrindo sua mandíbula sem muitas falhas em apenas duas semanas de crescimento. Lhe ofereço um sorriso amarelo ao me por de pé, voltando a limpar meu vestido com as mãos nervosas, agora que enfiei minha varinha no coldre da capa. Sirius está perfeito, o seu rosto quase parecendo severo com a profundidade das mudanças em minha aparência. E aí, quando ele encontra meu olhar questionador, implorando por sinais de que escolhi o vestido certo, ele se desfez em um meio sorriso repentino e confiante.
- , você está... – Ergo a minhas sobrancelhas, o desafiando a encontrar as palavras exatas. Sirius Black afasta os lábios, balançando a cabeça. Eu tive a satisfação de ver seus olhos bem largos por apenas um segundo antes de controlar sua expressão, um sorriso de boca fechada ao me olhar de cima a baixo, demorando-se na capa que ele havia comprado para mim há alguns meses. – Impecável. – Me curvo em cortesia, assim como a personagem do livro de nosso afilhado. Dessa vez o sorriso que o maior me oferece é mais genuíno, sua mão pousada no ombro de Harry. – Não pensei que ficaria tão bem em um vestido assim. Você está linda, . – Imagino que minha face está brilhando de tão vermelha, mas tomo os elogios com certa confiança, afinal é a primeira vez que meu amigo parece tão envergonhado ao elogiar uma mulher. Já o vi em ação diversas vezes e as pausas antes de falar são novas. Ele acena com a cabeça, decidindo o que falar. – De tirar o fôlego.
- Também não está nada mal, Sirius.
- E eu vou pegar outro pirulito...
- Harry!
Ralho quando o menino desaparece atrás do sofá, meus ombros caindo pois não há nada que possa parar a pobre criaturinha quando açúcar encosta em sua língua. Levo a mão para minha cabeça, inclinada a apertar meus cachos, mas não os encontro. Percebo então que Sirius está pendendo para a direita, interessado em encontrar o meu cabelo em minha costa e aproveito-me que está tão entretido para analisar suas vestes. Sirius tem uma origem longe de ordinária, um puro-sangue. E não importa quanto couro ou roupas trouxas use, jamais irá escapar disto. Mesmo com o incrível terno trouxa de cetim negro e forro vinho, salientado pelo lenço em sua lapela. Ainda que odeie toda a fortuna e privilégios que vieram com os Black, é obvio que ainda reteve todas as classes de etiqueta e lições sobre eventos sociais e vestimentas. Sirius sempre foi um rapaz charmoso e, mesmo em sua idade adulta, isso não parece ter mudado.
Céus, nós só temos vinte e poucos anos, como isso mudaria?
- Harry, pegue um lencinho, a sua tia está babando! – Reviro os meus olhos com o anúncio, mesmo que seja o ato mais deselegante do mundo e eu já tenha ordenado Harry que jamais copie meus maus hábitos. – Agora, vamos falar de algo bem sério. – Meu marido dá uma risada baixa, enfiando a mão no paletó e removendo uma caixa de veludo. – Eu não quero gritaria, caixas voando em mim e cara feia. – Aperto minha boca para não sorrir, o veludo azul escuro chamando minha atenção. Sirius está sério quando gira o dedo, pedindo que eu dê uma volta.
- Eu não gosto destes presentes. – Observo quando Harry zarpa para a cozinha.
- O que eu disse? – A caixa se fecha, um som abafado da madeira.
- Gritaria, caixas voadoras e cara feia. – Esclareço. – Ódio ainda está permitido.
- Eu odeio você. – A mão em meu ombro me faz parar de esticar o braço para trás, buscando alguma dobra em seu colete a fim de beliscar qualquer gordurinha que tenha remanescido após o seu treinamento para tornar-se um auror como eu. O reflexo de nossa profissão espalhando-se por todo o seu corpo comprova que não há. – Para cima, Tessie. – A ponta de seu dedo encontra meu queixo, o erguendo. Meus olhos estão bem abertos quando a armação elegante do colar de ouro pousa sobre minha clavícula, descansando abaixo de minha garganta.
- Sabe que eu tenho um monte de joias, certo? E esta é mais uma para a coleção absurda que você me deu. – Comento ao encostar o queixo no peito para dar uma olhada no presente. – Prometo comprar outro disco do Beatles para você só no intuito de compensar isso. Ainda não achei o White Album, mas juro que é o seu próximo presente de aniversário de casamento.
- , essa é a nossa primeira aparição pública em nome da família e não como funcionários do Ministério, então o mínimo que eu posso fazer em recompensa pelos olhares de desgosto que vai receber hoje é te dar um colar. – O bruxo murmura para mim, sua respiração soprando minha nuca, quente em comparação a joia fria. Tão fria como a sua voz ao mencionar a possibilidade, os dedos fechando o colar acariciando minha pele em um pedido de desculpas, a joia infeliz sendo um pedido de desculpas em si. – Mas, aceito o White Album, claro. – Dedilho a corrente, meu peito inflando para acomodar o máximo de ar, agora que a possibilidade de sair na capa do Profeta Diário me assalta. – E também vou implorar que não peça o divórcio depois disso, pois ainda temos 13 anos até o Harry atingir a maioridade e eu não consigo imaginar essa casa sem você gritando conosco.
- Está tudo bem, você sabe. – É uma mentira, mas não consigo pensar em nada que lhe garanta que estou ciente do que iremos enfrentar em alguns minutos. – O que disse a você dois anos atrás ainda é verdade para mim, Sirius. – Corro a língua por meus lábios, encontrando certa verdade por fim. O dedão de meu amigo está encostando em minhas costas, mesmo com os outros dedos curvados em meu ombro. – Deixe que falem o que quiserem, mas o nome não me incomoda mais. Nunca incomodou. – Ainda assim, não abaixo meus olhos para o presente, mas sinto a forma delicada do colar, cascateando por meu peito e com um pendente de uma pérola macia e oval. – E eu tenho certeza de que vai dar tudo certo e, se não der, culpamos o Harry e a possível overdose de açúcar que o pirralho vai ter. – O sopro em minha orelha vem da risada forçada dele.
Aperto sua mão em meu ombro.
- Só não quero que se sinta inferior àquela gente quando estiver do meu lado. Já basta os repórteres questionando você sobre “Mais um Black no Tribunal da Verdade” como se isso fosse problema seu. Ou nosso. – O jovem Black explica-se quando me viro em sua direção, minha imediata atenção sendo roubada pelo fio que escapa do penteado em seu cabelo longo. A distração me impede de atender o seu olhar apologista, minhas unhas acariciando seu cabelo ao enfiar a mecha rebelde no lugar. – Mittens... – Abaixo a destra, suspirando antes de concordar com a cabeça, evitando olhá-lo mesmo com os inúmeros motivos que possam parecer válidos para ele. – , tem certeza de que quer mesmo ir para essa festa? Com a insuportável da Rita zanzando de lá e para cá? E a Bagnold enchendo o saco? – Mordo minha língua, suprimindo minha resposta ao encarar a expressão esperançosa de Sirius. – Podemos ficar e fazermos aquelas pizzas congeladas que você comprou no mercado trouxa.
Endireito a gravata vinho de seu terno.
- Eles falariam de uma maneira ou de outra. – Comento sem dar muita importância, confortada por meu presente. – Se formos, somos indelicados. Se não formos, somos desgarrados do Ministério que nos acolheu. – Balanço a cabeça, irritadiça com as opções que nos oferecem. Amacio a lapela do terno, as dobrando com precisão. – E eu não sou inferior a nenhum deles da mesma forma que você também não é, querido.
Sirius dá de ombros.
- Nunca disse que eu era.
Puxo a sua lapela com força e percebo seu sorrisinho sacana.
- Idiota.
Um suspiro exasperado nos desperta e nós abaixamos os olhos para Harry.
- Eu não acredito nisso! – Ele marcha até a lareira, tateando a prateleira até encontrar o que quer. Retornando com um sorriso convencido, o rapazinho ergue Pote do Palavrão para nós. – Um galeão no pote, tia. – Troco um olhar horrorizado com um Sirius que se esforça para não rir na minha cara. “Idiota não é palavrão, Hazz!” O bico a lá Lilian Evans retorna, agora tremulando, mão livre estendida para nós com petulância digna de um Potter. A falsa inocência também. – Então um pirulito, por favor!


Capítulo 5

(Good ol’days)
1984 – CELEBRATORY PARTY:

- Por favorzinho... – Harry Potter implorou para os padrinhos, olhando para cima enquanto os três caminhavam pela festa. – É rapidinho, tios. O Oliver disse que ia me contar tudo do jogo! E a Dora também veio! – Continuou a tagarelar, mesmo com a mão segura contra a da tia e algumas caretas mau educadas para os bruxos bem arrumados que lhe olhavam de soslaio, conhecedores de sua história, mesmo que o menino não se importasse e só quisesse encontrar os colegas alguns anos mais velho. – Vamos, tia ! A Dora ia me trazer uma bandeirinha de quadribol de Hogwarts!
Black abriu a boca por um segundo para cumprimentar Amélia Bones e cometeu o erro de lhe estender a mão, tempo necessário para Harry zarpar pelos bruxos atrás de Ninfadora Tonks e Oliver Wood. Dora era considerada uma prima, enquanto Wood era apenas o garoto legal e filho de auror que conversava com Potter sobre quadribol; o suficiente para conquistar o menino. Com sorrisos amigáveis, apertares de mãos e comentários secos quanto a possível audiência de Bellatrix Lestrange que ocorreria em alguns dias, os Black se despediram dos Bones após falarem sobre a graciosidade da pequena Susan que Sirius havia visto algumas vezes brincando com Harry na escolinha.
Sirius virou-se para lançar um olhar disfarçadamente ansioso e temeroso para a esposa, mão cuidadosamente sobre sua coluna e rosto a meros centímetros do cabelo dela enquanto conversavam baixo sobre a movimentação intensa de aurores e bruxos nobres ao redor deles. , tão quieta e invisível como pode, agarrou a barra do terno do marido, confortando-se nele. Nestes momentos públicos e que considerava falsos, Sirius podia ouvir o martelar de seu pulso encher seus ouvidos. Horas antes teve de lutar para relembrar-se de seu próprio nome assim que a viu na sala da Mansão dos Black. Com o vestido de veludo escuro, a capa com forro vermelho e as luvas de seda negra. Quando deixou de provocar o sobrinho e a viu diante de si, os antigos cachos puxados para trás e lisos contra sua pele e as maçãs do rosto saltadas, foram necessário controle para não lhe dizer que parecia uma titã.
, segundo todos de Hogwarts, era uma das mais bonitas bruxas da Grifinória. Uma apanhadora, aluna e duelista perigosa para as outras casas devido a sua facilidade em dar-se bem em tudo e conseguir se safar de qualquer encrenca. E ela, surpreendentemente, não precisava ser baixa para ser bela; talvez apenas uma cabeça mais baixa que o próprio Sirius e uma e meia abaixo de James e Lupin. Também possuía músculos fortes por baixo do tecido luxuoso. Ele se surpreendia que houvessem tantas características contrárias à sua personalidade delicada com o sobrinho e com ele mesmo na maioria das vezes.
Gostava de rir ao pensar nisso.
Mas já se faziam alguns anos, e havia aprendido desde cedo a engolir as palavras que gostaria de proferir e transformá-las em farpas, amigáveis ou não. De alguma forma, no momento, os dois conversavam sobre Rita Skeeter que pipocava de um lado para o outro do salão, escondendo-se na penumbra de tapeçarias e grupos apertados de bruxos para ouvir as melhores fofocas. lhe deu um sorrisinho com as bochechas rubras e Sirius engoliu uma golada de vinho desejando que fosse veneno. Por Merlin, ela devia estar enjoada por estar rodeada por gente tão diferente dos dois e ainda assim o olhava daquela forma e não demonstrava desconforto de forma evidente.
- Estou surpresa que ela não nos agraciou com sua presença, mas creio que estamos longe de reclamar, certo? - perguntou, piscando com os longos cílios flutuando no rosto com asas de um miúdo pássaro. O marido entortou o lábio em desdém e ela sorriu para ele, garantindo-lhe que Sirius jamais havia visto alguém com olhos iguais os dela: ardentes como brasa ainda que doces como o vinho que pintava seus lábios.
Novamente, Black engoliu suas palavras e deixou que violentassem seu estômago.
- Não sei, não. – Disse ele, mais próximo do ouvido da esposa, o cheiro de seu perfume trouxa enchendo as narinas dele da forma mais deliciosa possível. cheirava ao lar dos dois. Ou a casa cheirava a ela, Sirius imaginou com acidez. – Você se surpreenderia com o que ela é capaz de fazer por uma matéria de capa. – visivelmente parou no lugar após a aproximação e quase cobriu a boca quando o homem deu batidinhas com o punho fechado no osso de seu quadril de maneira sutil.
O Maroto acenou com a cabeça para a prima que se aproximava, Harry e Dora com ela, assim como Teddy Tonks. manteve-se quieta para o próprio bem, ainda que sentisse necessidade de bater com a cabeça na parede para esquecer-se do que o amigo havia insinuado sobre Rita. Mas quem queria enganar? Já era esperado da repórter que se divertia em escrever as árvores genealógicas bruxas e colocava um enorme ponto de interrogação abaixo de .
- Sorria e acene, meu amor. – Ele continuou sarcástico quando observou o fotógrafo do Profeta Diário se aproximar pela lateral de um grupo que se reunia próximos à fonte de bebidas. Sirius apertou os dentes quando os ombros de sua amiga se tencionaram antes de erguerem-se, assim como seu queixo e o peito inflou a assumir a postura para as fotos que seriam capturadas assim que cumprimentassem as outra ovelha negra dos Black. Sirius Black, o único herdeiro da nobre casa, tensionou a mandíbula ao erguer a sobrancelha para a prima tão acostumada com os holofotes de mau-gosto como ele. Andromeda Tonks o imitou e antes que a primeira fotografia fosse completada, Padfoot adicionou com escárnio para : – Vamos colocar as desonras da família na primeira página, Mittens.
*

arfou quando Thomas a beijou com ardência, removendo-se de dentro dela e mordiscando os seus lábios avermelhados com mais força que ela consideraria ideal para um pós-sexo como o que tiveram. Mas era assim com ele: rápido, duro e as vezes exaustivo física e emocionalmente. Apesar disso, o auror gostaria de crer que possuía capacidade para encontrar paixão no sexo penoso e levaria a dor e vergonha de não ter conseguido achar tal competência própria até o túmulo. Desatenta, ela removeu a mão do toque de Collins com rispidez, cobrindo o pulso avermelhado com o emaranhado de mantas ao seu redor, os fincando com as unhas e encolhendo os ombros com um mordiscar dolorido. Foi bom, Black suspirou para si enquanto se fundia nos lábios finos de Thomas e retribuía o selar. As vezes o sexo puramente físico e sem compromisso era o que ela precisava após uma noite tão ética com pessoas que a odiavam e ter Thomas sempre ali, no mesmo departamento e círculo social, era vantajoso.
Black quebrou o beijo com um apertar amargo de sobrancelhas, assim que Collins encostou em sua palma e quase tocou em sua aliança, repelindo-se por conhecer o seu lugar ínfimo na vida dela. Ali estava outra vez o sentimento de pertencimento que a auror odiava. Como se, devido ao casamento, seu corpo e mente pertencesse unicamente a Sirius Black quando ambos sabiam que o dele não era propriedade dela e vice-versa. Mas sentia-se mal de qualquer forma, como se aliança comprada junto a ela em um ourive trouxa – sem o fio de unicórnio no átrio ou joias das famílias fundidas – significasse mais que apenas o selo de sua mentira pública pelo sobrinho.
- Perdão, . – Thomas sussurrou com a voz baixa e ergueu a mão para que descansasse sobre a costela dela – logo abaixo dos seios nus – e não na mão enlaçada com a aliança. – Você está bem?
De todos os homens com que havia dormido no último ano, desde trouxas estranhos até aqueles que acreditavam que ela os ajudaria a atingir o sucesso no Ministério, Thomas Collins foi o mais inesperado e duradouro. Após algumas missões juntos, a química foi obvia e lhe contou a mentira do casamento infeliz que havia treinado em casa com o amigo que lhe deu até mais apoio que ela gostaria. Contou a ele ainda amava Sirius e que, oh, o marido não a amava como antes e seu coração se partia mais e mais todos os dias que lhe negava amor. Assim, o pobre auror caiu em uma teia de mentiras. Em meio a risadas e garrafas de licor durante uma madrugada no escritório dela, apenas conseguia se recordar do borrão que sua visão tinha se tornado e de como soou como uma vadia quando ele a tomou por trás em sua mesa.
Agora, o acordo de confidencialidade era mais um trato entre amigos, pois o próprio Collins não estava mais abaixo dela na hierarquia do Ministério e eram iguais. respirou fundo e enterrou os dedos longos no cabelo louro escuro de Collins antes de beijar-lhe de novo para fingir que ele estava calado antes, seus lábios até mesmo já doloridos pelo excesso de ósculos. Thomas salpicou beijos rápidos na boca e queixo dela antes de se afastar e ela murmurou:
- Você parece feliz.
suspirou satisfeita por conseguir contornar sua crise ao analisar a expressão alheia.
- Você também. – No divã do escritório da casa de Thomas, ela puxou a manta para cobrir-se enquanto ele vestia a calça de novo.
- Foi um bom exercício. – Black comentou. – Cárdio, se não estou enganada. Só que mais divertido, claro.
quis rir pela pressa de Thomas de juntar-se a ela de novo e mordiscar sua orelha, o joelho entre as pernas dela e o cabelo esmagado na mão de Tom. Mas, ainda que reagisse como esperado aos estímulos dele, ainda sentia a pressão da culpa em seu peito; afinal, Sirius e Harry estariam se preparando para dormir enquanto transava com seu "amante". Oh, como sua mãe sentiria vergonha dela.
- Vai ficar para o café? – Tom indagou com certa esperança a qual Black não via problemas em esmagar.
- Eu vou fazer o café, Thomas, mas não para você.
O empurrando com a força necessária para tirá-lo de cima de si e despejá-lo do outro lado do móvel, Black se pôs de pé e, em uma amostra de seus poderes convocou as roupas para seu corpo com um estalar de dedos. Haviam motivos para ser conhecida como melhor aluna de Hogwarts em feitiços sem varinha. Assentando o cabelo que não teria mais jeito e engolindo duramente contra o colar que havia ganhado do marido, ela sustentou o olhar de um Collins incrédulo e largado sobre o divã azul escuro. E como ele ficava elegante dessa forma, a explosão de atração física também sendo um fator para seu relacionamento torto com o homem. Inclinando-se para beijá-lo de novo, Black desviou o rosto e lhe ofereceu uma vista de seu decote generoso enquanto tomava um punhado de pó de flú na mesa atrás do auror que gargalhou de sua provocação. Sentiu a barba escarça dele em seu peito quando a beijou abaixo do colar.
- Até segunda-feira, Collins. – Com uma piscadela e o anuncio de “Mansão Black”, sumiu em labaredas azuis advindas da lareira.

