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Última atualização: 26/07/2020

ONE: It took a minute, girl, to steal my heart tonight.

(Capítulo baseado na música Stole My Heart)

Sexta-feira, 22 de agosto de 2008; 21h10; .

A noite estava quente. Apesar de geralmente fazer frio por aquela hora, naquele dia eu suava e meus ombros pareciam queimar dentro da blusa de mangas compridas que eu vestia. Apesar disso, eu estava estranhamente feliz. Embora as aulas que eu havia tido pela manhã tivessem me torrado a paciência e minha irmã tivesse arrumado mais um motivo insignificante para me xingar de todos os nomes possíveis, eu estava relativamente animado quando saí de casa mais cedo.
Eu não era supersticioso, mas eu estava quase sentindo que algo muito bom iria me acontecer naquela noite. Eu só não sabia o que era.
Sentei-me com alguns colegas em um sofá assim que cheguei à casa de Arthur, um de meus melhores amigos. Era aniversário de 17 anos dele e ele havia conseguido o feito, incomum entre menores de idade na nossa cidade, de dar uma festa regada a álcool. Muitos beberiam pela primeira vez naquela noite e a adrenalina era quase palpável no ambiente abarrotado de jovens sem fiscalização de adultos.
Eu estava no auge dos meus 15 anos e, enquanto meus amigos mais velhos aproveitavam sua noite de liberdade, eu achei que seria uma boa ideia ingerir álcool pela primeira vez na minha vida e aceitei o copo descartável que Arthur me entregou assim que eu cheguei. E depois mais um que George me deu, e depois mais um que encontrei abandonado em alguma mesa.
Sentado no sofá, eu não conseguia parar de pensar em como eu queria que aquela noite fosse diferente. Por geralmente só andar com pessoas um pouco mais velhas que eu, eu conhecia muito bem todas as festas da pequena , a ponto de saber que todas elas eram exatamente iguais e tinham exatamente as mesmas pessoas.
De novo, sem superstições, mas algo me fazia acreditar que alguma coisa diferente aconteceria naquela noite quando eu menos esperasse.
Foi aí que eu a vi, embaixo das luzes que Arthur tinha improvisado em seu quintal, conversando com um grupo de meninas que riam mais do que qualquer outra pessoa na festa. No momento em que a vi, meus olhos brilharam e tudo pareceu ficar mais lento ao meu redor.
Embora minha cidade natal fosse pequena e eu conhecesse todos que estivessem naquela festa, pois frequentávamos a única escola de Ensino Médio da região, eu nunca a tinha visto. Conhecia as meninas que riam com ela, eram um ano mais velhas que eu e costumavam ser as mais bonitas da cidade. Mas nunca, nos meus 15 anos em , eu tinha visto aquela menina que, no calor do momento ou na certeza dos hormônios da minha adolescência, eu pensei ser a mais bonita que eu já tinha visto.
— Arthur! — chamei o aniversariante assim que ele se aproximou do sofá em que eu estava desde o começo da festa, apenas bebendo o líquido vermelho do quarto copo descartável.
Arthur sentou ao meu lado, já completamente alterado. Seus olhos estavam quase fechando, mas ele insistia em rir de qualquer coisa à sua volta.
— Quem é aquela conversando com Tiff e as meninas? — perguntei, esperando que apesar de seu estado ele conseguisse me responder, e apontei para o grupo escandaloso que atraía a atenção da festa.
, obrigada por vir, amigo! — ele me abraçou, totalmente desengonçado, mesmo que já tivesse me visto naquela noite e já tivesse falado essas mesmas palavras.
— Claro que eu viria, Art, você é meu brother — disse, rindo, e observei sua reação surpresa, como se eu tivesse lhe feito uma confissão ou algo do tipo — Feliz aniversário, aliás — dei um soquinho em seu ombro e fui agradecido com mais abraços e frases empolgadas e emboladas que não consegui decifrar.
Arthur estava bêbado e, apesar de eu não ter bebido mais nada além dos três copos que haviam me dado há quase uma hora e da metade do copo que estava em minha mão, parecia que meus pensamentos começavam a processar de forma mais devagar também.
— Tem uma menina nova. — disse assim que consegui chamar a atenção de Art novamente, depois que ele havia contado algo sobre como tinha convencido seus pais a visitarem sua tia no País de Gales para que ele conseguisse fazer essa festa. — Ali, conversando com a Tiff. — apontei mais uma vez e finalmente o olhar de Arthur seguiu meu dedo.
O que foi uma péssima ideia, pois, na mesma hora, a menina olhou em nossa direção. Abaixei o dedo e virei rapidamente, envergonhado, mas não adiantou muito, pois Arthur continuava olhando para ela com os olhos estreitos, talvez tentando reconhecê-la, e até acenou para ela enquanto eu sussurrava, entre dentes, e mais vermelho do que a calça que Arthur usava, para que ele parasse de encará-la.
— Aquela é minha prima. — ele disse, rindo, enquanto eu procurava um jeito de me enterrar naquele sofá. — Eu te falei que consegui convencer meus pais de visitarem minha tia Amelia? — ele continuou, animado, voltando o olhar para mim e já enchendo o pulmão de ar para recomeçar a falar. — Eu falei pra minha mãe que tinha muito tempo…
— Sim, sim, Arthur, você já me falou. — falei rapidamente, já recuperado da vergonha. — Mas e a prima, qual é o nome dela? — perguntei, ansioso, olhando de relance para a menina, que já não olhava mais para nós e conversava animadamente com as amigas.
Ele balançou a cabeça, levantando para cumprimentar alguém que passava pelo sofá, e sentou-se novamente, me encarando como se tivesse esquecido sobre o que estávamos falando.
— A sua prima. — repeti, fazendo com que Arthur olhasse novamente para ela e sorrisse, já levantando o braço para acenar, mas eu o segurei antes que ele o fizesse. — O nome dela. — sussurrei, quase como se alguém pudesse nos ouvir.
Ele balançou a cabeça, me encarando de uma forma estranha.
— É a , dude. — disse finalmente e eu juntei as sobrancelhas, tentando processar a informação.
? — perguntei depois de algum tempo, confuso, e ele assentiu. — Aquela ? — retomei, me lembrando dos primos de Arthur que vinham visitá-lo na infância.
Novamente Arthur assentiu, rindo provavelmente da minha expressão.
— Aquela que roubou meu caminhão de bombeiros? — perguntei, olhando para Arthur, que gargalhou.
— Sim, . — ele falou, pegando o copo da minha mão e bebendo o resto de líquido que ainda tinha lá. — , filha da minha tia Amelia, que te detonava no futebol. — riu e eu fiz uma careta, balançando a cabeça. — Minha mãe mandou ela e o irmão pra cá assim que chegou lá em Cardiff.
Eu tentava associar a imagem que eu tinha na minha cabeça de uma insuportável, que eu aturava nas brincadeiras só porque era prima do meu melhor amigo, com aquela que estava ali naquela noite, a alguns passos de mim, que parecia se dar bem com todas as pessoas presentes e tinha atraído a maioria dos olhares masculinos da festa. Eu tentava me lembrar da fisionomia dela, mas nada vinha à minha mente além de uma garotinha emburrada de cabelos bagunçados com uma bola de futebol das Meninas Superpoderosas nos pés. De qualquer forma, fosse qual fosse a fisionomia antiga dela, com certeza não era aquela. Não podiam ser a mesma pessoa. Não parecia certo.
