Última atualização: 30/10/2020

THE TWENTY-THREE YEAR

- Está pronto?
- Uhum.

Ergueu as mãos dele entrelaçadas às suas e beijou-as ritualmente.
Ela olhou os olhos, aqueles que por muito tempo foram os seus favoritos. Olhar para eles trazia consigo uma onda de sentimentos e memórias que a mente dela não era capaz de processar por inteiro. Sentia um resquício de cada coisa, um sopro da excitação e do coração apertado.

- ... - chamou em um suspiro. Ele ergueu os olhos para ela, brilhantes e excitados, atrás de si, uma multidão clamava pelo nome da banda que subiria ao palco de um dos maiores festivais de música alternativa do mundo. - Quero que tu saibas que foste o último sonho da minha alma.

As palavras saíram com suavidade dos lábios, não as recitava há tanto tempo e estava tão nervosa, que sentia que se atropelaria toda. Mas não, o coração sabe das coisas. E ela assistiu o semblante dele tornar-se nostálgico com o seu quando reconheceu a citação do Conto das Duas Cidades, o livro favorito deles. De repente, tinham 17 ou 18 anos de novo. Ainda eram jovens. Mas a lembrança da adolescência parecia distante demais para ser alcançada.
Não esperou uma resposta, mas mesmo assim ela veio, tão desenrolada quanto sua citação.

- Amo você – ele sussurrou, simples. O coração dela deu um salto com a certeza dele, sentiu vontade de beijá-lo e saudade da época de podia fazê-lo. - Duvida da luz dos astros, de que o Sol tenha calor... – ele ergueu a sobrancelha, num gesto provocador e, ao mesmo tempo, cúmplice que a fez rir.
- Ok, já chega de citações – ela soltou as mãos dele. Hamlet era outra piada interna que, de algum modo, tornou uma das suas conexões.
- – Daniel apareceu escada acima, uma silhueta de cabelos bagunçados. – Cinco minutos. Sobe!

voltou-se para a menina e inspirou, nervoso. queria acalmá-lo de alguma forma, mas sabia que apenas a própria música o faria.

- Vá de uma vez! – ela o empurrou, rindo, vendo que se não obrigasse, ele não sairia dali nem por um decreto.
- Ok, ok, – empertigou-se e deu as costas para a menina, em direção às escadas de ferro do palco.

começou seu caminho de volta a plateia, o sol quente de Chicago torrando seus ombros, até que sentiu sua mão ser puxada de volta com urgência e os olhos de sobre os seus em êxtase.

- Eu vou te beijar - ele disse. Era uma afirmação e um pedido de permissão ao mesmo tempo.
- Ok - disse , apressada.
- Tudo bem?
- Tudo, tudo - ela o puxou pelo braço, já irritada com a cautela dele, e no segundo seguinte, os lábios de estavam sobre os seus lábios.

entrelaçou os dedos dela nos seus e a envolveu com o braço livre, puxando-a para mais perto. A menina subiu a mão pela nuca do rapaz, apenas para embrenhar os dedos nos cabelos dele e aprofundar o beijo. E tudo saiu de foco. Depois de três anos, ela o estava beijando de novo. Seu peito se apertou de saudade e ela desfez o entrelace das mãos para abraçá-lo pelo pescoço. Meu Deus, como é possível sentir tanto por uma pessoa!, ela não queria realmente uma resposta. Ele separou os lábios dela dos dele apenas para segurar seu rosto entre as mãos. Havia tanto cuidado, tanta cautela. Ele continuou o carinho na bochecha da menina, enquanto ela se desmanchava de tanta ternura.
Impulsionou o rosto pra frente, com delicadeza, apenas para sentir a pele macia da boca dele mais uma vez. Ela o sentiu rir devagar, o sorriso encostado no dela. Segurou as mãos dele e depositou outro beijo ali.

- Agora... Agora eu posso ir – ele falou, ainda sem recuperar o fôlego.

Ela assentiu para ele, a adrenalina ainda tomando conta de toda a sua extensão corpórea. As veias e artérias latejando sob a pele.
Ele olhou para ela uma última vez, mas foi a primeira, em três longos anos, que não havia uma despedida nos olhos cor de whisky. Havia apenas um “te vejo mais tarde”. E ela amou a simplicidade daquilo.
sorriu e observou a silhueta alta e enérgica dar as costas e subir as escadas em direção ao palco.


THE FOURTEEN YEAR

Era semana de aula na Haverhill High School. Terceira semana como caloura. Terceira semana no ensino médio. Graças às forças cósmicas do universo, Tessa e eu éramos suficientemente discretas para que não houvessem gracinhas dos veteranos para nosso lado. Pelo menos, até agora, estávamos isentas de qualquer trote. Eu tinha acabado de completar quinze anos e, modéstia à parte, achava que, ou eu era mentalmente superior àqueles babacas egocêntricos do Sênior, ou o cérebro deles havia regredido durante o ensino médio. Quer coisa mais entediante que ver um marmanjo filhinho de papai assustar um magricela de quinze anos por, absolutamente, nada?! Ou então aqueles caras do time de qualquer coisa andando pelos corredores como eles fossem Luís XIV e esse fosse a droga do Palácio de Versalhes?! Coisa mais imbecil de se assistir.
Mas o importante é que, por conta das forças cósmicas – ou do irmão de Tessa, que era sênior e não deixava nenhum dos caras encher o saco da irmã – estávamos ilesas. E, com exceção das olhadas monstruosas e nojentas de algumas garotas, dessas cenas desnecessárias nos corredores, e do tamanho da escola, as coisas andavam bem com no fundamental. Eu ainda me sentia como no fundamental.
Veja bem, quando se é garota, nerd em potencial, não há muito o que se aproveitar na escola. As pessoas vêm nos preparando para o ensino médio como se fosse o momento da nossa vida, quando tudo vai mudar; mas a real é elas não percebem que não é o ensino médio que muda sua vida, e sim o fato de se estar crescendo. E dessa vez é de verdade. Não é o crescendo de 13 para 14 anos (“olhe como estou mais alta”, “veja, eu tenho seios”, “meu deus, eu já posso ficar grávida”), é o crescendo do tipo “olá, mundo, estou pronta para ser mais uma vítima da sua crueldade”. Não existe mais o conforto da irresponsabilidade, apenas maneiras de afogar suas frustrações – bebendo, transando, se drogando, ameaçando calouros no corredor, etc.
Basicamente, o que quero dizer é: o ensino médio não é o causador das mudanças, mas sim onde elas se refletem. Por exemplo, a sua mãe não sabe que você pegou o conhecido da sua amiga naquela festa, mas aposto minhas calças como todo o seu ano sabe. Aposto que a primeira vez que você ficou bêbado foi com o pessoal da escola. Aposto que você já dormiu na classe por ter ficado até mais tarde acordado. Aposto que você já chorou no banheiro da escola, ou no ombro da sua amiga. Ora, vamos... será que esse pessoal acha mesmo que assistir a aula de física I e ouvir trogloditas arrotarem no almoço muda a vida de alguém?
Mas apesar de toda essa minha aversão em superestimar o ensino médio, as coisas iam bem. Talvez um pouco tediosas, mas bem.

Eu havia acabado de chegar ao meu armário quando Tessa encostou-se ao meu lado, esbaforida.

- Você não adivinha quem eu acabei de ver! – ela falou, num quase sussurro apressado.
- Bom dia pra você também, Tess – falei, pegando o livro de inglês.

Ela estava com aquele olhar excitado, os olhos azuis arregalados e o sorriso de coringa que iluminava todo seu rosto, mas não de um jeito empolgante, como você deve estar pensando, de um jeito meio psicopata e assustador.

- Tess, você tá bem me assustando – eu falei, olhando-a de esguelha. Ela riu. – Tudo bem, me deixe adivinhar: o sr. Gostoso.

Ela suspirou dramaticamente, recostando-se no armário ao lado do meu.

- Oh, , se eu soubesse o quanto isso seria doloroso, eu teria cortado essa paixão pela raiz – ela disse, dramática até o último fio de cabelo.

Eu gargalhei e a mandei calar a boca, enquanto terminava de pegar os livros e seguíamos para a sala.
Tess era minha melhor amiga desde a segunda série. Ela sempre foi delicada e boba, como meninas costumam ser, adorava bonecas e pentear meu cabelo. Eu amava bonecas também, mas enquanto Tessa queria que sua Barbie fosse uma bailarina mágica, eu queria que a minha fosse uma rainha guerreira que protegia as fadas e os duendes dos gigantes e goblins malvados. Então, Tessa cresceu e decidiu que ela mesma seria a bailarina mágica, eu cresci e decidi que escreveria sobre fadas e goblins. Tess era pseudo e futura atriz, líder de torcida, “a garota mais adorável que você pode conhecer” e meio doida, eu era pseudo escritora, traça de biblioteca, tendenciosamente nerd e futura jornalista. Nós éramos feitas uma para outra, nos completávamos nos detalhes mais bobos e, no entanto, mais importantes. Por exemplo, o fato de compartilharmos a mesma banda favorita, odiarmos química e de que, no futuro, “Tessa atuaria em uma peça roteirizada por Harper”. Eu amava aquela maluca.

- Eletávindonãoolhesejadiscreta – Tessa disse, sem pausas, nem fôlego.

Eu ri outra vez, enquanto ela se ajeitava para parecer distraída e Daniel Carter e mais um milhão de garotos passavam por nós. Ele acenou com a cabeça e deu um sorrisinho para Tess, que sorriu timidamente e as bochechas coraram fortemente quando os amigos começaram a encher o saco de Daniel.

- Aw, ele é tão lindo! – Tessa exclamou, como se aquela fosse a maior injustiça da vida.

O sinal bateu naquele instante e eu comecei a empurrar Tessa para dentro da sala, mas ela fincara os pés no chão, dizendo que queria olhar Daniel só mais um pouco.

- Você vai ver ele no corredor daqui a pouco! Porra! – esbravejei, enquanto entrávamos na sala.

Foi a primeira vez que nos vimos. Um primeiro olhar tão aleatório e divertido que se a de três anos depois voltasse no tempo e dissesse “esse é o amor da sua vida”, eu, no mínimo, teria feito uma careta. Ele havia acabado entrar na sala quando eu soltei meu delicadíssimo palavrão, fazendo-o franzir as sobrancelhas e soltar uma risadinha. Na ocasião eu apenas notara a careta e o quão belo eram seus olhos castanhos. Grandes e brilhantes, do tipo que cria linhas de expressão quando sorri, emoldurados por cílios acastanhados e longos. Juro por Deus que foi a única coisa que notei. Eu sorri, envergonhada, e apressei os passos, sentando-me no lugar de costume.

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Cerca de quatro meses depois estávamos na aula de inglês, o Sr. Michaels fazia a leitura de alguns trechos de Hamlet, o livro que estávamos lendo, com toda a sua frustração com as artes cênicas. Calma, eu explico. Acontece que o sr. Michaels, apesar de ótimo professor de inglês, era um dos milhares de atores frustrados criados pela América. Desistira da Broadway para se tornar professor. Ele poderia ser bem amargurado se quisesse, e eu, de verdade, entenderia. Afinal, o quão triste deve ser trocar a glória dos palcos por um bando de adolescentes ociosos e com hormônios a flor da pele?! Apesar disso, ele parecia mesmo gostar de dar aula, com exceção, no entanto, das aulas de leitura, onde suas habilidades artísticas eram postas em prática e o desgosto em suas pausas dramáticas era palpável. Ainda mais quando ele recitava as passagens com tanta ênfase. (Em outras palavras, quando ele se empolgava tanto que chegava a berrar e cuspir nos alunos das primeiras fileiras. Ah, como eu amava meu lugarzinho no fundão).

- ...Senhora, mais paciência; direi tudo. – entoou ele, com um dedo erguido enquanto a mão segurava uma cópia surrada de Hamlet. Ele olhou penetrantemente para os alunos, como se estivesse prestes a revelar um grande segredo e eu tive vontade de rolar os olhos. Ah, por favor! Aquela passagem era tão superestimada! - “Duvida da luz dos astros, de que o Sol tenha calor, duvida até da verdade, mas confia em meu amor. Querida Ofélia: não sou muito forte na contagem das sílabas: não possuo a arte de medir os meus suspiros; mas que te amo muitíssimo, infinitamente, podes crer-me. Adeus. O teu para sempre, querida menina, enquanto esta máquina lhe pertencer, Hamlet.”

Houveram alguns suspiros pela sala e o professor sorriu, como se acreditasse que havia cumprido sua missão. Continuei com vontade de rolar os olhos.

- Aqui está, portanto, uma das mais célebres citações de todos os tempos! - ele fechou e jogou o livro em sua mesa. – É neste momento que percebemos o ápice do amor de Hamlet por Ofélia. A grandiosidade das palavras são, de certa forma, o comprovante da “loucura” – ele fez aspas no ar. – Amorosa de Hamlet, segundo Polônio. O que não passa de uma mentira, não é mesmo? Se Hamlet se passasse nos dias de hoje, Ofélia não passaria de uma “ficada” do príncipe. Até porque, todo o amor tão avassalador que Hamlet descreve começa e termina nesta carta – a turma riu enquanto o professor abanava a mão, fingindo indiferença. – E seria bem menos trágico, pois a Ofélia não ficaria louca por causa um principezinho mimado que enjoou dela. Tsc, tsc. – o sr. Micheals falava daquele jeito afetado, enquanto jogava a echarpe vermelha pelo ombro. – Pobre Ofélia, nasceu no século errado...

O alarme do almoço soou alto no corredor, interrompendo o devaneio do professor.

- A gente continua semana que vem. – falou sr. Michaels, com as mãos na cintura, e a pequena balbúrdia de guardar materiais e arrastar cadeiras começou. – Tragam suas dúvidas. Ei, Martins, venha até a minha mesa, por favor.

Coloquei minha mochila nas costas e peguei os livros da mesa antes de sair da sala.
Tessa havia faltado, o que significa que eu estava passando o dia sozinha. Não era como se eu fosse uma antissocial, eu só não tinha paciência para tantas pessoas quanto Tess, ainda mais agora que ela se tornara amiga da turminha do Carter, então eu aproveitava quando ela não estava por perto para ter um tempo pra mim.
Meu armário ficava ao lado do painel de avisos, então eu sempre parava lá para lê-lo antes de trocar meu material. Não que fosse uma boa, de todo caso, porque em época de eventos aquela merda ficava cheia de gente em volta e era quase impossível abrir meu armário. Não havia nada de novo naquele dia, apenas uns pôsteres do baile de inverno, avisos da direção e aleatoriedades – como o folheto de “procura-se guitarrista” da banda do irmão da Tessa. Virei-me para o meu armário e fiquei surpresa ao ver a porta vizinha aberta, em quase cinco meses de ensino médio eu não havia tido um vizinho de armário. Até agora.
Foi só quando cheguei perto para abrir o meu próprio que percebi quem era. O garoto de olhos cor de whisky. Ele estava na maioria das minhas aulas e, depois daquele dia do palavrão na porta, fora quase impossível não nota-lo. Afinal, ele era da turma do fundão como eu. E era um muito gatinho, necessário frisar.
A porta do armário dele se fechou com força e eu encarei, espontaneamente. Ele deu um sorrisinho simpático e eu correspondi do mesmo jeito.

- Parece que você tem um vizinho agora – ele falou, divertido.
- É, uma pena. Estava pensando em expandir meu território para o leste – brinquei e ele riu. – o que houve com seu armário?
- Problemas com a fechadura – disse e rolou os olhos como se dissesse “o de sempre”. O sinal do terceiro período tocou. – Bom, preciso ir. Vejo você por aí...
- Tchau – falei.