1984:

- Tio, eu posso descer no escorregador?
Sirius Black afasta um amontoado de cabelo do rosto e ergue a cabeça do relatório que o ocupava antes de realmente conseguir prestar atenção no afilhado. É uma tarde longa de sábado, daquelas que parecem que nunca vão acabar e o seu turno de babá também não, agora que está presa em uma missão com Vance. E Harry, que ficou sob sua responsabilidade, está de pé no topo do playground que insistiu até que o tio comprasse algumas horas atrás. Ele não sabia como explicaria a nova aquisição para , mas daria um jeito. Ela sempre odiou que mimasse Harry, porém, como não o faria?
Harry é, indubitavelmente, a criança mais perfeita do mundo nos olhos do padrinho coruja. A mais educada, engraçada e perfeita criança. Sirius recusa-se a assumir que teve sentimentos mistos quanto a gravidez de Lily, decidido a manter a vergonha disso para si só. Estava feliz por seus amigos, claro, contudo, se perguntou se não eram jovens demais; preocupado se começarem uma família era o ideal no ápice de uma guerra. Certo, não era só isso: ele não estava tão feliz com a ideia de seu amigo se tornar um homem de família tão rápido. Potter ia com ele para festas na juventude e o apoiava em ideias estúpidas, o suficiente para não suportar a ideia de perder o parceiro de tantos anos para um bebê cagão. Porém, quando James colocou o Harry nos braços de Sirius, foi como se um peso houvesse sido erguido de seus ombros. Imaginou que, talvez, ele finamente havia encontrado uma representação física desse "amor familiar" do qual todos falavam.
- Paddy! – O pequeno Potter exigiu a resposta com um bico.
Então o afilhado se embalou de um lado para o outro, o sol de quatro da tarde atravessando os fios negros e bagunçados, o tornando claros e castanho avermelhados. Quase ruivos. Os olhos claros como a grama abaixo de seus pés o faziam parecer um anjo reencarnado, ainda que sua amiga o houvesse explicado o conceito e ele não entendesse muito da religião ou as representações, pois Harry, naquele momento, parecia uma certa ruivinha. E logo que sorriu, o sorriso largo, aberto e maroto de Harry, Black pensou estar tendo uma visão do paraíso.
James e Lilian Potter sorriam para ele. Prongs e Lily sorriam para o amigo e padrinho do filho, aquele sorriso conhecedor que os dois dividiam quando o viam com o pequeno no braço. Naquele segundo, não havia nada mais importante que seu afilhado sorrindo. O jovem auror engoliu o sentimento melancólico como um bolo massudo, o forçando para dentro do peito antes de assentir. Harry não viu problema em cair de bunda no escorregador antes de descer, mãos enfiadas entre os joelhos e cabeça para trás ao gargalhar quando assentou-se na grama segundos depois da descida. Sirius não via graça alguma em escorregadores, não quando vassouras existiam e motocicletas voadores também, mas nunca diria isso para o garotinho que correu em sua direção e pisou nos relatórios de Olho-Tonto Moody.
- Posso ir de novo? Por favor, padrinho, por favor!
Novamente, ele não sabia como dizer não.

1985:

- Walburga morreu.
O coração de vacilou uma batida.
Padfoot estava curvado sobre a mesa dela, o rosto do marido tão perto e ainda tão emocionalmente distante que foi doloroso buscar por uma mentira inexistente ali. Ela não abriu a boca antes de dar um basta em sua pena de repetição rápida, a jogando em uma gaveta antes de tentar encontrar lágrimas ou tristeza no rosto de Black, não falhando em reconhecer a aflição estampada em sua cara que era longe de angústia. Ao longo de toda sua vida, Sirius havia disciplinado a si mesmo para não demonstrar emoções diferentes de alegria ou raiva e ela sabia bem disso, mas ele tinha quase certeza de que sua expressão não tinha mudado ao vir buscar apoio na amiga, percebendo-se incorreto ao ouvir a tensão na própria voz quando falou.
O homem podia sentir a ansiedade e o pânico pesado arrastando-se por seus pés como uma serpente até enrolar-se em seu pescoço e tornar difícil respirar, prendendo o sangue em sua cabeça prestes a explodir. E não havia outro lugar para estar quando tudo se tornava complicado se não com quem confiava e sabia que não iria rir de seu fracasso em demonstrar alegria após a morte da maldita mãe. Queria empurrar os livros de seu caminho e avançar contra , deitar rosto em seu colo e desabar como fez na Suprema Corte dos Bruxos anos atrás, mas não podia e doía se segurar. Seu peito, sua cabeça e olhos super estimulados pela luz doíam e pesavam. Só pensar em Walburga fazia tudo doer e ele estava certo de que poderia vomitar em , mas precisava dela e de seu toque.
Tec, tec, tec. Este era o peso de sua origem tamborilando na mesa da mulher, o tremor nervoso de sua mão forçando o anel da Mui’Nobre e Antiga Casa dos Black a atingir a madeira repetidas vezes. Sirius não suportava a realidade que lhe foi concedida após anos em Grimmauld Place. Não suportava que aos 24 anos, quase 25, a menção de sua mãe o deixasse ansioso e como uma criança. Ele odiou ser criança. Odiou se ajoelhar diante dos pais para ser punido; desde Crucios disfarçados de aprendizado e dores de um futuro homem, até ser trancafiado no sótão empoeirado com retratos de seus antepassados e o seu Bicho Papão que o pai soltou por falar em um momento indevido com visitas. Haviam cicatrizes por todo seu corpo, mas os retalhos que mantinham seus problemas presos em uma rede em seu subconsciente, ah, essas eram mais dolorosas.
Walburga Black, sendo a vadia manipulativa que sempre foi, lhe diria que "Jamais iria o machucar. Que isso era para o seu bem. Todos os pais faziam aquilo com os filhos. Que deveria sentir-se orgulhoso das cicatrizes – elas eram o sinal de uma boa educação." Mas ele soube, tarde demais, que pais normais não faziam isso. Não atingiam a perna dos filhos com a bengala de carvalho e deixavam hematomas roxos, os estuporavam quando derrubavam comida no chão pois estavam exaustos depois de apanhar ou viravam as costas quando era enviado para a “casa errada” e queimavam seus pertences da Grifinória que havia ganhado de James.
Sirius se odiou no primeiro e segundo ano de Hogwarts. Pois era culpa sua que o tratassem assim e sua família sentisse vergonha dele e o vissem como uma escória pois “ele não fazia nada certo”. E conforme o ano letivo terminava, a ansiedade o incapacitava ainda mais. Ápices de irritação, quietude e comportamentos repetitivos como tremer a perna e roer as unhas até ficarem em carne viva. E era neste ponto que os amigos entravam em ação, Lilian e enfaixando seus dedos enquanto Remus jurava que mataria os pais dele na próxima chance que tivesse. Mas o tremor e o enjoo não passaram com os anos e Sirius sentiu raiva de como o medo primal da mãe afligiu o seu corpo após anos.
- Sirius, oh, meu querido...
se levantou tão abruptamente que quase derrubou a cadeira. A nova Madame Black odiava Walburga e Orion com toda a fibra de seu ser e o que sobrasse de sua alma. Odiava que um dia houvessem encostado um dedo imundo em Sirius, que o houvessem feito sentir-se sem valor e um fardo a todo instante. decidiu que odiar não era uma palavra tão má quando direcionada aos Black no dia que Sirius aparatou até a sala dos Potter quase sem respirar. E mesmo querendo arrancar os olhos de Orion, manteve James calmo quando o cínico pai do melhor amigo surgiu na porta dos Potter. "Amor duro que ensinaria valores a bruxos merecedores" ele disse. "Amor duro" que havia feito Sirius sangrar e engasgar-se. Ela entendia o que isso significava. Eles gostavam de usar Incarcerous em Padfoot, com cordas saindo da varinha deles e o cortando a respiração do próprio filho por tempo suficiente para desmaiar por não poder se proteger. E ela jurou impedir que tocassem nele de novo, mesmo chorando nos braços de James durante toda a noite e precisando ser acalmada por Euphemia Potter e chocolate quente enquanto convocavam Andromeda Tonks e seu noivo medi-bruxo para tratá-lo.
- Acabou. – Foi o que ela disse, num ato egoísta de auto reafirmação. – Sirius, acabou.
Sirius a abraçou com força, puxando seu corpo contra o dele até que suas costelas doessem devido ao choque delas sempre que respirassem. Queria estar em . Longe do Ministério e Walburga que o atormentava tanto em vida quanto em morte. Ele gostaria de estar enfiado entre as costelas da esposa, deixando que ela respirasse ao seu redor, pois era difícil demais que ele o fizesse. Queria descansar contra o seu coração onde sabia estar seguro e ouvindo sua voz em sua cabeça como uma melodia de Frank Sinatra, o trouxa favorito de com músicas melosas. Queria estar nela e em paz, não na mesma agonia de um náufrago que se perde no oceano vasto, pois sentia-se tanto livre quanto aprisionado na morte da mãe. Por um segundo, Sirius Black se questionou se algum dia Walburga e Orion morreriam também em sua mente e seus maus-tratos largariam sua pele enfim.

1986:

Quando o primeiro trovão soou, ouviu o adicional som de uma porta disparando aberta em tempo recorde. O primeiro instinto da mulher foi se encolher na cama, lançar o livro no chão e forjar um ronco alto, ainda não tendo se desfeito dos hábitos de adolescente. Primeiro a mãe, então Minerva McGonagall no dormitório, logo depois Euphemia Potter – todas as mulheres que acordavam no meio da noite para garantir que estava dormindo e a flagraram mais de cinco vezes com um livro e a varinha, lendo debaixo das cobertas. Mas, no momento, não teve tempo de reagir com exagero, não quando batidas incessantes e com um ruído miúdo soaram na sua porta pesada de madeira. Apanhando a varinha do criado-mudo, ela abriu a porta para o afilhado.
- Ah, meu amorzinho, o trovão acordou você?
Harry Potter assentiu, o bico tão grande que encostou no queixo, a luz acesa do quarto reluzindo nas lágrimas de diamante em seus olhos. Do topo da cama king-size, pôs mãos e pernas para fora do cobertor, não hesitando tomar o garotinho de quase seis anos nos braços. Hazz costumava cair no sono com facilidade. Ela e Padfoot tinham a rotina do pequeno bem estruturada. Em princípio, seu elefantinho de pelúcia precisava estar em seus braços, logo depois ele apanhava o cobertor e encontrava algum dos padrinhos. Não precisava dizer nada para que um dos dois pegasse o cobertor dele e o carregasse. Ambos tinham as suas preferência.
Hazz amava dormir com o cobertor morno pois dizia se assemelhar a um abraço quentinho. Então, Sirius Black esquentava o tecido com um feitiço de vapor e cantarolava algo do Black Sabbath para Harry até que estivesse morno. Black jogava na secadora por dez minutos e permitia que o próprio Harry murmurasse letras aleatórias de músicas (Algumas envolvendo bacon e panquecas e sapos de chocolate, até). Por fim, um dos dois o levaria para o quarto e o colocaria debaixo das cobertas enquanto preparavam o show da noite. Desde A Princesa e O Sapo até histórias clássicas para bruxos, encenando tudo para o afilhado.
- Acordou, Mitty. – Harry choramingou o apelido dela, agarrando-se ao pescoço da madrinha com os braços finos e deixando-se ser carregado para a enorme cama. O tom quebrado da voz da criança partiu o coração de . Ela abraçou o garotinho com força e beijou seu cabelo bagunçado, acariciando a costa e os braços dele, tentando ocultar-lhe que a tempestade estava apenas começando. – Eu quero ficar com a senhora, tia. Posso? – Agora, imagine cada letra R trocada por um L manhoso, o pequeno Potter tendo herdado a dicção um pouco falha do pai. beijou suas bochechas úmidas ao relembrar-se quantas vezes chutou o marido quando estava prestes a rir do sobrinho ao falar algo errado.
- Pode sim, Hazz. – Autorizou com um beicinho para provocá-lo, mesmo que o medo da chuva lhe distraísse das brincadeiras da tia. O segurando no colo, ela moveu os travesseiros e o resto das cobertas para seu conforto. – Mas você sabe que não precisa ter medo da tempestade, certo? – O olhou de esguelha ao remover algumas almofadas desnecessárias. Harry estava aprendendo a não chupar mais o dedo, porém ainda sentia vontade de fazê-lo, principalmente quando se sentia desconfortável. Mesmo assim, o bruxinho se negou a ceder aos desejos e concordou com a cabeça, o dedo erguido só para garantir. – Sabe que eu e o Paddy estamos aqui para proteger você, não sabe?
- Mas barulho é muito alto, tia! – Justificou, apontando para a janela. sorriu.
Enquanto se acomodava na cama, o elefantinho preso debaixo do braço, Harry suspirou ainda apreensivo, sabendo que mais sons altos viriam. Ele entendia por que a sua tia Mittens não tinha medo da chuva ou dos barulhos altos que o faziam tremer; ela era a pessoa mais corajosa do mundo! O seu tio Padfoot também! Eles capturavam pessoas más e cuidavam de todos. Era isso o que ouvia na escolinha. A tia lhe dizia que os levava para um lugar longe onde não podiam mais machucar ninguém, mas ele gostava da versão do tio, em que lhe dizia que explodia pessoas más como os fogos de artificio da Copa de Quadribol.
- Está aconchegado? Quentinho? – indaga, afastando o cabelo do rosto de Harry, o suficiente para revelar a cicatriz em sua testa que a incomodava. Potter assentiu com a cabeça, apertando ainda mais a pelúcia no peito e aconchegando-se na tia, buscando o calor de seu corpo. Ela evitou pensar o que faria quando ele estivesse grande demais para caber em seus braços. – Vamos dormir antes que os trovões voltem?
- Tá bom! – Harry fechou os olhos com força e se apertou, o suficiente para fazer rugas no rosto. – Rooooonc! – abaixou a cabeça no travesseiro para não gargalhar dos trejeitos do menino, o exagero natural vindo de suas interações com o tio nas vezes que Sirius (exausto do trabalho ou uma tarde de jogos) o mandava dormir e Harry, ainda de pé, fechava os olhos e fingia roncar. Sinceramente, ela não sabia qual dos dois tinha cinco anos.
- Seu engraçadinho! – Ela fez cócegas na barriga do garotinho maroto, arrancando risadas molengas e preguiçosas dele. Diferente dela e Sirius, Harry dormia quase no mesmo horário todos os dias, então tinha razão em já estar com sono. cobriu o corpo de Harry com o mesmo edredom que ela, afofando o travesseiro do garotinho e pondo a mão em seu peito antes de também relaxar na cama. Talvez, quando o sobrinho já estivesse dormindo, poderia voltar a ler ou não, mas iria aproveitar o pequeno por mais um tempo. – Pronto. Agora nós vamos dor...
- HARRY? – De imediato, os dois reconheceram o chamado exasperado. Potter, maroto como sempre, se escondeu debaixo das cobertas, mas a Madame Black ergueu-se da cama rapidamente em alerta. Seu coração afundou com o grau de nervosismo na voz do marido. – HARRY! – Sirius guinchou a dois quartos de distância. O tremor óbvio de sua voz queimou a cabeça de como um carvão em brasa e sua reação foi a mesma de antes, pondo as pernas para fora da cama e se sentando. Ela não zarpou de imediato pois dedos pequenos se curvaram em seu pulso.
- Tia? – A voz do sobrinho pareceu distante. – O Paddy está bem? – Potter questionou em toda sua inocência.
Black balançou a cabeça e pediu que ele a esperasse.
Sirius se movia como uma criatura selvagem no quarto do afilhado. Suas costas estavam empapadas com unguento grudado em gases e esparadrapos, rastros de sangue seco e ora fresco. A camisa social estava caída no chão em trapos ensanguentados e ele pisou nela quando arfou com a voz embargada, empurrando com força as portas do armário de Harry, a costa da mão pressionada em sua boca para não emitir mais som nenhum além do relógio tremendo em seu pulso. O homem deu passos desengonçados para trás, tropeçando nos pés pesados e grudados no chão.
Harry sumiu. Não estava no banheiro, na sala ou na cozinha. Não entraria na biblioteca sem autorização. Nem no escritório deles. Ou no porão. Era noite e Fenrir Greyback estava à solta. Black o viu na ronda e agora Harry não estava mais em sua cama. O conjunto desesperador trancou a garganta de Sirius, densa como uma bola de bilhar. O auror precisou enterrar os dentes no lábio para não sucumbir ao terror, puxando os cabelos entre os dedos ao tentar respirar. Como deixou isso acontecer? Como não voltou para casa no mesmo instante? Moody, maldito Moody! Moody o forçou a ficar no hospital e ser tratado enquanto Greyback invadiu sua casa e degolou sua família! Sirius esfregou o rosto, pescoço e então os ouvidos já rubros, boca aberta para respirar enquanto o eco dos possíveis gritos desesperados e doloridos de não deixavam sua mente em paz.
- Sirius? – conseguiu sussurrar de seu ponto imóvel junto à porta.
Black engoliu em seco, inutilmente amenizando a expressão enquanto sentia que a cabeça iria estourar pela pressão, o estômago se revirando e a face vermelha não o ajudando. Seus olhos se abriram de supetão, e ele tinha certeza de que a veria ensanguentada e agarrada ao vão da porta, sem forças para se mover ou pedir por ajuda. Sirius quis vomitar com o pensamento horrendo, arrepios correndo por sua pele como insetos, não querendo aceitar a possível realidade. Mas ela estava ali, em seu pijama de seda e com o cabelo preso no topo da cabeça, pele limpa e sem sinal nenhum de ferimentos. Sã e salva. E outra vez ele não conseguiu parar.
Ele correu direto para ela em uma rota de colisão, a boca aberta de angústia. Suas mãos estavam parcialmente estendidas, e ele tropeçou na própria peça de roupa largada no chão. Sua expressão não era mais de terror, e sim de desespero. Como iria lhe contar? Como ela reagiria? não entendeu o que ele estava fazendo, mas não o parou, os olhos enormes arregalados ao ser apalpada pelo marido com lágrimas estancadas e mãos nem um pouco gentis. Quando conseguiu formar uma frase no meio da revista nos antebraços dela, informou à bruxa perplexa sobre a escapada de Fenrir e sua aparição em Richmond, sobre os restos encontrados de alguns trouxas. Sobre Greyback e seu apetite selvagem, a fama por atacar e violentar crianças pequenas, e Harry. Harry que não estava em sua cama e nem no armário.
Greyback tinha levado Harry Potter, ao menos era o que imaginava.
Então, devagar e gentilmente, o fez respirar, rosto próximo ao seu para saber se realmente não perderia a cabeça de novo pois Sirius jamais a arriscaria machucar e ela sabia. Com calma, explicou cada detalhe da noite para o marido que não quis olhar em seu rosto, uma humilhação morna que fez a sua cabeça pesar. Ela lhe contou sobre o jantar, sobre colocar Harry para dormir e sobre a tempestade que viria. Sobre os trovões que o acordaram e como ele foi para sua cama. Mas não tirou sua razão momento algum. o abraçou por longos minutos, segurando seu rosto no ombro dela e evitando tocar em sua costa ferida. Ela o forçaria a contar de onde os ferimentos vieram, mas não agora. Seu principal foco era acalmá-lo e provar que estavam seguros, que a dúzia de feitiços de proteção nas terras dos Black estavam intactos e que ela protegeria Harry com a vida se algo acontecesse.
- Mitty? Paddy?
A sessão se finalizou quando o garotinho surgiu no quarto, arrastando o lençol enorme da tia pelo corredor e com a pelúcia enfiada debaixo do braço. A mão delicada e reconfortante de permaneceu na nuca suada de Sirius quando ele levantou o rosto para o sobrinho. Sirius Black, em 26 anos, nunca se sentira tão esgotado. O trabalho o exauria mais do que havia imaginado inicialmente e ele passara o dia acordado a noite lutando com lobisomens famintos e selvagens prontos para fincar os dentes em sua carne e devorarem-no. Tinha manchas de sangue no rosto de sua queda de uma janela do prédio abandonado onde as criaturas haviam se instalado e um caco de vidro na perna que lhe doía ao andar. No entanto, ao ver Harry não apenas vivo, mas intocado, se esqueceu do cansaço e sentiu o rosto se formar um semblante inevitável de alívio.
- Tio? É o senhor?
A mão que estava sobre o cotovelo de , sua viva e imaculada , se estendeu para o garoto que se juntou ao abraço desengonçado dos dois. Harry encostou-se na perna da tia, que apoiava o corpo cansado se Sirius entre ela e a parede, um aperto seguro no braço do outro auror. Um metro e oitenta de ossos grandes e músculos firmes dependendo dela.
- Só o corpo, moleque. A alma já foi.
Banhado e com os curativos inúteis no lixo, Sirius Black se arrastou para o quarto da esposa como ela havia requisitado, para dormir com ela e Harry pela noite. Não era algo novo para eles, já tendo dividido a camas várias vezes, mas sempre quando estavam em missões. Mesmo assim, não ousou invadir os aposentos de antes de bater na porta, ainda que ela pudesse já estar dormindo e Hazz também. Ao se acomodar no espaço ao lado de Harry, não conseguiu evitar sentir uma pontada de vergonha. Não teria o sentido se fosse com outra mulher, mas era . Sua amiga de quase uma vida inteira e que confiava nele acima de seus terrores noturnos e permitia que ele se esgueirasse em sua cama quando ela acordava aos prantos.
Sirius não conseguiu dormir de imediato, uma mão fechada sobre o braço de Harry e os dedos de no peito do afilhado encostando em sua pele o grudando na realidade. Sua mente corria uma maratona, apagando as cenas que ele mesmo produziu no desespero, desde Harry ferido e implorando por ajuda com seu pijama de dinossauro manchado de sangue, até a mulher morta e derrotada. Não podia imaginar o que faria se algo lhes acontecesse, sua sanidade não sendo o suficiente para salvá-lo de Azkaban como foi na morte de James. Sem e o afilhado, não sabia quanto tempo aguentaria viver sozinho.
O jovem Harry respirava baixinho, a boca aberta e a língua contra a bochecha, dentes faltando aqui e ali; mas perfeito. São e salvo. Ele apertou ainda mais o garoto contra a lateral de seu corpo. Não podia descrever o que era olhar para Harry em momentos assim. Toda exaustão ofuscada pela criança que mudou seu destino assim como o de .
. Seus lábios estavam abertos, esquecida de seu reflexo de forçar a mandíbula, sempre relutante, pronta para qualquer coisa a qualquer momento. Sirius entendia como sua aparência poderia enganar os outros que não a conheciam; tão frágil e delicada até para os mais atentos, com os olhos curiosos e os sorrisos fáceis, era extremamente gentil e boa, mas Sirius tinha facilidade em reconhecer o poder bruto na bondade da amiga. Poderia compará-la a seda moldada em seu corpo; delicada e elegante. Porém quase impossível de rasgar. Reconheceria perante qualquer um que sua amiga poderia ser uma força da natureza quando seu caminho fosse cruzado e que ela também correria para qualquer bebê que visse no segundo seguinte.
Ele não imaginava que estaria caçando criaturas como Fenrir Greyback no ápice de seus vinte e poucos anos. Acreditava que estaria viajando o mundo com sua Harley, parando aqui e ali na Inglaterra para visitar Lily, James e Harry, e depois Remus e . Daria passadinhas na casa dos Pettigrew, também. Mas a realidade se tornou diferente. Passou quase cinco anos lutando para ultrapassar , no intuito de tornar-se melhor, mais rápido e poderoso, mas não imaginou que ela evoluiria ao seu lado com passadas mais largas que ele. Deveria protegê-la. Mantê-la a salvo, roubando as missões mais perigosas e convencê-la a trabalhar direto do Ministério, deixando que ele arriscasse a vida. Não ela.
- Céus, ... – O bruxo murmurou sobressaltado quando ela se moveu e pôs a mão sobre a sua, como se inconscientemente soubesse ser o tópico de seus pensamentos. Harry também a imitou, o rosto no peito do tio e mãozinha agarrando os cobertores. O rosto de Sirius esquentou devido ao toque inesperado. – Espere, Hazz... – Ele o cobriu o afilhado até os ombros e um pouco do nariz, pois Harry gripava com facilidade. abraçou a criança de novo, braço debaixo do próprio travesseiro, provavelmente agarrada a sua adaga com cabo de prata.
Como ele deveria a impedir de fazer alguma coisa sequer? Black, sua mulher e melhor amiga? Não podia. Também não conhecia outra pessoa tão genial e talentosa como ela, tão ágil, sagaz e ciente do que queria. Jamais iria a superar, mesmo tendo seu próprio espectro de genialidade, portanto optou por se equiparar a ela. Por Merlin, ele não sabia como Remus Lupin havia conseguido conquistá-la – com todo o respeito pelo amigo, claro. Ou o que Remus houvesse se tornado, seu nome invocando o mais semelhante a memórias fantasmas que Sirius sabia possuir. Black se esforçava para encontrar notícias sobre ele, não para (que não as queria ouvir), mas para si. Gostava de saber se estava bem, onde estava e como poderia contatá-lo, isso tudo antes de relembrar-se que eram estranhos no momento. Que Remus, que Moony, não o queria em sua vida e ele não era mais tão importante. Sirius mantinha o segredo mais profundo de Remus a sete chaves, mesmo tendo sido reduzido a um completo estranho. Estranho que amanheceu um amigo e se esgueirou pelas sombras no anoitecer, decidido a partir e deixá-los.
Sirius se lembrava de ter os visto felizes; ele festejou a união de e Remus. E a embalou para dormir quando ele se foi e impediu-a de o matar, ciente que cada passo a mais de Lupin para fora de suas vidas era uma mínima certeza de mais um dia que viveria em segurança e que Lupin respiraria em paz, certo que jamais iria ferir quem amava. Black não se orgulhava de deitar-se ao lado de , mas espantou a voz em sua mente que lhe forçava a relacionar-se a um amante e não um amigo.
Um contrato por Harry. Só isso.
Pensar assim tornava tudo mais fácil e ele caiu no sono.

1987:

- Podemos mandar uma assistente social para o lar dos Lupin? – sabia o quanto aquilo soaria confuso, mas não ao ponto do marido a olhar como se houvesse criado uma segunda cabeça no ombro esquerdo.
Sirius Black pareceu calado. Os seus olhares se esbarraram e em mais um instante de comunicação muda, percebeu o que ele realmente estava questionando-lhe: “Este é o momento certo para falar disto?” Subitamente a garganta de doeu, e ela olhou de volta para Sirius, torcendo para que ele conseguisse ler sua solidariedade silenciosa. O auror, já em seu sexto ano na equipe, apontou com a varinha para a porta atrás da mulher e ela fechou-se, a convidando a entrar. O maroto deslizou para a ponta da mesa e sentou-se sobre ela, braços cruzados para olhá-la. estava com a aparência esgotada, abatida e linda. , outra vez, estava linda.
O pensamento confundia Sirius. Admitir que a melhor amiga é uma das criaturas mais belas que já viu é algo que fazia com timidez, mesmo que fosse só para si. O homem já havia dormido com mais mulheres do que podia contar nas mãos de duas pessoas, e eram todas impecáveis. Rosto, pele, seios e qualquer outra característica física possível, mas nenhuma era sequer comparada a plenitude de . O cabelo provavelmente pegajoso com a sujeira dos últimos dois dias, a pele suja com poeira e a boca seca. Mesmo com quase 12 anos de amizade, ele ainda a provocava pelos fios grossos da sobrancelha, ou a antiga forma que alinhava o cabelo, como arrumava o sutiã sem se importar com olhares alheios e as olheiras. Contudo, quase todos esses traços de uma adolescente haviam sumido. havia se tornado uma mulher.
Não que fizesse diferença, é claro. É apenas , afinal.
- , do que está falando? – Questionou a esfregar o rosto sujo com fuligem, tentando não se enojar com as unhas sujas e a manga da camisa social permanentemente manchada. Ambos odiavam obscuriais. por pena da magia suprimida de crianças e sua inevitável morte, e Sirius pela bagunça que causavam ao seu redor e em seu espiral de descontrole. Ao olhá-la novamente, a esposa estava apoiada na porta, lábios presos em uma linha reta. Estava pensando em algo com força para tapar qualquer brecha em suas futuras afirmações. estava formulando cada frase que fosse proferir, decidida a tornar o seu ponto ainda mais exato.
- Eu estou falando de Lyall Lupin chegando bêbado em sua sala e arranjando ainda mais brigas com lobisomens. Somos familiarizados com o resultado desastroso da última vez. – lhe refresca sobre o boato que haviam ouvido ao retornar de uma semana fora do escritório, utilizando-se apenas de espelhos de dois sentidos para comunicarem-se com Harry e manter o objetivo da missão dos dois segura. Tudo o que a bruxa mais queria era ir para casa e abraçar o sobrinho, tirá-lo das garras da babá que o Ministério da Magia havia enfiado pela goela dos dois. Mas, mesmo assim, estava ciente que precisaria agir por Hope o quanto antes. – E Hope sozinha naquela casa, indefesa e com um bêbado a “protegendo”.
Sirius ignorou que deveria pedir a ela para falar mais baixo.
- E você acha que... – Trilhou devagar a fim de entender melhor o seu ponto.
- Eu sei! – garantiu com veracidade. Sabia como Remus Lupin se preocupava com a mãe durante o ano escolar. Sabia que Lyall nunca mais foi o mesmo desde que o filho adquiriu a condição de lobisomem aos quatro anos e também sabia que Hope Lupin – a tão boa e maternal Hope – vivia com uma bomba relógio. Ela olhou para o melhor amigo com uma súplica silenciosa, o coração apertado em razão do desconforto que as memórias protagonizadas por Remus a traziam.
Sirius entortou a boca, pois era uma questão complicada. Lyall Lupin, ainda que instável há alguns anos, era uma força avassaladora em sua pasta no Ministério da Magia. Estava no cargo há mais de 20 anos e tinha inúmeros amigos que o defenderiam e tornariam a vida ainda mais difícil para o casal no emprego. Mesmo entendendo que seu nome fazia certa diferença em severas tomadas de decisões, tornou-se clara que a eficiência dos dois havia derrubado muros erguidos pela ignorância dos outros funcionários. E Black não tinha interesse algum em reerguê-los.
- Então deixe que nós dois vamos. – Ofereceu em um tom pensativo, convencendo-se no fim da frase. suspirou, os braços ainda cruzados com força na frente do peito pois era difícil aceitar prontamente os contornos que Sirius usava para conseguir ludibriá-la. – Levamos o Harry e deixamos que conheçam ele, até.
trocou o peso de uma perna para a outra antes de caminhar para próximo do melhor amigo e arrastar a cadeira de couro diante de sua mesa. A sua consciência estava pesada por Hope Lupin, quem havia lhe oferecido nada além de carinho e respeito até mesmo antes de lhe contarem sobre o noivado do filho. Ela ainda lembra das lágrimas que beiravam os olhos da mulher, a forma que ela a abraçou com tanta delicadeza como se alguém tão especial como fosse igualmente frágil. E, foi naquele instante que percebeu o engano de Sirius. Como poderia partir o coração tão puro e gentil de Hope aparecendo em sua casa com as mãos abanando? No fundo de sua mente, sempre se indagou se Remus ousou contar aos pais sofre o fim dos dois. Sobre como escolheu sucumbir ao medo e não permanecer com ela. E também se questionou se ela sabia sobre Sirius e Harry.
A auror desviou os olhos para o marido em um reflexo, mas não conseguiu deixar de olhá-lo com a mesma rapidez que começou. Mesmo com os anos, não conseguia olhar para ele sem sentir um calor no peito e uma hesitação dolorosa no coração. Cabelos negros, olhos castanhos escuros, maçãs do rosto graciosas, cílios escuros e espessos, lábios finos; seria adorável como um cãozinho se não fosse tão alto e musculoso. Com aquela aparência etérea de anjos em pinturas, mesmo com traços destoantes dos anjos de beleza inalcançável; a curva aberta do colarinho da camisa e os suspensórios a mantendo segura enquanto a luz amarela do escritório mostrava as elegantes tatuagens pretas entrelaçando-se em seu ombro, subindo pela pele branca do pescoço. O toque de depravação o assemelhou, então, a um anjo caído.
olhou para a própria mão.
- Com que cara devo chegar na casa de Hope? – Questionou desanimada, o dedão girando a aliança grossa no seu dedo anelar. Há um grão de terra entre o ouro brilhante e sua pele. Soa como se seu casamento fosse forjado por areia e suor. – Na casa de Remus? – É um sussurro, tendo evitado a todo custo proferir o nome do ex-namorado. O arrastar dele em sua língua queima. – Com uma aliança enorme em meu dedo que não é a de prata da mãe de Lyall que eu joguei no oceano na primeira chance que tive? – Não quis olhar para o amigo ao lembrar-se da outra joia. O anel havia caído como uma luva em seu dedo, fazendo Remus gargalhar com a cabeça para trás pois pensou em pedir que alargassem o aro. Mas foi perfeito para durante o tempo em que o usou. – Sirius, ela ficou tão eufórica quando soube do noivado... Como devo contar a ela que o filho fugiu? – Hope foi tão boa com ela. Não podia simplesmente invadir sua casa, questionar sobre Lyall e mentir sobre o filho dela.
A menção faz Sirius suspirar, mandíbula apertada.
- Já se fazem cinco anos. – Ele fez as contas na cabeça. Havia jurado “fidelidade” e lealdade a quando tinha 21 anos. Agora já se passaram meia década e não conseguia se imaginar não a tendo ali. Tornou-se problemático imaginar alguém no seu lugar. – Eles devem saber do casamento. – O auror ainda conseguia ter pensamentos intrusivos com o amigo. Todos os anos que ele e Remus passaram juntos sendo melhores amigos era um borrão para Sirius. O tempo que os havia atado pelo quadril em um laço que ele o julgava indivisível já não significava mais nada para Lupin. – E devem saber onde Remus pode estar. – Mesmo tentando não pensar na ausência dele, Sirius não conseguia impedir o amargor que vinha com as lembranças.
- Não, não sabem. – descartou a possibilidade com um gesto da mão. Sirius observou o cintilar dos diamantes em seu dedo. – E talvez essa seja a causa do vício de Lyall. – Ela arriscou. Não conseguiria imaginar o que faria se um dia Harry fizesse o mesmo com ela. Sumir no mundo com uma condição perigosa em seu calcanhar. Entretanto, talvez estivesse apenas usando a falsa ideia de Harry para confundir a dor do sumiço do outro. – Remus não contaria a eles. Eu o conhecia bem. – Sirius não reagiu com o verbo no passado. Sua querida soltava coisas assim as vezes, referências que gostaria que passassem despercebidas, mas ele sempre notava. – E eu não quero saber onde ele está, Sirius. Prefiro imaginar que está...
- Infeliz? – O homem ergueu a sobrancelha e sustentou o olhar da amiga.
- Longe de mim.
Sirius não diria isso em voz alta, mas entendia o que tinha feito. Que, acima de tudo, os laços do matrimônio significavam muito mais para eles. Havia se casado com a noiva do melhor amigo, este que havia desistido do noivado e deles por uma condição que jamais os amedrontou. Estava claro para ele que havia roubado diversas coisas no processo que os uniu, desde o filho de James, até o casamento feliz de Remus. Havia surrupiado as vidas dos amigos. E ali estava, em toda sua glória de dois dias sem um banho e com as maçãs do rosto com a pele descascando com sujeira, sua única preocupação direcionada a antiga sogra que cuidou tão bem dela. Melhor que Walburga jamais o faria. Da mesma maneira que ela não poderia negar auxílio para os Lupin, ele não poderia não ceder aos seus desejos.
Esperava que isso redimisse sua alma.
- Falarei com a Gwendolyn da Assistência. – Prometeu, descruzando os braços. assentiu algumas vezes, devagar com controle total de seu alívio. Não duvidava que Sirius fosse a apoiar. – Vamos para casa? – O maior propôs, mãos sobre os ombros caídos e doloridos da esposa. Ela piscou e suspirou, músculos repuxando e alongando enquanto forçava a resposta cansada para fora.
- Vamos.


