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Última atualização: 21/10/2020

Capítulo 1 - The Beginning

Desde criança, pensei que seria fácil escolher que caminho seguir, qual a decisão a tomar. Sempre tive o apoio dos meus pais no que quer que fosse necessário, mas quando chega a hora das decisões mais difíceis, chega-se a pensar que seria bom ter alguém para decidir por nós. Isso é sobre como eu decidi ser quem eu sou hoje, como eu fiz isso? Ah, eu tive uma ajuda incrível do destino, e vou contar minha história.
Quando chegou na época do vestibular e eu precisei escolher o que ser no futuro, eu fiquei desesperada. Sim, desesperada, porque eu odiava pensar na pergunta “o que você vai querer ser depois que terminar a escola?” ... Como assim, “querer ser”? Isso me tirou várias noites de sono, e eu sei que não fui a única e nem a primeira a passar por isso. Até que um dia eu estava assistindo a Fórmula 1, mais precisamente analisando a expressão do piloto ao ganhar a corrida, e parei para refletir, já fazia um tempo que acompanhava a carreira dele, e eu sempre ficava emocionada junto com ele, ao vê-lo ganhar uma corrida ou o campeonato. Vendo as entrevistas dava para perceber o amor dele pelo trabalho que faz, pois é, tanto amor que até nome para os carros ele dava, começando por Julie, Katie e por aí vai, mas a minha preferida sempre foi a Abbey (2012).

Foi então que eu decidi que, independente do que eu fizesse, eu queria ter a mesma expressão. Eu queria ter um sorriso no rosto toda vez que falasse do meu trabalho, ou melhor ainda, quando eu estivesse sentada na varanda, contando para os meus netos sobre a minha trajetória. Mas, e como saber do que eu gostava?

Depois de ter me aventurado tanto em cursos (fui de um técnico em administração para a contabilidade e, acredite se quiser, música e web design). Sentindo um vazio, eu me lembrei do meu brinquedo preferido, um carrinho de Fórmula 1, carrinho esse que eu guardava já tinham alguns anos, e eu ri, lembrando que eu o comprei para o aniversário de um coleguinha e acabei não indo na festinha dele porque não queria entregar o presente.
Tão bom lembrar da infância. Lembrei dos dias que passava com meu pai na oficina, e de tantas perguntas que eu fazia para ele. Lembrei também da minha mãe, contando que o primeiro brinquedo que pedi, fora um carrinho e um trator.
Os dias para a inscrição do vestibular estavam se aproximando, e eu estava ficando confiante. Depois de contar para os meus pais que queria cursar engenharia, eles me apoiaram, e na hora de efetuar a inscrição, eu lembrei novamente da felicidade de Sebastian Vettel nas entrevistas, falando do trabalho dele. Então assinei a inscrição com ainda mais confiança.

Ao longo do curso, fui me aprofundando na área de fenômenos de transporte, área base de conceitos no planejamento um motor. Claro, existe a engenharia de materiais, em que se aprende a como dominar a criação de materiais com características específicas que se necessita, mas por outro lado, tem toda a simulação de potência gerada pelo motor. Eu costumo dizer: o combustível é o sangue, o tanque é o estômago, e o motor é o coração, parece engraçado, mas eu acredito que agora você está vendo o sentido na minha comparação, e eu amo tanto tudo isso, que eu ficaria horas e até dias falando sobre isso.
Bom, a parte mais complicada do curso eram as aulas no sábado, no horário de alguns treinos da Fórmula 1. Que meus professores não saibam disso, mas eu sempre tinha meu celular do lado, conferindo minuto a minuto tudo o que acontecia. Cada semestre que passava, eu estava cada vez mais feliz e quando chegou o dia da formatura, eu fiquei com um aperto no coração: feliz por ter concluído algo que parecia um desafio que não daria conta, e uma pontada de tristeza devido às mudanças, era estranho saber que não voltaria mais a ver tantas pessoas queridas e que contribuíram tanto na minha vida, praticamente todos os meus colegas mudaram de cidade.

No dia da formatura eu estava em êxtase, eu não conseguia nem usar palavras para descrever o que estava sentindo, e na hora que eu fui receber o diploma, fiz o mesmo sinal com os dedos que o Sebastian fazia toda vez que ganhava uma corrida.
Hoje eu estou formada em Engenharia Química, atuando em uma área diferente da automobilística. Porém, estou prestes a concretizar um dos meus maiores sonhos, finalmente eu vou assistir à corrida em São Paulo. Comprei até os tickets antecipadamente, tickets, pois minha mãe e meu padrasto querem me acompanhar. Economizo já tem algum tempo para conseguir comprar os ingressos com direito ao paddock, e acompanhantes. Faltava pouco para chegar o dia de embarcamos no avião aqui no Sul, e aterrissarmos em Interlagos.
- Mãe, já organizou as malas? – perguntei, ansiosa.
- Ainda não. , falta mais de uma semana para irmos! - ela respondeu, impaciente.

Eu dividia meus dias entre estudos (sim, eu continuo estudando para concluir Engenharia Mecânica, estou concluindo minha tese, e faltam seis meses de estágio no próximo ano), trabalho, desenhos e Fórmula 1. Você deve estar se perguntando, “tá, mas as corridas não são só no final de semana?”. Não, não são. Os treinos começam na quinta, e eu costumo verificar as notícias frequentemente. Gosto de ficar por dentro de todas as mudanças, como também já li aquele regulamento algumas vezes, para comparar com os antigos. Eu sempre estou ocupada, meus pais me cobram a todo o instante mais atenção, eu sempre me sobrecarrego de tarefas, e logo que conclui o curso, eu senti a necessidade de mais conhecimento.
Como teria a possibilidade de fazer somente as matérias que faltavam para concluir Engenharia Mecânica na mesma Universidade, eu logo decidi me arriscar novamente, não que eu esteja insatisfeita com minha escolha nessa altura do campeonato, pelo contrário, eu tenho suporte para atuar no que eu gosto, mas eu sempre acho válido toda forma de aumentar o conhecimento. Claro, dessa vez está sendo mais tranquilo por não ter aula todos os dias, ter menos matérias e ter suporte online do meu orientador, só falta concluir minha tese, e conseguir um estágio que não poderá ser na mesma área em que trabalho atualmente.


Um dia antes da viagem, e aqui estou eu, com tudo o que vou levar organizado. Será a primeira viagem de avião da minha mãe, meu padrasto já é mais tranquilo e adora uma aventura.
Deixei tudo organizado na empresa onde trabalho para conseguir tirar esses dias, porque já faz algum tempo que isto está planejado, e todos foram comunicados que eu estaria fora por praticamente duas semanas nesse período. Tanto sabiam disso que resolveram me sacanear, dizendo que estavam fechando uma grande parceria com uma empresa nova, e que precisariam de mim, justamente nos dias em que eu precisava da folga. Porém, a mentira não durou muito, já que viram que eu estava prestes a chorar.
- Vai lá, ! Aproveita muito essa oportunidade, vou sentir tua falta nesses dias, por não estar aqui falando diariamente de Fórmula 1, principalmente porque eu gosto de te ver brava com as estratégias que dão errado, ou quando algum piloto bagunça tudo. - falou Alex, rindo.
Meu colega de laboratório adora me irritar, o que eu também gosto de fazer quando o time dele perde, sim, ele é um colorado perdedor! Eu não tenho tantos argumentos para usar no futebol, a não ser que tenha um piloto da Fórmula 1 que curta o esporte gaúcho (PS: Preciso me lembrar de levar uma bandeira nova, e maior, do Grêmio para o Russel).
Alex era meu colega na faculdade, e hoje somos responsáveis pela qualidade dos produtos de uma empresa de suplementos alimentares, então passamos horas no laboratório e ele tem que me aguentar falando sobre o meu assunto preferido.
- Não se preocupe, eu vou voltar com mais assunto ainda sobre Fórmula 1. – falei, debochada.

O dia parecia não passar. Depois de me despedir de todo mundo, corri para casa para tomar banho e pegar as malas, e fui com minha mãe e meu padrasto para o aeroporto.
Eu coloquei uma música para ouvir durante a viagem e acabei dormindo, pois não havia descansado em casa.
Chegando em São Paulo na quarta-feira, fomos direto para o hotel. Eu precisava urgentemente de um banho, e não quis nem sair para jantar. Resolvi pedir algo para comermos no hotel mesmo, queria dormir cedo para acordar o mais cedo possível no outro dia.

Logo que acordei, corri para um banho e escolhi uma roupa confortável para ir para o autódromo. Minha mãe não entende esse meu lado mais confortável, ela acha que estou mal vestida mesmo. Escolhi uma calça jeans clara, uma camiseta branca, um tênis branco e um par de óculos escuros, pois a previsão era de sol e calor por lá. Apesar de me vestir de maneira simples, eu demoro demais no banho. Depois de pronta, fomos tomar café, e finalmente, em seguida, em direção ao paraíso.
Chegamos no portão do autódromo e fiquei chocada com a quantidade de pessoas que havia lá, pois é, eu sou de uma cidadezinha no interior do Rio Grande do Sul, e até imaginava o tumulto, porém, não tinha visto pessoalmente.
Fomos direito para o paddock com a ajuda de um moço que tinha “Staff” escrito na camiseta. Meu coração parecia que ia saltar para fora do peito, aquele corredor com as garagens das equipes mais parecia uma vitrine de beldades, e quando falo assim, me refiro aos carros e as pessoas. Por incrível que pareça, uma das primeiras pessoas que vi foi alguém com quem eu tinha contato dentro da Ferrari, e apesar de nunca termos visto-nos pessoalmente, ela me reconheceu pelo tanto que conversamos.
- Eu acho que conheço você... - falou a mulher de cabelos loiros e sorriso simpático, vestindo o uniforme da Ferrari.
- Sim, , sou eu, a ... – falei, timidamente.
- Ah, claro! Eu lembro da tua história. Sei o quanto você gosta do esporte, e finalmente está aqui! Eu disse para seguir os teus sonhos. - ouvindo as palavras dela sem saber o que responder, meus olhos se encheram de lágrimas. - São teus pais? - ela perguntou, olhando na direção da minha mãe e do meu padrasto, e então eu os apresentei. – Essa é minha mãe, Cecília, e meu padrasto, Aloísio.
- Podem ficar conosco, ali do lado tem uma salinha para descansar. – falou, apontando para uma salinha montada com bancos vermelhos e mezanino de madeira, coberta por um toldo transparente. - Sei que você vai querer ver tudo por aqui, mas quando cansar, pode ir para lá. - ela sugeriu gentilmente, e eu agradeci. Logo pedi licença para continuar conhecendo tudo por ali.
- Mãe, aqueles são o Carlos Sainz e o Lando Norris, pilotos da MacLaren. - apontei para os dois pilotos vestidos de azul dentro do box da equipe. - E aquele é o George Russel, e o Robert Kubica, da Williams. - olhei em direção ao box, ao nosso lado. E nesse momento, George estava saindo de lá para ir em direção à Mercedes. Ao passar por nós ele disse “Hello”, sorrindo, e sorte, eu consegui processar um “Hello” também, em tempo de respondê-lo. PS: Eu trouxe a bandeira, mas preciso ter coragem de entregar.
- Não sabia que tinham pilotos tão novos aqui. - disse minha mãe.
- Mas o Robert já corre há bastante tempo. - falou meu padrasto, rindo. - Depois do Schumacher e do Senna, eu lembro dele. Bons tempos, é uma pena não termos pilotos brasileiros. Muitas vezes a questão é financeira...
- Por outro lado, é o medo, eles começam muito novos e os pais têm medo pelo risco do esporte. - completou minha mãe.
- É, são muitos fatores, tem a instabilidade das equipes pequenas, e a dificuldade de investir em pilotos novos. Por exemplo, tem equipes que evitam os treinos para poupar o carro e diminuir os custos, tem equipes que tem pouca mão de obra e dependem da logística de empresas terceirizadas, quando algo atrasa, não tem capital financeiro para um plano B, e aí acabam conseguindo concluir o carro em cima do prazo e sem testes. São inúmeros fatores, cada equipe tem sua maneira singular de lidar com imprevistos, mas uma coisa é comum a todas, o amor pelo esporte. Vamos fazer uma parada para tomar alguma coisa? Eu estou com muita sede. - após os dois concordarem, fomos pegar bebidas.