Ele acenou, dando alguns passos de costas, e então virou-se, seguindo seu caminho.


THE FIFTEEN YEAR

- Ah, pelo amor de deus, Theresa!

Minha amiga estava jogada no sofá da sala, os cabelos desgrenhados, a bacia gigantesca de salgadinhos apoiada na barriga e a calça velha de pijama eram a personificação da sua derrota. Sexo Sem Compromisso passava na televisão e Tessa tinha os olhos marejados, comendo os salgadinhos de queijo com tanta dor e auto piedade que era quase como se estivesse atuando no filme da sua própria vida. Tive vontade de espancá-la.

- Se você veio utilizar seus dons maldosos e ácidos com essa pobre mulher apaixonada, pode dar meia volta, Harper – a voz estava embargada e manhosa, daquele jeito que quebra o coração de qualquer melhor amiga.
- Ô, minha amiga.

Sentei-me ao seu lado no sofá, e prontamente ela se ajeitou, colocando a bacia de salgadinhos no chão, e se jogou nos meus braços abertos. E chorou. Muito. Se eu não conhecesse Tessa desde que nasci, diria que algo mais sério que Daniel Carter havia acontecido em sua vida. A única outra vez que eu a vira daquele jeito fora no oitavo ano, quando ela perdeu o papel principal da peça da escola.

- O que ela tem que eu não tenho, ? – disse, entre soluços. – Ela nem gosta dele!

Eu não responderia àquilo. Tínhamos quinze anos e Theresa agia como se cada situação fosse a única e última de sua vida. Por exemplo, naquele momento, Tessa agia como se Daniel Carter fosse o último cara que ela fosse gostar. Apenas continuei abraçando-a.

- Vai ficar tudo bem, amiga.
- Não, não vai! – ela se afastou, frustrada. Os olhos inchados e vermelhos agora completavam o look fossa da minha amiga. – Não vai ficar tudo bem até o dia que eu aprender a parar de gostar de caras que não gostam de mim!
- Mas Theresa...
- Não, . É verdade! – ela fungou e limpou os olhos. – Esses garotos não prestam! E eu menos ainda por gostar deles!
- Theres-
- Ei, maninha! – Jordan, irmão da Tessa, apareceu na sala naquele instante, com mais um bando de moleques carregando instrumentos.

Jordan fazia do tipo skatista trombadinha, mas era um amor de pessoa. Bom... Pelo menos com quem ele gostava.

- Vou fazer audição lá na garagem agora. Oi, ! – eu acenei. – Qualquer coisa aparece lá.

E ele e os meninos sumiram pela porta dos fundos.

- Ah, que ótimo. Agora vou ter que aguentar essa merda na minha cabeça – Tessa fungou outra vez.
- Ei, não é merda! É rock’n’roll – brinquei, apenas para vê-la irritadinha, e ela me lançou um de seus olhares de esguelha. Gargalhei, jogando a cabeça para trás.
- Rock’n’roll ou o abre alas de Jesus Cristo, eu não vou ficar aqui para ouvir isso que meu irmão chama de música – ela ergue-se do sofá, chutando as cobertas para longe. – Vou tomar um banho e vamos na lanchonete tomar um sorvete ou dez.

Ela subiu as escadas do quarto, enfezada, me largando sozinha no sofá da sala.

- Ok – falei comigo mesma.

Continuei assistindo o filme por uns 15 minutos, aquela parte fofa em que o personagem de Ashton Kutcher canta Bleeding Love com a personagem de Natalie Portman, até notas altas de guitarra tomarem conta do ambiente. O som era mesmo alto, Tess merecia um desconto. Me levantei e saí da sala, sabendo que minha amiga demoraria uns dois dias embaixo do chuveiro.
A garagem dos Katz estava cheia. Não lotada como quando Jordan faz suas “reuniões” de amigos, mas suficientemente cheia para não haver espaço nos sofás que ficavam espalhados por ali. No centro da garagem, inteiramente modificada para a banda de Jordan, havia um tapete persa surrado com os instrumentos em cima. Um garoto que eu não conhecia dedilhava algumas trôpegas notas na velha Gibson de Jordan. Ele parecia tão compenetrado que seus erros pareciam fazer parte da apresentação propositalmente. O garoto tocou a última nota de forma agressiva, e mesmo que a música não tenha soado bem, o garoto tinha estilo, tive que admitir.

- Valeu, Leo, mandou bem... – Jordan falou, o garoto acenou com a cabeça e deixou a guitarra no suporte. – O próximo é... – ele olhou uma lista em seu colo e eu achei graça em toda aquela organização. – .

Ergui meu rosto instantaneamente, procurando pelo dono do nome. E lá estava ele: olhos cor de whisky, meu vizinho de armário. usava jeans pretos surrados e uma camiseta preta dos Rolling Stones. A Fender Mustang pendurada em seu ombro era idêntica a do meu pai. Aquilo me fez sorrir de um jeito idiota, de modo que tive que me conter para não ser pega. Cruzei os braços e apoiei o ombro na parede enquanto assistia plugar sua guitarra nos amplificadores. Ele parecia outra pessoa ali, entre os fios, instrumentos, e atrás de sua guitarra; mais confiante e à vontade, fiquei me perguntando se ele era daquele jeito na escola, ou a negatividade daquele lugar escondia esse lado dele.

- E aí – ele falou, ajeitando o microfone no suporte. Absolutamente, outra pessoa. – Vou tocar um trecho de algumas músicas. Achei que um medley seria legal pra variar um pouco.
- Você canta? – perguntou Jordan, parecendo interessado.

deu de ombros, modestamente e Jordan acenou para que ele continuasse. E naquele último instante, o último segundo antes de seus dedos se firmarem na guitarra e seus lábios no microfone, ele me viu. E eu senti uma necessidade imensa de sorrir para ele. Acenei levemente com a cabeça, desejando boa sorte, e ele deu um sorrisinho esperto, os fios de cabelo rebelde caindo sobre os olhos cor de whisky. Ele fez a contagem com baqueta contra a guitarra antes de dedilhar as primeiras notas.


THE SIXTEEN YEAR

- Aposto que ela nem vai estar lá – disse Tessa, ajoelhando-se no chão para olhar embaixo da cama. – A Wester faz do tipo que assiste show de rock do mezanino... Onde estão meus sapatos?
- Os roxos de bico fino? – ela ergueu-se, assentindo. – Você os esqueceu na minha casa semana passada... E de qualquer forma, Camille está no pé de , eu só não quero trombar com ela.
- Então, provavelmente, vai assistir o show dos bastidores e esperar pelos meninos no camarim.

Eu dei de ombros, me sentindo um pouco mais aliviada. Eu nunca liguei de papai namorar, ele ficava muito sozinho desde que minha mãe foi viver a aventura dela em outro estado. E com outro cara. Eu achava ótimo ele arranjar alguém para dividir coisas que não se dividia com filhos, sabe. Só não estava esperando que a integração com a família da tal namorada fosse acontecer tão cedo - e que com ela visse Camille Wester de brinde.

- Mas, provavelmente, ela vai com a gente para o Sandy’s depois do show – reclamei. – Na van! Na mesma van que a gente!
- Não vamos na van, vamos no meu carro – ela se enfiou no armário de sapatos, jogando vários pares no chão. – De qualquer forma, não é como se ela fosse ficar colada na gente, . E desde quando você está tão irritada com a Wester? – Tessa virou-se para mim, com as mãos na cintura. – Sei que ela não é flor que se cheire, mas você nunca criou intriga com ninguém.
- Desde que ela e a mãe dela resolveram agregar meu pai à família. Depois daquele jantar horroroso com nossos pais, eu quero passar bem longe de qualquer outra situação constrangedora com ela – bufei. – E eu tenho certeza que ela também, Tessa – eu rolei os olhos. – Ah, mas quer saber? Eu é que não vou ficar nessa. Não precisa criar caso com ninguém, principalmente com uma menina.
- Isso aí, amiga – Tess incentivou, ainda a procura dos sapatos no armário. – AHÁ! ACHEI!
- Vou beber um pouco d’agua – falei, levantando-me e saindo do quarto de Tessa.

Até que as coisas iam bem em casa. Não tão bem como deveriam, mas papai e eu estávamos conseguindo arcar com as situações. Depois que minha mãe saiu de casa, tivemos uma série de complicações para lidar. Complicações que iam desde a minha guarda na justiça até resolver questões tipo “teremos um bicho de estimação?”. Eu e papai dividíamos nosso tempo entre cuidar da casa, do jardim e trabalho. No fim, não pegamos nenhum bichinho de estimação, porque não sobraria tempo para ele. De qualquer forma, as férias de verão tinham chegado e eu havia arranjado um emprego em uma sorveteria no centro.
Estávamos indo tão bem, até que papai há cerca de três meses, apareceu com Janine Wester, herdeira da Westers Inc, e a apresentou como sua namorada. Não me leve a mal, papai é um partidão e saiu com algumas moças depois de mamãe, mas, de todas as mulheres do estado de Massachusets, ele me aparece com a mãe da realeza da Harverhill High School como namorada. Janine era uma pessoa legal, mas eu também não tinha tido tempo suficiente com ela para dar certeza disso. Mas papai parecia feliz com ela, e eu me contentava em fazer a caveira da filha dela para a minha melhor amiga.
O mais esquisito de toda aquela situação era que, mesmo com apenas três meses de namoro, o relacionamento deles parecia sério, de modo que não era incomum sairmos em um “jantar em família”. Eu achava tudo uma grande piada. Mas, claro, nunca disse nada a papai.
Na escola, eu conseguia me virar. Nunca tive contato algum com Camille além de vê-la desfilar no corredor e algumas aulas em comum e não era agora que aquilo ia mudar. Tínhamos um grupo social diferente e eu havia me candidato ao jornal da escola no começo do ano – o que significava que eu ficava mais tempo no laboratório que em qualquer outro lugar. Mas, há mais ou menos um mês, Camille havia colocado – olhos cor de whisky, vizinho de armário, super gatinho e guitarrista da Divine – como alvo de suas conquistas e isso rendeu uma aproximação completamente indesejada. Não que e eu fôssemos próximos, mas ele era guitarrista da banda do Jordan e Camille fazia questão de estar em todos os lugares em que a banda estava. Eu acompanhava Jordan na saga banda-música-escola desde criança, ele era praticamente um irmão para mim, portanto Tessa e eu éramos, o que se pode chamar de, as fãs número um da Divine Move. Eu detestava essa situação ridícula de inimizade com Camille, porque não tinha motivo. O máximo que eu podia fazer era ignorar aquelas olhadas de cima a baixo que ela me dava e não criar caso. Mesmo com essa tensão entre nós.

- Ei, - ouvi Jordan chamar, enquanto tomava grandes goles de água gelada. Ergui os olhos para ele e deixei o copo no balcão. – Pode ajudar a gente aqui com umas coisas? Meninos não tem noção de espaço...
- Claro, Jo – eu disse, soltando uma risadinha, e o segui até o lado de fora da casa.

Jordan havia comprado a van de segunda mão no ano anterior. O sr. Katz queria lhe dar o velho civic, mas o garoto recusou prontamente, dizendo que já tinha “planos para seu meio de transporte”. O civic, é claro, ficou para Theresa, que nunca amou tanto o fato de seu irmão ter uma banda. A van estava lá, com Divine Move grafitado em sua lateral – Duncan, o baterista, gostava de lidar com tintas também -, parecia que o automóvel havia pertencido a alguma banda grunge dos anos 90, o que dava todo um toque especial à Mow. Mow, aliás, era o nome da van. Eu não sabia por que e, sinceramente, não estava afim de descobrir.
Mow tinha suas portas traseiras abertas, enquanto um bando de moleques encarava seu interior com uma expressão sofrida. estava lá: jeans skinny rasgado, cabelos rebeldes, camiseta de banda, braços cruzados... Ah! E olhos cor de whisky, claro. Ele acenou para mim com a cabeça e eu sorri em resposta.

- Porra, cara, acho que a Mow diminui – disse Sid, tentando enfiar um suporte de guitarra na van. Sid não era da banda efetivamente, mas era da banda. Jordan o apresentava como empresário da Divine Move.
- Ou nossos instrumentos cresceram – Duncan falou, soltando a fumaça do cigarro em seguida.
- Ou vocês só não sabem organizar suas tralhas – eu falei, rolando os olhos, divertida. – Cadê o Frango? Ele é expert nisso.

Frango, apelido Phillip Porter, era o baixista da banda. Outro apelido que dispensa comentários e histórias.

- Vai encontrar a gente direto no show - falou Jordan, dando uma analisada na situação dentro da van. – Ele teve compromisso de família ou alguma merda assim.
- Não consigo imaginar o Frango num evento desses – murmurei, me aproximando de Jordan e do resto dos rapazes.
- Nem a gente – Sid gargalhou.

Aquilo estava uma baderna total. Fiquei encarando a traseira da van completamente indignada com a capacidade dos meninos de transformar uma tarefa relativamente simples em um desastre total.

- E aí – disse Jordan. – Dá pra arrumar?

Rolei os olhos, me sentindo ofendida com a pergunta dele.

- Claro que dá – falei e ouvi rir ao meu lado. – Tirem tudo daí de dentro.
- Ah, não, cara, a gente acabou de colocaaaaaaar – choramingou Sid, jogando-se em cima de um dos amplificadores que ficara para fora.
- Agora, Sid – eu disse, imperativa. – Ou vocês vão chegar amanhã.

Os meninos começaram a se movimentar, retirando as coisas de lá de dentro, enquanto eu os ajudava a colocar na calçada. Logo, comecei a administrar o espaço da van, recolocamos tudo lá dentro. estava ao meu lado, posicionando as coisas na traseira da Mow, enquanto o resto dos meninos nos esperava do lado de fora. Quando tudo o que estava na calçada foi guardado, os meninos comemoram como o bando de crianças que eram, e eu ganhei uma cerveja pela logística. Os meninos entraram na casa de Jordan e eu sentei na traseira de Mow, com as pernas para fora. Só havia notado quando ele se aproximou e sentou-se ao meu lado, onde ficamos em um silêncio tranquilo naquela tarde de novembro.

- Você parece acostumada a esse tipo de coisa – comentou, de repente. Eu o encarei rapidamente e voltei meu olhar para a rua suburbana onde Tessa e eu morávamos.
- É, mais ou menos – respondi.

me ofereceu a garrafinha de Budweiser e eu aceitei, bebendo um gole do líquido gelado e aguado. Não era muito fã de cerveja, mas nada que um verão não pudesse mudar.

- Meu pai – comecei, devolvendo a garrafa para ele. - Costumava tocar em uma banda na faculdade. Ele era muito bom. Tenho algumas fitas que minha mãe gravou na época – sorri comigo mesma, lembrando-me dos vídeos caseiros que costumava assistir incansavelmente entre filmes da Disney e desenhos animados. – Aí eu nasci, e papai não pode mais continuar com a “brincadeirinha” – fiz aspas no ar. – E se concentrou no curso de direito. No que ele é muito bom também – eu fiz uma careta e ouvi soltar um riso nasalado. – Mas, de vez em quando, ele combinava com os amigos e iam relembrar os velhos tempos em vans como essa aqui. Só que agora cheia de esposas e crianças...