Capítulo 6

(O Resto de Nossas Vidas)
(July 31st 1991 – Harry’s Eleventh Birthday)

- Essa é a panqueca mais cachorra em que eu já pus os meus olhos.
- Você entende muito bem de cachorros, Sirius.
Estamos falando baixo ao nos movermos pela cozinha, ocupados com nossos afazeres, mas não o suficiente para deixarmos de salpicar algumas palavras aqui e ali. Movo meu pé descalço até sentir a sua meia embaixo dele e faço certa pressão, o ouvindo praguejar algo por baixo da respiração. Mesmo tendo pisado em seus dedos, tomo cuidado para não erguer meu pé demais e machucar o dorso de seu pé mais do que já está ferido. Ele também cuida de mim, temperando os ovos estrelados com sal e pimenta em piedade com meus dedos também feridos, mesmo sem eu pedir.
Parecemos normais.
Um casal cozinhando café da manhã para um filho. Mas há sangue em minha perna e a boca de Sirius está com um rasgo selvagem. Usamos unguento e feitiço básicos antes de vir para casa, mas os machucados se mostram resistentes. Ainda assim, tentamos tornar a coisa o mais comum possível, sem tocar Led Zeppelin no toca-discos, mas normal. Chupo o chocolate em meus dedos ao observar a minha obra de arte encarada com horror por meu marido, este ocupando-se ao fritar as salsichas de frango e mostrando-se um excelente auxiliar em uma cozinha de trouxas. De um homem horrorizado com óleo de fritura, para um que sabe usá-lo com moderação... É belíssimo.
- Como estão os tomates? – Questiono baixo ao colocar as panquecas em um prato e atravessar a cozinha para a enorme sala de jantar. Dou um meio sorriso ao perceber que nosso pequeno fez seus deveres e limpou o local para a celebração em algumas horas.
- Igual estavam uns 30 segundos atrás, dá para você manter as ceroulas no lugar? – Mesmo com a voz rouca, ele continua cantarolando a música de sua mais recente descoberta. Pego mais alguns pratos, contando conosco e ignorando a sua resposta atrevida. – I know you'll be a star in somebody else's sky, but why, why, why can't it be, oh, can't it be mine? – Sirius Black cantarola de novo, baixo e concentrado, os quadris se movendo no som da possível guitarra imaginária em sua cabeça. Ele olha quando paro ao seu lado, olhos apertado e uma mão sobre o peito ao continuar. – Doodoo-doo-doo-dú... – Quando sua voz quebra, erguendo-se severos oitavos devido a desafinação, não evito rir em sua cara. Black dá de ombros, queixo erguido ao sacudir a frigideira e ignorar-me, lábios tremendo, pois precisa segurar o sorriso para não se machucar mais.
- Você precisa parar de julgar as minhas panquecas e ter aulas de canto, Black. – Pouso minha mão em seu ombro, dando uma olhada nos tomates caramelizados de Harry. Estão do jeitinho que gosta. As salsichas também.
- Sabia que essa música também se chama Black? – Balanço a cabeça, atenta para ouvi-lo. Sirius não parece se importar que eu estou olhando-o com atenção, concentrado em saltear a proteína e garantir que os ovos na outra frigideira não esfriaram. – Um tal de Pearl Jam, se não estou enganado. – Sei que está me olhando por baixo da pluma de cílios escuros quando esfrega o queixo em minha cabeça, com carinho como se fosse um cutucar. Desta vez, dou um tapa em sua costa. Ele bufa ao desligar o fogo. – Ainda faltam dois meses, Mittens. Ele não vai embora hoje.
O seu sorriso miúdo não me engana, sinais distantes de que está tão angustiado como eu, mas decidido a manter-se resiliente e ser o adulto responsável da situação. Não podia lhe agradecer mais por tomar as rédeas da situação quando não consigo, em especial quando se trata de Harry. Eu encosto meu rosto em seu braço, acima da faixa que o percorre abaixo da camisa preta de linho dobrada em seus antebraços, concentrada no som do óleo ainda fritando pedaços pequenos de alho e a apreensão em meu peito. Desde os dez anos de Harry, só consigo pensar em sua partida para Hogwarts. Poucos são os momentos de distração, a maioria das vezes quando estou abaixo de Thomas Collins e ele me toma contra uma mesa do Ministério. O que é ótimo: sexo para fugir de minhas responsabilidades.
Havíamos nos habituado aos acordos após uma década, estes estipulados na marca de dois anos de nosso casamento forjado quando Thomas surgiu em minha vida meses antes de prendermos Bellatrix Lestrange. Temos liberdade de arranjar outros parceiros, o que casais comuns chamariam de amantes, mas decidimos chamar de “distrações” ou “alívios”. Claro que cada novo caso é discutido e opinado por nós, na mais pura intenção de manter tudo escondido por baixo de cobertas e a farsa de nosso casamento perfeito, mas também nos mantendo igualmente satisfeitos. Collins foi o primeiro com quem me relacionei. Então um auror transferido a Escócia que ficou quase três anos no Ministério. E depois Collins de novo, assim que retornou da Itália há dois anos. Sirius tomou a sábia decisão de levar a “infidelidade” para fora do Quartel General, escolhendo algumas assistentes sociais, bruxas de classes consideradas nobres e até uma trouxa. Eclético, devo admitir.
E, ainda que nunca voltasse para a mesma pessoa, Sirius detestava que eu houvesse me mantido tão ligada a Thomas após anos, ciente que ele seria o responsável por sermos pegos um dia. Enquanto isso, eu conseguia ver um filete de conforto no auror cinco anos mais novo. Thomas é gentil, educado e bom de cama, mais do que sequer posso falar das amantes de Sirius ou as prostitutas que hora ou outra brotavam na casa de hóspedes atrás da mansão. É um hábito hediondo ao meu ver, mas parece ser mais divertido e seguro do que poderíamos concordar sem que eu me irritasse.
- Posso pedir a Dumbledore por um emprego. – Murmuro exausta, só agora percebendo a dor em meus calcanhares em um dia que mal está começando.
- Você com certeza pode desbancar o Seboso. - Afago seu braço, grata por não me levar a sério, mas agora estou ainda mais desconfortável por ter me lembrado quem é o professor de Poções de Harry. – Dumbledore já deveria estar em um asilo. – O tom de sua voz torna-se mais evidente e o humor é só um rastro muito distante. Aperto seu cotovelo. Não sou nem de longe a maior fã de Dumbledore, mas Sirius consegue exceder minha aversão pelo bruxo mais velho. Black ainda tem opiniões duras e irredutíveis em relação a Alvo Dumbledore e Alastor Moody. – Permitir um ex-Comensal da Morte lecionar para crianças indefesas deveria ser um absurdo. Mas é Dumbledore, certo? Ele não erra. – O veneno escorre de sua boca após a última frase.
- Ao mesmo tempo que o Snape leciona em Hogwarts, a Professora McGonagall também está lá. E eu tenho certeza de que ela ainda se mantém atenta a ele. – O conforto, igualmente descrente das decisões que Alvo Dumbledore tomou, mas certa de que McGonagall estando presente para educar Harry assim como fez conosco é o suficiente para acalmar a pulga atrás de minha orelha. Ao olhá-lo de novo, Sirius está com a boca fechada, relutante, mas entendendo meu ponto. O solto para que possa empratar nosso café da manhã e o de Harry. – E, se você não se lembra, nós, os padrinhos do Garoto-Que-Sobreviveu, somos recipientes de duas Medalhas da Primeira Ordem de Merlim. Só um louco para encostar um dedo no Hazz.
- Você se orgulha demais desse prêmio, . – Sirius comenta com a boca apertada, condicente como se não houvesse andado com a estatueta na mão por três meses e ameaçasse jogá-la na cabeça do primeiro que lhe amolasse com papelada e relatórios de missões. Fui obrigada a parar a peça de ouro no ar algumas vezes, esta comumente direcionada ou a Olho-Tonto Moody ou a Thomas. Algumas vezes com motivo, mas não poderia lhe dar mais esse empurrãozinho. Dou de ombros, um arrepio percorrendo meus braços ao relembrar a cerimônia de premiação dois anos atrás quando o Mundo Mágico parou por dois membros da Família Black serem agraciados com tal honraria. Possivelmente o momento de maior orgulho de minha vida.
- Claro que me orgulho! – Defendo-me com bravura, inflando meu peito.
- Os aurores Sirius Orion Black III e Cecília Black! – Sirius balança a cabeça, deixando o fogão para agarrar uma concha de sopa e a aproximar da boca, eu logo tendo de fechar a minha para não rir e acordar Harry devido a imitação ridícula de seu padrinho dedicado a me alegrar após uma noite complicada de patrulhas. – Recipientes da Oitava e Nona medalha da Primeira Classe da Ordem de Merlim, concedidas por sua lealdade inabalável ao Ministério da Magia, à contribuição durante a Guerra Bruxa e embates sucessivos contra Lord Voldemort. – Sirius coloca uma mecha de cabelo para trás e abre o botão mais alto de sua camisa, uma expressão convencida que me faz rir de sua bobagem mesmo que meus olhos estejam presos nas tatuagens que surgem. – Chupem o meu ovo esquerdo, mãe e pai.
Balanço a cabeça, sorrindo ao lembrar do número de olhares hórridos que recebemos pelas semanas que seguiram a premiação e como não éramos mais crianças de origem duvidosa que invadiram o Ministério, mas sim aurores do mais alto escalão e considerados os herdeiros da fama de um Olho-Tonto surpreendentemente orgulhoso por nossos feitos.
- O quão estúpidas aquelas pessoas conseguem ser?
- “Lealdade inabalável ao Ministério”. – Ele confirma minha dúvida, jogando as gotas de chocolate que usei nas panquecas dentro do armário. Não menciono que jogou a concha limpa na pia, pois é ele quem fará as louças. – Minha lealdade é com você e remelento lá em cima. – Mesmo que seu tom seja de desdém, entendo que está falando sério e me forço a pensar em outra coisa para desviar minha atenção. Sua lealdade permanece com sua família acima de tudo, Harry e eu. – Não vai acordar o dito cujo?
- Seu pé ainda está dolorido? – Questiono ao detectar sua impossibilidade de acordar Hazz nas entrelinhas da pergunta. Seu pé pode estar torcido devido a um mal jeito na escadaria do Ministério, mas não utilizou isso para se safar do aniversário de Harry – pisou duramente no chão quando se machucou, jurando para mim que estava firme como uma rocha. Tive de me segurar para não revirar os olhos quando Dana Tinbrow deu um sorrisinho travesso para meu excelentíssimo marido.
- Um pouco, mas vai passar. – Sei que me observa quando o ignoro e me adianto até a geladeira, removendo um dos sacos plásticos com ervilhas do freezer e o envolvo em uma toalha, ciente que Sirius ainda é um pouco desconfiado com qualquer coisa que saia da geladeira, nutrindo certas restrições a eletrodomésticos trouxas até hoje. Felizmente, o convenci aos poucos a cozinhar e fazer algumas coisas sem uso da magia. Ou melhor, gosto de pensar que o convenci a tal. – Estou com medo dele ter uma epifania quando acordar e lembrar que fez 11 anos. – Explica quando coloco o embrulho em sua mão. – Obrigada, .
As coisas funcionam conosco. Em acordos silenciosos.
Ainda que seja mais silêncio que eu gostaria.
*

Entreabro a porta do quarto e sou pega desprevenida com o cheiro de meias molhadas e cera para vassouras que domina o cômodo. Respiro bem fundo para manter a calma e não enxotar o garoto da cama, forçando-o a abrir as janelas e colocar as malditas meias no cesto de roupas sujas. Oh, e é tarde demais quando percebo que respirar é uma má ideia. Encosto a porta atrás de mim, desviando de alguns tacos, luvas e goles no tapete. Também tem uma bacia de pipoca no pé da cama, com duas embalagens de sapos de chocolate.
Harry Potter está estirado em sua cama com o pijama quadriculado azul e o óculos torto no nariz. Em sua mão esquerda, “Hogwarts: Uma História”, na outra ele segura firmemente um punhado de alcaçuz, todos os sinais evidentes de uma tremenda overdose de açúcar. Me sento ao seu lado após afastar um quadrinho do Homem-Aranha, uma de suas invenções recentes mais queridas. É irônico, claro; um jovem bruxo com talento inimaginável aficionado por um adolescente americano que consegue escalar paredes. Mesmo assim, Sirius foi ao infinito e além em busca de todas as copias dos quadrinhos, sem dúvidas inclinado a entregá-las a Harry no mesmo instante. Com sorte eu pude o impedir e garantir que o presentear com uma edição a cada quinzena seria mais responsável.
- Hazz? Está acordado, pestinha? – Eu afasto o cabelo do rosto de meu menino, inclinando-me para beijar sua testa em cima da cicatriz que nos perseguiu por anos sem fim.
Temi que a vissem. Que comentassem sobre ser horrível e Harry levar a opinião alheia a sério, mas felizmente, ele é de fato filho de Lilian e James Potter e não poderia se importar menos com comentários indelicados, ao menos diante de nós. É doloroso não poder mais lhe proteger de todo o mundo e saber que não é mais um bebezinho que dependia de nós a todo instante, desde massagens para a cólica até para treinar a fala. Vê-lo crescer é apavorante e confuso. O tempo parece ter escorregado por meus dedos e eu me preocupo com o seu futuro mais que qualquer coisa.
Nosso pequeno Harry Potter sozinho em Hogwarts. Ainda não me parece certo.
Meus dedos encontram a lateral do corpo do garoto quando seus cílios tremulam, alertando-me que já está acordado e provavelmente planejando tentar me assustar. As cócegas são o método perfeito para arrancar risadas preguiçosas e contorcimentos molengas do menino ainda sonolento, este chutando o cobertor para longe e esticando o pescoço ao rir. É o meu som favorito. A risada profunda que salta de sua barriga espremida e faz o seu peito vibrar, a semelhança com a de seu pai sendo um deleite para meus ouvidos.
- E agora, huh? – Questiono entredentes, afastando o cobertor para cutucar as solas de seus pés alvos, forçando o jovem Potter a se encolher para fugir de minhas garras. Não resisto a meu desejo e o ataco de novo, cutucando seu pescoço sensível e as axilas, o provocando o suficiente para sua face estar vermelha de tanto rir e o óculos ter parado do outro lado da cama. Seus olhos verdes estão focados em mim mesmo com a neblina do sono, um sorriso preguiçoso em sua boca e as sardas mescladas com o rubor. – Acordou? – Dou um beijo estalado em sua bochecha, não acreditando que em breve ele será um adolescente fedorento e com vergonha de mim.
- Acordei. – Harry murmura com a voz apertada e sem ar de tanto rir, braços esticados acima da cabeça e o cabelo escuro espalhado na fronha como uma aréola. Quando abre os olhos de novo, eles se arregalam em disparada, ascendendo para o topo de minha cabeça onde uso um charmoso chapeuzinho de aniversário. Faço questão de posar com as mãos próximas de meu rosto, imitando uma modelo da Vogue. Estou piscando com falso encantamento quando Harry Potter arfa ao erguer-se um pouco e tatear a cama antes de colocar os óculos. Ah, o meu pequeno menino míope. – É hoje?
- Espere! Você acha que eu posso sair com esse chapéu do Homem-Aranha no dia a dia? – Indago-lhe com ironia, mesmo assim recebendo um assentir fervoroso de meu afilhado, provando-se um cavalheiro. Balanço a cabeça e faço as fitas vermelhas se agitarem, tentando formar as felicitações em minha mente. Eu acaricio a sua bochecha ao proferi-las: – Feliz aniversário, meu amor. – O seu sorriso é enorme, revelando a alegria infantil de completar 11 anos. Não sei se estou tão feliz como ele. – Nem acredito que já tem 11 anos, Harry... – Dou tapinhas carinhosos em suas bochechas altas e inchadas de sono. – O tempo passou tão rápido! Olhe só para você! – Dou ênfase ao gesticular para todo o seu corpo e as pernas longas. – Você costumava deitar comigo na cama e eu segurava o seu pezinho enquanto dormia!
- A senhora vai chorar? – Reviro meus olhos para a atitude travessa de Harry, mais uma característica sua que me remete seus pais e algo único vindo do padrinho. Belisco sua bochecha, arrancando-lhe um som dengoso e um sorrisinho arteiro. – Obrigado, tia . – Ele agradece com educação, esfregando os olhos e descansando a maçã do rosto em minha mão como fez desde que o conheço.
- Provavelmente vou chorar, mas farei quando estiver tomando banho, aí posso falar que foi o xampu no olho. – Lhe ofereço uma piscadela ao puxar um travesseiro para meu colo e sacar minha varinha para abrir as cortinas do quarto. Hazz está sorrindo para mim quando um raio amarelado de Sol corta seu rosto e ilumina a trilha de um esparadrapo em seu óculos redondo. – Haroldo Gertrudes Potter, você quebrou o óculos de novo?
- Eu caí! – A resposta é tão rápida e desesperado que eu mal tenho tempo de inventar um outro nome para lhe provocar. Ele me oferece um sorriso amarelo em troca, contudo eu posso ver o seu pé se movendo para chutar um balaço desativado para fora de meu campo de visão.
Céus, que orgulho do pestinha fã de quadribol!
- Aham. Caiu de que altura? – Harry franze o nariz ao perceber que foi pego, lábio torto, pois já sabe que posso estender o sermão por bastante tempo. É um dom oriundo de anos sendo a “amiga responsável” dos Marotos. – Quantas vezes já não disse para não jogar quadribol quando não estivermos em casa? E se você se machucasse feio e nós não estivéssemos aqui?
- Eu me arrastava para a lareira e ia para o hospital. – Retruca com um encolher de ombros, a resposta já bem ensaiada. Abro a boca para adicionar outra repreensão contra o seu uso de Pó de Flu, mas ele encosta o dedo indicador magrelo em minha boca. O encaro incrédula, aguardando para saber qual motivação é o suficiente para me silenciar à moda de Sirius Black com suas namoradinhas. – Desculpa, tia. – O garoto adiciona ladino antes de se jogar de volta na cama com os braços atrás da cabeça e um sorriso estampado no rosto amassado de sono. – Mas a senhora não pode brigar comigo porque hoje é o meu aniversário! – Potter ondula as sobrancelhas. – Sou uma criança livre!
- Palhaço. – O atinjo com o travesseiro, o fazendo rir e eu também não consigo segurar meu próprio sorriso. – Vá tomar um banho, garoto. Teremos um dia cheio! – Bato palmas altas ao me por de pé, o incentivando com o barulho pois o conheço bem o suficiente para saber que é só lhe deixar sozinho que Potter vai cair no sono de novo. – Tem café da manhã na mesa e os ingressos para o zoológico já foram providenciados. O Hagrid já confirmou a presença hoje e a sua tia Andromeda e tio Teddy também.
- Ah, Mittens! – Estou na porta do quarto quando ele me chama, agarrado ao travesseiro. Cruzo meus braços sobre o peito em desafio, mesmo com o coração dolorido por ele. Sei que este não é o aniversário mais perfeito do mundo. Que ele já deve ter ideia de que é Hagrid quem trará seu bolo, pois minha profissão não dá tréguas e Sirius e eu estamos exaustos demais para assar um para ele. Deve saber que foi Theodore Tonks quem comprou os chapeuzinhos do Homem-Aranha e que não é o aniversário de 11 anos ideal de um bruxo, mas é o melhor que podemos lhe oferecer no momento. Todavia, Harry está sorrindo para mim, a sua felicidade nítida quando confessa: – Eu amo você.
Eu suspiro alto.
- Tá, tá. – Assinto e abano a mão, meu afilhado conhecendo-me o suficiente para saber que é só uma forma minha de cooperar com a sua declaração que derruba meus muros emocionais. Estou saindo quando decido voltar e lhe mandar um beijo no ar, apontando para o banheiro logo em seguida. – Também te amo, Hazz. E nós vamos no barbeiro!
- Não!
*