— Meu Deus, eu odiava ela. — sussurrei mais para mim mesmo, lembrando da antiga e voltando a olhar de relance para a nova .
— Vocês tinham sete anos. — Arthur riu, batendo de leve no meu ombro. — E ela sempre foi muito legal, você que era chatão naquela época.
Tentei falar alguma coisa, ofendido, mas meu cérebro ainda estava muito ocupado processando as informações que tinha acabado de receber.
Arthur me deixou sozinho no sofá assim que Millene, sua namorada, passou por nós com uma garrafa de vodka. Não antes de falar que os caras queriam colocar no meu lugar no time de futebol em 2000 e rir muito da minha cara.
Eu ainda estava muito atormentado com tudo o que tinha escutado quando ela se aproximou de mim, passados alguns minutos.
— Vai ficar a festa inteira nesse sofá? — ela perguntou e eu pude sentir cada centímetro do meu corpo se contrair.
Se antes era o calor do momento, naquela hora eu tive uma certeza quase científica de que aquela era a menina mais bonita que eu já tinha visto em toda a minha vida. As luzes coloridas brilhavam na pele dela, como se ela fosse algum tipo de estrela, e o sorriso que ela sustentava nos lábios parecia que iria me desmanchar a qualquer momento.
— Tudo bem… — ela falou quando percebeu que eu não iria falar nada e eu me senti um idiota por ter travado completamente. — Prazer, . — ela sentou ao meu lado e estendeu a mão para mim. — Sou prima do Arthur.
Estendi a mão para ela quase que mecanicamente, sem reação. Ela não havia me reconhecido também, o que por um lado era bom, já que, pelo jeito, todos me odiavam em 2000.
— E-eu — comecei, gaguejando, e ela riu antes de eu limpar a garganta e continuar. — Sou o .
Ela juntou as sobrancelhas, do mesmo jeito que eu havia feito, e aproximou-se um pouco de mim para encarar melhor meu rosto, que a essa altura deveria estar com uma expressão confusa nada bonita.
? — ela repetiu, com um riso nos lábios. — do caminhão de bombeiros? — perguntou com o olhar divertido.
E lá se ia a minha chance de tentar parecer um cara divertido e mudado.
— Em carne e osso. — respondi, sorrindo. Ou tentando sorrir.
— Uau! — ela abriu a boca, surpresa. — Você se lembra de mim?
Minhas mãos suavam com a proximidade e meu coração começou a acelerar do nada.
— Se eu lembro de você? — perguntei retoricamente, tentando parecer natural, embora eu começasse a sentir meu estômago revirar. — Você roubou meu caminhão de bombeiros.
— Ei, eu não roubei! — ela abriu a boca, ofendida. — Eu só… peguei emprestado. — deu de ombros, soltando um sorrisinho de lado.
— Por oito anos! — arregalei os olhos e ela riu. — Era o meu brinquedo favorito, você não podia simplesmente levar ele pro País de Gales daquele jeito. — fingi estar ofendido, ou realmente ainda estava um pouco ofendido, e ela riu.
— Desculpa, . — falou, sorrindo, e eu senti meu coração palpitar. — Se te consola, ainda guardo ele até hoje.
Não consegui segurar o sorriso bobo que saiu em meus lábios. Honestamente, eu nem lembrava desse tal caminhão de bombeiros até o nome de ter sido mencionado por Arthur, alguns minutos atrás, mas ela continuava guardando ele depois de todo esse tempo. Talvez ela realmente gostasse mais dele do que eu.
— Não faz mais do que a obrigação. — cruzei os braços, fechando a cara e tentando não sorrir. — Eu ia ficar muito bravo se você tivesse roubado ele de mim pra dar pra outra pessoa. — falei e ela gargalhou.
Sua risada era maravilhosa e eu entendi o porquê de as meninas com quem ela estava conversando estarem rindo tanto. Seus olhos ficavam pequenos e seu nariz ficava cheio de ruguinhas que destacavam algumas sardas perdidas por ali. Acho que, por conta dos três copos e meio da bebida desconhecida que eu tinha ingerido, tudo parecia muito maior e melhor do que realmente era, e meu coração pulsava muito mais do que o normal.
— Parece que você continua chato. — ela falou quando terminou de rir.
— Vocês tinham algum tipo de clube pra falar mal de mim? — balancei a cabeça, incrédulo. — Você também não ia gostar se eu pegasse sua bola de futebol das Meninas Superpoderosas “emprestada”. — fiz aspas com a mão e ela riu.
— Não tô falando mais do caminhão. — ela disse. — Tô falando do fato de que, desde que você chegou, você estar sentado nesse sofá enquanto a festa tá rolando. — olhou para mim e eu me senti patético. — E você não ousaria pegar minha bola das Meninas Superpoderosas.
— Você acha? — debochei, olhando em seus olhos.
— Eu tenho certeza. — ela juntou as sobrancelhas e fez uma cara de brava que a deixou mil vezes mais atraente. — Eu era muito mais forte que você.
— Posso saber, então, o motivo de você ter vindo falar com o menino mais chato e fraco da festa? — perguntei, levantando uma sobrancelha.
Ela revirou os olhos e eu percebi suas bochechas ficarem um pouco mais coradas que o normal.
— Porque você parecia precisar de companhia. — ela bufou e eu olhei nos olhos dela, não acreditando no que ela tinha dito. — E também porque percebi você me olhando o tempo todo. — ela sorriu e dessa vez minhas bochechas coraram.
— E-eu — tentei me justificar, só piorando a situação com o meu nervosismo.
Ela riu, colocando uma mecha solta do cabelo para trás da orelha.
— Não precisa explicar, . — sorriu e, sem nenhum aviso prévio, segurou a minha mão antes de levantar rapidamente do sofá.
Meu corpo inteiro arrepiou com o susto. Eu estava tentando com todas as forças agir normalmente enquanto meu coração pulava e não estava esperando que, do nada, uma mão gelada segurasse com tanta firmeza na minha, quente e molhada. Fiquei até com vergonha, mas ela sorriu e começou a me puxar, me fazendo levantar do sofá pela primeira vez desde que tinha chegado.
Caminhamos entre as pessoas no quintal e atravessamos o corredor que ligava a frente e os fundos da casa até chegarmos ao jardim da entrada da casa de Arthur.
A rua estava escura e silenciosa, os vizinhos certamente já tinham todos se deitado, e nós conseguíamos ouvir fracamente o barulho que os adolescentes faziam nos fundos.
Ela soltou minha mão antes de se sentar na grama.
— Eu sempre gostei de sentar aqui. — ela disse, abraçando as próprias pernas. — Ficar olhando as pessoas passarem na rua.
Eu não conseguia parar de olhar para ela. Embora estivéssemos iluminados apenas pela luz fraca dos postes e pela iluminação, mais decorativa do que efetiva, do jardim de Arthur e das casas próximas, parecia emitir luz própria enquanto seus cabelos eram bagunçados pelo vento frio.
Decidi sentar ao lado dela, mesmo odiando grama, e fiquei observando os detalhes de seu rosto enquanto ela observava a rua vazia.
— Estamos em agosto, né? — ela perguntou depois de um tempo e eu apenas assenti, sem forças para nada além de encará-la e admirá-la.
Ela olhou para mim e sorriu, percebendo que eu não tinha deixado de observá-la. Então ela deitou, ali mesmo, no jardim da casa de Arthur, e ficou olhando para o céu.
— Deita, . — ela falou, sem deixar de olhar para cima.