Olhei para e me senti meio envergonhada. Ele me encarava de um jeito tão interessado que qualquer um poderia achar que eu estava lhe contando algo bem mais importante que a banda do meu pai. E continuou me olhando. E eu continuei olhando-o de volta. Não era um olhar intimidador ou uma batalha de olhares, era apenas confortável e familiar, e me trazia uma sensação de um conforto imenso. Eu jurava que podia ficar ali, analisando seus olhos e as pintinhas que ele tinha no rosto. Mas, ao mesmo tempo, era instigante. tinha uma nebulosidade no olhar que me intrigava, era quase impossível ler suas emoções, a não ser quando ele tocava. Eu sorri, vendo que aquilo estava se tornando meio esquisito e voltei a encarar a rua.

- Então, quando eu tinha uns doze anos - continuei. – Minha mãe pirou das ideias e papai parou de tocar – eu sentia tanta raiva da minha mãe por isso. Papai nunca mais fora o mesmo depois que deixou de tocar com os amigos. – Mas, coincidentemente, foi nessa época também que o Jo resolveu que queria montar uma banda. Então, acho que sim, estou acostumada com isso.
- Isso é legal – ele comentou. – Não essa história da sua mãe, lógico, tipo, isso é bem chato na verdade – ele se enrolou e eu ri, achando graça no jeito dele. – Mas esse negócio de sempre ter tido contato com bandas. Isso é muito legal.

Eu assenti, sorrindo.

- E você? - perguntei, aquela estava sendo a conversa mais longa que nós dois, sozinhos, já tivemos e eu não queria parar. – A música é uma coisa de família, você é um talento nato ou só está nessa pelas groupies?

Ele gargalhou, jogando a cabeça para trás e pela primeira vez notei a marca de nascença que ele tinha na base do pescoço. Uma manchinha cumprida em zigue-zague no final da jugular. Parecia um raio.

- Nenhuma das três, eu acho – ele falou, e bebeu um gole da cerveja, me passando a garrafinha em seguida. – Quero dizer, eu não sou um talento nato, e influência familiar com certeza não é uma opção. E as groupies, bem, acho que isso é uma consequência, não um objetivo – dei uma olhada suspeita para ele, como se dissesse “ok, e eu nasci ontem”, fazendo-o rir. – De qualquer forma, não é como se estivesse funcionando. As garotas gostam de caras mais velhos e eu sou a mascote da banda.
- Ah, não – discordei, balançando a cabeça negativamente. – Esse cargo pertence ao Sid.

Ele riu e bebeu o último gole da cerveja quando lhe devolvi.

- Seus pais não curtem a ideia da banda? – perguntei, torcendo para não estar sendo muito enxerida.

O olhar de mudou instantaneamente e perdeu no horizonte. Ele assentiu com a cabeça e me deu um sorrisinho sem graça. Droga, eu estava sendo enxerida sim.

- Desculpe, eu não queria...
- Não, não, tudo bem – ele me interrompeu, rapidamente. – É só uma coisa que eu preciso aprender a lidar sem parecer uma criancinha mimada – ele fez uma pausa, antes de continuar. – Meus pais também não tem uma relação estável. Meu pai é um babaca controlador e minha mãe é... como posso dizer... submissa? – ele me olhou, em dúvida, por alguns segundos antes de acompanhar um menininho em sua bicicleta com o olhar. – O casamento deles foi meio arranjado. Meu avô precisava de alguém de confiança para herdar o império imobiliário dele e não o daria para sua única filha meio doida – ele rolou os olhos, parecia exausto com a história só de contá-la. – Meu pai era o pretendente mais adequado. Sempre teve espírito de liderança. O macho Alpha... – ele deu uma risadinha ácida, esbanjando ironia e naquele momento, percebi que as coisas para ele eram bem mais profundas. – Depois de alguns anos, minha mãe engravidou. Eu, é claro, era mais um projeto de “dar continuidade” ao império do meu avô, mas para desgosto da minha família, eu nasci meio desgarrado, vagabundo e frouxo.

E me lançou um sorriso fechado e me senti mal. Havia tanta acidez e dor reprimida nas palavras de que era como ele tivesse algo mais forte que raiva guardado dentro de si. Eu não duvidava. Mas aquilo me entristecia... Saber que, talvez, não fosse aquela pessoa tranquila e de bem com a vida que ele aparentava ser.

- Você não é essa pessoa – fui sincera. Na verdade, eu não achava que deveria falar alguma coisa, mas parte de mim achava que era importante deixar claro que eu não acreditava naquilo. – Eu sei que não conheço você muito bem, ...
- – corrigiu-me.
- – repeti, e sorri.
- E eu sou sim – ele disse. – São palavras do meu próprio avô.
- Eu não acredito que seja – disse, definitiva. – Eu não sinto essa energia quando tô perto de você. Você me parece alguém que sente as coisas de um jeito bem intenso, e tudo o que vem de você é forte, mas não é carregado – balancei a cabeça. – Você não é essa pessoa.
- Uau – ele fez, alguns segundos depois. – Isso pareceu meio hippie. Toda essa história de energia...
- Está zombando de mim? – semicerrei os olhos, encarando-o. Ele gargalhou.
- Claro que não – disse. – Só achei interessante seu modo de perceber as pessoas.
- É, talvez – eu suspirei.

E, novamente, o silêncio. Aquele silêncio confortante de compreensão que você só sente algumas vezes na vida. Na maioria das vezes, para mim, esse silêncio era mais valioso do que os melhores conselhos ou palavras mais sábias, porque ele, acima de tudo, era a prova de que não se está sozinho.

- Às vezes a vida parece um filme do John Hughes, né?

Ele sorriu.

- Acho que prefiro drama familiar nos filmes do John Hughes – murmurou e eu não pude concordar mais.
- Não, Dan, eu vou com a – Tessa apareceu na calçada de sua casa, falando ao telefone. O visual rock chic nunca fez sentido pra mim, mas caía muito bem na minha amiga. – Não, Daniel, por que diabos eu iria numa van cheia de caras?
- A coisa parece séria entre os dois – comentou, enquanto víamos Tessa se aproximar.
- Tudo é muito sério quando se trata de Theresa Katz – falei.
- Ok, a gente se vê lá, amor – ela disse, e abriu um sorriso radiante. – Eu também. Um beijo – ela desligou o celular e nos encarou, lançando um sorriso simpático a . – E, aí, ? Está pronta, .

acenou e eu me levantei, para seguir Tessa que já caminhava em direção a seu carro.

- Bom... – comecei. – A gente se vê no show.
- A gente se vê no show – ele repetiu.
- Boa sorte lá e tudo mais, caso eu não volte a te ver – eu falei, dando alguns passos de costas.

me sorriu e eu lhe dei as costas.

- Ah - me virei, lembrando-me de uma coisa. – Boa sorte com as groupies também!

Então ele riu e me senti leve por tê-lo feito. De repente, tive vontade de fazê-lo rir mais e mais vezes.

- Valeu, eu vou precisar – ele disse.

Então, eu acenei e fui até o carro de Tessa.


THE SEVENTEEN YEAR

havia me chamado. Eram quase dez da noite, quinta-feira, quando saí do banho e vi uma chamada perdida dele. Retornei quase imediatamente apenas para escutar um “Oi, acha que pode vir aqui agora?”.
Não foi o pedido. Foi o tom de voz dele.
me ligava e me chamava para dar uma volta ou ir à casa dele nas horas mais esquisitas. Apenas porque “queria ver um filme” ou “me mostrar uma música que estava fazendo”. Na maioria das vezes porque queria sair de casa. Em situações normais, eu perguntaria o motivo do convite, mas não naquela noite. Havia algo errado.
Disse que chegava em alguns minutos e vesti um jeans e uma camiseta qualquer. Papai estava com Janine e eu duvidava que fosse voltar hoje. Peguei as chaves no aparador do hall e tranquei a porta de casa quando saí.
morava no lado rico da cidade, há uns trinta minutos da minha casa de ônibus. Era tarde, as ruas estavam calmas e eu com pressa. Cheguei em vinte minutos, pois pegara o carro de papai. Estacionei-o em frente à casa enorme da família , subi os degraus da entrada e toquei a campainha.
Não esperava, contudo, que o Sr. fosse atender à porta. Não mesmo. Mas lá estava ele. Belo e presunçoso, as semelhanças físicas com chegavam a ser ridículas, e eu odiava ficar impressionada com elas, já que as odiava tanto. Assim que um sorrisinho sarcástico tomou conta de seu rosto, eu senti a raiva se apoderar de mim. Não tive tempo de soltar todo o meu veneno em cima daquele crápula, pois apareceu logo depois, descendo as escadas, alvoroçado. A primeira coisa que notei foi o inchaço abaixo do seu olho esquerdo e as gotas de sangue escorrendo no supercílio. Eu apenas vi seus lábios formarem a palavras “porra”, antes da voz arrogante de seu pai tomar o recinto:

- Chamou a namoradinha, ?

engoliu em seco e pude ver o pedido de desculpas em seus olhos enquanto se aproximava da porta.

- Não deveria estar com as suas putas? – cuspiu e o pai dele, sem se abalar com nada além de si mesmo, checou o celular.
- É, é… Tanto faz, garoto – ele suspirou e passou por mim quando saiu da casa e o cheiro forte de bebida foi com ele.

E tudo o que eu queria naquele momento era vomitar toda a minha raiva em cima daquele colarinho bem passado. segurou minha mão para me puxar para dentro quando fiquei os pés no chão e me virei.

- Sr. – chamei, surpreendendo aos dois. Ele se voltou para mim, com estranheza. Mantive meu tom de voz normal, embora estivesse tremendo de raiva. – O senhor conhece o Juizado de Menores e Crianças? Eu conheço muito bem, meu pai é defensor público.

Ele demorou um instante para entender. O mesmo instante que usou para apertar minha mão.

- Está me ameaçando, garotinha?
- Claro que não – eu disse, calma e inocentemente. – Só queria que o senhor soubesse, sabe. É sempre bom se manter informado.

Ele continuou com as sobrancelhas franzidas.

- É bom mesmo que não esteja.

Ele continuou me olhando de cima a baixo, provavelmente se perguntando que tipo de piada eu era.

- ...
- Ah, não – interrompi . – É só que estou escrevendo esse artigo para a escola sobre abuso familiar, abuso de drogas e tudo mais, e achei que o senhor gostaria de saber. Essas instituições estão aí para nos manter seguros, não é mesmo? Às vezes de nós mesmos...

Eu entortei a cabeça e senti apertar minha mão mais uma vez.

- Sim – o sr. respondeu, simplesmente, em voz baixa. – Estou bem familiarizado com todas elas.
- Ótimo! – eu dei um sorriso falsamente animado e continuei. – Tenho o número de várias instituições, inclusive de Alcoólatras Anônimos, se for o caso. Sabe, eu tenho uma prima que ia aos Consumistas Anônimos, ela estourou o cartão de todos na família e só então percebeu que tinha um problema. Mas, o senhor sabe, nunca é tarde demais para tentar – dei um outro sorriso e terminei. – Boa noite, sr. .

Dei as costas e entrei na casa de antes que mudasse de ideia e socasse aquele bêbado nojento. Já havia abusado demais da sorte. fechou a porta e assistiu o pai ir até a garagem pela fresta da cortina enquanto eu analisava os estragos em seu rosto. Filho da puta! Minha cabeça gritava e eu tive que manter minhas mãos em punho pra não abrir a porta e ir lá acabar com aquele homem. Filho da puta. Filho da puta. Filho da put...

- Caralho, , o que você tava pensando? - me assustei com o tom dele, mas não perdi a postura. - Por que fez aquilo?
- , você acha que eu sou de ferro? Você acha que eu posso vir aqui, dar de cara com aquele homem, ver você nesse estado e dizer absolutamente nada? – questionei-o, estava em algum lugar entre ofendida e ensandecida. – Se você acha mesmo que eu faria isso, não me conhece muito bem, anjo – usei do que restava do meu sarcasmo.
- Não é isso, , é só que... Ele é a porra de um babaca, ele pode machucar você e ele... – ele passou a mão no rosto, e se calou porque a voz embargara. não choraria na minha frente, não agora. – Você não pode simplesmente ameaçá-lo!
- Tem razão! – falei, deixando a chateação de lado e entrando completamente no modo ensandecida. – Tem razão, ! Então, talvez eu devesse denunciá-lo de uma vez, certo? É isso que você quer?
- , essa não é a questão!
- A questão, ! – gritei, minha voz recobrindo a dele. – A questão é que eu te conheço há dois anos e as coisas nunca estiveram tão ruins dentro dessa casa. E eu tenho certeza que você concorda.
- Não chamei você aqui para dar uma de Mulher Maravilha, eu só...
- Eu tô tentando te ajudar, porra! – berrei, antes que me sentisse chateada de novo e saísse por aquela porta.
- É mais complicado que isso.
- Não é, , você faz ser complicado, mas não é! – continuei a encará-lo firmemente, ele precisava tomar uma decisão, uma atitude, agora mesmo. – Você pode fingir que não se importa, mas não pode evitar esse assunto para sempre!

As coisas simplesmente não podiam continuar daquele jeito. Esperei por sua resposta. Pela atitude. Pelo “sim, vou fazer alguma coisa”. Um minuto, dois, três e nada.

- Foda-se – murmurei e abri a porta para sair.
- , por favor!

segurou meu pulso e eu me voltei para ele. Ah, não. Ah, não, ah, não. Os olhos de estavam vermelhos e não apenas pelo inchaço, eu me segurei para me manter de pé. Aquela visão, ele machucado por dentro e por fora, era demais pra mim.

- Ela se foi – ele disse. – Minha mãe foi embora.

Ela havia tomado várias pílulas naquela noite, ele disse. Meu pai ameaçou mandá-la para a Reabilitação, ele disse. Eles gritaram, ele bateu nela outra vez, ela fez as malas e se foi, ele disse, aspirou fortemente pelo nariz, um ruído sufocado subiu pela sua garganta e ele chorou.
Era a primeira vez que eu o via chorar. Eu sabia que odiava a família que tinha, mas odiava ainda mais amar tanto sua mãe, mesmo que ela não merecesse. Desde a primeira vez que conversamos sobre sua família, o misto de emoções – que eu conseguia captar – que o compunham quando falava de sua mãe era sempre contraditória. “Viciada em antidepressivos”, “um espírito livre”, “uma eterna adolescente”, “submissa”,” linda”,” queria poder não amá-la”. Queria tirar esse dor de você, ...
Eu dei dois passos para chegar nele e abraçá-lo. escondeu o rosto em meu pescoço e eu senti seu tronco tremer enquanto ele fungava e reprimia insistentemente o choro. Acariciei suas costas e seus cabelos até ele se acalmar. Nossas histórias eram parecidas, afinal. Mas, diferente de mim, ele não tinha um pai incrível pra equilibrar a situação com a mãe. Pelo contrário. Ficava ainda pior quando o assunto era o patriarca da família.
Depois que ele se acalmou, eu subi, peguei uma mochila, roupas no armário e a escova de dentes no banheiro. Ainda era estranho pensar como as coisas haviam se… intensificado entre a gente no último ano. Mas, ao mesmo tempo, era como se ele tivesse feito parte da minha vida desde sempre. Eu sentia que nós, que nossa relação era um algo que precisava acontecer.
Quando voltei ao hall, ele estava exatamente no mesmo lugar que o havia deixado, com o olhar perdido no chão lustroso e completamente recomposto. Agarrei a mão dele, saímos de casa e entramos no meu carro, finalmente deixando o clima horroroso daquela casa enorme para trás.