- Esse foi o nosso melhor almoço em semanas.
Sirius mantém o rosto erguido ao caminharmos, deliciando-se com a luz do Sol que tanto sentiu falta em nossa última viagem e que também é novidade na tediosa Londres. Foram quatro dias turvos em um pântano, controlando contra uma horda monstruosa de zumbis em New Orleans. Nem mesmo preciso medir questões para saber que a hostilidade de nossos amigos americanos foi a pior parte de todo o serviço. Infelizmente, o trato e extermínio de zumbis cobra muito de um bruxo, justificando nosso convite para auxiliar a caça das criaturas, então uma missão de dois dias se estendeu para quatro ao decidirem ser prudente caçar o bruxo das trevas que estaria criando os monstros. E meu querido marido não passava 20 minutos sem mencionar o quão decadente foi a missão, o que não ajudou em nada para que gostassem de nós.
- Pizza e sorvete, Padfoot? – É Harry quem indaga, agora andando de costas e nos olhando por baixo do boné que enfiei em sua cabeça. Sou eu quem concorda com avidez, tendo memórias péssimas da culinária americana.
- Jambalaya. – Black sibila devagar o nome do prato típico, olhos apertados ao encarar a bola de fogo acima de nós. Só o nome me dá arrepios. – Era gostoso, certo? – Ele me olha com bom humor, passando o braço por meu ombro e puxando-me para caminhar grudada a seu corpo. – Não era, ? – Engulo a provocação com o queixo erguido, apenas ajustando meu óculos de sol e lhe oferecendo um sorrisinho azedo. Sirius se adianta para trazer um Harry Potter curioso para perto de nós, segurando o menino para andar na sua frente. – Prongs, a sua tia comeu um tal de Jambalaya e soltou tanto pum que... Auch! – Sirius se curva na minha direção quando puxo sua orelha, sobrancelha erguida a fim de impedi-lo de deteriorar mais a minha imagem.
- “Que” o que, Padfoot? – Incito com falsa irritação.
Harry está rindo quando adentramos no alojamento dos repteis.
- Sabe que eu amo você, certo? – Franzi meu nariz quando Sirius falou para mim, prendendo o lábio inferior entre os dentes ao ser arrastado por Harry para longe na direção de um amontoado de serpentes.
Mantive minha expressão sisuda e contato visual durante toda a sua caminhada em que não tirava os olhos de mim. Sempre foi meu reflexo para as suas brincadeiras e provocações: lhe repreender ou sorrir como uma boba por sua personalidade nunca mutável, mas tem ficado mais difícil ouvi-las com o passar dos anos, principalmente ouvi-las e forçar-me a levá-las na esportiva e com meu rosto erguido, sorrir marota e expelir as mesmas palavras como se não significassem nada mais em minha boca quando se assemelham a metal quente em minha língua. É uma brincadeira saudável entre amigos, mas meu coração ameaça saltar por minha garganta quando ouço as três palavrinhas vindas de Sirius.
O bruxo é uma fotografia em preto e branco contra a relva suntuosa do local e as crianças que seguram algodões doces coloridos. Pele pálida e embebida em tinta negra mágica, vestes escuras que abraçam sua forma e o cabelo preto com algumas tranças que eu mesma fiz. Se um trouxa lhe olhar, ficará admirado com a beleza celebre de Sirius Black. A postura confiante e roupas, como um astro do rock em ascensão e que deveria estar performando em palco e não passeado com quem imaginariam ser um filho que teve jovem demais. Permiti que meus olhos recaíssem para a boca muito aberta de Harry que observava uma cobra albina se mover por um galho. Sirius sorriu malandro ao dar em ombros, ainda segurando na mão de nosso afilhado enquanto os dentes pálidos brilham na luz.
- Eu amo você mesmo soltando puns que me fazem lacrimejar, Black!
Respiro bem fundo e fecho meus olhos quando a risada animada de Harry acompanha a sua, cortando o som de guias turísticos e turistas que circulam entre nós. Mas algumas risadas se juntam as deles, infantis na maioria e com o som afiado de mães repreendendo os filhos e filhas. Pressiono minha língua contra a bochecha ao assentir com a cabeça de maneira ameaçadora, há muito acostumada com suas brincadeiras em público. E acostumada também com nosso afilhado que se diverte demais com nossas bobagens, em especial em seu aniversário.
- Só para você, meu amor! – Lanço um beijo no ar para ele, mantendo meu dedo do meio erguido por um tempo.
Seria uma mentira suja dizer que me senti assim por anos, pois por uma década e meia de amizade, Sirius jamais de deixou de ser ele mesmo, o meu amigo mais próximo. Contudo, posso confirmar para mim mesma que foi gradual e que eu já estava perdida em seu âmago antes mesmo de saber que estava caindo. Uma queda lenta, o ar se partindo em meus ouvidos e este intenso repuxar em meu umbigo, o vestígio mais primal da vida humana. Eu possuía planos antes de permitir que meu coração deixasse de pertencer unicamente a mim. Oh, sim, planos perfeitos. Planos que envolviam aguardar pela maioridade de Harry e me afundar contra Thomas, ou deixar que ele se afundasse em mim e partir do Ministério para nunca mais voltar. Mas Sirius havia entrado no caminho – melhor! – havia aberto caminho como um tsunami.
Amar Sirius Black foi um desastre natural impiedoso e sorrateiro. Inesperado e avassalador em sua forma mais cruel. Diferente de meu amor por Remus Lupin que me encontrou em um momento de maior vulnerabilidade após a perda de meus pais, mantendo-me segura e presa na realidade que tanto quis escapar, Sirius se impregnou em mim num instante de paz e cura, como a tinta que marca seu corpo e está embebida em sua pele por toda a eternidade. Minha mãe me disse uma porção incontável de vezes que não deveria depender de alguém além de mim para preencher as lacunas em meu coração. Me disse que era uma menina forte sozinha, mas, não consigo ver estas lacunas e não imaginar que algumas tem forma de pessoas.
No fim do dia, não importa quantas vezes tente buscar prazer em meu corpo ou o quanto me amar, não poderei me abraçar enquanto estiver chorando porque os pesadelos ainda me afligem depois de dez anos. Não posso rolar em minha cama solitária e acariciar meu rosto até cair no sono. Mas Sirius pode. Pode me ouvir chorando contra meu travesseiro e passar a noite cantarolando para mim mesmo cansado. Pode atentar-se quando tomo banhos de banheira e bater na porta, para garantir que não estou dormindo e tentando cometer um erro fatal. Eu ainda posso encontrar noites em claro com Thomas e sexo duro, o que, por algum tempo, será o suficiente para expulsar Sirius de minha mente até que eu precise olhar um rosto novo ao me perder no prazer sem afeto que meu corpo cobra para suprir o amor que não posso ter.
Mesmo que Sirius tenha me arruinado para qualquer outra pessoa.
- De onde é esta, Hazz? – Questiono ao me aproximar de meu afilhado para lhe dar toda minha atenção que posso, mesmo com um nó dolorido em minha garganta.
Harry está diante do tanque, fitando a cobra com atenção ao ouvi-la.
Percebemos o talento macabro quando tinha sete anos e uma cobra surgiu no quintal, enroscando-se em seu braço e engajando um concurso de encaradas com ele. Sirius estava a segundos e matar a criatura asquerosa quando Harry implorou que não a ferisse, pois era quem cuidava dos ratos perto das flores de sua mãe. Quando eu o tomei em meu colo com lágrimas horrorizadas em meus olhos, ele me explicou como a cobra disse que deveríamos estar agradecidos e deixá-la solta.
- É do Brasil, tia. – Ele me conta, mãos atrás da costa para respeitar a norma de não tocar no vidro. – Mas nasceu em cativeiro em Nova Iorque antes de vir. – Sinto a mão de Sirius em meu braço nos trazendo mais para esquerda, a fim de dar espaço para uma família barulhenta que se juntou a nós nesta gaiola e que parece desconhecer os limites do espaço pessoal. Torço o nariz para o cheiro forte de perfume doce que exala da mulher com cachos perfeitos ao meu lado. – É de Boa Cons... – Dou um passo para trás quando o garoto gorducho que estava com os pais bateu no vidro incessantemente, de primeira com os nós dos dedos e depois com a mãos espalmadas, alto o suficiente para chamar a atenção de todos no santuário.
“Se mexe, cobra idiota!” Ralhou o garoto, batendo o pé no chão.
Arregalo os meus olhos para Sirius e ele aperta a boca e cerra os olhos, a irritação clara em sua face pois crianças engraçadas são uma coisa, agora crianças mal-educadas... Com todas as palavras resumidas em um “não” sussurrado, lhe imploro para não reagir e simplesmente ignorar a malcriação alheia, mas com suspirar apologista, ele dá um toque respeitoso no ombro de quem imagino ser a mãe da criança com modos bárbaros.
- Perdão, mas a senhora não viu que é proibido... – Sua voz encurta. – Ah, inferno...
A mulher loura que se vira para nós me encara boquiaberta como se houvesse visto um fantasma das crenças trouxas. O homem ao seu lado, quase careca, está com os olhos arregalados dividindo-se entre meu marido e sobrinho, mas se prendendo muito mais em Harry. Ambos nos olham horrorizados, como alguém tendo a visão do próprio fantasma. Por um instante, senti uma pontada de culpa, mas meu segundo instinto foi passar meu braço ao redor de Harry, o puxando ainda confuso para trás e contra mim, desta vez indo para frente até estar lado a lado com Sirius. Se não estivesse tão focada em afastar meu afilhado da mulher, teria mais tempo para reparar na outra criança ainda me olhando como se fosse uma louca por – ele deve pensar – temer os seus pais.
Petúnia Dursley está paralisada em seus saltos.
- Olá, Petúnia. – Sirius se pronuncia, uma mão firme em meu quadril para me manter próxima a ele, sob meu osso não para me proteger, e sim para me afastar dela. Os Dursley não são uma ameaça, mas a minha reação a eles é o que lhe preocupa. Eu engulo em seco, evitando recordar o dia quando ela e seu marido entregaram Harry para o Ministério quase dois quilos mais magro e com assaduras que me fizeram chorar. A raiva que borbulha em meu peito só se apazigua quando o mesmo Harry segura em minha mão, confuso. – Boa tarde, Balão. – Sirius maneia a cabeça para o marido de Petúnia e o homem, Valter se não me engano, solta um som estranho com a face vermelha como um tomate após finalmente ter nos reconhecido. – Garoto Balão. – Padfoot acena com o queixo para a criança gordinha junto aos Dursley.
- O que estão fazendo aqui? – Petúnia ralha, a voz trêmula e revoltada, porém baixa e semi-controlada pois obvio que ela não faria uma cena em público. Sou grata por sua compulsão por uma vida perfeita e “normal” a impedir de reagir como gostaria e me forçar a perder a postura da mesma forma. – Este é um lugar de família! – A semelhança da trouxa com Walburga Black não passa despercebida, o nariz empinado e raciocínio antiquado também. – Não para gente como vocês!
Não deixo de reparar como ele parece temer olhar para Harry e engulo minha irritação.
- Este é um zoológico, único motivo pelo qual seu marido teve permissão de trazê-la para passear e encontrar-se com seus semelhantes, Petúnia. – Me pronuncio pela primeira vez, um sorriso em meus lábios ainda que em minha mente eu esteja socando o seu rosto na boa e velha moda trouxa. É uma surpresa a ver depois de mais de 13 anos, mas meu instinto para lhe quebrar na mão é tão forte quanto anos atrás. A vi em uma foto sua no casamento de Lil e Jem devido sua recusa a comparecer e não foi ela quem levou Harry para o Ministério quando conseguimos sua guarda, então por isso quase não a reconheci antes. Ela não reage como uma pessoa normal a nos ver aqui, ainda agindo como uma desequilibrada. – Não faça uma cena, querida; já estamos indo. Pode voltar a conversar com as suas amigas em paz. – Ronrono com o veneno escorrendo por minha boca, mas ainda agarrada a Harry quando ela infla as narinas e abre a boca como um peixe idiota. Eu ignoro o horror da irmã de Lily para olhar para Padfoot. – Vamos embora, meu amor? – Ofereço um último olhar de desprezo para a família e forço um sorriso para meu afilhado. – Hazz, vamos, querido?
- Pai! – O garoto que certamente é filho de Petúnia pelo cabelo loiro bate com o pé no chão, chamando minha atenção para sua irritação e eu ouço quando Sirius suspira pelo mal comportamento da criança. Valter olha rápido para o menino e então para Harry, tentando encontrar semelhanças inexistentes entre os primos. – Quem é essa gente?
- Querida? – Dursley pressiona ainda mais.
A irmã de Lilian abre a boca cor-de-rosa.
- Pense bem no que vai dizer, Petúnia. – Sirius rosna para ela ao tensionar ainda mais a sua linguagem corporal e erguer os ombros para impor-se, a mão encontrando a minha sobre o ombro de Harry. Valter dá um passo para frente a fim de defender a honra da mulher, mas se acovarda quando meu marido angula o queixo, provocando-o para saber aonde pretende chegar. – O que é, hum? Não fui eu quem roubou o seu pescoço, Valter, então pode se acalmar aí. – O alarme extremo dos dois é o que impede Valter Dursley de reagir com palavras ao em vez de seu rosto assumir uma tonalidade roxa.
Petúnia empinou o nariz e agarrou o porquinho – digo, seu filho –, nos olhando de cima a baixo.
- Uma gentinha qualquer, Duda, querido. – Dou um sorriso para o menino, a ausência extrema de melanina e pescoço parecendo ser genética. Mas, como esperado, ele ignorou-me e focou-se nas palavras da mãe. Oh, céus, se Harry e o menino não estivesse aqui... – Amigos daquela sua tia que foi removida da família por envolver-se com coisas demoníacas. – Antes que eu possa fazê-la engolir os próprios dentes, Dursley continua. – Ela era igual a essa gente e se casou com um imprestável molambento como esses dois. Felizmente o mundo está melhor sem eles dois. Todos sempre soubemos que acabariam se explodindo e assim foi. Criaturas endiabradas.
É a minha vez de impedir que Sirius avance contra eles e eu me forço a engolir meu próprio ódio cego de Petúnia Dursley para manter meu amigo sob controle, me pondo entre ele e a família infeliz, com Harry agarrando a manga da jaqueta do tio. Me machuca que o pequeno tenha ouvido tais coisas sobre os pais, então deixo que Black tome as rédeas da situação, sendo eu quem assumirá a responsabilidade de nos manter nos limites. Mesmo assim e conhecendo a instabilidade de Sirius, permito-lhe alguns segundo para se aproximar dos dois, o suficiente para quase enfiar o dedo na cara deles. Minhas mãos se espalmam em seu peito, o mantendo um pouco afastado enquanto ruge contra eles:
- Ouse mencionar James e Lilian Potter dessa forma suja mais um vez para ver se o Sem-Pescoço Jr, que chama de filho, não cria asas e um rabo, Petúnia! – Com o canto de meu olho, flagro quando o tal Duda se acovarda atrás do pai e Valter se move na frente da família, mesmo apavorado. Eu também temeria Sirius a esse ponto, seu nariz franzido em raiva, boca cerrada e o pescoço assumindo um tom rosado, assim como uma veia saltando em sua garganta. Mordo minha língua e olho com desaprovação para nosso afilhado que força uma risada para dentro, sendo a peste de sempre e apoiando qualquer coisa que Sirius diga. – E aí, garoto? O que acha de um rabinho de porco para combinar com esse nariz?
Floreio meu pulso quando o abaixo, o suficiente para que Petúnia soltasse um grito e eu pudesse observar o pavor em seu rosto ao virar-me em sua direção.
- Não toque no meu filho, sua aberração! – Valter uivou, a voz tremendo.
Sirius respira fundo e para de forçar-se para frente, dando um passo para trás.
- Quer ver? – Seus olhos negros estão brilhando quando ergue ambas as mãos e tremula os dedos, fingindo se concentrar em um encantamento qualquer. Sei que é um blefe, mesmo Sirius sendo ótimo em feitiços básicos sem varinha, contudo mantenho minha mão em seu corpo para “impedi-lo”, entendendo sua farsa e fingindo temer o que pode fazer, balançando a cabeça e olhando rápido para os Dursley. “Sirius, não!” Pobre Elizabeth Taylor, nem imagina que estou prestes a roubar todos os seus papeis com minha atuação. – Zimzalabim, cabelo e capim e purê de aipim...
Os Dursley zarpam quando o “encantamento” se inicia, cortando espaço entre pessoas e vociferando que somos monstros. Eu me contento em advertir Sirius Black com meu melhor olhar de esposa irritada e o desvio também para um Harry Potter sorridente demais, alguns segundos antes do menino arquejar e apontar um dedo acusatório para os parentes que se afastam na velocidade da luz. Estou certa de que a memória de James Potter está vivíssima no instante que Hazz anuncia acima do som de crianças e atrai atenção de todos os outros visitantes:
- Espera, aquele garoto tem um rabo de porco?
*