A maioria dos pilotos não estava no paddock devido ao treino não ser obrigatório, outros estavam na sua sala particular, no motorhome, onde guardam seus objetos pessoais e uniformes.
- Vocês estão vendo o mesmo que eu? Ali à direita da garagem da RedBull Racing (RBR)? - olhei com uma expressão de extrema surpresa para minha mãe e meu padrasto.
- Aquele era o chefe do Vettel. Você fala bastante nele. - meu padrasto respondeu.
- Sim, ele mesmo, e o outro é o chefe da Mercedes, e comanda também a Williams, por isso aquele piloto da Williams que falou oi para nós, estava indo falar com ele.
- Deu oi para você, né? - falou minha mãe rindo, e eu fiquei vermelha.

Depois de caminhar pelas equipes e ver Christian Horner e Toto Wolff, mesmo que de longe, já tinha ganhado o dia. Decidi seguir o conselho da , então fomos para a sala de descanso, porém antes de chegar lá eu o vi. Sim, Sebastian Vettel estava ali a poucos passos de mim, e eu travei. Não sabia o que fazer, apesar de ter uma parte de mim que pedia loucamente para que fosse falar com ele, tinha uma parte lúcida que dizia “pense no que vai falar”. Foi quando vi e ele, aquele cara loiro e com os olhos azuis no tom mais lindo que já vi, vindo na minha direção...
- Eu não acredito que eles estão vindo para cá. Vocês perceberam isso? - falei baixo o suficiente para minha mãe e meu padrasto ouvirem, sem me dar por conta de que eles não entenderiam nada do que eu falasse em português. Eles riram e entenderam o meu nervosismo, a pessoa que eu mais admiro na vida estava vindo falar comigo, e eu não sabia como agir, “respira , respira...”.
- Sebastian, eu gostaria que conhecesse uma pessoa. Eu já te falei dela há um tempo... - ela foi explicando.
- Ah sim, claro que eu lembro, você que estava com medo da profissão que ia escolher, né? Muito prazer, eu sou Sebastian Vettel. - ele falou de um jeito calmo, bem diferente de mim.
- Eu acho que sei quem você é. - eu falei de um jeito piadista, e ele riu alto. - Sou a , muito prazer em conhecê-lo.
- São seus pais? - ele perguntou, gentilmente.
- Sim, minha mãe, Cecília, e meu padrasto, Aloísio. - meu padrasto, que é tagarela quase que sempre, respondeu “Hallo! Wie geht’s?“. Sim, ele fala alemão perfeitamente, e eu agradeço a isso, pois, por este motivo, eu também consigo falar alemão hoje. Depois que Vettel respondeu educadamente, em alemão também, minha mãe disse ao meu padrasto para irem descansar, e me deixar conversar com eles, aproveitar esse momento que eu esperei tanto tempo.
- Então, você está feliz com a escolha? - ele perguntou.
- Alguns percalços pelo caminho, mas aprendemos com os desafios né? Atualmente eu não estou trabalhando com a área que eu mais gosto, que são fenômenos de transporte, mas um dia eu chego lá. – falei, confiante.
- Você já tinha visto um carro de fórmula 1 de perto? - ele perguntou, interessado.
- Não, para ser sincera, não tinha noção da dimensão do carro. – respondi, e então ele me chamou para ver o carro de perto, eu fui prontamente.
- Então, essa é a Lucilla? – falei, olhando o carro de perto.
- Sim. - ele respondeu, rindo. - Eu achei que esse nome combinaria com ela.

Passamos algum tempo ali, falando sobre o que mudou desde que ele começou como piloto, até o que o carro é hoje. Conversamos sobre o que deveria voltar, e nessa parte ele ficou surpreso por eu saber tanto sobre o passado do esporte.
- Eu realmente consigo ver todo o sentimento quando você fala de carro, ou do esporte. – falou, fazendo sinal para que eu entrasse na garagem da equipe. Lá ele me mostrou como tudo é organizado, onde ficam os pneus que eles usam, e quando eu perguntei que tipo de pneu eles estavam pensando em usar, ele riu e apontou para o estrategista. - Acho que ele pode conversar com você sobre isso... Marco, essa é a , amiga da . – nessa hora eu pensei, “Amiga, só falta ele me chamar de amiga também, aí eu zerei a vida!” - Você poderia explicar para ela o desafio que são as corridas aqui, com o tempo instável? - ele continuou falando e eu ri, por perceber que ele estava brincando com o fato de Interlagos ser uma incógnita.
- Claro, podemos conversar sobre isso sim, mas primeiro, vamos aprender a trocar o pneu. Você sabe como funciona isso aqui? - Marco falou em tom de brincadeira, pegando uma chave de impacto e colocando em minha direção.
- Ah, então é assim? Se eu passar no teste, vocês me contam o segredo? - falei rindo, e os dois concordaram com a cabeça. Então peguei a chave e fui na direção do painel para erguer o carro com o elevador, e tirar a roda. Confesso que eu não esperava que desse certo, mas consegui.
- Wow, olha, o tempo foi bom, hein? - disse Marco.
- Você nunca tinha feito isso antes? Tem certeza? – perguntou Sebastian.
- Bom, nunca troquei pneu de um carro de Fórmula 1, mas já troquei pneu. – falei, como se fosse uma coisa simples. - Eu ajudo meu pai na oficina quando tenho folga, eu me sinto bem nesse ambiente, e é uma coisa que gosto desde criança... - quando fui terminar de falar, chegou Mattia Binotto bem do meu lado, e Sebastian logo me apresentou novamente como amiga da .
- É um prazer conhecê-lo, senhor. – falei, sem conseguir esconder o nervosismo ao cumprimentar o chefe da Ferrari.
- Eu a quero na minha equipe. - falou Sebastian, e eu fiquei sem reação, pensando se tinha escutado errado.
- Sebastian, depois falamos sobre isso, agora você precisa ir para a sala de entrevistas, só falta você. Até o Charles, que sempre se atrasa, já está lá. - apesar de ele ser o chefe, eu percebi que era bem tranquilo, principalmente pela parte em que ele falou sobre o Charles se atrasar, parecia que estava pensando “já nem falo mais”.
Então nos despedimos, depois que eu falei que viria para o treino amanhã, e os dois seguiram para a sala da coletiva de imprensa, onde tinham repórteres de todos os lugares do mundo.
Ao final do dia, teria uma pequena confraternização com algumas pessoas importantes, o que é esperado, devido ao esporte ter muitos patrocinadores sempre há esse tipo de ocasião para fechar negócios.
Mas antes que eu voltasse para o hotel, me chamou.
- Hey, e aí? O que tá achando de tudo isso? - ela questionou, e eu não podia dizer que estava surtando, que era o melhor dia da minha vida e que a ficha não tinha caído ainda.
- Ah, incrível! Eu nem consigo te descrever a sensação. Eu troquei os pneus da Lucilla hoje, e conheci o Sr. Binotto. – falei para ela, tentando falar para mim ao mesmo tempo, acreditar que aquilo era real.
- Sério? E como foi?
- Ah, foi incrível! Ele foi super simpático, mas não demorou muito, logo eles foram falar com a imprensa. Sebastian disse para ele que me queria na equipe, logo depois que eu consegui trocar o pneu. – falei, rindo.
- Eu lembro de quando falei com você e disse que ainda iriamos nos encontrar aqui. Eu não posso te contratar, não sou a responsável por isso, mas o que eu posso fazer por você, é te convidar para ir à confraternização que terá mais tarde. Você topa?
- De verdade? Não brinca com isso, por favor.
- Claro que é verdade, você vai como minha convidada. Toda vez que você falou comigo, foi de um jeito educado, nunca pediu nada em troca. Se você soubesse cada coisa que falam para mim... “Me dá uma camiseta? Me dá um ingresso? Me deixa falar com o Vettel, ou com o Leclerc? Pede para eles me responderem, por favor? Pede para me seguirem...” E por aí vai. E você, você economizou durante um bom tempo para estar aqui hoje, e foi super educada ao falar conosco... Eu acho merecido que você vá hoje, para comemorar isso tudo, e para podermos conversar, porque hoje foi corrido. - falou tudo de uma vez e eu nem consegui absorver metade do que ela disse, tamanho era o meu nervosismo.
- Eu não sei nem o que dizer. – respondi, nervosa.
- Diga apenas que estará lá. - ela disse, pegando um papel com o endereço, do bolso do uniforme. - Às 20h.
- Certo, estarei lá.
- Eu espero você exatamente às 20h, na entrada do hotel então. Está bem? - depois disso, fui chamar minha mãe e meu padrasto que estavam esperando na salinha.