+++


- Tem um colchão reserva lá embaixo, mas pode dormir comigo se quiser – eu disse, colocando uma fronha limpa em um dos travesseiros que mantinha guardado. Não havia mais aquele tipo de tabu conosco. Acabávamos dividindo a mesma cama depois de todas as festas que íamos, era simples.
- Tudo bem – ele disse e se sentou a minha cama.

Eu continuei olhando-o, fascinada e angustiada, porque, apesar de tudo, ele parecia tão lindo sentado em minha cama, no meu quarto. A pele, os olhos e os fios mais claros do cabelo reluziam à meia-luz.

- Bem... – eu disse, dando um leve suspiro. – Vou lá embaixo buscar o kit, já volto.

Ele assentiu e eu saí do quarto, soltando todo o ar que vinha prendendo. Peguei o kit de primeiros socorros no armário do banheiro e aproveitei para tomar dois copos enormes de água e finalmente respirar aliviada. Estava em casa. Estava tudo bem. E apesar de tudo o que acontecia, a ideia de estar tão calma com no meu quarto, de saber que aquilo era normal, me deixou eufórica. A tensão sexual entre a gente crescia a cada dia e depois de me sentir mais aliviada por ele estar seguro em casa e não sozinho com o maluco do pai dele, eu começava a sentir aquele formigamento sob a pele, as borboletas no estômago e o receio de fazer algo do qual me arrependesse depois.
Merda, o que estava acontecendo comigo? Será que era só comigo? Será que sentiu também? Ele sempre dava sinais de que sim, tanto que tentou me beijar. Mas e se fosse só uma coisa de momento? Nós nunca voltamos a conversar sobre o quase-beijo na casa de Daniel… Será que ele se arrependia de ter tentado? Será que eu queria saber? O que diabos eu queria?
Deixei o copo na pia, minhas crises internas de lado, e subi para o quarto. estava terminando de colocar a camiseta branca surrada quando entrei no quarto, havia trocado os jeans pelo short que eu havia trazido. Péssima hora pra subir, , péssima! Porque todas as crises internas que havia deixado de lado na cozinha, voltaram com tudo quando vi o torso nu dele no meu quarto. Tive que segurar a língua para não pedir desculpas. Aquilo era normal, certo? Ver o melhor amigo se trocando era completamente normal… Não era?
Claro que era, , pelo amor de Deus!
Ou será que não?
Ai, meu deus do céu!
Ele me viu com o kit na mão e se sentou na cama. Me aproximei, abrindo a caixa e pegando o necessário, antes de colocá-la na cama ao lado dele. Molhei o algodão na água oxigenada e ergui seu queixo, sentindo seu olhar oblíquo sobre mim.

- Acho que vai arder – eu disse, antes de começar a limpar o corte em seu supercílio.
- Desculpe por ter sido grosso com você mais cedo – ele disse, instantes depois. – Não quis dizer aquilo. Não de verdade. Você é sempre muito prestativa comigo.

Baixei meus olhos para os dele e suspirei, sentindo o peso daquela imensidão me preencher de raiva, tristeza, carinho, alívio.

- Tá tudo bem, – eu disse e terminei de fazer o curativo. Passei uma pomada no inchaço em volta do olho esquerdo dele e o dispensei dos meus cuidados médicos amadores antes que eu fizesse alguma burrada.

Fui ao banheiro colocar o pijama e escovar os dentes e quando voltei, já estava deitado em minha cama, sob o edredom, olhando pensativamente para o teto com os braços atrás da cabeça.

- Acho que não precisa do colchão reserva – falei, brincando e ele deu um sorrisinho.

Cumprimentei a mim mesma por aquele sinalzinho de felicidade, mesmo que pequeno. analisou meu pijama – que na verdade era uma samba-canção xadrez de meu pai, à qual eu surrupiei antes de ser usada, e uma camiseta velha – e deu outro sorriso. Me deitei do outro da cama e encarei o teto também, acelerada demais para dormir, porém cansada demais para continuar acordada.

- Seu pai não vai, tipo, morrer do coração se encontrar você na cama com um cara? – perguntou, de repente.

Eu dei de ombros.

- Ele provavelmente vai dormir na casa de Janine e vai direto para o trabalho de lá – expliquei. – E você é o , não é um cara – eu disse, com as sobrancelhas franzidas. – De qualquer forma, meu pai já acha que estamos ficando mesmo.

Eu me virei, ficando de costas para , depois de ter falado a coisa mais estúpida possível. Às vezes, eu gostaria muito de saber o que deu errado com o meu filtro natural quando nasci, porque, sério, eu não podia ser tão idiota assim. Ouvi soltar uma risadinha e se mover na cama.

- Boa noite, .
- Boa noite, .


THE SEVENTEEN YEAR

- E, aí, pessoal – o tom de voz dele era o mesmo de sempre. O sorrisinho no canto dos lábios também. O cabelo sobre os olhos, os olhos, como ele ajeitava o corpo atrás da guitarra... tudo nele me era tão familiar que eu poderia mapear seus movimentos como quem desenha o mapa mundi sob papel manteiga. – Nós somos a The Flash and Flair e viemos dar uma animada na noite de vocês.

Os gritos e aplausos da plateia fizeram o canto dos lábios de se esticarem do jeito mais sincero. Ele olhou para Daniel, que fez as três típicas batidas com a baqueta antes das guitarras agressivas de Invencible, do Ok Go, inundarem o lugar. O público foi à loucura e Tessa e eu nos deixamos levar pela onda excitada de pessoas, nos contagiando com a música e todo o clima daquele sábado à noite.
Era Julho, o verão queimava o solo de Massachusetts e tirava as pessoas de suas casas como insetos saíam dos bueiros. Tessa e eu seguíamos os garotos aonde quer que eles fossem: ela porque fazia de tudo para ficar grudada no Dan, eu porque simplesmente amava aquele clima de banda de garagem e shows underground. Havia até começado um projeto inspirado nos fazines da década de 90 – só que online.
O blog era o que eu tinha de mais precioso no momento e cada respiração alheia me dava vontade de sentar e dissertar sobre aquilo por horas a fio. A ideia me ocorreu logo depois da Divine Move começar a fazer shows toda semana. Primeiro comecei como um “Diário de Bordo”, nas quais eu relatava as dificuldades e sucessos que uma banda amadora podia ter, algo que nós leríamos daqui uns anos, sufocados pela rotina e sedentos de nostalgia. Depois, os textos começaram a se mesclar: origens de bandas, movimentos, comportamentos, tudo acoplado num blogzinho amador de mim para mim mesma, sobre estar nos bastidores. Chamei-o de "backstaging".
Mas depois que o foco começou a mudar e os meus horizontes se expandiram, o nome não era mais adequado. Não era mais um “diário de bordo”, eu escrevia por todos os movimentos juvenis e as ideologias eles que criaram, pelos detalhes mais simples que a nossa adolescência carrega e transfere para as gerações seguintes. Era a minha mente, transbordando sentimentos e engolindo informações, conversando com todos os outros jovens dispostos a ouvir. E eu gostava de tentar entender como eles funcionavam... Os artistas e idealizadores do passado, digo. De Elvis Presley à Noel Gallagher do Oasis. De Nina Simone à Lady Gaga. Como a presença de uma personalidade podia alterar o curso de mentes e a história em si. Eles eram o brilho súbito que modificava todo o cenário, o talento deles era o relâmpago das tempestades juvenis.
Descobri o termo “the flash and flair” enquanto lia uma edição antiga de uma revista semanal do meu pai. A matéria falava sobre o carisma de um certo político e o jornalista o havia descrito como “flash and flair”. E era perfeito. Se encaixa perfeitamente no que eu pensava e achava um absurdo uma expressão tão maravilhosa daquelas ficar enterrada daquele jeito.
Enquanto isso, Jordan e os caras da Divine Move entraram numa crise ferrada de procedência. Com o fim do Ensino Médio chegando, eles não podiam mais ignorar suas responsabilidades, teriam que escolher entre a turbulenta vida na música e o ordinário comum numa universidade. Jordan e Duncan haviam tido a briga do século e eu havia ficado tão assustada como naquele dia.
Estávamos voltando para casa depois de um show. Era novembro do ano passado e fazia muito frio, mas Frango e Sid estavam enchendo o saco de Jordan para ele parar numa loja de conveniência para comprarem cervejas. Aquilo era bastante comum e não seria um problema se a maioria de nós não estivesse com os nervos à flor da pele. Duncan sempre fora o pior. Toda aquela pose de bad boy dele era algo bastante revoltante para todos nós que tentávamos acalmar os ânimos. Ele e Jordan estavam nessa de se desafiarem por absolutamente tudo e foi numa dessas discussões idiotas que a briga começou pra valer.
A lembrança é bastante vívida em minha mente. Naquela noite estávamos todos na Mo, os meninos não haviam precisado levar nada além das guitarras para o show então havia espaço de sobra na van. Jordan estacionou Mo numa loja de conveniência bastante esfarrapada, Sid e Frango saltaram da van como um raio e logo estávamos todos do lado de fora. Eram quase 2h da manhã. Duncan puxou Jo para um beco próximo dali e eu, sonolenta e entorpecida pelo cansaço, os vi acender o baseado em meio às sombras da rua escura. e eu estávamos sentados e encolhidos na sarjeta recém limpa e livre de neve, por outro lado, meus fiéis coturnos surrados afundavam na fina camada de neve da rua. Tessa estava em pé, angustiada e ansiosa, os dedos digitando furiosamente no celular. Ela e Daniel tinham brigado de novo. Ela usava uma touca roxa de lã e o nariz estava vermelho. Eu tinha tentado acalmá-la, mas não adiantou nada, então preferi ficar quieta. Além disso, havia bebido um pouco naquela noite e estava quase morrendo congelada, sem vontade nenhuma de deixá-la ainda mais puta. Tudo o que eu queria era que Sid e Frango voltassem de uma vez para darmos o fora dali.
Não me lembro quanto tempo ficamos, mas não foi muito. Lembro de conversar com , bem baixinho, e dele se aproximar, louco por uma fonte de calor. Lembro que eu estava rindo de algo que ele disse e pensando que Camille finalmente tinha conseguido o que queria com , o ciúme repentino que eu senti quando os vi se beijando no bar e bebi pra não deixar o sentimento transparecer. Agora, ainda bêbada, a memória vinha em flashes, mas eu me sentia inebriada pela presença dele. Sempre conversando, me olhando no fundo dos olhos e dando sorrisos sinceros. era meio adorável. Àquela altura, eu era tão próxima dele quanto do resto dos garotos da banda e gostava muito de ficar perto dele, mesmo que fosse um “perto, sem dizer nada”. Lembro que, naquela noite, ele estava brincando com a minha touca quando eu encostei a cabeça em seu ombro e fechei os olhos.
E tudo foi como um relâmpago rasgando e estralando no céu antes do poderoso trovão.
As vozes exaltadas
O barulho de vidro se quebrando
O miar estridente de um gato
A voz grave de Jordan gritando “Porra, Duncan!”
E então,
o soco.
Tessa já estava correndo quando e eu nos erguemos da calçada. O gelo quase me fez escorregar várias vezes e eu sentia minha pressão aumentar, lutando contra o entorpecimento do meu corpo. Eu não consegui ver nada além de sombras e neve. Mas sentia o cheiro da umidade, o odor do beco e de ferrugem que mais tarde descobri ser sangue. passou por Tessa e a empurrou para trás antes que ela se metesse entre os dois. Ducan e Jordan estavam embrenhados na neve, entre socos e chutes. Eu ouvia os palavrões, a voz de Tessa e a minha voz gritando, chamando os dois. Duncan e Jordan juntos tinha o triplo do tamanho de na época, e eu arquejei quando vi o braço de alguém o mandar para o chão. Aquilo foi suficiente para Tessa se lançar sobre os dois outra vez e eu, é claro, sobre minha amiga. Frango e Sid chegaram no mesmo instante que eu agarrei Theresa pela cintura e a puxei para trás. havia se erguido e segurou Jordan pelos braços enquanto Sid e Frango ergueram Duncan e o seguraram.

- QUE PORRA É ESSA, CARALHO? – nunca, em toda a minha vida, eu tinha visto Phillip aumentar o tom de voz com alguém. Até aquela noite. – VOCÊS ESTÃO CHAPADOS, PORRA?

O olhar fulminante entre Jo e Duncan não se alongou muito. Nem os berros do Frango. Um barulho de viatura se aproximando aumentou os níveis de adrenalina em 200% e os garotos começaram a xingar como condenados enquanto nós corríamos de volta para a Mo. Éramos todos menores e estávamos com álcool nas veias, além disso, Duncan devia estar com os bolsos cheios de maconha. Jordan, e eu, nos jogamos nos bancos da frente, enquanto o resto do pessoal pulou para dentro na parte de trás.
Depois que Jo fechou a porta do motorista pude ver o estrago em seu rosto. A lateral da bochecha começava a inchar e sangue escorria do seu supercílio. A angústia que eu senti naquele instante foi quase tão grande quanto à do dia que minha mãe se foi. Tive vontade de começar a chorar e berrar com os dois. Queria que eles voltassem a serem como antes, os melhores amigos, fundadores da minha banda favorita em todo o mundo. Meus irmãos mais velhos. Jordan encarava o nada, imóvel. O braço apoiado na janela e o punho cerrado em frente à boca. Apesar de tudo, ele parecia bastante sóbrio. E aquela viatura parecia vir a 10 km/h.
A mão de escorregou para a minha naquela noite, e eu entrelacei nossos dedos, sentindo o medo dominar todos os meus poros e competir com a angústia que se instalara em meu peito. Além do resquício de adrenalina e álcool que nadavam nas minhas veias.
A viatura passou sem nem se abalar com a van grafitada em frente à loja de conveniência asquerosa às 2h da manhã. Depois que o som dela se tornou apenas uma lembrança, Jordan ligou a Mo, engatou a primeira e acelerou rua afora.
Lembro que as semanas seguintes foram as mais melancólicas da minha adolescência. Eu até cheguei a discutir com a Tessa no período – a primeira e única briga séria que já tivemos – e de ter me aproximado pra caralho de . Jo se meteu e disse que estarmos brigadas por causa deles era a pior coisa que podia acontecer. Tessa e eu nos desculpamos e tornamos “fazer Duncan e Jo se falarem de novo” o nosso objetivo de vida. Não foi tão difícil assim, para ser sincera. Aqueles dois se amavam tanto quanto eu amava Tessa. E o Frango e o Sid podiam ser bem insistentes quando queriam.
Enquanto os garotos ficavam nesse chove e não molha. , Daniel e Ben – amigo de infância de Daniel – começaram a tocar junto. Tessa perdeu a virgindade com Daniel, eles se amaram por umas semanas antes de darem um tempo outra vez. conheceu Nicholas na aula de física e ele começou a andar e tocar com os meninos. Theresa transou com um cara mais velho. Daniel pediu desculpas e disse que a amava. Ela fez doce por umas semanas, mas logo eles reataram.
Quando a Divine Move deu-se por acabada oficialmente, eu fiquei deprimida por dias. Apesar de tudo, os garotos haviam passado em boas universidades e cada um ia para um canto. O dia que Mo voltou da funilaria, parecendo nova e sem nenhum resquício da Divine Move, Jordan deu as chaves dela para e uma batidinha em suas costas. Acho que nunca vi alguém chorar tanto quanto Sid naquele dia. Mas ele estava bêbado, então, talvez, eu não deva considerar.
Quando os garotos se formaram no Ensino Médio, senti uma parte de mim entrar em luto. Eu sabia que nada mais seria igual sem eles, e que deveria caçar minhas próprias aventuras agora. Aqueles foram meses transformadores, mas Tessa, , Daniel, Nicholas, Benjamin e eu estávamos apenas começando.
Meu nível de amizade com havia atingido um patamar desconhecido para mim. Embora tudo fluísse da maneira mais natural entre a gente, fingir que nossa relação era comum era meio que um absurdo. Eu nunca havia namorado na vida, mas achava que se tivesse, se pareceria mais ou menos com o que eu tinha com .
Sim, tinha a parte comum de toda amizade: a encheção de saco sem fim, os conselhos, as músicas e livros compartilhados. Eu me apaixonei por Velvet Underground por causa dele e ele leu Um Conto de Duas Cidades por mim pra entender por que eu falava tanto do Sydney Carton - o personagem principal a história. Ouvimos o álbum novo do Arctic Monkeys juntos no meu quarto e decidimos que sim, aquele era nosso favorito, embora fosse difícil escolher.
Mas também tinha a parte que me deixava confusa e com os hormônios borbulhando. Às vezes ele dormia em casa quando ficávamos até muito tarde vendo filme ou tagarelando. Ás vezes, eu o pegava me observando, distraído, e me pegava o observando: o corpo esguio que vinha ficando cada vez mais bonito nos últimos tempos. Estávamos sempre juntos e tocando um ao outro, deitando no colo um do outro pra assistir filmes na sala de estar da minha casa. E sentíamos um ciúme danado um do outro também. Quase o soquei quando ele contou, todo felizinho, que tinha transado com Camille Wester. E ele ficou um dia inteiro sem falar comigo quando descobriu que eu havia ficado com Donavan Fields, um garoto mais velho, e não tinha contado a ele.
De qualquer forma, e eu nunca havíamos sequer nos beijado. Nem uma vez. Até Tessa achava que isso era mentira, mas eu não podia fazer nada para provar minhas palavras, então dei de ombros para toda aquela situação. E não era como eu pudesse dar certeza sobre a minha “só amizade” com . O que a gente tinha estava longe de ser algo definitivo e eu me sentia cada vez mais envolvida a ele.
Quando apresentou o meu blog ao resto dos garotos, foi como um déjà vu. As silhuetas de uma banda começaram a se formar e os garotos nem se deram conta. Exatamente como havia acontecido com a Divine Move. Tocaram na festa da piscina da Georgia Foster no início das férias de verão e então, num final de semana aleatório, eu estava deitada na minha cama, lendo algumas composições que havia composto e trouxera para eu ver, quando ele voltou ao quarto depois de um telefonema e disse:

- Temos um show. E precisamos de um nome.

The Flash and Flair partiu de uma sugestão de Nicholas, que disse que era justo que eles fizessem uma homenagem àquilo que deu origem a banda, sem falar no significado por trás da expressão. Era perfeito. Quase morri de emoção quando todo mundo concordou. telefonou de volta ao dono do lugar onde tocariam, dizendo que a banda tinha um nome oficial e estava tudo certo. E ele disse que eu estava “uma gracinha surtando daquele jeito”. Toda vez que ele dizia coisas assim era como se estivessem derrubando mel, chocolate e açúcar dentro de mim, junto de palpitação ansiosa que me deixava toda besta e esquisita.
estava sempre carregado de uma serenidade que chegava a ser estranha, muito diferente de mim, que estava sempre, como meu pai dizia, ligada nos 220v. nunca tomava decisões sem pensar seriamente no assunto e na maioria das vezes era o mais maduro de nós. Não se abalava o suficiente para aumentar o tom de voz, mas quando ele cantava... Cara, quando ele cantava, era como se tivesse tomado o fôlego de todos na Terra, porque o fazia sem esforço algum e ainda assim, esbanjava uma paixão feroz e inigualável. Eu poderia vê-lo fazer isso a vida toda. É como se todas as partes soltas no mundo finalmente encontrassem seu lugar.
É tão idiota quando gostamos de uma pessoa e ficamos inventando explicações metafóricas para dar sentido ao que sentimos. Eu estava sempre filosofando quando o assunto era . Mas era inevitável. Ele fazia eu me sentir corajosa, feliz de ser como eu era e compreendida - muito compreendida. Fazia eu me sentir sem fissuras ou vazios. Sem medo. E aqui vai outra metáfora. Era a amizade que eu nem sabia que precisava, mas chegara na hora certa.
Mas a tensão sexual entre nós já estava se tornando algo meio Daniel e Theresa e eu estava detestando. Não sei o que nos impedia de ficar, mas não era eu, a Rainha da Insegurança, que ia fazer alguma coisa. Então a gente passava nossos dias provocando um ao outro, falando, falando e tomando atitude nenhuma. Meu ciúme ficava cada vez mais insuportável também, e Tessa dizia que eu faltava arrancar os cabelos quando via com outra menina por aí.
Semanas antes da mãe dele ir embora e dormir em casa, nós quase nos beijamos na casa do Daniel. Nicholas tocava I Wish You Were Here do Pink Floyd no violão e Georgia – ficante do Nico – e Tessa acompanhavam a música cantando. Os meninos estavam jogados pela sala e e eu estávamos no sofá, as minhas pernas sobre a dele e suas mãos fazendo um carinho gostoso e distraído nas minhas panturrilhas.
Em algum momento da noite, ele me puxou e me levou até a cozinha, fizemos milk-shake com o resto de sorvete que tinha na geladeira e, enquanto o bebíamos, se inclinou para me beijar e eu baixei o rosto, mais pelo choque do que qualquer outra coisa. A discussão começou depois do “eu não sei mais o que eu faço” de e o meu "eu não quero estragar tudo sendo só uma ficada pra você". A discussão rendeu uns bons minutos, sem gritaria nem nada, porque, afinal, éramos e . Só que ficamos tão bravos naquela noite que vazou da casa de Dan e, sem clima pra continuar, fui para minha depois de prometer contar tudo a Tessa.
Em casa, depois de segurar muito, finalmente deitei na cama e chorei copiosamente até dormir, arrependida até o último fio de cabelo. Que merda estava acontecendo ali? Eu não fazia ideia.
Dois dias depois, na aula, Tessa disse que ouvira Daniel e conversarem pelo celular na fatídica noite, depois que todo mundo já tinha ido dormir. Segundo ela, disse que havia ido à casa de Camille na noite anterior, mas não conseguiu ficar com ela por minha causa e foi por isso que ele tinha tentado me beijar depois, na casa do Daniel. Não tinha ideia de como me sentir com relação àquilo. Eu achava que tinha feito uma puta burrada dessa vez, que ficaríamos brigados por um bom tempo, mas apareceu na minha casa naquele mesmo dia. A gente conversou e pediu desculpa pela discussão. Meio deixando nas entrelinhas o veredicto daquela situação – ou seja, nada resolvido – e seguimos com a vida.
De qualquer forma, os garotos ensaiaram muito nos dias que antecederam esse show. O primeiro show deles no centro de Massachusetts. Achava que algum deles ia estar se cagando hoje, antes de subirem ao palco, porque geralmente era assim que Jordan e os garotos ficavam, mas estava enganada. Era como se tivessem feito aquilo a vida toda. E Nicholas podia ser um “integrante novo” no nosso grupinho, mas a harmonia musical dele com os garotos era algo surreal.
E agora estávamos todos ali, naquela casa de show em um mini festival de bandas covers assistindo a apresentação explosiva da The Flash and Flair.
Os garotos tocaram umas cinco ou seis músicas quando se prepararam para a saideira. O público parecia ter gostado deles e durante o show pude reconhecer vários rostos da Haverhill High. Distribuímos folhetos divulgando o show na saída escola, convidado todo mundo em um evento no Facebook e parecia ter funcionado. Eu estava louca de animação, suada, esbanjando serotonina e havia perdido a conta de quantas vezes Tessa havia gritado “Daniel gostoso!” ao meu lado. Só para não perder o costume. Daniel trouxera seu irmão mais velho, que fazia uma faculdade local, e ele ficou responsável pelas cervejas da mesa, já que ainda éramos menores.
Nós não estávamos longe do palco e o lugar não era grande, de forma que podíamos ver os garotos muito bem. voltou a frente do palco, ajeitando a Fender branca em frente ao corpo e deu um sorriso meio tímido.

- Essa aqui é nossa última música da noite – ele disse a plateia fez um murmuro em protesto que me fez sorrir. segurou o sorrisão, mas seus olhos não mentiam. – E eu queria dedicar pra uma pessoa que tá aqui hoje e praticamente todos os dias comigo desde que a gente arrumou instrumentos numa van, há mais de um ano...

Eu senti minha espinha gelar, e meu maxilar caiu. Ele passou a língua nos lábios, enquanto a plateia se recuperava dos berros. Ele não pode, ele não vai. Ele não seria capaz de...

- Ela sabe quem é e espero que diga sim.

Ele seria sim.
Mais alguns gritos surgiram da plateia e Tessa disse “Aê, porra, agora vai!” ao meu lado. Os segundos seguintes foram os mais longos e esquisitos da minha vida, eu sentia meu corpo inteiro formigar e me dividia entre acreditar naquela situação toda e manter meu cérebro funcionando. Esperei. Esperei. E esperei. Estava acreditando que notas românticas sairiam da guitarra e da voz aveludada de , mas eu não podia estar mais enganada.
O público foi à loucura quando as primeiras notas de ‘Are You Gonna Be My Girl?’ do Jet, reverberaram pelo local. Vi a mim mesma dar um grito animado, enquanto Tessa começava a pular numa dança muito... bem, muito Tessa.

- So one, two, three take my hand and come with me, cause you look so fine and I really wanna make you mine.

Theresa deu uma gargalhada ao meu lado, cantando a música para mim e eu escondi meu rosto nas mãos. De todas as músicas já escritas, não poderia ter escolhido uma tão ele num momento como esse. Eu não conseguia parar de sorrir e rir e acompanhar a música e observar em sua dança harmoniosa com a guitarra e o microfone. Cara... ele não era real.

Big black boots
Long brown hair
She's so sweet
With her "get-back" stare

Well I could see you home with me
But you were with another man, yeah!
I know we ain't got much to say
Before I let you get away, yeah!


- I said are you gonna be girl?
– o olhar dele era totalmente meu, pertencia completamente à mim e eu apenas seria incapaz de dizer que aquilo não era a coisa mais doida e divertida que já havia me acontecido.

- Amooooooor, vocês arrasaram! – Theresa pulou no pescoço de um Daniel extremamente sorridente, me fazendo rir.

Eu cumprimentei os garotos, fazendo high-fives e sendo zoada pela “serenata” que recebera, o que fazia um calor subir pelo meu pescoço e arder em minhas bochechas. Meu cérebro voava a 200 km/h me perguntando onde estava , mas não ousei verbalizar minha dúvida, sabia que renderia mais uma leva de zoações e eu achava que minhas bochechas cairiam se ruborizassem mais uma vez. Estava tentando me manter leve e natural, conversando com os meninos enquanto aquele babaca não aparecia, mas estava bem, beeeeem difícil. O pessoal se sentou, o irmão de Dan trouxe uma rodada de cervejas e eu já estava cansada de ser discreta com a minha agonia, de forma que, cerca de quinze minutos depois que os meninos voltaram, coloquei minha caneca em cima da mesa e falei:

- Chega. Vou atrás dele.

Logicamente berraram um número considerável de indecências para mim, mas àquela altura eu estava pouco me importando. Me embrenhei em meio ao pessoal, a caminho dos fundos do palco, com o celular na mão, caso precisasse ligar, mas não, meus esforços não foram necessários, porque ele estava vindo. Olhos cor de whisky, skinny preta, camisa jeans, o cabelo em três tons de castanho estava mais compridos do que quando nos conhecemos. Ele parecia ter saído de uma banda grunge dos anos 90 - nunca pareceu tão ele quanto naquele instante em que olhou pra mim, meio ansioso e cauteloso e eu podia sentir o cheiro de almíscar do seu perfume de longe. Senhor, eu estava apaixonada real por aquele garoto!

- Desculpa, fiquei preso e um monte de gente veio conversar e...

E eu não pensei, não dei nenhum passo a mais, apenas aconteceu. estava perto o suficiente para eu rodear seu pescoço com meus braços e puxá-lo para um beijo. E ele veio sem hesitar. Não havia cautela. Havia apenas ele, eu e o beijo. Ele, eu e seus ombros largos. Ele, eu e seus braços ao meu redor, me segurando com vontade num abraço que me preenchia e enviava fios de eletricidade pela minha espinha. Senti ele me levando suavemente e quando abri meus olhos, não estávamos mais no meio da pequena multidão na plateia, estávamos em um corredor escuro e quase vazio que eu tinha certeza que cheirava mal, mas no momento eu não sentia nada porque estava inundada pelo cheiro dele. era tudo acima, abaixo e ao meu redor. Naquele momento, ele podia monopolizar todos os meus sentidos como quisesse. Eu queria me fundir ao corpo rígido e às mãos precisas de guitarrista dele.
foi parando o beijo devagar, dando-me selinhos no canto dos lábios e então em meu nariz. Eu sorri, pensando que não podia ficar mais feliz. Aquilo não era possível. Uma pessoa não pode acumular tanta felicidade em um espaço de tempo tão curto, mas, bem, aparentemente acontecia.

- Eu sabia que gostava de você – eu disse, baixinho, não querendo quebrar o clima, mas necessitando externar aquilo. Afinal, eu ainda era , feita de palavras e euforia. – Mas não sabia que podia gostar tanto assim de você. Parece besteira, mas... acho que gosto mais de você agora do que gostava há duas horas atrás e menos, eu espero, do que vou gostar amanhã.

Ele abriu os olhos e me encarou, parecia completamente sem chão, refletindo minha própria exaltação e medo do desconhecido. Mas me sentia levitar, flutuando naquele sentimento doce de descoberta. Era como se, em todo esse tempo, estivéssemos subindo uma escada colossal e finalmente houvéssemos chegado ao topo. Toda a subida nos trouxe para esse momento. Para esse corredor escuro, num pub esfarrapado. Para a respiração quente dele em minha pele e as mãos dele sobre o tecido da minha regata do Bowie.

- Não é besteira – ele disse, finalmente. – Não é besteira.

Ele se inclinou e tocou meus lábios com os seus de novo. E foi mais rápido do que eu gostaria.

- Achei... – comecei, enquanto ele erguia uma mão e tirava meu cabelo do rosto. – Achei que não quisesse mais nada comigo. Nada assim, pelo menos, depois do que aconteceu na casa do Dan...

Ele balançou a cabeça, e eu vi um sorriso brotar no seu rosto sombreado. Ele se aproximou. Perto demais, mas, ainda assim, não o suficiente.

- , eu quero você de todos os jeitos possíveis – ele murmurou, o nariz contra a pele do meu pescoço num carinho lento e delicioso. – Eu sempre quis, mas não tava pronto para... para... não sei. Me faltava alguma coisa. Mas semana passada, quando você foi em casa e meu pai foi a porra de um babaca com você e você apenas... – seus lábios tocaram meu pescoço e eu senti meu coração falhar uma batida. – Porra, ! Você foi incrível e foi toda a certeza que eu precisava de que isso é certo... – eu pisquei e tentei estabilizar minha respiração falha. – Mas eu não vou fazer isso sozinho – ele se afastou apenas o suficiente para me encarar, suas mãos continuavam carinhosas em minha cintura. – E não quero que você faça isso no impulso.