- Gostou da sua festa, Harry?
Uso magia para trancar a casa inteira depois que os convidados se vão, enfiando os restos do bolo verde de Hagrid na geladeira, assim como os outros doces preparados por Andromeda Tonks e o vinho que bebemos na cozinha enquanto fingíamos lavar louça. Emmeline optou por whiskey de fogo e Shacklebolt se deliciou com os bombons de licor que Sirius havia jurado serem virgens. Edward Tonks e uma recém-formada Ninfadora se divertiram com Harry e Hagrid durante toda a celebração, o que ofereceu pouco tempo para Ted conversar comigo sobre as recentes inclinações da filha para unir-se ao Departamento de Aurores. Decidimos combinar um chá com Andromeda e Sirius para discutirmos as implicações disso, claro que quando ele não estivesse de plantão nos St. Mungos e Dora não estivesse por perto.
- Foi muito legal, tio. – Harry confirma para Sirius de seu ponto imóvel no sofá. Entorto a boca, ciente que é a o excesso de açúcar consumido por ele devido ao presente de Hagrid ser uma cesta de doces do Beco Diagonal. Mas como dizer ao gentil gigante que não lhe desse isso? Hagrid sempre foi tão cuidadoso com nosso pequeno e bom conosco desde nossa época em Hogwarts que... É impossível. Seu amor por Harry também aquece meu coração. – Obrigado pela figurinha de ação, também. – Estou voltando para a sala quando Sirius beija a cabeça de Hazz e se senta do seu lado. O menino me olha por baixo do cabelo e sorri. – Obrigado pelo cubo mágico, tia.
Me sento com os dois, selando a bochecha dele.
- De nada, meu amor. – Mesmo com o braço sobre o rosto para lutar contra a embriaguez, Sirius me dá um sorrisinho por mais um aniversário completo. Eu assento o cabelo de Harry e retribuo o sorriso de meu marido, observando enquanto Potter mantém-se concentrado no cubo mágico – completamente trouxa – que lhe dei de presente. – Hazz, você se lembra daquela gente que vimos hoje no zoológico? – Indago, me acomodando melhor do seu lado e pondo meu pé sobre a mesa de centro. Sei que Sirius está me olhando com apreensão e que preferiria que eu deixasse tal assunto de lado, mas não posso e ele me imita, suspirando alto e apoiando o cotovelo na costa do sofá para nós olhar e dividir a atenção entre mim e Harry. O jovem bruxo apenas assente com a cabeça, desatento. – Então, você tem alguma pergunta para nós? Quer saber algo sobre eles?
- Qualquer coisa, Harry.
Os dedos ágeis de nosso afilhado se estacionam após completar uma face do cubo.
- Eles estavam mentindo, não estavam? – Sua voz é miúda e tímida, tanto que mal reconheço o rapazinho travesso que acordei hoje pela manhã. Ele não nos olha e por isso sou grata, finalmente tendo uma chance de buscar o rosto de Sirius antes de lhe responder. Black me olha da mesma forma que fez no dia que optamos por nos casar quase dez anos atrás, infinitamente angustiado. Engulo o gelo em minha garganta ao lembrar de tal dia e como ainda deve ser um arrependimento para ele, assim como será ter comprado briga com os Dursley hoje. – O que falaram dos meus pais era mentira, certo? Porque quando todo mundo fala deles, fala que eles eram uns bruxos tremendos iguais vocês, tios. Que são famosos como a gente. Então... – Harry entorta a cabeça, mordendo a bochecha. – Por que ela falou deles e de vocês daquele jeito? Meus pais fizeram alguma coisa de errado?
- Você sabe quando nós falamos mal do Lockhart? – Ergo a sobrancelha para a explicação de Sirius, mas deixo que continue. Harry apenas assente com um sorrisinho cínico. – Quando dizemos que é um panaca? Mentiroso e tudo mais? Bom, nós fazemos isso, pois somos bruxos melhores que ele e por isso estamos achamos no direito de fazer tal coisa. – Padfoot coça a cabeça e a barba, inclinando o queixo para me fazer entrar na onda. – Mas o que você acharia se ele falasse que nós dois? Dos seus tios incríveis, donos de duas medalhas de honras e considerados os melhores aurores do Reino Unido? – Dou um sorriso agradecido para Sirius quando Harry nos recompensa com um risinho baixo. Black pisca para mim, insciente do charme que contém ali. – O que acharia se ele dissesse que somos uma farsa? Não diria que é insanidade? Você nos conhece, Harry, não soa estranho que alguém fale assim de nós? Pois bem. Foi isso o que aconteceu hoje no zoológico.
- Somente nos arrependemos por perder a linha com você presente. – Adiciono e Sirius revira os olhos com força, balançando a cabeça para mim. Encosto meu dedo na boca, pedindo-lhe por silêncio. Meu marido faz uma careta que eu ignoro. – E com isso em mente, o que acha da opinião daquela mulher?
Harry dá de ombros.
- Loucura, também. – Desta vez, ele se demora para responder.
- Harry, os seus pais eram as melhores pessoas que eu já conheci. Eu nunca vou poder compensar tudo o que fizeram por nós e como estiveram ao meu lado quando ninguém mais estava. – Asseguro-lhe, minha mão sobre a sua e removendo o cubo de seu toque. – Preste atenção, Potter. – Ele me olha com a face corada. Há um traço vívido de Lilian ali, além dos olhos, impregnado na forma que seu rosto de alinha e em sua personalidade. Resisto o intuito de lhe apertar. – Nós já lhe dissemos isso uma centena de vezes, certo? – Hazz confirma com a cabeça, deixando-se apoiar o corpo no tio que cutuca sua barriga. Não olho para Sirius desta vez, ciente que mencionar nossos amigos para Harry sempre é um tarefa traiçoeira. – Geniais, gentis, bons ao cúmulo! Eles te amavam demais, meu querido, mais do que qualquer outra pessoa conseguirá amá-lo. O próprio Hagrid gostava muito deles, Dumbledore e muitos bruxos como você mesmo nos disse. Acha que todas essas pessoas, incluindo nós dois, estão enganados? – Harry solta o lábio que estava entredentes antes de balançar a cabeça. – E uma trouxa, mesmo que irmã de sua mãe, está correta?
- E quanto ao que vocês me falaram sobre família? – Curvo os lábios para baixo, fechando os olhos pois era mais que óbvio que em algum ponto Harry usaria algo que lhe dissemos contra nós. – Que a família sempre está correta? Que apenas querem o nosso bem? Ela era a família da minha mãe, não era, tia?
- Touché! – Sirius o elogia, balançando os ombros de Potter, este apenas mantendo os olhos baixos. Não consigo suportar a ideia de que Petúnia Dursley o conseguiu pôr para baixo em seu aniversário, em especial pois jurei a mim mesma jamais deixar que pusesse os olhos em Harry novamente. É revoltante. – Mas, se você se lembra disso, deve se lembrar do que já falamos há algum tempo, certo? – Tento encontrar respostas no rosto de Sirius, mas ele está ocupado demais com a face descansada sobre a cabeça de um Harry com péssima postura para acomodá-lo melhor. Torna-se cômico que Hazz indague-nos sobre família neste instante. – Faz um tempo que contamos sobre o que nós cuidarmos de você desde pequeno significa, Harry. Quando te contamos sobre a minha “família” que não é uma família de verdade e apenas pessoas com o mesmo sangue. Mas que seus pais nos amavam e confiavam em nós o suficiente para permitir que nós dois criássemos uma nova família por você. E foi isso o que fizemos. Você não tem o nosso sangue, mas nós somos a sua família quando, por outro lado...
- Aquela senhora não é a família da minha mãe?
- Não exatamente. – Volto a lhe explicar, apossando-me da deixa. – Sangue forma família da mesma forma que amor e carinho também formam. Porém, a sua família de sangue talvez não seja o suficiente, sabe? Como no caso do seu tio. Infelizmente, eles não foram tudo o que ele esperava, mas... – Ergo meu dedo e indico nós dois, fazendo o pequeno entortar os lábios em um sorrisinho entendedor. – Nós dois somos! Assim como o seu pai e mãe também foram. O mesmo aconteceu com a sua mãe, mas no caso somente com a irmã dela, pois nunca entendeu a magia e disse aquelas coisas. Contudo, por sorte ela teve a mim e muitas outras amigas e amigos, como o seu tio e até mesmo o seu pai, que se tornaram também família dela.
- Você conseguiu entender? – Hazz assente depois de um tempo. – Ótimo. – Sirius confirma e beija a cabeça do menino. – Agora vai tomar um banho que você está fedendo a chipanzé.
Harry ri ao subir as escadas.
- Também amo o senhor, tio!
Sirius já está me olhando quando eu me viro para ele.
- O Harry é um bom garoto. – Comento ao trazer uma almofada para meu colo. Almofada essa que Rúbeos Hagrid costurou para mim há alguns anos quando, sem querer, um ovo de hipogrifo foi esmagado em seu casaco e manchou o sofá. Sim. O meio-gigante com um talento incrível com animais também costura e chora quando sem querer machuca um filhote que ainda não havia nascido. – Nós fizemos um bom trabalho com ele, Padfoot.
- A Andy o adora e o Teddy também. – Black está coçando a barba ao falar. – A Dora... – Percebo sua hesitação.
- Nós temos de conversar sobre a Dora. E somente com a Dora.
- Imaginei que faria isso. – Não é uma repreensão. Sirius está sorrindo para mim de forma conhecedora e é quase demais. Desvio meu rosto para um dos porta-retratos sobre a mesa de centro, encarando nossos amigos. É uma foto do aniversário de nove anos de Harry. Toda a família reunida. Nós três, Dora, Andromeda, Hagrid, Teddy, Quim e Emmes. O cabelo de Dora – metade rosa e metade azul – é o ponto alto. – Mas ela precisa saber tudo, . Das cicatrizes, dos traumas, o treinamento e as coisas que nós já esquecemos depois de tantas pancadas na cabeça.
- Estamos falando do trabalho como aurores ou sobre quadribol? – Comento ao traçar os “frufrus” da almofada que não combina em nada com a estética da casa.
Sirius gargalha e eu sei de que memória é.
- A grandiosa e heroica Jessamine Fairchild! – Mordo meu lábio para não lhe dar o gostinho de me arrancar uma risada ao relembrar o fatídico dia. Sirius está com os braços estendidos pois este foi o seu melhor dia de narração de quadribol. Abafo a vontade de abraçá-lo em agradecimento por se esforçar tanto por minha felicidade hoje e pela de Harry. – A apanhadora nascida-trouxa mais jovem do século!
- Oh, isso é uma verdade da qual me orgulho muito. – Interrompo mesmo que embaraçada.
- Sorteada na estimada casa da Grifinória, o seu poder não possui limites! Ela pisou com bravura no Campo de Quadribol.
Cubro minha boca, pois é ridículo e bom. Sirius é bom demais para mim.
- A torcida vai a loucura com sua beleza e talento! – Usando a boca como megafone, ele imita gritos da torcida que entupia as arquibancadas de Hogwarts em 1975. – Ela sobe em sua vassoura e decola. O vento agitando o seu cabelo e os fãs estão torcendo. Gritando; extasiados. Ela lança a cabeça para trás e solta um grito de guerra do time. – Eu tomo coragem de “gritar” junto ele, tão tola e infantil quanto pois estamos falando baixo e rindo para o nada. – "Avante, Grifinória!" – O seu sorriso está brilhando ao olhar para mim. E há tanto carinho em seus olhos que estou ruborizando pela vergonha do evento e timidez de agora. – Então! – Black ergue a tensão, mãos tremendo e eu não me importo em batucar a mesa caríssima com garfos de bolo como se fosse um tambor. Estou gargalhando antes mesmo do gran finale. – Dois minutos depois e ela despenca!
- Eu te odeio. – Lhe atinjo com a almofada de Hagrid e Sirius a apanha de mim.
- Como se sentiu naquele dia, meu bem?
- Como se houvesse sido atingida por um balaço; ah, espere aí!


Capítulo 7

(Madame Black)
(August 12th - 1991)
- Qual o seu nome?
“Peão para A5” Harry Potter murmura, um copinho de gelatina em sua mão.
- Jessamine Black.
- Quantos anos tem?
- 29. – Suspiro e toco meus lábios com um dedo não enfaixado, jamais tentada a erguer a outra mão por medo do sangramento retornar. Hazz me olha atento, ansioso para minha próxima jogada. – Rainha para A5.
Minha rainha lança o peão de Harry para fora do tabuleiro com um chute na bunda. É um Xadrez Bruxo lindo que Sirius me deu em celebração de cinco anos de “casamento”, o conjunto de lápis-lazúli encantado por ele para não ser pesado e logo eficiente ao extremo para transporte em viagens e distração em momentos assim. Hazz aperta os lábios em derrota, principalmente quando ouve as portas de meu quarto privado abrindo e o som pesado de madeira contra mármore. Eu dou um toque em sua perna ao lado de meu corpo, sinalizando que seria adequado que descesse de minha maca e levasse nosso jogo consigo, mas meus olhos já estão focados em meu marido que avança para dentro do aposento e chama atenção do medi-bruxo ao meu lado, este abrindo e fechando a boca severas vezes para tentar entender o que está acontecendo.
- Até logo, Doutor Louis.
Harry coloca sua gelatina de maçã no tabuleiro e corre pelo quarto de hospital, passando pelo tio no caminho, respectivamente recebendo um bagunçar de cabelos e um aceno com o queixo antes de Emmeline Vance o receber do lado de fora e fechar a porta. É só assim que eu consigo respirar fundo ainda de forma entrecortada, a dor em minhas costelas e perna finalmente podendo ser apreciada agora que não há necessidade alguma de parecer forte na frente dele. Sirius está no meio do quarto quando me inteiro de sua aparência incrível para quem havia se arrumado às pressas. Só consigo encontrar um botão fora do lugar em seu colete e antes de analisar sua capa, ele já está sobre mim.
- Acabei de ver o Collins. – É claro que esta seria a primeira coisa a deixar sua boca, constantemente culpando Thomas por tudo o que acontece. – Vou mata-lo se ele acordar. – Sirius é sisudo e com um breve olhar lança farpas para o médico estacionado do meu lado, o homem se afastando como se meu corpo ardesse em chamas, assustado por meu marido. A expressão de Sirius se ameniza quando vem a mim e eu respiro fundo quando se inclina para beijar minha bochecha por um longo segundo, uma mão apoiando minha mandíbula e outra em meu braço. Pisco quanto encosta o nariz ali e a barba raspa minha pele ao se erguer. – O que houve, Tess?
Não parece ser o mesmo que ameaçou meu amante.
- Nós estávamos na Floresta dos Gritos em Buckley. – São informações que ninguém fora da bolha principal da missão; eu e Collins, deveria saber. Mas é de meu melhor amigo que estamos falando e ele faz questão de avisar em alto em bom som para o medi-bruxo que isto não sai daqui, forçando o pobre homem a concordar. Sirius sustenta sua ameaça antes de voltar para mim e assinalar que posso ir em frente. Engulo em seco, surpresa com o seu recém criado senso de proteção que esquenta meu ventre num momento indesejado. – Alguns trouxas foram encontrados mortos com claros sinais de tortura e estupro. Então quando achamos o acampamento dos bruxos das trevas, nós avançamos floresta adentro.
- O Collins estava com você o tempo inteiro?
- Sim.
Meu marido pisca e aperta os dentes.
- E depois disso?
Respiro fundo e encaro o sangue no lençol, ainda de quando tentaram estancar meus ferimentos duas horas atrás. Havia pedido por um cobertor quando Harry chegou da aula particular de ciências trouxas e tive de divergir sua atenção para que não visse o horror estampado no algodão.
- Está tudo bem. – Há segurança em sua voz e eu forço o nó em minha garganta a sumir. Por baixo do cobertor, Sirius esgueira a mão e segura a minha e a livre afasta o cabelo grudado com sangue seco no meu rosto. Engulo a emoção seguro nos dedos de meu marido com força, minha aliança afundando em suas falanges e um calor tímido em meu peito.
Esfrego a língua contra o céu de minha boca, garantindo-me que não irei gaguejar.
- Alguns partiram com vassouras e eu convoquei a minha para persegui-los. – As lembranças são enevoadas agora. Escuras pela floresta fechada e ruim de se atravessar na vassoura por quem não a conhecia bem. Sinto cheiro de terra molhada com sangue e depois uma dor aguda. - O Collins foi a pé e eu tinha avançado uns três quilômetros quando me atingiram.
- Pode nos descrever o que sentiu, madame? – É o medi-bruxo amedrontado que questiona, atento e com a sua ficha em mãos
- Foi como facadas. – Se ele se indaga como sei identificar a dor de facadas, ele não demonstra a dúvida e eu também controlo minha expressão para não dar sinais de que a dor ainda se prolonga depois de tantas horas. Mas ela está aqui e é azeda. Eu já fui ferida demais em minha vida. Baques com gosto amargo, queimaduras metálicas e facadas azedas. – Rasgos na minha perna e não só um, mas quase uma dúzia. Foi uma dor tão... Afiada que pensei terem lançado água gelada em mim. Fiquei tonta pela perda de sangue e caí da vassoura. Só me recordo ter acordado aqui umas... Duas horas atrás?
Sirius aperta os meus dedos com uma força preocupante, mas eu apenas afago sua mão com meu dedão, tentando lhe confortar.
- A senhora reconheceu um deles, certo? – Argos Louis, o responsável por me tratar e tentar reverter o estado de minha perna, indaga-me.
- Não.
É tarde demais quando noto meu desespero em responder.
- Madame Black, está segura. Pode me contar, não se preocupe.
Respiro tão fundo que a minha costela luxada dói.
- Tem cinco oficiais no perímetro do hospital. – Recordo com rigidez, meus olhos nunca deixando a sua expressão de doninha curiosa demais e interessada mais do que deveria em pronunciar meu sobrenome ao se referir a mim. E Sirius sabe muito bem que não deve se meter, por isso sua palma se suaviza na minha. – Tem mais dois na minha porta e o meu marido está do meu lado. Eu sei que estou segura. O que está insinuando?
- Minha fala foi deixada para interpretação e eu me desculpo. – Não há sinal de vergonha verdadeira em seu tom de voz ou no sorrisinho que segura. – Quero dizer que o Oficial Collins, quem imagino ser o chefe da senhora, relatou ouvi-la gritar um nome enquanto caía. A senhora chamou por um homem chamado “Jem”. Tem certeza de que não o disse, Madame Black? Posso considerar que esteja em um momento muito sensível e possa estar confusa, já que foi medicada tão intensamente desde que chegou, mesmo indo contra minhas recomendações para o tipo de ferimentos que sustenta. As drogas exageradas devem estar lhe confundindo.
O rosto de Padfoot está zanzando animado entre mim e o medi-bruxo quando puxo a ficha do homem com aspereza, arrancando em seguida uma das canetas em seu uniforme com a mesma rigorosidade. Viro para a outra folha quando ele pronuncia o meu nome e Sirius torna em sua direção enquanto analiso a ficha de Thomas Collins.
- Se você vai me chamar de “Madame Black”, também não vai chamar um auror subordinado a mim de “Oficial Collins”. – Eu risco cada vez que “Oficial” aparece antes do sobrenome de Thomas. O homem deixa de tentar me impedir quando está diante de um Sirius repentinamente calmo demais para seu próprio bem. Empurro a ficha em sua direção e a caneta também. – E em segundo lugar, não me recordo de ter chamado o nome de alguém, mas não é como minhas palavras importem tanto, é? Eu estava “muito sensível” enquanto levava a ofensiva de um feitiço que você ainda não se deu o trabalho de descobrir qual foi. – A raiva inebria meu julgamento ao mentir pelo bem de minha reputação. – Pergunte ao Collins se ele tem certeza do que ouviu. Não a mim.
- Se bem me recordo, o hospital possui uma penseira e pode requisitá-la, mesmo isto não sendo um problema seu, Louis. – Meu marido está sorrindo para o medi-bruxo com a cabeça para o lado em óbvia diversão. – Não se importa que eu te chame de Louis, certo? – Sirius cruza os braços em desafio. – Você é um medi-bruxo e esse é o seu sobrenome. E daí que é uma profissão de muito esforço e desgaste? E, assim, você tem certeza de que está no momento certo para trabalhar? – Black cochicha e eu posso traçar um sorrisinho na minha boca. – Podemos pedir a opinião de um médico que não diminua a palavra da minha esposa ao achar que, por ela ser mulher, a sua dor não é tão grande. Ou...
Enquanto Sirius fala, observo o médico voltar a ser um covarde.
- Ou um médico que eu não deseje socar.
*