Fui contando tudo que tinha acontecido na garagem da equipe para minha mãe e meu padrasto dentro do táxi, a caminho do hotel em que estávamos hospedados. Fiquei desesperada, pensando que não tinha pegado nada para vestir em uma ocasião como essa. Mas minha mãe, como sempre, parece que prevê o futuro. Ela me deixou continuar preocupada o caminho todo, mas ao chegarmos no hotel, ela tirou da mala um vestido lindo com decote em formato de V, as costas de fora e uma fenda, em um tecido leve, na cor vermelha (não podia ser mais perfeito pro momento), e uma sandália dourada que se encaixava perfeitamente no conjunto.
Corri para o banho e depois fiz a maquiagem o mais leve possível, até porque não queria me arriscar. Com os meus cabelos não foi diferente, sequei e deixei soltos os longos fios ruivos.
Apesar de o hotel onde seria a confraternização não ser longe, eu demorava para me arrumar, e não poderia de maneira nenhuma me atrasar. Enquanto me arrumava, eu pensava “Meu Deus, estou com medo de acordar e perceber que tudo foi só um sonho”, e “O tempo passou tão rápido”, ou “caramba, eu vi ele, eu falei com ele, e ainda consegui mexer no carro dele. Estou indo para a confraternização!” Eu ficava repetindo tudo mentalmente, para que eu mesma conseguisse acreditar em tudo o que tinha acontecido.
Chegando no lugar marcado, dez minutos antes do horário combinado, comecei a ficar ansiosa, porque ainda não estava lá. Eu fiquei de um lado do hall em que conseguia ver bem todo o ambiente, e assim perceberia quando a chegasse, foi aí que fiquei viajando ao analisar como era lindo aquele lugar, com pilares altos e esculpidos na cor branca, sofás gigantescos na cor branca também, um tapete imenso no centro, na cor marrom com desenhos geométricos dourados, e candelabros presos no teto, de cor dourada combinado com as fechaduras também douradas daquelas portas gigantescas. Parei de refletir quando a vi chegando, linda e elegante como sempre via nas fotos que ela postava. Estava usando um macacão de um tecido fluído, na cor branca, e com um corte perfeito, parecia ter sido feito sob medida para ela, com os cabelos presos e uma maquiagem leve. Me aproximei e ela veio me cumprimentar com um abraço, dizendo para entrarmos no salão do hotel.
- Você está linda! - disse ela, com sua voz doce. Vendo seu rosto mais de perto, percebi que estava avermelhado, mas não estava frio, então percebi que ela já havia tomado alguma coisa.
Pelo que vejo da , ela é uma profissional incrível. Responsável pela chefia de marketing e relações com os patrocinadores, ela sempre estava presente nas festas, e parecia que sua parte preferida eram as bebidas. Só não esperava por ela ter tomado algo antes da festa, ri ao pensar isso.
- Você também está linda , e muito elegante. – respondi, tentando parecer o menos preocupada possível ao pensar em todas as pessoas que estariam por trás daquelas grandes portas que separavam o hall da confraternização das equipes.
- Então, pronta? - ela questionou e eu balancei a cabeça, concordando.

Capítulo 2 - The Power Of A Dream


Então os dois homens que pareciam da equipe de segurança parados na frente daquelas grandes portas de madeira abriram-nas para que eu e passássemos. Logo que passamos e eu pude ver o ambiente, percebi que estava lotado. Apesar da pouca luz, eu podia ver o quão requintado era aquele lugar, assim como no hall, com móveis clássicos e lustres dourados pelo teto. Estava tocando Maroon 5, e eu senti uma vontade enorme de dançar, a melodia de Memories não é fácil de resistir, e esse cenário nebuloso é bom demais.
- Eu vou procurar o pessoal, você vem comigo? Não quero te deixar sozinha aqui. - disse perto do meu ouvido para que eu conseguisse entender. Eu concordei e então passamos pelo meio de todo aquele aglomerado de pessoas, até finalmente conseguir ver Sebastian Vettel e Kimi Räikkonen conversando.
- Achei vocês! - disse , animada, aos dois.
- Quanto tempo, ! - disse Kimi.
- Algumas horas. - disse Vettel, rindo. - Ela não larga do meu pé.
- Mas bem que você gosta, né? Eu vivo te salvando. - ela falou, entrando na brincadeira.
- Não vai apresentar a tua amiga, ? - disse Kimi.
- Ah, sim, claro. , esse é o Kimi, acho que você não conhece. - ela disse, rindo mais ainda. Caramba, o que foi que ela tomou, eu também quero, porque eu estou morrendo de vergonha. - Kimi, essa é a , minha amiga. – ao ouvir essa frase vindo diretamente dela, me senti acolhida, e a ficha começou a cair de que não era um sonho. Eu estava no mesmo lugar que as pessoas que eu sempre admirei, e isso era algo que parecia longe da minha realidade.
- Prazer em conhecê-la. - disse o Kimi, estendendo a mão e se aproximando.
- Prazer em conhecê-lo também. – respondi rapidamente, estendendo a mão também, para cumprimentá-lo, porque não é todo dia que ele decidia ser tão receptivo.
- Você já a conhecia, Sebastian? - perguntou ele, olhando para o Sebastian de forma curiosa.
- Sim, nos vimos mais cedo, ela cuidou da Lucilla hoje. - respondeu ele, rindo.
- Cuidou da Lucilla? Quem é Lucilla? - indagou Kimi, sem entender nada.
- O carro. – respondeu, simplesmente.
- Por que diabos todo ano você fica colocando nome nos carros? Qual o motivo? – Kimi continuou, questionando.
- Não fala assim, eu já te disse que elas têm sentimento. Eu achei que ela tinha cara de Lucilla, então… - respondeu Sebastian, como se estivesse falando de um ser vivo.
- Então, cadê o Binotto e o Leclerc? - perguntou , cortando a discussão dos dois.
- Eu ainda não vi o Binotto ou o Leclerc, devem estar com o Albon e o Norris. – respondeu Sebastian.
- Então, eu vou buscar bebida… Vocês querem? - perguntou Kimi.
- Não, obrigada. - e Sebastian responderam juntos. E logo, tratou de explicar, pois percebeu que eu não tinha entendido.
- Ele sempre pergunta isso e nunca volta para trazer as bebidas. - ela explicou perto do meu ouvido, como se tivesse contando um segredo.
- Deixa a novata responder! - insistiu ele.
- Obrigada, Kimi, por enquanto não vou beber nada. – agradeci, e ele respondeu com um “tudo bem” e se afastou.
- Ele não muda, né? - falou para Sebastian, que concordou com a cabeça.
- Então, , você mora em que lugar aqui do Brasil? – perguntou , e eu percebi que nunca tínhamos falado sobre isso. Eu sei que ela é da Suíça, mas não adiantaria muito ela me explicar o lugar, pois eu não consigo ter a noção geográfica.
- Eu moro no Sul, um pouco distante daqui. – respondi resumidamente, pois sabia que seria o mesmo que explicar para mim sobre como me localizar na Suíça.
- Você falou que não está trabalhando exatamente na área em que gostaria, então, o que você faz lá? - dessa vez a pergunta foi do Sebastian, e eu esqueci que ele tem uma memória muito boa para guardar todas as informações que escuta.
- Eu trabalho em uma indústria de suplementos alimentares, sou responsável pela garantia da qualidade.
- É você quem da o ok para liberar o produto para sair da empresa, então? É uma grande responsabilidade. E sobre você vir para cá, eles te liberaram numa boa? - seguiu perguntando .
- Sim, é isso mesmo, no início eu me sentia insegura, mas com o passar do tempo fui me sentindo mais confortável com o desafio. A viagem para São Paulo já tinha sido planejada e discutida há um tempo. Eu já havia adiantado todo o meu trabalho, e eu abri mão de algumas folgas que eles me dão pelo fato de eu estar trabalhando na minha tese da segunda graduação.
- Segunda graduação? - Sebastian voltou a questionar.
- Sim, um semestre depois que me formei eu quis obter mais conhecimento, então eu voltei na universidade e pedi para analisarem o meu currículo e ver o que era possível aproveitar para concluir a graduação em Engenharia Mecânica. Bom, eu fiquei mais um ano tendo aulas e trabalhando na minha tese, que estou finalizando agora. Apresento no próximo mês, dezembro. Para o próximo semestre, eu preciso apenas fazer estágio de seis meses, que não pode ser na área em que estou trabalhando agora.
- Eu espero que dê tudo certo, tenho certeza que você será uma grande profissional na área que deseja, você tem foco e determinação para correr atrás do que quer. Estaremos torcendo por você. - disse , gentilmente, e me senti tão encorajada com as palavras, e por saber que as pessoas que eu admiro estão conhecendo minha história e me apoiando. Não há maior incentivo.
- Com certeza, ainda veremos muito falar de você. - falou Sebastian, e nisso, já se aproximava Christian Horner, usando um terno de cores claras, trazendo toda a elegância inglesa à tona, diferente da maioria, que usava terno escuro. Elegantes, mas clássicos.
- Boa noite, , Sebastian, e… - cumprimentou ele, esperando que alguém completasse com meu nome.
- , ela é a , minha amiga aqui no Brasil. - completou antes que eu precisasse responder.
- É um prazer conhecê-lo! Apesar de já termos nos falado pelo twitter. - eu disse, e ele ficou com uma expressão de indagação, esperando que eu prosseguisse. - Foi na última corrida do Sebastian pela RBR, foi aqui no Brasil em 2013, chovia muito, a corrida foi interrompida, e aí tiveram umas perguntas e respostas pelo twitter. Eu mal podia acreditar que eu fui uma das quatro pessoas que você respondeu naquele dia, mais precisamente a primeira das quatro, eu falava para todo mundo, orgulhosa. – falei com brilho nos olhos, e suspirei, lembrando daquele dia.
- Eu lembro que fizemos isso, foi uma vez apenas, devíamos continuar… Qual era a pergunta que você fez?- continuou Christian, perguntando.
- Lembro exatamente: Falei que normalmente chovia em Interlagos, e que o Sebastian ia bem na chuva, perguntei o que vocês esperavam dele e da última corrida dele… - contei para Christian, com um tom de nostalgia, e um filme passou pela minha cabeça.
- E o que eu respondi? - Christian perguntou, de maneira divertida, cruzando os braços e escorando na mesa atrás dele.
- Você concordou com a minha afirmação de que o Sebastian ia bem na chuva, disse também que esperavam um bom resultado e que o tempo fosse colaborar. – expliquei, lembrando de cada palavra que estava escrito naquele RT dele.
- Legal que vocês acham que eu me dou bem com a chuva. - disse Sebastian ironicamente, divertido, dando de ombros, e todo mundo riu. - Ela é uma enciclopédia do esporte, podem perguntar para ela qualquer coisa que ela sabe. – Sebastian falou, olhando na minha direção, como se estivesse fazendo uma espécie de elogio.
- Então começa falando qual a tua corrida preferida. - sugeriu Horner.
- Essa seria a mais fácil das perguntas que você poderia me fazer. - eu já estava mais confortável, e então decidi entrar na brincadeira. – Brasil, 2012. - respondi.
- Por qual motivo? - Horner continuou, questionando, e dessa vez ele pareceu mais curioso, deve ser pelo fato de Sebastian ter tido tantas corridas incríveis (as da Marina Bay, por exemplo), e eu escolhi essa.
- Bom, foi o último ano de um piloto brasileiro. Lembro do Sebastian ganhando o campeonato, precisava poupar o motor, ou seja, se manter em sexto, e não podia forçar ultrapassagens para ganhar o campeonato antecipadamente, não deixando mais chances de Button recuperar os pontos. Lembro também que foi a despedida com pódio do piloto brasileiro, Felipe Massa, ele ultrapassou o Mark Webber ganhando a terceira posição pouco antes do final da corrida… - fui contando, e eles não tinham ideia de todos os detalhes que eu lembrava. Das multas pelos donuts, no final da corrida, por exemplo. - Sempre vai ser a melhor corrida para mim, e a Abbey sempre vai ser a minha preferida. - falei essa última parte diretamente ao Sebastian.
- A minha também. - falou Sebastian, olhando para mim, e ninguém entendeu.
- Ahh, era o nome que você tinha dado ao carro? Bons tempos aqueles. - disse Horner, parecendo também refletir mentalmente sobre aquela época.
...