Eu nunca vira os olhos de tão escuros quanto naquela ocasião. Ele parecia sério, mas ainda assim, seus olhos tinham aquele brilho desejoso e instigante - esperançoso - que eu via as pessoas usarem com quem elas gostavam e achei que nunca seria direcionado a mim.

- Então, não vou te forçar a nada agora, tá? Podemos ir com calma, apesar de eu já estar mergulhado até a cabeça nisso – ele sussurrou, próximo ao meu ouvido, o tom dele parecia ao de um gato ronronando, e me fez fechar os olhos e soltar um suspiro, com algumas perversidades absurdas zanzando pela minha mente. – Seria injusto com você, por mais que eu saiba que você quer também – ele sorriu, convencido.
- Como é que você pode ter tanta certeza, sr. Ego? – disse, falsamente amarga, fazendo-o rir.

As mãos dele apertaram minha cintura mais uma vez antes dele se inclinar em direção ao meu rosto. E quando achei que ele ia me brindar com aqueles lábios novamente, seu rosto foi para o lado e ele beijou minha bochecha. Lenta e docemente.

- Gostou da música? – ele sussurrou, daquele jeitinho que faz sempre que espera um elogio da minha parte. Sorri.
- Não foi tão ruim, se você quer saber...

Ele riu e apertou minha cintura de leve.

- Não foi tão ruim? – ele falou, falsamente chateado. – Sem mais serenatas pra você, Harper.

Eu gargalhei e lhe dei um selinho rápido, mergulhando em sua íris castanhas outra vez. Às vezes eu achava que nunca mais ia conseguir desgrudar meus olhos dele.

- Eu adorei, – eu disse. – Me senti a garota dos sonhos de filmes dos anos 2000. E você não pode fazer essas coisas pra mim... vou ficar mal acostumada!

sorriu, orgulhoso e continuamos a nos encarar por tantos segundos que achei que aquilo fosse algum tipo de competição. Que eu perdi. Baixei os olhos para o pescoço de , a gola da camisa jeans cobrindo a marca de nascença que eu amava. ainda me olhava quando eu voltei a erguer os olhos para ele, me fazendo sorrir. Mesmo um pouco alterada com o álcool, eu não conseguia deixar de me sentir tímida com toda essa situação - mesmo que meu subconsciente estivesse falando “nossa, até que enfim, viu!”, eu ainda estava surpresa com tudo aquilo.

- Eu tô tão afim de você - ele disse, de repente, enquanto nos encarávamos sem parar. Era como se pensasse em voz alta.

Levou a mão até meu rosto e acariciou minha bochecha com o polegar num carinho leve. Eu alarguei o sorriso, querendo dizer mais, mas sem conseguir processar tudo.

- Pensa, tá legal? – completou e me deu mais um beijo antes de sair pelo corredor escuro.

Eu poderia ter respondido a ele naquele instante. Podia tê-lo beijado e respondido antes mesmo dele dizer que me queria. Mas se era assim, quem era eu para recusar um pouco de divertimento?


SEVENTEEN YEAR

O domingo depois do show foi uma tortura. Quanto tempo exatamente se deve esperar para dizer que sim, eu quero ser sua garota? Existe uma regra para esse tipo de coisa? Seja como for, mesmo se alguém houvesse compartilhado comigo “as regras da paquera” – ou se eu tivesse passado mais parte da minha adolescência lendo revistas adolescentes do que correndo atrás de bandas – eu não saberia como agir numa situação dessas.
havia me pedido para pensar. Pensar sobre o quê? Sobre maneiras de dizer “sim”? A ideia de pesar minhas escolhas era totalmente ridícula. Eu tinha certeza do que sentia por ele. Sem mais nem menos. Mas ele praticamente me implorou para pensar no assunto, então eu estava fazendo um esforço. Portanto, lá estava eu, pensando da melhor maneira que eu podia: com palavras.
O moleskine à minha frente tinha minhas letras trôpegas e finas divididas em duas listas visualmente desastrosa e eu espremia meu cérebro procurando por mais itens – procurando pelo em ovo, como meu pai costuma dizer. Encarei as listas e mordi a ponta do lápis.

Os prós e contras de namorar

Prós

Eu gosto muito dele
Olhos cor de whisky vizinho de armário e super gatinho
Guitarras
Melhor gosto musical da Terra
Meu melhor amigo (junto de Theresa, que isso fique bem claro)
O cara mais sensato que já conheci
Inteligente
Sincero
Melhor beijo da minha vida
Saiu de uma banda grunge dos anos 90 eu não canso de repetir isso
Eu gosto muito dele
O jeito que ele canta
Camisetas de banda
Perfume de almíscar
Amo dormir com ele
O cabelo tá precisando de um corte espero que ele não corte
Não vou colocar que ele me faz rir porque isso já seria clichê demais

Temos conversas piradas e profundas sem nem precisar estar bêbado ou sob efeito de drogas
Toda vez que ele sorri, eu me sinto como um híbrido de unicórnio, fada, Ursinhos Carinhosos e Moranguinho ah, cara, espero que ele não tenha percebido
Me sinto a Theresa falando do Daniel nessa merda de lista

Eu gosto [insira todos os advérbios de intensidade aqui] MUITO dele.

Contras
Eu gosto muito dele
Corações partidos são sempre uma possibilidade inevitável
Groupies
Ele é bem teimoso quando quer defender um ponto
Pode ser orgulhoso também (até aí, eu também)
Na real, ele é tão teimoso que me dói
Tão lindo que me dói também isso não seria um pró?!
Ele odeia Nickelback hahaha, ok isso foi só pra encher essa lista
Nunca tive um namorado
Harper, Miss Insegurança
Todas as garotas que ele namorou/ficou eram lindas
Eu sou virgem e ele, obviamente, não é
Mas, se eu perdesse minha virgindade, seria com ele
Será que ele transaria comigo?
Nem eu transaria comigo

Ele nunca leu F. Scott Fitzgerald
Mas, e se, hipoteticamente, nós transássemos, ele ia gostar?
Ele me diria se não gostasse?

Ele é sincero demais (dependendo isso pode ser um contra também, né?)
Mas eu gosto tanto dele
Ele acha o Homem-Aranha um babaca
Vamos para o último ano do Ensino Médio
Se ficarmos juntos até antes da faculdade, vamos nos separar
Eu não quero que ele vá embora
Ele come pizza com ketchup
Se distrai com os próprios pensamentos (eu amo como as sobrancelhas dele ficam franzidas)
Sr. , O Terrível, Horrível, Repugnante, Horroroso
Cara, já cansei disso aqui
E, quer saber?
Dane-se
Sim, , eu quero você também
Quando vou poder te dizer isso?



Bufei alto e me perguntei se 22 horas eram tempo suficiente para alguém pensar e tomar uma decisão sensata – mesmo que essa decisão já estivesse tomada há muito tempo, tipo, inconscientemente.
Ai, , por que não me deixa tomar uma única decisão impulsiva na minha vida?

- Querida? – papai deu duas batidinhas na porta e colocou a cabeça para dentro do quarto. – Posso entrar? Está ocupada?
- Sim e não – eu disse, fechando o moleskine e indo me sentar em minha cama.

Papai entrou, cauteloso, observando minhas paredes cheias de pôsteres e recortes de revistas.

- Nossa – ele soltou assobio baixo. – Faz algum tempo que eu não entro aqui... transformou seu quarto num estúdio experimental?

Eu ri e coloquei as pernas em cima da cama.

- Eu penso pra fora, papai – respondi. – Não posso manter nada dentro da minha cabeça ou vou ficar maluca.

Ele riu, se aproximando do meu painel de fotos. Eu sabia quais fotos especificamente ele estava olhando: todas as que eu estava com – uma nossa abraçados, outra deitados na grama, outra nossa na rua de um bar, ele bêbado lambendo meu rosto, outra em que eu beijava a bochecha dele – e ri internamente. Meu pai achava que era um detetive discreto. Eu achava graça e o deixava procurar diamantes no deserto. Uma hora ou outra, ele ia perguntar sobre .

- Como está ? Faz tempo que ele não vem aqui – ele comentou, como quem não quer nada. Há, SABIA!

Ah, pai, nem faz tanto tempo assim, semana passada, aliás, ele dormiu na cama da sua filha. Engraçado, né?

- É, pois é – respondi, contendo a gargalhada. – Ele tá meio ocupado com as coisas da banda...
- Teve alguma notícia da mãe dele?

Ele me olhou e eu balancei a cabeça, em negativa. Fazia mais de uma semana que a mãe de havia saído de casa. Deixou uma caixa postal no telefone do avô de dizendo que estava bem e não tinha previsão para voltar, mas, além disso, nenhuma outra palavra. agia como se nada estivesse acontecendo. O pai dele quase não ia para casa, o que me deixava aliviada, de certa forma, porque significava que ele estava seguro. Não bem, mas seguro. Sei que ele está destroçado por dentro, e por mais que, depois do show de ontem, do beijo e daquela lista idiota eu esteja mergulhando num mar de rosas, não podia me esquecer que as coisas estavam bem bagunçadas na vida dele.
Papai assentiu, ressentido. Meu pai trabalhava como defensor público para menores e entendia muito bem o que “problemas em casa” significava. Ele se sentou em minha cama, soltando um suspiro pesado.

- Queria não me sentir tão impotente numa situação dessas – confessei, brincando com uma das almofadas da minha cama.
- Ah, querida, você não é – ele disse, decidido. – Acredite em mim, eu sei muito bem o que é se sentir impotente. Todos os dias, casos e mais casos vão para o fórum e eu sei que nem metade deles vem parar em minhas mãos. Sei que não sou o Superman, mas só a possibilidade de que poderia ajudar aquelas pessoas e não o faço já me deixa completamente desmotivado. não vai viver desse jeito para sempre, ele é sensato demais para isso. Apenas dê a ele algum tempo para pensar e continue fazendo o que você faz de melhor, que é ser amiga dele.

Ele passou a mão nas minhas costas e me lançou um sorriso. Papai parecia cansado. Os cabelos escuros e os olhos cinzentos, nublado, ainda assim, de qualquer maneira, papai era o cara mais descolado que eu já conhecera em toda a minha vida. Ele parecia nervoso, hesitante, com alguma coisa e sabia que o motivo da visita ao meu quarto não tinha nada a ver com . Ele dobrou as mangas da camisa social e pude ver a ponta da tatuagem que cobria todo o seu bíceps esquerdo.

- Pai, anda logo – eu disse. – Sei que não veio aqui falar sobre ... O que é?
vEle olhou para mim e sorriu.

- Você me conhece melhor que ninguém.
- É o feeling investigativo – eu disse e ele riu. – Vai, fala de uma vez.
- Tudo bem, mas, por favor, seja sensata.

Sensatez, sensatez... como tenho ouvido e essa palavra nos últimos dias.
Eu assenti e continuei a ouvi-lo.
v- Filha, você sabe que Janine e o pai já estão juntos há algum tempo – ah, lá vem... – E sabe como o pai gosta dela e como ela gosta de mim e de você. E da vida que a gente tem junto.
- Tudo bem, pai, eu entendo isso, não precisa falar na terceira pessoa.

Ele deu uma risada leve, quebrando o gelo.

- É... bem, - ele pigarreou – e agora que você e Camille já estão praticamente crescidas, nós dois estávamos pensando que... bem, a gente achou que seria uma boa se nós... se nós nos casássemos.

Pisquei.

Pisquei.

E pisquei.

- O quê? – minha voz saiu um sussurro.
- Não haveria muitas mudanças no início, meu bem – papai explicou. – Jenny ainda tem muito o que organizar, tem sua própria casa e a filha. Estávamos pensando em arranjar o casamento para o começo do ano que vem. Uma comemoração pequena, só para amigos mais próximos. Jenny não quer uma festa grande.
- Vai casar com ela?
- E então nos mudaríamos, mas até lá, você e Camille já estarão no último ano e se preparando para a faculdade...
- Vamos nos mudar?
- Essa é a ideia – ele me sorriu, empolgado. – Pensamos em um lugar mais perto de Boston. Ia melhorar nosso deslocamento e eu não teria que ficar viajando. Mas, é claro, não queremos tirar você e a Camille da escola no último ano. Não seria justo.
- É... não seria justo – eu disse, e me levantei da cama. Não conseguia definir o estado em que eu me encontrava com outra palavra senão apatia. Me apoiei na cadeira da escrivaninha, ainda de costas para meu pai, precisando me um apoio mental, mas me agarrando ao físico mesmo. – Vai vender a casa?

Ouvi papai suspirar e sabia que aquilo estava sendo tão difícil para ele quanto para mim. Ele já havia superado, já havia superado minha mãe e a vida com ela. Com apenas um ano e alguns meses de namoro. Não era possível.

- Sim, querida, vamos vender a casa.

Eu fechei os olhos com força, mandando a pontada no fundo dos olhos para longe. Ainda assim, sentia minha garganta fechar. Depois de todo nosso esforço pra manter tudo em ordem, pra conseguir viver em harmonia nesta casa sem a minha mãe, ele simplesmente ia jogar tudo pro alto.

- Tudo bem – eu disse, baixinho, mas como um consolo para mim mesma do que uma resposta para meu pai.

Eu o ouvi se levantar da cama e se aproximar.

- Querida, as coisas não vão mudar muito – ele começou. – Nós dois... a nossa vida ainda vai ser a mesma, só que... mais feliz... mais completa.

Pus a mão na testa, não acreditando nas palavras dele. Por um acaso ele achava que eu precisava de algum tipo de mãe?

- Minha vida é completa do jeito que está – eu disse.
- – ele se aproximou e colocou a mão nas minhas costas, como sempre fazia desde que eu tinha uns dez anos. – Querida, eu sei que vai ser difícil para você, mas pense qu-
- Não, pai – alteei um pouco a voz. Se ouvisse mais algum tipo de explicação ou planos para o futuro eu surtaria. – Tá tudo bem... Eu só preciso de um tempo pra digerir a informação.

Por mais que eu não precisasse de uma mãe, que eu não quisesse vender a casa, me mudar e ter Janine e Camille Wester como membro fixo da “família”, eu não iria – não deveria, não poderia – impedir meu pai de fazer algo do tipo... casar. Cara, ele realmente quer casar outra vez? Uma vez já não foi o suficiente? Que ironia, ser interrompida dos meus planos românticos para lidar com os do meu próprio pai. Que merda. Eu suspirei. Um tempo. Definitivamente, era de um tempo que eu precisava.

- Tudo bem – ele disse, fazendo carinho nas minhas costas. – Vou te deixar em paz por enquanto. Mas não pode me evitar e evitar esse assunto para sempre, .

Pareceu uma ameaça. Pareceu exatamente ao que eu disse ao na casa dele semana passada.

- Ok – eu disse. – Tudo bem.

Papai me deu um beijo na testa e saiu do quarto, fechando minha porta.


EIGHTEEN YEAR

- Não é isso, , eu só não posso ir – expliquei, pelo o que parecia a trigésima quarta vez.
- Porque está com raiva demais de mim para poder ir, não é? – ele falou.

Levei meu o olhar da peça de roupa que remendava para ele. Ele estava ali, parado em minha porta, o braço esquerdo apoiado no batente acima da cabeça, erguendo sua camiseta branca e deixando a linha em V do seu abdômen e o elástico da cueca aparecer. Ele estava me irritando tanto com aquela insistência ridícula que eu estava há um fio de cabelo de mandá-lo para aquele lugar. Me irritava ainda mais que, mesmo puta da vida, ele ainda era sexy pra caralho com uma faixa de pele do abdômen aparecendo.