Eu obedeci. A grama nem me incomodou, porque o cheiro de parecia inebriar todos os meus outros sentidos.
— Olha pro céu. — ela pediu, rindo por eu ainda estar olhando para ela, e apontou com o dedo para algum lugar. — Tá vendo aquelas estrelas?
Meus olhos seguiram para a direção que ela apontava, sem que eu conseguisse identificar nada de anormal ou diferente.
— Tô vendo várias estrelas. — respondi, dando de ombros.
— O triângulo ali. — apontou novamente e eu consegui enxergar três estrelas que realmente se assemelhavam a um triângulo, depois senti seus olhos queimarem sobre mim. — Triângulo de verão. — eu encarava o céu, tentando não virar novamente para ela, sentindo meu coração pulsar rapidamente na minha garganta e buscando pelo ar que parecia ter desaparecido dos meus pulmões. — Altair, Deneb e Vega. São as estrelas que eu mais gosto.
— São bonitas. — respondi, sentindo as mãos suarem.
— Só aparecem no verão. — ela falou, voltando seu olhar para cima e me permitindo respirar novamente. — Parece que são pessoas de verdade, que vêm visitar a gente. — ela sorriu e eu voltei o olhar para ela, que fechou os olhos.
A essa altura, a bebida vermelha já borbulhava no meu estômago pela junção do meu organismo estranhando o álcool com o nervosismo que estava me provocando. Eu estava rezando para que a vida não me pregasse uma peça e decidisse me envergonhar na frente daquela garota.
— Fala alguma coisa, . — ela pediu, ainda de olhos fechados.
Respirei fundo. Minha mente parecia ter dado um branco e eu só conseguia pensar na menina ao meu lado.
— Você... — “está maravilhosa, a garota mais linda que já vi”, eram as palavras que estavam na minha mente, mas que saíram totalmente sem som pela minha boca, como se tivessem caído uma a uma na grama molhada em que eu estava deitado. — Mudou. — soltei, fazendo uma careta por não conseguir expressar exatamente o que eu queria falar.
Ela abriu os olhos e virou seu corpo para mim, apoiando o cotovelo no chão e a cabeça na mão, de maneira que ficasse deitada de lado e pudesse me observar melhor.
— Você também. — ela encarou meus olhos e por um momento pensei ter visto neles o mesmo desejo que eu estava sentindo, mas ela desviou-os rapidamente para a grama. — Mas não pense que agora consegue me vencer no futebol. — ela riu e eu acompanhei, apoiando o cotovelo no chão também e ficando de frente para ela.
— Tá marcado, então. — olhei-a, desafiador. — Até quando você fica por ?
— Só esse final de semana. — ela suspirou e eu senti meu coração parar de bater dentro do meu peito, como se alguém estivesse o apertando. — Mas provavelmente venho passar as férias aqui no final do ano. — ela sorriu, divertida. — Aí posso te vencer melhor. — voltou a deitar-se de costas no chão, sorrindo.
E era aí que meu sonho acabava. voltaria para Cardiff em poucos dias e seguiria sua vida de garota bonita da cidade grande enquanto eu continuaria aqui até o fim da minha vida, nesse vilarejo minúsculo, vivendo todos os dias iguais com as mesmas pessoas e me lembrando dela, a única coisa diferente que havia brilhado por um momento na minha vida. Mas que se apagaria tão rápido quanto se acendeu.
— Você deve estar louca pra ir embora. — soltei, triste, observando seu semblante calmo.
— Realmente. — ela falou e eu quase senti vontade de chorar. — Aqui por tem um tal de , que é o garoto mais insuportável do mundo. — revirou os olhos teatralmente e eu a encarei, atônito. Ela olhou para mim e observou minha expressão antes de soltar uma gargalhada sincera e continuar: — É brincadeira. — passou a mão pelo meu braço que estava apoiado no chão e todos os meus pelos se eriçaram.
Seus olhos castanhos prenderam os meus e, por algum tempo indefinido, nos encaramos em silêncio, trocando segredos mudos e conversando pelo não-dito.
Criei coragem e passei o braço por cima dela, apoiando a mão no chão do outro lado do seu corpo. Fiz a mesma coisa com as pernas e encarei seu semblante confuso quando meu corpo ficou por cima do dela.
— Que bom. — falei, aproximando devagar meu rosto do seu. — Porque não tem outro lugar que eu gostaria de estar agora.
Minha intenção era beijá-la, mas Deus sabe o quanto eu estava com medo de ter entendido errado os olhares dela e ser rejeitado, por isso ficamos ambos parados por um tempo, encarando um ao outro, até que ela colocou as mãos rapidamente no meu rosto e puxou-o mais depressa para junto do dela, juntando nossos lábios úmidos. O choque que senti pareceu durar menos de um segundo, pois, na mesma rapidez com que as juntou, ela afastou nossas bocas e soltou uma risada divertida.
Meu corpo estava completamente energizado, minha mente estava travada e meu coração iria certamente explodir a qualquer momento de tão rápido que batia.
Com a mesma agilidade de antes, ela inverteu nossas posições e sentou-se um pouco acima do meu quadril, me fazendo ter a visão mais bonita que eu já tinha tido. As poucas luzes iluminavam o seu cabelo e ela parecia ser uma das estrelas do triângulo que tinha me apontado mais cedo. Eu mal conseguia respirar.
— Você só quer me beijar pra que eu pare de falar. — ela sorriu e eu sabia que nem ela mesma acreditava no que estava falando, pois naquele momento era visível o meu desejo.
— Não. — falei sofridamente e ela riu, apoiando as mãos no meu peitoral. — Ainda quero te ouvir falar muito. — continuei, sincero, só então percebendo que eu também queria falar um monte de coisas para ela, embora não conseguisse.
Algo no sorriso dela e nos olhos que brilhavam me fazia querer contar tudo da minha vida para ela só para escutá-la falando sobre a dela. Eu queria mais do que tudo conhecer aquela nova , que estava agora em cima de mim e tomava conta dos meus pensamentos.
— Sabe, . — ela começou, olhando para mim. — Eu tinha uma quedinha por você naquela época. — nessa hora meu estômago embrulhou, fazendo a bebida que eu havia ingerido remexer em meio às prováveis borboletas que todo mundo sempre fala.
— Pensei que me odiasse. — falei, observando o sorriso em seus lábios.
— Não. — ela balançou a cabeça. — Eu odiava o fato de você me odiar. — passou as mãos pelos cabelos que caíam na minha testa. — Até tive que roubar seu caminhão de bombeiros pra você me notar. — ela riu baixo e sorriu, envergonhada. Eu queria morar dentro do sorriso dela.
— Eu realmente te odiava. — ri, fazendo com que ela risse também. — Mas agora… — comecei, meu estômago dando voltas e o cheiro de invadindo minhas narinas.
Ela não deixou que eu terminasse de falar. Sua boca foi de encontro à minha com força antes que eu pudesse continuar e logo nossas línguas estavam entrelaçadas, descobrindo-se e fazendo com que eu sentisse, no pé da minha barriga, uma sensação completamente nova.
Quando nos separamos, com os rostos ainda próximos, sorriu. Não pude ignorar a palpitação em meu peito e muito menos as voltas do meu estômago.
— Eu acho — “que tô apaixonado por você”, era o que eu queria dizer, mas o líquido que borbulhava no meu estômago subiu rapidamente pela minha garganta e eu me virei num impulso, derrubando sem querer na grama e vomitando ali, na frente dela.