Depois de mais alguns minutos falando sobre as corridas passadas, eu decidi ir pegar uma bebida, então pedi licença e fui em direção ao bar do outro lado do salão. Chegando lá, eu pedi uma caipirinha ao barman.
- Oi, eu quero uma caipirinha, por favor. – eu pedi e ele respondeu um “é pra já” e se afastou para buscar.
Quando o barman entregou a minha bebida, eu escutei Charles dizer “what is it?”. Até então eu não tinha me dado conta de quem estava do lado direito de onde eu parei, sentado na baqueta em frente ao mezanino americano. Charles Leclerc, como eu costumo dizer: com seus fiéis escudeiros, Alex Albon e Lando Norris. Eles riam alto, provavelmente de alguma bobagem.
- Isso se chama “caipirinha”. - eu respondi.
- Caipirinha. - ele repetiu de uma forma toda errada, e tanto Alex, quanto Lando, não resistiram em rir.
- Ca-i-pi-ri-nha. - falei novamente, de forma lenta, para que ele entendesse.
- Desisto, muito difícil. - ele respondeu. - Eu quero isso. - ele falou ao garçom, apontando para a minha bebida de forma que o garçom entendesse.
- Nós vamos procurar o George. - falou Alex, se levantando do banco e pegando o copo de bebida para levar junto.
- Esperando a “Ca-i-pi-ri-nha”. - repeti de forma lenta, sem olhar para ele, e novamente todos riram.
- Então, até mais e não incomoda a garota! – Lando disse.
- Não caia na conversa dele! – dessa vez foi Alex quem falou. Eu respondi fazendo um sinal de continência e sibilando um "pode deixar", e depois ele e Lando se afastaram, indo procurar o George.
- É difícil falar isso, poxa. - retrucou ele, falando sobre a caipirinha.
- Você desiste fácil. – falei, irônica, apontando o dedo para ele.
- Que fique claro que nem de tudo eu desisto fácil, eu os abandonei para provar isso. - falou ele, se justificando.
- Não, Charles, você os trocou pela caipirinha, ainda está em tempo de mudar de ideia. - falei normalmente, e ele riu.
- Hey, você sabe o meu nome, mas eu não sei o teu... – falou, tentando puxar assunto.
- Meu nome é . E por que alguém saberia o meu nome? Eu sou a “miss nothing” aqui... – falei, enquanto fazia sinal com o copo para o barman, deixando claro que queria mais bebida.
- Caramba, você gosta disso mesmo... - comentou ele, percebendo que eu tinha pedido mais bebida.
- Porque é uma das melhores coisas que o Brasil já inventou. - respondi. Então o barman chegou com nossas bebidas e colocou na bancada em nossa frente.
- Ainda não sei se concordo. – por que ele sempre tem uma resposta? Percebendo que eu não tinha o que falar, resolveu puxar mais assunto - Você é modelo? - não segurei o riso.
- Eu? Modelo? – disse, ironicamente.
- É, qual o problema? – disse ele, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
- Todos! Olha pra mim... – falei, apontando para mim.
- Eu estou olhando, por isso eu perguntei. - nessa hora, vi a expressão dele me olhando dos pés à cabeça e fiquei intimidada pela atitude.
- Você errou. – respondi, desviando o olhar e tomando minha bebida.
- CARAMBA! Isso é muito bom! - falou ele, maravilhado ao provar a tão famosa bebida brasileira.
- Você precisa provar a original feita com cachaça. - quando eu pronunciei cachaça, ele riu.
- Cachaça? - tentou repetir novamente, sem sucesso.
- É um destilado típico aqui no Brasil, principalmente no meu estado, o verdadeiro tem que ser artesanal. – expliquei, e ele prestava atenção em tudo que eu falava.
- Entendi. Você vai me contar o que faz da vida ou eu tenho mais quantas chances para descobrir? Não vai me dizer que você trabalha em uma empresa de bebidas... - falou ele, debochando.
- Não daria muito certo, eu iria à falência, por isso preferi trabalhar com alimentos, mas especificamente suplementos. – falei, entrando na brincadeira e levantando o meu copo quase vazio novamente para que ele entendesse o sentido do que eu havia falado.
- Então você é brasileira, trabalha com alimentos, mas gosta de bebida e mora longe daqui, isso? Mas o que te trouxe aqui? - despejou ele tudo de uma vez.
- Calma! Depois do efeito do álcool, eu só consigo responder uma pergunta por vez. – expliquei, com um ar risonho. - Eu gosto de Fórmula 1. - ele me olhou curioso e seu semblante esperava que eu prosseguisse. - Gosto desde criancinha. - então arqueou a sobrancelha, como se estivesse entendido o motivo de eu ir de longe até ali.
- E o teu vestido vermelho quer dizer alguma coisa? - disse ele, fazendo analogia com as cores da Ferrari e me fazendo ficar sem graça.
- Próxima... - eu disse, pedindo para que ele mudasse a pergunta, mas como ele não fez outra, eu continuei. - É uma longa história... Preciso beber mais uma para não lembrar disso amanhã.
- Você está dizendo na cara dura que quer esquecer de mim. – falou, fazendo uma expressão magoada.
- Não, não quis dizer isso, é que eu não costumo falar muito, eu sou tímida... - fui explicando.
- Se não é de falar muito, então poderíamos dançar. - ele fez sinal em direção à pista e eu ri.
- Eu não sei dançar... – respondi e novamente fiz sinal para o barman encher o copo, porém, dessa vez, eu fiz um sinal com os dedos simbolizando os dois copos.
- O que é isso? - ele falou, surpreso.
- Eu posso responder as tuas perguntas se você também estiver bêbado e não lembrar de nada depois. - nessa hora, eu nem sabia mais o que estava falando.
- Você tá querendo me embebedar agora? Por quê? – me questionou, se aproximando com um leve sorriso no canto da boca. Confesso que, olhando isso, esqueci o que ele tinha perguntado.
- Se você não quer a bebida, pode deixar que eu tomo os dois copos. – falei, irônica.
- Não, eu quero, e quero que você me apresente outras, já que parece saber tanto sobre bebidas. – sugeriu ele.
- Eu sei, sei que tem bebidas ótimas em Mônaco também, vinhos, a verdadeira espumante ... – fui falando e pensando mentalmente que adoraria conhecer os vinhedos e os parreirais monegascos e toda a Riviera Francesa.
- Se você quiser ir para lá, eu te apresento elas... – ele falou, como se estivesse me convidando para ir na esquina.
- Não será possível nesse momento. – falei, simplesmente, mas a minha vontade era de dizer sim na hora.
- Você é sempre difícil assim? – falou ele, se ajeitando para ficar sentado de frente para mim e não para o mezanino.
- Não sei o que você quis dizer com isso, mas eu não aceito convites assim fácil, não é seguro. – falei, me fingindo de inocente.
- Claro, porque poderia ser um psicopata e te sequestrar né, poderia começar te levando pra pista de dança... – sugeriu ele, novamente.
- Então vocês estão aí! Leclerc, comporte- se, ok? Não quero problemas amanhã, por favor! E você, , não caia na conversa dele! – falou , de maneira divertida, como se estivesse dando recomendações aos seus filhos. – , eu já estou indo... Você precisa de carona? Eu peço para alguém levar você, pois já está tarde, e eu preciso ir agora. O Sebastian já foi, pediu para eu me despedir de você por ele.
- Espera aí. Vocês se conhecem? E o Sebastian? De onde você conhece o Sebastian? – perguntou Charles.
- Nos falamos mais cedo no Paddock, só isso. – respondi.
- Eu posso levar ela, sem problemas. - interrompeu Charles, se dirigindo à .
- Não precisa, não quero incomodá-los, e você nem sabe andar por aqui, Charles. – falei, rindo.
- Você conhece um negócio que inventaram... Como chama... GPS? – eu odeio como ele tem resposta pra tudo.
- Já ouvi falar.
- Bom, vou deixar vocês terminarem esse assunto aí, e vou indo então. Charles, deixa ela sã e salva no hotel, e se comporte, ok? , me avise quando chegar!
- Tá bem, . Tchau, até amanhã! – respondeu Charles.
- Boa noite, , até amanhã e obrigada por tudo! – falei, abraçando-a. Depois que saiu, Charles continuou fazendo perguntas.
- Você vai me contar de onde conhece o Sebastian?
- Mas eu já te expliquei, falei com ele mais cedo.
- E o que te trouxe aqui? Não sabia que a tinha amigas no Brasil, e você também não me contou se a cor do teu vestido quer dizer alguma coisa.
- Ai, senhor! - falei em português, e ele me olhou de um jeito curioso. – Eu e nos conhecemos há pouco tempo, ela nem sabia que eu viria para ver a corrida, nos encontramos no Paddock. Não nos conhecíamos pessoalmente, mas ela soube que era eu. O Sebastian é uma pessoa importante para mim, a história dele serviu de exemplo, eu acompanho a carreira dele já tem um tempo e o que me chamava mais atenção era o amor dele pela profissão. Não estou trabalhando na área que eu me identifico, mas me formei no que me faz feliz, resumindo é isso.
- No que você se formou?
- Engenharia Química, e estou terminando minha tese em Engenharia Mecânica.
- Quê? Juro, você não tem cara de que estuda isso. – olhei para ele com uma expressão de que era para ele prosseguir. – É que você parece tão delicada e comunicativa, que eu pensei que você trabalhava com moda ou algo assim, por isso perguntei se era modelo...
- Então você acha que eu não dou conta? – falei, reprovando o julgamento dele.
- Não sei, precisa me convencer primeiro... – ele distorceu o que eu disse, e eu imagino que deva ter ficado mais vermelha do que o meu vestido, e sem saber o que responder. De repente, começou a tocar “Shape Of You”, e ele estendeu a mão, me convidando para dançar.
Eu ri e decidi aceitar o convite, então ele pegou a minha mão e me puxou para o meio do salão. Estava tarde, mas ainda tinham várias pessoas ali, porém, eu já estava me sentindo confortável no ambiente, deve ser o efeito do álcool, e eu nem lembro quantos copos de caipirinha eu tomei. Eu tentava seguir o ritmo da música, me movendo com os olhos fechados e pronunciando trechos da letra.
The club isn't the best place to find a lover
(O clube não é o melhor lugar para encontrar um amante)
So the bar is where I go
(Então o bar é onde eu vou)


E sem me dar conta, voltei a abri-los e acabei pronunciando:

Drinking fast and then we talk slow
(Bebendo rápido e depois falamos devagar)
Come over and start up a conversation with just me
(Venha e inicie uma conversa comigo)

And trust me I'll give it a chance now
(E confie em mim, vou dar uma chance agora)
And then we start to dance, and now I'm singing like
(E então começamos a dançar, e agora estou cantando como)


Ele pegou a deixa, e seguiu cantando:

Girl, you know I want your love
(Garota, você sabe que eu quero seu amor)
Your love was handmade for somebody like me
(Seu amor foi feito à mão para alguém como eu)
Come on now, follow my lead
(Venha agora, siga minha liderança)
I may be crazy, don't mind me
(Eu posso estar louco, não me importo)
Say, boy, let's not talk too much
(Diga garoto, não vamos falar muito)
Grab on my waist and put that body on me
(Agarre na minha cintura e coloque esse corpo em mim)

Fechei os olhos e disse:
- Eu amo essa música. - então senti que seus braços envolveram minha cintura, e ele começar a falar os trechos da música no meu ouvido. De repente, eu notei que estávamos exatamente no meio do salão. Começou a tocar “Take Me To Church”, e eu não consigo resistir a essa música também.