- Nem tudo é sobre você, – murmurei, voltando minha atenção para a linha e costura.
- Mas é um show! Um show! – ele insistiu, entrando de uma vez em meu quarto. – Você nunca havia deixado de ir um show nosso até novembro, agora já fazem três meses que a gente nem sai mais junto.
- Tudo bem, , mas eu não precisava tomar conta dos meus créditos para a faculdade em novembro – falei. – Fui descuidada demais e era bem possível que eu perdesse a bolsa se continuasse daquele jeito.

Ele ficou quieto, sabendo que não havia nada que ele pudesse fazer. Minhas aventuras como groupie, definitivamente, haviam acabado e não entendia isso. Dezembro passado, uma semana antes do recesso de festas, o Dr. Keely, conselheiro da escola, havia me chamado em sua sala para conversar. Eu já sabia que minha média havia caído naquele primeiro semestre, mas nunca achei que fosse uma coisa monstruosa. Mas aparentemente era. Ele me disse que, além da minha média estar notavelmente mais baixa, a minha frequência no jornal da escola também havia caído.

- Sabe que não pode deixar isso acontecer, – falou Dr. Keely, ele estava com o meu arquivo aberto sobre a mesa, a papelada da Columbia e meus registros da escola pulando para fora da pasta. – A Columbia é uma das Universidades mais exigentes com relação a desenvolvimento escolar e sei que você sabe muito bem disso.

Assenti, porque não havia muito mais o que fazer.

- Sei que consegue recuperar essa média e a frequência no jornal, não tenho dúvidas sobre isso. E apesar de tudo, você obteve uma boa nota no último SAT. Dois mil e sessenta foi sua última pontuação, certo? – assenti outra vez. – Só comprova o quanto essa diminuição na sua média não faz sentido – fiz uma careta. – Não gostou da sua pontuação?
- Esperava que eu fosse melhor – confessei. A minha média havia praticamente sido a mesma nos últimos três SATs. Minha ideia era alcançar o dois mil e trezentos, mas eu já tinha muita dificuldade em alcançar dois mil.
- Bem, temos que mudar isso, certo? – falou e então aproximou o corpo da mesa, me encarando. – O motivo de tê-la chamado aqui, srta. Harper, é que sei que está passando por uma fase de mudanças, sei sobre sua família, seu pai e o casamento, mas gostaria que você me contasse o que está havendo...

Papai e Janine haviam se casado na primavera. Uma cerimônia maravilhosa no final de abril. Em Julho, mudamos para uma casa maior em Lawrence, há ridículos doze minutos de Haverhill e eu me perguntava qual era a necessidade daquilo. Sim, estava vivendo na mesma casa que Camille Wester há alguns meses. Mas não era isso exatamente que vinha me desconcentrando.
Além da minha superdosagem diária de , eu ainda vinha me dedicando muito ao blog e às “Peripécias da The Flash and Flair”. Acontece que a banda havia alcançado um nível que a Divine Move nunca chegou e as coisas estavam cada vez mais... sérias. Os garotos haviam fechado um contrato no Rolf’s e tocavam duas vezes ao mês lá. A casa ficava cada vez mais cheia quando eles tocavam e a popularidade dos meninos, maior. Theresa teve a brilhante ideia de criar uma conta no Youtube para os meninos, justamente no tempo em que eles começaram a se aventurar nos mares da composição. E estavam ficando bons nisso.
Empolgada com o desenvolvimento das coisas, eu me via cada vez mais envolvida pelas maravilhas da banda. E de . Estávamos juntos desde agosto e, apesar da oficialidade do termo “namorando”, as coisas continuavam bem como no ano passado. Com exceção, obviamente, de que agora eu podia beijá-lo toda vez que me desse na telha.
Sabia que era irresponsabilidade minha estar tão envolvida com outras coisas quando estava há poucos meses de terminar a escola. Mas era quase impossível quando todos à sua volta estão fazendo coisas tão empolgantes como, por exemplo, ir a shows. Acho que meu descuido começou quando recebi a bolsa de estudos na Columbia. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Com a bolsa na mão eu só tinha a pontuação no SAT para me preocupar. Só que a coisa toda era mais embaixo. Quando recebi minhas provas naquele trimestre, sabia que minha média ia baixar. Quando Courtney, editora do jornal da escola, chamou minha atenção na segunda-feira, eu sabia que mal ia ao laboratório depois da aula. Mas aquelas coisas eram apenas uma bruma no meu cérebro eufórico. Eufórico com , com o blog, com a banda, com Columbia, Nova York e com minha “nova família”. A frase “manter boa média até o fim do ensino médio” não tinha peso em minha mente até aquele momento.
Aquela conversa com o Dr. Keely sacudiu meu cérebro. Saí da sala com duas toneladas em cada ombro, sentindo a seriedade do assunto. Precisava fazer alguma coisa imediatamente para resolver aquela situação.
O resultado daquilo foram os meses mais isolados de toda a minha vida. Não era algum tipo de tortura, só era meio triste ter que recusar toda aquela diversão de fim de ensino médio. Theresa tentava me dar algum tipo de apoio, mas eu via como ela ficava extremamente agoniada quando tinha que ficar comigo em casa numa sexta-feira à noite, ao invés de sair com o pessoal. Sem falar que ela e Daniel estavam na sua melhor fase como casal, eu não queria privá-la daquilo quando sabia muito bem sua opinião sobre o quanto dura um namoro no ensino médio. Em fevereiro, todos haviam completado dezoito anos, menos eu. E Tessa simplesmente não pôde continuar a me acompanhar nos estudos.
Era março, meio do trimestre, havia feito uma tonelada de provas e tinha mais algumas pela frente. Estava me sentindo bem mais confiante quanto a minhas notas e havia conseguido uma coluna no jornal. Me sentia como no início do ensino médio outra vez, academicamente perfeita, virgem e filha dos sonhos. Bem, eu não era mais virgem e meu mau-humor constante e vontade zero de tornar minha convivência com Camille aceitável me destituíam do cargo de filha dos sonhos. Mas eu esperava muito que voltasse a ser academicamente perfeita até o fim do ensino médio.
Só era difícil fazer e o resto do pessoal entender aquilo.

- , já conversamos sobre isso – falou, em tom meio baixo, acho que parte dele sabia que eu odiava ter de dar explicações sobre minha súbita mudança de atitude. – Eu entendi sua necessidade. Deixei você cuidar do assunto e não insisti que fizesse as coisas com a gente. Mas eu também sei que suas notas estão tão altas quanto se é possível de novo. E que você não corre risco de perder a bolsa. Só não entendo o que te impede de ir ver a gente tocar amanhã. Eu queria que você, sei lá, quisesse curtir o que resta da nossa vida de pirralho sem responsabilidades de adulto. A gente só têm mais três meses antes de tudo mudar.

Soltei a linha de costura e a jaqueta jeans em cima da cama e suspirei. Aquilo me pegou de jeito, porque no final, sim, era minha última chance de não ser adulta. Sim, eu já tinha cumprido minha responsabilidade. Só era difícil demais aceitar que esse era o fim.
"Não adianta perder o agora, . Aproveite o momento", meu pai dizia.
Mas ainda assim...

- , diferente de você, nem todo mundo consegue manter uma média ótima e tirar nota suficiente no SAT sem precisar se esforçar muito – soltei, realmente amargurada. Mas aquilo era verdade, havia conseguido a Darthmouth com uma destreza impressionante. Eu não entendia como ele conseguia lidar com a banda e a escola ao mesmo tempo. Parecia algo impossível para mim. E sim, aquilo me dava um pouco de raiva.

riu pelo nariz e balançou a cabeça. Ele sabia que eu sentia falta de sair com o pessoal, de ver a banda tocar, sabia que eu tinha vontade de arrancar os cabelos toda vez que ouvia os saltos de Camille descendo as escadas, indo ver a The Flash and Flair. Ele sabia que eu sentia falta dele, e que estava contando os dias que ainda nos restava. E ao invés de apenas admitir tudo aquilo, admitir que eu havia perdido o controle da situação, eu me tornei aquela rabugenta sem graça. E a cada vez que se irritava comigo, eu me perguntava como ele tinha paciência para me chamar de “namorada”.

- Não faz isso... – ele disse, sentando-se ao meu lado na cama.
- Isso o quê?
- Não precisa dar uma de mau-humorada pra cima de mim só porque está perdendo o controle – ele falou, levemente. Quis socá-lo.
- Eu não perdi o controle – perdi sim. – E não estou dando uma de mau-humorada para cima de você. – estava sim.
- Eu sei o que você tá fazendo – ele disse, sem se deixar abalar. – Sei que está preocupada com a Columbia. Com Nova York. Sei que está frustrada com toda essa situação, e que provavelmente quer me estrangular agora. E, sabe, não há nada de errado nisso.

Ergui os olhos semicerrados para ele, emburrada e na defensiva. Foi natural e meu gesto apenas confirmou tudo o que ele havia dito, fazendo-o soltar uma risada leve.

- , não precisa levar tudo tão a sério, sabe – ele falou, voltando ao tom de voz anterior. – A banda, o blog, eu... Não somos um fardo pra você. Era para ser divertido, lembra? Não uma obrigação. Você é pessoa mais inteligente que eu conheço, tudo o que você põe a mão, sai perfeito. Eu nunca conheci ninguém que tem tanto controle sobre tudo como você tem. Queria que tivesse noção do quão foda você é.

Ele me desmontava toda vez. Porque eu sabia que não era da boca pra fora, nunca falava da boca pra fora. Saber que ele tinha essa confiança em mim era… incrível, fazia eu querer ser mais autoconfiante também. Mas na minha cabeça eu me impunha uma cobrança maluca que não me deixava acreditar que eu era boa em algo sinceramente, não sem aquelas toneladas de esforço.

- Acha que eu acho isso – fiz gesto com a mão, apontando para ele e para mim – uma obrigação?
- Acho que se tornou uma – ele falou, e não pareceu chateado, apenas sincero. – Não era para ser sério assim, a banda, isso – ele imitou meu gesto – era para ser natural. As duas coisas pelas quais sou apaixonado não podem se aproximar de palavras do tipo “rotina” e “obrigação”. – ele balançou a cabeça de um lado para o outro – não mesmo, nem ferrando.
- Está dizendo que o que nós temos não é sério?
- Estou dizendo que deve ser leve – ele disse, rolando os olhos. – Eu amo você, , e isso não é um peso, é um fato. Entendeu? Então para quê fazer disso uma coisa pesada se podemos fazer dela algo leve? Porque em qualquer uma das situações eu vou continuar te amando, então porque escolher o caminho mais complicado. Não é?

Eu bufei. Odiava quando ele me encurralava assim. Odiava quando ele tinha tanta razão e ainda achava que eu podia discordar.

- Ah, pelo amor de deus – reclamei, mais para mim que para qualquer outra pessoa. – Sim, , eu concordo com você. Mas não é como se a minha presença nos shows fizesse muita diferença...
- O que? – pareceu seriamente ofendido, mas o tom de voz continuava baixo. – É claro que faz!

Continuei a encarar a estampa da minha colcha de cama, querendo dizer tudo e nada ao mesmo tempo. Por que ele tinha que ser tão determinado? Por que queria consertar as coisas sempre? Não podia, por favor, ficar bravo comigo uma vez na vida?

- Tudo bem, levanta! – ele falou, mais leve. – Põe o casaco, vamos sair.
- O quê? – eu falei, a voz subindo um oitavo. – , você não ouviu nada do que eu acabei de dizer...
- E você? – ele perguntou. – Ouviu o que eu acabei de dizer?

Bufei e ele riu. Riu! O filho da puta riu!

- Vai, ... Pega um casaco, vamos ver um filme – ele me deu um empurrãozinho no ombro. – Vai recusar um cinema? E faz tempo que a gente não sai junto, só nós dois... e você precisa relaxar. Tá muito tensa...

“Tá muito tensa”... Odiava quando ele dizia coisas daquele tipo. Odiava, na verdade, amar nele tudo o que eu dizia odiar só para manter a pose rebelde. Quando rolei os olhos, sabia que tinha vencido. De novo.

- Está bem, vou trocar de roupa – eu disse, finalmente, e ele me brindou com aquele sorriso maravilhoso, cheio de linhas de expressão.
- Vou te esperar lá embaixo. – ele se aproximou e me roubou um beijo antes de sair do quarto.



Desci as escadas minutos depois, com um coque e um suéter que diziam “estava sem vontade nenhuma de me arrumar, obrigada”. estava sentado no sofá com Camille e a sua pose de loira gostosa que, depois de quase um ano de convivência, descobri ser totalmente despretensiosa. Aquela menina era uma figura. O que eu tinha de controladora, ela tinha de confiante, era até contagiante. Passei os últimos meses pensando muito sobre como nossa opinião sobre uma pessoa muda quando convivemos com ela. Camille ainda era a garota popular do ensino médio, mas hoje em dia eu entendia porque todo mundo gostava dela: ela era… legal. No sentido mais puro e simples da palavra. Era divertida e articulada, era fácil tê-la por perto. Ainda que não tivéssemos estabelecido qualquer relação de amizade, hoje em dia eu começava a questionar se não poderia tentar me aproximar dela.
Ela e estavam conversando qualquer coisa sobre a banda quando percebeu minha presença e sorriu.

- Ei, Camille – chamei e ela direcionou o olhar e a sobrancelha bem delineada para mim, ela estava bem arrumada, então provavelmente ia sair. – Onde estão aqueles dois?

“Aqueles dois” havia se tornado nosso código debochado para se referir a nossos pais. Por mais que houvesse algo não resolvido entre nós duas, o deboche com o qual lidávamos com aquele casamento era o mesmo, o que, de certa forma, nos fazia concordar em alguma coisa.

- Foram à um jantar beneficente dos Nelson ou qualquer coisa do tipo – respondeu ela. – Disse para não esperarmos por eles, vão chegar tarde. Como se eu fosse fazer isso – ela rolou os olhos e encarou as próprias unhas bem-feitas.
- Ahn... Tudo bem – respondi e, então, direcionei meu olhar a . – Vamos?
- Uhum.

Ele se despediu de Camille e saímos. Era muito estranho para mim imaginar que e ela já haviam, tipo, transado. Mas, segundo ele, nunca seria tão estranho para mim quanto era para ele. Eu já havia superado o rolo dos dois e, sinceramente, nunca cheguei a me preocupar com isso.

- Quer pegar o carro? – perguntei a , enquanto trancava a casa.