TWO: I used to think that I was better alone, why did I ever wanna let you go?

(Capítulo baseado nas músicas Rock Me e Love You Goodbye)

Sexta-feira, 04 de fevereiro de 2011; 10h23; .

Apesar do meu incidente com o vômito na primeira vez que nos beijamos, no verão de 2008, e eu continuávamos cada vez mais próximos. Nós ficávamos juntos toda vez que ela vinha para . Nas férias ou nos feriados prolongados, nós éramos como um casal e fazíamos coisas de casal. Eu adorava isso. Me sentia especial ao segurar sua mão e tinha certeza de que todos os garotos tinham inveja de mim quando dividíamos uma casquinha de sorvete.
Com o tempo, fomos nos tornando muito amigos, além de tudo. Apesar de ser pouco o tempo em que nos víamos pessoalmente, ela foi tomando lentamente espaços da minha vida que eu nem sabia que existiam. Ela era sempre a primeira pessoa para quem eu ligava para contar uma novidade ou para chorar quando estava triste. Era sempre a primeira pessoa em que eu pensava quando me acontecia alguma coisa. Eu pensava nela a cada minuto do dia e lembrava dela quando estava fazendo as coisas mais banais. E eu queria saber das coisas mais banais que tinham acontecido no dia dela. Toda vez que o telefone tocava, eu corria para atender e rezava para ouvir a risada dela do outro lado da linha. Ouvir a voz de através do telefone ou ver seu rosto pelas chamadas de vídeo tinha praticamente se tornado um mantra para mim.
Isso até junho de 2010, que foi quando o destino simplesmente decidiu virar a minha vida do avesso.
Depois que eu pisei no palco do X-Factor, a minha vida nunca mais voltou a ser a mesma. As pessoas não me olhavam mais da mesma maneira, o meu ciclo social mudou, eu não tinha mais contato com meus amigos de , e até minha irmã estava me tratando melhor. Às vezes eu pensava até que, de alguma forma, o eu antigo tinha morrido para dar lugar a uma pessoa completamente nova, de tanto que as coisas tinham mudado. Tudo estava diferente. Bem, tudo menos ela.
No meio de todo esse caos, continuava sendo a de sempre. Ela continuava a mesma pessoa, brilhando do mesmo jeito, sorrindo do mesmo jeito e amando do mesmo jeito. Continuava me amando e continuava me ligando, mas, por causa da nova rotina, nem sempre eu atendia.
Ela tinha sido, por um tempo, a coisa diferente da minha vida, o brilho quando tudo era opaco e sem graça na velha . Mas, quando de repente tudo se tornou diferente, ela se tornou igual. E eu, naquele momento com meus 18 anos recém-completos e um princípio de fama batendo à porta, achei que era a minha vez de ser diferente. E, na concepção fajuta de um recém jovem adulto, ser diferente significava deixar as coisas normais para trás. Inclusive ela.