My lover's got humor
(Meu amante tem humor)
She's the giggle at a funeral
(Ela é a risadinha em um funeral)
Knows everybody's disapproval
(Conhece a desaprovação de todos)
I should've worshiped her sooner
(Eu deveria tê-la adorado antes)
If the Heavens ever did speak
(Se os céus alguma vez falaram)
She's the last true mouthpiece
(Ela é o último porta-voz verdadeiro)
Every Sunday's getting more bleak
(Todo domingo está ficando mais sombrio) A fresh poison each week
(Um veneno fresco a cada semana)
"We were born sick", you heard them say it
("Nascemos doentes", você os ouviu dizer isso)
My church offers no absolutes
(Minha igreja não oferece absolutos)
She tells me, "Worship in the bedroom”
(Ela me diz: "Adore no quarto")


E ao ouvir essa parte, e com o clima que estava ali, eu não estava pensando racionalmente, me deixei envolver e coloquei os braços em volta do pescoço de Charles e segui pronunciando a sequência da música, olhando diretamente em seus olhos.

The only Heaven I'll be sent to
(O único céu para onde eu vou ser enviado)
Is when I'm alone with you
(É quando estou sozinho com você)
I was born sick, but I love it
(Nasci doente, mas adoro)
Command me to be well
(Me mande ficar bem)
A-, Amen, Amen, Amen
(Amém, Amém, Amém)
Take me to church
(Leve-me a igreja)
I'll worship like a dog at the shrine of your lies
(Vou adorar como um cachorro no santuário de suas mentiras)
I'll tell you my sins and you can sharpen your knife
(Vou te contar meus pecados e você pode afiar sua faca)


Quando ele pronunciou esse trecho no meu ouvido, eu senti meu corpo estremecer, e ele percebeu, segurando minha cintura de maneira mais firme e logo sorrindo com o canto da boca. Aproximou cada vez mais o seu rosto do meu, até que, finalmente, selasse nossos lábios e iniciássemos um beijo sedento de paixão. Então parecia que não existia mais nada ao redor, somente nós dois ali, e a música ao fundo, naquele cenário escuro e excitante. Fui me deixando levar pelo clima, correspondendo às suas carícias, coloquei minha mão direita nos seus cabelos, puxando levemente, e ele correspondeu, acariciando minhas costas onde o vestido não cobria.

Offer me that deathless death
(Ofereça-me essa morte imortal)
Good God, let me give you my life
(Bom Deus, deixe-me dar minha vida)
Take me to church
(Leve-me a igreja)
I'll worship like a dog at the shrine of your lies
(Vou adorar como um cachorro no santuário de suas mentiras)
I'll tell you my sins and you can sharpen your knife.
(Vou te contar meus pecados e você pode afiar sua faca)


Eu acabei cortando o beijo, em um momento de lucidez, pois não sabia se ia conseguir me controlar. Pois é, Charles, pode afiar suas facas, pois você me conquistou facilmente, e eu não sei como sair disso agora.
- Eu acho que estou um pouco bêbada. – falei para ele, tentando não parecer nervosa.
- Eu acho que você tomou uns oito copos daquela bebida. Você tomou os seus e os meus junto! – falou ele, próximo do meu ouvido. Eu reparei que o rosto dele estava vermelho, parecia que tinha corrido uma maratona. Será que eu também estava assim? Ou será que é por que o clima tinha esquentado mesmo?
- Eu acho que preciso ir para casa. – fiz sinal de aspas quando falei casa.
- Eu posso levar você, sem problema nenhum. O Norris tinha vindo comigo, mas ia voltar com o Russel, então nem preciso avisar, podemos ir agora, se você quiser. – disse ele, se oferecendo para me levar.
- Eu não quero incomodar, eu tenho o número do taxista que me trouxe aqui, e perguntei se ele poderia vir me buscar quando acabasse... - expliquei e ele me interrompeu.
- Não é incômodo nenhum. Vamos? – ele perguntou e eu fiz sinal com a cabeça, concordando.
Charles segurou a minha mão e foi me guiando em direção à saída. Do lado de fora do hotel, ainda tinham alguns repórteres distantes de onde estavam estacionados os carros dos pilotos, ele não pareceu se importar, e, por sorte, nem um poderia chegar até onde estávamos. Então ele abriu a porta para que eu entrasse no carro, uma bela Ferrari F480 vermelha, e depois que o mesmo se acomodou no banco do motorista e colocou uma música, pediu que eu explicasse o nome do hotel em que eu estava hospedada. Segundo ele, conseguiria chegar lá com a ajuda do GPS, e por sorte, ele não bebeu tanto quanto eu. Durante o caminho, Charles quis saber mais sobre minha vida, o interesse dele era nítido e eu estava um pouco insegura em relação ao que estava se desenvolvendo, afinal de contas, nos conhecemos hoje, e eu não desejo parecer uma mulher que se interessa amorosamente por pilotos, sou muito mais que isso. Porém, ele sempre me lançava olhares serenos e confiantes e seu sorriso doce me fazia relaxar um pouco, e logo me tirou dos meus devaneios, pedindo para eu falar umas palavras em português para ele usar enquanto estivesse no Brasil.
- Charles, você falou errado. É churrasco! CHURRASCO! – enquanto eu explicava, tentava achar a música do Fernando e Sorocaba para mostrar pra ele e ver se assim ele conseguia pronunciar churrasco, já que é tão fã de carne. – Você precisa cuidar da pronúncia, por exemplo, se você fala burro aqui, não está falando de manteiga igual no italiano, está falando de um animal.
- Vocês falam tudo trocado, difícil acompanhar... - falou Charles, encolhendo os braços, se defendendo.
- Você é rápido. Mais algumas visitas e vai conseguir aprender bastante coisa. – falei, de forma a encorajar ele.
- Algumas visitas, é? E você vai estar aqui para me ajudar? – questionou.
- Isso depende do meu chefe. – respondi, rindo.
- Eu espero que ele seja um cara legal. – ele falou, mas parecia que estava falando para ele mesmo.
- E você veio sozinha para cá? – questionou ele, mudando de assunto.
- Não, minha mãe e meu padrasto também vieram e estão no hotel. – expliquei.
- Eles vão no treino amanhã? – seguiu perguntando. O que Leclerc tinha de bom piloto, tinha de curioso. Santo Deus, esse garoto parecia uma máquina de fazer perguntas.
- Vão sim. – respondi.
- Então eu vou conhecê-los amanhã. – ele completou.
- Parece que sim. – falei, rindo. – Eles foram hoje, você não os viu pois estava na sala de entrevistas. Eles conheceram a e o Sebastian.
- Ah, eles conheceram o Sebastian... Antes de me conhecer? – falou, fazendo cara de decepção.
- Hey, qual o problema com o Sebastian? – perguntei, ainda rindo das caretas dele fingindo decepção.
- Nenhum, só que você é fãzona dele. – explicou.
- Charles, é diferente, eu te expliquei o que ele representa pra mim. – falei isso da forma mais sincera possível, para que ele não voltasse a fazer comentários assim de novo.
- Eu sei, eu só queria ver o que você diria. – disse, rindo, e piscou para mim.
- Você quer me colocar numa saia justa, isso sim. – falei, tentando evitar responder isso.
- Eu não, mas se você estivesse na equipe e tivesse que escolher quem teria os melhores dispositivos para o carro, você escolheria ele, né? – perguntou ele, desviando o olhar do caminho e virando o rosto em minha direção.
- Me nego a entrar nesse assunto. – respondi, irritada, e ele riu.
- Eu perguntei isso só para ver a tua reação. – respondeu ele, estendendo a mão como se fosse puxar minhas bochechas, e eu desviei.
- Engraçadinho, só por isso eu diria que iria colocar os melhores dispositivos no carro dele. – falei, fingindo estar brava com ele.
E a conversa seguiu nesse rumo, falando sobre o carro e eu comentei sobre a sorte por poder colocar um motor já usado no carro dele na corrida de Austin, no Texas, e que foi um grande trabalho dos mecânicos da Escuderia e uma grande corrida, porque ele conseguiu um quarto lugar com um motor reutilizado e sem teste algum, o que não é algo usual, porque motores parados por muito tempo são um problema, e muitas vezes precisam ser refeitos, e eles arriscaram tudo trocando essa unidade em apenas duas horas. Alguns anos atrás, isso não seria possível pelo fato de que o regulamento não permitiria usar um segundo motor.
- É estranho, a gente conversando assim. Eu nunca me imaginei falando sobre isso... – então eu o interrompi.
- Com uma mulher? – falei, completando o que ele queria dizer.
- É, não me entenda mal, eu acho muito bom ver mulheres frequentando cursos que antes não existia mulher. Mulher vê alguns detalhes que homem não vê. – ele explicou.
- Eu vivo nesse mundo desde que me conheço por gente, então, eu já sofri preconceito, mas nunca fiquei insegura. E você, como foi pra descobrir que queria estar aqui hoje? – eu perguntei.
- Acho que é a primeira pergunta que você me faz. – analisou ele, rindo antes de me responder. – Bom, eu sempre vi o Jules correndo e sempre admirei ele como pessoa e como profissional, ele era para mim o que o Vettel é para você. Eu acompanhava as corridas dele, e um dia pedi pra ir correr de kart, daí em diante não parei mais. Até que um dia eu tive a oportunidade de conhecer ele pessoalmente, e ele me viu correndo, achou que eu podia levar a sério o esporte e me incentivou muito, não só na carreira, mas na vida pessoal. - ele foi contando sobre sua proximidade com Jules.
- Tem vezes que você precisa de conselhos de alguém que você confia, né?- eu comentei, lembrando de com seus conselhos, mesmo que de longe, sempre me transmitiam segurança.
- Pois é. E como meus pais eram muito ocupados e meu irmão era novo para eu falar de certas decisões, o Jules acabou sendo alguém importante para minha vida, um amigo, um irmão, um padrinho, e um pai às vezes... Infelizmente, perdemos ele de forma que não me conformo até hoje... – ele foi contando tudo isso e eu sentia sua voz engasgada.
- Se não quiser, não precisa falar, eu entendo. Eu sei o quanto foi difícil... – eu falei, tentando não entrar no assunto, pois imagino o quanto ainda é difícil pra ele.
- Tá tudo bem, hoje eu consigo lidar melhor com isso, e estamos na Ferrari, né? – falou ele, de um jeito orgulhoso da sua conquista. – Sei que ele estaria satisfeito com tudo.
- Ele está, pode ter certeza que a missão dele foi cumprida! – tentei confortá-lo.
- Mas tem muito chão pela frente, aqui é complicado. Nunca se sabe como estará o tempo em Interlagos. – percebi ele tentando mudar de assunto, e parecia que seus olhos estavam lacrimejando.
- Exatamente, melhor se preparar com pneus médios e trazer os soft como reserva. Independente da chuva, aqui faz calor nessa época e o risco de estourar os pneus duros é grande. – comentei.
- Acho que você devia ajudar o Marco com isso. – ele sugeriu.
- Ah, o Marco, nós conversamos hoje, ele me fez trocar os pneus da Lucilla, mas não quis me contar a estratégia. Sorte que as curvas aqui são bem distribuídas, isso ajuda a gastar eles numa porcentagem parecida. – eu poderia ficar horas falando desse assunto com ele.
- Até você com essa história de nome para os carros? Sua traíra, então você estava ajudando o Vettel, eu devia te deixar no meio do caminho. – disse, divertido.
- Eu só troquei o pneu. Não fale assim, coitada da Lucilla, carros são como nós. – falei, seguindo a brincadeira.
- Como nós? – ele perguntou.
- Sim, o tanque é o estômago, o combustível é o sangue e o motor o coração. Eu sempre cuido deles pensando assim, minha especialidade é a cardiologia, e eu fiz residência nessa área, comecei trocando a junta dos motores e os anéis dos pistões. Depois eu fui evoluindo e estudando sobre a usinagem, porque eu acho um desperdício motores velhos e potentes serem desperdiçados pelas peças saírem de mercado. Reconstruímos nossa Ford Williams assim, até porquê solicitar na fábrica sairia muito caro. – eu não me controlo, quando o assunto é mecânica eu falo demais.
- Eu estou surpreso com a sua maneira diferente de pensar, mas eu concordo, realmente as pessoas deviam dar mais valor. - falou, mexendo no computador de bordo do carro para abaixar o volume da música “I’m Not The Only One”. - Você é uma caixinha de muitas surpresas. Qual é a próxima que tem para me mostrar? – questionou ele.
- Como assim? – eu quis entender.
- É que eu fico surpreso com a maneira que você fala, com tudo o que sabe. É muito relaxante conversar assim, permite ver várias possibilidades. - finalizou no exato momento em que virava à direita para entrar na rua do hotel. - Que pena que estamos chegando, e aí a conversa vai ter que ficar para amanhã, né? – falou, com ar decepcionado e eu ri da insinuação.
- Verdade, mas amanhã voltamos a falar sobre isso. Obrigada pela companhia e por ter me trazido até o hotel. – eu falei, olhando em sua direção enquanto ele estacionava o carro.
- Sua companhia foi ótima, e você dança muito bem. – disse ele, desligando o carro e olhando na minha direção também. – Mal posso esperar para a próxima...- falou, se aproximando e juntando seus lábios aos meus de forma carinhosa. Eu correspondi, sentindo aquelas lábios macios e deliciosos, porém, não podíamos ficar ali muito tempo, e logo após, cortei o beijo e acariciei seu rosto enquanto ele permanecia com os olhos fechados, parecendo gostar do carinho.
- Charles, a gente precisa conversar sobre isso. – eu alertei.
- Sim, quando você estiver pronta para falar. – ele respondeu.
- Ok, mas agora eu preciso mesmo ir, porque já é tarde e você tem compromisso amanhã. Até amanhã, e boa sorte, eu estarei lá vendo de perto. – falei novamente, segurando seu rosto e beijando sua testa.
- Até amanhã, conto com você lá. – falou ele, segurando minha mão e despedindo-se de mim. E antes que eu pudesse abrir a porta, ele saiu do carro, como um belo cavalheiro, e abriu-a. Ele esperou até que eu estivesse segura dentro do hotel.