O cinema de rua ficava há dez minutos da minha casa a pé e eu adorava fazer aquele caminho, mas era fim de março e a umidade do inverno ainda estava sobre toda Massachusetts, o que poderia dificultar a caminhada. Como eu imaginei, recusou o carro e estendeu o braço para mim.
Não havia problemas em andar tarde da noite naquele lugar, o mais emocionante que poderia acontecer ali era cruzarmos com um esquilo, então caminhamos bem tranquilamente. Meu bairro em Lawrence era bem mais suburbano que o de Haverhill, que mais parecia o que sobrou de uma cidade industrial do século passado. Ambas arquiteturas eram bastante parecidas, mas Lawrence tinha um charme que Harverhill não possuía. De qualquer forma, o rio Merrimack atravessava ambas as cidades, uma prova concreta de que eu ainda estava em casa.
foi tagarelando o trajeto inteiro e, com dois minutos de caminhada-e-conversa, eu já me sentia mais relaxada. Havia deixado o celular em casa de propósito e esperava que aquela noite se resumisse em pipoca, filme e . O cinema estava praticamente vazio quando chegamos. Compramos o ingresso e brincou com a garota do caixa que já nos conhecia. Compramos um balde de pipoca e um refrigerante grande para dividirmos.
Quando me sentei na poltrona, com ao lado, dei um suspiro e sorri. Havia, no máximo, umas vinte pessoas naquela sala e eu simplesmente amava aquele cheiro de pipoca amanteigada, ar condicionado e conforto que salas de cinema tinham. Podia viver ali dentro, sem brincadeira. Nos ajeitamos nas poltronas e levantou braço da dele para me puxar para perto. Ele estava deliciosamente cheiroso e quentinho e, se eu não tivesse com muita vontade de ver aquele filme, eu o abraçaria e dormiria ali mesmo. passou o braço pelo meu ombro e eu ergui o rosto para ele, sorrindo como uma babaca.
Era tão engraçado como um pouco de pipoca e da pessoa que você gosta basta para melhorar uma semana inteira. Valia a pena ter ficado estressada todos aqueles dias, ter me matado de estudar para todas aquelas provas, se fosse para tê-lo por perto no fim da semana.

- Melhor agora, srta. Estresse?

Eu lhe dei a língua com uma careta e ele riu, beijando meu nariz e minha testa em seguida.

- Não precisa ficar todo convencido só porque sabe exatamente o que fazer comigo – eu disse a ele que deu de ombros.
- Eu não estou.

Ergui uma sobrancelha, debochada. Ele voltou a rir e os olhos cor de whisky pareceram maiores quando o fez.

- Tá, talvez um pouco – falou, e eu me voltei para a tela, satisfeita. – É só que... Amo conhecer você tão bem.

Ele beijou meus cabelos e a luz da sala foi abaixando, enquanto os trailers começavam a passar.



- E aquela cena do dragão?
- Nossa, aquela foi piração total...
- Eu sei! – concordei, empolgada, fazendo rir. – Eu sabia que o filme ia ter uma pegada steampunk, mas não sabia que seria tão forte assim... E a Emily Browning estava fantástica!
- Acho que você gostou do filme – disse , com um sorrisinho no canto dos lábios.
- Você não?! – falei, ainda empolgada demais e riu.

Era quase meia-noite quando saímos do cinema. Com meia-hora de filme, eu havia me desfeito do abraço de para me ajeitar na poltrona, completamente extasiada com a psicodelia daquelas cenas. Amo filmes, cinema, mas não sou nenhuma cinéfila cult quando a questão são filmes, porque curtia de tudo um pouco e era totalmente adepta de blockbusters. Havíamos visto Sucker Punch naquela noite e eu estava completamente apaixonada, fazia algum tempo que eu não me impressionava com filmes de ação e aquele tinha me deixado muito empolgada. Saí da sessão com os dedos coçando por uma resenha no blog.
gostava de filmes, mas dependia muito do gênero. Alguns ele podia assistir dez vezes seguidas sem enjoar, outros ele simplesmente não aguentava nem ver o título. E ele podia ficar bem chato quando era obrigado a ver filmes que não queria/gostava. Por sorte, ele havia gostado daquele, então não havíamos tido problemas naquela noite.
O caminho de volta para casa foi mais frio que a ida, mas chegamos em casa bem rápido. Me desvencilhei dos braços de que me mantinham aquecida e procurei a chave na bolsa. Estava tudo bem escuro e sem sinal de nenhum dos outros três moradores daquela residência. Eu destranquei a porta e acendi a luz do hall.

- , eu vou pra casa agora antes que fique muito tarde – ouvi dizer e me virei pra ele, com as sobrancelhas franzidas.
- Que? – ele me olhou e deu de ombros, esfregando uma mão na outra para aquecer .– Você me fez sair do quarto nesse frio e agora quer vai vazar? Nada disso.

Eu o segurei pela mão e o puxei para dentro, com ele rindo.

- Está bem, Vossa Alteza – falou enquanto eu trancava a porta. – Nem precisa insistir muito.



Uma hora depois estávamos deitados no sofá, com e todo o seu desejo latente sobre mim. Eu passara o dia todo dentro do meu quarto, então disse a ele que não queria subir naquele momento. Tudo bem pra ele. Tiramos os tênis e nos jogamos no sofá, com a intenção de apenas passar algum tempo juntos, nada demais. Mas “nada demais” nunca acontece. Lógico. e aquela mão inquieta nunca deixavam uma oportunidade passar e eu achava graça. Quando estávamos com nossos amigos ou em público, ele era sempre contido e nossa relação era bem como há um ano atrás. Mas sozinhos a história era outra. Ele simplesmente não conseguia manter as mãos longe. E ficava me provocando até que eu ficasse excitada o suficiente para beijá-lo até nos faltar ar. Sim, essas coisas aconteciam.

- Preciso... preciso tomar um banho – eu disse, arfando.
- Quê? – murmurou, com uma risada escapando de seus lábios. Eu ri também.
- Preciso tomar um banho! – repeti, tentando parecer decidida.
- Por que? Eu sou quente demais? Tá com calor? – perguntou, malicioso. A bendita mão subindo por dentro da minha camiseta. Eu lhe dei um tapa no peitoral, ultrajada, e ele gargalhou.
- Babaca – eu disse e ele me roubou um beijo, ainda rindo. – E, respondendo suas perguntas, não, eu só quero tomar a porra de um banho.

Ele pressionou os lábios um no outro, tentando se manter sério. Se ajeitou, mas não saiu de cima de mim, apenas ergueu uma das mãos e acariciou meu rosto, da têmpora até o meu queixo. O toque quase me fez fechar os olhos, mas eu estava tendo uma visão muito privilegiada dos meus olhos favoritos no mundo. se inclinou e tocou meu nariz com o seu, bem levemente.

- It doesn’t matter what they say - ele cantou, baixinho e não consegui mais manter os olhos abertos. – I know I’m gonna love you any old way. What can I do, and It’s true...

O puxei-o de volta, não resistindo aquela voz maravilhosa. Eu invadi a boca de com a língua, sem nem um pingo de pudor e ele correspondeu por uns segundos antes dele se afastar e continuar:

- Don't want nobody, NOBODY! – ele inclinou cabeça para trás e berrou a última palavra, e eu gargalhei. Ele voltou a se aproximar e seus lábios roçaram nos meus quando terminou - 'cause baby, it's you.
- Sha la la la la la la
– cantei, e senti o peito de vibrar quando ele riu abafado. – Vem cá.

E assim, magicamente, era como se aquele cômodo silencioso se preenchesse com o sentimento mais denso, escorregadio e vibrante. Era como se tudo respirasse. E eu sentia poros se abrindo pra receber e acumular todo aquele amor.

+++


Eram quase 3h da manhã quando ouvimos a porta de entrada abrir e fechar. Camille. Até que ela chegou cedo, pensei. e eu estávamos envoltos pela escuridão aconchegante do meu quarto. Os corpos nus enroscados sob meu edredom grosso. Aninhada ao peito dele, eu cantarolava uma música dos anos 80, aquelas de karaokê, enquanto desenhava formas abstratas em sua clavícula.

- Que música horrível, amor – murmurou, repentinamente.

Soltei um riso nasalado e belisquei o ombro dele, fazendo murmurar um ‘Ai, porra’, sob risos, me fazendo rir mais ainda.
Ficamos em silêncio, ouvindo Camille subir e a bater porta do seu quarto. suspirou e se desfez do meu abraço, escorregando na cama para ficar com o rosto na mesma altura do meu. O quarto estava sendo iluminado pela luz da lua, adentrando o cômodo pelas frechas da cortina, o que me permitiu enxergar os meus olhos favoritos. puxou o edredom sobre nossas cabeças, nos protegendo do frio.

- Queria falar uma coisa com você – ele disse, em tom baixo e extremamente cauteloso. – Foi o motivo pelo qual vim aqui, na verdade.
- Ah, sério? Achei que tinha vindo aqui pra discutir e transar. Sabe como é, o de sempre... – debochei e ele riu.
- Talvez – falou ele, em tom de brincadeira. – Sabe que eu não resisto a um pequeno caos.

Eu ri, mas senti sua postura mudar logo em seguida, e, naquele momento, eu soube, que o assunto dele era sério.

- Fala – pedi, em tom ameno, para facilitar a vida dele.
- Se lembra daquele cara, - começou ele – Andrew Finnley, que veio aos nossos shows há alguns meses, elogiou nossas músicas e nos deu o cartão dele?
- O da Fueled by Ramen – disse, me lembrando bem daquele dia. Os meninos haviam tocado numa casa de shows no centro da cidade, com o maior público que já tiveram. – Claro que lembro.
- Bem, ele me ligou hoje de manhã – explicou ele, ajeitando-se sob a coberta. – Nos ofereceu um contrato com a gravadora. Um EP e alguns shows no próximo verão.

Foram um
dois
três segundos
Antes que eu abrisse a boca para dizer:

- Tá falando sério?
- Muito sério – ele sussurrou de volta.
- AH, MEU DEUS!!

Subi em cima dele, deixando a coberta escorregar pelas costas, enquanto eu sufocava meu namorado com abraço e beijos por todo o rosto.

- Meu deus, ! – exclamei, gargalhando. – Vocês conseguiram! Conseguiram mesmo! Caralho, ! – O puxei para mais uma rodada de beijos e abraços, ouvindo a risada sincera dele. – E aí, você aceitou? Vocês aceitaram? O que vocês disseram?
- Primeiro – me interrompeu - acho melhor você sair de cima de mim, estou prestes a te atacar e contar coisa nenhuma.

Eu ri, divertida, e desmontei do quadril dele.

- Porra, , a gente acabou de transar – reclamei, ainda rindo.
- Eu sou insaciável, você sabe disso – ele disse, me puxando para perto, de frente para ele. – Segundo, a gente pediu um tempo pra pensar.
- Por quê?

Ele então, fez aquela carinha de “bem, você sabe né”, e não precisou nem de um segundo antes que a ficha caísse. Universidade. Futuro. Família. O pai de .

- Droga – disse, encarando o teto.
- É, – concordou, deitado na mesma posição que eu – uma droga.

Dartmouth, naquele momento, era a única chance que tinha de se livrar de seu pai, contando com o suporte e auxílio dos avós. Se caso abandonasse esse plano, caso desviasse um pouquinho do planejado – as palavras eram bem claras – estava por si só. Ele sempre me dissera que viver da música era um lance utópico demais, que a ideia permeava seus sonhos mais loucos e por lá mesmo ficavam. Ele não podia se dar ao luxo de trazê-la para superfície, aquilo seria a gota d’agua para seus avós. Uma mãe louca, um pai abusivo e um filho músico? Quem diabos cuidaria do império imobiliário da and Hills?
A intenção de sempre fora apenas sondar a empresa, manter-se por perto, até os filhos de sua tia – gêmeos um ano mais novos que – pudessem assumir a empresa. Ele, então, abriria seu próprio escritório de advocacia.
Ele tinha jeito para coisa. Direito, quero dizer. Ele e meu pai passavam horas debatendo sobre os casos que tinha em mãos. Se daria bem no ramo. Mas não era apaixonado por aquilo. Talvez um dia eu seja, ele me dizia, mas a impressão que eu tinha é que aquelas palavras eram, acima de tudo, para convencimento próprio.
Apostava que quando perguntavam à ele “por que Direito?”, sua vontade era de responder “porque é difícil viver de música”.

- E os outros? – perguntei, um tempo depois.
- Surtaram, é lógico – ele respondeu, com um sorrisinho de canto. – Daniel deve ter passado quase uma hora xingando – ele riu baixinho e se ajeitou na cama. – Tivemos a primeira conversa, antes de retornarmos para a gravadora, e eles disseram que não fariam aquilo sem mim.

Sorri.

- Eu sabia que eles diriam isso – falei, porque era verdade. Do mesmo jeito que não fariam se qualquer um deles dissesse não.
- Nicholas falou que trancaria a faculdade sem pensar duas vezes – continuou ele. – Ben falou que o futuro dele se resumiria a League of Legends e trabalho no Starbucks se não fizéssemos aquilo. Dan disse que largaria tudo pela banda, acha que somos bons demais para não darmos certo – ele sorriu, tristemente. – Eles deixaram a decisão comigo.
- Não é como se fosse sua responsabilidade, – sussurrei.
- Eu sei que não – falou. – Todos eles deixaram bem claro que entendiam minha posição. Eu disse a eles que deveriam fazer aquilo sem mim, então Dan pegou o telefone e disse “pede mais tempo pra eles”. E assim foi.
- Vocês deveriam fazer isso.
- ...
- É sério, , pensa comigo! – apoiei o cotovelo no colchão, olhando-o de cima. – Eles querem um contrato para um EP e alguns shows. Para o ano que vem! Não entende?

Ele franziu as sobrancelhas respondendo que não, ele não entendia. Suspirei, sentando-me na cama, e continuei:

- Não é permanente, não é uma turnê, ou um contrato de anos! Vocês podem continuar com o ‘plano A’ enquanto fazem essas coisas – ele me ouvia falar, mas seu olhar estava vazio e parado no teto do quarto. – Se algo der errado, uma pena, terminam o contrato e seguem com suas vidas. Ainda vão ter lançado algumas músicas. E se tudo der certo, ... Deu certo!

Ele me olhou, como se esperasse que eu terminasse de falar.

- , essa é sua chance de transformar o lance da utopia em realidade. Tá tão próximo. Tá praticamente gritando seu nome – eu ri, e acariciei as mechas do cabelo dele. – Não precisa ser chaveiro da sua família a vida toda, como você diz. Você pode fazer isso! Pode ser dono da sua própria vida.

Esperei ele discordar, problematizar, suspirar, bufar, xingar, qualquer coisa assim. Mas ele apenas sorriu, segurou meu queixo suavemente e sussurrou:

- Sua fé em mim pode me fazer chegar as estrelas.
- Você pode chegar às estrelas. Pode chegar onde quiser...

O sorriso dele se alargou, a mão escorregou para minha nuca e percebi que aquilo, os lábios dele, podia me deixar acima de qualquer estrela.

- Eu confio em você – eu sussurrei contra seus lábios, coloquei todo meu amor e sinceridade naquelas palavras.
E ele sentiu. Tenho certeza que sim. Porque hesitou por alguns segundos antes de pressionar seus lábios contra os meus numa resposta firme e silenciosa:
“Está bem”, aquele beijo dizia.
“Eu vou tentar”.




Continua...



Nota da autora: Gente, posso falar? Eu amei muito escrever essa sequência de capítulos. Foi depois dela que comecei a amar escrever a essa história - que iniciei lá em 2014 (juro!). Retomei a escrita dela esse ano e lembrei o xodó que eu tinha por ela e por esses personagens. Espero que estejam se divertindo tanto quanto eu me divirto escrevendo.
A partir de agora as coisas vão começar a ficar mais intensas e teremos mais de um capítulo por ano.

Ah, também queria agradecer a linda da Clara (MTHWARE) por essa capa perfeita. <3 Amei demais!



Nota de Beta: Achei, por um momento, que essa história de casamento não ia dar certo, mas fico muito feliz que eles conseguiram, e que as meninas são "amigas". Estou torcendo hiper pra que esse relacionamento dos dois (porque é fofo demais, gente) dure ainda um bocado. Simplesmente apaixonada por esses capítulos. Precisando de mais urgente.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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