Terça-feira, 21 de julho de 2009; 15h44; Liverpool.
O verão de 2009 tinha sido facilmente a melhor época da minha vida.
Claro, ser famoso e cantar é maravilhoso e me proporciona, até hoje, incontáveis momentos que nunca vou esquecer. Ter fãs é algo que me encanta e me faz agradecer todos os dias. Ter muito dinheiro também me garante que eu tenha as melhores coisas das melhores marcas sempre que eu quiser.
Mas aquela época era diferente. Naquela época, tudo era maior. As pessoas geralmente falam que o ser humano tende a idealizar o passado, por causa de sentimentos como a nostalgia e toda essa baboseira romântica. Admito que, realmente, talvez isso aconteça comigo. Mas isso não altera o fato de que eu era extremamente feliz quando eu vivia aquilo.
Em 2009, eu estava no segundo ano do Ensino Médio, tinha um grupo de maravilhoso de amigos e estava apaixonado, o que é uma combinação perfeita para que um adolescente de 16 anos de idade se ache o dono do mundo.
Além disso, em 2009, passou o verão inteiro em . A mãe de Arthur tinha feito uma cirurgia nas varizes e a mãe de mandou ela e seu irmão, Evan, para ajudarem nas coisas da casa enquanto a Sra. Hill se recuperava. Se eu quisesse a ver, só precisava ir à casa do Arthur, que ficava apenas a dois quarteirões da minha. Tudo estava perfeito. A garota que eu gostava estava a uma curta caminhada de distância depois de meses se comunicando apenas por Skype, e poderíamos fazer qualquer coisa que quiséssemos. Eu pensava que não poderia melhorar. E, claro, eu estava enganado.
Era uma terça-feira quando decidimos ir até Liverpool. O pai de Arthur tinha acabado de comprar um carro novo, o que significava que o antigo ficaria por conta de Art até que o Sr. Hill encontrasse um comprador. Todos acharam que seria uma ótima ideia estrear o “presente” de Arthur com uma ida à praia. E foi isso que fizemos depois de convencermos os pais dele e termos uma pequena discussão sobre quem iria no banco do passageiro.
Fomos no carro eu, , Evan e Millene, a namorada de Arthur. Chegamos no final da tarde, pois havia acordado por volta das 14h e insistido em almoçar antes de sair.
Os meninos foram procurar madeira para fazermos uma fogueira, pois, apesar de ainda não estar escuro, estava frio para caramba, e eu e ficamos nos beijando na areia enquanto Millene fazia piadinhas obscenas.
Apesar de serem mais velhos que , Arthur e Evan não eram nada protetores e se juntaram à Millene nas piadas assim que chegaram com a lenha. e o irmão tinham uma relação muito bonita, eu diria que eram melhores amigos se, no caso, eu não me considerasse o melhor amigo dela.
Assim que a fogueira ficou pronta, nos colocamos ao redor dela e ficamos conversando. Como sabia fazer tudo, ela pegou o violão que havia trazido e começou a tocar algumas músicas, e eu me lembro de pensar, naquele momento, o quanto ela era perfeita e o quão apaixonado eu estava.

Sexta-feira, 04 de fevereiro de 2011; 10h35; .
Escutei duas batidas e me ajeitei na cama, observando a cabeça de aparecer no vão que se abriu entre a porta e a parede branca do meu quarto. Ela estava com uma das mãos nos olhos e riu antes de falar:
— Espero que não esteja pelado.
Eu soltei uma risada baixa para a acompanhar, mas eu estava tão nervoso que nem soube se ela escutou ou não.
— Nada que você já não tenha visto. — falei, tentando me animar um pouco, mas minha mente continuava pensando no que eu teria que falar para ela.
Ela abriu um espaço entre os dedos para me observar e soltou um grunhido de desaprovação quando me viu completamente vestido, tirando a mão do rosto e fechando a porta atrás de si.
— Eu estava secretamente esperando que você estivesse realmente pelado. — ela sussurrou, rindo, e eu sorri amarelo.
Silêncio. Eu estava decidido, mas, agora que ela estava ali e que seu perfume estava tão próximo de mim de novo, eu não me sentia preparado. fez uma careta antes de se sentar ao meu lado na cama.
— Trouxe um presente. — ela falou, sorrindo, e me entregou uma sacola vermelha, em que era possível enxergar um disco de vinil através do material translúcido.
— Não precisava. — respondi, sem graça e começando a me sentir mal.
Ela continuava sendo a pessoa mais legal do mundo e eu me sentia idiota por não querer continuar o nosso relacionamento.
— Eu sei. — ela revirou os olhos. — Mas eu quis. — sorriu antes de beijar a minha bochecha. — Abre.
A sacola quase tremia em minhas mãos e eu tive medo de tirar o LP de dentro dela. Tive medo de desistir do meu propósito. Tive medo de entender que eu ainda amava e que terminar com ela era a coisa mais absurda que eu poderia fazer.
O silêncio se instalou no quarto novamente e ficou visivelmente incomodada. Nós raramente ficávamos em silêncio, era quase impossível não termos um assunto. Muito provavelmente, ela tinha percebido desde que abriu a porta que eu estava estranho. Ela sempre sabia de tudo.
Eu tentava entender o porquê de eu estar tão estranho. Nunca tive medo de falar nada para , afinal. Naquele momento, porém, eu estava, no meu íntimo, lutando contra mim mesmo. Eu estava com medo de dizer o que eu havia decidido dizer. E pensei até em voltar atrás ao observar seus olhos curiosos se comprimirem e seu corpo se mexer desconfortável enquanto ela pegava a sacola em minhas mãos e tirava, ela própria, o LP de dentro.
Ela se levantou rapidamente, mas eu consegui identificar que o disco era o Abbey Road, dos Beatles, e soltei um suspiro demorado enquanto ela o encaixava na minha vitrola.
Os primeiros acordes da primeira música começaram e ela se virou novamente para mim, apreensiva.
— Desculpa por não ter vindo pro seu aniversário. — ela falou. Eu observava seus olhos me observando e me sentia a pior pessoa do mundo. — Minha última prova foi ontem e eu realmente precisava estudar.
— Eu sei, . — falei, compreensivo. Não estava chateado com ela, nem perto. Estava chateado comigo mesmo. — Não tem problema nenhum. — sorri, sincero, e ela acalmou os ombros, ficando menos tensa e voltando para a cama para me abraçar.
— Feliz aniversário, . — ouvi sua voz no meu peito e senti vontade de chorar. Meu coração se apertava cada vez mais.
— Obrigado, . — suspirei e ela levantou a cabeça para me encarar. — Como foi nas provas?
Eu tentava prolongar ao máximo nossa conversa para que o momento onde eu seria obrigado a falar não chegasse. Será que eu realmente era obrigado a falar? Se eu tivesse a noção que eu tenho hoje naquela época, eu certamente teria respondido “É lógico que não, seu imbecil. Você está criando coisas na sua cabeça infantil de merda e está sendo egoísta pra caralho”. Mas eu não tinha ideia. Tinha dezoito anos e uma cabeça infantil de merda, tinha acabado de ficar famoso de uma hora para a outra, e estava pensando em mim mais do que em qualquer outra coisa. E, pensando em mim, eu achava que seria muito melhor eu estar sozinho quando começava a trilhar uma carreira. Eu realmente não tinha ideia.
parecia não engolir uma palavra do que eu falava e parecia pressentir que algo iria acontecer, mas, mesmo desconfiada, abriu um sorriso lindo antes de responder:
— Eu passei. — separou nossos corpos abraçados antes de me olhar fixamente, sorrindo abertamente. — Passei de ano e…
Como falei, egoísta de merda. Eu a via ficando feliz enquanto falava e só pensava que ela ficaria ainda mais triste quando eu falasse o que tinha que falar para ela, por isso a interrompi, mas as nossas falas acabaram por ser iguais.
— Tenho uma coisa pra te falar. — falamos juntos, ou quase isso.