Capítulo 3 - Starting Something New

Entrei no prédio do hotel e fui para o elevador, e um filme daquela noite começou a passar na minha cabeça, “Foi um sonho?”, “Foi real?”, “Eu o beijei mesmo?”, eu estava um pouco tonta. Quando cheguei na frente da porta do nosso loft, eu demorei até conseguir abrir a porta, e quando consegui abrir, vi a minha mãe vindo em minha direção, preocupada.
- Minha filha, está tudo bem? Eu estava preocupada, não sabia se você podia atender. Na verdade, imaginei que você não ia ouvir, então deixei mensagem e você não respondeu. Como você veio? Como foi a festa? – minha mãe despejou todas essas informações e eu não consegui processar a metade no estado em que eu estava.
- Mãe, está tudo bem comigo. Podemos falar amanhã? Eu estou bem cansada e daqui a poucas horas tem o treino, não quero me atrasar. – eu expliquei enquanto tirava meus calçados e já ia em direção à porta do meu quarto.
- Tudo bem, descansa, e depois conversamos. – ela falou e depois finalizou com um boa noite, eu respondi com um boa noite também, fechando a porta do meu quarto. Fui em direção da minha cama, mas antes de pegar no sono, mandei uma mensagem para a , avisando que já tinha chegado e que estava tudo bem comigo. Ela respondeu logo em seguida com um boa noite e até daqui algumas horas.

...