Quando chegamos em casa horas depois, ainda estou zonza pela medicação e cada palavra proferida a mim por Emmeline é apressada ao ponto que não as compreendo, mas posso ver quando Harry deixa a mansão com ela e Quim, sua mochila com feitiço de extensão sobre seus ombros ao acenar para mim da porta. Molho meus lábios secos ao me acomodar melhor no sofá principal, as almofadas em minhas costas não auxiliando em meu conforto ainda que nada comparadas a dor quente de minha perna. Só percebo que não estou sozinha quando meu marido surge com roupas casuais e se abaixa para me olhar, logo sentando-se sobre minha mesa de centro.
- Mogno. – É a primeira palavra que consigo formular, minha língua pesada de sono falhando em me ajudar a soar irritada com ele. Sirius está tirando minha pulseira hospitalar (uma aréola mágica vermelha ao redor de meu pulso) com um feitiço quando processa minha advertência e sorri um pouco, seu rosto tão perto de mim que se pudesse, eu o abraçaria. – Saia. – Peço e percebo quando se ergue, a bunda pairando alguns centímetros fora da madeira. – Bom menino, Padfoot. – Sussurro com os olhos já fechados, decidida que uma soneca é recompensa para a frase completa.
- Não, não... – Sirius está rindo baixinho para não me incomodar e coloca a não em meu cabelo. – , você ainda não pode dormir, meu bem. – Emito um som tristonho com a notícia e abro um único olho, meu coração apertado com a expressão angustiada que pinta a face de meu amigo. Eu sou uma mulher adulta, por que ele está me tratando como uma criancinha? – Pelo menos não aqui, certo? – Fecho os olhos de novo, não conseguindo imaginar o quão dolorido será subir as escadas para ir ao meu quarto. – E também não pode dormir antes de me dar um sermão sobre o Rowell’s Elf Renting.
Rowell’s Elf Renting? Segundos depois, me sinto fisicamente capaz de enforcar Sirius.
- Seu monstro... – Chiei com o fervor de um zumbi, mesmo que estivesse irritada com a situação. – Alugando elfos, seu... – É um bocejo que me interrompe e eu quase caio no sono antes de terminar. – monstro, Sirius Black.
Só percebo que ergui as mãos para castigá-lo quando, sem o mínimo esforço, ele impede que eu soque seu braço. Sirius beija as juntas de meus dedos e me dá um sorrisinho tolo. Ah, eu quero matá-lo.
- Meu bem, preste atenção, – Me chama e eu cerro os olhos, tanto pelo ardor, quanto pela tentativa de parecer o mais irritada possível. – você está muito ferida e tomou medicamentos muito fortes, então alguém precisa ficar de olho em você a noite toda. – A preocupação é imediata e eu culpo minha mente drogada. Eu fiz algo errado? Sirius não gostaria de cuidar de mim agora que estou ferida e doente? A rejeição se finca em meu coração e eu sinto meus olhos arderem por outro motivo. Sirius parece perceber como minha expressão se altera e corre para explicar a situação de novo, sentando-se outra vez na mesa. “Mogno” guincho triste em sua direção. – Eu sei, eu sei! Mogno, você ama mogno, . – Sirius pula do móvel e se ajoelha ao meu lado, estalando os dedos acima de sua cabeça para chamar minha atenção quando me distraio com os cordões em sua garganta. – Oi, tudo bem? – O seu sorriso me acalma. – Onde estávamos? Ah, o elfo...
- Monstro! – Dessa vez consigo atingi-lo e ele nem mesmo se move.
- Sim, sim, eu sou um monstro por tentar cuidar da minha mulher. – Ele respira fundo, desatento a possessividade da frase. – , está prestando atenção? – Assinto devagar, lutando contra a vertigem. – Eu pedi que nos enviassem um elfo para organizar o quarto principal, pois a cama é maior e tem um banheiro anexado em que você poderá usar a banheira. – Sirius explica com toda a paciência do mundo, assentando os cachos em minha cabeça e olhando em meus olhos vítreos pela tristeza que se desfez. – E eu vou poder passar a noite cuidando de você, entendeu?
Não posso confirmar nada, pois um som o distrai e Sirius pede que eu o espere onde estou. Ele desaparece pela curva da sala de estar, bem a tempo de perder a chance de me flagrar o com o sorriso mais histérico do mundo com a ideia. Se ao menos minha perna funcionasse, poderia me levantar e ir abraçá-lo. Infelizmente, não sei quanto tempo percorre até que eu abra meus olhos sem nem mesmo ter percebido dormir quando ele me deixou. Desta vez não tem almofada desconfortável ou um homem pesado sobre meus móveis, sim um travesseiro macio atrás de minha cabeça e cheiro de hortelã.
Não me recordava da opulência do quarto principal da mansão, a porta constantemente fechada auxiliando a fingir que ele não existia, ainda mais por ser escondido atrás de uma estante de livros no corredor norte do segundo andar. Assim que nos mudamos, decidimos que nenhum de nós usaria o maior quarto da casa, certos que seria uma divisão injusta. E seria mesmo injusto pois é o quarto mais bonito de toda a propriedade, até mesmo da casa de hóspedes que eu mobilhei.
Preto e azul petróleo iluminados com detalhes dourados, uma combinação forte com o resoluto mármore negro de toda a casa com incrustações de mais dourado. A cores escura não são tão opressivas como um imaginaria ao ouvir a descrição do local, de fato, as janelas enormes do piso ao teto fazem o aposento enorme parecer mais aconchegante. Já a cama é enorme, talvez maior que uma king size e eu ocupo um espaço nem sequer considerável dela. Quatro pessoas dormiriam nela com facilidade, o raciocínio me enjoando ao pensar se Sirius já teria trazido uma ou mais de suas amantes para cá. Felizmente, o frescor que se ergue dos lençóis abaixo de mim garante que não, ao menos com estas roupas de cama. O cheiro se assemelha ao de vinho com uvas congeladas e madeira cheirosa, muito mais refrescante que eu imaginaria.
- Não acredito que acordou só quando eu decidi ir dormir. – Disparo minha cabeça na direção do som, somente agora percebendo que Sirius já se juntou a mim no quarto. Se minha boca não estivesse tão seca, tenho certeza de que iria engasgar-me pela sua aparência. – Está se sentindo melhor, Mittens?
Ele não parece perceber sua seminudez, a toalha presa em seu quadril enquanto se move pelo quarto e pressiona uma insígnia de boiserie na parede que faz surgir uma porta. Quando retorna para meu campo de visão, consigo engolir a surpresa das tatuagens em suas costas e peito, algumas também esgueirando-se por seus braços e perigosamente abaixo da toalha. A questão é: eu conhecia algumas delas, mas não todas.
- Oi. – Cumprimento quando ele retorna já vestido para a área principal.
Está usando uma camiseta simples que o veste insuportavelmente bem e calças de moletom fino, sem meias ou sapatos e é quase adorável. Seu cabelo está pingando ainda, mas Sirius esfrega a toalha nos fios sem muita preocupação.
- Oi, . – O cumprimento é meigo e acompanhado por um sorriso doce, ainda certo que estou doente e deve me tratar com todo o cuidado do mundo. É demais para mim ser o centro da sua atenção. – Está se sentindo melhor? A perna está doendo? As mãos?
Balanço a cabeça, mesmo que isso a faça doer acima de meu olho.
- Harry? – Questiono quando ele coloca o relógio no pulso e pelo relance posso ver que já passa da meia noite. – Onde ele está?
Sirius joga a toalha sobre uma poltrona antes de se aproximar da cama e sentar-se ao meu lado, ou o mais perto que consegue com as pernas ainda para fora.
- Ele está com a Vance e o Shacklebolt, lembra?
- Na verdade, não.
Quero me sentar para poder olhá-lo no mesmo nível, mas não ouso me mover em respeito a minha perna.
- Bom, eles levaram o Harry para o apartamento depois que chegamos em casa. – Só percebo agora que ele não se arrisca encostar nos lençóis e travesseiros, a postura impecável o mantendo sentado com respeito a minha privacidade enquanto eu quiser usufrui-la. – Lembro que você nunca gostou que ele a visse ferida, então pedi ao Quim por este favor. E agora posso cuidar de você sem ter que também cuidar da praga e impedir que ele leve a casa ao chão. – Sua voz está baixa para não incomodar-me, o bruxo com certeza rezando para que eu caia no sono outra vez.
- Obrigada, Sirius. – Ele está certo. Não consigo imaginar como Harry reagiria ao saber que eu estava tão ferida ao ponto atual. Para todas as dúvidas dele, combinei ainda desperta com seu tio que eu tinha apenas caído de mal jeito da vassoura. Não lhe diria que usaram um feitiço desconhecido contra mim, incerta de como se sentiria.
- De nada. – Toca em minha mão por um breve momento, logo levantando-se. – Não durmo há mais de 20 horas, então, se precisar de alguma coisa, grite ou jogue algo em mim.
É um choque que ele não se deite ao meu lado e opte pelo mini-sofá perto da janela. Sirius é grande demais para o móvel meramente decorativo, a cabeça apoiada em um braço do sofá e a metade da coxa pendurada no outro. É seu nato cavalheirismo e respeito por mim que o força a se enfiar em um espaço tão pequeno e, por um breve segundo, imagino em que pé estaríamos se nosso relacionamento fosse outro. Se eu estaria em seus braços ou se ele teria ido comigo para a missão em que escolhi Thomas pelo seu secretismo e possibilidade de uma escapada e um tempo a sós. E é quinta-feira, o dia da semana que Sirius pertence a Dana Timbrown e não a mim. Não sei como permaneceu do meu lado por toda a noite, mas sou grata.
- Padfoot? – Ele abre um olho para mim. – Vai ficar com torcicolo. – É a minha forma de pedir pelo conforto de seu corpo. – A cama é enorme.
Parece um grande luxo dormir novamente com Sirius, levando em consideração que eu nem me recordo da última vez que havíamos feito isso ou se já o tínhamos feito sem Harry enfiado entre nós. Não havia percebido até agora o quanto estava sedenta de contato humano após o ataque, em como gosto da sua pele contra a minha e de como sua mão esfrega a minha. Ainda mais da sensação de tê-lo ao meu lado no escuro. Gostaria muito de o abraçar, mas é impossível, ainda mais por meus ferimentos, então ficamos lado a lado com os dedos entrelaçados. Mergulho no sono, envolvida no calor da cama novíssima, e quando abro novamente os olhos, a luz do sol está entrando pelas janelas.
*

Recolho o livro que Sirius lançou para fora da cestinha, o enfiando nela quando está distraído.
Ele e Harry caminham lado a lado adentro da Floreios e Borrões; o mais velho comentando avidamente sobre a lista de materiais e o afilhado lhe observando e ouvindo com toda a atenção que consegue manter, mesmo que Sirius esteja irritado com o número de livros chatos e desnecessários. Diferente de outros responsáveis, teremos de comprar todos os livros da lista. Já moramos em muitos locais desde o início das aulas de Hogwarts e temos um livro ou outro dos últimos anos que sobreviveram, os meus amarrotados de anotações enquanto os de Sirius tem desenhos imorais e bilhetinhos que trocava com James durante a aula. Decidimos doá-los para a própria Floreios assim que os encontramos há meses, certos de que Harry mereceria novos.
- Tia? – Olho para Harry enquanto seu tio paga nossas compras, minhas mãos enfiadas nos bolsos de minha capa. Nem sequer consigo imaginar que ele se importe com meus dedos feridos e enfaixados, pois ontem mesmo deitou-se em meu colo e pediu por um cafuné, porém faço questão de escondê-los em público. – Podemos ver a minha varinha quando sairmos daqui? Vocês estão me fazendo esperar por pura maldade.
- Madame Black? – Um toque em meu ombro me impede de respondê-lo.
Reconheci o homem que me chamava pela pluma de fios flamejantes em sua cabeça e o sorriso fácil. Ele é bem mais alto que eu e magro, forma física oculta pelas vestes verdes em tom terra. Reconheço também a mulher gordinha e com rosto gentil atrás dele, ela já arrumando o cabelo igualmente ruivo e o de uma garotinha com sardas do seu lado, o vestido avermelhado combinando com a característica predominante em sua família. Não consegui não sorrir para os três.
- Weasley! – Hesito em estender a mão, porém o faço ao perceber como o rosto de Arthur se ilumina quando o reconheço. Ele se atenta rapidamente a minhas bandagens e tem o cuidado e gentileza de apertar minha mão com o mínimo de força possível. – Como tem passado? – Aumento meu sorriso ao me dirigir a sua esposa e filha, apertando a mão de Molly que está um pouco ruborizada. Aceno para a garotinha com um rosto igualmente tímido. – Eu soube dos problemas da semana passada com os mapas que gritavam as direções, que loucura, não?
Os Weasley são, definitivamente, uma das melhores famílias bruxas com presença ativa no Ministério da Magia. Claro que haviam boatos mal-intencionados sobre a condição financeira da família, sobre vestes de segunda mão, salários pequenos e também sobre o número “descarado” de bocas que Arthur Weasley alimenta. Porém, nunca deixei que mencionassem isso perto de mim. Conheci Molly no funeral de seus dois irmãos, Fabian e Gideon Prewett, enquanto ainda grávida de quem imagino ser a garotinha ao seu lado. Tive contato com ambos os irmãos Prewett quando ainda membros da Ordem da Fênix que hora e conheci Arthur já como um servidor do Ministério que é mais educado do que deveria com bruxos que não merecem.
- Muito bem, Black. – Arthur confirma e Molly também. – E você? Como está o Sirius?
Iria puxar Harry para perto de mim, mas percebo que o garoto também sumiu.
- Ah, está ótimo! – Sorrio embaraçada ao olhar ao redor atrás de meu sobrinho, porém dou de ombros e volto a dar total atenção a família. – Você sabe, não sabe? Trocando lâmpadas e sendo bonito, coisas de homem. – A própria Molly cobre a boca ao rir e um sorrisinho cruza o rosto da filha. A curva na sobrancelha de Arthur me lembra que eles certamente nem imaginam o que “trocar lâmpadas” significa. – E esta deve ser Molly, estou correta? Me desculpem, mas não havia os visto antes. Esse negócio de comprar materiais está me deixando louca. Nunca pensei que dava tanto trabalho assim.
- Molly Weasley sim, é um prazer, Madame Black! – O “madame” me irrita.
- O que é isso? Pode me chamar de , sem problemas! – Dou risada, não me importando que me trate com tanto respeito assim. Devem haver possíveis dez ou nove anos de diferença entre nós, apenas. – Ainda me lembro daquela caçarola incrível que você fez no ano passado para a festa de Natal do Ministério. E como estão os pequenos? – Questiono aos dois, me afastando do montante de gente que havia se juntado perto dos caixas registradores. Pedi a Deus em silêncio que não fosse por Harry, nem interessada em imaginar o que tanta atenção causaria em meu sobrinho. – Vi uns ruivinhos próximos da Madame Malkin e imaginei serem seus.
- Oh, os gêmeos, sim! Fred e George. Conseguimos uma promoção de luvas e eles foram escolher as suas. – Arthur explicou com certa animação.
- Vou apenas esperar que, quando Harry entrar em Hogwarts, possa me ajudar a aprender quem é quem. – Ergo as mãos em derrota, ciente que seria complicado para mim apontar quem seria quem sem conhecer a personalidade e trejeito dos gêmeos. Creio que ainda tenham mais alguns filhos que desconheço, também.
- Mas, Arthur querido, diga a Mad... – Molly sorri envergonhada antes de se corrigir. – Diga à o motivo de termos vindo falar com ela.
Pisco algumas vezes, confusa quando o rosto de Arthur se enrubesce.
- Ah, sim, sim! – Ele apanha um dos livros que carregava em sua cesta e passa a primeira página. Mesmo de certa distância, reconheço minha assinatura na folha um pouco amarelada. – Compramos o seu antigo livro de DCAT para o Percy, o nosso mais velho em Hogwarts, e queríamos agradecer a doação para a Floreio, Black. É uma boa ação isso que fez e nos ajudou muito, ainda mais por ter autorizado que pagassem qualquer valor pelo material. – Weasley inclina a cabeça na direção geral da Madame Malkin. – Os meninos não gostam que façamos isso, mas acho correto agradecermos a quem doa. – Não sei por quanto tempo estou os olhando quando consigo formular uma frase em minha cabeça. – Muito obrigado, em nome de nossos filhos.
- Estão brincando, certo? – Quando ambos balançam a cabeça um pouco acanhados, percebo que devo reformular minha resposta e ponho minha mão sobre o livro um pouco gasto. – Arthur, eu passei seis anos estudando com livros usados em Hogwarts e só tive a oportunidade de ganhar livros “novos” após os Potter me acolheram.
A realização atravessa o rosto do casal bem devagar. Deve ser uma surpresa, claro. O sobrenome novo carrega um peso cuja grande parte é oriunda de uma riqueza infinita, mas não significa que nasci no mesmo berço de ouro que Sirius.
- Sei o quanto cada livro é importante e como eu vibrava com um exemplar em bom estado. Então, não se preocupem com agradecimentos, por favor. – Dispenso a gratificação e sorrio para os dois, um sentimento tenro em meu coração pela educação e gentileza da família. – Se eu puder ajudar com qualquer outra coisa, por favor, me avisem. Conheci o Bill no Egito há um ano e ele só prova o quão esta família é valiosa. – Molly toca no ombro do marido enquanto olho para Sirius e Harry no caixa, sorrindo um para o outro e um peso fundo atinge meu estômago ao pensar em uma despedida. – Espero os ver em Kings Cross no dia primeiro!
*