Terça-feira, 21 de julho de 2009; 16h17; Liverpool.
ficava mais linda ainda quando tocava, se é que isso era possível. Ela se conectava com a música e qualquer um ao redor dela poderia afirmar que ela se desconectava da realidade, entrando em um estado catártico enquanto ouvia a melodia que saía de suas próprias mãos.
Ela era apaixonada por música. Todo e qualquer tipo de música. E sonhava em poder trabalhar com isso, embora soubesse que seus pais nunca iriam deixar.
Os pais de eram advogados, e, mesmo ela sempre tendo certeza de que não queria seguir a carreira, era nisso que os pais dela apostavam desde sempre. E sempre se importou demais com a opinião deles para confrontá-los, levando sua maior paixão sempre como um hobby.
Ali, porém, em volta da fogueira, enquanto ela tocava e eu cantava — porque ela dizia que a minha voz era bem melhor do que a dela, embora eu não concordasse — eu percebi que não queria que trabalhasse com algo que não fosse sua paixão. Eu percebi que queria ajudá-la a trabalhar com música e jurei pra mim mesmo que um dia o faria. Eu queria que fosse para sempre daquele jeito. Nós dois, juntos, fazendo o que amávamos fazer, sem amarras, sem julgamentos, até que ficássemos velhos e impossibilitados. Eu soube que queria ela para mim, e que queria protegê-la de quem a fizesse mal e enfrentar com ela quem não a compreendesse.
Ali, naquela terça-feira do verão de 2009, enquanto o sol se punha lentamente e eu ouvia o som que saía dos seus dedos e da sua alma, eu soube que amava . E que nunca iria querer dizer adeus a ela.

Sexta-feira, 04 de fevereiro de 2011; 10h43; .
— Pode falar primeiro. — respondi, balançando a cabeça, e ela assentiu, sorrindo.
— Fui aceita na Universidade de Manchester. — o sorriso dela era largo e seus olhos brilhavam. — Vou fazer Música, !
Não pude deixar de arregalar os olhos e abrir um sorriso sincero, a abraçando fortemente.
, como isso aconteceu? — perguntei, animado, voltando a olhar para ela. — O que seus pais acharam disso?
Ela suspirou e deu de ombros antes de responder:
— Eles não têm que achar nada.
Eu arregalei os olhos, relativamente surpreso, mas verdadeiramente feliz. Eu não conhecia aquele lado dela e acho que ela percebeu.
— É minha vida, . — ela falou simplesmente. — É o que eu vou fazer pro resto dela. — suspirou e eu pude ver que ela ainda estava um pouco nervosa ou confusa com a aquela decisão.
Balancei a cabeça, assentindo e tentando encorajá-la ao segurar suas mãos geladas.
— Estou muito orgulhoso de você. — falei, sincero, observando seus olhos brilharem novamente.
— É tudo por sua causa. — ela voltou a sorrir e eu engoli em seco instintivamente. — Bem, você com esse programa de talentos e toda a coragem que você teve. — ela deu de ombros, se referindo ao X-Factor. — Tudo bem que seus pais são bem diferentes dos meus — ela riu e eu me sentia cada vez mais na merda. —, mas você conseguiu.
Meu sorriso diminuiu aos poucos e, se eu não estivesse tão babaca e egoísta na época, eu teria decidido ali, naquela hora, que terminar com ela não era mais uma opção, ainda mais quando ela se aproximou de mim, colocando as mãos no meu pescoço, e disse:
— E agora estarei a apenas 30 minutos de você. — selou nossos lábios rapidamente e me encarou, sorrindo e balançando-se no ritmo da música que tocava na vitrola. — E você, o que tem pra falar?
Segurei seus braços, que estavam envoltos em meus ombros, e afastei-os um pouco com o semblante sério, o que fez com que ela desse um passo para trás, com a expressão confusa e um olhar um pouco abatido. E, ali, eu soube que ela já sabia o que estava por vir.

Terça-feira, 21 de julho de 2009; 18h59; Liverpool.
O sol já havia se posto e a lua tomava uma boa parte do céu. Eu e estávamos deitados em uma toalha na areia, enrolados em uma manta e observando as estrelas enquanto nossos amigos estavam conversando um pouco mais distantes. A luz da lua se juntava à luz que emanava do resto da fogueira e o barulho que as ondas faziam quando chegavam à praia parecia o som perfeito quando se juntava à melodia da voz de . Eu estava rendidamente apaixonado.
Não pensei duas vezes antes de pedir a chave do carro emprestada para Arthur, dizendo que iríamos comprar um band-aid porque tinha machucado o pé. Era mentira, claro. O pé dela estava perfeitamente normal, mas eu senti a necessidade de ficar a sós com ela por um momento e dizer tudo o que eu estava sentindo.
Apesar do frio lá fora, estava quente quando entramos no carro. Sem a luz da fogueira, apenas a lua nos iluminava parcamente, através do para-brisas, no banco traseiro do veículo.
Os olhos de também brilhavam no escuro, iluminando seu rosto delicado e destacando cada traço de uma expressão nova em seu rosto. O sorriso meio ladino, as bochechas levemente coradas e os olhos ardendo e fixados em mim, me queimando.
Estávamos ambos nervosos, o banco de couro tremia no ritmo de nossos corações acelerados, mas ela não transparecia tanto quanto eu. Em algum momento, ela engatinhou até o painel do carro e apertou um botão, e uma rádio local de rock começou a tocar.
— Eu acho que eu amo você, . — soltei, sentindo meu corpo inteiro estremecer, quando ela voltou devagar para o banco traseiro.
Ela arregalou os olhos, como se não estivesse esperando por isso, e seu sorriso alargou, fazendo com que meus ombros relaxassem.
— Eu também acho, . — ela riu, nervosa, e suas mãos, geladas como sempre, seguraram as minhas.
Ela sorria e se aproximava mais de mim, enquanto meu corpo obedecia prontamente a todos os seus pedidos e respondia quase que imediatamente aos seus toques, arrepiando-se ou tremendo um pouco.
— Eu acho que a gente devia… — comecei, já meio inebriado pelo cheiro dela e pela proximidade nada saudável entre nós. — tipo, namorar.
Ela sorriu antes de se aproximar mais ainda, levantando-se e ficando de joelhos na minha frente, abrindo as pernas para sentar-se no meu colo.
— Você tá me pedindo em namoro, ? — ela sussurrou contra a minha boca, o nariz encostado ao meu e os cabelos caindo sobre meu rosto.

Sexta-feira, 04 de fevereiro de 2011; 10h49; .
… — suspirei e ela balançou a cabeça, como se pedisse para eu continuar, com um semblante sério no rosto. — Você sabe, nada mais está normal na minha vida. — limpei as mãos, que suavam, na minha calça e me pus a olhar o chão. — Fiquei quase o mês de janeiro inteiro em Londres gravando algumas coisas e isso é só o começo. — a expressão de estava indecifrável e eu engoli em seco.
— Sei, . — ela respondeu, a voz inabalável mas os olhos transparecendo que seu interior estava balançando. — Fale logo o que quer dizer.
Ela estava séria, o semblante firme, e ela já sabia o que eu queria dizer, mas esperava para ouvir de que forma eu diria.
. — chamei e ela assentiu, olhando nos meus olhos. — Quero dizer que nem tudo na minha vida vai ficar igual. — virei-me de costas para ela, passando a mão pelo rosto e me sentindo um covarde por não conseguir olhar para ela. — E que eu não posso te submeter a essa mudança.
Por um momento, esperei que ela dissesse algo como “mas eu quero me submeter a essa mudança” ou “você não pode decidir isso por mim” — frases típicas do temperamento forte e decidido de — e que nós entrássemos em uma discussão sobre o futuro e como ficaríamos ou não ficaríamos juntos, mas ela apenas ficou calada, fazendo com que o único som no quarto fosse a voz dos Beatles ecoando na vitrola.
, não acho que conseguiremos ficar juntos. — falei rapidamente, após perceber que ela permaneceria em silêncio.
Aguardei mais algum tempo, escutando Paul McCartney cantar e rezando para que falasse alguma coisa, mas nada.
Voltei-me para ela, para encontrá-la exatamente como antes, o semblante firme, a expressão indecifrável, nenhum resquício de tristeza ou dor. Mas eu conhecia muito bem para saber, através de seus olhos, que ela desabava por dentro. Mesmo assim, não me pergunte como, ainda tive coragem de dizer, olhando para ela:
— Acho que tenho que entrar nessa sozinho. — e encarar seu semblante mudo por algum tempo antes de explicitar: — Estou terminando com você, .

Terça-feira, 21 de julho de 2009; 19h11; Liverpool.
Eu estava suando enquanto sentia sua virilha encostada à minha e, por impulso, segurei forte sua cintura, a puxando para mim, quase fundindo nossos corpos.
Oh! Darling, dos Beatles, começou a tocar e ela suspirou alto enquanto sentia meus toques por baixo de seu vestido. E eu, pela primeira vez na vida, tive certeza do que eu queria.
— Namora comigo, . — pedi, suspirando também, e ela fechou os olhos, aproveitando o momento.


Oh! Darling, please believe me
I’ll never do you no harm


Nossos pelos se eriçavam com facilidade. Nossos corpos se mexiam desengonçadamente no ritmo da música e nossos corações pulsavam juntos, assim como todos os outros membros, que pareciam mais vivos do que nunca.
Ela sorriu e balançou a cabeça afirmativamente, respondendo ao meu pedido, e eu entendi que ela estava sem forças para responder verbalmente quando ela sussurrou fraca e espaçadamente ao meu ouvido:
— Sim, eu quero namorar com você.
O ar começava a faltar no carro apertado e ela passou as mãos pelos meus cabelos antes de levar sua boca em direção à minha num beijo lento. Ela se movimentava contra mim, querendo nos aproximar mais, e eu apertava forte sua cintura, por dentro de seu vestido, e sentia seu corpo inteiro arrepiar contra o meu.
— Eu te amo, . — assegurei quando separamos nossos lábios e nossos narizes se encostaram novamente.
— Eu também te amo, . — ela falou calma, apesar de sua respiração acelerada.
Eu acariciei seu rosto com uma das mãos enquanto ela sorria timidamente. Ela beijou meu dedo quando ele passou por sua boca e, no ritmo da música, cantou baixinho:
— Me faça acreditar que você nunca vai me fazer mal.
Eu entendi o que ela quis dizer quando ela começou a distribuir beijos molhados pelo meu pescoço e percorrer as mãos macias pelos meus ombros e peitoral, fazendo com que meus músculos se contraíssem.
Deitei ela sobre o banco cuidadosamente e me pus por cima dela, os cotovelos apoiados ao lado de sua cabeça.

Believe me when I tell you
I’ll never do you no harm


Me mostre que você se importa, . — ela falou com os olhos fechados, suas mãos apertando com força os meus braços e suas pernas começando a contornar meu tronco.

Sexta-feira, 04 de fevereiro de 2011; 11h27; .
Edwards


Oh! Darling, if you leave me
I’ll never make it alone

Por coincidência ou pura ironia do destino, era Oh! Darling que tocava na vitrola quando o peso do meu corpo caiu, exausto, sobre o de , na cama.
Estávamos em silêncio absoluto. Nenhum de nós ousava falar qualquer palavra que quebrasse o sentimento envolvido no momento que havia acabado de acontecer. Nossos corpos unidos pela última vez ao som da música que os uniu pela primeira vez, no verão de 2009.
Algo roçava em minha garganta quando eu descansei a cabeça em seu peito e eu queria acreditar que também se sentia assim, apesar de ele parecer tranquilo enquanto sua mão caminhava suavemente pelas minhas costas.
Era o fim. E o fim tinha o gosto amargo da saudade.

When you told me you didn’t need me anymore
Well, you know, I nearly broke down and cried


Eu não pensei, nem por um momento, em discordar enquanto ele terminava comigo, embora a voz dele, vinte minutos depois, ainda ecoasse repetidamente na minha cabeça, que começava a dar indícios de uma enxaqueca.
Eu sabia que teríamos que nos separar algum dia, afinal. Nunca pensei que seríamos eternos, apesar de desejar, naquele momento, que Oh! Darling fosse infinita e que nós pudéssemos ficar ali, juntos e em silêncio, para sempre.
Mas o fim era inevitável, tudo acabava um dia, inclusive as coisas boas. Eu só não pensava que seria tão de repente, e que eu não estivesse preparada quando isso acontecesse. Eu sempre estava preparada para tudo e odiava ser surpreendida, mas me peguei realmente surpresa quando decidiu me dar adeus.
Não consegui evitar que uma lágrima solitária rolasse por meu rosto e caísse no peito de , fazendo com que ele levantasse um pouco a cabeça e segurasse meu rosto com as mãos firmes.

Oh! Darling, please believe me
I’ll never let you down

, eu… — ele começou, mas eu coloquei um dedo sobre a sua boca antes que ele continuasse a falar.
— Fica quieto, . — falei pela primeira vez, com a voz baixa, e desenhei seu rosto com a mão, tentando decorá-lo. — Eu entendo. — tentei sorrir, mas meus lábios não obedeceram a meu comando, então só encarei , que me encarava. — Tá tudo bem. Somos adultos. — ele pareceu assentir, mas seu olhar era triste como o meu, apesar de tudo.
Embora eu estivesse triste, eu não queria que fosse de outra maneira. Havíamos jurado nos amar e ele me amou até não sentir mais o mesmo. Eu preferia que isso acontecesse do que se tivesse empurrado um relacionamento sem sentir mais alguma coisa por mim. Sempre fomos sinceros um com o outro e, apesar de estar doendo naquele momento, eu era madura o suficiente para agradecer a pela sinceridade, embora eu não tivesse dito uma palavra desde então.
De qualquer forma, naquele momento pensei que a pessoa que disse que alguns infinitos eram menores do que outros, ou algo parecido com isso, realmente estava certa. E eu tentava me convencer disso enquanto lembrava de nossos bons momentos juntos e segurava o choro preso no meu peito, que subia e descia junto com o de .
Nunca mais seria assim.

Believe me when I tell you
I'll never do you no harm

— Despedidas são amargas. — ele soltou quando a música acabou, me encarando, e eu assenti, concordando.
Eu entendia , apesar de tudo. Entendia seu lado e o que tinha o levado a tomar essa decisão. E sabia que ele me entendia também, por isso me encarava com ternura e preocupação.
Doía, mas eu sabia que ia passar e não queria que ele se martirizasse por estar fazendo o que ele queria. Muito antes de namorados, éramos amigos. E amigos se importam com a felicidade um do outro. estava feliz com seu novo caminho e sua nova vida, e eu esperava conseguir ficar feliz por ele também. Acima de tudo, porém, eu esperava que continuássemos amigos e que ele não me esquecesse completamente.
Era impossível saber o que aconteceria dali para frente. em Londres, com seus novos amigos e sua nova vida, e eu em Manchester, sozinha e pronta para descobrir um mundo completamente novo, sem quem eu mais esperava estar por perto. Eu esperava, ingenuamente, que ainda assim pudéssemos nos ajudar, como amigos, à distância.
Estiquei um pouco o corpo para alcançar os seus lábios macios e quentes. Doeu entender que estaria experimentando-os pela última vez.
Enquanto eu lembrava inconscientemente de todas as coisas que já tínhamos passado e de todas as noites em que tínhamos nos amados verdadeiramente, uma segunda lágrima salgada caiu de meus olhos fechados e se juntou ao gosto doce do nosso beijo.
— Boa sorte, . — falei suavemente contra seus lábios antes de me afastar dele, provavelmente pela última vez.
Eu esperei que ele me devolvesse o desejo de sorte enquanto eu me levantava de sua cama e procurava por minhas roupas entre os lençóis bagunçados, mas ele ficou quieto e reflexivo por muito tempo e só abriu a boca quando eu estava prestes a sair de seu quarto, com o coração na mão e um nó enorme na garganta:
— Tchau, .


Continua...



Nota da autora: Acho que vocês já perceberam que a história irá se desenvolver através de quebras no tempo, espero realmente que a ideia que está na minha cabeça dê certo hihihi. Me contem o que acharam dessa junção de Rock Me + Love You Goodbye e Oh! Darling de bônus hahahahaha (por favor, rs). Espero muito que tenham gostado desse capítulo e que continuem acompanhando os próximos <3
Beijos, Lara. :)





Outras Fanfics:
05. Used to Be

A história começa soft (e com o Harry passando vergonha) desse jeito, o cérebro da fanfiqueira começa até a viajar e imaginar quais serão os próximos passos da fanfic. Parabéns pela história, Lara!
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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