Ouvi o despertador tocar, e apesar das poucas horas dormidas, a adrenalina de pisar naquele lugar novamente me deixava alerta como se eu tivesse consumido cafeína em excesso. Então levantei voando da cama, pegando minha roupa e indo para o banheiro. Escovei os dentes e tomei um banho, dessa vez numa velocidade recorde. Novamente coloquei roupas simples, uma camiseta cinza, um macacão jeans, e nos pés, um tênis all star branco. Prendi o cabelo e peguei meus óculos de sol. Depois de pronta, fui tomar o café que minha mãe já havia pedido e estava na mesinha da sala.
- Bom dia! – eu falei para minha mãe e meu padrasto, que me esperavam já prontos para o café.
- Bom dia. – eles responderam juntos.
- Como foi ontem? – perguntou meu padrasto.
- Ah, foi tudo incrível, as pessoas lá eram super educadas e eu me senti muito bem. Eu estava com medo de me sentir uma estranha ou uma intrusa naquele ambiente, porque eu só “conhecia” a . – expliquei, fazendo aspas quando mencionei que conhecia . E, quando eu ia prosseguir, meu celular começou a vibrar, então peguei e fui conferir o que era. Paralisei logo que vi que tinha me mandado uma mensagem, e que tinha uma foto minha e de Charles nos beijando. Nem vi o que tinha escrito na mensagem, apenas fiquei estática olhando a foto.
- O que houve, ? – perguntou minha mãe.
- A me mandou uma mensagem... – tentei responder.
- Mensagem? Tá tudo bem? – ela perguntou, com uma expressão preocupada.
- Está, mais ou menos. É que ontem a foi embora mais cedo, e eu estava conversando com um piloto, e aí saiu uma matéria hoje. – eu tentei resumir.
- Matéria? Que legal! Deixa eu ver... – pediu minha mãe.
- Não. – eu falei rapidamente, guardando o celular e pegando um pão de queijo e colocando inteiro na boca.
- ! O que é que você não quer me contar? – minha mãe falou, meio impaciente. Nesse momento, eu também já estava ficando impaciente, pensando que ia me atrasar e que minha mãe faria mil perguntas antes de sairmos em direção ao autódromo, então peguei meu celular e mostrei a foto para ela.
- Aqui! Depois falamos sobre isso, tá? Agora não, por favor. – eu pedi, quase implorei, na verdade.
- ! Quem é esse? – pois é, eu sabia que não ia adiantar pedir para falar depois.
- Ele é o outro piloto da Ferrari... – dessa vez, foi meu padrasto que se pronunciou.
- É, vocês não viram ele ontem porque ele estava na sala de entrevista. Depois da festa, ele me trouxe até aqui. – eu expliquei. – Por favor, vamos mudar de assunto? – eu pedi e eles ficaram em silêncio até eu terminar meu café e irmos para o autódromo ver o treino de sexta, que as equipes utilizam para fazer os ajustes antes da classificação.
Durante o caminho, eu permaneci quieta dentro do táxi, e com os braços cruzados, para não deixar parecer que eu estava tremendo. Quando chegamos, fizemos o mesmo caminho do dia anterior para chegarmos onde ficam as garagens das equipes. Dessa vez era só de passada, depois iríamos para os nossos lugares na arquibancada. Eu escolhi ficar entre o setor B e o M, porque assim eu conseguiria ver as ultrapassagens na reta, e veria os carros reduzindo para entrar na curva. Por eu nunca ter estado lá antes, me deu um certo trabalho até decidir qual o melhor lugar. Eu estava andando na lenta e olhando para todos os lugares atenta em uma forma idiota de não encontrar com Leclerc. Por sorte, minha mãe permanecia em silêncio e meu padrasto fazia perguntas, que por segundos, enquanto eu respondia, eu me sentia mais calma.
- What's up? – senti as mãos de nos meus ombros.
- Hey! – eu respondi, sem saber se ela iria me interrogar sobre a noite anterior. Pelo menos ela estava sozinha. Então ela acenou para minha mãe e meu padrasto e prosseguiu falando.
- De onde você vai ver o treino? – questionou ela.
- Eu escolhi entre o setor B e M, porque eles podem abrir a asa, ultrapassar e tem também a redução da curva. – eu expliquei.
- Por alguns minutos eu tinha esquecido que você entende sobre isso. – ela comentou, fazendo um sinal de círculo com os dedos, se referindo a atmosfera automobilística do ambiente. – Eu estava pensando, quem sabe, você quer ver o treino comigo, eu vou ficar sentadinha hoje lá, vendo tudo. – então ela apontou para uma torre, que é do Paddock Club, em cima das garagens. Aquele lugar é o ápice, nada simples, cheio de pessoas importantes e regado das melhores bebidas e culinária refinada. – Vocês querem me acompanhar?
- Jura? Não estou acreditando, eu vou ficar mal acostumada! – falei, incrédula.
- É sério! Ou você prefere ficar ali embaixo, naquele sol? – ela disse, rindo.
- Não, eu prefiro ir com você. – eu respondi e ela fez sinal para que eu a acompanhasse.
- Então vamos, e aí a gente já pega umas bebidinhas.
Assim seguimos em direção ao lugar. Lá estavam famosos, empresários, repórteres e alguns familiares de pilotos. cumprimentou alguns, de longe mesmo. Pegamos uma mesa para nós quatro, perto da vista da janela, e assim que nos acomodamos um garçom se aproximou para pegar os pedidos. Pedimos algumas bebidas, eu sugeri para a a caipirinha, como não poderia ser diferente.
Logo que os copos chegaram, eu fui tomar a minha caipirinha e não segurei o riso. Coloquei o copo de volta na mesa, e me olhou com uma cara curiosa.
- Isso tem a ver com o que aconteceu ontem? – perguntou , nessa hora eu engasguei.
- O q-que?? – eu disse.
- Você sabe do que eu tô falando. – ela falou, fazendo uma expressão de “não adianta fingir”.
- Eu sei, e eu estou muito envergonhada. Preciso de mais álcool para permanecer aqui até o final do treino... – eu falei, tomando um gole generoso da caipirinha.
- Vai com calma aí! O dia tá só começando e você não quer aparecer bêbada nos sites por aí. Você sabe também que vão começar a me perguntar sobre isso e eu nem sei o que dizer. – às vezes eu esqueço que é ela a responsável pelo marketing e pela imagem dos pilotos da Ferrari.
- Eu, nos sites? – falei, irônica.
- “Hellooooo”, você acha que os pilotos vão fazer o que depois do treino? Vir para cá, comer alguma coisa, e tem repórteres ali. - falou ela, olhando na direção atrás de mim. Eu me mantive calada, assim como minha mãe e meu padrasto, que só nos escutavam conversando sem entender nada.
- Já tá na hora de começar, né? – eu falei, vendo que os carros estavam aquecendo os motores nas garagens, e o pessoal do pitwall já se organizava por lá.
- Sim, é tudo muito pontual. – ela respondeu. – O que você espera para hoje? – ela perguntou, querendo saber minha opinião sobre o treino.
- Eu acho que veremos uma briga boa, essa pista tem muita possibilidade para fazer um bom tempo. Ali no laranjinha é uma curva aberta, quem conseguir aguentar sem frear antecipadamente, pode se dar bem. Essa curva é seguida de uma reta longa e sem aclives, dá para dar um impulso. – eu fui explicando, de forma empolgada como sempre ao falar desse assunto.
- E para a corrida? – ela prosseguiu, questionando.
- Parece que apesar do sol, vem chuva para a corrida, né? Normal nessa época do ano aqui, deve deixar o cabelo dos estrategistas brancos. Sebastian vai bem na chuva, e essa pista tem um diferencial para ultrapassagens. Diferente de Mônaco, que você tem que focar no grid, porque a pista não possibilita ultrapassagens. Eu acho que veremos uma briga entre o Sebastian e o Max. Max se dá bem em pistas rápidas.
- E sobre o Charles? – ela perguntou, de um jeito zombeteiro.
- Eu acho que ele pode conseguir um bom resultado já na classificação, depois só cuidar a estratégia e manter a posição. Vi que vocês trocaram o comando do câmbio dele... Isso pode gerar penalidades, né, então ele precisar ir bem no grid para poder recuperar na corrida. – e quando eu terminei de falar, minha mãe me cutucou, mostrando que alguns carros estavam se mexendo para sair da garagem.
O primeiro foi Max Verstappen. E caramba, o coração foi a mil por hora, eu nunca tinha sentido essa adrenalina de ver o carro se movimentando ao vivo e agora eu sei exatamente por que dizem que é inesquecível. Esse som do motor e a adrenalina desse lugar como um todo é algo inesquecível.
- O Max foi muito bem. – eu comentei.
- É, ele é muito bom. Eu estou gostando de ver essa nova geração cheia de energia. – ela disse, simpática, como se estivesse refletindo sobre as mudanças que essa nova geração de pilotos trás para as tracks. - Você acha que o Alex supera? – ela falou, analisando Alex Albon saindo da garagem.
- Acho que o Alex ainda tem coisas para aprender com o Max, apesar da pouca idade, ele tem mais experiência. Mas eu acredito no potencial do Alex para evoluir. – eu respondi, de forma realista, sem julgar somente por um treino. Logo após foi a vez de Lewis Hamilton e Valtteri Bottas.
- E esses dois? – ela disse, perguntando sobre Lewis e Bottas.
- Eu acho o Hamilton um grande piloto, mas eu vejo o Bottas com um super potencial, ele é muito rápido, ele vem fazendo umas voltas incríveis em pistas rápidas. Olha como ele está indo bem, talvez o Hamilton não consiga bater essa. – eu falei, admirada, ouvindo o som da Mercedes de Valtteri Bottas voar na pista e fazer com 1m38s192, e logo atrás veio Hamilton.
- Qual será que foi o tempo dele? – eu perguntei, ansiosa.
- Foi 0s039 atrás do Bottas. – respondeu , observando um painel no pitwall à nossa frente.
- Nossa, que incrível, as Mercedes estão voando baixo. – eu disse, ainda extasiada com a adrenalina de ver aqueles dois carros em nível muito parecido e que deixava o piloto sem a possibilidade de cometer qualquer deslize em relação ao companheiro.
- Você viu isso!? – eu falei para o meu padrasto.
- Eu vi!!! Ganz gut!! – dizia ele, empolgado.
Depois da Mercedes, foi a vez dos carros da Ferrari, e nessa hora eu fiquei nervosa. Um misto de nervosismo e adrenalina que me deixavam inquieta. E ao escutar o som dos motores, eu senti uma explosão dentro de mim. Enzo Ferrari era muito preocupado com cada ponto dos carros de sua marca, mas principalmente o som dos motores, ele escutava e analisava minuciosamente várias vezes até que estivesse em perfeita harmonia. Foi então que eu senti aquele rugir das rodas e só vi as luzes dos sinalizadores traseiros e ali seria a hora deles mostrarem toda potência que tinham preparado para os SF90. Sebastian foi o primeiro, o tempo dele foi muito bom, 1min16s785. Charles foi logo em seguida, 0s207 mais lento, mas, mesmo assim, à frente das Mercedes.
- Os meninos foram muito bem, se continuarem assim, primeira fila! – dizia , toda orgulhosa de seus companheiros de equipe.
- Sim, ótimo resultado! Fico muito feliz por toda a equipe, foi um trabalho árduo, mas deu muito resultado. – eu falei, seguido de comentários sobre ser uma das mudanças mais efetivas que a Ferrari já fez depois da introdução dos motores híbridos. - ...apesar de questionarem sobre o som desses motores terem perdido um pouco a emoção, eu discordo, creio que o Sr. Enzo estaria satisfeito, é um som mais baixo, mas ainda assim mostra imponência, mas sou sincera ao dizer que ainda preferia os V8.
- Isso eu também concordo. – disse . – Mas os meninos pilotando essas máquinas conseguem fazer elas brilharem mais ainda. – era possível perceber todo o orgulho da equipe nas palavras dela, ao ver o final do treino com os meninos na primeira fila.
– Eu admiro os alemães da Mercedes, mas não é a minha equipe preferida. – meu padrasto falava, em alemão.
- Seria a Ferrari? – perguntou , em alemão, rindo.
- Sim, os pilotos que eu sempre admirei passaram pela Ferrari. Confesso que hoje eu não sou tão assíduo espectador, porém tem a que me passa todas as informações e eu confio na opinião dela, também concordo que o Vettel é um grande piloto. – ele respondeu.
- Eu sou suspeita para falar, nem vou expressar minha opinião aqui senão vou até amanhã falando. – eu comentei, e percebi que Vettel e Leclerc estavam chegando.
- Suspeita para falar do que? – disse Charles e eu nem sabia o que responder, ou melhor, dizer que era suspeita para falar sobre o Vettel, então decidi mudar de assunto.
- Primeiro: Olá Charles! Olá Sebastian! Segundo: Vocês foram muito bem! – eu falei de forma animada e como se nada tivesse acontecido na noite passada. Eles responderam com um obrigado e Charles se pronunciou.
- , são seus pais? Não vai me apresentar? – perguntou Charles, vendo Sebastian cumprimentá-los e fazendo com que eu quase me afogasse com a bebida.
- Sim, minha mãe, Cecília, e meu padrasto, Aloísio. – eu respondi, ainda tossindo enquanto ele dizia “nice to meet you” e estendia a mão em direção ao meu padrasto e abraçava minha mãe.
Depois, eles foram tomar os lugares na mesa. Charles sentou do meu lado direito, Vettel sentou na ponta da mesa do lado direito, em minha frente estava , ao meu lado esquerdo, minha mãe e meu padrasto na ponta da mesa ao lado esquerdo, mas mesmo assim eu consegui ver ele se segurando para não rir por eu estar constrangida com Charles ali.
- Devagar com isso aí... Como se chama mesmo? – falou ele, pegando o meu copo de caipirinha.
- Ca-i-pi-ri-nha. – falei, pronunciando lentamente, seguido dele tentando pronunciar e falhando miseravelmente fazendo com que os que estavam na mesa não resistissem em rir.
- Caipirinha! – falou Sebastian com facilidade.
- Ah, claro que você ia conseguir. – Charles disse, incomodado. – Você fala quantos idiomas?
- Eu não falo português, mas eu conheço a bebida. Coisas do Kimi... – eu não aguentei e ri escandalosamente junto com , sobre o fato do Kimi ser o rei das bebidas.
- Kimi tem o dom de descobrir as melhores bebidas pelo mundo. – disse , e Sebastian assentiu. – O que vocês vão pedir? – questionou ela.
- Bife e salada. – disse Charles.
- Eu ainda não sei. – respondeu Sebastian.
- Churrasco! – eu disse. – Costela de cordeiro. Quem tá em dúvida, acho que gostariam disso. – então e Sebastian resolveram seguir meu conselho.
- E vocês? O que gostariam de almoço? – eu perguntei para minha mãe e meu padrasto.
– Acho que churrasco também. – minha mãe respondeu.
- É, eu quero um Schwein assado. – falou meu padrasto.
- Vou chamar o garçom. – disse .
Então não demorou para que o almoço chegasse, com aquela carne suculenta e quentinha.
- Você não vai querer provar isso mesmo? – eu perguntei ao Charles. – Está maravilhoso. – falei, cortando um pedaço de carne e provocando ele com aquela suculência.
- Tá bom, me convenceu. Me dá um pedaço disso. – falou ele, pegando um pedaço do meu prato.
- Nossa! Isso é muito bom! Não é como os cordeiros que fazem em Mônaco, esse é mais suculento e temperado, sem mudar o gosto da carne. – ele comentou.
- Sim, muito bom, pode apostar que eu irei pedir isso toda vez que vier aqui. – disse .
- Eu também. – concordou Sebastian. – Mas o porco também é delicioso.
- Pelo visto ele gostou do porco mesmo. – comentou minha mãe, se inclinando para que somente eu pudesse ouvir. Rimos ao ver Sebastian pedir mais.
- Vocês têm a vantagem de perder uns quilos naquele carro. – eu disse, irônica, fazendo referência a média de 3kg perdidos em uma corrida.
- Nem sempre, eu sou perdido em doces, se eu não me controlar, perder 3kg não vai adiantar. – disse Charles, brincando. – Falando em doce... O que tem para a sobremesa? – continuou ele, mas dessa vez ao falar em sobremesa, seus olhos brilhavam iguais aos de uma criança.
- Eu quero sorvete, com esse calor aqui, só comendo algo gelado. – eu terminei de falar, ouvindo risos de todos na mesa. Depois eu fui entender que eles estavam associando a parte do calor a outra coisa, eu só consegui ficar vermelha e não falei mais nada. Porém, Charles continuou provocando e foi na direção das minhas bochechas para apertá-las, e eu não consegui desviar.
- Olha, ela ficou vermelha igual ontem. – ele dizia e eu já parecia fritar de tão vermelha, ainda mais com os outros rindo.
- Ontem? – disse Sebastian, sem entender nada.
- Nada, bobagem. Vamos pedir a sobremesa? – eu falei, cortando o assunto. E todo mundo acabou escolhendo sorvete ou torta gelada. Eu optei por um sorvete de torta Holandesa, meu preferido. Meu padrasto, depois que terminou a sobremesa, engatou numa conversa com Vettel, e eu já imaginava que iria longe, ele é muito tagarela, só para quando está comendo mesmo. Até que uma famosa repórter de um canal de esportes espanhol se aproximou e veio conversar com os pilotos.
- Com licença. Tudo bem com vocês? Poderiam me responder algumas perguntas, rapidinho? – dizia a repórter.
- Olá, Nira. – brincou Sebastian, em espanhol. – Claro, pode perguntar.
- Então, sobre o grid de largada... O que vocês esperam da classificação amanhã? – ela perguntou.
- Ah, eu acho que podemos ir bem, esperamos por isso na verdade. O desempenho do carro está acompanhando nossas estimativas, então eu acho que teremos uma boa posição. – respondeu Sebastian.
- E você, Charles? Se sente pressionado com a largada devido às penalidades?
- Não, eu acho que fizemos um bom trabalho, seria inevitável não fazer os ajustes, era necessário. Infelizmente, a troca do câmbio nos penalizou com cinco posições, mas sendo otimista com o quinto lugar do grid, podemos chegar ao pódio na corrida. – disse Charles, convicto.
- Sebastian, você costuma ir bem em Interlagos e já se sagrou campeão aqui antecipadamente... Charles ficou muito próximo do seu tempo hoje, você vê algum risco e um rival à altura? – ela fez uma pergunta mais apimentada dessa vez.
- Não, eu reconheço o talento do Charles, mas eu adoro um desafio, então isso não é ruim para mim. – ele respondeu de forma clara.
- E você, Charles, como se sente correndo ao lado de um campeão mundial? – ela seguiu perguntando.
- Bom, eu vou admitir, eu sinto a pressão sim. Mas eu sempre fui muito competitivo e eu me cobro muito. É um desafio, mas isso me faz evoluir, eu tenho aprendido muito com ele. – respondeu Charles.
- Você falando assim faz eu me sentir velho. – Sebastian disse, fazendo cara de decepcionado e todos riram.
- Agora essa parte não é para a entrevista. – disse Nira. – , foi sua a ideia de colocar eles competirem naquele jogo de dardos? Eu adorei aquilo, ri demais. – ela comentou sobre um vídeo publicado nas redes sociais da Ferrari, em que Charles e Sebastian brincavam em um jogo de dardos com a equipe.
- Não, na verdade eu os vi brincando com aquilo e chamei mais um pessoal da equipe e fiz o vídeo. Pelo visto foi bem comentado, a cara do Charles no final foi ótima, nem ele acreditou que tinha marcado exatamente os pontos que precisava. – comentou .
- A equipe tem participado bastante dessas competições que vocês fazem, é muito bom ver a interação de todo mundo, mostrando que realmente são uma equipe. No entanto, ainda não vimos você...- falou ela, se dirigindo a mim.
- A-ah, e-eu não sou da equipe. – falei, meio engasgada.
- Ah, eu pensei que fosse, me desculpa. Namorada do Charles, então? – Nira perguntou e eu fiquei nervosa.
- Não! – eu falei bem rápido. – Eu sou amiga da e uma fã do esporte.
- Entendi, me desculpa ter confundido. – ela disse e eu tentei fingir um sorriso em sinal de “tudo bem”.
- Então ainda temos um solteiro na pista. Preparados para after depois da corrida? Nessa eu conseguirei ir. – Nira falou isso e confesso que eu já estava me sentindo incomodada com a intromissão dela, eu sei que ela é uma repórter já conhecida e conhece os pilotos, mas eu estava me sentindo incomodada com a presença dela.
- Claro, estaremos lá. – disse .
- Claro. – disse Sebastian, logo após Charles concordar também com a cabeça.
- Então, nos vemos lá. Tenho mais umas pessoas para conversar aqui. Até mais! – ela disse, se despedindo, e eu quase disse “ainda bem”, involuntariamente, vendo ela se afastar.
- Poxa, ainda bem que não vai para entrevista você me ignorando. Seria tão ruim assim? – falou Charles, fingindo estar magoado.
- O que você quer dizer com ignorando? Desculpem, mas achei melhor nem dar corda para ela. – eu respondi, de forma séria.
- Me dando um fora na verdade. – prosseguiu Charles com o assunto.
- Que fora que eu dei? Eu não falei nada demais. – eu disse, incomodada com a maneira dele falar esse tipo de assunto na frente das pessoas.
- Então quer dizer que... – Charles ia começar a falar e eu o cortei.
- Não quer dizer nada, vamos mudar de assunto, por favor? – eu falei, mexendo a colher no doce que eu nem havia terminado e nem queria mais, apenas para desviar o olhar dele.
- Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui? – disse Sebastian, confuso.
- Você não vê as notícias, Sebastian? – falou , fazendo sinal de negação, em reprovação.
- Não está acontecendo nada... – e quando eu ia continuar falando, mais uma repórter se aproximava. Dessa vez era Marion Grosjean, repórter da Sky Sport da França, também esposa do piloto Romain Grosjean.
- Boa tarde, queridos! Como vão? – ela falou de forma simpática. – Desculpem atrapalhar esse momento de vocês, mas eu poderia fazer umas perguntinhas para o site? Sem vídeo hoje, apenas umas perguntas.
- Claro, ficaremos felizes em colaborar. – respondeu Sebastian.
- Podemos começar, então? Qual a expectativa para a corrida? Vocês já notaram a diferença nos ajustes? Tem coisas ainda para ajustar? – disse Marion.
- Bem, sentimos diferença nos ajustes sim. Acredito que manteremos essa configuração nesse final de semana, fomos os mais rápidos e com uma diferença significativa. – respondeu Sebastian.
- Eu estou contente com o carro. Como Sebastian disse, manteremos essa configuração, mas eu ainda acredito que dá para extrair mais do carro, apesar do bom tempo que obtivemos. – respondeu Charles.
- Essa pista tem alguma característica específica que as outras não tem? – continuou Marion.
- Laranjinha. – Charles e Sebastian responderam juntos.
- É uma curva aberta que dá muita velocidade ao carro. É uma sensação única de entrar na reta com efeito DRS. – respondeu Sebastian.
- Charles, essa última é para você. Bom, é que me encaminharam uma matéria de um site francês, no qual o título é “Quem é a famosa brasileira que ganhou o coração de Leclerc?”. Você tem alguma declaração sobre esse assunto, poderia me dizer algo em primeira mão para publicar? Caso queiram esclarecer, seria uma ótima oportunidade não acha? – Marion falava de forma calma e gentil. Diferente de Nira, Marion parecia cuidar as palavras que dizia para não incomodar. Ela parecia desconfortável ao perguntar isso, porém, eu entendo que era seu trabalho.
- Bom, eu não sei se a quer falar sobre isso. Se ela quiser falar, por mim tudo bem. – Charles começou, olhando em minha direção, como se esperasse minha aprovação para falar.
- Nós somos sinceros ao dizer que não temos nada para comentar. É apenas uma foto, de verdade, não temos nada a acrescentar. – eu expliquei.
- Bom, isso é diretamente aos franceses do site. – falou Charles, em francês. - Esse assunto é algo muito pessoal. Mas o que eu tenho a dizer sobre ela, é que ela é uma pessoa muito especial. – concluiu Charles.
- Obrigada por ceder o tempo de vocês. Boa sorte na classificação e na corrida! – disse Marion, se despedindo e se afastando.
- Obrigada pelo especial, Charles, mas isso dá mais corda para eles. – eu disse.
- Só falei a verdade. - ele disse, risonho.
- O que é que está acontecendo com vocês dois? – perguntou Sebastian.
- Saíram algumas fofocas sobre nós em um site, porque estávamos juntos no final da festa ontem. – eu expliquei.
- Fofoca? Tinha foto... – disse Charles, e tanto ele quanto riram.
- É, fofoca! – eu retruquei, o cortando. – Você viu o que publicaram? Estão insinuando que estamos juntos.
- E qual é o problema? Somos solteiros, não estamos cometendo nenhum pecado... - ele ia começar a falar e eu o cortei novamente.
- Podemos não falar sobre isso? Assim você acaba se iludindo. – eu falei, fazendo piada, para que o clima ficasse mais agradável.
- As coisas são assim mesmo, tem que levar na brincadeira. Tudo o que a gente faz dá chance deles falarem alguma coisa. Eles já notaram você, precisa aprender a lidar com isso porque senão você fica sempre tensa. Como o Charles disse, vocês são solteiros, um beijo não foi nada de errado. – tentou me acalmar.
- Beijo? Sério isso? Você falou com os pais dela? – disse Sebastian, zoando, e eu voltei a ficar vermelha.
- Não, mas não tem problema, eu falo agora. – disse Charles, entrando na brincadeira e olhando na direção de minha mãe e meu padrasto que não entenderam, e estavam entretidos numa conversa que nem perceberam.
- Parem, por favor! – eu disse, envergonhada, mas não resisti em rir e Charles me abraçou carinhosamente.
- Olha. – disse ele, acariciando meus cabelos. – Ela fica linda com vergonha.
- Na boa, você não está ajudando. – eu falei, o empurrando e rindo.

...


Depois do clima tenso e de algumas risadas e conversas aleatórias, era hora de voltar para “casa”. Na hora em que estávamos descendo, tinham alguns repórteres no Paddock esperando para algumas fotos e algumas perguntas rápidas, como também alguns fãs estavam esperando para entregar algum presente e mais fotos. Eu confesso que me surpreendi com a atitude do Charles. Na hora das fotos, ele pegou a minha mão e fez questão que eu estivesse junto com eles. No final, eu perguntei para se o fotógrafo da equipe podia tirar uma foto minha separada com cada um e uma com os dois pilotos juntos.
Ainda tinha o treino classificatório e eles precisavam descansar e eu precisava responder alguns e-mails da empresa que tinham chegado.



Continua...



Nota da autora: Hey, peeps! Eu fiz alguns ajustes na fic, espero que gostem! Prometo não demorar para atualizar.
Eu tenho um carinho enorme por essa história, eu quis introduzir um pouco de mim nela. Também escrevi a chefe do MKT com muito carinho, quis demonstrar o quão carinhosa e fofa a “Julia” é comigo. Como vocês acham que a história vai acabar? Façam suas apostas hahah .


Nota da beta: Esse Leclerc é incrível, socorro! hahahaahah Não aguento, ele é abusado demais! Tô ansiosa por ver mais dele todo assim e ela toda contida e medrosa hahahaha <3

Qualquer erro nessa atualização ou reclamações somente no e-mail.


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