Sirius está com a mão nas minhas costas quando entramos na Madame Malkin.
- Os Black! – A senhora rechonchuda e toda de lilás sorri para nós, animada por nos rever. Sirius abre um sorrisão para ela; conquistar velhinhas sendo uma marca registrada sua. – Sr. Potter! Já está enorme, menino!
Harry inclina a cabeça em respeito.
- Olá, Madame Malkin. – Não preciso de muito para saber que ele imita o padrinho para agradá-la. – Vim comprar o meu uniforme de Hogwarts!
Meu coração salta e eu desvio o meu rosto para uma arara de vestidos.
- Você é uma péssima atriz. Se o Harry não estivesse tão envolvido, eu teria te aparatado para casa e enfiado em uma banheira de chá de camomila, . – Sirius desliza as costas dos dedos enluvados pelo decote generoso de um vestido de seda vinho. Ele está dividindo o olhar entre mim e Harry enquanto segura a roupa. A aliança prateada contorna seu dedo e o couro negro ao redor. – Estava nervoso, mas não tanto como você.
- Por um acaso ouviu Olivaras?
- Não significa nada.
- Não significa nada? – Ralho baixo, checando a etiqueta do vestido ainda que Padfoot afane minha mão e só procure um do meu tamanho. Mordo a língua. – Pena de fênix, Sirius. – Ele nem mesmo pisca, apenas removendo um segundo vestido para mim. Este é roxo. – A mesma fênix que produziu duas penas e duas varinhas. – Estou cochichando, uma mão ao redor se seu antebraço. Olivaras havia sido claro demais para que pudéssemos cogitar ignorá-lo. A varinha que escolheu Harry é irmã da varinha de Voldemort. Varinha que jamais foi resgatada pelo Ministério da Magia e que eu duvido estar destruída. – A mesma de Voldemort. – Me lembro de temer mencionar o nome do bruxo quando menor. Hoje o pronuncio com repúdio. – Sirius, o menino estremeceu!
- Os senhores gostariam de alguma ajuda? – Toco meus lábios com a ponta dos dedos quando uma auxiliar da Madame Malkins surge do nosso lado, interessada demais em ajudar Sirius.
- Sim, por favor. – Meu marido confirma e aponta os vestidos. – Pode ajustá-los na forma da minha esposa, anjo? Malkin salvou como “Madame Black – a Boa”. O vinho, o azul e um preto. Com luvas de veludo com couro de dragão, também. – Se não estivesse tão preocupada com o estado de Harry, diria algo. – Obrigado. – Ele aguarda até que ela saia para me acompanhar na caminhada até Harry no final da loja. – Ele sabe quem é, . O Harry tem total conhecimento sobre Voldemort, o que ele fez e sobre a história. – Entorto a boca. – Todos tratam ele como se fosse especial, pois ele realmente é. Não podemos ignorar isso e você não pode ter um ataque sempre que mencionarem Riddle.
- Não é apenas mencionarem Riddle. – Balanço a cabeça, os cachos em meu cabelo acariciando minha nuca. A face de Sirius está abaixada para me ouvir, agora que não estou quase de sua altura pela ausência de saltos devido a minha perna ferida. – É esfregarem na cara dele que ele é “O Menino Que Sobreviveu” e as semelhanças que têm com Voldemort. É a porcaria de uma varinha. E o Harry é só um menino. – Impeço meu amigo de avançar muito quando chegam com as vestes de Hazz. Ele me olha por baixo dos cílios enormes e negros, virando em minha direção, olhos cravados em meu rosto. Aperto os meus lábios e quase dou para trás quando ele toca em minha palma em seu peito. Nossas alianças se enroscam. – Ele é um menino, Sirius. É uma criança. O mundo não parece notar isso.
Harry nos chama meio segundo depois e eu me afundo em meu casaco antes de me aproximar. Todo meu senso de proteção se esvai quando o vejo. De pé sobre um banquinho e conversando com uma criança ao seu lado, com um chapéu pontudo, a risada de Harry ecoa até nós. Uma bruxa se abaixa para marcar a bainha das vestes de nosso afilhado, uma careta quando ele não para de se mover. Posso ouvir as palavras "Canhões de Chudley" e "Time da Bulgária" em tons animados – o comportado de Hazz e um ainda mais baixo do garoto ao seu lado, com braços pálidos e postura elegante. Mantenho a mesma promessa que fiz para meu sobrinho quase dois meses atrás: guardar minhas lágrimas de orgulho e tristeza para o chuveiro.
- Está se preocupando por besteira. - Sirius respira ao cochichar, inclinado para mim e com os braços cruzados. Estou acenando para Hazz através do espelho, notando as manchas vermelhas em suas bochechas, mesmo com seu sorriso. Imagino estar da mesma forma. - Ele é um Potter. Dou duas horas no trem para ele fazer amigos. - Ergo a sobrancelha e observo o mais alto esfregar a mandíbula com um sorrisinho besta. Ele dá de ombros. - Foi assim comigo e o James. E você. - Sei o que está por vir... - Antes de você nos largar para ser amiga do Seboso.
- E da Lil. - Dou uma cotoveladinha nele.
- E do Seboso.
Não respondo até chegar bem perto de Harry. Meu coração acelera.
- Combinou com você. – Hazz sorri para mim, olhos brilhando ao se olhar no espelho. – Gostei do chapéu. – Ofereço um aceno de cabeça para o garotinho pequeno do seu lado, sua face quase rosada ao me ver.
- O-obrigada, madame.
- Tia, esse é o Draco Malfoy. – Harry indica e eu imediatamente volto a me atentar para o menino. Ele é baixo, mais baixo que Harry e eu tenho certeza de que não o identifiquei de primeira pelo chapéu. A imagem escarrada que pensei que o filho de Lucius teria mal se acomoda na face da criança. Draco tem os traços delicados da mãe. E a elegância dela. Pisco alguma vezes para lembrar-me que é só uma criança. – E ele torce para o time da Bulgária.
Claro que torce, pois esse é o tipo de informação importante para uma criança.
- Prazer, Draco. – O menino tenta me oferecer um sorriso, mas eu percebo sua hesitação. – Eu torço para os Hollyheads, só para deixarmos tudo bem claro aqui.
- É um time muito bom, Madame. – A timidez e nervosismo me surpreendem.
- Certo? Um dos melhores! – Respondo quando Malkin surge em nosso campo de visão, conversando com Sirius e lhe garantindo que nossas compras chegariam na Mansão em alguns minutos. Engulo em seco. – Joga quadribol? O Harry é bem rápido.
O menino assente com a cabeça.
- Meu pai falou que vai ser um crime se não me escolherem para jogar pela minha casa. – Seu novo tom é mais seguro e quase... Malfoy. – Sonserina. – É automático e nada natural, porém eu não menciono isso.
- Quem sabe, se forem muito bons nas aulas de voo, não entram logo no segundo ano? – Harry respira fundo e eu sei que é devido a ansiedade. Quadribol e Harry Potter, unidos desde o berço. E eu me orgulho tanto. Malfoy balança a cabeça de novo e eu sinto uma pena fria da criança. É estranho. – Bom, foi um prazer, Senhor Malfoy. Vamos, Harry?
O menino salta do banco e hesita antes de sorrir um pouco para Draco.
- Tchau, Malfoy.
Meu braço está sobre o ombro de Harry ao irmos embora.
*

Deixo que Harry se sente no chão da sala com os novos materiais e vestes, ainda impressionado com tudo e com a sua nova vida em algumas semanas. Não questionei para Sirius o valor dos vestidos que comprou sem eu mesmo ter demonstrado interesse verdadeiro, mas pude ver que toda a compra na Madame Malkin custou mais de mil galeões. Anos atrás eu iria me sentir culpada, porém já estou quase habituada a suas compras e gosto por coisas caras, estas refletindo sua criação e bom gosto.
- Quem era o garoto na Malkin? – Ele me dá uma taça de vinho. Beberico o amargor e ele se dirige a sua mesa no escritório, essa já coberta com relatórios de missões e protocolos.
- Draco Malfoy.
A luz enfeitiçada que ilumina o escritório parece piscar, como uma vela se esgotando, apesar se tratar apenas de minha imaginação. Luz enfeitiçada, ao contrário de fogo ou gás, nunca se extingue. Meus olhos, por outro lado, estão começando a cansar, e a julgar pela aparência de meu marido, não sou a única. Ele ergue a cabeça para mim bem devagar, como se preparado para flagrar um olhar de desdém ou ironia meu, porém eu não o faço. Sirius é belíssimo sob a luz. Com o coldre axilar sobre a camisa branca e a barba por fazer. Ainda que inebriada por sua aparência, permaneço quieta em minha mesa de frente para a dele em cadeiras iguais de couro marrom escuro. Sua mesa está coberta por papéis de todo tipo — velhos artigos de jornal, livros e folhas de pergaminho preenchidas com caligrafia bem-feita.
- Sabe o que eu penso sobre eles, não sabe? Lucius e Narcisa, o menino que não deve ser um doce, e o resto da Família Malfoy. – Black não está brigando comigo, mais calmo do que imaginei. – Você pensava o mesmo antes, . Quando tínhamos de entrevistar o Lucius todo o mês pois ele era um Comensal e você não acreditava que ele fez o que fez, lutou contra nós dois inúmeras vezes, estando “sob o efeito da Imperius”. – Aponta com amargor. – Lembra as merdas que ele falava na escola sobre nascidos trouxas e mestiços? Quando jogou lama em você durante uma partida de quadribol e quase te cegou? Ou a Narcisa que adorava fazer a sua vida um inferno? – Fecho meus olhos nos instantes que ele utiliza para beber seu drink. – O que acha que o garoto deles herdou?
- Lembro-me disso tudo. – Aviso ao me apoiar na mesa, decidida a trocar minhas bandagens no meio-tempo. – Ademais, eu me lembro de fazer amizade com um bruxo criado nos mesmos moldes que o Draco Malfoy. – Sirius se levanta para encher seu copo de novo no mini-bar. – E atente-se que não estou dizendo que ele e Harry são amigos por trocar preferências em quadribol, mas estou dizendo que é possível. – Apanho um kit de primeiro-socorros trouxa na gaveta. – O tal bruxo dizia coisas como "sangue-ruim" e acreditava em elitismo de sangue até ser educado melhor. Mais surpreendente que isso, foi eu ter me casado com ele, adotado uma criança e deixar que ele compre roupas caríssimas para mim na tentativa de me fazer esquecer que, desde meu acidente, eu não posso fazer o que gosto.
Dou uma pausa e aguardo pela atenção ininterrupta de Sirius para continuar. Sua expressão é delicada e tendenciosa, mas eu ignoro suas inclinações para brincar com a situação.
– Quando eu olhei para aquele menino, eu senti aversão e quis arrancar ele de perto do Harry. Isso até me lembrar de Orion e Walburga, duas pessoas horríveis que tiveram um filho bom e que precisou só de um empurrãozinho pra encontrar o caminho certo.
Ficamos em silêncio enquanto meu marido folga a gravata.
- Você adora concertar pessoas quebradas, não é? – É a sua escapatória para não precisar concordar comido.
- Quando elas valem a pena, assim como você vale? É obvio que sim.
Sirius desviou o olhar ao ouvir isso, mas não antes que eu pudesse perceber o leve rubor em suas bochechas. Ele tem se tornado tão pálido devido ao trabalho que jamais conseguiria esconder os rubores, mesmo tão bem acostumado ao fazê-lo. Surpreendo-me com o carinho do meu pensamento e o curvar saliente de sua bochecha, indicando que está sorrindo de mim.
- Correto. – Sirius admite com a face baixa. – Sem você, eu não estaria aqui.
- Não seja dramático, Sirius.
- Não estaria, , aceite essa realidade. – Tomo uma golada longa de meu vinho, surpresa que coloque a causalidade de sua vida sobre mim, em especial se for após a época que imagino. Uma inundação fervente de calor me ferveu as bochechas, e olho rapidamente para baixo, rezando para o rubor desaparecer. – Quando Voldemort matou a Lily e o James, eu pensei em largar o Harry com o Hagrid e ir atrás do Peter. Matar o Peter.
Com o passar dos anos, mencionar o falecimento de Lilian e James se tornou mais fácil, mas eu nunca havia me atentado a sua versão do acontecimento, sempre egoísta o suficiente para focar em meu próprio luto.
– Então vi a toalhinha que você bordou para o Hazz na ponta do berço dele, aquela com os gatinhos muito familiares com o corpo preto e patinhas brancas. E... Imaginei que você iria precisar de mim aqui e não em Azkaban após matar o Pettigrew. – Falou de modo tão simples e direto que ninguém jamais duvidaria dele, ou imaginaria que qualquer coisa dita por ele não fosse verdade. Sirius move os ombros de cima para baixo, como se ao me contar isso empurrasse um peso de cima dele. – Quase mais que o Harry; eu pensei em você. Em primeiro lugar o Peter, depois o Harry e então você. Mil vezes você que já tinha sofrido demais. – Cubro minha mão com uma gaze de maneira desleixada, encostando-me contra a cadeira para respirar enfim. – Eu quis ficar com você depois de tudo.
A última afirmação que deixou sua boca foi precisa, tão verdadeira ao ponto que me indago se um dia poderia acreditar que Sirius entenderia o quanto aquilo significava para mim e como era fisicamente dolorido o ouvir proferir algo dessa forma quando não era da forma que eu queria. Jamais poderia lhe dizer a mesma coisa – sempre sendo aquela que tem o coração frágil e emoções fortes demais, mas lhe ouvir, mesmo que tais palavras derramassem ácido em minhas veias, foi bom. Pois, em outros dias, eu poderia fingir que era verdade da maneira que eu gostaria de ouvi-lo. Ouvir-lhe dizer que, no meio de todo o caos, Sirius quis estar comigo no fim das contas, ao menos, da mesma maneira que eu quero – que anseio estar com ele hoje.
- Ah, você vai me fazer vomitar com essa baboseira, Black... – Caçoei com um revirar de olhos, um sorrisinho no canto de minha boca para provar-lhe que, pelo contrário; aquela era uma coisa boa de se ouvir. Ele está sorrindo para mim da forma mais impossível de não retribuir. – Não pode me dizer esse tipo de coisa e esperar que eu não fique emocional. – Minha voz está desdenhosa, pois é apenas assim que devo e posso reagir. Cubro minha mão em retalhos para que não a perceba, não quando minha aparência está tão horrível e eu não me sinto confortável com ela. – Vá dormir antes que eu passe mal com tantpp doce, querido. – O enxoto para não rir de sua expressão ofendida.
Ele me deixa com um secar de lágrimas falsas.




Continua...



Nota da autora: Oiê, meninas! Aqui é a Elis e eu vim agradecer a vocês pelo engajamento com a fic e desejar um feliz 2021 (super atrasado) KKKKKKKK Espero que todas estejam bem :)
OBS1: Não esqueçam de deixar um comentário <3
OBS2: Apareçam lá no meu Instagram (@autoraelis) pois estou sempre postando sobre WTDC.




Nota da beta: E apareceram os Weasleys! <3 Ah, estou amando o caminho dessa história!
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus